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A Segunda Geração Romantismo
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A Segunda Geração Romantismo

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  • 1. A SEGUNDA GERAÇÃO INDIVIDUALISTA, ULTRA-ROMÂNTICA OU GERAÇÃO DO MAL DO SÉCULO
  • 2. A SEGUNDA GERAÇÃO Byron foi o principal "poeta maldito" do Romantismo e deixou atrás de si um número incontável de seguidores. Esta geração surgiu na década de 1850, quando o nacionalismo e o indianismo deixavam de fascinar a juventude e iniciava-se o longo processo de estabilidade do II Império. Por outro lado, o desenvolvimento urbano, o nascimento de uma vida acadêmica em São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador e Recife e, até mesmo, uma relativa sofisticação dos estratos médios e superiores da estrutura social brasileira possibilitaram a criação de uma lírica voltada quase que exclusivamente para a confissão e o extravasamento íntimo.
  • 3. A SEGUNDA GERAÇÃO A nova geração foi influenciada pelo inglês Byron e pelo francês Musset, autores ultrarromânticos que haviam se tornado os modelos universais de rebeldia moral, de recusa à insipidez da vida cotidiana e de busca de novas formas de sensualidade e de afeto. De sua imitação, resultou, quase sempre, o pastiche. Até sociedades satânicas, a exemplo das existentes na Europa, foram fundadas. Os adolescentes que as compunham viviam pretensas orgias e dissipações fantasiosas, que resultavam da leitura e das imaginações pervertidas. Na verdade, a pobreza do meio e a rigidez patriarcal impediam que este satanismo tivesse qualquer importância no contexto estético e ideológico brasileiro.
  • 4. A SEGUNDA GERAÇÃO Outro fato sempre lembrado desta geração é a dramática coincidência de quase todos os seus integrantes morrerem na faixa dos vinte e poucos anos. Versos soltos e alguns poemas parecem alimentar a suspeita de que esses jovens cultivavam idéias suicidas. No entanto, todos eles - à parte o caso mais complexo de Álvares de Azevedo - foram vitimados por doenças então incuráveis e manifestaram grande horror perante a morte. Não se sustenta, portanto, a idéia de um suicídio coletivo geracional.
  • 5. ÁLVARES DE AZEVEDO (1831-1852) Obras: Lira dos vinte anos (poemas - 1853) Noite na taverna (contos - 1855) O conde Lopo (poema – 1886) Macário (poema dramático - 1855).
  • 6. Vida de Álvares de Azevedo Nasceu na cidade de São Paulo e era descendente de duas ilustres famílias. O pai ocupara importantes cargos públicos (juiz de direito; chefe de polícia, deputado geral), tanto na capital paulista quanto no Rio de Janeiro, para onde se transferira com a família, passando a residir em Niterói. Toda a formação básica e secundária de Manuel Antônio Álvares de Azevedo foi feita na capital do Império. Em 1848, ele voltou a São Paulo para cursar a Faculdade de Direito, participando ativamente da vida acadêmica e literária de seu tempo. Revelou-se um aluno brilhante e um colega estimado, mas o caráter provinciano da Paulicéia, a mediocridade de sua vida social e a incapacidade do poeta de estabelecer um relacionamento amoroso concreto o tornaram bastante infeliz. Sentia saudades de casa, especialmente da mãe e da irmã, e a exemplo de seus companheiros de curso consumia-se na leitura dos autores malditos do Romantismo europeu. Este desnível entre as vidas intensas dos europeus e a pobreza de experiências dos universitários de São Paulo certamente o atormentava. Ele, porém, não se tornou um alienado das coisas locais. Numa sociedade acadêmica, que reunia os colegas, proferiu duro discurso contra a educação pública no Brasil, dizendo que ela era "um escárneo", em particular "a instrução primária para as classes baixas".
