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  • 1. Filosofia (do grego philos - amor, amizade + sophia - sabedoria) modernamente é uma disciplina, ou uma área de estudos, que envolve a investigação, análise, discussão, formação e reflexão de idéias (ou visões de mundo) em uma situação geral, abstrata INTRODUÇÃO AO PENSAMENTO FILOSÓFICO ou fundamental. Originou-se da inquietação gerada pela curiosidade JOSÉ AUGUSTO FIORIN (ORG.) humana em compreender e questionar os valores e as interpretações comumente aceitas sobre a sua própria realidade. As interpretações comumente aceitas pelo homem constituem inicialmente o embasamento de todo o conhecimento. Estas interpretações foram adquiridas, enriquecidas e repassadas de geração em geração. Ocorreram inicialmente através da observação dos fenômenos naturais e sofreram influência das relações humanas estabelecidas até a formação da sociedade, isto em conformidade com os padrões de comportamentos éticos ou morais tidos como aceitáveis em
  • 2. para um saber mais profundo e abrangente do homem e da FILOSOFIA natureza, que transcende os conhecimentos concretos e orienta o comportamento diante da vida. A filosofia pretende ser também O homem sempre se questionou sobre temas como a uma busca e uma origem e o fim do universo, as causas, a natureza e a relação entre justificação racional dos as coisas e entre os fatos. Essa busca d e um conhecimento que princípios primeiros e transcende a realidade imediata constitui a essência do pensamento universais das coisas, filosófico, que ao longo da história percorreu os mais variados das ciências e dos caminhos, seguiu interesses diversos, elaborou muitos métodos de valores, e uma reflexão reflexão e chegou a várias conclusões, em diferentes sistemas sobre a origem e a filosóficos. validade das idéias e O termo filosofia deriva do grego phílos (quot;amigoquot;, das concepções que o quot;amantequot;) e sophía (quot;conhecimentoquot;, quot;saberquot;) e tem praticamente homem elabora sobre tantas definições quantas são as correntes filosóficas. Aristóteles a ele mesmo e sobre o definiu como a totalidade do saber possível que não tenha de que o cerca. abranger todos os objetos tomados em particular; os estóicos, como quot;A filosofia nasce de uma tentativa desusadamente uma norma para a ação; Descartes, como o saber que averigua os obstinada de chegar ao conhecimento realquot;, diz Bertrand Russell. princípios de todas as ciências; Locke, como uma reflexão crítica Com efeito, o desejo de encontrar explicação para a própria sobre a experiência; os positivistas, como um compêndio geral dos existência e a existência do mundo circundante, que já nas antigas resultados da ciência, o que tornaria o filósofo um especialista em concepções míticas expressava-se por meio de elementos idéias gerais. Já se propuseram outras definições mais irreverentes simbólicos, está na origem da filosofia como tentativa de discernir e menos taxativas. Por exemplo, a do britânico Samuel Alexander, os princípios e fundamentos subjacentes à realidade aparentemente para quem a filosofia se ocupa quot;daqueles temas que a ninguém, a caótica. não ser a um filósofo, ocorreria estudarquot;. Segundo a tradição clássica, o pensador grego Pode-se definir filosofia, sem trair seu sentido Pitágoras foi o primeiro a denominar-se philosóphos, aquele que etimológico, como uma busca da sabedoria, conceito que aponta ama ou procura a sabedoria, em oposição ao sophós, ou sábio que INTRODUÇÃO AO PENSAMENTO FILOSÓFICO JOSÉ AUGUSTO FIORIN (ORG.) 2
  • 3. se limitaria a entesourar conhecimentos sem se preocupar com sua distintas, cada uma das quais reorganiza os princípios e validade. Lendária ou não, essa distinção resultou correta na conhecimentos vigentes no período anterior. Assim, no início caracterização essencial do espírito filosófico, cuja busca visa não ao equiparada à totalidade do saber, a filosofia precisou subdividir-se registro ou à descrição de fatos concretos, mas à conquista de um em diferentes disciplinas -- metafísica, epistemologia, ética -- saber unitário e abrangente sobre o homem e a natureza. voltadas para o estudo de áreas específicas do pensamento, e viu Desde seu nascimento na Grécia no século VI a.C., desligar-se progressivamente de sua competência as ciências foram apresentadas inúmeras e freqüentemente contraditórias particulares, que adquiriram identidade e metodologia próprias. definições de filosofia, entre elas a tradicional concepção de Essa característica não só explica a multiplicidade de Aristóteles, que entendia a filosofia como ciência dos princípios e manifestações do espírito filosófico como garante sua unidade causas últimas das coisas; ou a concepção das escolas positivistas e interna, nascida do desejo de integrar os dados que os diferentes empíricas, que a viam como simples organizadora ou esclarecedora ramos do saber proporcionam sobre o homem e o ambiente que o dos dados proporcionados pela experiência e pelas ciências. Em cerca. No curso de sua evolução histórica, portanto, a filosofia última instância, porém, a persistência histórica de tais polêmicas forneceu ao homem um instrumento essencial no esforço de contribuiu para destacar o caráter primordialmente crítico e apreender a realidade com precisão cada vez maior e permitiu-lhe antidogmático da atividade filosófica, que faz da reflexão sobre si aceder mais completamente à compreensão de si mesmo e de seu mesma seu primeiro e fundamental problema. lugar no universo. Cabe, pois, usando as palavras do pensador alemão Ao longo de sua evolução histórica, a filosofia foi Karl Jaspers, definir filosofia antes de tudo como quot;a atividade viva sempre um campo de luta entre concepções antagônicas -- do pensamento e a reflexão sobre esse pensamentoquot;, isto é, uma materialistas e idealistas, empiristas e racionalistas, vitalistas e investigação racional direcionada não só para a determinação dos especulativas. Esse caráter necessariamente antagonista da princípios gerais da realidade mas também para a análise crítica do especulação filosófica decorre da impossibilidade de se alcançar próprio instrumento -- a razão -- e das idéias, concepções e valores uma visão total das múltiplas facetas da realidade. Entretanto, é elaborados pelo homem mediante o exercício da razão. justamente no esforço de pensar essa realidade, para alcançar a Traço também essencial para a compreensão da sabedoria, que o homem vem conquistando ao longo dos séculos filosofia é sua historicidade radical, que tem feito variar seus fins e uma compreensão mais cabal de si mesmo e do mundo que o cerca, meios de acordo com as concepções de mundo próprias de épocas INTRODUÇÃO AO PENSAMENTO FILOSÓFICO JOSÉ AUGUSTO FIORIN (ORG.) 3
  • 4. e uma maior compreensão das próprias limitações de seu argumentada da realidade. No entanto, não havia sido definida pensamento. nesse momento a separação da filosofia e das diversas ciências. Aristóteles, por exemplo, investigou tanto sobre metafísica ORIGEM DA FILOSOFIA especulativa, como sobre física, história natural, medicina e história geral, todas reunidas sob a denominação comum de filosofia. Somente a partir da baixa Idade Média e mais ainda do As culturas mais Renascimento, as diversas ciências se diferenciaram e a filosofia se primitivas e as antigas filosofias definiu em seus atuais limites e conteúdos. orientais expunham suas Filosofia grega respostas aos principais Foi na Grécia, no século VI a.C., que nasceu a filosofia. questionamentos do homem em Ali, em apenas três séculos, foram propostos os grandes temas de narrativas primitivas, geralmente que se ocupou o pensamento filosófico ao longo da história. A figura orais, que expressavam os de Sócrates, cujos ensinamentos só são conhecidos por meio da mistérios sobre a origem das obra de seus discípulos, Platão e Xenofonte, tem servido coisas, o destino do homem, o tradicionalmente de linha divisória para estabelecer as duas grandes porquê do bem e do mal. Essas narrativas, ou quot;mitosquot;, durante etapas da filosofia grega: o período pré-socrático e o da muito tempo consideradas simples ficções literárias de caráter maturidade, representado este, fundamentalmente, pelas obras de arbitrário ou meramente estético, constituem antes uma autêntica Platão e Aristóteles. reflexão simbólica, um exercício de conhecimento intuitivo. Observando que os antigos narradores -- Homero, Pré-socráticos. O objeto primordial da primitiva filosofia Hesíodo -- só transmitiram tradições, sem dar nenhuma prova de grega foi a reflexão acerca da origem e da natureza do mundo físico suas doutrinas, Aristóteles, um dos fundadores da filosofia e dos elementos que o constituem e permitem explicá-lo. Isto é, ocidental, distinguiu entre filosofia e mito dizendo ser próprio dos aquilo que em termos atuais seria denominado uma metafísica da filósofos o dar a razão daquilo que falam. matéria. O pensamento pré-socrático desenvolveu-se entre uma Estabeleceu-se assim na cultura ocidental uma primeira cosmologia monista e outra pluralista, entre o materialismo e o delimitação do conceito de filosofia como explicação racional e INTRODUÇÃO AO PENSAMENTO FILOSÓFICO JOSÉ AUGUSTO FIORIN (ORG.) 4
