Gota d'Agua

  • 1,105 views
Uploaded on

 

More in: Education
  • Full Name Full Name Comment goes here.
    Are you sure you want to
    Your message goes here
    Be the first to comment
    Be the first to like this
No Downloads

Views

Total Views
1,105
On Slideshare
0
From Embeds
0
Number of Embeds
0

Actions

Shares
Downloads
2
Comments
0
Likes
0

Embeds 0

No embeds

Report content

Flagged as inappropriate Flag as inappropriate
Flag as inappropriate

Select your reason for flagging this presentation as inappropriate.

Cancel
    No notes for slide

Transcript

  • 1. Gota D’agua CHICO BUARQUE E PAULO PONTES Distribuído por www.oficinadeteatro.com O Maior site de teatro do BrasilPara uso Comercial deste Texto, deve-se ter Autorização da SBAT ou do Autor. APRESENTAÇÃO A esta altura do nosso trabalho, já com os ensaios bastanteadiantados, seria impossível levantar o mundo de intenções que GotaD’Água contém — nossas, do Ratto, do elenco, de Dory e Luciano. O quenão nos impede de ir pro inferno — ao contrário, ajuda. Podemos,entretanto, esquematicamente, esboçar as preocupações fundamentaisque a nossa peça procura refletir. A primeira e mais importante de todasse refere a uma face da sociedade brasileira que ganhou relevo nosúltimos anos: a experiência capitalista que se vem implantando aqui —radical, violentamente predatória, impiedosamente seletiva — adquiriuum trágico dinamismo. O santo que produziu o milagre é conhecido portodas as pessoas de boa-fé e bom nível de informação: a brutalconcentração da riqueza elevou, ao paroxismo, a capacidade de consumode bens duráveis de unia parte da população, enquanto a maioria ficouno ora-veja. Forçar a acumulação de capital através da drenagem derenda das classes subalternas não é novidade nenhuma. Novidade é ograu, nunca ousado antes, de transferência de renda, de baixo paracima. Alguns economistas identificados com a fase anterior afirmam quea saída era previsível, mas, de tão radical, impensável, dado o grau depauperismo em que já vivia a maioria da população. No futuro, quando 1 www.oficinadeteatro.com
  • 2. se puder medir o nível de desgaste a que foram submetidas as classessubalternas, nós vamos descobrir que a revolução industrial inglesa foium movimento filantrópico, comparado com o que se fez para acumularo capital do milagre. O certo é que, à falta de alternativa melhor, aexperiência foi posta em prática e se “consolidou”. É indiscutível que oautoritarismo foi condição necessária à implantação de um modelo deorganização social tão radicalmente anti-popular. A autoridaderigidamente centralizada permitiu que se pusesse em prática o elenco demedidas (políticas salarial, monetária, tributária. etc.) quemodernizaram, à feição capitalista, uma parte da sociedade brasileira,enquanto se intensificava o processo de empobrecimento da parte maior.Mas isso não explica tudo. Achar que o autoritarismo foi o únicoinstrumento da imobilização imposta às classes subalternas, no Brasil,nos últimos anos, eqüivale a dizer que as forças políticas no poder coagu-laram as relações entre as classes sociais, que todas as forças sociaisficaram paradas, contra a vontade, assistindo as classes dominantesfazerem seu carnaval, sozinhas. E isso não é verdade. No movimento queredundou num avanço tão grande dos interesses das classes dominantessobre os das classes subalternas, as camadas médias têm desempenhadoum papel fundamental. Elas, ao lado do autoritarismo, e de forma maisprofunda, têm legitimado o milagre. Seria ingênuo, a partir daí, fazerqualquer julgamento moral da classe média brasileira. Se a raiz desseproblema fosse moral, viver não dava trabalho nenhum. A verdade é queo capitalismo caboclo atribuiu uma função, no tecido produtivo, aossetores mais qualificados das camadas médias. Não apenas comocompradores, beneficiários do desvario consumista, mas, sobretudo,como agentes da atividade econômica. Em outras palavras, o capitalismo 2 www.oficinadeteatro.com
  • 3. caboclo começou a ser capaz de cooptar os melhores quadros que asociedade vai formando. E isso, de certa forma, é inédito no Brasil. Este sempre foi um país dependente. A nossa história tem sido,também, a história dos conflitos entre as diversas matrizes e osinteresses legítimos, nacionais, que se foram criando aqui. Ao longodessa história correram, paralelas e quase sempre isoladas uma daoutra, duas culturas: uma, elitista, colonizadora, transposta da matrizpara cá; a outra, popular, abafada, nascida da existência social concretadas classes subalternas. A cultura da elite nunca foi capaz de penetrarprofundamente, até as bases da sociedade, nem foi capaz de assimilarvalores da cultura popular, fundamentalmente porque a economia bra-sileira, que se desenvolveu sempre num quadro de dependência, emnenhum momento foi capaz de incluir, ativamente, em seu processo, asamplas camadas inferiores da população. Entre os dois pólos. ascamadas médias desenvolveram, sempre, um movimento pendular.Muitas vezes divididas, quase sempre tributárias dos interesses dasclasses dominantes, mas, em alguns momentos, próximas das classessubalternas, as camadas médias têm sido o fiel da balança, na correlaçãode forças políticas. Uma economia dependente, de feição pré-capitalistaque, além de excluir as camadas inferiores, relegava setores qualificadosdas populações urbanas a uma posição parasitária, estimulava essaoscilação no interior das camadas médias. A partir da chamada políticade substituição de importações e, sensivelmente, com a implantação domodelo atual, que acelera brutalmente a modernização do tecidoprodutivo, é que o capitalismo começa a atribuir uma função dinâmica àscamadas médias da sociedade, numa escala que privilegia os melhoresquadros que vão surgindo. A economia é cada vez mais dependente e, 3 www.oficinadeteatro.com
  • 4. por isso, cada vez mais seletiva. Mas há algo de politicamente diabólicono processo de seleção posto em prática: em cem, assimila trinta; só queos trinta são os mais capazes. O que acabou foi a incapacidade, pré-capitalista, que essa economia tinha de cooptar os melhores. Se é certo que não há (ou há muito pouca) tradição revo-lucionária no Brasil, é nítido que havia uma tradição de rebeldia nascida ealimentada nos setores intelectualizados da pequena burguesia brasileira(profissionais liberais, estudantes, escritores, artistas, políticos, etc.). Emépocas distintas, e com matizes diversos, os contornos dessa linha detradição podem ser traçados com nitidez: vem de Gregório de Matos aPlínio Marcos; está em Castro Alves, mas também está em Augusto dosAnjos; ela está madura, consciente, em Graciliano, e corrosiva, emOswald de Andrade; está em Caetano Veloso, mas já esteve em NoelRosa; esteve em 22, e também no Arena, no Oficina, no Opinião e noCinema Novo, para citar apenas nomes e movimentos ligados à arte. Aironia, o deboche, a boêmia, a indagação desesperada. a anarquia, ofascínio pela utopia, um certo orgulho da própria marginalidade, o apetitepelo novo são algumas marcas dessa nossa tradição de rebeldiapequeno-burguesa. Hoje é possível perceber que essa rebeldia era frutoda incapacidade que os diversos projetos colonizadores sempre tiveramem assimilar amplos setores das camadas médias e dar-lhes uma funçãodinâmica no processo social. O que estava reservado ao intelectualpequeno burguês antes do período a que estamos nos referindo? Ojornalismo mal pago, o funcionalismo público, uma cadeira de professorde liceu, o botequim. a utopia, a rebeldia. Por falta de função ele eraposto à margem. Até muito pouco tempo eram muito poucas as opçõesdo estudante universitário — tudo era criado fora, o carro, a geladeira e 4 www.oficinadeteatro.com
  • 5. a ideologia. Assim, o sistema econômico não tinha como assimilar acapacidade criadora dos melhores quadros da pequena burguesia queficavam colocados, perigosamente, no limite da rebeldia, O que aconteceagora, inversamente, é que a radical experiência capitalista que se fazaqui começa a dar sentido produtivo à atividade dos setores intelec-tualizados da pequena burguesia: na tecnocracia, no planejamento,, nosmeios de comunicação, na propaganda, nas carreiras técnicasqualificadas, na vida acadêmica orientada num sentido cada vez maispragmático, etc. O disco, o livro, o filme, a dramaturgia, começam a serprodutos industriais. O sistema não coopta todos porque o capitalismo é,por natureza, seletivo. Mas atrai os mais capazes. Assim, ao contrário de imobilidade, houve um significativomovimento nas relações entre as classes sociais, cujo eixo foi a classemédia brasileira, assimilada por uma economia cuja forma deacumulação dominante é não apenas capitalista, mas também se dá numquadro de dependência, o que a torna ainda mais predatória, para os queficam à margem, mas intensifica a participação dos que são incluídos emseu processo. O inconformismo e a disponibilidade ideológica de setoresda pequena burguesia foram, em muitos momentos de nossa história,instrumentos de expressão das necessidades das classes subalternas.Amortecendo-os, as classes dominantes produziram o corte queseccionou a base dos segmentos superiores da hierarquia social.Isoladas, às classes subalternas restou a marginalidade abafada, contida,sem saída. Individualmente, ou em grupo, um homem capaz, ou umaelite das camadas inferiores pode ascender e entrar na ciranda. Comoclasse, estão reduzidas à indigência política. Procuremos, agora, fazer a distinção necessária entre capitalismo 5 www.oficinadeteatro.com
  • 6. e autoritarismo. Se o segundo foi condição para a consolidação doprimeiro, é indispensável perceber que estamos diante de categoriasdistintas e, a esta altura, em certo grau, contraditórias. Há um conflitonítido, hoje, entre a complexidade e diversidade de interesses destasociedade, e o Estado inflexível, estreito, que a está dirigindo e ajudou aimplantá-la em passado recente. O centro da crise política que as classesdominantes estão vivendo hoje, no Brasil, é este: como criar formas deconvivência política entre interesses tão diversos e, em muitos casos,contraditórios, mantendo as classes subalternas em estado de relativaimobilidade. Enquanto a tão solicitada imaginação criadora dos políticosnão resolve o dilema, a crise se aprofunda, com as cabeças mais lúcidasdo sistema pedindo afrouxamento do cinto. O capitalismo, agora, precisade um Estado mais aberto porque já foi capaz, na prática, de assimilar osfocos de rebeldia. Ao mesmo tempo, se a abertura chegar ao pessoal láde baixo... Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come. Gota D’Água, a tragédia, é uma reflexão sobre esse movimentoque se operou no interior da sociedade, encurralando as classessubalternas. É uma reflexão insuficiente, simplificadora, ainda perplexa,não tão substantiva quanto é necessário, pois o quadro é muito complexoe só agora emerge das sombras do processo social para se constituir notraço dominante do perfil da vida brasileira atual. De tão significativo, oquadro está a exigir a atenção das melhores energias da cultura brasi-leira; necessita não de uma peça, mas de uma dramaturgia inteira.Procuramos, pelo menos, diante de todas as limitações. olhar a tragédiade frente, enfrentar a sua concretude, não escamotear a complexidadeda situação com a adjetivação raivosa e vã. A segunda preocupação do nosso trabalho é com um problema 6 www.oficinadeteatro.com
  • 7. cultural, cuja formulação ajuda a compreender o que foi dito acima: opovo sumiu da cultura produzida no Brasil — dos jornais, dos filmes, daspeças, da tv, da literatura, etc. Isolado, seccionado, sem ter onde nemcomo exprimir seus interesses, desaparecido da vida política, o povobrasileiro deixou de ser o centro da cultura brasileira. Ficou reduzido àsestatísticas e às manchetes dos jornais de crime. Povo, só como exótico,pitoresco ou marginal. Chegou uma hora em que até a palavra povo saiude circulação. Nossa produção cultural, claro, não ganhou com o sumiço. A partir da década de 50 um contingente cada vez maior daintelectualidade foi percebendo que a classe média de um país como onosso — colonizado, desviado do controle sobre seu próprio destino —vive dilacerada, sem identidade, não se reconhece no que produz, no quefaz e no que diz. Ela só tem chance de sair da perplexidade quando sedescobre ligada à vida concreta do povo, quando faz das aspirações dopovo um projeto que dê sentido à sua vida. Isso porque o povo, mesmoexpropriado de seus instrumentos de afirmação, ocupa o centro darealidade — tem aspirações, passado, tem história, tem experiência,concretude, tem sentido. É, por conseguinte, a única fonte de identidadenacional. Qualquer projeto nacional legítimo tem que sair dele. Poucomais de quinze anos de democracia foram capazes de gerar o processode intercomunicação entre as classes sociais não comprometidas com aexpropriação da riqueza nacional e um setor cada vez mais amplo daclasse média se unia às camadas populares para formar um perfil dopovo brasileiro ideologicamente mais complexo. Povo deixava de ser,assim, o rebanho de marginalizados; politicamente, povo brasileiro eratodo indivíduo, grupo ou classe social naturalmente identificados com osinteresses nacionais. Em contato direto com as classes subalternas, a 7 www.oficinadeteatro.com
  • 8. intelectualidade, raquítica e litorânea, ia percebendo que era, também,povo, isto é, que tinha uma história a fazer, uma realidade paratransformar à sua feição, tinha responsabilidades, aliados, tinha, enfim,sentido. A aliança resultou numa das fases mais criativas da culturabrasileira, neste século. Foi daí que saiu a nossa melhor dramaturgia,que vai de Jorge Andrade a Plínio Marcos, passando por Vianinha,Guarnieri, Dias, Callado, Millor, Boal, etc.; dessa aliança saíram o Arena,o Oficina, o Opinião; saiu o Cinema Novo; saiu a melhor música popularbrasileira; o pensamento econômico amadureceu; nasceu uma sociologiainteressada em descobrir saídas para o impasse do terceiro mundo e nãoapenas preocupada em catalogar aspectos pitorescos e idiossincrasias dopovo. A partir de 64, a pressão de duas forças convergentes interrompeuo processo: o autoritarismo, impedindo o diálogo aberto daintelectualidade com as camadas populares; e a acelerada modernizaçãodo processo produtivo, assimilando e dando um caráter industrial,imediato, à produção de cultura. A interrupção deixou a cultura brasileirano ora-veja. Artistas, escritores, estudantes, intelectuais, arrancados dopovo, a fonte de concretude de seu trabalho criador, caíram naperplexidade, na indecisão, no vazio, mazelas conhecidas da classemédia, quando fica reduzida à sua impotência. O desespero, oesteticismo, a omissão, o povo folclorizado, a importação devanguardismo, o deboche, o auto-deboche foram alguns sintomasnascidos da falta de substância social (de povo) na cultura brasileira.Agora que a experiência de todos esses anos já nos permite umaavaliação, fica cada vez mais claro que nós temos que tentar, de todas asmaneiras, a reaproximação com nossa única fonte de concretude, desubstância e até de originalidade: o povo brasileiro. Esta deve ser uma 8 www.oficinadeteatro.com
  • 9. luta, de modo particular, do teatro brasileiro. É preciso, de todas asmaneiras, tentar fazer voltar o nosso povo ao nosso palco. Do jeito queestiver ao alcance de cada criador: com o show, a comédia de costumes,o esquete, a revista, com a dramaturgia mais ambiciosa, como se puder.O fundamental é que a vida brasileira possa, novamente, ser devolvida,nos palcos, ao público brasileiro. Esta é a segunda preocupação de GotaD ‘Água. Nossa tragédia é uma tragédia da vida brasileira. A nossa terceira e última grande preocupação está refletida naforma da peça. No auge da crise expressiva que o teatro brasileiro tematravessado, a palavra deixou de ser o centro do acontecimentodramático. O corpo do ator, a cenografia, adereços, luz, ganharamproeminência, e o diretor assumiu o primeiríssimo plano na hierarquia dacriação teatral. As mais indagativas e generosas realizações desse período têmcomo característica principal a ascendência de estímulos sonoros evisuais sobre a palavra. As causas do fenômeno são conhecidas, masgostaríamos de chamar a atenção para uma delas, apenas pressentida:ao lado de todas as pressões amesquinhadoras, que tornaram impossívela encenação do discurso dramático claro sobre a realidade brasileira,uma fobia pela razão ia tomando conta de nossa criação teatral. Eraimprovável que se tratasse de uma crise da razão, num país como este,com tudo por ser feito, e estruturado de forma tão irracional que a lógicamais estreitamente cartesiana tem eficácia como instrumento depercepção. O que aconteceu, na verdade, é que as transformações foramse acumulando no interior da sociedade sem que a cultura, posta àmargem, se desse conta. Até um ponto em que o processo social ficoumuito mais complexo do que a cultura era capaz de entender e formular. 9 www.oficinadeteatro.com
  • 10. E este passou a ser o centro da crise da cultura brasileira: criou--se umabismo entre a complexidade da vida brasileira e a capacidade de suaelite política e intelectual de pensá-la. O desespero, o deboche, a super-valorização dos sentidos, etc. — que tomaram conta do nosso melhorteatro em anos recentes — a partir de determinado momento deixaramde ser substitutivos conscientes do realismo policiado e passaram a ser,no plano teatral, a expressão da incapacidade de nossa cultura deperceber e formular, em toda a sua complexidade, a sociedade brasileiraatual. Claro que a estreiteza dos limites impostos à criação cultural, noBrasil, é a grande responsável pela crise, mas nós nos iludimos se nãoreconhecemos que, a partir de determinado momento, houveincapacidade real de pensar nossa realidade. Agora o quadro vai semodificando. Principalmente a partir dos últimos dois anos. A economia,a sociologia, a ciência política, setores da produção cultural voltados paraa reflexão, começam a se pronunciar. Celso Furtado, Fernando HenriqueCardoso, Luciano Martins, Antônio Cândido e tantos outros começam apublicar livros e ensaios estimulantes. O jornalismo político tem dadouma colaboração valiosa. Os ciclos do Casa Grande deflagraram o apetitepelo debate. E surge uma forma insuspeitada de análise da sociedade: atese de doutoramento. Podemos citar, apenas para dar um exemplo davariedade e da eficácia do novo instrumento, as teses ideologia daCultura Brasileira, de Carlos Guilherme Mota, Os Bóia-frias, de Maria daConceição, Capitalismo e Marginalidade na América Latina, de LúcioKowarick, A Expressão Dramática do Homem Político em Shakespeare,de Bárbara Heliodora, etc. Aos poucos a sociedade, que estava emsombras, vai ganhando contornos mais nítidos e a cultura brasileiracomeça a aprofundar a sondagem. Podemos, agora, pelo menos, tentar 10 www.oficinadeteatro.com
  • 11. avaliar. A forma que nós encontramos para refletir esse ânimo foievidenciar a necessidade da palavra voltar a ser o centro do fenômenodramático. Não foi a razão que fracassou no nosso caso; quem fracassoufoi nossa racionalidade estreita. Agora é preciso reinstrumentalizá-la. Alinguagem, instrumento do pensamento organizado, tem que serenriquecida, desdobrada, aprofundada, alçada ao nível que lhe permitacaptar e revelar a complexidade de nossa situação atual. A palavra,portanto, tem que ser trazida de volta, tem que voltar a ser nossa aliada.Nós escrevemos a peça em versos, intensificando poeticamente umdiálogo que podia ser realista, um pouco porque a poesia exprime melhora densidade de sentimentos que move os personagens, mas quisemos,sobretudo, com os versos, tentar revalorizar a palavra. Porque um teatroque ambiciona readquirir sua capacidade de compreender, tem queentregar, novamente, à múltipla eloqüência da palavra, o centro dofenômeno dramático. Eram essas as nossas preocupações quando começamos atrabalhar em Gota D’Água. Sabemos que nem este empreendimento,nem nenhum outro, isoladamente, tem possibilidade de dar umaresposta definitiva a todas estas questões. Sejam quais forem osresultados artísticos desse trabalho — e temos consciência das suaslimitações — gostaríamos que ele fosse entendido, apenas, como maisuma tentativa, entre tantas que começam a surgir, de reaproximação doteatro brasileiro com o povo brasileiro. Gostaríamos de finalizar agradecendo a tantos amigos que nosajudaram: Bibi, Ratto, Zuenir Ventura, Ziraldo, Luciano Luciani, DoryCaymmi, Darwin Brandão, a todo o nosso elenco, e especialmente a 11 www.oficinadeteatro.com
  • 12. Qduvaldo Vianna Filho que, ao adaptar Medéia para a tv, nos forneceu aindicação de que na densa trama de Eurípedes estavam contidos oselementos da tragédia que queríamos revelar. Rio, 8 de dezembro de 1975 Paulo Pontes — Chico Buarque PERSONAGENS JOANA CREONTE EGEU JASÃO ALMA CORINA CACETÃO 12 www.oficinadeteatro.com
  • 13. NENÉ ESTELA ZAÍRA MARIA BOCA PEQUENA AMORIM XULÉ GALEGO PRIMEIRO ATO(O PALCO VAZIO COM SEUS VÁRIOS SETS À VISTA DO PÚBLICO;MÚSICA DE ORQUESTRA, NO SET DAS VIZINHAS, QUATROMULHERES COMEÇAM A ESTENDER PEÇAS DE ROUPA LAVADA,LENÇÓIS, CAMISAS, CAMISOLAS, ETC.; TEMPO; CORINA CHEGAAPRESSADA, SENDO RECEBIDA COM ANSIEDADE PELASVIZINHAS.) 13 www.oficinadeteatro.com
  • 14. CORINANão é certo...ZAÍRAComo é que foi?...ESTELAFoi lá?CORINANão é certo...MARIAEla não melhorou, não?CORINAÉ de cortar coração...NENÉMas e então?CORINANão sei, não dá. certo é que não estáE olhe bem que aquilo é muito mulherZAÍRAEla é bem mais mulher que muito machoESTELAJoana é fogo...MARIAÉ fogo...NENÉJoana é o diachoCORINAPois ela está como o diabo quer 14 www.oficinadeteatro.com
  • 15. Comadre Joana já saiu ilesade muito inferno, muita tempestadePrecisa mais que uma calamidadepra derrubar aquela fortalezaMas desta vez.., acho que não agüenta,pois geme e treme e trinca a dentaduraE, descomposta, chora e se esconjuraE num soluço desses se arrebentaNão dorme, não come, não fala certo,só tem de esperto o olhar que encara a gentee pelo jeito dela olhar de frente,quando explodir, não quero estar por pertoESTELACulpa daquele muquiranaZAÍRATudo por causa dum JasãoCORINAE além da pobre da Joanatem as crianças...MARIAOnde estão?CORINAMinha filha, só vendoTem resto de comidanas paredes fedendoa bosta, tem bebidacom talco, vaselina, 15 www.oficinadeteatro.com
  • 16. barata, escova, pentesem dente. E ali, menina,brincando calmamenteco’os cacos dos espelhos,estão os dois fedelhos...É ver sobra de feira,ramo de arruda, espadade São Jorge, bandeirado Flamengo, rasgadapor cima da cadeiraE ali, se lambuzando,não entendendo nada,um pouco se espantandoco’o espanto dos vizinhos,estão os dois anjinhos...É ver um terremotoque só deixa aprumadono lugar certo a fotodaquele desgraçadoposando pro futuroe pra posteridadeE ali, num canto escuro,na foto da verdade,brincando nos esgotos,estão os dois garotos...Os dois abortos...(ENTRA O GALEGO NO SET DO BOTEQUIM, ASSOBIANDO, 16 www.oficinadeteatro.com
  • 17. LIMPANDO COPO E GARRAFA, À ESPERA DE FREGUESES; SEGUEMAS VIZINHAS)ESTELAConta pra CorinaNENÉDeixa eu guardar a boca pro feijãoZAÍRAFala, Nenê...CORINAQue foi?...NENÉÉ nada nãoMARIAConta Nenê...CORINAO que é que foi, menina?NENÉFoi com ....... mas foi num outro diaESTELAOntem. Jasão na maior alegriaNENÉO caso é que...CORINASe vem com mais besteiradaquele homem, nem quero escutarJá chega de nhém-nhém-nhém, blá-blá-blá,disse-me-disse, diz-que-diz, zoeira. 17 www.oficinadeteatro.com
  • 18. Chega, Nenê, pro bem de Joana, esqueçaSenão daqui a pouco o zum-zum-zunidode boca em boca inda chega ao ouvidoda comadre e dali vai pra cabeça,onde fermenta e vira uma amarguraque se despeja no seu coraçãoESTELAEntão deixa, Nenê...NENÉQuem? Eu? Jasão?Se vi Jasão? Nem conheço a figura(TEMPO; ENTRA NO SET DO BOTEQUIM UM VIZINHO CHAMADOCACETÃO; JORNAL DEBAIXO DO BRAÇO, SENTA E PEDE:)CACETÃOGalego! Casco escuro, bem geladaGrande, loura e solteira: sem empada(O GALEGO VAI SERVI-LO,- SIMULTANEAMENTE, NO SET DAOFICINA APARECE O VELHO EGEU, ENXUGANDO AS MÃOS NASCALÇAS, SEGURANDO UMA VÁLVULA DE RÁDIO,- APANHA ORÁDIO E COMEÇA A CONSERTÁ-LO, ENCAIXANDO A VÁLVULA, EMSILÊNCIO, SOZINHO; NO SET DO BOTEQUIM, CACETÃO ABRE OJORNAL E LÊ,- TUDO ISSO É FEITO COM AGILIDADE, PARAAPANHAR O TEMPO EM QUE HOUVE PAUSA NA CONVERSA DEISVIZINHAS QUE AGORA SEGUEM EM SEU SET)CORINAPensando bem, Nené, me conta... 18 www.oficinadeteatro.com
