Sustentabilidade med md8p3q4w

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  • 1. Ano I – Número 03 – Novembro de 2011 ISSN - 2236-2347EntrevistaHaroldo MattosLemos, do Pnuma:“O mundo hoje édividido entre paísescredores e devedoresecológicos.”umnovomodeloAgricultores como os irmãos Joab e AbdeelLima, de Iperó (SP), adotam boas práticasambientais e transformam o processoprodutivo em pequenas propriedades
  • 2. Nesta edição 10 Capa 4 Práticas sustentáveis como a destinação correta do esgoto e uso racional da natureza mudam a realidade do campo Debate 8 “Qual o maior desafio para a sustentabilidade ambiental das propriedades rurais?”: Christino Áureo e Maria Aurigele Barbosa Entrevista 10 Haroldo Mattos Lemos, presidente do Instituto Brasil Pnuma Boas Práticas 14 Guaçu-Virá: empreendimento transforma região capixaba Rejuma: jovens assumem protagonismo em ações socioambientais Jovens em Ação 16 As histórias de Fabiano e Gildete, que revolucionam suas propriedades e comunidades rurais com iniciativas sustentáveis Instituto em Foco 18 IV Jornada Nacional reúne mais de 400 jovens no ES 16Ceará forma primeira turma de Agentes de Desenvolvimento Rural Meu Rural 19 O agricultor capixaba Elielson Zoboli diversifica a produção, refloresta área de nascente e impede a erosão do solo SUSTENTABILIDADE DO CAMPO Coordenação: Luiz André Soares Publicação trimestral do Instituto Souza Cruz Jornalistas responsáveis: Outubro/2011 - Tiragem: 2 mil exemplares Andrea Guedes (Mtb.28246 RJ) e Guilherme Mattoso (Mtb.26674) Rua da Candelária, 66 / 4º andar – Centro Projeto gráfico e produção editorial: CEP 20091-900 - Rio de Janeiro (RJ) Via Corporativa Comunicação (www.viacorporativa.com.br) Tel.: (21) 3849-9619 – Fax: (21) 3849-9778 Foto de capa: Marina Lopes institutosouzacruz@institutosouzacruz.org.br Os conceitos emitidos nos artigos e matérias assinadas são de responsabilidade www.institutosouzacruz.org.br dos autores, não refletindo, necessariamente, a opinião do Instituto Souza Cruz
  • 3. Liquiatu InrenomuE Optatia volor asit labo. Et magnita voluptati volore custo debis con-sequodis quos sit labo. Nam eos simenit porem. Illab ilique volorio-recto tem quia que pe rehenissim quiasitae ommodia consendipsumrerferunti sa sinctae enit laborepelis voluptat fuga. Ut et ressenditaevenimagnia et re litiossit ut fugiam eaquaeptat demodi resti quia si offictempeli quatesc ipsaeria quias natiiscia cum venditiistis as ne et vellup-taquis ea ium intus et omnis alique voluptat eum dolut accatumet eanobit harionsed quatiatis moditae et ipienimodis dolene es soluptatismodi tem aut latem nusam litasit iuntia comnis repudae. Et explamnihil min nonserum, officae nis eos rempore, voluptaturi nis por asaliquunt rest quam, nis estinusa nonsenis min con reicius inimin nisquenimus evellent quasinu llorehendae pre cupta debis dolenis excepre pe-ribuscient officia eos sae etur? Es autemporio tes dolecti anianih itaquiadellacc umquibus dolorentius.Umque re re perum quisiti bustiunt escia ium volorei untendi voloreeium voluptatem. Nequatur? Olluptatem ea volorep errorit lab inctata-tur si teceaquat harchit lab id mo tem rempos coresed mollupt aepturmos prehentur? Quisimo luptat odis rat faces acerferibea velibus ex eteatiatatquae quid quamus autemporro eos repudit eos excerrorio iuritre ni omnistium faccum ra sam, voluptatquas perumet eos eiciis mo-lupicipsam lande deliqui busandic tem quias venistiam dolupta quissicullesto tesequunt exerum re consequia quatia nihitam, cus, asimoluptatureperi doles della cum inctus nus, od ute pratae eatur adissequosnos endae eos erchit aut fugiti omnienimost, ilitia sus maiorum re cumeum voluptio es nobit, qui solor ab incipidunto bea aut verae venimust,sinctur sim sit verum sere intiur aut eveliti orrovidel essimet eum, offictemolor epudit, inctate mporuntur sum et vitatur, omnihil ipsanditiovoluptat omnihit ioriatibus molori inis serum et expe omnis ari que ve-netur, illuptatius velenis experovid et officid eliciam, offic tet excerup-tatem estrum qui duciis abo. Id quis di dit, cum lacculles qui rem quisrectiatum non nulluptae si beratia porepudi to quos nonsedisque nuset apideli tatior aut adios si nus eos modi reperferibus is ape consecteporit, omnisqui tem faccum sanimi, aut adis sedis ma volorem que. Luiz André Soares Gerente do Instituto Souza Cruz
  • 4. CAPA Consciência ambiental Conjugação de boas práticas torna a agricultura familiar um dos principais pilares da sustentabilidade no meio rural brasileiro A té o ano passado, os irmãos Abdeel, 31 anos, e Joab da Silva Lima, 29 anos, plantavam hortaliças e cereais, o que potencializou a ferti- lidade da terra e aumentou a biomassa (decom- berinjela, milho e goiaba em sua propriedade de posição da matéria verde). Adubos sintéticos e oito hectares, na cidade paulista de Iperó. Por defensivos agrícolas foram sumariamente descar- conta da excessiva acidez do solo, a área de culti- tados. Em suas contas, só nesses primeiros meses, vo já não apresentava boas condições de fertiliza- já conseguiram reduzir 60% dos custos da pro- ção e uma nascente próxima do local havia pra- priedade. “Ao combinar esses fatores, eu conse- ticamente parado de jorrar água. Diante desse gui minimizar a incidência de pragas e doenças, cenário pouco promissor, eles decidiram desen- recuperar o solo degradado, passar a contar com volver um projeto de transição de uma agricul- mais e melhor água na propriedade, ficar menos tura convencional para um sistema sustentável, dependente de insumos externos e ter colheitas maximizando a produção de legumes e frutas e alternadas ao longo do ano”, comemora Abdeel. apostando na criação de vaca de leite e frango. Os produtores, que estudam Agronomia na Os irmãos Lima dividiram o lote em subsiste- Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), sa- mas (criação de gado, plantação de goiaba, euca- bem que, ao desenvolver uma agricultura sustentá- lipto, banana e mexerica poncã) e promoveram o vel, contribuem para garantir a segurança alimentar plantio consorciado de leguminosas com frutas, para uma população que não para de crescer. Ou 4 Sustentabilidade do Campo