  • 7. Vida de Álvares de Azevedo Nas férias longas, entre o ano letivo de 1849 e 1850, os familiares repararam no caráter acabrunhado e melancólico do "Maneco". A leitura desenfreada dos ultra-românticos, a solidão e o desejo insatisfeito pareciam deprimi-lo, aproximando-o de inclinações mórbidas. No início de 1852, a tísica se manifestou. Como disse um de seus biógrafos: "O infeliz byroniano que durante anos declamara versos macabros por mero esnobismo via com horror chegar a sua morte." Neste momento dramático, escreveu alguns de seus poemas mais desesperados. Em seguida, após curta passagem pelo campo, na fazenda de um tio, pareceu se recuperar, chegando a pedir transferência de Faculdade - de São Paulo para Olinda, onde o clima seria mais propício à tuberculose - mas uma queda de cavalo afetou-lhe a região ilíaca. Os médicos resolveram operá-lo, obviamente sem anestesia. Ele suportou as dores, porém tudo foi inútil: a tísica havia destruído as imunidades de seu organismo. Poucos dias depois morreu. Era abril de 1852 e faltavam cinco meses para que completasse vinte e um anos de idade. Nenhum de seus livros tinha sido publicado. E a "glória que pressinto em meu futuro" , como ele diz em um de seus poemas, viria após o falecimento.
  • 8. Análise Obra A obra de Álvares de Azevedo, fortemente autobiográfica, traz a marca da adolescência, mas de uma adolescência tão dilacerada e conflituosa que acaba por representar a experiência mais pungente do Romantismo brasileiro, tanto do ponto de vista pessoal quanto do ponto de vista poético. Incansável leitor, surpreendentemente culto, o jovem paulista viveu a contradição entre o saber livresco e os seus limites existenciais. Sua alternativa é o fingimento: "Finge um formidável conhecimento da vida", diz dele Mário de Andrade. Em muitos poemas expressa essa "pose de cinismo" que nasce, simultaneamente, da imitação dos ultra-românticos europeus e da fantasia delirante. Por sorte, no seu universo lírico, os temas se ampliam, superando o artificialismo byroniano, o que lhe assegura um lugar privilegiado na história literária do período.
  • 9. Quatro são os seus temas preferidos: amor a morte o tédio o humor prosaico
  • 10. O AMOR É a parte menos convincente de sua lírica. A máscara satânica que tenta usar peca pela falsidade. As orgias em que submerge, os vícios que o escravizam e as dissipações que o arrastam para o lodo hoje provocam o riso do leitor. E não apenas porque o jovem escritor tenha ficado, de fato, virgem dessas vivências tresloucadas, mas porque - em seus poemas de "crimes morais e maldições" - poucos versos têm poder de persuasão e quase nada inquieta ou sobressalta.
  • 11. Veja-se o tom falso deste excerto:E por te amar, por teu desdém, perdi-me...Tresnoitei-me em orgias, macilento,Brindei, blasfemo, ao vício, e da minhalmaTentei me suicidar, no esquecimento!
  • 12. Amor e medo No entanto, como bem observou Mário de Andrade, o autor de Lira dos vinte anos (esse Dom Juan das aparências) acaba sendo traído pela própria interioridade. O grande devasso, o amante cínico, revela inconscientemente um medo obscuro das relações amorosas. Este medo se traduz, por exemplo, através da imagem da mulher adormecida.
  • 13. Numa série de poemas, a preparação erótica e a vontade sexual do adolescente se frustram, pois ele não quer acordar ("profanar") o objeto de seu desejo:Ó minha amante, minha doce virgem,Eu não te profanei, e dormes puraNo sono do mistério, qual na vida,Podes sonhar ainda na ventura.
  • 14. Em Soneto, um de seus textos melhor elaborados, Álvares de Azevedodescreve o sono da amada e cria sutil atmosfera que passa da idealização àsensualidade:Pálida à luz da lâmpada sombria,Sobre o leito de flores reclinada,Como a lua por noite embalsamada,Entre nuvens de amor ela dormia!Era a virgem do mar! na escuma friaPela maré das águas embalada...-- Era um anjo entre nuvens d alvoradaQue em sonhos se banhava e se esquecia!Era mais bela! o seio palpitando...Negros olhos, as pálpebras abrindo...Formas nuas no leito resvalando...
  • 15.  Diante disso, desse "seio palpitando", dessas "formas nuas no leito resvalando" o que faz o poeta? Atira-se sobre a encantadora como um lobo cheio de volúpia? Não; a timidez entrava o erotismo e ele simplesmente opta por ficar sorrindo e chorando pelo seu "anjo":Não te rias de mim, meu anjo lindo!Por ti - as noites eu velei chorando,Por ti - nos sonhos morrerei sorrindo!
