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  • 1. Fic's Gallery apresenta, EMOções Por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga Sinopse: Quando o pai de Bryan descobriu sobre sua verdadeira orientação sexual não aguentou possuir um filho emo e gay, sendo assim mandou-o para morar com sua mãe. Bryan muda de escola, mantém seu estilo e personalidade e a mesma certeza de sempre: não possuirá amigos verdadeiros. Porém, parece que a certeza não é algo absoluto, afinal... “Exclusividade do blog Otakices”
  • 2. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga Capítulo 1: Sozinho ou acompanhado? Meu despertador tocou. A mesma música de sempre, mas até hoje não sei o que diz, nome ou quem toca. Pensei em dormir mais cinco minutinhos, mas percebi que aqueles cinco minutinhos já haviam passados. Na verdade, aqueles cinco minutinhos tinham se transformado em quinze minutinhos e eu estava atrasado. Levantei-me e segui minha rotina de sempre, porém apressado. Me vesti com um casaco com listras horizontais preto com vermelho e coloquei o capuz. Pus meus acessórios de sempre, como corrente no pescoço e pulseira de taxas. Passei base e lápis de olho levemente, rezando para não borrar e ter de refazer levando em consideração que eu já deveria ter saído de casa. Calcei meu All star preto e peguei minha mochila preta cheia de bótons e acessórios. Passando pela cozinha peguei uma maçã e saí de casa comendo-a. Uma brisa soprava de leve, porém não estava frio. Mesmo assim puxei levemente as mangas de meu casaco até a metade da palma de minha mão, segurando-o com meus dedos de unhas pretas. Na medida em que fui me aproximando mais da escola – o qual ficava a duas quadras de minha casa – comecei a ficar nervoso. Sim, estou mudando de colégio... De novo. Até três dias atrás eu morava com meu pai, até o mesmo descobrir que sou homossexual. Já lhe era difícil aceitar que seu único filho fosse emo, descobrir que sou gay foi a gota d’água que fez o copo transbordar. Mas não o culpo, eu não sou um bom filho mesmo. Então, no momento moro com minha mãe. Ela não é contra eu ser emo e homossexual, mas também não é fã dessa ideia. Ela trabalha o dia todo e não pode me dar muita atenção, por este motivo que até hoje morei com meu pai. Mas agora não há escolha. Eu sei como será, o que dirão de mim e como reagirão, porém é impossível me manter calmo. Quando o portão do colégio se tornou visível a meus olhos meu coração acelerou drasticamente, como se possuísse vida própria. Ignorei-o na medida do possível e segui rumo a minha nova vida. Adentrando lá a primeira coisa que pude perceber foram os olhares voltados para mim; olhares até demais. Quis vasculhar o local e procurar por um grupo no qual eu me encaixasse, mas o orgulho e a vergonha me ensinaram a manter-me focado, visando nada de especial, porém concentrado. Foi meu modo de dizer “não importa o que pensem de mim”, mas era mentira. Me importa. Fui até a diretoria e peguei meu horário. Procurei pela sala 23, na qual eu teria minha primeira aula: matemática. Quando a encontrei, pela movimentação e ausência do sinal deduzi que a aula ainda não houvera começado. Entrei na sala de aula focado e mais uma vez sentindo aqueles olhares numerosos demais e incômodos em minha direção. Será que nunca viram um emo, é? Sentei como quarto da fila encostada na parede. Joguei minha mochila ao lado de minha cadeira e, suspirando apoiei meu cotovelo na classe e meu rosto em minha mão. O nervosismo ainda pairava em meu corpo, quase fazendo - me tremer. - Ele é estranho – sussurraram. Suprimi minha imensa vontade de dizer “chama-se emo. É somente um estilo diferente, sabia?” 2
  • 3. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga - Ele é parecido com aqueles garotos do segundo ano – ora, ora. Quem diria que há emos nesse fim de mundo! Ainda bem, pois estou acostumado a morar e estudar no centro de cidade grande, onde há maior movimento. - É emo – continuaram a sussurrar, como se eu não escutasse. Não é como se tais comentários fossem de suma importância para minha vida, mas a vontade de chorar predominou. Sei que tenho problemas com emoções, mas não sei o que eu possa fazer. Não costumo contar coisas assim para meus pais, não sou importante o suficiente para usufruir do prazer de passar meus problemas para eles. Quis chorar por medo de ficar sozinho. Infantil, não? Porque não passaram pelo que eu passei. Sou propenso a solidão por motivos os quais não sei citar, mas isto é mais acentuado agora que defini um estilo e preferência sexual diferente. Sei que se eu mudar minha aparência e esconder minha personalidade tenho mais chances de me enturmar, mas não é isso que eu quero. Não quero ter de me esconder ou ser aceito somente por aquilo que não sou. - ‘Falaê aluno novo! - cumprimentou-me alguém. Eu disse o quanto sou distraído? Voltei meu olhar na direção do garoto de pé ao meu lado. “Lindo” foi meu primeiro pensamento, então sorri. Ele jogou sua mochila encima da classe na frente da minha e sentou-se de lado na cadeira, dando atenção a mim. - Você se destaca, sabia? E... Usa maquiagem! Nossa! – ele exclamou assustado, aproximando mais seu rosto do meu, deixando-me nervoso, envergonhado e... Deixa pra lá. – Você é viado ou isso é comum da onde você veio? Analisei as opções. Se eu dissesse que sou gay talvez tivesse uma chance dele não ser preconceituoso e eu poder levá-lo para o outro lado, porém também há a grande chance dele ter nojo, já que usou o termo “viado”. Já se eu negasse e, mais tarde ele descobrisse que sou acabaria com as chances. Na segunda parte, sobre ser comum de onde eu vim, nem adianta discutir, pois há outros como eu, mas não é comum. Sendo assim a escapatória seria mudar de assunto. - Essa é sua primeira pergunta? Não quer nem saber meu nome? – eu perguntei sorrindo, para que assim ele não me interpretasse grosseiramente. - ‘Malz ‘aê. Seu nome? - Bryan. E o seu? - Pedro. Pedro... Um nome bem comum. Agora posso dizer: Pedro é lindo! Ele é bem... “garoto”. Digo assim porque ele é normal, diferente de mim. Cabelo castanho escuro e curto, olhos escuros... Não há nada de muito diferente, porém ele é lindo. - Você vai ter de tirar o capuz, os professores não deixam usar dentro da sala. Abaixei o capuz do casaco e balancei a cabeça, em seguida passei os dedos de leve na minha franja, arrumando-a. - Nossa cara, você usa maquiagem mesmo! 3
  • 4. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga - É normal os garotos emos usarem um pouco de maquiagem – expliquei por alto, sem entrar em maiores detalhes. –Os professores se atrasam aqui? – mudei de assunto antes que ele perguntasse por mais. - ‘Noops. Na verdade, entram antes do sinal bater. - Bom dia. Foi só ele falar que uma mulher baixinha e loira adentrou a sala, carregando consigo vários livros e cadernos. Pensei em responder para ela, mas ninguém respondeu. - Começamos há poucos dias o segundo trimestre. Você vai precisar da matéria. - Você a tem? - Não. Mas posso consegui-la facilmente para você – ele disse rindo, levando uma mão até minha cabeça e bagunçando meu cabelo. Calmamente, arrumei com as mãos os fios bagunçados, tentando ajeitá-los de volta. Pedro estranhou. –Cara, você é estranho. - E você é normal – respondi com um sorriso, fazendo, assim, ele sorrir também. O sinal bateu e a aula começou. A professora não exigiu que eu me apresentasse detalhadamente. De meu lugar mesmo ela deixou eu apenas dizer meu nome, idade e o que mais gostava. Quando ela começou a passar matéria, para mim pareceu que a professora falava grego. Explicava tudo embolado e, como eu não tinha a matéria para entender a parte anterior fiquei boiando. Espero que Pedro realmente me ajude. Depois de dois períodos com aquela tortura era hora da aula de química. Trocamos de sala e, na de química era para os alunos sentarem-se em duplas nos balcões. Foi só Pedro entrar na sala que várias garotas vieram para a volta, como abutres em carne podre. Sinceramente, achei que as garotas daqui não fossem bobinhas assim, pelo menos não eram na minha outra escola. Lá, eram os garotos que corriam atrás. Mas, não poderia ser para menos. Pedro é lindo e não destrata nenhuma delas... Infelizmente. - Desculpe garotas, mas hoje sentarei com Bryan. Que vontade enorme de jogar isso na cara delas, agarrando-me firmemente no braço de Pedro. Mas, limitei-me a sorrir de forma arrogante, sendo alimentado pelas caretas de irritação daquelas garotinhas chatas. Não prestei atenção na aula. A professora de química era uma abobada, passou uma tarefa e nos deixou conversando. Pedro comentou algumas coisas sobre minha aparência e meu estilo, comentou rapidamente sobre os emos nos quais eu houvera escutado as garotas citarem mais cedo e logo trocou de assunto, fazendo-me perguntas sobre gosto e preferências. Já eu, como o distraído que sou limitava-me a responder e apreciar sua voz, já que tudo nele era encantador. Ele é exatamente o tipo que me atrai. - Bryan! Bryan, você me escutou? - Sim – menti. - Então vamos. Ele se levantou e esperou que eu me levantasse. Olhei para a volta tentando entender e percebi que o sinal para o intervalo começar houvera soado alguns segundos atrás, pois a maioria dos alunos já tinha deixado à sala. Levantei-me e o segui um pouco mais atrás, quando de repente ele parou. 4
  • 5. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga - ‘Peraí. Camila – ele chamou virando-se para trás e, logo uma garota morena de cabelo liso se aproximou correndo, sorrindo de um jeito idiota. - Sim Pedro? - Você me faz um favor? - Claro! - Então copie a matéria de matemática do segundo trimestre para Bryan, ok? Ela não sorriu, mas fez que sim com a cabeça. Eu fiquei parado enquanto Pedro voltou até minha mochila e começou a mexer nela normalmente, como se fosse a sua própria. - Qual deles é? - O de banda. Ele pegou meu caderno com o Simple Plan na cama e entregou-o para a garota. Conversaram alguma coisa em sussurros e Pedro voltou para meu lado. Seguimos para fora da sala. - Ela tem uma bela letra, mas não é bom jogar um monte de cadernos encima dela em um dia. Português pode ficar com a Bianca, Biologia com Amanda... - Fácil assim? – eu perguntei interrompendo-o, sem saber para onde estávamos indo. - Claro. Elas fazem qualquer coisa por mim. Qualquer garota do colégio você me diz que consigo ela para você, fácil, fácil – ele comentou animado, envolvendo meus ombros com seu braço, fazendo assim meu coração dar um pulo. – Mas de preferência não as muito metidas principalmente do terceiro ano. Elas me dão nos nervos. Há poucas exceções, mas da nossa turma qualquer uma! Não, obrigado. Não gosto de garotas. São tão fúteis, falsas e superficiais... Limitei-me ao silêncio e percebi que havia muito mais olhares sobre minha pessoa do que antes. Tentei ignorá-los como sempre, mas desta vez me pareceu impossível. - Estão me olhando mais do que quando cheguei – comentei para Pedro. - É claro que sim. Você está andando comigo. Sou bem popular aqui. - Percebi. Eu ia manter o silêncio, mas a dúvida estava me consumindo por dentro, quase corroendo, impondo-me condições de tortura mental para caso eu não a extinguisse. - Por que você, mesmo sendo tão popular assim quis se aproximou de mim? Pedro não deu muita bola para minha pergunta. Continuou com o braço sobre meus ombros, guiando-me para algum lugar o qual desconheço. - Porque você é diferente. Não me pareceu que fosse querer se aproximar de mim só porque sou popular. 5
  • 6. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga - Você tem razão – o comentário escapou de meus lábios sem querer, daquele jeito que sai e nunca mais voltam. Pedro parou de caminhar de supetão, em um solavanco. Largou meus ombros e puxou meu braço com força pelo mesmo caminho pelo qual viemos. Estranhei, mas quando fiz menção de perguntar o porquê daquela atitude quando uma onda sonora de frequência alta viajou pelo ar até meus ouvidos, irritando-me, causando a meus tímpanos um enorme desconforto. - Temos mais um para nosso grupo! Pedro tentou me puxar com mais rapidez, porém um puxão em meu pescoço obrigoume a ir para trás, quase formando um cabo de guerra comigo. - Você é lindo! – aquela voz aguda de amplitude forte novamente, porém desta vez tão próximo de meu ouvido que acabei por agir inconscientemente e fazer uma careta. Olhei para o lado e vi um garoto menor que eu, loiro falso, pois a raiz escura já começara a nascer. Um casaco preto de caveira, pele coberta por maquiagem, pulseira de espinhos, botas rasteiras com fivelas e olhos bem marcados. Um emo. 6
  • 7. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga Capítulo 2: Companhias demais, principalmente mi comi. - Solta ele! – Pedro impôs irritado, tentando desgrudar o emo loiro de meu braço; em vão. - Que você quer enchendo o saco? Ele tem nosso estilo, obvio que ele quer andar com pessoas como ele, né? O garoto sorriu para mim, enquanto eu continuei atônito, sem saber o que responder. Estavam mesmo brigando pela minha presença? Gritando assim, como se nem estivéssemos no intervalo em meio a muitos alunos. - O que você quer com ele? Por acaso tá afim, é? – perguntou o loirinho, debochado. Tanto eu quanto Pedro nos assustamos com aquilo. Eu não queria deixar da presença dele tão cedo. - É claro que não! Não sou gay! - Pois emos são. Que droga! Seu emo de merda boca grande! Custava me deixar ser feliz por mais alguns dias? O primeiro garoto que conheci nesse novo colégio, o mais popular daqui é também o garoto que nunca mais irá falar comigo, cultivando ódio e nojo, raiva e repulsa. Simples assim. Deixei-me ser levado para longe por aquela criança. Não adiantaria de nada discutir, pois para isso teria de mentir. Pedro se afastou, sumindo de meu campo de vista e eu suspirei. Não há o que eu possa fazer ou dizer, porque não quero mentir. O que posso fazer agora é andar com meus semelhantes. - Você é realmente muito bonito! Qual seu nome? O meu é Lucas, mas me chamam de Lu. Ele saltitou até a minha frente, posicionando ambas as mãos atrás do corpo e sorrindo como criança de sete anos. Ficou frente a frente comigo e andou de costas. - Bryan. - Bryan, por que você estava andando com aquele garoto? Aliás, você é novo aqui, certo? - Ele foi quem começou a falar comigo e querer minha atenção. - Sério? Aquele lindo garoto popular? - É. Que não falará mais comigo por sua causa. - Ohhh, desculpe! Paramos de andar e mais uma vez ele se pendurou em meu pescoço, abraçando-me apertado. Quando Lucas me soltou percebi que haviam vários emos a nossa volta. Um deles em especial me chamou a atenção. Ele era alto e possuía uma franja daquelas que tapa somente um olho. O cabelo era bagunçado e havia um piercing no canto esquerdo da boca. Ele sorriu sedutoramente para mim e meu coração acelerou drasticamente. 7
  • 8. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga - Garotos, este é o Bryan. É novo aqui. Não é lindo? – por que ele insiste em dizer tantas vezes que sou lindo? Nem sou bonito nada. Continuei mirando aquele mesmo garoto que me chamara à atenção. Ainda sorrindo ele se aproximou de mim, envolveu minha cintura com um de seus braços e meu coração se desmanchou. Ele aproximou seu rosto de minha orelha. - É lindo mesmo. Entendi suas intenções. Ele queria ficar comigo. Isso me deixou feliz, pois além dele ser lindo estou na seca a uns três ou quatro meses. Assim, depositei meus braços em torno de seu pescoço, aceitando de bom grado que ele deslizasse uma de suas mãos até minha bunda, apertando-a. Ele aproximou seus lábios dos meus e eu fechei os olhos, aguardando. Encostou sua boca na minha e logo adentrou com sua língua pela minha boca, beijando-me de forma selvagem. Ele puxou meus cabelos, excitando-me. Passamos tanto tempo nos beijando que, quando nos separamos me senti tonto. - Você beija bem – ele sussurrou antes de se afastar. Meus olhos estavam abertos, mas eu estava tão distraído que nem vi nada a minha frente. Não sei nem ao menos seu nome ou o que mais ele pode querer de mim. Não conheço ninguém aqui e acabei de beijar um garoto na frente de todo o colégio, para quem quisesse ver. Acho que agi de forma um pouco irresponsável, mas não estou nem aí. - Não vai nos apresentar, Lucas? – questionou um dos garotos do grupo, mas não vi quem. Minha mente continuava desconectada e, aos poucos eu fui retornando a realidade. - Ah, agora temos pouco tempo, então vou mostrar o colégio para ele. Na hora da saída nos conhecemos melhores. Vem – é incrível como esse loirinho consegue ter uma voz tão irritante, aguda e de amplitude tão forte. Em poucos segundos meu braço já estava sendo puxado para longe, fazendo-me tropeçar em várias pedras e felizmente não cair. Continuei sendo afastado dos outros emos sem entender o porquê. Quando paramos em um corredor qualquer meu entorpecimento por conta do beijo de anteriormente já houvera se dissipado e eu estava consciente. - Qual seu problema? – eu questionei desconfiado, não caindo naquela lábia de que ele queria somente mostrar o colégio. - Vou te mostrar o colégio, claro! Estreitei os olhos em sua direção e apertei os lábios, tentando entendê-lo. Algo estava errado, tanto dentro daquela cabeça afetada pela água oxigenada dos cabelos quanto nas atitudes estranhas de motivos ocultos. - Qual o seu problema? – repeti, desta vez, mais sério. Desistindo de esconder a verdade, ele cruzou os braços e fez cara de emburrado, formando com os lábios cheios de batom um biquinho. - Alex é meu, tá? Pode ir tratando de deixar esses seus lábios bem longes dele! Não precisei pensar muito para chegar à conclusão de que Alex era o nome daquele garoto o qual eu beijara anteriormente. Suprimi uma risada de deboche e uma resposta afiada tal como “Tem seu nome nele?” ou “Vai fingir que ele te beijou ao invés de mim?”. 8
  • 9. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga - Vocês não parecem ser namorados – respondi sério, escondendo minha verdadeira intenção de arrancar um pouco mais da verdade sobre o relacionamento deles. Era óbvio que não eram namorados. - Não somos, mas eu fico com ele de vez em quando – ele respondeu de um jeito infantil, descruzando os braços e entreabrindo a boca levemente. –E eu gosto muito dele, ‘okey? - Já transaram? – eu perguntei direto. Até veria as bochechas dele mudarem de cor, porém o excesso de blush não permitiu. - Esse é o problema! – ele disse numa amplitude forte, exaltando-se, usando das mãos para dar ênfase a suas palavras. –Eu nunca fiz isso antes, sabe. E ele... Alex não consegue viver sem isso! É o único probleminha entre nós... – ele disse juntando ambas as mãos na frente do corpo e esticando os braços, balançando-se para frente e para trás. - Eu diria que é um problemão. - Eu sei! – e mais uma vez ele exaltou-se, movendo as mãos para cima e irritando meus ouvidos. - Garoto, juro que sinto como se sua voz chegasse aos máximos 20 mil hertz que um ser humano normal consegue ouvir e aguentar – comentei esfregando o dedo pelo lado de fora da minha orelha, tentando parar com aquele zumbido que permanecia ali, irritando-me. - Tipo, eu quero que nosso relacionamento avance, mas não posso chegar pra ele e pedir “me come”. De repente, surgiu uma risada. Veio tão de surpresa que ela saiu arranhando minha garganta, em seguida passando por entre minha língua e o céu da minha boca. - Que foi? - Você está tão desesperado que seu apelido deveria ser “mi comi” – respondi rindo mais abertamente, intensificando a risada quanto vi a expressão de incredulidade estampada na face dele. - Como você é mau! Senti alguns leves socos em meu peito, nada de muito forte. Ele era um pouco mais baixo que eu e, por conta do excesso de maquiagem e as ações parecia uma criancinha frágil. - Insensível! – ele choramingou com a voz embriagada pelo choro iminente. - Pára mi comi! Afinal, que idade você tem? Ele se afastou de mim e fitou-me de um modo inocente, olhando de baixo. - Quatorze. E meu nome é Lucas. - Sou Bryan. Prazer – debochei, porque sua intenção ao dizer-me seu nome era para que eu parasse de chamá-lo de mi comi, mas não adiantaria. - Bryan, vou te mostrar o colégio para que os garotos não desconfiem! – ele disse, animando-se em segundos e já me puxando pela mão e saltitando. 9
  • 10. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga - Principalmente o Alex, não é mi comi? – debochei, vendo a vergonha estampada no rosto dele. - Pára de me chamar assim! Eu ri, ouvindo ele xingar-me de várias ofensas leves, como se fosse mesmo uma criança. Não disse a ele, mas realmente eu estava decepcionado em ter de deixar Alex para ele. Alex beijava tão bem e era tão lindo... Ainda estou em dúvida se vou desistir de ficar com ele fácil assim. 10
  • 11. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga Capítulo 3: Erros, mágoas e perdões. Como eu já esperava, Pedro afastou-se de mim. Nos dias que decorreram após aquela chocante revelação – para ele, claro – aquilo que eu considerava o início de uma amizade desapareceu. Tudo graças à mi comi. - Bryan, Bryan! – a voz de mi comi me chamou, gritando para todo o colégio meu nome, de novo e de novo. Quando vi aquele ser loiro que vestia um short xadrez duas vezes seu tamanho e um all star de cano longo que quase lhe passava o joelho se aproximando eu fingi não ver. Virei-me de costas para ele pronto para sair dali o mais rápido possível, porém mi comi foi mais rápido e puxou meu braço com força, quase o deslocando. - BRYAAAAAAAANN. Se você tentar fugir de mim de novo eu te mato. Felizmente não vi o rosto dele para saber se estava com uma cara demoníaca ou não. - Seu amiguinho estava te procurando. Puxei meu braço de volta com força. Posicionei a mão no ombro do braço machucado e o movi para ter certeza de que estava tudo ok. - Que amigo? Mi comi começou a saltitar com as mãos para trás. Eu o segui. - Aquele que você me xingou por ter contado a ele que você é homo. Ele chegou todo sem jeito para mim e perguntou onde você estava. Mi comi riu, divertindo-se. - Mentira. Se ele quisesse falar comigo me procuraria na aula. Estudamos na mesma turma. - Não estou mentindo! Mi comi virou o rosto para trás e fez bico, estreitou os olhos e fitou-me como se aquilo que eu houvera dito fosse um horror. Mesmo assim ele não me convenceu. - Estou sendo um bom amigo e te avisando. Da próxima vez o mando falar contigo porque não sou garoto de recados! - Garanto que se ele tiver mesmo vindo falar contigo você não perdeu tempo e se agarrou nele, não é mi comi? – debochei, fingindo acreditar para que ele não se fizesse de ofendido. - Bryaaaaaaan, como você é chato com esse apelido! - Que apelido? A risada veio de forma surpresa, sendo assim, mesmo eu tentando impedi-la acabei soltando alguns sons, como se estivesse aranhando a garganta. Coloquei uma mão na frente da boca e tentei esconder minhas bochechas que por suas posições denunciavam meu riso. Por quê? Porque quem perguntara sobre o apelido fora exatamente Alex. - Não é nada... Nada de mais. Foi só uma brincadeirinha. 11
  • 12. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga Olhar a cara atônita de mi comi, ação esta que somente me fez ter mais vontade de rir. Alex ergueu uma sobrancelha. - Que apelido Lucas? Não consegui mais evitar e comecei a rir alto. A cena era hilária e era somente eu olhar pelo canto do olho para a expressão incrédula do mi comi para eu rir mais. Mi comi... - Você quer saber qual é o apelido? Antes que eu pudesse raciocinar sobre o que estava acontecendo vi o céu se mexer, em seguida minhas costas e minha cabeça bateram com força em algo. No chão. - Não fala! Senti um grande peso sobre todo meu corpo, prensando-me contra o chão. Senti uma terrível dor do tronco para cima. - Me solta! – gritei furioso, tentando retirar aquele garoto estúpido de cima de mim, sem sucesso. - Não fala – ele sussurrou entre dentes, perto demais de meu rosto. Mi comi estava com raiva e eu estava com raiva. Nossos olhos se cruzavam quase que com faíscas. Um queria matar o outro. - Sai de cima de mim – lhe disse pausando entre as palavras, tentando controlar minha raiva. Porém, o mesmo não moveu um músculo sequer, continuava mantendo todo seu peso sobre mim. Ele só me deixaria quanto eu declarasse não contar. Eu só me decidiria quanto ele saísse de mim. O passar do tempo me irritou. Para a infelicidade de mi comi, eu tinha o poder. Empurrei-o com muita força, jogando ele sentado no chão a meus pés. Sentei-me e deixei a raiva me dominar. - Eu mandei você sair de cima de mim mi comi! Mi comi de merda! Agora conta para eles que você quer tanto que lhe comam! Antes de ver qualquer reação, me levantei, estapeei minha roupa rapidamente e lhes dei as costas. Afastei-me deles, crente de que mi comi me xingaria de tudo que era possível, mas somente o que ouvi fora risadas e perguntas sobre quem ele queria que lhe comesse e coisas do gênero. Sem muitas alternativas, fui para minha sala de aula. Entrei nela balbuciando baixinho algumas ofensas a mi comi. Por que ele tem que ser tão escandaloso? E por que ele teve de pular encima de mim e me jogar no chão? Que garoto problemático! - Bryan. Olhei para trás, de onde vinha a voz que me chamava e encontrei Pedro. Encabulado, ele me estendeu meu caderno com a capa do Simple Plan. - Está aqui a matéria de matemática. - Obrigado. Virei-me de costas para ele e rumei para meu lugar, sentando-me. 12
  • 13. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga - E... Bryan? - Oi? - Você não quer as outras matérias? Pisquei algumas vezes, tentando clarear meus pensamentos. Antes que eu pudesse falar algo ele continuou. - Eu prometi a você que lhe conseguiria a matéria, não foi? Promessa é dívida. Não entendo o porquê dele ter dito isso, sendo que não me recordo dele prometer, somente de dizer que me conseguiria a matéria. De qualquer forma, sorri. - Obrigado. Pedro olhou para os lados, acho que para garantir que não havia ninguém por perto para nos ver conversando. Quando viu que estávamos sozinhos sentou-se na classe a minha frente, de lado, como da primeira vez em que nos vimos. - Bryan, é verdade que você é viado? Se ele houvesse usado outra palavra ao invés de “viado” eu teria mais vontade de responder. Como você assume a sua homossexualidade para um garoto heterossexual o qual você tem interesse? Eu gosto de Pedro e quero ser seu amigo. Normalmente as pessoas não gostam de mim e eu não gosto de pessoas em geral, mas gosto de Pedro e ele gosta de mim como amigo. Amigo hetero, claro. - Sou gay sim. A careta de Pedro fez meu coração se contrair. - Ah cara, que nojo! Gostar de ficar com outros garotos... Isso é muito nojento! Por que você não gosta de ‘minas? São tão gostosas! - Quer mesmo saber? Ele parou e pensou. Mais uma vez olhou para os lados, com medo de que alguém nos visse sozinhos conversando e interpretasse mal. Pedro se levantou, foi até a porta e fechou-a. Retornou para a cadeira na frente de minha classe e sentou-se. - Bryan, não me entenda errado. Não tenho interesse nenhum, absolutamente nenhum interesse em garotos. Se eu ouvir boatos sobre eu ser viado, quebro sua cara. Mas... Por que você gosta de garotos? Garotas é que são excitantes! Arrumei minha franja com a mão, recostei-me na cadeira e descansei minhas mãos em meu colo. - Não posso te dar um motivo satisfatório, mas... Em um relacionamento normal, é o garoto que cuida da garota e eu gosto que cuidem de mim – falei devagar, analisando todas as suas reações – as quais não eram positivas -, sem nem ao menos saber ao certo o que dizer. –Eu prefiro que se importem comigo ao invés de ter de me importar com uma garota. E eu acho meninas muito chatas! São falsas, falam mal daquelas que consideram suas melhores amigas. Acham-se melhores que os garotos, se preocupam tanto com coisas bana- Você se sente excitado com outros garotos? 13
  • 14. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga Senti meu rosto esquentar. Conversar com outros garotos que também se sentem assim era uma coisa, conversar com um garoto hetero o qual tenho interesse é outra completamente diferente. Ninguém nunca se importou em saber meus motivos para ser gay, eu mesmo nunca parei para pensar bem neles. Sendo assim, considerei em limitarme a apenas responder com poucas palavras. - Sim. Pedro simulou vômito. - Então você é o passivo? - Sim. - E gosta de dar? - Uma garota pode gostar, então por que eu não posso? - Por que você tem um pau! Mais uma vez aquela vergonha me subiu a face, deixando meu rosto mais quente ainda. Pedro percebeu. - Você deveria conversar com um ativo, seria melhor. Eles são mais normais porque, garotos normalmente gostam de comer garotas e ativos gostam de comer garotos – eu disse tentando me desvencilhar daquele assunto, pois já estava querendo procurar um buraco para enfiar meu rosto. - Estou tentando entender você, não um ativo. Achei que você seria um excelente amigo, mas é gay! - E por que sou gay muda quem sou? Finalmente Pedro sorriu, deixando-me confuso. - Vocês gays sempre dizem isso? - Não sei, por quê? - Porque aquele garoto loiro me disse a mesma coisa. Garoto loiro... Mi comi! Quero dizer, Lucas! Eu não achei que Pedro tivesse mesmo falado com Lucas. - Por que vocês conversaram? - Eu queria te devolver seu caderno. Quando Camila me entregou ele eu te procurei direto, daí como você tem andado com aqueles garotos perguntei para o loiro que te arrastou aquele dia. Realmente, estou chocado. Não levei a sério quando Lucas dissera que conversara com Pedro, eu poderia jurar que era mentira. Pensei que era somente um deboche da parte dele. - E o que ele te falou? - Ele me disse algumas coisas. Pediu para que eu conversasse com você e não tirasse minhas conclusões a partir de outros. Que você é legal, se eu deixasse de falar 14
  • 15. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga contigo seria um idiota preconceituoso, isso seria bullying e blá, blá, blá. Na verdade, não escutei o resto porque fiquei impressionado com a aparência e a voz daquele garoto. Eu ri. - A voz dele é realmente irritante e aguda. - É. Eu achei mais... Afeminada mesmo. Bom, mas ele também me disse que não se deixa de ser um ser humano só porque tem interesse em pessoas do mesmo sexo. Tive de deixar o silêncio predominar porque simplesmente não soube o que dizer. Lucas houvera me ajudado e eu fiz algo horrível com ele. Praticamente contei para Alex que ele queria ser comido só porque ele ficou nervoso e tentou me calar. - Bryan, tudo bem? Você parece que vai chorar. - Estou bem sim. Só... Estava pensandUm barulho na porta chamou a atenção de ambos nos dois. Meu coração deu um pulo, pois se fosse um de nossos colegas e um boato se espalhasse Pedro nunca mais se aproximaria de mim. Mas, para nosso alívio era somente um emo. Ele possuía o cabelo bem preto e os olhos verdes vivos e claros, de chamar a atenção de longe. Um piercing na sobrancelha e outro no nariz. Era lindo. Como todos os garotos deste colégio conseguem ser tão bonitos? Tentei lembrar seu nome, mas não consegui. Sabia que ele fazia parte do grupo de emos o qual tenho andado ultimamente, pois aqueles olhos contrastando com o cabelo chamavam muito a atenção. - Desculpe interrompê-los. Bryan, você viu o Lu? - Não o vejo dês daquela hora em que saí de perto. Ouvi barulho na cadeira de Pedro e mudei meu foco para frente. - Eu já estou de saída mesmo, só queria entregar seu caderno Bryan. Como você sabe, vou cumprir a promessa e vou lhe conseguir toda a matéria. Até mais – ele fez questão de explicar bem alto para que não houvesse mal entendido com o garoto emo. Ou seja, não quer ser chamado de gay. Quando Pedro passou ao lado do garoto de olhos verdes o mesmo sorriu, porém Pedro virou as costas e praticamente correu para fora da sala, com... medo? Será que ele tinha medo que o emo o agarrasse? - Hetero? - Isso mesmo. - Desculpe interrompê-los. - Que nada. Devo até te agradecer, a conversa aqui estava se tornando um tanto estranha. Ele sorriu. Com um sorriso lindo como todos os garotos daqui... Nossa, minha mãe sabe escolher muito bem colégios! 15
  • 16. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga - Lembra-se de meu nome? - Não. Desculpe – fui obrigado a ser sincero, pois caso a próxima pergunta fosse “então qual é?” eu não saberia responder. - Tudo bem. Ele se aproximou e sentou-se na classe ao lado da minha, literalmente na classe, não na cadeira. - Meu nome é Matheus. Lu nos apresentou. Você é Bryan, certo? - Sim. Me desculpe, é que são tantos nomes novos. - Entendo. E Lu está com um complexo de amigo que não sai do seu pé e não lhe deixa conversar com os outros. Perdoe-o, ele só é um tanto sozinho. - Ele ficou muito mal depois que eu saí? – perguntei temeroso, sem saber se queria mesmo ouvir a resposta. Na hora eu estava com raiva, mas ele não merecia o que eu fiz. Em nenhum momento ele me tratou mal ou me fez algo de ruim. Bem, só quando nos conhecemos que ele contou a Pedro que eu era homo, mas não fora de propósito. - Bastante. Você mandou muito mal. Senti-me péssimo. Eu conheci a Lucas há tão pouco tempo, mas aquela agitação dele e jeito de criança realmente são marcantes. Não o queria triste nem mal. Eu nunca fui muito sociável e as pessoas nunca quiseram se aproximar de mim, mas com Lucas foi diferente. As pessoas deste colégio são diferentes com relação a mim. - O que houve? - Ele tentou se explicar, mas não deu. Alex brigou com ele e chamou-o de muitas coisas, dentre elas de puto e falso. Lu saiu de perto de nós chorando. Eu tentei alcançálo, mas parece que ele conseguiu se esconder no colégio. - Então acho que vou matar os próximos períodos e procurá-lo. Matheus desceu da despreocupadamente. mesa e colocou as mãos nos bolsos da calça, - Eu terei de ir para a aula. Rodei feio no primeiro trimestre em Física. Quando encontrá-lo, diga a ele que explique - se para mim, pois tentarei falar com Alex. Ele se virou para a porta e seguiu na direção da mesma. Parou no caminho e virou o rosto de lindos olhos verde claros para mim. - E diga-o que ele é fofo. Ele gosta de ouvir isso. Matheus saiu da sala e só então percebi que meu coração estava aos pulos. Tentei acalmar minha respiração e, quando ouvi o sinal bater peguei minha mochila saí rapidamente da sala de aula, pois tinha de procurar por Lucas. 16
  • 17. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga Capítulo 4: Mi comi, Mi beija. Saber onde ele se encontrava nem seria tão difícil assim. Quando eu desejava chorar no colégio eu ia para os banheiros, pois lá nunca há ninguém para incomodar. O problema é: onde ficam os banheiros neste colégio? E quantos deve haver aqui? Depois de errar algumas vezes eu encontrei um banheiro que ficava distante dos outros, próximo a sala de química. Entrei nele e percebi que estava vazio. Fiz o máximo de silêncio possível e, logo, consegui escutar um choro baixinho vindo do último banheiro. Antes de bater na porta ou fazer qualquer barulho, abaixei-me e espiei por debaixo. Encontrei o par de All star preto de cadarços pretos e detalhes em branco que houvera visto Lucas usar mais cedo. Bati na porta. - Lucas – chamei. Logo, uma voz embriagada pelo choro me respondeu. - Vai embora. Suspirei. - Desculpe. - Não! - Lucas, se você me ignorar terá de ficar chorando aí sozinho, pois os outros foram para a aula. O choro se tornou mais alto e mais intenso. - Minha única opção é aquele quem me fez chorar! - Quem te fez chorar foi Alex, não eu. - Mas a culpa é sua! - Eu sei, desculpe. - E eu nunca te fiz nada de ruim. Você é mal e cruel. - Desculpe. Foi na hora da raiva, eu não queria te fazer mal. - Mas fez! Agora Alex me odeia e me chamou de um monte de coisas ruins. Ficou repetindo que eu era puto o tempo todo. - Desculpe Lucas. Já expliquei que eu disse só na hora da raiva, eu não tinha intenção de dizer mesmo. O que mais você quer de mim? Uma pequena fresta da porta fora aberta. Ali, Lucas espiou, com as lágrimas escorrendo pelo rosto e sujando-o de preto por conta da maquiagem. - Posso te bater? – ele perguntou de forma meiga. Eu fitei-o sem entender. - O quê? 17
  • 18. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga - Se você deixar eu te bater eu te perdoo. Parei e tentei raciocinar. Ele queria me bater? Isso é muito estranho! - Um soco só! E no braço. - Na barriga. - Não. - No ombro então. - Um pouco abaixo do ombro. - Ok. Assim que ele concordou não tive tempo de me preparar. Ele abriu a porta do banheiro e já foi me desferindo um forte soco na parte de cima do meu braço, bem próximo ao ombro. - Aí! Puta merda, você é forte! Lucas riu, mas por pouco tempo. Seus olhos se encheram d’água e ele me envolveu com seus braços, apertando-me. - Alex me odeia! Nunca gostei de ter de consolar pessoas. Normalmente eu acabo chorando junto. Adentrei o pequeno banheiro para que ninguém nos visse e sentei no vaso que se encontrava com a tampa abaixada, largando minha mochila ao lado deste. Lucas sentouse em meu colo e afundou sua cabeça abaixo de meu pescoço. - Alex disse que gosto que qualquer um me coma, mas não quis dar pra ele. Ele disse bem assim mesmo! E que aquela minha conversa de que eu queria que fosse com amor era só desculpinha. Ele não acreditou quando eu disse que ainda era virgem. Suspirei. Por que eu tinha que abrir a minha boca grande? Agora tenho um garoto chorando em meu colo graças a minha estupidez. Ok, isso foi um tanto insensível de minha parte. Acho que só estou irritado porque é Lucas quem está chorando em meu colo e, por mais que eu negue a culpa é minha. Realmente não queria fazê-lo mal assim. Lucas se esticou e pegou um pedaço de papel do rolo próximo de nós. Amassou-o e enxugou as lágrimas por debaixo dos cílios, borrando a maquiagem o mínimo possível. - Ele nem quis me escutar! Disse que provavelmente eu já havia dado para você. - Isso seria impossível – eu disse revirando os olhos. - Por quê? - Porque eu não gostaria de comê-lo. Você já se imaginou sendo comido por mim? Eu sorri, incentivando-o a rir. Ele fungou um pouco e enxugou as lágrimas novamente. Quando me dei conta do que estava acontecendo Lucas já estava perigosamente próximo de mim, com seus lábios sobre os meus. Assustei-me e afastei-o com as mãos. - Pára Lucas! O que pensa que está fazendo? 18
  • 19. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga - São somente beijos. Não é como se fôssemos nos tornarmos namorados, irmos para cama ou algo assim. E eu quero carinho – ele disse fazendo um bico de criança. Eu suspirei. Realmente, estava tudo bem beijá-lo. Segurei seus cabelos loiros de raiz escura e beijei-o. Adentrei minha língua pela sua boca e logo percebi seu ritmo. Era lento e doce. Lucas não beijava mal, mas era bem diferente de Alex. Como eles poderiam se dar bem? Tentei me concentrar somente no beijo, mas era uma tarefa extremamente difícil. Apenas o fato de minha língua estar dentro da boca de Lucas já era o suficiente para acelerar meus batimentos cardíacos porque, afinal, era Lucas... Quando nos separamos ele retornou a chorar e soluçar. - Eu odeio o mundo! Odeio minha vida! Como pode tudo dar tão errado para mim...? - Somos dois. - Mas você pode ter meu Alex quando quiser! Agora ele está brabo comigo, eu nunca vou tê-lo. - O que importa eu poder ter Alex ou não? Não é ele quem eu quero. - Você quer o Pedro? Aquele garoto hetero? - Esse mesmo – falei, recordando-me de que eu havia voltado a falar com ele por causa de Lucas e me senti obrigado a agradecê-lo. – E obrigado por ter falado com ele. - E como agradecimento você fez o que fez! Idiota! Eu não possuía resposta. Para calar sua boca, beijei-o. Suguei seu lábio inferior, puxando com força. Quando nos separamos ele limpou o nariz e acomodou-se em meu colo novamente. Acariciei seus cabelos. Ficamos algum tempo assim, enquanto o único som era o barulho do choro de Lucas. - Bryan, como é sua vida? Como é sua família? – ele perguntou assim que se acalmara um pouco. - Bem... Meus pais são divorciados. Antes eu morava com meu pai. Nunca lhe agradou o fato de ter um filho emo, mas aceitou. Quando ele descobriu que eu era gay não quis mais passar vergonha comigo e me mandou para morar com minha mãe. Ela não para muito em casa, está sempre trabalhando, então não tenho problemas. Sei que ela tem um namorado, às vezes o vejo em minha casa a noite, mas finjo que não vi e vou para o quarto. - E você e seu pai brigam? - Brigávamos. Ele me mandava trocar de roupa e arrumar o cabelo para sair com ele na rua, mas eu sempre me recusava. Dizia para eu agir como um garoto normal e que sentia vergonha de mim, mas para os outros falava que isso era só uma fase. Coisa de adolescente. E você? Lucas fechou os olhos, aproveitando melhor meu carinho. Envolvi seu corpo com meus braços. Ainda bem que Lucas é somente um amigo porque me sinto completamente desconfortável nesta situação. 19
  • 20. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga - Meus pais moram juntos, mas brigam constantemente. Meu pai não gosta de mim. Ele diz que queria ter um filho, não essa coisa que eu sou. Minha mãe me defende, diz que ainda sou criança e que garotos amadurecem mais tarde. Ela me dá qualquer coisa e me trata como criancinha. Meu pai está sempre arranjando desculpas para me pôr de castigo, diz sempre que sou uma decepção. Às vezes ele tenta me bater, mas minha mãe não deixa. Eu tenho uma irmã mais velha, mas ela é um nojo de pessoa. Ela também me odeia. Ela é arrogante e exibida. Muda de namorado a cada semana e veste roupas de puta, mas meu pai a trata como se fosse a rainha do mundo. - Nunca vi pais que aceitassem que seu filho fosse emo e gay. - Os pais de Matheus aceitam. Você lembra quem ele é? - Sim, sim. - Os pais dele dizem “não importa quem você é ou como é, te amaremos do mesmo jeito. Só sentimos porque as pessoas do mundo são ignorantes e você terá uma vida difícil”. Eles não são incríveis? - São sim. - As coisas são mais fáceis para elFomos interrompidos por um barulho de alguém entrando no banheiro. Rapidamente, empurrei a porta de onde estávamos com os pés. - Ouviu isso? – perguntou algum garoto para outro. - Foi só uma porta batendo. De repente, Lucas começou a gemer como uma garota. Gemeu cada vez mais alto, fazendo uma voz aguda e feminina. Fitei-o assustando. Quando ele piscou para mim, entendi o que ele queria. - Cala a boca, putinha – eu disse fazendo uma voz mais grave, voz esta que nem parecia que vinha de mim. - Ah, mas é tão bom... Ele continuou a gemer como uma garota mesmo. Tentei segurar o riso, mas parecia impossível. Ouvimos os passos dos garotos se retirando do banheiro com pressa e, logo, caímos na gargalhada. - Você é um viado mesmo! Até eu acreditei! Lucas riu e fungou. Pegou mais um pedaço de papel e enxugou a água por debaixo dos cílios novamente. Rapidamente, tentei pensar em algo para dizer, evitando, assim, que seu choro recomeçasse. Vasculhei minha mente procurando por algo que o fizesse sorrir, porém, não encontrei. Quando já estava desistindo recordei-me de Matheus e do que ele me dissera. - Aliás, você é realmente fofo. O sorriso que ele abriu fora gigante. Seus olhos brilharam e ficaram duas vezes maiores. Com um elogio tão simples ele ficara imensamente feliz. Agora entendo do porquê de Matheus ter me dito para agradar-lhe com tal elogio. 20
  • 21. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga - Obrigado! Eu também acho! Sorri, satisfeito comigo mesmo. Lucas continuou feliz, sorrindo como um bobo, perdido em pensamentos agradáveis. Segurei-lhe na cintura e puxei seu corpo para mais próximo do meu. Ele era magro e, mesmo por cima de sua blusa fina pude sentir sua pele quente. Uma onda de desejo me invadiu. Fora tão forte e arrebatadora quanto inesperada e repentina. Começou com um leve formigamento, foi subindo de minhas mãos a meus braços, invadindo meu peito em forma de calor, se espalhando em um segundo por todo o resto de meu corpo. Minha respiração pesou dezenas de vezes mais e eu... ...Eu quis tocá-lo... - Não quero sair daqui assim. Ignorei completamente meus pensamentos anteriores, como se nem ao menos houvessem existido. Abri minha mochila e tirei de lá um estojo com maquiagem. Primeiramente limpei aquilo que estava borrado, secando seus olhos e retirando os resquícios de maquiagem espalhados. Em seguida lhe passei lápis de olho, máscara para cílios, blush e um corretivo para as olheiras. - Não vai abrir o berreiro se ver Alex, não é? Desgostei de minha pergunta quase tanto quanto ele. - Não sei. - Lucas! Ah, e Matheus disse para você se explicar para ele que tentará conversar com Alex. Lucas fechou a cara. - Você poderia ter dito isso antes. Ajudaria muito. - Desculpe, esqueci. Sério mesmo? Se eu houvesse dito isso no início de tudo o choro acabaria? Prefiro não acreditar nisso. - E mais uma coisa: continuarei a chamá-lo de mi comi. Seu queixo foi ao chão. - O queeeeeee? - Continuarei a chamá-lo de mi comi, mas não na frente dos outros. Então, seja um bom mi comi, ok? Quase me arrependi de chamá-lo novamente pelo apelido, pois deu para perceber por sua expressão que não estava nada satisfeito com minha decisão. Mas o apelido era tão engraçado e único que continuei com minha ideia fixa de continuar a chamá-lo pelo mesmo. - Você é cruel! Eu- 21
  • 22. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga Interrompi-o com um beijo. Seria muito problemático se ele caísse no choro novamente e... Bem, é bom beijá-lo. Não que eu vá admitir isso para ele. Desta vez quem dera o próximo passo fora ele. Sua língua foi adentrando pela minha boca, sem perder aquela doçura e calma que eu conhecera em nosso primeiro beijo. Lucas envolveu meu pescoço com seus braços e me aproximou mais de si, encostando nossos corpos. - Você gosta de ser beijado, não é? Vê-lo respirar cada vez mais fundo e inspirar mais pesarosamente proporcionou-me uma satisfação indescritível. - Mais ainda quando estou triste – ele respondeu sorrindo, já recuperado. Dei alguns leves tapinhas em sua coxa, indicando que era para ele se levantar. Mi comi assim fez. - Pois então tomarei cuidado para nunca mais fazê-lo triste – debochei sorrindo diabolicamente. Me levantei, peguei minha mochila e saí dali de dentro para o banheiro antes de Lucas. - Bryaaaaaaaann! Você é um chato! - E você é infantil, escandaloso, chora- Já entendi! - E beija mal. Fui para frente do espelho e arrumei meu cabelo. Mi comi aproximou-se de mim e me empurrou de leve. - Mentiroso! Você adorou me beijar que eu sei! - Se eu tivesse adorado teria te agarrado ali. Lucas sentou-se ao meu lado na frente da pia e balançou as pernas distraidamente. Ele fitou de longe suas unhas bem pintadas de preto, de um jeito superior. - E você me agarrou. Só faltou arrancar meus lábios fora! - ‘Tsc. Foi somente para te consolar! - Que mentira! Você fala como se beijasse maravilhosamente bem! Estreitei os olhos para ele, incomodado. Ele houvera acabado de ferir meu orgulho. Aproximei-me dele e me posicionei entre suas pernas. Mi comi sorriu e envolveu minha cintura com aqueles All stars longos. - Vamos ver quem beija mal – desafiei-o, para logo em seguida iniciar mais um beijo de me deixar trêmulo de tão nervoso. Enquanto nos beijávamos, Lucas começou a rir. Rir até demais para ser somente um deboche. Quando ouvi aquele conhecido som de um objeto plano empurrando o ar com força e batendo percebi que alguém nos vira. 22
  • 23. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga Separei meus lábios dos de Mi comi cessando nosso beijo. Ouvi sua gargalhada seguida de uma provocação: - Volta aqui gatinho! Eu deixo você participar da nossa suruba! - Mi comi! Cala a boca! Estamos no colégio – adverti-o ter ainda uma mínima noção do quão ruim era aquela frase. Olhei para o rosto de Mi comi e este me assustou. Vi um sorriso sadicamente horripilante brincar em seus lábios. - Ein Bryan, qual é mesmo o nome daquele garoto hetero que você é afim? 23
  • 24. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga Capítulo 5: Já disse que não vou cair nessa. Assim que ouvi as palavras de Mi comi simplesmente não soube o que dizer. Meu coração parou de bater por um segundo para, logo em seguida começar a bater rapidamente. - Você não fez isso... Mi comi se deitou tranquilamente ali mesmo, no balcão da pia. Não olhou para mim, somente ficou a brincar com seu colar de caveira entre os dedos. - Por que não faria? Foi uma excelente vingança. Meu estômago começou a revirar o conteúdo de dentro dele por causa do nervosismo. Senti como se a temperatura ambiente houvesse ultrapassado uns bons 30° Celsius porque meu corpo todo queimou. E sabe qual é a pior parte? Ver Mi comi ali, calmamente deitado, como se não tivesse feito nada de mais. - Você é um monstro vingativo! Pedro houvera mesmo me visto com Mi comi? Agora sim ele vai ficar enojado com gays! Eu pedi desculpas. Disse que estava arrependido. Ele tinha mesmo que acabar com todas as minhas chances de ficar com Pedro só por causa de um erro meu...? E eu tentei engolir aquele bolo que se formava em minha garganta. Tentei trancá-lo junto com minha respiração, mas tal ato estava beirando ao impossível. - Você é uma pessoa horrível Lucas! Todos os meus esforços para acabar com a tranquilidade dele finalmente houveram dado resultado. Lucas se irritou e sentou-se novamente na frente da pia. - E quem é você para me acusar de algo? Você fez muito pior! E quer saber? Não era Pedro, era somente um garoto qualquer, porque eu nunca faria com alguém o mesmo que você fez comigo! Ele se levantou e saiu correndo. Já eu fiquei ali, parado, tentando digerir a informação. *** Os dias seguiram normais. Mi comi não me tratou mal depois daquele dia no banheiro, continuou sendo o mesmo de sempre, porém, de alguma forma eu o sentia diferente. Não vou dizer que é “sexto sentido”, pois acho isso ridículo. É somente uma sensação e essa sensação quando ele está próximo de mim não é a mesma de antes. O sinal soou, anunciando o final do primeiro período e início do segundo. Distraidamente, direcionei meu olhar para a porta, aguardando a chegada do professor de educação física enquanto a sala se tornava uma verdadeira zona. Quando o professor entrou a sala aquietou-se de imediato. É sempre assim. Não vou mentir, o professor de Educação Física é muito gostoso, mas há três passos de distância entre nós: um, a diferença de idade. Dois, o fato de sermos ambos homens e três, ele possuí uma repulsa por mim que é incrível. 24
  • 25. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga - Vamos Bryan? Fitei a Pedro que me esperava. Sorri e o segui até o pátio. Nesses últimos dias eu e Pedro estamos nos dando relativamente bem. Como amigos, claro. - Vai fazer a torcida com as garotas? Relativamente bem porque, por mais que conversemos como amigos normais, Pedro sempre solta estas piadinhas um tanto homo fóbicas. Mas, para não criar desentendimentos finjo que não percebi. - E por que faria isso? Não sou uma garota metidinha e nojentinha querendo chamar a atenção – eu disse isso, mas tenho certeza que Mi comi deve fazer torcida com as garotas. - Você tem razão. Mas, ‘cê não vai jogar, ‘né? - Não. - Vai ficar assistindo? - Quietinho na arquibancada – respondi sorrindo para ele. Pedro desviou o olhar. - Bem, então torça por mim. - Por quem mais eu torceria? - Ah, sei lá. Pelo time com mais garotos bonitos – percebe a indireta ao homossexual? - Não se preocupe Pedro, vou torcer por você. Chegando ao pátio me recusei a jogar como faço 80% das vezes. O professor me deu uma bronca leve para não parecer preconceito e me deixou sentado na arquibancada, observando. Assisti enquanto os garotos se dividiam em times para jogar futebol. Nunca gostei desse esporte. Foquei-me em Pedro, pois parecia que os times estavam brigando para escolhê-lo. Acho que ele olhou rapidamente para mim, mas não tenho certeza. Em seguida ele agarrou a barra da camiseta e puxou-a para cima, retirando a mesma. Meu coração deu um pulo e, desta vez tenho certeza que ele me espiou pelo canto do olho. - Bryaaaaaaaaan! Senti o peso de um corpo sobre minhas pernas. Olhei para o garoto em meu colo e sorri. - Oi Mi comi. O que faz aqui? Não deverias estar em aula? - Minha professora de química não veio. Tenho esse período e o próximo vago, então vim passar esse tempo contigo. Mesmo que eu estivesse feliz por dentro por ter a atenção de Mi comi ainda havia algo que eu devia perguntar. - E Matheus? – perguntei por que, dês daquele dia no banheiro Mi comi tem passado muito mais tempo com Matheus do que comigo. 25
  • 26. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga - Ele tinha outras coisas para fazer – ele respondeu fazendo bico enquanto brincava com meu colar de estrela. - Você não pode ficar aqui, meu professor irá brigar. - É o Fernando gostosão? Concordei sem ter certeza se era mesmo esse o nome do professor. Só lembro-me de que era um nome com “F” e... Bem, ele é gostoso. -Não se preocupa, ele não se mete comigo. Uma vez só nós brigamos, mas daí eu chorei na diretoria e ameacei dizer que ele havia me agarrado. Mi comi riu, ainda brincando com meu colar, como se estivesse dizendo algo completamente simples e banal. Ergui meu olhar para o jogo de futebol e na mesma hora percebi que Pedro desviara o olhar. Estaria ele me cuidando...? Mas, Pedro não tem interesse em garotos... Não é...? - Bryan, o que são essas marcas no seu pulso? Senti o nervosismo envolver meu peito e de imediato puxei meu pulso. Mi comi me olhou confuso. - Você tentou... Tentou se matar? - Isso são cicatrizes antigas – tentei explicar, mas simplesmente não achei uma desculpa razoável. - Então você tentou mesmo se matar! Desviei o olhar de Mi comi para Pedro. Mais uma vez percebi que ele estava me olhando. Quando percebeu que eu olhava, ele concentrou-se no jogo e chutou a bola para outro garoto. Senti os braços de Mi comi me envolverem em um abraço apertado. Eu não queria sua pena, mas seu corpo quente e macio junto ao meu proporcionava-me um prazer indescritível. - Não se mate Bryan! - Não dá para falar mais baixo Mi comi? Eu não vou me matar! Eu até poderia xingá-lo e mandá-lo me largar, declarando nada menos que a verdade: eu não pretendia me matar. Porém... Seu calor e se corpo pequeno junto ao meu eram tão bom... Por cima do ombro de Lucas eu olhei para o jogo. Desta vez, quando Pedro olhou para mim e viu que, mesmo no abraço de Mi comi eu estava o observando, ele não desviou o olhar. Ele me olhava e eu o olhava. Sorri, incentivando-o a continuar o jogo, porém, ele não desviou o olhar de mim. Continuamos a nos encarar até um dos garotos chamar a atenção de Pedro para o jogo e ele ter de ir jogar. *** 26
  • 27. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga Andava pelo colégio distraído, finalmente a sós. Mi comi provavelmente estaria correndo pelo colégio a minha procura, mas era bom aproveitar o pouco de tempo que eu teria sozinho antes dele me encontrar. Eu ainda deveria estar na aula de educação física, mas fugi quando o professor não viu. O colégio se encontrava vazio nos corredores, pois a maioria dos alunos está tendo aula neste momento. Continuei meu passeio pelo colégio tranquilamente, já estranhando a demora de Mi comi para me achar. Passei por uma porta e juro que ouvi gemidos e risadas. Voltei alguns passos e parei na frente da porta. Realmente, ali dentro havia gemidos e risada. - Pára! Aí não... – pediu uma voz manhosa, mas que parecia ser de um garoto. Seria um casal gay? Continuei na frente da porta, escutando o barulho de dentro. Eu realmente estava curioso se era um casal homo ou não. Considerei abrir a porta, porém eu passaria vergonha interrompendo o sexo. Bom, quer saber? Foda-se, não tenho nada a perder mesmo. Voltei alguns passos em silêncio para, em seguida andar na direção da porta fazendo barulho, demonstrando que estava me aproximando. Meti a mão na maçaneta descaradamente, como se não houvesse escutado nada e abri a porta. Ora, era um casal gay, afinal. E eu os conhecia. - Desculpe interromper. Não sabia que havia alguém aqui dentro – menti. Aquela era uma sala de aula normal. Mas, encima da mesa estavam dois garotos sem blusa, somente de short. Um deles eu reconheci imediatamente, era Matheus. O outro... Bem, reconheci o cabelo de mechas verde limão recém-pintadas, era outro dos emos do grupo o qual eu participava ultimamente. Mesmo tendo sido pegos, ambos estavam sorrindo. Matheus sentado na mesa, com metade dos braços apoiado atrás dele, erguendo seu corpo. Já o outro garoto estava sentado encima de seu quadril, com as mãos no peito de Matheus. Não sou do tipo de garoto que assiste pornô, mas aquela cena realmente daria um maravilhoso vídeo. - Vou sair – eu anunciei já me dirigindo para a porta. - Não, espere. Já estamos saindo, ‘né Luke? – respondeu-me Matheus. Girei meu corpo na direção deles novamente, mas sem sair do lugar. - Ahh, Matheeeeeus. Agora não! – pediu de forma manhosa aquele emo de cabelo preto e mechas verdes, rebolando sinuosamente. Tentei disfarçar, como se não houvera visto aquilo. - Eu disse que seria só um pouco. Não podemos fazer isso aqui no colégio, Luke. Tivemos sorte que foi somente Bryan quem nos viu. Imagine só se fosse um professor? O garoto resmungou e se remexeu mais um pouco, fazendo bico. De imediato me lembrei de Mi comi, pois agiam de formas semelhantes. Matheus sorriu docemente e depositou um leve beijo nos lábios do garoto. 27
  • 28. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga - Olha, se quiserem eu saio. Realmente não tinha intenção de interromper nada – menti, pois minha intenção era exatamente interromper para ver se eram dois garotos mesmo. - Não, não. Ainda bem que você interrompeu. Vamos Luke, levante-se, por favor. O garoto se levantou a contra gosto. Matheus se levantou também e antes de vestir sua camisa pegou a do garoto das mechas verdes e vestiu-o. Ambos possuíam a mesma altura. Calçaram os sapatos e vieram para meu lado, saindo de lá. Fiquei sem jeito de estar somente eu e mais o casal, mas eles não agiam como um. Pareciam somente amigos, sendo assim terei de perguntar a Lucas qual a relação desses dois. - Bryaaaaaaaaaaann! Sabe, já estou tão acostumado a ouvir Mi comi chamando que, às vezes, quando minha mente fica em branco o que quebra o silêncio é a voz dele gritando meu nome. Estranho, não? Quando achei que ele ia pular no meu pescoço, Mi comi olhou para o lado e viu quem estava me acompanhando. Seu sorriso se alargou. - Ahh! Matheus! Uma pontada de decepção atingiu meu peito quando assisti a Mi comi pulando no pescoço de Matheus, já este sorriu e lhe beijou o topo da cabeça, seguido de um leve afago. - Quantas raízes escuras. Não está na hora de pintar o cabelo, Lu? - Ah, eu pedi para Luke me trazer água oxigenada e aquele pozinho azul. Ele disse que tem muito no salão da mãe dele. Você me trouxe Luke? – Mi comi perguntou voltando sua atenção para o garoto das mechas verdes. Agora entendo do porquê de eu não ter reconhecido o emo, porque ele está cada dia com um penteado diferente. - Sim, eu trouxe. Está na minha mochila lá na sala. - Você pinta para mim Matheus? – perguntou Mi comi, fazendo aquela sua expressão de criança. - É claro que sim Lu. - Ah, então pinte agora! Temos dois períodos vagos mais o intervalo! Eu não quero ficar moreno. Vem! E Mi comi simplesmente saiu puxando Matheus para longe, deixando a mim e ao garoto das mechas verdes para trás. - Acho que ficamos somente nós dois – ele comentou, rindo. - Pois é. - Quer tomar sorvete? Dei de ombros. 28
  • 29. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga - Não tenho nada para fazer mesmo – menti, pois estou no meio da aula de educação física. Seguimos para o bar do colégio. Compramos dois sorvetes, o meu de creme e o dele de morango. Sentamo-nos em uma mesinha que havia ali para os estudantes, um de frente para o outro. - Você e Matheus são namorados? – perguntei mesmo já desconfiando qual seria a resposta, só para não continuar o silêncio chato. - Não, não. Matheus não gosta de mim assim. Só ficamos de vez em quando. Ah, mas ele é tão carinhoso... A cena era completamente diferente. Estávamos na frente de um bar, eu e um garoto um pouco mais alto que eu, moreno de mechas verdes e olhos castanhos. Ele sorria, mas não era a mesma coisa e conversávamos sobre um garoto o qual eu já conhecera. Mesmo assim, de certa forma me senti familiarizado com a cena. Havia certa semelhança com quando eu conhecera Mi comi, ocasião esta na qual ele me contara sobre sua paixão por Alex. Seriam estas situações semelhantes ou sou somente eu quem estou pensando demais em Mi comi...? - Humm... Esse sorvete está tão bom...! Quer provar? Fiz que sim com a cabeça e ele me esticou uma colherada de sorvete. Abri a boca e aceitei. Estava realmente delicioso. - Muito bom – concordei, sorrindo. O garoto também sorriu e abaixou o olhar para o sorvete. Quando uma pessoa é triste você percebe, pois sente a energia. Uma vez minha antiga psicóloga me contou que o paciente com depressão é o último a ser atendido, pois independente da pessoa, depressão pega. Inclusive era por isso que eu sempre era o último paciente do dia. Bom, mas agora estou melhor e sinto a energia desse garoto. - Tudo bem? Ele assustou-se e olhou para mim. Em seguida abaixou o olhar novamente, entristecido. Ele parecia realmente cheio de problemas. - Sim, estou bem. - Você frequenta um psicólogo? - Sim. Ele me manda tomar alguns remédios. - Você é depressivo. - E você intrometido. Sorri, tentando parecer mais simpático. Ele estava certo, eu estava me intrometendo demais em sua vida. - Desculpe. Só estava vendo que temos algo em semelhante. - Você também é depressivo? - Eu era. Bem, talvez ainda seja. Quando parei de frequentar a psicóloga ela me disse que eu estava melhorando. 29
  • 30. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga Ele sorriu e fuçou em seu sorvete, sem olhar para mim. Lembrei que eu ainda tinha de comer o meu próprio sorvete então assim o fiz. - Qual é sua válvula de escape? – perguntei, já tendo uma ideia de qual seria a resposta. - Matheus. Ele não tem problemas, sendo assim os nossos problemas se tornam os seus problemas. Ele é muito carinhoso e atencioso. Já transou com ele? Estranhei a pergunta. De imediato o sangue me subiu a face, felizmente o garoto das mechas verdes estava de cabeça baixa, fitando seu sorvete. - Não – respondi dando ênfase ao “a”, dando um som diferente aquela pequena palavra. - Você é virgem? Desta vez ele me olhou, desejando ver qual seria minha reação. Considerei se lhe diria a verdade. Mas, afinal, não havia nada de mais em dizer a verdade, acho... - Sim – respondi no mesmo tom do “não”. - E você gostaria de deixar de ser? O sorvete começou a entalar na garganta. Não que eu não quisesse, mas era a primeira vez que eu falava com esse garoto e ele já me vem com assunto de sexo. Mas acho que não posso reclamar, considerando que eu mesmo estava conversando sobre o garoto ser depressivo. - Bem... Acho que sim. Mas não quero que seja de qualquer jeito – admitir isso fora extremamente difícil. Eu não costumo conversar sobre tal assunto com relação a mim, seja lá com quem for. Com Mi comi era sobre ele, então tudo estava bem. - Então, se tivermos mesmo algo em comum, você deveria conversar com Matheus. Ele é realmente muito amável. - Você não ficaria chateado com isso? - Não, porque não estamos saindo. Eu não gosto de Matheus assim, eu só gosto do carinho dele e isso é difícil de encontrar em um garoto, pelo menos para mim. - Verdade... Pensar em sexo... Isso não me assusta, pois eu já fui quase estuprado. Eu até gostaria – não de ser estuprado, de ter sexo – mas, foi como eu disse, não queria que fosse de qualquer jeito. Em meu outro colégio os garotos homossexuais que havia não pensavam em namoro, só queriam comer o maior número possível de garotos, ou dar para. É como eu disse para ele e também é como ele me disse. Eu gostaria que fosse com um garoto mais amável que a maioria. - Matheus fica por cima ou por baixo? – perguntei envergonhado, sem fitá-lo. - Os dois. Ou o que você quiser, porque ele deixa quase qualquer coisa. Remexi meu sorvete. Ele era bem clarinho, quase branco, semelhante à cor do esperma... 30
  • 31. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga - Não quero mais comer sorvete. Quer o meu? – ofereci lhe estendendo meu potinho. Luke era seu nome, ou pelo menos assim que o chamavam. Obriguei-me a gravá-lo, pois em uma conversa não poderia me referir a ele como o garoto das mechas verdes, ficaria chato. E se ele pintasse o cabelo de outra cor? Como eu ficaria? Lembra quando eu citei sobre a mente em branco? Pois é, agora mesmo acabei de pensar na voz de Mi comi me chamando. Sexo, sexo, sexo... Isso seria mais fácil para mim agora que moro com minha mãe, pois ela passa mais tempo na rua do que em casa. Quando eu morava com meu pai era mais difícil. Se um amigo meu fosse em minha casa somente para jogar vídeo - game ele já desconfiava. Bem, com razão, pois nunca era somente jogar, sempre acabava em ‘pegação’. De qualquer forma, agora estaria tudo bem, pois minha mãe não ficaria na volta. - Sabe Bryan, essa seria uma válvula de escape melhor do que se mutilar. Arregalei os olhos e fitei meu pulso. Só então percebi que Mi comi retirara minha pulseira e que agora minhas cicatrizes estavam expostas. Escondi meu pulso embaixo da mesa, escondendo as marcas com a outra mão. Merda de Mi comi. - Bryan! Virei para o lado e vi Pedro se aproximar. Surpreso, esperei até ele chegar perto e dizer o que queria. - Bryan! Então você estava aqui... Eu queria falar contigo. Olhei para Luke, o qual sorria. - Tudo bem? – perguntei, não querendo deixá-lo sozinho ali, pois isso nunca é bom para um depressivo. - Vai nessa – ele respondeu sorrindo. Se fosse outra situação, eu ficaria com Luke. Mas, eu realmente fiquei curioso com relação a Pedro. O que será que ele quer de mim? Ele aparentava estar me procurando já há algum tempo. Levantei-me e o segui para longe. Pedro não disse absolutamente nada. Fomos até a nossa sala de aula, a qual se encontrava vazia. Pedro olhou para os dois lados do corredor antes de fechar a porta. Foi até as janelas e fechou as cortinas, uma por uma. Meu coração começou a palpitar cada vez mais rápido. No meu entender, ele queria fazer algo que ninguém mais poderia ver. Então, vendo a situação pelo lado de fora: estão dois garotos sozinhos em uma sala de aula, um homossexual e outro heterossexual. O hetero fechou a porta e as cortinas, para ter certeza de que ninguém veria nada e aparenta estar nervoso. Eu estou louco ou Pedro quer ficar comigo? Vamos, acalme-se Bryan. Esconda este sorriso do rosto. Puxe os cantos dos lábios para baixo! Vamos, puxe! Eu não acredito que eu consegui realizar esta façanha. Terei mesmo eu transformado um garoto completamente hetero em um homo? 31
  • 32. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga - Pedro? – chamei-o, sem ter certeza se conseguiria escutar sua voz, pois meus batimentos cardíacos estavam exageradamente acelerados. Quando ele terminou de fechar a última cortina voltou-se para mim e caminhou lentamente em minha direção. - Bryan, eu confio em você. E você sabe que não sou gay e não serei, ‘né? Sei. E é por isso que você fechou toda a sala e teve certeza de que ninguém estava nos vendo, não é? - Bryan eu... Ah, eu me sinto estranho sendo amigo de um gay. Amizade entre um garoto e uma garota sempre acaba em romance. Amizade entre um gay e um hetero dá em quê? - As pessoas dizem que não é possível existir amizade entre um garoto e uma garota sem rolar romance. Por que com garotos é diferente? Por que dois garotos podem ser grandes amigos? Muitas vezes uma amizade bem maior do que a do garoto e a namorada – engoli em seco, tremendo exageradamente. Meu coração estava chegando a três batidas por segundo. – Pedro, por que amizade entre garotos dura mil vezes mais que um namoro? Afinal, a única diferença entre amizade e namoro é o interesse sexual, não é? Eu já disse o quanto ele é lindo? Já disse sobre todas as garotas aos seus pés? Já disse que eu nunca pensei ter uma chance com ele? Já disse sobre a quantidade de piadinhas homo fóbicas que ele faz? Já disse que quando ele descobriu que eu era gay ele se afastou de mim? Já disse que ele está se aproximando perigosamente de mim? Já disse que ele está corado e nervoso? Já disse que seus lábios estão quase sobre os meus? 32