  • 5. Joab (à esq.) e Abdeel Lima iniciaram a migração da agricultura convencional para um sistema sustentável: preservação ambiental e redução de custos seja, entendem que para preservar os recursos natu- mento de coelho e utiliza a cobertura vegetal rais, essenciais à existência humana, é preciso adap- para controle da tiririca (planta normalmente tar a atividade agrícola ao meio e não o contrário. daninha à produção). Em Barra do Turvo (SP) e Assim como os irmãos Lima, agricultores Adrianópolis (PR), agricultores da Cooperaflo- familiares que adotam práticas sustentáveis na resta, além de separar e reciclar o lixo orgânico, produção não só conservam melhor os recursos instalaram um sistema de saneamento com fos- naturais, ampliando a produtividade das áreas sas sépticas biodigestoras, filtragem de água com exploradas, como gastam menos comparativa- plantas purificadoras e banheiros secos, onde os mente aos modelos tradicionais de cultivo. Isso dejetos, misturados com palha e compostados, porque não precisam investir em tecnologias servem como adubo para árvores. modernas e na manutenção das mesmas. Por ou- A adoção de práticas mais sustentáveis, do plan- tro lado, estão em harmonia com uma tendência tio à colheita, evita impactos negativos ao ambien- mundial: os consumidores valorizam cada vez te como a erosão do solo, a poluição das águas, mais os produtos fabricados em conformidade a contaminação dos alimentos por produtos agro- com o meio ambiente. “Aos poucos eles estão químicos e a redução da biodiversidade. No entan- se tornando mais exigentes, articulados e atentos to, para incrementar em larga escala uma agricultu- ao desenvolvimento sustentável, formando uma ra sustentável são necessárias políticas públicas queFotos: Marina Lopes consciência ambiental”, assinala o consultor de ofereçam condições para que o agricultor perma- sustentabilidade empresarial Vitor Seravalli, 52, neça no campo com qualidade e, em comunhão que já presidiu o Comitê Brasileiro do Pacto com o meio ambiente, empreenda a partir dele. Global (ONU) e atualmente é diretor de Res- Em Itapeva, Taquarivaí, Buri e Nova Cam- ponsabilidade Social do Centro das Indústrias pina, no interior de São Paulo, 120 famílias de do Estado de São Paulo (Ciesp). agricultores estão instalando fossas sépticas bio- digestoras em suas propriedades para tratar dos Atuação exemplar dejetos humanos e animais – o modelo foi de- Com a disseminação dessa consciência, hoje já senvolvido pela Empresa Brasileira de Pesquisa existem inúmeras iniciativas exemplares que con- Agropecuária (Embrapa), instituição pública ciliam produção rural com expansão econômica brasileira vinculada ao Ministério da Agricultu- e proteção à natureza, valendo-se de princípios e ra. O sistema, que custa em torno de R$ 1.200, técnicas relativamente simples. Na Baixada Flu- é uma contrapartida ambiental exigida pelo Pro- minense, a Cooperativa de Agricultores Univer- grama Nacional de Habitação Rural. de produz alimentos sem o uso de agrotóxicos, “Estamos também instituindo educação am- diversifica sua produção, faz adubo com excre- biental na região, ensinando os agricultores, por Agricultura sustentável é... •  erar o mínimo de impactos adversos ao ambiente (ar, solo e água); G •  timizar a produção com recursos do próprio agrossistema, diminuindo O a necessidade de insumos externos; •  reservar o solo, mantendo a sua fertilidade e evitando a erosão; P •  tilizar a água de maneira racional; U •  anter a diversidade biológica; M •  eduzir o uso de produtos agroquímicos e fertilizantes sintéticos solúveis; R •  romover a rotação de culturas e a integração lavoura-pecuária; P •  uscar novas fontes de energia; B • nstalar latas de lixo em zonas estratégicas da propriedade e depósitos de I lixo adequados, recolhendo estes ao final do dia de trabalho; •  lantar árvores de diversos tipos, o que contribui no combate ao P aquecimento global; •  atisfazer as necessidades humanas de alimentos. S Instituto Souza Cruz 5
  • 6. CAPA Sintraf incentiva instalação de fossas biodigestoras (foto à esq.) e a adoção de outros cuidados ambientais; na foto, Marco Antonio Pimentel, dirigente do sindicato Fotos: Acervo Sintraf - Itapeva sustentável na agricultura não deve ser institu- ída de cima para baixo. Ele alerta para o risco de acabar funcionando como uma nova versão da Revolução Verde, marcada pelo uso intensivo de insumos químicos e da mecanização. “Não cabe ao técnico especializado impor conheci- mento dentro da propriedade. O ideal é sistema- tizar as experiências existentes, potencializá-las Acervo Sintraf e disseminá-las”, sugere o docente-pesquisador dos programas de pós-graduação em Desenvol- vimento Rural e em Sociologia. exemplo, a protegerem as nascentes e fazerem uma Jalcione acrescenta ainda que as políticas pú- destinação adequada do lixo doméstico”, conta blicas deveriam direcionar créditos somente para Marco Antonio Augusto Pimentel, 44, agricultor e o agricultor que não degrada o meio ambiente. dirigente do Sindicato dos Trabalhadores da Agri- “A política agrícola de crédito destina 80% dos cultura Familiar de Itapeva (Sintraf-Itapeva). seus recursos para a agricultura de commodities (carne bovina, soja, frango), baseada até agora na Os protagonistas espoliação do solo e na mão de obra, sem condi- Ao reconhecer os agricultores familiares como cionantes ambientais. Se o produtor paga as con- protagonistas da política ambiental, o Ministério tas em dia, tem terra, maquinário e produz, basta do Meio Ambiente já tem planos de criar o Pro- entrar no banco e pegar o crédito”, critica. grama Nacional de Agroecologia, com o intuito Doutor em Agroecologia e Desenvolvimen- de contribuir para o desenvolvimento sustentável to Sustentável e pesquisador da Embrapa, João no campo. O anúncio foi feito em maio pela mi- Carlos Costa Gomes, 59, reforça que a agrope- nistra Izabella Teixeira, que, na ocasião, destacou cuária deve trabalhar com os ecossistemas em a necessidade de ampliar o diálogo com quem usa vez de tentar dominá-los. “Além de ampliar a o meio ambiente e não só com aqueles que têm renda, o agricultor que adota práticas sustentá- por definição protegê-lo. “O Ministério tem de veis tem maior qualidade de vida e, assim, mais aprender com quem é do campo”, declarou. motivação para permanecer no campo”, opina. Jalcione Almeida, 58, professor e pesquisa- dor da Universidade Federal do Rio Grande do Uma história recente Sul (UFRGS), também defende que a gestão Foi a partir de 1980, com a massificação da produção agrícola convencional e os conse- Eduardo Ehlers: produtividade maior quentes danos ambientais daí decorrentes, que com menor impacto ambiental cresceu o interesse por modelos produtivos al- ternativos, que aliam o aumento da produtivi- dade das lavouras e a conservação dos recursos naturais com mínimos impactos ao ambiente. Eduardo Ehlers, 46, professor com doutorado em Ciência Ambiental, conta que o movimen- to provocou impactos significativos em alguns campos do conhecimento científico e agronômi- co. “Aos poucos vemos surgir práticas agrícolas que reduzem o uso de agrotóxicos, aproveitam a biomassa, fazem o controle da erosão dos solos, buscam novas fontes de energia, integram pecu- ária e lavoura, diversificam e instituem a rotação de culturas”, sublinha ele. Marina Lopes Na opinião da engenheira agrônoma Leonor 6 Sustentabilidade do Campo
