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70 anne mather - um desejo a mais (paixao 70)

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  • 1. UM DESEJO A MAIS Anne Mather Harlequin Paixão 70 Autora Best Seller ISBN978-85-7687-466-9 PUBLICADO SOB ACORDO COM HARLEQUIN ENTERPRISES Copyright © 2006 by Anne Mather Título original: STAY THROUGH THE NIGHT Originalmente publicado em 2006 por Mills & Boon Modern Romance Editoração eletrônica: TopTextos Edições Gráficas Ltda. Impressão: RR DONNELLEY Distribuição exclusiva para bancas de jornais e revistas de todo o Brasil: Fernando Chinaglia Distribuidora S/A Editora HR Ltda. Sombras na noite… Liam Jameson é um sexy escritor de livros de terror conhecido internacionalmente. Mas a fama lhe cobrou um alto preço, e o fez viver isolado numa remota ilha da Escócia… Até que Rosa Chantry bate à sua porta e transforma o seu mundo. Seu desejo por ela é forte. Porém, mais forte ainda é a convicção de não ser capaz de manter uma mulher ao seu lado. Mas Rosa está determinada a afastar dele o medo de não ser aceito tal como é… A autora best seller Anne Mather já publicou mais de 150 romances, que ultrapassaram a marca de 100 milhões de exemplares vendidos em todo o mundo. PROJETO REVISORAS Este livro faz parte de um projeto sem fins lucrativos.Sua distribuição é livre e sua comercialização estritamente proibida. Cultura: um bem universal. Doação do livro: Manuela Carneiro Digitalização: Palas Atenéia Revisão: Edith Suli 1
  • 2. CAPÍTULO UM FAZIA frio. Na verdade, muito mais do que Rosa esperava. Quando elachegou, na noite anterior, associou o frio à chuva fina, bem como a suaansiedade e apreensão. Mas de manhã, depois de uma boa noite de descansoe uma tigela de mingau escocês, não havia desculpas. Onde estava o calor que deveria tomar conta do Reino Unido em julho eagosto? Não ali em Mallaig, com certeza. Enquanto se lamentava, Rosaobservava a sala aconchegante da pousada onde passara a noite. É claro que parte daquele desânimo se devia à consciência de que dentrode poucas horas estaria entrando num território totalmente desconhecido. Umailha a duas horas da costa da Escócia não lhe parecia um lugar agradável. Eera esse o motivo de sua presença em Mallaig, de onde iria para Western Isles. Dentro de uma hora estaria num barco — navio? — que a levaria a Kilfoil,e ainda não sabia se era lá que Sophie estava. Felizmente, havia levado algumas roupas de frio, e naquela manhã vestirauma camiseta, uma camisa e um suéter de lã. Ao sentir o vento frio vindo domar, achou que teria de vestir também seu casaco de cachmere para fazer atravessia até a ilha. Arrependeu-se de não ter levado seu sobretudo de couro,que era mais longo e manteria suas pernas aquecidas. Apesar do frio, a vista era magnífica. A ilha de Skye ficava perto, e elaimaginou se aquelas montanhas avermelhadas seriam as famosas Cuillins. Nãosabia. Na verdade, sabia muito pouco sobre aquela parte da Escócia. Emboraseu avô Ferrara tivesse ficado preso perto de Edimburgo durante a guerra, elanunca havia viajado para o norte além de Glasgow. Tinha tios e tias lá, massuas visitas haviam sido poucas e esporádicas. Agora se arrependia de não ter tido mais aventuras quando teve aoportunidade. Mas ingressara na universidade, casara-se com um inglês evivera em Yorkshire a maior parte de sua vida. Era fácil encontrar umadesculpa para sua falta de aventuras na mãe viúva e na irmã mais nova. Mas averdade é que nunca gostara de aventuras, e Collin sempre preferia passar asférias na Espanha, onde podia ficar bronzeado. É claro que Collin já não podia mais ser uma desculpa. Três anos antes,quando descobrira que ele a traía com a secretária de seu chefe, Rosa nãohesitara em pedir o divórcio. Collin implorara para que não destruísse umcasamento de cinco anos por causa de um único erro, mas ela sabia que ele atraíra outras vezes e que aquela não seria a última. Felizmente — ou infelizmente, admitiu — eles não tinham filhos parasofrer com a separação. Rosa nunca engravidara, mas não sabia se a culpa eradela ou dele. É claro que durante o divórcio CoHin a culpara por suainfidelidade. Se ela não passasse tanto tempo naquela maldita escola comaquelas crianças que não gostavam dela, talvez o casamento tivesse umachance. Mas Rosa sabia que era uma desculpa. Sem seu salário de professora de inglês, Collin não teria viajado tanto pelaEuropa como gostava. Agora aquilo fazia parte do passado, pensou. Embora as coisas que Collinfizera ainda doessem um pouco, ela seguia sua vida. Até aquele telefonema na 2
  • 3. véspera, que a levava àquela procura difícil em Kilfoil. Mas sua mãe estavadesesperada, e Rosa sabia que não tinha outra escolha a não ser atender a seupedido. Ela suspirou, pondo as mãos sobre a cerca e observando a água como seali pudesse encontrar respostas. E se sua mãe estivesse errada? E se Sophienão estivesse na ilha? Haveria alguma pensão ou hospedaria na ilha onde elapudesse passar a noite para tomar a balsa de volta no dia seguinte? Ela só poderia comprar a passagem para Kilfoil a partir das 9h, mas nãoteria problemas. Apenas turistas e mochileiros iam para aquela ilha. A maioriados passageiros ia para Skye. Ó, Deus, pensou, parecia um lugar tão remoto!Desejou que sua mãe estivesse ali. Seria tão bom ter alguém conhecido paraconversar… LIAM parou seu Audi no estacionamento e pôs as pernas para fora docarro. Em seguida, apoiando uma das mãos no teto e a outra no alto da porta,levantou-se e olhou em volta. O vento vindo do mar era cortante, mas ele não notou. Nascera emHampstead, mas vivia na Escócia havia dez anos, desde o sucesso estrondosode seu primeiro livro. E se acostumara ao clima. Um famoso diretor deHollywood gostara do livro e o transformara num filme de sucesso. Mas issoacontecera quando sua vida em Londres começara a ficar aos poucos — edepois violentamente — insustentável. Ele pôs uma das mãos sobre a coxa, sentido o sulco de carne rígida quese destacava abaixo.da virilha embora usasse jeans. Tivera sorte, refletiu. Dosmuitos ferimentos que sofrerá, aquele poderia tê-lo matado. Mas embora afaca tivesse atingido seriamente sua artéria femoral, causando-lhe uma perdade sangue quase fatal, rompendo nervos e tendões e tornando sua pernaesquerda permanentemente fraca, ele sobrevivera. Fora o atacante a morrer,esfaqueando a si próprio depois de confirmar que atingira seu objetivo. Liam fez uma careta, afastando os pensamentos. Aquilo acontecera haviamuito tempo, e desde então nenhum de seus livros tinha sido muito bemrecebido por seus leitores. Respirou fundo o ar frio do mar, feliz por terdecidido voltar de Londres durante a noite para embarcar na balsa naquelamanhã. Só haveria outra balsa quinta-feira, e ele estava impaciente paravoltar para Kilfoil e trabalhar. Olhando seu carro, flexionou os ombros e esticou as pernas, sentindo arigidez dos ossos depois de dirigir quase dez horas sem parar. Sua atenção sedesviou para uma mulher solitária inclinada sobre a cerca no fim do cais. Ocabelo dela o atraíra: bem ruivo e encaracolado, rebelando-se contra a faixaamarrada à nuca. Mas ela parecia não se importar. Observava a ilha de Skyecomo se procurasse alguma resposta na neblina sobre as montanhas. Liam deu de ombros. Obviamente era uma visitante. Vestida para o verãonas Highlands, pensou com ironia. Jack Macleod, que alugava veleiros a turistas, saudou Liam quando eledesceu do carro e começou a cruzar o terminal da balsa. — Estávamos começando a achar que você havia desistido de voltar —disse. — Voltei assim que pude. Já não gosto de ficar muito tempo em cidadessuperlotadas. 3
  • 4. — Ouvi dizer que você foi a Londres para ir ao médico. Espero que nãoseja nada sério. — Só um check-up — disse Liam rapidamente, sem querer discutir seusproblemas particulares em público. Ele sabia que suas vozes haviam chamadoa atenção da mulher no cais, e ela os olhava sobre os ombros. Rosa percebeu que eles haviam notado seu interesse e desviou o olhar,não antes de Liam registrar seu rosto oval e os olhos excepcionalmente pretospara uma mulher de sua cor. É claro que provavelmente a cor de seu cabelonão era natural, e, embora fosse alta, não era magra demais. — Então você vai pegar o barco esta manhã — continuou Jack, sem notarque Liam se distraíra e obrigando-o a ouvi-lo. — Se eu conseguir — disse Liam. Quando ele olhou novamente para trás, a mulher já não estava lá. ROSA voltou para a pousada, arrumou suas coisas e retornou ao terminalna hora de comprar sua passagem para Kilfoil. Achou que parecia uma turista,de jeans, tênis e mochila no ombro. Os outros mochileiros, fazendo fila paracomprar passagem, nem repararam nela. Diferentemente dos dois homens queela vira mais cedo no estacionamento. Bem, pelo menos um deles a olharacom atenção. E a achara interessante. Com certeza ela teria percebido se ele nãotivesse gostado do que viu. Mas não sabia ao certo se ele a havia notado porter percebido que ela os observava. De qualquer modo, ele era atraente, admitiu, com mais de 1,80m,calculou, e os ombros largos se destacando sob o cabelo despenteado.Imaginou que fosse um dos poucos pescadores que ainda trabalhavamnaquelas águas. Não parecia um turista, e o homem que estava com elecalçava galochas, pensou. Era provável que não os visse novamente, a não ser que um deles fossecapitão do barco que tomaria. Talvez alguém na balsa se lembrasse de umamenina loura bonita que teria viajado para Kilfoil na semana anterior. Eladeveria ousar perguntar sobre Liam Jameson? Não, achou melhor. Diziam queele vivia recluso. Mas então o que estivera fazendo num festival de música popem Glastonbury? Pesquisando? Achou que não. Sua mente se confundiu, o que sempre acontecia quando se lembrava doque sua mãe lhe dissera. Sophie já fizera tolices, mas nunca uma loucuradaquelas. Rosa achava que sua irmã finalmente estava tomando juízo, e que ela eMark Champion passariam a viver juntos. Mas agora aquele relacionamentoestava ameaçado por causa de um homem que Sophie conhecera no festival. Rosa apanhou seu bilhete e saiu novamente. A chuva diminuíra e o sol jábrilhava sobre as águas. Um bom presságio, pensou, procurando pela balsaque deveria partir em 45 minutos. Os pedestres embarcariam antes dosveículos. Ela viu aquele homem novamente enquanto esperava em fila no cais. Eleestava num dos carros que aguardavam o embarque. Inesperadamente, seucoração começou a bater mais forte. Então ele estaria no mesmo barco. Quecoincidência! Mas era improvável que fosse para Kilfoil. De acordo com asenhora Har-ris, da pousada, Kilfoil permanecera deserta por vários anos, atéum escritor rico comprar a propriedade e restaurar o castelo em ruínas para 4
  • 5. ocupá-lo. Liam Jameson, é claro, concluíra Rosa, sem querer, porém, perguntardetalhes àquela senhora para não ter que explicar o motivo que a levava àilha. Dissera a ela que faria umas fotos para uma reportagem sobre odesenvolvimento da ilha. Mas a senhora Harris advertira que a ilha erapropriedade particular e que ela precisaria de uma autorização para tirar fotos. Rosa perdeu Liam de vista quando embarcava na balsa. Ela tremia de frio.Céus, pensou, como alguém pode escolher viver aqui tendo dinheiro paracomprar uma ilha ? Barbados, sim. Caymans, talvez. Mas Kilfoil? Deve serlouco. Ela só conseguia pensar que a ilha lhe dava inspiração para escrever suashistórias de terror. E, de acordo com sua irmã, estavam fazendo um filme delena ilha. Será que isso fazia sentido? Será que Sophie e Mark tinham dito averdade? Sua mãe acreditara em cada palavra. Se Liam não tivesse se envolvido com Sophie…. pensou. Sua irmã seimpressionava com facilidade, e sonhava em se tornar uma atriz de sucesso.Se ela tivesse encontrado Jameson, teria ficado impressionada, sem dúvida.Ele vendera milhões de livros. Cada vez que um novo livro era lançado, Sophieo devorava. E todos os seus filmes haviam feito sucesso. Seu trabalho eracultuado devido a um fascínio cada vez maior pelo sobrenatural. Particularmente os vampiros, que eram sua marca registrada. Mas teria ele estado num festival de música pop? Coisas estranhas haviamacontecido, imaginou, e Sophie certamente convencera Mark de que aquelaera uma chance que não poderia perder. Por que não telefonara para sua mãepara avisá-la, por que pedira a Mark que se desculpasse por ela? Mas seSophie estava mentindo, onde estaria, meu Deus? Felizmente havia uma cabine sob o convés onde os passageiros podiamcomprar sanduíches, refrigerantes e bebidas quentes. Rosa entrou e encontrouum assento perto da janela, de onde podia ver o movimento no cais. Logo todos os passageiros entraram e a fila de carros desapareceu.Devem ter sido colocados na ordem em que serão desembarcados, refletiu,imaginando se o homem que ela havia visto sabia dessa rotina. A balsa seguiria primeiramente para Kilfoil e depois para outras ilhas.Rosa ficou satisfeita. Isto significava que Kilfoil era a ilha mais próxima. A ilhade Skye parecia incrivelmente perto quando a viagem começou. Mas logo asondas em mar aberto começaram a fazer o barco subir e descer. Rosa virou os ombros e viu um grupo de pessoas na cantina. Lamentounão ter comprado uma bebida antes da confusão se formar. Aquela altura, nãotinha certeza se conseguiria atravessar a cabine sem ficar enjoada. Nunca forauma boa tripulante, e a balsa balançava muito mais do que o aerobarco queela e Colin haviam tomado certa vez para Bolonha. — Você está se sentindo bem? Imaginando que devia estar pálida, Rosa virou-se e viu o homem doestacionamento olhando para ela de cima para baixo. Então ele haviaembarcado, pensou, confusa, notando que ele parecia não se importar com obalanço do barco. Embora vestisse um casaco de couro comum sobre acamiseta e o jeans, parecia tão grande e poderoso quanto antes. A camisa saíado jeans em alguns cantos, expondo sua pele morena e seus pêlos. Como ele é sensual, pensou, distraindo-se por um momento de seus 5
  • 6. problemas. Mas Liam esperava uma resposta e ela forçou um sorriso semgraça. — Eu não imaginava que o mar estaria tão agitado — confessou,pensando se ele havia notado que os olhos dela estavam na altura de suavirilha. Esforçou-se para olhar para qualquer outro lugar. — Acho que vocêestá acostumado — disse. Os olhos dele se estreitaram, com os grossos cílios pretos cobrindo a írisverde esmeralda. Meu Deus, como é bonito, pensou Rosa, observando sua pelebronzeada, seu queixo firme e sua boca, estranhamente sensual emboracomprimida em uma linha fina. Mas ele falou novamente, com a voz maisforte, e ela se desviou dos pensamentos ao perceber que ele não tinha sotaqueescocês. — Por que você diz isso? — perguntou Liam. Rosa piscou os olhos, semconseguir lembrar exatamente o que dissera. Mas logo recordou. — Ah, só achei que você conhecia bem a região — confessou, sem jeito.— Certamente eu estava errada. Você é inglês, não? Liam fez uma careta, reprovando-se pelo impulso que o levara aperguntar se ela estava bem. Rosa estava tão pálida que ele havia sentidopena. Obviamente não vivia ali. Estava sem roupas à prova d’água, sem botas,e até a mochila que levava parecia frágil. — Nem todos nós falamos gaélico — disse ele, finalmente. Ela encolheu os ombros. — Está bem — disse Rosa, contendo sua indignação. Pelo menos aconversa a estava ajudando a afastar os olhos do mar. — Então você vive nasilhas? — Talvez. Ele estava sendo irritantemente reticente. E então, desconcertando-a,afirmou: — Espero que você não pretenda fazer caminhadas vestida dessamaneira. Rosa respirou fundo: — Isto não é da sua conta. — Não — admitiu ele, arrependido. — Eu só estava pensando alto. Masnão consegui deixar de notar que você parecia sentir frio hoje mais cedo. Então ele a notara. Rosa se sentiu menos hostil a ele. — Está muito mais frio do que eu imaginava — admitiu. — Mas espero nãoficar aqui muito tempo. — Uma visita rápida? — Algo assim. Liam franziu a testa. — Você tem parentes aqui? Rosa prendeu a respiração. Ele estava fazendo muitas perguntas. Masentão se lembrou que perguntaria a qualquer um sobre sua irmã. Se aquelehomem usava a balsa regularmente, poderia tê-la visto. E ter visto LiamJameson. Mas preferiu não mencioná-lo. — Na verdade, espero encontrar minha irmã — disse, tentando parecerinformal. — Uma menina loura, bonita. Acho que ela fez essa travessia algunsdias atrás. — Não pode ter feito — disse ele. — Essa balsa só circula às segundas e 6
  • 7. quintas-feiras. A não ser que ela tenha ido quinta-feira passada. Rosa engoliu seco. Quinta-feira Sophie ainda estava em Glastonbury comMark. Ele telefonara sábado à noite para avisar à mãe do que acontecera, eisto levara a senhora Chantry a telefonar para Rosa, histérica. — Você tem certeza? — perguntou ela, tentando imaginar se LiamJameson teria um avião ou um helicóptero. Provavelmente tinha, pensou. Porque viajaria como um simples mortal? Deve até ter um barco. — Tenho — respondeu ele. — Isto quer dizer que você não acha que suairmã esteja aqui? — Talvez. — Rosa não queria dividir seus pensamentos com ele. — Faltamuito tempo para chegar? — Depende de para onde você está indo — observou Liam, secamente,embora curioso. Rosa achou que não havia problema em lhe dizer seu destino. — Ah, Kilfoil — disse, notando que suas palavras o surpreenderam. Bem, que ele fique ruminando, pensou com despeito. Ele não havia sidoexatamente delicado com ela. 7
  • 8. CAPÍTULO DOIS LIAM ficou surpreso. Achou que sabia tudo sobre as famílias que haviamse mudado para a ilha depois de adquiri-la. Inabitadas durante anos, as casasestavam em ruínas, e ele fizera um esforço descomunal para tornar o lugarhabitável novamente. No processo de instalação de rede elétrica, gerador eserviços básicos, tornara-se amigo daquelas famílias. Agora Kilfoil tinha umaeconomia saudável, com turismo, pesca e fazendas que garantiam asubsistência de centenas de pessoas. Ele queria indagar por que ela achava que a irmã estava na ilha, massabia que já havia feito muitas perguntas. Está bem, ela o intrigava, com seuar de desafio tímido e a inocência com que falava sobre a ilha. A não ser quesua percepção tivesse falhado, havia algo além do desejo de se encontrar coma irmã. Teria a menina fugido? Talvez com um namorado? Mas por que teriaido para Kilfoil? Até onde ele sabia, não havia padre na ilha. Rosa o viu pôr as mãos nos bolsos traseiros do jeans, aparentemente semnotar que o botão na cintura estava aberto. Ela pensou em dizer-lhe, mas istomostraria que estava olhando, e então desviou o olhar. — Mais ou menos uma hora — disse ele, respondendo. E então, como se sentisse a ausência dela, afastou-se e foi até o bar nooutro lado da cabine. Discretamente, Rosa viu que ele conversava com ojovem atendente. Ele recebeu um troco e o jovem lhe entregou duas xícarasde plástico. Duas? Rosa rapidamente afastou o olhar. Seria uma das xícaras para ela?Preferiu não olhar, não ver se ele estava voltando para onde ela estava, casoestivesse errada. — Quer um café? Sim. Ele estava diante dela novamente. — Ah, não precisava — murmurou, embaraçada. — Obrigada. Por quevocê não se senta? Liam hesitou. Não costumava comprar café para mulheres estranhas,dividindo com elas seu espaço. Mas aquela parecia tão deslocada que nãoconseguiu deixá-la. Poderia ser uma jornalista atrás de uma notícia, pensou.Mas se fosse isso, estaria bem à vontade com ele. Ela parecia muito vulnerável e, deixando de lado a cautela, ele se sentou aseu lado. Ao sorver o café, olhou-a discretamente. Ela o observava e Liamdisse: — Pelo menos está quente. — Está muito bom — assegurou Rosa, sem ser completamente sincera. Ocafé estava amargo. — Você foi muito gentil. — Hospitalidade escocesa — disse ele, com ironia. — Somos conhecidospor isso. Ela o olhou de lado. — Então você é escocês? Deve conhecer bem a região. Como é Kilfoil? Écivilizada? — Onde você acha que está? No deserto da Mongólia? 8
  • 9. Ela ficou corada. — Não. Mas me fale sobre a ilha. Há casas, lojas, hotéis? Liam hesitou, dividido entre o desejo de descrever seu lugar e a vontadede não parecer familiarizado com a região. — É como muitas outras ilhas — disse finalmente. — Há uma vila, e vocêpode comprar as coisas que precisar. A correspondência e os artigos de luxochegam de balsa. Assim como os turistas, que ficam em hospedarias locais. Rosa se sentiu aliviada. — Então não é desolado, ou algo assim. — É bonito — disse Liam, pensando em o quanto estava aliviado porvoltar. — Todas essas ilhas são bonitas. Eu não viveria em outro lugar. As sobrancelhas de Rosa se ergueram. — Onde você mora? Ele estava encurralado. — Em, Kilfoil — respondeu, com relutância. E decidiu que já havia falado osuficiente. — Desculpe-me, preciso checar meu carro. Rosa ficou pensativa enquanto terminava seu café. O que um homemcomo ele faria na ilha? Seria um pescador, como ela especulara? De algumamaneira isso não parecia provável. Um pensamento lhe ocorreu. Talveztrabalhe para Liam Jameson. Ou para uma equipe de filmagem, se estiveremfazendo um filme na ilha. Devia ter perguntado se estavam filmando em Kil-foil. Mas aí teria queexplicar por que estava ali. Não. Era melhor esperar antes de começar a fazerperguntas. Não queria alertar Liam sobre quem era. Rosa tremeu ao imaginar o que tinha que fazer. Sua missão, pensou comironia. Céus, o que estava pretendendo fazer? As pessoas na ilha lhe diriam sehouvesse uma equipe de filmagem. Já informar onde morava Liam Jamesonera outra história. A viagem parecia interminável. Se o que o ele dissera era verdade, nãodeveria demorar muito. Ao olhar para a frente do barco, viu uma massa deterra adiante. Seria Kilfoil? Esperava que sim. Telefonaria para a mãe assimque chegasse. Lúcia Chantry devia estar desesperada por notícias. Sophie era seu bebê,e embora soubesse que às vezes ela era egoísta e voluntariosa, não escondiaque era sua filha favorita. Sophie nunca agia mal, enquanto Rosa estavasempre cometendo erros, inclusive quando se casou. Nunca gostara de ColinVincent, e não hesitou em dizer eu avisei quando Colin se revelou um calhorda. Enquanto a balsa parava lentamente, Rosa se levantou, ansiosa paraobservar seu destino. Não é nada impressionante, pensou, apenas umpunhado de casas na encosta. O céu nublado não ajudava. Quinze minutos depois ela estava no cais, observando os poucos carrosque desembarcavam na ilha. Acima dela, viu a estrada que serpenteava até avila e as encostas escuras de uma cadeira de montanhas por trás. De repentea ilha parecia muito maior do que imaginara. E se realmente encontrasseSophie, se ela não estivesse mentindo? Como conseguiria levá-la para casa?Se a irmã estivesse encantada com um astro, nada que dissesse adiantaria. Rosa acabara de notar uma placa de “Correios” quando viu um Audi cinzadescendo a rampa e indo em sua direção. O homem que lhe comprara caféestava ao volante e ela se virou abruptamente. Não queria que ele achasse —nem por um momento — que ela o procurava. 9
  • 10. Para seu alívio, o carrão passou rapidamente por ela. Mas, em seguida,freou e deu ré. Parou a seu lado e a porta se abriu. Ele pôs as pernas parafora, levantou-se com visível esforço e se virou para ela. Rosa notou que ele forçava a perna esquerda, o que não observara nabalsa. O balanço do barco impediria qualquer observação desse tipo. Enquanto isso, Liam se reprovava por ser tolo a ponto de parar o carro.Mas ainda tinha a impressão de que um vento a derrubaria. E certamente elanão estava interessada nele. Liam percebera que ela deliberadamente havia sevirado de costas para ele. Então por que bancava o cavaleiro errantenovamente? — Algum problema? — perguntou, forçando-a a olhar para ele. — Espero que não — disse Rosa firmemente, desejando que elesimplesmente fosse embora. Mas, se por acaso a ajudasse, ficaria grata. — Ah, eu só estava procurando os correios. Queria perguntar onde fica ocastelo de Kilfoil. — Castelo de Kilfoil — Liam agora estava desconfiado. — Por quê? Nãoestá aberto ao público. — Sei disso — disse Rosa, e suspirou. Em seguida, cedendo ao desejo deconfiar nele, acrescentou: — Você sabe se há uma equipe de filmagem trabalhando lá? — Uma equipe de filmagem? — agora Liam estava realmente preocupado.Estaria o tempo todo equivocado em relação a ela? — Sim, uma equipe de filmagem — repetiu Rosa. — Acho que estãofilmando um dos livros de Liam Jameson na ilha. Diabos! Liam a fitou, tentando descobrir se ela era tão ingênua quanto parecia. — Por que você acha que Liam Jameson permitiria que uma equipe defilmagem profanasse sua casa? Sei que fazem filmes sobre seus livros, masnão são filmados aqui. Era sua imaginação ou os ombros dela haviam desabado diante danotícia? O que estava acontecendo? Ela esperava encontrar a irmã num set defilmagem? — Acho que você está equivocada — disse ele, gentilmente. — Alguém lhedeu uma informação errada. Posso assegurar que não há nenhuma equipe defilmagem no castelo nem em qualquer outro lugar na ilha. Rosa balançou a cabeça. — Tem certeza? — Sim. — Você não está querendo me afastar? — Claro que não! — Liam a fitou com compaixão. — Entendo que eu possadecepcioná-la, mas não acho que sua irmã esteja aqui. As sobrancelhas de Rosa se juntaram. — Não me lembro de ter-lhe dito que minha irmã estava com a equipe defilmagem. — Não, mas não é preciso ser um matemático para somar dois mais dois. Rosa mordeu os lábios. — Está bem. Talvez eu tenha pensado que Sophie pudesse estar com eles.Mas se não está, talvez esteja em outro lugar. 10
  • 11. Liam a fitou. — Na ilha? — Sim — Rosa ergueu a cabeça. — Talvez você pudesse me indicar ondeé o castelo de Kilfoil. Eu poderia pegar um táxi ou algo assim se for muitolonge? Liam piscou os olhos. — Por que razão você acha que sua irmã está no castelo de Kilfoil? —perguntou, tentando não se mostrar ultrajado com a suposição. Ela suspirou. — Porque aparentemente ela se encontrou com Liam Jameson dias atrás,no festival de Glastonbury. Ele disse a ela que estavam fazendo um filme sobreseu último livro na Escócia e a convidou para um teste de atriz. DIZER que Liam estava chocado seria pouco. Era como se de repenteRosa tivesse começado a falar numa língua estranha e ele não conseguisseentender. Até a manhã de domingo estivera numa clínica em Londres, fazendoum tratamento muscular para tentar reduzir os espasmos na perna. Alémdisso, nunca estivera num festival de música pop na vida. Percebendo que Rosa esperava que dissesse algo, Liam tentou seconcentrar. Era óbvio que ela acreditava no que dizia. Sua aparência de incerteza eexpectativa era convincente demais. Mas, que diabos, se sua irmã inventaraessa história, por que ela acreditara? Qualquer pessoa que conhecesse LiamJameson saberia que era mentira. Mas talvez ela não soubesse. Com certeza não o reconhecera. E,convenhamos, não era tão absurdo. Dois de seus filmes haviam sido filmadosna Escócia. Mas não em Kilfoil. — Liam Jameson vive aqui, não? Rosa esperava que ele dissesse algo, em vez de ficar olhando-a comaqueles olhos verdes penetrantes, que pareciam observar sua alma. Ela sesentiu desconfortável diante de seu olhar escrutinador. Liam provavelmentenão percebia, mas ela estava ficando realmente excitada. — Sim — disse ele, finalmente. — Ele mora no castelo de Kilfoil, comovocê deve saber. Mas não há como ter proposto um teste a sua irmã. Ele nãose envolve em filmes. Se ela lhe disse isso, estava errada. — Como você sabe? — Embora Rosa estivesse pronta para aceitar que eleestava certo, ficou curiosa sobre aquela certeza dele. — Você o conhecepessoalmente? Liam esperava por aquilo. — Sei sobre ele — disse, relutando em lhe contar quem era. — É meiorecluso e, pelo que sei, nunca foi a Glastonbury. Sua irmã deve ser jovem.Liam tem 42 anos. — Quarenta e dois! Se ele imaginasse que ela pudesse saber sua idade, estava errado. Rosaemendou: — Isso tudo? — Não é tão velho assim — resmungou Liam, sem disfarçar uma pontadade indignação. — Que idade tem sua irmã? — Quase 18. Você acha que Liam Jameson gosta de meninas novas? — Ele não é um pervertido — disse Liam, com severidade, e mudando de 11
