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FERDINAND
OSSENDOWSKI
BESTAS,
HOMENS E
DEUSES
O ENIGMA DO REI DO MUNDO
Tradução de AGATA M. AUERSPERG
LUTANDO CONTRA A MOR...
revolução que estava varrendo toda a Rússia,
semeando naquele pais rico e pacífico a
vingança, o ódio, o assassinato e tod...
sem dificuldades. Contudo não consegui
permanecer muito tempo naquele local. Cinco
dias após, regressando de uma caçada, p...
onde ir quando os meus indesejados hóspedes
partissem. A noite estava chegando. Na penum-
bra seus rostos eram ainda menos...
O desconhecido encostou seu fuzil em um canto
e começou a tirar sua capa de pele, enquanto
nos examinava e a todos os obje...
— Vou cuidar de meu cavalo, e tirarei as selas
dos seus também.
— Está bem, respondeu um deles que já estava
quase dormind...
cabeça, vindo da direção dos disparos. Um gaio
lançou seu grito no topo de um pinheiro. Agucei
os ouvidos durante um longo...
um lugar mais seguro, e você poderá continuar
sua viagem.
2
O Segredo de meu Companheiro de
Viagem
Deixamos o meu primeiro...
ribanceiras dos córregos de verão. À noite, o
vento começava a silvar e a gemer em cima de
nossas cabeças, por entre as co...
Percebi, a seguir, que o suor banhava a testa e o
pescoço e ele ia enxugando-se com as mangas.
— Agora, sim, temos um calo...
avançamos com muitas dificuldades entre
densas moitas de salgueiro em direção da
ribanceira do Mana, o grande afluente da ...
narrar uma de suas aventuras, porém parou de
repente e fixou os olhos cheios de espanto para
um canto sombrio.
— Será um r...
— Está vendo estas manchas no assoalho e na
parede? É sangue, o sangue dos Gavronsky.
Morreram sem revelar onde se encontr...
Quando quiser encontrar os camponeses, você
terá que descer por ele e os encontrará.
Ivã ajudou-me a construir uma cabana ...
3
A Luta pela Sobrevivência
Estava só. À minha volta, imensos cedros sempre
verdes e cobertos de neve, moitas secas, o rio...
quebra-nozes lançavam gritos agudos; revoadas
de piscos, com o peito encarnado, passavam
entre as árvores lembrando chamas...
conhecera o desespero da solidão, aprendendo
como vencê-lo. Às vezes eu pensava que se
tivesse que morrer naquele lugar, e...
mente possível, porém ele levantou-se e
começou a subir a montanha entre pulos e
arrastões. Disparei uma segunda vez, e el...
Um dia, durante a caçada, aproximei-me da bar-
ranca do rio e vi um grande número de peixes
graúdos, com as costas vermelh...
Após duas semanas percebi que todos os peixes
já tinham passado e meu cesto já não tinha
serventia; então voltei a caçar.
...
resmungou com violência e afastou-se com uma
pressa que me deixou admirado por ser um
animal tão pesado. Na manhã seguinte...
surpreso quando vi o rei da floresta que saía da
minha toca e, parado na entrada, estava chei-
rando a parede de alto a ba...
6
Um Rio Agitado
Minha estada em Sifkova não durou muito,
todavia, aproveitei muito bem o tempo. Escolhi
um homem em quem ...
quebrando com estalos. Cheguei à barranca e
pude presenciar uma cena terrível e majestosa.
O rio estava carregando uma qua...
sanguinário da Cheka de Minusinsk. Centenas de
cadáveres decapitados, com as mãos decepadas,
os rostos mutilados, os crâni...
fechadas tínhamos que remar com todas as
nossas forças contra a violência da água. Havia
trechos nos quais só podíamos pro...
sententrional da Mongólia, perto das nascentes
do Ienissei, atravessando em seguida a Mongólia
para alcançar o Extremo Ori...
Tivemos que nos afastar das margens do
Ienissei, ficando escondidos nos bosques e nas
montanhas. Passamos quinze dias nest...
mais adiante deparamos com o corpo de uma
infeliz mulher, e as condições em que estava
diziam claramente o que se tinha pa...
vapor, o "Oriol", que de Kransnoiarsk estava
levando a Minusinsk um grande número de
soldados vermelhos. Chegamos rapidame...
duas razões: em primeiro lugar, continuamente
encontrávamos camponeses da região, e
qualquer tentativa de evitá-los levant...
podíamos apear com segurança. Quando, porém,
os camponeses vinham ao nosso encontro com
expressões de alegria, chamando-no...
—- "É sorte nossa que, entre os bolcheviques, os
incompetentes de ontem sejam os governantes
de hoje e que, ao contrário, ...
aborrecimentos aos bolcheviques. Ficamos
alvoroçados. Poderíamos cruzar facilmente com
aquela expedição e não tínhamos cer...
— Vamos sair um pouco, aqui não podemos
conversar.
Do lado de fora ele virou-se para mim:
— Ouça. Quero saber sua opinião....
uma licença de porte de armas. Estávamos,
portanto, com a força e a lei do nosso lado.
Numa aldeia afastada, contratamos u...
Estávamos cercados por espessas matas virgens.
Nosso caminho serpenteava, quase invisível,
entre a erva alta e amarelecida...
abandonada e os prédios todos destruídos. Os
bolcheviques tinham levado as máquinas, os
mantimentos e também parte dos bar...
do lugarejo, começou a fazer perguntas para
inteirar-se de nossas opiniões políticas. Vendo
que estávamos criticando os bo...
nos considerávamos com sorte porque íamos
prosseguir nossa viagem em companhia dêles.
Um dos soldados respondeu que isso d...
papéis. Tentei acalmá-lo dizendo que ia ajeitar as
coisas com os Soyotes, no dia seguinte. Este
oficial era um brutamontes...
mento. Só havia um soldado atrás de nós, de
aparência idiota e visivelmente hostil. Tive o
tempo de soprar ao ouvido de me...
minha direção. Minha pistola Mauser, porém, foi
mais rápida.
— Atirem! gritei, e entramos no tiroteiro.
Em breve o relvado...
pasto onde vimos um rebanho de "izubr". Os
colonos criam esses alces por causa dos chifres
que eles vendem aos mercadores ...
meu companheiro e a mim a sós com nosso
hospedeiro. Não conseguíamos entender o
motivo disso. O governador dos Soyotes ent...
recinto, esperando a chegada do inimigo comum.
Esperamos nervosamente durante uma hora.
Enfim um trabalhador chegou corren...
manobras. Cinco soldados vermelhos jaziam na
estrada, e os outros continuavam entocados na
vala. Em seguida, vimos que ele...
milicianos estão avançando de todas as direções
para a cidade de Belotzarsk. Eles roubam tudo
que é dos colonos e dos camp...
ao nosso redor. Sumiu de repente. O camponês,
percebendo isso, falou temeroso:
— Acho que ele correu para a aldeia e vai t...
sofrimento dos cavalos. A água gelada chegava-
me até o peito. As chapas de gelo flutuantes
batiam em mim, enquanto a água...
longe, na vazante, o camponês estava chegando
com seu barco e nossos pertences. Sem perder
tempo carregamos tudo nas albar...
péssimas. O primeiro posto mongol do Samgaltai
estava a apenas noventa quilômetros, ao passo
que o Lago Kosogol encontrava...
A Barreira Vermelha
Num vale encaixado entre duas serras
escarpadas descobrimos um rebanho de "yacks"
e de vacas: dez Soyo...
seriam facilmente alvejados. Chegando no alto,
separei-me do grupo levando comigo meu
companheiro, o tártaro, o Calmuco e ...
companheiro durante algum tempo. Ao redor da
fogueira tudo era calma. De repente, do outro
posto, chegaram gritos abafados...
calmo. Eles não tinham visto soldados vermelhos
além das montanhas do Tannu Ola. Demos um
pacote de chá aos Soyotes e eles...
Jukoff, desapareceu. Eles tiveram que defrontar-
se com um forte contingente da cavalaria
vermelha e morreram após dois co...
exército aqueles maravilhosos cavaleiros e
fabulosos arqueiros. Durante o transcorrer de sua
história, os Soyotes emigrara...
Qualquer movimento em falso nos teria levado
ao fundo. Exatamente isso sucedeu com um
cavalo de carga. Preso até o ventre ...
porque receava que ladrões e assassinos
entrassem nos seus domínios.
— Voltem para o lugar de onde vieram — disse-
ram, e ...
O Soyote ficou muito impressionado com os
movimentos misteriosos dos meus dedos. Cheio
de respeito e medo ele murmurou:
— ...
que alguns dos nossos cavalos estavam por
demais esgotados para chegar ao Lago Kosogol e
decidimos comprar outros naquela ...
escarlate e um botão vermelho escuro. Longas
plumas de pavão estavam presas ao lado da
nuca. Grandes óculos chineses estav...
convencido de que um homem que sabe tratar
doenças é médico.
— Já faz dois meses que minha mulher sofre da
vista. Trate de...
princesa, que oito anos antes tinham enfeitiçado
o príncipe Lama, apesar de ele estar numa idade
bastante avançada, estava...
À noite daquele mesmo dia chegamos às
margens do lago sagrado de Teri Noor, um
espelho de águas amarelas e lodacentas, com...
Passamos a noite embaixo das árvores e
iniciamos a travessia na manhã seguinte. Pelo
meio-dia, nosso guia nos levou por um...
O vento levantava os pelos de suas crinas e
caudas, mugindo e silvando entre as pedras da
montanha. Ouvíamos à distância o...
poucos que tiveram essa audácia, morreram. Os
demônios os atacaram durante uma tempestade
de neve. Agora ela já está começ...
aumentava de intensidade. cada vez mais. Enfim
montamos. O Soyote ia à frente, procurando
adivinhar o caminho. Como sabíam...
— Não — respondi-lhe, — mas durante a noite eu
tive uma visão e sei que podemos ultrapassar a
crista sem nenhum perigo.
— ...
ferindo sem dúvida alguns outros, porém não
tínhamos a possibilidade de averiguar. Apon-
távamos nossas armas contra aquel...
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  1. 1. FERDINAND OSSENDOWSKI BESTAS, HOMENS E DEUSES O ENIGMA DO REI DO MUNDO Tradução de AGATA M. AUERSPERG LUTANDO CONTRA A MORTE 1 Na Floresta No começo do ano 1920 eu estava em Krasnojarsk, na Sibéria. A cidade encontra-se à beira do rio Ienissei, um rio imponente que nasce nas montanhas ensolaradas dá Mongólia, levando calor e vida para o mar Ártico. Nansen veio duas vezes até a sua foz para abrir ao comércio europeu uma rota até o coração da Ásia. Nessa cidade, no meio do calmo inverno siberiano, eu fui alcançado pelo vendaval da
  2. 2. revolução que estava varrendo toda a Rússia, semeando naquele pais rico e pacífico a vingança, o ódio, o assassinato e toda espécie de crimes não previstos pelos códigos penais. Ninguém conseguia imaginar qual seria seu des- tino. As pessoas viviam de um dia para o outro, saíam de casa sem saber se voltariam ou se seriam presas na rua e jogadas nas masmorras da comissão revolucionária, uma paródia da justiça mais terrível e mais sedenta de sangue que a Inquisição. Apesar de sermos estrangeiros, não estávamos a salvo desse tipo de per- seguição. Uma manhã, visitando um amigo, fui avisado subitamente de que vinte soldados do exército vermelho tinham cercado minha casa para prender-me, e que eu devia fugir. Pedi ao meu amigo umas roupas de caçador, algum dinheiro e fui embora às pressas, a pé, pelas estreitas ruas da cidade. Consegui chegar rapidamente até a estrada onde contratei os serviços de um camponês que em quatro horas levou-me a uma distância de trinta quilômetros, deixando-me numa região de mata cerrada. Durante a viagem adquiri um fuzil, trezentos cartuchos, um machado, um facão, agasalho de pele de carneiro, chá, sal, biscoitos e uma chaleira. Adentrei a mata até encontrar uma cabana aban- donada e semi-destruída. Comecei a levar vida de caçador, sem saber que iria fazê-lo durante muito tempo. Na manhã seguinte tive sorte e consegui abater dois tetrazes. Também descobri pegadas de gamos e notei que teria alimentação
  3. 3. sem dificuldades. Contudo não consegui permanecer muito tempo naquele local. Cinco dias após, regressando de uma caçada, percebi que rolos de fumaça elevavam-se da chaminé da cabana. Aproximei-me com cuidado e vi, perto da cabana, dois cavalos surreados e fuzis de soldado presos à sela. Calculei que dois homens sem armas não ofereciam nenhum perigo, pois eu estava armado; atravessei rapidamente a clareira e entrei na cabana. Dois soldados que estavam sentados sobre um banco levantaram-se assustados. Eram bolcheviques. Pude ver as estrelas vermelhas em seus barretes de astracã e os galões vermelhos de suas túnicas. Cumprimentamo-nos e sentamos. Os soldados já haviam preparado o chá e o tomamos juntos, falando e observando- nos com um certo ar de desconfiança. Para que não começassem a suspeitar de mim, contei que era caçador e que não era daquela região, mas que eu a escolhera por ser muito rica de zibelinas. Disseram-me que faziam parte de uma patrulha de soldados que estavam em perseguição de possíveis fugitivos. — Camarada, compreenda que estamos procu- rando contra-revolucionários para fuzilá-los, disse um deles. Não estava precisando dessas explicações para saber o que eles queriam. Esforcei-me ao máximo, com minhas palavras, em convencê-los de que eu não passava de um simples camponês e caçador, e que nada tinha a ver com os contra- revolucionários. Estava também pensando para
  4. 4. onde ir quando os meus indesejados hóspedes partissem. A noite estava chegando. Na penum- bra seus rostos eram ainda menos simpáticos. Apanharam seus frascos de vodka, começaram a beber e o efeito do álcool manifestou-se logo. Suas vozes aumentaram de volume, interrompiam-se um ao outro para gabar-se do número de burgueses que haviam massacrado em Krasnojarsk, e do número de cossacos que haviam enterrado no gelo, dentro do rio. Enfim, começaram a discutir, cansaram logo e iniciaram os preparativos para dormir. De repente, sem nenhum sinal, a porta da cabana abriu-se bruscamente, e o vapor do ambiente superaquecido saiu para fora como uma nuvem de fumaça. Quando o ar clareou, um homem apareceu na soleira da porta, assemelhando-se a um daqueles gênios do canto oriental que surgem da fumaça; era alto, de rosto magro, vestido como um camponês, com um barrete de astracã e uma capa comprida de pele de carneiro. Da soleira, ele apontava seu fuzil para nós. Trazia um machado no cinto, indispensável aos camponeses da Sibéria. Seus olhos, vivos e brilhantes como os de um animal selvagem, perscrutavam cada um de nós. Bruscamente retirou o barrete, fez o sinal-da-cruz e perguntou: — Quem é o chefe? — Eu, respondi-lhe. — Posso passar a noite aqui? — Claro, respondi, aqui há lugar para todos. Você vai tomar uma xícara de chá. Ainda está quente.