  • 33. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga Capítulo 6: Heterossexuais de merda. Eu já disse que não vou cair nessa. Pedro encostou seus lábios nos meus devagar, com um cuidado derradeiro. Eu sabia que ele não me queria assim, era somente uma curiosidade. Obviamente eu não o deixaria brincar comigo, mas... Um pequeno pedaço de mim, um pedaço bem lá do fundo gritava desesperadamente, ambicionando um contato a mais dele, exigindo sua atenção e ansiando por seus cuidados. Percebi que ele não tentaria aprofundar o beijo e, de certa forma tal falta de atitude dele me decepcionou. Eu não queria ser aquele a definir a situação, pois assim mais tarde eu não poderia declarar ter sido levado por ele. Mas somente seus lábios era o suficiente para meu coração derreter, aquecendo meu corpo por dentro. Eu queria seu toque em minha pele e sua língua brincando com a minha. Em um impulso de insanidade, eu rodeei seu pescoço com ambos meus braços e toquei seus lábios com a minha língua suavemente, esperando para ver sua reação. A cada segundo que ele demorava a se decidir era uma batida que doía em meu peito. Mas Pedro finalmente se decidiu e, ao invés de corresponder meu beijo ele mesmo foi empurrando minha língua e invadindo minha boca com a sua, em um beijo quente e forte. Foi delicioso. Mas algo ainda me incomodava; a falta de contato entre nossos corpos. Dei um pequeno passo para trás, puxando-o pelo pescoço para junto de mim. Com dificuldade – pois não queria interromper o beijo – eu ergui meu corpo e me sentei à mesa do professor. Pedro ainda mantinha seu corpo a certa distancia do meu, sendo assim fui escorregando minhas mãos para sua cintura e puxei seu corpo para mais próximo do meu. Movi minha mão ao zíper de meu casco e terminei de abri-lo. Sei que não devo me iludir, mas Pedro me beijava com tanto desejo... A saliva estava se formando em minha boca exageradamente e senti vergonha por isso. Toquei minhas mãos nas suas e Pedro puxou-as de imediato. Tentei novamente e desta vez ele permitiu que eu o guiasse. Coloquei suas mãos em minha cintura, por baixo da camisa e deixei-as ali, voltando a envolver seu pescoço. Percebi que ele ficara sem jeito, mesmo assim movimentou-as levemente, acariciando-me... Nossos lábios se separaram. A primeira coisa que fiz foi engolir a saliva, tanto a minha que se formara demais quanto a dele. Coloquei meu rosto ao lado do seu, não querendo ver a expressão dele. De qualquer forma, suas mãos continuavam em minha cintura num contato direto de nossas peles. -Você pode me tocar se quiser e até onde quiser – eu sussurrei ofegante, para logo me arrepender. Eu realmente não queria ser usado, mas eu queria um carinho dele. O que fazer? Agora eu já falei, não tem como voltar atrás e colocar as palavras de volta dentro de minha boca. Tudo que é dito fica no universo e tenho certeza de que elas voltarão para me assombrar. Ele movimentou, mas levemente. Eu sabia que Pedro se encontrava em uma situação completamente desconfortável. Seus movimentos não subiam demais nem desciam. Beijei suavemente seu pescoço e encostei minha testa ali. Quando percebi que ele não ia avançar quase chorei. Ele queria o corpo de uma garota e isso eu não poderia lhe dar. Eu sendo o suficiente ou não ele teria de dizer algo. Não quero ser usado. Não pensei muito, pois se pensasse minha mente entraria naquele mesmo conflito interno, quando você pensa em algo com tanta força que é como se você realmente estivesse fazendo, mas não está. Somente o empurrei para longe um pouco brutal demais. Sem 33
  • 34. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga olhar para Pedro eu fui até as janelas e abri as cortinas com força. Uma, duas... Na terceira Pedro segurou meu pulso. - O que você pensa está fazendo?! Ele estava bravo, percebi. Voltei-me para ele suavizando meu olhar, como se não estivesse fazendo nada de mais. Eu já disse o quanto ele é lindo? - Estou abrindo as cortinas – respondi simplesmente. Pedro apertou meu pulso. - Por quê? Tentei soltar meu pulso, mas a força não deixava. Esse é o problema de ser mais fraco que os garotos com quem fico. - Porque se eu posso assumir você também pode! Você me beijou e depois vai ficar fazendo piada de mim para os outros garotos? Não. Eu não sou brinquedo! Agora me solte, meu pulso está doendo – exigi, tentando sacudir meu pulso para soltá-lo, mas infelizmente sua mão ia junto. Aparentava estar colada. Ele apertou com mais força ainda, me fazendo gemer. Empurrou meu braço para junto de mim e obrigou-me a fitá-lo. - E você acha que sou o quê? Mulherzinha? Acha que vou ouvir os meus amigos dizendo que ficaram com garotas lindas, com muito peito e bunda enquanto eu vou dizer que fiquei com um garoto? E ainda completar “fiquei com o Bryan, aquele ‘gayzinho que usa maquiagem”. Óbvio que não! Eu disse que não sou gay! Foi um beijo, não um pedido de namoro, pois eu nunca faria isso! Eu só encostei e você quis que eu lhe tocasse. Isso me dá nojo! Quando ergui o olhar eu já sabia que estava com os olhos cheios d’água. Primeiramente vi uma expressão furiosa, mas quando ele percebeu meu estado suavizou completamente. Aproveitei para soltar meu pulso já muito machucado. - Entendi. Você acha que só porque sou gay tenho que ser puto – fiz uma pausa, pois minha voz começou a oscilar muito. Pensei em secar os olhos, mas daí eu ficaria com um aspecto pior ainda, pois borraria a maquiagem. – Mas eu não sou e não fiquei com você para veres como é e depois sair debochando de mim. Fiquei porque gosto de você e mesmo assim nunca te pedi nada nem invadi teu espaço. Eu deixei bem claro que me tocasse se quisesse e até onde quisesse. Eu... – minha voz tremeu e eu solucei. O choro me impediu de continuar, mas forcei-o para dentro de minha garganta. –Eu não sou uma garota e nunca serei. Você está ciente disso, então se não tinha interesse não deveria ter me beijado. Antes de ouvir qualquer outra coisa saí correndo de lá. Pedro queria somente ver como é um garoto. Ele tinha vergonha de mim. Ele queria a garota que eu não sou. Nós nunca poderíamos ficar juntos... Pedro queria me usar... Entrei no primeiro banheiro que vi, me metendo em uma cabine qualquer. Tranquei a porta e sentei no chão mesmo, com as mãos no rosto. Solucei. Pedro queria me usar. Pedro tem vergonha de mim. Ele disse na minha cara que tinha nojo de mim. A cada palavra cruel que eu recordava era um aperto em meu coração e um soluço saindo de minha garganta. Ele é uma pessoa horrível! Por que eu tenho que ser tratado como brinquedo? Depois disso seria um “nada aconteceu nem vai acontecer”. E ele ainda disso aquilo depois de me beijar, ou seja, o beijo não foi nada para ele. 34
  • 35. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga Por quê...? Continuei me martirizando. Repeti em minha mente cada palavra sua, de novo e de novo. Lembrar de sua voz dizendo que teria vergonha de falar para seus amigos que sou seu namorado doía demais e intensificava meu choro quase me fazendo sufocar, mas eu precisava daquilo. Precisava fazer uma cicatriz para não desabar quando o visse fazendo uma expressão de nojo para mim. Porque eu não sou uma garota. Porque me visto como emo. Porque eu gosto de garotos. Porque é essa a definição que ele tem de mim, não importando meus gostos. Em nenhum momento ele quis saber de que tipo de música eu gostava de ouvir, que gênero de filme gosto de ver, passatempo, comida, idade, signo... Nada! Porque, para ele, qualquer coisa com relação a mim se resumia a ser gay. Ouvi barulho no banheiro, mas ignorei completamente. Pedro não seria, óbvio! Imagina só a vergonha que ele passaria em ir consolar um garoto chorando. - Bryan? Porra, que merda! Tive vontade de xingar a todos os Santos existentes no mundo. Por que não podiam me deixar sozinho um pouco? Mas, apesar de tudo, o que eu menos queria era ficar sozinho. Sentei-me no vaso e destranquei a porta. O garoto empurrou-a e abriu. Era Matheus. Abaixei o rosto e esfreguei meus olhos, mas as lagrimas não paravam de cair. Diferente daquilo que eu esperava, Matheus nada perguntou. Sentou-se no chão e puxou-me pelo pulso para seu colo. Assim eu fiz, sentando encima de suas pernas e escondendo meu rosto. Matheus afagou meus cabelos e apoiou seu queixo sobre minha cabeça sem dizer uma palavra. Eu pude ficar quieto pensando e chorando que ele continuou sem fazer perguntas. Acho que isso foi o melhor, pois, assim, não fui obrigado a ouvir toda a triste realidade novamente. Alguns minutos depois, me acalmei e me limitei a somente fungar. Agora eu entendia Mi comi melhor do que ninguém e, se nossas situações estivessem invertidas eu nunca o perdoaria como ele me perdoou. Ajeitei-me melhor no colo quente de Matheus e fechei os olhos, desejando poder dormir. - Pedro me beijou e me xingou – expliquei por alto, sentindo vontade de chorar novamente, mas engoli. - Aquele garoto tem sérios problemas. Você é lindo, Bryan – ele respondeu de forma carinhosa, me fazendo sorrir de leve. Fiz com Matheus o mesmo que fiz com Pedro: peguei suas mãos e as coloquei por dentro de minha blusa, em minha cintura. Suavemente ele esfregou suas mãos quentes em meu corpo, subindo um pouco mais. - O que você quer Bryan? – Tal pergunta me obrigou a questionar-me. O que eu queria? Queria um toque quente, um carinho gostoso. Queria mãos passeando por meu corpo e queria me sentir bem. - Me toque – pedi. 35
  • 36. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga - Matheeeeuus! Você me deixou lá no banheiro sozinho, esperando! Eu tenho que tirar essa tinta! Acho que ela já está começando a corroer a carne da minha cabeça. Puta merda, caralho, eu vou torcer o pescoço alvo de Mi comi! Vou cortá-lo em vários pedaços e torná-lo carne moída! - Oh, Bryan... Enterrei meu rosto no peito quente de Matheus, escondendo-me. Senti a presença de Mi comi se aproximando e tive vontade de quebrar sua traqueia, impedindo-o de respirar. Assistiria com gosto ele agonizando até morrer... - Não se preocupe Lu, é só enxaguar o cabelo. - O que houve com o Bryan? Senti-me ser cutucando, como se eu fosse o cadáver de um animal que você quer ter certeza de que está morto. O agastamento tomou conta de meu corpo e, rapidamente girei meu tronco e torci seu dedo. Ouvi-o reclamar, mas simplesmente ignorei e afundei novamente no colo de Matheus. - Me cutuca novamente que eu arranco seu dedo! - Ah, ok, me desculpe. Mas o que houve Bryan? Por que está assim? - Não te interessa – resmunguei contra o peito de Matheus, recusando-me a fitar Mi comi. - Ahh Bryaaaaan, não seja mau assim! Me conta o que houve. Aquelas atitudes por parte de Mi comi já estavam me dando nos nervos. Por que este garoto tem que ser tão fácil? Isso mesmo, fácil! Ele é amiguinho de todos, ama a vida como se ela fosse perfeita e perdoa como se tudo fosse simples! Eu tenho repulsa a toda essa falsidade de Lucas. Sim, falsidade, porque eu sei que ele é falso. Não me engana. - Bryan. Fala comigo – ele pediu manhoso, ato este que somente aumentou minha raiva. Levantei-me bruscamente, empurrei Mi comi que estava em meu caminho e fui até o espelho, fitando com desgosto minha maquiagem toda borrada. - Eu vou embora – anunciei decidido. Não passaria o resto da manhã na mesma sala que Pedro. Aliás, atrás de Pedro! Liguei a torneira e, com o dedo indicador tentei limpar a maquiagem borrada por baixo dos cílios. Vi pelo espelho Matheus se aproximando. Ele parou ao meu lado e me ofereceu um pedaço de papel. Aceitei e segurei-o com a mão seca, usando para limpar os olhos. - Se quiser eu vou com você – ofereceu-se Matheus. Não vou mentir, sua oferta realmente trouxe um sorriso para minha face triste. - Se você não se importar... - Eu também vou com você, Bryan! - Não quero – respondi curto e grosso, sem olhar para Mi comi pelo espelho. 36
  • 37. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga - Por quê? – ele perguntou manhoso novamente, aumentando a raiva preservada dentro de mim. - Porque eu não quero. Eu sabia que, apesar de minhas atitudes para com Mi comi estarem sendo frias e cruéis no dia seguinte ele viria saltitante para minha volta, como sempre fazia. Sendo assim, não importava se eu descarregasse minha raiva nele. -Vou buscar minha mochila – noticiei quando percebi que minha imagem no espelho estava aceitável. Minha imagem sem maquiagem é realmente estranha. Meus olhos até parecem mais claros, mesmo eles sendo naturalmente azuis clarinhos. Sai andando para fora do banheiro antes que recuasse. A verdade é que eu estava com um puta medo de encontrar Pedro na sala de aula, pois a qualquer momento o sinal pode tocar. Percebi que Matheus estava me seguindo quando senti sua mão junto da minha. Era quente; muito quente. Inconscientemente olhei para nossas mãos juntas. Ambas as mãos possuíam as unhas pintadas de preto, porém as minhas eram maiores. Apertei sua mão e segui pelo corredor na direção de minha sala. Quando cheguei à porta inspirei fundo e, receoso adentrei a sala. Tinha gente ali. Um grupo de garotas e uns três garotos no canto perto da minha classe. Entre estes garotos estava... Pedro, só porque o universo desgosta de minha existência e quer me fuder de qualquer jeito. Meu coração deu um pulo somente de ouvir o nome ser pronunciado mentalmente. Sabia que todos os olhares estavam focados em mim por causa de minha mão junta a de Matheus. - Olha só! O viadinho arranjou um namorado – comentou maldosamente um dos garotos junto de Pedro. Eu me recusei a olhar na direção deles, pois tinha medo de chorar. Aproximei-me de minha classe e parei de costas para os garotos, com Matheus de frente para mim, consequentemente na reta dos garotos. - Você se importa? – sussurrei baixinho, torcendo para que Matheus ouvisse. Não queria que ele passasse por uma situação ruim tendo eu como culpado. - Não mesmo – ele respondeu sorrindo, acalmando-me – Quer dar motivo para eles falarem? Peguei minha mochila e coloquei-a nas costas. Meu coração estava em disparada, obstruindo meus pensamentos. Eu sabia que dar um motivo seria um beijo. Tentei pensar, mas realmente não consegui. Havia pouco tempo para tomar uma decisão. Segurei na mão de Matheus e rumamos para fora da sala. Eu queria que Pedro soubesse que não sou um brinquedo. Puxei a mão de Matheus, indicando que era para ele se virar. Quando ele assim o fez eu tomei-lhe os lábios, em um selinho. A sala toda enlouqueceu. - Ai, que nojo! Vou ter pesadelos essa noite! Essa é a pior cena que eu já vi! – gritou um dos garotos. Eu sorri, de certa forma triste, mas tentando esconder. Imagina só se soubessem que Pedro me beijou? - Que nojo! Sério, acho que vou vomitar! E você Pedro ainda andou com ele! Você tem o que na cabeça? Merda? Ou você é só gay mesmo, ein? 37
  • 38. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga Já havíamos passado pela porta, então acelerei o passo. Não queria ouvir a resposta de Pedro, de jeito nenhum! Não queria ouvir os deboches dele para com minha pessoa. De repente, senti meu braço sendo puxado com força, obrigando-me a retornar dois passos. - Luke, me alcança minha mochila. - Vai matar? - Sim. Lu está lá no banheiro. Ajude ele a terminar o cabelo. Estou levando Bryan para casa. Logo retornamos a andar. Matheus só queria dar o aviso para não deixar Mi comi sozinho, esperando. Seguimos para a rua e, da calçada mesmo deu para ouvir o sinal batendo. Andamos em silêncio até minha casa. Nossas mãos não se separaram nem por um momento, consequentemente minha mão começou a suar. Sempre que estou de mãos dadas com alguém minha mão começa a suar. Não sei se sou somente eu, mas se sou Matheus não se incomodou com isso, muito menos com os olhares de censura que nos lançavam. Felizmente não havia muitas pessoas na rua. Chegamos a minha casa. Eu abri o portão, atravessei o jardim e cheguei à porta. Abrindo-a vi minha mãe eufórica, caminhando de um lado para o outro da casa enquanto conversava no celular. Larguei a mão de Matheus. - Mãe, trouxe um amigo – anunciei enquanto jogava minha mochila no sofá. - Bem, eu já estou de saída – Matheus disse envergonhado. Quando ele fez menção de ir até a porta eu puxei sua mão, obrigando - o a permanecer comigo. Retirei sua mochila de seus ombros e coloquei junto da minha. Minha mãe falou mais algumas coisas no celular e desligou. Sorriu para mim. - Oi Bryan. Ainda bem que você chegou mais cedo, tenho que sair agora e Amanda não vêm – ela disse rapidamente. Nem me dei ao trabalho de fitá-la, fiquei encarando o sofá. – Mas ela deixou o almoço pronto, então é só aquecer – minha mãe fez uma pausa, provavelmente percebendo a presença de Matheus –Olá, sou a mãe de Bryan, Deise. Que bom que ele está se enturmando! - Prazer, sou Matheus – ele se apresentou, mas eu continuei mirando o sofá branco de almofadas laranja e detalhes marrons. - Então Matheus, você não quer almoçar aqui? E de preferência dormir aqui também, assim Bryan não passa a noite sozinho. Eu sei que ele gosta, mas estar sempre sozinho nessa casa não é bom e ele não costuma trazer muitos amigos aqui, então, por favor, faça companhia para ele. - Mãe, deixa ele – disse irritado e envergonhado. Ela estava fazendo parecer pior do que era ficar sozinho, ou talvez não. - Ah, vamos Matheus, por favor, não o deixe sozinho. Ás vezes pergunto-me se meu pai contou a minha mãe sobre eu ser gay. Tenho certeza que sim, mas ela insiste em agir como se não soubesse. - Bem... Eu tenho que falar com meus pais e38
  • 39. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga - Ótimo! Pode usar o telefone. Acho que só volto amanhã, então seja um bom garoto Bryan e cuide bem do seu amigo. - Mãe... – resmunguei, tentando fazê-la entender que Matheus não tinha o dia todo a dispor dos outros. Ergui o olhar e a vi se movimentar para as escadas, subindo-as. Em seguida desceu com vários papéis nas mãos e foi direto para a cozinha, com o celular posicionado entre seu ombro e sua cabeça. Suspirei. - Não se sinta obrigado por ela. Não precisa ficar se não quiser – disse voltando-me para Matheus. Ele apenas sorriu. - Fico o tempo que você quiser. Meus pais deixam. Se você quiser eu fico, ou posso ficar menos tempo também. O que você quiser. Olhamo-nos mais um pouco e, logo, começamos a rir. Não sei se foi somente impressão minha, mas ambos queríamos a companhia um do outro, ou talvez somente eu quisesse a companhia dele. - Não! Acalme-se, já estou indo. Minha mãe passou por nós ainda no telefone, continuando com ele preso entre a cabeça e o ombro. Suas mãos estavam ocupadas tentando prender o cabelo castanho claro comprido, enquanto que em seu pulso encontrava-se uma pasta com vários papéis saindo para fora. - Só um minuto. – Ela afastou o celular um pouco, tapando-o com a mão e buscando por suas chaves no chaveiro da parede. – Bryan, tem dinheiro ao lado do microondas. Peça pizza para você e seu amigo. - Tchau mãe – me despedi. Ela nem olhou para mim, prosseguiu falando no telefone e, assim, saiu porta a fora. –Ela trabalha como secretária, ou algo parecido – expliquei a Matheus, sacudindo os ombros, fazendo pouco caso. Ela nunca tinha tempo de me contar sobre algo de seu trabalho, então não sei se ela continua no mesmo. - Você é filho único? – ele perguntou me abraçando por trás e beijando minha bochecha, pegando-me desprevenido. - Sim. - E seu pai? - Ele já não gostava da ideia de ter um filho emo, o fato de também ser gay foi demais para ele. Senti um beijo úmido em meu pescoço sensível, de imediato arrepiei-me. - Então, o que você gosta de fazer? Seus braços foram para meu ombro direito, sendo apoiados ali com seu queixo sobre eles. - Internet, vídeo-game, música... - Que banda você mais gosta? 39
  • 40. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga - Simple PLan, Green Day, 30 Seconds To Mars... – respondi, vendo que Matheus sorriu, ou seja, também apreciava tais bandas. - Legal. Eu gosto dessas e Panic! At The Disco, Linkin Park, Tokio Hotel, My Chemical Romance… - respondeu Matheus animado, formando uma extensa lista oral de várias bandas que eu também apreciava. - Você está com fome ou prefere fazer alguma outra coisa e almoçar mais tarde? - Não estou com fome agora, mas se quiseres almoçar por mim tudo bem. Agora, preciso mesmo ligar para meus pais e avisar, caso contrário eles ficarão extremamente nervosos sem saber onde estou. Sorri e me locomovi até o telefone sem fio, entregando-o nas mãos de Matheus. Eu realmente estava feliz por passar à tarde com alguém. Se não fosse por Matheus eu absolutamente passaria a tarde inteira sentindo-me jogado no fundo de um poço, enchendo o mesmo de lágrimas e afogando-me. Trágico. *** Passamos a manhã na internet e a tarde no videogame. Era descontraído conversar com Matheus, pois mesmo os assuntos sendo banais havia sempre uma lógica por trás deles. Quando o assunto tomava um rumo na direção do colégio, principalmente Pedro Matheus sempre dava um jeito de contorná-lo. - Bryan... Você ainda tenta se matar? Assustei-me. Como primeira reação voltei discretamente meu olhar para meu pulso, mas o mesmo estava tapado com a manga do casaco. Eu cuidara o tempo todo, então como ele descobrira...? - Bryan, não pára seu carro! Olhei para a tela. Meu carro estava parado, pois acabei soltando o botão. Na tela de baixo o carro de Matheus se encontrava igualmente parado, esperando-me. Apertei o “x” e continuei com o jogo. Quando meu carro passou ao lado do de Matheus foi que ele continuou a jogar. - Como você...? – balbuciei, não querendo ter de terminar a frase. - Luke contou. Ele é um grande amigo e eu o amo muito, mas é um grande fofoqueiro. Sei de toda a conversa que vocês tiveram. Puta merda, como me descuidei assim? Eu não sou de confiar nas pessoas, então como deixei...? Mas, pensando bem fora Luke quem se intrometera, fitando meu pulso descoberto por Mi comi. Espere. Toda a conversa? Inclusive a parte sobre sexo? - Você está ficando vermelho – Matheus comentou sem nem olhar para mim, com seu carro já em grande vantagem no jogo. - Ele contou tudo? 40
  • 41. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga - Tudo. Dês do psicólogo até sexo. – Senti-me envergonhado, torcendo para que o assunto não houvesse adentrado em... – Comigo. Fiquei alguns segundos em silêncio. Quem ganhara a corrida obviamente houvera sido Matheus, ocorrência esta que feriu meu orgulho. Tentei não pensar no rumo de nosso assunto, mas teria de continuá-lo. E... Talvez isso pudesse se tornar vantajoso para mim. - Luke é um grande fofoqueiro – concluí, ouvindo a risada de Matheus. - Sabe Bryan, eu não só acho você bonito, mas também... O replay de nossa corrida começara. Meu carro era azul e o de Matheus prata. Dês do início ele me ultrapassara. Percebi que o mesmo estava se aproximando de mim, tornando mínima a nossa distância naquele sofá de três lugares. Ponderei que ele me beijaria, mas estava errado. Matheus levou sua mão gelada a meu pescoço, puxando a ele levemente, causando-me arrepios. Logo, seus lábios estavam naquela região sensível, beijando. Foram três beijos, todos descendo na direção de meu ombro. O beijo subiu e foi para meus lábios. Era a primeira vez que eu beijava Matheus, sem contar o selinho de mais cedo. Agarrei-me em seu casaco preto com uma estampa roxa, apertando as mãos com força enquanto sentia sua língua brincando com a minha. O beijo de Matheus conseguia ser doce e ao mesmo tempo quente. Seu braço envolveu minha cintura, puxando-me até me deitar no sofá. Eu queria aquilo, mas estava nervoso. Não é como se eu não pretendesse perder a virgindade, apenas não pensara nisso o suficiente para poder encarar a situação tranquilo, aproveitando mais das carícias. Mais uma vez os beijos foram para meu pescoço, desta vez de forma mais ousada, chupando a pele que fervia. Sua mão gélida adentrou minha camisa e, sem cerimônias ela foi subindo até alcançar meu mamilo, segurando-o entre seus dedos. Soltei um gemido bem baixinho, quase um suspiro, completamente envergonhado. Enquanto seus lábios chupavam meu pescoço meus olhos viam nossos tênis. O meu All star de cano médio vermelho e o All star preto de Matheus, propositalmente manchado com clorofina. - Quer que eu pare? – ele perguntou interrompendo tanto a carícia quanto os beijos. Ergueu o rosto até ficar no caminho de meu olhar. - Não – respondi para aqueles olhos verdes tão clarinhos e brilhantes. Matheus é tão lindo... - Quer perder a castidade comigo? – ele perguntou de forma debochada, sorrindo maliciosamente, ato este que pensei não ser possível. Virei o rosto para o lado, sentindo a vergonha subir-me a face. Luke tinha que ter contado tudo mesmo? - Sim – respondi confiante, sem deixar margem para dúvidas. Não sei se é um desejo suprimido meu, mas meu corpo dizia que uma noite com Matheus seria maravilhosa. Meu corpo e minha pele desejavam o seu, aquele toque, aquelas carícias... - Ótimo. Mas agora preciso ir à minha casa buscar algumas roupas. Matheus levantou do sofá e ficou parado ao lado, sorrindo para mim. Incrédulo, fiquei a fitá-lo sem entender. Ele ia parar fácil assim? Sei que declarei não estar esperando por isso, mas eu não queria parar! 41
  • 42. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga - Vamos Bryan, temos a noite toda pela frente. Até porque, tenho que buscar algumas coisas para nossa noite. – Buscar algumas coisas? Matheus está se saindo um grande pervertido! Devo perguntar o que ele pretende buscar? Acho melhor não. - Bryan, você confia em mim? - Não – respondi sério. Não que eu quisesse chateá-lo, apenas fui sincero. Sua expressão mudou e o sorriso sumiu. Acho que ele se aborreceu. - E eu posso confiar em você? Confirmei com a cabeça - Humm... Ok. Mas eu tenho mesmo que ir em casa, vem comigo Bryan, é pertinho. Ele puxou minha mão, fazendo-me levantar do sofá de muita má vontade e com uma enorme frustração sexual. 42
  • 43. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga Capítulo 7: Primeira – e não última – vez. Na hora do jantar fiz como minha mãe sugerira e pedi uma pizza; uma enorme pizza. Sentamos a mesa da cozinha para comer, um de frente para o outro. Sei que um adolescente normal comeria em qualquer outro lugar da casa, mas eu realmente não consigo fazer isso. Tanto a comida quanto a bebida ficam desequilibradas, caindo por toda minha roupa e estragando-a. O silêncio começara a me incomodar. Enfatizo bem o “me”, pois Matheus não aparentava nem um pouco de desconforto, devorava seu pedaço de pizza com uma felicidade beirando ao infantil. -Está gostando da pizza? – perguntei ironicamente, pois suas atitudes o denunciavam. A intenção era somente começar um diálogo, pois a voz descontraída de Matheus soava a meus ouvidos de forma tão agradável... Matheus levantou-se, chamando minha atenção. Ele arrancou um pedaço da pizza com os dentes e colocou parte dela para fora da boca, aproximando-se de mim. Chegou perigosamente perto de meus lábios, sorri ao entender suas intenções e mordi a pizza, contudo, mais gostoso do que a pizza eram seus deliciosos lábios... Ao invés de retornar a cadeira que ele ocupara anteriormente Matheus puxou uma ao meu lado, sentando-se ali, erguendo um de seus joelhos para próximo de seu tórax. - É boa... Paga pela noite – ele debochou, sorrindo sarcasticamente. - Agora você virou garoto de programa e tem que ser pago? – rebati, entrando na brincadeira. Matheus fingiu estar ofendido. - Hey! Só para você saber, sou um dos melhores. - Tanto que é pago com comida... Rimos juntos. Matheus continuou a comer a pizza, mas eu realmente já saciara minha necessidade fisiológica por comida. Servi-me mais um pouco de coca - cola e beberiquei o refrigerante. - Está nervoso? – Matheus me perguntou concentrado em sua comida. Eu fiquei a fitá-lo. - Sim – admiti. Por mais que eu pensasse no que aconteceria, em nenhum momento consegui manter a calma. Matheus era uma pessoa física e ele está aqui, ao meu lado. Não consigo me concentrar porque sempre me recordo de que Matheus não faz nem ideia do que estou pensando, de todas as perversidades que passam por minha mente tão perversa e impura... - Isso é normal. Na verdade, seria estranho se você não estivesse nervoso. Então, mesmo com essa inquietude dentro de você, tente não ter medo. – Falando assim Matheus realmente parecia ser um expert no requisito sexo. - Você poderia me distrair um pouco contanto algumas coisas... – disse com um sorriso malicioso nos lábios, com segundas, talvez até terceiras intenções... - O que você quer saber? – Matheus perguntou sorrindo, sem se importar com meu olhar intimidador. 43
  • 44. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga - Como foi a sua primeira vez. - Horrível e traumatizante. riu. Fiquei boquiaberto, piscando mais seguido do que o necessário. Matheus somente - Brincadeira, estou exagerando, não foi tão horrível assim. Só... Não foi maravilhoso. Foi como somente mais uma noite para o garoto, ele não se importou se era minha primeira ou quinquagésima vez. Foi somente sexo. Fiquei a fitá-lo, tentando entender o que ele sentia. Matheus parecia dar pouca importância as suas próprias palavras, como se a pizza fosse mais importante. - Por causa do garoto ou por sua causa? Ele finalmente acabara com aquele maldito pedaço de pizza que me inquietava. Levantou-se. - Por causa de Alex. Foi com ele minha primeira vez. – Matheus rumou até a cadeira na minha frente onde se sentara no início do jantar. Sentou-se ali e pegou o copo de refrigerante ali perto. Limitei-me a apenas observar suas atitudes. Ele bebia de forma semelhante a que comia atos estes que me intrigavam. Nunca presenciei alguém com atitudes como as dele. - Mi c... Lucas sabe? - Não. Mas não é algo com que eu deva remoer e me flagelar mentalmente. Quando ficava com Alex Lu ainda não gostava dele. - Quero saber mais – pedi, com uma curiosidade nada característica minha. Tentei não ser intrometido, mas eu daria a Matheus todos os detalhes de minha primeira vez, pois ele participaria dela. Sendo assim, ele me devia isso. De qualquer forma, ele pareceu não se importar em ter de me contar momentos íntimos de sua vida pessoal. Matheus sorriu e apoiou um cotovelo na mesa, apoiando seu queixo na mesma mão do cotovelo. Concentrei-me em seus olhos. Aqueles olhos verdes clarinhos aparentavam demonstrar até a alma dele. Não parecia esconder segredos e nem possuir ódio e rancor. Alguém realmente pode ser assim? Tão transparente e sem sentimentos raivosos que gritam alto, ambicionando serem libertados até tomarem conta de toda a alma da pessoa? -Foi com Alex e ele não se importou em ser minha primeira vez. Me tratou como apenas mais um, como se nem fosse virgem. Doeu muito, demais e ele não me deixou ficar por cima. A pulseira de espinhos dele me machucava constantemente e ele tem um piercing na língua. Odiei sentir aquela bolinha chata em contato com meu corpo constantemente, principalmente em meu mamilo. Que mais...? Ah, e achei horrível transar com camisinha. É... – ele abriu ambas as mãos, distorcendo a face em uma careta de total nojo. –Não sei como explicar, só achei horrível. Mas foi isso que me salvou, pois Alex já transou com tantos garotos que tenho quase certeza que ele contraiu alguma doença. Escutei a cada uma de suas palavras pasmo. Com certeza eu nunca teria a coragem de Matheus para contar detalhes tão íntimos assim, com tamanha facilidade. Tal linha de 44
  • 45. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga raciocínio minha se seguiu, chegando a um ponto crítico: Matheus também contaria detalhes de nossa noite para os outros? - O que acontecer conosco, você irá contar para os outros fácil como me conta sobre sua primeira vez? Novamente ele sorriu. Matheus sorri demais. - Não. Não conto porque sei que você não quer. Comigo e com Alex foi somente uma noite como qualquer outra para ele sendo que, para mim foi especial. Ele não se importa que eu conte. Tentei sentir pena de Matheus por perder sua virgindade em uma noite tão ruim como ele contou, mas não consegui. Ele não parecia triste e nem demonstrava nenhum sentimento ruim, sendo assim não pude me comover. Anteriormente, quando Matheus me perguntara se eu confiava nele eu menti. Eu confio nele, afinal, mesmo não querendo. - E então Bryan, pronto? Movimentei minha cabeça em sinal afirmativo. Senti o nervosismo nascer em meu peito, espalhando-se rapidamente pelo resto de meu corpo, deixando-me tenso. Limiteime a apenas assistir seus movimentos enquanto Matheus juntava os copos e os levava para a pia. O resto da pizza ele deixou na caixa, tapando-a. Rapidamente ele arrumou a mesa e dirigiu-se a geladeira, segurando a garrafa de coca - cola que continha um pouco mais de um palmo dentro. - Posso? – ele pediu. Eu autorizei com mais um aceno de cabeça. Matheus abriu a geladeira, guardou o refrigerante e retirou de lá uma garrafinha cinza que ele trouxera de casa. Dês da primeira vez em que eu vira aquela garrafinha fiquei intrigado com seu conteúdo, mas por ela possuir cor não pude ver o que havia dentro. Matheus voltou-se para mim. – Vamos? Levantei-me e segurei em sua mão, sendo guiado para a escada. Subimos e Matheus me levou para meu próprio quarto, o qual ele já conhecia a localização. Senti-me... Frustrado. Todo aquele clima só me deixava nervoso, nada de tesão. Sei que ainda nem entramos no quarto, mas estou um pouco chateado com a falta de clima quente e excitante. - Sente-se. – Assim o fiz e me sentei. Matheus largou a garrafa na mesinha ao lado de minha cama e ajoelhou-se entre minhas pernas. – Esqueci de comentar, o fato de sua cama ser de casal é ótimo. - É porque minha mãe não esperava que eu viesse morar com ela, então não tinha um quarto pronto. Sendo assim acabei ficando com o antigo quarto de hóspedes. Matheus sorriu sem me fitar. Levou suas mãos a minha pulseira quadriculada preta e branca e retirou-a, junto a várias outras fininhas de couro que eu tinha no mesmo pulso. Em seguida retirou meus vários anéis, subindo para meu pescoço e retirando meus dois colares, um com uma estrela de seis pontas contornada por um círculo e a outra com uma caveira. Largou tudo na mesinha e começou a retirar seus próprios acessórios, inclusive seus piercings, um do nariz e outro da sobrancelha. Continuo frustrado com a falta de clima. 45
  • 46. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga Mas, afinal, o sexo é uma brincadeira a dois, não? Imerso em tais pensamentos eu mesmo retirei meus all star juntamente com a meia, seguindo direto para meu casaco retirei-o e joguei-o no chão mesmo. Arrastei-me para o centro da cama e sentei, apoiando meu peso nas duas mãos atrás de meu corpo. - Matheus – chamei por seu nome arrastando um pouco a voz. Serei sincero, me senti ridículo. Torço veementemente para que ele não ria. - Que foi Bryan? – ele perguntou sorrindo inocentemente, como se não houvesse percebido a diferença em minha voz. De pé, Matheus retirava os tênis, puxando-os um com o outro pé. Segurei-me para não fazer uma careta e continuei com minha expressão de simplicidade. - Terei de ficar esperando? Sinto meu corpo quente. – Sabem quando você se sente completamente ridículo por dizer algo vergonhoso? Neste exato momento sinto-me assim e a vermelhidão de meu rosto demonstra claramente. Se eu pudesse voltar atrás e enfiar as palavras de volta em minha boca... Matheus subiu devagar no canto direito, aos pés de minha cama. Engatinhou para perto de mim, sorrindo como se ainda não entendesse nada. - Mesmo? Mas eu acho que terei de esquentar um pouco mais... Ele chegou bem próximo de mim e colocou uma de suas mãos em minha coxa, provocando-me um arrepio gostoso. Fiquei a fitar seus lábios enquanto estes vinham ao encontro dos meus até finalmente beijarem-me. Este com certeza fora um beijo mais quente, pois Matheus já foi direto metendo a língua, esfregando-a na minha e em cada canto de minha boca, movimentando-a de forma quente e sensual. Sua mão esquerda acariciava minha coxa por sob a calça, apertando-a levemente. Comecei a jogar meu quadril na direção de sua mão, pois não poder sentir seu toque diretamente em minha pele era decepcionante. Aquele seu beijo estava realmente diferente. Seria muito estúpido se somente com um beijo quente e algumas carícias próximas de minha coxa eu já estivesse me animando? Mas infelizmente a falta de ar já estava incomodando meus pulmões, sendo assim necessariamente eu tive de interromper nosso beijo. Os lábios de Matheus escorregaram pela minha bochecha, aproximando-se de minha orelha e mordiscando levemente a parte de trás desta, próximo ao lóbulo. Senti seu hálito quente bater ali, fazendo um calafrio percorrer minha espinha e um suspiro satisfeito escapar por meus lábios. - Deite-se Bryan – ele sussurrou seu pedido tão suavemente que nem o ouvi, limiteime a ficar admirar sua voz. Somente percebi o que ele queria quando senti suas mãos nas minhas, puxando-as, obrigando-me a apoiar minha cabeça no travesseiro. Uma de suas mãos foi para meu cabelo, emaranhando seus dedos ali, porém sem puxar. Seus lábios foram para a curva de meu pescoço, enquanto sua outra mão tocava em minha barriga por baixo da blusa. Pele a pele, e desta vez ambas nossas temperaturas se encontravam elevadas. Matheus não esperou muito e foi logo subindo sua mão para meu mamilo, passando a ponta dos dedos ali, enquanto seus lábios trabalhavam em meu pescoço, beijando e lambendo. À medida que ele ia lambendo e beijando, como consequência ele acabava por ter de fechar os lábios. Não demorou muito para que os beijos se transformassem em chupões. 46
  • 47. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga - Mais forte – pedi com um suspiro, entorpecido demais pelas sensações e pela aceleração de meus batimentos cardíacos para ouvir minha própria voz. Nem eu mesmo ouvi meu pedido, mas Matheus ouviu. Logo, os chupões se tornaram mais fortes, com seus lábios fazendo uma sucção gostosa em meu pescoço. Os dentes foram incluídos, mordiscando minha pele quente de forma não tão suave. Um de seus braços envolveu minha cintura, erguendo meu troco enquanto que, com a outra mão ele subia minha camisa, tendo minha ajuda para retirá-la. Assim que recostei minha cabeça no travesseiro novamente Matheus lambeu meu mamilo, sem cerimônias. Acabei por descobrir que tal parte de meu corpo é realmente muito sensível. Tranquei um gemido em minha garganta, não querendo soltá-lo no ar. Pelo menos, não ainda. Minha respiração já pesava e, inconscientemente eu acabava por não respirar durante um ou dois segundos, para, em seguida liberar o ar de meus pulmões em um suspiro longo, como se retirassem algo que tapasse minha boca. Quase gemi diversas vezes. Não soube onde colocar minhas mãos, então deixei - as ao lado de meu corpo, apertando a coberta a baixo de mim. A língua de Matheus umedecia meu mamilo, dando uma ótima sensação em conjunto com seu hálito. Começou a sugá-lo e raspar os dentes suavemente, provocando-me uma sensação deliciosa. Sua mão esquerda estava em meu mamilo direito, porém, para minha infelicidade não era aquele tipo de toque que eu necessitava. - Geme pra mim, Bryan. Pode ser baixinho. Finalmente seus lábios se locomoveram, trilhando um caminho de saliva até meu outro mamilo, chupando-o direto. Eu poderia ter gemido. Na verdade, minha garganta preparou um bom gemido, mas eu ainda estava envergonhado demais para soltá-lo, então o prendi. Realmente, acho ridículas aquelas pessoas que fazem um escândalo, gemendo de forma nojenta e arrastada, como putas. Já sentia meu membro pulsante entre minhas pernas, como se ondas de calor passassem por ele. Perguntei-me se Matheus se sentia assim também e, impulsionado por esta curiosidade dobrei meu joelho direito, sendo que este se encontrava entre as pernas de Matheus. Gemi bem baixinho ao sentir o volume duro em suas calças. Uma de suas mãos pervertidas desceu para o meio de minhas pernas e apertou meu membro. Com a surpresa não pude conter um gemido, que soou como um suspiro forte em um som excitante. Sim, achei meu próprio gemido excitante, evento este que me instigou em desejar ouvir os gemidos de Matheus. Agora entendo o porquê dele pedir para que eu gemesse. Sua língua foi descendo até meu umbigo. Suas mãos trataram de desafivelar meu cinto e abrir minha calça, aumentando meu nervosismo. De repente ele já estava retirando minha calça junto a minha cueca. Apertei bem forte meus olhos e recusei-me a abri-los. Eu estava excitado e meu corpo todo se encontrava exposto para ele. Saber que seus olhos clarinhos estavam em me analisando por completo, principalmente em minha parte íntima era excitante, mas extremamente vergonhoso. Felizmente minha atenção foi focada em um beijo quente. - Agora quero ouvir você gemer... – ele sussurrou baixinho, pois nossos rostos estavam tão próximos que eu era capaz de ouvir sua respiração. Houve mais um beijo. Nossas línguas quase brigando pela dominância, mas de um jeito bom. Entre um beijo e outro, sua língua lambia meus lábios já vermelhos e 47
  • 48. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga mordiscava-os. Nossos corpos já mantinham contato, mesmo assim joguei-me para frente, esfregando meu corpo no seu. Para minha frustração ele ainda estava vestido, sendo assim não pude sentir sua pele. Meus pulmões exigiam ar, mas eu os ignorei. O beijo era delicioso demais para acabar. Quis fazer alguma coisa, então fui adentrando minhas mãos por baixo de sua camisa. Sua barriga estava quente e deliciosa. Arranhei levemente, não querendo machucá-lo. Escorreguei minhas mãos por seu corpo, apertando de forma desejosa. Arranhei-o novamente, porém desta vez usando de um pouco mais de força. - Tire a camisa – pedi entre beijos. Eu até tentei retirá-la sozinho, mas estava sendo uma missão impossível, pois ele não cooperava. Matheus ergueu um pouco o corpo, retirando a camisa. Sorriu quando percebeu que eu estava assistindo. Eu teria corado, se meu rosto estivesse na cor normal. Quando ele se deitou sobre meu corpo novamente um tremor me percorreu. Sua pele quente contra a minha provocava-me um calor excessivo, mas de jeito nenhum eu queria que ele se separasse de mim. Meus lábios foram atacados mais uma vez, porém, de uma forma diferente. Matheus puxava meus lábios para dentro de sua boca, mordendo e chupando. Abracei seu corpo, apertando-o mais contra mim. Arranhei suas costas com força, desejando deixar uma marca ali. Na verdade, eu gostaria de deixar várias marcas em seu corpo, preferencialmente que ficassem expostas para todos. - Não se segure – ele sussurrou em meu ouvido, completamente sedutor. Mordiscou meu lábio mais uma vez, descendo mordidinhas por meu queixo. Sua mão tocou meu sexo, envolvendo - lhe e apertando levemente. Gemi baixinho, ouvindo uma risada pequena e curta. Seu corpo desceu e eu não pude mais me agarrar. Eu sabia exatamente quais eram suas intenções e, mesmo envergonhado eu queria aquilo. Queria seus lábios em meu membro. Infelizmente ele beijou minha coxa, perto da virilha. Os beijos foram se espalhando pela coxa, agora em forma de lambidas, chupões e mordidas. Aquilo era excitante, mas extremamente frustrante. Apertei com força as cobertas embaixo de mim, dando uma amplitude forte ao som. Não foi um gemido manhoso, felizmente. Seus lábios finalmente estavam na glande, como se massageassem ali. Quando senti quase todo meu sexo sendo colocado para dentro de sua boca eu gemi alto, mas minha vontade foi de gritar. Sua boca era tão quente e úmida... Ele segurou meu membro na base e começou a me masturbar, com as estocadas sendo dentro da boca dele, me levando a loucura. Os movimentos iam se tornando mais rápidos e gostosos. Eu realmente acabei fazendo como ele me pedira e gemi. Minhas mãos apertavam a coberta com força, de tamanho o desejo. - Matheus... Eu vou... – tentei avisar, mas estava se tornando difícil falar quase gozando. Não sei o gosto que o esperma tem, mas se Matheus também não sabia agora conhecera, com o pré - gozo. De qualquer forma ele entendeu meu aviso, pois intensificou os movimentos, tornando-os mais rápidos, enquanto sua língua pressionava meu sexo. Por fim, acabei gozando, na sua boca e em sua mão. Fechei os olhos e tentei me acalmar um pouco. Meus batimentos cardíacos e minha respiração estavam quase me enlouquecendo, como se eu não fosse sobreviver. Abri os olhos para ver o que Matheus fazia. Ele me fitava, com os olhos verdes transbordando em desejo, quase me devorando. Em seus lábios brincava um sorriso, enquanto que sua língua passeava por cada dedo dele, saboreando meu sêmen. 48
  • 49. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga - É bom? – perguntei curioso, mas mais para provocá-lo. Matheus estendeu a mão para mim, colocando um de seus dedos sujos de meu líquido gosmento próximo a meus lábios. Abri a boca e chupei seu dedo, mas logo me arrependi. Fiz uma careta, pois o gosto era horrível. Matheus riu. - Não gostou de seu sabor? Não quer me beijar? – ele provocou, aproximando seus lábios de minha boca. Virei o rosto para o lado. Um beijo com aquele gosto seria horrível! Quando ele se afastou eu virei meu olhar para ele. Matheus retirara a tampa da garrafa que trouxera e bebia do líquido dali de dentro em grandes goles. Terminado de beber, a garrafa foi largada na mesinha e Matheus se abaixou para me beijar. Minha respiração ainda se encontrava descontrolada, mas tentei aguentar. Sua boca estava com um gosto amargo que não consegui identificar, mas era melhor do que o gozo. - Abra as pernas – ele pediu em um sussurro sensual, provocando ondas de prazer em meu corpo. Obedeci e abri as pernas. Tal ato me excitou, pois meu corpo estava ainda mais exposto para ele. Matheus se colocou entre minhas pernas. Seus lábios foram para meu pescoço, chupando e mordendo com força, mas de uma maneira boa. Uma de suas mãos foi para minha nádega esquerda, apertando. O medo se revelara novamente, nascendo em meu peito e se espalhando por meu corpo. Eu tremi. Sabia que seria doloroso, para logo depois o prazer surgir, mas a parte “dolorosa” me preocupava bastante. - Não tenha medo – ele pediu de uma forma doce, como se conseguisse ler meus pensamentos. –Prometo que doerá menos que a minha primeira vez. Seu corpo se afastou do meu e, logo ele estava remexendo em sua mochila ao lado da cama. Sentei-me, observando seu corpo. Suas costas realmente apresentavam riscos vermelhos de minhas unhas. A quantidade de marcas me deixou insatisfeito. Sorri. Aproximei-me de Matheus e comecei a beijar seu pescoço. Sentir aquela pele quentinha arrepiar-se ao toque de minha língua foi incrível. Alarguei meu sorriso e comecei a chupar, fazendo uma sucção forte e mordendo. Eu realmente queria deixar uma marca ali, para que todos vissem. Ouvi um gemido sair de seus lábios fechados e finalmente me senti satisfeito. Deslizei minhas mãos para sua cintura, subindo e descendo. - Bryan, você quer me enlouquecer? Meus ombros foram empurrados e eu caí de costas na cama. Meus lábios foram atacados e, desta vez antes dele pedir eu já estava abrindo minhas pernas, encaixando-o entre elas. Nosso beijo foi interrompido e Matheus se ajoelhou na cama. Em suas mãos se encontrava um tubo parecido com de pasta de dentes, porém maior e mais largo. Ele abriu e apertou, passando em seus dedos. Fechei os olhos e respirei fundo, tentando acalmar meu coração. Senti um beijo na minha bochecha, seguido de um selinho em meus lábios. Um de seus dedos pressionou minha entrada com um gel gélido para, em seguida escorregar para dentro de mim. Gemi. Até que não foi tão horrível. O pior era a entrada que doía um pouco, mas dentro não. Seu dedo foi se movimentando, para dentro e para fora, enquanto que um calor avassalador atingia meu membro. 49
  • 50. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga Resmunguei quando não senti mais aquele dedo dentro de meu corpo. Havia uma falta ali, era como se eu precisasse daquele dedo de volta em mim. Logo ele voltou desta vez acompanhado. Eram dois dedos em meu ânus, escorregando para dentro e para fora. Doía, mas ainda não era uma dor horrível. O gel ajudava no movimento, tornando o ato mais prazeroso. Quando um terceiro dedo se meteu ali, daí sim eu senti a dor. Tenho certeza que meu ânus não foi feito para comportar três dedos dentro dele. Mesmo assim não expressei minha dor em palavras, somente esbocei uma careta. Dentro até que era mais aceitável, parecia que meu corpo “acomodava” os dedos, mesmo que com dificuldade. O problema era a entrada, que doía demais. - Dói muito, Bryan? Fiz sinal negativo com a cabeça, ainda de olhos fechados. Doía, mas era suportável. Aos poucos o movimento foi se tornando mais gostoso e me peguei desejando que aqueles dedos não saíssem dali. Beijos começaram a surgir em meu pescoço, de cima a baixo e de baixo para cima. Indo de meu ombro até o osso de meu maxilar, descendo novamente. Seus dedos saíram de dentro de mim e Matheus fez menção de se afastar. Segurei em seu pescoço e puxei-o para próximo de mim. - Que houve? – perguntei apertando-o com força, não querendo que ele saísse dali. - Tenho que colocar camisinha. Suspirei chateado e comecei a beijar seu pescoço, sem largá-lo nem por um único segundo. - Não precisa. Se é ruim como você disse, eu não quero – resmunguei em um ímpeto de insanidade e irresponsabilidade. - Mas... Você não tem medo de pegar uma doença? - Eu não tenho nenhuma doença sexualmente transmitida. Você tem? - Não, mas... Não achei que você confiasse em mim. - Eu confio – respondi sincero, beijando-lhe os lábios. Desta vez não me arrependi de depositar minha confiança em uma pessoa e espero não me arrepender. Matheus é tão bom e tão sincero que é incapaz de fazer mal a um amigo. Sendo assim, ficar feliz por vê-lo sorrindo em possuir minha confiança fora inevitável. Eu já estava começando a desejá-lo dentro de mim. Fiquei irritado quando senti que ele ainda estava de calça e comecei a empurrá-la com os pés. Matheus riu e se afastou um pouco de mim, retirando a calça e a cueca, finalmente nu. Seu corpo estava novamente sobre o meu e desta vez eu sentia sua ereção, pele a pele. Com a mão, ele foi ajeitando seu membro e, não demorou muito para que eu o sentisse roçar em minha entrada. - Matheus... – chamei apreensivo. Abri os olhos e lá estava sua face, próximo da minha. Sabia que ele veria minha expressão e entenderia. Toquei seu rosto com cuidado. - Não se preocupe. – Ele beijou a palma de minha mão, dando-me coragem. 50
  • 51. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga Senti seu membro entrando em mim e tive de me conter para não gritar. Doía, doía muito, como se estivesse me rasgando por dentro. Felizmente o lubrificante ajudou. Agora sinto a terrível dor. Sua mão foi para meu membro duro e pulsante, envolvendo-o. Seus movimentos com a mão foram devagar, enquanto que seu sexo adentrava meu corpo. Mordi o lábio inferior e me agarrei no corpo de Matheus. Arranhei suas costas com força, tentando acabar com pelo menos um pouco daquela dor. Enquanto ele não reclamasse eu continuaria a quase retalhar suas costas. Seus beijos estavam em meu pescoço novamente, chupando com força. Parecia que seu membro não terminaria de entrar em mim nunca! Foi somente terminar a frase mental que ele parou, com todo dentro de mim. Arfei muito, tentando me concentrar nos movimentos de sua mão escorregando por meu falo ou nos movimentos sensuais de sua língua, queimando-me. Não vou dizer que foi fácil. Na verdade acho que fiz Matheus esperar demais. Mesmo assim, quando senti que meu corpo estava se acostumando com aquele tamanho eu movimentei meu quadril, puxando meu próprio corpo pra cima e retirando um pouquinho de si para fora de meu corpo. Ele entendeu o recado. Os movimentos começaram, tão dolorosos quanto a entrada. Porém, era fácil para ele entrar em meu corpo, ele simplesmente “escorregava”. Sua mão em meu membro acompanhava os movimentos lentos. Aos poucos, meu corpo foi se acostumando. Eu sabia que Matheus estava tremendo, talvez para manter o controle, pois suas estocadas continuavam lentas. Eu também estava tremendo, mas pelo prazer. - Mais rápido – sussurrei com a voz embriagada pelo desejo do ato. Meu corpo doía, mas não era aquela dor latejante do início. Era menor e, mesmo ainda doendo eu queria que fosse mais rápido. Obviamente meu pedido foi acatado com entusiasmo. Seus movimentos foram mais rápidos e em uma estocada... Oh, nossa! Gemi tão alto que foi quase um grito... Aquele ponto em específico proporcionou-me um prazer que tomou conta de todos os meus sentidos. E mais uma vez Matheus entendeu perfeitamente minhas atitudes, dedicandose a acertar-me sempre ali. Logo, eu estava apreciando aquilo com espasmos prazerosos em todo meu corpo. Eram dois prazeres deliciosos: os movimentos de seu sexo entrando e saindo de meu corpo e os movimentos de sua mão. Somente um deles já me levaria à loucura, os dois então... Foi como se meu cérebro desligasse e somente aqueles atos dominassem meu corpo, mandando ondas de calor por todo ele. O ato do sexo estava me dominando, como um animal. Matheus não conseguiu continuar a me beijar o pescoço. Ele apoiou seu queixo em meu ombro e me permitiu acompanhar sua respiração pesada e forte, entre alguns gemidos. - Bryan... – Ouvir meu nome saindo de seus lábios foi maravilhoso. Porque era o meu nome, como todos me chamavam, como eu ouvira minha vida toda... - Mais forte Matheus... – eu pedi levando uma de minhas mãos aos seus cabelos, enlaçando meus dedos em suas mechas. 51
  • 52. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga Meus fios de cabelos já começavam a incomodar, grudando muito próximo de meus lábios e nariz por conta do suor. Nossos corpos deslizavam um sobre o outro, ambos fervendo. Tentei erguer uma de minhas mãos, mas ela tremia tanto que tive de levá-la de volta as costas daquele corpo suado sobre o meu. - Matheus... – eu chamei seu nome novamente, desta vez tentando avisá-lo de que eu estava por vir, mas nenhuma outra palavra saiu de minha boca. Elas não se formavam, nem ao menos em minha mente. Mas ele também deveria estar, porque os movimentos eram frenéticos. Aquele calor tomou conta de meu corpo, levando-me a melhor sensação que já experimentara. Foi um alívio enorme e um prazer avassalador que me levou a gozar. Tão próximo de meu prazer senti uma última estocada. O sêmen quente de Matheus preencheu meu corpo, aumentando meu prazer, o que achei não ser possível. Ele retirou seu membro de dentro de mim e caiu sobre meu corpo. Seu peso não era ruim, era uma pressão até... Satisfatória. Pensei que meu coração fosse rasgar meu peito, de tão forte que batia. Respirar se tornara uma batalha, pois nem todo o ar do quarto me parecia suficiente. Matheus escorregou para meu lado na cama e me abraçou. Meu rosto estava em seu peito, ouvindo seu coração tão desesperado quanto o meu. A sensação do gozo escorregando para fora de meu corpo não é, nem de longe agradável. É tão estranho... Alguns minutos se passaram, o suficiente para nos acalmarmos. Respirar ainda era um obstáculo, mas agora pequeno. Ergui o rosto fitando Matheus. Ele sorria para mim e beijava minha testa várias vezes. - Quero ficar por cima agora – pedi, indicando que queria ser o ativo. - É? – ele perguntou como se nem tivesse me ouvido. Resolvi brincar. - Sim. Não é você o garoto de programa que eu paguei com uma pizza? - Hum... Acho que vou querer mais do que uma pizza, já que terei de exercer os dois papeis. Beijos começaram a serem distribuídos por meu rosto e eu ri. Aos poucos Matheus foi me empurrando para cima de seu corpo, enquanto começávamos mais um beijo ardente. Senti-me um pouco envergonhado por não saber o que fazer, mas eu sabia o que eu queria fazer. Minhas mãos passeavam por todo seu corpo, desejando senti-lo por inteiro. Meus lábios trilharam um caminho de saliva por todo seu pescoço, seguindo para ombro, colo, até chegar a seus mamilos. Lambi aquela pele com gosto diferente do resto, com meu corpo já respondendo. Era realmente gostoso provar do corpo de Matheus. Lambi e mordisquei, apreciando verdadeiramente o sabor. Passei para o outro, dando-lhe a mesma atenção. Fiquei um tempo ali, pois além de ser bom para mim também era para ele. Seu corpo me dizia isso, pois seus mamilos estavam durinhos. Quando meus beijos e mordidas foram descendo até seu umbigo sua pele me chamou a atenção. Era clarinha, quente e gostosa. Era realmente muito bom senti-la em minhas mãos. Pensei em lhe fazer uma oral, mas... Eu realmente fico temeroso com isso. Nunca fiz antes e duvido muito que eu me saísse bem. Com certeza os dentes me atrapalhariam e o gosto que eu provara anteriormente não me instigava a continuar. 52
  • 53. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga Parei para pensar por um segundo. Eu gostaria de seguir em frente, mas... Meu corpo treme demais. Como vou manter a firmeza e... Fazer...? E também, como vou contálo deste meu problema? Ergui meu rosto e beijei-o. Uma de minhas mãos estava apoiada encima de seu tórax, enquanto a outra permanecia na cama. A mão de Matheus se aproximou da minha na cama, entrelaçando nossos dedos. Nosso beijo demorou mais do que eu esperava e, sinceramente nunca fui muito bom em prender a respiração. -Você está tremendo, não é? – Senti-me aliviado em não ter de contar eu mesmo. Abaixei o olhar envergonhado. Sua mão foi para meu rosto, acariciando minha bochecha. –Não se preocupe, isso é um problema fácil de resolver. Lentamente ele foi me empurrando até ambos sentarmos na cama. Matheus empurrou-me um pouco mais para trás, dando mais espaço para si mesmo. - Consegue ficar de joelhos? - Também não sou tão ruim assim – comentei, girando a pupila de meus olhos. - Tudo bem... Se ficar difícil é só dizer. Ah, e use isso – ele respondeu atirando-me aquela embalagem de lubrificante. Ajoelhei-me na cama. Era realmente mais fácil. Abri a tampa da embalagem branca e azul e espalhei o gel dali de dentro em meus dedos. Era gelado com uma textura agradável. Levemente gosmento e bem escorregadio. Matheus já estava de quatro a minha frente. Aproximei-me dele, até nossos corpos se encontrarem. Fiquei com receio de machucá-lo, mas eu já conhecia as sensações que ele experimentaria, então seria mais fácil. Toquei em seu ânus com meu dedo do meio. Pressionei de leve, tentando não machucar na entrada. Aos poucos fui empurrando meu dedo, o qual entrou fácil, mesmo sendo apertado. Movimentei-o de leve e sorri ao ouvir um gemido escapar de seus lábios. Adicionei mais um dedo, movimentando de leve. Era somente uma questão de tempo até ele se acostumar. Adicionei o terceiro dedo com mais cuidado, pois já conhecia a sensação. Sentir meus dedos serem esmagados por sua entrada era uma sensação verdadeiramente excitante. Fui aumentando a velocidade do movimento, alimentando-me de seus gemidos cada vez mais altos. - Bryan... Pode colocar. – Matheus cedeu ao peso de seu corpo, abaixando os braços e apoiando-se na cama pelo antebraço e cotovelo. Retirei meus dedos de dentro de si. Coloquei um pouco mais de lubrificante em minha mão e passei em meu próprio membro, mesmo não me parecendo necessário, pois meu membro já se encontrava melado pelo pré - gozo. Era dolorosa a sensação de não poder penetrá-lo logo. Encostei a ponta de meu membro em sua entrada, forçando de leve. Pouco a pouco, fui me colocando dentro dele. Era quente e apertado; extremamente apertado. Eu sentia como se fosse escorregar para fora dele. Quando me senti completamente dentro de seu corpo não consegui ficar parado. Era torturante e agonizante. Eu não possuía o mesmo autocontrole de Matheus para conseguir esperar que ele se acostumasse. Porém, forcei-me a ir devagar, mesmo que meu corpo insistisse em aumentar a velocidade, exigindo cada vez mais. Lembrei-me que masturbar seria útil, então envolvi seu membro com minha mão, começando um movimento de vai-e-vem sincronizado com meus próprios movimentos. 53
  • 54. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga - Bryan...! – ele gritou em um gemido mais alto, indicando que aquele era seu ponto sensível. Aumentei os movimentos, tentando acertar sempre naquele mesmo ponto que outrora o fizera gemer por meu nome. Sentia como se aquele lugar apertado passasse correntes elétricas por todo meu corpo, incendiando-me. - Bryan... Eu... Inclinei meu corpo um pouco para frente, sem parar os movimentos. Tentei ver seu rosto, mas sua testa estava apoiada nos braços encima da cama e seu cabelo caia-lhe sobre o rosto, escondendo-lhe a face. Será que estava doendo demais? - Que foi...? Está... Está doendo? - Não... É bom... Muito bom... Isso foi o suficiente para que eu deixasse que aquele prazer tomasse conta de meu corpo e minha mente, mais uma vez naquela noite. Eu queria ir cada vez mais rápido, mais forte... Era como um instinto de deixar-se ser possuído pelo prazer... - Bryan... Meu nome fora repetidas inúmeras vezes, mas era como se eu nem ao menos o reconhecesse. Também chamei por seu nome, acho... Eu balbuciei algumas palavras sem sentido, mas que também era para ser seu nome. - Bryan... Eu... E tentando ir o mais fundo possível alcancei o ápice em seu interior, preenchendo-o com meu sêmen. Gozar é um alívio tremendo que leva a um êxtase total, em um sublime prazer. Apoiei meu corpo nas costas de Matheus. Parecia impossível raciocinar, pois tudo girava em torno do prazer. Mas uma coisa eu percebi: a mão dele estava sobre a minha, movimentando-se. Era como se meu corpo não possuísse mais força alguma e meu corpo tombou na cama. Todo e qualquer movimento era difícil, principalmente respirar. Fechei os olhos, tentando me recordar de tudo, mas parecia ser em vão. - Bryan... Senti um calor me envolver, mas demorou um tempo até eu perceber que eram os braços de Matheus. Eu estava mais uma vez de frente para seu peito, mas permaneci com meus olhos fechados. Uma mão começou a afagar meus cabelos. Remexi-me inquieto até ficar de costas para Matheus. Abri os olhos e vi meu quarto em tons de preto e cinza escuro. Quase não distingui nada. Não consegui permanecer com meus olhos abertos e os fechei. Uma melodia... Escutei o cantarolar de uma música que me era conhecida, mas meus pensamentos insistiam em vagar por coisas sem sentido, como um elefante verde que se transformava em ervilhas... E, gradativamente, o sono e o cansaço foram me levando para um estado inconsciente, onde a linha que separa a razão do subconsciente se enfraquece, quase desaparecendo... 54
  • 55. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga Não se preocupe Eu vou te pegar Não se preocupe Eu vou te pegar Nunca se preocupe 55
  • 56. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga Capítulo 8: Novos olhares as mesmas pessoas. Abri os olhos. Em minha frente havia um garoto muito bonito. Sorri. Empurrei meu corpo para trás, sendo que eu estava de frente para o garoto. Ergui um pouco o edredom que nos cobria e analisei seu corpo, de cima a baixo. Ok, pervertidamente. - Lindo! – sussurrei para mim mesmo, baixinho, mesmo que ele estivesse dormindo. Era o corpo de um garoto e meu peito encheu-se de uma felicidade nada habitual. É errado se sentir tão imensamente atraído por um corpo masculino e nunca um feminino? É tão errado assim um garoto gostar de ver um corpo magro, esguio, sem peitos, de cintura fina e ombros maiores, nádegas firmes, coxas fortes...? Isso me faz tão estranho... Bom, pelo menos agora, neste momento não sou estranho sozinho. Olhei no relógio ao lado da cama. 4h 23min. O quarto ainda estava escuro e eu ali, dolorido e exausto. Aproximei-me novamente de Matheus, encostando meu nariz em seu peito. Puxei a coberta até metade de meu rosto, pois estava frio. Apoiei minha mão em sua barriguinha por baixo das cobertas, sentindo a pele quente e gosmenta. Eu também me encontrava gosmento e sujo, mas tudo bem. De certa forma, isso é bom, mesmo eu que geralmente eu não goste de me sentir sujo. - Estou feliz – constatei, suspirando e sorrindo de forma boba. Matheus era bom, doce, simpático, amável... E me proporcionara à melhor noite de minha vida. - Hum... – ele resmungou, com seus braços envolvendo meu corpo por baixo da coberta. Meu peito se aqueceu mais ainda. –Temos que acordar? - Não. Ainda está escuro. - Ainda bem. Estou cansado. Sua mão foi para meu cabelo, fazendo um cafuné gostoso. Um beijo fora depositado no topo de minha cabeça. Olhei para cima sem tirar meu rosto de seu peito. Matheus permanecia com os olhos fechados. - Não quero ir à aula – admiti, suspirando. - Quer faltar? Por mim tudo bem. - Tudo bem mesmo? - Sim, sim. Amanhã não terei física, então não há problema. Aula... Mi comi, Alex, Luke, Pedro... Ok, admito, Pedro foi o primeiro nome que me veio a mente. Dormi com um garoto exatamente no dia em que ele me rejeitara. O que estaria fazendo agora? Ah, claro, dormindo. Será que pensou em mim hoje? De que forma será que me viu quando seus amigos debochavam de minha preferência sexual? Pedro simplesmente me pisou, fácil, fácil. Também, eu deixei. Quis seu beijo e não quis ser tratado como brinquedo. Mas, quando se trata de um heterossexual não dá para conseguir as duas coisas. - Matheus... Eu quero mudar. – Bocejei, já sonolento. 56
  • 57. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga - Hum... Em que sentido? - Aparência – e personalidade. Completei mentalmente. Afastei um pouco meu rosto, tentando lhe fitar. Vi um sorriso, mas seus olhos continuavam fechados. Novamente encostei meu nariz em seu peito. - Sabe Bryan, você é lindo. Eu o acho lindo e perfeito como você é, mas de nada isso adianta se você está infeliz consigo mesmo... – ele fez uma pausa, mais sonolento que eu. – A partir do momento em que você pensar “sou lindo” todos o verão de uma forma melhor, pela energia que você vai passar e os sorrisos sinceros que você dará. - Eu quero colocar piercing para ser mais sedutor. Também quero mudar meu cabelo. Pintar e cortar. - Sua mãe deixa? Precisa da assinatura do responsável para por piercing. - Sim. Ela me deixa fazer qualquer coisa. - Então tudo bem. Amanhã vamos a todos os lugares que você quiser... - Obrigado. Afastei-me e desliguei o despertador, retornando para a mesma posição de antes. Fechei os olhos. Minha felicidade não estava mais presente em meu peito. Eu beijei Pedro e transei com Matheus, no mesmo dia. Isso não é... Errado? Bem, Matheus não se importou. Então, isso significa que ele não gosta de mim com segundas intenções, certo? Isso é um tanto doloroso de se pensar... Não é como se eu gostasse de Matheus com segundas intenções, não é...? Também não significa que eu esteja apaixonado por Pedro. Hum... Pedro usava uma camiseta branca quando ficamos... Branca como bolas de algodão, bolas de algodão que formam um algodão doce e, aos poucos vão ganhando uma coloração azul fraquinha... *** Anteontem, quarta-feira, eu beijei Pedro e tive minha primeira vez com Matheus. Ontem, quinta-feira passei o dia com Matheus. Minha mãe acabara por chegar tarde, então somente agora tenho sua autorização. Hoje é sexta-feira e eu estou no meio da aula de biologia. Por mim eu nem viria, mas Matheus estava certo quando disse que, se eu faltasse os garotos debochariam mais ainda de mim. Entediado da aula acabei por lembrar de meu pai. Uma tristeza horrível me dominou, proporcionando uma ardência desconfortável a meu peito e minha garganta. Será que pensara em mim algum desses dias? Será que nunca mais falará comigo? Nós brigamos tão feio... Eu disse que o odiava e ele que não me amava. Me chamou de lixo... Eu gostaria de falar com ele novamente. Sinto sua falta e, cada vez que penso nisso começo a chorar, mas ele realmente não quer me ver nem pintado de ouro. Mas eu ainda o amo e ele é meu pai... Sorri melancólico. Agora, nem mais o direito de chamá-lo de pai eu tenho. 57
