Entrevista eliane brum
Upcoming SlideShare
Loading in...5
×
 

Like this? Share it with your network

Share

Entrevista eliane brum

on

  • 10,781 views

 

Statistics

Views

Total Views
10,781
Views on SlideShare
716
Embed Views
10,065

Actions

Likes
0
Downloads
2
Comments
0

42 Embeds 10,065

http://lospantozelos.blogspot.com.br 8428
http://www.lospantozelos.blogspot.com.br 1434
http://lospantozelos.blogspot.com 56
http://www.lospantozelos.blogspot.com 22
https://www.facebook.com 12
http://lospantozelos.blogspot.ru 12
http://lospantozelos.blogspot.co.uk 11
http://lospantozelos.blogspot.pt 11
http://lospantozelos.blogspot.com.ar 7
http://lospantozelos.blogspot.com.es 6
http://cloud.feedly.com 5
http://lospantozelos.blogspot.de 5
http://www.lospantozelos.blogspot.com.ar 4
http://www.feedly.com 4
http://lospantozelos.blogspot.com.au 3
http://lospantozelos.blogspot.ca 3
http://lospantozelos.blogspot.fr 3
http://www.lospantozelos.blogspot.de 3
http://digg.com 3
http://lospantozelos.blogspot.ie 3
http://www.facebook.com 3
http://www.lospantozelos.blogspot.ca 2
http://webcache.googleusercontent.com 2
http://feedly.com 2
http://www.lospantozelos.blogspot.pt 2
http://www.lospantozelos.blogspot.fr 2
http://www.lospantozelos.blogspot.nl 2
http://www.goread.io 1
http://lospantozelos.blogspot.be 1
http://www.lospantozelos.blogspot.be 1
http://www.lospantozelos.blogspot.com.es 1
http://lospantozelos.blogspot.ro 1
http://www.lospantozelos.blogspot.jp 1
http://lospantozelos.blogspot.sg 1
http://lospantozelos.blogspot.jp 1
http://inoreader.com 1
http://lospantozelos.blogspot.it 1
http://lospantozelos.blogspot.ch 1
http://www.lospantozelos.blogspot.co.il 1
https://m.facebook.com&_=1371328200578 HTTP 1
http://www.lospantozelos.blogspot.it 1
http://www.lospantozelos.blogspot.kr 1
More...

Accessibility

Categories

Upload Details

Uploaded via as Adobe PDF

Usage Rights

© All Rights Reserved

Report content

Flagged as inappropriate Flag as inappropriate
Flag as inappropriate

Select your reason for flagging this presentation as inappropriate.

Cancel
  • Full Name Full Name Comment goes here.
    Are you sure you want to
    Your message goes here
    Processing…
Post Comment
Edit your comment

