Gestão dos processos de trabalho

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Gestão dos processos de trabalho

  1. 1. Rev Saúde Pública Ensaio | EssayÉlida Azevedo HenningtonInstituto de Pesquisa Clínica Evandro Chagas.Fundação Oswaldo Cruz. Rio de Janeiro, RJ,BrasilCorrespondência | Correspondence:Élida Azevedo HenningtonInstituto de Pesquisa Clínica Evandro ChagasFundação Oswaldo CruzAv. Brasil, 4365 Manguinhos21040-900 Rio de Janeiro, RJ, BrasilE-mail: elida.hennington@ipec.fiocruz.brRecebido: 13/6/2007Aprovado: 31/10/2007Gestão dos processos de trabalhoe humanização em saúde:reflexões a partir da ergologiaManagement of work processes andhumanization in health care: anergological perspectiveRESUMOAPolítica Nacional de Humanização preconiza a transversalidade na construçãode redes cooperativas, solidárias e comprometidas com a produção de saúde,estimulando o protagonismo e a co-responsabilidade de sujeitos e coletivos.Dentro desse contexto, o artigo apresenta reflexão sobre a gestão dos processosde trabalho em saúde, tendo como foco os trabalhadores e as contribuiçõesda ergologia para repensar a produção de conhecimento sobre o trabalho.Utilizou-se como referencial a abordagem ergológica de Schwartz e seudispositivo dinâmico de três pólos, formado pelas disciplinas constituídas pelosprotagonistas – os trabalhadores, e pelas exigências epistemológicas e éticas.Um dos pontos críticos da humanização no âmbito do Sistema Único de Saúdefoi o pouco estímulo à inclusão e valorização dos trabalhadores da saúde.DESCRITORES: Humanização da Assistência. Recursos Humanos emSaúde, organização & administração. Gestão em Saúde. Sistema Únicode Saúde. Trabalho.ABSTRACTThe National Humanization Policy recommends that cooperative,interdependent networks that are committed to producing health be establishedhorizontally, encouraging the protagonism of subjects and collectives andtheir co-responsibility. The present study addresses management of healthcare processes focusing on health care workers and the contributions ofergology to rethink work-related knowledge production. The study wasbased on Schwartz’s ergological approach and its “three-poled dynamicapparatus” comprising established disciplines, their protagonists – workers– and epistemological and ethical requirements. It was crucial to the BrazilianNational Health System humanization to promote inclusion and appreciationof health workers.DESCRIPTORS: Humanization of Assistance. Health Manpower,organization & administration. Health Management. Single HealthSystem. Work.
  2. 2. Gestão do trabalho, humanização e ergologia Hennington EAAglobalização ocasionou efeitos diretos e indiretos naforça de trabalho em saúde de muitos países, tornandoa gestão de recursos humanos (RH) um desafio mun-dial na atualidade. Muitos desses efeitos são reflexosdo enxugamento do Estado e conseqüente corte emprogramas sociais e de saúde, entre eles citam-se: re-dução ou manutenção do contingente de trabalhadoresem contexto de ampliação de demandas; deterioraçãodas condições de trabalho e precarização do mercado;redefinição do papel do Estado, atuando mais comoregulador; e aumento da participação do setor privadona oferta de serviços. Deste modo, a força de trabalho éconsiderada nos dias atuais um componente fundamen-tal na gestão em saúde, exigindo mudanças no processode desenvolvimento de RH. Tais mudanças incluema modernização de sua abordagem e a superação dosmodelos tradicionais da administração, posicionamentoproativo de gestores e administradores, e comprometi-mento dos profissionais e diferentes setores em todas asfases de implementação das políticas de saúde.4,9,a,bO estudo da força de trabalho em saúde ganhou desta-que uma vez que a relação direta entre gestão de RH eefetividade dos sistemas de saúde tornou-se cada vezmais evidente. Todavia, apesar do papel fundamentaldesta força de trabalho, ainda muito pouco é conhecidosobre sua composição, treinamento e desempenho.4No