Ano I – Número 02 – Junhode 2011                    Julho de 2011             ISSN - 2236-2347SUCESSÃOfamiliar            ...
Nesta edição                                                    Capa                  4           Com novas possibilidades...
Novas            gerações ruraisD    iante do leque atual e mais amplo de políticas direcionadas aomeio rural, muito tem s...
CAPA           Futuro              no campo           O processo sucessório           no campo, diretamente           rela...
Acervo Arcafar SulAlunos das Casas Familiares Rurais aprendem técnicas agrícolas pelo método da Pedagogia da AlternânciaRe...
CAPA               Jucimara Araldi, da Fetraf-Sul (à dir.), ao lado de Cátia Gross, do           Sindicato de Palmeiras (P...
Outro cenário                 A  pesar de se constituir em opção majoritária entre os                 ral de Santa Catarin...
DEBATE         Onde concentrar os                        esforços para a                            permanência           ...
para a sucessão da juventude rural               Kátia Abreu               49 anos, elegeu-se senadora em 2006 pelo       ...
Maria Elenice Anastácio Secretária de Jovens Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais da                                      ...
Contag                          Comecei lutando pelo direito a es-                       Éramos invisíveis diante da socie...
Maria Elenice Anastácio                     quando chegarem à fase adulta.                            capazes de pensar e ...
Muito. Realizamos um processo                                                                                  Os resultad...
Jovens passam duas semanas                                          na escola e a outra quinzena                          ...
Givaldo do                 Carmo Souza                                                                                    ...
JOVENS EM AÇÃO         Elas são as         sucessoras                                                                     ...
A jovem agricultora                                                    Denise decidiu                                     ...
Presença Internacional     Representantes de organiza-     ções internacionais que de-     senvolvem atividades com a     ...
MEU RURALAbelhasbem-vindasS    ou Everardo Alves Moreira, filho dos agriculto-res Francisco, conhecido como Tenente, e Fát...
Centenas de jovens de todo o Brasil  debatendo sobre o meio rural                                      Acervo Instituto So...
Upcoming SlideShare
Loading in...5
×

Sustentabilidade med md8kcnuu

154

Published on

0 Comments
0 Likes
Statistics
Notes
  • Be the first to comment

  • Be the first to like this

No Downloads
Views
Total Views
154
On Slideshare
0
From Embeds
0
Number of Embeds
0
Actions
Shares
0
Downloads
5
Comments
0
Likes
0
Embeds 0
No embeds

No notes for slide

Sustentabilidade med md8kcnuu

  1. 1. Ano I – Número 02 – Junhode 2011 Julho de 2011 ISSN - 2236-2347SUCESSÃOfamiliar Entrevista Maria Elenice Anastácio, da Contag: “A juventude rural está engajada na transformação da sua comunidade.”
  2. 2. Nesta edição Capa 4 Com novas possibilidades de renda, jovens estão preferindo continuar na profissão dos pais 10 Debate 8 “Onde concentrar os esforços para a permanência do jovem no campo?”: Abdalaziz Moura e Kátia Abreu Entrevista 10 Maria Elenice Anastácio, secretária de Jovens Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais da Contag Boas Práticas 14Amefa: método de ensino alia aulas na escola e comunidade MOC: desenvolvimento sustentável no semiárido baiano Jovens em Ação 16 As histórias de Marilice e Denise, jovens mulheres que já se preparam para a sucessão familiar Instituto em Foco 18 16 Instituto Souza Cruz representa o Brasil em eventos internacionais sobre juventude rural Meu Rural 19 O agricultor cearense Everardo Alves, 21 anos, 16 aumenta a renda familiar com a criação de abelhas Coordenação: Luiz André Soares SUSTENTABILIDADE DO CAMPO Publicação trimestral do Instituto Souza Cruz Jornalistas responsáveis: Julho/2011 - Tiragem: 2 mil exemplares Andrea Guedes (Mtb.28246 RJ) e Guilherme Mattoso (Mtb.26674) Rua da Candelária, 66 / 4º andar – Centro Projeto gráfico e produção editorial: Via Corporativa Comunicação (www.viacorporativa.com.br) CEP 20091-900 - Rio de Janeiro (RJ) Tel.: (21) 3849-9619 – Fax: (21) 3849-9778 Foto de capa: Jovani Puntel institutosouzacruz@institutosouzacruz.org.br Os conceitos emitidos nos artigos e matérias assinadas são de responsabilidade www.institutosouzacruz.org.br dos autores, não refletindo, necessariamente, a opinião do Instituto Souza Cruz
  3. 3. Novas gerações ruraisD iante do leque atual e mais amplo de políticas direcionadas aomeio rural, muito tem sido discutido e repensado acerca das condiçõesde permanência da juventude no campo. A dinamização econômicada agricultura familiar, processo ligado à diversificação das atividadesrurais e à pluriatividade, é o principal trunfo para a formação de novasgerações rurais. Além de combinado com cultura e lazer, é consensotambém que deve ser acompanhado por processos planejados de sucessãofamiliar, permitindo aos filhos e filhas a gestão adequada do patrimôniotransferido por seus pais.Em sua segunda edição, Sustentabilidade do Campo debate a questão,ao mesmo tempo em que mostra famílias nas quais a continuidade daagricultura familiar é uma realidade. Em diferentes regiões brasileiras,o fomento ao empreendedorismo aparece como resposta às aspiraçõesdos jovens rurais que desejam permanecer no campo, devidamenteacompanhado da inovação.Rapazes e moças, hoje chamados a desenvolver novas habilidades ecompetências no campo, agregam novos conhecimentos e tecnologiasaos saberes práticos das gerações anteriores, reforçando o papel-chaveda educação contextualizada e de qualidade. Embora a questão da sucessãono campo seja mais visível na gestão das propriedades, é essencial discutiro papel da juventude em outras dimensões.A formação de quadros técnicos e institucionais nas organizações do campo,capazes de exercer papel de liderança, é também uma forte demanda.Discutir a sustentabilidade do campo, portanto, passa necessariamente porplanejar a qualificação de pessoas e organizações no meio rural.Boa reflexão! Luiz André Soares Gerente do Instituto Souza Cruz