  • 19. NENÊO que?CORINAMelhor eu saber, que é pra amaciaressa pedrada antes dela pegara comadre de mau jeito...NENÊVocêpediu, lá vai: Jasão co’a outra, maiso pai, ontem, lá na quadra da escolabeberam Old Eight com Coca-Cola,cantaram, pularam e coisas taisFalaram do casamento, os boçaisE convidaram toda a curriolados “Unidos” pro festaço. A vitrolatocou bem alto as marchas nupciaispara antecipar como vai ser a galaOu então só para pintar a caveirade Joana. Jasão dançou noite inteirao seu samba co’a sua noiva. A alados puxa-saco e dos puxa-sacanavarou a noite numa evoluçãoque parecia mais um pelotãosapateando em cima de JoanaEntão...(NENÉ SEGUE FALANDO BAIXO, QUASE EM MÍMICA, EM SEGUNDOPLANO; O BOTEQUIM ASSUME O PRIMEIRO PLANO, CACETÃO 19 www.oficinadeteatro.com
  • 20. PÁRA UM POUCO DE LER A JORNAL E EXCLAMA:)CACETÃOEssa não. Jóia! Filigrana!Galego, essa é a manchete da semana:fulana, mulher de João de taltinha um ciúme que não é normalVai daí cortou o pau do infelizFerido, o marido foi pro hospitalFicou cotó. .. Vem e lasca o jornal:ciumenta corta o mal pela raiz(RI UMA RISADA ALTA E GOSTOSA; O GALEGO VAI PARA JUNTODELE E, JUNTOS, OS DOIS PASSAM A LER A MATÉRIA EM VOZBAIXA; FAZEM MÍMICA DE QUEM SE DIVERTE MUITO; NO SET DEEGEU, A OFICINA, ENTRA O VIZINHO XULÉ; ESTA AÇÃO VAI PARAPRIMEIRO PLANOXULÉBoa, Egeu...EGEUBoa, amigo...XULÉComo é que é?Vai tudo bem?...EGEUTudo na mesma...XULÉE eu?EGEU 20 www.oficinadeteatro.com
  • 21. Você? Que é que há? Brigou co’a mulher?XULÉAntes fosse. É o dinheiro, mestre EgeuNão deu de novo...EGEUGrande novidadeXULÉFalhei de novo a prestação da casa...Mas, pela minha contabilidade,pagando ou não, a gente sempre atrasaVeja: o preço do cafofo era trêsTrês milhas já paguei, quer que comprove?Olha os recibos: cem contos por mêsE agora inda me faltam pagar noveCom nove fora, juros, dividendo,mais correção, taxa e ziriguidum,se eu pago os nove que inda estou devendo,vou acabar devendo oitenta e um...Que matemática filha-da-putaEGEUTodo mundo está igual a vocêXULÉNão dá. É todo mês a mesma lutaTem que falar pro homem resolverbaixar um pouco essa mensalidade,senão vou morar debaixo da ponteNão é fácil, mestre Egeu... 21 www.oficinadeteatro.com
  • 22. EGEUÉ verdadeXULÉAlguém tem que falar com seu CreonteA gente vive nessa divisãoSe subtrai, se multiplica, soma,no fim, ou come ou paga a prestaçãoO que posso fazer, mestre Egeu?...EGEUComaXULÉComo... (SEGUEM MIMICANDO A FALA; EM PRIMEIRO PLANO, AGORA, O BOTEQUIM)CACETÃOIh, Galego, olha só o Jasão... (lê)“Jasão de Oliveira, novo valorde emepebê, promissor autordo êxito ‘Gota d’água’ vai casarco’a jovem Alma Vasconcelos, filhado grande comerciante benfeitorCreonte Vasconcelos...”GALEGOSi seniorCACETÃOVivo, eh...GALEGO 22 www.oficinadeteatro.com
  • 23. Ese conseguio si arumáCACETÃORetrato no jornal...GALEGOQui maravilhaCACETÃOSabe por que?...GALEGOÉ o sucesso do sambaCACETÃOOu a grana dela?...GALEGONão sei, carambaCACETÂO“As bodas... (SEGUE LENDO; PRIMEIRO PLANO VAI PARA AS VIZINHAS;)ZAÍRA... em homem nunca confieiCORINANão sei como vai ser...MARIADepois ExuCaveira pega esse traste.CORINAEu não seiESTELAComigo eu dava-lhe um tiro no cu 23 www.oficinadeteatro.com
  • 24. NENÉEu nunca fui de meter o bedelho,mas mulher como Joana não temque juntar com homem mais novo. O velhomarido dela, manso, homem de bem,com salário fixo e um Simca Chamborddava a ela do bom e do melhore ela foi largar o velho. Por que?Por esse frango. Também, quem mandou?CORINANão fale assim da comadre, NenêEla fez o que o coração ditouDeu a Jasão dois filhos, cama e mesa,a coxa retesada, o peito erguidoDeu aquilo que tinha de belezamais aquilo que tinha de sabido,de safado, de gostoso e tesudode mulher. Se deu dez anos de vidae o homem, satisfeito, deixa tudocomo quem deixa um prato sem comidaAgora isso é o que você vem dizer?NENÉEu não falo por falta de amizadeÉ a lei da natureza...ESTELAPode crer,quando homem dá pra ruim, não tem idade 24 www.oficinadeteatro.com
  • 25. Nenê...MARIAO que Joana passou pr’esse caraera pro cara, nem sei...ZAÍRAEra pr’essecara arrancar os dois olhos da carae dar a ela se ela carecesseum dia de visão...ESTELAPois o Jasãonão tinha nenhuma ambição. Viviaa vida inteirinha entre o violãoe o rabo da saia dela. Até o diaque o rádio tocou seu samba maldito,feito de parceria co o diaboFoi a mosca azul. Já disse e repito:comigo eu dava-lhe um tiro no rabo(AS VIZINHAS SEGUEM FALANDO, EM MÍMICA; XULÉ SAI DAOFICINA E VAI PARA O BOTEQUIM QUE AGORA ASSUME OPRIMEIRO PLANO)CACETÃOXulé! Galego, outro copo...XULÉOi, Cacetão, já?CACETÃOÉ claro, tem que comemorar... 25 www.oficinadeteatro.com
  • 26. XULÉQue é que há?CACETÃOVocê não lê jornal? Jasão virou notíciajunto com loteria, futebol, sevícia,leno e latrocínio, desastre da Central...Xulé, eu sou gigolô desde que me chamoCacetão. Já vi de tudo cá no meu ramoMas um baú como esse, nunca vi igualXULÉQue é isso? Jasão é bom menino...CACETÃOPessoalXULÉInveja do Cacetão...CACETÃOUm brinde especialao único de nós, fodidos, sem escolha,que, num ato de impetuosidade e bravura,penetrou firme no reinado da farturagraças ao vigor e à retidão de sua trolha(SOLTAM GARGALHADAS, BEBEM, ENQUANTO O PRIMEIRO PLANOPASSA PARA O SET DAS VIZINHAS)ESTELAÉ destino...ZAÍRA 26 www.oficinadeteatro.com
  • 27. A pessoa já nasce avisada!Vai sofrer. Olha que vai sofrer. E o que faz?A pessoa vai e sofre...MARIAÉ carta marcadaNENÉNão há beleza nem esperteza capazde resistir à natureza...CORINAIsso é que nãoNão, não e não. Repare a cor dos meus cabelosA boca amarga com seis dentes amarelosA bunda que caiu e a falta de tesãoO peito que bichou e a pomba que é um bagaçoAs varizes da perna e as pelancas do braçoFoi só a natureza, foi fatalidade?Pois sim, Nenê. Que idade hoje você me dá?Sessenta? Errou. Quarenta e três por completarAs damas das novelas e da sociedadeaos cinqüentinha fazem pose no jornale mostram a barriga no MunicipalVocê, Nené, quanto é que tem?...(SEGUEM MIMICANDO; PRIMEIRO PLANO PASSA PARA A OFICINAONDE JÁ ESTÁ O VIZINHO AMORIM; EGEU FALA SEMPRE SEMPARAR DE CONSERTAR UM RÁDIO)AMORIMXulé, meu tio 27 www.oficinadeteatro.com
  • 28. Dé, Zazueira, Pipa, Amaro, Cacetão,Esmeraldino, Getúlio, Cazuza. Fio,ninguém mais paga. Nem São Cosme e DamiãoPor que é que eu vou pagar sem ter? Não pago nãoEGEUÉ fogo...AMORIMMas será que eu vou ter que perderos dois anos que já paguei de prestação?O corno velho do Creonte vai saberque não pago e me bota na rua...EGEUEntãome escuta.AMORIMMestre Egeu, você pode dizero que pensa, já que é dono de teto e chãoDono do seu nariz, não tem nada a perderTem a oficina e tudo o que está dentro delaEntão fala correio, justo, dá conselhosMas eu devo tijolo, cal, porta e janelaAcho que não sou dono nem dos meus pentelhosEGEUVocê tem razão... (Um tempo)AMORIMMestre Egeu, por caridade 28 www.oficinadeteatro.com
  • 29. me responda... (PRIMEIRO PLANO PARA BOTEQUIM)XULÉSe você quer que eu lhe respondaO que é que eu penso, co’a maior honestidade,ele está certo, tem que aproveitar a ondaÉ bom menino, sabe o que é necessidade,faz bem em se casar co’a filha do CreonteE assim que estiver sentado bem à vontadeà direita de Deus Pai, talvez nos desconteum pouco de dívida e da mensalidade (PRIMEIRO PLANO PARA VIZINHAS)CORINAPois eu digo a vocês... (PRIMEIRO PLANO PARA BOTEQUIM)CACETÃOVocê acha? Que nada (PRIMEIRO PLANO PARA VIZINHAS)CORINAEu tenho medo. Estou lembrando de suas mãos (PRIMEIRO PLANO PARA BOTEQUIM)CACETÃOHein, Xulé?... (PRIMEIRO PLANO PARA VIZINHAS)CORINA 29 www.oficinadeteatro.com
  • 30. Aquelas mãos... cada garra afiada pro bote... (PRIMEIRO PLANO PARA BOTEQUIM)CACETÂOE o dote? Reparte aqui co’os irmãos? Aqui, ó... (PRIMEIRO PLANO PARA VIZINHAS)CORINASem falar no olhar que já faleiNENÉMas você acha que ela vai fazer besteira? (PRIMEIRO PLANO PARA BOTEQUIM)CACETÃOTu acha que ele vai nos ajudar?...Primeiro plano para vizinhasCORINA Não sei (PRIMEIRO PLANO PARA VIZINHAS)XULÉNão sei...CACETÃOAcha, Galego?...GALEGONo se...CACETÃOBrincadeiraXULÉTambém não é crime, Jasão mudar de classe 30 www.oficinadeteatro.com
  • 31. É mudar de time... Ele é dono do seu passeGaranto que você, Cacetão, se passassepro lado de lá, lembrava aqui do pessoalCACETÃOAqui, ó! Fodido, quando dá uma cagada,progride, vai ao futebol de arquibancada,já senta, se bem que co’a bunda quadradae fica ao lado da tribuna especiale fica olhando pra cadeira almofadadaFica odiando aquela gente bem sentadaE no auge da revolta, faz o que? Faz nada,joga laranja na cabeça da geral(OS DOIS GRUPOS PARAM UM TEMPO E MEDITAM; DEPOISRETOMAM SUAS ATIVIDADES, ENQUANTO O PRIMEIRO PLANOPASSA PARA A OFICINA)EGEUPois eu vou te dizer: se só você não pagavocê é um marginal, definitivamenteMas imagine só se, um dia, de repenteninguém pagar a casa, o apartamento, a vagaComo é que fica a coisa? Fica diferenteFica provado que é demais a prestaçãoEntão o seu Creonte não tem soluçãoOu fica quieto ou manda embora toda a genteCachorro, papagaio, velho, viúva, filha...Creonte vai dizer que é tudo vagabundo?E vai escorraçar, sozinho, todo mundo? 31 www.oficinadeteatro.com
  • 32. Pra isso precisava ter outra virilhaNão é?...AMORIMTem boa lógica...EGEUFalei?...AMORIMSei não(AMORIM SAI DO SET DA OFICINA; MESTRE EGEU VOLTA AO SEURÁDIO; PRIMEIRO PLANO PASSA PARA O SET DAS VIZINHAS)ESTELAEntão pode deixar que eu lavo a roupa delaZAÍRATambém pode deixar que eu faço a arrumaçãoNENÊEu frito um ovo, inda tenho arroz na panelaMARIAFalo com Xulé pr’ele falar com Jasão?CORINANão, isso eu falo com Egeu. Pode deixarFoi ele quem comprou o leite dos pequenosESTELAEntão vai lá, diz que nós vamos ajudarAssim quem sabe se ela desespera menosCORINAEu vou... 32 www.oficinadeteatro.com
  • 33. (CORINA SAI; AS VIZINHAS SEGUEM TRABALHANDO; NO SET DAOFICINA, EGEU LEVANTA A CABEÇA E VÊ PASSAR, AO LARGO, UMVIZINHO CHAMADO BOCA PEQUENA)EGEUOi, Boca...BOCAMestre Egeu...EGEUBoca, vem cáBOCAFaz uns dezoito anos que eu passo na suaporta e mestre Egeu está sempre trabalhandoEGEUEu não nasci feito você, co’o cu pra luaBOCA (ri)Então vamos tomar um trago, estou pagandoEGEUNão, hoje não dá...BOCAQue é isso, vamos...EGEUDá nãoBOCADá sim. Vamos beber à sorte de JasãoAquele sim, nasceu co’ o cu pra lua. Estápra se casar co’a filha do rei. Vamos láEGEU 33 www.oficinadeteatro.com
  • 34. Não dá...BOCATá bem... (faz menção de sair)EGEUBoca Pequena, eu te chameiporque o pessoal passou aqui... bem...eu não sei...Como é que tá a grana este mês?...BOCATou levandoEGEUSabe o que é? Todo mundo aqui tá reclamando...BOCAMas eu já dei o dinheiro da Associação...EGEUIsso eu sei... Ninguém tem grana é pra prestaçãoBOCAÉ, tem que se virar...EGEUPois é, Boca PequenaTá todo mundo pendurado. Uma centenade famílias sem poder pagar. Mas vocêé um dos poucos que se arranja, não sei porque...BOCAEu sou esparro de boate de turista,carregador de uísque de contrabandista, 34 www.oficinadeteatro.com
  • 35. vice-camelô, testemunha de punguista,sou informante de polícia, chantagista,mas vigarista nenhum diz que eu não prestodesde que, como todo cidadão honesto,no fim do mês pago as minhas contas à vistaEGEUJá pagou a casa esta vez?...BOCAJá separeiporque é sagrado. Como santo em procissãoNão precisa pedir pra fazer o que seique é meu dever...EGEUPelo contrário: pague nãoBOCAQue que é isso, mestre, eu sou madeira de leiEGEUPois ouça, Boca, não pague nem um tostãoSe ninguém paga, é que não tem de onde tirarSe você paga, vai tirar toda a razãode quem tem todas as razões pra não pagarBOCAQue merda, mestre...EGEUMerda sim ou merda não?(BOCA PEQUENA FICA UM TEMPO COÇANDO A CABEÇA; DEPOISDE HESITAR UM POUCO, APERTA A MÃO DE EGEU E PARTE PARA O 35 www.oficinadeteatro.com
  • 36. SET DO BOTEQUIM; MESTRE EGEU RETOMA SEU TRABALHO,CONSERTANDO O RÁDIO; PRIMEIRO PLANO PARA O SET DASVIZINHAS ONDE CORINA ESTÁ CHEGANDO)CORINANão é certo... não pode...ESTELAQue é que deu?CORINAEla nem quer ajuda... ensandeceuZAÍRAQue?...MARIAPiorou...NENÉComo?...CORINAAquele boatoFoi num desembalo, a cavalo, a jatoO fato é que Joana já recebeunotícia da tal comemoraçãoSabe cada detalhe mais do que euO talhe do terno azul de Jasão,o samba, a noiva, as risadas que deu,que nem visse pela televisãoDaí, ah, meu Deus...ZAÍRAQue é que aconteceu? 36 www.oficinadeteatro.com
  • 37. CORINAA comadre... é de cortar coração...MARIAFala, mulher...CORINADisse que agradecia,mas de faxina ela não carecia,nem de comida e roupa, nem de dóE que de mim queria um favor sóBotou aquele olho em cima de mim,tragou o cuspe e perguntou assim:Corina, se eu morrer, você e Egeuolham meus filhos?NENÉVocê respondeuque sim? Que ela ficasse descansada?CORINAMas como, Nené, eu dizer: “Queridacomadre, morra em paz, não pense em nadaTome tranqüilamente o formicida,calmamente meta a faca no umbigoe dê simplesmente um basta na vidaque as crianças vão ficar bem comigo?”ESTELASe eu pego quem contou a safadezapra Joana... comigo era um cara mortoEnfiava-lhe a fuça no meio-fio, 37 www.oficinadeteatro.com
  • 38. abria-lhe as pernas com chave inglesa,afudava-lhe uma vela no lorto,depois tocava fogo no pavioCORINATem mais: agora vieram me mostrarJasão saiu co’a cara no jornaldizendo: ficou noivo e vai casarZAÍRAHoje?...CORINAHoje nas bancas, o maioralMARIAMelhor ela não ver...NENÉSe já não viuCORINAViu não...ESTELANão falta quem queira entregarCORINAO jornal esgotou nem bem saiu...Deviam ter pudor e nem olhara cara do descarado estampadadeste tamanho, assim, mandando brasa,enquanto ela.., não é certo, coitadaMARIAEu não quero ver. E na minha casa 38 www.oficinadeteatro.com
  • 39. esse jornal não entra...ZAÍRAEu digo mais:uma amiga de Joana, na batata,que puser as mãos num desses jornais,eu quero que lhe dê uma catarata,gota serena nos olhos...NENÊMulhernão tem amiga...CORINAEu trouxe um. Quem quer ver?ESTELAHein?...ZAÍRAQue?...MARIAMostra...NENÉO que diz...CORINA (Tira um jornal debaixo da saia)Pra quemquiserAchei mesmo que alguém ia querer(AS VIZINHAS ABREM E DISPUTAM O JORNAL AVIDAMENTE;QUANDO COMEÇAM A LER, ENTRA BOCA PEQUENA NO SET DOBOTEQUIM QUE PASSA PARA PRIMEIRO PLANO) 39 www.oficinadeteatro.com
  • 40. CACETÃOSaravá, Boca...BOCAPessoal...XULÉOi, vá sentandoe vá bebendo que Cacetão tá pagandoBOCAEsse mês a viúva já deu dividendo?GALEGOMás um copo?...XULÉFala, Boca...CACETÃOJá tá sabendo?BOCADe que?...CACETÃODo jornal...BOCAQue jornal?...CACETÂOEssa não.Elenão sabe da maior fofoca da cidade!Logo o Boca Pequena, rei da novidadepor fora dessa? Boca não é mais aquele... 40 www.oficinadeteatro.com
  • 41. BOCAEspera aí, tenho uma boa: mestre Egeu,quando estive na oficina, me perguntou:a prestação da casa, Boca, já pagou?Eu disse: é claro. E sabe o que ele rebateu?Que a prestação é uma cobrança exagerada...CACETÂOQue nova...BOCAE que quem paga a casa é um bom calhorda!XULÉA gente já discutiu o caso e concorda —menos Galego, que o gringo não é de nada— que mestre Egeu está por dentro da questãoGALEGOQuien quere uma empanada?...CACETÃOEmpada não, meusaco...Você, Boca, de fofoca anda muito fraco (mostra o jornal)Tá aqui a boa, olha o focinho do Jasão(BOCA OLHA O JORNAL COM INTERESSE ENQUANTO O PRIMEIROPLANO PASSA PARA AS VIZINHAS)ESTELAMas quem diria! A boneca.., a pinta do divo...Levou dez anos pra fazer uma canção,de repente é o compositor revelação. 41 www.oficinadeteatro.com
  • 42. Antes de Joana ele era a merda em negativo (PRIMEIRO PLANO PARA O BOTEQUIM)BOCAEu sempre disse: esse menino é positivoTem simpatia, bossa e comunicaçãoAMORIMEle nunca foi de muita escola e lição,mas é auto-didata, um cara intuitivo,lê livro, jornal grosso, é inteligente, vivo...Tá mais pra Rui Barbosa que pra Cacetão (PRIMEIRO PLANO PARA AS VIZINHAS)ZAÍRANão fosse um dia Joana lhe dar uma mãoe ele seria um pobre diabo inofensivo (PRIMEIRO PLANO PARA O BOTEQUIM)XULÉO samba de Jasão é coisa muito séria,Cacetão, não é pra babar de inveja, nãoMas um sambista com tamanha inspiraçãomerece tirar a barriga da miséria (PRIMEIRO PLANO PARA AS VIZINHAS)ZAÍRAEsse moleque Jasão nunca me enganouSe melhorou de vida não era pra daralguma boa vida pra Joana?... (PRIMEIRO PLANO PARA O BOTEQUIM)XULÉ 42 www.oficinadeteatro.com
  • 43. Tiraros pés da lama, ele está certo, já tirouÉ moço, tem que aproveitar a ocasiãoSe não, fica afundando aqui o resto da vidaQuem nasce nesta vila não tem mais saída,tá condenado a só sair no rabecãoou no camburão... (PRIMEIRO PLANO PARA AS VIZINHAS)CORINAParte, Jasão, pra banqueteda meia-dúzia. Vai, come e bebe e vomitae come e bebe e esquece e cospe na marmitados que eram teus... (PRIMEIRO PLANO PARA O BOTEQUIM)CACETÃOE os filhos? E a mulher, cacete!AMORIMTrepado nas ancas de mãe Joana ele iaser o que? Outro mestre Egeu? Aqui, garanto:qualquer um, para sair desta merda, vendiaa mãe, a mulher, pai, filho e Espírito Santo (PRIMEIRO PLANO PARA AS VIZINHAS)CORINATá calada, Nenê?... (PRIMEIRO PLANO PARA O BOTEQUIM)GALEGOYo no me meto en briga 43 www.oficinadeteatro.com
  • 44. entre mulher y hombre... (PRIMEIRO PLANO PARA AS VIZINHAS)CORINAVamos, Nenê, diga!NENÊNão sei não... Não sei tirar uma conclusãoSó sei de uma coisa: homem novo, não sei não..(PRIMEIRO PLANO PARA O BOTEQUIM, ONDE JÁ SE OUVEM OSPRIMEIROS ACORDES E O RITMO DE UMA EMBOLADA)CACETÃO (Cantando)Depois de tanto confeteUm reparo me competePois Jasão faltou à éticaDa nossa profissãoGigolô se comprometePelo código de éticaA manter a forma atléticaA saber dar mais de seteA nunca virar gileteA não rir enquanto meteNem jamais mascar chicleteDurante sua funçãoMas a falta mais violentaSujeita a pena cruentaÉ largar quem te alimentaDo jeito que fez JasãoVeja a minha ficha isenta 44 www.oficinadeteatro.com
  • 45. Tenho alguém que me sustentaQue já passou dos sessentaQue mais de uma não agüentaQue desmonta quando sentaQue é careca quando ventaE este amigo se apresenta.Domingo sim, outro nãoNão é virtude nem vícioÉ um pequeno sacrifícioÉ um músculo do ofícioEm constante prontidãoFecho os olhos e, virilTomo ar, conto até milPenso na miss BrasilE cumpro co’a obrigação(GARGALHADAS GERAIS NO FINAL DA EMBOLADA; A ORQUESTRAEMENDA NOVO RITMO E NOVA MELODIA PARA VIZINHOS EVIZINHAS CANTAREM E DANÇAREM CONFRONTANDO-SE ENTRESI; NÚMERO MUSICAL ENCERRA COM ORQUESTRA DIMINUINDO;OS PROTAGONISTAS DESSE NÚMERO SAEM DE CENA; LUZ VAISUBINDO EM RESISTÊNCIA APENAS NO SET ONDE ESTÃO JASÃOE ALMA, SUA NOIVA; NO CENTRO DESSE SET, UMA CADEIRA IM-PONENTE, MUITO TRABALHADA, QUASE UM TRONO; O TRONOESTÁ VAZIO, ALMA SENTADA NO CHÃO E JASÃO DEITADO COM ACABEÇA NO COLO DELA)ALMAVocê já sofreu muito, a gente vê no rosto 45 www.oficinadeteatro.com
  • 46. Debaixo dos olhos tem muito sobressaltoAqui na testa, quando franze, bem no alto,aparece uma linha feita de desgostoA boca, que já é muito desajeitada,entorta quando ri, como se uma metadefosse feliz e a outra tivesse vontadede chorar, igual a uma criança enjeitadaque quer tudo...JASÃOEu sempre quis um dente douradoO que mais?...ALMADepois tem o queixo...JASÃOO que é que tem?ALMAO queixo não é lá muito feliz tambémAcho que ele não está muito bem centradoTem uma marca, não chega a ser cicatriz,que faz o rosto ficar mais desamparadoJASÃONariz deixa comigo, está sempre gripadoALMAParece feito a régua, o traço do nariz,apontando pros olhos que eu deixei pro fimSabe por que?...JASÃO 46 www.oficinadeteatro.com
  • 47. É o mau olhado, com certezaALMAPorque seus olhos não têm nada de tristezanem de sofrimento.Aliás, sofrimento sim,sofrimento bom, que vem de não suportartanta ansiedade incendiando o coração,tanto desejo represado. Olha, Jasãoa gota d’água do seu samba é o seu olharfervendo, borbulhando, contagiando a genteQuando a água dos seus olhos transbordar um tantovai ser mais uma gargalhada do que um prantoe em vez de lágrimas, vai correr aguardenteJASÃOMeus olhos são assim?...ALMAEu cuido de vocêEu trato de fazer você chorar...JASÃOO quê?ALMAVocê tem que chorar e rir e se entregarVocê não tem o direito de se esconderda felicidade, que ela não aparecetodo dia, nem pra qualquer um. Vou cuidarde você, tá?... 47 www.oficinadeteatro.com
  • 48. JASÃOTá, Alma, o que você quiserALMAEntão, pra começar, vê se você esquecetudo o que é passado, esquece aquela mulherJASÃONão fala assim...ALMAVocê está com medo...JASÃONão diz“aquela mulher”, ela foi boa pra mimALMAVocê tem medo...JASÃOQue medo?...ALMADe ser felizViveu co’a desgraça, gostou, não está a fimde melhorar. Essa mulher é uma raizpregada nos seus pés...JASÃOAlma, não fala assimALMATá bom. Então diz que não gosta dela, sim?E que gosta de mim...JASÃO 48 www.oficinadeteatro.com
  • 49. Eu gosto de vocêALMASabe, hoje estive lá no nosso apartamentoVocê precisa ver, já estão no acabamentoJá colocaram todos os vidros fumênas esquadrias de alumínio.E a fachada do prédio ficou bem moderna,liberty, colonial e clássica. Puseram lambride madeira com mármore no hall de entradaO elevador todo forrado de veludoficou uma graça, apesar de esquentar um poucoMas entrando em casa é que você fica loucoco’o espaço das peças, a claridade, tudoO chão está brilhando de sinteco, amorVocê está me ouvindo?...JASÃOSei...ALMASala de jantar,living e a nossa suíte dão vista pro marDos outros quartos dá pra ver o RedentorMas Jasão, você inda não sabe da maiorsurpresa que papai me aprontou. Adivinhaquando eu abri a porta, sabe o que é que tinha?Tudo que é eletro-doméstico: gravadore aspirador, e enceradeira, e geladeira, 49 www.oficinadeteatro.com
  • 50. televisão a cores, ar condicionado,você precisa ver, tudo isso já comprado,tudo isso já instalado pela casa inteira...Desta vez papai deu uma boa caprichadaJASÃOE precisa disso tudo só pra nós dois?ALMAPor enquanto é só eu e você, mas depoisvem o bebê, vem a babá, vem a empregadae vêm nossos convidados... Estou errada?JASÃONão... não é isso...ALMAVocê fica tão calado,como se estivesse se sentindo culpadoParece até que nossa casa foi roubada...Então pai não pode me dar um presente?JASÃOQue é isso, Alma, não falei nada...ALMAE é pra falar,senão não sei...JASÃOÉ lá que você quer morar?Então tá muito bom pra mim. Fico contentede ver você contente, não quero mais nadaALMA 50 www.oficinadeteatro.com
  • 51. Estou olhando tudo com tanto carinhoOlha, eu já comecei a arrumar um cantinhosó pra você tocar violão de madrugadaAcha que fiz mal?...JASÃONão, foi bonito lembrarALMAEntão, Jasão, vê se desamarra esse rostouma vezinha só pra mim...JASÃOEu só não gostode deixar este fim de mundo sem levartudo o que sempre foi pra mim a vida inteiraUma alegria ou outra, um pouco de saudade,meus filhos, minha carteira de identidade,cada bagulho, meu calção, minha chuteira,a mesa do boteco, o time de botão,tanto amigo, tanto fumo, tanta biritaque dava pra botar na sala de visitamas ia atrapalhar toda a decoração...(VAI NASCENDO UMA INTRODUÇÃO MUSICAL EM RITMO DESAMBA; JASÃO SEGUE)Sabe, Alma, um samba como “Gota d’água” é feitodos carnavais e das quartas-feiras, das tralhas,das xepas, dos pileques, todas as migalhasque fazem um chocalho dentro do meu peito(Canta, movimentando-se em torno do trono) 51 www.oficinadeteatro.com
  • 52. Deixa em paz meu coraçãoque ele é um pote até aqui de mágoaE qualquer desatenção— faça, nãoPode ser a gota d’água(REPETE O REFRÃO E A MÚSICA ENCERRA COM JASÃO EMPOSIÇÃO DE SE SENTAR NO TRONO)ALMA (ri)Jasão...JASÃOO que é?...ALMAEscuta o que eu lhe digo:precisa definir seu repertórioOu bem você dança a valsa comigo,ou pula o carnaval no purgatório(ENTRADA SÚBITA DE CREONTE QUANDO JASÃO ESTÁ QUASESENTADO NO TRONO)CREONTEEi... Alma mia, dá um beijo! (beija Alma) Noel Rosa,senta lá que eu quero a minha cadeira (Jasão afasta-se do trono para darlugar a Creonte)Alma, faça o favor, seja bondosa,me deixe só com Jasão. Tem poeiranos olhos dele e eu preciso tirarALMABeijo, pai.. Beijo, amor... (Saí) 52 www.oficinadeteatro.com