Brasil, apesar de significativos avanços desde a efe-tivação do Sistema Único de Saúde (SUS) na década de1980, ainda persistem problemas em sua consolidaçãoem termos de eqüidade de acesso, qualidade de açõese serviços, utilização adequada de recursos e sustenta-bilidade. Considera-se que a melhoria do modelo deatenção requer mudanças do modelo de gestão, de modoque os sujeitos envolvidos – gestores, trabalhadores dasaúde e usuários – assumam papéis de relevância, poten-cializando o estabelecimento de práticas humanizadasbem como a eficiência e efetividade do sistema de saú-de. Dentre os entraves mais importantes nesse processo,estão os modelos de gestão centralizados e verticais,desapropriando o trabalhador de seu próprio processode trabalho, impedindo ou dificultando o protagonismoe a autonomia dos sujeitos envolvidos diretamente naexecução das políticas e na produção de saúde.APolítica Nacional de Humanizaçãoc,d(PNH), propostapelo Ministério da Saúde em 2003, pretende ter caráterINTRODUÇÃOaNogueira RP, Paranaguá de Santana J. Gestão de recursos humanos e reforma do setor público: tendências e pressupostos de uma novaabordagem. Annecy/ França;2000 [acesso em 10/05/07]. Disponível em: http://www.opas.org.br/rh/admin/documentos/ACF22.pdfbOrganización Panamericana de la Salud, Organización Mundial de la Salud. Atención primaria de salud e desarrollo de recursos humanos.Madrid; 2003 [acesso em 14/05/07]. Disponível em: http://www.observatoriorh.org/esp/pdfs/human_resources_sp.pdfcMinistério da Saúde. Agência de Notícias Humanização. Brasília; 2007 [acesso em 20/05/07].Disponível em: http://portal.saude.gov.br/saude/area.cfm?id_area=390dMinistério da Saúde. HumanizaSUS. Política Nacional de Humanização. A humanização como eixonorteador das práticas de atenção e gestão em todas as instâncias do SUS. Brasília; 2004. Disponível em:http://dtr2001.saude.gov.br/editora/produtos/impressos/folheto/04_0923_FL.pdf (Série B. Textos Básicos de Saúde)eAntunes R. Trabalho e estranhamento. Apêndice In: Antunes, R. Adeus ao trabalho? Ensaio sobre as metamorfoses e a centralidade do mundodo trabalho. São Paulo: Cortez; Campinas, SP, 1995, p.121-134.fMinistério da Saúde. Secretaria de Assistência à Saúde. Programa Nacional de Humanização da Assistência Hospitalar. Brasília; 2001.Disponível em: http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/pnhah01.pdf [Série C: Programas, Projetos e Relatórios, 20].transversal, perpassando todos os níveis de atenção àsaúde. A humanização é entendida como uma trans-formação cultural da atenção aos usuários e da gestãode processos de trabalho. O diferencial dessa políticareside também na preocupação com a capacitação eo desenvolvimento dos trabalhadores do setor saúde,proporcionando condições adequadas para a execuçãodas atividades laborativas e para que os que cuidampossam ter suas necessidades satisfeitas.Entende-se que por suas características peculiares, otrabalho em saúde pode ser tanto emancipador, trans-formador e produtor de sentido, como estranhadoeeprodutor de sofrimento e desgaste. Conforme afirmamRigoli & Dussault13(2003), os trabalhadores da saúdenão podem mais ser considerados simplesmente “ins-trumentos” ou “recursos” na oferta de cuidados neces-sários, mas atores estratégicos que podem agir indivi-dual ou coletivamente influenciando na construção daspolíticas. Muitas são as questões ainda não resolvidasque cercam o ato de refletir e operar sobre o trabalhoem saúde. Repensar a gestão e os processos de trabalhoe a tarefa de produzir saúde traz como conseqüência omaior entendimento desse elo vital na construção deuma rede de atenção humanizada e solidária.O presente ensaio apresenta uma reflexão sobre o tra-balho em saúde, buscando confrontar o pensamentodo filósofo francês Schwartz15e a temática da gestãodos processos de trabalho no contexto da política dehumanização. Os aportes teórico-filosóficos do autorsão articulados com os pressupostos da PNH, tendocomo foco os sujeitos-trabalhadores da saúde e seupapel na implementação de práticas humanizadas noâmbito do SUS.HUMANIZAÇÃO EM SAÚDE: UMA POLÍTICA,ALGUNS CONCEITOSEstá em curso no Brasil a instituição da PNH, cujo prin-cipal antecedente é a Política Nacional de HumanizaçãodaAssistência Hospitalarfproposta pelo governo fede-ral em 2001. Conforme já mencionado, a PNH possuiescopo ampliado e pretende reorientar as práticas emsaúde em todo o País numa perspectiva de transver-salidade. A partir da democratização das relações de