  • 12. tom. — E, convenhamos, você não tem nenhuma prova de que ela está comJameson. — Eu sei disso — afirmou Rosa. — Mas onde ela poderia estar? — Rosamolhou os lábios, sua língua se movendo numa provocação inconsciente. — Dequalquer modo, se me indicar onde fica o castelo, vou até lá para saber se osenhor Liam Jameson tem uma resposta. Foi quando Liam deveria tê-la impedido. Deveria ter explicado quem era ecomo sabia que Liam Jameson nunca fora a Glastonbury, mas não tevecoragem. Havia ido longe demais para simplesmente confessar que era quemela procurava. E seu senso de privacidade inato o tornara vítima de sua própriamentira. — Olhe, acho que você está perdendo seu tempo — disse ele,cuidadosamente. — Jameson nunca foi a um festival de música pop. Até ondeeu sei. — Você sabe um bocado sobre ele — disse Rosa, com curiosidade. — Temcerteza de que não é amigo dele? — Tenho — afirmou Liam, desejando que nunca tivesse começado aquilo.— Mas eu moro na ilha. É um lugar pequeno. — Não parece tão pequeno. E não estou ansiosa para encontrar essehomem, se quer saber a verdade. Ele escreve umas coisas terríveis.Fantasmas, lobisomens… — Vampiros — corrigiu Liam, sem pensar. — … Coisas assim — murmurou Rosa, demonstrando que não prestavaatenção nele. — Provavelmente foi por isso que Sophie se impressionou tantocom ele. Ela lê tudo o que ele escreve. — É mesmo? Liam não conseguiu esconder um ar de satisfação. Por mais que seuagente e seu editor dissessem que era um bom escritor, nunca acreditavarealmente. — Ah, sim. Sophie é louca por livros, TV e cinema. Quer ser atriz, vejavocê. Se esse homem esteve em contato com ela, certamente Sophie não olargou. — Mas ele não esteve com ela — afirmou Liam — Você não acreditarealmente nisso, não é? — Talvez não. — Rosa tinha que ser honesta. — Mas se não se importa,eu prefiro ouvir isso do próprio Liam Jameson. Liam franziu a testa e pressionou a ponta de sua bota contra uma pedra,consciente de que a qualquer momento alguém poderia chegar e falar com ele,e então não teria como se explicar. — Olhe — disse relutantemente —, por que você não toma a próximabalsa e vai para casa? Se sua irmã quiser lhe dizer onde está, dirá. Enquantoisso não acontecer, provavelmente você será mais inteligente se não acusarpessoas de coisas que não pode provar. Rosa tremeu. — Entrar numa balsa de novo? Acho que não. — A próxima só sai na quinta-feira, como eu disse. Rosa tentou não demonstrar seu desalento. — Agora não há nada que eu possa fazer. E Liam Jameson é a única pistaque tenho. 12
  • 13. Liam suspirou. — Está bem, está bem. Se esta é sua palavra final, eu a levo. — Me leva aonde? — Ao castelo de Kilfoil. Não é onde você quer ir? — É. Mas você acha que o senhor Jameson me receberá? — Eu asseguro que sim — disse Liam secamente. — Vamos. — Mas eu nem sei quem você é — protestou Rosa, a idéia de entrar numcarro com um estranho assumindo de repente uma importância maior do quetinha antes. — Sou… Luther Killian — murmurou Liam, sem graça, esperando que elareconhecesse o nome de seu principal personagem. Mas não houve reação. A irmã podia ter lido seus livros. Rosa, comcerteza, não. 13
  • 14. CAPÍTULO TRÊS ROSA hesitou. — Ah, é longe? — arriscou, recebendo um olhar de impaciência de Liam. — Leva um bom tempo caminhando, se é o que você está pensando —respondeu ele. — Tem o velho McAllister, é claro. Ele trabalha como taxista, senecessário. Mas seu carro não é muito confiável. Rosa olhou sua bolsa pesada. — Está bem, obrigada — disse, com certo receio. — Se não for muito forade seu caminho. Não me faça favores, pensou Liam, irritado, apanhando a bolsa de Rosa ecolocando-a no porta-malas. Ele se sentou no carro e indicou para ela oassento ao lado. Sua perna doía por ter ficado muito tempo em pé. Para Rosa, a ilha pareceu bem maior do que imaginara no momento emque o Audi subiu a encosta fora da vila. Eles chegaram a um amplo platôverdejante, com pequenos lagos que brilhavam com os intermitentes raios desol. À esquerda, as montanhas que ela vira do cais pareciam grandes eimponentes. — Ali é o pântano de Kilfoil — informou Liam, apontando para um terrenodo outro lado da estrada. — Não se iluda com sua aparência. Em algunslugares é um brejo. Nem os carneiros pastam ali. — O senhor é fazendeiro, senhor Killian? Fazendeiro! Liam disfarçou um riso no canto da boca. — Tenho algumas terras — concordou, nem admitindo, nem negando. Eprocurou mudar de assunto. — A ilha é muito mais bonita do outro lado dopântano — E alguém que caminhava por ali já afundou no pântano? — perguntouRosa. Liam lançou-lhe um olhar zombeteiro: — Só nos livros de Jameson, acho. Rosa fez uma careta. — Ele parece estranho. Acho que morando aqui pode fazer praticamente oque quer. — Ele é um escritor — disse Liam, irritado com o comentário. — Escrevesobre monstros, mas isto não significa que seja um monstro! Rosa reconheceu que o isolamento a amedrontava. O grito de um pássarofez um frio percorrer sua espinha. Um bando de faisões, assustados com obarulho do carro, levantou vôo abruptamente. Ela fez um ruído estranho, eLiam voltou-se para ela: — Alguma coisa errada? — Eu estava pensando no que você disse — afirmou, sem sercompletamente sincera. — Acho que concordo com você. Liam Jameson nãotraria Sophie para cá. — Não? — perguntou ele, com cuidado. — Não, quer dizer — e apontou para o pântano —, não consigo imaginarum homem que vive aqui indo a um lugar frenético como o festival. Vocêconsegue? Liam comprimiu os lábios. 14
  • 15. — Acho que me lembro de ter dito isso meia hora atrás — reagiu. — Oh, sim, você disse, — Rosa fez uma careta. — Sinto muito. Acho queeu deveria ter ouvido você. Liam balançou a cabeça. Não sabia o que ela esperava que dissesse. Masse esperava que desse meia volta e a levasse para a vila, estava enganada.Estava cansado. Diabos! Acabara de percorrer mais de 800 km. Se elaquisesse voltar, Sam a levaria. No momento, precisava de um café-da-manhã,um banho e cama, não necessariamente nessa ordem. Ou pelo menos foi o que disse a si mesmo. Na verdade, curiosamenterelutava em abandoná-la. Sentia pena dela, pensou. Rosa chegara ali numaprocura impossível e ficaria bastante ressentida quando descobrisse que ele aestava enganando também. Seus pensamentos o surpreenderam, porém. Aquele sempre fora seuretiro, seu santuário. O único lugar onde conseguia escapar da correria loucaem Londres. O que estava fazendo levando uma estranha para casa? Não erauma adolescente! Era uma mulher crescida o suficiente para tomar conta de siprópria. — De qualquer modo — disse ela de repente —, vou perguntar se ele sabeonde ela pode estar. Se estão fazendo um filme aqui, ele saberá, não acha? Os dedos de Liam apertaram o volante. Por que não dizia a ela quem era?,pensou impacientemente. Por que não admitia que escondera sua identidadeporque temia que ela tivesse outro motivo para estar ali? Rosa poderia nãoacreditar nele, mas seria melhor do que se sentir uma fraude completa cadavez que ela mencionava seu nome. — Olhe, senhorita… — Chantry. Rosa Chantry. — Sim, senhorita Chantry — hesitou. — Olhe, tem uma coisa que eu… Mas antes que pudesse terminar a frase, ela o interrompeu. — Oh, meu Deus! — exclamou apavorada, e por um momento Liam achouque ela o reconhecera. Mas então ela apanhou a bolsa e retirou dela o celular. — Prometi que ligaria para minha mãe assim que chegasse. Desculpe-meum minuto. Tenho que telefonar antes que ela comece a achar que perdeuduas filhas, e não uma. — Sim, mas… — começar a tentar lhe explicar que celulares não pegavamna ilha quando ela expressou sua frustração. — Ora, a bateria deve ter acabado. Não há sinal nenhum. — É porque não há celulares na ilha. Durante anos esse lugar estevedeserto, e, embora as coisas tenham mudado, preferimos não despejar na ilhatodo o lixo do século XXI. — Você quer dizer que não vou conseguir ligar para minha mãe? — Não. Há linhas fixas. — Então você acha que Liam Jameson vai me deixar telefonar de seucastelo? — Estou certo de que sim — murmurou Liam, sabendo que estava seafastando do personagem que criara. — Não fique achando que a ilha é umlugar atrasado. Desde que se modernizou, é um lugar agradável para se viver. Rosa ergueu as sobrancelhas bem mais escuras que seu cabelo. — Por isso veio para cá? Para escapar da correria louca? 15
  • 16. — De certa maneira. — E você gosta de morar aqui? Não fica entedia-do? — Nunca fico entediado — disse Leam secamente. — Você fica? — Não tenho tempo para ficar entediada — respondeu ela, com tristeza.— Sou professora. Meu trabalho me mantém ocupada. — Ah — compreendeu Liam. Ele achou que aquilo explicava muitas coisas. Como o fato de ela estar ali no meio de agosto e por que ela às vezesparecia tão metódica. O pântano agora se distanciava e eles começavam adescer uma estrada sinuosa para um vale. Ele apontou para a frente. — Láestá o castelo. O que você acha? Rosa prendeu a respiração. — É… bonito — disse. E era. Grande e sólido, debruçado sobre o mar. Era magnífico. — Muito impressionante — repetiu Rosa. Não era o que ela esperava. —Mas como alguém pode morar num lugar desses? Deve ter mais de cemcômodos. — Na verdade, 53 — disse Lean sem pensar. — Ou quase isso, ouvi dizer— corrigiu-se. — Cinqüenta e três? — Rosa balançou a cabeça. — Ele deve ser muitorico. — Alguns são apenas ante-salas — disse Liam, ressentindo-se danecessidade de se defender, mas sem conseguir evitar. — Estou certo de queele não usa todos. — Acho que não — concordou Rosa. — Ele é casado? — Não. Liam não hesitou em dizer isso a ela. Afinal, era uma informação queaparecia em sua biografia presente em todos os seus livros. — Ele mora sozinho? — insistia Rosa. — Tem namorada? Ou namorado? —acrescentou, com uma careta. — Hoje, nunca se sabe. — Ele não é gay — disse Liam, incomodado. — E tem empregados quecuidam do lugar. Portanto, dificilmente está sozinho. — É sempre assim. Aposto que paga bem aos empregados para mantê-losali. Liam apertou o queixo e não respondeu. Poderia ter dito que muitos dosempregados fugiam de Londres, assim como ele. Não empregava nativos. Osilhéus só queriam trabalhar em meio expediente, para cuidar de seus própriosinteresses. Eram bastante independentes, e preferiam a pesca e a agricultura atrabalhos caseiros. Eles se aproximaram do castelo passando por um campo com carneiros egado. Rosa viu pequenas casas na encosta, com fumaça nas chaminés. Umriacho, que provavelmente nascia nas montanhas, descia sobre pedras até omar. E lá embaixo havia uma praia limpa e totalmente deserta. Rosa pensou que qualquer pessoa que não conhecesse aquele lado daEscócia ficaria encantada com a beleza. O mar era calmo, e em alguns trechostão verde quanto… os olhos de Luther Killian. E tão intrigante quanto, emboraprovavelmente gélido. De perto, o castelo era ainda mais explêndido. A reforma não haviaalterado o estilo e o charme daquela construção. Eles passaram numa ponte demadeira sobre um canal seco e estacionaram no jardim, próximo às portas de 16
  • 17. madeira cheias de detalhes. Uma das portas se abriu imediatamente e um homem e vários cãesapareceram. Os cachorros — dois golden retrievers e um spaniel — desceramos degraus para saudá-los, com os rabos abanando de excitação. Liam saltou do carro. Novamente, sua perna se enrijeceu e ele lamentousua dificuldade de desfrutar um dos prazeres da vida. Sempre gostara dedirigir e tinha muitos carros. Preferia-os ao helicóptero que seu agente insistiaque era essencial. E alugava o avião ao serviço de socorro médico local maisdo que o usava. Lutando contra a dor, caminhou até Sam Devlin, que cuidava dapropriedade para ele com eficiência. — Liam — disse Sam, ao que seu patrão reagiu erguendo o dedo diantedos lábios, num sinal para que ficasse quieto. — É bom vê-lo de novo —emendou, confuso. — Há algo errado? Liam olhou para trás e Sam viu Rosa saindo do carro. — Temos uma visitante? — perguntou, surpreso. Ele sabia, mais do queninguém, que Liam nunca levava estranhos a Kilfoil. — Temos — disse Liam, em voz baixa, depois de apertar a mão do homemmais velho. — Ela está aqui porque quer perguntar a Liam Jameson onde estásua irmã. — O quê? — Sam o fitou. — Mas você… — Ela não sabe — suspirou Liam. — É uma longa história, Sam, mas não éhora de contá-la. Pretendo contar a ela, mas não agora. Sam se recompôs quando Rosa se aproximou devagar enquanto os cães afarejavam. — Bem-vinda a Kilfoil, senhorita — disse. Liam apresentou um ao outro. — Este é Sam Davlin, braço direito de Liam Jameson. Sam, esta é asenhorita Rosa Chantry. Talvez a senhora Wilson faça a gentileza de convidá-lapara o almoço — disse Liam. — Na verdade — disse ela — eu gostaria apenas de uma palavra rápidacom o senhor Jameson. — O senhor Jameson está ocupado no momento — disse Sam, olhando delado para seu patrão. — Vou mostrar-lhe onde pode esperar por ele. — Mas o senhor acha que ele me atenderá? Sam olhou para seu patrão e disse: — É possível. Acompanhe-me, por favor. Rosa hesitou, voltando-se para Liam com um sorriso. — Obrigado pela carona. Até logo, senhor Killian. Liam inclinou a cabeça, certo de que Sam o fitava boquiaberto. — Foi um prazer — respondeu, percebendo que de fato havia sido umprazer. Liam se virou enquanto Sam levava Rosa para o interior do castelo. Elanão ficaria muito feliz ao descobrir quem ele realmente era. Enquanto isso, Rosa lamentava, de um modo que não compreendia, o fatode que não veria Luther Killian novamente. Ele havia sido gentil, apesar de suaingratidão. Gostaria de ter perguntado onde morava. Afinal, o que quer queacontecesse, ela ficaria na ilha pelo menos dois dias. Rosa acompanhou o empregado pelo castelo com relutância. Emboraquisesse falar com Jameson, era um tanto amedrontador estar ali. Castiçais 17
  • 18. iluminavam bem o saguão por onde passavam, e havia uma lareira acesa, masera intimidante. O teto alto e as paredes com tapetes pendurados a fizeramlembrar que o homem que procurava ganhava a vida assustando seus leitores. — Usamos o saguão apenas como sala de recepção. O resto do castelo émuito mais aconchegante. De outro modo, seria impossível manter o lugaraquecido. Rosa não podia acreditar. — O senhor Jameson vive aqui o ano inteiro? — A maior parte do ano — disse Sam. — Exceto quando está fora paracuidar dos negócios ou para se distrair. Por favor, acompanhe-me. Para surpresa de Rosa, e um certo medo, eles cruzaram o saguão até olugar onde uma sinuosa escada de pedras levava ao segundo andar. — Não seria mais fácil esperar aqui pelo senhor Jameson? — perguntouela. — Sinto lhe dizer que não — afirmou Sam, educado mas determinado. —Neste andar do castelo estão a cozinha, a despensa e os quartos de todos osempregados. — Entendo — reagiu Rosa. Sem alternativa, seguiu o homem escada acima. — Oh, não é maravilhoso? — exclamou, parando diante de uma janelapara olhar a vista. A janela dava para a frente do castelo e ela ficou surpresa ao ver que ocarro de Luther Killian ainda estava ali. Olhando para Sam Devlin, comentou: — O senhor Killian ainda está aqui. — Está? — reagiu Sam, demonstrando pouco interesse. Rosa se lembrou que Killian dissera que falaria ele próprio com Jameson.Devia estar explicando a situação. Se fosse isso, teria mais um motivo para lheagradecer. Talvez antes de ir embora perguntasse a Sam onde Killian morava. Mas pensando nisso lembrou-se de que não telefonara para a mãe. — Eu poderia usar o telefone enquanto espero? — Há um telefone aqui — disse Sam, abrindo uma porta que dava para oque parecia ser uma biblioteca. — Fique à vontade. Pedirei à senhora Wilsonque providencie um refresco. — Poderia avisar ao senhor Jameson que estou aqui? — perguntou Rosa,notando uma curiosidade em seu olhar. — Vou avisar — respondeu ele. — Com licença. Rosa tentou não ficarapreensiva quando a porta se fechou. Então, ali estava ela. Chegara a seudestino. Se as circunstâncias não fossem as que esperava, não era sua culpa.Ao redor, viu paredes cobertas de livros, uma mesa com tampo de granito,cercada de papéis, um laptop e várias cadeiras de couro. Aproximando-se dasprateleiras, puxou um livro pesado com o título Mitos de vampiros do séculoXV, e rapidamente o pôs de volta no lugar. Estava perdendo tempo, pensou,ao ver o telefone. Enquanto esperava a ligação completar, observou os jardinsdo castelo e duas estufas de vidro. Era um lugar auto-suficiente, pensou.Apesar de sua reação inicial, invejou Jameson por viver ali. Era um lugartranqüilo como poucos atualmente. — Rosa? É você? — perguntou sua mãe ao telefone. — Encontrou Sophie?Ela está bem? — Não a encontrei — Rosa preferiu não mentir. — Não há equipe de 18
  • 19. filmagem na ilha, mãe. Sophie devia estar inventando. — Ela não faria isso — disse a ingênua senhora Chauntry. — Mark deveter se confundido. A Escócia é grande. Devem estar filmando em outro lugar. — Mas onde? — Não sei. Você tem que descobrir. — Talvez — esquivou-se Rosa. — Talvez eu saiba mais depois de falarcom Liam Jameson. — Você não falou com ele pessoalmente? — Como poderia? Acabei de chegar. Foi uma longa viagem. — Onde você está? Em algum bar em Mallaig? — Estou na ilha. No castelo de Kilfoil. E tenho certeza de que não há nadaacontecendo aqui. — Então o senhor Jameson não está aí. — Não disse isso — interrompeu Rosa. — Eu não falei que saberei maisdepois que falar som ele? Rosa tentava ser paciente. Ouviu a porta se abrindo. — Mãe, tenho que desligar. Telefono mais tarde, assim que tiver notícias. Levantando-se da cadeira junto à janela, Rosa viu Luther Killian à porta.Ele estava mudado. A camisa amarrotada e o jeans haviam sido trocados poruma blusa de tricô roxa e uma calça de algodão leve. A julgar pelas gotas deágua em seu cabelo preto, havia tomado banho. Rosa estava boquiaberta, masrapidamente se recompôs. — Ah, oi — disse, confusa. — Achei que você tinha ido embora. Liam sorriu com cautela. — Está tudo bem em casa? — perguntou, imaginando o telefonema. Elepôs as pontas dos dedos nos bolsos da calça. — Você parece surpresa por mever. — Estou — Rosa achou que não fazia sentido mentir. — Você falou comLiam Jameson. Ele concordou em me ver? — Sim — disse Liam, tendo mais dificuldade do que esperava. — Sintodesapontá-la, Rosa, mas eu sou Liam Jameson. Rosa o olhou, perplexa. — Você está brincando! — Não. — Liam fez uma careta, desfez sua pose desajeitada e caminhouaté ficar atrás da mesa. — Eu não queria enganá-la. De início, não. As coisasacabaram acontecendo desse jeito. 19
  • 20. CAPÍTULO QUATRO — VOCÊ não está pensando seriamente em permitir que ela fique aqui atéconseguir pegar a balsa de volta, está? — perguntou Sam, preocupado. —Você não sabe nada sobre essa mulher. Como ter certeza de que não foiapenas um truque para vir ao castelo? — Não sei — disse Liam, acabando de comer um prato de bacon com ovose apanhando uma caneca de café. — Mas, respondendo a sua pergunta, elapartirá esta manhã. Logo que arrumar sua bagagem. — Graças a Deus — disse Sam. — Não acreditei quando Edith me disseque ela passaria a noite aqui. Não que ela não seja honesta. É que você nãocostuma convidar estranhos. — Eu sei — Liam percebia seu tom afiado, mas não gostava que Sam lhedissesse o que já sabia. — De qualquer modo, duvido que você tivesse gostadode levá-la à vila na noite passada. — Você poderia ter chamado McAllíster. — Mas não chamei. E se quer saber, não acho que ela tenha algum motivooculto para estar aqui. Ela nem sabia quem eu era até eu lhe contar. — Isso é o que você diz. — Eu sei. — Está bem, está bem — Sam recuou. — Mas sempre suspeito deestranhas supostamente inocentes que surgem do nada. Quem seria estúpidoo suficiente para achar que você permitira uma filmagem em Kilfoil? — A irmã adolescente dela, talvez? — Mas você não se envolve com filmes. — Eu disse a ela. — Então por que a trouxe aqui? — Ela insistiu em falar pessoalmente com Liam Jameson. — Foi quando se fantasiou de Luther Killian? — Sam bufou. — Não sei oque estava pensando, Liam. Você não é um adolescente. Devia saber o quefaz. Se fosse o tipo que sai por aí com moças, seria diferente. Sei que sediverte de vez em quando, mas nunca trouxe suas conquistas para casa. Pelomenos desde Kayla. — Não entre nesse assunto, Sam. Liam ficou inquieto e Sam notou sua reprovação. Fazia anos que nãopensava em Kayla Stevens, a mulher com quem planejara se casar antes desofrer o ataque que quase o matara. Eles haviam se conhecido num almoço de seu editor, quando seu primeirolivro chegou ao topo das listas de best sellers. Kayla era modelo, contratadapor sua agente para proporcionar glamour a eventos como aquele. Ela pareciadeslocada, inocente demais para ser forçada a ganhar a vida daquela maneira.Liam sentiu pena dela, em grande parte como se sentia agora em relação aRosa Chantry, pensou ele. Mas acabou percebendo que Kayla sempre estiveraatrás de uma boa oportunidade. Embora ela tivesse ido algumas vezes ao hospital depois do ataque, aidéia de se unir a um homem com cicatrizes, que poderia ficar impotente ouparalítico, e que com certeza precisaria de muitos cuidados para se recuperar, 20
  • 21. não a atraiu. Seis meses depois, se casou com um jogador de pólo da Américado Sul com dinheiro suficiente para manter o estilo de vida ao qual seacostumara. O fato de que sem Liam ela não teria conhecido um homem comoaquele não teve a menor importância. Agora Sam estava cabisbaixo, e Liam teve pena dele. — Veja, isto não tem nada a ver com Kayla, certo? Tem a ver com ajudaruma pessoa. A mãe de Rosa não sabe onde sua filha mais nova está. Deveestar muito preocupada. — Então por que não vai à polícia? — Para dizer o quê? Que a filha sumiu com outro homem e que onamorado está com ciúmes? Sam, adolescentes são imprevisíveis.Provavelmente ela estará de volta em dois dias e negará tudo. — Então por que você se envolveu nisso? Boa pergunta. — Tenho me perguntado isso — admitiu Liam. — Não sei. Segundo Rosa,a irmã é minha fã. Talvez eu esteja lisonjeado. De qualquer modo, ela estáindo embora hoje. A LUZ do sol a despertou. Quando finalmente havia se deitado, passavada meia-noite. Achou que não fosse conseguir dormir, e a luz da lua aconfortara. Mas devia estar mais cansada do que pensava, tanto mentalquanto fisicamente. Do contrário, por que teria aceitado a ajuda de Liam? A descoberta de que ele era Liam Jameson lhe havia tirado o equilíbrio. Ea enfurecera também, admitiu. Ele não tinha o direito de mentir sobre quemera, embora estivesse desesperado para se manter anônimo. O fato de ele ter ficado chocado com a suposição de que encontrara suairmã no festival e de que lhe oferecera um teste de atriz até que eradesculpável. Mas ela não estaria ali se Liam tivesse sido honesto desde ocomeço. Rosa afastou o edredom, levantou-se e caminhou descalça até a janela. Ochão estava frio, mas ela pensou que nunca se cansaria daquela vista. Via omar do alto, quebrando nas pedras. O sol tingia as ondas de dourado. Mashavia nuvens no horizonte, prenunciando uma chuva, talvez à tarde, pensou,imaginando onde dormiria a próxima noite. Custou a perceber que era mais tarde do que pensava. Ou talvez o aromade pão quente a tenha feito se lembrar que não comia desde a noite anterior. Logo reparou que havia uma bandeja na cômoda junto à porta. Evidentemente, alguém a pusera ali. Teria sido aquilo que a acordara? Aoolhar o relógio, viu que já eram 9h30. Espantou-se. Devia ter dormido pelomenos oito horas. Ela hesitou, dividida entre tomar banho e se vestir e investigar o conteúdoda bandeja. A bandeja venceu. Rosa a pegou e se sentou junto à janela. Umajarra de café logo a atraiu. Havia ainda leite e creme em jarras pequenas,açúcar mascavo e uma cesta de pães quentes. Era dali que vinha o cheiro,percebeu, tocando neles com cuidado. Os pães cheiravam a passas e canela. Teria Liam Jameson preparado tudo aquilo para ela? Era mais provávelque tivesse sido a senhora Wilson, pensou, lembrando-se do quanto fora rudecom seu anfitrião no dia anterior. Mas descobrir que ele era Liam Jameson foratão humilhante! Ao saber quem ele era, ficara fora de si. — Você? Você é Liam Jameson?! Não pode ser! — disse, incrédula. 21
  • 22. Ele respondeu estranhamente lacônico. — Por que não? — Porque não se parece com a imagem do retrato — protestou Rosa,lembrando-se do jovem de bigodes e barba rala que vira na contracapa de umde seus romances. Aquele homem não tinha barba, exceto um pouco no queixo. — Bem, sinto desapontá-la, mas eu realmente sou Liam Jameson — disseele — A foto é de 12 anos atrás. — Então você tem que atualizá-la — ordenou ela. Como se pudesse! Liamdeu de ombros. — Como lhe disse antes, sou uma pessoa bastante reclusa. Prefiro não serreconhecido. — E Sophie? Sabe onde ela está? — É óbvio que não! — Era clara a irritação em sua voz. — Se eu soubesse,não acha que eu teria lhe dito? — Não sei o que pensar. Você me traz aqui sob falsos pretextos e… — Espere um pouco… — Liam não sabia por que as palavras dela lheatingiam tanto. Mas era o que ele havia feito. Tomando outra direção, continuou: — Você teria acreditado em mim se eu tivesse lhe dito quem sou? Vocêacaba de me acusar de não me parecer com meu retrato — fez uma pausa. —Se quer saber, eu sinto pena de você. Obviamente perdeu tempo nessaviagem e, o que quer que eu dissesse, você teria que ficar aqui por mais trêsdias. Rosa ergueu o rosto diante disso. — Não havia a menor necessidade de sentir pena de mim, senhorJameson. — Não? — Liam não conseguia deixar de admirar a coragem dela.Obviamente a julgara mal quando achara que ela era frágil. Prosseguiu: — Setivesse lhe dito quem sou você teria simplesmente ido para uma hospedariapara esperar a balsa de quinta-feira? Não suspeitaria de que eu não estivessefalando a verdade? — Eu teria lhe perguntado sobre Sophie — disse Rosa, os ombros caídos.— Você deveria ter me dito quem era. Afinal, quem é Luther Killian? Alguémque trabalha para você? — Mais ou menos isso. — Um traço de humor passou pelo rosto de Liam,Rosa ficou perturbada ao sentir que o charme dele a agradava. — Luther Killiané o personagem principal de todos os meus romances. O que só mostra quevocê não é minha fã. — Eu lhe disse. Sophie é quem lê seus livros. — Ela balançou a cabeça,contrariada. — Você deve me achar uma tola. — Por que eu pensaria isso? Ele parecia indignado, mas Rosa explicou: — Porque fui uma estúpida por não suspeitar de nada. Mesmo quandoficou óbvio que você sabia demais sobre Liam Jameson para não estarenvolvido. — Rosa respirou fundo. — Por que fez isso, senhor Jameson? Eraapenas um jogo? Fazer de mim uma tola o divertiu? De onde saíra aquilo? Rosa ainda o encarava, horrorizada com o que dissera, quando bateram 22
  • 23. na porta. Por um momento ela temeu que Liam Jameson ignorasse a batida, sevirou e atravessou a sala. Mais uma vez, arrastou uma perna, mas Rosa estavaaflita demais para sentir compaixão por ele. Certamente ele pensaria que elaera igual à irmã. A governanta esperava do lado de fora. Carregava uma bandeja com cháe sanduíches, e Liam deixou que ela entrasse, com controlada educação. — Esta é a senhora Wilson — disse ele, friamente. — Bom apetite. Falocom você mais tarde. MAS na verdade ele não havia falado com ela mais tarde. Quando asenhora Wilson voltou para recolher a bandeja, informou que o senhorJameson estava descansando. Aparentemente ele pedira à governanta queprovidenciasse um quarto onde ela pudesse descansar. E foi assim queaconteceu de Rosa ainda estar ali, quase 24 horas depois de chegar à ilha. Não que ela esperasse passar a noite ali. Depois de se servir de tantoschás e sanduíches quanto podia, com sua consciência fazendo um esforço cadavez que enchia a boca, ela se aventurou a descer as escadas com a bandeja,esperando encontrar seu anfitrião. Mas a única pessoa que viu foi Sam Devlin,que lhe disse que o senhor Jameson estava indisposto e não tinha condiçõesde falar com ela naquela tarde. Naturalmente, Rosa se culpou pelo estado de Jameson, certa de que seucomportamento contribuíra para seu mal-estar. Quando perguntou comopoderia voltar para a vila, Devlin relutantemente admitiu que seu patrão nãoqueria que partisse antes de conversar com ele novamente. — O senhor Jameson sugere que passe algum tempo aqui, conhecendo ocastelo — explicou ele. — Posso lhe acompanhar, se quiser. Se não, asenhorita tem liberdade para relaxar na biblioteca. Há muitos livros para ler ea senhora Wilson pode lhe fornecer qualquer coisa que precisar. Rosa concordou em dar uma caminhada, mas não com Sam Devlin.Conseguiu convencer o circunspecto escocês de que não se perderia e passeouno jardim, encantada com as flores do verão, tendo apenas os cães comocompanhia. De volta ao castelo, e sem saber o que mais fazer, refugiou-se nabiblioteca. Não para ler. Sabia que tipo de livros havia na estante e não queriater pesadelos. Ficou ligeiramente perturbada quando a senhora Wilson ainformou que o jantar seria servido às 7 horas, na sala de jantar. Não esperavaficar para o jantar, e não ficou completamente surpresa quando descobriu quecomeria sozinha. — O senhor Jameson sugeriu que passe a noite aqui — explicou a senhoraWilson, gentilmente. — Disse que a verá de manhã. Está bem? É claro que Rosa sabia que deveria recusar o convite, e que aceitarqualquer coisa de Liam Jameson a colocaria em dívida com ele, o que nãoqueria. Mas também sabia que lhe devia desculpas, e resolveu ficar. Agora ela suspirava. Aceitara a hospitalidade de Liam e mais cedo ou maistarde apresentaria suas desculpas e partiria. Mas sua relutância seria apenaspor constrangimento ou, como suspeitava, curiosamente não desejava dizeradeus? Ela tremeu. Que ridículo! Liam Jameson não significava nada para ela, eestava certa de que ele ficaria feliz quando ela partisse. E que maneira de 23