  • 53. CREONTEJá reparouque o rádio não pára mais de tocarseu sambinha?...JASÃOÉ, parece que pegouCREONTEParece que pegou? Tem que pegar!Só tem que pegar. Aprende, meu filho,dessa lição você vai precisarSe você repete um só estribilhono coco do povo, e bate, e martela,o povo acredita naquilo sóAcaba engolindo qualquer baleiaAcaba comendo sabão em póImagine um samba...JASÃOSim, mas pareceque o samba é bom...CREONTEBom? EspetacularEu pago pra tocar porque mereceE continuo fazendo rodarem tudo que é horário...JASÃOEu não pedi,seu Creonte, eu nunca... 53 www.oficinadeteatro.com
  • 54. CREONTEOra, eu sei que nãoNoel Rosa, eu pago porque logo vique era um samba de boa inspiraçãoe, por que não?, um bom investimentoVocê sabe que eu gosto de ajudarquem não tem recursos e tem talentoNão é porque você vai se casarcom minha filha, que eu não vou dar bolaa genro, nem Alma precisa...JASÃOEu seiCREONTETe ajudo como ajudo o time, a escolae essas famílias que eu sempre ajudeiDou fantasias para o carnaval,dou uniformes para o campeonatoe água pro conjunto habitacionaldesta Vila do Meio-Dia, exato?JASÃOExato...CREONTEMas o que eu quero falarnão é isso. É coisa muito importanteJASÃOSobre Alma?...CREONTE 54 www.oficinadeteatro.com
  • 55. Não sei como começar(Tempo) Essa cadeira.. . repare um instante...Já viu?...JASÃOQue é que tem?...CREONTEEscute, rapaz,você já parou pra pensar direitoo que é uma cadeira? A cadeira fazo homem. A cadeira molda o sujeitopela bunda, desde o banco escolaraté a cátedra do magistérioExiste algum mistério no sentarque o homem, mesmo rindo, fica sérioVocê já viu um palhaço sentado?Pois o banqueiro senta a vida inteira,o congressista senta no senadoe a autoridade fala de cadeiraO bêbado sentado não tropeça,a cadeira balança mas não caiÉ sentando ao lado que se começaum namoro. Sentado está Deus Pai,o presidente da nação, o donodo mundo e o chefe da repartiçãoO imperador só senta no seu tronoque é uma cadeira co’imaginaçãoTem cadeira de rodas pra doente 55 www.oficinadeteatro.com
  • 56. Tem cadeira pra tudo que é desgraçaOs réus têm seu banco e o próprio indigenteque nada tem, tem no banco da praçaum lugar para sentar. Mesmo as meninasdo ofício que se diz o mais antigotêm escritório em todas as esquinase carregam as cadeiras consigoE quando o homem atinge seu momentomais só, mais pungente de toda a estrada,mais uma vez encontra amparo e assentonuma cadeira chamada privada (Tempo)Pois bem, esta cadeira é a minha vidaVeio do meu pai, foi por mim honradae eu só passo pra bunda merecidaQue é que você acha?...JASÃOEu não acho nada,quer dizer, nunca pensei.., realmente...Pra mim... cadeira era só pra sentar...CREONTEEntão senta...JASÃOEu? O senhor quer que eu sente?CREONTESenta! (Jasão senta) Muito bem. Eu vou lhe contarSe fosse outro homem eu não deixaria 56 www.oficinadeteatro.com
  • 57. sentar aí, mas você é quase um sócio,vai casar com Alma e algum dia iriasentar mesmo... Gostou?...JASÃOBom, meu negócioé mais samba, música popular...CREONTEÉ boa? Macia?...JASÃOComo?...CREONTEÉ gostosade sentar?...JASÃOAh, é! Dá pra relaxaro corpo todo...CREONTEMuito bem, Noel RosaUm dia vai ser sua essa cadeiraQuero ver você nela bem sentado,como quem senta na cabeceirado mundo. Sendo sempre respeitado,criando progresso, extirpando as pragas,traçando o destino de quem não tem,fazendo até samba, nas horas vagasPorém.., existe um pequeno porémNão vai ser assim, pega, senta e basta 57 www.oficinadeteatro.com
  • 58. Primeiro você vai me convencerque tem condições de assumir a pastaJASÃOEu sou compositor...CREONTEDá pra viverde samba?...JASÃOÉ o que eu ia dizer...CREONTEPois nãoJASÃOSabendo fazer, o negócio é bomTem problemas com arrecadação,mas já tá provado que o nosso somtem força no mercado. Então nós vamosmontar uma editora pra controlaros sambas de escola... Depois pegamos...CREONTEIsso. É por aí. Mas só que fuçarem direito autoral dá confusãoEntão por que você não faz como eue não emprega essa imaginaçãotrabalhando só no que vai ser teu?JASÃOEu só...CREONTE 58 www.oficinadeteatro.com
  • 59. Não é melhor? Fala, rapazJASÃOÉ melhor...CREONTEE então?.JASÃOMas o senhor disse...CREONTEDisse o que?...JASÃOIsso de ser capaz,ter condições.. talvez eu não servisse...CREONTENão! Você tem muita capacidade,que é isso? Só quero estar bem seguroque, no caso de uma necessidade,posso confiar em você. É o futuroda minha obra que vou lhe passarcom todos os seus segredos. Enfim,preciso saber se posso confiarem você, meu rapaz. Posso?...JASÃOPor mimacho que pode, já que Alma é sua filhaCREONTEEntão posso confiar?... 59 www.oficinadeteatro.com
  • 60. JASÃOPode confiarCREONTEEstá bem, vou lhe ensinar a cartilhada filosofia do bem sentar(A ORQUESTRA ATACA A INTRODUÇÃO COM RITMO BEMMARCADO; ENQUANTO CANTA, CREONTE VAI AJEITANDO JASÃONA CADEIRA)Ergue a cabeça, estufa o peito,fica olhando a linha de fundo,como que a olhar nenhum lugarSeguramente é o melhor jeitoque há de se olhar pra todo mundosem ninguém olhar teu olharMostra total descontração,deixa os braços soltos no are o lombo sempre recostadoAssim é fácil dizer nãopois ninguém vai imaginarque foi um não premeditadoCruza as pernas, que o teu parceirovai se sentir mais impotentevendo a sola do teu sapatoE se ele ousar falar primeirodescruza as pernas de repenteque ele vai entender no ato (A ORQUESTRA INTERROMPE SEU FUNDO MUSICAL E RÍTMICO) 60 www.oficinadeteatro.com
  • 61. CREONTEPor hoje era o que eu tinha a dizerMas preste atenção que a partir de agoratodo mundo um pouco vai dependerde você. Cuidado que existe horapra ser amigo e pra ser o poderNão queira sair por aí a foradizendo o que pensa. Diga o contrárioEsqueça o nome do seu companheiroe cumprimente o pior salafrário,que ninguém é inútil por inteiroEsteja quase sempre sem horárioe sempre de partida pro estrangeiro...Por falar nisso, sai, vai namorar,Noel Rosa, porque eu tenho o que fazerJASÃO (Levantando-se e saindo)Poxa, nunca imaginei que sentarfosse tão difícil. Bom, aprender...Adeus, seu Creonte, vou me mandarCREONTEAliás, não, espere... Vou lhe fazeruma pergunta. Aquele mestre Egeu...Já que vamos dividir este assento,um trabalhinho já apareceupra você demonstrar o seu talentoAquele Egeu, parece até que é seucompadre... 61 www.oficinadeteatro.com
  • 62. JASÃOMestre Egeu? É cem por centoCREONTEVocê gosta muito desse sujeito?JASÃOMas claro...CREONTEE ele lhe dá toda a atenção?JASÃOMestre Egeu é meu amigo do peitoMe ensinou a primeira profissãoe batizou meu filho...CREONTEBem, perfeitoVocê vai conversar com ele, entãoVocê me conhece e pode explicarque eu trabalhei suado, honestamentee fiz essas casas pra melhoraras condições de vida dessa genteAgora, quem compra tem que pagar,senão não há santo que me sustenteDiga que pra haver desenvolvimentocada um tem que pagar seu preçoJASÃOSim, mas mestre Egeu...CREONTE 62 www.oficinadeteatro.com
  • 63. Escute um momentoEgeu, faz muito tempo que eu conheçoe está fazendo muito movimentocontra mim. Você acha que eu mereço?Está mandando o povo sonegaras prestações da casa. E eu fico quieto?Acha que é certo esse povo ficarme enganando debaixo do meu teto?Acha certo morar e não pagar?Diga, rapaz, acha que está correto?(SIMULTANEAMENTE, NUM PLANO DO PALCO QUE CORRESPONDEAO SET DE JOANA, ENTRAM AS VIZINHAS ENTOANDO O REFRÃO(EM BG)VIZINHASComadre JoanaRecolhe essa dorGuarda o teu rancorPra outra ocasiãoComadre JoanaAbafa essa brasaRecolhe pra casaNão pensa mais nãoComadre JoanaRecolhe esses dentesBota panos quentesNo teu coraçãoJASÃO 63 www.oficinadeteatro.com
  • 64. Acho que não...CREONTEEntão vai como amigoFala manso pra evitar confusãoJASÃOMas, por que mestre Egeu? Ouça o que eu digo:O problema está nessa correçãoTodo mundo na vila está a perigoe todo mundo reclama...CREONTEIsso eu nãodiscuto. Fale co’Egeu. O serviçoestá entregue em tuas mãos. Vocês têmtanta intimidade...JASÃOJusto por issoé que eu ir lá não pega bemCREONTEAh, não? E deixa ele fazer ouriçopra não pagar as casas que tambémsão meio tuas e de minha filha?Se quer fazer papel de otário, fazMas não envolve Alma nessa armadilhaJASÃONão me leve a mal, seu Creonte, maseu tenho outra solução, outra trilhapra contornar o problema... 64 www.oficinadeteatro.com
  • 65. CREONTERapaz,eu gosto muito de Alma. Ouviu, Jasão?Minha filha não é cu de mãe JoanaNão vai fazer como fez co’a outra, nãoComeu, gozou, depois, feito banana,jogou fora a casca. Presta atenção:a minha filha é filha de bacanaEu dei-lhe de tudo. E co’esse violãovocê não vai dar conta do recadoJASÃOSeu Creonte, não fala assim nãoEu sou homem e sou capacitadoCREONTEEntão assume a nova situaçãoe cumpre co’o dever que lhe foi dado(Um longo tempo; Jasão em silêncio)Entenda, meu rapaz, o que eu não queroé insubordinação e hipocrisiaMas eu tenho sido humano. Toleroque atrasem. Quase ninguém paga em dia,geralmente por motivo sinceroMas dizer “pago não” por rebeldia,acha que é certo? Acha que eu vou deixar?(Jasão se levanta em silêncio e vai saindo)Espera, onde é que você vai?...JASÃO 65 www.oficinadeteatro.com
  • 66. Eu voufalar com mestre Egeu, vou explicar...CREONTEIsso, vai, rapaz.., e escute, eu não soude vingança, mas quero aproveitaro assunto... Já que a gente cutucoua ferida, deixa sangrar de vezTua... essa mulher que você viveujunto e que não paga a casa faz seismeses...essa mulher... não sei... bem, eusei que ela é mãe dos teus filhos... Talvezseja até mesmo um exagero meuMas tem coisas que não é bom brincarEla é dada a macumba, estou sabendo,tem gênio de cobra, pode criarproblema, eu estou só me precavendo...Não é tua esposa... tem que aceitar...Não sei... Você sabe o que estou dizendo...JASÃOEla tá só nervosa, meio tonta...CREONTEMinha filha não vai casar tranqüilaco’essa mulher tomando ela de pontaEnfim... Vou mandá-la embora da vilaJASÃOSeu Creonte, deixe por minha conta,Joana sossega, eu vou adverti-la 66 www.oficinadeteatro.com
  • 67. (NO SET DA OFICINA VÊ-SE EGEU QUE FINALMENTE ACABA DEAJUSTAR A VÁLVULA; EM CONSEQÜÊNCIA EXPLODE NO RÁDIO AVOZ DO LOCUTOR)LOCUTOROFF “... que está na boa da cidade inteira:‘Gota d’água’, de Jasão de Oliveira”(ENTRA A MELODIA DO SAMBA; ORQUESTRA SUAVE EM BG;JASÃO VAI SAINDO LENTAMENTE DO SET DE CREONTE QUE FICASOZINHO E COMEÇA RECITAR EM TOM IMPESSOAL)CREONTESou franco — pra minha meninacontava com. coisa mais finaPensava assim... um diplomata,um gerente... um tecnocrata,tenente, major, capitão,político da situação...Quem me dera um capitalistaou quem sabe um psicanalistaPor que não ginecologista?Talvez até mesmo um dentista,qualquer coisa menos sambista,porque Alma não é masoquista e,ora porra, eu não sou leãoQue ela arranjasse um burocratade óculos, terno e gravataBancário, mesário, escrivão,político da oposição! 67 www.oficinadeteatro.com
  • 68. Um simples assalariado,um mero psicanalisado,Cadete, cabo, reservista,guarda de trânsito paulista,qualquer coisa menos sambistaPois foi ao último da listaque a minha filha deu a mão (ORQUESTRA SOBE COM GOTA D’ÁGUA; OUVE-SE UMA VOZ NA COXIA)VOZ OFFEscuta! É o samba do Jasão!(LUZ NO SET DAS VIZINHAS; UMA LAVA ROUPA QUE ENTREGAPRA OUTRA QUE ESTENDE E QUE ENTREGA PRA OUTRA QUEPASSA, ETC... SEGUINDO O GRITO, UM CORO COMEÇA A CANTARO SAMBA, NA COXIA)VOZES OFFDeixa em paz meu coraçãoQue ele é um pote até aqui de mágoaE qualquer desatenção— faça nãoPode ser a gota d’águaNENÉO sujeito é um grande safadomas fez um sambinha arretado(NENÊ COMEÇA A CANTAR, EM SEGUIDA, UMA A UMA, TODASCANTAM O SAMBA; VÃO CANTANDO E REALIZANDO SEUTRABALHO NUM ESBOÇO COREOGRÁFICO; ESTÃO NO CENTRO DO 68 www.oficinadeteatro.com
  • 69. PALCO, DOMINANDO TODA A ZONA NEUTRA NÃO OCUPADAPELOS SETS; NO FUNDO DO PALCO VAI APARECENDO JOANA,VESTIDA DE NEGRO, EM SILÊNCIO, LENTAMENTE, OS OMBROSCAÍDOS, DEPRIMIDA, MAS COM O ROSTO ALTIVO E OS OLHOSFAISCANDO; NENÊ PERCEBE PRIMEIRO A ENTRADA DE JOANA ECUTUCA A VIZINHA AO LADO PRA PARAR DE CANTAR; UMA VAIADVERTINDO A OUTRA ATÉ QUE AOS POUCOS FICAM TODAS EMSILÊNCIO, PERMANECENDO APENAS A ORQUESTRA DESENHANDONO FUNDO)CORINADesliga esse rádio!... (Um longo tempo de silêncio; Joana se aproximadas vizinhas)Comadre...ESTELAMelhorou.Joana?...MARIAAssim que eu gosto de ver, já levantou...ZAÍRATá mais aliviada?...NENÉNão tá vendo ela andando?CORINAComadre Joana devia estar repousando,isso sim...JOANAComadre... Eu preciso de vocês 69 www.oficinadeteatro.com
  • 70. ZAÍRADeixa que amanhã te arrumo a casa outra vezESTELALavo a roupa...MARIAOs pratos...NENÉCozinho pra vocêCORINADiga, comadre, precisa de nós pra que?JOANA (Uma melodia sublinha a fala de Joana)Só agora há pouco, depois de tantotempo acordados, finalmente os doisconseguiram adormecer. Depoisde tanto susto, como por encanto,o rostinho deles voltou a ternão sei não... Parece que de repente,no sono, eles encontram novamentea inocência que estavam pra perderOlhando eles assim, sem sofrimento,imóveis, sorrindo até, flutuando,olhando eles assim, fiquei pensando:podem acordar a qualquer momentoSe eles acordam, minha vida assimdo jeito que ela está destrambelhada,sem pai, sem pão, a casa revirada,se eles acordam, vão olhar pra mim 70 www.oficinadeteatro.com
  • 71. Vão olhar pro mundo sem entenderVão perder a infância, o sonho e o sorrisopro resto da vida... Ouçam, eu precisode vocês e vocês vão compreender:duas crianças cresceram pra nada,pra levar bofetada pelo mundo,melhor é ficar num sono profundocom a inocência assim cristalizada (Orquestra encerra)CORINANão pensa nisso nem por brincadeira,comadre...ESTELAQue que é isso? Deu bobeira,mulher?...ZAÍRAVamos, esquece, deixa estar,Joana...MARIATranqüila, isso vai passar...JOANACorina, você é minha testemunhaVocês todas vão ser...NENÊNós somos unhae carne, faça o que você fizerMas não pensa mais besteira...JOANA 71 www.oficinadeteatro.com
  • 72. Se eu viera fazer uma desgraça...CORINAComadre!JOANAVocês já sabem...ZAÍRAIsola!...ESTELADeus padre!JOANANinguém vai sambar na minha caveiraVocês tão de prova: eu não sou mulherpra macho chegar e usar como quer,depois dizer tchau, deixando poeirae meleira na cama desmanchadaMulher de malandro? Comigo, nãoNão sou das que gozam co’a submissãoEu sou de arrancar a força guardadacá dentro, toda a força do meu peito,pra fazer forte o homem que me amaAssim, quando ele me levar pra cama,eu sei que quem me leva é um homem feitoe foi assim que eu fiz Jasão um diaAgora, não sei... Quero a vaidadede volta, minha tesão, minha vontadede viver, meu sono, minha alegria, 72 www.oficinadeteatro.com
  • 73. quero tudo contado bem direito...Ah, putinha, ah, lambisgóia, ah, CreonteVocês não levaram meu homem frontea fronte, coxa a coxa, peito a peitoVocês me roubaram Jasão co’o brilhoda estrela que cega e perturba a vidade quem vive na banda apodrecida do mundo...Mas tem volta, velho filho da mãe!Assim é que não vai ficarTá me ouvindo? Velho filho da puta!Você também, Jasão, vê se me escutaEu descubro um jeito de me vingar...ESTELAPára, Joana...MARIAJoana...NENÉMas o que é isso?ZAÍRAQue é isso o que? Deixa desabafar...JOANATem troco...CORINAComadre...ESTELADeixa eu falar, Joana...JOANA 73 www.oficinadeteatro.com
  • 74. Me paga...ESTELAOlha, tem compromissopra você no mundo. Você tem filho...JOANAFilho...ESTELALembra, teus filhos tão aíJOANACanalha...ESTELAE precisam muito de tiJOANAVão me pagar...NENÉEscuta, eu compartilhoda sua dor...JOANAMas não dói em vocêCORINAComadre Joana...JOANAEu fiz ele pra mimNão esperei ele passar assimjá pronto, na bandeja, qual o quê...Levei dez anos forjando meu machoBotei nele toda a minha ambição 74 www.oficinadeteatro.com
  • 75. Nas formas dele tem a minha mão...E quando tá formado, já no tacho,vem uma fresca levar, leva não...CORINAComadre, escuta...NENÉVai dormir que passaJOANANão leva mesmo. Eu compro essa desgraçaCORINAComadre, não fala assim, que aflição!JOANALeva não...ESTELAJoana, precisa lembrar,você tem dois filhos...JOANAQue filhos? Filhos...Eles também vão virar dois gatilhosapontando pra mim. Quer apostar?(ENTRA PERCUSSÃO; RITMO FRENÉTICO; AS CINCO VIZINHAS,EM CORO, COMEÇAM A ENTOAR O REFRÃO)VIZINHASComadre JoanaRecolhe essa dorJOANA (Falando com ritmo no fundo)Ah, os falsos inocentes! 75 www.oficinadeteatro.com
  • 76. Ajudaram a traiçãoSão dois brotos das sementestraiçoeiras de JasãoE me encheram, e me incharam,e me abriram, me mamaram,me torceram, me estragaram,me partiram, me secaram,me deixaram pele e ossoJasão não, a cada diaparecia estar mais moço,enquanto eu me consumiaVIZINHASComadre JoanaGuarda o teu rancorJOANAMe iam, vinham, me cansavam,me pediam, me exigiam,me corriam, me paravamCaíam e amoleciam,ardiam co’a minha lava,ganhavam vida co’a minha,enquanto o pai se guardavacom toda a vida que tinhaVIZINHASComadre JoanaAbafa essa brasaJOANA 76 www.oficinadeteatro.com
  • 77. Vão me murchar, me doer,me esticar e me espremer,me torturar; me perder,me curvar, me envelhecerE quando o tempo chegar,vão fazer como JasãoA primeira que passar,eles me deixam na mãoVIZINHASComadre JoanaRecolhe pra casaJOANAE me chutam, e me esfolam,e me escondem, e me esquecem,e me jogam, e me isolam,me matam, desaparecemJasão esperou quietinhodez anos pra retiradaDou mais dez pra Jasãozinhoseguir pela mesma estradaVIZINHASComadre JoanaRecolhe esses dentesJOANAPra não ser trapo nem lixo,nem sombra, objeto, nada,eu prefiro ser um bicho, 77 www.oficinadeteatro.com
  • 78. ser esta besta danadaMe arrasto, berro, me xingo,me mordo, babo, me bato,me mato, mato e me vingo,me vingo, me mato e matoVIZINHAS (Com força)Comadre JoanaBota panos quentesCORINAComadre, fala mais nada!(Breque na percussão)JOANAMe mato, mato e me vingo,me vingo, me mato e mato(Joana está caída no chão)CORINAMe ajuda aqui co’a coitada(QUATRO VIZINHAS CARREGAM JOANA PRO FUNDO, ENQUANTOCORINA VAI DANDO UM PASSE DE UMBANDA E CANTANDO;ENQUANTO ESSE GRUPO CAMINHA DO PROSCÊNIO PARA OFUNDO DO PALCO, JASÃO VEM CAMINHANDO DO FUNDO PARA OSET DA OFICINA; AS VIZINHAS DESAPARECEM COM JOANA EJASÃO ENTRA NA OFICINA DE MESTRE EGEU)JASÃOMestre...EGEUOi, menino, como é, sumiu? (Enquanto conversa, Egeu não pára de 78 www.oficinadeteatro.com
  • 79. consertar um rádio)JASÃOTou trabalhando...EGEUSenta...JASÃOTou só de passagem...EGEUPôxa, essa explodiu...JASÃOO que?...EGEU“Gota d’água”, que toró...JASÃO (Ri)Que nada...EGEUÉ sucesso nacionalCaiu no gosto da multidãoe inda vai pegar no carnaval (Cantarola Gota d’água)JASÃOLevei sorte...EGEUÉ fogo... é mole nãoJASÃOE você, mestre, tudo perfeito?Como vai o pessoal aqui?EGEU 79 www.oficinadeteatro.com
  • 80. Sempre falei que você tem jeitopra samba, não falei? Olha aí...JASÃOPois é...EGEUVê se agora não descambapra auto-suficiência. Cuidadoco’a máscara...JASÃOQue é isso...EGEUOlha, sambaé só uma espécie de feriadoque a gente deixa pra alma da genteMas você não se iluda porquea vida se ganha é no batenteJASÃOPois é... (Um tempo)EGEUE então?...JASÃOO que?...EGEUUé, vocêdeve ter novidade que é matoagora que é uma celebridade...JASÃO 80 www.oficinadeteatro.com
  • 81. Eu vim pra falar dum troço chatoe sério, mestre.EGEUFala à vontadeJASÃOÉ que...EGEUEspera aí... (Redobra sua atenção na peça que está colocando no rádio)Pode falarJASÃOEu acho que amizade é amizadea qualquer hora e em qualquer lugarMas tem uma hora da verdadee a gente precisa ser sinceroe franco quando a verdade é dura...EGEUE precisa tanto lero-lero?Fala, menino, que é que há?... (Entregando uma peça do rádio a Jasão)Segurapra mim...JASÃOO caso é que tão falandopor aí que um bocado de gentede uns tempos pra cá tá se juntandoe combinando pra de repenteninguém mais pagar a prestaçãoda casa própria... Não por aperto, 81 www.oficinadeteatro.com
  • 82. de caso pensado: pago não!...EGEUÉ?... Assim é fogo...JASÃOAcha que é certotomar dos outros e não pagar?EGEUÉ... não é mole não...JASÃOVocê vê?Tem mais, mestre Egeu, foram contarpro seu Creonte que era vocêquem botava farofa no pratoda turma...EGEUEu o quê?...JASÃOTava mandandonão pagar...EGEUNão pode ser...JASÃOExatoEGEUDisseram isso?...JASÃOTão comentando... 82 www.oficinadeteatro.com
  • 83. EGEUQue filhos-da-puta...JASÃOPr’ocê ver...Falar um troço desses de ti...É mais é falta do que fazerQue é que você acha?...EGEUEu?...JASÃODiscuticom seu Creonte: por mestre Egeuponho a mão no fogo... É homem sério...Meu compadre...EGEUQuer saber o que euacho? Sem rodeio e sem mistério?Esse emprego não serve pr’ocêJASÃOQual emprego?...EGEUVirou inocente?JASÃOTá aporrinhado, mestre? Por que?Eu tava falando simplesmente...EGEUEsquece. Vem aqui, dá uma olhada 83 www.oficinadeteatro.com
  • 84. Me ajuda aqui co’esse filamentoque a essa hora eu não vejo mais nadaJASÃOPuxa, mestre, o senhoré cismento Eu já lhe falei pra levantargrana num banco. Aí modernizaa oficina, põe pra trabalharuns empregados e nem precisaforçar a vista. Fica ali sóna administração... (Levantando)EGEU (Com autoridade)Presepada,menino... Tira esse paletóe senta aí. Que banco que nada!Senta duma vez, eu tou mandandoPega o alicate e a chave de fendae vai matutando, matutandoaté que você um dia aprendaa ser dono da sua consciênciaJASÃOQue é que foi, mestre Egeu, eu não seia razão de tanta impaciênciaEu só vim aqui e pergunteisobre o problema da prestaçãoO senhor já disse que não temnada a ver co’essa situação,então tá acabado, tudo bem 84 www.oficinadeteatro.com
  • 85. EGEUOuça, rapaz, você vai sentare consertar o rádio, entendeu?E já. Pelo menos pra pagaro leite dos seus filhos, que se eunão tou dando, eles morrem de fome(Fulminado, Jasão mais cai do que senta)Desculpa. Joana, é como se nãovivesse mais, não dorme, não come,não sai, parece uma assombraçãoDesde o dia em que esse casamentofoi marcado, ela não quer falarde mais nada. E nesse desalentonão pode trabalhar, nem olharpelos seus filhos...JASÃOEu não sabia...Ela botou boca na janelapra gritar que já não careciade mim pra nada. E mais. Que pra elaos filhos não tinham pai mais nãoTodo mundo ouviu a xaropada,você ouviu, mestre...EGEUOra, Jasão,conversa de dona abandonada...JASÃO 85 www.oficinadeteatro.com
  • 86. E como é que eu posso adivinhar?Se você agora não dissesse,eu nem sabia... Mas vou cuidardo problema, você me conhece,eu tenho responsabilidade...EGEUEu sei que você é um bom rapaz (Tempo)Pôxa, é fogo (Impaciente com o rádio) É a idadeé a idadeVem cá, vê se você é capazde engatar o filamento... (Jasão apanha o rádio e começa a engatar ofilamento)JASÃOChato,não é, mestre?...EGEUO que?...JASÃOMe passarna cara só porque deu um pratopra meu filho comer...EGEUVai ficarzangado?...JASÃONão é qualquer um. Eu,sou eu, sou eu, Jasão de Oliveira, 86 www.oficinadeteatro.com
  • 87. sou eu. Não te ofendi, mestre EgeuEu só vim evitar barulheirapor causa das prestações... É certolevar um coice?...EGEUEntão tá, me dá... (Pede o rádio mas Jasão não entrega)JASÃOPode deixar comigo, eu conserto... (Segue tentandoengatar o filamento; tempo)É você, não é, mestre? Que támandando essa gente não pagar...Te conheço...EGEUConhece, pois é,conhece todos neste lugarZazueira, Cazuza, Xulé,Amorim e Dé. Toda essa gente,você mesmo, ainda tá lembrado?Todos dando duro no batentea fim de ganhar um ordenadomirradinho, contado, pingado...Nisso aparece um cara sabidocom um plano meio complicadopra confundir o pobre fodido:casa própria pela bagatelade dez milhões, certo? Dez milhõesaos poucos, parcela por parcela, 87 www.oficinadeteatro.com
  • 88. umas cento e tantas prestaçõesBem, o trouxa fica fascinado...Passa a contar tostão por tostão,se vira pra tudo quanto é lado,que ter casa própria é uma ambiçãodecente. Então ele pega, sua,deixa até de comer... Livra cem,e, vamos dizer, dorme na rua,larga a cachaça e não vê mais nemfutebol. No fim do mês tá dandopra juntar as cem pratas sagradasMuito bem. O tempo vai passandoe lá vêm as taxas, caralhadasde juros, correção monetáriae não sei mais lá quanto por cento...Tudo aumenta, menos a diária...Um ano depois, quando o jumentojuntou cem contos pra prestaçãovai ver que, com todos os aumentos,os cem cruzeirinhos já não dão:a prestação subiu pra trezentos...Passam seis meses e vai além,sobe pra quatrocentos e tanto...Mas como, se o cara ficousem comer pra sobrar cem? E no entantoo jumento é teimoso, ele bateco’a cabeça pra ver se a titica 88 www.oficinadeteatro.com
