O Ser e a Aparência
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“Pois quando um homem se entrega ao puro pensamento, por qualquer razão que seja e independentemente do assunto, ele vive completamente no singular, ou seja, está completamente só, como se o ...

“Pois quando um homem se entrega ao puro pensamento, por qualquer razão que seja e independentemente do assunto, ele vive completamente no singular, ou seja, está completamente só, como se o Homem, e não os homens, habitasse o planeta.”
Hannah Arendet

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O Ser e a Aparência O Ser e a Aparência Document Transcript

  • “Pois quando um homem se entrega ao puro pensamento, por qualquer razão que seja e independentemente doassunto, ele vive completamente no singular, ou seja, está completamente só, como se o Homem, e não oshomens, habitasse o planeta.”Hannah Arendet O Ser e a Aparência Léo Baroni As aparências aí estão, lidamos com elas a todo momento, provocando reações, mesmo que impensadas e automáticas. Podemos continuar não nos apercebemos, mas também somos aparências e delas utilizamos para influenciar o meio que nos relacionamos, mesmo que a nós mesmos. Sim, também utilizamos de nossa aparência para influenciar nossas próprias ações. Interessante que não importa a qualidade e o valor desta influência, ela pode ser utilizada para seduzir, para congregar, afastar, para provocar medo, proteção ou agressão, enfim, elas ali estão, nos caracterizando na presença, diferenciando- nos como únicos e contribuindo para provocar reações que nos beneficiariam de alguma forma. Tudo no mundo tem forma, ocupa um lugar no espaço e tempo, apresenta textura, consistência, cheiro e cor, é suscetível a variações climáticas e “apresenta-se” como sendo. Tudo “apresenta-se”, surge ao espectador, quer seja um Ser inanimado ou animado (com vida) como se obedecesse a um propósito: “estar presente”. Por mais que estejamos em um mundo que existia antes de nós “aparecermos” e que permanecerá após o nosso “desaparecimento”, a aparência nos remete ao imediatismo do presente. É a possibilidade de se estabelecer relações com o que se apresenta no momento como presença e de forma que nos distinguimos de todos, tornando-nos únicos. Esta característica da aparência, o de tornar-se presente, demonstra que as coisas são o que se mostram ser. A aparência é fundamento para a existência como presença do Ser. Nos seres animados (com vida) observamos que a aparência não segue somente ao propósito de estar presente, existem outros a serem considerados. Por
  • exemplo, o propósito de “ser belo” ao meio para que se sejam realizadosdeterminadas expectativas vitais, tal como sobrevivência, constituição deparceria sexual e perpetuação da espécie, para ser aceito nas relações e paraestabelecimento de relações de poder. Ou para ter a aparência de terrível,agressivo e não prazeroso para nos protegermos e afastar ou confundir ospredadores. Em outras palavras, a importância da aparência é provocar umareação ao observador através de seus sentidos, porque a qualidade da aparênciaé determinada pelo ponto de vista, interesse e perspectiva do observador.Exemplifiquemos pela natureza. Segundo Giannetti, “A natureza submete tudoo que vive ao jugo de duas exigências fatais: manter-se vivo e reproduzir a vida.”(“Auto-Engano” – Giannetti, Eduardo, Editora Companhia das Letras, SãoPaulo, SP, 1999, 7ª edição, pg.17). A aparência pode estar voltada à suscitarreações específicas aos seres da própria espécie. Por exemplo, o tamanho dasaves e o colorido e formato de suas penas e as características musicais dos seusassobios e música, caracterizam as espécies, e são encontradas particularidadesem cada ave de uma espécie, que as tornam com “aparências” única,distinguindo-a de todas as outras aves. As aves machos de uma determinadaespécie, mantém colorido e desenhos de penas que diferenciam das aves fêmeas,pois as aves machos atraem as fêmeas para acasalamento e perpetuação daespécie, através de sua aparência e majestosidade e da sua presteza dos cantos,entre outras particularidades de cada espécie. A aparência é também utilizadapara determinar poder, força e superioridade sobre outros da própria espécie,desenvolvendo aparência que provoque medo, respeito e inibição ao outro, porexemplo, as galhadas dos Alces Alfa, ou as Jubas dos leões, etc.Porém, as aparências podem estar voltados à desenvolver reações deaproximação ou de repulsa de outros seres, que são díspares à sua espécie, masque são fundamentais para a sua perpetuação, promovendo ganhos e satisfaçõesà espécie que atraiu, ou para protegerem-se de algum ato predatório. Comoexemplo, as plantas que desenvolveram as flores de forma extremamentesedutoras às aves, abelhas e insetos, através do néctar, cheiro, estética em suascores e formas, com o intuito de utilizar os seres que atraiu para desenvolver apolinização. E plantas que desenvolvem proteção extra de sobrevivência atravésda apresentação de seus espinhos.As aparências com o intuito de “esconder” são inúmeros: borboletas que“apresentam” Olhos de predadores nas pontas traseiras de suas asas, peixes que