  • 24. retribuir a gentileza dele! Certo, ele deveria ter dito quem era — mas, comoele mesmo disse, ela acreditaria nele? Rosa ponderou. Na balsa, ela lhe dissemuito pouco sobre o motivo que a levava à ilha, e mesmo depois dodesembarque, não aceitou tão bem a sua ajuda. Quando lhe confessou por queestava ali, ele já havia lhe dito que apenas conhecia Liam Jameson. A situação realmente não era propícia a confianças, admitiu. Teria sido porisso que Liam havia escondido sua identidade? Certamente isto fazia maissentido do que a acusação que fizera a ele. Sem querer pensar na cena dabiblioteca, Rosa terminou o café e entrou no banho. Ao ver seu cabelodesarrumado, convenceu-se de que não poderia ficar diante de Jamesonnaquelas condições. Precisaria recuperar o controle antes de encontrá-lo. O banheiro era tão elegante quanto o quarto, com uma banheira com pése paredes espelhadas. O box de vidro poderia acomodar pelo menos trêspessoas, e as janelas eram de vidro claro. A idéia de que alguém pudesse vê-la no banheiro a levou imediatamenteàs janelas, mas ali, no segundo andar do castelo, não havia o risco de alguéma observar. Havia espaços abertos em todas as direções. Ao despir a camiseta larga que comprara para dormir, deparou-se comseu reflexo nas paredes espelhadas. As pernas longas, os seios pequenos e osossos salientes não eram exatamente um ideal de beleza, entristeceu-se. Mastinha uma boa aparência, olhos pretos e nenhuma sarda. Porém a boca eragrande demais, o nariz muito longo e naquele momento havia linhas entre assobrancelhas. Lembrou que havia achado Liam bonito quando pensava que eleera Luther Killian. Agora que sabia quem era, não ficaria surpresa se Sophie seapaixonasse por ele. Sophie! Rosa sentiu vergonha de si mesma. Ali estava ela, pensando em LiamJameson, quando ainda não tinha a menor idéia de onde estava sua irmã.Telefonaria para a mãe novamente, decidiu. Quando voltou para o quarto, notou que a bandeja já não estava lá.Lembrando-se que não havia fechado a porta do banheiro, temeu que alguéma tivesse visto. Mas teria sido a senhora Wilson, assegurou a si mesma. Nãohavia a menor possibilidade de Liam Jameson ter recolhido a bandeja. E se tivesse sido ele?, perguntou a si própria, contrariada. Felizmente,havia um secador de cabelos na penteadeira antiga. Assim como o banheiro, oquarto era uma mistura de objetos antigos e modernos. O espelho eravitoriano e a cama tinha quatro postes, mas o modelo do colchão era do séculoXXI. Rosa demorou algum tempo para secar os cabelos. Ela se recusara aadmitir que o estilo sério do suéter e do jeans que escolheu para vestir não eramuito feminino. Era importante parecer confiante, por mais insegura queestivesse. Desceu as escadas, que já lhe eram familiares. A sala de jantar estavavazia. Rosas no centro da longa mesa eram o único sinal de vida. Ela pensouse deveria ir até a sala de recepção, mas duvidou que pudesse encontrar seuanfitrião lá. Lembrou-se da escrivaninha e do computador na biblioteca. Talvezfosse lá que escrevesse seus livros. Bateu à porta da biblioteca. Não ouviu barulho algum, a sala parecia estarnum silêncio assustador. Por que usara esse adjetivo? Repreendeu-se. Nãohavia sentido nenhuma presença estranha no castelo. 24
  • 25. Só havia uma maneira de descobrir. Pôs a mão na maçaneta e a girou. Sópercebeu que não estava sozinha segundos antes de alguém falar atrás. — Procurando por mim? — perguntou Liam Jameson com voz suave. Ela quase pôs o coração pela boca. 25
  • 26. CAPÍTULO CINCO — EU… Sim. — disse Rosa, a respiração descontrolada e ofegante. Ela se virou para vê-lo, amparando-se na porta pesada. Depois, ao notarseu sorriso zombeteiro, esqueceu todas as promessas que havia feito a simesma. — Fez isso de propósito? — perguntou, irritada. — Isso o quê? Liam tinha uma expressão inocente, mas podia perceber pelo rosto deRosa que ela sabia que havia sido proposital. — Tentar me assustar — exclamou ela, pressionando a mão sobre o peito,onde o coração ainda estava acelerado. — Honestamente, você quase me fezter um ataque cardíaco. — Sinto muito. Mas ele não parecia realmente sentir muito, e Rosa recuouinstintivamente quando Liam se inclinou sobre ela e abriu a porta. — Você primeiro — disse, aparentemente sem perceber que uma de suasmãos havia esbarrado nos seios dela. Os seios de Rosa se arrepiaram, mas ele pareceu indiferente àquelareação. Porém, não estava, e ficou feliz quando ela se virou e entrou na sala àsua frente. Meu Deus!, pensou, tão perturbado quanto Rosa. Ela secomportava como uma virgem ultrajada e ele experimentava uma sensaçãopatética, como se fosse um adolescente. O que estava errado com ele? Não tinha interesse algum em solteironasreprimidas. Mulheres que sabiam pouco sobre sexo, e que ficavam rígidas eassustadas com o que sabiam. Quando precisava de uma mulher, preferia umaque fosse experiente. Ainda assim, uma vozinha dentro dele o provocava. Seria divertido vercomo ela reagiria se ele a abordasse. Há anos não usava o sexo como outracoisa além de uma necessidade ocasional, com bons motivos para isso. E ofato de Rosa Chantry intrigá-lo não era razão para pensar que algo haviamudado. Ela ficaria tão horrorizada quanto Kayla ao ver suas cicatrizes. Masseria tão bom retirar os grampos de seu cabelo e sentir aqueles fios brilhantesse derramando em suas mãos… Mais uma vez se controlou diante daquele tipo de loucura. Apesar dapressão entre as pernas, estava determinado a não lhe dar motivos paraacusá-lo de perturbá-la. Ora, ele não precisava daquele tipo de aborrecimento.Mas se aquela reação infantil e masculina tinha a intenção de impedir qualquerpensamento de natureza sexual, estava tendo exatamente o efeito oposto. Liam fechou a porta, encostando-se nela e tentando controlar seurepentino desejo. Rosa havia caminhado pela sala, obviamente procurandomanter uma distância segura entre ambos. Quando sentiu que atingira seuobjetivo, voltou-se para ele. — Eu estava lhe procurando — disse, cruzando as mãos na cintura,inconsciente de que aquela era uma posição de proteção. — Queria lheagradecer. — Agradecer? — Liam não conseguia pensar em nenhuma razão para 26
  • 27. agradecimento, mas Rosa apertava os lábios. — Por me permitir passar a noite aqui — disse ela, com precisão. — Vocênão precisava fazer isso. — Ah! — Liam estava aliviado por sentir a pressão em sua calça diminuir,e se afastou da porta. — Não há de quê. Foi confortável? — Muito confortável, obrigada. — Então — Liam avançou pela sala. — Sinto muito por tê-la deixadosozinha ontem. Adormeci e só acordei depois da meia-noite. Rosa teve vontade de dizer: Como é apropriado estar consciente do quefez. — mas não disse. Ela estava prevenida em relação a ele, e um convite àintimidade não seria algo inteligente. Em vez disso, disse: — Está tudo bem. Sua governanta cuidou de mim. Dormi muito bem. — Você não teve medo de eu me transformar num vampiro no meio danoite e raptá-la? — Liam não pôde resistir à vontade de provocá-la, e elacorou. — Só um pouquinho — replicou Rosa, surpreendendo-o novamente. —Mas estou certa de que vampiros não viajam em balsas nem dirigem carros àluz do dia. — Luther Killian faz isso — disse ele, e Rosa lançou-lhe um olhar recatado. — Luther Killian não existe — disse ela. — Ou existe apenas em suaimaginação. — Você acha? — Não vá me dizer que acredita em vampiros, senhor Jameson. — Há muitos relatos sobre isso, tanto aqui quanto na Europa Oriental. Ese você fosse a Nova Orleans… — O que eu não vou fazer… — disse ela, percebendo que ele a estavadesviando de seu objetivo. Ela deveria estar lhe pedindo para telefonarnovamente, e não discutindo sobre monstros míticos. — Sei muito pouco sobreessas coisas, senhor Jameson. Mas imagino que fazem sucesso em seus livros. — Você acha que é só isso? Ele estava indignado. — Bem, eu não sei. Nada sei sobre vampiros. — Você sabe que eles não saem à luz do dia . — Todo mundo sabe isso. — E, incapaz de resistir, ela emendou: — LutherKillian aparentemente é uma exceção. — Ah, mas Luther é só metade desumano. A mãe era uma feiticeiraquando conheceu o pai dele. Rosa não conseguiu evitar um sorriso. — E ele a converteu, suponho. — Os vampiros sempre convertem suas vítimas — concordou Liam,estreitando o espaço entre eles. — Quer que eu lhe mostre? Rosa recuou. — Eu sei como, senhor Jameson — murmurou, sem saber se ele estavabrincando ou não. — Por favor — disse, estendendo as mãos à sua frente. —Não sou um personagem de seus livros. — Não — concordou ele, consciente de que corria o risco de permitir que arelação entre eles se transformasse em algo que não era. Liam se voltou para a escrivaninha, ouvindo a respiração aliviada de Rosa. — Você obviamente não acredita — disse. Rosa suspirou. Não queriaofendê-lo. 27
  • 28. — Não acredito em quê? — perguntou. Ele se virou e apoiou o quadril na escrivaninha. Cruzando os braços,respondeu cuidadosamente: — No sobrenatural. Como foi que você disse no caminho para cá?Fantasmas e lobisomens, que aliás são chamados de metamorfos, seres que setransformam. — E você acredita? — Oh, com certeza. Qualquer pessoa que encontrou o mal em sua formamais pura tem que acreditar. Rosa franziu a testa. — Está me dizendo que você encontrou o mal? Oh, sim. Por um momento, Liam achou que tivesse falado alto, mas o olhar curiosode Rosa o assegurou que não. Graças a Deus! — Acho que todos nós encontramos o mal de uma forma ou de outra —disfarçou, sem querer discutir suas experiências com ela. Ele já havia ido longedemais, e recuou. — Luther certamente encontrou. — Ah, Luther é apenas um personagem de seus livros. — O personagem principal — corrigiu ele. — E o que se chamaria de anti-herói. Ele mata, mas suas intenções são sempre boas. — Não é uma contradição? Como pode alguém, ou algo, que vive dematar pessoas ser considerado bom? Liam deu de ombros, e quando fez isto Rosa viu o reflexo de algoprateado em seu pescoço. Ou era uma marca de nascença ou algum tipo decicatriz. Rosa sentiu a boca seca. Ocorreu-lhe que aquilo poderia ter sido feitopelos dentes de alguém, ou de alguma criatura. Oh, meu Deus! — Acho que depende de sua definição de bom e mau — respondeu ele,distraindo-a. — Livrar o mundo de indivíduos maus não é algo digno derespeito? Rosa lutou para recuperar sua objetividade. — É disso que seus livros tratam? Algum tipo de vampiro que caçacriminosos para tornar o mundo um lugar melhor? — Um lugar mais seguro — concordou Liam. — Não critique. Nunca sesabe o que fazer quando se está diante do mal primitivo. — E você sabe? — Ela soava cética, e Liam teve que se conter para nãolhe dizer o que realmente acontecera com ele. — Espere aí, senhor Jameson.Nós dois sabemos que o senhor tem uma vida repleta de encantos. Liam teve que prender os dedos embaixo dos braços para não rasgar suasroupas e mostrar a ela o tipo de mal que encontrara. — Talvez — controlou-se. — Mas nem sempre vivi na Escócia, senhoritaChantry. — Eu sei — ela relaxou um pouco. — Li sobre você na Internet. Você nãotrabalhava na Bolsa de Valores, ou algo assim? — Na verdade era um banco mercantil. Rosa estava feliz por voltar à realidade. — Imagino que tivesse um bom salário. Depois ganhou muito dinheirocom seu primeiro livro e comprou seu próprio castelo. Que tipo de dificuldadeenfrentou? 28
  • 29. Liam ficou tenso. — Se é isso que você quer pensar… — disse, arrumando papéis na mesa.— Isso me lembra que tenho de trabalhar. Rosa sentiu-se envergonhada. Não lhe dizia respeito o modo como elevivia. — Olhe — disse ela, aproximando-se dele —, admito que não sei nadasobre você, verdade. E se você diz que sabe como é enfrentar o malverdadeiro, acredito. Mas… — Mas você não acredita em mim — disse Liam, bruscamente, voltando-se para ela novamente. Rosa notou, constrangida, que os dois estavam a umpalmo de distância um do outro. — Você está rindo de mim, senhorita Chantry,e não gosto disso. Não preciso de sua aprovação. Rosa molhou os lábios secos. — Eu só estava sendo educada — protestou. — Não é minha culpa se vocêé sensível em relação à veracidade de seus livros. — Sensível em relação à veracidade — Liam a fitou com raiva. — Não temidéia do que está falando. — Ele respirou com calma e tentou falarnaturalmente: — Vamos dizer que eu senti o mal na pele. Mas prefiro nãodiscutir isso, está bem? Rosa ergueu os ombros. — Eu não tinha a menor idéia — disse. — E por que deveria? — Liam não sabia se gostava do olhar simpáticodela. — Esqueça. Eu já esqueci. Mas ele duvidava de que um dia o faria de fato. Rosa hesitou. — Não quis dizer que não se pode acreditar em seus livros — persistiu ela,colocando uma das mãos sobre o ombro dele. — Sinto muito se o ofendi. Me ofendeu? Liam expirou com força. Embora estivesse vestindo um suéter, sentia otoque dos dedos de Rosa em sua pele. Os músculos de seu braço se retesaramquase instintivamente, os tendões se aquecendo e expandindo, assim comooutros músculos entre suas pernas. — Isto não é importante — murmurou ele, concentrando-se no cheirofeminino da pele de Rosa. Mas então ergueu os olhos e se deparou com aqueles olhos negrosansiosos, e sentiu que mergulhava na suave profundeza deles. Meioinconsciente do que fazia, ergueu uma das mãos e passou o dedo polegarsobre os lábios entreabertos de Rosa. A umidade aderiu a seu dedo e Liam nãopensou antes de colocar o dedo em sua própria boca, para sentir o gosto dela. Rosa ficou paralisada diante daquelas ações. Não imaginava que umatentativa inocente de confortá-lo teria um resultado tão perturbador. Todo oseu corpo estava quente e trêmulo, e ela percebeu Liam como nunca antes. Ouestaria apenas se iludindo? Ela o percebera desde o início! Quando Rosa passou a língua pelos lábios, foi porque eles haviam ficadosecos de repente, e não para absorver qualquer vestígio do cheiro de Liam.Mas ela o fez. Rosa o ouviu inspirando ar e imaginou o que ele estavapensando. Meu Deus, isto não estava acontecendo. Mas ela sabia que Colinjamais a fizera sentir nada como aquilo. Quando Liam falou, porém, seu tom foi sério. — Eu não deveria ter feito isso. Desculpe. 29
  • 30. Agora era Rosa quem inspirava com dificuldade. — Não tem importância — disse ela, olhando para o telefone atrás dele.Tenho que me acalmar, falou para si mesma. — Será que… Mas não conseguiu continuar a frase. — Tem importância, sim — retrucou ele, ajeitando o cabelo para trás. —Você deve estar pensando que estou desesperado por uma mulher! Liam notou como suas palavras a haviam atingido antes de terminar defalar. O fato de estar tentando assegurar a si próprio que suas emoções nãoestavam envolvidas não era desculpa. Ele percebeu, tarde demais, que o quehavia dito podia ter duas interpretações, e não ficou surpreso quando ela ofitou. — Sei que você não está — disse Rosa, passando os braços por seupróprio corpo delgado, de modo que seus seios pequenos se eriçaram demaneira inconscientemente provocativa. — Também não estou desesperadapor um homem. Liam conteve um gemido. Será que ela não percebeu que minha intençãonão era ofendê-la? Evidentemente que não. Agora cabia a ele desfazer oconstrangimento que criara, e ao encará-la percebeu que não seria fácil. — Olhe — disse ele —, não era minha intenção insultá-la. Ao contrário.Não gostaria que pensasse que eu esperava algum pagamento por minhahospitalidade. — Nós dois sabemos o que você quis dizer, senhor Jameson. Não sou tola.Você não precisa me dizer. Não sou o tipo de mulher que alguém como vocêacharia atraente. Liam sentiu uma pontada de indignação. Apesar da advertência da voz daconsciência, que dizia para não continuar com aquilo, ele se ofendeu com oque ouvira. Quem ela pensava que era para fazer julgamentos errados sobreele? Rosa não o conhecia. Nada sabia sobre seus gostos por mulheres. Masestava sugerindo que ele era algum tipo de tolo que só pensava em sexo. O fato de que aquilo era exatamente o que estava fazendo não foi algoque Liam considerou no momento. — Cuidado, senhorita Chantry. Começo a achar que você estádesapontada por eu ter parado o que estava fazendo. — Como ousa? Rosa não conseguia raciocinar quando ficava furiosa. Uma de suas mãosse fechou automaticamente e bateu na barriga dele. Achou que haviamachucado mais a ela própria do que a ele, mas não importava. Liam nãotinha o direito de ridicularizá-la. Não depois de fazê-la se sentir tão bem. Liam não se surpreendeu com o ataque. — Você precisa controlar seu temperamento, senhorita Chantry —comentou, estranhando sua respiração ofegante. — Qual é o seu problema? Oque foi que eu disse para merecer essa resposta? — Você sabe o que disse. Rosa tremia. — Ah, é? — Liam parecia estar sendo compelido por um demônio. — Enão é verdade? Rosa o encarou, imaginando como poderia ter se sentido atraída por ele. — Tem uma opinião muito exagerada sobre si próprio, senhor Jameson —afirmou ela, friamente, fazendo um esforço para manter a voz baixa. Seria 30
  • 31. muito melhor gritar com ele. — Se me permiti, só por um momento, ceder, foisimplesmente porque sinto pena do senhor. Quero dizer, não deve ser muitodivertido viver aqui sozinho, apenas com suas empregadas para se divertir. A maneira como Liam se sentiu ultrajado, lembrando-se da forma comoKayla o abandonara, fez com que uma onda de raiva tomasse conta dele. Esquecendo-se de que ele é quem estava errado, e que os insultos deRosa eram apenas um contra-ataque a seu sarcasmo, agarrou os pulsos dela eos torceu atrás de suas costas. — Você é apenas um poço de amargura, não, senhorita Chantry? Não épor acaso que nunca se casou. Nenhum homem decente agüentaria umamulher rancorosa como você. Rosa engoliu seco. O instinto de corrigir o que ele dissera foi oprimido pelotemor que sentiu por estar presa num abraço violento. Tentou se libertar, mascom a respiração quente dele quase sufocando-a, e uma das coxas apertadacontra suas pernas, ficara indefesa. Ambos respiravam rapidamente, e por alguns segundos travou-se umabatalha silenciosa. Mas não era realmente uma batalha, reconheceu Rosa. Ela estava nasmãos dele, e Liam sabia disso. Estranhamente, porém, ele não parecia apreciaressa situação. Ao contrário, quando seus olhos encontraram os dela, Rosanotou uma mistura de confusão e arrependimento. — Diabos — disse ele, rispidamente. — Isto não deveria acontecer. — Então me deixe ir — pediu Rosa, meio sem ar, mas não completamenteimune ao apelo daqueles olhos verdes. Assim, tão perto, ela conseguia ver acicatriz prateada que observara antes. — Sim, eu deveria — concordou Liam, perturbando-a, com o olhar fixo emsua boca. — Mas sabe o quê? — Liam ajeitou a posição em que estava e Rosateve quase certeza de que ele estava tendo uma ereção. — Não quero —completou ele. — Isso não é incrível? Liam sentiu enjôo enquanto observava a reação de Rosa a sua confissão.Será que ela tinha alguma idéia da onda de calor e desejo que o invadia,tornando o que começara como um desejo de puni-la numa vontade insana demostrar o que ela estava perdendo? Ele percebia que Rosa tremia, emboratentando se desvencilhar, e os seios que admirara antes se arrepiavam sob osuéter. — Por favor — disse Rosa, instável. Mas para Liam a voz dela parecia distante. Agora ele segurava os doispulsos dela com uma das mãos. Pôs a outra mão nos seios de Rosa epressionou os dedos sobre o mamilo intumescido. Sentiu que ela recuoutremendo, mas sentiu também uma corrente de sangue chegar à sua virilha. Estava sendo receptiva, percebeu, incrédulo, imaginando há quanto tempoela não teria a companhia de um homem. Se é que algum dia já teve, pensou,embora não acreditasse que ela fosse virgem. Entretanto, Liam desejava que a tivesse conhecido em outrascircunstâncias, que não tivesse sido cruel ao comentar que ela não se casara.Porque estava atraído por ela, por mais que negasse. Rosa não era linda, éclaro, mas tinha um charme misterioso que acendera seu romantismo. E nãohavia como negar que imaginava aquele cabelo magnífico se espalhando sobreo travesseiro em sua cama. 31
  • 32. Rosa sentia como se suas pernas não pudessem agüentar seu própriopeso por muito tempo mais. Liam voltara sua atenção para o outro seio,cobrindo-o com uma das mãos e pressionando o mamilo intumescido. Aquilo afez se sentir tonta como se estivesse nua, pensou, excitada. Sentia a umidade entre suas pernas, estava desconcertada. O que haviade errado com ela? Sempre soubera, mesmo quando fazia amorapaixonadamente com Colin, que uma parte sua se mantinha distante eacompanhava o que se passava com certa objetividade. Mas não conseguia ser objetiva com Liam. Quando ele olhava para ela damaneira que estava olhando agora, não conseguia nem pensar direito. Sentia-se fraca, possuída, consumida por um desejo que mal sabia que existia, demodo que quando Liam curvou a cabeça sobre ela, seus lábios se abriraminstintivamente para receber um beijo. Liam passou a boca sobre a curva do pescoço dela, e a dureza de seuqueixo arranhou seu rosto, mas ele não a beijou. Não na boca. Com certotemor, Rosa sentiu que Liam repentinamente se afastou. Soltou seus quadris eela perdeu o equilíbrio, só então percebendo que se apoiava nele. EnquantoRosa recuperava o equilíbrio, ele se virou de costas e se inclinou sobre a mesa. 32
  • 33. CAPÍTULO SEIS LIAM esperava que Rosa não percebesse por que ele dera-lhe as costas.Deixá-la não havia sido fácil, e seu corpo ainda não aceitava o que sua mentelhe dizia. Instintos exigiam ser satisfeitos, mas, embora a tentação fossegrande, o bom senso insistia para que ele se controlasse. Droga, disse a si próprio. Além do fato de que mal conhecia Rosa, elerealmente queria se expor ao ridículo novamente? Mas quando ela estava emseus braços, quando sentia seu cheiro, seu corpo delgado, tinha sido tão fácilse iludir e pensar que dessa vez daria certo. Todos os feromônios em seucorpo responderam a ela, e Liam queria tanto possuí-la, descobrir se ela eratão ardente quanto parecia! Isso era loucura, reconheceu. Por acaso queria que ela contasse a todossobre o monstro que ele era? Um monstro que não conseguia manter a calçafechada, pensou com amargura. Sim, os tablóides teriam um amplo material. É claro que finalmente ele teve que olhar para trás. Sem ouvir o menorsinal da respiração de Rosa, parecia que ela nem estava ali. Mas estava, emerecia uma explicação, embora não soubesse o que dizer. Depois de checar se não havia nenhuma evidência de sua excitação,encarou-a. Rosa ainda estava rubra, notou, o que lhe dava uma belezainesperada, mas se esforçava para se comportar como se ele não tivesse sidoum completo idiota. Rosa se refez quando ele se virou. Se Liam pretendia culpá-la pelo quehavia acontecido, já tinha uma resposta pronta. Ela não havia pedido para queele a tocasse e ele não tinha o direito de tratá-la com tão pouco respeito. Oh,ele ainda pensava que ela nunca se casara. O que faria se soubesse averdade? Se pelo menos houvesse uma maneira de sair dali… Para isso, dependiadele, ou de um telefone, tanto para pedir um táxi quanto para falar com suamãe. Depois do que havia acontecido, Rosa não gostava da idéia de ter deagradecer a ele por qualquer coisa. Liam suspirou. Aquela era uma experiência nova, da qual ele não gostava.Não gostava mesmo. Quando precisava de uma mulher, procurava uma quesoubesse o que estava fazendo. Nunca havia levado uma mulher ao castelo,jamais havia feito qualquer coisa que violasse a atmosfera de seu lar. Até aquele momento. Engolindo seu orgulho, disse, seco: — Sei que você não vai acreditar em mim, mas não costumo agir dessemodo. Antes que pudesse continuar, Rosa o interrompeu. — Você está certo — disse. — Não acredito em você, senhor Jameson.Posso ser ingênua, mas não venha me dizer que nunca se aproveitou de umamulher. — Ora! — Liam conteve a respiração. — Eu não me aproveitei de você. Setivesse feito isso, você saberia. E me chame de Liam, por favor. Não imaginacomo soa ridícula me chamando de senhor Jameson depois do que aconteceu.Você pode ser virgem ainda, mas eu não sou. 33
  • 34. Aquilo era indesculpável, mas ele achava que havia feito um bem a Rosa.Ela participara daquela aproximação, ele sabia. E não esqueceria aquelemomento por um longo tempo. — Ah, estou certa de que tudo que me diz respeito parece ridículo paravocê — replicou Rosa, ferida pela crítica injusta. — Mas se quer saber, eu fuicasada, senhor Jameson. Divorciei-me há três anos. Liam a fitou com um olhar vazio. — Você foi casada? — perguntou, incrédulo. — Durante cinco anos — respondeu Rosa, feliz por finalmente chocá-lo. — Não parece ter idade para isso. — Mas tenho. Tenho 32 anos, senhor Jameson. Idade suficiente. Liam estava surpreso. E decepcionado. Achava que ela não tinha mais doque 25 anos. Porém ficou mais perturbado com o modo como aquela notícia oafetara. Se soubesse quem ela realmente era, e que havia sido casada… Mas não devia continuar. Não era suficiente ter agido como um tolo ecriado uma situação inoportuna? — Olhe — disse ele — vamos concordar que ambos cometemos erros aqui.Eu não deveria tê-la agarrado, admito. Mas você não deveria ter me deixadofora de controle a ponto de eu não pensar no que estava fazendo. Rosa queria argumentar que fora ele quem a levara para ali e que, setivesse sido honesto desde o começo, nada daquilo teria acontecido. Mas aconsciência relutante de que não havia exatamente reagido a manteve emsilêncio. — Eu poderia usar seu telefone, então? Liam teve uma vontade de rir. As palavras dela eram tão inesperadas, tãoprosaicas, como se nas últimas horas estivessem conversando sobre o tempo.Mas percebeu que o humor não seria adequado naquele momento. — Por que não? — Obrigada. Só quero ligar para minha mãe. Liam ergueu as sobrancelhas: — E dizer que sua irmã não está aqui? — Sim. — Está bem. Ele lhe passou o telefone da escrivaninha. Rosa hesitou: — Talvez eu devesse telefonar para o táxi também? Como se chama otaxista? — McAllister? Não há necessidade — Liam caminhou para a porta,tentando esconder que sua perna reclamava do movimento repentino. — Samvai à vila esta manhã. Você pode ir com ele. Rosa não estava certa se queria aquilo. Sam não fora exatamentereceptivo a ela. — Se não se importa, telefonarei para McAllister. Não quero incomodar —disse. Liam fez uma pausa, suas sobrancelhas se juntaram. — O que Sam andou dizendo a você? — Ah, nada. E era verdade. Liam ficou pensativo. — Você não quer uma indicação sobre onde ficar? — Isso seria útil. 34
  • 35. — Está bem. Vou pedir a Sam que lhe dê um endereço. Liam abriu a porta, tentando não arrastar o pé enquanto se movia. — Mas… — disse Rosa — Sim? Rosa chegou a pensar em lhe perguntar sobre a perna, mas se conteve. — Você não me deu o número do telefone do senhor McAllister —comentou. — Sam vai lhe dar. Tenha uma boa viagem de volta. — Oh! — mais uma vez Rosa o detinha. — Não vou vê-lo novamenteantes de partir? Era uma pergunta tola, levando em conta que ele já lhe desejara boaviagem. Mas agora que chegava a hora, Rosa resistia a deixá-lo. Liam se apoiou firmemente na porta. — Não vai me dizer que lamenta ter de partir, vai? Porque, francamente,vai ser difícil acreditar. Rosa recebeu seu olhar zombeteiro de maneira defensiva. Em seguida,para sua surpresa, viu-se dizendo: — Suponho que ficará feliz ao me ver partir. Liam engoliu ar. Como deveria responder? — Bastante — admitiu finalmente. — Você me distraiu muito. — Ah, sim. Você quer dizer que já gastei muito de seu tempo. — Eu não disse isso. — Não precisava. Rosa se voltou para a mesa. Ao apanhar o telefone, disse: — Espero que sua perna melhore logo. Liam piscou, mas ela já não o olhava. E embora tivesse vontade deperguntar o que ela sabia sobre seus ferimentos, ficou calado. A porta se fechou e Rosa deu um suspiro de alívio. Quanto antes partisse,melhor. Apesar do que havia pensado, Liam era perigoso para sua paz deespírito. Sua mãe atendeu logo. — Sophie? Oh, querida, eu esperava que me ligasse de volta. De volta ? Rosa estava espantada. — Quer dizer que você sabe onde ela está? Houve um momento de silêncio. — Rosa? É você? — Quem mais poderia ser? O que está acontecendo? Você tem notícias deSophie? — Sim, ela telefonou ontem à noite. Você não imagina como fiqueialiviada. Está na Escócia. Está adorando. E há uma chance de conseguir umpapel na produção. Não é incrível? — Inacreditável, com certeza — disse Rosa, secamente, imaginando quesua mãe era uma tola por acreditar em Sophie. Quem empregaria uma adolescente sem o mínimo de talento? — Eu devia saber que você diria algo assim — comentou a senhoraChantry, irritada. — Só porque Sophie não está na ilha, como você esperava,você desconta sua frustração em mim. A Escócia é grande. — Não foi minha a idéia de vir para essa ilha. A idéia foi sua — disse Rosa. 35
