Ex ocup ambient2006 (1)
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  • 1. Vigilância do CâncerRelacionado ao Trabalho e ao Ambiente
  • 2. ElaboraçãoFátima Sueli Neto RibeiroGulnar de Azevedo e Silva MendonçaMarcelo Moreno dos ReisPaula Fernandes BritoSilvana Rubano Barreto TurciUbirani Barros OteroApoioCláudia Gomes — Divisão de Comunicação SocialAgradecimentosMarco Perez — Coordenação de Saúde do Trabalhador do Ministério da Saúde — COSAT/MSAndré Szklo — Divisão de Epidemiologia — CONPREV/INCARonaldo Correa Ferreira da Silva — Divisão de Atenção Oncológica — CONPREV/INCAFátima Regina Silva de Souza — Área de Vigilância do Câncer relacionado ao Trabalhoe ao Ambiente — CONPREV/INCABruno dos Santos de Almeida Mariano — Área de Vigilância do Câncer relacionado aoTrabalho e ao Ambiente — CONPREV/INCAGisele Netto da Costa Guimarães Neves — Programa Nacional de Eliminação da Sili-cose — COSAT/MS — Fundacentro/MTEMariana Correa Gonçalves — estagiária UERJSilvia Regina dos Santos Gonçalves — estagiária UERJ
  • 3. Ministério da Saúde Instituto Nacional do Câncer Vigilância do CâncerRelacionado ao Trabalho e ao Ambiente Rio de Janeiro 2006
  • 4. SumárioApresentação ...................................................................... 6Agrotóxicos ........................................................................ 8I. Introdução ................................................................................................8 1. Definição ....................................................................................................... 8 2. Usos mais freqüentes ....................................................................................... 8 3. Principais grupos expostos ................................................................................ 9II.Toxicidade dos agrotóxicos...........................................................................9 1. Prevalência das intoxicações no país ................................................................. 10 2. Agrotóxicos e câncer ...................................................................................... 10III. Classificação dos agrotóxicos .................................................................... 10 1. Inseticidas ................................................................................................... 11 2. Herbicidas ................................................................................................... 13IV. Recomendações para o uso de agrotóxicos .................................................... 15V. Legislação .............................................................................................. 15VI. Sites de interesse ................................................................................... 17VII. Bibliografia .......................................................................................... 18Amianto ........................................................................... 20I. Introdução .............................................................................................. 20 1. Definição ..................................................................................................... 20 2. Usos mais freqüentes ..................................................................................... 20 3. Exposição ocupacional .................................................................................... 21II. Efeitos sobre a saúde humana .................................................................... 21 1. Toxicologia .................................................................................................. 22 2. Agravos relacionados com a exposição ............................................................... 22 3. Carcinogênese .............................................................................................. 23III. Limites de tolerância ............................................................................... 24IV. Medidas de controle ................................................................................ 24V. Legislação .............................................................................................. 25VI. Bibliografia ........................................................................................... 27Sílica............................................................................... 28I. Introdução .............................................................................................. 28 1. Definição ..................................................................................................... 28 2. Usos mais freqüentes ..................................................................................... 28 3. Exposição ocupacional .................................................................................... 29II. Efeitos sobre a saúde humana .................................................................... 30 1. Toxicologia .................................................................................................. 30 2. Agravos relacionados com a exposição ............................................................... 30III. Limites de tolerância ............................................................................... 32IV. Medidas de controle ................................................................................ 32V. Legislação .............................................................................................. 32VI. Sites de interesse ................................................................................... 33VII. Bibliografia .......................................................................................... 34Radiação ionizante............................................................. 36I. Introdução .............................................................................................. 36
  • 5. 1. Definição ..................................................................................................... 36 2. Radiação particulada ..................................................................................... 36 3. Radiação eletromagnética ............................................................................... 36 4. Radioatividade ............................................................................................. 37II. Fontes de radiação .................................................................................. 37III. Tipos de radiação ................................................................................... 37 1. Radiação não-ionizante .................................................................................. 37 2. Radiação ionizante ........................................................................................ 37IV. Percepção da radiação ............................................................................. 38V. Efeitos sobre a saúde humana..................................................................... 39 1. Carcinogenicidade ......................................................................................... 39 2. Fatores a serem considerados na relação entre radiação e câncer ............................ 39VI. Exposição ocupacional ............................................................................. 40VII. Medidas de controle ............................................................................... 40VIII. Legislação ........................................................................................... 41IX. Definições ............................................................................................. 41X. Bibliografia ............................................................................................ 43Radiação solar .................................................................. 44I. Introdução .............................................................................................. 44 1. Definição ..................................................................................................... 44 2. Fatores ambientais que influenciam o nível de radiação UV..................................... 45II. Efeitos sobre a saúde humana .................................................................... 46 1. Melanócitos: as células que protegem a pele ........................................................ 46 2. Carcinogenicidade ......................................................................................... 46 3. Fatores de risco ............................................................................................ 48III. Prevenção primária (Medidas de controle)......................................................... 48IV. Conhecendo os filtros solares ..................................................................... 49 1. O que significa o valor do FPS?.......................................................................... 49 2. Como usar ................................................................................................... 50V. Prevenção secundária ............................................................................... 50VI. Bibliografia ........................................................................................... 52Benzeno, Xileno e Tolueno .................................................... 54I. Introdução .............................................................................................. 54II. Benzeno................................................................................................. 54 1. Definição ..................................................................................................... 54 2. Exposição humana ......................................................................................... 54 3. Efeitos sobre a saúde humana .......................................................................... 55 4. Recomendações ............................................................................................. 57III. Xileno .................................................................................................. 58 1. Definição ..................................................................................................... 58 2. Efeitos sobre a saúde humana .......................................................................... 58 3. Medidas de segurança..................................................................................... 59IV. Tolueno ................................................................................................ 60 1. Definição ..................................................................................................... 60 2. Efeitos sobre a saúde humana .......................................................................... 60 3. Medidas de segurança..................................................................................... 61 4. Limites de tolerância ..................................................................................... 62V. Bibliografia ............................................................................................ 63
  • 6. Apresentação O Ministério da Saúde, por intermédio ro, para o sexo feminino, acompanhando a do Instituto Nacional de Câncer - INCA, vem mesma magnitude observada no mundo. desenvolvendo, desde 2004, o fortalecimen- to da Área de Vigilância do Câncer relacio- Nos ambientes de trabalho podem ser nado ao Trabalho e ao Ambiente, através da encontrados agentes cancerígenos como elaboração e execução de projetos que vi- o amianto, a sílica, solventes aromáticos sam a redução, a eliminação ou ao controle como o benzeno, metais pesados como o ní- de agentes cancerígenos presentes no meio quel e cromo, a radiação ionizante e alguns ambiente e nos ambientes de trabalho. agrotóxicos, cujo efeito pode ser potencia- lizado se for somado a exposição a outros Dentre os objetivos desta área está o fatores de risco para câncer como a polui- desenvolvimento de modelos para a imple- ção ambiental, dieta rica em gorduras trans, mentação de ações sistematizadas na pre- consumo exagerado de álcool, os agentes venção de câncer relacionado ao trabalho e biológicos e o tabagismo. Os tipos mais fre- ao ambiente, como a elaboração de material qüentes de câncer relacionados ao trabalho educativo, manuais, capacitação de profis- são os de pulmão, os mesoteliomas, os de sionais de saúde e metodologias de treina- pele, os de bexiga e as leucemias. mento; apoio e subsídios técnicos às Secre- tarias Estaduais de Saúde; colaboração no O tabagismo aumenta de 3 a 20 vezes o desenvolvimento de sistemas de informa- risco para os cânceres de boca, faringe, esô- ção para a efetiva vigilância da exposição a fago, laringe, pulmão, pâncreas, rim e bexiga. agentes cancerígenos, bem como a realiza- Nas áreas urbanas mais poluídas encontram- ção de pesquisas sobre estes agentes. se os mais altos coeficientes de mortalidade por câncer de pulmão. Existe uma relação No Brasil, as estimativas de câncer entre poluentes atmosféricos e mortalida- para o ano de 2006 apontam a ocorrência de por doença obstrutiva crônica e de vias de 472.050 casos novos dessa patologia respiratórias, mais recentemente com inter- (234.570 casos novos para o sexo mascu- nações hospitalares. O efeito sinérgico entre lino e 237.480 para o sexo feminino). Os álcool e fumo foi demonstrado para vários tipos mais incidentes, à exceção de pele não- tipos de câncer, como boca, faringe, esôfago -melanoma, serão os de próstata e pulmão e laringe. Em relação à radiação ultraviole- no sexo masculino, e mama e colo do úte- ta, existe uma associação bem estabelecida6
  • 7. com tumores de pele baso e espinocelulares. Dado o peso do câncer entre as do-Os tecidos mais suscetíveis à carcinogênese enças que mais acometem a populaçãorelacionada à exposição à radiação ionizan- brasileira, foi elaborada pelo grupo dete são a medula óssea, a mama e a tireóide. trabalho da Área de Vigilância do Cân-Alguns estudos indicam que os compostos cer relacionado ao Trabalho e ao Am-organoclorados (DDT e BHC) podem au- biente/Conprev/Inca esta publicaçãomentar o risco de câncer de mama. Sobre apresentará informações sobre algunsos agentes biológicos foram observadas as dos principais fatores de risco de câncerseguintes associações: HPV e câncer de colo relacionado ao trabalho e ao ambiente:uterino, vírus de Epstein-Barr e linfoma de poeiras (sílica e amianto), agrotóxicos,Burkitt, vírus da hepatite B e C e hepatoma solventes (benzeno, tolueno e xileno), ra-e HTLV1 e leucemia_T do adulto. diação ionizante e radiação solar. Luiz Antonio Santini Rodrigues da Silva Diretor Geral do Instituto Nacional de Câncer 7
  • 8. Agrotóxicos I. Introdução 1. Definição No Brasil, o Decreto Federal nº 4.074 de a partir da Constituição Federal de 1988 04 de janeiro de 2002, que regulamenta a Lei (publicada em 1989), sendo esta modifi- Federal nº 7.802, de 11 de julho de 1989, em cação fruto de grande mobilização da so- seu Artigo 1º, Inciso IV, define o termo agro- ciedade civil organizada. Mais do que uma tóxico como: simples mudança de terminologia, este ter- mo coloca em evidência a toxicidade desses Agrotóxicos e afins – produtos produtos para o meio ambiente e para a e agentes de processos físicos, quí- saúde humana (FUNASA, 1998). micos ou biológicos, destinados ao uso nos setores de produção, no ar- Os agrotóxicos possuem ainda diversas mazenamento e beneficiamento de denominações genéricas, como “pesticidas”, produtos agrícolas, nas pastagens, “praguicidas”, “remédios de planta” e “vene- na proteção de florestas, nativas ou no” (Peres et al, 2003). plantadas, e de outros ecossistemas e de ambientes urbanos, hídricos e industriais, cuja finalidade seja al- 2. Usos mais freqüentes terar a composição da flora ou da fauna, a fim de preservá-las da ação A maior utilização dos agrotóxicos é na danosa de seres vivos considerados agricultura. São também utilizados na saúde nocivos, bem como as substâncias pública (controle de vetores), no tratamento e produtos empregados como desfo- de madeira, no armazenamento de grãos e lhantes, dessecantes, estimuladores sementes, na produção de flores, no combate e inibidores de crescimento. a piolhos e outros parasitas no homem e na Ou seja: são substâncias utilizadas para pecuária (SVS, 1997). combater as pragas (como insetos, larvas, fungos, carrapatos) e controlar o crescimento O Brasil está entre os principais consu- de vegetação, entre outras funções. midores mundiais de agrotóxicos. Segundo dados do Sindicato Nacional da Indústria de O termo agrotóxico, ao invés de defensi- Defensivos Agrícolas - SINDAG, em 2001 o vo agrícola, passou a ser utilizado no Brasil país consumiu 328.413 toneladas de produ-8
  • 9. tos formulados, correspondendo a 151.523 mente aos trabalhadores, mas à populaçãotoneladas de ingredientes ativos. Desta for- em geral.ma, o Brasil aparece em 7º lugar no rankingdos dez principais países consumidores, querepresentam 70% do mercado mundial deagrotóxicos (ANVISA, 2003). II.Toxicidade dos agrotóxicos3. Principais grupos expostos Os agrotóxicos podem ser absorvidos através das vias dérmica, gastrointestinal e Uma das principais formas de exposição a respiratória, podendo determinar quadros deestas substâncias ocorre no trabalho. Entre os intoxicação aguda, subaguda e crônica.grupos de profissionais que têm contato comos agrotóxicos, destacam-se (FUNASA, 1998): Na intoxicação aguda, os sintomas sur- gem rapidamente, algumas horas após a ex- trabalhadores da agricultura e pecuária; posição excessiva e por curto período aos trabalhadores de saúde pública; trabalhadores de firmas desinsetizadoras; produtos tóxicos. Os sinais e sintomas clí- trabalhadores de transporte e comércio nico-laboratoriais são mais facilmente reco- dos agrotóxicos; nhecidos, o diagnóstico é mais simples de ser trabalhadores de indústrias de formula- estabelecido e o tratamento melhor definido. ção de agrotóxicos. Pode ocorrer de forma leve, moderada ou grave, dependendo da quantidade do agro- Vale aqui um destaque para os grupos de tóxico absorvido pelo organismo.agricultores. Nestes, a exposição aos agrotó-xicos pode ocorrer de diversas formas, desde Na intoxicação crônica, o surgimentoa manipulação direta (preparo das “caldas”, dos sintomas é tardio, podendo levar mesesaplicação dos produtos) ou através de arma- ou anos. Essa forma de intoxicação carac-zenamento inadequado, do reaproveitamento teriza-se por pequenas ou moderadas expo-das embalagens, da contaminação da água, sições a um ou a múltiplos produtos, acar-do contato com roupas contaminadas, etc retando por vezes danos irreversíveis, como(Garcia & Almeida, 1991; Meyer et al, 2003). paralisias e neoplasias (FUNASA, 1998). Assim, além da exposição ocupacional, Importante: Muitos sinais e sin-outros grupos populacionais têm risco au- tomas de intoxicação por agrotóxicosmentado de intoxicação. Merecem destaque podem ser confundidos com outrosos familiares dos agricultores e os vizinhos problemas de saúde. Assim, a melhorde locais onde o agrotóxico é aplicado. Além forma para que o profissional de saúdedisso, toda a população tem a possibilidade possa concluir um diagnóstico corre-de sofrer intoxicação, através da ingestão de to de intoxicação por agrotóxico é es-água e alimentos contaminados, da utiliza- tar atento para o problema e fazer umção de domissanitários, etc. histórico ocupacional e ambiental com todos os pacientes que apresentarem Ou seja: os efeitos nocivos dos agrotó- sinais e sintomas sugestivos.xicos sobre a saúde não dizem respeito so- 9
