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Parana Poetico n.4 - Helena Kolody e outros poetas
 

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    Parana Poetico n.4 - Helena Kolody e outros poetas Parana Poetico n.4 - Helena Kolody e outros poetas Document Transcript

    • Paraná Poético Revista Virtual de Poesia do Paraná Ano I – n. 4 – março 2013 Pesquisa, seleção e formatação. Editoria: José Feldman Maringá / PR
    • Neste Número Helena Kolody Biografia ................................................................................. 6 Os Três Primeiros Haicais ....................................................... 11 Fanny Dupré, amiga e orientadora .......................................... 13 Influencia de Guilherme de Almeida? ...................................... 15 Helena e Leminski .................................................................. 16 A Palavra é uma Vivência Pessoal ........................................... 18 Reika, seu nome de haicaista .................................................. 21 Helena e a Tanka .................................................................... 21 Helena e o Senryu................................................................... 22 Prêmios e Homenagens ........................................................... 23 Obras ..................................................................................... 24 A Poesia de Helena Kolody: busca do essencial ................... 25 VERSOS DIVERSOS ABISMAL ................................................................................ 37 ACASO ................................................................................... 37 ADVERTÊNCIA ....................................................................... 37 ALEGRIA ................................................................................ 37 ALEGRIA DE VIVER................................................................ 37 ALQUIMIA .............................................................................. 38 ÂMAGO .................................................................................. 38 A MIRAGEM NO CAMINHO ..................................................... 38 ANOITECER ........................................................................... 38 ANTES .................................................................................... 38 APLAUSO ............................................................................... 39 A POESIA IMPOSSÍVEL .......................................................... 39 AQUARELA ............................................................................. 39 ARAUCÁRIA ............................................................................ 40 ARCO-ÍRIS.............................................................................. 40 AREIA ..................................................................................... 40 ATAVISMO.............................................................................. 40 AVESSO ................................................................................. 41 BOLA DE CRISTAL ................................................................. 41 CANÇÃO DE NINAR ................................................................ 41 CÂNTICO ................................................................................ 42 CÂNTICO DOS CÂNTICOS ...................................................... 42 CARROÇA DE TOLDA ............................................................. 43 CHAMA .................................................................................. 44 CIRCUITO............................................................................... 44 DEPOIS .................................................................................. 44 DISTANTE .............................................................................. 44 DOM....................................................................................... 44 ELOGIO DO POETA ................................................................ 45 EPIGRAMA ............................................................................. 45 ESPELHISMO ......................................................................... 45 EXILADOS .............................................................................. 45
    • FELICIDADE .......................................................................... FIM DE JORNADA .................................................................. FIO D´ÁGUA ........................................................................... FLAMA ................................................................................... FLECHA DE SOL .................................................................... FUGITIVO INSTANTE .............................................................. GRAFITE ................................................................................ IDADE .................................................................................... IDENTIFICAÇÃO ..................................................................... ILHAS ..................................................................................... ILUMINURA ............................................................................ INFÂNCIA ............................................................................... INFÂNCIA (II) .......................................................................... INTERCORRÊNCIA ................................................................. INVERNO................................................................................ IPÊS FLORIDOS ..................................................................... JORNADA ............................................................................... JOVEM ................................................................................... LIÇÃO..................................................................................... LIMIAR ................................................................................... LOUCURA LÚCIDA ................................................................. LUZ DO AMOR ETERNO ......................................................... MANHÃ .................................................................................. MAQUINOMEM ....................................................................... MENTIRA ................................................................................ MERGULHO ........................................................................... MOTIVO CIBERNÉTICO .......................................................... NOITE .................................................................................... OSCILAÇÃO............................................................................ PÂNICO .................................................................................. PELOS BAIRROS ESQUECIDOS ............................................. PIRILAMPEJO ......................................................................... POESIA MÍNIMA ..................................................................... POETA .................................................................................... PRECE ................................................................................... PRISÃO .................................................................................. QUAL? .................................................................................... REPUXO ILUMINADO ............................................................. REPUXO ILUMINADO (II) ........................................................ RESSONÂNCIA ....................................................................... RETRATO ANTIGO .................................................................. SABEDORIA ........................................................................... SALDO ................................................................................... SAUDADE .............................................................................. SAUDADES ............................................................................ SEM AVISO ............................................................................ SEMPRE MADRUGADA .......................................................... SONHAR ................................................................................. TEMPO ................................................................................... 45 46 46 46 46 46 47 47 47 48 48 48 49 50 50 50 50 50 51 51 52 52 53 53 54 54 54 54 54 55 55 55 55 55 56 56 56 56 56 56 56 57 57 57 57 57 58 58 58
    • TERNURA-MENINA ................................................................. TRANSEUNTES ...................................................................... ÚLTIMO .................................................................................. VIGILÂNCIA ............................................................................ VIGÍLIA................................................................................... VITÓRIA ÍNTIMA ..................................................................... VOO CEGO ............................................................................. VOZ DA NOITE ....................................................................... HAIKAIS ................................................................................. 58 58 59 59 59 60 60 60 60 HELENA COM A PALAVRA O que é poesia? ..................................................................... Eu e os outros ....................................................................... Vício e leitura ........................................................................ Imaginação ............................................................................ Frutos do tempo .................................................................... Para todos ............................................................................. Conhecimento ....................................................................... Utilidade da arte .................................................................... Poesia na prosa ..................................................................... Arte solitária .......................................................................... Inesperado ............................................................................. 62 63 63 63 64 64 64 64 65 65 65 NA INTIMIDADE DA POETA .................................................. 66 POETAS PARANAENSES Adélia Maria Woellner (Curitiba) Comemoração ........................................................................ Agenir Leonardo Victor (Maringá) Vai Ao Encontro ..................................................................... Alba Krishna Topan Feldman (Maringá) Imensidão .............................................................................. Andréa Motta (Curitiba) Despertar ............................................................................... André Carneiro (Curitiba) Palavra Por Palavra ................................................................ Ceres De Ferrante (Curitiba) Credo ao Homem .................................................................... Clara Andrade Miranda de Araújo (Campo Mourão) Estrangeirismo ....................................................................... Dario Vellozo (Curitiba) Flor de Cacto .......................................................................... Florisbela Margonar Durante (Maringá) Luzes ..................................................................................... Helena B. Bório Trindade (Curitiba) Resignação ............................................................................. Hélio Azevedo de Castro (Curitiba) Hipocondria (Verborrágica) ..................................................... 69 69 70 71 71 72 73 74 75 75 76
    • Horácio Ferreira Portella (Piraquara) Risonho Nascimento ............................................................... Isabel Furini (Curitiba) Perspectiva ............................................................................. Ivo De Angelis (Curitiba) Três Quadras ......................................................................... Janske Neimann Schelenker (Curitiba) Tristeza .................................................................................. Jeanette Monteiro De Cnop (Maringá) Segredo .................................................................................. José Feldman (Maringá) Realidade ............................................................................... Lázaro Marinho Dominciano (Maringá) A Paz de Viver ........................................................................ Letícia Volpi (Curitiba) Divagações Atemporais ........................................................... Lúcia Constantino (Curitiba) Decisão .................................................................................. Lucília Alzira Trindade Decarli (Bandeirantes) Celeiros da Modernidade ........................................................ Marcelo Sandmann (Curitiba) Cadeira na Varanda ............................................................... Márcio Américo (Londrina) O Minotauro........................................................................... Marcos Losnak (Londrina) Contando os Dedos ................................................................ Nelly de Mattos Mehl (Curitiba) Piedade .................................................................................. Ponti Pontedura (Londrina) A Palavra Sabe (ou) Clareiras na Escrita ................................. Roberto Prado (Curitiba) Buraco Negro ......................................................................... Roza de Oliveira (Curitiba) Proposta Poética ..................................................................... Rubens Luiz Sartori (Campo Mourão) Velha Ponte ............................................................................ Tasso da Silveira (Curitiba) Torre ...................................................................................... Tereza Baldo (Maringá) A Rosa e o Cravo .................................................................... Vidal Idony Stockler (Castro) Imaginável ............................................................................. 77 77 78 78 79 80 80 81 81 82 82 83 84 84 85 87 87 88 88 89 90 Nota / Editoração ............................................................................... 91
    • Retrato Antigo Quem é essa que me olha de tão longe, com olhos que foram meus? Helena Kolody, descendente de ucranianos, nasceu a 12 de outubro de 1912 na pequena cidade de Cruz Machado, Paraná. Primeira brasileira de família de imigrantes ucranianos. Pais: Miguel e Vitória Kolody. Passou sua infância em pacatas cidades, convivendo com campos e mata. Por isso a natureza é muito presente em sua obra. As imagens de flores, chuva e vento são constantes em sua poesia, além do tema nostalgia. Passou os seus primeiros anos em Três Barras. Em Rio Negro cursou o Grupo escolar Barão de Antonina e cresceu admirando as águas mansas, outra constante em sua obra. Em 1927, mudou-se para Curitiba, freqüentou a Escola Normal Secundária, época que estreou nas letras, com apenas 16 anos, publicou na revista ―O Garoto‖ seu primeiro poema intitulado ―A Lágrima‖: Óh! lagrima cristalina Tão salgada e pequenina Quanta dor tu redimes Mesmo feita de amarguras Ès tãu sublime tão pura Que só virtudes exprimes. Em 1931, Professora normalista pela Escola Normal Secundária de Curitiba. Em 1937, passa a lecionar na Escola Normal de Curitiba (futuro Instituto de Educação), onde ficará por mais de 23
    • anos, interrompidos apenas por um ano quando vai a Jacarezinho (Escola de Professores). Em 1947 presta concurso público federal para Inspetora Federal de Ensino Secundário do MEC. Seu primeiro livro foi publicado em 1941, ano da morte de seu pai. O livro é dedicado a ele, que morre alguns meses antes da publicação. Helena Kolody foi professora lecionando em Ponta Grossa e em Curitiba, carreira que foi muito importante para a sua formação. Querida por centenas de alunos, foi várias vezes escolhida como paraninfa de turma. Em uma entrevista declarou: ―O magistério e a poesia são as duas asas de meu viver. O magistério foi escolha. A poesia, um imperativo psicológico. Fui professora pelo impulso irresistível da vocação. Dediquei, com amor e entusiasmo, os melhores anos de minha vida à missão de educar. A sala de aula era o meu lar, o meu mundo; os alunos, minha família pedagógica.‖ Após a publicação do livro ―A sombra do rio‖, em 1951, Kolody passou por um período de 13 anos sem escrever. Esse período é um grande divisor em sua carreira, pois sua poesia antes desse silêncio é definida como mais lírica, e, após ele, como mais filosófica. A maior poetisa do Paraná, teve um grande reconhecimento de seu talento que lhe valeu o título de ―Princesa dos Poetas Parananeses‖, concedido pelo Centro de Letras do Paraná, em 1968. Em 1991, é eleita para a Academia Paranaense de Letras. Em 1992, o cineasta Sylvio Back faz um filme em 35 mm, A Babel de Luz, em homenagem aos 80 anos da poeta. O filme ganha o prêmio de melhor curta e melhor montagem, do 25o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Em 2003 a Universidade Federal do Paraná homenageia a autora com o título de Doutora Honoris Causa. Morre em fevereiro de 2004. Helena Kolody, a consagrada poetisa do Paraná, inaugurou em 1941 a série de mulheres haicaístas do país. Dona de uma enorme coleção de adjetivos-virtudes, palavrasemblemas, atribuídos a ela pelo povo paranaense, Helena deixou uma obra, que na qualidade lembra outra grande poeta: Cecília Meirelles. O amor que ela conquistou pelos poemas, pelos livros, juntou-se à lira de sua poesia feita de
    • canções à vida, da solidariedade, da natureza e a inquietude da condição humana. Pode-se brincar dizendo que as letras iniciais do nome da poeta, HK, são as mesmas de quando se grafa hai-kai, como ela o fazia. MENTIRA Mentira que as rosas ferem. Rosas são de veludo. São da roseira, os espinhos. Em algumas poesias, Helena frisa sua conexão sanguínea e espiritual com a pátria de origem, a Ucrânia, com sua história, seu povo, sua vontade de liberdade e com sua imigração ucraniana e luta dolorosa. A pátria original com seu povo sofredor e sedento de liberdade acorda na alma da poeta um sentimento profundo de dor e sofrimento. Na opinião do poeta português Sidônio Muralha, Helena Kolody, sob muitos aspectos, se compara com até então a maior poeta brasileira, Cecília Meireles. Os laços sanguíneos são bem representados em ―Atavismo‖: ATAVISMO Quando estou triste e só, e pensativa assim, É a alma dos ancestrais que sofre e chora em mim. A angústia secular de uma raça oprimida Sobe da profundeza e turva a minha vida. Certo, guardo latente e difusa em meu ser, A remota lembrança dos dias amargos Que eles viveram sem a ansiada liberdade. Eu que amo tanto, tanto, os horizontes largos, Lamento não ser águia ou condor, para voar Até onde a força da asa alcance a me levar. Ante a extensão agreste e verde da campina, Não sei dizer por que, muitas vezes, senti Saudade singular da estepe que não vi. Pois, até o marulhar misterioso e sombrio Da água escura a correr seu destino de rio, Lembra, sem o querer, numa impressão falaz,
    • O soturno Dnipró, cantado por Taras… Por isso é que eu surpreendo, em alta intensidade, Acordada em meu sangue, a tara da saudade. O livro ―Viagem no Espelho‖ reúne livros publicados por Helena de 1941 a 1986. Nesta obra encontram-se vários poemas que tem a própria poesia (metapoesia) como assunto principal. Esta é também a obra representativa da poesia breve, o haikai. Helena Kolody foi a primeira escritora de haikais paranaense, servindo até de inspiração para seu vizinho Paulo Leminski. Devido a seus poemas, a comunidade japonesa do Paraná a deu o título de Reika, que significa perfume da poesia. O amor, a vida, a morte, o tempo, o envelhecimento, a banalização da vida, a tecnologia, entre outros temas, foram muito bem colocados por Helena Kolody em seus haikais e tankas. Haikai é uma forma de poesia japonesa que valoriza a concisão e a objetividade, possui três versos, com cinco, sete e cinco sílabas poéticas sucessivamente. Tanka é outra forma de poesia japonesa, composta por trinta e uma sílabas distribuídas em estrofes de cinco versos. FELICIDADE Os olhos do amado Esqueceram-se nos teus, Perdidos em sonho. SEM AVISO Sem aviso, O vento vira Uma página da vida. ALQUIMIA Nas mãos inspiradas nascem antigas palavras com novo matiz. SABEDORIA Tudo o tempo leva.