  • 36. — Ela disse onde está? — Não exatamente. Você sabe como Sophie é. — Mãe, não há produção de filme nenhum. Ou se há, Liam Jameson nãosabe. Ele saberia — explicou Rosa, impaciente. — Você perguntou a ele? — Sim. Rosa se deu conta de que não havia perguntado se ele dera algumapermissão para que filmassem em outro lugar. Mas se tivesse dado, não terialhe dito? — E ele insistiu que nunca viu Sophie? — Sim. Mas vou falar com ele novamente. — Sabia que podia confiar em você. Não se esqueça de descobrir ondeestão filmando. Rosa desligou o telefone atordoada. A perspectiva de falar novamentecom Liam fazia seu coração bater acelerado. Mas onde estaria ele? Ao sair da sala, Rosa se deparou com Sam Devlin. Estaria ele ouvindo aconversa? Não, pensou. Algo lhe dizia que aquele escocês corpulento nãoestava interessado em nada que ela dissesse, e isto se confirmou quando eledisse bruscamente: — McAllister está vindo. Deve chegar em meia hora. Quer que eu carreguesua bagagem? — Ah, não precisa. Na verdade, queria falar com o senhor Jameson antesde ir. — Sinto muito, mas é impossível. O senhor Jameson está trabalhando e atranqüilidade dele vale mais do que o meu emprego. Rosa duvidou. Os dois pareciam ter um ótimo relacionamento. — É só por um minuto. — Sinto muito. Sam não se movia e Rosa o olhou, decepcionada. Se pelo menos soubesseonde era o escritório de Liam… Evidentemente não trabalhava na biblioteca,como pensara. Num castelo daquele tamanho ele poderia estar em qualquerlugar. — Diga-me o que quer perguntar e eu transmito sua mensagem quandoele estiver desocupado — sugeriu Sam. Mas Rosa não confiava nele. — É pessoal — disse. Uma outra idéia lhe ocorreu. — Você poderia me daro número do telefone dele? Eu ligo mais tarde. — Não posso fazer isso, senhorita. O senhor Jameson não fornece seunúmero particular para ninguém. — Então me dê o seu — sugeriu Rosa. — Vou informá-lo sobre onde estoue então o senhor Jameson pode me telefonar. — O senhor Jameson sabe onde a senhorita vai ficar — disse Sam. — Eleme pediu para lhe dar esse endereço. Só então Rosa viu um papel na mão dele. — Ah, obrigada. Ela apanhou o papel. — O senhor McAllister sabe onde fica isso? — Todo mundo sabe onde fica a hospedaria de Katie Ferguson — disseSam, com desdém. — Não estamos em Londres, senhorita. 36
  • 37. — Eu não moro em Londres — retrucou Rosa. — Venho de uma cidadepequena em North Yorkshire, senhor Devlin. Não de uma metrópole, como osenhor parece pensar. — Sinto muito. Eu achei… — O senhor não deveria achar nada — retrucou Rosa, satisfeita por deixá-lo na defensiva desta vez. — Obrigada por isso. Sem dizer mais nada, Sam fechou a porta. 37
  • 38. CAPÍTULO SETE — ELA foi embora? Liam acabara de sair do escritório depois de passar duas horas inúteistentando se concentrar em personagens que de repente não pareciamconvincentes. Encontrara Sam e a senhora Wilson na cozinha, tomando café, eaceitara uma xícara da governanta. Não estava, porém, em seu melhor humor,e seu estado não melhorou quando Sam disse, alegremente: — Ela se foi, Liam. Eu lhe disse que você estava trabalhando e não podiaser incomodado, mas acho que ela não ficou satisfeita. Liam fez uma cara feia. Acabara de queimar sua boca no café quente e ocomentário de Sam terminou de exasperá-lo. — O que você disse a ela? — perguntou duramente. — Por que disse isso? — Ora, porque o senhor não gosta de ser incomodado quando estátrabalhando — disse Sam, defendendo-se. — Não me diga que gostaria que ointerrompesse só porque uma moça qualquer pediu para vê-lo. — Como assim? O semblante aborrecido de Liam se acentuou, enquanto a senhora Wilsonse retirava discretamente, murmurando alguma coisa sobre verduras nojardim. Sam olhava o patrão de maneira combativa, mas ruborizado. — Acho que o senhor ouviu o que eu disse — resmungou, com audácia. — E quem foi que o nomeou meu guardião? — perguntou Liam. — Sei quevocê não gostou que eu a trouxesse aqui. Deixou isso bem claro. Mas esta é aminha casa, Devlin, e não a sua. Sam ficou tenso. — Achei que estava lhe fazendo um favor — protestou. — Obviamente euestava errado. Sinto muito. Tenha certeza de que isso não aconteceránovamente. Sam se virou e pôs sua xícara na pia, mas quando começou a atravessar acozinha, com a intenção de deixar o patrão sozinho, Liam se pôs no seucaminho. — Não, eu é que sinto muito — disse Liam, envergonhado por terdescontado sua frustração no empregado. — Esqueça o que eu disse, Sam.Não foi culpa sua. Estou de mau humor. Sam hesitou, parecendo ainda perturbado, e Liam se culpou por deixá-lonaquele estado. Ora, Sam estava certo. Provavelmente ele teria reclamado setivesse sido interrompido. Estava deixando uma mulher que provavelmentenão veria nunca mais arruinar uma longa relação com seu empregado, e issoera estupidez. — Vejo você mais tarde. Vou levar os cachorros para passear — disseLiam. — Quer que eu vá com você? — Sam olhou para a coxa machucada dopatrão com preocupação. — Certamente não quer ter outro daqueles espasmosquando estiver na colina. Liam disfarçou sua impaciência com a preocupação do empregado e disse: — O fisioterapeuta disse que eu devo me exercitar bastante. Explicou queprovavelmente ainda tenho problemas porque fico muito tempo sentado à 38
  • 39. escrivaninha. Estou bem. Depois de apanhar o casaco e os cães, Liam saiu com um sentimento dealívio. Os animais estavam igualmente alegres por escapar do confinamento nocastelo, e correram excitados, perseguindo cada gato e pássaro que viam. Liam não queria ir longe. Havia nuvens no horizonte e, a não ser queestivesse enganado, choveria antes do anoitecer. Não queria se arriscar.Graças ao ataque que sofrerá, seus dias de corredor haviam acabado. Aindaassim, caminhava pela colina, com o mato na altura do joelho. O vento quevinha do oceano agitava seu cabelo preto e o fazia desejar ter vestido umaroupa mais quente por baixo do longo casaco impermeável. Sua coxa se mexia com facilidade quando se exercitava, mas não sesentia preparado para descer a colina até a praia. Descer significava ter quesubir de volta, e o esforço seria muito grande. Estava já pensando em voltarquando Harley, o mais novo dos dois retrievers, assustou um coelho. O animalaterrorizado provavelmente se escondeu nos arbustos. Harley começou a latirem correria e os outros dois cães o seguiram em direção à praia. Liam gritou,mas sabia que estava perdendo tempo. Os cachorros não voltariam até que ocoelho sumisse, e foi nesse momento que sentiu os primeiros pingos grossosde chuva. Liam blasfemou alto, e seguiu mancando pela beira da colina. Conseguiaver os cachorros. Para eles era muito mais fácil descer pelo canal. Emboratentasse fazê-los voltar, os animais não o ouviam. Este era o preço por sua arrogância ao dispensar a ajuda de Sam, pensou.O empregado era 15 anos mais velho que ele, mas não pensaria duas vezesantes de ir atrás dos cães. E se não quisesse voltar para casa com o rabo entreas pernas, Liam teria que fazer o mesmo. Descer não era muito ruim. Embora a chuva estivesse ficando mais forte,sua determinação o manteve no caminho, até que suas botas afundaram naareia molhada. Enfim os cachorros voltaram, agitados, latindo e saltando emvolta dele, como se o objetivo deles fosse realmente levá-lo até lá embaixo. — Para casa! — ordenou Liam, severamente, ignorando a alegria dosanimais. Parecia que sua ordem tinha surtido efeito. Ou talvez fosse a chuva,refletiu. Era um aguaceiro. Qualquer que fosse o motivo, os três cachorrosobedeceram ao seu comando, mas para Liam era difícil segui-los. Sua coxadoía, e na metade do caminho teve que parar para que os espasmos na pernadiminuíssem. Os cães haviam desaparecido quando finalmente Liam chegou ao alto dacolina. Ele só esperava que os animais tivessem voltado para o castelo. Se nãotivessem, danem-se. Não procuraria por eles. Estava aliviado por Rosa Chantrynão estar mais ali. Odiaria se ela o visse daquele jeito. Afinal, ainda tinhaalgum orgulho. CHOVEU durante toda a quarta-feira. Confinada na hospedaria de Katie Ferguson, Rosa olhava a chuva com umsentimento de desespero. Sentia-se tão inútil! Onde estaria Sophie?,preocupava-se. A inatividade à colocava à mercê de seus temores. Ela disseque estava bem, e Rosa tinha que aceitar isso. Mas algo naquela situação nãose encaixava. 39
  • 40. De qualquer modo, Rosa não poderia fazer nada até que a balsa chegasseno dia seguinte. Consolou-se, riscando um círculo na condensação que suarespiração fizera no vidro da janela. A hospedaria era aconchegante. Seuquarto era pequeno, mas confortável. Entretanto, não havia outros hóspedescom quem pudesse passar o tempo. Ela olhou a mesa ao lado da cama. Estavam ali dois livros que haviacomprado na loja dos correios. Um era um romance histórico num cenárioescocês, que ela esperava que a distraísse de seus problemas, o que nãoaconteceu. O outro era de Liam Jameson. A atendente dos correios, uma escocesa falante, havia falado sobre aqualidade do texto de Liam. Já lera tudo o que ele escrevera, disse, emboranormalmente não gostasse daquele tipo de leitura. — Mas seus personagens são tão bons, não são? — entusiasmou-se. —Aquele Luther Killian! Meu Deus! Nunca imaginei que os vampiros pudessemser tão fascinantes. É claro que Rosa teve que admitir que nunca lera um livro de Liam, e foiquando descobriu como Sam havia explicado a presença dela na ilha. — Eu estava certa de que você já havia lido todos os livros dele, já quetrabalha para o editor dele — exclamou a atendente, surpresa. E quando Rosa se mostrou confusa, a mulher acrescentou: — Ah, o velho McAllister nos disse quem você era. Quando Sam Devlinpediu que ele fosse a Kilfoil, explicou que uma jovem da Pargeters estavavisitando o senhor Jameson. Sem querer aumentar o mexerico, Rosa pagou pelos livros e foi embora.Imaginava agora que Sam havia contado a mesma história à senhoraFerguson. Era possível, embora a dona da hospedaria fosse bem maisreservada e não tivesse perguntado a Rosa por que ela estivera visitando ocastelo. Rosa suspirou. Era por causa de Liam que não conseguia ler o livro dele.Era impossível deixar de associar Luther Killian ao homem que o criara, e ofato de Liam não ter se importado em telefonar para ela a incomodava. Não que tivesse conversado com sua mãe sobre isso. Na noite de terça-feira, telefonara para a senhora Chantry e lhe contara que ficaria na ilha,dando-lhe o número do telefone da hospedaria. Prometera que falaria comLiam no dia seguinte. Os dois últimos dias haviam sido terríveis. A chuva começara logo depoisde ela deixar o castelo, na manhã anterior. E demorou bastante para chegar àhospedaria no carro velho de McAllister. Mas ficou feliz por chegar sã e salva. Rosa se levantou da cadeira junto à janela e apanhou o livro de Liam.Faltava ainda uma hora para o jantar, que aparentemente era servido cedo nasHighlands, e mais duas horas até que ela fosse dormir. Tinha que fazer algumacoisa. É claro que o que precisava fazer era contratar o táxi de McAllisternovamente e ir até o castelo, nem que fosse para cumprir a promessa quefizera à mãe. Liam não telefonaria, ou porque Sam não lhe dera o recado, ouporque havia preferido não ligar, e aquela poderia ser sua última chance. Mas a idéia de entrar de novo naquele carro velho a desanimava. Alémdisso, não tinha realmente um motivo justificável para ver Liam novamente.Nem mesmo um motivo genuíno. Querer ficar um pouco mais com ele não 40
  • 41. adiantava, particularmente depois de Liam admitir que ficaria feliz por vê-lapartir. Portanto, tinha que se resignar a passar mais uma noite na hospedariae a viajar para o continente na tarde do dia seguinte. Mas no dia seguinte Rosa acordou com o barulho do vento contra asparedes do prédio antigo. Aninhando-se sob as cobertas, desejou não ter quese levantar da cama. Parecia uma tempestade, e ela já imaginava como seriaestar numa balsa com um tempo daqueles. Já havia passado mal na viagem deida, quando o mar estava razoavelmente calmo. Rosa suspirou, mas não havia alternativa. Teve que se levantar. Asenhora Ferguson dissera que a balsa chegava por volta das 1 lh30 e partia às12h30, passando ainda pela ilha de Ardnarossa antes de voltar para Mallaig. O que significava pelo menos mais uma hora de viagem, imaginou Rosa,desanimada. Mais uma hora num tempo daqueles! Pensou em inventar umadoença e ficar até segunda-feira, quando a balsa viria novamente. Depois de tomar banho, vestir-se e arrumar suas coisas, desceu para ocafé-da-manhã e encontrou a senhora Ferguson esperando por ela. — Sinto lhe dizer, mas você não vai embora hoje, senhorita Chantry —afirmou a dona da hospedaria — A tempestade obrigou à suspensão de toda anavegação e a balsa só sairá de Mallaig quando o tempo melhorar. Rosa sentiu um alívio que a paralisou. — Quer dizer que vou ter que ficar aqui até a tempestade passar? — Pelo menos até diminuir — concordou a senhora Ferguson. — Sintomuito. Rosa ficou envergonhada ao perceber que mal conseguira disfarçar seualívio. — Então, quando o tempo deve melhorar? — perguntou. — Não antes de sábado — disse a senhora Ferguson. — Mesmo assim,não há garantia de que a balsa venha. Estamos numa ilha pequena. Pode serque resolvam regularizar a navegação somente na segunda-feira. — Segunda-feira! Rosa pensou, com arrependimento, que é preciso ter cuidado com o quese deseja. — É claro que se houver um motivo urgente para voltar para o continente,é possível procurar o senhor Jameson. Ele poderia pedir ao piloto dele que alevasse em seu helicóptero. Quer dizer… — a senhora Ferguson parecia estaranalisando a situação — …ele é o motivo pelo qual a senhora está presa aqui,não é? — Sim. Mas não acho que seja uma boa idéia. Os helicópteros tambémnão têm problemas com o mau tempo? — Não como as balsas — assegurou a senhora Ferguson. — Estou certa deque amanhã não haveria problema. Deveria tentar isso? Rosa duvidou. De jeito algum Liam emprestaria ohelicóptero — um helicóptero! — a ela. Aquele era mais um sinal de como elaera tola ao querer falar com ele novamente. O estilo de vida dele era muitodiferente do seu. Mas nada comentou, e a senhora Ferguson se afastou para servir-lhe ocafé-da-manhã. Provavelmente estava pensando que ela considerava essapossibilidade, refletiu Rosa. Quando na verdade estava pensando que aqueleimprevisto poderia lhe dar uma nova oportunidade de falar com Liam. 41
  • 42. CAPÍTULO OITO SEM chance, pensou Rosa na manhã de sexta-feira, depois de passar maisum dia olhando para a chuva. Na quinta-feira à tarde, ela havia tomadoemprestado um casaco da senhora Ferguson e saído para dar uma volta, masnão tinha sido muito divertido. Continuava chovendo, mas o pior era o vento.Havia rasgado o capuz do casaco e deixado seu cabelo desarrumado. Ela tinha feito até uma nova tentativa de ler o livro de Liam, e estavagostando, até Luther Killian dizer algo que o próprio Liam diria. Aquilo a fezrelembrar o encontro dos dois, com seus detalhes perturbadores, e Rosa pôs olivro de lado. Agora, olhando pela janela, viu que seria outro dia desperdiçado. O vento não parecia ceder e a chuva ainda caía, embora parecesse maisfraca. Da janela ela via o porto, com os barcos amarrados, balançando. Semdúvida os pescadores também estavam aborrecidos. No caso dela, pelo menos,o mau tempo não afetava seu sustento. Ou o de Sophie, pensou. Sua irmãdevia estar bem, assegurou a si própria. Provavelmente estava num hotel deluxo, tomando café com o homem com o qual se envolvera. Certo, não eraLiam Jameson. Mas talvez ele tivesse lhe dito que era. Entretanto, Sophie eraesperta demais para acreditar nisso. Então onde estaria? Rosa estava convencida de que Liam não sabia, mastalvez tivesse alguma idéia. Qualquer coisa era melhor do que ficar sentada ali. Sacudiu a cabeça,impaciente, consciente de que procurava desculpas para procurá-lo. Afinal, suamãe esperava que fizesse isso. Fora a primeira coisa que perguntara a Rosanum telefonema na noite anterior. A mãe não havia tido mais notícias de Sophie. Rosa achava que a irmã semantinha em silêncio deliberadamente. Como havia dito que ligaria de novo,provavelmente temia que rastreassem sua chamada. Isto deixava Rosa com aterrível tarefa de encontrar outra maneira de localizá-la. Quando Rosa explicou a sua mãe que não tinha como sair da ilha, elaprotestou. — Não tem avião? Ou outro barco? — Não há aeroporto em Kilfoil, mãe — explicou Rosa. — Então você está me dizendo que não pode fazer nada até que as balsasvoltem a circular? — Acredite, eu estou tão feliz com essa idéia quanto você — respondeuRosa. Mas seria verdade? Rosa perguntou-se, consciente de que saber que Liamestava a 20km de distância era um alento. Se as balsas estivessem circulando,ela já estaria a centenas de quilômetros de distância, e sem chances de revê-lo. Não poderia ficar no quarto o dia inteiro. Havia tomado café e mais umavez não se sentia atraída pelos livros que comprara. Tem que haver umamaneira de ir ao castelo, pensou, seu coração se acelerando diante da idéia.Pelo menos teria alguma coisa para fazer. Mesmo que aquele Sam Devlin serecusasse a deixá-la entrar. 42
  • 43. A senhora Ferguson estava passando o aspirador na sala de estar quandoRosa desceu as escadas. Meio sem jeito, ela parou na entrada. — Eu estava pensando se poderia alugar um carro. — Você não tem o telefone de McAllister? Devo ter em algum lugar —comentou a mulher, pondo o aspirador de lado. — Não — interrompeu Rosa. — Eu não quis dizer um táxi. Estavapensando em eu mesma dirigir. — Mas não é um dia ideal para passear. — Eu sei — disse Rosa. — Na verdade, gostaria de ver o senhor Jamesonnovamente. Há… algo que esqueci de perguntar a ele. — Ah. E você não está disposta a ir com McAllister, é isso? Possoentender. Tenho de admitir que penso duas vezes antes de entrar naquelecarro. Rosa relaxou. — É isso. É possível alugar um carro aqui? — perguntou. — Você pode usar o meu carro. Não é lá grande coisa, mas é confiável.Rosa respirou fundo. — Isso é maravilhoso! — Não diga isso até ver o carro — explicou a senhora Ferguson, sorrindo.— Venha, vou lhe mostrar. O carro, um Ford antigo, ficava nos fundos da hospedaria, e Rosa logonotou que a senhora Ferguson não estava exagerando quando disse que nãoera grande coisa. Tinha aproximadamente uns 20 anos e estava coberto depoeira. Mas o motor começou a funcionar depois de algumas tentativas e Rosadeu um passo para trás quando a mulher deu marcha à ré até a rua. Pelomenos a chuva logo removeu a poeira do veículo e Rosa notou que o limpadorpára-brisa funcionava. Enfim, era tudo de que precisava. — Dirija com cuidado — recomendou a senhora Ferguson. — As estradasficam perigosas quando estão molhadas. Rosa não conseguiria ser pior motorista do que McAllister nem quequisesse. E não havia pressa. Se demorasse a manhã inteira para chegar lá,não importaria. Mas o primeiro sinal de que dirigir o carro da senhora Fergusonnão seria fácil veio quando Rosa chegou à primeira esquina e tentou virar. Aroda parecia um peso morto. Não havia direção hidráulica. Ficou mais fácil quando saiu da vila, mas ela não ficou menos tensa aopassar pela estrada junto ao pântano. A chuva prejudicava a visibilidade e umaou das vezes Rosa pensou ter visto fantasmas no meio da neblina. Eramesqueletos de árvores. Finalmente alcançou a estrada sinuosa que levava ao castelo de Kilfoil. Erelaxou. Conseguira. O único problema agora era poder ver Liam. Tinha asensação de que Sam não ficaria feliz quando ela chegasse à porta. Mas eledeveria saber que ela ainda estava na ilha. Com certeza esperava que elatentasse ver seu patrão novamente. Rosa atravessou a pequena ponte e estacionou no mesmo lugar em queLiam estacionara quatro dias antes. Quatro dias! Ficou impressionada. Era issotudo mesmo? Saiu do carro, fechando a porta com cuidado. Ninguém veio ao seuencontro, e Rosa relutou em anunciar sua chegada antes que a vissem. 43
  • 44. Ajeitando o ombro contra o vento forte que vinha do oceano, cruzou o pátioaté a porta. Não havia campainha, mas ela não esperava que houvesse. Os antigoscavaleiros não precisavam dessas coisas. Nos livros que lera, as ladiesesperavam por seus maridos observando pela janela estreita do solar, outalvez um vigia avisasse sobre a chegada de um estranho. — Senhorita Chantry! Rosa estava tão absorta em seus pensamentos que não ouvira a porta seabrindo. A governanta a recebia com óbvia surpresa. — Oh, senhora Wilson — Rosa sabia que devia ter se preparado mais paraaquele encontro. — Como vai? — Estou muito bem, obrigada — a mulher lançou um olhar curioso sobreseus ombros — Posso lhe ajudar em alguma coisa? — Espero que sim. — Rosa sorriu. — Ah… é… o senhor Jameson está? Aquela havia sido uma pergunta tola, percebeu Rosa. Onde mais eleestaria? — O senhor Jameson? A governanta parecia estar em dúvida, e ela se apressou: — Sim, quer dizer, ele está trabalhando? Eu poderia falar rapidamentecom ele? — Oh, eu… — mais uma vez a senhora Wilson olhou sobre seu ombro. —Sinto não poder responder, senhorita Chantry. — A governanta hesitou e emseguida prosseguiu: — Você teria que perguntar ao senhor Devlin. Vou chamá-lo. — Não, eu… Rosa começava a dizer que o senhor Devlin era a última pessoa quegostaria de ver, mas era tarde demais. A senhora Wilson já se virará e seretirara apressada, deixando Rosa sentindo frio na porta. Poderia tê-la convidado a entrar, pensou, desanimada. Não era a primeiravez que vinha ao castelo. Afinal, passara a noite ali. Por que era tratada comouma intrusa? Porque era o que era, refletiu. Foi quando ouviu os passos de Sam Devlinno saguão. Ela havia se protegido junto à porta, tentando não se molhar, oque não adiantara, mas deu um passo para trás quase instintivamente quandoele apareceu. Surpreendentemente, Sam parecia bem mais receptivo do que agovernanta. — Oh, por favor, entre, senhorita Chantry — exclamou ele, recuando parapermitir que Rosa entrasse no imenso saguão. — Está uma manhã terrível. Asenhorita deve estar desejando que a tempestade passe, sem dúvida. Euousaria dizer que está ansiosa para voltar para o continente, não? — Sim — Rosa não tinha outra alternativa a não ser concordar. — Sintoincomodá-lo novamente, mas ainda não falei com o senhor Jameson. — Ela fezuma pausa e prosseguiu, atrapalhada: — O senhor lhe transmitiu minhamensagem, não? — Que mensagem seria, senhorita Chantry? Rosa suspirou. Deveriaimaginar que a simpatia dele não era sincera. — Que eu gostaria de falar com ele novamente — disse, com firmeza. —Se a balsa não tivesse sido suspensa, eu já teria ido embora. 44
  • 45. — Sim, teria — Sam a examinava enquanto fechava a porta. —Diferentemente do que a senhorita pensa, transmiti ao senhor Jameson a suamensagem. — Ah, sim. Rosa agora se sentia uma tola, e seu rosto enrubesceu. — O que quer dizer é que o senhor Jameson não quis falar comigo, certo?— perguntou, sentindo-se humilhada. — Está certo. Percebo agora que nãodeveria incomodá-lo. — Ela se virou na direção da porta. — Obrigado por medizer. — Espere! — Sam agora parecia embaraçado. — Eu não quis dizer queLiam se recusou a falar com a senhorita. Na verdade, não sei o que ele teriafeito se… não tivesse conseguido. Ele… não tem estado muito bem desde que asenhorita partiu, quinta-feira. Esta é a verdade. Rosa ficou consternada com aquelas palavras. — É a perna? — perguntou, percebendo que estava entrando em terrenodesconhecido, mas ansiosa demais para conseguir evitar o risco. Ela cruzouseus dedos gelados, pressionando-os junto ao queixo. — Por favor, diga-me —insistiu Rosa. Sam franziu a testa. — A senhorita sabe sobre os ferimentos? — perguntou ele, com cautela. — Apenas… que ele parece ter problemas às vezes — admitiu, fitando-o.— Não tem? — Talvez. — Sam não foi claro. — Mas ele ficou muito molhado ao saircom os cachorros na tarde de terça-feira, e desde então não se sente muitosociável. — O senhor quer dizer que ele pegou um resfriado? Sam estavaevidentemente incomodado por falar sobre seu patrão. — Algo assim — admitiu finalmente. — Como a senhorita está vendo, otempo aqui pode ser imprevisível. — O senhor não quer dizer que ele está com pneumonia? — perguntouRosa, perplexa. — Oh, não — disse o empregado, com certa impaciência. — Liam não éum bom paciente, senhorita Chantry. — Você pode me dizer o que afinal está acontecendo? O inesperado som da voz de Liam pôs Rosa e Sam em estado de alerta, eimediatamente o empregado fez uma expressão de culpa. — Por Deus, homem, você quer nos matar de susto? — reagiu o Sam. — Obviamente não — disse Liam, terminando de descer as escadas datorre e caminhando em direção a eles. Liam notou que Rosa parecia estar diante da última pessoa que esperavaencontrar, e aquilo o perturbou. Aquela era sua casa, droga. Quem elaesperava encontrar? — O que está acontecendo? — perguntou. Rosa o fitou confusa. Depois do que Sam lhe dissera, imaginava que Liamestivesse fraco e vulnerável, com tosse e nariz escorrendo. Mas a realidade era totalmente diferente. Ele usava o habitual jeansapertado, o tecido quase branco em lugares para os quais não deveria olhar, euma camisa de seda de mangas longas, exatamente da cor de seus olhos. Eleparecia sinistramente perturbado — e tão perigoso quanto Luther Killian, tinha 45
  • 46. certeza. — A senhorita Chantry… — Sam começava a explicar. Mas Rosa sabia que não poderia permitir que ele levasse a culpa por suaintrusão. — Eu vim vê-lo — interrompeu ela, deixando seus braços caírem. — Osenhor Devlin estava me dizendo que… que você não tem se sentido bem. — Eu só disse a ela que você estava resfriado — exclamou Samrapidamente. Rosa percebeu os olhares dos dois se cruzando naquele momento. — Sim — Liam aceitava a explicação. Quaisquer que fossem seus defeitos, Sam era excessivamente leal. Nãofalaria sobre seus assuntos particulares com ninguém. Liam se voltou paraRosa, notando que ela estava tremendo. Não estava certo se era de frio, jáque usava um casaco leve, ou porque ele a assustava. — Certo, senhorita Chantry, é melhor vir comigo — disse Liam, comsimpatia. Rosa tinha os olhos arregalados e ansiosos. — Obrigada — disse ela, olhando para Sam com gratidão. — Fico gratapela ajuda, senhor Devlin. — Foi um prazer, senhorita — disse Sam. Em seguida, quando ela jáacompanhava Liam, o empregado perguntou: — A senhorita quer que a levemais tarde? — Oh, não — sorriu Rosa — eu peguei emprestado o carro da senhoraFerguson. Obrigada, de qualquer modo. Sam fez um leve cumprimento com a cabeça e dirigiu-se ao patrão: — Devo pedir à senhorita Wilson que leve um café? — Ótima idéia — concordou Liam. Sam lançou mais um olhar indagativo antes de sair pela porta do saguão. — Você fez uma conquista — comentou Liam, gesticulando para que Rosaseguisse à sua frente nas escadas. Ela franziu a testa. — Acho que não — disse. — Eu acho que sim. Sam normalmente não fala muito, acredite. Não commulheres, pelo menos. Rosa balançou a cabeça enquanto começava a subir as escadas.Seguindo-a, Liam observava intensamente a curva arredondada de suasnádegas. Ela é magra, observou, mas tem belas curvas, pernas longas egraciosas sob a calça justa. Ele também notou que ela prendera o magníficocabelo, fazendo um coque no alto da cabeça. Mas, como sempre, o vento e achuva haviam atrapalhado seus esforços. Fios do cabelo ruivo caíamsedutoramente sobre seus ombros, e Liam teve a tentação de apanhar um eenrolar em seus dedos. Mas se recusou a ir adiante. Nem queria imaginar o resultado de umaatitude como essa. Além disso, embora tivesse certeza que ela haviacorrespondido a sua atenção no início da semana, se visse as feias cicatrizesem seu corpo provavelmente sairia em disparada, como fizera Kayla. Rosa, por sua vez, ao ouvir o ronco da respiração dele, concluiu que Samnão havia exagerado quando lhe contara que Liam estava resfriado. Eleparecia respirar com dificuldade, e Rosa se sentiu envergonhada por duvidar 46
  • 47. do empregado. Finalmente eles chegaram ao alto da escada e Liam seguiu à frente.Passaram por várias portas, inclusive a da biblioteca e a da sala de jantar, queela conhecera na visita anterior, e pararam diante de uma porta no fim docorredor. A porta se abria para uma sala de estar ampla. Como o dia estavanublado, havia luminárias acesas sobre mesas e armários. Pontos de luz maisaltos aumentavam ainda mais a claridade daquela sala simples e bonita. Doissofás ladeavam a lareira e prateleiras cheias de romances e revistas cobriam oespaço entre as janelas. As cortinas, no mesmo tom caramelo dos sofás,estavam abertas, para exibir a fúria da tempestade. Rosa imaginou que numdia de sol a vista seria espetacular. No chão, um enorme tapete turco em tonsde azul e verde combinava com o tecido das paredes, fazendo Rosa se lembrarde que estava no castelo, e não na mansão, de um milionário. — Entre — disse Liam. — Meus sapatos estão molhados — murmurou ela, olhando para baixo. Liam ergueu as sobrancelhas: — Estou vendo. Então tire-os. — Você não se importa? — Por que me importaria? — perguntou ele com certa ironia. — Tire tudoo que quiser. — Ele fez uma pausa, percebendo que agora ela o olhava comcautela, e acrescentou calmamente: — Seu casaco? Está molhado também. 47