  5. 5. O desconhecido encostou seu fuzil em um canto e começou a tirar sua capa de pele, enquanto nos examinava e a todos os objetos espalhados pelo local, seus olhos indo rapidamente de um lado para o outro. Vestia um velho gibão e calças de couro, e altas botas de feltro. Tinha o rosto jovem, de traços finos e uma expressão de escárnio. Seus dentes alvos e aguçados brilhavam, e os olhos pareciam transpassar tudo o que fitava. Percebi que havia mechas grisalhas entre seus cabelos emaranhados. Duas rugas amargas dos lados da boca revelavam uma vida agitada e rodeada de perigos. Sentou-se perto de seu fuzil, pondo o machado no chão, ao seu lado. — Que é que há? É a tua mulher? perguntou um dos soldados bêbados, referindo-se ao machado. O camponês olhou calmamente para ele, e seus olhos eram frios sob as grossas sobrancelhas; respondeu com tranqüilidade: — Nestes tempos nunca sabemos que tipo de gente encontramos; um bom machado nos dá mais segurança. Começou a tomar o chá, bebendo avidamente. Seus olhos fixaram-se repetidamente no meu rosto, parecendo interrogativos, e voltavam para a cabana, como à procura de resposta às suas dúvidas. Terminando de tomar o chá quente, ele respondia pausadamente às perguntas dos soldados: pousou a xícara de boca para baixo, significando que tinha terminado, colocando sobre a xícara o pedaço de açúcar que sobrara. Depois falou aos soldados:
  6. 6. — Vou cuidar de meu cavalo, e tirarei as selas dos seus também. — Está bem, respondeu um deles que já estava quase dormindo. Traga-nos também nossos fuzis. Os soldados deitaram-se sobre o banco e para nós sobrou o chão. O desconhecido voltou logo, trazendo os fuzis e as selas. Depositou os fuzis num canto escuro, jogou as selas no chão, sentou sobre uma delas e começou a descalçar as botas. Num instante os soldados e meu novo hóspede estavam roncando, porém eu perma- necia acordado, perguntando a mim mesmo que atitude tomar. Adormeci quando já estava clareando, e só acordei com o sol já alto. O desconhecido não estava na cabana. Saí e vi que estava selando um magnífico garanhão baio. — Você vai embora? perguntei. — Vou sim, mas quero sair junto com os cama- radas, murmurou. Voltarei logo. Não lhe fiz mais perguntas; disse-lhe que o aguardaria. Ele retirou as sacolas que estavam suspensas à sela, escondendo-as num canto da cabana em seguida examinou os estribos e as rédeas; tendo terminado de selar o cavalo disse, sorrindo: — Estou pronto. Vou acordar os camaradas. Meus três hóspedes tomaram chá e despediram- se meia hora depois. Saí para fora e comecei a rachar lenha para o fogo. Repentinamente ouvi tiros ao longe, na floresta: um tiro, e logo mais, outro. Novamente reinou o silêncio. Percebi que alguns tetrazes alçaram vôo, assustados pelos estampidos. Passaram por cima de minha
  7. 7. cabeça, vindo da direção dos disparos. Um gaio lançou seu grito no topo de um pinheiro. Agucei os ouvidos durante um longo tempo para saber se havia alguém se aproximando da cabana, porém nada quebrava o silêncio. Na região do baixo Ienissei anoitece ainda cedo. Pus lenha no fogão da cabana e comecei a preparar minha sopa, com os ouvidos atentos, o tempo todo, ao barulho que vinha do lado de fora. Tinha ciência de que a morte estava sempre a meu lado e que ela apossar-se-ia de mim a qualquer hora e por qualquer meio: homem, animal, frio, acidente ou doença. Eu sabia que não havia ninguém por perto para prestar-me assistência; o socorro só podia chegar pelas mãos de Deus, pelo vigor das minhas próprias mãos e pernas, pela precisão de minha pontaria e pela minha presença de espírito. Mas de nada adiantou minha vigília: não percebi quando o desconhecido se aproximava. Como na véspera, apareceu repentinamente na soleira da porta. Através do vapor eu podia ver seus traços finos e seu olhar risonho. Entrou na cabana, e os tres fuzis que ele atirou a um canto fizeram barulho. — Dois cavalos, dois fuzis, duas selas, duas latas de biscoitos, meio pacote de chá, um saquinho de sal, cinqüenta cartuchos, dois pares de botas, disse sorrindo. A caça hoje foi boa. Eu o olhava, surpreso. — O que é que há, porque está admirado? per- guntou rindo. Komu nujny eti tovarischi? Quem vai se preocupar com essa gente? Vamos tomar chá e depois dormir. Amanhã levarei você para
  8. 8. um lugar mais seguro, e você poderá continuar sua viagem. 2 O Segredo de meu Companheiro de Viagem Deixamos o meu primeiro refúgio e nos pusemos a caminho quando o dia estava clareando. Todos os nossos objetos pessoais foram colocados numa sacola que foi atada a uma das selas. — Teremos que percorrer quatrocentos ou qui- nhentos quilômetros, falou calmamente meu companheiro, que se chamava Ivã. Esse nome nada significava numa terra onde em cada dois homens um se chamava Ivã. — Teremos que viajar por muito tempo então? perguntei meio aborrecido. — Não mais que uma semana,, talvez um pouco menos, respondeu ele. Aquela noite nos acomodamos na floresta, embaixo dos largos galhos de abetos. Era minha primeira noite na floresta, a céu aberto. Mas quantas noites semelhantes eu teria que passar durante os dezoito meses de andanças que se seguiram... Durante o dia, o frio era intenso. A neve gelada se esmigalhava sob as patas de nossos cavalos, grudava embaixo dos cascos, desprendia-se e rolava sobre a dura superfície à semelhança de vidro quebrado. Os tetrazes preguiçosamente levantavam vôo das árvores, as lebres mansamente desciam ao longo das
  9. 9. ribanceiras dos córregos de verão. À noite, o vento começava a silvar e a gemer em cima de nossas cabeças, por entre as copas das árvores, enquanto que, sob as árvores, tudo era calma e silêncio. Paramos num barranco fundo, contornado de altas árvores. Havia abetos caídos, e nós os cortamos para ter lenha para o fogo. Depois de preparado o chá, começamos a jantar. Ivã trouxe dois troncos, aplainou-os de um lado com o machado, colocou-os um em cima do outro pelo lado plano, depois enfiou entre os dois, nas extremidades, duas lascas que os deixavam separados de nove a dez milímetros. Espalhamos algumas brasas entre as duas superfícies e vimos o fogo correndo rapidamente todo o comprimento aplainado. — Desse jeito teremos fogo até o amanhecer, disse. Esta é a naidaI dos garimpeiros. Quando andamos numa floresta, seja verão ou inverno, sempre nos deitamos ao lado de uma naida. É maravilhoso... Aliás, você mesmo verá, continuou ele. Ele cortou galhos de abeto que colocou em cima de dois suportes, formando um teto inclinado em direção da naida. Por cima de nosso teto de galhos e de nossa naida erguia-se, protegendo- nos, um imenso abeto. Recolhemos mais galhos que pusemos no chão, sobre a neve coberta pelo teto; colocamos em cima dos galhos nossos cobertores de sela, e Ivã sentou-se e começou a retirar seus agasalhos, ficando só com a blusa. I Um glossário de termos russos e asiáticos acha-se no fim do livro.
  10. 10. Percebi, a seguir, que o suor banhava a testa e o pescoço e ele ia enxugando-se com as mangas. — Agora, sim, temos um calorzinho agradável! disse ele bem alto. Logo em seguida eu também me vi obrigado a retirar minha capa, deitei-me para dormir sem precisar de cobertor: além dos galhos de abeto e fora da naida o frio era atroz, mas nós estávamos confortavelmente protegidos contra ele. Depois daquela noite o frio deixou de ser motivo de apreensão. Durante o dia, cavalgando, eu me sentia regelado, mas à noite eu era bem aquecido pela naida, e podia repousar sem minha pesada capa, vestindo apenas a blusa sob os galhos de pinheiro e de abeto, e bebendo as sempre bem-vindas xícaras de chá. Durante nossas paradas diárias Ivã contou-me histórias de suas viagens entre as montanhas e as florestas da Transbaikalia, à procura de ouro. Eram histórias repletas de acontecimentos, de aventuras deliciosas, mas também de perigos e de lutas. Ivã era o garimpeiro típico, desses que na Rússia, e talvez em outros países, conseguem descobrir as mais ricas jazidas, porém continuam pobres como mendigos. Ele não me contou o motivo por que deixara a Transbaikalia, vindo para a região do Ienissei. Compreendi, pelas suas atitudes, que não desejava transparecer o assunto, e não insisti. Mas um dia, por acaso, descobri a razão que o levava a fazer tanto mistério desse período de sua vida. Já tínhamos atingido a região que representava a etapa final da nossa viagem. Durante todo o dia
  11. 11. avançamos com muitas dificuldades entre densas moitas de salgueiro em direção da ribanceira do Mana, o grande afluente da direita do Ienissei. Em volta podíamos ver pistas batidas pelas patas das lebres que viviam naquelas matas. Esses animaizinhos brancos corriam por todos os lados, à nossa frente, sem nenhuma desconfiança. Uma vez conseguimos ver a cauda ruiva de uma raposa que nos observava meio escondida atrás de uma pedra. Já fazia algum tempo que Ivã não pronunciava palavra. Enfim, disse-me que a pouca distância corria um pequeno afluente do Mana e que perto de sua foz havia uma cabana. — O que você prefere fazer? Quer chegar até lá ou prefere pernoitar ao lado da naida? Achei ótimo chegar até a cabana, pois queria tomar um banho e estava pensando que seria agradável poder passar a noite embaixo de um teto de verdade. Ivã franziu as sobrancelhas, porém concordou comigo. A noite já estava descendo quando nos aproximamos da cabana que era cercada de uma floresta espessa e muitos pés de framboesa selvagem. A cabana constava de um pequeno quarto com duas janelas minúsculas e uma imensa lareira russa. Ao lado da parede havia ruínas de um telheiro e de um celeiro. Acendemos o fogão para preparar nosso modesto jantar. Ivã bebeu do frasco usurpado dos soldados, e em breve tornou-se loquaz. Seus olhos brilhavam e suas mãos percorriam freqüentemente seus longos cabelos. Começou a
  12. 12. narrar uma de suas aventuras, porém parou de repente e fixou os olhos cheios de espanto para um canto sombrio. — Será um rato? perguntou-me. — Não percebi coisa alguma, respondi-lhe. Calou-se novamente, parecendo refletir com as sobrancelhas franzidas. Não me admirei disso, porque freqüentemente ficávamos em silêncio horas a fio. Ivã reclinou-se até ficar encostado a mim e começou num murmúrio: — Quero contar-lhe uma velha história. Na Trans- baikalia eu tinha um amigo. Lá se achava condenado ao desterro. Seu nome era Gavronsky. Estávamos procurando ouro entre todas aquelas montanhas e florestas, e tínhamos concordado em repartir todos os lucros. Mas um dia Gavronsky partiu, repentinamente, para a taiga próxima do Ienissei e desapareceu. Cinco anos mais tarde soubemos que ele descobrira uma jazida de ouro muito rica e que se tornara um abastado proprietário; depois soubemos que ele e sua mulher tinham sido assassinados... Ivã calou-se para logo continuar: — Esta é a velha cabana deles. Ele vivia aqui com a mulher e lavrara o ouro na ribanceira, em algum lugar perto daqui. Ele nunca disse a ninguém onde o encontrara. Todos os moradores das redondezas sabiam que ele tinha muito dinheiro depositado no banco, e que vendia ouro ao governo. Foram assassinados aqui. Ivã aproximou-se do fogão, retirou um tição em chamas e inclinou-se para iluminar uma mancha no assoalho.
  13. 13. — Está vendo estas manchas no assoalho e na parede? É sangue, o sangue dos Gavronsky. Morreram sem revelar onde se encontra o veio de ouro. Eles o extraíam numa vala muito funda que tinham aberto na ribanceira, mas não queriam dizer onde... Meu Deus, como os torturei... Eu os queimei, quebrei seus dedos, arranquei seus olhos, mas Gavronsky morreu sem falar.. . Refletiu por um instante, e acrescentou depressa: — Todos os detalhes, eu os ouvi dos camponeses. Voltou a por a acha no fogão e estirou-se em cima do banco. — Está na hora de dormir, acrescentou aspera- mente. Depois fechou-se no silencio. Fiquei muito tempo ouvindo-o respirar e murmu- rar para si mesmo, enquanto se virava de um lado para 0 outro, fumando o cachimbo. Na manhã seguinte deixamos a cena de crimes e sofrimentos e após sete dias de viagem alcançamos a densa floresta de cedros que cobre os primeiros contrafortes de uma vasta cordilheira. — Estamos a oitenta quilômetros da vila mais próxima, explicou-me Ivã. Os camponeses chegam até a floresta para recolher nozes de cedro, mas somente durante o outono. Antes da volta dessa estação você não verá ninguém. Há grande fartura de aves e caça, e também grande quantidade de nozes. Por aqui você terá boas possibilidades de viver. Está vendo aquele rio?