  • 16.  Aliás, em vários momentos, quando o amor parece a ponto de se concretizar, o escritor prefere dormir, desmaiar ou morrer: "Na tua cheirosa trança / Quero sonhar e dormir!"; "Ah! volta inda uma vez! foi só contigo / Que à noite, de ventura eu desmaiava"; "E no teu seio ser feliz morrendo!"; "E morra no teu seio o meu viver!" No poema Tereza, chega a confessar explicitamente o seu medo:Não acordes tão cedo! enquanto dormesEu posso dar-te beijos em segredo...Mas, quando nos teus olhos raia a vida,Não ouso te fitar...eu tenho medo!
  • 17.  De acordo com Mário de Andrade, algumas das dificuldades de Álvares de Azevedo com o amor nascem da velha dicotomia entre o sexo e o sentimento. A impossibilidade de unir alma e carne - segundo a tradição cultural então vigente - exaspera-o. Não existe mulher que possa corresponder às duas exigências. Há aquelas para o amor e há outras para os instintos. As primeiras, donzelas virginais, são - no dizer do crítico - "inatingíveis". As segundas, anjos caídos que cedem a pureza de seus corpos, são "desprezíveis". E assim o poeta permanece dilacerado: à sua timidez soma-se a ausência de uma mulher capaz de satisfazê-lo física e espiritualmente.
  • 18. A MORTE Quando trata da morte - o aspecto mais conhecido de sua obra - pode-se perceber com clareza as qualidades expressivas do artista. Ela é um tema constante. O poeta a antevê, a profetiza para si próprio, não pode esquecê-la. De certa maneira, fez uma opção por ela - diferentemente de outros companheiros de geração que se desesperam ao perceber o fim - quis morrer aos vinte anos, entregar-se à "leviana prostituta", como se vê neste fragmento de Hinos do Profeta:A morte, leviana prostituta,Não distingue os amantes!....Eu, pobre sonhador! eu, terra incultaOnde não fecundou-se uma semente,Convosco dormirei...
  • 19. Seu eu morresse amanhã Mesmo assim, há desespero e angústia nessa entrega. Ele lembra as coisas que vai perder, os afetos, o futuro. Lamenta-se por isso. Por outro lado, a morte é a possibilidade de resolução de sua crise, de suas dores. Se eu morresse amanhã cristaliza esta ambigüidade amarga:Se eu morresse amanhã, viria ao menosFechar meus olhos minha triste irmã;Minha mãe de saudades morreriaSe eu morresse amanhã!Quanta glória pressinto em meu futuro!Que aurora de porvir e que manhã!Eu perdera chorando essas coroasSe eu morresse amanhã!
  • 20. Seu eu morresse amanhãQue sol! que céu azul! que doce nalvaAcorda a natureza mais louçã*!Não me batera tanto amor no peitoSe eu morresse amanhã!Mas essa dor da vida que devoraA ânsia de glória, o dolorido afã*...A dor no peito emudecera ao menosSe eu morresse amanhã!"Louçã: graciosa, encantadoraAfã: vontade, ânsia
  • 21. Lembrança de morrerNo poema Lembrança de morrer, Álvares de Azevedo dá instruções sobre o seu túmulo e sua lápide:"Quando em meu peito rebentar-se a fibra,Que o espírito enlaça à dor vivente,Não derramem por mim nem uma lágrimaEm pálpebra demente.E nem desfolhem na matéria impuraA flor do vale que adormece ao vento:Não quero que uma nota de alegriaSe cale por meu triste passamento. (...)Descansem o meu leito solitárioNa floresta dos homens esquecida,À sombra de uma cruz, e escrevam nelaFoi poeta, sonhou e amou na vida."
  • 22. O TÉDIO Na segunda parte de Lira dos vinte anos, as fantasias eróticas, a avidez pelo amor, os artifícios byronianos e mesmo a obsessão pela morte, cedem lugar a uma espécie de cansaço existencial, o tédio. O tédio, ou "mal du siècle", para os românticos europeus, era uma espécie de cinismo e enfado de quem tudo viveu, tudo experimentou: sexo, bebidas, ópio, transgressões. Mais tarde, Baudelaire diria que lera todos os livros, amara todas as mulheres mas que sua carne permanecia triste. Esta é a definição mais perfeita do mal do século. Já no caso de Álvares de Azevedo, o tédio resultava da falta de vivências a que a cidade de São Paulo o condenava. Era uma cidadezinha provinciana, medíocre, de insípida vida noturna, sem horizontes para um rapaz sonhador.