  • apresentam formatos de seus predadores naturais, animais, como o camaleão,que alteram a coloração de sua pele, promovendo camuflagem natural.Assim, podemos dizer que as aparências, além de determinarem a existência doSer, e individualizá-lo, tornando-o único, também se prestam a propósitos dedesenvolver reações, através dos sentidos do observador,com intuito depreservar-se e sobreviver, para a procriação e perpetuação da espécie, deesconder o “ser”, de ludibriar o predador e a presa e de confundir através doengano , além de procurar despertar medos e respeito ao observador.Eduardo Giannetti afirma em seu livro “Auto-Engano” que existem doisestratagemas básicos na criação de ilusões:“Há o engano por ocultamento, quese baseia em ardis de camuflagem, mimetismo e dissimulação; e há o enganopor desinformação ativa, baseado em prática como o blefe, o logro e amanipulação da atenção”. (“Auto-Engano”, Giannetti, Eduardo, EditoraCompanhia das Letras, São Paulo, 7ª edição, 1999, pg. 24).Esta função de mostrar e esconder das aparência, são caracterizadas no próprioser. As aparências, que externamente individualizam, embelezam e promovem oprazer e agradam, ou que promovem força e proteção, escondem o interior,osórgãos internos, com formas que desagradam e que não identificam o ser, a nãoser que existam deformações dos mesmos, bem como a sua fragilidadecaracterística.Mesmo as aparências dos seres inanimados apresentam também estacaracterística de esconder, por exemplo, uma pedra esconde o que contém noseu interior, pois ali podem estar contidos minérios, pedras preciosas, óleos oumesmo fósseis.Esta linearidade da análise dos fenômenos da aparência existentes na natureza,ganha perspectivas mais complexas no ser humano. Pois aprendemos a usardestes fundamentos para o alcance de outros propósito, quer individuais ousociais. Ao percebermos a influência que a aparência exerce sobre ossentimentos e sentidos do observador e ao aprendermos das práticas deindividualizar, e de preservação e ocultação, utilizamos destas práticas em nossocotidiano, procurando influenciar as ações que o observador possa ter atravésdestes estímulos, muitas vezes de forma que não corresponde na nossa forma de
  • ser, caracterizando uma aparência inautêntica, construída artificialmente comintuito de ludibriar e enganar.O mesmo fazemos quando utilizamos da aparência para ocultar, proteger ecamuflar nosso ser da observação que fazemos de nós mesmos. Por estacaracterística se faz, muitas vezes necessário, a consulta de outras pessoas paraidêntica estas práticas que auto utilizamos.O ditado popular: “a primeira impressão é a que fica”, demonstra o poder que aaparência exerce sobre o observador e mesmo que a a aparência seja autênticaou inautêntica, leva à desilusão do observador quando esta aparência édesmantelada por alguma descoberta fundamental.Sobre a Verdade e a AparênciaEntretanto o ditado popular: “As aparências enganam”, oferece a reflexão deque se nos ativermos nas “semblâncias” das aparências, nos iludimos acerca donosso olhar para com o outro, podendo nos enganarmos acerca do serobservado. Este ensinamento popular nos leva a pensarmos acerca de nossascrenças e de que o meio tem uma forma particular de ser e não como eu gostariaque fosse e da importância de se buscar os fundamentos anteriores à estaaparência.O pensamento, junto com sua forma analítica e investigativa, é a forma que aciência a filosofia, a psicologia e as ciências sociais e humanas em geral, utilizampara poder “descobrir” os fundamentos do ser que estão escondidos pelaaparência. Contudo, quando nos defrontamos com o surgimento de algo queestava escondido, este, quando encontrado, torna-se nova aparência e sesobrepõe a aparência existente até então. Isso não quer dizer que é algo demaior valor, mas esta descoberta caracteriza sua importância, e esta novaaparência perdurará até que nova “descoberta” seja efetuada.Esta relação de continuidade do processo entre ter-se a ilusão de algo que seapresenta e da desilusão que ocorre quando esta aparência é destroçada, podemovimentar sensações de confiança e desconfiança para com aquele ser. Porém,esta desilusão também é experienciada para com o próprio observador, pois estese percebe ter sido seduzido pelas semblâncias, pois sua própria aparênciatambém é destroçada por este algo novo que surge.