  • 58. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga Resolvi evitar este assunto, assim como o tenho evitado até hoje. Choro sempre que me lembro de nossa briga... Bem... Vejamos... Pedro está atrás de minha classe, mais para o fundo da sala. Ele ri e conversa com seus amigos como se nada houvesse acontecido. Será que eu estou sendo paranoico em levar isso tão a sério? Mas... Suspirei e me debrucei na mesa, apoiando o rosto nos braços. Eu sei que é quase impossível, mas tenho certeza que se eu fosse um garoto lindo, popular entre os garotos Pedro ficaria comigo, sem se esconder. É porque ele é lindo e eu sou feio que sou rejeitado? Não sou feio, só não sou bonito. E sou um garoto, claro, isso é um “detalhe” importante. O sinal soou pelos corredores, adentrando as salas de aula. Juntei meu material desanimado enquanto meus colegas já deixavam a sala apressados. Levantei-me e, só então percebi que meu All star estava desamarrado. Coloquei o pé na cadeira em que anteriormente eu me sentara e amarrei meu cadarço. Praticamente pulei da cadeira quando senti um toque em minha bunda. Fiquei ereto – de pé e reto, não pense bobagem – e olhei para os lados. O grupo de Pedro ainda estava próximo, dentro da sala, caminhando na direção da porta. Teria sido ele...? Não, ele não faria isso depois do que aconteceu, até porque se alguém visse ele estaria ‘fudido. Mas então, quem foi...? Porra, fala sério! Passaram a mão na minha bunda! E eu sou um garoto em uma turma cheia de homo fóbicos! - Só comigo mesmo que esse tipo de coisa acontece – resmunguei indignado, colocando somente um braço na mochila. Ok, hora da confissão. Não estou tão irritado assim. Se passarem a mão na minha bunda é sinal de que se sentem atraídos. Esbocei um leve sorriso. Tsc, tsc, onde esse mundo vai parar assim? Homo fóbicos estão se tornando gays! Segui pelo corredor até a sala de química. Somente quando adentrei foi que entendi aquilo que “aula de química” quer dizer; mesas em duplas. Até hoje minha dupla houvera sido Pedro, mas agora ele se encontrava ao lado de uma garota, sorrindo para ela enquanto a puta se agarrava no braço dele, completamente oferecida. Tentei não demonstrar nada e sentei numa das mesas da frente que estavam fazias. Sozinho. Alvo de piadinhas infames. Deboche da turma. Agora sim essa se parece com a minha vida. Suspirei. O ruim não é estar sozinho, mas, sim, os outros me verem sozinho. Meus colegas irão me ridicularizar e os professores se penalizar. Odeio isso. - Posso me sentar com você? Olhei para o lado e vi um garoto bonito. Ele tinha carinha de nerd, um cabelo ajeitadinho – não “lambido” – com uma franja reta para o lado e óculos retangulares, de aro fino e lentes divergentes. - Claro – respondi puxando minha cadeira para a esquerda, sem me levantar. O garoto se sentou, largando seus cadernos e seu estojo encima da mesa. Fiquei a observá-lo. – Veja, por mim não há problema algum, mas se você sentar comigo irão debochar de você – avisei. Creio que ele já conheça minha fama, mas caso não conheça era bom deixá-lo a par da situação em que se metera. O garoto me encarou com seus olhos claros por trás dos óculos prateados. 58
  • 59. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga - Eu sei. Você é gay. Eu não me importo, já implicam comigo por ser nerd mesmo. – Ele deu de ombros, voltando o olhar para seu caderno encima da mesa, abrindo-o e folheando-o. – Eu não sou gay, mas se fosse não teria nenhum problema em admitir. Também não faz mal que pensem que sou, pois a garota por quem sou apaixonado não retribui meus sentimentos. Apoiei o cotovelo na mesa e o rosto na mão, inclinando minha cabeça para o lado, fitando-o confuso. Se eu pudesse fugir de todo o preconceito sem ter de me esconder eu já teria feito. Então por que esse garoto, mesmo não tendo que, irá suportar o preconceito por algo que ele não é? Ele ergueu o rosto exaltado, assustando-me. - Ah! Eu preferia quando você andava com Pedro! Assim ele não dava atenção as garotas e Alice não ficava pendurada nele. - Desculpe – pedi de modo simples, não querendo entrar em detalhes com relação a aquele assunto. – Sou Bryan. - Eu sei. Estou dês do início do ano aqui e já conheço pelo menos o nome de todos da turma. Sorri amarelo, completamente sem graça. Eu ainda não sei o nome nem de um terço. São pessoas demais! Mal sei o nome do grupo de garotos com o qual ando. Desconfio de que haja um que ainda desconheço o nome... - Sou Erick – ele apresentou-se sorrindo, percebendo que, sem isso eu teria de esperar até a hora da chamada para descobrir seu nome. Abri minha mochila e peguei meu estojo de caveira e meu caderno com a capa do Tokio Hotel. Abri e folheei algumas páginas em branco até chegar no final da bateria, deixando ali. - Você não tem o início? - Não. Cheguei algumas semanas atrasado. – Preferi não entrar em detalhes do por que. - Se você quiser pode copiar a minha. Depois eu te ensino a matéria. É bem fácil. - Ah, isso seria de grande ajuda. Na última aula professora passou esse exercício e eu não entendi – lhe disse apontando em meu caderno a questão no. 6. Puxei a mão para a mesa e Erick permaneceu em silêncio. Fitei-o. Ele encarava minha mão. Sorri. –Quer pintar a unha também? - Não, obrigado. Isso é bem estranho... Mas tudo bem, se você gosta disso... ‘Né...? Eu ri, feliz em ser aceito por pelo menos uma pessoa de minha turma. Mas... Algo insistia em não se aquietar dentro de mim. Uma dúvida cruel que sempre guiava meus pensamentos para tristes esperanças e grandes decepções. Uma única frase interrogativa o qual dominou meus pensamentos pelo resto da manhã... “Por que Pedro encarava a Erick como se quisesse matá-lo...?” *** 59
  • 60. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga Hora do intervalo. Não tenho dúvidas de que Mi comi surgirá a qualquer momento saltitante e alegre, sendo assim a atitude mais sensata que encontrei para poder conversar com Erick e não ter de aturá-lo foi me esconder. - Bryan, eu realmente não me importo que você passe o intervalo com aqueles seus amigos. Eu fico de boa na sala, fazendo o trabalho de geografia. Depois podemos conversar na aula. - Você não está entendendo. Eu não quero conversar com eles! Mi comi não sai do meu pé! – Opa, falei Mi comi ao invés de Lucas. Continuei puxando Erick para o mais longe possível do tumulto de alunos reunidos no pátio. Não quis segurar sua mão para que ele não entendesse errado. Os garotos veem de um jeito simples: se um homossexual fala com você ou te toca, ele é afim de você. Como se eu fosse atacar todos os garotos do colégio! - BRYAAAAAAAAAN! – Ok, ora de mudar o rumo. – BRYAAAN! EU TE VI! – Porra de Mi comi! Tem que gritar meu nome tão alto? Meti-me no meio dos alunos e “costurei” entre eles, perdendo-me da vista de Mi comi. Ultimamente aquele loiro falso tem me irritado com suas menores atitudes. Os gritos, os saltos, sorrisos, pedidos de carinho... URGH! TUDO! Porque eu sei que todas suas atitudes são falsas! Ele simplesmente se esconde por trás dessa máscara infantil! Parei no lugar, assustando Erick. Perdi-me. - Tudo bem Bryan, acho que ele já não está mais atrás de você. Permanecíamos dentro do limite do colégio, porém em um lugar mais afastado e desértico. Havia alguns pequenos prédios, algumas árvores e grama aos meus pés. As cortinas do prédio perante nós estavam fechadas, sendo assim não pude ver o que havia dentro. Arrisco-me a dizer que isso é um laboratório, mas eu nunca vim aqui antes. Não seria, então, a sala dos professores? Não faço a mínima onde estamos! Gemi, irritado. Já Erick riu, não parecendo afetado. - Não se preocupe Bryan, eu sei onde estamos. Só então percebi que eu ainda segurava o pulso de Erick. Quando ele fez menção de soltar-se somente escorregou sua mão de meu pulso mais para baixo, girou meu corpo de frente para o dele. Arregalei os olhos, assustado. Esta situação está um tanto embaraçosa e demasiada estranha! - Bryan, você tem interesse em mim? – Quê? Isso aconteceu muito rápido! Como assim interesse? Eu... Eu realmente acreditei naquela conversa de “não sou gay, mas aceito”. Será que é por isso que Pedro estava tão estranho...? - Não – respondi sincero, cortando-o. Ainda não acredito na quantidade de garotos gays neste colégio! - Então não tem problema se você me tocar Bryan. Eu sei que ficou receoso quando segurou meu pulso. Eu realmente não sou gay e não me importa que pensem assim. Sei que só porque você gosta de garoto não significa que pulará encima de qualquer um. 60
  • 61. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga Continuei a fitá-lo nos olhos, completamente incrédulo. Erick estava bem próximo de mim, mas não parecia querer me atacar. Se ele realmente possuísse interesse em mim já poderia ter me beijado há tempos. E pior ainda, me pegaria de surpresa e conseguiria um grande beijo, com direito a língua. - PORQUE EU ESTOU DIZENDO QUE NÃO! - Não grite! De lábios entreabertos virei meu rosto para trás, na direção daquela voz que me soara tão conhecida. A frase de negação em tom irritado viera dos lábios que eu beijara anteriormente. Daqueles lábios que exploraram cada parte de meu corpo em outrora. Daquele ser que parecia ser um poço de bondade, compreensão, paz e generosidade. Matheus. Soltei-me de Erick e andei devagar para mais próximo do pequeno prédio. À medida que eu ia me aproximando conseguia distingui-las, mas não entender. Matheus e Alex estavam atrás do prédio. - Não insista! - Tsc, tsc... Mat, isso são ciúmes? Uh? - Não comece com brincadeiras que você sabe muito bem o que é! Esgueirei-me pela parede e cheguei o mais próximo possível da parte de trás do prédio. Ouvi as vozes tão próximas de mim e engoli algumas vezes, pois parecia que meu coração estava em minha garganta. - É exclusividade. Você me quer somente seu. - Pára de me agarrar, Alex! Me solta! Espiei sorrateiramente pelo pilar. Ambos estavam virados na minha direção, com Alex atrás puxando Matheus pela cintura. Escondi-me novamente. Felizmente acho que nenhum deles me viu. - Vamos Mat. O garoto já é apaixonado por mim há meses! E ele é tão fofo... - Você fala como se eu não soubesse! - Você falando todo enciumado é lindo... Admita que está apaixonado, Mat. - Você é um idiota! - Admita que você não quer que eu namore com o fofo do Lucas porque tem ciúmes... - Cala a boca, Alex! É para você fazer, não falar! Eu disA conversa parou e eu tive um mal pressentimento. Movido pela curiosidade, espiei novamente. Lá estavam eles, desta vez com Matheus de costas para mim, de frente para Alex. As mãos de luvas negras sem dedos e unhas bem pintadas de preto encontravamse apoiadas no peito do maior, enquanto eles se beijavam euforicamente. Ambos eu já beijara. O que devo concluir de tudo isso? 61
  • 62. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga Voltei abruptamente para trás, escondendo-me pela parede quando senti meu corpo bater em alguém. Dei um pulo e um grito. Quase cuspi meu coração para fora. Voltei-me na direção da pessoa em quem eu batera e era somente Erick. Infelizmente a merda já estava feita. - Quem está aí? Quando dei um passo adiante, pronto para sair dali o mais rápido possível senti meu pulso sendo puxado com força, quase deslocando meu braço. - Bryan! Eu sei quando presencio algo que não deveria e este era um dos momentos. Meu corpo foi virado de frente para o dele abruptamente, quase me machucando. Eu estava cara a cara com Matheus, mas não era aquele garoto meigo e doce de sempre. - O que você está fazendo aqui? Por que estava me espiando?! Não importava o que eu respondesse, pois eu era o errado ali. Era a primeira vez que eu conversava com Matheus vendo-o brabo, sem sorrisos e sem palavras de estímulo. Para ser sincero, nunca pensei que seria possível irritá-lo. - Por que você só me acusa? Era você quem estava se agarrando com o garoto que o Lucas gosta! Você é o traidor! É doce com ele, mas apunhala pelas costas! – cuspi as palavras. Estávamos muito próximos e agora a raiva me subia. Eu estava errado em ter escutado, mas mais errado era ele! - Você não entend- Não entendo o que? Que talvez você esteja apaixonado por ele? Que vocês tem se agarrado enquanto você mente estar ajudando Lucas! Diz que vai ajudá-lo com Alex, mas imagina só se ele descobre como é essa ajuda! – gritei irritado, lembrando do quanto de minha confiança depositei nele. Fui tão idiota! Tão estúpido! Esperei por uma reação de sua parte. Meu peito subia e descia por conta da respiração acelerada e minha garganta doía tamanha a intensidade de meus gritos. Ficar ali, tão próximo fitando seus lábios avermelhados e levemente inchados por conta do beijo dele e de Alex somente aumentava minha irritação. - Não se meta, entendeu? – ele sussurrou entre dentes, aproximando-se mais de mim. – Você ouviu, não ouviu? Isso não é da sua conta. Não se meta – ele repetiu a última frase pausadamente. Ele estava sério, mas não parecia ter a metade da raiva que eu tinha. Aquele era Matheus? Eu jurei poder ver sua alma em seus olhos tão belos e claros, mas acho que estava enganado o tempo todo. Eu dormi com esse garoto? Eu confiei e tive minha primeira vez com esse tipo de pessoa? - Você é um lixo de pessoa e eu não quero mais nada que venha de você – disse-lhe de forma fraca, com as palavras já vacilando. Por que todos têm que me trair? - As professoras estão vindo! – gritou Erick, mas eu ignorei e continuei a encarar Matheus. Meu peito se contraía e, por mais que eu o olhasse ainda não entendia por que tudo tinha que ser daquele jeito. –Vamos! 62
  • 63. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga Meu braço foi puxado com forma e, logo eu estava correndo, quase me enredando nos meus próprios pés. Eu não sei mais em quem confiar. Eu nunca tive alguém, então nunca fui de me decepcionar com as pessoas, mas desde quando pisei neste colégio minha vida tem mudado... Se minha vida mudou, nada mais justo do que mudar com ela. Eu não quero mais ser pisoteado e enganado. Eu não quero mais confiar nas pessoas! Não quero me esconder e não quero mais ter de aturar em silêncio piadinhas homo fóbicas! Com ou sem Matheus á meu lado, eu vou mudar... 63
  • 64. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga Capítulo 9: Eu não quero ficar sozinho. No final de uma bela manhã de sexta-feira, um dia agraciado com um belo céu azul, enfeitado por pouquíssimas nuvens brancas, quase transparentes passando por sob nossas cabeças eu vi Lucas encima de um degrau na calçada, ficando com Alex. Feliz. Mi comi me irrita. Todas suas atitudes tem me dado nos nervos e eu tenho lhe evitado o máximo possível, mas ele não merece o que passa. Sentir um amor unilateral já é difícil – acreditem, eu sei. Pior ainda é ser enganado por alguém que você considera seu amigo. Não estou do lado de ninguém. Não confio em nenhum dos dois, mas não quero que alguém tenha de passar pelo mesmo que passei. Sexta-feira, pela tarde eu fui à casa de Luke. Sua mãe trabalha em um salão de beleza e ficou feliz em me ajudar. Pintou meu cabelo de preto e fez-me uma franja que escondia o olho esquerdo. Pintou-me com uma maquiagem de tirar o fôlego e ensinou-me a fazêla eu mesmo. Agora entendo o porquê de Luke estar sempre tão bonito e luminoso. Falando em Luke ele também pintou o cabelo, agora um pouco mais normal. Moreno por cima e loiro claro por baixo. Prometeu que por hora não mexeria mais no cabelo, mas no caminho a galeria do shopping comentou que estava pensando em pintar a franja de alguma cor inapropriada para cabelos. Assustado, fui furar meu lábio. Sim, eu fiz um piercing no lábio inferior. Bem, acabou se tornando dois, uma argola de cada lado. Seria uma, mas não doeu tanto o primeiro furo. No segundo, as lágrimas escorreram por minha bochecha silenciosamente, tamanha a dor. Luke riu, debochou e se divertiu, mas só porque o desgraçado nunca fez um. Depois disso passeamos pelo shopping. Comprei algumas camisas de banda, dentre elas uma do Green Day e outra do Tokio Hotel. Pude comprar várias coisas, pois meu pai me mandou dinheiro por minha mãe, porém não falou comigo, não ligou e minha mãe não conversou nada demais. Não sou idiota e não vou me fazer de “orgulhoso” não aceitando o dinheiro. Ele ainda é meu pai e, se ele quer me comprar melhor para mim. Mesmo tendo dinheiro, ele sempre foi bem sovina. Pai... Ah droga, não posso deixar meus pensamentos me levarem para este caminho. Odeio pensar nele, é tão doloroso. Prefiro me concentrar em coisas de agora e tentar esquecer, pelo menos um pouco. No sábado fiquei na frente do espelho encarando minha nova aparência e me auto ajudando. Repeti a mim mesmo que nenhum heterossexual de merda pisaria em mim. Ninguém tinha o direito de me tratar como puto e eu não seria mais enganado. Ás vezes me distraía, tocando em meu próprio rosto e me chocando que realmente fosse meu, considerando-me bonito. Outras vezes eu choraminguei baixinho e me envergonhei por um curto período de tempo, pensando no ridículo da situação. Eu estava ali, falando comigo mesmo, a única pessoa em quem posso confiar. Resolvi fazer uma pausa e ir me alimentar, pois meu estômago reclamara. Já escurecera e a casa parecia vazia. Esgueirei-me pelo corredor escuro e, quanto mais me aproximava da escada mais conseguia distinguir de murmúrios para palavras. - Pense bem Michael, ele é seu filho. Era minha mãe conversando com meu pai ao telefone. 64
  • 65. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga Ei pai, olhe para mim Pense de novo e converse comigo Eu cresci de acordo com seus planos? Você acha que eu estou perdendo meu tempo fazendo as coisas que eu quero fazer? - Isso não é verdade. Bryan é um garoto quieto e independente. Não incomoda e não pede nada. Não há problema algum em morar comigo. Sentei-me no terceiro degrau da escada, de cima a baixo. Minha mãe estava de costas para mim, sentada no sofá. Ao meu lado a parede que suportava o corrimão me escondia. Abracei minhas próprias pernas com meu coração doendo. - Ele está no quarto dele. Passou o dia todo lá e não tem planos de sair amanhã. Por que não vem visitá-lo? Eu gostaria de poder ouvir a parte de meu pai da conversa. Provavelmente ele deveria estar gritando, furioso e indignado. Mas dói quando você desaprova tudo E agora eu dou duro para ser bem sucedido Eu só quero te deixar orgulhoso Eu nunca vou ser bom o bastante para você Eu não posso fingir que eu estou bem E você não pode me mudar - Pára com isso Michael! Eu insisto tanto porque é importante para ele ter um pai. O garoto é quieto e não incomoda nada – houve uma pausa para o argumento de meu pai. Eu me encolhi, tentando ignorar a ardência em minha garganta. –Você acha que está sendo difícil para você? E como acha que é para ele? Saber que o próprio pai tem vergonha de quem ele é. Bryan nunca faria algo assim de propósito! Ele escondeu de você exatamente para que ficasse tudo bem. Desta vez não consegui impedir que as lágrimas escorressem pelo meu rosto. Meu pai deveria ser aquele a me abraçar, dizer que estava tudo bem em ser quem e como sou. Aquele quem eu chamo de pai me rejeita e se envergonha de ter de me chamar de seu filho. Porque nós perdemos tudo que temos Nada dura pra sempre Desculpe, eu não posso ser perfeito Agora é tarde demais, e nós não podemos voltar atrás Desculpe-me eu não posso ser perfeito - Eu sei que você pensou nele, isso é óbvio. A criança que você fez, você ajudou a criar, você ensinou a falar e caminhar... Michael, você não percebe? Você vai deixá-lo de lado só porque ele é diferente? Vai deixar de amá-lo por causa de algo assim? Ele já deixou, mãe. Há muito tempo... Talvez desde que me decidi por um estilo diferente... 65
  • 66. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga - É claro que sente sua falta! Você é o pai dele e ele te ama! Não importa se brigaram tão feio assim, pois parte de ser uma família é brigar beirando a morte e depois perdoar, porque se amam. É claro que eu o amo! Eu o queria me abraçando pelo menos uma vez, dizendo que também me ama. Óbvio! Como eu poderia não amar meu pai, sendo que foi ele quem me criou e cuidou de mim?... Meu Deus, eu sou deprimente. Eu tento não pensar Sobre a dor que eu sinto por dentro Você sabia que era meu herói?! Todos os dias que você passou comigo Agora parecem tão distantes E parece que você não se importa mais - Não vou entrar nessa parte do assunto novamente! Michael veja, eu quero que meu filho seja feliz. Já te liguei tantas vezes que minha conta de telefone virá quilométrica. Quando quiser vê-lo tenho certeza que Bryan ficará muito feliz. Até lá, pelo menos fale com ele por telefone. Você tem noção de como ele deve sentir sua falta? Ele só tem quinze anos... Esforcei-me ao máximo para engolir um soluço. Eu realmente sentia falta dele. Mesmo brigando constantemente eu passei maior parte de minha vida com meu pai. Por que tenho que ser tão anormal e gostar de coisas tão esquisitas? - Sério? Oh, sim, sim! Só um pouquinho então, vou chamá-lo! Não! Merda, merda, merda! Minha mãe não pode me ver aqui, escutando a conversa e chorando! - Bryan! Bryan desça aqui! Levantei-me rapidamente, sequei o rosto com a manga do casaco preto com estrelas e subi alguns degraus de forma rápida, silenciosa e sorrateira. Ouvi minha mãe se aproximando e, sem saída comecei a bater o pé escada acima, de costas. - Bryan, tudo bem? – ela perguntou assim que viu meu rosto molhado e vermelho. Esfreguei a manga nos olhos mais uma vez. - Sim. Quando ouvi você me chamar vim correndo, acabei batendo com a perna na porta e me machuquei – menti, sorrindo falsamente. Acho que ela acreditou, ou talvez tenha fingido acreditar. - Ok. Veja, seu pai está no telefone e quer falar com você. Tente não brigar, seja gentil e convide-o para vir te ver. Concordei com um aceno de cabeça e seguimos para o lado do sofá. Ela me entregou o telefone toda sorridente. Com a mão meio trêmula levei o aparelho até minha orelha. - Oi... – pai. Terminei a frase mentalmente. Não sei se ele ainda permite que eu o chame assim. Quando brigamos pela última vez ele disse para eu nunca mais chamá-lo de pai. - Oi Bryan. Tudo bem? 66
  • 67. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga Senti a ardência em minha garganta novamente, mas segurei-me o máximo possível para não chorar. Funguei algumas vezes tentando evitar que o muco acumulado dentro de minhas narinas escorresse. - Tudo – respondi de forma engasgada, mordendo a língua para evitar o choro iminente. - Mesmo? – ele insistiu em saber a verdade. Senti meus olhos se enchendo d’água e, lentamente uma lágrima foi escorrendo pela minha bochecha, sendo seguida por várias outras. E agora eu dou duro para ser bem sucedido Eu só quero te deixar orgulhoso Eu nunca vou ser bom o bastante para você Eu não posso suportar outra briga E nada está bem - Desculpe – eu pedi com a voz miada, soltando arranhões de minha garganta. Agora eu estava praticamente vivendo sozinho e, mesmo tendo de me esconder quando meu pai recebia visitas eu o amava e ainda o amo. –Desculpe, desculpe, desculpe. Não me odeie, por favor. Desculpe ter te feito passar vergonha tantas vezes. Desculpe por não poder ser o filho que você quer. Eu sinto saudades, pai. Pai, pai, pai... Por favor, não me proíba de chamá-lo de pai... Eu fiquei a chorar e fungar desesperadamente, secando meus olhos com força, mas de nada adiantava. Limpei meu nariz na manga de meu casaco, pois o ranho já estava escorrendo. - Pai? Você está aí? – perguntei temeroso, tentando não pensar que talvez ele pudesse ter desligado. Quando me acalmei um pouco ouvi um suspiro do outro lado da linha e meu choro se intensificou novamente. Enquanto eu morria internamente naquele silêncio avassalador recordei-me do dia em que brigamos. Porque nós perdemos tudo que temos Nada dura pra sempre Desculpe, eu não posso ser perfeito Agora é tarde demais, e nós não podemos voltar atrás Desculpe-me eu não posso ser perfeito - Você não pode dizer-me como devo ser! É isso que sou e não vou mudar só para que fique feliz com o filho que eu não sou! Meu pai me empurrou, mas retornei, seguindo em sua direção. Ele era alto e forte, com um bom corpo e porte físico. Eu, pequeno e frágil como uma garotinha. Obviamente que me senti intimidado, mas não queria mais esconder. - Deixe de ser nojento, garoto! Sempre foi horrível ter de passar vergonha ao seu lado na rua com toda essa maquiagem de garotinha e roupas ridículas! Pior ainda era quando tinha de lhe apresentar aos outros como meu filho! Mesmo assim eu tinha que ser um bom pai e aceitar meu lixo de filho. Agora você vem me dizer que ainda por cima 67
  • 68. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga é gay? – ele gritava descontrolado, apertando os punhos com força. Lembro de temer que ele me batesse. - Isso, grita mais! Conta para todos os vizinhos que tem um filho lixo-gay! Espera, eu te ajudo! EU SOU GAY! EU BEIJO OUTROS CARAS E GOSTO QMeu rosto ardeu. Ardeu como nunca antes. Meu pai me batera no rosto e, junto vieram várias lágrimas. Eu lembro até hoje da dor, tanto do tapa quanto de suas palavras. Ele me chamara de lixo, dentre outras coisas piores. Depois disso meu cabelo fora puxado com força, inclinando minha cabeça para trás, obrigando-me a fitá-lo de perto. - Você é um pirralho de merda! Você é um gay de merda! Nunca me importei que você fosse burro, afeminado, antissocial e um doentinho que não pratica nenhum esporte. Eu aguentei esse seu gosto ridículo e, mesmo passando vergonha eu comprei esse monte de bobagem gay para você! Agora, acima de tudo vem me dizer que também é viado? Que quer beijar homens e dar a bunda pra eles? Eu não criei isso! Eu não vou aturar esse seu comportamento! Fui sacudido de um lado para o outro até ser jogado com força no sofá. Fuzilei-o com os olhos, mas acima de tudo estava magoado. Eu queria dizer tudo que estava engasgado e que eu nunca pude dizer, mas tinha medo de sua reação. Tinha medo de que tudo piorasse de uma maneira irreversível. - Vai ver foi culpa de meu pai que não me ensinou como ser macho – impliquei, sabendo que aquela frase teria consequências. E claro, tivera. Outro tapa em minha bochecha. - Não criei viado porra nenhuma! E nunca mais me chame de pai! Arrume suas coisas, pois você irá morar com a sua mãe! Ele finalmente se afastou de mim, deixando-me atirado no sofá. Meu corpo inteiro tremia e meu rosto ardia tanto que era como se gritasse. - Eu te odeio! – desabafei em meu último resquício de fúria, pois sobrara somente a tristeza e a mágoa. - Você fala como se eu te amasse – ele debochou, rindo sarcasticamente. Virou-se e saiu de casa. - Pai... Eu prometo que tentarei tirar excelentes notas. Vou praticar mais esportes e agora tenho amigos no colégio! Pode perguntar pra minha mãe, um amigo meu até veio aqui em casa quarta e outro ontem. Eu vou fazer de tudo para que você não me veja mais como um lixo. Eu prometo. Não me odeie, pai... Cedi ao peso de meu corpo e cai sentado no chão, em prantos. Eu queria ouvir alguma coisa, qualquer coisa. Queria que ele dissesse que me ama, me odeia, que tentará conviver comigo. Que prefere que eu esconda minhas preferências... Mas o silêncio continuava, me desesperando. Nada vai mudar as coisas que você disse Nada vai fazer isto ficar bem de novo Por favor, não vire as costas Não consigo acreditar que é difícil só falar com você Mas você não entende 68
  • 69. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga - Pai! Pai! Por favor, eu imploro, fala comigo. Eu sei que não sou perfeito e nunca poderei ser, mas vou tentar ser um bom filho. Vou compensar o fato de ser... – um soluço me interrompeu. Droga, estou com medo até de pronunciar a palavra. –Vou compensar o fato de ser gay. Não vou agir afeminado, eu só quero namorar com outros garotos e... Aquele barulho. Senti-me no escuro, completamente sozinho e perdido. Tudo que havia era aquele barulho que me fez ser tomado por um desespero avassalador que sacudiu meu corpo, jogando-me na solidão. O telefone estava mudo. Minha mãe me abraçou, consolando-me. Não era a mesma coisa e nunca seria. Meu pai me criou e eu só estava vivendo com ela agora por falta de opção. Ele fora quem dedicara seu tempo para que minha vida continuasse. Ele me ensinava enquanto minha mãe estava ocupada e não tinha condições de me criar. Eu mal sei em que ela trabalha atualmente! E eu estou sozinho. Sem amigos e sem família. Porque nós perdemos tudo que temos Nada dura pra sempre Desculpe, eu não posso ser perfeito Agora é tarde demais, e nós não podemos voltar atrás Desculpe-me eu não posso ser perfeito *** Rastejando em minha pele Essas feridas que não irão se curar Medo é o que me derruba Confundindo o que é real São 2:23 da manhã. Não consigo me acalmar. Ao lado de minha cama, abraçado em minhas próprias pernas eu me embalo para frente e para trás, compulsivamente. A firmeza abandonou-me por completo, restando apenas o tremor de meu queixo batendo com força meus dentes e de minhas mãos inquietas que insistem em passear por minhas pernas, do joelho ao tornozelo, subindo e descendo, subindo e descendo... Há algo dentro de mim Que me puxa para baixo da superfície Consumindo, confundindo Temo que esta falta de auto - controle nunca acabe Controlando, parece que eu não consigo 69
  • 70. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga Minha mãe foi embora. Ligaram para ela e, depois de me entregar o remédio ela perguntou se eu ficaria bem... Eu ficarei bem. Eu sempre fico bem. Eu sempre sobrevivo a todos os tormentos pelos quais passo! Eu sempre agonizo sozinho... Eternamente deixado e sempre sobrevivo... Sempre sem ninguém... A inquietação aumentou, obrigando minhas mãos a aumentarem a velocidade de seus movimentos. Era frenético e descontrolado. Sinto-me perdendo o controle... Minha mãe errou no remédio. Só pode. Não me sinto melhor, pelo contrário, sinto-me a ponto de enlouquecer... Todos me deixaram. Meu pai me odeia. Minha mãe me coloca de lado. Minhas opções de amigos são um garoto horrível com quem tive minha primeira vez, um falso, nojento e grudento que se finge de bonzinho, outro fofoqueiro, um insensível e um nerd rejeitado que só está na minha volta por pena e falta de opção. Para piorar, acho que estou apaixonado por um hetero homo fóbico que declarou verbalmente sentir nojo e vergonha de mim. Me encontrar novamente Minhas paredes estão se fechando (Sem um senso de confiança Estou convencido De que há muita pressão para eu agüentar) Eu me senti desse jeito antes, tão inseguro Comecei a tremer com maior intensidade. Emaranhei meus dedos em meu próprio cabelo, respirando desesperadamente. Eu gostaria de arrancar um pedaço de mim, qualquer parte, contando que usasse de extrema força. Mas, quer saber o que me proporcionaria uma imensa paz de espírito e acabaria com todos os meus problemas? Ver meu velório. Quando as pessoas morrem, é como se virassem Santas. Sei que tenho meus defeitos, mas se eu morresse ninguém os veria. Meu pai diria a todos que eu era um excelente filho e não se importaria mais se eu era emo ou gay. Ia se arrepender de não ter passado mais tempo comigo e sentiria saudades... Minha mãe diria que se arrepende de não ter estado comigo para me ver crescer. Que sente minha falta mais que tudo no mundo e que daria todo seu tempo para poder passar mais um dia comigo. Matheus ficaria feliz em ter sido meu primeiro e não ficaria com nenhum outro garoto por um bom tempo. Muito menos Alex... Mi comi mostraria sua verdadeira face. E Pedro? Pedro, mesmo que nem fosse apaixonado por mim diria que era, pois eu era um garoto incrível... E eu estaria ali, ao lado de meu corpo gélido e sem vida, observando... Todos estariam chorando por mim, sentindo minha falta. Seria perfeito, não? Eu encontraria minha paz de espírito e não teria mais que sofrer... 70
  • 71. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga É ruim sentir paz em pensar em si mesmo morto? Se eu morresse me amariam, que alternativa tenho para ter o amor de alguém? Enquanto eu não morrer meu pai continuará a me odiar. Mas eu me sinto péssimo em desejar minha própria morte. Rastejando em minha pele Essas feridas que não irão se curar Medo é o que me derruba Confundindo o que é real Levei meu pulso a meus lábios trêmulos, lambendo, primeiramente de leve, mas o gosto que mentalmente me perturbava instigou-me a aumentar o movimento, tornando a lambida insaciável quase como um beijo de língua. Senti a parte saliente de minha pele, em riscos horizontais. Eu não posso me matar. Não posso! Eu vou sobreviver, sou obrigado a. As coisas irão melhorar, eu só preciso ter pensamentos positivos, pensamentos positivos, pensamentos positivos! Como ser positivo quando tudo dá errado?! Eu não quero viver, mas tenho que. Mordisquei levemente meu pulso, sem deixar marcas, raspando os dentes de novo e de novo. Minha respiração descompassada falha, ora curta, ora longa, sempre pesada e difícil, com meu peito subindo e descendo com tanta rapidez que doía. Eu não quero estar sozinho. Eu odeio estar sozinho. Por que é tão difícil encontrar somente uma pessoa que não me deixe sozinho? Uma única pessoa que realmente goste de mim como sou e que não seja falsa e não me deixe sozinho! Porque eu transei com um garoto falso. No dia seguinte ele deve ter rido da minha cara, espalhando a todos que fui péssimo e ridículo. Melhor Pedro, que mesmo tendo me beijado e não gostado ele não contou a ninguém, pois tem vergonha. A não ser que tenha contado a uma garota, daí fode com tudo, mais do que já estou com a vida fudida. Já está tudo uma merda mesmo, ele ter contado não irá ser de suma importância. Meu choro se intensificou. Eram tantas lágrimas e tantos soluços que brigavam para sair por minha garganta, pois eram muitos e não podiam sair ao mesmo tempo. Eu sou tão idiota! Sempre usado! Matheus deve ter contado a Alex e rido de mim. Minha primeira vez foi com um garoto horrível... Eu gostaria de poder contar aos outros quando perguntassem que fora incrível. E teria sido, se Matheus fosse mesmo aquele doce de pessoa. Poderia ter dito que ele me tratou com um carinho imenso e considerou-me o tempo todo, mas foi tudo mentira. Cada beijo, cada toque... Ele estava rindo internamente por eu ser tão idiota e ter me entregado tão facilmente, mesmo ele não tendo me prometido nada. Deve ter rido mais ainda quando eu disse que confiava nele. Devo até mesmo ter contraído alguma doença... Independente de que forma, eu o amei. Mesmo que fosse como um amigo, eu o amei verdadeiramente. Eu estava feliz em ter uma noite de carinhos em que minha cama não parecia tão vazia. Eu me senti bem em ver alguém se importando comigo e minha vida dando certo. Ele disse que me achava bonito, mas era mentira. Cada sorriso com que me encantei estavam repletos de falsidade, repletos de segundas intenções. Ele ria e ria, debochando de mim, achando graça no modo como me entregava tão facilmente. Cada vez que eu pensava em seu nome era um aperto mais intenso em meu peito e um soluço que rasgava minha garganta. Meu corpo todo treme cada vez que um arrepio gélido atravessa meu peito. 71
  • 72. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga E Pedro? O que será que ele dissera de mim aos seus amigos? Que andou comigo por sentir pena, mas que assim que eu demonstrei ser homossexual ele me deixou de lado, com nojo. É tão triste pensar em tudo isso! Eu fui rejeitado, usado e largado. Motivo de deboche, nojo e repulsa. Por que essa tem que ser logo a minha vida? Com tantas pessoas para serem infelizes, com tantos garotos no mundo, logo eu tive de ser doentio e sentir atração por pessoas do mesmo sexo! Logo eu tive de achar bonito e me “encontrar” no estilo emo. Mas eu não tenho problemas, só levo minhas emoções ao extremo, é isso que ser emo é. E a beleza do estilo. Gosto de ser um garoto e gosto de ser emo, das roupas e aparência. Gosto de ver outros garotos, observá-los, prestar atenção em suas roupas, cabelo, sorriso, corpo, atitudes... É de meu agrado ver um garoto jogando futebol, conversando descontraidamente, brincando, dando pouca importância para suas próprias atitudes... Isso é tão errado e tão problemático! Eu sei que tenho problemas em ser assim. Não é certo. Eu sinto por garotos exatamente o que deveria sentir por garotas. Sou anormal. O desconforto eterno se apossou de mim Distraindo, reagindo Eu fico contra minha vontade ao lado do meu próprio reflexo É assustador Parece que não consigo Eu quero que as coisas deem certo pelo menos um pouco. Estou tão cansado de estar sozinho e de não ter ninguém. Estou cansado de sofrer, eu não quero mais me sentir triste, mas não consigo controlar. Meu corpo tombou para o lado esquerdo, ainda encolhido. Meu quarto está escuro, pintado em tons de cinza escuro e preto. Estou sozinho em casa. Será que algum espírito ruim está perambulando pela minha casa? Será que entrará em meu quarto para apossar-se de meu corpo e alimentar-se de minha tristeza? Minha tia costumava falar sobre essas coisas e o escuro não ajuda. Sinto como se visse vultos passando dentro de meu quarto a todo o momento. Que remédio eu tomei? Ou melhor, que mistura de remédios minha mãe fez? É como se o nada se mexesse. Estou tão assustado e coberto pelo medo. Para quem eu vou correr se algo me atacar? Por quem eu vou gritar? E se algo tocar meu ombro? E se a porta se abrir sozinha? E se algo sair de baixo de minha cama? Na verdade, estou olhando para baixo de minha cama, temendo que um espírito com a face desfigurada saia dali e puxe meu pé, arrastando-me para o breu total. Senti como se um bicho subisse por minha perna, desesperei-me e meu corpo se debateu, tentando afastar qualquer coisa. Não quero que nada me toque. Não quero que nada surja perante meu olhar. Pensando assim, fechei os olhos, recusando-me a abrilos. Eu só quero alguém que acabe com tudo isso. Eu quero meu pai, quero que ele me aceite como sou. Quero voltar a ter aquela velha visão dos garotos de meu colégio. Quando Mi comi parecia menos falso, quando Matheus era doce e meigo e quando Pedro não sentia repulsa por mim. Me encontrar novamente Minhas paredes estão se fechando 72
  • 73. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga (Sem um senso de confiança Estou convencido De que há muita pressão para eu agüentar) Eu me senti desse jeito antes, tão inseguro A morte é uma saída fácil. A saída dos covardes, dissera-me um amigo, certa vez. Sou covarde, nunca neguei. Quando tentei me matar minha psicóloga conversou com meu pai. Era para que eu tivesse sido internado, mas meu pai não permitiu. Ele conversou comigo e se importou. Perguntou sobre todos meus amigos, o que eu sentia pela vida... Mas em nenhum momento ele conversou com relação ao nosso relacionamento. Eu sei que um dos principais motivos que me levou a tentar cometer suicídio fora pela falta de sua atenção. Admito. Se eu cortasse meus pulsos, mesmo que superficialmente, sem a intenção de morrer meu pai deixaria tudo de lado para me ver. Este foi um de meus pensamentos que me levaram a me mutilar, porém, naquela época a ideia era morrer mesmo. Não quero abrir os olhos. Tenho medo que uma face demoníaca esteja me encarando com um sorriso sádico no rosto, que seus olhos repletos de ódio e malícia estejam prestes a devorar-me, lenta e dolorosamente. É um tanto irônico dizer que tenho medo de ser devorado por um espírito demoníaco, mas desejo cometer suicídio. Rastejando em minha pele Essas feridas que não irão se curar Medo é o que me derruba Confundindo o que é real Sem pensar muito, abri os olhos. Esfreguei a mão para conseguir enxergar direito, pois as lágrimas se acumularam. Trouxe meu pulso para próximo de meus olhos. Me encolhi mais ainda, aproximando meus joelhos de meu peito. Aquelas marquinhas seriam tão fáceis de abrir novamente... Passei a unha suavemente, sem marcar. Não devo me machucar mais ainda. Não posso ceder. Não sou uma pessoa ruim. Tenho que esperar para que coisas boas venham até mim. Aproximei meus lábios e lambi, seguido de um beijo lento. Segui com beijos por meu antebraço, amando minha própria carne. Estou um pouco mais calmo. Melhor aproveitar isso para tomar meu remédio para dormir. Ergui-me trêmulo, agarrando a cama. Sem tentar pensar tateei pelo quarto até o interruptor, acedendo à luz. Segui pelo corredor e novamente liguei a luz. Assim fui, recusando-me a ficar no escuro. Se eu fizesse isso quando morava com meu pai ele me mataria, declarando que não sou eu quem paga a conta de luz. Pensar nisso fez meu corpo ceder, caindo sentado no chão da sala. Eu chorei compulsivamente sem nem precisar pensar em algo. Sou tão idiota e ridículo! Preciso tomar logo o remédio antes que enlouqueça. Vou começar a ver coisas onde não deveria. Mas me sinto fraco para me levantar. Usando de minhas pernas, arrastei meu corpo até bater com as costas na parede ao lado de uma mesinha com vaso de plantas. A minha frente, a mesa com o telefone. 73
  • 74. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga Chorei, sem nem ao menos pensar em algo. Mantive minha mente no vácuo. Aos poucos, vozes foram surgindo. Minha chamando meu nome, meu pai perguntando se tudo bem, Matheus comentando algo sobre pizza, Mi comi perguntando algo com relação a poder ir junto a algum lugar... Estou acostumado às vozes de meus conhecidos em frases irregulares, normalmente antes de ir dormir. É como um descarrego mental, porém agora estão muito mais vívidas, não somente em minha cabeça, mas como se estivesse no lugar... Há algo dentro de mim Que me puxa para baixo da superfície Consumindo, confundindo Temo que esta falta de auto-controle nunca acabe Controlando, confundindo o que é real Em um máximo esforço me levantei e vaguei até a cozinha. Sentei no chão na frente da porta branca de um dos balcões e abri, encontrando minha caixinha de remédios, junto a outras caixas de remédios em geral. Escolhi um comprimido branco, acho que era branco meu remédio de dormir... E se eu tomar o errado? Foda-se. Vou tomar em grande quantidade para não correr o risco de continuar acordado. Dois, três, quatro, cinco... Que diferença faz? Quanto mais, melhor... Deitei no chão gélido, observando a palma de minha mão e meu pulso com cicatrizes que atravessavam as veias, sentindo meu rosto úmido. Parece ridículo pensar em mim aqui, mas isto é real. Meus sentimentos foram destruídos e tiraram todo o amor que eu sentia pelas pessoas. Machucaram-me e me fizeram chorar. O choro é algo destrutivo, que dói e queima, só entendemos quando choramos. Parece bobo vendo outra pessoa, mas quando sentimos na pele é horrível. Funguei repetidas vezes, secando meu rosto com a manga. Minha mente já estava se desligando e meus olhos começando a pesar. Dói pensar que estou sozinho, mas esta é a realidade. Eu sinto a dor de cada uma das pequenas gotas de água salgada ou doce – nunca soube disser – e saborosas que mancham meu rosto. Eu penso no ódio que meu pai sente por mim somente porque sinto atração por garotos. Tanto ódio para mim, tantos sorrisos falsos, tantos “vai ficar tudo bem” quando nada está bem e a pessoa quem diz nunca se importa. Você sentiria vontade de chorar em me ver atirado no chão da cozinha, trêmulo, soluçante e sozinho? Você sabe o que é não ter absolutamente ninguém que se importe e, quando dói algo você não pode contar a ninguém? Sabe o que é sentir amor pelas pessoas que te desprezam? Sempre disse a mim mesmo que não quero que ninguém sinta pena de mim, mas a verdade é que eu gostaria que algumas pessoas me vissem assim. Se isso trouxesse o calor de um corpo para ao meu redor, então estaria tudo bem. 74
  • 75. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga Capítulo 10: Talvez eles te deixem em paz, mas não a mim. Hoje finalmente é segunda-feira, depois de um fim de semana conturbado e problemático que ficou para trás. Superei, ou não. Apenas consigo esconder e guardar dentro de mim. Aliás, minha mãe me tirou meus remédios. Escondeu. Grande merda, ela mesma me fode dando os remédios errados para que eu tome. Estou quase chegando ao colégio com meu coração aos pulos e meu estômago revirando. Não é medo, é receio. Mas eu juro que hoje não vou levar desaforo para casa. Respirei fundo e adentrei pelos portões do colégio. Fingi não perceber nada a minha volta e fixei meu olhar à frente, mas haviam vários olhares voltados para mim acompanhados de sussurros e fofocas. Segui por dentro do colégio até minha sala de aula. Esta se encontrava vazia, para minha sorte. Sentei-me em meu habitual lugar e suspirei. Logo, um sorriso oculto apareceu em minha face. Espero que dê tudo certo. Passaram-se alguns minutos. Uma garota entrou, largou sua mochila e saiu. Fiquei a fitar o quadro branco esperando que o sinal soasse ou que Erick chegasse. Ouvi barulho na porta e, automaticamente direcionei meu olhar para ela, sem realmente me interessar por quem fosse entrar. Era somente um garoto desconhecido, mas ele me olhou fixamente e veio até mim. - Bryan, ‘né? – o garoto perguntou daquele jeito de quando você sabe o nome da pessoa, mas não quer mostrá-la que você sabe sem nunca terem se falado. - Eu – respondi sério ao seu chamado, sem me intimidar por seu – belo – porte físico. - Bryan, quer ficar comigo? Ergui uma sobrancelha com tamanha a cara de pau do garoto. Não achei que um dia eu passaria por tal situação. Sei que corei, mas fingi que não. Que colégio esquisito! Nem ao menos em meu outro colégio, o qual era bem maior que este, havia tamanho número de homossexuais. - Não – respondi, cortando-o. Minha língua já estava bem suja de ter beijado Alex, Mi comi, Pedro e Matheus em mais ou menos um mês de aula. - Vamos, não se faça de difícil. Você é um garoto, mas tem uma ‘bundinha e tanto, ‘ein? Eu só quero ver como é ficar com um garoto. Esse é o filho da puta que me deu um tapa descaradamente! Sem responder levantei-me, agarrei minha mochila e fiz menção de me afastar, porém ele me agarrou pelo braço. - Me solte! – ordenei irritado, puxando meu pulso com força. - Você não vai sair assim. 75
  • 76. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga - Supere. Você levou um fora de um garoto! Não se preocupe, não vou contar sobre o seu “interesse em novas aventuras”. Agora me solta ou vou espalhar para todo o colégio! - Ninguém acreditaria mesmo. Virei-me de volta para ele, aproximando-me de si e encarando-o desafiadoramente. Hoje não sairei por baixo. - Queres apostar? Arrisque e descobrirá se irão acreditar. Ele deu um passo à frente e me roubou um selinho. Forcei meus lábios, recusandome veementemente a ceder. Quando ele desistiu e se afastou me encarou. - Idiota. Achas mesmo que irei ficar com um ‘heterozinho de merda? Eu não. Tenho minha reputação para manter. Sem deixá-lo responder me soltei e andei rápido até a porta. Apressei-me e dobrei um corredor com somente algumas garotas de minha aula conversando. Escorreguei na parede e escondi meu rosto nos joelhos. Sorri. Um daqueles sorrisos que chega de mansinho e enche seu peito de alegria. Daqueles que você tenta puxar o canto dos lábios para baixo, mas é em vão. Na verdade, eu gostaria de ter dito aquilo a Pedro. Ele merecia ouvir isso. Ele mesmo declarara ter vergonha de assumir namoro comigo, então agora seria minha vez. - Tudo bem Bryan? – perguntara uma voz feminina. Ergui o rosto ainda sorrindo, estranhando que uma garota estivesse falando comigo. - Tudo – respondi a loira de pé a dois metros de mim junto a duas outras meninas. - Os garotos estão implicando com você? - Qual é a dessa curiosidade repentina por mim? - Sim e não. Está tudo bem – respondi tentando ser educado. Levantei-me e fugi dali tão rápido quando fui parar lá. Garotas são fofoqueiras. Estipulo que deve ser este o motivo da curiosidade de outrora. Afastei-me sem saber para onde ir. Vaguei pelo corredor até perceber que estava próximo a sala da outra turma do primeiro ano. Sem perceber passei na frente da porta e foi aí que me fudi. - Bryan? Olhei para dentro da sala rapidamente, na intenção de me mandar. Porém, ao perceber que aquela voz conhecida pronunciara meu nome de forma tão calma não pude me conter. Mi comi é escandaloso e grita, mas desta vez não. Fitei-o. Lucas estava do outro lado da sala, encarando-me seriamente. Ele se levantou e caminhou na minha direção, ainda calado. Chegou bem próximo. Vestia uma camisa xadrez preto e branco de manga curta e botões. Seus olhos estavam contornados de preto embaixo e roxo encima, na pálpebra. Não sei se é impressão minha, mas ele parece mais alto. 76
  • 77. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga - Você está lindo – ele comentou abrindo um enorme sorriso falso, como todas suas atitudes. Abraçou minha cintura, apertando. Realmente ele está mais alto. - Bryan, você assina meu caderno? – ele perguntou sem descolar de mim. Tentei empurrá-lo pelos ombros, mas ele somente grudava mais. Felizmente o sinal auto e irritante tocou, ele nunca me parecera tão agradável. - Eu tenho coisas mais importantes para fazer. Agora me solta Lucas, tenho que ir para a aula. – É estranho chamá-lo de Lucas e não Mi comi. - Tá! Mas depois passe aqui! Vamos ficar o intervalo juntos! – ele disse e eu admito que pensei merda nessa frase. - Claro, claro – menti, desgrudando-o de mim. Ele me fitou uma última vez com olhos de cachorrinho sem dono e um sorriso enorme, mostrando todos seus dentes parelhos. - Tá bom, vou esperar! Afastei-me e entrei em minha sala de aula cheia. Estranhei a ausência do professor. Os olhares focaram-se fixamente em mim, com vários comentários impregnando o lugar. Sentei-me normalmente, percebendo que, a minha frente, no antigo lugar de Pedro encontrava-se Erick. - Oi – cumprimentei sorrindo. - Oi – ele respondeu, analisando-me dos pés a cabeça. – Está legal – concluiu com um sorriso, alegrando-me. - Obrigado – respondi. - O ‘viado já está se afeminando mais ainda! Até que demorou! - Está mais nojento ainda! Escolheram um péssimo dia para implicar comigo. Virei meu rosto para trás, constatando o que já supusera; eram os garotos do grupo de Pedro. O que me surpreendeu foi o fato de que o garoto que pedira para ficar comigo estava ali no meio. - Que tanto olha? Tá excitadinho? - Que nojo! Ri ironicamente, girando meu corpo e jogando as pernas para o corredor, ficando de lado para os meninos e de lado para Erick. Cruzei as pernas e apoiei o cotovelo na classe ao meu lado direito, anteriormente atrás de mim. - Pelo contrário, só de olhar para vocês broxo. Nem um é ‘pegável’. Preciso dizer que todos soltaram alguma interjeição? Ouvi Erick rir baixinho, satisfeito com minha atitude. - Até parece! Está sempre de olho aqui! - Pois é, ficava se molhando todo para o Pedro! - Ai, que nojo Pedro! Como conseguiu aturar um garoto desses? Você só pode ser gay! 77
  • 78. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga - Imagina que nojo andar com um gay? Pedro estava prestes a responder quando o interrompi, batendo com força minha mão de unhas bem pintadas na classe. - Nojo de andar com um gay? Não me façam rir! Há mais de um garoto aí no grupinho de vocês que já pediu para ficar comigo! Acham que estão seguros e que homossexualismo é algo repugnante? Então olhem para os lados e vejam seus amiguinhos que estão no armário! O silêncio predominou. Minha frase se espalhara pela sala inteira, pois fizeram silêncio para escutar. Como uma bomba que estoura, todos os garotos soltaram interjeições e questionamentos simultaneamente. A sala se tornou uma zoeira, mas felizmente – ou infelizmente – a professora chegou, calando a todos. O tempo foi passando. Todos me olhavam a todo instante, inclusive Pedro. O terceiro período era de história. É tão estranho não ter a visão do olho esquerdo. Quero dizer, ter eu tenho, porém é completamente escura. Eu não consigo ver a parede ao meu lado! Sério! Algumas pessoas podem achar um desperdício de visão uma franja tapando um olho, mas eu não me importo de fazer este sacrifício, pois, assim me vejo mais bonito. Outra coisa: meus piercings. Parece que meu lábio inferior está mais pesado! É automático puxar o piercing com os dentes e, mesmo que doa um pouquinho é legal a sensação. Juro que não sou masoquista. Em um determinado momento da aula o professor começou a falar da Grécia e vi ali uma chance de mudar o rumo daquela aula. Com o coração pulando e as mãos trêmulas chamei pela professora. Tive de chamála três vezes até uma garota interrompê-la bruscamente e exigir que ela desse atenção ao aluno que a chamava. - Pois não Bryan? Fez-se silêncio. Tudo bem que nunca falo nada em aula, nem ao menos dúvidas da matéria, mas era mesmo necessário que todos os curiosos parassem suas conversas para me ouvir? Engoli, trêmulo e reuni o máximo de coragem. - Em meu antigo colégio minha professora disse que os gregos eram em maioria gay, pois dava mais prestígio andar com um homem do que com uma mulher. Mulheres que andavam com homens eram consideradas de má reputação – para não dizer outra coisa. Percebi todos os olhares atentos na professora. Alguns garotos – obviamente os homo fóbicos que andam com Pedro – resmungaram algo sobre ser impossível. - É verdade – ela respondeu depois de um período silencioso. Todos começaram a falar ao mesmo tempo. – Hey! Silêncio! Vocês estão em aula. Eu estou passando matéria! Sorri diabolicamente satisfeito - Veja como as coisas são professora. Os gregos, o exemplo de toda a sociedade eram gays. Não foram eles quem fizeram o modelo perfeito do corpo humano? Todas aquelas beldades... 78
  • 79. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga - Isso é nojento! Não quero saber mais nada sobre a Grécia! - Só pode ser mentira! Bryan que é nojento e fica inventado essas coisas! E mais uma vez as frases mais homo fóbicas que se destacavam eram aquelas que vinham do grupo de garotos atrás de mim. - É verdade! – exclamei indignado, voltando-me para trás. – Dava mais prestígio andar homem com homem e manter relações entre eles. São estes os exemplos de vocês quando fazem exercícios para terem músculos! - Você tem que estragar tudo só porque é repugnante! Maldita hora que você veio para nosso colégio! - Oh, coitadinho, se sente ameaçado! - Meninos, chega! Parem de chamar o Bryan de gay só porque ele tem um estilo diferente. - Não professora, eles estão certos – respondi, encarando seriamente a professora alta de cabelos loiros curtos. – Eu sou gay mesmo – contei-a, sem intenção de esconder. Afinal, eu beijara Matheus na frente da turma. - Viu só que nojo ‘sora? Ele beija garotos na nossa frente! O Maurício está até traumatizado! - Verdade ‘sora! Não consigo mais dormir a noite, tenho pesadelos! - Há, há! E eu tenho pesadelos com o rosto de vocês! Quando acordo cogito a possibilidade de pular pela janela para acabar com meu sofrimento, pois meus pesadelos se tornam reais cada vez que tenho que vir para o colégio! - Hey! Atenção aqui, ainda estamos em aula. Deu de briga! - ‘Viadinho mentiroso! Você só quer saber de agarrar tudo que é garoto que vê pela frente! - Mentira! – assustei - me em perceber que Erick se metera na conversa. – Em nenhum momento Bryan deu encima de mim. Até porque, sou hetero. - Garanto que você e o Bryan fizeram um troca - troca, nerd ridículo! - Agora só porque me dou bem com um homossexual tenho que ser gay? Vocês são tão idiotas! - Eu disse chega! Voltem à ordem! – a professora comandou, batendo palmas fortemente. Todos a ignoraram. - Grande merda! Quando Pedro andava com Bryan ele só queria saber de dar o cú para o Pedro! - Deu de palavras de baixo escalão e ofensas, estamos em aula! Prestem atenção aqui! Levantei-me bruscamente, deixando a cadeira estourar no chão em um baque alto. O sangue ferveu em minhas veias, obrigando-me a fechar as mãos em forma de punhos. 79
  • 80. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga - Mentiroso de merda! Eu nunca dei encima de você, Pedro! – gritei, metendo-o na discussão. Um amigo dele se levantou, seguido do próprio Pedro. – Então é isso que você conta? Que sou um putinho de merda que deu encima de você? Em nenhum momento eu fiz isso! Fuzilei - o com os olhos, querendo partir para cima ali mesmo. Ele se encontrava sério e calmo, como se procurasse uma resposta. - Você teve interesse em mim sim! Furioso, passei a mão sobre minha classe, peguei tudo que encontrei e joguei na sua direção. Um lápis, uma caneta e um corretor líquido. Pedro protegeu o rosto com os braços. - BRYAN! – a professora gritou, mas eu ignorei. - Diga que sou um gay de merda! – desafiei-o. Se ele disser uma única palavra... – Vamos Pedro, me chame de ‘viadinho que só quer dar! Xingue-me! – Juro que conto sobre o beijo! - Bryan, chega! Saia da sala agora! – a professora gritou novamente, como se eu fosse lhe dar ouvidos. - Abra sua merda de boca e diga algo! Seu silêncio me enfureceu mais ainda. Dei dois passos em sua direção, enfurecido. Alguém me segurou por trás, provavelmente Erick. - Vamos ver se você não apanha para um viado! Veremos quem pode mais! - BRYAN, VOU TE ARRASTAR PARA A DIRETORIA! – minha professora se descontrolou, berrando para o colégio todo ouvir. - Professora, com todo respeito, mas a senhora não tem o direito de tirar o Bryan! – disse uma garota no meio da sala, chamando minha atenção. - É verdade – completou outra menina, uma morena de cabelo curto e cachos – Desde que ele chegou tem ficado quieto num canto, sem machucar nem ofender ninguém. Quando debochavam dele Bryan somente ignorava. Um dia todo mundo estoura! - Professora, quando os meninos xingaram Bryan de tudo que era possível, debocharam, ofenderam e praticaram bullyng a senhora não fez nada, agora não pode culpá-lo – intrometeu-se Erick, surpreendendo-me. Virei o rosto e o vi vermelho como um pimentão, mas encarando a professora decididamente. - O que está acontecendo aqui?! – perguntou uma professora da turma ao lado, adentrando a sala. Seguindo ela encontrava-se uma multidão de alunos curiosos, prestes a invadir a sala. *** Quer saber o que aconteceu? Fomos parar na diretoria. Eu, Pedro e mais seu grupo de amigos. Eu já sabia que isto iria acontecer. Pelo menos não vim sozinho. 80
  • 81. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga Estamos dentro da secretaria, esperando a professora explicar o ocorrido para o diretor. Por azar – ou sorte – a minha o diretor está no colégio hoje. Acho estranho o fato de a diretoria ser dentro da secretaria, pois em meu outro colégio não era assim, mas claro que meu outro colégio era maior. Bem maior. - Ainda não acredito nisso! Já implicamos com todos os excluídos, já até batemos em alguns! Mas agora só porque o gayzinho se ofendeu tivemos de vir para a diretoria! – comentou de novo um garoto estressado que não sabe se calar. - Quer reclamar do que Paulo? Discutimos na frente da ‘sora, óbvio que daria merda! - É tudo culpa desse ‘viadinho de merda! Voltei-me para eles, erguendo o queixo e fitando-os de cima superiormente, implicando propositalmente. - Culpem a si mesmos por serem tão homo fóbicos. Só porque não tenho interesse em nenhum de vocês se sentiram intimidados e tiveram de tentar me colocar para baixo para se sentirem melhor e “remendarem” a ferida em suas masculinidades. Obviamente eles tiveram de discutir, sentindo-se ofendidos. Virei o olhar de volta e comecei a morder meus piercings, sugando meu lábio inferior para dentro da boca. - ‘Lincença, saiam da frente! Olhei para a porta e vi Luke com a franja azul empurrando alguns dos alunos na porta. Ele veio até mim sorrindo com os lábios fechados, retirando resmungos irritados dos garotos presentes. - Conseguiste! - Sim – respondi sorrindo, deixando que ele sentasse ao meu lado. Descansei a cabeça em seu colo enquanto os homo fóbicos reclamavam cada vez mais. - Os alunos estão todos curiosos querendo saber o que se passou. Sorri, apreciando o belo rosto de Luke. A pele branquinha, os olhos azuis agora melhores e os lábios clarinhos de batom, semelhantes aos de Pedro – retirando o batom. - E o que você está fazendo aqui? - Quando os gritos começaram a se espalhar pelo colégio nossa ‘sora foi ver o que estava acontecendo e a maioria dos alunos foi atrás. Daí nós combinamos de ninguém voltar para a aula. Aliás, Lu está te procurando. - Pode ir se retirando daqui, ‘viadinho do cabelo colorido! Já temos que aturar esse lixo aí que é nosso colega, pior ainda mais um! Luke sorriu para mim e estendeu a mão na direção dos meninos, gesticulando aquele sinal com o dedo do meio tão conhecido. Eu ri, sendo acompanhado por ele. Mais uma vez eles começaram a discutir. - “Eles vão arrancar sua cabeça, fazer em pedaços as suas aspirações” – ele me disse àquela frase que eu já conhecia. No dia em que Luke me ajudou a mudar ficamos a ouvir musica e esta foi aquela que mais ouvimos. - “They said all teenagers scare the living shit out of me,They could care less as long as someone'll bleed.So darken your clothes,Or strike a violent pose,Maybe they'll leave 81
  • 82. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga you alone, but not me.” – cantarolei em inglês vendo que ele entendia e os garotos ali presentes calavam a boca para me escutar. Como se algum deles entendesse inglês. Eu sim, já fiz curso. O que eu falei, basicamente foi: Eles dizem 'todos os adolescentes tem muito medo de mim',Poderiam se importar menos, contanto que alguém sangrasse.Então escureça as suas roupasou faça uma pose violenta,Talvez eles te deixem em paz, mas não a mim. - Garotos, podem entrar – anunciou nossa professora, pouco interessada na presença de Luke. - Depois me conte t-u-d-o – disse Luke, dando leves tapinhas em meu ombro para que eu me levantasse. Ergui a cabeça e ele saiu de lá perante o olhar atento dos alunos curiosos na porta. Os garotos se levantaram, mas eu fiquei um pouco mais de tempo sentado. Comecei a pensar em meu sábado, do momento em que falei com meu pai no telefone, quando comecei a pensar sobre a falsidade de Matheus e descaso de Pedro para com meus sentimentos... Não demorou muito para meu peito gelar e meus olhos se encherem d’água. Como se eu não fosse me fazer de gay coitadinho e vitima de bullyng. Um dos garotos olhou para trás, em minha direção e arregalou os olhos. Sorri diabolicamente para ele, assistindo enquanto ele dava tapinhas nas costas do outro garoto para chamar sua atenção. Levantei-me da cadeira e, de queixo erguido fui até a sala do diretor, adentrando com uma expressão triste. Acham que não irei contar sobre ter de ir à psicóloga por causa de garotos como eles? Acham que não vou dizer que um deles já me agarrou e outro eu fiquei, para depois me xingar? Acham que não irei dizer que isso é bullyng e que não vou mais aguentar calado? Que sofro de depressão e que já tentei me matar? Estão enganados garotos, vou fuder com a vida de vocês assim como fodem com a minha. Depois, fora dos olhares do diretor e dos professores eu rio e lhes digo que era tudo mentira, somente para que não debochem mais. - Sério, eles foram expulsos por três dias! E depois de amanhã haverá um jogo de futebol entre os colégios da cidade e aqueles do grupo que fazem parte do time não poderão jogar. Erick arregalou os olhos claros por detrás dos óculos de aro fino, sorrindo abobadamente. - Sério? – ele perguntou, incrédulo. – Até o Pedro? Ele deve estar indignado! Abaixei o olhar, mordendo o piercing direito. Erick percebeu minha atitude. - Bryan, o Pedro também foi expulso e não poderá jogar? Continuei fitando o chão de azulejos brancos antiderrapantes e fiquei a pensar se contaria ou não. Obviamente tenho que contar, a questão é: como? - Bryan? - Tá, tá! O Pedro não. Eu não consegui! Fitei Erick. Ele revirou os olhos e jogou a cabeça para trás, indignado. - Bryaan! Ele não é o seu maior problema? 82
  • 83. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga - Sim! Mas Erick, quando o diretor disse que eles não poderiam jogar Pedro me pediu mil desculpas e disse que ele foi o único que fez não me xingou na discussão, só disse que tive interesse nele. Que me protegia quando os garotos me xingavam e que quis ser meu amigo quando cheguei no colégio, mesmo quando eu admiti ser gay. – fiz uma pausa e olhei para Erick. Ele ainda parecia insatisfeito. – Tudo bem que ele também disse coisas ruins para mim, mas eu nunca ouvi ele me xingar na frente dos outros. Eu acho que é mentira, mas fiquei com pena, sabe... - Ai Bryan, você foi tão idiota! – ele deu um tapa na própria testa, suspirando pesarosamente. – Você gosta dele, não é? - Claro que não! – respondi imediatamente, olhando para os lados. Estávamos em um corredor quase deserto, então ninguém ouviu. - Eu te contei que gosto da Alice, mesmo ela estando sempre pendurada no Pedro. Pode me dizer se gosta dele. - Eu não gosto. Só... Ele realmente me tratou bem. Quando descobriu que eu era gay veio falar comigo e tentar me entender. Foi isso que eu pensei quando ele me pediu para poder jogar. Tentei ser sincero. Mesmo com aquelas coisas cruéis que ele me disse depois que nos beijamos eu não consegui fazer o mesmo e ser carrasco. Pedro realmente fora compreensivo, pelo menos um pouco. O problema foi ele querer experimentar como era beijar um garoto. - E Alice? Como ela é? Desculpe, mas ainda não decorei o nome de todos. - Ela é linda! – ele exclamou exaltado, com um olhar perdido em um ponto na nossa frente. Suas bochechas ganharam uma coloração avermelhada, deixando - o uma gracinha. – Morena com o cabelo liso, comprido e de luzes. Gosta de usar vestidos e saias com estampas floridas e coloridas. É bem alegre e tem um sorriso lindo... Olhei para o chão. Nunca irei entender! Meninas... Enquanto Erick continuava falando encantado olhei para frente e vi Alex passando de um corredor para o outro. - Erick, você espera aqui? – perguntei tomando a dianteira e pousando minhas mãos em seu peito, parando-o. - Sim, claro – ele respondeu sem entender. - Vou ali falar com Alex, um dos garotos que eu vi discutindo aquele dia. Já volto! Corri para longe dele, seguindo pelo corredor onde vi Alex dobrar. O vi e chamei por seu nome. Ele se virou para mim e esperou que eu chegasse perto. Fui para seu lado e segui andando devagar, sendo acompanhado. - Oi Alex. - Oi Bryan. Soube que você se meteu em problemas e foi para a diretoria. Nossa! As fofocas são rápidas nesse colégio. Não, espere, Luke. - Sim, mas está tudo bem comigo. Eu queria falar com você sobre aquele dia... Mordi meu piercing, esperando por sua reação. Alex riu e olhou para frente, sem se abalar. 83
  • 84. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga - O que tem aquele dia? Quer saber o que há entre mim e Matheus? Ele olhou para mim e eu abaixei o olhar, concordando com a cabeça. Senti-me nervoso, ainda em dúvida se eu deveria me meter ou não. Quero pelo menos entender qual a relação entre Matheus, Alex e Mi comi. Algum casal tem de haver! - Somos amigos. Matheus não me deixa ficar com Lucas, mas não há nada entre nós. Mas Lucas é diferente dos outros garotos. Seria interessante tentar algo com ele. Fitei - o. Alex é realmente lindo! Alto, com um sorriso de tirar suspiros tanto de meninas quanto de meninos. Porém, tirando a aparência ele não possui nenhum atrativo. O que será que Mi comi e Matheus veem nele? Pior Lucas, que é apaixonadíssimo. - Você gosta mais do Lucas ou do Matheus? Ele me olhou sorrindo e mexendo seu piercing. - Matheus é um grande amigo, mas Lucas é mais interessante. Seus beijos são melhores e ele é fofo. Eu gostaria de tentar algo, mas Matheus fica furioso. Ele faz de tudo para que eu não tenha um relacionamento com Lucas, acho que são ciúmes. Tentei raciocinar, mas estava difícil. Alex é o vilão, não é? E Matheus é o doce, enquanto Mi comi ocupa o lugar de falso. Mas, descobri que Matheus não é doce. Mi comi continua sendo falso e Alex não parece esconder algo. Quem está certo? O que devo fazer? Deus, eu gostaria de não ter escutado aquela conversa. Não, ainda bem que escutei, pois assim sei que Matheus não é bonzinho e doce como aparenta ser. - Mas se... Se você gosta do Lucas deveria tentar algo com ele. - Eu sei, Lucas é apaixonado por mim já faz meses. Mas Matheus também tem uma queda por mim e, enquanto eu fingir não saber nada sobre os sentimentos de Lucas nenhum dos dois se magoa. Deus... Onde é que estou me metendo? Alex não é mau? Matheus é o vilão? Isso é sério? Como pude me enganar tão feio? - Eu acho que... Acho que você também deve levar em consideração o que quer. Se quer ficar com Matheus, fiquei com ele. Se... Se gosta de Lucas, dê uma chance. Um sairá magoado, mas namoros são a dois. Estou certo? Estou errado? Eu não entendo. Não quero fazer merda. Mas se Alex tem interesse em Mi comi, o loiro oxigenado merece uma chance. Já chorou pelo garoto. Matheus é um falso que mentiu esse tempo todo. Se ele tinha interesse em Alex deveria ter dito e não mentido a Mi comi esse tempo todo. Lucas entenderia. - Achas que devo dar uma chance a Lucas? Tenho pensado nisso ha algum tempo. Mas daí Matheus ficará brabo comigo. - Eu... – hesitei, sem ter certeza se opinava ou não. – Acho que... – na verdade, não sei o que acho. Tenho medo de estragar a vida dos outros. Mas Alex parece estar sendo sincero... 84
