Monitoramento dos Fatores Predisponentes às Afecções Podais em Bovinos Leiteiros

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As enfermidades do sistema locomotor, dentre essas as afecções podais, constituem um dos …

As enfermidades do sistema locomotor, dentre essas as afecções podais, constituem um dos
principais problemas da bovinocultura leiteira, gerando grandes prejuízos econômicos e no bem-estar
animal. A proposta dessa revisão foi discorrer sobre o monitoramento dos fatores predisponentes às
claudicações em bovinos leiteiros, com o objetivo de controlar e/ou prevenir a ocorrência das afecções
podais nesses animais. O médico veterinário responsável deve criar um programa de monitoramento,
prevenção e controle das claudicações, que seja rotineiro, dinâmico e específico para cada propriedade
leiteira, a fim de avaliar seu grau de eficácia e se ajustar rapidamente aos problemas existentes

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  • 1. Monitoring of predisposing factors to foot disorders in dairy cattle Monitoramento dos fatores predisponentes às Afecções em bovinos leiteiros RESUMO: As enfermidades do sistema locomotor, dentre essas as afecções podais, constituem um dos principais problemas da bovinocultura leiteira, gerando grandes prejuízos econômicos e no bem-estar animal. A proposta dessa revisão foi discorrer sobre o monitoramento dos fatores predisponentes às claudicações em bovinos leiteiros, com o objetivo de controlar e/ou prevenir a ocorrência das afecções podais nesses animais. O médico veterinário responsável deve criar um programa de monitoramento, prevenção e controle das claudicações, que seja rotineiro, dinâmico e específico para cada propriedade leiteira, a fim de avaliar seu grau de eficácia e se ajustar rapidamente aos problemas existentes. Unitermos: claudicação, gado de leite, laminite, locomotor, manqueira ABSTRACT: The locomotor system diseases, among these foot disorders, are a major problem of dairy cattle, causing tremendous animal welfare and economic impacts. The objective of this review was to discourse about monitoring of predisposing factors to lameness in dairy cattle, to control and/or prevent foot disorders occurrence in these animals. The responsible veterinarian should establish a regular, dynamic and specific program of monitoring, prevention and control of lameness to each dairy farm, to assess its efficacy and adjust quickly to problems. Keywords: dairy cattle, hoof, lameness, laminitis, locomotor 1. INTRODUÇÃO Nas últimas décadas houve um avanço considerável na agropecuária nacional, alavancado principalmente pelo uso de novas tecnologias, que elevaram os índices de produtividade do setor19. A bovinocultura leiteira tornou-se de grande importância para o agronegócio brasileiro, já que o leite é hoje um dos cinco produtos primários com maior valor econômico, gerando receitas em torno de R$ 12,5 bilhões por ano6. A intensificação nos sistemas de produção, juntamente com alta especialização dos rebanhos e a necessidade de um maior suporte nutricional para atender as novas exigências destes animais, altamente produtivos, tornaram mais evidentes os problemas de sanidade individual ou de rebanho. Atualmente estes problemas são considerados como o principal gargalo na rentabilidade da bovinocultura no país22. Diversos autores são unânimes em afirmar que, principalmente nos rebanhos leiteiros, as enfermidades do sistema locomotor, em conjunto com a mastite e os distúrbios reproduti- vos, representam os maiores problemas da atividade, acarretando grandes prejuízos econômicos9,12. As claudicações são responsáveis por acentuadas perdas, representadas pela queda na produção de leite durante o curso da doença, aumento do intervalo entre partos, baixa fertilidade e manifestação de cio, aborto, baixa reposição dos animais, aumento de descarte involuntário, custo elevado com o tratamento dos enfermos, morte, além de prejuízos ao bem-estar animal3,27. Pesquisa realizada em animais confinados no sistema “free-stall”, em um município de Minas Gerais, demonstrou