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Reportagem Carta Capital
 

Reportagem Carta Capital

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Reportagem da Revista Carta capital sobre os escrachos promovidos pelo Levante Popular da Juventude contra torturadores da ditadura militar.

Reportagem da Revista Carta capital sobre os escrachos promovidos pelo Levante Popular da Juventude contra torturadores da ditadura militar.

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    Reportagem Carta Capital Reportagem Carta Capital Document Transcript

    • Seu País A real comissão da verdade cidadania| Grupo de jovens se mobiliza para expor os torturadores da ditadura POR RODRIGO MARTINS* “ H oje, estamos aqui, na mado do Exército, permaneceu em seu cidade do Guarujá para apartamento no segundo andar enquan- denunciar que neste en- to os jovens penduravam faixas em fren- dereço, no apartamento te ao prédio e batucavam tambores im- 23, mora um torturador, provisados com latas de tinta. “A ditadu- que entre outras coisas ra já acabou! Quero saber que militar que participou da tortura torturou”, cantarolavam. de Frei Tito e da hoje presidenta Dilma Rousseff.” O brado entoado em coro por O asfalto servia de palco para as ence- cerca de 60 manifestantes despertou a nações de sessões de tortura à moda dos atenção dos poucos pedestres que cami- anos de chumbo, de choques elétricos a nhavam pela Rua Tereza Moura, na Praia espancamentos. Assustados, vizinhos das Astúrias, naquela manhã chuvosa de desceram do prédio para ver o que acon- segunda-feira. O alvo do escracho, Mau- tecia. Uma delas esperava o táxi para ir rício Lopes Lima, tenente-coronel refor- ao oftalmologista. Sabia que seu vizinho o lg a v l a h o u havia atuado na repressão e que a pre- sidenta tinha sido torturada. “Mas nun- ca liguei uma coisa à outra.” Um zelador mostrava-se surpreso com o passado do condômino. Já as crianças de uma esco- la vizinha disputavam a atenção dos ci- negrafistas. “Filma eu!” Recluso em seu apartamento, Lima não atendeu aos pe- didos de entrevista de CartaCapital. Aos No front. 76 anos, “quase gagá”, segundo ele mes- O técnico de mo, negou ter participado de torturas informática ou mortes ao jornal O Globo. Júnior e a aluna A manifestação havia sido planejada de artes cênicas Lira mobilizam com semanas de antecedência pelos mili- a juventude tantes do Levante Popular da Juventude. paulista Uma ação orquestrada nacionalmente, que 42 www.cartacapital.com.br•CCSeuROGDRIGO698.indd 42 17.05.12 23:58:40
    • p i e r o lo c at e l l i resultou em protestos semelhantes em 11 mandato foi cassado pelos militares. A última rodada estados diferentes, todos realizados na Belham foi o chefe do DOI-Codi do Rio. de protestos ocorreu segunda-feira 14. Na Bahia, por exem- Emocionado, o escritor Marcelo Rubens plo, mais de cem jovens foram às ruas Paiva, filho do parlamentar desapareci- em 11 estados. No da capital para fazer um esculacho con- do desde 1971, elogiou a iniciativa: “Obri- Guarujá, o cerco foi tra o torturador Dalmar Caribé, cabo do gado, garotada. A família agradece”. contra o torturador Exército na ditadura e participante dos reconhecido por assassinatos de Carlos Lamarca e Zequi- As ações têm preparação meticulosa. Dilma Rousseff nha Barreto. No chão, uma enorme man- Até horas antes do “escracho” no Gua- cha de tinta vermelha simbolizava o san- rujá, muitos jovens nem sequer sabiam gue derramado pela repressão. quem seria o alvo do protesto ou a loca- No Rio de Janeiro, a manifestação lização exata do ato. “Um grupo menor, ocorreu em frente à residência do ge- de três a sete integrantes, é escolhido pa- neral da reserva José Antônio Noguei- ra fazer a pesquisa, eleger o alvo, levantar ra Belham, denunciado como tortura- o endereço e organizar o protesto. É uma dor do ex-deputado Rubens Paiva, cujo forma de evitar o vazamento das infor- cartacapital | 23 de maio de 2012 43•CCSeuROGDRIGO698.indd 43 17.05.12 23:58:42