  • 85. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga Capítulo 11: Automático. Quando vi Bryan passando na frente da minha sala petrifiquei no lugar. Demorou um pouco até que eu entendesse aquilo, na verdade demorou muito, para ser sincero demoraram horas. - Bryan? Chamei para ter certeza. Ao vê-lo responder ao meu chamado tive vontade de chorar. Aquele era mesmo Bryan e ele estava lindo como nunca antes. Aproximei-me dele sem perceber, somente para conseguir vê-lo melhor. Se fosse só pelo “lindo” estaria tudo bem e eu não me sentiria... Mas ele estava incrivelmente fofo. Muito mais que eu. Seus olhos azuizinhos e lindos, de um jeito bobo. O nariz fofo, sem nenhuma espinha nem sinal. A boca avermelhada com os lábios entreabertos e aquelas argolas pratas contrastando... Eu sempre quis colocar piercing, principalmente prateado, mas meu pai não deixa. Bryan estava todo lindo e fofo! Mas ele nem ao menos quer ser fofo e nem age fofo. Mesmo assim ele ainda é mais que eu, que vivo tentando ser. - Você está lindo – não menti, mas não fui totalmente sincero. Ele realmente estava lindo, mas ouvir as palavras saindo de minha boca doeu em meu coração. Eu gostaria de ser lindo como ele. Bryan estava fofo sem nem ao menos tentar, nem querer! Forcei um sorriso e o abracei bem forte. Sou um péssimo garoto. Bryan é meu amigo, eu não deveria estar o invejando, deveria estar feliz por ele. Eu me sinto bem e feliz que ele seja lindo e que tenha vários garotos atrás dele, mas... Eu queria ser fofo e eu tento tanto... Bryan é naturalmente. Ele é mais fofo que eu. - Bryan, você assina meu caderno? – eu já queria lhe pedir isso há um tempo, mas nesse momento foi mais para desviar o assunto. - Eu tenho coisas mais importantes para fazer. Agora me solta Lucas, tenho que ir para a aula. Apertei-o com mais força, pois precisava de um abraço. Eu amo Bryan, muito, muito. Ele seja, talvez, meu melhor amigo, ou pelo menos um dos, com Luke, Matheus e Alex. Eu não quero que nada de ruim o aconteça, só... - Tá! Mas depois passe aqui! Vamos ficar o intervalo juntos! Eu amo meu amigo Bryan e é isso. Não posso ter inveja dele! E mesmo que eu esteja triste por Bryan ficar na minha frente em tudo, ele é um de meus melhores amigos e quero passar meu tempo com ele. - Claro, claro. Soltei do abraço e sorri, fitando-o de um jeito feliz. Fazia tempo que Bryan não aceitava passar o recreio comigo. Estou feliz! Vou poder falar com Bryan! Mas também estou triste, por causa da aparência dele... Bryan gostou desta sua própria mudança? Porque ele não quer ser fofo. - Tá bom, vou esperar! Na hora do intervalo poderei convencer ele a assinar meu caderno. Uma assinatura bem grande, porque Bryan é importante! Que fofo, até rimou. 85
  • 86. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga Quando ele se afastou fui para minha cadeira e esperei pela aula. Por um lado estava feliz, pois Bryan aceitou passar o intervalo comigo. Por outro... Me odeio por invejá-lo. Sendo sincero, eu não quero que Bryan seja fofo. Quero ser o único fofo. Por outro lado não quero desejar que Bryan não seja fofo, me sinto uma pessoa ruim. Aii, fiquei confuso. Isso faz algum sentido? Em certo momento, nossa aula foi interrompida por gritos vindos da sala ao lado. Eu entendi a palavra “gay” e outras feias que não quero repetir. Nossa professora – e a turma toda – foi ver. Era Bryan discutindo com outros garotos. Isso quer dizer que... Que os garotos também acharam o Bryan fofo. É isso? O recreio foi vazio. Só conversei com Luke, pois Matheus anda meio sumido e Alex estranho. Bryan não apareceu, mas eu não insisti, vai que eu acabasse dizendo coisas ruins para ele. Quando pude ir para casa foi um alívio, mas, como sempre eu não queria ir para casa. Fiz questão de caminhar bem devagarzinho para evitar chegar. - Bom dia pai – cumprimentei sem vontade assim que entrei em casa. - Dê bom dia para sua irmã também – meu pai mandou, sem me fitar. Minha irmã e meu pai estavam sentados no sofá, assistindo TV. Nenhum dos dois me olhou. Larguei minha mochila do lado do sofá, pois estava machucando meus ombros. - Eu não vou dar, ela nunca me dá. Meu pai me olhou daquele jeito ríspido de sempre. Tive vontade de chorar. Quem vê de fora acha que sou um chorão, mas meu dia está péssimo. - Lucas Moura, deseje bom dia para sua irmã e junte sua mochila do chão. A sala não é lugar. - Bom dia – resmunguei revirando os olhos. Peguei minha mochila de volta, mas só a segurei. Minha mãe apareceu na porta da cozinha. Diferente dos outros dias eu não me senti mais animado. Escondi minha mochila atrás do sofá e andei devagar até ela, abraçandoa. - Bom dia filho. Seu pai estava dizendo que hoje a tarde quer ir ao McDonald’s com sua irmã. Por que você não vai junto? – mamãe disse com sua voz calma e quase inexistente de tão fraca. Este é seu normal. - ‘Manhêee! Papai quer ir comigo, não com esse lixo aí. Vamos passar vergonha se irmos com ele. - Não seja tão má, Carolina. Não custa nada levar seu irmãozinho junto – minha mãe tentou, mas meu pai se meteu. - Não irei levá-lo junto. Carol está certa, Lucas nos fará passar vergonha com essas roupas e atitudes. Parece mais um ser de algum terceiro sexo. Quando se tornar garoto de verdade o levarei nos lugares conosco, até lá ele ficará em casa. – E a palavra de meu pai é sempre a última. Do que adianta ser como sou, se Bryan me supera tão facilmente? E mesmo que ele brigue com o pai não tem que passar pelo que eu passo, pois agora mora só com a mãe e ela aceita. Eu tenho que me meter em brigas e sempre deixo minha mãe triste por estar separando a família... 86
  • 87. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga Tentei secar meu rosto, mas de nada adiantava. Funguei enquanto sentia meus olhos, minha garganta e meu peito arderem. É sempre minha culpa os problemas e as brigas, mas eu não quero. Eu não gosto disso, mas eu não quero ter de me vestir e agir do modo que os outros acham “certo”. Eu odeio isso... - ‘Ahh, a bichinha vai chorar! Nunca vai conseguir ser homem, qualquer coisinha já abre o berreiro. É um caso perdido; uma bicha. Desiste, pai. - Fica quieta, desgraçada! O que você entende de mim? Fica me julgando e dizendo o que bem entende, mas eu não faço isso contigo! Não jogo na cara que você é puta! Quando meu pai se levantou do sofá me encolhi. Não me agarrei em minha mãe porque sabia que ela não poderia fazer nada. Meu coração acelerou dez vezes mais por conta do nervosismo e eu fechei os olhos com força. Meu cabelo foi puxado. - Respeite a tua irmã! Ela está certa e você errado! Ele ia me bater. - Roger! – minha mãe o chamou, interrompendo. Eu manti meus olhos fechados com força, sem querer olhar para ele. - Ele tem que aprender a ter respeito pela irmã! Se fica ofendido, então que mude o estilo! Ele soltou meu cabelo com força. Aproveitei o começo da discussão para correr até as escadas, fugindo. Minha irmã me esperava no pé da escada, somente para me depreciar quando passasse. - A culpa é sua! Você sempre ‘merdeia tudo! Eu subi até meu quarto. Fechei a veneziana de madeira da janela, deixando o lugar mais escuro. Me joguei na cama e me tapei até a cabeça com o cobertor, ouvindo meu choro e o barulho da briga. É minha culpa, sempre é. Porque eu sou o errado e eu deveria mudar. Eu só quero ser fofo, mas eu sei que estou chegando à puberdade e, depois disso “ser fofo” será “ser gay” e se eu for gay meu pai me mata. Ele já não gosta de mim, se eu for gay vai me odiar. Minha mãe só permite que eu seja como sou porque ela acha isso normal. Acha que ainda sou criança, então tudo bem ser fofo. Não importa o que eu seja, Bryan é mil vezes melhor. Eu crio brigas e desentendimentos por causa do meu jeito estranho, mas eu me consolava pensando que estou feliz assim, que sou único e que os garotos que gostam de outros garotos fofos gostariam de mim, mas agora há Bryan que é fofo sem nem tentar. Bryan atrai os garotos que gostam de garotos fofos e os que gostam de garotos normais. Ele é tudo! E tem a atenção do Matheus, Alex, Luke, Pedro, Erick... “Se acalme Lucas, tudo vai ficar bem”. Me encolhi mais, apertando os olhos com força. Mas está tudo bem abrir porque não há nada, somente uma leve claridade permitindo ver o edredom amarelo, mas nada fora dele. “Estou aqui com você”. 87
  • 88. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga Me recuso a pensar nessas coisas! Eu não posso mais ficar inventando pessoas para me consolar. Eu odeio isso! “Vamos, não chore.” Mas não consigo aguentar o fato de que estou sozinho. Eu... Eu não sei... “Você não está sozinho. Nunca!”. E sempre que me concentro muito, muito eu consigo sentir um suave toque em meus cabelos... Eu só quero fugir. Quero dormir para sempre e poder viver em meus sonhos... *** Você é automático E o seu coração é como um motor Eu morro a cada batida Você é automático E a sua voz é elétrica Por que eu ainda acredito? - Daí eu disse que não tinha namorado e ele perguntou onde eu estudava. - O garoto da praia, ‘né? - Esse mesmo. O bonitão dos músculos. Sorri meigamente, estimulando - o a continuar. Não era ruim ouvir os assuntos de Luke. - E então...? - Daí ele me levou em casa, me deu um baita beijo e só! Minha mãe estava lá, não dava para fazer mais nada. - E ele não pediu nada nem forçou? Luke movimentou a cabeça de um lado para o outro, negando. - Decepcionante. Nem tentou me agarrar. Ah, tudo tão romântico... Luke tem tanta sorte! Mas ainda reclama. Se ele não tentou agarrar é porque gostou dele e não é só sexo, mas Luke mal o conheceu e ainda queria mais... - E você, Lu? - Hum? O que tenho eu? - Como vão os seus amores? Principalmente aquele seu meio - primo que é louco por você... 88
  • 89. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga Ah, sim. Entendi. “Meu meio - primo”. Eu até ficaria vermelho, como no início, mas infelizmente já me acostumei com a mentira. Acontece que sempre ouvir Luke contando sobre garotos lindos e sobre seus amigos fora do colégio acaba me deixando com ciúmes. Minha vida é o colégio e minha casa. Meus amigos são os que eu tenho aqui e, além daqui só tenho minha família, mas nem sei mais o que sou para eles. - O de sempre. Você sabe... Ele vai lá em casa de vez enquanto, mas fica chato quando ele dá encima de mim correndo o risco de meus pais verem, daí não gosto. - Mas e aí? Não fizeram nada? Sorri, pensando em minha paixão... Alex, claro. Não esse meio-primo imaginário. Eu o amo e... Ai, ai, é só falar de algo haver com amor que fico bobo. - Prefiro Alex... - Ah não, Lu! Com um primo desse jeito que você tem... Se fosse eu já teria desistido de Alex há muito tempo! Não é que eu queira mentir, mas... Como posso tentar dizer de um jeito compreensível? Fico sem jeito quando Luke conta de seus amigos, seus fins de semana agitados, seus encontros... Eu não tenho vida além do colégio, não tenho o que contar. Luke não precisa de nós, ele tem seus amigos, já eu, sem o colégio não tenho nada. Fico com vergonha de ter que admitir isso, então é melhor fingir. - Eu amo Alex, como ele é. Só queria ter um pouco mais de sua atenção... Joguei minhas costas no cimento atrás de mim. Estávamos sentados na beirada do prédio do laboratório. Luke ao meu lado, contando tudo. - Aí Lu, você é mesmo um idiota! Mas e aí, conseguiu fazer com que os outros assinassem seu caderno? Ah é, meu caderno! Tenho que pedir para Bryan novamente! Espero que ele queira assiná-lo. - ‘Iiiinfelizmente só você. Matheus tem andado ocupado; Bryan também. Alex ri e Thiago é “turista” na aula. Sem me levantar estiquei meu braço, abri minha mochila e peguei meu caderno com caveiras e um fundo rosa com preto e cinza na capa. Meu pai vive dizendo que é caderno de gay, mas não é, mesmo tendo rosa. Quero dizer... Bem, deu para entender. Abri a capa e vi a caneta gel azul com a letra de Luke. Era uma frase de amizade, do jeitinho que eu gosto. - Vai pedir para as meninas assinarem? - Ah não, elas são só minhas colegas. Vocês são quem eu considero meus amigos. - ‘Owwwnn, que fofinho, Lu! Sorri de forma meiga, pois amo quando dizem que sou fofo por que... Porque é esse meu objetivo. - Hey Lucas! Automaticamente meu coração acelerou, produzindo um “bum, bum” muito rápido. Me senti envergonhado sem motivo, acho... E sentei no degrau. Alex estava ali, na minha 89
  • 90. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga frente. Alto, charmoso, mexendo naquele piercing tão tentador... Ai, nossa! Nossa, nossa, nossa! - Que foi? – perguntei, olhando nervosamente de Alex para Luke, depois de volta para Alex e seguia o olhar para qualquer coisa no pátio. Eu fico muito nervoso quando Alex está próximo! Não consigo pensar direito. Oh Meu Deus, ele sentou do meu lado! Tenho que tentar me acalmar... Ai, mas eu o amo tanto! É automático sorrir! - O que você acha de sairmos juntos hoje depois do almoço? Se quiser podemos nos encontrar aqui na frente do colégio mesmo, às 14h – ele disse daquele jeito, sabe... Daquele jeito que ele fala... Daquele jeito sedutor que o garoto que você gosta fala, sorrindo... Sorrindo de um jeito tão encantador que você deseja pular no colo dele e dar um ‘beijãozão! Ai Deus, espera! Ele está mesmo dizendo isso? É óbvio que ele não quer só sair, ele quer ficar comigo! Nossa, mas nunca é Alex a pedir para ficar comigo, sou sempre eu quem peço. E... Não é no colégio, entãooo... Sério mesmo? Ele quer dizer isso mesmo? - Claro! – eu quase gritei, mais que animado. Abri um sorriso enorme, mostrando todos meus dentes, todos, todos, todos! - Ótimo. Ele moveu o piercing, empurrando-o para fora e puxando-o para dentro. Fiquei perdido observando seus olhos castanhos escuros, tentando descobrir o que ele estava pensando. Alex sorriu simples uma última vez e se levantou, partindo. - Luuuu, fecha a boca! Fechei, envergonhado. Virei na direção de Luke e uma alegria histérica me impossibilitou de ficar quieto. Gritei e me pendurei no pescoço de Luke, apertando-o com força. - Alex me ama! Alex me ama! A cada palavra eu ficava mais eu eufórico e apertava Luke mais, a ponto de sufoca lo. Como explicar? Eu o amo e ele me quer! É assim! É automático Por toda parte na sua carta Uma mentira que me faz sangrar É automático Quando você diz que as coisas vão melhorar Mas elas nunca... Passei a manhã inteira nervoso, sem saber o que fazer e como agir. Pensei em todas as possibilidades possíveis, de tudo que poderia acontecer. Encontros, sorvetes, cenas românticas... Ai, ai! Mas não importa o que seja, porque será com o Alex, então é óbvio que será especial! Bateu para o intervalo e quem aparece na sala? O turista! - Olha quem chegou! Oi Thi! – Luke o cumprimentou todo sorridente. 90
  • 91. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga - Quanto tempo! ‘Tá parecendo Bill Kaulitz – comentei feliz ao ver seu novo penteado. Ele vestia uma camiseta de banda, jaqueta perfecto curta e aberta, com o cabelo bem parecido com o do vocalista da banda alemã Tokio Hotel. - Era a intenção – ele respondeu sorridente. – Oi Luke, oi Mi comi. – e meu cabelo foi bagunçado. - Não, não, não! Nada de “Mi comi” Thi! Balancei a cabeça de um lado para o outro, recusando-me a aceitar ser chamado de modo tão vulgar. Parece que sou um puto oferecido! Que horror! - Ah, mas combina com você. É fofo. Thiago sentou encima da classe de Luke, que ficava atrás da minha. Ele sentou no lado esquerdo da mesa enquanto Luke estava no direito. - Essa coisa de “é fofo” não cola! Não é fofo, é vulgar! - É, como se você nem fosse um loiro oxigenado escandaloso que vive gritando e saltitando pelo colégio. Ai, ai, ai! Eu não sou assim! Talvez só um pouquinho... - Thiiiii! Ele somente riu. Abraçou-me com um abraço (não, com um chute! ‘Dãaa Lucas!), contornando meu pescoço e beijou o topo de minha cabeça. Já o perdoei, mas não admito. - Não fique brabo, Lu. Não falei como algo ruim. - Sei... Quando ele me soltou arrumei meu cabelo com os dedos para não ficar escabelado. Sentei-me de lado e observei enquanto Thiago apoiava o antebraço no ombro de Luke e o encarava nos olhos, estranhamente. - Que veio fazer na aula, logo agora? – Luke perguntou simpaticamente. - Vim ter aula, ué. - ‘Né? - “Né?” – Thiago repetiu. Ambos riram. - Você vai repetir de novo – eu falei de um jeito infantil, enchendo as bochechas de ar e fazendo bico. - Fazer o quê? São coisas da vida. - Coisas da vida porque você quer – Luke retrucou, empurrando Thiago com seu corpo. - Sim, sim... – Thiago deu de ombros, não se importando muito. – E as novidades? Luke riu e apontou para mim. Abri um sorriso enorme. Contei tudo para Thiago, nos mínimos detalhes, inclusive durante a aula. 91
  • 92. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga Não há amor verdadeiro em você Não há amor verdadeiro em você Não há amor verdadeiro em você Por que eu continuo te amando? Quando o sinal da saída bateu, eu literalmente corri para fora do colégio. Normalmente procuro todos para me despedir, mas eu estava mais do que apressado. Corri para casa. Nem sei como consegui correr o caminho inteiro! Abri a grade e o portão de minha casa com a chave e corri para dentro. Meu pai e minha irmã estavam na volta da mesinha da sala, montando um quebra-cabeça. - Bom dia pai, bom dia Carol. - Não me chame assim! Revirei os olhos, mas não deixei de sorrir. - Tá, tá. Bom dia “Carolina”. Mamãe apareceu na porta da cozinha, vindo em nossa direção. Abracei-a com muuuuuita força. - Bom dia, mamãe! Ela retribuiu meu abraço, mas fracamente. Respondeu um “bom dia” com sua habitual voz fraca e calma, de timbre baixo. - Está feliz hoje, filho. - Sim! Hoje vou me encontrar com uns amigos! – respondi alegre, com vontade de saltitar na sua volta, mas me contive. - Que amigos? – meu pai perguntou rígido. Droga, esqueci que ele estava aqui. - Do colégio. Iremos só dar uma volta. Fitei-o. Meu pai estava sentado no sofá e me encarava de modo sério, quase hostil, mas já me acostumei. Aproximei-me mais de mamãe, abraçando-a pela cintura. - E quando irá ter encontro com garotas? Até agora você só tem andado com esses garotos ridículos, como você. Mamãe passou um braço por meus ombros, fracamente, porém de um jeito protetor. - Esquece isso pai, tá na cara que a imitação de Avril Lavigne aí é um bicha ridículo. Deve estar indo se agarrar com os amiguinhos. - Lucas Moura, se eu souber que você anda mesmo se agarrando com outros garotos você não entra mais nessa casa. - Ai pai, óbvio que não sou gay! Apertei mais a cintura de mamãe e encostei o rosto nela. Ninguém de minha família sabe que sou gay. 92
  • 93. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga - O almoço está pronto. Podem ir comer – minha mãe interrompeu com aquela sua voz quase inexistente, prevendo a discussão iminente. Ás vezes sinto falta de emoção na voz dela, mas... - ‘Jáaaaaaa? – perguntei incrédulo. – Mas ainda é tão cedo! Minha mãe sorriu de uma forma opaca. - Sim. Como você disse que ia chegar cedo achei melhor adiantar o almoço. Mas isso é bom, assim você pode ir se encontrar com seu amigo sem preocupações. Almoçamos sem nada a falar, somente meu pai e Carolina conversavam. Depois ajudei minha mãe a tirar a mesa e subi correndo para meu quarto. Parei na frente do espelho e sorri, começando a me arrumar. Virei todo meu guarda-roupa no chão, em busca da roupa que me deixasse mais bonito e fofo. Óbvio que minha mãe irá arrumá-lo. Me vesti com um all-star de cano longo vermelho vinho e um cadarço quadriculado preto e branco. Uma meia comprida xadrez preta e vermelha que aparecia só um pouco. Coloquei uma bermuda jeans escura, uma camiseta justa preta com as mangas listradas com branco e um lenço xadrez também preto e vermelho. Para combinar adicionei um cinto quadriculado preto e branco e várias pulseiras fininhas pretas, brancas e vermelhas. Na hora da maquiagem dei falta de meu Kajal. A resposta de onde ele estava era óbvio e isso me indignou. - MÃE! Desci as escadas batendo os pés. Na sala meu pai me olhou com cara feia, pronto para me xingar. Mamãe apareceu na porta da cozinha secando as mãos em um pano de louça. - Que foi filho? - Carolina roubou meu kajal! Mãe, meu kajal novo! Bati o pé e cruzei os braços. Fuzilei minha irmã com o olhar, mas ela riu! - Peguei mesmo. Para que você quer? É maquiagem e maquiagem é coisa de mulherzinha! - É meu! – discordei, me preparando para pular encima dela e arrancar aqueles fios castanhos claros cheios de chapinha. – Vou arrancar todo esse seu cabelo falso! - O seu é mil vezes pior! É um garoto e, ainda sim descoloriu! - Não muda d- Lucas Moura, cale a boca! Se continuar discutindo vai passar a tarde toda no quarto. Sua irmã está certa, você nem ao menos deveria ter maquiagem. Apertei mais os braços já cruzados e revirei os olhos, indignado. Primeiro que era meu Kajal novo. Segundo que ela é uma grande ladra! Terceiro que ele sempre está do lado dela, não importa o que seja. Quarto que odeio quando ele me chama de “Lucas Moura” (o que acontece sempre), acho que se arrependeu de ter me registrado com o sobrenome dele, daí fica repetindo para me fazer sofrer. Quinto que só não respondo nada para que meu pai não me impeça de sair, pois sei que ele faz. - Mamãe... – resmunguei e fiz bico. Ela fez uma cara de compadecida e triste. 93
  • 94. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga - Desculpe amor. Eu te dou outro. - Mas eu preciso agora! - Pegue o meu. Está na bolsa laranja na primeira gaveta da penteadeira. - Ah, é assim mãe? Para mim você não empresta! – interrompeu a ‘monstra da minha irmã, somente para voltar a brigar. - Não é isso Carolina. Acontece que você não me pede, pois tem muitos. Quando quiser também te emprestarei – minha mãe disse daquele seu jeito calmo e compreensivo, um tanto triste. - Não deverias estimular estas ‘viadagens dele. Ele é um garoto, não tem que usar maquiagem. - Bill Kaulitz usa maquiagem – resmunguei baixinho para ele não ouvir e me proibir de ir. - Bill Kaulitz é um baita viado! – minha irmã fez questão de dizer bem alto para estimular os desentendimentos. - Lucas Moura, você continua discutindo? - Não pai – respondi de imediato, erguendo as mãos. – Juro que não. Me desculpe. Mamãe, vou lá pegar. É automático Contar carros passando no cruzamento Eles vão e vêm como você É automático Observar rostos que não conheço Apagaram o seu rosto Corri de volta para cima, fugindo da briga. Fui ao quarto de mamãe e peguei o kajal. Terminei de me arrumar e passar maquiagem. Penteei meu cabelo e passei um creme com um cheirinho muito bom. Não costumo usar perfume, pois sou ruim para sentir o cheiro das coisas. Sentei na cama. Meu pai e minha irmã não vão estragar meu dia. Ai, nossa... Isso ainda parece tão irreal! Eu e Alex... Estou tão feliz, tão ‘felizzzzz...! Me joguei na cama de costas e braços abertos, sorrindo constantemente. Cantarolei algumas músicas de bandas que gosto fitando o relógio a todo instante, cuidando os minutos. Quando finalmente deu duas horas corri para dar um beijo de despedida a minha mãe, um “até mais” rápido a meu pai e Carolina e voltei para o colégio. Cheguei antes de Alex e fiquei inquieto, me sacudindo para cima e para baixo. Nossa, nossa! Ainda não acredito que isso realmente está acontecendo! E ele está se aproximando pela rua... O que devo fazer? Acho que vou acabar falando tudo que sinto em todos os detalhes! Ai meu coraçãozinho... Como vou aguentar todo esse nervosismo? Como vou pensar direito? Ele está bem próximo... - Vamos? – ele perguntou com aquele sorriso lindo que tanto me encanta. Eu ainda não acredito que isso está acontecendo! 94
  • 95. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga Daí, andamos lado a lado na rua. Eu fiquei olhando para o chão, nervoso. Ás vezes até conseguia me acalmar, mas daí lembrava da situação em que estávamos e meu rosto ficava quente. As ruas foram se tornando calmas, pois são 14h e o comércio só abre 14:30 por aqui. Mas então... Alex quer me levar para a casa dele? Será que os pais dele estão? Será que ele realmente quer aquilo...? É automático, sistemático Tão traumático, você é automático Não há amor verdadeiro em você Não há amor verdadeiro em você Não há amor verdadeiro em você Por que eu continuo te amando? Automático, automático Automático, automático - Você está quieto. Algum problema? Fitei - o e sorri, feliz e envergonhado. - Não. Somente estou feliz. - Mesmo? Fitei o chão novamente, posicionando ambas as mãos juntas atrás de meu corpo e empurrando o tronco para frente. - Sim. Eu... Gosto muito de você, Alex. – tentei dizer “te amo”, mas foi muito difícil. Eu queria que ele dissesse algo antes, ou que houvesse um clima mais romântico. Ele riu, fazendo-me rir junto, mesmo sem saber o motivo. - Isso me lembra “Mi comi”. Ah, não! Tudo menos isso! Esse apelido monstruoso não! Por favor Deus, não agora! - ‘Aiin Aleeeeeex, esquece isso, por favor! Foi uma brincadeira de mal gosto do Bryan. Esqueeeeeeeece! – puxei a última letra de costume. Sempre puxo as palavras, acho mais fofo. - Que pena, pois gostaria que fosse sério. Sem me dar conta eu parei de andar. Quando percebi fiquei envergonhado e segui para o lado de Alex, sorrindo como bobo. Isso está mesmo acontecendo? Não foi um “eu te amo”, mas um “quero fazer amor com você”. - Verdade? Virei a cabeça para o lado, como fazia várias vezes. Alex não olhava para mim, então era mais fácil observá-lo. Em um dia Alex me parecia inalcançável, no outro tão próximo... - Sim, sim. Venha cá. 95
  • 96. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga E em poucos segundos sua mão estava na minha, me puxando. Encolhi os ombros e aproximei meu corpo do seu, rindo sem motivo aparente. Entramos em um beco escuro e úmido. Não pude ver muita coisa, somente estranhei e no segundo seguinte senti meu corpo contra a parede gelada. - Alex? – chamei-o confuso, mas antes que pudesse dizer qualquer outra coisa sua boca já estava na minha, com a língua forçando meus lábios. Era um beijo; ele queria me beijar e talvez não aguentasse, assim como eu não aguentava. Meio atordoado eu tentei corresponder à altura, mas minha mente estava desligada. Meu coração tapava minha cabeça. A parede gelada atrás de mim contrastava com o corpo grande e quente de Alex a minha frente. Fiquei na ponta dos pés e enlacei seu pescoço com ambos meus braços, apertando. Quero que ele goste de mim e me ame. Quais são os sentimentos de Alex por mim... Amor...? Cada passo que você dá Cada suspiro seu O seu coração, a sua alma Controlados por controle remoto Essa vida é tão doentia Você é automático para mim... Surpreendi-me quando suas mãos levantaram minha camiseta. Tentei separar nossos lábios para perguntar qualquer coisa que acabasse com minha confusão, mas não consegui. Suas mãos estavam geladas, provocando-me arrepios. Sem aviso prévio, Alex foi direto para meus mamilos, apertando-os com força. - Alex... – eu sussurrei quando seus lábios escorregaram para meu pescoço. Estava tudo muito rápido e confuso. Eu sentia seus lábios no meu pescoço, mas meus pensamentos não me permitiam entender. Parecia vago e eu não consegui me concentrar. - Alex, espera... Sua língua percorreu todo meu pescoço, de cima a baixo. Tremi, sentindo o ar gélido bater naquela parte mais sensível. Virei o rosto para o lado de fora do beco, vendo uma pessoa distraída passar. Seguida dela veio uma garota que olhou na minha direção e fez cara de nojo. Que vergonha! - Espera. Para! Empurrei-o, mas nada aconteceu. Minhas mãos estavam tremendo, aliás, minhas pernas também. Enchi-me de medo. O que estava acontecendo? Ele queria só ficar comigo? Por que estava me tocando daquele jeito...? Sua mão apertou meus mamilos novamente, mas aquilo não me excitou. Ele baixou uma das mãos e foi abrindo o zíper da minha calça. Me apavorei. Eu não sou idiota, somente apaixonado. Ele quer transar comigo; ele quer literalmente me ‘fuder. Mas eu não quero ter minha primeira vez dentro de um beco escuro e sujo, na rua e com gente olhando! - Alex, para com isso. Me solta! 96
  • 97. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga Mas foi como se eu nem tivesse dito algo. Suas mãos continuavam, mas eu só sentia algo gelado. Meu coração e minha mente gritavam desesperados e meu corpo tremia compulsivamente. Quando Alex desceu sua boca para um de meus mamilos eu coloquei minhas mãos em seus ombros e o empurrei, sem conseguir usar de força. Minhas mãos já estavam trêmulas. Sua língua lambia meu mamilo sensível, deixando-me com mais medo ainda. Senti medo de ter minha primeira vez ali, naquele beco nojento. Eu não quero que ele enfie dentro de mim, faça alguns movimentos e pronto, acabou, foi-se. Eu não quero assim! Eu não quero isso! - Alex, por favor, para... Minha garganta ardeu e eu nunca fui bom em segurar choro. Solucei e gelei meu rosto. Ele continuava me lambendo, sem se importar. - Para, para, para! Alex! Ele não tinha razão? Por que estava fazendo aquilo...? - Do que está reclamando Mi comi? Fitei - o com os olhos marejados. Ele estava com o rosto acima do meu. Apertou meu queixo com força e fitou-me possesso. - Não era isso que queria? Não estava praticamente implorando para que eu te comesse? Agora cale a boca! Eu chorei e era só nisso que conseguia pensar. Alex meteu a mão atrás de meu corpo, adentrando por minha cueca. Apertou minha bunda com tanta força que doeu, me machucando e envergonhando. - Me solta! Eu não quero assim! Está doendo... Fui beijado para que me calasse. Não tive reação no beijo. Tentei empurrá-lo com toda minha força, mas não era muita. Meu corpo tremia tanto... Eu tinha que me soltar! Eu não posso ficar sem reação! Imediatamente comecei a me debater, mas seu corpo forçava o meu contra a parede. Tão automático Tocam-me as tuas mãos Sinto tudo, apenas não sinto a ti Tão automático A tua voz elétrica Onde você está, quando ela fala? - PARA! Ele apertou meus pulsos no topo de minha cabeça, batendo com força contra a parede. Minha cabeça bateu junto. Olhei para baixo, meu all-star longo vermelho e o curto preto de Alex. O chão era cinza escuro, quase preto e bem sujo. Fiquei com nojo do lugar. O cheiro também não era agradável e eu não sou de perceber cheiro das coisas. 97
  • 98. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga Seus dedos gelados forçaram minha entrada de trás e doeu. Meu choro se intensificou, com um som alto. Ele saia de minha garganta de forma atropelada, pois era muito. - Por favor, por favor, me solta... Eu não quero... – pedi forçando minha voz a sair. Ficou aguda no final, pois já estava se tornando difícil falar. Como isso pode estar acontecendo...? É tão nojento... Mas funcionou. Alex bufou e se afastou de mim, soltando meu corpo. De imediato fui ao chão, pois minhas pernas estavam bambas. Caí com força, mas não senti. Encolhi-me instintivamente e apertei os olhos com força, querendo esquecer. Se eu esquecesse, tudo voltaria ao normal. Se eu esquecesse, seria como se nada tivesse acontecido. Nada... - ‘Merdinha incoerente. Enche a boca para contar aos outros que quer ser comido, mas na hora fica chorando aí, todo medroso e encolhido. Nojento. Vou ir ‘fuder outro garoto, um menos inocente e que me dê menos trabalho. Há vários como você, porém mais putos e melhores. Matheus estava certo: não vale a pena ficar com você. Escondi o rosto com as mãos, soluçando compulsivamente. Só entendi metade da frase. Minha mente não racionava o resto. Era tanto ódio e nojo que atingia meu coração... A sombra que me escondia saiu, mas continuava escuro. Ouvi os passos dele se afastando, mas não olhei. Cai para o lado, com o baço encostado no chão. Não abri os olhos nem por um segundo. Me encolhi tanto que mais seria humanamente impossível. Para onde eu poderia ir ou com quem falar? Eu só quero que alguém me abrace e diga que está tudo bem, nada aconteceu. Mas eu perdi o amor da minha vida, eu... Não quero ir pra casa. Para onde vou...? Bryan não quer falar comigo. Matheus tem me ignorado. Tenho vergonha de ir para Luke, quando ele tem muito mais que eu. Meu pai ficaria furioso comigo, por descobrir que sou gay; minha mãe decepcionada. Alex é o culpado e Thiago um turista que nem sei onde está! Alex me enganou... Por quê...? Ele sabe que o amo. Ele sabe que durante tanto tempo eu só queria alguns beijos carinhosos dele... Se ele queria mesmo só me comer era só fingir que gostava de mim e me tratar bem que eu deixaria, mas ele fez questão de me fazer chorar e que tudo fosse péssimo! Não entendo... Juro que daria para ele se Alex dissesse que me ama... Eu acreditaria... Se ele tentasse na casa dele, com outro clima... Mesmo que doesse e eu ficasse super nervoso deixaria, pois gostaria de satisfazer o garoto que amo. Era só ele mentir... Mas quando fecho os olhos minha mente me prega peças. No escuro, posso estar em qualquer outro lugar, com qualquer outra pessoa. Eu gostaria que aquele meio primo idiota que inventei para Luke existisse, pois ele seria o único a me consolar. Quase consigo sentir um garoto tocando em meus cabelos, sussurrando “está tudo bem Lucas, eu estou aqui e te amo”. Qualquer um, mas no caso meu meio primo (inexistente). “Está tudo bem, Lu. Você nunca estará sozinho, pois estou aqui e te amo. Eu vou estar aqui sempre...”. 98
  • 99. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga E ele acaricia meus cabelos e diz o quanto eles são macios, mesmo sendo oxigenados. Que me ama... Eu sei que não é real, mas consigo escutar sua voz tão meiga... “Não se preocupe. Você é lindo e pode ter qualquer garoto que quiser. Se ao menos me desse uma chance... Porque você foi s apaixonar logo por aquele idiota? Eu te amo, Lu. Te amo mais que qualquer outro te amará”. E o suave carinho vai acalmando meu choro. Seu suave toque é quente e carinhoso. Vai de meu pescoço a meu ombro, até o braço de cima a baixo... “Eu te amo e sempre estarei aqui”. Mas eu sei que se abrir os olhos não haverá nada a minha frente. Ninguém. Eu estou sozinho, mas prefiro acreditar que não. Prefiro viver em minha mente... Por que não posso dormir e nunca mais acordar? Viver para sempre em meus sonhos, onde me amam... “Renata está nos esperando em casa. Ela está preocupada com você. Te amamos Lu e você nunca estará sozinho”... Mas quando penso que vou me acalmar tudo só piora e meu choro recomeça. Alex poderia ter conseguido qualquer coisa de mim... Qualquer coisa! Eu faria! Era só ele ter dito que me amava... Só ele ter mentido estas três palavrinhas: eu te amo. Eu teria dado pra ele de qualquer jeito. Se ele ao menos tivesse me levado para a cama e fingisse se importar... Eu sempre quis que minha vida fosse uma grande história de romance. Eu queria poder contar uma história feliz de meu primeiro amor para meus filhos ou sobrinhos ou netos... Mas sabe que música combina comigo agora? Além de qualquer uma que diga que sou mentiroso, um lixo ou os restos de um garoto que não me ama... Tokio Hotel, Automatic ou Automatisch. As duas são válidas e eu sou um lixo... (Amor em você, amor em você) Não há amor verdadeiro em você Não há amor verdadeiro em você Não há amor verdadeiro em você Não há amor verdadeiro em você Não há amor verdadeiro em você Por que eu continuo te amando? Automático (não há verdadeiro) Automático (amor em você) Automático (Por que eu) Automático (Continuo te amando?) Automático 99
  • 100. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga Capítulo 12: Espere um pouco e deixe-me corrigir isso. Eu quero viver a vida de uma nova perspectiva. Eu sinto as ondas salgadas chegando Eu as sinto bater contra minha pele E eu sorrio ao respirar, porque eu sei que elas nunca irão ganhar Há uma neblina sobre minha TV Que muda tudo que eu vejo E talvez se eu continuar assistindo Eu perderei os traços que me preocupam. - Pedro, levanta! Você vai se atrasar! Se não levantar em cinco minutos vou deixar seus irmãos te jogarem água. - Foda - se – sussurrei baixinho pra minha mãe não ouvir e arrancar meus dentes fora. Minha visão escureceu. - PEDRO! JÁ SÃO 07:25! - Tá, tá! Levantei, ó! Sentei na cama e esfreguei os olhos com a mão direita. Odeio acordar cedo. Odeio ter aula de manhã. Adolescentes foram feitos para dormir até o meio - dia! Sonolento, levantei da cama e sai do quarto para o banheiro. Usei o banheiro, escovei os dentes e lavei o rosto. Voltando para meu quarto troquei de roupa, penteei o cabelo e pronto. Viu como é fácil, mãe? E ainda são 07:43. Mas nãaao, tem que fazer um escândalo e insistir para que eu acorde mais cedo a toa! - Que bonito, ein? Agora você só tem 6 minutos para tomar o café da manhã. - 7 – corrigi, sorrindo de forma debochada ao vê-la puta da vida. - Coma. Fitei a mesa e fiz careta. Pão com geléia! Odeio isso! - Não quero comer essa porcaria. Vou pra aula. Preciso dizer que ela ficou puta de novo? - Manhê, o Pedro pode sair sem comer? - perguntou o pirralho do meu irmão de seis anos. - Não, não vai. Pode sentar e comer! - Cara, como vocês são chatos! - resmunguei revirando os olhos e estapeando a cabeça de meu irmão por trás. -Pirralho idiota. Não vou comer merda nenhuma. Tchau pra vocês. - Pedro! Deixei-a para trás xingando meio mundo e me ameaçando de todas as formas possíveis. Mas, e daí? Quando eu voltar ela já vai ter esquecido mesmo. Minha mãe é uma chata que adora pegar no pé! 100
  • 101. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga Catei minha mochila atirada atrás do sofá e sai, atravessando o pátio e trancando a grade. Automaticamente meus pés se viraram para a esquerda, prontos para irem a casa do Gustavo, meu quase vizinho. Mas parei na metade do caminho, relembrando que ele fora suspenso, então terei de ir sozinho. Segui pela direita e dobrei na primeira esquina. Foi bem problemático o Bryan resolver se revoltar. Ele não é assim. Mas, foda-se, agora é, né. E ele mudou o cabelo também, colocou piercing... Até a cara parece diferente. Deve ser mais maquiagem. E, bem, o cara é gay. Entrei no pequeno bar a direita. As paredes eram verdes descascadas por fora e bege sujo por dentro, dando aparência de velho ao barzinho antigo. Segui para a prateleira onde estavam as bolachinhas recheadas e peguei duas bono de chocolate. Ao lado estavam as trakinas, bolachinhas da propaganda ridícula. “Trakinas, o biscoito que é a sua cara”. Só se eu for gordo e rechonchudo para ter cara de biscoito! Fui até o balcão e paguei, guardando um dos pacotes na minha mochila. Segui pela rua na direção do colégio, já abrindo e colocando uma bolacha na boca. Silêncio. Quanto tempo faz que não vou para o colégio com tanto silêncio? Um século! Tanto tempo que nem lembro! Vai ver foi quando o universo ainda estava se formando. Gustavo sempre fala, fala, fala, fala, fala, fala... Esse silêncio já está me incomodando. Desde quando tudo é tão quieto? Ah é, são quase 8 horas da manhã. Que chato! Cadê os estudantes e trabalhadores do meu bairro? Nós podemos ir logo ao que interessa? Espere um pouco me deixe corrigir isto Eu quero viver a vida de uma nova perspectiva Você veio junto porque eu amo seu rosto E eu irei admirar seu gosto refinado E quem liga para intervenção divina Eu quero ser elogiado de uma nova perspectiva Mas partir agora seria uma boa idéia Então me acompanhe para cair fora daqui (Nós podemos ir logo ao que interessa?) Talvez tivesse sido melhor ser expulso. Mas daí eu não poderia jogar amanhã e eu tive de implorar para o Bryan que não me incluísse nas merdas que meus amigos fizeram, mesmo eu tendo tido uma pequena partezinha de culpa... Ok, ok! Eu tive MUITA culpa! Eu xinguei ele, né. E, cara, ele me retirou do castigo! Ele é bem legal, tirando o fato de ser gay. Quer dizer, não é como se eu fosse gostar menos dele por ser gay, é que daí ele não se dá bem com os outros caras. E outra coisa, ele sendo gay automaticamente deixa de ser um amigo normal porque, se ele gosta de garotos, não é que seja como uma garota, mas tem o interesse de uma. Ele se torna tipo, uma “opção”, assim como uma garota não é amiga e, sim, opção. É, isso é beeem estranho... Bem estranho mesmo! E... Ah cara, ele é bonito! Que merdão, eu to achando um garoto bonito! Tipo, tudo bem que eu fiquei com ele, mas foi por curiosidade, né... O fato é: se os outros não fossem se importar eu ficaria com o Bryan várias vezes. Ele beija bem e... Na hora eu fiquei sem jeito, mas tenho curiosidade em saber se me excito com garotos, ou melhor, com o Bryan... Calmaê, EU NUNCA VOU BATER PUNHETA PENSANDO NO BRYAN! NUNCA, NUNCA, NUNCA! 101
  • 102. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga Cheguei no colégio e já no portão encontrei dois amigos. Cumprimentei-os e ofereci bolacha; ambos aceitaram. Eles eram do time de futebol, mas não de minha turma. Da minha sala são do time somente eu, Gustavo e André, sendo que os dois não poderão jogar. Quando dei por mim o sinal bateu. Segui para a sala apressado, pois os professores sempre chegam mais cedo. Primeiro, segundo, terceiro, quarto período. Aula chata de matemática. A professora me dá sono e hoje não tem Gustavo para ficar buzinando no meu ouvido: “não dorme, não dorme”. Unn... Saco. Vou acabar dormindo... Ah, já sei! Vou comer minha outra bolachinha para ver se assim não durmo. Abri minha mochila e peguei o outro pacote, abri, ofereci e comecei a comer. Açúcar... Chocolate... Observei a sala de aula, completamente entediado. Brenda fazendo fofoca, Alice me secando descaradamente, Carlos dormindo e... Bryan... Lindo... Não levando nada a sério, mas nós ainda respeitamos o tempo Nós avançamos com uma nova paixão sabendo que tudo está bem E eu iria esperar e assistir as horas passarem em uma centena de linhas separadas Mas eu recupero a compostura e me pergunto como eu acabei do lado de dentro PUTA QUE PARIU, EU TENHO QUE PARAR COM ISSO! Ah... Mas ele é “fofo” (palavra ridícula de garotinha), sendo assim se torna “menos menino”. Garotos não podem ser fofos, mas o Bryan é! Esse é exatamente o problema! Mas adoro vê-lo mordendo todo o lábio inferior, dá vontade de apertá-lo! Nossa, agora estou parecendo minha vó. É, mas ainda sim eu ainda tenho vontade de apertá-lo. Bryan fica tão lindo com aquela pele branca contrastando com o cabelo negro, aquela franja esquisita e os olhos azuis bem, bem clarinhos. A boca rosa fraquinho (será de batom?), levemente avermelhada pelos puxões que ele dá nos piercings prateados, um nariz que... Cara, como isso pode não ser fofo? Tenho que parar com isso, acho que estou virando viado! Não, não, não! Nada de viadisse, Pedro... - Pedro, me empresta o apontador? – perguntou o carinha ao meu lado; emprestei. Ah cara, no lugar em que estou dá para observa - lo completamente, em todas as ações e atitudes! E pior que ele nem percebe! - Me dá uma bolacha? - Compra. Ele está falando com o nerdão. Vou matá-lo. Vou amarrá-lo em uma árvore; não, muito filminho americano. Vou trancá-lo em algum lugar. Há! O banheiro do prédio amarelo! Lá é perfeito! Ah, mas se eu fizer isso o Bryan saberá... Hum... Vou mandar o Gustavo e o Antônio fazerem, tão me devendo uma. Ok, isto faz eu me sentir melhor, sabendo que vou fuder com o nerdão. PUTA QUE PARIU, EU BOTEI MALÍCIA NESSA ÚLTIMA FRASE! QUE ISSO? VOLTA PEDRO, NÃO SE DEIXE SER LEVADO PARA ESSE LADO DE VIADOS! COMO, DO NADA, EU ACABEI DO LADO DE DENTRO DESSAS VIADICES? 102
  • 103. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga O sinal bateu. Vitória! Fiquei acordado na aula de Matemática! E agora temos Educação Física, melhor matéria de todas. O sor entrou, fez chamada, blá, blá, blá e a palavra mágica: rua! Preciso dizer que todos se atropelaram para sair ao mesmo tempo? - Você tem que jogar alguma coisa Erick, se não poderá ficar com uma nota bem baixa. Cotovelei Antônio que estava do meu lado, chamando a atenção para a conversa do sor com o nerdão - merdão. - Ah, professor! Terei de jogar logo futebol? - Exatamente. Assim ganha mais pontos do que outro esporte. Opa! Maravilha! O nerdão vai jogar! Olhei para Antônio com um sorriso diabólico e ele retribuiu. Obvio que eu iria fud... Acabar com ele! (mente, não me traia). - E você, Bryan? Estranhamente Bryan ficou quieto. Normalmente ele recusa - se sem pestanejar. - O Bryan pode fazer torcida, não pode? Aí nerdão, você não sabe que só porque ele é gay não signifique que ele fará coisas de menina? Ok, só sei disso porque Bryan me contou, mas ele também anda com o Bryan, então também deve saber! - Deixei as garotas fazerem hoje, então, se ele quiser, pode. Se outro garoto quiser fazer também pode. Ah há! O Bryan nunca vai querer fazer torcida! Ele nega até a morte ter semelhança com garot... - Hum... Ok! Como é? Ele concordou? Que gay! Sei que ele é gay, mas não sabia que ele age como mulherzinha! Nossa Bryan, você decaiu muito! Como assim vai agir como garota? Que merda! E sabe o pior? Eu quero que ele faça torcida pra mim! Mas as garotas sempre fazem, então obviamente ele também irá fazer. Nós podemos ir logo ao que interessa? Espere um pouco me deixe corrigir isto Eu quero viver a vida de uma nova perspectiva Você veio junto porque eu amo seu rosto E eu irei admirar seu gosto refinado E quem liga para intervenção divina Eu quero ser elogiado de uma nova perspectiva Mas partir agora seria uma boa idéia Então me acompanhe em cair fora daqui Me acompanhe em cair fora daqui - Pedro. Ah é, estavam escolhendo os times. Claro que eu fui o primeiro a ser escolhido, pois sou fodástico! O melhor jogador! E depois de mim o Gustavo, mas ele foi suspenso, né. E o nerdão será escolhido por último. 103
  • 104. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga Olhei para o lado, onde Bryan estava “socializando” com as garotas. Ele completamente vermelho e com os braços cruzados, mas sorria daquele jeito seduzente. Elas estavam bem animadas já se arrumando atrás dele, com enormes sorrisos e risinhos típicos de menininhas abobadas e bestas. Ah cara, puta que pariu, to começando a falar como um gay! Ok, foco Pedro, o jogo está começando. Eu fiquei de lateral, mas o idiota do Carlos insistia em me puxar para ser meio - campo. Oh seu merdão, não entendeu que quero ouvir a torcida? Mas puta merda, eu sempre tenho um puta animo para jogar! Merdão, estou bem distraído hoje, normalmente não sou assim. Mas daí aceitei ser meio - campo e prestei mais atenção no jogo, com os ouvidos na conversa das meninas: - Por quem você quer torcer, Bryan? Por mim, claro! Eu sou o gostosão fodão! - Acho que o Erick? O nerdão?! Bryan, enlouqueceu? Cara, eu tenho que começar a me acalmar, estou me tornando um viado! Ah cara, mas isso é indignante! Só porque o nerdão anda com ele! Eu sou mil vezes melhor e as garotas sempre torcem por mim! Infelizmente, enquanto eu jogava tive de ouvir os gritos para o nerdão idiota. Já não basta ele andar com o Bryan, agora também tem que roubar minhas garotas e minha torcida?!? Vou matá-lo. Vou fazer milhares de maldades com ele. A única coisa que faz eu me sentir melhor é vê-lo todo desengonçado sem saber o que fazer e, claro, os garotos todos contra ele. Adoro rir da cara desse lixo! Ele é ridículo tentando jogar! - Vamos torcer pelo Pedro agora? – perguntou uma das garotas, acho que foi Alice. Há! Engole essa, nerdão! - Podem torcer por ele, mas eu não quero. Vou esperar. ... - Ah Bryan, por que você não gosta dele? Até andavam juntos quando você chegou aqui. Porque eu o dei um fora! Ficou com o orgulho gay ferido. Ah merda, tenho que me afastar. O jogo tá rolando e se eu continuar perto das garotas, longe da bola vai ser bem duvidoso, até porque sou o melhor jogador. Me afastei e continuei o jogo, fazendo um escanteio. Não entendo por que Bryan me odeia. Tudo bem que eu o xinguei aquela vez depois que ficamos, mas também, o que ele esperava? Um pedido de namoro? Puta que pariu Bryan, ficar não significa namorar! Eu pedi desculpas e isso já faz tempo! Porra, supera! Foi só uma discussãozinha! - Vai Erick! Você consegue! O que me chamou a atenção nessa torcida em específica não foi o fato de ter o nome do nerdão – merdão - lixão que tem que se fuder, mas de ter vindo da Alice! Tipo, ela não gosta dele e está sempre na minha volta. Só pode ter sido coisa Bryan. E olha lá, o nerdão tá todo vermelho! Que frescura, só pode ser gay mesmo. Bem, ok, vou prestar atenção no jogo, assim eu ganho mais. Não vou deixar algo que eu amo ser completamente destruído por causa do nerdão ridículo. 104
  • 105. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga - Podem fazer uma pausa meninos! Isso por quê? Por causa do nerdão, claro! Nossos jogos nunca tem pausa! Sai andando normalmente, até ouvir Amanda me chamando. Fui para próximo das garotas, curioso. - Pedrinho, você formaria um casal tão lindo com o Bryan... – comentou Amanda, uma das pouquíssimas garotas que não são caidíssimas por mim. - Hey, você não disse que era para isso que chamou ele! – protestou Bryan, irritado. As outras garotas também não pareciam contentes. - Bryan merece coisa melhor – protestou Carla, cruzando os braços. - Pedro merece coisa melhor! – rebateu Alice, agarrando-se ao meu braço. - O que você diz, Pedro? – perguntou Amanda, estranhamente interessada. - Não importa o que ele diga, porque eu não quero. Acabaria com minha imagem se eu ficasse com um garoto hetero e machista como o Pedro. Eu passaria vergonha! Espera, espera! Pare o mundo que eu quero descer! Como é isso?! O Bryan acabou de dizer que teria vergonha de ficar comigo?!? Qual é a dele?! Ele é o emo gay que sofre bullyng e eu sou o lindo gostoso que todas querem e que decide quem é popular e quem não é! Os papéis não podem ser invertidos! Bom, eu é que não ficarei aqui, não depois disso. Cara, levei um baita fora! Sabe, isso é hilário! Levei um fora de um emo gay que ninguém gosta! Isso dá história para contar aos netos, né. - Então tá, se é só isso vou ir tomar água. Nem to com sede nada. Acho que vou tomar mais é por costume. Só sei que me mandei, deixando as garotas para trás discutindo sobre sei lá o que. Olha lá quem está tomando água! O nerdão! Nossa, que vontade enorme de ir lá e dar um tapão na cabeça dele, mas o último garoto com quem fiz isso cortou a boca, daí “tchau, tchau” para o jogo de futebol e eu vou jogar e vou ganhar aquela merda! Vou ganhar solito, sem o Gustavo e o André, aqueles merdas que foram encher o saco do Bryan. Sabe, até que é bem feito eles não poderem jogar. Parei ao lado do bebedouro e esperei o nerdão terminar de beber. Ele terminou e assim que levantou a cabeça olhou para mim e riu, cuspindo a água em uma cena nojenta que eu tive de fazer careta. - Qual a graça? – perguntei sem muita paciência. O idiota quase cuspiu em mim, pô! - Você, óbvio. E o merda ainda saiu andando e rindo! Vamos Pedro, se controle. Que vontade ENORME de batê-lo até sangrar. Se acha um máximo só porque tira notas altas! Grande merda. Não tiro notas altas porque não quero estudar, ele que é um sem tempo e não tem amigos, namorada nem nada pra fazer e fica estudando. Vou fu... Acabar com ele. 105
  • 106. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga - Chegaê pessoal! - chamei Antônio e mais uns garotos de minha turma para mais perto e combinamos nossa maldade. Tem que parecer ser sem querer para que nenhum de nós seja levado para a diretoria. Magina só eu perder meu jogo! Ok, voltamos para a quadra e o jogo continuou normal. Fui ficando cada vez com mais raiva ao ouvir e ter de aturar ver a minha torcida ser voltada para o nerdão. Porra, ele é só um merda que não joga nada! Minhas meninas estão do lado dele só por causa do Bryan revoltado. Desviei a atenção do jogo só um pouquinho para ver o que a torcida fazia que estava tão quieta. Ahh, não! Vai se fuder! O nerdão idiota tá conversando com Bryan e puxando ele pelo braço! Isso não pode! Não pode! Ainda não... Ele só pode tá brincando! - Meninos, prestem atenção: O Bryan vai jogar, então peguem leve. Entra no time daqui. O sor apontou para a direita: time do nerdão; contra o meu. Os garotos reclamaram e só faltou o sor mandar todo mundo se fuder. Que merda! O Bryan não sabe jogar, ele vai se machucar! E por que eu estou me importando logo que ele se machuque? Deveria me importar que ele estrague meu precioso jogo, mas isso o nerdão já faz. Mais uma vez o jogo continuou. Tentei joguei normalmente, mas os garotos estavam super a fim de jogar a bola no Bryan e no nerdão. Eles estavam ali na lateral direita da quadra e longe do tumulto, como quem grita “me acertem, me acertem”. Bryan apavorado, sem uma mínima noção do que fazer. As garotas estavam fazendo torcida pra ele enquanto o nerdão tentava explicar como jogar, ridiculamente. Nerds não servem para jogar futebol! Sor, pelo Amor de Deus, hora de tirar o lixo! Vaza, nerdão. Ah cara, isso vai ser um grande desastre! Se o Bryan tentar os garotos vão cair matando! Oh lá, ele vai tentar mesmo! E levou uma cotovelada do Jonatas. Sério? Ele vai cair para trás só por causa disso? Ih, o nerdão segurou ele. - Ohhhh, o Bryan conseguiu outro namoradinho! É claro que os garotos não iam deixar essa passar, né. Debocharam muito. Do nerdão eu até acho graça, mas o Bryan... Ele não fez nada de errado, porra! Só porque o garoto é gay não saem do pé dele. Já o nerdão é ridículo e se acha, tem mais que levar uma surra. - Bryan não é meu namorado e eu não sou gay. Se fosse não teria problemas para admitir, pois já zoam comigo por ser nerd mesmo. Então, deixem de ser idiotas ignorantes e cuidem de seus próprios interesses duvidosos. AI! Que queima! Ainda bem que eu nem falei nada. Mas também, se eu tivesse dito saberia queimá-lo direitinho. Depois de alguns argumentos o jogo continuou. Aquilo que o nerdão disse sobre não ser gay não me convenceu. Chegou no Bryan DO NADA, sabendo que o garoto é gay e não tem namorado, mesmo assim vem dizer que não é gay. NÃO COLA. Aliás, eu nunca perguntei ao Bryan se ele tem namorado... OMG! Não, espera, se ele tivesse teria se recusado a ficar comigo, a não ser que ele esteja namorando a apenas 106
  • 107. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga alguns dias... Ow, isso dá o que pensar. Ah, mas daí ele teria dito aquela hora em que Amanda disse que formaríamos um belo casal... Afinal, como um casal de garotos pode ser bonito? Amanda até louca tá! Pai e mãe da Amanda, internem - na num hospício. Mas Bryan é mesmo lindo... - Pedro! Quando chamaram minha atenção olhei para a bola que vinha em minha direção. Tenho que prestar mais atenção no jogo. Chutei - a, mas ao mesmo tempo o nerdão idiota que estava do meu lado resolveu se meter pra dar mancada e fuder com tudo, daí quis chutar e nossos pés acabaram se enganchando, levando nós dois para o chão. - SEU MERDA! NÃO SABE JOGAR E AINDA ATRAPALHA OS OUTROS! PUTA QUE PARIU! – gritei irritado, sentindo meu tornozelo latejante de tanta dor. - Desculpa! Em dois segundos já estava os dois times na minha volta, perguntando o que acontecera e se eu estava bem. Mais dois segundos depois chegaram as garotas, todas preocupadas. Encheram-me de perguntas e ralharam o nerdão, mas eu só prestava atenção na tremenda dor que sentia. - Pedro, você vai conseguir jogar amanhã? – quando ouvi essa pergunta me apavorei. - Se eu não puder arranco os pés do nerdão! Idiota! É nisso que dá se meter no jogo dos outros! Antônio me ajudou a levantar. Não consegui ficar em pé sozinho, pois doía meu tornozelo, então me apoiei no ombro de Antônio. - Nerdão de merda... Quem mandou se meter no jogo dos outros?! Tinha é que se fuder mesmo... – resmunguei enquanto recebia ajuda dos outros para andar. - Não o chame assim! Erick não fez por mal, foi um acidente! – me surpreendi ao ouvir Bryan me responder, irritado. Ok, preciso respirar porque, no momento o que eu mais quero em todo o mundo é arrancar aquela maldita cabeça feia do nerdão! QUE MERDA! Não importa se os dois times de futebol, toda a torcida, toda a cidade ou toda a população brasileira está na minha volta nesse momento, porque o ridículo esborrachado no chão aqui do meu lado tem a atenção do Bryan! Cara, eu só posso estar louco! Quero Bryan tanto assim?! ... Quero. ... Que merda. Tá, fomos para o mini postinho do colégio e uma moça de peitos grandes veio nos atender. Ficou braba com a quantidade de alunos dentro daquela salinha minusculamente pequena e mandou meio mundo sair. Só podia ficar uma pessoa para 107
  • 108. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga “acompanhar os feridos”. Tô me sentindo um deficiente físico! Cara, eu juro, se eu não conseguir jogar quebro as duas pernas do merdão nojento. - Eu não vou deixar o Erick! De jeito nenhum! – Bryan protestou, junto de duas garotas que queriam ficar comigo. Como eu não fiz questão de nenhuma companhia e o Bryan exigiu ficar com o nerdão ficou somente Bryan de acompanhante. - Dói muito? Acha que quebrou? Quer que eu te acompanhe até tua casa? – Bryan perguntou todo preocupado... Com o nerdão. - Calma Bryan. Estou bem, só machucou e dói, mas vou sobreviver. - Você está bem porque é inútil e não joga nenhum esporte. Eu faço parte do time e se não puder jogar o time vai querer arrancar sua pele. Vou rir da sua cara. - Mas eu não te perguntei nada. – Nossa! Bryan está com a língua afiada. Segundo fora dele que eu levo no mesmo dia, isso vai entrar para a história. A moça gostosa de peitões grandes se aproximou de nós. Ela tem um corpão, mas uma cara de dar medo. Cruzes! O cara que levar para a cama irá esconder a cara com um travesseiro. E que verruga grotesca é essa encima da boca?! - Garotos, vou ligar para a casa de vocês. Primeiro você – ela disse olhando para o nerdão. Ele se levantou com a ajuda de Bryan. – Você espera aqui – ela disse para Bryan. A contra gosto, Bryan se sentou na cadeira ao meu lado, cruzou os braços e mordeu um dos piercings. Mais importante, eu preciso mostrar O quanto eu posso ir e voltar Outros planos falharam E colocaram uma carga pesada em você Eu sei que não há nada mais que precisa ser dito Quando eu estou me arrastando pela sua cama Ao invés disso olhe em volta e me veja partir - Bryan? – chamei - o quando a moça se foi. Essa é a minha chance! - Quê? – ele perguntou de má vontade. - Você está brabo comigo? - O que importa? - Se quero saber é porque me importo. Gosto de você, Bryan. Mesmo que você não queira ficar comigo. Ele finalmente olhou para mim, surpreso. Entreabriu aquela boca linda e piscou duas vezes. Ponto para o Pedro! Ok, vou me aproveitar de sua distração. Aproximei-me um pouquinho e lhe dei um selinho. Leve encostar de lábios. Senti seus lábios macios e as duas argolas geladas. Bryan ficou sem reação. ... 108
  • 109. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga - Estúpido! Ele se irritou, né. Aproximou-se e esticou os braços, tentando me empurrar. Puxei o pela cintura para perto de mim, fazendo ele sair da cadeira. Sorri vitorioso. - Acha que sou idiota? Vai se fuder Pedro, heterossexual de merda! Se ele quisesse mesmo me rejeitar teria recuado na hora do selinho. Entãaaaao Bryan, não tente negar. Bryan ia me socar, mas segurei seu braço antes. Fui fuzilado com seu olhar tão belo, mas não me abalei. Orgulhosamente, Bryan ergueu o queixo e empinou o nariz, encarando - me mais de perto. - O que passa pela sua cabeça, Bryan? – perguntei curioso. Ele continuava a me encarar furioso, querendo se soltar. Uma mão minha segurava sua cintura e a outra seu braço. Eu nunca vou entender sozinho o que se passa pela cabeça de um gay! Mais ainda a de Bryan. Ele era tão... Dócil... - O que passa pela sua cabeça, Pedro. - Que você era um garoto muito legal e agora anda revoltado, mandando todos longe. - Você não tem que opinar! Não sabe pelo que eu passei! Mais uma vez ele tentou me bater. Cara, esse garoto parece um cachorro prestes a morder! Larguei sua cintura e segurei o outro braço. Espere um pouco me deixe corrigir isto Eu quero viver a vida de uma nova perspectiva Você veio junto porque eu amo seu rosto E eu irei admirar seu gosto refinado E quem liga para intervenção divina Eu quero ser elogiado de uma nova perspectiva Mas partir agora seria uma boa idéia Então me acompanhe em cair fora daqui - Então me conte. Bryan gargalhou alto, ironizando. - Para que? Para você rir e debochar? Não sou trouxa! Aquela risada me irritou. Porra Bryan! - Bom, não sei pelo que você “teve de passar”, mas vejo que você tem olhado de cima para todos seus amigos. - Eles não são meus amigos, são cruéis Onde está Bryan? Porra cara, esse olhar não é dele... Desde quando ele é tão frio? - Até mesmo aquele garoto loiro e saltitante? - Mi comi é o pior! Ele é falso! 109
  • 110. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga Ele se debateu. Apertei seu braço, tentando não machucar. Ele me chutou. - Eu só vejo uma criança triste que precisa de atenção. - A maioria dos emos é triste! - E você considera a maioria dos emos falsos? - Mi comi é diferente! – ele gritou e se debateu tanto que quase o soltei. Apertei com mais força e o sacudi para chamar a atenção, tentando não machucá-lo. – Você não é meu pai para me bater! ... - Teu pai te bate? Ele se acalmou, mas só na atitude. Continuou a me encarar com ódio e com o cabelo um pouco bagunçado. - Não! - Então por que não usou sua mãe como exemplo? Você me disse que mora com ela. - Isso tanto faz! Senti seus dentes perto de meu braço e, com o susto larguei seus braços. Bryan se levantou revoltado, pronto para sair. - É isso pelo que você “teve que passar”? Ele parou e virou para mim, ainda mais irritado, se é que isso é possível. - Não! E não te interessa! Pensei em me levantar também para poder me aproximar de Bryan e tocá-lo, mas daí a dor me lembrou que machuquei o tornozelo. - Por que está tão irritado? Bryan, já lhe pedi desculpas por aquela vez! Como eu ia saber que a boneca não quer ficar, só namoro sério? Putz, falei boneca sem querer. Tenho certeza que ele se irritou. - Você me humilhou! Droga, ele está gritando. E se alguém ouvir? - Não foi minha intenção. Você me irritou querendo contar a todos. Porra Bryan, você é um garoto também! Deveria entender! Eu jamais fiz piada de você, mas também não queria passar vergonha tendo que contar aos outros. Bryan levou as mãos a cabeça e fechou os olhos com força. Arregalei os olhos e fui um pouco para trás. Parece que vai enlouquecer. - PARA COM ISSO! Para de me mentir; de me fazer mal! - Não estou mentindo! - ESTA! Fica rindo de mim pelas costas! 110
  • 111. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga - Nunca! Eu sempre disse aos garotos para te deixar em paz que você não era uma má pessoa! - MENTIRA! Que merda, o Bryan não para de gritar! Estamos no colégio! - Bryan, se acalme, você está irritado e gritando. Estamos no colégio. - Não me mande calar a boca! A culpa é sua! Você é um problema! - Você é quem está tornando o mundo mil vezes mais pesado! Eu gosto de você Bryan e você está lindo assim, mas não posso dizer o mesmo de sua personalidade. - Eu continuo o mesmo. Agora, me olhando com esse jeito furioso e o cabelo desgrenhado está parecendo a ponto de enlouquecer. - Não, não continua. Não sei por que faz questão de tornar tudo difícil e olhar para as pessoas de cima. Como assim ainda não surgiu ninguém preocupado com os gritos de Bryan? - A culpa é sua! Sua e das pessoas como você que não aceitam o homossexualismo! Se eu quisesse enlouquecê-lo mesmo eu saberia o que dizer. “A culpa é sua por ser estranho e diferente”. Acabaria com ele. - A culpa é sua por encarar tudo com arrogância, só provoca mais ainda os garotos e intimida teus amigos. Eu gosto do garoto que conheci. Puta que pariu, eu disse merda! Ainda bem que disse “gosto”, nada dessas merdinhas de “estou apaixonado”. Eu só gosto! Bryan me olhou irritado por mais alguns segundos e jogou os braços para baixo, com raiva. Se pudesse me jogaria qualquer coisa que estivesse nas mãos. - Me esquece, Pedro! Daí sim ele saiu. Eu deixei, já irritei muito o garoto, mas é realmente uma pena que Bryan esteja assim. Ele era tão dócil antes... Que merdão! Desde quando eu me tornei um gay nojento? Sua culpa, Bryan. Mas, se você fosse menos arisco e levasse tudo mais na boa, com certeza eu já teria te pego a muito tempo. Não é justo, apenas me deixe aperfeiçoar isto Não quero viver uma vida que era compreensiva Porque ver claramente seria uma má idéia Agora me acompanhe em sair fora daqui Então me acompanhe, eu estou caindo fora daqui 111
  • 112. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga Capítulo 13: Vamos nos divertir um pouco? Sinto um clima no ar... Droga, acho que a professora já entrou na sala. Espero que ela não brigue comigo! - Com licença professora. Bati duas vezes na porta aberta de minha própria sala. A professora maneou a cabeça em sinal afirmativo e eu entrei, suspirando aliviado. - Eu estava contando à turma que a professora de português faltou e a 102 está sem professor no terceiro período. Então agora, no segundo serão somente vocês e no terceiro haverá aula na rua em paralelo com a turma 102. No quarto seria a vez de vocês terem aula de português, então terão aula de química em paralelo também, daí soltam mais cedo. A aula se tornou uma verdadeira confusão. Outra turma do primeiro ano? Mi comi e Luke! Terei aula com eles! Que... Estranho. - Muito bem, agora prestem atenção aqui! Vou passar a matéria e no segundo período vamos para a rua desenhar. Jura que vou prestar atenção! Depois pergunto ao Erick, ele explica de forma rápida e mais inteligível. Apoiei os braços na classe e a cabeça nos mesmos. Suspirei. Pedro não está em aula, pois se não me engano é hoje aquele maldito jogo. Impressionante como ele se recupera rápido. Se houvesse sido comigo eu ficaria na cama por um bom tempo e diria que não consigo mexer o pé, somente para... Droga! Pedro provocou-me uma terrível dor de cabeça ontem... “Você tem olhado de cima para teus amigos”. Que amigos? Os falsos com o qual tenho que conviver? Claro, é fácil criticar quando se vê pelo lado de fora. Todos me humilhando e debochando e ele ainda vem me dizer que eu sou quem está errado em mudar. Ontem à noite ouvi minha mãe conversando com meu pai pelo telefone. Ela parecia feliz. Se eu não conhecesse meu pai diria que eles estão prestes a voltar, mas eu o conheço. Até porque, meu pai não irá querer permanecer perto de mim. Acho que ele nunca mais irá querer olhar em minha face. Também, como poderia, sendo ele quem me criou minha vida inteira e, depois de ter criado o filho por quinze anos e aceitado que tivesse um estilo diferente descobre que, além de todos os defeitos ainda é homossexual. Acredito que não há decepção maior para um pai. Ok, melhor mudar o rumo de meus pensamentos. O que será que aconteceu com Mi comi? Não o vi ontem. Deve estar saltitando entre o colo das pessoas. Ah, hoje descobri que realmente há mais um emo no grupo que ando o qual ainda não conheço. Ele tem o penteado parecido com o de Bill Kaulitz do Tokio Hotel, quando o cantor era mais novo. Chama a atenção. Qual será seu nome? Ah, o tempo irá demorar para passar... Bom, depois de uma meia hora de aula chata e maçante sobre uma besteira qualquer finalmente o sinal anunciou o início do terceiro período. A professora mandou-nos pegar uma folha A4, o estojo, material para pintura e irmos para a rua. Assim fiz e 112
  • 113. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga saímos enquanto ela ia ver a outra turma. Sentamos todos em um círculo na grama, embaixo de uma árvore. - Erick, o que é para desenhar? - Ela ainda não disse. - Ok. Bocejei e observei o pessoal no círculo. Todos meus colegas me olhavam com cara feia, como se eu fosse uma aberração. Desviavam o olhar quando percebiam que eu via, pois encarei decididamente todos que me fitavam e cochichavam algo. - Garotos, que decadência! Fazendo fofoca e se importando com a vida dos outros? Preciso rever urgentemente meus conceitos, pois eu estava certo que este era o meu conceito de “garota”. Esfreguei os olhos, tentando me manter acordado. Estou com sono, pois dormi muito pouco esta noite, fiquei pensando em... Meu pai. Pendi a cabeça para o lado, recostando - a no ombro de Erick... Opa! - Desculpe – pedi erguendo a cabeça rapidamente. - Tudo bem, pode deitar. Sorri. Ele estava com as bochechas vermelhas. Repousei novamente minha cabeça em seu ombro, descansando. Obviamente que os garotos ficaram ainda mais inquietos. Permaneci em silêncio enquanto a professora se aproximava com a outra turma. Estranhamente Mi comi estava quieto e andava normal, com o caderno próximo do peito, na frente do corpo. - Oi Bryan! – Luke me cumprimentou alegre e se sentou ao meu lado. - Oi – Mi comi disse quietinho, sentando ao lado de Luke. Ele olhou para cima, na direção de Matheus. – Senta do meu lado, por favor – ele pediu normalmente, sem nenhuma palavra ou gesto estranho. Matheus obedeceu e sentou do lado dele. O emo que parece Bill Kaulitz também estava junto. Ele sentou ao lado de Erick e sorriu para nós. - Que Love! – comentou rindo. - Erick não é gay. Ele fez uma expressão simples de confuso, olhou para cima e sorriu novamente. Até a maquiagem dos olhos deste garoto se assemelha a de Bill Kaulitz. - Sei, sei... Mas ainda sim estão muito fofos juntos. Oi Bryan, lembra de mim? - Mais ou menos – fui sincero como sempre. Se eu mentisse ele perceberia. - Sou Thiago. - Oi – sorri. Pisquei e fiquei tentado a não abrir os olhos, mas abri. - E você? – Thiago perguntou a Erick. Ele ficou surpreso, arregalou os olhos e corou. 113
