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61 93-1-pb (1)

  1. 1. A Narrativa e a Experiência em Walter BenjaminFrancine OliveiraUniversidade do MinhoResumoEste trabalho tem como objectivo apresentar uma análise do ensaio “O Narrador” dofilósofo alemão Walter Benjamin. O autor fez parte da Escola de Frankfurt e é consideradopor alguns estudiosos como um filósofo da melancolia. Em “O Narrador”, Benjamindiscute uma série de formas bastante díspares de narrativa, entre elas a historiografiaclássica (Heródoto), a epopeia grega, a crónica medieval, o romance de cavalaria e o contopopular (Märchen) e a “desorientação” moral das formas especificamente modernas, cultase urbanas de narrativa (romance moderno, short-story, jornal). A contraposição entre omoderno e o tradicional revela como a teoria benjaminiana da narrativa depende de umateoria da modernidade, na qual a cultura moderna é concebida através do desaparecimentoda figura do narrador tradicional. O tema da narrativa tornou-se central em muitasdiscussões das ciências sociais e da filosofia no mundo contemporâneo. Esse ensaio deWalter Benjamin é certamente um precursor das formulações actuais, tendo por isso, setornado um clássico em vários campos do conhecimento (filosofia, teoria da literatura,teoria da comunicação, historiografia, etc.). Muitas foram as tentativas de instrumentalizaros conceitos defendidos por Benjamin. Tentativas estas surgidas com intuito de justificaruma visão folclórica ou neo-tradicionalista da literatura oral. Porém, esqueceram-se que,para Walter Benjamin, a narrativa tradicional está irremediavelmente perdida e o autor nãopropõe nenhuma forma de retorno à tradição. Sendo assim, qual a relação, na obra "ONarrador", entre a “experiência” e a “narrativa”? Este trabalho teve como objectivo analisar, através da leitura do ensaio “ONarrador” (1936) do filósofo alemão Walter Benjamin, e de alguns comentários a este textoclássico, o modo como o filósofo contemporâneo define a ideia de narrativa, dando-lhe umsignificado inédito até então. Nesse ensaio, Benjamin discute uma série de formas bastante díspares de narrativa,entre elas a historiografia clássica (Heródoto), a epopeia grega, a crónica medieval, oromance de cavalaria e o conto popular (Märchen). A hipótese central do texto consiste nabusca de um substrato comum a todas formas de narrativa percebidas por esse filósofo, asaber, seu aspecto colectivo, oral e pedagógico, por oposição ao individualismo e a“desorientação” moral das formas especificamente modernas, cultas e urbanas de narrativa8º Congresso LUSOCOM 108
  2. 2. (romance moderno, short-story, jornal). A contraposição entre o moderno e o tradicionalrevela como a teoria benjaminiana da narrativa depende de uma teoria da modernidade, naqual a cultura moderna é concebida através do desaparecimento da figura do narradortradicional. O tema da narrativa tornou-se central em muitas discussões das ciências sociaise da filosofia no mundo contemporâneo. Esse ensaio de Walter Benjamin é certamente umprecursor das formulações actuais, tendo por isso se tornado um clássico em vários camposdo conhecimento (filosofia, teoria da literatura, historiografia). Poucas vezes, no entanto,este texto foi lido com o devido cuidado. O mais frequente são as apropriações rápidas,como, por exemplo, as tentativas de instrumentalizar os conceitos de Benjamin no sentidode justificar uma visão folclórica ou neo-tradicionalista da literatura oral, esquecendo-seque Walter Benjamin considera a narrativa tradicional como irremediavelmente perdida enão propõe nenhuma forma de retorno à tradição. O conceito de ‘narrativa’ aparece no dicionário Houaiss (2001: 308) como “história,conto, narração, o por fim, modo de narrar”. Palavra ‘narrativa’ deriva do verbo ‘narrar’,cuja etimologia provém do latim narrare, que remete ao ato de contar, relatar, expor umfato, uma história. No entanto, Walter Benjamin percebeu que essa palavra – narrativa –estava imbuída de muito mais sentido/significado. Esse conceito -‘Narrativa’- carrega umsignificado histórico-sociológico. Não por acaso que o filósofo alemão dedicou um ensaiointeiro a esse tema e o intitulou “O Narrador”. Percebemos no ensaio “O Narrador” a preocupação sempre presente de WalterBenjamin em esclarecer e reafirmar a definição original que atribuiu a ‘narrativa’ e, assim,realçar a distinção existente entre esta última e ‘romance’. Além disso, Benjamin criticatanto a historiografia “progressista” da social-democracia alemã de Weimar que trata daideia de um progresso inevitável e cientificamente previsível como também, a historiografia“burguesa” contemporânea. Esta última diz respeito ao historicismo, oriundo da grandetradição académica que pretendia reviver o passado através de uma espécie de identificaçãoafectiva do historiador com o seu objecto. Essa teoria sobre a relação de Benjamin com a historiografia seja, progressista ouburguesa, foi explicitada por Jeanne Marie Gagnebin, no prefácio “Walter Benjamin ou ahistória aberta” do livro Obras Escolhidas (Benjamin, 1993). Gagnebin percebe ainda que8º Congresso LUSOCOM 109
  3. 3. ao falar da relação do filósofo alemão com essas duas concepções de historiografia, ambasse apoiam na concepção de tempo. As duas formas de tempo apontadas por Gagnebinseriam: o cronológico e linear e o tempo homogéneo e vazio. Segundo Gagnebin, Benjaminacredita que o ideal seria um historiador “materialista”, ou seja, aquele historiador capaz defundar um novo conceito, o do “tempo de agora”. Com esta afirmação, Gagnebin remete auma vasta teoria que inclui a tradição messiânica e a mística judaica. É importante destacarque, toda a análise da obra de Benjamin realizada por Jeanne-Marie Gagnebin sedesenvolve em torno da ideia de experiência colectiva (Erfahrung). O ensaio de Walter Benjamin inicia com a observação de que o "Narrador" nãoconsegue mais ser plenamente eficaz na sua proposta de narrar. Esse narrador agora semostra distante e tendencia a continuar a sê-lo. É cada vez mais raro encontrar pessoas que saibam narrar qualquer coisa com correcção (Benjamin, 1992: 28). Para Benjamin, com o passar do tempo e com a chegada dos tempos modernos, foi-se deixando de existir a ‘capacidade’ de contar história. Faculdade esta que para WalterBenjamin parecia ser inalienável. E talvez seja essa constatação que acarreta a sua‘decepção’ e a sua ‘melancolia’ (ou pelo menos parte delas). De acordo com Benjamin, ao nos ser retirada essa faculdade, instaurou-se aincapacidade de trocar “experiências”. Como exemplo disso veio a hipótese de que aGuerra trouxe experiências desmoralizadas nunca antes vividas. A partir dessa conclusão,Benjamin apresenta dois grupos de narradores arcaicos que, segundo afirma, existiam antesdo período da Guerra. São eles:► Agricultor sedentário (que mantém as tradições)► Mercador dos mares (que traz a novidade) Para Walter Benjamin as melhores narrativas escritas eram aquelas que mais seaproximavam das histórias orais contadas por inúmeros narradores anónimos. Benjaminpercebe em Lesskov características próximas ou similares àquelas existentes nosnarradores arcaicos. Lesskov utiliza o ‘Justo’ como a principal figura das suas narrativas.8º Congresso LUSOCOM 110
  4. 4. Esse personagem - o Justo - aparece como o homem simples e laborioso que se torna santo.Lesskov escreveu vários escritos sobre a classe operária, o alcoolismo, os médicos dapolícia, os negociantes desempregados (Benjamin, 1992: 30), considerados por Benjamincomo ‘os precursores das narrativas’. O filósofo alemão considera o advento da informação como demonstração da morteda narrativa. Essa forma de ‘Narrativa’ existiu como um meio ‘artesanal’ de comunicaçãoque não resistiu às mudanças da modernidade. Na perspectiva de Benjamim existemincompatibilidades inconciliáveis entre a narrativa e a informação. A primeira oferecereflexão, espanto e nunca se exaure; a segunda surge de