  3. 3. Rev Saúde Públicatrabalho e da valorização dos trabalhadores da saúde,a PNH preconiza a construção de redes cooperativas,solidárias e comprometidas com a produção de saúde,estimulando o protagonismo e autonomia de sujeitose coletivos e sua co-responsabilidade nos processosde gestão e atenção. A co-gestão e o modo coletivo deprodução de saúde e de sujeitos são os norteadores daconstrução da PNH como política pública.5,b,cO projeto de humanização surge num cenário de desa-fios ainda presentes na construção do SUS que exigemudanças no modelo de gestão e de atenção à saúde.Dentre eles, destacam-se: vínculo frágil trabalhadores-usuários e controle social incipiente, precarização dasrelações de trabalho e pouca participação dos traba-lhadores na gestão dos serviços, baixo investimentoem educação permanente, desestímulo ao trabalho emequipe e despreparo dos profissionais para lidar comquestões subjetivas que toda prática de saúde envolve.Amelhoria da qualidade da assistência e conseqüente sa-tisfação do usuário são resultantes do modo de gestão dotrabalho desenvolvido nos serviços, cujo protagonistanesse processo é o trabalhador da saúde. Partindo-se dapremissa de que a produção de saúde é feita por pessoasdotadas de desejos, sentimentos, saberes e necessidades,considera-se que humanizar é ofertar atendimento dequalidade, articulando os avanços tecnológicos comacolhimento, com melhoria dos ambientes de cuidadoe das condições de trabalho dos profissionais.5,b,cDeslandes8(2004) afirma que para humanizar a assis-tência é preciso humanizar sua produção. De modogeral, o investimento na qualificação dos trabalhadorespor parte das instituições é baixo, em particular noque se refere à gestão participativa e ao trabalho emequipe. Isso reduz as condições de um processo críticoe comprometido com as práticas de saúde. Há poucoestímulo à inclusão e à valorização desses profissionais,assim como o desrespeito aos seus direitos, saber enecessidades individuais e de trabalho. Outro aspectofundamental refere-se às condições estruturais de traba-lho refletidas na figura de um trabalhador quase sempremal remunerado, algumas vezes pouco incentivado esujeito a carga considerável de trabalho, dificultando ainstauração de políticas humanizadoras.8,10Durante muito tempo a humanização no âmbito dasaúde foi concebida de forma restrita e orientadaprincipalmente para a relação trabalhador-usuário e ocumprimento de preceitos éticos. Com o advento dapolítica de humanização houve uma inflexão do dis-curso e das práticas, bem como o surgimento de novosatores e propostas no campo.As diversas tendências doprocesso de humanização e satisfação do usuário, seusdiferentes aspectos discursivos e seu caráter político sãoenfatizados por Puccini & Cecílio12(2004):Para todos os que têm difundido proposições huma-nizadoras, há uma intenção de debater e influenciaros rumos desse movimento, disputando a direção dastransformações na área da saúde. Assim esse mo-vimento humanizador tende a ganhar musculatura,exercitado pela crise real do estranhamento do homemdiante de seu mundo que, em suas linhas gerais e poucoprecisas, ele denuncia. Seus diferentes proponentesestão construindo esse movimento, são parte dele enele disputam suas concepções de mundo. (Puccini &Cecílio,122004:1350)Benevides & Passos6(2005) referem que a humani-zação enquanto conceito impreciso e frágil no campoda saúde transita ainda hoje num espaço de sentidos,relacionados muitas