  • 7. Para Costa Gomes, práticas sustentáveis ampliam a renda do agricultor Acervo Embrapa Clima Temperado Assad, 55, professora da Universidade Federal por levar a educação de São Carlos (UFSCar) e coordenadora do ao campo. “O agricul- Programa de Pós-Graduação em Agricultura e tor domina o conheci- Ambiente, o pequeno agricultor está buscando mento prático, mas se alternativas de gestão porque lida diretamente ele tiver contato com com o meio ambiente e sabe que precisa preser- o que foi produzido vá-lo. Ela aponta o Programa Nacional de Edu- no ambiente acadêmi- cação na Reforma Agrária (Pronera), do Institu- co e de pesquisa, poderá articular uma gestão to Nacional de Colonização e Reforma Agrária mais racional e inteligente dos recursos natu- (Incra), como importante indutor para a mu- rais”, acredita. dança de mentalidade na agricultura, justamente Políticas adequadas Celso Ludwig, 32, coor-Acervo Fetraf - Sul vai ditar o preço e o volume produzido. Todos os cus- denador geral da Fede- tos acabam sobrando para ele”, enfatiza. ração dos Trabalhadores Como apoia o modelo de transição agroecológica, o na Agricultura Familiar movimento tem resgatado práticas agrícolas tradicionais da Região Sul do Brasil e desenvolvido sistemas de diversificação da produção. (Fetraf-Sul), acha que Em Santa Catarina, 900 agricultores produzem sementes quem vive na agricultu- de milho e feijão de variedades crioulas em uma unidade ra deve ser remunerado de beneficiamento desses produtos. “Essa experiência por preservar os ativos poderia ser direcionada para outras regiões”, sugere. ambientais (variedades No Piauí, os agricultores estão montando agroin- de plantas, sementes e dústrias em torno da produção de caju. Eles não co- animais). “Vamos su- mercializam só a fruta, mas o suco e a polpa dela, Celso Ludwig, da Fetraf-Sul, por que um agricultor além de doces e geleias. “Para implantar mais agroin- defende remuneração a que tenha 20 hectares dústrias pelo País, a legislação teria de se adequar à re- quem preservar a natureza de terra e nenhum ativo alidade dos pequenos agricultores. A que vigora hoje ambiental plante em toda a área e ganhe R$ 500 por é moldada para um sistema de produção em larga es- hectare/ano, ou seja, R$ 10 mil. Outro, com os mes- cala, que incentiva mais a soja do que milho e arroz, mos 20 hectares, sendo que sete são de mata e dois por exemplo, dois itens básicos da alimentação”, criti- com nascentes e córregos, terá apenas 11 para pro- ca o coordenador. duzir. Pela lei, ele é obrigado a preservar a natureza. No momento, o MPA está discutindo a implanta- Comparado ao primeiro, a sua renda anual será de R$ ção de um sistema de produção baseada na agroener- 5,5 mil”, exemplifica. gia – o agricultor produziria a própria energia para o O Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), seu sustento e comercializaria o excedente. que reúne 100 mil famílias de camponeses, não ne- cessariamente integradas ao mercado formal, reivin- dica políticas públicas adequadas às diferentes reali- dades na agricultura brasileira. Na visão de Marciano Toledo da Silva, 40, coordenador de Agrobiodiversi- dade da organização, a produção orgânica, muito dis- cutida hoje em dia, precisa ser observada com cautela porque é tida como mais um pacote tecnológico, com regras rígidas em torno dos insumos e a presença de um assessor técnico responsável pela certificação dos Sementes produtos. “Além disso, os canais de comercialização e produtos Fotos: Acervo MPA (grandes lojas e redes) são muito fechados para o es- industrializados: coamento da produção orgânica”, relata. “O agricul- atuação do MPA afasta tor acaba dependendo da figura do atravessador, que atravessadores Instituto Souza Cruz 7
  • 8. DEBATE Qual o maior desafio para a sustentabilidade das propriedades rurais? Dois especialistas apresentam seus pontos de vista acerca do tema, que tem motivado Maria Aurigele Barbosa Alves 23 anos, filha de agricultores, é técnica em Agropecuária e agente multiplicadora em Agroecologia. No Ceará, atua como educadora social do Programa Empreendedorismo do Jovem Rural (PEJR), executado pela Agência de Desenvolvimento Econômico Local (Adel), entidade na qual exerce a função de gerente de Projetos. Como parte de suas atividades profissionais, ela acompanhou no ano passado as feiras agroecológicas, coordenadas pela Fundação Konrad Adenauer, no semiárido cearense. Jovani Puntel de sistemas hídricos e fazer o manejo florestal adequado. A implementação de tecnologias O Brasil é conhecido mundialmente por sua riqueza natural e ambiental, além da força eco- alternativas irá melhorar a qualidade de vida e produção na zona rural. Como é baixo o nível de renda e de educação formal da população do nômica da agricultura. No entanto, a difícil re- campo, muitos produtores rurais promovem o lação homem x natureza provocou uma grande extrativismo predatório dos recursos naturais mudança no ecossistema: os recursos naturais para garantir a sobrevivência da família, afetan- passaram a ser usados para benefício próprio, o do a floresta e sua biodiversidade. Na Amazônia, que tem contribuído para a degradação do meio por exemplo, 90% da exportação madeireira é ambiente. A exploração madeireira sem manejo para fins comerciais e sua exploração é ilegal. florestal, a pecuária extensiva, a agricultura me- No Ceará, a realidade não é tão diferente, mas canizada em grande escala, o desmatamento e as notam-se avanços. Os agricultores usam tecno- queimadas são exemplos de problemas a serem logias alternativas como plantio em curvas de ní- superados. Nesse sentido, a necessidade de con- vel, agroflorestas, cobertura do solo e defensivos ciliar o crescimento econômico do País com a naturais, além de atuarem na reposição da mata conservação dos recursos naturais é um enorme ciliar e da mata nativa. Eles vêem na Agroecolo- desafio porque os superávits na balança comer- gia uma saída para recuperar áreas degradadas e cial dependem da exportação de produtos agrí- gerar melhores condições de vida. Portanto, é colas cultivados em grande escala (IBGE, 2004). necessário mudar os hábitos de cultivo agrícola, Os pequenos, médios e grandes produtores o que requer tempo e dedicação da sociedade ci- rurais precisam se sensibilizar para a importân- vil e, principalmente, do Poder Público na busca cia da sustentabilidade ambiental do campo. Ou de novas soluções viáveis para a sustentabilidade seja, utilizar de forma consciente os recursos na- das propriedades rurais. O comprometimento turais e adotar práticas como a redução do uso de todos os setores na defesa do meio ambiente excessivo de agrotóxicos, evitar a contaminação pode fazer a diferença para as gerações futuras. 8 Sustentabilidade do Campo