    • Seu País Cidadania mações e alertar os torturadores”, expli- A maioria não tem sificaram os ataques à criação da Comis- ca o porta-voz do grupo paulista, Edison vínculos partidários são da Verdade. “Mais do que preservar Magalhães Rocha, o Júnior, de 26 anos. a memória dos que morreram pela de- Técnico de redes de computadores, ou familiares mocracia, decidimos entrar nessa dis- que batalha para concluir um curso perseguidos cussão porque ainda hoje os jovens, so- superior de tecnólogo numa faculdade pela ditadura. Para bretudo os pobres e negros, são vítimas privada, Júnior é filho de um metalúr- muitos, é a primeira da violência das polícias, com estruturas gico que chegou a ser detido em 1979 experiência política herdadas da ditadura”, conta Lupeno. em uma greve no ABC Paulista. “Meu O barulho dos jovens incomoda. Em pai era sindicalista, mas não chegou a Belo Horizonte, um grupo de 40 mani- ficar preso ou ser torturado. A maioria festantes protestou em frente à casa de do pessoal não tem parentes que foram Punição. Parentes de vítimas João Bosco Nacif da Silva, médico-le- celebram a “condenação perseguidos na ditadura. Alguns pais moral” dos algozes gista da Polícia Civil da ditadura. O livro ficam até reticentes, com medo de re- Brasil Nunca Mais, editado pela Arqui- taliações. A minha mãe fica preocupa­ diocese de São Paulo em 1985, o cita co- da, mas apoia. Até prepara o almoço mo responsável por assinar laudos médi- para as nossas reuniões.” cos falsos, como o que atestou a morte de João Lucas Alves como suicídio em 1969, Criado em 2006 no Rio Grande do Sul, apesar de os colegas de cela garantirem o Levante é integrado por jovens entre ter sido espancado até a morte. Enfureci- 14 e 28 anos, em sua maioria sem liga- do, o legista bateu boca com os manifes- ção com partidos políticos e sem histó- tantes e tentou agredir um deles. rico familiar de luta contra a ditadura. Os mais velhos têm experiência de mi- “Aqui não tem nenhum criminoso, pa- litância em universidades ou movimen- rem com isso”, bradava o senhor fran- tos sociais, como os Sem-Terra (MST) zino, de cabelos implacavelmente bran- e a Via Campesina. Para muitos, o Le- Normalmente preocupado com de- cos. “Tivemos de encerrar o ato mais vante é a primeira experiência de atu- mandas como políticas de acesso à uni- cedo, para evitar que a ação descam- ação política. “Conseguimos mobilizar versidade e oferta de emprego para a ju- basse em violência”, comenta o biólo- universitários, estudantes secundaris- ventude, o Levante decidiu perseguir go mineiro Renan Santos, de 26 anos. tas, jovens trabalhadores, o pessoal que torturadores após o seu primeiro acam- “Sempre tomamos o cuidado de esco- vive nas periferias. É um grupo hetero- pamento nacional, ocorrido em feverei- lher como alvo apenas os torturadores gêneo, de diferentes classes sociais”, ex- ro deste ano, em Santa Cruz do Sul (RS), que já foram citados em livros e proces- plica o assistente pedagógico Lúcio Lu- com a presença de 1,2 mil jovens de 17 es- sos que tramitam na Justiça. E, para a peno, de 27 anos, um dos coordenado- tados. As várias “células” do grupo espa- nossa surpresa, os vizinhos costumam res do Levante em Porto Alegre. “Co- lhadas pelo País, e abrigadas em univer- apoiar os nossos protestos.” mecei a militar aqui durante a faculda- sidades, escolas e associações