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  • 1. “Desde inflação a calamidades globais, Albert Mohler é um guia seguro. Desdeafago psicológico do ego americano à injúria da consciência americana, Mohler épersistentemente realista. De norte a sul, Mohler segura o espelho num ângulo de45º graus entre o céu e a terra; e a resplendente luz da sabedoria divina ilumina assombras de nossa tolice humana. E, no centro do esplendor, está a cruz de JesusCristo, definindo o significado final de tudo. Agradeço a Deus por Albert Mohler.” John Piper Pastor da Bethlehem Baptist Church, Minneapolis“Al Mohler é um dom singular à igreja. Suas análises combinam discernimentoteológico penetrante e percepção cultural perspicaz com uma paixão por pro-clamar com fidelidade o evangelho de Jesus Cristo. Sinto-me feliz porque toda asabedoria de Mohler está agora disponível nesta obra.” C. J. Mahaney Sovereign Grace Ministries“Aplicar as profundas verdades de nossa fé cristã a uma cultura que parece estarse transmutando diante de nossos olhos, parece ser a questão mais difícil queconfronta a igreja hoje. Neste livro bem escrito, Mohler, examina a situação e ofe-rece discernimento e sabedoria para ajudar-nos a fazer isso. Um manifesto parao envolvimento cristão responsável!” Timothy George Deão, Beeson Divinity School, Samford University Editor da Christianity Today“O Dr. Albert Mohler traz seu brilhantismo intelectual, sabedoria moral e discer-nimento teológico juntos em um livro que deve estar na biblioteca de todo aqueleque se interessa por entender as areias movediças da moralidade de nossa cul-tura e por saber como lidar com essa moralidade. Se você está nessa categoria,esta é uma leitura obrigatória.” James Merritt Pastor, Cross Pointe Church, Duluth (GA), Âncora do Ministério Touching Lives
  • 2. R. ALBERT MOHLER JR.
  • 3. Desejo e EnganoTraduzido do original em inglês sob o título Desire andDeceit por R. Albert Mohler Jr.Copyright © 2008 by R. Albert Mohler Jr.Publicado por Multnomah Books, uma marca de CrownPublishing Group, uma divisão de Random House, Inc.12265 Oracle Boulevard, Suite 200Colorado Springs, Colorado 80921 USATodos os direitos para tradução em outros idiomasdevem ser contratados através de:Gospel Literature InternationalP.O Box 4060, Ontário, California, 91761-1003 USAA presente tradução foi feita com permissão deMultnomah Books, uma marca de Crown PublishingGroup, uma divisão de Random House, Inc.Copyright © 2009 Editora Fiel1aEdição em Português: 2009Todos os direitos em língua portuguesa reservados porEditora Fiel da Missão Evangélica LiteráriaProibida a reprodução deste livro por quaisquer meios,sem a permissão escrita dos editores, salvo em brevescitações, com indicação da fonte.Presidente: Rick DenhamPresidente Emérito: James Richard Denham Jr.Editor: Tiago J. Santos FilhoTradução: Francisco Wellington FerreiraRevisão: Franklin Ferreira e Tiago J. Santos FilhoDiagramação: SpressCapa: Edvânio SilvaISBN: 978-8599145-72-2Caixa Postal, 1601CEP 12230-971São José dos Campos-SPPABX.: (12) 3936-2529www.editorafiel.com.br
  • 4. AMary Katherine Mohler,“Katie”,Maravilhosa filha e amiga.Ela conquistou meu coraçãono momento de seu nascimentoE nunca mais o deixou.Desejo e Engano 2prova.indd 5Desejo e Engano 2prova.indd 5 12/18/aaaa 16:03:3912/18/aaaa 16:03:39
  • 5. Desejo e Engano 2prova.indd 6Desejo e Engano 2prova.indd 6 12/18/aaaa 16:03:3912/18/aaaa 16:03:39
  • 6. SumárioAgradecimentos............................................................................ 9Prefácio........................................................................................ 11Capítulo 1 – De Pai para FilhoJ. R. R. Tolkien falando sobre sexo .............................................. 15Capítulo 2 – Uma Nova Maneira de Ver a LuxúriaUm ponto de vista secular........................................................... 23Capítulo 3 – Outra Maneira de Ver a LuxúriaUm ponto de vista cristão............................................................ 29Capítulo 4 – A Pornografia e a Integridade doCasamento CristãoO desafio....................................................................................... 35Capítulo 5 – A Pornografia e a Integridade doCasamento CristãoO chamado................................................................................... 41Capítulo 6 – A Homossexualidade na Perspectiva TeológicaAs raízes do movimento .............................................................. 47Desejo e Engano 2prova.indd 7Desejo e Engano 2prova.indd 7 12/18/aaaa 16:03:3912/18/aaaa 16:03:39
  • 7. Capítulo 7 – A Homossexualidade na Perspectiva TeológicaA hermenêutica da legitimação.................................................. 53Capítulo 8 – A Homossexualidade na Perspectiva TeológicaUma cosmovisão bíblica.............................................................. 61Capítulo 9 – A Homossexualidade na Perspectiva TeológicaRespondendo ao desafio.............................................................. 69Capítulo 10 – O Fim da AmizadeComoaconfusãosexualcorrompeuaamizadeentrehomens........ 75Capítulo 11 – Depois do BailePor que o movimento homossexual tem vencido....................... 83Capítulo 12 – Alfred KinseyO homem como ele realmente era............................................... 89Capítulo 13 – Lamentando a Cultura GayO enigma de Andrew Sullivan .................................................... 97Capítulo 14 – Lésbicas Criando FilhosVocê já teve problema com isso? ............................................... 105Capítulo 15 – A Era da Perversidade PolimorfaUma revolução fomentada por idéias ...................................... 111Capítulo 16 – A Era da Perversidade PolimorfaSete estratégias para a revolução .............................................. 117Capítulo 17 – A Era da Perversidade PolimorfaA civilização sobreviverá?......................................................... 127Desejo e Engano 2prova.indd 8Desejo e Engano 2prova.indd 8 12/18/aaaa 16:03:4012/18/aaaa 16:03:40
  • 8. AgradecimentosEm um sentido muito real, nenhum autor trabalha so-zinho. Sou profundamente devedor aos muitos amigose colegas que me ajudaram nesta tarefa complexa. Agradeçoespecialmente ao Deão Russel Moore e ao professor KenMagnuson, ambos do Southern Baptist Theological Seminary.Em vários assuntos, eles e outros me ajudaram a aprimorarminhas idéias.Comosempre,soumuitoagradecidoaGregGilbert,diretordepesquisademeuescritório,queprestouassistênciainestimá-vel em preparar este projeto para publicação.Finalmente,queroexpressargratidãoàminhaesposa,Mary,e a nossos filhos, Katie e Christopher. Eles me têm sustentadoem cada mudança e ensinado muito sobre a vida e o amor.9Desejo e Engano 2prova.indd 9Desejo e Engano 2prova.indd 9 12/18/aaaa 16:03:4012/18/aaaa 16:03:40
  • 9. Desejo e Engano 2prova.indd 10Desejo e Engano 2prova.indd 10 12/18/aaaa 16:03:4012/18/aaaa 16:03:40
  • 10. PrefácioHoje, a sexualidade é um fator importante na vida pú-blica dos Estados Unidos e da maior parte do mun-do. De algum modo, isso não é algo novo. Afinal de contas, asexualidade é um dos principais aspectos da existência humana– uma dinâmica complexa, inevitável e potencialmente perigo-sa de nossa vida. Contudo, a sexualidade é agora um assuntopúblico – a prioridade e o centro de alguns dos maiores e maisdisputados debates desta época.Sexo e sexualidade norteiam muito das propagandas, en-tretenimentos e temas culturais que o povo usa em sua conversaregular. A revolução sexual dos anos 1960 foi, em retrospectiva,somenteumsinaldoqueestavaporvir.NestesprimeirosanosdoséculoXXI,assuntossobresexualidadesãoaparentementeinevi-táveis. Alunos do ensino fundamental estão sendo apresentadosa currículos sobre “diversidade familiar”, e os principais jornaisnoticiam o fenômeno da promiscuidade sexual em asilos paraidosos.Parecenãohavernenhumapartedenossaculturaquenãoesteja lidando, de uma maneira ou de outra, com a sexualidade– envolvendo, freqüentemente, significativa controvérsia.11Desejo e Engano 2prova.indd 11Desejo e Engano 2prova.indd 11 12/18/aaaa 16:03:4012/18/aaaa 16:03:40
  • 11. 12 DESEJO E ENGANOOs cristãos têm um papel e um dever especial em meio aesta confusão. Em primeiro lugar, eles sabem que o sexo tantoé mais como menos importante do que a cultura de sexuali-dade liberal pode entender. Diferente dos evolucionistas na-turalistas, os cristãos acreditam que as realidades de gêneroe sexualidade são dons intencionais do Criador, que os deuaos seres humanos como bênção e responsabilidade. Diferentedos relativistas pós-modernos, os cristãos não podem aceitara afirmação de que os padrões sexuais são meras construçõessociais. Cremos que somente o Criador tem o direito de reve-lar sua intenção e ordens concernentes à nossa administraçãodesses dons. Diferente dos gênios e gurus de marketing e pu-blicidade, não cremos que a sexualidade deve ser usada comoum ardil para atrair a atenção e criar demanda no consumidor.Diferente dos complacentes produtores de entretenimento se-xualizado, não cremos que o sexo consiste primariamente emdiversão e prazer. Diferente dos revolucionários sexuais dasdécadas recentes, não cremos que a sexualidade é o meio delibertar o ego da opressão cultural.Em outras palavras, cremos que o sexo é menos importantedo que muitos desejam que creiamos. A existência humana nãose centraliza, primeira e principalmente, no prazer sexual e nademonstraçãodesexualidade.Hámuitomaisparaavidahuma-na, realização e alegria. O sexo não pode cumprir as promessasfeitas por nossa sociedade hipersexualizada.Por outro lado, o sexo é mais importante do que a socie-dade secular pode imaginar. Afinal de contas, a cosmovisãocristã revela que, em última análise, sexo, gênero e sexualidadefazem parte do propósito da criatura para glorificar o Criador.Esta relação transforma toda a questão e deixa a criatura a per-guntar: como posso celebrar e vivenciar a administração deDesejo e Engano 2prova.indd 12Desejo e Engano 2prova.indd 12 12/18/aaaa 16:03:4012/18/aaaa 16:03:40
  • 12. Prefácio 13minha sexualidade e o exercício deste dom de maneira que oCriador seja mais glorificado? É desnecessário dizer que essanão é a pergunta que está motivando a confusão em nossa cul-tura saturada de sexo.Este livro é uma tentativa de considerar, com base na pers-pectiva do cristianismo bíblico, vários assuntos controversos eproblemáticos sobre a sexualidade. Todos nós temos uma partenisso,eoscristãossãoresponsáveisporumtestemunhoespecialquanto ao significado do sexo e da sexualidade.E tudo isso, conforme sabemos, não se refere apenas ao quepensamos sobre esses assuntos, mas também à maneira comotemos de viver.Desejo e Engano 2prova.indd 13Desejo e Engano 2prova.indd 13 12/18/aaaa 16:03:4012/18/aaaa 16:03:40
  • 13. Desejo e Engano 2prova.indd 14Desejo e Engano 2prova.indd 14 12/18/aaaa 16:03:4012/18/aaaa 16:03:40
  • 14. Capítulo De Pai para FilhoJ. R. R. Tokien falando sobre sexoApopularidade admirável de J. R. R. Tolkien e de seusescritos,engrandecidapelosucessodasériedefilmesO Senhor dos Anéis, nos dão a certeza de que o mundo imaginá-rio e de significado moral de Tolkien permanece como uma dasgrandes realizações literárias de nosso tempo.Em certo sentido, Tolkien foi um homem de outra época.Sendoumfilólogodecoração,eleficavamaisàvontadenomun-do das eras antigas, ao mesmo tempo em que testemunhava oshorrores e barbaridades do século XX. Celebrado como umautor popular, ele era uma testemunha eloqüente de verdadespermanentes. Sua popularidade nos campus universitários, es-tendendo-se de seus dias até ao presente, é uma poderosa indi-cação de que os seus escritos alcançam os corações dos jovens edaqueles que buscam respostas.Ao mesmo tempo em que Tolkien é celebrado como autore literato, algumas de suas mensagens foram transmitidas pormeiodecartas,ealgumasdesuascartasmaisimportantesforamdirigidas aos filhos.Tolkien casou-se com Edith, sua esposa, em 1916; e a uniãofoiabençoadacomquatrofilhos.Dosquatro,trêseramhomens.15Desejo e Engano 2prova.indd 15Desejo e Engano 2prova.indd 15 12/18/aaaa 16:03:4112/18/aaaa 16:03:41
  • 15. 16 DESEJO E ENGANOJohn nasceu em 1917, Michael em 1920 e Christopher em 1924.Priscilla,aúnicafilhadeTolkien,nasceuem1929.Tolkienama-va bastante seus filhos e deixou um grande legado literário naforma de cartas.1Muitas dessas cartas foram dirigidas aos filhose representam não somente um excelente exemplo de qualida-de literária, mas também um tesouro de ensino cristão sobreassuntos como a humanidade, o casamento e o sexo. Conside-radas juntas, essas cartas constituem uma herança inestimávelnão somente para os filhos de Tolkien, mas também para todosaqueles com os quais elas foram compartilhadas.Em1941,TolkienescreveuumacartaprimorosaaoseufilhoMichael, falando sobre o casamento e as realidades da sexua-lidade humana. A carta reflete a cosmovisão de Tolkien e seuprofundo amor pelos filhos. Ao mesmo tempo, reconhece osgraves perigos inerentes à sexualidade desenfreada.“Este é um mundo caído”, afirmou Tolkien. “A perversão doinstintosexualéumdosprincipaissintomasdaQueda.Durantetodas as épocas, o mundo tem ido ao pior. As várias formas demudança social, e cada novo costume têm seus perigos espe-ciais. Mas, desde a queda de Adão, o espírito de concupiscênciatem andado em todas as ruas e se assentado com malícia emtodos os lares”. Esse reconhecimento do pecado humano e dosresultados inevitáveis da Queda expressa um contraste extre-mo em relação ao otimismo humanista que foi compartilhadopor muitos durante o século XX. Mesmo quando os horrores deduas guerras mundiais, do holocausto e de vários outros malescastigaram o otimismo recente quanto ao progresso humano, o1. Humphrey Carpenter & Christopher Tolkien (eds.), As cartas de J. R. R.Tolkien (Curitiba, PR: Editora Arte & Letra, 2006).Desejo e Engano 2prova.indd 16Desejo e Engano 2prova.indd 16 12/18/aaaa 16:03:4112/18/aaaa 16:03:41
  • 16. De Pai para Filho 17século XX deu evidência de uma fé inabalável no sexo e no seupoder libertador. Tolkien não teve nenhuma dessas coisas.“O Diabo é incansavelmente habilidoso, e o sexo é o seuassunto favorito”, insistiu Tolkien. “Ele é tão bom em apanhá-lo por meio de motivos generosos, românticos e compassivos,como o é por meio de motivos mais comuns ou naturais.” AssimTolkien aconselhava seu filho, que na época tinha 21 anos, di-zendo-lhe que as fantasias sexuais do século XX eram mentirasdemoníacas que tencionavam enlaçar os seres humanos. O sexoera uma armadilha, advertiu Tolkien, porque os seres humanossãocapazesderacionalizaçõesquaseinfinitasemtermosdemo-tivos sexuais. O amor romântico não é suficiente para justificaro sexo, Tolkien entendeu.Ampliando o argumento, Tolkien advertiu seu filho de quea amizade entre um homem e uma mulher, uma amizade su-postamente livre de desejo sexual, não demoraria muito a serperturbada pela atração sexual. É quase certo que pelo menosum dos participantes dessa amizade será inflamado pela paixãosexual, advertiu Tolkien. Isso é especialmente verdadeiro no re-lacionamento entre jovens, embora ele acreditasse que esse tipode amizade poderia ocorrer mais tarde na vida, “quando o sexoperde a intensidade”.ConformepercebequalquerleitordeTolkien,eleeraromân-tico de coração. Celebrava o fato de que, “em nossa cultura oci-dental,atradiçãoromânticaecavalheirescaaindaéforte”,emborareconhecesseque“ostemposlhesãohostis”.Assim,comoumpaipreocupado,TolkienaconselhouMichaelaevitarqueseuinstintoromântico o levasse a corromper-se, iludido pela “bajulação dasimpatia bem temperada com estímulos sexuais”.Alémdisso,Tolkiendemonstrouumprofundoentendimen-to da sexualidade masculina e da necessidade de limites e restri-Desejo e Engano 2prova.indd 17Desejo e Engano 2prova.indd 17 12/18/aaaa 16:03:4112/18/aaaa 16:03:41
  • 17. 18 DESEJO E ENGANOções. Embora tenha sido freqüentemente criticado por possuirum entendimento bastante negativo da sexualidade masculina,Tolkien apresentava uma avaliação sincera do impulso sexualem um mundo caído. Ele argumentava que os homens não sãonaturalmente monogâmicos. “A monogamia (embora há muitosejafundamentalàsnossasidéiasherdadas)éparanós,homens,um parte da ética revelada de acordo com a fé, e não de acordocom a carne.”Em seu próprio tempo, Tolkien viu o poder dominante deum costume cultural e da tradição moral regredir à memóriahistórica. Tendo a revolução cultural já visível no horizonte,Tolkien acreditava que a ética do sexo revelada pelo cristianis-mo seria a única força adequada para restringir a sexualidadedesenfreada do homem caído. “Cada um de nós poderia sin-ceramente gerar, em nossos 30 anos excedentes de masculini-dade plena, centenas de filhos e desfrutar do processo”, Tolkienadvertiu seu filho. No entanto, as alegrias e satisfações do casa-mento monogâmico fornecem o único e verdadeiro contextopara a sexualidade que não se envergonha. Além disso, Tolkienera confiante no fato de que o entendimento do cristianismoa respeito do sexo e do casamento implicava prazeres eternose temporais.Ao mesmo tempo em que celebrava a integridade do casa-mento cristão, Tolkien advertia a seu filho de que a verdadeirafidelidade no casamento exige um exercício contínuo da von-tade. No casamento há uma exigência de renúncia, ele insistia.“Fidelidade no casamento cristão envolve isto: grande morti-ficação. Para um homem cristão não há escape. O casamentopode ajudar a santificar e dirigir ao seu devido alvo os seus de-sejos sexuais. As graças do casamento podem ajudá-lo na luta,mas a luta permanece. O casamento não o satisfará de uma vezDesejo e Engano 2prova.indd 18Desejo e Engano 2prova.indd 18 12/18/aaaa 16:03:4112/18/aaaa 16:03:41
  • 18. De Pai para Filho 19– assim como a fome precisa ser mantida afastada por refeiçõesregulares.Apresentarátantasdificuldadesàpurezaconvenienteàquele estado como proverá facilidades. Nenhum homem, pormaisque,comojovem,tenhaamadoverdadeiramentesuanoivae prometida, jamais vivenciou fidelidade para com ela, comoesposa, na mente e no corpo, sem o exercício deliberado de suavontade e sem auto-renúncia.”Tolkien traçava a infidelidade no casamento, especialmentepor parte do homem, ao erro da igreja em não ensinar estas ver-dades nem falar sobre estes assuntos com honestidade. Aque-les que viam o casamento como nada mais do que a arena deamor romântico e arrebatado ficariam desapontados, entendiaTolkien. “Quando o glamour desaparece ou perde seu brilho, oscônjuges pensam que cometeram um erro ou que ainda estãopor achar sua verdadeira alma gêmea. E a verdadeira alma gê-mea é, com freqüência, a próxima pessoa sexualmente atrativaque surge em seu caminho.”Com essas palavras, Tolkien advertiu a seu filho que o ca-samento é uma realidade objetiva honrosa aos olhos de Deus.Assim, o casamento define as suas próprias satisfações. A in-tegridade do casamento cristão exige que um homem exerçasua vontade no âmbito do amor e comprometa todas as suasenergias e paixões sexuais ao estado honroso do casamento,recusando-se até na imaginação a violar seus votos matri-moniais.Em uma carta ao seu amigo C. S. Lewis, Tolkien disse: “Ocasamento cristão não é uma proibição à relação sexual, e sim amaneira correta de temperança sexual – de fato, talvez a melhormaneira de obtermos o prazer sexual mais satisfatório”. Em facede um mundo cada vez mais comprometido com a anarquia se-xual, Tolkien entendeu que o sexo tem de ser respeitado comoDesejo e Engano 2prova.indd 19Desejo e Engano 2prova.indd 19 12/18/aaaa 16:03:4112/18/aaaa 16:03:41
  • 19. 20 DESEJO E ENGANOum dom complexo e volátil, tendo potencial de grande prazer ede grande sofrimento.Comprofundodiscernimentomoral,Tolkienentendeuqueas pessoas que se entregam mais irrestritamente aos prazeressexuais obterão, no final, menos prazer e realização. Como ex-plicaoautorJosephPearce,umdosmaisperspicazesintérpretesde Tolkien, a temperança sexual é necessária “porque o homemnãoviveapenasdesexo”.Temperançaerestriçãorepresentam“ocaminho moderado entre o pudor e a lascívia, os dois extremosda obsessão sexual”, Pearce acrescenta.Referências explícitas à sexualidade estão virtualmenteausentes nas obras, alegorias, fábulas e estórias publicadas deTolkien.Noentanto,osexoestásempreemsegundoplanocomoparte do panorama moral dessas obras. Joseph Pearce entendeuisso com clareza, argumentando que os personagens literáriosde Tolkien “certamente não são destituídos de sexo, no sentidode assexuados, mas, pelo contrário, no que diz respeito ao sexo,são arquétipos e estereótipos”. Pearce faz essa afirmação apesarde não haver atividade ou sedução sexual notória nas históriasde Tolkien.Comoissoépossível?Empregandoumprofundoespíritodemoralidade,Tolkienapresentouseuspersonagensemtermosdehonra e virtude, usando homens heróicos que demonstravamvirtudes masculinas clássicas e heroínas que apareciam comomulheres de honra, valor e pureza.Contudo, se não tivermos considerável acesso às realida-des da família de Tolkien e de seu papel como marido e pai,dificilmente seremos compelidos a apreciar o entendimentode Tolkien quanto ao sexo, casamento e família. As cartas deTolkien, especialmente as que ele escreveu aos três filhos, mos-tram a preocupação amorosa de um pai dedicado, bem comoDesejo e Engano 2prova.indd 20Desejo e Engano 2prova.indd 20 12/18/aaaa 16:03:4112/18/aaaa 16:03:41
  • 20. De Pai para Filho 21o raro dom literário que Tolkien possuía e empregava compoder. A carta que Tolkien escreveu para Michael em 1941– na época em que o mundo explodia em guerra e a civilizaçãodesmoronava – é um modelo de preocupação, conselho e ins-trução paternal.Do ponto de vista do século XXI, para muitos Tolkien pare-ceria tanto desarmônico como destoante em relação aos padrõessexuais de nossa época. Sem dúvida, ele tomaria isso como umelogio, não intencional, mas sincero. Ele sabia que estava em de-sarmoniacomsuaépocaerecusoufirmementeatualizarsuamo-ralidadeparasatisfazeropadrãoexigidopelaspessoasmodernas.Escrevendo a Christopher, seu filho mais novo, Tolkien explicouisto:“Nascemosnumaépocaobscura,numtempoindevido(paranós). Mas há este consolo: de outro modo, não conheceríamosnemamaríamosoquerealmenteamamos.Imaginoqueumpeixefora da água é o único peixe que tem uma concepção da água”.Somos gratos por essas cartas, elas contêm mais do que uma pe-quena indicação do que Tolkien significava.Desejo e Engano 2prova.indd 21Desejo e Engano 2prova.indd 21 12/18/aaaa 16:03:4212/18/aaaa 16:03:42
  • 21. Desejo e Engano 2prova.indd 22Desejo e Engano 2prova.indd 22 12/18/aaaa 16:03:4212/18/aaaa 16:03:42
  • 22. Capítulo Uma Nova Maneirade Ver a LuxúriaUm ponto de vista secularQuando o filósofo Simon Blackburn foi convidado a darpalestrassobreumdossetepecadoscapitais,temeuquelhe pedissem falar sobre a preguiça. “Fiquei preocupado”, eledisse, “não por causa da falta de familiaridade com o problema,e sim por causa das dúvidas quanto a achar o que dizer sobre oassunto”.Aconteceu, porém, que ele não foi convidado a falar sobrea preguiça. Em vez disso, pediram-lhe que abordasse o assuntodaluxúria;e,quantoaesseassunto,eletevevigorsuficienteparafalar muito sobre o erro que tem motivado a humanidade atra-vés dos séculos. A luxúria, argumentou Blackburn, “recebe mápublicidade”. Seu objetivo, na palestra patrocinada pela Biblio-teca Pública de Nova Iorque e pela editora da Universidade deOxford, era resgatar a luxúria de sua má compreensão e de seuabuso histórico. Ele reconhece que a luxúria tem má reputação.“Ela é a mosca no ungüento, a ovelha negra da família, o primomal–educado e desprezível da família de membros honrososcomo o amor e a amizade. A luxúria vive na parte mais pobre dasociedade, anda por aí forçando sua entrada em grande parte denossa vida, e se ruboriza quando acha uma companhia”.23Desejo e Engano 2prova.indd 23Desejo e Engano 2prova.indd 23 12/18/aaaa 16:03:4212/18/aaaa 16:03:42
  • 23. 24 DESEJO E ENGANOBlackburn é um filosofo de grande reputação; tem ensina-do nas universidades de Oxford, de Cambridge e da Carolinado Norte. É um excelente escritor, que combina tanto estilocomo habilidade. Em anos recentes, ele escreveu Pense: umaintrodução à filosofia e Being good, duas obras que tenciona-vam introduzir assuntos filosóficos ao leitor comum. Nesseslivros, Blackburn apresenta um entendimento fundamental-mente secular da vida e um engajamento neutro com as ques-tões filosóficas e morais.Emseunovolivro,Luxúria,2Blackburnapresentaumavisãomodernizada da luxúria como desejo sexual por amor ao pró-prio desejo. Se a luxúria tem má publicidade, Blackburn querser o seu agente de relações públicas. A luxúria é inevitavelmen-te comparada com o amor. Ele entende o dilema, observando:“Sorrimos para os amantes de mãos dadas no parque. Mas fran-zimos o nariz quando os vemos praticando sua luxúria debaixoda árvore. O amor recebe o aplauso do mundo. A luxúria é fur-tiva, vergonhosa e embaraçadora. O amor busca o bem do pró-ximo, com autocontrole, interesse, razão e propósito. A luxúriabusca sua própria satisfação, é afoita, impaciente, sem controle,imune à razão”. Como um filósofo moral, Blackburn entendeque o amor exige conhecimento, razão e tempo, combinadoscomverdadeeconfiança.Poroutrolado,aluxúriaésimbolizadapor “uma trilha de roupas no corredor”, que representa a perdada razão, do autocontrole e da disciplina.Nãoprecisamosdizer,masaluxúriatemfeitopartedodese-jo e da experiência humana desde a Queda. Blackburn, que nãoapresenta nenhuma evidência de crer em qualquer coisa pare-2. Simon Blackburn, Lust: the seven deadly sins (New York: Oxford UniversityPress, 2006).Desejo e Engano 2prova.indd 24Desejo e Engano 2prova.indd 24 12/18/aaaa 16:03:4212/18/aaaa 16:03:42