  4. 4. CAPA Futuro no campo O processo sucessório no campo, diretamente relacionado à sustentabilidade da agricultura familiar, está cada vez mais inserido na dinâmica das pequenas propriedades e motiva os jovens a permanecer no meio rural C om a crescente dinamização das economias rurais, que fizeram aflorar novas possibilidades de renda, os jovens têm encontrado bons mo- tivos para permanecer nas propriedades familia- Andréia De Cézaro Morás res, dando continuidade à gestão de seus pais. Diego Salvador, 24 anos, é um deles. Apaixo- nado pelo cotidiano agrícola, ele comanda, ao lado do pai, Vilson Salvador, 59, e da mãe, Eny, 54, uma área de 12 alqueires localizada em Cor- Família Salvador: o filho Diego vai dar dilheira Alta, no Oeste de Santa Catarina, onde continuidade à gestão da propriedade cria vacas leiteiras e aves. “Eu me formei como técnico agrícola e vi que poderia aumentar a renda da propriedade se gaúchos – pretendem herdar a gestão dos esta- aplicasse aqui os conhecimentos que acumulei belecimentos. “Eles se queixam apenas de que o na escola”, conta Salvador, citando os cursos de pai posterga a decisão, e da persistência de uma inseminação artificial de animais bovinos e ges- certa cultura machista, que pretere as mulheres tão de propriedade como os seus preferidos. Se na hora de pensar a sucessão”, assinala ele. antes o estabelecimento produzia mensalmente Weisheimer observou também que a juven- apenas dois mil litros de leite, hoje a performan- tude nutre uma visão positiva do meio rural. ce quintuplicou. Seu lema “produzir mais com “O jovem passou cada vez mais a se identificar menos” tem funcionado. “Como o campo ofe- como agricultor familiar. Não é mais ‘colono’, rece qualidade de vida, quero permanecer. Só expressão que sugere espaço precário, rústico e iria para a cidade se fosse para ser dono de um atrasado”, afirma. negócio”, finaliza. O apreço pelo mundo rural não é novidade O valor do empreendedorismo para o professor e pesquisador Nilson Weishei- Se o gosto pela terra sempre esteve presente, o mer que, em sua tese de doutorado A Situação surgimento de novas oportunidades no campo Juvenil na Agricultura Familiar (2009), detectou reforçou a autoestima de quem ali vive. Esta que 70% dos entrevistados – jovens agricultores percepção faz parte do trabalho da Associação 4 Sustentabilidade do Campo
  5. 5. Acervo Arcafar SulAlunos das Casas Familiares Rurais aprendem técnicas agrícolas pelo método da Pedagogia da AlternânciaRegional das Casas Familiares Rurais do Sul do realizadas apontam que 85% dos formados nasBrasil (Arcafar Sul), que congrega 73 escolas dis- Casas Familiares Rurais permanecem no campo.tribuídas em 238 municípios no Sul do País. “O jovem precisa ficar por opção, e não ir para a As instituições de ensino ali reunidas utilizam cidade como exclusão”, assinala Dirce.como método educacional a Pedagogia da Alter-nância, que implica em revezamento de tempo Jovens protagonistase espaço dos estudantes (filhos de agricultores) A Federação dos Trabalhadores na Agriculturaentre a escola e a comunidade onde vivem. O Familiar da Região Sul do Brasil (Fetraf-Sul)curso de três anos, inserido no Ensino Médio, também atua no sentido de estimular a perma-entrelaça conteúdo exigido pelo MEC e discipli- nência do jovem no campo. Com duração denas voltadas para a realidade do campo, ensinan- 400 horas, e aulas sobre valores humanos, edu-do técnicas agrícolas, apicultura, gestão, saúde e cação ambiental, inclusão digital e oficinas pro-agroecologia, entre outras matérias. fissionalizantes, o Consórcio Social da Juventude “Somando todas as regiões que abrangemos, Rural, executado pela Fetraf em parceria com oformamos quatro mil jovens por ano”, come- Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), qua-mora a engenheira agrônoma Dirce Slongo, lificou, em um único ano, mais de 700 jovens deassessora pedagógica da Arcafar Sul. Com o 16 a 24 anos, em 22 municípios do Paraná, deconhecimento adquirido, eles se tornam empre- Santa Catarina e do Rio Grande do Sul.endedores e transformam a realidade nas comu- “O curso abriu oportunidades para que osnidades rurais. Um dos formados, por exemplo, jovens permanecessem na agricultura e con-investiu na fruticultura e ampliou a plantação tribuíssem para o desenvolvimento do setor”,de parreira, aumentando a renda do estabele- explica Jucimara Meotti Araldi, 26 anos, inte-cimento. Outro, na cidade de Iporã do Oeste grante do Coletivo da Juventude da Fetraf-Sul.(SC), abriu uma agroindústria de empacotamen- Outro programa, já finalizado, Terra Solidária,to de leite e o negócio prosperou de tal forma voltou-se para jovens que vivem na agricultu-que motivou o retorno de um irmão que vivia ra familiar. O conteúdo deu ênfase à formaçãona cidade. Em Manfrinópolis (PR), um grupo política de militantes sindicais, capacitação pro-se juntou para construir trilhas para caminhada fissional e escolarização. “A juventude está en-ecológica dentro da propriedade, caracterizado tusiasmada porque passou a entender que podecomo investimento em turismo rural. Pesquisas ser protagonista”, festeja. Instituto Souza Cruz 5
  6. 6. CAPA Jucimara Araldi, da Fetraf-Sul (à dir.), ao lado de Cátia Gross, do Sindicato de Palmeiras (PR), na luta pela conscientização dos jovens Programas específicos Projetos como o da Arcafar Sul e políticas pú- blicas desencadeadas pelo Governo Federal estão qualificando a vida no campo. A atividade agrícola Acervo Fetraf-Sul hoje é um negócio que requer alta especialização e uso de tecnologia específica. Ações afirmativas como o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar Jovem (Pronaf-Jovem), linha de financiamento de até R$ 10 mil para Paulo César Giordan, 38 anos, é um dos exem- investimento em atividades produtivas, buscam plos de agricultor que preferiu fazer cursos técni- contribuir para tornar o campo mais atrativo. cos específicos, como os de manejo de ordenha e Outras iniciativas também procuram valorizar pastagem, e permanecer trabalhando no estabele- este setor de importância estratégica para o País. cimento rural. Ele potencializou a renda familiar O Programa Nossa Primeira