comunitá- Não é a primeira vez que o grupo de de. Já estou velho, logo mais eu passo o rias, resolveram entrar no debate em re- jovens promove uma rodada de escra- bastão pra moçada mais jovem.” ação aos militares da reserva, que inten- chos. Em 26 de março, manifestações Tropeço inicial A Comissão da Verdade inicia os trabalhos em meio p e d r o l a d e i r a /a f p aos ataques dos militares da reserva e divergências entre os integrantes E m cerimônia que reuniu com os olhos marejados, ao se de presos políticos durante seus quatro últimos lembrar dos companheiros mortos. a ditadura. Os demais tiveram antecessores vivos, A Comissão da Verdade iniciou participações circunstanciais. Dilma Rousseff instalou os trabalhos na quarta-feira 16, Em nota, o Comitê Paulista a Comissão da Verdade em meio a divergências entre os pela Memória, Verdade e Justiça com um discurso moderado, embora integrantes do grupo e os ataques (CPMVJ) criticou a composição firme. Prometeu uma investigação de militares da reserva, que do grupo, a começar pelo ministro sobre os crimes da ditadura sem ameaçam criar uma comissão Gilson Dipp, do Superior Tribunal revanchismos, mas sem perdão. “A paralela para rebater as versões de Justiça, que atuou como perito palavra verdade, na tradição grega, apresentadas pela oficial. Em do Estado brasileiro na Corte é o contrário de esquecimento. Não parte, o desgaste poderia ter Interamericana de Direitos abriga nem o ressentimento nem sido evitado se o governo tivesse Humanos contra os familiares dos o ódio ou o perdão: é memória sido mais criterioso na escolha desaparecidos no Araguaia. Coube a Emoção. Dilma e é história”, afirmou a presidenta, dos integrantes. Entre os sete Dipp uma das primeiras declarações chorou ao lembrar dos que lutou contra o regime e acabou nomeados, a que teve uma luta da comissão que irritaram parentes companheiros mortos presa e torturada. “Merecem mais destacada contra o regime de vítimas da ditadura. Coordenador a verdade factual aqueles que foi a advogada Rosa Maria Cardoso dos trabalhos, o ministro afirmou perderam amigos e parentes”, disse, da Cunha, especializada na defesa que “toda violação” deve ser 44 www.cartacapital.com.br•CCSeuROGDRIGO698.indd 44 17.05.12 23:58:43
    • de somente agora esses crápulas estão tendo o que merecem, ainda que seja apenas uma condenação moral.” Em acareação na CPI das Ossadas de Perus, em 1991, Araújo ficou diante de Seixas e da ex-presa política Amélia Te- les. Os dois disseram ter sido torturados por ele. Naquele momento, o delegado respondeu: “Nunca torturei mulher feia”. “É cínico demais”, revolta-se Seixas. Ao menos um efeito prático o escracho contra o “Capitão Lisboa” teve. Após o caso ser noticiado, o Itaú Unibanco, que estava listado pela Dacala como um dos seus clientes, rescindiu o contrato com a empresa. A Anhanguera Educacional e o banco Santander também anunciaram que iriam reavaliar os contratos. “Fica- mos muito felizes”, conta a estudante de Artes Cênicas da USP, Lira Alli, que aju- dou a organizar o ato. “Pouco depois, uma amiga da família disse que o reco- nheceu como seu torturador.” A amiga era Laurita Salles, presa nas dependências do DOI-Codi paulista em semelhantes ocorreram em sete estados. di, em 1971. Após a manifestação, o ex- 1974, quando estava prestes a completar Em São Paulo e no Rio, o local escolhido agente da ditadura negou as acusações. 