  • 24. Uma Nova Maneira de Ver a Luxúria 25cida com pecado, entende a luxúria como um dos grandes de-safios morais que os homens modernos enfrentam. “Viver comluxúria”, diz Blackburn, “é como viver algemado a um lunático”.Francamente, é difícil aprimorar essa definição.Grande parte da dificuldade em abordar o assunto da luxú-ria, em nossos tempos modernos, pode ter sua origem no ca-ráter altamente sexualizado da cultura contemporânea. Aindaque a luxúria seja reduzida ao desejo sexual (e não ao desejopor dinheiro, poder e outras coisas), é cada vez mais difícil se-pararmos a luxúria da ordenação da vida diária. Ela perdeu suavergonha pública; os limites morais foram demolidos em nomedo “progresso” moral. E a sexualidade direciona agora muitasdas propagandas, entretenimentos e temas culturais. Como aluxúria pode ser separada de tudo isso?Blackburn define a luxúria como “o desejo entusiasta queinspira o corpo à atividade sexual e seus prazeres, por amor aessesprópriosprazeres”.Essadefiniçãoémaissofisticadadoqueparece a princípio. Blackburn combina conceitos como entu-siasmo, desejo, atividade sexual e prazer, mas focaliza sua defi-nição de luxúria no desejo de prazer sexual por amor ao próprioprazer. Essa elevação do desejo sexual, despojado de contexto elimites morais, representa bem a luxúria como ela se manifestano mundo contemporâneo.Os antigos identificavam os sete pecados capitais como or-gulho, avareza, luxúria, inveja, glutonaria, ira e preguiça. Toda arevelação da pecaminosidade humana, eles acreditavam, é atri-buída a um desses pecados básicos e aos efeitos mortais que osacompanham. A igreja cristã adotou a noção dos sete pecadoscapitais, unindo a estes as sete virtudes celestiais, identificadascomo prudência, temperança, justiça, coragem, fé, esperança eDesejo e Engano 2prova.indd 25Desejo e Engano 2prova.indd 25 12/18/aaaa 16:03:4212/18/aaaa 16:03:42
  • 25. 26 DESEJO E ENGANOcaridade. Supôs-se que a temperança tinha o propósito de limi-tar a luxúria. Todavia, parece que esta tem levado vantagem.Rastreando a idéia de luxúria no pensamento ocidental,Blackburn rejeita a associação comum de luxúria com exces-so. Luxúria não é realmente desejo excessivo, ele argumenta, esim um desejo por prazer sexual como um fim em si mesmo. Aluxúria encontrou uma derrota nos filósofos estóicos, os quaistemiam uma vida dominada pela paixão, e não pela razão. Ofilósofo romano Sêneca popularizou a filosofia estóica ao ado-tar este moto: “Nada por amor ao prazer”. Ele argumentou quea luxúria tinha de ser vencida por causa da sobrevivência dahumanidade, enquanto a sexualidade deveria ser direcionadatão-somente “à continuação da raça humana”. De fato, Sênecaapresentou esse argumento sobre a luxúria em uma carta quedirigiu à sua mãe; logo, é difícil saber quão seriamente podemosaceitar a sua descrição. No entanto, Blackburn entende Sênecano sentido literal e verdadeiro.Mas, se os estóicos representaram uma derrota significati-va para a luxúria, esse pecado capital achou seu oponente maisletal no cristianismo. Blackburn descreve isso como “o pânicocristão” que direcionou o escrutínio moral ao próprio prazer, enão apenas àquilo que poderia ser considerado excesso. Comodeveríamosesperar,eledirigesuaatençãoaAgostinho,bispodoséculo IV, cujas opiniões sobre sexo influenciaram pelo menosquinzeséculosdopensamentocristão.Agostinho,cujajuventu-de fora dedicada aos excessos sexuais, depois de sua conversãomostrou-se determinado a negar que o prazer sexual fazia partedo propósito do Criador para a sexualidade humana, mesmodesdeoprincípio.SeaQuedanãotivesseacontecido,Agostinhoargumentou, o sexo seria uma atividade puramente racional,não contaminada por qualquer prazer físico. O ato sexual seria,Desejo e Engano 2prova.indd 26Desejo e Engano 2prova.indd 26 12/18/aaaa 16:03:4212/18/aaaa 16:03:42
  • 26. Uma Nova Maneira de Ver a Luxúria 27de fato, apenas como um aperto de mãos. Mais tarde, conformeapresentada nos pensamentos de Tomás de Aquino, a igreja ar-gumentou que a sexualidade era definida tanto pela ordem bí-blica como pela revelação encontrada na natureza. Essa dimen-são adicional da luxúria direcionava-se aos desejos não naturaisevidentes em boa parte da humanidade.O propósito de Blackburn é sobrepujar todo pessimismopara com a luxúria. Ele até defende o uso de pornografia, quepode,conformeelediz,apontaraospropósitosmaiselevadosdosexo, e não às degradações mais vis. Ele se opõe aos psicólogosevolucionistas, afirmando que as opiniões naturalistas deles arespeito do sexo são muito mecânicas. Mas o principal esforçode Blackburn é vencer o que ele vê como pessimismo do cristia-nismo em relação ao desejo sexual como um fim em si mesmo.De fato, o seu esforço visa negar que a luxúria seja consideradaum pecado capital ou algo semelhante.O livro de Blackburn não responde a todas as perguntasque ele suscita. Enquanto atacao “pessimismo” cristão e insisteque a luxúria seja aceita como uma realidade humana univer-sal, ele não exige a remoção de todos os limites morais sobre asexualidade humana. Em última análise, Luxúria é um fasci-nante tratado oferecido por um intelectual notável, que omiteprudentemente as difíceis decisões morais da vida cotidiana.O ponto de vista de Blackburn sobre a luxúria está destituídodos aspectos ofensivos e está mais arraigado na literatura doque na vida. Talvez isso se deva à profissão de Blackburn comofilósofo acadêmico ou ao fato de que um filósofo secular mo-derno possa falar sobre sexo apenas no contexto de ironia.O ponto de vista cristão sobre o mundo concorda com eleneste ponto: a luxúria é mais bem descrita como um desejo porprazersexualcomoumfimemsimesmo.Agostinhoàparte,nãoDesejo e Engano 2prova.indd 27Desejo e Engano 2prova.indd 27 12/18/aaaa 16:03:4312/18/aaaa 16:03:43
  • 27. 28 DESEJO E ENGANOhá qualquer razão bíblica para suspeitarmos que o sexo antes daQueda fosse destituído de prazer físico. De fato, temos todas asrazões para crer que o prazer sexual é um dos dons mais agradá-veis que Deus outorgou às criaturas humanas. O desejo sexual– e a promessa de prazer sexual – tem o propósito de atrair-nosao casamento, à geração de filhos, à fidelidade e à responsabi-lidade. A luxúria é pecaminosa exatamente pelo fato de que odesejo e a paixão sexual são despojados desse contexto moral.Na cosmovisão centralizada em Deus, nada que existe sobre aterra pode ser visto como um fim em si mesmo. Nada pode serentendido como que existindo por amor a si mesmo.Odesejosexualporamorasimesmoéumdesejodestituídoda glória do Criador e removido do seu contexto moral. O queBlackburn celebra, o cristianismo condena corretamente. Comou sem intenção, ele trouxe a luxúria de volta ao palco de deba-tes, e sua palestra transformada em tese serve para nos mostrarquão sensata talvez acharemos uma defesa secular da luxúria.É claro que há um entendimento completamente diferente daluxúria, mas isso não deve ser esperado de uma cosmovisão se-cular.Somenteocristianismopodeexplicarporquealuxúria–eo pecado em todas as formas – é tão mortal.Desejo e Engano 2prova.indd 28Desejo e Engano 2prova.indd 28 12/18/aaaa 16:03:4312/18/aaaa 16:03:43
  • 28. Capítulo Outra Maneira deVer a LuxúriaUm ponto de vista cristãoEnquanto Simon Blackburn vê a luxúria como um ob-jeto de celebração, Joshua Harris entende que ela é umperigo que deve ser encarado com a maior seriedade. Em seulivro Not Even a Hint: Guarding Your Heart Against Lust [Nemmesmo uma sugestão: guardando seu coração contra a luxú-ria],3Harris oferece uma avaliação imparcial da luxúria comoum desafio para o cristão. Segundo Harris, a luxúria é o desejodirecionado de modo errôneo. “Ter luxúria é querer o que vocênão tem e não deveria ter”, ele explica. “A luxúria vai além daatração, da apreciação da beleza e do desejo saudável por sexo– a luxúria torna esses desejos mais importantes do que Deus.A luxúria quer ultrapassar as diretrizes de Deus a fim de obtersatisfação”.A abordagem de Harris é contracultural desde o início. Amaioria das pessoas rejeita a noção de que há prazeres quenão devemos ter. Nossa sociedade institucionalizou a luxúria,entretecendo os padrões de desejo sexual ilícito em toda a in-3 Joshua Harris, Not even a hint: guarding your heart against lust (Sisters, OR:Multnomah, 2003). Usado com permissão.29Desejo e Engano 2prova.indd 29Desejo e Engano 2prova.indd 29 12/18/aaaa 16:03:4312/18/aaaa 16:03:43
  • 29. 30 DESEJO E ENGANOteração com os meios de comunicação, entretenimento, statuse propagandas. A luxúria é agora uma parte e parcela da visãomoderna a respeito da boa vida. Harris argumenta que “a luxú-ria pode ser a luta que define esta geração”. Gerações anterioresenfrentaram os desafios morais de guerra, pobreza e pestilên-cia, mas esta geração está absorvida em um ciclo contínuo deluxúria e satisfação sexual.Harris, um autor de grande vendagem, é conhecido demuitos jovens cristãos por suas obras a respeito de cortejo ecasamento bíblicos. Em Eu disse adeus ao namoro e Garotoencontra garota, ele ajudou a educar uma geração de evangéli-cos quanto à noção bíblica de cortejo como preparação para ocasamento. Harris é o pastor igreja Covenant Life, em Gaither-sburg, Mariland, e tem combinado experiência pastoral comdiscernimento espiritual perspicaz. Em suas primeiras obras,ele focalizou os perigos inerentes no padrão convencional denamoro que se tornou a norma entre os jovens americanos.Este sistema de namoro “íntimo” entre rapaz e moça é mo-ralmente suspeito porque coloca o casal em um contexto deintimidade sexual prematura. O índice crescente de sexo pré-matrimonial entre os jovens – incluindo muitos dos que sedizem cristãos – é evidência suficiente para aceitarmos comoverdadeiros os argumentos de Harris. Além disso, ele funda-menta seus argumentos em uma visão bíblica de cortejo comopreparação intencional para o casamento.Por que escrever agora sobre luxúria? “Escrever dois livrossobre o assunto de namoro e cortejo, nos últimos cinco anos,ajudou-me a perceber quão sério é este problema para umgrande número de crentes”, Harris explica. “Recebi milharesde cartas e e-mails de pessoas de todas as idades, de muitoslugares do mundo, que estavam lutando contra a impureza se-Desejo e Engano 2prova.indd 30Desejo e Engano 2prova.indd 30 12/18/aaaa 16:03:4312/18/aaaa 16:03:43
  • 30. Outra Maneira de Ver a Luxúria 31xual.” Como Harris o vê, o problema é terrivelmente sério. “Ashistórias são comoventes, tanto de homens como de mulheres.São histórias de compromissos simples que levaram a pecadose tristezas sérios. São histórias de lutas secretas e angustiantescontra sexo antes do casamento, pornografia e homossexua-lidade. São histórias de pessoas que antes juraram permane-cer puras, mas agora não podem acreditar na profundidadede impurezas a que desceram.” Estando a luxúria agora nocentro da cultura americana e sendo até celebrada como umaparte vital da “boa vida”, Harris parece soar de um absolutoextremismo no que diz respeito à luxúria. Qual é o padrão deDeus concernente à luxúria? Quanta luxúria é permissível àvida cristã? A resposta de Harris é a essência da simplicidade:“Nada. Nadinha. Zero”. Caso você não entenda, ele prossegueinsistindo que a luxúria não tem qualquer lugar na vida cristã– nem mesmo uma sugestão.Por que esse padrão elevado? “Não estou dizendo issopara ser dramático”, insiste Harris. “Creio realmente que esteé o chamado de Deus para cada cristão, não importando otipo de cultura em que viva ou a idade que tenha. Isso nãoacontece porque Deus é autoritário ou severo, por amor à se-veridade; antes, porque Ele nos ama – e somos dEle.” JoshuaHarris é um homem honesto e expressa essa honestidade emNot Even a Hint. Ele confessa sua própria luta contra a luxúriacomo rapaz e permite que os leitores – homens e mulheres– se identifiquem com a profundidade de sua luta moral eespiritual.Ao abordar a luxúria, definida como desejo sexual ilícito,a principal dificuldade que enfrentamos é definir a distinçãoentre o desejo sexual impróprio e o desejo sexual saudável.Harris admite essa dificuldade e tenta delinear a distinçãoDesejo e Engano 2prova.indd 31Desejo e Engano 2prova.indd 31 12/18/aaaa 16:03:4312/18/aaaa 16:03:43
  • 31. 32 DESEJO E ENGANOpor insistir que a luxúria não é o mesmo que ser atraído aalguém e também não é uma erupção repentina da tentaçãosexual. A essência da luxúria é o desfrute do desejo ilícito, oprazer da tentação levado adiante. No entanto, o desejo ino-cente pode se tornar em luxúria, se a esta for dada o menorconvite. Como explica Harris: “Um pensamento sexual quesurge em sua mente não é necessariamente luxúria, mas logopode se tornar luxúria se for entretido e cogitado durantecerto tempo. Uma excitação por sexo no casamento não épecado, mas pode ser maculado pela luxúria se não for tem-perado com paciência e restrição”.O impulso do sexo humano não é produto da biologia ouda evolução. Nosso Criador nos fez seres sexuais e colocou umforte impulso sexual dentro de nós, a fim de impelir-nos aocasamento e a todas as coisas boas vinculadas à união conjugal.Visto que somos criaturas caídas, precisamos de assistênciaorientadora do impulso sexual para nos tirar da letargia e doegocentrismoparaumrelacionamentofielefrutíferocomumaesposa. Ao criar-nos homem e mulher, Deus tencionava que oshomens fossem sexualmente atraídos às mulheres, e estas, aoshomens. Essa atração não é uma questão de mutualidade entredois gêneros; antes, ela tem o objetivo de nos direcionar à mu-tualidade entre duas pessoas unidas na aliança do casamento.No casamento, o prazer e a paixão sexual são partes essenciaisdo apego relacional que mantém a união firme, aponta à pro-criação e estabelece a intimidade descrita na Bíblia como orelacionamento de “uma só carne”. Joshua Harris entende issoe afirma que “Deus nos deu impulsos para que sejamos impe-lidos a alguma coisa”.O problema mortal da luxúria surge quando o impulsosexual é dirigido para algo menor ou diferente da pureza noDesejo e Engano 2prova.indd 32Desejo e Engano 2prova.indd 32 12/18/aaaa 16:03:4312/18/aaaa 16:03:43
  • 32. Outra Maneira de Ver a Luxúria 33casamento. Esse entendimento cristão da luxúria é bem dis-tinto do argumento secular de Simon Blackburn. EnquantoBlackburn define a paixão e o prazer sexual como fins em simesmos, levando a uma aceitação ampla da luxúria como umato de auto-afirmação, a cosmovisão cristã de Joshua Harrisleva-o a ver a luxúria como um elemento que recorda ao crentea sua necessidade de auto-renúncia. Ele entende o fato de quevivemos em uma era pornográfica e uma sociedade motivadapela luxúria. Reconhecendo essas realidades, Harris propõeum “plano adaptável à necessidade” para cada indivíduo. Emface das complexas fascinações da pornografia e da seduçãosexual, Harris entende que cada pessoa provavelmente se de-parará com um diferente padrão de tentação. Como ele re-conhece, “pode não haver uma abordagem única que atendaàs necessidades de todos no combate à luxúria”. Sendo esse ocaso, o cristão tem o dever de ser honesto a respeito do padrãode tentação que ele ou ela enfrenta. Se a tentação vem por meiode livros, da Internet, de correspondências e do contexto geralda vida diária, Harris propõe a necessidade de prestar contasa alguém e de honestidade implacável a respeito da luxúria esuas conseqüências.Depois de haver ele mesmo passado pela experiência, Har-ris também sabe que a luta contra a luxúria não pode ser venci-da por mera determinação pessoal e aplicação de autocontrole.Além disso, o legalismo não é o antídoto para a luxúria. “Nãopodemos salvar nem transformar a nós mesmos”, ele explica.“Somente a fé em Cristo pode livrar-nos da prisão de nosso pe-cado. E somente o Espírito Santo pode transformar-nos. Nossatarefa consiste em clamar pela obra dEle, participar dessa obrae submeter-Lhe cada vez mais nossos pensamentos, ações edesejos.”Desejo e Engano 2prova.indd 33Desejo e Engano 2prova.indd 33 12/18/aaaa 16:03:4412/18/aaaa 16:03:44
  • 33. 34 DESEJO E ENGANOSimonBlackburnachaquealuxúriaéumavirtude,emuitoscristãos iludem-se pensando que a luxúria não é um problemareal. Joshua Harris ofereceu um antídoto para esses conceitostrágicos e errôneos. A luxúria é não somente um erro, mas tam-bém um pecado que estimula outros pecados.Desejo e Engano 2prova.indd 34Desejo e Engano 2prova.indd 34 12/18/aaaa 16:03:4412/18/aaaa 16:03:44
  • 34. Capítulo A Pornografia e aIntegridade do Casamento CristãoO DesafioAinterseção de pornografia e casamento é uma dasquestões mais problemáticas entre os casais hoje,incluindo os casais cristãos. A praga universal da pornografiarepresenta um dos maiores desafios morais enfrentados pelaigreja cristã na era pós-moderna. Estando o erotismo entreme-ado no âmago de nossa cultura, sendo celebrado em seus en-tretenimentos e anunciado como um bem de consumo, é quaseimpossívelescapardaamplainfluênciadapornografiaemnossavida e cultura. Ao mesmo tempo, o problema da pecaminosida-de humana permanece fundamentalmente inalterado desde aQueda até o presente. Não há qualquer base teológica para su-pormos que os seres humanos são mais lascivos, mais indefesosdiante da tentação sexual ou mais suscetíveis à corrupção dodesejo sexual do que eram nas gerações anteriores.Duas características distinguem a época presente das épo-cas anteriores. Primeira: a pornografia tem sido tão divulgadapor meio de propagandas, de imagens comerciais, de entreteni-mento e da vida diária, que aquilo que era considerado impró-prio décadas atrás agora é aceito como roupa comum, diversãonormal e sensualidade trivial. Segunda: o erotismo explícito35Desejo e Engano 2prova.indd 35Desejo e Engano 2prova.indd 35 12/18/aaaa 16:03:4412/18/aaaa 16:03:44
  • 35. 36 DESEJO E ENGANO– completado com imagens, narrativas e simbolismo porno-gráficos – é agora celebrado como um bem cultural em algunssetores da sociedade. A pornografia – agora noticiada como osétimomaiornegócionaAmérica–possuiosseusprópriosíco-nes e personagens públicos. Hugh Hefner, fundador da revistaPlayboy, é considerado por muitos americanos um modelo desucesso empresarial, prazer sexual e estilo de vida liberal. O usode Hugh Hefner como orador por uma cadeia de lojas de ham-búrgueres, na Califórnia, indica como a pornografia tem sidoincorporada à nossa cultura.Resultante dessas duas características, há uma terceirarealidade – notadamente, a exposição crescente à excitaçãoerótica cria a necessidade de estímulos cada vez mais fortespara despertar o interesse sexual e cativar a atenção. Numalinguagem curiosa, a hiper-exposição à pornografia leva a umretorno cada vez mais baixo do investimento, isso significa:quanto mais alguém vê pornografia, tanto mais explícitas têmde serem as imagens para despertar o interesse. Assim, paramanter a excitação de “transgredir”, como diriam os pós-mo-dernistas, as pessoas dadas à pornografia têm de continuar ex-cedendo os limites.Mais uma qualificação tem de ser acrescentada a esse pano-rama.Apornografiaéprincipalmente,masnãoexclusivamente,um fenômeno masculino. Isso significa que os usuários e con-sumidores da pornografia são predominantemente masculinos– rapazes e homens. Em nome da libertação da mulher, certaquantidade de pornografia dirigida ao mercado feminino temsurgidoemanosrecentes.Noentanto,esseéapenasumnichodemercadonaamplaeconomiapornográfica.Permaneceofatodeque muitos homens pagam grandes somas de dinheiro e gastamDesejo e Engano 2prova.indd 36Desejo e Engano 2prova.indd 36 12/18/aaaa 16:03:4412/18/aaaa 16:03:44
  • 36. A Pornografia e a Integridade do Casamento Cristão 37bastantetempoolhandoecontemplandoimagenspornográficas,a fim de estimularem-se sexualmente.Por que a pornografia é um negócio tão grande? A respostadessa pergunta está em duas realidades básicas. Em primeirolugar, a resposta mais fundamental dessa pergunta tem de es-tar arraigada em um entendimento bíblico dos seres humanoscomo pecadores. Temos de levar em conta o fato de que o peca-do corrompeu toda coisa boa da criação, e os efeitos do pecadose estendem a todos os aspectos da vida. O impulso sexual,que deveria apontar à aliança de fidelidade no casamento etodas as coisas boas associadas com essa instituição, tem sidocorrompido a ponto de causar efeito devastador. Em vez de serdirigido à fidelidade, ao compromisso de aliança e procria-ção e ao relacionamento de “uma só carne”, o impulso sexualtem sido degradado a um tipo de paixão que rouba de Deus aglória e celebra a sensualidade às expensas do espiritual, to-mando aquilo que Deus tencionou para o bem e colocando-onum caminho que leva à ruína, em nome da satisfação pessoal.A resposta mais importante que podemos dar à elevação dapopularidade da pornografia está fundamentada na doutrinacristã do pecado. Como pecadores, corrompemos o que Deusplanejou perfeitamente para o bem de suas criaturas e trans-formamos o sexo em um carnaval de prazeres orgíacos. Nãosomente separamos o sexo do casamento, mas, como socieda-de, agora vemos o casamento como uma imposição, a castida-de como um embaraço, e a restrição sexual como uma inibiçãopsicológica. A doutrina do pecado explica por que trocamos aglória de Deus pelo conceito de “perversidade polimorfa”, deSigmund Freud.Precisamos também reconhecer que uma economia ca-pitalista de livre mercado recompensa aqueles que criam umDesejo e Engano 2prova.indd 37Desejo e Engano 2prova.indd 37 12/18/aaaa 16:03:4412/18/aaaa 16:03:44
  • 37. 38 DESEJO E ENGANOprodutoquetantoéatraentecomodesejável.Ospromotoresdapornografia sabem que são bem-sucedidos por dirigirem seuproduto ao denominador comum mais vil da humanidade – amente sexual depravada. Sem as restrições legais comuns dasgerações anteriores, os produtores de pornografia estão agoralivres para vender seus produtos quase sem restrição. Alémdisso, eles estruturam seus planos de marketing na suposiçãode que uma pessoa pode ser seduzida ao uso de pornografia e,assim, ser cativada a um padrão de dependência de imagenspornográficas e à necessidade de conteúdo sexual cada vezmais explícito como um meio para a estimulação sexual.O fator decisivo é que, em sua pecaminosidade, os homenssão atraídos à pornografia; e uma porcentagem assustadora-mente ampla de homens desenvolve uma dependência de ima-gens pornográficas para sua estimulação sexual e para seu con-ceito de vida agradável, de realização sexual e de significado davida. Pesquisas médicas têm documentado um fluxo crescentede endorfinas, hormônios que produzem o prazer no cérebro,quando as imagens sexuais são vistas. Devido à lei do efeitoreduzido, estimulação maior é necessária para manter um flu-xo constante de endorfina nos centros de prazer do cérebro.Sem consciência nítida do que está acontecendo, os homensestão sendo atraídos a um padrão cada vez mais profundo depecado, de mais pornografia e de racionalização interminá-vel. E tudo se iniciou quando os olhos começaram sua leituraatenta da imagem pornográfica, e a estimulação sexual foi oseu resultado.A era pós-moderna trouxe muitas coisas admiráveis, bemcomo mudanças morais inacreditáveis. Freqüentemente,o avanço tecnológico e a complexidade moral vêm de mãosdadas. Isso é mais evidente no caso do desenvolvimento daDesejo e Engano 2prova.indd 38Desejo e Engano 2prova.indd 38 12/18/aaaa 16:03:4412/18/aaaa 16:03:44
  • 38. A Pornografia e a Integridade do Casamento Cristão 39internet. Pela primeira vez na história da humanidade, umadolescente tem acesso, no seu quarto, a inúmeros websitespornográficos, que atendem a toda paixão, perversão e pra-zer sexual imaginável. O adolescente de hoje, se não estiverisolado em alguma ilha deserta, talvez saiba mais sobre sexoe suas complexidades do que seu pai sabia quando se casou.Além disso, o que muitas gerações sabiam apenas na imagi-nação – se, de fato, sabiam – agora está disponível aos olhosnos websites, tanto pagos como gratuitos. A internet trouxe aauto-estrada da pornografia a toda comunidade, com rampasde entrada nos computadores dos lares.A pornografia representa um dos mais insidiosos ataquescontra a santidade do casamento e da beleza do sexo no am-biente do relacionamento de “uma só carne”. A celebraçãoda devassidão, em vez da celebração da pureza, a exaltaçãodo prazer físico acima de todas as outras considerações e aperversão da energia sexual por meio de uma inversão do“eu” – tudo isso corrompe a noção do casamento, leva a da-nos incalculáveis e subverte tanto o casamento como os laçosmatrimoniais.Desejo e Engano 2prova.indd 39Desejo e Engano 2prova.indd 39 12/18/aaaa 16:03:4512/18/aaaa 16:03:45
  • 39. Desejo e Engano 2prova.indd 40Desejo e Engano 2prova.indd 40 12/18/aaaa 16:03:4512/18/aaaa 16:03:45
  • 40. Capítulo A Pornografia e aIntegridade do Casamento CristãoO chamadoAcosmovisão cristã tem de direcionar à instituição docasamentotodasasconsideraçõessobreasexualida-de.Ocasamentoéoambientedaatividadesexual.Éapresentadonas Escrituras como o ambiente designado por Deus para a re-velaçãodasuaglórianaterra,quandoumhomemeumamulherse unem no relacionamento de “uma só carne”, na aliança docasamento. Entendido e ordenado da maneira correta, o casa-mento é uma figura da própria aliança da fidelidade de Deus.O casamento deve manifestar a glória de Deus, revelar os seusdons às suas criaturas e proteger os seres humanos do desastreinevitável que ocorre quando as paixões sexuais são divorciadasde seu devido lugar.A marginalização do casamento e a antipatia pública coma qual a maior parte da elite cultural aborda o assunto do casa-mento produzem um contexto em que os cristãos comprometi-dos com uma ética do matrimônio parecem terrivelmente forade harmonia com a cultura. Enquanto a sociedade vê o casa-mentocomoumcontratoparticularquepodeserfeitoedesfeitoàvontade,oscristãostêmdeverocasamentocomoumaaliança41Desejo e Engano 2prova.indd 41Desejo e Engano 2prova.indd 41 12/18/aaaa 16:03:4512/18/aaaa 16:03:45
