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A cidade na misso de deus
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A cidade na misso de deus A cidade na misso de deus Presentation Transcript

  • . public;aç6csENCONTROo desafio que acidade representapara a Bíblia eà Missão de DeusArzemiro Hoffmann..-..namlsdeSérie Par(erl~ naMissão de Deusa::z:>O;ll:l.,.,N.,.,,,,~:s:>-Z;ll:lzOoi•
  • jerusalém, Jerusalém, você, que mata osprofetas eapedreja os que lhe sãoenviados! Q!umtas vezes eu quis reuniros seusfilhos, como agalinha reúne osseuspintinhos debaixo das suas asas, masvocês não quiserarnf" (Lc 13.34).
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  • Todos os direitos reservados. Copyrighr 2007 da Encontro Publicações.Coordenação EditorialSandro BierRevisão gramaticalSimony lttner WestphalRevisão de estiloDr. Gerson Joni FischerDiagramaçãoPagina NovaCapaAdilson ProcA Série Parceria na Missão de Deusconta com o apoio da Igreja Presbiterianados EUA (PCUSA) em colaboração coma Editora Sinodal e o Conselho Latino-Americano de Igrejas.Nenhuma parte deste livro pode ser reproduzida semconsentimento prévio e por escrito.H699c Hoffmann, ArzemiroA cidade na missão de deus: o desafio que a cidade representapara a Bíblia e à missão de Deus / Arzemiro Hoffmann. - Curitiba:Encontro, 2007.15,5x22cm. ; 148p.ISBN 978-85-86936-59-31. Aspectos teológicos. 2. Cidade. I. Título.CDU24Catalogação na publicação: Leandro Augusto dos Santos Lima - CRB 10/1273Encontro Publicações- Movimento Encontrão -Caixa Postal 1812080811-970 • Curitiba - PRTe!.: (41) 3352.5030/ Fax: (41) 3352.6962e-mail: encontro@me.org.brwww.encontropublicacoes.com.brCo-editora:Editora SinodalCaixa postal 1193001-970· São Leopoldo (RS) - BrasilFone/fax: (51) 3590-2366e-mai!: editora@editorasinodal.com.brwww.editorasinodal.com.br
  • Dedicatória:ÀEsposa Nadir,eaos filhos:Jonas André,Josias Amós,Joezer Abel eJosiel AsafeMeu ancoradouro e referencial afetivo.Agradecimentos:Aos Colegas daFaculdade de Teologia Evangélica em Curitiba (FATEV) edo Centro de Pastoral e Missão (CPM)que me desafiaram a escrever o presente livro.
  • 1.11.21.3IASUMÁRIOPREFÁCIOAPRESENTAÇÃOINTRODUÇÃOCAPÍTULO IA CHAVE TEOLÓGICA PARA ENTENDER A CIDADEOS olhares de Jesus sobre a cidadeO olhar proféticoO olhar misericordiosoConclusãoCAPÍTULO 119111519191922262.12.22.32A2.52.62.72.82.9A CIDADE NA BÍBLIA SOB A LÓGICA 00 PODERComo a Bíblia lida com as cidades?Advertências bíblicasA cidade como criação humanaOs construtores da cidade segundo a BíbliaIsrael sob a ameaça das cidadesO povo de Deus sob a opressão citadinaA crítica profética às cidadesBabilônia: símbolo e realidadeConclusão29293132344143434749CAPÍTULO 111A CIDADE COMO ESPAÇO DE MISERICÓRDIA E DE VIDA 513.1 A vocação da cidade como espaço de justiça e misericórdia 513.2 As cidades de refúgio 533.3 A incompreensível compaixão de Javé com Nínive: O livro de Jonas 543A Das ruínas urbanas surge uma comunidade: Neemias 563.5 Paz e prosperidade na cidade adversa: Jeremias 563.6 Jerusalém: a cidade da justiça 583.7 Jerusalém: cidade santa x cidade perversa: A advertência dos profetas 603.8 Jesus e Jerusalém 643.9 Conclusão 72
  • CAPÍTULO IVUM PROJETO MINISTERIAL PARA A CIDADE 754.1 A missão urbana na perspectiva da missão de Deus 754.2 Considerações para um Projeto Ministerial Urbano 804.3 Como preparar-se para este ministério? 814.4 Perguntas intrigantes 824.5 A compaixão: base para o ministério 834.6 A visão: de "onde" para "o que" 884.7 Você não está SÓ, portanto, descubra, construa e cultive uma rede de contatos 904.8 Organize a comunidade para a obra 954.9 Os inimigos externos e os conflitos internos 984.10 Restauração espiritual e as celebrações das conquistas no Senhor 1044.11 A consolidação da obra 1074.12 O zelo pela liderança 1094.13 Conclusão 111ANEXO II.2.3.4.5.6.7.O PROCESSO URBANIZATÓRIO BRASILEIRO.Histórico do urbanoRumo à metrópole modernaO processo urbanizatório brasileiroO crescimento das cidadesAlgumas características da metrópole brasileiraO caos metropolitanoConclusão113113115118122126128129I.2.3.4.ANEXO 11SUGESTÕES E ENCAMINHAMENTOSSubsídios para organizar um projeto ministerialSubsídios para melhor aproximação da realidade urbanaSubsídios para uma visão da missão integralSíntese conclusivaBIBLIOGRAFIA131131132134137141
  • 9PREFÁCIODizem que, para um homem realizar-se na vida, ele precisa fazer trêscoisas. A primeira seria gerar um filho - e o Arzemiro e a Nadir têm, comoa Silêda e eu, quatro filhos homens. Além disso, deve-se plantar uma árvore- e disso ele entende bastante; basta uma caminhada pelo campo para que elecomece a identificar arbustos e plantas. Aliás, para este meu amigo, tudo virachá.A terceira demanda é que se escreva um livro - e isso Arzemiro estáfazendo agora com A cidade na missão de Deus. O livro veio mais tarde, comoum fruto amadurecido do viver. Isso não apenas sedimenta o conhecimentorefletido na escrita, mas dá ao texto a autoridade de uma caminhada de vida.Ao ler este livro, vê-se nele a jornada do próprio autor. Suas palavrasdeixam transparecer uma contínua mastigação do texto bíblico a partir de umavisão e um compromisso com a missão integral da Igreja. Aliás, abrir a Bíbliatem sido uma das marcas do autor, e é °que ele faz uma vez mais aqui.Vi também como Arzemiro tornou-se um citadino comprometido coma missão urbana. Isso ele fez na prática, ao formar um Centro de Recuperaçãode Drogados, bem como ao envolver-se na edificação da igreja na cidade dePorto Alegre. Em termos teóricos, significou voltar a estudar, fazendo o seumestrado na área da missão urbana.Missão urbana não se faz de forma isolada e individual. Isso o autordescobriu na sua caminhada ecumênica e no alinhavar dos seus relacionamentoscom as redes urbanas, especialmente aqueles do terceiro setor e aquelas quetêm uma postura crítica em relação à nossa sociedade. Arzemiro seguiu essecaminho porque descobriu na Bíblia um Deus de justiça que defende o pobre ese opõe à injustiça e à violência. Esse viés profético, alimentado continuamentepelo autor, é uma das marcas registradas deste livro.Ao acompanhar o seu conteúdo, vê-se que a voz profética é sinal deencarnação, expressa a busca de uma cidade que seja marcada pela relaçãode justiça e se constitua em sinal do Reino de Deus. Uma cidade que tenha najustiça, na paz, na convivência humana e na alegria as suas marcas maiores.
  • 10 A CIDADE NA MISSÃO DE DEUSEste livro nos empurra para a denúncia profética, para a vivência comprometidacom o evangelho e uns com os outros, bem como para a esperança, umaesperança escatológica que marque a nossa vida hoje.Para mim é um privilégio recomendar a leitura e o estudo deste livro.Não há dúvida de que ele constitui uma valiosa contribuição para a missãourbana da Igreja no mundo de hoje, missão essa que é comprometida com amissiu Dei e que aponta para a realidade do Reino de Deus. Realidade hoje erealidade amanhã. Para esse amanhã queremos caminhar.Valdir R. Steuernagel
  • 11APRESENTAÇÃOo futuro da igreja, no Brasil, desenha-se pela atitude que ela tomadiante da urbanização. A sociedade brasileira foi palco de um imenso processode migração do campo para a cidade. Não foi somente um deslocamentogeográfico por escolha voluntária dos migrantes. Pelo contrário, a urbanizaçãoobedeceu a um processo marcado por manobras da alta política econômica egovernamental do país.Essa migração afetou profundamente as cidades, as instituições e aspessoas. Resultou na desintegração da família; revolucionou as relações detrabalho, pois, da noite para o dia, jogou uma multidão de campesinos noexército de reserva de mão-de-obra não qualificada. Desestabilizou os valorese os padrões dos relacionamentos humanos, sociais e espirituais.De uma conduta outrora controlada socialmente num ambiente semi-rural, passou-se à desenfreada liberdade urbana (ou ao caos urbano). Umasociedade organizada em padrões historicamente alicerçados em tradições ecostumes consagrados ao longo de gerações foi rapidamente transformadaem massa de anônimos. Enfim, o processo urbanizatório brasileiro foiuma experiência de violência institucionalizada. Suas feridas continuamescancaradamente abertas à espera de soluções que ultrapassem as promessasda política eleitoreira vigente no país.A sociedade brasileira, neste particular, não se constitui em ilha nahistória da construção urbana. A construção das cidades antigas (bíblicas ounão) já apresenta sinais de uma lógica que privilegia mais os projetos de poderdo que os verdadeiros projetos de sociedade.O presente trabalho tem como propósito analisar esta lógica dosprojetos citadinos e seu impacto na vida do povo de Deus ao longo da Bíbliae da urbanização brasileira. Trata-se de uma preocupação focada na teologiaprática e na tarefa missionária do povo de Deus.Principia com a indagação de como o povo de Deus lida com osconstrutores de cidades. Ausculta-se a índole seminômade do povo peregrinode Israel e sua resistência a projetos citadinos: a razão dessa resistência focava
  • 12 A CIDADE NA MISSÃO DE DEUSa cidade em si ou a maneira como a cidade era usada pelos donos do podercontra os padrões de uma justiça relacional e social? A construção de cidadescomo centros de poder carrega consigo a conflitividade social, a luta entrejustiça e opressão.A cidade é analisada como palco do juízo e da misericórdia de Deus.O zelo e a vigilância profética têm a finalidade de resguardar o padrãocomunitário, evitando os extremos: ricos com suas benesses de um lado e ospobres e sua desgraça por outro. O juízo de Deus nunca se volta contra agrandeza sociológica cidade, mas sempre contra aqueles projetos de governomarcados pela injustiça e pela violência. Deus mesmo reclama a cidade comoum espaço de comunitariedade.Há um destaque para a experiência de Neemias como uma espécie deprotótipo de missionário urbano, alguém capaz de encorajar e mobilizar apopulação de uma cidade para sua restauração. Os passos por ele seguidossugerem um roteiro para a elaboração de um projeto de missão urbanaque ultrapassa as fronteiras da religião enquanto grandeza autônoma oudiferenciada da cidade como um todo. Sua espiritualidade não se limita aobem-estar de sua comunidade religiosa, mas à reconstrução e à restauração dacidade arruinada.O ministério de Jesus ressalta a profunda misericórdia do Senhor paracom os excluídos urbanos. Essa misericórdia é demonstrada pelas suas açõesministeriais desde a Galiléia até Jerusalém. A indignação de Jesus diante dasautoridades religiosas de Jerusalém reclama a vocação original da cidadecomo capital espiritual: "a minha casa será casa de oração e não covil desalteadores".Jerusalém se colocara sob o juízo do Senhor ao se prostituir diantedo poder romano a cujos pés sacrifica a essência de sua fé. Esse juízo éexperimentado historicamente no ano 70 d.C., quando as tropas do generalromano Tito arrasam a cidade levando seu povo ao cativeiro.Contudo, nessa cidade, o Espírito Santo é derramado sobre o povoda nova aliança. Esse povo é comissionado para evangelizar as nações atéos confins da terra. Essa missão alcança as principais cidades do ImpérioRomano abaixo de sangrenta perseguição. Esse assunto merece um estudoaprofundado, o que ultrapassa a tarefa do presente trabalho.A Nova Jerusalém, revelada no Apocalipse, serve de inspiração a todosos projetos urbanos. Sua essência é a superação de toda e qualquer dominação,descriminação ou exclusão. Ela é a cidade da qual flui a vida plena. É arecriação da harmoniosa relação entre as criaturas, a criação e Deus numespaço urbanizado e não mais no idílico espaço do Paraíso perdido.
  • APRESENTAÇÃO 13o excurso sobre o processo urbanizatório brasileiro tem a finalidadede oferecer ao leitor uma síntese histórico-social da lógica capitalista quetranstornou a sociedade brasileira na segunda metade do século XX.O excurso sobre os subsídios para elaboração de um projeto missionáriourbano tem um caráter didático para estimular aos não familiarizados coma missão urbana a darem passos concretos para a elaboração de projetosministeriais urbanos.Partilhamos a convicção de que a igreja, agraciada com as primícias danova criação, tem a responsabilidade de protagonizar a experiência evangélicade ser nova criatura no âmbito pessoal, comunitário e citadino, colocando-se aserviço dos projetos de vida. Não basta a igreja estar presente na cidade. Ela édepositária do testemunho da restauração da humanidade recriada em Cristo.Suas propostas, seus projetos e ações comunitárias devem trazer consigo aesperança pela transformação da cidade. A fé evangélica tem esse compromissopor causa do Reino de Deus.A fé cristã é uma atitude crítica que percebe os limites dos construtoresurbanos com seus modelos idealizados ou ideologizados e, ao mesmo tempo,ressalta a compaixão do Senhor através de ações pró-ativas a favor da cidade.Ela não se coloca como expectadora, mas integra-se como fermento capaz delevedar a massa.Para tanto, necessita debruçar-se sobre seu projeto de missão - parae com - a cidade. Não de um projeto restrito pensado para os limites de suadenominação. Antes, de um projeto que coloca a sua corporação a serviçodo bem da cidade. A igreja deve, portanto, ser capaz de visualizar os que seempenham pelo bem da cidade e conjugar esforços com os atores sociaiscomprometidos com a vida da cidade, mesmo que estes o façam commotivações diferenciadas.Finalmente, a cidade é um projeto em permanente construção,reconstrução, revolução ou transformação. Exige dos estudiososou missionáriosa tarefa da exegese bíblica e urbana, equipes que conjuguem variados saberes eóticas por tratarem de uma realidade cada vez mais plural.A missão urbana é um protesto contra a ruína da cidade "civilizada"que experimentamos. Ela busca uma visão espiritual capaz de abranger todo oconselho de Deus contextualizado no caos urbano. Nessa direção, apontam aspalavras do profeta Jeremias aos exilados da grande cidade: "Procurai a pazda cidade, para onde vos desterrei, e orai por ela ao SENHOR; porque na suapaz vós tereis paz" (Jr 29.7-ARA).A nossa visão missionária terá o exato tamanho de nosso amor pelacidade.
  • 15INTRODUÇÃOA cidade é uma grandeza observável de variadas óticas. Tomemos,por exemplo, a cidade de Curitiba. Quem chegar à cidade, vindo do sul, pelarodovia BR 116, terá uma impressão da cidade diferente de quem vem pelaBR 101. Quem entrar pela cidade vindo do leste, norte ou oeste terá outraimpressão. Quem vier de avião ou helicóptero terá uma visão distinta de todasas outras.O ponto de partida para compreender uma cidade é a definição do quese quer analisar ou estudar, visto que existem muitos olhares possíveis e cadaolhar enfocará um determinado alvo ou interesse. Uma visão global da grandecidade seria algo muito pretensioso. Situo-me entre os que trabalham com umenfoque específico da realidade urbana em direção da missão de Deus paracom a cidade.Os especialistas em Missão Urbana afirmam que o conhecimentoprofundo da realidade urbana exige que se faça uma "exegese da cidade". Ofruto de tal exegese será de acordo com o instrumental usado para se apropriarde uma realidade determinada, seja ela universal, regional ou local.Quem estudar uma cidade a partir de sua história, certamente terá a suapesquisa voltada para o significado de coisas diferentes daquele que a estudaa partir da sociologia. O urbanista terá um enfoque distinto do economista...Assim, há muitas maneiras de proceder à análise de uma cidade. No presenteestudo, o foco está na importância da cidade na missão de Deus.A visão bíblica ou teológica da cidade não despreza as outras visões,antes as engloba. Necessita de todas elas, pois lhe proporcionam subsídiospara melhor entender ou discernir a realidade urbana multifacetada. Poucossão os missiólogos e teólogos que empreenderam um estudo mais sistemáticoda cidade ao longo da Bíblia ou que produziram uma "teologia da cidade". INa verdade, quem se ocupa com o estudo da teologia da cidade,surpreende-se com a quantidade de referências a esta ao longo da Bíblia.1. Entre os que empreenderam tais trabalhos estão Jacques Ellul, José Comblin, Robert Linthicum, conformebibliografia.
  • !6 A CIDADE NA MISSAG DE DEUSPode-se observar, ao longo das Escrituras, uma espécie de fio condutor queinicia no Jardim do Éden e culmina na Nova Jerusalém. Parece que a Bíbliadescortina, diante de nós, uma visão que se projeta desde o Jardim de Deusaté a Cidade de Deus. Será esse o caminho da humanidade? Será o nossofuturo eminentemente urbano? Que significado e conseqüência isso traz paraa missão e para a igreja?O Brasil do século XXI conta com uma população urbana acima de80%. O rápido, desenfreado e violento processo urbanizatório brasileiro trouxebenefícios e oportunidades para uma parcela da população urbana. Contudo,acarretou dor e sofrimento para a maioria dos moradores urbanos confinados àperiferia e condenados à favelização.2As grandes cidades, cada vez mais, expõem a incapacidade das políticasurbanas governamentais de conjugar urbanização com bem-estar social;desenvolvimento com equilíbrio ecológico; crescimento com paz social... Arigor, a cidade está mergulhada numa lógica contraditória de difícil solução.O que há com a cidade ou com o planejamento urbano que toma a artede governar tão complicada? Existe alguma lógica que subjaz a todas as boasintenções e que as leva a se corromperem? Enfim, será possível crer que a vida- digna e plena - algum dia, há de perpassar todo o tecido urbano, como o quero texto do Apocalipse de João?Afinal, pode-se alcançar uma síntese entre a Babilônia - centro de podere violência e a Nova Jerusalém - centro de vida plena, harmonia, justiça, paze liberdade? Como a Bíblia trabalha a superação das contradições humanasmanifestas na cidade? Há solução para o pecado estrutural? Pode-se sonharcom uma cidade livre, limpa, justa e plena de vida para toda sua população?Embora a Bíblia não apresente os contornos sociológicos de uma cidadeutópica, ela desmascara o uso indevido do poder dos mandatários urbanos,sejam eles pessoas ou sistemas. As Sagradas Escrituras oferecem princípiose valores que permitem uma convivência e sobrevivência digna para todos oshabitantes urbanos.O presente estudo pergunta pela chave de interpretação da cidade,usada por Jesus, profetas e apóstolos, que permite identificar a lógica quesubjaz ao processo urbanizatório. A seguir, busca compreender os motivospelos quais a cidade, no Antigo Testamento, tem uma visão majoritariamentenegativa aos olhos do povo de Deus e de como essa visão recebe um novo2. Curiosamente, a maioria dos "políticos" de carreira, em suas campanhas eleitorais, sabe fazer um diagnóstico detodos os problemas da cidade e do país. Apontam todas as soluções econômicas, políticas e sociais para todos osgrandes problemas urbanos e estruturais da Nação. Mas, basta assumirem o seu mandato e logo nos deixam dianteda cruel dúvida: mentiram? São incompetentes? Ou ambas as coisas?
  • INTRODUÇÃO 17enfoque na missão apostólica. O capítulo da análise do processo urbanizatóriobrasileiro deseja demonstrar que a urbanização brasileira não é fruto natural dodesenvolvimento. Ele foi provocado por políticas econômicas que serviram aointeresse do sistema capitalista internacional e que violentaram e prejudicarama maioria do povo brasileiro.As pautas indicativas para a construção de um projeto ministerialurbano desafiam a igreja para uma compreensão inter e multidisciplinar. Sóassim, a missão de Deus poderá corresponder à profundidade da ferida urbana.Urge a redescoberta da missão integral que saiba conjugar redenção pessoalcom transformação social; mudança de padrões éticos no âmbito pessoal eestrutural, pois as conseqüências do pecado não se limitam ao indivíduo, elasperpassam todo o tecido social: família, comunidade, cidade, Estado...O Deus revelado na encarnação de Jesus Cristo traz uma visão holística.Sua missão abrange toda a pessoa e todas as pessoas; toda a criatura e toda acriação; toda a cultura e todas as culturas; enfim, o alvo da missão de Deus éfazer convergir em Cristo todas as coisas. Ele veio para reconciliar e integrartudo pela mediação de Jesus, o Cristo.
  • 19CAPÍTULO IA CHAVE TEOLÓGICAPARA ENTENDER A CIDADE1.1 Os olhares de Jesus sobre a cidade"Jerusalém, Jerusalém, você, que mata os profetas e apedreja os que lhesão enviados! Quantas vezes eu quis reunir os seus filhos, como a galinhareúne os seus pintinhos debaixo das suas asas, mas vocês não quiseram!"(Lc 13.34).Proponho que essas palavras de Jesus sejam a síntese da visão de Deussobre a cidade em todos os tempos e de todas as cidades. Essa visão toma-se oponto de partida e chegada para quem quer entender a verdadeira natureza e alógica da cidade, para exercer a vocação missionária urbana.1.2 O olhar proféticoPrimeiramente, a missão urbana precisa olhar para a cidade com umolhar profético. Trata-se de um olhar crítico, um olhar com discernimento- sem o qual não se conhecerá a verdadeira natureza e a lógica da cidade.Ao longo de toda Bíblia, encontram-se construtores de cidades, comoveremos adiante. Homens motivados pela ambição do poder ou cobiça deriquezas lançaram-se ao empreendimento de edificar cidades ou impérios paratomar o seu nome conhecido. Seu principal objetivo não era o bem-estar dacidade e de seus habitantes. A cidade lhes servia como meio para realizaremseus sonhos de poder, de dominação ou de opressão.Sob a mão de tais homens ou dinastias, muitos povos e aldeiasforam vítimas de saques, extorsão tributária, escravidão, enfim, da opressãoeconômica, militar, política e religiosa. A cidade como tal não é o objeto dacensura profética, mas o modo como nela é exercido o poder, este sim, nãoescapa ao juízo divino.O olhar do profeta representa a justa indignação do Senhor - e de todosos justos - diante dos que edificam "civilizações" com a marca da violência.
  • 20 ACIDADE NA MISSAo DE DEUSA indignação que Habacuque expressa em seu lamento é emblemática: "Aidaquele que edifica uma cidade com sangue e a estabelece com crime" (Hc 2.12).Ao longo de toda Bíblia, como veremos adiante, constata-se que Deus,o Senhor, enviou mensageiros para advertir, censurar, chamar as autoridadescitadinas ao arrependimento. Os profetas do Senhor advertiam, severamente,os sacerdotes que trocavam a proteção do Deus Altíssimo pela segurança dopoder do Estado, geralmente, ancorado na força das armas.O lamento de Jesus "Jerusalém, Jerusalém, você, que mata os profetase apedreja os que lhe são enviados!", denuncia a realidade da opressão dasautoridades citadinas e representa o clamor profético sobre a cidade violenta.Quantos levantes justos foram esmagados pelas forças militares romanasapoiadas ou consentidas pela liderança religiosa de Jerusalém!A lógica dominante das autoridades era o uso da violência militar paraesmagar a indignação social popular resultante de seus governos injustos. Napessoa de Jesus, Deus mesmo encarnou o profeta que veio visitar a cidade.Ele, em sua própria pele, experimentou a intimidação e a rejeição, assim comoos verdadeiros profetas do passado.Jerusalém rejeitou o Príncipe da Paz por causa de sua aliança com opoder opressor, no caso, o Império Romano. Essa escolha lhe fora fatal. Issose tomou claro no ano de 70 d.e., quando Jerusalém foi arrasada pela forçamilitar romana comandada pelo general Tito.O olhar do profeta enxerga a lógica do poder cujas benesses sãopara alguns privilegiados, por algum tempo, mas cuja dor e sofrimento sãopartilhados por muitos e por longo tempo.Tal lógica se estende até os nossos dias. Segundo dados de diversosrelatórios da ONU, mais de dois terços da humanidade estão excluídos dacondição digna de vida porque não alcançam a satisfação básica de suasnecessidades mínimas tais como: alimento suficiente, habitação, educação,saúde, segurança, trabalho, enfim, a liberdade e a dignidade.A "Jerusalém que mata" (símbolo da dominação militar e bélica) éuma presença opressora também em nossos dias. Ela não se limita a matarprofetas e apedrejar os enviados de Deus. Ela condena nações inteiras àpobreza através de sanções econômicas, neocolonialismo, boicotes e guerras,além de ameaçar o Planeta Terra - como um todo - pela maneira violentacomo impõe um consumo antinatural que concentra, cada vez mais, a rendana mão de poucos donatários através da política neoliberal da globalização.As palavras de Ghandi1se revestem de tremenda atualidade: "Na terra, há1. Mahatma Gandhi (1869-1948), estadista indiano libertador da índia da dominação inglesa através na não-violénciaativa. O citado é de Sturla J. Stalsett - Um globo em busca de sua alma, página 5, polígrafo.
  • A CHAVE TEOLÓGICA PARA ENTENDER A CIDADE 21recursos suficientes para satisfazer as necessidades de todos, mas não podehaver recursos suficientes para satisfazer a avareza de todos".A dimensão dessa monstruosidade só se entende à luz de dados: 86%de tudo que se produz é consumido por menos de 20% dos ricos do planeta. 2Se cada ser humano vivo no planeta hoje quisesse viver o padrão de consumomédio norte-americano, seriam necessários dois Planetas Terra e meio. 3A criação está sofrendo a opressão da vaidade humana. Os sinais semanifestam através de catástrofes naturais e epidemias. Ademais, as políticasdo sistema capitalista são insensíveis ao clamor dos famintos da terra. Estamosdiante de uma crise civilizacional. "Os seres humanos são os responsáveis pelamaior série de extinções desde a época dos dinossauros". 4O olhar profético alerta para as conseqüências do pecado humano e seufuturo catastrófico.A opressão exercida pelo poder da concentração do capital nutre aindignação profética de nossos dias: "Jerusalém, Jerusalém...". Jerusalém aquinão pode ser entendida como uma referência meramente histórica à cidade, masuma crítica à matriz civilizacional que se corrompe diante do poder opressor.Jesus ensina que não é possível ficar passivo diante de tal barbaridade.Por isso, Ele não se limita a lamentar e denunciar o grave pecado social. Suaindignação profética transforma-se em ação: "Então ele entrou no templo ecomeçou a expulsar os que estavam vendendo" (Lc 19.45).A ação transformadora da cidade começa com a comunidade religiosa.A restauração espiritual é o ponto de partida na busca do Reino de Deus.O exemplo para uma nova sociedade deve partir de seus arautos. A casa doSenhor deve ser modelar. Não se admite que a liderança espiritual esteja aliadaao poder dominador. A vocação sacerdotal do povo de Deus não é agradar osque governam com a violência e a opressão, mas resistir-lhes por causa doReino de Deus.Jesus pôde dizer: "O meu reino não é deste mundo" (Jo 18.36), isto é:não é desta natureza. Não está ancorado na lógica da dominação e da violência.Sua lógica é outra: o poder tem a vocação de servir para a bem do outro (Mt2. De acordo com o Informe sobre Desenvolvimento Humano de 1997: "desde 1960, quando os ricos ganhavam 30vezes mais do que os pobres, a concentração de renda no mundo cresceu mais que duas vezes. Em 1994, os 20%mais ricos ficaram com 86% de tudo o que foi produzido no mundo. Sua renda foi 78 vezes superior à dos 20% maispobres. Isto significa que em 34 anos, a parte dos excluídos na economia global foi reduzida de 2,3% para 1,1 %. Aconcentração chegou a tal ponto que o patrimônio conjunto de 447 multimilionários do mundo é equivalente à rendasomada da metade mais pobre da população mundial, isto é, algo como 2,8 bilhões de pessoas. O estudo da ONUé claríssimo: a globalização está concentrando a renda: os países ricos ficam mais ricos e os pobres, mais pobres",Fonte da Folha de São Paulo - Especial, 02/11/1997 citado por Roberto Zwetsch, in: Globalização e Reli9ião: Desafiosafé, página 59.3. Inácio Neutzling, Curso de Teologia e Ecologia - PUCPR, 19-21/10/2004.4. Relatório apresentado na COP e MOP 3, Curitiba 2006.
  • 22 A CIDADE NA MISSÃO DE DEUS20.25-26). A justiça, a misericórdia e a fé estão acima de todos os formalismosreligiosos (Mt 23.23).A transformação operada pelo evangelho principia na própria família deDeus, a começar com o padrão espiritual de seus sacerdotes. O profeta Isaíasoferece farta matéria sobre esse assunto (cf. Isaías l.l 0-17,58).O olhar profético sobre a cidade identifica a dor específica e inicia comações transformadoras que partem da mudança de visão espiritual da liderançada comunidade.A igreja não tem o direito de exigir padrões de justiça da sociedadese ela mesma não servir de exemplo. Sendo assim, o olhar profético sobre acidade exige da comunidade de fé o exemplo da transformação reclamada pelaPalavra do Senhor. Olhar profético sobre a cidade torna-se verdadeiro e concretoquando as palavras do profeta forem sublinhadas por ações coerentes."Se a justiça de vocês não for muito superior a dos fariseus e mestresda lei, de modo nenhum entrarão no Reino de Deus" (Mt 5.20).1.3 O olhar misericordioso"Quantas vezes eu quis reunir os seus filhos, como a galinha reúne osseus pintinhos debaixo das suas asas...".Jesus não se limita a constatar e lamentar a desgraça urbana resultantedas equivocadas decisões econômicas, políticas ou religiosas. Seu olhar demisericórdia vê a profundidade da dor causada pelo pecado estrutural.Além de enxergar as autoridades com seus palácios, soldados e templo,Jesus vê a multidão que vive desgarrada como ovelhas que não têm pastor oucomo pintinhos que não encontram um abrigo que os acalente.A reconstrução humana começa no campo emocional, afetivo. Arestauração espiritual passa, necessariamente, pela restauração afetiva.À medida que o afeto se encerra, a monstruosidade emerge. A restauraçãoespiritual de um povo inicia com a arte de acolher, pela humanização do serhumano. O Verbo de Deus precisa se tornar gente por inteiro em cada pessoa.Isso exige um novo olhar e uma nova percepção.Muitas pessoas não têm consciência de como são manipuladas e servema interesses indignos. Jesus tinha uma percepção acurada da realidade. Elediscernia o jogo do poder que manobrava os acontecimentos. Ele distinguiaas vítimas e os dominadores. Ambos estão no mesmo nível: carecem desalvação. Ambos carecem da mesma misericórdia e não de vingança.
  • A CHAVE TEOLÓGICA PARA ENTENDER A CIDADE 23Contudo, a misericórdia não é ingênua. Sem arrependimento não pode haverreconciliação. Jesus, do alto da cruz, arranca de seu íntimo a intercessão poreles: "Pai, perdoa-os porque não sabem o que fazem".O olhar misericordioso sobre a cidade sonha com alternativas viáveise sustentáveis. A paz como resultado de um governo justo traz bem-estar eprosperidade a todos. Isso é o que ensina o Salmo 72. O olhar de misericórdiaenxerga o coração do ser humano e vê o quanto a vida urbana poderia sermaravilhosa se houvesse espaço para o Deus da vida.Ao longo de toda a Bíblia sobressai o olhar da misericórdia do Senhor.A superabundante graça acompanha as páginas das Escrituras do Gênesis aoApocalipse. Mas, de nada serve tudo o que Deus tem para dar se não houverquem acolha a Sua boa dádiva. A graça de Deus sem resposta é ineficaz. Ondefaltam a humildade, a consciência do pecado e o arrependimento, Deus continuaà distância e nada acontece. A transformação requer uma mudança no interior,na mentalidade das pessoas, operada pelo Espírito Santo. Só compreende amisericórdia de Deus quem tem uma visão precisa do justo juízo do Senhor.Do Gênesis emerge o mandato cultural. O ser humano carrega avocação holística de cuidar e guardar toda a boa criação de Deus. Em assimprocedendo, a criação será generosa e fornecerá o fruto da terra como alimentosuficiente e saudável para toda longa trajetória humana, desde o Paraíso até anova cidade - Jerusalém.Ambos os quadros são colocados como os referenciais que deveminspirar as políticas dos seres humanos. Do Paraíso provém a vocação decolaborar com o Criador para que a "Natureza" - como boa criação - possa,ao longo de toda história, trazer o sustento suficiente e necessário para umavida digna a todos os seus habitantes. Da Nova Jerusalém advém o desafio deDeus que deseja que a vida em sua plenitude fertilize e perpasse todo o tecidosocial.O olhar misericordioso move o coração de Abraão que intercede pelosjustos que porventura pudessem existir em Sodoma e Gomorra, pois sem eles acidade não sobreviveria (Gn 18.22-33). E Deus lhe assegura que, por amor aosjustos, a cidade sobreviverá, mas ausência da justiça levará a cidade à ruína.Sem um padrão mínimo de dignidade, a humanidade sucumbe completamentena injustiça e perversão (Rm 1.18ss).O olhar de misericórdia provê a Terra Prometida de "cidades de refúgio"(Dt 4.41-43; 19.1-3) para que o inocente não seja tratado como malfeitor e paraque o malfeitor não seja tratado como inocente e, assim, contamine o povocom a perversidade e a impunidade. A misericórdia é irmã gêmea da justiça.
  • 24 A CIDADE NA MISsAo DE DEUSoolhar de misericórdia concede os mandamentos ao povo para que estetenha padrões sobre os quais possa edificar sua civilização na terra da bênção.Assim a longevidade será a bênção para as futuras gerações, e a reconciliaçãolevará ao convívio harmonioso entre criatura e seu Criador; entre criatura ecriação e as criaturas entre si, e a cultura e o culto serão as duas faces damesma moeda. E os exemplos de bondade se perpetuarão por milhares degerações.Em sua misericórdia, Deus concedeu a Davi a graça de tomar Sião e nelafazer habitar a arca. A presença do Senhor transformou uma fortaleza militarem tabernáculo. A busca da paz, da justiça e dos padrões da Lei do Senhornorteariam os seus atos governamentais. A cidadela de Sião não mais seriatemida por suas incursões militares, mas buscada como centro de adoração ede bênção às nações. Começou a realizar-se o que foi registrado, mais tarde,por Isaías: "A minha casa será chamada casa de oração para todos os povos"(Is 56.7).Contudo, a amada Jerusalém não resistiu por muito tempo. A tentaçãodo poder transformou-a em Babilônia (Ez 16), vindo a sofrer o justo castigopor causa de sua transgressão. Os governantes de Jerusalém abandonaramos desígnios do Senhor e se espelharam na prática política de outros povos.Formaram o seu exército, construíram palácios reais, transformaram povos maisfracos em escravos e se desviaram dos justos caminhos do Senhor já no tempodo rei Salomão (lR<;9-11).Convém sublinhar que, por mais que o pecado cause a ruína da cidadee do povo de Deus, mesmo assim, não consegue apagar de todo a misericórdiado Senhor. Por amor aos pobres e injustiçados que sofrem nas ruínas dacidade, Deus suscita, sempre de novo, profetas e bem-feitores, a exemplo deNeemias, para restaurar a cidade e reedificar seu povo. A cidade de Jerusalémtem uma história de altos e baixos, de bênção e juízo, de prosperidade e ruína,de edificação e destruição...Nos dias de Jesus, ela foi o alvo de peregrinações. De cidade em cidade,Jesus andou da Galiléia para Jerusalém. Ali, o Príncipe da Paz foi rejeitado,julgado e condenado. Com isso acabou a vocação da Jerusalém terrena bemcomo a vocação do povo da antiga aliança.O Espírito Santo, contudo, foi derramado sobre o povo peregrino queacolheu o evangelho. A missão de proclamar o Evangelho do Reino parte deJerusalém para as principais cidades do Império Romano da época. A cidadede Jerusalém sai do cenário e a peregrinação apostólica ocupa o seu lugar. Avinda do Espírito Santo inaugura o início do povo da Nova Aliança compradopelo sangue do Cordeiro e ungido pelo poder do alto.
  • ACHAVE TEOLÓGICA PARA ENTENDER A CIDADE 25A missão de cidade em cidade é a marca da peregrinação do povo daNova Aliança. As grandes cidades, uma a uma, são alvos da missão de Deus,caracterizada pela superação das barreiras culturais, étnicas, geográficas,políticas, sociais... A condição de pertencer ou não à nação santa decide-sediante da resposta dada ao Evangelho do Reino. A comunidade multiétnica,multicultural e multisocial toma o lugar da comunidade étnica israelita. Anascente igreja não se prende ao modelo templo-cêntrico, mesmo que possarecorrer a esse modelo em tempos de liberdade.Sob a perseguição religiosa e política, a nascente igreja migra para ascasas, os desertos ou catacumbas. Ela se multiplica através da comunhão empequenos grupos. Graças à criatividade e à liberdade de adotar novos modelos,a igreja subverte os alicerces do império.Finalmente, o olhar de misericórdia se volta para a Jerusalém celestee nela se inspira (Ap 21-22). Jesus é a porta que descortina o acesso à novacidade. As coisas antigas já passaram. Em Jesus tudo se faz novo.Essa novidade de vida movida pelo Espírito Santo há de perpassar todotecido social urbano. É a consumação dos séculos. É obra da graça de Deusnão do gênio humano. É a cidade que desce dos céus e não sobe do orgulhohumano. Ela leva o nome do Cordeiro proclamado pelos altos céus. Diantedesse nome todos os demais não passam de sonhos e ilusões. A misericórdiatriunfará e já não haverá dor, nem pranto, nem morte e nem luto. Jesus é a luzque cura, salva e conduz ao pleno louvor de sua glória.Finalmente, a misericórdia triunfará e os filhos do Reino experimentarãoa acolhida: "como a galinha reúne os seus pintinhos debaixo de suas asas".Então haverá um novo céu e nova terra nos quais habita a justiça. Essa é autopia cristã que move a missão urbana. Ela é o nosso alvo e inspiração;culminância e incumbência; graça e compromisso; dádiva e responsabilidadepara que toda língua confesse que o Senhor é o Cristo de Deus, e todo joelhose dobre aclamando Jesus: Rei dos reis e Senhor dos senhores.Enquanto aguardamos novos céus e nova terra nos quais habita ajustiça(2Pe 3.13) convém aprender do exemplo de Jesus. Seu olhar misericordiososobre Jerusalém não se limitou à ternura expressa nas palavras maternais dereunir os seus filhos como a galinha reúne seus pintinhos debaixo de suas asas.Ele foi além. Concretizou em gestos o seu desejo restaurando a verdadeiravocação da casa do Senhor: A minha casa será casa de oração..." ali "(...)todos os dias ele ensinava no templo... " (Lc 19.46b-47).A esperança suscita gestos e atitudes de misericórdia para com a cidade.Enquanto se aguarda a transformação de toda a cidade, não convém esquecerdas ações ou projetos ao alcance de nossas mãos. O fermento do Reino de
  • 26 A CIDADE NA MISSÃO DE DEUSDeus há de perpassar toda a massa urbana. Ora, o fermento sempre é lançadoem pequenas porções. Seu efeito só aparece na massa fermentada.Assim é com as ações de misericórdia. A multiplicação de testemunhosao alcance de cada cristão fará a diferença. A fé manifesta-se verdadeira naprática da misericórdia. Sempre haverá desafios suficientes para exercitá-la apartir da realidade de onde vivemos.Que fique registrado um aprendizado a partir do gesto de Jesus: aqualidade espiritual do povo de Deus levará a cidade à restauração ou a ruína.Por isso, clamemos ao Senhor pela nossa completa restauração espiritual, aexemplo da exortação de Paulo em Rm 12.1-2:Portanto, irmãos, rogo-lhes pelas misericórdias de Deus que se ofereçamem sacrifício vivo, santo e agradável a Deus; este é o culto racional de vocês.Não se amoldem ao padrão deste mundo, mas transformem-se pela renovaçãoda sua mente, para que sejam capazes de experimentar e comprovar a boa,agradável e perfeita vontade de Deus.1.4 ConclusãoCom base na reflexão acima, pode-se concluir que o olhar proféticosobre a cidade remete a comunidade de fé a identificar as dores concretas dacidade e perceber os seus causadores. Quem oprime e promove a desintegraçãohumana e social? Ou, quais são as estruturas e movimentos sociais que secolocam a serviço da dominação?E, de outra parte, quem exerce a misericórdia e promove a vida? Quaissão as iniciativas, projetos, estruturas e movimentos sociais que se colocam aserviço da vida?Em obediência ao mandato de Jesus, cabe à comunidade dos discípulosexercera função profética. Discernir as ações individuais e coletivas: identificar,desmascarar, confrontar e chamar à conversão os poderes, instituições,movimentos e estruturas nocivas ao bem-estar da cidade.O olhar misericordioso, por sua vez, mobiliza as pessoas de boa vontadepara ações e projetos de transformação visando à restauração, reintegração eredenção de pessoas, suas instituições, estruturas, ecologia, com a finalidadede que todo tecido urbano seja perpassado pela vida.Nesse sentido, a perspectiva missionária do povo de Deus de nossosdias é de conjugar a dimensão mística com a dimensão profética. Buscar umaprofunda experiência com Deus e, ao mesmo tempo, abrir os olhos para todas
  • A CHAVE TEOLÓGICA PARA ENTENDER A CIDADE 27as forças vivas existentes na cidade que se empenham a favor da vida digna,livre, justa e pacífica.A igreja não transformará a cidade sozinha. Ela precisa perceber que aboa mão de Deus age por toda a cidade. A ação de Deus não se limita à ação daigreja. Nem sempre a igreja tem a melhor percepção da realidade... Contudo,o povo de Deus contribuirá com as demandas e ofertas do evangelho porquenelas estão os tesouros mais profundos capazes de operar a transformaçãourbana.Ser igreja profética e misericordiosa requer uma sensibilidade de ouvir oque o Espírito está dizendo à igreja num contexto específico. A transformaçãoda realidade urbana pressupõe a conjugação de muitas iniciativas, projetos,ações coletivas visando ao mesmo fim.Deus estende suas asas sobre toda a cidade. À igreja cabe a tarefa deacolher as pessoas para este amparo do Senhor. Só assim, cada qual encontrarásua tribo e não será mais massa solitária. E as tribos conviverão em paz numasó comunidade urbanizada.