22 anos de idade. “Fui torturada por cin- foram os escritórios da empresa de se- “Fui trabalhar no serviço de busca, que co dias, queriam que eu entregasse o para- gurança Dacala, pertencente ao delega- não interroga ninguém, não mata nin- deiro de uma pessoa que eu não conhecia. do aposentado David dos Santos Araú- guém”, afirmou à Folha de S.Paulo. Quando li o jornal, reconheci o rosto da- jo. Em 2010, ele foi acusado de tortura O filho do militante assassinado, quele homem. Não tenho certeza se foi ele pelo Ministério Público Federal, numa Ivan Seixas, afirma ter testemunhado quem me torturou, mas ele estava lá, fazia ação que cobrava o ressarcimento das as sessões de tortura. “Fui preso com parte do grupo”, relembra. “Fiquei muito indenizações pagas a suas vítimas. Se- o meu pai. Eu tinha apenas 16 anos emocionada ao ver esses jovens se mani- gundo a Procuradoria, Araújo era cha- e fui torturado por ele. Aliás, minha festando. Eu era exatamente igual a eles 30 mado de “capitão Lisboa” e participou da tortura e do assassinato do militante mãe e minhas irmãs também. Eu só te- nho é que agradecer esses jovens, por- anos atrás, tentando mudar o mundo.” • Joaquim Alencar de Seixas, no DOI-Co- que após mais de 30 anos de impunida- *Colaborou Piero Locatelli apurada, inclusive os supostos chamava a ideia de bilateralidade mas o que precisa ser investigada é a CartaCapital. Segundo ele, crimes de quem resistiu à ditadura, sugerida por Jobim de monstrengo a violência do Estado, que promoveu a comissão não deve punir como se eles já não tivessem sido jurídico”. A psicanalista Maria Rita crimes contra a humanidade.” ninguém. Mesmo assim acredita punidos com prisões arbitrárias, Kehl e a advogada Rosa Cunha, Na avaliação de Nilmário que as revelações podem levar torturas, julgamentos em tribunais que defendeu Dilma na ditadura, Miranda, ministro dos Direitos torturadores ao banco dos réus. de exceção, exílio e mortes. Antes reagiram às invectivas para Humanos no primeiro mandato “Dos 163 desaparecidos políticos dele, outro integrante da comissão, mudar o foco de atuação do grupo. do presidente Lula, a comissão da ditadura, só foram identificados José Carlos Dias, ex-ministro “A história a ser investigada não pode fazer um bom trabalho, quatro ossadas desde 1979. Se da Justiça de Fernando Henrique tem dois lados, o outro foi mesmo após três décadas de o Supremo Tribunal Federal Cardoso, havia defendido com assassinado”, resumiu Cunha. distanciamento entre os crimes considerar os sequestros e as denodo tucano a mesma tese. Presidente da Comissão de da ditadura e a atual investigação. mortes com ocultação de cadáver O ex-ministro da Defesa Nelson Mortos e Desaparecidos Políticos “Não vamos começar do zero. como crimes continuados, há Jobim, que ressurgiu das cinzas e um dos mais proeminentes As Comissões dos Mortos e espaço para a responsabilização, para opinar a respeito, voltou a advogados do Brasil, Marco Antonio Desaparecidos Políticos (1995) e da porque esses crimes não bater na tecla da investigação dos Barbosa minimizou as divergências Anistia (2001) levantaram milhares prescrevem e não estariam “dois lados” e citou um suposto internas da comissão. “Discordar de documentos e depoimentos. cobertos pela Lei da Anistia”, avalia acordo com o então ministro dos é algo natural e salutar em uma Precisamos aprofundar Miranda. “O resgate da memória Direitos Humanos Paulo Vannuchi democracia. Mas essa tese as investigações, sobretudo com desse período é imprescindível.” para investigar os crimes da de investigar os ‘dois lados’ é os documentos produzidos pela De qualquer forma, a comissão esquerda armada. Vannuchi reagiu baboseira, perda de tempo. Respeito repressão e que não estavam começou mal. Espera-se que com indignação: “Em 2010, eu a opinião do ministro Gilson Dipp, disponíveis para consulta”, disse termine bem. cartacapital | 23 de maio de 2012 45•CCSeuROGDRIGO698.indd 45 17.05.12 23:58:43