  • 10. 1. Prevalência das não ser relacionada ao agente causador no momento do diagnóstico. intoxicações no país O número de intoxicações por uso de Além disso, o câncer caracteriza-se agrotóxicos pode ser observado a partir por ser de origem multifatorial, e os me- de dados do Sistema Nacional de Infor- canismos que interferem na carcinogênese mações Tóxico-Farmacológicas (SINITOX). são muitos. Dentre estes fatores, a exposi- Este é um sistema coordenado pela Fun- ção aos agrotóxicos pode ser considerada dação Oswaldo Cruz, que consolida os da- como uma das condições potencialmente dos provenientes dos Centros de Controle associadas ao desenvolvimento do câncer, de Intoxicação. Em 2002, a Rede SINITOX por sua possível atuação como iniciadores contava com 33 Centros, localizados em 18 - substâncias capazes de alterar o DNA de estados brasileiros. De acordo com dados uma célula, podendo futuramente originar deste sistema, no ano de 2002, foram noti- o tumor - e/ou como promotores tumorais ficados no Brasil 7.838 casos de intoxica- - substâncias que estimulam a célula alte- ção humana por agrotóxicos, respondendo rada a se dividir de forma desorganizada por aproximadamente 10,4% de todos os (Koifman & Hatagima, 2003). casos de intoxicação notificados no país. Do total de intoxicações por agrotóxicos, A Agência Internacional de Pesquisa 71% referiam-se a intoxicações por produ- em Câncer (IARC) vem revisando diversos tos de uso agrícola e 29% por produtos de produtos, entre eles agrotóxicos, de acor- uso doméstico (FIOCRUZ, 2005). do com o potencial carcinogênico para a espécie humana. Subnotificação: O Ministério da Saúde estima que, para cada evento de intoxicação por agrotóxico notificado, há outros 50 não notificados, o que III. Classificação elevaria a contaminação para, aproxi- dos agrotóxicos madamente, 400.000 casos em 2002. Estes produtos podem ser agrupados 2. Agrotóxicos e câncer de diversas maneiras, e uma das mais uti- lizadas é a classificação segundo o grupo O câncer é uma doença que, em geral, químico a que pertencem e o tipo de ação demanda longo tempo entre a exposição ao (natureza da praga controlada). De acordo agente cancerígeno e o início dos sintomas com a Fundação Nacional de Saúde (FU- clínicos. Estabelecer o nexo causal entre a NASA, 1998), esta forma de classificar os exposição aos agrotóxicos potencialmente agrotóxicos é importante e pode ser útil cancerígenos e o desenvolvimento de cân- para o diagnóstico das intoxicações e para cer nem sempre é possível e, em muitos ca- a adoção de tratamento específico, como sos, a doença instalada pode simplesmente mostra o Quadro 1.10
  • 11. Quadro 1 — Principais categorias de agrotóxicos quanto à sua ação e ao grupoquímico a que pertencem. Tipo de ação (Classe) Principais grupos químicos Exemplos (produtos/substâncias)1 Inseticidas Organofosforados Azodrin, Malathion, Parathion, Nuvacron, Tamaron, Hostation, Lorsban (controle de insetos, larvas e formigas) Carbamatos Carbaryl, Furadan, Lannate, Marshal Organoclorados² Aldrin, Endrin, DDT, BHC, Lindane Piretróides (sintéticos) Decis, Piredam, Karate, Cipermetrina Fungicidas Ditiocarbamatos Maneb, Mancozeb, Dithane, Thiram, Manzate (combate aos fungos) Brestan, Hokko Suzu Organoestânicos Dicarboximidas Orthocide, Captan Herbicidas Bipiridílios Gramoxone, Paraquat, Reglone, Diquat (combate à ervas daninhas) Glicina substituída Roundup, Glifosato Derivados do ácido fenoxiacético Tordon, 2,4-D, 2,4,5-T 3 Dinitrofenóis Bromofenoxim, Dinoseb, DNOC Pentaclorofenol Clorofen, Dowcide-G1 Alguns dos produtos/substâncias acima citados estão sendo reavaliados no aspecto toxicológico pela ANVISA ou já tiveram sua comercialização proibida no país.2 Seu uso tem sido progressivamente restringido ou mesmo proibido em vários países, inclusive no Brasil.3 A mistura de 2,4-D com 2,4,5-T representa o principal componente do agente laranja, utilizado como desfolhante na Guerra do Vietnan.Fonte: FUNASA, 1998; Peres, 1999; ANVISA, 2005. Outras classes importantes de agrotó- de 70. No Brasil, somente em 1992, apósxicos compreendem: raticidas (combate aos intensas pressões sociais, foram banidos (oroedores), acaricidas (combate aos ácaros), BHC, o Aldrin, o Lindano, etc). As restriçõesnematicidas (combate aos nematóides) e à sua utilização originam-se da sua grandemolusquicidas (combate aos moluscos, ba- capacidade residual e de uma possível açãosicamente contra o caramujo da esquistos- carcinogênica (Nunes & Tajara, 1998).somose) (FUNASA, 1998). Vale ressaltar quemuitos agrotóxicos possuem mais de um tipo Principais característicasde ação. Por exemplo: o inseticida organo- São agrotóxicos de lenta degradação,fosforado “Parathion” é também utilizado com capacidade de acumulação nos seres vi-como acaricida; o inseticida carbamato “Fu- vos e no meio ambiente, podendo persistirradan” também possui ação de combate aos por até 30 anos no solo. São altamente lipos-nematóides (nematicida). solúveis e o homem pode ser contaminado não só por contato direto, mas também atra- vés da cadeia alimentar — ingestão de água e1. Inseticidas alimentos contaminados (Verdes et al, 1990; Reigart & Roberts, 1999).1.1. Organoclorados Por serem altamente lipofílicos, são se- Estes inseticidas foram utilizados por qüestrados pelos tecidos corporais com altovárias décadas na saúde pública para o teor lipídico (fígado, rins, sistema nervoso,controle de vetores de doenças endêmicas, tecido adiposo), onde ficam armazenados.como a malária (Matos et al, 2002), assimcomo na agricultura. O DDT (inseticida) foi São eliminados principalmente atravésbanido em vários países, a partir da década das vias digestiva e urinária. Outras vias de 11
  • 12. excreção incluem a saliva, o suor e o leite número de intoxicações e por um grande materno. Por serem encontrados no leite ma- número de mortes por agrotóxicos no Brasil terno, representam um risco às crianças em (Trapé, 2005). fase de amamentação (Forget, 1991). Principais características Efeitos sobre a saúde humana A absorção se dá através da pele, sendo Intoxicação aguda: sintomas no siste- distribuídos nos tecidos do organismo pela ma nervoso central como irritabilida- corrente sangüínea e sofrem biotransforma- de, sensação de dormência na língua, ção, principalmente no fígado. A principal nos lábios e nos membros inferiores, via de eliminação é renal (Matos et al, 2002). desorientação, dor de cabeça persis- tente (que não cede aos analgésicos Os inseticidas organofosforados e carba- comuns), fraqueza, vertigem, náuseas, matos atuam na inibição de enzimas colines- vômitos, contrações musculares invo- terases, especialmente a acetilcolinesterase. luntárias, tremores, convulsões, coma Estas enzimas estão presentes na transmissão e morte. Em caso de inalação, podem de impulsos nervosos em diversos órgãos e ocorrer sintomas como tosse, rouqui- músculos e, assim, uma contaminação por dão, edema pulmonar, broncopneumo- estes agrotóxicos pode desencadear uma sé- nia e taquicardia (SVS, 1997; Matos et rie de efeitos (Trapé, 2005). al, 2002). Efeitos sobre a saúde humana Intoxicação crônica: alterações no sis- Ambos atuam não só no sistema nervo- tema nervoso, alterações sangüíneas so central, mas também nos glóbulos verme- diversas, como aplasia medular, lesões lhos, no plasma e em outros órgãos (FUNA- no fígado, arritmias cardíacas e lesões SA, 1998). na pele (SVS, 1997). Intoxicação aguda: os sinais e sintomas Carcinogênese: A Agência Internacio- começam a surgir poucas horas após a nal de Pesquisa de Câncer (IARC) clas- absorção do tóxico e podem alcançar sifica alguns organoclorados como per- tencentes ao grupo “2B” (possivelmente cancerígeno para a espécie humana). O DDT, por exemplo, pertence a este gru- po por estar associado ao desenvolvi- mento de câncer de fígado, de pulmão e linfomas em animais de laboratório. Outros organoclorados pertencentes ao grupo 2B são Clordane, Heptacloro, He- xaclorobenzeno, Mirex (IARC, 2005). 1.2. Organofosforados e Carbamatos São agrotóxicos amplamente utilizados na agricultura e, dentre os inseticidas, os or- ganofosforados são responsáveis pelo maior12
  • 13. seu máximo, inclusive levando a óbi- timulantes do sistema nervoso central e, to, dentro de algumas horas ou pou- em doses altas, podem produzir lesões no cos dias (Almeida, 1996). Os principais sistema nervoso periférico (Matos et al, sinais e sintomas são: suor abundan- 2002; SVS, 1997). te, salivação intensa, lacrimejamen- to, fraqueza, tontura, dores e cólicas Efeitos sobre a saúde humana abdominais, visão turva e embaçada, Intoxicação aguda: os principais sinais pupilas contraídas – miose, vômitos, e sintomas incluem dormência nas pál- dificuldade respiratória, colapso, tre- pebras e nos lábios, irritação das con- mores musculares, convulsões (FUNA- juntivas e mucosas, espirros, coceira SA, 1998). intensa, manchas na pele, edema nas conjuntivas e nas pálpebras, excitação Intoxicação crônica: outros sinais e e convulsões. sintomas podem persistir por meses após a exposição como alterações neu- Intoxicação crônica: Segundo Matos et rológicas, comportamentais, cognitivas al (2002), não estão descritas evidên- e neuromusculares (Ecobichon, 1996). cias de toxicidade crônica com o uso de piretróides. Outros autores, como Carcinogênese: Alguns organofosfo- Trapé (2005), citam alguns efeitos de rados e carbamatos estão presentes na exposições de longo prazo: neurites revisão da IARC (2005): periféricas e alterações hematológicas • Diclorvós (organofosforado): grupo do tipo leucopenias. 2B (possivelmente cancerígeno para Carcinogênese: Os piretróides parecem o homem). não apresentar potencial cancerígeno • Malation, Paration (organofosfora- para humanos. Como exemplo, a IARC dos); Aldicarb, Carbaril, Zectran (car- classifica os agrotóxicos Deltametrina bamatos). Grupo 3: (não classificado e Permetrina no grupo 3 (não carcino- como carcinogênico para o homem). gênicos para o homem).1.3. Piretróides 2. Herbicidas Tiveram seu uso crescente nos últimos20 anos e, além da agropecuária, são tam- São usados no combate a ervas dani-bém muito utilizados em ambientes domés- nhas. Nas últimas duas décadas, esse grupoticos (Matos et al, 2002; Trapé, 2005), onde tem tido sua utilização crescente na agricul-seu uso abusivo vem causando aumento nos tura (FUNASA, 1998). Seus principais repre-casos de alergia em crianças e adultos (FU- sentantes são:NASA, 1998). Paraquat: comercializado com o nomePrincipais características de Gramoxone®; São facilmente absorvidos pelas vias Glifosato: Round-up®;digestiva, respiratória e cutânea. Os sinto- Pentaclorofenol;mas de intoxicação aguda ocorrem prin-cipalmente quando sua absorção se dá Derivados do ácido fenoxiacético: 2,4por via respiratória. São compostos es- diclorofenoxiacético (2,4 D) e 2,4,5 13
  • 14. triclorofenoxiacético (2,4,5 T). A mis- 3. Derivados do ácido fenoxiacético tura de 2,4 D com 2,4,5 T representa Um dos principais produtos é o 2,4 D, o principal componente do agente la- muito usado no país em pastagens e plan- ranja, utilizado como desfolhante na tações de cana de açúcar. O 2,4,5 T tem uso Guerra do Vietnan. O nome comercial semelhante ao 2,4 D, apresentando uma dio- dessa mistura é Tordon. xina como impureza, responsável pelo sur- gimento de cloroacnes, abortamentos, além Dinitrofenóis: Dinoseb, DNOC. de efeitos teratogênicos e carcinogênicos. A presença de dioxinas como impure- Principais características zas nos herbicidas está associada ao de- Existem várias suspeitas de mutageni- senvolvimento de distúrbios reprodutivos cidade, teratogenicidade e carcinogenicida- e alguns tipos de câncer, como os linfomas de relacionados a estes produtos. Dentre os (Trapé, 2005). Foi relatado que o TCDD é o herbicidas, alguns grupos químicos mere- mais potente carcinogênico até hoje testa- cem atenção especial pelos efeitos adversos do para roedores. Estudos em animais for- à saúde, descritos a seguir. neceram evidências conclusivas de que o TCDD é um carcinógeno de múltiplos está- Efeitos de alguns herbicidas sobre gios, aumentando a incidência de tumores a saúde humana em locais distantes dos locais de tratamen- 1. Bipiridilos (Paraquat) to. Em fevereiro de 1997, a Agência Inter- Este produto é considerado como um nacional de Pesquisa do Câncer reavaliou dos agentes de maior toxicidade especí- as dibenzo-p-dioxinas policloradas, bem fica para os pulmões. Pode ser absorvido como os dibenzofuranos policlorados, por por ingestão, inalação ou contato com a representarem possíveis riscos carcinogê- pele. Provoca lesões hepáticas, renais e fi- nicos para os seres humanos. “Com base brose pulmonar irreversível, podendo le- nos mais recentes dados epidemiológicos, var à morte por insuficiência respiratória em populações humanas expostas, através em até duas semanas após a exposição, de bioensaios de carcinogenicidade experi- em casos graves. mental em animais de laboratório e evidên- cias de apoio sobre mecanismos relevantes Além disso, são relatados casos de de carcinogênese, a 2,3,7,8-tetraclorodi- ingestão acidental por crianças (pela co- benzo-p-dioxina (TCDD) foi avaliada como loração semelhante à dos refrigerantes à sendo carcinogênica para seres humanos base de cola) e casos de suicídio. (FUNA- — Grupo 1 da IARC (GREENPEACE, 2005). SA, 1998; Matos et al, 2002). O quadro de intoxicação aguda dos de- 2. Pentaclorofenol e Dinitrofenóis rivados do ácido fenoxiacético inclui: cefa- Os principais sintomas de intoxicação léia, tontura, fraqueza, náuseas, vômitos, aguda por estes produtos incluem dificul- dor abdominal, lesões hepáticas e renais. dade respiratória, hipertermia, fraqueza, Casos graves podem apresentar convulsões, convulsões e perda de consciência. O pen- coma e podem evoluir para óbito em 24 ho- taclorofenol possui em sua formulação ras. Os efeitos crônicos incluem neuropatia impurezas chamadas dioxinas, substân- periférica, disfunção hepática e maior ris- cias extremamente tóxicas, cancerígenas co de desenvolver linfomas tipo Hodgkin e e fetotóxicas (FUNASA, 1998). não-Hodgkin (Matos et al, 2002).14
  • 15. • Carcinogênese dos herbicidas Manter as embalagens de agrotóxi- Estudos epidemiológicos demonstram cos adequadamente fechadas, em local diversas associações entre o uso de trancado, fora da casa e longe do al- agrotóxicos e câncer em humanos, in- cance de crianças e animais. cluindo linfoma não-Hodgkin e câncer de tireóide (Solomon, 2000). Não reutilizar as embalagens vazias. As embalagens vazias devem ser enca-IV. Recomendações minhadas aos estabelecimentos comer- ciais em que foram adquiridas, obser- para o uso de vando as instruções de rótulos e bulas. agrotóxicos V. Legislação Não comer, beber ou fumar durante o manuseio e aplicação do(s) produto(s). A Constituição Federal Brasileira1 atri- buiu ao Poder Público a obrigação de con- Utilizar equipamentos de proteção in- trolar as substâncias que comportem risco à dividual (EPI), conforme indicação do vida, à qualidade de vida e ao meio ambien- produto a ser utilizado. te, no que se inclui o controle dos produtos i. Caso não possua EPI, o agricultor fitossanitários. deve usar roupa destinada somente para aplicação ou manuseio. Indis- A Lei n° 7. 802, de 11 de julho de 1989, pensável o uso de luvas impermeá- relativa a produtos fitossanitários e outros veis e botas de borracha. produtos, instituiu a exigência de que os mesmos sejam previamente registrados para ii. Trocar e lavar as roupas de proteção fins de produção, importação, exportação, separadamente de outras roupas não comercialização e utilização, atendidas as contaminadas. diretrizes e exigência dos órgãos federais responsáveis pelos setores da saúde, da agri- iii.Tomar banho imediatamente após o cultura e do meio ambiente. Por este ins- contato com os agrotóxicos. tituto legal, os setores da saúde e do meio Não manusear os agrotóxicos com as ambiente possuem a prerrogativa legal de mãos desprotegidas. avaliar se suas diretrizes e exigências estão satisfatoriamente atendidas para a conces- Não desentupir bicos, orifícios e válvu- são de determinado registro, avaliando in- las dos equipamentos com a boca. tegralmente as possíveis repercussões que o Quando aplicar os agrotóxicos, obser- produto agrotóxico possa ter, e assegurando var a direção dos ventos (não aplicar à autoridade pública um nível adequado de contra o vento). Não aplicar os produ- informação sobre as características e nível tos na presença de ventos fortes. tóxico de cada produto comercializado no país, de modo a garantir a sua qualidade e Não aplicar os produtos nas horas mais minimizar seus riscos para a saúde humana quentes do dia. e para o meio ambiente. 15
  • 16. De acordo com os termos da Lei, es- duto, assim como pode elevar a toxicidade pecialmente no que se refere às situações do agrotóxico, caso não haja um controle dentro das quais fica proibida a concessão das impurezas presentes. do registro, e que dizem respeito a aspec- tos relativos à periculosidade do produto A Portaria Interministerial2 nº 17, de 16 à saúde humana e/ou ao meio ambiente, de março de 2000, assinada pelos Ministros verifica-se que o registro constitui um pro- da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, cedimento básico de controle, destinado a da Saúde, do Meio Ambiente e pelo Chefe da impedir que produtos dotados de riscos Casa Civil da Presidência da República, cons- inaceitáveis sejam produzidos, importados, tituiu uma Comissão Interministerial com a exportados, comercializados ou utilizados. incumbência de, entre outros propósitos: Para efeito de verificação e avaliação I - harmonizar e racionalizar procedimen- das características toxicológicas, ecotoxico- tos no sentido de tornar ágeis e eficientes os lógicas e agronômicas dos produtos, e dos processos de registro, reavaliação e adapta- possíveis riscos ao ser humano e ao meio ção de registro de produtos agrotóxicos; ambiente, as autoridades governamentais competentes baseiam-se em dados e estu- II - apresentar proposta de procedimentos a dos apresentados pelas empresas, de acordo adotar com relação ao registro de produtos com normas e procedimentos estabelecidos, agrotóxicos similares; que foram fixados visando assegurar a qua- lidade e a confiabilidade dessas informações III - sugerir ajustes no Decreto nº 98.816, de e, conseqüentemente, a própria qualidade e 11 de janeiro de 1990, que regulamenta a Lei confiabilidade da avaliação. dos Agrotóxicos — nº 7.802, de 11 de julho de 1989. O estabelecimento de determinados pa- drões para os produtos é garantia de pro- O Decreto nº 4074, de 04 de janeiro de teção à saúde pública, ao consumidor e ao 2002, que regulamenta a Lei nº 7.802 de meio ambiente. A adoção do método de me- 2002, introduziu uma série de modificações nor rendimento ou menor qualidade pode no atual sistema de registro vigente no Bra- acarretar a perda de competitividade do pro- sil, com vistas a adequar a legislação nacio- 1 Dentre estas previsões constitucionais encontram-se o Ar- tigo 225, § 1º, inciso V estabelecendo que: “Todos têm di- reito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para a presente e futuras gerações. §1º incumbe ao Poder Público: [....] V- controlar a produ- ção, a comercialização e o emprego de técnicas, métodos e substâncias que comportem risco para a vida, a qualidade de vida e meio ambiente”, e o Artigo 196, que determina: “A saúde é Direito de todos e dever do Estado, garantida mediante políticas sociais e econômicas que visem à re- dução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação”. 2 Portaria Interministerial nº. 17 de 16/03/00, publicada no D. O.U. de 17 de março de 2000.16