  • 89. do salário aumenta, faz biscate,come vidro, se aperta, se estica,se contorce, morde o pé, se esfola,se mata, põe a mulher na vida,rouba, dá a bunda, pede esmolae vai pagando a cota exigida...Quando ele vê,conseguiu somar cinco milhões redondos,portanto metade do total a pagarMas aí, pra seu tremendo espanto,descobre que então passa a deverdezoito milhões e novecentosO jumento diz: não pode ser!Já fiz metade dos pagamentosPaguei cinco, devo cinco. Vêaí, faz as contas, vê se pode,inventa outra lógica, você...Pois pode, amigo, o cara se fodemorrendo um bocadinho por mês...Quem ia ficar pagando atémil novecentos e oitenta e seissó pára no ano dois mil, isto é,se parar. Enfim, o desgraçado,depois de tanta batalha inglória,o corpo já cheio de pecado,inda leva nota promissóriapro juízo final... 89 www.oficinadeteatro.com
  • 90. JASÃOMuito bem,mestre Egeu... Por que comprou então?EGEUAliás eu não precisava nemfazer tanta conta, né, Jasão?Você sabe. Já lhe faltou granapro apartamento onde você mora...morava... com teus filhos e Joana...JASÃO (Gritando)Muito bem! Por que comprou?...(Tempo; pára de mexer no rádio)Agora,mestre, você tem que me entender...É meu compadre, é um segundo paipra mim. Mas seu Creonte vai sermeu sogro, pai da mulher que vaiser minha. . . Ele também vai viraruma espécie de pai. Todo mundoaqui é amigo. É como estarem família... Olha, mestre, no fundo,eu sou mais útil daquele ladoLá dentro eu posso representarquem estiver mais encalacrado,posso interceder, facilitar...Todo mundo só tem a perderco’essa briga de foice no escuro 90 www.oficinadeteatro.com
  • 91. (JASÃO RECOMEÇA A MEXER NO RÁDIO)EGEUAh, Jasão, você não vai poderse equilibrar no alto desse muro...JASÃOSeu Creonte admite um atrasoou outro... Se a turma se der mal,eu falo: olha aí, sogrão, o casoé o seguinte, Xulé é legal,Dé também — e ele não chia, nãoEGEUAh, Jasão, o amor lhe deu cegueiraou mudou seu campo de visãoJASÃOÉ compromisso pra vida inteiraque assumo contigo. A turma contecomigo. Se alguém não tá em dia,eu levo o problema ao seu Creontecom toda amizade e simpatiaEGEUEntão, Jasão, se você quiser,já pode começar resolvendoo problema da tua mulhere teus filhos que não tão podendopagar...JASÃOEsse problema é só meu (Solta o rádio e levanta) 91 www.oficinadeteatro.com
  • 92. e não vim falar sobre ele agora...EGEUPois é. Esse problema é só seu...Bem, quando quiser pode ir embora...(UM TEMPO; JASÃO, VENCIDO, SENTA; FICA UM LONGO TEMPOPARADO. PENSANDO; EGEU TOMA O RÁDIO E RECOMEÇA OCONSERTO; DE REPENTE, JASÃO TIRA NOVAMENTE O RUÍDO DEEGEU E VOLTA A CONSERTAR; ENQUANTO SE DESENROLA ESTACENA EM MÍMICA, LUZ NO SET DAS VIZINHAS ONDE JOANA ESTÁDEITADA, RECEBENDO O CONFORTO DE CORINA)CORINAMelhor, comadre?...JOANADepois do que eu dei e fiz,cê acha que Jasão pode ser tão ruim,tão disfarçado e tão frio, para ser felizjunto co’a outra, sem nunca pensar em mim?Será que ele é capaz? Ah, vejo ele mentirpra ela que, por mim, nunca teve amizadeVejo ele rindo muito e fazendo ela rir,falando do meu corpo, nossa intimidade... (ENTRAM ESTELA E ZAÍRA)ESTELAEle tá aí...CORINAQuem?...ZAÍRA 92 www.oficinadeteatro.com
  • 93. Como quem? JasãoO safado tá lá com mestre Egeu...JOANASafado por que? Não é homem seu...ZAÍRADesculpa, foi só força de expressão...JOANAEu sim, posso dizer que ele é um safadoNão tem direito de andar se exibindo...Daqui a pouco toda a vila tá rindode mim, ele feliz e eu nesse estado...ESTELA (Para Zaíra)Ela só fala nisso: vão gozarda cara dela...ZAÍRA (Para Estela)Precisa dizerqualquer coisa... (Alto) Ele vai se arrependerESTELA (Alto)Tá na cara que Jasão vai voltar(SEGUEM MIMICANDO QUE FALAM; A CENA VOLTA PARA O SET DEEGEU, ONDE JASÃO, DEPOIS DE LONGO SILÊNCIO CONSERTANDOO RÁDIO, SOLTA O RÁDIO E VOLTA A FALAR)JASÃOVocê, mestre Egeu, é meu amigoPor isso eu peço, de coração,me ajude, colabore comigo...EGEU 93 www.oficinadeteatro.com
  • 94. Vai visitar teus filhos, Jasão...JASÃOPromete que não fala mais nadade não pagar as casas, aquilotudo, hein? Controla a rapaziada?Fala, meu mestre... Posso ir tranqüilo?EGEUPor que fizeram isso contigo?Creonte te desse um bofetãona cara, desse o pior castigo,mas não te entregasse essa missão...JASÃOPor favor, mestre Egeu, dá um jeitoDiz que me ajuda... Basta falarco’a turma... Você impõe respeito...EGEUVai falar você, vai, se tem peito(ABRE LUZ NO BOTEQUIM, QUANDO EXPLODE UMA GARGALHADADA TURMA DOS VIZINHOS; DEPOIS DA GARGALHADA ELESSEGUEM FAZENDO MÍMICA DE PORRINHA E O PRIMEIRO PLANOCONTINUA NO SET DE EGEU)JASÃOMeu mestre...EGEUEu preciso trabalhar...(JASÃO ESTÁ INDECISO E DECEPCIONADO; EGEU APANHA O 94 www.oficinadeteatro.com
  • 95. RÁDIO E COMEÇA A MEXER; GIRANDO O BOTÃO, EXPLODE UMAMÚSICA NO RÁDIO QUE JASÃO, ENQUANTO FALAVA,CONSERTAVA; A ORQUESTRA EXECUTA UMA VARIAÇÃO DO TEMAQUE SUBLINHOU A FALA DE JOANA SOBRE OS FILHOS; EGEU DÁUM SALTO, PERCEBENDO QUE JASÃO CONSERTOU O RÁDIO)EGEUTá tocando!... Foi você, Jasão...Nessa horinha, como pode ser?Eu tou mexendo nele há um tempão...Taí o que você sabe fazercomo ninguém no mundo, meninoAgora você provou de vezque já tá marcado o teu destinoEletrônica das oito às seise em noites de lua, violão(Jasão sai, evitando a euforia de Egeu)Volta aqui, Jasão... Nem agradecea quem lhe deu uma profissão...Vê teus filhos, Jasão, não esquece...(Jasão desaparece enquanto orquestra segue em BG para sublinhar omonólogo de Egeu)Os homens são mesmo competentes...Quem chama Jasão, não chama à toaÉ o cara certo: boa pessoa,real valor, bons antecedentes,saúde de ferro, ótimos dentes,jovem, capaz, figura de proa, 95 www.oficinadeteatro.com
  • 96. talentoso, enfim, madeira boapra arder na lareira dos contentes...Sempre que um cara menos bichadosurge aqui, pagam seu peso em ouropra levá-lo embora. Resultado:mais negro fica este sumidouromais brilhante fica o outro ladoe o seu carnaval, mais duradouro(TEMPO; MESTRE EGEU APANHA O RÁDIO QUE CONTINUATOCANDO — ORQUESTRA EM BG — E VAI LENTAMENTEDIMINUINDO O VOLUME; A LUZ, EM RESISTÊNCIA, VAI DI-MINUINDO DE ACORDO COM O VOLUME DO RÁDIO)Mas, Jasão, a festa é traiçoeira,e um alçapão. Todo mundo sabeque não há mal que nunca se acabenem festa que dure a vida inteira(DESLIGA O RÁDIO, AO MESMO TEMPO QUE SE APAGA A LUZ EMSEU SET; O PRIMEIRO PLANO VAI PARA O SET DAS VIZINHAS E OSET DO BOTEQUIM)ESTELAEu te digo que esse volta pra casa...Homem, conheço, tive dezesseise garanto uma coisa pra vocêsJasão sem Joana é pinto sem a asada galinha pra amparar. Fica tristee chocho e zonzo e passa o dia inteirozanzando, dando volta no poleiro... 96 www.oficinadeteatro.com
  • 97. ZAÍRAEu também acho que ele não resisteQue é que ele viu na franga do Creonte?Pra mim ele vai lá, bica um tiquinho,molha o bico e vem de volta pro ninhoJOANAQue venha e volte, entre e saia, que montee desmonte, que faça e que desfaça...Mulher é embrulho feito pra esperar,sempre esperar... Que ele venha jantarou não, que feche a cara ou faça graça,que te ache bonita ou te ache feia,mãe, criança, puta, santa madonaA mulher é uma espécie de poltronaque assume a forma da vontade alheia(NO SET DO BOTEQUIM APARECE JASÃO VINDO DA COXIA; ASSIMQUE O VÊEM OS VIZINHOS O SAÚDAM COM ENTUSIASMO)GALEGONão!...TODOSJasão!...JASÃOOi, gente...XULÉAcaba de entrarneste recinto Jasão de Oliveira,autor de “Gota d’água”, verdadeira 97 www.oficinadeteatro.com
  • 98. jóia do cancioneiro popular... (Abraça Jasão)GALEGOJá desço uma loura bem caprichada... (Aperta-lhe a mão)BOCAAtenção... (Abraça Jasão) O ataque entra em campo assim:Jasão, Xulé, Cacetão, Amorim eBoca. Sai de baixo, é goleada!Só precisa a gente treinar mais junto...Olha, Jasão, justiça seja feita,você foi o maior ponta direitaaqui desta caceta de conjuntoresidencial...AMORIMSamba e futebolsão a salvação da lavoura. Duvidoque exista outra maneira de fodidobrasileiro arranjar lugar ao solVocê sabe fazer os dois... Aí,menino (Abraça Jasão)CACETÂO... Foi sambando, foi sambandoe não é que ele acabou descolandoa filha do homem? Aperta aqui (Apertam as mãos)GALEGOAgora ele é do uísque e da tequila...Mas vai recusar una vieja cana? (Oferece um copinho)JASÃO 98 www.oficinadeteatro.com
  • 99. Deixa comigo, Galego sacana(Vira o copo e faz careta)E está tudo na mesma aqui na vila?(A ORQUESTRA, QUE VINHA PREPARANDO UMA INTRODUÇÃOVIVA E ALEGRE, DÓ A DEIXA PARA O CORO DE VIZINHOSCANTAR)TODOSA gente faz hora, faz filaNa Vila do Meio-Dia— pra ver MariaA gente almoça e só se coçaE se roça e só se viciaA porta dela não tem tramelaA janela é sem gelosia— nem desconfiaAi, a primeira festaA primeira frestaO primeiro amorNa hora certa, a casa abertaO pijama aberto, a braguilha— a armadilhaA mesa posta de peixeDeixe um cheirinho da sua filhaEla vive parada no sucessoDo rádio de pilha que maravilhaAi, o primeiro copo 99 www.oficinadeteatro.com
  • 100. O primeiro corpoO primeiro amorVê passar ela, como dançaBalança, avança e recua— a gente suaA roupa suja da cujaSe lava no meio da ruaDespudorada, dada,À danada agrada andar semi-nua— e continuaAi, a primeira damaO primeiro dramaO primeiro amorCarlos amava Dora que amava Léa que amava Lia queamava Paulo que amava Juca que amava Doraque amava...Carlos amava Dora que amava Rita que amavaDito queamava Rita que amava Dito que amava Rita queamava...Carlos amava Dora que amava tanto que amavaPedro queamava a filha que amava Carlos que amava Dora queamava toda a quadrilha...amava toda a quadrilha...amava toda a quadrilha...(A ORQUESTRA VAI DIMINUINDO AOS POUCOS, ENQUANTO O 100 www.oficinadeteatro.com
  • 101. PESSOAL SE CONFRATERNIZA E SE SERVE DE CERVEJA)JASÃOQue bom ver vocês...AMORIMNós tamos aquisempre, fodidos, sem grana, sem graça,mas enganando a vida co’a cachaçado galego... Mas fala de tiNinguém sabe mais onde te encontrar,ficou rico...JASÃOQue que é isso, Amorim?Sou igual...CACETÃONão é tão igual assim...XULÉA gente ia mesmo te procurar,não é, Amorim? Falo?... (Tempo; ninguém responde)Pra dizerque as prestações... Ninguém tá mais podendopagar. Você veja, já tou devendo...BOCAÔ, Xulé... O Jasão veio fazeruma visita, pô. Tudo tem hora...Agüenta que isso a gente vê depois... (ENTRA ESTELA QUE SE DIRIGE AO GALEGO)ESTELA 101 www.oficinadeteatro.com
  • 102. Galego, cinqüenta gramas de arroze cem gramas de feijão...GALEGOSi, senioraESTELAE três cigarros, jornal velho, um pão,quatro bananas e um toco de velaAMORIMA minha mulher tá cega... Ô, Estela,olha só quem chegou aqui... Jasão...ESTELAInda conhece pobre? Que beleza...Diz que tem dois meninos procurandopai ali na esquina...AMORIMCê tá ficandolouca, mulher?...ESTELAPendura essa despesana conta dele, tá? (Saindo) Você tambémtem filho pra criar, viu, Amorim?Saiba que conversa de botequimé pra Jasão que agora é gente bem,tá co’a vida ganha... (Sai) (Um tempo de constrangimento)AMORIMO que é que deu nela? 102 www.oficinadeteatro.com
  • 103. É de lascar...CACETÃOEu vou ser atrevido,mas meu amigo tem comparecidoali, direitinho, na dona Estela?Se você usa a cama pra deitare dormir e mais nada e ainda roncade noite, ela fica assim nessa bronca (Todos riem)AMORIMPode deixar que em casa eu vou falarcom ela... Mas diga, Jasão, que tal?CACETÃOA que devemos a honra e o prazerda visita?JASÃONada, não... Quer dizer,queria ver vocês... É o principalDepois...BOCAJá sei. Veio nos convidarpro casamento...JASÃOÉ. Eu faço questãoque vocês venham...TODOSEi! Boa, Jasão!AMORIM 103 www.oficinadeteatro.com
  • 104. Aí, menino!...CACETÃOAs águas vão rolar!(SOBE A ORQUESTRA COM FLOR DA IDADE ENQUANTO OSVIZINHOS SE ABRAÇAM NOVAMENTE NO MAIOR ENTUSIASMO;PRIMEIRO PLANO PASSA PARA O SET DAS VIZINHAS ONDECHEGAM APRESSADAS NENÉ E ZAÍRA)NENÊEstela viu Jasão no botequim...ZAÍRANão disse? Eu conheço a catimba, a manhaMestre Egeu, papo, botequim, arranhadaqui, cutuca acolá, mas no fimtermina mesmo é lá no travesseiro de Joana...MARIABem que eu rezei pra Oxosse...CORINAViu, comadre? Deus é grande...JOANASe fosse,não criava duas coisas: Primeiropobre, segundo mulher... Não me iludo...MARIAQue é isso, Joana? Pensa positivo... (PRIMEIRO PLANO NO BOTEQUIM)AMORIMHomem, pra mim, homem definitivo 104 www.oficinadeteatro.com
  • 105. pode na vida ter feito de tudo,guerreado, estudado, entortado o aço,feito filho, escrito livro, plantado árvore.Mas homem mesmo, provado,só no dia em que ele tira um cabaço (PRIMEIRO PIANO NAS VIZINHAS)ZAÍRAJoana, na véspera de se casar,Jasão ficar rondando botequim...O que será que ele quer?...NENÊVai por mim,mulher, garanto que ele vai voltarConheço Jasão do outro carnaval,ele te gosta... (PRIMEIRO PLANO NOS VIZINHOS)CACETÂOÉ um puta sacrifício,um saco. Devia existir o ofíciode tirador de cabaço, legalPrimeiro dia pega a moça e pou,profissional. Assim, quando o maridofor comer, tá tudo desimpedido,macio e tal... (PRIMEIRO PLANO NAS VIZINHAS)CORINAEle já visitou 105 www.oficinadeteatro.com
  • 106. Egeu, já bebeu co’a rapaziada,abre o coração, comadre. Talveztenha chegado mesmo a tua vez...(PRIMEIRO PLANO NO BOTEQUIM ONDE JASÃO SE LEVANTA ECOMEÇA A APERTAR A MÃO DOS AMIGOS UM POR UM)JASÃOBem, pessoal...XULÉJá vai?...GALEGOOutra rodada,vai...JASÃOTenho que ir andando, pessoal... (PRIMEIRO PLANO NAS VIZINHAS)ESTELAQue ele inda gosta tá mais que na caraE ainda desiste de casar...JOANAPára! (PRIMEIRO PLANO NO BOTEQUIM)JASÃOVou ver meus filhos...CACETÃOVai na filial?... (PRIMEIRO PLANO NAS VIZINHAS)JOANA 106 www.oficinadeteatro.com
  • 107. Por favor, pára, não fala mais nada... (PRIMEIRO PLANO NO BOTEQUIM)BOCAVê lá, hein? Cuidado, vê se maneraque parece que Joana está uma fera...JASÃOTchau... (Sai e apaga-se a luz do botequim) (PRIMEIRO PLANO PARA AS VIZINHAS, ONDE ENTRA EGEU)EGEUComadre Joana, dá uma escapadaaté em casa que eu acho que Jasãoquer ver os filhos, comadre, depressaJOANAVou não...EGEUVá, comadre...ZAÍRAEu não disse que essamanha toda era pra ver Joana...ESTELAEntãoele quer voltar, não é, mestre Egeu?EGEUVá lá, comadre Joana, estou pedindoOuça o que ele diz, o que está sentindo,se está contente ou se se arrependeuJOANA 107 www.oficinadeteatro.com
  • 108. Ele não vai lá...EGEUNão faz assim, JoanaEle quer ver os filhos, está certoJOANAVai não...EGEUFalei com ele. Vi de perto...Ele está confuso, ele não me enganaCORINAVai, comadre...NENÉVai, mulher...MARIANão demora,Joana, vai...JOANAAh, ele não tem coragem...Desde que me fez essa sacanagemnunca pisou lá. Por que vai agora?EGEUComadre, Jasão está divididoentre tudo o que teve de melhorna vida, os teus filhos, o teu amor,e aquilo que lhe foi oferecidoOuça, comadre, é tão duro um sujeitopassar a vida inteira na penúria 108 www.oficinadeteatro.com
  • 109. tendo ao lado tanto luxo e luxúriaque, eu quase diria, tem o direitode fazer sei lá, o que quer que sejaPode virar ladrão ou assassinoQuer dar uma rasteira no destinopra não seguir vivendo no ora-vejae conseguir um lugar no outro ladoSe Jasão ainda está indecisoé por que é bom. Vá... Vá...ZAÍRATem juízo,mulher, vai...EGEUVai por mim... (Joana dá um passoe começa a caminhar em direção ao seu set)Muito obrigado(APAGA A LUZ DO SET DAS VIZINHAS; ORQUESTRA SOBE; JASÃOVAI APARECENDO NO OUTRO LADO DO PALCO, JOANA, FAZENDOMOVIMENTOS QUE CORRESPONDERÃO À SUA CAMINHADA ATÉEM CASA, COMEÇA A CANTAR)JOANAQuando o meu bem-querer me virEstou certa que há de vir atrásHá de me seguir por todosTodos, todos, todos os umbraisE quando o seu bem-querer mentirQue não vai haver adeus jamais 109 www.oficinadeteatro.com
  • 110. Há que responder com jurasJuras, juras, juras imoraisE quando o meu bem-querer sentirQue o amor é coisa tão fugazHá de me abraçar co’a garraA garra, a garra, a garra dos mortaisE quando o seu bem-querer pedirPra você ficar um pouco maisHá que me afagar co’a calmaA calma, a calma. a calma dos casaisE quando o meu bem-querer ouvirO meu coração bater demaisHá de me rasgar co’a fúriaA fúria, a fúria, a fúria assim dos animaisE quando o seu bem-querer dormirTome conta que ele sonhe em pazComo alguém que lhe apagasse a luz,Vedasse a porta e abrisse o gás(NO FIM DA CANÇÃO, JASÃO E JOANA ENCONTRAM-SE FRENTE A FRENTE)JASÃOJoana... (Tempo)JOANAQue é que veio fazer aqui, Jasão? (Tempo)JASÃOComo vai?...JOANA 110 www.oficinadeteatro.com
  • 111. Fala baixo que os meninos tãodormindo...JASÃOE você, como é que vai?...JOANAAh, eu voubem, vou muito bem, Jasão!...JASÃOVocê remoçou um bocado... emagreceu... ficou mais bonita...Só tem uma coisa que tá meio esquisita... (Vai a elae solta seus cabelos, jeitosamente)Pronto... assim... O que foi que lhe deu, hein,mulher?Parece uma menina...JOANAO que é que você quer,Jasão?...JASÃODizem por aí que você sofreutanto com a nossa separação... Mas eunão sei não... Deve ser mentira ou fingimentoOu então mulher se dá bem com sofrimento...JOANAVocê veio só debochar, Jasão, ou temcoisa séria pra dizer...JASÃOCê tá muito bem, 111 www.oficinadeteatro.com
  • 112. não é deboche...JOANASei, que mais?...JASÃOJoana, me escutavocê assim bonita, ainda moça, enxuta,pode encontrar uma pessoa... Quer dizer,você pode tranqüilamente refazera vida... Quem sabe, talvez até voltarpro seu marido, ele não cansa de esperar,tá sempre ali...JOANASei... E o que mais?...JASÃOComo, oque mais?Responde ao que eu tou falando...JOANAMe deixa empaz,Jasão, você tá com trinta anos, pau duro,samba nas paradas de sucesso, o futuromontado no dinheiro de Creonte, enfim,Jasão, o que é que você inda quer de mim?JASÃOJoana, não é nada disso...JOANA 112 www.oficinadeteatro.com
  • 113. Onde já se viu...Me fode co’a vida e inda vem tripudiar?JASÃOJoana...JOANAVai dar conselho à puta que o pariuJASÃONão dá, não dá... Eu tou querendo conversarmas assim... não dá não...JOANAEscuta aqui, meninoJASÃOEscuta, mulher, não tou a fim de brigarJOANAVeio pra que, então?...JASÃOMe ouve...JOANAPapo cretinonão quero ouvir mais não...JASÃOOuça, posso falar?JOANAJasão, você é bem folgado. Chega aqui...Joana, minha querida, sou eu, o ladrãoda tua tranqüilidade, sou eu, fugilevando todo o sangue que o teu coração 113 www.oficinadeteatro.com
  • 114. transferiu pro meu nome...JASÃOJá posso falar?JOANANão, deixa eu terminar... E agora que eu tou cheiode vida, tou com samba em primeiro lugar,Jasão de Oliveira, conhecido no meioartístico e social, enquanto eu tou eufórico,você, infelizmente, tá co’a alma entrevada,bunda tombada pelo patrimônio histórico,museu, ruína, arquivo, carne congeladaMas fica aí calma, boba, feliz e soltaos cabelos que alguém pode inda te querer,que talvez um coitado te aceite de voltaAqui, ó, Jasão, me esquece...JASÃOQuero dizer...JOANAComigo, não...JASÃOJoana, deixa eu falar agora?JOANAVocê faz o seguinte...JASÃOAgora acho que jáposso falar...JOANA 114 www.oficinadeteatro.com
  • 115. Você vai e pega a senhorasua mãe e solta os cabelos dela. Válhe fazer a proposta que me fez...JASÃOTá bem,tá bem, chegou a minha vez (Tempo) Joana, vemaqui...Escuta aqui, Joana...Vem aqui, Joana... Vem... (Ela não responde; ele vai até ela e toca noseu rosto)Escuta mulher, sabe que eu gosto de ti?Gosto muito, você sempre é meu bem-querer,sempre. E nunca mais eu vou poder esquecervocê, esquecer o que você fez por mim...Você me conhece, sabe que eu sou assim...Não sou de esquecer, não tomo chá de sumiçoPenso sempre em ti e nos meninos...Por isso vim aqui.., e então...JOANACê lembra de mim, Jasão?Ainda lembra?...JASÃOO que é que eu falei?...JOANALembra,nãoCê gosta da filha do Creonte, Jasão? 115 www.oficinadeteatro.com
  • 116. JASÃONão quero falar nisso agora...JOANAGosta, nãoTá só perturbado, né? Responde pra mim...JASÃOTava falando, deixa eu continuar, sim?JOANAResponde duma vez, homem, toma coragemVocê gosta mesmo da moça?...JASÃO (Gritando)Mulher, pára,deixa eu falar... (Tempo) Você sabe.., eu nãotenho carapra chutar vocês pra córner... É sacanagemque eu não vou fazer. Mas também veja o meu ladoCedo ou tarde a gente ia ter que separarQuando eu te conheci, tava pra completarvinte anos, não foi? Eu nem tinha completadoVocê tinha trinta e quatro mas era bemconservada, a carroceria, bom molejoe a bateria carregada de desejoEntão não queria saber de idade, e nemquero saber, por que pra mim quem gosta gostae o amor não vê documento nem certidãoSó que dez anos se passaram desde então 116 www.oficinadeteatro.com
  • 117. e a diferença que mal nem se via, a bostado tempo só fez aumentar. Vou completartrinta e você tá com quarenta e quatro, agoraÉ claro que, daqui pra frente, cada horado dia só vai servir pra nos separarE quando eu estiver apenas com quarentae cinco anos, na força do homem, segurode mim, vendendo saúde, moço e maduro.você vai ter seus cinqüenta e nove, sessenta,exausta, do reumatismo, da menopausa,da vida. E vai controlar ciúme, rancor,vai agüentar a dor de corno, o mau humor?Ou quer que eu também fique velho, só por causada tua velhice?... Acho melhor procuraruma pessoa na mesma faixa de idade...Quer dizer...JOANAJasão, pega a tua mocidadee enfia...JASÃOJoana, você tem que se acalmarJOANAAcalmar, é claro... É dever do injustiçadomanter sempre a cabeça fria, a qualquer custoEnquanto que a raiva, é um privilégio do injustoPor isso é que você tá tão qualificadoa gritar comigo e pedir calma em resposta 117 www.oficinadeteatro.com
  • 118. JASÃOJoana, briga de casal sempre aconteceuNão dá pra saber quem venceu e quem perdeuporque nessa competição não vale aposta,não tem medalha, espólio... Acabou-se a partida,não deu, paciência... Cada qual vai pro seu canto,chora um bocadinho e depois de mais um tantocomeça a sua vida de novo...JOANAQue vidaeu tenho pra começar?...JASÃOJoana, eu não conheçoninguém com mais vida do que você...JOANAEscolhelogo duma vez...JASÃOEscolhe o quê?...JOANAJasão, olhepra mim e escolha se eu remoço ou se envelheçoPorque pelas contas que você faz, tem horaque eu já tou caquenta, moribunda, dementee depois tem hora que eu viro adolescenteComo é que fica, hein?...JASÃO 118 www.oficinadeteatro.com
  • 119. Olha, mulher...JOANAE agora?JASÃOOlha, mulher, o que eu tou querendo dizer...JOANAEu sei...JASÃO (Gritando)Deixa eu falar, pô...É que, se quisesse,você inda tinha muito pra dar...JOANASe tivesseO que dar, Jasão, você não ia perdera ocasião de me sugar até o bagaçoJASÃOAi, meu saco, cacete, pô... Presta atençãoao que diz! Não me venha com provocaçãoJOANAEu sei muito bem o que você é, e façoquestão de dizer e repetir...JASÃOÕ, mulher,não fala assim, não admito, porra...JOANAO que?JASÃO 119 www.oficinadeteatro.com
  • 120. Respeita a minha condição...JOANAPois bem, vocêvai escutar as contas que eu vou lhe fazer:te conheci moleque, frouxo, perna bamba,barba rala, calça larga, bolso sem fundoNão sabia nada de mulher nem de sambae tinha um puto dum medo de olhar pro mundoAs marcas do homem, uma a uma, Jasão,tu tirou todas de mim. O primeiro prato,o primeiro aplauso, a primeira inspiração,a primeira gravata, o primeiro sapatode duas cores, lembra? O primeiro cigarro,a primeira bebedeira, o primeiro filho,o primeiro violão, o primeiro sarro,o primeiro refrão e o primeiro estribilhoTe dei cada sinal do teu temperamentoTe dei matéria-prima para o teu tutanoE mesmo essa ambição que, neste momentose volta contra mim, eu te dei, por enganoFui eu, Jasão, você não se encontrou na ruaVocê andava tonto quando eu te encontreiFabriquei energia que não era tuapra iluminar uma estrada que eu te aponteiE foi assim, enfim, que eu vi nascer do nadauma alma ansiosa, faminta, buliçosa,uma alma de homem. Enquanto eu, enciumada 120 www.oficinadeteatro.com