  • 23.  Quase a pique de "suicidar-se de spleen*", o poeta atenua os excessos ultrarromânticos descendo do sublime, da atmosfera rarefeita e terrível das grandes paixões, e entrando na verdade de suas coisas íntimas, expõe a subjetividade sem véus imaginários.
  • 24.  E assim, descobrimos, por fim, o que ele realmente pensava e quem realmente ele era: um jovem tímido, inexperiente e sequioso de amor:Passei como Dom Juan entre as donzelas,Suspirei as canções mais doloridasE ninguém me escutou...Oh! nunca à virgem flor das faces belasSorvi o mel nas longas despedidas...Meu Deus! ninguém me amou!*Spleen: tédio em inglês.
  • 25.  Poucas vezes, na literatura brasileira, as confissões de um adolescente adquiriram tanto frescor, beleza e emoção. Esta alma solitária e impotente debateu-se entre o tédio, que o arrastava para a realidade e os ideais, que precisava para sobreviver, como vemos nestes fragmentos de Idéias íntimas, talvez o mais sedutor de seus poemas:Vou ficando blasé*, passeio os diasPelo meu corredor, sem companheiro,Sem ler, nem poetar... Vivo fumando.Minha casa não tem menores névoasQue as deste céu de inverno...Solitário,Passo as noites aqui e os dias longos.Dei-me agora ao charuto em corpo e alma; (...)Não passeio a cavalo e não namoro.
  • 26. Reina a desordem pela sala antiga,Desce a teia de aranha as bambinelas*À estante pulvurenta*. A roupa, os livrosSobre as cadeiras poucas se confundem.Marca a folha do Fausto um colarinho (...)E resta agora aquela vaga sombra na parede- Fantasma de carvão e pó cerúleo* -Tão vaga, tão extinta e fumarentaComo de um sonho o recordar incerto.
  • 27. O pobre leito meu, desfeito ainda,A febre aponta da noturna insônia.Aqui lânguido à noite debati-meEm vãos delírios anelando um beijo...(...)Foram sonhos contudo. A minha vidaSe esgota em ilusões. (...)Oh! ter vinte anos sem gozar de leveA ventura de uma alma de donzela!E sem na vida ter sentido nuncaNa suave atração de um róseo corpoMeus olhos turvos se fechar de gozo! (...)
  • 28. Meu pobre leito! eu amo-te contudo!Aqui levei sonhando noites belas,As longas horas olvidei libando*Ardentes gotas de licor doirado.Esqueci-as no fumo, na leituraDas páginas lascivas do romance...(...)E a mente errante devaneia em mundosQue esmalta a fantasia! Oh! quantas vezesDo levante no sol entre odaliscas,Momentos não passei que valem vidas!Quanta música ouvi que me encantava!Quantas virgens amei! (...)
  • 29. Parece que chorei...Sinto na faceUma perdida lágrima rolando...Satã leve a tristeza! Olá, meu pajem,Derrama no meu copo as gotas últimasDessa garrafa negra...Eia! bebamos!És o sangue do gênio, o puro néctarQue as almas de poeta diviniza,O condão que abre o mundo das magias!Vem fogoso cognac! É só contigoQue sinto-me viver.(...)E eu me esquecia...Faz-se noite; traz o fogo e dois charutosE na mesa do estudo acende a lâmpada...* Blasé: entediado.* Bambinelas: cortinas.* Pulvurenta: empoeirada.* Cerúleo: da cor do céu.* Libando: bebendo.
  • 30. O HUMOR PROSAICO Um dos traços mais surpreendentes de Álvares de Azevedo é a ironia, resultante da descoberta do risível nas coisas prosaicas. Sem qualquer exacerbação sentimental, o poeta olha para tudo aquilo que o cerca e penetra humoristicamente no cotidiano. Nenhum romântico antes ou depois dele conseguiu efeitos tão engraçados e inesperados. No mais das vezes, a ironia tem rara fineza. Em Spleen e charutos, obra composta por seis poemas, o humor prima pela sutileza, como nesta estrofe de Solidão:Ó lua, ó lua bela dos amores,Se tu és moça e tens um peito amigo,Não me deixes assim dormir solteiro,À meia-noite vem cear comigo.
