Gota d'Agua

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Gota d'Agua

  1. 1. Gota D’agua CHICO BUARQUE E PAULO PONTES Distribuído por www.oficinadeteatro.com O Maior site de teatro do BrasilPara uso Comercial deste Texto, deve-se ter Autorização da SBAT ou do Autor. APRESENTAÇÃO A esta altura do nosso trabalho, já com os ensaios bastanteadiantados, seria impossível levantar o mundo de intenções que GotaD’Água contém — nossas, do Ratto, do elenco, de Dory e Luciano. O quenão nos impede de ir pro inferno — ao contrário, ajuda. Podemos,entretanto, esquematicamente, esboçar as preocupações fundamentaisque a nossa peça procura refletir. A primeira e mais importante de todasse refere a uma face da sociedade brasileira que ganhou relevo nosúltimos anos: a experiência capitalista que se vem implantando aqui —radical, violentamente predatória, impiedosamente seletiva — adquiriuum trágico dinamismo. O santo que produziu o milagre é conhecido portodas as pessoas de boa-fé e bom nível de informação: a brutalconcentração da riqueza elevou, ao paroxismo, a capacidade de consumode bens duráveis de unia parte da população, enquanto a maioria ficouno ora-veja. Forçar a acumulação de capital através da drenagem derenda das classes subalternas não é novidade nenhuma. Novidade é ograu, nunca ousado antes, de transferência de renda, de baixo paracima. Alguns economistas identificados com a fase anterior afirmam quea saída era previsível, mas, de tão radical, impensável, dado o grau depauperismo em que já vivia a maioria da população. No futuro, quando 1 www.oficinadeteatro.com
  2. 2. se puder medir o nível de desgaste a que foram submetidas as classessubalternas, nós vamos descobrir que a revolução industrial inglesa foium movimento filantrópico, comparado com o que se fez para acumularo capital do milagre. O certo é que, à falta de alternativa melhor, aexperiência foi posta em prática e se “consolidou”. É indiscutível que oautoritarismo foi condição necessária à implantação de um modelo deorganização social tão radicalmente anti-popular. A autoridaderigidamente centralizada permitiu que se pusesse em prática o elenco demedidas (políticas salarial, monetária, tributária. etc.) quemodernizaram, à feição capitalista, uma parte da sociedade brasileira,enquanto se intensificava o processo de empobrecimento da parte maior.Mas isso não explica tudo. Achar que o autoritarismo foi o únicoinstrumento da imobilização imposta às classes subalternas, no Brasil,nos últimos anos, eqüivale a dizer que as forças políticas no poder coagu-laram as relações entre as classes sociais, que todas as forças sociaisficaram paradas, contra a vontade, assistindo as classes dominantesfazerem seu carnaval, sozinhas. E isso não é verdade. No movimento queredundou num avanço tão grande dos interesses das classes dominantessobre os das classes subalternas, as camadas médias têm desempenhadoum papel fundamental. Elas, ao lado do autoritarismo, e de forma maisprofunda, têm legitimado o milagre. Seria ingênuo, a partir daí, fazerqualquer julgamento moral da classe média brasileira. Se a raiz desseproblema fosse moral, viver não dava trabalho nenhum. A verdade é queo capitalismo caboclo atribuiu uma função, no tecido produtivo, aossetores mais qualificados das camadas médias. Não apenas comocompradores, beneficiários do desvario consumista, mas, sobretudo,como agentes da atividade econômica. Em outras palavras, o capitalismo 2 www.oficinadeteatro.com
  3. 3. caboclo começou a ser capaz de cooptar os melhores quadros que asociedade vai formando. E isso, de certa forma, é inédito no Brasil. Este sempre foi um país dependente. A nossa história tem sido,também, a história dos conflitos entre as diversas matrizes e osinteresses legítimos, nacionais, que se foram criando aqui. Ao longodessa história correram, paralelas e quase sempre isoladas uma daoutra, duas culturas: uma, elitista, colonizadora, transposta da matrizpara cá; a outra, popular, abafada, nascida da existência social concretadas classes subalternas. A cultura da elite nunca foi capaz de penetrarprofundamente, até as bases da sociedade, nem foi capaz de assimilarvalores da cultura popular, fundamentalmente porque a economia bra-sileira, que se desenvolveu sempre num quadro de dependência, emnenhum momento foi capaz de incluir, ativamente, em seu processo, asamplas camadas inferiores da população. Entre os dois pólos. ascamadas médias desenvolveram, sempre, um movimento pendular.Muitas vezes divididas, quase sempre tributárias dos interesses dasclasses dominantes, mas, em alguns momentos, próximas das classessubalternas, as camadas médias têm sido o fiel da balança, na correlaçãode forças políticas. Uma economia dependente, de feição pré-capitalistaque, além de excluir as camadas inferiores, relegava setores qualificadosdas populações urbanas a uma posição parasitária, estimulava essaoscilação no interior das camadas médias. A partir da chamada políticade substituição de importações e, sensivelmente, com a implantação domodelo atual, que acelera brutalmente a modernização do tecidoprodutivo, é que o capitalismo começa a atribuir uma função dinâmica àscamadas médias da sociedade, numa escala que privilegia os melhoresquadros que vão surgindo. A economia é cada vez mais dependente e, 3 www.oficinadeteatro.com
  4. 4. por isso, cada vez mais seletiva. Mas há algo de politicamente diabólicono processo de seleção posto em prática: em cem, assimila trinta; só queos trinta são os mais capazes. O que acabou foi a incapacidade, pré-capitalista, que essa economia tinha de cooptar os melhores. Se é certo que não há (ou há muito pouca) tradição revo-lucionária no Brasil, é nítido que havia uma tradição de rebeldia nascida ealimentada nos setores intelectualizados da pequena burguesia brasileira(profissionais liberais, estudantes, escritores, artistas, políticos, etc.). Emépocas distintas, e com matizes diversos, os contornos dessa linha detradição podem ser traçados com nitidez: vem de Gregório de Matos aPlínio Marcos; está em Castro Alves, mas também está em Augusto dosAnjos; ela está madura, consciente, em Graciliano, e corrosiva, emOswald de Andrade; está em Caetano Veloso, mas já esteve em NoelRosa; esteve em 22, e também no Arena, no Oficina, no Opinião e noCinema Novo, para citar apenas nomes e movimentos ligados à arte. Aironia, o deboche, a boêmia, a indagação desesperada. a anarquia, ofascínio pela utopia, um certo orgulho da própria marginalidade, o apetitepelo novo são algumas marcas dessa nossa tradição de rebeldiapequeno-burguesa. Hoje é possível perceber que essa rebeldia era frutoda incapacidade que os diversos projetos colonizadores sempre tiveramem assimilar amplos setores das camadas médias e dar-lhes uma funçãodinâmica no processo social. O que estava reservado ao intelectualpequeno burguês antes do período a que estamos nos referindo? Ojornalismo mal pago, o funcionalismo público, uma cadeira de professorde liceu, o botequim. a utopia, a rebeldia. Por falta de função ele eraposto à margem. Até muito pouco tempo eram muito poucas as opçõesdo estudante universitário — tudo era criado fora, o carro, a geladeira e 4 www.oficinadeteatro.com
  5. 5. a ideologia. Assim, o sistema econômico não tinha como assimilar acapacidade criadora dos melhores quadros da pequena burguesia queficavam colocados, perigosamente, no limite da rebeldia, O que aconteceagora, inversamente, é que a radical experiência capitalista que se fazaqui começa a dar sentido produtivo à atividade dos setores intelec-tualizados da pequena burguesia: na tecnocracia, no planejamento,, nosmeios de comunicação, na propaganda, nas carreiras técnicasqualificadas, na vida acadêmica orientada num sentido cada vez maispragmático, etc. O disco, o livro, o filme, a dramaturgia, começam a serprodutos industriais. O sistema não coopta todos porque o capitalismo é,por natureza, seletivo. Mas atrai os mais capazes. Assim, ao contrário de imobilidade, houve um significativomovimento nas relações entre as classes sociais, cujo eixo foi a classemédia brasileira, assimilada por uma economia cuja forma deacumulação dominante é não apenas capitalista, mas também se dá numquadro de dependência, o que a torna ainda mais predatória, para os queficam à margem, mas intensifica a participação dos que são incluídos emseu processo. O inconformismo e a disponibilidade ideológica de setoresda pequena burguesia foram, em muitos momentos de nossa história,instrumentos de expressão das necessidades das classes subalternas.Amortecendo-os, as classes dominantes produziram o corte queseccionou a base dos segmentos superiores da hierarquia social.Isoladas, às classes subalternas restou a marginalidade abafada, contida,sem saída. Individualmente, ou em grupo, um homem capaz, ou umaelite das camadas inferiores pode ascender e entrar na ciranda. Comoclasse, estão reduzidas à indigência política. Procuremos, agora, fazer a distinção necessária entre capitalismo 5 www.oficinadeteatro.com
  6. 6. e autoritarismo. Se o segundo foi condição para a consolidação doprimeiro, é indispensável perceber que estamos diante de categoriasdistintas e, a esta altura, em certo grau, contraditórias. Há um conflitonítido, hoje, entre a complexidade e diversidade de interesses destasociedade, e o Estado inflexível, estreito, que a está dirigindo e ajudou aimplantá-la em passado recente. O centro da crise política que as classesdominantes estão vivendo hoje, no Brasil, é este: como criar formas deconvivência política entre interesses tão diversos e, em muitos casos,contraditórios, mantendo as classes subalternas em estado de relativaimobilidade. Enquanto a tão solicitada imaginação criadora dos políticosnão resolve o dilema, a crise se aprofunda, com as cabeças mais lúcidasdo sistema pedindo afrouxamento do cinto. O capitalismo, agora, precisade um Estado mais aberto porque já foi capaz, na prática, de assimilar osfocos de rebeldia. Ao mesmo tempo, se a abertura chegar ao pessoal láde baixo... Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come. Gota D’Água, a tragédia, é uma reflexão sobre esse movimentoque se operou no interior da sociedade, encurralando as classessubalternas. É uma reflexão insuficiente, simplificadora, ainda perplexa,não tão substantiva quanto é necessário, pois o quadro é muito complexoe só agora emerge das sombras do processo social para se constituir notraço dominante do perfil da vida brasileira atual. De tão significativo, oquadro está a exigir a atenção das melhores energias da cultura brasi-leira; necessita não de uma peça, mas de uma dramaturgia inteira.Procuramos, pelo menos, diante de todas as limitações. olhar a tragédiade frente, enfrentar a sua concretude, não escamotear a complexidadeda situação com a adjetivação raivosa e vã. A segunda preocupação do nosso trabalho é com um problema 6 www.oficinadeteatro.com