  • 121. dessa explosão, ao mesmo tempo, eu, vaidosa,orgulhosa de ti, Jasão, era feliz,eu era feliz, Jasão, feliz e iludida,porque o que eu não imaginava, quando fizdos meus dez anos a mais uma sobre-vidapra completar a vida que você não tinha,é que estava desperdiçando o meu alento,estava vestindo um boneco de farinhaAssim que bateu o primeiro pé-de-vento,assim que despontou um segundo horizonte,lá se foi meu homem-orgulho, minha obracompleta, lá se foi pro acervo de Creonte...Certo, o que eu não tenho, Creonte tem de sobraPrestígio, posição... Teu samba vai tocarem tudo quanto é programa. Tenho certezaque a gota d’água não vai parar de pingarde boca em boca... Em troca pela gentilezavais engolir a filha, aquela mosca mortacomo engoliu meus dez anos. Esse é o teu preço,dez anos. Até que apareça uma outra portaque te leve direto pro inferno. Conheçoa vida, rapaz. Só de ambição, sem amor,tua alma vai ficar torta, desgrenhada,aleijada, pestilenta... Aproveitador!Aproveitador!...JASÃOChega, né. Fica calada... 121 www.oficinadeteatro.com
  • 122. JOANADigo e repito: aproveitador!...JASÃOMulher, pára...JOANADigo porque é verdade...JASÃONão fala besteira...JOANASeu aproveitador!...JASÃOEu lhe quebro essa cara!JOANAO quê? Quebra não!...JASÃOEu lhe quebro a cara inteira.porra...JOANAPra mim, Cacetão, que ao menos não nega.tem muito mais valor...JASÃONão diz isso de mim,mulher...JOANANão digo? Digo sim: gigolô!...JASÃOChega! 122 www.oficinadeteatro.com
  • 123. JOANAGigolô!... (JASÃO DÁ UM MURRO EM JOANA QUE CAI)JASÃOVocê é merda... Você é fimde noite, é cu, é molambo, é coisa largada...Venho aqui, fico te ouvindo, porra, me humilho,pra que? Já disse que de ti não quero nadaMas todo pai tem direito de ver seu filho...(JOANA, DE UM SALTO, LEVANTA-SE E COLOCA-SE DE GUARDA EMFRENTE À PORTA IMAGINÁRIA DO QUARTO DOS SEUS FILHOS)JOANAMeus filhos! Eles não são filhos de Jasão!Não têm pai, sobrenome, não têm importânciaFilhos do vento, filhos de masturbaçãode pobre, da imprevidência e da ignorânciaSão filhos dum meio-fio dum beco escuroSão filhos dum subúrbio imundo do paísSão filhos da miséria, filhos do monturoque se acumulou no ventre duma infeliz...São filhos-da-puta mas não são filhos teus,seu gigolô!...(JASÃO AGARRA JOANA PELA CABEÇA E BATE CONTRA A PAREDE)JASÃOSua puta, merda, pereba!Agora você vai me ouvir, juro por Deus,sarna, coceira, cancro, solitária, ameba, 123 www.oficinadeteatro.com
  • 124. bosta, balaio, eu te deixei sabe por que?Doença, estupor, vaca chupada, castigo,eu te deixei porque não gosto de vocêNão gosto, porra, e não quero viver contigoNão tem idade nem ambição, mãe do cão,só isso, não quero, não gosto mais de ti (JASÃO SOLTA JOANA QUE CAI; JASÃO SAI)JOANANão vai, Jasão. Fica mais um pouco, JasãoNão vai. Pelo amor de Deus, Jasão, volta aqui,Gigolô, quero dizer mais, não vai embora,sacaninha, aproveitador, volta Jasão!Não, Jasão, por favor, Jasão, não vai agora(Falou isso chorosa; de repente, pára e retoma o controle)Mas vou me vingar, isso não fica assim, não...(O CORO CANTA NA COXIA; OS VIZINHOS E AS VIZINHASINDICADOS VÃO ENTRANDO EM CENA E, CANTANDO, VÃOFAZENDO UMA CORRENTE DE BOATOS COREOGRAFADA; UM A UMVÃO ENTRANDO, POUCO A POUCO; DEPOIS CRUZAM-SE EMOVIMENTAM-SE, ENCHENDO O PALCO DE BOATOS)CORO OFFTira o coco e raspa o cocoDo coco faz a cocadaSe quiser contar me conteQue eu ouço e não conto nadaCACETÃO (Para Galego)Me disseram que Creonte/ Co’o casório, tá maluco 124 www.oficinadeteatro.com
  • 125. Encheu a adega de uísque! Vinho, querosene e sucoJuntou tanta da bebida! Que se alguém pega umtrabucoE dá um teco nessa adega! Causa enchente em PernambucoCOROOi, tira o coco, etc.NENÉ (Para Estela)O vestido da menina! Foi lá de Paris que veioCreonte trocou por outro! Que o primeiro taxa feioEra só bordado a ouro! E ele de ouro já tá cheioSó a fivela do cinto! Custou dois milhões e meioCOROOi, tira o coco, etc.MARIA (Para Xulé)Já antes do casamento! Creonte chamou JasãoLhe deu um apartamento! Um carango e um violãoDeu-lhe um bom financiamento! E falou, virandoa mãoSó não posso dar a bunda! Porque é contra areligiãoCOROOi, tira o coco, etc.MARIA (Para Nené)Da Polônia vem a vodca/ O spaghetti e da BolonhaVem pamonha, vem maconha! De Fernando deNoronhaE vem água de Colônia! Do Tirol, lençol e fronha 125 www.oficinadeteatro.com
  • 126. Só não se pode dizer! De onde é que vem a vergonhaCOROOi, tira o coco, etc.AMORIM (Para Galego)Creonte está contratando! Toda uma vila operáriaSó pra confeitar o bolo! Maravilha culináriaVai ser feito lá na quadra! Que co’sa extraordináriaNo feitio e do tamanho! Da Igreja da CandeláriaCOROOi, tira o coco, etc.(Agora duas vozes cruzam)1Creonte mandou fazer/ Encanamento novinhoPara, em vez de correr água/ Nas torneiras, correr vinho2Creonte assim exagera/ Depois ele não se zangueSe em vez de correr o vinho/ Das torneiras, correr sangueCOROOi, tira o coco, etc.(Agora três vozes cruzam)3Os convites vêm escritos/ Com prata, todos à mãoEmbaixo estão assinados/ Alma, Creonte e Jasão4Soube que só convidaram/ Gente com mais de umbilhão 126 www.oficinadeteatro.com
  • 127. 5Não, pobre pode pisar/ Na cozinha da mansãoCOROOi, tira o coco, etc.(Agora todos cruzam)6Convidaram o Supremo/ Tudo quanto é embaixador7Os bispos e os arcebispos/ Deputados e senador8O executivo também/ Manda seu procurador9Logo depois vão chegar! Os netos do Imperador1Todo o mundo financeiro/ Vem banqueiro e investidor2A mais alta sociedade/ Vem mostrar o seu valor3Vem artista de cinema/ Cantor e compositor4Soube até que um cosmonauta/ Foi convidado eaceitou5Convidaram até o Papa/ Que, amável, recusou6Mas mandou a sua bênção/ Em nome do Criador 127 www.oficinadeteatro.com
  • 128. 7Vi dizer que até o sapo! Foi chamado, sim senhor8Enfim, quem valeu a pena/ Convidar, se convidou9Menos a mulher do noivo! Joana foi só quem sobrouCOROOi, tira o coco, etc. (ENCERRA O CORO) 128 www.oficinadeteatro.com
  • 129. SEGUNDO ATO (BOCA PROCURA CORINA.)BOCACorina, tá sabendo dos boatos?CORINAQue boatos?...BOCADa festa do Jasão...Dos convidados e dos aparatos...CORINANunca vi nome melhor num cristãodo que o que te deram, Boca PequenaNem é boca, isso aí é um ferimentode onde sai a língua que é uma gangrenacuspindo maldade e constrangimento 129 www.oficinadeteatro.com
  • 130. Você pare de carregar boatopra lá e pra cá em consideraçãoà dor de Joana...BOCAO que é que eu fiz? O fatoé que vai haver muita festa. Eu nãotenho culpa...CORINAE vocês, não são amigasde Joana? Vão pra casa, tenham dó...Deixa o Boca Pequena co’as intrigas dele aí...NENÉIh, Corina, você sóé vizinha de Joana, quer ser dona? (SAEM TODOS, CORINA SE ENCAMINHA PARA O SET DE JOANA, QUE APARECE)CORINAJoana, comadre, preciso contarCorre de boca em boca que a cafonada filha do Creonte vai casarcom toda a pompa e rios de dinheiro,lua-de-mel lá na foz do Iguaçu...Ela coberta de ouro...O corpo inteiro, tudo de ouro...JOANATudo? Ouro até no cu?CORINA 130 www.oficinadeteatro.com
  • 131. Foi o que me falaram...JOANAEstão rindode mim, comadre?...CORINAQuem? De você? Não...JOANAEssa cambada está se divertindoàs minhas custas. Sei que eles estãoRiam de mim, mas não de filho meuNão deles, que são a única provade que algum dia por aqui viveuuma mulher que foi bonita, nova,gostosa e até feliz... Não, não é nadadisso, merda. Eles são a evidênciada dor de uma mulher desesperadaE dessa dor, são causa e conseqüência,isso sim...CORINAVai recomeçar, mulher?Tá pirada?...JOANAMe escuta, por favor,comadre Corina, haja o que houver,você vai me prometer...CORINAPelo amor 131 www.oficinadeteatro.com
  • 132. de Deus, ô Joana, não perca a esperança...JOANANão perco, não perco, pode deixarEu só espero o dia da vingançaQuer esperança maior pra esperar?CORINANão faça besteira...JOANATá bom, Corina,quer me ajudar?...CORINAEu estou do seu lado...JOANANão quero consolo nem vaselinaEu quero ajuda mesmo, tá falado?CORINAO que é?...JOANAHaja o que houver, você juraque você e Egeu ficam co’os pequenos?CORINAQue é que é “haja o que houver”? Loucuracomigo, não. Explique pelo menoso que é que você está pretendendo...JOANADeixa de frescura, assim não dá pé,Corina. Eu sei que você tá sabendo 132 www.oficinadeteatro.com
  • 133. O que é que eu quero, não me cansa...CORINAO que é?JOANAEscuta, você sabe, eu tou na lonae trabalhar fora não é vexameLavo privada, coso pra madame,aperto parafuso ou vou pra zonaSeja como for, tenho que deixareles com alguém...CORINAMas Jasão já temcomo ajudar...JOANANão quero herança nemdote de Creonte pra sustentarmeus filhos. .CORINAEscuta...JOANAEle me abandonae eu fico dependendo da diáriaEu tenho braço pra ser operáriae tenho peito pra ser marafonaMas os filhos, onde é que vão ficar?CORINAEles também são filhos de Jasão, 133 www.oficinadeteatro.com
  • 134. comadre Joana...JOANAIsso é o que eles não sãoEssa pecha eles não vão carregarSeu Jasão chegou, pou, meteu, gozoue se mandou... Ó, comadre, ser paié um pouco mais do que isso... Você vaifalar com Egeu, né? Você jurou...CORINAJasão tem direito...JOANATem não, CorinaComigo ele nem assinou papelcom ela sim é que vai ter anel,cartório e padre, uma igreja granfinae recepção com garção e bufêMas não tem nada, um dia a casa caie eu quero meus filhos órfãos de paiPor enquanto eu preciso que vocêmais Egeu tomem conta das criançasCORINATá bem, comadre Joana, eu vou falarcom Egeu. Eu só não quero escutarmais você falando nessas vingançasJOANAJeito de falar. Fizeram aqui,aqui vão pagar... 134 www.oficinadeteatro.com
  • 135. CORINAAssim é que nãoajudo mesmo...JOANAComadre, é questãode sobrevivência, eu peço pra ti,fica co’as crianças só enquanto euarranjo emprego...CORINANão sei...JOANATou falandoCORINANão á falando, tá ameaçando...JOANAComadre, ajuda... (Tempo)CORINAEu falo com Egeu,mas juízo...JOANAInda hoje, se puderagora mesmo...CORINAPor que tanta pressa?JOANAEu tenho que fazer uma promessa... 135 www.oficinadeteatro.com
  • 136. CORINATu vai fazer obrigação, mulher?JOANAÉ, obrigação...CORINAPra quem?...JOANAEu precisoCORINAÉ Exu, mulher?...JOANANão. É pro djagumde Oxalá...CORINANão mente, Joana...JOANAÉ OgumCORINAOlha aí, mulher, já pedi juízo...(ESCURECE... ORQUESTRA INTRODUZ PAÓ PARA O DJAGUM DEOXALÁ; NO FUNDO DO PALCO, QUATRO VIZINHAS INTEIRAMENTEESTENDIDAS COM A TESTA PARA O CHÃO VÃO LEVANTANDOLENTAMENTE E CANTANDO A LOUVAÇÃO; LUZ NO SET DE MESTREEGEU, QUE FALA COM CORINA ENQUANTO AS VIZINHAS CANTAM)EGEUOs filhos dela agora são dois freiosDois sinais de cuidado, são os filhos 136 www.oficinadeteatro.com
  • 137. CORINATem hora que ela chama de empecilhostem hora que ela diz co’os olhos cheiosd’água: meus dois olhos são meus dois filhosEGEUEstão no meio, entre ela e o precipícioCORINATem hora que ela grita, arma um comíciocontra os dois. Diz que eles são dois gatilhosDepois tem hora que, em seus devaneios,são duas crianças abençoadasEGEUSem eles as mãos ficam desatadas,desimpedidas, livres, sem receiosCORINAEntão sou eu que não entendo nadaSe ela está aqui co’os filhos engasgadaou se quer mesmo procurar os meiospara criá-los. Mesmo assim, coitada...EGEUAssim pergunto se a ajuda acertadanão é juntá-la aos filhos, dois arreiosCORINAMas se eu estou confusa nesse enleio,eu que estou cá em casa, bem casada,imagina quem foi partida ao meioEGEU 137 www.oficinadeteatro.com
  • 138. Mas, se ela ficou tão desnorteada,não sou eu que vou usar o meu receiocomo desculpa pra não fazer nadaCORINAEntão a meninada vem?...EGEUJá veioPode ir ali buscar a meninada(APAGA A LUZ NO SET DE EGEU; AS VIZINHAS LEVANTAM-SECOMPLETAMENTE; COM ELAS AGORA TAMBÉM ESTÁ CORINA;EXPLODE O RITMO DO PAÓ PARA DJAGUM; DANÇANDO ECANTANDO ELAS VÃO DESPINDO JOANA DE SUA ROUPA EVESTINDO-LHE UMA ROUPA PRÓPRIA DA CERIMÔNIA)VIZINHA e COROPaó, Paó, Paó, Paó, PaóPara o Djagum de OxaláEle é Ogum no mar, nas matas e no rioEm qualquer lugarOdé, Odé, Odé, Odé OgumRompe-mato, Beiramar e Ogum begê,Salve Ogum!Nagô e Malê!Salve Ogum, Iara, Rompe-mato e Naruê!JOANA (Cantando)Tem cangerê, tem cangeró na terraChama seu Ogum pra vir nos ajudarNosso inimigo está fazendo guerra 138 www.oficinadeteatro.com
  • 139. Chama seu Ogum pra guerrearTODOSPaó, Paó, Paó, etc.(FAZEM NOVA EVOLUÇÃO PELO PALCO INTEIRO; AGORA OS TRÊSVIZINHOS QUE ESTAVAM NO BOTEQUIM JUNTAM-SE ÀSVIZINHAS, CANTANDO E DANÇANDO; PARAM EM FRENTE AO SET DE CREONTE, NO RITMO; INTERROMPE-SE O CANTO PARADAR LUGAR A GEMIDOS, SUSSURROS E ASSOVIOS DE VENTOQUE, JUNTO COM OS ATABAQUES, SUBLINHAM A FALA DE JOANA)JOANAO pai e a filha vão colher a tempestadeA ira dos centauros e de pomba-giralevará seus corpos a crepitar na pirae suas almas a vagar na eternidadeOs dois vão pagar o resgate dos meus aisPara tanto invoco o testemunho de Deus,a justiça de Têmis e a bênção dos céus,os cavalos de São Jorge e seus marechais,Hécate, feiticeira das encruzilhadas,padroeira da magia, deusa-demônia,falange de Ogum, sintagmas da Macedônia,suas duzentas e cinqüenta e seis espadas,mago negro das trevas, flecha incendiária,Lambrego, Canheta, Tinhoso, Nunca-visto,fazei desta fiel serva de Jesus Cristode todas as criaturas a mais sanguináriaVocê, Salamandra, vai chegar sua vez 139 www.oficinadeteatro.com
  • 140. Oxumaré de acordo com mãe Afroditevão preparar um filtro que lhe dá cistite,corrimento, sífilis, cancro e frigidezEu quero ver sua vida passada a limpo,Creonte. Conto co’a Virgem e o Padre Eterno,todos os santos, anjos do céu e do inferno,eu conto com todos os orixás do Olimpo!(Encerra-se a ventania e retorna a melodia do Paó) Saravá!TODOSSaravá!(Sobem cantando e dançando)Paó, Paó, Paó, Paó, Paó. etc.(MAIS DOIS VIZINHOS JUNTAM-SE AOS QUE JÁ ESTÃOCANTANDO E DANÇANDO; O ÚLTIMO A ADERIR É BOCA PEQUENA;MARCAR, NA COREOGRAFIA. A SUA INDECISÃO PARA ENTRAR;AGORA, ENQUANTO AINDA DANÇAM, VAI ACENDENDO EMRESISTÊNCIA A LUZ DO SET DE CREONTE, ONDE ALMA E JASÃOESTÃO NAMORANDO. ENCERRA A COREOGRAFIA)ALMA (Possa a mão na cabeça)Hã.JASÃOQue foi?.ALMANada...JASÃODiz...ALMA 140 www.oficinadeteatro.com
  • 141. Dor de cabeça (Toma o pulso dela)JASÃOO pulso está bom...Claro, não é nada...JASÃOQuer que mande fazer uma compressa?ALMANão...JASÃOÉ melhor...ALMAEstou desconfiada...Eu não sei não...JASÃOQue que é?...ALMADeixa pra lá..JASÃOAh, não. Agora você vai dizerALMAO que?...JASÃOO que cê tá pensando, vá...ALMANão é nada não...JASÃO 141 www.oficinadeteatro.com
  • 142. Fala...ALMAEssa mulher...JASÃOQue é que tem...ALMACê sabe. Não é segredonenhum, essa mulher...JASÃONão sei de nada,Alma, do que é que você tá com medo?ALMAVocê sabe que ela vive enfiadaem terreiro, transando co’a desgraça...JASÃOÉ isso? Cisma com santo e terreiro?Toma um melhoral que o feitiço passa...ALMATou tomando remédio o dia inteiroJASÃOÉ bruxaria? Então deixa pra mimPosso fazer um passe?... (Brinca de fazer passe nela)ALMAEssa mulher...JASÃOEscuta, Alma, se macumba é assim,Cada um faz na vida o que quiser 142 www.oficinadeteatro.com
  • 143. E não adiantava, todo mundo iafechar o corpo contra todo male a indústria farmacêutica faliaALMANão falei isso...JASÃOSou mais MelhoralALMANão tou falando em alma do outro mundoTou falando de coisa bem concretaEu falo nessa mulher...JASÃOUm segundo...ALMAEssa mulher tá fazendo falsetaTaí na praça pública, gritando,xingando, querendo que a gente morra,exibindo os filhos, envenenando,uma praga...JASÃONão fala isso, porraALMAO que, Jasão? Falou porra? Comigo?JASÃODesculpe...ALMAComigo???... 143 www.oficinadeteatro.com
  • 144. JASÃOFoi sem quererALMAEstá vendo? É ou não é como eu digo?Ela está entre nós dois. Dá pra verela aqui, o dia inteiro presente,qualquer que seja o assunto, essa mulher...JASÃOAlma...ALMAEssa mulher surge de repenteJASÃOAlma, espera...ALMAEu chamo como quiser,viu? Essa mulher, essa mulher, essamulher... A merda, a sua consciênciaretorcida, viu?...JASÃOCalma, não começa...ALMAÀ merda, Jasão, co’essa dependênciaque te divide em dois...JASÃOCalma..ALMAEu não sou 144 www.oficinadeteatro.com
  • 145. saco de pancadas do teu remorsoVocê é aquilo que é. Noivoucomigo porque quis. Eu não te forçoa casar comigo, mas casa inteiroSe não, merda, é melhor não casar, nãoJASÃOCalma...ALMAEstou errada?...JASÃOCalma, primeiroALMA (Leva a mão à cabeça; Jasão a apóia no ombro)Não vai me responder nada, Jasão?(ELE FICA UM TEMPO EM SILÊNCIO COM A CABEÇA DELA EM SEUOMBRO; CREONTE ENTRA EM SILÊNCIO, BEIJA A FILHA E NÃOCUMPRIMENTA JASÃO; UM TEMPO DE CONSTRANGIMENTO)ALMATudo bem, meu pai?...CREONTENão tem nada bemALMAO que foi?...CREONTENada. Só chateação (Tempo)JASÃOAlgum problema?...CREONTE 145 www.oficinadeteatro.com
  • 146. Não, só que ninguémpode mais ser amável, bonachão,no mundo atual, cheio de rancor,desamor, desafeto, desestima...Desculpe, Alma, mas você faz favore eles, em troca, te cagam em cimaALMAO que foi, meu pai?...CREONTEÉ, doutor JasãoJASÃO Algum problema?...CREONTEQue é que você acha?JASÃOO caso do mestre Egeu...CREONTEIsso não,agora não, senão meu saco rachaJASÃOQuer ficar sozinho, eu posso sair...ALMAQuer que a gente saia?...CREONTEEsperem um poucoEu preciso de alguém pra refletircomigo se eu estou caduco, louco,ou o mundo está ficando esquisito... 146 www.oficinadeteatro.com
  • 147. Fazem baderna, chiam, quebram trem,quebram estação, muito bem, bonitoE a gente inda tem que dizer amémO trem atrasa o que? Nem meia horaE o cara quebra tudo... Acha que é certo,Jasão?...JASÃONão discuto quebrar... Agora,quem às três da manhã tá de olho aberto,se espreme pra chegar no emprego às sete,lá passa o dia todo, volta às onzeda noite pra acordar a canivetede novo às três, tinha que ser de bronzepra fazer isso sempre, todo dia,levando na marmita arroz, feijãoe humilhação...CREONTEOra, sociologia...JASÃOO que que é?...CREONTESociologia, Jasão...JASÃONão...CREONTEDa pior, beira de cu, barata...JASÃO 147 www.oficinadeteatro.com
  • 148. O cara já lá por aqui. Tá pertode explodir, um trem que atrasa, ele mata,quebra mesmo, é a gota d’água.CREONTETá certo,Alma? (Silêncio) Muito bem. Na segunda guerra,só russo, morreram vinte milhõesAmericano, pra ganhar mais terra,foi dois séculos capando os culhõesde índio. Japonês gritava “Vivao Imperador”, entrava no aviãopra matar e morrer de fronte altivaNa Inglaterra. uma pobre criaturade oito anos, há dois séculos atrásjá trabalhava na manufaturao dia inteiro, até não poder mais,quatorze, quinze horas... Posso dar quantosexemplos você quiser. Foi assimque os povos todos construíram tantosbens, indústria, estrada, progresso, enfimMas brasileiro não quer cooperarcom nada, é anárquico, é negligenteE uma nação não pode prosperarenquanto um povo fica impacientesó porque uma merda de trem atrasaJASÃO 148 www.oficinadeteatro.com
  • 149. Impaciente pra chegar atéseu trabalho...CREONTENão, pra voltar pra casaQuer outro exemplo, hein?...JASÃOEu não sei onde éque o senhor quer chegar...CREONTEEu chego, eu sei...Vou lhe dizer o que é que é o brasileiroalma de marginal, fora-da-lei,à beira-mar deitado, biscateiro,malandro incurável, folgado pacavê uma placa assim: “não cuspa no chão”,brasileiro pega e cospe na placaIsso é que é brasileiro, seu Jasão. .JASÃONão, ele não é isso, seu CreonteO que tem aí de pedra e cimento,estrada de asfalto, automóvel, ponte,viaduto, prédio de apartamento,foi ele quem fez, ficando co’a sobraE enquanto fazia, estava calado,paciente. Agora, quando ele cobraé porque já está mais do que esfoladode tanto esperar o trem. Que não vem... 149 www.oficinadeteatro.com
  • 150. Brasileiro...CREONTEÉ mais um debochado...JASÃOHein?CREONTEE é ingrato...JASÃONão, é cansado...CREONTENão,abusado...JASÃOÉ não...CREONTEÉ sim, seu JasãoNão é pra entrar no campo pessoalmas já vou lhe dar o exemplo final:essa mulher com quem você viveu...JASÃOIsso eu não vou discutir...CREONTEVai sim...ALMAEupeço licença... (Vai saindo)CREONTE (Autoritário) 150 www.oficinadeteatro.com
  • 151. Tu não vai sairJASÃOEsse assunto eu não quero discutir,seu Creonte...CREONTEPois vai ter que quererporque eu já não posso mais conceberque essa mulher fique abrindo o berreirocontra mim, nas esquinas, no terreiro,me esculhambando. Em tudo quanto é beco,boteco, bilhar, eu escuto o ecoda voz dela me chamando ladrão,explorador, capitalista, cão,botando os santos dela contra mim...Eu vou deixar que ela me trate assim?É justo que o crente tenha o seu culto,mas que reze oração e não insultoNão, religião é religião,isso pra mim se chama agitaçãoAgora, você veja, tem noventaapartamentos ali. Mais de oitentaestão atrasados. A maioria,é, quase todos, ninguém paga em diaE eu fecho os olhos, relevo, compreendoEste mês não pode? Fique devendoEssa mulher que está me destratandotambém não paga sabe desde quando? 151 www.oficinadeteatro.com
  • 152. E sai à rua pra me esculhambarOutros se juntam pra não me pagar...São ou não são ingratos, meu rapaz?São ingratos, sim senhor, e tem mais:este teu povo é porco, relaxadoAquilo lá é imundo, mal cuidadoFuram parede, tapam a janela,dependuram roupa, feito favelaNinguém lá faz benfeitoria,só fazem filhos e feitiçariaEntão, Jasão, que é que você me diz?(JASÃO, CABEÇA BAIXA. NÃO RESPONDE: LUZ NA OFICINA DEEGEU, POR ONDE VAI PASSANDO BOCA PEQUENA, QUE ENTRA)BOCABoa, mestre...EGEUBoca...BOCATudo feliz?(NO OUTRO SET)CREONTEVocê não fala nada?...(NO OUTRO SET)EGEUNovidade?(NO OUTRO SET) 152 www.oficinadeteatro.com
  • 153. JASÃOPrimeiro precisa ver se é verdadeQuem foi que ouviu?...(NO OUTRO SET)BOCAEla fez comíciono terreiro, outro no bar, no edifício,deixou Creonte mais raso que o chãoEGEUVocê ouviu?...BOCAQuem? Eu?...EGEUOuviu ou não?BOCAPra falar a verdade eu nem escutodireito, mas seu Creonte ficou ...(DEMORARÁ UM TEMPO; EGEU GUARDARÁ SUAS FERRAMENTASÀS PRESSAS E APRESSADO SAIRÁ DA OFICINA, DESPEDINDO-SEDE BOCA PEQUENA;)(NO OUTRO SET)CREONTEPois bem. Eu não quero ela aqui mais nãoJASÃOEu...CREONTEAlma, agora você pode ir... 153 www.oficinadeteatro.com
  • 154. ALMAEntãoaté... (Beija o pai, passa por Jasão e sai)JASÃOSeu Creonte...CREONTENão adianta,rapaz. Da outra vez eu transigiAgora, atravessou minha gargantaJASÃOOlhe... Escute...CREONTEEu bem que lhe advertiVocê me pedia, eu ia deixando,mas agora não tem mais cabimento!JASÃOPosso falar?...CREONTESe quiser vá falando,mas pra mim é como se fosse ventoJASÃOEntão o senhor...CREONTEVou botar pra foraJASÃOAssim, de uma hora pra outra?...CREONTE 154 www.oficinadeteatro.com
  • 155. Agora!Vou co’a polícia e boto ela na ruaE tem mais, seu Jasão, dentro da leiSabe que eu posso, não sabe?...JASÃOÉ, eu seiCREONTEPois muito bem... (Levanta-se para sair)JASÃOMas se o senhor acuaa fera é pior...CREONTESei...JASÃOEntão precisaparar pra ouvir uma ponderação...CREONTESe é sobre ela, pra mim é como brisa...JASÃONão, é sobre você...CREONTEO senhor...JASÃONão,você!...CREONTEMe respeite, seu... 155 www.oficinadeteatro.com
  • 156. JASÃOVai me ouviragora que eu já tou mais que cansadode te ver fazer besteira...CREONTEVou rirÉ piada... Que é isso?...JASÃOEstá erradoCREONTEO que???...JASÃOPois é, tá tudo errado!...CREONTEErradoo que?...JASÃOPosso falar?...CREONTEMuito engraçado,ora...JASÃOPosso? (Tempo) Quero me desculparprimeiro... Falei alto...CREONTEAnda depressa,fala... 156 www.oficinadeteatro.com
  • 157. JASÃOO que é que eu tenho que lhe interessa?CREONTEMe interessa? Pra que?...JASÃOPra me aceitarcomo teu genro...CREONTEVocê?... Bem, Jasão,pra ser sincero, você, não tem nada...Bom... “nada” é só uma força de expressãoDesde que a mãe morreu, Alma, coitada,virou um contrapeso pro meu lutoE a minha vida é fazê-la felizSe ela te escolheu, gosto não discuto...Tentei... Falei de Europa, ela não quisE como tu não tens papel passadoco’aquela mulher, acabei cedendoAgora até gosto de ti. Tou vendoeste bairro ficar mais comentadocom tua canção. Fico agradecidoQuem que não gosta de ser conhecido,é ou não é? Alma tem vaidadede teu samba e, hoje, confesso, eu também...JASÃOMas vai ter uma hora da verdade,quer dizer, vai ter a hora que alguém 157 www.oficinadeteatro.com
  • 158. vai ter que tomar conta do negócio,alguém que vai sentar nessa cadeira...Se o teu herdeiro é só de samba e ócio,sentá-lo ali é uma grande besteiraCREONTEVocê se esquece que inda estou bem vivoNão morro sem deixar um bom ativopra você movimentar... Eu te ensinoJASÃOQuero negociar de igual pra igualEntro na firma com meu capitalSabe quanto eu tenho?...CREONTEBoa, menino...Malandro de repente, eu já sabiaque tinha carne embaixo desse anguJASÃOSabe qual é?...CREONTEO que?...JASÃOMinha valia?CREONTEQual é?...JASÃOSeu Creonte, eu venho do cudo mundo, esse é que é o meu maior tesouro 158 www.oficinadeteatro.com
