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Carta jf estefânia_abril2012[1]
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Carta jf estefânia_abril2012[1]

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  • 1. Caras e caros amigos da “Escola Sá Couto”, Caras e caros colegas de trabalho, Caras mães e caros pais, Faz hoje um mês que a Estefânia decidiu partir. Parece que já foi há muito tempo,tantas e tão intensas foram as coisas todas que vivemos nestes 30 dias e nestas 30 noites.Ao mesmo tempo, parece que ainda foi noutro dia que ela se ausentou do nosso convívio eque em breve voltará, despertando-nos a todos deste sonho mau. Os sentimentosatropelam-se no meio de tanta dor e tanto sofrimento, seja porque ela já não está connosco,seja pelas circunstâncias dramáticas em que partiu, desesperadamente à procura de umdescanso que não encontrava, nem via possível, aqui. Faz hoje um mês e pouco a pouco, imagino, a memória que dela alguns têm vai-seesvanecendo, vai ficando mais longínqua, porque a vida tem de continuar com os vivos, queremédio... Diz-se que o tempo acaba por curar as feridas. Algumas curará, outras nem tanto,mas há que arranjar forças e maneiras de tentar seguir em frente. Logo nos dias imediatos a este acontecimento tão triste, tive vontade de vosescrever, a vós, colegas e amigas/amigos da Escola onde durante tantos anos ela trabalhou ecom quem tanto gostava (pelo menos durante tanto tempo) de estar. E porquê? Porquepara quem, como nós cá em casa, acompanhava muito de perto o dia-a-dia da Estefânia e oseu pensar e o seu sentir, foi doloroso (e até surpreendente, confesso) ver como neste anolectivo, e muito em particular nos últimos dois ou três meses, a Escola se tornara numaenorme fonte de sofrimento. Ela, que deu aulas durante 36 anos e aparentemente com bonsresultados (como durante este mês tantos antigos alunos seus nos vieram testemunhar),sentia-se agora incompetente, incapaz, receosa do seu futuro profissional, atormentada pelomais e mais que o ‘sistema’ lhe vinha pedindo e angustiada pela dificuldade em dar respostaa todas as solicitações. Fosse o manter a disciplina nas aulas, fosse o conseguir que os alunosaprendessem os mínimos e se preparassem bem para os novos exames de fim de ano, fosseo lidar com uma direcção de turma particularmente complicada por vários motivos, fosse ogerir as incompreensões de pais que se demitem da sua função de educadores e atiram tudopara os ombros dos professores, fosse o gerir alunos com necessidades especiais no meio, eao mesmo tempo, de alunos ´normais’, fosse o ter de preparar dar umas aulas de educaçãosexual para que não se sentia adequadamente preparada, fosse o ter de avançar com um‘Projecto’ que mal sabia por onde pegar ou como concretizar, fossem os planos derecuperação deste e daquele e mais daquela, fossem as idas à CPCJ por causa de faltas nãojustificadas, fosse… sei lá!, tanta coisa, tanta coisa, todo o dia, todos os dias, e ela cada vezmais amargurada, cada vez mais sem saber para onde sair, cada vez mais deprimida, cadavez mais ameaçada (sim, que ela sentia-se de algum modo ameaçada) por um futuroprofissional que encarava com crescente cepticismo. Mas não aceitava a alternativa, que lhesugerimos mais de uma vez, de parar, de meter ‘baixa’ médica por uns tempos, porventurade começar mesmo a pensar numa reforma antecipada. Não. Queria continuar a tentar, pelo 1
  • 2. menos mais um bocadinho, até porque vinham aí as avaliações do 2º período e os miúdosnão podiam ficar agora sem professora, e porque talvez as coisas fossem melhorando, e istoe aquilo… E cada vez mais nós sentíamos que ela estava com imensa dificuldade em ir para aescola, mas também claramente incapaz de não ir, dado o seu enorme brio profissional e oseu profundo sentido de responsabilidade para com os alunos. Eu sei, e vocês (sobretudo as amigas e os amigos mais próximos) sabem melhor doque eu, que nem todos estes problemas seriam problemas objectivamente muito graves,dramáticos, insuperáveis. Alguns destes problemas sentem-nos vocês próprios e não osvivem com a angústia com que a Estefânia estava a vivê-los. Ela porventura sentia-osexageradamente, porventura via ‘fantasmas’ onde não havia mais do que dificuldadespróprias de um trabalho exigente, porventura dramatizava mais do que devia, porventuradeixou-se enredar numa teia interior