Entrevista eliane brum Document Transcript

  • 1. “Por favor, não medeixe morrer”A garota Sonia, de apenas 11 anos, implora à repórterEliane Brum para que salve sua vida. Assim como quasetodas as pessoas de sua família, bolivianos do povoadode Novillero, Sonia é vítima da Doença de Chagas. Antesde partir de volta para o Brasil, Eliane, então, promete aela: “Eu vou contar a tua história para o mundo.”Por: Lu Cafaggi e Stefânia FirmoEliane BrumSonia, de 11 anos, e a sobrinha Érica, de 5. Sonia teve reação alérgica ao tratamento da doença e precisou suspendê-lo. Ainda não há um medicamento pediátrico, por isso as crianças são mais vulneráveis aos seus efeitos.Revista Ponto & Vírgula — ### de #### 1editoriaFotos: ############
  • 2. Naquela noite, Eliane Brum con-ta uma história de terror. Um contosobre vidas assombradas por cria-turas que, em seu sangue, carregampromessas invisíveis de morte. Ouuma história verdadeira sobre os“vampiros da realidade”.Três de setembro, centro de BeloHorizonte. É noite de Sempre umPapo, no SESC Palladium, quan-do Eliane fala das histórias quedetalhou em reportagem no livro“Dignidade!”. Histórias de Sonia,Maria, Cristina e suas famílias do-entes. E pobres. O título da repor-tagem defende que os vampiros darealidade só matam pobres.O monstro das histórias conta-das é o barbeiro, vetor da Doençade Chagas, que despenca sobre oscorpos adormecidos daqueles mo-radores dos vales da Bolívia. Oruído de suas asas dá o compas-so da rotina daquelas aldeias. Seusangue – ou o sangue das pessoas,chupado durante a noite – manchaas paredes das casas. Sua presença,em milhares, compete com as vidasdaquelas famílias.Em tantos momentos, os espec-tadores que escutam o relato deEliane passeiam as mãos ao redordo pescoço, ou disfarçam, enco-lhidas, um comichão no braço. Alinguagem de seus corpos tensosdenuncia o desconforto que nascea partir daquele mundo novo queEliane apresenta.Novo, sim, mas não porquesua existência era desconhecida.Era novo porque, antes, nunca ha-via parecido tão próximo. Pareciauma realidade inacessível, tão tris-te que só cabia em uma abstração.Um punhado de terra vermelha nadimensão do “infelizmente, não hánada que eu possa fazer por eles”.No entanto, é um mundo vivo,verdadeiro. E é nosso vizinho demapa.Mas o mapa não conta de seuspersonagens, com suas tranças,Infecção causadapelo protozoárioTrypanosoma cruzie transmitida pelobarbeiro. Seussintomas variam deinflamaçcão nosórgãos infectadosa insuficiênciacardíaca. Se nãotratada, a doençacrônica pode serfatal.Projeto culturalde incentivoà leitura, querealiza encontrosentre público egrandes nomesda literatura,em auditóriosespalhados pormais de trintacidades brasileiras.Livro que reúnetextos de escritoresde diferentes paísesque acompanharamos Médicos SemFronteiras emsuas missõesno tratamentode doençasnegligenciadaspelos governantes.Foi lançado em2012, no Brasil, pelaeditora Leya.Inseto vetor daDoença de Chagas.No povoado queEliane visita comos Médicos SemFronteiras, éconhecido como“vinchuca”, nomeque significa,literalmente,“deixar-se cair.”Eliane Brum escreve Jornalismo Literário, um modelo que mesclaaspectos da literatura com os princípios jornalísticoseditoriaRevista Ponto & Vírgula — ### de ####2 Fotos: ############
  • 3. seus silêncios, suas infâncias, colos eacanhamentos. Chega a parecer queo mapa mente, mais esconde do querevela aquela geografia tão particu-lar. Geografia que Eliane desvenda.E que, ao fazer um pacto com a me-nina Sonia – “eu vou contar a tuahistória” – aproxima dois mundos.Um mundo de cá, de infâncias intei-ras de chances, encantos, encontros,cadernos decorados e joelhos ardi-dos de Merthiolate. E um mundo deinfâncias sufocadas por percevejosque entalam nas gargantas. Que étambém um mundo de cá, mas ummundo invisível.Eliane Brum é jornalista, escri-tora e documentarista. Atualmente,escreve uma coluna