  14. 14. Quando quiser encontrar os camponeses, você terá que descer por ele e os encontrará. Ivã ajudou-me a construir uma cabana de terra, apesar de ela não ser propriamente de terra; apoiava-se nas raízes de um grande cedro caído, provavelmente arrancado com as raízes por alguma furiosa tempestade. Havia sobrado um grande buraco que me serviu para quarto, fechado de um lado por uma parede de terra, reforçada pelas raízes levantadas. Outras raízes horizontais para armação do telhado, formado por estacas e galhos entrelaçados. Para maior estabilidade, coloquei em cima destes algumas pedras, e cobri tudo de neve para conservar o calor. A parte da frente ficava sempre aberta, mas protegida pela naida que fornecia o aque- cimento. Nessa toca coberta de neve consegui passar dois meses que pareceram meses de verão, sem nunca ver outro ser humano, e sem qualquer contato com o mundo onde, durante a mesma época, ocorriam coisas muito importantes. Naquele túmulo, entre as raízes de cedro caído, vivi no mais estreito contato com a natureza, tendo como única companhia de todos os instantes minhas provações, as preocupações a respeito de minha família, e a árdua luta pela sobrevivência. Ivã foi-se embora no segundo dia, deixando-me uma sacola de biscoitos e um pouco de açúcar. Nunca mais tive notícias dele.
  15. 15. 3 A Luta pela Sobrevivência Estava só. À minha volta, imensos cedros sempre verdes e cobertos de neve, moitas secas, o rio gelado e, até onde minha vista alcançasse, só divisava uma vastidão imensa de cedros e de neve. A taiga siberiana... Quanto tempo permaneceria ali? Estava eu a salvo dos bolcheviques? Saberiam os meus amigos que eu estava ali? Que teria acontecido com a minha família? Todas estas perguntas aguçavam constantemente o meu cérebro, queimando como fogo. Não demorei muito a compreender porque Ivã tinha sido meu guia por tanto tempo. Durante nossa viagem tínhamos passado por muitos lugares ocultos e distantes de centros habitados, porém Ivã não queria que eu ficasse neles, apesar de seguros. Repetia continuamente que queria levar-me a um lugar onde fosse mais fácil sobreviver. De fato, meu solitário refúgio oferecia muitos atrativos: florestas de cedro, montanhas cobertas por essas florestas, chegando até o horizonte, em todas as direções. O cedro é uma árvore imponente e magnífica. Seus fortes galhos espalham-se ao redor formando uma tenda sempre verde que atrai, sob sua proteção, todas as criaturas da floresta. A vida fervilhava embaixo dos cedros. Os esquilos faziam muito barulho saltando de uma árvore para outra; os
  16. 16. quebra-nozes lançavam gritos agudos; revoadas de piscos, com o peito encarnado, passavam entre as árvores lembrando chamas; bandos de pintassilgos apareciam, de repente, enchendo a floresta de silvos e trinos; uma lebre pulava entre os troncos, seguida sorrateiramente por um arminho branco que rastejava, quase invisível, na neve. Eu ficava muito tempo esperando ver o ponto preto que sabia estar na extremidade de sua cauda. Às vezes um belo gamo avançava cautelosamente sobre a neve dura e um dia o rei da floresta siberiana, um urso pardo, desceu da montanha para me visitar. Tudo isso representava um entretenimento que afastava o pessimismo do meu espírito, ajudando-me a resistir. Gostava também, apesar da dificuldade, de escalar a montanha; ela dominava a floresta e daquelas alturas eu conseguia alcançar com a vista a ribanceira avermelhada do lado oposto do Ienissei que aparecia no horizonte. Daquele lado estavam os países, as cidades, os amigos e os inimigos; eu acreditava conhecer a direção exata em que vivia minha família. Por isso Ivã levara- me até lá. Os dias iam passando e naquela imensa solidão comecei a sentir muitas saudades do meu companheiro, apesar de ser o assassino de Gavronsky, ele tinha cuidado de mim como um pai. Sempre selava meu cavalo, rachava a lenha e fazia o possível para me dar todo o conforto. Ele passara muitos invernos na mais completa solidão, acompanhado só pelos seus pensamentos, perante Deus e a natureza;
  17. 17. conhecera o desespero da solidão, aprendendo como vencê-lo. Às vezes eu pensava que se tivesse que morrer naquele lugar, eu ia empregar minhas últimas energias para subir a montanha e poder olhar, antes de morrer, além daquele oceano de montes e florestas, a direção do lugar onde moravam os meus entes queridos. Passava a maior parte do dia caçando. Compreendi que precisava dividir o meu tempo entre várias tarefas para afugentar os pensamentos negros e deprimidos. Geralmente, depois de tomar meu chá da manhã, andava pela floresta procurando tetrazes. Depois de matar um ou dois, começava a preparar o meu jantar, onde nunca apareciam pratos complicados. Era sempre caldo de caça com um punhado de biscoitos, seguido por um sem-número de xícaras de chá, que é uma bebida indispensável na floresta. Um dia, entrando entre espessas moitas, percebi um movimento; olhando com muita atenção, vislumbrei as pontas dos chifres de um gamo. Tentei aproximar-me cautelosamente mas o animal, desconfiado, me pressentiu. Desvencilhou-se da moita, com muito barulho, consegui vê-lo claramente correr cerca de trezentos passos e parar contra o flanco da montanha. Era um animal esplêndido, de pelagem cinza-escuro, a espinha dorsal quase preta, do tamanho de uma pequena vaca. Disparei o fuzil, apoiando-o a um galho. O gamo pulou alto, correu alguns passos e tombou. Esforcei-me para correr até ele o mais rapida-
  18. 18. mente possível, porém ele levantou-se e começou a subir a montanha entre pulos e arrastões. Disparei uma segunda vez, e ele morreu. Conseguira um aconchegante tapete para minha toca, e uma boa quantidade de carne. Coloquei os chifres entre os galhos da minha parede, onde serviram muito bem para pendurar minha capa. Presenciei um fato muito curioso a alguns quilômetros do meu abrigo. Havia um pântano, coberto de vegetação e salpicado de airelas, onde os tetrazes e as perdizes costumavam comer bagos. Um dia aproximei-me sem fazer barulho e vi um grande número de tetrazes raspando a neve à procura de bagos. Estava apreciando o espetáculo quando, de repente, uma das aves surgiu no ar e as demais, assustadas, levantaram vôo e fugiram, O tetraz subiu no ar, em espiral, enquanto eu olhava estarrecido, e depois caiu de uma vez, morto. Aproximei-me: um arminho voraz pulou e foi esconder-se embaixo de um tronco de árvore caído. O pescoço da ave estava estraçalhado. Compreendi, então, que o arminho tinha atacado o tetraz e, sem largar sua presa, tinha sido levado para o alto pela ave, enquanto sugava seu sangue. Assim tinha provocado sua queda e sua morte. 4 Pescaria
  19. 19. Um dia, durante a caçada, aproximei-me da bar- ranca do rio e vi um grande número de peixes graúdos, com as costas vermelhas, parecendo cheias de sangue. Eles estavam nadando na superfície, gozando os raios do sol. Quando o rio ficou livre dos blocos de gelo apareceram cardumes enormes de peixes. Percebi logo que estavam subindo a correnteza para a desova nos pequenos rios. Pensei em aplicar um método de pesca que é proibido por lei em todos os países: acredito, porém, que os homens da lei serão generosos com um homem que, vivendo numa toca ao abrigo das raízes de uma árvore caída, teve a audácia de infringir uma lei mais do que justa. Andei catando galhos de bétula e de faia e construí, no rio, um dique que os peixes não conseguiam transpor. Vi que estavam tentando pular por cima. Perto dá margem abri, no meu dique, uma passagem a cinqüenta centímetros da superfície, e à montante fixei um alto cesto que trançara com galhos flexíveis de salgueiro, onde o peixe entrava, vindo da abertura. Enfim, fiquei de tocaia, e quando aparecia um peixe, batia fortemente na sua cabeça usando um grosso pau. Todos os peixes que apanhei com este sistema pesavam mais de treze quilos. Apanhei alguns com aproximadamente trinta e cinco quilos. Estes peixes são chamados taimen, pertencem à família das trutas, e não existe outro melhor no Ienissei.
  20. 20. Após duas semanas percebi que todos os peixes já tinham passado e meu cesto já não tinha serventia; então voltei a caçar. 5 Um Vizinho Perigoso Dia a dia a caça se tornava cada vez mais abun- dante e agradável à medida que a primavera trazia vida novamente. Desde os primeiros albores do dia a floresta ecoava de vozes estranhas e incompreensíveis para os habitantes das cidades. Os tetrazes cacarejavam e, empoleirados nos altos galhos dos cedros, lançavam seu canto de amor, contemplando admirados as fêmeas cinzentas que, mais abaixo, ciscavam as folhas secas. Era fácil chegar perto de um tenor plumado, derrubando-o das mais líricas alturas, a fuções bem mais utilitárias, com um tiro certeiro. Sua morte era uma eutanásia no meio de um devaneio amoroso que o deixava surdo. Na clareira, galos negros com vistosas caudas sarapintadas, lutavam, enquanto as fêmeas, pavoneando-se por perto, tagarelavam e fofocavam, admirando a guerra dos galãs. Havia por perto outro animal, e cedo ou tarde um de nós dois devia ceder o lugar. Num dia que eu estava voltando da caçada com um belo tetraz, vi de repente, entre as árvores, um vulto escuro que se movia. Parei para observar melhor e deparei com um urso que, com toda sua energia, cavava um formigueiro. Ele me pressentiu,
  21. 21. resmungou com violência e afastou-se com uma pressa que me deixou admirado por ser um animal tão pesado. Na manhã seguinte, estando ainda deitado, coberto por minha capa, tive a atenção despertada por um movimento atrás da minha cabana. Olhei, com muita cautela, e vi o urso. Estava erguido sobre as patas traseiras, fungando com força, talvez perplexo pelo fato de haver outra criatura que, como os ursos, tinha-se entocado durante o inverno embaixo de uma árvore caída. Gritei e bati com o machado contra a chaleira. Meu visitante fugiu a toda velocidade, contudo, a visita não deixava de ser desagradável. Isto aconteceu no começo da primavera e o urso normalmente não deixa sua toca invernal tão cedo. Era um urso formigueiro, um urso totalmente anormal e ignorante das boas maneiras, que caracterizavam as espécies superiores da sua raça. Eu sabia que os ursos formigueiros eram irrita- diços e audaciosos, e comecei meus preparativos para a defesa e o ataque. Os preparativos foram rápidos. Cortei as pontas de cinco cartuchos, transformando-os em "dum-dum", achando que eram os melhores argumentos para convencer meu desagradável vizinho. Apanhei minha capa e fui até o local onde pela primeira vez tinha-me defrontado com o urso, e onde se encontrava grande número, de formigueiros. Contornei a montanha, olhei em todos os barrancos, mas não vi rastro do urso. Cansado e um pouco decepcionado, estava já nas proximidades do meu abrigo e não desconfiava de nada. Fiquei
  22. 22. surpreso quando vi o rei da floresta que saía da minha toca e, parado na entrada, estava chei- rando a parede de alto a baixo. Atirei. A bala entrou-lhe pelo flanco. Rugiu de raiva e de dor e levantou-se sobre as patas traseiras. O segundo tiro quebrou-lhe uma das patas. Caiu, mas logo levantou-se, esforçando-se por ficar de pé e, arrastando a pata, veio ao meu encontro para atacar-me. Só parou após o terceiro disparo que o atingiu em cheio, no peito. Pesava entre noventa a cento e dez quilos, a meu ver, e sua carne era muito saborosa. Preparava com ela almôndegas que assava sobre pedras aquecidas, observando-as quando cresciam, ficando tão leves quanto as gostosas fritadas "soufflées" que costumávamos apreciar no "Medved" em Leningrado. Vivi desta reserva de carne, conseguida com tanta sorte, até que o sol começou a esquentar realmente e o nível das águas baixou o suficiente para poder descer ao longo do rio até a aldeia indicada por Ivã. Tomando sempre todas as cautelas, andei a pé seguindo o curso do rio e levando nas minhas costas, na pele do gamo amarrada pelas patas, todos os meus utensílios. Com meu fardo às costas passei pelo vau dos pequenos riachos e chafurdei nos pântanos que encontrava pelo caminho. Depois de percorrer cerca de oitenta quilômetros cheguei à aldeia Sifkova, onde o camponês Tropoff tinha uma cabana. Ela estava à margem da floresta, e a floresta tinha-se tornado o meu ambiente natural. Permaneci algum tempo com ele.