  • Quando o interior é demonstrado na aparência exterior:Mesmo quando a aparência esconde o interior ou fundamentos de valoresmaiores, estes mostram-se, dão sinais de existência na aparências, mesmo queesta não as perceba. Estes sinais mostram-se ás vezes de forma sutil, outras deforma mais contundente.Para entendermos tomemos por exemplo a saúde de um indivíduo. Uma noitemal dormida é suficiente para que surjam sinais na aparência que denunciam oocorrido e o cansaço e prostração existente. São olheiras, olhos inchados,movimentos lentos com o corpo um pouco inclinado, fala mais arrastada, olhosvermelhos, enfim, uma série de sinais que por mais sutil que seja, pode serimportante aos olhos de alguém treinado. Os sinais muitas vezes perduram naaparência, fazendo parte da mesma, outras vezes, são sinais que tendem a vir eir, sem que implique em denúncias claras. Por mais que a aparência venhaproteger e esconder , esta se mostra vitrine do que “ocorre internamente” aoobservador treinado, são sinais que os órgãos internos, sentimentos e afliçõesque “aparecem” no semblante, denunciando o ocorrido. A Medicina TradicionalChinesa busca estes sinais sutis de coloração de pele, olhos e língua, pequenossinais nas orelhas ou na face, cheiros sutis e sinais que apontam uma desordeminterna.Estes sinais estão à disposição do bom observador, o desejo e o interesse dealguém por uma joia ou por um ser amado será denunciado pela dilatação daspupilas ou pela alteração da respiração, uma sensação de vergonha pelo rubor,mesmo que sutil da pele, ou os medos pelo empaledecimento do rosto.É comum a sensação de vulnerabilidade que a aparência pode provocar nopróprio indivíduo, a ponto deste encontrar estratégias que venham a enganar osolhos do observador. São vários os motivos que podem levar alguém exercer talação, provocando ou mostrando uma aparência não autêntica, com o intuito delevar o outro ao engano.Somos especialistas na arte de enganar pela aparência: maquiagens, roupasespecíficas para cada ocasião, treinamento de postura e da forma de falar e doque dizer e como dizer, utilização de próteses e perfumes, enfim, somos, nostornamos, especialistas na arte de enganar e de se auto-enganar. Para tanto, nos
  • especializamos em compreender o observador e exercemos ações edemonstrações para dele termos o resultado esperado.Dualidade SER e APARÊNCIASomos o que aparentamos ser. Esta afirmação pode parecer estranha a nós, poistendemos a entender o Ser e a Aparência como dois mundos, onde o Ser é maisautêntico, denso, cheio de significados e conteúdo e a Aparência, como “umamera aparência”, isto é, somente casca, superficial e sem conteúdo. Esta visãodicotômica é uma verdade que pode ser desacreditada, sobretudo quando nosreportamos às aparências autênticas. Elas imprimem uma impressão autênticano outro que nos observa, permitindo que este nos conheça prontamente e nosretribuir com suas impressões. Percebo o Ser como uma pedra preciosamultifacetada em sua lapidação , que sempre brilha e reflete de forma diferentea cada movimento e ponto de vista. Concordo que esta multiplicidade de brilhose reflexos são às “Aparências” deste Ser, e que serão tantas quanto os olhares epercepções a cada momento, porém, sempre o Ser mostrar-se-á pleno aos olhosde quem o vê e provocará desejos, perplexidade e êxtase pois sempre semostrará autêntico e pleno.“... a comum compreensão filosófica do Ser como o fundamento da Aparência éverdadeira para o fenômeno da Vida; mas o mesmo não pode ser dito sobre acomparação valorativa Ser versus Aparência que está no fundo de todas asteorias dos dois mundos.” (“A Vida do Espírito”- Arendt, Hannah, EditoraCivilização Brasileira, Rio de Janeiro, RJ, 2009, p.59).Somos tentados a dar maior valor ao Ser, pois dele pensamos como aquele quenão pode ser abarcado, percebido na sua totalidade e que está, de alguma forma,além das condições de espaço e tempo. Em contrapartida, a Aparência, estásomente para o “presente”, é aquela que nos alicerça na presentificação do agorae que mostra como hoje estamos e somos, bem como das implicações dopassado e dos sentimentos do que está porvir, permitindo a experiência paracom o Ser que se apresenta e a isso chamamos de “contato com a realidade”.“A experiência transcende não só a Aparência, mas o próprio Ser.” (“A Vida doEspírito”- Arendt, Hannah, Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, RJ,2009, p.59).