semanal para arevista Época. Três semanas após obate-papo no SESC Palladium, Elia-ne concede à Ponto e Vírgula umaentrevista exclusiva. Pelo telefone,Eliane nos conta do pouco e do mui-to que um repórter traz ao mundoquando compartilha as histórias re-ais que encontra nos parênteses dodia-a-dia. Histórias da vida que nin-guém vê.Em momento algum, Eliane se re-fere a Sonia, Maria, Cristina ou suasfamílias como “aquelas” pessoas,“aquelas” vidas. Um pronome de-monstrativo mais acolhedor indicao estigma “dessas” pessoas que ficouem sua vida reportadeira.Por que você decide noscontar as histórias dessaspessoas? Qual a diferençaque você acredita que seutrabalho pode trazer ao mun-do?Eu acredito profundamente nopoder da narrativa, no poder da his-tória contada. No poder da históriada vida contada como instrumentode transformação da própria vida. Eisso é o que dá sentido a minha vida.Tudo o que eu faço é a partir dessacrença. E, quando eu encontro a So-Cristina e Maria estão entre os milhares de camponeses da região de Narciso Campero, na Bolívia, que convivemcom o barbeiro. As duas amigas conheceram-se em uma viagem que fizeram em busca de um marca-passo.Revista Ponto & Vírgula — ### de #### 3editoriaFotos: ############
  • 4. nia (e eu já fiz várias matérias muitocomplicadas, várias matérias que eulevei, algumas delas, anos para merecuperar, outras das quais nuncavou me recuperar), eu acho que façoo meu confronto mais profundocom a impotência. Porque, quandoela me pede para salvar a vida dela,o que eu sempre digo para as pesso-as: “eu vou contar a tua história promundo” (e eu acho que isso é impor-tante). Quando fui dizer isso paraela (e eu disse), eu sabia que isso nãoseria suficiente, talvez, para salvar avida dela. A vida dela. Dela que esta-va me pedindo. Pedindo a mim.Quando volto para São Paulo, eufico paralisada pela primeira vez naminha vida. Eu não consigo escreverporque, pela primeira vez, eu acheique escrever era pouco. Que escre-ver não ia salvar a vida da Sonia.Então eu fiquei duas semanasparalisada e precisei fazer uma re-flexão muito profunda, um mergu-lho profundo dentro de mim, paraentender que, se eu não conseguisseromper essa paralisia e contar a his-tória da Sonia para o mundo, eu nãoia cumprir a minha parte no pactocom ela.E contar uma história é pouco. Eé muito. É pouco e é muito, ao mes-mo tempo. E acho que isso eu enten-di. Acho que ser jornalista e contarhistórias reais é sempre um confron-to cotidiano com a impotência. Sóque, até então, isso nunca tinha fica-do tão claro para mim. A gente temque conviver com esse muito que étambém pouco, mas que é o possí-vel. E é grande contar uma históriae, por isso, eu escrevo também que,ao compartilhar o pesadelo que vaiser meu para sempre com as pessoas,é uma tentativa de, através da histó-ria contada, conseguir fazer com queas pessoas se mobilizem para fazer asua parte, para que um dia, no mun-do, crianças como Sonia não preci-sem pedir para serem salvas.Contar uma história é rompera barreira da invisibilidade. Éaproximar mundos que viviamapartados. Isso é contar umahistória real e esse é que é o po-der da reportagem. E eu acreditomuito nisso.Os jornalistas sãohistoriadores docotidiano. O quea gente produz édocumento sobrea nossa época. Eisso é humano.Suas reportagens sãoclassificadas como Jorna-lismo Literário. Você acre-dita que a linguagem quevocê escolhe para contarsuas reportagens – se éque isso é uma escolha –pode fazer com que seuleitor se importe mais como que está sendo contadodo que se você escolhesseuma linguagem jornalísticamais tradicional?Eu não sei se existe uma lingua-gem tradicional no jornalismo. Exis-te bom jornalismo e existe mau jor-nalismo. E, às vezes, tu ficas apenasnos números (e aco que os númerossão, sim, importantes), mas a genteprecisa dar carne para as estatísticas.A gente precisa mostrar os rostos, asvidas, os