de tristeza e de impotência que fazia o presente (e ofuturo…) muito mais negro do que a realidade objectiva dos factos. Mas isto também vai dasensibilidade de cada um, não é? E a verdade é que ela sentia tudo isto, e sentia-o com umtremendo dramatismo! Eu ouvi-a, nós ouvimo-la cá em casa, dias e dias seguidos a falardestas coisas todas, a sonhar com elas, a não conseguir dormir por causa delas, a lamentar-se por não saber o que fazer ou para onde se virar. Na conversa, procurávamosdesdramatizar, relativizar, acalmar, ajudar (como sei que as suas amigas e amigos aí daEscola também tentaram), mas não parecia dar grande resultado. E, tragicamente, não deu.Como se viu. Lá no seu íntimo, não havia solução para nada e a dor tomava conta dela. Não digo que a decisão da Estefânia de pôr termo à vida tenha sido provocadadirectamente (ou exclusivamente) pelo seu mal-estar profissional. Nenhum de nós – mesmoos que partilhávamos casa e vida há mais de 30 anos – conhecerá alguma vez, com certezacerta, tudo o que lhe passava pela cabeça e pela alma e o que a levou a decidir acabar comtudo. Sei, como sabem as suas amigas e amigos mais próximos, que ela, nos últimos anos, foificando mais triste, mais fechada, mais só, mais desesperançada – e parte disso deveu-se,certamente, a factores que pouco terão a ver com a Escola. Não é segredo que ascircunstâncias muito difíceis com que teve de lidar em termos familiares, sobretudo numpassado mais recente com a morte do irmão e a dolorosa incapacidade da mãe, adeprimiram fortemente e lhe foram retirando, em boa medida, aquele gosto de viversingelo, espontâneo e risonho que lhe conhecíamos. E talvez nenhum de nós (a começarpela sua família mais próxima) tenha percebido a profundidade da angústia e a intensidadedo sofrimento que a foram minando por dentro até à impossibilidade total, até à exaustão,até ao último gesto de desespero em busca de um pouco de paz. Talvez não tenhamospercebido o tamanho da sua fragilidade, talvez não a tenhamos ajudado como deveríamos ecomo ela precisaria. Essa é uma outra ferida, aliada à dor insuportável pela sua ausência,que há-de acompanhar-nos sempre. Mas, se é verdade que a Estefânia sofria dentro dela por diversos motivos, também ébem verdade que, sobretudo nestes últimos meses, sofria, e sofria muitíssimo, por causa da 2
  • 3. escola. Não por causa dessa escola em particular: à ‘Sá Couto’ e a quem aí trabalha ela nãopoupava elogios. Não por causa dessa escola, mas por causa DA ESCOLA, daquilo em que aescola/sistema de ensino se vem transformando, exigindo cada vez mais aos professoresmas obrigando-os a dar resposta em condições cada vez mais complicadas. Sabem do quefalo, e sabem-no bem melhor do que eu. E todos sabemos como, por causa destasdificuldades crescentes (a que se soma uma chocante demissão de muitos pais das suasresponsabilidades na educação dos filhos) nestes últimos anos, tantos professoresapaixonados pela sua profissão acabaram por não aguentar mais e por ir embora, porantecipar uma reforma, por meter uma baixa prolongada, por deixar de se interessar, pordesmotivar e passar a cumprir apenas os ‘serviços mínimos’, face ao desencanto acumulado. Isto, tudo isto, também contribuiu em larga medida para o enorme cansaço daEstefânia, para a sua crescente desmotivação, para os seus medos do que viesse por aí, paraa sua cada vez maior solidão, para um mal-estar cada vez mais frequente e intenso que se foitransformando em desespero e em beco sem saída. Tudo isto também contribuiu para queela deixasse de ser capaz, deixasse de aguentar. Para que ela desistisse – e da própria vida,como dramaticamente desistiu. Ao escrever estas linhas, repito, não pretendo encontrar culpados por aquilo quesucedeu. Se há alguém a quem posso atribuir culpas pelo sucedido, esse alguém sou eupróprio. Enquanto companheiro ao longo de quase 40 anos, enquanto marido e pai dasnossas filhas, julgava que a conhecia bem, mas tinha a obrigação de a conhecer aindamelhor, pois nunca imaginei, apesar de todas as dificuldades e agruras, que pudesse fazer oque fez. E ainda hoje passo os dias e as noites à volta de uma simples pergunta – “Porquê?...Mas porquê?...” – que nunca terá resposta cabal. Mas sei bem que eu, mais do que qualquerpessoa, podia e devia ter feito mais pela Estefânia, quer nos últimos meses em que a tristezafoi alastrando, quer ao