  • 29CAPÍTULO IIA CIDADE NA BÍBLIA SOB A LÓGICA DO PODER"Ai daquele que edifica uma cidade com sanguee a estabelece com crime" (Hc 2.12).2.1 Como a Bíblia lida com as cidades?Qual a vontade de Deus para com as cidades? Com que finalidade tantasrevelações, profecias, exortações, lamentações e promessas são feitas à cidade,ao longo da Bíblia?Deus, certamente, tem um plano com a cidade, não apenas com oseu povo que nela habita. Aliás, a vontade de Deus nunca foi que seu povoconstituísse um gueto, grupo fechado, isolado dentro da cidade. Nem mesmoo culto de seu povo pode ser restrito aos domésticos da fé. Isaías reclama umculto aberto aos povos ao enfatizar: "a minha casa será chamada casa deoração para todos os povos" (Is 56.7).Essa afirmação é profundamente visionária e missionária. Ela propõeque a missão de Deus seja dirigida a todos os povos, todas as religiões, todasas culturas e todas as etnias. Esta é a vocação abrâmica: ser bênção a todas asfamílias da terra. O Deus Eterno é um Deus missionário. IO povo de Israel perdeu essa visão ao longo de sua história e acaboutornando-se um povo que se julgava exclusivo e superior, muito mais propensoa conquistar e dominar do que missionar segundo a promessa feita a Abraão:"(...) por meio de você todos os povos da terra serão abençoados" (Gn12.3).Essa bênção tem uma dimensão universal e holística, a partir de umpovo singular eleito para essa finalidade. Esta é a missão de Deus (missio dei):fazer conhecido entre todos os povos o significado do projeto de Deus paratoda sua criação.1. Stott, John, 1998, p 35955.
  • 30 ACIDADE NA MISSAo DE DEUSA bênção é, portanto, universal por ser destinada a todas as geografiasda terra. É holística porque envolve toda a pessoa e - a pessoa toda - com vistasà sua integridade, seu bem-estar pessoal, social e ambiental. O Shalom, a pazque procede de Deus, engloba toda a criação. É dirigida a toda terra porque"do SENHOR é a terra e tudo o que nela existe" (SI 24.1). Plantas, animais,rios e mares, florestas e ecossistemas, ar puro e águas puras, tudo perfaz umconjunto ameaçado pela "civilização" ou processo civilizatório.Se esse Shalom é o alvo final de Deus ou a vontade suprema do Senhorpara o seu povo e para todas as famílias da terra, então, a missão de Deus (missiodei) deve ser vista nessa perspectiva holística. Se o povo de Deus viver no campoou na cidade, na peregrinação ou em terra cultivada, a missão central a nortearsua conduta deve ter este foco ou pensamento condutor: o que esse povo estáfazendo para corresponder à vocação de testemunhar "(...) o que é devido àpaz!" (Lc 19.42 - ARA). Esse é o enfoque determinante do presente estudo.A Bíblia lida com a cidade de maneira semelhante como lida com osseres humanos. Assim, como não existe pessoa perfeita também não existemodelo de comunidade perfeita. Cada maneira de conviver é uma tentativade sobreviver. A cidade é um modo de organização humana coletiva. Comotal, não é boa nem má. Tudo depende da finalidade que se der à mesma. Elapode servir à vida ou à morte; ao bem ou ao mal, à justiça ou à injustiça, àpaz social ou à opressão... Deus, por sua vez, estende a sua mão graciosa emisericordiosa às pessoas e à cidade. Ele dá orientações claras que indicamo caminho para a vida plena. Alerta para as conseqüências de quem nega suasoberania e se desvia de seus desígnios.Nesse sentido, encontram-se, ao longo das Escrituras, inúmeros textosque registram as conseqüências do juízo sobre a cidade infiel. Outras passagensressaltam a misericórdia do Senhor para com as cidades fiéis. A cidade é frutoda condição humana. Ela reflete a graça ou a desgraça.A cidade foi escolhida pelo Senhor como âmbito para a realizaçãoda plenitude do Reino de Deus. Não haverá uma volta ao Jardim do Éden.A Nova Jerusalém representa o futuro, nela a nova humanidade, criada emCristo, experimentará sua plenitude.Essa nova cidade não é fruto da evolução humana, nem culminânciado seu gênio científico. Ela é dádiva de Deus que desce dos céus. Tal como aredenção que veio pela misericordiosa graça de Deus em Cristo Jesus, e nãocomo mérito do cumprimento obstinado dos preceitos da Lei.Do Gênesis ao Apocalipse, a Bíblia registra a ocorrência do verbetecidade (traduzido do hebraico IHR e do grego POL/S) mais de 1400 vezes.22. Bakes, RaymDnd, Simpósio sobre Evangelização Urbana, (polígrafo) promovido pela visão Mundial, Belo Horizonte/MG, 1982, página 17.
  • A CIDADE NA BíBLIA SOB A LÓGICA DO PODER 31Isso sugere que o assunto não apenas está presente, mas ocupa um lugarimportante nas Escrituras Sagradas.O presente trabalho não se propõe a realizar um inventário de todosos contextos nos quais tal expressão ocorre. O que importa é analisar como acidade se relaciona com a soberana vontade do Senhor. A cidade se coloca aserviço de Deus e de seu Reino ou é uma grandeza oposta ou inimiga? Pode-seobservar a existência de uma lógica de violência que perpassa todas as grandescidades? É a cidade - como tal - a morada do mal que se opõe à manifestaçãodo povo da Deus? Até onde perdura a compaixão de Deus pelos justos quenela habitam, assim com é expressa na intercessão do patriarca Abraão? (Gn18). Afinal, com que finalidade os homens se dispõem a construir cidadesfortificadas?2.2 Advertências bíblicasAntes de adentrar a pesquisa sobre a cidade, convém alertar para asseguintes advertências:A vigilância profética ativa - A cidade como aglomeração humana estásujeita a manobras perigosas. Por isso, o Senhor vela pela cidade. Às vezes,Ele intervém diretamente (Gn 18); outras vezes, envia-lhe seus mensageirose profetas para alertar os detentores do poder de que eles não são os donos dacidade.Jesus mesmo demonstrou enorme compaixão pelas multidões oprimidase desorientadas que vinham de cidades e aldeias. Comparou-as a ovelhassem pastor (Mt 9.38s). Ele também mostrou sua indignação com a liderançareligiosa de Jerusalém pelo fato de a IERU-Shalem - cidade da paz - ter setomado em covil de salteadores (Mt 21.13).Aproveitar as oportunidades de restauração da vida e da paz - OSalmo 127 mostra que a vontade do Senhor é ver a cidade como extensão doslaços de família. O Senhor quer edificar a cidade. Sua finalidade é que o tecidosocial urbano privilegie a vida.Em seu ministério, Jesus andava de cidade em cidade, aldeia em aldeiadesde a Galiléia rumo à Jerusalém, fazendo o bem, ensinando, curando,libertando as pessoas de todas as opressões. Seus milagres são interpretaçõesem duas direções: através deles, Jesus libertava e restaurava as pessoas para aintegração social em sua comunidade. Segundo, os milagres eram sinais queapontavam para o Reino de Deus que se manifestava pela vitória da vida sobreos poderes que matam ou excluem as pessoas do pleno convívio comunitário.
  • 32 A CIDADE NA MISsAo DE DEUSE, em terceiro lugar, importa manter o sonho da cidade nos padrõesdo Reino de Deus. Ao longo da história humana, não tem faltado utopistase sonhadores da cidade ideal. De Platão, com sua Antártida até a Brasília deOscar Niemeyer e Lúcio Costa, passando por Campanella, Thomas Morris etantos outros, 3 manifesta-se a busca pela cidade ideal.A revelação do Senhor ao apóstolo João, na Ilha de Patmos, mostraque o máximo que o ser humano tem conseguido construir são cidades comocentros de poder e dominação, simbolizados pela Babilônia que representavaa Roma histórica da época.A cidade perfeita não é fruto do engenho humano, por mais que estedeva se empenhar nessa busca. Ela, assim como a salvação em Cristo Jesus,é obra da graça de Deus. Ela vem da parte de Deus. Ao contrário da Torrede Babel, ela não é construída para simbolizar a dominação de quem queiraperpetuar o seu nome sobre seus semelhantes. A nova cidade é gerada emDeus e alcança a terra dos homens para que estes se reúnam em torno do úniconome em quem há vida em plenitude: Jesus. A nova Jerusalém está colocadano final das Escrituras. Ela serve de espelho para refletir essa nova realidadepara dentro de todas as ações humanas a fim de que nela se inspirem e para elavenham a convergir.O povo de Deus tem a incumbência de trazer a presença dos sinais dafutura cidade para dentro da sofrida realidade urbana.2.3 A cidade como criação humanaA Bíblia apresenta o Jardim do Éden e a Nova Jerusalém como princípioe culminância da boa criação de Deus. Deus é o princípio, o sujeito da açãoem ambos. A criação tem sua culminância no Sábado, na adoração e nasantificação. A nova Jerusalém tem sua culminância na adoração do Senhor.Ele será tudo em todos.A cidade histórica, no entanto, é criação humana. São de suaresponsabilidade a organização social, os regimes políticos, os sistemaseconômicos, as instituições religiosas e a responsabilidade ecológica.A organização social é da competência e responsabilidade dos sereshumanos. Para tanto, eles são dotados de inteligência, criatividade e aptidãopara fazerem as suas escolhas. Se as pessoas desejarem viver como nômadesou se fixarem em determinadas regiões; se desejarem viver no campo ouconstruírem cidades é de sua livre escolha e responsabilidade.3. Freitag, Bárbara, Utopias Urbanas (poligrafo) UNB. BrasilialDF.
  • ACIDADE NA BíBLIA SOB A LÓGICA DO PODER 33Deus os criou como seres reiacionais dotados de aptidão para cultivarema comunhão com o Criador, com os seus semelhantes e com a criação da qualfazem parte. Deus lhes conferiu o domínio sobre a natureza para que a possambem administrar a fim de que ela sempre lhes forneça o sustento necessário.Se o mandato recebido do Criadorfor desobedecido ou mal administrado,a criação (natureza) sofrerá e se vingará. A criação é pródiga em mantimentospara sustentar todas as criaturas: "Coma livremente de qualquer árvore dojardim" (Gn 2.16).Esse mandato se perpetuará, desde que as pessoas preservem suavocação como colaboradores de Deus para cultivar e guardar o bom Jardim.Convém recordar que, enquanto seres humanos, nós somos criaturas feitasdo húmus da terra. Somos, portanto, seres espirituais, sociais e ecológicos. Anossa vida está circunscrita ao Jardim de Deus - o Planeta Terra. A devastaçãodo planeta resultará em ruína da humanidade.De todas as escolhas que as pessoas fizerem deverão prestar contas aDeus. Essa é a sua responsabilidade: responder perante o Senhor Deus Criadorde céus e terra por toda e qualquer ação ou projeto social. Não somos donos,porém, mordomos da criação: "do SENHOR é a terra e tudo o que nela existe"(SI 24.1).Nesta terra, as pessoas têm a liberdade de construir civilizações,organizar a convivência e a sobrevivência dentro dos limites da dignidadeinalienável que lhes foi conferida pelo Criador. Cada pessoa é um ser ético.E fora de uma ética fundamental, a sobrevivência da espécie humana e doplaneta estará ameaçada.Embora o episódio de Gênesis 3 - o pecado ou queda - testemunhea capacidade do ser humano de romper a comunhão com Deus e,conseqüentemente, perder o Paraíso, Deus mesmo o responsabilizou pelosseus atos, mas não o largou ao desamparo. Deus o visitou em sua rebeldia elhe conferiu um sinal concreto de sua presença. Ele vestiu homem e mulhercom dignidade para não viverem permanentemente sucumbidos em sua culpa,medo e vergonha.Toda a trajetória humana se desenrola diante da face do Senhor. Nocampo ou na cidade, cada pessoa pode escolher livremente a maneira comodeseja viver, conviver e sobreviver. As demais criaturas constroem seusninhos, tocas ou sofisticadas colméias pelo instinto que carregam ao longoda perpetuação de sua espécie. As pessoas, diferentemente, foram dotadascom uma inteligência livre e memória histórica, isso é o seu privilégio e oseu dilema. Mercê desse privilégio é a criatividade do gênio humano que nãoconhece limites em seus projetos e edificações urbanas.
  • 34 A CIDADE NA MISsAo DE DEUS2.4 Os construtores da cidade segundo a BíbliaAo longo das Escrituras, aparecem diversos construtores de cidade. Cadaqual tem sua motivação oujustificativa.A cidade pode servirde amparo e proteçãocontra animais ferozes; ela pode servir como fortaleza militar para sobrepujar-seaos povos vizinhos; ela pode ser um centro de peregrinação religiosa... Entre osprincipais construtores ou usurpadores de cidade destacam-se:2.4.1 CaimA Bíblia não se propõe a investigar as origens históricas ou ascircunstâncias do surgimento da cidade antiga. 4 Ela seinteressa, principalmente,pelas motivações e pelas razões que levaram determinadas pessoas a edificarcidades e a vocação que deram aos seus empreendimentos em relação aos seussemelhantes, natureza e ao próprio Deus. 5A cidade é mencionada, pela primeira vez, como obra de Caim. Elefigura, no texto bíblico, como a pessoa que fez a primeira tentativa de construiruma cidade. Em Gênesis, consta: "Caim teve relações com sua mulher, e elaengravidou e deu à luz Enoque. Depois Caim fundou uma cidade, à qual deuo nome do seu filho Enoque" (Gn 4.17).Com o assassinato de seu irmão Abel, recaiu sobre Caim a maldição doSenhor: "você será um fugitivo e errante pelo mundo" (Gn 4.12). Essa culpacertamente lhe foi pesada demais, por isso, temendo ele pela própria vida,rogou por um amparo que lhe permitisse continuar vivendo. O Senhor lheconcedeu um sinal para que ele não fosse vingado pelo crime de sangue.Depois, continua a narrativa bíblica: "Então Caim afastou-se dapresença do SENHOR efoi viver na terra de Node, a leste do Éden" (Gn 4.16).Caim "já não tem lar, nem humano nem geográfico, porque o assassinatodestruiu o lar". 6 Como errante e fugitivo, ele estava em busca de um lugar,uma referência, um porto seguro, uma identidade. Na terra estranha, ele fezduas coisas: conheceu a sua mulher, gerou um filho e construiu uma cidade.O exegeta bíblico, R. Champlin, afirma que ele foi o primeiro "homema estabelecer uma comunidade urbana..." "o primeiro arquiteto urbanista ". 7Foi de Caim a idéia e o feito da criação da primeira cidade.4. Para estudar a cidade antiga, sugiro as obras de Faustel Collange e Lewis Munford, citadas na bibliografia.5. A seqüência dos textos segue a narrativa bíblica sem a preocupação pela historicidade dos relatos e sua cronologia.Aceita-se, neste trabalho, a Bíblia como um livro que tem sua própria dinâmica e mensagem independente de seusintérpretes.6. EIul, Jacques,1970, p. 16.7. Champlin, Russel N., 2001:48 - A nosso juízo, parece exagerado atribuir este veredicto a Calm. Evidencia um juízoanacrônico, pois toma emprestado de nossos dias a visão e linguagem.
  • A CIDADE NA BíBLIA SOB A LÓGICA DO PODER 35Que significado tinha essa cidade na vida de Caim? O filósofo e pensadorcristão, Jacques ElIul, afirma que, na cidade, Caim pôde ser ele mesmo, ela eraa sua pátria, o único ponto estável em seu vagar; foi um sinal material de suasegurança diante de Deus, de quem se tomou fugitivo e errante; diante dosanimais e, diante de seus próprios semelhantes a quem ele temia. "A cidadeé o resultado direto do ato criminoso de Caim e de sua negativa em aceitar aproteção de Deus". 8Com a construção de sua cidade, Caim fez um novo começo. Enoquesignifica iniciação ou dedicação. Enoque oferece um novo começo: inauguraçãoem oposição à criação, a cidade em oposição ao Paraíso. Assim como a históriacomeça com o assassinato de Abel, a civilização começa com a cidade e tudoo que ela representa. 9Esse é o contexto no qual a Bíblia insere a sua primeira referência àcidade. Uma referência muito breve e sucinta. A cidade é criação do homem- homem errante, fugitivo, inseguro - que foge de si mesmo e da presença deseu Criador. A cidade, tal como a civilização, não é criação de Deus, é criaçãohumana. Na sua cidade, a pessoa se afirma como sujeito de poder. Poder sobrea natureza e sobre seus semelhantes, a quem teme por se sentir ameaçadoem seu delito de perseguição. A violência gera o medo. E quem tem medo,esconde-se, arma-se!A narrativa bíblica apresenta o surgimento da primeira cidade vinculadoa um contexto de violência, medo, fuga e a necessidade de abrigo, de segurançae de conforto. Difícil é dimensionar a cidade de Caim em seus contornosmateriais. Certo é que o autor bíblico nos apresenta o surgimento do primeiroembrião urbano com os seus significados e as implicações espirituais, sociais,psicológicas, ecológicas e históricas.2.4.2 Ninrode"Cuxe gerou também Ninrode, oprimeiro homem poderoso na terra. Elefoi o mais valente dos caçadores, e por isso se diz: Valente como Ninrode . Noinício o seu reino abrangia Babel, Ereque, Acade e Calné, na terra de Sinear.Dessa terra ele partiu para a Assíria, onde fundou Nínive, Reobote-Ir, Calá eResém, que fica entre Nínive e Calá, a grande cidade" (Gn /0.8-/2). lO8. Ellul, Jacques, 1970, p.19.9. Ellul, idem, 1979. p.19-20.10. A coletânea dos registros das origens das nações traz apenas fragmentos. E tudo que afirmam parecem ser anotaçõesfragmentárias para elucidar realidades importantes para o agir do povo de Deus. É pouco provável que aqui o autor(es)pretenda expor as origens históricas das grandes cidades da Antigüidade, antes pretende dar uma satisfação teológicasobre a origem da cidade como centro de poder opressor.
  • 36 A CIDADE NA MISSÃO DE DEUSDe Ninrode sabe-se pouca coisa, embora o presente relato lhe dediquegenerosos cinco versículos, ao passo que, de outros personagens, faz apenasmenção. Ele era descendente de Cão, filho amaldiçoado por Noé e pai deCanaã (Gn 9.20-29; 10.6-8).Como descendente de Cão e sentenciado a ser servo dos servos de seusirmãos (Gn 9.25), Ninrode vingou-se da escravidão por sua própria força epartiu para a construção de cidades. Na interpretação de Ellul "o espírito depoder é uma resposta à maldição divina, e quase se podia dizer que tal espíritonunca teria existido se antes não houvera uma maldição... mais uma vez acidade vem como resultado da maldição; como uma ação através da qual umhomem tenta escapar da maldição". 11Sabemos da história que as grandes cidades antigas, referidas nessapassagem bíblica, não foram construídas por um só homem. Elas sãoconhecidas e emblemáticas, pois, sob o seu domínio, o povo de Deus sofreuviolência e opressão. Aqui se destaca uma lógica que acompanha a cidade aolongo da Bíblia: ela era erigida como centro de poder. O princípio norteador desua política é: o espírito de poder e de conquista jaz como o fundamento sobreo qual acontece a construção dessas cidades.Ellul sublinha esse aspecto e argumenta:A cidade é agora o centro a partir do qual se faz a guerra. A civilizaçãourbana é uma civilização bélica. O conquistador e o construtor já não sãodistintos. Ambos habitam em um só homem, e ambos são a expressãodessa ambição de poder que é a rebeldia contra o Senhor. As Escriturasnos dão aqui um segredo a mais sobre a cidade. E nosso mundo modernonão os desmente. Que mundo poderia demonstrar melhor do que o nosso oparalelo entre civilização urbana e civilização bélica? Um mundo no qual acidade e a guerra têm chegado a ser dois dos pólos ao redor dos quais giratoda vida econômica, social e politica de nosso tempo... Mas Ninrode nãoestá sozinho: ele está diante do Senhor. 12De acordo com a narrativa bíblica, Ninrode é apresentado como umhomem poderoso. "Ele foi um antigo tirano, um homem furioso, caçador,incansável, o fundador de Babel (ou seja, Babilônia). Ele proveu a uniãoda paixão pela caça com a habilidade da guerra e assim foi uma espécie deprotótipo dos monarcas assírios." 13Em que reside o seu poder? Ele é apresentado como o mais poderosocaçador. Caçar era um ofício comum para a época.11. Ellul, Jacques, idem, p. 23.12. Ellul. Jacques, Idem. p. 25.13. Champlin, Russel N., 2001, p.87
  • ACIDADE NA BíBLIA SOB A LÓGICA DO PODER 37A caça conforme informou Aristóteles, era tida como um aspecto das artesmilitares. Há uma certa lógica nisso. Na guerra, os homens caçam uns aosoutros, para se matarem; e, na caça, os homens caçam animais. Uma tristeatividade. Xenofonte escreveu que os reis da Pérsia eram preparados paraa guerra e para o governo por meio da caça. 14Isso nos leva a entender a intrigante conjugação entre o ofício docaçador e a construção de cidades. Ninrode comanda um exército de caçadorese saqueadores que vai pilhando aldeias vizinhas e construindo o seu reino,erigindo cidades que mais tarde se tornaram inimigas de Israel.Ninrode, no entanto, está "diante do Senhor". De tudo o que ele fizer ouedificar prestará contas a Deus, o Senhor soberano. Os profetas são testemunhasde que o Senhor não fica indiferente a tudo que é feito nas cidades e através deseus gestores ao longo da história. As cidades, bem como seus construtores,estão sob o juízo ou a misericórdia do Senhor. Ninrode não foi exceção.A cidade por ele idealizada localiza-se, geograficamente, na terrade Sinear, a planície onde o seu reino principia com a edificação de Babel,cidadela conhecida pelo episódio bíblico da construção da uma torre, conformeveremos adiante.2.4.3 A construção da cidade como centro de poder militar"No mundo todo havia apenas uma língua, um só modo defalar. Saindoos homens do Oriente, encontraram uma planície em Sinear e ali se fixaram.Disseram uns aos outros: Vamos fazer tijolos e queimá-los bem. Usavamtijolos em lugar de pedras, e piche em vez de argamassa. Vamos construir umacidade, com uma torre que alcance os céus. Assim nosso nome será famosoe não seremos espalhados pela face da terra . O SENHOR desceu para vera cidade e a torre que os homens estavam construindo. E disse () SENHOR:Eles são um só povo e falam uma só língua, e começaram a construir isso.Em breve nada poderá impedir o que planejam fazer. Venham, desçamos econfundamos a língua quefalam, para que não entendam mais uns aos outros .Assim o SENHOR os dispersou dali por toda a terra, e pararam de construir acidade. Por issofoi chamada Babel, porque ali o SENHOR confundiu a línguade todo o mundo. Dali o SENHOR os espalhou por toda a terra (Gn 11.1-9).A presente narrativa não é apenas uma parábola ou um conto. Ela separece mais com uma profecia. A grande construção é aqui apresentada comoo desejo dos filhos dos homens ou da humanidade em geral. Essa obra tem14. Champlín, Ide, idem, p. 89.
  • 38 A CIDADE NA MISSÃO DE DEUSseus idealizadores e interessados como no caso de Caim e Ninrode. Aquialguém desejou tirar proveito da cidade. Não era o povo trabalhador, ocupadocom o trabalho braçal, mas os que idealizaram, projetaram e concretizaram oempreendimento. Ou seja, a liderança interessada em projetar o seu nome.A parábola da construção da cidade com a torre de Babel é emblemática.Ela apresenta o gérmen de algo que se torna extremamente ameaçador para avida do povo de Deus: o obstinado desejo de dominar.O senso comum, expresso em comentários bíblicos e sermões, sobreo citado texto, limita-se a tirar dele algumas advertências e lições de moralsobre o orgulho. Interpretam o episódio da construção da Torre de Babel comoo fracasso do ufanismo humano e sua vanglória em fazer para si um nomenotável. A exegese bíblica mais acurada aponta para um significado maispertinente desse texto.Em sua exegese sobre o significado da torre, o teólogo Milton Schwantesafirmou:Já que no Antigo Testamento, migdal, nunca tem características sacrais,mas sempre militares, urge que também entendamos o migdal de Gn 11como sendo uma tal fortaleza. Esta significação é perfeitamente viável emnossa estória: foi construida uma cidade, isto é, um centro do poder políticoe econômico, na qual estava incluído um burgo, isto é, uma central para adefesa e o domínio militar. O migdal é, pois, a central militar que se eleva porsobre a cidade! Este é o sentido mais literal e lógico de migdal em Gn 11. 15A presente perícope insere-se no mesmo assunto que é tematizadoem Gn 10.8-12, ou seja, a tentação de fazer da cidade um centro de poder edominação. A crítica bíblica não se dirige, em primeiro lugar, à cidade como tal,mas à visão daqueles que dela pretendem fazer um instrumento de opressão.Só assim se pode entender a severidade do juízo de Deus sobre osconstrutores de Babel. O plano dos idealizadores do empreendimento era defazerem-se um nome. Fazer-se um nome equivale a fazer-se senhor, dominador,monarca, poderoso. O presente texto traz uma sutil crítica ao gérmen do estadomilitarizado:A loucura do estado em seu planejamento é incontrolável! O povo deDeus nos sabe contar inúmeros exemplos do desastre que representou oreinado em Israel. Basta ler Jz 9.7ss e 18m 8.10-18! Portanto, a reflexãodivina do v. 6 alude à passagem do grupo menor para a constituição doestado e diagnostica o calamitoso desastre de princípio inerente à estruturacentralizadora na metrópole e na guarnição. 1615. Schwantes. Milton. 1981, p. 94.95.16 Schwantes, Milton. idem, idem, p. 97.
  • ACIDADE NA BIBLlA SOB A LÓGICA DO PODER 39A idealização e a construção da cidade com sua torre acontece àrevelia de Deus. Basta olhar a estrutura do texto bíblico. Os primeiros quatroversículos falam da ação dos homens. Seu projeto de cidade, sua sede pordomínio e notoriedade não têm inspiração divina. Estão aí como obra do gêniohumano à revelia de Deus.O Senhor só interveio a partir do versículo cinco: "O SENHOR desceupara ver a cidade e a torre que os homens estavam construindo".Aqui ocorre algo semelhante com a narração sobre Ninrode, que era"valente caçador diante do SENHOR" (Gn 10.9 ARA). Os projetos de podermaquinados pelos homens, como aludido acima, não passam despercebidosdiante do Senhor. Este intervém, mais cedo ou mais tarde, para pronunciar seujuízo sobre os poderosos.Comparando-se o episódio de Babel com a situação que o povo de Israelviveu sob o domínio de Faraó no Egito, notam-se algumas semelhanças. O quemais incomodou o dominador egípcio foi o fato de que o povo desejou ter umespaço próprio para servir ao seu Deus. Com essa atitude, os filhos de Israelderam provas de que não estavam dispostos a se renderem incondicionalmenteàs ordens de Faraó (Êx 1.8-14). Coincidentemente, o povo de Israel erasubmetido à condição de escravos fabricantes de tijolos para construir ascidades-celeiros de Faraó.No episódio da torre de Babel, o juízo de Deus sobre o projeto dedominação foi transformado em bênção para o povo subordinado, à medidaque cada grupo recupera a sua própria linguagem sem um comando central. Éde supor-se que as culturas diversificadas levaram ao desespero os poderososdominadores obstinados por fazer-se um nome notável. Deus mesmo seencarregou de frustrar o projeto megalomaníaco dos protomonarcas ouprotoditadores. Isso nos leva a concluir que a cidade que o Senhor deseja estámuito distante do experimento citadino de Babel.2.4.4 A crítica ao estado monárquicoEm circunstâncias históricas complicadas ressurge, no seio do povode Deus, a vontade de erigir uma estrutura de poder centralizado capaz decomandar a guerra. Porém, o seu modelo de governo citadino não estava nosplanos de Deus.A fábula ou parábola de lotão é uma advertência crítica muito profundaao intento de fazer em Israel uma cidade belicista a exemplo dos povosvizinhos.
  • 40 A CIDADE NA MISSÃO DE DEUSOuçam-me, cidadãos de Siquém, para que Deus os ouça. Certo dia asárvores sairam para ungir um rei para si. Disseram à oliveira: "Seja o nossorei!". A Oliveira, porém, respondeu: "Deveria eu renunciar ao meu azeite,com o qual se presta honra aos deuses e aos homens, para dominar sobreas árvores?". Então as árvores disseram à figueira: "Venha ser o nosso rei!".A figueira, porém, respondeu: "Deveria eu renunciar ao meu fruto saboroso edoce, para dominar sobre as árvores?". Depois as árvores disseram à videira:"Venha ser o nosso rei!". A videira, porém, respondeu: "Deveria eu renunciarao meu vinho, que alegra os deuses e os homens, para ter dominio sobre asárvores?". Finalmente todas as árvores disseram ao espinheiro: "Venha sero nosso rei!". O espinheiro disse às árvores: "Se querem realmente ungir-merei sobre vocês, venham abrigar-se à minha sombra; do contrário, sairá fogodo espinheiro e consumirá até os cedros do Libano!" (Jz 9.7-15).A crítica à monarquia fica explicitada num outro texto, que aponta paraos direitos e privilégios do monarca e o preço de sua opressão para o povo.Quando envelheceu, Samuel nomeou seus filhos como líderes de Israel...Mas os filhos dele não andaram em seus caminhos. Eles se tornaramgananciosos, aceitavam suborno e pervertiam a justiça.Porisso todas as autoridades de Israel reuniram-se e foram falar com Samuel,em Ramá. E disseram-lhe: "Tu já estás idoso, e teus filhos não andam emteus caminhos; escolhe agora um rei para que nos lidere, à semelhança deoutras nações".Quando, porém, disseram: "Dá-nos um rei para que nos lidere", issodesagradou a Samuel; então ele orou ao SENHOR.E o SENHOR lhe respondeu: "Atenda a tudo o que o povo está lhe pedindo;não foi a você que rejeitaram; foi a mim que rejeitaram como rei... "Samuel transmitiu todas as palavras do SENHOR ao povo, que estavalhe pedindo um rei, dizendo: "O rei que reinará sobre vocês reivindicarácomo seu direito o seguinte: ele tomará os filhos de vocês para servi-lo emseus carros de guerra e em sua cavalaria, e para correr à frente dos seuscarros de guerra. Colocará alguns como comandantes de mil e outros comocomandantes de cinqüenta. Ele os fará arar as terras dele, fazer a colheita, efabricar armas de guerra e equipamentos para os seus carros de guerra.Tomará as filhas de vocês para serem perfumistas, cozinheiras e padeiras.Tomará de vocês o melhor das plantações, das vinhas e dos olivais, e o daráaos criados dele.Tomará um décimo dos cereais e da colheita das uvas e o dará a seusoficiais e a seus criados.Também tomará de vocês para seu uso particular os servos e as servas, e omelhor do gado e dos jumentos.E tomará de vocês um décimo dos rebanhos, e vocês mesmos se tornarãoescravos dele. Naquele dia, vocês clamarão por causa do rei que vocêsmesmos escolheram, e o SENHOR não os ouvirá".Todavia, o povo recusou-se a ouvir Samuel, e disse: "Não! Queremos ter umrei. Seremos como todas as outras nações; um rei nos governará, e sairá ànossa frente para combater em nossas batalhas..." (1 Sm 8.155).
  • ACIDADE NA BiBLlA SOB A LÓGICA DO PODER 41A palavra profética sublinha que a instituição da monarquia em Israelequivalia à rejeição de Javé como Rei de Israel. Sua motivação não veio deDeus, mas do desejo de ter alguém habilitado para a arte da guerra.Adiante, Samuel alerta para o peso tributário e o risco do regimemonárquico. Sabe-se que as monarquias eram sustentadas pelos saques dospovos vizinhos e pelo escravagismo. Acaso esse regime seria diferente emIsrael? A história posterior demonstrou que não.O capítulo do reinado em Israel foi catastrófico. Com exceção de algunspoucos reis, a maioria fez o que era mau perante o Senhor. Acrescente-se a issoa destruição de Jerusalém e o sofrimento decorrente descrito nas Lamentaçõesde Jeremias.A instauração de um estado monárquico militarizado em Israelsignificava uma dupla afronta a Javé. Primeiramente, é a negação da própriasoberania do Senhor: Javé é o único Rei em Israel; segundo, é negação de umespírito comunitário reinante em Israel, baseado na aliança das doze tribos.O rei Davi foi o último monarca em Israel que conseguiu manter omodelo comunitário das doze tribos em Israel. O rei Salomão teve um inícioglorioso em seu reinado, mas sucumbiu à tentação dos povos vizinhos e acabouedificando palácios, importando belas mulheres para o seu harém e terminoupor assimilar o modelo escravagista para Israel. Esse modelo centralizador foio princípio da derrocada da cidade de Jerusalém. Salomão abriu as fronteiraspara transformar Jerusalém - cidade da paz - em Babilônia, a cidade daopulência e da idolatria.2.5 Israel sob a ameaça das cidadesPor que a Bíblia descreve com tanta resistência a criação da instituiçãodo reinado citadino? O modelo monárquico desejado por Israel não conta como aval dos profetas porque afronta o próprio Deus, como vimos acima. Logo,a instituição do reinado foge do plano de Deus. Por quê? Exatamente pelo querepresenta a sua estrutura.Basta ver como agiam os reis dos povos e como se sustentavam. A baseda sustentação das monarquias era a pesada tributação e os saques aos povosvizinhos mais fracos por incursões militares. Quando as riquezas produzidaspelos povos não mais eram suficientes para satisfazer a ambição dos monarcascom seu exército, seu harém, seus palácios, seus sonhos de poder, suasvaidades... Então, instaurava-se a escravidão.
  • 42 A CIDADE NA MISSÃO DE DEUSA crítica profética, a rigor, não é dirigida à cidade, mas contra a formade governo citadino. Sua política era geradora de um processo de aglomeraçãourbana. O estado monárquico com a sua corte e funcionários não tinha limites.A violência não se evidenciava apenas na arte da guerra, mas institucionalizou-se na maneira de governar. As benesses eram sempre da corte, ao passo queo povo trabalhador - seja do campo ou do artesanato - ficava reduzido aosacrifício: sem contar com o fruto de seu labor, sem amparo legal e, não raro,sem uma instância jurídica para sua defesa.Apesar das advertências, a monarquia em Israel foi cantada comovontade de Deus, principalmente pelos sacerdotes. Esta ideologia ou idolatriadominante, protagonizada pelos sacerdotes da corte, não conta com umalegítima sustentação espiritual. No tempo do reinado, Deus faz ouvir sua vozatravés dos profetas.Então o reinado em Israel não foi vontade de Deus? Davi não foi um reisegundo o coração de Deus?Depende. Para que o desastre do reinado em Israel não fosse pior, Deuslevantou profetas corajosos para admoestar e limitar as loucuras dos monarcas.Em alguns raros momentos, os reis deram ouvidos às advertências dos profetas,como foi o caso de Davi, que foi duramente confrontado por Natã (2Sm 12).Os sacerdotes se comportavam, via de regra, como serviçais da corte.Para assegurar suas benesses, abdicavam ou renegavam o claro preceito da Leide Deus, opondo-se até aos profetas verdadeiros.Salomão não deu ouvidos aos profetas e comprometeu seu reinadocom a idolatria e a perversão (prostituição) à moda dos reinos pagãos, alémde introduzir em Israel o modelo econômico pagão, que tinha como base desustentação do reinado o escravagismo.Por isso se afirma, após a morte de Salomão (I Rs 12.4ss), que a opressãodo povo foi uma das principais causas da divisão do reinado em Israel.É também sintomático que a alusão que Jesus faz a Salomão refere-se a insignificância deste: "Vejam como crescem os lírios do campo... nemSalomão, em todo o seu esplendor, vestiu-se como um deles" (Mt 6.28-29).Essas advertências apontam para o risco dos governantes de não teremlimites em seu afã de dominar. Cabe à liderança do povo de Deus advertir edenunciar que o exercício do poder é, acima de tudo, um instrumento parapromover a justiça, a paz e o bem-estar social.