nomes, os sobrenomes dequem está por trás, de quem está en-coberto por essa estatística. A esta-tística é sempre uma coisa fria.Então eu acho que a boa repor-tagem é aquela que consegue, omáximo possível, dar conta da com-plexidade daquela realidade. Con-tar como são aquelas vidas. Quaissão aqueles detalhes que alimentamaquelas vidas. Como é que é o am-biente, como é que é o contexto,como é que é a História. Por isso,fazer uma boa reportagem dá mui-to trabalho e as suas informações,como repórter, não são apenas as es-tatísticas, não são apenas as palavrasditas. Mas é toda a complexidade doreal que é feita por um monte de coi-sas, inclusive por cheiros, por gestos,por cores... E silêncios, também.Tem muito mais informação paraapurar do que tu ficar apenas emaspas e números. Então, isso, paramim, é bom jornalismo. E é isso quecarrega a pessoas pro mundo do ou-tro. Porque o repórter vai até onde oleitor não pode ir. E ele precisa trazerpara o leitor toda a complexidadedesse mundo, para que o leitor pos-sa sentir, com todas as informaçõeseditoriaRevista Ponto & Vírgula — ### de ####4 Fotos: ############
  • 5. que o repórter apurou e possa fazer,então, as suas próprias escolhas apartir de sua própria interpretaçãodo mundo.Então eu fico muito feliz. O maiorelogio que eu posso receber é quan-do o leitor me diz “lendo a tua re-portagem, parecia que eu estava lá”.Então, eu consegui chegar perto des-sa realidade.O mais criminoso que a gentepode fazer é reduzir a complexidadeda realidade. E quando tu enxergaas pessoas, para além dos números, éoutro envolvimento que tu tem coma realidade. Tu te implica, à medidaque tu te implica com o outro, comaquilo que é humano.Às vezes, as pessoas me dizem“ah, tu faz matérias humanas” ou“por que tu escolhe fazer matériashumanas?”. Eu não consigo nementender essa pergunta. “Como as-sim?” Nós somos contadores da his-tória cotidiana. Os jornalistas sãohistoriadores do cotidiano. O que agente produz é documento sobre anossa época, sobre nosso momentohistórico. E isso é humano. A Histó-ria é construída por pessoas. Entãotoda reportagem é humana. São hu-manos escrevendo sobre outros.Uma doença não é só uma doen-ça. É como se tu fosses escrever so-bre a Doença de Chagas e escrevessesó sobre uma doença. Daí tu estáfalseando a realidade, está resumin-do a realidade. Porque uma doençaé História, é contexto, é costume, écultura. E é isso o que eu tento fazerao contar a história da Maria e daCristina, ao contar a história de suasfamílias. O Chagas não é algo quesimplesmente está ali, uma doençaque está fora da História, fora doPacientes levam suas famílias inteiras para saber os resultados dos exames de Chagas. Aiquile, Bolívia.Revista Ponto & Vírgula — ### de #### 5editoriaFotos: ############
  • 6. processo histórico.Essa doença só está matando es-sas pessoas por causa de uma sériede questões históricas, por ser umadoença da pobreza, por ser uma do-ença negligenciada. E, por ser umadoença da pobreza, é uma doençaque a indústria farmacêutica nãotem interesse em pesquisar. E porqueela não se interessa em pesquisar, sóexiste um remédio, que é de 1960e tem vários efeitos colaterais. Porcausa dos efeitos colaterais, muitagente não pode se tratar. E a genteestá em 2012 e ainda não se pes-quisou nenhum outro tratamento,nenhuma outra vacina para essa do-ença. Ela é uma doença que poderiaser erradicada, se fosse erradicado oseu vetor, que é o barbeiro. E, paraisso, precisaria ter casas, para essaspessoas, que fossem seguras. E porque essa população é invisível?Então uma doença não é só umadoença. Uma doença é uma doen-ça dentro de um processo históricocultural. E esse é meu desafio comorepórter.Assim como, quando eu falo devampiros, eu não estou fazendo umagraça. Não estou fazendo uma brin-cadeira com o barbeiro que é uminseto que suga o sangue. Eles sãovampiros por causa de toda umaapreensão