Terra, por exem- ao implementar no local tudo o que aprendeu. O plo, é uma linha especial de financiamento com resultado é visível. A propriedade de 12 alquei- o intuito de atender a demanda de jovens sem- res no município catarinense de Cordiheira Alta, -terra ou filhos de agricultores, na faixa etária de que administra com o pai, José Jacob Giordan, 18 a 24 anos, que desejam permanecer no meio 61, produz por mês seis mil litros de leite – eles rural e investir em uma propriedade. Vinculado se dedicam ainda ao cultivo de frutas, hortaliças e ao Ministério da Educação, o ProJovem Campo feijão, além de criar peru de corte. incentiva agricultores familiares de 18 a 29 anos “A gente já desenvolvia a atividade, mas só de- a concluírem o Ensino Fundamental, elevando a pois de aplicar novas técnicas e métodos é que o sua escolaridade e proporcionando a qualificação negócio prosperou. A partir da nossa experiên- profissional de acordo com as especificidades do cia, muitos jovens da região decidiram investir na campo. O curso, de 24 meses, é ministrado con- criação de vacas. Atualmente, 90% das proprieda- forme a alternância dos ciclos agrícolas, respei- des produzem leite”, festeja Giordan, casado com tando-se o período em que os alunos trabalham Adriane, 34, filha de agricultores, que trabalhava no campo. Em 2010, o programa atendeu cerca como doméstica e decidiu voltar para o campo. de 63 mil jovens. Em linhas gerais, com aporte de mais recur- sos financeiros e tecnológicos no campo, além de programas específicos de capacitação técnica e A realidade da educacional, a maior parte dos jovens ainda pre- fere continuar na agricultura familiar, sucedendo agricultura familiar os pais numa atividade responsável pela produção de 70% dos alimentos no Brasil e por 10% do 4,3 milhões de estabelecimentos Produto Interno Bruto (PIB). agrícolas (84,4% do total) José Jacob Giordan (pai) e Paulo César Giordan: prosperidade no campo 24,3% da área agrícola 40% da riqueza agropecuária 12,3 milhões de trabalhadores rurais 74,4% da mão de obra da agricultura brasileira 18,3 hectares é o tamanho médio das propriedades Andréia De Cézaro Morás 82% dos produtores têm Ensino Fundamental incompleto Fonte: Censo Agropecuário 2006 6 Sustentabilidade do Campo
  7. 7. Outro cenário A pesar de se constituir em opção majoritária entre os ral de Santa Catarina (UFSC), os filhos dos agricul- jovens, a atividade agrícola, no Oeste de Santa Cata- tores devem ser motivados a permanecer no cam- rina, não seduz uma parte considerável de rapazes e, po desde a infância. “Não iremos conter o êxodo especialmente, de moças – 43% delas desejavam tra- de parte da juventude se não incluirmos as crian- balhar e residir na cidade por avaliarem a ocupação ças na análise, pesquisas e ações afirmativas. Elas no campo como fisicamente penosa, de baixa renda são portas de entrada das mudanças em curso nas e, normalmente, sentirem-se preteridas na hora da su- comunidades rurais”, ensina o acadêmico, atual- cessão. A conclusão consta de dois estudos produzi- mente cursando pós-doutorado em Sociologia da dos naquela região, em 1998 e 2001, por pesquisado- Infância, no Instituto de Educação da Universidade res da Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão do Minho, em Portugal. Rural de Santa Catarina (Epagri). Doutor em Sociologia e professor da Universidade “Com a saída das mulheres para outras atividades, a Federal de Santa Maria (RS), Joel Orlando Bevilaqua população rural está envelhecendo e o campo se mas- Marin assinala que a juventude rural de hoje está sub- culinizando”, diagnostica Clóvis Dorigon, pesquisador metida a fatores que podem contribuir, no mínimo, do Centro de Pesquisa para Agricultura Familiar (Ce- para gerar questionamentos sobre se vale a pena se- paf), do Epagri de Chapecó (SC). “Se o estabelecimen- guir a profissão dos pais. to não tiver sucessor, corre o risco de ser vendido para “Alguns jovens hoje se interessam também pelas investidores urbanos, os chamados neorrurais, interes- ocupações assalariadas ligadas à prestação de servi- sados em substituir as atividades executadas ali pela ços, ao comércio e à indústria. Além disso, com a am- pecuária de corte ou reflorestamento, com graves con- pliação da rede de ensino, estudar ficou mais fácil. As sequências no restante da economia da região”, alerta. vias de transporte melhoraram bastante, o que permi- A questão agora, segundo o pesquisador Milton te deslocamentos mais rápidos. Por sua vez, os meios Silvestro, também do Cepaf, é identificar quem serão de comunicação retratam novos modelos e estilos os responsáveis pela gestão da agricultura daqui para de vida. Por último, a saturação da fronteira agrícola frente. Ele sugere algumas medidas. Uma delas, criar restringe a possibilidade de aquisição de novas terras. políticas focadas para agricultores de 25 a 35 anos de Conjugados, todos esses aspectos podem estimular a idade, um contingente sem alternativas a não ser assu- saída deles da propriedade rural”, avalia Marin. mir o estabelecimento dos pais, muitas vezes de baixa O campo, segundo os acadêmicos, deve ser en- rentabilidade. Outra, instituir um reordenamento fun- carado como um ambiente com vida comunitária, diário, que evite a transformação de terras sem suces- gerador de conhecimentos e habilidades especiais sores em sítios de lazer ou pecuária extensiva. que não podem ser desqualificados. Como sinteti- Na opinião de Valmir Stropasolas, professor do za Dorigon, “trata-se de um patrimônio valioso a ser Centro de Ciências Agrárias da Universidade Fede preservado e não isolado.” (Da esq. para a dir.) Dorigon, Silvestro e Marin: necessidade de políticas focadas aos jovens Ademir Júnior Ademir JúniorJuliano Mendes Instituto Souza Cruz 7