  • 114. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga - Eu? - Não, não. O garoto ao seu lado. Ah, mas já sei que o garoto ao seu lado é o Bryan, então pode ser você mesmo – Thiago brincou, sorrindo simpaticamente. Não foi uma grosseria, só uma brincadeira. - Erick. - Prazer Erick. Aposto meu caderno sem matéria que você é o nerd da tua turma. Erick revirou os olhos, visivelmente chateado. - Sou – respondeu de má vontade. - Legal. A palavra surpreendeu até a mim, que estou quase dormindo. Sorri de leve. Ouvi um dos garotos do outro lado da roda sussurrar algumas coisas, mas só entendi as palavras: Erick, nerd, nojento. Me preparei para responder, mas fui interrompido por Thiago. - Ahh, ‘qualé Jonatas! Achei que não era para contar sobre aquela vez que te agarrasse com o meu amigo! Não somente eu, mas todos os garotos das duas turmas se assustaram. O tal de Jonatas ficou constrangido e tentou argumentar, mas estava nervoso e isso só piorou. O pessoal caiu na gargalhada e debochou dele. - O...Obrigado – Erick pediu baixinho. Mais uma vez Thiago sorriu simpaticamente. - Nada. Não é bom debochar dos nerds, um dias eles serão nossos chefes, então seja um bom chefe para mim. - Você parece o Matheus – constatei em voz alta e me arrependi. Era para ser somente um pensamento. - Eu sou como a mamãe? ‘Putz, estou mal então. Mamãe? Ri, virando a cabeça ainda no ombro de Erick para ver a reação de Matheus. Ele fez cara feia e revirou os olhos. - Tão engraçadinho, Thiago. - Olha os ciúmes, mamãe. Já te disse para cuidar os ciúmes. Nós rimos, achando divertida aquela conversa dos meninos. Meu olhar pousou em Mi comi, ao lado de Matheus. Ele ria fracamente e mantinha o olhar baixo. Acho que vou pergunta- Pessoal, todos prestando atenção aqui para ouvir sobre o trabalho! Claro, claro. Jura que a senhora terá minha atenção! *** - Como sabe que o céu não é azul? 114
  • 115. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga - Física. Ela diz que o céu é um arco-íris, mas o azul ofusca as outras cores. Por isso que no pôr do sol vemos o céu alaranjado, às vezes avermelhado. São as cores do outro extremo do arco-íris. - Então por que o arco-íris é um arco, mas no céu não vemos um arco? - Porque a terra é redonda e o arco-íris é um raio de luz branca que sofre uma refração, daí esse raio faz a volta na terra. No céu são vários raios de todo o sol que predominam em todo o céu. - Nossa! Você é muito inteligente! - Obrigado. Você é o único que fala de um jeito bom. Hum... Ok, estou entendendo. São as vozes de Erick e Thiago conversando. Acho que dormi um pouco. Ah, mas não vou interrompê-los agora. Parece estar somente os dois conversando. - E onde isso é ruim? Ser inteligente é maravilhoso! - Mas estão sempre mexendo comigo e me chamando de nerd. - Pra mim nerd é um elogio. Eles debocham porque são burros e sentem inveja. Ohhh, que gracinha! O Erick deve estar envergonhado. Gostaria muito de poder vêlos, mas se eu me mostrar presente posso “estragar o clima”. Sei que Erick não é homo, mas mesmo assim está um clima bem legal entre eles. - Você também é nerd? - Não. Pelo contrário, tenho dislexia e dificuldade de aprendizagem. Dislexia? Que doença é essa, mesmo? Eu conheço, só esqueci. Droga... Ah, sim, dificuldade de aprendizagem, ele disse. Que eu saiba é a mesma coisa. Nossa, eu não sabia que ele tem isso. Deixe-me adivinhar, Erick deve estar fitando - o surpreso. - Não me olhe assim. Estou bem com isso. Não gosto que me olhem assim. - Por isso você vem raramente à aula... Ouvi uma risada, provavelmente vinda de Thiago. - Sim. A matéria é muito difícil, já desisti. - Eu te ajudo! – a voz de Erick veio tão cheia de energia que me surpreendi. Remexi meu corpo, fingindo estar dormindo. Eles se silenciaram por alguns segundos, somente para ter certeza que eu não acordei. - Realmente não precisa. Além de dar muito trabalho será inútil. Eu já desisti. - Mas eu realmente quero ajudar. Antes eu queria ser professor, pois gosto de ajudar os outros. Por favor, quero ajudar porque quero e gosto! Nunca vi Erick tão decidido! Mas isso é realmente fofo. Será possível que eles se tornem um casal? Acontece que eu realmente não entendo o que se passa pela cabeça de Erick, porque ele é hetero e completamente apaixonado pela Alice. - Se você quer... Mas quando quiser desistir fique a vontade. Não quero te prender. 115
  • 116. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga Surpreendentemente um barulho enorme interrompeu a conversa dos garotos. Eram muitos gritos e umas frases que não consegui entender. Era uma comemoração. - Parece que nosso time venceu – disse Thiago, prestando atenção ao barulho. - Sim... Com o barulho fingi acordar. Levantei a cabeça do ombro de Erick e estalei o pescoço. Espreguicei-me e pisquei repetidamente. - Bom dia Bela Adormecida – Thiago brincou, rindo. - Oi meninos. O que eu perdi? – perguntei fazendo-me de bobo. - O trabalho sobre Impressionismo – Erick me respondeu sorrindo. Sorri de volta. - E toda essa gritaria? Desta vez não houve resposta. Erick apontou para trás de mim. Virei-me e vi o time de futebol todo gritando e comemorando. Todos os garotos com o uniforme de bermuda preta e camiseta branca, com algumas coisas em preto e medalhas grandes de fita azul no pescoço. Pedro vinha na frente, fazendo a maior bagunça. - Não disse que eu ganhava mesmo sem o Gustavo e o André? Vão se fuder, porque nós ganhamos! Pode ir me pagando, Antônio! Por pior que isso possa parecer, eu estava torcendo para que perdessem, pois assim as chances de pararem de debochar de mim seriam maiores, tanto pelo fato de que não debochariam, pois pagariam não podendo jogar e perdendo quando pelo fato de que eu poderia jogar na cara. Infelizmente, Pedro realmente sabe jogar e ganhou. - Ganharam de quanto? – perguntou um dos garotos de minha turma. - O último jogo foi de 3 a 1. Euzinho marquei dois gols! – vangloriou - se Pedro, batendo no peito e beijando a medalha. Pedro e os garotos continuaram conversando, mas eu ignorei. Joguei - me de costas no gramado e fiquei a observar as nuvens. Continuo com sono... Passei algum tempo quieto, apenas observando o céu azul. Percebi que, se você ficar deitado, encarando o céu por algum tempo e mentalizar parece que nós somos quem estão se mexendo, rapidamente. Ou talvez seja somente eu quem vejo isso. - Acordou, Bryan? - Sim – respondi para Luke que sentou ao meu lado. Junto dele estava Mi comi, carregando uma latinha de coca - cola. - Que, ‘cês já se trocaram? Caralho, tenho que me trocar também! ‘Putz, fiquei contando do jogo e me distraí – ouvi Pedro dizer e, logo em seguida se afastar. Algumas peças foram se encaixando em minha cabeça e, em um flash visualizei todo um plano que poderia sair muito bem... E se não saísse talvez não fosse tão horrível assim... Me sentei na grama e dobrei as pernas, aproximando os pés da barriga. - Lucas, você vai tomar todo o refrigerante? 116
  • 117. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga Ele olhou da latinha para mim e maneou a cabeça em sinal negativo. - Não. Já matei minha sede. Você quer? Ele estendeu a latinha para mim e continuou inexpressivo. - Posso jogar fora? - Se ninguém quiser... – ele respondeu confuso, ainda com o braço estendido. - Ótimo! Peguei a lata de suas mãos, tirei os dois canudos verdes e olhei fixamente aquela latinha vermelha. Faço ou não faço...? Ah, foda-se essa merda! Joguei o líquido de dentro em meu ombro e tremi ao senti-lo escorrer. Gelado... - Bryan, por que você fez isso? – Erick perguntou assustado, assim como todos os outros garotos. - Depois conto. Onde está a professora? Luke apontou para trás de mim. Virei-me e a encontrei ela felizmente de costas para nós conversando com uma aluna, pois na euforia esqueci de ver se ela estava nos observando. Levantei - me meio sem jeito. Que nojo esse líquido gelado e meloso grudando minha camisa ao meu corpo! - Professora! – chamei-a. Quando ela viu meu estado surpreendeu-se. – Acidentalmente Lucas derrubou coca - cola em mim. Vou ir ao banheiro tirar a camisa e colocar meu casaco. - Por que não tira aqui? Fiz uma expressão de inocência e timidez. Tentei fitá-la com um olhar infantil, mas não sei se deu certo. - Os garotos ficam me olhando maliciosamente porque sabem que sou gay. Ela nem precisou pensar muito. Nossa professora de artes é bem compreensiva nesse aspecto. - Tudo bem, pode ir. Assim que virei de costas para ela abri um grande sorriso. Tudo parecia estar dando certo, afinal. Entrei no prédio e procurei pelo banheiro mais próximo que ficava ao lado da sala 11. Os corredores estavam vazios e a porta do banheiro masculino fechada. Bati e, sem esperar resposta abri a porta, entrando. Qual foi minha surpresa ao encontrar Pedro ali, erguendo a camisa, pronto para tirá-la? Meu coração acelerou cinco vezes mais e eu soube na hora que estava corando. Pedro tem um tanquinho tão perfeito... Deve ser tão durinho aqueles ‘gominhos bronzeados... Nossa, é impossível eu ser hétero. - ‘E aí, Bryan? ‘Firmeza? E ele nem se importou com o fato de um gay ter entrado no banheiro enquanto ele trocava de roupa. Continuou e terminou de tirar a camisa do time, jogando - a no chão. 117
  • 118. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga Parei na frente do espelho da pia e fiquei a fita - lo por ali. Pedro tem um corpo tão lindo... E, mesmo não querendo acabei por pensar em como seria ter uma noite com aquele corpo tocando o meu, pressionando... Tão quente... Mas, para minha infelicidade ele tinha que colocar uma camiseta novamente, desta vez uma preta com a imagem de um dragão em branco e vermelho, com o rabo passando para trás. Quando ele me olhou mais que depressa puxei um pouco da gola de minha camiseta e sequei meu pescoço gosmento, disfarçando. Pedro sorriu. - O que houve? Os garotos implicando? Como ele pode conversar comigo tão normalmente depois do que aconteceu? Depois daquela terrível discussão. E, apesar de tudo, Pedro me trata normalmente, sendo que no início me tratava como uma garotinha. Se fosse outro – ou antes – nunca me deixaria entrar no banheiro enquanto estivesse trocando de roupa. - Foi Mi comi. Pelo reflexo vi - o rir, ajeitando os ombros da camiseta. Mais do que nervoso, eu desamarrei meu casaco da cintura e coloquei - o próximo da pia. Segurei na barra de minha camiseta e ergui-a, retirando logo em seguida. Observei o reflexo de meu corpo. Pálido demais e magro. Magro com uma cintura fina. Do que me orgulho é de não possuir uma única marca no tórax. Depois de minha noite com Matheus fiquei com algumas marcas sim, mas agora já saíram. - Bryan, posso te fazer uma pergunta de coisa gay? Virei minha cabeça em sua direção, confuso. Não fazia parte de meus planos perguntas serem feitas. Assenti com a cabeça, vendo - o secar meu corpo descaradamente. - Você se excita quando tocam nos teus mamilos? Porque é assim com ‘mina, ‘né. Daí queria saber se com gay também. Abaixei a cabeça, fitando meus mamilos vermelhos. Eu acho lindo e perfeito o corpo de um garoto, mas Pedro não pensa assim. Ele deve gostar daquelas garotas com peitos exageradamente grande, pois a maioria dos garotos tem tara por isso. - Sim, gosto que me toquem... Aqui. Eu... Sempre gostei de ver corpos de garotos e nunca me interessei muito por peitos e bunda grandes, cintura fina com quadril largo... Essas coisas me parecem completamente sem graça. - Uma vagina também? Ou você gostaria de ter uma? Ai porra, ele tinha que ser tão vulgar? Aliás, acho que na maioria das vezes que conversei com Pedro nossas conversas seguiram o rumo do homossexualismo. - Eu gosto de ser um garoto. Só... Acho que o quanto um homem gosta do corpo de uma mulher eu gosto do corpo de garotos. Abaixei o olhar, completamente envergonhado e vermelho. Passei minha unha azul marinho em minha barriga, do umbigo até o meio dos mamilos, descendo novamente. Por que logo eu tenho de ser diferente? 118
  • 119. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga - Estranho... Ah é Bryan, ‘desculpaê por ontem. Sei que você é meio sensível com essas coisas porque gays passam por dificuldades e ‘talz, foi errado de minha parte te julgar. É que nunca saberei como é ser gay e sentir atração por outros garotos. Nunca? Vamos ver, então. Ergui a cabeça e fitei - o de um jeito mais intenso. Pedro ficou confuso. Caminhei até ele, fazendo questão de manter a postura ereta. Fechei a mão esquerda, única com luva sem dedo e coloquei - a em minha cintura. - Nunca, é? Aproximei mais meu corpo, encostando - o no seu. Olhei decidido para cima, pois ele é mais alto que eu. Pedro ficou boquiaberto e sem reação. Como eu gostaria que ele estivesse sem camisa agora... Segurei suas mãos e levei - as até minha cintura nua e quente, colando meu corpo no seu. Pedro continuou a me fitar incrédulo e juro que vi suas bochechas ganharem uma coloração mais avermelhada... Bom, é agora ou nunca. Se Pedro realmente não sentir nada por garotos, mais especificamente por mim saberei agora e passarei uma vergonha tremenda. Mas, se eu não fizer nunca vou saber. Coloquei as mãos em seus ombros e fui empurrando - o para trás. O que me surpreendeu foi o fato de Pedro não retirar suas mãos quentes de mim nem me impedir de empurrá - lo. Fui guiando seu corpo até dentro de uma cabine. Sentei - o no vaso sanitário – com a tampa abaixada, obviamente. Coloquei uma perna de cada lado do seu corpo e sentei em seu colo, rosto a rosto. Tão próximo... - Nada ainda, Pedro? Enlacei seu pescoço com ambos meus braços e aproximei mais meu quadril de seu tanquinho, basicamente sentando encima de seu pau. Encostei nossas testas e observei seu lindo rosto de garoto másculo. Aqueles lábios tão tentadores e o olhar voraz dele, exatamente do jeito que me seduz. Minha respiração começou a pesar. Deus, é capaz de eu gozar e ele continuar sem reação, pois duro já estou. Infelizmente minha ereção acabava por encostar em sua barriga. Eu não queria, pois já será difícil excitá - lo sem seios enormes, uma grande bunda e um buraco no meio das pernas, ainda pior será se ele sentir um pênis! Engolindo meu coração eu tremi e comecei a me mexer, encima de seu membro. Rebolei e simulei uma penetração, subindo e descendo devagar, esfregando - me em seu peitoral. Vibrei, dei mentais pulos de alegria e sorri majestosamente ao sentir um enorme volume roçando em minha bunda. Fechei os olhos e joguei minha cabeça para trás, arfando. Não consigo acreditar que estou mesmo no colo de Pedro, excitando - o dentro do banheiro da escola. Suas mãos começaram a se mexer em meu corpo. Uma desceu, indo apertar minha bunda por cima da calça. A outra subiu e desceu em minha cintura por um tempo até decidir - se por tocar em meu mamilo... Filho da puta! Foi por isso que perguntou? Puta que pariu, vou acabar gozando! Ainda mais sentindo essa coisa enorme e dura dele embaixo de mim, faltando tão pouco para estar dentro de meu corpo... 119
  • 120. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga - Hum... Pedro... – arrisquei - me novamente, chamando por seu nome. Se eu não tivesse dormido com Matheus, nunca teria coragem de chama - lo assim, quase gemendo. O fato é que, entre um garoto e uma garota há mais diferenças do que eu relevei, pois minha voz também não é afeminada. Sua mão esquerda continuou em minha bunda enquanto a direita acariciava minha barriga, subiu até meu ombro e, de lá a meu pescoço, arrepiando meus pelinhos da nuca. Subiu mais, indo para a parte de trás da minha cabeça, enlaçando seus dedos nos meus fios de cabelo. Sua mão empurrou minha cabeça e eu abri os olhos, fitando - o de perto. Seria extremamente fácil beijá - lo. É tentador, tão, tão tentador... Tão próximo, tão fácil, tão delicioso... Mas eu sei que se beijá - lo acabarei perdido em minhas próprias ações, porque vou... Facilita minha vida, Pedro! Vou acabar chegando lá antes de você! Droga... Essa foi uma parte que não pensei... - Bryan...? Sua mão deslizou de meus cabeços para meu rosto, segurando boa parte deste. Ele está me olhando... O que será que se passa pela cabeça dele...? Bem, no momento eu sei: ele quer me beijar. Está tão óbvio! Mas eu não vou. Continuei a me movimentar mais devagar, fazendo maior pressão. Minhas mãos e, infelizmente meu queixo começaram a tremer, tamanho o nível de excitação. Droga, meu rosto está queimando, principalmente onde está a mão de Pedro. O pior é que ele pode ver essas reações. Filho da p... Ele não para de apertar minha bunda! Já deve estar vermelha! Pedro suspirou e deslizou sua mão de volta para meu cabelo, fechando - a ali e apertando com força. O observei enquanto ele fechava os olhos, concentrado em sua ejaculação. Aceitei que ele aproximasse meu rosto do seu por causa da força em meus cabelos. Quando faltava somente um pouco para que nossos lábios se tocassem eu travei, mesmo que aquela força estivesse começando a doer. Pedro abriu os olhos no mesmo momento que afrouxou a mão em meus cabelos. Segurei seu pulso e tirei sua mão de meus cabelos. Me levantei rapidamente e sai dali, peguei meu casaco e minha camiseta encima da pia e me meti na cabine ao lado da de Pedro. Tranquei. Droga... Sentei-me no vaso, juntei as mãos ao peito e curvei meu corpo, encostando no joelho. Observei meus fios de cabelo negros pendendo com a gravidade. - Bryan? Porra Pedro, não entende quando acabou? Que... Droga... Não aguento mais. Minha ereção está incomodando muito! - Bryan. Ele bateu na porta, tentando abri - la. Ele se recupera rápido! - Me esquece, Pedro. Deu. Agora vá contar para seus amiguinhos que gozou com um garoto e que nem ao menos foi necessário tirar a roupa. Ou vai mentir como sempre? 120
  • 121. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga Eu tenho que me acalmar. O que aconteceu foi bom, não é? E eu gostei, mas o que me irrita é que Pedro não vai admitir ter gostado. Ele não vai sair daqui contando a todo mundo que gosta de mim e quer que fiquemos juntos. Bom, é nisso que dá se meter em um plano que você bolou minutos antes de colocar em prática! Quem mandou eu não pensar antes? - Bryan, por que você faz as coisas e depois foge? Quero conversar com você. Por quê...? Porque tenho medo de conversar. Tenho medo do que irá dizer. Devo admitir - lhe isto? Um barulho interrompeu meus pensamentos e capturou minha atenção. - Merda! – Pedro resmungou antes de sair de perto da porta. Levantei a cabeça e fitei a porta rabiscada a minha frente. Alguém havia entrado no banheiro. - Ainda tá aqui, Pedro? - ‘Tô! ‘Calmaê que ‘to terminando de tirar o uniforme. - Ainda cara? Que lerdeza! Droga, ainda estou ereto. E eu realmente não aguento. É impossível esperar uma ereção parar! É torturante demais... - ‘Bora lá contar daquele primeiro gol. Os ‘caras não ‘tão acreditando! - ‘Putz, tem que ser agora? - Claro! Para de se ‘fresquear e ‘vamo logo! - ‘Tá, tá! Se acalma, seu merda! E tem que ser rápido! Envergonho - me só de pensar que vou mesmo fazer isso no colégio... Droga... Desabotoei minha calça e desci o zíper. Peguei minha camiseta azul marinho mesmo, pois já está suja. Não posso sujar minha calça. Devagar fechei os olhos e tirei meu pênis de dentro da calça. Segurei - o com a blusa e comecei movimentos devagar. Abri bem a boca para que o suspiro aliviado que saiu de meus lábios não se tornasse evidente. Era um alívio poder me tocar finalmente. Ouvi o barulho dos garotos se afastando. Finalmente sozinho no banheiro. Isso não acaba completamente com minha vergonha, mas a diminuí drasticamente. Ainda sim fazer isso no colégio... Ainda mais no banheiro daqui que não é muito limpo. Nem um pouco limpo. Segurei na base e movimentei para cima e para baixo, escorregando a mão pela extensão. Passei o polegar na glande, espalhando o pré - gozo já presente. Eu queria Pedro me tocando e se importando. Gostaria de poder passar uma noite de amor com ele, sem ter que pensar o quanto ele gostaria que fosse uma garota em meu lugar. Queria ouvi - lo dizer que gosta de mim, de meu corpo, do fato de que sou um garoto... Porque eu sempre vou preferir um garoto a uma garota, mas ele não. 121
  • 122. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga Acima disso, gostaria de sentir seu toque deslizando em minha cintura novamente. Sentir seus lábios úmidos em meu corpo, meus mamilos... Eu deixaria que ele apertasse minha bunda sem a calça e ele diria: “Bryan, isso é muito melhor do que com qualquer garota do mundo”. Seria incrível, não? Aquelas mãos maiores que as minhas... Seu toque, seu corpo... Ah, tocá-lo então! Contornar todos aqueles ‘gominhos gostosos... Poder lambê-los... Sentir seu membro grande dentro de mim, apertado deixando - me com a certeza de que ele estava ali, me possuindo... Tão gostoso... Não foi preciso muito e espasmos tomaram conta de meu corpo. Eu tremi sentindo aquele arrepio tão gostoso e indescritível extasiando meu corpo. Tremi da cabeça aos pés e gozei, sentindo o líquido quente sujar minha camiseta. Recostei a cabeça na madeira que separava as cabines ao meu lado. Abri os olhos e encarei a porta com algumas coisas escritas. Meu coração estava na garganta. Ainda esfreguei meu pênis devagar algumas vezes para ter certeza que dura saíra e que não sujaria minha cueca. Ainda bem que ninguém precisa saber o que eu fiz... Depois de algum tempo para me acalmar e me limpar eu me vesti e arrumei minha calça e cueca. Meu casaco, agora em meu corpo é preto com dizeres em azul e cinza. “Choose your way”, Foi uma das poucas roupas que meu pai escolhera para mim e uma das menos emo que tenho. Ainda me pergunto se ele escolheu a frase propositalmente, pois tal atitude não segue em concordância com seu jeito. Ah, no dia ele também me deu uma calça jeans larga, mandando - me usa - las, pois teríamos visitas. Eu rasguei no joelho e nos bolsos. Ele ficou furioso. Sentei - me no chão com as costas na divisória da cabine atrás de mim e os pés quase passando para a cabine a esquerda. Flexionei meus joelhos, pois se não eu não conseguiria manter - me ali. Puxei as mangas até meus dedos e cruzei os braços na frente do corpo, com a cabeça descansando na porta. Sou um homossexual de merda que não pode fazer amizade com um hetero. Sou o motivo de alguns heteros terem nojo de pessoas como eu. Eu fiz algo muito errado. Pedro gozou comigo e isso ainda me parece muito irreal, mas talvez ele pensasse em outra pessoa ou esteja gostando de outro garoto, não necessariamente eu. Pode ser Mi comi, pois ele sempre fala dele. Droga, o garoto gozou comigo! Eu deveria estar feliz! Por que não estou? Acho que é porque não posso tê - lo como meu namorado... Mesmo que ele sinta atração não irá querer ficar comigo, pois já disse que não assumiria ter ficado com um garoto. Aliás, ele me deixou sozinho aqui. Levantei - me e abri a porta, decidido a voltar para a aula. Fechei meu casaco até o pescoço e saí do banheiro. Andei pelo corredor e ouvi um barulho baixo, vindo de uma das salas de aula. Acho que a do outro primeiro ano. Aproximei - me da porta e pude ouvir um choro. Eu... Infelizmente reconheci o choro; era de Mi comi. Droga, eu não quero ter de aturá - lo chorando. É mais fácil fingir que não ouvi nada. 122
  • 123. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga Capítulo 14: Alguns problemas surgem para... Para fuder com tudo! Silenciosamente dei alguns passos para trás e, quando me virei vi Matheus encarando - me. Com o susto dei um pulo para trás, espaço este que ele avançou em minha direção. - Vai fugir e deixa - lo chorando? Você é uma má pessoa, Bryan. - Olha quem fala! – rebati, irritado. Ele é o último que pode me chamar de má pessoa! - Você quer saber? Em partes a culpa por Lu estar chorando é sua! – ele disse em um timbre baixo, provavelmente para Mi comi não ouvir. Minha... Culpa...? - Eu cuidei para que Alex ficasse longe dele. Eu tive de dormir com ele contra minha vontade para deixa - lo longe de Lu! Você estragou tudo se metendo! Você... Por sua culpa Alex quase o estuprou, mas quando você viu Lu chorando quis sair e deixa - lo sozinho! – ele disse novamente baixo para que somente eu ouvisse. Então Alex... Pegou Lucas... A força? E aquela conversa de “não quero magoá los”? Mas faz sentido, pois Lucas tem se mantido quieto e ele não é nem um pouco assim. Mas isso... Então Matheus é realmente uma boa pessoa... Muito boa pessoa. E eu me condenei por ter transado com ele, mas ele é amável e põe os outros na frente de si. Ele só mentiu para proteger Lucas e aceitou coisas que ele não queria. Matheus me contou o quanto achou ruim ter tido sua primeira vez com Alex, mesmo assim tem transado com ele até hoje por proteção a Lucas... E o loiro oxigenado foi abusado... Que horrível! - Você tem agido de forma arrogante com as pessoas que te amam. Lu nunca te quis mal, pelo contrário, só quis um pouco da tua atenção. Você tem sido uma pessoa ruim e... Não foi por esse garoto que eu me apaixonei. Fitei - o assustado, tentando entender suas palavras. Foi difícil acreditar naquilo. Por mais que eu repetisse mentalmente sua última frase eu não conseguia acreditar. As bochechas de Matheus estavam levemente avermelhadas, demonstrando que ele falava sério. Matheus passou ao meu lado, indo para a sala onde estava Lucas. Eu continuei alguns segundos petrificado no lugar, sem saber o que fazer; que reação ter. Foram três reviravoltas ao mesmo tempo e eu realmente não estou acostumado com isso. Primeiro, Lucas foi abusado por Alex e, em partes a culpa é minha. Segundo, Alex é muito mal e usou não só Lucas, como Matheus também. Terceiro... Matheus é apaixonado por mim... É isso, não é? Desde quando? O quanto? Mas mais importante agora, tenho que falar com Lucas. Dei meia volta e entrei na sala de onde vinha o choro. Encostado entre a parede da direita e a do fundo estava Lucas, atrás de uma classe, sentado no chão, chorando encolhido. Matheus estava ao seu lado. Aproximei - me devagar, seguindo em linha reta entre as classes e a mesa do professor e dobrando na ultima fileira, até chegar em Lucas. - O que houve, Lucas? – perguntei fingindo desconhecer sobre o ocorrido. Agachei me a sua frente. Lucas ergueu o olhar choroso para mim e, logo em seguida abaixou, 123
  • 124. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga escondendo o rosto com as mãos. Jogou a cabeça em minha direção e recostou - a em meu colo. - Bryan, desculpa... Eu sou um garoto tão horrível... Meu peito se contraiu. Agora eu entendo quando dizem “é de partir o coração”. Ver a imagem de Lucas encolhido e se escondendo em meu colo, escondido pela classe realmente deu sentido a expressão. E sabe quando dizem “aquela imagem vai me perseguir pelo resto da vida”? Bem, não digo pelo resto da vida, mas que vou me lembrar por um longo período de tempo... - Por que você acha que é uma pessoa ruim? Quando ele aconchegou - se mais em mim, escondendo o rosto em meu casaco e fungando violentamente me senti acolhendo um animalzinho maltratado. O pior era saber que o olhar de Matheus estava sobre mim, condenando - me e culpando - me. Matheus não parece ser o tipo de pessoa que julga os outros e, se ele faz agora é porque deve ser algo muito horrível. - Eu... Senti ciúmes de você... Eu quis que você não fosse fofo para que eu fosse mais... Me desculpa Bryan, eu sou um garoto horrível! Mas eu... Eu gosto tanto de ti... Eu te amo Bryan, você é um dos meus melhores amigos... Como ser insensível a uma declaração dessas? Eu sou um dos melhores amigos dele? Lucas está tão mal de amigos assim? Sei que não posso julgar, pois também não possuo amigos, mas também não considero os únicos com quem falo meus melhores amigos. - E... E você está certo quando diz que sou falso. Eu não sou alegre, meigo e fofo. Você me supera muito mais facilmente. Minha família está sempre brigando, meu pai me odeia, minha irmã tira tudo de mim... - Lucas... Eu nunca parei para pensar em... “Fofura”. Para mim eu sou somente um garoto emo e Lucas um emo saltitante, ou o Mi comi... Ou melhor, era o Mi comi porque não posso chama - lo assim se Alex estuprou - o. - Me desculpa Bryan? Por favor? Acariciei seus cabeços loiros falsos observando seus olhos castanhos brilharem por conta das lágrimas e o preto debaixo de seus olhos completamente borrado. Mesmo triste a expressão ainda era de criança, com a pele coberta de maquiagem, os lábios vermelhos com gloss e cílios longos e volumosos. Lucas estava fofo e era, inegavelmente um garoto. - Você não tem motivos para se desculpar. Eu sou o errado em... – pausei, tentando encontrar as palavras certas. O fato é que eu sou culpado por muitas coisas! – Em “competir” com você. Eu não quero ser fof- Eu sei! Esse é um dos problemas! Você me supera sem nem ao menos tentar... Abri a boca para rebater, mas me calei. O que posso dizer? Eu realmente não tento e não quero. Na verdade, descobri que sou fofo agora. Que... Eca! - Desculpe Lucas. 124
  • 125. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga Continuei a observar seu rosto molhado com a maquiagem borrada. Agora ele estava com a cabeça de lado em meu colo, um pouco mais calmo. Os dedos estavam nos lábios enquanto seus olhos brilhantes observavam Matheus. Ele fungou fortemente algumas vezes até Matheus se inclinar e, com a manga do casaco limpar o nariz de Lucas. Que nojo! Tudo bem que eu também limpo, porém somente o meu. Eu amo Lucas, mas não a sua meleca nojenta. - Bryan, Alex me usou... – ele miou, virando o rosto na direção de meu peito. Mais lágrimas escorregaram por sua bochecha, estas com partículas negras por conta da maquiagem. - Tsc, ele sempre foi um idiota. - Não vem com essa agora! Você ficou com ele e... Gostou... Olhei de relance para Matheus, observando sua reação. Ele também já ficou com Alex, muitas vezes. Agora sei que era com bons motivos, mas... É estranho mudar a imagem que tenho de duas pessoas em somente alguns minutos. - Eu não gostei – mentira. – Tanto é que abri mão dele para você facilmente. Ele sorriu fracamente e colocou a mão nos lábios, fitando meu casaco. - Ele me disse tantas coisas ruins... Por que isso? Eu não entendo! Lucas somente o amou, de seu jeito pegajoso, mas era amor. Por que feri - lo desse jeito...?Eu nunca conseguirei ser insensível assim e é por isso que desisto de continuar a fazer o que eu estava fazendo. Pedro e Matheus estão certos; estou arrogante. Eu fui uma das pessoas quem magoou Lucas. Eu machuquei Matheus, se bem que eu ainda não consigo digerir aquela informação de “o garoto por quem me apaixonei”. Mas é só que, quando Pedro me disse isso me pareceu tão irreal. Me pareceu mais como um hetero de orgulho ferido. - Eu quero beijos! – Lucas anunciou chamando minha atenção. Ele virou a cabeça para cima e fitou - me com aqueles olhos brilhantes. Sorri, sentindo - me mal por dentro. - Meu fofinho – Matheus disse a abaixou o rosto próximo ao de Lucas, depositando em seus lábios um selinho. - Agora quero seu, Bryan. - Não – minha resposta saiu curta e grossa, mas não foi intencional. Respondi desta forma porque não quero beijá - lo em paralelo com Matheus, de certa forma provoca me... - Por quê? - Porque sinto ciúmes. Não vou dividí - lo com Matheus. Ou você é meu ou dele. Lucas riu, acreditando em mim. Fora sincera minhas palavras, porém fora estranho admitir. De certa forma, senti - me melhor dizendo - lhe o que eu disse, pois fez - lhe bem, mesmo que somente um pouco. - Então o Bryan que fique longe, porque você é meu. Olhei para Matheus que sorriu de canto, incentivando - me. Era um estímulo para que eu entrasse no jogo e ele estava certo em fazer assim. 125
  • 126. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga - Eu disse que não quero dividi - lo, ou seja, ele será somente meu. Lucas riu mais um pouco, incentivando - nos. Tais atitudes de nossa parte fazia - lhe bem e isto era o suficiente. - Ele é a minha fofurinha, consiga a sua! – Matheus rebateu, fazendo - lhe feliz. - Impossível! Você fala isso porque sabe que não há outro garoto fofo como Lucas na cidade. - Mas eu não vou abrir mão. - E ele está no colo de quem? - Só porque você chegou agora. Antes ele estava comigo! - Dá para parar de me provocar ciúmes? Agora ele está comigo e isto é o mais importante. Lucas riu mais alto, interrompendo - nos e provocando - nos sorrisos satisfeitos. Ainda dói o peito vê - lo em tal estado, porém agora é melhor. Entendo Matheus em querer fazer o bem para nós, pois me sinto realmente feliz e satisfeito em vê - lo mais alegre somente por uma briguinha armada. - Eu amo vocês, meninos – Lucas disse fazendo - nos sorrir mais abertamente. Fora tão fácil fazê - lo bem...Por que o maltratei durante tanto tempo? Ele admitiu ser falso, mas não do modo que eu julguei. Pedro soube melhor do que eu o que Lucas sentia. Ele esconde, mas não sentimentos ruins, somente tristeza... *** Eu sou um grande idiota! Como pude esquecer minha camiseta suja no banheiro? Eu sou tão burro assim? Adentrei o banheiro percebendo que ninguém estava lá e tranquei a respiração, tão nervoso que meu corpo já dava sinais de oscilações. E se algum garoto pegar? Com certeza saberá que me pertence. Ah, que vergonha, não quero nem pensar nisso... Segui para a cabine onde outrora eu estivera. Suspirei retirando todo o ar proveniente de meus pulmões; ela estava ali, embolada, assim como eu a deixara. Não quero nem considerar a mínima probabilidade de alguém tê - la visto... Fechei a porta e sentei no chão, perante o vaso sanitário. Recostei minhas costas na divisória da cabine a direita e dobrei os joelhos, parado, ali. Aproximei minha camiseta de meu rosto e cheirei, sem prestar atenção em meus próprios atos. Aproximei - a de meu rosto, sentindo a malha tão confortável... Bocejei, tentando a adormecer. Alguém entrou no banheiro, mas não me importei que me vissem por baixo da porta. Quem será o idiota a ficar olhando quem está usando os banheiros? - ‘Bora lá Pedro! Vou te esperar na sala! - Se manda logo! Pedro? - Bryan? 126
  • 127. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga Não respondi. Por que ele voltou? Eu não quero ouvi - lo pedir desculpas! Eu sei que ele está curioso e que não quer nada sério, já sei disso! - Estou te vendo. Uma mão veio de baixo da porta e, rapidamente apertou minha cintura, fazendo - me cócegas. Eu ri. Ela saiu tão rápido quanto entrou. Deve haver uns 20 cm entre o chão e a porta. - Tudo bem? - Sim. - Então por que ainda está aqui? - Já saí e já voltei. Agora estou matando aula. - Está mesmo tudo bem? - Sim... Meu peito se contraiu e um bolor se formou em minha garganta. Uma lágrima escorreu, mas não fiz nenhum barulho. Acho que preciso ver a psicóloga novamente... Passei o polegar em minha bochecha, tomando cuidado para não apertar e ficar vermelho. Apoiei a mão no piso gélido, deixando - me com frio. Tentei me controlar, mas parece que permitir a saída de uma lágrima somente sufoca mais. - Não quer ir indo para a sala de química? Senti um toque em minha mão e recuei assustado, recolhendo - a do chão. Ele recolheu a mão também. Ajoelhei - me e sentei sobre minhas pernas. Coloquei o capuz e encostei a cabeça e as mãos na porta. - Sei que tens vergonha de aparecer comigo na frente dos teus amigos – para minha infelicidade minha voz saiu oscilante e rouca. - De dizer que já fiquei com você, mas não de você em si. Não faz mal se nos verem como amigos. - Pedro... - Oi? - Seja sincero. Você sente atração por mim? - Você não pode deduzir depois do que acabou de acontecer? - Você age de forma tão indiferente... - É porque eu sei que você quer um namorado sério e não só se divertir. Eu gosto de você, mas não... Desse jeito. Eu ainda não me considero “gay”. ‘Talveeeeez e só talvez bi, mas gay não. Até porque, é mais curiosidade. Escorrei na porta e fechei os olhos. Estou com sono novamente e, mais do que isso, estou nervoso, com o coração quase saltando pela boca. 127
  • 128. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga - Bryan... – ele me chamou, mas eu não respondi. – Você é muito... Atraente. E se quiser sentar comigo na aula de química é só dizer. Ele se levantou e saiu do banheiro, deixando - me para trás. Tombei para o lado, pensando... Eu gostaria de poder desabafar com Rita, minha psicóloga. Ela era tão compreensiva... Imagina só sua reação ao saber que eu fiz um dos garotos mais competidos do colégio gozar... E... E saber que fiz o garoto mais doce e meigo do colégio chorar e ser quase estuprado... ...E o garoto mais bondoso do colégio transar comigo e depois – talvez antes – se apaixonar... Em seguida me achar um arrogante... Transar é uma palavra mais forte que “dormir” ou “ir para a cama”. Porque, eu transei! Eu não sou mais virgem! *** Tranquei a porta de casa e larguei as chaves na mesinha ao lado da mesma. Saí do hall de entrada e atravessei a sala. Abri a última porta a direita e entrei na cozinha. - Oi Amanda – cumprimentei a senhora de, aparentemente 40 anos de nariz gordo, sardinhas em todo o rosto e boca ressecada que colocava a mesa. A casa de minha mãe é bem diferente da de meu pai. Antes as refeições eram feitas na mesa normal ou na mesa de jantar, cada uma em cômodos diferentes. Aqui há somente uma mesa retangular para quatro pessoas no meio da cozinha, a qual não é muito espaçosa. - Bom dia Bryan. Você viu a movimentação na vizinha? - Não. Dei de ombros e me sentei na mesa, observando enquanto Amanda colocava a mesa para duas pessoas. Pratos, talheres, copos, panelas, refrigerante... - Prefiro suco – adverti - a. Fui acostumado a tomar refrigerante somente final de semana, pois faz mal a saúde. Amanda sempre esquece. - Parece que vão fazer o aniversário de quinze anos da Isa na garagem deles. - Hum... – tsc, não faço a mínima quem é Isa. - Esqueci de fazer suco mais cedo. Pode ser com água normal? Suspirei. - Não precisa se dar ao trabalho. Somente me sirva um copo d’água. - Sim. Ela me serviu um copo d’água da torneira e pôs ao meu lado, guardando a garrafa de coca - cola de volta na geladeira. - Será que ela irá te convidar? - Não. - Por quê? 128
  • 129. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga - Porque nunca conversei com ela. – Na verdade, nem sei como é o rosto da garota. - Então converse agora! Sorri e comecei a me servir. Galinha escabelada, arroz, feijão, ervilha... Durante o almoço Amanda insistiu em puxar assunto e fofocar, como sempre. Ela costuma contar da vida de pessoas que eu não faço a mínima quem são. Mesmo que já faça um mês que estou aqui ainda não conheço quase ninguém da vizinhança. - Oi Bryan, quer ouvir uma fofoca? – ela perguntou mais interessada que o normal. Senti - me tentado a responder “mas não é só isso que você faz? Contar fofocas?” porém, não o fiz. - Diga – incentivei - a para não ser grosseiro. - Ouvi uma conversa de sua mãe com seu pai... Ergui o olhar, interessado. Ela sorria como uma criança travessa e riu, realizada em ter captado minha atenção. Mastiguei com força, nervoso. Tive de me conter para não me apoiar encima da mesa, aproximando - me dela para ouvir melhor. - Conte! Mais uma vez ela riu, apoiando ambos os antebraços na mesa e, nestes o busto volumoso. - Eu ouvi o lado da sua mãe da conversa, mas parece que seu pai está interessado em adotar uma criança... E ainda, um menino! De repente, mastigar me pareceu vazio e sem necessidade. Engoli a comida que passou com dificuldade por minha garganta enquanto aquela dor forte esmagava meu coração. Larguei o garfo no prato, produzindo um timbre agudo e puxei a cadeira para trás com força, levantando - me apressado. Antes mesmo de passar pela porta a dor já explodira de meu peito e corpo, ganhando a necessidade de escorrer por meus olhos. Adotar, adotar, adotar... Meu pai quer adotar um garoto porque seu filho biológico é um gay nojento! Corri pelas escadas escondidas no canto da sala e fui para meu quarto, encolhendo - me ao lado da cama. Abracei minha barriga e senti aquela dor horrível no coração, fazendo - me trancar a respiração. Ele queria adotar um menino para ficar em meu quarto, ter a ajuda de meu pai nos temas do colégio, comer com ele, vestir as roupas que deveriam ser para mim, ganhar presentes... “O verdadeiro deu errado. Vou tentar adotar, porque fazer outro corre o risco de sair errado como o primeiro. Prefiro algo de outro ao meu verdadeiro filho”. Eu não acredito... Adotar! Ele quer um garoto de verdade, não eu. Ele quer um garoto heterossexual e que não seja emo, para que ele não tenha que passar vergonha. 129
  • 130. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga A dor em meu peito só aumentava e forçava - se por minha garganta, tentando sair toda ao mesmo tempo, mas era impossível. - Bryan? - Não entra! – gritei quando percebi que a porta estava se abrindo. Peguei a primeira coisa que vi no chão e joguei na direção da porta: um pente. - Venha aqui. Vamos conversar... - ME DEIXA! – junto às palavras eu gritei. Gritei tão forte que minha garganta doeu. - Por favor, Bryan... - Se entrar te mato! Deixe-me em paz! Deitei de lado no chão, ainda encolhido. Minha garganta e meu rosto ardiam e, mesmo desviando meus pensamentos do assunto a dor não diminuía. - Vamos Bryan... - SAI DAQUI! Finalmente ouvi a porta ser fechada e apertei os olhos com força, chorando com mais intensidade. Gritei. Gritei o mais alto que pude; mais alto que meus pulmões permitiram. Minha garganta ardeu e eu gritei de novo, tentando retirar pelo menos um pouco da dor de dentro de mim, mas era uma atitude inútil. A dor latejante tomara conta de meu peito e se alastrava por meus pulmões, tornando difícil respirar direito. Alcançou meu estômago, atingindo - lhe com vincadas e reviravoltas. Meu corpo inteiro treme involuntariamente. Dói. Dói tanto que é impossível descrever. O choro é desesperador, pois parece que a medida que choro a dor aumenta. Dói mil vezes mais que múltiplas facadas, colocando em hipérbole. Mas dói tanto, mas tanto... Meu pai quer um filho de verdade. Ele não simplesmente tem vergonha de mim, como também não me quer e não me ama. Meu pai me odeia, mesmo como filho único. Filho único até agora porque ele vai conseguir um garoto de verdade; o filho que ele sempre quis. Como vou sobreviver sabendo que meu pai está amando outro garoto? Que ama outro filho que nem ao menos tem seu sangue! Que ele não cuidou, viu crescer e mesmo assim ama facilmente, mil vezes mais do que já me amou... “Você fala como se eu te amasse...”. Dói tanto, mas tanto... Meu pai foi tudo para mim durante tanto tempo... Dói, dói, dói... Por que eu tenho que ser tão errado...? Gostar de garotos... Por quê...? Garotas até são bonitas... Por que eu tenho que possuir um gosto tão estranho e repugnante...? Pai, perdão... Se eu pudesse eu seria normal. Quer dizer, eu posso, mas não será eu. Desculpe por te decepcionar tanto... Eu nasci completamente errado. Emo, gay... Eu sou uma vergonha! Se eu fosse normal meu pai não me odiaria... Dói... Mas como me 130
  • 131. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga encaixar, se sou tão absoluto em minha decisão... Eu gosto de garotos, eu gosto de ter aparência de emo, eu... Eu sou o pior filho que um pai pode ter... “– Você é um pirralho de merda! Você é um gay de merda! Nunca me importei que você fosse burro, afeminado, anti - social e um doentinho que não pratica nenhum esporte. Eu aguentei esse seu gosto ridículo e, mesmo passando vergonha eu comprei esse monte de bobagem gay para você! Agora, acima de tudo vem me dizer que também é viado? Que quer beijar homens e dar a bunda pra eles? Eu não criei isso! Eu não vou aturar esse seu comportamento!” Quanto choro... Me desculpe, pai... Eu não faço de propósito, sou errado assim mesmo. Não é sua culpa... Mas adotar um filho... O que será de mim? Eu... Deus, eu daria tudo para ter nascido hetero e normal. Eu teria feito tantas pessoas felizes se assim fosse... Se... Se eu... Se eu morresse meu pai me aceitaria e não teria mais que passar vergonha tendo a mim como filho único. Ele adotaria, como quer e eu não sentiria toda essa dor, assim ambos seríamos felizes... *** Que horas são...? Amanda já deve ter ido embora... Agora só volta na hora do jantar, se já não for hora do jantar. Chorei até dormir e meu corpo todo dói. Além do que, parece estar mais frio e um arrepio percorreu meu corpo. Meu celular tocando? Desde quando me ligam? Tateei meu celular encima da cama e, adivinha? Mensagem da operadora. Só podia ser. Certo, tanto faz. Coloquei - o no bolso da calça por costume. Levantei - me com uma puta dor de cabeça e considerei me atirar na cama, mas isso não adiantaria muito, pois não conseguiria dormir. Normalmente não uso o computador, por mais estranho que isso possa parecer. Acontece que aqui na casa de minha mãe há somente um notebook que ela carrega por tudo que é lugar. Eu poderia ouvir música em uma amplitude bem forte, como amo fazer, mas somente atrapalharia as pessoas (vizinhança e, Amanda, quando ela chegar). Acho que irei ver televisão e comer qualquer coisa... Funguei e tremi o queixo, seguindo até meu guarda - roupa minúsculo. As portas estavam abertas e, na frente dele uma montanha de roupa. O que vestir...? Catei as peças menos gay possíveis. Mexi em meus sapatos atirados ao lado do guarda - roupa procurando um que não fosse All star, nem botas, nem semelhantes... Retirei meu casaco e me virei para o espelho na parede. Observei meu corpo somente da cintura para cima, o rosto levemente inchado e o cabelo completamente bagunçado. Me aproximei do espelho e liguei a luz, observando meu rosto. Tirando o amassado Mi comi estava certo: pele perfeita. Isso me incomodou. Lucas deve ser o lindinho perfeito! Eu não sou perfeito, sou um lixo! Eu estraguei a vida dele! Eu estraguei a vida de meu pai, minha mãe, Matheus, Erick, Pedro... Virei o rosto, observando minha bochecha livre de marcas. Se houvesse um único arranhão cortando de fora a fora... Ninguém entenderia se eu cortasse, mas seria uma demonstração da imperfeição. Para meu pai isso não é necessário, pois já sou 131
  • 132. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga completamente imperfeito. Mas não vou cortar meu rosto. Seria uma cicatriz para sempre... Horrível! Não quero mais nem ao menos pensar nisso. Afastei - me um pouco e fitei meu tronco. Em seguida bati o queixo por conta do ar frio que bate em minha pele. Tentei ver minha calça, mas era impossível. Irritado, retirei o espelho da parede e coloquei no chão, apoiado no canto da cama. Olhei meu próprio corpo. Tentei me imaginar com uma garota qualquer. Uma com curvas, seios, cintura fina... Morena, cabelo liso e comprido, magra... Isso não me atrai nem um pouco. Me parece tão... Vazio. Nem ao menos desejo imaginar meu corpo em contato com o de outra garota, impossível! Uma vagina então... Eu não quero! Quero um garoto... MERDA! Voltei minha atenção as minhas roupas e mexi em todas, revirando mais ainda. As de cima foram para baixo e as de baixo para cima. Há uma camiseta de banda que comprei a pouco tempo, talvez encima da mesinha com o despertador... Foi tudo muito rápido e, mesmo parando para pensar fora impossível raciocinar o que fazer. Em um momento eu estava bem, apressado, procurando por minhas roupas e no outro com uma dor latejante. Meu pé prendeu embaixo de uma montanha de roupa e, sem perceber girei meu corpo para ir procurar minha camiseta. Houve um momento de desiquilíbrio e eu fui ao chão, caindo encima do espelho. Por reflexo coloquei os braços na frente do corpo. O espelho se espatifou em vários pedaços pequenos, tendo como influência o peso de meu corpo. Machuquei meus braços, que protegeram meu tronco e meu rosto, mais precisamente o lado esquerdo de meu rosto, nem tão livre de se machucar... Depois do susto ergui meu corpo e a primeira coisa que vi foram meus braços, escorendo sangue vermelho vivo. Se a dor era grande antes, agora imensa. Foi desesperador ver aqueles pedaços de vidro presos em minha carne em feridas abertas enquanto meu sangue escorria rapidamente por meus braços, já começando a pingar... - Bryan, tudo bem? 132
  • 133. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga Capítulo 15: Porque você está vivo e envolvido em amor. Parte 1 Ouvir a voz de Amanda somente aumentou meu nervosismo. Meu coração palpitou forte e assustado, várias vezes. Lágrimas escorreram de meus olhos pelo medo e pelo susto. Fitei meus braços trêmulos e, com a mão esquerda tirei os cacos maiores de meu braço direito. Um garoto que consta em seu histórico tentativa de suicídio e que passou o dia chorando agora aparece ensanguentado. O que as pessoas deduzem? - Bryan? Retirá - los somente aumentava a dor. Imaginar minha carne sendo rasgada com cada uma daquelas fincadas... Horrível. Mas eu quero tirar todos; preciso retirar todos... A porta de meu quarto fora aberta por Amanda. Chorei enquanto ouvia o barulho de algo de metal ir de encontro ao chão e de sua boca sair uma interjeição de susto. - Bryan, o que você fez...? Quis responde - la, mas somente me encolhi em meio ao choro. Eu não fiz nada... - Seu rosto... Meu... Rosto...? Tremendo, levei meus dedos a minha bochecha esquerda e, sem querer empurrei um pedaço de vidro milímetros para dentro de minha bochecha. Em pânico uma pancada de dor atingiu meu rosto e eu gritei. *** Corredores de lajotas brancas, piso antiderrapante branco... Adivinha onde estou? Num hospital... Num maldito hospital esperando minha mãe chegar porque tenho histórico suicida e acham que eu tentei me matar! Porra, eles não sabem a diferença de cortes propositais e cortes acidentais? Médicos de hospitais públicos de merda, não sabem de nada. Quando cortei meus pulsos além de me fazerem os curativos o médico já me fez uma análise psicológica e me mandou consultar com tudo que era possível! Sério, vão se fuder! Tomara que o mundo exploda! Eu tenho mais é que me matar mesmo... Deitei no banco pequeno e duro, observando o forro do teto. Dobrei as pernas, mantendo os joelhos juntos e continuei a fitar o nada... Minha mãe deve estar apavorada. Pense nisso, ela levando sua visa e ligam para ela do hospital que o filho tentou se matar. Se fosse antes eu até tiraria proveito dessas feridas, mas é minha mãe, ela não tem culpa. Meu pai tem... É por ele que eu morreria, em todos os sentidos. O que será que os garotos estão fazendo agora? Principalmente Lucas... Vai ser bom para ele me ver amanhã, perceberá que tem gente pior. Estou cheio de cicatrizes para sempre, substituído por um garoto adotado... Droga, não quero chorar em um hospital. O corte em meu rosto só pode ser castigo de Deus. Quem me mandou cogitar a possibilidade de cortar meu rosto? Eu não quero ficar assim para sempre, droga. - Bryan? 133
  • 134. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga O susto fora tamanho que eu, literalmente pulei do banco, ficando de pé. A dois metros de mim estava meu... Eu simplesmente não acreditei. Meu coração pulou e meu corpo todo sentiu o impacto de sua presença com uma pancada forte e, logo amolecendo por completo. E eu... Sabe o que é não saber o que pensar; o que dizer? Eu simplesmente... - Pai... Mas ele estava ali, com uma camisa social branca puxada acima do cotovelo e seu famoso rolex preto que sempre me irritou. Ele não me pareceu irritado, mas eu nem prestei atenção, pois minha mente não raciocinou nada direito, nem sua presença... Ali. Cai sentado no banco atrás de mim e fitei o chão, apavorado. Ele está mesmo aqui? Não seria minha mãe? E o que ele está pensando? Por que veio? Não entendo! Levei ambas as mãos ao meu rosto, cada uma de um lado e tentei controlar minha respiração, mas a todo momento ela saia desesperada e desordenada, como se subitamente eu pudesse parar de respirar. - Bryan... Sua sombra me escondeu e ele se abaixou a minha frente, colocou ambas as mãos em meu rosto, substituindo as minhas. Segurei em seus braços e o fitei. Surgiu de imediato o choro. - O que você fez... Seu cabelo, esses piercings, seu rosto... - Eu não fiz... – Meu rosto eu não fiz, o resto eu fiz. – Me desculpe! Eu não quero ficar com cicatrizes horríveis, pai... Não consegui fita - lo e abaixei o olhar. Eu sei que há milhares de coisas para serem ditas, mas simplesmente saiu o que saiu. Com tanta coisa e meus pensamentos tão desorganizados eu não soube por onde começar. - Calma Bryan, é só fazer uma cirurgia plástica. Eu percebo que todas as pessoas passando pelo corredor olham para nós, mas não me importo nem um pouco. - Desculpe... Ele passou sua mão grande em meu cabelo, puxando minha franja comprida para cima, mostrando minha face. Em seguida sua mão deslizou por todo meu rosto, inclusive tocou em um de meus piercings. - Está tudo bem filho, apenas se acalme. Estou aqui. Filho... Filho... Ele me chamou de filho. Limpei meu nariz com a manga da camiseta e aceitei ser abraçado com força. Descansei minha cabeça em seu peito e aproximei as mãos do rosto. Era quente todo seu corpo, mas mais que isso, era um sentimento indescritível que me amansou. Era o carinho, a preocupação, a palavra “filho” dita com tanto esmero repetindo - se em minha cabeça... Eu sou paradoxal em sentir um desespero avassalador e uma felicidade emocionante ao mesmo tempo? - Bryan? – dessa vez quem me chamou fora minha mãe, em um tom preocupado. Não soltei de meu pai, mas percebi ela se aproximando e, logo sua mão estava em meu cabelo, acariciando - lhe devagar. 134
  • 135. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga Refleti de tudo um pouco até minha mente ir enfraquecendo meus pensamentos e eu me acalmar. Pensei em levar em consideração minha mãe e abraça - la, mas finalmente estar com meu pai, de uma forma tão carinhosa era impossível desperdiçar. Meu pai acabara por sentar - se de lado no banco e eu encolhi as pernas encima do mesmo, recostando minha cabeça e meu tronco no peitoral largo dele. - Se sente melhor? Observei, completamente embriagado pelo conforto, as pessoas passando pelo corredor do hospital. Passou uma moça com uma criança de uns 4 anos no colo, com a mesma chorando. Isso me lembrou de quando eu tinha a mesma idade e quebrava o braço com facilidade ou tinha ataques de asma, gripe, infecções... Durante a madrugada, sem reclamar meu pai me pegava no colo e me levava para o hospital rapidamente, sendo que na manhã seguinte tinha de trabalhar bem cedo. - Bryan, filho, você tentou se matar? – minha mãe perguntou calmamente, porém de forma preocupada. Não respondi. Não tentei, mas tive medo de responder e meu pai deixar de se importar. - Estou com frio – constatei em voz alta ao sentir um arrepio percorrer meu corpo, tentando aquecer - me. - Não trouxeram um casaco? – meu pai perguntou a minha mãe, mas nem olhei. - Foi Amanda quem o trouxe. Ela trouxe uma camiseta e o tênis dele. - E onde ela está agora? - Eu a mandei embora – intrometi - me, contando a verdade – E a ameacei. Não brigue com ela mãe, é uma boa pessoa, – fofoqueira e intrometida. Se vissem o modo como ela tentou me consolar concordariam comigo. - Tem tomado os remédios, Bryan? – meu pai perguntou preocupado, pois ele sempre controlava as doses e os horários. - Ele tomou uma grande dose de um deles e desmaiou. Eu os retirei – felizmente minha mãe respondeu em meu lugar. Assim posso só descansar em plena paz. - Qual? - Não sei... - Como não sabes? Sabe que há alguns que, se ingerido em grande dose mata? Não sabes que pode ser uma tentativa de suicídio? Quando foi isso? - Depois que você falou com ele no telefone. – Pronto. Foi minha mãe dizer isso que meu pai se calou. - Estou com frio – repeti para que o assunto não parasse em algo que os fizesse refletir sobre um momento o qual não quero lembrar. Meu braço começou a ser afagado, indo de cima a baixo. - Meu casaco está no carro, posso ir lá busca - lo. Não está com fome, Bryan? 135
  • 136. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga Remexi - me, feliz em ouvir meu nome dos lábios daquele quem o dera. Fechei os olhos e suspirei satisfeito. - Estou. Não terminei nem meu almoço. Minha mãe se aproximou mais, afagando meu cabelo. Suspirei novamente, em êxtase. Sabe quando dizem que gostariam de parar o tempo? Ou quando dizem para aproveitar cada segundo e que os melhores momentos duram pouco? Agora eu entendo. Sendo mimado no colo do pai e tendo a atenção da mãe, sendo filho único eu me sinto um garotinho novamente. Sei que não sou adulto, mas sou adolescente e isto não é normal de adolescentes, mas nunca foi tão bom fugir do normal... - Não quer ir lá pra casa, filho? Posso comprar algo para o jantar no caminho e você dorme lá. Minha casa... Minha verdadeira casa... Meu quarto, minha cama, meu guarda - roupa, minha parede, meu computador, os armários da cozinha cheios com as minhas besteiras... - Faz macarrão, pai? – pedi pela minha comida favorita, principalmente quando feita por meu pai. - Claro filho. Venha, vamos para casa. Casa... Casa... Casa... Minha verdadeira casa, onde tudo está em seu lugar, onde tenho minhas coisas... Sentei no banco para que meu pai levantasse. Minha mãe sentou ao meu lado e beijou - me o topo de minha cabeça, bagunçando meu cabelo. - Melhore e depois conversamos, certo? – disse docemente, sorrindo e ajeitando os óculos. – E não se esqueça que ele tem aula amanhã, Michael. Vai leva - lo? - Obviamente. - Certo. Depois volte para casa, Bryan. Vou tentar almoçar em casa. Se quiser levar um amigo... - Tá mãe. Mais uma vez ela me deu um beijo na testa a saiu, indo embora. Eu coloquei meu All star branco e me levantei, ficando ao lado de meu pai. Ele contornou meus ombros com o braço esquerdo e seguimos até a saída. Senti - me envergonhado, sem saber como agir. Acontece que isso não é uma atitude normal de meu pai. Ele nem falou com as moças da recepção. Foi embora direto. Tremi quando passei pela porta, saindo na noite fria e gélida. O carro estava próximo, camuflado pela noite por ser preto e molhado pelo sereno. Esperei ele destrancar para abrir a porta do carona. Peguei o casaco de cima do banco do passageiro, entrei e fechei a porta, um pouco mais aliviado por estar menos frio dentro do carro. - Quer que ligue o aquecedor? - Sim. 136
  • 137. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga Ele ligou o carro, em seguida o aquecedor e começou a andar. Eu vesti seu casaco, um sobretudo preto que ficou grande em mim, principalmente na manga. Coloquei o sinto e me encolhi no banco, com frio. Passaram - se alguns minutos de silêncio. Fiquei me perguntando repetidas vezes por que meu pai foi me ver, por que estava se importando, quando ia adotar... Encostei a cabeça no vidro do carro, encolhendo - me próximo a porta e mordi um de meus piercings. Uma chuva leve começou, chuva esta que foi aumentando gradativamente. - Vai conversar comigo, Bryan? - Vai responder ou me ignorar? Por que se importa agora? – perguntei um tanto grosso, mas sem intenção. Somente formulei mal a frase. Na verdade, não me importo que ele não queira me ouvir, contando que continue sendo meu pai. Só quero que ele responda por que espera para se importar quando “tento me matar”. - Você não entende... – ele respondeu junto a um suspiro, sem desviar os olhos da estrada. Fechou a pequena fresta aberta do vidro do motorista. - Você não me entende – respondi automaticamente, prevendo a briga iminente. Se ele estivesse normal já teria me culpado por não querer ser entendido e me xingado, mas inesperadamente não foi isso o que aconteceu. - Não entendo? – ele vincou a testa, irritado. Girou o volante para o lado, dobrando para a esquerda. – Sua mãe não contou? - Nada – respondi curioso. – O que ela deveria ter contado? Ele me olhou rapidamente para captar minha expressão. Voltou a olhar para as ruas e diminuiu a velocidade, pois a chuva estava aumentando. Alguns segundos angustiantes se passaram. Até cheguei a pensar que ele havia desistido da conversa, mas a resposta finalmente veio. - Eu estou frequentando a psicóloga. Segurei - me ao máximo para não rir, mas foi inevitável. Um pigarro escapou de minha garganta e eu escondi o rosto. Meu pai? Frequentando psicóloga? Como não rir? - Vai rir? Ele estava com uma expressão brava, então engoli o riso. - Por quê? – perguntei ainda não levando fé em suas palavras. - Porque meu filho único, que eu criei praticamente sozinho cresceu e se tornou emo e gay. Essa doeu. Não somente no sentido figurado. Senti um aperto em meu coração. O que posso fazer se é isso quem sou? - Desculpe. Abaixei o rosto, desviando o olhar. Agora é fato que só sirvo para estragar a vida de meu pai. 137
  • 138. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga - Então eu o mandei parar morar com a mãe dele porque não o aguentava mais. Eu disse que, depois de tudo que fiz por ele não iria aceitar que se tornasse gay. Não queria vê - lo nem ouvir falar dele. Coloquei os pés no banco. Ele odeia quando faço isso, mas desta vez foi por frio. Segurei o nó que se formou em minha garganta e me impedi de chorar, pois só pioraria as coisas. Infelizmente as lágrimas estavam se acumulando em meus olhos. Eu sou um lixo; uma decepção. - Mas eu te amo Bryan e você é meu único filho. Tudo que eu fazia eu pensava em você, como estava, o que fazia, se estava bem, triste... Tudo. Estava preocupado, mas não sabia dizer se sentia raiva, ódio, nojo... Eu só sabia que era meu filho, independente de como fosse eu o queria de volta, mas não conseguia aceitar o que você se tornou, por isso fui a Rita, a psicóloga que sabia de tudo sobre ti e que poderia me ajudar. Me engasguei com meu próprio ar quando ouvi a última frase. Meu pai? Frequentando a psicóloga? É brincadeira, certo?! Isso é... - Do que está rindo? Muito, muito engraçado! - Sério que você conversou com a Rita, pai? Ele franziu o cenho, fitando a mim de forma furiosa e indignada, em seguida mirava a estrada para não perder o foco. - Não pode levar a sério nossa conversa, criança? - Esse sim é meu pai – constatei em voz alta deixando - o ouvir para, logo depois me arrepender. A graça encerrara. Meu pai suspirou pesarosamente. Recostou - se mais no banco e quando finalmente olhou para mim tive de desviar o olhar para a janela. Puxei os punhos do casaco e observei a chuva fria do lado de fora. Agora está mais quente dentro do carro por conta do aquecedor, mas minha mente se força a imaginar o quão gélida deveria estar a chuva fina caindo do lado de fora do carro, batendo as gotas no vidro e escorrendo... Funguei e esfreguei o nariz com a mão, de baixo para cima. Tenho a hábito nojento de limpar meu nariz no punho dos casacos quando não tem papel por perto, mas desta vez não o fiz porque não estou vestindo um casaco meu. - Desculpe Bryan. Ele pediu, mas fiquei sem entender. Nossas conversas estavam começando sem pé nem cabeça e explicando as coisas pela metade, sendo elas finalizadas por... Não sei bem, mas normalmente uma conversa acaba quando o assunto chega a o fim e tudo está explicado. Não é assim que tem acontecido conosco. - Pelo quê? – perguntei, voltando minha atenção para ele. - Por tudo. Briguei, critiquei, lhe despachei... Muitas vezes você estava errado, mas ainda sim... Eu o critiquei por quem você era e por isso peço desculpas. - Certo... 138
  • 139. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga Tentei evitar um sorriso e, ao perceber que estava falhando em meu objetivo eu tentei esconder o sorriso bobo com a mão, brincando com os dedos em meus piercings. Uma ideia surgiu em minha mente, ideia de perguntar a meu pai o que ele achou de meus piercings, mas isso com certeza acabaria em briga, pois ele nunca permitiu que eu colocasse. Se bem que ele está se desculpando por criticar quem sou... - Gostou de meu novo visual, pai? Ele fez uma careta e eu ri. Por um lado não queria contrariá - lo e embravecê - lo, por outro estava explícito e estampado em minha face estas minhas “novas características”. - Quer sinceridade? - Sim. - Se tiveste feito isso enquanto morava comigo teria lhe arrancado com um alicate assim que chegaste em casa, pego uma tesoura e arrumado o cabelo a força, sem contar esse monte de maquiagem. Mas, tirando isso meu filho é lindo. Quanta bondade! Com certeza meu pai teve uma conversa com a psicóloga, pois ele nunca foi assim. Se estivesse normal já teria dito que iria falar com a minha mãe para obrigar - me a tirar tudo. - Pai... – depois de um minuto de silêncio chamei - o um tanto constrangido. Era pela pergunta... A pergunta sobre aquilo que me atormentou e ocasionou nestes montes de desastres que teve fim em um hospital... Ou talvez ainda não teve fim. - Fala filho. Queria aproximar - me dele e ser abraçado, ou abraçar. É uma sensação tão gostosa que brota em meu peito ao ouvi - lo chamando - me de filho... É bom ouvir “Bryan” da boca de quem me concedeu esse nome, mas mais gostoso ainda é ser chamado de filho pela voz máscula de meu pai. - A empregada lá de casa me contou umas coisas... Umas coisas que ela ouviu em uma conversa entre você e a minha mãe... - Conte - me, então. - Ela disse que... Que você estava pensando em adotar um garoto... Fiquei receoso e acabei estranhando mais ainda quando ele abriu um sorriso. Seria isso uma confirmação? E ele vai se fazer de bonzinho e dizer “você vai ganhar um irmãozinho mais novo!”? Isso dói, sabe pai? Se bem que a culpa é minha, não deveria ter perguntado. - Então? – apressei - o, ouvindo um pequeno riso. - Desde quando és fofoqueiro, Bryan? É a convivência com mulheres. - Vai adotar ou não? – apressei - o, irritando - me. Estou nervoso demais para ouvi lo debochar. – Aliás, foi você quem me mandou para uma casa só com mulheres. Ele deixou de sorrir. Não sei se é impressão minha, mas parece que meu pai se afeta tanto com minha saída de casa quanto eu. Ok, não tanto quanto eu, menos. De uma forma cruel, isto me satisfaz. 139
  • 140. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga - Não. É mentira. Eu brinquei com sua mãe, dizendo que veio defeituoso e queria troc- Isso não é brincadeira! Muito obrigado por dizer que sou defeituoso! Ele riu, em um bom humor esplendido e surpreendente. - Filho, era uma brincadeira. Acha mesmo que eu o trocaria em um orfanato? - Não é pela troca, mas pelo defeito. Desculpe se não sou perfeito... – me encolhi, com a voz tremendo no final da frase. Eu quero descontar minhas frustrações nele e, ao mesmo tempo me desculpar. Se eu pudesse juro que me tornaria normal, mas não dá! É impossível! Eu não sou normal! - Bryan, eu estou tentando ser compreensível, mas será mentira se lhe disser que adoro o fato de meu filho ser um emo homossexual. - Desculpe – respondi sem fita - lo. O carro parou na frente da grade de minha casa. Minha casa; minha verdadeira casa. Meu pai acionou o controle para que o portão se abrisse. - Não fique assim. Um beijo fora depositado no topo de minha cabeça junto a um afago gostoso no cabelo. - Menos Bryan. Seja mais compreensível comigo. Assim como você foi comigo, respondi mentalmente. - Estou com fome – respondi, passando o dedo indicador em meus lábios e piercings. Acho que é associação. Casa = comida. Colocando nesses termos me sinto um animal doméstico. - Se está com muita fome terás de comer algo, pois ainda nem comecei o jantar. - Certo... Mais uma vitória: meu pai nunca me deixou comer algo antes de jantar ou almoço, pois tira o apetite. Entramos na garagem, o carro parou e o motor fora desligado. Abri a porta e saí, sem esperar. Segui até a porta e a abri, adentrando na sala de estar. Minha casa. Sinto - me tão bem aqui... É tão confortável e aconchegante... Minha verdadeira casa. Ouvi o “click” da luz sendo ligada e, logo, a sala ganhou brilho. Seguido veio o barulho da cortina sendo aberta e as chaves sendo largadas na mesinha próxima da porta. Andei até o sofá e respirei fundo, absorvendo aquele cheiro gostoso que só há em minha verdadeira casa. Passei a mão pelo sofá branco de couro da sala de estar. Observei uma caixa de DVD preta largada encima da mesa de vidro no centro da sala. Estranhei. É raro meu pai ver filme, principalmente na sala. Embaixo da televisão fixa na parede havia a variedade de DVDs que conheço muito bem. O piso bem lustrado reflete os móveis, há mais plantas que lembro... Ah, tem um quadro novo na parede, pequeno. Deve ser uma foto. Aproximando - me para ver melhor 140
  • 141. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga percebi que era uma minha, adolescente mesmo, mas com o cabelo maior e sem piercings. - Vou começar a preparar a comida. Se quiseres algo pegue no armário. - Uhum. Meu pai nunca foi fã de cozinhar, mas às vezes faz algo. Hoje, em seu ápice de bondade e compreensão resolveu ceder a um capricho meu e cozinhar. Isso é bem estranho... Fala sério, ele está virado do avesso! Dirigi - me a escada no canto esquerdo da sala. Subi, passando a mão pelo corrimão de madeira. Segui pelo corredor e parei no meio, retornando a observar a sala de estar. Apoiei - me na sacada baixa, vendo tudo por outro ângulo... Tão maravilhoso... Deixei a sala e me virei para o hall. Liguei a luz e vi aqueles montes de puffs coloridos espalhados ao redor de uma mesa baixinha onde eu sempre fiz meus trabalhos do colégio. Ao lado direito havia a porta do quarto de meu pai, um banheiro e a escada. Do outro há a porta de meu ex - quarto e do quarto de hóspedes. Bom, não vou entrar em meu quarto. Nostálgico demais. Desci, esquecendo a luz acesa. Da sala de estar subi um degrau e liguei a luz da sala de jantar. Fui para a janela e observei, através da chuva, passando a varanda, a piscina e as cadeiras de praia, está meu antigo “parquinho”. Tem um escorregador com uma mini - casinha encima, um balanço, uma caixa de areia e um daqueles brinquedos de se escalar que me fugiu o nome agora. Tudo bem colorido e alegre... Meu... Ainda meu. Como eu gostaria de poder ir lá... Mas a porta para o pátio fica na cozinha e meu pai nunca me deixará sair na chuva. Foda - se. Retirei o casaco e deixei encima da mesa. Abri a janela com cuidado para não faze barulho. O vento gelado soprou e eu tremi de frio, com todos meus pelos se eriçando. Mesmo assim pulei a janela, fazendo o mínimo de barulho que consegui. PUTA QUE PARIU! ISSO TÁ MUITO GELADO! Com certeza vou ficar doente! Daí talvez eu possa faltar à aula e ficar na minha casa com meu pai... Merda, esqueci o celular no bolso da calça. Peguei - o, meti a mão pra dentro da janela e o larguei rente ao chão. Sabe que, para um celular de touch screen ele é bem resistente. Que gelo! Eu sou muito burro! Ou muito carente... Os dois. Corri para perto de meu antigo balanço, contornando a piscina, quase escorregando e caindo. No início lembro que ele era bem próximo do chão, mas conforme eu fui crescendo meu pai foi diminuindo as correntes. Sentei naquele banco com uma grande poça d’água. O pior nem é a água gelada queimando minha pele – irônico, não? -, mas sim as roupas colando por toda a pele. Fui tomado por uma nostalgia boa. Abaixei a cabeça, encostada na corrente e me embalei para trás e para frente... Meu pai não é um monstro, eu sou o errado. Ele realmente fez tudo pelo filho, mas teve de se decepcionar tanto... Senti a chuva gelada esfriando meu corpo, fazendo - me sofrer vários calafrios. Quanto tempo é necessário para se ficar doente? Ah pai, eu quero tanto voltar para minha casa... 141