  7. 7. cultural, cuja formulação ajuda a compreender o que foi dito acima: opovo sumiu da cultura produzida no Brasil — dos jornais, dos filmes, daspeças, da tv, da literatura, etc. Isolado, seccionado, sem ter onde nemcomo exprimir seus interesses, desaparecido da vida política, o povobrasileiro deixou de ser o centro da cultura brasileira. Ficou reduzido àsestatísticas e às manchetes dos jornais de crime. Povo, só como exótico,pitoresco ou marginal. Chegou uma hora em que até a palavra povo saiude circulação. Nossa produção cultural, claro, não ganhou com o sumiço. A partir da década de 50 um contingente cada vez maior daintelectualidade foi percebendo que a classe média de um país como onosso — colonizado, desviado do controle sobre seu próprio destino —vive dilacerada, sem identidade, não se reconhece no que produz, no quefaz e no que diz. Ela só tem chance de sair da perplexidade quando sedescobre ligada à vida concreta do povo, quando faz das aspirações dopovo um projeto que dê sentido à sua vida. Isso porque o povo, mesmoexpropriado de seus instrumentos de afirmação, ocupa o centro darealidade — tem aspirações, passado, tem história, tem experiência,concretude, tem sentido. É, por conseguinte, a única fonte de identidadenacional. Qualquer projeto nacional legítimo tem que sair dele. Poucomais de quinze anos de democracia foram capazes de gerar o processode intercomunicação entre as classes sociais não comprometidas com aexpropriação da riqueza nacional e um setor cada vez mais amplo daclasse média se unia às camadas populares para formar um perfil dopovo brasileiro ideologicamente mais complexo. Povo deixava de ser,assim, o rebanho de marginalizados; politicamente, povo brasileiro eratodo indivíduo, grupo ou classe social naturalmente identificados com osinteresses nacionais. Em contato direto com as classes subalternas, a 7 www.oficinadeteatro.com
  8. 8. intelectualidade, raquítica e litorânea, ia percebendo que era, também,povo, isto é, que tinha uma história a fazer, uma realidade paratransformar à sua feição, tinha responsabilidades, aliados, tinha, enfim,sentido. A aliança resultou numa das fases mais criativas da culturabrasileira, neste século. Foi daí que saiu a nossa melhor dramaturgia,que vai de Jorge Andrade a Plínio Marcos, passando por Vianinha,Guarnieri, Dias, Callado, Millor, Boal, etc.; dessa aliança saíram o Arena,o Oficina, o Opinião; saiu o Cinema Novo; saiu a melhor música popularbrasileira; o pensamento econômico amadureceu; nasceu uma sociologiainteressada em descobrir saídas para o impasse do terceiro mundo e nãoapenas preocupada em catalogar aspectos pitorescos e idiossincrasias dopovo. A partir de 64, a pressão de duas forças convergentes interrompeuo processo: o autoritarismo, impedindo o diálogo aberto daintelectualidade com as camadas populares; e a acelerada modernizaçãodo processo produtivo, assimilando e dando um caráter industrial,imediato, à produção de cultura. A interrupção deixou a cultura brasileirano ora-veja. Artistas, escritores, estudantes, intelectuais, arrancados dopovo, a fonte de concretude de seu trabalho criador, caíram naperplexidade, na indecisão, no vazio, mazelas conhecidas da classemédia, quando fica reduzida à sua impotência. O desespero, oesteticismo, a omissão, o povo folclorizado, a importação devanguardismo, o deboche, o auto-deboche foram alguns sintomasnascidos da falta de substância social (de povo) na cultura brasileira.Agora que a experiência de todos esses anos já nos permite umaavaliação, fica cada vez mais claro que nós temos que tentar, de todas asmaneiras, a reaproximação com nossa única fonte de concretude, desubstância e até de originalidade: o povo brasileiro. Esta deve ser uma 8 www.oficinadeteatro.com
  9. 9. luta, de modo particular, do teatro brasileiro. É preciso, de todas asmaneiras, tentar fazer voltar o nosso povo ao nosso palco. Do jeito queestiver ao alcance de cada criador: com o show, a comédia de costumes,o esquete, a revista, com a dramaturgia mais ambiciosa, como se puder.O fundamental é que a vida brasileira possa, novamente, ser devolvida,nos palcos, ao público brasileiro. Esta é a segunda preocupação de GotaD ‘Água. Nossa tragédia é uma tragédia da vida brasileira. A nossa terceira e última grande preocupação está refletida naforma da peça. No auge da crise expressiva que o teatro brasileiro tematravessado, a palavra deixou de ser o centro do acontecimentodramático. O corpo do ator, a cenografia, adereços, luz, ganharamproeminência, e o diretor assumiu o primeiríssimo plano na hierarquia dacriação teatral. As mais indagativas e generosas realizações desse período têmcomo característica principal a ascendência de estímulos sonoros evisuais sobre a palavra. As causas do fenômeno são conhecidas, masgostaríamos de chamar a atenção para uma delas, apenas pressentida:ao lado de todas as pressões amesquinhadoras, que tornaram impossívela encenação do discurso dramático claro sobre a realidade brasileira,uma fobia pela razão ia tomando conta de nossa criação teatral. Eraimprovável que se tratasse de uma crise da razão, num país como este,com tudo por ser feito, e estruturado de forma tão irracional que a lógicamais estreitamente cartesiana tem eficácia como instrumento depercepção. O que aconteceu, na verdade, é que as transformações foramse acumulando no interior da sociedade sem que a cultura, posta àmargem, se desse conta. Até um ponto em que o processo social ficoumuito mais complexo do que a cultura era capaz de entender e formular. 9 www.oficinadeteatro.com
  10. 10. E este passou a ser o centro da crise da cultura brasileira: criou--se umabismo entre a complexidade da vida brasileira e a capacidade de suaelite política e intelectual de pensá-la. O desespero, o deboche, a super-valorização dos sentidos, etc. — que tomaram conta do nosso melhorteatro em anos recentes — a partir de determinado momento deixaramde ser substitutivos conscientes do realismo policiado e passaram a ser,no plano teatral, a expressão da incapacidade de nossa cultura deperceber e formular, em toda a sua complexidade, a sociedade brasileiraatual. Claro que a estreiteza dos limites impostos à criação cultural, noBrasil, é a grande responsável pela crise, mas nós nos iludimos se nãoreconhecemos que, a partir de determinado momento, houveincapacidade real de pensar nossa realidade. Agora o quadro vai semodificando. Principalmente a partir dos últimos dois anos. A economia,a sociologia, a ciência política, setores da produção cultural voltados paraa reflexão, começam a se pronunciar. Celso Furtado, Fernando HenriqueCardoso, Luciano Martins, Antônio Cândido e tantos outros começam apublicar livros e ensaios estimulantes. O jornalismo político tem dadouma colaboração valiosa. Os ciclos do Casa Grande deflagraram o apetitepelo debate. E surge uma forma insuspeitada de análise da sociedade: atese de doutoramento. Podemos citar, apenas para dar um exemplo davariedade e da eficácia do novo instrumento, as teses ideologia daCultura Brasileira, de Carlos Guilherme Mota, Os Bóia-frias, de Maria daConceição, Capitalismo e Marginalidade na América Latina, de LúcioKowarick, A Expressão Dramática do Homem Político em Shakespeare,de Bárbara Heliodora, etc. Aos poucos a sociedade, que estava emsombras, vai ganhando contornos mais nítidos e a cultura brasileiracomeça a aprofundar a sondagem. Podemos, agora, pelo menos, tentar 10 www.oficinadeteatro.com
  11. 11. avaliar. A forma que nós encontramos para refletir esse ânimo foievidenciar a necessidade da palavra voltar a ser o centro do fenômenodramático. Não foi a razão que fracassou no nosso caso; quem fracassoufoi nossa racionalidade estreita. Agora é preciso reinstrumentalizá-la. Alinguagem, instrumento do pensamento organizado, tem que serenriquecida, desdobrada, aprofundada, alçada ao nível que lhe permitacaptar e revelar a complexidade de nossa situação atual. A palavra,portanto, tem que ser trazida de volta, tem que voltar a ser nossa aliada.Nós escrevemos a peça em versos, intensificando poeticamente umdiálogo que podia ser realista, um pouco porque a poesia exprime melhora densidade de sentimentos que move os personagens, mas quisemos,sobretudo, com os versos, tentar revalorizar a palavra. Porque um teatroque ambiciona readquirir sua capacidade de compreender, tem queentregar, novamente, à múltipla eloqüência da palavra, o centro dofenômeno dramático. Eram essas as nossas preocupações quando começamos atrabalhar em Gota D’Água. Sabemos que nem este empreendimento,nem nenhum outro, isoladamente, tem possibilidade de dar umaresposta definitiva a todas estas questões. Sejam quais forem osresultados artísticos desse trabalho — e temos consciência das suaslimitações — gostaríamos que ele fosse entendido, apenas, como maisuma tentativa, entre tantas que começam a surgir, de reaproximação doteatro brasileiro com o povo brasileiro. Gostaríamos de finalizar agradecendo a tantos amigos que nosajudaram: Bibi, Ratto, Zuenir Ventura, Ziraldo, Luciano Luciani, DoryCaymmi, Darwin Brandão, a todo o nosso elenco, e especialmente a 11 www.oficinadeteatro.com
  12. 12. Qduvaldo Vianna Filho que, ao adaptar Medéia para a tv, nos forneceu aindicação de que na densa trama de Eurípedes estavam contidos oselementos da tragédia que queríamos revelar. Rio, 8 de dezembro de 1975 Paulo Pontes — Chico Buarque PERSONAGENS JOANA CREONTE EGEU JASÃO ALMA CORINA CACETÃO 12 www.oficinadeteatro.com
  13. 13. NENÉ ESTELA ZAÍRA MARIA BOCA PEQUENA AMORIM XULÉ GALEGO PRIMEIRO ATO(O PALCO VAZIO COM SEUS VÁRIOS SETS À VISTA DO PÚBLICO;MÚSICA DE ORQUESTRA, NO SET DAS VIZINHAS, QUATROMULHERES COMEÇAM A ESTENDER PEÇAS DE ROUPA LAVADA,LENÇÓIS, CAMISAS, CAMISOLAS, ETC.; TEMPO; CORINA CHEGAAPRESSADA, SENDO RECEBIDA COM ANSIEDADE PELASVIZINHAS.) 13 www.oficinadeteatro.com
  14. 14. CORINANão é certo...ZAÍRAComo é que foi?...ESTELAFoi lá?CORINANão é certo...MARIAEla não melhorou, não?CORINAÉ de cortar coração...NENÉMas e então?CORINANão sei, não dá. certo é que não estáE olhe bem que aquilo é muito mulherZAÍRAEla é bem mais mulher que muito machoESTELAJoana é fogo...MARIAÉ fogo...NENÉJoana é o diachoCORINAPois ela está como o diabo quer 14 www.oficinadeteatro.com