  • 5. idealismo, entre a afirmação dos grandes valores transcendentes e tarde, Demócrito defenderia a existência de átomos de igual o relativismo antropológico. natureza mas de diferentes formas e magnitudes, que, ao constituir Cosmologias monistas. O primeiro pensador que, diversas combinações no espaço, dariam origem aos diferentes segundo Aristóteles, pode ser considerado filósofo foi Tales de corpos que se conhecem. Mileto, um dos chamados quot;sete sábiosquot; da Grécia, que viveu no Realidade e aparências. Parmênides (século V a.C.), século VI a.C. Como cientista, aplicou seus conhecimentos fundador da escola eleática, pensava que nada pode começar a matemáticos e astronômicos à medição de distâncias e à previsão existir, nem tampouco desaparecer, porque procederia do nada ou de eclipses; como filósofo, estabeleceu uma explicação racional -- se converteria em nada, o que não é possível porque o nada não sem apoio no mundo mitológico -- sobre a origem do mundo, que existe. Também não existe o movimento ou mudança, e somente, disse ser formado de água. portanto, um único ser, total, imutável e compacto. Seu discípulo Anaximandro, contemporâneo e concidadão de Tales, Zenão propôs o famoso argumento segundo o qual Aquiles, o mais escreveu o primeiro texto filosófico conhecido, que intitulou Sobre a veloz entre os corredores, não poderia alcançar uma tartaruga, natureza. Ao estabelecer que o princípio (arké) de todas as coisas porque lhe seria necessário para isso percorrer a metade do espaço seria o quot;indeterminadoquot; (ápeiron), Anaximandro deslocou o interposto entre eles, em seguida a metade da metade e assim por problema do plano físico material para o plano lógico. Anaxímenes, diante interminavelmente. Desse modo, os filósofos eleáticos seu discípulo, voltou a um princípio material, que ele identificou no separaram, de um lado, as aparências (doxá, quot;opiniõesquot;) que os ar. sentidos percebem e que se mostram contraditórias em uma análise Cosmologias pluralistas. Empédocles, nascido na Sicília racional e, de outro lado, a realidade que a razão oferece e que é no século V a.C., foi sacerdote, vidente, taumaturgo - realizador de objeto do verdadeiro conhecimento. milagres --, político, médico, poeta e cientista. Estabeleceu como Heráclito de Éfeso (século VI a.C.) havia afirmado, pelo princípio da matéria, quatro elementos ou raízes do ser: fogo, água, contrário, que somente existia o movimento (a mudança, o devir). ar e terra. As misturas ou separações entre esses elementos se Tudo flui e nada permanece: quot;Ninguém pode banhar-se duas vezes produziriam pelo efeito de duas forças cegas, o quot;amorquot; e o quot;ódioquot;. no mesmo rio.quot; O movimento se produz pela tensão entre os Por sua vez, Anaxágoras, seu contemporâneo, propôs uma contrários e provoca quot;o eterno retornoquot; de todas as coisas, regido inteligência (nous) que teria agitado as partículas primitivas, de pelo logos, que constitui a lei do universo. Segundo interpretações modo que logo chegaram a formar as atuais combinações. Mais modernas, não há contradição entre Parmênides e Heráclito, uma INTRODUÇÃO AO PENSAMENTO FILOSÓFICO JOSÉ AUGUSTO FIORIN (ORG.) 5
  • 6. vez que suas respectivas doutrinas enfocam dois planos diferentes corretamente. A probidade ética de Sócrates desagradou tanto aos do ser: o absoluto (metafísico) e o cosmos (físico). conservadores quanto aos defensores da democracia, que o Metafísica do número. Pitágoras de Samos (século VI acusaram de impiedade e o condenaram à morte. Ele poderia tê-la a.C.), bom conhecedor do Oriente e do Egito, fundador de um grupo evitado, mas aceitou-a por obediência às leis. ao mesmo tempo científico e religioso, introduziu na Grécia a idéia da reencarnação das almas, não sob a forma vulgar modernamente conhecida, mas como transmigração por várias formas de existência. Sua principal contribuição à filosofia foi considerar os números, as relações e formas matemáticas como a essência e a estrutura de todas as coisas. Cada coisa possui um número (arithmós arkhé), que expressa a quot;fórmulaquot; da sua constituição íntima. De outro lado, as leis que governam o cosmos são também relações matemáticas. Platão. A teoria das idéias, uma das principais Relativismo antropológico dos sofistas. Os sofistas contribuições filosóficas de Platão, procurava solucionar o problema fizeram do ato de pensar uma profissão remunerada. Seu ceticismo da realidade e das aparências, da unidade ou pluralidade do ser. em gnosiologia levou-os a uma moral oportunista. Se é impossível Platão considerava que as coisas que percebemos são imagens -- conhecer o mundo real, o que importa são as aparências e, por sombras projetadas em nossa estreita caverna -- de realidades conseguinte, o êxito na vida e a influência sobre os outros. Daí o superiores que existem imutáveis no mundo das idéias, presididas valor que concederam à retórica e à oratória. A célebre máxima quot;o pela idéia do bem. O filósofo argumentava que, apesar de não homem é a medida de todas as coisasquot; constitui um resumo do existirem duas figuras exatamente iguais, a matemática demonstra relativismo filosófico dos sofistas. a existência do princípio da perfeita igualdade, que deve existir para Grandes filósofos atenienses. Sócrates. Interessado, que exista uma verdadeira ciência. como os sofistas no homem concreto, cujo saber interrogava, Toda a filosofia posterior continuaria a se questionar Sócrates pretendeu, no entanto, exatamente o contrário deles. sobre a localização das essências imutáveis que fundamentam uma Procurou demonstrar as incongruências entre idéias e atos, incitar o ciência ou uma ética, e sobre serem essas essências algo mais que homem a distinguir por si mesmo o justo do injusto e a agir INTRODUÇÃO AO PENSAMENTO FILOSÓFICO JOSÉ AUGUSTO FIORIN (ORG.) 6
  • 7. uma mera probabilidade. Os primeiros filósofos cristãos situaram o totalidade orgânica e o estabelecimento dos graus de confiabilidade mundo das idéias na mente divina, como causa exemplar dos vários métodos e conhecimentos. (arquétipo, modelo) de toda a criação. A filosofia de Platão -- Últimas filosofias da antiguidade. A dissolução, em idealista, simbólica, estética -- se desliga do mundo cotidiano, o primeiro lugar, da cidade-estado e a decomposição, mais tarde, do mundo das aparências, e estimula a penetrar num mundo mais império de Alexandre o Grande mergulharam a antiga Grécia numa profundo, que de alguma forma estaria subjacente ao mundo de época de decadência e incerteza. Aos grandes sistemas filosóficos cada dia e que seria estimulado por este último. Muitas das anteriores sucederam outros de ambições mais modestas, cujo contradições que aparecem nos escritos de Platão só poderiam ser objetivo fundamental era ajudar os homens a obter tranqüilidade. resolvidas mediante o conhecimento do ensino oral do filósofo, que Assim, enquanto a escola estóica preconizou a moderação das o considerava a parte mais importante de seu pensamento. Mas as paixões, o epicurismo enfatizou a busca da felicidade. O ceticismo, pesquisas que permitiriam reconstituir o conteúdo desse por sua vez, negou a possibilidade de um conhecimento absoluto e ensinamento oral só puderam ser realizadas no século XX. sublinhou a importância dos interesses individuais. Aristóteles. Discípulo de Platão e preceptor de Outra corrente filosófica do final da antiguidade foi o Alexandre o Grande, Aristóteles foi o grande organizador da filosofia neoplatonismo, sobretudo com Plotino (205-270 da era cristã). De ocidental e muito especialmente da metafísica (estudo do ente índole simbólica e mística, essa filosofia muito influenciou o enquanto tal) e da lógica, que, nas colocações formuladas por ele, cristianismo medieval, até a redescoberta da filosofia de Aristóteles. sobreviveu sem a mínima variação até a aparição da moderna lógica formal ou matemática. O método aristotélico associa a observação minuciosa com uma sistematização racional radical. Como a filosofia depois se dividiu em empiristas e racionalistas, muito se veio a debater se Aristóteles pertencia a uma ou outra dessas correntes, porém o mais exato é dizer que ele tem uma posição intermediária: o conhecimento vem pela experiência (como pretendem os empiristas) mas só se torna válido quando está em conformidade com os princípios lógicos. A contribuição mais duradoura de Filosofia medieval Aristóteles foi a organização do sistema das ciências como INTRODUÇÃO AO PENSAMENTO FILOSÓFICO JOSÉ AUGUSTO FIORIN (ORG.) 7
  • 8. O cristianismo, que impulsionou a cultura ocidental formular novas contribuições de interesse para a filosofia. Exceções durante toda a Idade Média, trouxe uma nova visão de Deus, da a isso foram Guilherme de Ockham, que propôs uma distinção mais criação e do destino humano, na qual se destacavam temas rigorosa entre teologia e filosofia, e a escolástica portuguesa, que completamente estranhos à filosofia grega, como os da imortalidade continuou a desenvolver-se até o século XVII, mas sem exercer, por da alma individual, da autoconsciência como fundamento do seu isolamento, qualquer influência no resto do pensamento conhecimento etc. Foi muito forte, nesse período, a vinculação entre europeu. filosofia e teologia. DO RENASCIMENTO AO IDEALISMO ALEMÃO Os primeiros padres da igreja recorreram à terminologia conceitual da filosofia neoplatônica para explicar sua Renascimento. As grandes transformações culturais, própria fé. Destacou-se entre eles o pensamento de santo econômicas e sociais dos séculos XV e XVI afetaram também a Agostinho, retomado pela escola franciscana. filosofia, que, de monopólio até então quase exclusivo da classe Filosofia escolástica. Traduções e comentários dos universitária (quot;escolásticaquot; é o mesmo que quot;escolarquot;) passou a textos aristotélicos, conhecidos em boa parte por intermédio dos interessar a uma outra camada de intelectuais, sem vínculo com a pensadores árabes, como Avicena e Averróes, e judeus universidade e mais ligados à aristocracia e à cultura dos palácios. (Maimônides) deram na Idade Média nova orientação às escolas O resultado foi a ruptura dos vínculos com a teologia e um teológicas e despertaram novo interesse pela lógica e a metafísica. crescente processo de secularização da filosofia. Entre muitos dos Santo Alberto Magno e santo Tomás de Aquino foram os principais novos intelectuais, o interesse primordial já não era pelos temas artífices da adaptação da filosofia aristotélica, que se impôs após sacros (divinae litterae, quot;letras divinasquot;) e sim pela literatura grandes dificuldades, entre elas condenações eclesiásticas. secular (humanae litterae), daí seu nome de quot;humanistasquot;. As Frente ao intelectualismo aristotélico-tomista preocupações dos filósofos renascentistas, que seriam sobreviveu na filosofia medieval outra corrente voluntarista desenvolvidas nos séculos posteriores, giraram em torno de três augustiniana, cujos principais representantes foram são grandes temas: o homem, a sociedade e a natureza. Boaventura, John Duns Scotus e, em uma linha mística mais Foram os humanistas que se encarregaram da reflexão neoplatônica, Mestre Eckhart e Nicolau de Cusa. sobre o primeiro desses temas. A nova organização do pensamento O século XIV representou a decadência da escolástica, renascentista fez prevalecer Platão sobre Aristóteles, a retórica empenhada em controvérsias cada vez mais sutis e incapaz de sobre a dialética medieval, os diálogos literários sobre as disputas INTRODUÇÃO AO PENSAMENTO FILOSÓFICO JOSÉ AUGUSTO FIORIN (ORG.) 8