  23. 23. 6 Um Rio Agitado Minha estada em Sifkova não durou muito, todavia, aproveitei muito bem o tempo. Escolhi um homem em quem podia confiar e mandei-o para Krasnojarsk, ao endereço dos meus amigos. Enviaram-me roupa de baixo, botas, dinheiro, uma bolsa com remédios e, mais importante que o resto, um passaporte falso, porque os bolcheviques acreditavam que eu tinha morrido. Em seguida comecei a verificar quais eram as melhores oportunidades nas circunstâncias em que eu me achava. Não decorreu muito tempo, e o povo de Sifkova ficou sabendo que o comissário do governo soviético estava para chegar a fim de requisitar gado para o exército vermelho. Demorar mais tempo em Sifkova podia ser perigoso. Queria esperar até que o Ienissei estivesse livre de sua espessa capa de gelo que ainda o estava bloqueando, apesar de os rios menores já estarem livres do gelo, e as árvores já estivessem revestidas de suas folhagens de primavera. Contratei um pescador que, por mil rublos, estava disposto a levar-me até uma mina de ouro abandonada, situada a oitenta quilômetros à montante do rio, logo que as águas estivessem livres de gelo. O rio livrava-se do gelo aos poucos. Certa manhã ouvi violentos estrondos, parecendo canhoneio, e corri para ver: a água havia levantado a capa de gelo, que recaía
  24. 24. quebrando com estalos. Cheguei à barranca e pude presenciar uma cena terrível e majestosa. O rio estava carregando uma quantidade enorme de blocos de gelo que já se tinham desprendido ao sul e estava transportando-os para o norte, forçando-os embaixo da espessa capa de gelo que ainda cobria o rio em alguns trechos: este impacto continuado rompeu, finalmente, a barragem invernal, ao norte, liberando essa quantidade fantástica de blocos de gelo para a última investida em direção do Oceano Ártico. O Ienissei — o pai Ienissei, o herói Ienissei — é um dos mais compridos rios da Ásia, fundo e majestoso em todo o trecho médio do seu curso, passando por um "cânon" ladeado por altas serras escarpadas. A correnteza carregava ex- tensas zonas de gelo, triturando-o nas corredeiras e contra as rochas isoladas, revirando-o em redemoinhos vertiginosos, levantando trechos inteiros marcados pelas escuras estradas do inverno, arrastando as tendas construídas para as caravanas que, naquela estação, se dirigem de Minusinsk a Krasnojarsk, por sobre o leito do rio congelado. Eu estava contemplando a épica retirada do gelo e sentia-me cheio de terror e de revolta olhando os macabros despojos que o Ienissei levava consigo nessa sua investida anual. Eram os cadáveres dos contra-revolucionários executados, dos oficiais, dos soldados, e dos cossacos do antigo exército do governador, general de toda a Rússia antibolchevista, o almirante Kolchak. Era o resultado do trabalho
  25. 25. sanguinário da Cheka de Minusinsk. Centenas de cadáveres decapitados, com as mãos decepadas, os rostos mutilados, os crânios esfacelados; os corpos semi-carbonizados estavam flutuando na correnteza, misturando-se aos blocos de gelo, ou giravam nos redemoinhos entre o gelo esmiuçado, sendo esmagados e dilacerados, reduzidos a uma massa informe que o rio, como se estivesse enjoado dessa tarefa, largava sobre os bancos de areia e sobre as pequenas ilhas. Percorri todo o curso médio do Ienissei, encontrando continuamente essas provas putrefatas e horríveis da obra dos bolcheviques. Numa curva do rio deparei com uma grande quantidade de carcassas de cavalos, deveriam ser pelo menos trezentas. À um quilômetro da vazante, topei com um espetáculo terrível: um grupo de salgueiros tinha sido arrastado pela correnteza e entre seus galhos arqueados, como entre os dedos de uma mão, tinha recolhido corpos humanos de todas as formas e em todas as poses, que conservavam uma aparência tão natural que a horrível visão ficou marcada para sempre na minha memória. Contei setenta cadáveres, neste grupo macabro e lastimável. Finalmente as montanhas de gelo passaram. Se- guiram-se enchentes de águas barrentas que levavam troncos de árvores, galhos e corpos e mais corpos. O pescador e seu filho embarcaram- me em sua canoa feita de tronco de choupo e empurrado com duas varas começaram a subir o rio, beirando a margem. É muito difícil subir contra uma correnteza rápida. Nas curvas mais
  26. 26. fechadas tínhamos que remar com todas as nossas forças contra a violência da água. Havia trechos nos quais só podíamos progredir agarrando-nos às rochas. Várias vezes, nos lugares onde havia corredeiras, levamos muito tempo para avançar cinco ou seis metros. Demo- ramos dois dias para chegar ao fim da viagem. Passei alguns dias na mina de ouro, onde habitavam o vigia e sua família. Eles estavam com falta de mantimentos e não podiam oferecer-me nada. Tive que recorrer novamente à minha espingarda para comer e para contribuir com a alimentação dos meus hospedeiros. Num determinado dia chegou um engenheiro agrônomo. Eu não estava me escondendo, ainda mais que durante o inverno tinha deixado a barba crescer e acredito que nem minha própria mãe conseguiria reconhecer-me. Nosso visitante era um homem muito esperto e desconfiou logo de minha identidade. Eu não o temia, porque vi logo que não era um bolchevique, e ele mais tarde confirmou isto. Acabamos descobrindo que tínhamos amigos comuns e que nossas opiniões sobre os acontecimentos também eram idênticas. Ele estava vivendo nos arredores da mina de ouro numa pequena aldeia onde supervisionava alguns trabalhos públicos. Tomamos a decisão de fugir juntos. Fazia muito tempo que eu estava pensando nisso, e meu plano de fuga estava pronto. Conhecendo bem a situação na Sibéria e também sua geografia, eu achava que o melhor caminho seria pelo Urianhai, que é a região
  27. 27. sententrional da Mongólia, perto das nascentes do Ienissei, atravessando em seguida a Mongólia para alcançar o Extremo Oriente e o Pacífico. Antes de cair o governo de Kolchak, tinha sido encarregado de estudar o Urianhai e a Mongólia ocidental: nessa época eu estudara com o maior cuidado todos os mapas da região e todas as obras a respeito. Eu tinha, também, como poderoso estimulante para conseguir o sucesso nessa audaciosa empresa, a firme determinação de sobreviver. 7 Atravessando a Rússia Soviética Pusemo-nos a caminho alguns dias mais tarde, atravessando a floresta na margem esquerda do Ienissei, indo para o sul. Evitávamos as aldeias, toda vez que fosse possível, porque estávamos preocupados em não deixar pistas que pudessem facilitar a nossa perseguição. Cada vez que éramos obrigados a entrar numa aldeia, éramos bem recebidos pelos camponeses que não desconfiavam dos nossos disfarces. Também era claro que eles detestavam os bolcheviques porque estes tinham arrasado um grande número de aldeias. Numa dessas localidades ficamos sabendo que um destacamento do exército vermelho tinha sido enviado de Minusinsk para caçar os Brancos.
  28. 28. Tivemos que nos afastar das margens do Ienissei, ficando escondidos nos bosques e nas montanhas. Passamos quinze dias nesta situação, e durante todo esse tempo, os soldados vermelhos cruzavam a região, capturando nos bosques, os oficiais desarmados. Estavam esfarrapados e escondiam-se, temendo a vin- gança dos bolcheviques. Mais tarde passamos por uma floresta e encontramos os corpos de vinte e oito oficiais enforcados nas árvores, com os rostos e os corpos mutilados. Decidimos então que jamais os bolcheviques conseguiriam pegar- nos vivos. Para isso tínhamos nossas armas e certa quantidade de cianureto de potássio. Atravessando um afluente do Ienissei descobrimos um dia uma passagem estreita e pantanosa, em cuja entrada estavam empilhados cadáveres de homens e de cavalos. Mais adiante achamos os destroços de um trenó, malas arrebentadas e papéis esparsos ao redor. Por perto jaziam roupas rasgadas e mais cadáveres. Quem seriam os infelizes? Que horrenda tragédia se desenrolara embaixo das grandes árvores? Esforçamo-nos por encontrar indícios que nos ajudassem a desvendar o mistério, examinando todos os documentos encontrados. Eram cartas oficiais endereçadas ao Estado-Maior do general Popelaieff. Chegamos à conclusão de que provavelmente uma parte do Estado-Maior havia chegado até a floresta, durante a retirada das tropas de Kolchak, tentado esconder-se; mas o inimigo estava ao encalço e eles foram presos pelos vermelhos e massacrados. Ainda um pouco
  29. 29. mais adiante deparamos com o corpo de uma infeliz mulher, e as condições em que estava diziam claramente o que se tinha passado com ela antes que um tiro piedoso a livrasse dos sofrimentos. O corpo estava deitado ao lado de um abrigo de folhas, repleto de garrafas e de latas de conservas que comprovavam a medida da orgia que tinha precedido o crime. Quanto mais nos adentrávamos nas regiões ao sul, mais podíamos constatar a amabilidade do povo, francamente hospitaleiro e inimigo dos bolcheviques. Afinal chegamos ao ponto onde terminava a floresta e começavam as estepes de Minusinsk, atravessados pela alta serra de montanhas vermelhas chamadas Kizili-Kaiya, e entremeadas de lagos salgados. Esta é a região dos túmulos, de milhares de dólmens grandes e pequenos, monumentos funerários dos primeiros dominadores desse país: pirâmides de pedra de dez metros de altura aí estão, marcando o caminho seguido por Gengis Khã para as suas conquistas, e depois por Tamerlão. Milhares de dólmens e pirâmides se enfileiram a perder, de vista, em direção ao norte. Os Tártaros moram agora nessas planícies. Eles foram saqueados pelos bolcheviques e os odeiam. Dissemos francamente a essa gente que estávamos fugindo. Eles nos deram alimentos, providenciaram guias, explicaram onde podíamos parar com segurança, e também onde esconder-nos em caso de perigo. Alguns dias mais tarde conseguimos ver, do alto da ribanceira do Ienissei, o primeiro navio a
  30. 30. vapor, o "Oriol", que de Kransnoiarsk estava levando a Minusinsk um grande número de soldados vermelhos. Chegamos rapidamente à foz do Tuba, rio que íamos beirar durante nossa viagem para o leste até chegarmos aos montes Sayan, onde começa a região do Urinhai. Esta parte da viagem, beirando o Tuba e em se- guida seu afluente, o Amyl, era por nós considerada a mais perigosa. De fato, nos vales destes dois rios encontrava-se uma população numerosa que tinha fornecido muitos soldados aos dois comissários comunistas, Schetinkin e Krafchenko. Um Tártaro ajudou-nos a passar, com os nossos cavalos, para a margem direita do Ienissei. Ao despontar do dia ele mandou-nos alguns Cossacos como guias até a foz do Tuba. Descansamos durante todo o dia, comendo groselhas e cerejas selvagens. 8 Três dias à Beira do Abismo Tínhamos passaportes falsos e iniciamos a subida pelo vale do Tuba. A cada dez ou quinze quilômetros encontrávamos grandes aldeias. Havia algumas com até seiscentas casas; toda a administração estava nas mãos dos bolcheviques, e havia espiões examinando os viajantes. Não podíamos evitar as aldeias por
  31. 31. duas razões: em primeiro lugar, continuamente encontrávamos camponeses da região, e qualquer tentativa de evitá-los levantaria suspeitas; podíamos ser presos por um revolucio- nário e mandados à Cheka de Minusinsk, o que para nós significaria o ponto final. Em segundo lugar, meu companheiro de viagem tinha documentos que o autorizavam a usar as mudas de cavalos do governo para ajudá-lo em sua viagem. Dessa forma éramos obrigados a visitar os soviéticos das aldeias, para trocar os cavalos. Tínhamos deixado nossas montarias com o Tártaro e com o Cossaco que nos ajudara na foz do Tuba, e o Cossaco levou-nos numa carreta até a aldeia mais próxima, onde conseguimos cavalos de muda. Todos os camponeses, com raras exceções, eram hostis aos bolcheviques, e faziam o possível para nos ajudar. Eu retribuía a gentileza clinicando para os doentes e meu companheiro dava conselhos práticos sobre lavoura. Os velhos dissidentes e os Cossacos eram os que mais nos ajudavam. Vez ou outra encontrávamos aldeias totalmente comunistas, mas aprendemos rapidamente a reconhecê-las. Quando entrávamos numa aldeia com os guizos dos arreios tilintando e víamos que os camponeses, sentados na soleira das casas, franziam o cenho e davam sinais de querer levantar, num burburinho que com cer- teza queria dizer "olha aí, tem mais desses diabos chegando", tínhamos absoluta certeza de que a aldeia era anticomunista e que aí