que os custos adicionais causados por enfermidades podais foram de US$ 227,94 por vaca acometida24. Mediante os prejuízos econômicos causados pelas enfermidades podais, o objetivo desta revisão de literatura é discorrer sobre o monitoramento dos fatores predisponentes às claudicações em bovinos leiteiros, visando controlar e/ ou prevenir a ocorrência destas enfermidades no rebanho. Figura 1: Alta densidade animal e acúmulo excessivo de matéria orgânica sob piso de concreto, diminuem o conforto, aumentam a abrasão dos cascos e favorecem o surgimento de alterações do sistema locomotor ....................................................... Moisés Dias Freitas (m_diasfreitas@yahoo.com.br) MV - Doutorando em Ciência Animal Escola de Veterinária da Univ. Federal de Minas Gerais Hélio Martins de Aquino Neto (hvet51@yahoo.com.br) Prof. Assistente do Curso de Medicina Veterinária da Univ. Federal de Alagoas Antônio Último de Carvalho (ultimo@vet.ufmg.br) Prof. Adjunto do Depto. Clínica e Cirurgia Escola de Veterinária da Univ. Federal de Minas Gerais Lilian de Rezende Jordão (lilianjordao@gmail.com) MV - Doutoranda em Zootecnia - Escola de Veterinária da Univ. Federal de Minas Gerais Pierre Barnabé Escodro (pierre.vet@gmail.com) Prof. Assistente do Curso de Medicina Veterinária da Univ. Federal de Alagoas Marina G. Ferreira (ninocavet@hotmail.com) MV - Doutoranda em Ciência Animal Escola de Veterinária da Univ. Federal de Minas Gerais Gustavo Henrique F.A. Moreira MV - Mestrando em Ciência Animal Escola de Veterinária da Univ. Federal de Minas Gerais Elias Jorge Facury Filho (facury@vet.ufmg.br) Prof. Adjunto do Depto. Clínica e Cirurgia Escola de Veterinária da Univ. Federal de Minas Gerais
  • 2. 2. REVISÃO DE LITERATURA 2.1.1. Exame clínico e elaboração de um diagnóstico do rebanho ENEVOLDSEN (2006) afirmou que as enfermidades de rebanho possuem características de etiologia multifatorial, cujas causas nem sempre podem ser determinadas, entretanto a remoção ou modificação dos fatores de risco podem controlar a doença de modo efetivo. Portanto, os principais objetivos do diagnóstico de rebanho estão compreendidos em responder quais os problemas que acarretam a doença, por que este rebanho é mais susceptível que outros e quais as estratégias que podem ser utilizadas para corrigir o problema. A eficiência da elaboração do diagnóstico de rebanho está diretamente relacionada com a capacidade do veterinário em determinar os fatores de risco e sua relativa importância na etiologia da enfermidade. Desta maneira, ao saber detectar tais fatores, o profissional tem maior possibilidade de intervir e modificá-los e desta forma, ter maior eficiência no controle da doença em questão21. A construção do diagnóstico passa por etapas que envolvem uma metodologia criteriosa e bem delineada. Inicialmente fazse a identificação e definição da anormalidade, tanto dos animais que apresentam casos clínicos quanto dos afetados de forma subclínica. O segundo passo é determinar o padrão de ocorrência da doença, definindo os padrões temporais e ambientais. A próxima fase é a determinação da etiolo- Tabela 1: Escore de claudicações Caracterização dos sinais Clínicos 0 Postura normal com linha de dorso retilínea em estação e locomoção, passos firmes com distribuição correta do peso e apoios. 1 Postura normal em estação e ligeiramente arqueada em locomoção. Apoios normais. 2 Postura arqueada em estação e locomoção, ligeira alteração dos passos. 3 Arqueamento do corpo em estação e locomoção, assimetria evidente do apoio, poupando membros, com menor tempo de apoio do(s) membro(s) lesado(s). 