  • 9. amplas discussões Christino Áureo 49 anos, é secretário Estadual de Agricultura e Pecuária do Rio de Janeiro e deputado estadual reeleito em 2010. Formado em Medicina Veterinária, com pós-graduação em Administração Rural e especialização em Políticas Públicas e Governo. Pertence aos quadros de Administradores do Banco do Brasil, onde exerceu diversos cargos de gestão em Brasília, Rio de Janeiro e outros estados. À frente da pasta desde abril de 2001, ele implementou importantes programas para o desenvolvimento do setor e da agricultura familiar no estado, como o Rio Leite, Rio Genética, Rio Rural, Estradas da Produção, Prosperar e Frutificar. Robson Oliveira A sustentabilidade envolve muitos aspectos da relação entre o setor produtivo no campo e gam a preservação “romantizando” a questão ambiental, nem dos que, sem qualquer tipo de os resultados a serem obtidos para a economia escrúpulo, se colocam na tarefa de produzir a como um todo. Ao revermos a relação das ge- qualquer preço. rações passadas com a natureza, o que nos salta A experiência que vivemos no Rio de Janeiro aos olhos é a falta de informação reinante na- com o Programa Rio Rural, patrocinado pelo quela época. A agressão ao meio ambiente nem Banco Mundial e Governo do Estado e implan- poderia ser classificada dessa forma, pois o que tado pela Secretaria de Agricultura, mostra um havia era um desconhecimento absoluto dos caminho objetivo para a questão. Os agriculto- seus verdadeiros impactos. Na medida em que a res “convertidos” para esta filosofia são premia- sociedade evoluiu e, paralelamente, foram alcan- dos com o apoio às suas atividades produtivas. çados avanços na produtividade, compreendeu- Neste contexto, o Rio Rural vem fazendo um -se melhor o valor da preservação dos recursos trabalho de recuperação das estradas rurais e das naturais. O encontro da conscientização para a nascentes, replantio de matas ciliares e, principal- preservação e a própria perpetuidade do proces- mente, adequação dos processos de produção. so de produção com elevadas performances no Seja ele na atividade leiteira, de hortaliças ou campo, vai de alguma maneira acontecer. de flores, entre outras, envolvendo tudo aquilo O nosso maior desafio é fazer com que este que gravita no universo da agricultura familiar. A processo se acelere, porque o planeta vem dan- sustentabilidade real pode ser comprovada pelo do demonstrações de que não suporta mais viver indicador mais indiscutível que existe: a redução sob intensa pressão. Para apressar a harmoniza- da pobreza rural. Esta sim, a meta principal que ção dessa convivência, não podemos dar espaço temos conseguido alcançar paulatinamente atra- para as visões radicais. Nem daqueles que pre- vés dessas ações. Instituto Souza Cruz 9
  • 10. Haroldo Mattos Lemos Presidente do Instituto Brasil Pnuma Futuro sustentável Fotos: Domingos Peixoto A Lemos: com o perfil de país credor ecológico, o Brasil poderá dar um salto de qualidade no futuro sustentabilidade é um caminho sem volta e o Brasil tem chances de reescrever a sua história por ostentar grande capacidade de produzir re- Como a A divisão que fizemos até aqui en- cursos naturais renováveis. A afirmação é de um humanida- tre países ricos e pobres, mais e me- dos maiores especialistas brasileiros no assunto, nos agrícolas, não é mais adequa- de poderá Haroldo Mattos Lemos, presidente do Instituto da. A tendência agora é dividir o lidar com os Brasil Pnuma, o Comitê Brasileiro do Progra- mundo entre credores e devedores interesses ma das Nações Unidas para o Meio Ambiente, ecológicos. Existem países, como o divergentes e professor de Engenharia Ambiental da Escola Brasil, com capacidade de produzir entre países Politécnica da Universidade Federal do Rio de recursos naturais renováveis (bioca- Janeiro. Ele alerta, no entanto, que o salto à de diferentes pacidade) maior do que sua pegada frente só será possível se o País superar gargalos estágios de ecológica, que inclui a área necessá- na agricultura, como o desmatamento, o desper- desenvolvi- ria para produzir os insumos que a dício de água e a erosão do solo. mento? população consome e para absorver Ex-Secretário de Meio Ambiente do Minis- os resíduos produzidos na geração tério do Meio Ambiente e coordenador brasilei- dos insumos (produtos e serviços). ro do Sub-Grupo de Meio Ambiente SGT-6 do São os credores ecológicos. Outros Mercosul, Lemos, que tem mestrado em Enge- países, como os Estados Unidos e o nharia Sanitária e Ambiental pela Delft Universi- Japão, têm pegada ecológica maior ty of Technology (Holanda, 1973), afirma ainda que sua biocapacidade e precisam que o Brasil está longe dos níveis de conscienti- importar matérias-primas e alimen- zação dos países posicionados à frente no que se tos para sobreviver. São os devedo- refere aos cuidados com a natureza. res ecológicos.10 Sustentabilidade do Campo