  • A CIDADE NA BíBLIA SOB A LOGICA DO PODER 432.6 O povo de Deus sob a opressão citadinaAo longo de sua história, o povo de Deus sofre e se insurge contra adominação que vem da cidade: "A cidade e a organização militar sediada nascidadelas citadinas continuamente representaram um problema vital para opovo de Deus... Os textos de Gênesis estão repletos de horror à cidade e desua sociedade" (Gn 4.17; 18ss; 12.1Oss; 20.1ss; 26.1ss)",17A começar com o chamado de Abrão, que para ser um instrumento debênção ao seu clã e às nações, tem como condição abandonar sua cidade deorigem, Ur da Caldéia (Gn 12.1-3).Ló é saqueado e levado cativo, vítima da violência de monarquiasemergentes da região de Sodoma (Gn 14). Abrão resgata Ló, seu sobrinho,do cativeiro. Consumada a vitória, Abrão é agraciado com a bênção deMelquisedeque, rei de Salém, sacerdote do Deus altíssimo (Gn 14.12-24).Gênesis 19 é outro testemunho da violência de Sodoma e Gomorracontra pessoas inocentes. Abraão clama por clemência pela cidade que oSenhor está prestes a destruir. A intercessão de Abraão diante do Senhor é paraque Ele não destrua o justo com o injusto. E o Senhor lhe afirma que, por amoraos justos, a cidade não será destruída. Mas a inexistência de justos inviabilizaa cidade e sobre ela caiu fogo e enxofre.No Egito, os filhos de Israel sofrem a dura escravidão para "construírempara o Faraó as cidades-celeiros" (Êx 1.11). Sua dura tarefa, entre outras, eraa confecção de tijolos para edificar as cidades a Faraó. Aqui o povo de Deussofre sob o duro mando citadino.A terra de Canaã estava cheia de cidades fortificadas: "as cidades sãograndes, com muros que vão até o céu" (Dt 1.28), ou "cidades grandes, commuros que vão até o céu" (Dt 9.l).Essas cidades são fortalezas militares - seu topo alcança os céus, issoquer apontar para sua colossalidade e monstruosidade que infunde temor etremor aos filhos de Israel.2.7 A crítica profética às cidadesO povo de Deus conta uma longa história de sofrimentos e malefícioscausados por cidades militarizadas. Dentre os profetas do povo de Deus quemanifestam com veemência a sua crítica ao projeto do poder centralizador edominador, destacam-se:17. Schwantes, Mílton, idem, idem, p.95.
  • 44 A CIDADE NA MISSAo DE DEUSAmós, em obediência à visão que recebe do Senhor, deixa seu ofíciorural em Tecoa para denunciar a violência militar e opressão econômica, sociale religiosa praticada pelos governantes de diversos povos, dentre os quais, opovo de Deus.Entre as violências praticadas e denunciadas pelo profeta, constam asseguintes: sobre Damasco: "(...) porque trilhou Gileade com trilhos de ferropontudos" (Am 1.3); sobre Gaza: "(...) porque levou cativas comunidadesinteiras e as vendeu a Edom" (Am 1.6); sobre Edom: "(...) porque com aespada perseguiu seu irmão, e reprimiu toda a compaixão..." (Am 1.11); sobreAmom: "(...) porque rasgou ao meio as grávidas de Gileade... " (Am 1.13);sobre Moabe: "(...) porque ele queimou até reduzir a cinzas os ossos do rei deEdom,... "(Am 2.1).A acusação mais severa do profeta se volta contra as lideranças dopróprio povo de Deus: sobre Judá: "(...) Porque rejeitou a lei do SENHOR enão obedeceu aos seus decretos, porque se deixou enganar por deuses falsos,deuses que os seus antepassados seguiram..." (Am 2.4); sobre Israel: "(...)Vendem por prata o justo, e por um par de sandálias o pobre. Pisam a cabeçados necessitados como pisam o pó da terra, e negam justiça ao oprimido. Pai efilho possuem a mesma mulher e assim profanam o meu santo nome. Inclinam-se diante de qualquer altar com roupas tomadas como penhor. No templo doseu deus bebem vinho recebido como multa" (Am 2.6-8).Em suma: "Eles não sabem agir com retidão", declara o SENHOR, "eles,que acumulam em seus palácios o que roubaram e saquearam" (Am 3.10).No que se refere às elites de Israel, o brado de indignação de Amós é aindamais veemente: "Vendem por prata o justo, e por um par de sandálias o pobre"(Am 2.6ss); "Eles não sabem agir com retidão", declara o SENHOR, "eles, queacumulam em seus palácios o que roubaram e saquearam" (Am 3.10).Mas, a maior indignação do Senhor contra o seu povo é que tentamenganar o próprio Deus através de uma religiosidade formal e falsa: "Afastemde mim o som das suas cançties e a música das suas liras. Em vez disso, corraa retidão como um rio, a justiça como um ribeiro perene!" (Am 5.23-24).Nos dias de Amós, o povo de Israel vive um tempo de prosperidade.A corte vive encastelada, usufruindo um consumismo à custa do sangue dostrabalhadores. A classe dominante é rica e opressora, vive distanciada darealidade sofrida de seus irmãos camponeses e operários. Não há justiça sociale o juízo de Deus não tardou.Amós aparece como voz solitária. Ele é o único que possuía uma leiturareal do que ocorria na época. Deus o arrancou da vida aldeã para o confrontocom as autoridades constituídas sobre as cidades. Deus não se conformava
  • ACIDADE NA BíBLIA SOB A LÓGICA DO PODER 45com um projeto desenvolvimentista, (mesmo que apoiado pela liderançareligiosa), mas que não contemplava todas as pessoas com justiça e dignidade.A espiritualidade requerida por Deus conjuga piedade com justiça, adoraçãocom transformação social, exercício do poder com bem-estar social de todos.Habacuque, em seus dias, alerta o povo de Judá para o poder bélico doscaldeus:(. ..) todos vêm prontos para a violência. Suas hordas avançam como o ventodo deserto, e fazendo tantos prisioneiros como a areia da praia. Menosprezamos reis e zombam dos governantes. Riem de todas as cidades fortificadas,pois constroem rampas de terra e por elas as conquistam. Depois passamcomo o vento e prosseguem; homens carregados de culpa e que têm pordeus a sua própria força. (Hb 1.9-11)No caso de Habacuque, Deus suscita o povo inimigo para executar ojuízo sobre Israel por causa de sua infidelidade. Isso não inocenta o poderopressor do exército dos caldeus. Apenas lembra que a mão do Senhor não estáencolhida. Antes reafirma que também os governos das nações devem prestarcontas ao Senhor pelo bem ou o mal que fazem ao seu próprio povo ou aosseus vizinhos.O profeta Oséias traz, igualmente, uma dura crítica à classe religiosae política de Israel, por causa de sua infidelidade e perversão (Os 2.2ss);corrupção das autoridades religiosas - "A fidelidade e o amor desapareceramdesta terra, como também o conhecimento de Deus" (Os 4.lss).A violência e a falsidade das autoridades políticas - "Os líderes deJudá são como os que mudam os marcos dos limites" (Os 5.10). A iniqüidadedos reis e príncipes - "Pois praticam o engano, ladrões entram nas casas,bandidos roubam nas ruas..." (Os 7. I); "Todos eles se esquentam como umforno, e devoram os seus governantes. Todos os seus reis caem, e ninguémclama a mim" (Os 7.7).Miquéias aponta para a esperança de ver uma sociedade não militarizadae belicista. Seu sonho de paz é ver as armas transformadas em ferramentas detrabalho produtivo e a violência cedendo lugar para a fraternidade:Elejulgará entre muitos povos e resolverá contendas entre nações poderosose distantes. Das suas espadas farão arados, e das suas lanças, foices.Nenhuma nação erguerá a espada contra a outra, e não aprenderão maisa guerra. Todo homem poderá sentar-se debaixo da sua videira e debaixoda sua figueira, e ninguém o incomodará, pois assim falou o SENHOR dosExércitos. (Mq 4.3-4)Isaías profetiza com palavras semelhantes (ls 2.4-5).
  • 46 A CIDADE NA MISSÃO DE DEUSEm suma, os projetos de poder, localizados nos palácios das cidades,representam ameaça e sofrimento para grande parte da população.Nas palavras de Schwantes:É impressionante observar que no Antigo Testamento a espoliação quevitima os que têm que construir nas cidades é muitas vezes tematizada(Gn 49.15; 1Sm 8.11ss; 2Sm 12.31; 20.24; 1Rs 4.6; 5.27; 15.22; Ne 3.lss;5.1ss; Mq 3.10; Hb 2.12; Jr 22.13ss). Sim, uma das causas importantes paraa divisão do reinado davídico-salomônico e o surgimento dos dois reinos(Israel e Judá) é justamente o trabalho forçado em construções (1 Re 12cf.vA com 18). 18Essa temática, que se estende ao longo da Bíblia, encontra no livrodo Apocalipse de João a descrição da culminância da maldade dos que reinamcom violência a partir da cidade. O poder totalitário de Roma é designado comoa besta emergente (Ap 13). A irracionalidade de sua violência é indescritível.Mas a violência não tem a última palavra no livro de Apocalipse.A cidade militarizada, com todo o seu poder e brutalidade, tem os seusdias contados. Embora ela seja capaz de exercer fascínio e dominar sobre osreis da terra (Ap 17), sua ruína já emerge no horizonte (Ap 18).Desde a narrativa de Gênesis 11 até a revelação em Apocalipse 13, Deusestá longe do empreendimento do Estado militarizado tanto na sua concepçãocomo na culminância de seu poder totalitário. "Essa oposição divina é expressade modo magnifico: Javé está longe da exploração e militarização citadinas;precisa descer para inspecionar. Sim, em Gn JJ, Deus só podia estar no céu,longe, pois não se pode identificar com a exploração e a militarização dacidade em obras.". 19Em contraste ao projeto humano, Apocalipse 21-22, apresenta a novacidade da qual flui a vida digna para todos. Esta não é fruto do engenhohumano, no afã de suas conquistas bélicas, mas procede daquele Deus cujoprincípio é a paz e a plenitude de vida para todos.É oportuno recordar o veredicto do estadista indiano Mahatma Gandhi:"O que se obtém com violência, somente se pode manter com violência". Issodeita por terra a falácia dos amantes da guerra: "Se queres a paz, prepara-tepara a guerra". A violência gera a violência, jamais a paz. A paz só tem umafonte: o Príncipe da Paz, Jesus!A índole de governos militarizados, experimentada pelas nações pagãse, às vezes, copiada pelos governantes do povo de Deus, é uma afronta aopróprio Deus e à sua justiça. A crítica profética aos modelos dos governos18. Schwantes. Milton, idem. idem, p. 100.19. Schwantes, Milton, idem. idem, p. 98.
  • A CIDADE NA BíBLIA SOB A L6GICA DO PODER 47totalitários é uma advertência severa para que o povo de Deus busque em açõesnão-violentas os caminhos capazes de conduzir à prosperidade e à paz social.Israel, no passado, a exemplo dos povos periféricos de nossos dias sabecontar histórias de horror sofridas pela opressão militar, política, econômicaou religiosa.Jesus propõe uma outra maneira de lidar com o poder. Governar nãoé dominar sobre outras pessoas, mas exercer uma liderança serviçal (Mt20.24-28). Essa liderança tem seu foco e culminância na promoção da pazsocial (Rm 13.1-7). O comprometimento com o Reino de Deus se efetiva noexercício da cidadania em cada comunidade na qual os filhos e filhas de Deusse congregam.2.8 Babilônia: símbolo e realidadeA Babilônia, no Antigo Testamento, e a Roma, no Novo Testamento,simbolizam a cidade como centro de poder militarizado, cruel, cheia de todainjustiça, idolatria e violência.Contra elas são dirigidos os veementes anúncios do juízo de Deus. Osprofetas vêem Babel, desde a sua origem (Gn 11.1-9), como produto do gêniohumano no afã de dominar sobre seus semelhantes à revelia da justiça do Deuseterno.Ao se referir ao mal que habita na cidade, o missionário urbano emissiólogo Robert Linthicum constata que: "O mal de uma cidade é compostopor engrandecimento pessoal, auto-indulgência, injustiça social e idolatria".20Ele habita a mente dos governantes e, simultaneamente, perpassa e toma-sevisível nos sistemas da cidade: economia, religião e política. Via de regra, asautoridades estão a serviço de um sistema e não o contrário. Um exemplo dissoé o que acontece do sistema capitalista de nossos dias: o capital tem absolutaproeminência sobre os governantes ou autoridades dos estados-nações. Iludem-se os que pensam que a eleição democrática de um presidente da repúblicatrará uma mudança fundamental no sistema econômico de uma nação.Babilônia simboliza a capital de um sistema opressor e idolátrico,inimigo de Deus, dos homens e da natureza. Nela o imperador, sua corte e seusfuncionários gozam de todas as benesses e privilégios a custo da dura servidãodos povos subjugados.O autor do livro de Apocalipse refere-se à cidade de Roma, de sua época,como encarnação da Babilônia, a grande Besta (Ap 13). Sua característica é a20. Línlhícum, Robert, 1993, p. 50ss.
  • 48 A CIDADE NA MISSÃO DE DEUSirracionalidade da sua violência, seu grande poder de intimidação e persuasão,o domínio sobre os reis da terra (ditadura), arrogância, blasfêmia, perversão eperseguição aos eleitos de Deus.Em outra parte, a cidade sanguinária é caracterizada como a grandemeretriz (Ap 17) detentora de toda autoridade de persuasão sobre as naçõesda terra. Ela exerce o domínio sobre os povos da terra pela sua força militar(armamento) e pelo comércio (mercado), e pela idolatria (prostituição).Ao considerar o anúncio profético da derrocada do império romano, ésintomática a reação dos grupos de pessoas que lamentaram a queda da grandeBabilônia:Quando os reis da terra, que se prostituiram com ela e participaram do seuluxo, virem a fumaça do seu incêndio, chorarão e se lamentarão por ela.(Ap 18.9)Os negociantes da terra chorarão e se lamentarão por causa dela, porqueninguém mais compra a sua mercadoria: artigos como ouro, prata, pedraspreciosas e pérolas; linho fino, púrpura, seda e tecido vermelho; todo tipode madeira de cedro e peças de marfim, madeira preciosa, bronze, ferro emármore... (Ap 18.11-13)Os grupos que lamentaram a queda da cidade e de seu mercado foram daclasse alta: os reis e os donos do mercado de artigos de alto luxo, armamentose escravos. A exemplo de Sodoma e Gomorra, a cidade violenta, idólatra eperversa não durará para sempre.Em contraste aos que lamentarão o fim do mercado universal, comandadopor um sistema centralizado, haverá grande júbilo dos que se alegrarão coma queda da Babilônia. Quem são estes? "Celebrem o que se deu com ela, Ócéus! Celebrem, Ó santos, apóstolos e profetas! Deus julgou, retribuindo-lhe oque ela fez a vocês ". (Ap 18.20).Observe-se bem o contraste: em Ap 18.9ss, enquanto os da elitedominante (reis da terra, os donos dos navios e os mercadores de mercadoriasde alto luxo) lamentam a ruína da grande cidade, há júbilo e exultação da partedos santos, apóstolos e profetas, porque o Senhor ouviu o seu clamor, julgousua causa e lhes concedeu o triunfo final.O projeto que se erguera pela violência, pela violência pereceu. Mas amensagem consoladora do Espírito Santo aponta para quem de fato governasobre céus e terra:Então vi outro anjo, que voava pelo céu e tinha na mão o evangelho eternopara proclamar aos que habitam na terra, a toda nação, tribo, língua e povo.Ele disse em alta voz: Temam a Deus e glorifiquem-no, pois chegou a horado seu juízo. Adorem aquele que fez os céus, a terra, o mar e as fontes das
  • ACIDADE NA BiBLlA SOB A LÓGICA DO PODER 49águas". Um segundo anjo o seguiu, dizendo: "Caiu! Caiu a grande Babilôniaque fez todas as nações beberem da fúria da sua prostituição!" (Ap 14.6-8)2.9 ConclusãoAo longo de toda a Bíblia, percebe-se que o Senhor Deus é o justojuiz sobre todos os governos humanos. As advertências, as exortações e osjuízos de sua Palavra voltam-se contra todos que atentam contra a dignidadehumana, a justiça e a paz social. Por isso, todos os governos, em suas maisvariadas estruturas, regimes e sistemas devem considerar que o único projetoque prospera, a longo prazo, é aquele que estiver construído sobre as bases dajustiça, eqüidade e da misericórdia (SI 72).O governante, qualquer que seja, antes de tudo, deveria deixar-segovernar pelo Senhor e pelo seu Espírito, porque, segundo os ensinos dasEscrituras, toda a autoridade (civil, militar, religiosa) é vocacionada para serserva de Deus a serviço da paz social (Rm 13.1-7).Embora todo o ser humano deva se submeter às autoridades constituídas,essa submissão não pode estar acima da vocação profética de vigiar, exortare alertar: "É preciso obedecer antes a Deus do que aos homens" (At 5.29).Nada justifica a opressão, nem a rebeldia sem causa. Todos os seres humanostêm uma vocação inalienável: cooperar na administração da boa criação deDeus.Os contornos sociológicos das instituições políticas e das organizaçõessociais são fruto do gênio humano. Deus mesmo lhes concedeu a liberdade ea criatividade para estruturar seu convívio comunitário. O exame do contextoda realidade, à luz da vontade de Deus, permite realizar as melhores escolhas.Assim como Moisés humildemente ouviu os conselhos de Jetro,sacerdote de Mídiã, porque julgou serem adequados ao bem de seu povo (Êx18), os filhos de Deus, na atualidade, podem valer-se da experiência bem-sucedida na história de outros povos. Podem adequar formas de governo e deliderança, desde que sejam caminhos pacíficos que promovam - baseados naliberdade e na justiça - a dignidade, a prosperidade e a paz social.O Espírito da profecia que deve nortear todo exercício da autoridadeseja esta de natureza política, social, militar, econômica ou religiosa, residenesta palavra: "Ele mostrou a você, Ó homem, o que é bom e o que o SENHORexige: pratique a justiça, ame a fidelidade e ande humildemente com o seuDeus" (Mq 6.8).Viver na conflitividade social, tanto no passado como no presente,requer a busca por discernimento. Não é possível viver a vida cristã à parte da
  • 50 A CIDADE NA MISSÃO DE DEUSrealidade social maior. Aos que, com boa ou má fé, apostam em escapismos,deve ser afirmado, com todas as letras, que cada cristão é portador de umadupla cidadania: ele é cidadão de seu país e é cidadão do Reino de Deus.Cumpre assumir e viver dignamente essa dupla dimensão da espiritualidade.Esse é o ensino dos profetas e apóstolos. Jesus não viveu uma vida alienada,mas inserida em seu contexto social, religioso e político.O pertencimento à assembléia dos eleitos pela graça de Cristo trazconsigo O compromisso de lutar pela transformação de todas as estruturassociais. A Nova Jerusalém não nos serve apenas como morada futura. Elaé, também, o espelho que deseja iluminar nossa caminhada até lá. A cidadefutura é plena de vida, isso nos desafia a desejar essa qualidade de vida paranosso contexto concreto e histórico.O futuro é o Cristo ressurreto. Quem pertence a Cristo pertence aofuturo. Portanto, na vida cristã não pode haver dicotomia entre presente efuturo. Cada cristão tem sua vida marcada pela esperança de novos céus enova terra onde habita a justiça (2Pe 3.13). Em Cristo, o futuro que se encarnano presente.A igreja é uma comunidade que vive inserida no contexto social,marcado pela dor e pelo sofrimento. Quem tem morada no céu, deve lutarpor habitação digna na terra. Quem tem certeza de alimentar-se do pão céu,tem maior motivação e responsabilidade para lutar a fim de que todos tenhampão e dignidade nesta terra. Quem não estiver imbuído desse espírito, nadaentendeu do mandamento do amor e poderá surpreender-se, na volta de Cristo,conforme a parábola contada por Jesus em Mateus 25.31-46.As cidades, especialmente os complexos metropolitanos, colocamdiante dos nossos olhos o triste contraste entre luxo e lixo, palácio e favela,liberdade e opressão, condomínios seguros e moradia de rua... Essa face injustada cidade é espelho de sua lógica. Essa lógica afronta e desafia a todos sincerosfilhos e filhas de Deus.A Babilônia urbana de nossos dias sacrifica milhares de filhos inocentesno altar da idolatria do mercado. Os governos e seus partidos já não representammais a sociedade. Se os filhos de Deus não ouvirem os gemidos urbanos e seengajarem por transformações profundas, quem o fará? Tal como na época deNeemias, estamos diante da ruína urbana que requer um retiro com oração,jejum, arrependimento e muita criatividade, para fazer da cidade um espaçode vida digna contra toda pretensão opressora. Na vida cristã não existe aalternativa da alienação.
  • 51CAPÍTULO lUA CIDADE COMO ESPAÇO/DE MISERICORDIA E DE VIDA3.1 A vocação da cidade como espaço de justiça e misericórdiaPelo anteriormente apresentado, ficou evidente que a cidade, na visãobíblica, tem sido colocada a serviço da lógica do poder, da dominação e daviolência. Será esse o destino de toda cidade? A urbanização, em todos ostempos, está condenada por essa lógica? Ou Deus tem outro plano para coma cidade?A seguir, procuramos elucidar um outro enfoque que é igualmentebíblico. Deus vocacionou a cidade para ser um espaço que favorece amisericórdia e ampara a vida. Ela pode promover a plena realização humana esocial num convívio harmonioso com toda a criação.Assim como o evangelho é poder de Deus para salvar e transformarpessoas, ele também é o poder capaz de transformar as estruturas sociaiscriadas ao longo da história.Os santos da Bíblia apostam numa lógica determinada pela vontadede Deus. Se a lógica do pecado é estar sob o império das trevas, a lógicada redenção é estar sob a graça do amado Filho de Deus, focado num reinopermeado pela misericórdia, justiça e paz. O poder de Deus não se limita atransformar a vida das pessoas, Ele quer redimir também as conseqüênciassociais afetadas pelo pecado.Pelo que depreendo do testemunho bíblico (CI 1.13-23), a graça deDeus é transformadora tanto das pessoas como de seus relacionamentos e desuas criações coletivas: família, comunidade, cidade e governo. Se a lógica dopoder do pecado conduz à morte, a lógica da redenção conduz à vida.Não se tem pretensão de afirmar que a plenitude do Reino de Deusserá o resultado de nosso esforço nesta geração. Cumpre lembrar, no entanto,que o ensino bíblico enfatizado pela Reforma do século XVI diz que somossimultaneamente justos e pecadores. Todas as nossas criações levam essamarca. Por essa razão, devemos rogar para que o Espírito do Senhor nosconduza ao engajamento social com vistas à transformação.
  • 52 A CIDADE NA MISsAo DE DEUSComo contraponto da visão negativa da cidade enfatizada no capítuloanterior, existe um enfoque que vê a cidade como espaço de realizaçãohumana. Esta é a sua verdadeira vocação. É desígnio do Senhor que tambémna realidade urbana da atualidade a misericórdia triunfe sobre a malícia, a pazsobre as armas, a justiça sobre a descriminação, a comunhão sobre a opressão,a inclusão sobre a exclusão, a vida sobre a morte...Há fundamentação, sinais e evidências para sustentar essa visão?Se Babilônia simboliza biblicamente a cidade violenta e opressora, qual osímbolo que aponta para a cidade que Deus quer? Quem decide, afinal, o rumoda cidade terrena? Que base bíblica existe para lutar pela transformação dascidades históricas? Não basta esperar que venham novos céus e nova terracomo consumação apocalíptica do Reino de Deus em sua plenitude? Qual amissão de Deus na cidade de nossos dias?A nossa incumbência missionária de hoje leva-nos a perguntar peloconselho de Deus a respeito da cidade que Ele deseja para a atualidade, poiso Deus a quem servimos é o mesmo, ontem hoje e eternamente. Ele temmostrado ao seu povo quais os seus propósitos para a cidade.A começar com Abraão que, para cumprir a missão de Deus e ser bênçãopara todas as famílias da terra, fora chamado a deixar a grande cidade de Dr daCaldéia, não há como negar que a vida nômade e peregrina não é a única alternativapara o povo de Deus. O Pentateuco registra a promessa aos filhos de Deus de queseriam possuidores de cidades e viveriam em cidades (Nm 35.1-8, Dt 1).Igualmente, o juízo de Deus sobre Sodoma e Gomorra não ocorreu pelofato de que eram cidades, e sim, pela sua falta de hospitalidade, violência eperversão. A intercessão de Abraão tem o veredicto de Deus de que a cidadeserá preservada se nela houver alguns justos (Gn 18.22-33).Semelhantemente aconteceu com Babel (Gn 11.1-9). A construçãoda cidade como tal não está sob o juízo de Deus, mas a obsessão de seusconstrutores em fazer da cidade uma fortaleza e centro de dominação militar.A humanidade vive no período pós-Paraíso e pré Jerusalém celeste.Nessa trajetória, vale a criatividade. O gênio humano pode lançar-se a sonhar econceber projetos civilizacionais ao sabor de sua imaginação e de seus recursos.A experiência narrada no livro de Eclesiastes aponta para a futilidade dohedonismo e da vaidade. Jesus propõe a busca do Reino dos céus e de sua justiça(Mt 6.33) como alternativa para a superação do reino das necessidades.Na boa criação de Deus, há espaço para desenvolver a criatividade a serviçoda vida. Cada pessoa, cada cidade, cada povo, cada civilização deverá faz as suasescolhas. A ética cristã responsabiliza-nos por nossas ações. Elas estão diante doSenhor e delas será exigida uma prestação de contas (Mt 25.31-46).
  • A CIDADE COMO ESPAÇO DE MISERICÓRDIA E DE VIDA 53Deus deseja que a cidade, como criação do homem, seja um espaço paraa comunhão e não de uma "multidão solitária". 1A mesma compaixão que Deus dispensa à pessoa enquanto indivíduo,família, clã ou etnia, Ele oferece à cidade. Há momentos, inclusive, em queas cidades recebem um tratamento carinhoso de uma relação maternal oupaternal. Isso tudo indica que o propósito do Senhor para com a cidade é queela seja um espaço de comunhão e de vida. Busquemos a base bíblica quesustenta essa visão!3.2 As cidades de refúgio(Nm 35.9-15; Dt 4.41-43; 19.1-3; Js 20.1-9)A Lei mosaica coloca alguns limites para que a vingança não sejamais grave que o delito. Dessa maneira, colocam-se balizamentos claros paraprevenir a instauração de um círculo de violência ou de impunidade. "Quemferir um homem e o matar terá que ser executado. Todavia, se não o fezintencionalmente, mas Deus o permitiu, designei um lugar para onde poderáfugir" (Êx 21.12-13).Para servir como espaço de amparo ao inocente, que acidentalmentepudesse ser responsabilizado pela morte de um irmão, foram estabelecidas ascidades de refúgio.O que eram e para que serviam as cidades de refúgio? Eram espaços deproteção designados "para onde poderáfugir quem tiver matado alguém semintenção" (Nm 35.11).Deveria estar claro que ali se oferecia proteção para alguém "que semo quererferir o seu próximo, a quem não aborrecia dantes" (Dt 19.4 - ARA).Nela a comunidade do povo de Deus acolhia aquelas pessoas que pudessem terferido ou matado a seu irmão num acidente de trabalho (Dt 19.5).Nesse espaço, o refugiado estaria a salvo do vingador da vítima (umaespécie de justiceiro do clã ou família, Nm 35.12). O tempo de permanência nacidade de refúgio era o tempo suficiente até que o acusado fosse apresentadoà congregação para julgamento (Nm 35.12). Caso um homicida que matassealguém com intenção se refugiasse numa dessas cidades, este seria dali removidopelos anciãos e entregue ao vingador de sangue para que fosse executado (Dt19.11-13).1. David Riesman estuda o assunto no livro A Multidão Solitária na sociedade americana urbanizada.
  • 54 A CIDADE NA MISsAo DE DEUSo inocente podia permanecer nessa cidade de refúgio até a morte dosumo sacerdote (Nm 35.25). Se ele não cumprisse o mandado de permanecerna cidade de refúgio e fosse apanhado pelo vingador de sangue fora dos limitesestabelecidos, o vingador poderia executá-lo, porque não permaneceu no localdesignado para sua proteção (Nm 35.26-28).As cidades de refúgio eram designadas em número de seis: três a cadamargem do rio Jordão. "Quedes na Galiléia, nos montes de Naftali, Siquém,nos montes de Efraim, e Quiriate-Arba, que é Hebrom, nos montes de Judá. Nolado leste do Jordão, perto de Jericó, designaram Bezer, no planalto desérticoda tribo de Rúben; Ramote, em Gileade, na tribo de Gade; e Gola, em Basü,na tribo de Manasses" (Js 20.7-8). Elas eram de rápido acesso. Além dosisraelitas, também os estrangeiros que residiam com o povo de Deus tinham odireito ao refúgio nessas cidades (Js 20.9).As cidades de refúgio eram espaços, cidadelas designadas com afinalidade de oferecerem amparo para que inocentes estivessem a salvo dovingador de sangue. Não se trata de estruturas urbanas próprias como colôniaspenais ou algo parecido. Pelo contrário, eram cidades já estabelecidas queacolhiam, em seu âmbito, pessoas nessas condições. O local de refúgio comoespaço de amparo tinha um duplo significado:- livrar o inocente da vingança de sangue;- evitar a impunidade.Com esse procedimento, a comunidade do povo de Deus prevenia-se daviolência generalizada e da prática de injustiças.A sabedoria da Lei de Deus coloca esses espaços para que reine ajustiçacontra a vingança. A liderança da comunidade acompanha e delibera sobrecada um dos casos. Isso evita que a justiça seja feita com as próprias mãos.As cidades de refúgio constituem-se num primeiro ensaio para evitar adisseminação da violência na cidade.3.3 A incompreensível compaixão de Javé com Nínive: O livrode JonasO livro de Jonas mostra que Deus não deseja a ruína da cidade, mesmoque ela seja marcada pela malícia. Nínive, capital da Assíria, foi uma cidadesanguinária. Suas incursões militares sobre Israel são prova disso. Era de esperar-se que Deus jamais reservasse a chance de misericórdia e arrependimento paraessa cidade. Contudo, Deus suscita um "profeta", chamado Jonas, para pregarjuízo e arrependimento àquela cidade: "Vá depressa à grande cidade de Nínive e
  • A CIDADE COMO ESPAÇO DE MISERICÓRDIA E DE VIDA 55pregue contra ela, porque a sua maldade subiu até a minha presença" (In 1.2).O "profeta" Jonas reluta com Deus até aceitar a incumbência divina.Mesmo assim, parece que ele nunca se convenceu da abrangência damisericórdia de Deus. Somente após a frustração de sua fuga, Jonas aceita aincumbência e vai a Nínive para anunciar o juízo de Deus com data marcada:"Jonas entrou na cidade e a percorreu durante um dia, proclamando: Daquia quarenta dias Nínive será destruída" (In 3.4).Ele percorreu as ruas da grande cidade e, para sua inteira surpresa, opovo se arrependeu de suas malícias desde a periferia até a corte: "Os ninivitascreram em Deus. Proclamaram um jejum, e todos eles, do maior ao menor,vestiram-se de pano de saco. Quando as notícias chegaram ao rei de Nínive,ele se levantou do trono, tirou o manto real, vestiu-se de pano de saco e sentou-se sobre cinza" (In 3.5-6).O rei mandou apregoar um grande jejum e o clamor por arrependimentoestendeu-se por todo o seu reinado, envolvendo tanto as pessoas como osanimais: "(...) E todos clamem a Deus com todas as suas forças. Deixem osmaus caminhos e a violência. Talvez Deus se arrependa e abandone a sua ira,e não sejamos destruídos" (In 3.8-9).Resultado: a cidade marcada pela malícia teve um encontro com amisericórdia de Deus. 2 Sua iniqüidade foi perdoada e o anunciado juízo nãocaiu sobre Nínive: "Tendo em vista o que eles fizeram e como abandonaramos seus maus caminhos, Deus se arrependeu e não os destruiu como tinhaameaçado" (In 3.10).Jonas sente-se frustrado e profundamente indignado com a grandemisericórdia de Deus para com a cidade violenta.O próprio Deus argumenta com Jonas manifestando-lhe a razão desua atitude benigna com os ninivitas: "Mas o SENHOR lhe disse: Você tempçna dessa planta, embora não a tenha podado nem a tenha feito crescer. Elanasceu numa noite e numa noite morreu. Contudo, Nínive tem mais cento evinte mil pessoas que não sabem nem distinguir a mão direita da esquerda,além de muitos rebanhos. Não deveria eu ter pena dessa grande cidade? "(In 4.10-11).Em suma, a narrativa de Jonas ensina que Deus não tem problemascom uma cidade estrangeira a Israel que acolhe sua mensagem e se arrepende.Seu problema é com a visão etnocêntrica de seu profeta. Nele Deus teve queinvestir um tempo especial para ver se ele fosse capaz de compreender e aceitara misericórdia do Senhor para com a grande cidade.2. Para aprofundar esse assunto sugiro o estudo de Valdir Steuernagel O Encontro da Cidade com a Misericórdia.
  • S6 A CIDADE NA MISsAo OE DEUSEssa narrativa explicita que a cidade se converteu, e Deus tevemisericórdia dela. Não se sabe se o profeta se converteu à misericórdia doSenhor, ou se persistiu na sua teologia etnocêntrica, cultural e teologicamenteancorada na história de seu próprio povo...O livro de Jonas aponta para a preocupação de Deus para com a grandecidade. Ele deseja que ela não seja dominada pela malícia e pela violência, masque seja um espaço consagrado à prática da misericórdia. Essa misericórdianão se limita às pessoas, mas abarca toda a natureza.A motivação do Senhor é completamente diferente da de Jonas. Estenão encontrava nenhum argumento teológico para se deixar enviar à cidadesob cujos exércitos Israel sofrera outrora. Deus certamente não se limitaapenas à visão objetiva da violência que marcava aquela cidade. Ele age pormisericórdia. É por misericórdia que Ele perdoa a malícia dos ninivitas. Essamotivação ultrapassa a teologia etnocêntrica do profeta.Graças a Deus! A misericórdia do Senhor é maior que a teologia de seusmissionários ou profetas!3.4 Das ruínas urbanas surge uma comunidade: NeemiasNeemias, em seu livro, descreve suas memórias como testemunhoda misericórdia do Senhor na reconstrução de seu povo a partir das ruínasurbanas. Tanto a cidade como o povo de Jerusalém encontrava-se arruinado emprofunda miséria, desprezo e abandono.Neemias experimentou a boa mão do Senhor que revelou um planoorganizado para a reconstrução da cidade e de seus habitantes. Esse assuntomerecerá especial atenção no capítulo IV deste livro.3.5 Paz e prosperidade na cidade adversa: JeremiasAssim diz o Senhor dos Exércitos, o Deus de Israel, a todos os exilados,que eu deportei de Jerusalém para a Babilônia:"Edificai casas, e habitai nelas; plantai pomares, e comei o seu fruto;Tomai esposas e gerai filhos e filhas, tomai esposas para vossos filhos, e daivossas filhas a maridos, para que tenham filhos e filhas; multiplicai-vos aí, enão vos diminuais.
  • A CIDADE COMO ESPAÇO DE MISERICÓRDIA E DE VIDA 57Procurai a paz da cidade, para onde vos desterrei, e orai por ela aoSENHOR; porque na sua paz vós tereis paz" (Jr 29.4-7 - ARA)O exegeta bíblico, Nelson Kilp, 3 observa bem que a carta de Jeremiasapresenta duas séries de imperativos; uma se refere ao que deve ser feitono presente: "Edificai casas... plantai pomares... tornai esposas, dai vossasfilhas..". E a outra série de imperativos se refere ao que deverá acontecer nofuturo: "(...) habitai nelas... comei o seu fruto... geraifilhos efilhas... procuraia paz da cidade..."Isso indica que o povo deportado deverá permanecer por um tempoprolongado no exílio. Mas ainda existe uma "missão" a cumprir em relação àcidade para onde foram deportados:Exatamente por Jeremias saber que Javé irá levar a bom termo o que osexilados empreenderem, o profeta pode convidar a construir, plantar, casar,buscar o bem-estar. Em última análise, o profeta convida os exilados aconfiarem na presença abençoadora de Javé no estrangeiro. O anúncioprofético é, pois, promessa divina: Deus está com os exilados e oferece aosmesmos um futuro promissor. 4O profeta Jeremias com sua mensagem não corresponde à expectativados exilados, que desejavam voltar logo para Jerusalém. Ao contrário, isso oscompromete a buscarem a paz e o bem-estar da cidade. Sob a graça de Deus,eles podem olhar para um novo momento: a transformação da cidade a partirda paz que lhes é concedida na bênção de Deus.A construção dessa paz aconteceria a partir dos núcleos familiares e nãodo Estado ou do templo. Aliás, nesta carta, Jeremias nada fala de submissão ouobediência do povo ao regime reinante na cidade. O povo de Deus não é instadoa construir a cidade, mas a ser, na cidade, um espaço alternativo de paz capazde contagiar toda a grande cidade. Seu foco é muito realista. A construção dapaz na cidade e a esperança da transformação urbana começam com sinaisconcretos que se constituirão em rede abençoadora para toda cidade: "em suapaz vós tereis paz".A quem cabia a tarefa de implementar essa mensagem? Cabia àliderança familiar, aos chefes das famílias, ou seja, aos anciãos (Jr 29.1). Eradeles o dever de velar para que esse propósito fosse levado a bom termo. Aliderança dos anciãos é novamente restabelecida, pois havia sido relegada coma formação do Estado de Israel, onde toda a liderança estava centralizada nacorte em Jerusalém, conforme Kilp.3. Kilp, Nelson, 1998, página 16.4. Kilp, Nelson. idem, p. 16
  • 58 A CIDADE NA MISSÃO DE DEUSNo exílio, as lideranças familiares novamente encontram seu espaço.Aqui, podia-se ver um prenúncio do que mais tarde será chamado o sacerdóciogeral dos santos. Isto é, cada filho e filha de Deus, a partir de sua profissãoassume a vocação de se empenhar na construção da paz social.Deus estava com os exilados urbanos para escrever uma nova páginada história de seu povo: "Javé está com os desterrados. Esta afirmação éimportante não somente por expressar a universalidade da presença do Deusde Israel; indiretamente ela contém uma crítica ao templo. Para Jeremias, otemplo não mais é necessário para o povo ser abençoado por Deus... Shalomhaverá no estrangeiro, não em Ieru-shalem, a cidade da paz ". 5A carta de Jeremias aos exilados urbanos desafia a igreja a pensarem missão urbana não centrada no templo. A missão de Deus não estávinculada às fórmulas eclesiásticas, litúrgicas ou de cultura religiosa (vestese indumentárias), hinologias, etc., Deus é o soberano Senhor da missão. Soba sua Palavra é possível construir espaços de misericórdia, paz e vida, mesmoem ambientes de governos alheios ou contrários a nossa visão teológica oueclesiológica. Se isso não fosse verdade, não haveria missionários em paísescom governos totalitários e hermeticamente fechados à presença cristã.À missão urbana implica deixar de sonhar com o passado e, sob aPalavra de Deus, lançar-se na construção do futuro. O mais importante nãoé adequar a fé a moldes culturais do passado, mas dar espaço ao Espírito doSenhor, para que Ele possa, através de sua comunidade, erigir sinais de vida ede paz num ambiente dominado pela violência ou opressão.3.6 Jerusalém: a cidade da justiçaA cidade de Jerusalém, originalmente, foi edificada pelos jebuseus(Jz 19.10) e localizava-se na terra de Canaã. O livro de Josué apresenta umalonga lista de cidades destruídas na incursão conquistadora dos filhos de Israelna terra de Canaã. Nesses relatos, há uma breve referência à Jerusalém: "Osdescendentes de Judá não conseguiram expulsar os jebuseus, que viviam emJerusalém; até h(~je os jebuseus vivem ali com o povo de Judá" (Js 15.63).Notícia semelhante é registrada em Jz 1.21.A cidade de Jerusalém era uma resistência, uma fortaleza dos jebuseus.A única cidade de Canaã que não fora destruída durante a conquista.Essa cidade somente foi conquistada pelo rei Davi, que dela fez acapital religiosa e política de Israel. "O rei e seus soldados marcharam paraJerusalém para atacar os jebuseus... Davi conquistou afortaleza de Sião, que5. Kilp, Nelson, idem p. 19.