  • 17. o assessoramento aos Ministérios danal à normativa MERCOSUL, consagrando o Agricultura, Pecuária e Abastecimento,princípio do registro por equivalência, modi- da Saúde e do Meio Ambiente, incluí-ficando substancialmente o próprio modelo da a manifestação sobre concessão dede registro vigente até aqui, no que se refere registro para uso emergencial, pedidosà tramitação dos processos e à intervenção de terceiros para cancelamento ou im-dos órgãos envolvidos. pugnação de registro e a reavaliação de registro frente a novos dados indicati- No seu inciso VI, vê-se a criação do vos de existência de riscos;Comitê Técnico de Assessoramento paraAgrotóxicos (CTA), composto por repre- o estabelecimento das diretrizes a seremsentantes dos órgãos federais responsáveis observadas no SIA, o acompanhamentopelos setores de agricultura, saúde e meio e a supervisão das suas atividades.ambiente, com o qual se visa à harmoniza-ção do inter-relacionamento desses órgãosno que se refere aos procedimentos técnico-científicos e administrativos concernentes a VI. Sites de interesseagrotóxicos, seus componentes e afins. Sãode sua competência: http://www.anvisa.gov.br/ — Agência Na- cional de Vigilância Sanitária. a sistemática proposição de incorpora- ção de tecnologias de ponta nos proces- http://www.cetesb.sp.gov.br/ — Companhia sos de análise, controle e fiscalização, de Tecnologia de Saneamento Ambiental do bem como quando relacionadas a outras Estado de São Paulo. atividades cometidas aos Ministérios da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, http://www.epa.gov/ — U.S. Environmental da Saúde e do Meio Ambiente, pela Lei Protection Agency. nº 7.802, de 1989; a análise de propostas de edição e de http://extranet.agricultura.gov.br/agrofit_cons/ alteração de atos normativos e a su- — Sistema de Agrotóxicos Fitossanitários. gestão de ajustes e adequações consi- deradas cabíveis; http://www.fiocruz.br/sinitox/ — Sistema Nacional de Informações Tóxico-Farmaco- a elaboração de critérios para a dife- lógicas. renciação desses produtos em classes, em função de sua toxicidade, periculo- http://www.iarc.fr/ — International Agency sidade, utilização e modo de ação; for Research on Cancer. 17
  • 18. VII. Bibliografia Agência Nacional de Vigilância Sanitária; International Agency for Research Cancer. Ministério da Saúde. Sistema de informa- Overall evaluations of carcinogenicity to ções sobre agrotóxicos (SIA). [citado em 07 humans. Lyon: IARC; 1987. [citado em 22 abr 2005]. Disponível em: http://www4.an- ago 2005]. Disponível em: http://www-cie. visa.gov.br/agrosia/asp/default.asp. iarc.fr/monoeval/crthall.html. Agência Nacional de Vigilância Sanitária; Koifman S, Hatagima A. Exposição aos agro- Ministério da Saúde, Instituto Nacional de tóxicos e câncer ambiental. In Peres F, Mo- Controle da Qualidade em Saúde; Ministério reira JC, organizadores. É veneno ou é remé- da Saúde. Programa de análise de resíduos de dio? agrotóxicos, saúde e ambiente. Rio de agrotó xicos em alimentos (PARA): relató- Janeiro (RJ): FIOCRUZ; 2003. p.75-99. rio anual 04/06/2001-30/06/2002. Brasília, DF: Ministério da Saúde; 2003. [citado em Luscombe D. Dioxinas e furanos: efeitos so- 09 ago 2004]. Disponível em: http://www. bre a saúde humana. São Paulo: Greenpeace anvisa.gov.br/toxicologia/residuos/rel_anu- Brasil; 1999. [citado em 14 out 2005]. Dispo- al_2002.pdf. nível em: http://www.greenpeace.org.br/to- xicos/pdf/dioxina.doc. Almeida WF. Trabalho agrícola e sua relação com saúde/doença. In: MENDES, R. Patolo- Matos GB, Santana OAM, Nobre LCC. Intoxi- gia do trabalho. Rio de Janeiro: Atheneu; cação por agrotóxico. In: Centro de Estudos 1996. p.487-544. da Saúde do Trabalhador. Superintendência de Vigilância e Proteção da Saúde; Secreta- Centro Nacional de Epidemiologia. Funda- ria da Saúde do Estado. Manual de normas e ção Nacional de Saúde; Ministério da Saúde. procedimentos técnicos para a vigilância da Guia de vigilância epidemiológica. Brasília saúde do trabalhador. Salvador (BA): CESAT/ (DF): FUNASA; 1998. cap. 5.15. SESAB; 2002. p. 249-280. Ecobichon DJ. Toxic effects of pesticides. In: Meyer A, Chrisman J, Moreira JC, Koifman S. Klaassen CD, editor. Casarett and Doull’s to- Cancer mortality among agricultural workers xicology: the basic science of poisons. 5 ed. from Serrana Region, state of Rio de Janeiro, New York: McGraw-Hill; 1996. p. 643-689 Brazil. Environ Res. 2003 Nov;93(3):264-71. Forget G. Pesticides and the third world. Nunes MV, Tajara EH. Efeitos tardios dos Pesticides and the Third World. J Toxicol praguicidas organoclorados no homem. Rev Environ Health. 1991 Jan;32(1):11-31. Saude Publica. 1998 Aug;32(4):372-82. Fundação Oswaldo Cruz. Sistema nacional Peres F. É veneno ou é remédio? os desafios de informações tóxico-farmacológicas (SI- da comunicação rural sobre agrotóxicos [dis- NITOX). Rio de Janeiro: FIOCRUZ; 2002. sertação]. Rio de Janeiro (RJ): Escola Nacio- [citado em 26 ago 2005]. Disponível em nal de Saúde Pública, FIOCRUZ; 1999. http://www.cict.fiocruz.br/intoxicacoeshu- manas/index.htm. Peres F, Moreira JC, Dubois GS. Agrotóxi- cos, saúde e ambiente: uma introdução ao Garcia EG, Almeida WF. Exposição dos tra- tema. In Peres F, Moreira JC, organizadores. balhadores rurais aos agrotóxicos no Bra- É veneno ou é remédio? agrotóxicos, saúde sil. Rev Bras Saúde Ocupacional. 1991; e ambiente. Rio de Janeiro (RJ): FIOCRUZ; 19(72):7-11. 2003. p. 21-41.18
  • 19. Reigart JR, Robert JR. Reconocimiento y Solomon G. Pesticides and human health: amanejo de los envenenamientos por pestici- resource for health care professionals. Cali-das. 5. ed. Washington, DC: EPA; 1999. [ci- fornia: Physicians for Social Responsabilitytado em: 05 set 2004]. Disponível em: http:// (PSR) and Californians for Pesticide Reformwww.epa.gov/pesticides/safety/healthcare. (CPR); 2000.Secretaria de Vigilância Sanitária; Ministério Verdes JAA, Companioni DR. Plaguicidasda Saúde. Manual de vigilância da saúde de organoclorados. México: Centro Panameri-populações expostas a agrotóxicos. Brasília cano de Ecología Humana Y Salud. Méxi-(DF): OPAS/MS; 1997. co: Mepetec;1990. 19
  • 20. Amianto I. Introdução 1. Definição O amianto, também denominado asbes- Classificação to, é uma forma fibrosa dos silicatos mine- rais. Compõe-se de silicatos hidratados de A Agência Internacional de Pesquisa magnésio, ferro, cálcio e sódio. Divide-se em Câncer (IARC), da Organização Mundial da Saúde, classifica o amianto como defi- em dois grandes grupos: serpentinas, ou nitivamente carcinogênico para os huma- crisotila (asbesto branco) e anfibólios, ou nos, [(Grupo 1) (IARC, 1987)] em qualquer actinolita, amosita (asbesto marrom), anto- estágio de produção, transformação e uso. filita, crocidolita (asbesto azul), tremolita De acordo com a Organização Mundial de ou qualquer mistura que contenha um ou Saúde (OMS), não há nenhum limite seguro vários destes minerais. de exposição para o risco carcinogênico, de acordo com o Critério 203, publicado pelo Origem IPCS (International Programme on Chemical Fibra de origem mineral, derivada de ro- Safety)/WHO (Organização Mundial da Saú- de) (WHO, 1998). chas metamórficas eruptivas, que, por pro- cesso natural de recristalização, transforma- Propriedades físico-químicas se em material fibroso (Castro, 2003). As fibras de asbesto são flexíveis, não se dis- CAS solvem em água e resistem a altas temperaturas, [Registro 1332-21-4] ao fogo e à degradação por produtos químicos e biológicos. Garantem isolamento térmico, acús- Sinonímia tico, incombustibilidade, resistência mecânica e Serpentinas (crisotila ou amianto branco) durabilidade (ASTDR, 2001). Anfibólios (tremolita, actinolita, anto- filita, amosita e crocidolita) 2. Usos mais freqüentes O amianto foi inicialmente empregado para 1 Número de Registro CAS (Chemical Abstracts Service): reforço de utensílios de cerâmica. Com a revolu- numeração única atribuída pela Sociedade Americana de Química (American Chemical Society) a uma substância ou ção industrial, passou a ser utilizado como isolan- composto químico, utilizada internacionalmente. te térmico de máquinas e equipamentos.20
  • 21. Devido às suas propriedades físico-químicas, para obtenção de isolamento térmico,o amianto tem sido muito empregado em diversos acústico e de calor.produtos,principalmenteemmateriaisdeconstru-ção e em situações que exijam o uso de materiaistermoresistentes (ASTDR, 2001). 3. Exposição ocupacional Na atualidade, é ainda muito utilizado como A exposição ocupacional é dada pela ina-matéria-prima na maioria das indústrias dos paí- lação das fibras de asbesto que causam lesõesses de economia periférica (Castro, 2003). nos pulmões e em outros órgãos. Muitas vezes as doenças aparecem depois de muitos anos de Sua aplicabilidade mais intensa se dá (Kar- exposição. A asbestose causa acúmulo de teci-jalainen, 1994; Castro, 2003) em: do conjuntivo, diminuindo a complacência pul- setor de fibrocimento: confecciona caixas monar e, conseqüentemente, as trocas gasosas, d’água, telhas onduladas e planas, tubu- podendo levar à morte (OSHA,2005). lações e divisórias, tintas, revestimentos e isolamentos térmicos e acústicos. Não há níveis seguros para a exposição, e o intenso uso, no Brasil, exige que a recuperação produtos de fricção: esta categoria in- clui guarnições de freios (lonas e pasti- do histórico de contato deva prever todas as si- lhas), juntas, gaxetas, revestimentos de tuações em que se fez necessário o isolamento discos de embreagem usados em car- acústico, térmico e a impermeabilização, pois o ros, caminhões, tratores, metrôs, trens e amianto pode estar presente em qualquer situ- guindastes. ação como isolante de caldeiras, fornos, isola- mento de salas, tetos ou cabines. produtos têxteis: tecidos especiais que oferecem resistência mecânica, quími- O Brasil é o quinto maior produtor de ca, isolantes térmicos elétricos e imper- meáveis. São utilizados em mangueiras, amianto e é auto-suficiente; 30% do exceden- forração de roupas e luvas especiais te da produção é exportado. O amianto bra- para as indústrias siderúrgicas, meta- sileiro é do tipo crisotila, com dimensões que lúrgicas e petroquímicas. o qualificam, principalmente, para a indústria do cimento-amianto. São produzidas cerca de filtros para líquidos de interesse comer- 237.000 toneladas por ano e exportadas, anu- cial: o amianto possui grande capaci- almente, 70.000 toneladas (Giannasi, 1997). dade filtrante, pois não é corrosível, e possui boa resistência bacteriana. papéis e papelões: misturados a resi- nas especiais e depois prensados, são II. Efeitos sobre produzidos laminados de papéis e pa- pelões usados em painéis acústicos e a saúde humana para o transporte de peças frágeis que necessitam proteção contra choques, A exposição ao amianto está relacionada à calor, umidade. ocorrência de asbestose, enfermidade que causa produtos de vedação: a partir de teci- inflamação pulmonar seguida de fibrose, além dos e papelões de amianto, são produ- de estar associada ao aparecimento de câncer zidas juntas para revestimento e veda- (pulmão e trato gastrointestinal) e mesotelioma ção, usados pela indústria automotiva (tumor raro e de difícil diagnóstico). 21
  • 22. 1. Toxicologia A absorção de asbesto pelo organismo depende de alguns fatores: A ocorrência de placa pleural é consi- tamanho da fibra: basta respirar a poeira derada um marcador de exposição, estando de amianto que contenha fibras de tama- mais relacionada ao tempo de latência do nho suficientemente pequeno, que atinjam que à exposição. os alvéolos (3 micra de diâmetro e de 5 a 200 micra de comprimento), para que se As lesões mais precoces são encon- inicie o processo de adoecimento. tradas nos dutos alveolares e nas regiões concentração: quanto maior o número peribrônquicas, onde as fibras de asbesto de fibras de amianto em proporções atraem macrófagos alveolares. Os pulmões respiráveis presentes no ambiente, dos trabalhadores expostos ao asbesto maior será a probabilidade do indi- mostram lesão inflamatória e fibrótica das víduo em reter estas partículas. Se a pequenas vias áereas. exposição for freqüente, deve-se levar em conta o tipo de fibra. À medida da progressão da doença, o tempo de exposição: estudos demons- processo fibrótico torna-se extenso e, por fim, tram que o câncer de pulmão ou o me- envolve todo o pulmão, que perde, até mes- sotelioma se manifestam, em média, mo, sua arquitetura normal. Nos casos avan- após 15 anos de exposição, como ocorre çados, os pulmões tornam-se pequenos e rígi- com a maioria dos tumores sólidos. dos, com fibrose macroscopicamente visível. biopersistência: significa que para provo- car dano pulmonar a fibra deve penetrar A primeira anormalidade patológica e permanecer nos alvéolos, o que ocorre da asbestose é um acúmulo de células in- com mais facilidade se a fibra for do tipo flamatórias, principalmente macrófagos, anfibólio (rígida e pontiaguda) e com me- ao redor das fibras. Isso explica por que a nos facilidade, se a fibra for do tipo cri- exposição ao asbesto reduz o fluxo aéreo sotila (maleável e curva). Nos processos a baixos volumes pulmonares (Goldman de extração há proporções variáveis dos & Ausiello, 2005). diferentes tipos das fibras. susceptibilidade individual: está rela- Estudos recentes mostram que o desenvol- cionada com a atividade exercida no vimento da doença pode não estar diretamen- momento da exposição e a característi- te relacionado com o tempo de exposição e a cas individuais e genéticas. quantidade inalada. Doenças relacionadas ao asbesto (Goldman & Ausiello, 2005): 2. Agravos relacionados lesões pleurais benignas — período de com a exposição latência de 15 a 20 anos. Asbestose asbestose — período de latência de mais de 10 anos. Os trabalhadores que inalam repetidamen- te fibras de asbesto podem desenvolver lesões câncer de pulmão — período de latência que causarão cicatrizes no pulmão e na pleura. de mais de 30 anos. Esse tecido perde sua capacidade de contração mesoteliomas — período de latência de 30 e expansão (complacência) e, por conseguinte, a 40 anos. a respiração torna-se difícil. Pode haver dimi-22
  • 23. nuição do fluxo sangüíneo nos pulmões e isso do 86 trabalhadores da indústria de fibrocimentocausa hipertrofia cardíaca. Essa enfermidade é com mais de 10 anos de exposição, que detectoudenominada asbestose: dificulta a respiração que 25% dos trabalhadores da região de Lemee tosse é um de seus sintomas. É considerada (SP) apresentavam asbestose. Outro grupo deuma doença grave e pode levar à morte. É uma pesquisadores de São Paulo, que reuniu profis-doença majoritariamente laboral, porém, com sionais do Ministério do Trabalho e Emprego, dea disseminação ambiental, pode afetar pessoas Universidades e Institutos de Pesquisa, realizouque vivem ou transitam em áreas com altos ní- um estudo que verificou 5% de prevalência deveis ambientais de asbesto (ASTDR, 2001). asbestose entre os trabalhadores ativos de indús- trias de fibrocimento. Rodel Speger, em 1995, es- Estudos epidemiológicos demonstram o tudando os efeitos do amianto do tipo anfibólioaumento do risco de asbestose em minera- observou que este tipo de asbesto oferece um ris-dores da fibra, fabricantes de barcos de fibra co 5 vezes maior para câncer de pulmão do quede amianto, e trabalhadores da indústria de outros tipos.cimento-amianto (IACR,1987). 2.2. Sinais clínicos da asbestose2.1. Prevalência da asbestose O quadro clínico caracteriza-se por no Brasil dispnéia de esforço, crepitações nas ba- Estima-se que a população brasileira ex- ses e baqueteamento digital, este em fasesposta diretamente seja de 500.000 pessoas (Al- tardias. O espessamento pleural, na formagranti, 2001), sendo 20.000 ligadas à exposição de placas ou espessamento pleural difuso,ocupacional em mineração e produção de ci- é a doença mais prevalente relacionadamento-amianto. Há uma porcentagem desco- ao asbesto.nhecida de trabalhadores engajados na constru-ção civil, atividade não regulada na exposiçãoao asbesto (Castro, 2003). 3. Carcinogênese Entre os vários segmentos da indústria, na O amianto é considerado uma substân-mineração são cerca de 25.000 trabalhadores cia de comprovado potencial cancerígenoexpostos. O setor de fibrocimento responde em quaisquer das suas formas ou em qual-por aproximadamente 85% do amianto utili- quer estágio de produção, transformação ezado em 30 fábricas, com aproximadamente 8 uso. De acordo com a Organização Mundialmil trabalhadores expostos (Castro,1996). de Saúde (OMS), a crisotila está relacionada a diversas formas de doença pulmonar (as- Estima-se que o pico do adoecimento no bestose, câncer pulmonar e mesotelioma deBrasil se dará entre 2005-2015, como ocor- pleura e peritônio) (Castro,2003).reu na Europa e nos Estados Unidos a partirdo final dos anos 60. Na indústria cimento- Há dois tipos de câncer produzidos pelaamianto, registrou-se uma prevalência de exposição a asbesto: câncer de pulmão e8,9 % de asbestose (Castro, 2003). mesotelioma. Este último caracteríza-se pelo desenvolvimento de tumor na pleura ou no Dados de prevalência de asbestose são escas- peritônio. Alguns estudos evidenciam quesos no Brasil. A revisão de Castro (1996) identifi- o asbesto pode aumentar as possibilidadesca um estudo feito por Costa em 1983, envolven- de câncer em outras partes do corpo como 23
  • 24. estômago, intestino, esôfago, pâncreas e rins No Brasil, o limite de tolerância (LT) foi (ASTDR, 2001). Todavia, não há tipo histo- estabelecido pelo Ministério do Trabalho e lógico mais prevalente e observa-se maior Emprego na Portaria 3214, norma regula- prevalência nos casos de asbestose. mentadora 15, anexo 12, em 1991. Nesta, foi proibido o uso de fibras de anfibólios A exposição ao asbesto e o tabagismo (crocidolita, amosita, antofilita, tremolita). agem sinergicamente no desenvolvimento Para as fibras respiráveis de crisotila, esta- do câncer pulmonar (ASTDR, 2001). belece o limite de tolerância de 2,0 fibras/ cm3. Entende-se por “fibras respiráveis de As fibras de asbesto parecem causar não asbesto” aquelas com diâmetro inferior a só lesão tecidual através da estimulação dos 3 micrômetros, comprimento maior que 5 macrófagos alveolares para secretar mate- micrômetros e relação entre comprimento e riais citotóxicos, quimiostáticos de células diâmetro superior a 3:1. inflamatórias, mas também ao menos um fator que estimula a proliferação dos fibro- blastos. Devido à sua durabilidade, as fibras podem estimular repetidamente os macró- IV. Medidas fagos por vários anos, sem que sejam de- gradadas. Isto ajuda a explicar a contínua de controle progressão da doença induzida pelo asbesto após ser interrompida a exposição (Goldman A OMS e a OIT (Organização Internacio- & Ausiello, 2005). nal do Trabalho), reconhecendo o potencial de risco do amianto, recomendam que sejam utilizadas outras fibras, sempre que esta al- III. Limites ternativa existir. de tolerância O controle da exposição ao amianto deve seguir o estabelecido na Convenção/OIT nº 139/1974, que trata da Prevenção e Controle A OSHA (Occupational Safety & Health de Riscos Profissionais causados por Substân- Administration) estabelece o Limite de Ex- cias ou Agentes Cancerígenos, ratificada pelo posição Permitido (PEL) para todas as fibras Brasil em junho de 1990, e vigente desde ju- de asbesto maiores de 5 micra em 0,1 fibra/ nho de 1991, que determina: cm3, mesmo valor do Limite de Exposição Recomendado (REL) estabelecido pelo NIO- substituir substâncias e agentes can- SH (National Institute for Occupational Sa- cerígenos por outros não-cancerígenos fety and Health). ou menos nocivos. reduzir não só o número de trabalha- O Limite de Exposição (TLV-TWA) para dores expostos, bem como a duração e todas as formas de asbesto, adotado pela AC- os níveis de exposição ao mínimo com- GIH (American Conference of Governmental patível com a segurança. Industrial Hygenists) em 1998, é de 0,1 fibra/cm3 (até 1997 era de 0,5 fibra/cm3), prescrever medidas de proteção. com a observação de que o asbesto deve ser considerado carcinogênico humano. estabelecer sistema apropriado de registro.24