  • Aparência, Realidade e Pensamento.Aparência exige expectadores pois implicam reconhecimento e admissão depotenciais; entendemos isso por realidade.“...nossa ‘fé perceptiva’- como designou Merleau-Ponty-, nossa certeza de que oque percebemos tem uma existência independente do ato de perceber, dependeinteiramente do fato de que o objeto aparece também para os outros e de quepor eles é reconhecido. Sem esse reconhecimento tácito dos outros não seríamoscapazes nem mesmo de ter fé no modo como aparecemos para nós mesmos.“(“A Vida do Espírito”- Arendt, Hannah, Editora Civilização Brasileira, Rio deJaneiro, RJ, 2009, p.63)Ter experiências com as Aparências é estar em contato com a realidade, porém,isso quando as aparências são autênticas. Aprendemos que nem sempreestamos lidando com aparências autênticas, que muitas vezes somos enganadospor aparências inautênticas proporcionando um distanciamento para com aexperiência da realidade. Neste contexto a única relevância é observarmos setais aparências nos levam ao logro ou se a percepção da realidade estácomprometida devido a nossas crenças dogmáticas, pressupostos arbitrários eequivocados ou determinadas por simples miragens. Estas experiências deenganos provocados pela própria aparência ou por meu auto-engano, nospermite a termos certa desconfiança do se mostra presente, e sua autenticidadeé testada por inspeções mais cuidadosas, ou através da faculdade de abstrair-see pensar: “ – a habilidade de pensar, que permite ao espírito retirar-se domundo, sem jamais poder deixa-lo ou transcendê-lo.” (“A Vida do Espírito”-Arendt, Hannah, Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, RJ, 2009, p.62).Aparência e IntencionalidadeHusserl ao refletir sobre os fenômenos, e na busca da compreensão dosmesmos, nos presenteia com a percepção da existência da intencionalidade emtodos os atos da consciência. E Hannah Arendt acrescenta que “nenhum atosubjetivo pode prescindir de um objeto.” (“A Vida do Espírito”- Arendt, Hannah,Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, RJ, 2009, p.62) e que “ Aobjetividade é construída na própria subjetividade da consciência em virtude daintencionalidade. Ao contrário, e com a mesma justeza, pode-se falar daintencionalidade das aparências e da sua subjetividade embutida.” (“A Vida do
  • Espírito”- Arendt, Hannah, Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, RJ,2009, p.63).Como vimos, a nossa percepção da Aparência pode nos levar a erros e ilusões,mas mesmo assim é uma indicação da realidade e nos arremete a experiênciassensoriais acompanhadas da sensação de realidade, pois não conseguimosabstrair algo de seu contexto quando a experimentamos através dos sentidos esensações.As emoções acompanham a experiência que temos da Aparência ,pois sua função é influenciar o observador, e esta experiência é subjetiva poisestá sujeita às intenções que imprimo neste experienciar. Uma forma que podenos trazer determinado conforto é a busca dos relatos das experiências vividaspor outros pois “a subjetividade do parece-me é remediada pelo fato de que omesmo objeto também aparece para os outros, ainda que o seu modo deaparecer possa ser diferente.” (“A Vida do Espírito”- Arendt, Hannah, EditoraCivilização Brasileira, Rio de Janeiro, RJ, 2009, p.67).Além da intenção subjetiva das emoções para com o experienciar algo, pode-se,através do pensamento, imprimir diferentes funções ao objeto. Para tanto, devoabstraí-lo do seu contexto com o propósito de “des-realizá-lo” e assim percebê-lo de forma diferente. Isso é uma arte, pois para tanto, tenho que abstraí-lo dosmeus sentidos e emoções, além de iniciar uma jornada solitária e corajosa: “Poisquando um homem se entrega ao puro pensamento por qualquer razão que sejae independentemente do assunto, ele vive completamente no singular, ou seja,está completamente só, como se o Homem, e não os homens, habitasse oplaneta.” (“A Vida do Espírito”- Arendt, Hannah, Editora Civilização Brasileira,Rio de Janeiro, RJ, 2009, p.64).O “Sentido” da RealidadeExperimentamos e conhecemos o mundo através dos cinco sentidos, mas temosa sensação, muitas vezes, de que a realidade em si nos escapa. Temos uma novafaculdade sensoria para a experiência da realidade e podemos definí-la comsendo o sexto sentido, que nos proporciona a sensação de realidade. “Apropriedade mundana que corresponde ao sexto sentido é a realidade[realness]; a dificuldade que ela apresenta é que não pode ser percebida comoas demais propriedades sensoriais”. (“A Vida do Espírito”- Arendt, Hannah,Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, RJ, 2009, p.68). Esta faculdadesensorial é interna e se aproxima muito da faculdade de pensar, pois a realidade