  8. 8. DEBATE Onde concentrar os esforços para a permanência do jovem no campo? Especialistas apresentam diferentes caminhos N a minha experiência de mais de 40 anos de vida profissional, atuando no campo com agri- - Fulano é do sítio, mas é um rapaz inteligente! Desconstruir e reconstruir outras concepções cultores familiares, assentados, assalariados, pro- sobre a agricultura e o campo torna-se uma tarefa fessoras e jovens, a maior dificuldade que tenho árdua. É como se tivesse de enfrentar e confrontar encontrado não é nada externo a eles. Não é a o que se ensina na escola, o que os pais passam para falta de dinheiro, tecnologia, terra, água, traba- os filhos, remar contra a maré, agir contra o óbvio, lho e mercado que restringe a participação da a cultura, o normal, o lógico. Quem tenta recriar juventude na agricultura familiar ou sua perma- outras concepções fica parecendo uma pessoa ro- nência no campo. Mas, sim, algo intangível, in- mântica, corajosa, diferente, capaz de fazer frente às terno, presente na cultura do seu entorno, da evidências, porém, muito idealista porque alimenta família, da escola, no inconsciente coletivo da sonhos impossíveis. sociedade, que fica determinando o comporta- A questão não é se o jovem deve permanecer no mento, as atitudes e as concepções dos jovens. campo ou não. Ele pode sair ou ficar, é direito dele Ao menos no Nordeste, a realidade é assim. Há fazer a opção. Mas é com quais referenciais ele faz um preconceito enraizado expresso em frases suas escolhas, pensando o quê a respeito do campo, desse tipo: do seu lugar, de sua família. Se suas concepções são -Estuda menino, porque senão tu vais ficar no herdadas da cultura vigente, da família e da escola, cabo da enxada feito teu pai! aí reside o problema. - Minha nora é do sítio, mas é uma menina limpa! Para mudar essa situação, a concentração dos esforços está em descobrir outro campo e outra maneira de olhar para ele. É tarefa dos movimentos sociais do meio rural, da escola, da universidade, de instituições envolvidas e, sobretudo, dos próprios jovens que moram e trabalham lá. É imprescindível o papel de uma legítima educação e uma assistên- cia técnica que visualize a descoberta de um campo belo, agradável, saudável, sustentável, impregnado de cultura e pleno de vida. Abdalaziz de Moura Xavier de Moraes 70 anos, é filósofo, teólogo, educador popular e autor da Proposta Educacional de Apoio ao Desenvolvimento Sustentável (Peads) para as escolas públicas do campo, além de integrante Acervo Instituto Souza Cruz da equipe de educadores do Serviço de Tecnologia Alternativa (Serta), em Pernambuco. Tem um blog especializado em educação no campo (www.mouraserta.blogspot.com). 8 Sustentabilidade do Campo
  9. 9. para a sucessão da juventude rural Kátia Abreu 49 anos, elegeu-se senadora em 2006 pelo DEM-TO) e é formada em Psicologia. Foi a primeira mulher a assumir a presidência da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), entidade que reúne os produ- tores de alimentos do País. Ex-dirigente do Sindicato Rural de Gurupi e da Federação da OBritoNews Agricultura do Tocantins, exerceu mandato de deputada federal de 2000 a 2006. N o empreendedorismo. O jovem que vive no campo não tem educação de qualidade, lazer ou juntos, compatibilizando a ânsia de evolução e crescimento do jovem com a experiência e o acesso à moradia. O Estado os esqueceu e a cida- conhecimento empírico do pai. Não há dúvida de se torna a única saída para quem sonha com de que, quanto mais informação tiver, maiores uma vida sem tantas carências. Para que perma- serão as chances de o jovem fazer suas escolhas neçam no campo e se dediquem à atividade rural, livremente, sem ver na cidade a única possibili- é preciso oferecer oportunidades de crescimento dade de futuro. pessoal e profissional que respondam às suas ex- Queremos que os filhos dos nossos produtores pectativas. Ensinar a empreender é sempre uma tenham acesso à formação profissional sem pre- boa resposta para o jovem, que aspira inovar, cisarem, obrigatoriamente, migrar para a cidade. progredir e superar as dificuldades enfrentadas Por esse motivo, buscando compensar os vazios pela família no dia a dia da propriedade. E isso institucionais no campo, o Senar nacional está precisa começar cedo, muito antes dos 18 anos. montando um curso de nível médio para ado- Saber empreender e ter conhecimentos bási- lescentes e jovens que queiram especializar-se cos sobre gestão e diferenciais de mercado mu- na função de técnico agrícola, para valorizar e dou a rotina de muitos jovens, por exemplo, no preparar profissionalmente quem tem vocação e interior do Paraná. A administração regional do disposição para trabalhar no campo. Afinal, se- Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Se- gundo dados do Instituto Brasileiro de Geo- nar) criou o programa Jovem Agricultor Apren- grafia e Estatística (IBGE), de 1940 para cá o diz para os filhos de pequenos e médios pro- percentual de brasileiros, homens e mulheres que dutores rurais da região. Estimulados, os jovens vivem na área rural, caiu de 69% para 16%. Se não debatem os novos conteúdos com a família e oferecermos aos jovens que ainda estão no campo sugerem soluções para o negócio, gerando mui- a chance de crescer empreendendo, certamente so- tas vezes ganhos de renda e qualidade de vida. brarão poucos para continuar produzindo alimen- Empreendedorismo e sucessão passam a andar tos e abastecendo as cidades. Instituto Souza Cruz 9
  10. 10. Maria Elenice Anastácio Secretária de Jovens Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais da César Ramos Voz ativa dos Jovens A vocação para a liderança e o despertar de um forte sentimento de preocupação social – Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado do Rio Grande do Norte (Fetarn). fruto do precoce gosto pela leitura – constru- Ela também foi eleita, pela segunda vez, membro íram uma das principais lideranças jovens dos da Comissão Executiva da Confederação Nacio- agricultores brasileiros. Aos 31 anos, nordes- nal dos Trabalhadores na Agricultura (Contag), tina e filha de trabalhadores rurais sem-terra, onde atualmente assume a Secretaria de Jovens Maria Elenice Anastácio começou a trabalhar Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais. na roça com 10 ano de idade. Com a sabedoria de quem conheceu de per- Duas décadas depois, ela acumula a experi- to as dificuldades enfrentadas no campo, Maria ência de já ter sido secretária e presidente do Elenice fala da sua trajetória e das perspectivas Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhado- para a atual e para as futuras gerações de filhos ras Rurais (STTR) de Monte das Gameleiras de agricultores: “A juventude rural está cada vez (RN), coordenadora do Polo Sindical de Trai- mais engajada na transformação da sua comuni- ri (CE) e da Comissão Estadual de Jovens da dade e mais consciente do seu papel histórico”.10 Sustentabilidade do Campo