  15. 15. Comadre Joana já saiu ilesade muito inferno, muita tempestadePrecisa mais que uma calamidadepra derrubar aquela fortalezaMas desta vez.., acho que não agüenta,pois geme e treme e trinca a dentaduraE, descomposta, chora e se esconjuraE num soluço desses se arrebentaNão dorme, não come, não fala certo,só tem de esperto o olhar que encara a gentee pelo jeito dela olhar de frente,quando explodir, não quero estar por pertoESTELACulpa daquele muquiranaZAÍRATudo por causa dum JasãoCORINAE além da pobre da Joanatem as crianças...MARIAOnde estão?CORINAMinha filha, só vendoTem resto de comidanas paredes fedendoa bosta, tem bebidacom talco, vaselina, 15 www.oficinadeteatro.com
  16. 16. barata, escova, pentesem dente. E ali, menina,brincando calmamenteco’os cacos dos espelhos,estão os dois fedelhos...É ver sobra de feira,ramo de arruda, espadade São Jorge, bandeirado Flamengo, rasgadapor cima da cadeiraE ali, se lambuzando,não entendendo nada,um pouco se espantandoco’o espanto dos vizinhos,estão os dois anjinhos...É ver um terremotoque só deixa aprumadono lugar certo a fotodaquele desgraçadoposando pro futuroe pra posteridadeE ali, num canto escuro,na foto da verdade,brincando nos esgotos,estão os dois garotos...Os dois abortos...(ENTRA O GALEGO NO SET DO BOTEQUIM, ASSOBIANDO, 16 www.oficinadeteatro.com
  17. 17. LIMPANDO COPO E GARRAFA, À ESPERA DE FREGUESES; SEGUEMAS VIZINHAS)ESTELAConta pra CorinaNENÉDeixa eu guardar a boca pro feijãoZAÍRAFala, Nenê...CORINAQue foi?...NENÉÉ nada nãoMARIAConta Nenê...CORINAO que é que foi, menina?NENÉFoi com ....... mas foi num outro diaESTELAOntem. Jasão na maior alegriaNENÉO caso é que...CORINASe vem com mais besteiradaquele homem, nem quero escutarJá chega de nhém-nhém-nhém, blá-blá-blá,disse-me-disse, diz-que-diz, zoeira. 17 www.oficinadeteatro.com
  18. 18. Chega, Nenê, pro bem de Joana, esqueçaSenão daqui a pouco o zum-zum-zunidode boca em boca inda chega ao ouvidoda comadre e dali vai pra cabeça,onde fermenta e vira uma amarguraque se despeja no seu coraçãoESTELAEntão deixa, Nenê...NENÉQuem? Eu? Jasão?Se vi Jasão? Nem conheço a figura(TEMPO; ENTRA NO SET DO BOTEQUIM UM VIZINHO CHAMADOCACETÃO; JORNAL DEBAIXO DO BRAÇO, SENTA E PEDE:)CACETÃOGalego! Casco escuro, bem geladaGrande, loura e solteira: sem empada(O GALEGO VAI SERVI-LO,- SIMULTANEAMENTE, NO SET DAOFICINA APARECE O VELHO EGEU, ENXUGANDO AS MÃOS NASCALÇAS, SEGURANDO UMA VÁLVULA DE RÁDIO,- APANHA ORÁDIO E COMEÇA A CONSERTÁ-LO, ENCAIXANDO A VÁLVULA, EMSILÊNCIO, SOZINHO; NO SET DO BOTEQUIM, CACETÃO ABRE OJORNAL E LÊ,- TUDO ISSO É FEITO COM AGILIDADE, PARAAPANHAR O TEMPO EM QUE HOUVE PAUSA NA CONVERSA DEISVIZINHAS QUE AGORA SEGUEM EM SEU SET)CORINAPensando bem, Nené, me conta... 18 www.oficinadeteatro.com
  19. 19. NENÊO que?CORINAMelhor eu saber, que é pra amaciaressa pedrada antes dela pegara comadre de mau jeito...NENÊVocêpediu, lá vai: Jasão co’a outra, maiso pai, ontem, lá na quadra da escolabeberam Old Eight com Coca-Cola,cantaram, pularam e coisas taisFalaram do casamento, os boçaisE convidaram toda a curriolados “Unidos” pro festaço. A vitrolatocou bem alto as marchas nupciaispara antecipar como vai ser a galaOu então só para pintar a caveirade Joana. Jasão dançou noite inteirao seu samba co’a sua noiva. A alados puxa-saco e dos puxa-sacanavarou a noite numa evoluçãoque parecia mais um pelotãosapateando em cima de JoanaEntão...(NENÉ SEGUE FALANDO BAIXO, QUASE EM MÍMICA, EM SEGUNDOPLANO; O BOTEQUIM ASSUME O PRIMEIRO PLANO, CACETÃO 19 www.oficinadeteatro.com
  20. 20. PÁRA UM POUCO DE LER A JORNAL E EXCLAMA:)CACETÃOEssa não. Jóia! Filigrana!Galego, essa é a manchete da semana:fulana, mulher de João de taltinha um ciúme que não é normalVai daí cortou o pau do infelizFerido, o marido foi pro hospitalFicou cotó. .. Vem e lasca o jornal:ciumenta corta o mal pela raiz(RI UMA RISADA ALTA E GOSTOSA; O GALEGO VAI PARA JUNTODELE E, JUNTOS, OS DOIS PASSAM A LER A MATÉRIA EM VOZBAIXA; FAZEM MÍMICA DE QUEM SE DIVERTE MUITO; NO SET DEEGEU, A OFICINA, ENTRA O VIZINHO XULÉ; ESTA AÇÃO VAI PARAPRIMEIRO PLANOXULÉBoa, Egeu...EGEUBoa, amigo...XULÉComo é que é?Vai tudo bem?...EGEUTudo na mesma...XULÉE eu?EGEU 20 www.oficinadeteatro.com
  21. 21. Você? Que é que há? Brigou co’a mulher?XULÉAntes fosse. É o dinheiro, mestre EgeuNão deu de novo...EGEUGrande novidadeXULÉFalhei de novo a prestação da casa...Mas, pela minha contabilidade,pagando ou não, a gente sempre atrasaVeja: o preço do cafofo era trêsTrês milhas já paguei, quer que comprove?Olha os recibos: cem contos por mêsE agora inda me faltam pagar noveCom nove fora, juros, dividendo,mais correção, taxa e ziriguidum,se eu pago os nove que inda estou devendo,vou acabar devendo oitenta e um...Que matemática filha-da-putaEGEUTodo mundo está igual a vocêXULÉNão dá. É todo mês a mesma lutaTem que falar pro homem resolverbaixar um pouco essa mensalidade,senão vou morar debaixo da ponteNão é fácil, mestre Egeu... 21 www.oficinadeteatro.com
  22. 22. EGEUÉ verdadeXULÉAlguém tem que falar com seu CreonteA gente vive nessa divisãoSe subtrai, se multiplica, soma,no fim, ou come ou paga a prestaçãoO que posso fazer, mestre Egeu?...EGEUComaXULÉComo... (SEGUEM MIMICANDO A FALA; EM PRIMEIRO PLANO, AGORA, O BOTEQUIM)CACETÃOIh, Galego, olha só o Jasão... (lê)“Jasão de Oliveira, novo valorde emepebê, promissor autordo êxito ‘Gota d’água’ vai casarco’a jovem Alma Vasconcelos, filhado grande comerciante benfeitorCreonte Vasconcelos...”GALEGOSi seniorCACETÃOVivo, eh...GALEGO 22 www.oficinadeteatro.com
  23. 23. Ese conseguio si arumáCACETÃORetrato no jornal...GALEGOQui maravilhaCACETÃOSabe por que?...GALEGOÉ o sucesso do sambaCACETÃOOu a grana dela?...GALEGONão sei, carambaCACETÂO“As bodas... (SEGUE LENDO; PRIMEIRO PLANO VAI PARA AS VIZINHAS;)ZAÍRA... em homem nunca confieiCORINANão sei como vai ser...MARIADepois ExuCaveira pega esse traste.CORINAEu não seiESTELAComigo eu dava-lhe um tiro no cu 23 www.oficinadeteatro.com
  24. 24. NENÉEu nunca fui de meter o bedelho,mas mulher como Joana não temque juntar com homem mais novo. O velhomarido dela, manso, homem de bem,com salário fixo e um Simca Chamborddava a ela do bom e do melhore ela foi largar o velho. Por que?Por esse frango. Também, quem mandou?CORINANão fale assim da comadre, NenêEla fez o que o coração ditouDeu a Jasão dois filhos, cama e mesa,a coxa retesada, o peito erguidoDeu aquilo que tinha de belezamais aquilo que tinha de sabido,de safado, de gostoso e tesudode mulher. Se deu dez anos de vidae o homem, satisfeito, deixa tudocomo quem deixa um prato sem comidaAgora isso é o que você vem dizer?NENÉEu não falo por falta de amizadeÉ a lei da natureza...ESTELAPode crer,quando homem dá pra ruim, não tem idade 24 www.oficinadeteatro.com
  25. 25. Nenê...MARIAO que Joana passou pr’esse caraera pro cara, nem sei...ZAÍRAEra pr’essecara arrancar os dois olhos da carae dar a ela se ela carecesseum dia de visão...ESTELAPois o Jasãonão tinha nenhuma ambição. Viviaa vida inteirinha entre o violãoe o rabo da saia dela. Até o diaque o rádio tocou seu samba maldito,feito de parceria co o diaboFoi a mosca azul. Já disse e repito:comigo eu dava-lhe um tiro no rabo(AS VIZINHAS SEGUEM FALANDO, EM MÍMICA; XULÉ SAI DAOFICINA E VAI PARA O BOTEQUIM QUE AGORA ASSUME OPRIMEIRO PLANO)CACETÃOXulé! Galego, outro copo...XULÉOi, Cacetão, já?CACETÃOÉ claro, tem que comemorar... 25 www.oficinadeteatro.com
  26. 26. XULÉQue é que há?CACETÃOVocê não lê jornal? Jasão virou notíciajunto com loteria, futebol, sevícia,leno e latrocínio, desastre da Central...Xulé, eu sou gigolô desde que me chamoCacetão. Já vi de tudo cá no meu ramoMas um baú como esse, nunca vi igualXULÉQue é isso? Jasão é bom menino...CACETÃOPessoalXULÉInveja do Cacetão...CACETÃOUm brinde especialao único de nós, fodidos, sem escolha,que, num ato de impetuosidade e bravura,penetrou firme no reinado da farturagraças ao vigor e à retidão de sua trolha(SOLTAM GARGALHADAS, BEBEM, ENQUANTO O PRIMEIRO PLANOPASSA PARA O SET DAS VIZINHAS)ESTELAÉ destino...ZAÍRA 26 www.oficinadeteatro.com
  27. 27. A pessoa já nasce avisada!Vai sofrer. Olha que vai sofrer. E o que faz?A pessoa vai e sofre...MARIAÉ carta marcadaNENÉNão há beleza nem esperteza capazde resistir à natureza...CORINAIsso é que nãoNão, não e não. Repare a cor dos meus cabelosA boca amarga com seis dentes amarelosA bunda que caiu e a falta de tesãoO peito que bichou e a pomba que é um bagaçoAs varizes da perna e as pelancas do braçoFoi só a natureza, foi fatalidade?Pois sim, Nenê. Que idade hoje você me dá?Sessenta? Errou. Quarenta e três por completarAs damas das novelas e da sociedadeaos cinqüentinha fazem pose no jornale mostram a barriga no MunicipalVocê, Nené, quanto é que tem?...(SEGUEM MIMICANDO; PRIMEIRO PLANO PASSA PARA A OFICINAONDE JÁ ESTÁ O VIZINHO AMORIM; EGEU FALA SEMPRE SEMPARAR DE CONSERTAR UM RÁDIO)AMORIMXulé, meu tio 27 www.oficinadeteatro.com
  28. 28. Dé, Zazueira, Pipa, Amaro, Cacetão,Esmeraldino, Getúlio, Cazuza. Fio,ninguém mais paga. Nem São Cosme e DamiãoPor que é que eu vou pagar sem ter? Não pago nãoEGEUÉ fogo...AMORIMMas será que eu vou ter que perderos dois anos que já paguei de prestação?O corno velho do Creonte vai saberque não pago e me bota na rua...EGEUEntãome escuta.AMORIMMestre Egeu, você pode dizero que pensa, já que é dono de teto e chãoDono do seu nariz, não tem nada a perderTem a oficina e tudo o que está dentro delaEntão fala correio, justo, dá conselhosMas eu devo tijolo, cal, porta e janelaAcho que não sou dono nem dos meus pentelhosEGEUVocê tem razão... (Um tempo)AMORIMMestre Egeu, por caridade 28 www.oficinadeteatro.com
  29. 29. me responda... (PRIMEIRO PLANO PARA BOTEQUIM)XULÉSe você quer que eu lhe respondaO que é que eu penso, co’a maior honestidade,ele está certo, tem que aproveitar a ondaÉ bom menino, sabe o que é necessidade,faz bem em se casar co’a filha do CreonteE assim que estiver sentado bem à vontadeà direita de Deus Pai, talvez nos desconteum pouco de dívida e da mensalidade (PRIMEIRO PLANO PARA VIZINHAS)CORINAPois eu digo a vocês... (PRIMEIRO PLANO PARA BOTEQUIM)CACETÃOVocê acha? Que nada (PRIMEIRO PLANO PARA VIZINHAS)CORINAEu tenho medo. Estou lembrando de suas mãos (PRIMEIRO PLANO PARA BOTEQUIM)CACETÃOHein, Xulé?... (PRIMEIRO PLANO PARA VIZINHAS)CORINA 29 www.oficinadeteatro.com