vezes ao voluntarismo, assistencia-lismo, paternalismo ou mesmo a tecnicismo, baseado naracionalidade administrativa e na qualidade total. No en-tanto, fugindo da idealização do humano, esses autorespropõem uma conceitualização que seja expressão doconcreto, da diversidade humana e das transformaçõesresultantes de movimentos coletivos. A humanizaçãoexigiria um reposicionamento dos sujeitos e mudançasnos modos de fazer, de trabalhar, de praticar e produzirsaúde, mantendo-se a constante preocupação de evitar adissociação entre o cuidado e a gestão do cuidado.Assim, redefinindo o conceito tomamos a humaniza-ção como estratégia de interferência nestas práticaslevando em conta que sujeitos sociais, atores concretose engajados em práticas locais, quando mobilizados,são capazes de, coletivamente, transformar realidades,transformando-se a si próprios neste mesmo processo.Trata-se, então, de investir, a partir desta concepção dehumano, na produção de outras formas de interaçãoentre os sujeitos que constituem os sistemas de saúde,deles usufruem e neles se transformam, acolhendo taisatores e fomentando seu protagonismo. (Benevides &Passos,62005:391).Na concepção de Ayres, a humanização da atenção àsaúde relaciona-se a “projeto de felicidade”, definidocomo um compromisso das tecnociências da saúdecom valores democraticamente validados como bemcomum.1,2Anoção de saúde como “projeto de felicida-de” resulta numa construção de “caráter contrafático”.Ou seja, a felicidade seria tudo aquilo que se colocacomo valor para a vida humana a partir do momento ena exata medida que suas idéias e práticas são obstacu-lizadas.Afelicidade é vista não como um bem concreto,aMinistério da Saúde. Secretaria de Assistência à Saúde. Programa Nacional de Humanização da Assistência Hospitalar. Brasília; 2001.Disponível em: http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/pnhah01.pdf [Série C: Programas, Projetos e Relatórios, 20].bMinistério da Saúde. Agência de Notícias Humanização. Brasília; 2007 [acesso em 20/05/07].Disponível em: http://portal.saude.gov.br/saude/area.cfm?id_area=390cMinistério da Saúde. HumanizaSUS. Política Nacional de Humanização. A humanização como eixo norteador das práticas de atenção egestão em todas as instâncias do SUS. Brasília; 2004. Disponível em: http://dtr2001.saude.gov.br/editora/produtos/impressos/folheto/04_0923_FL.pdf (Série B. Textos Básicos de Saúde)
  4. 4. Gestão do trabalho, humanização e ergologia Hennington EAuma entidade ou utopia, mas percebida pela sua falta.Assim, projetos de felicidade serão acessíveis apenase sempre a partir de obstáculos concretos à realizaçãodos valores associados à experiência dos indivíduos ecomunidades; são algo além dos problemas tecnocien-tíficos expressos pela noção de risco ou por alteraçõesorgânicas, anátomofuncionais ou morfológicas. Dessaforma, a humanização em saúde como busca de felici-dade tem que transitar numa perspectiva de conquista,num horizonte de movimento, de um devir pessoal mastambém social e politicamente compartilhado.2,3Com essa definição, Ayres1pretende evitar fundamen-talismos, como querer determinar o que é felicidade demodo objetivo e universalista, fugindo de um idealis-mo abstrato em demasia, descolado das experiênciasvividas. Ayres argumenta ainda que a problemáticada humanização não se limita ao plano das relaçõesmédico-paciente ou trabalhador-usuário, e nem serestringe a rearranjos técnicos ou organizacionais dasinstituições de saúde, embora dependa deles; “Trata-sede um projeto existencial de caráter político, trata-se deuma proposta para a ‘polis’”(Ayres,22005:552).De outro modo,Teixeira24resgata os sentidos da humani-zação na atenção primária à saúde numa perspectiva dotripé conceitual – encontros-afetos-conversas. Nessa dis-cussão, para significar o humano não por sua essência esim por sua potência, contrariando concepções clássicasdo direito natural, reafirma a proposta de humanizaçãocomprometida “com a procura de melhores