  11. 11. Contag Comecei lutando pelo direito a es- Éramos invisíveis diante da socie- Você iniciou tudar. O meu pai é analfabeto e Como era a dade, governos e sindicatos, apenas cedo sua a minha mãe estudou só até a 4ª sua realidade vistos como filhos de agricultores, militância série do Ensino Fundamental. Sou e a de outros e não como jovens agricultores. pela causa da a mais velha dos sete filhos (cinco jovens Tínhamos acesso restrito às políti- juventude. mulheres e dois homens). Apenas agricultores? cas públicas. Isso significava baixa O que motivou três mulheres conseguiram concluir escolaridade, alto índice de analfa- essa luta? o Ensino Médio. Aos 15 anos in- betismo, pouco incentivo à geração gressei na Juventude Unida Game- de renda e ao acesso às novas tec- leirense (JUG). A nossa luta era pelo nologias para a produção agrícola acesso à educação, ao esporte e ao e não agrícola, além de inexistência lazer. Aos 16 anos fui convidada de políticas de estímulo ao espor- a participar do Sindicato dos Tra- te, lazer e cultura no campo. Não balhadores e Trabalhadoras Rurais existiam programas específicos para (STTR) de Monte das Gameleiras a juventude rural. Com o início (RN), ao qual me associei e logo do governo Lula, propusemos a depois fui eleita para duas gestões criação de projetos para o jovem como secretária, e outra como pre- do campo, de acesso à terra pelo sidente. Também coordenei o Polo Programa Nacional de Crédito Sindical de Trairi (CE), composto Fundiário – Nossa Primeira Terra e por 16 sindicatos. ao crédito pelo Pronaf Jovem, de qualificação pelo Consórcio Social De fato. Fui a primeira mulher e da Juventude Rural. Não é uma jovem presidente da região. Em trajetória 1999, criamos na Federação dos São aquelas que dizem respeito à Como comum Trabalhadores na Agricultura do proposição e negociação de polí- secretária de de uma Rio Grande do Norte (Fetarn) a ticas públicas e sindicais, a partir jovens em adolescente... primeira Comissão Estadual Provi- da concepção do desenvolvimento sória de Jovens Rurais. Em 2002, um órgão rural sustentável e solidário. Atu- elegemos a Comissão Estadual de sindicalista, amos para garantir visibilidade à Jovens Trabalhadores e Trabalha- quais são identidade e demandas juvenis, doras Rurais na Fetarn (CEJTTR). as suas afirmando os (as) jovens rurais Fui a primeira jovem eleita como prioridades? como segmento estratégico para coordenadora. Em 2005, ganhei a ocupar lugares públicos e políticos eleição no Congresso Nacional da Contag para ocupar a Coordena- ção Nacional de Jovens, e já estou na segunda gestão. A questão da sucessão familiar acaba sendo um problema de toda a sociedade porque o esvaziamento do campo implica no inchaço urbano” César Ramos Instituto Souza Cruz 11
  12. 12. Maria Elenice Anastácio quando chegarem à fase adulta. capazes de pensar e implementar Essa concepção precisa ser revista políticas para os (as) jovens do para que possamos assegurar hoje campo, respeitando suas identida- acesso aos direitos por parte dos des e contextos territoriais. Uma (as) jovens rurais, que estimulem vez criados, esses espaços devem sua permanência no campo e pro- dialogar com as organizações e movam o fortalecimento da agri- movimentos juvenis. cultura familiar. Por que o Há relação com o modelo de de- Na sua O governo tem promovido polí- campo está senvolvimento imposto, que tem ticas que respondem às demandas cada vez mais favorecido o êxodo dos jovens opinião, da juventude rural, principalmen- masculinizado? mais escolarizados e deixado na o Brasil te as que tratam de programas de agricultura os de menor escolari- avançou nas crédito, da formação e da geração dade. Nesse contexto, pesquisas políticas de renda e trabalho no âmbito da mostram que quem sai primeiro sociais para agricultura. Contudo, ainda falta são as jovens mulheres, deixando a juventude muito para que a juventude pos- o campo cada vez mais masculi- no campo? sa ficar no campo com dignidade. nizado e envelhecido. Embora a Temos problemas estruturais no saída não seja garantia de sucesso, que diz respeito à educação, saúde, a juventude prefere se arriscar ao transporte, acesso à terra, esporte, observar as poucas oportunidades cultura e lazer. São problemas que de desenvolvimento profissional têm motivado a saída de milhares de no meio rural. jovens do campo e, em especial, da agricultura familiar. No Rio É importante considerar que esse Grande do “desinteresse” não surge de for- De maneira geral, as políticas pú- Sul, 30% dos ma natural, mas como reflexo das O que ainda blicas enxergam os (as) jovens agricultores relações desiguais estabelecidas no falta para mais como um problema social e campo. A questão da sucessão fa- atender as não tem menos como sujeitos com direitos, miliar acaba sendo um problema demandas sucessores. importantes para construir um de toda a sociedade porque o es- dessa Como esse País justo, sustentável e forte. O vaziamento do campo implica no juventude? desafio é Pronaf Jovem, por exemplo, es- inchaço urbano. O que estamos enfrentado tabelece critérios adicionais para a vendo hoje no Brasil não é só a saí- juventude, ou seja, somente os jo- pela Contag? da da juventude do meio rural, mas vens precisam comprovar 100 ho- da família, o que implica no perigo ras de capacitação, além de outras da falência da agricultura familiar. exigências, tratando-os como be- O Movimento Sindical de Traba- neficiários de risco. Há uma série lhadores e Trabalhadoras Rurais de programas para a juventude ru- (MSTTR) atua para denunciar essa ral, mas as políticas estruturantes realidade, por meio de processos de nas áreas de educação e saúde, por negociação de propostas e de gran- exemplo, ainda são bem precá- des mobilizações políticas, como o rias. É preciso criar ainda instâncias Grito da Terra Brasil. Os jovens não são um problema social, mas sujeitos com direitos, importantes para construir um País justo, sustentável e forte”12 Sustentabilidade do Campo