  • 48. CAPÍTULO NOVE ROSA não sabia bem como lidar com a petulância de Liam, mas seinclinou e tirou seus sapatos de salto baixo, pondo-os do lado de fora da sala.Tirou também o casaco, mas dobrou-o sobre o braço. Em seguida, com umasensação estranhamente fatalista, entrou na sala. O tapete era macio e quente. Rosa não percebera o quanto estava fria atésentir o calor da sala a envolvendo da cabeça aos pés. Quando a porta sefechou, olhou para trás com um sentimento de alívio que quase a fez se sentirculpada. — É uma bela sala — comentou, por necessidade de dizer alguma coisapara mostrar a ele que não se sentia intimidada. — Todo o castelo é bonito.Você tem muita sorte por viver aqui. — Eu? — Liam retirou o casaco do braço dela e apontou para os sofás. —Por que não nos sentamos e falamos sobre isso? Rosa não tinha uma resposta, mas, depois de vê-lo colocar seu casaconuma cadeira, decidiu que nada tinha a perder e se acomodou, nervosa, nocanto de um sofá. Liam se aproximou, e mais uma vez ela notou que ele arrastava a pernaesquerda. Mas não estava ali para lhe perguntar sobre assuntos pessoais,lembrou a si mesma, embora o desejo de manter-se fria tenha sumido quandoele se sentou a seu lado. — Está bem — disse ela. Rosa se viu obrigada a se virar para ficar de frente para ele, o que a fezrecuar um pouco sobre a almofada. — Então, você mudou de idéia? — Mudei de idéia? — perguntou Rosa confusa. — Sobre achar esse lugar bom apenas para carneiros e gado — observouLiam, com os olhos verdes atentos ao rosto confuso dela. — Eu não disse isso — respondeu Rosa ruborizando. — Praticamente disse — retrucou ele. — Lembro-me de você perguntaraté se era um lugar civilizado. — Isso foi antes de conhecer o local — defendeu-se ela. — De qualquermodo, não é por isso que estou aqui. — Eu acho que não — Liam se acomodou, repousando o tornozelo direitosobre o joelho esquerdo. — Sam me disse que você queria falar comigo antesde partir, na terça-feira. — Mas você não me considerou importante o suficiente para entrar emcontato comigo — exclamou ela, impulsiva. — Embora evidentemente vocêesteja bem melhor agora. — Ah, estou. Bem melhor — concordou Liam, secamente. Rosa o examinou com cuidado. — Então… você ia entrar em contato comigo ou não? — Não — declarou ele, educado. — Achei que era melhor assim. Rosa engoliu seco. — Melhor para quem? Para você, suponho. — Para mim, sim. E para você. — Liam a observava com um interesse 48
  • 49. relutante. Ele não precisava daquilo, disse para si mesmo, mas acrescentou: —Acho que não temos mais nada a dizer um para o outro, não? — Bem, é obvio que eu tenho. Rosa sabia que provavelmente seria mais prudente sair antes que dissesseou fizesse algo imperdoável. — Há mais uma coisa que quero lhe perguntar sobre Sophie. Sua irmã! Liam se conteve para não soltar um impropério. Já não haviamconversado sobre o desaparecimento da irmã? Ele nem conhecia a moça, masjá a detestava. Colocando o pé no chão, se inclinou para a frente e esticou aspernas. Em seguida, com uma voz controlada, disse: — O que tem ela? Rosa molhou os lábios secos. — Eu esqueci de lhe perguntar se é possível que estejam fazendo umfilme em outra parte das Highlands. Liam se voltou para ela com um olhar incrédulo. — Com certeza — disse. — As pessoas estão sempre fazendo filmes nestaparte do mundo. E daí? Agora você acha que sua irmã pode realmente ter seenvolvido com um sujeito de uma produção de filme? — É possível. Apesar da expressão de descrença nos olhos de Liam, Rosa estavaotimista. — E acho que você poderia ter me falado sobre a possibilidade de haveressas outras produções. — O quê?! — Liam estava indignado. — O que isso tem a ver comigo? — Bem, são seus livros, não? — Ah! Você acha que estou falando de alguma produção alternativa sobreum de meus livros? — Não está? — Claro que não. — Liam bufou, irritado. — Estava falando de filmes deuma maneira geral. Por favor, se eu soubesse que estavam fazendo um filmesobre um de meus livros nas Highlands você não acha que eu teria lhe dito? — Então não estão. — Não. — Tem certeza? Liam deu um meio sorriso. — Vamos colocar de outra forma. Eu não assinei nenhum contrato. — Você quer dizer que não lhe pagaram? — Se você prefere dessa maneira… Rosa respirou fundo. — Que outra maneira haveria? Sinto muito ter tomado o seu tempo. — Ora, não diga isso. — Tão repentinamente quanto antes, Liam mudoude idéia em relação a ela. — Você com certeza foi uma distração agradávelnum dia particularmente tedioso. — Fico feliz por tê-lo distraído. A voz de Rosa foi firme, mas quando ia se levantar, uma das mãos deLiam em sua coxa a impediu. — Não vá — pediu, seus dedos percebendo o calor da carne de Rosa porbaixo da calça comprida. Ela estava agitada, e quando seus olhos se abriram 49
  • 50. mais, Liam acrescentou rapidamente: — A senhora Wilson vai nos trazer umcafé. A boca de Rosa estava seca. Mas, apesar de tudo, sabia que era por issoque realmente estava ali. Ah, queria perguntar a ele sobre Sophie, também.Mas não tinha muita esperança nesse assunto. O que precisava saber era se aatração instantânea que percebera que ambos sentiram era apenas fruto desua imaginação. Naquele momento, não parecia. Os dedos segurando sua perna eramfortes e estranhamente possessivos. E quando ela ergueu a cabeça e olhou nosolhos dele, viu um reflexo de seus próprios desejos frustrados. Incrédula, notou que ele a desejava. Rosa só queria ter idéia do que faria. A batida na porta veio na hora certa. Liam soltou Rosa, levantando-sequando a governanta obedeceu a seu chamado e entrou na sala com umabandeja. — Sam disse que o senhor queria café — disse a senhora Wilson, lançandoum rápido olhar sobre a cabeça inclinada da convidada. — Onde quer que eucoloque? Liam lhe indicou a mesa baixa entre os sofás. — Aí está bom — disse ele, imaginando se a interrupção estava destinadaa levá-lo a recuperar seu bom-senso. A senhora Wilson depositou a bandeja e saiu. O barulho da porta sefechando parecia definitivo, e Liam sentou novamente no sofá ao lado de Rosa.Mas evitou olhar para ela, dizendo: — Sirva-se. Rosa olhou para a bandeja como se esta fosse lhe fornecer as respostasque buscava. Uma jarra de café fumegante, duas xícaras de porcelana, umajarra de creme e um açucareiro. Itens comuns, mas que indicavam umaconsciência cada vez maior da frieza que agora sentia em Liam. — Não estou com vontade — disse, finalmente. — E acho melhor eu ir. Antes que pudesse evitar, ele perguntou: — Você quer ir? Não! Rosa se voltou para ele. — Não sei — disse, com fragilidade. Liam suspirou e, esquecendo o que havia dito a si mesmo desde omomento em que pusera os olhos nela, esticou-se e pôs uma das mãos atrásda nuca de Rosa. Em seguida, antes que pudesse mudar de idéia, a puxoucontra si. E ela cedeu, aparentemente com vontade, seus lábios aos dele, com umasensualidade que ele não esperava. Liam pretendia manter aquela suavidade,mas quando os lábios de Rosa se abriram, mergulhou sua língua na bocaúmida, quente, sem se dar tempo para pensar. Ela tinha um gosto ardente e doce, e imensamente desejável. Antes queele pudesse saber o que acontecia, sua mão já havia descido do pescoço deRosa para a curva suave de sua espinha. Ela se arqueou e Liam sentiu os seiosdela empurrando seu tórax. E sua mão desceu mais, tocando a curvaprovocante das nádegas dela. Ela se mexia incontrolavelmente, mas não se afastou, e ele a deitou sobreas almofadas. Agora Liam a beijava com impulsividade como havia muitotempo não sentia. Se é que algum dia sentira, admitiu, enquanto a beijava 50
  • 51. com mais intensidade. Não era o que pretendia fazer, pensou, num raro momento de coerência.Não era realmente o que pretendia. Não costumava ceder a aventuras de umanoite com divorciadas carentes em busca de sexo sem compromisso. Alémdisso, mal a conhecia. E ela nada sabia sobre as cicatrizes monstruosas que seocultavam sob suas roupas. Ele já não apreendera, por experiência própria,que não se deve confiar em mulheres? Se não quisesse matá-la de susto,deveria parar com aquilo. Imediatamente. Rosa, entretanto, desconhecia os temores dele. E embora duvidasse quealguma coisa duradoura pudesse surgir daquilo, estava pronta para receber —e desejando — o que quer que Liam quisesse lhe dar. Seu casamento comColin, a dor que ele lhe causara quando descobrira que ele a traía, pareciamcoisas distantes na memória. Colin nunca a fizera se sentir daquela maneira. Orelacionamento dos dois havia sido uma conveniência, percebeu, e não umapaixão. Ela passou as mãos pelo pescoço de Liam, enrascando os dedos em seucabelo. Era um cabelo levemente grisalho, mas grosso, forte. Como todo oresto, pensou, sentindo a pressão da excitação dele contra sua barriga. A luta que Liam estava travando contra seu próprio desejo estava sendorapidamente perdida. Quando a língua de Rosa se enrolou com a sua, elesentiu o sangue correndo mais forte em suas veias. Sugou o lábio dela,mordeu-lhe a língua, sentiu sua cabeça rodando com o desejo que o consumia.Ele a queria, pensou com raiva. Acariciou o queixo de Rosa, e quando afastou a boca para respirar, seupolegar roçou sensualmente os lábios dela. A língua de Rosa tocou seu dedoenquanto ele se inclinava para morder-lhe o lobo da orelha. Cada vez maisexcitado, Liam deixou-se dominar pelo desejo. O cabelo de Rosa se despenteou enquanto eles se acariciavam, e Liamnão resistiu à tentação de enrolar aqueles fios em seus dedos. Aproximou ocabelo de seus lábios e a beijou através daqueles fios sedo-sos, ouvindo-agemer. Não resistiu a tocar os seios de Rosa através do suéter, mas, quando seinclinou para colocar o mamilo na boca, ela mexeu a cabeça e guiou sua mãopara a margem da blusa. Por baixo da blusa, a pele dela era macia e perfeita. Diferente da sua,pensou com tristeza. Quando Liam levantou o suéter, encontrou seiosardentes, que quase rompiam o sutiã. A visão de toda aquela carne macia ofez lembrar de seu próprio torso cheio de cicatrizes. Com um gemidoangustiado, escondeu o rosto entre os seios dela, dizendo com voz rouca: — Não posso fazer isso! Rosa respirava rapidamente, seu peito se elevando e descendo,correspondendo à ânsia que ele inspirava nela. Havia umidade entre suaspernas, e uma urgência a pressionava em seu ventre. Pareciam choqueselétricos que a deixavam excitada. — Você me quer — reagiu ela, sem saber onde havia encontrado coragempara dizer tal coisa. Céus! Havia poucos dias Rosa se convencera de que Liam nunca poderiase sentir atraído por ela. Mas ali estava ela, dizendo que ele a queria, quandona verdade podia facilmente a estar enganando. 51
  • 52. Mas Liam não negou o que ela disse. — Isso não importa — afirmou ele, com raiva. Mas quando pôs as mãosnas almofadas, em cada um dos lados da cabeça de Rosa, afastando seu corpodo dela, ela não o deixou ir. — Não importa — disse, pondo o rosto dele em suas mãos e forçando-o aolhar para ela. — Não estou na expectativa de um compromisso para a vidatoda. Só quero… estar com você. Será que é tão errado assim? Liam gemeu. — Não é tão errado… — Bem, então? — Você não entende — murmurou ele, desta vez conseguindo se afastarde Rosa. Ele abaixou o suéter dela, escondendo aqueles seios deliciosos de seuolhar faminto. — Eu não sou o que você pensa — disse. Rosa o fitou, atenta. — Se você for me dizer que não é normal, então… — Eu não sou um vampiro — disse Liam, bruscamente. — Mas acrediteem mim. Isso nunca poderia dar certo. — Não tem que dar certo — Rosa se sentou e o olhou, suplicante. — Eugosto de você, Liam. Desde que você falou comigo na balsa. Sei que não sousofisticada e glamourosa, mas pensei… eu realmente pensei que você tivessegostado de mim também. — Eu gosto de você — murmurou Liam. — Não tem nada a ver com gostarou não gostar de você. Tem a ver comigo. Só comigo. Rosa reconhecia quando perdia. Ela lhe dera o melhor de si e Liam adeixara eufórica. Não sabia o que estava acontecendo, mas não acreditava emmetade do que ele dizia. Por algum motivo, ele mudara de idéia em relação aela. Estaria Liam com medo de que ela esperasse algo que não poderia dar?Mesmo agora? Magoada, ela tinha que fazer uma última provocação, ainda quefosse para livrar algo de sua auto-estima arruinada. — É sempre alguma coisa com você, não é, senhor Jameson? —perguntou, passando os braços em torno de seu próprio corpo frio. — Você écompletamente centrado em si mesmo, não é? Você primeiro, você por último,você tudo! A injustiça daquela afirmação o deixou surpreso. Ele vinha pensando nela!E nele próprio também, admitiu, e em como se sentiria quando ela visse seucorpo e desviasse os olhos. Mas principalmente nela, para poupá-la das marcasque o atacante deixara em seu corpo. Ela não podia adivinhar que o motivopelo qual ele usava mangas compridas e suéteres era pelo fato de aquelehomem quase ter retalhado seus braços. Sabendo que se arrependeria do que estava prestes a fazer, se levantou ea encarou. Em seguida, enquanto ela o olhava, num alerta repentino, rasgousua camisa, abrindo-a. Botões caíram pelo chão, mas ele não se importou.Naquele momento, tudo o que queria era que Rosa visse a prova do queestava dizendo. Ela manteve-se em pé enquanto ele tirava a camisa pelos ombros eperdeu a respiração quando viu as cicatrizes nos braços e no peito. Alguém o 52
  • 53. atacou com uma faca, imaginou, e ele ergueu os braços para se defender. Então era isso o que Liam escondia, pensou, imaginando se ele achavaque aquilo o desvalorizava como homem. As cicatrizes eram antigas, e muitasdesapareciam. Mas as lembranças que deixavam nele eram suficientementefortes para arrasá-lo. Ela agitou-se, envergonhada por tê-lo provocado a fazer aquilo. Sem falarna acusação que fizera a ele de levar uma vida perfeita. Mas será que Liamrealmente achava que sua aparência lhe causaria repulsa? Ora, mas ela estavaenvergonhada de si própria, e não dele. — Eu… eu não sabia — disse, tentando tranqüilizá-lo. — Sinto muito,Liam, eu… — Não sente a metade do que sinto, acredite — resmungou ele. — Mascomo você mesmo falou, você não sabia. Imagino que isto seja algumadesculpa. — Ele voltou a vestir a camisa. — Agora você sabe, e eu quero quevá embora. Vou pedir a Sam que a acompanhe. — Mas Liam… — Não — disse ele, mancando em direção à porta. — Acredite, eu tivetoda a simpatia que podia ter. Rosa remoeu o que havia acontecido durante todo o caminho de volta àhospedaria. Não pensou na chuva, nem nas estradas escorregadias e, numaderrapagem, teve sorte de não cair no pântano. Naquele momento, suasegurança não significava nada. Nem notou que o carro não tinha direçãohidráulica. Só conseguia pensar no rosto de Liam quando ele abriu a camisa emostrou aquelas cicatrizes terríveis. Ela achava que nunca mais esqueceria otormento que vira nos olhos dele. Só quando parou o carro em frente à hospedaria Rosa percebeu que haviaparado de chover. Até mesmo o vento parecia mais brando. Mas a percepçãode que a tempestade estava indo embora não a animou. Pelo contrário. Abalsa viria e ela deixaria a ilha. Nunca mais veria Liam de novo. — Está tudo bem? — perguntou a senhora Ferguson, ao vê-la, percebendoo quanto ela parecia transtornada. — Sim, sim, está tudo bem — mentiu Rosa, ciente de que não poderiaconversar com ninguém sobre o que havia acontecido. — Obrigada por meemprestar o carro. Preciso pagar pela gasolina. — Ah, não precisa. Como eu disse, você fez um bem ao carro colocando-oem movimento. — A senhora é muito gentil — disse Rosa, forçando um sorriso. — Parece…é… que o tempo está melhorando. — Sim, eu percebi — concordou a senhora Ferguson, olhando para fora. —Mas você parece um pouco perturbada, senhorita Chandry, se não se importaque eu diga. Tem certeza de que não achou o passeio um pouco cansativo? Cansativo!? Rosa engoliu seco. — Só um pouco — respondeu, na esperança de que, concordando, asenhora Ferguson ficasse satisfeita. — Estou acostumada a direção hidráulica,sabe? 53
  • 54. CAPÍTULO DEZ O RESTO do dia foi um anticlímax. Depois de recusar um lanche que asenhora Ferguson lhe oferecera, Rosa se trancou no quarto, imaginando sealgum dia voltaria a se sentir normal. Os acontecimentos daquela manhãpareciam inacreditáveis. Teria sido seduzida por um homem sem que elequisesse? Ela não era o tipo de mulher com a qual coisas daquele tipo aconteciam. Ocasamento com Colin Vincent e a traição dele tornaram-na desconfiada emrelação aos homens. Mas desde o começo ela não teve essa sensação comLiam. Talvez porque jamais esperasse que ele se sentisse atraído por ela. Mesmo agora, Rosa não conseguia entender o que ele sentia por ela. Algoque não era suficiente para confiar nela, reconheceu, desejando que tivessetido a chance de convencê-lo que não se importava com as cicatrizes. Seriamelas o motivo pelo qual ele vivia ali, a quilômetros de distância das pessoascom as quais trabalhava? Rosa desejou conhecê-lo melhor, mostrar a ele queela… Ela, o quê? Rosa sentiu um arrepio. O que estava pensando? Não estava apaixonadapor ele. Atração sexual, talvez, e ela lamentava o modo como tivera que deixaro castelo. Mas mal conhecia Liam. Com certeza não o suficiente para amá-lo. Entretanto, isto não a impedia de lamentar o que havia acontecido. Aindanão sabia o que Liam pensava sobre ela, se achava que estava acostumada afazer aquele tipo de coisa. Mas não estava. Rosa sentiu outro arrepio. Não conseguia sequer se lembrar de ter secomportado de maneira tão desavergonhada algum dia na vida, mesmo comColin. Mas o que sentira por Colin não tinha nada a ver com os sentimentosque experimentara com Liam, algo de que também se arrependia. Mas Rosa havia realmente pedido a ele que fizesse sexo com ela? Haviarealmente dito a ele que não havia necessidade de comprometimento da partedele, além de levá-la para a cama e fazer amor enlouquecida eapaixonadamente com ela? Ficou ruborizada diante dessa lembrança. E também diante da consciênciade que realmente quisera aquilo. E ainda queria. Ela o desejava. Queria estarcom ele. E algo lhe dizia que aquela era uma experiência que jamaisesqueceria. Mas não daria certo. Liam havia assegurado. Num movimento devastador,ele havia mostrado o quanto estava ferido. Não apenas fisicamente. Suascicatrizes físicas estavam curadas. Eram as cicatrizes interiores quepreocupavam Rosa. Porque era aquela sensação, que parecia estar tão viva quanto na épocado ataque sofrido por ele, que o havia levado a se afastar dela. Rosa não erapsicóloga, mas podia apostar que alguém fora responsável por aquele escudoprotetor que Liam criara em torno de si. Alguém o havia ferido, e ela achavaque não era a pessoa que o atacara. Então, quem? Tinha que ser uma mulher, deduziu, triste. Uma mulherespecial. Uma mulher pela qual ele se apaixonara. Alguém com quem contara 54
  • 55. para apoiá-lo depois daquela experiência difícil… O telefone tocou no andar de baixo e Rosa ficou tensa. Não que esperasseque fosse Liam. Provavelmente ele não tentaria entrar em contato com elanovamente. Mas seu coração acelerou quando a senhora Ferguson a chamou: — É para você, senhorita Chantry. — E voltou ao compasso normal: — Ésua mãe. O que é desta vez? Rosa sentiu o peso de sua incapacidade enquanto descia correndo asescadas para atender ao telefone. Sim, ela havia perguntado a Liam sobre ofilme, ensaiou em silêncio. Mas não tinha nenhuma notícia nova para dar àmãe. — Oi, mãe — disse ao pegar o telefone, injetando uma dose de otimismoem sua voz — A tempestade finalmente está passando. Vou deixar a ilha nomais tardar segunda-feira. — Ah, sim, querida? — a senhora Chantry soava estranhamente agitada.— Que bom. Você vem diretamente para casa? Rosa estranhou. — Eu pensei em procurar um centro de informações para descobrir se… — Sophie não está na Escócia — interrompeu sua mãe. — Ela estava emLondres. Com um homem que conheceu no festival. Um músico, acredito. — Você está falando sério? — Estou. Sinto muito, Rosa. — Mas por que ela disse para Mark que estava indo para a Escócia? — Não sei. Para despistar, acho. Ela sabia que eu ficaria preocupada sesoubesse que estava com algum guitarrista de uma banda. Com todas essasdrogas… — Mas você estava preocupada, mãe. Sábado você estava nervosíssima. — Não exagere, Rosa. Você conhece Sophie. Ela é tão impetuosa. — Tão irresponsável! — resmungou Rosa. — Ela está aí? Deixe eu falarcom ela. — Ela não está. Foi à casa de Mark tentar acertar as coisas com ele. — Aquele tolo acredita em tudo o que ela diz — criticou Rosa, irritada.Seria ela a única da família com um pouco de bom senso? — Mãe, não acreditoque você vai deixá-la sair impune disso. Se fosse eu nessa idade, ficaria ummês de castigo. — Não seria bom fazer isso, Rosa. Ela vai para a faculdade em breve, etemo que deixe de vir para casa. — Mãe! Você não pode deixar que Sophie faça chantagem com você. Elafugiu com um músico, um homem que tinha acabado de conhecer. Podia serum seqüestrador! — Ah, Rosa, você está exagerando. Ela aprendeu a lição. Disse que ele adispensou quando se recusou a ir para a cama com ele. E você acreditou, pensou Rosa cinicamente. — Ela contou por que foi atrás dele? — perguntou. — Parece que ele prometeu que a apresentaria a pessoas que conhecia natelevisão. — E onde Liam Jameson entra nessa história? Sua mãe hesitou. — É… acho que foi culpa minha. 55
  • 56. — Culpa sua? — Rosa estava confusa. — Bem… — a senhora Chantry obviamente procurava palavras. —Evidentemente eu tirei uma conclusão errada. — Como assim? — Você sabe como Sophie adora os livros de Liam Jameson. E ela diziaque seria maravilhoso estrelar um de seus filmes. — Você está brincando! — Não. Quando Mark contou que ela havia ido para a Escócia com umhomem que encontrou no festival… — Não acredito! Você juntou dois mais dois e deu quinze! Mãe, por quevocê não disse isso antes de eu partir? — Você teria ido se eu tivesse falado? Não! Rosa respirou fundo. — Provavelmente não. — Eu conheço você, Rosa. Se achasse que era pura especulação, jamaisprocuraria Liam Jameson. E não é verdade?, pensou Rosa. — Ah, mãe… — Achei que você ficaria feliz por saber que sua irmã voltou para casa, sãe salva. E em vez disso você reclama de nós duas! Rosa sabia que era ridículo. Tinha 32 anos, afinal. Mas as palavras de suamãe fizeram seus olhos se encherem de lágrimas. Era tão injusto! Sophie eraegoísta e sua mãe se recusava a aceitar. — Tenho que desligar, mãe. A senhora Ferguson deve estar querendo usaro telefone. O que era improvável, admitiu. Desde que se hospedara ali, aquela era aprimeira vez que ouvira o telefone tocar. As pessoas em Kilfoil conversavampessoalmente. Rosa pôs o telefone no gancho e enxugou uma lágrima. Não vou chorar,pensou, mesmo que o dia tenha piorado ainda mais. Precisava se concentrarno futuro, em voltar para seu pequeno apartamento em Ripon, que de repenteparecia tão longe. As aulas recomeçariam em duas semanas, e ela precisavapreparar as lições. LIAM sempre ficava no hotel Moriarty quando ia a Londres. Era umestabelecimento pequeno, seleto, conhecido por poucas pessoas, que, comoele, reservavam uma suíte para o ano inteiro, de modo que estivesse sempredisponível quando precisassem. Eis uma vantagem de ser um homem bem-sucedido, pensou, enquantodirigia seu carro pela estrada. Podia ficar no hotel completamente anônimo.Mas não pretendia ficar mais do que duas noites. Passaria alguns dias naclínica Erskine, em Knightsbridge, fazendo um tratamento para sua perna. Desde agosto, quando fora surpreendido por uma tempestade por causados cachorros, sentia um desconforto cada vez maior na coxa. O médico localachava que ele poderia ter rompido um ligamento, e que com o tempo sesentiria melhor, o que não aconteceu. Era obrigado agora a procurar a clínica. É claro que Sam achou que seria imprudência dirigir até Londres. Omelhor era ir de helicóptero. Mas helicópteros chamam atenção, e isto era aúltima coisa que Liam queria. 56
  • 57. Liam estacionou o carro junto à lanchonete de um posto de gasolina paracomprar um café. Levou o café para o carro e olhou o mapa. Analisou o trajetoe viu que passaria perto da cidade de Ripon. Ripon! Liam tomou um gole do café. Por que queria saber como chegar a Ripon?Certo, porque descobrira por intermédio da senhora Ferguson que era ondeRosa morava. Mas e daí? Fazia quase dois meses que a encontrara, e depoisda forma como ele se comportara, duvidava que ela quisesse revê-lo. Ele não sabia sequer por que ainda pensava nela. Não era mais criançapara acreditar que o que haviam tido era alguma coisa além de uma tolapaixão e atração sexual. Ele a desejara, sim, mas a experiência o ensinara quenem sempre se consegue o que se quer. Não havia dúvida de que Rosa ficarahorrorizada ao ver as cicatrizes sob sua camisa. E ela não havia visto a partepior. Era um milagre que ainda conseguisse manter relações sexuais. Liam tentou justificar seu interesse dizendo a si próprio que estavapreocupado com ela. Será que Rosa encontrara a irmã? Estaria a irmã segura ebem? Certamente. Apesar de fazer uma busca na internet, examinando cadajornal publicado na região de Ripon, nada encontrara sobre o desaparecimentode Sophie Chantry. Onde quer que estivesse, não estava virando notícia, egeralmente isso era um bom sinal. Pelo menos para Rosa, esperava ele. Liam não conseguia acreditar quehoje e naquela idade, com tantas informações sobre os perigos para jovensque saíam com homens recém-conhecidos, a irmã de Rosa tivesse secomportado de maneira tão tola. Ou era completamente ingênua oucompletamente estúpida. Lembrando-se do que Rosa lhe dissera, apostava nasegunda possibilidade. Ele dobrou o mapa e o guardou no porta-luvas, terminando de beber ocafé. E agora? Voltaria para a estrada e seguiria diretamente para Londres,como dissera a Sam? Ou faria um desvio no sentido nordeste? Olhou o relógio, que marcava 15h de uma terça-feira de outubro. Calculouque seriam 17h quando estivesse chegando a Ripon, se seguisse para lá. Comosaberia se ela já teria voltado para casa depois do trabalho? Ou mesmo seestaria sozinha? Será que queria mesmo correr o risco apenas para satisfazerum capricho do qual provavelmente se arrependeria? Ele sabia a resposta, ejogou o copo de café vazio na lata de lixo. Se não encontrasse Rosanovamente, jamais saberia como realmente se sentiria. Felizmente o trânsito estava bom, e ele chegou aos arredores de Riponpouco antes das 17h. Agora, tudo o que tinha a fazer era procurar alguém quelhe dissesse onde ficava a Richmond Street. Um policial estava patrulhando uma rua ao lado da catedral e Liam parouo carro perto dele. — Estou procurando a Richmond Street. Pode me ajudar? — perguntou. — Sim, você acabou de passar. É naquela direção, cruzando a WinstonStreet. Liam xingou. Teria que dar uma volta grande para retornar. — Seria mais fácil o senhor estacionar e seguir andando — sugeriu opolicial. Liam preferiu voltar até a praça do mercado. Toda essa confusão paraencontrar uma mulher que poderia nem querer falar com ele. Demorou a 57
  • 58. encontrar um estacionamento. Levara mais tempo para achar a casa do quepara sair de sua rota e chegar a Ripon. E ainda tinha cinco horas de viagempela frente, se quisesse chegar a Londres naquela noite. Felizmente o ar estava seco, embora fizesse frio. O vento soprava nasruas estreitas e ele sentia a perna doer. Deveria ter ficado no carro, pensou.Da maneira como se sentia, caminhar qualquer distância era penoso. E tudopara ver uma mulher que mal conhecia. Encontrou a Richmond Street sem muita dificuldade. Era uma rua decasas geminadas, e ainda estava claro o suficiente para ver o número 24 comfacilidade. Olhou o papel que guardava no bolso. Dizia 24b. Mas não havia24b. E nem 24a. Teria ela dado um endereço errado à senhora Ferguson? Ele franziu a testa. Decidiu que o melhor a fazer era bater à porta da casa24 e pedir informações. Abriu o portão e se aproximou. Foi então que viu ointerfone na parede junto à porta. Observou luzes no andar de cima. Haviagente em casa. Mas seria no apartamento 24a ou no 24b? Tocou a campainha. — Sim? A voz que respondeu era inconfundível. Liam não gostou da maneira comoela percorreu seus nervos e chegou ao coração. Meus Deus, qual era oproblema com ele? Nem mesmo Kayla o fizera se sentir daquela maneira. — Rosa? — sua voz saiu meio rouca. — Sou eu, Liam Jameson. Possosubir? Silêncio. Liam ficou pensando no que faria se ela se negasse a falar comele. Arrombar a porta? Ir embora? Esperava não ter que tomar essa decisão. — Empurre a porta — disse ela, finalmente. Com uma sensação de alívio,ele ouviu o som do botão que abria o trinco. No interior estava escuro. Só conseguiu ver um corredor que levava àparte de trás da casa e uma escada para o primeiro andar. Para que ele soubesse qual era o seu apartamento, ela acendeu a luz noalto da escada, onde estava em pé, olhando para ele. Liam fechou a porta esubiu. Ela parecia diferente, pensou, e então percebeu que cortara o cabelo.Agora os fios batiam nos ombros. Ainda uma massa de cachos, porém maissuave, mais feminina. Vestia uma calça preta e uma blusa verde de um tecidosedoso, que caiu no ombro quando ela se mexeu. Parecia bem, observou. Bemdemais para ficar à noite assistindo à televisão. Sozinha. Sua perna enrijeceu quando ele subia a escada, e por um momento elenão conseguiu se mover. Esperando que ela não notasse, disse, firmemente: — Desculpe se estou invadindo seu espaço. Rosa franziu a testa, e Liam teve quase certeza de que ela comentaria suaparalisia momentânea. Mas logo conseguiu mover a perna novamente, e elarecuou para a entrada. — Você não está invadindo. Entre. 58