    • A própria vida não dura. Com sabedoria, colhe a alegria de agora para a saudade futura. AQUARELA Sol de primavera. Céu azul, jardim em flor. Riso de crianças. Na pauta de fios elétricos, uma escala de andorinhas. Segundo Antonio Donizeti da Cruz, ―Helena Kolody é a poeta do cotidiano, das realidades simples e comuns, interpretadas por sua sensibilidade e lirismo contagiante e libertador. Sua poesia, profundamente lírica, com acentos existenciais, transparentes, revela uma construção poética alicerçada a partir das coisas simples e cotidianas.‖ O conteúdo principal da poesia de Helena Kolody consiste em tranqüilas reflexões sobre a época contemporânea, conforme sua visão, cheia de controvérsias, perturbações, incertezas e violência, e na qual o progresso tecnológico se contrapõe à miséria e morte de fome de milhões. Podemos observar no poema ―Apelidos‖ a nova realidade da sociedade, onde predominam os números e, consequentemente a verdadeira identidade das pessoas começa a ser escondida por detrás de seqüências numéricas. APELIDOS Eram Jucas e Chiquinhos Ninas, Lolas, Mariquitas. Apelidos que o amor Se leva nas criaturas. Hoje são números. (Computadores não programam ternura). Para reformar a vida e construir um mundo melhor, a autora propõe como pedra fundamental para a reflexão o amor a Deus e a reeducação. Características de seu estilo são
    • a ausência de temas banais, de metáforas gastas ou analogias repetidas. DOM DE SONHAR Deus dá a todos uma estrela. Uns fazem da estrela um sol. Outros nem conseguem vê-la. A crítica literária ressalva que em cada volume novo a poeta supera-se com profundeza e síntese das ideias, transmitidas com palavras simples, como em ―Mentira‖: Os Três Primeiros Haicais Em 1941 Helena Kolody, com 29 anos de idade, publicava seu primeiro livro, Paisagem Interior, com 45 poemas. Entre os quais três eram haicais e, no meio destes, o mais popular da autora: ARCO-ÍRIS Arco-íris no céu. Está sorrindo o menino Que há pouco chorou. Os outros dois: PRISÃO Puseste a gaiola Suspensa dum ramo em flor, Num dia de sol. FELICIDADE Os olhos do amado Esqueceram-se nos teus, Perdidos em sonho. Era a primeira vez que uma mulher publicava haicais no Brasil. A segunda foi Rosemary de Barros em 1947, na
    • Revista ASSA, do Centro Acadêmico da Universidade Católica de São Paulo, que segundo Masuda: "...divulgou cinco haicais, fortemente influenciados por Guilherme de Almeida". E, a terceira, Fanny Luíza Dupré, em 1949, também de São Paulo. Todavia, foi Fanny Dupré a primeira mulher a publicar um livro exclusivamente de haicais no Brasil, em fevereiro de 1949: Pétalas ao Vento, em cujo prefácio o haicaísta Jorge Fonseca Junior salientou: "...este livro se inclui, sem dúvida, na primeira meia dúzia de coletâneas exclusivamente de haikais publicadas em português e em nosso País e é, por certo, entre elas, o primeiro de autoria feminina, sendo, mais - o que muitíssimo importa - obra de autêntica haikaista." Helena sempre fez questão de dizer que seus primeiros haicais não foram bem recebidos. O que a desanimara não a impediu de continuar a fazê-los, pois em 1945, no segundo livro, Música Submersa, o haicai estava lá, com o famoso Pereira em Flor. Entretanto, como dissemos, é justamente daqueles primeiros que o público consagrou o seu favorito: Arco-íris. O mais citado, copiado e incluído em antologias. Talvez Helena quisesse uma aceitação maior para os seus haicais, naquela ocasião, pois o livro fora recebido com relativo sucesso para uma estreante. Os outros poemas sempre foram muito citados, como o famosíssimo Prece, p. ex., e já continham a marca indelével de sua poesia: a concisão e a simplicidade (certamente qualidades exigidas no haicai). Na entrevista pública, Um escritor na Biblioteca, de 1986 (na qual participaram Paulo Leminski e Alice Ruiz como entrevistadores), ela fala sobre o assunto: "Os literatos e os críticos simplesmente ignoraram essa poesia que ninguém, ainda, estava fazendo no Paraná. No entanto, meus alunos, alunas principalmente, decerto porque eram muito jovens, e os jovens adoram novidades, gostaram muito. Tanto que a turma de 1943, se não me engano, ofereceu-me, como presente de aniversário, seis quadros, em pergaminho, com ilustrações dos três hai-kais de Paisagem Interior: três quadros de Guido Viaro e três iluminuras de Garbácio." No depoimento que concedeu ao Museu da Imagem e do Som, em 1989, ela reforçou esse ponto dizendo que sabia fazer o haicai, "... tinha técnica e tudo, mas ninguém ligou. Então a gente se complexa".
    • Fanny Dupré, amiga e orientadora Fanny Luíza Dupré vinha, desde 1939, escrevendo haicais e preparando um livro (Pétalas ao Vento), tendo feito "contato com o haicai ao freqüentar o grupo de estudos de cultura japonesa mantido por Jorge Fonseca Jr. na Faculdade de Direito da USP". Foi com ela que Helena estudou o haicai. Trocavam cartas, indicações de leitura, e é provável que Fanny tenha visitado Curitiba nesse período, cujo registro se pode ler no haicai da página 89 do Pétalas ao Vento: "Pinheirais augustos. Curitiba. Paraná... Vestidos de verde". No livro há também um haicai dedicado a Helena, pág. 45: À Helena Kolody Vastos pinheirais! É clara noite de lua... Mais abaixo, o mar! Na entrevista do MIS, Helena afirma: "Em 41 já publicava, por causa da correspondência com uma poetisa paulista chamada Fanny Dupré; foi através dela, uma das pioneiras do hai-kai, ainda agora eu recebi carta dela de São Paulo [1989 - Fanny faleceu em 1996]. Então, já no primeiro livro eu fiz hai-kai, porque tinha aprendido com ela..." Na entrevista da Biblioteca, Helena acrescenta mais um dado: "Foi através do Jornal de Letras e da correspondência com a poetisa paulista Fanny Dupré que tive conhecimento dessa miniatura japonesa que é o hai-kai" (Revisei todos os números do Jornal de Letras da época e não encontrei nenhuma matéria sobre haicai ou poemas deste tipo publicados. O que me leva a crer que o primeiro contato com o aprendizado do haicai, Helena teve mesmo foi com a poetisa paulista). Através de Fanny, Helena estava ligada ao seleto grupo dos iniciadores do haicai no Brasil, em língua portuguesa,
    • especialmente a Jorge Fonseca Júnior, orientador da amiga paulista. Fonseca, que inicialmente teve influência (como os demais brasileiros) do haicai europeu (pela via francesa, inglesa e portuguesa), já vinha recebendo desde 1937 "informações e esclarecimentos sobre o haiku", de Masuda Goga (considerado um Mestre do haicai, cuja linha é japonesa). Goga e Fonseca mantiveram um "relacionamento de 50 anos (1937/1987)". Ele publica em 1939, Roteiro Lírico, e em 1940, Do Haikai e em seu louvor, bem recebidos pela crítica. Fonseca viaja ao oriente neste ano, Masuda anota: "...durante sua estada no Japão, avistou-se com Kyoshi Takahama, enri-quecendo seus conhecimentos sobre o haiku fator muito positivo na evolução do seu haicai". Em 1940, em Do haikai e em seu louvor, o apresentador de Fonseca destaca como qualidades do seu haicai a concentração, sutilidade, imaginação. Fonseca Júnior recomenda a feitura do poema em dezessete sílabas de 5-7-5, em três versos e sem rima. "Superior sutileza do haikai. Um verdadeiro haikai poderá exprimir o sentimento mais forte, sutilissimamente". E compreendia seu conteúdo como "multiangular, sempre e todos lhe descobrirão fartos sentidos, a par de sonoridades, coloridos, sabores e sensações variadas. (...) Delicioso valor da brevidade". No livreto O Haicai no Brasil, Masuda aponta para a "influência de Kyoshi Takahama" sobre o haicai de Fonseca, que passa a defender a utilização da presença do termo de estação (kigo) em um dos três versos: "Assim (...) quanto ao haiku (...) deve indicar ou refletir a estação do ano (ao menos indiretamente) em que é elaborado; e caracterizado, portanto, por sua extrema concisão, devendo, ao mesmo tempo, através desta, fluir com naturalidade o conteúdo poético". Acrescenta ser "desnecessário colocar título em cada poema de haicai, nem observar rima". Um haicai de Fonseca, citado em Masuda: "Brisas refrescantes esgueiram-se ao sol ardente... Penumbra do tato..." Fanny seguirá seu professor na forma sugerida, nos haicais de Pétalas ao Vento, o rigor da métrica, a dispensa de títulos, menos no uso do kigo (que ela não o faz), e desenvolve
    • uma temática brasílica de lirismo delicado. Helena, por sua vez, colocará título em seus haicais, utilizará da métrica, algumas vezes a rima; e terá uma temática mais voltada à condição humana. Diferenciando-se, por certo, da amiga Fanny, constrói Helena seu próprio jeito de fazer haicai, sempre fiel às suas vivências, como pregava Fonseca. Influencia de Guilherme de Almeida? Em 1994, com 82 anos de idade, Helena foi entrevistada pelo Prof. Paulo Venturelli. A certa altura, perguntada sobre a "influência do haicai em sua obra", ela nos surpreende: "Também aqui foi importante a correspondência com poetas de outros lugares. Não me lembro mais como foi que comecei a me corresponder com Fanny Dupré, de São Paulo, que foi uma das primeiras haicaístas do Brasil. E ela então me disse para ler um livro do Guilherme de Almeida, que era autor de haicais rimados. Por isso, até hoje, sigo esta linha, isto é, metrifico e rimo os versos do haicai, o que não é comum." Guilherme de Almeida inventou uma forma que não existia para o haicai: deu-lhe título e quatro rimas. Cito o haicaísta paranaense Domingos Pellegrini, para entendermos melhor isso: "Ele fazia um tipo de haicai que parecia destinado a garantir que só ele fizesse haikais em Português: além do rígido esquema de versos de 5-7-5 sílabas, o primeiro verso tinha de rimar com o terceiro, e a segunda sílaba do segundo verso tinha que rimar com a sétima, numa acrobática rima-interna." Vejamos um haicai de Guilherme de Almeida e seu esquema: O Haicai Lava, escorre, agita a areia. E, enfim, na bateia fica uma pepita. Esquema ----X -O----O ----X