  • 9. lógicas escolásticas. Com a recuperação da literatura clássica, racionalismo. Ambos os sistemas filosóficos se desenvolveram fora manifestaram-se também as influências das filosofias do último das universidades, onde se continuou a ensinar um aristotelismo período da antiguidade, como o atomismo, o ceticismo e o cada vez mais diluído. estoicismo. O racionalismo, em cuja base se encontra a confiança No pensamento social, sobressaiu a figura de Nicolau na capacidade absoluta da razão para alcançar o conhecimento, Maquiavel, que defendeu em O príncipe (1513) a aplicação da serviu-se do método dedutivo para suas elaborações teóricas. Seu quot;razão de estadoquot; sobre as normas morais. No século XVII principal representante foi René Descartes, iniciador do subjetivismo destacaram-se no pensamento político as figuras do inglês Thomas moderno. O pensamento de Descartes, desenvolvido sobretudo em Hobbes e do holandês Hugo Grotius. O primeiro defendeu a seu Discurso sobre o método (1637), fundamenta-se numa primeira existência de um estado forte como condição da ordem social; evidência -- quot;penso, logo existoquot; -- a partir da qual já era possível a Grotius apelou para a lei natural como salvaguarda contra a aquisição de novas idéias. A garantia da certeza dessas últimas se arbitrariedade do poder político. produzia quando cumpriam a condição de serem claras, distintas e Filosofia da natureza. Se os filósofos medievais haviam não contraditórias. Importantes adeptos dessa corrente filosófica concebido a natureza como um todo orgânico, hierarquizado foram também Spinoza e Leibniz. segundo uma ordem estabelecida por Deus, os renascentistas Empirismo. O empirismo, que foi em suas origens conceberam-na como uma pluralidade regida pelas leis da mecânica apenas um método de investigação científica, acabou por se e presidida pela ordem matemática. Seu método consistia numa transformar, com o tempo, em uma corrente filosófica de suma fusão da experiência com a matemática, ora enfatizando esta importância para o pensamento e a ciência posteriores. Seu (Galileu), ora aquela (Bacon). A atitude científica do Renascimento primeiro representante foi o inglês Francis Bacon, que propôs tal se manifestou sobretudo nas obras de Nicolau Copérnico e de método em seu Novum organum (1620), cujo título era um claro Galileu Galilei, e encontrou seu apogeu na figura de Isaac Newton, convite à renovação do organum, ou seja a metodologia lógica de que publicou em 1687 sua fundamental Philosophiae naturalis, Aristóteles. Bacon postulava como elementos fundamentais da principia mathematica (Princípios matemáticos da filosofia natural). investigação científica a observação, a experimentação e a indução. Racionalismo. A natureza e a matemática, a observação Figuras fundamentais do empirismo, além de Hobbes e e a especulação racionalista, unidas em princípio, acabaram Newton, foram também John Locke e David Hume, que, na segunda separando-se em duas correntes distintas, o empirismo e o INTRODUÇÃO AO PENSAMENTO FILOSÓFICO JOSÉ AUGUSTO FIORIN (ORG.) 9
  • 10. metade do século XVII e na primeira do XVIII, estabeleceram a dos dados sensíveis particulares, Kant afirmou que a missão da formulação definitiva dessa corrente filosófica. filosofia é determinar a capacidade da razão para alcançar a Iluminismo. O século XVIII, conhecido como o Século verdade. Para ele, a razão aplica certas categorias -- condições a das Luzes ou Iluminismo, representou o apogeu do empirismo priori, isto é, anteriores -- aos fenômenos da experiência. Não se clássico e do racionalismo. Mais do que a contribuição de novas conhece, portanto, a coisa em si, mas seu quot;fenômenoquot;, sua idéias filosóficas, o que caracterizou essencialmente esse período foi manifestação. Esse modo de conhecimento não é aplicável aos a sistematização e divulgação das que haviam sido formuladas até objetos da metafísica, como Deus ou a imortalidade da alma, que então. A publicação da Encyclopédie (1751-1772), sob a direção do não podem ser conhecidos pela razão teórica, mas somente pela francês Denis Diderot, constitui exemplo excepcional desse razão prática, que opera na ordem moral. empenho. Seu compatriota Voltaire, literato, historiador e filósofo, São também representantes destacados do idealismo é, talvez, a personalidade que melhor representa o espírito do alemão Johann Gottlieb von Fichte, Friedrich Wilhelm von Schelling Século das Luzes. e G. W. F. Hegel, filósofos que levaram a tal extremo o racionalismo No terreno da filosofia social e política destacaram-se subjetivista iniciado no Renascimento que chegaram a beirar o Jean-Jacques Rousseau e o barão de Montesquieu, que defenderam irracionalismo romântico. Romântica foi, efetivamente, sua a liberdade e a igualdade entre todos os cidadãos. Montesquieu aproximação da religião e seu distanciamento da ciência propôs em L'Esprit des lois (1748; O espírito das leis) a divisão dos experimental; sua exaltação cósmica do eu e a preeminência que poderes como garantia da liberdade política. Rousseau, por sua vez, concederam à vontade e à moral. em Du contrat social (1762; O contrato social), reconheceu como depositário do poder o povo, que o cede aos governantes mediante POSITIVISMO E CIÊNCIAS SOCIAIS uma delegação revogável segundo sua vontade. No campo da filosofia especulativa, o século XVIII viu nascer um pensamento Positivismo. No tempo em que na Alemanha prevalecia materialista e ateu, cujo principal representante foi Diderot. o idealismo, no Reino Unido e na França a evolução do empirismo Idealismo alemão. Immanuel Kant, contemporâneo dos deu lugar à aparição do utilitarismo de Jeremy Bentham e de John iluministas e identificado com suas idéias políticas, foi também Stuart Mill e ao positivismo de Auguste Comte. O utilitarismo, que fundador do idealismo alemão. Retratando sobre o modo pelo qual a propunha quot;a maior felicidade para o maior número possível de filosofia obtém seus conhecimentos científicos universais a partir indivíduosquot;, negou a validade dos princípios abstratos e criticou o INTRODUÇÃO AO PENSAMENTO FILOSÓFICO JOSÉ AUGUSTO FIORIN (ORG.) 10
  • 11. autoritarismo. O positivismo, por sua vez, definiu a existência de do conhecimento -- surgidas a partir do estudo analítico da três estágios de desenvolvimento na história da humanidade -- o linguagem -- e o impulso dado à filosofia da ciência. As teológico-mitológico, o metafísico e o positivo -- e considerou que, preocupações fundamentais do pensamento filosófico foram as já superados os dois primeiros, cabe ao pensamento filosófico, no concernentes ao homem e sua relação com o mundo que o cerca. estágio positivo, unicamente a descrição dos fenômenos, abstendo- Dentro da chamada filosofia analítica, o empirismo se de interpretá-los metafisicamente. lógico do Círculo de Viena foi uma das correntes filosóficas que mais Marxismo. Karl Marx propôs como objeto da reflexão ressaltaram ser a filosofia como um método de conhecimento. Para filosófica o estudo das relações econômicas e sociais e afirmou que essa corrente, o objeto da filosofia não é a proposição de um a missão da filosofia, que até então tinha sido a de pensar o mundo, sistema universal e coerente que permita explicar o mundo, mas devia ser agora a sua transformação. Marx subverteu a dialética de sim o esclarecimento da linguagem das proposições lógicas ou Hegel, segundo a qual a história culminava no estado, garantia da científicas. Ora, para que elas tenham sentido, devem ser liberdade do homem, e considerou a luta de classes como a força verificáveis, de tal modo que as que não o forem -- por exemplo, motora da história. proposições acerca da ética ou da religião -- carecem de qualquer Novas correntes. A segunda metade do século XIX interesse filosófico. Também a escola de Oxford considerou a assistiu ainda ao surgimento de diversas tendências filosóficas, linguagem como objeto de seu estudo, se bem que tenha entre as quais sobressaíram o pragmatismo de William James; o concentrado sua atenção na linguagem comum, na qual quis irracionalismo de Søren Kierkegaard, que antepôs o mundo descobrir, latentes, as várias concepções elaboradas sobre o emocional ao racional; a filosofia da vontade de Schopenhauer; o mundo. O austríaco Ludwig Wittgenstein insistiu na importância vitalismo de Nietzsche, destruidor dos valores tradicionais e arauto fundamental do estudo da linguagem e afirmou que ela participa da do super-homem; e, sob o impulso da obra do naturalista Charles estrutura da realidade, já que não é senão um reflexo, uma Darwin, o evolucionismo. quot;figuraquot;, da mesma. FILOSOFIA NA ATUALIDADE A fenomenologia de Edmund Husserl propôs uma A partir do começo do século XX teve início uma análise descritiva que permitisse chegar à evidência da quot;própria reflexão radical sobre a natureza da filosofia, sobre a determinação coisaquot;, não como existente mas como pura essência. Para o de seus métodos e objetivos. No que diz respeito ao método, vitalismo de Henri Bergson há dois modos de conhecimento: o destacaram-se as novas reflexões sobre a epistemologia ou ciência INTRODUÇÃO AO PENSAMENTO FILOSÓFICO JOSÉ AUGUSTO FIORIN (ORG.) 11