  • A CIDADE COMO ESPAÇO DE MISERICÓRDIA E DE VIDA 59veio a ser a cidade de Davi... Davi passou a morar na fortaleza e chamou-aCidade de Davi..." (2Sm 5.6-11). Nessa cidade de Sião, Davi reinou 33 anos(2Sm 5.5).Davi mandou trazer a Arca da aliança para Jerusalém num cortejo demuita festa, celebração e rara euforia (2Sm 6.1-19).O que transformou a cidadela militar em centro de irradiação espiritualfoi a ação do rei Davi: "em nome do Senhor, fez um pacto de amor com ela ",6pelo qual agradece humildemente (25m 7.18-29). Davi faz dessa cidade,outrora pagã, a morada da Arca da aliança.Até esse momento, a arca estivera acompanhando o povo ao longo desuas peregrinações, ora acolhida em tendas, ora em tabernáculos ou casas decamponeses (2Sm 7.6). Davi providenciou-lhe um lugar fixo: a casa da arcatoma-se a casa do Senhor. Mas não coube a Davi a edificação do primeirotemplo (2Sm 7).O que fez dessa cidade pagã e sanguinária a capital espiritual de Israelfoi a misericórdia do Senhor. Ela foi escolhida por Davi para que nela habitassea glória do Senhor. Mudou o governo da cidade, mudou a política da cidade,mudou a espiritualidade da cidade - mudou a cidade. Ela passa a ser cidadeescolhida e amada pelo próprio Deus (Ez 16.1-14).Assim Jerusalém, habitação da Arca, tomara-se a capital espiritual deIsrael, centro de culto e de peregrinações. Nela Salomão edificaria o templodentro do qual a Arca ocuparia o lugar de destaque no santo dos santos.O Salmo 72 sintetiza a marca distintiva do projeto de governosegundo o coração de Deus, caracterizada pela prática da justiça; o amparoaos aflitos, necessitados e desamparados do povo; a acolhida ao estrangeiro;e a eliminação do opressor. O fruto de tal governo é a paz, o bem-estar, aintegridade, a prosperidade do povo de Deus e a estabilidade do governo.Esse era o fundamento eterno idealizado para a Jerusalém enquanto capitalespiritual de Israel. Esse era o ideal da cidade edificada sobre o monte cuja luzera destinada a iluminar os povos (gentios).A presença do Senhor transformara Jerusalém. A cidadela, outroratemida como centro e fortaleza militar, recebera uma nova vocação: ser acidade irradiadora do padrão da justiça de Deus para os povos. Luz para osgentios a partir de seu caráter: ser a cidade da justiça (Is 1.21-28).Davi, em seu reinado, manteve a aliança das doze tribos (Anfictionia).Seu sucessor, Salomão, com sua ideologia de conquistas, edificou o templo,palácios à moda dos povos mais poderosos de entre a gentilidade. Conquistou6. Ellul, Jacques, 1970, p. 97.
  • 60 A CIDADE NA MISsAo DE DEUSpovos vizinhos, dedicando especiais gentilezas às suas rainhas. Não resistiu àtentação de formar seu próprio harém, à moda do paganismo opressor reinantenas monarquias da época. Salomão inaugurou um período de escravagismo emIsrael como alternativa econômica para sustentar o seu império.Assim, aos poucos, Jerusalém foi perdendo suas marcas davídicas,e foi transformada em uma cidade marcada pelos pecados da opressão e daviolência institucionalizada.3.7 Jerusalém: cidade santa x cidade perversa: A advertênciados profetasQuando o governo da cidade deixou de buscar o Senhor Deus e seusjustos mandamentos e juízos, quando deixou de ouvir seus profetas, seguindoo rumo de outros deuses e ídolos, a Cidade Santa foi, aos poucos, sacrificandosua vocação nos altares dos deuses pagãos, tornando-se semelhante à Babilônia,símbolo da "anti-cidade", da violência e da idolatria. Isso aconteceu comJerusalém a partir do reinado de Salomão.Para advertir e exortar os monarcas de Jerusalém, o Senhor suscitouseus profetas que velavam para que a justiça de Deus estivesse acima dosprojetos pessoais dos monarcas. Estes, porém, não deram ouvidos à palavraprofética, dessa maneira, a cidade se corrompeu, caiu na desgraça e a bênçãoda paz se perdeu.Vários profetas falaram com veemência a Palavra do Senhor comoadvertência para que a cidade de Jerusalém voltasse aos caminhos do Senhor:3.7.1 IsaíasA crítica dirigida à Jerusalém, como cidade que perdeu sua vocação,refere-se ao tempo dos reinados dos reis: Uzias (Azarias), Jotão, Acaz e Ezequias(ls 1.1).As ameaças contra Israel, nesse período, não vieram de fora, de outrospovos vizinhos, mas de dentro do próprio povo de Deus. O que ameaçava acidade e a nação era o comportamento de suas elites: os latifúndios tomavamconta (5.8); suas casas estavam atulhadas de riquezas (3.14). O comércioflorescia (2.16; 2Rs 14.22). As "filhas de Sião" desfilavam no esplendor dariqueza (3.16ss). Os sacrifícios esbanjavam bem-estar (l.I Oss). Em resumo: aterra estava cheia de prata e de ouro, e vazia de essência espiritual.
  • A CIDADE COMO ESPAÇO DE MISERIC6RDIA E DE VIDA 61Em contraste, o povo trabalhador, fora dos arraiais da corte, ia muitomal. Órfãos e viúvas estavam sem proteção (l0.2 cf. 1.17). Os pobres(campesinos, agregados) eram moídos (3.14); sendo roubados por novas leis(l 0.1 ss)... Progresso e exploração eram simultâneos... A corrupção alastrava-se... O terror ameaçava os indefesos... Os ídolos e novos cultos ofuscavam amiséria (l.29ss)... Jerusalém estava arruinada e Judá caída (3.8).A responsável pelo clima de terror era a elite que governava a cidade:"Vejam como a cidade fiel se tornou prostituta! Antes cheia de justiça, ehabitada pela retidão, agora está cheia de assassinos!... Seus líderes sãorebeldes, amigos de ladr6es; todos eles amam o suborno e andam atrás depresentes. Eles não defendem o direito do órfão, e não tomam conhecimentoda causa da viúva" (Is 1.21,23).Schwantes vê o profeta urbano Isaías como porta-voz do setorurbano explorado, porém, organizado, que manifesta sua indignação diantedeste estado de terror e opressão, 7 "O que grassa na cidade é a violência,institucionalizada pelos que mandam ".8 A cidade se prostituiu, ela se tornouviolenta, traiçoeira, idólatra e assassina.Que contraste com a Jerusalém do passado!Celebrava-se que nela governava a "casa segura" dos davididas (1 Sm 25.28;2Sm7. 16; 1Rs 11.38, cf. Is 7.9; 9.5s). Festejava-se que nela se encontrava"direito" e "justiça" (33.5ss; Zc 8.3; SI 48.11; 89.15; 97.2; 122.5). Afinal, apalavra Jerusalém contém o termo shalom "integridade", "paz"; ela é, pois, jáem seu nome a "cidade fiel" de Isaías. Sabemos que este profeta conheciamuito bem as tradições hierosolemitas (8.18b; 9.5s; 29.1 )... 9O clamor de Isaías era pela transformação da cidade em espaço demisericórdia e de vida. A presença do Senhor era reclamada pelo profeta. Issorequeria uma urgente e radical transformação. Os instrumentos de violênciadeviam ser transformados em ferramentas agrícolas, utensílios para promovero bem comum, a prosperidade, o socorro aos mais necessitados... Instrumentosa serviço da morte deviam ser transformados em instrumental promotor devida (Is 2.3-4).Essa transformação deveria principiarcom o exemplo dos governantes. Asinceridade de sua fé resultaria em conseqüências socais. A verdadeira religiãose expressaria em transformação social e não em liturgias espiritualizantes eabstratas. O formalismo religioso estava despido de essência. Daí a veementeexortação do profeta: "O jejum que desejo não é este: soltar as correntes7. Schwantes, Milton, 1982, p. 198. Schwantes, Milton, idem, p. 23.9. Schwantes, Milton, idem p. 22
  • 62 A CIDADE NA MISsAo DE DEUSda injustiça, desatar as cordas do jugo, pôr em liberdade os oprimidose romper todo jugo? Não é partilhar a comida com o faminto, abrigar opohre desamparado, vestir o nu que você encontrou, e não recusar (~juda aopróximo?" (Is 58.6-7).Considerando a abrangência do jejum requerido pelo profeta, é fácildeduzir-se que a responsabilidade de fazer vigorar a exigência de Deus competeàs autoridades citadinas. São elas que oprimem seus irmãos liderados atravésdo culto, da legislação e da economia. O coração da religião estava doente e ocoração da política corrompido.Deus mesmo, através de seu profeta, reclama a cidade como espaçomarcado pelos padrões éticos na religião, na política, na economia e naecologia.3.7.2 JeremiasA vocação de Jeremias traz uma incumbência abrangente porque amalícia do povo de Deus ultrapassou as fronteiras. "E hoje eu faço de vocêuma cidade fortificada, uma coluna de ferro e um muro de hronz.e, contratoda a terra: contra os reis de Judá, seus oficiais, seus sacerdotes e o povo daterra" (Jr 1.18).O profeta sofre sob a liderança citadina de Jerusalém. No sétimocapítulo de seu livro, apresenta a causa da derrocada da cidade: ela oprime oestrangeiro, o órfão, a viúva e pratica violência contra os inocentes (Jr 7.6).Essa prática acontece num contexto de intensa religiosidade: o templo, e nãomais Javé, é o centro da religião (Jr 7.4).Os sacrifícios, as liturgias e todo aparato externo da religiosidadeparecem estar em pleno andamento (Jr 7.21). Mas não é esse o culto que oSenhor espera de povo. Não é a religiosidade, mas a obediência às ordenançasdo Senhor que importam. Não basta cultuar, mas andar nos caminhos doSenhor: "Obedeçam-me e eu serei o seu Deus e vocês serão o meu povo.Vr)cês andarão em todo o caminho que eu lhes ordenar, para que tudo lhes váhem" (Jr 7.23).Em vão, Jeremias sacrificava sua vida reclamando, em nome e sob omandato do Senhor, a cidade como espaço donde procedem as fontes de vida,de justiça e paz para o povo. A passos largos, Jerusalém encaminhava-se parao exílio.
  • ACIDADE COMO ESPAÇO DE MISERICÓRDIA E DE VIDA 633.7.3 EzequielO profeta Ezequiel, no capítulo 16, mostra com que carinho o próprioDeus se envolvera na escolha e na edificação de Jerusalém, demonstrando-lheternura, cuidado, proteção e sustento com toda fidelidade e maternalidade.Mas, numa atitude de loucura, a cidade escolhida - qual prostituta -desviou-se de seu amado, indo prostituir-se com ídolos de outros povos.Assim Jerusalém encheu-se abominação, violência, derramamento de sangueinocente, prática de extorsão, imoralidade e injustiça:Veja como cada um dos príncipes de Israel que aí está usa o seu poder paraderramar sangue. Em seu meio eles têm desprezado pai e mãe, oprimidoo estrangeiro e maltratado o órfão e a viúva (Ez 22.6-7). "Em seu meio háhomens que aceitam suborno para derramar sangue; você empresta a juros.visando lucro, e obtém ganhos injustos, extorquindo o próximo. E você seesqueceu de mim" (Ez 22.12).Denúncias semelhantes encontram-se nos capítulos seguintes.Em síntese, as autoridades políticas e religiosas da cidade se desviaramdos justos caminhos do Senhor e se entregaram à idolatria. O resultado erauma sociedade marcada pela violência, perversão e desintegração social.Deus, contudo, não se limita a denunciar a maldade da liderançacitadina. Seu propósito reside na conversão, purificação e restauração deseu povo. Tal transformação requer uma profunda conversão de coração queimplica restauração da verdadeira fé, reforma dos ministérios, purificaçãodos sacerdotes, repartição justa da terra, deveres claros dos magistrados,celebrações e ofertas, enfim a restauração da cidade (Ez 36). Só então, a cidadevoltaria a experimentar paz e prosperidade.Enfim, as advertências proféticas responsabilizam as autoridadescitadinas. É sua vocação serem ministros de Deus que velam pelo amparo dosmais fracos e pela prática da justiça nas relações econômicas. Sua autoridadeemana do Senhor, portanto, é seu dever empenhar-se pela paz da cidade. Areligião enquanto agência a serviço do Reino de Deus deve velar pela cidadee vigiar seus governantes para que andem nos princípios da justiça e da pazsocial. Cabe à liderança religiosa, enquanto estamento espiritual, a devidadistância crítica dos governantes para evitar a cooptação ou a corrupção.Convém sublinhar que existe uma diferença entre os sacerdotes eos profetas. Os sacerdotes, como serviçais da religião institucionalizada,encontravam-se, alhures, mergulhados numa liturgia alienada da verdadeiraespiritualidade. Os profetas, geralmente mal vistos pelos sacerdotes e alheiosa todo aparato litúrgico, mantinham-se como resistência moral e espiritual,sintonizados com a realidade social e alimentados com o Espírito do Senhor.
  • 64 A CIDADE NA MISsAo DE DEUSEnquanto os sacerdotes usufruíam as benesses da corte, aos profetasrestava o amargo bocado da rejeição da parte dos mandantes da religião oficial.Quem os mantinha e sustentava era o Espírito do Senhor. O chamado de Javéera a sua única segurança, inspiração e consolo.Mesmo assim, era da Palavra do Senhor colocada na boca dos profetas(não dos sacerdotes!) que dependia a vida citadina. Eles não cansavam dereclamar a cidade para Deus como espaço onde se exercita a misericórdia doSenhor, da qual fluem os projetos de vida com bem-estar social e espiritual.A cidade que Deus requer era leru-shalom, cidade que irradia a paz.Assim sucedeu nos dias dos profetas. Seu ministério coincide com a monarquiaem Israel.O curso da história do povo de Deus testemunha o cativeiro e destruiçãode Jerusalém e sua posterior reconstrução. Ela passa por um período longo deturbulências religiosas e políticas até os dias do Novo Testamento.Desse tempo vem uma advertência à igreja: cuidado com a religiãoinstitucionalizada: ela é facilmente cooptada pelos governantes ou pelo sistemaeconômico. A vigilância profética é a busca da permanência pela essência daPalavra do Senhor, portanto, o zelo pela justiça que resulta em paz e bem-estarda cidade.3.8 Jesus e Jerusalém3.8.1 Da Galiléia para JerusalémNos evangelhos sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas) encontra-se umdesenho geográfico da missão de Jesus. Ele vai de cidade em cidade, de aldeiaem aldeia, desde a Galiléia até a cidade de Jerusalém. "A missão de Jesus éda per!feria (Galiléia) para o centro (Jerusalém)". 10 O evangelho de Lucasregistra a ação ministerial de Jesus na Galiléia, dos capítulos 4.14 até 9.50.A sua determinação de ir a Jerusalém foi algo tão notório que não passoudespercebido da parte de quem o acompanhava: "Aproximando-se o tempo...Jesus partiu resolutamente em direção a Jerusalém. E enviou mensageiros àsua frente" (Lc 9.51 b-52a). Isso evidencia que "um dos objetivos do relatode Lucas é demonstrar que o lugar final e culminante do ministério de Jesusé a cidade de Jerusalém. Para Lucas, Jerusalém é o alvo e a cena final daatividade de Jesus". 111o Barro, Jorge Henrique, 2002, p. 42.11 Barro, Jorge Henrique, 2002, p. 46·47.
  • ACIDADE COMO ESPAÇO DE MISERICÓRDIA E DE VIDA 65Jesus se enquadra na linhagem profética do Antigo Testamento e, aomesmo tempo, supera essa visão profética. Em que sentido?A maneira como Jesus se refere ao rei Herodes demonstra suaindignação diante da violência com que ele exerce o seu governo. Herodes foiextremamente cruel na maneira como mandou prender e decapitar João Batista(Lc 9.9). Ele valia-se dessa crueldade como recurso para querer intimidar aJesus:(...) alguns fariseus aproximaram-se de Jesus e lhe disseram: "Saia e váembora daqui, pois Herodes quer matá-lo". Ele [Jesus] respondeu: "Vãodizer àquela raposa: Expulsarei demônios e curarei o povo hoje e amanhã,e no terceiro dia estarei pronto. Mas, preciso prosseguir hoje, amanhã edepois de amanhã, pois certamente nenhum profeta deve morrer fora deJerusalém!Jerusalém, Jerusalém, você, que mata os profetas e apedreja os que lhesão enviados! Quantas vezes eu quis reunir os seus filhos, como a galinhareúne os seus pintinhos debaixo das suas asas, mas vocês não quiseram!(Lc 13.31-34).Além de rejeitar a violência citadina de Jerusalém e seu pecado contraos enviados de Deus, Jesus se identifica como aquele que veio dar abrigo aosdesamparados urbanos - aqui demonstrado na frágil figura da galinha - quedeseja abrigar seus filhos debaixo de suas asas. Entretanto, por causa de suacegueira espiritual, as autoridades religiosas de Jerusalém não acolheramessa missão. Pelo contrário, desde cedo, a alta casta religiosa de Jerusalémacompanhava os atos de Jesus para delatá-lo diante do Sinédrio e de Herodes.o ministério de Jesus encontrou, desde o início, resistência, oposiçãoe rejeição da parte das autoridades religiosas (Lc 4.14-30; 5.17; 19.47;20.1-19; 22.2)... Ao predizer sua paixão e morte, Jesus identifica seusadversários como sendo: os anciãos, os principais sacerdotes e os escribas(Lc 9.52). Foram as próprias autoridades do templo que subornaram Judaspara entregar-lhes Jesus (Lc 22.4); prenderam-no no monte das Oliveiras:principais sacerdotes, capitães do templo e anciãos (Lê: 22.52). Junto comeles estava o servo do sumo sacerdote, de quem um dos discípulos cortou aorelha direita com a espada (Lc 22.50). 12Toda a maquinação perversa das autoridades não apaga a compaixãodo coração de Jesus por Jerusalém. Ela, afinal, é a cidade voeacionada para apaz. Rejeitaria ela a vinda do Príncipe da Paz? Perderia ela essa oportunidadede acolher a paz?12. Hoffmann, Arzemiro, 1988, p. 72-73.
  • 66 A CIDADE NA MISSÃO DE DEUSQuando se aproximou e viu a cidade, Jesus chorou sobre ela e disse:"Se você compreendesse neste dia, sim, você também, o que traz a paz! Masagora isso está oculto aos seus olhos" (Lc 19.41-42).Jesus se comove de compaixão e indignação diante de Jerusalém. Decompaixão porque vê as conseqüências para a cidade que rejeita os profetase o próprio Filho de Deus. Ele manifesta indignação porque conhece a duracerviz de suas autoridades religiosas e sabe de suas cumplicidades com opoder romano: a liderança citadina de Jerusalém traiu Javé para se prostituirdiante do império Romano. E para agradar as autoridades romanas dispôs-se asacrificar os profetas do Senhor e o próprio Filho do Homem.Com a crucificação de Jesus, a cidade de Jerusalém perdeu sua vocaçãode ser leru-shalom - cidade da paz, para tornar-se Babilônia, cidade eivada deviolência e derramamento de sangue. Ela sucumbiria sob os exércitos de Titono ano 70 d.C., decretando-se o seu fim anunciado por Jesus: "não deixarãopedra sobre pedra... " (Lc 19.43-44).Até o final de sua vida ministerial, Jesus reivindicou a cidade deJerusalém como espaço destinado a servir como projeto de misericórdia.Invocou e reivindicou o templo como casa de oração para todos os povos eespaço de acolhida aos peregrinos da esperança. Sua indignação para comos mercadores diante do templo foi um protesto aberto contra uma religiãoinstitucionalizada e cooptada que mercadejava a Lei de Javé em troca debenesses e favores do governo romano.Em Jerusalém, finda a peregrinação de Jesus, que vinha de aldeia emaldeia, de cidade em cidade, promovendo a cura de enfermos, libertação detoda sorte de oprimidos, restituição de mortos a seus familiares... Ele ensinava,pregava, fazia o bem demonstrando em Espírito e poder a chegada do Reino deDeus. Seu ministério restaurava, nas cidades e aldeias, o espaço da reintegraçãocomunitária a todos que dele eram excluídos pelos dogmas de uma culturareligiosa etnocêntrica e sem perspectiva missionária.O ministério terreno de Jesus abriu o espaço para a missão urbana quese corporificava à medida que acolhia as pessoas em suas necessidades maisprofundas. E, a partir delas, reivindicava estruturas sociais que permitissemque todo tecido urbano fosse perpassado pela vida.A comunidade de Jesus é mais profética que sacerdotal. Está maispreocupada com as pessoas em suas necessidades vitais do que com a ortodoxiaoficial e as tradições religiosas (Mc 7; Mt 15).
  • A CIDADE COMO ESPAÇO DE MISERICÓRDIA E DE VIDA 673.8.2 De Jerusalém a Roma: a cidade do livro de AtosDe acordo com a narrativa de Lucas, após o encontro com o ressurretoSenhor, os discípulos voltaram para Jerusalém: "Então eles o adoraram evoltaram para Jerusalém com grande alegria. E permaneciam constantementeno templo, louvando a Deus" (Lc 24.52-53). Nessa cidade, eles aguardavama promessa do batismo no Espírito Santo (At l.4ss), que se cumpriu no dia dePentecostes (At 2).A cidade de Jerusalém, no livro de Atos, recebe uma importânciarelativa. Ela deixa de ser considerada como a cidade santa. Ela é a referência,o ponto de partida da missão. Dela a igreja, no poder do Espírito Santo, parteem missão para toda Judéia, Samaria até os confins da terra (At 1.8). O focomissionário da nascente igreja não mais está voltado para Jerusalém, mas paraos confins da terra. Ao contrário da caminhada de Jesus, que veio da periferia(Galiléia) para a cidade de Jerusalém.Embora os apóstolos ainda permanecessem por algum tempo na cidade,muito cedo, as autoridades religiosas de Jerusalém desencadearam duraperseguição à igreja (At 4.1-22). Essa resultou na prisão de Pedro e João e,posteriormente, no martírio do diácono evangelista Estevão (At 7).Jerusalém tornara-se a cidade da contradição. Ela era, ao mesmo tempo,o berço da missão cristã e a cidade que comandava a perseguição à igreja. Delaa nascente igreja foi dispersa para os "confins da terra" (At 8.1-3).Com a perseguição, o evangelho alcança as principais cidades daregião (At 8.4). Com a conversão de Saulo (Paulo), aos poucos, o processode evangelização é direcionado para os gentios ao lado de missão aos judeusliderada por Pedro.Através das viagens missionárias, o apóstolo Paulo, que sempre se fezacompanhar de alguns discípulos, alcançou as principais cidades do Império,entre as quais se destacam: Antioquia, Corinto, Filipos, Éfeso até Roma, acapital imperial.A missão empreendida pelos apóstolos tem a finalidade de plantarigrejas nas principais cidades. Sob a perseguição política e religiosa, a igrejaencontra ampla acolhida entre a multidão de escravos. Há, porém, sacerdotese autoridades romanas que abraçam a fé. Assim a igreja se torna pluriclassista,isto é, pessoas de diversas classes sociais são convertidas ao evangelho.Algumas delas passam a abrigar igrejas em suas casas (Rm 16).As cidades são os espaços privilegiados para a obra missionária porcausade vias comerciais e da migração. Os apóstolos, diferente dos profetas do AntigoTestamento, não se dirigem em primeiro lugar ao templo e ao palácio, mas,via de regra, buscam as aglomerações humanas: sinagogas, praças, mercados,
  • 68 A CIDADE NA MISsAo DE DEUSaté mesmo as prisões. O fermento do evangelho frutifica na multiplicação dosdiscípulos, mesmo que estes estejam confinados às catacumbas por causa daperseguição. Assim o fermento leveda a massa gentílica de maneira subversivaaté corroer os alicerces do Império num espaço de três séculos.3.8.3 A missão urbana a partir de AtosNo livro de Atos, a missão parte de Jerusalém rumo às grandes cidadesda época, como indicado acima.Sobre o avanço urbano dos cristãos, nos primeiros dois séculos, opesquisador do cristianismo dos primeiros séculos, A. G. Hamman, traz umaabordagem esclarecedora:A imagem estereotipada da Igreja dos mártires enterrada nas catacumbasnão traduz a situação real dos dois primeiros séculos, em Roma ou noImpério de Marco Aurélio. A presença cristã se manifestou de maneira,antes, agressiva e conquistadora: ela invadiu o espaço e enfrentou o público.Impondo-se em toda parte: na família, nas profissões, na cidade. Depois datimidez dos começos. passou à ofensiva, afirmou-se e afirmou. Interpeloumagistrados e filósofos. 13A força do argumento favorável ao cristianismo era a sua visão quepropunha uma religião internacional e universal, o que se chocava com oceticismo dos filósofos e o paganismo oficial. "Neste confronto o cristianismosefirmou, pois, no plano da cidade, da opinião pública e do pensamento". 143.8.4 A dupla cidadaniaA igreja, naquele tempo, soube fazer uso da visão da dupla cidadania:entendiam-se como cidadãos do Reino de Deus e, ao mesmo tempo, eramcidadãos do mundo como peregrinos ou estrangeiros, mas, simultaneamente,praticavam o mandamento do amor em profundidade. Esse amor ultrapassavaa dimensão individual e pessoal. Expressava-se como um modo de vida cidadãque influenciava e transformava eticamente a conduta nos lares, nas profissõese no espaço público, isto é, na cidade.Constata-se que o comportamento da igreja é completamente divergenteda maneira de viver dos judeus:13. Hamman,AG., 1997, p. 81.14. Hamman, AG. idem, p. 81.
  • ACIDADE COMO ESPAÇO DE MISERIC6RDIA E DE VIDA 69Ao contrário dos judeus, os cristãos se integravam na cidade, afirmando sualealdade. Recusavam-se a ser uma raça á parte ou a viver como imigrantes.Nada os distingue de seus concidadãos, nem a Iingua, nem a roupa nemos costumes. Nada de gueto. Quando muito, na rua, o pagão pode notar asimplicidade de seu traje e, quanto à mulher cristã, a ausência de enfeites, aausteridade do tecido e a discrição dos trajes. 15A visão de timidez e recolhimento deu lugar a uma atitude cidadã. Issocoloca os cristãos diante de outro desafio: a idolatria reinante no Império.Ídolos e divindades pagãs estavam por toda parte: a eles eram sacrificados osanimais, cujas carnes estavam no mercado; a mitologia dominava a educação;os símbolos (estátuas) estavam espalhados por todos os lugares públicos dacidade, qualquer cargo público ou empréstimo de dinheiro exigia umjuramentoaos deuses... "Nenhum ato da cidade se realizava sem que se recorresse aosdeuses; o elemento religioso tomava parte a tal ponto da ordem civil que, emgeral, os sacerdotes eram magistrados do Estado, eleitos para determinadoperíodo pelas mesmas assembléias que escolhiam os outros funcionários." 16.As cidades tinham suas festas religiosas, procissões aos santuários,oferendas de alimentos, refeições, danças, orgias... E, com a presença dasautoridades do Estado, exigiam do povo a demonstração de sua devoção elealdade aos deuses. "Em Roma, os dias feriados, de origem e inspiraçãoreligiosa - uma e outra muitas vezes esquecidas - ocupavam a metade do ano.No tempo de Trajano, havia dois dias feriados para cada dia de trabalho.Assim, Roma impunha sua dominação à massa. Mas cada dia feriado isolavao cristão e permitia-lhe sentir melhor seu deslocamento." 17Havia uma profusão de festas religiosas. Nas festas, os jogos, osespetáculos sádicos, os sacrifícios - humanos e de animais - os teatros, asencenações eram uma afronta à moral cristã e aos bons costumes. E, paraculminar o processo de paganização, o imperador Augusto instaurou o culto aoimperador. Esse ato abriu as portas para a perseguição aos cristãos, ora sutil orasangrenta. Entre as perseguições mais sangrentas, destacam-se as promovidasno tempo dos imperadores Nero e Domiciano.Os cristãos viviam momentos de extrema hostilidade: por um lado, oImpério os perseguia, por outro, o próprio povo os espreitava para delatá-los.Houve alguns espaços de tolerância ou mesmo mais favoráveis à igreja:Depois que Trajano enviou novo legado para Bitinia, os cristãos prosperaramna Ásia e professavam abertamente sua fé. O Estado não tinha nada a15. Hamman, AG. idem, p. 82.16 Hamman, AG. idem p. 84.17. Hamman, A.G. idem p. 85.
  • 70 A CIDADE NA MISSÃO DE DEUScensurar neles: pagavam os impostos, embelezavam e geriam as cidades eestavam sempre prontos a aceitar cargos públicos. A função episcopal, emalgumas famílias, era transmitida de pai para filho. Polícrates era o oitavode sua linhagem a ocupá-Ia. Nas cidades prósperas, o bispo dispunha derecursos financeiros muitas vezes consideráveis e era pessoa respeitada.O irenarca de Esmirna, cheio de deferência, fez Policarpo subir à suacarruagern e sentar-se ao seu lado. Plinio, o Jovem, homem de confiança doimperador, enviado para a Ásia, encontrou cristãos em toda parte. 8É difícil avaliar quanto essa atitude representa uma situação excepcional.Verdade é que alguns imperadores mais liberais toleravam indícios de liberdaderestrita às religiões. Mas o procedimento normal, fundamentado na legislaçãovigente no Império no tempo dos Antoninos, insistia na acusação dos cristãoscomo sendo "revolucionários porque punham em causa a legislação e asinstituições da cidade. Os cristãos se punham à margem da sociedade". 19Não há dúvida de que os cristãos rejeitavam radicalmente todo tipode paganismo e culto ao imperador. Como declarou Justino: "Somos ateusde vossas divindades". 20 Contudo, desde as orientações do apóstolo Paulo,eles procuravam se colocar sob as autoridades constituídas. Isto é, buscavamlealdade ao Estado como instituição legítima para assegurar a ordem e a pazsocial em benefício dos cidadãos (Rm 13). Predominava a visão de que ocrescimento da igreja enfraquecia o Estado.3.8.5 A nova éticaOutro inimigo da igreja veio da rua. A integridade ética dos cristãos, suarenúncia à participação das festas, das orgias, e de todo tipo de imoralidadesincomodava a todos. As reuniões cristãs eram vistas sob suspeitas e logo setornaram objetos de calúnia. A rejeição da astrologia, da magia e de todo tipode culto e sacrifícios pagãos suscitou o ódio e a hostilidade em toda parte.Assim, todas as coisas ruins que ocorriam na sociedade eram colocadas naconta dos cristãos.Tertuliano, em tom irônico, faz uma precisa descrição da atmosferareinante em seu tempo: "O Nilo transborda? A seca ameaça a colheita? Aterra treme? A peste aparece na África ou em Esmirna? Logo se grita: abaixoos ateus; os cristãos aos leões". 21Essa fúria popular passava por cima dos magistrados e da legalidade.A igreja, na segunda metade do século lI, continuava a viver debaixo de18. Hamman, AG. idem p. 89.19. Hamman, AG. idem p. 91.20. Hamman,AG. idem p. 92.21. Hamman, AG. idem p. 96-97.
  • A CIDADE COMO ESPAÇO DE MISERICÓRDIA E DE VIDA 71condições adversas. Essa adversidade trouxe muitas perdas e prejuízos àmissão, contudo, não chegou a intimidar os cristãos em seu testemunho, porque criam num Senhor superior que haveria de triunfar sobre a cidade violenta,corrupta e idólatra.A literatura apocalíptica se multiplicava e a vitória do soberano Senhorhabitava as visões e os oráculos como é atestado nos Oráculos sibilinos: "áRoma, tu chorarás, despojada de teu laticiavo, vestida de luto, ó rainhaorgulhosa, filha do velho Lácio! Flagelos, guerras, invasões efomes anunciamo revide que Deus prepara para os seus eleitos". 22Essa fé inabalável num superior e supremo Senhor, a quem pertence oReino dos céus, expressava-se numa conduta cristã coerente que contagiavacada vez mais a sociedade. Essa conduta, marcada pela misericórdia e ajustiça de Deus, constituiu-se na força evangelizadora da igreja. O testemunhotransformador era a vigorosa força alternativa à sociedade romana. Sua matrizgeradora era o poder do Espírito Santo que habitava o coração dos santose transbordava em amor acolhendo as pessoas de suas relações, as quais seconstituíam em pequenas comunidades que se edificavam mutuamente.3.8.6 A missão urbana se espelha na Nova JerusalémA cidade teve na visão apostólica e na história da missão cristã um lugarespecial. Evidencia-se que o foco da missão evangélica não reside na volta aoParaíso perdido, mas ruma em direção à Cidade redimida. A Nova Jerusalém(Ap 21-22) é sua culminância. Essa cidade é completamente diferente de todasas cidades sonhadas, sejam elas a distante Atlântida de Platão, passando pelaCidade do Sol de Campanella ou a Brasília de Niemeyer e Lúcio Costa...A nova Jerusalém não é o produto do engenho humano. Ela não éapresentada como a culminância da arquitetura urbana ou o supremo escopoda civilização. Ela não é a culminância da ciência. Ela é um presente de Deus."Então vi novos céus e nova terra, pois o primeiro céu e a primeira terratinham passado; e o mar já não existia. Vi a Cidade Santa, a nova Jerusalém,que descia dos céus, da parte de Deus, preparada como uma noiva adornadapara o seu marido" (Ap 21.1-2).A nova Jerusalém é a cidade perpassada pela vida. Nela não mais hánecessidade de religião nem de templo. Deus não mais necessita de mediadores,pois, Ele mesmo é a luz constante na cidade.A cidade é apresentada com delimitações externas através de muros.22. Hamman, A.G. idem p. 95.
  • 72 A CIDADE NA MISSÃO DE DEUSMas estes têm doze portas. Essas portas estarão sempre abertas simbolizandoa plena liberdade que reina na cidade de Deus.A cidade santa é igualmente a plena restauração ecológica. Nela hários de água pura e árvores que alimentam seus habitantes durante todo ano.Não mais haverá sacrifícios nem para agradar a Deus nem para sustentar ascriaturas.Nela haverá a integração de todas as nações, línguas e culturas.Cessou o interesse pela dominação. O pecado nela não habita e todas as suasconseqüências foram extirpadas. Nela toda lágrima será enxugada porque nãomais haverá violência nem sofrimento.A nova Jerusalém figura como exemplo de vida plena e abundante. Nelanão há mais dor, nem morte nem lágrima... Seu modelo figura nas páginasfinais da Bíblia e serve como espelho a iluminar o caminho da humanidade. Àmedida que o povo de Deus se deixar guiar pelos padrões da Cidade Santa, elecaminhará em direção ao futuro. O futuro da cidade está em Deus.O Apocalipse de João apresenta a nova Jerusalém como o projeto deDeus para a cidade. Ela é vista como o Paraíso Urbano para o qual aflui amultidão dos povos. Ela é a projeção e o desafio da possibilidade de convivere sobreviver paradisiacamente no coletivo. É isso que o Evangelho do Reinoproclama e reclamava dos gestores urbanos: que a vida perpasse todo o tecidourbano. Só em Deus isso é possível. Jesus veio revelar a plenitude da vidacapaz de se concretizar no indivíduo, na comunidade e na cidade. Essa é abase que sustenta a esperança e o futuro. Por isso, toda a igreja, enquanto povosanto do Senhor, clama: "Maranata! Ora, vem Senhor Jesus!".3.9 ConclusãoO caráter da cidade que Deus quer para a humanidade é reclamadopelos profetas. Jesus aponta, através de sinais e prodígios, para uma civilizaçãoconstruída sobre os fundamentos do evangelho. Sem os padrões éticosemanados do evangelho e assimilados pela política e a economia, a cidadejamais experimentará paz e bem-estar social.A cidade historicamente é instrumento da anti-vida. Ela foi construídapara favorecer interesses dominantes. São interesses voltados à dominação quecooptam autoridades e instituições, sacerdotes e falsos profetas.Mas, a missão de Deus para a cidade é reclamá-Ia como espaçocomunitário a serviço da vida. Seu instrumento de transformação é presençada igreja como sal e luz, capaz de propor os padrões éticos indispensáveis para
  • A CIDADE COMO ESPAÇO DE MISERICÓRDIA E DE VIDA 73transformar as estruturas de morte. Para tanto, a própria igreja compreendidainstitucionalmente precisa de uma profunda transformação.Para que uma tal transformação possa ocorrer, há necessidade de sebuscar projetos ministeriais que envolvam a cidade como um todo. A igreja comoorganização humana está demasiado distante da cidade e jamais conseguirá suatransformação. Ela necessita da humildade de compor com outros segmentosorganizados da sociedade civil a conjugação de esforços no sentido de buscarprivilegiar a cidade como espaço de vida, de paz social e de justiça.A igreja sabe que só Deus mesmo tem poder para transformar arealidade, assim como as primeiras gerações de cristãos sabiam que só Deusmesmo poderia transformar o Império Romano. E Deus foi fiel e o transformou.Qual foi a estratégia que permitiu alcançar essa meta? A igreja, nos primeirosséculos, não era templo-cêntrica. Ela abandonara o modelo religioso doAntigo Testamento. Os cristãos multiplicavam-se livremente pelo discipuladoatravés de núcleos caseiros. A casa, e não o templo foi o útero gerador daevangelização urbana.A restauração dessa visão transformadora local e global é indispensávelpara nossos dias. As megacidades do século XXI são geradoras de solidão,opressão e falta de sentido de vida. As pessoas perdem-se no oceano dasmassas solitárias e poluídas pelos reclames consumistas. A mensagem que nosadvém dos cristãos urbanos dos primeiros séculos conjuga a transformaçãopessoal com e integração social. O padrão ético, fruto da evangelização, foigerador de um novo estatuto urbano. Este se impôs como alternativa para opadrão romano do "pão e circo".Urge a restauração de uma nova visão missionária voltada para a cidade.Sem essa visão, acidadecontinuarásendo mero campo de proselitismoreligioso,um mercado à mercê dos mais espertos, sem novidade e sem futuro.Cabe à comunidade cristã redescobrir o alcance do evangelho queenvolve toda criação. Pois a criação, urbanizada e globalizada, geme e clamapela manifestação dos filhos de Deus (Rm 8.19s). A crise civilizacional vividapela humanidade de nossos dias reclama urgência para um projeto de Deuspara a sociedade urbanizada.É isso que se espera de um projeto ministerial para a cidade: que tenhaa capacidade de ouvir a dor - o gemido das criaturas e da criação - e saibaresponder a essa dor com uma resposta condizente ao Evangelho do Reino.Saiba discernir a relatividade das instituições sem perder a essencialidadeda vida. A vida plena se efetiva no coletivo, requer sempre a restauração docontexto: humano, social, político e ecológico.
  • A fé cristã é o testemunho de que o evangelho é poder de Deus quetransforma e restaura a vida das pessoas individualmente. Convém crere apostar que essa transformação também poderá ser coletiva. Se o pecadodomina as estruturas sociais não seria lógico que a graça redentora tambémpoderá causar transformação dessas mesmas estruturas?