  32. 32. podíamos apear com segurança. Quando, porém, os camponeses vinham ao nosso encontro com expressões de alegria, chamando-nos de camaradas, sabíamos que estávamos no meio de inimigos, e tomávamos todas as precauções. Estas aldeias não eram mais povoadas pelos siberianos amantes da liberdade, mas por emigrantes da Ucrânia — eram bêbados e preguiçosos, vivendo em choças imundas e sórdidas, apesar de as aldeias serem cercadas pelas terras negras e férteis da estepe. Passamos momentos perigosos mas também agradáveis na grande aldeia, ou mais propriamente, na cidade de Karatuz. Em 1912 haviam sido inaugurados lá dois colégios, e a população chegou a 15.000 habitantes. Era a capital da região dos Cossacos do Ienissei do sul. Quando passamos por lá era difícil ver como já tinha sido a cidade. Os emigrantes do exército vermelho tinham chacinado a população cossaca, destruindo e queimando a maioria das casas. Naquele momento era a central do bolchevismo, da região e do distrito de Minusinsk. Tivemos que ir ao prédio do soviet para trocar nossos cavalos, e quando chegamos lá havia uma reunião da Cheka. Fomos logo cercados, examinaram nossos documentos. Não tínhamos; muita certeza da impressão que nossos documentos causaram, e procurávamos evitar a visita. Meu companheiro de viagem comentava freqüentemente, em seguida:
  33. 33. —- "É sorte nossa que, entre os bolcheviques, os incompetentes de ontem sejam os governantes de hoje e que, ao contrário, a gente culta esteja varrendo as ruas e limpando as estrebarias da cavalaria vermelha. Posso sempre conversar com um bolchevique porque ele não conhece a diferença entre desinfetado e desafetado e nem entre antracite e apendicite; encontro sempre um jeito de fazê-lo concordar com o meu racio- cínio, e até convencê-lo a não me executar." Conseguimos um meio para convencer os membros da Cheka a dar-nos tudo o que estávamos precisando. Executamos para eles um magnífico projeto para organizar a região: compreendia a construção de pontes e estradas que facilitariam o escoamento das madeiras do Urianhai, do ouro e do ferro dos montes Sayan, do gado e das peles da Mongólia. Este empreendimento criador seria um verdadeiro triunfo para o governo dos soviets! A composição dessa ode lírica tomou-nos mais ou menos uma hora e depois disso, os membros da Cheka esqueceram nossos papéis, deram-nos cavalos novos, içaram nossa bagagem na carreta e nos desejaram boa sorte. Foi a última das nossas provações dentro das fronteiras da Rússia. A sorte nos acompanhou quando saímos do vale do Amyl. Na passagem da barreira encontramos um membro da milícia de Karatuz. Carregava na sua carreta alguns fuzis e pistolas automáticas, na maioria Mauser, para armar um destacamento que devia adentrar-se no Urianhai à procura de alguns oficiais cossacos que causavam muitos
  34. 34. aborrecimentos aos bolcheviques. Ficamos alvoroçados. Poderíamos cruzar facilmente com aquela expedição e não tínhamos certeza de que os soldados aceitariam nossas explicações da mesma forma que os membros da Cheka de Karatuz. Com muito tato tentamos interrogar o homem a respeito da rota da expedição. Na primeira aldeia entramos na mesma casa que ele escolheu. Tive que abrir minha alma e surpreen- di-me com o olhar de admiração que ele fixou sobre o conteúdo. — O que lhe causa tanta admiração? perguntei. Ele murmurou: — As calças... as calças... Meus amigos presentearam-me com calças de montaria novas, de espesso e belo pano preto. O soldado olhava fascinado para as calças, sem disfarçar sua admiração. — Se você realmente não tem outra... falei, re- fletindo como podia tirar proveito da situação. — Não tenho, não, explicou entristecido, os soviets não nos fornecem calças. Eles disseram que também não têm. E as minhas estão completamente gastas. Veja só... Assim falando suspendeu um lado da capa, e não consegui entender como o homem conseguisse montar com calças que tinham mais rasgos que pano. — Vende-me as calças — suplicou. — Impossível — retruquei decidido — preciso delas. Ele pensou um pouco, depois aproximou-se de mim:
  35. 35. — Vamos sair um pouco, aqui não podemos conversar. Do lado de fora ele virou-se para mim: — Ouça. Quero saber sua opinião. Vocês vão ao Urianhai e o dinheiro soviético não tem valor naquela região. Vocês não poderão comprar nada, ao passo que há, por aí, grande quantidade de zibelinas, arminhos, além do ouro em pó que o povo da terra gostaria de dar em troca de fuzis e de cartuchos. Vocês já tem seus fuzis. Dar-lhe- ei mais um com uma certa quantidade de cartuchos, em troca das calças. — Nós não estamos precisando de mais armas. Nossos documentos são uma proteção suficiente — respondi, fingindo não entender o que ele estava insinuando. — Não se trata disso — interrompeu — eu queria dizer que vocês podem trocar o fuzil por peles ou por ouro. Quero dar-lhe o fuzil já. — Desse jeito, um fuzil é pouca coisa em troca de um par de calças. Atualmente você não conseguiria encontrar calças desse tipo em toda a Rússia. Aliás, a Rússia toda anda sem calças, e seu fuzil serve apenas para trocá-lo por uma pele de zibelina. Uma pele não dá para nada. Aos poucos, regateando, consegui o que eu queria. O miliciano ficou com as calças e eu recebi um fuzil com cem cartuchos e duas pistolas automáticas com quarenta cartuchos cada uma. Estávamos bem armados agora, e podíamos defender-nos. Consegui até a con- vencer o feliz dono das minhas calças em nos dar
  36. 36. uma licença de porte de armas. Estávamos, portanto, com a força e a lei do nosso lado. Numa aldeia afastada, contratamos um guia e compramos biscoitos, carne, sal, manteiga e, após descansar vinte e quatro horas, reiniciamos nossa viagem, subindo o Amyl em direção dos montes Sayan, na fronteira de Urianhai. Esperávamos, lá chegando, não ter mais que reencontrar os bolcheirques, por mais inteligente ou estúpidos que fossem. Três dias após ter deixado a foz do Tuba, estáva mos atravessando a última aldeia na proximidade da fronteira com o Urianhai: foram três dias entre pessoas sem fé nem lei, entre perigos contínuos, e com a possibilidade sempre presente de encontrar morte súbita. A vontade ferrenha, a presença de espírito e a perseve- rança sem limites conseguiram proteger-nos de todos os perigos e evitar que caíssemos no abismo, como tantos outros infelizes que não lograram, na sua escalada aos cumes da liberdade, aquilo que agora estávamos desfru- tando. Talvez lhes faltassem vontade ou presença de espírito, talvez não tivessem inspiração poética para cantar hinos de glória às pontes, às estradas e às minas de ouro, ou talvez simplesmente não tivessem calças de reserva. 9 Rumo aos Montes Sayan e a Liberdade
  37. 37. Estávamos cercados por espessas matas virgens. Nosso caminho serpenteava, quase invisível, entre a erva alta e amarelecida entre moitas e árvores que perdiam suas primeiras folhas multicoloridas. Estávamos seguindo o traçado da velha estrada do vale do Amyl que já tinha sido esquecida. Vinte e cinco anos antes, por esta estrada, passavam os mantimentos, as máquinas e os trabalhadores em direção das minas de ouro que agora estavam abandonadas. A estrada seguia o curso sinuoso do Amyl que naquele ponto era largo e rápido, em seguida mergulhava na mata fechada, contornava pântanos repletos de perigosos atoleiros, e continuava entre matas, montanhas e pastos. Nosso guia devia ter opinião formada a respeito das nossas verdadeiras intenções, e, às vezes, olhando preocupado para o solo, dizia: Três cavaleiros que montavam cavalos ferrados passaram por aqui. Talvez fossem soldados. Mas ele voltava a acalmar-se quando via que o rastro saía do caminho para voltar logo em seguida. — Eles não foram para mais longe — observava maliciosamente e sorria. — Que lástima! — disse-lhe eu — teria sido agra- dável viajar juntos. Contudo o camponês não respondeu e cofiou a barba, rindo. Era evidente que nossas afirmações não o convenciam. Passamos perto de uma mina de ouro que, em tempos idos, estava organizada e equipada da forma mais racional; agora, porém, estava
  38. 38. abandonada e os prédios todos destruídos. Os bolcheviques tinham levado as máquinas, os mantimentos e também parte dos barracos. Ao lado encontrava-se uma igreja triste e sombria com as janelas quebradas; o crucifixo tinha desaparecido e o campanário estava queimado, típico e lastimável símbolo da Rússia daqueles dias. O vigia e sua família, quase mortos de fome, viviam na mina, expostos a privações e perigos contínuos. Narraram que naquela região cheia de florestas um bando de vermelhos percorria as aldeias, roubando tudo que podiam levar da mina e extraíram o que podiam, na parte mais rica; cheios de pepitas de ouro eles iam beber e jogar nos botequins das aldeias próximas onde os camponeses destilavam vodka de batatas e bagos que vendiam de contrabando a peso de ouro. Se tivéssemos a desdita de encontrar o tal bando, seria nosso fim. Três dias mais tarde atravessamos a parte setentrional da cordilheira do Sayan, e passando o rio que marca a fronteira e que é chamado Algiak, entramos no território de Urianhai. Estávamos tomando chá quando ouvimos a filha de nosso hospedeiro gritar: — Aí vem os Soyotes! Quatro homens armados de fuzis e com chapéus pontudos entraram rapidamente. Mendé, disseram; a seguir passaram a examinar- nos sem nenhuma cerimônia. Não houve botão ou costura, ou objeto de nosso equipamento, que escapasse à sua curiosidade. Em seguida um deles que parecia ser o "Merin", ou governador
  39. 39. do lugarejo, começou a fazer perguntas para inteirar-se de nossas opiniões políticas. Vendo que estávamos criticando os bolcheviques, ficou muito satisfeito e começou a conversar sem rodeios. — Vocês são boa gente. Vocês não gostam dos bolcheviques e nós vamos ajudar vocês. Agradeci, e ofereci-lhe uma grossa corda de seda que usava como cinto. Eles saíram antes do anoitecer prometendo que voltariam na manhã seguinte. A noite estava chegando. Fomos até o relvado para cuidar de nossos extenuados cavalos que lá estavam pastando e voltamos. Estávamos conversando alegremente com nosso amável hospedeiro quando, de repente, ouvimos barulho de cascos de cavalos no pátio e vozes roucas; a seguir cinco soldados vermelhos, armados de sabres e fuzis, entraram ruidosamente. Senti um calafrio e meu coração disparou. Sabíamos que os vermelhos eram nossos inimigos, e esses homens tinham estrelas vermelhas nos barretes de astracã e um triângulo sobre a manga. Eram membros do destacamento que estava perseguindo os oficiais cossacos. Olhando-nos de esguelha tiraram as capas e sentaram. Começamos a conversar com eles, explicando que estávamos viajando a procura de pontes, estradas e minas de ouro. Ficamos sabendo que o comandante estava por chegar com mais de sete homens, e que eles queriam contratar nosso hospedeiro como guia para chegar até o Seybi, crendo que ali estavam escondidos os oficiais cossacos. Dissemos que
  40. 40. nos considerávamos com sorte porque íamos prosseguir nossa viagem em companhia dêles. Um dos soldados respondeu que isso dependia do camarada-oficial. Enquanto estávamos conversando, chegou o governador soyote. Ele observou atentamente os recém-chegados e perguntou: — Por que vocês tiraram os cavalos bons dos Soyotes e deixaram os seus que não valem nada? Os soldados começaram a rir. — Lembrem-se que estão num país estrangeiro — falou o Soyote com voz ameaçadora. — Por Deus e pelo diabo! — gritou um dos ofi- ciais. Mas o Soyote muito calmo sentou à mesa e aceitou uma xícara de chá que nossa hospedeira estava-lhe oferecendo. A conversa cessou. O Soyote tomou seu chá, fumou seu comprido cachimbo e, levantando-se, falou: — Se amanhã de manhã os cavalos não forem devolvidos a seus donos, viremos buscá-los. Logo em seguida foi-se embora. Percebi que os soldados ficaram preocupados. Um deles afastou-se para levar uma mensagem e os outros ficaram em silêncio e cabisbaixos. Durante a noite chegou o oficial com os sete soldados. Depois de ouvir o que ocorrera, franziu o cenho. — Que enrascada — disse. — Teremos que atra- vessar um pântano, e aí atrás de cada árvore haverá um Soyote de tocaia. Ele parecia realmente aborrecido e por essa razão não prestou muita atenção aos nossos
  41. 41. papéis. Tentei acalmá-lo dizendo que ia ajeitar as coisas com os Soyotes, no dia seguinte. Este oficial era um brutamontes simplório, criatura grosseira e sem inteligência, cuja ambição era prender os oficiais cossacos para ser promovido, e temia que os Soyotes não o deixassem alcançar o Seybi. Saímos juntos com o destacamento vermelho ao raiar do dia. Depois de percorrer cerca de quinze quilômetros vimos dois cavaleiros atrás de algumas moitas. Eram os Soyotes. Levavam a tiracolo seus fuzis. — Espere por mim — disse eu ao oficial. — Quero ver se consigo conversar com eles. Galopei rapidamente naquela direção. Um dos cavaleiros era o governador dos Soyotes que me disse: — Fique atrás do destacamento e dê-nos uma mão. — Está certo, respondi-lhe. — Mas fique falando um pouco comigo para eles pensarem que estamos negociando um acordo. A seguir apertei a mão do Soyote e voltei para perto dos soldados. — Está tudo combinado — gritei. — Podemos continuar nossa marcha. Os Soyotes não se oporão. Continuamos avançado, e quando estávamos atravessando um grande pasto pudemos ver, bem longe, dois Soyotes galopando a rédeas soltas, subindo pela encosta da montanha. Aos poucos completei a manobra necessária para ficar com meu companheiro atrás do destaca-