4 Incapacidade de apoio ou de sustentação do peso do(s) membro(s) lesado(s), relutância ou recusa para locomover-se. gia, que normalmente é o somatório de várias pequenas falhas, que contribuem em maior ou menor grau para o aparecimento do problema. Finalmente, a última etapa consiste em determinar o provável erro ou a combinação de erros mais importantes como causadores do quadro e indicar ou sugerir modificações que solucionem ou reduzam tais alterações8,21. Em rebanhos onde a queixa esteja relacionada com casos clínicos de claudicação, a conduta do profissional segue essa mesma metodologia. Inicialmente, é feita a coleta de dados por meio de uma anamnese detalhada do rebanho, manejo, nutrição e instalações. Avalia-se a situação do rebanho em sua totalidade e a prevalência das claudicações deve ser determinada através do escore de claudicação (Tabela 1) dos animais9,16,23. Os cascos de todos os animais com claudicação, e de 10 a 20% dos animais sem claudicação, devem ser examinados utilizando-se os métodos semiológicos (inspeção, palpação, movimentação articular, percussão dolorosa, pressão com pinça de casco e limpeza superficial do tecido córneo com rineta suíça). Este procedimento é importante na identificação das lesões e consequentemente dos possíveis erros que determinem a ocorrência desta enfermidade no rebanho. Assim, reconhecendo os fatores de risco, torna-se mais fácil a elaboração de uma estratégia de controle do problema9,24. 2.1.2. Determinação da prevalência das claudicações nos rebanhos leiteiros A intensificação dos sistemas de produção nos últimos anos contribuiu para o aumento da prevalência de claudicação nos rebanhos leiteiros para valores acima de 20%5. Diversos fatores como a conformação geral e dos cascos, predisposição genética, peso e escore corporal, idade avança- da, período e ordem da lactação, parição, doenças sistêmicas, instalações, umidade e higiene das instalações, condições de manejo e do ambiente, nutrição e manejo alimentar, falta ou uso inadequado de pedilúvios, casqueamento insuficiente ou incorreto, falta ou excesso de exercícios e laminite, predispõem a ocorrência das claudicações nos rebanhos leiteiros3,7,11,13,18,30. A prevalência das claudicações em diferentes rebanhos é bastante variada, pois a ocorrência desta enfermidade está diretamente relacionada ao manejo dos animais e à sua etiologia multifatorial. Portanto, o diagnóstico assim como o monitoramento dos fatores de risco das enfermidades podais depende de uma análise sistemática e criteriosa das instalações, manejo e nutrição de cada rebanho9. A determinação e a avaliação da prevalência das claudicações no rebanho são determinadas por meio de observação dos animais durante a locomoção, segundo técnica adaptada de WELLS et al (1993), onde são utilizados escores de 0-4 (Tabela 1), sendo que todos os animais com escore entre 2-4 devem ser examinados. A prevalência das claudicações é o resultado obtido no exame dos animais em um determinado momento ou a média de vários resultados obtidos no ano. O levantamento da prevalência é a primeira ferramenta para se avaliar a magnitude dos casos de alterações no sistema locomotor nos animais do rebanho11. Depois de constatado que tal situação é um problema grave (acima de 15%), o segundo passo no controle e prevenção das claudicações é a identificação das lesões podais mais frequentes. É importante que todos os animais que apresentem algum grau de claudicação sejam examinados e tratados o mais rapidamente possível. O uso da avaliação do escore de claudicação no rebanho também é uma ferramenta útil para avaliar a evolu- FONTE: WELLS ET AL, 1993 2.1 Metodologia de trabalho A intensificação da pecuária criou complexos problemas de saúde e produção, para os quais nem sempre os tratamentos e métodos preventivos simples são completamente eficientes, tornando o trabalho do veterinário mais desafiador. Atualmente, os veterinários devem ser conhecedores e peritos no que se refere aos princípios de epidemiologia, nutrição aplicada, alojamento e instalações para os animais, educação e capacitação de mão-de-obra, análise dos índices de produção, além da medicina veterinária tradicional, farmacologia, reprodução e patologia21. Segundo os mesmos autores, esse novo profissional tem como funções estabelecer métodos de diagnóstico e tratamento mais econômicos, monitorar a saúde e a produção do rebanho, formular a dieta, planejar e executar os diversos manejos adotados na propriedade e ainda levar em consideração o bem-estar dos animais.