  • 75CAPÍTULO IVUM PROJETO MINISTERIAL PARA A CIDADE4.1 A missão urbana na perspectiva da missão de DeusNão é usual que os missionários urbanos tenham um planejamentoconsciente do ministério que desejam empreender. Cada qual, motivado porum chamado de Deus, dispõe-se a iniciar um trabalho missionário. Alguns,mais organizados, alcançam bom êxito. Outros caminham em círculo semuma clareza sobre o ponto de partida ou de chegada. Como resultado de seulongo ministério nas principais cidades do mundo, o missionário e missiólogo,Linthicum, constatou: "O que descobri é que a maioria das organizações edenominações tem formulado estratégias missionárias, mas quase todas elasestão tendo dificuldades em implementá-las. Grandes estratégias, mas poucosucesso na implementação das mesmas ".1Basta um olhar mais atento para perceber que, ao longo da Bíblia,encontram-se inúmeros indicativos para organizar e sustentar um ministériomissionário planejado. Entre estes, elegemos as memórias de Neemias,ressaltando a importância da busca pela inteligência operacional consagradaao Senhor para o ministério urbano.4.1.1 Por onde começar?Do missionário urbano espera-se, antes de qualquer coisa, que ele tenhaum chamado de Deus e a disposição para encarnar-se num contexto urbanoespecífico no qual esse chamado quer ser concretizado. Pois a missão de Deuspara uma pessoa, comunidade ou cidade não é a apresentação de qualquermensagem. O evangelho a ser testemunhado ou o projeto a ser desenvolvidodeve, primeiramente, perpassar a vida do missionário em profunda sintoniacom o contexto específico. Daí a razão de responder às seguintes questões,antes de iniciar uma obra:1. Robert Linthicum - Cidade de Deus-Cidade de Satanás, p. 229.
  • 76 A CIDADE NA MISSÃO DE DEUSo que a "minha" mensagem vai acrescentar a este povo em termos dequalidade de vida cristã?Que aspectos inovadores ela traz á comunidade ou cidade?Como vai se relacionar com a obra de Deus já existente?Deus me deu compaixão, convicção e mandato para realizar o que estoume propondo a fazer?Tenho convicção pessoal de que este é o lugar que o Senhor tem paramim?O que estou por fazer é obra, sonho ou projeto pessoal, ou tenho umavocação, revelação ou mandato para um ministério nesta cidade?No momento em que se formula uma proposta de ação missionária parauma cidade ou bairro, é pressuposto que se tenha a humildade e a consciênciade que cada contribuição terá limitações. Mesmo assim, deve haver uma buscasincera de querer corresponder à essência do Evangelho do Reino. Convémouvir outras pessoas quejá se debruçaram sobre o mesmo assunto ou os mesmosdesafios para assim evitar a repetição de erros já cometidos anteriormente.A tarefa missionária pode ser facilitada quando o agente da missão puderser o mais específico possível. As generalizações impedem a objetividade doempreendimento. Algumas perguntas podem ajudar a definir o foco, entre elassugiro as seguintes:Quem é a população alvo do mandato que Deus me confiou? Qual o meuconhecimento de sua realidade? Qual é a diferença da minha maneira de vivere o modo de ser deles? Tenho consciência de que a embalagem do evangelho,do qual sou portador, pode ajudar ou atrapalhar, facilitar ou dificultar? Estoudisposto a viver o evangelho com eles e a partir deles, ou desejo apenas fazerincursões evangelísticas em seu meio? Nunca é demais lembrar que a vida domissionário comunica melhor o evangelho do que suas palavras.O missionário urbano Viv Grigg traz um importante alerta para quemdeseja engajar-se na missão entre os pobres urbanos:O fracasso no avanço da grande missão ocidental tem, em última análise,a sua raiz, não na questão estratégica, mas na espiritual. Uma igrejaapanhada na armadilha das perspectivas culturais e que tenha como base ariqueza, ao invés de adotar o exemplo biblico de oposição ao deus mamonacaba por exportar essa concepção de vida aos missionários. Precisamosresgatar os padrões de Jesus, que adotou, como estilo de vida, a pobrezanão indigente; gastou seu tempo no aprendizado da linguagem e da culturae recusou-se a ser rei do tipo agência de bem-estar. Precisamos voltar aocaminho dos apóstolos e dos frades andarilhos que, em gerações passadas,se constituíram nos principais fatores de conversão do mundo. A pobrezanão indigente e a simplicidade são valores que precisam mais uma vez voltarao centro do quadro estratégico. 22. Viv Gri99, o Grito dos Pobres na Cidade, p. 26.
  • UM PROJETO MINISTERIAL PARA A CIDAOE 77Um segundo aspecto a ser considerado é a visão teológica que omissionário tem da cidade e do contexto urbano como um todo. O missiólogoLinthicum pergunta pelas marcas de um verdadeiro ministério urbano.Em resposta à sua pergunta, ele propõe quatro desafios que pressupõemum conhecimento razoável do contexto urbano e que precisam ser consideradosno empreendimento missionário:Estão sendo, de fato, confrontados os sistemas da cidade e sãooferecidos a eles a possibilidade real de mudança?Têm os pobres e explorados da cidade estabelecido caminhos, recursosatravés dos quais eles possam causar mudanças na sua situação?Está sendo dada oportunidade á classe média e aos poderosos de sejuntarem á causa com os pobres no confronto com os sistemas da cidadee na busca de transformação destes?Está em andamento também uma transformação espiritual na cidade ousão as mudanças somente de ordem social? Estão sendo as vidas dospobres e dos poderosos transformadas por Deus? 3Essas considerações têm como ponto de partida a sensibilidademissionária e a disposição de perceber que a obra de Deus é maior que anossa contribuição específica. Por isso, requer-se do obreiro a disposiçãopara colaborar e agregar-se às pessoas e organizações de boa vontade, noengajamento de um projeto de transformação urbana. Uma proposta holísticaé inclusiva por princípio. Ela dá oportunidade para que outros experimentoscomprometidos com a defesa da vida digna sejam considerados, e verificada asua relevância para toda a cidade.Jorge H. Barro, no livro por ele organizado O Pastor Urbano, ofereceexcelentes subsídios para o exercício de um ministério urbano contextualizado.Ele sublinha três eixos centrais em torno dos quais gira um ministériourbano:1. A Realidade ou Eixo contextual. O conhecimento do contextoé indispensável para empreender um projeto missionário. Ele propõe anecessidade de uma "exegese da cidade" para que a Palavra de Deus tenhasentido e pertinência às pessoas em sua realidade vivencial ampla. Essa exegeseurbana visa a entender "a cidade, as transformações culturais e sociais dacidade e o indivíduo que nela vive. O pastor urbano precisa entender suacidade e as transformações culturais e sociais da mesma para que tenhacondições de compreender a alma urbana". 43. Robert Linthicum, op. cit. p. 230.4. Jorge Henrique Barro - O Pastor Urbano, p. 11
  • 78 A CIDADE NA MISSÃO DE DEUSÉ aconselhável que o missionário urbano busque conhecer a históriada cidade, sua origem, seus fundadores, as razões e a finalidade da cidade,as personalidades ou autoridades locais e a estruturação do poder religioso,político e social.Para alcançar uma tal compreensão urbana, o agente de missãonecessita de uma equipe interdisciplinar ou multidisciplinar, ou no mínimo,de uma noção básica de sociologia, antropologia, psicologia social, história dacidade e planejamento urbano. Sem o domínio dessas ferramentas de trabalho,a tendência do missionário urbano é abrir um empreendimento concorrencialque acaba duplicando o que outros já estão fazendo ou, então, cria seu feudoespiritual sem jamais se perguntar pela dimensão transformadora que oevangelho tem para a cidade.2. Agente ou Eixo Pessoal. A segunda ênfase referida por J.H. Barrorefere-se ao Agente ou Eixo Pessoal. A pessoa do missionário é tão ou maisimportante que a obra. A ele não basta o domínio das ferramentas de análiseda realidade e as técnicas ministeriais: "O pastor urbano deve ser apto paraolhar não só para aquilo que está ao seu redor, mas também para si próprio "..."para o seu mundo interior"... "suas motivaçl5es e espiritualidade".5A experiência ministerial urbana é desgastante. Se a pessoa do ministronão tiver um suporte de apoio e pastoreio (mentoria espiritual), seu ministério,cedo ou tarde, tende para um estreitamento autoritário ou sucumbe diante dostress, ou então cede à tentação ou à armadilha do dinheiro, do poder ou dasexualidade.Para prevenir um desgaste individual, convém aprender do exemplo doMestre: Jesus enviou seus discípulos de "dois em dois" (Lc 10.1). A parceriaajuda na transparência e no mútuo apoio além do exercício do discipuladomútuo. A sabedoria proverbial comprova isso: "Assim como o ferro afia oferro, o homem afia o seu companheiro" (Pv 27.17). O tempo de oração,meditação, estudo da Palavra de Deus em confronto com a realidade social éde valor inestimável.Há ministros de Deus que têm a tendência de considerarem-se anjos doSenhor ou pequenos deuses revestidos do Espírito do Senhor para discerniremsozinhos a revelação de Deus. Outros ostentam uma auto-suficiência baseadaem sua rotina ministerial ou tradição eclesiástica, sem espaço para inovações.Em ambos, a sua maior dificuldade é trabalhar com alguém do mesmo nível.Isso certamente pode explicar porque, na igreja brasileira, existem tantos5. Jorge Henrique Barro, op. cit., p. 11.
  • UM PROJETO MINISTERIAL PARA A CIDADE 79coronéis e caciques eclesiásticos, donos de seu rebanho e não pastores como oquer a Palavra de Deus.A qualidade espiritual de um obreiro se define na sua capacidade deandar em comunhão com irmãos de ministério de seu nível e sua participaçãoem equipe interdisciplinar. A ausência dessa transparência ministerial acabaem autoritarismo. É usual, obreiros arrogarem-se serem portadores de umarevelação ou unção especial de Deus para separar-se de outros irmãos deministério do que buscar e fortalecer a comunhão para edificação mútua. Asanidade espiritual do agente ministerial é testemunhada pela sua capacidadede manter comunhão e a humildade de andar com outras pessoas imbuídas damesma causa.3. A Práxis. O terceiro aspecto que 1. H. Barro sublinha é Práxis, ouseja, o Eixo Teológico Ministerial. A missão requer de seus agentes uma formaçãopermanente: "Todo pastor urbano precisa de elementos btblicos e teológicos quesejam norteadores e motivadores para o cumprimento da missão". 6Assim como os profetas e apóstolos não eram vozes anônimas e isoladas,mas contavam com sua retaguarda de sustentação espiritual, exige-se dosmensageiros do evangelho que eles não sejam franco atiradores, mas cultivemseu crescimento bíblico e teológico numa equipe ministerial ou comunidadeteológica.Essa questão parece tão óbvia quando, na realidade, não o é. Faça umteste: você consulta o dentista que obteve seu diploma há 20 anos e nuncamais se atualizou? Você se trata com um médico que se formou há 20 anos enunca mais se atualizou? Se é que tais profissionais sobrevivam no mercado,certamente militam na periferia da qualidade profissional. O mesmo ocorrecom os ministros de Deus. O hábito da oração, da leitura e da meditação diárianas Escrituras e a participação em congressos, seminários cursos, atualizações,além de leituras regulares e sistemáticas... É o mínimo do investimentoministerial que se espera de um obreiro normal. Sem esse perfil, a sua própriaempregabilidade está ameaçada. Se alguém não mais ouve e aprende de outros,quem lhe assegura que ainda ouça o Espírito ou aprenda da Palavra de Deus?Essas três ênfases habilitam os obreiros e missionários urbanos paraa realização de uma "missão transformadora integral",7 capaz de umaevangelização que seja coerente com o coração do evangelho, focada nopoder de Deus para transformar pessoas, estruturas e sistemas que dominama cidade.6. Jorge Henrique Barro, op. cit., p. 12.7. Missão Transformadora Integral é um conceito que enfatiza a totalidade da abrangência da missio dei. O evangelhodo Reino não se limite à transformação da vida humana, mas abrange reconciliação ou transformação social e arestauração de toda criação.
  • 80 A CIDADE NA MISSÃO DE DEUSA qualidade ministerial se expressa naturalmente num processo demultiplicação. A boa árvore produz bom fruto. Jesus ensinou: "Nenhumaárvore boa dá fruto ruim, nenhuma árvore ruim dá fruto bom" (Lc 6.43).Por isso, em se tratando de missão, a questão qualidade versus quantidadeé abstrata e equivocada. Qualidade vivida redunda em quantidade: "(...) E oSenhor lhes acrescentava diariamente os que iam sendo salvos" (At 2.47b).O crescimento numérico dos discípulos é obra da graça de Deus vinculada àqualidade da espiritualidade vivida pela comunidade.4.2 Considerações para um Projeto Ministerial UrbanoNo livro O Grito dos pobres na cidade, Viv Grigg observa que osprojetos urbanos bem-sucedidos são aqueles nos quais os missionários resideme convivem contextualmente com a população empobrecida da periferia naqual se realiza o seu ministério. Isso requer disposição para pagar o preço:"Precisamos de homens e mulheres, comprometidos consigo mesmos eque estejam dispostos a adotar um estilo de vida simples, na pobreza, comdevoção, na comunidade, e que estejam dispostos a algum sacrifício nas áreasmatrimoniais efamiliares". 8Ele destaca cinco atitudes indispensáveis para a realização de umministério na periferia urbana: Compaixão, Encarnação, Intercessão,Proclamação, Poder. "Jesus veio pregar e ensinar o reino, curar el~fermos eexpulsar os demônios. Três dessas quatro atividades são repetidas de váriasformas pelos evangelhos. Ele enviou seus discípulos para fazer o mesmo.Evangelismo, para Jesus, sempre esteve inserido no contexto de cura dosenfermos e libertação do povo das forças demoníacas ". 9O revestimento com o poder do Espírito Santo é a condição para oministério em geral e, particularmente, em se tratando dos empobrecidosurbanos. Nesse meio, mostra-se, de maneira mais flagrante, o confronto entreos poderes que oprimem e destroem a vida. Só quem tiver experimentado umaprofunda unção do Espírito e tiver seu coração cheio de amor (Rm 5.5) seráapto a viver e ministrar nesse meio, pois sem esse poder ou revestimento doalto a igreja não prospera na periferia urbana.8. Viv 8rigg, op. cit., p. 28.9. Viv 8rigg, op. cit., p. 167-168.
  • UM PROJETO MINISTERIAL PARA A CIDADE 814.3 Como preparar-se para este ministério?1. Vocação e conhecimento. Uma das maiores lacunas dos centrosde formação teológica tradicionais é a falta de integração ministerial dosalunos ao longo do período de estudo. Eles preparam os estudantes de teologiapara exercerem o ministério dentro dos limites de comunidades já constituídas.Minha experiência pessoal me leva a concluir que esse é o caminho que leva aofracasso ministerial de muitos obreiros.A questão deve ser posta de outra maneira: se o estudante de teologianão está no exercício missionário ou ministerial enquanto estudante, a clarezade sua vocação pode ser colocada em dúvida. Os que se preparam teoricamentepara depois de "formados" praticarem o que aprenderam, representam umrisco para os campos ministeriais.Sustento que avocação é algo que habita ocoração da pessoa vocacionadaou ela não existe. Onde ela existir será aperfeiçoada em todo tempo. Não existeisso de que alguém ir primeiro buscar a teoria e depois a prática na vida cristã.Não é assim que funciona. A vocação se aperfeiçoa desde que o Espírito Santovocacionou alguém. Se este alguém está num seminário, na sua profissão,num campo missionário, não importa. Tudo coopera para o seu crescimento eaperfeiçoamento com vistas à maturidade.2. Inteligência Operacional.10 Outra deficiência na formaçãoteológica de obreiros é a falta de uma ênfase na inteligência operacional.O saber acadêmico, por mais profundo que seja, não é suficiente para darhabilitação ministerial. O saber acadêmico é apenas um modo de saber. Elenão é tudo. Nem é tão abrangente como o querem alguns teóricos. Um bomnível acadêmico na formação teológica não assegura a ninguém um ministérioabençoado e eficaz. Não raras vezes, a riqueza teológica acadêmica se mostracomo miséria ministerial quando a erudição é incapaz de se comunicar come na linguagem simples da comunidade. Portanto, a inserção do estudantenum campo missionário facilita sua encarnação comunitária, possibilitandouma ponte entre a abstração acadêmica e a vida real. Pois é na prática que seconjuga o saber acadêmico com sua operacionalidade. O bom nível acadêmicorequer a efetivação prática.3. Projeto Ministerial. Quem não aprender a elaborar um projetomissionário ou projeto ministerial corre o risco de passar a vida inteiracaminhando em círculo ao longo das estações do ano eclesiástico, sem jamaischegar a lugar nenhum.10. Recomendo a leitura do livro O Monge e o Executivo, Lideres para o Século XXI, entre outros.
  • 82 A CIDADE NA MISSÃO DE DEUSIsso ocorre em algumas igrejas protestantes que dão alta importância aocalendário eclesiástico com a finalidade de manter ou entreter comunidades jáestruturadas em sua tradição, mas não as habilita para uma tarefa missionáriavoltada para a cidade onde estão inseridas.Para evitar o desperdício de dons e habilitação, um projeto ministerialé imprescindível.4. Base Bíblica. Existe base bíblica suficiente para a elaboraçãode um projeto ministerial para a cidade que seja sensível às dores coletivasdos oprimidos e, ao mesmo tempo, busque uma transformação mais ampladas estruturas urbanas? Certamente existe muita base bíblica dentro da visãoque conjuga a oração, a consagração e transformação com o planejamentoestratégico.Entre os inúmeros exemplos bíblicos capazes de embasar um ministériourbano, tomarei por base o livro de Neemias. 11 Nele encontramos umaliderança que conjuga a piedade pessoal com o planejamento, a estratégiaoperacional com a didática, enfim, alguém capaz de construir uma seqüênciana estruturação ministerial envolvente com vistas à transformação de umacidade. Seu ponto de partida é a compaixão por uma população que vive umquadro de ruína. Essa compaixão gera a motivação; a criatividade; a busca pelasuperação de conflitos; a restauração dos ministérios e a consolidação de umprojeto urbano nos padrões da Palavra de Deus.4.4 Perguntas intrigantesAs memórias de Neemias oferecem elementos de meditação e estudopara quem deseja empreender um projeto de missão urbana. Seu longo períodode lamento, jejum e oração sugere que ele tenha buscado a sabedoria do alto ea inspiração para o seu projeto urbano. Esse projeto deveria ser capaz de ajudaro povo a tomar consciência do seu pecado do passado e, em arrependimento,confessá-lo. Crer no poder da misericórdia de Deus, que pode mudarcompletamente a sua humilhação para um caminho de prosperidade e paz.O retiro estratégico de Neemias, de acordo com Linthicum, levanta,também para o missionário urbano de hoje, algumas perguntas intrigantes:Como é a alma de um povo arruinado? O que pensam da religião, dapolítica e da liderança em geral?11 No presente trabalho, faremos uma leitura mais estratégica e operacional do livro de Neemias. Para um estudoexegético recomendo o trabalho de Rudi Tünermann, citado na bibliografia.
  • UM PROJETO MINISTERIAL PARA A CIDADE 83Como motivar um povo arruinado a acreditar em si mesmo? Comorestaurar a sua auto-imagem?Como Neemias conseguiu a proeza de motivá-los para um engajamentocoletivo em prol da reconstrução da sua cidade?Qual foi o papel da oração? Será possivel falar da misericórdia doSenhor sem oração?Em que base conseguir assentar um fundamento sólido para reconstruire consolidar uma comunidade? Quais foram as bases sobre as quaislançou um projeto sustentável para a cidade? 12o recolhimento ou retirada estratégica de Neemias foi o temponecessário para que o Espírito do Senhor pudesse moldar seus sentimentos,pensamentos, estratégias e metas para uma visão restauradora de sua cidade.Depois de elaborar sua tristeza, indignação, culpa e resistência veio-lhea serenidade operacional capaz de vislumbrar os passos a seguir para restaurara alma de seu povo e reconstruir as ruínas da cidade. Após a elaboração doseu luto, sua alma estava apaziguada e sintonizada com os planos do Senhor.Então, Neemias partiu para colocar em ação aquilo que no silêncio receberacomo revelação do alto.Ao longo de seu livro, pode-se observar que Neemias segue passosbem ordenados que sustentam seu ministério urbano. Creio que esses passospodem, ainda hoje, balizar a organização de um projeto ministerial urbano.Sua operacionalidade fica evidente numa leitura mais atenta.Certamente, a cidade de Jerusalém daquele tempo era menos plurale complexa do que as metrópoles urbanas de nossos dias. Por isso, cabe aressalva: não se trata aqui de copiar ou transpor a realidade de Jerusalém paraos contextos urbanos de hoje, mas de aprender aspectos relevantes da obrade Deus com vistas à transformação urbana. Os elementos comuns que unemaquela situação com a nossa são as realidades urbanas caóticas e um povoarruinado, abandonado pela política oficial.4.5 A compaixão: base para o ministério"Palavras de Neemias, filho de Hacalias: No mês de quisleu, no vigésimoano, enquanto eu estava na cidade de Susã, Hanani, um dos meus irmãos,veio de Judá com alguns outros homens, e eu lhes perguntei acerca dosjudeus que restaram, os sobreviventes do cativeiro, e também sobreJerusalém.12. Robert Linlhicum, op. dI. p. 231.
  • 84 A CIDADE NA MISsAo DE DEUSEles me responderam: Aqueles que sobreviveram ao cativeiro e estüolá na província passam por grande sofrimento e humilhaçüo. O murode Jerusalém foi derrubado, e suas portas foram destruídas pelofogo.Quando ouvi essas coisas, sentei-me e chorei. Passei dias lamentando-me,jejuando e orando ao Deus dos céus" (Ne J. J-4).Antes de qualquer tentativa de organizar um projeto ministerial éindispensável que o agente missionário tenha as melhores informações sobreo contexto, isto é, a realidade na qual as pessoas visadas se encontram. Essasinformações, no presente caso, foram trazidas por uma comitiva vinda deJerusalém, que contava, entre seus integrantes, com a presença de Hanani,irmão de Neemias.O que sensibiliza Neemias é o caos urbano em que vivem seus irmãos.Esse quadro caótico desperta nele a compaixão pelos seus conterrâneos quevivem uma situação de miserabilidade. Essa dor remete-o ao coração deDeus. Em Deus, ele busca e encontra a motivação necessária para empreenderuma obra. Sua compaixão é o princípio indispensável que alavanca o futuroempreendimento.Esse quebrantamento do coração de Neemias é bem dimensionado emseu depoimento: "Quando ouvi essas coisas, sentei-me e chorei. Passei diaslamentando-me, jejuando e orando ao Deus dos céus."O que comoveu o coração de Neemias foi a dor de seus compatriotas,os pobres de Jerusalém, seus irmãos de fé. Quem eram eles? Os restantes, osdeixados para trás. Estes geralmente eram os pobres, os velhos - homens emulheres - e crianças. Para o cativeiro era levada a elite e a melhor força detrabalho. Os pobres, ninguém queria. Admite-se que, no tempo de Neemias,muitos já tinham voltado do exílio e conviviam na cidade arruinada ou seencontravam espalhados por toda província.O historiador Flávio Josefo descreve essa realidade nos seguintes termos:"(... ) tudo estava em muito mau estado, que as muralhas da cidade estavamem ruínas, nüo havia males que os povos vizinhos nüo lhes causassem; quedevastavam continuamente os campos, que levavam prisioneiros os habitantesda cidade e freqüentemente encontravam-se cadáveres pelas estradas". 13Neemias sente-se profundamente tocado pela dor vivida pelos arruinadoscitadinos: "Ao ouvir as tristes notícias, Neemias derrama o seu coraçüo emlágrimas". 1413 Historiador Josefo citado por Rudi Tünnermnn, As Reformas de Neemias, p. 92-93.14. Robert Linlhicum , op. cit, p. 231.
  • UM PROJETO MINISTERIAL PARA A CIDADE 85Nota-se aqui que a compaixão de Neemias não se limita à situaçãoreligiosa ou espiritual de seus irmãos de fé. Ele contempla a situação delescomo moradores da uma cidade arruinada. A cidade jaz em ruínas e o povo viveum caos social. Eles precisam de uma experiência de "missão integral" capazde restaurar sua vida espiritual. sua dignidade, sua condição social, seu sensode cidadania, enfim, um projeto ou sonho de uma nova sociedade urbana.A revelação de Deus sempre vem para dentro de um contexto concreto.O Espírito do Senhor tem a missão de ordenar o caos (Gn 1.1-2). De transformarum contexto caótico em uma realidade ordenada, estruturada, que apreenda atomar os rumos que levam a construir um futuro promissor para todos.Neemias, embora funcionário na corte, coloca-se no mesmo nível deseus irmãos que vivem a desgraça em Jerusalém. Ele não se coloca acima delese, sim, ao seu lado. Como alguém do mesmo nível, ele compartilha suas dorese seus pecados. Isso é demonstrado na sua maneira de orar: "Agimos de formacorrupta e vergonhosa contra ti. Não temos obedecido aos mandamentos, aosdecretos e às leis que deste ao teu servo Moisés. Lembra-te agora do quedisseste a Moisés..." (Ne 1.7-8).Neemias sabia que "a pessoa só pode estar diante de Deus depois deconfessar sua culpa, o primeiro conteúdo concreto da oração é a confissãode culpa... a infidelidade de Israel para com Javé levou a essa situação demiséria e destruição". loNotável é que ele não se coloca espiritualmente acima de seus irmãoshumilhados, como libertador ou salvador, mas humilha-se com eles, assumindoa condição de pecador como eles. Junto a eles, no mesmo patamar espiritual,faz confissão de pecados e intercede por misericórdia e libertação ao Senhor.Confessada a culpa, ele se atreve a apelar às promessas redentoras feitaspor Deus aos arrependidos (Dt 30.1-5).Pode-se dizer que, primeiro Neemias deixou Deus trabalhar seu coraçãoe sua mente para depois fazer planos, tomar decisões e colocá-las em prática.A dor e as necessidades concretas o despertaram para esse desafio. Sua decisãofora motivada pela dor, nutrida pela compaixão e gestada em oração.Mesmo assim, Neemias não se precipita em tomar atitudes paternalistasmovido pela emoção do momento, deixa, porém, seu coração se quebrantar,em profunda oração, jejum e clamor por longos dias.Outro fato notável é que ele, como missionário urbano, não se limitaa buscar escapismos para sua comunidade. Seu alvo é a transformação detoda a cidade com o comprometimento de todo o seu povo. Sua fé é um fator15. Rudi Tunnermann. op. cit.. p. 94·95
  • 86 A CIDADE NA MISSÃO DE DEUSimportante, mas é administrada com sensibilidade comunitária e habilidadeestratégica.Ele sabia que a religião pode ser causa da ruína ou da restauração dacidade. Ele também sabia que Deus não se conforma com escravos obedientes,mas quer cidadãos engajados na construção de uma nova cidade. Por isso, suamissão não se resumia às "almas" dos perdidos urbanos, mas à reconstruçãodas condições que possibilitam restauração espiritual e dignidade humana, ouseja, espiritualidade cidadã."O coração de Neemias está quebrado por causa da desgraça de suacidade, e como havia apresentado sua dor em oração à presença de Deus, elesente crescer dentro de si um chamamento divino para fazer alguma coisapela cidade". 16O capítulo primeiro de Neemias dá os fundamentos essenciais paraempreender um ministério urbano centrado na compaixão e na misericórdiado Senhor a favor dos que sofrem. Ele começou por si mesmo.A missão urbana começa pela transformação da vida do missionáriourbano. O ponto de partida está nesta questão: O que me faz chorar pelaminha cidade? Há alguma dor concreta que move meu coração?Para ser efetivo no ministério urbano, você precisa de um coração tãogrande quanto a própria cidade. Tal tipo de coração somente se desenvolvequando alguém se dá a si mesmo permissão para viver e sentir a dor dopovo da cidade... Então á semelhança de Neemias, lave suas lágrimas emoração. A oração é motivada e gerada pela dor. Quando clamarmos a Deusacerca daquilo que quebra os nossos corações, ele tornará claro o quedeseja de nós na cidade. Somente a partir desta atitude de quebrantamentoe disponibilização Deus pode mostrar-nos como vai nos usar para apoiar opovo (Is 61.4). 17Sintetizando, um projeto ministerial urbano é a resposta a uma dorespecífica da cidade. O recolhimento em lágrimas, jejum e oração remete omissionário a clamar pela compaixão de Deus frente ao sofrimento urbano. Essesofrimento não se limita às pessoas, muito menos à comunidade religiosa, masabrange toda a cidade, isto é, a sua integridade, sustentabilidade, organizaçãosocial, exercício de poder e ecologia.É no mergulho da dor e das necessidades concretas e coletivas da cidadeque nasce o ministério urbano. Onde não houver essa compaixão não haveráministério cristão pleno.16. Robert Linlhicum, op. cit., p. 232-233.17. Robert Linlhicum, op. cit., p.233.
  • UM PROJETO MINiSTERIAL PARA A CIDADE 87o verdadeiro sentido da compaixão é estar com o coração ungido peloamor. É o Espírito Santo que pode fazer isso conforme Rm 5.5 "E a esperançanão nos decepciona, porque Deus derramou seu amor em nossos corações,por meio do Espírito Santo que ele nos concedeu".Sem essa unção, ninguém está habilitado a se embrenhar no perigosomundo metropolitano. Mas, conforme o ensino das cartas de João: "Quem amaé nascido de Deus e pratica a justiça". Isto é, tem motivação interior para lutarpela transformação da sociedade na qual vive, sem receios ou compensações.Posto que, ministério cristão é sempre a resposta a uma ou várias doresurbanas coletivas, pode-se concluir que o ministério urbano nasce no coraçãode Deus e é abraçado pelas pessoas ungidas pelo amor e sensíveis ao anseiopela restauração da vida plena da cidade.Daí a pertinência da insistente pergunta de Linthicum: "O que me fazchorar pela minha cidade?" 18.Se nada na cidade me comove; se nenhuma injustiça me causaindignação; se nenhuma violência me machuca; se nenhuma perversão medegrada; se nenhuma corrupção agride meu senso de justiça; se nenhuma dorme leva às lágrimas... Então, eu nada tenho a fazer, não tenho chamado deDeus para a missão urbana.Abraão, ao saber os planos de Deus para a cidade de Sodoma (Gn 18.16-21) não ficou indiferente, mas, impactado pelo significado e as conseqüênciasdo juízo divino, permaneceu na presença de Deus clamando: "Exterminarás ojusto com o ímpio?" (Gn 18.21-33).Os profetas verdadeiros do Antigo Testamento, sabendo da malíciaque habita o coração dos poderosos citadinos, e mesmo que tomados de justaindignação, não deixavam de clamar por compaixão para que o coração dosperversos fosse convertido e as vidas inocentes fossem poupadas.Como exceção, poderia ser mencionado o caso do profeta Jonas, cujavisão "missionária" era etnocêntrica e, por isso, mostrou-se inconformadocom a compaixão de Deus. O pequeno livro de Jonas encerra com a pergunta aele dirigida pelo próprio Deus: "Contudo, Nínive tem mais de cento e vinte milpessoas que não sabem distinguir a mão direita da esquerda, além de muitosrebanhos. Não deveria eu ter pena dessa grande cidade?" (Jn 4.11).A atitude de Jesus, diante de Jerusalém, demonstra compaixão e justaindignação. Embora soubesse dos planos perversos do complô da alta castareligiosa e política, "quando se aproximou e viu a cidade. Jesus chorou sobreela" (Lc 19.41). A visão da misericórdia de Jesus está sobre a cidade, isto18. Robert Linthicum, op. cit., p. 234.
  • 88 A CIDADE NA MISSÃO DE DEUSé, engloba a cidade como um todo e não se limita à comunidade religiosanela residente. O que quebranta o coração de Jesus? A dureza de coração daliderança político-religiosa que não sabe o que é devido à paz; e o preço a serpago pelas milhares de vidas inocentes que serão sacrificadas.O fundador da Visão Mundial nos ajuda a entender o que é misericórdiacom as palavras de sua prece: "Que meu coração seja quebrantado pelascoisas que quebrantam o coração de Deus".Enfim, a compaixão está na base de toda ação missionária urbanarelevante e abrangente.4.6 A visão: de "onde" para "o que""Então eu disse: SENHOR, Deus dos céus, Deus grande e temível, fielà aliança e misericordioso... Estes são os teus servos, o teu povo. Tu osresgataste com o teu fvande poder e com o teu braço forte. Senhor, que osteus ouvidos estejam atentos à oração deste teu servo e à oração dos teusservos que têm grande prazer em temer o teu nome. Faze com que hojeeste teu servo seja bem-sucedido, concedendo-lhe a benevolência destehomem. Nessa época, eu era o copeiro do rei." (Ne 1.5, 10-1 I)A compaixão - gerada pela oração, jejum, lágrimas e lamentos -,leva Neemias a uma compreensão profunda das conseqüências do pecado e,simultaneamente, a vislumbrar a cidade restaurada por obra da misericórdiado Senhor.Este mergulho no coração de Deus - que foi também o mergulho nador da cidade - permitiu-lhe fazer uma análise profunda da realidade citadina,tanto da realidade espiritual como social, econômica, política... Ele meditousobre os relatos que seus irmãos lhe trouxeram. Estes o subsidiaram com dadosda realidade objetiva. Esses dados foram meditados em oração.Nesse recolhimento, o Senhor encheu Neemias de criatividade,iniciativas, sonhos, planos e coragem para se colocar a caminho. Concedeu-lhe a visão necessária para o agir pró-ativo. O que ele tinha a lamentar e chorarele o fez na presença do Senhor. Depois chegou a hora de transformar a visãoem projeto ministerial.A visão ministerial integra os dados objetivos da realidade urbana.Assimila a revelação recebida nos dias de quebrantamento de coração. Lançasuas âncoras nas promessas do Senhor: "(...) mas, se voltarem para mim,obedecerem aos meus mandamentos e os puserem em prática, mesmo que
  • UM PROJETO MINISTERIAL PARA A ClüAüE 89vocês estejam espalhados pelos lugares mais distantes debaixo do céu, de láeu os reunirei e os trarei para o lugar que escolhi para estabelecer o meunome" (Ne 1.9 compare a Dt 30.1-5)A obediência à Palavra do Senhor sempre é geradora de ministérios.A indignação do agente, por mais justificável que seja, não basta. Nem adesgraça dos arruinados é o suficiente. Neemias coloca-se na pele dos irmãosde Jerusalém, mas, acima de tudo, coloca-se no colo do Senhor, pois, é deleque vem a Palavra sobre a qual edifica o seu projeto.Um segundo elemento crucial para empreender a obra com osdesalentados é o resgate de sua identidade: "Estes são os teus servos, o teupovo. Tu os resgataste com o teu grande poder e com o teu braço forte" (Ne1.10).O resgate da identidade é o elemento que confere aos abandonados ouempobrecidos urbanos uma auto-estima. Eles não estão entregues a si mesmos,mas ainda têm uma pertença: são povo de Deus. O resgate da memória aliadaà experiência pessoal pela poderosa mão de Deus remete Neemias a perceberque a obra a que serão guindados é mercê da boa mão do Senhor: "visto que abondosa mão de Deus estava sobre mim" (Ne 2.8).A desgraça causada pela política oficial deixa as pessoas sem raízes.Elas se sentem abandonadas, massa solitária. A desintegração social - humanae espiritual - é geradora do caos urbano.Só a recuperação de uma identidade espiritual através da restauraçãode um sentimento de pertencimento a uma comunidade confere dignidade ecidadania às pessoas.Neemias, tomado da sábia inspiração, logo percebeu que os seus irmãosestavam mergulhados num sentimento de culpa e humilhação. Esse sentimentode timidez e prostração emocional foi curado pela confissão de pecados,arrependimento e perdão de Deus. Nesse sentido, ele fez o papel de verdadeiropastor. Não se limitou a tratar essa cura com argumentos psicológicos, masteológicos, pois a culpa que o povo carregava tinha a ver com seu passadoreligioso. Eles tinham consciência de sua infidelidade. Essa fora a causa desua ruína.É imprescindível que a visão ministerial seja alicerçada na Palavrado Senhor. Só assim levará à libertação da desgraça sofrida no passado e aglorificar o nome do Senhor. E quando a vitória vem do alto ela liberta aspessoas do culto aos heróis e da louvação aos grandes construtores da cidade.Assim, o desencadeamento do ministério urbano precisa ter clareza davisão: "do que, para onde". De que realidade, para quais metas. À medida queas pessoas são libertadas de suas feridas e traumas do passado, elas adquirem
  • 90 A CIDADE NA MISSÃO DE DEUSauto-estima, fé e a capacidade de apostar em projetos com atitudes pró-ativas.O agarrar-se às promessas do Senhor, impacta a comunidade e lhes confere umnovo senso comunitário: "nós ainda somos o teu povo".Quem está com Deus não está só, sente-se amparado na história esintonizado com o futuro.A visão, portanto, é uma espécie de retrato mental que carrego na minhaalma, uma maneira de vislumbrar o alvo onde quero chegar e o modo como mevejo no meio daqueles que integram esse projeto. A visão é mais do que umsonho, é uma paixão, é um modo de antever o futuro. Visão, em síntese, é umretrato mental de um futuro preferível.A visão ministerial urbana deve colocar a pergunta:O que tenho a contribuir para o Corpo de Cristo com seus ministérios,projetos, instituições, movimentos existentes nesta cidade? Quais as lacunasministeriais ainda existentes?Qual o meu dom ou habilitação específica? Tenho a humildade de somarà obra de Deus nesta cidade ou venho para duplicar e competir com o que jáestá sendo feito?Que visão eu tenho do evangelho: venho para ganhar membros para"minha igreja", ou trago no coração uma compreensão holística do evangelho,que abrange toda a cidade?Essas perguntas são fundamentais porque a visão ministerial de alguémdetermina a obra que empreenderá. Se essa visão de cidade não estiver emsintonia com a visão de Deus, possivelmente, o ministério contribuirá paracompetir e não para redimir ou restaurar a cidade.Enfim, a proposta, da qual sou protagonista, visa abrir mais uma igrejana cidade ou ela vem contribuir com a igreja para a transformação da cidade?Lembre-se: a transformação da cidade começa, em primeiro lugar,na transformação (conversão) da visão do missionário urbano e pressupõe aexegese da cidade. Pois, sem o conhecimento da realidade, a suposta visão nãopassa de sonho ou devaneio. Depois, conta com a disposição para a construçãode um projeto compartilhado, pois quem melhor sabe o que é preciso fazer sãoos que sentem a dor na própria pele. Vê mais longe quem ouve mais.4.7 Você não está só, portanto, descubra, construa e cultive umarede de contatos.(... ) por isso o rei me perguntou: "Por que o seu rosto parece tão triste, se
  • UM PROJETO MINISTERIAL PARA A CIDADE 91você não está doente? Essa tristeza só pode ser do coração!"Com muito medo, eu disse ao rei: Que o rei viva para sempre! Como nãoestaria triste o meu rosto, se a cidade em que estão sepultados os meuspais está em ruínas, e as suas portas foram destruídas pelo fogo? O reime disse: "O que você gostaria de pedir?" Então orei ao Deus dos céus.(Ne 2.2-4)Do ministério de Neemias pode-se afirmar: a obra gerada pela oração sófrutifica se carregada em oração. A certeza de ser conduzido pela revelação deDeus levou Neemias a trilhar os caminhos do Senhor até a conclusão da obraempreendida.A meditação gerou em Neemias toda aestratégia que ele sozinho poderiaprotagonizar. Ele, contudo, tomou o sábio caminho de agregar à revelaçãorecebida a participação daquelas pessoas e autoridades capazes de lhe dar osuporte necessário para o êxito do empreendimento.Neemias foi em espírito de oração, aguardando a melhor oportunidadepara abrir o seu coração ao rei, mostrando seus reais motivos de tristeza pelasituação de Jerusalém. Ao mesmo tempo, muniu-se de uma bem elaboradaestratégia para a qual buscou o beneplácito do rei.No fluxo da nova linha de política governamental para com os povosdominados, 19 Neemias apresentou seu testemunho de tal maneira que Deustocasse o coração do rei e o conquistasse como aliado para sua causa.Garantida a permissão, Neemias ganhou também o apoio da rainha (v. 6),dos governadores de além do rio Eufrates (v. 7), do guarda do jardim do rei(v. 8), dos chefes do exército e cavaleiros (v. 9). Quando chegou a Jerusalém,ele caminhou entre o povo, viveu com eles sem lhes contar o que pretendiafazer (v. 11-12), gastou o tempo suficiente analisando a situação e, com bomsenso, conversou com o povo (v. 13-16). 20Com esses contatos, Neemias assegurou os apoios necessanos paralevar seu empreendimento a bom termo. Ele teve a sabedoria de observar quempoderia ser motivado a se engajar nesse projeto. Esses contatos eram sua redede comunicação e apoio. O sucesso posterior foi conseqüência da solidezdessa rede preparada anteriormente.Novamente, convêm ressaltar a humildade do líder que dedica o temponecessário para ouvir da boca da população quais as suas necessidades maisprementes. Neemias dedicara três/quatro meses para ouvir Deus falar ao seucoração. Agora dedica algumas semanas para ouvir e auscultar o povo da cidade19. Robert Linlhicum, op. cit., p. 234-5.20. Robert Linthicum. op. cit., p. 234.