  42. 42. mento. Só havia um soldado atrás de nós, de aparência idiota e visivelmente hostil. Tive o tempo de soprar ao ouvido de meu companheiro uma única palavra: "mauser" e percebi que estava cautelosamente abrindo seu bolso e livrando a coronha da grossa pistola. Não demorei muito a entender porque os soldados, apesar de serem excelentes mateiros, não queriam tentar o caminho até o Seybi sem um guia. Toda a região entre o Algiak e o Seybi é formada por estreitas serras, separadas por vales profundos e pantanosos. Era um lugar maldito e perigoso. Os cavalos afundavam na lama, avançando com dificuldade, e depois caindo e arrastando seus cavaleiros. Mas adiante, os cavaleiros montados estavam com a água até os joelhos. Meu cavalo sumiu, peitoril e cabeça, na lama vermelha e fluida, e tivemos um trabalho enorme para livrá-lo. O cavalo do oficial arrastou seu cavaleiro na queda O oficial feriu-se na testa, batendo numa pedra. Meu companheiro feriu-se no joelho batendo contra uma árvores. Outros homens caíram, ferindo-se. Os cavalos fungavam ruidosamente. Por perto ouviu-se o crocitar de um corvo. Três disparos ecoaram de repente. O ruído não foi muito mais intenso que a detonação de uma carabina Flobert, mas os tiros eram reais porque dois soldados e o oficial caíram ao solo. Os soldados apontavam seus fuzis, olhando em volta à procura do inimigo. Logo mais quatro tombaram e percebi que o soldado brutamontes da retaguarda estava apontando a arma em
  43. 43. minha direção. Minha pistola Mauser, porém, foi mais rápida. — Atirem! gritei, e entramos no tiroteiro. Em breve o relvado estava repleto de Soyotes que revistavam os mortos, dividiam os despojos e recuperavam seus cavalos. Num certo tipo de guerra não é aconselhável permitir que o inimigo retome as hostilidades com forças esmagadoras. Depois de uma hora de caminho difícil começamos a subir a montanha e em pouco tempo alcançamos um planalto repleto de árvores. — Parece-me que os Soyotes não são totalmente pacíficos — falei enquanto me aproximava do governador. Ele me encarou com um olhar severo. — Eles não foram mortos pelos Soyotes. Era a verdade. Os bolcheviques tinham sido mor- tos por Tártaros de Abakan que usavam trajes dos Soyotes. Esses tártaros estavam atravessando o Urianhai porque estavam levando rebanhos de vacas e cavalos da Rússia para a Mongólia. Eram acompanhados por um guia e intérprete que era um Calmuco budista. No dia seguinte aproximávamo-nos de uma pequena colônia russa quando notamos alguns cavaleiros nos espreitando num bosque. Um jovem tártaro do nosso grupo dirigiu-se corajosamente para aquela direção, mas voltou logo ao galope e falou-nos com um largo sorriso: — Está tudo bem, podemos continuar! Seguimos então por uma bela e larga estrada beirando uma cerca alta que demarcava um
  44. 44. pasto onde vimos um rebanho de "izubr". Os colonos criam esses alces por causa dos chifres que eles vendem aos mercadores de remédios do Tibete e da China, quando ainda estão recobertos por sua fina película e recebem por eles um preço muito alto. Os chifres, depois de fervidos e secos, são chamados "panti" e são vendidos aos chineses por muito dinheiro. Os colonos estavam nos esperando, muito assus- tados: — Graças a Deus! gritou nossa hospedeira. Está- vamos já acreditando que... mas não continuou e olhou para o marido. 10 A Batalha do Seybi Viver continuamente em contato com o perigo desenvolve o senso de vigília e a capacidade de percepção. Apesar de estarmos muito cansados, não retiramos nossas roupas e deixamos os cavalos selados. Coloquei minha Mauser no bolso inteiror da capa e comecei a olhar em volta, examinando as pessoas. Logo descobri que havia uma coronha de espingarda aparecendo embaixo dos travesseiros que estavam amontoados em cima da grande cama dos camponeses. Percebi que os empregados do meu hospedeiro entravam continuamente na sala, pedindo ordens. Não pareciam simples camponeses, apesar das longas e sujas barbas. Pareciam exa- minar-me com muita atenção e não deixaram
  45. 45. meu companheiro e a mim a sós com nosso hospedeiro. Não conseguíamos entender o motivo disso. O governador dos Soyotes entrou e observando que o ambiente estava um pouco tenso, começou a explicar ao nosso hospedeiro tudo que ele sabia a nosso respeito, falando no idioma dos Soyotes. — Peço desculpas — disse-nos o colono em se- guida — mas vocês devem saber que hoje em dia para cada homem honesto há, pelo menos, dez mil ladrões e assassinos. Depois disso a conversa foi mais fácil. Ficamos sabendo que nosso hospedeiro fora avisado de que um bando de bolcheviques iria atacá-lo durante a expedição à procura dos oficiais cossacos, já que estes ficavam na casa dele de vez em quando. Sabia, também, que um destacamento tinha desaparecido. O ancião, todavia, não se acalmou com as informações que pudemos dar-lhe, porque sabia que um forte grupo de bolcheviques estava chegando da fronteira do distrito de Usinsky, procurando os tártaros que estavam fugindo com seu gado para a Mongólia. — Receamos vê-los chegar a qualquer momento — disse-nos. Meu Soyote acaba de dizer-me que os vermelhos estão atravessando o Seybi e que os tártaros estão prontos para iniciar o combate. Saímos em seguida para verificar as selas e as albardas, e conduzimos os cavalos para um matagal, não muito afastado, para escondê-los. Nossos fuzis e nossas pistolas estavam em ordem e tomamos nossas posições dentro do
  46. 46. recinto, esperando a chegada do inimigo comum. Esperamos nervosamente durante uma hora. Enfim um trabalhador chegou correndo do bos- que, e falou num murmúrio: — Estão atravessando nosso pântano... O com- bate já vai começar. Confirmando essas palavras, veio do bosque o som de um disparo, seguido por intensa fuzilaria. A luta aproximava-se da casa. Não demoramos a ouvir o pisotear dos cascos dos cavalos e os gritos selvagens dos soldados. Logo três deles entraram na casa para proteger-se dos tártaros, cujos disparos varriam a estrada de um lado ao outro. Proferindo blasfêmias, ura deles atirou em nosso hospedeiro que vacilou e caiu de joelhos, enquanto procurava com a mão a espingarda oculta embaixo dos travesseiros. — Quem são vocês? perguntou outro soldado encarando-nos e apontando seu fuzil. Respondemos acertando-o com as pistolas e somente o soldado que estava mais recuado escapou, saindo pela porta: um dos tra- balhadores, porém, o estrangulou no pátio. O combate continuava. Ouvimos soldados gritando e pedindo reforços. Os vermelhos estavam entrincheirados perto da vala, à margem da estrada, a trezentos passos da casa, e respondiam aos tiros dos tártaros que os cercavam. Alguns soldados correram em direção da casa para ajudar seus camaradas, porém a essas altura ouvimos uma fuzilaria ordenada. Os empregados de nosso hospedeiro atiraram com calma e precisão como se estivessem nas
  47. 47. manobras. Cinco soldados vermelhos jaziam na estrada, e os outros continuavam entocados na vala. Em seguida, vimos que eles estavam rastejando para a extremidade da vala perto do bosque, porque lá estavam seus cavalos. Os tiros estavam ficando mais distantes, e logo vimos cinqüenta ou sessenta tártaros perseguindo os vermelhos pelo relvado. Ficamos dois dias à margem do Seybi, descansando. Os oito trabalhadores de nosso hospedeiro eram, na realidade, oficiais que estavam ocultando-se. Pediram licença para nos acompanhar no que consentimos. Quando eu e meu companheiro continuamos a viagem, tínhamos uma guarda de oito oficiais armados e três cavalos de carga. Passamos por um estupendo vale entre o Seybi e o Ut. No centro de uma relva vimos uma grande tenda com dois abrigos de galhos e, em volta, um grupo de cinqüenta ou sessenta pessoas. Quando perceberam que estávamos saindo da floresta, todos vieram alegremente nos dar as boas- vindas. Tratava-se de um grande campo de oficiais e soldados russos fugidos da Sibéria e que tinham sido hospedados pelos colonos e pelos camponeses ricos do Urianhai. — Que é que vocês fazem aqui? — perguntamos, muito surpreendidos. — Será que vocês não sabem o que está aconte- cendo? — falou um homem de idade cujo nome era Coronel Ostrowski. No Urianhai o comissário militar ordenou a mobilização de todos os homens acima de vinte e oito anos e estes
  48. 48. milicianos estão avançando de todas as direções para a cidade de Belotzarsk. Eles roubam tudo que é dos colonos e dos camponeses e matam todos aqueles que caem em suas mãos. Estamos aqui para nos esconder desses bandos. No acampamento havia dezesseis fuzis e três granadas, que pertenciam a um tártaro que estava viajando com seu guia Calmuco e ia ver seu gado na Mongólia ocidental. Explicamos as razões de nossa viagem, e como tínhamos a intenção de atravessar a Mongólia, para chegar ao porto do Pacífico mais próximo. Os oficiais disseram que queriam acompanhar-nos e eu consenti. Saímos em patrulha e vimos que não havia soldados perto da casa do camponês que devia ajudar-nos a atravessar o pequeno Ienissei. Pusemo-nos a caminho depressa, para sair o mais rapidamente possível daquela zona perigosa do Ienissei e penetrar na floresta que havia além. Começou a nevar, mas os flocos derretiam ao contato como o solo. Antes que chegasse a noite, começou a soprar um vento gelado do norte e que trouxe uma tempestade de neve. Chegamos ao rio com a noite avançada. O colono recebeu-nos com simpatia e ofereceu- se para nos transportar para a outra margem, no seu barco. Os cavalos teriam que passar a nado apesar dos blocos de gelo que ainda boiavam no rio. Enquanto conversávamos vi um dos braçais do camponês, um moço ruivo e vesgo, que prestava muita atenção, andando continuamente
  49. 49. ao nosso redor. Sumiu de repente. O camponês, percebendo isso, falou temeroso: — Acho que ele correu para a aldeia e vai trazer os soldados. Vocês devem atravessar o rio sem demora. Começou, então, a mais terrível noite de nossa viagem. Pedimos ao camponês que pusesse no barco somente os alimentos e nossa munição; era nossa intenção atravessar a nado junto aos cavalos, para evitar a perda de tempo em repetidas passagens. Naquele ponto o Ienissei tem aproximadamente trezentos metros de lar- gura. A correnteza é muito forte e as margens são escarpadas. A noite era negra, sem sequer uma estrela no céu. O vento soprava forte e a neve fustigava-nos o rosto Na nossa frente a água escorria escura e rápida, levando finas e afiadas chapas de gelo que flutuavam tumultuo- samente, chocando-se e quebrando-se nos redemoinhos. Meu cavalo recusou-se algum tempo a entrar na água, empinando e resistindo. Fustiguei-o com toda minha força no pescoço e, finalmente, gemendo, jogou-se no rio. Ambos afundamos e tive dificuldade para manter-me na sela. Logo ficamos alguns metros da ribanceira. Meu cavalo esticava a cabeça e o pescoço no esforço de nadar e fungava ruidosamente. Eu percebia os movimentos de suas pernas que remexiam na água e tremiam pelo esforço. Chegamos ao meio do rio onde a correnteza era tão forte que começou a arrastar-nos. Ouvir, dentro da noite, os gritos dos meus companheiros e os gemidos de pavor e
  50. 50. sofrimento dos cavalos. A água gelada chegava- me até o peito. As chapas de gelo flutuantes batiam em mim, enquanto a água esguichava no meu rosto, e eu não tinha sequer tempo de olhar em volta, ou me lembrar que fazia frio. Estava dominado pela vontade animal de viver. Preocupava-me somente a possibilidade de meu cavalo não agüentar a luta contra a correnteza, e eu estaria perdido. Minha atenção estava concentrada em meu cavalo, em seus esforços e em seu medo. Ouvi quando deu um gemido e tive a impressão de que estivesse afundando. Pensei que a água estivesse cobrindo-lhe as ventas, porque não o ouvia mais fungar com tanta freqüência. Um volumoso pedaço de gelo bateu contra sua cabeça fazendo com que mudasse de direção, e agora estava deixando-se levar pela correnteza. Com muito esforço dirigi-o para a margem, puxando as rédeas, mas estava percebendo que ele estava perdendo as forças. Repetidamente sua cabeça enfiou-se na água. Não havia alternativas, e larguei a sela. Agarrando-a com a mão esquerda, comecei a nadar com a direita ao lado do meu animal, animando-o com a minha voz. Ele flutuava, os beiços entreabertos e os dentes cerrados, e seus olhos expressavam terror. Depois que saí da sela ele voltou a nadar mais calmo e mais rápido. Finalmente ouvi os cascos ferrados bater em pedras. Também os meus companheiros estavam chegando à ribanceira, um após outro. Os cavalos bem treinados conseguiram levar seus cavaleiros para a outra margem do rio. Mais