  • sempre apresenta-se, mesmo que nunca a conheçamos, pois o contexto sempreé amplo, evasivo e difícil de ser abarcado com um todo. O sexto sentido é nossafaculdade de vislumbrá-la a ponto de nos motivarmos à investigação, para que amesma possa fazer “sentido” em nosso existir.O Sentido da Realidade é o que os pensadores chamam de “senso comum” poisestá voltado ao aparato biológico e das sensações e emoções. Já os processos dopensamento transcendem esta experiência e sensações biológicas. “”...quando opensamento se retira do mundo das aparências, ele se retira do sensorialmentedado e, assim, também do sentimento da realidade [realness] dado pelo sensocomum.” (“A Vida do Espírito”- Arendt, Hannah, Editora Civilização Brasileira,Rio de Janeiro, RJ, 2009, p.70).Ciência e Senso Comum/ Intelecto e Razão/ Verdade e Significado.Pertence ao mundo das aparências a cognição e a busca do conhecimento. Oconhecimento e a cognição são o que move a ciência, que através de seusmétodos, busca abordagens mias promissoras sobre o objeto estudado. “Aciência é prolongamento mais refinado do raciocínio do senso comum.” (“A Vidado Espírito”- Arendt, Hannah, Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, RJ,2009, p.72). Toda ciência se move no âmbito do senso comum através deexperiências de laboratório, imitando o processo da natureza através de ummundo artificial, e se algo não “aparece”, força aparecer. Estas experiênciasartificiais científicas baseiam-se no método do ensaio e erro na busca deresultados específicos e está sujeita a erros e a ilusões corrigíveis por novaspercepções e experiências sensoriais.Assim, a verdade considerada como resultado das buscas especulativa daciência, mostra-se como veracidades passíveis de questionamento mesmo quequando uma é encontrada, esta reivindique para si a validade total. HannahArendt cita Merleau-Ponty para ilustrar esta reflexão: “---é a perda de umaevidência, unicamente porque é a aquisição de outra evidência”. (“A Vida doEspírito”- Arendt, Hannah, Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, RJ,2009, p.72). E nada garante que esta nova evidência seja mais confiável que aanterior.Enquanto a busca da verdade esteja no âmbito do senso comum através daevidência dos sentidos, o significado pertence à faculdade do pensamento. Para
  • Kant “os conceitos da razão nos servem para conceber (compreender), assimcomo os conceitos do intelecto nos servem para apreender percepções.” (“A Vidado Espírito”- Arendt, Hannah, Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, RJ,2009, p.75). Isto é, a especulação científica e a cognição do senso comum buscaapreender os sentidos e a verdade, mas a razão busca compreender ossignificados.“Mas as questões levantadas pelo pensamento, porque é da própria natureza darazão humana formulá-las – questões de significado – são, todas elas,irrespondíveis pelo senso comum e por sua sofisticada extensão a quechamamos ciência. A busca de significado ‘não tem significado’ para o sensocomum e para o raciocínio do senso comum, pois é função do sexto sentidoadequar-nos ao mundo das aparências e deixar-nos em casa no mundo dado pornossos cinco sentidos. Ai estamos e não fazemos perguntas”. (“A Vida doEspírito”- Arendt, Hannah, Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, RJ,2009, p.76).A Razão, fundamenta-se no propósito da pessoa em buscar a intenção inerenteda ordem do mundo e das coisas e como Kant disse “O interesse especulativo daRazão torna necessário encarar toda a ordem do mundo como se ela tivesse seoriginado na [intenção] de uma razão superior”. (“A Vida do Espírito”- Arendt,Hannah, Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, RJ, 2009, p.83).Atividades Espirituais em um Mundo de Aparências“A experiência da atividade do pensamento é “O pensamento anula distâncias temporais eprovavelmente a fonte original de nossa espaciais, Posso antecipar o futuro, pensá-lo como se já fosse presente e lembrar do passado como seprópria noção de espiritualidade, ele não tivesse desaparecido”. (“A Vida doindependentemente das formas que ela tenha Espírito”- Arendt, Hannah, Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, RJ, 2009, p.105).assumido”. (“A Vida do Espírito”- Arendt,Hannah, Editora Civilização Brasileira, Rio deJaneiro, RJ, 2009, p.61).Pensar, querer e julgar, estas são as trêsatividades espirituais básicas. São atividadesque sempre me acompanham, mas, quando surgem, sempre adotam formasilenciosa.