    • Quem fizer uma revisão da obra de Helena, seguindo a trilha dos seus haicais, poderá certificar-se de que ela não utilizava o esquema do que se convencionou denominar de "haicai guilhermino". Segui também, na coletânea Haikais, os setenta haicais reunidos e somente encontrei 14 deles com rimas: 4 rimam o segundo com o terceiro verso; 2 rimam o primeiro com o segundo verso; e, 8 rimam o primeiro com o terceiro verso. Vejamos dois deles: AVESSO Seu olhar profundo olha na poça d'água e enxerga estrelas no fundo. AREIA Da estátua de areia, nada restará, depois da maré cheia. Como se pode ver, Helena seguiu Almeida somente no item dar um título (que ela sempre o fez, ao contrário de Fanny e Fonseca), mas suas rimas, métrica e a forma do haicai não seguiam a proposta guilhermina; ela não usava de sua bateia. Helena e Leminski Helena ficou feliz quando Paulo Leminski, em 1965, elogiou seus haicais. Ele seria seu vizinho no edifício São Bernardo por três movimentados anos da vida dele, que, com 20 anos, já tinha fama de poeta e agitador cultural na cidade. O biógrafo de Leminski, Vaz, assim se referiu a este fato: "Foi também nesta época que conheceu pessoalmente a poeta Helena Kolody, uma filha de ucranianos bem mais velha, que morava no andar de cima - e desde os anos 40 fazia poemas em forma de hai-kais". Em 1968, ao fazer um prefácio para um livro do poeta Mário Stasiak, seu amigo, Leminski escreveu: "Lembrai-vos, irmãos, que o maior génio poético do Paraná é de raiz eslava, sendo Helena Kolody (pronunciar: Guélena Kolódi)". A esse
    • admirador apaixonado, Helena correspondia com igual afeto, ela que havia deixado um tanto de lado o haicai, disse: "Só voltei ao haikai quando o Paulo Leminski, então um jovem de 20 anos, vizinho de apartamento, descobriu-me como a primeira pessoa a fazer haikai no Paraná". Para a biografia de Leminski, Helena deu um emocionado depoimento (cito um trecho): "Ele me emprestou as revistas Invenção e Noigandres e foi assim que tomei conhecimento do concretismo em S. Paulo. Mas, quando veio me procurar, ele já estava em outra. Estava interessado em haikais e se surpreendeu ao encontrar três deles em meu livro Paisagem Interior, de 1941. Por isso ele me procurou. Mas, o verdadeiro haikaísta era ele. Nesta ocasião, estava aprendendo japonês para mergulhar no espírito da língua e na cultura oriental. Por isso seus haikais foram tão autênticos". Os anos 80 foram "leminskianos" em Curitiba. Apesar de Leminski achar que a cidade não tinha uma vida cultural (como ele desejava), sua Culturitiba - "Sem raízes e sem carências, que fazer?"- foi o palco de sua vida e obra. Inúmeros valores literários apareceram nesse tempo, principalmente a consagração da poeta Helena Kolody (a "Padroeira da Poesia", como ele dizia). Se Leminski se tornou um mito, Helena seguiu junto, ampliando o espaço mítico deixado por ele em 1989. Quando em 1985 Helena reinaugura-se, lançando Sempre Palavra, fina concisão poética, incluindo três haicais, Leminski tece-lhe rasgados elogios. Seu texto tinha o título de Santa Helena Kolody, e diz que o livro "inclui uns quarenta pequenos poemas. Mas tem luz bastante para iluminar esta cidade por todo um ano". Segue fazendo comparações e sugerindo análises mais profundas, e acrescenta: "Nossa padroeira é o poeta mais moderno de Curitiba, de uma modernidade enorme, uma modernidade de quase oitenta anos. Nenhum de nós tem modernidade desse tamanho". E termina: "Tem certas manhãs azuis em Curitiba, mas tão azuis, tão azuis, que eu tenho certeza: Helena Kolódy acordou cedo e olha por todos nós". É desse livro este haicai: GESTAÇÃO Do longo sono secreto na entranha escura da terra, o carbono acorda diamante.
    • Aos estímulos do amigo poeta, Helena respondeu com mais livros, mais poemas de amor pela poesia. E dedicou a ele, não um haicai, mas um de seus dísticos (que ela sabia utilizar com maestria), Figo da Índia (1986): A casca espinhenta guarda a macia doçura da polpa. Mais tarde, ela diria: "Ele, às vezes, parecia agressivo. Todavia, tinha uma polpa doce, ele era muito carinhoso. Tanto que ele me fez uma dedicatória: "Mãe querida, nada como ter uma fada na vida". A Palavra é uma Vivência Pessoal Carlos Drummond de Andrade enviou em 1980 uma pequena carta à poetisa, onde dizia: "Tão simples, tão pura e tão funda - a poesia de Infinito Presente. Você domina a arte de exprimir o máximo no mínimo, e com que meditativa sensibilidade!" É do livro citado, entre outros, este haicai: LUZ INTERIOR O brilho da lâmpada no interior da morada empalidece as estrelas. No segundo livro de Helena, Música Submersa, de 1945, saiu um haicai, o Pereira em Flor: De grinalda branca, Toda vestida de luar, A pereira sonha. Drummond, segundo Kamita, fez um elogio dizendo ter ficado feliz com poemas como esse, "em que à expressão mais simples e discreta se alia uma fina intuição dos imponderável poéticos". A natureza vivencial da maioria de seus haicais pode-se perceber quando Helena conta a história desse Pereira em Flor:
    • "Eu morava na Rua Carlos de Carvalho. Uma noite, ao sair da casa de uma amiga, dei com aquela pereira completamente florescida, banhada pela luz da lua cheia. A beleza do quadro foi um impacto na minha sensibilidade. Fiz o poema bem mais tarde. Associei a pereira com uma noiva: a noiva toda vestida de branco, sonhando, com a pereira ao luar". Ainda frisando este aspecto importante do haicaísta, qual seja o da observação, contemplação e vivência, base da poesia de haicai, cito outra história de Helena: "Estou numa idade em que dou-me ao luxo de sair nas ruas com a maior tranqüilidade e parar para contemplar uma árvore, um pássaro, um transeunte - sem temer o ridículo. Dia destes, quando cruzava a Praça Rui Barbosa, vi uma pena de pombo cair na calçada. Apanhei-a, contemplando-a, e na hora pensei num poema. Como tinha apenas um lenço de papel, foi nele que escrevi: Apanhei na calçada Uma pena de pombo Aprisionei Um momento De vôo e vento" Leiamos algumas frases ditas por Helena na entrevista da Biblioteca, as quais nos dão uma idéia do seu fazer poético: "Quando menos espero, e nas ocasiões mais imprevistas, começo a sonhar palavras". "Na hora, invade-me a indizível alegria de criar". "É verdade que, no fundo, todo poeta é autor e leitor de seu poema. É autor na hora da inspiração, quando entra "em estado de poesia." (...) No momento da inspiração, somos autores. Depois, o poeta lê o poema, avalia a composição, corta, acrescenta, substitui vocábulos. É a fase do leitor". "O poeta, a princípio, escreve para si mesmo, entrega-se ao prazer de criar; depois, quer alcançar o leitor. Sem isso, a poesia deixa de ser comunicação".
    • "Há dois tipos de temas em minha poesia: os que refletem meu próprio Eu, confessionais, e os que mostram minha preocupação com os outros e com os problemas do mundo, ou seja, temas do eu íntimo e do eu social. Uso muito imagens, metáforas, símbolos tirados da paisagem. Sou uma enamorada da beleza do mundo que me cerca". "Creio que há sugestões plásticas em meus versos. Uma amiga pintora disse que meus poemas poderiam ser pintados". "Embora não pareça, o verso moderno é muito mais sutil e mais difícil do que o tradicional". "Como recursos estilísticos, uso muito aliterações, anáforas e outros recursos fonéticos". "Há um elemento lúdico no fazer poético, uma emoção de prazer, como em qualquer jogo. É um jogo fascinante, feito com palavras". "Creio que uma das características do poeta é essa paixão pela palavra e pela leitura. A leitura amplia nossos horizontes, enriquece nossa arte. É preciso ler, ler e ler". "A sensibilidade do poeta é como a da harpa eólica que os gregos penduravam nas árvores, e que vibrava com o menor sopro de vento. Ele vibra intensamente, não só com as próprias emoções; capta, com o radar da imaginação, o sentir do outro, o viver do outro. Esse ver os outros com os olhos da imaginação é, também, um dom do poeta; nem sempre é a sua própria experiência que ele expressa em versos. Incorporamos em nossa vivência as vivências alheias que nos atingem, nos alegram, ou nos fazem sofrer". E, perguntada sobre como escreveu o haicai Pereira em Flor, esclareceu: "As impressões que me atingem vão se acumulando em meu inconsciente e elaborando uma espécie de húmus, no qual se misturam impressões de muitos tempos; desse húmus brota o poema, impregnado de minha própria personalidade". E mais adiante, diz: "Junto com a alegria de criar, existe a agonia de perseguir o inatingível.