  • 59. CAPÍTULO ONZE — OBRIGADO. Liam estava aliviado por chegar ao alto da escada. A sensação era de quenão conseguiria subir nem mais um degrau. E eleja pensava em como seria avolta até o carro. Talvez pudesse pedir um táxi. Achava que não conseguiriafazer o caminho de novo à noite. Enquanto isso, Rosa imaginava o que ele estava fazendo ali. Tentou seconvencer de que não tinha nada a ver com o que havia acontecido antes deela deixar o castelo. Mas o que mais poderia ser? Ele deveria ter conseguido seu endereço com a senhora Ferguson. Elaimaginava a surpresa da mulher diante do pedido. A dona da hospedaria deveter estranhado por que ele não havia procurado seu editor. A não ser que, poralgum motivo, Liam tivesse contado a verdade a ela. Rosa passeou os olhos pela sala quando ele entrou, tentando avaliar comoele veria o ambiente. Era um espaço confortável, combinando sala de estar ede jantar. Mas era modesto, bem diferente dos apartamentos de luxo aosquais estava acostumado. Ela recolheu rapidamente uma meia-calça que deixara sobre uma cadeirae uma revista que ficara em cima do sofá de chenille. — Por que você não se senta? — convidou, consciente do esforço que elefizera para subir a escada. — Você parece cansado. — Você quer dizer acabado? — sugeriu Liam, com ironia, jogando-se nosofá com alívio. — Estou meio retesado, só isso, estou dirigindo desde hojecedo. — Mas hoje é terça-feira! — Como assim? — Achei que a balsa só circulasse às segundas e terças-feiras —espantou-se ela, balançando a cabeça. — Ah, é claro. Provavelmente vocêusou seu helicóptero. Liam fitou-a. — Como você sabe que tenho um helicóptero? Rosa endireitou a postura. — A senhora Ferguson me disse — ela fez uma pausa. — Quando…quando eu estava presa na ilha, ela me sugeriu pedir a sua ajuda. — Ah — Liam inclinou a cabeça. — A bondosa senhora Ferguson. Sintodesapontá-la, mas passei a noite com Jack Macleod. — Quem? — Rosa nunca tinha ouvido falar de Jack Macleod. — O homem com o qual você me viu conversando na manhã em quetomamos a balsa para Kilfoil — explicou ele, acomodando as costas nasalmofadas e colocando as mãos nos bolsos do casaco. — Ou eu sou o únicoque se lembra disso? Rosa umedeceu os lábios. — Não, não. Eu me lembro — assentiu ela, defendendo-se. — Ele é seuamigo? — Um bom amigo — concordou Liam. — Ele mora em Mallaig, e, quandocomprei a ilha, se ofereceu para me apresentar às pessoas das quais eu 59
  • 60. precisava para reformar o castelo e as casas. Seus avós haviam morado emKilfoil, e ele me ajudou muito. Ficamos amigos desde então. — Entendo — disse Rosa. — Imagino que a senhora Ferguson tenha lhedado meu endereço. — Sim — confirmou Liam, abaixando os olhos e exibindo cílios que muitasmulheres invejariam. — Espero que não se importe. — Por que me importaria? Rosa percebeu que ainda estava segurando a revista e a meia-calça queapanhara quando ele chegou. Com um gesto casual, cruzou a sala e pôs osobjetos numa gaveta, para em seguida reduzir a temperatura do aquecedor agás. De repente a sala parecia excessivamente quente. De costas para ele,acrescentou: — Posso lhe servir alguma coisa? Uma bebida? — Uma cerveja seria bom — respondeu ele, sem que realmente quisessequalquer coisa naquele momento. A dor em sua perna estava apenas começando a diminuir, e a última coisaque desejava era ter de caminhar novamente. — Ah… você encontrou sua irmã? Rosa se esticou e voltou-se para ele, a blusa caindo no ombro novamente,revelando a alça do sutiã. — Ela estava aqui quando voltei — confessou, com ironia. — Estivera em Londres o tempo todo. — Londres? Mas o que ela estava fazendo em Londres? — Saindo com um músico que conhecera no festival — respondeu Rosa,com uma careta —, que aparentemente a dispensou quando ela se recusou adormir com ele. Liam pareceu duvidar disso, e Rosa teve que continuar: — Eu sei. Incrível, não? Mas minha mãe acredita em tudo o que ela diz.Sophie faz com ela o que quer. Liam a fitou. — E como eu entrei nessa história? — Ah. — Rosa ficou rubra. — Foi um erro de minha mãe. Quando Mark, onamorado de Sophie, telefonou para contar que ela havia ido para a Escóciacom um homem que a ajudaria a se tornar atriz, ela imediatamente pensou emvocê. — Por que? — Como eu lhe disse, Sophie sempre foi sua fã. Acho que minha mãeprecisava pensar em alguém e o escolheu. — Então foi sua mãe que lhe mandou para Kilfoil? — Mmm — admitiu Rosa. — Mas Sophie havia dito que estava indo para aEscócia. Essa parte é verdade. Liam balançou a cabeça, incrédulo. — Posso perguntar por quê? — Para nos despistar — respondeu Rosa encolhendo os ombros. —Quando me lembro do que aconteceu, de como fui tola por acreditar no queminha mãe disse… Mas ela tem ascendência italiana, e estava praticamentehistérica quando me telefonou. — Rosa fez uma expressão de lamento. —Agora, uma cerveja. — E começou a caminhar para a cozinha. — Mais algumacoisa? 60
  • 61. Claro que sim, pensou Liam, para em seguida responder que não. Rosacaminhou rapidamente, e ele percebeu que ela estava nervosa. Imaginou porque. Estaria esperando alguém? Um homem, talvez? Esse pensamento o irritou. Céus! Ele não acreditava no quanto desejaravê-la novamente. Aquilo aumentava a impaciência que sentia diante de suaprópria fraqueza. Mas ele não fora até lá para receber a simpatia dela. Queriatestá-la, mas não daquela maneira. Cerrando os dentes, se levantounovamente e caminhou até a porta da cozinha. Em seguida, esticando o ombropara dentro, perguntou: — Você mora sozinha? Rosa levou um susto. Como percebera que ele estava cansado, nãoesperava que se levantasse. Ela já havia retirado uma pequena garrafa decerveja da geladeira e estava prestes a pôr a bebida num copo, mas a apariçãodele a surpreendera. — Ah, sim — disse, concentrando-se em abrir a garrafa. Porém, quando se preparava para encher o copo, Liam a interrompeu. — Não se preocupe, eu bebo na garrafa. Rosa lançou-lhe um olhar dedúvida. — Tem certeza? — Tenho — respondeu ele, estendendo a mão. Ela lhe entregou a garrafa. Liam não saiu, porém, de onde estava, e Rosa o observou enquanto elelevava a garrafa à boca e tomava um grande gole. Os músculos na garganta de Liam se mexeram enquanto ele bebia, e, aoobservá-lo, sentiu novamente aquele tremor de desejo, consciente de que eraalgo que nunca sentira antes de conhecê-lo. Liam abaixou a garrafa de repente e se virou para olhá-la. E, no mesmoinstante, Rosa sentiu as pernas trêmulas. Fez um esforço verdadeiramentefísico para desviar o olhar daqueles olhos cor de jade e dizer, meio semrespirar: — Por que você não se senta novamente? Não se pode aproveitar coisaalguma estando em pé. — Você acha isso? — perguntou Liam provocando-a. E, colocando agarrafa sobre a bancada, estendeu-lhe a mão. — Venha cá. Rosa engoliu seco. — Você quer ajuda? — Não! — respondeu ele, irritado. — Não preciso de sua ajuda. Não paraisso, pelo menos. — Ele lançou sobre ela um olhar exasperado. — Só estoupedindo para você vir aqui, pode ser? Rosa hesitou, mas finalmente deixou de se apoiar na geladeira e seaproximou dele. — E agora? — perguntou. — Como se você não soubesse — retrucou ele, com a voz suave, massegurando-a pelo pulso e aproximando-a de si. — Beije-me — disse ele. Rosa se sentia sem ar. — Liam… — Apenas me beije — exigiu ele, com firmeza. E, sem dizer mais nada,Rosa aproximou seus lábios dos lábios dele. Liam resmungou, frustrado. — É omelhor que você consegue fazer? — perguntou. Em seguida, usou sua mãolivre para acariciar o cabelo magnífico de Rosa. — Beije-me. Com vontade. Eu 61
  • 62. não viajei de tão longe até aqui só para você me dar uma cerveja. — Então por que veio? — indagou Rosa fitando-o, e resistindo ao desejode beijá-lo. — Por que veio de tão longe? Os olhos de Liam se estreitaram. — Adivinhe — disse ele. Rosa respirou fundo. — Por que queria me ver? Liam tinha uma expressão cínica. — Você tem um jeito de dizer… — Então me diga você o que dizer — exclamou ela, ao mesmo tempodefensiva e excitada. — Por que você queria me ver? Até onde eu me lembro,antes você estava ansioso para se livrar de mim. — Sim — Liam tinha um tom irônico. — Foi o que eu fiz com que vocêpensasse, não? — Não era verdade? — Sim, era verdade — ele afagou com delicadeza o cabelo de Rosa. —Ainda é verdade. Mas estou descobrindo que não sou tão heróico quanto eupensava. — Heróico? — Rosa estava intrigada. Liam se mexeu, apoiando-se nooutro pé. — Se eu tivesse juízo, não estaria aqui. Rosa reagiu: — Se você acha isso… Não conseguiu continuar a falar. Ele se inclinou sobre ela e a beijou. Aquilo não era totalmente inesperado. Ambos estavam evitando aquelemomento desde que ela abrira a porta. Mas ainda assim Rosa não estavapreparada para o furor com que Liam a puxou para si, e para o gemido queemanou de sua garganta quando ele a beijou. Os lábios de Rosa se abriram por vontade própria, e a língua de Liammergulhou ansiosa em sua boca. Ele descobriu que não estava imune àtentação do corpo macio de Rosa pressionado contra o seu, nem com vergonhade tirar vantagem da fraqueza que ela demonstrava. Era o que ele queriadesde que Rosa o deixara entrar no apartamento, e embora sua coxa doesse,uma dor mais urgente aumentava com sua ex-citação. O beijo se prolongou e se aprofundou, dando vazão ao desejo de ambos edeixando-os sem respiração e trêmulos. Tentando manter o controle, Liamdeixou a boca de Rosa e a beijou por trás da orelha, para em seguida mordê-lacom ardor. A blusa dela escorregou de novo no ombro, e desta vez Liam afastoutambém a alça do sutiã, encostando seu rosto nos seios macios. Mordeu comdelicadeza os seios e em seguida os sugou, faminto, sentindo prazer ao verque deixava marcas no corpo dela. — Você me quer — exclamou Rosa, tonta, segurando o cabelo de Liam portrás, num esforço para se manter firme. — Você me quer mesmo. — Você notou — falou com emoção. — Sim, eu quero você. Vai dizer quenão sente o mesmo? — Seria uma estupidez, não? — respondeu Rosa, com a voz rouca. —Acho que você sabe como me sinto, do contrário não estaria aqui. — Sei como você acha que se sente — reagiu ele. — Mas você não sabede tudo. 62
  • 63. Rosa se agitou, sentindo a pressão da excitação de Liam em sua barriga. — Eu já fui casada — disse ela com delicadeza, procurando fazê-lorelembrar-se do que lhe dissera. Mas Liam apenas gemeu ao ouvir aquelas palavras. — Não foi o que quis dizer, e você entendeu — murmurou ele, soltando-aabruptamente e virando-se para a sala de estar. — Então, sem olhá-la norosto, disse: — Você não vai ficar horrorizada se eu tirar a calça? Rosa foi ao encontro de Liam, passando os braços em torno dele epressionando seu rosto contra a lã macia de seu casaco. — Você está exagerando — sussurrou ela, tentando entender o que eledissera. — Você acha que viu o pior, mas não — disse ele, asperamente. — Vocêteve tempo para superar o que viu, mas há outras cicatrizes. — Chh… — Rosa se afastou para fitá-lo. — …Pare de falar assim. Se vocêtivesse me dado uma chance naquele dia no castelo, eu teria lhe dito que nãofico horrorizada assim tão facilmente. — Mas você ficou chocada. — Claro que fiquei — concordou Rosa, indignada. — Quem não ficaria naminha situação? Eu não imaginava. Mas não me senti repelida, não sentirepulsa, ou quaisquer que sejam as idéias terríveis que estejam na sua cabeça.Apenas lamentei que alguém pudesse ter sido mau a ponto de fazer isso comvocê. Se eu senti alguma coisa, foi compaixão. — Eu não preciso de sua… — Mas imaginei que você provavelmente já tivesse tido toda a compaixãoque pudesse agüentar — ela o interrompeu, séria. — Além disso, você devesaber que tem muitas outras coisas a seu favor. Mas não me deu a chance dedizer coisa alguma além de “adeus”. — Pensei que não havia mais nada a ser dito. — Acho que isso depende do que você vai fazer agora — reagiu Rosa,olhando para a expressão perturbada de Liam. — Se vai sair correndo pelanoite ou tirar seu casaco. — Liam a fitou. — Sabe, quero acreditar que você está querendo dizer isso mesmo. — Então? — disse Rosa, com firmeza. — Tire seu casaco — Ela seaproximou de Liam e colocou as mãos por baixo da lã macia do sobretudo,abrindo-o. — Você deve estar com calor com todas essas roupas. — Eu estou aquecido… quente, na verdade — murmurou ele. — Mas nãopor causa do que estou vestindo. — Liam deixou o sobretudo cair no chão edisse. — Vem cá. — Não, agora é você que devia vir aqui — disse ela, tomando sua mão e olevando pela sala. Rosa abriu uma porta que dava para um corredor pequeno com outrasduas portas. Uma delas, imaginou Liam, é a do banheiro. A outra tinha de serdo quarto dela. Ele estava certo. O quarto era pequeno, mas agradável, com paredes corde mel e um tapete felpudo cor de creme. Havia uma cama, de solteiro, elenotou, com uma ponta de sorriso nos lábios, um guarda-roupas e uma cômodacom gavetas. As cortinas verde-claro estavam fechadas, e Rosa se inclinoupara acender o abajur ao lado da cama. — Sei que isto aqui não tem nada a ver com o que você está 63
  • 64. acostumado… — observou ela. Mas em seguida Liam segurou o seu rosto para que ela o olhasse,tomando sua boca novamente num beijo que deixou ambos excitados. — Quero me acostumar com você, e não com o quarto — retrucou Liamquando teve a chance de dizer alguma coisa de novo. — Mas poderíamosdesligar o abajur? Acho que não estou disposto a ser inspecionado. Rosa queria lhe dizer para deixar de ser tolo, mas respeitou seussentimentos e obedientemente apagou a luz. — Assim está melhor? — perguntou, diante da grande silhueta de Liamformada pela luz que vinha da sala de estar. — Bem melhor — concordou ele. Liam se moveu na direção de Rosa e ela se sentou à beira da cama,tentando atraí-lo. Mas ele tinha outras idéias. Ignorando a rigidez em seuquadril, ajoelhou-se diante dela, escondendo o rosto entre seus seios. — Você sabe o quanto eu desejei fazer isso? — perguntou, com ardor,passando as mãos sob sua blusa e envolvendo sua cintura. E então, maisimpaciente, indagou: — Como é que se tira essa coisa? — Deixe eu tirar — disse Rosa, mexendo-se. Ela cruzou os braços e puxou a blusa pela cabeça. — É fácil quando se sabe — afirmou ela. — E você acha que eu não sei disso? — reagiu Liam, jogando sua jaquetano chão. Em seguida, tirou o suéter, mas quando percebeu que apenas umacamisa separava a beleza pura de Rosa de seu torso desfigurado, fez umapausa. Então, numa voz estrangulada, acrescentou: — Tem certeza de queposso fazer isso? — Tanto quanto sempre tive em todas as coisas da minha vida —assegurou Rosa, num tom baixo. Os dedos de Rosa começaram a abrir osbotões da camisa de Liam. — Posso? — perguntou ela. Liam parecia prender a respiração. — Se você quiser — respondeu. — Eu quero — sussurrou ela. Momentos depois, ele sentia uma corrente de ar frio sobre sua peleaquecida. Rosa se inclinou sobre ele, seus lábios procurando as linhas dascicatrizes, e sua língua tocando cada uma delas. Não havia repulsa, nenhumaaversão. Apenas um contato terno com a pele de Liam. Foi o sinal para que ele a deitasse sobre o colchão, cobrindo-a com seucorpo, abrindo o fecho de seu sutiã e libertando o calor daqueles seios contraseu peito. Liam não resistiu e pôs a boca no mamilo intumescido, e ela gemeu.Ele apertou-o contra sua língua e o sugou avidamente. Por que estivera tantotempo distante daquilo? Rosa se mexia sem parar sob ele, seus dedos tocando o cabelo de Liamenquanto arqueava seu corpo contra o dele. E embora ele quisesse prolongaraquele momento, sabia que não conseguiria. Havia quase vinte anos não ficava excitado daquela forma pensou,incrédulo. Pelo menos desde a adolescência nunca havia enfrentado o perigode perder o controle — não apenas de seu corpo, mas de sua mente também.O sangue pulsava em suas veias, antecipando o que ele faria com ela. Naverdade, começou a suar ao pensar em possuí-la. Ele empurrou uma das mãos para baixo, entre eles, e encontrou o botão 64
  • 65. da calça de Rosa. Abriu-o facilmente e colocou a mão para dentro. Aoencontrar uma seda rendada, lembrou-se de como ela parecia nervosa maiscedo. A idéia de que Rosa pudesse estar esperando outro homem fez suapressão sangüínea se elevar ainda mais. Mas ele se recusou a arruinar a beleza daquele momento permitindo que ociúme destruísse o clima entre os dois. Suas mãos se moveram para trás darenda e se puseram sobre os pêlos de Rosa. — Isso é tão bom — sussurrou ele, passando o dedo nos pêlos sedososaté encontrar uma região túmida e acariciá-la com delicadeza. — Eu sabia queseria bom. — Para mim também — murmurou Rosa, suas mãos se enrolando nasdele enquanto lutava para afrouxar a calça comprida. — Por favor — pediu elade repente —, quero você dentro de mim quando eu… Liam ofegava. As palavras de Rosa o fizeram apressar seus esforços paralibertá-la do restante de suas roupas, e logo a calça e a calcinha se juntavam àblusa no chão. — Agora você — ofegou Rosa. Hesitando momentaneamente, Liam afrouxou a calça e abaixou-se até aspernas. Rosa passou as mãos nas nádegas dele e apertou-as, pressionando omembro ereto dele contra a curva aberta de suas pernas. — Tire isso também — ordenou ela, tonta. Com a ajuda de Rosa, a última peça foi parar no chão. Mas quando elaestava a ponto de ter o membro de Liam nas mãos, ele a impediu. — Espere um pouco. Sou humano — gemeu. Seu gesto era tanto umanecessidade de garantir seu autocontrole quanto um desejo de esconder ascicatrizes um pouco mais. — Estou tão feliz — disse ela, ofegante. Apesar dos esforços de Liam paraimpedi-la, Rosa conseguiu pôr os dedos macios em torno de seu membro. Seela notou os sulcos de pele em sua virilha, não demonstrou. Aquele carinhosuave quase o levou ao êxtase. — Luther Killian não pode ser tão sexy quanto você — disse ela. Liam se mexia convulsivamente. — O que você sabe sobre Luther Killian? — perguntou ele, com vozgrossa. — Ah, eu trouxe um de seus livros da Escócia, e finalmente consegui lê-lo. — Finalmente? Embora ele estivesse ansioso para possuí-la, forçava a si próprio aaproveitar as preliminares, enquanto ela se mexia sob ele. — Mmm — disse Rosa, entregando-se. — Não consegui ler quando…quando estava na ilha. Fazia com que eu me lembrasse demais de você. Masquando finalmente cheguei a conclusão de que não o veria novamente, acheique ler o livro era o mais próximo de você que eu conseguia ficar. — Ah. E agora? — Agora eu quero fazer isso com você — disse ela com voz trêmula. —Por favor. 65
  • 66. CAPÍTULO DOZE LIAM percebeu que havia dormido quando abriu os olhos e se viu sozinhona cama. Não percebera que Rosa se levantara. Não percebera nada,realmente, desde que ambos atingiram um clímax selvagem. Motivo pelo qualse sentia tão relaxado, pensou, saciado de prazer. Por alguns momentos, ficoucontente apenas por estar deitado ali, revivendo cada minuto. Liam sentiu-se fraco ao pensar no que acontecera. Sabia que Rosacorresponderia a ele, mas ela o dominara completamente. Ela havia sido tãoardente, tão absolutamente sexy, que ele havia abandonado toda a inibiçãoque um dia tivera. Se esquecera até do motivo pelo qual estava tão apreensivopara fazer amor com ela. E se Rosa percebera os defeitos de sua aparência,não demonstrara. Na verdade, ela o fizera acreditar em si próprio novamente,crer que encontrara uma mulher que via o homem, e não as marcas em seucorpo. Ele relembrou o momento em que a possuíra pela primeira vez, e o prazerque o deixara meio fora de si. Rosa assegurara que não havia necessidade deusar camisinha, e a sensação de pele contra pele fora um potente estimulante. Ele percebera que Rosa segurava a respiração enquanto ele a possuía. — Você está bem? — perguntara, na esperança de que ela não estivesseprestes a desmaiar. Rosa soltara um leve suspiro. — Estava apenas pensando em como você é grande — dissera ela, comuma certa ironia na voz. — E isso é um problema? — Não para mim — respondera ela. — Talvez para você. — Oh, querida! — a voz de Liam revelara uma certa ponta de humor. —Isto não é problema. Você é tão ardente que sinto como se estivesse meincendiando. — E isso é bom? — É muito bom — assegurara ele. — Só não espere que eu me controlepor muito tempo. Mas quando a penetrou completamente, descobriu que queria prolongaraquele instante. Tendo-a contra seu corpo, os seios esmagados contra o peito,queria que aquilo durasse mais e mais. Era tão bom sentir-se como parte dela,sendo acariciado, dentro dela… Geralmente achava a expectativa melhor doque a realização, sem querer que qualquer coisa estragasse algo tão bonito. Mas então Rosa pôs sua perna sobre a dele, e acariciou seu tornozelo coma sola do pé. Era um gesto simples, um toque sensual, só isso, mas quase olevou à loucura. Cada movimento que ela fazia o deixava mais excitado, e odesejo de realizar todas as fantasias que tinha instantaneamente seconcentrara em ter seu membro dentro dela. Então começou a se mexer, a princípio lentamente, testando os músculosque haviam se expandido em torno dele. Era um prazer deliberado recuarquase completamente, e em seguida retornar, sentindo o desejo de Rosaaumentar e aumentar. Liam não conseguia se lembrar de quando aquela excitação espontânea o 66
  • 67. dominara. Sabia apenas que apressara o ritmo na tentativa de acalmar osbatimentos acelerados de seu coração. E Rosa havia correspondido, mexendo-se junto com ele, de modo que elepercebeu que ela chegava ao clímax momentos antes de ela própria tomarconsciência disso. É claro que os sons que ela emitiu e as ondulações de seu corpo odeixaram completamente extasiado. O que havia começado como uma súplicadelicada rapidamente se acelerou, levando-os a se entregar à sensualidade. Sua impressão era de que o prazer ia durar para sempre. Nunca havia tidouma experiência como aquela. A dúvida que vinha alimentando, a tensão quesentira quando vira Rosa novamente, tudo havia se dissipado. Sabia que haviatomado a decisão certa ao se desviar de seu caminho, e estava certo de queela sentia o mesmo. Mas onde estaria Rosa? Erguendo-se para se apoiar sobre um cotovelo,tentou ver seu relógio. Que horas seriam? Ainda estava escuro, então aindanão amanhecera. Mas por quanto tempo havia dormido? A voz alta de um homem afastou sua tranqüilidade. Vinha da sala deestar, e ele se deu conta de que estava ouvindo um burburinho havia algumtempo. Liam esticou o braço e acendeu o abajur, puxando o lençol sobre suaspernas. Eram pouco mais de 21h, observou. O que estava acontecendo? Rosateria se levantado e ligado a televisão? Pensou em chamá-la, mas isso lhe pareceu presunçoso demais. Decidiuesperar que ela voltasse para saber o que ocorrera. E ele sabia que elavoltaria, mais cedo ou mais tarde. O que eles haviam compartilhado não eraalgo que acabaria de repente. Foi quando o homem disse o nome de Rosa. — Pelo amor de Deus, Rosa — exclamou o homem, sua voz alta comoantes. — Achei que fôssemos conversar sobre isso. Liam não ouviu a resposta de Rosa. Ela falava num tom bem mais baixo, eele imaginou se fazia isso devido à sua presença. Ou seria simplesmenteporque não queria que ele ouvisse o que estava dizendo? Ou que ele soubesseque ela tinha outro visitante? Talvez fosse para aquele homem que ela tinha searrumado, pensou, num incontrolável acesso de ciúme. Afastando as cobertas, sentou-se na cama e pôs os pés no chão. Emseguida, apanhou a cueca e a vestiu antes de se levantar. Felizmente, emborasua perna ainda doesse, sentia que seus músculos haviam recuperado algumaforça. Se tivesse que caminhar de volta ao carro durante a noite, calculava queconseguiria. Quando vestiu a calça jeans e a camisa, já não podia ouvir bem as vozes.Liam vestiu o suéter pela cabeça e pôs a jaqueta de couro sobre os ombros,pensando que, se tivesse que encontrar o visitante de Rosa, quem quer quefosse, estaria preparado. O abajur iluminava pouco, então ele aproveitou para abrir a outra portaque dava para o corredor. Como esperava, era um banheiro. Acendeu a luz eajeitou rapidamente o cabelo. Estava com fome, pensou, ao sair do banheiro.Muita fome. Havia esquecido como o sexo podia abrir o apetite: primeiro ossentidos, depois o estômago. Talvez eles pudessem pedir uma pizza, pensou,já sentindo o sabor ao imaginar a mozzarella derretida. As possibilidades eraminfindáveis. 67
  • 68. Ele estava prestes a entrar na sala quando a voz do homem se elevounovamente. — Não me importo nem um pouco em saber quem é esse sujeito —declarou o homem, irritado. — Ele não tem o direito no que diz respeito avocê. Pelo amor de Deus, Rosa, eu sou seu marido… — Ex-marido — foi o que Liam pensou tê-la ouvido dizer. Mas o homem continuou como se ela não tivesse falado: — Eu não mereço alguma consideração? Achei que havíamos concordadoem tentar começar de novo. Liam não ouviu a resposta de Rosa. Em vez de procurar escutar as vozes,ficara sem ação, seus ombros encostados na parede do corredor. Então eleestava certo, pensou. Ela estava esperando outro visitante. Seu ex-marido,ninguém menos. Seu semblante ficou sério. Que tipo de jogo ela estavafazendo? O homem falava como se ela o tivesse incentivado da mesma formacomo ficara com ele. Liam queria sair dali. E rápido. Sentiu-se como se tivesse sido feito detolo. O que ela estava pensando? Usando-o para fazer o outro sentir ciúme?Ela conseguira cumprir os dois objetivos, pois ele também estava um bocadoaborrecido. As vozes pareciam longe demais para estarem na sala. E ele suspeitouque estavam discutindo no corredor externo. Liam franziu a testa. Não, elesdeviam estar na cozinha — a cozinha onde ele a beijara. Seu estômago doeu,mas ele ignorou. Se estivessem na cozinha, talvez conseguisse apanhar ocasaco e sair antes que qualquer dos dois percebesse. Olhou a sala e viu que estava certo. Alguém, provavelmente Rosa, haviatirado seu casaco do chão e colocado sobre uma cadeira. A cadeira maispróxima da porta, observou ele com certa ironia. Seria a maneira dela indicarque já era hora de ele ir embora? Seus passos fizeram algum barulho quando ele atravessou a sala, masRosa e seu marido — ex-marido, que piada! — estavam envolvidos demais nadiscussão para prestar atenção nele. Então eles ficaram em silêncio, e emboraLiam tenha ficado tenso por causa disso, nada aconteceu. Estaria ele beijando-a? Embora dissesse para si mesmo que não se importava, teve vontade de ir láe esmurrar aquele homem. Mas o bom senso o deteve. Além disso, como o próprio sujeito havia dito,que direito ele tinha de interferir na vida de Rosa? Ele não significava nadapara ela e, o que quer que tivesse imaginado, ela não poderia significar nadapara ele. Nada mesmo. Na verdade, Rosa lhe fizera um favor. Mostrara-a ele quenem todas as mulheres eram como Kayla Stevens, e isso era muito bom. Liam segurou o casaco, em vez de vesti-lo, deixando a porta doapartamento aberta para não fazer barulho. Em seguida, caminhando comcuidado, desceu a escada e saiu do prédio. Consegui, pensou, sentindo alívioenquanto chegava a rua. Em seguida, vestindo o casaco, caminhou sem olharpara trás. O QUE foi isso? Rosa achou que havia ouvido alguma coisa e, afastando Colin, entrou nasala. Mas não havia ninguém ali. A sala estava fazia como antes. Devia ser sua 68