  • 25. informar aos trabalhadores sobre os riscos e as medidas a serem aplicadas. V. Legislação garantir a realização dos exames mé- O amianto já foi proibido em 36 países dicos necessários para avaliar os efei- em todas as suas formas químicas e estrutu- tos da exposição. rais e teve sua utilização restrita em inúme- ros outros. A Comissão das ComunidadesAs medidas de controle ambiental visam Européias aprovou em 26/7/1999 a Direti-à eliminação ou à redução da exposição a va 1999/77/CE, que decidiu pela proibiçãoníveis próximos de zero por meio de total do uso do amianto em todos os países membros da União Européia, a partir de enclausuramento de processos e iso- janeiro de 2005. Na América Latina (Cas- lamento de setores de trabalho; tro, 2003), Argentina, Chile e El Salvador umidificação dos processos, onde haja proibiram o uso do amianto. produção de poeira; No Brasil, a partir de 1991, o Minis- normas de higiene e segurança rigo- tério do Trabalho e Emprego publicou no rosas, colocação de sistemas adequa- anexo 12 da Norma regulamentadora nº dos e eficientes de ventilação exaus- 15, que tora local e de ventilação geral; proíbe o uso de amianto do tipo anfi- bólio e de produtos que o contenham; monitoramento sistemático das con- centrações de fibras no ambiente; proíbe a pulverização (spray) de qual- quer amianto; mudanças na organização do traba- proíbe o trabalho de menores de 18 lho que permitam diminuir não só o anos nas áreas de produção; número de trabalhadores expostos, as empresas (públicas ou privadas) que bem como o tempo de exposição; produzem, utilizam ou comercializam limpeza a úmido ou lavagem com fibras de asbesto e as responsáveis água das superfícies do ambiente pela remoção de sistemas que contêm (bancadas, paredes, solo) ou limpeza ou podem liberar fibras de asbesto para o ambiente deverão ter seus esta- por sucção, para retirada de partícu- belecimentos cadastrados junto ao Mi- las antes do início das atividades; nistério do Trabalho e da Previdência medidas de limpeza geral dos am- Social/Instituto Nacional de Segurida- bientes de trabalho e facilidades para de Social, através de seu setor compe- tente em matéria de segurança e saúde higiene pessoal — recursos para ba- do trabalhador; nhos, lavagem das mãos, braços, ros- to e troca de vestuário; antes de iniciar os trabalhos de remoção e demolição, o empregador e/ou contra- equipamentos de proteção individual tado, em conjunto com a representação adequado, em bom estado de conser- dos trabalhadores, deverão elaborar um vação, devem ser fornecidos pelo em- plano de trabalho onde sejam especifica- pregador, como medida complemen- das as medidas a serem tomadas, inclusi- tar à proteção coletiva. ve as destinadas a: 25
  • 26. 1. proporcionar toda a proteção ne- de, sobre as doenças relacionadas e so- cessária aos trabalhadores; bre as medidas de proteção e controle. 2. limitar o desprendimento da poeira A asbestose, o mesotelioma e o câncer de de asbesto no ar; pulmão que decorrem da exposição ao amianto são objeto de notificação nacional ao Ministério 3. prever a eliminação dos resíduos que da Saúde, de acordo com o regulamentado pela contenham asbesto. portaria 777/GM de 28 de abril de 2004, que determina que as fibras de amianto e dispõe sobre os procedimentos técnicos para a seus produtos sejam rotulados e acom- notificação compulsória de agravos à saúde do panhados de “instruções de uso”, com trabalhador em rede de serviços sentinela espe- informações sobre os riscos para a saú- cífica, no Sistema Único de Saúde (SUS).26
  • 27. VI. BibliografiaAgencia para Substancias Tóxicas y el Re- Giannasi F, Thebaud-Mony A. Occupationalgistro de Enfermidades. Resumen de salud exposure to asbestos in Brazil. Int J Occup En-pública asbesto (Asbestos). Atlanta: ATSDR; viron Health. 1997 Apr;3(2):150-157.2001. [citado em 14 out 2005]. Disponível Goldman L, Ausiello DG. Tratado de medicinaem: http://www.atsdr.cdc.gov/es/phs/es_ interna. 22 ed. Rio de Janeiro (RJ):Elsevier;phs61.html#expos. 2005.Algranti E. Epidemiologia das doenças International Agency for Research on Can-ocupacionais respiratórias no Brasil. In: cer. Overall evaluations of carcinogenicity: anMenezes AMB. Epidemiologia das doenças updating of IARC monographs volumes 1 torespiratórias. Rio de Janeiro (RJ): Revinter; 42, supplement 7. Lyon: IARC; 1987.2001. p.119-143. International Agency for Research on Cancer.Castro H, Giannasi F, Novello C. A luta pelo Asbestos. In: Overall evaluations of carcino-banimento do amianto nas Américas: uma genicity: an updating of IARC monographsquestão de saúde pública. Cienc. saúde co- volumes 1 to 42, supplement 7. Lyon: IARC;letiva. 2003; 8(4):903-911. 1987. p.106-116.Castro HA. Pneumopatias profissionais In: Karjalainen A, Anttila S, Vanhala E, Vainio H.Pneumologia – Bethlema. 4 ed. São Paulo Asbestos exposure and the risk of lung cancer(SP): Atheneu; 1996. in a general urban population. Scand J Work Environ Health. 1994 Aug;20(4):243-50.Department of Labor. Occupational Safety& Health Administration. Washington, (DC): World Health Oganization. EnvironmentalOSHA; 2005. [citado em 14 out 2005]. Dis- health criteria 203: chrysotile asbesto. Gene-ponível em: http://www.osha.gov. va: WHO; 1998. 27
  • 28. Sílica I. Introdução 1. Definição A palavra sílica refere-se aos compos- Sílica amorfa: Aerosil, Celite, Ludox, tos de dióxido de silício, representado pelo Silcron G-910 (Bon, 2003). símbolo SiO2. É um mineral duro e o mais abundante na crosta terrestre: encontra-se Classificação em rochas e areias. As três formas de sílica Segundo a IARC (International Agency cristalina são o quartzo, a trimidita e a for Research on Cancer/WHO) da Organi- cristobalita (NIOSH, 2002). zação Mundial de Saúde, a sílica cristalina está classificada como Grupo 1, reconheci- Origem damente cancerígena para seres humanos Mineral, biogênica ou sintética. (IARC,1997). CAS [Registro 14808-60-7] Propriedades físico-químicas Sua composição química corresponde ao Sinonímia dióxido de silício, que apresenta as seguintes Sílica cristalina: coesista, cristobalita, propriedades: é inerte, resistente a altas tempe- jasper, sílica microcristalina, quartzo, raturas e solúvel em ácido fluorídrico. quartzito, entre outros. Sílica amorfa: sílica coloidal, terra 2. Usos mais freqüentes diatomácia, diatomita, sílica “fumed” A sílica é largamente utilizada como pro- sílica fused, opala, sílica gel, sílica ví- duto final, subproduto ou matéria-prima em trea, entre outros. vários processos industriais. Os principais es- Nome comercial tão descritos no Quadro 1, a seguir. Sílica cristalina: BRGM, D&D, DQ12, Min-U-Sil, Sil-Co-Snowit.28
  • 29. Quadro 1 – Setor econômico e atividade com exposição típica à sílica cristalina livre Setor Econômico Atividade Agricultura Aragem, colheita Beneficiamento de minério Marmoraria, lapidação e corte de pedra, moinho Indústria de cerâmica (tijolo, telha, porcelana, Mistura, moldagem, cobertura vitrificada ou esmaltada, olaria, refratários e vitrificados) rebarbação, carga de fornos e acabamento Indústria de cimento Processamento de matéria prima como argila, areia, pedras e terra diatomácea Construção civil Construção pesada (túnel e barragens). Corte, acabamento, escavação, alve- naria, jateamento, movimentação de terra, demolição Construção naval Jateamento, manutenção e limpeza Extração mineral Mineração de subsolo, lavra por explosivo, pefuração, corte, britagem, moagem, peneiramento e ensacamento, pedreiras Fundição Fundição da peça, retirada do molde, limpeza, alisamento. Instalação e reparo de fornos Indústria de mineral não metálico Cerâmica, vidros e fundições Limpeza com abrasivo Manutenção de materiais que utilizam jateamento com areia ou outro abrasivo contaminado com areia. Manipulação de jeans em indústria têxtil Matéria prima Indústrias que utilizam material contendo sílica (quartzito, feldspato, filito, granito, agalmatolito, bentonita, dolomita, argila e caulim), tais como: de cosmético, de tintas, de sabões, farmacêuticas, de inseticida, industrias que utilizam terra diatomácea. Serviços diversos Protéticos, cavadores de poços, artistas plásticos, reparo e manutenção de refratáriosFonte: IARC, 1997.3. Exposição ocupacional para a população brasileira formalmente registrada. Os resultados identificam que, A exposição ocupacional ocorre por meio em média, 5.447.828 trabalhadores (14,6%)de inalação de poeira contendo sílica livre cris- estão expostos à sílica por mais de 1% datalizada. O local de deposição das partículas no jornada semanal de trabalho. Acima desistema respiratório depende diretamente do ta- 30% da jornada semanal de trabalho sãomanho das mesmas (Fundacentro, 2001): 2.065.935 trabalhadores (5,6%) dividos inaláveis - partículas menores que 100µ; entre homens (prevalência média de 9,1%) torácicas - partículas menores que 25µ; e mulheres (0,6%) distribuídos conforme o respiráveis - partículas menores que 10µ. Quadro 2. O Brasil conta com poucos estudos de A prevalência média de 5,6% dosavaliação da exposição ocupacional com trabalhadores expostos no Brasil repre-metodologia confiável que sejam compa- senta uma taxa muito superior aos re-ráveis entre si. Os dados mais recentes são sultados de estudos similares realizadosde Ribeiro (2004), que estudou a freqüên- na Finlândia (3,8%), República Tchecacia da exposição à sílica, estimada por es- (3,4%), Áustria (3,1%), Estônia, Ale-pecialistas em higiene ocupacional através manha, Grécia e Irlanda (ao redor dede uma matriz de exposição ocupacional 3%) (Kauppinen, 1998) e na Costa Rica (2,1%) (Partanen, 2003). 29
  • 30. Quadro 2. Prevalência de trabalhadores definitivamente expostos* à sílica por sexo e setor econômico. Brasil, 1985 a 2001 Setor Econômico Anos Homens % Expostos Mulheres % Expostas Ocupados Expostos Ocupadas Expostas Administração de serviços 1985 1.732.757 101.468 5,9 560.728 505 0,1 técnicos e pessoal 2001 2.978.415 70.522 2,4 1.318.303 1.505 0,1 Agricultura 1985 485.570 20.051 4,1 93.549 343 0,4 2001 1.759.537 74.984 4,3 295.320 582 0,2 Construção civil 1985 1.261.469 858.121 68,0 56.783 4.632 8,2 2001 2.103.613 1.432.309 68,1 124.246 15.589 12,6 Indústria de borracha, fumo e couro 1985 327.320 11.463 3,5 146.736 5.283 3,6 2001 218.399 5.287 2,4 99.491 3.101 3,1 Indústria de extração mineral 1985 179.110 118.302 66,1 10.427 1.784 17,1 2001 135.103 85.526 63,3 12.251 1.469 12,0 Indústria de mineral não metálico 1985 343.456 179.001 52,1 48.588 26.041 53,6 2001 330.666 186.954 56,5 40.239 17.373 43,2 Metalurgia 1985 666.018 168.590 25,3 78.077 16.919 21,7 2001 583.703 143.553 24,6 70.296 13.324 19,0 Outros setores 1985 11.982.403 12.022 0,1 6.992.765 657 0,0 2001 14.740.490 12.974 0,1 12.089.348 883 0,0 Total 1985 16.978.103 1.469.018 8,7 7.987.653 56.164 0,4 2001 22.849.926 2.012.109 8,8 14.049.494 53.826 0,7 Fonte: Ribeiro (2004). * Freqüência de exposição acima de 30% da jornada semanal de trabalho II. Efeitos sobre paredes bronquiolares. O organismo tenta reparar esses danos com a integração de um a saúde humana tecido conjuntivo fibroso, caracterizando a fibrose. Esta é responsável pela diminuição da complacência pulmonar, prejudicando o 1. Toxicologia processo de trocas gasosas. Os sintomas são Os efeitos tóxicos no organismo hu- tosse e falta de ar progressiva (Fundacen- mano dependem do tipo de exposição e do tro, 2002). tipo de resposta orgânica. A poeira de sí- lica cristalina, quando inalada, estimula a região traqueobronquial a produzir muco, 2. Agravos relacionados auxiliando a função ciliar na remoção das com a exposição partículas. As partículas que chegam aos alvéolos pulmonares estimulam a chegada Silicose de macrófagos e outras células de defesa como os leucócitos, todos com alta capa- Silicose é uma fibrose pulmonar difu- cidade fagocitária. Uma vez que as células sa, nodular, intersticial, causada por uma imunes não possuem mecanismos de diges- reação dos tecidos à inalação do pó de sí- tão desta substância tóxica, esta começa lica cristalina. Poderá tomar uma forma a se acumular nos alvéolos. Ademais, elas aguda em situações de exposição intensa, produzem quimiocinas como interleuci- mas normalmente aparece sob forma crô- nas, presentes em processos inflamatórios. nica, levando anos para se revelar. O aco- A sílica é muito reativa em meio aquoso, metimento pela silicose propicia o aumen- gerando radicais livres capazes de lesar as to do risco de câncer pulmonar e de outras30
  • 31. doenças auto-imunes. Classicamente são lulas. Há evidências de que a inflama-descritas três formas clínicas distintas: ção constante e persistente, bem comosilicose aguda, crônica e subaguda (Divi- derivados oxidantes de células podemsion of Environmental and Occupational resultar em efeitos genotóxicos no pa-Health,1998). rênquima pulmonar. A sílica é capaz de ativar processos inflamatórios que podem resultar em hiperplasia epitelial2.1. Prevalência da silicose associada a neoplasias. Estudos demons- no Brasil tram que partículas de quartzo isoladas A importância da silicose no Brasil não são mutagênicas, porém, em contatovem sendo descrita desde 1939 e atu- com substâncias oxidativas, assumem talalmente configura-se a pneumoconiose papel (IARC, 1997).mais prevalente no país (Algranti, 2001).A sua dimensão no Brasil não é total- A mortalidade por câncer de pulmãomente conhecida. Estudos recentes per- possui risco de 2 a 3 vezes maior nosmitem apenas aproximações pontuais trabalhadores expostos à sílica após oem algumas atividades industriais. Pre- controle por outros fatores como fumovalências de silicose definida pela Orga- (Goldsmith, 1995; Smith, 1995; Check-nização Internacional do Trabalho (OIT) way, 1999; Martin, 2000). Goldsmithcomo categoria radiológica OIT 1/1 ou (1995) em estudo americano de morta-maior, foram encontradas em mais de lidade encontrou risco 2 vezes maior20% dos trabalhadores da indústria de de câncer em expostos à sílica, quandoconstrução naval (Comissão técnica es- comparados com a população em geral.tadual de pneumopatias ocupacionais noEstado do Rio de Janeiro, 1995), cavado- O risco varia segundo a exposiçãores de poços artesianos (Holanda, 1995) e em diferentes setores industriais. Mar-escultores de pedra (Antão, 2004); 16,3% tin (2000) em estudo de caso controleem pedreiras (Araújo, 2001); entre 3 e aninhado em coorte de trabalhadores da5% na indústria de cerâmica (Oliveira, indústria de gás e eletricidade da França1998) e nas fundições (Polity, 1995). A descreveu risco 2,3 maior de câncer departir dos registros da Previdência Social pulmão entre os expostos à sílica. Hugesé possível estimar a prevalência de sili- (2001) encontrou uma razão de mortali-cose em 2 para 10.000 trabalhadores no dade proporcional de 1,4 para trabalha-ano de 2003 (Ribeiro, 2005). dores com areia industrial. Tsuda (2002) descreve um risco de 2,1 para câncer de O estudo da prevalência da silicose re- pulmão entre trabalhadores da prefeitu-presenta uma aproximação da dimensão ra de Okayanna, Japão, expostos à sílica.do câncer associado à sílica, uma vez que Bochmann (2001) discutiu uma revisãonão existem estudos nacionais capazes de de 165 estudos epidemiológicos, entrepermitir estimativas neste sentido. 1963 e 2000, que investigam a relação entre câncer de pulmão e a exposição à sílica. No Brasil, Carneiro (2002) des-2.2. Carcinogênese creveu dois casos de trabalhadores ex- A sílica possui poder genotóxico que postos à sílica que desenvolveram cân-pode afetar diretamente o DNA das cé- cer de pulmão. 31
  • 32. III. Limites limpeza ou manutenção geral sinalização e rotulagem de tolerância monitoramento ambiental proteção respiratória asseio pessoal No Brasil, o limite de tolerância (LT) para exames médicos a sílica cristalina foi estabelecido pelo Mi- limitação do tempo de exposição nistério do Trabalho e Emprego em 1978, na treinamento. Portaria 3214, norma regulamentadora 15, anexo 12. Este limite consiste no cálculo da Estas medidas devem ser adotadas em porcentagem de sílica na poeira respirável conjunto, segundo as condições da exposi- do ambiente de trabalho, para jornada de até ção e do processo de trabalho. 48 horas semanais, através da fórmula: A natureza da poeira de sílica propicia, além da exposição ocupacional, que o pro- 8 cesso de trabalho também contamine o am- Poeira respirável: LT = , expresso % quartzo + 2 em mg/m3 biente no entorno. Neste sentido, o seu ca- ráter cancerígeno amplia o risco e demanda novas formas de controle e prevenção. Em legislações internacionais o limi- te de exposição descrito pela NIOSH (Na- tional Institute for Occupational Safety and V. Legislação Health) e pela ACGIH (American Conference of Governmental Industrial Hygenists) é de As doenças decorrentes da exposição à 0,05 mg/m3 (quartzo como poeira respirá- sílica, em especial a silicose e o câncer de vel) para 40 horas de trabalho semanais. pulmão, são objeto de notificação nacional Pela OSHA (Occupational Safety & Health ao Ministério da Saúde, como regulamenta a Administration) o limite é de 30mg/m³/2 (% Portaria nº 777/GM, de 28 de abril de 2004, de quartzo como poeira total + 3) para 8h que dispõe sobre os procedimentos técnicos de trabalho diário (Patnaik, 2003). para a notificação compulsória de agravos IV. Medidas de controle O controle da exposição ocupacional deve priorizar, seguindo Neto (1995): eliminação da substância mudança de processo ou operação umidificação ventilação enclausuramento isolamento32
  • 33. à saúde do trabalhador em rede de serviçossentinela específica, no Sistema Único de VI. Sites de interesseSaúde – SUS. Emedice [Página de Internet]. Disponível em: http://www.emedice.com/med/topic2127.htm. A portaria 99, de 19 de julho de 2004do Ministério do Trabalho e Emprego in- Fundação Jorge Duprat de Segurança ecluiu o item 7, no título “Sílica Livre Medicina do Trabalho [Página de Internet].Cristalizada”, do Anexo nº 12, da Norma Disponível em: http://www.fundacentro. gov.br.Regulamentadora nº 15 — Atividades eoperações insalubres, com a seguinte reda- NIOSH Hazards review: health effects ofção: “7. Fica proibido o processo de trabalho occupational exposure to respirable crys-de jateamento que utilize areia seca ou úmi- talline sílica [Página de Internet]. Atlanta:da como abrasivo”. CDC; 2002. Disponível em: http://www. cdc.gov/niosh/02-129A.html. O Brasil participa do Programa Interna- Silica. National Institute for Occupatio-cional da OIT/OMS para eliminação global nal Safety and Health; Centers for Diseaseda silicose, com o Programa Nacional de Eli- Control and Prevention [Página de Inter-minação da Silicose, desde o ano 2000 (Go- net]. Disponível em: http://www.cdc.gov/elzer & Handar, 2002). niosh/topics/silica/default.html. Williams Bailey L.L.P [Página de Internet]. Disponível em: http://www.williamsbailey. com/practices/silica-toxic. 33