  • 159. Do povo eu conheço cada expressão,cada rosto, carne e osso, o sangue, o couro...Sei quando diz sim, sei quando diz não,eu sei o seu forte, eu sei o seu fraco,sei a elasticidade do sei sacoEu sei quando chora ou quando faz fitaEu sei quando ele cala ou quando gritaE o que ele comeu na sua marmita,eu sei pelo bafo do seu sovacoEu conheço sua cama e o seu chãoJá respirei o ar que ele respiraA economia para a prestaçãoda casa, eu sei bem de onde é que ele tiraEu sei até que ponto ele se viraEu sei como ele chega na estaçãoConheço o que ele sente quando atiraas sete pedras que ele tem na mãoPermita-me então discordar de novo,que o senhor não sabe nada de povo,seu coração até aqui de mágoaE povo não é o que o senhor diz, nãoCeda um pouco, qualquer desatenção,faça não, pode ser a gota d’águaCREONTEMuito bem. É com esse capital,seu Jasão, que você quer ser meu sócio?JASÃO 159 www.oficinadeteatro.com
  • 160. É. Tem que ceder um pouco. Afinalestá em jogo todo o seu negócioCREONTECeder o que? Tu és sócio ou rival?JASÃONão fique pensando que o povo é nada,carneiro, boiada, débil mental,pra lhe entregar tudo de mão beijadaQuer o que? Tirar doce de criança?Não. Tem que produzir uma esperançade vez em quando pra a coisa acalmare poder começar tudo de novoEntão, é como planta, o povo,pra poder colher, tem que semear,Chegou a hora de regar um poucoEle já não lhe deu tanto? Em ações,prédios, garagens, carros, caminhões,até usinas, negócios de louco...Pois então? Precisa saber dosaros limites exatos da energiaPorque sem amanhã, sem alegria,um dia a pimenteira vai secarEm vez de defrontar Egeu no peito,baixe os lucros um pouco e vá com jeito,bote um telefone, arrume uns espaçospras crianças poderem tomar solConstrua um estádio de futebol, 160 www.oficinadeteatro.com
  • 161. pinte o prédio, está caindo aos pedaçosNão fique esperando que o desgraçadoque chega morto em casa do trabalho,morto, sim, vá ficar preocupadoem fazer benfeitoria, caralho!Com seus ganhos, o senhor é que temque separar uma parte e fazermelhorias. Não precisa tambémser o Palácio da Alvorada, serpáreo pr’uma das sete maravilhasdo mundo. Encha a fachada de pastilhasque eles já acham bom. Ao terminar,reúna com todos, sem exceçãoe diga: ninguém tem mais prestaçãoatrasada. Vamos arrendondaras contas e começar a contarsó a partir de agora...CREONTEEnlouqueceu!JASÃONinguém...CREONTENão dá...JASÃOComo não dá? Já deu!Ninguém... Ninguém.., precisa me pagaros atrasos... É bonificação 161 www.oficinadeteatro.com
  • 162. Mas... Mas... Atenção pro que eu vou falar...Aí o senhor pode vociferarpra ninguém mais atrasar prestação...Está com receio de mestre Egeu?Que já fez política, se meteuem greve no passado e tal? Isola!Prestação em dia, prédio limpinho,Egeu. vai ficar falando sozinhoenquanto o povo está jogando bola!(CREONTE FAZ UM RUÍDO COM A BOCA, DEBOCHANDO DE JASÃO)CREONTEMuito bem. Gostei do plano, meninoÉ caro. Preciso dum pequeninoempréstimo pra fazer essa festaQuem sabe a puta que o pariu me empresta?Quem é que vai pagar? Eu estou duro...JASÃOQuem vai pagar, Creonte, é o futuro...CREONTEAhn, o futuro, comi muito quandoera criança...JASÃOO senhor vai tomandoessas providências que reacendea chama. Vai ver que o trabalho rendemais, daí eles ganham confiança,alimentam uma nova esperança, 162 www.oficinadeteatro.com
  • 163. o moral se eleva, a tensão relaxa...Aí é que o senhor aumenta a taxaCom as melhorias eles vão terenergia bastante pra mais dezanos. Dez anos passam sem doer,sem jogar pedra e sem bater os pésEm um ano só, um ano de aumentona taxa, o senhor vai buscar, com sobraso dinheiro gasto no empreendimento:no telefone, no jardim, nas obras,no perdão às prestações em atraso...Agora, se quiser ver, por acaso,quem ganhou nesta simples transaçãoé só contar. Eles lhe dão dez anos,o senhor dá um só pelos meus planos...Fica com nove, a parte do leão(À MEDIDA QUE FALAVA, SEM QUE CREONTE E O PRÓPRIA JASÃOSE DESSEM CONTA, JASÃO SENTOU-SE NA CADEIRA-TRONO DECREONTE; UM TEMPO; QUANDO JASÃO ACABA DE FALAR,CREONTE ESTÁ DE PÉ, PENSATIVO; DE REPENTE, FALA,)CREONTEBoa, Jasão, você com essa carae esse seu jeito, puta que o pariu,parece um imbecil, um parauara,vou ver... é realmente um imbecilPr’onde é que ia a ordem socialse eu fosse tratar burro a pão-de-ló? 163 www.oficinadeteatro.com
  • 164. Quer trabalhar direito, tá legalAgitação pra cima de mim, ó!Liberalismo, Jasão, acabouPensa se eu largo os negócios e vouficar por aí fazendo política,fazendo trama, conchavo, aliança...Õ, Jasão, você não é mais criançapra confundir agitação com críticaconstrutiva... Egeus e Joanas? Eu, não!Botou a cabeça pra fora? Pau!Conheço muito bem, sei o que são...JASÃOLegal... Quer ir no peito, tá legal...CREONTEVou, seu Jasão, e vou pessoalmentematar essas jararacas e mostraro pau pra dar exemplo àquela gente... (Vai saindo)JASÃONão, espere, por favor, vou falarcom Joana, me deixe conversar antesCREONTEPra que? Ela não vai nem te escutarJASÃODeixe que eu garanto...CREONTEAh, sim? Tu garantes?E essa mulher vai deixar de atiçar 164 www.oficinadeteatro.com
  • 165. contra mim os seus cães e os meliantes?Rua, pra aprender a me respeitar...Rua...JASÃOE meus filhos?...CREONTEE minha filha?(UM TEMPO)JASÃODesse jeito eu não posso me casar!(UM TEMPO)CREONTEJogou tudo, rapaz?... Posso pagarpra ver esse blefe, hein? Vê se esmerilhaessas cartas, olha bem, embaralha... (Tempo)Tá certo... Tá bom, vou conciliarMas saiba que é só por considerarteus filhos e não por aquela gralhaMinha proposta é a seguinte: ela saido conjunto, na santa paz, e vaimorar bem longe, noutro fuso horário...Teus filhos, não se preocupe. É justoque se arranjem. Dou u’a ajuda de custoquando for realmente necessárioPra não cobrir a tua autoridadee pra evitar bate-boca e vexame,vá você mesmo convencê-la, chame 165 www.oficinadeteatro.com
  • 166. prum canto e diga que a cidadeé grande, que este país é imensoAqui ela não tem mais ambienteProcure um outro bairro, algum parenteE tão fácil, é questão de bom sensoPois bem, minhas cartas estão na mesaEu joguei limpo, honesto, na franqueza,o que é que você acha? Faz besteirase não pegar. Minha proposta é boaNão quero teus filhos aí à toa...Se vai, levanta da minha cadeira(JASÃO EM SILÊNCIO, LEVANTA-SE CALMAMENTE; ELE VAISAINDO LENTAMENTE E A LUZ DO SEU SET VAI APAGANDO EMRESISTÊNCIA, ENQUANTO EM OUTRO CANTO DO PALCO SE VÊMESTRE EGEU DESCER, TRAZENDO PELAS MÃOS DUAS CRIANÇAS,EGEU CAMINHA ATÉ O SET DE JOANA; UMA BATUCADA MARCA OSPASSOS DE MESTRE EGEU NESSA CAMINHADA, ENQUANTOCREONTE FALA PARA SI)CREONTEVocê veja como é o mundoMe aparece esse vagabundocantando sambinha, jeitoso,falando macio, sestrosoE eu cá pensando: hum, é sambista?Não passa dum bom vigaristaUm oportunista, arrivista,isto é, um fresco metido a artista, 166 www.oficinadeteatro.com
  • 167. sem perspectiva, sem visãoE tomara que Alma desistade lhe entregar seu coraçãoMas não é que esse disfarçadosabe onde tem o seu nariz?Pois nesse seu palavreadonem tudo é palpite infelizE tem mais certo do que erradonessas coisas que ele me dizNo fundo, é um cara positivoDigo mais: ele é muito vivoVai dar um bom executivoVai dar um ótimo patrãoPorra, não foi sem bom motivoque a minha filha deu-lhe a mão(ESCURECE NO SEU SET; EGEU ESTÁ AGORA COM AS CRIANÇASEM FRENTE A JOANA; ESTA CORRE PARA ABRAÇAR OS DOISGAROTOS)JOANAAh, meus filhos, me abraça aqui, me abraça...Mamãe estava cuidando da vida...Me abraça, vai, assim, coisa querida...Mas isso não é coisa que se faça,mestre Egeu, ora, eu mesma ia lá veros meninos...EGEUComo é que foi o dia? 167 www.oficinadeteatro.com
  • 168. Conseguiu alguma coisa?...JOANAEu não viaà hora de ver os dois. Mas trazeros dois até aqui não carecia...Eu já estava indo mesmo pra oficinaComo é? Deram trabalho pra Corina?Muita bagunça?...EGEUSó dão alegriaEu trouxe eles porque preciso teruma conversa. Pra te prevenir...JOANAÉ? Por que?...EGEUEles podem ir dormir?JOANAAqui?...EGEUÉ, aqui...JOANANão vai mais querer? (Tempo)Correndo... Vumbora fazer xixipra ir pra cama... Vumbora... Vumbora(ELA DESAPARECE COM AS CRIANÇAS; MESTRE EGEU FICAESPERANDO; DEMORARÁ UM TEMPO PARA JOANA VOLTAR;ENQUANTO ISSO ACENDE-SE LUZ NUM SET) 168 www.oficinadeteatro.com
  • 169. BOCA (Para Nené)Ficou arrancando fogo da espora...(LUZ NOUTRO SET)AMORIM (Para Estela)Foi Boca quem falou...ESTELAAquilo alié fogo. Boca é muito faladorZAÍRA (Para Xulé)Mas o que é que ele vai fazer agora?(LUZ NO SET DO BOTEQUIM)CACETÃO (Para Galego)Creonte vai querer botar pra fora...(LUZ NOUTRO SET)NENÊ (Para Boca)Não...BOCASim, senhora...(LUZ NO SET DO BOTEQUIM)GALEGONon...CACETÃOÉ sim, senhor(LUZ NO SET DE JOANA QUE VOLTA SEM OS FILHOS)JOANAPronto, compadre, o que é que deu errado? 169 www.oficinadeteatro.com
  • 170. EGEUJoana, pode contar sempre comigopro que precisar. Sabe que afilhadomeu não passa fome. Não tem perigoMas o lugar dos guris é aquiJOANAMas, mestre, eu não posso ficar cuidando...EGEUEles não vão se desligar de tiEnquanto você tá lá se ajeitandoCorina vem, dá banho, faz comida,com prazer, mas você, onde estiver,na máquina, na fábrica, na vida,lembre que eles tão em casa, mulher,precisando de você pra viverJOANANão estou entendendo, mestre Egeu...EGEUJoana, você tem que me prometer...JOANAMas, mestre, o que é que foi que aconteceu?EGEUVai me prometer, tem que me jurarque de hoje em diante vai ficarquietinha, bico calado...JOANAEssa não... 170 www.oficinadeteatro.com
  • 171. EGEUVai parar de fazer provocaçãoa Creonte, que isso não dá em nadaJOANANão tem quem me faça ficar caladaEGEUEntão não conte mais comigo, JoanaJOANAMas, mestre, Creonte rouba, me engana,me destrói, me carrega até meu machoe eu fico de bico calado? Baixoa cabeça? É o que o senhor vem pedir,mestre Egeu? Pra ficar quieta e engolira desfeita?...EGEUSe quer brigar, perfeito,só vim lhe pedir pra brigar direitoO que Creonte quer...JOANAO que ele queré me ver longe, num canto qualquerdo mundo, calada, pra mais ninguémaqui lembrar que ele esbulhou alguém,pra a filha casar feliz e contenteEGEUÉ isso o que ele quer. ExatamenteEntão, se você fica prevenida, 171 www.oficinadeteatro.com
  • 172. fingindo que esqueceu, levando a vidacomo se nada fosse, sem qualquerprovocação, então se ele quiserte despejar na rua — e ele pode —não vai poder porque vai dar um bode,todo mundo vai ficar do seu lado,Creonte vai ficar paralisadona proporção da força que dispõeMas se em vez disso, não, você se põea agredir, xingar, abrir o berreiroem tudo que é esquina, bar e terreiro,você se isola, perde a aprovaçãodos seus vizinhos, fica sem razãoSendo assim, o que você fez, mulher,ontem de noite, é justo o que ele querA gente avança só quando é mais fortedo que o nosso inimigo. A sua sorteé ligada à sorte de todo mundona vila. Trabalhador, vagabundo,humilhado, ofendido, devedoratrasado, quem paga com suoras prestações da vida é seu amigoQuem leva na cabeça está contigo,está naturalmente do teu ladoEntão, cada passo tem que ser dadopor todos. Se você avançar só.Creonte te esmaga sem dor nem dó 172 www.oficinadeteatro.com
  • 173. Compreendeu, comadre Joana? (Silêncio) Entendeu?Entendeu?...JOANAMe responda, mestre Egeu,o senhor alguma vez já sentiua clara impressão de que alguém lhe abriua carne e puxou os nervos pra forade uma tal maneira que, muito emboraa cabeça inda fique atrás do rosto,quem pensa por você é o nervo exposto?É assim, mestre, que eu estou feridaE só o que ainda me liga à vidaé meu ódio. E o ódio não é uma peçaque a gente encaixe num quebra-cabeça,que aí não é mais ódio, é jogo puroE eu sem ódio, mestre Egeu, no duroque não consigo mais sobreviverEGEUEntão, pra você se fortalecer,não desperdice esse seu ódio ao vento,use esse mesmo ódio como alimento,mastigue, enguia, saboreie ele,se arraste, morda a língua, arranhe a pele,e chore, e reze, e role pelo chão,faça das suas tripas, coração,do seu coração, um corpo fechadoonde seu ódio fique represado, 173 www.oficinadeteatro.com
  • 174. engrossando, acumulando energiaAté que num determinado dia,junto co’o ódio dos seus aliados,todos os ódios serão derramadosao mesmo tempo em cima do inimigoNuma luta dessas, conte comigoMas inda não dá pra brigar agora,é bobagem brigar justo na horaque o inimigo quer. Sozinha, fraca,assim é dar murro em ponta de facaJOANANessa briga, mestre Egeu, se eu ficarnum canto, retraída, vão falar:coitada! Se esperneio, boto a bocano mundo, vão dizer: é porra loucaEntão, já que na hora eu tou sozinhamesmo, deixa eu brigar à moda minhaEGEUTá não, comadre, pode confiar,todo mundo está querendo ajudarJOANAÉ pena...EGEUNão é não, é simpatia...JOANAO senhor acha mesmo que se um diaCreonte vier aqui me botar 174 www.oficinadeteatro.com
  • 175. pra fora, acha que alguém neste lugarvai ter o peito de me defender?EGEUVai, e não estranhe o que eu vou dizerSe Creonte chega a esse limiteaté Jasão, comadre, me acredite,Jasão fica do seu lado...JOANAJasão?Se for se prejudicar, fica não...EGEUDepende de como você levarO importante é você continuarco’a razão. Assim, eu vim lhe proporo seguinte: controle a sua dor,cuide dos seus filhos, vá trabalharTambém não pode é você entregarsuas crianças nas mãos de Corinapra se sentir livre feito meninamalcriada, sem contas a prestara ninguém e brincando de atirarpedra lá no telhado de CreonteEntão, comadre, pra morrer não contecomigo. Pra viver tem minha ajuda,tá?... Escolha...JOANAMestre Egeu... 175 www.oficinadeteatro.com
  • 176. EGEUNão me iluda...JOANAEstou só, faço o que o senhor quiserEGEUVocê vai fazer porque é uma mulherque inda tem a responsabilidadede criar dois filhos. Diga a verdade,Joana, posso ir tranqüilo?...JOANAPode simEGEUNão minta. Posso mesmo? Olhe pra mimJOANAPode ir. Ingratidão, humilhação,desprezo, dor de corno, solidão,encho a boca disso e cuspo pra dentrofaço um bolo de rancor bem no centrodo estômago. Me contorço de dormas vou convivendo co’esse tumor,me estrago, me arrebento. me aniquilo,mas se disse que pode, pode ir tranqüiloEGEUEntão, comadre, só pra terminar:é aqui que os meninos vão ficarComo eu disse, Corina todo diavem cá e faz o que você faria, 176 www.oficinadeteatro.com
  • 177. dá comida, banho, reza, carãoe tudo o que tiverem precisãoAssim você cuida da vida em pazque eu juro: ninguém te aborrece mais(EGEU SAI; JOANA FICA UM TEMPO PARADA; LUZ APAGA EMRESISTÊNCIA; UM TEMPO: LUZ NO SET DAS VIZINHAS LAVANDOROUPA, EM MARCAÇÃO IDÊNTICA À DO INICIO DA PEÇA; CHEGACORINA)CORINANão é certo...ESTELAQue é que foi?...ZAÍRAO que é que há?CORINANão é certo...MARIAEla não melhorou não?CORINANão falei com Joana...NENÉQue foi, então?CORINANão sei, não dá, certo é que não estáE olhe bem que Egeu falou co’a coitada,foi ontem lá, pediu serenidade, 177 www.oficinadeteatro.com
  • 178. a pobre garantiu, com humildade,que ia ficar num canto sossegadaDaí eles vão fazer isso agora...ESTELAFazer o que?...ZAÍRAQuem?...CORINASó se fala nisso,ora...MARIANisso o que?...NENÉDá logo o serviçoCORINACreonte quer botar Joana pra fora!NENÉFoi outra coisa que eu ouvi dizer!ESTELASó sei que ele ficou emputecidoco’a fala de Joana...CORINATá decidido...ZAÍRADe onde é que vem essa fofoca aí?Se é Boca quem falou, nem faço caso...NENÉ 178 www.oficinadeteatro.com
  • 179. Por que? É algum sacana, por acaso?MARIAVai querer... Vai... Foi isso que eu ouvi...CORINANão, não, não... está o maior entra-e-sai,um zum-zum-zum, um leva-e-traz danadodizendo que o que estava vai-não-vaiagora já é fato consumadoNego ouviu da filha, que ouviu do pai,que parece que contou pro empregadoque encontrou alguém no Parque Shangaique contou pro vizinho deste ladoque contou que agora é que a casa caie que Jasão... Não sei... Tá tudo errado...(LUZ NO SET DO BOTEQUIM)CACETÃOValendo cem que trai...AMORIMCem que não traiXULÉSe ele fizer isso é um grande safado...GALEGOEmpanada?...(LUZ NO SET DAS VIZINHAS)CORINANão dá! Tá tudo errado!(LUZ NO SET DA OFICINA) 179 www.oficinadeteatro.com
  • 180. BOCAEstou dizendo, mestre, que ele vaiEle virou moleque de recado...EGEUQuem foi que disse isso, Boca?...(No botequim)CACETÃOEle trai(NA OFICINA)BOCAQuem me disse isso foi o advogadode seu Creonte, meu compadre, uai...Falou que já está tudo preparado,mas que Jasão é quem primeiro vaipra ver se ela sai por bem...(NO SET DAS VIZINHAS)ZAÍRAÉ veado!ESTELADava-lhe um tiro no cu...No botequimCACETÃOTrai...AMORIMNão trai...(NA OFICINA)BOCA 180 www.oficinadeteatro.com
  • 181. Ele vai...(NAS VIZINHAS)CORINACafajeste...Gangrenado!(NO BOTEQUIM)GALEGOSi? No se...(NAS VIZINHAS)ESTELANem merecia ser pai!(NA OFICINA)BOCAOra se trai...(NO BOTEQUIM)AMORIMNão vai...CACETÃOClaro que vai(NA OFICINA)EGEU (Grita)Cala a boca! Todo mundo calado!Fofoca é que eu não quero escutar maisE se você, seu Boca, é leva-e-traz,vá dizer pra quem for interessadoque a comadre tá quieta no seu ladoe é melhor deixar a comadre em paz 181 www.oficinadeteatro.com
  • 182. (Sai à rua gritando; todos dão um passo fora dos seus sets, comose estivessem ouvindo Egeu)Atenção! Vou dizer uma vez mais:saibam que o lugar de Joana é sagrado!(TODOS OS QUE ESTÃO EM CENA PARAM PETRIFICADOS PORQUESURGE, DE REPENTE, A FIGURA DE JASÃO QUE, CALMAMENTE,OLHANDO PRO CHÃO, SE APROXIMA DO SET DE JOANA; TODOSVÃO SE DISPERSANDO; APAGA A LUZ DOS SETS; JASÃO ESTÁ NOSET DE JOANA)JASÃOJoana... Joana... Joana... (Joana aparece)JOANANão, você não...Não quero nada com você, Jasão (Querendo sair)JASÃOEspera...JOANAFilho meu não vai te verJASÃONão vim por isso...JOANAQue é que você quer?JASÃOFalar com você...JOANAO que?...JASÃO 182 www.oficinadeteatro.com
  • 183. Calmamente...JOANAÉ coisa ruim...JASÃOEspera...JOANANão mente...JASÃOVim fazer uma proposta...JOANAProposta?JASÃOÉ. E preciso logo da resposta(Pausa; silêncio mortal)Quero pedir... Pedir, não... Implorar...Que você... arranje um outro lugar...É... quem sabe? Talvez até... melhor,quer dizer.... pode ser até maior...Não sei... eu peço que você se mudeprum outro canto qualquer... e que estudequanto precisa...JOANAPára, Jasão, pára!Assim já é demais... Você tem carapra vir aqui e me botar pra fora?JASÃONão é assim, Joana... 183 www.oficinadeteatro.com
  • 184. JOANANossa Senhora!JASÃOVim aqui na melhor das intençõespra cumprir com minhas obrigaçõesde pai...JOANAPai? Porra, que pai!... Essa não!JASÃONão grita!... Eu vim buscar a soluçãoideal, acredite se quiser,um jeito pra que nem você, mulher,nem os meninos passem privaçãoPode mudar, sem preocupação,Hoje mesmo, pode ir se mudandoque eu te garanto, eu fico te pagandotodo mês uma pensão... Bem, seriauma espécie de aposentadoriaJOANAEu não quero dinheiro de CreonteJASÃOO dinheiro é meu!...JOANAÉ? Qual é a fonte de renda? Violão?...JASÃOIsso não importaJOANA 184 www.oficinadeteatro.com
  • 185. Você quer me convencer, Jasão — cortaessa — que com a sua batucadavai sustentar a princesa douradade Creonte? Qual é?...JASÃOAi, meu cacete...JOANAEu não quero esse dinheiro...JASÃORepete!JOANAEu não quero, não quero esse dinheiro!JASÃOEntão repete pro conjunto inteiropra todos saberem que eu não fugidas minhas obrigações. Vim aqui,humildemente, pedi pra ajudar...JOANASei, você está querendo é enganara sua consciência me atirandoas sobras do seu banquete. Pois quandovocê...JASÃONão vim discutir. Vim pra vero que é que você pretende fazer ...JOANA 185 www.oficinadeteatro.com
  • 186. Nada, eu vou ficar aqui. E você...JASÃOIsso não dá...JOANAPor que?...JASÃONão dá...JOANAPor que?JASÃOO dono do imóvel não quer...JOANAOtário,Creonte é ladrão...JASÃOEle é proprietário...JOANAÉ proprietário seu...JASÃOEstá co’a lei...JOANAVou sair e perder o que paguei?JASÃOVocê está atrasada...JOANAEu sei, Jasão 186 www.oficinadeteatro.com
  • 187. Estou e nunca mais pago um tostãoO preço que constava na escrituraeu já paguei. Passo mais de seis anosem cima de u’a máquina de costura,dia e noite ali emendando uns panos— tu quase sempre na maior penduraEu lá trabalhando de sol a sol,não vou esperar que você se manqueManda camisa, toalha, lençol,calça, cueca e a trouxa aqui no tanque— tu quase sempre lá no futebolÉ carregar lata d’água? Eu carregoDou injeção, tomo conta de loucoVou ver se ponho meus bofes no pregoque a prestação já subiu mais um pouco— tu quase sempre fingindo de cegoA prestação não me dava confortoQuanto mais eu pagava, mais deviaVirei parteira, fiz mais de um abortoMas, entre me matar no dia-a-diae carregar comigo um peso morto,eu não sei qual dos dois mais me doía— tu quase sempre lá no cais do portoQuando vi, tinha pago o preço antigoe já devia duas vezes maisQue é isso? Não pago. Não tem castigoE todo mundo aí já deu pra trás 187 www.oficinadeteatro.com
  • 188. Se vem falar de despejo comigo,despeja todo mundo, meu rapaz— tu quase sempre foste um bom amigoPor isso eu digo, Jasão, essa casaé minha, sim, e Creonte é ladrãoJASÃOFalando assim, mulher, você se arrasaJOANANão. Esta casa eu paguei, seu Jasão .JASÃOCreonte tem a lei...JOANAEntão me diz,Se tem tanta gente aí atrasada,qual é a explicação? O que é que eu fiz,que sou a única a ser despejada?JASÃOEu falei...JOANAO que?...JASÃOEu te pedi tanto...Esse teu temperamento agressivoe insuportável... Ficasse num canto,com um gênio melhor, mais compreensivo,você ia viver aqui a vidainteirinha. E talvez nem precisasse 188 www.oficinadeteatro.com
  • 189. pagar. Fui eu que fiz essa feridaem você? Então você me xingasse,vá lá, pode dizer o que quiserde mim, porra, que eu estou me lixandoAgora, ficar falando, mulher,tudo isso que você anda falandodo sujeito que é dono disso tudo...Me diz, onde é que você quer chegar?Eu fiz o que podia, fui escudoaté agora. Fiz pra conservarmeus filhos junto de mim. Mas, cacete,o que contam ao cara todo dia,já devia ter mandado o porreteantes. Tem toda a razão. Eu pedia,pedia... Joana é uma boa pessoa...Agora não dá pra conciliarMas meus filhos não vão ficar à toa,quero saber como é que vão ficarJOANASerá verdade o que eu estou ouvindo?Que cinismo! Meu Deus, mas que cinismo!...Jasão, menino, você está agindonão sei como, só sendo hipnotismoOu você é coisa de pau e cordaque Creonte vem e toca. Jasão,acorda, menino. Jasão, acordaSou eu que estou aqui, limpa a visão 189 www.oficinadeteatro.com
  • 190. Sou a Joana, te conheci criança,lembra? Mas qual, você não lembra nadaMe deixou com frio, sem esperança,dois filhos sem pai, toda esculhambada,vem um velho safado e me escorraçae o Jasão, essa criança que eu fizhomem, não me protege, pior, passapro lado de lá? Que força infeliztem o mundo de Creonte, meu Deus,que fez com que Jasão virasse isso?JASÃOAgora você vai ouvir os meusargumentos sem fazer rebuliçoFalo calmo e o mais claro que puderTudo o que eu fiz ou vou fazer da vidadevo a mim mesmo, ao meu modo de serTalento não se faz sob medidaDe barro ruim não sai boa panelaPegue qualquer pessoa por aíe lhe entregue todos os meios. Se elanão tiver alguma coisa de si,não dá em nada. Você não me fez,como diz, eu é que estou me fazendodo tamanho que posso. Se uma vezou outra você me... Não tou querendonegar... você me ajudou, muito bem,tá. mas isso entre marido e mulher 190 www.oficinadeteatro.com
  • 191. não é favor, vem e vai, vai e vemJOANASó vai...JASÃOAh, se é isso o que você quer,também joguei a juventude foraDei-lhe dez anos. Na fase em que tudoque é mulher já está servindo de escorapra guerreiro cansado e barrigudo,você tinha um homem novo ao seu lado,renovando pr’ocê a sensaçãode que uma vida tinha começadoQuanto vale?...JOANAVale nada, JasãoAmor com prazo fixo vale nadaEu achei que você estava ao meu ladode olhos fechados, sem hora marcada,dormindo sem receio e sem recadopra acordar. Mas não, você estava alerta,deitado com um pé fora da cama,esperando chegar melhor ofertapra esmagar no cinzeiro a velha chamae correr ao sabor de uma ambiçãoque assim, da noite pro dia, eu deixeide satisfazer... Então vai, Jasão...JASÃO 191 www.oficinadeteatro.com