  30. 30. Aquelas mãos... cada garra afiada pro bote... (PRIMEIRO PLANO PARA BOTEQUIM)CACETÂOE o dote? Reparte aqui co’os irmãos? Aqui, ó... (PRIMEIRO PLANO PARA VIZINHAS)CORINASem falar no olhar que já faleiNENÉMas você acha que ela vai fazer besteira? (PRIMEIRO PLANO PARA BOTEQUIM)CACETÃOTu acha que ele vai nos ajudar?...Primeiro plano para vizinhasCORINA Não sei (PRIMEIRO PLANO PARA VIZINHAS)XULÉNão sei...CACETÃOAcha, Galego?...GALEGONo se...CACETÃOBrincadeiraXULÉTambém não é crime, Jasão mudar de classe 30 www.oficinadeteatro.com
  31. 31. É mudar de time... Ele é dono do seu passeGaranto que você, Cacetão, se passassepro lado de lá, lembrava aqui do pessoalCACETÃOAqui, ó! Fodido, quando dá uma cagada,progride, vai ao futebol de arquibancada,já senta, se bem que co’a bunda quadradae fica ao lado da tribuna especiale fica olhando pra cadeira almofadadaFica odiando aquela gente bem sentadaE no auge da revolta, faz o que? Faz nada,joga laranja na cabeça da geral(OS DOIS GRUPOS PARAM UM TEMPO E MEDITAM; DEPOISRETOMAM SUAS ATIVIDADES, ENQUANTO O PRIMEIRO PLANOPASSA PARA A OFICINA)EGEUPois eu vou te dizer: se só você não pagavocê é um marginal, definitivamenteMas imagine só se, um dia, de repenteninguém pagar a casa, o apartamento, a vagaComo é que fica a coisa? Fica diferenteFica provado que é demais a prestaçãoEntão o seu Creonte não tem soluçãoOu fica quieto ou manda embora toda a genteCachorro, papagaio, velho, viúva, filha...Creonte vai dizer que é tudo vagabundo?E vai escorraçar, sozinho, todo mundo? 31 www.oficinadeteatro.com
  32. 32. Pra isso precisava ter outra virilhaNão é?...AMORIMTem boa lógica...EGEUFalei?...AMORIMSei não(AMORIM SAI DO SET DA OFICINA; MESTRE EGEU VOLTA AO SEURÁDIO; PRIMEIRO PLANO PASSA PARA O SET DAS VIZINHAS)ESTELAEntão pode deixar que eu lavo a roupa delaZAÍRATambém pode deixar que eu faço a arrumaçãoNENÊEu frito um ovo, inda tenho arroz na panelaMARIAFalo com Xulé pr’ele falar com Jasão?CORINANão, isso eu falo com Egeu. Pode deixarFoi ele quem comprou o leite dos pequenosESTELAEntão vai lá, diz que nós vamos ajudarAssim quem sabe se ela desespera menosCORINAEu vou... 32 www.oficinadeteatro.com
  33. 33. (CORINA SAI; AS VIZINHAS SEGUEM TRABALHANDO; NO SET DAOFICINA, EGEU LEVANTA A CABEÇA E VÊ PASSAR, AO LARGO, UMVIZINHO CHAMADO BOCA PEQUENA)EGEUOi, Boca...BOCAMestre Egeu...EGEUBoca, vem cáBOCAFaz uns dezoito anos que eu passo na suaporta e mestre Egeu está sempre trabalhandoEGEUEu não nasci feito você, co’o cu pra luaBOCA (ri)Então vamos tomar um trago, estou pagandoEGEUNão, hoje não dá...BOCAQue é isso, vamos...EGEUDá nãoBOCADá sim. Vamos beber à sorte de JasãoAquele sim, nasceu co’ o cu pra lua. Estápra se casar co’a filha do rei. Vamos láEGEU 33 www.oficinadeteatro.com
  34. 34. Não dá...BOCATá bem... (faz menção de sair)EGEUBoca Pequena, eu te chameiporque o pessoal passou aqui... bem...eu não sei...Como é que tá a grana este mês?...BOCATou levandoEGEUSabe o que é? Todo mundo aqui tá reclamando...BOCAMas eu já dei o dinheiro da Associação...EGEUIsso eu sei... Ninguém tem grana é pra prestaçãoBOCAÉ, tem que se virar...EGEUPois é, Boca PequenaTá todo mundo pendurado. Uma centenade famílias sem poder pagar. Mas vocêé um dos poucos que se arranja, não sei porque...BOCAEu sou esparro de boate de turista,carregador de uísque de contrabandista, 34 www.oficinadeteatro.com
  35. 35. vice-camelô, testemunha de punguista,sou informante de polícia, chantagista,mas vigarista nenhum diz que eu não prestodesde que, como todo cidadão honesto,no fim do mês pago as minhas contas à vistaEGEUJá pagou a casa esta vez?...BOCAJá separeiporque é sagrado. Como santo em procissãoNão precisa pedir pra fazer o que seique é meu dever...EGEUPelo contrário: pague nãoBOCAQue que é isso, mestre, eu sou madeira de leiEGEUPois ouça, Boca, não pague nem um tostãoSe ninguém paga, é que não tem de onde tirarSe você paga, vai tirar toda a razãode quem tem todas as razões pra não pagarBOCAQue merda, mestre...EGEUMerda sim ou merda não?(BOCA PEQUENA FICA UM TEMPO COÇANDO A CABEÇA; DEPOISDE HESITAR UM POUCO, APERTA A MÃO DE EGEU E PARTE PARA O 35 www.oficinadeteatro.com
  36. 36. SET DO BOTEQUIM; MESTRE EGEU RETOMA SEU TRABALHO,CONSERTANDO O RÁDIO; PRIMEIRO PLANO PARA O SET DASVIZINHAS ONDE CORINA ESTÁ CHEGANDO)CORINANão é certo... não pode...ESTELAQue é que deu?CORINAEla nem quer ajuda... ensandeceuZAÍRAQue?...MARIAPiorou...NENÉComo?...CORINAAquele boatoFoi num desembalo, a cavalo, a jatoO fato é que Joana já recebeunotícia da tal comemoraçãoSabe cada detalhe mais do que euO talhe do terno azul de Jasão,o samba, a noiva, as risadas que deu,que nem visse pela televisãoDaí, ah, meu Deus...ZAÍRAQue é que aconteceu? 36 www.oficinadeteatro.com
  37. 37. CORINAA comadre... é de cortar coração...MARIAFala, mulher...CORINADisse que agradecia,mas de faxina ela não carecia,nem de comida e roupa, nem de dóE que de mim queria um favor sóBotou aquele olho em cima de mim,tragou o cuspe e perguntou assim:Corina, se eu morrer, você e Egeuolham meus filhos?NENÉVocê respondeuque sim? Que ela ficasse descansada?CORINAMas como, Nené, eu dizer: “Queridacomadre, morra em paz, não pense em nadaTome tranqüilamente o formicida,calmamente meta a faca no umbigoe dê simplesmente um basta na vidaque as crianças vão ficar bem comigo?”ESTELASe eu pego quem contou a safadezapra Joana... comigo era um cara mortoEnfiava-lhe a fuça no meio-fio, 37 www.oficinadeteatro.com
  38. 38. abria-lhe as pernas com chave inglesa,afudava-lhe uma vela no lorto,depois tocava fogo no pavioCORINATem mais: agora vieram me mostrarJasão saiu co’a cara no jornaldizendo: ficou noivo e vai casarZAÍRAHoje?...CORINAHoje nas bancas, o maioralMARIAMelhor ela não ver...NENÉSe já não viuCORINAViu não...ESTELANão falta quem queira entregarCORINAO jornal esgotou nem bem saiu...Deviam ter pudor e nem olhara cara do descarado estampadadeste tamanho, assim, mandando brasa,enquanto ela.., não é certo, coitadaMARIAEu não quero ver. E na minha casa 38 www.oficinadeteatro.com
  39. 39. esse jornal não entra...ZAÍRAEu digo mais:uma amiga de Joana, na batata,que puser as mãos num desses jornais,eu quero que lhe dê uma catarata,gota serena nos olhos...NENÊMulhernão tem amiga...CORINAEu trouxe um. Quem quer ver?ESTELAHein?...ZAÍRAQue?...MARIAMostra...NENÉO que diz...CORINA (Tira um jornal debaixo da saia)Pra quemquiserAchei mesmo que alguém ia querer(AS VIZINHAS ABREM E DISPUTAM O JORNAL AVIDAMENTE;QUANDO COMEÇAM A LER, ENTRA BOCA PEQUENA NO SET DOBOTEQUIM QUE PASSA PARA PRIMEIRO PLANO) 39 www.oficinadeteatro.com
  40. 40. CACETÃOSaravá, Boca...BOCAPessoal...XULÉOi, vá sentandoe vá bebendo que Cacetão tá pagandoBOCAEsse mês a viúva já deu dividendo?GALEGOMás um copo?...XULÉFala, Boca...CACETÃOJá tá sabendo?BOCADe que?...CACETÃODo jornal...BOCAQue jornal?...CACETÂOEssa não.Elenão sabe da maior fofoca da cidade!Logo o Boca Pequena, rei da novidadepor fora dessa? Boca não é mais aquele... 40 www.oficinadeteatro.com
  41. 41. BOCAEspera aí, tenho uma boa: mestre Egeu,quando estive na oficina, me perguntou:a prestação da casa, Boca, já pagou?Eu disse: é claro. E sabe o que ele rebateu?Que a prestação é uma cobrança exagerada...CACETÂOQue nova...BOCAE que quem paga a casa é um bom calhorda!XULÉA gente já discutiu o caso e concorda —menos Galego, que o gringo não é de nada— que mestre Egeu está por dentro da questãoGALEGOQuien quere uma empanada?...CACETÃOEmpada não, meusaco...Você, Boca, de fofoca anda muito fraco (mostra o jornal)Tá aqui a boa, olha o focinho do Jasão(BOCA OLHA O JORNAL COM INTERESSE ENQUANTO O PRIMEIROPLANO PASSA PARA AS VIZINHAS)ESTELAMas quem diria! A boneca.., a pinta do divo...Levou dez anos pra fazer uma canção,de repente é o compositor revelação. 41 www.oficinadeteatro.com
  42. 42. Antes de Joana ele era a merda em negativo (PRIMEIRO PLANO PARA O BOTEQUIM)BOCAEu sempre disse: esse menino é positivoTem simpatia, bossa e comunicaçãoAMORIMEle nunca foi de muita escola e lição,mas é auto-didata, um cara intuitivo,lê livro, jornal grosso, é inteligente, vivo...Tá mais pra Rui Barbosa que pra Cacetão (PRIMEIRO PLANO PARA AS VIZINHAS)ZAÍRANão fosse um dia Joana lhe dar uma mãoe ele seria um pobre diabo inofensivo (PRIMEIRO PLANO PARA O BOTEQUIM)XULÉO samba de Jasão é coisa muito séria,Cacetão, não é pra babar de inveja, nãoMas um sambista com tamanha inspiraçãomerece tirar a barriga da miséria (PRIMEIRO PLANO PARA AS VIZINHAS)ZAÍRAEsse moleque Jasão nunca me enganouSe melhorou de vida não era pra daralguma boa vida pra Joana?... (PRIMEIRO PLANO PARA O BOTEQUIM)XULÉ 42 www.oficinadeteatro.com
  43. 43. Tiraros pés da lama, ele está certo, já tirouÉ moço, tem que aproveitar a ocasiãoSe não, fica afundando aqui o resto da vidaQuem nasce nesta vila não tem mais saída,tá condenado a só sair no rabecãoou no camburão... (PRIMEIRO PLANO PARA AS VIZINHAS)CORINAParte, Jasão, pra banqueteda meia-dúzia. Vai, come e bebe e vomitae come e bebe e esquece e cospe na marmitados que eram teus... (PRIMEIRO PLANO PARA O BOTEQUIM)CACETÃOE os filhos? E a mulher, cacete!AMORIMTrepado nas ancas de mãe Joana ele iaser o que? Outro mestre Egeu? Aqui, garanto:qualquer um, para sair desta merda, vendiaa mãe, a mulher, pai, filho e Espírito Santo (PRIMEIRO PLANO PARA AS VIZINHAS)CORINATá calada, Nenê?... (PRIMEIRO PLANO PARA O BOTEQUIM)GALEGOYo no me meto en briga 43 www.oficinadeteatro.com
  44. 44. entre mulher y hombre... (PRIMEIRO PLANO PARA AS VIZINHAS)CORINAVamos, Nenê, diga!NENÊNão sei não... Não sei tirar uma conclusãoSó sei de uma coisa: homem novo, não sei não..(PRIMEIRO PLANO PARA O BOTEQUIM, ONDE JÁ SE OUVEM OSPRIMEIROS ACORDES E O RITMO DE UMA EMBOLADA)CACETÃO (Cantando)Depois de tanto confeteUm reparo me competePois Jasão faltou à éticaDa nossa profissãoGigolô se comprometePelo código de éticaA manter a forma atléticaA saber dar mais de seteA nunca virar gileteA não rir enquanto meteNem jamais mascar chicleteDurante sua funçãoMas a falta mais violentaSujeita a pena cruentaÉ largar quem te alimentaDo jeito que fez JasãoVeja a minha ficha isenta 44 www.oficinadeteatro.com
  45. 45. Tenho alguém que me sustentaQue já passou dos sessentaQue mais de uma não agüentaQue desmonta quando sentaQue é careca quando ventaE este amigo se apresenta.Domingo sim, outro nãoNão é virtude nem vícioÉ um pequeno sacrifícioÉ um músculo do ofícioEm constante prontidãoFecho os olhos e, virilTomo ar, conto até milPenso na miss BrasilE cumpro co’a obrigação(GARGALHADAS GERAIS NO FINAL DA EMBOLADA; A ORQUESTRAEMENDA NOVO RITMO E NOVA MELODIA PARA VIZINHOS EVIZINHAS CANTAREM E DANÇAREM CONFRONTANDO-SE ENTRESI; NÚMERO MUSICAL ENCERRA COM ORQUESTRA DIMINUINDO;OS PROTAGONISTAS DESSE NÚMERO SAEM DE CENA; LUZ VAISUBINDO EM RESISTÊNCIA APENAS NO SET ONDE ESTÃO JASÃOE ALMA, SUA NOIVA; NO CENTRO DESSE SET, UMA CADEIRA IM-PONENTE, MUITO TRABALHADA, QUASE UM TRONO; O TRONOESTÁ VAZIO, ALMA SENTADA NO CHÃO E JASÃO DEITADO COM ACABEÇA NO COLO DELA)ALMAVocê já sofreu muito, a gente vê no rosto 45 www.oficinadeteatro.com