forma efémera e somente temvalidade enquanto novidade. Para Benjamin, a short-story aparece como comprovação dasua denúncia em relação à efemeridade do mundo actual. Ela pode ser definida como umaabreviatura da narrativa, um encurtamento necessário mediante a dinâmica do mundomoderno. Walter Benjamin cita Paul Valery: (...) já lá vai o tempo em que o tempo nãocontava. O homem de hoje já não se dedica a coisas que não possa abreviar (1992: 38).Benjamin faz, também, uma distinção entre o historiador que ‘escreve histórias’ e ocronista que ‘narra histórias’. O historiador é obrigado a explicar, de uma forma ou de outra, os acontecimentos a que se refere; não se pode limitar, de modo algum, a apresentá-los como modelos do devir do mundo. Essa tarefa é do cronista (1992: 42). O filósofo alemão lembra a definição de memória como uma capacidade épica. AMnemosia, deusa da reminiscência, era a musa do género épico entre os gregos. Segundo oautor, existe uma diferença de actuação da lembrança na narrativa e no romance, sendoambos advindos da epopeia. Segundo Benjamin, o romance emancipou-se da epopeia. Asepopeias homéricas dividem-se em dois momentos: o da memória perenizante doromancista em oposição à memória de entretenimento do narrador (Benjamin, 1983: 67). Portanto, podemos dizer que:► Romance – existência de heróis, odisseia, luta, recordação.8º Congresso LUSOCOM 111
  5. 5. ► Narração – acontecimentos dispersos, memória. Para Benjamin, o romance se move em torno do ‘sentido da vida’ enquanto anarrativa se detém na ‘moral da história’: Acção interna do romance não é outra coisa senão a luta contra o poder do tempo (1983: 67). Segundo a perspectiva benjaminiana Dom Quixote representa o primeiro modeloperfeito de romance e Educação Sentimental o mais recente. Benjamin acha que quemouve a história narrada está acompanhado pelo narrador, mas o leitor do romance é sempreum solitário. O romance possibilita o leitor ‘viver’ a morte através da leitura. Benjamin tem uma posição particular em relação ao conto de fadas que aparececomo o primeiro conselheiro das crianças, assim também como da humanidade, epermanece vivo na narrativa. As aflições e conflitos podem ser resolvidos a partir do contode fadas que oferece uma ajuda/auxílio através do conselho. Lesskov quase se rende aomítico quando vai falar do ‘Justo’, colocando em perigo a pureza do conto de fadas. ParaBenjamin, Lesskov demonstra uma visão aproximada do mundo místico e revela traços deum narrador nato. O narrador é a forma na qual o Justo se encontra a si próprio (Benjamin, 1992: 57). O autor diz ainda que o ‘Narrador’ tem como sua matéria a vida humana eestabelece com ela uma relação artesanal. Esse ‘Narrador’ sabe, por isso, dar conselhos (nosentido de conselho verdadeiro - Rat) como um sábio, podendo basear-se na experiência(Erfahrung) de toda uma vida, de uma vida de todos. Percebemos que por trás da preocupação recorrente de Walter Benjamin em definir‘o narrador’ e ‘narrativa’ existe uma intenção maior. Benjamin sente ainda a necessidadeem comparar esses conceitos e diferenciá-los com outros como o ‘romance’ e o ‘autor deromance’. Entendemos ainda que a preocupação de Walter Benjamin está, antes de maisnada, em demonstrar a perda do carácter de experiência colectiva, e de denunciar os8º Congresso LUSOCOM 112
  6. 6. problemas que surgem devido a esse acontecimento. O problema percebido por Benjaminestá na impossibilidade da comunicação. O autor enxerga a morte da ‘comunicabilidade’através do enfraquecimento/declínio da Erfahrung (experiência colectiva). E devido a esseacontecimento e paralelamente a ele, que se dá o fim da narração tradicional. Jeanne Marie Gagnebin considera que Benjamin deposita um certo tom nostálgicoem sua obra quando se refere a questões que remetem a memória e passado, mas segundoGagnebin, seria uma postura muito aceitável quando se trata de teóricos do“desencantamento do mundo”. Porém, Benjamin não se retém a esse