  • 142. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga - BRYAN! – estava demorando... - Bryan não está – respondi como sempre o respondia, esquecendo por um segundo tudo que estava acontecendo e a situação atual. - Quer se matar? Venha aqui agora! Parei o balanço e me levantei calmamente. Normalmente quando faço algo assim meu pai vem me buscar e me pega pelos cabelos, furioso dizendo: “Quer ter cabelo comprido? Tenha, então”. Mesmo meu cabelo nunca tendo passado dos ombros. - Fala pai – impliquei, fingindo - me de inocente. - Como se não soubesses, criança! Abracei meu próprio corpo, tremendo. Suas mãos foram para meu cabelo, torcendo o com um pouco de violência. Abaixei a cabeça e passei o dedo indicador da mão esquerda embaixo dos olhos, por debaixo dos cílios, tentando limpar a maquiagem provavelmente borrada. - Me pergunto o que tens dentro da cabeça... Iremos conversar, agora! Antes de tomares banho! Não mandei sair na chuva. Tsc, encharcou os curativos recém feitos! Ele me puxou pelo pulso para dentro de casa. Pelo pulso, não pelos cabelos; que avanço! Na cozinha pegou uma cadeira da mesa e fez sinal para que eu me sentasse. Obedeci, tremendo de frio a todo instante. Meu pai se abaixou na minha frente e foi só aí que eu vi que era sério mesmo. Normalmente ele senta para falar comigo. - Bryan, olha para mim. É sério. Eu o fitei, estranhamente tendo de olhar para baixo. Seus braços foram apoiados em minhas pernas. - Quantas vezes tentaste te matar? - Nenhuma. - Bryan! - Nenhuma! Minha mãe que me encheu de remédios, eu estava quase enlouquecendo e tomei remédio para dormir. Só! - E os braços? - Caí encima do espelho. - Bryan... - É só isso? Ele suspirou, visivelmente transtornado. Pensei no que realmente havia por trás daquela pergunta. Observei sua face, séria com o olhar fixo em mim. Eu não consigo manter seu olhar. Abaixei o rosto e senti sua mão quente em minha bochecha machucada. 142
  • 143. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga - Filho, preste atenção. Morte não tem volta. Eu não planejei ter um filho, mas sua mãe te teve e eu fiz questão de cria - lo da melhor maneira que pude, independente dela ter tido condições para te criar ou não. Não tenho namorada importante e não pretendo me casar. Não tenho paixão com teus tios e meu relacionamento com teu avô não é dos melhores. Bryan, somos eu e você. Dediquei minha vida a meu único filho e não me arrependo. Te dei tudo. Você é tudo que eu tenho filho; o mais importante. Eu quis chorar, mas isso não é surpresa. Eu choro por tanta coisa... Repousei minhas mãos em meu colo e meu pai as segurou com as suas quentes. - Agora imagine como seria se, um dia estou trabalhando e me ligam para dizer que meu filho se matou. Bryan, morte não tem volta. O que vou fazer da vida? Meu único filho é tudo para mim. Vou voltar para casa todos os dias, para a casa vazia e não ver ninguém. Observar todos os lugares que meu filho cresceu, escolheu a decoração... Os seus lugares e não haverá um mínimo resquício seu. Sabe, não é como quando alguém vai viajar, pois você sabe que ela vai e sabe que volta. Eu vou olhar para tudo dia após dia e meu filho simplesmente desapareceu. Nunca mais poderei vê - lo durante o resto de minha vida. Não haverá “bom dia Bryan” ou “o que quer comer?”. Tudo será vazio. É uma presença que some. E quando eu quiser matar a saudade? Eu vou ao cemitério, observar o lugar de seu cadáver sem vida e conversar coisas que nunca haverá respostas. Comecei a chorar. Eram cruéis de ambas as partes. Ele dizer dessa forma mórbida e sôfrega e, ainda sim eu ter de parar para pensar que é exatamente isso que tento fazer. - Eu vou chegar em casa todos os dias e ver o vazio de minha criança. O jardim abandonado, o quarto cheio de coisas, para nada. Bryan, não tem volta. Não importa o quanto me arrependa, o quanto te queira. Não é um momento de tristeza e depois seguir a vida em frente. Minha vida gira em torno de ti, és tudo pra mim. Tremi, com minhas lágrimas quentes em meu rosto contrastando com a água gelada da chuva. - Desculpa... Tentei secar meu rosto, mas minha blusa está encharcada. Recebi um abraço e o choque de temperatura me fez tremer constantemente. - Você só fala o lado bonito... – tentei falar em meio ao choro e suas pausas dolorosas. – Mas e o ruim? Os defeitos? Eu sou tão errado e torto... Ele se afastou de mim para olhar em meu rosto, mas mais uma vez não consegui fita - lo. - Filho, não és errado. Há muitos outros como você, seja em qual característica for. A combinação dessas coisas é o que faz meu Bryan, certo? E eu sou quem tenho de me desculpar por lhe fazer acreditar que és errado. Eu fui o errado. Eu comecei a soluçar, sem saber o que responder. Digo que o amo? Peço desculpas novamente? Falo que gostaria de ser normal? Agradeço? Tudo parece ruim de se dizer. E é triste, mas ao mesmo tempo bom masoquistamente porque eu amo machuca - lo. Eu amo a dor que ele demonstra sentir em me perder. Dói e ainda sim sua voz sai tão firme... - Entendeu Bryan? - Sim... 143
  • 144. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga - Então olha pra mim. Eu o fitei, mas contra minha vontade. Ele segurou meu rosto e me senti uma criança frágil. - Promete pra mim que não tentará se matar? - Prometo. Ele me abraçou novamente. - Então eu quero que sempre que te sentir mal, com vontade de se matar me procure. Seja onde eu estiver. Ligue - me, mesmo que estejamos brigados. Promete? - Prometo. Enfiei meu rosto gélido em seu pescoço quentinho sentindo - me bem ao fazê-lo arrepiar - se. - Pai, posso ir tomar banho? Não sinto a ponta dos meus dedos. - Pode. Ele beijou minha testa e se afastou, levantando - se. Vi que sua blusa estava molhada e grudada no corpo, constatei que foi porque eu o abracei. 144
  • 145. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga Capítulo 16: Porque você está vivo e envolvido em amor. Parte 2 Corri para as escadas e subi sentindo minhas roupas grudarem mais. Odeio isso! Pior é o frio. Passei no hall e entrei no quarto de meu pai, rumando para o banheiro dele. Tenho certeza que hoje ele não irá reclamar nem se eu transformar o banheiro em um lago. Apressado, retirei minha roupa e larguei no chão, propositalmente. Liguei o chuveiro no quente e aguardei impacientemente enquanto esquentava. Quer saber uma verdade? Eu quero ficar doente. Quero poder ficar bem gripado, tossindo até meus pulmões para, assim, poder ficar na minha casa com meu pai se preocupando com o filho com os braços e rostos cortados e saúde momentaneamente debilitada. Sabe qual o pior? Faz tempo que eu não fico doente. Terei sorte desta vez? Fiquei bastante tempo na chuva e depois com a roupa encharcada no frio. Entrei embaixo d’água e fechei o box. Devo descrever o quão maravilhosa e perfeita e essa sensação? A água bem quentinha escorrendo por meu corpo gelado, aquecendo - me... Hum... Como as coisas mudam. Passei a tarde acreditando que meu pai não me queria mais e iria adotar, agora estou em casa, tomando banho no banheiro de seu quarto, prestes a usar seus xampus, me secar em sua toalha, comer um macarrão bem quentinho e gostoso exatamente do jeito que gosto... Tudo indo perfeitamente bem, bem ate demais... Melhor não pensar que quando tudo vai bem o perigo é iminente. Não só esta tudo tomando um rumo perfeito e belo como também teve aquela conversa estranha, mas boa. Eu sou tudo para ele? Desde quando? E, se é assim então por que nunca disse nada antes? Nem parece meu pai... Aliás, ele conversou com a psicóloga! Sério, isso parece piada. Meu pai frequentando a psicóloga? Ele nunca quis nem ao menos me acompanhar. Na verdade era um sacrifício ele me levar e buscar, mas assim fazia para ter certeza que eu iria. Droga, vou ter de tirar os curativos e puxar não adianta. Preciso de uma tesoura. Como vou conseguir uma tesoura no banheiro? O melhor de objeto cortante que conseguirei é lâmina de gilete e, bem, lâmina perto de meu braço me traz algumas lembranças... E aí, chamo meu pai ou uso a lâmina? Bem, eu não quero que ele venha enquanto estou tomando banho, seria bem estranho... Então é lâmina. Peguei - a. Com cuidado usei para arrebentar os curativos grudentos de meu braço e até que não machuquei a pele – mais do que já está. Flexionei o braço. Dói um pouco, mas nada demais comparado com o que já senti. Acho que os cortes não foram fundos, pois somente um teve de levar dois pontos, o resto foi enfaixado. Custava muito eles me dizerem que os machucados foram leves? Custava eles dizerem aos meus pais que os machucados não são graves? Pais... Plural. Quanto tempo faz que não posso usar essa palavra no plural? É sempre um ou outro. O máximo de contato que eles chegaram esses últimos anos foi hoje no hospital e as conversas por telefone. - Bryan? Puta que pariu, meu pai! Tem mesmo que entrar no banheiro?! Enquanto estou tomando banho?!? 145
  • 146. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga - Fala pai. E ele entrou. Eu não vou dizer para ele que tenho vergonha, pois é meu pai, mas também não é normal, ‘né. Eu já tenho 15 anos! - Pegaste roupa? - Hum... Não. Que roupa? Eu não moro mais aqui – forcei um pouco. Obviamente que fico triste em não morar mais aqui, mas ele também é afetado por ter mandado o filho embora. - Pelado não ficarás. Não deixou nada aqui? Permaneci de costas, escondendo meu corpo. Sério mesmo que tem que conversar comigo de dentro do banheiro? - Só deixei umas roupas velhas que nem me serviam mais. - Retiraste os curativos do braço? - Eu encharquei tudo mesmo... - Deixe - me ver. Quando percebi ele empurrara para o lado a porta de vidro temperado e esperava que eu mostrasse o braço. Corei gradativamente. - Pai! Eu estou tomando banho! - Ser gay não te torna uma garota. - Ser pai não te dá o direito de invadir o banho do filho de 15 anos! - Ah, então é isso! – ele exclamou em um tom de “ah, entendi”. – Não queres que eu te veja, por isso ficas de costas... Meu rosto ferveu e, obrigatoriamente eu me virei de frente para ele. Meu pai simplesmente esticou a mão com a manga puxada, esperando que eu mostrasse meu braço. Supri minha imensa raiva o máximo que consegui e estiquei o braço. Ele olhou com cara feia. - Isto é tua tentativa de suicídio? Encarei - o, confuso. - Acho que sim... - Não. Meu pai retirou o relógio de meu pulso e deixou aparecer minhas cicatrizes. Várias linhas horizontais paralelas, mal e tortamente. - Isto são cicatrizes de uma tentativa de suicídio. Isto no teu braço são machucados. - Eu disse, não disse? – respondi em um tom de “eu estava certo”. Meu pai odeia quando faço isso. - É nisso que dá leva - lo a um pronto - socorro! Só tem merda lá! Doutor mesmo há somente em clinicas particulares. 146
  • 147. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga Abaixei os braços, segurando o pulso esquerdo com a mão direita. Fiquei esperando meu pai se acalmar e me deixar tomar banho em paz. Ele bufou. - Posso tomar banho? - Deixe - me ver teu rosto. Puxei todo o cabelo para a parte de trás da cabeça, deixando minhas bochechas a parecerem. O curativo já estava quase caindo por si próprio, fora necessário somente um puxãozinho que nem doeu. - Não está tão feio... – ele comentou, mas para não estar tão feio para meu pai tem que ser minúsculo e doeu muito o rosto. Ele está mentindo. – Nada que um bom cirurgião plástico não resolva. - Eu ainda não vi – disse - lhe, sentindo um ar frio bater em minha pele, fazendo - me tremer. - Ligou o aquecedor, criança? - Não. Odeio quando ele me chama de criança. Faz isso quando quer dizer que ajo como uma criança; imaturo, irresponsável, infantil... - Quer ficar doente, não é Bryan? - Claro pai. Agora posso tomar banho em paz? Empurrei a porta de vidro temperado, fechando o Box. Virei de costas, cruzei os braços e bufei, corado. Ouvi sua risada atrás de mim. - Certo criança. Vou ver - te algumas roupas. Revirei os olhos. - Se soubesse o que faço não me chamaria de criança – resmunguei baixinho. - Eu ouvi bem, Bryan? Merda! - Conte - me, então. O que fazes? - Nada, pai. - Ora, tua chance de deixar de ser criança. - Nada! Não faço nada! Tchau! Antes de sair ele riu, jogou no lixo os curativos e retirou o aquecedor debaixo do armário da pia, ligando - o. Em seguida dirigiu - se para fora do banheiro. - Faço sexo, tá bom? Sexo com outros garotos e bato uma no colégio – sussurrei bem baixinho, só para mim. Imagina só o que acontece se meu pai tem uma mínima noção disso... 147
  • 148. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga Mais aliviado e menos envergonhado eu pude terminar meu longo banho. Saí do chuveiro para um banheiro quentinho e não pude reclamar de frio. O incômodo foi não poder me secar e me vestir. - Pai! – gritei-o. Sorri ao lembrar que ele odeia quando faço isso. – Paaai! PAI! - Espera! Sorri separando os dentes e estreitando os olhos. Logo ele chegou e abriu a porta. Novamente me vi numa situação que fez minhas bochechas arderem. - Berras como uma criança escandalosa. Colocou uma toalha branca macia sobre meus ombros, pendurou as roupas que trouxera nos ganchos atrás da porta e largou coisas para se fazer curativos encima da bancada. Sequei as feridas e enrolei - me na toalha antes dele me pedir o braço. Quando o fez estiquei - lhe o direito e começou a fazer os curativos. Passou uma pomada e foi enrolando a gaze do pulso até o cotovelo. - Apertado? - Não. Quando terminou fez o mesmo procedimento no outro braço. Depois foi a vez de meu rosto. - Pronto. Beijou - me a testa e esfregou meus ombros. - Trouxe - lhe uma cueca e uma calça de moletom do teu armário e um blusão meu. Não deixaste nada quente. - Certo. - Te veste e vá comer que está quase pronto. Desta vez não perguntou nada. Somente trocamos essas palavras e o resto foi silencio. Bem, esse é o normal de meu pai, mas desta vez não foi em um clima sério ou tenso. Saiu do banheiro e deixou que eu me vestisse sozinho. Sequei todo meu corpo. Usei a própria toalha para secar meu cabelo, pois o secador está na casa da minha mãe. Quando terminei coloquei a cueca e vesti aquele blusão escuro dele duas vezes meu tamanho, porém confortável e quentinho. Coloquei a calça velha de moletom e as meias brancas. Catei meu tênis e saí do bafo do banheiro para o ar frio do quarto. Calcei os tênis e saí do quarto, descendo as escadas, indo na direção da cozinha. - Que gracinha minha criança – desdenhou ao ver - me com aquele blusão tão grande que me caia do ombro. Revirei os olhos – A comida está pronta – avisou e virou para o armário, ainda rindo. Ele abriu o armário e começou a pegar dois pratos, dois garfos, duas facas... Ajudei - o pegando dois copos e levando - os para a mesa de jantar. - Para beber? 148
  • 149. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga - Fiz suco de maçã. Suco! Vitória! Ah, ainda é de maçã... Amo! E ainda quando é meu pai a fazer significa maçã mesmo, nada de pozinho. Não há como comparar a casa de meu pai com a de minha mãe. Voltei para a cozinha e busquei na geladeira a jarra de vidro com o suco de maçã. Levei de volta para a mesa de jantar e larguei no centro da mesa, entre onde eu sentaria e onde sentaria meu pai. Ele quem escolheu que ficaríamos um de frente para o outro. Servi meu prato com bastante macarrão, pois estou com fome, tive um péssimo almoço. Mais um copo de suco e me sentei. Começamos a comer. Lembrei de corrigir a postura. Se me aproximo muito do prato meu pai reclama. “Não se leva a boca à comida, mas a comida à boca”. O problema é: quanto mais longe a boca estiver do prato, mais chances há da comida cair no caminho. E... Bem, minha mãe e Amanda não se importam se eu me aproximo um pouco do prato. - Como anda o colégio? - Bem – respondi a sua tentativa de puxar assunto. - Fez amigos? - Na verdade sim – respondi com um sorriso. – Bastante, até. – E meu pai estranhou. - Hum... Talvez um namorado? Tive de colocar a mão na frente da boca para não cuspir o suco longe. Meu pai perguntou mesmo isso? Droga, minha garganta e meu nariz estão ardendo. Engoli o que ficou em minha boca com dificuldade e pensei numa resposta, mas qualquer coisa me parecia “errado”. - Você me perguntou mesmo isso, pai? - Estou melhorando, não? Quero mesmo ouvir uma resposta. Certo... Ele realmente espera uma resposta... O que direi? Eu dormi com o Matheus, mas foi somente uma noite. Gosto do Pedro, mas não é recíproco. Já fiquei com o Mi Comi, Alex, Luke... Não, Luke não. Por que eu nunca fiquei com o Luke? Me ajeitei melhor na cadeira enrolando um pouco de massa no garfo. - Bem... Não. - Parou para pensar. - Eu gosto de alguém, mas não é recíproco e tem alguém que gosta de mim... – respondi rapidamente metendo uma garfada dentro da boca para não ter que continuar a falar. Tomei o cuidado para dizer “alguém” ao invés de “um garoto”. Eu não sei se é realmente normal ouvir isso para ele, mas não é normal para mim dizer a meu pai. Nem consigo conversar fitando - o! - Huum...! – saiu sem querer e automático. O sabor estava incrível e único, exatamente do jeito que só meu pai sabe fazer. Meu paladar agradeceu milhares de vezes. - Que bom que gostou da comida, filho. 149
  • 150. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga Esbocei um sorriso sem dentes por estar com a boca cheia de comida. Como senti saudades disso... - Qual o nome dele? Ruborizei de imediato com tal pergunta. Ele é meu pai! Não pode me perguntar esse tipo de coisa! Que tipo de mágica a psicóloga fez...? - Por que quer saber? - Porque é a vida de meu filho. Engoli a comida com dificuldade. Também não precisava de exagero. Eu não me sinto a vontade de conversar sobre isso com meu pai. - ...Pedro – respondi depois de um longo tempo de silêncio para raciocinar. - Viu? Não doeu. - Você quem diz... Continuei a comer em silêncio, pensando se deveria mesmo ou não ter contado o nome de Pedro a meu pai. Poderia ter dito o de Matheus, mas é provável que meu pai chegue a o conhecer, pois anda comigo. - Bryan? - Hum? Fitei - o, já sabendo que viria bomba. Continuei a comer enquanto ele suspirava antes de pergunta, nervoso. - Por favor, me diga que este garoto não se assemelha a uma garota ou uma criança. Tapei a boca e novamente quase cuspi o suco. Como o Lucas? Ele quer saber se o garoto que eu gosto não é um Mi comi da vida? Coitado do loiro oxigenado! Imagina só se eu apresento o Mi comi como Pedro? Meu pai tem um ataque cardíaco! Vai acabar completamente com a bondade e compreensão! - Ele é, não é? – ele questionou mais nervoso ainda e um tanto irritado. Me levantei bruscamente e corri para a cozinha, cuspindo o suco na pia. Livre, ri a vontade. Ri de mais, apoiando minhas costas na pia. Ri, ri muito ao me imaginar chegando com Lucas e beijando-o próximo de meu pai. Coitadinho do Mi comi! Pesadelo dos pais no requisito namorado... - Bryan, venha comer. Devo comentar que ele está um tanto mal humorado? Ainda rindo levemente me levantei e retornei a sala de jantar. Ele não olhou para mim. - Calma pai. Ele não é um gay ‘purpurinado, está bem? É um garoto normal que faz parte do time de futebol do colégio, tem amigos normais... Ele me encarou, ainda desconfiado e eu sorri. Cogitei a possibilidade de ir até ele e abraça - lo de uma forma carinhosa, mas... Bem, isso não faz parte de minha 150
  • 151. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga personalidade. Eu nunca fiz isso antes, principalmente com meu pai. Tenho... Vergonha de começar agora. - E...? É, meu pai entende bem. Levantei as mãos de palmas abertas com os cotovelos flexionados em um questionamento mudo; “quê?”. - Eee...? – insistiu, esperando um complemento. Entendi a indireta. Bati as mãos nas pernas, junto ao corpo e olhei para o lado, suspirando. - E é hétero. Não precisei ver para saber que sorrira. - Coma Bryan, a comida está esfriando. Puxei o ombro do blusão e voltei para meu lugar, sentando. Lembrei - me do motivo pelo qual me levantei e sorri de automaticamente. Enrolei um pouco de massa no garfo e comi, saboreando - a. Terminamos de comer em silêncio. Meu pai nunca gostou de conversar no almoço e jantar. Terminei o macarrão mais do que satisfeito. Conversamos um pouco sobre coisas bobas até meu pai decidir ir tomar banho antes de dormir. Ele subiu e eu tirei a mesa, obviamente deixando a sujeira na pia. De repente algo me despertou de meus pensamentos. Uma música alta vindo da sala de jantar. Segui o som do toque de meu celular e o encontrei bonitinho na cristaleira. Peguei - o. Era uma mensagem de “Mi comi”. “De: Mi comi 17 de junho, às 22:03 Bryan fofuxo, linduxo amorzinho, tenha uma boa noite com muuuuuuuitos bons sonhos! Lindos, lindos sonhos... Muitos beijinhus do Lu =*”. Vomitei um arco - íris ao ler. Como ele é meloso e grudento! Mas, coitadinho... É carente. E depois do que aconteceu entre ele e o Alex... Ai, nem quero pensar nisso! Lembro da vez que quase aconteceu o mesmo comido... O desespero é tão horrível... Respondo a mensagem para fazê - lo mais alegre e saltitante? Melhor, vou ligar. Disquei o número pela agenda e, enquanto chamava fui subindo as escadas. Chamou um pouco e, logo, ele atendeu. - Bryan? – me chamou do outro lado da linha com uma voz diferente. - Oi fofo – respondi, sorrindo ao recordar o quanto ele gosta de ser chamado assim. - Oi Bryan! Tudo bem? Por que me ligou? - Nada em especial, só para conversar. Não queres? - Quero! Sim! É só que é raro você me ligar. Rimos. Sentei em um dos puffs ao lado da janela. Na rua o céu encontra - se bem escuro e a chuva transformara - se em uma tempestade. 151
  • 152. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga - Tudo bem? - Sim... - Mesmo? – insisti. - Não... – respondeu - me, fungando. - O que houve? - Estava brigando. Meu pai me xinga porque ando chorando mais. Diz que sou afeminado, gay, uma bicha louca... O pai dele é tão bonzinho quanto o meu. Bem, agora não tenho do que reclamar. - Chorando por alguém que não merece. - Alguém que eu amo... O barulho de choro surgiu do outro lado da linha. - Por que não conta a algum dos teus pais? - Impossível! Minha irmã vai rir, meu pai ficar furioso por ter um filho vergonhoso e minha mãe já tem problemas demais. - Bem... Tens a mim e a Matheus... - Bryan... Não me leva a mal e nem me chama de ingrato. Amo vocês e me sinto bem melhor em tê - los, mas agora, mais que tudo no mundo eu gostaria que tivesse alguém para me dar o amor que eu esperava dele. - Acho que não posso te ajudar nisso. - Você já faz muito, muito, muitíssimo por mim. Obrigado! - Poréeeem... - O quê? - Nós podemos passear um pouquinho, conhecer novos garotos... Quando quiseres, claro. Mas não demore para os melhores não fugirem. Ele riu, bem mais animado. Lucas é como uma criança, nem percebeu que um desconhecido é mais perigoso que Alex. - Sim, sim! Mas agora quero alguém que viva sem sexo. -Então teremos de ir a uma Igreja e olhe lá! Rimos e nos divertimos. Fiquei a conversar com Lucas até meu pai terminar seu banho. Quando assim o fez eu desliguei. - Não vais dormir filho? - Contigo. Ele sorriu e fez sinal para que eu entrasse enquanto secava seu cabelo com a toalha. Apagou a luz e fechou a porta do quarto. Sentei no lado da cama, esperando - lhe. Faz 152
  • 153. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga muito tempo que não durmo com meu pai e acabei sendo levado pelo momento “pai e filho”. Ele ligou a televisão, deixou a toalha em algum lugar qualquer. Voltou na minha direção e sentou-se do meu lado. Tocou em minha testa, conferindo minha temperatura e me deixou. Pegou o controle e deitou - se no meio da cama. - Tens que dormir, filho. Amanhã cedo tens aula. Suspirei. - Vai pra lá, pai! – disse empurrando-o mais para a beirada. Ele não entendeu muito bem, mas obedeceu-me. Deitei na cama de lado, recostando minha cabeça em sua barriga, por cima da coberta. Senti seu peito subir e descer em movimentos ritmados enquanto observava-o de um ângulo diferente. - Não vais ver televisão? Movimentei a cabeça em sinal negativo. - Tens sono? Concordei com um aceno de cabeça. - Tudo bem? Assenti. - Estava conversando? - Com um amigo – complementei. - Tens bastantes amigos neste novo colégio, não é? - Sim. - Quem diria... Encaixas - te melhor em um colégio público que um particular. - Antes não se importavam comigo, mas com dinheiro. Os professores eram simpáticos pelo emprego, os alunos ou eram amigos interesseiros ou me odiavam completamente. Meu pai trouxe sua mão para próximo de meus cabelos, puxando minha franja para trás. Em seguida passou seus dedos pela extensão de meus fios negros, carinhosamente. - Agora não é assim? - Acho que agora gostam de mim de verdade. Me entendem, minhas tristezas... - Tristezas? – indagou curioso. - Sempre quis voltar pra casa e ouvir você dizer que ainda me ama. Recebi um sorriso em resposta. - Não sou o único que mudei, não? Estás fazendo amigos, socializando, estudando, sendo menos frio... O que te fizeram? Ri , ajeitei o ombro do blusão e puxei a coberta até meu pescoço. 153
  • 154. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga - Pergunto o mesmo. Num momento eu era o pirralho gay de merda, no outro... Um filho perfeito. - Porque pulamos um pedaço. Houve um processo. - Digo o mesmo. Não deixei de sorrir enquanto conversava, nem quando disse do modo como me chamava. Sinto - me vibrando por dentro e não sei como explicar a felicidade de dentro de mim. O silêncio entre nós tornou - se, pela primeira vez agradável. - Filho... – chamou-me com carinho enquanto seus dedos escorregavam de minha bochecha quente a minhas mechas negras e macias. – Queres voltar para casa? A felicidade que nasceu em meu peito e abrochou rapidamente não cabia dentro de mim. Quis apertar - lhe, gritar, rir, chorar... Tudo ao mesmo tempo. Se eu voltasse para casa e meu pai não mudasse seria perfeito... ...Não é...? ...E... ...O colégio...? 154
  • 155. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga Capítulo 17: Vamos, me beije heterossexual! - Bryan! Levanta! Vais te atrasar. - Ahh paaaai, só mais um pouquinho... -Já foram muitos desses "pouquinhos". Aliás, a Clara fez o café da manhã, não vais comer? Porque faltar ao colégio eu não vou deixar. - Tia Clara? – citá - la foi o suficiente para que eu acordasse. Sentei - me na cama, ainda sonolento e vi que meu pai já tomara banho e estava arrumando a manga da camisa social na frente do espelho. - Ela está aqui? - Obviamente. Na verdade Clara não é minha tia, somente trabalha aqui. Mas eu a amo como uma tia de verdade. Pulei para fora da cama e calcei meus tênis, correndo para fora do quarto. - Bryan, amarra os cadarços! Ignorei meu pai e desci as escadas, sentindo o cheiro delicioso de comida. Corri para a cozinha e encontrei a senhora que tanto amo preparando um suco de laranja. - Bom dia Bryan. - Tia! Que saudade! Corri e abracei - a com força, sendo retribuído na mesma intensidade. Senti meu peito explodir em felicidade. Tudo na minha casa estava perfeito! - Também senti saudades sua. Como você cresceu! Cortou o cabelo, fez piercings... Nem parece mais o meu Bryan, está muito moço! Eu ri da sua forma de falar. Era sempre assim. - Que cheiro bom, tia. Se for você quem preparou vou ter de comer. - Então se apresse que já são 7:25 e vamos sair 7:45 - respondera meu pai adentrando a cozinha. Corri escada acima e fui para meu antigo quarto. Tentei entrar sem dar muita atenção a tudo, mas é claro que não consegui. Inconscientemente eu fiz uma pausa para observar todo o meu verdadeiro quarto. As paredes brancas, com exceção da do fundo que eu insisti que se tornasse preta com o desenho de caveiras. A cama ficava com o comprimento encostado na parede preta e a cabeceira à direita. Meu guarda roupa que ocupa quase toda a parede esquerda, ultrapassando um pouco na parede preta, pois ele faz o contorno da parede. Aqui sim cabem todas as minhas roupas. A Esquerda, antes de começar o guarda-roupa há a porta de meu próprio banheiro, com as minhas coisas, meus cremes, minhas maquiagens... Do lado direito tem uma escrivaninha encostada na parede e, encima dela um armário. Na parte de baixo do armário há várias luzes redondas, como em um camarim. Tudo do jeito que eu escolhi. - Certo... Roupa para ir ao colégio... Segui para meu guarda - roupa. É claro que aqui ainda está cheio de roupas, pois o que eu levei para a casa de minha mãe já se espalha pelo chão, se eu levasse tudo meu quarto seria só roupa. 155
  • 156. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga Bem... Quando eu me tornei emo gostei tanto que saí comprando tudo que via pela frente. Foi bem engraçado, principalmente a fúria de meu pai, mas não o mandei me entregar seus cartões. Peguei um moletom azul marinho com uma frase em inglês. Uma calça jeans mais justa e o meu All star preto que estive ontem. Fiz minha higiene matinal, troquei de roupa rapidamente e penteei o cabelo as presas. O interessante é que acabei por escovar os dentes antes de comer, distraidamente. Desci muito apressado e comi rapidamente, mesmo a comida estando deliciosa. - Pai, a gente vai passar lá em casa, ‘né? - Sim. Tens que pegar teu material. Por quê? - Nada de mais. Só para ter certeza que vamos pegar meu material. Mentira. Eu queria saber para poder fazer chapinha. Obvio que eu não vou lhe dizer, ou fará um escândalo dizendo que vamos nos atrasar, etc, etc, etc... - Então vamos – apressei - lhe enquanto me levantava da mesa. - Por que a pressa? - Antes que a minha mãe saia para trabalhar e tranque a casa. Eu estou sem chave – menti novamente, mas adiantou. Ele terminou de tomar seu café e levantou - se, indo pegar as chaves da casa e do carro. Abracei tia Clara fortemente e depositei - lhe um beijo na bochecha. Corri para alcançar meu pai enquanto este ligava o carro. Simplesmente a vida em minha casa é mil vezes melhor do que sozinho com Amanda, que só me faz mal. Por outro lado a vida fora de casa é muito melhor agora, com os meninos, mesmo com um monte de complicação. O fato é que eu gosto dessa agitação, mesmo que muitas vezes acarrete em desastres. Em meu outro colégio era só desastres, tristezas, brigas... No caminho do colégio nossa conversa foi bem legal. Meu pai não perguntou mais nada sobre eu ser gay, ter depressão e essas coisas, foi simplesmente uma conversa distrativa e agradável. Fomos para a casa de minha mãe. Felizmente ela estava saindo. Pude lhe dar um beijo rápido e fingir que não tinha chave para entrar. Ela abriu para mim e entregou - me a reserva; fiquei com duas. Fui para meu atual quarto, que na verdade é um quarto de hóspedes. Fui direto pegar minha chapinha e alisar um pouco o cabelo para não ficar tão horrível. Tive de colocar na temperatura de 220°. Arrumei principalmente a franja, pois estava muito rebelde. E é claro que meu pai ficou buzinando e me apressando, dizendo que iria para o trabalho e me deixaria para ir sozinho ao colégio. Quando terminei peguei minha mochila e voltei para o carro. - Alisou o cabelo, não é? 156
  • 157. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga Dei de ombros. Mentir não iria adiantar de nada, pois dá para perceber que meu cabelo está muito melhor. Ele disse - me algumas coisas que eu preferi não dar atenção. Da casa de minha mãe até o colégio o caminho foi bem curto, tanto que eu o faço a pé todas as manhãs. Chegando ao portão os alunos ainda estavam espalhados pelo pátio, ou seja, ainda não havia batido. - Tchau pai. Agi automaticamente e depositei - lhe um beijo na bochecha. Abri a porta do carro e saí com a minha mochila em um só ombro. - Bryan – ele me chamou e eu voltei - me para o carro. - Vou te buscar para almoçarmos, ok? - Certo... Fui me virar, mas voltei um passo. - E a minha mãe? Ela disse que tentaria ir para casa hoje para almoçarmos juntos. - Eu ligo para ela e aviso. - Ok. Ele esticou - se um pouco para o meu lado, observando algo atrás de mim. - É mesmo esse o colégio que você quer estudar? Suspirei, pensando no que responder. Ontem de noite quando ele me perguntou se eu queria voltar para casa eu respondi que sim, mas que também queria ficar no colégio, por isso teria de pensar. Foi um choque para ele que eu tivesse de pensar na possibilidade de trocá - lo por um colégio público. - Sim... - Bom dia Bryan! Olhei para o lado para ter certeza de quem me cumprimentara e, de imediato o nervosismo tomou conta de mim. Ele definitivamente não pode ficar perto de meu pai! - Quem é? – meu pai perguntou curioso. - Ninguém – respondi rápido. - Pedro! Aqui! PUTA QUE PARIU! O garoto tinha mesmo que chama - lo agora?! Pelo amor de Deus, que merda! Agora sim estou completamente vermelho! Eu tenho muita sorte! - Ninguém... – meu pai repetiu, debochado. Soltou uma risadinha irônica antes de voltar a sentar-se normal no banco do motorista. – Me espere aqui no colégio, Bryan. Dentro. - Tá pai, tchau. Saí de lá batendo o pé e bufando. Passei reto por todos que encontrei no pátio do colégio e fui para minha sala de aula. Me surpreendi ao encontrar Erick e Thiago 157
  • 158. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga conversando animadamente. Para minha desgraça eu tive de me aproximar, pois sento atrás de Erick, bem onde Thiago estava sentado. Quando me aproximei e larguei a mochila em minha classe ambos me fitaram, assustados. - Bom dia. - O que aconteceu? – perguntaram quase ao mesmo tempo. Foi aí que entendi que o problema eram meus curativos. - Caí encima de um espelho. Fora evidente que ambos desconfiaram. Preferi ignorar e... Ficar de pé porque Thiago continuou sentando em minha cadeira. *** - Erick! Erick e eu estávamos indo para a biblioteca fazer o trabalho de dupla que a professora de matemática passou quando encontramos Thiago no corredor. Fiquei chateado, mas guardei para mim mesmo. Como vamos fazer algo com o Thiago sempre pendurado no Erick? Essa linha de raciocínio me levou a Matheus, quando ele disse me aquelas coisas. Estou sendo tão idiota a ponto de querer que Erick não faça amigos, ainda mais Thiago que é tão animado e deixa Erick tão feliz. - Está matando aula? - Não, meu professor de física não veio. Você eu nem vou perguntar! Alguma coisa houve, porque matar aula é que não vai – Thiago disse sorrindo, aproximando - se demais de Erick, deixando - o sem jeito. Eu me afastei um pouquinho, somente para não fazer parte da cena. - E você também não matará aula! Eu não deixarei. Que gracinha! Ainda mais com o Erick tão vermelho. Eles fariam um casal tão bonito... Mas acho que Erick ainda gosta da Alice e pode estar tratando Thiago somente como um amigo. Um de seus únicos amigos. Também deve estar se envergonhando tanto por saber que Thiago é bi. - Sim senhor. Não vou mais matar aula, a não ser por uma emergência. - A não ser que você esteja quase morrendo! Daí eu vou levar a matéria na sua casa. Talvez Thiago esteja interessado em Erick, mas não seja recíproco. Não sei. De qualquer forma eles ficam felizes juntos, rindo e conversando. Eu não deveria atrapalhar isso. Quando entramos na biblioteca sentamos Thiago, Erick e eu. Erick nem se importou que não estávamos fazendo o trabalho e isso é um sinal. Desde quando Erick não se preocupa com os trabalhos ou os deixa de fazer para conversar? Isso realmente é uma atitude estranha da parte dele. Aos poucos fui me sentindo excluído da conversa. Não é culpa deles, estão se dando tão bem e agora, pensando bem eu gosto disso. O Erick é muito fofo e envergonhado, é bom que ele socialize, sendo com ou sem segundas intenções, principalmente com 158
  • 159. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga alguém legal como o Thiago. Resolvi, por fim me levantar e rumar para outra mesa. Quando estava saindo Erick puxou meu braço. - Onde vais? - Outra mesa. Quero estudar e como vocês estão conversando... Mas, por favor, não parem. Erick, outro dia podemos fazer o trabalho, não precisa entregar hoje – disse sorrindo. Erick corou e abaixou o olhar, mas não se impôs. Quando estava prestes a dizer algo Thiago interrompeu - o. - Tudo bem, mas se quiser conversar vem pra cá. Concordei e saí de perto, indo para uma mesa mais afastada. Do lado direito a parede e atrás uma estante cheia de livros. Sentei - me e abri meu caderno do Simple Plan. Folheei sem uma mínima vontade. Para ser sincero nem sei que matéria é essa. O que faço? Tento ler alguma coisa? Que saco. - O que houve com seu rosto e braços? Ergui o olhar só para encontrar um Pedro assustado que sentou - se ao meu lado, revirei os olhos tentando ignorar o nervosismo que apoderou - se de mim. - Mordi. - Sério Bryan. - Como achas que isso aconteceu? Fitei - o, mas logo desviei o olhar. Pedro me deixa tão nervoso que não consigo pensar direito. - Não sei. Tentou se matar? Porque eu li na internet que emos fazem isso. Mas desta vez foi necessário. Fitei - o e estreitei os olhos. - Por que eu tentaria me matar? Ele deu de ombros. - Não sei. Por causa do que eu disse? - Olha bem pra minha cara e repete. Repete que você acha que meu mundo gira em torno de ti. - Ai Bryan! Eu não sei e você não me conta. - Tanto faz. Bufei e continuei a fitar meu caderno, desinteressado. Pior ainda é agora que meu pai sabe que eu gosto dele e Pedro não faz a mínima! Nervoso, levei a mão direita aos lábios e comecei a mexer em meus piercings, fingindo ler alguma coisa no caderno. Senti meu braço esquerdo ser puxado para o lado. - Parece bem feio... - E o que te importa? 159
  • 160. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga Percebi que estava começando a respirar com dificuldade e me levantei, puxando bruscamente a cadeira para trás e sendo repreendido. Fugi para entre as prateleiras vazias do corredor com os livros didáticos. - Bryan, por que fica fugindo de mim? Além do mais só me queima! Ignorei - o e fui procurando um livro qualquer. Em qual matéria meu caderno estava aberto mesmo? Química ou Biologia... Mas quando fui pegar um livro de Biologia Pedro meteu a mão na frente, impedindo - me de passar. - Pelo menos me responde o que fiz agora! Com dificuldade eu me virei de frente para ele. Pedro prensou - me mais na estante e eu realmente não gosto disso. Como se eu fosse uma garotinha. - Quer mesmo saber? Ele fez sinal positivo com a cabeça. Eu tomei fôlego e tentei ouvir outra coisa que não fosse meus batimentos cardíacos. - Eu gosto de ti. Mas, Pedro, olha pra mim! Sou um garoto querendo um hetero! Não tenho uma chance de verdade e... Não quero me machucar – eu disse - lhe tudo rápido, baixinho e de uma vez só. Ao terminar a frase ergui meus braços juntos, batendo cotovelo a cotovelo. – Mais do que já estou. Ele riu e eu acabei por sorrir. Olhei para nossos pés sem realmente prestar atenção e quando finalmente achei que poderia ser solto sua mão estava em meu queixo, erguendo meu rosto e... No segundo seguinte eram seus lábios sobre os meus, sua mão em meu rosto e sua língua na minha. Nossas línguas, nossos lábios úmidos, seus puxões em meu piercing quase me enlouquecendo. Aconteceu e eu não tenho mais dúvidas de que estou perdidamente e irrevogavelmente apaixonado pelo Pedro. E eu deveria parar para pensar nos prós e contras de sua mão em meu cabelo, sua saliva inundando minha boca, seus lábios tão deliciosos a estalar com os meus de novo e de novo de uma maneira tão gostosa... Mas eu simplesmente levei minha mão ao seu rosto e dei continuidade a insanidade de nossas ações. Que eu enlouqueça, mas por céus, isso é melhor que qualquer coisa! Palpita meu coração, inebria meus pensamentos e leva - me a um estado de êxtase surpreendente. Os batimentos de meu coração são tão fortes que passam para meu corpo e me fazem tremer, perdendo a firmeza, firmeza esta que me deixara por completo e me fez ir ao chão, impulsionado por Pedro. Ri de forma boba e desligada ao perceber que Pedro vira ao chão comigo, ficando por cima de mim, ajoelhado entre minhas pernas e apoiando as mãos na parede ao lado de minha cabeça. - Tudo bem? - ele perguntou preocupado, mas eu fiquei sem entender. Somente quando ele esfregou minha cabeça foi que senti uma pontada. Ou seja, com a queda eu bati com a cabeça na parede. Soube, por um breve momento que eu deveria deixar de ser idiota e dar ouvidos a minha consciência. Mas, ignorá - la e deixar - me levar por todo aquele entorpecimento soava mil vezes melhor. Contornei seu pescoço com ambos meus braços e puxei - lhe para mais um beijo. Desta vez ambos estávamos sentados no chão, com nossos corpos em um contato maior. E nunca foi tão delicioso beijar; principalmente porque Pedro sabe beijar muito 160
  • 161. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga bem. Eram vários beijos, uns seguidos dos outros, ora beijo longo, ora selinhos, puxões nos lábios e em meus piercings, proporcionando - me uma leve dor, deliciosa e viciante. Os passos de alguém que se afastava e esbarrara em algo interrompeu - nos, fazendo Pedro afastar - se de mim bruscamente. Não foi um azar, propriamente assim, pois somente uma interrupção poderia parar - nos, pelo menos por parte minha. - Que merda - ele disse enfatizando bem as duas palavras e pausando entre elas. Suspirei, soprando minha franja. - Desta vez não fui eu quem começou, garoto hetero. Serei bem sincero: estou nem 'aí. Quem vai se fuder é Pedro, ele é o hetero. Eu sou gay independente dele, então para mim tanto faz como tanto fez. Pedro levantou - se rapidamente e correu para o final do corredor, único lugar por onde alguém poderia ter passado e nos visto. Eu fiquei sentado ali mesmo, sem pressa. Juntei as solas dos tênis e esperei ele voltar. - Foi o seu amiguinho que viu! Vai falar com ele. - Que amiguinho? - O emo de olhos verdes. - Matheus? - questionei para ter certeza, mas ele fez sinal de que não sabia o nome. – Ah, se é ele nem precisa... - interrompi a mim mesmo, raciocinando. Tudo bem tentar fazer ciumes, certo? Se ele não gosta de mim não tem nada de mais. - Tudo bem, eu falo com ele. Talvez só precise que vá para a cama com ele. Levantei - me e estapeei minha calça, forçando para não rir. Eu sabia que ele estava fitando - me, incrédulo. Terminei de me limpar e levantei a cabeça, encarando - o. - Que foi? - Isso é sério? - Sim. - Desde quando você é puto, Bryan? Foi minha vez de me surpreender. Aproximei - me dele, furioso com uma mão na cintura e a outra apontando para ele. - Puto? Porque caso você não saiba eu vou fazer isso por ti! Não sou eu quem vai ter problemas se ele contar para todo o colégio que estávamos ficando, vai ser você! Eu já sou gay, você é o hetero de faixada. Ele se acalmou e sua expressão foi de desolado. - Desculpe Bryan, mas eu... Merda! Que merda! Pedro virou e saiu de lá xingando todos os santos existentes, resmungando coisas que prefiro não entender. Depois que ele finalmente deixou a biblioteca eu saí do meio dos livros e segui para a mesa onde outrora estivera. Juntei meu material e guardei - o dentro da mochila. Voltei para e mesa onde Thiago e Erick conversavam animados até demais, deixando de lado os estudos. Coloquei a mochila em uma das cadeiras. 161
  • 162. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga - Cuidam para mim? Vou dar um passeio. Erick acenou com a cabeça, em sinal afirmativo. Sorri e saí de lá antes de interromper coisas importantes. Passeei pelos corredores um tanto tonto e desnorteado. Por mais que queira raciocinar o que houve entre mim e Pedro eu não consegui. Minha atenção fugiu, vagando entre coisas bobas. Talvez eu deva procurar Matheus. É provável que Pedro decida acha - lo ele mesmo para pedir a Matheus que não conte, mas Matheus não pretende contar, de qualquer forma. Fui para o pátio, vendo o sol claro da manhã incomodar minhas pupilas. Segui por fora ainda sem rumo, vendo alguns alunos que matavam aula passear pelo pátio despreocupadamente. Quando fui olhar atrás do prédio da biblioteca, sem razão alguma foi que encontrei Matheus, com Lucas em seus braços. - Oi meninos. Eles me cumprimentaram. Mi comi de um jeito mais... "Mi comi", em seguida pulou em meu colo, abraçando - me forte. - Que houve Bryan? Como se machucou tão feio? - perguntou Mi comi, mas Matheus também estava interessado, esperando uma resposta. - Caí encima de um espelho. E, por favor, acreditem em mim porque estou cansado das pessoas acharem que é mentira. - Foi muito horrível? Dói muito? Quer que a gente te ajude com alguma coisa? Quer que visite? Enquanto Lucas fazia mil e uma perguntas Matheus aproximou - se, sentou do nosso lado e beijou minha bochecha machucada. - E então Bryan? - Matheus perguntou, deixando Lucas sem entender. Eu entendi; ele queria saber sobre eu e Pedro. - Fugiu quando você apareceu. Mi comi fitou - me curioso. - Do que vocês estão falando? - Eu estava ficando com Pedro. O queixo de Lucas foi lá embaixo e só então eu lembrei que nunca contei nada a ele, então acrescentei: - Pela terceira vez. - QUEEEEEEEEEE? E por que nunca me contou nenhuma dessas vezes? Eu não teria como responde - lo. Como vou lhe dizer agora que eu o achava um grande falso e que o odiava, sendo que confia totalmente e cegamente em mim. - Bem, na verdade foram duas, um selinho roubado e... Como posso explicar... Uma transa com roupa. 162
  • 163. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga Se ele já estava surpreso antes, agora estava embasbacado. Olhando pelo seu ponto de vista eu até entendo que pareça um monte de coisas. Na verdade foi o nosso primeiro beijo que acarretou na minha primeira vez, depois o selinho quando ele machucou o pé, a parte no banheiro e o hoje. Bem, ele estava bem estranho hoje. - Desculpe por tê - los interrompido. - Não foi nada. Se não fosse você seria outra pessoa, daí seria pior. Aliás, Pedro veio falar contigo? - Não. Por quê? - Porque eu disse para ele que para você não espalhar por todo o colégio que eu e ele ficamos eu teria de dormir contigo. - Mas isso não é verdade, né? - perguntou Lucas, intrometendo - se. - Claro que não, Lu. É só para tentar enciumá-lo - eu respondi, mexendo em seu cabelo. A raiz escura já está nascendo novamente. - Então eu tenho uma ideia! - ele respondeu sorrindo alegre. Eu lhe retribuí o sorriso, tentando ter o máximo de paciência possível com ele. Não é difícil, pois gosto dele, mas às vezes bate aquela vontade de implicar ou chama - lo de Mi comi... - Conta. - Assim, quando o Pedro estiver por perto o Matt pode te dar um selinho e sorrir malicioso para o Pedro achar que vocês estão combinando, mas na verdade não estão a frase veio seguida de uma risada um tanto infantil e divertida. - Boa ideia! Você faz isso para mim, Matheus? Ele deu de ombros, fazendo sinal afirmativo com a cabeça. Levantei - me, levando Lucas comigo, porém sem deixa - lo cair. - Agora? Ele se levantou também. Não sei se é impressão minha, mas Matheus parece estar calado e isso não é o estilo dele... Ah sim, claro! Ele gosta de mim! Como pude esquecer? - Tudo bem mesmo, Matheus? - Sim, sim. Tudo bem - ele respondeu sorrindo, mas pareceu menos animado que o Matheus normal. - E eu? Vão me deixar? - perguntou Mi comi manhoso, puxando meu moletom. - Claro que não. Você vem junto. Tem que ajudar para ver quando o Pedro estiver olhando. O loiro sorriu e segurou em minha mão. Em seguida pegou a mão de Matheus e foi nos puxando pelo pátio, em busca de Pedro. O encontramos conversando com um grupo de garotos, na frente do prédio das nossas salas de aula. Ficamos a, mais ou menos uns 7 metros do grupo dele. Lucas deixou a mim e Matheus um de frente para o outro e foi andando para trás, se afastando. Eu o fitei, intrigado. - Espera o meu sinal - ele sussurrou baixinho e piscou para mim, seguindo para trás. Deus, o Mi comi vai chamar a atenção... Mais do que ele já chama! 163
  • 164. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga Virei de frente para Matheus, nervoso. Ao olhar em seus olhos verdes me lembrei de que ele está apaixonado por mim e somente isso me deixou mais nervoso ainda. Fitei a seus olhos verdes e ele sorriu, mas não me pareceu ser o Matheus. Havia algo de estranho. Talvez ele somente esteja sem jeito pelo que me disse. Para ser sincero nem sei se ele ainda gosta de mim, pois ele disse "não foi por esse garoto que eu me apaixonei". Então não está mais apaixonado por mim? - BRYAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAN! Certo, seu sinal é bem claro. Olhei - o rapidamente. Ele estava do lado contrário ao de Pedro e seus amigos. Obviamente que chamou a atenção de Pedro. - Só um pouquinho Lucas, já vou! Quando me virei novamente para Matheus ele me segurou pela cintura e me deu mais que um simples selinho. Ele sugou meu lábio inferior para dentro de sua boca e mordiscou. Separamos - nos, eu como o idiota que sou já comecei a arfar com meus batimentos acelerados. - Amanhã à noite, certo? - ele disse sorrindo malicioso e piscando para mim. Matheus realmente se sairia bem mentindo. - Certo... - pensei em sorrir, mas lembrei de que meu papel é de "que droga, terei de dar para um garoto lindo e carinhoso" então abaixei a cabeça, fitando o chão a nossos pés. Fiquei nervoso e acabei me esquecendo de me afastar. Como não fiz foi Matheus quem seguiu para próximo de Mi comi. O loiro ficou confuso, mas aceitou acompanhar Mat. Eu me senti mais nervoso ainda em saber que Pedro poderia se aproximar de mim e me encher de perguntas. Felizmente fugi a tempo, de volta a biblioteca, mais desnorteado do que antes. Que se passa com Matheus? E Pedro, pois desta vez foi ele quem me beijou, mesmo depois daquilo no banheiro. Será que o Pedro está começando a gostar de mim? Não pode, pois se não ele não deixaria que eu transasse com Matheus. Ou será que... 164
  • 165. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga Capítulo 18: Amor surpresa. Mais uma manhã de aula. Estávamos todos sentados em nossos lugares, - ou pelo menos a maioria – conversando e bagunçando, obviamente, esperando a professora de artes chegar. Eu prefiro ignorar, mas o olhar de Pedro me incomoda. Hoje Thiago está na minha sala de aula. Estranho, não? Mas ele nos contou que a professora de artes saiu do colégio e hoje será nosso primeiro dia com a professora nova, então ela não perceberá que há um aluno de outra turma aqui porque ela não nos conhece. Eu penso que, com a aparência dele obviamente chamará a atenção e ela o reconhecerá na hora de dar aula para a outra turma, mas Thiago não se importa com isso e eu também duvido que ela irá querer ter problemas em seu primeiro dia. Bufei, soprando a franja que incomodava meus olhos. Não tenho muito o que fazer com Thiago e Erick conversando bem felizes e me ignorando completamente. Bem, isso incomoda um pouco, mas não me sinto mais mal. - Bom dia. Não fui somente eu que me surpreendi quando um homem jovem adentrou nossa sala. “Jovem”... Jovem e gostoso! Muito gostoso! Alto, cabelo castanho com luzes, olhos azuis, traços faciais perfeitos, barba rala, um óculos de sol na cabeça e uma bolsa cruzada com um estilo de fazer qualquer garota enlouquecer! O típico professor perfeito com que todas as garotas sonham. E é claro que com um cara tão perfeito assim entrando em nossa sala o silêncio tomaria conta do lugar. Ele retirou sua bolsa cruzada e largou encima da mesa do professor, em seguida virou - se de frente para a turma, encostou - se na classe e cruzou os braços. - Você é o nosso novo professor de artes? – perguntou um dos garotos do fundo da sala, provavelmente amigo de Pedro. - Não, eu somente gosto de invadir salas de aula sem professores. A turma riu. Talvez pelo modo sério com que ele falou ou com a beleza exagerada dele. - Não tem cara de quem já se formou na faculdade e está apto a dar aula. Ele mal esboçou uma expressão de simplicidade. - E você tem cara de quem já se formou no ensino médio, mas cá estamos nós, então me parece que as aparências enganam. Ele sorriu maravilhosamente e toda a turma riu. Alguns soltaram interjeições como “Aii, que queima”. - Meu nome é Rafael Lima, tenho 24 anos e me formei em Artes. substituindo sua professora Marta que saiu para fazer mestrado. Estou aqui Ajeitou - se melhor, cruzando as pernas e apoiando a palma das mãos na mesa, esticando os braços. - Eu não vou mandar - lhes desenhar, pois é um desperdício do tempo de vocês. Se artes fosse desenhar, então seria mais útil que vocês tivessem esse tempo livre ao invés de ter aula. Sendo assim, quem sabe me dizer o que é artes? 165
  • 166. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga Olhei de relance para a turma. Alguns alunos levantaram a mão, em maioria meninas; em maioria coradas. - A loirinha da terceira fila. Alice. - Aquilo que olhamos e achamos que somente pouquíssimas pessoas conseguem fazer? - Bom, se fosse assim então... Um complicado cálculo de matemática seria uma forma de arte. Alice abaixou a cabeça, constrangida. Quando percebi que estava de boca aberta, quase babando fechei - a e tentei disfarçar. Não importa o que o professor diga, ele já ganhou 1.000 pontos por beleza. - Mas está certa, garota. A arte não tem definição, ela é o que você disser que é. Não há uma lei que defina o que é arte e o que não é, são as pessoas quem decidem. Mas aqui, para trabalharmos necessitamos de uma definição de arte, então darei a minha. Arte, para mim é aquilo que pode nos passar sentimento, como uma espécie de amor. Que inteligente... Que lindo... Que gostoso... - Tais como: filmes, pinturas, musicas... - Uma cirurgia de peito aberto... – acrescentou um dos garotos. Me segurei para não estapear minha própria testa com tamanha a bobagem que ouvi. Uma cirurgia de peito aberto não nos passa sentimento! - Médicos podem ser artistas, em sua percepção. De forma social eles fazem parte daquele grupo de pessoas que arriscam suas próprias vidas para salvar as dos outros. - Arriscar suas vidas? Desde quando? Eles vão lá, fazem merda, matam as pessoas e eles continuam bem e saudável. - Algum dos pais de alguém aqui é médico? Ninguém manifestou - se, então o professor sentiu - se obrigado a mudar de estratégia. - Então alguém daqui tem mãe ou pai advogado? Minha vez. Nervoso, eu ergui a mão, chamando a atenção daqueles olhos voraz. - Meu pai é advogado. - Qual seu nome? - Bryan – respondi, mas estranhei ele não ter perguntado o nome de Alice. - Só por curiosidade, Bryan. Sua mãe trabalha em que? - Secretária. O professor soltou um riso perfeito e toda a turma riu. Eu entendi o porquê, mas como é verdade não faz mal. Contando que não comentem maldosamente, como eu sei que estão fazendo em tom baixo os mesmos garotos de sempre. 166
  • 167. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga - Conte para a turma sobre seu comentário – o professor intrometeu - se, mas não deveria fazer isso. Somente será motivo para discussão... Ele não entende que é implicância? - Eu? - Sim, você mesmo. Não está fazendo seus amigos rirem? Faça - me rir também. Se conseguires lhe darei meio ponto na média. Meio ponto para me queimar? Professor Rafael, se o senhor não fosse tão gostoso e perfeito estaria me decepcionando. - Ah, eu estava dizendo que o Bryan deve ter sido feito encima da mesa do escritório do papai, por cima de um monte de processos. Olhei para trás, boquiaberto e lá estava o engraçadinho. E qual fora minha surpresa ao encaixar as peças e perceber que mais cedo eu ouvira uma conversa muito útil para esse momento? Era ele mesmo falando aos amigos que não poderiam mais comprar bebidas alcóolicas em um determinado posto porque agora o pai dele trabalha lá. E eu não vou perder essa oportunidade. - Pelo menos o meu pai tem um escritório. Melhor que o seu que trabalha enchendo o tanque do carro importado do meu papai. Ah, isso sim foi um belo queima! Agora sim me sinto plenamente satisfeito. Quem mandou tentar me irritar? - Meio ponto para o garoto que me fez rir – anunciou o professor. Espantei - me ao perceber que se referia a mim. – Bryan? Maneei a cabeça, em sinal afirmativo. - Vou me lembrar de anotar isso. Mas voltando ao assunto. Bryan, seu pai nunca presenciou um caso de alguma pessoa processando um médico, culpando - o pela morte de algum paciente? - Várias vezes. - Então isso demonstra que os médicos arriscam sua própria vida para salvar as dos outros. - ‘Viadinho de merda – resmungou alto o mesmo garoto que eu passei por cima minutos atrás. - Falta de respeito significa um passe obrigatório para passear pelos corredores do colégio e conhecer a tão frequentada diretoria. - Quanto a isso está tudo bem. Sou gay mesmo, então com isso não me atingem. - Viu só? Baita ‘viado! Só quer saber de dar! - E ainda é nojento e faz questão de mostrar para todos. – Os garotos implicaram, juntando - se contra mim. - É gay? – o professor sedução perguntou em um tom pouco surpreso. - Sim. 167
  • 168. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga - Então Bryan, venho a lhe fazer um convite... Ele descruzou as pernas e moveu – se para o lado. Puxou a cadeira do professor, deixando - a ao lado da classe maior que todas as outras, com a cadeira de frente para a turma. - Convido - lhe a sentar aqui, ao meu lado para conversarmos sobre essa arte chamada “amor”. Preciso comentar do espanto da turma e de todas as interjeições e comentários que surgiram? Eu parei por um segundo, analisando a oferta. Dei de ombros e me levantei, indo sentar ao seu lado. Se eu encarei dois colégios, duas diretoras, grupos homo fóbicos, amigos e, acima de tudo minha mãe e meu pai, por que não conversar um pouco sobre isso na aula de artes? Já discuti o mesmo assunto em história e fui para a diretoria. Daqui da frente dá para ver todos com precisão. Com certeza nenhuma atitude da turma passa despercebida pelo professor. - Desde quando ser gay é arte? - Amor é arte. Homossexualismo é uma forma de amor, tornando - se, assim, arte. - Que merda é essa?! Vou mandar meus pais virem aqui! - E eu vou dizer - lhes que você precisa frequentar uma psicóloga porque homossexualismo não é doença, homofobia é. - Eu não entendo o porquê de vocês estarem reclamando – intrometeu-se uma das garotas. Acho que se chama Amanda. Que bom, já estou lembrando os nomes. – Debocham, mas não querem que o garoto se defenda? Agora vão ter a chance de realmente o conhecerem ao invés de formar o preconceito estúpido de vocês. - Puta merda, não acredito que isso é a nossa aula... – um dos garotos do fundo resmungou e escorregou na cadeira, sentando de mau jeito. - Alguém quer perguntar alguma coisa? Algumas garotas ergueram as mãos, mas Alice intrometeu - se, já perguntando. - Tem namorado? - Não – respondi. - Gosta do Pedro? – meteu-se Laura. - Por que o Pedro? - Porque vocês formam um casal bonitinho. Os garotos xingaram. - Gosto dentro do possível. - “Dentro do possível”? - Ele me irrita quando diz algo homo fóbico. 168
  • 169. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga As garotas riram. Ajeitei - me na cadeira tentando esconder o nervosismo ao tratar de tal assunto. Eu gosto mais do que qualquer um aqui pode imaginar. - O que você gosta nos garotos? - O que vocês gostam nos garotos? – repeti no plural, pois foi a mesma garota de antes quem perguntou, Laura. - Gostaria de ser uma menina? – perguntou Alice. - Não. Gosto de ser um menino. As três garotas, Amanda, Alice e Laura mantinham seus corpos embalados para frente, eufóricas, interessadas demais na conversa. Uma esperava ansiosa que a outra terminasse para, assim poder fazer a sua pergunta. - Que tipo de garoto você gosta? - Os que não parecem uma garota e sejam “normais”. - Como o Pedro. - Como a maioria dos heteros – terminei sorrindo. O “debate” ia continuar, porém o professor interrompeu - as, prevendo que aquilo não teria fim tão cedo. - Por que tudo leva a este tal “Pedro”? – perguntou o professor Rafael, curioso. – Quem é esse cara? - Não veio – respondeu Alice. - Eu não sei por que insistem tanto nele. Nós nunca tivemos nada, ele é hetero. As garotas que ficam insistindo – protegi - o, mentindo. Foi um aperto em meu peito, mas eu não quero obrigar alguém a passar pela tortura que eu passo. Na verdade agora não chega nem aos pés de como foi no início, mas para ele agora seria o início. - É que o Pedro fez amizade com o Bryan e eles formam um casal tão lindo! – comentou Laura, animada e com um ar de romance. - Eu discordo. Pra mim é o Bryan quem tem interesse no Pedro – respondeu Alice, menos amigável. - Eu acho que o Bryan merece alguém melhor, mas é verdade que eles ficam fofos juntos – respondeu, por último, Amanda. - Entendi... Mas agora eu quero um garoto fazendo alguma pergunta. As garotas bufaram, irritadas. Como já era esperado nenhum menino se manifestou. - Então devo deduzir que se não possuem perguntas para fazer é porque já entendem tudo sobre o homossexualismo, certo? O professor pode ser novo, mas realmente entende sobre dar aula. De imediato os garotos começaram a se manifestar. - Para que perguntar? Homossexual: gosta de dar. O que mais é necessário saber? 169
  • 170. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga - Então considerarei que você não quis participar da aula por vontade própria. Mais alguém quer zerar nessa aula? Todos se exaltaram, inclusive eu mesmo. Discutir sobre homossexualismo na aula vale nota? Acho que esse ano passo em artes. - Certo, certo. Sei lá o que vou perguntar, eu só não posso tirar nota baixa ou minha mãe me mata! ‘Hã... Seus pais sabem? - Tanto meu pai quanto minha mãe. - Coitados... Eu sorri. Se fosse antes eu não me sentiria bem com tal comentário, mas agora que já conversei com meu pai está tudo bem. - Já pegou algum garoto da nossa sala? – perguntou um garoto que eu não faço a mínima quem é. Não é do grupo do Pedro, mas também não é nerd, nem emo, nem gay... Não faço a mínima o que esse garoto é. - Já – fui sincero. Os alunos se exaltaram. Fui bombardeado com perguntas de várias formas e estilos, mas sempre focadas no mesmo assunto: quem. *** O sinal anunciando o inicio do intervalo ecoou pelos corredores. Pouquíssimos segundos depois surgiu Thiago na porta de nossa sala, adentrando alegremente, ignorando os sussurros a seu respeito. Ele rumou para próximo de mim e Erick e, obviamente foram conversar. Sorrateiramente eu me levantei e saí da sala, tentando chamar a atenção o mínimo possível. Saí para o pátio do colégio procurando pelos garotos, até um loiro escandaloso gritar meu nome “discretamente”, como ele sempre faz. - BRYAAAAAAAAAAAAAAN, olha o que eu ganhei! Sorri para Lucas quando ele parou na minha frente, mostrando - me uma caixa de bombons da marca cacau show. A embalagem tinha o formato de um coração. - Que lindo! – exclamei. – E esse chocolate é delicioso. Que inveja... – disse, sentindo uma pontada de inveja, pois nunca recebi nada. Mesmo assim fiquei feliz por Mi comi, ele merece mais que eu. – Quem lhe deu? - Não sei – ele respondeu fazendo um biquinho infantil – Eu só encontrei encima da minha classe dizendo “Te amo”. Não é lindo, Bryan? Tem alguém que me ama secretamente, mas tem vergonha demais para contar! Isso é tão fofo... - Sim... Sorri, permitindo que ele segurasse em minha mão e me arrastasse para a grama. Lá estavam Luke e Matheus, conversando. Sentamos com eles. 170
  • 171. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga - Aposto que viu o presente do Lu – comentou Luke, cruzando as pernas. – Ele está carregando isso para todos os lados a manhã toda. Fitei Lucas. Ele estava agarrado àquela caixa em formato de coração, feliz do seu modo infantil. Apertava junto ao seu peito, quase desmanchando os bombons. - Só esperamos que não seja de Alex... Eu mesmo olhei feio para Luke enquanto Matheus o acotovelava. - Ai, tá! Desculpa! Revirei os olhos. Droga. Tinha mesmo que falar do demônio perto do Mi comi? Acho que eu tenho que parar de chama - lo de Mi comi, mas é automático. - Não é dele. Ele não me ama. E eu vou encontrar essa pessoa que disse que me ama! – ele disse com um olhar tristonho, mas um sorriso na face. Lucas abriu a caixa de chocolate facilmente. Os bombons pareciam botões de flores vermelhas e já faltava alguns. - Quer provar, Bryan? Concordei. Se fosse antes eu não aceitaria comer os bombons que ele recém ganhou, mas seu sorriso foi tão fofo... Eu sei que Lucas gosta de compartilhar as coisas, pois ele é uma boa... Criança... Lucas pegou um bombom e retirou o papel. Em seguida colocou - o por metade dentro da boca e a outra metade deixou para fora. Aproximou - se um pouco de mim, erguendo o queixo e oferecendo o doce. Eu ri e aceitei. Rocei nos lábios de Lucas e mordi o chocolate, ficando metade com cada um de nós. Mas, inesperadamente dentro do chocolate havia um líquido rosado e meloso que escorreu pelos lábios de Lucas, sujando seu queixo e continuando a escorrer. Eu ri, pois o líquido ficou todo com ele e eu apenas comi a casquinha do chocolate. Ele me fitou com os olhos arregalados e começou a rir, perguntando o que fazer enquanto o doce escorria para seu pescoço. Rindo, puxei - lhe pelo braço para mais próximo e lambi seu queixo, onde havia o doce meloso. Bem gostoso, até. Segui com a língua para cima, lambendo de leve seus lábios, enquanto ele ria e me atrapalhava. Desci o rosto e lambi lhe um pedacinho da pele quente de seu pescoço que possuía doce, fazendo - lhe rir. Enquanto fazia vi, por um ângulo de 90 graus a expressão de desagrado de Matheus, surpreendendo - me. Parei. - Pronto. Retribuí o sorriso de Lucas. Ele fechou a caixa e segurou - a junto do peito, aproximando - se de mim enquanto mordia o lábio inferior. - Você adora me beijar, né Bryan? - Sim – respondi para não magoá - lo. Lucas é fofo e tem que ser protegido como uma criança. Acho que ele é a primeira criança de quem gosto. 171
  • 172. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga Ele sorriu a chegou mais perto, fazendo um bico com os lábios. Beijou - me a bochecha esquerda e, em seguida depositou um selinho em meus lábios. Sorri sem graça, sabendo que estávamos sendo observados por Luke e Matheus. - Que doce – lhe disse sorrindo, fazendo - o feliz. Antes que Mi comi pudesse fazer qualquer outro movimento eu me afastei, chegando mais perto de Matheus que sorriu de leve. - Tudo bem com você e Pedro? Dei de ombros, demonstrando que não sabia. Recostei minha cabeça em seu colo, fitando - lhe de baixo. - Ele não veio falar comigo. Já estou me irritando. Acho que eu deveria deixa - lo em paz e desistir. Pedro é hetero... – pausei, percebendo o erro em minha frase. – Bem, hetero mesmo ele não é, mas não tem interesse em mim. Ergui os pés e coloquei - os no colo de Luke. Ele me mirou e eu sorri. - Que folgado, ‘ein? – Luke brincou, rindo e deixando meus pés ali. - Eu acho que você não deveria desistir logo agora, Bryan. Porque se você realmente o ama tem que investir em sua felicidade – Matheus impressionou - me ao dizer aquilo. Eu poderia esperar uma resposta assim de Luke ou Mi comi, mas de Matheus...? - Eu também acho que você deve esperar, Bryan - intrometeu-se Lucas, recostando sua cabeça encima da minha barriga com seu rosto mirando o meu. – Porque ele não fez nada de ruim, ‘né. - Eu acho que deve desistir – opinou Luke. – Tem tantos caras bonitos por aí e você fica se amarrando a um que nem te dá bola. - Luke está certo. Eu lhe disse que vou ter de dormir com outro garoto para proteger a “imagem” dele e Pedro não fez nada. Ele não se importa. Matheus segurou minha mão e observou minhas unhas que estão deploráveis. Bem curtinhas e com um esmalte preto completamente descascado. - Queria que ele fizesse o quê? Contado para todo o colégio que ficou com você? – Matheus defendeu - o, surpreendendo - me mais ainda. - Não... Mas... Bem, ele podia pelo menos ter tentado falar contigo. - Talvez... – Matheus disse, aproximando minha mão de seu rosto e beijando a palma. – Mas, acima do que você decidir estamos todos aqui, certo? Sorri e Matheus retribuiu o sorriso, alegre como sempre, porém com alguma coisa diferente que eu não soube dizer. Será somente eu que estou percebendo atitudes diferentes ou sempre foi assim e agora que percebi? - Demônio a vista – avisou Luke. Curioso, eu observei as pessoas a volta, procurando pelo demônio, mesmo já tendo uma noção de quem seria. Lá estava Alex, sentando próximo ao portão de entrada com um garoto em seu colo. 172