  • 192. Não foi por isso que eu me separeiJOANAAh, não, Jasão?...JASÃONão...JOANAE por que foi?...JASÃONão,não foi por isso...JOANASei...JASÃONão foi por isso...JOANAEntão não foi...JASÃOFoi, você tem razãoJOANANão... fala... (Tempo) Você é um submissoCreonte manda: Jasão, vai dar cabode tua mulher e teus filhos. Botaeles na rua. Jasão bota o raboentre as pernas e vem...JASÃOSua idiota,você não fala assim... 192 www.oficinadeteatro.com
  • 193. JOANAQuer me bater?Vem!...JASÃONão me atormenta a vida, mulherJOANAEntão tenha a coragem de dizerpor que você me deixou?...JASÃOVocê quersaber?...JOANAQuero, vá...JASÃOVocê é viagemsem volta, Joana. Agora eu vou contarpra você, sem rancor, sem sacanagem,porque é que eu tinha que te abandonarVocê tem uma ânsia, um apetiteque me esgota. Ninguém pode vivertendo que se empenhar até o limitede suas forças, sempre, pra fazerqualquer coisa. É no amor, é no trabalho,é na conversa, você me exigiainteiro, intenso, pra tudo, caralho...Tinha que olhar pro céu pra dar bom dia,tinha que incendiar a cada abraço, 193 www.oficinadeteatro.com
  • 194. tinha que calcular cada pequenodetalhe, cada gesto, cada passo,que um cafezinho pode ser venenoe um copo d’água, copo de aguarrásSó que, Joana, a vida também é jogoé samba, é piada, é risada, é pazPra você não, Joana, você é fogoEstá sempre atiçando essa fogueira,está sempre debruçada pro fundodo poço, na quina da ribanceira,sempre na véspera do fim do mundoPra você não há pausa, nada é lento,pra você tudo é hoje, agora, já,tudo é tudo, não há esquecimento,não há descanso, nem morte não háPra você não existe dia santoe cada segundo parece eternoFoi por isso mesmo que eu te amei tanto,porque. Joana, você é um infernoMas agora eu quero refresco, calma,o que contigo nunca conseguinunca, nem um minuto. Já, com Almaé diferente, relaxei, perdia ansiedade, ela fica ao lado, quietae a vida passa sem moer a genteJOANAMuito bem, Jasão, você é poeta 194 www.oficinadeteatro.com
  • 195. É perigoso porque de repenteestá dando às palavras a intençãoque interessa a você.JASÃOEssa é a verdade,esse é o motivo da separação,só quero sossego e tranqüilidadeJOANASó que essa ansiedade que você diznão é coisa minha, não, é do infelizdo teu povo, ele sim, que vive aos trancos,pendurado na quina dos barrancosSeu povo é que é urgente, força cega,coração aos pulos, ele carregaum vulcão amarrado pelo umbigoEle então não tem tempo, nem amigo,nem futuro, que uma simples piadapode dar em risada ou punhaladaComo a mesma garrafa de cachaçaacaba em carnaval ou desgraçaÉ seu povo que vive de repenteporque não sabe o que vem pela frenteEntão ele costura a fantasiae sai, fazendo fé na loteria,se apinhando e se esgoelando no estádio,bebendo no gargalo, pondo o rádio,sua própria tragédia, a todo volume, 195 www.oficinadeteatro.com
  • 196. morrendo por amor e por ciúme,matando por um maço de cigarroe se atirando debaixo de carroSe você não agüenta essa barra,tem mas é que se mandar, se agarrana barra do manto do poderosoCreonte e fica lá em pleno gozode sossego, dinheiro e posiçãoco’aquela mulherzinha. Mas, Jasão,já lhe digo o que vai acontecer:tem u’a coisa que você vai perder,é a ligação que você tem com suagente, o cheiro dela, o cheiro da rua,você pode dar banquetes, Jasão,mas samba é que você não faz mais não,não faz e aí é que você se atochaPorque vai tentar e saí samba brocha,samba escroto, essa é a minha maldição“Gota d’água”, nunca mais, seu JasãoSamba, aqui, ó...JASÃOTá bem. Tem razão, JoanaJOANANunca...JASÃOMuito bem...JOANA 196 www.oficinadeteatro.com
  • 197. Você não engananinguém...JASÃOIsso não é o que eu vim discutirJOANANunca...JASÃOPára, mulher! (Tempo) Vou repetir:não dá mais pra você ficar na vilaDaí, vim te ajudar, fica tranqüila,porque onde quer que você vá morartem meu auxílio...JOANAÉ, você vai passara lua de mel por aí, voandoe deixa os filhos co’a mãe passeandonum burro sem rabo, é?...JASÃOA culpa é tuaJOANAComo? Sou eu que te ponho na ruapra me casar com outro?...JASÃOVocê ficaesculhambando Creonte... Futrica,xinga a mãe, zomba... Samba não faz mais...Tá bom, comigo você faz, desfaz. 197 www.oficinadeteatro.com
  • 198. vinga, amaldiçoa. Mas fazer guerracontra um cara que é dono dessa terra,das casas, de tudo, ora, olha pra mim,Joana...JOANAPois eu amaldiçôo, simVocê, Creonte e aquela mosca morta,que se danem todos, o que me importa?Eu amaldiçôo teu lar, por Deus,e os filhos que em prejuízo dos meus,vão nascer, se é que vão...JASÃOJá chega! É o fim!JOANAChega. não. Eu amaldiçôo simJASÃOQuer dizer que você não quer acordo?JOANAAcordo com Creonte? Ah, eu me mordo,me fodo, mas não faço o que ele querJASÃOEntão eu lavo as minhas mãos, mulher(JASÃO SAI, RÁPIDO, CABISBAIXO, ACENDE A LUZ NOS SETS EVÊ-SE QUE TODA A VILA ESTÁ NA EXPECTATIVA DA SAÍDA DEJASÃO; OS AMIGOS TENTAM INTERROMPÊ-LO PARA DIALOGAR,MAS JASÃO SE DESVENCILHA DELES E SAI; JOANA VEM LOGO 198 www.oficinadeteatro.com
  • 199. ATRÁS, ABRINDO O BERREIRO DIANTE DA MASSA; TODOS OSVIZINHOS E VIZINHAS EM CENA)JOANACorre! Vai procurar aquela puta!Não fica perdendo tempo comigoVai bajular Creonte, mas, escuta,de algum lugar há de vir o castigoA vida não é assim, seu JasãoNão se pode ter tudo impunementeA paz do justo, o lote do ladrãomais o sono tranqüilo do inocenteCorre pro teu casamento, JasãoNão é essa a tua grande ambição?Depressa, bebe, come, lambe, goza,mas, se quem faz justiça neste mundome escutar, esse casamento imundonão vai haver não, por falta de esposaTODOS (Ao mesmo tempo)Calma, mulher! — Que foi? — Que é que Jasãofez? — Que é isso, comadre? — Tem razão!EGEUUm momento! Que foi que houve, comadre?JOANAO que houve foi que esse filho dum padreveio me botar pra fora, em pessoa,veja, mestre, sua alma como é boa 199 www.oficinadeteatro.com
  • 200. O senhor disse: se Creonte um diame enxotasse, Jasão me defendiaPois, agora, o próprio foi escolhidopra me botar na rua. Tá entendido?Creonte não veio, nem mandou cão,polícia, gerente. Mandou JasãoAMORIMJoana, me dê licença. Seu assuntocom Jasão eu não me meto. Perguntoporém se seu Creonte tem direitode te botar pra fora desse jeitoJOANACreonte vai me tirar daqui mortaMas como o motivo não é o atraso,o motivo é o ódio, então, nesse caso,ele também vai arrombar a portade qualquer um de vocês que fizerqualquer coisinha que lhe desagradeESTELAÉ? Dou-lhe um tiro na bunda...TODOS (Riem e comentam)Verdade...Na minha porta, não... Pode bater...JOANAIsso mesmo. Então, além do dinheiro,você tá sempre devendo favorMas aqui... comigo, não... 200 www.oficinadeteatro.com
  • 201. ZAÍRAQue horror...O homem é dono do mundo inteiroPõe o dedo na merda, vira ouro,e inda solta os cachorros, o chifrudo,numa mulher sozinha...MARIAAlém de tudo,sem casa, sem marido, o seu tesourosão duas bocas para alimentarESTELAE numa hora dessas não se tema quem apelar, nem Deus nem ninguémCACETÃO (Meio de porre)Um momento. Um momento. Se falarbesteira. desculpe, mas não sei, não...Com todo esse interesse em despejarJoana, acho que a filha não vai casarO Creonte é que quer dar pro JasãoTODOS (Riem e comentam)Cala a boca, Cacetão... Tá de porre?Esse Cacetão!... Ele tá pirado...CORINAEspera, pessoal. Muito engraçadoe tal, tudo muito bem, mas ocorreque Joana está precisando da gente...JOANA 201 www.oficinadeteatro.com
  • 202. Não. Eu não quero ajuda de ninguémEssa briga é minha e eu sei muito bemo que fazer. Creonte certamentevai vencer de novo, vai me expulsarMas aviso a quem quiser assistirsentado à minha sorte. Eu vou sair,mas vão ver que estrago eu vou aprontarno reino dele, antes de me mandarEu... eu fodo... eu... não pode ser assimComo foi que isso desabou em mim?.. . (Em crise de choro)EGEUComadre. vá pra casa descansar...Corina vai te fazer companhiaVocê não tá só. Corina, vai, vaicom ela...JOANA (Recuperando a sua altivez)Dessa Creonte não saisorrindo... (Sai com Corina)EGEUBom... Eu agora queriafalar. A fúria e a indignaçãopertencem a Joana. Sua mazelaé sua. A dor é dela. O homem dela,seu destino, seu futuro, seu chão,seu lar e os filhos dela. Acabou. Choraem nome dela quem é amigo delaAmigo de Jasão que acenda vela 202 www.oficinadeteatro.com
  • 203. em nome dele. Tá entendido? Agora,não pode mais deixar aconteceré que o locador, com base legalnum contrato assim anti-social.venha botar pra fora essa mulherTODOSIsso — De acordo — Não dá — Tá faladoEGEUNão pode porque é suicídio. Se a gentedeixar Creonte jogar calmamenteessa mulher na rua, o despejadoamanhã pode ser você. VocêVocê. Tá certo, Joana tratou malo locador. Problema pessoal,não interessa a razão e o porquêMas ninguém pode viver num lugarpelo qual pagou mais do que deviae estar dependendo da simpatiade um cidadão pra conseguir morartranqüilo. Não. O seu chão é sagradoLá você dorme, lá você desperta,pode andar nu, cagar de porta aberta,lá você pode rir, ficar calado,lá você pode tanto querer bemquanto querer mal a qualquer mortalVocê é Papa, Rei, Deus, General,sem ter que depender de “Seu” ninguém 203 www.oficinadeteatro.com
  • 204. E já que todo mundo quer falarcom Creonte sobre essa prestaçãoque nunca acaba, por que não, então,ir logo lá duma vez pra matar osdois assuntos? Vamos...CACETÃO (De porre)Um momento!Eu pergunto...EGEUEspera aí, Cacetão...Bem, proponho que, sem agitação,a gente vá lá, com comedimento,com toda a calma...CACETÃOEu me oponho...(TODOS FAZEM PSIUUU PEDINDO SILÊNCIO A CACETÃO)EGEUFalardas correções e dizer claramenteque dona Joana é como se fosse a gente...Ninguém vai tirar ela do lugar, não.Quem tá de acordo levanta a mão(TODOS LEVANTAM A MÃO MENOS CACETÃO, E BOCA PEQUENAQUE É VISTO SAINDO SORRATEIRAMENTE)TODOSAgora! — Falou! — Isso, mestre Egeu!EGEU 204 www.oficinadeteatro.com
  • 205. Vamos, a proposta foi aprovada! (Vão saindo)CACETÃOUm aparte, mestre Egeu...AMORIMÉ piada...CACETÃOMomento... Não posso falar com seuCreonte... falar calmo, não... Eu sólevanto a mão se for pra dar porrada!(TODOS FALAM AO MESMO TEMPO E VÃO SAINDO COM MESTREEGEU NA FRENTE)TODOSAí, Cacetão! Que porrada, nada...Vai dormir! — Qual é a graça? — Tem dó(TRANSIÇÃO DE LUZ MARCA PASSAGEM DE TEMPO; UMA FUSÃO —ENQUANTO VAI BAIXANDO EM RESISTÊNCIA A LUZ DA REUNIÃO,À SAÍDA DE MESTRE EGEU E DA TURMA, VAI ACENDENDOTAMBÉM EM RESISTÊNCIA A LUZ DO SET DE CREONTE. ESTE ESTÁCONVERSANDO COM JASÃO; CHEGA RAPIDAMENTE O BOCA QUEFALA RÁPIDO QUALQUER COISA COM CREONTE; EGEU E OSVIZINHOS VÃO CHEGANDO AO SET DE CREONTE E, UM SEGUNDOANTES DE SE COLOCAREM DIANTE DE CREONTE, BOCA PEQUENAESCAPOLE PARA REAPARECER LOGO A SEGUIR, INTEGRADO NOGRUPO DOS VIZINHOS; CREONTE SE LEVANTA)EGEUJasão, nós aqui, a turma toda...(NO MOMENTO EM QUE EGEU TENTA SE DIRIGIR A JASÃO, COMO 205 www.oficinadeteatro.com
  • 206. A PEDIR QUE ELE SEJA UM INTERMEDIÁRIO, ALMA APARECE E SECOLOCA AO LADO DE JASÃO, ENFIANDO SEU BRAÇO NO DELE,POSSESSIVAMENTE; EGEU OLHA PARA JASÃO, DESISTINDO,MARCA UM TEMPO E FALA PARA CREONTE)EGEUSenhorCreonte Vasconcelos, nós aqui estamosreunidos para...CREONTEVocê é o oradorda turma? Muito bem, Egeu (Tentando desarmar todos)... Ora, vamos ficar à vontade, vamos... (Descobrindo carasconhecidas, vai cumprimentando e apertando as mãos)Oh, gente boa,como vai? (Outro) Oh, vai tudo bem? (Outro)Olhe o Amorim,como vai você? (Outro) Como vai a patroa?(Apertando a mão de um por um)Como vai a pessoa? Você vai bem?...(Finalmente entregando a palavra de novo a Egeu)Sim...EGEUNós viemos pra falar de duas questões...A primeira é o problema das taxas, dos juros,correção, todo o sistema de prestações...Esses aumentos sucessivos estão duros 206 www.oficinadeteatro.com
  • 207. da gente acompanhar... ninguém tá mais podendo...O senhor sabe que os preços vão aumentandotodo mês... e então o salário vai perdendopoder aquisitivo, vai minguando, e quandoa gente vai ver...CREONTESim...EGEUA segunda questãose refere ao problema de uma locatária,dona Joana. Aqui, todos nós, em comissão...CREONTEVamos por partes. Antes de entrar nessa áreavamos limpar a primeira, sim?... (Olha para Jasão)Na verdade...Eu... Bem, de uns tempos pra cá eu tenhopensadomuito no assunto e estava mesmo com vontadede procurar vocês, mas estive ocupado...É que mandei fazer um balanço geral naminha empresa. Muito bem, o resultadofoi bastante animador. Depois da totale diuturna mobilização de energiano sentido de acumular o capitalatravés de todo um esforço. dia-a-diarenovado, austero, preso ao essencial,o que nos permitiu investir, planejar, 207 www.oficinadeteatro.com
  • 208. produzir, plantar, desbastar o matagal...Superada, pois, a fase preliminar,fase de sacrifício e contenção brutal,afinal chegou a hora da nossa Empresadesempenhar a sua função socialSim, é claro, porque de que serve a riquezase não contiver um sentido comunal?Criar riqueza quando não havia nadaDistribuí-la de maneira racional,quando há, na proporção da parcela criadaque sobrou. Então faço, de modo informal,o anúncio, com modéstia, sem estardalhaço,das seguintes medidas de ordem socialda minha Empresa. Remodelar o terraçodo nosso prédio pra acomodar um pequenoparque infantil pras crianças tomarem sol,balanço, gangorra... No fundo do terrenopretendo fazer um campo de futebolgramado, trave, medidas oficiais...Talvez até com luz. Também vou melhoraras comunicações na vila. As atuaiscondições são precárias. Eu vou instalarum orelhão no sul, um orelhão no norteVou aterrar aquele buraco ali juntodo cemitério que, cá pra nós, tá de morteAfinal das contas até mesmo defuntoprecisa viver direito, é ou não é? Hein? 208 www.oficinadeteatro.com
  • 209. (Todos riem baixo)CREONTEMas não fica aí só, não. Todo aquele prédio,a Vila do Meio-Dia inteira já temque ser repintada. Já tá me dando tédioaquela sujeira toda, perdão, perdãoEntão, o que é que vocês acham?...TODOSAcertadaa medida... — Falou! — Hei! — Boa decisãoCACETÃOE o botequim, também não vai melhorar nada?CREONTEGalego é que é o nosso Ministro da Cachaça,fale com ele... (Todos riem) Bem, agora, pessoal,eu tenho o prazer de comunicar à praça,mas sem estardalhaço, a notícia final:aqui ninguém tem mais prestação atrasadaIsso mesmo que eu disse. Abono especialPrestação antiga já pode ser riscadado mapa. Quem estiver atrasado e tal,passe no escritório que o meu advogadocuida de caso por caso...TODOS (Aplaudindo)Falou! — Legal! Aí. muito bem! — Muito boa! — Tá falado!CREONTEMas... Mas... Prestem atenção pro que eu vou 209 www.oficinadeteatro.com
  • 210. falarAgora vocês estão com a vida em dia,já não têm mais que se afligir e se abafar,não é? Acabou pesadelo e correriaMas ninguém pode atrasar daqui por diante,não é? Falei certo? Ninguém vai mais cagarna gaiola, né?, e esperar que a merda canteTODOS (Aplaudindo)Tá certo! — Falou! — Tem razão — Pode deixarCREONTEAgora... Muito bem, qual é o outro problema?(Um tempo; todos olham para Egeu)EGEUAntes, seu Creonte, eu queria discordarCREONTEDe que?...EGEUÉ que o grande e verdadeiro dilemanão é esse. Tem que discutir e estudardireito o próprio sistema de pagamento,essas correções...BOCAMas, mestre, tá resolvidoO homem não tava falando neste momentoque ninguém deve mais nada? Tá decidido...EGEUVai ser difícil não atrasar se a cada mês a taxa... 210 www.oficinadeteatro.com
  • 211. AMORIMMestre, a gente pode ver istodepois. calmamente... Por enquanto foi dadau’a solução...CREONTEBom. Mais que isso só Jesus Cristo(Olha o relógio) Meus amigos, eu estou com horamarcadaQual é o outro problema?... (Tempo)EGEU (Olhando para todos)Pessoal, e então?(Todos ficam em silêncio)É o seguinte, dona Joana tá ameaçadade despejo, tão falando...CREONTENão, isso eu nãovou discutir. Assunto pessoal. Esquece.EGEUNós viemos aqui...CREONTEAtenção, pessoalAcabei de tomar, segundo me parece,medidas de profundo alcance socialOs mais antigos, os que me conhecem bem,sabem que eu sempre lutei pelo bem geralda coletividade. Tem algo, porém,que para mim é uma coisa fundamental 211 www.oficinadeteatro.com
  • 212. Reservo-me o direito de escolher quem sãomeus amigos ou meus inimigos. Assim,pra poder gozar dessa bonificaçãotem um só requisito essencial pra mim:ser meu amigo...EGEUNós não vamos deixar...CREONTEEutenho que ir chegando, tá na hora. Eu esperoter dado a vocês boas notícias. Egeu,congratulações, grande embaixador... Eu queromuito bem a esse velho... Oh, seu Amorim...Apareça... Apareça. Obrigado a vocêstodos... (Tempo) Só pra terminar... Alma, vemcá, sim?Jasão... Amigos... Já chega de economêsQuero dizer que os bens que acabo de lhes darnão são frutos apenas... da contabilidadeda Empresa. São um modo de comemorarcom vocês as núpcias de Jasão co’a beldadeque é a minha Filha. Sendo assim, eu gostariaque vocês viessem à festa com calor,prazer e — por que não? — co’a prestação em diaE pra garantir à festa o melhor sabor,comunico desde já que as mulheres todasestão requisitadas pra trabalhar 212 www.oficinadeteatro.com
  • 213. na nova indústria que abri: a indústria das bodasConto com toda a mão-de-obra do lugarVamos preparar doces, salgados, bebida,pra lotar dois Maracanãs. Eu falo sério,essa festa vai ser lembrada e conhecidapor todos como a maior festa do hemisfério(CREONTE VAI SAINDO: XULÉ PUXA PALMAS: JASÃO E ALMA,ENCABULADOS. AOS POUCOS COMEÇAM A APLAUDIR: ATÉ QUETODOS, MESMO OS INICIALMENTE CONSTRANGIDOS, APLAUDEM:LUZ VAI CAINDO: ENTRA ORQUESTRA: AS MULHERES VÃOSAINDO DA REUNIÃO, ESPALHANDO-SE PELO PALCO, ENTOANDOUM CANTOCHÃO, NA PASSAGEM DE TEMPO)COROVirgem matriarcarum, me livraide toda inútil e vã rebeldiaJoana está sem casa e os filhos, sem paiPor ela querer mais do que podiaVirgem, cultivai em mim o respeitoÀs leis e ao apetite do mais forteJoana rebelde tem por pena um leitogélido e solitário como a morte(CANTAM AGORA EM BG; EGEU E JOANA EM PRIMEIRO PLANO)EGEUEntão, Joana, o que Creonte fezme pegou de surpresa. Não seicomo ele, tão ranzinza, esta vezsoube ceder. Nunca imaginei 213 www.oficinadeteatro.com
  • 214. que o velho fosse capaz de abrirmão de alguma coisa pra contera insatisfação. Agora é agircom paciência. Ele soube verque há um ano todo mundo estavano mesmo barco e Creonte erao inimigo de todos. Chiavatodo mundo aqui nesta taperaDé, Meu Tio, Xulé, Zazueira,chiava você, por ser como é,corajosa, e a vizinhança inteirafazia coro, chiava até Jasão,por ser moço e vigorosoe aqui se sentir numa prisãoChiava eu, talvez por ser teimoso,ou por não ter nada a perder mais nãoMas agora, com habilidade,Creonte pode atrair JasãoPode atrair com facilidadeos melhores entre nós que vãosurgindo. Também pode empregarum mínimo do que já lucroude modo à maioria ficarna ilusão que a vida melhorouCom essa manobra ele nos deixafalando sozinhos para o vento,dá a impressão que toda a minha queixa 214 www.oficinadeteatro.com
  • 215. é queixa de velho rabugentoMesmo assim, o pessoal... não creioque na hora mesmo vá deixarque te enxotem, não tenha receio (Tempo)Mas se for ....... pode deixarcomigo, comadre, a gente dáum jeito, põe-se água no feijãoe vocês ficam conosco láem casa... (Tempo) Ouviu, comadre?...JOANAHein? Sim...(SOBE CORO DAS VIZINHAS QUE CHEGAM AO SEU SET; NOBOTEQUIM, OS VIZINHOS TAMBÉM ESTÃO REUNIDOS; LUZPERMANECE TAMBÉM NO SET DE JOANA, ELA E EGEU CALADOS,DE CABEÇA BAIXA)CORINANãoacho que é certo, não...NENÉPor que? Bobagem...ESTELAEu não sei, não...ZAÍRATambém não...MARIAÉ um serviço 215 www.oficinadeteatro.com
  • 216. como outro qualquer...(NO BOTEQUIM)CACETÃOAmigos, issoé o que eu chamo uma grande sacanagemGalego... (Faz sinal pedindo bebida; todos em silêncio;Galego vai buscar a bebida)(NAS VIZINHAS)CORINAPrecisa ter muito culhãopra pegar esse biscate... (Ficam todas em silêncio)(NO BOTEQUIM)CACETÃOTá chato...Até o Amorim?...AMORIMPorra, Cacetão...Eu o quê?...CACETÃOAtenção, parede, prato,talher, prateleira, ele quer sabero que...AMORIMDá uma pura... (Galego vai buscar; tempo)(NAS VIZINHAS)ZAÍRAFala, Nenê 216 www.oficinadeteatro.com
  • 217. NENÉNão!...(NO BOTEQUIM)CACETÃOFala, Xulé....BOCANo meu entender...CACETÃONão, Boca, você não... (Boca se cala)(NAS VIZINHAS)NENÊCorina, vê,eu vivo de fazer doce pra forae já cansei de fazer serviçopra ela outras vezes...CORINAEstá louca? Ora,Nenê...(NO BOTEQUIM)AMORIMCacetão, vê se deixa disso,deixa de ser gigolô moralistaCada coisa tem seu tempo e lugarHoje, pra nós, já foi uma conquistaMas claro que não dava pra imprensarum homem que acabava de cedermelhorias e abono... 217 www.oficinadeteatro.com
  • 218. XULÉTambém acho...CACETÃOMas não podia a gente se esconder,deixar mestre Egeu co’a cara de tachofalando sozinho...(NAS VIZINHAS)CORINAOlha, essa meninaroubou o marido duma amiga nossae a gente inda faz docinho?...NENÉAh, Corina,isso não quer dizer que a gente endossao que ela fez...(NO BOTEQUIM)CACETÃOMestre Egeu, porcaria,Egeu...AMORIME ele queria chegar onde?Ninguém tem nada a ver co’a temosiade dona Joana...(NAS VIZINHAS)NENÊCorina, responde, 218 www.oficinadeteatro.com
  • 219. como é que eu faço pra sobreviver?Maria, Zaíra, Estela, do que é quetodas vivem também?...(NO BOTEQUIM)CACETÃOEu tou pra ver...O cara mostra a carteira de cheque,todo mundo... (Cacetão arreia as calças pra gozar os vizinhos)(NAS VIZINHAS)ESTELASó tem u’a soluçãoIr lá explicar direitinho a elaSem falar com ela eu não topo não...Ela entende...ZAÍRAQuem vai falar, Estela?Eu não vou...(NO BOTEQUIM)AMORIMFoi ele quem recuouA gente não tem que reclamar nadade Creonte...(NAS VIZINHAS)NENÉVai, Corina?...CORINA 219 www.oficinadeteatro.com
  • 220. Eu não vou(NO BOTEQUIM)CACETÃOAtenção, muita atenção, macacada,vai falar mestre Egeu, valente esteioe Presidente desta Associação deMoradores de Vila do Meio-- Dia... Não, corta (Tempo) Não tá certo, nãoXULÉ (Falando num jato)Ser ele o presidente é que está erradoÉ autônomo... Não paga prestaçãoO estatuto tem que ser alteradoSó pode ser presidente...AMORIMIsso não...(NAS VIZINHAS)NENÉ (Gritando)Pois eu vou. O que tenho que falar,falo na cara. Se Joana e Jasãoresolveram brigar, eu vou ficarsem trabalho por causa disso?Ah, não! (Sai)(NO BOTEQUIM)CACETÃO (Estalando os dedos como quem dá comida aoscachorros)Vem cá, vem, lulu, toma uma lingüiçaPára de latir, vai... 220 www.oficinadeteatro.com
  • 221. BOCASeu Amorim,esse cara quer o que?...XULÉNão atiça,Cacetão... (Cacetão segue estalando os dedos)AMORIMPára, rapaz....CACETÃO (Estalando os dedos)Sim... Assim...Gostou da lingüiça?...AMORIMCacetão, porra...CACETÃOVai fazer cara feia pro Creonte (Estala os dedos)Vem, cotó, lambe...AMORIMMixou essa zorra...Gigolô de merda! (Amorim avança pra Cacetão edá-lhe uma porrada)CACETÃO (Furioso)... Caiu da ponte!(CACETÃO PARTE PARA CIMA DE AMORIM; IMEDIATAMENTE, XULÉ EBOCA VÃO EM CIMA DELE E, JUNTAMENTE COM AMORIM, DÃO-LHE UMASURRA; FUNDO MUSICAL DE ORQUESTRA SUBLINHANDO OS GOLPES DALUTA; SAI LUZ DO BOTEQUIM, AO MESMO TEMPO QUE NENÉ CHEGA AOSET DE JOANA) 221 www.oficinadeteatro.com
  • 222. NENÉJoana, minha filha, que cara é essa?Õ, mestre Egeu, fala pra essa meninaque a vida é feita assim mesmo. Começatodo dia...EGEUComadre está mofinamas passa, não é, comadre?...NENÉVem cá...(Abraça Joana e começa a alisar a cabeça dela)Você sabe, Joana, que o pessoaldo Creonte chamou a gente láPois é, tiveram a cara-de-paude chamar a gente, olha só, chamareu, Maria, Estela, todas, Corina...Sabe pra que, mulher? Pra trabalharlá nos preparativos, imagina!Estela pra fazer a feijoada,Zaíra pra costura, eu pro quindimMaria pra fazer croquete, empadaChamaram outra pra fazer pudimChamaram outra pra fazer compotaChamaram até Corina... Tem dóNós precisamos muito dessa nota,você sabe. Mas nós topamos só 222 www.oficinadeteatro.com
  • 223. se você, Joana, disser que consenteEGEU (Enérgico)Nenê, isso é hora de vir falaresse assunto aí?...NENÉPor que não? Se a genteé amiga de Joana, antes de tomarqualquer decisão tem que consultarpra ver se ela não se zanga, se tinhaalgum grilo...EGEUNenê, vai se mancarJOANAMestre Egeu... Queria ficar sozinha..(VIRA DE COSTAS, DEMORA UM TEMPO, EGEU E NENÉ SAEM;JOANA FICA DE COSTAS, SÓ; LUZ CONTÍNUA FIRME; ACENDE LUZNO SET DO BOTEQUIM; CACETÃO, GARRAFA NA MÃO, TODO SUJOE ROTO, CAMINHA TRÔPEGO, DO BOTEQUIM PARA O SET DEJOANA)CACETÃO (Cantando)Quem pode pode, quem não pode se sacode, quem nãose sacode amarra um bode e everybody se fodena Vila do Meio-DiaQue porcaria(Chega em frente à casa de Joana)O, Joana... Joana... Princesa... Rainha...Todos eles têm vida pra cuidar... 223 www.oficinadeteatro.com