  46. 46. Debaixo dos olhos tem muito sobressaltoAqui na testa, quando franze, bem no alto,aparece uma linha feita de desgostoA boca, que já é muito desajeitada,entorta quando ri, como se uma metadefosse feliz e a outra tivesse vontadede chorar, igual a uma criança enjeitadaque quer tudo...JASÃOEu sempre quis um dente douradoO que mais?...ALMADepois tem o queixo...JASÃOO que é que tem?ALMAO queixo não é lá muito feliz tambémAcho que ele não está muito bem centradoTem uma marca, não chega a ser cicatriz,que faz o rosto ficar mais desamparadoJASÃONariz deixa comigo, está sempre gripadoALMAParece feito a régua, o traço do nariz,apontando pros olhos que eu deixei pro fimSabe por que?...JASÃO 46 www.oficinadeteatro.com
  47. 47. É o mau olhado, com certezaALMAPorque seus olhos não têm nada de tristezanem de sofrimento.Aliás, sofrimento sim,sofrimento bom, que vem de não suportartanta ansiedade incendiando o coração,tanto desejo represado. Olha, Jasãoa gota d’água do seu samba é o seu olharfervendo, borbulhando, contagiando a genteQuando a água dos seus olhos transbordar um tantovai ser mais uma gargalhada do que um prantoe em vez de lágrimas, vai correr aguardenteJASÃOMeus olhos são assim?...ALMAEu cuido de vocêEu trato de fazer você chorar...JASÃOO quê?ALMAVocê tem que chorar e rir e se entregarVocê não tem o direito de se esconderda felicidade, que ela não aparecetodo dia, nem pra qualquer um. Vou cuidarde você, tá?... 47 www.oficinadeteatro.com
  48. 48. JASÃOTá, Alma, o que você quiserALMAEntão, pra começar, vê se você esquecetudo o que é passado, esquece aquela mulherJASÃONão fala assim...ALMAVocê está com medo...JASÃONão diz“aquela mulher”, ela foi boa pra mimALMAVocê tem medo...JASÃOQue medo?...ALMADe ser felizViveu co’a desgraça, gostou, não está a fimde melhorar. Essa mulher é uma raizpregada nos seus pés...JASÃOAlma, não fala assimALMATá bom. Então diz que não gosta dela, sim?E que gosta de mim...JASÃO 48 www.oficinadeteatro.com
  49. 49. Eu gosto de vocêALMASabe, hoje estive lá no nosso apartamentoVocê precisa ver, já estão no acabamentoJá colocaram todos os vidros fumênas esquadrias de alumínio.E a fachada do prédio ficou bem moderna,liberty, colonial e clássica. Puseram lambride madeira com mármore no hall de entradaO elevador todo forrado de veludoficou uma graça, apesar de esquentar um poucoMas entrando em casa é que você fica loucoco’o espaço das peças, a claridade, tudoO chão está brilhando de sinteco, amorVocê está me ouvindo?...JASÃOSei...ALMASala de jantar,living e a nossa suíte dão vista pro marDos outros quartos dá pra ver o RedentorMas Jasão, você inda não sabe da maiorsurpresa que papai me aprontou. Adivinhaquando eu abri a porta, sabe o que é que tinha?Tudo que é eletro-doméstico: gravadore aspirador, e enceradeira, e geladeira, 49 www.oficinadeteatro.com
  50. 50. televisão a cores, ar condicionado,você precisa ver, tudo isso já comprado,tudo isso já instalado pela casa inteira...Desta vez papai deu uma boa caprichadaJASÃOE precisa disso tudo só pra nós dois?ALMAPor enquanto é só eu e você, mas depoisvem o bebê, vem a babá, vem a empregadae vêm nossos convidados... Estou errada?JASÃONão... não é isso...ALMAVocê fica tão calado,como se estivesse se sentindo culpadoParece até que nossa casa foi roubada...Então pai não pode me dar um presente?JASÃOQue é isso, Alma, não falei nada...ALMAE é pra falar,senão não sei...JASÃOÉ lá que você quer morar?Então tá muito bom pra mim. Fico contentede ver você contente, não quero mais nadaALMA 50 www.oficinadeteatro.com
  51. 51. Estou olhando tudo com tanto carinhoOlha, eu já comecei a arrumar um cantinhosó pra você tocar violão de madrugadaAcha que fiz mal?...JASÃONão, foi bonito lembrarALMAEntão, Jasão, vê se desamarra esse rostouma vezinha só pra mim...JASÃOEu só não gostode deixar este fim de mundo sem levartudo o que sempre foi pra mim a vida inteiraUma alegria ou outra, um pouco de saudade,meus filhos, minha carteira de identidade,cada bagulho, meu calção, minha chuteira,a mesa do boteco, o time de botão,tanto amigo, tanto fumo, tanta biritaque dava pra botar na sala de visitamas ia atrapalhar toda a decoração...(VAI NASCENDO UMA INTRODUÇÃO MUSICAL EM RITMO DESAMBA; JASÃO SEGUE)Sabe, Alma, um samba como “Gota d’água” é feitodos carnavais e das quartas-feiras, das tralhas,das xepas, dos pileques, todas as migalhasque fazem um chocalho dentro do meu peito(Canta, movimentando-se em torno do trono) 51 www.oficinadeteatro.com
  52. 52. Deixa em paz meu coraçãoque ele é um pote até aqui de mágoaE qualquer desatenção— faça, nãoPode ser a gota d’água(REPETE O REFRÃO E A MÚSICA ENCERRA COM JASÃO EMPOSIÇÃO DE SE SENTAR NO TRONO)ALMA (ri)Jasão...JASÃOO que é?...ALMAEscuta o que eu lhe digo:precisa definir seu repertórioOu bem você dança a valsa comigo,ou pula o carnaval no purgatório(ENTRADA SÚBITA DE CREONTE QUANDO JASÃO ESTÁ QUASESENTADO NO TRONO)CREONTEEi... Alma mia, dá um beijo! (beija Alma) Noel Rosa,senta lá que eu quero a minha cadeira (Jasão afasta-se do trono para darlugar a Creonte)Alma, faça o favor, seja bondosa,me deixe só com Jasão. Tem poeiranos olhos dele e eu preciso tirarALMABeijo, pai.. Beijo, amor... (Saí) 52 www.oficinadeteatro.com
  53. 53. CREONTEJá reparouque o rádio não pára mais de tocarseu sambinha?...JASÃOÉ, parece que pegouCREONTEParece que pegou? Tem que pegar!Só tem que pegar. Aprende, meu filho,dessa lição você vai precisarSe você repete um só estribilhono coco do povo, e bate, e martela,o povo acredita naquilo sóAcaba engolindo qualquer baleiaAcaba comendo sabão em póImagine um samba...JASÃOSim, mas pareceque o samba é bom...CREONTEBom? EspetacularEu pago pra tocar porque mereceE continuo fazendo rodarem tudo que é horário...JASÃOEu não pedi,seu Creonte, eu nunca... 53 www.oficinadeteatro.com
  54. 54. CREONTEOra, eu sei que nãoNoel Rosa, eu pago porque logo vique era um samba de boa inspiraçãoe, por que não?, um bom investimentoVocê sabe que eu gosto de ajudarquem não tem recursos e tem talentoNão é porque você vai se casarcom minha filha, que eu não vou dar bolaa genro, nem Alma precisa...JASÃOEu seiCREONTETe ajudo como ajudo o time, a escolae essas famílias que eu sempre ajudeiDou fantasias para o carnaval,dou uniformes para o campeonatoe água pro conjunto habitacionaldesta Vila do Meio-Dia, exato?JASÃOExato...CREONTEMas o que eu quero falarnão é isso. É coisa muito importanteJASÃOSobre Alma?...CREONTE 54 www.oficinadeteatro.com
  55. 55. Não sei como começar(Tempo) Essa cadeira.. . repare um instante...Já viu?...JASÃOQue é que tem?...CREONTEEscute, rapaz,você já parou pra pensar direitoo que é uma cadeira? A cadeira fazo homem. A cadeira molda o sujeitopela bunda, desde o banco escolaraté a cátedra do magistérioExiste algum mistério no sentarque o homem, mesmo rindo, fica sérioVocê já viu um palhaço sentado?Pois o banqueiro senta a vida inteira,o congressista senta no senadoe a autoridade fala de cadeiraO bêbado sentado não tropeça,a cadeira balança mas não caiÉ sentando ao lado que se começaum namoro. Sentado está Deus Pai,o presidente da nação, o donodo mundo e o chefe da repartiçãoO imperador só senta no seu tronoque é uma cadeira co’imaginaçãoTem cadeira de rodas pra doente 55 www.oficinadeteatro.com
  56. 56. Tem cadeira pra tudo que é desgraçaOs réus têm seu banco e o próprio indigenteque nada tem, tem no banco da praçaum lugar para sentar. Mesmo as meninasdo ofício que se diz o mais antigotêm escritório em todas as esquinase carregam as cadeiras consigoE quando o homem atinge seu momentomais só, mais pungente de toda a estrada,mais uma vez encontra amparo e assentonuma cadeira chamada privada (Tempo)Pois bem, esta cadeira é a minha vidaVeio do meu pai, foi por mim honradae eu só passo pra bunda merecidaQue é que você acha?...JASÃOEu não acho nada,quer dizer, nunca pensei.., realmente...Pra mim... cadeira era só pra sentar...CREONTEEntão senta...JASÃOEu? O senhor quer que eu sente?CREONTESenta! (Jasão senta) Muito bem. Eu vou lhe contarSe fosse outro homem eu não deixaria 56 www.oficinadeteatro.com
  57. 57. sentar aí, mas você é quase um sócio,vai casar com Alma e algum dia iriasentar mesmo... Gostou?...JASÃOBom, meu negócioé mais samba, música popular...CREONTEÉ boa? Macia?...JASÃOComo?...CREONTEÉ gostosade sentar?...JASÃOAh, é! Dá pra relaxaro corpo todo...CREONTEMuito bem, Noel RosaUm dia vai ser sua essa cadeiraQuero ver você nela bem sentado,como quem senta na cabeceirado mundo. Sendo sempre respeitado,criando progresso, extirpando as pragas,traçando o destino de quem não tem,fazendo até samba, nas horas vagasPorém.., existe um pequeno porémNão vai ser assim, pega, senta e basta 57 www.oficinadeteatro.com
  58. 58. Primeiro você vai me convencerque tem condições de assumir a pastaJASÃOEu sou compositor...CREONTEDá pra viverde samba?...JASÃOÉ o que eu ia dizer...CREONTEPois nãoJASÃOSabendo fazer, o negócio é bomTem problemas com arrecadação,mas já tá provado que o nosso somtem força no mercado. Então nós vamosmontar uma editora pra controlaros sambas de escola... Depois pegamos...CREONTEIsso. É por aí. Mas só que fuçarem direito autoral dá confusãoEntão por que você não faz como eue não emprega essa imaginaçãotrabalhando só no que vai ser teu?JASÃOEu só...CREONTE 58 www.oficinadeteatro.com
  59. 59. Não é melhor? Fala, rapazJASÃOÉ melhor...CREONTEE então?.JASÃOMas o senhor disse...CREONTEDisse o que?...JASÃOIsso de ser capaz,ter condições.. talvez eu não servisse...CREONTENão! Você tem muita capacidade,que é isso? Só quero estar bem seguroque, no caso de uma necessidade,posso confiar em você. É o futuroda minha obra que vou lhe passarcom todos os seus segredos. Enfim,preciso saber se posso confiarem você, meu rapaz. Posso?...JASÃOPor mimacho que pode, já que Alma é sua filhaCREONTEEntão posso confiar?... 59 www.oficinadeteatro.com