  13. 13. Muito. Realizamos um processo Os resultados de educação à distância, via inter- são net, chamado Programa Jovem animadores? Saber. Em seis anos de existência, já capacitou mais de 30 mil jovens nas temáticas de Desenvolvimento Rural Sustentável e Solidário, Po- líticas Públicas, Políticas Sindicais e Gestão da Agricultura Familiar. Também organizamos vários fes- tivais municipais, estaduais e na- cionais da Juventude Rural, que costumam mobilizar milhares de jovens para participar de ativida- des de qualificação, culturais e es- portivas. Como a A gente tenta mostrar a viabilida- Contag lida de da agricultura familiar, apre- com o fato sentando exemplos de jovens de que a agricultores bem-sucedidos na sua produção. Além disso, defen- própria demos os direitos da classe tra- família balhadora rural, demandando e incentiva monitorando as ações do Estado os filhos a com vistas a garantir à população deixarem o do campo os direitos que histori- campo? camente têm sido negados. É um esforço incansável para construir- mos um mundo rural sustentável e solidário. A ampliação e diversificação das O que há formas de organização da juven- de mais tude rural, em sindicatos e mo- interessante vimentos estudantis, grupos cul- acontecendo turais, cooperativas e associações. no campo A juventude está cada vez mais em relação engajada na transformação da sua ao jovem que comunidade e mais consciente do nele vive e seu papel histórico. Há experiên- trabalha? cias organizativas interessantes. Em Ouro Verde (MG), por exem- plo, a associação de jovens quilom- bolas é uma referência de organi- Fotos: César Ramos zação de produção e cidadania. Só não queremos que projetos assim sejam histórias isoladas, mas vivên-Em Plenária da Juventude Rural, Elenice coordena reunião cias possíveis para o conjunto daque reivindica melhores condições de vida nas áreas rurais juventude rural brasileira. Instituto Souza Cruz 13
  14. 14. Jovens passam duas semanas na escola e a outra quinzena no campo, onde aplicam os conhecimentos adquiridos Acervo Amefa Uma escola diferente Associação mineira reúne instituições que incorporam método de ensino no qual o aluno se reveza entre a sala de aula e atividades práticas na comunidade U m modelo de escola diferente, que, junto com o Ensino Fundamental e Médio, desenvolve os alunos das EFAs têm aulas práticas nas quais aprendem a cultivar hortas e pomares, criar ani- uma formação integral e personalizada de jovens mais, entre outras atividades ligadas à agropecuá- trabalhadores rurais e suas famílias, em harmonia ria, além de noções de gerenciamento da proprie- com o meio ambiente. As Escolas Famílias Agrí- dade. “As matérias estão inseridas numa política colas (EFAs) adotam a Pedagogia da Alternância de geração de trabalho e renda, fortalecendo a como método educacional. Antes espalhadas e agricultura familiar, a agroecologia, a educação isoladas, essas instituições de ensino passaram a do campo, bem como a cultura popular, a so- integrar, em 1993, a Associação Mineira das Es- lidariedade e a sustentabilidade no meio rural”, colas Famílias Agrícolas (Amefa), sediada em Belo explica Gilmar de Souza Oliveira, 38 anos, há Horizonte e criada para este fim. Atualmente, quatro assessor pedagógico da Amefa. a entidade abriga 18 escolas e o número deverá Na Pedagogia da Alternância, que surgiu na aumentar com a inclusão de mais 30 em processo França em 1935 e foi implantada pela primeira de implantação em Minas Gerais. vez em uma escola brasileira em 1968 (Espírito Além das disciplinas do currículo tradicional, Santo) e em Minas Gerais em 1984, o aluno como matemática, português, geografia e história, permanece duas semanas em sistema de inter- nato na sede da EFA, e a outra quinzena do mês no meio em que vive. Ou seja, ele apren-Em uma das Escolas Famílias Agrícolas, de um conjunto de teorias e práticas na escola ealunos apreendem a cultivar hortas aplica, em seguida, o conhecimento assimilado na sua realidade socioprofissional. O curso se estende por quatro anos no Ensino Fundamental e pelos três do Ensino Médio. A criação da Amefa organizou essas experiên- cias pedagógicas visando não descaracterizá-las e preservar a filosofia, arregimentando apoios, financiamentos e convênios junto a entidades governamentais, não governamentais e associa- ções locais e regionais de Minas Gerais, e até do Exterior. “Queremos que essa importante pe- dagogia aplicada no campo não perca sua iden- tidade e adquira representação política, garan- tindo que as famílias agricultoras, estudantes e educadores estejam à frente na gestão dos projetos. Depois do surgimento da entidade, nenhuma escola que seguiu as suas orientações Acervo Amefa fechou”, comemora Gilmar. 14 Sustentabilidade do Campo
  15. 15. Givaldo do Carmo Souza Laudécio Carneiro da Silva Acervo Instituto Souza CruzExercício da cidadaniaNo semiárido baiano, o Movimento de Organização Comunitária promove o desenvolvimentointegral e sustentável da região, e forma a juventude para ser protagonista deste processoC om sede na cidade de Feira de Santana,o Movimento de Organização Comunitária Já o Programa de Gênero encoraja a militân- cia ativa das mulheres no contexto sociopolítico(MOC) nasceu em 1967 e está revolucionando local, como forma de promover a igualdade detoda uma região. Atuando em mais de 60 mu- direitos entre os sexos. Por sua vez, o Programanicípios da Bahia, a entidade promove uma série de Direitos das Crianças e Adolescentes potencia-de ações estratégicas para o desenvolvimento in- liza a criação de organizações juvenis. “Queremostegral, participativo e ecologicamente sustentável fomentar alternativas e perspectivas para que a ju-daquela área. Como assinala o pedagogo Givaldo ventude continue no meio rural com dignidade,do Carmo Souza, 25 anos, as iniciativas têm o in- renda e sustentabilidade”, conta Souza.tuito de formar lideranças e turbinar as organiza- O trabalho do MOC, na opinião do coordena-ções e instituições populares. dor, ajuda não só a redemocratizar a região, como “A ONG trabalha no sentido de formar cida- incita o conhecimento e o exercício dos direitos dadãos para interferir ativamente em espaços públi- cidadania. A partir desse momento, o jovem docos e institucionais como associações, sindicatos