  • 12. analítico, no campo da ciência, e a intuição, própria da filosofia e único meio de captar a profundidade do homem e do mundo. No que diz respeito às inquietaçÕes e propostas da moderna filosofia, cumpre citar o instrumentalismo de John Dewey, que estabeleceu como orientação da filosofia e como critério da verdade a utilidade de uma idéia face às necessidades humanas e sociais; o existencialismo, que antepôs, na sua reflexão filosófica, a própria existência do homem a qualquer outra realidade; ou o estruturalismo, que postulou, no estudo de qualquer realidade, que ela devia ser considerada nas suas inter-relações com o todo de que faz parte. Numerosos filósofos integraram em seu pensamento elementos pertencentes a escolas filosóficas diferentes. Sartre, por exemplo, foi existencialista e marxista, e os pensadores da chamada escola de Frankfurt ensaiaram uma síntese de marxismo e psicanálise. Tanto o marxismo, que com sua pretensão de constituir um instrumento transformador da sociedade, ultrapassou a simples classificação de escola filosófica, quanto a psicanálise, que, ao contrário, somente pretendeu em princípio ser uma teoria e uma terapia psicológicas, exerceram influência poderosa no pensamento filosófico contemporâneo. INTRODUÇÃO AO PENSAMENTO FILOSÓFICO JOSÉ AUGUSTO FIORIN (ORG.) 12
  • 13. trata-se da mão-de-obra total que a economia mobiliza ou pode TRABALHO mobilizar. O trabalho, nesse caso, é visto em função do trabalhador coletivo e supõe uma economia complexa, com avançada divisão do Meio de sobrevivência, maldição bíblica pelo pecado trabalho. original ou medida de valor, o trabalho, seja como for encarado, é Os elementos fundamentais do processo de trabalho -- sempre uma atividade que depende da habilidade manual e da objeto, meios e força de trabalho -- combinam-se em proporções inteligência de quem o desempenha. variáveis, que vão determinar o modo de produção de determinada Trabalho é toda transformação que o homem imprime à economia. natureza para disso tirar algum proveito. Pode ser feito diretamente com as mãos, com a ajuda de instrumentos, ferramentas e máquinas ou ainda com a colaboração de animais. O processo de trabalho voltado para a produção social inclui três elementos fundamentais: o objeto de trabalho, matéria que o homem transforma com sua atividade; os meios de trabalho, conjunto de instrumentos com os quais o homem transforma a matéria; e a atividade humana exercida sobre a matéria com a ajuda de instrumentos. Esses três elementos são também conhecidos como natureza (ou terra), capital e força de trabalho. O capital é uma Evolução histórica do trabalho. Durante milênios, o acumulação de trabalho anterior, ou seja é trabalho acumulado. O trabalho se limitou a garantir a manutenção e a reprodução trabalho é o elemento mais importante da produção social, condição biológica da espécie humana e se desempenhou sob a forma de mesma de sua existência. É por ele que se obtém o produto. coleta, trabalho extrativo que pouca ou nenhuma transformação Todo trabalho exige o dispêndio de certa quantidade de imprimia à matéria natural além de subtraí-la à natureza. Mais energia física e psíquica. A essa energia despendida no processo de tarde, a caça, a pesca, a utilização do fogo e o pastoreio produção chama-se força de trabalho. O trabalho é, assim, o diversificaram o trabalho e possibilitaram seu progresso, com o resultado mensurável da força de trabalho. Pode-se também falar surgimento dos primeiros objetos úteis, como o arco e a flecha. da força de trabalho global em determinada sociedade. Nesse caso, INTRODUÇÃO AO PENSAMENTO FILOSÓFICO JOSÉ AUGUSTO FIORIN (ORG.) 13
  • 14. Com a agricultura, que determinou a chamada realizar trabalhos para o senhor feudal. A figura do servo revolução neolítica, o homem tornou-se sedentário e passou a desapareceu lentamente dos países europeus, com a livre circulação fabricar instrumentos para o cultivo e a colheita. O trabalho tornou- de pessoas e com o reconhecimento do direito de contratar se mais organizado e coletivo. A possibilidade de plantar e colher livremente sua capacidade produtiva. um excedente, ou seja, algo além do indispensável para sua própria Os europeus, porém, manutenção, tornou atraente a possibilidade de escravizar pessoas. exportaram para outros pontos do Prisioneiros capturados nas guerras de conquista e animais como o mundo a escravidão abolida em seu boi e a lhama foram incorporados aos processos de produção. Os continente e basearam sua economia instrumentos e o excedente de produção, a princípio riqueza social colonial no trabalho escravo. A dos membros da comunidade, foram privatizados, o que deu origem escravidão só foi abolida nos Estados primeiro às classes sociais e, mais tarde, ao estado. Unidos em 1865 e no Brasil em 1888, Nas civilizações antigas, predominou a concepção do o último país ocidental a mantê-la trabalho material produtivo como degradante e próprio de escravos. como sistema legal. A partir do final Em toda atividade produtiva, o trabalho era exigido pela força aos do século XIX, o grande problema do submetidos. Foi provavelmente na agricultura que se tornou mais trabalho não seria mais a liberdade, nítida a separação entre homens livres e escravos. No mundo grego mas a justiça, já que a revolução industrial traria consigo a e romano, só ao trabalho de direção das atividades agrícolas se massificação proletária, a exploração econômica do trabalhador reconhecia dignidade e importância social, totalmente negadas ao assalariado, o desemprego e a miséria. comércio, artesanato e atividades manuais. Evolução da produção social. Os alicerces da produção O processo de liberalização do trabalho levou muitos social deslocaram-se da agricultura para a indústria quando o séculos e mesmo na atualidade é impossível afirmar que comércio se sobrepôs ao trabalho agrícola e ampliou suas desapareceram as situações de escravidão ou de exploração do atividades. A atividade manufatureira evoluiu a partir do século XIV, trabalho, até mesmo nos países de economia avançada. Na Europa, notadamente em Florença, Itália, e em Bruges, Flandres, cidades na transição do mundo antigo para a Idade Média, o escravo foi onde o comércio era mais ativo. Na revolução industrial que se substituído pelo servo, ao qual se reconhecia como membro livre da iniciou no século XVIII, as fábricas juntaram num só espaço sociedade, embora estivesse adscrito à terra e fosse obrigado a trabalhadores e os novos meios de produção, as máquinas. INTRODUÇÃO AO PENSAMENTO FILOSÓFICO JOSÉ AUGUSTO FIORIN (ORG.) 14
  • 15. O modo de produção social da época industrial divisão social do trabalho, que segmenta a atividade em três aumentou a especialização das tarefas e a divisão do trabalho. A grandes setores -- agricultura, indústria e comércio --, por sua vez atividade industrial, subdivididos em ramos. chamada secundária, tornou- se o alicerce da sociedade; Outra forma de divisão do trabalho se dá segundo a com o tempo e a crescente natureza das tarefas a realizar, que podem ser do tipo econômico, complexidade do processo ideológico ou político e se origina na divisão entre trabalho manual social, porém, foram e trabalho intelectual. Finalmente, pode-se falar da divisão surgindo novas atividades, internacional do trabalho. Trata-se de um processo de chamadas terciárias, especialização de economias nacionais em determinados produtos voltadas para a prestação de ou setores de produção, no quadro de uma economia cada vez mais serviços. Dentre elas internacionalizada. É o sinal mais visível da relação de dependência destacam-se o serviço entre os países mais pobres, os chamados quot;periféricosquot;, e os países público, o comércio e as ricos, de economia quot;centralquot;. Nesse sistema, grandes instituições financeiras. conglomerados multinacionais monopolizam determinados ramos da A sociedade industrializada foi definida como aquela em produção social, absorvem a maior parte do mercado mundial e que o setor terciário (serviços) é mais importante que o secundário liquidam as chances de evolução autônoma da industrialização dos (indústria) e na qual o setor primário (agricultura) perde espaço. países periféricos. Nesse caso, o setor terciário tem maior participação da força de trabalho porque, no setor secundário, as máquinas se Relações de trabalho. Aspecto primordial das relações aperfeiçoaram a tal ponto que passaram a exigir um mínimo sociais de produção, as relações de trabalho variam segundo os emprego de mão-de-obra. modos de produção. São modelos históricos de relações de Divisão do trabalho. Quanto mais complexo o modo de trabalho: (1) o escravagismo, que existiu desde que o aparecimento produção, maior a divisão técnica do trabalho, ou seja, a do excedente produtivo, continuou na antiguidade greco-romana e especialização dentro de um mesmo processo produtivo. Quanto foi restabelecido, entre os séculos XVI e XIX, nas colônias da mais complexa e diversificada se torna uma sociedade, maior a Inglaterra, França, Espanha e Portugal; (2) o servilismo, que existiu INTRODUÇÃO AO PENSAMENTO FILOSÓFICO JOSÉ AUGUSTO FIORIN (ORG.) 15
  • 16. no modo de produção feudal, como na Europa medieval; e (3) o também são trabalho acumulado. trabalho assalariado, introduzido com o modo de produção Para Marx, o trabalho não é a única fonte de riqueza, capitalista, que pressupõe trabalhadores livres, donos de sua força pois a natureza também é fonte de valores de uso. O capitalismo de trabalho mas não donos de meios de produção, capazes de acumula mais capital mediante a apropriação da mais-valia, vendê-la a quem lhes ofereça as melhores condições. diferença entre o trabalho efetivamente materializado no produto e Teorias sobre o trabalho. As teorias econômicas a força de trabalho paga. Marx afirmou que o trabalho é a essência clássicas procuraram situar o papel do trabalho na produção social e do homem, o meio pelo qual ele se relaciona com a natureza e a estudaram sua relação com a riqueza. As principais teorias sobre transforma. Pelo trabalho o homem se conscientiza de sua condição trabalho, produção e riqueza são de Adam Smith, David Ricardo e e promove as mudanças políticas capazes de libertá-lo da Karl Marx. exploração capitalista e conquistar a posse coletiva dos meios de Para Smith, o trabalho é a verdadeira e única fonte de produção. riqueza das nações, pois os produtos industriais ou agrícolas são Trabalho nas sociedades modernas. A evolução dos obtidos pelo esforço humano, que se torna sempre mais eficiente modos de produção deu lugar a novos conceitos sobre a função pela especialização. A divisão do trabalho, o mercado, as social do trabalho. As grandes lutas sociais do século XIX e o instituições financeiras etc. se estabelecem espontaneamente, com surgimento dos sindicatos permitiram ao trabalhador conquistar base no esforço natural feito pelo homem para melhorar sua uma capacidade relativa de regular sua própria oferta e melhorar condição. suas condições de trabalho e de vida. Com a legislação trabalhista, Ricardo afirmou que a base de todo valor econômico é hoje bastante avançada em todo o mundo, a força de trabalho tem o trabalho-valor. O valor de troca de um produto se calcula pela garantida uma série de direitos essenciais: jornada de trabalho fixa, quantidade de trabalho férias, repouso remunerado, aposentadoria, normas de segurança, empregado em sua equipamentos de proteção, medicina do trabalho, seguro social, produção. Para Ricardo, as salário-desemprego, regulamentação do trabalho feminino e de máquinas, que diminuem o menores etc. Dentre esses, merece destaque o reconhecimento, tempo de trabalho pela legislação dos países democráticos, do direito à greve e à necessário para a produção, negociação coletiva entre sindicatos e empresas. INTRODUÇÃO AO PENSAMENTO FILOSÓFICO JOSÉ AUGUSTO FIORIN (ORG.) 16