  51. 51. longe, na vazante, o camponês estava chegando com seu barco e nossos pertences. Sem perder tempo carregamos tudo nas albardas e prosseguimos viagem. Continuamos andando durante o dia todo sob temperatura de zero grau até menos. Alcançamos as montanhas cobertas de florestas de lárices ao calar da noite; finalmente fizemos grandes fogueiras, secando nossas roupas e aquecendo-nos. Os cavalos famintos não qui- seram sair de perto do fogo e permaneceram atrás de nós, dormindo com as cabeças baixas. No dia seguinte, logo cedo, alguns Soyotes chegaram até nosso acampamento. — Ulan? (vermelho) —- perguntou um deles. — Não, não! os companheiros gritaram. — Tzagan? (branco) — insistiu. — Sim, sim — disse o tártaro — todos eles são brancos. — Mendé, mendé! cumprimentaram os Soyotes e, tomando uma xícara de chá, eles começaram a dar-nos importantes e úteis informações. Ficamos sabendo que os milicianos vermelhos, saindo das montanhas de Tannu Ola, estavam agora ocupando toda a fronteira da Mongólia para prender os Soyotes e os camponeses que estavam levando para lá seu gado. Não era mais possível passar pelas montanhas de Tannu Ola. Dessa forma achei que somente sobrava uma possibilidade: ir para sudeste, atravessar o vale pantanoso do Buret Hei e alcançar a margem sul do Lago Kosogol que se encontrava no território da Mongólia. As notícias realmente eram
  52. 52. péssimas. O primeiro posto mongol do Samgaltai estava a apenas noventa quilômetros, ao passo que o Lago Kosogol encontrava-se a uma distância de pelo menos quatrocentos e cinqüenta quilômetros. Nossos cavalos já haviam percorrido mais de novecentos quilômetros por péssimos caminhos, sem descanso e freqüentemente sem ração suficiente e eu acreditava que eles não venceriam mais aquela distância. Analisando bem a situação decidi, porém, não tentar a passagem pelos montes Tannu Ola com meus novos companheiros. Eram homens moralmente cansados, nervosos, maltrapilhos, mal armados, e havia alguns que nem arma possuíam. Eu sabia que não havia coisa pior, num combate, do que ter homens desarmados. Eles podiam ser fácil presa do pânico, e perdendo a cabeça poderiam pôr-nos também a perder. Após consultar os meus amigos, decidi tomar o rumo do lago Kosogol. Todos concordaram. Preparamos uma refeição de sopa com grandes nacos de carne, comemos biscoitos, bebemos chá e partimos novamente. Perto das duas da tarde começamos a ver as montanhas na nossa frente. Eram os contrafortes do nordeste do Tannu Ola, e atrás deles encontrava-se o vale do Buret Hei. 11
  53. 53. A Barreira Vermelha Num vale encaixado entre duas serras escarpadas descobrimos um rebanho de "yacks" e de vacas: dez Soyotes montados estavam levando-o rapidamente para o norte. Eles aproximaram-se cautelosamente, mas acabaram por contar que o Noyon (príncipe) de Todji tinha ordenado que levassem o gado pelo Buret Hei até a Mongólia, pois estava preocupado em perdê-lo por obra dos vermelhos. Durante a viagem souberam por caçadores Soyotes que aquela região do Tannu Ola estava ocupada por milicianos vindos de Vladimirovka, e tiveram que voltar novamente. Após perguntar onde estava a vanguarda dos vermelhos e quantos havia pela montanha, mandamos o tártaro e o Calmuco fazer um reconhecimento, enquanto fazíamos preparativos para prosseguir a marcha, envolvendo os cascos dos cavalos nas nossas camisas e amarrando seus focinhos com correias é pedaços de cordas para que não relinchassem. Os nossos batedores voltaram quando já era noite informando-nos que havia uns trinta milicianos acampados a dez quilômetros, aquartelados em duas "yurtas" de Soyotes. Na colina havia dois postos avançados, um com dois homens, o outro com três. Entre os postos avançados e o acampamento havia mil e oitocentos metros. Nossa estrada passava entre os dois postos de sentinelas. Eles podiam ser vistos claramente do alto da montanha de onde
  54. 54. seriam facilmente alvejados. Chegando no alto, separei-me do grupo levando comigo meu companheiro, o tártaro, o Calmuco e dois jovens oficiais. Já no alto da montanha percebi, a quinhentos metros à frente, duas fogueiras. Ao lado de cada fogueira havia um soldado armado de fuzil, e os outros estavam dormindo. Não estava nas minhas previsões envolver-me numa luta com os milicianos; precisávamos, porém, eliminar os dois postos avançados, evitando tiros, caso contrário jamais conseguiríamos superar aquele trecho. Eu não acreditava que os vermelhos conseguissem mais tarde encontrar nosso rastro porque o solo estava sulcado de marcas de cavalos e vacas. — Escolhi aquele — disse meu companheiro, ace- nando para a sentinela da esquerda. Os restantes ocupar-se-iam do outro posto. Saí rastejando entre as moitas atrás de meu companheiro para auxiliá-lo em caso de necessidade, porém, confesso que não me preocupava com ele. Ele media aproxima- damente 2 metros de altura e era tão forte que, quando um cavalo se recusava a aceitar o freio, ele punha um braço em volta do pescoço do animal e chutando suas pernas, jogava-o ao chão, quando seria mais fácil arriá-lo. Chegando a cem passos de distância, ocultei-me atrás de um arbusto para observar. Podia ver claramente o fogo e a sentinela sonolenta. O soldado estava sentado com o fuzil entre as pernas. Seu colega dormia imóvel ao lado. Suas botas de feltro branco reluziam na escuridão. Não vi meu
  55. 55. companheiro durante algum tempo. Ao redor da fogueira tudo era calma. De repente, do outro posto, chegaram gritos abafados; a seguir, silêncio total. A sentinela levantou vagarosamente a cabeça. Naquele instante a gigantesca figura do meu companheiro surgiu entre mim e o fogo; apanhou o soldado pelo pescoço, e logo as pernas deste passaram no ar, reluzindo, e seu corpo voou além das brasas. Meu companheiro estava invisível, porém logo reapareceu e aplicou com o fuzil uma violenta coronhada no crânio do vermelho. Depois da batida surda, o silêncio. Meu companheiro voltou-se para o meu lado e sorriu, confuso: — Está feito. Por Deus e pelo diabo! Quando era garoto, minha mãe queria fazer de mim um padre. Cresci e formei-me engenheiro agrônomo... só para estrangular gente ou esfacelar crânios. Que coisa estúpida, essa revolução! Ele cuspiu de raiva e nojo, e depois acendeu o cachimbo. Também o outro pequeno posto estava liquidado. Naquela noite chegamos até o cume do Tannu Ola descendo depois para um vale coberto de moitas espessas ligadas por uma rede de riachos. Eram as nascentes do Buret Hai. A uma hora da madrugada paramos e deixamos nossos cavalos pastar porque a relva era boa. Acreditávamos estar em segurança por uma série de razões: na montanha podíamos ver grupos de renas e "yacks", e alguns Soyotes recém-chegados confirmaram que tudo estava
  56. 56. calmo. Eles não tinham visto soldados vermelhos além das montanhas do Tannu Ola. Demos um pacote de chá aos Soyotes e eles saíram felizes e convencidos que éramos todos "Tzagan", boa gente. Enquanto nossos cavalos descansavam e pastavam no capim alto, sentamos em volta da fogueira para traçar nossa rota. Logo estávamos divididos em dois grupos, discutindo duas opções: um grupo, chefiado por um coronel, juntamente com mais quatro oficiais, estava tão impressionado pela ausência de vermelhos ao sul do Tannu Ola que estava decidido a continuar para oeste até Kobdo; de lá eles pretendiam chegar às campinas ao longo do Emil, onde as autoridades chinesas haviam internado seis mil homens do General Bakitch que adentraram o território mongol. Meu companheiro, eu e mais dezesseis oficiais preferíamos seguir a rota preestabelecida, passando pelo Lago Kosogol e alcançar o Extremo Oriente. Já que nenhuma das opiniões dos dois grupos conseguiu prevalecer, decidimos separar-nos. Ao meio-dia do dia seguinte, fizemos as despedidas. Nosso grupo, de dezoito, passou por numerosos combates e dificuldades de toda espécie, e tendo seis perdido a vida. Todavia, aqueles que chegaram até o final da viagem estavam tão unidos pelos laços da devoção mútua, reforçados pela lembrança dos perigos afrontados em lutas onde nossa vida esteve em jogo, que mantivemos depois os mais cordiais sentimentos de amizade. O outro grupo, chefiado pelo Coronel
  57. 57. Jukoff, desapareceu. Eles tiveram que defrontar- se com um forte contingente da cavalaria vermelha e morreram após dois combates. Somente dois oficiais conseguiram escapar ilesos. Relataram os tristes fatos e narraram-nos todos os detalhes da refrega quando os encontrei em Urga, quatro meses mais tarde. Nosso grupo, composto de dezoito cavaleiros com cinco cavalos de carga, subiu o vale do Buret Hei. Chafurdamos nos pântanos, passamos a vau de inúmeros riachos barrentos, os ventos frios nos regelando, andamos encharcados de neve e de chuvas geladas. Continuamos, porém, marchando em direção da extremidade sul do Lago Kosogol. Nosso guia tártaro dirigia-nos seguramente, seguindo as pistas marcadas pelas passagens de inúmeros rebanhos entre o Urianhai e a Mongólia. 12 No País da Paz Eterna Os Soyotes, habitantes do Urianhai, orgulham-se de ser os verdadeiros budistas e de ter mantido pura a doutrina do santo Rama e a sabedoria profunda de Sakia-Muni. Eles são inimigos jurados da guerra e do derramamento de sangue. No século XIII preferiram emigrar, refugiando-se ao norte para não combater ou tornar-se uma parte do império sanguinário do conquistador Gengis Khã, que queria incorporar no seu
  58. 58. exército aqueles maravilhosos cavaleiros e fabulosos arqueiros. Durante o transcorrer de sua história, os Soyotes emigraram três vezes para o norte a fim de evitar a guerra, e agora ninguém pode dizer que as mãos dos Soyotes tenham alguma vez se tingido de sangue humano. Aos males da guerra eles opuseram seu grande amor à paz. Até os severos administradores chineses não conseguiram aplicar todo o rigor de suas leis implacáveis naquele país de paz. Os Soyotes se portaram da mesma forma com os russos quando, sedentos de sangue e de crimes, eles invadiram o país. Avançamos rapidamente seguindo o sinuoso Buret Hei e, após dois dias, chegamos às colinas que ligam os vales do Buret Hei e do Kharga. O caminho era íngreme; encontrávamos troncos caídos e, apesar de incrível, também pântanos onde os cavalos chafurdavam de forma lastimável. Enfrentamos trechos perigosos, onde as pedras rolavam por sob os cascos dos cavalos, rolando no abismo que beirávamos. Os cavalos cansavam-se, rapidamente, passando por essa moraina ali deixada por alguma geleira pré- histórica. Às vezes o caminho serpenteava à beira do precipício, e os cavalos ocasionavam grandes deslizamentos de areia e pedras. Lembro-me de uma montanha inteiramente coberta por essas areias movediças. Tivemos que apear e andar aproximadamente dois quilômetros nas areias escorregadiças, segurando a rédea na mão, às vezes, afundando até o joelho e deslizando até a beira do abismo.
  59. 59. Qualquer movimento em falso nos teria levado ao fundo. Exatamente isso sucedeu com um cavalo de carga. Preso até o ventre nas areias movediças, não conseguiu mudar de direção, e foi escorregando até à beira do abismo, onde caiu. Ouvimos os barulhos dos galhos que se partiam em sua queda. Conseguimos descer com grandes dificuldades e salvar a albarda e nossas bagagens. Mais adiante fomos obrigados a abandonar outro cavalo de carga que vinha conosco desde a fronteira norte do Urianhai. De início, tiramos-lhe parte da carga, a seguir toda ela; de nada adiantou, nem mesmo as ameaças, para que ele se locomovesse. Ficou cabisbaixo e imóvel, visivelmente esgotado; estava evidente que o cavalo chegara ao limite extremo de resistência. Alguns Soyotes que estavam conosco quiseram examiná-lo; apalparam os músculos das pernas dianteiras e traseiras, seguraram sua cabeça com as mãos e sacudiram-na de um lado para o outro; depois disseram: — O cavalo não pode ir mais longe. Seu cérebro está insensível. Não tivemos alternativa senão abandoná-lo. Naquela noite chegamos a um planalto com bos- ques de lárices e presenciamos a uma maravilhosa mudança de panorama. Descobrimos algumas "yurtas" de caçadores Soyotes, coberta de cortiça e não de feltro como já estávamos acostumados a ver. Dez homens armados de fuzis vieram rapidamente ao nosso encontro. Eles nos informaram que o príncipe de Soldjak não permitia a ninguém passar por ali
  60. 60. porque receava que ladrões e assassinos entrassem nos seus domínios. — Voltem para o lugar de onde vieram — disse- ram, e seus olhos espelhavam medo. Não respondi, mas acabei com uma discussão entre um velho Soyote e um de meus oficiais. Apontei com o dedo para um riacho que corria no vale e perguntei qual era seu nome. — Oyna — disse o velho. — Ele marca a fronteira do principado, e é proibido atravessá-lo. — Muito bem — falei. — Acredito que vocês nos darão licença de descansar e de nos aquecer. — Com certeza — gritaram os Soyotes que são muito hospitaleiros, e nos levaram para suas tendas. A caminho ofereci cigarro a um velho Soyote e dei a um outro uma caixa de fósforos. Estávamos cavalgando em grupo, menos um Soyote que ficara na retaguarda, segurando o nariz com os dedos. — Ele está doente? — perguntei. — Está — respondeu o velho Soyote tristemente. — É meu filho e já faz dois dias que seu nariz está sangrando. Ele está muito fraco. Parei e chamei o moço: — Desabotoe a capa — ordenei. — Exponha o pescoço e o peito e levante a cabeça o mais alto que puder. Pressionei a veia jugular dos dois lados de sua cabeça durante alguns minutos; depois disse: — Seu nariz não vai sangrar mais. Vá para sua tenda e deite por algum tempo.