  • 3. talações sejam bem planejadas, dimensionadas e construídas por técnicos especializados, além de serem corretamente manejadas15. Fatores na construção das instalações relacionados ao conforto e bem-estar dos animais estão diretamente envolvidos com a ocorrência de enfermidades podais. A textura do piso, o dimensionamento dos cubículos para descanso, as áreas de circulação, a qualidade das camas e a densidade populacional interferem diretamente na ocorrência das claudicações29. O piso está diretamente associado ao equilíbrio do animal, devendo ser construído obedecendo normas técnicas para garantir o melhor conforto das vacas confinadas. Não pode ser nem muito liso (para evitar escorregões), nem muito abrasivo (para evitar o desgaste excessivo do casco), deve possuir inclinação de 1,5 a 2%, com presença de frisos paralelos. Estes são alguns dos aspectos que devem ser considerados no projeto e na construção das instalações15. Estas medidas, além de favorecerem o conforto dos animais, são essenciais para a eficiência da limpeza das instalações, evitando o acumulo de água e matéria orgânica e consequentemente, o desgaste excessivo dos cascos. Estes, por serem higroscópicos, quando úmidos em pisos abrasivos apresentam uma taxa de desgaste 83% maior29. É importante ressaltar que em condições higiênicas precárias, os riscos de lesões podais aumentam, especialmente as de ção das claudicações nos animais examinados e tratados e, desta forma, avaliar o grau de eficiência nas mudanças do manejo29. FONTE: FERREIRA ET AL, 2002 2.1.3. Prevalência das lesões FERREIRA (2003) afirmou que para se traçar uma estratégia de controle das claudicações, o levantamento da prevalência de lesões é fundamental para maior compreensão das que estejam em fases iniciais, devendo esta ser realizada em 10 a 20% dos animais não claudicantes em rebanhos grandes (escore de claudicação 0-1), de forma aleatória. Nos casos de rebanhos pequenos, pode-se fazer o referido levantamento em todos os animais. MOLINA et al (1999), MAUCHLE (2001) e SOUZA (2002) observaram, em vacas oriundas de fazendas da bacia leiteira de Belo Horizonte, que a erosão de talão, a dermatite interdigital e a dermatite digital foram as principais lesões podais encontradas. Já FERREIRA (2003), trabalhando na mesma região, encontrou lesões em todos os animais examinados, sendo a maioria de baixa gravidade. Dentre as lesões de tecido córneo, as mais observadas foram a erosão de talão (93%) e doença da linha branca (73%), e, já entre as lesões de tecido mole digital, a mais frequente foi a dermatite digital (44%). origem infecciosa. Desta maneira, os aspectos de higiene das instalações possuem grande impacto no controle das afecções podais9,16,23,30. A superlotação dos piquetes ou do confinamento contribui para competições entre os animais, redução do conforto e maiores dificuldades no controle da higiene e umidade. Os animais em altas densidades populacionais permanecem mais tempo em estação, tem sua movimentação restrita e há um maior número de agressões entre as vacas por questões de hierarquia. Estes fatores favorecem o aparecimento de mais casos clínicos de claudicação no rebanho3,25,29. Em instalações sob boas condições, os animais permanecem deitados entre nove e 14 horas por dia, descansando e ruminando. Portanto, as camas devem ser projetadas para que permaneçam limpas e secas, além estarem presentes em número suficiente, para garantir que todos os animais descansem bem e sem competições (sobra de 10% em relação ao rebanho confinado). As camas devem ser adequadas para facilitar o deitar e o levantar dos animais e proporcionar um bom conforto. A redução da densidade animal, principalmente nas áreas de maior competitividade, como cochos, entrada/saída da sala de ordenha, é uma importante medida para reduzir brigas, escorregões, quedas, abrasões e, consequentemente, diminuir a ocorrência de afecções podais que levem à claudicação, sobretudo doença da linha branca29. Figura 2: Caso bovino com presença de erosão de talão e dermatite digital, lesões comumente encontradas e responsáveis por claudicações nos animais ..................................................................... 