  • 92 ACIDADE NA MISsAo DE DEUSde Jerusalém. Essa atitude de ouvir atento, enxergar, observar, auscultar lhe dáa dimensão exata de quem são as pessoas daquela cidade, quais são as suasdores, as suas frustrações, as suas revoltas, os seus desenganos, os seus anseiose, sobretudo, o seu potencial capaz de ser mobilizado para o empreendimentofuturo.Realizadas as duas tarefas preliminares, quais sejam, conhecer de pertoo contexto urbano e assegurada a rede de apoios necessário, é chegada a horade revelar seus planos para a restauração das ruínas da cidade:Então eu lhes disse: Vejam a situação terrível em que estamos: Jerusalémestá em ruínas, e suas portas foram destruídas pelo fogo. Venham, vamosreconstruir os muros de Jerusalém, para que não fiquemos mais nestasituação humilhante. Também lhes contei como Deus tinha sido bondosocomigo e o que o rei tinha me dito. Eles responderam: "Sim, vamos começara reconstrução". E se encheram de coragem para a realização desse bomprojeto (Ne 2.17-18).Nota-se aqui que a motivação não se limita ao elemento psicológico derefazer a auto-estima perdida. Neemias apresenta dois elementos adicionais:a fidelidade do Senhor que visitou seu povo oprimido e um planejamento pré-elaborado capaz de nortear a direção para onde a motivação será canalizada.Neemias chegou a esse ponto sem precipitação. Ele necessitou dotempo suficiente para trabalhar todos os elementos indispensáveis para que oempreendimento fosse abraçado por todos em mutirão. Ele conjugou a baseespiritual, o conhecimento exato do problema, o envolvimento dos apoiosnecessários e a restauração da esperança.Como resultado, ele colheu o que desejava: o projeto foi abraçado pelosmoradores da cidade. Daqui para frente, o projeto não era mais seu, mas dopovo da cidade. O seu papel era motivar, ajudar a vislumbrar a possibilidadeda transformação, coordenar os encaminhamentos, liderar as ações essenciaise supervisionar.Liderar e coordenar com sucesso só é possível quando se conquista aconfiança dos colaboradores. Com a confiança motivada por uma esperança viávelfoi possível enfrentar as adversidades que surgiriam no horizonte. (Ne 2.19-20)Construir uma rede de contatos e apoios é de fundamental importânciapara um ministério urbano abrangente."O que é esta rede? É a construção e manutenção de contatos quecapacitarão todos, nesta rede, a levar avante mais efetivamente o ministériocom o oprimido, os incrédulos e a igreja na cidade". 2121. Robert Linthlcum. op. cit.. p 235
  • UM PROJETO MINISTERIAL PARA A CIDADE 93Se essa rede é construída em fundamentos bíblicos, ela capacitará aigreja a reordenar e priorizar sua missão de tal forma que se tornará capazde juntar-se efetivamente ao pobre e explorado da cidade em sua luta porlibertação. Ao envolver-se nesta causa comum, a igreja ganhará credibilidadepara proclamar o evangelho àqueles que antes o tinham desprezado. 22Abraçar o desafio de pensar o bem da cidade como um todo requeruma mudança de paradigma, principalmente, para o mundo evangélicofundamentalista que não admite a possibilidade de colaboração com pessoasou organizações "não-crentes", ou os tradicionais para quem só interessam osda mesma cultura ou classe.Aqui se impõe uma autocrítica. Nem todos os crentes têm amor pelacidade. Nem sempre o evangelho que aprenderam - e que foi suficiente paraalcançarem o perdão dos pecados e a salvação por graça e fé em Cristo - lhesabriu os olhos para a abrangência e as implicâncias do Evangelho do Reino deDeus anunciado e vivido por Jesus.Há movimentos e organizações nas cidades que lutam para o bem detodos habitantes. Não importa a sua motivação por se envolverem com a causada saúde, habitação, ecologia, erradicação da violência infantil, criminalidade,planejamento urbano, etc... Dificilmente a igreja sozinha transformará acidade. Ser cristão não significa automaticamente estar engajado com todoconselho de Deus. Existem muitos "evangelhos" circunscritos aos coronéiseclesiásticos, às tradições dos homens, aos costumes santos, aos dogmas esacramentos do passado, às revelações aleatórias que pouco ou nada tem a vercom o Evangelho do Reino ou a qualidade de vida dos cidadãos.Daí a importância de ouvir a indicação de Linthicum: "Subjacenteao conceito bíblico da formação de rede de comunicação e apoio está oentendimento de que todos os seres humanos, mesmo sem instrução, exploradose derrotados pela vida, têm uma maior capacidade de entender e agir sobrea situação deles do que o mais altamente informado e interessado intruso(. .. ) "21 e, "A primeira grande descoherta que fizemos foi que... as pessoasque não sabem ler ou escrever sabem, entretanto, como pensar" (D. HélderCâmara).24A busca pelo estabelecimento de uma rede de apoios tem a finalidade deabrir os horizontes da igreja a fim de que ela possa ministrar à cidade, focandoseus ministérios nas reais necessidades da população urbana. A evangelização22. Robert Linthicum, op. cil., p. 235.23 Robert Linthicum, op. Cll., p.235.24. Robert Linhicum, op. cil., p. 235
  • 94 A CIDADE NA MISSÃO DE DEUSnão se limita à salvação das almas, mesmo que isso seja imprescindível.A Bíblia ensina que o pecado perpassa as estruturas, instituições, sistemassociais e políticos da sociedade. Estes precisam ouvir a voz do Senhor e serrestaurados a fim de que a cidade experimente a paz social e a prosperidade (Jr29.7; SI 72).A missão de Deus não se restringe às necessidades do povo, ela tambémapresenta as demandas do Reino de Deus. Aqui importa fazer uma fundamentaldistinção entre necessidade e vontade. A missão de Deus não é satisfazer avontade do povo, mas acolher suas necessidades e carências profundas. Avontade é aquilo que as pessoas acham que precisam. A necessidade é o querealmente precisam para viver dignamente a condição de filhos e filhas deDeus.Sem essa diferenciação, o missionário urbano corre o risco de ser refémde uma opressão coletiva sem jamais alcançar a transformação necessária parao bem-estar e a justiça correspondentes ao Reino de Deus. As demandas doReino podem exigir sacrifícios temporários para então alcançar a paz social.Podem implicar o reordenamento da visão política, religiosa institucionalvigente na cidade. Lembremos uma sábia palavra de Gandhi: "Sempre houveo suficiente no mundo para todas as necessidades humanas; nunca haverá osuficiente para a cobiça humana".A nossa visão da missão e a ênfase que damos à mensagem abrem oufecham as portas. A evangelização na visão do Evangelho Integral sempreprioriza a vida humana num contexto mais amplo - holístico - com vista aoShalom - paz, integridade, bem-estar social.A presença do Reino de Deus começa com a conversão das pessoas emarrependimento e fé, mas não se limita a isso. Requer uma transformação maisampla que se espelha no futuro de Deus desenhado na Nova Jerusalém, ondenão mais haverá dor, opressão, morte e luto. Mas todos terão livre acesso afonte geradora de vida e suprimento de todas as suas necessidades.A formação da rede de apoio requer o conhecimento dos espaços jáconsagrados pela legislação vigente (Veja o Estatuto da Cidade, Plano Diretor,etc.), os movimentos urbanos que lutam pela melhoria das condições de vida,pessoas ou grupos, organizações que estão engajadas na luta pela paz e bem-estar da cidade (ONGs, OCIPs, projetos, movimentos sociais, instituições,especializadas, voluntariado, lideranças comunitárias, autoridades,planejadores urbanos, urbanistas, filantropos...). Eles são nossos parceiros nabusca pela paz da cidade.Na Jerusalém da época de Neemias - como em nossas cidades de hoje- certamente, existem muitas pessoas que têm uma noção da desgraça. O que
  • UM PROJETO MINISTERIAL PARA A CIDADE 95lhes falta são líderes capazes de identificar os verdadeiros problemas e emcondições de apresentar caminhos viáveis para mudar a realidade. Isso foio que Neemias conseguiu fazer. Ele motivou as lideranças da cidade a talponto que disseram: "Sim, vamos começar a reconstrução ". E se encheram decoragem para a realização desse bom projeto (Ne 2.19). A par do entusiasmoe da motivação a despeito dos inimigos (v. 19), Neemias manteve a humildadede apontar para o essencial: O Deus dos céus fará que sejamos bem-sucedidos.Nós, os seus servos, começaremos a reconstrução... (Ne 2.20).Sem essa visão de que nós somos apenas cooperadores de Deus narestauração da cidade, aquelas pessoas que se sobressaem acabam se tomandoorgulhosas, achando que são os bem-feitores que podem dominar sobre seussemelhantes. Cabe ao missionário urbano, a exemplo de Neemias, apontarsempre para este foco: a obra é de Deus que deseja o bem-estar da cidade.Nós somos seus servos, ou seja, somos apenas cooperadores, não os donos.Portanto, a formação da rede de contatos e apoios permitirá aomissionário urbano uma inserção contextual, um conhecimento de causadas verdadeiras necessidades da cidade, a compreensão da articulação depoderes que governam a cidade, a colaboração das pessoas de boa vontade quedesejam a paz da cidade, bem como, o conhecimento dos potenciais inimigosda boa causa. É a rede de contatos que permite encetar um projeto que visa àrestauração da cidade. Nem sempre o missionário é o protagonista do projetoou a pessoa que deve tomar a dianteira. Ele vai colaborar de acordo com osseus dons e habilidades ao lado de outros. Não esqueçamos de que Neemiasera leigo.Importante: essa rede de apoios e contatos foi uma resposta do Senhorà oração de Neemias. Assim como os doze discípulos foram o presente que oPai confiou a Jesus após uma noite de oração (Lc 6.12). A eles Jesus dedicouespecial atenção e por eles agradece e lhes confia a missão (1017). Vale lembrara advertência do salmo: "Se não é o SENHOR que vigia a cidade, será inútil asentinela montar guarda" (Sl127.l).4.8 Organize a comunidade para a obra"O sumo sacerdote Eliasibe e os seus colegas sacerdotes começaram oseu trabalho e reconstruíram a porta das Ovelhas... Os homens de lericóconstruíram o trecho seguinte... A porta do Peixe foi reconstruída pelosfilhos de Hassenaá. Eles puseram os batentes e colocaram as portas, osferrolhos e as trancas no lugar" (Ne 3.1ss).
  • 96 A CIDADE NA MISSÃO DE DEUSNeemias, após um levantamento criterioso das condições precárias emque se encontrava o povo de Jerusalém, e tendo estabelecido a rede de contatose concluído a motivação do povo para superar a vulnerabilidade a que estavamexpostos, dispõe as lideranças da cidade para realizar a obra de restauraçãodos muros.Diferentemente de Esdras, ele não principia com a construção dotemplo. A cidade e o bem-estar da comunidade são preceitos elementares da féque estão acima das formalidades cerimoniais.A obra é ordenada. Cada equipe tem uma tarefa determinada e específica.Trata-se de um plano de ação organizado e participativo. A cada liderança éconfiada aquela parte do muro que está mais próximo à sua casa. Assim, cadaqual trabalha para sua segurança tendo o cuidado para que tudo aconteça dentrodos melhores padrões de qualidade. Neemias estava colocando em prática alei maior da capacitação da comunidade: "As pessoas mais capacitadas paratratar com os problemas são as pessoas afetadas pelos mesmos. As pessoasque estão excluídas de uma participação plena na vida social, econômica oupolítica de sua cidade ou comunidade podem ser capacitadas a participarsomente quando passam a agir coletivamente". 2O papel de Neemias é a supervisão do projeto global. Um exemplode governador! Isso é grandemente facilitado por sua habilidade de motivaras pessoas a fazerem do empreendimento coletivo a sua causa pessoal, o quecertamente gerou um novo e profundo amor pela sua cidade.Neemias bem que poderia ter usado outra estratégia. Ele reuniacondições para trazer um grupo de trabalhadores de fora para realizar a obrajuntamente com uma guarnição para cuidar da proteção. Isso poderia fazercom que a obra estivesse concluída com maior rapidez.Por que ele não escolheu essa alternativa?Ele quis algo mais que reconstruir os muros da cidade e prover seusconterrâneos de segurança. Quis reedificar a cidade. Isso é mais que provê-la de condições objetivas para que cada um se sentisse seguro ou protegido.Seu alvo era transformar o coração da cidade. Jerusalém não era uma cidadequalquer. Era a cidade portadora de uma vocação. A vocação de ser a cidadeabençoadora que irradiasse para o mundo o alvo eterno do Senhor, de estendersua bênção às famílias da ten·a.Seu projeto ia além de Jerusalém. Por isso, era imperioso que houvesseuma reconstrução de cada família, de cada liderança, de cada pessoa com opropósito de confirmar que a boa mão do Senhor estava com eles. Para Neemiasestava claro que também a cidade existe para glorificar o nome do Senhor.25. Robert Linthicum, op. cil. p. 241
  • UM PROJETO MINISTERIAL PARA A CIDADE 97Como foi que Neemias capacitou o povo de Jerusalém de tal forma quepudesse resolver - ele mesmo - aquela situação de deterioração? Vimos atéaqui que ele:Permitiu que o aperto no qual estavam queimasse em sua própria almanum grau tão elevado que ele ficasse obcecado em fazer nascer nelesmesmos tal capacitação.Formou uma rede com o forte para que tivesse o apoio pessoal, dinheiroe recursos dele.Formou sua rede com o povo para averiguar o que eles entendiam seras questões mais urgentes e imediatas da cidade.Pesquisou pessoalmente a situação para determinar a exatidão da suapercepção com a do povo acerca das questões da cidade.Desafiou e inspirou o povo a assumir a própria situação na qual seencontravam". 26Dessa experiência pode-se concluir que: "Ministério urbano verdadeironüo acontecerá enquanto as igrejas criaremprojetospara o pobre. O verdadeiroe efetivo ministério urbano acontece somente quando as igrejas da cidadetrabalharem em conjunto com o pobre, para identificar suas necessidades edeterminar as açl5es que necessitam tomar em conjunto". 27Os ensinamentos centrais do Apóstolo Paulo aplicam os mesmosprincípios quando se trata de edificação do Corpo de Cristo. Cada cristão édesafiado a colocar-se na obra a partir de seus dons e habilidades. Entre osque edificam sua igreja, o Espírito Santo destaca alguns com habilitaçõesespecíficas: "E ele designou alguns para apóstolos, outros para profetas, outrospara evangelistas, e outros para pastores e mestres, com ofim de preparar ossantos para a obra do ministério..." (Ef 4.llss).Os ministérios específicos têm a função de apoio e supervisão. Suaresponsabilidade maior é a de amparar, cuidar, animar e capacitar os santospara que se mantenham na sã doutrina e cooperem para a unidade do corpo emfunção de sua finalidade missionária.Viv Grigg, ao analisar projetos missionários ao redor do mundo, constataque os projetos missionários bem-sucedidos na América Latina e África -entenda-se entre os empobrecidos - são aqueles nos quais os missionários sãopobres como os demais da igreja, ou então, assumem a pobreza e residemno meio dos pobres. Ao passo que aqueles projetos financiados com verbasde fora nos quais os obreiros residem longe dos pobres ou não encarnam suarealidade, em sua quase totalidade, experimentam fracassos.26. Robert Linthicum. Op. cit.. p. 243.27. Robert ILinlhicum, op. cit.. p. 243.
  • 98 A CIDADE NA MISSÃO DE DEUSDisso se conclui que: o empreendimento missionário urbano requer aencarnação e a contextualização do obreiro na realidade em que o projeto serealizará. Os empobrecidos ou necessitados é que melhor sabem identificarsuas necessidades e prioridades, por isso, eles são os potenciais agentes detransformação da realidade, desde que o evangelho por eles experimentado ostenha elevado à dignidade de filhos de Deus. Cabe ao obreiro tomar a dianteirado projeto até o momento em que surgirem os líderes locais aos quais deve daro suporte necessário para levarem a obra adiante.O obreiro necessita da humildade de admitir que ele pode ser dispensadode sua função quando tiver cumprido a sua tarefa. Foi assim com o apóstoloPaulo. Ele nunca procurou se perpetuar numa cidade. Tão somente cumpriusua função de acordo com o seu dom específico - o apostolado - que consistiaem abrir a obra e estabelecer as lideranças para então seguir o rumo que oEspírito Santo lhe indicava (At 13.1-3).Do missionário urbano se requer a habilidade de liderar os processospara que estes desencadeiem o projeto de transformação da comunidade. Issocomeça com a humildade de buscar as pessoas, em oração, diante do Senhor.As pessoas precisam ser ajudadas a entender os princípios elementares da féa fim de serem qualificadas a assumir sua responsabilidade com autonomia.Algumas pessoas são mais ágeis para entender e se engajar. Outras são maislentas. Não é possível padronizar. A"obra deve assumir o ritmo que correspondeà competência dos trabalhadores. A supervisão ou mentoria espiritual saberárespeitar os dons, limites e habilidades da cada um. O segredo do êxito, rarasvezes, depende do sacerdote, mas do sacerdócio geral dos crentes.4.9 Os inimigos externos e os conflitos internos"Quando, porém, Sambalate, Tobias, os árabes, 0.1 amonitas e 0.1 homensde Asdode souberam que os reparos nos muros de Jerusalém tinhamavançado e que as brechas estavam sendo fechadas, ficaram furiosos.Todos juntos planejaram atacar Jerusalém e causar confusão. Masnós oramos ao nosso Deus e colocamos guardas de dia e de noite paraproteger-nos deles" (Ne 4.7-9).A implementação de um projeto missionário abrangente traz consigo anecessidade de conviver com inimigos e de administrar conflitos. Os poderososou mandantes da cidade podem estar sendo contrariados com o nosso projeto.Por isso, todo sábio empreendedor terá os olhos abertos para perceber quais
  • UM PROJETO MINISTERIAL PARA A CIDADE 99serão os interesses que essa missão confrontará. Portanto, convém atentar paraas seguintes indagações:"Quais serão os potenciais inimigos externos (os de fora da comunidade) àobra? Qual o seu potencial destruidor? Quais as suas estratégias? Quais assuas armas?Quais são os inimigos internos (gente da própria casa ou comunidade) quepoderão atrapalhar a obra? Qual o seu potencial, suas estratégias? Quaisas suas armas?O conflito é sinal indicativo de que a capacitação do povo simples dacomunidade ou da cidade está verdadeiramente dando certo". 28Como Neemias enfrenta os adversários externos? Como ele prepara opovo para esse enfrentamento?Como Neemias lida com as adversidades provindas do meio da própriacomunidade e como as supera?Deus enviou ao mundo uma pessoa sem pecado, mas nenhuma semlágrimas. Jesus experimentou, na própria carne, a dor e o sofrimento. Não cabeao missionário urbano a escolha entre sofrer ou não sofrer. Seu papel fundamentalé obedecer ao Senhor e servir. Ou como afirma o salmista: "Deleite-se noSENHOR, e ele atenderá aos desejos do seu coração" (SI 37.4).4.9.1 Os inimigos externosA obra mal havia iniciado e eis os InImIgos em conluio. "QuandoSambalate soube que estávamos reconstruindo o muro, ficou furioso.Ridicularizou os judeus..." (Ne 4.1).Sambalá certamente tinha motivos para se irar, pois a reedificação deJerusalém significava para ele e outros "homens importantes" da região a perdada mão-de-obra escrava que contratavam a qualquer preço. Mas, deixemosisso pra lá. Com ou sem motivos, os inimigos não tardam em aparecer. A nossaquestão é: como lidar com eles? E é isso que Neemias nos ensina. Ele é o líderque sabe colocar a palavra certa na hora exata.A obra é do Senhor e não do obreiro: "Ouve-nos, Ó Deus..." (Ne 4.4).Neemias tem a dimensão exata do problema. A causa é de Deus, poisEle é o Senhor da obra. Por isso, recorre - antes de qualquer coisa - à presençado Senhor e ali busca o socorro. "Se não é o SENHOR que vigia a cidade, seráinútil a sentinela montar guarda" (SI 127). Não importa o tamanho do furor edas ameaças do inimigo: "... ficaram furiosos. Todos juntos planejaram atacarJerusalém (...)".28. Robert Linlhicum, op. cit, p. 250.
  • 100 A CIDADE NA MISsAo DE DEUSA batalha deve ser vencida, em primeiro lugar, no campo espiritual. Oadversário deseja tirar, primeiramente, a motivação e o ânimo dos crentes. Odesprezo e a ridicularização são as suas primeiras armas (Ne 4.2), depois vemas ameaças e as intimidações (Ne 4.7-8).Neemias, como líder experimentado, homem de oração e corajosoadministrador, conduz o encaminhamento do problema para o verdadeirorumo: "Mas nós oramos ao nosso Deus e colocamos guardas de dia e de noitepara proteger-nos deles" (Ne 4.9)Nota-se aqui a maturidade do líder, que consiste em saber conjugar oque compete a Deus fazer e qual a responsabilidade de quem coordena a obra.Há tarefas que pertencem a Deus e há tarefas que devem ser assumidas pelacomunidade. O discernimento dessa conjugação de esforços dá o verdadeiroequilíbrio ao empreendimento.Neemias faz o que está ao seu alcance. Ele leva o povo a orar, isto é,a depender do Senhor; a buscar em Deus as forças necessárias para levar oprojeto adiante. Só essa certeza de que o Senhor edificará, poderá prover opovo das forças além de seus limites para levar a obra adiante. (Ne 4.10)Pela oração, Neemias estrutura o povo dispondo-o estrategicamentepara não dar brechas ao inimigo: "Por isso posicionei alguns do povo atrásdos pontos mais baixos do muro, nos lugares abertos, divididos porfamílias,armados de espadas, lanças e arcos" (Ne 4.13)Todas as famílias são desafiadas a lutar com suas armas para oenfrentamento do inimigo. Ninguém partia para o ataque. Eles esperaram oinimigo atacar. Sob essa orientação, não se dispersariam e não abandonariama obra caso o inimigo de aproximasse. O foco continua sendo a obra do Senhore não as hostes do inimigo.(Lembram de Mateus 14.22-33? Pedro sob, a palavras de Jesus, caminhasobre o mar. Mas, no momento em que desvia seu foco de Jesus, ele sucumbenas ondas).Em terceiro lugar, Neemias mantém viva a motivação e a organizaçãoda liderança: "Fiz uma rápida inspeção e imediatamente disse aos nobres, aosoficiais e ao restante do povo: Não tenham medo deles. Lembrem-se de que oSenhor é grande e temível, e lutem por seus irmãos, por seus filhos e por suasfilhas, por suas mulheres e por suas casas" (Ne 4.14).As lideranças receberam um cuidado especial. Quando elas estãoanimadas o povo se sente encorajado. Esse entusiasmo, perseverança e firmezado povo de Deus intimidou os inimigos.Em seu ministério, Jesus deu um duplo enfoque: Ele não só cuidavadas multidões, mas dedicava especial atenção aos doze. Quem descuida da
  • UM PROJETO MINISTERIAL PARA A CIDADE 101preparação da liderança acaba sufocado pela rotina. (Lembram do conselho deJetro a Moisés? Êx 18.13-27).As medidas acima contagiaram os que edificavam os muros. Daí parafrente, a tarefa da liderança era assegurar o clima espiritual e emocional.Trabalhar com motivação e zelar para não dar brecha aos inimigos. Metadedos moços edificava, metade vigiava. A síntese do enfrentamento do inimigoexterno consistiu em orar e trabalhar com zelo. Nem só o trabalho, nemsomente a oração. Mas trabalho, dedicação e estratégias aliadas à oração, aoentusiasmo, à vigilância e à perseverança.Neemias mostra que a oração e a consagração não dispensam o melhorde nosso esforço físico e mental. Lutero aconselhava: "Ore como se tudodependesse de Deus. Trabalhe como se tudo dependesse de ti mesmo".Os inimigos ainda tentaram prejudicar a obra que o Senhor confiara aNeemias, através de mensageiros, profetas e ameaças caluniosas (Ne 6.1ss),para tirá-lo de sua missão. Neemias, no entanto, permaneceu fiel à promessa doSenhor e à obra que o Senhor lhe havia confiado. Ele não se deixou intimidar,distrair ou amedrontar pelas artimanhas dos inimigos. Sua atenção primordialestava focada na obediência ao Senhor.As estratégias colocadas em ação resultaram na edificação do muroda cidade. A população estaria, doravante, a salvo dos inimigos externos epodia viver em paz e alegria, celebrando e contemplando a obra que o Senhorrealizara em seu meio.Há, contudo, um grande PORÉM...4.9.2 Os conflitos internosVencer os inimigos externos é certamente mais fácil que dominar oinimigo que mora dentro de cada pessoa. A mentalidade da velha naturezaprecisa serconscientemente desconstruída paraque o povo de Deus experimenteo verdadeiro sentido de comunidade. Eis o segundo desafio de Neemias."Ora, o povo, homens e mulheres, começou a reclamar muito de seusirmãosjudeus" (Ne 5.1).Qual o motivo desse intenso clamor? Alguns "mais vivos" entre os judeuslogo viram que, uma vez favorecidos pela segurança, poderiam fazer bonsnegócios com os seus conterrâneos e não perderam tempo em oprimir os seusirmãos através de sua habilidade mercantil. Ou seja, o espírito de usura continuoua habitar suas mentes. Sempre de novo se confirma a sábia observação de DomHelder Câmara: "o espírito do opressor também habita a cabeça do oprimido".Esse é exatamente o motivo do conflito interno ao povo de Deus.
  • I02 A CIDADE NA MISSÃO DE DEUSComo Neemias administra esse conflito?"Quando ouvi a reclamação e essas acusaçães, fiquei furioso " (Ne 5.6).O verdadeiro líder jamais é alguém indiferente ao clamor de seu povo. Ador de seus irmãos é também a dor de seu coração. Daí a suajusta indignação. Areação de Neemias não é de fúria ou de ira para vingar estes obtusos opressoresque nada entenderam do que Deus estava fazendo. Ele sabe que o inimigo nãotarda em plantar o joio no meio do trigal. Mas, nem a compreensão da naturezahumana, nem a justa indignação solucionam os conflitos que o povo enfrentaem seu dia-a-dia. É preciso algo mais. Urge uma ação corajosa, sábia, ungidapara chamar os pecadores ao arrependimento a fim de se converterem do maucaminho e assumir os padrões éticos da Palavra do Senhor.Neemias toma duas atitudes para superar esse conflito.Primeiramente, faz-lhes uma repreensão reservada: "Fiz uma avaliaçãode tudo e então repreendi os nobres e os oficiais, dizendo-lhes: Vocês estãocobrando juros dos seus compatriotas! " (Ne 5.7).Neemias era a liderança maior da província. Ele era o governador aquem cabia zelar pelos relacionamentos justos na cidade. Por isso, após aconsideração pessoal chama os diretamente envolvidos para uma repreensãoà luz da obra que o Senhor estava realizando em seu meio, responsabilizando-os pelos seus pecados perante o Senhor e exigindo deles sinais claros dearrependimento que consistia na restituição do que tomaram indevidamente.Em segundo lugar, Neemias chama um grande ajuntamento do povoe em público exige que as lideranças econômicas, políticas e religiosas -magistrados e sacerdotes - se comprometam com a restituição de tudo quetomaram indevidamente (Ne 5.12).Em terceiro lugar, Neemias dá seu exemplo pessoal de renúncia,abnegação, sacrifício, desprendimento e amor pelo povo da cidade que viviauma vida arruinada (Ne 5.13-19).O exemplo de uma sociedade transformada deve partir de uma novamentalidade da liderança. O que se diz popularmente: o exemplo deve vir de cima.Agindo dessa maneira, Neemias administrou os conflitos internos, detal maneira, que ganhou tanto as lideranças como o povo num compromissocoletivo de aliança em favor dos padrões de Deus que devem reger a vida dacidade. Mesmo assim, a dinâmica da vida comunitária mostra que os conflitossão inerentes à sua vida. A ausência temporária de Neemias foi o suficientepara que alguns sacerdotes voltassem a se privilegiar do templo (Ne 13.7-9).Na realidade religiosa brasileira de nossos dias, algumas igrejasinstitucionalizadas com seus dogmas intocáveis, folclore litúrgico enlatado oucomandadas pelos seus coronéis, carecem de uma capacidade de administrar
  • UM PROJETO MINISTERIAL PARA A CIDADE 103conflitos. Duas tendências norteiam as decisões de líderes ou caciqueseclesiásticos, ambas rejeitadas pela Escrituras.A primeira é a atitude proposta por Tiago e João diante da rejeição deJesus pelos samaritanos: "Senhor, queres que façamos cair fogo do céu paradestruí-los?" (Lc 9.54). A mesma atitude é mostrada pelos discípulos em outracircunstância: "Mestre, vimos um homem expulsando demônios em teu nome eprocuramos impedi-lo, porque ele não era um dos nossos" (Lc 9.49).Há uma tendência de mandar calar ou anatematizar liderançasevangélicas que não dominem as nossas senhas, que não estejam familiarizadascom nossos "santos costumes", ou não rezem pela nossa cartilha litúrgica. Ou,então, eliminar-se os conflitos pela exclusão dos diferentes sem lhes proporalternativas. Ou seja, a solução pela exclusão do diferente.Jesus não anda por esse caminho. Ele olha antes para a essência, paraas pessoas. A forma de viver a fé não é essencial. Vale a lembrança contidano conselho de um dos pais da igreja: "No essencial, unidade; no que não éessencial, liberdade; mas, acima de tudo, o amor" (Santo Agostinho).Outra atitude é proposta pelos filhos de Zebedeu - Tiago e João:"Permite que, na tua glória, nos assentemos um à tua direita e o outro àtua esquerda" (Mc 10.37). Essa atitude de galgar os mais altos postos nahierarquia eclesiástica para então exercer o domínio e impor sua ideologiateológica ou eclesiástica. Esse é outro caminho para eliminar os conflitosinternos. É o caminho responsável por tantas divisões internas da igreja e peloestabelecimento de um certo coronelismo evangélico ao sabor da herançacultural lusitana, ou ancorado no substrato patriarcal do passado.Uma liderança madura consegue encarar a conflitividade não somentecomo um problema, porém, como sinal de Deus para ampliar o horizonteministerial da igreja com vistas a uma mudança necessária. O exemplo queemerge da Bíblia enfoca a conflitividade como possibilidade do Espírito Santopara abrir os olhos da liderança da igreja. Atos l5.6ss é uma demonstração dasensibilidade apostólica em ouvir o que o Espírito tem a dizer à igreja relativoà missão. O mesmo ocorre em At 15.36-41, em que uma desavença a respeitodos rumos do Espírito, ao invés de inibir a missão, a amplia.A conflitividade é inerente à criatividade. Ela deve ser vista antes comooportunidade que desafia para crescer e ampliar os horizontes missionáriosdo que ameaça herética que vem para destruir. Os movimentos proféticos, osreavivamentos e a renovação espiritual, via de regra, vem de círculos periféricose não do poder eclesiástico institucionalizado. Eles têm sido, muitas vezes,rejeitados como ameaça, não como um clamor legítimo de um grupo que estásofrendo e para o qual a liderança é insensível.
  • 104 A CIDADE NA MISSÃO DE DEUSEmAtos 6 a liderança apostólica acolhe o clamor de um grupo de viúvasestrangeiras que eram negligenciadas. A resposta apostólica foi ampliar a visãomissionária através da instituição de uma instância de serviço: os diáconos.Neemias nos dá o exemplo de acolher o clamor das minorias ou maioriasoprimidas dentro do próprio povo de Deus. Se elas gritam é porque algo estásendo negligenciado pela liderança. À liderança espiritual cabe ouvir, discernire agir para que a paz seja restabelecida, mesmo que isso implique destronaralguns poderosos que se sentirão frustrados. Muitas vezes, aquelas famíliasmais tradicionais que se arrogam o direito de serem "donas" da igreja causama maior dificuldade para o avanço missionário. Sua visão, não raro, estácircunscrita à participação dos iguais. Assim, não cedem espaço para quemprocede de outra etnia, cultura ou status social.4.10 Restauração espiritual e as celebrações das conquistas noSenhor"Depois que o muro foi reconstruído e que eu coloquei as portas no IURar,foram nomeados os porteiros, os cantores e os levitas. Para governarJerusalém encarreguei o meu irmão Hanani e, com ele, Hananias,comandante dafortaleza, pois Hananias era íntegro e temia a Deus maisdo que a maioria dos homens" (Ne 7.1-2).Tendo o povo concluído a obra sob a liderança de Neemias, este proveua cidade das medidas de segurança que assegurassem a proteção necessáriapara viver a salvo dos inimigos e intrusos.A seguir, tratou de restaurar a base espiritual sobre a qual seria edificadoo novo projeto urbano de Jerusalém (Ne 7.70ss; Ne 8.1ss). Para desencadearesse processo de edificação espiritual do povo, Neemias convocou umaassembléia para um dia solene de gratidão e culto.Esdras, o sacerdote e escriba, trouxe o Livro da Lei e passou a ler eensinar os preceitos do Senhor de tal modo que desde o menor até os maisvelhos, assim homens como mulheres, pudessem ouvir e compreender todo oconselho de Deus. Com grande comoção e lágrimas o povo acolheu a Palavrado Senhor. E todos celebraram este dia com grande alegria e regozijo (Ne8.11-12).A festa dos Tabernáculos, ordenada pelo Livro da Lei, foi restaurada ecelebrada pelo povo (Ne 8.13ss).Por que Neemias restabelece as celebrações?
  • UM PROJETO MINISTERIAL PARA A CIDADE 105As festas ocupam um lugar central na comunhão do povo e Deus.Isso tem sua razão de ser. A celebração é a declaração comunitária de que osobjetivos alcançados foram graça e misericórdia de Deus. Foi a mão poderosado Senhor que realizou estes grandes feitos a nosso favor. ..A leitura da Lei de Deus, o ouvir dos grandes feitos do Senhor na históriapassada de Israel, a confissão de pecados, a adoração e a comunhão eram ospilares do grande dia de festa. Todas as conquistas foram alcançadas porque oSenhor Deus teve compaixão de seu povo. É justo que isso seja celebrado portoda a comunidade.A celebração tem uma segunda razão importante: ela coloca, lado a lado, aslideranças mais influentes e os trabalhadores braçais mais simples do povo. Essacomunhão cria um espírito de farm1ia, indispensável para uma boa convivência. Aaproximação é útil para ambas as partes. Os mais humildes sentem-se valorizadose as autoridades sentem de perto as necessidades do povo.Em terceiro lugar, a celebração corresponde à necessidade que acomunidade tem de dar evasão às suas alegrias pelas conquistas. Houve umtempo para trabalhos, lutas e conquistas; agora é tempo de alegria e gratidão.Houve um tempo para lutar, temer e sofrer, agora é hora de se alegrar. Ambosos aspectos - a luta e a festa - fazem parte da normalidade da vida de umacomunidade.O equilíbrio entre o trabalho, a adoração e o lazer são saudáveis.4.10.1 Puritanismo e liberalismoNo contexto brasileiro, há redutos nos quais o povo de Deus perdeu,em grande parte, a alegria da celebração. Isso é devido a duas influências quepouco o ou nada tem a ver com espiritualidade evangélica.Primeira: a influência de um puritanismo legalista para quem todo oócio é visto como pecado. Dentro dessa mentalidade, o povo de Deus devesempre estar ocupado, trabalhar, economizar ou estar no templo. Não háespaço para lazer, convívio familiar ou ócio.Quando um crente puritano tem alguma folga ou tira alguns dias deférias sente-se tomado de culpa, pois, desperdiçou o precioso tempo paranão fazer nada. Essa mentalidade trouxe para dentro da igreja um ativismoneurótico que rouba a qualidade da vida evangélica. Essa tradição puritananão é só de influência norte-americana. Quem examinar de perto uma sériede hinos piedosos de hinários mais antigos de origem européia 29 verificará aexistência de uma piedade (pietismo) que mortifica o corpo, roubando-lhe até29. Refiro aqui a uma série de hinos dos hinários Hinos do Povo de Deus, Cantor Cristão, Harpa Cristã. ..
  • 106 A CIDADE NA MISSÃO DE DEUSa chance de expressar a alegria de viver. Tudo concorre para o dever, nada parao lazer. Piedade é confundida com sisudez, alegria com superficialidade.Nessa visão castradora, não há espaço para o senso de estética, paraas artes sacras que desempenharam papel tão importante na divulgaçãodo evangelho no passado. A ausência da arte faz com que muitos templosevangélicos sejam caixas padronizadas de muito mau gosto arquitetônico.É preciso sublinhar que senso estético não é pecado. A vida cristã pode serdotada de bom gosto, arte e estética.Uma segunda causa que roubou a alegria da celebração é influência doliberalismo. As festas comunitárias com exagerado apelo às bebidas alcoólicas,jogos e todo tipo de exploração financeira se constituem, em algumas tradições,como a maior fonte de arrecadação e sustentação das comunidades. Hácomunidades de orientação liberal nas quais essa influência é uma catástrofe,pois a sobrevivência financeira de comunidades depende das festas popularese das promoções, que não trazem alegria para a comunidade e nem promovema integração de seus "sócios". Pelo contrário, sua organização se constituiuem sobrecarga que recai, via de regra, sobre as mesmas pessoas. Em vez delazer e contentamento, tais festas se constituem em dor de cabeça para pastorese lideranças que desejam ressaltar a evangelização acima da construção degrandes centros comunitários.Há que se desconstruir essas mentalidades a partir dos padrões bíblicosque mostram que o ócio não é oficina do diabo e, sim, momento criativo.Nenhum mal existe em olhar os lírios do campo, passear a beira-mar, subiras montanhas, conviver com as pessoas amadas, enfim, restaurar a alegriade viver, contemplar maravilhado as belas obras da imensa criação, realizarencontros familiares comunitários para celebrar, dançar e alegrar-se...Concorrem para a percepção da vida sob um olhar mais lúdico passagensbíblicas como estas: "Portanto, vá, coma com prazer a sua comida e beba o seuvinho de coração alegre, pois Deusjá se agradou do que vocêfaz. Esteja semprevestido com roupas de festa, e unja sempre a sua cabeça com óleo. Dqfrute avida com a mulher a quem você ama, todos os dias desta vida..." (Ec 9.7-9).A alegria e a celebração estão na raiz da formação da espiritualidadebíblica. A festa entre o povo de Israel foi um grande fator de integraçãocomunitária. Imagine a festas dos Tabernáculos: todas as tribos reunidashabitando em casas feitas de palha, em regime de mutirão, durante uma semanainteira, permitindo-se - além de ouvir e estudar a Lei de Deus - um ambienteinigualável de convívio entre toda parentela, toda criançada...Hoje somos demasiado escravizados pela diabólica mentalidadecapitalista de que tempo é dinheiro. Urge restaurar um sadio espírito de
  • UM PROJETO MINISTERIAL PARA A CIDADE 107celebração, de ócio, para dar espaço à alegria de conviver, não apenas desobreviver... Diz-se que na cidade há dois momentos que reúnem as famílias:os casamentos e os sepultamentos...Os movimentos nas igrejas que têm alcançado a maior participação sãoaqueles que conjugam a espiritualidade com a celebração através de retiros,encontros, jornadas de estudos e convívio... Esse ambiente sadio extra-temploproporciona uma espiritualidade menos formal e mais relaciona!.De Neemias podemos reaprender a importância de celebrar os momentosmarcantes na vida da comunidade de fé.4.11 A consolidação da obra"Os líderes do povo passaram a morar em Jerusalém, e o restante dopovo fez um sorteio para que, de cada dez pessoas, uma viesse morarem Jerusalém, a santa cidade; as outras nove deveriam ficar em suaspróprias cidades. O povo abençoou todos os homens que se apresentaramvoluntariamente para morar em Jerusalém" (Ne 11.1-2).Conta-se, por aí, que um certo comandante revolucionário, conhecidopelas suas longas barbas - já grisalhas - fora perguntado: - "Quando é queo senhor vai cortar sua barba?". Ao que ele teria respondido: - "Quando arevolução estiver concluída!".Parece que o comandante vai morrer com suas longas barbas por fazer...Num seminário de presbíteros luteranos, um experimentado líder fez oseguinte desabafo: - "Pastor, já participo há mais de vinte anos no presbitério.Constato que sempre que vem um novo pastor ele inicia explicando o planode salvação. Isto é, ele inicia com o abc da fé cristã e, depois de algunsanos, vai embora. Vem outro e faz a mesma coisa. Comparando isso com onosso sistema educacional, posso dizer: já repeti o primeiro ano várias vezes,o segundo e o terceiro ano do ensino básico mais de dez vezes... Quando tereichance de completar o ensino fundamental e médio da fé cristã?".É relativamente fácil iniciar uma obra. Poucos sabem consolidar aslideranças para que se multipliquem em discipulado.O que podemos aprender de Neemias sobre esse assunto? Quais osencaminhamentos necessários para que a própria comunidade alcance suaautonomia de sustentação e administração?Na seqüência do que até aqui foi analisado, notamos que Neemiastomou algumas medidas que encaminham a autonomia da comunidade.