  61. 61. O Soyote ficou muito impressionado com os movimentos misteriosos dos meus dedos. Cheio de respeito e medo ele murmurou: — Ta Lama, Ta Lama! (grande médico). Na "yurta" eles nos ofereceram chá; o velho Soyote estava aparentemente mergulhado em profundas meditações. Depois de falar com seus companheiros ele me disse: — A mulher de nosso príncipe tem uma doença da vista, e acredito que o príncipe ficará satisfeito se eu levar Ta Lama até ele. Ele não vai querer punir-me, porque se ele me deu ordem de não deixar passar gente ruim, isso não quer dizer que gente boa não possa nos visitar. — Faça como quiser — respondi-lhe, fingindo que o assunto não tinha importância. — Realmente sei tratar das doenças da vista, mas se você quiser, voltaremos pelo mesmo caminho. — Não faça isso — gritou o ancião assustado. — Eu mesmo serei seu guia. Ele estava sentado perto do fogo; acendeu o ca- chimbo com uma pederneira e, depois de limpar a ponta na própria manga, ofereceu-me o cachimbo em sinal de amizade. Eu conhecia esse costume, portanto fumei. Ofereceu seu cachimbo a todos do grupo e recebeu em troca, de cada um, um cigarro, um pouco de fumo e fósforos. Dessa forma confirmamos nossa amizade. Passamos a noite com eles; ofereceram-nos um lauto jantar com carneiros gordos. Na manhã seguinte reiniciamos a marcha, conduzidos pelo velho Soyote, seguindo o vale do Oyna onde não havia nem montanhas nem pântanos. Sabíamos
  62. 62. que alguns dos nossos cavalos estavam por demais esgotados para chegar ao Lago Kosogol e decidimos comprar outros naquela região. Passamos por pequenos aglomerados de "yurtas" soyotes, com gado e cavalos ao redor, e finalmente chegamos à capital móvel do príncipe. Nosso guia foi à frente para anunciar nossa chegada, ele dizia que o príncipe ficaria feliz em receber o "Ta Lama", contudo sua fisionomia refletia preocupação e angústia. Chegamos a uma grande planície onde medravam muitos arbustos. Vimos que havia grande número de "yurtas" nas quais se viam hasteadas bandeiras amarelas e azuis à margem do rio e deduzimos que devia ser a sede do Governo. Nosso guia voltou logo. Seu rosto iluminara-se com um sorriso; agitava as mãos, gritando: — Noyon (o príncipe) pede que vocês se apro- ximem. Ele está muito feliz... Tive que me transformar de soldado em diplomata. Chegando à "yurta" do príncipe fomos recebidos por funcionários que usavam a touca pontuda dos Mongóis, adornadas de penas de pavão presas na parte traseira. Inclinando-se profundamente eles pediram ao Noyon estrangeiro que entrasse na "yurta". Entrei, levando comigo meu amigo tártaro. No interior da suntuosa tenda, toda drapeada de seda, encontramos um velho miúdo cujo rosto parecia de pergaminho. Ele estava barbeado, sua cabeça completamente raspada e usava um barrete alto e pontudo de castor, terminando em seda
  63. 63. escarlate e um botão vermelho escuro. Longas plumas de pavão estavam presas ao lado da nuca. Grandes óculos chineses estavam equilibrando-se sobre o nariz. Estava sentado sobre um divã baixo, e as contas do terço tilintavam nervosamente entre suas mãos; era o Ta Lama, o príncipe de Soldjack e grande sacerdote do templo budista. A acolhida foi amável e ele nos convidou a sentar em frente ao fogo que ardia num braseiro de cobre. A princesa, uma moça lindíssima, serviu- nos chá, confeitos chineses e doces. Fumamos nossos cachimbos; embora o príncipe, sendo um Lama, não fumasse, cumpria sua obrigação de hospedeiro levando o cachimbo até os lábios toda vez que lhe era oferecido, e oferecia-nos sua tabaqueira de nefrita verde. Depois de observar esta primeira fase do protocolo, esperamos que o príncipe falasse. Perguntou-nos ele se a viagem tinha sido feliz e quais eram nossos propósitos. Respondi-lhe muito fran- camente e pedi-lhe hospitalidade para todos nós e nossos cavalos. Ele a concedeu sem hesitação e mandou que quatro "yurtas" fossem aprontadas para nós. — Soube que o Noyon estrangeiro é um ótimo médico. — Conheço algumas doenças e trago comigo alguns remédios, mas não sou médico. Sou um estudioso de outras ciências. O príncipe não entendeu o que eu queria dizer com isso. Na sua ingenuidade, ele estava
  64. 64. convencido de que um homem que sabe tratar doenças é médico. — Já faz dois meses que minha mulher sofre da vista. Trate dela. Pedi à princesa para examinar seus olhos e percebi imediatamente que ela estava sofrendo de conjuntivite provocada pela contínua fumaceira dentro da "yurta" e pela sujeira que havia por toda parte. O tártaro foi buscar minha pasta de remédios. Lavei os olhos da princesa com água boricada e pinguei neles um pouco de cocaína e uma solução fraca de sulfato de zinco. — Eu suplico a você, cure meus olhos — pediu a princesa. — Fique aqui até que eles estejam curados. Daremos a você e a todos os seus amigos carneiros, leite e farinha. Eu choro muito porque antes meus olhos eram lindos e meu marido dizia que eles brilhavam como estrelas. Agora estão avermelhados, e eu não consigo mais suportar isso. Bateu o pé no chão e depois perguntou-me com jeito brejeiro: — Você vai curar-me, não vai? A personalidade e o jeito de uma mulher bonita são idênticos em todos os lugares: na cintilante Broadway, nas margens do Tâmisa, nos boulevares de Paris e na "yurta" drapeada de seda da princesa Soyota, por trás dos montes Tannu Ola, cobertos de lárices. — Vou fazer o que puder — respondeu com segurança o neo-oftalmologista. Ficamos dez dias gozando do carinho e da amizade da família do príncipe. Os olhos da
  65. 65. princesa, que oito anos antes tinham enfeitiçado o príncipe Lama, apesar de ele estar numa idade bastante avançada, estavam curados. Ela não cabia em si de alegria e não largava o espelho nem por um instante. O príncipe deu-me cinco bons cavalos, dez car- neiros e um saco de farinha que transformamos imediatamente em biscoitos. Meu amigo deu ao príncipe uma nota de quinhentos rublos dos Romanoff onde aparecia o rosto de Pedro, o Grande. Eu lhe ofereci uma pepita de ouro que tinha encontrado no leito de um rio. O príncipe cedeu-nos, ainda, um guia Soyote para acom- panhar-nos até o Lago Kosogol. A família inteira quis levar-nos até o mosteiro que se encontrava a dez quilômetros da Capital. Não visitamos o mosteiro, mas paramos no Dugung, uma loja chinesa. Os comerciantes chineses nos encararam com hostilidade, contudo nos ofereceram toda espécie de mercadorias, pensando que íamos ficar tentados especialmente pelo "maygolo", uma espécie de licor de anis, em seus frascos redondos (lan-hon). Não tínhamos dólares chineses, nem em prata nem em lingotes, e só podíamos olhar para aque- les frascos tentadores até que o príncipe percebeu a situação e ordenou que os chineses pusessem cinco frascos nas nossas sacolas. 13 Mistérios, Milagres e Novas Lutas
  66. 66. À noite daquele mesmo dia chegamos às margens do lago sagrado de Teri Noor, um espelho de águas amarelas e lodacentas, com oito quilômetros de largura, cujas margens baixas e cheias de buracos não apresentavam qualquer atrativo. No centro do lago ficavam os restos de uma ilha que estava desaparecendo. Havia nela algumas ruínas e algumas árvores. Nosso guia explicou que dois séculos antes não havia lago nenhum, mas, sim, uma importante fortaleza chinesa que se erguia no centro da planície. O chefe chinês da fortaleza ofendeu um velho Lama que amaldiçoou o local e disse que ele seria destruído. No dia seguinte a água começou a surgir do solo, destruindo a fortaleza e afogando os soldados. Mesmo hoje, quando a tempestade revolve as águas do lago, os vagalhões levam para a margem as ossadas dos homens e dos cavalos que lá perderam a vida. O lago de Teri Noor cresce todos os anos, aproxi- mando-se cada vez mais das montanhas. Seguimos pela margem oriental e começamos a escalar uma serra cujos cumes estavam cobertos de neve. De início o caminho pereceu-nos fácil, todavia o guia nos avisou que o trecho difícil estava mais adiante. Atingimos esse ponto dois dias mais tarde, e vimos que havia um declive escarpado, coberto de florestas cheias de neve. Pouco mais adiante achava-se a zona das neves eternas, com cordilheiras revestidas de uma capa branca que reluzia ao sol, entremeada de rochas escuras. Eram as montanhas mais orientais e mais elevadas do Tannu Ola.
  67. 67. Passamos a noite embaixo das árvores e iniciamos a travessia na manhã seguinte. Pelo meio-dia, nosso guia nos levou por uma pista em ziguezague, cortada por profundos barrancos e obstruída por árvores e rochas que tinham desli- zado da montanha. Durante várias horas andamos por caminhos íngremes, esgotando a energia dos cavalos; de repente ei-nos no mesmo local de onde tínhamos partido. Era evidente que nosso guia tinha perdido a direção e seu rosto refletia angústia. — Os demônios da floresta maldita não querem nos deixar passar — disse ele com os lábios trêmulos. — É um mau sinal. Precisamos voltar a Kharga e ver o Noyon. Eu o ameacei, e ele voltou a tomar a dianteira do grupo, porém estava visivelmente desanimado e sem vontade de fazer qualquer esforço para localizar o caminho. Felizmente um caçador do Urianhai que estava no nosso grupo viu as marcas nas árvores que indicavam o rumo que nosso guia tinha perdido. Seguindo as marcas, atravessamos a floresta alcançamos e passamos uma zona de lárices queimadas, e mais além voltamos a penetrar num bosque que seguia o pé de uma montanha em cujo cume havia neves eternas. A noite já estava chegando e resolvemos acampar. O vento esfriou, levantando uma grande quantidade de neve que caiu em nossa volta, ocultando toda e qualquer visão. Os cavalos permaneceram perto de nós, assemelhando-se a fantasmas brancos e recusando-se a comer ou a sair de perto do fogo.
  68. 68. O vento levantava os pelos de suas crinas e caudas, mugindo e silvando entre as pedras da montanha. Ouvíamos à distância o uivar dos lobos, e de vez em quando o vento trazia uivos agudos. Estávamos descansando perto do fogo quando o Soyote aproximou-se e disse: — Noyon, venha comigo até o "obo". Quero mos- trar-lhe algo. Saí atrás dele e começamos a escalar a montanha. Aos pés de um penhasco havia um amontoado de troncos de árvores e pedras, formando um cone de mais ou menos três metros de altura. Estes "obos" são marcos sagrados que os Lamas colocam em lugares perigosos, altares para os maus espíritos que moram nas cercanias. Os viajantes Soyotes e Mongóis deixam suas oferendas para os espíritos, dependurando nos galhos do "obo" os "hatyks", longas tiras de seda azul, pedaços rasgados dos forros de suas capas ou simplesmente mechas de pelos cortados das crinas de seus cavalos; em frente ao "obo" eles colocam sobre as pedras pedaços de carne, xícaras de chá ou sal. — Veja — disse ele — todos os "hatyk" foram arrastados pelo vento. Os espíritos estão zangados. Por isso eles não querem deixar-nos passar... Pegou na minha mão e falou com voz suplicante: — Voltemos, Noyon, voltemos! Os demônios não querem que passemos pela montanha. Faz vinte anos que ninguém se atreve a travessá-la e os
  69. 69. poucos que tiveram essa audácia, morreram. Os demônios os atacaram durante uma tempestade de neve. Agora ela já está começando. Voltemos para perto de nosso Noyon para esperar a boa estação e depois... Não quis ouvir mais nada. Voltando para o acampamento eu quase não podia ver o fogo devido à neve que estava me cegando. Estava preocupado com a possível fuga de nosso guia e coloquei um homem para vigiá-lo. Mais tarde, durante a noite, a sentinela acordou-me: — Posso estar enganado, mas parece-me ter ou- vido um disparo... Quem podia ser? Talvez outros que, como nós, tinham perdido a direção e atiravam para avisar seus companheiros onde estavam. Talvez o rapaz tivesse confundido por um tiro a brusca queda de um rochedo ou de um bloco de gelo. Voltei a dormir e, de repente, apareceu-me em sonho uma visão muito clara. Um grupo compacto de cavaleiros estava avançando pela planície coberta de neve. Vi nossos cavalos de carga, nosso Calmuco e nosso simpático cavalo malhado com seu nariz arqueado. Vi que descíamos da planície nevada até um despenhadeiro da montanha onde medravam lárices e murmurava um córrego. Enfim vi um fogo que brilhava entre as árvores e acordei. O dia estava claro. Acordei os outros, pedindo para apressar os preparativos afim de não perdermos tempo. A tempestade estava rugindo. A neve penetrava em nossos olhos, cegando-nos, e destruía qualquer vestígio de pista. O frio
  70. 70. aumentava de intensidade. cada vez mais. Enfim montamos. O Soyote ia à frente, procurando adivinhar o caminho. Como sabíamos, nosso guia perdia freqüentemente a noção do caminho. Caímos em buracos fundos cobertos de neve, tropeçávamos sobre pedras escorregadias. A um certo ponto o Soyote virou seu cavalo e, aproximando-se de mim, falou decidido: — Não quero morrer com vocês. Não vou mais além. Meu primeiro impulso foi de pegar o chicote. Es- távamos tão perto da Terra Prometida, a Mongólia, e este Soyote pretendendo atravessar meu caminho e atrapalhar meus planos, pareceu-me o meu pior inimigo. Mas abaixei a mão e tive uma idéia ditada pelo desespero: — Ouça — disse-lhe — se você voltar seu cavalo meto-lhe uma bala nas costas, e você não irá morrer no topo da montanha, mas aos pés dela. Agora vou explicar a você o que vai nos acontecer: quando chegarmos àquelas rochas lá no alto, não teremos mais vento e a neve terá parado de cair. O sol estará brilhando quando atravessarmos a planície nevada mais embaixo, e em seguida desceremos para um pequeno vale onde há lárices e um córrego que murmura a céu aberto. Lá acenderemos nosso fogo e passaremos a noite. O Soyote começou a tremer de medo. — Noyon já passou por estas montanhas de Darkhat Ola? — perguntou ele estupefato.
  71. 71. — Não — respondi-lhe, — mas durante a noite eu tive uma visão e sei que podemos ultrapassar a crista sem nenhum perigo. — Então vou abrir caminho — gritou o Soyote. Chicoteou seu cavalo e colocou-se na dianteira da coluna pelo declive íngreme que levava aos cumes nevados. Passando pela estreita orla de um precipício o Soyote parou examinando a pista com muita atenção. — Hoje muitos cavalos ferrados passaram por aqui — gritou ele em meio à tempestade. — Alguém arrastou um chicote na neve e os cavaleiros não eram Soyotes. O mistério foi logo desvendado. Ouvimos uma fuzilaria e um dos meus companheiros deu um grito, levando a mão ao ombro. Um cavalo de carga caiu morto depois de receber um balaço atrás da orelha. Apeamos rapidamente, abrigando-nos atrás das rochas de onde estudamos a situação. Um pequeno vale de mais ou menos setecentos metros de largura separa- va-nos de uma escarpa da montanha. Vimos cerca de trinta cavaleiros que, de suas posições, estavam atirando contra nós. Eu não autorizara nenhum disparo antes da iniciativa de nossos adversários. Mas como o ataque vinha deles, dei ordem para fazer fogo. — Atirem nos cavalos — gritou o Coronel Ostrowski. Em seguida mandou que o tártaro e o Calmuco fizessem deitar nossos animais. Abatemos seis cavalos dos nossos inimigos,
  72. 72. ferindo sem dúvida alguns outros, porém não tínhamos a possibilidade de averiguar. Apon- távamos nossas armas contra aqueles que se atreviam a levantar a cabeça atrás das rochas. Ouvíamos os gritos de raiva e palavrões dos soldados vermelhos, cuja fuzilaria aumentava de intensidade. Vi, de repente, nosso Soyote chutar três cavalos que se puseram se pé. Saltou na garupa, e puxando os outros dois cavalos pelas rédeas, saiu a galope. Estava apontando meu fuzil para ele para alvejá-lo, quando percebi que o tártaro e o Camulco corriam atrás dele em suas maravilhosas montarias. Senti-me tranqüilo. Os vermelhos dirigiram alguns tiros contra os três que, porém, conseguiram escapar e desapareceram atrás dos rochedos. O tiroteio continuava sempre mais intenso e eu não sabia o que fazer. Tínhamos que economizar munições. Olhando para o lado inimigo notei que havia dois pontos pretos, avançados, na neve por cima deles. Eles progrediam lentamente na direção dos vermelhos e ficaram escondidos de nossa vista atrás das rochas. Quando conseguimos vê- los novamente eles estavam exatamente na borda da escarpada de pedras em cima de onde os vermelhos tinham-se entocaiado. Não tinha mais dúvida de que os dois pontos pretos eram as cabeças de dois homens. Eles se levantaram bruscamente e percebi que seguravam algo que jogaram com força no vale. Seguiram-se duas violentas explosões, que ecoaram longamente. Houve uma terceira explosão, seguida por gritos

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