  • 34. VII. Bibliografia Algranti E. Epidemiologia das doenças ocu- Goelzer B, Handar Z. Programa nacional de pacionais respiratórias no Brasil. In: Mene- eliminação da silicose. In: Seminário Interna- zes AMB. Epidemiologia das doenças res- cional Sobre Exposição à Silica “Prevenção e piratórias. Rio de Janeiro (RJ): Revinter; Controle”; 2000 nov 06-10; Curitiba. Santa 2001. p.119-143. Catarina: Fundacentro; 2002. Disponível em: http://www.fundacentro.br/site%20silicose/ Antao VC, Pinheiro GA, Kavakama J, Terra- default.html. Filho M. High prevalence of silicosis among stone carvers in Brazil. Am J Ind Med. 2004 Goldsmith DF, Beaumont JJ, Morrin LA, Feb;45(2):194-201. Schenker MB. Respiratory cancer and other chronic disease mortality among si- Bochmann F, Nold A, Arndt V, Möhring D. licotics in California. Am J Ind Med. 1995 BIA report 2/2001 - silica and lung can- Oct;28(4):459-67. cer: a summary of epidemiological studies. HVBG; 2001. Holanda MA, Holanda MA, Martins MP, Fe- lismino PH, Pinheiro VG. Silicosis in Brazilian Bom AMT. Prevenção da silicose - cursos pit diggers: relationship between dust exposu- Fundacentro à distância. MTE/Fundacentro. re and radiological findings. Am J Ind Med. [citado em 14 out 2005]. Disponível em: URL: 1995; 27(3):367-378. http://www.fundacentro.br/site%20silicose/ default.html. Hughes JM, Weill H, Rando RJ, Shi R, McDo- nald AD, McDonald JC. Cohort mortality stu- Carneiro APS, Santos MAM, Maia PV, Bar- dy of North American industrial sand workers. reto SM. Câncer de pulmão em trabalha- II. Case-referent analysis of lung cancer dores expostos à sílica. J Pneumol. 2002; and silicosis deaths. Ann Occup Hyg. 2001 28(4):233-236. Apr;45(3):201-7. Castro HA, Bethlem EP, coordenadores. Co- International Agency for Research on Can- missão Técnica Estadual de Pneumopatias cer. Silica, some silicates, coal dust and para- Ocupacionais do Estado do Rio de Janeiro: arami fibrils. Lyon: IARC; 1997. a silicose na indústria naval do Estado do Rio de Janeiro: análise parcial. J Pneumol. Kauppinen T, Toikkanen J, Pedersen D, 1995; 21[1]:13-16. Young R, Kogevinas M, Ahrens W. Oc- cupational exposure to carcinogens in Checkoway H, Hughes JM, Weill H, Seixas the European Union in 1990-1993. Hel- NS, Demers PA. Crystalline silica exposu- sinki: Finish Institute of Occupational re, radiological silicosis, and lung cancer Health; 1998. [citado em 30 out 2003]. mortality in diatomaceous earth industry Disponível em: http://www.ttl.fi/NR/ workers.Thorax. 1999 Jan;54(1):56-9. rdonlyres/4444380F-B1FB-4D01-A974- Division of Environmental and Occupatio- 0B6A9E663CFA/0/1_description_and0_ nal Health. What physicians need to know summary_ of_results.pdf. about occupational silicosis and silica ex- Kulcsar Neto F, Gronchi CC, Saad IFSD, posure sources. New Jersey: Department Cunha IA, Possebon J, Teixeira MM et al. of Health and Senior Service; 1998. [cita- Sílica - manual do trabalhador. São Pau- do em 14 out 2005]. Disponível em: http:// lo: FUNDACENTRO; 1995. [citado em 14 www.cdc.gov/elcosh/docs/d0600/d000600/ out 2005]. Disponível em http://www.fun- d000600.pdf. dacentro.gov.br/ARQUIVOS/PUBLICACAO/34
  • 35. l/SÍLICA%20MANUAL%20DO%20TRABA Polity MP. Programa de proteção respiratóriaLHADOR%202.pdf. em fundições. J. Pneumol. 1995; 21(1):43-47.Martin JC, Imbernon E, Goldberg M, Cheva- Programa nacional de eliminação da silico-lier A, Bonenfant S. Occupational risk factors se. In: Seminário Internacional Sobre Expo-for lung cancer in the French electricity and sição à Silica “Prevenção e Controle”; 2000gas industry: a case-control survey nested in nov 06-10; Curitiba. Santa Catarina: Funda-a cohort of active employees. Am J Epidemiol. centro; 2000. [citado em 14 out 2005]. Dis-2000 May 1;151(9):902-12. ponível em: URL:http://www.fundacentro.br/ site%20silicose/default.html.National Institute for Occupational Safety andHealth. NIOSH Hazards review: health effects Ribeiro FSN. Exposição ocupacional à sílicaof occupational exposure to respirable crys- no Brasil: tendência temporal, 1985 a 2001talline silica. Atlanta: CDC; 2002. [citado em [Tese]. São Paulo (SP): Faculdade de Saúde14 out 2005]. Disponível em: http://www.cdc. Pública, Universidade de São Paulo; 2004.gov/niosh/02-129Ahtml. Ribeiro FSN. Tendência da exposição ocupa-Oliveira JI. Prevalence of silicosis among ce- cional a sílica na indústria da construção bra-ramic industry workers in the city of Pedreira, sileira. Anais do V Congresso Nacional sobreBrazil [abstract]. In: Abstracts of the 7th Inter- Condições e Meio Ambiente de Trabalho nanational Pneumoconiosis Conference; 1990. Indústria da Construção; 2005. Recife (PE):Atlanta: NIOSH, CDC, 1998. p.114. CMATIC; 2005.Partanen T, Chaves J, Wesseling C, Chaver- Smith AH, Lopipero PA, Barroga VR.. Meta-ri F, Monge P, Ruepert C et al. Workplace analysis of studies of lung cancer among sili-carcinogen and pesticide exposures in Costa cotics. Epidemiology. 1995 Nov;6(6):617-24.Rica. Int J Occup Environ Health. 2003 Apr- Tsuda T, Mino Y, Babazono A, Shigemi J, OtsuJun;9(2):104-11. T, Yamamoto E et al. A case-control study ofPatnaik P. Guia geral propriedades nocivas lung cancer in relation to silica exposure anddas substâncias químicas. Belo Horizonte: silicosis in a rural area in Japan. Ann Epide-Ergo; 2003. miol. 2002 Jul;12(5):288-94. 35
  • 36. Radiação ionizante I. Introdução 1. Definição mos a palavra radiação, geralmente pensa- mos em força nuclear, armas nucleares ou É a emissão e propagação de energia em tratamentos para câncer. Porém, pode- no espaço, em forma de ondas e partícu- mos também considerar microondas, rada- las subatômicas, como α, β, γ ou raios X res, fios de alta tensão, telefones celulares (Eisler, 2000; Kiefer, 1990). Quando ouvi- e a radiação solar (U.S.EPA, 2004). (Adaptado de WHO, 2005) 2. Radiação 3. Radiação particulada eletromagnética A radiação de natureza particula- A radiação eletromagnética é constitu- da é caracterizada por sua carga, mas- ída por campos elétricos e magnéticos que sa e velocidade: pode ser carregada ou variam no espaço e no tempo. É caracteri- neutra, leve ou pesada, lenta ou rápida. zada pela amplitude (tamanho), freqüência Prótons, nêutrons e elétrons ejetados de de oscilação ou pelo comprimento de onda. átomos ou núcleos atômicos são exem- São exemplos de radiação eletromagnética plos de radiação particulada (Schaberle as ondas de rádio, a luz visível e os raios X & Silva, 2000). (Schaberle & Silva, 2000).36
  • 37. 4. Radioatividade 1. Radiação não-ionizante Apresenta energia suficiente para mo-3.1. Definição ver átomos em torno de uma molécula ou para fazê-la vibrar, mas não suficiente para A radioatividade é a propriedade que alguns remover elétrons. Este tipo de radiação podeátomos têm de emitir energia espontaneamente também ser capaz de provocar danos bio-como partículas ou raios. Os átomos que com- lógicos. Como exemplo, podem ser citadaspõem os materiais radioativos são a fonte de ra- as ondas de rádio, a luz solar e microondasdiação. Existem três principais vias de exposição à (U.S.EPA, 2004).radiação: por inalação, por ingestão ou pela expo-sição direta (U.S.EPA, 2004). 2. Radiação ionizanteII. Fontes de É aquela que tem energia suficiente para remover dos átomos, elétrons firme- radiação mente dispostos, criando então os íons. Pode ser encontrada na forma de partícu- las ou radiação eletromagnética. Os íons As radiações podem ser emitidas por produzidos neste processo permitem a de-elementos químicos com núcleos atômicos tecção da radiação. Como exemplos po-instáveis ou por equipamentos construídos dem-se citar as partículas alfa, beta, raiospelo homem. Os elementos químicos radio- gama, raios X e nêutrons (EPA, 2004, Nu-ativos podem ser encontrados na natureza Bio/Fiocruz, 2005; IRD, 2003; Schaberle &(como o urânio natural ou o tório das areias Silva, 2000).monazíticas) ou produzidos pelo homematravés de reações específicas em acelera- Particulas e ondasdores de partículas ou reatores nucleares. Os Partículas α - As partículas alfa, por teremaceleradores de partículas e tubos de raios massa e carga elétrica relativamente maior,X são fontes de radiação sem a utilização podem ser facilmente detidas, até mesmo porde elementos químicos radioativos. Quando uma folha de papel. Em geral, não conseguemdesligados, não emitem radiação (Schaberle ultrapassar as camadas externas de células& Silva, 2000). mortas da pele. Podem, ocasionalmente, pene- trar no organismo através de um ferimento ou por inalação, provocando lesões graves (Nu- Bio/Fiocruz, 2005; IRD, 2003).III. Tipos de Partículas β - São elétrons emitidos pelo radiação núcleo de um átomo instável. Têm massa pequena e podem ter carga positiva ou ne- gativa (IRD, 2003). São capazes de penetrar A radiação possui uma gama de energias cerca de um centímetro nos tecidos, oca-que formam um espectro eletromagnético. sionando danos à pele, mas não aos órgãosEsse espectro tem duas divisões: radiação internos, a não ser que sejam ingeridas ouionizante e não ionizante (U.S.EPA, 2004, inaladas. Podem gerar radicais livres (Nu-Schaberle & Silva, 2000). Bio/Fiocruz, 2005). 37
  • 38. Raios X e γ - São ondas eletromagnéticas e a área da medicina até a área da indústria não possuem massa nem carga. Enquanto o bélica, com a fabricação de armas (U.S.EPA, raioX é originado por movimento de elétrons 2004; NuBio/Fiocruz, 2000). entre orbitais, os raios gama têm origem no núcleo do átomo. Assim como os raios X, os raios gama, por não terem carga ou massa, são extremamente penetrantes, sendo deti- IV. Percepção dos somente por uma parede de concreto ou metal (IRD, 2003; NuBio/Fiocruz, 2005). Aos da radiação seres humanos a exposição em altas doses pode provocar sintomas inespecíficos, tais como fraqueza, náusea, vômito, eritemas, A radiação pode ser detectada com ins- dentre outros, podendo culminar no óbito. trumentos de medição bastante precisos. O homem sempre esteve exposto à radiação Nêutrons – São obtidos a partir da fissão es- natural. Essa exposição ocorre pelos ele- pontânea ou de reações nucleares específicas mentos radioativos contidos no solo e ro- (Schaberle & Silva, 2000). chas; pelos raios cósmicos que chegam à Aplicações da radiação ionizante atmosfera; pela incorporação de elementos radioativos provenientes da alimentação e respiração (CNEN, 2005a), e, ainda, pelos elementos radioativos contidos no sangue e nos ossos, como o potássio-40, carbono- 14 e rádio-226 e pelas diferentes fontes de exposição a radiações, distribuídas no ambiente em que vivemos. A figura abai- xo mostra, em termos percentuais, a dis- tribuição das diversas fontes de exposição (Adaptado de NuBio/ Fiocruz, 2005) (WHO, 2005). Os efeitos da radiação não podem ser con- Água/ Outras (todas as Radônio fontes produzidas) (exposição siderados inócuos e a interação com os seres Exposição alimentos 1% natural 8% médica vivos pode levar a alterações teratogênicas 20% interna) 43% e até a morte. A radiação apresenta riscos à saúde e deve ser usada de acordo com os seus benefícios (NuBio/Fiocruz, 2000). 13% Raios Principais usos: Pode-se relatar como cósmicos 15% Radiação gama (exposição benefício da radiação ionizante a geração natural externa) de força elétrica utilizada não só para des- (Adaptado de WHO, 2005) truir células cancerosas bem como para uso em muitos processos industriais. Pode ser útil no tratamento de doenças através de A recomendação adotada, portanto, é radioterapia, braquiterapia e aplicadores; que se deve evitar toda e qualquer radiação no diagnóstico, através de radiografia, to- adicional à existente no ambiente, exceto mografia, mamografia e mapeamento com se os benefícios desse uso o justificarem radiofármacos. Sua aplicação se dá desde (CNEN, 2005).38
  • 39. V. Efeitos sobre 1. Carcinogenicidade a saúde humana As radiações X e gama foram classifi- cadas no Grupo I pela Agência Internacio- nal de Pesquisa em Câncer (IARC), ou seja, O câncer é considerado por muitos um com evidência epidemiológica suficienteefeito primário da exposição à radiação. Ge- para carcinogenicidade em humanos e emralmente, o processo natural do organismo animais (IARC, 2000, 1999).controla a taxa em que as células crescem esão substituídas, reparando o tecido danifi-cado. O dano pode ocorrer no nível celular 2. Fatores a seremou molecular, quando o controle do cres- considerados na relaçãocimento é rompido, permitindo o aumentodescontrolado de células cancerosas, uma entre radiação e câncervez que a radiação ionizante tem a habili-dade de quebrar os elos químicos dos áto- O risco de câncer decorrente da expo-mos e moléculas, produzindo um potente sição a raios X ou gama depende da dose,carcinógeno (U.S. EPA, 2004). da duração da exposição, do sexo, da ida- de em que se deu a exposição e de outros A radiação pode também causar altera- fatores como, por exemplo, a sensibilidadeções no DNA, denominadas mutações. dos tecidos frente aos efeitos carcinogêni- cos da radiação (IARC, 2000). Inicialmente, o processo que assegurao reparo de uma célula produz uma cópia Estes efeitos têm sido estudados inten-perfeita da célula original. Algumas ve- sivamente em populações humanas. Emzes, porém, o corpo falha no reparo dessas epidemiologia, associações entre exposi-mutações ou mesmo cria mutações duran- ção e doença são freqüentemente aceitaste este reparo, e as mutações podem gerar como causais quando há consistência comefeitos teratogênicos ou genéticos (U.S. outros estudos, plausibilidade biológica, eEPA, 2004). quando a magnitude da associação é for- te. Outra questão importante é a existên- A exposição aguda se refere a altos ní- cia de um gradiente dose-resposta, ou seja,veis de radiação em curto espaço de tem- quanto maior a dose (a exposição) maiorpo. Diferentemente do que ocorre com o é o desfecho (nº de casos, taxa, etc). Taiscâncer, de modo geral, os efeitos agudos critérios são satisfeitos quanto à relaçãoà saúde decorrentes da exposição à radia- radiação ionizante e câncer. Em sobrevi-ção aparecem muito rápido. Os sintomas ventes de Hiroshima e Nagazaki, expostosincluem náuseas, fraqueza, perda de cabe- à radiação gama e acompanhados ao lon-lo, queimaduras na pele, ou diminuição da go de 45 anos após a exposição, o efeitofunção orgânica. Pacientes tratados com dose-resposta tem sido observado para vá-radiação freqüentemente experimentam rias localizações primárias de câncer, comoos efeitos agudos, devido à exposição em leucemia, câncer de mama e outros tiposaltas doses. A radiação pode ainda causar de câncer, uma vez que a dose individualenvelhecimento precoce ou mesmo a mor- recebida pôde ser estimada com acuráciate. (U.S. EPA, 2004). significativa. (IARC, 2000). 39
  • 40. Raios X, gama VI. Exposição Casos de leucemia e de outros tipos de ocupacional câncer têm sido observados em pacientes tratados com raios X e gama. Evidência importante dessa relação foi relatada em Indivíduos que trabalham na indústria estudo realizado em mulheres de 15 paí- nuclear ou próximos a equipamentos que ses com câncer cervical, submetidas a tra- emitem radiação (por exemplo: em insti- tamento com radioterapia. Foi observado tuições médicas ou em laboratórios), estão também no Canadá e nos EUA um aumen- expostas à radiação ionizante (IARC, 2000, to de câncer de mama em pacientes sub- CNEN, 2005). A média anual de dose efeti- metidas ao tratamento com fluoroscopia va de raios X e gama provenientes de fontes e com raios X de tórax para tuberculose. naturais é de 0,5-5,0 mSv. Em países de- Segundo a Agência Internacional de Pes- senvolvidos, os procedimentos médicos re- quisa em Câncer (IARC), existem mais de sultam em uma dose efetiva anual de 1-2 100 estudos que relacionam a exposição à mSv, dos quais 2/3 são devidos a diagnós- radioterapia e excesso de casos de câncer. ticos utilizando radiografias. A dose efetiva anual para trabalhadores monitorados varia Indivíduos expostos a altas doses de de 1-10 mSv (IARC, 2000). radiação apresentam um risco cinco vezes maior para leucemia e câncer de tireói- de em relação aos não expostos, e o do- bro do risco para câncer de mama, quando VII. Medidas a exposição ocorreu antes da menopausa (IARC, 2000). de controle As outras localizações primárias de A minimização dos efeitos da radiação câncer relacionadas à exposição a raios X nos trabalhadores deve ser iniciada pela ou gama, descritas pela IARC, são estômago avaliação de risco, pelo correto planejamen- e cólon. Em altas doses de exposição a es- to das atividades a serem desenvolvidas, ses mesmos raios, pode-se observar ainda pela utilização de instalações e de práticas câncer ósseo, de tecidos moles, do reto, de corretas, de modo a diminuir a magnitude colo de útero e de pele. A leucemia linfocí- das doses individuais, o número de pesso- tica crônica (LLC) não tem sido relacionada as expostas e a probabilidade de exposições à exposição a raios X ou γ (IARC, 2000). acidentais. Devem ser previstas a adoção de Equipamentos de Proteção Coletiva (EPC) e Nêutrons de Proteção Individual (EPI), observando a otimização destas proteções pela elaboração Ainda não há dados epidemiológicos e execução correta de projeto de instalações adequados para avaliar se os nêutrons são laboratoriais, na escolha adequada dos equi- carcinogênicos em humanos, embora a IARC pamentos e na execução correta dos procedi- os tenha classificado como carcinogênicos, mentos de trabalho (NuBio/Fiocruz, 2005). grupo 1, tendo por base, entre outras consi- derações, evidências suficientes para carcino- Algumas medidas de controle que podem genicidade em animais (IARC, 1999). ser adotadas para reduzir a exposição ocupa-40
  • 41. cional, conforme a Organização Internacio-nal do Trabalho (OIT, 1974) e a Fundação IX. DefiniçõesOswaldo Cruz (NuBio/Fiocruz, 2000), são: A Comissão Nacional de Energia Nuclear redução do número de trabalhadores (CNEN, 2005) e o Instituto de Radioproteção expostos, da duração e dos níveis de e Dosimetria (IRD, 2003) apresentam algu- exposição; mas definições importantes para uma melhor informação aos trabalhadores sobre os compreensão do tema. riscos a que estão expostos; Atividade – A unidade de medida desta gran- monitoração sistemática do local de uso deza no Sistema Internacional de Unida- de radiação, bem como de seu entorno; des (SI) é o becquerel (Bq), com valor de 1 / 3,7.1010 curie (Ci). A atividade é definida pela delimitação e monitoração (vigilância) relação dN/dt, onde dN é o valor médio do das áreas de trabalho; número de transições nucleares de um estado de energia e dt é um intervalo de tempo. monitoração da selagem adequada dos equipamentos; Dose absorvida - A unidade de medida no Sis- tema Internacional de Unidades (SI) é o gray limitação do acesso ao local de uso de (Gy); 1 Gy = 100rad. É expressa pela relação radiação; dE/dm, onde dE é a energia média deposita- da pela radiação em um volume elementar de utilização, pelos trabalhadores de equi- matéria de massa dm. pamentos de proteção individual (EPI); Dose equivalente (ou simplesmente dose) - A recomendação e garantia de higieniza- unidade de medida de dose no Sistema In- ção de mãos e antebraços antes e após ternacional de Unidades (SI) é o sievert (Sv); o manuseio de materiais radioativos; 1 Sv = 100 rem. É expressa pela relação H = tratamento dos efluentes contaminados D•Q onde D é a dose absorvida num ponto de interesse e Q é um fator de qualidade que leva com elementos radioativos, conforme a em conta o efeito biológico dos diferentes ti- legislação vigente; pos de radiação, estando tabelado em publi- desestímulo e restrição ao uso de rou- cações técnicas do ramo. pas de proteção em locais públicos. Dose efetiva - A unidade de medida de dose no Sistema Internacional de Unidades (SI) é o sievert (Sv); 1 Sv = 100 rem. É o somatórioVIII. Legislação das doses equivalentes causadas por irradia- ção externa e contaminação interna, levados em consideração os diferentes pesos atribuí- A Comissão Nacional de Energia Nucle- dos aos diversos órgãos ou tecidos, tabeladosar (CNEN), na Resolução de 17 de dezem- em publicações técnicas do ramo.bro de 2004, publicada em Diário Oficialda União (D.O.U. 06/01/2005), descreve as Contaminação radioativa - presença indese-“Diretrizes Básicas de Radioproteção”. Nes- jável de materiais radioativos em pessoas, ob- jetos, meios ou locais.ta resolução pode-se encontrar a determi-nação de dose individual (dose efetiva e Exposição médica - exposição à radiação io-dose equivalente) e monitoramento da ex- nizante decorrente de diagnóstico ou trata-posição ocupacional. mento médico. 41