que toda essa populaçãotem da realidade. A “vinchuca” (queé como eles chamam barbeiro emquéchua, e eles só falam quéchua)é onipresente para eles. É algo quemolda, que marca a cultura, marcaa vida deles, marca a história deles.Porque a vinchuca sempre estevelá. E eles não sabem que existe umoutro mundo sem vinchuca. Então,é por isso que são vampiros, por-que tem essa presença que molda avida. Determina a vida e determinaa morte.Nosso trabalho de repórter éaproximar os mundos. Até eu tercontato com a história dessas pes-soas, até eu ter que fazer esse gestointerno de me mobilizar para ir atéo mundo deles, Chagas, para mim,era só uma doença transmitida pelobarbeiro. Era muito pouco. E não:é uma tragédia, uma história de ter-ror real que está acontecendo agora,neste momento, bem aqui do nossolado. Portanto, qualquer pessoa de-cente tem que estar implicada nisso.E você sentiu medo ao ir pralá, sabendo que é um ambien-te de risco?Não senti medo, não. Tem ma-térias em que eu sinto medo, comoquando envolve uma violência, emregiões de conflito armado. Aí eusinto medo. Mas, nesse caso, não.Os Médicos Sem Fronteiras sópermitiram que eu ficasse uma sema-na. Em geral, é o tempo que eles per-Língua indígenada América do Sul,ainda hoje faladapor cerca de dezmilhões de pessoasde diversos gruposétnicos. O quéchuaera falado na regiãocentral dos Andesdesde bem antes daépoca do ImpérioInca.ONG que ofereceajuda médico-humanitáriaem regiões domundo inteiro queconvivem comconflitos armados,desastres naturais,epidemias, fome,exclusão socialou doençasnegligenciadas.Locais onde osistema de saúdesequer existeou não funcionaadequadamente.Aos nove anos,Eliane escreveu seuprimeiro romance.No dia em quematou um filhotede barata, sentiutanta culpa quetentou imortalizá-lo em uma novela(“Autobiografiade uma barata”),escrita em umcaderno.editoriaRevista Ponto & Vírgula — ### de ####6 Fotos: ############
  • 7. mitem quando aceitam jornalistas,por razões de segurança. Eu gostariade ter ficado mais. Achei que seriaimportante ficar um pouco mais,masera o possível. Fiquei uma semana. Eeu também gostaria de ter ficado nasaldeias, mas é também uma regra de-les.Tinha de ficar na casa deles, ondehavia mais condições de segurança.Quando e como você se des-cobriu repórter? Quando ecomo essa repórter escolheuse aproximar das pessoasanônimas e da vida cotidianadessas pessoas?Eu acho que já era repórter antesde saber que era repórter. Sempre fuiuma escutadeira e eu acredito quemeu principal instrumento para areportagem é a escuta (que é umacoisa muito difícil). Então, desde pe-quena, eu gostava de escutar a histó-ria das pessoas, em vez de brincar.Boa parte da minha família é deorigem rural. São pequenos campo-neses. Alguns sem terra, alguns comum pouco de terra. Eu morava nacidade, em Ijuí (Rio Grande do Sul)que é uma cidade muito pequena,mas a gente ia, nos fins-de-semana,ficar com os parentes do meu pai. Eeu gostava. Botava um banquinho eficava escutando, num canto, a his-tória dos adultos, em vez de brin-car. E eles esqueciam, até, da minhapresença ali, porque eu ficava numcantinho. Acho que, até hoje, eu souessa criança que fica num canto,num banquinho, escutando a histó-ria dos outros.Nunca fui faladeira. Para mim,está sendo uma experiência muitonova essa de fazer palestras e darentrevistas, que é uma coisa que éimportante. É uma forma de tu com-partilhar conhecimento, de tambémtransmitir, continuar contando ashistórias que contam nas reporta-gens, nos livros, enfim. Mas eu nãosou uma faladeira, eu sou uma escu-tadeira. Quando eu tenho que falarmuito, eu preciso depois ficar emcasa, trancada, quieta por bastantetempo, para me recuperar dessa ex-posição. Eu me sinto, assim, muitodesnuda, falando. Mas acho superimportante, então, por isso, eu faço.No momento em que aprendo aescrever (já escutava, antes de saberler e escrever), os livros mudam