  • 17. O desemprego, porém, que acompanhou a evolução do muitas vezes insalubres. sistema capitalista, ainda é o permanente pesadelo do trabalhador. Pesquisas realizadas em diversos países europeus Na última década do século XX, as economias mais ricas do mundo nesse período mostraram um quadro dramático de exploração do apresentavam altos índices de desemprego, situação que se trabalho da mulher e do menor. Na França, por exemplo, a mulher agravava nas economias mais pobres. Continuava a existir o empregada de fábrica trabalhava 16 horas por dia, por um salário quot;exército industrial de reservaquot; de que falava Marx, a massa de ínfimo, em péssimas condições de higiene e segurança. A criança trabalhadores sem emprego que constitui ameaça constante aos começava a trabalhar na indústria com seis ou sete anos de idade, trabalhadores empregados e colabora para a manutenção dos às vezes menos, e exercia funções cansativas e perigosas, sem salários em níveis ainda incompatíveis com os lucros do capital. descanso e com remuneração extremamente baixa. Vivia muitas Trabalho da mulher e do menor. Com a evolução do vezes em instalações da própria fábrica, sujeito ao arbítrio do regime capitalista, na primeira metade do século XIX os homens patrão nas questões de jornada de trabalho, repouso noturno e adultos começaram a ser substituídos nas fábricas pela mulher e a alimentação.Documentos oficiais, como o relatório do médico Louis- criança, mão-de-obra mais dócil e mais barata, que se sujeitava a René Villermé sobre o trabalho da mulher e da criança nas salários menores e condições de trabalho perigosas, exaustivas e indústrias francesas, e a literatura, nas obras de autores como Charles Dickens, denunciaram essas condições. O tratamento abusivo da mulher e do menor no trabalho só começou a ser coibido no final do século XIX e, com mais intensidade, no século XX, depois da criação da Organização Internacional do Trabalho (OIT). Os países mais avançados elaboraram legislações específicas e normas especiais de proteção para o trabalho da mulher e do menor. Trabalho no Brasil. As condições de trabalho típicas da revolução industrial, iniciada na Grã-Bretanha no século XVIII e na maioria dos países europeus no século XIX, não se verificaram no Brasil no período da colônia e do império. A mão-de-obra escrava INTRODUÇÃO AO PENSAMENTO FILOSÓFICO JOSÉ AUGUSTO FIORIN (ORG.) 17
  • 18. foi utilizada no trabalho na economia essencialmente agrícola do peculiares da economia brasileira, que alia a evolução tecnológica Brasil colonial desse período; o comércio era prerrogativa dos de certos setores à economia de subsistência em outras. portugueses; e a indústria era ainda muito incipiente até o final do século XIX para ocupar uma força de trabalho significativa. A massa operária começou a se formar com o processo de industrialização iniciado principalmente em São Paulo por imigrantes europeus no final do século XIX, que deram prioridade ao emprego de operários também imigrantes. A mão-de-obra operária começou a ser nacionalizada a partir da revolução de 1930. Nesse mesmo ano, legislação específica limitou a entrada de estrangeiros no país e exigiu a proporcionalidade obrigatória de dois terços de brasileiros natos para um terço de estrangeiros em cada categoria de trabalhadores de certas empresas ou companhias que tivessem negócios com o governo. A partir de então, ampliou-se o leque de leis referentes ao trabalho, sua regulamentação passou a ser feita por instrumentos constitucionais, e criaram-se instituições para a proteção dos direitos do trabalhador, inclusive da mulher e do menor, como o Ministério do Trabalho e a Justiça do Trabalho. Como nos demais países, porém, na última década do século XX ainda existiam situações de trabalho escravo no Brasil, especialmente nas zonas rurais, com a exploração da mão-de-obra feminina, infantil e de homens adultos. O desemprego típico da sociedade tecnológica, que se verificou na Europa e nos Estados Unidos, repetiu-se no Brasil, agravado pelas condições muito INTRODUÇÃO AO PENSAMENTO FILOSÓFICO JOSÉ AUGUSTO FIORIN (ORG.) 18
  • 19. TECNOLOGIA fabricação, armazenamento, transporte etc. de bens, cujos resultados sejam melhores do que os obtidos anteriormente. O avanço da Pode-se definir tecnologia também como a aplicação tecnologia trouxe inúmeros das descobertas da ciência aos objetivos da vida prática. De fato, a benefícios para o homem, dos ciência teve quase sempre um importante papel no quais o principal foi tornar o desenvolvimento tecnológico, mas nem toda tecnologia depende da trabalho mais fácil e mais ciência, pois a relação entre ambas atravessou diferentes estágios. produtivo. Interpretadas No mundo clássico, tanto no Ocidente quanto no Oriente, a ciência como motores do progresso, pertencia à esfera aristocrática dos filósofos que especulavam sobre as inovações tecnológicas as raízes e a substância do conhecimento, enquanto a tecnologia foram implantadas sem dizia respeito à atividade dos artesãos. A partir da Idade Média, cuidado com seus possíveis alguns filósofos e cientistas defenderam a idéia da colaboração efeitos prejudiciais. Nos entre as duas disciplinas, com a formulação de uma tecnologia últimos anos do século XX, o científica e uma ciência empírica baseadas nos mesmos princípios lado negativo do progresso fundamentais. tecnológico tornou-se objeto de reflexão nas sociedades Essa tese frutificou sobretudo no século XIX, quando os industrializadas, que se voltaram para a busca de tecnologias grandes inventores se inspiraram em idéias de cientistas: Thomas alternativas menos agressivas ao meio ambiente. Edison desenvolveu os sistemas de iluminação elétrica a partir dos Tecnologia é o conjunto de princípios, métodos, trabalhos de Michael Faraday e Joseph Henry; Alexander Graham instrumentos e processos cientificamente determinados que se Bell inventou o telefone com base em Hermann von Helmholtz; e aplica especialmente à atividade industrial, com vistas à produção Marconi construiu seu primeiro sistema de telegrafia sem fio de bens mais eficientes e mais baratos. O conceito de tecnologia baseado nas pesquisas de Heinrich Rudolf Hertz e James Clerk engloba, portanto, todas as técnicas e seu estudo. Assim, entende- Maxwell. se por inovação tecnológica a aplicação de qualquer método ou Determinantes sociais na evolução tecnológica. A instrumento, descoberto por meio da pesquisa sistemática, à coleta, evolução da tecnologia revela, a cada momento de sua história, INTRODUÇÃO AO PENSAMENTO FILOSÓFICO JOSÉ AUGUSTO FIORIN (ORG.) 19
  • 20. uma profunda interação entre os incentivos e oportunidades que Na moderna sociedade de consumo, muitas necessidades são favorecem as inovações tecnológicas e as condições socioculturais geradas artificialmente pela publicidade e pelo desejo de do grupo humano no qual elas ocorrem. Pode-se dizer que há três ostentação. Seja qual for a fonte da necessidade social, contudo, é pontos principais que determinam a adoção e divulgação de uma essencial a existência de uma quantidade suficiente de pessoas que inovação: a necessidade social, os recursos sociais e um ambiente a manifestem, criando-se assim mercado para o produto desejado. social favorável. Os recursos sociais são igualmente indispensáveis para que uma inovação seja bem-sucedida. Muitas invenções fracassam pelo fato de não haver recursos sociais indispensáveis para sua realização -- capital, matérias-primas e mão-de-obra qualificada. Os cadernos de Leonardo da Vinci, gênio do Renascimento, estão repletos de idéias para a construção de helicópteros, submarinos e aviões, mas a maioria delas sequer chegou ao estágio do protótipo devido à falta de algum tipo de recurso social. A disponibilidade de capital, por exemplo, depende da existência de um excedente na produção, bem como de uma organização capaz de direcionar a riqueza disponível para canais acessíveis ao inventor. Em suma, uma sociedade deve estar suficientemente aparelhada para que possa desenvolver e aplicar uma inovação tecnológica. A necessidade social determina que as pessoas Um ambiente social favorável é aquele em que os desejem destinar recursos à aquisição de um objeto e não de outra grupos sociais dominantes estão preparados para se empenhar na coisa. O objeto da necessidade pode ser uma ferramenta de corte defesa da inovação tecnológica. Essa receptividade pode se limitar a mais eficiente, um dispositivo capaz de elevar pesos maiores, um determinados campos, como a perspectiva de aprimoramento das novo meio de utilizar combustíveis ou fontes de energia, ou ainda, armas ou das técnicas de navegação, mas também pode tomar a já que as necessidades militares sempre serviram de estímulo à forma de uma atitude questionadora mais generalizada. De inovação tecnológica, pode tomar a forma de armas mais potentes. qualquer modo, não há dúvida de que a existência de grupos sociais INTRODUÇÃO AO PENSAMENTO FILOSÓFICO JOSÉ AUGUSTO FIORIN (ORG.) 20