  • 31. OUTRAS OBRAS - MACÁRIO (TEATRO) Em Macário, Álvares de Azevedo intentou criar uma obra dramática em prosa. São cinco cenas de qualidade variável e pouco propícias à encenação. Na peça, um jovem, Macário, viajando rumo a cidade de São Paulo, onde vai estudar, pára numa estalagem no meio do caminho e faz amizade com um desconhecido mais velho, que é nada menos que o próprio Satã. Ambos iniciam então uma série de diálogos nos quais refletem cinicamente (em especial o diabo) sobre o sentido da vida, da morte, do amor e do sexo.
  • 32. Macário Na segunda cena, quando abandonam a estalagem e marcham para São Paulo, ocorre o melhor momento da peça, pois Satã faz análises hilariantes da realidade paulistana. Observe-se este diálogo entre o estudante e o demônio: Macário: Por acaso há mulheres ali? (Em São Paulo) Satã: Mulheres, padres, soldados e estudantes. (...) Para falar mais claro as mulheres são lascivas, os padres dissolutos, os soldados ébrios, os estudantes vadios. Isso salvo honrosas exceções, por exemplo, de amanhã em diante tu. Macário: Esta cidade deveria ter o teu nome. Satã: Tem o de um santo: é quase o mesmo. Não é o hábito que faz o monge. Demais essa terra é devassa como uma cidade, insípida como uma vila e pobre como uma aldeia. (...) Até as calçadas... Macário: Que têm? Satã: São intransitáveis. Parecem encastoadas* as tais pedras. As calçadas do inferno são mil vezes melhores. Mas o pior da história é que as beatas e os cônegos cada vez que saem, a cada topada, blasfemam tanto com o rosário na mão que já estou enjoado. * Encastoadas: embutidas.
  • 33.  Na terceira cena, na casa de Satã, já na cidade, a temática concentra-se na questão do amor, visto como ilusão e sentimento ligado à morte. Na cena seguinte, Macário acorda de novo na pensão, como quem acordasse de um longo sonho, porém marcas chamuscadas no assoalho sugerem a passagem real do diabo. A segunda parte da peça é assinalada pela presença de um personagem angelical (a antítese de Satã) chamado Penseroso. O artificialismo dos diálogos e a desarticulação das cenas tornam essa parte muito inferior à primeira. Quase no final, o puro Penseroso morre e Macário volta a se ligar com Satã, que então conduz o rapaz a uma orgia. Não para participar da mesma e sim para observá-la.
  • 34. Macário Macário: Onde me levas? Satã: A uma orgia. Vais ler uma página da vida; cheia de sangue e vinho - que importa? (...) Paremos aqui. Espia nessa janela. Macário: Eu vejo-os. É uma sala fumacenta. À roda da mesa estão sentados cinco homens ébrios. Os mais revolvem-se no chão. Dormem ali mulheres desgrenhadas... umas lívidas, outras vermelhas... Que noite! Satã: Que vida! Não é assim? Pois bem, escuta, Macário. Há homens para quem essa vida é mais suave que a outra. O vinho é como o ópio, é o Letes* do esquecimento... A embriaguez é como a morte... Macário: Cala-te. Ouçamos.* Letes: rio do Inferno mitológico.
  • 35. NOITE NA TAVERNA (CONTOS) Se fôssemos cobrar verossimilhança dos contos que compõem o livro Noite na taverna, certamente riríamos desses sete rapazes que bebem, fumam, gritam, e - enquanto a fumaça se mistura com os eflúvios da cerveja e do conhaque - narram histórias de suas vidas orgíacas e criminosas. Há algo de falsidade (e mesmo de bobagem pueril) nas cenas de necrofilia, incesto, canibalismo, assassinato e violação de todos os códigos morais que eles vão contando, falsamente horrorizados com o seu próprio desregramento. No entanto, apesar de sua total improbabilidade, esses relatos cínicos ainda hoje exercem uma sedução nos leitores, especialmente os mais jovens, mostrando que não se deve cobrar dos contos realismo e sim aquilo que eles representam simbolicamente.
  • 36. Tendências góticas? A partir do final do século XVIII e durante todo o Romantismo se desenvolveu um tipo de narrativa que ficou conhecida como gótico (2). Walnice Nogueira Galvão delimitou-o assim: O gótico invoca as potências das trevas e exerce o ocultismo, a feitiçaria, a missa negra, a necrofilia, o culto ao demônio. Num clima onírico sepulcral predominam o informe, o inquietante. Compõem o cenário o castelo mal-assombrado, o cemitério, as ruínas, a bruma, entre as imagens dos mundos ínferos, tais como a masmorra, o porão, o túmulo. Pouco se disfarçam a sedução da morte e do aniquilamento. A prosa tempestuosa mimetiza as pulsões e projeções do inconsciente, às voltas com a atração pelo sacrilégio e pela profanação.