2.2. Monitoramento das instalações e do ambiente As instalações têm sido relacionadas como fatores de risco no desenvolvimento de lesões podais. Boas instalações desempenham um papel fundamental no conforto e bem-estar animal, portanto as mesmas devem possuir condições satisfatórias de higiene, permanecendo limpas e secas, permitindo que os animais se desenvolvam e exteriorizem seu potencial máximo de produção. Dessa forma, é necessário que as ins- Figura 3: Piso de “free stall” com presença de frisos paralelos para auxiliar no escoamento de água e urina e desta forma reduzir a umidade no local
  • 4. Figura 4: Trilhas mal conservadas, com excesso de umidade e presença de pedras, aumentam consideravelmente a probabilidade dos animais apresentarem claudicações ........................................................................................................................................................................ Longas caminhadas em pisos ásperos, com a presença de declive acentuado, em estradas mal conservadas, além da permanência em pisos abrasivos por longos períodos, são fatores predisponentes às afecções podais, principalmente laminite subclínica (hematomas de sola, doença da linha branca e abscessos). Portanto, a manutenção das trilhas, áreas de movimentação e exercício em boas condições de higiene e baixa umidade, sobretudo em locais de alta concentração como cochos e sala de ordenha, reduzem a ocorrência das claudicações3,9,15,16,. VERMUNT (2004) recomendou que em rebanhos acima de 200 animais, a largura das trilhas principais deve ser de no mínimo cinco metros. Os pisos devem ser de material não abrasivo e não escorregadio, planos e de fácil drenagem e todas as trilhas utilizadas pelos animais devem passar periodicamente por manutenções. A não utilização do pedilúvio favorece o aumento das lesões podais. Desta maneira, os pedilúvios com soluções de formalina, sulfato de cobre ou sulfato de zinco deveriam ser utilizados na rotina como medida de controle das afecções podais. SOUZA (2002) verificou que embora 100% (6/ 6) das propriedades de criação intensiva e 26,32% (15/57) das propriedades de criação semi-intensiva utilizassem o pedilúvio, nenhuma das semi-intensivas e 50% das intensivas o utilizavam corretamente. Esse erro na utilização do mesmo possivelmente contribuiu de forma expressiva para a elevada prevalência das lesões podais neste experimento, que foi de 89,9%. Logo, tão importante quanto a utilização do pedilúvio, é a sua utilização de forma correta. Manter o conforto e bem-estar dos animais, possibilitando que estes permaneçam deitados em camas de boa qualidade, em cubículos bem dimensionados, em ambientes com pisos adequados ao exercício são medidas que reduzem o desgaste das unhas e a pressão sobre os pés, desta forma prevenindo e reduzindo a ocorrência das claudicações nos rebanhos18. 2.3. Monitoramento da dieta Visando maximizar a produtividade e atingir as exigências das vacas de grande produção, são utilizadas rações altamente palatáveis, contendo ingredientes de elevada digestibilidade e altos teores de energia13. Esta combinação de uma nutrição rica em carboidratos rapidamente fermentáveis, elevada concentração de proteína e um baixo teor de fibras na composição da dieta destes animais favorece a ocorrência de acidose ruminal, que é o fator nutricional mais importante na patogenia da laminite. Esta, por sua vez, leva o animal à claudicação devido ao aparecimento de lesões como hemorragias, úlceras ou abscessos de sola, doença da linha branca, sola dupla e deformidades nos cascos1,3. Os