  • 11. Não. Em 1820, o PIB per capita O Brasil Alguns ajustes precisavam ser feitos Sempre de todas as regiões do mundo era no Código. Espero que a versão final discute há al-houve essa bem semelhante. Depois, o cenário seja capaz de entender e refletir o fato guns meses diferença mudou. Países que souberam usar de que a agricultura depende muito o novo Códi- entre os os combustíveis fósseis desenvol- das florestas e dos serviços que a na- go Florestal, países? veram tecnologia e equipamentos tureza nos presta. Vou dar um exem- que im- para aproveitar a energia gerada plo. Muita gente acha que as abelhas pacta áreas pela queima desse recurso natural e só servem para produzir mel e para produtivas. deram um salto. Outras regiões fi- nos picar quando são provocadas, O senhor caram para trás. Dentro de 50 anos, mas elas são polinizadoras de grande entende que no entanto, o petróleo estará escas- parte dos produtos consumidos pelos as soluções so. Ainda vamos ter bastante carvão homens. Em algumas regiões do mineral, mas as questões que en- encaminha- mundo elas começaram a desparecer. volvem as mudanças climáticas vão das vão ao Hoje, nos Estados Unidos, tem gen- frear essa utilização. Países credores encontro das te alugando abelhas na época da flo- ecológicos poderão aproveitar esta necessidades ração na agricultura. Na minha ju- oportunidade. É uma chance para o do País nessa ventude, as pessoas endeusavam a Brasil reescrever a sua história. questão? tecnologia, como a que permitiu o homem chegar à lua, e até hoje acre- O Instituto Brasil Pnuma foi cria- ditam que ela pode resolver tudo. No Qual o do em 1991. A partir de 2004, co- entanto, se perdermos as abelhas, nãotrabalho do meçou a funcionar em Brasília um há tecnologia que dê jeito.Instituto no escritório sub-regional do Pnuma Brasil? para a América do Sul, que é o seu É um caminho sem volta. Há um representante oficial no País. Desde relatório, produzido por 29 grandes A sustenta- a sua criação, a cada dois meses, o empresas do mundo inteiro, partici- bilidade Instituto Brasil Pnuma produz um pantes do Conselho Empresarial ambiental boletim informativo com notícias do Mundial para o Desenvolvimento trabalho que o Pnuma faz no mun- será tema Sustentável, que propõe metas para do inteiro e notícias e artigos sobre dominante que a humanidade saia do business questões nacionais. Como estou en- daqui para as usual atual para atingir a susten- volvido no desenvolvimento da Série frente? tabilidade até o ano 2050 nos cam- de Normas ISO 14000 de Gestão pos dos valores humanos, energia, Ambiental, como vice-presidente do agricultura, florestas, construções e Comitê Técnico 207 da ISO, fize- transportes, entre outras áreas. Uma mos parceria com o Sebrae para pro- das metas é dobrar a produção agrí- duzir um documento sobre avaliação cola, sem mais desmatamento e sem de ciclo de vida aplicada às pequenas aumentar o volume de água utiliza- e médias empresas e outro relatório da. Já existe tecnologia para isso. O que faz uma síntese do desenvolvi- documento está sendo agora adap- mento sustentável na prática. tado pelo Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (Cebds), para as con- dições brasileiras. Os empresários perceberam que reduzir desperdícios, fazendo com que o processo produtivo gaste menos energia, água e matéria prima, economiza dinheiro e melhora a competitividade.” Instituto Souza Cruz 11
  • 12. Haroldo Mattos Lemos Felizmente. O Programa das Na- A agricultura familiar precisa de A discussão A exploração ções Unidas para o Meio Ambiente mais orientação técnica e tecnolo- se ampliou... racional dos produziu um relatório que propõe gia para explorar adequadamente uma série de ações, como diminui- recursos na- os recursos naturais. Uma entidade ção da emissão de carbono, maior turais leva ao modelo como a Embrapa, com suas eficiência do uso de recursos natu- melhor apro- pesquisas e estudos, tem permitido rais, redução da pobreza e a apli- veitamento que mais produtores rurais possam cação de 2% do PIB mundial em da proprie- manter suas propriedades com o atividades para a sustentabilidade – dade rural. seu próprio trabalho. Do contrário, cerca de US$ 1,3 trilhão. A maior O que deve se não conseguem sobreviver no parte desse dinheiro poderia vir ser feito para local, eles acabam vendendo seus da substituição dos subsídios in- disseminar estabelecimentos, o que estimula a sustentáveis, como o que é dado essa prática? concentração de terras. Distribuir atualmente para as frotas pesquei- lotes para serem trabalhados por ras. Em 2009, no mundo inteiro, pessoas que sempre viveram nas ci- os governos reservaram dez vezes dades, sem a mesma sensibilidade mais subsídios para o uso de ener- e conhecimento do agricultor, não gia fóssil do que para o desenvolvi- pode dar certo. mento de energias renováveis. Em 1975, quando criei no Rio de Ja- No caso do O desmatamento, por exemplo. neiro a Fundação Estadual de Enge- O brasileiro Brasil, quais O Brasil tem áreas já desmatadas e nharia do Meio Ambiente (Feema), comum seriam os tecnologia suficientes para dobrar a hoje Instituto Estadual do Ambien- ainda está produção agrícola sem precisar mais te (Inea), a visão era meio romântica gargalos alheio à derrubar árvores. Outro é a erosão e só se falava da poluição da água no setor de preocupação do solo. Um dos cuidados que esta- e do ar e da manutenção de peixes. agricultura? ambiental mos começando a adotar é o plantio Hoje a discussão é sobre a sustenta- direto, sem necessidade de revolver ou já se bilidade da humanidade com razoá- a terra. A água também é um fator percebe uma vel qualidade de vida. Programas de limitante e já está ficando escassa na mudança educação ambiental foram introdu- região Sudeste. A irrigação tradicio- nesse zidos nas escolas e trouxeram mais nal desperdiça muita água, mas já sentido? conscientização. Os empresários, existem tecnologias, como o goteja- que antes só atendiam as exigências mento na raiz da planta controlado ambientais quando eram obrigados, por computador, que reduz muito agora avançam além do que a legis- as perdas. As áreas agrícolas irriga- lação exige. Eles perceberam que das no planeta representam 20% do reduzir desperdícios, fazendo com total e são responsáveis por 40% dos que o processo produtivo gaste me- alimentos produzidos. Precisamos nos energia, água e matéria-prima, usar formas de irrigação que desper- economiza dinheiro e melhora a dicem menos água. competitividade. Como para um sujeito que luta pela sobrevivência diária não interessa se daqui a 40 anos os recursos naturais do planeta vão acabar, dentro da estratégia de discussão da sustentabilidade, um dos primeiros passos é reduzir a pobreza.”12 Sustentabilidade do Campo