meios parao homem aumentar sua potência” (Teixeira242005:592).Isso dependeria da qualidade de possíveis encontroslevados a efeito, encontros efetivamente realizados noserviço de saúde e aqueles viabilizados. Propõe nestesentido as estratégias de “acolhimento-dialogado” e as“redes de trabalho afetivo” para a efetuação de potênciasindividuais e comunitárias.24O entendimento do conceito de humanização para alémda “essência humana” e colocando-o numa perspectivade relações sociais é apresentado por Puccini & Cecílio12(2004). Para esses autores, o movimento humanizadordeveria seguir o caminho da transformação, da “huma-nização radical”: capaz de colocar em xeque questõesculturais, sociais, políticas e econômicas que impedem aconquista de padrões universais e solidários de qualidadede vida e os direitos de cidadania. Nesse curso, caberiaresgatar a subjetividade, a criatividade, a participação ea integralidade do sujeito trabalhador(a) na sua interaçãocom os outros atores – gestores e usuários – como potên-cias na implementação de práticas humanizadoras.GESTÃO DOS PROCESSOS DE TRABALHOEM SAÚDE E A HUMANIZAÇÃO NUMAPERSPECTIVA ERGOLÓGICAO filósofo francês Schwartz15propõe a abordagem er-gológica e seu dispositivo dinâmico de três pólos pararepensar a produção de conhecimento sobre o trabalho.Esta abordagem procura relacionar dialeticamente osprodutos das diferentes disciplinas (pólo conceitual), ossaberes e valores oriundos da experiência dos trabalha-dores (pólo das forças de convocação e de reconvocação)e, por fim, o pólo das exigências éticas e epistemológi-cas, que faz a articulação dos dois outros, apoiada numavisão humanística e de construção solidária.7,15Ou seja, a abordagem ergológica situa o processo deconhecimento sobre o trabalho sustentado em três pólosdistintos: o pólo epistêmico, gerado pelo conhecimentodas diversas disciplinas científicas; o pólo produzidopelos saberes e experiência do trabalhador e o pólodas exigências éticas e epistemológicas a respeitoda construção dessa parceria. Assim, é proposta daergologia discutir o trabalho e produzir conhecimentosobre ele considerando o conhecimento e experiênciados trabalhadores, o geral e o específico da atividade,suas normas e variabilidades e a exigência da conversaentre as várias disciplinas e o constante questionamentoa respeito de seus saberes. Schwartz15,16considera que aanálise do trabalho é inseparável do campo epistemo-lógico, dos valores e da ética e que o encontro entre ossaberes científico e prático, imprevisível, resulta sempreem algo inovador. Em conseqüência, o trabalho podeser considerado em parte repetido e ao mesmo temposempre novo, um destino a viver.Para Schwartz,18o trabalho implica história e suaexpressão como experiência refletida em encontro,sempre em parte inacabado e permeado por anta-gonismos. O trabalho se conforma como terreno deconflitos e interesses diversos: técnico-científico – queconfere efetividade aos objetivos econômicos e sociaisdo trabalho a partir da construção e combinação desaberes; filosófico – no sentido de entendimento decomo homens e mulheres fazem sua história, de seresque se criam e se recriam pelo trabalho; e político– por constituir-se de saberes não neutros, geradosdentro da história do trabalho e detentores de poderde transformação, visando estratégias e políticas dedesenvolvimento de riquezas numa fabricação per-manente de um “viver em comum” e na promoçãoou abandono da noção de “bem comum”. Assim, astransformações na gestão dos processos de trabalhoem saúde e a construção de práticas humanizadorasacarretam necessariamente transitar nesse solo ondese misturam o individual e o coletivo, o social, oeconômico e o político, o confronto de interesses nemsempre convergentes e a necessidade permanente dearticulação e de negociação.Ao abordar o trabalho, a ergologia incorporou, desen-volveu e aprofundou o conceito de “atividade” oriun-do da ergonomia que em seus estudos a respeito dadefasagem entre “trabalho prescrito” e “trabalho real”demonstrou que existe uma singularidade no trabalhoefetivamente realizado. Assim, a “atividade” traduz otrabalho realizado, o que inclui normas antecedentes,