  • 21. importantes interessados em incentivar o trabalho de inventores e glaciação, de 15.000 a 20.000 anos antes da era cristã. Às vezes de aplicar suas idéias foi sempre um fator determinante da evolução chamada de revolução neolítica, essa fase marca a transição, tecnológica. ocorrida em algumas comunidades humanas mais favorecidas pela Em qualquer estudo histórico dessa evolução se torna geografia e pelo clima, do nomadismo selvagem característico do inquestionável a existência de um elemento progressivo na longo período do paleolítico para um modo de vida mais estável, tecnologia que, em geral, evolui de forma cumulativa, à medida que baseado na pecuária e na agricultura. cada nova geração herda da anterior um estoque de técnicas -- O homem do período neolítico conheceu uma série de sobre o qual trabalhará se sentir necessidade e se as condições transformações sociais e tecnológicas: aprendeu a domesticar sociais permitirem. Embora isso se tenha registrado no passado, e animais, descobriu que as sementes silvestres podiam ser plantadas ainda na atualidade, não é porém intrínseco à natureza da e que a irrigação era benéfica às áreas cultivadas. Desse período tecnologia que tal processo de acumulação deva ocorrer, e nem datam as culturas de trigo, milho, arroz e alguns tubérculos. A sempre assim se dá a evolução. O fato de muitas sociedades terem produção de excedentes de alimentos contribuiu para o permanecido estagnadas por longos períodos, mesmo quando se desenvolvimento da armazenagem de grãos e da preparação de encontravam em estágios relativamente avançados da evolução bebidas fermentadas, como a cerveja. Também começaram a surgir tecnológica, e de algumas terem chegado a regredir e a perder as técnicas da fiação, da tecelagem e da cerâmica. técnicas que receberam e acumularam, demonstra a natureza A idade do bronze, iniciada em 4000 a.C. ambígua da tecnologia e a importância fundamental de relacioná-la aproximadamente, foi prolífica em invenções e descobertas, o que a outros fatores sociais. possibilitou a reorganização econômica e social conhecida como Evolução histórica. O nascimento da tecnologia não revolução urbana. Entre suas contribuições tecnológicas de grande pode ser dissociado do próprio surgimento do homem no planeta. alcance destacam-se o uso do cobre e do bronze; a prática da Setenta mil anos antes da era cristã, o homem de Neandertal já fundição de metais; o emprego de veículos de roda; a invenção das apresentava um grau de especialização que lhe permitia utilizar embarcações a vela; e o florescimento da cerâmica e da fabricação materiais encontrados (pedra, osso, madeira, couro etc.) para de tijolos. A generalização da agricultura como meio de subsistência auxiliá-lo na sobrevivência. Depois de vários milênios de sociedades favoreceu a criação de cidades, nas quais se desenvolveram tribais dedicadas à caça, à pesca e à coleta de frutos, deu-se a métodos de artesanato industrial, principalmente em cerâmica e primeira grande revolução tecnológica da história, no final da última técnicas básicas de metalurgia. INTRODUÇÃO AO PENSAMENTO FILOSÓFICO JOSÉ AUGUSTO FIORIN (ORG.) 21
  • 22. Vales do Tigre-Eufrates e do Nilo. As primeiras grandes zigurates. Outros sacerdotes-técnicos orientavam oficinas de unidades de sociedade organizada no Velho Mundo surgiram nos artesãos especializados, como padeiros, ferreiros, cervejeiros, vales do Tigre-Eufrates e do Nilo, áreas onde não apenas se gerou fiandeiros, tecelões etc. Tanto instrumentos de trabalho quanto um notável potencial técnico como ocorreu sua síntese na revolução carruagens, barcos, arados e outros meios de produção constituíam urbana. Surgiu assim uma nova forma de sociedade a que se pode propriedades do templo. A organização coletivista favoreceu a chamar civilização. exploração racional da terra, a conservação de canais e sistemas de Na Mesopotâmia, o rio formado pela confluência do irrigação, e a produção de um excedente agrícola que foi destinado Tigre-Eufrates corre para o golfo Pérsico e transporta ricos ao comércio. sedimentos que formam extensos depósitos aluviais. A área era Essa complexa sociedade inventou uma escrita e criou sujeita a inundações periódicas, mas com o controle das águas e a um sistema de pesos e medidas. Enquanto os agricultores drenagem permitia a produção de substancial quantidade de precisavam de um calendário para aperfeiçoar o controle das alimentos. As medidas destinadas ao controle das águas marcaram colheitas, engenheiros necessitavam de métodos e instrumentos o início da engenharia civil. Região pobre em pedras e madeira, a para projetar canais e sistemas de irrigação, templos e muralhas Mesopotâmia tinha contudo amplas reservas de argila e cobre, defensivas, bem como de uma matemática capaz de calcular áreas, materiais usados na construção de veículos de rodas e pequenos volumes e ângulos. As três principais realizações tecnológicas dessa barcos que marcam a fundação da engenharia naval e da cultura foram os zigurates, as muralhas defensivas (que indicam a engenharia mecânica. A arquitetura originou-se da necessidade de instabilidade política existente na região) e os extensos sistemas de construir grandes edifícios, como celeiros, oficinas, templos e irrigação e de controle das inundações, que constituíam o muralhas defensivas. sustentáculo de uma economia agrícola. Ao explorar os recursos de seu vale, o povo da Os antigos egípcios habitavam uma área diferente sob Mesopotâmia construiu uma sociedade na qual os sacerdotes vários aspectos da região do Tigre-Eufrates, e por isso a tecnologia desempenhavam importante papel, tanto no desenvolvimento da que criaram não apresenta muitos pontos de contato com a da economia quanto no da tecnologia. A organização da agricultura Mesopotâmia. O vale do Nilo era mais estreito, e as águas do rio, era, em grande parte, responsabilidade de engenheiros-sacerdotes, que fluíam mansa e regularmente, não criavam grandes problemas os quais também supervisionavam a edificação dos templos e das de engenharia. As populações ribeirinhas limitavam-se a construir imensas estruturas piramidais que dominavam as cidades, os diques e bacias de irrigação para que as terras recebessem suas INTRODUÇÃO AO PENSAMENTO FILOSÓFICO JOSÉ AUGUSTO FIORIN (ORG.) 22
  • 23. águas fertilizadoras. Por volta de 2000 a.C., os egípcios adicionaram tecnológicas no domínio da engenharia grega foram templos, um sistema de canais, represas e reservatórios que permitiu a aquedutos e pequenas embarcações. Os gregos tinham uma irrigação de áreas não abrangidas pela bacia e tornaram possível a tecnologia metalúrgica não muito avançada, praticavam a irrigação durante todo o ano. tecelagem e foram responsáveis por alguns inventos, como a As grandes realizações da tecnologia egípcia, como os prensa. Contribuíram para o desenvolvimento da engenharia naval processos de embalsamamento e a construção de pirâmides e militar, da matemática e da mecânica. tumbas, estão mais diretamente relacionadas às crenças religiosas, Com a morte de Alexandre o Grande (no ano 323 a.C.) que aceitavam a ressurreição dos mortos, donde a necessidade de e o conseqüente colapso de seu império, diversos centros preservar os corpos, abrigando-os no interior de construções sólidas herdaram, pelo menos em parte, os conhecimentos da Grécia e monumentais. A economia egípcia se baseava na agricultura, mas clássica. O mais importante desses centros, do ponto de vista a fertilidade do delta do Nilo desestimulou o desenvolvimento de tecnológico, foi Alexandria, cuja sociedade helenística floresceu uma tecnologia agrária de alto nível. Tão importantes quanto a entre os anos 300 a.C. e 300 da era cristã. Nesse período surgiram química e a arquitetura, ligadas às crenças religiosas, foram as os primeiros grandes nomes da história da engenharia, como técnicas relacionadas às artes e o artesanato, particularmente no Arquimedes, Heron e Ctesibius de Alexandria, além de Fílon e que diz respeito à produção de tecidos, móveis, objetos de metal e Vitrúvio, que empregaram dispositivos mecânicos como o parafuso, de cerâmica. a alavanca e a polia. Os engenheiros de Alexandria usaram também Grécia e Roma. Na antiguidade, a transmissão do equipamentos mecânicos para elevar água, inventaram a bomba conhecimento era feita de um artesão para outro através das rotas d'água e outros dispositivos complexos que já podem ser comerciais. Foi assim que as grandes inovações das duas principais considerados como máquinas. civilizações, Egito e Mesopotâmia, chegaram ao leste europeu e se A organização política, econômica e social de Roma cristalizaram na florescente cultura grega. conduziu a um tipo particular de tecnologia, a ela adequado. Na Grécia, embora se dispusesse de instrumentos de Essencialmente utilitário, o povo romano não se preocupou em ferro e de vastos recursos naturais, o trabalho manual era erigir grandes templos, túmulos monumentais ou muralhas socialmente desprezado. Ao contrário dos egípcios, os gregos não defensivas; ao contrário, usou seus recursos tecnológicos para tinham idéias claras sobre a vida depois da morte e, portanto, não construir palácios, banhos públicos, anfiteatros, celeiros, pontes, atribuíam muita importância aos túmulos. As principais realizações estradas, aquedutos e canais de dragagem. A engenharia foi a INTRODUÇÃO AO PENSAMENTO FILOSÓFICO JOSÉ AUGUSTO FIORIN (ORG.) 23