    • "persigo um pássaro e alcanço apenas no muro a sombra de um vôo". Reika, seu nome de haicaista Em 1993, a comunidade nipo-brasileira de Curitiba fezlhe uma homenagem, concedendo-lhe o nome haicaísta Reika, "em reconhecimento à dedicação, divulgação e grandiosidade que deu à poesia de origem japonesa, haicai". O documento haiku no meigo (outorga de haimei - nome de poeta do haicai), explica os ideogramas do nome Reika: Rei designa pessoa de destaque no gênero de poesia haiku (haicai), renome na literatura; Ka - pode ser kaoru (aroma, fragrância) ou niou (aromatizar, perfume). Reika, portanto, significa "perfume da literatura", ou "renomada fragrância da poesia", ou, ainda, "aroma da poeta maior". E, o documento encerra, dizendo: "A tradução é difícil de se fazer, porque não se refere ao perfume em si, mas sim ao contágio ou vibração que vai envolvendo as pessoas pelo encanto, que a poesia dessa pessoa emite". Compondo o conjunto vieram quadros com os ideogramas em belas caligrafias (shodô) em quatro estilos. Helena e a Tanka Seu amor pela poesia japonesa a fez publicar no melhor jornal de literatura que se fez no Paraná, o Nicolau, quatro tankas (poema de cinco versos: 5-7-5-7-7), até então inéditos, em dezembro de 1992; cito duas: PIRILAMPEJO O sapo engoliu a estrelinha que piscava no escuro do brejo. Ficou mais sombria a noite sem o seu pirilampejo.
    • AQUARELA Sol de primavera. Céu azul, jardim em flor. Risos de crianças. Na pauta dos fios elétricos, uma escala de andorinhas. Em 1993, a Fundação Cultural de Curitiba publicou Reika, com 28 poemas (19 haicais e 9 tankas), numa edição artística limitada. Mais tarde, em 1996, a Secretaria da Cultura do Paraná, republica as mesmas tankas inclusas no livro Caixinha de Música. Destaco duas: SABEDORIA Tudo o tempo leva... A própria vida não dura. Com sabedoria, colhe a alegria de agora para a saudade futura. INVERNO No céu de cristal cintila o sol sem calor. Sopra um vento frio. Tiritam árvores nuas nos campos que a geada veste. Helena e o Senryu O senryu tem a mesma forma do haicai (três versos de 5-7-5) mas trata de temas unicamente humanos, sempre em tom irônico, satírico, humorístico. É provável que Helena não tenha se dado conta de que fez alguns graciosos senryu. Aponto-os, entretanto, apenas baseado no fato de haver autores (mesmo entre os japoneses) que não diferenciam o senryu do haiku, incluindo aqueles entre estes. Vejamos:
    • SALDO Na página adolescente deste mundo em flor, sou um saldo anterior. VIGILÂNCIA O que vigia e reprime, passa por baixo do pano e salta na arena do circo... EPIGRAMA No círculo esotérico dos novíssimos, múmia não tem vez. IDADE A morte desgoverna a vida. Hoje sou mais velha que meu pai. Prêmios e Homenagens 1985 - Recebe o "Diploma de Mérito Literário da Prefeitura de Curitiba". 1987 - Recebe o título de "Cidadã Honorária de Curitiba". 1988 - Criação do "Concurso Nacional de Poesia Helena Kolody", realizado anualmente pela Secretaria da Cultura do Paraná, em sua homenagem. 1989 - Gravação e publicação de seu depoimento para o Museu da Imagem e do Som do Paraná. 1991 - Eleita para a Academia Paranaense de Letras. 1992 - O filme A Babel de Luz, do cineasta Sylvio Back, homenageia os 80 anos da poetisa, tendo recebido o prêmio de melhor curta-metragem e melhor montagem, do 25° Festival de Brasília. 2002 - Exposição em homenagem aos 90 anos da poetisa, na Biblioteca Pública do Paraná.
    • 2003 - Recebe o título de "Doutora Honoris Causa" pela Universidade Federal do Paraná. Obras Paisagem Interior (1941) Música Submersa (1945) A Sombra no Rio (1951) Poesias Completas (1962) Vida Breve (1965) Era Espacial e Trilha Sonora (1966) Antologia Poética (1967) Tempo (1970) Correnteza (1977, seleção de poemas publicados até esta data) Infinito Presente (1980) Poesias Escolhidas (1983, traduções de seus poemas para o ucraniano) Sempre Palavra (1985) Poesia Mínima (1986) Viagem no Espelho (1988, reunião de vários livros já publicados) Ontem, Agora (1991) Reika (1993) Sempre Poesia (1994, antologia poética) Caixinha de Música (1996) Luz Infinita (1997, edição bilíngue). Sinfonia da Vida (1997, antologia poética com depoimentos da poetisa) Helena Kolody por Helena Kolody (1997, CD gravado para a coleção Poesia Falada) Poemas do Amor Impossível (2002, antologia poética) Memórias de Nhá Mariquinha (2002, obra em prosa) Fontes: MARINS, José. Helena Kolody: Pioneira do Haicai. Disponível em: http://www.kakinet.com/caqui/kolody.php Complementação: http://gabaritoliterario.blogspot.com.br/2010/08/viagem-no-espelhohelena-kolody.html http://pt.wikipedia.org/wiki/Helena_Kolody
    • Antonio Donizeti da Cruz A Poesia de Helena Kolody: busca do essencial A inquietação é um dos eixos temáticos da poesia de Helena Kolody, visto como questionamento da linguagem e como uma solicitação original da consciência; uma agitação interior do sujeito, voltando-se para si-mesmo. Assim, ele se vê forçado ―a inquirir os sinais de sua origem e transcendência, procurando na existência o sentido da vida‖, tal como afirma o filósofo Lavigne (1958, p. 28-29). O poeta ―instaurador de sentido nos signos‖, no dizer de Esteban (1991, p. 43), - é um ser em constante busca, deixando transparecer no poema sua inquietação e questionamentos. Em se tratando da questão da brevidade da vida, a poesia é o sinal do ser humano e seu testemunho perante o futuro. Na modernidade, segundo Paz, ―o poema assume a forma da interrogação. Não é o homem que pergunta: a linguagem nos interroga‖ (1982, p. 345). No itinerário poético de Helena Kolody, poeta da modernidade, evidenciam-se certas temáticas constantes, dentre as quais, a questão da brevidade da existência, a inquietação do poeta em relação à vida, ora a exaltação intensa da vida ora o desencanto. Também, percebe-se a temática do amor, do desejo de realização, da questão da vida e da morte, da solidão e busca de sentido para a existência. Em sua poesia, a vertente da religiosidade - a nostalgia da totalidade, a aspiração ao absoluto (―Tu", "Senhor", "Deus") aponta para o desejo de um mundo transcendente. A questão da brevidade da vida e transcendência ficam evidentes no poema ―Mergulho‖. O sujeito lírico revela-se inquieto, dividido entre o plano terreno e o espiritual: Almejo mergulhar na solidão e no silêncio,
    • para encontrar-me e despojar-me de mim, até que a Eterna Presença seja a minha plenitude (p. 70). No texto, percebe-se uma busca do eu-lírico em relação ao plano espiritual. O silêncio está associado à condição de solidão, pois o poeta, ser solitário e solidário, é capaz de dar sentido à vida. Entre as limitações próprias da condição da vida no plano físico e no plano espiritual, há o espaço intermediário, ou seja, o momento presente, no qual o poeta almeja mergulhar. Na interiorização do instante e despojamento, o eu-lírico constata que através de seu canto é quase possível preencher o vazio existencial. O tanka ―Sabedoria‖ mostra a temática do efêmero, da brevidade da vida, do tempo e da saudade. No poema, salientam-se o exercício lúdico, as pausas dos versos, as ligações dos segmentos frasais e o conteúdo das recordações do sujeito lírico, que inquieta-se perante a vida: Tudo o tempo leva. A própria vida não dura. Com sabedoria, colhe a alegria de agora para a saudade futura (p. 29). Há uma perfeita relação semântica entre os versos do poema, mostrando que a vida é finita como as coisas que passam. O texto aponta para uma questão essencial: o ser humano tem um tempo a cumprir na existência. Por isso, a necessidade de se viver intensamente o presente, ou seja, o carpe diem é a tônica que movimenta o poema e remete para a necessidade de se buscar com sabedoria a alegria de agora tendo em vista a saudade futura. O poema ―Queixa‖ apresenta o inconformismo em relação ao sofrimento, à angústia e à tristeza, por parte do sujeito lírico que se questiona: Tu, Senhor, que repartes os destinos: Por que me deste o árido quinhão De sonho, de tristeza e solidão? (p. 196)
    • Os versos são marcados por um lirismo terno. No último verso do poema, os três signos: sonho, tristeza e solidão denotam a introspecção do sujeito lírico, que se sente inquieto perante a vida. As enumerações contribuem para a manutenção do ritmo do poema. O tom de indagação que direciona o texto mostra um conflito entre o eu e o mundo circundante. O questionamento da linguagem pode estar relacionado à consciência tensa, inquieta do eu poético, em constante interrogação. No haicai intitulado ―Os tristes‖, a inquietação do sujeito lírico enquanto questionamento fica evidente: Em seus caramujos, os tristes sonham silêncios. Que ausência os habita? (p. 26). São versos marcados por um sentimento melancólico. Salienta-se a temática da solidão, pois em meio à ausência e silêncios, os tristes sonham. A imagem do caramujo remete à idéia de isolamento e introspecção. No verso final, destaca-se a indagação do sujeito lírico. Em ―Emblema‖, poema composto por três versos, a temática do sofrimento e da religiosidade aparecem de forma nítida, em que o eu-lírico salienta sua inquietação: “A fogo imprimiste, Senhor,/ Na carne de meu coração/ A tua insígnia de dor” (p. 195). São versos que revelam que a dor e o sofrimento são inseparáveis da vida. A religiosidade e o amor se fazem presentes no poema ―Prece‖, em que o sujeito lírico suplica: Concede-me, Senhor, a graça de ser boa, De ser o coração singelo que perdoa, A solícita mão que espalha, sem medidas, Estrelas pela noite escura de outras vidas E tira d'alma alheia o espinho que magoa (p. 217). No texto, o amor é forma divinizada de oferenda, de desejo de partilha com os outros. A linguagem metafórica caracteriza-se pela rigorosa disciplina e pela concisão, visíveis na brevidade das composições, quase sempre apoiadas no esquema recorrente das rimas. O signo estrelas é metáfora de bondade e de amor. No poema abaixo, intitulado ―Transeuntes‖, o efêmero e o eterno cruzam-se numa rede de
    • sentidos. Os versos do poema apresentam uma atitude inquieta do eu poético, que anseia por atingir o mundo transcendente: Transeuntes da vida provisória: que rumor de asas eternas para além das fronteiras e dos símbolos! (p. 59). Nos versos do poema, percebe-se que o ser humano vive uma ―vida provisória‖, ou seja, o texto trata da brevidade da vida. O sujeito poético alicerça a construção de uma lírica, através de um eu que se caracteriza pelo desejo de realizações e buscas. As imagens e símbolos, na poesia kolodyana, apontam para o caráter transitório da vida e também para o plano espiritual. Nesse sentido, Gilbert Durand assevera que ―o símbolo, no seu dinamismo instaurador em busca de sentido, constitui o próprio modelo da mediação do Eterno no temporal‖ (1995, p. 108). O poema ―Viagem infinita‖ expressa a condição do homem peregrino em permanente viagem. O eu-lírico declara: Estou sempre em viagem. O mundo é a paisagem que me atinge de passagem (p. 39). O poema apresenta uma linguagem condensada, característica essencial da poesia kolodyana. A rima é também um dos recursos fundamentais em sua poesia, justamente pelo poder de suscitar inesperadas alianças de termos, de sentidos. Não se trata apenas da sonoridade, musicalidade, mas o que está em jogo é a estrita relação entre som e sentido. O ―estar em viagem‖ aponta para a condição itinerante do ser humano. Assim, a viagem simboliza a busca da verdade, da paz, da imortalidade, da procura e da descoberta de um centro espiritual (Chevalier & Gheerbrant, 1991, p. 951). Se a viagem infinita representa a busca do plano transcendente, o mundo apresenta-se como uma morada transitória dos homens, pois ele é só uma ―paisagem‖ que atinge o sujeito lírico de ―passagem‖.