  5. 5. Rev Saúde Públicaobjetivos e também ressingularizações, e se traduz numjogo de reciprocidades entre o dizer e o fazer, que sãodimensões essenciais da atividade humana “trabalho”.Aatividade deve ser pensada como uma dialética entreo dizer e fazer, o geral e o singular, o micro e o macro,o local e o global, o objetivo e o simbólico; é lugar dedebates e incertezas, de confronto entre normas ante-cedentes e renormalizações singularizadas pelos sereshumanos. Desse modo, a atividade seria marcada portrês características essenciais – transgressão, mediaçãoe contradição –, e resultante do embate entre as normasprecedentes e a ação, do modo como cada sujeito reela-bora o seu fazer a partir dos “usos de si” no trabalho esuas redefinições no aqui e agora. O conceito de “uso desi” refere-se à atividade desenvolvida pelo trabalhador eseu investimento nessa realização, que envolve eleiçãoe arbítrio entre valores diferentes e até contraditórios.Aanálise da atividade transcende limites sociais, tempo-rais, institucionais, tornando possível e desejável pensarsuas circulações e reinvestimentos.19,20,22Em relação ao pólo epistêmico, considera-se que osconceitos são necessários porém insuficientes paracompreender o trabalho. Uma análise da situaçãode trabalho não se sustenta partindo-se unicamenteda neutralização de conceitos e nem daquilo que foisimplesmente prescrito. Isto se dá em decorrência doabismo epistemológico existente entre “trabalho real” e“trabalho prescrito”. Ou seja, o trabalho não é possívelsem pré-conceitualização, porém é preciso mais do quenormas e saberes antecedentes para enfrentar situaçõesde trabalho. Assim, propor mudanças na forma de sere de fazer o trabalho resulta na confrontação com onovo e com todo tipo de problemas que precisam sergeridos a partir daí. Evidencia-se desse modo a fluidezdo trabalho e a potencialidade do sujeito trabalhador:na possibilidade de novas organizações, da implemen-tação de modos originais de operar aquela realidadee da criação de novas entidades coletivas. A vida notrabalho permite a troca de saberes, as experimenta-ções, a confrontação com a descoberta, o inusitado.Pensar o trabalho é pensar o trabalhador-potência:o que transgride e também o que consegue superardificuldades imprevistas.7,17O trabalhador da saúde, ao mesmo tempo em que, noseu cotidiano, produz e se reproduz como força detrabalho e produz saúde a partir da atenção à saúde deoutras pessoas, habita um espaço relacional e pluridi-mensional.Assim, o trabalho pode ser tanto produtor desaúde como de mal-estar e adoecimento, para si – tra-balhadores – e para os outros. Como objeto de estudo,o trabalho em saúde também coloca em foco a práxisna qual são produzidos, além de objetos e artefatos,produtos ou serviços no atendimento às necessidadeshumanas, valores que se incorporam à ação propria-mente dita.23A imaterialidade do trabalho em saúdeacentua contradições na produção de valores de uso ede troca no capitalismo. Nessa inter-relação, alteridadee dialogia inscritos no encontro do sofrimento e naprodução de saúde, este trabalho se mostra particularao lidar com o humano, capaz de originar sentimentosde prazer e satisfação e de engendrar padecimento edesgaste. O trabalho em saúde é resultado de situaçõesque se traduzem em experiência e como qualquer outroevidencia as normas antecedentes e as renormalizaçõesnum movimento constante, individual e coletivo.20Nenhum trabalho é mera execução, repetição demovimentos, gestos, seqüências de atividades ouoperações previstas antecipadamente. Toda produçãono trabalho é ressingularizada; é uma renormalizaçãoparcial em torno de si. Desse modo, a gestão do trabalhoem saúde deve perceber o espaço do trabalho comoaquele de transgressão, do debate entre a norma e suarenormalização. Não é possível