  • 13. Não chegamos ainda ao nível dos letar plástico jogado nas ruas, este O consu- países escandinavos. Nos supermer- problema estará resolvido. Temos midor tem cados de lá existem gôndolas re- de colocar a economia a favor da procurado servadas à produção ecológica e os sustentabilidade. também alimentos trazem informações até produtos sobre a quantidade de gases de efei- Em 1900, tínhamos apenas 1,5 bi- Por que sub-que agridam to estufa gerada durante o processo lhão de pessoas na Terra e abundân- siste ainda menos produtivo. Os que produziam com cia de florestas e peixes. Todas as o raciocí- o meio menos gás estufa tiveram a venda teorias produzidas sobre a impor- nio de que ambiente? aumentada. No Brasil já temos selos tância do consumo para movimen- lutar pela verdes, mas ainda são setoriais. tar a economia levavam em conta preservação aquela realidade. Acontece que As questões ambientais são bem en- do meio daqui a pouco vamos chegar a seteDe maneira tendidas em extratos de população ambiente é bilhões de habitantes no Planeta e geral, os com mais qualidade de vida. Nas jogar contra temos menos solos agriculturáveis, princípios camadas mais pobres, o tema ainda o desenvol- florestas e peixes. Para alcançar umda sustenta- não sensibiliza. Para um sujeito que vimento e o quadro sustentável, precisaremosbilidade são batalha pela sobrevivência diária, não progresso? adotar mudanças essenciais nas es- bem com- interessa se daqui a 40 anos os recur- truturas de governos, na economia,preendidos? sos naturais do planeta vão acabar. A nos negócios e no comportamento falta de alternativa o faz pensar assim. humano. Mas, infelizmente, a hu- Dentro dessa estratégia de discussão manidade tem o hábito de só botar da sustentabilidade, um dos primei- cadeado na porta depois que ela foi ros passos é reduzir a pobreza. arrombada. Se não tomarmos uma atitude hoje, vamos precisar de sa- Sem dúvida. Não adianta a popu- crifícios maiores amanhã.A atuação do lação cumprir o seu papel em casaPoder Públi- separando o lixo se a prefeitura não co é funda- disponibiliza um caminhão de co-mental para leta seletiva. O governo não precisaestimular os se preocupar, por exemplo, com aconsumido- reciclagem de latas de alumíniosres a reutili- porque esse tipo de trabalho já trazzar e reciclar retorno financeiro para quem vive materiais disso. Lembro de uma reportagem e reduzir o que mostrava um casal argentinodesperdício? bem vestido recolhendo latinhas de alumínio numa praia carioca. Eles haviam conseguido estender a via- gem só por conta desse trabalho. No dia em que for econômico co- Para o presidente do Instituto Pnuma Brasil, o País tem tecnologia suficiente para dobrar a produção agrícola sem precisar mais desmatar Instituto Souza Cruz 13
  • 14. Vapor gerado pelo refletor termossolar pode ser usado em caldeiras e estufas De volta à natureza Inspirado em princípios de preservação ambiental, o Centro de Desenvolvimento Fotos: Acervo Guaçu-Virá Sustentável Guaçu-Virá destaca-se com alternativas sustentáveis voltadas à realidade local U m aquecedor solar que esquenta a água até uma temperatura de 43 ºC, cuja montagem não (pesquisas do ecossistema da Mata Atlântica), minhocário (que produz o húmus, um ferti- lizante natural) e agricultura vertical (a fruta é custou mais do que R$ 60 e atende uma família cultivada suspensa, o que reduz a área de cultivo de até cinco pessoas. Um desidratador solar que e o volume de água da irrigação e descarta o uso permite aproveitar o excedente de safra de fru- de produto químico). Como não há coleta de tas e verduras conservando todos os seus valores esgoto, foi montado um sistema de fossa filtro nutritivos e ampliando o prazo de validade. Um que, após um processo de decantação, respon- refletor termossolar que, ao aquecer a água até sável pela eliminação da parte sólida, purifica o 600 ºC, gera vapor, útil para contemplar dife- líquido por meio de filtragem biológica – dessa rentes demandas – de caldeira, para produção de forma, 90% da água volta ao meio ambiente. geleias, à estufa, para fermentação de massas. Por ano, o centro recebe em média dois mil Essas são algumas das iniciativas implemen- alunos, vindos das escolas da região e até de ou- tadas pelo Centro de Desenvolvimento Susten- tros estados, que aprendem a plantar, manusear tável (CDS) Guaçu-Virá, instalado em uma área hortas e criar animais (cabritos, coelhos e gali- de dez alqueires no município capixaba de Ven- nhas). Comunidades indígenas e até uma insti- da Nova do Imigrante. No local, são produzi- tuição de ensino dos Emirados Árabes Unidos já dos morango, verduras e legumes visitaram o lugar. orgânicos. O empreendimento foi O CDS Guaçu-Virá acolhe tam- criado em 1993 e é fruto da perse- bém cerca de 600 estudantes por verança do argentino Júlio Alberto ano de escolas estaduais, em uma Duenas, idealizador da iniciativa. parceria com o Instituto Estadual “Queremos funcionar como mo- de Meio Ambiente e Recursos Hí- delo para outras propriedades se es- dricos (Iema). Eles aprendem con- pelharem, para que todas trabalhem ceitos de sustentabilidade ambiental sem degradar o meio ambiente”, e técnicas agrícolas e os mais talen- assinala a bióloga Graziele Dalbó tosos são treinados para se torna- Falqueto, que atua nesse programa rem monitores ambientais. Os pro- há três anos. “Nós nos dedicamos ao gramas têm tamanha repercussão, estudo, pesquisa e desenvolvimento conta Graziele, que aportaram em de ações sustentáveis, com equipa- Moçambique e Angola, onde estão mentos de baixo custo e construção sendo adaptados às realidades locais. simples, que empregam materiais disponíveis, reciclados ou naturais, na própria região”, explica. Aquecedor de água solar (no alto) Além das energias alternativas, e agricultura vertical: ações o CDS Guaçu-Virá desenvolve ain- sustentáveis de baixo custo da projetos de educação ambiental14 Sustentabilidade do Campo
  • 15. Juventude engajadaAbrigados em uma entidade com práticas e princípios Estruturados sem hierarquia, líderes ousocioambientais, grupos de jovens estão contribuindo coordenadores, grupospara a construção de políticas públicas e o fortalecimento de jovens se mobilizam para formar cidadãos maisdo Movimento de Juventude e Meio Ambiente conscientes e ativos na defesa do meio ambienteU ma entidade estruturada sem hierarquias, líde-res ou coordenadores, que reúne grupos de jovensenvolvidos em ações e lutas por temas socioam-bientais. Presente em todos os estados brasileiros earticulada com similares latino-americanas, a Rededa Juventude pelo Meio Ambiente e Sustentabili-dade (Rejuma) sensibiliza e mobiliza a juventudepara causas e questões relacionadas aos temas. “O intuito é engajar os jovens e motivá-losa ter participação política ambiental, assumindoo papel de protagonistas em relação à sustenta- Fotos: Coletivo Jovem de MTbilidade do planeta”, enfatiza a bióloga ElizeteGonçalves dos Santos, que milita na organizaçãoe integra o Coletivo Jovem de Meio Ambiente deMato Grosso (CJ-MT). Estes grupos informais, “também sem líderes e hierarquias, desenvolvematividades ligadas à melhoria do meio ambientee da qualidade de vida. “Em um momento de Em um momento de crise ambientalcrise ambiental no mundo, é urgente a formação no mundo, é urgente a