  • 173. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga - Esse garoto não é daqui, é? – perguntei para qualquer um. - Não – Matt me respondeu. – Com certeza não é. Percebi porque é um emo e os únicos emos deste colégio somos nós. Um garoto do tamanho de Lucas, mas moreno de olhos azuis parecidos com os meus. Pequeno, afeminado, olhos marcados, bochechas avermelhadas de blush e lábios brilhosos cheios de gloss. Um short curto demais, uma bota passando o joelho e uma blusa listrada branca e preta com suspensório. - Não quero ver – resmungou Lucas, permanecendo com a cabeça virada em minha direção, de costas para Alex e o garoto. - Bem puto. Combina com o Alex – Luke comentou em voz alta. Eu e Matheus concordamos. O garoto estava rebolando no colo de Alex, enquanto lambia - lhe o pescoço. Este sim é um “Mi comi” da vida. - Demônio hetero à vista – anunciou Luke. Olhei curioso e inesperadamente soltei o riso pelo nariz ao perceber que se tratava de Pedro. - Bryan, posso falar contigo? Fitei - o confuso. Pedro olhava firme para mim; somente para mim, mantendo - se a uma certa distancia dos meninos. Ergui um pouco meu corpo, apoiando - me nos cotovelos. - Falar comigo? Ele confirmou com a cabeça. Eu olhei para os garotos, confuso. Luke deu de ombros, Lucas sorriu e levantou de cima da minha barriga. Matheus não teve nenhuma reação, surpreendendo - me mais uma vez naquele mesmo dia. - Tubo bem... – eu respondi um tanto receoso. Apoiei as mãos ao lado de meu corpo e quando fiz menção de me levantar Matheus segurou meu braço direito, apertando - o com força. - Quando você cair todos estarão aqui, menos eu. Você tem que se foder para aprender – ele sussurrou entredentes, com tanta raiva que me assustou e doeu em meio peito. Quando ele largou meu braço eu encarei - o, completamente confuso e assustado. Matheus nada disse. - Você não vai, Bryan? – Lucas perguntou. Quando virei o rosto Luke e Mi comi fitavam a mim, sem entender. Será que eles realmente não viram? Quero dizer... Não pode ter sido coisa da minha cabeça. Mas é o Matheus... - Bryan? – Pedro me chamou e, confuso eu me levantei, completamente distraído e alheio. Cambaleei, quase caindo e segui para onde Pedro me esperava, sério demais. Quando me aproximei ele se virou de costas e eu o segui. - O que foi? – perguntei assim que paramos de andar. Ele se virou para mim, ainda serio. Eu olhei para os lados. Há alunos na nossa volta, mas nenhum próximo demais para escutar. Posso ver os garotos daqui, sentados e deitados na grama. 173
  • 174. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga Quando voltei a olhar para Pedro ele abaixou o rosto, parecendo constrangido. Disse - me algo, porém baixinho demais para que eu entendesse. A única coisa que consegui ouvir foi um “...ado”. - Desculpe, não entendi. Mas antes mesmo que ele pudesse repetir eu encaixei as peças. Em uma questão de segundos meu coração disparou drasticamente. Meu rosto ficou mais quente do que em qualquer outro momento, por mais que eu lutasse contra e tentasse a todo custo me convencer de que não estava com vergonha. Ele fez sinal de que era para que eu me aproximasse e assim o fiz, dando um passo para frente. Ele me fitou nos olhos e sorriu sem graça, um pouco vermelho. Tentei normalizar minha respiração, mas parecia ser impossível. ...Ado...Ado... Namor...Ado... - Você quer ser meu namorado? – ele repetiu e eu juro que foi por pouco que eu não enfartei. Apensar disso, de sentir meus batimentos na garganta e estar mais vermelho que um tomate eu tive de me desculpar. - Pedro, é por causa que o Matheus nos viu, não é? Eu... – apertei os olhos com força, tentando me acalmar. Respondi - lhe de olhos fechados, querendo sumir – Eu estava brincando. Não precisa fazer algo tão radical assim. Ele se aproximou mais, ficando muito perto de mim. Ergui meu rosto e arregalei os olhos, assustado demais para pensar com clareza. - Eu prefiro pensar que tenho que fazer isso ou nunca mais vou ter coragem. Eu gosto de você, Bryan. Nossa... Ele se aproximou mais e ia me beijar, mas eu virei o rosto, forçando - o a beijar somente minha bochecha. Vi que ao nosso lado muitos alunos nos observavam e mais uma vez eu serrei os olhos com força. - Pedro, você vai se arrepender! - Então olha para mim. Sua mão puxou meu queixo, obrigando - me a fita - lo nos olhos de perto. Forcei - me ao máximo para tentar me manter calmo, mas eu juro... Deus, eu nunca passei por algo assim antes em toda a minha vida. Pedido em namoro? Logo por Pedro? Parecem aquelas conversas programadas que passamos o dia pensando... - Então você não quer namorar comigo? - Pedro... Sua mão escorregou para minha bochecha, acariciando de leve. Me senti mais envergonhado ainda nele tocando em minha bochecha quente, observando - me de perto. - Você disse que só ficaria comigo se eu admitisse na frente de todos. Se é assim, se tenho que dizer que gosto de garoto, então conto de qual garoto é. Se vai ser assim então quero ficar só com você, tá bom? 174
  • 175. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga Ainda em choque e com o coração a mil eu virei o rosto para o lado e contornei seu pescoço com meus braços, abraçando - lhe. - Tem certeza? - Eu passei noites pensando. Eu quase enlouqueci com isso. Tenho certeza absoluta. Apoiei meu queixo em seu ombro e minha bochecha em chamas no seu pescoço. Fechei os olhos para não ver todos aqueles olhares negativos que estragariam o momento. Senti - me perfeitamente bem quando seus braços contornaram minha cintura, apertando carinhosamente e abaixando a cabeça. - Você me ama? – perguntei, martirizando - me por manter a voz trêmula e oscilante. - Sim. - Por quê? Ele riu. - Bryan! – me repreendeu, seguido de uma risada. – Com tanta coisa pra dizer... Engoli o choro, me sentindo um idiota. Nos afastamos e eu levei as duas mãos ao rosto, na frente da boca, escondendo meu sorriso. - Tem certeza? – repeti, mais para convencer a mim mesmo do que qualquer outra coisa. Porque tudo parecia como uma bela cena de filme com roteiro pronto e eu nunca imaginei que isso seria real para mim, uma vez na vida. E por mais que eu repassasse mentalmente tudo que ele havia dito ainda parecia completamente fora da realidade. Porque é o Pedro! E eu juro pela minha vida que eu poderia esperar qualquer coisa, menos uma declaração vista como o espelho de meus sentimentos. - Absoluta. - Então tá – respondi com simplicidade, apavorado demais para bolar uma resposta mais complexa. - Vai namorar comigo? - Sim. Ele sorriu e eu sorri de volta. Fiquei ali, como uma criança retardada – ou um Mi comi – dando pulos mentais para tentar dissipar um pouco da alegria que tomava conta de meu corpo. A felicidade e o nervosismo estavam me aterrorizando e eu nunca fui muito bom em encarar sentimentos, principalmente de amor. Até porque, são nesses momentos em que eu me dou terrivelmente mal. Não sei o que dizer ou o que fazer; me senti amedrontado. - Bryan pegador! – gritou Luke de longe e eu até me envergonharia se já não tivesse chegado ao nível máximo. - Tenho que ir buscar umas coisas com o Erick, já volto – e antes mesmo de dar tempo para ele responder eu saí correndo, aterrorizado. 175
  • 176. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga Eu poderia me castigar mentalmente por ter saído, poderia rir, chorar, pular ou cantar, mas eu simplesmente não consegui pensar em qualquer coisa. Não consegui! Meus pensamentos ficaram presos no “te amo” e no “vai namorar comigo?”. As palavras ficaram se repetindo de novo, de novo e de novo, prendendo minha mente e impossibilitando - me de ver, agir ou reagir a qualquer outra coisa. 176
  • 177. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga Capítulo 19: Mentiras inocentes. Sentei ao lado do vaso sanitário e emaranhei ambas minhas mãos em meu próprio cabelo, fitando aquele chão imundo. Como posso ser tão idiota e estúpido? Como posso vomitar com algo bom? Que ridículo eu sou! - Bryan? E o idiota do Pedro ainda vem atrás de mim para me envergonhar! Que porra! Fechei a tampa do vaso com cuidado para não fazer barulho e sentei - me encima, torcendo para que ele desistisse e fosse embora. Afinal, somente de ter ouvido sua voz meu estômago revirou. - Estou vendo um All star azul marinho cheio de estrelas. Ou é você ou um de seus amigos e além deles estarem em aula também me responderiam. Aliás, já te vi com esse tênis! Ótimo! Denunciado por um tênis brilhante! Sem muitas escolhas eu dei descarga e abri a porta da cabine bruscamente, empurrando Pedro para longe de meu caminho e indo direito para a pia, tentar retirar o gosto horrível e o provável fedor de minha boca. Enxaguei. - Vomitou? Tudo ok? - Se eu vomitei é obvio que não está tudo bem! – elevei o tom de voz, irritado. - ‘Malz ‘aê. Se não me contar eu nunca vou saber. - Não é para saber mesmo. Esquece. Ele suspirou. Eu nem o olhei. - Isso já começou mal... - Então me deixa. Eu me viro sozinho – falei sem medir minhas palavras. Recusei me a fita - lo, pois somente sua presença é o suficiente para que eu fique ‘putamente nervoso. - Não, não mais – Pedro me respondeu em um tom sério, me surpreendendo. Agarrou meu pulso com força e bateu minhas costas na pedra gélida da pia, posicionando - se a minha frente, impedindo - me de passar. – Se não confia em mim qual é o significado disso? Com “isso” ele queria dizer nosso “relacionamento” se é que pode se chamar assim. Quero dizer, ele me pediu em namoro. Isso não é simples! Namoro! Mas começa hoje e até agora não houve nada... Nada... Nada o caralho! Houve MUITA coisa porque quase transamos! Então eu suspirei e pensei no que lhe responder. Minha mente é um nó. Eu mesmo não entendo o que quero dizer ou fazer e, por mais que complique tudo parece que há um caminho bem simples. Então por que o nó? - Estou nervoso – respondi, por fim a mais pura e simples verdade. Em seguida suspirei, olhando para o chão. - Por que estamos namorando? 177
  • 178. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga Não o fitei. É impressionante como ele diz “estamos namorando” com uma naturalidade! E estamos à apenas alguns minutos. Ele não pensa em “eu ter te pedido em namoro”. Não há dúvidas para ele, sendo que sou eu quem deve responder e decidir. - Você fica tão fofo nervoso, Bryan. – Ele riu e eu o fuzilei com o olhar. - Debocha pra ti ver o que te acontece. Ele escorregou sua mão de meu pulso para minha palma, enroscando - se ali, na minha. Sorriu e beijou minha bochecha devagar. - Eu não entendo como funciona com um cara. Bem, menino ou menina eu não acho que seja normal vomitar depois do pedido de namoro, ‘né – ele sorriu e eu somente estreitei os olhos. – Eu juro solenemente que vou fazer muita merda porque eu nunca, nunca, nunca namorei um garoto antes. Porra, nunca fiquei com um garoto que não fosse você! E vai ter que me ensinar. Desta vez fui eu a rir. Soprei o ar para fora de meus pulmões, mexendo minha franja comprida, sentindo um alivio tremendo tomar conta de meu ser ao me livrar de tal peso. Eu fui tão idiota! Simplesmente idiota. Depositei - lhe um selinho nos lábios, sorrindo, Pedro retribuiu o sorriso. Senti - me mais idiota ainda, um idiota feliz e o abracei rapidamente. Em seguida me desvencilhei de seus braços e fui na direção da porta, puxando - o pela mão. - Vamos para a aula. Tropecei assim que seu braço direito puxou - me pelos ombros para trás. Ele beijou minha bochecha em pleno corredor, envergonhando - me. Ri e segui lhe puxando pela mão, mas novamente ele me parou antes de chegarmos na sala. - Bryan... Pedro puxou minha mão, me deixando de frente para ele. - Sério, não me leva a mal, mas eu não quero resolver isso, – ele disse erguendo nossas mãos juntas na altura de nossos olhos, – na aula de história. A professora já não vai com a minha cara... - História?! Soltei sua mão de imediato. Foi na aula de história que eu, Pedro e seus amigos discutimos e fomos parar na diretoria. Com certeza não é só a Pedro que ela odeia. *** O sinal tocou, anunciando o final da aula. Comecei a juntar minhas coisas enquanto os outros já saiam correndo para fora da sala. Tive a leve impressão de que somente eu retiro o material de dentro da mochila e finjo que anoto alguma coisa. - Tchau Bryan. Até amanhã! – despediu - se Erick, correndo para fora da sala como ele nunca fez antes. Parece que alguém vai se encontrar com o Thiago... Ri com tal pensamento e continuei a guardar meu material, procurando por minha borracha. - Oi Bryan. 178
  • 179. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga Pedro sentou - se na cadeira de Erick, aguardando enquanto eu olhava por todos os lados em busca de minha borracha. Estava embaixo de minha classe. - Vamos para casa juntos? - Ah, não posso. Meu pai vem me buscar. - ‘Putz. Sério? Afirmei com a cabeça. Coloquei a mochila sobre os ombros e me levantei, sendo seguido por Pedro. - Tenho passado alguns dias na casa dele. É muito longe para mim ir e voltar sozinho. - Então... Na porta da sala ele me puxou pelo braço, virando - me de frente para ele e me beijando possessivamente. Reagi e correspondi, deixando - o passear com suas mãos por minha cintura e quadril. Inconscientemente dei uns três passos para trás, batendo com minhas costas na parede. Coloquei minhas mãos em seu rosto, beijando - lhe com vontade e apreciando o ato delicioso. Estou gostando de ter um “namorado” com tanta ‘pegada. - Vou falar com a minha mãe para amanhã ir para casa – disse quando separamos nossos lábios. Ele não se contentou e atacou minha boca novamente, beijando de novo e de novo, sugando meus lábios e mordendo - os. - Meu pai deve estar me esperando – disse em um intervalo de beijos, mas ele me ignorou. Continuou a me beijar e puxar meus piercings, dando - me a impressão de que estava alargando o buraco, proporcionando uma leve e sugestiva dor prazerosa. Quando senti suas mãos escorregarem e apertarem minhas nádegas foi que entendi que se permitisse ele me comeria ali mesmo. - Pronto Pedro! Deu, deu, deu! Me solta! Comecei a empurrá - lo. A contra gosto ele aceitou e se afastou de mim. Ri enquanto Pedro mantinha uma expressão amarrada. - Até amanhã. Me afastei rapidamente, andando rápido para fora do colégio e sorrindo como uma criança idiota. Talvez meu pai tenha razão e às vezes eu realmente aja de forma infantil. Infantilmente boba e... Apaixonada. Do lado de fora do colégio havia somente pouquíssimos alunos e... Meu pai, esperando ao lado do carro. Fui até ele e sorri como se nada tivesse acontecido. - Por que demoraste? - Estava procurando minha borracha – respondi tentando mentir bem. Acho que não funcionou, pois meu pai estreitou os olhos para mim, desconfiado. Sem dizer mais nada ele deu a volta e entrou no lado do motorista. Eu abri a porta e entrei, retirando minha mochila e largando no banco de trás. 179
  • 180. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga Fechei a porta e coloquei o cinto. Antes de ligar o carro meu pai abriu o porta luvas, procurando por algo. Vi que ali estava um mini - game meu, mas não o peguei. Quando meu pai encontrou o que procurava fechou o porta - luvas e entregou - me, finalmente ligando o carro. Estranhei. Era um espelho. Observei se ele tinha algo diferente; nada. Observei meu próprio reflexo ainda sem entender e foi quando vi meus lábios inchados e avermelhados, tanto eles mesmos quanto o contorno foi que entendi. Merda. *** Despedi - me e fechei a porta do carro, seguindo para dentro do colégio. Meu pai não está com o melhor dos humores em saber que vou passar à tarde na casa de minha mãe, sendo que ontem, quando veio me buscar eu estava... Bem... Que vergonha! Respirei fundo e segui para dentro do colégio, tentando ao máximo desviar meus pensamentos da cena constrangedora que passei com o meu pai. Fui tão imprudente! Eu tenho que me cuidar. Sei que meu pai tem sido bem compreensível, mas é abusar querer que ele aceite que estou “namorando”... Isso ainda soa tão estranho! E somos eu e Pedro, Pedro e eu! Namorando! Acabei chegando mais cedo no colégio por pressa da parte de meu pai. Quando estava indo na direção da minha sala de aula vi Matheus entrando sorrateiramente na sua própria sala de aula. Automaticamente fui na direção de sua sala, mas parei um pouco antes. Da última vez que eu me meti em assunto dele deu muita merda. Também teve aquilo ontem. Não ficou uma marca, eu acho, não dá para ver por causa dos curativos. Desde quando sou tão curioso? Não vou nem espiar, vou entrar direto. E... Eu não deveria ter entrado. Matheus estava colocando flores na classe de Mi comi, ou pelo menos assim deduzo. Margaridas com um colar fino, brilhante e sem pingente. - Por que você continua se metendo onde não é chamado? – ele disse rangendo os dentes, sem nem me fitar. Parecia o Matheus possuído por um demônio e mesmo soando ridículo eu estou começando a realmente levar a sério a possibilidade de possessão demoníaca. - Acho que já era esperado que fosse voc- O que faz aqui? Ele ergueu a cabeça, ficando ereto e mirou - me. Vi em seus olhos tão clarinhos uma seriedade nada característica de Matheus e foi nesse momento que eu parei por um segundo para pensar e considerar aquele momento em que a vítima é apunhalada pelas costas por seu melhor amigo e o público pensa: “como ela pode ser tão idiota?”. - Acho que você me deve algumas respostas – lhe respondi erguendo meu braço direito e apontando para meu pulso com a mão esquerda, lembrando - lhe do aperto de ontem. 180
  • 181. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga - Acho que você deveria parar de se meter onde não é chamado! Você só faz merda e fode com tudo! Somente o fato de Matheus estar falando palavrão já me assusta. Ele gritando me congela por dentro e ele enraivecido vindo na minha direção me faz tremer. - Matheus, eu realmente não te reconheço. Foi tão amável comigo em tudo, dormimos juntos, disse que gostava de mim... - Que saco Bryan! Por que se mete em tudo? Por quê... Matheus sentou - se no chão, cruzando as pernas. Levou uma das mãos a testa e virou o rosto para o lado, recusando a fitar - me. Foi então que eu percebi o quão idiota fui. Matheus pode ser o mais doce, calmo, co mpreensivo e amigo, mas isso não o impede de ter problemas e eu devo ter feito algo ruim indiretamente para merecer tal tratamento. - Quer me contar algo? Tive a impressão de que ele começou a chorar, mas não pude ver porque ele escondia o rosto com o cabelo escuro. Olhei para os lados; não tinha ninguém por perto. Eu realmente não sei o que fazer, pois nunca fui muito bom em consolar pessoas. Me parece um tanto superficial ir até ali e dizer que tudo está bem ou ficará bem. - Eu amo Lucas – ele disse finalmente olhando para mim. Seus olhos claros brilhavam por conta das lágrimas. Recém me dei conta de que ele usava aparelho com as borrachinhas verdes. Me surpreendeu um pouco o que ele disse, mas não foi nada muito exagerado. Na verdade me surpreendi mais com a minha falta de surpresa. - Eu o amo tanto... E sempre doeu vê - lo se apaixonar por outro, mas pior ainda era quando o machucavam. Me aproximei devagar, me sentindo mal a ouvir aquela voz que sempre nos apoiou completamente trêmula por conta do choro. Me abaixei na sua frente e tranquei, sem saber o que fazer para ajuda - lo. - Mas eu sempre soube que não tinha chances. Quando você apareceu Bryan... Você é fofo como ele, sabe... Eu realmente acreditei que poderia me apaixonar por você, mas Lucas é único e é o dono de meu coração. - Está tudo bem em se apaixonar – eu disse me sentindo um idiota em não puder ajuda - lo. Retirei uma de suas mãos de seu rosto e segurei - a, entrelaçando nossos dedos. - Eu nunca me declarei! E quando faço soa como uma mentira... E nem foi a quem eu realmente amo! Ele puxou sua mão, separando - a da minha e abaixou o rosto. Secou o excesso de lágrimas que se acumulavam nos olhos e fungou. - Tudo bem Matheus. Na verdade acho que é melhor assim... – eu parei, sem saber como completar a frase. O que eu diria? Não te amo dessa forma? Soa tão arrogante! “Tudo bem, eu não te amo mesmo”. 181
  • 182. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga - Você não entende! – ele disse, ferindo - me. Eu não entendo sua dor? – Você o machucou! Foi por sua culpa que Alex foi pra cima dele mesmo depois de todas as vezes que eu transei com ele para proteger o Lu! Foi por sua culpa que ele quase foi estuprado e desistiu do amor! Por sua culpa Lu anda triste e por sua culpa ele se sente feio e em segundo lugar! Paralisei, me sentindo um monstro. Eu nunca fui bom em socializar e nunca fui um bom amigo porque, para ser sincero nunca tive amigos. Quando tento simplesmente estrago tudo. Sentei encima de minhas pernas e aceitei que Matheus continuasse a jogar tudo encima de mim. - E sabe qual a pior parte? Que Lu continua sendo bom e te tratando como alguém especial. Enquanto eu transo com Alex por ele você o beija! Você está com ele e... Eu tenho tanta vontade de te bater! Porque para você tudo é fácil, todos irão te apoiar e serão amigos. Você sabe que nos importaremos e que qualquer coisa você pode contar com a sua família. Quando Lu ficou sozinho ele não pensou em nenhum de nós para ajuda - lo. Você tem que se foder, sabe, para dar valor ao que tem e pagar por tudo que fez. Ele levou as mãos ao rosto, o escondendo. Eu fiquei a ouvi - lo fungar e chorar. Pensei em abraça - lo, mas se ele me odeia isso não é uma boa coisa para se fazer. - Desculpe. Pode parecer idiota, mas eu realmente me arrependo porque nunca foi minha intenção fazer você e Lucas sofrerem. Ver o Matheus desmoronar me foi aterrorizante. Desde que o conheci o vi como o mais forte de nós. Nunca imaginei que o faria chorar e o veria completamente apaixonado. Apaixonado por Lucas. - Eu peço desculpas, Bryan – ele pediu fungando e virando o rosto para o lado novamente. Recostou a mão na testa, por baixo da franja. – Estou colocando tudo encima de ti. Você realmente não fez de propósito e o que mais te culpo é por ciúmes. Você é uma boa pessoa... Desta vez não parei para pensar. Levantei um pouco meu corpo, ficando de joelhos no chão e abracei. Senti um alivio tremendo quando percebi que ele retribuía meu abraço. Agora sim parecia Matheus, se desculpando e sendo bonzinho mesmo quando não mereço. - Está tudo bem, de verdade. Vamos ajudar Lu de todas as formas, inclusive a se apaixonar pela pessoa certa e ser feliz. Ele continuou a chorar e me apertou mais forte. Recostou sua cabeça em meu ombro, com sua testa batendo em meu pescoço. Senti como ele estava quente, provavelmente com febre. - Me desculpe Bryan – ele pediu em um fiapo de voz, sucumbindo ao choro. – Te machuquei com gestos, palavras... - Tudo bem. Você não fez nada errado. Eu realmente tenho culpa e sei disso sem precisar de você dizendo. E eu acho que realmente mereci tudo. De uma forma que ainda não sei isso me fez uma pessoa melhor. Não cometerei os mesmos erros e não serei mais tão intrometido. E pare de se desculpar! Eu realmente estive mais do que errado! 182
  • 183. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga Quem diria que um dia eu estaria consolando Matheus e não o contrário. Ele se afastou um pouco de mim, ficando cara a cara. Matheus sorriu fracamente e seu sorriso ficou mais bonito ainda com aquele aparelho. - Você é uma boa pessoa, mas ainda quero te bater. Ri e tentei secar seu rosto com minhas mãos. Ele parecia estar se acalmando. Por curiosidade toquei em sua testa, constatando que estava certo quando senti aquilo quente em meu pescoço. - Está com febre. - Estou com dor de cabeça. - Quer ir tomar algum remédio? - Não. Ele terminou de secar seu rosto e fez menção de se levantar. Fui mais rápido e fiquei ereto, puxando - lhe pelas mãos para lhe dar apoio. - Estou melhor. Desculpe te fazer perder tempo com meu drama. Eu ri daquela ironia. - Desculpe se parecer cruel, mas me sinto melhor assim. Me sinto menos fraco e inútil em ser sempre você a me ajudar. Ele riu e me abraçou novamente, emaranhando uma de suas mãos em meu cabelo e suspirando meigamente. Ouvi passos na porta e duas garotas entraram, assustando - se ao ver Matheus com os olhos vermelhos. Já esperava que eu não fosse o único a nunca ter visto Matt chorar. - MAIS COISAAAAAAAS! Não preciso nem dizer quem foi o ser saltitante que pulou para dentro da sala de aula e berrou em meus ouvidos. - Vamos lavar esse rosto – sussurrei - lhe baixinho para não chamar a atenção, então nos esgueiramos para fora da sala de aula antes que nos vissem. Espiei dentro da sala de relance e vi Lucas com um sorriso esplendido e reluzente enquanto mirava abobalhado a corrente. Sorri e fui atrás de Matheus. *** Seus pés pararam na frente daquela casa indicada pelo mais alto. Seu coração disparou por conta do nervosismo e sentiu suas mãos suarem. Rapidamente secou - as nos lados da calça e disfarçou da melhor maneira possível, ao seu modo. - Essa é a minha casa – anunciou o moreno levando a chave à fechadura da grade, girando - a e abrindo. - Estou vendo – respondeu o acompanhante com ar de ironia. – Vem. 183
  • 184. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga Entrou, seguido de perto pelo garoto envergonhado que observava a tudo e todos os detalhes. Sem precisar de uma chave o mais velho abriu a porta da casa girando a maçaneta. - Tia, cheguei. - Oi Thi! Trouxe seu amigo? – gritou uma moça da cozinha. Não demorou muito para que ela surgisse no corredor de entrada da casa, acenando alegremente. - Sim. Esse é o Erick. Erick, essa é a minha tia Claudia. A moça de cabelos da altura do ombro e olhos castanhos secou as mãos no guardanapo de pano, sorrindo meigamente. Em seguida inclinou-se para frente e cumprimentou a Erick beijando - lhe os dois lados do rosto. Ela tinha um nariz fino e o rosto magro, dando ares de arrogância, mas era bem simpática. - Prazer – o garoto disse educadamente juntando as mãos na frente do corpo, em sinal de timidez. - Prazer Erick. Fique à vontade. - Obrigado. - Tia, vamos para o meu quarto estudar, ‘tá? A moça alargou seu sorriso, visivelmente contente com aquela noticia. - Certo. Vou preparar um lanche para vocês. - Vem Erick. Thiago segurou o pulso do amigo, puxando - o até atravessar o corredor e chegar à sala. Seguiu em frente, dando pouco tempo para que o menor analisasse o local e foi até uma porta mais ao canto. Abriu e ambos entraram. Somente então Thiago soltou o pulso do menor e fechou a porta do quarto. Como um garoto que não costumava sair muito, Erick analisou todo o quarto com seus olhos verdes - musgo curiosos. Estava escuro, mas logo Thiago abriu uma janela e o local iluminou - se. Não era um quarto muito grande. Havia um guarda - roupa de casal, uma escrivaninha com várias gavetas, diversos papéis e livros espalhados por cima, uma mesa com cadeira para o computador, várias prateleiras com os mais diversos objetos e duas camas de solteiro. - Qual é a sua? – Erick perguntou, sabendo que a outra cama pertencia ao “irmão” de Thiago. - Esta aqui – respondeu Thiago batendo de leve com a palma da mão na cama encostada ao comprido na parede, embaixo da janela. – Guilherme está trabalhando e só volta de noite – disse - lhe explicando que ficariam sós. - Certo. Onde vamos estudar? - Pode ser aqui na mesinha. Thiago foi até a escrivaninha e rapidamente juntou os papéis e livros espalhados, fazendo uma pilha no canto. Curioso, Erick aproximou - se da mesa e observou por sob o ombro de Thiago o que ele estava guardando, surpreendeu - se, porém nada comentou. 184
  • 185. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga Entre livros literários estava o didático deles, aberto na parte que falava sobre autores brasileiros. Aquilo deveria ser um caos para um garoto com dislexia, Erick pensou. - Espera aqui, vou buscar outra cadeira na cozinha. Fechou o último livro e virou - se de frente para Erick. Sorriu ligeiramente e foi até a porta do quarto, retirando - se. O mais novo permaneceu no local onde estava, desorientado. Imóvel, Erick pensava no que deveria fazer para que soasse natural sua visita na casa do amigo. Sem muitas ideias resolveu fazer o que tinha vontade e foi na direção da cama de Thiago, sentando se na mesma. Imediatamente sentiu - se completamente envergonhado, sem saber realmente a razão para tamanho desconforto e constrangimento. Puxou fôlego uma, duas vezes e acariciou a coberta macia que escondia a cama, tapando - a. Esta mantinha uma bela estampa com folhas de outono em suas diversas cores e formas. Sentiu a maciez no movimento cima para baixo e por um pequeno momento se distraiu e permitiu - se pensar no quão delicioso seria dormir co- Opa! Não, não deixaria seus pensamentos vagarem por isso! Foi sem querer, mas o suficiente para acelerar seu coração bobamente. - Trouxe a cadeira – anunciou Thiago carregando - a para dentro do quarto. Deparou - se com Erick sentado em sua cama e sorriu com tal cena. – Preferiu sentar na cama? Assustado, Erick sobressaltou - se, pondo - se de pé e corando mais ainda. - Algum problema? – perguntou mais por seu orgulho do que qualquer outra coisa. - Nenhum. Se você preferir podemos estudar sentados na cama. Erick deu de ombro e sentou - se novamente, sem mirar a Thiago. O moreno, o qual sua aparência se assemelhava ao do vocalista da banda alemã Tokio Hotel sorriu como sempre, locomovendo - se na direção da cama e, consequentemente na de Erick, sentando ao seu lado. *** - Meninos, trouxe um lanche. Ué, não estão usando a escrivaninha? Claudia estranhou a atitude dos meninos em estudar na cama, mas não deu bola. Largou a bandeja com o lanche rapidamente, não querendo atrapalhar e ouviu os meninos agradecerem. Retirou - se, sorrindo internamente. Thiago levantou da cama, deixando Erick, vários papéis, livros e material didático espalhado pela mesma. Foi até a escrivaninha e pegou a bandeja que sua tia deixara, levando ela para a cama. - Tem salada de frutas com merengue, bolachinha e coca. O que quer? Erick esticou o braço e pegou da bandeja a taça com salada de frutas e merengue por cima, juntamente com uma colher de sobremesa. 185
  • 186. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga - O que você disse? – Erick perguntou referindo - se a salada de frutas. O garoto nunca fora muito chegado a doces, até porque havia um grande histórico de diabetes em sua família. Agora, frutas... - Disse que você gostava de frutas. - Não era necessário – respondeu sério, mas com uma pontada de alegria, ajeitando os óculos que escorregavam pelo nariz. Sob o olhar atento de Thiago, Erick encheu a colher com salada e merengue, levando a boca. Erick sabia numerar os vários motivos pelo qual a amizade deles estava dando certo e sendo tão produtiva, um deles era que ele nunca fora um garoto muito sociável, principalmente pelo fato de ser inteligente ele tinha o costume de “queimar” aos outros em conversas. Aprendeu, com o tempo que isso estava afastando as pessoas. Tentou diminuir a agressividade das palavras, mas realmente nunca conseguira se livrar de tal hábito. Felizmente Thiago não se importava, contando que tais palavras não fizessem menção de seu problema em aprendizagem. - Gostosa? – perguntou Thiago, aguardando uma resposta positiva. - Sim, sim. Ainda bem que não foi você quem fez. - Idiota. - É você. Thiago riu com seu bom humor de sempre. Pegou a outra taça com salada de frutas e a segunda colher, comendo também. Enquanto apreciava o doce Erick pôs - se a observar o quarto novamente. Fitou o teto, cheio de adesivos de estrelas e planetas que provavelmente brilhariam no escuro. Observou as prateleiras próximas da cama de Thiago e acabou por distrair - se com uma foto de dois garotos brincando juntos em um escorregador. - Está vendo minhas coisas? - Não – negou e abaixou o olhar com as bochechas vermelhas. Estava explícita a mentira em sua face. - Quer ver o que tem dentro do meu guarda - roupa? – perguntou animado e mesmo sem receber uma resposta largou sua salada de frutas e levantou - se, indo até o grande guarda - roupa de cor escura. Erick viu - se obrigado a girar o corpo, pois estava de costas para o guarda - roupa. Observou enquanto Thiago retirava algumas coisas de dentro. Cintos, colares, pulseiras, anéis... - Quantos acessórios. Eu não devo ter nem um quinto – comentou comendo sua salada. Thiago riu com o comentário e guardou de volta. Enquanto colocava as coisas dentro do guarda - roupa novamente seu olhar pousou em algumas latas com tampas coloridas e teve uma ideia. - Olha, esses sprays aqui são para pintar o cabelo. Tudo colorido. – Encheu braços e levou até a cama, atirando quase encima dos papéis se não fosse por Erick a empurrá - los na hora certa. – Quer fazer uma mecha? - Está louco? Minha mãe me mataria. 186
  • 187. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga - Não se preocupa, sai com água. Nem é tinta de verdade. Vem, qualquer coisa lavamos no banheiro. O mais velho inclinou o corpo na direção de Erick, tentando tocar em seu cabelo. O garoto desvencilhou - se. - Não Thiago! - Ah, Erick! Você vai perder um dedo? Uma mão? Um braço? É só um pouquinho de tinta que sai. Amanhã mesmo não terá nem rastro dela. Que mal tem? Erick pensou rapidamente e seguindo a linha de raciocínio de Thiago chegou à conclusão que realmente não faria mal se fosse somente por um dia e nos outros 364 do ano seu cabelo continuasse normal. Com um pesaroso suspiro deu - se por vencido. - Certo. - Oba! Que cor queres? O moreno não quis admitir, mas algo dentro de si remexeu - se ao sentir a alegria de Thiago atingindo - lhe. Impediu - se de sorrir e baixou o olhar, analisando as latas. - Verde? - Sabia! É a sua cor favorita! - Sim... Thiago ajoelhou - se na cama, arrancou uma folha de seu caderno e pegou a lata de spray, sacudindo - a. Erick limitou - se a comer sua sobremesa enquanto repensava sua decisão e se perguntava mentalmente se era muito tarde para mudar de opinião. - Uma mecha pequena – advertiu Erick. O mais velho começou a mexer no cabelo de Erick, envergonhando - o mais ainda. O moreno de olhos verdes perguntou - se se seria sempre assim, nervoso com um pequeno toque de Thiago. De qualquer forma era gostoso, pois ele passava os dedos em seu cabelo suavemente para desembaraça - lo, mas era como em um carinho. Ouviu o barulho do spray. Era tão fácil assim? - Prontinho – anunciou Thiago retirando a folha de papel que usara para separar somente uma mecha do resto do cabelo e esmagando - a até se reduzir a somente uma bola de papel. Mais uma vez levantou da cama e pegou de dentro do guarda - roupa um pequeno espelho redondo. - Vê? Ficou bonito. Erick segurou o espelho e observou o cabelo. Ficara... Diferente. Sentiu - se um rebelde e sorriu com tal pensamento, mas guardou para si permitindo que Thiago considerasse aquele sorriso de agrado. - Sai mesmo, não é? – perguntou para ter certeza. - Sim. Só passar água. Erick continuou a observar seu cabelo. Levou mais uma colherada de salada a boca e virou a cabeça para o lado, tendo uma visão melhor da parte verde limão do cabelo. 187
  • 188. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga - Erick? - Hum? Virou - se para Thiago ao ouvir seu nome ser chamado e fora pego de surpresa por um toque em seus lábios. Piscou duas vezes, tentando entender e imediatamente seu corpo todo esquentou. Houvera lhe sido roubado um selinho. Um selinho! De um garoto! De Thiago! - Idiota! Por que fez isso? - Calma. Selinho se dá até na mãe. O mais novo teve vontade de jogar alguma coisa em Thiago, mas não encontrou nada e a única coisa que tinha em mãos era sua salada de frutas. Na verdade até havia bastante coisas, porém não conseguira pensar. - Tanto faz Thiago! Idiota! Nunca era para ter feito isso! – xingou, tentando livrar - se da culpa. Culpa? Sim, pois por mais que sua mente negasse seu corpo houvera apreciado um tanto assim aquele pequeno gesto. - Calma Erick. Prometo não fazer mais isso, mas foi só de amigo. Eu esqueci que... Você não deve se ressaltar tanto. - Você é um garoto! E eu achei que seria o último a fazer algo assim! – aquilo era verdade. Também se sentia traído por ter confiado tão cegamente em um... Gay. - Um garoto? Eu achei que você não tinha preconceito! - Eu não tenho! - Mas você beija sua mãe. Agora incesto tudo bem, mas homo não? - Idiota! Estúpido! Minha mãe é minha mãe! Aquela altura Erick já largara a taça de volta na bandeja e recusava - se a fitar Thiago. Aquele... Aquele toque em seus lábios... Os lábios dele... Um beijo... - E nós somos amigos! A não ser que... - Idiota! Tremeu involuntariamente ao lembrar - se daquele toque quente e suave em seus lábios. Não era para ser assim... - Erick, você nunca beijou antes? - Obvio que já! – mentiu. Aquele houvera sido seu primeiro beijo. - Então não se irrite. Você nem deve lembrar de todas as garotas que já beijou – tentou Thiago, mas percebera que aquilo que Erick dissera não era verdade. - Você é um garoto! O mais novo queria sumir da face da terra. Queria abrir um buraco no chão e enfiar sua cara com tamanha a vergonha. Havia acabado de dar seu primeiro beijo e com outro garoto! O primeiro... 188
  • 189. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga - Desculpe. Viu Erick? Estou me desculpando. Desculpa, tá? Eu não sabia que você ficaria tão nervoso assim. É que eu costumo fazer assim com os amigos... – mentiu, assim como Erick. A diferença era que Thiago mentia dez vezes melhor. O moreno da mecha de cabelo verde permanecia imóvel. Bom, não completamente, pois começara a tremer. Erick não conseguia vencer a vergonha, nem a mentira, nem o amigo, nem seus próprios sentimentos. - Daqui a algum tempo isso não vai valer de nada. Você nem vai lembrar quando ficar com mais algumas garotas. Desculpa, sinceramente. - Certo... – Erick resmungou em um fio de voz que saiu arrastado. Aquilo era impossível de esquecer! Seu primeiro beijo! Mas como não perdoar o amigo ou... Como ignorar... Como ignorar que... Estava tudo... Gostara... Como... Dizer... Thiago suspirou um pouco mais aliviado. Observou as bochechas em chamas de Erick e pela primeira vez sentiu um aperto em seu peito com aquela cena. Sempre se encantava com o jeito envergonhado de Erick, mas desta vez aquilo era horrível. Ele recusara - o completamente e por pouco não perdeu a amizade. Sentia seu peito sendo esmagado por aquele sentimento ruim de tristeza, porém engoliu. Sentiu o bolor formar se em sua garganta e forçou - se a sorrir. 189
  • 190. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga Capítulo 20: Porque talvez eu não seja o mais magoado... - Ele está mentindo – acusou Erick sem esperar que eu terminasse minha frase. - Eu acho que ele só quer te comer – adicionou Luke enquanto comia alguns biscoitos. – E você quer dar. - Algum problema nisso? – perguntei um tom mais baixo, encolhendo os ombros. Eu imagino o quão bom seria... Seu toque e... Merda, que vergonha! - Há! Quem é o Mi comi agora? – implicou Mi comi, tentando inutilmente empurrar seu apelido para mim. - Repete isso que eu quebro todos os seus dentes – respondi sem uma força agressiva nas palavras. - Não fale assim, Bryan. Foi você quem lhe deu este apelido – Matheus defendeu o loiro por seus próprios motivos que já não me eram ocultos. Mi comi me mostrou a língua e encolheu - se no colo de Matheus, deixando o garoto de aparelho extremamente feliz com aquilo. Eu deixei escapar um leve risinho, mas não passou disso. - E você Thiago, o que achas? - Eu não sei – respondeu Thiago, sentado ao lado de Erick. – Eu não o conheço o suficiente para poder opinar. - Ele era hetero até se “declarar” para o Bryan. É o melhor do time de futebol do colégio, tira notas razoáveis, anda com um grupo homo fóbico que está sempre implicando com o Bryan desde que ele chegou. Ah, e foi ele quem fez aquilo... – explicou Erick antes que eu pudesse fazê - lo. - Aquilo o que? – perguntei, intrigado. - Nada. É algo passado e sem importância, mas o Thiago lembra. - Eu não posso saber? – perguntei um tanto surpreso. Então realmente meus amigos tinham segredos que escondiam de mim. - É algo que eu não gosto de lembrar, muito menos espalhar, ok? – Erick disse sério, cruzando os braços e desviando o olhar do meu. Ele queria acabar rapidamente com aquele assunto e fora fácil perceber isto. - Esquece Bryan. Cada um tem seus segredos e não significa necessariamente que é algo ruim – intrometeu - se Matheus, ficando do lado de Erick por experiência própria. Ao recordar - me dos desastres que aconteceram nas vezes em que me meti onde não era chamado eu resolvi desistir daquilo. Talvez fosse realmente algo bobo ou algo que Erick se envergonhasse. Também tinha uma grande chance de aquilo ter acontecido antes mesmo de eu ter entrado no colégio. - Bem, diante do que Erick apresentou... Não posso dar uma resposta positiva. Bufei, sentando - me na grama. Só então percebi que os garotos estavam formando um círculo com espaços irregulares entre um e outro – por exemplo, Erick e Thiago estavam bem próximos um do outro, porém afastados do resto dos garotos – e eu estava no meio. 190
  • 191. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga - Mas ele disse que me ama... – resmunguei, corando com minha própria frase. Foi bem vergonhoso admitir isso na frente de todos, pior ainda foi ter de ouvir as interjeições deles. - Bryaaaaaaaaaaaaaan, você não pode acreditar tão fácil! Ele tem que mostrar que te ama! – declarou Mi comi daquele seu jeito exagerado. - Quem é você para me dar lição de moral? - O garoto que ganha muuuuuuuuuitos presentes todos os dias de seu admirador secreto! – ele disse animado, movendo os braços e mostrando seu novo colar sem pingente. - Isso significa que quem te manda os presentes te ama de verdade, ‘né? – eu disse aproveitando - me da situação. Mi comi ficou com as bochechas extremamente vermelhas e Matheus tentou disfarçar, mas eu percebi que ele também estava constrangido. - O que vocês acham de sairmos todos para tomar sorvete hoje de tarde? – sugeriu Luke, estragando o clima que eu estava tentando criar. - Não está muito calor, mas também não está frio – constatou Thiago, sorrindo em seguida. – Acho que seria legal irmos todos. - Ah, não podemos ir amanhã? É que hoje... – eu pedi, estranhando meu próprio comportamento. Se você em algum outro momento de minha vida eu não pediria isso a eles, mas eu acho... Eu acho que eu finalmente fiz amigos e... Eu quero estar na companhia deles... - Claaaaro! Hoje o Bryan vai tirar o atraso... – debochou Luke, sorrindo malicioso. - “Tirar o atraso”? Não poderia usar uma expressão menos... Idiota? – eu perguntei, envergonhado. Luke riu. - Mi comi, Mi comi, Mi comi... – cantarolou Lucas, estranhamente aceitando aquele apelido. - Então vamos amanhã. Tudo bem? – perguntou Luke. - Por mim tudo bem – disse Matheus. - Eu vou ter de pedir aos meus pais, mas acho que posso ir – respondeu Mi comi. - Eu vou – falou Thiago. Sobre minha presença eles já sabiam, pois fui eu quem pediu para que fosse adiado. Agora só faltava a confirmação de Erick, porém ele permaneceu quieto. - E você Erick? – eu perguntei, chamando sua atenção. - Eu também? – ele questionou surpreso, erguendo o olhar para mim. - Claro que sim! – respondeu Luke, deixando Erick mais confiante, pois de todos ali Luke era o que menos falara com o Erick... Na verdade pergunto - me se Luke já conversou com Erick porque realmente não me recordo. Acho que somente com todos juntos. - Eu... Não sei... 191
  • 192. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga - Erick vai sim – intrometeu - se Thiago, recebendo um olhar reprovador e um tanto enfurecido de Erick. - Manda em mim e minhas ações agora? - Estou dizendo que vou te convencer a ir, bobo! – Thiago respondeu com um sorriso simpático. Erick não pareceu se convencer. O sinal soou, anunciando o final do intervalo. Agora nós seríamos separados em dois grupos e cada um iria para uma sala de aula diferente. Isso é algo completamente desagradável, porque mesmo sendo amigos que estudamos no mesmo colégio ficamos separados grande parte do tempo. Levantamos todos e seguimos na direção do prédio onde tínhamos nossas aulas. - Bryan, por que não passou o intervalo com seu “namorado”? – perguntou Erick, aproximando - se mais de mim. - Ele foi conversar com os amigos... - Ah, e vai contar a todos que vocês estão namorando amanhã... Erick entrou na sala e eu parei na porta, pensando no que ele estava dizendo. Fora um tanto cruel, porém verdade. Eu não parei para pensar nisso... Eu fiquei nervoso e feliz com o pedido e esqueci - me de levar em consideração que realmente poderia haver algo ali. Eu quero dormir com ele, mas não deixar Pedro me foder e depois ainda debochar na frente dos outros. - Senta lá Bryan. Vou fazer a chamada – pediu o professor, esperando que eu saísse da porta para ele poder entrar. Assim fiz e fui me sentar, um tanto envergonhado. Será que Pedro está me enganando? Como eu não me dei conta antes desta possibilidade? E eu lembro perfeitamente o que ele disse depois que ficamos pela primeira vez... Por mais que ele tenha pedido desculpas foram palavras muito cruéis. Lembro dele dizendo que não contaria aos amigos que ficou com “aquele gayzinho que usa maquiagem” enquanto eles falariam de ter pego garotas, que tinha nojo de me tocar e, se me lembro bem disse que jamais me pediria em namoro. Então, é claro que eu deveria ter desconfiado daquele pedido de namoro! Todos os presentes responderam a chamada e o professor mandou que fossemos para a quadra. Eu fiz questão de ficar longe de Erick e Pedro para não piorar nada. Eu me sinto mal... Será que Pedro me ama mesmo? Porque parece que ele só está desviando o assunto até me comer. - Bryan, desculpe não passar o intervalo com você. Ergui a cabeça somente para encontrar a expressão completamente despreocupada de Pedro e logo abaixei novamente. Isso não é o tipo de reação que se espera de um garoto que tinha tanto medo que seus amigos descobrissem que ele ficou comigo. Acelerei o passo e tentei acompanhar os alunos, mas Pedro me puxou pelo braço, obrigando - me a parar e deixar os outros se afastarem. - Está bravo? - Me solta – eu pedi tentando puxar meu braço, mas nada. Recusei - me a fita - lo e pensei em usar meus machucados nos braços como motivos para estar doendo seu aperto. 192
  • 193. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga Eu não queria discutir aquilo com ele, pois ainda estava tentando organizar minha cabeça, mas ao mesmo tempo eu tinha de resolver aquilo antes daquela tarde. - É porque eu não passei o intervalo com você? Desculpe Bryan, eu... - Você lembra o que me disse depois que ficamos pela primeira vez? – perguntei sério, puxando uma bolada de ar junto com uma boa dose de coragem. - Aquilo? ‘Putz, faz um bom tempo... E eu sei que foi ruim, mas já pedi desculpas várias vezes. Aproximei um pouco mais, tentando soltar meu braço, em vão. Enquanto ele não soltasse por vontade própria eu jamais conseguiria me livrar de sua mão. - Você disse que tinha nojo de mim e que nunca me pediria em namoro. Ele parou e afrouxou o aperto em meu pulso, porém não me soltou. Piscou algumas vezes e ficou sério. Pedro finalmente entendera onde eu queria chegar. - É isso? Não confia em mim? - Você me deu motivos para confiar? Pedro, até aquele dia na biblioteca você tinha um grande medo que alguém nos visse juntos, mas rapidamente superou isso. Depois de tudo o que me fez e disse quer mesmo que eu confie em você? Ele se calou e deixou minhas perguntas sem respostas. Seus lábios espremidos me deixaram em dúvida sobre o que ele pensava. Largou meu pulso e saiu na minha frente, irritando - me. - Você não tem o direito de se irritar! – exclamei alto o suficiente para que ele me ouvisse. Ele escutou, mas ignorou completamente. Será que eu estraguei meu relacionamento que mal começou? Mas eu não estou errado! Não vou me desculpar! Depois de todo o mal que ele me fez não tem direito de se irritar comigo por eu ter exposto a verdade. Eu segui para a quadra. Por mais aéreo que eu esteja eu irei jogar hoje por que... Porque eu quero que meu pai tenha orgulho de mim. Isso soa bem vergonhoso, mas é a verdade. Ele sempre quis que eu me desse bem com os esportes e mesmo que eu não consiga quero demonstrar que tentei. O professor anunciou que eu jogaria e os garotos resmungaram que não me queriam no jogo. Dois colegas decidiram que seriam eles a escolherem os times. Eu olhei de relance para Pedro que amarrava o cadarço do tênis, mas ele nem se deu ao trabalho de me fitar. Será mesmo que eu estraguei meu relacionamento? Ou será que eu me beneficiei? Porque ou ele estava sério ou só queria me comer. Por que eu digo “me comer”? Por que me trato tão mal assim? Bem, não é como se Pedro fosse deixar que eu ficasse por cima, mas poderia ser como com Matheus... Hum, com Matheus foi muito bom... - Ah Bryan, você tem certeza de que quer jogar? Ninguém vai querer te escolher – jogou na cara um dos “amigos” de Pedro. – E além de gay você nem sabe jogar mesmo! Indignei - me, querendo dar uma resposta à altura. Mas eu simplesmente abrira a boca e não pensara em nada para lhe dizer. Fora um choque suas palavras e o pior era que estavam certas. 193
  • 194. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga - Foda - se se ele sabe jogar ou não. Bryan é o meu namorado e para me escolher vão ter de escolher ele também. E o próximo que xingá - lo vai ir fazer uma visita nada agradável ao postinho. Fiquei boquiaberto; petrificado. Corei dos pés a cabeça perante o olhar atento de toda a minha turma. Meu coração disparara em uma questão de segundos. Pedro aproximara - se de mim e agarrara minha mão, segurando junto da dele. - ‘Tá de ‘zoa, ‘né Pedro? – perguntou um de seus amigos, tão assustado quanto eu. Eu fitei a Pedro, esperando uma reação de sua parte. Me perguntei se ele se arrependeria de ter dito que eu era seu namorado e voltaria atrás, mas não. Pedro inclinou - se em minha direção e encostou seus lábios nos meus, em um selinho rápido. - O que você acha? Fora uma questão de tempo até a turma se encher de murmúrios e comentários de todos os tipos. Os garotos muitos declaravam nojo, mas tinha alguns quietos. As garotas estavam dividas em três grupos: as sorridentes (minoria), as neutras (intermediárias) e aquelas que estavam indignadas, pois já tinham ficado com o Pedro (grande maioria). - Podem me escolher por último, mas sabem que eu vou ganhar como sempre. Eu permaneci boquiaberto, sem saber como agir perante tal situação. Minha mente se desligou e captei somente algumas palavras, tais como “Pedro, gay, nojento, decepção...”. - Está feliz? – Pedro perguntou para mim. Eu me virei para fita - lo, tentando descobrir qual era seu estado ao estar tendo de encarar a tal homofobia que já me é tão conhecida. - Você está? - Eu estou, se você confiar em mim. Eu sorri levemente e, ao vê - lo sorrir abertamente para mim alarguei meu sorriso. Ele riu e meu sorriso espalhou - se por todo meu rosto. Em um momento eu estava bem, no outro vomitando, depois bem, daí desconfiado e bem novamente... É engraçado como eu mudo de humor com tamanha frequência. Espero que Pedro conviva bem com isso. Meu namorado me abraçou e eu retribuí. Ele me apertou com mais força e ergueu meus pés do chão. Eu sentia o quanto ele estava feliz e passava aquilo para mim. Eu estava muito feliz e agora espero que possamos ficar juntos de verdade. - Eu escolho o Antônio – anunciou um dos garotos, começando a escolher seu time e nos ignorando. Nos separamos, mas Pedro não largou minha mão. - Pedro – disse o segundo a escolher os times – E Bryan – completou. Pedro me levou para o lado do garoto que nos escolheu, Gustavo. - Depois você vai me explicar isso direitinho – disse o garoto, estreitando os olhos para Pedro que deu de ombros. Depois dos times escolhidos nós jogamos. Não foi tão horrível, mas eu ainda acho algo bem retardado ter de correr atrás da bola e me sinto ridículo. Como Pedro dissera 194
  • 195. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga nosso time ganhou por causa dele. No meio do jogo eu percebi que Erick estava sentado, assistindo. Com certeza ele viu Pedro me assumindo. Acho que agora ele não desconfia mais, ou assim espero. Quando a aula de Educação Física terminou estava na hora de irmos para casa. Pedro iria para a minha, almoçaria lá e passaríamos a tarde juntos. Claro que eu sei o que faremos e não posso evitar o nervosismo. Não é minha primeira vez, mas é a primeira vez com um “ex - hetero” e primeira vez com quem amo. Poxa, eu só transei uma vez! E com um garoto que fez quase todo o trabalho... - Tchau Bryan – despediu - se Erick. Ele olhou rapidamente para mim e foi na direção das salas de aula. Ele deve voltar com Thiago. Peguei a minha mochila e assim que coloquei um ombro dela nas costas senti um beijo de Pedro em minha bochecha. - Quer que eu leve sua mochila? - Não sou uma garota. - Já disse que você terá de me ensinar como namorar um garoto, ‘né? Sorri e o mirei. Pedro é tão bonito! Como eu consegui um namorado assim? Como eu consegui Pedro como namorado? Isso nunca esteve em meus planos. - Primeira coisa: eu sou um garoto – expliquei - lhe, tentando demonstrar de uma maneira obvia que ele tinha de me tratar como um menino. - Uhum. E agora é meu – ele disse de uma maneira simples, como se aquilo fosse algo sem importância. Virou - se de costas e deu alguns passos, em seguida parou e girou o corpo em minha direção. – Vem Bryan. Não consegui conter um sorriso ao vê - lo ali, lindo como sempre me esperando. Apressei alguns passos e me pus a caminhar ao seu lado, de cabeça baixa. É um tanto estranho, mas bom. - O que disse de mim? – perguntei tendo plena noção do que ele dissera. Eu somente queria ouvir - lhe repetir. - Que você é meu. Tentei desastrosamente conter um sorriso. Mordi o lábio inferior, puxando um dos piercings e senti Pedro me puxar pela cintura para próximo de si. - Mesmo sendo um garoto? Se estás comigo não pode mais ficar com garotas. Assim que chegamos ao portão do colégio ainda havia poucos alunos por perto. Pedro me puxou pela cintura para mais próximo de seu corpo e trouxe seu rosto até meu pescoço. Senti seu hálito e quanto ponderei que me beijaria ele não o fez. - Meu menino – sussurrou e esfregou seu nariz ali. Me arrepiei por completo, dos pés a cabeça. Pedro se afastou e eu percebi todos os olhares voltados para nós. Ele não se importou como eu sempre acreditei que se importaria. Apenas saímos de lá, indo para minha casa. 195
  • 196. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga Andamos lado a lado. Permaneci com a cabeça baixa, sem coragem de encará - lo. Diferente daquilo que eu esperava Pedro não tentou pegar minha mão ou manter algum contato, somente caminhamos lado a lado. - Bryan... – ele me chamou e eu o fitei. – Eu não vou contar aos meus pais que estamos namorando. - Por quê? – indaguei, já tendo uma ideia da resposta. Eu não me preocuparia porque depois dele ter me assumido na frente de toda a turma não mudaria de ideia com relação a mim. - Porque eles me matariam! Fala sério, acho que me expulsariam de casa. Permaneci quieto, sem saber se deveria conta - lo sobre mim ou não. Meu pai realmente me colocou para fora de casa. Está certo que foi para ir morar com minha mãe e que ele sabia que ela iria me querer, mas ele não me quis sob o mesmo teto. - Está de cara? Sem fita - lo eu maneei a cabeça em sinal negativo. - Mesmo? Não podemos andar de mãos dadas no meu bairro. - Certo. Levei uma das mãos ao meu piercing direito e comecei a puxá - lo levemente. Eu não queria ter de fitar a Pedro porque me envergonho demais. Os olhos dele analisando - me e encontrando cada imperfeição, cada detalhe que me torna um garoto... - Bryan? Sem escapatória eu ergui o olhar para ele e sorri, ainda puxando meu piercing. - Já disse que está tudo bem. Pedro sorriu como sempre. Levou sua mão a minha, impedindo - me de mexer no piercing. Fez - me parar de andar e aproximou seu rosto do meu, dando - me um selinho. Depois disso eu continuei a puxar meu piercing e seguimos o caminho até minha casa em meio a vários assuntos. Pedro perguntou de tudo um pouco e fez - me rir bastante. Vez ou outra ele cumprimentava as pessoas que passava na rua, demonstrando que seria um grande problema se estivéssemos de mãos dadas, pois obviamente chegaria aos ouvidos de seus pais. Quando chegamos a minha casa Amanda me esperava para poder sair, já que eu não tinha a chave. Ela encantou - se ao ver Pedro e ficou extremamente curiosa como sempre. Fez algumas perguntas, mas logo saiu apressada. Avisou - nos que o almoço estava encima do fogão, nos esperando. Nós comemos, mas somente um pouco. Pedro é bem engraçado. Nós conversamos sobre varias coisas banais e ele não se incomodou por eu falar pouco. Pela primeira vez nossos assuntos não foram voltados para o homossexualismo. Me parece que ele relaxou mais quanto a isso. Em um determinado momento da conversa eu sugeri que subíssemos. Pedro em nada estranhou e eu o guiei até meu quarto, com o coração quase saindo por minha boca. 196
  • 197. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga Respirei fundo e abri a porta de meu quarto, tendo uma sensação de dejà vú, mas agora não era Matheus, era Pedro. Agora era o garoto que eu amava, sabe... Um amor recíproco porque foi ele a me pedir em namoro e contar para nossa turma sobre nosso relacionamento. Entramos e eu fui fechar a porta do quarto. Quando me virei rapidamente Pedro me prensou contra a porta, já começando a me beijar. Precisei de alguns segundos para raciocinar aquilo e corresponder. Nosso beijo era profundo e quente. Ele me apavorava, porque eu sabia onde aquilo iria dar. Mesmo que eu quisesse eu não conseguia imaginar como seria por quê... Porque é Pedro. O fato de ser ele ali, com sua língua em minha boca, seu corpo prensando o meu corpo em meu quarto... De todas as vezes que eu fiquei com Pedro eu nunca o toquei e isso inquietou - me. Enquanto ele se ocupava em tirar meu ar eu levei minhas mãos trêmulas e frias à barra de sua camisa, metendo elas por dentro e sentindo seus músculos durinhos se contraírem ao meu toque frio. Suas mãos passearam por meu corpo, indo de baixo à cima, apalpando e apertando. Era bom seu toque e era bom tocar aqueles músculos durinhos e quentes que correspondiam cada vez que eu passava os dedos, acariciando. Eu estava com calor, nervoso, trêmulo e com uma necessidade urgente de oxigênio, porém o beijo não parava. Eu tentei forçar minha cabeça, mas ela já estava grudada na porta. Só quando ele quis foi que nosso beijo terminou. Puxei ar desesperadamente para meus pulmões e Pedro foi para meu pescoço enquanto suas mãos ágeis abriam meu casaco. Apressei - me em ajuda - lo a retirar meu casaco, pois o calor tornava - se mais presente a cada segundo. Empurrei - o, torcendo para que Pedro entendesse o recado. Meus movimentos estavam completamente limitados por eu estar sendo preso entre ele e a porta e aquilo estava me incomodando. Infelizmente ele é mais forte do que eu sempre pensei, então somente se ele permitir eu poderei me soltar. Para meu alívio ele resolveu cooperar e me puxou pelo pulso coberto para frente, até ele se sentar nos pés de minha cama. Embalado eu coloquei uma perna de cada lado do seu corpo e sentei - me em seu colo. Pedro estava duro. Eu também, mas eu sempre quis fazer isso com ele, já Pedro não tinha planos para transar com um garoto, creio eu. Apressadamente ele puxou a minha camiseta para cima e eu colaborei, retirando - a. Logo ele abocanhou meu pescoço, sugando e beijando na medida em que descia para meu tronco. Novamente eu meti as mãos por dentro de sua camisa, agora com as mãos quentes. Para ser sincero todo o meu corpo está queimando. Parece que o dia ficou absurdamente quente e o quarto completamente abafado. Eu queria dizer algo, mas a situação não permitia. Mesmo querendo seria impossível forçar meus lábios a formarem uma única palavra, tanto pelo fato deles estar tremendo quanto o de minha mente estar completamente desligada de qualquer racionalidade. Seus lábios finalmente alcançaram meu mamilo, lambendo sem pudor. Eu acabei deixando escapar um gemido baixo ao sentir sua língua ágil e úmida em uma parte tão sensível de meu corpo. Abaixei o rosto para ver seu desempenho e quase gemi novamente, assistindo meu próprio peito subindo e descendo em um vai e vem rápido e descontrolado. Minhas mãos estavam tremendo em seu peitoral e eu esqueci completamente de mexê - las, embriagado pelo toque e mordiscadas em meu mamilo esquerdo. 197
  • 198. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga Desta vez não é noite e meu quarto não está escuro. Eu consigo ver perfeitamente cada um de seus movimentos e seu modo de respirar descontrolado. Será mesmo que é porque está dia e a janela aberta que eu sinto tanto calor? Um tanto nervoso eu decidi que gostaria de ajudar a lhe excitar o máximo possível. Desci e subi minhas mãos trêmulas em seu peitoral várias vezes. Em mais uma descida eu enfiei minha mão dentro da calça de moletom que ele vestia, por dentro da cueca. Coloquei a glande na palma de minha mão, enquanto os dedos massagearam a extensão. Senti um líquido quente em minha mão, em uma quantidade muito grande para que aquilo fosse somente um pré gozo. Incrédulo, levei minha mão direita para frente de minha boca, escondendo meus lábios e o sorriso que se formara neles. Eu o encarei e Pedro me encarou de volta, completamente mudo. Ainda sem crer naquilo eu ergui a minha mão esquerda abaixo de nossos rostos, mostrando para ambos nós dois meus dedos melados e sujos. Pedro virou o rosto para o lado, recusando - se a fitar - me e eu assisti de perto enquanto suas bochechas ganhavam uma coloração avermelhada. Não aguentei e comecei a rir, alto demais. Em um pingo de consciência eu desci de seu colo e sentei no chão, rindo sem parar. Encostei minhas costas no chão e tentei conter o riso, mas parecia impossível. Depois de algum tempo rindo incansavelmente eu pausei, fitei meus dedos melados e a risada voltou, tão intensa quanto antes. Por um momento eu fiquei com pena, considerando o constrangimento dele, mas a ironia da situação gritava mais alto e a risada não cessava. Depois de alguns minutos eu finalmente me acalmei. Com um sorriso no rosto sentei no chão, cruzando as pernas. Fitei a Pedro que permanecia sério sentando no mesmo lugar e me senti mal em ter rido tanto, mas mesmo querendo eu jamais conseguiria ter me controlado. - Desculpa – eu pedi em um fiapo de voz, escondendo meu sorriso com a mão direita. Ele suspirou com dificuldade. Me senti pior ainda por ter rido tanto. Talvez ele possa ter algum problema... - Eu que me desculpo – ele disse de uma forma estranhamente séria. – Mas eu juro que isso nunca aconteceu antes. Me senti melhor ao saber que ele não tinha nenhum problema. Na verdade, muito melhor – principalmente porque se fosse um problema sério teríamos um grande problema na hora do sexo. Se essa é realmente a primeira vez que isso acontece então é por quê... Por que é comigo? - Melhor antes do que não ter ficado de pé – eu respondi em um consolo falho. Me levantei e fui até ele, sentando ao seu lado na cama. Parecia tão entristecido... Meu coração estava dolorido com aquela cena. Pedro não me fitou e isso me machucou mais ainda. - Nunca aconteceu antes mesmo? - Claro que não! Se eu tivesse algum problema diria, não pagaria esse mico! Fiquei comovido profundamente com tal cena. Inclinei meu corpo e beijei - lhe os lábios, em um selinho, logo após recostei minha cabeça em seu ombro, calmamente. O sorriso voltava para meus lábios ora ou outra quando eu pensava no ocorrido. 198
  • 199. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga - No que está pensando? – lhe perguntei para pensar em algo para lhe dizer em consolo. - Você... – ele fez uma pausa, chamando minha atenção. Permaneci deitado em seu ombro tomando cuidado para não sujar nossas roupas com minha mão suja. – Você nunca disse que me ama, Bryan. Ergui a cabeça e o encarei, mas ele não me olhou. Essa foi a primeira vez que vi um lado inseguro de Pedro. Eu parei e pensei em como, a essa altura ele poderia pensar nisso. Eu poderia brigar com ele e me sentir ofendido por ele duvidar de meus sentimentos assim, num momento como este, mas... Analisando tudo eu percebi que realmente nunca lhe dissera que o amava. E pensando no lado do Pedro eu percebi o quão malvado fui. Ele me pediu em namoro e eu não disse que o amava. Ele poderia muito bem ter pensado que eu só queria lhe humilhar, dar para ele e depois deixa - lo sozinho como vingança, sofrendo bullyng. Mesmo assim ele contou a todos que é gay. Beijei suavemente seu maxilar e descobri que ele provavelmente fazia a barba. Novamente deitei minha cabeça em seu ombro. - Eu te amo – disse, um tanto envergonhado. Eu nunca pensei que a melhor coisa que eu poderia dizer era simplesmente ser sincero comigo mesmo e, a meu ver dizer algo bem vergonhoso, me deixando vulnerável. 199
  • 200. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga Capítulo 21: E eu achava que nós éramos os loucos... - Preciso falar contigo. Sem esperar uma resposta eu puxei Matheus pelo pulso, separando - o dos outros garotos que ficaram a fitar - nos completamente confusos e surpresos. Segui a puxá - lo sem encarar nossos amigos até sairmos do campo de vista deles. - O que aconteceu, Bryan? – ele perguntou assim que eu lhe soltei. Paramos um de frente para o outro, mas eu não consegui encará - lo. Matheus cruzou os braços e aguardou uma resposta minha. - Eu não sei se devo te contar. Na verdade eu sei que não devo – pausei, tentando pensar antes de falar, mas aconteceu de minhas palavras saírem de meus lábios – Mas eu acho que nós somos amigos. Na verdade você é o primeiro amigo que eu fiz – pausei novamente, envergonhando - me com o que acabara de dizer. Tentei concertar – Bem, eu normalmente não considero as pessoas minhas amigas. Mas tem o Mi comi, que grudou em mim dês do início – pausei novamente, percebendo que minha frase ia de mal a pior. – Bem, eu não gosto de sair contando as coisas sobre minha vida, mas eu não consigo ver uma solução sozinho. – Me calei, sentindo o início de um desespero crescente. – Entendeu? – perguntei por fim, desistindo daquele monólogo sem sentido. - Nem você mesmo entendeu, Bryan – ele respondeu rindo, mas parou ao perceber que eu continuava sério. – Ok, eu entendi. Você está nervoso. Se acalme. Somos amigos e temos que contar as coisas um para o outro. Suspirei profundamente, mais aliviado. É realmente bom ter alguém como Matheus como amigo, ou melhor, ter um amigo. - Explique - me. - Certo – tomei fôlego e arrumei minha franja com os dedos, pensando no que dizer. Imediatamente um sorriso bobo formou - se em minha face sem que eu pudesse contê lo. Somente a lembrança do dia era o suficiente para que eu risse. – Eu tenho um problema... Com sexo. Ele me fitou de uma forma que eu não consegui decifrar seu olhar. Foi uma expressão extremamente simples e natural, com o cabelo negro caindo - me nos olhos verdes claros. - Sério? Mas você se saiu tão bem na nossa vez. Fiquei completamente envergonhado perante tal argumento. Meu coração bateu com mais força e eu me exasperei um pouco mais. - O problema não é bem meu, ou comigo. É o Pedro! - Ele não quer? - Não! Quero dizer, sim, ele quer. Mas... – tentei gesticular com as mãos, procurando por uma forma de poder me expressar mais claramente. - Broxou? Levantei as duas mãos ao rosto, escondendo meu nariz e minha boca. Matheus não estava irritado com minha falha explicação, mas eu me exasperando em tentar fazê - lo entender. 200