e campo passa a ter condições de lutar por uma so-conselhos”, explica ele, coordenador da Equipe de ciedade mais justa e igualitária. “Antes, a juventudeJuventude, que estimula o empreendedorismo e o era mais passiva, não interferia, cobrava ou apresen-exercício de uma visão crítica da realidade por parte tava propostas”, avalia Souza, que conclui: “Hoje,dos jovens. Foi por meio desse processo formativo, ela faz parte da vida e da pauta política da sua co-aliás, que o estudante Laudécio Carneiro da Silva, munidade, no papel de protagonista”.21 anos, prestou vestibular e passou em primeirolugar no curso de Comunicação Social da Uni-versidade Estadual da Bahia. “Os jovens rurais Com a parceria do Instituto Souza Cruz, o MOCestão construindo seus projetos de vida, sendo formou, em junho, 31 jovens no Programareconhecidos e valorizados”, orgulha-se Souza, Empreendedorismo do Jovem Rural (PEJR). Osfilho de pequenos agricultores do município novos agentes estão contribuindo para o forta-baiano de Santaluz. lecimento da agricultura familiar no território do A grade de programas específicos da institui- Sisal, por meio da implantação dos projetos em-ção tem sido responsável pela transformação das preendedores, cujos temas abrangem fruticultura,comunidades abrangidas pelo MOC. O Programa apicultura, acesso a políticas públicas, entreFortalecimento da Agricultura Familiar no Semiári- outros. Nesta etapa de aplicação prática, todosdo, por exemplo, busca viabilizar processos e ações continuarão sendo assistidos pelos educadoresde assistência técnica, crédito, beneficiamento da do programa.produção e comercialização. Com ênfase na demo- “Esses jovens vão fazer a diferença nas institu-cratização da mensagem, o Programa de Comuni- ições, nas famílias, nas propriedades e serão ci-cação promove o fortalecimento da comunicação dadãos com perspectiva de permanência nonos territórios rurais, capacitando rádios comunitá- campo com sustentabilidade, renda e cidadania”,rias e jovens comunicadores. conclui Souza. Instituto Souza Cruz 15
  16. 16. JOVENS EM AÇÃO Elas são as sucessoras Visão de futuro e boa gestão da propriedade ampliam perspectivas para jovens mulheres no campo M arilice Pracer, de 24 anos, poderia ter engrossado as esta- “No momento da elaboração do projeto de empreendedorismo, tísticas de jovens que deixam o exigido para a conclusão do pro- campo em busca de alternativas grama, vi com a minha família o de ocupação na cidade. A falta de que era mais viável para a proprie- interesse pelo meio rural, aliada à dade. Como o município está inje- questão da sucessão da terra, se- tando mais recursos na produção riam motivos fortes para a evasão. de leite, optei por esse caminho”, Ao mirar o futuro, no entanto, ela explica Marilice, que participou do acabou mudando a sua história. PEJR no Centro de Desenvolvi- Ela vive com cinco irmãos, a mento do Jovem Rural (Cedejor) mãe e um sobrinho numa pro- Centro-Sul do Paraná. priedade de quatro hectares na Atualmente, queijos e mantei- pequena cidade paranaense de gas, oriundos do beneficiamento, Paulo Frontin. Todos trabalham são apenas para o consumo da na produção agrícola, que abran- família. Ela, no entanto, quer ir ge leite, milho, feijão, erva-mate e além. Em seu pedaço de terra, pre- fumo. Os produtos são comercia- tende montar uma agroindústria e lizados no município e nos arre- um estabelecimento para processar dores e a renda gerada é de toda a o leite. O objetivo é comercializar família que, conjuntamente, deci- a produção e, em consequência, de onde aplicar o dinheiro. aumentar a renda da família. Apesar do bom andamento dos A jovem liderança também já negócios, a questão da sucessão fa- articula a criação de uma coopera- miliar na propriedade era iminen- tiva mista de pequenos produtores te. A solução encontrada foi aces- em Paulo Frontin. “Eu corri atrás sar o programa Crédito Fundiário, e já temos 20 agricultores associa- do Governo Federal, para a com- dos. O CNPJ facilitará a venda dos Fotos: Jovani Puntel pra de mais terras. Hoje, todos os nossos produtos”, conta. integrantes têm um lote para tra- Cheia de perspectivas e entu- balhar. Com seus dois hectares, e siasmo, Marilice quer continuar o título de Agente de Desenvolvi- no campo, trabalhando na agricul- Empreendedora, Marilice mento Rural obtido pela formação tura, assim como todos os seus ir- pretende montar uma no Programa Empreendedorismo mãos. “Eu era uma jovem que não agroindústria e um do Jovem Rural (PEJR), Marilice tinha muito interesse pelas coisas. estabelecimento para passou a enxergar no campo um Agora sei que, se a gente quiser processar o leite mundo de possibilidades. algo e for à luta, tudo é possível.” 16 Sustentabilidade do Campo
  17. 17. A jovem agricultora Denise decidiu continuar no campo após implementar na propriedade o que aprendeu sobre criação de bovinos Fotos: Jovani PuntelD ois anos atrás, Denise Las-ch, 20 anos, surpreendeu-se ingressar no programa, descobriu que poderia continuar no campo de já dispõe de estrutura física e algumas cabeças de gado foramcom uma declaração de seu pai. sem abrir mão da propriedade e, compradas. Denise conta tambémNa ocasião, ele confessou estar melhor ainda, trabalhar com mais com o apoio de parceiros como apreocupado com a sucessão na qualidade de vida. Cooperativa Tritícola de Espumosopropriedade, sediada no municí- “Houve um período em que (COTRIEL), a prefeitura muni-pio gaúcho de Estrela Velha. Por até pensei em desistir, pois tive cipal de Estrela Velha e a Empresaisso, ao tomar conhecimento do dificuldades para elaborar o pro- de Assistência Técnica e ExtensãoPEJR, do Instituto Souza Cruz, jeto de conclusão, mas ao longo Rural (Emater-RS), que ofereceu ànão pensou duas vezes e estimu- da formação consegui encontrar jovem um curso de inseminação ar-lou a filha a participar do curso meu caminho com o apoio dos tificial de gado, iniciado em junho.de formação. “Até entrar ali, não educadores. Fizemos viagens e “Hoje tenho muito orgulho desabia que meus pais tinham esta visitas técnicas a diferentes expe- ser jovem agricultora e não vejo apreocupação. Eles me incentiva- riências de bovinocultura e me hora de o projeto estar em plenoram bastante a encarar este novo interessei bastante pelo tema. No funcionamento. Sinto-me maisdesafio”, conta ela, que se for- início, tive medo de apresentar a responsável pela gestão da pro-mou no ano passado. ideia aos meus pais, mas, quando priedade, pois minha irmã mais Antes de conhecer o PEJR, falei sobre projeto, o incentivo foi velha casou-se e a caçula ainda éimplementado no Vale do Rio imediato”, comemora a jovem. criança. De certa forma, já mePardo (RS) em parceria com Agora, além do plantio de sinto realizada, pois estou dandoo Cedejor, ela não tinha mui- diferentes culturas como feijão, continuidade ao trabalho que vemta perspectiva de permanecer no mandioca, batata, soja e fumo, sendo feito desde que meus bisa-meio rural e já alimentava planos os Lasch terão mais uma alter- vós, imigrantes alemães, aqui che-de morar na cidade. Porém, ao nativa de renda. A proprieda- garam”, emociona-se Denise. Instituto Souza Cruz 17