    • O haicai intitulado ―Depois‖ aponta para a relação do homem com a natureza. O momento presente inquieta o eulírico que sabe de sua situação enquanto viajante das galáxias, ao afirmar: Será sempre agora. Viajarei pelas galáxias universo afora (p. 26). A temática da transitoriedade do ser, faz-se presente nos versos do poema, situando o onde, o quando e o que do acontecimento poético. No haicai ―Desafio‖, o sujeito lírico declara: A vida bloqueada instiga o teimoso viajante a abrir nova estrada (p. 27). Nos versos do poema, percebe-se as ligações dos segmentos frasais, a sonoridade e o jogo de palavras. O texto mostra que é necessário vencer os obstáculos da vida, para abrir novos caminhos. A estrada é símbolo de viagem e transitoriedade do ser que está sempre em busca de realizações. Em ―Solidão‖, a temática do tempo, da solidão, da insatisfação humana e do sofrimento aparece de forma nítida. Nos dois primeiros versos do poema (fragmento), o eu-lírico confirma que "Estamos sempre sozinhos/ Em nossas horas maiores" (p. 170). São versos que revelam que o homem é por natureza um ser solitário. A solidão é a profundeza última da condição humana. Para Octavio Paz, o homem é nostalgia e comunhão, por isso, cada vez que se sente a si mesmo, sentese como carência do outro, como solidão (PAZ, 1984, p. 175). Essa afirmativa do autor fica evidente nos poemas kolodyanos. O tema da solidão também está presente no poema Cantar, mostrando que partilhar a solidão é uma maneira de ir ao encontro do outro. Os versos do poema exemplificam a afirmação: "Quem vai cantando/ não vai sozinho./ Dançam em seu caminho/ o sonho e a canção" (p. 50). Ao se referir à solidão, Helena Kolody afirma: Há uma espécie de solidão positiva e necessária: para pensar, para sonhar, para criar, ou, simplesmente, olhar pela
    • janela a paisagem lá fora. É na solidão que a gente consegue olhar para dentro de si e encontrar-se. O próprio sonho floresce na solidão. E toda criação é, a princípio um sonho lúcido (In: BASSETI, 1990, p. 5). Na poesia de Helena Kolody, a temática da solidão, relacionada à questão da vida e da morte, é recorrente. A autora expressa sua maneira de ver o mundo e, ao mesmo tempo, realiza uma poesia enquanto busca de sentido existencial e resistência. No poema ―Ensaio‖, os signos vida e morte apontam para a solidão. Em três versos, com uma linguagem lúdica, o sujeito poético afirma: A solidão da vida, Longo ensaio Da solidão da morte (p. 156). Nos versos do poema, a vida e a morte se fundem numa rede de sentidos. A solidão da vida parece ser somente um ensaio, para a ―grande solidão‖ de cada ser humano. Nesse sentido, a poesia é capaz de comunicar uma profunda consciência do sentido da vida e seus mistérios, pois como diz Octavio Paz, ―vida e morte são apenas dois movimentos, antagônicos mas complementares, de uma mesma realidade‖ (1984, p. 177). Na poesia de Kolody, a morte aparece como experiência cotidiana, mas marcada por ausências e despedidas, conforme se pode constatar no texto ―’Anoitecer‖, em que o eu poético afirma: Amiudam-se as partidas... Também morremos um pouco no amargor das despedidas. Cais deserto, anoitecemos enluarados de ausências (p. 84). Verifica-se, nos versos, a linguagem metafórica e a preocupação do eu poético em relação à palavra, enfatizando o ato comunicativo. Nas séries "cais deserto, anoitecemos/ enluarados de ausências", percebe-se um ritmo cadenciado. A imagem do cais deserto remete à idéia de solidão. O morrer um pouco, as partidas e despedidas, faz com que o sujeito
    • sinta a ausência dos que se foram. Ele também acaba por se envolver, pois "anoitecemos/ enluarados de ausência. O vocábulo “anoitecemos” pode siginificar a metáfora de envelhecer (p. 33). A morte também pode estar relacionada ao aspecto lúdico. No texto intitulado ―Jogo‖, o sujeito poético mostra que a poesia é jogo e luta ―de vida e morte‖ com as palavras: A morte espreita, em silêncio O vivo jogo dos homens No tabuleiro do tempo. Estende, às vezes, de repente, A longa mão feita de sombra E tira um peão do tabuleiro (p. 147). Se o jogo é, fundamentalmente, um símbolo de luta entre as forças da vida e da morte, nos versos kolodyanos, o jogo também aponta para este sentido. Na primeira estrofe, a morte observa o vivo jogo dos homens para, só depois, estender sua ―mão de sombra‖, e tirar um peão do tabuleiro. O vocábulo peão induz à metáfora de homem. Com uma linguagem metafórica, o sujeito poético cria significados precisos. No poema, a palavra é a pedra que ele joga no xadrez do poema: poesia feito jogo. As palavras-imagens vão sendo ―colocadas‖ no tabuleiro do poema e, no final, tem-se o poema, composto de versos singulares. No prólogo da obra O outro, o mesmo, o escritor Jorge Luis Borges, afirma que a poesia é um xadrez misterioso, cujas peças mudam como um sonho (1999, p. 258), pois ―Em seu austero canto, os jogadores/ Regem as lentas peças. [...] Não sabem que a mão assinalada/ Do jogador governa o seu destino,/ Não sabem que um rigor adamantino/ Sujeita seu arbítrio e sua jornada‖ (BORGES, 1999, p. 211). Dessa forma, os versos de Kolody e de Borges apontam para a idéia do inesperado e do jogo. Ou seja, os homens fazem parte da peça de um tabuleiro de xadrez e, de repente são retirados do jogo. A mesma temática da vida e da morte está presente no poema dístico intitulado ―Tempo‖. O eu-lírico declara: Cai a areia da vida Na ampulheta da morte (p. 145).
    • Nos versos do poema, salienta-se o caráter lúdico da linguagem poética, ou seja, o que o poeta essencialmente faz é jogar com as palavras. As imagens da areia e da ampulheta estão organizadas na estrutura do poema de forma harmoniosa, confrontando com as palavras vida versus morte. A ampulheta, símbolo do tempo, está relacionada ao título do poema. No poema sintético intitulado ―Areia‖, percebe-se a temática da efemeridade da vida: Da estátua de areia, nada restará, depois da maré cheia (p. 82). Os versos apontam para o caráter efêmero e transitório da existência. O signo areia funciona como metáfora de corpo; maré cheia como metáfora de morte. No jogo da linguagem aparece claramente os questionamentos do sujeito lírico. No texto ―Diálogo‖, a temática diz respeito à questão da vida, relacionada à problemática do ser que se questiona, em busca do sentido da vida: Debruçados sobre a vida, indagamos seus mistérios e raramente alcançamos suas respostas cifradas. Ao calor do interrogar-se nuvens ocultas esgarçam-se, a luz em nós amanhece (p. 76). No texto predomina o trabalho metafórico da linguagem sobre outros recursos poéticos, tais como paralelismos, rimas, assonâncias. São versos que acentuam a condição do sujeito ―plural‖, que se indaga frente aos segredos da vida. Com uma linguagem elaborada e metafórica, a poeta celebra a vida e o canto festivo nos versos do poema intitulado ―Alegria de viver‖: Amo a vida. Fascina-me o mistério de existir.
    • Quero viver a magia de cada instante, embriagar-me de alegria. Que importa a nuvem no horizonte, chuva de amanhã? Hoje o sol inunda o meu dia (p. 35). A consciência da brevidade da vida e o futuro incerto fazem com que o sujeito lírico valorize o momento presente. No texto, a morte é um processo natural, surgindo como uma perspectiva certa da finitude do homem. A consciência de que a morte pode chegar a qualquer momento, não é obstáculo para que o sujeito lírico viva intensamente o momento presente. Um outro texto que traz o encanto e a magia da vida é o tanka ―Aquarela‖, com grau máximo de comunicabilidade e lirismo, em que o eu poético busca o instantâneo e a integração da vida e da natureza: Sol de primavera. Céu azul, jardim em flor. Riso de crianças. Na pauta de fios elétricos, uma escala de andorinhas (p. 28-29). A linguagem do poema é marcada por uma força lírica na qual o sujeito poético conjuga a relação do sentimento vital integrada à constante renovação cíclica da vida. Neste tanka, os elementos da natureza se relacionam de maneira harmoniosa. No ―coração do poema‖, destaca-se o verso ―riso de criança‖, que simboliza a simplicidade natural, a espontaneidade. São versos deste teor que comprovam a simplicidade da poesia kolodyana, pois eles fluem naturalmente como voz sonora, capaz de bem-dizer a vida e seus instantes. Em ―Dom‖, verifica-se o poder mágico das palavras, em uma linguagem lúdica, rica em associações de idéias, símbolos e metáforas. Em três versos, o eu poético sintetiza o pensamento: Deus dá a todos uma estrela. Uns fazem da estrela um sol.
    • Outros nem conseguem vê-la (p. 51). A temática do poema mostra a questão da religiosidade e também a problemática que envolve o ser humano: as possibilidades e impossibilidades de realizar-se. O vocábulo estrela é a metáfora de vida. Se há os que fazem da estrela um sol de realizações, há os que nem conseguem atingir seus objetivos, justamente por não descobrirem a sua estrela. Símbolo do princípio da vida, a estrela é fonte de luz. Já o sol é fonte de calor, de luz e de vida. É também, símbolo de inteligência cósmica e da luz do conhecimento (CHEVALIER & GHEERBRANT, 1991, p. 836-841). Em ―Sempre madrugada‖, poema dístico, os versos são simples e fluentes, marcados por um ritmo dinâmico: Para quem viaja ao encontro do sol, é sempre madrugada (p. 70). Através dos versos livres e da sonoridade, mostra-se a temática da busca de realização humana. Salienta-se também que o ser humano está sempre em viagem, em busca de um sol que o realize. Em ―Cronos‖, poema dístico, o sujeito lírico reforça a idéia expressa nos versos anteriores: Não é o tempo que voa. Sou eu que vou devagar (p. 55). O ―estar em viagem‖ é um processo temporal delimitado pelas circunstâncias da vida. No afã de conquistar as realizações humanas, faz-se necessário ―apressar a lida‖. No poema sintético ―Sem aviso‖, o sujeito lírico salienta: “Sem aviso,/ o vento vira/ uma página da vida” (p. 35). São versos que apontam para a brevidade da vida. Percebe-se a sutileza do sujeito poético em articular a linguagem, atingindo a essência e um alto grau de concisão. No texto, o eu-lírico expressa a condição efêmera da vida, através da metáfora vento que funciona como morte. No poema ―Hora plena‖, o eu-lírico alerta para a necessidade de se viver o momento presente: Hora plena, a do meio-dia. As figuras não projetam sombras.