  • 69. imaginação, pensou. A presença de Colin a deixava tensa. — Então onde está ele, esse sujeito com quem você está vivendo? —perguntou Colin, de maneira desagradável. — Ah, já entendi. E olhou para o robe que ela vestira correndo quando ele bateu à portacom escárnio. — Eu a tirei da cama, não é? E daí? Ele está me evitando porque está commedo que eu o derrube? — Colin fez uma expressão de desprezo ao passar porela. — Vamos ver quem está indo para a cama com a minha mulher. — Não ouse fazer isso! Rosa agarrou o braço de Colin, tentando impedi-lo de entrar no corredorque levava ao quarto, mas não conseguiu detê-lo. — Hora de acordar! Hora de acordar! — gritou ele, acendendo a luz doquarto. Colin se virou, confuso. — Não há ninguém aqui. Rosa desejou que seu rosto não mostrasse aquela expressão. Gostaria deter dito: Quem você esperava?, mas o choque que sentiu foi maior do que o deColin. E ele a conhecia bem demais para ser enganado. — O que você sabe? — perguntou ele, zombando. — Ele fugiu de você? Eunão falei? Sou o único homem em quem você pode confiar, Rosa. Ela pensou que teria rido se não estivesse tão magoada. Achou que sabiaexatamente por que Liam havia partido, e isso nada tinha a ver com o fato deele ser confiável ou não. Ele devia ter ouvido a conversa. Lembrando-se do queColin dissera, teve vontade de gritar de frustração. Ela contara a Liam queestava divorciada havia mais de três anos, mas ele deve ter ouvido Colin segabando que ela ainda fazia parte de sua vida. É claro que Rosa já não fazia parte da vida de Colin. Mas se Liam tivesseouvido toda a conversa, certamente ficara em dúvida sobre isso. Colin era tãoarrogante, tão convencido, e estava tão confiante de que ela voltaria para ele! Mas, apesar de o segundo casamento dele ter sido tão malsucedidoquanto o primeiro, não havia a menor possibilidade de reatarem. — Saia daqui — disse ela, apontando para a porta. Embora Rosa tivesse pensado que Colin iria discutir, ele evidentementeachou que havia dito o suficiente. — A porta não está trancada — observou Colin. — Obviamente ele saiusem que ouvíssemos. Quem é ele, Rosa? Não tenho o direito de saber quem émeu adversário? — Ao que me consta você não tem direito algum — retrucou Rosa,friamente. — E não volte aqui. Ou será que esqueceu que sumiu durante trêsanos? Collin ficou boquiaberto. — Você não está falando sério, Rosa. — Acredite, estou — disse ela, abrindo a porta de saída. — Espero não vê-lo nunca mais. Colin hesitou, e Rosa por um momento imaginou o que faria se ele nãofosse embora. Gritaria com toda a força, pensou. Teria sorte se seu vizinhoidoso a ouvisse e chamasse a polícia. Mas ele foi embora, resmungando queela se arrependeria daquilo pelo resto da vida. Só vou me arrepender de ter deixado você vir aqui, pensou Rosa, comamargura, enquanto batia a porta. Em seguida, desabando sobre o sofá, 69
  • 70. chorou. Não conseguia acreditar que a noite começara tão maravilhosamente eterminara de forma tão desastrosa. E tudo porque concordara em conversarcom seu ex-marido quando ele telefonara durante o dia. Rosa até se esforçara para parecer tranqüila, porque Colin viria a suacasa, pensou, amargamente. Tomara banho e pusera sua melhor roupa íntimasó para se sentir bem. Ela não sentia nada por Colin, mas isso não a impediade querer parecer bem quando ele a visse. Queria que ele desejasse nunca tê-la traído, mesmo que ao fazer isso ele provavelmente, não, definitivamente,tivesse feito um favor a ela. E agora Liam estaria pensando o pior dela. Mas quando Colin bateu àporta tudo o que ela pensou foi em impedir que ele acordasse Liam. Não ohavia convidado a entrar, mas Colin forçara a entrada, evidentementepresumindo que ela estava feliz em vê-lo. Só quando explicara a ele que havia alguém em sua vida foi que Colin sesentira injuriado, mentindo sobre o motivo pelo qual a procurara, tentandofingir que ela concordara em reatar. Mas tudo não passava de um erro terrível. E a culpa era dela. Se nãotivesse concordado em se encontrar com Colin, não estaria agora nessasituação. Mas… Não tinha esperança de encontrar Liam novamente, e muito menosde ele ir a seu apartamento. E pensar que Liam fizera aquele longo percurso decarro apenas para constatar que ela não era melhor do que a mulher de quemele fora noivo. É claro que Liam desconhecia o fato de que ela sabia alguma coisa sobre orompimento de seu noivado. Entretanto, depois de voltar para casa, Rosavasculhara a internet, procurando descobrir qualquer coisa sobre ele. Havia pouco, apesar de seu sucesso. Mas ele dissera que evitavapublicidade. Numa entrevista que leu, Liam alegava que seus livros falavampor si próprios. Também sustentava que escritores não eram necessariamentepessoas interessantes só porque tinham a capacidade de contar uma boahistória. Havia pouco também sobre o ataque que lhe causara os ferimentos. Rosaimaginou que a atitude de Liam havia obrigado a imprensa a recuar. Alémdisso, o homem que o havia atacado se matara depois, acreditando queexterminara sua vítima. Não houvera nenhuma longa investigação, nenhumcaso judicial que o difamasse. Liam passara várias semanas isolado do público,num hospital, e em seguida voltara para seu apartamento de cobertura. Umaempresa de segurança cuidara de sua privacidade até ele se recuperar. Sua namorada o abandonara publicamente depois de ele deixar o hospital,mas Rosa duvidou de ela ter esperado tanto tempo. De acordo com os relatos,ela o trocara por um piayboy sul-americano que ganhava a vida como jogadorde pólo. Kayla havia declarado ter ficado arrasada por magoar Liam, masafirmara que amava Raimondo. Fora amor à primeira vista e nada poderiamudar aquilo. A notícia estava nas manchetes. Um dos muitos artigos destacava o fatode a bela modelo Kayla Stevens ter sido vista nos braços de seu novo novoamor, Raimondo Baja. A SENHORITA Stevens era namorada do sensual escritor Liam Jameson, 70
  • 71. que recentemente sofreu um ataque quase fatal de um fã enlouquecido.Jameson, que teve os direitos sobre seu primeiro livro, Caçando o vampiro,comprados recentemente pelos Estúdios Morelli por uma quantia de setedígitos, não foi encontrado para comentar sobre o romance. Mas seu agente,Dan Arnold, diz que o senhor Jameson deseja ao casal muita sorte no futuro. APOSTO que Liam realmente desejou isso, pensou Rosa com cinismo aoler o artigo. Mas o que a incomodava era se ela o havia deixado magoado denovo. Qual seria a verdade distorcida que Liam pensara ao ouvir as mentirasde Colin? O que ele ouvira que o convencera de que também não poderiaconfiar nela? Enxugando as lágrimas, Rosa se levantou. Não deveria ficar alisentada sentindo pena de si mesma. Tinha de fazer alguma coisa. Mas o quê,além de se vestir e ir atrás dele? O que certamente seria um esforço em vão.Ela não tinha a menor idéia de onde ele poderia ir, exceto que iria para o maislonge possível dela, concluiu amargamente. Rosa não sabia onde ele poderia passar a noite. Sequer tinha o número dotelefone do castelo. E não havia como abandonar suas responsabilidades paraprocurá-lo. Deveria estar na escola novamente no dia seguinte, às 8h30. Rosa foi para o quarto, e observa aquele ambiente onde havia sido tãofeliz uma hora antes, e que agora parecia tão abandonado quanto ela. Ficou àporta, derramando mais lágrimas, e depois se jogou na cama. Escondendo o rosto no travesseiro, Rosa ainda podia sentir o perfume deLiam, uma mistura de alguma fragrância cítrica com o cheiro másculo de seucorpo. E algo mais: o perturbador aroma do sexo. Como iria superar aquilo? Sentia-se totalmente vazia. Não precisava mais fingir, pensou. Estava apaixonada por Liam. E comoisso era inútil! E então um nome veio à sua mente. Dan, relembrou ela, deixando ostravesseiros com um sentimento de excitação. Dan Arnold, era isso. O agentede Liam. Com certeza ele saberia o telefone dele. E embora não tivesseesperança alguma de que o agente lhe desse o número, ele poderia entregaruma mensagem para Liam. Afastando a roupa de cama, ela se levantou, mas sentiu uma dor quandoseus dedos do pé esbarraram num objeto duro sob o lençol. Recuando, puxouo lençol para o lado achando que veria um dos pés dos sapatos que tiraraantes. Mas não era um sapato. Era um telefone celular. Irritada, Rosa se inclinou para apanhar o objeto. — Droga — resmungou, massageando os dedos que doíam. Por que seu celular estava no chão? E então percebeu que não era o seu telefone. Como era estúpida! Deviaser o celular de Liam. De Liam! Caíra do bolso quando ele jogara a jaqueta nochão. Evidentemente o isolamento que mantinha na ilha não o impedia decarregar um telefone celular para o continente. — Oh — sussurrou ela, sentando novamente na cama. Provavelmente ele usava esse telefone para ligar para seu agente, seueditor e qualquer outra pessoa com a qual precisasse manter contato enquantoviajava. Em suas mãos, estavam os meios para resolver seu problema. Seráque seria realmente fácil? 71
  • 72. O telefone estava desligado, notou, e então o ligou. Imediatamenteapareceu na tela o castelo, e em seguida a imagem mudou para mostrar queLiam tinha três mensagens. Três mensagens! Rosa molhou com a língua os lábios, que de repenteficaram secos. Deveria acessar as mensagens? Deveria se arriscar a ver seuma das mensagens era de Dan Arnold? Sim! Ao teclar o número pedido, esperou ansiosa pela primeira mensagemgravada. “Liam?”, dizia uma voz de mulher que ela não conhecia. “Onde estávocê? Achei que havia me dito que estaria chegando ao Moriarty por volta desete e meia. Já são oito e meia e estou aqui sentada em sua suíte há umahora. Ligue-me quando você ouvir essa mensagem, querido. Você sabe que eume preocupo com você.” Rosa interrompeu a mensagem nesse ponto. Agora era ela que se sentiatola. Estava achando que Liam havia viajado para vê-la, quando certamenteele só pensou em fazer isso depois. Deve ter decidido procurá-la quandoestava a caminho de Londres para se encontrar com outra mulher. Fosse essamulher sua mãe, sua irmã, ou sua namorada — ela estremeceu —, ela haviainterpretado mal os motivos dele para ir a Ripon. Rosa jogou o telefone longe, sem se importar se ele se quebraria ou não,e, levantando-se, começou a tirar a roupa de cama. Não queria deixarvestígios de Liam Jameson em seu apartamento, disse a si mesma, furiosa. Só quando a cama foi refeita com lençóis limpos ela voltou a chorar comose nunca mais pudesse parar. 72
  • 73. CAPÍTULO TREZE — BEM, eu acho que você é louco! Lucy Fielding parou de preparar uma xícara de café para seu irmão namoderna cozinha da suíte, voltou-se para ele e lhe lançou um olharimpaciente. — Você tem todo o direito de ter sua opinião, é claro — disse Liam,cedendo à tentação de erguer sua perna que doía e apoiá-la no sofá a seulado. Ele olhou para trás. — Esse café ainda não está pronto? Lucy contraiu os lábios, mas obedientemente apanhou a jarra e encheuuma caneca de café, entregando-a a ele. — Aí está. — Obrigado. — Embora o organismo de Liam já estivesse bastante agitadocom a quantidade de café que ele consumira nas últimas horas, ele sorveu umgole grande. — Humm, está bom. Lucy recebeu seu elogio com um cuidadoso movimento de ombros, eentão aproximou-se para sentar-se na ponta do sofá, de modo que ele foiobrigado a ficar de frente para ela. — Não que eu ache que uma caneca de café substitua um café-da-manhãcompleto, mas estou tão aliviada por vê-lo que me disponho a ser generosa. — Obrigado — Liam a olhava por baixo dos cílios. — Sinto muito por fazê-la esperar tanto tempo. — Você tem que sentir muito mesmo — Lucy balançou a cabeça. — Sabeque quando telefonou eu já estava pensando em ligar para a polícia eperguntar se havia acontecido algum acidente na rodovia? — Sim, mas, eu lhe expliquei o que aconteceu, não? — retrucou Liam,melancólico. Ele só percebera que havia perdido seu celular depois de algumtempo na estrada. — Tive que esperar chegar ao próximo posto para podertelefonar para você — explicou. — Está bem — Lucy inclinou a cabeça. — E eu fiquei tão aliviada ao ouvirsua voz que o perdoei. — O quê? Então você mudou de idéia agora? — perguntou o irmão, comdelicadeza. — Eu não disse isso — reagiu Lucy. — Como Mike vai estar fora até sexta-feira, eu havia planejado passar a noite na cidade. Ela fez uma pausa. — Então me conte de novo: você disse que saiu do caminho para seencontrar com uma mulher que conheceu em agosto e que o marido delaapareceu? É isso? Liam fez uma expressão sombria. — Não quero falar sobre isso. — Pois eu acho que deveria — ponderou Lucy. — O que está acontecendo,Lee? Tem mais coisa nessa história que você não me contou. Como aconheceu? Eu achava que você não levava mulheres para Kilfoil. — E não levo. — Então o que ela estava fazendo lá? Liam expirou com força. 73
  • 74. — Procurando a irmã — respondeu ele. — Na ilha? Ou no castelo? — Nos dois — disse Liam, sem rodeios, desejando não ter pedido o café.Estava quente demais para ser bebido de uma vez e a educação o impedia dedeixá-lo depois de Lucy ter tido tanto trabalho para fazê-lo. — Esqueça, Lucy,por favor. Lucy apertou os lábios. — Não posso — disse ela. — Você se esquece que eu estava por pertoquando Kayla o deixou? Não gosto da idéia de que outra mulher esteja fazendovocê de tolo. Liam grunhiu. — Rosa não é como ela — disse ele, demonstrando cansaço e recostandoa cabeça nas almofadas. — Então como ela é? — Alta, magra, ruiva. Lucy suspirou. — Não foi isso que eu quis dizer e você entendeu, Lee. Como ela érealmente? É como Kayla? — É completamente diferente de Kayla — respondeu ele, energicamente,olhando novamente para a irmã. — Eu não a ofenderia comparando-a comKayla Stevens. — Kayla Baja — corrigiu Lucy, com desdém. — Que, por acaso, está devolta a Londres. Ouvi dizer que ela e Raimondo se separaram e que ela estádizendo a todo mundo que lhe dá ouvidos que você é o único homem queamou. Liam olhou-a, incrédulo. — Você está brincando. Lucy balançou a cabeça. — Não, estou falando sério. Eu a encontrei na Harrods outro dia e ela meperguntou se eu o havia visto recentemente. — Ela sorriu. — Naturalmente adeixei pensar que estou sempre com você. Achei que não seria inteligentecontar a ela que só nos vemos algumas vezes por ano. Liam fez uma careta. — Você sabe onde eu moro. — Mas você não está exatamente acessível, está? — protestou Lucy. — Evocê raramente vem a Londres. Liam suspirou. — Sou um escritor, Lucy. Eu trabalho, você sabe. — Eu sei — hesitou Lucy. — E Kayla? — Kayla pode… se danar — disse ele, procurando moderar a linguagemdiante da irmã. — Não me importo se nunca mais a encontrar. E era verdade, pensou ele, incredulamente. Por quanto tempo evitarafalar sobre Kayla, e até pensar em Kayla? Mas de repente já não se importavacom o que dissessem. Qualquer que fosse a influência que ela tivesse tidosobre ele, já não existia mais. Agora conseguia pensar nela sem dor ouarrependimento. Liam sacudiu a cabeça diante do sentimento de liberdade queaquilo lhe dava. — Fico feliz por ouvir isso — observou Lucy, sorrindo. — Obviamente,Rosa… como você disse que ela se chama?… Channing? Não, Chantry. Sim, 74
  • 75. Rosa Chantry obviamente deve ter alguma coisa que nenhuma das outrastinha. Liam sentiu uma abrupta depressão. — Esqueça isso, Lucy. — Como posso esquecer? — perguntou, fitando-a com uma expressão defrustração. — Ela não lhe disse que é casada? — Ela não é casada — resmungou Liam, com relutância. — Ou pelo menosnão acho que seja. — O quê? — Lucy piscou os olhos. — Mas você disse… Entretanto, para Liam aquilo já era suficiente. Colocando sua xícara decafé pela metade sobre a mesa baixa à sua frente, ele se levantou resoluto. — Preciso de um banho — disse, sério, interrompendo a irmã. — Depoisquero falar com Dan antes de me encontrar com Aaron Pargeter. Mas nãoconte comigo para lhe fazer companhia hoje. — Grande novidade — disse Lucy, friamente. — Mas pode ser que eu fiquemais uma noite, se não se importar. Você ainda me deve um jantar. Liam a observou com um olhar que misturava afeto e irritação. — Está bem — disse ele, num tom inteiramente diferente. — Jantar hoje ànoite. Contanto que você prometa não me dizer como devo conduzir minhavida. O rosto de Lucy se iluminou. — Seu estúpido — disse ela. Liam sorria quando saiu do quarto. Os DOIS dias seguintes foram terríveis. Rosa não dormiu bem e, emborasua mãe tivesse lhe telefonado algumas vezes, chamando-a para jantar,achava que não conseguiria manter um comportamento civilizado diante deSophie naquele momento. Sua irmã havia abandonado a universidade um mês depois de iniciar osegundo semestre. O curso era muito… entediante, dissera a Rosa e a suamãe. Não era o que esperava, afirmou, e decidira trabalhar numa agência depropaganda em Harrogate, que aparentemente considerava sua aparência umaboa compensação para sua falta de experiência. Rosa tinha que admitir que aquele tipo de trabalho combinava com a irmã.Sentada a uma mesa na recepção, era a imagem perfeita que a agência queriapromover. E embora Sophie provavelmente também fosse se cansar daquilodepois de algum tempo, no momento estava contente. Entretanto, isso não deixava Rosa mais entusiasmada com a idéia depassar outra noite ouvindo sua irmã se vangloriar de como seu emprego eraimportante. Particularmente porque, cada vez que via Sophie, não conseguiadeixar de pensar em Liam e no que havia perdido. Se antes já era ruim, agoraera muito pior. Ela não queria pensar no que havia acontecido — e nemadmitir, ainda que para si mesma, que sempre soubera que aquilo não poderiadurar muito tempo. Não fora isso que ela mesma havia dito a Liam? Não havia sido ela quemdissera a ele que não esperava nenhum compromisso? Talvez estivesse apenasse enganando ao pensar que ele fora embora porque ouvira o que Collindissera. Provavelmente ele só quisesse mesmo uma noite, uma pequenadiversão a caminho de Londres. 75
  • 76. Rosa não sabia onde aquela mulher se encaixava, é claro. Só o queconseguia pensar é que devia ser bastante tolerante por não se importar queele tivesse uma rápida noite de sexo no caminho para encontrá-la. Dequalquer modo, pelo menos aquela mulher havia lhe dado um endereço paraque ela pudesse enviar o telefone celular. Embora o aparelho estiveseligeiramente arranhado, ela o enviara para o hotel Moriarty no dia seguinte. Para piorar as coisas, Rosa encontrou Collin Vincent esperando por elaquando saía da escola, na noite de sexta-feira. Ele estava em pé ao lado docarro dela e, a julgar por sua expressão, estava esperando por ela no frio haviaalgum tempo. — O que você quer? — perguntou Rosa, sem paciência para serbenevolente. Ela se sentia cansada. Na verdade, esgotada. Estava ansiosa para achegada do fim de semana e para ter a oportunidade de dormir. — Você não está sendo muito amistosa — disse Colin, ressentido,enquanto ela jogava as pastas do trabalho que teria que fazer no fim desemana no banco de trás do carro. — Achei que você já estaria mais calma. — Calma? — Rosa o fitou. — Tranqüila, então — emendou Colin, impaciente. — Será que poderíamosir a algum lugar para conversar? Rosa suspirou. — Não temos nada para conversar, Colin — disse. — Achei que tivessedeixado perfeitamente clara minha decisão. Eu não quero ver você novamente. Colin ficou tenso. — Você não está falando sério. — Não? Ele procurava as palavras certas. — Olhe, eu sei quem era o sujeito. Aquele que correu de você. Sophie medisse. — Sophie? Rosa estava chocada. — Sim — Colin parecia inseguro. — Quer dizer, quando você me pôs parafora aquela noite, eu sabia que tinha de haver uma explicação. Então hojecedo telefonei para Sophie. Rosa o fitou. — Você sabe onde ela trabalha? — Ah, sei — Colin fez uma careta. — Um dos caras da garagem me disse.Terry Hadley. Você se lembra dele? Ele trabalha em… — Eu não quero saber onde o cara da garagem trabalha — Rosa ointerrompeu, irritada. — Mas gostaria de saber como ele conhece Sophie. Colin olhou para os próprios pés. — Ela está saindo com ele, não? — Saindo com ele? — Namorando, então — resmungou Colin. — Ora, Rosa, você não sabe denada? — Obviamente, não — ela balançou a cabeça. A última coisa que soubera sobre Sophie era que ela ainda estavaenvolvida com Mark Champion. — Há quanto tempo isso está acontecendo? — perguntou. 76
  • 77. Agora Colin parecia zangado. — Que importância tem? Desde que ela saiu da universidade, acho. Ela jáé adulta, Rosa. Não precisa de sua permissão. — Não. Rosa apertou os lábios, mas não disse mais nada. Simplesmente abriu aporta do carro e se sentou no banco do motorista. — Ei! — Colin segurou a porta quando ela estava a ponto de fechá-la. — Eeu? — Você? — Espere aí, Rosa. Quando é que vou vê-la novamente? Rosa ligou o carro. — Nunca, espero. — Não acredito em você — Colin se recusava a soltar a porta — Querodizer, espere aí, Rosa. Esse sujeito que você conheceu na Escócia, LiamJameson, você não espera realmente vê-lo de novo. — Não. Aquilo doeu, mas Rosa tinha que ser honesta. Consigo mesma, tantoquanto com ele. — É isso aí, então. Olhe — ele tomou fôlego —, ele é um milionário! Podeter a mulher que quiser. Você é atraente, Rosa, eu sei, mas não é como asmulheres com as quais ele se mistura. Você já viu alguma foto da modelo queera noiva dele? — seus olhos se reviraram. — Ela é um avião! — Ah, vá embora, Colin — disse Rosa, cansada, e impressionada com ofato de as palavras dele a incomodarem tanto. Ele parecia uma criança petulante, pensou, e tinha quase 37 anos. — Eu lhe disse. Não quero vê-lo novamente. O que mais você quer que eudiga? — Sim, o que mais você quer que ela diga, Colin? — perguntou uma vozbaixa, mas firme, que Rosa achou que jamais ouviria de novo. — Suma daqui.Enquanto você ainda pode. Rosa desligou o motor e saltou do carro sem acreditar no que via. Masantes que pudesse dizer alguma coisa, Colin se adiantou: — Com quem você pensa que está falando? — perguntou, seu rostoficando vermelho. — Esta é uma conversa particular. Por que você não someantes que eu lhe dê uma surra? — Só se você estiver sonhando — disse Liam, calmamente, fitando Rosapor um breve momento, e em seguida se voltarem novamente olhando para ooutro homem. — Vá embora, Colin. Sinto não saber o seu sobrenome, masacho que consigo continuar vivendo sem saber. Rosa estava horrorizada. Sabia que Colin tinha um temperamentoagressivo. E, olhando para Liam, encostado relaxadamente na porta de trás dopequeno carro, só conseguiu pensar no quanto ele estava vulnerável. Mas isso não a impediu de olhar para Liam com desejo. Ele vestianovamente seu longo sobretudo. Suas pernas estavam cruzadas na altura dotornozelo e, apesar da ansiedade que ela sentia, Liam parecia estar bemtranqüilo. Tranqüilo demais para quem estava enfrentando Colin, um homem quecostumava usar o punho para se impor. Colin parecia não saber como lidar com aquilo. Mas sua atitude havia se 77
  • 78. tornado truculenta e ele se moveu agressivamente em direção a Liam. — Quem você pensa que é, falando comigo desse jeito? — perguntou,nervoso. — Eu vou quando eu tiver vontade de ir. — Faça como quiser — provocou Liam, voltando seus olhos verdes paraRosa, aparentemente indiferente a qualquer ameaça de Colin. — Oi — disseele, dirigindo-se a ela pela primeira vez. Rosa sentiu como se dentro dela tudose tornasse fluido. — Você parece cansada — acrescentou Liam. — Essepalhaço está lhe perturbando? Os lábios de Rosa se abriram, mas antes que ela pudesse responder, Colinse lançou à frente e segurou a lapela do casaco de Liam. — Quem você está chamando de palhaço? — grunhiu ele, aproximando orosto usando cada movimento, cada gesto, para intimidá-lo. — Vamos lá,celebridade, fale comigo. Você não é de falar muito, é? — Você acha? — perguntou Liam. — Colin! O grito de Rosa não foi ouvido enquanto Liam se virava para encararColin, sem expressão de medo em seu sorriso irônico. — Não somos todos tolos, seu plebeu. Não precisamos fazer ameaçasviolentas para provar nossa masculinidade. Rosa tremia. Liam estava provocando Colin deliberadamente, e ela sabiaexatamente o que seu ex-marido faria. — Colin… por que você… Ela não terminara a frase, e Colin já afastara um braço, mas antes quepudesse dar um soco, como obviamente pretendia, o punho de Liam acertousua barriga. Rosa ouviu o barulho do osso contra a carne, e então Colin teveque soltar o casaco de Liam, procurando ar. — Seu… seu idiota — disse, quando conseguiu falar de novo. Mas Liam parecia impassível. — Já fui chamado de coisas piores — comentou, afastando-se do carro. —Você quer tentar de novo? — Não! — gritou Rosa, colocando-se entre os dois. — Estamos em frentea uma escola, por favor. Que tipo de exemplo vocês estão dando para ascrianças? — Os meninos já foram embora — disse Liam, sem rodeios, voltando-separa ela. — Ou você vai me dizer que sente pena desse… Ele se absteve de falar a palavra que vibrava em sua língua. — Você sabe que não sinto — exclamou ela. — Mas o que você estáfazendo aqui? Eu enviei seu celular para o hotel. Você não recebeu? — Dane-se o celular — disse Liam, passando os braços sobre os ombrosdela e puxando-a para si. — Venha cá — murmurou. Sem se importar ao ver que Colin estava olhando para os dois, comamargura, Liam a beijou. — Por favor, Rosa — exclamou Colin, com raiva. Mas ela mal ouviu o queele dizia. — Suma daqui, Colin — sussurrou Rosa, ainda sonhando, quando Liamergueu a cabeça. — Será que não vê que está perdendo o seu tempo? Colin lançou um olhar furioso para ela. — Você vai se arrepender, Rosa — disse ele. — Oh, eu espero que não — respondeu Liam, conduzindo Rosa até o outro 78
  • 79. lado do carro antes de se sentar ao volante. Liam ergueu os olhos para fitar Colin. — Por que você não vai chorar no ombro de Sophie? — perguntou. — Elaparece perfeita para gente como você. Colin não esperava por aquilo, e se voltou para Rosa, escandalizado. — Você ouviu isso? — perguntou, segurando a porta novamente. — Rosa,você ouviu o que ele disse sobre sua irmã? Rosa olhou para ele. — Acho que ele estava se referindo mais a você, Colin. Tchau — disse ela,com um sorriso no canto da boca, enquanto Liam dava uma sonoragargalhada. Apesar do que havia acontecido, Liam e Rosa estavam estranhamentequietos enquanto ele começou a dirigir. Foi como se Colin tivesse criado umcanal entre ambos, e, agora que ele se fora, nenhum dos dois conseguiapensar em alguma coisa para dizer. Liam quebrou o silêncio: — Para que lado eu vou? — Eles haviam chegado à rua principal,movimentada àquela hora do dia. — Não tenho a menor idéia de como chegarà sua casa. Rosa o fitou. — Você não se lembra? — perguntou. — Se você está se referindo àquela noite, caminhei desde a praça domercado — contou ele. — Então é para esse lado, certo? — Certo — disse ela, lamentando que naquela noite não soubesse que elehavia caminhado. Talvez se tivesse mudado de roupa e saído atrás dele, teria… Teria o quê?, pensou, afastando aquele pensamento. O fato de Liam estarali não significava que não mentira no passado. Ele a fizera pensar que viajarade Kilfoil até lá para vê-la, quando na verdade estava indo para Londres seencontrar com outra pessoa. Outra mulher. Como poderia saber se agora elenão estava indo para a Escócia e decidira mais uma vez fazer um sexo rápidoantes de voltar para casa? — O que há com você? Liam havia percebido que Rosa de repente ficara ausente, que, se ao vê-loparecia ter ficado feliz, agora parecia desconfiada. Na excitação por revê-lo,ela obviamente esquecera da maneira como ele partira. O que ela estavaimaginando naquele momento?. pensou. Que eles haviam ficado juntos e ele aabandonara? — O que você está fazendo aqui? — perguntou ela naquele momento, comos olhos fixos nos carros diante deles. — E onde está o seu carro? Não me digaque o deixou na praça do mercado de novo? — Eu não vim de carro — disse Liam, tentando se concentrar na direção.— Meu piloto tem um amigo que possui uma fazenda perto de Ripley. Ele medeixou lá e o amigo me trouxe à cidade. Rosa não conseguiu deixar de fitá-lo. — Estamos falando de seu helicóptero? — Liam fez um sinal afirmativocom a cabeça e ela continuou: — Achei que você preferisse o carro. — Normalmente eu prefiro — admitiu ele. — Mas desse jeito foi mais fácile mais rápido. Tenho que voltar para Londres amanhã. Rosa engoliu sua decepção. — Amanhã — repetiu, inexpressiva. E, então, não conseguiu se conter: — 79
  • 80. Não sei por que você se importou em vir aqui. Liam xingou em pensamento enquanto respirava fundo. Não gostava deter uma conversa daquele tipo quando estava dirigindo. O carro era uma armaletal, e ele esperava chegar à casa dela antes de começar a explicar suaslimitações. Sabia que a desapontaria. Desapontaria ele próprio. E dispunha depoucas horas para convencê-la que não agiria daquela maneira de novo. — Você sabe por que eu vim — disse ele. — Eu não provei isso a você? — Como? — perguntou Rosa com desdém. — Dando um murro em Colinantes de ele esmurrar você? — Não vou dignificar o que você disse com uma resposta — reagiu ele,chegando a um cruzamento e olhando com frustração uma rua movimentada.— Por onde sigo? — Rosa lhe indicou a direção. — Pense nisso — acrescentouele. Enquanto Liam entrava num cruzamento, ouviu uma buzina atrás dele.Levantou a mão para se desculpar e apertou o acelerador. — Isto é muito ruim para minha imagem. Geralmente sou um bommotorista — afirmou. — Por que para mim é difícil acreditar? — perguntou ela,provocativamente. Mas Liam havia superado sua explosão de ira. — Porque você ainda não me conhece bem — disse ele, tirando uma dasmãos do volante para pô-la sobre a coxa de Rosa. Ela recuou, mas Liam a segurou firmemente. — Não se preocupe — acrescentou ele. — Logo você me conhecerámelhor. — Assim como a mulher que estava esperando por você no hotel emLondres? — perguntou Rosa, num tom de lamento. Liam foi obrigado a desviar os olhos da rua e olhar seriamente para Rosa. — Como você…? Rosa, era minha irmã! — resmungou ele, incrédulo. —Não acredito que você pensou que… — Ele interrompeu a frase ao ser obrigadoa voltar sua atenção para a rua. Agarrou o volante como se fosse uma cordade salvamento. — Lucy é minha irmã — repetiu, bruscamente. — Não digamais nem uma palavra até chegarmos ao seu apartamento. 80