controle e antecipaçãoda totalidade de circunstâncias e peculiaridades deum trabalho como a atenção em saúde, bem como denenhum outro. As “brechas das normas”16colocamem evidência que sempre haverá a possibilidade datransgressão, a possibilidade de se tomar uma decisão,própria, pessoal e livre. O trabalho é um universo demicrotransgressões; é o ambiente propício para ques-tionar o prescrito, o poder.Felizmente, essas “brechas”16existem sempre, permi-tindo escolhas dos trabalhadores – seres pensantes edeliberantes.Asaúde cessa de se manifestar quando, emqualquer medida, o meio intenta impor integralmentesuas próprias normas. Apesar das várias tentativas deestabelecer protocolos e regras tão comuns à práticana área da saúde, a total padronização é meta inatingí-vel e a cotidianidade exige que as pessoas arbitrem efaçam escolhas. Os trabalhadores pensam, se pensame constroem novas realidades para agir e administrarsituações. Instigante, difícil e indispensável é reco-nhecer, apreender e conviver com essa dinâmica naorganização das práticas e serviços de saúde. Para umaaproximação da realidade do trabalho é preciso cons-truir dispositivos que permitam chegar o mais próximopossível da atividade, de avaliá-la e de reconhecê-lacomo ela é, o que implica reconhecer esses espaços demicrotransgressões e rupturas.Sob a perspectiva ergológica, a pesquisa e intervençãono campo da gestão em saúde apontam a necessidade dereflexão a respeito de valores tomados em consideraçãono campo das microdecisões durante o curso da ativi-dade, além da dinâmica dos processos de trabalho e anoção de experiência e subjetividade dos trabalhadores.Recorrendo-se a Schwartz,14deve-se reconhecer quea negociação dos “usos de si” é sempre lugar de uma“dramática”. Assim sendo, ao refletir sobre a gestãoe avaliação de competências no trabalho, Schwartz14reafirma toda abordagem nesse sentido como legítimae útil – um exercício necessário, no entanto, ao mesmotempo, uma questão insolúvel – desafiando o tempotodo novas inventividades. Nessa mistura, compete
  6. 6. Gestão do trabalho, humanização e ergologia Hennington EAtentar articular variados “ingredientes”: o geral e asingularidade humana, a formação, normas, atividadese valores, as ingerências do meio, os diferentes usosde si e a possibilidade de armazenamento na formade patrimônio, a relação dialética permanente entreesses diversos elementos perpassada por conflitos eantagonismos, sem contar as qualidades sinérgicasemergentes e potencializadas pelas políticas de governodo trabalho.14Hardt11afirma que a prestação de serviços, a comunica-ção e o processamento de informações tornaram-se es-senciais à produção econômica na contemporaneidade.As posturas ativas no trabalho, a troca de informações,o trabalho em equipe, a supremacia das atividadessimbólicas e a valorização do trabalhador flexível epolivalente tornam-se elementos fundamentais nosnovos processos produtivos, fenômeno observado in-clusive na saúde. Nesse sentido, como trabalho afetivoou imaterial, o trabalho em saúde ao movimentar afetosproduz/reproduz subjetividades coletivas, sociabilidadee a própria sociedade.A passagem para uma economia informacional envolvenecessariamente uma transformação tanto na qualida-de quanto na natureza dos processos de trabalho. Esta éa implicação sociológica e antropológica mais imediatada mudança de paradigmas econômicos. Informação,comunicação, conhecimento e afeto passam a desem-penhar um papel estrutural nos processos produtivos.