  • 108 A CIDADE NA MISSÃO DE DEUSA centralidade da Palavra de Deus. O primeiro passo na consolidaçãoda obra é a centralidade da Palavra de Deus (Ne 9). Se a vida espiritual dacomunidade estiver firmada com clareza doutrinária, na Palavra do Senhor, opovo alcançará sua identidade.Num espírito de arrependimento e confissão de pecados, Neemiasrecapitulou os grandes feitos do Senhor a favor de seu povo ao longo da história:Só tu és o SENHOR. Fizeste os céus, e os mais altos céus, e tudo o queneles há, a terra e tudo o que nela existe, os mares e tudo o que neles existe.Tu deste vida a todos os seres, e os exércitos dos céus te adoram (v. 6). Tués o SENHOR, o Deus que escolheu Abrão, trouxe-o de Ur... (v. 7) Viste osofrimento dos nossos antepassados no Egito, e ouviste o clamor deles... (v.9) Fizeste sinais e maravilhas... (v. 10). Tu os conduziste... (v. 12).Neemias restaura o ministério do ensino da sã doutrina. Na igreja, oprecário conhecimento da doutrina leva as pessoas a vagarem à mercê dosventos de doutrinas pseudocristãs e de artimanhas dos homens.Jerusalém fora arrasada porque sua liderança descuidou dessefundamento. Na restauração da cidade é imprescindível a restauração espirituala partir das promessas e das exigências da Lei de Deus. Jesus adverte,severamente, os líderes religiosos de sua época: "Vocês estão enganadosporque não conhecem as Escrituras nem o poder de Deus!" (Mt 22.29).Cada pessoa na sua vocação. Em segundo lugar, Neemias testemunhaque o líder precisa certificar-se de que cada pessoa, família ou grupo estejano seu lugar dentro de sua vocação (Ne 11 e 12). Cada qual tem uma funçãoimportante e indispensável na edificação do todo. Daí a razão de Neemias sepreocupar em saber quem integra a comunidade e qual o espaço de cada um.O apóstolo Paulo usa a figura do Corpo (I Co 12-14; Rm 12) parachamar a atenção sobre os dons que o Espírito Santo distribuiu à comunidade.Cada qual é responsável pela sua vocação conforme o dom recebido. O corpocomo um todo necessita da colaboração orgânica de todos os membros. Sem afunção específica de cada dom, o corpo não funcionará plenamente.O apóstolo Pedro aponta para uma outra figura tomada do AntigoTestamento: "Vocês, porém, são geração eleita, sacerdócio real, nação santa,povo exclusivo de Deus, para anunciar as grandezas daquele que os chamoudas trevas para a sua maravilhosa luz" (I Pe 2.9).Dessas passagens e outras similares os reformadores do século XVIextraíram o ensino sobre "o sacerdócio geral de todos os santos ou crentes".Sua ênfase reside em sublinhar que cada cristão exerce sua vocação a partir desua profissão. No exercício esmerado de sua profissão, o cristão se constituiem sal e luz no mundo.
  • UM PROJETO MINISTERIAL PARA A CIDADE 109A profissão mais do que os cultos nos templos colocam a pessoaem oportunidades para dar razão de sua esperança em Cristo. A força dotestemunho da igreja reside na obediência de cada cristão à sua vocaçãoespecífica. Os obreiros ordenados têm responsabilidade pelos seus dons nocorpo assim como todos os demais membros.Portanto, a consolidação da obra do Senhor consiste no fiel e acuradoempenho do desenvolvimento de dons, vocação e habilidades de cada um a fimde alcançar a maturidade em Cristo (Ef 4). Paulo testemunhou que, para talfinalidade, ele empenhou o melhor de seu tempo e investimento (Cl 1.29).Uma firme consolidação do fundamento eterno da Palavra de Deus fazcom que a igreja não necessite, a toda hora, relembrar os princípios elementaresda fé (Hb 6), mas avance em direção à maturidade.Uma estratégia de consolidação pressupõe firmeza nos objetivospermanentes, para manter viva a chama da missão e um plano de açãopermanente para evangelizar as futuras gerações, bem como, uma basede sustentação das obras edificadas para não se tornarem ruínas ou daremoportunidade para a infiltração de inimigos.Devo chamar a atenção para uma tendência forte no mundo evangélico denossos dias. O risco da visão templo-cêntrica. Parece que todo testemunho cristãoestá vinculado à existência do templo ou do culto com louvor, pregação, etc.O que se verifica nas igrejas urbanas que se consolidam e que crescemem qualidade nas cidades é a volta aos pequenos grupos ou igrejas caseiras.É nelas e não nos grandes templos que as pessoas encontram uma verdadeirae profunda comunhão. Nesse ambiente mais doméstico se dão as condiçõesmais propícias para as curas e a restauração emocional e espiritual, a práticada solidariedade e a edificação mútua. Ali o ensino e o crescimento assumemdimensões concretas por estarem vinculados às questões existenciais de seusparticipantes.4.12 O zelo pela liderançaQuem busca a consolidação de um projeto zelará, especialmente, pelocuidado com a qualificação das lideranças. Junto com a base espiritual, Neemiasse preocupou com a operacionalidade ou funcionalidade das estruturas. Paratanto, ele dá especial atenção para duas coisas: a divisão clara das tarefas paraque cada um saiba com clareza qual a sua função no empreendimento (Ne12.44-47). O sustento e o funcionamento estão intimamente relacionados àsatisfação e a eficácia de cada um.
  • li O A CIDADE NA MISSAo DE DEUSA supervisão ou auditoria externa tem a finalidade de restaurar ajustiçae o bom funcionamento de uma organização. Ela explicita tarefas que exigemcorreção e a retirada de privilégios (Ne 13.4-9). O líder não pode acumularprivilégios em detrimento de seus liderados. O padrão da autoridade é oserviço, não o poder.Há uma inclinação natural do coração humano para tirar proveito próprioquando exerce uma função de influência. Isso aconteceu com os magistradosque legislaram em causa própria destituindo o segmento dos cantores e levitas(Ne 13.10-14).Aqui Neemias ensina um princípio importante para a liderançacomunitária: todo líder deve estar sob a autoridade de outra pessoa ouinstância para evitar que abuse de seu poder. A moderna linguagem de"mentoria espiritual"30 se impõe como indispensável para manter o equilíbrioministerial.O exemplo da mentoria espiritual parte do próprio Senhor Jesus queenviou os seus discípulos de dois em dois (Lc 10.1). O ensino apostólicosublinha a necessidade da comunhão e mutualidade no ministério cristão.E finalmente, Neemias restaura a pureza ética (Ne 13.15-29).A coerênciae a pureza interior são a condição para que as misericórdias do Senhor seperpetuem como fontes de contínua bênção. Há princípios invioláveis pelosquais a liderança deve zelar e vigiar.Linthicum afirma que o maior inimigo da missão é o missionário.Em que sentido o missionário pode atrapalhar a vida da missão? Queatitudes de um líder atrapalham a vida da missão? Que medidas preventivaspodem ser adotadas? Que medidas corretivas se fazem necessárias?O papel da comunidade é fundamental. Todo projeto missionário devevisar à construção de uma liderança compartilhada. O líder deve estar soba autoridade de um colegiado, ao passo que a comunidade deve estar sob aliderança de seu guia espiritual. Essa relação de poder deve ser exercida numespírito de amor e compromisso sempre em consonância com a vocação e osfundamentos bíblicos que embasam a obra.Quem inicia e edifica um projeto missionário deve saber o que asEscrituras e a experiência ensinam sobre as qualidades de um líder. 3130. Refiro ao livro de James Houston - A Mentoria Espiritual.31. Há uma série de livros que tratam deste tema, entre os quais destaco o de Henry Nouwen - Líderes para o SéculoXXI.
  • UM PROJETO MINISTERIAL PARA A CIDADE 1114.13 ConclusãoA reflexão sobre a atuação de Neemias coloca a igreja diante do desafiode envolver-se com a cidade. Os passos por ele desencadeados são animadores.Seu ponto de partida e chegada era baseado na visão da missão integral: aleitura e experiência da realidade à luz da Palavra do Senhor e o cuidado coma dor específica com vistas à superação das causas geradoras do caos urbano.Hoje, a igreja dispõe de inúmeros instrumentos que permitem arealização de uma gestão missionária urbana. O que foi acentuado acima é queos pragmatismos são insuficientes. A transformação social e espiritual de umasociedade requer algo mais que sonhos ou projetos parciais. Se hoje a igrejapretender impactar a realidade urbana significativamente terá a apreendermuito do exemplo de Neemias.Mas como relacionar a experiência de Neemias voltada para umapequena cidade com a realidade metropolitana de nossos dias? Nas pegadasde Neemias, encontram-se alguns indicativos válidos. Uma metrópole jamaisserá uma unidade. Nela encontram-se, lado a lado, inúmeros povos. Algunsconscientemente organizados por etnias, interesses, associações, profissões,tribos. Outros, em núcleos habitacionais, condomínios, conglomeradosgeográficos, etc... Nenhum programa alcançará toda a cidade. Todo projeto detransformação urbana necessita de um ancoradouro, de um contexto específico.A partir desse contexto é possível trabalhar as proposições estratégicas deNeemias com vistas a influenciar toda a cidade.Convém sublinhar que um projeto transformador nasce de coraçõessensibilizados com uma dor específica. Quando Neemias assumiu a dor deseus irmãos que viviam na ruína urbana, Deus se encarregou de fertilizar suamente com todo tipo de criatividade e recursos para mobilizá-los.O projeto empreendido por Neemias teve a finalidade de edificarJerusalém dentro de uma visão étnica. Isso hoje não é mais pensável. Arealidade urbana de nossos dias é étnica, cultural e religiosamente plural.Apesar da validade dos passos indicados por Neemias, para elaboração de umprojeto ministerial para a cidade como um todo, seu livro deve ser apreciadocom a devida distância daquela realidade da de hoje. Não podemos transporseus ensinos como receita para qualquer cidade em qualquer tempo.Dele, porém, advém o desafio: a missão urbana abrangente requer umaexegese da realidade social e humana e uma espiritualidade capaz de abraçartoda a cidade.
  • 113ANEXO Io PROCESSO URBANIZATÓRIO BRASILEIRO.Os CONTRASTES URBANOS: O LUXO E O CAOSA presença deste capítulo se justifica por duas razões:Primeiro: só se entende o caos urbano brasileiro à luz das políticas queo protagonizaram.Segundo: a lógica do poder opressor mudou apenas o seu perfil. Nasconsiderações bíblicas, a cidade representava a ameaça aos povos periféricos,hoje, particularmente no Brasil, os sucessivos governos são inimigos da nação.Eles, como aliados ao poder inter ou transnacional, não governam para a nação,mas sobre ela, atrelados a interesses alheios às angústias mais profundas damaioria do povo brasileiro.Estamos, portanto, em épocas diversas diante da mesma lógica.O objetivo deste capítulo é analisar as causas que geraram o processourbanizatório no Brasil e desvendar a conjugação de forças que o possibilitaramhistoricamente. Adiante, busca-se caracterizar as metrópoles brasileiras coma finalidade de perceber as condições de vida dos habitantes urbanos, parafinalmente entender a lógica que permeia esse processo e a serviço de quem elese instalou. Antes, porém, a guisa da introdução, é feita uma breve abordagemdas origens do urbano.1. Histórico do urbano 1Qual é a origem da cidade? Quais foram os fatores que determinaramo seu surgimento? Qual tem sido a função da cidade? Como ela se relacionoucom o campo? Quais são os principais desafios na organização das populaçõesurbanas? Essas e outras questões nos acompanham, passo a passo, na tentativade buscar um entendimento para uma adequada ordenação dos problemas quecaracterizam a realidade urbana.1. A rápida abordagem histórica tem a finalidade de apontar e identificar alguns componentes significativos parao surgimento da cidade. Para se ter uma noção da cidade na história recomendo as obras de Munford, Castells,Goulanges citados na bibliografia.
  • 114 A CIDADE NA MISSÁO DE DEUSDifícil é saber onde surgiu a cidade na história. O historiador urbanoLewis Munford, ao se ocupar com essa questão, afirma: "As origens da cidadesão obscuras, enterradas ou irrecuperavelmente apagada uma grande partede seu passado, e são difíceis de pesar suas perspectivas futuras ". 2Se a primeira razão que tiveram os nossos ancestrais de se agregarem emcidade, foi de ordem religiosa ou de segurança, não sabemos ao certo. Fato éque a origem da cidade está vinculada à fixação de um povo a um determinadoterritório, que ofereceu condições para que a sustentação da população urbanafosse possível. Quais as condições que permitiram essa façanha?As primeiras cidades surgiram onde a técnica neolítica e as condiçõesmateriais permitiram aos agricultores produzir mais do que aquilo de quenecessitavam para consumir. A partir do momento em que uma sociedadeultrapassa a pura atividade de subsistência quotidiana, desenvolve-se umsistema de distribuição do produto. A existência do dito sistema de produçãoe distribuição supõe um determinado nível técnico e uma determinadaorganização social. As cidades são a forma de residência adotada poraqueles membros da sociedade cuja permanência direta de cultivo não énecessária, isto é, por aqueles que vivem do excedente do produto dosagricultores. 3Supostamente, os mais bem-sucedidos ou aparelhados agricultorestinham condições de alcançar uma produtividade que lhes garantisse adispensa do trabalho direto no campo, 4 podendo morar na cidade e viver daapropriação do fruto do trabalho alheio. Concretamente, as cidades tornaram-se simultaneamente centros religiosos, administrativos e políticos.Segundo o sociólogo Manuel Castells: "... a cidade é o lugargeográfico onde se instala a superestrutura político administrativa". 5 Essaestrutura estava centralizada na figura do guerreiro, monarca ou sacerdote,segundo o grupo social que detinha o poder, fosse ele dos militares, políticosou religiosos.O estabelecimento dessa superestrutura centralizada numa autoridadesuprema, decorrente da divisão da população em classes sociais inerentesà cidade, em que uma fração passa a gozar das benesses do sistema emdetrimento dos demais, traz tensões e inaugura o estabelecimento de relaçõesde dominação social, política, econômica ou religiosa.2. Lewis Munford, A cidade na História, p. 9.3. Manuel Castells, Problemas de investigação em Sociologia Urbana, p. 92.4. Não se sabe ao certo se o excedente proveio inicialmente pelo cultivo da terra, criação de gado ou da aplicação detécnicas desenvolvidas para a conservação de abundante caça.5. Manuel Castells, op. cit, p. 19.
  • ANEXO I - O PROCESSO URBANIZATORIO BRASILEIRO 115A sustentação da população urbana implica a necessidade de canalizaro excedente de produção de uma classe produtora a outra não produtora dealimentos. Como a classe produtora não possuía condições de igualdadepara estabelecer as regras do jogo, a classe dominante citadina valia-se desua hegemonia política, militar ou religiosa, passando a legislar e governarunilateralmente. Com isso, foram criados os mecanismos que possibilitarama expropriação do excedente e, com freqüência, a diminuição da qualidadede vida dos subalternos, em que, em troca de uma relativa segurança ou deoutros "bens", a classe campesina entregava seu produto para a sustentaçãoda cidade. A forma mais comum dessa transferência é o tributarismo (sistemade pagamento de impostos). E, na medida em que as cidades cresceram, elasse tornaram mais complexas, surgiram novas necessidades que têm levado abuscar no escravagismo um meio para forçar a sustentação econômica. 6Na cidade, surgiram também conflitos sobre sua forma de governo. Naaldeia, o governo podia ser mais coletivista e as decisões podiam esperar pelacristalização da vontade comum. Contudo, a experiência mostrou que formascapazes de solucionar problemas de uma aldeia podem não ser adequadas parasolucionar os da cidade. A mentalidade aldeã, de cunho coletivista, choca-se com lideranças carismáticas que se mostram ágeis e dinâmicas diante dosproblemas prementes. Por vezes, em decorrência da ascensão de uma novaclasse social, surgem ferrenhas disputas pelo poder entre representantes dopoder religioso, militar e político.O conflito também se verifica no modo de uma cidade se relacionar comuma aldeia e/ou cidade vizinha, onde a dominação de territórios ainda maioresé freqüentemente disputada pela guerra.2. Rumo à metrópole modernaDesde osurgimentodas aldeias edas cidades primitivas, até as metrópolesatuais, a humanidade percorreu uma longa história. 7 Alguns passos merecemconsideração pelo fato de sinalizarem os rumos às metrópoles modernas:a) O rompimento do fechado sistema feudal pelos mercadoresdesempenhou um papel importante no estabelecimento da cidade moderna.Nessa fase, a cidade surge como um meio de libertação do domínio dossenhores feudais. 8 O dinheiro oriundo do comércio foi concentrado em forma6. Lewis Munford, op. cil. p. 93.7. Vide bibliografia, especialmente as obras de Munford e Goulanges.8. Data do século XII o provérbio alemão que afirma: Stadtluft macht frei. Isso quer dizer, o ar da cidade torna a pessoalivre. De fato, a experiência da cidade burguesa foi possivelmente o único momento positivo conferido à urbanização.Cf. Leo Huberman, História da Riqueza do Homem, p. 35-40.
  • I 16 A CIDADE NA MISSÃO DE DEUSde capital e permitiu o surgimento de uma classe média urbana independentee que, aos poucos, teve condições de acesso ao governo.b) Com o advento da primeira revolução industrial foi inauguradauma nova fase no processo urbanizatório: o domínio da sociedade passa paraa ascendente classe dos capitalistas industriais. A começar com a Inglaterra,a Europa toda "se transformou numa sociedade urbana dominada porgrandes cidades manufatureiras, nas quais multidões de trabalhadores eramsubmetidas à disciplina desumanizadora da produção fabril". 9O capitalismo industrial ultrapassa as fronteiras das cidades deentão, estabelece novos laços comerciais e intercâmbios que possibilitam acomercialização de seus produtos manufaturados.o processo de urbanização ligado à primeira Revolução Industrial édeterminado pela inclusão do modo de produção capitalista, o qual supõeconcretamente:à decomposição prévia da estrutura social no campo e a afluênciacrescente de população agrícola desocupada às cidades;à passagem de uma economia doméstica para uma economia demanufatura, o que significa ao mesmo tempo a concentração de mão-de-obra e a criação de um mercado. As cidades atraem a indústriajustamente por estas duas caracteristicas (mão-de-obra e mercado) e,por sua vez. a indústria atrai nova mão-de-obra e novos serviços. 10Nessa fase, a indústria passa a organizar e dominar a paisagem urbanacom sua lógica. Isso implica o agravamento das tensões sociais e conflitos,tais como:a competitividade em relação à produção,a divisão técnica do trabalho e sua conseqüente divisão social,gerando o estabelecimento de diferentes classes,a disputa dos espaços urbanos que são invadidos por aqueles quemigram.Como a lógica capitalista visa explorar ao máximo o trabalho operário,as condições sociais da vida urbana não permitem ao trabalhador alcançaruma sobrevivência minimamente digna. Nisso deve-se buscar a causa dadesintegração humana e social expressa nos desvios comportamentais,desagregação da família, violência, degradação moral, criminalidade, ou seja,a pobreza urbana expressa na marginalização. 119. E. K. Hunt e H.J. Sherman, História do Pensamento Econômico, p. 69.10. Manuel Castells, op. cit., p. 96.11. Cf. Eduardo Kalina e Santiago Kovadloff, As Ciladas da Cidade. Essa obra é um estudo histórico-psicológico doimpacto da urbanização capitalista e suas patologias.
  • ANEXO I - O PROCESSO URBANIZATÓRIO BRASILEIRO I 17c) Convém registrar que o perfil atual das metrópoles dos paísesque passaram por sucessivas revoluções industriais reflete certo equilíbrio,uma vez que os trabalhadores organizados conseguiram conquistar o statusde classe média. Há que se lembrar também que os países europeus, hojedesenvolvidos, expulsaram os seus excedentes humanos para as suas colônias,ou destruíram suas sobras humanas através de guerras. 12Além disso, suas colônias forneciam matéria-prima e alimentação emcondições de preços que aumentaram sua capacidade competitiva. Mesmoassim, uma observação mais atenta mostra que as metrópoles apresentam, aindahoje, formas de conflito igualmente sérias entre segmentos de suas populações,tais como: exclusão de minorias étnicas, genofobias, principalmente com osmigrantes pobres, aceitação tácita da escravidão branca (ou seja: mão-de-obraconsiderada clandestina, porém necessária, mesmo que ilegal), prostituição,dependência química, desemprego, pobreza e criminalidade.d) A urbanização na América Latina apresenta características detragédias em dois momentos distintos: na colonização e na neocolonização. Apenetração dos colonizadores espanhóis e portugueses representou a destruiçãode civilizações que já haviam alcançado um alto grau de urbanização. 13 Asculturas e as civilizações nativas foram destruídas pelos invasores que seimpuseram como senhores do continente.e) Posteriormente, as cidades aqui surgidas foram uma adequaçãoaos interesses da metrópole européia. Mais recentemente, o processourbanizatório, levado a efeito pela implantação de um capitalismo dependente,monopolista e associado ao capital internacional, desintegrou a agriculturatradicional, e remeteu para a condição de miserabilidade urbana a maioria dapopulação dos países latino-americanos de origem camponesa. As populaçõesurbanas cresceram artificialmente, não em função de uma industrialização,mas principalmente pela expulsão do homem do campo, devido à inexistênciade uma política agrícola e agrária voltada para o pequeno produtor rural. 14Portanto, a cidade só foi possível devido à geração de um excedentecuja apropriação é fonte dos conflitos e das divisões da sociedade em classes esubclasses sociais. Com a consolidação das revoluções industriais, a produçãofundamental da sociedade passa do campo à cidade, e, no interior desta, às mãosda burguesia capitalista. Com isso, a cidade recebe um status fundamental nasociedade que se cria, e abriga, em seu âmago, toda sorte de conflitos.12. Cf. Edward McNall Bums, História da Civilização Ocidenlal, p. 686.~3. Civilizações nativas como a A.steca no México conheceram cidades com populações superiores a 300.000 habitantesna época das invasões colonizadoras espanholas. Toda a civilização foi destruída pelos colonizadores num dos pioresgenocídios da história humana.14. Cf. Milton Santos, Pobreza Urbana, p. 22
  • 118 A CIDADE NA MISSÃO DE DEUSNa América Latina, soma-se a esses conflitos aqueles decorrentes desua posição marginal na configuração internacional do capitalismo. A análisedo processo urbano no Brasil, por conseguinte, deve levar em conta essesfatores agravantes.3. O processo urbanizatório brasileiroA urbanização no Brasil não acontece a partir da industrialização. Osprimeiros aglomerados urbanos surgiram com a facilidade decorrente do modoescravagista de produção, e a extração de matérias-primas, que permitia queos latifundiários residissem longe do centro de atividade produtiva. Contudo,do ponto de vista cultural, a primeira manifestação de um tipo de vida urbanaaconteceu com a transferência da corte de D. João VI para o Brasil. 15A cidade do Rio de Janeiro sofreu algumas transformações e melhorias,e tornou-se uma cidade cosmopolita pela abertura dos portos às nações amigasde Portugal. Surgiu aqui, pela primeira vez, um estilo de vida inspirado nascidades européias.Nota-se, no entanto, que esses ares urbanos, que afamília real portuguesainspirou, não afetaram toda a população da cidade, mas somente suas elites:os que tinham acesso à cultura e aos modismos importados da Europa. Há umnotável contraste entre as elites de mentalidade urbana e a classe trabalhadora;entre a capital e as cidades periféricas; entre a cidade e o campo.O urbano no Brasil tem em seu berço uma sobreposição cultural decunho elitista e importado, que confere às elites urbanas um ar de superioridadee de completa indiferença com as questões sociais e humanas dos demaishabitantes das cidades.O começo da nossa industrialização acontece na década final doséculo XIX, quando as cidades, em função do mundo exportador, alcançaramum rawável nível de aglomeração e consumo de produtos manufaturadosimportados. Essa aglomeração urbana resultou de um imenso surto deimigrantes oriundos de vários países da Europa e que formaram a base para oressurgimento da industrialização. 16Essa industrialização, por sua vez, incrementou o crescimento urbano.Nas palavras do professor Celso Furtado:15. Darcy Ribeiro, O Povo Brasileiro, p. 17755. Aqui ele apresenta uma síntese pormenorizada e diferenciada dosurgimento do urbano na Brasil.16. Darcy Ribeiro, op. cit, p.178ss.
  • ANEXO I - O PROCESSO URBANIZATÓRIO BRASILEIRO 119(...) o primeiro surto industrial significativo ocorreu na última décadado século passado (entenda-se, século XIX) com aparecimento deindústrias alimentícias e têxteis de substituição de importações com suasatividades complementares à importação e exportação. Estas indústriasse desenvolveram, graças ao tamanho relativamente grande do mercadointerno, à abundância de matérias-primas e a medidas protecionistas. 17Cada uma das cidades que se industrializaram, estavam espalhadas portoda a costa brasileira e tinham um mercado regional quase estanque. 18Apesar dessas iniciativas, o Brasil, na virada para o século vinte, era umpaís eminentemente agrário, e politicamente dominado por oligarquias agrárias.Esse domínio político entra em crise na década de 1920. Para tanto,colaboraram a crise do café e o surgimento de revoltas sociais e militaresque culminaram na revolução de 1930. 19 Nesse período, a industrializaçãojá evoluíra para a produção de bens duráveis consumidos na cidade. Com acrise das oligarquias agrárias, o país mergulha numa profunda crise políticacaracterizada por um vazio de mando governamental.Esse vazio e indefinição do poder aumentaram grandemente a tensãosocial e a organização das classes populares. Segundo Francisco Weffort, asmassas populares urbanas constituíram a única fonte de legitimidade para onovo estado brasileiro. 20 Mas elas não alcançaram a hegemonia necessária parase apropriarem do poder, sendo sobrepassadas pelo movimento tenentista de1930. Esse movimento sofreu uma disputa intestinal das oligarquias agrárias,cabendo a vitória para a oligarquia agrária sulista, liderada por Getúlio Vargas,com o golpe de Estado Novo em 1937.A política de Estado Novo (1937-1945) conseguiu manipularpaternalisticamente as organizações populares. Estas obtiveram alguns avançosem sua estruturação sindical e na conquista de uma legislação trabalhista, massomente para o operariado urbano.O caráter populista do governo do Estado Novo leva-o a incrementar aindustrialização. Nessa fase, a oligarquia agrária passou a concentrar maioresinvestimentos na industrialização: "(...) o gradual deslocamento da economiabrasileira de um eixo agrário para um eixo industrial não ocorreu em oposiçãoaos interesses rurais, sendo ao contrário freqüentemente associado a eles".21Enquanto isso, o campo segue cada vez mais desassistido pelogoverno, e os pequenos agricultores, bem como os trabalhadores do campo,17. Ruben George Oliven, Urbanização e Mudança Social no Brasil, p. 62.1B. Cf. Id. ibid, p. 62.19 Cf. Id. ibid., p. 65.20. Cf. ap. ido ibid, p. 65.21. Cf. Id. Ibid., p. 66.
  • 120 A CIDADE NA MISSÃO DE DEUSmarginalizados pela legislação, em termos de política agrária e proteção. Issoos coloca em condições desiguais frente aos trabalhadores urbanos, acarretandouma galopante e desenfreada migração do campo para as cidades. Assim, coma política do Estado Novo: "(...) consolidou-se uma vitória importante, aindaque parcial, da cidade sobre o campo. Pouco a pouco, as classes sociais dementalidade e interesses caracteristicamente urbanos impuseram-se por sobre amentalidade e os interesses enraizados na economia primária exportadora ".22Nos anos posteriores a 1946, o país vive uma instabilidade institucionalcom a crise do populismo. Essa crise serve para que o Estado aumente asua capacidade de atuação em questões econômicas, políticas, culturais eeducacionais.Por outro lado, a luta dos segmentos populares pela democratização dasociedade também alcançava algumas vantagens. Sua força de mobilização lhepermitia uma barganha com o governo devido à sensibilidade do populismo."Assim, o populismo tendia a articular um sistema de poder composto daseguinte forma: um aparelho estatal, um segmento do sistema partidário e oconjunto do sindicalismo". 23No governo de Juscelino Kubitschek (1956-60), a industrializaçãoexperimentou um amplo favorecimento com a substituição de importaçõespela produção local de bens de consumos duráveis, bens de capital e bensintermediários. 24Octávio Ianni afirma que, nesse período, "a cidade conquistou umasegunda vitória sobre o campo, no sentido de que o poder político passou, emmaior escala, às mãos da burguesia industrial". 25 Essa burguesia é compostapelo poder econômico nacional (burguesia industrial nacional) e pela grandeburguesia internacional que aqui se instala, com incríveis vantagens, incentivosfiscais, liberação de impostos e infra-estrutura patrocinados pelo governo.Cresce também a organização dos trabalhadores e dos movimentos sociaisurbanos e rurais.0 período de 1961-64 é o período de crise do bloco de poder dopopulismo. 26 "É uma época em que aguça-se a contradição entre o poderpolítico, cada vez mais influenciado e orientado porforças de base popular,e o poder econômico, cada vez mais determinado pelos interesses da grandeburguesia monopolista estrangeira e nacional". 2722. Cf Id. Ibid, p. 66.23. Octávio lanni, Ciclo de Revoluções Burguesas, p. 105.24. Ruben George Oliven, op. cit, p. 66.25. Cf ap. ido ibid., p. 66.26. Octávio lanni, op. cit., p.1ü6.27. Cf Id. ibid., p.1D7.
  • ANEXO I - O PROCESSO URBANIZATÓRIO BRASILEIRO 121Nesse período, intensificou-se a politização das classes assalariadase o campesinato. Houve uma larga metamorfose das massas em classe."O proletariado urbano, proletariado rural, campesinato, empregados,funcionários, estudantes e outras categorias sociais aumentaram bastante aparticipação no processo político, na luta pela democracia. Tanto assim que aproposta socialista tomou-se uma opção". 28Enquanto a intelectualidade debatia a dependência econômica do Brasile a organização política em termos de uma opção democrática, o imperialismoavançava em suas alianças e se instalava politicamente. O golpe militar de1964 foi resultado de uma ampla frente que contabilizava aliados "entreempresários, técnicos, intelectuais, militares, policiais e membros da Igreja.A pretexto de defender a democracia ocidental e cristã, a empresa privada, alivre empresa, a Pátria, a Tradição e a Propriedade, conseguiu induzir o blocode poderpolarizado em tomo do projeto de capitalismo interdependente, comoopção a ser imposta ao conjunto da sociedade". 29Sob o lema "segurança e desenvolvimento", os governos militares (aserviço do capitalismo transnacional) atribuíram a toda organização popularou civil, contrária a seus interesses, a influência de forças do comunismointernacional, sendo taxada de subversiva e os seus integrantes reprimidos.A repressão era exercida com base numa legislação de exceção inspiradana Ideologia de Segurança Nacional 30 e acabou com toda organização declasse popular e operária. O desenvolvimento a que se referia o lema tratade consagrar aqui o domínio dos interesses do capitalismo monopolista dagrande burguesia internacional, aliada à burguesia nacional composta deindustriais, empresários e grandes produtores rurais, além de latifundiários eprincipalmente as Forças Armadas.Os governos militares consagraram a vitória definitiva da cidade sobreocampo. Isso se deu com a desintegração da agricultura familiar, a implantaçãoda mecanização do campo destinado à monocultura para exportação e umanova fase de industrialização.A implicação imediata dessa política foi a expulsão massiva dostrabalhadores rurais - as famílias do campo - pela desintegração da agriculturafamiliar. Dessa maneira, a cidade experimenta um rápido, irrefreável e violentoinchamento urbano. A população urbana passa dos 36,16% em 1950, para67,6% em 1980 31•28. Cf. Id. Ibld, p. 107.29. Octávio lanni, op. cil., p. 108.30. Cf. José Comblin, A Ideologia da Segurança Nacional, p.194.31. Jorge Wilheim, As Cidades da Nova República, p. 31.
  • 122 A CIDADE NA MISSÃO DE DEUSA crise do regime militar, em fins da década de 1970, a aberturademocrática e o estabelecimento da Nova República mostram uma face palatáveldo liberalismo capitalista, que tolera a movimentação popular. Aos poucos, asociedade civil adquire maior consciência política e retoma sua organização debase que é incrementada pelo processo constituinte que desemboca na NovaConstituição de 1988. Na essência, o poder não muda em nada, o bloco dagrande burguesia internacional associado ao grande capital nacional continua nocomando político numa espécie de ditadura econômica civil.A massa trabalhadora urbana e rural percebe que o seu salário tem cadavez menor poder aquisitivo, além do que, está inflado de impostos indiretos.A educação, a saúde, a previdência social, a segurança, a política habitacionalvivem à margem dos interesses do sistema. As cidades experimentam ametropolização com um crescente processo de favelização, favorecendo acriminalidade. Aos poucos, a guerra civil daí resultante ganha as principaismanchetes dos jornais contabilizando, entre outras tragédias, centenas dehomicídios a cada semana, sem contar o caos instalado no sistema carcerário.A nação brasileira e o Estado vivem uma separação cada vez maior. Osegmento da classe média, fiéis escudeiros do regime, amarguram atualmentea "criminalidade tributária" 32 que os colocou num difícil dilema: escolherentre migrar para a favela ou para a contravenção.Em resumo, pode ser dito que o processo urbanizatório brasileiro reflete,passo a passo, as conseqüências da instalação do capitalismo associado queprivilegia cada vez mais o capital especulativo em detrimento das iniciativas degeração de emprego e renda. O resultado não poderia ser outro que o crescentefosso entre miséria absoluta, desemprego crescente e convulsão social, alémdo caos ecológico (desmatamento, poluição do ar, da água e envenenamentodo solo pelos agrotóxicos). Soma-se a isso a endêmica corrupção instaladanos três poderes da República, que além de extorquir a classe produtiva comimpostos, consagram cada vez mais os seus próprios privilégios e vantagens,além de assegurarem o livre curso ao roubo legal das instituições financeiras,em sua maioria de capital transnacional.4. O crescimento das cidadesAcima já fizemos uma breve referência ao processo de metropolizaçãocom seu reverso na favelização de suas periferias. Quais as suas causasprincipais?32. Oportuno artigo do advogado e professor da UNB Dr Osiris de Azevedo Lopes Filho - Gazela do Povo - Curiliba/PR28/4/2006, p. 14 Caderno Opinião.
  • ANEXO I - O PROCESSO URBANIZATÓRIO BRASILEIRO 123o rápido crescimento das cidades deve-se fundamentalmente a doisfatores:O primeiro trata do papel do Estado, que se caracterizou por uma posturade autoritarismo. Isso significa, em termos de economia, que o grupo que estáno poder se apropriou da máquina administrativa em proveito próprio. Essa é,por certo, uma das razões explicativas do descaso governamental diante dosbens de consumo coletivo: saúde pública, educação, saneamento, transporte,habitação e segurança.No processo de industrialização, em sua fase mais marcante nas últimasdécadas, é sintomático que o Estado tenha descuidado dos investimentos narede de equipamentos de consumo coletivo para privilegiar tão somente osinvestimentos diretamente ligados à acumulação. 33O comportamento do Estado na participação do processo de urbanizaçãobrasileira pode ser caracterizado de duas maneiras:1. Na montagem de um complexo dispositivo institucional,que inclui a criação de um controle financeiro centralizado através deincentivos cambiais, fiscais e creditícios. Dessa forma, "o Estado bancou aindustrialização e a modernização do país". 34Politicamente o Estado está atrelado ao controle que lhe é imposto pelaaliança de forças transnacionais que deram o golpe de 1964 e que perdura aténossos dias:o capital monopolista, que detém poder suficiente para influenciardecisivamente a ação estatal através de vários mecanismos, tentainstrumentalizá-lo no sentido de fazer com que suas intervenções beneficiemdiretamente a acumulação de capital, quer através de ajudas diretas àprodução, quer pelo viés dos subsidias ao custo de reprodução da força detrabalho, quer facilitando a realização do valor. 35Dessa maneira, o Estado favorece, com sua política, o acúmulo do capitalnecessário para a modernização do parque industrial. O próprio Estado se tomaum agente de acumulação através de seus mecanismos institucionais (comoimpostos, fundos, tributos) bem como de controle dos sistemas de habitação,política de transporte coletivo urbano, cultura, meios de comunicação e sistemaprevidenciário. 362. Outra face da presença do Estado no processo urbanizatórioaconteceu pelo caráter repressor e minimizador da conftitividade social,33. Cf. Benicio Viera Schmidt, O Estado e a Poiítica Urbana no Brasil, p. 122-156.34. Fany Davidovich, Urbanização Brasileira: Tendências, Problemas e Desafios, p. 13.35. Estudos Fundap n 1, p. 10.36. Benicio Viera Schmidt, op. cit., p.84 e 93.