    • A luz incide, vertical, nas criaturas. Hora total em que o ser atinge a plenitude (p. 47). Nesse sentido, a poesia de Kolody apresenta uma linguagem metafórica que aponta para a busca de sentido exitencial. Sua poesia parte da experiência cotidiana e a transcende mediante a imagem poética a uma dimensão maior, despertando no leitor uma consciência de plenitude, ou seja, linguagem enquanto revelação da condição humana: presença e finitude. A obra kolodyana apresenta uma maneira intensa de entender e expressar os sentimentos do mundo, numa poesia que tem por centro temático a inquietação, em que a vida, "a inquietação suprema de viver", alia-se à "suprema angústia de pensar". O tema da inquietação, na poesia kolodyana, se refere à busca de sentido para a existência, sentido este evidenciado através do processo criador. Dessa forma, constata-se que seus poemas se traduzem em versos tranqüilos, apaziguadores, até mesmo esperáveis, em termos do código lírico, ou seja, a inquietude temática se resolve na composição em que predomina a harmonia. Em relação à síntese e ao ―estado de poesia‖, Helena Kolody afirma que ―o nascimento do poema‖ surge da inspiração, mas depois vem o ―burilamento, que antes eu não fazia. O meu burilar é principalmente cortar. Muitos poemas foram reduzidos, qualquer um pode notar isso, a três versos. Ao mesmo tempo, parece que a poesia vem mais enxuta, mais essencial‖ (In: VENTURELLI, 1995, p. 23). Cumpre observar que, entre os primeiros críticos a apresentar a poesia Helena Kolody estão Rodrigo Júnior e Andrade Muricy. A autora teve orientação muito especial de Muricy. Ela declara que na sua formação escolar seu contato era com textos literários simbolistas e parnasianistas, e que chegou à literatura modernista através da obra A nova literatura brasileira, de Andrade Muricy (MURICY, 1936). ―Por ser amigo de meus amigos, ele me ofereceu o livro e para mim foi uma descoberta. Eu não conhecia nenhum daqueles autores, porque nada do que eu lia ia além de Olavo Bilac‖ (In: VENTURELLI, 1995, p. 20). A autora afirma ainda que Muricy lia seus textos, mas ―não mexia no que a gente escrevia. [...]
    • Uma vez ele me falou: “reparei que você chega mais ao objetivo nos poemas curtos. Você tem talento para a síntese. Os seus poemas mais breves são os melhores‖ (Id.; ibid.). Consoante as afirmações da autora e a evolução de sua obra, nota-se que na lírica kolodyana ocorre um ―enxugamento‖ dos textos, encaminhando-se cada vez para um estilo direto, privilegiando a economia dos meios de expressão. A força de seus poemas reside no alto grau de concisão e síntese. A autora realiza um fazer poético marcado por uma linguagem densa, sutil, registrando o instantâneo, a fugaz e as coisas mais simples. Tal como o tecelão que vai escolhendo os fios e emaranhando-os no tear, da mesma forma, Kolody constrói seus poemas, elaborando-os cuidadosamente. Os poemas kolodyanos possuem uma relação de sentido que os mantêm interligados a uma constante temática: a construção do poema, o fazer poético, seu material: palavras, frases, linguagem; as dificuldades encontradas pelo sujeito poético na construção de seus poemas; a tentativa do poeta de - por meio de um trabalho com a linguagem - transpor muros e barreiras, tendo em vista a livre expressão de seus anseios e desejos. Seus poemas sintéticos, condensados (haicais, tankas, dísticos, tercetos, epigramas, entre outros), são construídos a partir das coisas simples e cotidianas e remetem às profundas reflexões sobre o sentido da existência. Essencialmente lírica, sua poesia tem o poder de despertar o leitor para a observação da ―linguagem-natureza‖ mostrando que a poesia é signo de vida, poder, alquimia e nostalgia. Helena Kolody tem uma obra inconfundível. Desde a sua primeira obra, Paisagem interior (1941) a Reika (1993), sua poesia evolui no sentido de síntese reflexiva, concisão e alto grau de lirismo espontâneo, contido, numa linguagem que é, acima de tudo, busca do essencial. Fonte: artigo de Antonio Donizeti da Cruz (Universidade Estadual do Oeste do Paraná). Espéculo. Revista de Estudios Literarios. Facultad de Ciencias de la Información Universidad Complutense de Madrid. Revista Digital Cuatrimestral. Nº 26. marzo - junio 2004 Año IX .
    • VERSOS DIVERSOS ABISMAL Meus olhos estão olhando De muito longe, de muito longe, Das infinitas distâncias Dos abismos interiores. Meus olhos estão a olhar do extremo longínquo Para você que está diante de mim. Se eu estendesse a mão, tocaria a sua face. ACASO A inspiração irmã do vento sopra onde quer ADVERTÊNCIA É meio-dia em minha vida. Um mensageiro inesperado Vem prevenir que apresse a lida, Como se fosse anoitecer. Vento da noite, ainda é cedo! ... e nem lavrei a terra agreste. ALEGRIA Trêmula gota de orvalho presa na teia de aranha, rebrilhando como estrela. ALEGRIA DE VIVER Amo a vida. Fascina-me o mistério de existir. Quero viver a magia de cada instante, embriagar-me de alegria.
    • Que importa a nuvem no horizonte, chuva de amanhã? Hoje o sol inunda o meu dia. ALQUIMIA Nas mãos inspiradas nascem antigas palavras com novo matiz. ÂMAGO Quem bebe da fonte que jorra na encosta, não sabe do rio que a montanha guarda. A MIRAGEM NO CAMINHO Perdeu-se em nada, caminhou sozinho, a perseguir um grande sonho louco. (E a felicidade era aquele pouco que desprezou ao longo do caminho). ANOITECER Amiudam-se as partidas... Também morremos um pouco no amargor das despedidas. Cais deserto, anoitecemos enluarados de ausências. ANTES Antes que desça a noite, imprimir na retina os rostos amados, o sol
    • as cores, o céu de outono e os jardins da primavera. Inundar de sons de vozes e de música eterna os ouvidos antes que os atinja a maré do silêncio. Conquistar os pontos culminantes da vida, antes que se esgote o prazo de permanência em seu território sagrado. APLAUSO Corrida no parque O menino inválido Aplaude os atletas. A POESIA IMPOSSÍVEL Inquietação de marinheiro Que sente o mar e seu chamado... Não poder embarcar! Prisioneiro do nada, Pássaro mutilado Que a distância fascina... AQUARELA Sol de primavera. Céu azul, jardim em flor. Risos de crianças. Na pauta dos fios elétricos, uma escala de andorinhas.
    • ARAUCÁRIA Araucária, Nasci forte e altiva, Solitária. Ascendo em linha reta - Uma coluna verde-escura No verde cambiante da campina. Estendo braços hirtos e serenos. Não há na minha fronde Nem veludos quentes de folhas, Nem risos vermelhos de flores, Nem vinhos estonteantes de perfumes. Só há o odor agreste da resina E o sabor primitivo dos frutos. Espalmo a taça verde no infinito. Embalo o sono dos ninhos Ocultos em meus espinhos, Na silente nudez do meu isolamento. ARCO-ÍRIS Arco-íris no céu. Está sorrindo o menino Que há pouco chorou. AREIA Da estátua de areia, nada restará, depois da maré cheia. ATAVISMO Quando estou triste e só, e pensativa assim, É a alma dos ancestrais que sofre e chora em mim. A angústia secular de uma raça oprimida Sobe da profundeza e turva a minha vida.
    • Certo, guardo latente e difusa em meu ser, A remota lembrança dos dias amargos Que eles viveram sem a ansiada liberdade. Eu que amo tanto, tanto, os horizontes largos, Lamento não ser águia ou condor, para voar Até onde a força da asa alcance a me levar. Ante a extensão agreste e verde da campina, Não sei dizer por que, muitas vezes, senti Saudade singular da estepe que não vi. Pois, até o marulhar misterioso e sombrio Da água escura a correr seu destino de rio, Lembra, sem o querer, numa impressão falaz, O soturno Dnipró, cantado por Taras... Por isso é que eu surpreendo, em alta intensidade, Acordada em meu sangue, a tara da saudade AVESSO Seu olhar profundo olha na poça d'água e enxerga estrelas no fundo BOLA DE CRISTAL Se interrogas o passado, mente o cristal da memória para tornar-te feliz. CANÇÃO DE NINAR (para uma criança da favela) Criança, és fio d’água Triste desde a fonte, Humilde plantinha Nascida em monturo: Quanta ausência mora Nesse olhar escuro! Recosta a cabeça Na minha cantiga.
    • Deixa que te envolva, Que te beije e embale. CÂNTICO A luz do teu olhar é a estrela solitária Da noite deste amor, que é feito de silêncio. CÂNTICO DOS CÂNTICOS Mar ignorado sou, Amado meu, Mar ignorado, Ilha intocada. Meu amigo, meu irmão: -- Por que se inquieta o teu coração, A arder em zelos? Guardo meu lírio para o jardim eterno. Conservo minha lâmpada acesa. -- Como és sábio meu amado, Como és culto e inteligente! Águia entre os falcões É o meu amado entre os homens. -- Por que se inquieta o teu coração E se consome em ciúmes? Su’alma beijou a minha Num longo olhar de amor. Gravei seus olhos em meu coração. A eternidade teceu entre nós Sua tênue trama de ouro. Quem poderá separar Su’alma da minha? Meu amigo, meu irmão: -- Por que se inquieta o teu coração?
    • Meu amado é como um pinheiro Na outra margem do rio. De longe lhe envio minhas canções Banhadas de lua cheia. E meu amor é lua, é pássaro e canção. -- Por que se inquieta o teu coração? Os poemas abaixo são de alguns meses mais tarde: Quando leio teu nome bóiam as letras nas minhas lágrimas. Mendiga, busco o vestígio de teu olhar nos olhos que te fitaram. Quando leio teu nome as letras cintilam, tremem: estrelas boiando em lágrimas. CARROÇA DE TOLDA Cedo a carroça já vai na estrada. Vai a parelha bem ajaezada: Franja de guizos pela testada... Cantam os guizos na madrugada. Parece, a tolda, lenço de lona. De lenço branco vai a colona. Pelo arvoredo, há uma neblina,
    • que é um alvo lenço de musselina. Rosto curtido, mão calejada, guia a colona lenta e calada. Geme a carroça, tão carregada! Cantam os guizos na madrugada... CHAMA Chama do Absoluto, arde o verbo em nossa lâmpada humilde. CIRCUITO Os olhos que mergulham no poema completam o circuito da poesia. DEPOIS Será sempre agora. Viajarei pelas galáxias universo afora. DISTANTE Hoje a vida é uma longa despedida não me pergunte por mim já não estou mais aqui. DOM Deus dá a todos uma estrela. Uns fazem da estrela um sol. Outros nem conseguem vê-la.