  60. 60. JASÃOPode confiarCREONTEEstá bem, vou lhe ensinar a cartilhada filosofia do bem sentar(A ORQUESTRA ATACA A INTRODUÇÃO COM RITMO BEMMARCADO; ENQUANTO CANTA, CREONTE VAI AJEITANDO JASÃONA CADEIRA)Ergue a cabeça, estufa o peito,fica olhando a linha de fundo,como que a olhar nenhum lugarSeguramente é o melhor jeitoque há de se olhar pra todo mundosem ninguém olhar teu olharMostra total descontração,deixa os braços soltos no are o lombo sempre recostadoAssim é fácil dizer nãopois ninguém vai imaginarque foi um não premeditadoCruza as pernas, que o teu parceirovai se sentir mais impotentevendo a sola do teu sapatoE se ele ousar falar primeirodescruza as pernas de repenteque ele vai entender no ato (A ORQUESTRA INTERROMPE SEU FUNDO MUSICAL E RÍTMICO) 60 www.oficinadeteatro.com
  61. 61. CREONTEPor hoje era o que eu tinha a dizerMas preste atenção que a partir de agoratodo mundo um pouco vai dependerde você. Cuidado que existe horapra ser amigo e pra ser o poderNão queira sair por aí a foradizendo o que pensa. Diga o contrárioEsqueça o nome do seu companheiroe cumprimente o pior salafrário,que ninguém é inútil por inteiroEsteja quase sempre sem horárioe sempre de partida pro estrangeiro...Por falar nisso, sai, vai namorar,Noel Rosa, porque eu tenho o que fazerJASÃO (Levantando-se e saindo)Poxa, nunca imaginei que sentarfosse tão difícil. Bom, aprender...Adeus, seu Creonte, vou me mandarCREONTEAliás, não, espere... Vou lhe fazeruma pergunta. Aquele mestre Egeu...Já que vamos dividir este assento,um trabalhinho já apareceupra você demonstrar o seu talentoAquele Egeu, parece até que é seucompadre... 61 www.oficinadeteatro.com
  62. 62. JASÃOMestre Egeu? É cem por centoCREONTEVocê gosta muito desse sujeito?JASÃOMas claro...CREONTEE ele lhe dá toda a atenção?JASÃOMestre Egeu é meu amigo do peitoMe ensinou a primeira profissãoe batizou meu filho...CREONTEBem, perfeitoVocê vai conversar com ele, entãoVocê me conhece e pode explicarque eu trabalhei suado, honestamentee fiz essas casas pra melhoraras condições de vida dessa genteAgora, quem compra tem que pagar,senão não há santo que me sustenteDiga que pra haver desenvolvimentocada um tem que pagar seu preçoJASÃOSim, mas mestre Egeu...CREONTE 62 www.oficinadeteatro.com
  63. 63. Escute um momentoEgeu, faz muito tempo que eu conheçoe está fazendo muito movimentocontra mim. Você acha que eu mereço?Está mandando o povo sonegaras prestações da casa. E eu fico quieto?Acha que é certo esse povo ficarme enganando debaixo do meu teto?Acha certo morar e não pagar?Diga, rapaz, acha que está correto?(SIMULTANEAMENTE, NUM PLANO DO PALCO QUE CORRESPONDEAO SET DE JOANA, ENTRAM AS VIZINHAS ENTOANDO O REFRÃO(EM BG)VIZINHASComadre JoanaRecolhe essa dorGuarda o teu rancorPra outra ocasiãoComadre JoanaAbafa essa brasaRecolhe pra casaNão pensa mais nãoComadre JoanaRecolhe esses dentesBota panos quentesNo teu coraçãoJASÃO 63 www.oficinadeteatro.com
  64. 64. Acho que não...CREONTEEntão vai como amigoFala manso pra evitar confusãoJASÃOMas, por que mestre Egeu? Ouça o que eu digo:O problema está nessa correçãoTodo mundo na vila está a perigoe todo mundo reclama...CREONTEIsso eu nãodiscuto. Fale co’Egeu. O serviçoestá entregue em tuas mãos. Vocês têmtanta intimidade...JASÃOJusto por issoé que eu ir lá não pega bemCREONTEAh, não? E deixa ele fazer ouriçopra não pagar as casas que tambémsão meio tuas e de minha filha?Se quer fazer papel de otário, fazMas não envolve Alma nessa armadilhaJASÃONão me leve a mal, seu Creonte, maseu tenho outra solução, outra trilhapra contornar o problema... 64 www.oficinadeteatro.com
  65. 65. CREONTERapaz,eu gosto muito de Alma. Ouviu, Jasão?Minha filha não é cu de mãe JoanaNão vai fazer como fez co’a outra, nãoComeu, gozou, depois, feito banana,jogou fora a casca. Presta atenção:a minha filha é filha de bacanaEu dei-lhe de tudo. E co’esse violãovocê não vai dar conta do recadoJASÃOSeu Creonte, não fala assim nãoEu sou homem e sou capacitadoCREONTEEntão assume a nova situaçãoe cumpre co’o dever que lhe foi dado(Um longo tempo; Jasão em silêncio)Entenda, meu rapaz, o que eu não queroé insubordinação e hipocrisiaMas eu tenho sido humano. Toleroque atrasem. Quase ninguém paga em dia,geralmente por motivo sinceroMas dizer “pago não” por rebeldia,acha que é certo? Acha que eu vou deixar?(Jasão se levanta em silêncio e vai saindo)Espera, onde é que você vai?...JASÃO 65 www.oficinadeteatro.com
  66. 66. Eu voufalar com mestre Egeu, vou explicar...CREONTEIsso, vai, rapaz.., e escute, eu não soude vingança, mas quero aproveitaro assunto... Já que a gente cutucoua ferida, deixa sangrar de vezTua... essa mulher que você viveujunto e que não paga a casa faz seismeses...essa mulher... não sei... bem, eusei que ela é mãe dos teus filhos... Talvezseja até mesmo um exagero meuMas tem coisas que não é bom brincarEla é dada a macumba, estou sabendo,tem gênio de cobra, pode criarproblema, eu estou só me precavendo...Não é tua esposa... tem que aceitar...Não sei... Você sabe o que estou dizendo...JASÃOEla tá só nervosa, meio tonta...CREONTEMinha filha não vai casar tranqüilaco’essa mulher tomando ela de pontaEnfim... Vou mandá-la embora da vilaJASÃOSeu Creonte, deixe por minha conta,Joana sossega, eu vou adverti-la 66 www.oficinadeteatro.com
  67. 67. (NO SET DA OFICINA VÊ-SE EGEU QUE FINALMENTE ACABA DEAJUSTAR A VÁLVULA; EM CONSEQÜÊNCIA EXPLODE NO RÁDIO AVOZ DO LOCUTOR)LOCUTOROFF “... que está na boa da cidade inteira:‘Gota d’água’, de Jasão de Oliveira”(ENTRA A MELODIA DO SAMBA; ORQUESTRA SUAVE EM BG;JASÃO VAI SAINDO LENTAMENTE DO SET DE CREONTE QUE FICASOZINHO E COMEÇA RECITAR EM TOM IMPESSOAL)CREONTESou franco — pra minha meninacontava com. coisa mais finaPensava assim... um diplomata,um gerente... um tecnocrata,tenente, major, capitão,político da situação...Quem me dera um capitalistaou quem sabe um psicanalistaPor que não ginecologista?Talvez até mesmo um dentista,qualquer coisa menos sambista,porque Alma não é masoquista e,ora porra, eu não sou leãoQue ela arranjasse um burocratade óculos, terno e gravataBancário, mesário, escrivão,político da oposição! 67 www.oficinadeteatro.com
  68. 68. Um simples assalariado,um mero psicanalisado,Cadete, cabo, reservista,guarda de trânsito paulista,qualquer coisa menos sambistaPois foi ao último da listaque a minha filha deu a mão (ORQUESTRA SOBE COM GOTA D’ÁGUA; OUVE-SE UMA VOZ NA COXIA)VOZ OFFEscuta! É o samba do Jasão!(LUZ NO SET DAS VIZINHAS; UMA LAVA ROUPA QUE ENTREGAPRA OUTRA QUE ESTENDE E QUE ENTREGA PRA OUTRA QUEPASSA, ETC... SEGUINDO O GRITO, UM CORO COMEÇA A CANTARO SAMBA, NA COXIA)VOZES OFFDeixa em paz meu coraçãoQue ele é um pote até aqui de mágoaE qualquer desatenção— faça nãoPode ser a gota d’águaNENÉO sujeito é um grande safadomas fez um sambinha arretado(NENÊ COMEÇA A CANTAR, EM SEGUIDA, UMA A UMA, TODASCANTAM O SAMBA; VÃO CANTANDO E REALIZANDO SEUTRABALHO NUM ESBOÇO COREOGRÁFICO; ESTÃO NO CENTRO DO 68 www.oficinadeteatro.com
  69. 69. PALCO, DOMINANDO TODA A ZONA NEUTRA NÃO OCUPADAPELOS SETS; NO FUNDO DO PALCO VAI APARECENDO JOANA,VESTIDA DE NEGRO, EM SILÊNCIO, LENTAMENTE, OS OMBROSCAÍDOS, DEPRIMIDA, MAS COM O ROSTO ALTIVO E OS OLHOSFAISCANDO; NENÊ PERCEBE PRIMEIRO A ENTRADA DE JOANA ECUTUCA A VIZINHA AO LADO PRA PARAR DE CANTAR; UMA VAIADVERTINDO A OUTRA ATÉ QUE AOS POUCOS FICAM TODAS EMSILÊNCIO, PERMANECENDO APENAS A ORQUESTRA DESENHANDONO FUNDO)CORINADesliga esse rádio!... (Um longo tempo de silêncio; Joana se aproximadas vizinhas)Comadre...ESTELAMelhorou.Joana?...MARIAAssim que eu gosto de ver, já levantou...ZAÍRATá mais aliviada?...NENÉNão tá vendo ela andando?CORINAComadre Joana devia estar repousando,isso sim...JOANAComadre... Eu preciso de vocês 69 www.oficinadeteatro.com
  70. 70. ZAÍRADeixa que amanhã te arrumo a casa outra vezESTELALavo a roupa...MARIAOs pratos...NENÉCozinho pra vocêCORINADiga, comadre, precisa de nós pra que?JOANA (Uma melodia sublinha a fala de Joana)Só agora há pouco, depois de tantotempo acordados, finalmente os doisconseguiram adormecer. Depoisde tanto susto, como por encanto,o rostinho deles voltou a ternão sei não... Parece que de repente,no sono, eles encontram novamentea inocência que estavam pra perderOlhando eles assim, sem sofrimento,imóveis, sorrindo até, flutuando,olhando eles assim, fiquei pensando:podem acordar a qualquer momentoSe eles acordam, minha vida assimdo jeito que ela está destrambelhada,sem pai, sem pão, a casa revirada,se eles acordam, vão olhar pra mim 70 www.oficinadeteatro.com
  71. 71. Vão olhar pro mundo sem entenderVão perder a infância, o sonho e o sorrisopro resto da vida... Ouçam, eu precisode vocês e vocês vão compreender:duas crianças cresceram pra nada,pra levar bofetada pelo mundo,melhor é ficar num sono profundocom a inocência assim cristalizada (Orquestra encerra)CORINANão pensa nisso nem por brincadeira,comadre...ESTELAQue que é isso? Deu bobeira,mulher?...ZAÍRAVamos, esquece, deixa estar,Joana...MARIATranqüila, isso vai passar...JOANACorina, você é minha testemunhaVocês todas vão ser...NENÊNós somos unhae carne, faça o que você fizerMas não pensa mais besteira...JOANA 71 www.oficinadeteatro.com
  72. 72. Se eu viera fazer uma desgraça...CORINAComadre!JOANAVocês já sabem...ZAÍRAIsola!...ESTELADeus padre!JOANANinguém vai sambar na minha caveiraVocês tão de prova: eu não sou mulherpra macho chegar e usar como quer,depois dizer tchau, deixando poeirae meleira na cama desmanchadaMulher de malandro? Comigo, nãoNão sou das que gozam co’a submissãoEu sou de arrancar a força guardadacá dentro, toda a força do meu peito,pra fazer forte o homem que me amaAssim, quando ele me levar pra cama,eu sei que quem me leva é um homem feitoe foi assim que eu fiz Jasão um diaAgora, não sei... Quero a vaidadede volta, minha tesão, minha vontadede viver, meu sono, minha alegria, 72 www.oficinadeteatro.com
  73. 73. quero tudo contado bem direito...Ah, putinha, ah, lambisgóia, ah, CreonteVocês não levaram meu homem frontea fronte, coxa a coxa, peito a peitoVocês me roubaram Jasão co’o brilhoda estrela que cega e perturba a vidade quem vive na banda apodrecida do mundo...Mas tem volta, velho filho da mãe!Assim é que não vai ficarTá me ouvindo? Velho filho da puta!Você também, Jasão, vê se me escutaEu descubro um jeito de me vingar...ESTELAPára, Joana...MARIAJoana...NENÉMas o que é isso?ZAÍRAQue é isso o que? Deixa desabafar...JOANATem troco...CORINAComadre...ESTELADeixa eu falar, Joana...JOANA 73 www.oficinadeteatro.com
  74. 74. Me paga...ESTELAOlha, tem compromissopra você no mundo. Você tem filho...JOANAFilho...ESTELALembra, teus filhos tão aíJOANACanalha...ESTELAE precisam muito de tiJOANAVão me pagar...NENÉEscuta, eu compartilhoda sua dor...JOANAMas não dói em vocêCORINAComadre Joana...JOANAEu fiz ele pra mimNão esperei ele passar assimjá pronto, na bandeja, qual o quê...Levei dez anos forjando meu machoBotei nele toda a minha ambição 74 www.oficinadeteatro.com