  • 42. Exposição ocupacional (ou de rotina) - fazer diagnóstico através de imagens radio- exposição à radiação ionizante decorren- lógicas e/ou radiografias. te das atividades em condições normais de trabalho. Radionuclídeo - material radioativo. Fonte de radiação - aparelho ou material que Radioproteção (ou proteção radiológica) - emite ou é capaz de emitir radiação ionizante. conjunto de medidas que visam proteger o Fonte radioativa selada - fonte radioativa homem e seu meio ambiente contra possí- encerrada em cápsula selada, ou ligada to- veis efeitos indesejáveis causados pela radia- talmente a material inativo envolvente, de ção ionizante, baseado em princípios básicos tal forma que sua dispersão em condições aceitos internacionalmente. normais e severas de uso seja impedida. Radioterapia - especialidade médica em que Monitoração radiológica - medições de gran- são feitos tratamentos empregando radiação dezas relativas à radioproteção, para fins de ionizante proveniente de fontes radioativas avaliação e controle não só das condições seladas, de equipamentos de raios X ou de radiológicas das áreas de um serviço médico aceleradores de partículas. ou do meio ambiente, como de exposições humanas ou de materiais radioativos e ma- Rejeito radioativo - qualquer material resul- teriais nucleares. tante de atividades humanas cuja reutiliza- ção seja imprópria ou não previsível e que Radioativo - qualidade do material, substância contenha radionuclídeos em quantidades su- ou fonte, emissores de radiação ionizante. periores aos limites de isenção estabelecidos Radiologia médica/odontológica - especiali- na norma CNEN-NE-6.05, ou em outra que dade que emprega radiações ionizantes para venha a substituí-la.42
  • 43. X. BibliografiaComissão Nacional de Energia Nuclear. em 14 out 2005]. Disponível em: http://www.Como sentir a radiação? Rio de Janeiro: hc-sc.gc.ca/iyh-vsv/environ/expos_e.html.CNEN; 1999. [23 ago 2005]. Disponível em: International Agency for Research on Can-http://www.cnen.gov.br/cnen_99/faq/radia- cer. Ionizing Radiation, Part I: X- and gam-coes.htm. ma (γ) Radiation and Neutrons. Lyon: IARC;ComissãoNacionaldeEnergiaNuclear.[Homep- 2000. Monographs on the Evaluation of Car-age de Internet]. Normas CNEN. [23 ago 2005]. cinogenic Risks to Humans, 75 [citado em 14Disponível em: http://www.nuclear.radiologia. out 2005]. Disponível em: http://www-cie.nom.br/normas/instalnucl.html. iarc.fr/htdocs/indexes/vol75index.html.Eisler R. Chemical risk assessment: health International Agency for Research on Can-hazards to humans, plants, and animals. cer. Low doses of radiation linked to smallMaryland: Lewis Publishers; 2000. increase in cancer risk. Lyon: Press Re- lease. 2005; 166.Environmental Protection Agency. Ionizingand non ionizing radiation. United States: Kiefer J. Biological radiation effects. Ber-EPA; 2004. [citado em 14 out 2005]. Dis- lin: Spinger-Verlag; 444 p.ponível em: http://www.epa.gov/radiation/ Schaberle FA, Silva NC. Introdução à físicaunderstand/ionize_nonionize.htm. da radioterapia. Santa Catarina: Universi-Fundação Oswaldo Cruz. Radiação. Rio de Ja- dade Federal de Santa Catarina.neiro (RJ): Fiocruz; 2005. [citado em 23 ago World Health Organization. Ultraviolet ra-2005]. Disponível em: http://www.fiocruz.br/ diation and health. Geneva: WHO; 2005.biosseguranca/Bis/lab_virtual/radiacao.html. [citado em 14 out 2005]. Disponível em:Health Canada. Occupational exposure to ra- http://www.who.int/uv/uv_and_health/diation. Canada: Health Canada; 2003. [citado en/index.html. 43
  • 44. Radiação solar I. Introdução A luz solar é energia eletromagnética 1. Definição propagada por ondas. As partes mais im- portantes do espectro eletromagnético da Radiação solar é a energia emitida pelo sol luz solar são (WHO, 1999): na forma de radiação eletromagnética não-io- radiação ultravioleta (UV), invisível nizante (IARC, 1997). Os raios UV possuem aos olhos; comprimento de onda que varia de 100nm a luz visível; 400nm e podem ser divididos em três ban- das: UVA (315nm a 400nm), UVB (280nm a radiação infravermelha, que é a prin- 315nm) e UVC (100nm a 280nm). A radiação cipal fonte de calor, mas também não é visível. solar UV que alcança a superfície terrestre é composta por 95% de radiação UVA e 5% de Cerca de 5% da radiação solar terres- UVB. A radiação UVC é completamente filtra- tre é radiação ultravioleta (UV). A radia- da pela atmosfera, e 90% da UVB é absorvida ção solar é a maior fonte de exposição à pela camada de ozônio, pelo vapor de água, radiação UV, porém, com o surgimento de pelo oxigênio e pelo dióxido de carbono. A ra- fontes artificiais de radiação, ocorreu um diação UVA é a menos afetada pela atmosfera. aumento na chance de exposição adicio- Conseqüentemente, a radiação proveniente da nal (IARC, 1997). superfície terrestre é amplamente composta (Adaptado de WHO, 2005)44
  • 45. de radiação UVA e um pequeno componente de medidas protetoras (ARPANSA, 2004a).de UVB (IARC, 1996; NHMRC, 1996; WHO, Há também muitos tipos de fontes ar-2005; ARPANSA, 2004). tificiais de radiação UV, como as lâmpadas A radiação solar é a única fonte mais sig- fluorescentes, de vapor de mercúrio e outrosnificativa de radiação UV e pode atingir o ser materiais utilizados na indústria, escritórioshumano de três maneiras: diretamente, dis- e em casa. Durante o trabalho, os soldadorespersa em céu aberto e refletida no ambien- são capazes de produzir e de se exporem ate. Assim, mesmo que uma pessoa esteja na uma intensa emissão de radiação UV. Estessombra, ainda pode estar significativamente trabalhadores poderão sofrer efeitos dano-exposta à radiação UV através da claridade sos à saúde semelhantes aos que acometemnatural. Também alguns pisos e superfícies trabalhadores expostos diretamente ao solsão bastante refletores da radiação UV, prin- (ARPANSA, 2004a). Semelhantemente, oscipalmente os brancos, de cores claras e su- funcionários que trabalham com superfíciesperfícies metálicas. Estas superfícies podem refletoras como o concreto, a água, o aço não-refletir a radiação UV, na pele e nos olhos. As pintado e o alumínio podem receber radiaçãosuperfícies refletoras podem reduzir o efeito ultravioleta adicional (ELCOSH, 2001).2. Fatores ambientais que influenciam o nível de radiação UV Mais de 90% dos raios UV podem A Organização Mundial de Saúde (WHO, atravessar nuvens leves. 2005) descreve alguns fatores ambientais ca- pazes de influenciar no nível de radiação ul- travioleta. São eles: altura do sol - quanto mais elevado o sol está no A neve reflete céu, mais elevado o nível de radiação UV. Esta ra- mais de 80% da radiação UV. diação varia com a hora do dia e o período do ano, 60% da radiação atingindo níveis máximos quando o sol está em UV é recebida entre 10h e 14h. sua elevação máxima, por volta do meio-dia (lua solar), durante os meses de verão. A radiação UV aumenta 4% para cada 300m de latitude – quanto mais próximo à linha do aumento na altitude. equador, mais elevados são os níveis de ra- diação UV. Pessoas que céu encoberto por nuvens – os níveis de ra- trabalham em ambientes diação são mais elevados com céu sem nu- internos recebem de 10 a 20% vens, porém, mesmo com tempo encoberto, da radiação A sombra pode reduzir a radia- os níveis de radiação podem ser elevados de- ultravioleta que pessoas que ção UV em 50% ou mais. vido à dispersão da radiação pelas moléculas trabalham ao ar livre recebem. de água e partículas presentes na atmosfera. A areia da altitude – em altitudes mais elevadas, há menor Até 1m de praia reflete profundidade mais de 15% da filtração da radiação UV através da atmosfera. a radiação UV ainda é 40% tão radiação UV. A cada aumento de 1000 metros de altitude, os intensa quanto na superfície. níveis de UV aumentam em 10% a 12%. (Adaptado de WHO, 2005) 45
  • 46. ozônio – o ozônio absorve alguma radiação exposição geralmente aceitáveis podem ser exce- UV capaz de alcançar a superfície terrestre. didos. Superexposição à radiação UV pode cau- Os níveis de ozônio variam durante o ano e sar queimaduras, doenças e câncer de pele. Uma até mesmo durante o dia. pessoa com exposição cumulativa à radiação UV reflexão – a radiação UV é refletida ou dis- com um número de queimaduras graves rece- persada amplamente em diferentes superfí- bidas, especialmente durante a infância, tem o cies. A neve pode refletir até 80% da radia- risco aumentado de desenvolver câncer de pele. ção UV, a areia da praia reflete cerca de 15% A exposição ao sol faz com que as camadas ex- e a espuma do mar cerca de 25%. teriores da pele engrossem e a longo prazo pode causar enrugamento e enrijecimento. Nos olhos A depleção da camada de ozônio prova- pode causar fotoqueratites, fotoconjuntivites e velmente agrava os efeitos à saúde causados cataratas (ARPANSA, 2004 a). Os indivíduos lon- pela exposição à radiação UV. A camada de gamente expostos podem também ter o sistema ozônio funciona como filtro protetor. Com a imune debilitado (IARC, 1997; ELCOSH, 2001). depleção, ela fica mais fina e progressiva- mente reduzida em sua capacidade protetora. Em conseqüência disto, os seres humanos e o 1. Melanócitos: as células ambiente ficam expostos à radiação UV em que protegem a pele níveis mais elevados, especialmente os níveis de UVB que apresentam maior impacto na São células responsáveis pela prote- saúde humana, na saúde dos animais, de or- ção da pele à radiação solar. Quanto mais ganismos marinhos e plantas (WHO, 2005). melanócitos na superfície da pele, maior proteção aos raios UV. As mudanças na Radiação UVB distribuição dos melanócitos podem oca- sionar o desenvolvimento de lesões pre- cursoras do câncer de pele, nevo displá- Estratosfera ozônio sico, melanoma de crescimento radial, Estratosfera melanoma de crescimento vertical e me- Troposfera lanoma metastático. Tanto o nevo mela- Monte Everest nocítico benigno quanto o displásico são considerados marcadores para o melano- ma e sua presença aumenta o risco de (Adaptado de WHO, 2005) desenvolvê-lo (Souza et al, 2004). II. Efeitos sobre 2. Carcinogenicidade a saúde humana A Agência Internacional de Pesquisa em Câncer classificou a radiação solar no Grupo A pele e os olhos são as principais áreas de I, com evidência suficiente de carcinogenici- risco à saúde, decorrentes da exposição à radia- dade em seres humanos. As radiações UVA, ção UV, dado que a penetração da radiação UV UVB e UVC, bem como as câmaras de bron- é muito curta. Em trabalhadores expostos sem zeamento (lâmpadas e camas) foram classi- proteção adequada ou sem medidas de contro- ficadas no Grupo 2A, provavelmente carci- le dos níveis de radiação solar UV, os limites de nogênicos em seres humanos. A exposição46
  • 47. a lâmpadas fluorescentes, no Grupo 3, não fatores de risco. Episódios de queimadurasé classificada como carcinogênica para seres solares surgiram como o mais importantehumanos (IARC, 1997). fator de risco associado com melanoma ma- ligno na amostra da população branca do sul Há dois tipos de câncer de pele: não-me- do Brasil. O uso de protetor solar apresentoulanoma, que inclui o carcinoma baso-celular significância progressiva quanto à preven-e espino-celular e o melanoma maligno. ção, correspondendo ao aumento do FPS. O melhor escore ocorreu em usuários de FPS- 15 ou mais. (Bakos et al, 2002).2.1. Câncer de pele do tipo melanoma 2.2. Câncer de pele tipo O melanoma é o menos comum, mas é o não-melanoma (basocelularmais perigoso tipo de câncer de pele. A in-cidência de melanoma em homens está cres- e espino-celular)cendo rápido, particularmente nos de meia- O carcinoma baso celular é originário daidade. Surgem com mais freqüência na parte epiderme e dos apêndices cutâneos acima dasuperior das costas, cabeça e pescoço. Há ge- camada basal, como os pêlos, por exemplo. Járalmente um período entre 10 e 30 anos para o carcinoma epidermóide tem origem no que-que ocorra a manifestação clínica do câncer. ratinócio da epiderme, podendo também surgir(ELCOSH, 2001). O pior prognóstico para no epitélio escamoso das mucosas (INCA, 2005melanomas está associado a idade superior a). Estes tumores ocorrem predominantementea 60 anos, sexo masculino, lesões localizadas na face e no pescoço, e estão relacionados àno tronco, tumores de maior espessura e pa- exposição solar, embora a distribuição de car-drão sócio-econômico mais baixo (Souza et cinomas baso celulares não esteja estritamen-al, 2004; Balzi et al, 1998). te relacionada à exposição ao sol como a dos carcinomas espino-celulares. Existe uma forte A Austrália tem as mais altas taxas de relação inversa entre a latitude e incidência oucâncer de pele. Mais de 200.000 novos ca- mortalidade para estes tipos de câncer de pelesos desses cânceres são relatados a cada ano, e há uma relação positiva entre incidência ousendo que mais de 6.000 são potencialmente mortalidade e radiação ultravioleta estimadamelanomas fatais (ARPANSA, 2004 b). ou medida no ambiente (IARC, 1997). Um estudo caso-controle realizado no Cerca de 2 a 3 milhões de cânceresBrasil, para avaliar a etiologia do melanoma não-melanomas são diagnosticados a cadamaligno entre 1995 e 1998, no Hospital das ano, mas raramente são fatais e podem serClínicas, Porto Alegre, revelou como fatores removidos cirurgicamente. De 12 a 15 mi-de risco com força moderada, para melano- lhões de pessoas por ano tornam-se cegasma maligno naquela população, pessoas com devido à catarata, dos quais 20% podemos fototipos de pele I (sempre se queimam e ter essa catarata causada ou agravada pelanunca se bronzeiam) e II (sempre se queimam exposição ao sol, de acordo com as esti-e, às vezes, se bronzeiam); com sardas; com mativas da Organização Mundial de Saúdeum grande número de nevos adquiridos, com (WHO, 2005 b).nevos displásicos e com proteção inadequadaao sol. A cor dos olhos e cabelo apresenta- Estima-se que no Brasil ocorrerão cercaram uma fraca significância estatística como de mais de 116.640 novos casos de câncer de 47
  • 48. pele não-melanoma no ano de 2006. Obser- menos incidente, mas sua letalidade é mais va-se que o câncer de pele não-melanoma é elevada. Quando tratado em estágios iniciais, o mais incidente em nosso país, em homens e é curável (INCA, 2005 b; CDC, 2003). em mulheres. Embora de baixa letalidade, em alguns casos pode levar a deformidades físicas Apresenta-se, a seguir, um quadro com- e ulcerações graves, porém é uma neoplasia parativo entre câncer de pele melanoma e de excelente prognóstico, com taxas altas de não-melanoma em alguns países, descreven- cura completa, se tratada de forma adequa- do sua incidência (homens/mulheres), as es- da e oportuna. O câncer de pele melanoma é tratégias de prevenção e tratamento. Quadro comparativo entre câncer de pele não-melanoma e melanoma Não-melanoma H M Melanoma H M Incidência Brasil 62 60 Brasil 3 3 (p/100.000 hab.) EUA 480 240 EUA 18 12 Canadá 150 100 Canadá 11 12 Austrália 2300 1900 Austrália 50 40 (Adaptado de InternationalLimitar a exposição solar 2004, 43:243-251) Limitar a exposição solar Estratégias de prevenção Journal of Dermatology Detecção precoce Detecção precoce Tratamento Cirurgia/Radioterapia/Quimioterapia Cirurgia/Radioterapia/Quimioterapia/Imunoterapia (Adaptado de International Journal of Dermatology, 2004, 43:243-251) 3. Fatores de risco Deve-se considerar que um mesmo in- De maneira geral, os fatores de risco divíduo pode estar exposto a vários fatores bem estabelecidos para câncer de pele me- de risco que interagem entre si, dada a mul- lanoma e não-melanoma incluem (IARC, ticausalidade da doença. Dentre os fatores 1997; CDC, 2003): não mencionados, devem ser considerados os que estão relacionados à ocupação, como, Melanoma maligno e baso celular por exemplo, o desenvolvimento de ativida- história familiar de câncer de pele des ao ar livre, como acontece com agricul- pessoas de pele clara, com cabelos rui- tores, pescadores, guardas, etc. Também de- vos ou loiros vem ser considerados como fatores de risco propensão a queimaduras e inabilidade residir em áreas rurais e o desconhecimento para bronzear de que a exposição excessiva ao sol pode exposição à radiação UV intermitente causar câncer de pele (SBCD, 2005). Espino-celular exposição à radiação UV cumulativa III. Prevenção primária (Medidas de controle) Medidas de proteção contra a ra- diação ultravioleta Para proteção coletiva (Maia et al, 1995): uso de tecidos que impedem ou blo- queiam os raios UV48
  • 49. uso de barracas/toldo 20 a 30 minutos antes da exposição ao sol e uso de guarda-sol reaplicados antes de nova exposição ao sol e uso de coberturas e janelas de vidro, após nadar, suar e se secar com toalhas (Maia que funcionam como barreiras físicas et al, 1995; WHO, 2005c).Para proteção individual (ARPANSA, 2004 c; Os trabalhadores expostos ao ar livre de-CDC, 2003 b) vem usá-lo durante o dia e em conjunto com evitar horários de pico solar (entre 10 chapéus e roupas protetoras, utilizando-o em da manhã e 16h da tarde) todas as partes expostas ao sol, incluindo ore- manter-se na sombra nas horas mais lhas, costas, ombros, e a parte de trás dos joe- quentes do dia lhos e pernas (WHO, 2005c). evitar bronzeamento artificial usar chapéu com abas largas usar blusas de mangas longas 1. O que significa usar calças compridas o valor do FPS? usar óculos usar cremes e/ou loções com filtro solar FPS significa Fator de Proteção Solar. superior a 15 FPS. Todo filtro solar tem um número que pode variar de 2 a 60 (até agora, nos produtos co- mercializados no Brasil). O FPS mede a pro-IV. Conhecendo os teção contra os raios UVB responsáveis pela queimadura solar, mas não medem a proteção filtros solares contra os raios UVA. Os filtros solares são preparações para A linguagem utilizada nos rótulos dos fil-uso tópico que reduzem os efeitos deletérios tros solares muitas vezes deixa o consumidorda radiação ultravioleta. Deve-se, porém, to- confuso na hora da compra. Abaixo, o signi-mar cuidado porque nem todos os filtros sola- ficado dos termos mais freqüentemente utili-res oferecem proteção completa para os raios zados (CDC, 2003a):UV-B e raios UV-A. Além disso, podem ter anti UVA e UVB: filtros que protegemum efeito enganoso, pois, por suprimirem os contra os raios ultravioleta A e ultravio-sinais de excesso de exposição ao sol, como leta B.as queimaduras, fazem com que as pessoas seexponham excessivamente às radiações que hipoalergênico: filtro que utiliza subs-eles não bloqueiam, como a infravermelha. tâncias que geralmente não provocamCriam, portanto, uma falsa sensação de se- alergias.gurança e encorajam as pessoas a se exporem livre de PABA ou “PABA Free”: filtrosao sol por mais tempo (ARPANSA, 2004 c). É que não contêm a substância PABA, queimportante lembrar, também, que o real fator tem alto poder de causar alergias.de proteção varia com a espessura da camada livre de óleo ou “oil free”: filtros cujosde creme aplicada, a freqüência da aplicação, veículos não contêm substâncias oleo-a transpiração e a exposição à água. É reco- sas. São os mais indicados para pessoasmendado que durante a exposição ao sol se- de pele oleosa ou com tendência à for-jam usados filtros com FPS-15 ou mais. Os mação de cravos e espinhas.filtros solares devem ser aplicados sempre de 49