    • ELOGIO DO POETA Quando os homens viram os olhos do poeta, Acharam em sua luz a luz do próprio olhar E no seu sonho o próprio sonho refletido. No ritmo de seu verso, então, reconheceram A canção que cantariam, se soubessem cantar. EPIGRAMA No círculo esotérico dos novíssimos, múmia não tem vez. ESPELHISMO Olhou numa poça d'água e viu a mão estendida. Alongou a própria destra, num impulso de acolhida Mas, a mão tocou em nada Era, apenas, refletida no espelho da água parada, a sua mão estendida. EXILADOS Ensimesmados, olham a vida como exilados fitando o mar. Não estão no mundo como quem o habita. Estão de visita num planeta estranho. FELICIDADE Os olhos do amado Esqueceram-se nos teus,
    • Perdidos em sonho. FIM DE JORNADA Caminhar ao encontro da noite. Como o camponês regressa ao lar. Após um longo dia de verão. Sem pressa ou cuidado. Na tarde ouro e cinza. Sozinho entre os campos lavrados. E as colinas distantes. Caminhar, ao encontro da noite. Sem pressa ou cuidado. A noite é somente uma pausa de sombra. Entre um dia e outro dia. FIO D´ÁGUA ‖Não quero ser o grande rio caudaloso Que figura nos mapas. Quero ser o cristalino fio d’água Que canta e murmura na mata silenciosa.‖ FLAMA Na flama divina que em nós resplandece, palpita a alegria de ser para sempre. FLECHA DE SOL A flecha de sol pinta estrelas na vidraça. Despede-se o dia. FUGITIVO INSTANTE Captar os seres
    • em seu fugitivo instante de beleza. GRAFITE Meu nome, desenho a giz no muro de tempo. Choveu, sumiu. IDADE A morte desgoverna a vida. Hoje sou mais velha que meu pai. IDENTIFICAÇÃO Eu me diluí na alma imprecisa das coisas. Rolei com a Terra pela órbita do infinito, Jorrei das nuvens com a torrente das chuvas E percorri o espaço no sopro do vento; Marulhei na corrente inquietadora dos rios, Penetrei a mudez milenária das montanhas; Desci ao vácuo silencioso dos abismos; Circulei na seiva das plantas, Ardi no olhar das feras, Palpitei nas asas das pombas; Fui sublime n’alma do homem bom E desprezível no coração do mesquinho; Inebriei-me da alegria do venturoso; E deslizei dolorosamente na lágrima do infeliz. Nada encontrei mais doloroso, Mais eloquente, Mais glorioso Do que a tragédia cotidiana Escrita em cada vida humana.
    • ILHAS Somos ilhas no mar desconhecido. O grande mar nos une e nos separa. Fala de longe o aceno leve das palmeiras. Mensagens se alongam nas líquidas veredas. Cada penhasco é tão sozinho e diferente! Ninguém consegue partilhar a solidão. Ilhas no grande mar, aprisionadas. Apenas o perfil das outras ilhas, vemos. Só Deus conhece nossa exata dimensão. ILUMINURA Um ―H‖ em ouro e púrpura. Iluminura de sonho No missal do coração. INFÂNCIA Aquelas tardes de Três Barras, Plenas de sol e de cigarras! Quando eu ficava horas perdidas Olhando a faina das formigas Que iam e vinham pelos carreiros, No áspero tronco dos pessegueiros. A chuva-de-ouro Era um tesouro, Quando floria. De áureas abelhas Toda zumbia. Alfombra flava O chão cobria... O cão travesso, de nome eslavo, Era um amigo, quase um escravo.
    • Merenda agreste: Leite crioulo, Pão feito em casa, Com mel dourado, Cheirando a favo. Ao lusco-fusco, quanta alegria! A meninada toda acorria Para cantar, no imenso terreiro: ―Mais bom dia, Vossa Senhoria‖... ―Bom barqueiro! Bom barqueiro...‖ Soava a canção pelo povoado inteiro E a própria lua cirandava e ria. Se a tarde de domingo era tranquila, Saía-se a flanar, em pleno sol, No campo, recendente a camomila. Alegria de correr até cair, Rolar na relva como potro novo E quase sufocar, de tanto rir! No riacho claro, às segundas-feiras, Batiam roupas as lavadeiras. Também a gente lavava trapos Nas pedras lisas, nas corredeiras; Catava limo, topava sapos (Ai, ai, que susto! Virgem Maria!) Do tempo, só se sabia Que no ano sempre existia O bom tempo das laranjas E o doce tempo dos figos... Longínqua infância... Três Barras Plena de sol e cigarras! INFÂNCIA (II) Pão feito em casa, Com mel dourado, Cheirando a favo.
    • No campo, recendente a camomila. Alegria de correr até cair. Do tempo, só se sabia Que no ano sempre existia O bom tempo das laranjas E o doce tempo dos figos... INTERCORRÊNCIA Entre o gesto e a sombra, há luz e distância e uma geometria de ângulos e planos. INVERNO No céu de cristal cintila o sol sem calor. Sopra um vento frio. Tiritam árvores nuas nos campos que a geada veste. IPÊS FLORIDOS Festa das lanternas! Os ipês se iluminaram de globos de cor-de-ouro. JORNADA Tão longa a jornada! E a gente cai, de repente, No abismo do nada. JOVEM Suporta o peso do mundo. E resiste. Protesta na praça. Contesta. Explode em aplausos.
    • Escreve recados nos muros do tempo. E assina. Compete no jogo incerto da vida. Existe. LIÇÃO A luz da lamparina dançava frente ao ícone da Santíssima Trindade. Paciente, a avó ensinava a prostrar-se em reverência, persignar-se com três dedos e rezar em língua eslava. De mãos postas, a menina fielmente repetia palavras que ela ignorava, mas Deus entendia. LIMIAR I Da soturna jornada Pelas brumosas sendas Da anestesia, Não guardei memória. Sou um pêndulo que oscila Dos limites da vida Aos limites da morte. Rubros lobos me espreitam silentes, Numa densa garoa vermelha Que lateja no ritmo da febre. Venho à tona, por segundos, E volto ao limo do sono.
    • Da sede, brota em meu sonho uma fonte: Água fria em chão de pedra. No fundo, uma alga se espreguiça E essa alga sou eu. II Luminosa alegria de olhar! De todos os lados, o apelo do verde, Da vida verde e serena. Aquele cipreste Que gesticula e dança, Acorda-me na lembrança Reminicências vegetais: Pequenino fremir de relva No dorso dos campos; Altos pinheiros imóveis; Floresta oceânica e múrmura. Festivo apelo do verde, da vida verde e serena. Ventura elementar de estar ao sol, Viva e sem dor. LOUCURA LÚCIDA Pairo, de súbito, noutra dimensão Alucina-me a poesia, loucura lúcida. LUZ DO AMOR ETERNO Raio de luz a transpassar-me, É Deus que te ama em meu amor. E te ama dum amor tão alto e tão profundo Que não quis encerrá-lo Na argila perecível deste mundo. Plasmou-me em carne, apenas Para formar o coração.
    • E foi preciso transformar em asas Os braços carinhosos. Mas no tempo imarcescível Da ressurreição, Nossas almas, Duas centelhas puras, palpitarão unidas No mesmo Eterno Amor. MANHÃ Nas flores do cardo, leve poeira de orvalho. Manhã no deserto. MAQUINOMEM O homem esposou a máquina e gerou um híbrido estranho: um cronômetro no peito e um dínamo no crânio. As hemácias de seu sangue são redondos algarismos. Crescem cactos estatísticos em seus abstratos jardins. Exato planejamento, a vida do maquinomem. Trepidam as engrenagens no esforço das realizações. Em seu íntimo ignorado, há uma estranha prisioneira, cujos gritos estremecem a metálica estrutura; há reflexos flamejantes de uma luz imponderável que perturbam a frieza do blindado maquinomem.
    • MENTIRA Mentira que as rosas Rosas são de veludo. São da roseira, os espinhos. MERGULHO Almejo mergulhar na solidão e no silêncio, para encontrar-me e despojar-me de mim, até que a Eterna Presença seja a minha plenitude. MOTIVO CIBERNÉTICO Polimultiplurimáquinas estiram os nossos nervos nos giros da exatidão. No campo vibrante de circuitos e painéis, tecniscravos apascentam rebanhos sagrados de monstros eletrônicos. NOITE Luar nos cabelos. Constelações na memória. Orvalho no olhar. OSCILAÇÃO A cada oscilar do pêndulo algo se apaga ou para nós termina. De segundo em segundo, algo germina ou para nós floresce.
    • PÂNICO Não há mais lugar no mundo. Não há mais lugar. Aranhas do medo fiam ciladas no escuro Nos longes, pesam tormentas. Rolam soturnos ribombos. Súbito, precipita-se nos desfiladeiros a vida em pânico. PELOS BAIRROS ESQUECIDOS Pelos bairros esquecidos, tantos passos, tantos risos, tantos sonhos perdidos! PIRILAMPEJO O sapo engoliu a estrelinha que piscava no escuro do brejo. Ficou mais sombria a noite sem o seu pirilampejo. POESIA MÍNIMA Pintou estrelas no muro e teve o céu ao alcance das mãos. POETA O poeta nasce no poema, inventa-se em palavras.
    • PRECE Concede-me, Senhor, a graça de ser boa, De ser o coração singelo que perdoa, A solícita mão que espalha, sem medidas, Estrelas pela noite escura de outras vidas E tira d’alma alheia o espinho que magoa. PRISÃO Puseste a gaiola Suspensa dum ramo em flor, Num dia de sol. QUAL? Damos nomes aos astros… Qual será nosso nome nas estrelas distantes? REPUXO ILUMINADO Em líquidos caules, irisadas flores d'água cintilam ao sol. REPUXO ILUMINADO (II) Em hastes de cristal, Irisadas flores d’água Crescem efêmeras RESSONÂNCIA Bate breve o gongo. Na amplidão do templo ecoa o som lento e longo. RETRATO ANTIGO Quem é essa que me olha
    • de tão longe, com olhos que foram meus? SABEDORIA Tudo o tempo leva... A própria vida não dura. Com sabedoria, colhe a alegria de agora para a saudade futura. SALDO Na página adolescente deste mundo em flor, sou um saldo anterior. SAUDADE Há vinte anos não ponho nos teus olhos, numa carícia azul, o meu olhar. Nunca mais tuas mãos fortes e esguias, aquecerão as minhas. A saudade, esta aranha tecedeira, arma, de novo, o nhanduti do sonho com o mesmo fio de outrora. E a alma se enreda na trama sutil, como se fosse agora. SAUDADES Um sabiá cantou. Longe, dançou o arvoredo. Choveram saudades. SEM AVISO Sem aviso, o vento vira uma página da vida
    • SEMPRE MADRUGADA Para quem viaja ao encontro do sol, é sempre madrugada. SONHAR Sonhar é transportar-se em asas de ouro e aço Aos páramos azuis da luz e da harmonia; É ambicionar o céu; é dominar o espaço Num vôo poderoso e audaz da fantasia. Fugir ao mundo vil, tão vil que, sem cansaço, Engana, e menospreza, e zomba, e calunia; Encastelar-se, enfim, no deslumbrante Paço De um sonho puro e bom, de paz e de alegria. É ver no lago um mar, nas nuvens um castelo, Na luz de um pirilampo um sol pequeno e belo; É alçar constantemente o olhar ao céu profundo. Sonhar é ter um grande ideal na inglória lida: Tão grande que não cabe inteiro nesta vida, Tão puro que não vive em plagas deste mundo. TEMPO Cai a areia da vida Na ampulheta da morte. TERNURA-MENINA Saudade, ternura-menina, lua cheia sobre o mar. Navego no seu quebranto, sem vontade de voltar. TRANSEUNTES Transeuntes da vida provisória: que rumor de asas eternas para além das fronteiras e dos símbolos!