  • 201. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga - Não. Ele... Chegou lá... Antes... – disse envergonhado e pausadamente, já com a respiração oscilante. - Na oral? - Ah! Antes fosse...! – exclamei, dando - me por vencido. Minha garganta já doía, seja lá por guardar aquilo, tentar fazê-lo entender ou simplesmente nervosismo. - Na mão? - Eu só toquei – disse com simplicidade, erguendo as mãos e sacudindo os ombros e a cabeça. Matheus riu de leve, movendo o rosto para o lado e apertando os olhos. Voltou - se para mim novamente com um sorriso bobo nos lábios. - E você? O que fez? - Tive uma crise de risos. - Uhh – ele disse fazendo bico com uma expressão de quem vê outra pessoa se machucar perante seus olhos. – Coitadinho. Uma música nos interrompeu. Era o toque de meu celular. Desliguei - o ontem o dia todo e quando liguei esta manhã tinha uma extensa lista de chamadas perdidas de meu pai. Hoje ele tem me ligado a manhã inteira. - Ahh, é o meu pai. Vou ter de atender, se não ele me mata. - À vontade – Matheus respondeu sorrindo simpaticamente. – Esse é o toque? - Qual o problema? – perguntei distraidamente enquanto retirava um dos ombros da mochila e procurava desastrosamente meu celular. - Nada. Só que está tocando a música Perfect*, do Simple Plan e é o seu pai ligando. Tem certeza de que você não vê nenhum problema aí? Ri sem graça percebendo a situação constrangedora. Finalmente achei meu celular embaixo de alguns cadernos e livros. - Prometo mudar – respondi para Matheus e atendi o celular. – Fala pai. - Bryan, tens noção de quantas vezes eu te liguei? - Aham. Eu vi as chamadas perdidas. - E não atendeu por quê? - ‘Tava carregando. - O dia todo? - Pois é. A bateria anda ruim – menti. - Hoje teremos uma séria conversa quando eu for te buscar. - Desculpa pai, mas eu vou ir pra casa da minha mãe. 201
  • 202. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga Eu conheço meu pai. Sei que ele não ficou feliz com a minha decisão. Na verdade deve estar furioso porque antes eu tinha que obedecê - lo e abaixar a cabeça para tudo, porque era somente ele a tomar as decisões de minha vida. Agora tem a minha mãe e se ele diz “não” eu posso recorrer a ela sem penalidades. - Você vem pra casa - ele respondeu com a voz firme. Eu sorri satisfeito. - Não pai. Eu quero sair hoje de tarde e a minha mãe deixou. - Onde pretendes ir? O sinal anunciando o início da aula soou. Matheus segurou minha mão que não estava com o celular e guiou - me até o prédio. - Na sorveteria. - Com quem? Sabia que ele perguntaria isso. Ele anda desconfiado desde que... Ah, que eu beijei o Pedro e ele percebeu. - Com alguns amigos. - Com quem? – ele repetiu mais firme, irritando-se. Revirei os olhos. - Matheus, Luke, Erick, Thiago e Mi c... Lucas. - Então virás para casa e na hora de sair eu te levo. - Pai... – resmunguei, desanimado. Eu não somente queria sair com meus amigos, mas também fugir daquela “conversa séria” que ele queria ter. – Eu também não quero conversar – fui sincero por não conseguir pensar em uma desculpa plausível. – Tenho que entrar para a aula. - É assim que me agradeces? Frequento uma psicóloga para compreender meu filho, mas este me evita. Vens para casa sim! Eu te levarei e buscarei, então não há desculpas. Matheus despediu - se baixinho e rumou para sua própria sala de aula. - Tá bom, tá bom – resmunguei contra minha vontade somente para que ele desligasse e permitisse que eu entrasse em aula. A porta ainda estava aberta e a professora assistindo enquanto eu conversava. – Agora eu tenho que entrar se não vou ficar do lado de fora. Tchau – desliguei sem lhe dar tempo para responder, provavelmente irritando - o. Pedi licença e entrei na sala. A professora somente conversara com a turma enquanto me aguardava. Merda. Conversar com meu pai nunca é uma boa opção. *** O silêncio predominava no carro. Eu fiquei completamente mudo, tentando evitar o assunto iminente. Agora eu teria de explicar a meu pai sobre o que ele percebeu aquele dia e simplesmente não sei como fazê - lo. É constrangedor demais. 202
  • 203. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga Durante a manhã eu e Pedro conversamos normalmente. De início ele estava um pouco constrangido, mas eu não o tratei diferente, então acho que isso ajudou - lhe a relaxar. Eu não estou chateado, mas nós temos que resolver isso logo por quê... Merda! Porque eu quero transar com ele, oras! - E então? Vais finalmente explicar - me ou terei de começar o assunto? - Não sei o que você quer saber – menti descaradamente, voltando - me para a janela. - Então eu quero que me contes a verdade do porquê de quereres passar o dia sozinho na casa de tua mãe. - Porque eu amo a minha mãe. - Não adianta mentir, Bryan. Ela não estava em casa nem a empregada. - Tá! Eu queria ficar com um garoto. Satisfeito? – explodi, virando - me bruscamente para meu pai. Ele me encarou rapidamente e, logo voltou o olhar para a estrada. Meu rosto queimou de vergonha. – Qual o problema? Eu gosto dele e ele gosta de mim, mas se ficamos no colégio é um escândalo. Se leva - lo pra casa você é capaz de jogá - lo pela janela e na casa dele tem os pais que não aceitam! – parei porque percebi que estava elevando a voz. Se eu grito com ele meu pai fica furioso. Encolhi meu corpo no banco com raiva. Raiva dele por se meter e raiva de mim por ser tão estúpido e não aguentar. Se eu não contasse logo ele ficaria insistindo até que eu cedesse. - Eu odeio que você se meta na minha vida! Por que faz isso? Sou eu, meus amigos, o garoto que eu gosto, meu colégio... Por que tem que se meter no meu namoro? Ele me fitou sorrindo debochadamente para o que eu acabara de dizer. Merda. Merda, merda, merda, merda! Eu e minha boca grande! Passei a manhã toda nervoso e agora dou com a língua nos dentes. E eu sei, agora eu sei que não era o que eu queria fazer na casa de minha mãe que ele queria saber, pois já sabia. Meu pai queria ouvir me dizendo que tenho um namorado. - Muito bem. Quero conhece - lo. - Por quê? - Porque é o namorado de meu filho. Isto não é motivo suficiente? - Ah pai... – suspirei desanimado. – Mas nós namoramos há somente dois dias... - Mas se já ficaram sozinhos em casa podes apresenta - lo a teus pais. Não concordas? – ele disse de forma sádica e com uma pitada de raiva contida. - Não fizemos nada de mais. Sem coragem de fita - lo eu olhei para a rua. Levei uma das mãos ao lábio inferior e comecei a puxar um dos piercings distraidamente. Tenho certeza que se eu dissesse que não sou mais virgem ele ficaria furioso, mesmo declarando - se ciente do que eu fizera. - Pare com isso. Se rasgares teus lábios vai ficar horrível mesmo. Eu não vou me importar. Ri, debochado. Como se ele realmente estivesse falando sério! Aparência é algo muito importante para meu pai. 203
  • 204. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga - Falando nisso você tem que dar um jeito nos meus braços. Estão horríveis. - O cirurgião disse - te que precisaria estar bem cicatrizado. Deixe - me ver. Estiquei o braço esquerdo, sem deixar meus piercings em paz. Meu pai examinou os, vendo as marcas vermelhas e algumas feridas ainda abertas. - Tem que enfaixar isto para proteger, evitando infecções. E teu rosto? Não deverias passar maquiagem para esconder e muito menos retirar o curativo. Faz poucos dias, Bryan. Tens de passar a pomada ou pode irritar a ferida e interromper a cicatrização. - O rosto está melhor que os braços. Eu quero arrumar isso logo. - Acalme - se criança. Tudo tem seu tempo. Ficarás com estes machucados por, no máximo um mês. - Um mês?! É muito tempo! - Comparado com seu tempo de vida, não. Suspirei, irritado. Pensei em cutuca - lo com algo verbalmente doloroso, mas me calei imediatamente porque lembrei do tempo que passei sem ele. Do quanto senti sua falta e do quão amoroso ele tem sido. Eu o amo e isso está acima de minha frustação e de tudo que ele faz ou diz que me desagrada. Meu pai faz o possível por mim e me ama acima de tudo também e, ao lembrar de suas palavras naquela noite um sorriso de felicidade surgiu em meu rosto. Meu pai me ama, minha mãe, meu namorado Pedro, meu melhor amigo Matheus, meu segundo - melhor amigo (isso faz sentido?) Lucas, mais meus amigos Erick, Thiago, Luke... Está tudo indo perfeitamente bem... Isso não é perigoso...? O carro parou na frente da sorveteria. Vi, pela janela que lá estavam Thiago, Erick, Matheus e Mi comi. Sorri ao vê - los em um ambiente diferente e acenei quando me viram. Eles acenaram de volta. - Bryan, Bryan, Bryan, Bryan! – Mi comi me chamou diversas vezes enquanto corria ao meu encontro e abraçar - me pela cintura. Eu fechei a porta do carro e tentei colocar minha bolsa cruzada, mas ele não desgrudava de mim. - Oi... Lu – completei lembrando - me que meu pai ainda estava ali. Passei uma mão pelos fios loiros de raiz escura e voltei - me para o carro. –Tchau pai – disse em uma indireta, querendo mandar - lhe embora. Percebi que Mi comi olhara de mim para meu pai e de meu pai para mim, em dúvida se deveria, ou não se afastar. Senti um aperto no peito e uma leve risada ao perceber sua confusão, então contornei seus ombros com meus braços. - Não esqueça de me ligar. Maneei a cabeça em sinal afirmativo e meu pai esperou um pouco antes de partir. Revirei os olhos com sua insistência. Eu sei muito bem o que ele queria e era conhecer meus amigos. Como se eu realmente fosse apresenta - los. - Fiz errado? – Mi comi me perguntou com um ar infantil e um olhar de criança arrependida. 204
  • 205. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga - Não. O máximo que pode acontecer é ele achar que você é meu namorado – engoli a risada ao pensar em tal ideia. Mi comi é exatamente o tipo que meu pai não me quer namorando. Engraçado, porque normalmente deveria ser mais o tipo do Alex, que só quer se aproveitar de seu “podre filhinho”. - Veja Bryan, hoje depois do intervalo ganhei essa pulseira! Lucas ergueu o pulso, me mostrando o acessório. Era uma pulseira de taxas. Vi que em seu pescoço ele mantinha o colar que, hoje ganhara um pingente. Era um coração prateado. Junto viera um pedaço de papel com a mensagem “pensei em lhe dar metade, mas você tem meu coração por inteiro”. - Linda – elogiei. Me pergunto de onde Matheus tira tanto dinheiro, porque somente eu e ele sabemos a quantidade de coisas que Mi comi está prestes a ganhar, dia após dia... Em seguida Luke chegara e entramos na sorveteria rindo e conversando. Até mesmo Erick parecia mais sociável. Servimos - nos com diversos sabores de sorvete, calda, confetes, granulados, balas... Sentamos para comer em uma mesa onde cabiam todos. Em determinado momento da conversa Luke comentou que, em uma mesa próxima da nossa havia dois caras que nos fitavam com desdém. Dois homo fóbicos, deduzi. - Thi, está sujo de sorvete aqui – disse Luke, inclinando o corpo na direção do moreno de beleza exótica. Ponderei que se beijariam, mas Luke somente limpou o canto do lábio de Thiago e ambos sorriram, com os rostos extremamente próximos. Quando eu pensei que o garoto do cabelo colorido se afastaria ele aproximou mais seus rostos e rapidamente beijou Thiago em um selinho. Eu sorri perante aquela cena. Era algo bonito. Em seguida meu olhar voltou - se para Erick, ao lado de Thiago. Ele estava completamente paralisado, com os lábios entreabertos e os olhos verdes surpresos arregalados por trás do óculos de aro prateado. Me perguntei mentalmente se ele estava assim por ser a primeira vez ao ver dois garotos se beijando ou... Ou se era porque era Thiago a ser beijado. Luke riu e voltou a sentar normalmente, dando atenção ao seu sorvete. Contou - nos que os garotos tinham feito caretas, mas não deixaram de olhar. Logo, Mi comi ressaltou - se, pedindo para que Matheus também fizesse algo. Obviamente o moreno não desperdiçou aquela chance e pegou um pouco de sorvete com os dedos, levando aos lábios de Lucas que os lambeu com vontade. Em pouco tempo nossa mesa se tornara um palco com cenas e brincadeiras insinuantes, homossexuais. Percebíamos que, mesmo reclamando os garotos não paravam de nos olhar. Me contive para não fazer quase nada. - Não quer brincar, Bryan? – perguntou Mi comi, inclinando uma colherada de sorvete para mim. - Não posso. Tenho namorado, lembra? - Um selinho não mata – disse Luke, piscando para mim. – E nem é considerado traição! 205
  • 206. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga - Te daremos a chance de escolher, Bryan. Qual quer beijar? – intrometeu - se Matheus. Eu não tive de pensar muito. - O Thiago! Nunca o beijei. Nem um selinho – declarei com um sorriso. Não era somente vontade de provar aquele garoto tão exótico, mas também ver a reação de Erick. Eu queria ver se ele reagia mais ao beijo gay ou ao beijo de Thiago, pois o moreno estava mais freado desde que vira que Erick ainda estava ali. Ele se inclinou na mesa e chamou - me com um dedo para que me aproximasse. Assim o fiz, me inclinando na mesa e trocamos um selinho. Seus lábios eram macios e me peguei desejando por mais, mas me contive por causa de Pedro. - Certo meninos, agora chega. Erick ainda está aqui, lembram? - Ah, desculpe! – Matheus fora o primeiro a se pronunciar, surpreso. - Também me desculp- tentou Luke, mas fora interrompido por Erick. - Tudo bem. Sempre implicaram comigo mesmo. E agora está sendo... Engraçado. De qualquer forma tentamos maneirar nas ações, mesmo que continuássemos com aquele “teatro”. Em pouco tempo Matheus estranhou e disse que agora alguma outra coisa chamava a atenção deles. Eu vasculhei o local com os olhos e percebi que realmente não eram somente os garotos, como todo o local estava distraído com um mesmo ponto. Segui com os olhos e entendi perfeitamente o porquê de tanta distração. Servindo - se de sorvete encontrava - se um... Um anjo! Era somente assim que poderia chama - lo. Ele tinha o cabelo castanho em um tom de chocolate formando cachos completos e perfeitamente moldados com somente alguns poucos fios dourados no meio, brilhando cada vez que ele se mexia e batia a luz. Seu rosto era de traços perfeitos, dês do nariz pequeno e bem desenhado até suas bochechas redondas rosadas e os lábios extremamente vermelhos naturalmente e carnudos. Sua pele dava a impressão de ser de porcelana, pois era pálida, levemente bronzeada e sem nenhuma mínima marca ou falha. Era de chamar a atenção de qualquer pessoa, simplesmente se o visse passando na rua. Todos de minha mesa, ou melhor, todos da sorveteria distraíram - se cuidando seus movimentos meticulosamente. - Nicolas! – Matheus chamou pelo nome, mas isso não me surpreendeu. O que realmente me surpreendeu foi ver aquele anjo erguer o olhar e responder aquele chamado. Ele sorriu e juro que vi qualquer beleza já conhecida se apagar. Seus lábios repuxados, deixando a mostra todos seus dentes brancos e perfeitamente alinhados. E ele... Ele realmente veio em nossa direção! Em cada passo como se flutuasse pelo local, leve como um verdadeiro anjo. Ele veio até nos, pediu licença para a mesa ao lado, onde havia três meninas que, gentilmente deixaram ele levar a cadeira e coloca - la entre Matheus e Luke, em seguida sentando - se com seu pote de sorvete. - Oi Matt! Estava mesmo pensando em lhe fazer uma visita – ele disse, com a voz soando perfeitamente, macia e gostosa de se escutar. - O que faz por aqui, Nick? - Minha semana de aniversário, ou seja, feriado no colégio. 206
  • 207. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga - É feriado no dia do seu aniversário? – Luke intrometeu - se, chegando mais perto do anjo com um sorriso tenebroso nos lábios. - Semana – corrigiu – Meu pai é o diretor e o dono – ele contou, embasbacando a todos nós. - E acha que o filho é um anjinho – alimentou Matheus. O anjo riu, mas não foi uma risada que soou condizente com sua aparência. Assisti, de perto enquanto aquele rosto encantador era distorcido por um sorriso cruel e malicioso. Fiquei pasmo e pisquei algumas vezes. Se somente ver que uma pessoa com tal aparência existia no mundo já me era difícil de crer, acreditar que aquele anjo poderia dar um sorriso daquele jeito era impossível de engolir. - Você estraga com o encanto, Matt. - Eu não, é você! – Matheus rebateu, rindo. – Aliás, esses são meus amigos. O Lucas – ele começou apontando para a direita, onde estava o loirinho. - Olá! - Oi – cumprimentou o anjo enquanto levava uma colherada de sorvete com balas de goma aos lábios avermelhados. –Você é tão fofinho! Me lembra alguém... – ele disse em um tom de quem lembrava perfeitamente da pessoa a quem se referia. - O Bryan... Seus grandes olhos azuis intensos de cílios longos e volumosos voltaram - se para mim. Engoli em seco perante aquele olhar e o sorriso transfigurado, cheio de malícia. Em seguida sorri e disse - lhe um “oi” que foi rapidamente respondido. Matheus seguiu apresentando o restante de nós e eu agradeci mentalmente por me ver livre daquele olhar penetrante. Seguimos conversando, com todos querendo falar com aquele boneco de porcelana vivo. Resolvi mudar o modo de chama - lo porque nenhum anjo seria capaz de sorrir da mesma forma estranha que ele. Fizemos incontáveis perguntas. Descobri que o pai dele o mima de todas as formas possíveis, desde que ele nasceu. Ele é rico, infelizmente tem um belo namorado, – com o qual vive a brigar, onde em uma destas brigas ele viera parar na sorveteria – não gosta de balas de goma verdes, se apaixonou pelo Mi comi e insistiu em mantê - lo em seu colo. O que mais? Ah, ele vira o colégio de cabeça para baixo e simplesmente manda os professores irem se foder, sem nenhuma penalidade, pois o pai dele é o dono do colégio. Aliás, o pai dele também é gay! Tem como a vida ser melhor? - Nicolas, não quer brincar com a gente? – convidou Luke com um sorriso de segundas intenções. O moreno dos cachos perfeitamente desenhados mostrou - se interessado enquanto lambia o sorvete dos lábios. Será que ele sabe que todos aqui estão vidrados nele? - De que vamos brincar? – ele perguntou interessado, sorrindo de uma forma total e completamente maliciosa. - Tem uns garotos nos cuidando e estávamos lhes dando um show. Que tal participar? 207
  • 208. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga - Demorou! – ele exclamou mais que alegre. Pegou, com os dedos de uma textura duvidosamente perfeita e macia uma bala de goma em forma de minhoca de seu pote. Colocou metade em seus lábios carnudos, segurando com os dentes e ergueu o rosto para Mi comi em seu colo. - Que tal, ‘fofurethe? Mais que depressa Lucas aceitou e encostou seus lábios naqueles perfeitos, mordendo a bala e pegando um pedaço para si. Acredito que toda a sorveteria parou para acompanhar aquele movimento em câmera lenta. - Eu também quero! – atirou - se Luke. O boneco de porcelana riu e pegou uma segunda bala, colocando entre os lábios. Senti grandes pontadas de inveja, mas me contive. Antes que Luke pudesse se inclinar para pegar a bala uma voz estridente, quase tão escandalosa quanto à de Mi comi ecoou por todo o local. - NIIIIIIIIIIIIIIICK! Uma garota pequena e extremamente baixa adentrou a sorveteria correndo, chamando a atenção de todos. Veio na nossa direção e quando ia “pular” no colo do boneco de porcelana percebeu Mi comi em seu colo e fez cara feia. Em seguida rumou até a cadeira de Mi comi e cruzou os braços, sentando - se ai. - O que essa coisa está fazendo no seu colo? – ela perguntou agressivamente, comprimindo os lábios. Deve ser uma criança, pensei comigo mesmo. Tinha um cabelo bonito, loiro e liso, da altura do rosto e com as pontas voltadas para o lado de dentro, emoldurando a face. Olhos azuis muito claros e traços delicados. - Esse é o Luquinhas. Ele não é uma graça, Natrel? Lembra você – o boneco respondeu sorrindo simpaticamente e tocando nos lábios de Mi comi, o que irritou mais ainda a loira. - Ele não pode ficar no seu colo! Só eu posso! Hey, espere. Natrel? Natrel não é nome de garoto? Eu paralisei no lugar, sem saber o que fazer ou dizer. Passei o olhar rapidamente por todos os garotos na mesa. Por fim, percebi que eu não era o único confuso e que era só uma questão de tempo até algum deles abrir a boca. E a bola da vez fora Mi comi. - Espera! Você é um garoto? Ou é só o nome que é estrangeiro? A garot- apoiou ambas as mãos na mesa e esticou seu corpo para frente, com um olhar sério de assustar, nada condizente com a face doce. Estou começando a duvidar que algum deles seja mentalmente instável... Depois sou eu quem tem que frequentar um psicólogo... - Sou tão garoto quanto você é viado e quer dar o rabo. 208
  • 209. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga Nossa mesa se dividiu. Alguns garotos se surpreenderam, mas a maioria, assim como eu, simplesmente riram da ironia daquela resposta desaforada vindo de um ser tão pequeno e aparentemente frágil. - É por isso que tem o apelido de Mi comi – respondi automaticamente e logo me arrependi. Eu não parara para pensar nas consequências. - E você cala a boc- Ohh, que apelido legal! Combina completamente – ele mesmo interrompeu - se no meio da frase, abrindo um largo sorriso debochado. - Bryaaaaaaaaaan, como você é mau! – resmungou Mi comi, fazendo um grande bico com os lábios. - “Bryaaaaaaaaaan, como eu quero dar” – resmungou o garot...o, fazendo uma voz enjoativa e melosa. - Ainda por cima tem uma voz aguda e irritante de viadinho! Tentei não rir, mas fora impossível. Infelizmente eu tive de concordar, pois a primeira vez que vi Mi comi também me irritei com seu tom. - Disse tudo – completei, recebendo um sorriso amigável daquele garot...o tão andrógino. - Gostei de você... Bryyyyaaaan – ele pronunciou meu nome enquanto apertava o nariz com uma das mãos, deixando a voz mais irritante. - Obrigado – agradeci, ainda estranhando ao fita - lo. É impossível de imaginar que entre suas pernas realmente aja um pênis. Ele é afeminado demais para isso! - Quantos anos você tem? – perguntou Mi comi, com uma expressão mais amena. Já o loiro andrógino não suavizou a sua e fitou - o com os olhos estreitos. - Dezesseis. Luke engasgou com o sorvete enquanto eu me lembrava do meu. O dia estava sendo tão estranho que eu esqueci completamente que, para melhorá - lo ainda havia um delicioso sorvete! (bastante derretido, confesso.). - Não acredito! – exclamou Lucas. - Não acredito que você está saindo para passear sem uma coleira – rebateu o andrógino, irritando - se mais ainda. - Mas você é pequeno, fofinho, parece uma garota e ainda é mais velho que eu! Simplesmente o loiro afeminado se atirou encima da mesa querendo bater em Lucas. Eu e Matheus, os que estavam mais próximos o seguramos. - Natrel! Acalme-se! – repreendeu o garoto que parecia um boneco de porcelana. Fora efetivo e o loiro acalmou - se, sentando novamente. - Desculpaaaaa, era um elogio! – resmungou Lucas, fazendo um bico maior que o anterior. – Como você consegue? Eu queria ser pequeno e fofo assim. - Antes eu tomava remédio para conter os hormônios, mas eu parei. - Se tomava não pode reclamar por ter essa aparência infantil e afeminada – acrescentou Luke, defendendo nosso loirinho. 209
  • 210. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga - Mas eu parei ano passado! Porque eu quero ser um m-e-n-i-n-O! – exclamou irritado, apoiando - se com o cotovelo na mesa e a mão no rosto. Fiquei em prontidão, esperando para ver se ele atacaria Luke, mas não o fez. – Até porque, tinha efeitos colaterais horríveis... - O que acontecia? – Lucas perguntou, curioso. As bochechas do loirinho ganharam uma coloração avermelhada, combinando com sua aparência. Em seguida ele levantou - se com os lábios comprimidos e rumou para perto de Mi comi. Sussurrou algo que fez Lucas abrir a boca. Fiquei muito curioso. - Certo... Eu não quero isso. Não vou tomar nada! - Já que estamos matando dúvidas, eu queria saber: como você deixa o seu cabelo assim, Nicolas? – perguntou Luke. - E a pele também – acrescentou Thiago. - Não faço nada – o boneco explicou sorrindo, mostrando os dentes perfeitos. – O cabelo seca normal, nem uso secador. A pele... No início eram cuidados, mas não faço nada e ela nem é tão “perfeita assim”... – ele retirou uma das mãos da cintura de Mi comi e puxou a gola do moletom, mostrando várias marcas roxas e vermelhas em seu pescoço e ombro. – Meu namorado é um tanto selvagem... - São bons genes, então? – questionou Luke. - Não sei... Sou adotado, não conheço meu pai e minha mãe de verdade. Uoooow, isso fica cada vez mais estranho! Por essa eu realmente não esperava... Por um lado eu estou realmente curioso, por outro não quero me meter demais na vida dele. - Já que estamos falando sobre cabelo e tal, eu também tenho uma dúvida. Como você faz para deixar o seu cabelo assim? – o boneco fez sinal com uma mão atrás da cabeça, como se puxasse para cima; estava se referindo a Thiago. - Sabonete. Sabonete, chapinha e um spray fixador. De preferência sabonete dove que não deixa com um cheiro forte nem uma cor estranha ou duro... - Interessante... E você? Não fala? – o garoto perfeito perguntou para Erick, assustando - o. - Eu acho que vocês são bizarros... Não de um jeito ruim... – ele respondeu envergonhado, abaixando o rosto para seu sorvete. - Já que estamos tirando dúvidas eu tenho uma, bem boba... – me intrometi, chamando a atenção. Novamente fiquei desconfortável com os olhares, agora não somente do garoto perfeito, mas também daquele menino/menina. – Se sua temperatura é... Bem, quente... É que parece tanto ser feito de porcelana... – perguntei mais envergonhado ainda em ver as palavras em voz alta. Soava menos estúpido em minha mente. - Que pergunta ridícula, Bryan. Acha que ele é um vampiro? – ralhou Erick. Eu somente revirei os olhos para ele. Se era para alguém se irritar que fosse o boneco de porcelana. - Sem problemas. Já me perguntaram isso antes... 210
  • 211. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga Ele esticou uma de suas mãos para mim, oferecendo para que eu a segurasse. Assim o fiz, constatando não somente sua temperatura, que por sinal era bem quente, mas também que sua pele era extremamente macia e agradável. - E aí? – questionou um curioso Thiago assim que eu soltei aquela mão. - Quente – respondi sem graça. - Nicolas, você está me devendo um beijo – prontificou - se Luka, causando - me inveja. O garoto de porcelana sorriu em resposta inclinou - se pelo lado esquerdo de Mi comi para poder beijar a Luke. Eu penso que era para ser somente um selinho, mas Luke levou sua mão ao cabelo dele e todos nós pudemos perceber quando o beijo aprofundou - se. E devo acrescentar que uma catástrofe é iminente, pois acompanhei com os olhos quando dois garotos morenos – lindos, como é de se esperar – adentraram a sorveteria chamando a atenção dos clientes. O menor correu em nossa direção apressadamente. - Nicolas! Nicolas, o boneco de porcelana interrompeu o beijo, fitando ao moreno com algumas mechas roxas, recém - chegado. - Opa... - Trinta e sete minutos... – controlou a voz o moreno que vinha atrás. Tinha uma postura prepotente e uma expressão pior que a de qualquer outro deles. – Você não pode passar trinta e sete minutos sem meter a sua língua na boca de outro garoto ou esfregar seu corpo no de alguém. - Com licença fofurethe – pediu o garoto perfeito, dando alguns tapinhas na perna de Mi comi que levantou - se, seguido por Nicolas. – Está irritado? – perguntou implicante, parando com um sorriso debochado na frente do garoto mais alto e prepotente. - Eu diria que ele está prestes a quebrar a sorveteria – respondeu simplesmente o loiro andrógino, fazendo pouco caso do assunto e roubando um canudo do pote de Matheus. Curioso, eu segui caminho com os olhos até as mãos do moreno. Elas realmente estavam tremendo, fechadas em forma de punho. Por um momento eu cogitei a possibilidade dele realmente destruir o lugar. Enquanto isso o outro moreno recém chegado fitava a todos nós, mais especificamente a Luke. - Ah não! Não, não e não! Um garoto de cabelo azul? Temos que nos mandar daqui antes que Blake o veja! - Hum? Eu? – Luke perguntou mexendo em sua franja azul escura. – Esse pouquinho aqui? - Vem Natrel. - Você não me manda! 211
  • 212. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga O moreno menor – que não era, nem de longe pequeno – irritou - se. Pegou o loiro andrógino pelo braço e puxou - o para fora da sorveteria enquanto empurrava os seus outros dois amigos. Todos ficamos pasmos. Não somente nós, como toda a sorveteria permaneceu em silêncio por mais alguns longos segundos, tentando entender tudo aquilo. - Mas... O que foi que acabou de acontecer...? – quebrei o gelo, um tanto incrédulo. A lembrança não era o suficiente para me fazer acreditar. - Parece que acabei de ver uma outra história complicada demais – respondeu Erick, terminando seu sorvete. Ele me pareceu o único a não se abalar com a presença daqueles... Daqueles malucos! Thiago começou a rir, logo sendo acompanhado por Luke. Em pouco tempo todos nós estávamos rindo com toda aquela situação. Eu nem ao menos me recordo o nome deles! Tudo tão complicado... 212
  • 213. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga Capítulo 22 de Emo-ções As luzes piscavam repetidamente, diferenciadas pelas diversas cores. A música era alta e o local se encontrava repleto de pessoas que se balançavam ao ritmo da música. Na pista um aglomerado de gente, encostados nas paredes encontravam-se vários casais... Homossexuais. No canto esquerdo ainda algumas mesas com bancos estofado e ainda, próximo do bar podia-se ouvir o barulho de uma briga aumentando gradativamente, até os guardas a encerrarem. - Vejam isso! Aquele ‘mino derramou tinta fosforescente no meu cabelo! – gritou um moreno sorridente, com o cabelo claro por baixo do castanho. Gritava, mas por conta da música seus amigos ouviam como se este estivesse falando em um tom normal. - Cara, você vai morrer tirando isso! – respondeu um dos garotos com grande franja que o acompanhava. Passou a mão no cabelo com tinta amarela fosforescente, em seguida deixou uma marca de mão desta no braço do garoto. - Mas ficou super show! Minha mãe poderia até patentear e vender, não acha? O garoto da franja negra que lhe cobria um dos olhos riu em resposta, mais por conta da bebida do que de pela brincadeira em si. Em um embalo bêbado cambaleou para frente e abraçou - se em Luke. Ambos riram desastrosamente e trocaram um selinho ao tempo que os olhos de Luke dobraram de tamanho, encontrando algo de interessante naquela balada. - Aquele! Aquele ali é meu professor! – Luke exaltou - se, apontando de forma chamativa para o homem que recém passara com um copo de bebida em mãos. - Aquele baixinho? - Não! O alto e gostosão à esquerda! - Aquele ali com jeito de surfista? – perguntou o amigo sem esconder a surpresa em sua voz. Não conseguindo acreditar. – Aquele cara é muito gostoso! Não pode ser o seu professor! ‘Tá brincando comigo, Luke! - O que vocês estão fazendo? – perguntou um dos garotos recém - chegado. - O Luke tá dizendo que aquele gostoso ali é professor dele! - Tá brincando! - Vou mostrar pra vocês como ele é meu professor mesmo! – respondeu Luke decidido, enfiando - se entre as pessoas para se aproximar mais. Saiu do aglomerado já perto de Rafael e foi na sua direção. - Hey! Lembra de mim? – perguntou um sorridente garoto cheio de tinta fosforescente no cabelo. Rafael sorriu e passou a mão na franja do mais baixo. - Claro. Meu aluno da franja azul. - Isso mesmo! É Luke! Eu não sabia que o senhor frequentava lugares assim... – disse indiretamente, referindo - se ao fato do ambiente ser uma boate moderadamente gay. Logo, Luke arrependeu - se da forma como se dirigiu ao professor, chamando - o de senhor. De qualquer forma fora somente um relâmpago de lucidez, que fora rápido como viera. Luke encontrava - se bêbado demais para se importar com algo assim, portando sorriu. 213
  • 214. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga - Então manteremos este um segredo entre nós, sim? – pediu Rafael, piscando para Luke que exaltou - se completamente. Os dois rapazes que acompanhavam Rafael seguiram em frente, deixando este e Luke para trás. - É claro que sim! Mas eu vou querer algo em troca... – comentou botando as mãos para trás do corpo e mordendo o lábio inferior, com um olhar diferenciado. - Bem, você não está precisando de nota comigo – respondeu Rafael fazendo - se de desentendido, quando na verdade sabia muito bem as verdadeiras intenções de seu aluno. - Ah, quem sabe você não me consiga outra coisa, então... – sugeriu Luke, apoiando suas mãos nos ombros do belo e jovem professor. Sentiu o cheiro de álcool em seu hálito e este ia de encontro ao seu, igualmente alcoolizado. Rafael sorriu, disposto a aceitar o pedido de seu aluno. *** - Não é querer apressar, mas acho melhor você ligar para ele. Vai ver aconteceu algo... - Claro que não! Meu namorado está bem... – respondi um tanto pensativo, duvidando de minhas próprias palavras. – Certo, vou ligar. O problema é: eu não costumo ligar para o Pedro. Sabe, nos filmes... Ou melhor, o ideal é que o namorado ligue a noite para que troquem palavras carinhosas... Eu não sou muito fã disso. Eu gosto de romance, mas meloso demais me soa desnecessário. Procurei seu número na agenda e liguei, um tanto nervoso. Quando ouvi sua voz do outro lado da linha, dizendo “alô” meu coração disparou. - Oi, Pedro... Hum... Tudo bem? - Tudo sim lindo. Desculpa o atraso, é que meus irmãos esconderam a chave de casa para que eu não saísse. Já estou chegando. Lindo... Ele... Ele me chamou de lindo! Fiquei vermelho quase instantaneamente e ouvi Matheus rir ao meu lado. - Ah, tudo bem. É só que eu estava preocupado com o seu atraso. Se tinha acontecido algo ou um imprevisto e você não poderia vir... – eu falei sem graça, já não sabendo como continuar um assunto e querendo desligar logo. - Certo. Já ‘tô chegando. - Tá bom... – respondi, sem saber se mandava beijos, mas fiquei com vergonha e desliguei. Logo em seguida me arrependi. - Já desligou, Bryan? Assim, na cara do namorado? - Queria que eu fizesse o quê? – perguntei envergonhado. Matheus esticou a mão, pedindo pelo meu celular. Eu o entreguei, receoso. Ele o posicionou na orelha direita e simulou como se conversasse no telefone. 214
  • 215. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga - “Tá bom amor, estou te esperando ansioso. Beijos, beijos. Também te ‘aaamo” – disse com uma voz melosa e enjoativa, gesticulando apaixonadamente, sorrindo sem parar. Tentei evitar, mas não consegui e ri. Ele me entregou de volta o celular e eu o coloquei encima do sofá. - Malvado! Ele já vai sofrer um pouquinho mesmo... – respondi rindo com segundas intenções. – Vai querer me matar... - Vai mesmo. Voltei - me boquiaberto para Matheus que sorriu amigavelmente. - Que isso? Não esperava isso de ti, Matt! Você não era assim antes... - É só brincadeira – respondeu sorrindo e depositou-me um beijinho na bochecha esquerda. É bom ter um amigo. *** À medida que passavam pelo corredor do prédio as luzes iam acendendo, na intenção de ajudar os inquilinos deste a se guiar no caminho de seus apartamentos. Não que isso importasse para os únicos dois caras acordados àquela hora, os quais não desgrudavam um do outro um segundo se quer. Vinham agarrados, com os lábios colados e as línguas mexendo - se incansavelmente. O corpo menor fora jogado contra a porta do apartamento 709. As pernas deste estavam prendendo seu corpo contra o do mais velho, contornando a cintura. Os beijos desceram dos lábios para o pescoço do mais novo, mordiscando e chupando fortemente enquanto uma das mãos do mais velho fora para a maçaneta da porta, destrancando - a. - ‘Hmm... Professor... – gemeu o jovem que recebia os chupões no pescoço, embriagado não somente pelo álcool. Rafael segurou seu aluno com ambas às mãos e adentrou o apartamento, batendo a porta com o pé. Voltou a atacar seus lábios com fervor e foi guiando ambos até o quarto, tropeçando em algumas coisas pelo caminho, porém também não necessitara acender a luz. Abriu a porta do quarto e jogou com força o corpo menor na cama de casal no meio do quarto. Ficou por cima e meteu as mãos por dentro da blusa de seu aluno, puxando a sem retirá - la. Não demorou a descer seus lábios para a pele descoberta do jovem, sentindo o gosto desta centímetro por centímetro, inclusive da bebida que o garoto havia derramado em si mesmo ao tentar beber, desastrosamente. Subiu de volta para o ouvido de Luke, sussurrando sensualmente: - Que mal exemplo este meu aluno... – sussurrou com a voz rouca e embriagada, fazendo o mais jovem tremer em deleite. – Bebendo... Frequentando boates gays... Fazendo parte da vida noturna... – passou a mão por toda a perna esquerda vestida com uma calça apertada de Luke, chegando embaixo do joelho do menor e flexionando - a para perto do tronco deste para poder chegar ao pé de All star sem descolar os lábios de seu ouvido. – Como devo castiga - lo? 215
  • 216. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga - ‘Ahhh... Professor... Você sabe, fui tão malcriado... Eu... – Luke parou, pois começara a enrolar a língua. Rafael terminou de retirar o tênis e a meia de Luke e soltou sua perna, deixando - o estica - la. Em seguida partiu para a outra, puxando da mesma forma que fez com a esquerda, mantendo o mesmo objetivo: retirar o tênis e a meia. Seus lábios foram para o pescoço alvo, marcando com força. Luke gemeu no ouvido de seu professor que adorou aquilo. - Não sabia que meu aluno é um puto – soprou contra a pele sensível do pescoço de Luke, lambendo em seguida. - Não...? Com a ajuda de Luke o professor retirou - lhe a blusa, expondo seu tórax magro e pálido. Ergueu - se de joelhos na cama para retirar seu próprio tênis, jogando em qualquer lugar do chão. Observou o corpo de seu aluno com olhos em chamas. Quando percebeu o olhar atento e embriagado do mais novo lambeu os lábios e abaixou - se, atacando a boca de seu aluno. Beijou - lhe ardentemente, intercalando com puxões no lábio inferior e encontros de línguas fora das bocas. Pausou o beijo, indo até o ouvido de Luke. - Vou lhe mostrar o que acontece com meus alunos que são malcriados... Terminou sua frase e mordiscou a orelha de Luke, apalpando seu tórax. Logo, desceu o rosto para o mamilo esquerdo de Luke, levando uma de suas mãos a braguilha da calça jeans abrindo para, logo em seguida meter a mão dentro desta, massageando o membro de seu aluno. - Ahhh... – as mãos de Luke tatearam, em busca de seu professor. Apertou seus ombros enquanto sentia as mordiscadas e lambidas do mais velho adormecendo seu mamilo. Não demorou muito, pois com a mão livre Rafael puxou os pulsos de Luke e juntou-os acima da cabeça do mais novo, impossibilitando - o de se mover. - ‘Pshiu. Isso é um castigo. Nada de ficar se mexendo – dito isso o professor foi descendo as mordidas e lambidas pela barriga de Luke, puxando a pele com os dentes, para logo em seguida abocanhá - la. - Mais pra baixo... - ‘Éh? E por que eu faria isso? - Por favor... Por favor, professor... – pediu Luke, quase gemendo. Não tinha pudor algum, muito menos consciência. Mal sabia ele que aquilo era extremamente excitante para seu professor... Ou talvez soubesse, mesmo em meio à tamanha embriaguez de ambos. Rafael soltou os pulsos de Luke e retirou a mão de dentro de sua calça para poder ter o movimento de ambas as mãos. Rapidamente retirou a calça jeans apertada de Luke, juntamente com a cueca. Parou, por alguns segundos para admirar o físico magro e excitado de seu aluno. Era uma visão tentadora, aos olhos do mais velho. - O que você quer? – perguntou aproximando - se do rosto de Luke enquanto sorria de forma maliciosa, repuxando os lábios bem desenhados e mostrando seus dentes brancos. - Que me chupe... 216
  • 217. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga - E por que eu faria isso? Levou seu dedo indicador aos lábios de seu aluno de franja azul perante o olhar atento e luxurioso do mesmo. Rafael contornou, sentindo a umidade destes e, sem cerimônias adentrou com o indicador na boca de Luke. Este foi muito bem-vindo naquela cavidade úmida. Fora como um beijo de língua com o dedo do mais velho que se movimentava ali dentro, incentivando a língua de Luke. Em nenhum momento o contato visual fora quebrado. - E então, por que eu lhe chuparia? – perguntou Rafael enquanto retirava o dedo de dentro da boca do mais novo, com um filete de baba escorrendo de um para o outro. Os lábios de Luke encontravam-se avermelhados e úmidos pela saliva que escorria. - Eu prometo ser obediente. - Hum... Esta me soa uma proposta interessante... Retornou a passar seu dedo indicador, agora úmido, pelo lábio de Luke, observando-o atentamente. Retirou e voltou a atacar os lábios de seu aluno com voracidade em um beijo quente e lascivo. Guiou o mesmo dedo úmido de anteriormente até a glande, fazendo movimentos circulares. Um gemido sôfrego fora abafado pelo beijo. O lábio inferior de Luke fora puxado pelos dentes do professor, deixando - os mais avermelhados que anteriormente. Rafael ergueu o tronco, alto o suficiente para poder desabotoar sua camisa e retirá la, lançando um olhar sexy e extremamente sedutor ao seu aluno que assistia. Expôs seu tórax bem definido de pele bronzeada, fazendo um tremor percorrer todo o corpo do menor deitado, destacando-se no meio das pernas. Riu do suspiro desejoso que escapou dos lábios de seu aluno. Ele sabia o poder que sua aparência exercia sob as pessoas. - Vire - se. Luke não demorou a obedecê - lo, virando de costas e erguendo o quadril, empinando a bunda. - Que atitude é essa? Obediente e quietinho ou eu terei de apelar a castigos mais violentos... – disse referindo - se a sua iniciativa de empinar - se. Recostou - se por cima as costas do mais novo levando dois dedos para dentro da boca deste, os quais foram prontamente recebidos, com direito a tratamento especial repleto de saliva... Rafael focou - se em mordiscar e beijar a pele exposta, descendo por toda a coluna e sentindo alguns dos ossos do jovem que segurava o ímpeto de erguer - se à medida que recebia os chupões. Recolheu seus dedos somente para descê - los junto de seu rosto, com o indicador passando por entre as nádegas do mais novo, pressionando a entrada. Em resposta ao toque úmido Luke gemeu, não conseguindo impedir - se de erguer o quadril, pedindo fisicamente por mais. - Então você gosta, hum? – comentou maliciosamente, levando seus lábios até a orelha direita de seu aluno e sussurrando calidamente. – Se for um bom menino talvez eu possa compensá - lo... – dito isso forçou seu indicador para dentro do corpo do 217
  • 218. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga menor que escorregou com facilidade, alargando o sorriso pervertido do professor. – Então o meu aluninho querido já fez isto outras vezes? Sozinho ou acompanhado? Luke riu, lambendo os lábios e erguendo seu rosto e seus olhos embriagados para poder fitar a Rafael que estava atrás, em suas costas, aguardando uma resposta. - Os dois. - Então... Não vou fazer cerimônias... Adentrou com o segundo dedo e em seguida, ao retirar os dois dedos juntou - se a eles o terceiro. Este provocou um desconforto maior por não ter sido umedecido pela língua ágil de Luke. O moreno do cabelo colorido gemeu alto, sentindo aquela profunda invasão em seu corpo. - Huum... Professor... – gemeu de forma lânguida, excitando o mais velho. - É gostoso? – provocou próximo do ouvido de Luke, puxando a parte inferior com a língua e mordendo com uma certa força. - ‘Siiimm... - Então que tal algo melhor e maior? - Eu quero... Muito... – gemeu desejoso ao sentir os dedos investindo fortemente em seu corpo. Já não estava somente embriagado pelas excessivas doses de álcool que ingerira, como também e principalmente pelo gosto do sexo. O cheiro, sabor, desejo, suor, gemidos... Tudo aquilo misturado fizera os hormônios do adolescente ferverem, fazendo - o perder a razão, há muito tempo... - Então lhe darei algo maior para chupar. Vire - se para cá. Luke obedeceu quanto sentiu os dedos saírem de dentro de seu corpo. Virou - se e ergueu o tronco, assistindo extremamente excitado enquanto seu sexy professor de artes se ajoelhava e desafivelava o cinto abrindo o zíper de sua calça, expondo seu grande membro ereto aos olhos famintos de Luke. - Aqui... Rafael levou sua mão direita para debaixo do queixo de Luke, aproximando devagar o rosto de seu aluno do meio de suas pernas. Os lábios do jovem tremeram antes de leva - los ao topo do membro. Segurou na base com delicadeza para não machucar e colocou a língua para fora, esfregando na pele sensível e rosada de seu professor que gemeu contidamente em resposta. Rafael percebeu quando Luke riu antes de colocar a glande para dentro de sua boca, tomando cuidado para que os dentes não raspassem nela. - Isso... Coloque todo dentro... – mordeu o lábio inferior para conter um gemido. Estava simplesmente amando ter um aluno tão submisso, acatando suas vontades. Era melhor ainda ver que o olhar claro de Luke estava voltado para cima, lhe fitando e buscando orientações. O mais novo obedeceu, colocando quase todo para dentro de sua boca. - Não, não, não – Rafael o repreendeu, levando a mão aos seus cabelos coloridos e puxando a cabeça deste para longe de seu pênis. – Não é assim. Você não deve coloca lo de forma que não consiga movimentar sua língua e incomode sua garganta. Mesmo 218
  • 219. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga dentro de sua boca você deve conseguir manter os movimentos eróticos. É como um pirulito que você quer sentir o gosto... Realmente estava machucando a garganta de Luke tanto pela profundidade quanto pela forma que ele o colocara dentro de sua boca. Obedecendo a seu professor o adolescente retirou o pênis de dentro de sua boca e, com jeito foi colocando - o novamente, inclinando para o lado direito. Desta forma conseguia passar a língua por todo este e, por mais que estivesse indo fundo não era tão desconfortável quando anteriormente. - Isso... Muito bem... Obedientemente Luke foi aceitando aquilo que seu professor ensinava e aceitando de bom grado os puxões e carícias em seu cabelo. - Muito bem. Você fez sua tarefa direitinho – parabenizou Rafael, puxando o rosto de Luke para que este se erguesse. – Está na hora da recompensa de meu aluninho... Beijou - lhe, sem se importar com os resquícios do pré - gozo que estiveram na boca de Luke. Beijou - o com desejo para, logo em seguida deitar - lhe no colchão, já segurando suas pernas abaixo dos joelhos, flexionando para que se abrissem melhor. Com a mão destra guiou seu membro para a entrada de Luke, tomando cuidado ao penetrá - lo. Devagar. Não fora tão fácil quanto esperava, mas aquela fora uma boa surpresa, pois sempre é melhor com uma certa dificuldade... - Dói? - Não – mentiu, somente para que não houvesse chances de pararem. Rafael sabia muito bem que seu aluno estava mentindo. – Não pare, por favor... - Você quer outro tipo de alívio? – perguntou ao observar que Luke levara sua mão ao seu próprio membro, masturbando - se, tendo como ajuda a aproximação e o atrito dos corpos. - Muito... – gemeu em desespero, respirando com dificuldade, inundado em prazer. Rafael beijou, lambeu e mordiscou o queixo de Luke, descendo pelo pescoço para seguir ao ombro esquerdo. - Então segure suas pernas. Mais uma vez Luke atendeu prontamente e segurou suas pernas na mesma posição que Rafael as deixara. Com as mãos livres apoiou uma delas na cintura fina de Luke, ajudando com os movimentos lentos de penetração e a outra foi para o membro do menor, o envolvendo e movimentando de leve em uma masturbação gostosa. Estava quente. Ambos os corpos ferviam e, ao entrar em contanto com o do parceiro, igualmente quente a temperatura deles e do ambiente se elevava, fazendo - os suar. A pele quente e macia de seu jovem aluno entre as mãos e lábios de Rafael o fazia morder o ombro de Luke, contendo - se para não acelerar seus movimentos e machucalo. Era o instinto possuir aquele corpo magro e quente. Era automático desejar ir cada vez mais forte e mais fundo. O vai e vem misturado ao atrito dos corpos, o suor, gemidos e mordidas fazia ambos perderem a noção e se entregarem as sensações físicas. Rapidamente os movimentos rápidos fizessem com que Rafael acertasse o ponto certo de Luke, levando o adolescente ao delírio. Nunca experimentara um sexo tão 219
  • 220. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga gostoso e com um homem tão sexy e gostoso. O prazer era transbordante, tornando - se inevitável gemer e balbuciar palavras desconexas e sem sentido, atiçando mais ainda o desejo voraz do mais velho. Não demorou muito para que Luke sentisse seu ápice chegando. E não era para menos, pois o homem que lhe acompanhava era o sonho de consumo de muitos e muitas. Não era somente bonito, como maravilhoso de cama. Tanto suas investidas dentro do corpo de Luke que lhe faziam tremer quanto os movimentos rápidos e deliciosos em seu pênis. Tudo junto, misturado, mais uma boa dose de bebidas fortes e desconhecidas foram mais que o suficiente para que Luke derramasse seu gozo nas mãos do professor, carregado de um gemido arrastado e um tremor mais forte em seu corpo, fazendo - lhe arquear as costas antes de sentir o êxtase tomar conta de seu corpo. Mais um pouco fora necessário para que Rafael se satisfizesse. Mais algumas investidas fortes e profundas no interior apertado de Luke foram o suficiente para que chegasse ao seu ápice, espalhando seu gozo no interior do corpo do garoto. Ao sentir aquele líquido derramar - se dentro de si Luke tivera mais alguns espasmos. Rafael retirou - se e jogou - se cansado ao lado do jovem. Seu coração acelerado e sua respiração descompassada eram os últimos sinais do orgasmo que seu corpo sofrera. Ao acalmar - se um pouco virou para o lado e viu que seu aluno já adormecera, rapidamente. Não conseguiu impedir um sorriso pervertido antes de puxar - lhe para próximo de si, aconchegando o rosto jovem e adormecido em seu peitoral bem definido. Sem ter muita noção do que fazia acariciou levemente os cabelos bem tratados antes de entrar em sono profundo, adormecendo com Luke em seus braços. *** O soar da campainha interrompeu minha conversa com Matheus. Exaltei - me, erguendo - me de forma ereta. - Amanda! Não precisa atender! Eu vou! – gritei para a senhora que trabalhava na casa de minha mãe. O problema é que ela é uma grande fofoqueira, então mesmo que tenha me ouvido vai ignorar e fingir que não ouviu para poder atender a porta e ver quem é o “amigo” que estou esperando. – Já volto – disse para Matheus, já tropeçando para fora do quarto. Desci as escadas desastrosamente e fui direto para a entrada receber Pedro, mas qual não foi a minha surpresa ao perceber que Amanda já abrira para Pedro? Eu sabia que ela faria isso! Assim como fez quando Matheus chegou! - Oi Bryan – cumprimentou - me Pedro sorrindo assim que me avistou por cima do ombro de Amanda. - Oi – sorri de volta jogando a cabeça para o lado, fazendo a franja retornar ao seu lugar. Meu corpo respondeu a sua presença, automaticamente ficando nervoso e inquieto. - Estava aqui conversando com a sua mãe. Ela é muito legal! - Ah, que isso – Amanda riu sem graça, visivelmente encantada com a beleza e simpatia de Pedro. Eu até achei graça na cena, pois quanto mais sociável Pedro fosse com minha família melhor seria. - Essa é Amanda. Não é minha mãe, mas trabalha aqui. 220
  • 221. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga - Poxa, que pena. Já estava pensando na sorte do Bryan em ter uma mãe tão legal. - Como você é querido! E foi assim que Pedro conquistou o coração de Amanda. Fácil, fácil. - Vamos Pedro. Me aproximei e segurei em seu pulso, tomando o cuidado de não segurar sua mão na frente de Amanda. Passamos por ela e Pedro ainda teve de sorrir amigavelmente e dizer algumas palavras gentis. - Mais tarde eu levo um lanche para vocês. Não tivemos tempo de responder, pois eu já puxava Pedro escada acima, indo para meu quarto. Puxei para dentro e quando fechei a porta ele me empurrou contra ela, virando-me de frente para si e atacando meus lábios. Eu segurei seu rosto com ambas minhas mãos vestidas com um par de luvas pretas e sem dedos, forçando o beijo a ser curto. Sorri, com seus lábios bem próximos. - Não somos somente nós, lembra? - Lembro... – ele respondeu sem nenhuma negativa em sua voz. Afastou-se e virou de costas para mim, observando o garoto sentado em minha cama. – Ah não! Eu não sabia que era esse seu amigo. - Quem você achou que era? - Sei lá! Você tem vários amigos. Poderia ser aquele coelhinho saltitante... – ele gesticulou com as mãos como se imitasse um coelhinho pulando e pulando. – Tem o de cabelo colorido, aquele com um puta cabelo pra cima... Até o nerdão é melhor! - Que gentil... Me sinto tão querido – debochou Matheus, sorrindo. Agradeço a Deus por ele ser uma pessoa boa e compreensiva e não se ofender. - Qual o problema em ser o Matt? – perguntei um pouco indignado, posicionando ambas minhas mãos na cintura. - Esse é o problema! Matt... – ele repetiu com nojo em sua voz. – Ele queria te comer! - Não, espera aí! – interrompeu Matheus, metendo - se na conversa sobre ele. – Só isso? Por causa daquela brincadeirinha? Poxa, com tantos motivos... Eu esperava por mais... Tantos motivos... Deixe - me ver: já transamos, Matheus já foi apaixonado por mim, ele tirou minha virgindade, ajudou ficando como o malvado da estória para provocar Pedro, é meu melhor amigo, passamos boa parte do tempo juntos, eu tenho contado quase tudo para ele, foi quem me consolou depois que fiquei a primeira vez com Pedro, já fiquei com ele várias vezes... É, pensando bem Matheus está certo, há diversos outros motivos bem mais fortes para Pedro não gostar dele. - Que “tantos outros motivos”, Bryan? – Pedro fitou - me desconfiado. - Nada. É que Matheus gosta de implicar – tentei contornar o assunto. – Até porque ele tem namorado. Nós não temos nada. Somos somente amigos. - Quem é o namorado dele? – Pedro perguntou ainda desconfiado. 221
  • 222. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga - Aquele loiro oxigenado saltitante que vive pendurado nas pessoas – respondi. - Ahh... - É. Só não pode dizer isso para ele ou próximo dele. É realmente uma pena que ele não saiba de nosso namoro... – completou Matheus. - Hey! – respondi com uma interjeição. Matheus fez pouco caso, erguendo as mãos e sacudindo os ombros. - Eu sou sincero. - Bryan? – Pedro me chamou, esperando uma explicação. - Estamos dando um jeito nisso! Matheus é tímido – terminei fitando a Matheus, torcendo para que ele não inventasse mais nada que complicasse. - Vamos ver quem é mais tímido... – ele respondeu estreitando os olhos verdes claros para mim, sorrindo provocantemente. - Então você é afim do coelhinho saltitante? ‘Putz... - Quem te deu intimidade para chamar meu ‘ficante assim? – Matheus cruzou as pernas, jogando a cabeça para o lado, arrumando o cabelo. - Ele mesmo! – respondeu Pedro erguendo as mãos, demonstrando inocência. – Eu chamei - lhe assim e ele ficou feliz. Algo a ver com coelhos serem fofos... Em seguida saiu saltitando! - Huum... E você acha que ele gostaria se eu o apelidasse de ‘fofurethe? – Matheus perguntou um pouco mais interessado e pensativo. - Acho até que já ouvi isso em algum lugar antes... E acho que ele vai gostar porque ele tem aquele jeito de criança e ‘talz... – respondeu Pedro igualmente pensativo e... Compreensivo demais para alguém que estava discutindo alguns segundos antes! Com o mesmo garoto! - Hey! Depois eu sou o bipolar – interrompi - os, chamando a atenção. - Então, o que faremos? – Pedro mudou completamente o assunto, assustando - me. - Bom, melhor se sentar – anunciou Matheus, levantando - se da cama e tomando atitude. - Preferencialmente no chão. - Por que mesmo que você está aqui? - Para um ménage à trois – Matheus debochou, falando com seriedade. Pedro nada respondeu. – O que mais você esperava? Eu fui para perto de Matheus, escondendo o riso que insistia em se manter presente. Pedro obedeceu e sentou no chão, fechando as pernas com as solas dos tênis encostando uma na outra. - Bom, então... Anteontem fomos passear e eu levei o Bryan para um lugar bem legal para se fazer compras... 222
  • 223. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga - Sexshop? – Pedro interrompeu - nos, assustando a mim e Matheus que nos entreolhamos. - Isso mesmo... – eu respondi, desconfiado. - Há! Acertei mesmo? Minha mente poluída serviu pra algo. Matheus riu e eu o fuzilei com o olhar. - Ele vai ter dar trabalho na cama – ele soprou entre os dentes, baixo o suficiente para que Pedro não ouvisse. Eu corei. – Certo, vou pegar as coisas. Matheus moveu - se alguns passos e pegou a sacola de papel que estava ao lado da cama. Retornou com ela nas mãos e eu não consegui esconder um sorriso travesso. Matt colocou a sacola na frente de Pedro, deixando - o vasculha - la sozinho. Pedro olhou para mim, Matheus e, por último para a sacola. Puxou - a para próximo de si e olhou para dentro, percebendo seu conteúdo. Olhou de volta para nós e riu, mostrando todos seus dentes. Em seguida abaixou a cabeça em um ato automático e quando ergueu - a, ainda sorrindo mordeu seu lábio inferior, pensando no que dizer. - Acho que perdi minha “virgindade homossexual” só de olhar para essas coisas. Nós três rimos. Eu e Matt sentamos no chão, formando um triângulo. Pedro colocou a mão dentro da sacola, mas a retirou, sem nada em mãos. - Prefiro uma conversa antes – ele anunciou, sem demonstrar vergonha. - Isso é com você, Matt. - Por que com essa coisa? – Pedro perguntou, não aprovando a ideia. - Porque se o Bryan tivesse coragem de dizer tudo o que deve eu não estaria aqui – respondeu Matheus, poupando - me. - Certo então – Pedro deu de ombros, fazendo pouco caso. Ele não se irritou, pelo contrário, sorriu. – Por onde começamos? - Pela parte em que se tira as roupas – brincou Matt, recebendo uma careta em resposta. - Eu já transei com garotas antes. Qual a diferença? - O que há entre as pernas. - Cara, estamos tendo um problema de comunicação aqui – investiu Pedro, participando da brincadeira de bom grado. Gesticulou com as mãos entre ele e Matheus, excluindo - me. - Ok, então, é bem simples: ele não tem o corpo de uma garota. Não tem peitos grandes com uma cintura fina e quadril largo. Na verdade ele é bem parecido com você, porém mais fraco. É parecido com o que você gosta. Pedro calou - se por alguns segundos, pensando. Eu não preciso dizer da vergonha que senti, pois estavam falando sobre mim! E sexo! E na minha frente! - Isso explica um pouco... Mas eu odeio que peguem na minha bunda. 223
  • 224. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga Eu ri, escondendo minha boca com minhas mãos enluvadas. Matt também riu, porém mais abertamente. Subi as mãos e escondi todo meu rosto, não querendo assistir. - Por isso que eu disse “parecido”. Você não precisa ter ‘taaaaanto cuidado quanto uma garota porque você sabe como funciona o desejo que ele sente. Você sabe como perceber se ele está gostando. - Entendo... Que mais? - Você terá que... Sabe... Pela frase e pelo barulho de estalos vindos da boca de Matt eu deduzi o que era. Virei - me de costas. Talvez eu seja um pouco exagerado porque já transei com Matheus e vou fazê - lo com Pedro, mesmo assim ouvir ambos conversando sobre isso tão abertamente. - Bryaaaaan – cantarolou Matheus, puxando-me pela cintura. – Vire - se para cá. Você tem que participar. Estamos na parte dos brinquedinhos. Aceitei ser virado de frente para os garotos, mas não encarei nenhum deles. Tirei as mãos do rosto e juntei os joelhos, flexionando as pernas. - Sirva - se, Pedro – Matheus debochou e eu me limitei a sorrir. À medida que Pedro começou a retirar as coisas de dentro da sacola vermelha de papel eu e Matheus ríamos, ambas mentes diabólicas. Relaxei mais ao perceber o olhar bonito de Matheus, incentivando a rir. Primeiro fora um pênis de borracha cor – de rosa, um vibrador, uma loção comestível e umas pastilhas refrescantes. - Interessante... – comentou Pedro, observando os itens enfileirados no meio de nós. – E você foi comprar essas coisas com o meu namorado? – questionou referindo - se a Matheus. - Sabe como é... O Bryan estava entristecido porque o namorado dele não é fã de acompanha - lo a um sexshop... A vendedora até achou que fossemos namorados. - E você respondeu o quê? - “Meu namoradinho está tímido porque é a primeira vez que ele entra em um lugar desses. Ele recém aceitou que fizéssemos algumas brincadeirinhas mais quentes...”. Pedro não gostou em nada daquela resposta, mas aparentemente tentou levar. Observou novamente os itens na frente dele e pensou por alguns segundos. - Bom... Então “professores”, por onde eu começo? Ou como? - Bryan? – Matheus me chamou, indicando que era para eu mostrar - lhe nossos planos. Eu corei fortemente. - Diga você. Era quem estava conversando. - Que bonitinho meu namoradinho de sexshop tímido – brincou Matheus segurando em meu rosto e se aproximando somente para irritar Pedro, o que funcionou. - Se continuar tocando no meu namorado eu vou arrancar todos os seus dedos. - Olha isso. Seu namorado é ciumento, Bryan! 224
  • 225. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga Eu não esperava que Pedro fosse assim... - Então, quem vai me orientar? - Já que o Bryan é tão tímido... Matheus inclinou o tronco e pegou o pênis de borracha que estava em nosso meio. Em seguida jogou - lhe a cair no colo de Pedro, retornando a sua posição inicial. - Isso é pra você aprender... Hum... O que é para aprender mesmo, Bryan? – não sei dizer se Matheus realmente esquecera ou somente estava querendo fazer - me falar. Acho que acredito mais na segunda opção. - Oral – respondi sem fitar a meu namorado por conta da situação em geral. - Certo... – resmungou pegando o membro na mão e o encarando, sorrindo debochado. – E qual de vocês irá fazer a demonstração para que eu aprenda? Eu e Matheus nos entreolhamos, espantados. Não fazia parte dos planos uma resposta assim vinda de Pedro. - Eu nunca fiz isso antes. Não sei como – tirei meu corpo fora, abandonando Matheus naquela missão. - Então você também precisa das aulas, Bryan – Pedro respondeu sorrindo malicioso e eu segurei o ímpeto de pular em seu pescoço. - Bom, o namorado não é meu – disse Matheus jogando a bomba em mim e Pedro. - Que tipo de professores são esses? Se não me ensinarem eu não tenho como fazer – pronunciou Pedro, maneando a cabeça em sinal negativo. Matheus se movimentou, captando nossa atenção. Chegou em Pedro e sussurrou algo em seu ouvido, baixo o suficiente para que eu não conseguisse ouvir. - Não sei... – Pedro olhou de relance para mim antes de continuar –Tem certeza disso? - Se não tivesse não teria sugerido. Olhei ao meu redor, assustado. Pela minha cabeça passaram - se rapidamente alguns flesh’s do que fazer. Como fugir, o que usar para me proteger, como sobreviv... É OBVIO QUE ESTÃO FALANDO DE MIM! - Ok. Ressaltei - me quando percebi que Pedro estava vindo em minha direção. Escorreguei meu corpo um pouco para trás, mas ele fora mais rápido e me pegou de surpresa, segurando meus braços. Me debati, sem ter a mínima ideia do que queriam. Infelizmente Pedro é bem mais forte que eu e conseguiu me conter facilmente. - Me solta, Pedro! Não quero brincadeirinhas! Sem me soltar ele contornou meu corpo, deixando - me de costas para ele, entre suas pernas. Me exasperei ao perceber que Matheus se aproximava com o pênis de borracha que compramos alguns dias antes em mãos. - Abra a boquinha, Bryan... 225
  • 226. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga Fiz o que quase qualquer outra pessoa faria nessa mesma situação: fechei a boca com força, recusando-me a abri - la. Ele se aproximou mais e o colocou próximo de meus lábios. Nervoso eu tentei me soltar, sem sucesso. Não havia como medir a minha força com a de Pedro, ele é dez vezes mais forte. - Não seja assim, Bryan. Seu namorado quer ver seu desempenho... Recusei - me a abrir minha boca. Matheus alargou seu sorriso e apertou meu nariz. Fora uma questão de tempo até eu me sentir forçado a abrir a boca por conta do ar que meus pulmões exigiam. Ele aproveitou - se e enfiou completamente aquela... Coisa de borracha dentro de minha boca. Tentei falar, porém somente resmunguei sons desconexos. Matt guiou aquele troço grande para dentro e para fora e eu fervi, embaraçado e me sentindo humilhado. Era grande e tinha um forte gosto de borracha. Talvez não tenha demorado nem ao menos um minuto inteiro e ele parou com aquilo, retirando e com um filete de baba escorrendo. Comecei a tossir violentamente. Minha garganta ardia e eu tossi mais algumas vezes, tentando livrar - me de todo o incômodo que ficara. Pedro me soltou e imediatamente eu parti para cima de Matheus. - LOUCO! O empurrei de costas no chão, ficando por cima e prendendo ambos seus pulsos no carpete de meu quarto. Matt começou a rir e isso só me irritou mais. - Que ótimo amigo!!! Ele me fixou inocentemente e antes que eu pudesse tomar alguma atitude violenta senti minha cintura e minha barriga sendo rodeada, logo eu fui puxado para trás, sendo obrigado a sair de cima de Matheus. - Calma Bryan... Uma vez pra cada um... – nem prestei atenção no que Pedro dissera. Pedro me largou longe de Matheus enquanto que o maldito dos olhos verdes sentava - se com aquele sorriso de aparelho presunçoso nos lábios. Eu teria partido para cima dele novamente se Pedro não tivesse tomado a dianteira e ido para trás de Matheus, segurando - o da mesma forma que fizera comigo. - O que é isso? – Matheus perguntou sem que o sorriso deixasse seus lábios. - Tenho que pagar meu namorado. - Bom, eu não irei fugir. Pode me largar. Pedro largou os braços de Matheus e eu sorri, radicalmente mais calmo. Tranquilamente eu observei os objetos próximos de nós e com um sorriso maroto eu arquitetei ligeiramente um plano mental do que fazer com aquele vibrador. - Pedro, você terá de segurá - lo novamente... Pedro assim fez e o segurou. Matt arregalou seus olhos verdes característicos e pareceu não gostar muito de meu sorriso em conjunto com o objeto que eu mantinha em mãos. Me aproximei lentamente e sentei de frente para Matheus. Observei aquele objeto e 226
  • 227. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga obvio que minhas bochechas queimaram. Era transparente e quando eu achei o botão de ligar ele começou a se mover rotativamente com uma luz azul que me fez rir. Eu não nasci para essas coisas! - Bryan... Tome cuidado com isso. Você não sabe brincAntes que ele terminasse a frase eu comecei a passar nele, do queixo para o pescoço. Matheus ria e se contorcia, sentindo cócegas. Em meio aos risos pediu várias vezes para que eu parasse, mas continuei, me divertindo. À medida que fui passando por seu peitoral ele arqueava o corpo involuntariamente, sentindo mais e mais cócegas. Por fim, terminei puxando a bermuda dele e soltando dentro. - BRYAN! Ele se remexeu tanto que Pedro o soltara. Matt se jogou de barriga pra baixo no chão, se mexendo como uma minhoca. Meteu a mão e retirou o vibrador de dentro de sua bermuda. Sorri malicioso e apoiei meu tronco encima de suas costas, sussurrando em seu ouvido. - Ficou duro, é? - NÃO! Claro que não! Idiota – me xingou, mas estava rindo. Quando me levantei de suas costas encontrei o olhar de Pedro e corei. Corei dos pés a cabeça. Fervi tanto que cogitei a possibilidade da temperatura de meu corpo ter se elevado o suficiente para que eu tivesse febre. Porra Bryan! Você está namorando um ex - hetero! E eu não sei o que raios deu em minha cabeça para que eu concordasse com tudo isso e ainda fizesse! Porque eu sempre fui um gay moderadamente escandaloso e... E Amanda está do outro lado da porta, nos cuidando. Me levantei, exaltado. Fiz sinal com a mão para que Matheus escondesse as coisas embaixo de minha cama, tapando com as cobertas. Me locomovi a passos cautelosos até a porta, abrindo de surpresa. Com o susto Amanda teve de se apoiar com a mão no piso de meu quarto, pois estava agachada, com o ouvido grudado na porta. - Oi Amanda – cumprimentei - a, aguardando uma resposta. - Bryan... Fiquei parado e ela também, um encarando o outro. Eu esperei até que ela bolasse mentalmente uma desculpa plausível para que ela estivesse ali, com a orelha grudada no lado de fora da porta de meu quarto. - Ah, sei pai te ligou! - Meu pai? – isso era bem possível... Mas claro que ela teve de aproveitar! – Quando? - Cerca de uma hora atrás. - O quê? Tateei os meus bolsos, do casaco e da calça. Nada. 227
  • 228. EMOções – por: Tassiele Viebrantz Cassuriaga - Você deixou encima do sofá. - O quê? Merda! Por que não me avisou antes? – perguntei sem realmente esperar por uma resposta, pois já partira escada abaixo. Pelo resto do dia não pudemos mais “brincar”, pois Amanda fez questão de ficar na nossa volta, mesmo que eu a expulsasse. Quando conseguia me ver livre dela e fechar a porta estava claro que ela ficava de butuca, cuidando cada mínimo ruído nosso. Claro que tudo isso graças ao meu pai, pois ela teve de atender o meu celular e conta - lo que eu estava sozinho no quarto com dois amigos. Era mais fácil quando meu pai estava brabo comigo. 228