mui-to a minha vida, eu acho que eles mesalvam. Eu acho que eu fui salva pe-los livros. Eu era uma criança muitotriste e encontrei uma forma de viveroutras vidas e outros mundos no mo-mento em que eu começo a ler. E co-mecei a escrever, também, com onzeanos de idade. Com onze, não. Comnove anos de idade. Para dar contada dor do mundo, que era algo queeu sentia muito forte. E a escrita eraum jeito de lidar com isso, porquesenão eu me sentia sufocada.Eu sempre meinteressava nãoexatamente peloque tinham mepautado para fazer,mas pelo que estavaem torno disso, oupelos personagenssecundários.Fui escutando e escrevendo. Aca-bei fazendo Jornalismo. Fazia His-tória também, achei que eu ia serhistoriadora. Não achava que euservia para ser jornalista, porque eume achava muito tímida. Quando jáestava no final da faculdade (ia ter-minar a faculdade porque já estavano final, para ter o diploma) tinhacerteza de que eu não iria exercer aprofissão. Aí encontrei um professormaravilhoso. Sempre conto essa his-tória. Que se chama Marques Leo-nam, que me mostrou que ser repór-ter era a melhor profissão do mundoe trouxe várias reportagens maravi-lhosas, às quais eu não tinha acessoe que eram muito diferentes daquelejornalismo árido, sem gente, que vi-gorava naquela época, na maioriados jornais. Aí eu escrevi uma ma-téria para ele, sobre... filas. Todasas filas que a gente entra desde quenasce até morrer. Que era um temainusitado para aquela época (hoje, jánão seria). Porque era o que me inte-ressava. Eu me interessava por essascoisas e esse professor, ao contráriode outros, disse que eu podia. Disseque isso era, sim, interessante.Essa matéria acabou sendo ins-crita num concurso universitárioda região Sul do Brasil. Eu ganhei,o prêmio era um estágio no jornalZero Hora, em Porto Alegre, e foiassim que eu entrei no jornalismo.Na Zero Hora, acabei sendo con-tratada, depois. Em 1988. Aí eudescobri que isso de ser repórter émesmo o que eu sou, não aquilo queeu faço. E, desde sempre, eu me in-teressei por essas histórias. Antes deter consciência disso, quando eu iacobrir alguma coisa, eu sempre meinteressava não exatamente pelo quetinham me pautado para fazer, maspelo que estava em torno disso, oupelos personagens secundários. Eraessa a matéria que eu acabava tra-zendo.Por causa disso, em 1999, eu fuifazer “A Vida que ninguém vê”, queera uma coluna de reportagens, des-sa vez, assumidamente sobre pesso-as anônimas, sobre pessoas que, emgeral, não são notícia da imprensa.Mas fui escolhida para fazer issoporque eu já fazia isso, naturalmen-te.A partir de certo momento, isso setransforma em algo muito conscienteem mim. Eu começo a refletir sobreo que eu faço. Então, é uma escolhapolítica consciente. É, sim, uma es-Revista Ponto & Vírgula — ### de #### 7editoriaFotos: ############
  • 8. colha política, porque, como eu fa-lei, eu vejo a nossa profissão como ade historiadores do cotidiano. O quea gente produz é documento sobreo que está acontecendo agora. Issoinfluencia a vida das pessoas hoje evai influenciar a compreensão destemomento histórico daqui a cinqüen-ta, cem anos. Então, sempre que eufaço uma matéria, que seja uma notaou uma matéria de vinte páginas, eupreciso ter a certeza de que, quan-do o historiador, daqui a cem anos,procurar minha matéria num arqui-vo digital, ele vai ser bem informadosobre esta época, sobre este momen-to histórico. Sobre as contradições,sobre as nuances. Ele vai ter essas in-formações. Eu faço o meu trabalhocom o peso dessa responsabilidade.O dia em que eu achar que nãodou mais conta disso, por algummotivo, eu vou deixar de fazer essetrabalho, porque é muito sério.Quando a gente reduz a realidade,a gente comete um crime. Então,quando a gente está contando onosso momento histórico e a gentedeixa de fora a maior parte das pes-soas, dos homens e das mulheres queconstroem este país, este mundo,esta