achados clínicos e patológicos associados à acidose ruminal podem incluir diarreia, abscesso hepático e pulmonar, além de laminite. Outras doenças podem causar quadros semelhantes, portanto, o diagnóstico da acidose ruminal subclínica não se baseia somente nos sinais clínicos, mas também através do pH ruminal, teor de gordura do leite e características das fezes dos animais. Portanto a análise criteriosa destes achados facilita o diagnóstico desta enfermidade e auxilia o monitoramento e controle das claudicações de origem nutricional no rebanho18. HOBLET e WEISS (2001) associaram vários fatores nutricionais com a função normal dos queratinócitos e produção de tecido córneo saudável. Baixos teores de vitaminas, sobretudo a biotina, deficiência dietética de minerais como o cobre e o zinco e volumosos com baixo valor nutricional podem estar ligados à ocorrência de lesões podais, uma vez que tanto a biotina quanto o cobre e o zinco estão relacionados com a produção de queratina, a qual propicia maior dureza ao casco3,11. Em condições normais o rúmen desenvolvido é capaz de sintetizar quantidades adequadas de biotina para suprir a necessidade do animal, entretanto em condições de queda do pH ruminal há uma redução na síntese desta vitamina pelas bactérias, causando uma deficiência subclínica. Estudos demonstram que a suplementação dos animais com 20-40mg/dia de biotina melhora significativamente a saúde dos cascos e reduz o aparecimento de novos casos de claudicação29. O atendimento das exigências nutricionais de minerais (cálcio, fósforo, zinco, cobre, selênio e iodo) é de igual importância na saúde e formação dos cascos. Deficiências de cobre e zinco na dieta podem produzir lesões de casco relacionadas com alterações na maturação da queratina. Já o cálcio e fósforo são necessários para o crescimento normal e integridade da unha, enquanto o bicarbonato de sódio atua no tamponamento ruminal29. O manejo da dieta é um ponto crítico no programa de monitoramento dos riscos das claudicações. A área de cocho, a qualidade e quantidade de fibra, o excesso de energia e proteína são aspectos que devem ser levados em consideração na formulação e no manejo das rações. É recomendado que as dietas ricas em carboidratos rapidamente fermentáveis possuam concentrações adequadas de fibra efetiva, ou seja, aquela que estimula o processo de ruminação (partículas maiores que 5 cm) favorecendo o tamponamento do rúmen, desta forma 30-40% da dieta deverá ser composta por volumoso e 35% de FDN11,29. A dieta deverá ser calculada para não ocorrer sobras excessivas nos cochos (superiores a 5%), evitando desta forma a seleção de concentrado pelos animais domi-
  • 5. nantes11. VERMUNT (2004) afirmou que o fornecimento do alimento concentrado não deve exceder quatro quilos por vez, concordando com BERGSTEN (1994) que observou que quanto menor for o número de vezes ao dia que o mesmo é distribuído nos cochos, maior será a incidência e gravidade das afecções podais. 2.4. Monitoramento do animal A partir da intensificação nos sistemas de produção, os geneticistas e criadores intensificaram também o melhoramento genético do rebanho leiteiro, desenvolvendo nestes animais uma maior capacidade digestiva, respiratória e produtiva. Entretanto esse progresso não foi acompanhado, na mesma velocidade, no que se refere ao melhoramento de pernas e pés. Este fato pode ser constatado, pois, a pontuação antiga das vacas leiteiras no que se refere ao composto de pernas e pés era baixa, entretanto, nos dias atuais vale 25% dos pontos finais do catálogo de escolha dos reprodutores. Este fato estimula tanto a seleção para conformação geral do animal quanto para a conformação de pernas e pés9. A conformação geral refere-se ao peso corporal e a forma do corpo e dos membros. Nos cascos, essa conformação é um fator importante na ocorrência das claudicações. Estudos demonstraram que