  • 41. 42 DESEJO E ENGANOinviolável feita diante de Deus, uma aliança que estabelece rea-lidades temporais e eternas.Os cristãos não devem ficar embaraçados quando falam so-bre sexo e sexualidade. Uma hesitação ou embaraço imprópriosem tratar desses assuntos é uma forma de desrespeito à criaçãode Deus. Tudo que Deus fez é bom, e toda coisa boa feita porDeus tem um propósito intencional que, em última análise, re-vela a sua glória. Quando os cristãos conservadores reagem aosassuntos sexuais com ambivalência e embaraço, difamamos abondade de Deus e ocultamos sua glória, que deve ser reveladano uso correto dos dons da criação.Portanto,nossaprimeiraresponsabilidadeémostraratodasas pessoas o uso correto das boas dádivas de Deus e a legitimi-dade do sexo no casamento como aspectos vitais da intençãode Deus para o casamento desde o princípio. Muitos indivídu-os – especialmente os rapazes – nutrem uma falsa expectativaquanto ao que o sexo representa no âmbito do relacionamentomatrimonial. Visto que o impulso sexual masculino é ampla-mente dirigido ao prazer físico, os homens imaginam freqüen-tementequeasmulheressãoiguaisaeles.Emboraoprazerfísicoseja uma parte essencial da experiência feminina do sexo, umamulher não se focaliza no objetivo único do prazer físico, comoacontece com o homem.Um ponto de vista bíblico entende que Deus demonstra suaglória tanto nas similaridades como nas diferenças que carac-terizam homens e mulheres. Criados igualmente à imagem esemelhança de Deus, homens e mulheres foram feitos um parao outro. Os aspectos físicos dos corpos do homem e da mulherexigemasatisfaçãonooutro.Oimpulsosexualtiraohomemeamulher de si mesmos e os move a um relacionamento de aliançaque se consuma na união de “uma só carne”. Por definição, oDesejo e Engano 2prova.indd 42Desejo e Engano 2prova.indd 42 12/18/aaaa 16:03:4512/18/aaaa 16:03:45
  • 42. A Pornografia e a Integridade do Casamento Cristão 43sexonocasamentonãoéapenasarealizaçãodasatisfaçãosexualpor parte de duas pessoas que compartilham a mesma cama.Antes, é o ato mútuo de se darem que atinge prazeres tanto fí-sicos como espirituais. O aspecto emocional do sexo não podeserdivorciadodesuadimensãofísica.Emboraoshomenssejamfreqüentemente tentados a esquecer isso, as mulheres possuemmeios mais ou menos gentis de tornar isso claro.Considere o fato de que a mulher tem todo o direito de es-perarqueseumaridotenhadeganharoacessoaoleitoconjugal.Conforme o apóstolo disse, o marido e a mulher não possuemmaisseuspróprioscorpos,masagoraumpertenceaooutro(ver1Co 7.4). Ao mesmo tempo, Paulo instruiu os maridos a ama-rem sua mulher como Cristo amou a igreja (ver Ef 5.25). Assimcomo as mulheres são ordenadas a se submeterem à autoridadedeseumarido(v.22),esteéchamadoaumpadrãodeamormaiselevado, semelhante ao de Cristo, e de dedicação para com suamulher. Por isso, quando digo que um marido tem de ganharo acesso ao leito conjugal, estou dizendo que um marido deveà sua mulher a confiança, a afeição e o apoio emocional que alevam a se dar livremente ao marido em um ato de sexo.A sexualidade é um dom de Deus e foi planejada para tirar-nos de nós mesmos e impelir-nos a buscar um cônjuge. Para oshomens,issosignificaqueocasamentonoschamaadeixarnossointeresse egoísta por prazer genital em favor da plenitude do atosexualnorelacionamentoconjugal.Expressandoemtermosmaisdiretos, creio que Deus tenciona que um homem seja disciplina-do, direcionado e estimulado à fidelidade conjugal por meio dofato de que a sua mulher se dará livremente a ele, no ato sexual,quando ele se apresenta como digno da atenção e desejo dela.Ser específico pode nos ajudar neste ponto. Acredito que aglóriadeDeusévistanofatodequeumhomemcasado,fielàsuaDesejo e Engano 2prova.indd 43Desejo e Engano 2prova.indd 43 12/18/aaaa 16:03:4512/18/aaaa 16:03:45
  • 43. 44 DESEJO E ENGANOesposa, que a ama genuinamente, acordará de manhã motivadopelo desejo e anelo de tornar sua esposa orgulhosa, confiante esegura de sua dedicação a ela. Um esposo que espera realizar oatosexualcomsuaesposaterácomoalvodesuavidafazeraque-las coisas que trarão orgulho legítimo ao coração da esposa, sedirigirá a ela com amor como o alicerce de seu relacionamentoe se apresentará a ela como um homem que lhe dá orgulho esatisfação.Considere esses dois quadros. O primeiro é o de um homemque se determina a um compromisso de pureza sexual e vive emintegridade sexual com sua esposa. A fim de satisfazer as expec-tativas legítimas de sua esposa e de maximizar o prazer de ambosno leito conjugal, ele se mostra cuidadoso em viver, conversar,liderar e amar de tal modo que sua esposa acha sua satisfação emdar-se a si mesma em amor. O ato sexual se torna uma culmina-ção de todo o relacionamento, e não um ato físico isolado que émeramenteincidentalaoamordeumparacomoooutro.Elesnãousam o sexo como um meio de manipulação, nem se focalizamvulgarmente no prazer pessoal egocêntrico; ambos se dão um aooutroempaixãoimaculadaeirrestrita.Nessequadro,nãoháver-gonha. Diante de Deus, esse homem pode estar confiante de queestá cumprindo suas responsabilidades como marido e homem.Está dirigindo sua sexualidade, seu impulso sexual e seu vigorfísico ao relacionamento de “uma só carne” que é o paradigmaperfeito da intenção de Deus na criação.Por contraste, considere outro homem. Ele vive sozinhoou, pelo menos, em um contexto diferente do contexto de ca-samento puro. Seu impulso sexual direcionado por egoísmo enão por altruísmo se tornou um instrumento de luxúria e auto-satisfação. A pornografia é a essência de seu interesse e estímulosexual. Em vez de achar satisfação em uma esposa, ele vê fotosDesejo e Engano 2prova.indd 44Desejo e Engano 2prova.indd 44 12/18/aaaa 16:03:4512/18/aaaa 16:03:45
  • 44. A Pornografia e a Integridade do Casamento Cristão 45impuras para ser recompensado com estimulo sexual que sur-ge sem responsabilidade, expectativa e necessidade legítima.Expostas diante dele, acham-se uma variedade aparentementeinumerável de mulheres nuas, imagens sexuais de carnalidadeexplícita e uma abundância de perversões que têm o propósitode seduzir a imaginação e corromper a alma. Esse homem nãoprecisa se preocupar com sua aparência física, sua higiene pes-soal ou seu caráter moral aos olhos de uma mulher. Sem essaestrutura e responsabilidade, ele está livre para obter seu prazersexual, sem levar em conta seu rosto não barbeado, sua indo-lência, seu mau hálito, o odor de seu corpo ou sua aparênciafísica. Ele não está sob nenhuma exigência de respeito pessoal,e não tem alguém para avaliar a seriedade e a dignidade de seudesejo sexual. Em vez disso, seus olhos vagueiam pelas imagensde rostos sem afeição, contemplando mulheres que não lhe fa-zem qualquer exigência, não se comunicam com ele e nunca lhedizem não. Não há troca de respeito, troca de amor e nada maisdo que o uso de uma mulher como objeto de sexo para o prazersexual pervertido e individual desse homem.Esses dois quadros de sexualidade masculina tencionamincutir propositadamente a lição de que cada homem tem dedecidir quem ele será, a quem servirá e a quem amará. Em últi-ma análise, a decisão de um homem a respeito da pornografiaé uma decisão a respeito de sua alma, de seu casamento, de suavida e de seu Deus.A pornografia é uma difamação da bondade da criação deDeus e uma corrupção desse ótimo dom que Deus outorgou àssuas criaturas, motivado por seu amor altruísta. Abusar dessedom significa enfraquecer não somente a instituição do ca-samento, mas também a própria estrutura da civilização. Es-colher a luxúria em lugar do amor é aviltar a humanidade eDesejo e Engano 2prova.indd 45Desejo e Engano 2prova.indd 45 12/18/aaaa 16:03:4512/18/aaaa 16:03:45
  • 45. 46 DESEJO E ENGANOadorar a falsa divindade [da mitologia grega] Priapus, na maisdescarada forma de idolatria moderna.O uso deliberado da pornografia equivale ao convite volun-tário de amantes ilícitos, objetos de sexo e conhecimento proi-bido ao coração, mente e alma do homem. O dano no coraçãodo homem é incalculável, e o custo da infelicidade humana sóserá evidente no Dia do Juízo. Desde o momento em que cadahomematinge apuberdadeatéodiaemque morre, ele luta con-tra a luxúria. Sigamos o exemplo e a ordem bíblica de fazermosuma aliança com os olhos para não contemplarmos o pecado.Nesta sociedade, somos chamados a ser responsáveis uns pelosoutros em meio a um mundo que vive como se nunca haverá deser chamado a prestar contas.Desejo e Engano 2prova.indd 46Desejo e Engano 2prova.indd 46 12/18/aaaa 16:03:4612/18/aaaa 16:03:46
  • 46. Capítulo A Homossexualidadena Perspectiva TeológicaAs raízes do movimentoEm cada época, a igreja se depara com desafios culturaise éticos que provam tanto a convicção como o amor docorpo de Cristo. Desde a Segunda Guerra Mundial, os cristãosamericanos têm lutado contra assuntos como racismo, guerras,aborto e sexualidade, em ondas sucessivas de confrontação mo-ral. Em última análise, os assuntos da homossexualidade e doaborto talvez sejam os dois assuntos mais divisivos que os ame-ricanos já enfrentaram desde a Guerra Civil.O assunto da homossexualidade é atualmente a frente decombate mais intensa na chamada guerra cultural. Grupos deativistashomossexuaisestãopressionandoporreconhecimen-to para os homossexuais e as lésbicas como uma classe à qualse deve oferecer proteções especiais pela legislação dos direitoscivis; e a literatura direcionada a homossexuais é agora algo co-mum nas bibliotecas públicas – e mesmo em algumas escolaspúblicas. A erudição secular tem capitulado amplamente aomovimentohomossexual,eprogramasdeestudoshomossexu-ais são agora um nicho crescente na cultura acadêmica. Alémdisso, os principais meios de comunicação retratam a homos-sexualidade em uma luz positiva. Personagens notoriamente47Desejo e Engano 2prova.indd 47Desejo e Engano 2prova.indd 47 12/18/aaaa 16:03:4612/18/aaaa 16:03:46
  • 47. 48 DESEJO E ENGANOhomossexuais, no horário nobre da televisão, são unidos porimagens homoeróticas em propagandas diversificadas. Aindamais triste é o fato de que muitas das denominações históri-cas protestantes estão debatendo a homossexualidade com ofoco no assunto da ordenação de homossexuais praticantes aoministério.Como isso chegou a acontecer? As origens do movimentohomossexual como uma grande força cultural pode ser traçadaaos tumultos ocorridos em Stonewall, em Manhattan, em 1969.Conhecido na comunidade homossexual como a Rebelião deStonewall,otumultoaconteceuquandoapolíciadeNovaIorqueinvadiu um bar homossexual. Os donos fugiram pelos fundos,e o tumulto se tornou conhecido como o símbolo inaugural daliberaçãodomovimentogay.Comonoticiouo VillageVoice,em3 de julho de 1969: “O poder gay ergueu sua cabeça audaciosa ecuspiu uma história que a região jamais viu igual... Vejam só. Alibertação está a caminho”.O resultado tem sido um esforço deliberado e estratégicopara ganhar a legitimação da homossexualidade, promover te-mashomossexuaisnosmeiosdecomunicaçãoegarantiraosho-mossexuais direitos especiais como uma classe protegida legal-mente.Alémdisso,omovimentotemexercidopressãoporalvosespecíficos, como a remoção de leis anti-sodomia, o reconheci-mento do parceiro homossexual em nível de igualdade com ocasamento heterossexual, a promulgação de leis antidiscrimi-natórias e a remoção de todas as barreiras aos homossexuais noserviço militar, na erudição, nos negócios e nas igrejas.A fim de atingir esses alvos, o movimento homossexual seorganizou como um movimento de libertação, baseado numaideologia de libertação que tem suas raízes em filosofias mar-xistas. Assim, a intenção tem sido a de se identificar com outrosDesejo e Engano 2prova.indd 48Desejo e Engano 2prova.indd 48 12/18/aaaa 16:03:4612/18/aaaa 16:03:46
  • 48. A Homossexualidade na Perspectiva Teológica 49movimentos de libertação, incluindo o movimento dos direitosciviseaagendafeminista.Masoalvonãoéapenasalegitimaçãoda atividade homossexual ou mesmo o reconhecimento de re-lacionamentos homossexuais. Antes, o alvo é a criação de umacultura homossexual pública como parte das correntes de pen-samento prevalecentes entre os americanos.Esse movimento é um desafio ousado a todos os setoresda sociedade americana. Tornou-se o propulsor de uma revo-lução social que influenciará ou transformará cada instituiçãoda vida americana, desde a família e instituições intermediáriasaté o Estado. Além disso, uma perspectiva evangélica tem dereconhecer que essa revolução é um ataque aos fundamentosde gênero, família, sexualidade e moralidade – os quais são, to-dos, assuntos centrais na cosmovisão cristã fundamentada naPalavra de Deus, revelada nas Escrituras. Portanto, esse é umdesafio que os evangélicos não podem deixar de enfrentar comgraça e honestidade.O movimento homossexual não surgiu de um vácuo. Defato, o desafio emergiu no contexto da grande mudança cultu-ral que transformou as sociedades ocidentais durante o séculoXX. O conceito de uma mudança cultural atrai a atenção ao pa-drão de mudanças fundamentais que têm moldado cada nívelda vida social e cultural. Uma mudança cultural é nada maisque uma reordenação fundamental da sociedade em termosde cultura, ideologias, cosmovisões, moralidade e padrões deconhecimento.A mudança cultural da modernidade para a pós-moder-nidade afetou todas as “comunidades de significado”, usandouma categoria favorecida pelos sociólogos. Do ponto de vistacristão, a categoria mais importante é a verdade, e a mudançacultural reordenou radicalmente a maneira como as pessoasDesejo e Engano 2prova.indd 49Desejo e Engano 2prova.indd 49 12/18/aaaa 16:03:4612/18/aaaa 16:03:46
  • 49. 50 DESEJO E ENGANOvêem o assunto da verdade. A segunda metade do século XXprovou que a ala esquerda do iluminismo obteve a vitória. Em-bora muitos dos pré-iluministas entendessem que a verdadeera uma realidade objetiva à qual deviam se submeter quan-do ela é conhecida, os americanos modernos vêem a verdadecomo um bem particular que deve ser moldado, aceitado ourejeitado de acordo com as preferências e gostos pessoais. Defato, a maioria dos americanos adultos rejeita a própria noçãode verdade absoluta.Todas as questões de fé e moralidade são consideradas pelamaioria dos americanos como questões de mera preferênciapessoal. Toda a verdade é interior e particular. Essa adoção doindividualismo puro ressalta a presente confusão cultural. Amudança sucessiva e progressiva concernente ao lugar da ver-dade e da autoridade, a mudança de uma cosmovisão cristã arespeito do Estado para o indivíduo isolado, deixa os america-nos desarmados para um discurso moral autêntico. E tudo queresta é subjetividade absoluta e os inevitáveis conflitos de poderque ocorrem quando ideologias e programas políticos se cho-cam em praça pública.Evidentemente, muitos dos que se consideram cristãos têmsucumbido à sedução das cosmovisões relativistas. Mas os cris-tãos verdadeiros têm de encarar com firmeza a verdade de quea fé uma vez por todas entregue aos santos é fundamentalmen-te incompatível com a rejeição da verdade absoluta. O próprioevangelho é uma afirmação direta de uma verdade absoluta euniversal, e a Bíblia (que é incompreensível à parte de sua rei-vindicaçãodeseraverdadeabsolutareveladaporDeusmesmo)faz uma alegação da verdade que se aplica a todas as pessoas, emtodos os lugares, em todos os tempos. Se não há uma verdadeabsoluta, não há fé cristã nem salvação por meio de Jesus Cristo,Desejo e Engano 2prova.indd 50Desejo e Engano 2prova.indd 50 12/18/aaaa 16:03:4612/18/aaaa 16:03:46
  • 50. A Homossexualidade na Perspectiva Teológica 51que fez uma afirmação absoluta e universal quando disse: “Eusou o caminho, e a verdade, e a vida” (Jo 14.6).Por isso, vemos a guerra cultural que agora caracteriza a re-pública americana. As questões ligadas a sexualidade e aborto– e toda a controvérsia quanto ao politicamente correto – sãoapenas frentes e linhas de batalha na guerra cultural. Os cristãosprecisam estar armados para esse conflito, e isso será possívelsomente por meio de uma redescoberta da fé bíblica e de cora-gem resoluta.Uma das mudanças mais formativas na consciência públi-ca da nação é a redução da argumentação moral quanto àquiloque a professora Mary Ann Glendon, da faculdade de Direitode Harvard, chama de “discurso sobre direitos”. Todos os de-bates morais a respeito de divórcio, sexo, aborto ou tabagismosão agora reduzidos a debates sobre os direitos do indivíduo,escondidos sob uma linguagem do “direito de escolher”, “direitode preferência sexual” ou “direito à integridade ou à personali-dade”. Nossa imaginação moral coletiva mudou das questões decerto e errado para conflitos sobre meus direitos, seus direitos,direitos deles.Isso nos mostra os efeitos corrosivos dos ácidos da moder-nidade. Um dos aspectos mais importantes dessa corrosão é oprocesso de secularização, que tem removido da arena públicatodas as afirmações da verdade cristã, incluindo, em especial,aquelas que estão relacionadas à moralidade. Além do impac-to na arena pública, temos de admitir também o impacto nasecularização da igreja. A secularização não é algo que apenas“aconteceu” à igreja. De maneira concreta, a igreja auxiliou efavoreceu esse processo ao negar a verdade cristã e suas afirma-ções quanto a todas as dimensões da vida.Desejo e Engano 2prova.indd 51Desejo e Engano 2prova.indd 51 12/18/aaaa 16:03:4612/18/aaaa 16:03:46
  • 51. 52 DESEJO E ENGANOO surgimento e o sucesso estratégico do homossexualismose tornaram possível somente por causa do declínio radical dacosmovisão cristã na cultura ocidental. O evangelho cristão fazafirmações abrangentes que dizem respeito a todas as áreas denossa vida e pensamento. A verdade bíblica deve ser aplicadaa todas as áreas da vida e a todas as questões de importânciapessoal e comunitária. No entanto, o relativismo moral e o dis-curso sobre direito tem preenchido o vácuo deixado pelo recuoda cosmovisão cristã.Desejo e Engano 2prova.indd 52Desejo e Engano 2prova.indd 52 12/18/aaaa 16:03:4712/18/aaaa 16:03:47
  • 52. Capítulo A Homossexualidadena Perspectiva TeológicaA hermenêutica da legitimaçãoOassunto da homossexualidade é um assunto teológi-co de “primeira ordem”, conforme ele se apresenta nodebate cultural contemporâneo. Verdades fundamentais à fécristã estão em jogo nesta confrontação. Essas verdades abran-gem desde as questões mais básicas do teísmo até a autoridadebíblica, a natureza do ser humano, os propósitos e as prerroga-tivas de Deus na criação, o pecado, a salvação, a santificação e,por extensão, todos os temas da teologia evangélica. Falandocom franqueza, se as reivindicações apresentadas pelo movi-mento homossexual são verdadeiras, todo o sistema da fé cris-tã é comprometido, e algumas verdades essenciais cairão.Para que isso não seja visto como uma afirmação exage-rada, considere a questão da autoridade e da inspiração bí-blica. Se as afirmações dos exegetas revisionistas são válidas,as próprias noções de inspiração verbal e inerrância bíblicasão invalidas. O desafio, porém, é muito mais profundo, pois,se, conforme reivindicam os intérpretes revisionistas, as Es-crituras Sagradas podem estar tão erradas e mal direcionadaneste assunto (sobre o qual ela fala sem qualquer ambigüida-53Desejo e Engano 2prova.indd 53Desejo e Engano 2prova.indd 53 12/18/aaaa 16:03:4712/18/aaaa 16:03:47
  • 53. 54 DESEJO E ENGANOde), o paradigma evangélico da autoridade bíblica não podepermanecer.Como ocorre em todas as campanhas dirigidas contra aigreja, o movimento homossexual se apresenta com uma her-menêutica bem definida. De fato, as cruzadas político-ideoló-gicas que aspiram por influência na igreja têm de desenvolvere articular o que eu chamarei de hermenêutica da legitimação,cujo propósito é prover, pelo menos, alguma aparência de apro-vação bíblica. Assim, a interpretação bíblica se torna um terri-tório contestado entre cosmovisões rivais.Omovimentohomossexualtemempregadoumabemdocu-mentadahermenêuticadesuspeitadostextosbíblicosqueabor-damahomossexualidade.Osseusesforçostêmalmejadoprovarque as ações condenadas em passagens bíblicas (especialmenteGênesis19,Levítico18.22eLevítico20.13)nãosereferemaatoshomossexuais praticados consensualmente, e sim ao estuprohomossexual e a prostituição. Quando esse esforço é confronta-do com a realidade, eles sugerem que, embora tais passagens serefiram a atos homossexuais, revelam uma tendência patriarcale opressiva que tem de ser rejeitada pela igreja contemporânea.Alémdisso,elesargumentamcomumentequePaulonãoconhe-ciaarealidadedaorientaçãohomossexual,e,porisso,Romanos1.26-27 deve ser entendido como uma referência a atos homos-sexuais por parte de pessoas heterossexuais.O resultado dessa hermenêutica de legitimação tem geradoconfusão na igreja. Essa hermenêutica tem se tornado o padrãoe a perspectiva politicamente correta admitida em muitos seto-res do mundo acadêmico. Também é bastante prevalecente entremembrosdasprincipaisdenominaçõesprotestantes.Infelizmen-te, alguns evangélicos têm sido iludidos por essa hermenêutica.Desejo e Engano 2prova.indd 54Desejo e Engano 2prova.indd 54 12/18/aaaa 16:03:4712/18/aaaa 16:03:47
  • 54. A Homossexualidade na Perspectiva Teológica 55Uma tentativa inicial de reinterpretar a opinião da igrejaquanto à homossexualidade foi empreendida por D. SherwinBailey, em seu livro Homosexuality and the Western ChristianTradition [A homossexualidade e a tradição cristã ocidental].4No entanto, a obra mais influente sobre o tema surgiu 25 anosdepois, na publicação de Christianity, Social Tolerance, andHomosexuality [Cristianismo, tolerância social e homossexu-alidade],5escrito por John Boswell, professor de História naUniversidade de Yale. Propostas semelhantes têm surgido depessoas como John J. McNeill, um ex-jesuíta expulso de suaordem por causa de suas opiniões sobre homossexualidade.A contribuição recente mais importante a esse debate é o livrode L. William Countryman, Dirt, Sex, and Greed [Impureza,sexo e cobiça].6A hermenêutica revisionista, conforme aplicada a Roma-nos 1.26-27, tem sido empregada para argumentar que o textosignifica algo diferente da interpretação tradicional da igreja.Empregandosubterfúgios,circunlóquios edistorções, osignifi-cado do texto é revisado de modo a negar sua condenação sobrea homossexualidade.A questão crítica usada pelos revisionistas como um arti-fício hermenêutico é o conceito de orientação sexual. A “des-coberta” moderna da orientação sexual é usada para negaras afirmações da verdade feitas com clareza no texto bíblico.Por exemplo, no que diz respeito ao texto de Romanos, Janet4 Derrick S. Bailey, Homosexuality and the western Christian tradition (Lon-don: Longmans, Green and Co., 1955).5 John Boswell, Christianity, social tolerance, and homosexuality: gay peoplein Western Europe from the beginning of the Christian era to the fourteencentury (Chicago: University of Chicago Press, 1980).6 L. William Countryman, Dirt, sex, and greed: sexual ethics in the New Testa-ment and their implication for today, ed. rev. (Minneapolis: Fortress, 2007).Desejo e Engano 2prova.indd 55Desejo e Engano 2prova.indd 55 12/18/aaaa 16:03:4712/18/aaaa 16:03:47
  • 55. 56 DESEJO E ENGANOFishburn, da Drew University Theological School, argumenta:“Alguns eruditos bíblicos ressaltam que esta passagem pode sereferir a atos homossexuais de pessoas heterossexuais, porqueos escritores da Bíblia não faziam distinção entre orientaçãosexual e atos sexuais de pessoas do mesmo gênero. Se essa dis-tinção for aceita, a condenação da homossexualidade em Ro-manos não se aplica a atos sexuais de pessoas homossexuais”.7De modo semelhante, Victor Paul Furnish, professor deNovo Testamento, argumenta que, devido ao fato de que Paulonão tinha conhecimento do conceito moderno de orientaçãohomossexual, sua condenação da homossexualidade tem de serrejeitada.“Nãosomenteostermos,mastambémosconceitosde‘homossexual’ e ‘homossexualidade’ eram desconhecidos nosdias de Paulo. Esses termos, como ‘homossexual’, ‘heterossexu-alidade’, ‘bissexual’ e ‘bissexualidade’, pressupõem um entendi-mento da sexualidade humana que se tornou possível somentecom o advento da psicologia e da análise sociológica modernas.Os escritores antigos estavam agindo sem a menor idéia do queaprendemos a chamar de ‘orientação sexual’.”8O ponto a que alguns estão dispostos a chegar em um esfor-ço para distorcer o texto bíblico se torna evidente em Country-man.Novamente,aquestãoéoconceitodaorientaçãosexual.“Aorientação homossexual tem sido reconhecida crescentemente,em nossa época, como um dom da sexualidade humana. En-quanto a maioria das pessoas sinta alguma atração sexual porindivíduos tanto do mesmo como do sexo oposto, e, na maio-ria desses casos, a atração pelo sexo oposto predomine, há uma7 Janet Fishburn, Confronting the idolatry of family: a new vision for the hou-sehold of God (Nashville: Abingdon, 1991).8 Victor P. Furnish, The moral teachings of Paul: selected issues (Nashville:Abingdon, 1991), 85.Desejo e Engano 2prova.indd 56Desejo e Engano 2prova.indd 56 12/18/aaaa 16:03:4712/18/aaaa 16:03:47