  • 37.  Ora, nos relatos curtos de Álvares de Azevedo predominam a concepção noturna da existência, a atração pela morte, o amoralismo com que se trai e se mata, além de compulsões incestuosas e necrófilas. Ou seja, elementos do gótico. O resultado é a criação de um mundo de sombras, onde indivíduos - torturados por impulsos proibidos - praticam ações que revelam o lado sujo e perverso de suas almas. Talvez Álvares de Azevedo quisesse indagar, como disse Antonio Candido - através de suas histórias macabras, perversas e até mesmo risíveis - sobre os limites da crueldade e das possibilidades diabólicas do ser humano. Tudo isso o aproxima do gótico e dá certa consistência aos contos que assim ultrapassam a dimensão da falsidade melodramática* e transformam-se em opressivo pesadelo. Como exemplo, podemos lembrar um desses relatos.* Melodramática: que apresenta exagero sentimental e gosto pelo patético.
  • 38. CASIMIRO DE ABREU (1839-1860) Obra: Primaveras (1850)
  • 39. Vida de Casimiro de Abreu Filho de um rico comerciante português e de mãe brasileira, Casimiro de Abreu nasceu em Barra de São João, no estado do Rio de Janeiro, tendo passado a infância numa fazenda, de onde sairia apenas para realizar seus estudos primários em Nova Friburgo. Enviado à capital do Império pelo pai, a fim de praticar o comércio, mostrou-se pouco apto à profissão. O pai não desistiu e com o mesmo objetivo o enviou para Lisboa. Casimiro tinha então quatorze anos. Após quatro anos em Portugal, retornou ao Brasil, entregando-se a uma vida boêmia, sem contudo largar do comércio. A publicação de Primaveras o consagrou nacionalmente, um ano antes de sua morte. Já idolatrado pelo público da época, descobriu que estava tuberculoso, vindo a falecer quase que imediatamente, antes de completar o seu vigésimo-segundo aniversário.
  • 40.  Subjetivista como Álvares de Azevedo, Casimiro de Abreu substitui as conotações dolorosas que aquele confere à adolescência por uma visão graciosa e deslumbrada dos tempos juvenis. Se, para o autor de Lira dos vinte anos, a mocidade é um processo noturno de vigílias e tensões, se, para ele, "tristes são os destinos deste século", para Casimiro de Abreu a mesma mocidade é "a primavera da vida", processo diurno, sempre associado a namoricos, jardins com bananeiras, borboletas e salões de baile onde se flerta ao som de valsas langorosas. De certa forma, sua lírica corresponde ao romance de Joaquim Manuel de Macedo, seja na temática, seja na simplicidade da linguagem. É uma poesia espontânea. E não raro esta espontaneidade - reforçada pelo estilo singelo e pela atmosfera musical - cria o encantamento no leitor, independentemente da visível superficialidade dos versos.
  • 41. A rigor, o livro Primaveras articula-se em torno de três temas básicos: lirismo amoroso a saudade da pátria e da infância a tristeza da vida
  • 42. A SAUDADE DA PÁTRIA E DA INFÂNCIA Vivendo três anos em Portugal, onde elaborou boa parte de Primaveras, Casimiro de Abreu desenvolveu o sentimento de exílio, que tanto perseguia os românticos. Inspirado em Gonçalves Dias, escreveu uma série de poemas impregnados de nostalgia da terra natal, denominados Canções do exílio. Neles, contudo, não chega a alcançar o nível de seu modelo. No entanto, não é apenas a saudade do Brasil e a correspondente sensação de estar exilado que anima a sua lírica. O que o consagrou foi a nostalgia (tipicamente romântica) daquelas realidades pessoais que ficam para trás: a mãe, a irmã, o lar, a infância. Tornou-se, por excelência, o poeta da "aurora da vida", do tempo perdido, das emoções da meninice. Mesmo sabendo que a infância não significa o paraíso, sucumbiu à doçura dessas lembranças.