  • 224. Têm lar, mulher, filhos, copa e cozinha...Por isso pensam que vão te deixarsó. Mas não vão. Você tem toda a minhasolidariedade. Eu não tenho lar,nem filho. nem cozinha. Mas sozinhaé que você não fica. Vou contar:pra ser gigolô é preciso tercaráter, ouviu? Você vai casarcomigo, Joana. Quero agradecera quem acaba de te encurralarpra, mim, os sacanas. Você vai serminha. Vai ser minha filha, meu lar,minha cozinha, ser minha mulherRainha, sai na janela. Desponta,estrela. Faz dez anos que eu te espero...Dez anos que eu bebo por tua conta...Você sabe... Cê sabe que eu te quero(Canta)Carlos amava Dora que amava Léa que amava Lia queamava Paulo que amava Juca que amava Dora que amava...Carlos amava Dora que amava Rita que amava Dito queamava Rita que amava Dito que amava Rita que amava..Carlos amava Dora que amava tanto que amavaPedro queamava a filha que amava Carlos que amava Dora queamava toda a quadrilha...amava toda a quadrilha... 224 www.oficinadeteatro.com
  • 225. amava toda a quadrilha...(UMA SIRENE ESTRIDENTE DE POLÍCIA COBRE O REFRÃO; NOBREQUE DA CANÇÃO OS POLICIAIS ENTRAM NO PALCO,EMPURRAM CACETÃO DA PORTA DE JOANA; FORÇAM A ENTRADA)JOANAO que é que vocês querem nesta casa?...(Um tempo; aparece a figura de Creonte)CREONTEEu vimaqui, saí dos meus cuidados, pra falarque aqui nesta vila você não vai ficarnem mais um minuto, pode ir andando, sim?Pega teus troços, teus filhos e pé na estrada...JOANAMas como?...CREONTEChega de ódio, de ouriço e feitiçoJOANAEsse lugar é meu...CREONTEÉ? Já vamos ver isso(Para os Guardas)Quebra esta merda!... (Os Guardas preparam-se para quebrar;tempo; Joana apavorada)Espera... (Faz um gesto)Vou ser camaradamais uma vez. Apanhe aí esse dinheiro 225 www.oficinadeteatro.com
  • 226. Saia sem chiar, calma, sou capaz de darmais um pouco...JOANAVocê não pode me botarpra fora...CREONTESe você não sai por bem, ligeiro,sai no pau...JOANAEste aqui é meu lugar...CREONTEPapel,documento... Escritura, onde é que está?Fim de papo. Não tem perdão nem alvaráOu sai na maciota ou no sarapatel,escolhe... (Faz sinal para os guardas)Pessoal...JOANAOnde é que eu vou morar?CREONTESei lá... Onde quiser. Mas sai da minha frenteJOANACreonte... Por que um homem onipotenteassim, poderoso assim, precisa jogartoda a sua força em cima duma mulhersozinha... por que?...CREONTE 226 www.oficinadeteatro.com
  • 227. Você quer saber?...JOANAPor que?CREONTEPor medo...JOANAMedo de mim?...CREONTEMedo de vocêsim, porque você pode investir a qualquerhora. Tá calibrada de ódio, a arma na mãoE a vida te botou em posição de tiroSó falta a vítima, mais nada. Então prefirovirar pr’um outro lado a boca do canhãoNão gosto de guerra nem vou facilitardiante de quem está se achando injustiçadaJOANAMas o que é que eu posso lhe fazer? Posso nadaEstou de mão atadas, tenho que cuidarde dois filhos..CREONTESinto, mas não posso fazercoisa alguma. Prefiro ouvir você agorame esculhambando, xingando a mãe, indo emboraaos berros, que ficar aqui pra cometerum desatino, me dar aborrecimento 227 www.oficinadeteatro.com
  • 228. Vumbora, vumbora, mulher, vumbora, vai...JOANAEscute só, seu Creonte, o senhor é pai.tem uma filha e é capaz de ter sentimentoÉ por causa dos meus filhos que eu lhe suplico,deixa eu ficar.CREONTEExatamente por amorà minha filha que não dá mais...JOANAPor favor...CREONTEEu já transigi demais...JOANAEu juro que ficoquieta, seu Creonte...CREONTENão, vumbora...JOANANão faça...CREONTEPra já...JOANAMeu Ganga, fecharam por todo lado...Mas não pode, de algum lugar um aliadotem que vir...CREONTE 228 www.oficinadeteatro.com
  • 229. Que? Vai começar com ameaça? (Para a Polícia)Bota essa tralha na rua...JOANANão! Pelo menosme dê um dia... Um dia só, que é para eu saberpra onde é que eu posso ir...CREONTENão dá...JOANANão voupodersair sem destino com dois filhos pequenosEu ia embora mesmo. Não quero ficarnesta desgraça de lugar. Só quero um diapra me orientar, se não não dá...CREONTEEu não devianem ouvir...JOANAUm dia...CREONTENem devia levarem consideração, porque tenho certezade estar fazendo besteira quando te atendo...Certeza que, sendo humano, saio perdendoAgora, eu vou lhe falar com toda a clareza:se amanhã à noite você inda estiver 229 www.oficinadeteatro.com
  • 230. aqui, eu acabo de vez co’essa novelaNão vai sobrar cama, nem porta, nem janela,sabe? Eu quebro esta merda. Eu quebro tudo,ouviu?(Sai com a Polícia)JOANAOuvi sim, Creonte, um dia. Um dia, precisomais do que isso? Por que? Pra que? Quem te pariu só precisou de um dia. O que se construiuem séculos se destrói num dia. O JuízoFinal vai caber inteirinho num só diaQuando me deu um dia, você se traiu,Creonte, você não passa de um imbecil,porque hoje me deu muito mais do que devia(A orquestra ataca; ela canta)Pra mimBasta um diaNão mais que um diaUm meio diaMe dáSó um diaE eu faço desatarA minha fantasiaSó umBelo diaPois se jura, se esconjuraSe ama e se tortura 230 www.oficinadeteatro.com
  • 231. Se tritura, se atura e se curaA dorNa orgiaDa luz do diaÉ sóO que eu pediaUm dia pra aplacarMinha agoniaToda a sangriaTodo o venenoDe um pequeno dia(Joana, cantando, chegou em frente ao set de Egeu enquantochama Corina, a orquestra segue tocando) Corina. Corina...(Corina aparece) Faz um favor pra mim, mulher. Vai chamarJasão. Diz que estou aliviada. Minha dorestá passando. Vai?...CORINAVou. Estou feliz... (Sai; orquestra modula para Joana recomeçar ocanto)JOANASó umSanto diaPois se beija, se maltrataSe come e se mataSe arremata, se acata e se trataA dorNa orgia 231 www.oficinadeteatro.com
  • 232. Da luz do diaÉ sóO que eu pediaUm dia pra aplacarMinha agoniaToda a sangriaTodo o venenoDe um pequeno dia(TERMINADA A CANÇÃO, CHEGA JASÃO)JASÃOPronto, mulher, que foi?...JOANANada, Jasão,quer dizer... eu queria te pedirperdão...JASÃOQue?...JOANAVem, menino, pode virtranqüilo...JASÃONão entendi... essa não...JOANASente aqui comigo, fique à vontade,deixe eu ver seus olhos, Jasão, sorria,como se fosse uma fotografiapra eu levar comigo e matar saudade... 232 www.oficinadeteatro.com
  • 233. JASÃOJoana, o que é que te deu, quer me explicar?JOANANão tenha medo, Jasão, eu... não sei...JASÃOFala pra mim, Joana...JOANASabe, eu pensei,não parei um minuto de pensar...Me diga, quanto vale a lealdade?JASÃONão sei... Mulher, onde você escondeua fúria? Onde e por que? Diz...JOANAÉ que meuressentimento ofuscava a verdadeSe homem é ação e mulher, posturaA mulher, o raso, o homem, o fundoSe a mulher é de casa e ele é do mundoSe ele é chave mestra e ela é fechadura,então o que a mulher tem que cobrardele não é lealdade, mas brilhoPode comer quem quiser, fazer filhonuma, casar com outra, descasar,o que importa é ganhar uma paradatoda semana. Um marido lealmas fracassado, quem quer? Se ela é mal 233 www.oficinadeteatro.com
  • 234. trepada, a lealdade vale nadapra ela. Mulher, o útero arrebentade prazer com o brilho do seu machoEu já pensei muito e é isso que eu achoVai, Jasão, fazer tua vida, inventateu destino que eu já fico contenteem saber que um pouco de mim vai terno peito do homem que você vai serPor isso é que eu te chamei. Vai em frente.Jasão, aqui você tem uma amigaque quer ver você feliz...JASÃO (Abraçando Joana com efusão)Eu sabiaque ia ouvir você dizer isso um diaEu sabia porque não é com briga,Joana. que um amor como o de nós doispode acabar...JOANACreonte veio aquiVocê sabe, não é?...JASÃO (Envergonhado)Sei... e dai?JOANAFoi bom comigo. Muito bom. Depoisde tudo o que eu disse dele, ele agorainda deu um dia pra eu me mudarQuando você sair, vou arrumar 234 www.oficinadeteatro.com
  • 235. tudo pra ir embora. Mas não é horapra falar nisso. Eu quero só te olhar,só isso.JASÃOJoana, não fala assim, não...Olha... Creonte tem bom coraçãoSe você quiser eu posso falarcom ele, que ele entende.. . falo simSe ele vê mão estendida, amoleceJOANANão dá, Jasão... Precisa, não... esqueceJASÃOPelo menos você não sai assim...JOANAMas Creonte está com toda a razãoporque, se eu ficar aqui é ruimpra vocês, é muito pior pra mimNão. Eu vou embora. Faço questão,tá?... (Jasão em silêncio)Não fica assim, menino, alegriaEu só não quero ir expulsa, corridaQuero sair normal, com despedida,co’a calma de quem foi porque queriaPode ser assim? Posso lhe pediresse favor?...JASÃO 235 www.oficinadeteatro.com
  • 236. É claro, Joana, claro...Falo com Creonte...JOANADiz que eu preparotudo até amanhã. Mas quero sairdireita, sem barulho, sem polícia,sem dizer que me escorraçou no medo,Jasão. porque eu acho que é muito cedopros nossos filhos virarem notícia,certo?...JASÃO (Envergonhado)É...JOANAEntão, filho, que cara é essa?JASÃOJoana, eu estava pensando num troçoe não sabia como falar... Possopedir pro Creonte... Você começaa vida, vai precisar... pro Creontelhe devolver todas as prestaçõesque você pagou... daí, compre ações,invista que depois vai dar um montede dinheiro...JOANANem sei como dizer,mas ele, daquele jeito, zangado,ainda me deu um dinheiro... dado... 236 www.oficinadeteatro.com
  • 237. quando esteve aqui pra me convencera sair...JASÃOCreonte, Joana, acredite,ele não é mau... agora sou euque preciso pedir um favor seuMeus filhos, você deixa que eu visitemeus filhos. .. sempre?.JOANAÉ só você sentirfalta... Vai lá agora, vai... Estãono quarto... (Jasão dó um beijo na testa dela e se precipita proquarto, Joana fica só; um tempo)Você é burro, Jasão?Como é que você se deixa iludirtão facilmente? Ou vai ver que na pressade se livrar de mim, nem tá me ouvindo,porque você já chega aqui saindoJASÃO (Fala quase que de dentro do quarto das crianças)Joana... Joana.. eu não te dizia que essacriança nasceu pro gibi? Guritá cantando “Gota d’água” certinho,até a segunda parte. E gurizinhosó ali no ritmo... Vem aqui,(Gritando) Joana... Vem ouvir, Joana...JOANA (Para si)Você gosta 237 www.oficinadeteatro.com
  • 238. deles, né Jasão? E eles te admiram,né, Jasão? Porque eles nunca te viramcomo eu vejo. Deixou eles na bostamas gosta. Eles te dão a sensaçãoque você se interessa por alguém..JASÃO (Agora aparecendo)Joana, me desculpe o que eu vou dizer,mas eu chego lá. Inda vou vencerna porra desta vida, me ouviu bemVocê vai ver... As crianças não vãoser esquecidas.JOANA (Para si, aterrorizada diante da descoberta)Não fale mais nada,não, Jasão, não me deixe alucinadaVocê sabe que eu te odeio, JasãoMas contra você todas as vingançasseriam vãs, seu corpo está fechadoVocê só tem, pra ser apunhalado,duas metades de alma: essas criançasÉ só assim que eu posso te ferir,Jasão? É essa a dor que você nãosuportaria? Que é isso, Jasão?Me aponta outro caminho...JASÃO (Voltando, gritando)Vão dormir,vão dormir... Pôxa. que bossa, rapaz... (Tempo)Que é isso, mulher, voltou a tristeza? 238 www.oficinadeteatro.com
  • 239. JOANAConversou co’os meninos?...JASÃOQue beleza,Joana...JOANAJasão, posso lhe pedir maisum favor?... É sobre os dois. Vou-me emboraamanhã mesmo, eu quero sair logodaqui, cuidar da vida. Mas é fogocarregar co’os dois por aí afora...Sabe o que é? Se Creonte não tivessenada contra... Você pode falarcom ele. Vocês podiam ficarco’os meninos até que eu estivesseinstalada, entende?JASÃOMas vai estartudo confuso nesses dias, Joana...JOANAEu imagino que em uma semanaou duas eu já posso ir apanhareles...JASÃONão sei...JOANAE tua noiva... 239 www.oficinadeteatro.com
  • 240. JASÃOO que tem?JOANAEu sei que ela é uma boa moça. Falacom ela, que questão de filho calano coração de mulher nova...JASÃOBem,vai ser meio esquisito...JOANAOlha, Jasão,tive agora uma idéia mais feliz...Amanhã, antes da festa, os guris vão lá...JASÃONão. Pra que?...JOANASim, faço questãoEles vão lá com um presente meu,um agrado, sinal que eu declareipaz...JASÃOMas pra que?...JOANAPode deixar que eu seio que eu estou fazendo, Jasão. Euvisto os meninos direito, preparo 240 www.oficinadeteatro.com
  • 241. uma lembrancinha, Jasão. Agora,se as crianças lhe fazem vergonha...JASÃOOra,Joana, que é isso? Eu posso dar amparoaos dois... Creonte ajuda. Vou falarcom Alma também, tudo bem, mas nãoprecisa mandar eles lá...JOANAJasão,é importante pra mim. Eu vou mandaras crianças sim, porque meu destinodepende disso. Pode deixar... (Tempo) Vemaqui agora. vem... Quero olhar bempra você um pouco mais, meu meninoTu vai gostar de ouvir isso: depoisde você, vai ser difícil tirara roupa pra outro macho. Vem deitar...Assim... Não se aborreça porque os doismeninos vão lá no teu casamento,viu? Eles vão saber se comportarE esse é o único jeito de eu mostrarque já acabou o meu ressentimentoE olha, tem mais... Quando você cansarda moça e tiver saudade da minhacama, vem pra cá, vem que eu tou sozinha...Quando quiser... Não precisa avisar... 241 www.oficinadeteatro.com
  • 242. (Os dois se abraçam; lentamente ele vai tirando o seu corpo dodela e sai; nasce orquestra. Joana canta)Já lhe dei meu corpo, não me serviaJá estanquei meu sangue, quando ferviaOlha a voz que me restaOlha a veia que saltaOlha a gota que faltaPro desfecho da festaPor favorDeixa em paz meu coraçãoQue ele é um pote até aqui de mágoaE qualquer desatenção— faça nãoPode ser a gota d’água(ORQUESTRA EMENDA PARA UMA SUÍTE, NOS DIFERENTES SETS— DUAS VIZINHAS VESTINDO A NOIVA (ALMA) CANTANDO REFRÃODE FILOSOFIA DA VIDA— DOIS VIZINHOS VESTINDO O NOIVO (JASÃO) CANTANDO REFRÃODE FILOSOFIA DA VIDA— CREONTE EM SUA CADEIRA, CANTANDO REFRÃO DE CREONTE— TRÊS VIZINHOS, NO BOTEQUIM, VESTIDOS PARA O CASAMENTO.BRINCANDO E CANTANDO FLOR DA IDADE— EGEU EM SUA OFICINA, TRABALHANDO, SEM CANTAR— TRÊS VIZINHAS, PREPARANDO A MESA DO BANQUETE E CANTANDOFLOR DA IDADE— ALMA CANTANDO UMA ESTROFE DE BEM-QUERER JASÃOCANTANDO UMA ESTROFE DE BEM-QUERER 242 www.oficinadeteatro.com
  • 243. AGORA, CADA SETOR CANTAROLA SUA ÁRIA; BG; LUZ FICA EMRESISTÊNCIA EM TODOS OS SETS E ACENDE, CLARA E BRILHANTE, NOSET DE JOANA QUE, HABILMENTE, TEMPERA COM ERVAS UNS BOLOS DECARNE)JOANATudo está na naturezaencadeado e em movimento —cuspe, veneno, tristeza,carne, moinho, lamento.ódio, dor, cebola e coentro,gordura, sangue, frieza,isso tudo está no centrode uma mesma e estranha mesaMisture cada elemento —uma pitada de dor,uma colher de fomento,uma gota de terrorO suco dos sentimentos,raiva, medo ou desamor,produz novos condimentos,lágrima, pus e suorMas, inverta o segmento,intensifique a mistura,temperódio, lagrimento,sangalho com tristezura,carnento, venemoinho,remexa tudo por dentro, 243 www.oficinadeteatro.com
  • 244. passe tudo no moinho,moa a carne, sangre o coentro,chore e envenene a gorduraVocê terá um ungüento,uma baba, grossa e escura,essência do meu tormentoe molho de uma friturade paladar violentoque, engolindo, a criaturarepara o meu sofrimentoco’a morte, lenta e segura(ORQUESTRA SOBE; TODOS SOBEM CANTANDO, CADA UM COMSUA ÁRIA; LUZ BRILHANTE NOS SETS, EM RESISTÊNCIA NO SETDE JOANA; A COREOGRAFIA AGORA VAI FAZENDO TODOSMUDAREM DE SET, ATÉ QUE SE AGRUPEM NUM AMBIENTE SÓ;PASSAGEM INDICANDO QUE A FESTA DE CASAMENTO COMEÇOU;AGORA TODOS CANTAM EM BG; LUZ EM RESISTÊNCIA, E CLARA,NO SET DE JOANA QUE VESTE OS FILHOS)JOANA (Vestindo os filhos)Eles pensam que a maré vai mas nunca voltaAté agora eles estavam comandandoo meu destino e eu fui, fui, fui, fui recuando,recolhendo fúrias. Hoje eu sou onda soltae tão forte quanto eles me imaginam fracaQuando eles virem invertida a correnteza,quero saber se eles resistem à surpresa,quero ver como eles reagem à ressaca (Tempo) 244 www.oficinadeteatro.com
  • 245. Meus filhos, vocês vão lá na solenidade,digam à moça que mamãe está contentetanto assim que lhe preparou este presentepra que ela prove como prova de amizadeBeijem seu pai. lhe desejem felicidadeco’a moça e voltem correndo, que eu e vocêstambém vamos comemorar, sós, só nós três,vamos mastigar um naco de eternidade(Entrega o pacote; grita)Corina, Corina... (Corina aparece vestida para o casamento)Vem cá, pode levaros meninos à festa...CORINAAh, Joana, de verdade...Sabe, você não calcula a felicidadeque me dá (Beija Joana) Não adianta brigar (Sai)JOANA (Só, vendo os filhos saindo)Não, eles não. Por que, meu Deus? Que atrocidadeEles não têm nada co’isso. Vou esconderos dois com mestre Egeu e depois vou correrConheço todos os covis desta cidade(SOBE ORQUESTRA; SOBE COREOGRAFIA; AGORA, TODOSCANTAM E DANÇAM ALEGREMENTE)TODOSCarlos amava Dora que amava Léa que amava LiaQue 245 www.oficinadeteatro.com
  • 246. amava Paulo que amava Juca que amava Dora queamava...Carlos amava Dora que amava Rita que amavaDito que.amava Rita que amava Dito que amava Rita queamava...Carlos amava Dora que amava tanto que amava Pedro queamava a filha que amava Carlos que amava Doraqueamava toda a quadrilha...amava toda a quadrilha...amava toda a quadrilha...(FIM DA COREOGRAFIA; OS MENINOS ENTRAM NA FESTA, COM OPACOTE NA MÃO, ACOMPANHADOS POR CORINA — JASÃO E ALMA VÊEMOS MENINOS; CORINA LEVA OS MENINOS A JASÃO E À NOIVA)ALMANão precisava. Ou ela vociferaou puxa o saco...FILHO 1Mamãe que mandou (Entrega o pacote)ALMA (Recebendo)Obrigada... (Toca, desajeitada, na cabeça dos garotos; um tempode constrangimento)FILHO 2Pra saber se gostoutem que abrir...ALMA 246 www.oficinadeteatro.com
  • 247. Ah, sim... (Ri com a frase do garoto e começa a abrir; todosos presentes já prestam atenção à cena; ouve-se a voz deCreonte)CREONTEO que é isso? Esperaum pouco. São seus meninos, Jasão?JASÃOSão...ALMATrouxeram um presente, olha aqui...CREONTEQue é isso... Quem que mandou isso aí? (Apanha o pacote)FILHO 1Mamãe...CREONTEDe jeito nenhum... Não, não, não...Me leva essa porcaria. Não queroconversa com aquela mulher. Vai...(Fazendo sinal pra Corina e pros garotos)Vamos embora, vamos indo...ALMAPai...JASÃOSão meus filhos, espera um pouco...CREONTEEsperoO que? Tá louco?... 247 www.oficinadeteatro.com
  • 248. JASÃOEu falei co’o senhorsobre os meninos...CREONTEMas não falou nissodeles virem hoje trazer feitiçodaquela dona... (Para Corina)A senhora, é favorlevar essas crianças. Se quisertem comida aí sobrando. A senhorafaça um prato depressa e vá-se embora (Tempo)Mas que desacato dessa mulher...(CORINA SAI, APRESSADA, COM OS FILHOS QUE LEVAM OPACOTE; CREONTE SE DIRIGE PRA OUTRO PONTO DA FESTA;FICAM ALMA E JASÃO)ALMANão fica assim, Jasão...JASÃOSão os meus filhos...Seu pai não pode me tratar assim...ALMAEsquece, Jasão, por favor, por mim...Depois você bota papai nos trilhos...JASÃONão .......ALMAAgüenta, Jasão, pra não dar 248 www.oficinadeteatro.com
  • 249. escândalo, Jasão, agüenta a mãoCREONTE (Noutro ponto do palco)Senhoras e senhores, atençãoA nossa orquestra vai executarO samba de meu genro, popularem todas as paradas do paísE que depois de “Palpite Infeliz”não tem igual. Vamos todos dançar(ORQUESTRA SOBE COM “GOTA D’ÁGUA”, SÓ TOCANDO; LUZESCURECE; ORQUESTRA SEGUE; LUZ NO SET DE JOANA; CHEGACORINA COM AS CRIANÇAS, QUE DEIXAM O PACOTE E CORREMPARA DENTRO)JOANA (Vendo que elas não entregaram o pacote)Que foi?...CORINACreonte não quis receberJOANANão...CORINAPensou que era feitiço, mulher...JOANANão...CORINACreonte não quis nem acolheras crianças...JOANANão... 249 www.oficinadeteatro.com
  • 250. CORINAÉ, nem quis saberMal os coitados botaram os pésna porta, ele expulsou... Mas o Jasão...Não sei como ele agüentou isso, nãoBotam seus filhos na rua e ao invésde chiar, o desgraçado ficousem se mexer. Sem se mexer, mulher...JOANANão conta mais, Corina. Você querme deixar sozinha um pouco? Eu estoumeio tonta...CORINAComadre, olha o que faz...JOANATá bem, mas me deixa comigo um poucoque tá fazendo um barulho de loucona minha cabeça e eu preciso pazCORINA (Saindo)Vou comadre, mas se você quiser...JOANATá bem... (Corina sai; Joana apanha o pacote de bolo e começa aabrir; tempo; volta Corina)CORINAJoana, se quiser dormir, vásossegada que eu fico lá e cá,olhando as crianças... 250 www.oficinadeteatro.com
  • 251. JOANATá bem, mulher...lá bem... Mas agora me deixa só...(Corina sai; recomeça a desfazer o pacote)Meu senhor, olhe pra mm. tenha dó,Pai, por que, meu Pai? Você não deixou?Como foi que Creonte farejou,meu Ganga? Responde, aponta uma estradaPra quem padece como eu não há nadaque ajude mais do que o padecimentode quem me oprime. Foi só um momentode alívio que eu pedi. Não pode ser?É possível que o Pai quis protegerJasão, que larga os filhos nas esquinase que se entrega ao canto das ondinas?Quis defender Creonte, esse ladrãodo rosto humano e a cauda de escorpião?É justo conservar esse homem vivo?E a filha, que mantém Jasão cativotransformando em porcos os seus amigos?Xangô, meu Pai, salvou meus inimigospor que motivo? De que serve a vidadeles? Eu tenho que sair ferida,abandonada, doida, sem abrigoNão, não pode fazer isso comigo,meu Ganga. Não, não pode ser. Vocêquer eles vivos para que? Por que? 251 www.oficinadeteatro.com
  • 252. Meu Ganga, meu Pai Xangô, o senhorquer dizer que há sofrimento majordo que morrer com veneno cortandoas entranhas... escorrendo, arruinando,fazendo a carne virar uma pastapor dentro?... (Grita) Não, Senhor... É isso?Afastade mim essa idéia, meu Pai... Mas não,meu Ganga, é pior... Pior, tem razãoEsse é o caminho que o Senhor me apontaAí em cima você toma contadas crianças?... (Grita) Não!...(Com o grito as crianças aparecem)Vêm, meusfilhos, vêm...(Os filhos chegam perto; ela abraça os dois)FILHO 1Queria comer...FILHO 2Tou com fome...JOANATemcomida, vem... Isso é o que o senhor quer?(Abraça os filhos profundamente um tempo)Meus filhos, mamãe queria dizeruma coisa a vocês. Chegou a horade descansar. Fiquem perto de 252 www.oficinadeteatro.com
  • 253. mim que nós três, juntinhos, vamos emboraprum lugar que parece que é assim:é um campo muito macio e suave,tem jogo de bola e confeitariaTem circo, música, tem muita avee tem aniversário todo diaLá ninguém briga, lá ninguém espera,ninguém empurra ninguém, meus amoresNão chove nunca, é sempre primaveraA gente deita em beliche de floresmas não dorme, fica olhando as estrelasNinguém fica sozinho. Lá não dói,lá ninguém vai nunca embora. As janelasvivem cheias de gente dizendo oiNão tem susto, é tudo bem devagarE a gente fica lá tomando solTem sempre um cheirinho de éter no ar,a infância perpetuada em formol(Dá um bolinho e põe guaraná na boca dos filhos)A Creonte, à filha, a Jasão e companhiavou deixar esse presente de casamentoEu transfiro pra vocês a nossa agoniaporque, meu Pai, eu compreendi que o sofrimentode conviver com a tragédia todo diaé pior que a morte por envenenamento(JOANA COME UM BOLO; AGARRA-SE AOS FILHOS; CAI COM ELESNO CHÃO; A LUZ DESCE EM SEU SET; SOBEM, BRILHANTES, LUZ E 253 www.oficinadeteatro.com
  • 254. ORQUESTRA DA FESTA ONDE TODOS, COM A MAIOR ALEGRIA,CANTAM “GOTA D’ÁGUA”; VAI SUBINDO DE INTENSIDADE ATÉ OCLÍMAX, QUANDO SE OUVE UM GRITO LANCINANTE... É CORINAQUE GRITA; AO MESMO TEMPO CREONTE BATE PALMAS E AMÚSICA PÁRA)CREONTEAtenção, pessoal, vou falar rapidamenteJasão... vem cá... Meus caros amigos, agora,aproveitando a ocasião e aqui na frentede todo mundo, quero anunciar que de oraem diante a casa tem novo dono. A cadeiraque foi de meu pai e foi minha vai passarpra quem tem condições, e que é de minha inteiraconfiança, para poder continuara minha obra, acrescentando sangue novoPortanto, sentando Jasão aí eu provo:não uso preconceitos ou discriminaçãoQuem vem de baixo, tem valor e quer vencertem condições de colaborar pra fazernossa sociedade melhor... Senta, Jasão(JASÃO SENTA; UM TEMPO; OUVE-SE UM BURBURINHO DE VOZES;ENTRA EGEU CARREGANDO O CORPO DE JOANA NO COLO ECORINA CARREGANDO OS CORPOS DOS FILHOS; PÕEM OSCORPOS NA FRENTE DE CREONTE E JASÃO; UM TEMPO;IMOBILIDADE GERAL; UMA A UMA, AS VOZES COMEÇAM ACANTAR “GOTA D’ÁGUA”; REVERSÃO DE LUZ; OS ATORES QUEFAZEM JOANA E FILHOS LEVANTAM-SE E PASSAM A CANTAR 254 www.oficinadeteatro.com
  • 255. TAMBÉM; AO FUNDO, PROJEÇÃO DE UMA MANCHETESENSACIONALISTA NOTICIANDO UMA TRAGÉDIA.) 255 www.oficinadeteatro.com