  • 56. A Homossexualidade na Perspectiva Teológica 57minoria considerável de pessoas para as quais a atração sexualpor pessoas do mesmo sexo é um fator decisivo e formativo desua vida sexual... Negar a toda uma classe de seres humanos odireito de seguir, pacificamente e sem ferir os outros, o tipo desexualidade que corresponde à sua natureza é uma perversãodo evangelho.”Essas afirmações mostram a abordagem geral assumidapelos eruditos revisionistas e o escopo sempre crescente doalcance revisionista. A hermenêutica da legitimação tem sidosurpreendentemente eficaz em formar uma cultura que aceitao comportamento homossexual e nega a autoridade das afir-mações bíblicas claras e obrigatórias. Contudo, essa tendêncianão se limita aos principais segmentos do protestantismo e aocatolicismo romano liberal. Alguns dos que reivindicam identi-dadeevangélicatambémcompartilhamdamesmametodologiae conclusões revisionistas. Em um artigo publicado no jornalevangélico TSF Bulletin, Kathleen E. Corley e Karen J. Torjesenargumentam: “Parece que, nos escritos de Paulo, os assuntosconcernentes à sexualidade estão teologicamente relacionadosà hierarquia. Portanto, os assuntos do feminismo bíblico e dolesbianismo estão irrefutavelmente entrelaçados... Em últimaanálise, parece que, se a igreja tem de lidar com as questões dasexualidade,precisatambémlidarcomahierarquia.Precisamosencararapossibilidadedequenossosconflitossobreousoapro-priadodasexualidadehumanatalvezsejamconflitosarraigadosem uma necessidade de legitimar a estrutura social tradicionalqueatribuiaoshomenseàsmulheresposiçõesespecíficasedesi-guais. Será que a afirmação contínua da primazia do casamentoheterossexual não é também uma afirmação da necessidade deos sexos permanecerem em relacionamentos hierarquicamenteestruturados? A ameaça ao casamento é, de fato, uma ameaça aDesejo e Engano 2prova.indd 57Desejo e Engano 2prova.indd 57 12/18/aaaa 16:03:4812/18/aaaa 16:03:48
  • 57. 58 DESEJO E ENGANOhierarquia? É isso que torna as relações de pessoas do mesmosexo tão ameaçadoras, tão alarmantes?”9Os argumentos apelam aos conceitos terapêuticos moder-nos como a hipotética “orientação sexual” e usam esses valo-res para trazer a juízo o significado do texto bíblico. A essênciados argumentos revisionistas complexos se resume nisto: ouos textos bíblicos não condenam a homossexualidade, porqueforam entendidos erroneamente por uma igreja heterossexista,patriarcal e opressiva, a fim de negar aos homossexuais os seusdireitos; ou os textos bíblicos condenam realmente a homosse-xualidade, mas são opressivos, heterossexistas e patriarcais emsi mesmos e, por isso, têm de ser rejeitados ou reinterpretadosradicalmente para remover o escândalo da opressão.A esta altura, o que tem de ficar bem claro é o fato de queestas metodologias revisionistas e hermenêuticas de legitima-ção negam à Escritura Sagrada o status de verdade. As passagensnão são apenas reinterpretadas apesar da luz evidente da exegesehistórico-gramatical; são também subvertidas e negadas por im-plicação e ataque direto. Poucos revisionistas são tão diretos emseus ataques como William M. Kent, um membro da ComissãoMetodista Unida para o Estudo da Homossexualidade. Kent afir-mou que “os textos bíblicos no Antigo e Novo Testamento quecondenam a prática homossexual não são inspirados por Deusnem de valor cristão permanente. Considerada à luz do melhorconhecimentobíblico,teológico,científicoesocial,acondenaçãodapráticahomossexualémaisbementendidacomorepresentan-do um preconceito cultural limitado a tempo e lugar”.109KathleenE.CorleyeKarenJ.Torjesen,“Sexuality,hierarchy,andevangelica-lism”. Theological Students Fellowship Bulletim (March-April 1987), 10:23-27.10 “Report to Committee to Study Homosexuality to the General Council onMinistries of the United Methodist Church”, August 24, 1991.Desejo e Engano 2prova.indd 58Desejo e Engano 2prova.indd 58 12/18/aaaa 16:03:4812/18/aaaa 16:03:48
  • 58. A Homossexualidade na Perspectiva Teológica 59Mas Kent não está sozinho. Robin Scroggs, do TheologicalUnion Seminary, expressa nitidamente sua posição: “Com mui-ta clareza... não posso aceitar com consciência a opinião quetransforma as exortações bíblicas em verdades éticas eternas,independentes do contexto cultural e histórico”.11Admiravel-mente, Gary David Comstock, capelão protestante na WesleyanUniversity, argumenta: “Não reconhecer, criticar e condenar aatitude de Paulo em equiparar a impiedade com a homossexua-lidade é perigoso. Permanecer em nossas respectivas tradiçõescristãs e não confrontar as passagens que nos degradam e des-troem é contribuir para nossa própria opressão... Essas passa-gens serão usadas e apresentadas contra nós, vez após vez, atéque os cristãos exijam sua remoção do cânon bíblico ou, pelomenos,desacreditemformalmentesuaautoridadeparaordenaro comportamento”.12Os evangélicos têm de expor a natureza desse ataque con-tra a integridade e a autoridade do texto bíblico. O cristia-nismo se mantém de pé ou cai em harmonia com a validadee a integridade da afirmação das Escrituras Sagradas comorevelação de Deus. Este desafio tem de ser enfrentado de ma-neira direta e pública, e os evangélicos têm de denunciar oengodo exegético apresentado pelos revisionistas. O ataquefundamental tem de ser abordado. A igreja confessante nãopode ser intimidada, coagida ou comprometida pelos revi-sionistas.Como afirmou Elizabeth Achtemeier: “O ensino mais evi-dente das Escrituras é que Deus planejou que o intercurso se-11 Robin Scroggs, The New Testament and homosexuality (Philadelphia: For-tress, 1983), 123.12GaryD.Comstock,Gaytheologywithoutapology(Cleveland:PilgrimPress,1993), 43.Desejo e Engano 2prova.indd 59Desejo e Engano 2prova.indd 59 12/18/aaaa 16:03:4812/18/aaaa 16:03:48
  • 59. 60 DESEJO E ENGANOxual seja limitado ao relacionamento conjugal de um homeme uma mulher”.13Um lembrete claro do que está em jogo vem,sugestivamente, de Robin Lane Fox, uma historiadora secu-lar: “Quanto à homossexualidade, Paulo e os outros apóstolosconcordavam com o ponto de vista judaico de que a homosse-xualidade era um pecado mortal que provocava a ira de Deus.Causou terremotos e desastres naturais, que foram evidentesno destino de Sodoma. A ausência do ensino evangélico sobreo assunto não equivale à aprovação tácita. Todos os cristãosortodoxos sabiam que os homossexuais iam para o Inferno,até que uma minoria moderna tentou fazer os cristãos esque-cerem isso”.14É claro que “todos os cristãos ortodoxos” também sabiamque todos os pecadores que não se arrependem e não são redi-midos irão para o inferno, e os homossexuais não arrependi-dos eram parte de um grupo muito maior. Contudo, somentenos tempos modernos os revisionistas têm se esforçado parasugerir que a Bíblia não é clara no assunto da homossexuali-dade e que a igreja tem de abandonar seu entendimento tradi-cional – e exegeticamente inescapável – dos textos bíblicos re-levantes. A “minoria moderna” identificada por Fox tem sido,apesar disso, admiravelmente bem-sucedida em confundir aigreja.13 Mark O’Keefe, “Gays and the Bible”. The Virginian-Pilot (Norfolk, VA), Fe-bruary 14, 1993.14RobinL.Fox,PagansandChristians(NewYork:AlfredA.Knopf,1987),352.Desejo e Engano 2prova.indd 60Desejo e Engano 2prova.indd 60 12/18/aaaa 16:03:4812/18/aaaa 16:03:48
  • 60. Capítulo A Homossexualidadena Perspectiva TeológicaUma cosmovisão bíblicaPoucos conceitos modernos têm sido tão influentescomooconceitopsicológicodaorientaçãosexual.Estaidéia está agora firmemente enraizada na consciência popular,e muitos consideram-na totalmente fundamentada em pesqui-sa científica confiável. O conceito de orientação sexual foi umaintenção bem-sucedida ao redefinir o debate sobre a homosse-xualidade, movendo-o dos atos sexuais com pessoas do mesmosexo para a identidade sexual – ou seja, do que os homossexuaisfazem para o que eles realmente são.No entanto, esse conceito é um desenvolvimento recente.De fato, na década passada, o conceito mais comum empregadopelo movimento homossexual era preferência sexual. A razãoparaamudançaéevidente.Ousodotemopreferênciaimplicavaumaescolhavoluntária.Aclassificaçãoclínicadeorientaçãoeramais útil nos debates públicos.Apróprianoçãodehomossexualismocomoumacategoriade pessoas constituídas de identidade sexual é uma invençãorecente. Os revisionistas bíblicos citados no capítulo anteriorestavam certos quando afirmaram que o apóstolo Paulo nãosabianadaarespeitodeclassificação da orientação sexual. Esse61Desejo e Engano 2prova.indd 61Desejo e Engano 2prova.indd 61 12/18/aaaa 16:03:4812/18/aaaa 16:03:48
  • 61. 62 DESEJO E ENGANOconceito está arraigado nos esforços do final do século XIXpara aplicar uma classificação psicológica ao comportamentosexual. Como escreveu Marjorie Rosenberg: “Desde a anti-güidade até provavelmente um século atrás, admitia-se que aescolha governava o comportamento sexual. Mas no final doséculo XIX, tendo a florescente ciência médica como uma es-pécie de parteira, nasceu um novo tipo de criatura – ‘o homos-sexual’ – e toda a sua identidade se baseava em sua preferênciasexual”.15O argumento era que os homossexuais existem como umaclasse ou categoria especial – um “terceiro sexo”, juntamentecom os homens e as mulheres heterossexuais. Como observouMaggie Gallagher: “Nem sempre fomos tão deploravelmen-te dependentes do próprio ato sexual. Dois séculos atrás nãoexistia a homossexualidade. Havia a sodomia, é claro, a forni-cação, o adultério e outros pecados sexuais, mas nenhum des-ses atos proibidos alteravam fundamentalmente o panoramasexual. Um homem que praticava sodomia perdia a sua alma,mas não perdia o seu gênero. Não se tornava um homossexu-al, um terceiro sexo. Isso foi uma invenção da imaginação doséculo XIX”.16As noções de identidade sexual, posteriormente, de prefe-rência sexual e, agora, de orientação sexual têm moldado am-plamente o debate cultural. De fato, essa foi a cunha ideológicausada para forçar a Associação Americana de Psiquiatria a re-mover a homossexualidade do Diagnostic and Statistical Ma-15MarjorieRosenberg,“Inventingthehomosexual”,Commentary(December1987).16 Maggie Gallagher, Enemies of Eros: how the sexual revolution is killing fa-mily, marriage, and sex and what we can do about it (Chicago: Bonus Books,1989), 256-257.Desejo e Engano 2prova.indd 62Desejo e Engano 2prova.indd 62 12/18/aaaa 16:03:4812/18/aaaa 16:03:48
  • 62. A Homossexualidade na Perspectiva Teológica 63nual of Mental Disorders [Manual diagnóstico e estatístico dedesordens mentais], em 1973. Assim, o conceito politicamenteútil de orientação é um troféu para o “triunfo da terapêutica”;e tem visto argumentos psicológicos conquistarem a consci-ência popular.Os evangélicos não devem permitir que essa categorizaçãomolde o debate. Não podemos permitir que pessoas sejam re-duzidas a qualquer “orientação” sexual como a característicadefinidora de sua identidade. Se a idéia de orientação está fun-damentada na realidade, qual é a sua causa? Destino biológico?Fatores genéticos? Influência dos pais? Fatores ambientais?Nenhumdadocientíficoprecisoexisteparaprovarqualquerdesses fatores – ou uma combinação deles – como a fonte daorientação homossexual. É importante observar que a hipóte-se precedeu qualquer prova científica e, apesar disso, tem sidoaceita quase como auto-evidente. Os evangélicos têm de rejeitaressa categorização como um conceito terapêutico empregadopara fins ideológicos e políticos.Embora não seja necessário aos evangélicos resistirem atoda pesquisa científica, a ciência é freqüentemente escravi-zada a agendas ideológicas, conforme é evidente em afirma-ções recentes de cientistas no sentido de haverem estabelecidouma base genética para a homossexualidade. Os evangélicostendem a reagir exageradamente a essas notícias: alguns delesaceitam as afirmações com base na aparência, enquanto outrosfogem amedrontados, como se a ciência pudesse, por meio dapesquisa genética, destruir aestrutura moral. Nenhuma dessasatitudes é apropriada. Os evangélicos devem olhar criticamen-te essas pesquisas e considerar, com atenção, suas afirmaçõesnão-provadas.Desejo e Engano 2prova.indd 63Desejo e Engano 2prova.indd 63 12/18/aaaa 16:03:4912/18/aaaa 16:03:49
  • 63. 64 DESEJO E ENGANOTemos de evitar a reação exagerada que transmite a idéiade que essas pesquisas – mesmo se ratificadas com a aprovaçãode todos – subvertem o mandamento de Deus. O entendimen-to cristão referente à moralidade sexual não se fundamenta embasescientíficasenãoestáabertaàinterrogaçãoeàinvestigaçãocientífica.Oscientistasnãoconseguirãodescobrirqualquercoi-sa que questione a autoridade dos mandamentos de Deus.Uma base genética – provavelmente no extremo – não pos-suiria, ainda que objetivamente estabelecida, grande significa-do teológico. Um vínculo genético pode ser estabelecido paraqualquer número de comportamentos e padrões de conduta,mas isso não diminui a importância moral desses atos nem aresponsabilidade do indivíduo. Afinal de contas, vínculos gené-ticos têm sido afirmados para tudo, desde diabetes e alcoolismoaté as preferências ao se assistir televisão.Também temos de ser cuidadosos em afirmar que, emborarejeitemos o conceito de orientação sexual como uma categori-zação de identidade, não estamos negando existirem algumaspessoas que descobrem ser sexualmente atraídas por outras domesmosexo.Vistoquenossasexualidadeéumaparteimportantede nossa vida, somos naturalmente tentados a pensar que nossoperfil de atração sexual é central à nossa identidade. Mas a nossaidentidadenãoseconstituiapenasdesexualidade.Somosprimei-ramente seres humanos criados à imagem de Deus. Em segundolugar, somos pecadores cujo estado de queda se demonstra emcada aspecto de nossa vida – incluindo a sexualidade.Cada ser humano que atinge a puberdade tem de lidar comalgum tipo de tentação sexual. Para alguns, o tipo de tentação éhomossexual; para outros, é heterossexual. A questão mais im-portante em ambas as tentações é o que Deus ordena a respeitode nossa administração da sexualidade e do dom do sexo.Desejo e Engano 2prova.indd 64Desejo e Engano 2prova.indd 64 12/18/aaaa 16:03:4912/18/aaaa 16:03:49
  • 64. A Homossexualidade na Perspectiva Teológica 65Os evangélicos têm de rejeitar o conceito terapêutico e, aomesmo tempo, recomendar o modelo bíblico. Creio que a faltade um modelo de bíblico maduro para o entendimento da ho-mossexualidade tem diminuído nossa habilidade de sustentarum argumento moral consistente em uma cultura antagônica.Temos de continuar a dar testemunho fiel das exortaçõesbíblicas claras a respeito de atos homossexuais, afirmando queesses atos são inerentemente pecaminosos e uma abominaçãodiante do Senhor. Todavia, a abordagem evangélica tem de sermais abrangente, porque a Bíblia é em si mesma mais abrangen-te em sua abordagem. As Escrituras não se reportam apenas aosatos homossexuais; elas transmitem o desígnio de Deus paratoda a sexualidade humana e, assim, provêem um fundamen-to para compreendermos as implicações da homossexualidadepara a família, a sociedade e a igreja.Em primeiro, conforme Romanos 1 deixa absolutamenteclaro, a homossexualidade é um ato de incredulidade. Pauloafirmou que a ira de Deus se revela do céu contra todos “quedetêm a verdade pela injustiça” (v.18). Deus capacitou toda ahumanidade com o conhecimento do Criador, e todos são ines-cusáveis. Paulo disse mais: “Pois eles mudaram a verdade deDeus em mentira, adorando e servindo a criatura em lugar doCriador, o qual é bendito eternamente. Amém! Por causa dis-so, os entregou Deus a paixões infames; porque até as mulheresmudaram o modo natural de suas relações íntimas por outro,contrário à natureza; semelhantemente, os homens também,deixando o contato natural da mulher, se inflamaram mutua-mente em sua sensualidade, cometendo torpeza, homens comhomens,erecebendo,emsimesmos,amerecidapuniçãodoseuerro” (vv. 25-27).Desejo e Engano 2prova.indd 65Desejo e Engano 2prova.indd 65 12/18/aaaa 16:03:4912/18/aaaa 16:03:49
  • 65. 66 DESEJO E ENGANOO contexto mais amplo da rejeição de Paulo quanto à ho-mossexualidade é claro: a homossexualidade é um sinal im-pressionante de rebelião contra a intenção soberana de Deusna criação e uma perversão grosseira do plano bom e perfeitode Deus para sua ordem criada. Aqueles para os quais Paulo es-crevera haviam adorado a criatura ao invés do Criador. Por isso,homens e mulheres tinham abandonado a intenção de Deus decomplementaridade natural para o casamento heterossexual,voltando-se a pessoas do mesmo sexo, com um desejo ardenteque, em si mesmo, era degradante e desonroso. A progressãológicadeRomanos1éinegável.Paulomudouimediatamentedeuma descrição de rebelião contra Deus para uma identificaçãoda homossexualidade – entre homens e mulheres —, como oprimeiro e o mais evidente sinal de uma sociedade sobre a qualDeus volvera seu julgamento.Para entendermos essa realidade numa perspectiva teoló-gica é essencial o reconhecimento de que a homossexualidadeé um ataque à integridade da criação e da intenção de Deus aocriar os seres humanos em dois gêneros distintos e complemen-tares.Nesteponto,aigrejaseguenadireçãocontráriaaoespíritodesta época. Suscitar o assunto dos gêneros é ofender aquelesque desejam erradicar qualquer distinção de gênero, ao argu-mentarem que estes são apenas “realidades sociais construídas”,vestígios de um passado patriarcal.As Escrituras não permitem essa tentativa de negar as estru-turasdacriação.Romanos1temdeserentendidoàluzdeGênesis1 e 2. Como Gênesis 1.27 deixa evidente, Deus tencionou, desdeo princípio, criar os seres humanos em dois gêneros – “homem emulher os criou”. Ambos foram criados à imagem de Deus. Eleseram distintos, mas, inseparavelmente, ligados pelo desígnio deDeus. Os gêneros eram diferentes, e a distinção transcendia aDesejo e Engano 2prova.indd 66Desejo e Engano 2prova.indd 66 12/18/aaaa 16:03:4912/18/aaaa 16:03:49
  • 66. A Homossexualidade na Perspectiva Teológica 67mera diferença física, mas o homem reconheceu a mulher como“osso dos meus ossos e carne da minha carne” (Gn 2.23).A passagem não pára na criação da mulher. Pelo contrá-rio, a intenção criadora de Deus é revelada no unir o homeme a mulher. Esse laço entre homem e mulher era o casamento.Logo depois da criação do homem e da mulher, lemos estaspalavras instrutivas: “Por isso, deixa o homem pai e mãe e seune à sua mulher, tornando-se os dois uma só carne. Ora, ume outro, o homem e sua mulher, estavam nus e não se enver-gonhavam” (vv. 24-25). Esta afirmação bíblica, que nenhumaexegese revisionista pode desconstruir, coloca o casamento eas relações sexuais dentro do ato e desígnio criador de Deus.Poucos teólogos têm dado a essa questão crítica a devidaatenção.Defato,emtodaahistóriadaigreja,essepadrãofoivis-tocomoaxiomáticoeinquestionável.Somentenaépocamoder-na,quandoosexperimentossociaiseosmovimentosradicaisdeprotestoprocuraramdesencadearumarejeiçãoemamplaescaladeste padrão, a questão veio à luz. Interessantemente, foi KarlBarth quem abordou com mais seriedade esse padrão bíblico decomplementaridade de gênero. Escrevendo em 1928, ele afir-mou: “O que realmente sabemos sobre macho e fêmea, senãoque o macho não poderia ser um homem sem a fêmea, nem afêmea ser uma mulher sem o macho, que o macho não podepertencer a si mesmo, sem pertencer à fêmea, e vice-versa?” Emoutras palavras, macho e fêmea só têm significado quando re-lacionados um com o outro. Barth se referiu a Gênesis 2.25 esugeriuqueohomemeamulherviramumaooutrosemroupase não se envergonharam, “porque a masculinidade do macho ea feminilidade da fêmea se tornam um objeto de vergonha... so-mente quando o macho e a fêmea em sua masculinidade e femi-nilidade procuram pertencer a si mesmos e não um ao outro”.Desejo e Engano 2prova.indd 67Desejo e Engano 2prova.indd 67 12/18/aaaa 16:03:4912/18/aaaa 16:03:49
  • 67. 68 DESEJO E ENGANOHorrivelmenteconfusos,ossexossevoltamparasimesmos,buscando um “ideal de masculinidade livre da mulher e de fe-minilidadelivredohomem”,afirmouBarth.Essefalsoideal,queé uma rejeição do Criador e de sua ordem, culmina no “desejoemocional corrupto e, finalmente, físico em que – numa uniãoque não é nem pode ser genuína – o homem acha que tem debuscarepodeacharnumhomem,eamulher,numamulher,umsubstituto para o companheiro desprezado”.Barth, escrevendo nas primeiras décadas do século XX, viuosurgimentododesafio.Suarespostapermaneceprofética,masnão foi concluída. Carl F. H. Henry, talvez o personagem maisimportante no desenvolvimento de uma teologia evangélica nasegunda metade do século passado, rejeitou corretamente a te-orização extrabíblica e “exegese fantasiosa” de Barth acerca darelação entre as questões sexuais e a imagem de Deus. Apesardisso, Henry concordava com Barth neste ponto essencial: “Apluralidadedaexistênciahumananãoéopcional;ohomemnãopode ser apropriadamente homem sem se falar sobre macho efêmea”.17A revolta contra essa ordem estabelecida por Deus é um dosmais importantes desenvolvimentos do século XX e se revelacomo uma das questões mais definidoras da revolução cultu-ral. Os evangélicos têm de expor esse ataque contra a criação,fazendo isso de um modo que esteja inextricavelmente unido afundamentos bíblicos e não a pressuposições culturais, emboraessas pareçam bastante satisfatórias à sociedade secular.17CarlF.H.Henry,God,Revelation,andAuthority,vol.6(Wheaton,IL:Cros-sway, 1999), 242.Desejo e Engano 2prova.indd 68Desejo e Engano 2prova.indd 68 12/18/aaaa 16:03:4912/18/aaaa 16:03:49
  • 68. Capítulo A Homossexualidadena Perspectiva TeológicaRespondendo ao desafioComo os evangélicos responderão ao desafio do movi-mento homossexual? E como a igreja evangélica reagirápara com aquelas pessoas que lutam com a homossexualidade?Essas são questões críticas que, uma vez respondidas, indicama direção mais ampla do movimento evangélico.Primeiramente, os evangélicos têm de estabelecer seu en-tendimento da homossexualidade com base nas Escrituras econfiar nas afirmações absolutas da autoridade bíblica. A Bí-blia não é ambígua quanto ao assunto da homossexualidade,e somente um repúdio da verdade bíblica pode permitir queos evangélicos se unam aos revisionistas morais. Nossa únicaautoridade para abordarmos esse assunto é a autoridade deDeusreveladanasEscriturasSagradas.Podemosfalarsomenteporque confiamos que o único Deus e Senhor soberano reve-lou-se a Si mesmo e a sua vontade nas Escrituras inerrantes quepossuem autoridade plena.Com base nessa revelação, não podemos deixar de falar econfrontar o espírito desta época. Além disso, nós o fazemosna confiança de que a verdade cristã, na encarnação do Fi-lho e na revelação de Deus na Escritura, é superior a qualquer69Desejo e Engano 2prova.indd 69Desejo e Engano 2prova.indd 69 12/18/aaaa 16:03:5012/18/aaaa 16:03:50
  • 69. 70 DESEJO E ENGANOoutra base de autoridade. Os cristãos não devem se esquivarnem suscitar objeções insignificantes em face do secularismoe suas manifestações ideológicas. Temos de desconstruir osdesconstrucionistas, voltar sobre os revisionistas a hermenêu-tica de suspeita e dar um testemunho puro do evangelho e dacosmovisão cristã. Portanto, falamos sobre a homossexuali-dade porque temos como base a verdade revelada por Deus.Nossas próprias idéias e conceitos sobre a homossexualidadenão possuem autoridade. Nosso dever é entender a mente e aintenção de Deus.Nestaaltura,temosdemencionaroutratentaçãoevangélica.Um número crescente de evangélicos está mudando o debatesobre a homossexualidade por tentarem fundamentar seus ar-gumentos na lei natural. O motivo deles é claro. A suposição éque o raciocínio da lei natural terá uma influência maior e maisampla do que os argumentos baseados na revelação divina. Oproblema tem de ser admitido. Explicitamente, os argumentosteológicos são declarados fora dos limites do discurso políticoe cultural. A cultura predominante dos meios de comunicaçãoe os processos legislativos parecem impenetráveis ao discursomoralalicerçadonacosmovisãocristã.Talvez,conformealgunsargumentam, a lei natural ofereça um caminho intermediário,uma via media entre o secularismo e o ateísmo.É claro que os evangélicos têm de afirmar tanto a revela-ção geral como a existência da lei natural. Deus se revela a Simesmo de maneiras inteligíveis por meio da ordem criada e daconsciência humana. No entanto, conforme Paulo deixou bemclaro em Romanos 1, o conhecimento transmitido por essa re-velação natural autêntica é suficiente para condenar, mas nãopara salvar. O cristianismo fundamenta sua afirmação sobre arevelaçãoespecial,tantopormeiodasEscriturasSagradascomoDesejo e Engano 2prova.indd 70Desejo e Engano 2prova.indd 70 12/18/aaaa 16:03:5012/18/aaaa 16:03:50
  • 70. A Homossexualidade na Perspectiva Teológica 71do Filho encarnado, Jesus Cristo. A ordem moral que Deus im-plantou em sua criação é tangível, evidente e inegável. Contudo,na sociedade contemporânea, assim como no discurso de Pauloem Romanos, os seres humanos rejeitam esse conhecimento esofrem as conseqüências.Minha advertência quanto a esse assunto tem dois aspectos.Primeiro, reverter à argumentação da lei natural significa afas-tar-se do sublime fundamento da afirmação da verdade cristã.A fim de satisfazer as exigências seculares, a igreja muda seuargumento do incontestável alicerce da Escritura Sagrada parao contestado alicerce da natureza e do cosmos.Issoéoque,emoutrocontexto,F.A.Hayekchamoude“pre-sunção fatal”. Para esta rendição não há restauração. Embora osevangélicoseoscatólicosromanosconservadoressejamaliadosnessa batalha cultural, não é possível aos evangélicos adotarema argumentação da lei natural como base para a argumentaçãomoralepermaneceremgenuinamenteevangélicos.Aargumen-tação da lei natural pode prover um ponto de diálogo e servircomo meio para introduzir a lei revelada, mas não pode sub-sistir como um método de argumentação e discurso moral eevangélico.Para alguns, deixar de lado a revelação especial da lei po-sitiva (comparada com a lei natural) talvez pareça justificávelcomo um meio para atingir um grande fim. Uma vez que umconsenso ou ponto de contato com a cultura secular seja esta-belecido, alguns dizem, a discussão pode ser mudada para a leipositiva e a cosmovisão cristã. Isso suscita o alerta pragmático:essa estratégia não funciona.As elites culturais e as gerações criadas nas conseqüênciasda revolução sexual não são comovidas pelos argumentos da leinatural, assim como não o são pelas afirmações claras do cris-Desejo e Engano 2prova.indd 71Desejo e Engano 2prova.indd 71 12/18/aaaa 16:03:5012/18/aaaa 16:03:50