  • 50. não comedogênico: filtros que não obs- truem os poros, evitando assim a for- V. Prevenção mação de cravos. São também indicados secundária para pessoas de pele oleosa e com ten- dência à formação de cravos e espinhas. Conheça o seu corpo 2. Como usar O auto-exame da pele é um método sim- ples para detectar precocemente o câncer de Tem sido apresentado o uso de pro- pele, incluindo o melanoma. Se diagnosti- tetor solar para a prevenção de câncer de cado e tratado enquanto o tumor ainda não pele não-melanoma do tipo espino-ce- invadiu profundamente a pele, este câncer lular. Contudo, a evidência do efeito do pode ser curado. Ao fazer o auto-exame re- protetor solar na prevenção do melanoma gularmente, você se familiarizará com a su- maligno ainda é inconclusiva. O protetor perfície normal da sua pele. É útil anotar as solar que bloqueia a radiação ultraviole- datas e a aparência da pele em cada exame ta-A (UVA) e ultravioleta-B (UVB) pode (Garbe & Buettner, 2000; INCA, 2005c). ser mais efetivo na prevenção do câncer espino-celular e seus precursores do que O que procurar? aqueles que bloqueiam somente a radia- Sinais ou pintas que mudam de tama- ção UVB. Apesar disso, as pessoas que nho, forma ou cor usam somente o protetor solar, poderiam Manchas pruriginosas (que coçam), ter o risco de melanoma aumentado, caso descamativas ou que sangram prolongassem o tempo de permanência ao Feridas que não cicatrizam em 4 sol por estarem usando aquele protetor semanas (ARPANSA, 2004 c). Mudança na textura da pele ou dor. Um estudo caso-controle, realizado para investigar os fatores preditores do Deve-se ter em mente o ABCD da uso do protetor solar em pacientes da Eu- transformação de uma pinta em melano- ropa Central, revelou que os mais velhos e ma, como descrito abaixo: do sexo masculino tendem a não usá-lo. Os jovens, as mulheres e os que permaneciam mais tempo expostos ao sol, tenderam a usar protetor solar com mais freqüência, acreditando que, com isso, poderiam estar protegidos adequadamente, o que é uma falsa impressão (CDC, 2002). As recomendações das principais or- ganizações internacionais com pesquisas desenvolvidas na área do câncer para pre- venção primária e secundária do câncer de pele serão apresentadas no próximo item.50
  • 51. A - assimetria - uma metade diferente da outra 3) Examine as partes da frente, detrás e dos lados das pernas, além da região geni-B - bordas irregulares - contorno mal definido tal.C - cor variável - várias cores numa mesmalesão: preta, castanho, branca, avermelhada 4) Sentado, examine atentamente aou azul planta e o peito dos pés, assim como os espaços entre os dedos.D - diâmetro - maior que 6 mm. 5) Com o auxílio de um espelho de mãoComo fazer? e de uma escova ou secador, examine o couro cabeludo, pescoço e orelhas. 1) Em frente a um espelho, com os braços levantados, examine seu corpo de frente, 6) Finalmente, ainda com auxílio do espelho de costas e os lados direito e esquerdo. de mão, examine as costas e as nádegas. 2) Dobre os cotovelos e observe cuida- dosamente as mãos, antebraços, bra- ços e axilas.Recomendações de Organizações Internacionais ACS[1] CDC/MMWR [2] CCA[3] Prevenção Primária Limitar a exposição ao sol Evidências insuficientes Evitar a exposição ao sol (10-16h) para recomendar ou não o nos períodos de maior aconselhamento rotineiro intensidade Evitar a exposição ao sol pelo clínico para prevenção do câncer de pele Adotar medidas de proteção Adotar medidas de proteção da da pele à exposição solar pele (óculos, chapéu, roupas) Permanecer na sombra e Utilizar protetor solar sempre que possível utilizar (FPS 15 ou +) protetor solar (FPS 30 ou +) Prevenção Secundária Rastreamento individual ou Sem evidência de redução da Auto-exame para detecção populacional para indivíduos incidência de melanoma ou precoce de alto risco de melhores resultados com o auto-exame Rastreamento oportunístico Não definida a periodicidade do rastreamento[1] American Cancer Society - ACS: CA CANCER J CLIN 1998:48: 229-231 e 232-235[2] Center of Disease Control (CDC)/ Morbidity and Mortality Weekly Report (MMWR). October 17, 2003/Vol.52/No. RR-15[3] The Cancer Council Australia - CCA. Position Statement: Screening and early detection of skin cancer (Dezembro de 2004) 51
  • 52. VI. Bibliografia American Cancer Society. Skin cancer pre- Instituto Nacional de Câncer; Ministério da vention and early detection. Atlanta: ACS; Saúde. Estimativa 2005: incidência de cân- 2003. [citado em 14 out 2005]. Disponível cer no Brasil. Rio de Janeiro: INCA; 2004. em: http://cancer.org/docroot/PED/content/ International Agency for Research on Can- ped_7_1_Skin_Cancer_Detection_What_ cer. Solar and ultraviolet radiation. Lyon: You_Can_Do.asp?sitearea=PED. IARC; 1997. [citado em 24 ago 2005]. Dis- Australian Radiation Protection and Nucle- ponível em: http://www-cie.iarc.fr/htdocs/ ar Safety Agency. Materials and protection indexes/vol55index.html. against ultraviolet radiation. Ultraviolet Ra- Maia M, Proença NG, Moraes JC. Risk factors diation.Australia: ARPANSA; 2004. [citado for basal cell-carcinoma: a case-control stu- em: 24 ago 2005]. Disponível em: http://www. dy. Rev Saúde pública. 1995; 29(1):27-37. arpansa.gov.au/pubs/factsheets/010.pdf. Morbidity and Mortality Weekly Report. Australian Radiation Protection and Nucle- Counseling to prevent skin cancer. MMWR ar Safety Agency. Solar UVR and the UV Recommendations and Reports. 2003; Index. Autralia: ARPANSA; 2004. [25 ago 52(RR-15):13-17. [citado em 14 out 2005]. 2005]. Disponível em: http://www.arpansa. Disponível em: http://www.cdc.gov/mmwr/ gov.au/is_uvindex.htm. preview/mmwrhtml/rr5215a2.htm. Australian Radiation Protection and Nuclear Morbidity and Mortality Weekly Report. Safety Agency. Ultraviolet radiation. Aus- Preventing skin cancer. MMWR Recom- trália: ARPANSA; 2004. [citado em 24 ago mendations and Reports. 2003; 52(RR15):1- 2005]. Disponível em: http://www.arpansa. 12. [citado em 14 out 2005]. Disponível gov.au/basics/index.htm. em: http://www.cdc.gov/mmwr/preview/ Bakos L, Wagner M, Bakos RM, Leite CS, mmwrhtml/rr5215a1.htm. Sperhacke CL, Dzekaniak KS et al. Sunburn, Morbidity and Mortality Weekly Report. sunscreens, and phenotypes: some risk factors Sunscreen: how to select, apply, and use it for cutaneous melanoma in southern Brazil. correctly. MMWR Recommendations and Re- Int J Dermatol. 2002 Sep;41(9):557-62. ports. 2002; 51(RR04):17. [citado em 14 out 2005]. Disponível em: http://www.cdc.gov/ Balzi D, Carli P, Giannotti B, Buiatti E. Skin mmwr/preview/mmwrhtml/rr5104a3.htm. melanoma in Italy: a population-based stu- dy on survival and prognostic factors. Eur J National Health and Medical Research Coun- Cancer. 1998; 34:699-704. cil. Primary prevention of skin cancer in Aus- tralia: report of the sun protection programs Garbe C, Buettner PG. Predictors of the use working party. Australia: NHMRC; 1996. of sunscreen in dermatological patients in Central Europe. Prev Med. 2000 Aug;31(2 Pt Rodenas JM, Delgado-Rodriguez M, Fari- 1):134-9. nas-Alvarez C, Herranz MT, Serrano S. Me- lanocytic nevi and risk of cutaneous ma- Instituto Nacional de Câncer; Ministério da lignant melanoma in southern Spain. Am j Saúde. Auto exame da pele. Rio de Janeiro: Epidemiol. 1997; 145 (11):1020-1029. INCA; 2005. [citado 14 set 2005]. Disponível em: http://www.inca.gov.br/conteudo_view. Sociedade Brasileira de Cirurgia Derma- asp?id=136. tológica. Câncer de pele. São Paulo (SP):52
  • 53. SBCD; [citado em: 29 ago 2005]. Dispo- World Health Organization. Sun protection:nível em: http://www.sbcd.org.br/pagina. simple precautions in the sun. Geneva: WHO;php?id=16&dir=1. 2005. [citado em 14 out 2005]. Disponível em: http://www.who.int/uv/sun_protection/Souza SRP, Fischer FM, Souza JMP. Bronze- en/.amento e risco de melanoma cutâneo: revi-são da literatura. Rev Saúde Pública. 2004; World Health Organization. Ultraviolet ra-38(4):588-98. diation: solar radiation and human heal-Ultraviolet Radiation. Construction Safety. th. Geneva: WHO; 1999. [citado em 14 out2001;12(2). [citado em 26 ago 2005]. Dispo- 2005]. Disponível em: http://www.who.int/nível em: http://www.cdc.gov/elcosh/docs/ mediacentre/factsheets/fs227/en/.d0600/d000665/d000665.html. World Health Organization. Ultraviolet ra-World Health Organization. Health effects diation and health. Geneva: WHO; 2005.of UV radiation. Geneva: WHO; 2005. [cita- [citado em 14 out 2005]. Disponível em:do em 14 out 2005]. Disponível em: http:// http://www.who.int/uv/uv_and_health/en/www.who.int/uv/health/en/index.html. index.html. 53
  • 54. Benzeno, Xileno e Tolueno I. Introdução Comumente os hidrocarbonetos ben- 2. Exposição humana zeno, tolueno e xileno são chamados de BTX. São considerados os principais com- No ambiente, o benzeno pode ser encon- ponentes da gasolina e usados amplamen- trado no ar, água e solo. Uma das caracterís- te como solventes pela indústria química. ticas mais importantes desta substância, com grande repercussão na contaminação atmos- férica, é seu alto poder de volatilização, devi- do à alta pressão de vapor, da ordem de 95,2 II. Benzeno mmHg, a 25ºC (IPCS, 1993). [Registro CAS n.º 71-43-2] A liberação do benzeno para o ambiente pode ser feita através de fontes naturais e/ou antropogênicas. O fato de ser um componen- 1. Definição te do petróleo faz com que seja naturalmente encontrado nas proximidades de depósitos O benzeno, cuja fórmula molecular é naturais de petróleo e gás natural, na concen- C6H6, é um hidrocarboneto aromático que, tração aproximada de 0,8 µg/L. A ocorrência nas condições normais de temperatura e de queimadas em florestas também contribui pressão (CNTP), se apresenta sob a forma para sua presença no ambiente (IPCS, 1993; líquida e incolor (FUNDACENTRO, 1995). IIA, 1998). Já a contribuição das fontes an- É um composto orgânico volátil (COV) al- tropogênicas, estimada em mais de 90%, é tamente inflamável, possui odor caracte- proveniente da exaustão e do abastecimento rístico possível de ser identificado no ar de veículos, das emissões industriais e da fu- em concentrações da ordem de 1,5 - 4,7 maça do cigarro (IPCS, 1993; ATSDR, 1997a; ppm e na água a 2,0 ppm (ATSDR, 1997a). IIA, 1998). O gosto de benzeno na água pode ser sen- tido por muitas pessoas em concentrações A exposição humana ao benzeno se dá que podem variar entre 0,5 a 4,5 ppm principalmente através do ar, sendo a via (ATSDR, 1997a). respiratória a responsável por mais de 99% da quantidade de benzeno presente no corpo humano. A população, de uma forma geral,54
  • 55. se expõe ao benzeno, principalmente, pela 3. Efeitos sobrefumaça de cigarro e pela inalação de ar con-taminado, em áreas com intenso tráfego de a saúde humanaveículo e ao redor de postos de combustíveis(Wallace, 1996; IIA, 1998). Na atmosfera, o 3.1. Intoxicação aguda e crônicanível de benzeno varia de 0,2 µg/m3, em áre-as rurais, a 349 µg/m3, em centros industriais A exposição ao benzeno pode causar(CETESB, 2001). O uso de água contamina- intoxicação aguda e crônica. É um agen-da para cozinhar, para o banho etc., também te mielotóxico regular, leucemogênico epode configurar uma fonte de exposição pela cancerígeno, mesmo em baixas doses. Nãovia respiratória em função da capacidade de existem sinais e sintomas característicosvolatilização do benzeno na água (Giardino ou típicos da intoxicação pelo benzeno, que& Wireman, 1998; IIA, 1998). A exposição permitam diagnosticá-la e distingui-la deao benzeno também pode resultar da inges- outras moléstias.tão de alimentos ou água contaminados. O quadro clínico de toxicidade ao benzeno Além da exposição ambiental, que aco- pode-se caracterizar pelo comprometimen-mete a população geral, a exposição também to do sistema hematopoiético, sendo a causapode se dar ocupacionalmente, em ambien- básica de diversas alterações hematológicas.tes industriais que utilizam a substância em Vários estudos têm demonstrado a associaçãoseus processos produtivos. entre a exposição ao benzeno e a ocorrência de vários tipos de leucemia (IARC, 1987). Várias indústrias utilizam benzeno comointermediário da síntese de outras substân- Os sinais e sintomas mais freqüentes (emcias químicas, como estireno, cumeno, ciclo- aproximadamente 60% dos casos) de intoxi-hexano. O benzeno é ainda usado, ainda, nas cação por benzeno e derivados são: astenia,indústrias de detergentes, de explosivos, far- mialgia, sonolência, tontura, infecções repe-macêuticas, de inseticidas, de fotogravura, tidas. Os dados hematológicos mais relevan-de borracha, de couro, de adesivos e colas, tes são: neutropenia, leucopenia, eosinofilia,de plástico, de solventes e removedores de linfocitopenia, monocitopenia, macrocitose,tintas, siderúrgicas, metalúrgicas, etc. (ATS- pontilhado basófilo, pseudo Pelger e plaque-DR, 1997a; ATSDR, 1997b; Michel, 2000; topenia (MS, 2005). Nos estágios iniciais deCETESB, 2001). Na indústria do petróleo é tais alterações hematológicas estes efeitosusado em forma pura nos laboratórios, para parecem ser reversíveis. As exposições a al-análise, e está presente como contaminante tas doses por longos períodos podem levar àem diversos derivados, como gasolina, hexa- pancitopenia, resultante da aplasia da medu-no, querosene, tolueno, entre outros. Encon- la óssea, sendo considerado um estágio irre-tra-se presente em diversos outros produtos, versível da doença.como tintas, colas e vernizes (Michel, 2000). O diagnóstico da intoxicação pelo benzeno, A população exposta ocupacionalmente de natureza ocupacional, é eminentementeexperimenta uma exposição ao benzeno bem clínico e epidemiológico, fundamentando-sesuperior, em magnitude, àquela observada na história de exposição ocupacional e napara a população geral. observação de sinais e sintomas clínicos 55
  • 56. e laboratoriais. Em pessoas expostas a al- Portaria do Ministério da Saúde nº 776/ guma concentração de benzeno, todas as GM, de 28/04/2004: institui a Norma de alterações hematológicas devem ser valo- Vigilância à Saúde dos Trabalhadores rizadas, investigadas e justificadas (MS, expostos ao benzeno nos processos de trabalho que produzem, utilizam, trans- 2005). portam, armazenam ou manipulam benzeno e, ou suas misturas líquidas. Inúmeros estudos foram desenvolvi- dos para a determinação dos efeitos dele- Portaria do Ministério da Saúde nº térios do benzeno sobre a saúde humana. A 777/GM, de 28/04/2004: regulamenta grande maioria foi realizada, considerando a notificação compulsória de agravos a exposição ocupacional, invariavelmen- à saúde do trabalhador, contemplando a notificação dos casos de intoxica- te maior que a exposição ambiental. Esses ção exógena, por substâncias quími- estudos encontram-se referenciados em di- cas, e de casos de câncer relacionados versas publicações que tratam dessa subs- ao trabalho. tância, como Toxicological Profile for Ben- zene (ATSDR, 1997a), Carcinogenic Effects Portaria Interministerial (Ministérios of Benzene: An Update (US EPA, 1998), da Saúde e do Trabalho e Emprego) nº 775/GM, assinada em 28/04/2004: Environmental Health Criteria n.º 150 - contribui para a redução da exposição Benzene (IPCS, 1993), Paper Position Ben- humana ao benzeno, proibindo, em zene (IIA, 1998), Air Quality Guidelines for todo o Território Nacional, a comer- Europe (WHO, 2000), que, além de estudos cialização de produtos acabados que epidemiológicos, apresentam também estu- contenham “benzeno” em sua compo- dos toxicológicos. Estes estudos evidenciam sição, admitindo, porém, a presença os efeitos tóxicos do benzeno, relacionados desta substância, como agente con- à sua carcinogenicidade, hematotoxicida- taminante, em percentuais determi- de, mielotoxicidade, neurotoxicidade, imu- nados. Esta Portaria estabelece ainda notoxicidade, bem como os efeitos agudos a obrigatoriedade de que o rótulo de qualquer produto acabado que con- devido às exposições a altas concentrações tenha mais de 0,01%, em volume, de (Reis, 2003). benzeno, indique a presença e a con- centração máxima deste aromático. Portaria do Ministério da Saúde nº 3.2. Carcinogenicidade 518/GM, de 25/03/2004: dispõe sobre os procedimentos e responsabilidades A Agência Internacional de Pesquisa em relativos ao controle e à vigilância da Câncer (International Agency for Research on qualidade da água para consumo hu- Cancer – IARC/OMS) classifica o benzeno no mano. Esta Portaria preconiza o valor Grupo 1, ou seja, como uma substância quími- máximo permitido de benzeno na água ca com evidências suficientes de carcinogenici- igual a 5 µg/L, a fim de garantir o seu dade em seres humanos (IARC, 1987). padrão de potabilidade. Dispositivos legais relacionados à exposição Portaria do Ministério do Trabalho e humana ao benzeno Emprego nº 14, de 20/12/1995: a le- gislação brasileira para a exposição São dispositivos legais nacionais, em vi- ocupacional ao benzeno, instituída gência, que dispõem sobre a exposição hu- pela Secretaria de Segurança e Saúde mana ao benzeno: no Trabalho, do Ministério do Trabalho56
  • 57. e Emprego, considerando a inexistên- a seis casos de leucemia para cada um mi- cia de limite seguro para a exposição lhão de pessoas expostas à referida con- à substância, dada sua comprovada centração de benzeno durante toda a sua carcinogenicidade, instituiu o Valor de vida. As concentrações de benzeno no ar, Referência Tecnológico (VRT) como: associadas a um caso de leucemia para “... a concentração de benze- 10.000, 100.000 e 1.000.000 de expostos no no ar considerada exeqüível do são, respectivamente, 17, 1,7 e 0,17 µg/m3 ponto de vista técnico, definido em (WHO, 2000). processo de negociação tripartite. O VRT deve ser considerado como re- A Agência Americana de Proteção Am- ferência para os programas de me- biental (U.S.EPA) adota o mesmo conceito lhoria contínua das condições dos da OMS e estima o risco de adoecimento ambientes de trabalho. O cumpri- por leucemia da ordem de 2,5 x 10-6 a 7,1 mento do VRT é obrigatório e não x 10-6, para a exposição humana continu- exclui risco à saúde.”(Segurança e ada ao benzeno à concentração de 1µg/m3 Medicina do Trabalho, 2002:211). (U.S.EPA, 1998; IIA, 1998). Os valores a serem adotados No Brasil, os padrões de qualidade do pelas empresas correspondem a ar, estabelecidos pelo Conselho Nacional do 2,5 ppm, para as indústrias side- Meio Ambiente (CONAMA), através da Re- rúrgicas, e 1,0 ppm, para as quí- solução nº 003, de 28 de junho de 1990, de- micas e petroquímicas (Segurança finem as concentrações de poluentes atmos- e Medicina do Trabalho, 2002). féricos que, quando ultrapassadas, poderão afetar a saúde, a segurança e o bem-estar Instruções Normativas do Ministério do da população, bem como ocasionar danos Trabalho e Emprego nº 01 e nº 02, de à flora e à fauna, aos materiais e ao meio 20/12/1995: definem, respectivamente, ambiente em geral. Esta Resolução não de- critérios para Avaliação das Concen- fine qualquer valor para a exposição não- trações de Benzeno em Ambientes de ocupacional ao benzeno. Trabalho e de Vigilância da Saúde dos Trabalhadores na Prevenção da Expo- sição Ocupacional ao Benzeno. 4. Recomendações Com relação à legislação internacional,a Organização Mundial da Saúde (OMS), Ações efetivas devem ser desenvolvi-em suas diretrizes para a qualidade do ar das para que haja eliminação da exposição.na Europa, reconhece que o benzeno é uma Mas é sabido que a eliminação de algunssubstância carcinogênica para os humanos compostos dos ambientes de trabalho neme que nenhum limite seguro de exposição sempre é possível. Nestes casos, o impor-pode ser recomendado. Preconiza, então, o tante é a adoção de medidas de redução dacálculo de risco estimado por Crump, em exposição, além das medidas de proteção1994, cuja média geométrica das estima- individual e coletiva (Rego, 2002). Uma ou-tivas do excesso de risco de leucemia em tra medida importante é a informação de-populações expostas, durante toda a vida, talhada para os trabalhadores acerca dosa uma concentração atmosférica de 1µg/m3 efeitos deletérios que possam advir da ex-de benzeno, é de 6,0 x 10–6. Isto equivale posição ao benzeno. 57