  75. 75. Nas formas dele tem a minha mão...E quando tá formado, já no tacho,vem uma fresca levar, leva não...CORINAComadre, escuta...NENÉVai dormir que passaJOANANão leva mesmo. Eu compro essa desgraçaCORINAComadre, não fala assim, que aflição!JOANALeva não...ESTELAJoana, precisa lembrar,você tem dois filhos...JOANAQue filhos? Filhos...Eles também vão virar dois gatilhosapontando pra mim. Quer apostar?(ENTRA PERCUSSÃO; RITMO FRENÉTICO; AS CINCO VIZINHAS,EM CORO, COMEÇAM A ENTOAR O REFRÃO)VIZINHASComadre JoanaRecolhe essa dorJOANA (Falando com ritmo no fundo)Ah, os falsos inocentes! 75 www.oficinadeteatro.com
  76. 76. Ajudaram a traiçãoSão dois brotos das sementestraiçoeiras de JasãoE me encheram, e me incharam,e me abriram, me mamaram,me torceram, me estragaram,me partiram, me secaram,me deixaram pele e ossoJasão não, a cada diaparecia estar mais moço,enquanto eu me consumiaVIZINHASComadre JoanaGuarda o teu rancorJOANAMe iam, vinham, me cansavam,me pediam, me exigiam,me corriam, me paravamCaíam e amoleciam,ardiam co’a minha lava,ganhavam vida co’a minha,enquanto o pai se guardavacom toda a vida que tinhaVIZINHASComadre JoanaAbafa essa brasaJOANA 76 www.oficinadeteatro.com
  77. 77. Vão me murchar, me doer,me esticar e me espremer,me torturar; me perder,me curvar, me envelhecerE quando o tempo chegar,vão fazer como JasãoA primeira que passar,eles me deixam na mãoVIZINHASComadre JoanaRecolhe pra casaJOANAE me chutam, e me esfolam,e me escondem, e me esquecem,e me jogam, e me isolam,me matam, desaparecemJasão esperou quietinhodez anos pra retiradaDou mais dez pra Jasãozinhoseguir pela mesma estradaVIZINHASComadre JoanaRecolhe esses dentesJOANAPra não ser trapo nem lixo,nem sombra, objeto, nada,eu prefiro ser um bicho, 77 www.oficinadeteatro.com
  78. 78. ser esta besta danadaMe arrasto, berro, me xingo,me mordo, babo, me bato,me mato, mato e me vingo,me vingo, me mato e matoVIZINHAS (Com força)Comadre JoanaBota panos quentesCORINAComadre, fala mais nada!(Breque na percussão)JOANAMe mato, mato e me vingo,me vingo, me mato e mato(Joana está caída no chão)CORINAMe ajuda aqui co’a coitada(QUATRO VIZINHAS CARREGAM JOANA PRO FUNDO, ENQUANTOCORINA VAI DANDO UM PASSE DE UMBANDA E CANTANDO;ENQUANTO ESSE GRUPO CAMINHA DO PROSCÊNIO PARA OFUNDO DO PALCO, JASÃO VEM CAMINHANDO DO FUNDO PARA OSET DA OFICINA; AS VIZINHAS DESAPARECEM COM JOANA EJASÃO ENTRA NA OFICINA DE MESTRE EGEU)JASÃOMestre...EGEUOi, menino, como é, sumiu? (Enquanto conversa, Egeu não pára de 78 www.oficinadeteatro.com
  79. 79. consertar um rádio)JASÃOTou trabalhando...EGEUSenta...JASÃOTou só de passagem...EGEUPôxa, essa explodiu...JASÃOO que?...EGEU“Gota d’água”, que toró...JASÃO (Ri)Que nada...EGEUÉ sucesso nacionalCaiu no gosto da multidãoe inda vai pegar no carnaval (Cantarola Gota d’água)JASÃOLevei sorte...EGEUÉ fogo... é mole nãoJASÃOE você, mestre, tudo perfeito?Como vai o pessoal aqui?EGEU 79 www.oficinadeteatro.com
  80. 80. Sempre falei que você tem jeitopra samba, não falei? Olha aí...JASÃOPois é...EGEUVê se agora não descambapra auto-suficiência. Cuidadoco’a máscara...JASÃOQue é isso...EGEUOlha, sambaé só uma espécie de feriadoque a gente deixa pra alma da genteMas você não se iluda porquea vida se ganha é no batenteJASÃOPois é... (Um tempo)EGEUE então?...JASÃOO que?...EGEUUé, vocêdeve ter novidade que é matoagora que é uma celebridade...JASÃO 80 www.oficinadeteatro.com
  81. 81. Eu vim pra falar dum troço chatoe sério, mestre.EGEUFala à vontadeJASÃOÉ que...EGEUEspera aí... (Redobra sua atenção na peça que está colocando no rádio)Pode falarJASÃOEu acho que amizade é amizadea qualquer hora e em qualquer lugarMas tem uma hora da verdadee a gente precisa ser sinceroe franco quando a verdade é dura...EGEUE precisa tanto lero-lero?Fala, menino, que é que há?... (Entregando uma peça do rádio a Jasão)Segurapra mim...JASÃOO caso é que tão falandopor aí que um bocado de gentede uns tempos pra cá tá se juntandoe combinando pra de repenteninguém mais pagar a prestaçãoda casa própria... Não por aperto, 81 www.oficinadeteatro.com
  82. 82. de caso pensado: pago não!...EGEUÉ?... Assim é fogo...JASÃOAcha que é certotomar dos outros e não pagar?EGEUÉ... não é mole não...JASÃOVocê vê?Tem mais, mestre Egeu, foram contarpro seu Creonte que era vocêquem botava farofa no pratoda turma...EGEUEu o quê?...JASÃOTava mandandonão pagar...EGEUNão pode ser...JASÃOExatoEGEUDisseram isso?...JASÃOTão comentando... 82 www.oficinadeteatro.com
  83. 83. EGEUQue filhos-da-puta...JASÃOPr’ocê ver...Falar um troço desses de ti...É mais é falta do que fazerQue é que você acha?...EGEUEu?...JASÃODiscuticom seu Creonte: por mestre Egeuponho a mão no fogo... É homem sério...Meu compadre...EGEUQuer saber o que euacho? Sem rodeio e sem mistério?Esse emprego não serve pr’ocêJASÃOQual emprego?...EGEUVirou inocente?JASÃOTá aporrinhado, mestre? Por que?Eu tava falando simplesmente...EGEUEsquece. Vem aqui, dá uma olhada 83 www.oficinadeteatro.com
  84. 84. Me ajuda aqui co’esse filamentoque a essa hora eu não vejo mais nadaJASÃOPuxa, mestre, o senhoré cismento Eu já lhe falei pra levantargrana num banco. Aí modernizaa oficina, põe pra trabalharuns empregados e nem precisaforçar a vista. Fica ali sóna administração... (Levantando)EGEU (Com autoridade)Presepada,menino... Tira esse paletóe senta aí. Que banco que nada!Senta duma vez, eu tou mandandoPega o alicate e a chave de fendae vai matutando, matutandoaté que você um dia aprendaa ser dono da sua consciênciaJASÃOQue é que foi, mestre Egeu, eu não seia razão de tanta impaciênciaEu só vim aqui e pergunteisobre o problema da prestaçãoO senhor já disse que não temnada a ver co’essa situação,então tá acabado, tudo bem 84 www.oficinadeteatro.com
  85. 85. EGEUOuça, rapaz, você vai sentare consertar o rádio, entendeu?E já. Pelo menos pra pagaro leite dos seus filhos, que se eunão tou dando, eles morrem de fome(Fulminado, Jasão mais cai do que senta)Desculpa. Joana, é como se nãovivesse mais, não dorme, não come,não sai, parece uma assombraçãoDesde o dia em que esse casamentofoi marcado, ela não quer falarde mais nada. E nesse desalentonão pode trabalhar, nem olharpelos seus filhos...JASÃOEu não sabia...Ela botou boca na janelapra gritar que já não careciade mim pra nada. E mais. Que pra elaos filhos não tinham pai mais nãoTodo mundo ouviu a xaropada,você ouviu, mestre...EGEUOra, Jasão,conversa de dona abandonada...JASÃO 85 www.oficinadeteatro.com
  86. 86. E como é que eu posso adivinhar?Se você agora não dissesse,eu nem sabia... Mas vou cuidardo problema, você me conhece,eu tenho responsabilidade...EGEUEu sei que você é um bom rapaz (Tempo)Pôxa, é fogo (Impaciente com o rádio) É a idadeé a idadeVem cá, vê se você é capazde engatar o filamento... (Jasão apanha o rádio e começa a engatar ofilamento)JASÃOChato,não é, mestre?...EGEUO que?...JASÃOMe passarna cara só porque deu um pratopra meu filho comer...EGEUVai ficarzangado?...JASÃONão é qualquer um. Eu,sou eu, sou eu, Jasão de Oliveira, 86 www.oficinadeteatro.com
  87. 87. sou eu. Não te ofendi, mestre EgeuEu só vim evitar barulheirapor causa das prestações... É certolevar um coice?...EGEUEntão tá, me dá... (Pede o rádio mas Jasão não entrega)JASÃOPode deixar comigo, eu conserto... (Segue tentandoengatar o filamento; tempo)É você, não é, mestre? Que támandando essa gente não pagar...Te conheço...EGEUConhece, pois é,conhece todos neste lugarZazueira, Cazuza, Xulé,Amorim e Dé. Toda essa gente,você mesmo, ainda tá lembrado?Todos dando duro no batentea fim de ganhar um ordenadomirradinho, contado, pingado...Nisso aparece um cara sabidocom um plano meio complicadopra confundir o pobre fodido:casa própria pela bagatelade dez milhões, certo? Dez milhõesaos poucos, parcela por parcela, 87 www.oficinadeteatro.com
  88. 88. umas cento e tantas prestaçõesBem, o trouxa fica fascinado...Passa a contar tostão por tostão,se vira pra tudo quanto é lado,que ter casa própria é uma ambiçãodecente. Então ele pega, sua,deixa até de comer... Livra cem,e, vamos dizer, dorme na rua,larga a cachaça e não vê mais nemfutebol. No fim do mês tá dandopra juntar as cem pratas sagradasMuito bem. O tempo vai passandoe lá vêm as taxas, caralhadasde juros, correção monetáriae não sei mais lá quanto por cento...Tudo aumenta, menos a diária...Um ano depois, quando o jumentojuntou cem contos pra prestaçãovai ver que, com todos os aumentos,os cem cruzeirinhos já não dão:a prestação subiu pra trezentos...Passam seis meses e vai além,sobe pra quatrocentos e tanto...Mas como, se o cara ficousem comer pra sobrar cem? E no entantoo jumento é teimoso, ele bateco’a cabeça pra ver se a titica 88 www.oficinadeteatro.com
  89. 89. do salário aumenta, faz biscate,come vidro, se aperta, se estica,se contorce, morde o pé, se esfola,se mata, põe a mulher na vida,rouba, dá a bunda, pede esmolae vai pagando a cota exigida...Quando ele vê,conseguiu somar cinco milhões redondos,portanto metade do total a pagarMas aí, pra seu tremendo espanto,descobre que então passa a deverdezoito milhões e novecentosO jumento diz: não pode ser!Já fiz metade dos pagamentosPaguei cinco, devo cinco. Vêaí, faz as contas, vê se pode,inventa outra lógica, você...Pois pode, amigo, o cara se fodemorrendo um bocadinho por mês...Quem ia ficar pagando atémil novecentos e oitenta e seissó pára no ano dois mil, isto é,se parar. Enfim, o desgraçado,depois de tanta batalha inglória,o corpo já cheio de pecado,inda leva nota promissóriapro juízo final... 89 www.oficinadeteatro.com
  90. 90. JASÃOMuito bem,mestre Egeu... Por que comprou então?EGEUAliás eu não precisava nemfazer tanta conta, né, Jasão?Você sabe. Já lhe faltou granapro apartamento onde você mora...morava... com teus filhos e Joana...JASÃO (Gritando)Muito bem! Por que comprou?...(Tempo; pára de mexer no rádio)Agora,mestre, você tem que me entender...É meu compadre, é um segundo paipra mim. Mas seu Creonte vai sermeu sogro, pai da mulher que vaiser minha. . . Ele também vai viraruma espécie de pai. Todo mundoaqui é amigo. É como estarem família... Olha, mestre, no fundo,eu sou mais útil daquele ladoLá dentro eu posso representarquem estiver mais encalacrado,posso interceder, facilitar...Todo mundo só tem a perderco’essa briga de foice no escuro 90 www.oficinadeteatro.com