formação dede jovens cidadãos e de uma educação libertáriae inclusiva”, acrescenta. jovens cidadãos e de uma educação Foi no Encontro Nacional da Juventude pelo libertária e inclusiva”Meio Ambiente, realizado em 2003 na cidade deLuziânia (GO), que surgiu a ideia de abrigar to-dos os coletivos jovens em uma única rede. Com retrizes para a promoção de políticas públicas deespírito militante, a Rejuma começou a partici- juventude. “Nós conseguimos também obter umpar ativamente em diversos espaços de discussão, assento na área ambiental e na construção do Es-proposição e construção de políticas públicas tatuto da Juventude”, conta a bióloga.para a Juventude e Meio Ambiente, como o Fó- Nem tudo são flores, no entanto, na cami-rum Brasileiro de ONGs e Movimentos Sociais nhada da Rejuma. A organização ainda enfrentapara o Meio Ambiente e Desenvolvimento. A a incredulidade de muitos jovens e adultos, queentidade, inclusive, tem firmado parcerias pro- consideram o tema socioambiental como umadutivas com os ministérios da Educação e Meio causa perdida. “A gente percebe que parte daAmbiente para a realização das Conferências juventude não se envolve nesse tema, o que tor-Infanto-Juvenil pelo Meio Ambiente. “Aos pou- na mais lenta a disseminação de nossas ideias”,cos, estamos construindo a nossa identidade e conta Elizete. Tais obstáculos não inibem a atu-autonomia”, festeja Elizete. ação da entidade, que vai prosseguir em sua luta Mesmo com pouco tempo de existência, a pelo engajamento de mais pessoas. “O meio am-Rejuma já apresenta bons resultados. Os jovens biente, além de ser um assunto bastante atual eda rede se mobilizaram e conseguiram, por exem- conectado ao futuro do mundo, é uma maneiraplo, fomentar a criação do Conselho Nacional de de os jovens exercerem sua cidadania. Por meioJuventude (Conjuve), regulamentado em 2007 de pequenas ações cotidianas, podemos mudar apelo Governo Federal, que propõe e formula di- sociedade”, finaliza. Instituto Souza Cruz 15
  • 16. JOVENS EM AÇÃO Mudança de rumo No Sul e Nordeste, jovens agricultores implementam projetos bem-sucedidos de sustentabilidade ambiental em propriedades e comunidades rurais Q uem vê a propriedade de 42 hectares da família do agricultor catarinense Fabiano Eller, de 24 anos, com áreas reflorestadas e uma nascente de água mineral, não imagina como essa realidade era diferente há alguns anos. Resi- dentes em Santa Rosa de Lima, na região das Encostas da Serra Geral, eles tinham uma produção pouco diversificada e sem muitas perspectivas. Diante dessa situa- ção nada promissora, ao concluir o Ensino Médio, em 2005, Eller chegou a cogitar trabalhar fora O agricultor Fabiano Eller mudou a forma de para garantir a própria renda. gerir os recursos naturais de sua propriedade O cenário mudou, no entanto, e está reflorestando as áreas desmatadas ao ingressar no Programa Empre- Jovani Puntel endedorismo do Jovem Rural (PEJR), do Instituto Souza Cruz, investiu na produção de leite à Microbacias 2, do governo catari- quando se deu conta de que pode- base de pasto (Sistema Voisin), nense, conseguiu mudas de árvores ria gerir os recursos naturais do tema de seu projeto final no trei- para o plantio dessa área cercada, estabelecimento de outra forma e namento, e decidiu reflorestar as protegendo as nascentes que não maximizar o rendimento familiar. áreas desmatadas. “Comecei tam- abrigavam mais mata nativa. Não “Percebi que a propriedade estava bém a separar o lixo de forma bastasse, ele reduziu ainda o uso de sendo relegada ao segundo plano. mais adequada. O material reci- agrotóxicos nos cultivos de milho, Como só pensávamos em ganhar clável é isolado e recolhido pela aipim, batata, hortaliças, batata- dinheiro para pagar as contas, dei- prefeitura a cada dois meses. Já o -doce, batatinha e frutas. Boa parte xávamos as roças abandonadas. Vi lixo orgânico, utilizo como adubo da produção familiar é entregue ao que era preciso buscar alternativas na produção de hortaliças e para Programa de Aquisição de Alimen- para contornar tais problemas. Re- os animais”, explica o jovem que, tos (PAA). solvi, então, estudar e trabalhar além da atividade agrícola, partici- “Tudo que eu aprendi no para melhorar a nossa condição de pa da direção da cooperativa de PEJR foi de muita importância vida e me tornar cada vez mais crédito Cresol e de um sindicato. porque notei que estávamos traba- uma pessoa realizada aqui mesmo, O reflorestamento foi imple- lhando de forma errada na pro- junto aos meus familiares”, conta. mentado por Eller a partir de pi- priedade, mas hoje revertemos o Durante a formação no PEJR quetes, que construiu também com quadro”, revela o jovem, que ali- no Centro de Desenvolvimento o intuito de cercar os rios e banha- menta o sonho de continuar ali. do Jovem Rural (Cedejor), orga- dos para evitar a aproximação dos “Não há lugar melhor para se viver nização parceira do Instituto, ele animais. Com o apoio do projeto do que no meio rural”, enaltece. 16 Sustentabilidade do Campo
  • 17. incentivados a discutir coletiva- mente os impactos ambientais ge- rados a partir da relação do homem com a natureza”, enfatiza. No ano passado, ela criou o Grupo de Jovens Unidos a Deus (GJUD), na igreja católica da co- munidade, e desde então tem de- batido, também no local, soluções para a destinação do lixo. Com a definição de um plano de ação, o grupo lançou recentemente o Dia Agroecológico, uma campanha de Acervo Equipe de Comunicação do MOC incentivo e conscientização acercaCultivo de hortaliças em da coleta seletiva – a turma visitousolo preparado com adubo propriedades da região, conscien- Horgânico: compostagem tizando agricultores e distribuin-feita a partir da sobra da á alguns anos, a agricultora do mudas de árvores frutíferas.produção de polpa de frutas Gildete Pereira da Silva, 21, passou Cada membro do GJUD é res- a observar que no entorno de sua ponsável pela conscientização de propriedade, localizada em Serri- seus vizinhos. O objetivo é fazer nha (BA), a quantidade de lixo se com que todos separem e direcio- avolumava, com sacolas de detritos nem o lixo aos pontos de recolhi- e restos penduradas nas cercas e na mento, de onde é encaminhado vegetação. A paisagem, relembra, a para uma microempresa da região“ incomodava bastante. Em sua casa, que compra recicláveis. “Trata-se o cuidado com a destinação do de um trabalho difícil porque as Queremos que material descartado era outro. Isso pessoas ainda não têm muita cons- porque ela havia introduzido a co- ciência do problema”, afirma