  • 24. ciência que mais se desenvolveu no Império Romano, que, com (com os moinhos de vento) e a hidráulica (com as rodas d'água), grande extensão territorial e numeroso contingente demográfico, mecanismos que familiarizaram o homem com técnicas que iriam tinha necessidade de complexa rede de estradas, aquedutos e contribuir para a transformação da Europa nos séculos XVIII e XIX. edifícios públicos. O aproveitamento dessas fontes energéticas deu início ao processo No plano das edificações, os romanos introduziram o de libertação do homem do trabalho físico. Outra notável inovação uso do arco, da abóbada e da cúpula. Outros empreendimentos tecnológica da Idade Média foi a invenção e o aperfeiçoamento do foram os faróis, os portos, o abastecimento domiciliar de água e os relógio mecânico. sistemas de aquecimento para banhos. Renascimento. Os conhecimentos acumulados desde Idade Média. Entre os séculos V e XIV, a Europa as origens de Roma, passando pela Idade Média, se aprimoraram ocidental viveu um notável florescimento tecnológico. Por volta do notavelmente a partir do século XV. De particular importância no século X, os bárbaros, que haviam destruído o Império Romano, Renascimento europeu foram as realizações dos engenheiros e erigiram uma civilização a partir de esforços próprios, de arquitetos italianos, dos metalurgistas e impressores alemães e dos conhecimentos herdados do passado e da assimilação das técnicas engenheiros holandeses. Obras notáveis no campo da engenharia romanas. A tecnologia do Oriente Médio e do Extremo Oriente hidráulica são os canais construídos por Bertola de Novate, em chegou ao Ocidente por meio do mundo bizantino e da Espanha Milão, e as eclusas, inventadas provavelmente por Leonardo da muçulmana. O comércio com os árabes resultou em contatos com a Vinci. Coube igualmente aos italianos o privilégio de aperfeiçoarem Índia e a China, onde a tecnologia era mais avançada que no técnicas para a produção em grande escala, algumas das quais Ocidente. Desse modo, os europeus tomaram conhecimento de foram descritas por Vanoccio Biringuccio em De la pirotechnia importantes invenções, tais como a fiação da seda, a fundição do (1540), importante obra sobre metalurgia. ferro, a pólvora, o papel, diversas modalidades de impressão e as Nos estaleiros de Veneza, a construção naval alcançou chamadas armações latinas para navios. A isso se somam as alto grau de elaboração e eficiência. Leonardo da Vinci foi um dos contribuições autóctones, entre as quais se incluem o sabão, barris grandes inovadores da tecnologia da Itália renascentista e se e tubos, o arado, a ferradura para animais, o cultivo da aveia e do interessou particularmente por engenharia militar, embora suas centeio, além da rotação de culturas. anotações sobre maquinaria fossem as mais completas. Desenhou O grande feito tecnológico da Idade Média foi o vários tipos de moinhos, bombas e aparelhos hidráulicos, máquina aproveitamento das fontes de energia, particularmente a eólica têxtil, peças de artilharia, objetos de metal, máquina de polir e até INTRODUÇÃO AO PENSAMENTO FILOSÓFICO JOSÉ AUGUSTO FIORIN (ORG.) 24
  • 25. um aparelho para voar. Da Vinci já demonstrava preocupar-se com de calor e à iluminação. Os estudos sobre motores conduziram ao problemas que somente séculos depois seriam solucionados, como a descobrimento da máquina de combustão interna, que inaugurou a redução do atrito e a construção de máquinas automáticas. era dos combustíveis derivados do petróleo. Surgiu então o Importantes nos séculos XV e XVI foram os progressos protótipo do automóvel. As técnicas de aproveitamento da energia, em metalurgia, especialmente do cobre e da prata, registrados na que favoreceram a exploração de novos recursos, tiveram grande Hungria e na Alemanha, bem como no domínio da análise dos repercussão não só para a indústria, mas também para a sociedade metais, técnica complexa que envolvia o emprego de fornos do século XIX. Na metalurgia, com a invenção dos fornos de especiais, pesos, balanças e fundentes. De maior importância ainda, fundição Bessemer e Siemens-Martin, realizaram-se importantes por seu ilimitado alcance cultural, foi a invenção da impressão com conquistas na indústria do ferro e do aço. As inovações na química, tipos móveis, desenvolvida independentemente por Johannes com a identificação dos compostos orgânicos, influíram no Gutenberg, Procopius Waldvoghel (de Praga) e construtores desenvolvimento da indústria têxtil e da agricultura, paralelamente holandeses. Cabem também a engenheiros holandeses as mais a uma revolução na medicina, originada pelo reconhecimento da notáveis realizações da engenharia civil no período pós- origem bacteriológica de numerosas doenças, e à fabricação de renascentista: foram eles que elevaram a um nível sem precedentes vacinas. as técnicas de construção de diques, de canais de drenagem e de A engenharia civil, com a construção de enormes moinhos de vento. estruturas de ferro para pontes e edifícios; os transportes, com Revolução industrial. Embora a história da civilização novos projetos de trens e navios a vapor; e as comunicações, se confunda com a história das conquistas materiais, a tecnologia favorecidas pelo surgimento do telefone, do telégrafo e do rádio, em seu sentido atual só passou a apresentar progressos mais representam uma síntese da acelerada evolução tecnológica do constantes e significativos a partir da revolução industrial. Depois século XIX. da criação da máquina a vapor por James Watt, em 1769, as Século XX. A explosão das primeiras bombas atômicas, técnicas que dependiam da energia evoluíram rapidamente e em 1945, foi o marco divisor das duas metades do século XX. Na trouxeram benefícios imediatos para a indústria têxtil e o setor de primeira, não houve alteração nas fontes de energia usadas no transportes, com o surgimento das ferrovias. século anterior, mas desenvolveu-se a aplicação da eletricidade à Em seguida, teve especial importância a invenção de indústria. As principais inovações tecnológicas desse período foram geradores e de motores elétricos, aplicados de imediato à geração a descoberta de substâncias antiinfecciosas, como a penicilina e INTRODUÇÃO AO PENSAMENTO FILOSÓFICO JOSÉ AUGUSTO FIORIN (ORG.) 25
  • 26. demais antibióticos, a obtenção de novos materiais de construção, ampliavam-se, com a fabricação de novas cerâmicas, as como o concreto armado, e têxteis, como as fibras sintéticas, além perspectivas de aplicação prática de materiais supercondutores. da criação de uma grande variedade de materiais plásticos. Tendências. A explosão tecnológica ocorrida no Ampliaram-se os conhecimentos nos ramos de agricultura, Ocidente desde o início da revolução industrial (no fim do século alimentação e técnicas de conservação de alimentos. Ao fim da XVIII) deu origem a duas tendências opostas na atitude social. As primeira metade do século, o avião e o automóvel já se tinham melhorias registradas no rendimento do trabalho, o aproveitamento imposto como meios de transporte, e no setor bélico estavam em da energia, a vitória sobre as doenças e o emprego de máquinas uso os mísseis de longo alcance. para realizar as tarefas mais mecânicas do processo produtivo Os estudos sobre a energia atômica de fissão implicam uma melhoria das condições de vida. Ao mesmo tempo, a procedente do urânio e do plutônio, iniciados durante a segunda atividade industrial multiplicada causa focos de poluição da guerra mundial, desencadearam, a partir da década de 1950, uma superfície terrestre, do mar e da atmosfera; o consumo acelerada corrida armamentista entre os Estados Unidos e a União indiscriminado dos recursos naturais prejudica o equilíbrio ecológico Soviética, com repercussões globais sobre o desenvolvimento do planeta; e o enorme poder destrutivo latente nas armas tecnológico. As décadas seguintes se caracterizaram pela busca de nucleares e químicas suscitam dúvidas sobre os benefícios trazidos combustíveis alternativos ao petróleo, com vistas a reduzir a pela tecnologia. poluição ambiental causada por sua queima e precaver-se contra o A transferência direta de tecnologia de países fim das reservas; pela fabricação de materiais novos, como a fibra industrializados para o Terceiro Mundo também passou a ser de vidro; pelo progresso das técnicas de refrigeração e outros severamente questionada, a partir da década de 1970, quando sistemas de conservação de substâncias; e ainda pelo uso intensivo tomou corpo a idéia segundo a qual as técnicas produtivas devem dos produtos da recém-surgida indústria de computadores, que ser adequadas ao modelo do país receptor, respeitados desencadeou a era da informática. principalmente seus recursos e matérias-primas, de modo a impedir Também representaram conquistas de extrema o aumento da dependência. Essa idéia já conduziu à criação de importância o descobrimento de poderosos produtos farmacêuticos soluções alternativas, como o uso de motores de combustão a e das técnicas de transplante de órgãos humanos, a engenharia álcool e a reciclagem de materiais industrializados. genética e os projetos de exploração espacial. Ao final do século INTRODUÇÃO AO PENSAMENTO FILOSÓFICO JOSÉ AUGUSTO FIORIN (ORG.) 26
  • 27. CONHECIMENTO A definição clássica de conhecimento, originada em Platão, diz que ele consiste de crença verdadeira e justificada. O tema quot;conhecimentoquot; inclui, mas não está limitado, O conhecimento não pode ser inserido num computador às descrições, hipóteses, conceitos, teorias, princípios e por meio de uma representação, pois neste caso seria reduzido a procedimentos que são ou úteis ou verdadeiros. O estudo do uma informação. Assim, neste sentido, é absolutamente equivocado conhecimento é a epistemologia. falar-se de uma quot;base de conhecimentoquot; num computador. No máximo, podemos ter uma quot;base de informaçãoquot;, mas se é possível O conhecimento distingue-se da mera informação processá-la no computador e transformar o seu conteúdo, e não porque está associado a uma intencionalidade. Tanto o apenas a forma, o que nós temos de facto é uma tradicional base conhecimento como a informação consistem de declarações de dados. verdadeiras, mas o conhecimento pode ser considerado informação com um propósito ou uma utilidade. Associamos informação à semântica. Conhecimento está associado com pragmática, isto é, relaciona-se com alguma coisa existente no quot;mundo realquot; do qual temos uma experiência directa. O conhecimento pode ainda ser aprendido como um processo ou como um produto. Quando nos referimos a uma acumulação de teorias, idéias e conceitos o conhecimento surge como um produto resultante dessas aprendizagens, mas como todo produto é indissociável de um processo, podemos então olhar o conhecimento como uma atividade intelectual através da qual é feita a apreensão de algo exterior à pessoa. INTRODUÇÃO AO PENSAMENTO FILOSÓFICO JOSÉ AUGUSTO FIORIN (ORG.) 27