  • 43. Meus oito anos À parte isso, o poeta atrai o leitor com o ritmo fácil, a singeleza do pensamento, a ausência de abstrações, o caráter recitativo e o tratamento sentimental que empresta ao tema, garantindo a eternidade de pelo menos um poema:Meus oito anosOh! que saudades que tenhoDa aurora da minha vida,Da minha infância queridaQue os anos não trazem mais!Que amor, que sonhos, que flores,Naquelas tardes fagueirasÀ sombra das bananeiras,Debaixo dos laranjais!
  • 44. Como são belos os diasDo despontar da existência!- Respira a alma inocênciaComo perfumes a flor;O mar é - lago sereno,O céu - um manto azulado,O mundo - um sonho dourado,A vida - um hino damor!Que auroras, que sol, que vida,Que noites de melodiaNaquela doce alegria,Naquele ingênuo folgar!O céu bordado destrelas,A terra de aromas cheia,As ondas beijando a areiaE a lua beijando o mar!
  • 45. Oh! dias da minha infância!Oh! meu céu de primavera!Que doce a vida não eraNessa risonha manhã.Em vez das mágoas de agora,Eu tinha nessas delíciasDe minha mãe as caríciasE beijos de minha irmã!Livre filho das montanhas,Eu ia bem satisfeito,De camisa aberto ao peito,- Pés descalços, braços nus -Correndo pelas campinasÀ roda das cachoeiras,Atrás das asas ligeirasDas borboletas azuis!
  • 46. Naqueles tempos ditososIa colher as pitangas,Trepava a tirar as mangas,Brincava à beira do mar;Rezava às Ave-Marias,Achava o céu sempre lindo,Adormecia sorrindoE despertava a cantar!Oh! Que saudades que tenhoDa aurora de minha vida (...)
  • 47. A TRISTEZA DA VIDANo final de uma vida breve, pressentindo a morte, o poeta aprofunda o sentimento de tristeza - já presente em seus textos saudosistas, até transformá-lo num sentimento quase desesperado de impotência perante o destino, conforme se pode verificar em Livro negro, composto por doze poemas doloridos. Deles, o mais significativo é Minha alma é triste:Minha alma é triste como a rola aflitaQue o bosque acorda desde o albor da auroraE em doce arrulo que o soluço imitaO morto esposo gemedora chora.E, como rola que perdeu o esposo,Minhalma chora as ilusões perdidasE no seu livro de fanado gozoRelê as folhas que já foram lidas.“ Casimiro escreveu também um texto para teatro, Camões e Jau. Montada em Lisboa, em 1856, às custas do pai, resultou em grande malogro, nada acrescentando à sua obra.
  • 48. FAGUNDES VARELA (1841-1875) Obras principais: Noturnas (1861); Vozes da América (1864); Cantos e fantasias (1865); Cantos meridionais (1869); Anchieta ou o Evangelho nas selvas (1875).
  • 49. Biografia Fagundes Varela Luís Nicolau Fagundes Varela nasceu em Rio Claro, Rio de Janeiro. Era filho de fazendeiros e viveu um período no ambiente rural que mais tarde descreveria em seus versos. O pai era magistrado e político da província e a família teve de mudar-se muitas vezes. A infância de Fagundes Varela foi marcada por essas alterações contínuas de domicílio. Bastante jovem, matriculou-se na Faculdade de Direito, em São Paulo. Lá entrou na vida boêmia, "como um Byron exasperado", sempre envolvido em bebedeiras, pequenos escândalos e muitas dificuldades financeiras. Acabou se casando com uma artista de circo e com ele teve um filho, que logo morreria e que constituiria a inspiração de Cântico do Calvário.
  • 50. Cont. Biografia Fagundes Varela Fracassando o seu casamento, transferiu-se para o Recife a fim de continuar seus estudos jurídicos. A morte de sua mulher - que ficara no Sul - o trouxe de volta para a Faculdade de Direito de São Paulo. No entanto, nunca acabou o curso. Atormentado pelo álcool e por problemas emocionais, retornou para a fazenda dos pais. Era visto nas fazendas próximas, caminhando sem destino, quase sempre bêbado. Em 1869, casou-se outra vez e passou a morar em Niterói, sem que tivesse se curado do alcoolismo. Em 1875, foi vitimado por um derrame. O surpreendente é que nessas condições de vida (no dizer de um crítico, Varela teve a biografia mais "romântica" de todo o nosso Romantismo) ele ainda tenha deixado uma obra literária relativamente significativa.