  • 71. 72 DESEJO E ENGANOtianismo. A argumentação da lei natural é tão bem-vinda noCongresso americano ou nos meios de comunicação como arecitaçãodosDezMandamentos.Alémdisso, nãoháumenten-dimento comum nas elites culturais quanto ao que a lei naturalexige. Uma reflexão sobre as audiências do Congresso para aconfirmação de Robert Bork e Clarence Thomas deve tornaressa realidade bastante evidente.Os evangélicos não devem hesitar em ilustrar argumentosbíblicos com alusões à natureza e à ordem natural. No entanto,a ordem da argumentação ética é crucial: os evangélicos podemvoltar à natureza, para usá-la como ilustração, depois de have-rem fundamentado nas Escrituras o argumento moral. A ten-tação evangélica de recorrer à lei natural como um elementode argumentação é, no máximo, uma tentativa de estabelecerum consenso moral em um contexto cultural difícil. Contudo,essaestratégianãoserábem-sucedida.Napiordasanálises,essatentativa representa um repúdio do evangelho e uma abdicaçãoda fé evangélica.Temos de ministrar aos homossexuais com base na plenariqueza de convicção e conhecimento cristão. Os cristãos evan-gélicos têm falhado, com freqüência, nessa tarefa. Temos faladonegligentemente a respeito da homossexualidade e dito, às ve-zes, muito pouco e, às vezes, demais. Temos de deixar claro ofato de que sabemos que todos são pecadores – incluindo os quecometem pecados sexuais. Não há ninguém que esteja além dapuberdade que não cometa pecados sexuais.Tambémdevemosaprenderafalarhonestamentecomaque-les que lutam com atração por pessoas do mesmo sexo. Não po-demos deixar de falar-lhes que escolheram esse tipo de tentação.Eles não crêem nisso e, de fato, não escolheram essa tentaçãoem si mesma. Apesar disso, eles – e nós – são plenamente res-Desejo e Engano 2prova.indd 72Desejo e Engano 2prova.indd 72 12/18/aaaa 16:03:5012/18/aaaa 16:03:50
  • 72. A Homossexualidade na Perspectiva Teológica 73ponsáveis pela disposição de alimentar a tentação e desfrutá-la.Também somos responsáveis pela tentação de racionalizar nos-so pecado como algo diferente do que ele realmente é.Em qualquer tipo de tentação sexual, a única maneira deresolvermos o problema é a redenção em Cristo. Nenhum atoda vontade, por mais forte que seja, pode resolver o problemado pecado ou oferecer livramento à prisão de nossas tentações.O único meio de livramento dessa situação é através da reden-ção que Cristo realizou. A única maneira de tratar o problemado pecado é confiar no poder transformador do evangelho e narenovação outorgada àquele que crê em Cristo. Mesmo depoisdecreremCristo,alutacontraatentaçãosexualpersistirá–masnão sem esperança e vitória.Finalmente,nossaconfiançatemdeestarnoDeussoberano,que é o Criador e Sustentador de tudo. Ele, somente Ele, tem aprerrogativa de definir e limitar a sexualidade. A sexualidade éum dos dons excelentes de Deus às suas criaturas, um dom que,emsuarebeldia,elasperverteramedegradaram.Osevangélicostêm de afirmar que Deus definiu a sexualidade e que o nosso de-ver é seguir as suas determinações. Isso significa que os cristãosevangélicos têm de sustentar, com grande eficiência, o modelobíblico da sexualidade. Temos de afirmar sem embaraço a exce-lência desse modelo, dar graças por esse dom e seu deleite, reco-nhecer sem hesitação que Deus planejou que as relações sexuaissão tanto para prazer como para procriação e jamais repudiar oensino bíblico de que o sexo foi idealizado tão-somente para ocontextodauniãoheterossexualcomprometidaemonogâmica.Esse modelo de inteireza sexual, vivenciado a cada dia nos mi-lhões de famílias e casais, prestará um testemunho eloqüente aomundo – mesmo quando for ridicularizado.Desejo e Engano 2prova.indd 73Desejo e Engano 2prova.indd 73 12/18/aaaa 16:03:5012/18/aaaa 16:03:50
  • 73. 74 DESEJO E ENGANOTemos de aprender a abordar com franqueza, ternura e ho-nestidade o assunto da homossexualidade e outros assuntossexuais complicados. Esta não é a hora para a negação tími-da. Falhar na tarefa de falar de maneira direta e clara sobreesse assunto significa deixar de falar sobre o que Deus revelou.Também temos de reconhecer que a graça comum é a únicaforça inibidora que limita a extensão e o alcance da perversãosexual no mundo. Se não fosse a operação da graça comum, omundo logo cairia nas trevas mais degradantes. Devemos sergratos por essa graça.O assunto da homossexualidade provê à igreja uma opor-tunidade singular para testemunhar sobre a graça particu-lar e anunciar o evangelho como único meio de salvação e aJesus Cristo como o único e suficiente Salvador. A salvaçãoe o arrependimento têm de ser pregados aos homossexuais– bem como aos heterossexuais. Fora do Éden, nenhum denós é sexualmente puro e santo diante de Deus, ainda que nãotenhamos cometido um ato sexual ilícito. Nosso ministérioaos homossexuais não é o ministério de pessoas impecáveisdirigindo-se a pecadores, e sim o de amigos pecadores quedão testemunho da realidade da salvação pela fé em JesusCristo.O evangelho sempre se manifesta com juízo e com gra-ça. Todavia, a última palavra sempre tem de ser graça. Nossodever é falar a verdade sobre a homossexualidade e chamá-lapelo nome que as Escrituras lhe atribuem. Mas nossa respon-sabilidade não termina nesse ponto, pois nossa próxima tarefaconsiste em anunciar a palavra da graça e apresentar o evange-lho da salvação pela fé em Cristo como nosso Substituto, cujosangue nos comprou.Desejo e Engano 2prova.indd 74Desejo e Engano 2prova.indd 74 12/18/aaaa 16:03:5012/18/aaaa 16:03:50
  • 74. A Homossexualidade na Perspectiva Teológica 75Ao homossexual, bem como aos demais, temos de falarcom amor, nunca com ódio. Contudo, nossa primeira tarefa deamor é dizer a verdade, e o sinal do verdadeiro ódio é contaruma mentira. Aqueles que amam genuinamente os homosse-xuais não são os que revolucionam a moralidade para satisfa-zer os desejos deles, e sim aqueles que lhes contam a verdade elhes mostram Aquele que é o caminho, a verdade e a vida (verJoão 14.6).Desejo e Engano 2prova.indd 75Desejo e Engano 2prova.indd 75 12/18/aaaa 16:03:5112/18/aaaa 16:03:51
  • 75. Desejo e Engano 2prova.indd 76Desejo e Engano 2prova.indd 76 12/18/aaaa 16:03:5112/18/aaaa 16:03:51
  • 76. Capítulo O Fim da AmizadeComo a confusão sexual corrompeua amizade entre homensUm filme de Hollywood se tornou um ponto de des-taque na cultura americana em 2005. Embora nãotenha sido exatamente um campeão de bilheteria, O Segredo deBrokeback Moutain, estrelando Heath Ledger e Jake Gyllenha-al como dois cowboys ligados por um romance homossexual,foi aclamado pela crítica e promovido exaustivamente pelosmeios de comunicação. A Academia de Artes e Ciências Cine-matográficas o premiou com três Oscars®, em 2006, incluindoMelhor Direção e Melhor Roteiro Adaptado.Dirigido por Ang Lee, O segredo de Brokeback Mountain ba-seia-se em uma pequena história que tem o mesmo título, escritaporAnnieProulx.Ahistóriaébemvívida,retratandoumroman-ce homossexual inesperado entre dois cowboys que se viram so-zinhos numa barraca. À medida que a história se desenvolve, orelacionamentohomossexualcontinuaatéqueosdoishomenssecasam e cada um estabelece sua família. Tanto a história como ofilmeincluemsexoexplícitoeretratamadoreaturbulênciasenti-daspelasfamíliasdosdoishomens,enquantoelesexperimentam,periodicamente, o que é descrito como “viagens para pescar nasquais não há pescaria”. Apesar disso, o filme apresenta o romance77Desejo e Engano 2prova.indd 77Desejo e Engano 2prova.indd 77 12/18/aaaa 16:03:5112/18/aaaa 16:03:51
  • 77. 78 DESEJO E ENGANOhomossexual como um relacionamento a ser admirado – insinu-andoque,senossasociedadeselivrassedesuasinibiçõesquantoàhomossexualidade,esseshomenspoderiamterprosseguidooseurelacionamento, vivendo sempre juntos e felizes.Em um sentido, o verdadeiro significado de O segredo deBrokeback Mountain não tinha qualquer interesse especial paraa cinematografia. Em vez disso, estava plenamente relaciona-do à nossa cultura e ao colapso da ordem sexual. O segredo deBrokeback Mountain representa algo novo nas principais ten-dênciasculturais–umacelebraçãodoromancehomossexualnatela gigante. O próprio fato de que esse filme estrela dois atoresrelativamente jovens, bem conhecidos, e de que atraiu a atençãolisonjeira dos críticos de Hollywood indica que algo bastantesério está em progresso. Realmente não é importante que todostenham visto o filme. Agora que essa barreira cultural foi der-rubada, exibições de relacionamentos e romances semelhantesdeverão,comcerteza,infiltrar-senoentretenimentopopular–erapidamente.Anthony Esolen, professor de Inglês, no Providence Colle-ge, em Providence, Rhode Island, adverte que esse colapso daordem natural do sexo tem levado à morte da amizade – parti-cularmente, à morte da amizade entre homens.No artigo A Requiem for Friendship: Why Boys Will Not BeBoys and Other Consequences of the Sexual Revolution [Um ré-quiem em favor da amizade: por que os rapazes não são rapazese outras conseqüências da revolução sexual], publicado na re-vista Touchstone,18edição de setembro de 2005, Esolen começa18 Anthony Esolen, “A Requiem for Friendship: Why Boys Will Not Be Boysand Other Consequences of the Sexual Revolution,” Touchstone (September2005). Usado com permissão.Desejo e Engano 2prova.indd 78Desejo e Engano 2prova.indd 78 12/18/aaaa 16:03:5112/18/aaaa 16:03:51
  • 78. O Fim da Amizade 79lembrando aos leitores uma cena de O Senhor dos Anéis, a gran-diosa obra de J. R. R. Tolkien. Sam Gamgee, depois de seguir oseu senhor Frodo até Mordor, o reino das trevas, acha-o meioinconsciente em uma pequena cela imunda. “Frodo!Sr. Frodo, meu amado!”, exclama Sam. “Sou eu, Sam, che-guei!” Frodo abraça seu amigo, e Sam embala ao peito a cabeçadeFrodo.ComosugereEsolen,umleitorouumespectadordes-ta cena talvez se precipitará numa conclusão perversa: “O que éisso? Eles são gays?”Esolentambémsugerequeessasperguntassãouma“reaçãoignorante e inevitável” ao contexto. Ele prossegue e lembra queShakespeare e muitos outros grandes autores falaram do amornão sexual entre homens usando termos fortes. De modo seme-lhante, quando Davi foi informado sobre a morte de Jônatas, eleclamou: “Excepcional era o teu amor, ultrapassando o amor demulheres” (2Sm 1.26).Conforme Esolen entende, a corrupção da linguagem con-tribui para a confusão. Quando palavras como amor, amigo,macho, fêmea e companheiro são transformadas em um novocontextosexual,aquiloqueeraentendidocomopuroeimacula-do está agora sujeito a escárnio e desrespeito. Esolen insiste queessa mudança lingüística não foi acidental. Ele acusa os “panse-xualistas” de corromperem a linguagem, a fim de tornarem nor-mal a confusão e a anarquia sexual. Eles têm usado a linguagem“como uma ferramenta para estabelecerem sua própria ordem eimporem-na aos demais”, Esolen argumenta. “Os pansexualis-tas – aqueles que crêem na liberação do dogma de que, se doisadultos consentem em fazer o que desejarem com sua vida par-ticular, isso não é problema de ninguém – entendem que a lin-guagem tinha de ser mudada para auxiliar na realização de seuDesejo e Engano 2prova.indd 79Desejo e Engano 2prova.indd 79 12/18/aaaa 16:03:5112/18/aaaa 16:03:51
  • 79. 80 DESEJO E ENGANOsonho e que essa realização mudaria o mundo, porque mudariaa linguagem para todos”.QualarelaçãodetudoissocomOsegredodeBrokebackMoun-tain?“Ahomossexualidadeaberta,celebradademaneiraousadaedesafiante, muda a linguagem para todos”, insiste Esolen. “Se umhomem coloca seu braço ao redor da cintura de outro homem,isso é agora um sinal – quer ele esteja na direita ou na esquerdapolítica, quer ele creia ou não nas prescrições bíblicas sobre a ho-mossexualidade.”Esolenofereceumaavaliaçãofrancaeinesque-cível: “Se um homem embala a cabeça de seu amigo entristecido,a sombra de suspeita surge na mente do espectador”.Uma das palavras e realidades mais evidentemente corrom-pidas por causa da anarquia sexual é amizade – em especial, aamizade masculina. “Para os homens modernos, a amizade nãoé mais forjada no ardor da batalha, ou na poeira das planícies,enquanto eles guiam seus rebanhos através do país, ou no arsufocante de uma mina de carvão, ou mesmo na fumaça de ci-garros em um clube de debates”, observa Esolen. A maioria doshomensnãosevêmaisemsituaçõesqueencorajameinculcamaamizade masculina. Como Esolen observa: “A revolução sexualtambémquasematouaamizademasculinadevotadaaqualqueroutra coisa além de bebidas alcoólicas e a assistir esportes; e omovimento homossexual, um resultado inevitável de quarentaanos de promiscuidade heterossexual e tolice feminista, pareceque a matará definitivamente e fechará o seu caixão”.O que isso significa para os homens é bastante ruim, masEsolen é convincente quando argumenta que as vítimas maisvulneráveis da morte da amizade são os rapazes. “A proemi-nência da homossexualidade masculina muda a linguagempara os rapazes adolescentes. É cruel e absurdo dizer que orapaz pode ignorá-la. Ainda que pudesse, seus colegas não oDesejo e Engano 2prova.indd 80Desejo e Engano 2prova.indd 80 12/18/aaaa 16:03:5112/18/aaaa 16:03:51
  • 80. O Fim da Amizade 81deixariam. Todos os rapazes precisam provar que não são fra-cassos. Precisam provar que estão se tornando homens – quenão reincidirão na necessidade de serem protegidos por e,conseqüentemente, identificados com sua mãe”. Esolen argu-menta que os rapazes, destituídos do reconhecimento normalda masculinidade e de amizades seguras com outros rapazese homens, recorrem freqüentemente à promiscuidade sexualagressiva com moças, a fim de provarem que não são homos-sexuais. Os rapazes que se recusam a participar desse jogo sãotachados de homossexuais.Esolen se posiciona a favor de algo muito importante. Elenos recorda que todos os rapazes necessitam da camaradagemdescomplicada de outros rapazes, a fim de galgarem seu pró-priocaminhorumoàmasculinidade.Aamizadecompartilhadaentre os meninos e os rapazes permite-lhes unir-se ao redor deinteresses e atividades comuns e canalizarem sua curiosidade eenergia naturais à participação de atividades compartilhadas.Quando os rapazes se reúnem, Esolen reconhece, eles “podemfazer, de modo fascinante, milhares de coisas criativas e peri-gosamente destrutivas”. É nesta altura que os adultos devemse introduzir, para guiar essas energias em direções positivas eestabelecer limites que impedem e desestimulam o comporta-mento errado. Em qualquer caso, esses rapazes não parariam decrescer,comoEsolenargumentaqueocorrehoje.“Elescontinu-ariam vivos”, ele afirma.Tudo isso exige uma expectativa heterossexual descompli-cada. Esolen ressalta o fato de que Abraham Lincoln, como ra-paz, tinha de compartilhar, freqüentemente, sua cama com seuamigo Joshua Speed. Os dois trocavam cartas que falavam sobresua apreciação e amor um pelo outro. Os leitores modernos têmse precipitado na conclusão de que Lincoln era um homossexu-Desejo e Engano 2prova.indd 81Desejo e Engano 2prova.indd 81 12/18/aaaa 16:03:5212/18/aaaa 16:03:52
  • 81. 82 DESEJO E ENGANOal. Esolen argumenta corretamente que esta “evidência” provao oposto. Lincoln e Speed tinham liberdade para compartilhara mesma cama e falar de sua amizade profunda, porque não te-miam qualquer revelação desse fato ou de seu relacionamentoao público. Por quê? Porque o entendimento quase universal detodo o comportamento homossexual como imoral e pervertidocriava um contexto em que ninguém teria a expectativa de queLincoln estava envolvido em homossexualidade. Como Esolenexplica: “O estigma contra a sodomia criava um ambiente am-plo para uma amizade emocionalmente poderosa que não seenvolvia em intercurso sexual, assim como o estigma contra oincesto cria o ambiente para a liberdade emocional e física deuma família”.Em uma sessão verdadeiramente inesquecível de seu artigo,Esolen nos pede que imaginemos uma sociedade em que o tabucontra o incesto foi removido. Nessas circunstâncias, nenhumtio se sentiria à vontade para abraçar sua sobrinha jovem sema acusação de interesse sexual. Os relacionamentos entre pais efilhos, irmãos e irmãs e parentes de todos os graus seriam cor-rompidos e arruinados pela imposição da suspeita sexual.ConformeEsolencompreende,issoéoqueacontecequandoa homossexualidade é normalizada na cultura. Amizades nor-mais e fraternas entre homens estão agora sob suspeita. Isso éespecialmente verdadeiro no caso dos rapazes e homens novos,que são menos seguros a respeito de sua masculinidade e maispreocupados com a sua própria identidade sexual – ou com aidentidade sexual de seus colegas.A normalização da homossexualidade destrói a ordem na-tural da amizade entre homens. “Pense sobre essa amizade, napróxima vez que você ver os eternos adolescentes com boás deplumas e penas marchando pela avenida principal [da cidade],Desejo e Engano 2prova.indd 82Desejo e Engano 2prova.indd 82 12/18/aaaa 16:03:5212/18/aaaa 16:03:52
  • 82. O Fim da Amizade 83tornando conhecidas as suas inclinações a todos, quer estes seinteressem, quer não”, Esolen instrui. “Com todos os slogans re-petidos continuamente e os sinais estridentes, eles excluem aspalavrasdeamizadeeapropriam-sedegestossaudáveisdeamorentre homens e homens. Confesse: isso não o deixa intranqüiloaté para ler as palavras da última sentença?”Evidentemente, somos informados de que aqueles quemantêm essas preocupações estão apenas evidenciando suahomofobia inata e suas inibições sexuais reprimidas. Os críti-cos celebrarão O segredo de Brokeback Mountain, e podemosesperar um dilúvio de temas, histórias e produções semelhan-tes. A sociedade está amplamente corrompida pela normaliza-ção da homossexualidade, e os laços de amizades masculinasnormais estão enfraquecidos, se não destruídos. Lembre tudoisso, enquanto Hollywood celebra a sua última “realização”cultural.Desejo e Engano 2prova.indd 83Desejo e Engano 2prova.indd 83 12/18/aaaa 16:03:5212/18/aaaa 16:03:52
  • 83. Desejo e Engano 2prova.indd 84Desejo e Engano 2prova.indd 84 12/18/aaaa 16:03:5212/18/aaaa 16:03:52
  • 84. Capítulo Depois do BailePor que o movimento homossexual tem vencidoOsucessoespetaculardomovimentohomossexualper-manece como um dos fenômenos mais fascinantesde nossa época. Em menos de 20 anos, a homossexualidademoveu-se do “amor que não ousa dizer seu nome” ao centroda vida pública americana. A agenda homossexual avançoumais rapidamente do que seus fervorosos proponentes es-peravam, e uma mudança social desta magnitude exige umaexplicação.Uma explicação parcial do sucesso do movimento homos-sexual pode estar ligada à publicação do livro After the Ball: HowAmerica Will Conquer Its Fear and Hatred of Gays in the 90’s [De-pois do baile: como a América vencerá seu temor e ódio aos gaysnos anos 90], em 1989. O livro foi publicado com pouco alarde ese tornou o manual de relações públicas decisivo para a agendahomossexual,eseusautoresapresentaram-nocomoumadestila-çãodeconselhosderelaçõespúblicasparaacomunidadehomos-sexual. Rever suas páginas nos dará ocasião para entendermoscomo o movimento homossexual foi bem-sucedido.Os autores, Marshall Kirk e Hunter Madsen, combinaramhabilidade em psiquiatria e relações públicas para formularem85Desejo e Engano 2prova.indd 85Desejo e Engano 2prova.indd 85 12/18/aaaa 16:03:5212/18/aaaa 16:03:52
  • 85. 86 DESEJO E ENGANOsuaestratégia.Kirk,umpesquisadoremneuropsiquiatria,eMa-dsen, um consultor de relações públicas, argumentaram que oshomossexuais têm de mudar sua apresentação à comunidadeheterossexual, se desejam obter sucesso autêntico. Concebendoseu livro como “um manifesto gay para a década de 90”, os auto-resrecomendamqueoshomossexuaisseapresentemcomoutrapostura, como cidadãos da cultura predominante que exigemtratamento igualitário, e não como uma minoria sexual pro-míscua que busca maior oportunidade e influência. Escrevendoquando a crise de AIDS atingia seu maior momento, os autoresviram a doença como uma oportunidade para mudar a men-talidade pública. “Embora isso pareça bastante cínico, a AIDSnos dá uma chance, mesmo pequena, de estabelecer-nos comouma minoria vitimada que merece, legitimamente, a proteção eo cuidado especial da América”, eles escreveram.Que lhes seja dado o devido crédito: eles realmente enten-deram como funciona a mentalidade pública. Kirk e Madsenconvocaram os homossexuais a falarem incessantemente, emlugares públicos, a respeito da homossexualidade. “A conversafranca e aberta torna a homossexualidade menos dissimulada,estranha e pecaminosa; e coloca-a mais às claras”, eles afirma-ram. “Conversas constantes criam a impressão de que a opiniãopública está, pelo menos, dividida sobre o assunto e de que umaala considerável – os cidadãos mais modernos e mais atualiza-dos – aceita ou mesmo pratica a homossexualidade.” No entan-to, nem toda conversa sobre a homossexualidade é proveitosa.“Nos primeiros estágios da campanha, o público não deve ficarchocado e repeli-la por causa da exposição prematura ao pró-prio comportamento homossexual”. Pelo contrário, o assuntoseria apresentado como uma questão de direitos, leis e precon-Desejo e Engano 2prova.indd 86Desejo e Engano 2prova.indd 86 12/18/aaaa 16:03:5212/18/aaaa 16:03:52
  • 86. Depois do Baile 87ceitos – em resumo, a homossexualidade seria reduzida a “umaquestão social abstrata”.Retratar os homossexuais como vítimas era essencial à es-tratégias deles. Oferecendo diversos princípios para o avançotático em sua causa, os autores apelaram aos homossexuais quese apresentassem como vítimas da sociedade, e não como revo-lucionários. Se os heterossexuais vissem os gays como sofredo-res oprimidos, seriam eventualmente “inclinados por reflexãoa adotar o papel de protetores”. Essa estratégia, eles disseram,poderia levar a algo semelhante à “conversão” da mentalidadedo povo sobre a questão da homossexualidade. “O propósitodo retrato de vítima é fazer os heterossexuais se sentirem inco-modados”, os autores explicaram. No devido tempo, os heteros-sexuais poderiam cansar de sentirem-se opressores e chegar asimpatizar com os gays, sentindo-se até compelidos a ajudá-losa reverter a injustiça que a sociedade lhes infligira.É óbvio que isso significaria a marginalização de algunsmembros da comunidade homossexual. Kirk e Madsen foramousados em aconselhar a introdução da imagem homossexualnosgrupospredominantesdasociedade.“Homensdeaparênciaarrogante, bigodes e jaqueta de couro, drag queens e lésbicasbastante masculinas” não deveriam ser a face pública do movi-mento. Jovens atraentes, mulheres de meia idade, profissionaisbem capacitados e senhores sorridentes causariam, com muitomaior probabilidade, a simpatia necessária. Além disso, os gru-pos de gays extremistas, como o NAMBLA (North AmericanMan/Boy Love Association), teriam de ser mantidos totalmen-te fora da visão pública. Como Kirk e Madsen reconheceram:“Suspeitos de molestar crianças nunca pareceriam vítimas”.E o que podemos dizer sobre a origem do conceito de orien-tação sexual? O sucesso do movimento homossexual pode estarDesejo e Engano 2prova.indd 87Desejo e Engano 2prova.indd 87 12/18/aaaa 16:03:5312/18/aaaa 16:03:53
  • 87. 88 DESEJO E ENGANOamplamente originado na própria idéia de “orientação”. Maisexatamente,oshomossexuaisavançaramsuacausaaoargumen-tarem que eram nascidos daquela maneira. Madsen e Kirk ofe-recem isto como um conselho sincero de relações públicas: “Osgays devem ser considerados como pessoas que nasceram gays”.Infelizmente,“sugerirempúblicoqueahomossexualidadepodeser escolhida significa abrir a lata de vermes chamada ‘escolhasmorais e pecado’ e dar aos intransigentes religiosos uma varapara nos baterem. Os heterossexuais têm de ser ensinados que étão natural para algumas pessoas serem homossexuais como énatural para outras serem heterossexuais. Impiedade e seduçãonão têm qualquer relação com a homossexualidade”.Não pode haver dúvidas de que o cristianismo representa omaior obstáculo à normalização do comportamento homosse-xual. Não pode ser de outra maneira, porque os ensinos bíblicossão claros quanto à pecaminosidade inerente da homossexu-alidade, em todas as formas, e à normatização do casamentoheterossexual. Para superarem esse obstáculo, Kirk e Madsenaconselharam os gays a “usarem a conversa para turvar as águasmorais”, tornando público o apoio a igreja liberais, desafiandoasinterpretaçõestradicionaisdoensinobíblicoeargumentandoque o ensino cristão sobre a homossexualidade é, em si mes-mo, caracterizado por “incoerência e ódio”. As igrejas conser-vadoras, definidas pelos autores como “igrejas que odeiam oshomossexuais”, são retratadas como “estagnadas e antiquadas,terrivelmente fora de harmonia com estes tempos e com as últi-mas descobertas da psicologia”.Outros princípios oferecidos pelos autores incluem o fazeros gays parecerem bons, por identificarem figuras históricas es-tratégicas como homossexuais secretos e, por outro lado, porfazer os “vitimadores” parecerem maus aos olhos da socieda-Desejo e Engano 2prova.indd 88Desejo e Engano 2prova.indd 88 12/18/aaaa 16:03:5312/18/aaaa 16:03:53