comunidade, a gente está dizen-do para essas pessoas que as vidasdelas não importam. Que a mortedelas também não importa. E issotem um efeito enorme sobre a vidadessas pessoas.Então a minha escolha política écontar a vida da maioria das pesso-as. A vida das pessoas supostamentecomuns. E mostrar que não existemvidas comuns. Toda vida é extraor-dinária. Por isso, eu também digoque sou uma repórter de desacon-tecimentos. Porque eu me interes-so mais por aquilo que se repete.E por aquilo que se repete sem queninguém veja. Então, são desacon-tecimentos desde a vida só suposta-mente comum das pessoas, como édesacontecimento aquilo que se re-pete e que não é visto, como essa ge-ração de jovens pobres e, a maioriadeles, pardos e negros, que morremantes dos vinte anos. Como até essesconflitos na República Democráticado Congo, como outros conflitosafricanos, que, por se repetirem, vi-ram desacontecimentos. Desaconte-cem. E a imprensa, em geral, cobreos acontecimentos, aquilo que, derepente, sai da rotina. Só que temrotinas de violência, tem rotinas devários tipos que precisam ser conta-das. Então a minha escolha é umaescolha política.Você chegou a mencionar oconteúdo das reportagensque, atualmente, é armaze-nado, publicado e comparti-lhado digitalmente.editoriaRevista Ponto & Vírgula — ### de ####8 Fotos: ############
  • 9. Partindo disso, como você vêo futuro do impresso?Eu não me preocupo com o futu-ro do impresso, até porque eu nãotenho como saber o que vai aconte-cer. Eu me preocuparia se estivesseem risco a reportagem, o futuro dareportagem. E isso eu tenho certezade que não está em risco. Porque areportagem, pelo menos da formaque eu vejo, é a narrativa da His-tória contemporânea, da históriacotidiana. E isso não tem como nãoser contado. A humanidade existecomo narrativa. Nós sabemos queexistimos pela narrativa. Que, antes,era oral e, agora, é também escrita.Então, não existe como isso morrer.A reportagem é uma coisa que vaisempre existir.Agora, se ela é feita em meios di-gitais ou impressos, acho que isso éum problema menor. Claro que temuma questão de modelo de negóciosque está em discussão e que nos afe-ta e que é importante. Modelos definanciamento das reportagens, es-pecialmente. A reportagem é umacoisa cara, acho que sempre vai sercara. Então todas essas discussõessão importantes.Mas o que me importa mais é tercerteza de que a reportagem jamaisvai morrer. A imprensa pode mudara plataforma. E eu acho que é atémeio inevitável que tudo isso seja,cada vez mais, digital. Porque é umamudança tecnológica muito impor-tante, muito revolucionária. E eu jáleio grande parte dos livros, hoje,em e-book. Eu viajo muito, então,pra mim, é maravilhoso poder car-regar quinhentos livros em algo quetem menos de um quilo. E, hoje, eutrabalho, fundamentalmente, na in-ternet e acho que a internet dá pos-sibilidades que antes eu não tinha.Como a de poder dar para os textoso tamanho que os textos merecemter, o que sempre foi uma grandequestão pra mim.Mas eu acho que a reportagematé vive um grande momento, apesarde todas essas indefinições, todas es-sas dúvidas, essas inseguranças quesempre fazem parte de qualquer mu-dança. É um momento muito ricoporque com toda essa quantidadede informações na rede, com tantagente escrevendo, com tantas vozesnarrativas novas que a gente tem,hoje, a gente vai precisar ser muitomelhor. A gente vai precisar fazer re-portagens muito melhores para serlido. Porque tem que ser algo muitobom, hoje, para que o leitor dê o seutempo para ler a nossa reportagem.Então, a reportagem ganha comisso. Os grandes repórteres e as boasreportagens estão beneficiados poressa competição que hoje é muitomaior, por causa da internet.A fotógrafa e assessora deimprensa dos MSF, VániaAlves, registrou momentosdo dia-a-dia das famíliasentrevistadas por Eliane.Revista Ponto & Vírgula — ### de #### 9editoriaFotos: ############