posicionamento e vaimuito além de uma mera crise melancólica. Benjamin denuncia a perda da nossacapacidade de ‘contar’ e de ‘compartilhar experiências’, surgindo assim, o fim da arte danarrativa tradicional, que dependia dessa habilidade. Mas Benjamin não se restringe a essa denúncia. Por trás de toda essa preocupação oautor percebe que o problema da ‘narração’ está directamente vinculado aos das mudançase paradoxos da sociedade moderna. Essa seria, pois, a verdadeira questão, a problemáticacentral. Portanto, a impossibilidade da narração e a exigência de uma nova história, quesurge com o aparecimento do ‘romance’ são sintomas de uma sociedade que mudou.Desponta, então, por trás de toda essa temática, o problema que Walter Benjamin percebe equer revelar. O contraponto está em uma “tradição perdida que era compartilhada e retomada nacontinuidade de uma palavra transmitida de pai para filho, continuidade e temporalidadedas sociedades artesanais” em oposição a uma sociedade que vive “o tempo deslocado eentrecortado do trabalho no capitalismo moderno”26. A partir dessa mudança os indivíduosde uma mesma colectividade já não têm a Bildung (a verdadeira formação) e não podem enão conseguem escutar e seguir as histórias. Acarreta, portanto, a perda da orientaçãoprática, e resta-nos a ‘des-orientação’ (Rat-losigkeit), ou seja, a incapacidade em dar ereceber um verdadeiro conselho (Rat)27.26 Fragmento adaptado do texto “Não contar mais?” autoria de Jeanne Marie Gagnebin que se encontra naobra História e Narrativa em Walter Benjamin. p. 66.27 Idem.8º Congresso LUSOCOM 113
  7. 7. Concluímos que a tese defendida por Benjamin nesse ensaio é a de que a única‘experiência’ que pode ser transmitida/ensinada nos dias de hoje seria a daimpossibilidade/inexistência da experiência (Erfahrung). Portanto, ao nosso ver, no texto o‘Narrador’, Walter Benjamin nos convida a reflectir sobre o fim da experiência e das‘narrativas tradicionais’ e para a substituição da antiga tradição por um novocomportamento da sociedade. Para o autor, surge uma nova forma de ‘narrativa’, que abreespaço para o romance clássico, para o jornal, aceitando a solidão do autor, assim como dapersonagem e do leitor, ou seja, do homem na sociedade. Perpetua-se a falsa sensação decolectividade enquanto, na verdade, ampliam-se as distâncias espaço-temporais entre osindivíduos da sociedade contemporânea. O importante é percebermos que, ou, resta a nós, indivíduos solitários dessasociedade capitalista, viver experiências individuais efémeras, ‘experiências vividasisoladamente’ (Erlebnis) por causa de um esfacelamento social, ou, ao contrário disso,conseguirmos inverter essa situação e evitar uma acomodação. Assim, poderemosmodificar sistemas falidos e criar estruturas mais sólidas para as nossas sociedades a partirdas nossas próprias experiências individuais (Erlebnis).Referências BibliográficasBenjamin, W. (1992) Sobre Arte, Técnica, Linguagem e Política. Tradução de MariaAmélia Cruz et al. Lisboa: Relógio D´Água.Benjamin, W. (1993) Magia e Técnica, Arte e Política: Ensaios sobre Literatura e Históriada Cultura. Obras Escolhidas. Volume I. 5. Ed. Tradução de Sérgio Paulo Rouanet. SãoPaulo: Brasiliense.Benjamin, W. (1983) Textos Escolhidos – Walter Benjamin et al. Tradução de ModestoCarone et al. São Paulo: Abril Cultural, (coleção Os Pensadores).Benjamin, A.; Osborne, P. (orgs.). (1997) A Filosofia de Walter Benjamin – Destruição eExperiência. Tradução de Maria Luiza de A. Borges. Rio de Janeiro: Zahar.Gagnebin, J. M. (1994) História e Narrativa em Walter Benjamin. São Paulo:Perspectiva/FAPESP, (coleção estudos: 142).Gagnebin, J. M. (1982) Walter Benjamin: os cacos da História. Tradução de SóniaSalzstein. São Paulo: Brasiliense.8º Congresso LUSOCOM 114
  8. 8. Houaiss, A. (2001) Minidicionário Houaiss da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro:Objetiva.8º Congresso LUSOCOM 115

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