ela. a iniciativa de leta seletiva e o reaproveitamento “Queremos que a iniciativa se tor- de resíduos, que assimilou em ne contínua e as famílias, com o separar e 2008 no curso de capacitação feito tempo, compreendam a impor- no projeto Agentes Multiplicado- tância da ação, trabalhando juntas direcionar o res de Ater (AMAs). Nesse progra- pela comunidade”, assinala. ma, aprendeu a fazer composta- lixo se torne gem da sobra da produção de pol- pa de frutas, convertendo-a em contínua e as adubo orgânico. O trabalho de separar o lixo, no famílias entanto, era prejudicado por um fator que não previra: o vento tra- zia para o seu terreno parte da su- compreendam jeira espalhada pela região. “Dian- te da situação, tive que pensar em a importância soluções que atendessem a comu- nidade inteira e não só a minha disso” propriedade”, conta Gildete, que concluiu nesse ano a formação no PEJR, implementado na Bahia em parceria com o Movimento de Or- ganização Comunitária (MOC). “Ao longo do programa, fomos Gildete implementou em sua propriedade a coleta seletiva de lixo e está disseminando a prática na comunidade local Instituto Souza Cruz 17
  • 18. Jornada capixaba Cerca de 400 pessoas de todas as regiões do País participaram da IV Jornada Nacional do Jo- vem Rural, em Domingos Mar- tins (ES), entre os dias 23 e 26 de agosto. Organizado pela Rede Jovem Rural, capitaneada pelo Instituto Souza Cruz, o evento, que teve como tema Por uma agricultura familiar, profissio- nal e inovadora, reuniu jovens, educadores e técnicos de 18 or- ganizações que trabalham com Jovani Puntel projetos de Educação no Campo. Diversas atividades fizeram parte da agenda, como painéis, Mais de 400 jovens, educadores e técnicos de todo o País se reuniram em oficinas, feira regional, apresen- Domingos Martins (ES) para discutir projetos relacionados à educação no campo tações culturais e visitas para conhecer experiências de agro- No último dia, os participantes anfitriã do encontro. No local, turismo da serra capixaba. Na deslocaram-se para a cerimônia de aconteceu a leitura da carta que ocasião, também foi lançada a encerramento, em Vitória, onde reúne as resoluções da jornada e revista Conexões Rurais, resul- foram recepcionados por cente- das Conferências Livres de Juven- tado do III Intercâmbio da Ju- nas de alunos do Movimento de tude, realizadas paralelamente ao ventude Rural Brasileira, outra Educação Promocional do Espí- evento. Para saber mais, visite o iniciativa da Rede Jovem Rural. rito Santo (Mepes), organização site www.jovemrural.com.br. Empreendedores cearenses O Ceará já tem sua primeira turma Empreendedorismo do Jovem ta de negócio sustentável para ge- de Agentes de Desenvolvimento Rural (PEJR), implementado no rar renda no campo para a família Rural. São 28 jovens, que conclu- território Médio Curu, em uma e a comunidade. íram a formação no Programa parceria entre a Agência de De- O passo seguinte do progra- senvolvimento Econômi- ma, que busca ativar o empreen- Acervo Instituto Souza Cruz co Local (Adel), Instituto dedorismo e o protagonismo no Souza Cruz e Fundação meio rural, é dar suporte para os Konrad Adenauer. Ao jovens materializarem seus proje- longo de um ano, eles es- tos. “É fundamental apoiar os tudaram e aprenderam no­ os agentes nesta próxima eta­­ v temas e questões relacio- pa porque esta é a primeira expe- nados à área humana, téc- riência empreendedora deles”, nica e gerencial. assinala Wagner Gomes, di­etor r Além de intercâm- executivo da Adel. “Ho­e, já te- j bios, estágios e ativida- mos jovens do PEJR desenvol- des no núcleo e nas pro- vendo empreendimentos pro­­ priedades, cada um deles dutivos com viabilidade econô- Jovens do campo desenvolvem projetos sustentáveis desenvolveu uma propos- mica”, finaliza.18 Sustentabilidade do Campo
  • 19. MEU RURAL Elielson Zoboli: a história da transformação, no interior capixaba, da propriedade da famíliaCultivandoconsciênciaM“ eu nome é Elielson Zoboli e resido no muni-cípio de Venda Nova do Imigrante, no interior doEspírito Santo. Tenho 18 anos e estudo na EscolaFamília Agrícola de Castelo, ligada ao Movimentode Educação Promocional do Espírito Santo (Me-pes), em regime de alternância. No período em queestou em casa também trabalho na agricultura, im-plantando o que aprendo na escola. Na nossa propriedade, com 54 hectares, vivemsete pessoas da família – meus pais, um avô, dois ir-mãos e uma cunhada. Temos uma produção varia-da. Plantamos café, abacate e mexerica poncã, alémde culturas anuais, como feijão e milho. A partir dosmeus estudos, passei a diversificar ainda mais o queproduzimos, introduzindo lichia, ameixa e inhame.Os alimentos são destinados ao sustento da família eo excedente é comercializado. Aprendi na escola a cuidar melhor de nossa pro-priedade. Os professores explicaram que preservaro meio ambiente é essencial para a vida de todos e Fotos: Paulo Portopor conta disso comecei a reflorestar uma das nossasnascentes. Pretendo, em breve, reflorestar as outrasduas existentes no terreno.” Sem queimadas “Além de fazer a averbação rios. Até o final do ano preten- obrigatória da reserva natu- do desenvolver esse sistema em ral, implantamos ainda ações toda a propriedade, porque se para evitar erosões no solo. As trata de uma região montanho- plantações, por exemplo, são sa e suscetível à erosão. feitas em curvas de nível (siste- Vale a pena dizer que não ma de cultivo que ajuda a reter fazemos queimadas aqui. Sabe- os elementos solúveis do solo, mos o quanto essa prática é pre- permitindo a intensificação da judicial ao meio ambiente. Em produção). Para conter a água vez de queimar, armazenamos das chuvas, instalamos caixas todo o lixo, que é recolhido pela secas nas estradas do sítio. Essa prefeitura municipal a cada 15 técnica consiste na construção dias. Quando concluir o Ensino de reservatórios na margem das Médio, neste ano, pretendo cur- vias para a captação dessa água, sar Agronomia e continuar fa- evitando enxurradas, o desgas- zendo de nosso sítio um modelo te do solo e o assoreamento dos de cuidado com a natureza.” Instituto Souza Cruz 19
  • 20. D ando continuidade a um dos seus objetivos estratégicos – de difundir conhecimentos sobre o processo de desenvolvimento integral dos jovens do campo – o Instituto Souza Cruz acaba de lançar Conexões Rurais. A revista apresenta dez boas práticas rurais mapeadas durante o III Intercâmbio da Juventude Rural Brasileira, realizado ano passado pela Rede Jovem Rural.Mapeando boas práticas rurais www.institutosouzacruz.org.br