há correlação entre as alterações de angulação das pinças e o comprimento da face dorsal com a ocorrência de enfermidades podais23. ENEVOLDSEN et al. (1991) afirmaram que os animais que têm alto peso corporal possuem maior predisposição a apresentarem úlceras de sola em decorrência do aumento de pressão sobre os tecidos produtores da camada córnea. Sabe-se, hoje, que características positivas de pernas e pés possuem uma correlação com longevidade e produtividade dos bovinos, portanto, animais que tenham bons aprumos possuem uma tendência de maior produtividade no rebanho e de vida útil mais prolongada. Consequentemente, a escolha de reprodutores com boas características para pernas e pés no programa de melhoramento genético do rebanho é de fundamental importância29. Entretanto, estas características são de baixa herdabilidade, havendo a necessidade de vários anos de seleção para a obtenção de resultados satisfatórios9. Animais mais velhos são mais susceptíveis às lesões podais quando comparados com novilhas. CHOQUETTE-LÉVY et al (1985) e MOLINA et al (1999) encontraram uma maior prevalência de lesões po- dais em animais com idade avançada. Outro fator importante na ocorrência de lesões podais é o parto. VERMUNT e GREENOUTH (1996) relataram a ocorrência de hemorragia de sola em pelo menos um dos cascos, em 100% das vacas recém paridas observadas no referido estudo. ENEVOLDSEN et al (1991) observaram uma maior incidência de erosão de talão, dermatite interdigital e hiperplasia interdigital nos animais de segunda lactação quando comparados com animais de primeira lactação. Esses autores consideram o número de lactações como importante fator de risco para as doenças podais. As vacas de alta produção leiteira são mais propensas às enfermidades podais. ENEVOLDSEN et al (1991) descreveram maior incidência de úlceras de sola enquanto HUANG et al (1995) encontraram maior incidência de laminite e úlceras de sola no pico de lactação. Esses autores ainda afirmaram que os riscos da ocorrência de lesões podais aumentam com o transcorrer da lactação, sendo observada uma maior incidência cinco meses após o parto. Segundo VERMUNT e GREENOUTH (1994), algumas doenças causadoras de endotoxemia (mastites, metrite, acetonemia, retenção de placenta, edema de úbere) podem estar relacionadas com afecções podais em decorrência da liberação de endotoxinas e/ou histamina que causariam alterações vasculares no casco e consequentemente, laminite. ENEVOLDSEN et al (1991) consideraram ainda que as mastites ambientais, deslocamento de abomaso para a esquerda, atonia intestinal, peritonite e metrite grave são fatores predisponentes das úlceras de sola. A avaliação do fluido ruminal para diagnosticar a acidose subclínica é bastante utilizada, podendo o fluido ser coletado por meio de ruminocentese ou através de sonda orogástrica, a qual apesar de ser mais prática, apresenta o risco do pH ser alterado por contaminação com a saliva do animal20. De acordo com GARRETT et al (1999), se mais de um quarto das amostras coletadas apresentarem pH inferior a 5.5, o grupo de animais é considerado de risco para a acidose ruminal subclínica. A avaliação visual das fezes também pode dar indícios da ocorrência de acidose ruminal subclínica no rebanho. A presença de fezes amolecidas, cobertas de espuma, pode estar associada com a ocorrência desta enfermidade20. Os mesmos autores também descreveram a avaliação do teor de gordura do leite para o monitoramento da ocorrência de acidose subclínica no rebanho, o qual está associado com alterações na produção de ácidos graxos voláteis ruminais onde há aumento do propionato e diminuição do acetato. ALBAN et al (1996) afirmaram que vacas com históricos de claudicações são mais propensas a serem reincidentes. Portanto, como instrumento de monitoramento e prevenção de novos episódios, VERMUNT (2004) ressaltou a importância de se manter um histórico detalhado destes animais com doenças e tratamentos anteriores, principalmente nas vacas mais velhas. 