  • 51. Análise Obra O crítico Alfredo Bosi afirma que Fagundes Varela é o epígono* por excelência da poesia romântica. Isto é, um poeta que segue outros, sem alcançar uma temática e uma expressão próprias. Outro crítico, José Veríssimo, resumiu a obra do escritor numa frase implacável: "Deixa- nos a impressão do já lido.“ No seu livro de estréia, Noturnas, é possível identificar-se o lirismo byroniano, à moda de Álvares de Azevedo, ou o lirismo meigo, à moda de Casimiro de Abreu. Até o tema do índio, à la Gonçalves Dias, - que já caíra em desuso - é retomado em Anchieta ou o Evangelho nas selvas. Chega, inclusive, a antecipar o condoreirismo, apresentando uma visão abolicionista em poemas como Mauro, o escravo, de 1864. Na maior parte de seus escritos, porém, falta originalidade. *Epígono: discípulo, seguidor menor de um grande artista menor.
  • 52. A POESIA SERTANEJA Apesar disso, mesmo os críticos mais implacáveis de Varela reconhecem os momentos felizes de sua obra. É o caso de alguns poemas constituídos por pequenos flagrantes da natureza e da vida campestre, elaborados numa linguagem coloquial e sugestiva. Como nenhum outro romântico, conheceu a fundo o universo rural brasileiro. Suas descrições parecem captar as cores, os cheiros e os sons do cotidiano do interior, como neste fragmento de A roça:O balanço da rede, o bom fogoSob um teto de humilde sapé;As palestras, os lundus, a viola,O cigarro, a modinha, o café;
  • 53. E depois um sorrir de roceira,Meigos gestos, requebros de amor;Seios nus, braços nus, tranças soltas,Moles falas, idade de flor; (...) Na observação de um crítico, é só no campo que Varela se sente à vontade, pois está longe da degradação dos vícios urbanos. Em contato com a vida rural, sua expressão poética adquire a originalidade que lhe falta no resto dos textos. Os versos singelos e musicais evocam a todo instante a flora e a fauna sertanejas, como em A flor do maracujá:
  • 54. Pelas rosas, pelos lírios,Pelas abelhas, sinhá,Pelas notas mais chorosasDo canto do sabiáPelo cálice de angústiasDa flor do maracujá!(...)Por tudo o que o céu revela!Por tudo o que a terra dáEu te juro que minhalmaDe tua alma escrava está!...Guarda contigo este emblemaDa flor do maracujá. (...)
  • 55. No poema As letras, que refere o velho hábito interiorano de gravar o nome da amada no tronco de árvores, o poeta faz uma encantadora reflexão sobre a passagem do tempo, sobre a saudade mesclada com o desejo de reencontro, e sobre as ilusões que se perdem:Na tênue casca de verde arbustoGravei teu nome, depois parti;Foram-se os anos, foram-se os meses,Foram-se os dias, acho-me aqui.Mas ai! o arbusto se fez tão alto,Teu nome erguendo, que mais não vi!E nessas letras que aos céus subiamMeus belos sonhos de amor perdi.
  • 56. CÂNTICO DO CALVÁRIO A obra-prima inquestionável de Fagundes Varela resulta da perda de seu filho, ainda pequenino. Trata-se de uma elegia* em versos brancos, capaz de comover até hoje, não apenas pela sinceridade do sofrimento paterno, mas também pela beleza dramática das metáforas que parecem antecipar a linguagem poética do Simbolismo. Observe-se a parte inicial de Cântico do Calvário:
  • 57. Eras na vida a pomba prediletaQue sobre um mar de angústias conduziaO ramo da esperança. - Eras a estrelaQue entre as névoas do inverno cintilavaApontando o caminho ao pegureiro*.Eras a messe* de um dourado estio*.Eras o idílio* de um amor sublime.Eras a glória, - a inspiração, - a pátria,O porvir de teu pai! - Ah! no entanto,Pomba, - varou-te a flecha do destino!Astro, - engoliu-te o temporal do norte!Teto - caíste! - Crença, já não vives!
  • 58. Correi, correi, oh! lágrimas saudosas,Legado acerbo* da ventura extinta,Dúbios archotes que a tremer clareiamA lousa fria de um sonhar que é morto!• Elegia: poema fúnebre ou simplesmente melancólico• Pegureiro: pastor de rebanhos• Messe: colheita• Estio: verão• Idílio: amor poético.• Acerbo: amargo.• Lousa: pedra que cobre a sepultura

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