  • 124 A CIDADE NA MISSÃO DE DEUSmais acentuadamente nos anos do regime militar. Inspirado na Ideologiade Segurança Nacional, fora montado o Serviço Nacional de Informação,com ramificações nos estados e municípios para controlar e reprimir asorganizações contestatórias da sociedade civil. "Como era preciso conter aspressôes políticas e a participaçüo de setores urbanos, adotou-se uma políticade desmobilizaçüo, levando a repressüo aos movimentos sociais e o controlepolítico através da manipulaçüo dos mecanismos eleitorais". 37De posse de instrumentos de exceção que permitiam ao Estado arepressão das inquietudes da sociedade e contando com uma máquinapublicitária para promover uma doutrinação com ênfase no nacionalismoufanista, a burocracia governamental se lançou a projetos megalomaníacos,tais como a construção da hidroelétrica de Itaipu e Tucuruí, a ponte Rio -Niterói, Usinas Angra I e 11, rodovia Transamazânica, entre outros. Essesprojetos acabaram drenando as economias populares, desviando os recursosdestinados a melhorias sociais gerando uma corrupção endêmica. Enquantoisso, a dívida externa crescia a somas impagáveis, e seus juros drenavam todosuperávit da balança comercial.Esses desmandos administrativos da burocracia governamentalgeraram, por outro lado, um caos social. Em torno das cidades, multiplicam-seos "cinturões da miséria", caracterizados pela aglomeração de uma populaçãocondenada a condições de subvida. As vilas e as favelas se multiplicam emcontraste com os bairros das classes dominantes (condomínios, alphavilles,etc.) cada vez mais distantes e retirados, com privilegiada urbanização.Constata-se, assim, que o Estado, serviçal ao capitalismo internacionalassociado, configura-se com sua políticacomo inimigo das classes trabalhadorase pobres do povo brasileiro. A essência desse Estado não mudou com o adventoda Nova República, razão pela qual surgiu uma rearticulação dos movimentossociais de bases populares e a conseqüente reação aos detentores de capital. Ocaos social continua se agravando pelo baixo poder aquisitivo dos salários, aalta carga tributária e o desemprego generalizado.O segundo fator determinante para o rápido crescimento das cidadesdeve-se à desestruturação da agricultura tradicional familiar. As altas taxasde crescimento da população urbana brasileira se devem mais ao processomigratório do que ao crescimento vegetativo da população urbana. Tem razãoo professor Benício V. Schmidt ao falar de uma "causa fundamental" comoa responsável pela rápida aglomeração urbana: "O processo de urhanizaçüobrasileiro tem como causa fundamental a desestruturaçüo da agricultura37 Benícia Viera Schmidt, ap. cil. p.92.
  • ANEXO I - O PROCESSO URBANIZATÓRIO BRASILEIRO 125tradicional, o que provoca um permanente êxodo populacional para a cidade(...). Assim, o processo de urbanização brasileiro é dos mais rápidos domundo". 38A agricultura tradicional era baseada na produção de alimentos quevisavam ao atendimento das necessidades do mercado interno e à exportaçãodo excedente. Sua desintegração com a conseqüente expulsão do trabalhadordo campo aconteceu pelos seguintes fatores:a penetração das relações capitalistas do campo, que acarretoua proletarização dos camponeses e agricultores mais pobres,levando-os a migrar em busca de trabalho;a introdução da monocultura imposta pela mecanização docampo, visando à exportação;com a monocultura veio a mecanização da lavoura, ofinanciamento bancário, os agrotóxicos e a supervalorização daterra mecanizada, que obrigava o colono a vendê-Ia;com a eletrificação rural, o colono tem acesso à televisão quelhe trouxe o impacto do consumismo urbano, cujas falácias eleé incapaz de discernir, deixando-se dominar pela ilusão de ummodo de vida mais fácil na cidade;as mentirosas propostas do sistema financeiro lhe prometiam umavida fácil e farta na cidade, baseada nos rendimentos bancários;e, principalmente, a falta de uma legislação de amparo social e aconsciente falta de uma política agrícola e agrária voltada para opequeno produtor rural. 39Enquanto a agricultura tradicional era desintegrada, florescia ocapitalismo de campo voltado para as exportações. A empresa agrícola demédio e grande porte gozava de juros subsidiados nos financiamentos, tantode insumos como de máquinas, além da compra garantida de sua produção, e,até certo ponto, contava com a garantia de um preço mínimo. ("Plante que oGoverno garante" era um dos slogans da época).Os governos militares criaram uma política de incentivos fiscais quepermitia às grandes empresas investirem um percentual de seus lucros emprojetos agropecuários, reflorestamento, turismo... Aos poucos, as grandesempresas se apropriaram de enormes glebas de terra, além do que, paramontarem sua infra-estrutura empresarial agrícola, contavam com privilegiadosdescontos no seu imposto sobre a renda.38. Benicio Viera Schmidt, op. cit, p. 95.39. Cf. Ruben George üliven, op. cit, p. 67.
  • I 26 A CIDADE NA MISSÃO DE DEUSo contraste entre o capitalista rural e o pequeno produtor que se dedicaa produzir alimentos, não é superado nem mesmo pelo sistema de cooperativasde produtores, uma vez que a cooperativa estava atrelada à indústria ou aointermediário. Enquanto o produtor recebe baixos preços pelos seus produtos,os intermediários ficam com a melhor fatia. Dessa forma, o pequenoproprietário e o trabalhador do campo não têm condições de competir coma valorização do trabalho na cidade. Ainda que as condições de vida para omigrante urbano não sejam boas na cidade, suas condições no campo são aindapiores, porque se sente abandonado e sem assistência. Ou seja, entre as favelasrurais e as urbanas, os pobres jogaram sua esperança nas favelas urbanas. Dessemodo, incrementa-se a migração campo-cidade, que engrossa as metrópoles,conferindo-lhes um quadro de crescimento desordenado e violento.5. Algumas características da metrópole brasileiraA cidade é o cenário espacial onde se concentram e interagem grandescontingentes populacionais seguindo diferentes interesses. Ela é, antes detudo, a expressão local do sistema social que a criou; no nosso caso, ela é frutodo sistema capitalista.Vera Resende sublinha essa questão quando afirma:No modo de produção capitalista, a cidade surge como local de reproduçãodos meios de produção, local de reprodução da força de trabalho e,também, fator de acumulação de capital. Para tanto, deve cumprir astarefas necessárias. Para a reprodução dos meios de produção, tornam-se necessários os espaços destinados às atividades industriais e seusdesdobramentos. Como local de reprodução da força de trabalho, a cidadeé a sede da habitação, do ato de morar e viver. Como fator de acumulaçãodo capital, o solo urbano gera renda fundiária, fundamento da indústria deconstrução civil. 40O surgimento e a organização de uma cidade ou de um complexometropolitano não acontece aleatoriamente, nem fora da lógica da sociedadeglobal. Pelo contrário, a desordem aparente da cidade "se dá dentro de umaordem coerente com o modo de produção dominante". 41Aconflitividade social presente nas metrópoles brasileiras, exemplificadanas lutas de classes e na segregação de segmentos da população, deve serentendida como parte da lógica capitalista que, ao lado e em decorrência doconfronto entre trabalho e capital, é responsável pelo rápido, irrefreável e40. Vera Resende, Planejamento Urbano e Ideologia, p. 19.41. Vera Resende, op. cil., p.2ü.
  • ANEXO I - O PROCESSO URBANIZATÓRIO BRASILEIRO 127violento crescimento urbano. As grandes cidades brasileiras se caracterizamprincipalmente pela permanente luta das populações excluídas dos benefíciosda urbanização pela sua inserção e participação. Dessa luta depende a suaprópria sobrevivência.Para exemplificar esse rápido, desordenado e violento processo demigração do campo para a cidade, toma-se por base as duas capitais dosEstados com a melhor qualidade de vida: Porto Alegre e Curitiba.~------CidadePorto alegre1950368.01419801.157.7092000 42- - - - - - - - - - -1.360.5901.587.315.024.975180.575Curitiba_ _ _~ ~__ ,,_ ~ ~ ~ ~ ~ _ _ _ _ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ L . . . . ~ ~ ~ ~ ~ ~Esse quadro de deslocamento populacional foi maior, principalmente,nas décadas de 1970-80. Mas o fenômeno continua até os dias atuais. Agora écaracterizado como migração de pequenas e médias cidades para as metrópolesou pólos de desenvolvimento. A migração hoje é a peregrinação desesperadapara superar o desemprego. Ela é flutuante.Essa aglomeração desproporcional gerou as vilas, as favelas asperiferias, que são aglomerados populacionais em terras ocupadas semsatisfatórias condições de transporte coletivo, saúde, educação, habitação,energia, saneamento, segurança e educação. Acrescente-se a isso, ainda o fatode que o governo da União, pelo centralismo tributário, apropria-se das poucasarrecadações procedentes das cidades, fazendo com que as administraçõesmunicipais não tenham receita própria suficiente para, caso queiram, atenderaos reclamos das populações citadinas. 43 Os prefeitos se comparam a mendigosda corte encastelada em Brasília.O Brasil experimentou uma incomensurável transferência populacionaldo campo para a cidade. Os demonstrativos abaixo mostram isso.Ano População Rural População Urbana----"..1950 64% 36%1980 32% 68%2000 18,8% 81,2%4442. Cf. pagina eletrônica dos censos correspondentes do IBGE.43. O centralismo tributário tem rebaixado as cidades a condição de pedintes do governo da União.Vejamos os seguintes dados: "de cada R$ 100 arrecadados na cidade de São Paulo, R$ 63.7 vão para o governofederal; R$ 30 para o governo estadual e apenas R$ 6,3 permanecem no município" Jorge Wilheim, As cidades daNova República. p. 39.44. http:biblioteca.uol.com.br/atlas/tabelas/distrUenda.htrn (26/5/2006).
  • 128 A CIDADE NA MISSÃO DE DEUS6. O caos metropolitanoQuais são os resultados visíveis desse enorme deslocamento?Do ponto de vista social, acontece uma revolução caótica na vida doscampesinos agora confinados nos tristes campos de concentração humanos.Rapidamente aconteceu a desintegração familiar pela violenta desagregaçãode costumes para o que os camponeses não estavam preparados e contra oqual eles não têm defesas. As crianças passam a viver na rua, único local desua "socialização", pois nas habitações (casebres, barracos, cortiços) não háespaços para elas. As meninas são presas fáceis da prostituição já na pré-adolescência. Os meninos aprendem todo tipo de malandragem na rua e nãopoucos seguem o caminho da criminalidade.Soma-se a isso a tragédia do desemprego que obriga os moradores àsobrevivência através de bicos e subemprego. Pai, mãe, filhos são violentamenteseparados e passam o maior tempo distantes e submetidos às condições hostise desumanas de trabalho, às vezes, encontram na prostituição o único caminhopara obter o sustento.As políticas sociais das cidades mostram-se incompetentes parasolucionar esse gritante problema social.Por outro lado, as benesses da urbanização beneficiam majoritariamenteas elites e a classe média. Esse estrato social tem acesso a uma boa educaçãopara seus filhos, em grande parte através de escolas particulares, obtendo assimmaiores vantagens na ocupação do mercado formal de trabalho.As elites se constituem, no Brasil, como ilhas isoladas da conflitividadesocial urbana. Suas habitações contam com segurança particular, carros sempremais luxuosos e até blindados.A lógica capitalista imposta à sociedade brasileira levou a uma terríveldivisão social nas cidades. Por um lado, as elites (compostas por empresários,executivos de grandes empresas, banqueiros eexecutivos do mercado financeiro,políticos, funcionários das altas patentes do Executivo, Legislativo e Judiciário,funcionários de altas patentes da Segurança Pública, especuladores e corruptosem geral) sustentam status de fazer inveja aos ricos do primeiro mundo. Poroutro lado, um enorme contingente de seres humanos é condenado a viver emcondições aviltantes e desumanas, para quem o despejo dos caminhões de lixose constitui em momento de festa.Na verdade, como demonstram os dados abaixo, há uma crescentemigração das riquezas dos já empobrecidos para as camadas mais ricas dapopulação brasileira.
  • ANEXO I - O PROCESSO URBANlZATORIO BRASILEIRO 129Distribuição de renda no Brasil (população economicamente ativa) 45[60%,m;, POb%; - _+~_... _.. _~:71:4;804 I·I:OS3.0.% inter.~~dia.. rios. i.. 1 .JOS 10% mais ricos i 39,6 47,6I ITotal - ..~ 100 I 100~~~~ ~------~ ~~----o processo urbanizatório capitalista convive conftitivamente com essescontrastes. A manutenção de alto contingente na periferia urbana se constituino elemento necessário para a barganha da mão-de-obra. Esse aviltamentohumano é a face perversa do capitalismo liberal, o resultado de uma economiasem coração que privilegia exclusivamente o acúmulo do capital em detrimentodo humano e do social.O caos, embora se explique por esses contrastes, afeta de algum modotodos os habitantes das metrópoles. A síndrome de insegurança e a realprecariedade da segurança pública se apresentam como um drama generalizadoe sem solução a curto prazo. O confinamento cada vez maior da populaçãoem apartamentos, sempre menores e mais caros, é o ambiente altamentefavorável ao surgimento da depressão. A grande maioria dos programas datelevisão aborda temas e realidades intimistas vividos pelas elites altamenteprivilegiadas, isso leva o tele-espectador cada vez mais à alienação social e àfrustração do que ao lazer ou à consciência crítica.O número reduzido e a precariedade dos parques e centros de lazer,na maioria das cidades, deixa a população sem alternativas saudáveis em seutempo de ócio.Soma-se a isso a crescente poluição dos rios que cortam as áreas urbanas,além da má qualidade do ar. Embora o país tenha alternativas energéticas paratrocar o combustível fóssil dos coletivos urbanos por álcool ou gás, a mudançaefetiva segue a passos de tartaruga. Enquanto isso, as metrópoles encontram-sesufocadas pela má qualidade atmosférica.7. ConclusãoO processo urbanizatório brasileiro não é fruto do desenvolvimento da45. hltp:bilbioteca.uoLcom.br/atlas/graficos/pop_ruralurb.htm (25/05/2006).
  • 130 A CIDADE NA MISsAo DE DEUSnação. Ele é o fruto da violência política. Nem mesmo o recente processo dedemocratização conseguiu transpor essa lógica, antes a confirma. O Governoé refém do grande capital corruptor. Aqui se repete a mesma lógica dosconstrutores de cidades fortalecidas dos tempos da Bíblia, cujo intento nãoera promover o bem ou a paz social, mas auferir privilégios em proveito dospoucos que dominam os instrumentos do poder.Os patriotas éticos e corajosos são, ao que tudo indica, minoria nostrês poderes da República e na população de eleitores. Razão pela qual alegislação corre a favor dos detentores do poder: político, econômico, jurídico.Urge a desconstrução dessa lógica que determina os grandes traços da políticanacional. É imperioso o atendimento de questões elementares, tais como:educação, saúde, segurança, habitação, enfim, a possibilidade da construçãodigna do trabalhador através do seu trabalho.Cabe à igreja e a todas as iniciativas sociais a tarefa de contribuir para aconstrução de uma lógica baseada na defesa da dignidade da pessoa humana.Urge a criação de cidadãos que pautem sua conduta por valores e princípioséticos. Que não se vendam a fim de auferir vantagens pessoais.O caos urbano coloca a sociedade brasileira diante de um desafionacional: superar o modelo de urbanização que mergulhou as cidades numaguerra civil. Por outro lado, também a natureza clama por cuidado, pois oavanço desenfreado da destruição das florestas nativas compromete as futurasgerações.Urge um mutirão de cidadania que ultrapasse os partidos políticos, pois,hoje vivemos a crise da representatividade. Quem nos representará? Serão ospartidos? Os sindicatos? As igrejas? ..Contudo, nem tudo está perdido. Com o forte empenho da sociedadecivil, alcançamos a democracia (por enquanto eleitoreira). Ela representa uminício, que desafia outros passos, tâis como a democratização da economia, damídia, enfim, a socialização dos resultados do trabalho...É hora de acordar para a responsabilidade de cada cidadão. A nação éfeita de sujeitos, não de objetos; de agentes ativos e pró-ativos e não dos quese lamentam como vítimas ou se contentam com a caridade. As organizaçõeséticas da sociedade civil representam um indicativo para um caminho promissorque visa superar a velha lógica da opressão.Lembro as palavras do líder negro, pastor Martin Luther King: "O queme assusta não é barulho dos violentos... e sim, o silêncio dos justos".
  • 131ANEXO IISUGESTÕES E ENCAMINHAMENTOSTendo auscultado a orientação da Palavra de Deus e da exegese urbana,proponho, a seguir, mais alguns indicativos práticos para a elaboração de umprojeto missionário urbano.1. Subsídios para organizar um projeto ministerialO mercado editorial cristão apresenta excelentes livros para elaborarum projeto ministerial. Essa fartura de publicações nem sempre nos ajuda aorganizar sistematicamente um programa de formação com início, meio e fim.Daí a razão de propor um roteiro que pretende colaborar com quem não tem ahabilidade natural do pensamento operacional.Selecione entre os diversos materiais (livros, revistas, CDs, DVDs) eorganize-os de acordo com o programa que deseja desenvolver na comunidadedurante um período predefinido de médio ou longo prazo. Organize os materiaisa partir dos temas que deseja desenvolver. Exemplo:Evangelização - Quais os livros ou programas que, a seu ver, melhorsubsidiam as pessoas ou grupos paraa tarefa de evangelização? Selecioneum ou mais títulos como base para o estudo do assunto, visando odomínio do conteúdo indispensável para apresentar o evangelho a fimde ajudar as pessoas ou grupos a alcançar um relacionamento pessoalcom a pessoa de Jesus Cristo.Estudo Bíblico - Que livros ou programas melhor podem ajudar onovo crente na compreensão e consolidação de sua vida na Palavra deDeus? Não lhe bastará o conhecimento. É necessário olhar tambéma metodologia. Iniciando com uma compreensão panorâmica de todaa Bíblia para então se aprofundar em algum livro específico. Há umavariedade de maneiras de estudar as Escrituras. O estudo bíblico, tantoindividual como em grupo, sempre deve estimular a missão através
  • 132 A CIDADE NA MISSÃO DE DEUSdo testemunho pessoal. É o testemunho do evangelho que trará novasindagações e motivações para o aprofundamento na Palavra.Edificação pessoal, descobrimento e desenvolvimento dos donsespirituais - Cada cristão recebeu um ou mais dons do Espírito Santono ato de sua conversão. Agora convém que ele descubra e desenvolvaseus dons e habilidades na edificação pessoal e comunitária.Discipulado - O discipulado ou mentoria espiritual pode acontecernuma relação de pessoa a pessoa ou em pequenos grupos de pastoreiomútuo. O grande pecado da maioria dos obreiros é que se perdem noativismo e negligenciam o discipulado. Jesus investiu especial atençãoaos discípulos sem descuidar das multidões em suas necessidades.Ministérios urbanos - O investimento na vida das pessoas tem comofinalidade o seu engajamento em ministérios específicos, sejam elesna diaconia, ensino, celebração, louvor, aconselhamento, amparo aosenlutados, liderança comunitária dentro e fora da comunidade eclesial...Toda formação deve estar voltada para a visão do sacerdócio de cadacristão a serviço do Reino de Deus a partir da igreja.o serviço à cidade - O horizonte missionário não pode se limitar àcomunidade eclesial. Todos somos cidadãos do Reino, mas, ao mesmotempo, cidadãos da comunidade maior que é a nossa cidade, o estadoe o país. A paz social tem tudo a ver com a paz espiritual (Ir 29.7) Aoração e o empenho na construção de uma cidade promotora de bem-estar, paz, justiça e liberdade é tarefa decorrente do evangelho.o cuidado com a boa criação de Deus - A história humana descritana Bíblia caminha do jardim para a cidade. A primeira tarefa específicado ser humano é ajudar o Criador a administrar e cuidar da boa criação.Durante séculos, o verbo dominar a terra foi interpretado como explorara terra, quando, na verdade, significa cuidar e administrar de tal modoque preserve a sua produtividade ao longo dos séculos.2. Subsídios para melhor aproximação da realidade urbanaA cidade é uma grandeza multifacetada. O estabelecimento deministérios urbanos deve focar uma realidade específica. Assim sendo, pode-se afirmar que a porta de entrada na cidade ocorre por:
  • ANEXO 11 - SUGESTOES E ENCAMINHAMENTOS 133Aproximação geográfica - O mapa da cidade é uma porta para estudá-la. Nele encontramos a divisão da cidade em bairros, vilas, parques,praças... Algumas prefeituras têm setores especializados que reúnemos mais variados dados da cidade, além de sua história. (Em Curitiba,por exemplo, existe o Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano -IPPUC). De posse desses dados, podemos identificar a ausência ou apresença da igreja e as carências da população.Aproximação por necessidades específicas, por faixa etária -Trabalho com crianças: (crianças de rua; creches, escolinha de futebol,casas de passagem; orfanatos; escolas; reforço escolar, etc); jovens(centros de recuperação de drogados; cursos profissionalizantes,atividades esportivas; escotismo, etc.); universitários; mulheres (mãessolteiras; clube de mães, prostitutas, empregadas domésticas; pessoassingulares ou sozinhas, viúvas, etc); velhos (recreação, ginástica,programas culturais, trabalhos manuais, intercâmbios, ancionatos,locais de encontros, visitação a doentes, turismo...)Aproximação por necessidades sociais específicas - Alfabetização,projetos diaconais (de serviço), saúde e alimentação, ecologia, hortascomunitárias, farmácias caseiras comunitárias (ervas medicinais),organizações não-governamentais (ONOs), fundações de apoio eassistência social, movimentos específicos...Aproximação pelos espaços da legislação - O Estatuto da Criança edo Adolescente (ECA) prevê a participação comunitária em conselhosmunicipais e estaduais.O Plano Diretor da cidade estabelece prioridades do governo municipale prevê participação efetiva da comunidade civil organizada em diversosconselhos e comissões.A presença da igreja, a partir desse enfoque, tem a finalidade de inserir-se conscientemente na construção e na vigilância por condições dignasparaapopulação urbana. Somos cidadãos do Reino de Deus, mas tambémsomos cidadãos brasileiros responsáveis pela luta por dignidade, saúde,habitação, educação, trabalho, segurança e liberdade...
  • 134 ACIDADE NA MISSÃO DE DEUS3. Subsídios para uma visão da missão integralNa visão bíblica, a missão de Deus tem uma abrangência Cósmica.A morte de Jesus na cruz vai além do perdão dos pecados. Ela envolve areconciliação com toda criação de Deus.Como conseqüência, a missão Deus tem a mesma abrangência. Elaimplica os seguintes aspectos:Evangelização - Jesus morreu para por causa de nosso pecado (l Co15.1 ss). A dimensão da redenção - seu ministério salvífico - nos libertou,resgatou do império das trevas e nos transportou para o Reino de seufilho amado (CI1.13ss). A dimensão da graça daí decorrente é singular.A todos os povos e a cada pessoa deve ser anunciado esse Evangelhodo Reino de Deus.É a santidade de Deus que mostra a miséria espiritual e a necessidade dearrependimento e conversão. Sem a santidade de Deus, a humanidadeda pessoa é impossível. Essa santidade dá os balizamentos éticos para oviver em comunhão e ser sal e luz na sociedade.A graça redentora coloca diante de cada pessoa e da humanidade emgeral, a tragédia do seu pecado: possuímos a capacidade de destruir o"paraíso", o jardim de Deus, a quebra da harmonia relacional, pois opecado inaugurou em nós a sede de poder, da rebeldia e do desamor.a ministério da evangelização está comprometido com a redençãopessoal, a restauração da sanidade, a reconciliação para que a causa doReino de Deus envolva toda boa criação.Reconciliação e a paz - Jesus, o ressurreto Senhor, confiou aos seusseguidores o ministério da reconciliação. (2Co 5.17-20)Essa reconciliação tem como finalidade promover a paz. Efésios 2.11-22 ensina que Ele evangelizou a paz, aos de perto e aos de longe. Essapaz é a superação das barreiras culturais entre os povos, trata-se de umapaz social.Jesus chora sobre Jerusalém porque a liderança religiosa e política destaperdeu a oportunidade de acolher a paz (Lc 19.41-44).Paulo recomenda, em outra parte, "no que depender de vocês tenhampaz com todas as pessoas" (Rm 12.18). Uma visão relacional abertae acolhedora deve ser a marca da igreja. A mente renovada promove
  • ANEXO 11 - SUGESTOES E ENCAMINHAMENTOS 135atitudes acolhedoras. Ela supera os pré-julgamentos. Amplia seushorizontes e estimula a criatividade (Fp 4.9-10)."Saudai a todos com votos de paz", recomenda Jesus aos discípulos em(Mt 10). As cartas do Novo Testamento estão repletas de saudações. Essaatitude genuína de aproximação às pessoas estabelece relacionamentos queultrapassam barreiras sociais, étnicas, econômicas, religiosas e culturais.Jesus, após a sua ressurreição, no primeiro encontro com os discípulos,teria todos os motivos para censurá-los. Mas Ele não o fez. Pelo contrário,no primeiro encontro saudou-os com: "PAZ SEJA COM VOCÊS!".A primeira atitude de quem crê no Senhor deveria ser levar a paz. É nocaráter de pacificadores que os filhos do Reino serão reconhecidos (Mt5.9) - "Bem-aventurados os pacificadores, pois serão chamados filhosde Deus". Lembremos ainda a exortação de Paulo: "a ninguém fiqueisdevendo coisa alguma, exceto o amor", ou a palavra de João "quem amaé nascido de Deus".Conclusão: os filhos do Reino têm uma tarefa reconciliadora numasociedade ferida pela divisão, exclusão e descriminação das pessoas.A humanização - A missão de Deus tem uma dimensão humanizadora:O verbo se tomou carne - pessoa humana (Io 1.1). Hoje, devido aoscondicionamentos culturais do passado, devemos distinguir entre"hominização e humanização" (segundo o teólogo Leonardo Boff,a hominização refere-se principalmente ao homem como gêneromasculino, enquanto humanização é um conceito inclusivo de ambosos gêneros). A plena humanidade é a expressão máxima da santidade deDeus para este mundo. Se como cristãos formos gente por inteiro, comoJesus, o Filho de Deus, teremos restabelecida a verdadeira condição defilhos e filhas de Deus. Ou será que o processo de santificação poderáalcançar patamares superiores à humanidade que Jesus viveu?A história humana está cheia de exemplos de pessoas que tentaram sermais que "seres humanos", assim, envergonharam a história através desuas atrocidades. Também na igreja não faltam exemplos de "super-crentes", cuja moralidade exacerbada contribuiu mais para a hipocrisiado que para a restauração da imagem e semelhança de Deus.O Espírito Santo é o poder de Deus para restaurar a dignidade humanaperdida.
  • 136 A CIDADE NA MISSÃO DE DEUSA dimensão do cuidado - A mlssao de Deus tem uma dimensãocuidadora da boa criação e uma dimensão curadora e restauradora dasferidas e dos traumas das pessoas. Urge resgatar uma teologia da criaçãopara entender o propósito do Criador que proveu todo o necessário parao convívio harmonioso entre criaturas e criação.Cada vez mais se fala, na igreja, de cura interior, num esforço deconjugar a psicologia com a Bíblia. As pessoas aprendem a conhecer,respeitar e aceitar diferenças profundas originadas por traumas ou pelagenética humana. E, por essa razão, não cabem simplesmente numpadrão convencional. A dimensão cuidadora aponta para a necessidadede relacionar-se com pessoas diferentes com atitudes, critérios ouabordagens diferentes. A variedade pode significar a riqueza de umacomunidade, desde que se atente para a dimensão cuidadora.Enfim, a dimensão cuidadora tem duas direções: o cuidado com a boacriação de Deus e o cuidado para com as pessoas.A dimensão Cósmica ou Ecumênica - A missão de Deus tem umadimensão cósmica. As afirmações em Ef 1.1Oss; Col 1.13ss apontampara Cristo como "cosmocrator", o Senhor do cosmos. Nele Deus faráconvergir todas as coisas: as religiões, as línguas, as tribos, as nações,as raças, os poderes, as potestades... Ao longo do livro de Apocalipse ésublinhado o mesmo assunto.Muitos virão do Oriente e do Ocidente, tomarão lugares à mesa comAbraão, Isaque e Jacó... (Mt 8.11-12). Será restaurada a centralidade doculto, na visão original da casa de Deus como casa de oração para todosos povos (Isaías 56.7). Nós cremos num só Deus revelado na Trindade.Ele é o Senhor do universo. Só a Ele adoramos!O Deus de Abraão é um Deus missionário. Ele é portador de bênção atodas as famílias, nações, tribos, línguas da terra.No dia do grande julgamento, haverá surpresas. (Mt 25.31-46). À igrejanão cabe tomar o lugar do justo juiz que fará a separação entre "ovelhase cabritos", e sim, cumprir com sua vocação para que a fé existente noseio do povo de Deus seja coerente com o Evangelho do Reino.A igreja precisa da humildade de aprender, não o conteúdo de sua fé, masda prática de outras experiências. Essa consciência de humildade o povonão pode perder. Por outro lado, deve ouvir as advertências para não se
  • ANEXO 11 - SUGESTÕES E ENCAMINHAMENTOS 137deixar enganar pela falsidade de outros deuses e ídolos. O reinado deSalomão importou outras divindades por causa do seu modelo imperialadaptado de povos vizinhos, o que redundou em desavenças e divisão doreinado após sua morte.A confusão das doutrinas e práticas provindas de outras divindades ouídolos, em Israel, era considerada prostituição, a mãe de toda a perversão.Enfim, a missão de Deus aponta para o alvo supremo para o qual fomoscriados: existimos para o louvor de sua glória. Isso está no primeirocapítulo da Bíblia. A culminância da criação não é o ser humano, homeme mulher, criados no sexto dia, mas está no sétimo dia: o descanso e asantificação. A criação tem sua culminância em Deus. A missão temseu ápice na adoração. Isso nos é ensinado exemplarmente no livro doApocalipse.E essa culminância final acontece num espaço urbano perpassado pelavida. É desafio da missão urbana buscar para a realidade presente essavisão de futuro.4. Síntese conclusivaO estudo empreendido no presente trabalho leva à constatação de queexiste uma crítica profética ao longo da Bíblia, focada na cidade como centrode poder, que ameaça tanto a circunvizinhança como os pobres da cidade. Esse"espírito babilônico", como tentação satânica, está sempre diante dos olhosdas autoridades citadinas. Algumas sucumbem à sua tentação e transformamas cidades em fortalezas. Outras autoridades resistem à tentação e buscamrealizar um governo voltado para a justiça e a paz.O "espírito babilônico" não se esgotou com a destruição da RomaImperial ou Jerusalém bíblica. Ao longo de 15 séculos, alojou-se no seio daigreja que, em seu processo de romanização, adotou a estrutura imperial deRoma para dominar sobre os povos do Ocidente.A dura contestação desse modelo hierárquico e dominador, pela Reformado século XVI e a emergência do Estado Burguês, quebrou a hegemonia domodelo da cristandade e de seu comando centralizado. Mais recentemente,o processo de secularização acabou por destronar o poder eclesiástico dosparlamentos e dos governos das nações do Ocidente. A instituição igrejaprocura participar, influenciar, interferir nos rumos da política, mas os políticos,em suas deliberações, não mais lhe dão ouvidos.
  • 138 A CIDADE NA MISsAo DE DEUSExperimenta-se assim um novo deslocamento do poder na sociedade"pós-moderna" de nossos dias. Por suas características marcadas pelo "hiper-individualismo", "hiper-consumismo" e "hiper-hedonismo", I a sociedadeatual deixa-se conduzir pelo que ficou convencionado a ser denominado como"neo-liberalismo", com seu foco na globalização da economia de mercado.Nessa nova situação, a cidade, e mesmo o Estado-Nação, é um elementoimportante no exercício do poder. Mas o centro do poder que determina orumo do mundo atual está no sistema econômico capitalista, monopolista etotalitário. O único poder que domina o mundo de hoje é o CAPITAL, ou,o dinheiro. Os governantes do mundo inteiro sentem-se vulneráveis diantedo poder das potências econômicas transnacionais. O capital circulante esem pátria, sem ideologia, sem ética, sem culpa e sem escrúpulos, conseguedesestabilizar Estados-Nações da noite para o dia. As autoridades políticasentregaram a conduta do mundo às grandes entidades financeiras e industriaisque, de fato, conseguem organizar a sociedade de tal modo que tudo concorrapara a acumulação do capital de modo indefinido. A meta é crescer mais parafazer mais dinheiro e acumular mais e mais, sem jamais socializá-lo com quemproduz essa riqueza.A constatação dessa realidade não isenta os profetas da atualidade deapontar para as responsabilidades públicas dos detentores de poder, no que serefere à paz social, resultado de justiça e retidão administrativa. Na democraciabrasileira, experimenta-se um emaranhado de corrupção que perpassa os trêspoderes da República: Executivo, Judiciário e Legislativo em âmbito federal,estadual e municipal. Ressalvem-se as raras exceções, sem alterar essa regra.Nas palavras de um dos mais lúcidos exemplares da espécie: "Na políticabrasileira, só existe amor-próprio. Os políticos amam muito a si mesmos e,por isso, fazem de tudo para enriquecer" 2.Com a presença onipotente e difusa do poder na sociedade capitalista denossos dias, a comunidade cristã está diante de um novo desafio. Onde buscaráinspiração e referências para confrontar esse diabólico sistema opressor? Queesperanças restam diante de sua emaranhada rede de dominação?Creio que o povo de Deus, não como instituição, mas como comunidadedo Espírito Santo está diante de um novo desafio de aprender o significado doSermão da Montanha: "Vocês são o sal da terra... Vocês são a luz do mundo.Não se pode esconder uma cidade construída sobre um monte" (Mt 5.13-14).Há que considerar que o poder que emerge das potências dominadorasdo mundo tenebroso continua - hoje como outrora - a multiplicar suas vítimas.1. Gilles Lipovetsky em seu livro Tempos Hipermodernos apresenta uma análise da sociedade pós-moderna de nossosdias fundamentada nesta trilogia.2. Palavras do Deputado Federal Fernando Gabeira. Jornal O Sul de Porto Alegre, Edição 28.11.2005, Caderno Colunista, p. 4.
  • ANEXO 11 - SUGESTOES E ENCAMINHAMENTOS 139Seja ele o poder militar, econômico, político, midiático ou religioso. Se oEspírito Santo não abrir a nossa mente à criatividade missionária e não abrir ocoração de poderosos, não haverá transformação de pessoas e nem de estruturassociais.É hora de olhar para quem é realmente o Senhor dos senhores e o Reidos reis. Considere o exemplo de João na ilha de Patmos. Quem era ele? Qualera sua condição? Qual o seu potencial de recursos?João era um exilado político, deportado, numa terra estranha, semdireitos, sem liberdade... Ele, na verdade, só podia lançar mão de um únicoinstrumento de ação: a oração. Foi isso que ele fez: João orou. Entregou asi mesmo, sua condição humana, sua mente, seu espírito, tudo. Jogou-seinteiramente nas mãos do Senhor Jesus. E, nessa oração de entrega total, oressurreto Senhor lhe mostrou quem governa o mundo.Mostrou-lhe também que o poder perseguidor e sanguinário instaladoem Roma tinha seus dias contados. A Besta, entronizada na grande cidade,estava prestes a sucumbir. O mercado que parecia e, de fato, dominava omundo da época, não era onipotente nem eterno.O que de fato importa, é a lição que nos deixaram os mártires dasprimeiras gerações: o Senhor dos céus e da terra é o único a quem pertenceo futuro. Importa buscar o guiar de seu Espírito para entender os sinais dostempos a fim de discernir os rumos da história humana. Não há lugar paraescapismos. Mesmo que gestados à sombra da escatologia cristã. Cumpre, sim,restaurar a esperança capaz de propor alternativas de vida, de paz, de justiça ede alegria numa sociedade intoxicada pelo consumo opulento sustentado pelosangue de um terço da humanidade. Ou a humanidade reencontra o caminhoda comunidade ou continua seu caminho para a hecatombe universal.A questão central está posta: o poder - qualquer que seja - estará aserviço da vida ou da morte? O ser humano tem valor inalienável ou tempreço? Quem tiver valor inalienável como dignidade de filhos e filhas de Deuslutará por transformação. Quem tiver apenas preço, sucumbirá à corrupçãopela desintegração humana e social, ou, pelo consumismo, até ser massificadoe anulado pelo sistema dominante. Vivemos uma crise de civilização. E agestação de uma nova civilização não acontece num passo de mágica. Por certo,custará muito sangue e lágrimas. Contudo, sua urgência é algo imperioso!
  • 141BIBLIOGRAFIA1. ARAÚJO Filho, Caio Fábio de. Jonas - o sucesso do fracasso. NiteróiIRJ: VindeComunicações, 1991.2. Atlas Geográfico do Brasil. In: http:biblioteca.uol.com.br/altlas.3. BARRO, Jorge Henrique. Ações pastorais da Igreja com a cidade. LondrinalPR:Descoberta Editora Ltda., 2000.4. --------. De Cidade... em Cidade. LondrinalPR: Descoberta Editora Ltda., 2002.S. O_MO_O (organizador) O Pastor Urbano. la. Ed. LondrinalPR: Descoberta EditoraLtda., 2003.6. O_MO_O (2004) Uma Igreja Sem Propósitos. LondrinalPR: Descoberta EditoraLtda., 2004.7. Bíblia Sagrada. NVI - Nova Versão Internacional. São Paulo/SP: Editora Vida,2000.8. Bíblia Sagrada. Tradução de João Ferreira de Almeida. São Paulo/SP: SociedadeBíblica do Brasil, 1997.9. BOFF, Leonardo. Ética da Vida. Rio de Janeiro/RJ: Editora Sextante, 2005.10. ----------. Ethos Mundial. 2a. Ed. Rio de JaneiroIRJ: Editora Sextante, 2003.11. BOBSIN, Oneide. Transformações no Universo Religioso, Série: A Palavra deDeus, número 82. São LeopoldolRS: CEBI, 1994.12. . (organizador) Desafios Urbanos à Igreja - estudos de caso. São Leopol-dolRS: Editora Sinodal, 1995.
  • 142 A CIDADE NA MISSÃO DE DEUS13. BOSCH, 1. David. Missão Transformadora. Tradução de Geraldo Korndorfer eLuis. M. Sander. São LeopoldofRS: EST e Editora Sinodal, 2002.14. BOSCHI, Renato Raul organizador, Violência e Cidade. Rio de Janeiro/RJ: ZaharEditores, 1982.15. BURNS, Edward McNall. História da Civilização Ocidental. 33• Ed. Porto Ale-grefRS: Editora Globo, 1975.16. CALVINO, Ítalo. As Cidades Invisíveis. 5". reimpressão. São Paulo/SP: Compan-hia das Letras, 1993.17. CASTELLS, Manuel. A Questão Urbana. Tradução: Arlene Caetano. Rio de Ja-neirolRJ: Editora Paz e Terra, 1983.18. o Problemas de Investigação em Sociologia Urbana. Tradução: ArleneCaetano. 3". Ed. LisboaIPortugal: Editora Presença Ltda., 1984.19. CESAR, Waldo & SHAULL, Richard. Pentecostalismo e Futuro das IgrejasCristãs - promessas e desafios. PetrópolisfRJ: Editora Vozes, e São LeopoldofRS:Editora Sinodal, 1999.20. CHAMPLIN, Ph.d. Russell Norman. O Antigo Testamento Interpretado. 2" Ed.Volume I. São Paulo/SP: Editora Hagnos, 2001.21. COMBLIN, Jose y CALVO, F. Javier. Teologia de la Ciudad. Estella/Espanha:Editorial Verbo Divino, 1971.22. o A Ideologia da Segurança Nacional. O poder Militar na América Lati-na. Rio de Janeiro/RJ: Ed. Civilização Brasileira, 1978.23. o Os desafios da Cidade no Século XXI. São Paulo/SP: Paulus, 2002.24. o Pastoral Urbana - o dinamismo na evangelização. 3". Ed. Petrópolis/RJ: Editora Vozes, 2002.25. COULANGES, Fustel de. A Cidade Antiga. Tradução: Aurélio Barroso Rebello eLaura Alves. Rio de Janeiro/RJ: Ediouro, 2003.26. COX, Harvey. A Cidade do Homem. Tradução: Jovelino Pereira Ramos e MyraRamos. Rio de Janeiro/RJ: Editora Paz e Terra, 1968.27. DAVIDOVICH, Fany, Urbanização Brasileira: Tendências, Problemas e Desafios.In: Espaço e Debates, São Paulo/SP, 1984.
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