  • 81. CAPÍTULO CATORZE LIAM teve que estacionar o carro no fim da Richmond Street. Não haviavaga em frente ao número 24. Enquanto saltava do carro e o trancava, Rosacaminhou para o portão. Ela já havia aberto a porta do prédio e subira para seu apartamentoquando ouviu Liam subindo lentamente as escadas. Obviamente ele aindatinha problemas na perna, e ela fez um esforço imenso para não se oferecerpara ajudá-lo. Ele não gostaria disso, pensou, acendendo as luzes e ligando otermostato na parede. Mas durante todo o tempo em que estava cumprindo essas tarefascomuns, as palavras minha irmã não saíam de sua cabeça. Teria sido delamesmo a voz que ouvira? Sua irmã? Queria acreditar naquilo, mas será queagüentaria se ele estivesse mentindo e a ferisse de novo? Liam entrou no apartamento e sentiu um certo alívio, deixando que aporta se fechasse e se encostando nela. Em seguida, quando viu que Rosa ofitava da entrada da cozinha, disse, tentando zombar de si próprio: — Ficando velho, heim? Rosa apertou os lábios, mas embora o olhasse como se não acreditassenele, não o contradisse. Em vez disso, tirou o casaco de couro e falou,secamente: — Por que você não se senta? — Sim, por que não — concordou ele, mancando até o sofá e afundandonele com prazer. Liam a olhou como se a interrogasse. — Por que você não fazo mesmo? Rosa hesitou. — Quer uma bebida? — perguntou, com a mesma voz pouco natural. —Você deve estar com frio. — Acredite, frio é algo que não estou sentindo — assegurou ele, semrodeios. — Venha, Rosa. Venha e sente-se. Você sabe que é isso o que quer. — Eu sei? Por um momento, ela sentiu seu sangue pulsar, e os olhos de Liamficaram sombrios, com uma repentina impaciência. — Se a maneira como você me beijou naquele dia é alguma indicação,então eu diria que sim, você sabe — respondeu ele, com firmeza. — Bem, eunão a culpo, depois da maneira como me comportei. Mas não vamos resolvernada se você insistir em se comportar como uma donzela ultrajada! Rosa estava indignada. — Você está dizendo isso para me fazer perdoar você? — perguntou ela,com desdém. — Vou lhe dizer uma coisa: isso não vai funcionar. — Ah, Rosa! — Liam suspirou. — Será que vou ter que buscar você? Ela ainda não se mexia. — Não é minha culpa se sua perna está doendo — retrucou, nadasimpática. Liam queria agarrá-la e fazê-la admitir que estava tão feliz por vê-loquanto ele estava por revê-la. Em vez disso, porém, disse apenas: 81
  • 82. — De fato, está doendo mesmo. — Eu não pedi a você para dirigir de um extremo ao outro do país. — Não — reconheceu Liam. — Mas não foi por isso que tive que ir à clínicaem Londres novamente. Desta vez Rosa o encarou. — O quê? — perguntou ela. — Eu disse… — Eu sei o que você disse. — Ela deu alguns passos na direção do sofá. —Que clínica? Sobre o que você está falando? Liam suspirou, fechando os olhos por alguns instantes. — Temos que falar sobre isso agora? — Sim — disse Rosa. — Fale. Liam abriu os olhos. — Então venha cá e sente-se. — Não até você me explicar isso. Sobre ter sido culpa minha. — Ah, meu Deus — Liam resmungou. — Falando sério, foi minha culpa sersurpreendido por uma tempestade. Rosa franziu a testa. — Você quer dizer antes de eu ir embora da ilha? — Sim — Liam deu bateu com uma das mãos no espaço do sofá ao seulado. — Venha, Rosa. Prometo que não vou tocá-la se você não quiser. Rosa ficou onde estava. — Primeiro me conte sobre a clínica. Que tipo de clínica é essa? Liam encolheu os ombros. — O tipo de clínica que lida com pessoas que estão fisicamenteincapacitadas de alguma forma. — Ele fez uma pausa, e como ela ainda nãofazia qualquer movimento para se aproximar dele, prosseguiu: — Quando eu…sofri um ataque… — Ele fez novamente uma pausa e em seguida acrescentou:— Você sabe alguma coisa sobre isso? — Só que um sujeito maluco tentou matar você. — Bem, isto resume bem o que aconteceu — Liam deu uma risada curta.— Esse sujeito, seu nome era Craig Kennedy, por sinal, aparentemente meconfundiu com um de meus personagens… — Luther Killian? — Rosa parecia surpresa. — Não, Killian não. Um vampiro canalha chamado Jonas Wilder, queganhou muito dinheiro com histórias de terror. Acho que você entendeu aligação. — E ele achou que você era Jonas Wilder? — Em carne e osso — concordou Liam. — O anti-Cristo personificado. —Embora ele tentasse tornar aquele assunto leve, Rosa conseguia ver quesombras escuras ainda surgiam em seus olhos quando ele falava sobre oataque. — Felizmente, ele teve menos sucesso em seus objetivos do queLuther. — Oh, Liam — Rosa finalmente se aproximou dele, sentando-se no sofá,ao seu lado, e pondo uma das mãos dele entre as suas. — Você deve ter ficadoaterrorizado! Liam fez uma careta. — Acho que na hora eu fiquei chocado demais para sentir qualquer coisa 82
  • 83. que não fosse descrença. Os médicos disseram que eu teria que lutar muitopor causa dos ferimentos. Lembro dele gritando para mim, dizendo que livrariao mundo de mais um monstro. — Ele forçou um sorriso. — Ironicamente, eleestava usando uma lâmina de aço. Qualquer vampiro poderia ter ensinado aele que é preciso fincar uma estaca de madeira no coração para destruí-lo.Rosa prendeu a respiração. — Isso não é engraçado. — Eu sei — Liam a fitou com olhos tristes. — Não sou um herói, Rosa.Tive pesadelos terríveis durante meses depois do ataque. — Oh, Liam. — Ela ergueu a mão dele e pressionou seus lábios contra osdedos dele, e Liam viu lágrimas nos olhos dela. — Deve ter sido horrível. Liam balançou a cabeça, num sinal afirmativo, mas tirou sua mão dasmãos dela. — Foi horrível, mas não quero que você sinta pena de mim. — Eu não estou com pena — protestou ela, encarando-o. — Só não sei oque dizer, só isso. Liam respirou fundo. Depois de alguns instantes, falou: — Você podia dizer que está feliz por me ver. — Você sabe que estou — disse ela, com a voz rouca. — Mas… masquando eu pensei que você havia apenas resolvido passar aqui quando estavaindo para Londres se encontrar com outra mulher… — Na verdade, eu estava indo para a clínica — disse Liam. — Eu não lhecontei na época porque não é algo que me deixe particularmente orgulhoso. Rosa achou que conseguia entender, embora achasse que ele não tinhanada do que se envergonhar. — E você fez uma consulta na clínica? — Ontem. Depois outra hoje de manhã, e tomei o helicóptero para viraqui. Mas tenho que voltar. — Oh! — Rosa se inquietou. — Foi por isso que você disse que tinha quevoltar para Londres amanhã. — Sim — Liam observou o rosto pálido de Rosa. — Você acredita emmim? — É claro que sim. — Não há nada claro — revidou Liam. — Há alguns minutos você estavame acusando de ir a Londres me encontrar com outra mulher. Mas como foique você falou com Lucy? Ela nunca me disse que você telefonou para ela. — Ela sabe de mim? — Ah, sim. — Você contou a ela? — Ela me obrigou a contar — disse Liam, secamente. — Minha irmã é umtipo determinado. — Cruzes! — Rosa ficou vermelha. Cruzes? Liam a observou. — Há muito tempo que eu não ouvia alguém dizer essa expressão. Vocêtambém diz “raios!”? Rosa o fitou por um momento, como se não soubesse como lidar com ele,e em seguida percebeu que Liam estava apenas brincando com ela. — Ah, Liam! — exclamou ela, batendo no braço dele, mas sem a intençãode machucá-lo. 83
  • 84. Liam pegou sua mão e a puxou. — Assim é melhor — afirmou, com a voz expressando satisfação. Então, seus lábios encontraram os de Rosa, e durante um longo temponão disseram nada. Seu beijo foi ardente e cheio de desejo, procurando mostrar a Rosa que,de muitas maneiras, apenas a teimosia e a resistência os mantinhamseparados. Ele parecia louco para tê-la, suas mãos acariciavam-lhe o cabelo eseguravam-lhe o rosto para que pudesse aprofundar e prolongar mais o que setornara uma possessão totalmente carnal. A maneira sensual como ele abeijava a fez tremer descontroladamente, e ela acariciou o pescoço de Liamcom seus braços, agarrando-lhe com força o cabelo. — Valeu a pena voltar — murmurou Liam, mexendo-se para acomodar arepentina saliência entre suas pernas. Mordeu lentamente o lábio inferior deRosa, sentindo seu gosto, e em seguida puxou a ponta da língua dela com seusdentes. — E eu estava com medo de que você não quisesse me ver de novo —disse Liam. — Você não pensou realmente isso — sussurrou Rosa, puxando as orelhasdele num sinal de reprovação. — Se não, não estaria aqui. — Não — admitiu ele, e ela achou que Liam nunca parecera tão atraentequanto no momento em que fingiu que estava sendo punido. — Provavelmentevocê pode agradecer a Lucy por isso. — Lucy? — Rosa recuou para repousar a testa na dele. — Sua irmã? — Foi ela que me convenceu de que eu estava me comportando como umtolo. Os olhos de Rosa se abriram mais. — Como ela fez isso? — Como normalmente faz — disse Liam, com ironia. — Ela fica insistindo,insistindo, insistindo sobre alguma coisa até levar você a dizer o que quersaber, nem que seja para fazê-la ficar calada. — E ela queria saber de mim? Liam a olhou como se a analisasse. — Como se você não soubesse — disse ele. Rosa ajeitou a postura. — Continue. Quero saber o que ela teve que dizer a você. — Sim, bem… — agora era Liam quem recuava, pondo a cabeça entre aspalmas das mãos — Antes de eu lhe contar, talvez você pudesse me explicarcomo descobriu sobre Lucy. — Ah — Rosa fez um meneio. — Você não consegue adivinhar? — Vamos lá. — Está bem, está bem. Já que você insiste, eu ouvi a mensagem que eladeixou no seu celular. — Ah — os lábios de Liam se contorceram. — Por isso é que quando eurecebi de volta o telefone notei que ele estava um pouco arranhado. — Você notou? — Ah, sim — Liam passou os dedos polegares sobre a bochecha de Rosa,num carinho sensual que a fez sentir um arrepio na espinha. — Lucy memostrou. — E eu imagino que vocês dois riram bastante disso — afirmou Rosa. — Não — Liam balançou a cabeça. — Isso me deu coragem para voltar edescobrir se você se irritou porque eu fugi ou por algum outro motivo. — Que tipo de motivo? 84
  • 85. — Por exemplo, quando ouvi a mensagem de Lucy, tive de admitir que elapoderia ter sido mal interpretada. Rosa engoliu seco. — Então agora você sabe por que eu achei que você ia se encontrar comoutra mulher? — Sim, eu sei. — E imagino que você acha que eu tive sorte por Colin estar ali quandovocê chegou hoje à tarde. Liam lançou um olhar estranho sobre Rosa. — Eu não diria que foi bem assim. — Não, mas com isso você não precisou me perguntar se eu ainda estavasaindo com ele — declarou Rosa, trêmula. — Quero dizer, quando você saiu demeu apartamento, obviamente pensou que eu estava mentindo. — Não! — Liam cobriu a boca de Rosa com uma de suas mãos,impedindo-a de continuar. — Não, querida, eu não preciso que você me diga oquanto fui tolo. Me arrependi de não ter lhe dado a chance de explicar o queestava acontecendo. — Liam fez uma pausa, tirando a mão que estavatampando a boca de Rosa, beijando-a antes de continuar: — Mas procureentender. Sei de meus erros, mais do que ninguém. Sei que não vou vencernenhum concurso de beleza. E imagino que você tenha ouvido falar que amoça de quem eu estava noivo quando sofri o ataque se afastou de mimquando soube como eu ficara. E que, além de ter uma aparência de monstro,talvez eu não tivesse mais as funções de um homem. — Você não parece um monstro. E você… consegue… você sabe… Ela interrompeu a frase e Liam forçou um sorriso. — Ah, sim — disse ele, com humor. — Você sabe que eu não souimpotente. Mas quanto ao resto… — Liam, você é o único que vê suas cicatrizes como algo além de marcasque estão sumindo. Elas estão desaparecendo, mas você ainda as mantémaqui — disse Rosa, erguendo um dedo e apontando a testa dele. Então, seinclinou sobre ele e o beijou na testa. — Você tem de deixá-las ir embora. Elasnão têm importância, acredite. Não para mim. Não para qualquer mulher quetenha algum valor. — Como você é a única mulher com quem eu me importo, acho que tenhode acreditar em você — murmurou ele, beijando carinhosamente o pescoço deRosa. — E tenho de admitir que estou feliz por vê-la de novo. — Está? — Sim. Eu estava ansioso para esmurrar Colin desde que ele veio ao seuapartamento naquela noite. Mas acho que ele entendeu a mensagem. Rosa sorriu. — Ele entendeu a mensagem — confirmou. — E eu estava com medo deque ele o ferisse. — Pois saiba que, depois que me recuperei, fiz um curso de autodefesa —disse Liam, confortando-a. — Espero nunca mais ter que enfrentar um maníacocom uma faca, mas, comparado a Craig Kennedy, Colin foi um alvo fácil. — Eu percebi — Rosa pôs os braços em torno do pescoço de Liamnovamente. — Agora você vai tirar o seu casaco? — Só se você fazer o mesmo — respondeu ele, provocando-a, seus dedos 85
  • 86. passando por baixo do sué-ter de Rosa. Então, reclamou: — Eu deveria saberque não seria tão simples. — Como assim? Liam retirou facilmente seu sobretudo e sua jaqueta. — Está vendo? Eu só estou usando uma camisa por baixo. Não seiquantas camadas de roupa você está vestindo. — Faz frio na sala de aula — disse Rosa, indignada. — E só estou usandouma camiseta por baixo da blusa. — Só? — zombou Liam. — Então, tire-as. Rosa respirou, trêmula. — Agora? — Ela olhou para a porta. — Você não prefere, quer ir para oquarto? — Não necessariamente — disse Liam, com os olhos misteriosos einegavelmente sensuais. — Acho que deveríamos inaugurar o sofá. Rosa sentiu sua respiração acelerar. — Você não devia dizer uma coisa dessas — exclamou ela, censurando-o.— E se aparecer alguém? Liam ergueu as sobrancelhas. — Você está esperando alguém? — N-ã-o. — Está bem. Rosa passou a língua em seus lábios secos. Ela era capaz de fazer o queele pedia, pensou. Embora nunca tivesse feito strip-tease para homemnenhum, muito menos para Colin. Seu ex-marido sempre se comportara comose sexo fosse algo para se fazer somente na cama, e agora ela pensava se issoera uma falha dele ou dela. Os dedos de Rosa foram até a borda de seu suéter e, respirando fundo, odespiu pela cabeça. Provavelmente seu cabelo agora estava despenteado,pensou, mas, recusando-se a se preocupar com isso, começou a abrir osbotões da blusa. Entretanto, ela o fazia com hesitação. Ao notar que Rosa demorava algunstensos segundos, Liam afastou as mãos dela e assumiu a tarefa. Mas os botões resistiam a seus esforços tanto quanto aos de Rosa, edepois de alguns instantes Liam desistiu. Segurando firme a blusa pelo decote,simplesmente a rasgou. — Assim é melhor — disse. — Você não precisava destruir minha blusa. — Eu compro outra para você — disse ele, sem se importar. — Outrablusa difícil de abrir, se é que você gosta disso. Rosa mordeu os lábios. — Você é tão impaciente! — Estou conseguindo — disse ele. Liam tocou a borda da camiseta. — Issotem botão também? — Você sabe que não. Rosa sentia dificuldade de respirar. Ela tirou a camiseta pela cabeça e apôs de lado, juntamente com a blusa. — Satisfeito? — Não tenha dúvida — murmurou ele. Em seguida, afastando a alça dosutiã, acrescentou: — Você não me disse que ainda tinha isso. Rosa tremia. 86
  • 87. — Tenho certeza de que você sabe como tirá-lo. — Sim, mas quero que você faça isso — seus olhos pareciam acariciá-la.— Por favor. Rosa balançou a cabeça, mas suas mãos foram obedientemente até ascostas para abrir o fecho. Quando as alças ficaram soltas sobre seus ombros,Liam completou a tarefa puxando-as. — Linda — disse ele, olhando-a. E Rosa se esqueceu de seu autocontrole sob o olhar ardente de Liam. Ele colocou suas mãos sobre a o abdômen de Rosa, mas, embora osmamilos estivessem intumescidos, pedindo para que fossem tocados, Liam aacariciou apenas abaixo dos seios. As mãos dele eram rudes e pouco familiares, mas o calor que emanavamcontra sua carne macia a fazia sentir um desejo profundo. Rosa queria que elea tocasse por toda parte, mais particularmente entre as pernas, e a espera foise tornando intolerável para ambos. Rosa buscou com seus dedos os botões da camisa de Liam e ele deixouque ela agisse. Como eram maiores que os de sua blusa, foi fácil desabotoá-los. Quando puxou a camisa de Liam para os ombros, ele não tentou impedi-la. A única reação que Rosa notou foi uma repentina tensão dentro da calçadele, e seus dedos lhe tocaram os pêlos grisalhos do tórax. Quando ele viupara onde ela estava olhando, soltou um gemido. — Sim, sim, agora estou impaciente — disse, cedendo ao desejo deapertar os seios de Rosa em suas mãos. Os mamilos tocavam provocativamente as palmas de suas mãos e, semconseguir resistir, pôs um deles na boca. Mas aquilo não era suficiente paranenhum dos dois, e seus dedos tatearam o botão da calça de Rosa. — Eu faço isso — disse Rosa, ofegante. Enquanto ela abaixava a calça, elefez o mesmo. Pela primeira vez, Rosa teve a oportunidade de ver a cicatriz quecomeçava logo abaixo do estômago de Liam e se estendia até a parte internada coxa. Ele percebeu que ela olhava, mas não tentou esconder. — É feio, não é? — disse, bruscamente, meio que esperando ver umaexpressão de repulsa no rosto de Rosa. Mas ela apenas inclinou a cabeça e traçou uma linha de beijos desde amarca profunda no alto da cicatriz até a parte mais sensível entre as pernasdele. E a essa altura a respiração de Liam estava acelerada. — Chega — disse ele, tonto. — Quero estar dentro de você quando nãopuder mais me controlar. E se você não parar agora não há garantias de queisso acontecerá. Rosa sorriu. — Então, o que você está esperando? — disse ela, recostando-se no sofáe erguendo uma perna provocadoramente. Ela conduziu uma das mãostentadoras de Liam para a parte superior de seu corpo. — Eu não vou a lugarnenhum. 87
  • 88. EPÍLOGO SEIS meses depois, Rosa estava olhando pela janela do quarto aquelavista que nunca deixaria de encantá-la. Era primavera, e Kilfoil começava aflorescer em infinitas cores. Narcisos e tulipas cresciam junto à parede docastelo. E, na noite anterior, Sam havia lhe mostrado as primeiras orquídeas,que ela descobrira serem a paixão secreta de Liam, crescendo numa dasestufas que o empregado cultivava. Parada ali, admirando o oceano, que naquele dia estava cheio de espumabranca, Rosa mal podia acreditar que estava casada com Liam havia mais deseis semanas. É claro que ela estava em Kilfoil desde o Natal, exceto porquatro semanas que haviam passado no Carlbe depois do casamento. Mas elasentia como se sempre tivesse vivido naquele lugar. Assim como Liam, nãotinha vontade de morar em qualquer outro. Aquela era a casa deles. Foram seis meses inacreditáveis desde que ele aparecera na escola,naquela tarde. No início, Rosa achava que estava sonhando. O fato de queLiam a amava parecia ser bom demais para ser verdade. Mas era verdade. Sua família ficara surpresa quando ela apresentara Liam. Sua mãeduvidou que ele pudesse ter intenções sérias com sua filha mais velha. — Se fosse Sophie, não ficaria espantada — disse, como sempre, sempensar. Rosa superou aquele comentário impensado, como havia superado todosos outros que sua mãe fizera no passado. Mas Liam não gostou de vê-lamagoada. — O problema com sua mãe é que ela não percebe que, embora tenhaduas belas filhas, apenas uma é uma mulher de verdade — disse ele, quandoestava sozinho com Rosa. Sophie havia se mostrado surpreendentemente filosófica. Embora fosse desua natureza flertar com todo homem que aparecia, não ficou ofendida quandoLiam brincou com ela por causa disso. Disse a Rosa que achou Liam lindo, eque desejou que ele a tivesse levado para Londres, e não aquele tolo do JedHastings. O único verdadeiro aborrecimento havia sido Kayla Stevens-Baja. Liam tivera que voltar à clínica em Knightsbridge. Quando ela descobriraque ele estava em Londres, procurara-o pedindo perdão, implorando para quea desculpasse e dizendo que ele era o único homem que ela realmente amara. É claro que Kayla se assegurara de que isto fosse parar nas manchetes. Eembora Liam telefonasse para Rosa todo dia dizendo o quanto sentia sua falta,ela não conseguiu deixar de se preocupar com a possibilidade de Kaylaconvencê-lo a voltar. Entretanto, poucos dias depois de as manchetes sobre a visita de Kayla àclínica aparecerem nos tablóides, Liam voltou a Ripon — desta vez com umaaliança. O noivado foi notícia no The Times no dia seguinte, e, embora Liamquisesse que Rosa deixasse o emprego e fosse para a Escócia, acabouconcordando em esperar até o Natal para que ela se juntasse a ele. 88
  • 89. E agora… Ela respirava suavemente quando uma voz sonolenta disse: — O que você está fazendo? Rosa se virou e viu que seu marido também estava acordado. Apoiando-senos cotovelos, a coberta na altura de suas pernas, Liam estavamaravilhosamente bronzeado e relaxado, e Rosa se afastou da janela paraajoelhar-se a seu lado na cama. — Eu só estava admirando a vista — disse, consciente de que a camisolatransparente não escondia seu corpo. — Mmm. — O sorriso de Liam era malicioso. — Eu sei exatamente o quevocê quer dizer. Mas ele estava olhando para ela, e não para a janela, e Rosa brincou comele, empurrando-o contra os travesseiros. — Você é impossível — disse ela, prendendo o corpo dele entre as pernas,de modo que ele não conseguia se levantar. — Mas estou tão feliz por estar emcasa que vou perdoá-lo. Liam ergueu as sobrancelhas. — Você não gostou de nossa lua-de-mel? — perguntou, com ironia. Ela fez uma careta. — Nossa lua-de-mel foi… divina — disse ela, contente. — Eu adorei oCarlbe. Você sabe que eu gostei. Mas é aqui que eu vivo. Liam deu uma risada. — Eu não sabia que ruivas de verdade conseguiam ficar bronzeadas —murmurou ele, provocando-a. — Mas você está com uma cor linda. Rosa prendeu a respiração. — Você está insinuando que eu não sou ruiva de verdade? — Oh, não — Liam olhou para baixo. — Eu sei que você é. Quem melhordo que eu para saber? Rosa não sabia o que dizer. Ficou corada, e para diverti-lo, disse: — Pelo menos não sou mais aquela criatura esquelética que era quando oconheci. — Não — concordou Liam, suas mãos envolvendo a cintura de Rosa, efazendo-a notar sua ereção sob as nádegas dela. — Você está ganhando peso. A senhora Wilson vai ficar satisfeita. Rosa ficou horrorizada. — Não estou gorda, estou? — protestou, saltando da cama e indo àspressas até o closet para se ver nos longos espelhos. — Oh, eu estouengordando! Tem um volume aqui — exclamou, colocando as mãos sobre abarriga. Rosa deu um suspiro de preocupação. — Tenho que parar de comer aqueles pudins de chocolate que a senhoraWilson faz para me tentar. Liam apareceu por trás dela. Estava nu, e por um momento Rosa desviousua atenção para a beleza muscular do corpo dele. As cicatrizes aindaexistiam, é claro, mas agora ela mal as notava, e o próprio Liam já não seimportava em ser visto sem roupas — Pare de se preocupar — disse ele, envolvendo-a e a puxando aoencontro de seu corpo ainda excitado. — Amo você exatamente do jeito quevocê é. Rosa balançou a cabeça. 89
  • 90. — Mas nunca fui gorda — explicou, tremendo ao ver as mãos dele semovendo sobre a curva de seu abdômen. Liam precisou apenas tocá-la para que Rosa ficasse excitada. — Você não acha que essa barriguinha é sinal de alguma outra coisa,acha? — sugeriu ele, beijando a curva do pescoço de Rosa. — Quer dizer,antes você não estava casada. Rosa prendeu a respiração. — O que você está querendo insinuar? — Ora, estamos dormindo juntos há seis meses — observou ele, comserenidade. — E, até onde sei, não estamos tomando qualquer precaução. Rosa o olhou fixamente. — Você acha que… eu posso estar grávida? Liam encolheu os ombros. — Eu sei que você insistiu que não pode ter filhos — disse ele, comsuavidade —, mas não estou convencido disso. Minhas duas irmãs ficaramgrávidas, e isso parece estranhamente semelhante ao que aconteceu a elas. Rosa suspirou. Em seguida, explorou o pequeno volume em sua barriga,abaixo do nível das costelas. Realmente parecia firme demais para ser apenasgordura. Espantada, pensou que aquela era uma possibilidade que nunca haviaconsiderado. Depois de passar cinco anos casada com Colin e não ter engravidado,Rosa naturalmente havia concluído que era ela quem não podia ter filhos. Ela tentou lembrar. Havia quanto tempo não ficava menstruada? Calculouque não passava por aquela inconveniência há pelo menos oito semanas. Naverdade, desde antes de se casar com Liam. Oh! Ela tremia. Será que éverdade? — Talvez — prosseguiu Liam com delicadeza — Colin é que não pudesseter filhos. Rosa virou a cabeça e olhou nos olhos de Liam. — Você acha? — perguntou, fitando-o maravilhada. Liam deu um sorriso. — Por que não? — perguntou, com certo orgulho. — Ele não era bom emnada mesmo, não é? Rosa deu um sorriso nervoso. — E… se eu estiver grávida, o que você vai achar? — Se você está feliz, eu estou feliz — afirmou ele, com segurança. —Gostaria de ter você só para mim por um pouco mais de tempo, mas é paraisso que servem os avós, certo? — Você acha que seus pais vão ficar felizes? Rosa conhecera os pais e as duas irmãs de Liam no casamento, e gostaramuito deles. Mas, pensou, como não poderia gostar das pessoas que fizeramde Liam o homem que ele era? — Eles vão adorar — assegurou ele. — Quer dizer, acho que estou ficandovelho. O relógio biológico está fazendo tique-taque. — Acho que você não tem motivo algum para se preocupar com isso —disse ela, virando-se para admirar a proeminente virilidade do marido. — Venha cá — disse ele. — Estou ficando com frio aqui. E temos algo paracelebrar. 90
  • 91. O FILHO de Rosa e Liam veio ao mundo seis meses e meio depois. Apesarda ansiedade do pai, Sean Liam Jameson nasceu na principal cama do Castelode Kilfoil, amparado apenas pela parteira local. Liam havia cuidado para que Rosa fosse transportada de helicóptero parao hospital no continente logo que entrasse em trabalho de parto. Masinfelizmente uma tempestade de outono causara o naufrágio de um barco comum grupo de pescadores que navegava sem motor no mar do Norte. Apesar deansiosa, Rosa insistiu que era mais importante resgatar os pescadores do quelevá-la para o hospital. Ela estava em forma e forte, e, de acordo com aparteira, perfeitamente capaz de dar à luz a criança sem a presença de ummédico e sem estar numa sala de parto. E foi o que aconteceu. O trabalho de parto foi surpreendentemente fácil erápido, e quando a enfermeira colocou o bebê nos braços de Liam pelaprimeira vez, ele parecia absolutamente impressionado. — Ele é tão bonito! — disse, entregando-o a Rosa, que sorriu. — Exatamente como o pai — sussurrou ela, tocando as bochechas maciasdo bebê. Liam balançou a cabeça. — Você é que é bonita — retrucou ele, com firmeza. Embora Rosa estivesse febril, cansada e muito suada, sabia que Liamestava sendo sincero.  91
  • 92. Harlequin Paixão Próximo Lançamento! DOMADA PELO SHEIK Penny Jordan Se Sadie fosse sua, ordenaria que sempre viesse até ele nua. Construiriauma casa para ela, com um pátio isolado, o chão coberto dos mais maciostapetes para que ela pudesse caminhar sem danificar as solas macias dos pés.Plantaria rosas e outras plantas perfumadas, para que, quando a possuísse,sentisse o perfume das pétalas, esmagadas sob seu corpo, inundando o ar. Elaseria dele quando e como ele quisesse. Mas não lhe pertenceria. Fora escolhida para seu irmão. Com um movimento ágil, pegou a toalha e estendeu-a. — Cubra-se. — Ao ouvir a ordem, Sadie saiu do encantamento tão poucofamiliar, trazida de volta à realidade e ao humilhante constrangimento danudez. Pegou a toalha, segurando-a diante de si, o rosto em chamas. — Você deveria ter batido — disse, zangada. — Bati. Como você não respondeu, presumi… erroneamente… — Os olhosestreitaram-se. — Ou talvez tenha presumido certo. Pelo menos no que lhe dizrespeito. Levou vários segundos até compreender o significado das palavras.Quando compreendeu, o rosado embaraçado do rosto transformou-se emvermelho de raiva. — Se está tentando sugerir que eu queria que você entrasse… Bem, eunão queria — foi direto ao ponto, e ele nada disse. — E agora, por favor,gostaria que saísse enquanto me visto. — Não estava em condições de darordens no avião dele, mas não havia como deixar que ele lhe lançasse essetipo de acusação. — Precisa ser rápida. Vim avisar que vamos decolar. Você precisa estarsentada e com o cinto de segurança. — Pode deixar. Estarei pronta em dois minutos. — Estava procurando algo quando entrei? — Nada importante. — Por nada no mundo diria que a empregada deMonika se esquecera de colocar a roupa íntima na mala. Não apenas algumas,mas todas. — Não podemos perder mais tempo. Há um roupão no banheiro; vista-o. Era óbvio que não sairia do quarto sem ela. Sadie hesitou, e, ao ver oolhar irritado, enrolou-se na toalha e apressou-se em pegar o roupão quedeveria ter colocado antes. Enquanto ela estava no banheiro, Drax olhou para a cama. Se tivesseseguido seus instintos, ela estaria deitada, os olhos fechados de prazer, ocoração batendo sob a pele delicada enquanto ele a beijava e acariciava até elase abrir para ele e implorar que a possuísse. Mas ele não tinha o direito depossuí-la. Esse prazer pertenceria a Vere… se ele assim decidisse… 92