  91. 91. (JASÃO RECOMEÇA A MEXER NO RÁDIO)EGEUAh, Jasão, você não vai poderse equilibrar no alto desse muro...JASÃOSeu Creonte admite um atrasoou outro... Se a turma se der mal,eu falo: olha aí, sogrão, o casoé o seguinte, Xulé é legal,Dé também — e ele não chia, nãoEGEUAh, Jasão, o amor lhe deu cegueiraou mudou seu campo de visãoJASÃOÉ compromisso pra vida inteiraque assumo contigo. A turma contecomigo. Se alguém não tá em dia,eu levo o problema ao seu Creontecom toda amizade e simpatiaEGEUEntão, Jasão, se você quiser,já pode começar resolvendoo problema da tua mulhere teus filhos que não tão podendopagar...JASÃOEsse problema é só meu (Solta o rádio e levanta) 91 www.oficinadeteatro.com
  92. 92. e não vim falar sobre ele agora...EGEUPois é. Esse problema é só seu...Bem, quando quiser pode ir embora...(UM TEMPO; JASÃO, VENCIDO, SENTA; FICA UM LONGO TEMPOPARADO. PENSANDO; EGEU TOMA O RÁDIO E RECOMEÇA OCONSERTO; DE REPENTE, JASÃO TIRA NOVAMENTE O RUÍDO DEEGEU E VOLTA A CONSERTAR; ENQUANTO SE DESENROLA ESTACENA EM MÍMICA, LUZ NO SET DAS VIZINHAS ONDE JOANA ESTÁDEITADA, RECEBENDO O CONFORTO DE CORINA)CORINAMelhor, comadre?...JOANADepois do que eu dei e fiz,cê acha que Jasão pode ser tão ruim,tão disfarçado e tão frio, para ser felizjunto co’a outra, sem nunca pensar em mim?Será que ele é capaz? Ah, vejo ele mentirpra ela que, por mim, nunca teve amizadeVejo ele rindo muito e fazendo ela rir,falando do meu corpo, nossa intimidade... (ENTRAM ESTELA E ZAÍRA)ESTELAEle tá aí...CORINAQuem?...ZAÍRA 92 www.oficinadeteatro.com
  93. 93. Como quem? JasãoO safado tá lá com mestre Egeu...JOANASafado por que? Não é homem seu...ZAÍRADesculpa, foi só força de expressão...JOANAEu sim, posso dizer que ele é um safadoNão tem direito de andar se exibindo...Daqui a pouco toda a vila tá rindode mim, ele feliz e eu nesse estado...ESTELA (Para Zaíra)Ela só fala nisso: vão gozarda cara dela...ZAÍRA (Para Estela)Precisa dizerqualquer coisa... (Alto) Ele vai se arrependerESTELA (Alto)Tá na cara que Jasão vai voltar(SEGUEM MIMICANDO QUE FALAM; A CENA VOLTA PARA O SET DEEGEU, ONDE JASÃO, DEPOIS DE LONGO SILÊNCIO CONSERTANDOO RÁDIO, SOLTA O RÁDIO E VOLTA A FALAR)JASÃOVocê, mestre Egeu, é meu amigoPor isso eu peço, de coração,me ajude, colabore comigo...EGEU 93 www.oficinadeteatro.com
  94. 94. Vai visitar teus filhos, Jasão...JASÃOPromete que não fala mais nadade não pagar as casas, aquilotudo, hein? Controla a rapaziada?Fala, meu mestre... Posso ir tranqüilo?EGEUPor que fizeram isso contigo?Creonte te desse um bofetãona cara, desse o pior castigo,mas não te entregasse essa missão...JASÃOPor favor, mestre Egeu, dá um jeitoDiz que me ajuda... Basta falarco’a turma... Você impõe respeito...EGEUVai falar você, vai, se tem peito(ABRE LUZ NO BOTEQUIM, QUANDO EXPLODE UMA GARGALHADADA TURMA DOS VIZINHOS; DEPOIS DA GARGALHADA ELESSEGUEM FAZENDO MÍMICA DE PORRINHA E O PRIMEIRO PLANOCONTINUA NO SET DE EGEU)JASÃOMeu mestre...EGEUEu preciso trabalhar...(JASÃO ESTÁ INDECISO E DECEPCIONADO; EGEU APANHA O 94 www.oficinadeteatro.com
  95. 95. RÁDIO E COMEÇA A MEXER; GIRANDO O BOTÃO, EXPLODE UMAMÚSICA NO RÁDIO QUE JASÃO, ENQUANTO FALAVA,CONSERTAVA; A ORQUESTRA EXECUTA UMA VARIAÇÃO DO TEMAQUE SUBLINHOU A FALA DE JOANA SOBRE OS FILHOS; EGEU DÁUM SALTO, PERCEBENDO QUE JASÃO CONSERTOU O RÁDIO)EGEUTá tocando!... Foi você, Jasão...Nessa horinha, como pode ser?Eu tou mexendo nele há um tempão...Taí o que você sabe fazercomo ninguém no mundo, meninoAgora você provou de vezque já tá marcado o teu destinoEletrônica das oito às seise em noites de lua, violão(Jasão sai, evitando a euforia de Egeu)Volta aqui, Jasão... Nem agradecea quem lhe deu uma profissão...Vê teus filhos, Jasão, não esquece...(Jasão desaparece enquanto orquestra segue em BG para sublinhar omonólogo de Egeu)Os homens são mesmo competentes...Quem chama Jasão, não chama à toaÉ o cara certo: boa pessoa,real valor, bons antecedentes,saúde de ferro, ótimos dentes,jovem, capaz, figura de proa, 95 www.oficinadeteatro.com
  96. 96. talentoso, enfim, madeira boapra arder na lareira dos contentes...Sempre que um cara menos bichadosurge aqui, pagam seu peso em ouropra levá-lo embora. Resultado:mais negro fica este sumidouromais brilhante fica o outro ladoe o seu carnaval, mais duradouro(TEMPO; MESTRE EGEU APANHA O RÁDIO QUE CONTINUATOCANDO — ORQUESTRA EM BG — E VAI LENTAMENTEDIMINUINDO O VOLUME; A LUZ, EM RESISTÊNCIA, VAI DI-MINUINDO DE ACORDO COM O VOLUME DO RÁDIO)Mas, Jasão, a festa é traiçoeira,e um alçapão. Todo mundo sabeque não há mal que nunca se acabenem festa que dure a vida inteira(DESLIGA O RÁDIO, AO MESMO TEMPO QUE SE APAGA A LUZ EMSEU SET; O PRIMEIRO PLANO VAI PARA O SET DAS VIZINHAS E OSET DO BOTEQUIM)ESTELAEu te digo que esse volta pra casa...Homem, conheço, tive dezesseise garanto uma coisa pra vocêsJasão sem Joana é pinto sem a asada galinha pra amparar. Fica tristee chocho e zonzo e passa o dia inteirozanzando, dando volta no poleiro... 96 www.oficinadeteatro.com
  97. 97. ZAÍRAEu também acho que ele não resisteQue é que ele viu na franga do Creonte?Pra mim ele vai lá, bica um tiquinho,molha o bico e vem de volta pro ninhoJOANAQue venha e volte, entre e saia, que montee desmonte, que faça e que desfaça...Mulher é embrulho feito pra esperar,sempre esperar... Que ele venha jantarou não, que feche a cara ou faça graça,que te ache bonita ou te ache feia,mãe, criança, puta, santa madonaA mulher é uma espécie de poltronaque assume a forma da vontade alheia(NO SET DO BOTEQUIM APARECE JASÃO VINDO DA COXIA; ASSIMQUE O VÊEM OS VIZINHOS O SAÚDAM COM ENTUSIASMO)GALEGONão!...TODOSJasão!...JASÃOOi, gente...XULÉAcaba de entrarneste recinto Jasão de Oliveira,autor de “Gota d’água”, verdadeira 97 www.oficinadeteatro.com
  98. 98. jóia do cancioneiro popular... (Abraça Jasão)GALEGOJá desço uma loura bem caprichada... (Aperta-lhe a mão)BOCAAtenção... (Abraça Jasão) O ataque entra em campo assim:Jasão, Xulé, Cacetão, Amorim eBoca. Sai de baixo, é goleada!Só precisa a gente treinar mais junto...Olha, Jasão, justiça seja feita,você foi o maior ponta direitaaqui desta caceta de conjuntoresidencial...AMORIMSamba e futebolsão a salvação da lavoura. Duvidoque exista outra maneira de fodidobrasileiro arranjar lugar ao solVocê sabe fazer os dois... Aí,menino (Abraça Jasão)CACETÂO... Foi sambando, foi sambandoe não é que ele acabou descolandoa filha do homem? Aperta aqui (Apertam as mãos)GALEGOAgora ele é do uísque e da tequila...Mas vai recusar una vieja cana? (Oferece um copinho)JASÃO 98 www.oficinadeteatro.com
  99. 99. Deixa comigo, Galego sacana(Vira o copo e faz careta)E está tudo na mesma aqui na vila?(A ORQUESTRA, QUE VINHA PREPARANDO UMA INTRODUÇÃOVIVA E ALEGRE, DÓ A DEIXA PARA O CORO DE VIZINHOSCANTAR)TODOSA gente faz hora, faz filaNa Vila do Meio-Dia— pra ver MariaA gente almoça e só se coçaE se roça e só se viciaA porta dela não tem tramelaA janela é sem gelosia— nem desconfiaAi, a primeira festaA primeira frestaO primeiro amorNa hora certa, a casa abertaO pijama aberto, a braguilha— a armadilhaA mesa posta de peixeDeixe um cheirinho da sua filhaEla vive parada no sucessoDo rádio de pilha que maravilhaAi, o primeiro copo 99 www.oficinadeteatro.com
  100. 100. O primeiro corpoO primeiro amorVê passar ela, como dançaBalança, avança e recua— a gente suaA roupa suja da cujaSe lava no meio da ruaDespudorada, dada,À danada agrada andar semi-nua— e continuaAi, a primeira damaO primeiro dramaO primeiro amorCarlos amava Dora que amava Léa que amava Lia queamava Paulo que amava Juca que amava Doraque amava...Carlos amava Dora que amava Rita que amavaDito queamava Rita que amava Dito que amava Rita queamava...Carlos amava Dora que amava tanto que amavaPedro queamava a filha que amava Carlos que amava Dora queamava toda a quadrilha...amava toda a quadrilha...amava toda a quadrilha...(A ORQUESTRA VAI DIMINUINDO AOS POUCOS, ENQUANTO O 100 www.oficinadeteatro.com
  101. 101. PESSOAL SE CONFRATERNIZA E SE SERVE DE CERVEJA)JASÃOQue bom ver vocês...AMORIMNós tamos aquisempre, fodidos, sem grana, sem graça,mas enganando a vida co’a cachaçado galego... Mas fala de tiNinguém sabe mais onde te encontrar,ficou rico...JASÃOQue que é isso, Amorim?Sou igual...CACETÃONão é tão igual assim...XULÉA gente ia mesmo te procurar,não é, Amorim? Falo?... (Tempo; ninguém responde)Pra dizerque as prestações... Ninguém tá mais podendopagar. Você veja, já tou devendo...BOCAÔ, Xulé... O Jasão veio fazeruma visita, pô. Tudo tem hora...Agüenta que isso a gente vê depois... (ENTRA ESTELA QUE SE DIRIGE AO GALEGO)ESTELA 101 www.oficinadeteatro.com
  102. 102. Galego, cinqüenta gramas de arroze cem gramas de feijão...GALEGOSi, senioraESTELAE três cigarros, jornal velho, um pão,quatro bananas e um toco de velaAMORIMA minha mulher tá cega... Ô, Estela,olha só quem chegou aqui... Jasão...ESTELAInda conhece pobre? Que beleza...Diz que tem dois meninos procurandopai ali na esquina...AMORIMCê tá ficandolouca, mulher?...ESTELAPendura essa despesana conta dele, tá? (Saindo) Você tambémtem filho pra criar, viu, Amorim?Saiba que conversa de botequimé pra Jasão que agora é gente bem,tá co’a vida ganha... (Sai) (Um tempo de constrangimento)AMORIMO que é que deu nela? 102 www.oficinadeteatro.com
  103. 103. É de lascar...CACETÃOEu vou ser atrevido,mas meu amigo tem comparecidoali, direitinho, na dona Estela?Se você usa a cama pra deitare dormir e mais nada e ainda roncade noite, ela fica assim nessa bronca (Todos riem)AMORIMPode deixar que em casa eu vou falarcom ela... Mas diga, Jasão, que tal?CACETÃOA que devemos a honra e o prazerda visita?JASÃONada, não... Quer dizer,queria ver vocês... É o principalDepois...BOCAJá sei. Veio nos convidarpro casamento...JASÃOÉ. Eu faço questãoque vocês venham...TODOSEi! Boa, Jasão!AMORIM 103 www.oficinadeteatro.com
  104. 104. Aí, menino!...CACETÃOAs águas vão rolar!(SOBE A ORQUESTRA COM FLOR DA IDADE ENQUANTO OSVIZINHOS SE ABRAÇAM NOVAMENTE NO MAIOR ENTUSIASMO;PRIMEIRO PLANO PASSA PARA O SET DAS VIZINHAS ONDECHEGAM APRESSADAS NENÉ E ZAÍRA)NENÊEstela viu Jasão no botequim...ZAÍRANão disse? Eu conheço a catimba, a manhaMestre Egeu, papo, botequim, arranhadaqui, cutuca acolá, mas no fimtermina mesmo é lá no travesseiro de Joana...MARIABem que eu rezei pra Oxosse...CORINAViu, comadre? Deus é grande...JOANASe fosse,não criava duas coisas: Primeiropobre, segundo mulher... Não me iludo...MARIAQue é isso, Joana? Pensa positivo... (PRIMEIRO PLANO NO BOTEQUIM)AMORIMHomem, pra mim, homem definitivo 104 www.oficinadeteatro.com

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