  • 28. A definição clássica de conhecimento, originada em Platão, diz que ele consiste de crença verdadeira e justificada. Aristóteles divide o conhecimento em três áreas: CIENTÍFICA, PRÁTICA e TÉCNICA. O conhecimento é o ato ou a atividade de conhecer, realizado por meio da razão e/ou da experiência.  quot;Houve tempos assim, pessoas em pequeno número, mas em grande influência; por sabedoras de quais conseqüências seus atos gerariam mesclados aos outros, saberiam ainda mais por conseguirem investir em seus próprios atos o melhor de si, o desempenho, a inteligência, a calma e a sabedoria de observar, criar, executar e transferir à geração à frentequot;. INTRODUÇÃO AO PENSAMENTO FILOSÓFICO JOSÉ AUGUSTO FIORIN (ORG.) 28
  • 29. zombarás dos cegos nem dos anõesquot;, e do Antigo Testamento, em que dois dos dez mandamentos proíbem que se deseje a ÉTICA propriedade ou a mulher do próximo. A finalidade dos códigos morais é reger a conduta dos Todas as culturas elaboraram mitos para justificar as membros de uma comunidade, de acordo com princípios de condutas morais. Na cultura do Ocidente, são familiares a figura de conveniência geral, para garantir Moisés ao receber, no monte Sinai, a tábua dos dez mandamentos a integridade do grupo e o bem- divinos e o mito narrado por Platão no diálogo Protágoras, segundo estar dos indivíduos que o o qual Zeus, para compensar as deficiências biológicas dos constituem. Assim, o conceito de humanos, conferiu-lhes senso ético e capacidade de compreender e pessoa moral se aplica apenas aplicar o direito e a justiça. O sacerdote, ao atribuir à moral origem ao sujeito enquanto parte de divina, torna-se seu intérprete e guardião. O vínculo entre uma coletividade. moralidade e religião consolidou-se de tal forma que muitos acreditam que não pode haver moral sem religião. Segundo esse Ética é a disciplina ponto de vista, a ética se confunde com a teologia moral. crítico-normativa que estuda as normas do comportamento humano, mediante as quais o homem tende a realizar na prática História. Coube a um sofista da antiguidade grega, atos identificados com o bem. Protágoras, romper o vínculo entre moralidade e religião. A ele se atribui a frase quot;O homem é a medida de todas as coisas, das reais Interiorização do dever. A observação da conduta moral enquanto são e das não reais enquanto não são.quot; Para Protágoras, da humanidade ao longo do tempo revela um processo de os fundamentos de um sistema ético dispensam os deuses e progressiva interiorização: existe uma clara evolução, que vai da qualquer força metafísica, estranha ao mundo percebido pelos aprovação ou reprovação de ações externas e suas conseqüências à sentidos. Teria sido outro sofista, Trasímaco de Calcedônia, o aprovação ou reprovação das intenções que servem de base para primeiro a entender o egoísmo como base do comportamento ético. essas ações. O que Hans Reiner designou como quot;ética da intençãoquot; já se encontra em alguns preceitos do antigo Egito (cerca de três Sócrates, que alguns consideram fundador da ética, mil anos antes da era cristã), como, por exemplo, na máxima quot;não defendeu uma moralidade autônoma, independente da religião e INTRODUÇÃO AO PENSAMENTO FILOSÓFICO JOSÉ AUGUSTO FIORIN (ORG.) 29
  • 30. exclusivamente fundada na razão, ou no logos. Atribuiu ao estado fechada e moral aberta: a primeira conservadora, baseada no um papel fundamental na manutenção dos valores morais, a ponto hábito e na repetição, enquanto que a outra se funda na emoção, de subordinar a ele até mesmo a autoridade do pai e da mãe. no instinto e no entusiasmo próprios dos profetas, santos e Platão, apoiado na teoria das idéias transcendentes e imutáveis, inovadores. deu continuidade à ética socrática: a verdadeira virtude provém do Até o século XVIII, com Kant, todos os filósofos, salvo, verdadeiro saber, mas o verdadeiro saber é só o saber das idéias. até certo ponto, Platão, aceitavam que o objetivo da ética era ditar Para Aristóteles, a causa final de todas as ações era a felicidade leis de conduta. Kant viu o problema sob novo ângulo e afirmou que (eudaimonía). Em sua ética, os fundamentos da moralidade não se a realidade do conhecimento prático (comportamento moral) está deduzem de um princípio metafísico, mas daquilo que é mais na idéia, na regra para a experiência, no quot;dever serquot;. A vontade peculiar ao homem: razão (logos) e atuação (enérgeia), os dois moral é vontade de fins enquanto fins, fins absolutos. O ideal ético pontos de apoio da ética aristotélica. Portanto, só será feliz o é um imperativo categórico, ou seja, ordenação para um fim homem cujas ações sejam sempre pautadas pela virtude, que pode absoluto sem condição alguma. A moralidade reside na máxima da ser adquirida pela educação. ação e seu fundamento é a autonomia da vontade. Hegel distinguiu A diversidade dos sistemas éticos propostos ao longo moralidade subjetiva de moralidade objetiva ou eticidade. A dos séculos se compara à diversidade dos ideais. Assim, a ética de primeira, como consciência do dever, se revela no plano da Epicuro inaugurou o hedonismo, pelo qual a felicidade encontra-se intenção. A segunda aparece nas normas, leis e costumes da no prazer moderado, no equilíbrio racional entre as paixões e sua sociedade e culmina no estado. satisfação. A ética dos estóicos viu na virtude o único bem da vida e Objeto e ramos da ética. Três questões sempre pregou a necessidade de viver de acordo com ela, o que significa reaparecem nos diversos momentos da evolução da ética ocidental: viver conforme a natureza, que se identifica com razão. As éticas (1) os juízos éticos seriam verdades ou apenas traduziriam os cristãs situam os bens e os fins em Deus e identificam moral com desejos de quem os formula; (2) praticar a virtude implica benefício religião. Jeremy Bentham, seguido por John Stuart Mill, pregou o pessoal para o virtuoso ou, pelo menos, tem um sentido racional; e princípio do eudemonismo clássico para a coletividade inteira. (3) qual é a natureza da virtude, do bem e do mal. Diversas Nietzsche criou uma ética dos valores que inverteu o pensamento correntes do pensamento contemporâneo (intuicionismo, ético tradicional e Bergson estabeleceu a distinção entre moral positivismo lógico, existencialismo, teorias psicológicas sobre a INTRODUÇÃO AO PENSAMENTO FILOSÓFICO JOSÉ AUGUSTO FIORIN (ORG.) 30
  • 31. ligação entre moralidade e interesse pessoal, realismo moral e outra questão intimamente relacionada com as anteriores: a do outras) detiveram-se nessas questões. Como resultado disso, quot;significadoquot; dos termos, predicados e enunciados éticos. Pode-se delimitaram-se os dois ramos principais da ética: a teoria ética dizer, portanto, que a metaética está para a ética normativa como a normativa e a ética crítica ou metaética. filosofia da ciência está para a ciência. Quanto ao método, a teoria metaética se encontra bem próxima das ciências empíricas. Tal não A ética normativa pode ser concebida como pesquisa se dá, porém, com a ética normativa. destinada a estabelecer e defender como válido ou verdadeiro um conjunto completo e simplificado de princípios éticos gerais e Desde a época em que Galileu afirmou que a Terra não também outros princípios menos gerais, importantes para conferir é o centro do universo, desafiando os postulados ético-religiosos da uma base ética às instituições humanas mais relevantes. cristandade medieval, são comuns os conflitos éticos gerados pelo progresso da ciência, especialmente nas sociedades industrializadas A metaética trata dos tipos de raciocínio ou de provas do século XX. A sociologia, a medicina, a engenharia genética e que servem de justificação válida dos princípios éticos e também de outras ciências se deparam a cada passo com problemas éticos. Em outro campo da atividade humana, a prática política antiética tem sido responsável por comoções e crises sem precedentes em países de todas as latitudes. Estudo da ética A ética pode ser interpretada como um termo genérico que designa aquilo que é freqüentemente descrito como a quot;ciência da moralidadequot;, seu significado derivado do grego, quer dizer 'Morada da Alma', isto é, suscetível de qualificação do ponto de vista do bem e do mal, seja relativamente a determinada sociedade, seja de modo absoluto. INTRODUÇÃO AO PENSAMENTO FILOSÓFICO JOSÉ AUGUSTO FIORIN (ORG.) 31
  • 32. Em Filosofia, o comportamento ético é aquele que é considerado bom, e, sobre a bondade, os antigos diziam que: o que é bom para a leoa, não pode ser bom à gazela. E, o que é bom à gazela, fatalmente não será bom à leoa. Este é um dilema ético típico. Portanto, a ética juntamente a outras áreas tradicionais de investigação filosófica, e devidas subjetividades típicas em si, ao lado da metafísica e da lógica, não pode ser descrita de forma simplista. Desta forma, o objetivo de uma teoria da ética é determinar o que é bom, tanto para o indivíduo como para a sociedade como um todo. Os filósofos antigos adotaram diversas posições na definição do que é bom, sobre como lidar com as prioridades em conflito dos indivíduos versus o todo, sobre a universalidade dos princípios éticos versus a quot;ética de situaçãoquot;. Nesta o que está certo depende das circunstâncias e não de uma qualquer lei geral. E sobre se a bondade é determinada pelos resultados da ação ou pelos meios pelos quais os resultados são alcançados. O homem vive em sociedade, convive com outros homens e, portanto, cabe-lhe pensar e responder à seguinte pergunta: “Como devo agir perante os outros?”. Trata-se de uma pergunta fácil de ser formulada, mas difícil de ser respondida. Ora, esta é a questão central da Moral e da Ética. Enfim, a ética é julgamento do caráter moral de uma determinada pessoa. INTRODUÇÃO AO PENSAMENTO FILOSÓFICO JOSÉ AUGUSTO FIORIN (ORG.) 32

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