  • Enquanto o mundo das aparências nos reportam à presença, (ao aqui e agora!),a faculdade do espírito tem a característica de tornar presente o que estáausente; são lembranças de tudo o que não é mais e de objetos ausentes, bemcomo de ter a antecipação do futuro através da vontade e da imaginação,tornando presente tudo o que ainda não é. “Somente pela capacidade doespírito tornar presente o que está ausente é que podemos dizer “não mais”, enos preparar para um futuro”. (“A Vida do Espírito”- Arendt, Hannah, EditoraCivilização Brasileira, Rio de Janeiro, RJ, 2009, p.94).Temos que diferenciar vontade de desejo. Os desejos aparecem sobredeterminados objetos, enquanto que a vontade não se ocupa de objetos mas simde projetos, transformando o desejo em intensão.O Juízo estético, legal ou moral “...pressupõe uma retirada decididamente ‘não-natural’ e deliberada do envolvimento e da parcialidade dos interessesimediatos tal como são estabelecidos pela minha posição no mundo e pela parteque nele desempenho”. (“A Vida do Espírito”- Arendt, Hannah, EditoraCivilização Brasileira, Rio de Janeiro, RJ, 2009, p.95).ImaginaçãoTodo o pensamento implica em lembranças, por isso o isolamento e o isentar-seda realidade quando se pensa. Somente neste movimento de nos “tornar-mosausentes-na-presença” que conseguimos a busca do significado. “Para aparecerao meu espírito, a lembrança deve primeiramente ser dessensorializada; e acapacidade de transformar objetos sensíveis em imagens é chamada de‘imaginação’”. (“A Vida do Espírito”- Arendt, Hannah, Editora CivilizaçãoBrasileira, Rio de Janeiro, RJ, 2009, p.104).Toda imagem guardada na memória, isto é, todas as lembranças diferem darealidade pois estão intimamente ligadas às interpretação subjetivas e limitadasà própria experiência e pontos de visava. Ao nos isolarmos no mundo dopensamento, nos abstraímos das sensações “...todo pensamento deriva da experiência, mas nenhumaexperimentadas para, assim, podermos experiência produz significado ou mesmo coerência sem passaralcançar o significado, através do pelas operações de imaginação e pensamento”.pensamento especulativo. Pensar e criarfazem parte da “espiritualidade”, (“A Vida do Espírito”- Arendt, Hannah, Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, RJ, 2009, p.106).independentemente se a imaginação é
  • reprodutiva (que reproduz os dados da realidade) ou se imaginação produtiva(onde se criam personagens e passagens fictícios).Bibliografia:“A Vida do Espírito”- Arendt, Hannah, Editora Civilização Brasileira, Rio deJaneiro, RJ, 2009“Auto-Engano” – Giannetti, Eduardo, Editora Companhia das Letras, SãoPaulo, SP, 1999, 7ª edição.“Fenomenologia da Percepção” Merleau-Ponty, Maurice, Editora MartinsFontes, São Paulo, SP, 1994.“Crítica da Razão Pura” – Kant, Immanuel, coleção os Pensadores- Kant vol. I eII, editora Nova Cultura, São Paulo, SP, 1987.