longo dos muitos anos de vida comum. Olho agora para trás elamento profundamente o muito que podia ter feito e não fiz para que ela se sentisse aindamais amada, mais acompanhada, mais querida, mais apoiada, mais compreendida, mais coma certeza de que podia contar comigo, connosco, para tudo o que quisesse, e que juntos, nósos dois mais as nossas filhas, com todo o amor que lhe temos, iríamos encontrar maneira deultrapassar os problemas. Sinto esta culpa, hei-de senti-la sempre e por vezes mal aguento ador enorme que ela me causa, até porque não posso voltar atrás e fazer melhor o que nãofiz bem. E a única coisa que hoje posso fazer é tentar cuidar o melhor possível das nossasduas filhas onde a vida da Estefânia se mantém e se prolonga, e, através delas, procurarcompensar um pouco o tanto que deixei por fazer no passado. Para além de mim próprio, não quero, portanto, culpar nada nem ninguém peladramática decisão que a Estefânia acabou por tomar. Sei também, volto a dizê-lo, que o seuestado depressivo não advinha apenas do seu mal-estar em termos profissionais. Mas averdade é que esse mal-estar também teve aqui, infelizmente, um papel muito relevante. Epor isso quis, de coração aberto e com grande amizade, partilhar convosco estas reflexões,para que todos tomemos, se possível, um pouco mais de consciência de como certas coisaspodem fazer tão mal às pessoas, a ponto de as levar a estados de absoluta impotência e de 3
  • 4. total desesperança. E essas pessoas podem ser a nossa colega ou o nosso colega detrabalho, que passa por nós todos os dias e em quem nem sempre reparamos. E essaspessoas podem ir-se isolando cada vez mais, a ponto de quase nem se dar por elas, até quede repente surge uma notícia terrível que nos faz estremecer de incredulidade. Se me permitem este singelo apelo, em nome da Estefânia e em homenagem a ela,falem destas coisas uns com os outros, falem do vosso mal-estar, exponham-no, gritem-nose preciso for, partilhem os problemas e as dificuldades, ajudem-se uns aos outros e ajudemsobretudo os mais frágeis, estejam atentos a sinais que possam indiciar a necessidade de umapoio mais forte, encontrem modos de solidariamente lidar com as agruras crescentes deum tão incompreendido e tão desvalorizado trabalho docente, sobretudo aquele que sedesenvolve com adolescentes e jovens. Apesar das imposições frias e economicistas de umsistema que quase só vê números e estatísticas, é de pessoas e com pessoas que estamos atratar, é de pessoas e com pessoas que vive uma escola que se pretende autenticamente umespaço de educação, de formação, de crescimento autêntico e saudável. Apelo também a que falem destas coisas com os pais dos alunos: que eles selembrem sempre que no papel de professores e professoras estão pessoas de carne e osso;pessoas que tentam dar o seu melhor mas que não podem fazer tudo e que por vezestambém erram, mas não de propósito ou por maldade; pessoas que precisam de contar comuma cumplicidade permanente e activa dos encarregados de educação, pois o trabalhoeducativo só se faz bem na escola se se fizer bem em casa; pessoas que têm o direito de serouvidas antes de julgadas; pessoas que têm direito a descansar à noite em casa, com as suaspróprias famílias (sim, que os professores também são pais e mães, também têm filhos paracuidar…), sem que o telemóvel as chame a desoras; enfim, pessoas que se esforçam muitonum trabalho tão difícil, pessoas que dão aos alunos o melhor das suas energias, quantasvezes a troco de nada – nem de uma simples palavra de reconhecimento. Agradeço, em meu nome e das nossas filhas – e também, se me permitem, em nomeda própria Estefânia, cuja memória queremos preservar e honrar –, a atenção que queiramprestar a estas reflexões. São reflexões de um marido, de um pai, e também de um professorcomo vocês, que se sente tristemente impotente para alterar o que sucedeu mas quegostaria que, pelo menos, todos nós aprendêssemos algo com este drama. Em homenagemà Estefânia, que tanto amamos, que guardaremos sempre com o maior carinho no fundo dosnossos corações e que queremos manter viva, verdadeiramente viva, através de tudo (etanto, tanto foi!…) o que de bom e de bonito nos foi dando ao longo da sua vida. Uma vidaque não foi de modo nenhum, e prometo que nunca será, em vão. Com um grande abraço de amizade, Joaquim FidalgoEspinho, 1 de Abril de 2012 4