  • 88. Depois do Baile 89de. Madsen e Kirk sugeriram o isolamento dos cristãos, porapresentá-los como “pregadores histéricos e incultos, falandoabsurdos com ódio em um nível que chega a ser cômico e per-turbador”. Eles oferecem um exemplo concreto de como essaestratégia poderia ser usada na televisão e na imprensa. “Porexemplo, durante alguns segundos, um pregador fervoroso, deolhosgrandeseredondos,émostradobatendonopúlpito,iradocontra ‘essas criaturas abomináveis e pervertidas’. Enquanto suacríticacontinuasobreatrilhasonora,acenaémudadaparaima-gens comoventes de pessoas injuriosamente feridas ou de gaysque parecem decentes, inofensivos e amáveis; e, em seguida, aimagem é retornada à face venenosa do pregador. O contrastefala por si mesmo. O efeito é devastador.”Uma revisão breve dos últimos vinte anos demonstra o in-crível efeito desses conselhos de relações públicas. A agenda es-tabelecida por Kirk e Madsen levou a nada menos do que umatransformação social. Ao retratarem-se a si mesmos como par-te dos principais segmentos da sociedade americana em buscade liberdade e auto-realização, os homossexuais redefiniram aequaçãomoral.Questõesdecertoeerradoforamisoladascomoantiquadas, repressivas e culturalmente embaraçadoras. E, poroutro lado, a afirmação dos “direitos” tornou-se a marca oficialda estratégia de relações públicas.Sem dúvida, relações públicas é agora uma parte importanteda economia americana, em que centenas de milhões de dólaressão transformados em estratégias de propaganda e programas demelhoramento da imagem. Observadores do mundo de relaçõespúblicastêmdeolharparatrás,comgrandeadmiração,eobservarosucessofenomenaldaabordagemusadapeloshomossexuaisdu-rante as duas últimas décadas. O conselho dado por Marshall Kirke Hunter Madsen é nada menos que um manifesto por revoluçãoDesejo e Engano 2prova.indd 89Desejo e Engano 2prova.indd 89 12/18/aaaa 16:03:5312/18/aaaa 16:03:53
  • 89. 90 DESEJO E ENGANOmoral. Rever essa estratégia indica como o movimento homosse-xualautoconscienteavançousuacausaaoseguiresseplano.Aqueles que se opõem à normalização da homossexua-lidade têm sido realmente apresentados como pessoas anti-quadas, incultas e perigosas, enquanto aqueles que promovemo avanço da causa são visto como forças de luz, progresso eaceitação. Os cristãos conservadores têm sido apresentadoscomo promotores de ódio, e não como indivíduos movidospor convicção bíblica. O sucesso ímpar dessa estratégia de re-lações públicas ajuda a explicar tudo – desde o motivo por quea América tem aceitado personagens e enredos homossexuaisem entretenimentos no horário nobre até à falta de sentimentode escândalo na reação ao casamento de pessoas do mesmosexo em Massachusetts.Pelo menos sabemos ao que nos opomos. Sendo cristãosbíblicos, temos de continuar a falar sobre o certo e o errado,mesmo quando a maior parte do mundo rejeita a moralidadecomo um conceito ultrapassado. Temos de afirmar o casamentocomoumanormainegociável–auniãodeumhomemcomumamulher – mesmo quando os tribunais redefinem o casamentopor sanção. Ao mesmo tempo, temos de levar em conta a trans-formaçãodamentalidadeamericanaqueéagoratãodevastado-ramente evidente a todos os que têm olhos para ver.A tragédia real de After the Ball é que o seu grande resultadonão é uma rejeição parcial, e sim uma rejeição completa dosfundamentosmoraisquetornarampossívelestasociedade.Paraabordarmos os problemas mais essenciais, temos de entender aformação da mentalidade americana. Revendo o After the Ball,depois de vinte anos, tudo isso se apresenta num foco amedron-tador.Desejo e Engano 2prova.indd 90Desejo e Engano 2prova.indd 90 12/18/aaaa 16:03:5312/18/aaaa 16:03:53
  • 90. Capítulo Alfred KinseyO homem como ele realmente eraEm 2004, o filme Kinsey apresentou a uma nova geraçãode americanos o “pai” infame da pesquisa sexual nosEstados Unidos. Mas o filme não era, de fato, um retrato verda-deiro de Alfred Kinsey. Em vez de apresentar a mente pertur-bada e atormentada desse propagandista da revolução sexual,o filme mostra-o como um anjo de luz que livrou a América daopressão e das trevas.Críticos saudaram o filme com muito entusiasmo. A. O.Scott, escrevendo no New York Times, declarou que o filme erauma “biografia vívida e estimulante” e o elogiou por tratar doassunto do sexo com “sobriedade, sensibilidade e agradávelquantidade de humor”. Scott deixou de mencionar o fato deque o filme lida com o assunto sem a medida adequada deverdade.Emvezdeexpressarindignaçãopelacelebraçãodeumindi-víduoescandaloso,quetinhaumpadrãodeperversidadesexualbem documentado, Scott viu o filme como uma mistura de en-tretenimento e iluminação. “Não posso pensar em outro filme”,ele afirmou, “que abordou o sexo com tanto conhecimento e, aomesmo tempo, fez a busca do conhecimento parecer tão sexy.91Desejo e Engano 2prova.indd 91Desejo e Engano 2prova.indd 91 12/18/aaaa 16:03:5312/18/aaaa 16:03:53
  • 91. 92 DESEJO E ENGANOHá algumas imagens explícitas e cenas provocativas, mas é ointelecto do espectador que é estimulado”.Os críticos da revista Newsweek reconheceram que “os mé-todos de Kinsey não eram ideais”, mas celebraram tanto o filmecomoopersonagemcentral.Defato,eleselogiaramKinsey,que,conforme disseram, “despedaçou todos os vestígios do recatovitoriano,tirandoosamericanoscuriososdaobservaçãosecretapeloburacodafechaduraelevando-osàobservaçãorealentreoslençóis”.Emumanotalateral,DavidAnsendeclarouqueofilme“é uma celebração da diversidade e expressa a consolação que oconhecimento pode trazer”. Escrevendo no Wall Street Journal,o resenhista Joe Morgenstern, declarou que Kinsey não tentavender ou explorar o sexo. De acordo com Morgenstern, o filme“é notavelmente bem-sucedido como uma história cultural deum tempo extinto”; “é inteligente em excesso”.AlfredC.Kinseyéumdospersonagensmaiscontroversosnahistória americana – e há boas razões para isso. Ele era um ento-mologista por graduação e moveu-se da intensa fascinação pelavespa galhadora para o estudo da sexualidade humana. Surgiude repente no cenário americano com sua obra pioneira SexualBehaviorintheHumanMale[Ocomportamentosexualdomachohumano], publicada em 1948. Eventualmente, a Universidade deIndianaestabeleceriaoInstitutoKinseyparaPesquisasobreSexo,GêneroeReprodução;eonomeKinseyseassociariacomaeduca-çãosexualprogressiva,comaoposiçãoàmoralidadesexualtradi-cional e com a libertação das pessoas de conceitos estabelecidoscomo“normais”emreferênciaàsexualidadehumana.OInstitutoKinseypossuioquemuitosconsideramamaiorcoleçãomundialde pornografia, arte sexualmente explícita e diversos objetos se-xuais. O que o Instituto não divulga é seus vínculos com dadosobtidos por molestadores de crianças e criminosos sexuais.Desejo e Engano 2prova.indd 92Desejo e Engano 2prova.indd 92 12/18/aaaa 16:03:5412/18/aaaa 16:03:54
  • 92. Alfred Kinsey 93De certo modo, Alfred Kinsey era uma pessoa atribulada ecomplexa. Criado por um pai rigoroso e uma mãe omissa, Kin-sey teve uma adolescência marcada por turbulência e experi-mento sexuais. Conforme é bem documentado, o jovem Kinseyesteve envolvido em comportamentos sexuais sadomasoquis-tas, movido por desejo homossexual.Em uma biografia original e inovadora, publicada em 1997,JamesH.Jonesrevelainadvertidamenteaverdadeiraidentidadedo mito Kinsey.19De acordo com a mitologia popular e univer-sal, Alfred Kinsey foi um cientista que aplicou suas rigorosashabilidades científicas e seus interesses científicos objetivos aoestudo da sexualidade humana. O verdadeiro Alfred Kinsey eraum homem cujas práticas sexuais seguramente não podem serdescritas ao público em geral e cujo interesse em sexo era qual-quer outra coisa, exceto objetivo ou científico. Desde o início,Jones reconhece o papel central de Kinsey na revolução sexual.“Mais do que qualquer outro americano do século XX”, Jonesadmite, “ele foi o arquiteto de uma nova sensibilidade a respeitoda parte da vida que todos experimentam e da qual ninguémescapa”. Apesar disso, o verdadeiro Kinsey estava escondido dopúblico.Jonesdescreveoseuprojetonestaspalavras:“Vasculheimuitos arquivos, li milhares de cartas e entrevistei pessoas queconheciam Kinsey em vários níveis; descobri que sua imagempública distorcia mais do que reveleva”.Conforme relata Jones: “O homem que cheguei a conhecernão possui nenhuma semelhança com o Kinsey canônico. Combastante interesse, Kinsey seguiu seu trabalho com fervor mis-sionário. Era adverso à moralidade vitoriana, desprezando-a19 James H. Jones, Alfred C. Kinsey: A Public/Private Life (New York: W. W.Norton, 1997).Desejo e Engano 2prova.indd 93Desejo e Engano 2prova.indd 93 12/18/aaaa 16:03:5412/18/aaaa 16:03:54
  • 93. 94 DESEJO E ENGANOcomo somente alguém que houvera sido terrivelmente preju-dicado pela repressão sexual poderia desprezá-la. Ele estava de-terminado a usar a ciência para despir a sexualidade humana desua culpa e repressão. Queria destruir a moralidade tradicional,afrouxar as regras da restrição e ajudar as pessoas a desenvolve-rem atitudes positivas para com suas necessidades e desejos se-xuais. Kinsey foi um reformador secreto que gastava suas horasde atividade tentando mudar os costumes sexuais tradicionais eas leis de crimes sexuais dos Estados Unidos”.É claro que mais do que isso estava envolvido, e Jones reúneuma quantidade incrível de documentos para provar seu argu-mento. Em primeiro lugar, o adolescente Alfred Kinsey esteveprofundamente envolvido em auto-abuso masoquista. Nas pa-lavras de Jones, “em algum momento, ele saiu do caminho dedesenvolvimentonormaledesceuaumatrilhaqueolevouaumtremendo conflito emocional e ao abuso físico de si mesmo”.Impelido por fantasias sexuais poderosas e determinado adestruir o que via como moralidade sexual repressiva, Kinseyparou seus estudos sobre insetos e voltou-se para o estudo dasexualidade humana. Tragicamente, Jones tem de reconhecerqueomundodaciência“teriasidomelhorservidoseKinseynãotivesse permitido que sua paixão por informações obscurecesseo seu discernimento”.O que Kinsey realmente pretendia? Ele e seu grupo de as-sociados masculinos saíram coletando enorme quantidadede informações sobre a sexualidade humana, considerandoprimeiramente o homem, depois, a mulher. Em sua pesquisasobre o comportamento sexual masculino, Kinsey trouxe suaspaixões ideológicas e pessoais ao primeiro plano de sua obrasupostamente científica. Ele decidiu de modo arbitrário quecada ser humano poderia estar situado em algum ponto de umaDesejo e Engano 2prova.indd 94Desejo e Engano 2prova.indd 94 12/18/aaaa 16:03:5412/18/aaaa 16:03:54
  • 94. Alfred Kinsey 95reta contínua de desenvolvimento entre os pólos heterossexuale homossexual. Ele desenvolveu um gráfico de seis níveis e ar-gumentou que os homens e os rapazes estão todos classificadosneste gráfico entre a absoluta heterossexualidade e a absolutahomossexualidade. Depois, Kinsey argumentou que 40% de to-dos os homens terão alguma experiência homossexual. É claroque, oculto da percepção pública, estava o fato de que Kinseyfazia o melhor de si mesmo para ocultar sua homossexualidade– ou bissexualidade, como explicariam depois alguns comen-taristas – e não era, de modo algum, o cientista objetivo quecoletava dados de uma população responsável.Entre os muitos problemas inerentes à pesquisa de Kinseyestá o fato de que ele confiava nos relatórios e estudos sexuaisobtidos entre os encarcerados, incluindo pessoas que haviampraticado crimes sexuais. Portanto, a noção de Kinsey quantoao que era “normal” fora extraída de um modelo anormal dapopulação.OaspectomaisinquietantedapesquisadeKinseysãoosda-dosqueelecoletousobreareaçãosexualinfantil–especialmen-te dos meninos. O capítulo 5 de Sexual Behavior in the HumanMalelevouemcontaaexperiênciasexualdemeninos,incluindocrianças. Ele queria provar que as crianças são seres sexuais quedevemserentendidascomopessoasquetêmemerecemterrela-ções sexuais. Em seu capítulo, Kinsey depende amplamente dosdados oferecidos pelo “Sr. X”, um homem que havia molestadocentenas de meninos, desde crianças até adolescentes. ComoJones explica, “vista de qualquer ângulo, a relação de Kinseycom o Sr. X era um exemplo a não ser imitado. Independentedo suposto valor científico da experiência do Sr. X, permaneceo fato de que ele era um pedófilo predador”. Durante décadas,esse homem havia abusado de centenas de meninos, torturadoDesejo e Engano 2prova.indd 95Desejo e Engano 2prova.indd 95 12/18/aaaa 16:03:5412/18/aaaa 16:03:54
  • 95. 96 DESEJO E ENGANOcrianças e, como Jones explica, “realizado vários outros atos se-xuais em pré-adolescentes, meninos e meninas”.Kinsey não condenou esse homem, mas, em vez disso, co-lheu avidamente suas informações. De fato, Kinsey foi maisalém, a ponto de tentar pagar o Sr. X por pesquisa posterior, elhe escreveu certa vez: “Desejo saber como posso dar-lhe re-conhecimento, no próximo volume, por seu material. Parecevergonhoso nem ao menos mencionar seu nome”. Essas pala-vras denunciam um monstro moral da mais horrível depra-vação e de criminalidade certa. Alfred Kinsey celebrou o fatode que esse homem havia torturado crianças sexualmente e,conforme documenta a própria obra de Kinsey, abusado decrianças de dois meses. Tudo isso estava explícito nos dadosapresentados no livro de Kinsey publicado em 1948. No en-tanto, ele foi celebrado como um pioneiro sexual e um profetada iluminação sexual.Desconhecido do público geral, Kinsey esteve também en-volvido em atos sexuais com seus cooperadores e na filmagemde centenas de pessoas envolvidas em atividade sexual – in-cluindo as cenas de seus próprios atos sexuais masoquistas. Elee seus colegas pagavam rapazes para realizarem atos sexuaisem filmes e transformaram a casa de Kinsey em um estúdiopara documentação pornográfica. Em uma mudança incrivel-mente estranha na história, a Sra. Kinsey ou “Mac”, como elaera conhecida, é lembrada por haver trazido refrescos aos par-ticipantes, ao terminarem seus atos sexuais e suas sessões defilmagem. Ela mesma foi filmada em várias situações sexuais,e Kinsey encorajava seus associados a se envolverem em atossexuais com ela.O que a elite cultural faz hoje com tudo isso? A resenha doNew York Times reconhece que o filme correu um grande riscoDesejo e Engano 2prova.indd 96Desejo e Engano 2prova.indd 96 12/18/aaaa 16:03:5412/18/aaaa 16:03:54
  • 96. Alfred Kinsey 97“ao tentar lidar francamente com a vida sexual de seu herói semsucumbir ao erotismo ou ao moralismo”. Todavia, o filme nãolidafrancamentecomasperversõesdeKinsey.Ocríticoadmite:“Àsvezes,ozelocientíficodeKinseyassumiaotomdeobsessão,e seus métodos iam desde o empírico ao experimental, em ma-neiras que permanecem eticamente inquietantes”. Eticamenteinquietantes? Isso é tudo que o New York Times pode dizer emrespostaaosrelatosdemolestamentoinfantilqueopróprioKin-sey documentou e publicou?No livro Sex the Measure of All Things: A Life of Alfred C.Kinsey [Sexo, a medida de todas as coisas: uma biografia de Al-fred C. Kinsey], Jonathan Gathorne-Hardy lamenta o fato deque Kinsey não recebeu de seu colegas cientistas o respeito queele achava merecer. No entanto, Gathorne-Hardy reconhece: “Ainvestigação da vida particular de Kinsey não o ajudará” nes-te aspecto. Gathorne-Hardy escreveu seu livro em resposta aodano que a biografia publicada por Jones infligiu à reputaçãode Kinsey. Admiravelmente, Gathorne-Hardy afirma: “O quesabemos sobre a sexualidade de Kinsey deixa logo evidente quea sua sexualidade, embora dificilmente tenha prejudicado a suaintegridade como cientista (se chegou a prejudicar), teve umefeito decisivo em sua obra. E, naquelas poucas instâncias emqueelaprejudicouaintegridadedeKinsey,oefeitonãoébastan-te significativo – nem óbvio. Há uma transparência”.Isso é contra-senso moral. É claro que Gathorne-Hardy estáprocurando, de várias maneiras, transformar em algo bom osproblemas de Kinsey. Em um ponto, ele chega a afirmar que abissexualidade de Kinsey foi um grande recurso para a sua obracientífica. “Kinsey era bissexual”, Gathorne-Hardy observou,“uma condição quase ideal, alguém poderia pensar, para umaDesejo e Engano 2prova.indd 97Desejo e Engano 2prova.indd 97 12/18/aaaa 16:03:5412/18/aaaa 16:03:54
  • 97. 98 DESEJO E ENGANOpessoa que estava estudando o comportamento sexual em am-bos os gêneros”. Quem exatamente poderia pensar isso?Tornamo-nos uma sociedade que celebra homens comoAlfred C. Kinsey e produz filmes que apresentam esse tipo dehomemcomoumagentedeluz,enãocomoumaalmaperturba-da que lutava com demônios íntimos, enquanto buscava dadossobre o molestamento sexual de crianças – e filmava pessoasenvolvidas em atos sexuais pervertidos.Em uma carta que escreveu a seu colega Clarence A. Tripp,Kinsey admitiu: “Todo o exército da religião é o nosso princi-pal inimigo”. Kinsey sabia contra o que se posicionava, e suaambição não era apenas coletar dados, mas também destruirtoda a estrutura da moralidade cristã no âmbito da sexualidadehumana. Em vez de ser corretamente classificado como um cri-minoso, ao lado de homens semelhantes ao Dr. Joseph Mengel eoutros cientistas nazistas, Alfred Kinsey é festejado e celebriza-do em um filme que apresenta Liam Neeson como uma supostafiguraheróica.OqueissodizsobreLiamNeeson?Oqueissodiza respeito de nós mesmos?Desejo e Engano 2prova.indd 98Desejo e Engano 2prova.indd 98 12/18/aaaa 16:03:5512/18/aaaa 16:03:55
  • 98. Capítulo Lamentando a Cultura GayO enigma de Andrew SullivanAndrew Sullivan é um homem de idéias. Em anos re-centes, ele emergiu como um dos intelectuais maisinfluentes na vida pública americana. Além disso, ele tem seidentificado com alguns dos assuntos mais controversos denossa época – e isso não é surpreendente devido a seu pontode vista libertário sobre a moralidade, suas opiniões conserva-doras quanto à política, suas concepções católicas quanto aocristianismo e o fato de que ele é um proeminente defensor dohomossexualismo.Sullivan chamou a atenção internacional como editor darevista New Republic, de 1991 a 1996. Atingiu esse posto depoisde graduar-se na Universidade de Oxford (B.A.) e na Univer-sidade de Harvard (Ph.D.). Durante o tempo em foi o editor, aNew Republic se tornou conhecida como um dos periódicos deopinião mais intensos, informativos e controversos. A coragemeaimaginaçãodemonstradasporSullivancomoeditoréaexpli-cação mais provável para a controvérsia que causou sua quedadaquela função. Apesar disso, ele continua a contribuir comoeditor sênior da revista.99Desejo e Engano 2prova.indd 99Desejo e Engano 2prova.indd 99 12/18/aaaa 16:03:5512/18/aaaa 16:03:55
  • 99. 100 DESEJO E ENGANONa edição de 24 de outubro de 2005, Sullivan escreveu so-bre “o fim da cultura gay”. É claro que a perspectiva de Sullivanquanto a homossexualidade e a cultura gay está profundamentearraigada em sua própria homossexualidade e sua ardente acei-tação de seu estilo de vida. Ele é não é um observador imparcial.Em seu artigo, Sullivan descreve a transformação extensiva dacultura americana que todos agora observamos, pelo menos emtermos da rápida normalização da homossexualidade na cultu-rapública.Sullivanvêissocomoumaespadadedoisgumesparaos homossexuais.Porumlado,aassimilaçãodoshomossexuaisedahomosse-xualidade na cultura mais ampla significa que os homossexuaisnão são mais intrusos. Por outro lado, Sullivan vê a morte dasubcultura gay como uma perda significativa, pelo menos paraos homossexuais que recordam a experiência de definirem-sea si mesmo por meio da “transgressão” das normas culturais.Comoevidênciadestatransformação,Sullivanressaltaasuaex-periência de quase duas décadas ao passar os feriados do verãoem Provincetown, em Cape Cod. Durante os últimos 25 anos,Provincetown se tornou uma Meca para gays e lésbicas, “umlugar em que uma identidade separada define essencialmenteum lugar separado”. Sullivan descreve a perspectiva de Provin-cetown:“Ninguémficasurpresosevêdoishomenscaminhandopela rua de mãos dadas, ou se um casal de lésbicas beija uma aoutra no rosto, ou se uma drag queen vestida como CherilynSarkisiandescerápidaedesgovernadamentepelafaixaprincipalem uma motocicleta”. Apesar disso, essa percepção de Provin-cetown não existe mais, Sullivan explica. “Assim como a Amé-rica gay mudou, assim também Provincetown mudou. Em ummicrocosmo do que está acontecendo neste país, a cultura deProvincetown está mudando.”Desejo e Engano 2prova.indd 100Desejo e Engano 2prova.indd 100 12/18/aaaa 16:03:5512/18/aaaa 16:03:55
  • 100. Lamentando a Cultura Gay 101AsmudançasindicamqueoshomossexuaisnaAméricanãosentem mais a necessidade de uma identidade separada, de umlugar separado, de um estilo de vida separado. O florescimentodo negócio imobiliário transformou Provincetown em um re-sortparahomossexuaisricos,noqualaclasseémaisimportantedo que a sexualidade. Além disso, a domesticação da culturahomossexualtambémmudouoquadro:“Onúmerodefilhosdecasais gays tem aumentado, e, em certas semanas, carrinhos debebêsobstruemascalçadas”.Ainda,“semanaapóssemananesteverão,umcasalapósoutrosecasa–maisdemilnesteanoemeiodesde que o casamento gay foi legalizado em Massachusetts”.ConformeSullivanobserva,aAméricanãoémaiscaracteri-zada por uma “identidade gay única”. Em vez disso, a prolifera-ção de nichos culturais e de identidades sexuais tem substituídoa cultura gay predominante que emergiu nos anos 1970. “Lentae inconfundivelmente, a cultura gay está acabando”, Sullivancomenta. “De fato, essa cultura está começando a desenvolverem alguns a idéia de que o próprio conceito da cultura gay podedesaparecer completamente um dia.” Isso não significa que gayse lésbicas deixarão de existir ou que a homossexualidade nãoestará mais presente na sociedade. Pelo contrário, significa queenquanto a cultura gay continua a se expandir e se torna cadavezmaisaprincipaltendência,“ahomossexualidadecessaráso-mente para lhe dizer muito a respeito de cada pessoa.”Esse é o mundo com o qual os homossexuais têm sonhadohá muito tempo, admite Sullivan. Apesar disso, permitir quedesapareça o conceito de “homossexualidade distintiva” é paramuitos homossexuais “tão difícil quanto libertador, tão entris-tecedor quanto revigorante”.Sullivan destaca um fato central que explica a transforma-ção rápida da cultura americana e sua assimilação dos homos-Desejo e Engano 2prova.indd 101Desejo e Engano 2prova.indd 101 12/18/aaaa 16:03:5512/18/aaaa 16:03:55
  • 101. 102 DESEJO E ENGANOsexuais e da homossexualidade – a epidemia de HIV. “A históriada América gay”, ele afirma, é “definida por uma praga que ir-rompeu dolorosamente quase no momento mais impetuoso delibertação. Toda a estrutura da cultura gay emergente – sexual,radicalesubversiva–sedeparoucomumvírusquematouquasetodos os infectados. Quase toda a geração dos que agiram comopioneiros da cultura gay foi dizimada – rapidamente”.A epidemia de HIV estabeleceu a homossexualidade comouma das principais preocupações culturais e, inesperadamen-te, serviu para normalizar a homossexualidade na sociedade. Apraga do HIV “estabeleceu a homossexualidade como um temalegítimo mais rapidamente do que qualquer manifesto políticopoderia ter feito”, afirma Sullivan.À medida que reconsidera o impacto da crise do HIV, Sulli-van indica alguns padrões que emergiram como conseqüência– padrões que provavelmente seriam esquecidos pela culturagay. A emergência das lésbicas como líderes das principais or-ganizaçõesdedireitosdosgaysdeveu-seamplamente,conformeSullivan sugere, ao fato de que os homossexuais masculinos es-tavam, em sua maioria, mortos. Assim, “talvez fosse natural quea próxima geração de líderes tendesse a ser lésbica”. Além disso,Sullivan sugere, mas não propõe abertamente, que as lésbicasforam bem-sucedidas em apresentar um quadro mais domés-tico da homossexualidade. A promiscuidade sexual radical, tãocomum a muitos homossexuais masculinos, foi substituída, aosolhos do público, por um quadro mais convencional de casaislésbicas, freqüentemente com filhos.Enquanto isso, toda uma nova geração estava surgindo – ho-mossexuais mais novos que cresciam rumo à maturidade (oumesmonasciam)depoisdaepidemiadeHIV.“Pelaprimeiravez”,Sullivan observa, “crianças e adolescentes gays cresceram em umDesejo e Engano 2prova.indd 102Desejo e Engano 2prova.indd 102 12/18/aaaa 16:03:5512/18/aaaa 16:03:55
  • 102. Lamentando a Cultura Gay 103mundo onde a homossexualidade não era mais um tabu e pesso-as gays eram apresentadas regularmente na imprensa”. A geraçãomaisnovaparecequererqueahomossexualidadesejavistacomonormal, e não como excepcional. Isso é verificado por meio dapesquisapublicadaporRitchC.Savin-Williams,emseulivroTheNew Gay Teenager [O novo adolescente gay]. A geração de Sulli-van, por outro lado, teme a perda da cultura homossexual maisradicalqueemergiudepoisdeacontecimentoscomoosTumultosde Stonewall, em Nova Iorque, e a reorganização do distrito deCastro, em San Francisco, como um abrigo de gays.O argumento de Sullivan é claro: a transição da cultura ho-mossexual representa a colocação de Ellen DeGeneres em lugarde “lésbicas bastante masculinizadas” e “lésbicas bem femini-nas”dopassado.Demodosemelhante,homossexuaisfamososecelebridadeshomossexuaismasculinasdefinemahomossexua-lidadenaculturapública,enão“motociclistashiper-masculinose homens musculosos”. Sullivan admite (ou celebra) o fato deque “essas subculturas ainda existem”. Todavia, “as polaridadesna ampla população gay são menos salientes do que eram nopassado; as arestas diminuíram”.Nesseartigo,Sullivanretornaaumassuntoqueeleabordarano passado. Seu livro Virtually Normal [Virtualmente normal],de 1995, descreve a luta entre os “proibicionistas”, os “conser-vadores” e os “liberais” na comunidade homossexual. Duranteeste período, Sullivan emergiu como um grande (e, pelo menosa princípio, solitário) proponente do casamento de pessoas domesmosexo.“Ocasamentogaynãoéumpassoradical”,Sullivaninsistiu. “É um passo profundamente humanizador e tradicio-nalista. É o primeiro passo na resolução do problema homos-sexual – mais importante do que qualquer outra instituição,visto que é a instituição mais central à natureza do problema,Desejo e Engano 2prova.indd 103Desejo e Engano 2prova.indd 103 12/18/aaaa 16:03:5612/18/aaaa 16:03:56