  18. 18. Presença Internacional Representantes de organiza- ções internacionais que de- senvolvem atividades com a juventude rural percorreram, entre os dias 8 e 16 de maio, diversas regiões na Colômbia para conhecer experiências de associativismo e empreende- dorismo comandadas pelos Acervo Instituto Souza Cruz jovens rurais locais. Trata-se do programa de intercâmbio internacional Rotas de Apren- dizagem, realizado pela Cor- poração Regional Procasur, do Chile, em aliança com o Fundo Andrea e Eliandro durante as atividades Internacional para o Desenvol- da Rota de Aprendizagem na Colômbia vimento da Agricultura (FIDA), a Fundação Ford e o Ministério nização do evento, foi o Insti- Rural (PEJR). “Esta participa- da Agricultura e Desenvolvi- tuto Souza Cruz, representado ção reforça a nossa inserção em mento Agrícola da Colômbia. por Andrea Guedes, assessora uma rede de organizações in- A única instituição brasileira de Comunicação, e Eliandro ternacionais que são referência a marcar presença, com todas Giongo, educador do Programa na formação de jovens rurais”, as despesas custeadas pela orga- Empreendedorismo do Jovem assinala Andrea. Na Alemanha rá o 25º Seminário Internacional cipais encontros globais do para Lideranças Jovens Rurais, gênero, o seminário se vale da entre os dias 12 e 28 de julho em múltipla experiência dos parti- Herrsching (área rural próxima cipantes para promover um in- de Munique). Única organização tercâmbio de ideias e replicação brasileira a figurar no evento, o de soluções. Líderes proativos, Instituto Souza Cruz foi convida- com idade entre 25 e 45 anos, do por conta do projeto de coo- serão enviados ao evento pe- Em parceria com a UNESCO e peração internacional que desen- las organizações internacionais a FAO, o governo alemão, por volve em parceria com o Instituto convidadas. O assessor de Co- meio de seu Ministério Federal de Interamericano de Cooperação municação, Guilherme Matto- Agricultura, Alimentação e Prote- para a Agricultura (IICA). so, vai representar o Instituto ção aos Consumidores, promove- Considerado um dos prin- Souza Cruz.18 Sustentabilidade do Campo
  19. 19. MEU RURALAbelhasbem-vindasS ou Everardo Alves Moreira, filho dos agriculto-res Francisco, conhecido como Tenente, e Fátima.Moro na comunidade de Lagoa das Pedras, distantesete quilômetros do município de Apuiarés, que fazparte do território Médio Curu, no interior do Ce- Jovani Puntelará. Vivo com meus pais, meus irmãos, Erasmo eVanleide, e minha avó Maria. Tenho 29 anos e trabalho na agricultura,junto com minha família. Em nossa pequena minha família. Estudei somente até o 6º ano dopropriedade, desenvolvemos atividades ligadas a Ensino Fundamental, mas me considero um estu-bovinos, ovinos, avicultura, apicultura e melipo- dioso destes insetos, pois desde muito cedo obser-nicultura. Produzimos leite, mel, carne, milho, vo o comportamento deles.feijão e jerimum para o sustento. O excedente é A apicultura sempre foi uma ocupação familiar,comercializado, principalmente o mel. Para pre- porém não era vista como uma geradora de renda.servar os recursos naturais, evitamos as queima- Minha família criava por criar, sem investir. Então,das e o uso de agrotóxico. Fazemos, também, em 2006, após participar de um curso sobre apicul-cobertura morta e compostagem. tura ministrado pelo Fundo Estadual de Combate A principal função que desenvolvo, pela qual à Pobreza (FECOP), resolvi investir mais na ativi-sou “apaixonado” desde criança, é a criação de abe- dade. Ao me formar, recebi cinco colmeias e logolhas – a que, no momento, gera mais renda para a iniciei as atividades apícolas na propriedade. Referência no assunto No início, não tinha o apoio da fa- cia de Desenvolvimento Econô- modelo de caixas que estudei mília. Com o tempo, no entanto, mico Local (Adel) proporcionou lá. A uniformidade da produção fui ganhando espaço e confiança muitas aprendizagens. Ali, adquiri deles é muito interessante. Por para continuar desenvolvendo conhecimento de novas técnicas isso, quero formar um grupo este trabalho. Como é uma prá- sobre organização comunitária e de criadores de abelhas no mu- tica nova na minha região, che- gestão da propriedade, além de nicípio de Apuiarés e aumentar garam a me chamar de “louco”. conhecer outras experiências na a produção total. Quero ser um Agora, sou referência e estou am- área. Tive oportunidade ainda de dos maiores meliponicultores pliando a meliponicultura e a api- participar de fóruns, congressos, do Estado do Ceará. cultura para todos aqueles que cursos e de um intercâmbio no me procuram pedindo ajuda. Amazonas, a convite do Instituto Hoje já existe uma cooperativa Souza Cruz. no território do Médio Curu, que Esta viagem teve grande im- reúne cinco apicultores. Também pacto em minha vida. Conheci na minha comunidade funda- outras pessoas, lugares, a for- mos a Associação dos Criadores ma como eles trabalham com a e Apicultores de Lagoa das Pedras apicultura, a união das pessoas. e Adjacências, da qual sou presi- No geral, aprendi muito sobre a Jovani Puntel dente, e contamos com 23 sócios. atividade da meliponicultura e, A minha participação na Agên- hoje, estou implantando o novo Instituto Souza Cruz 19
  20. 20. Centenas de jovens de todo o Brasil debatendo sobre o meio rural Acervo Instituto Souza Cruz www.jovemrural.com.br

×