  • 58. III. Xileno gasolina, tintas, removedores, vernizes e lí- quidos que previnem a ferrugem; ao tomar [Registro CAS 1330-20-7] água contaminada ou inspirar o ar próximo a locais de descarte ou solo contaminado com xileno. A quantidade de xileno nos alimentos 1. Definição é pequena (ATSDR, 1996). O xileno é um líquido incolor, de odor doce, facilmenteinflamável.Encontra-senaturalmen- A principal via de absorção do xileno te no petróleo, no carvão e é também produzido é a inalação. Uma outra via importante é a durante as queimadas. É possível sentir o xileno absorção do líquido através da pele. Porém, no ar a 0,08-3,7 ppm e o seu gosto na água a apenas pequenas quantidades de xilenos não 0,53-1,8 ppm (ATSDR, 1996). são excretadas ou metabolizadas, podendo permanecer no tecido adiposo. As exposi- Existem três tipos de xilenos que são os ções repetidas podem causar acúmulo no isômeros orto, para e meta, parte do grupo dos sangue (Patnaik, 2002). hidrocarbonetos aromáticos, também chama- dos de alquilbenzenos. São mononucleares, ou seja, compostos por um único anel aromáti- 2. Efeitos sobre co (Klaassen, 1996; Patnaik, 2002; CETESB, a saúde humana 2005). O xileno comercializado consiste tipi- camente de 20% de o-xileno, 44% de m-xileno As propriedades tóxicas dos isômeros do e 20% de p-xileno e cerca de 15% de etilben- xileno são semelhantes às do tolueno e do etil- zeno (Klaassen, 1996). benzeno. Os órgãos alvo são o sistema nervoso central, olhos, trato gastrintestinal, rins, fígado, As indústrias químicas produzem o xile- sangue e pele (Patnaik, 2002). Níveis elevados no a partir do petróleo. É um dos 30 principais de exposição por curtos períodos (14 dias ou elementos químicos produzidos nos EUA, em menos) ou longos períodos (mais de 12 meses) volume. É utilizado como solvente nas indús- podem causar dores de cabeça, falta de coorde- trias de tintas, vernizes, revestimentos, borra- nação motora, tonteira, confusão e mudanças cha e couro. É também utilizado como produto no senso de equilíbrio. A exposição a eleva- de limpeza. Pode ser encontrado em pequena dos níveis de xileno em períodos curtos pode, quantidade nos combustíveis utilizados em avi- também, causar irritação na pele, olhos, nariz ões e na gasolina (ATSDR, 1996). Os isômeros e garganta; dificuldade de respirar; problemas do xileno são usados na fabricação de corantes, pulmonares; retardamento; dificuldades de me- drogas, pesticidas e muitos intermediários or- mória; desconforto estomacal e possibilidade de gânicos, como o ácido tereftálico e andidrido alterações no funcionamento do fígado e rins. ftálico (Patnaik, 2002). Em níveis elevados pode causar perda da cons- ciência e até mesmo a morte (ATSDR, 1996; O xileno evapora rapidamente quando ATSDR, 2004). descartado no solo ou na superfície da água. As pessoas podem ser expostas ao xileno Existem ainda estudos que relatam que através do ar no ambiente de trabalho ou solventes como o benzeno, tolueno, xileno através do exaustor do carro ao inspirar o ar dentre outros, podem afetar a capacidade contaminado durante a manipulação de pro- reprodutiva feminina e masculina (Klaas- dutos com xileno em sua composição, como sen, 1996).58
  • 59. 2.1. Carcinogenicidade O carvão ativado pode ser usado para indução de vômito, mas aumenta o ris- A Agência Internacional de Pesquisa em co de aspiração pulmonar. Geralmente,Câncer – IARC, classifica o xileno no grupo esta manobra não é recomendada.3, ou seja, não carcinogênico para seres hu- Exposição pela via respiratóriamanos (IARC, 1999a). Descontaminação: remover o pacien- te para um lugar arejado. Monitorar a2.2. Avaliação laboratorial respiração. Caso esteja tossindo ou com dificuldades respiratórias, avaliar se há Testes de laboratório podem detectar o obstrução no trato respiratório, irrita-xileno ou produtos resultantes de sua quebra ção, bronquite ou pneumonia. Admi-no ar exalado, sangue ou urina. A amostra de nistrar 100% de oxigênio umidificadourina deve ser analisada rapidamente após o como suplementação.contato com xileno e a exposição estimada Os eletrólitos e os fluidos devem serpela análise dos metabólitos, ácidos metilhi- monitorados. Em caso de intoxicaçãopúricos na urina, usando-se Cromatografia por xileno inalado pode haver hipoca-Líquida de alta resolução (HPLC), colorime- lemia e acidose.tria, ou Cromatografia Gasosa (GC) (Patnaik,2002; ATSDR, 1996). CUIDADO: A hipocalemia pode influir no fluxo corpóreo e na manutenção do equilíbrio eletrolítico.2.3. TratamentoRecomendações pertinentes no caso decontaminação humana por xileno (Ruma- 3. Medidas de segurançack, 2000)Exposição pela via digestória. As principais medidas de segurança para a saúde dos trabalhadores que se expõem ocupa- Lavagem gástrica pode ser indicada cionalmente ao xileno, são o uso de luvas, bo- para pacientes que ingeriram mais do tas e roupas de polietileno clorado, neoprene, que 5ml de xileno, ou foram expostos a poliuretano e máscara facial panorâmica, com uma grande concentração de benzeno. filtro contra vapores orgânicos. Como medidas O potencial tóxico aumenta e pode ha- preventivas, deve-se evitar contato com o lí- ver risco de aspiração pulmonar. Deve quido e o vapor, manter as pessoas afastadas, ser considerado, também, se está ha- vendo risco de vida por envenenamen- chamar os bombeiros em caso de vazamento to por ingestão de xileno nas primeiras no meio ambiente (CETESB, 2005). horas. O paciente deve ficar em posição decúbito lateral para, se for o caso, fazer 3.1. Limites de tolerância intubação endotraqueal. 100 ppm (~434 mg/m3) – American Conferen- No caso de haver perda dos reflexos, ou ce of Governmental Industrial Hygienists (AC- diminuição da consciência, o paciente GIH), MSHA e Occupation Safety Health Ad- não deve ser intubado. ministration (OSHA) Pacientes com risco de hemorragia ou máximo 200 ppm/10min – National Institute de perfusão gastrintestinal não deverão for Occupational Safety and Health (NIOSH) ser intubados. IDLH 1000 ppm – NIOSH 59
  • 60. IV. Tolueno 2. Efeitos sobre a saúde humana [Registro CAS 108-88-3] A toxicidade aguda do tolueno é seme- lhante à do benzeno. As vias de exposição 1. Definição são inalação, ingestão e absorção através da pele. Os órgãos afetados por esta expo- O tolueno é um líquido incolor, com um sição são o sistema nervoso central, fíga- odor aromático característico, não corrosi- do, rins e pele. É narcótico em altas con- vo, inflamável, insolúvel em água, mas so- centrações (Patnaik, 2002; ATSDR, 2001; lúvel em muitos solventes orgânicos (Pat- OSHA, 1996). naik, 2002; ATSDR, 2004). A exposição aguda ao tolueno decor- É derivado do alcatrão, do carvão e do rente da inalação pode causar fadiga, sono- petróleo. Ocorre na gasolina e em muitos lência, dores de cabeça, náusea, confusão, outros solventes de petróleo. É utilizado falta de apetite. Estes sintomas geralmente para produzir trinitrotolueno (TNT), tolue- desaparecem quando a exposição é inter- no dissocianato e benzeno. É usado também rompida. A inalação em níveis elevados como um ingrediente para corantes, drogas em períodos curtos pode causar tonteira e detergentes e como um solvente indus- ou sonolência. Pode, igualmente, causar trial para borrachas, tintas, revestimentos perda da consciência e mesmo a morte. e óleos (Patnaik, 2002; ATSDR, 2004; CCO- Níveis elevados podem afetar os rins (Pat- HS, 1999). O maior uso do tolueno é como naik, 2002; U.S. EPA, 2000; ATSDR, 2001; uma mistura adicionada à gasolina (U.S. OSHA, 1996). EPA, 2000). Tem sido relatada a ocorrência de de- Sinônimos: metilbenzeno, fenilmetano, to- pressão do sistema nervoso central em de- luol, metilbenzol. corrência da exposição crônica. Os sinto- mas incluem sonolência, tremores, atrofia O tolueno é utilizado ainda, na produ- cerebral, movimentos involuntários dos ção de polímeros de uso comum como o olhos, distúrbios da fala, da audição e da nylon, plásticos e garrafas, poliuretanos, visão. Distúrbios comportamentais têm sido produtos farmacêuticos, tinturas, esmaltes observados em trabalhadores ocupacional- de unhas e sínteses de químicos orgânicos. mente expostos. Foram observados casos Está presente também na fumaça do cigar- de irritação do trato respiratório superior, ro (U.S. EPA, 2000). olhos, garganta, tonteira, dor de cabeça e insônia (U.S. EPA, 2000). As pessoas são expostas ao tolueno quando inspiram o ar contaminado em seu local de trabalho ou através de emissão 2.1. Carcinogenicidade veicular; trabalham com gasolina, quero- sene, óleo aquecido e tintas; consomem A Agência Internacional de Pesquisa em água contaminada ou residem próximo Câncer – IARC (1999), classificou o tolue- a locais contaminados por esse líquido no no Grupo 3, ou seja, não carcinogênico (ATSDR, 2004). para seres humanos.60
  • 61. 2.2. Avaliação laboratorial Inalação Se vapores de tolueno forem inalados, O tolueno é metabolizado em ácido ben- deve-se remover a vítima para um ambien-zóico e em ácido hiúrico e benzoíla-glicurô- te aberto e chamar um médico logo quenico. Estes dois últimos são excretados na possível. Se a vítima não estiver respirando,urina junto com pequenas quantidades de promover a ressuscitação cardiopulmonar;cresol, formados pela hidroxilação direta do se a respiração estiver difícil, dar oxigênio.tolueno. A exposição crônica pode causar Manter a vítima aquecida e quieta até o au-algum acúmulo de tolueno em tecidos gor- xílio médico chegar (OSHA, 1996).durosos, podendo ser eliminado após algumtempo (Patnaik, 2002). Ingestão Não induzir o vômito. Se o tolueno ou2.3. Tratamento a solução contendo tolueno for ingerido, deve-se dar à vítima vários copos de água. Os trabalhadores expostos a riscos quí- Procurar um médico imediatamente. Mantermicos devem ser monitorados e receber in- a vítima aquecida e quieta até a ajuda che-formações sobre os riscos relacionados ao gar (OSHA, 1996).trabalho, detecção precoce dos efeitos ad-versos à saúde e sobre locais de referência Socorrocapacitados para o diagnóstico e tratamen- Afaste o trabalhador incapacitado parato. As avaliações médicas devem ser reali- fora do local da exposição e implemente oszadas antes da contratação, periodicamente procedimentos de emergência apropriadosdurante o exercício da função (identificar (OSHA, 1996).efeitos adversos do tolueno no sistema ner-voso central ou pele), e no momento da Métodos efetivos no controle da exposiçãotransferência ou término da função. Deve- ao tolueno no local de trabalho (dependendose comparar a última avaliação do estado de da viabilidade) (OSHA, 1996).saúde com o do primeiro exame realizado As fontes de emissão, na medida do(OSHA, 1996). possível, devem ser enclausuradas.Olhos Os ambientes de trabalho devem ser providos de sistemas de ventilação ge- Se o tolueno ou uma solução contendo ral e de exaustão.tolueno cair nos olhos, eles devem ser la-vados com uma quantidade grande de água A utilização do equipamento de prote-corrente, no mínimo por 15 minutos. Se a ção individual (EPI) deve ser garantida.irritação persistir, deve-se procurar assistên-cia médica, o mais rápido possível (OSHA,1996). 3. Medidas de segurançaPele As roupas contaminadas com tolueno Se houver contato com a pele, deve-se devem ser removidas imediatamente. Aslavar a pele com água corrente por pelo me- pessoas que lavarão as roupas devem sernos 15 minutos, seguindo-se uma lavagem informadas sobre os riscos do tolueno, par-com água e sabão. Se a irritação persistir, o ticularmente sobre seu potencial em causarmédico deve ser consultado (OSHA, 1996). danos à pele (OSHA, 1996). 61
  • 62. Um trabalhador que manipula o tolue- Os grandes derramamentos serão conti- no deve lavar com intensidade as mãos e o dos em diques para contenção do líqui- antebraço. Deve lavar, também, o rosto com do de/com tolueno e posterior descarte. água e sabão antes de se alimentar, fumar ou usar o banheiro (OSHA, 1996). 3.2. Equipamento de proteção individual Os trabalhadores não devem comer, be- ber ou fumar em áreas onde o tolueno ou Os trabalhadores que têm contato com o to- solução com tolueno está sendo manipulada, lueno devem utilizar roupas específicas de prote- processada ou estocada (OSHA, 1996). ção, para evitar o contato com a pele. As roupas devem ser feitas com polivinil álcool, teflon e viton, que fornecem proteção por períodos supe- 3.1. Procedimentos relacionados riores a 8 horas. Para proteção entre 4 e 8 horas, a acidentes: vazamentos e podem-se usar roupas com mistura de polietile- derramamentos no/etileno vinil álcool (OSHA, 1996). Como proceder (OSHA, 1996) Óculos e protetores faciais devem ser utilizados durante as operações em que o Não toque no material derramado; in- tolueno pode ter contato com os olhos (ex. terrompa o vazamento se for possível fazê-lo sem riscos. através dos esguichos da solução). Lentes de contato não devem ser utilizadas. Notifique a equipe de segurança. Remova as fontes de inflamáveis e de 4. Limites de tolerância calor. 100 ppm (~ 375 mg/m3) – American Confe- rence of Governmental Industrial Hygienists Ventile a área. (ACGIH), MSHA e Occupation Safety Health Borrifos de água podem ser utilizados Administration (OSHA) para reduzir o vapor, mas não previnem 200 ppm/10min (~750 mg/m) – OSHA o risco de fogo em locais fechados. Os pequenos derramamentos devem ser Segundo manual publicado pela CETESB cobertos com areia ou outro material (2005), valores de 300 ppm causam irritação absorvente não combustível e que pos- nos olhos e sintomas de mal estar; a 1000 teriormente será colocado em containe- ppm = 3830 mg/m3, 60 min, causa efeitos res fechados, para posterior descarte. tóxicos severos.62
  • 63. V. BibliografiaAgency for Toxic Substances and Disea- Companhia de Tecnologia de Saneamento Am-se Registry. Interaction profile for benzene, biental. Manual de produtos químicos perigo-toluene, ethylbenzene, and xylenes (BTEX) sos. São Paulo (SP): CETESB; 2005. [citado em- Appendix D: background information for 20set2005].Disponívelem:http://www.cetesb.toluene. Atlanta: ATSDR; 2004. p.95-110. sp.gov.br/Emergencia/produtos/produto_con-[citado em 14 out 2005]. Disponível em: sulta.asp.http://www.atsdr.cdc.gov/interactionprofi- Companhia de Tecnologia de Saneamentoles/IP-btex/ip05-a.pdf. Ambiental. Relatório de estabelecimentoAgency for Toxic Substances and Disea- de valores orientadores para solos e águasse Registry. Interaction profile for benzene, subterrâneas no estado de São Paulo. Sãotoluene, ethylbenzene, and xylenes (BTEX) Paulo (SP): CETESB; 2001. [Citado em 13- Appendix D: background information for out 2005]. Disponível em: http://www.ce-xylenes. Atlanta: ATSDR; 2004. p.123-136. tesb.sp.gov.br/Solo/solo_geral.asp.[citado em 14 out 2005]. Disponível em: Council Directive on Ambient Air Quality As-http://www.atsdr.cdc.gov/interactionprofi- sessment and Management, working Grouples/IP-btex/ip05-a.pdf. on Benzene; Istituo Inquinamento Atmosfé-Agency for Toxic Substances and Disease Re- rico. Position paper. 1998.gistry. Public health statement for benzene. Environmental Protection Agency. Carci-Atlanta: ATSDR; 1997. [citado em 27 set 2005]. nogenic effects of benzene: an update (fi-Disponível em: http://www.atsdr.cdc.gov/tox- nal). Washington (DC): EPA; 1998.profiles/phs3.html. Environmental Protection Agency. Tolue-Agency for Toxic Substances and Disea- ne. In: Technology transfer network airse Registry. ToxFAQs for toluene. Atlan- toxics website. United States: EPA; 2000.ta: ATSDR; 2001. [citado em 14 out 2005]. [citado em 14 out 2005]. Disponível em:Disponível em: http://www.atsdr.cdc.gov/ http://www.epa.gov/ttnatw01/hlthef/to-tfacts56.html. luene.html.Agency for Toxic Substances and Disease Fundação Jorge Duprat Figueiredo de Segu-Registry. ToxFAQs for xylene. Atlanta: ATS- rança e Medicina do Trabalho. Benzeno: sub-DR; 1996. [citado em 14 out 2005]. Disponí- sídios técnicos à Secretaria de Segurança evel em: http://www.atsdr.cdc.gov/tfacts71. Saúde do Trabalho 1993. 2 ed. São Paulo (SP):html. FUNDACENTRO; 1995.Agency for Toxic Substances and Disea- Giardino NJ, Wireman JR. Total body bur-se Registry. Toxicological Profile for Benze- den from inhalation during showering withne. Atlanta: ATSDR; 1997. [citado em 27 set benzene-contamined drinking water: im-2005]. Disponível em: http://www.atsdr.cdc. plications for cancer risk. J Hazard Mater.gov/toxprofiles/tp3.html. 1998; 62(1):35-40.Canada’s Center for Occupational Healthand Safety. Basic information on toluene. International Agency for Research on Can-Canada: CCOHS; 1999. [citado em 14 out cer. Benzene. In: Overall evaluations of2005]. Disponível em: http://www.ccohs.ca/ carcinogenicity: an updating of IARC mo-oshanswers/chemicals/chem_profiles/tolue- nographs volumes 1 to 42, supplement 7.ne/basic_tol.html. Lyon: IARC; 1987. p.120. 63
  • 64. International Agency for Research on Can- 1996. [citado em 20 out 2005]. Disponível cer. Toluene. In: Re-evaluation of some or- em: http://www.osha.gov/SLTC/healthgui- ganic chemicals, hydrazine and hydrogen delines/toluene/recognition.html. peroxide, part 2. Lyon: IARC; 1999. p.829- 864. [citado em 14 out 2005]. Disponível Patnaik P. Guia geral: propriedades nocivas em: http://www-cie.iarc.fr/htdocs/monogra- das substâncias químicas. Belo Horizonte phs/vol71/030-toluene.html. (MG): Ergo; 2002. 2v. International Agency for Research on Can- Rego MAV, organizador. Vigilância do cân- cer. Xylenes. In: Re-evaluation of some or- cer Ocupacional: diretório de referências bi- ganic chemicals, hydrazine and hydrogen bliográficas. Salvador (BA): MS; 2002. peroxide part 3. Lyon: IARC; 1999. p.1189- Reis MM. Avaliação de risco de benzeno em 1208. [citado em 14 out 2005]. Disponível Volta Redonda: as incertezas na avaliação em: http://www-cie.iarc.fr/htdocs/mono- da exposição [dissetação]. Rio de Janeiro graphs/vol71/052-xylenes.html (RJ): Fundação Oswaldo Cruz; 2003. International Programme on Chemical Sa- Rumack BH, editor. Information system. Mi- fety. Environmental health criteria 150 cromedex, Inc., Englewood. Colorado; 2000. – Benzene. Geneva: IPCS; 1993. 105. Klaassen CD, editor. Casarett and Doull’s Segurança e Medicina do Trabalho. Normas toxicology: the basic science of poisons. 5 regulamentadoras do Ministério do Trabalho. ed. New York: McGraw-Hill; 1996. 51 ed. São Paulo (SP): Atlas; 2002 (Manuais Michel OR. Toxicologia ocupacional. Rio de de legislação). Janeiro (RJ): Revinter; 2000. p. 86-90. Tsao C, Song H, Bartha R.Tsao. Metabolism Ministério da Saúde. Protocolo de câncer of benzene, toluene, and xylene hydrocar- relacionado ao trabalho: leucemia mielóide bons in soil Appl Environ Microbiol. 1998 aguda e síndrome mielodisplásica decor- Dec;64(12):4924-9. rente da exposição ao benzeno e derivados. Wallace L. Environmental exposure to ben- Protocolos clínicos assistenciais de alta zene: an update. Environ Health Perspect. complexidade. Brasília (DF): MS; 2005. 1996 Dec;104 Suppl 6:1129-36 1996. National Pollutant Inventory. Departament World Health Organization. Air quality gui- of Environmental and Heritage. Toluene delines for Europe. 2nd ed. Copenhagen: (methylbenzene). Australian: NPI; 2004. WHO; 2000. [citado em 27 set 2005]. Dis- [citado em 20 set 2005]. Disponível em: ponível em: http://www.euro.who.int/docu- http://www.npi.gov.au/database/substan- ment/e71922.pdf. ce-info/profiles/81.html. Zamora PGP, Leal ES, Tiburtius ERL. Con- Occupational Safety & Health Administra- taminação de águas por BTXs e processos tion. Occupational safety and health guide- utilizados na remediação de sítios contami- line for toluene. Washington, D.C.: OSHA; nados. Quim Nova. 2004; 27(3):441-446.64