  • 103. 104 DESEJO E ENGANOou seja, o laço emocional e sexual entre um ser humano e outro.Se nadamaisfossefeito, eocasamentogayfosselegalizado,90%do trabalho político necessário para atingir a igualdade de gayse lésbicas teria sido realizado. Isso é, em última análise, a únicareforma que realmente importa.”No entanto, ainda que Sullivan tenha argumentado emfavor da aceitação e da legalização do casamento de pessoasdo mesmo sexo, os teóricos homossexuais mais radicais rejei-tavam completamente o casamento. Como Sullivan explicou,“de todas as instituições, o casamento é, para os liberacionis-tas, uma forma de aprisionamento; parece um discurso quetem promovido o comércio de imóveis, denegrido e sujeitado amulher, moldado os relacionamentos humanos em uma formacruel e sufocante. Por que, no mundo, isso deve ser apoiadopor homossexuais?”O livro de Suvillan de 1995 e seu artigo recente devem serlidos à luz de seu livro testemunhal Love Undetectable: NotesonFrienship,Sex,andSurvival[Amorindetectável:observaçõessobre amizade, sexo e sobrevivência], de 1998. Esse livro foi es-crito depois que Sullivan foi diagnosticado como HIV positivo.Como ele recorda, “contraí a doença em pleno conhecimentode como ela era transmitida e sem quaisquer ilusões a respeitode quão debilitante e terrível poderia ser esse diagnóstico. Te-nho testemunhado, em primeira mão, um homem morrendode AIDS e visto as desolações de seu impacto, bem como a hu-milhação angustiante que ela implica. Tenho escrito a respeitodessa doença, me oferecido como voluntário para combatê-lae tentado entendê-la. Contudo, assim mesmo, arrisquei-me acontraí-la. As recordações desse risco e as suas ramificaçõespara mim mesmo, minha família e amigos ainda me forçam aDesejo e Engano 2prova.indd 104Desejo e Engano 2prova.indd 104 12/18/aaaa 16:03:5612/18/aaaa 16:03:56
  • 104. Lamentando a Cultura Gay 105perguntas que eu preferiria não confrontar; e tenho feito muitoesforço para evitá-las”.Quando um amigo do ensino médio perguntou a Sullivancomoelecontraíraovírus,elerespondeuquenãotinhaamenoridéiaarespeitodequalparceiroforaafontedatransmissãoviral.“Por amor de Deus, com quantas pessoas você já dormiu?”, seuamigoperguntou.ObservearespostadeSullivan:“Muitas,Deussabe.Muitas,emfavordadignidadeedosignificadodedar-meatodos. Muitas, por querer estar com todas eles. Muitas, para queosexosejafreqüentementemaisdoqueumalibertaçãopodero-sa e temporária de um temor e solidão debilitantes”. Em outraspalavras, o Andrew Sullivan público emergiu como um grandeproponente de responsabilidade, estabilidade e autocontrole,enquanto o Andrew Sullivan privado estava profundamenteenvolvido em promiscuidade sexual.Tudo isso veio a público em 2001, quando um colunista ho-mossexual descobriu que Sullivan estivera postando anúnciosem favor do sexo homossexual desprotegido em sites, na Inter-net. A controvérsia resultante na comunidade gay foi amarga,assim como foi reveladora.“O fim da cultura gay” é um artigo revelador. Como exercí-cio de análise cultural, ele demonstra percepção genuína e umaperspectiva de quem faz parte do movimento. Mais do que isso,o artigo de Sullivan deve despertar os verdadeiros cristãos parao fato de que a homossexualidade está sendo normalizada nacultura. Isso representa, com certeza, um assunto de interessemissiológicourgente,poisanormalizaçãodopecadorepresentaum endurecimento progressivo do coração do povo contra oevangelho.Em um nível mais pessoal, esse artigo me recorda que devoorar por Andrew Sullivan. Digo isso enquanto compreendo queDesejo e Engano 2prova.indd 105Desejo e Engano 2prova.indd 105 12/18/aaaa 16:03:5612/18/aaaa 16:03:56
  • 105. 106 DESEJO E ENGANOele pode sentir-se ofendido mais por minha oração do que porqualquer outra coisa. Em muitos de seus escritos, Sullivan de-monstra uma determinação intensa e consistente de celebrara homossexualidade como algo central à sua descoberta de simesmo e à sua personalidade. Apesar disso, ele também reveladúvidassignificativas.Quandoexplicaquenuncadefendeunematacou publicamente a promiscuidade, porque “sentia e aindasintofreqüentementequesouincapazdeviverdeacordocomosideais que mantenho”, posso detectar um sinal de dúvida.Já enfrentei Andrew Sullivan em um debate público so-bre questões relacionadas à homossexualidade. Acho que elese encontra entre os intelectuais mais dotados, perspicazes eimprevisíveis do cenário atual. Mais do que qualquer outracoisa, desejo que ele ache sua própria identidade e sua maisprofunda paixão no poder transformador de Cristo – o po-der de ver todas as coisas novas. Sem desculpas, eu oro paraque um dia Andrew Sullivan considere como perda tudo queescreveu em defesa da homossexualidade e tudo que ele sabequanto à sua própria identidade homossexual e ache em Cris-to a única resolução de nossa sexualidade e a única soluçãopara o problema que todos compartilhamos – o problema dopecado.Andrew Sullivan tem sido alvo de minhas orações desdeque soube de sua condição como HIV positivo. Peço realmentea Deus que lhe revigore a saúde e o dom do tempo. Afinal decontas, nosso interesse cristão deve se focalizar não somente nodesafiodahomossexualidadeemnossacultura,mastambémnodesafio de alcançar os homossexuais com o amor de Cristo e averdade do evangelho.Desejo e Engano 2prova.indd 106Desejo e Engano 2prova.indd 106 12/18/aaaa 16:03:5612/18/aaaa 16:03:56
  • 106. Capítulo Lésbicas Criando FilhosVocê já teve problema com isso?“Brian, um menino de oito anos, trouxe para casaum formulário escolar que o deixara frustrado:sua árvore familiar, contendo espaços vazios para os nomes damãe, do pai e dos avôs paternos e maternos. Os pais de Briansão um casal de lésbicas, seu pai é um doador de esperma des-conhecido. A sua mãe se esforçou para convencê-lo de que nadaestava errado em sua família – em vez disso, algo estava erradono formulário da escola.”Essa história foi contada por Peggy F. Drexler, uma psicólo-ga e conselheira da diretoria da San Francisco Day School. Foipublicada em 16 de junho de 2004 no San Francisco Chronicle eserviu para mostrar que a América está adotando “novos valoresfamiliares”. Em seu artigo, Drexler anunciou que “determinaraestudar uma nova classe de mães: casais de lésbicas que criam fi-lhos”.Comopesquisadora,Drexlerdecidiufocalizar-senessapo-pulação,elaborandoumasériedeperguntascríticas.Osmeninospoderiam sair-se bem numa família em que havia apenas mães?Comoessesmeninosdesenvolveriamumaidentidademasculinapositiva e senso moral num lar em que não havia pai?107Desejo e Engano 2prova.indd 107Desejo e Engano 2prova.indd 107 12/18/aaaa 16:03:5612/18/aaaa 16:03:56
  • 107. 108 DESEJO E ENGANODrexler publicou sua análise no periódico Gender andPsychoanalysis,argumentandoquefilhoscriadosemlaresdelés-bicas são “florescentes”. De acordo com Drexler, meninos cria-dos por casais lésbicos desenvolvem-se em “indivíduos corajo-sosevibrantes”,quesão“profundamenteconscientesdesuavidaemocional – incluindo a tristeza que resulta da discriminaçãocontra sua família”. Além disso, ao mesmo tempo em que essesmeninos revelam “todos os traços comuns de masculinidade”,também demonstram “abertura e tranqüilidade de sentimen-tos” usualmente associados a mulheres. O cenário promissor deDrexler, apresentado favoravelmente como uma pesquisa aca-dêmicaeartigodejornal,éumaevidênciadosesforçosporpartede grupos defensores dos homossexuais para a normalizaçãoda homossexualidade, do casamento homossexual e de famíliasdirigidasporhomossexuais.Muitosdosamericanostêmapenasum entendimento mínimo ou abstrato do que isso representa.Uma perspectiva decisivamente concreta se manifesta emLesbians Raising Sons [Lésbicas criando filhos], uma antologiaeditada por Jess Wells e publicada pela Alyson Books, de LosAngeles. O livro não é novo, mas pode ser encontrado em mui-tas das principais redes de livrarias e lojas locais americanas.Qualquer um que ainda tenha dúvida a respeito da escala de re-volução social com que agora nos deparamos deveria examinaresse livro; e tudo se explicará.Em sua introdução, Jess Wells explica que toda a questãode lésbicas que criam filhos se deve a uma circunstância sociale biológica. O esperma masculino, explica Jess, pesa menos doque o esperma feminino e, por isso, se move mais rapidamen-te. Assim, no processo de inseminação artificial, comuns entreas lésbicas, é muito mais provável que os espermas masculinosalçarão e fecundarão o óvulo, antes do esperma feminino. O re-Desejo e Engano 2prova.indd 108Desejo e Engano 2prova.indd 108 12/18/aaaa 16:03:5612/18/aaaa 16:03:56
  • 108. Lésbicas Criando Filhos 109sultado é que os casais lésbicos que passam por inseminaçãoartificialtêmpelomenos65%dechancedegerarummenino. Onúmero desproporcional de meninos nascidos de mães lésbicasé, pelo menos em parte, um insulto irônico a um fato biológicoimplacável.A biologia é uma coisa; o estilo da paternidade é outra. Asmães lésbicas, Wells se vangloria, estão criando uma nova gera-ção de homens que serão radicalmente diferentes dos meninoscriados no modelo tradicional de famílias “patriarcais”. Em vezde ensinarem os meninos a sublimarem suas emoções, para ex-pressarem-se em ira e agressão, as lésbicas os ensinam a “dan-çar, cantar, decorar, tocar música, costurar, fazer teatro e roupascriativas, bem como a jogar futebol e baseball, surfar, esquiar ejogar basquetebol”.Nopequenoâmbitodeseuensaio,Wellsapresentamãeslés-bicas que criam meninos como revolucionárias prontas a sub-verter a ordem social do modelo patriarcal. “A ala direita reageàsmãeslésbicascomvingançaporváriasrazões”,Wellslamenta.“Nós nos procriamos sem relação sexual; criamos filhos sem oshomens no lar; ensinamos os meninos a não oprimirem as mu-lheres,asentiremeaviveremlivresdasrestriçõesdegêneroedahomofobia.”LesbiansRaisingSonsinclui36capítulosadicionais,e todos eles lidam com as diferentes dimensões da criação demeninos por mães lésbicas. Em seu artigo, Peggy Drexler argu-mentouqueahabilidadedecresceremdireçãoàmasculinidadeé inata aos meninos e que, baseada em sua pesquisa, os meninosnão precisam do modelo de uma figura masculina no lar paraensinar-lhes como ser homem.TalvezelatenhalidoLesbiansRaisingSons.Seissoéverdade,Peggy Drexler se deparou com outra linha de argumentação eevidência. No primeiro capítulo desse livro, Sara Asch escreveuDesejo e Engano 2prova.indd 109Desejo e Engano 2prova.indd 109 12/18/aaaa 16:03:5712/18/aaaa 16:03:57
  • 109. 110 DESEJO E ENGANOa respeito de seu filho, “que aparentemente é uma menina e que,se ele tivesse idade suficiente para ler isto, ficaria furioso comi-go por usar o pronome masculino”. Ela continuou, explicandoque o menino usa 11 tranças decoradas com 88 contas. “Ondasesvoaçantes é o efeito que ele procura... Ele sabe como balançarsuacabeçacomcabelosondulados,prenderumamechaatrásdaorelha e sugar um fio que lhe alcança a boca”.Isso difere de “todos os traços característicos da masculini-dade”.RobinMorgan,escrevendosobresuaprópriaexperiênciacomo mãe de um menino, recordou que as primeiras históriasde dormir de seu filho retratavam mulheres e homens fortes,heróicos e “gentis”. De acordo com Morgan, ela e sua parceiracriaram as próprias histórias, “porque não se achava disponí-vel quase nenhum livro anti-sexista para crianças”. Ela tambémrelatou que seu filho raramente era disciplinado ou punido dealguma maneira. “Em vez disso, conversamos a respeito do as-sunto”, ela disse. Também contou que seu filho, agora crescido,afirma: “Eu sempre anelei ser proibido de alguma coisa ou pu-nido por alguma coisa, como as outras crianças”.Morgan e sua parceira também se empenharam por criarum ambiente feminista em que seu filho seria educado. “Tenta-mos oferecer alternativas às ‘normas’ patriarcais... Oferecemosao nosso filho e com ele brincamos de bonecas e servir chá, bemcomo com caminhões de bombeiros e tratores.”Uma visão ainda mais extrema a respeito de mães lésbicas eseus filhos foi relatada por Ruth Robson, enquanto explicava areação de lésbicas separatistas ao nascimento do seu filho. Ha-vendosidoelasmesmasseparatistas,ficaramperplexasarespei-to de como lidariam com o bebê menino. “O que duas lésbicasfarão com este pequenino emissário do patriarcado que invadiunossavida?”RobsondefinelésbicasseparatistascomoumestiloDesejo e Engano 2prova.indd 110Desejo e Engano 2prova.indd 110 12/18/aaaa 16:03:5712/18/aaaa 16:03:57
  • 110. Lésbicas Criando Filhos 111de vida em que as lésbicas “devotam suas energias, tanto quantopossível, exclusivamente a outras lésbicas ou, em alguns casos,a outras mulheres”. É claro que o nascimento de um meninoarruína esse quadro constituído apenas de mulheres.Quando Colby, o filho de Ruth Robson, nasceu, ela temeuque sua parceira a deixaria. “Pensava em todos os concertos dosquais seríamos excluídas, em todas as conferências radicais emque não seríamos aceitas, em todos os distritos de mulheres nosquais nunca poderíamos viver.”O que aconteceu? Robson conta que suas amigas as aban-donaram. “Inez disse que não poderia mais vir às reuniões emnossa casa, porque nossos cômodos transpiravam masculini-dade”. Raquel, outra amiga, “nos disse que não podia acreditarque não havíamos entregado o menino” para adoção. Outraamiga lésbica apareceu para fazer discursos “sobre a dissipa-ção da força das lésbicas, a ética das lésbicas separatistas, asobrigações das lésbicas quanto ao futuro, a inviolabilidade dogênero feminino”. Finalmente, outra lésbica, cujos avanços se-xuais Robson rejeitava, “se levantou no encontro de danças econfraternização de lésbicas em Coconut Grove e propôs umaregra que impediria, de qualquer maneira, todas as lésbicasdaquele grupo de participarem de famílias energizadas porhomens”.Em seu próprio capítulo, Jess Wells insistiu que fizera tudoque pudera para não dar à luz um filho. “Como isso aconteceu?Paguei para que tivesse a seleção do sexo do esperma. Fizeramos espermas nadarem por horas, e os mais rápidos deles – os‘machos’ — foram lançados fora. Eu planejara ter uma meni-na”, Wells recordou. “Era essencial que eu tivesse uma menina.”Quando lhe disseram que tinha um menino em seu ventre, ela“ficou profundamente desapontada”. Oponente fervorosa “doDesejo e Engano 2prova.indd 111Desejo e Engano 2prova.indd 111 12/18/aaaa 16:03:5712/18/aaaa 16:03:57
  • 111. 112 DESEJO E ENGANOprivilégio do homem, do patriarcalismo e da cultura masculi-na”, Wells não pensava de maneira alguma em criar um meni-no. Eventualmente, ela aceitou o fato de que sua criança era ummenino e decidiu que isso seria uma experiência positiva. “Meufilho não pode tirar-me da luta pelo direito das mulheres, nemme forçar a ter interesse por qualquer coisa que eu não julgueinteressante.Elenãopodesermeuopressor,porqueémeufilho,e não pode ser uma segunda chance de aliviar minha vida, por-que tem a sua própria vida. Ele e eu exploraremos a cultura umdo outro, compartilhando o que pudermos e respeitando o quenão pudermos... Ambos, respeitando a soberania um do outro,poderemos nos regozijar em nossa diferença e celebrar nossadiversidade.”Os profetas do politicamente correto agora nos dizem que adiversidade é a ordem do dia e que “diversas formas de família”têm de ser saudadas com entusiasmo. Aqueles que insistem queo casamento é a união de um homem com uma mulher e quea paternidade deve fluir dessa união são rejeitados como into-lerantes e extremistas de mentalidade fechada. Em face dessaintimidação, uma olhada rápida em Lesbians Raising Sons deveser suficiente para ajudar a maioria dos americanos a saberemquem são os verdadeiros extremistas.Desejo e Engano 2prova.indd 112Desejo e Engano 2prova.indd 112 12/18/aaaa 16:03:5712/18/aaaa 16:03:57
  • 112. Capítulo A Era da PerversidadePolimorfaUma revolução fomentada por idéiasAs questões sexuais que agora nos confrontam – desdeo colapso da família até ao casamento de pessoas domesmosexo–são,naverdade,peçasdeumquebra-cabeçamaior.Afimdeentendermosoqueestáacontecendo,temosdeconside-raratentamentetodooquadro,todaatrajetóriadacivilizaçãooci-dental durante o século passado. O que vemos não são questõesisoladaseindividuais,esimumagrandetransformaçãosocialquenão aconteceu por acidente e não se desfará por si mesma.No início dos anos 1930, o apreciado historiador Christo-pher Dawson escreveu: “A civilização ocidental está passando,nopresente,porumacriseque,emessência,édiferentedequal-quer outra que experimentou antes. Outras sociedades muda-ram, no passado, suas instituições sociais ou suas crenças reli-giosas sob a influência de forças externas ou de um vagarosodesenvolvimentointerno.Masnenhumadelasjamaisenfrentouconscientemente, à semelhança de nossa civilização, a perspec-tiva de uma mudança fundamental das crenças e instituiçõessobre as quais repousam a própria estrutura da vida social”.2020 Christopher Dawson, Enquiries into religion and culture (New York: Sheed& Ward, 1933).113Desejo e Engano 2prova.indd 113Desejo e Engano 2prova.indd 113 12/18/aaaa 16:03:5712/18/aaaa 16:03:57
  • 113. 114 DESEJO E ENGANOCom base na perspectiva de 1930, Dawson olhou para fren-te, contemplando o restante do século, e entendeu o que estavaacontecendo. Ele foi um profeta.ParaentendermosamudançaqueDawsonpreviue,finalmen-te,aconteceu,énecessárioqueretornemosa1909,quandoSigmundFreudtornoupúblicoseuentendimentosobreasexualidadehuma-na. Tentando compreender algo tão poderoso como o sexo, Freudse voltou ao que chamou de estágio “infantil” do desenvolvimentohumano,identificandoaprincipalcaracterísticadasexualidadein-fantil como perversidade polimorfa. Freud explicou: o que torna oestágio infantil caracteristicamente distinto dos outros estágios davidahumanaéofatodequeacriançaé“polimorfamenteperversa”;eissosignificaqueacriançaestáprontaparademonstrarqualquertipodecomportamentosexualsemqualquerrestrição”.21Emseguida,eleexplicoucomoa“civilização”emergesomentedepoisqueessaperversidadeinataepolimorfaéreprimidaporre-pressão psicológica, ordem social e tradição. Freud achou que essarestrição era inevitável, pois a procriação é necessária para a con-tinuação da raça, e o casamento heterossexual era absolutamenteessencial à própria civilização. Ainda que rejeitemos a teoria deFreud, é importante que entendamos sua influência. Sem dúvida,FreudéumdoscavaleirosideológicosdoapocalipsedoséculoXX.Noentanto,atéelefoisuperadopelosquelhesucederam.Na segunda metade do século XX, Herbert Marcuse recon-siderouFreudemseulivroEros and Civilization[Eroseciviliza-ção], mesclando suas teorias com as de Marx, para desenvolveruma teoria de sexualidade como libertação.22Todo o problema,21 Sigmund Freud, “Three contributions to the theory of sex”, in A. A. Brill(ed.), The basic writings of Sigmund Freud (New York: Modern Library, 1995).22 Herbert Marcuse, Eros and civilization: a philosophical inquiry into Freud(Boston: Beacon, 1955).Desejo e Engano 2prova.indd 114Desejo e Engano 2prova.indd 114 12/18/aaaa 16:03:5812/18/aaaa 16:03:58
  • 114. A Era da Perversidade Polimorfa 115Marcuse raciocinou, era a própria restrição que Freud acredi-tava ser inevitável e necessária, a repressão que ele imaginavaconduzir à própria civilização. De acordo com Marcuse, a únicamaneira de alcançar a libertação era desfazer a repressão, rever-ter a restrição e, assim, desencadear na sociedade aquele estágioinfantil de sexualidade pura – de perversidade polimorfa.Na década de 60 Eros and Civilization recebeu muita atençãonas universidades, onde tais idéias sempre encontraram uma au-diência bastante entusiasta. Contudo, o restante da cultura per-maneceu inconsciente e imperturbada ao ataque que começaraa acontecer contra os próprios alicerces da civilização. Agora setornou evidente que a ideologia da perversidade polimorfa estáganhando terreno gradualmente – se não, rapidamente. Leia osjornais e observe os acontecimentos típicos de uma semana. Atéalgo tão básico como a natureza heterossexual do casamento estásob ataque. A própria idéia de normalidade ou de instituiçõespermanentes está sendo subvertida pela cultura e marginalizadapelas elites culturais. O que enfrentamos agora é a subversão dascategorizações e das instituições mais elementares da humanida-de – gênero, família e casamento. Aos olhos de muitos de nossacultura,ogêneroéapenasumconceitosocialmaleável.Defato,nomundo pós-moderno, todas as realidades são maleáveis, e todososprincípios,instáveis.Tudopodesermudado.Nadaéfixo.Todaverdade é relativa, toda verdade é construída pela sociedade, etudo que é construído pode ser desconstruído, a fim de libertar.Dizem-nos agora que até o gênero deve ser visto como umcontinuum. Isso significa que os seres humanos não são maiscategorizados como macho e fêmea, e sim como qualquer dasopções de gênero escolhidas. Além disso, o gênero é flexível,pelo menos de acordo com os profetas da libertação pós-mo-dernos. Você pode sempre mudar seu gênero, se não gostar doDesejo e Engano 2prova.indd 115Desejo e Engano 2prova.indd 115 12/18/aaaa 16:03:5812/18/aaaa 16:03:58
  • 115. 116 DESEJO E ENGANOgêneroquelhefoidadopornascimento.Sugestivamente,algunscirurgiõesestãoagorarevertendoascirurgiasdetransformaçãodegêneroquehaviamrealizadoantes.Tudoissorepresentaumanegação do gênero como parte da bondade de Deus na criação.De acordo com o relato bíblico da criação, os seres humanos fo-ram feitos como macho e fêmea, e essas categorias estabelecema própria base da ordem humana. Isso é agora rejeitado comoinerentemente opressivo e intolerante.Duranteanos,aselitesideológicastêmacreditadoqueocasa-mento é repressivo e inibidor. O casamento, dizem eles, é apenaso produto da evolução social, uma instituição que se desenvol-veu porque a civilização necessitava de uma maneira de protegeros filhos e estimular a sua criação. Mas, na realidade, aquilo queevoluiu pode sempre evoluir, e o próximo passo, eles nos dizem,émover-separaalémdocasamento.Esseeraoalvodaselitescul-turais na segunda metade do século XX, e temos de admitir queeles fizeram grande progresso na realização de seu objetivo.Se alguma instituição humana foi bastante subvertida no sé-culo XX, essa instituição foi, sem dúvida, o casamento. Atacadopelodivórcio,estilodevida,meiosdecomunicação,políticaecos-tumes, o casamento foi minado em sua própria essência. É claroqueoataquetambémprejudicouseveramenteafamília.Aprópriaidéia de família como uma unidade fixa – um marido, uma mu-lher, os filhos e as famílias destes – agora é considerada uma insti-tuição arcaica, antiquada e intolerante, um instituição que tem deser superada, para que a humanidade seja libertada da opressão.Revoluçõessãofomentadasporidéias.Asubversãoculturalrepresentada pela era da perversidade polimorfa tem se fun-damentado primariamente nas idéias de três pessoas: MargaretMead, Alfred Kinsey e Michel Foucault. Para entendermos aforça e a velocidade com as quais a filosofia da perversidade po-Desejo e Engano 2prova.indd 116Desejo e Engano 2prova.indd 116 12/18/aaaa 16:03:5812/18/aaaa 16:03:58
  • 116. A Era da Perversidade Polimorfa 117limorfa tem impactado e mudado a cultura, temos de entender,antes de tudo, as idéias que a sustentam.Margaret Mead é considerada uma das fundadoras da antro-pologia na América. Depois de uma visita para pesquisa às ilhasdo Pacífico, Mead escreveu em 1928 um livro intitulado ComingofAgeinSamoa[AtingindoamaioridadeemSamoa].Olivro,queimpulsionouacarreiradeMeadcomoantropóloga,argumentavaque a adolescência em Samoa – diferentemente da adolescênciaocidental – era um tempo de transição fácil da infância para amaioridade,porqueossamoanostendiamadesfrutardesexoca-sualduranteváriosanos,antesdeseestabeleceremnocasamento.DeacordocomMead,ofatormaisimportanteéqueapromiscui-dadeésaudável.Noentanto,ahistóriatemprovadoqueMeaderauma fraude. Todo o seu projeto se baseava em falsidade e infor-maçãoerrada.CincoanosapósamortedeMead,em1978,DerekFreemanpublicouumlivrointituladoMargaretMeadandSamoa:TheMakingandUnmakingofanAnthropologicalMyth[MargaretMead e Samoa: criando e desfazendo um mito antropológico).Nesse livro, Freeman desafiou e refutou todas as principais afir-mações de Mead. Retornando a Samoa para entrevistar as mu-lheres remanescentes da pesquisa de Mead, Freeman descobriuqueasjovensqueconversaramcomMeadtinhammentidosobrea sua promiscuidade. Apesar disso, o livro de Mead teve enormeinfluência na cultura e na atitude americana para com o sexo e ocasamento, por mais de cinqüenta anos.Outro agente intelectual da perversidade polimorfa foi Al-fred Kinsey. Falando francamente, Kinsey foi um dos perverti-dos sexuais mais influentes do século XX. De fato, ele permane-ce como um símbolo de tudo que era errado naquele período.Seu livro Sexual Behavior in the Human Male [Comportamentosexual do macho humano], publicado em 1948, inspirou umaDesejo e Engano 2prova.indd 117Desejo e Engano 2prova.indd 117 12/18/aaaa 16:03:5812/18/aaaa 16:03:58