2.5. Monitoramento do manejo WELLS et al (1993) e VAN AMSTEL e SHEARER (2001) recomendaram o casqueamento como forma de corrigir as irregularidades dos cascos, além de identificar e tratar de maneira precoce as alterações podais. Desta forma, tal procedimento torna-se uma ferramenta importante na profilaxia das alterações podais. VERMUNT (2004) afirmou que de 20-30% das vacas sadias necessitam de aparo funcional dos cascos. O mesmo autor citou que a prática regular do casqueamento estimula o crescimento de um tecido córneo saudável, podendo auxiliar no controle da laminite. Por outro lado, o casqueamento mal feito pode ser um fator de risco para o surgimento da laminite, daí a importância de ser realizado com a técnica correta e no tempo certo. HUANG et al (1995) relataram que intervalos de casqueamentos inferiores a quatro meses, estavam associados à uma elevação dos escores de gravidade para todas as lesões podais, com exceção da úlcera de sola e casco em saca-rolha. Outro fator crítico na ocorrência das claudicações é o homem. A atuação da mãode-obra está diretamente associada à saúde dos cascos dos bovinos, uma vez que o manejo inadequado dos animais, desconsiderando a biomecânica de sua locomoção, é citado como um dos fatores importantes no surgimento de afecções podais. O simples ato de conduzir os bovinos durante o deslocamento mais apressadamente, pode ocasionar uma maior sobrecarga lateral do peso, com consequente aumento do desgaste nas unhas9,15. O agrupamento dos animais deve ser feito de forma tranquila e calma sem a utilização cães, motocicletas ou tratores. É recomendada também a separação entre novilhas e vacas, principalmente em rebanhos maiores, acima de 200 animais29. Outra observação importante no manejo destes animais é com relação ao tempo
  • 6. total em que as vacas permanecem no processo de ordenha. Este tempo não poderá exceder três horas “vaca” dia, entretanto é comum ser observado um tempo superior a cinco horas por dia, o que é altamente indesejável, comprometendo o período de descanso, que deveria ser de nove a 14 horas por dia18,20. 3. CONSIDERAÇÕES FINAIS A intensificação dos sistemas de produção de bovinos leiteiros tornou mais notório os problemas de sanidade do rebanho, dentre os quais as enfermidades podais merecem grande destaque, devido sua alta prevalência, além dos elevados prejuízos econômicos e zootécnicos. Diversas são as condições que predispõem direta ou indiretamente à ocorrência das claudicações em um rebanho. Dessa forma, é extremamente importante que estes fatores de risco sejam conhecidos e monitorados, com objetivo de reduzir e controlar as afecções podais, diminuindo a prevalência e consequentemente as perdas causadas por estas enfermidades. Não existe uma receita pronta para ser utilizada quando se fala em problemas do sistema locomotor em um rebanho. A construção de programas de controle e monitoramento de afecções podais é única em cada propriedade, já que cada sistema de produção apresenta suas particularidades. Após a análise cuidadosa e o diagnóstico destas particularidades, o veterinário deverá adotar medidas que sejam eficientes para o controle e monitoramento do problema. É importante destacar a necessidade de que tais medidas sejam periodicamente revistas para avaliar o grau de eficácia do programa adotado no controle das claudicações. Referências 1 - ALBAN, L.; ALGER, J.F.; LAWSON, L.G. Lameness in tied Danish dairy cattle: the possible influence of housing systens, management, milk yield, nad prior incidents of lameness. Prev. Vet. Medc., v.29, p.135-149, 1996. 2 - BERGSTEN, C. Haemorrages of the sole horn of dairy cows as a retrospective indicator of laminits: an epidemiological study. Acta. Vet. 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