(Hardt,111993:148)Ao refletir sobre a evolução do papel do trabalho afe-tivo no capitalismo, Hardt11reitera que a produção foienriquecida pela complexidade da interação humana, naunião entre ação instrumental e comunicativa, produ-zindo e reproduzindo afetos em redes de comunicaçãoe cultura – subjetividades e sociabilidade tornam-sediretamente exploráveis pelo capital, aflorando o bio-poder. Desse modo, destaca-se o enorme potencial dotrabalho afetivo, na medida em que “o que se cria nasredes de trabalho afetivo é uma forma-de-vida” (Har-dt11, 1993:154). O trabalho afetivo, incluindo o trabalhoem saúde, transformou-se em alicerce necessário para aacumulação capitalista e a ordem patriarcal, possuindo,de outro modo, a produção de afetos e de subjetividadeso potencial ontológico e biopolítico para o fomento decircuitos autônomos de valorização e, possivelmente,de liberação. Numa perspectiva ergológica, muitomais do que simples conformação de um perfil deadoecimento e morte resultante da exploração da forçade trabalho, o trabalho em sua complexidade pode edeve ser analisado e reconhecido numa perspectivalibertadora, no seu papel na vida das pessoas e na con-figuração da defesa da vida.As lógicas de subordinaçãoexistem, porém jamais serão suficientes para aniquilaras subversões renormalizantes.7,18CONSIDERAÇÕES FINAISSchwartz21considera que para gerir o trabalho na suadimensão concreta de trabalho útil, – como hierarquiza-ção de atos e objetivos e tomada de decisões baseadasem valores–, é necessário fugir de procedimentos este-reotipados e a abertura do espaço das negociações dosusos de si – simultaneamente, usos de si por outros (dasnormas econômicas às instruções operacionais, dimen-sionadas por instâncias públicas ou privadas) e uso desi por si (o que revela compromissos microgestionários,articulados à experiência das situações de trabalho), naesfera individual e coletiva. Esses espaços das negocia-ções, geralmente mediados por instâncias negociantesde arquitetura coletiva, por sua vez se constituem emlócus de uma dramática referente à relação eficiência-efetividade e que remetem a um campo de valores ab-solutos como, por exemplo, gozar ou restaurar a saúde.A gestão do trabalho é contínua e opera nos espaçosimplícitos e/ou explícitos de negociação.A humanização perpassa pela inclusão do trabalhadorda saúde nesse processo transformador, numa articula-ção entre os pólos disciplinar, epistemólogico e ético edos sujeitos.Assim, a gestão dos processos de trabalhocomo parte vital da política de humanização em saúdefaz pressupor o conhecimento e a consideração não sódas questões macrossociais, políticas e econômicas, mastambém de saberes e fazeres produzidos e legitimadosno cotidiano dos trabalhadores da saúde e na concretudede suas práticas, nesse espaço microtransgressor, fontede criatividade e também de resistência.Deve-se pensar a produção de cuidados e práticas huma-nizadoras levando-se em conta as especificidades desselabor que envolve a utilização intensiva de capacidadesfísicas e psíquicas, intelectual e emocional, incluindo tro-ca de afetos e de saberes. O trabalho em saúde pressupõepatrimônio e demanda necessariamente a socialização, acooperação e a conformação de grupos e redes. Some-seainda as exigências contemporâneas de uma incessantee rápida incorporação de novos conhecimentos e tec-nologias e do desenvolvimento contínuo de habilidadescomunicacionais e de manejo de informações. Isso semcontar a convivência diária com toda forma de sofri-mento e a profunda e irremediável implicação com ouniverso da saúde e da doença, da vida e da morte e asinevitáveis repercussões no corpo e na mente.Pensar o trabalho vivo, este estranhoaao mesmo tempofonte de sofrimento e de prazer e emancipação, requerum olhar arguto e inconformado. As especificidadese idiossincrasias do trabalho em saúde exigem aindamais a ponderação de diferentes elementos como osprocessos de subjetivação dos trabalhadores em tensio-namento constante no âmbito de uma sociedade iníqua,a restrição dos espaços de negociação e de rupturasdas normas num ambiente precarizado e as dimensõesético-epistemológicas de produção de saúde envolvidasno processo de saúde-doença-cuidado.aAntunes R. Trabalho e estranhamento. Apêndice In: Antunes, R. Adeus ao trabalho? Ensaio sobre as metamorfoses e a centralidade do mundodo trabalho. São Paulo: Cortez; Campinas, SP, 1995, p.121-134.
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