  • 117. 118 DESEJO E ENGANOrevolução ao oferecer um pretexto pseudo-científico àquelesqueestavampromovendoaeradaperversidadepolimorfa.Kin-sey apenas levou adiante a conclusão de Margaret Mead. Se elaensinou que a promiscuidade é saudável, Kinsey argumentouque a perversidade é saudável. A perversão sexual tem de sercelebrada.Finalmente,consideremosMichaelFoucault.Provavelmen-te,omenosconhecidodotrio,Foucaultexerceuinfluênciaproe-minente na erudição americana. Ele era um filósofo francês quemorreu depois de ser infectado por AIDS nos bares gays de SanFrancisco, na Califórnia. Foucault, uma das figuras preponde-rantesdopensamentopós-moderno,ensinouqueosexoétudo,e a única maneira de ser livre é sexualizar todas as dimensões davida em direção da perversidade polimorfa. Em essência, Fou-cault argumentava que a sexualidade é em si mesma uma in-venção moderna e que uma das ambições centrais da sociedademodernaerainstitucionalizararepressãosexual.Emboratenhamorrido em 1984, Foucault ainda é inquestionavelmente umadas pessoas mais influentes nas universidades da América.Fomentada pelas idéias de Margaret Mead, Alfred Kinsey eMichael Foucault, a era de perversidade polimorfa paira sobrenós. A subversão do casamento e da família tem se estendidoà lei e à moralidade, à autoridade e aos costumes. Os próprioshábitos da vida humana – os costumes e as tradições em que acivilização se fundamenta – estão sendo agora revertidos, mar-ginalizados e descartados, em um esforço de eliminar todas asnormas por meio de tornar comum aquilo que é anormal. Paraaqueles cuja agenda é destruir a moralidade judaico-cristã edesconectar a civilização ocidental das normas bíblicas, não háestratégia melhor do que subverter o casamento, a família e asexualidade, desencadeando na sociedade uma era e cultura deperversidade polimorfa.Desejo e Engano 2prova.indd 118Desejo e Engano 2prova.indd 118 12/18/aaaa 16:03:5812/18/aaaa 16:03:58
  • 118. Capítulo A Era da PerversidadePolimorfaSete estratégias para a revoluçãoAestupenda transformação social que está aconte-cendo agora na América – o desprezo pela tradi-ção, a destruição das instituições ordenadas, a normalizaçãodo anormal; em resumo, o estabelecimento de uma nova era ecultura de perversidade polimorfa – não tem acontecido poracidente. É o resultado de uma estratégia abrangente cuja in-tenção é mudar a maneira como as pessoas pensam em cadaaspecto imaginável.Em primeiro lugar, há uma estratégia psicológica. Vivemosnuma era terapêutica em que cada momento deve ser apresen-tado dentro de uma estrutura psicológica. A estratégia daquelesque promovem a agenda da perversidade polimorfa tem sido ade definir a sexualidade como um assunto de orientação auto-consciente. Quando mudamos a questão do que os indivíduosfazemparaoqueelessãoemtermosdeconceitospsicológicos,aequação moral é transformada completamente. A idéia de que aautonomia pessoal é o próprio cerne do que significa ser huma-no está agora onipresente na cultura terapêutica. Assim, a auto-nomia, a auto-estima e auto-realização se tornam as realidadesmais importantes. Qualquer coisa que reprime a demonstração119Desejo e Engano 2prova.indd 119Desejo e Engano 2prova.indd 119 12/18/aaaa 16:03:5912/18/aaaa 16:03:59
  • 119. 120 DESEJO E ENGANOdesinibida dos anseios interiores é considerada prejudicial e re-pressiva, devendo, portanto, ser ilegal e imoral, marginalizadae erradicada.Emsegundo,háumaestratégiamédica.Qualquercoisaquepode ser “psicologizada” também pode ser “medicalizada”. Em1973, a Associação Americana de Psiquiatria (APA) decidiuremover a homossexualidade do Manual Diagnóstico e Estatís-tico de Desordens Mentais, a lista oficial de doenças desta orga-nização. Em outras palavras, num dia a homossexualidade eraconsiderada uma desordem mental; no dia seguinte, não eramais. Mas, evidentemente, isso é medicina baseada em ideolo-gia, e não em ciência. A decisão tomada pela Associação Ame-ricana de Psiquiatria para normalizar a homossexualidade nãosurgiu como resultado de estudos científicos inquestionáveis,nem porque alguém, em um laboratório, descobriu de repen-te que a homossexualidade era algo normal. Pelo contrário, adecisão ocorreu porque grupos de interesse especial forçarama mudança, e os médicos se renderam.Não subestime a importância dessa decisão. O que aconte-ceu não foi apenas que a homossexualidade era num momentoconsiderada abominável e, no momento seguinte, algo normal.O que ocorreu foi isto: crer que a homossexualidade era abomi-nável e errada era algo normal e aceitável em um momento, masno momento seguinte se tornou um sintoma de enfermidade eintolerância mental. Isso foi uma revolução moral completa epassou despercebida para muitos americanos. Agora, nos de-paramos com um conceito de “normal” que foi imposto pelasautoridades médicas e produziu grande reversão em nossa ma-neiradepensarsobreamoralidade.Acrençadequeaheterosse-xualidade é normativa, outrora um sinal de pensamento moralsaudável e firme, agora é vista como prejudicial e repressiva. PorDesejo e Engano 2prova.indd 120Desejo e Engano 2prova.indd 120 12/18/aaaa 16:03:5912/18/aaaa 16:03:59
  • 120. A Era da Perversidade Polimorfa 121outro lado, a homossexualidade, antes considerada insalubre eerrada, agora é aceita como um “estilo de vida alternativo” per-feitamente legítimo.Não há somente uma estratégia psicológica e uma estra-tégia médica, há também uma estratégia política. O século XXviu o desenvolvimento de políticas de interesses especiais, nasquais cada grupo que tinha uma agenda especial formou umaorganização, contratou lobistas e entrou com gosto no processopolítico. Protesto era o primeiro passo, e a ação política, a suaconseqüência.Quando pensamos sobre essa estratégia política, temos defazer uma pergunta interessante: qual tem sido o seu grau desucesso? Admiravelmente, de todas as estratégias que discu-tiremos, a estratégia política tem sido a menos eficiente, tantopara o movimento homossexual como para a era da perver-sidade polimorfa. Por quê? Porque os americanos não estãoaceitando isso. Os americanos são freqüentemente apáticosquanto às mudanças fundamentais que ocorrem, mas, quandose deparam com uma escolha na urna de votação, tendem adecidir pela normalização do normal, e não do anormal. Pensenas várias emendas constitucionais diferentes aprovadas pordiversos estados nas últimas e poucas consultas, identifican-do o casamento como a união de um homem e uma mulher.A reação instintiva dos americanos em normalizar o normalexplica por que os proponentes da perversidade polimorfa têmse frustrado no âmbito político.É claro que, diante do fracasso da estratégia política emproduzir o resultado satisfatório, a perversidade polimorfa temconfiado amplamente na estratégia legal. Isso se tornou possíveldevido à usurpação judicial da política. Como afirmou profeti-camente o ex-juiz Robert Bork, agora nos deparamos com umaDesejo e Engano 2prova.indd 121Desejo e Engano 2prova.indd 121 12/18/aaaa 16:03:5912/18/aaaa 16:03:59
  • 121. 122 DESEJO E ENGANOtirania de juízes que têm uma ideologia de ativismo judicial,que tratam a lei como um parque de diversões para inovaçãosocial, revolução social e subversão ideológica. A observaçãoda professora Mary Ann Glendon, da faculdade de direito deHarvard, sobre a ascendência do “discurso sobre direitos” tam-béméinstrutiva.Tudodizrespeitoadireitos.Certoeerradonãotêmmaisqualquersignificadocomocategoriasdalei.Deacordocom a teoria legal agora ensinada nas faculdades de direito, nãohá certo e errado, há somente direitos que competem entre si. E,evidentemente, muitos desses direitos são inventados, suposta-mente descobertos nas “penumbras e emanações” da Constitui-ção dos Estados Unidos.A estratégia legal tem sido extremamente eficaz. Desde adecisão Roe vs. Wade, em 1973, até à decisão Lawrence vs. Texas,em 2003, a Suprema Corte tem sido um cúmplice espontâneoda esquerda em produzir revolução social e moral. Em sua sar-cástica discordância da opinião da maioria na decisão Lawrencevs. Texas, o juiz Antonin Scalia disse que a decisão significavanada menos do que o fim de toda a legislação moral nos EstadosUnidos. Devido aos argumentos específicos que o juiz AnthonyKennedy expressou na opinião da maioria, nenhuma legislaçãobaseada em moralidade jamais seria julgada novamente comoconstitucional.Emoutradecisão,em2003,aSupremaCortedosEstados Unidos baniu a moralidade da pauta da vida públicaamericana.Além das estratégias psicológicas, médicas, políticas e le-gais, há também a estratégia educacional, direcionada às escolase aos jovens. Nesta estratégia, o alvo é alcançar os jovens e, emúltima análise, separá-los de seus pais, libertando-os da autori-dade e do ensino paternos. No início do século XX, John Deweyfoi o primeiro a argumentar que a sociedade deveria agir de ma-Desejo e Engano 2prova.indd 122Desejo e Engano 2prova.indd 122 12/18/aaaa 16:03:5912/18/aaaa 16:03:59
  • 122. A Era da Perversidade Polimorfa 123neira decisiva para livrar os filhos dos preconceitos repressivosde seus pais. A filosofia de Dewey foi amplamente aceita; e esta éa situação em que agora estamos. As escolas de ensino elemen-tar se tornaram, em essência, laboratórios de engenharia social.De fato, grupos como o Gay, Lesbian and Straight EducationNetwork têm se mobilizado para influenciar o currículo das es-colas, visando mudar as mentes jovens. Ao introduzirem seusprogramas, literatura e meios de comunicação nas salas de aulade escolas do primeiro ciclo do ensino fundamental, eles espe-ram e tencionam infectar as novas gerações com a ideologia daperversidade polimorfa.Observe as figuras que agora aparecem nos livros dessas es-colas.Vejaquemestádemãosdadas.Vejaquemestáseabraçan-do. A família normal – mãe, pai, irmão e irmã – não é mais a fi-guracomum.Seosagentesdaperversidadepolimorfativeremoseu lugar, os filhos serão criados por duas mães, ou dois pais, ouqualqueroutradefiniçãoconcebívelde“família”.Oimportanteéqueascriançassejamlivresdanoçãoerrônea–produzidaspelospreconceitos insensatos de seus pais – de que o casamento e afamília são, normativamente, heterossexuais.Essa estratégia é acelerada nas escolas do segundo ciclo doensinofundamentaledoensinomédio.Nestecaso,ainduçãoide-ológica é radicalmente aumentada com mecanismos tais como aeducação sexual abrangente. Abrangente, é claro, não se refere aumprofundoentendimentodanaturezadasexualidadehumana.Tampouco se refere a uma profunda compreensão dos assuntosmoraisqueestãoemjogo.Aeducaçãosexualéabrangenteapenasno sentido de que nada é considerado fora dos limites, incluindotécnicas sexuais e conselhos contraceptivos. Moralmente, tudo éaceitável – contanto que traga satisfação pessoal.Desejo e Engano 2prova.indd 123Desejo e Engano 2prova.indd 123 12/18/aaaa 16:03:5912/18/aaaa 16:03:59
  • 123. 124 DESEJO E ENGANOClínicas estabelecidas nas escolas são outra ferramenta daera da perversidade polimorfa. Novamente, os filhos são sepa-radosdaautoridadeedoensinodospaiselevadosaconsultóriosem que lhes são oferecidas todos os tipos de “assistência” – des-de aconselhamento sexual até contraceptivos. Isso acontece fre-qüentemente sem conhecimento dos pais e, ainda, sem o con-sentimento ou a notificação deles. Outros programas especiaissão dirigidos aos estudantes do segundo ciclo do ensino funda-mentaledoensinomédio,deummodoquemuitospaisnãotêmqualquer idéia do que seus filhos estão aprendendo. Raramente,esses eventos têm a palavra sexo, e somente por engano é quesão apresentados de uma maneira que desperta a preocupaçãodospais.Emvezdisso,sãoanunciadoscomo“semanasdeênfaseespecial” focalizadas na diversidade, tolerância e diferença.Até os livros refletem essas mudanças. Os agentes da per-versidadepolimorfatêmfeitodocurrículodaescolapúblicaumalvo de interesse da sua estratégia, e está se tornando comumos adolescentes e os mais novos lerem livros classificados como“literatura para jovens adultos”. Muitos desses livros são porno-gráficos. São instrumentos evangelísticos da era da perversida-de polimorfa e acharam seu lugar até nas prateleiras de muitasbibliotecas escolares.O nível universitário, por sua vez, é agora uma arena de re-volução sexual. Considerando isso, o autor Paul Berman dissecertavez:“Agoraéproibidoproibir”.Masarevoluçãonãoocorrede baixo para cima. É também pressionada de cima para baixo;e números crescentes de faculdades e universidades oferecemprogramadeestudossobregayselésbicas.Tudoissoéummeca-nismoideológicoquevisacolocarnaestruturadauniversidade,no corpo docente e no currículo uma semente de revolução se-xual que, eventualmente, normatizará o anormal, e vice-versa.Desejo e Engano 2prova.indd 124Desejo e Engano 2prova.indd 124 12/18/aaaa 16:03:5912/18/aaaa 16:03:59
  • 124. A Era da Perversidade Polimorfa 125Além disso, quem não concorda “com isso” é não somente débile digno de compaixão, mas também um perigo para o corpopolítico – é retrógrado, ignorante, repressivo.Isso tem levado algumas entidades universitárias a esta-belecerem como alvo específico as organizações cristãs. Emlugares como a Tufts University, a University of North Caro-lina, em Chapel Hill, e algumas instituições da Ivy League,houve casos em que organizações cristãs foram notificadasde que tinham de permitir que homossexuais praticantesfossem diretores em suas organizações, pois, do contrário,seriam banidas do campus e perderiam o reconhecimentocomo um grupo oficial de estudantes. Em outras palavras,uma organização cristã permaneceria no campus somente seabandonasse a moralidade cristã, fazendo isso em nome dadiversidade e da tolerância.Há também uma estratégia cultural focalizada nos centrosda elite cultural americana. A indústria dos meios de comuni-cação e a indústria de entretenimento, música e propaganda setornaram essencialmente o serviço de disseminação para a erade perversidade polimorfa. Muitos cristãos ficariam chocadosse vissem como algumas empresas que manipulam sua imagemde integridade fazem seus anúncios à comunidade homossexu-al. Muitas dessas empresas são corporações que conhecemosbem, e cujos produtos compramos, mas apresentam uma facecompletamente diversa quando se dirigem à cultura de perver-sidade polimorfa.NãoéexageroobservarqueHollywood,comrarasexceções,está se rendendo a essa cultura. De fato, os filmes de Hollywoodse tornaram o principal meio pelo qual a cultura de perversida-depolimorfaéapresentadacomoumatendênciapredominante.Embora pareça, com base nos mapas eleitorais, que essa culturaDesejo e Engano 2prova.indd 125Desejo e Engano 2prova.indd 125 12/18/aaaa 16:04:0012/18/aaaa 16:04:00
  • 125. 126 DESEJO E ENGANOestá confinada às costas leste e oeste e a alguns centros urbanos,a realidade é que esta filosofia de liberação alcança cada comu-nidade e cada lar, por meio do entretenimento, da música, dosfilmes e das propagandas.Finalmente,háaestratégiateológica.Oúnicograndeobstá-culo à vitória da cultura de perversidade polimorfa é a herançajudaico-cristã. O maior obstáculo à normalização da homos-sexualidade é a Bíblia. Portanto, os revolucionários culturaistêm implementado uma estratégia para transformar comple-tamente o entendimento da sexualidade legado nas Escriturase compreendido pela igreja cristã através dos séculos. Dessasubversão da teologia emergiu duas tradições rivais, duas re-ligiões, cada uma delas reivindicando ser cristã. Um desses“cristianismos” não está mais fundamentado na autoridadebíblica; não está mais comprometido com as grandes doutri-nas da fé nem com a fé que uma vez por todas foi entregue aossantos. Contudo, ele continua a receber o nome de “cristão” ea afirmar que seus adeptos não abandonaram a autoridade dasEscrituras.O pecado de Sodoma e Gomorra, eles dizem, não era a ho-mossexualidade, e sim inospitalidade. Isso, porém, é um argu-mento negligentemente subversivo. Ignora o significado evi-dente da história em favor do avanço de uma causa. E o quedizem eles sobre as passagens de Levítico que condenam os atoshomossexuais? O que essas passagens sugerem, de acordo comos revolucionários culturais, é que os atos homossexuais são pe-caminosos apenas quando são cometidos especificamente porpessoas heterossexuais. O mesmo argumento é apresentado so-bre o ensino de Paulo em Romanos 1. Paulo não tinha qualquerentendimento de nossa idéia moderna de orientação sexual,prossegue o argumento deles. No entanto, os ensinos de Pau-Desejo e Engano 2prova.indd 126Desejo e Engano 2prova.indd 126 12/18/aaaa 16:04:0012/18/aaaa 16:04:00
  • 126. A Era da Perversidade Polimorfa 127lo ainda são proveitosos porque nos recordam que uma pessoadeveseguirasuaprópriaorientaçãosexual:violartalorientaçãoseria pecado contra a natureza – não a natureza em si mesmo,mas a natureza da própria pessoa.Contudo, parece claro de Romanos 1 que o apóstolo Pau-lo tinha uma idéia bem exata de orientação sexual. De fato,Paulo acusa com bastante clareza a orientação sexual, poisele lidou não somente com a atividade sexual, mas tambémcom as paixões que levam a essa atividade. “Os homens”, dissePaulo, “deixando o contato natural da mulher, se inflamarammutuamente em sua sensualidade, cometendo torpeza, ho-mens com homens” (Rm 1.27). A Bíblia não deixa margempara equívocos.Como argumentou a falecida Elizabeth Achtemeier, doUnion Theological Seminary, se há algo revelado com clarezanas Escrituras, é a absoluta condenação da homossexualida-de em todas as formas e contextos. Não há espaço para nego-ciação. Se a homossexualidade tem de ser harmonizada como ensino bíblico, isso ocorrerá somente por meio da subver-são de toda a autoridade da Escritura e pelo estabelecimentode uma versão rival do cristianismo.Em todas estas áreas – psicológica, médica, política, le-gal, educacional, cultural e teológica – a era da perversidadepolimorfa tem feito grandes esforços para entrincheirar-sena mente ocidental. A grande questão é se nossa civilizaçãopode sobreviver ao ataque. Na verdade, a resposta é não – amenos que haja uma recuperação rápida da cosmovisão bí-blica.Desejo e Engano 2prova.indd 127Desejo e Engano 2prova.indd 127 12/18/aaaa 16:04:0012/18/aaaa 16:04:00
  • 127. Desejo e Engano 2prova.indd 128Desejo e Engano 2prova.indd 128 12/18/aaaa 16:04:0012/18/aaaa 16:04:00
  • 128. Capítulo A Era da PerversidadePolimorfaA civilização sobreviverá?Orelativismo moral é a principal característica de nossaépoca e requer a pergunta: a civilização sobreviverá?De modo bem simples, a resposta é não. A civilização não podesobreviver ao triunfo da era da perversidade polimorfa, porquea idéia de sexo polimorfo é terrivelmente incompatível com aprópria noção de civilização. A civilização se baseia em ordem,respeito, habito, costume e instituição – e tudo isso é rejeitadodiretamente pela era de perversidade polimorfa.Considerando a história da civilização ocidental, Williame Ariel Durant argumentaram que um das principais realiza-ções necessárias ao estabelecimento de civilizações é a restri-ção da sexualidade. Em suas palavras, a sexualidade é comoum rio quente que precisa ter barrancos de ambos os lados.Infelizmente, o que temos visto é a remoção dos barrancosdesse rio.23Pitirim A. Sorokin, fundador do departamento de sociologiadaUniversidadedeHarvard,asseverouqueocasamentoheteros-23 William and Ariel Durant, The lessons of history (New York: Simon andSchuster, 1968), 35.129Desejo e Engano 2prova.indd 129Desejo e Engano 2prova.indd 129 12/18/aaaa 16:04:0012/18/aaaa 16:04:00
  • 129. 130 DESEJO E ENGANOsexual é o alicerce da civilização. Você não pode criar ou manteruma civilização sem o casamento heterossexual e sem que esteseja entendido como a norma. A menos que o casamento he-terossexual seja protegido por leis, costumes e hábitos, e sejamexcluídas quaisquer outras formas de união, a civilização é im-possível. Sorokin formulou este argumento há mais de cinqüentaanos. Mesmo tão distante de nós, ele viu o surgimento desta erade perversidade, afirmando que esta era de rebelião destruiria acivilização. Contudo, ele também mantinha a esperança de que acivilizaçãodespertariaquandooproblemafinalmenteseresumirna preservação do casamento. Sorokin estava correto?Esta é a grande questão de nossos dias – a civilização acor-dará ou não quando o casamento for visto claramente como oprincipal campo de batalha e o primeiro alvo de ataque? Hoje,enfrentamos uma crise cultural que ameaça reverter a civiliza-ção e adotar o barbarismo. A civilização sobreviverá nestas cir-cunstâncias? Eu diria que não. Na história da humanidade, nãohá nenhum exemplo de uma civilização que permaneceu pormuito tempo, quando se desencadeou uma era de perversidadepolimorfa.Podemosnosrestaurardisso?Certamente,temosdeesperare orar por isso; mas qualquer restauração terá de ser fundamen-tada em adotarmos de novo a verdade bíblica. Não acharemosrecursos sociológicos suficientes para reverter as tendênciasprevalecentes. Não acharemos convicção jurídica suficientepara resistir a todos os ataques dos revolucionários culturais.Tambémnãoacharemosforçapolíticasuficienteparacessarestemovimento. Em última análise, só há uma coisa que se mantémfirmeentreestaculturaeacompletadevassidão–ofatodequeosexo não é uma invenção nossa. Os seres humanos são criaturasfeitasporumCriadorsoberano,quenosfezmachoefêmeaparaDesejo e Engano 2prova.indd 130Desejo e Engano 2prova.indd 130 12/18/aaaa 16:04:0012/18/aaaa 16:04:00
  • 130. A Era da Perversidade Polimorfa 131sua glória, criou e instituiu o casamento tanto para o nosso bemcomo para a nossa felicidade.Como disse J. R. R. Tokien, certa vez, ao seu filho Michael:“Você tem de lembrar, filho, que a monogamia é uma ética re-velada”. Ninguém descobre inesperadamente a monogamia, as-simcomoestaculturanãoacharáacidentalmentearestauração.Ela terá de submeter-se à restauração. Esta cultura necessita deuma restauração bíblica, espiritual e teológica, que considera ogênero não um tipo de acidente evolucionário, e sim um domde Deus, uma parte da própria bondade da criação realizadapor Deus.Vemos a glória de Deus na masculinidade do homem e nafeminilidade da mulher. Entendemos o gênero como uma cate-gorização fixa, e não uma aberração acidental no processo evo-lucionário da humanidade. Por isso, temos de lembrar a culturaque o casamento não é apenas um contrato social entre duas(ou mais) pessoas, e sim um ambiente em que a glória de Deusé manifestada por meio da ordenação correta de um homeme uma mulher, que se unem em pacto santo e permanente docasamento.Devemos recusar-nos a separar as coisas boas do casamen-to; e temos de ressaltar, novamente, que parte da função essen-cial do casamento é a procriação. Aqueles que são capazes de terfilhos devem recebê-los com alegria, porque isso foi o que Deusinstituiu. O sexo, a procriação, o casamento e a família têm deser entretecidos juntos numa ética de respeito à vida, uma éticaque reconhece os filhos como um dom de Deus. Nesta família– homem, mulher e filhos – a civilização é enriquecida e forta-lecida e, o que é mais importante, a glória de Deus é evidente nomeio de sua criação.Desejo e Engano 2prova.indd 131Desejo e Engano 2prova.indd 131 12/18/aaaa 16:04:0112/18/aaaa 16:04:01
  • 131. 132 DESEJO E ENGANOO que temos de fazer para nos recuperarmos desta era deperversidade polimorfa? Em primeiro lugar, devemos lutarem todas as frentes. Temos de lutar na frente jurídica, na fren-te política, na frente dos meios de comunicação, da cultura, daeducação, bem como na frente psicológica e na frente médica.Em cada uma dessas arenas cruciais, temos de dar testemunhoda verdade. Ao fazermos isso, talvez sejamos marginalizados,percamos uma votação, sejamos criticados, mas não podemossimplesmente entregar o território aos inimigos.Em segundo, temos de dar testemunho da verdade. Issoimplica que temos de ser bastante cuidadosos não somentepara dizer as coisas certas, mas também para mostrar as coi-sas certas. Em outras palavras, temos de nos assegurar de quenosso casamento e família são um testemunho da intenção deDeus e de que vivemos diante do mundo como pessoas queafirmam: se a insanidade, a irracionalidade e a anarquia se-xual governam o mundo, elas não nos governarão. A glória deDeus será mostrada na fidelidade, onde quer que esta se ache,até no pequenino ambiente de nossas famílias aparentemen-te insignificantes. A era da perversidade polimorfa pode umdia se tornar a norma do mundo. Os revolucionários culturaispodem, um dia, ser bem-sucedidos, indo além de seus sonhosmais vorazes. Todavia, enquanto houver um homem e umamulher unidos em casamento santo, recebendo filhos comodons de Deus e ordenando a vida de sua família pela Palavrade Deus, ainda haverá um poderoso testemunho que o mundonão poderá ignorar.Em terceiro, temos de criar comunidades de casamentosfiéis e famílias saudáveis. Nossas igrejas têm de ser comu-nidades que demonstram a maravilha da glória de Deus nocasamento e a santidade da intenção de Deus no sexo. TemosDesejo e Engano 2prova.indd 132Desejo e Engano 2prova.indd 132 12/18/aaaa 16:04:0112/18/aaaa 16:04:01
  • 132. A Era da Perversidade Polimorfa 133de permanecer unidos de modo que vivamos esse testemu-nho diante do mundo e treinemos nossos filhos para fazeremo mesmo.Em quarto, temos de resgatar os que perecem e amar osdetestáveis. O que acontece quando aqueles que se entregama essa cultura de perversidade polimorfa caem, finalmente,doentes e entram em desespero? A igreja do Senhor JesusCristo é constituída de pecadores salvos pela graça – peca-dores que entendem o que é o pecado e que Jesus Cristo veiopara salvar pecadores. Portanto, devemos nos envolver natarefa de resgatar os que perecem e amar os ímpios, pois tam-bém éramos assim.Então, confrontemos essa tendência para a anarquia sexu-al com resolução autêntica. Formemos um movimento cons-tituído não tanto de cartazes, outdoors e propagandas, e simde casais e famílias, homens e mulheres, que não se dobrarão,não se prostrarão, não se renderão à cultura de perversidadepolimorfa.Desejo e Engano 2prova.indd 133Desejo e Engano 2prova.indd 133 12/18/aaaa 16:04:0112/18/aaaa 16:04:01