    • ÚLTIMO Vôo solitário na fímbria da noite em busca do pouso distante. VIGILÂNCIA O que vigia e reprime, passa por baixo do pano e salta na arena do circo... VIGÍLIA A noite é profunda, Silente e de trevas. Ao lado de teu corpo, imóvel e sereno, Estou a contemplar-te, Pai. Por estranhos caminhos, Cheios de neblina, Anda minh’alma soluçante, A clamar por ti. Teus olhos fitam muito longe Um olhar imensamente triste. A chama dos círios dança sem cessar Em tuas pupilas mortas, Tentando desviar tua mirada De um ponto fixo na eternidade. Círio recôndito, Arde meu coração e se consome. Há longos espinhos aguçados Esgarçando meus nervos sensíveis. Beijo tuas mãos pálidas e tristes, Humildes mãos cansadas,
    • Agora consteladas Por líquidos brilhantes. Por estranhos caminhos, Cheios de neblina, Anda minh’alma soluçante, A clamar por ti. VITÓRIA ÍNTIMA Como a penumbra da noite, A meditação desceu em seu olhar E acendeu dentro de mim a lâmpada serena. VÔO CEGO Em vôo cego, singro o nevoeiro. Onde o radar que me guie? Perco-me em labirintos interiores. Que mistérios defendem tantas portas seladas? Quem me cifrou em enigmas? VOZ DA NOITE O sol se apaga. De mansinho, a sombra cresce. A voz da noite diz, baixinho: esquece... esquece... HAIKAIS Arco-íris no céu. Está sorrindo o menino que há pouco chorou. Corrida no parque.
    • O menino inválido aplaude os atletas. Nas flores do cardo, leve poeira de orvalho. Manhã no deserto. O brilho da lâmpada, no interior da morada, empalidece as estrelas. A morte desgoverna a vida. Hoje sou mais velha que meu pai. Fontes: Poesias escolhidas‖ Vida Breve, 1964) A Sombra no Rio, 1951) Ontem Agora, 1991) (Helena Kolody, in Poesia Mínima, 1986) (Helena Kolody, in Sempre Palavra, 1985) ( in Paisagem Interior, 1941) ( Infinito Presente, 1980) (Helena Kolody, in Tempo, 1970) Viagem no Espelho, de Helena Kolody.) (in Sinfonia da Vida) http://dvetextos.blogspot.com.br/2009/01/poemas-inditos-de-helenakolody.html
    • . HELENA COM A PALAVRA Em 11 de agosto de 1986, Helena Kolody participou do projeto ―Um Escritor na Biblioteca‖, criado naquele ano. Helena falou sobre poesia, processo criativo, leitura e assuntos relacionados à literatura. A conversa, que teve a participação, entre outros, de Paulo Leminski e Alice Ruiz, foi transcrita e publicada em livro. O Jornal Cândido publica, a seguir, alguns dos principais momentos do encontro. O que é poesia? A respeito de poesia, eu poderia citar o que Camões, que disse a propósito do amor: ―é um não sei quê, que nasce não sei onde, vem não sei como...‖ Eu nunca sei o que vou escrever, nem quando, nem como. Quando termino um livro, tenho a impressão de que nunca mais vou escrever. Quando menos espero e, nas ocasiões mais imprevistas, começo a sonhar palavras. Outro dia, estava fazendo o almoço, cozinhar também é uma arte, e assaltou-me um poema. Talvez, porque eu estivesse muito preocupada com o novo livro, pronto, para o prelo. Nunca estou satisfeita com o que escrevo. Quanto mais envelheço, mais aumenta o meu descontentamento. Sempre penso: será que não chegou a hora de parar? Difícil saber quando se deve parar de escrever. Síntese Talvez a poesia de hoje solicite mais a cooperação do leitor. Antigamente, o que eu escrevia era reflexo da realidade. Depois, aprendi que o poema cria sua própria realidade, diferente da realidade prática, embora esta seja a base do poema. Não sei por que alguns acham minha poesia
    • de agora mais difícil. Ela não é hermética; é até muito clara. Só é mais sintética, mais essencial. Eu e os outros Tema e forma não podem ser separados, são como a alma e o corpo de um ser. Há dois tipos de temas em minha poesia: os que refletem meu próprio eu, confessionais; e os que mostram minha preocupação com os outros e com os problemas do mundo. Ou seja, temas do eu íntimo e do eu social. Uso muito imagens, metáforas, símbolos tirados da paisagem. Sou uma enamorada da beleza do mundo que me cerca. Vício e leitura Creio que uma das características do poeta é essa paixão pela palavra e pela leitura. A leitura amplia nossos horizontes, enriquece nossa arte. É preciso ler, ler e ler. Não só criar o hábito da leitura, mas o vício da leitura, porque o vício é uma necessidade imperiosa, um hábito compulsivo. Desde criança, cultivei o hábito de ler. No próprio Grupo Escolar Barão de Antonina, em Rio Negro, havia uma pequena biblioteca à disposição dos alunos. O estudante retirava o livro e levava para ler em casa. Li toda uma coleção que apresentava as grandes lendas da humanidade, trocadas em miúdos, para as crianças. Livros de papel acetinado, ilustrados com sugestivas policromias. A apresentação do livro é importante porque apura o senso estético da criança. Aqueles lindos livros de meu tempo de criança não só desenvolveram meu amor pela palavra, mas cultivaram meu amor pela beleza. Imaginação Ler é um exercício de imaginação. E uma imaginação muito viva é outra característica do poeta e do artista em geral. Ela é nosso poder criador; a capacidade de sonhar e de inventar, que precisa ser exercitada. Principalmente hoje, uma época tão tecnológica, em que a tônica de nossa atividade é o raciocínio. Por isso, hoje, mais que nunca, a arte, que se estriba na imaginação, é tão importante. Fico feliz quando vejo tanta gente escrevendo, pintando, esculpindo, compondo, cantando, cultivando as mais diversas modalidades da arte.
    • Frutos do tempo Tão importante como o hábito de ler, é o hábito de conversar. Nasce-se poeta, como se nasce pintor ou músico. Mas o ambiente em que o artista se desenvolve, o diálogo que ele tem com os outros, estimula e aprimora a sua expressão. O poeta precisa testar o que escreve na sensibilidade do outro, e se animar a escrever quando conversa sobre literatura com os que também escrevem. Somos, até certo ponto, frutos de nossa época. Mudam os tempos, muda a poesia. Nestes nossos tempos novos, os poetas moços estão criando poesia. Tudo já foi feito, tudo já foi dito, mesmo dentro da poesia moderna. Por isso, o artista de talento inova e renova. O Paulo Leminski, por exemplo, está criando uma poesia diferente, só dele. Ele desintegra as palavras, cria termos novos, desmancha a própria lógica e inventa uma nova, só de seu poema. Para todos É importante que todo mundo escreva. Mesmo os mais fracos se enriquecem com a experiência. E o tempo se encarrega de fazer a seleção. Há também um outro fator positivo: os pequenos servem de medida de avaliação para o talento dos grandes. Os menores ficam apegados aos padrinhos de uma escola literária, ao passo que os maiores alçam voos altos e independentes. Aqueles só dizem o óbvio. Estes transcendem o assunto e a linguagem usual. Conhecimento O candidato a ―feiticeiro inventor‖ deve ter algum conhecimento da técnica das diversas formas de poesia. Como pode avaliar um soneto, por exemplo, se não tem nenhum conhecimento de métrica e de rima? Assim, também, o pintor precisa conhecer desenho, perspectiva, a disposição das figuras na tela, a significação dos espaços, a vibração das cores, para depois lançar, com ―engenho e arte‖, duas ou três manchas magistrais na tela. Utilidade da arte Para que serve a arte? Não serve. Não tem uma utilidade pública, nem razão de ser. Pode-se dizer que nasce
    • de uma sem-razão. A arte não persegue outro fim que não seja a sua própria realização, é tão indiferente à preocupação utilitária, tão avessa ao aspecto econômico, que sei de pintores que se recusam a vender seus quadros. Vocês não acham que parece um sacrilégio o autor vender seu livro? No entanto, precisa vendê-lo. Poesia na prosa Algumas páginas em prosa têm mais poesia do que um livro inteiro de certos poetas. Guimarães Rosa, por exemplo. Sagarana é pura poesia. Mesmo em Grande sertão: veredas há trechos políticos, nos quais até as frases têm ritmo e rimas internas. Creio que há poesia em tudo aquilo que nos proporciona uma emoção de beleza: poema, prosa, quadro, música. Arte solitária Eu mesma burilo o poema: suprimo, troco, altero. Se algum de vocês escreve, nunca deixe que os outros troquem ou incluam palavras em seu poema. Pode alguém dizer se ele está bom, ou não está; pode sugerir modificações. Você mesmo faça as alterações, porque seu instrumento de trabalho é a palavra. A palavra nasce da gente, uma vivência pessoal. A que você usa é muito diferente da que outro usa. Se ele coloca uma palavra no seu trabalho, esta fica sendo uma intrusa, uma pedra estranha na sua construção. Quando pedem a minha opinião, posso dar sugestões; mexer no poema, Deus me livre! As palavras do poema são como o sangue e a alma do autor. Inesperado A poesia, para mim, é como uma visita inesperada. Nunca sei como, nem quando vai chegar. Começo a sonhar palavras. Depois, não sei se está bom, ou se está fraco, onde falhou. Preciso da opinião daqueles que considero. O sonho sempre é mais bonito do que as palavras. Fonte: Jornal Cândido. Curitiba: Jornal da Biblioteca Pública do Paraná. n.15. outubro de 2012. Especial de Capa. Helena na Biblioteca
    • Lucas Rufino NA INTIMIDADE DA POETA artigo de Lucas Rufino para O Jornal Candido, da Biblioteca Pública do Paraná Considerada a grande dama da poesia paranaense, Helena Kolody não foi poeta por vocação: a poesia a procurava. Olga Kolody, 97 anos, lembra como eram esses momentos em que a poesia visitava a irmã. ―A inspiração assaltava ela. Não tinha hora nem local, ela sempre carregava ou deixava espalhados bloquinhos e canetas pela casa, fosse na sala, no quarto ou na biblioteca. Várias vezes eu estava deitada na cama e percebia a Helena acordar, acender a luz e escrever alguma coisa na sua escrivaninha‖, conta Olga. Sua vocação era ensinar. Helena foi professora de Biologia e dizia que amava todos os seres vivos. Mas, uma curiosidade: a poeta, que ―sonhava palavras‖, nunca enveredou pelo ensino da literatura. Lecionou durante 25 anos nas cidades paranaenses de Ponta Grossa, Jacarezinho e Curitiba. Em 1947 prestou concurso público para o cargo de Inspetora Federal de Ensino Secundário, ficou na quarta colocação e assumiu a função em 1950. Diva Torres, colega de trabalho daquela época, a considerava uma excelente profissional. Generosa, tinha a sabedoria necessária para aconselhar e orientar tanto os alunos, como os colegas de trabalho. ―Uma vez, disse a ela que havia um aluno que ninguém conseguia dar jeito, e Helena me aconselhou a trazer o aluno para próximo de mim. No dia seguinte, tornei ele o meu secretário, para o espanto de toda a turma. A partir daquele dia, o rapaz se tornou um dos melhores alunos‖, conta a amiga. Helena Kolody nasceu em Cruz Machado. Filha de imigrantes ucranianos, aprendeu o português nas escolas por onde estudou. Já o idioma materno, ucraniano, foi aprendido em casa, com os pais. Filha mais velha de seis
    • irmãos, três mulheres e três homens — dois falecidos ainda bebês —, Helena, conta a irmã Olga, parecia ter um dom especial que a diferenciava dos outros irmãos. ―Helena era a mais inteligente, não que fôssemos burros ou tivéssemos algum problema, mas ela tinha uma facilidade maior para aprender as coisas‖, diz. Ainda na infância, Helena aprendeu a pintar, bordar e tocar piano. Adorava música, tinha discos de todas as orquestras famosas, mas gostava mesmo era de ouvir música clássica. ―A Helena tocava piano muito bem. Adorava tocar Chopin e Beethoven‖, relata a irmã. Regina Kolody, sobrinha da poeta, ainda guarda com carinho alguns presentes da tia. ―Helena era muito caprichosa em tudo que fazia, até hoje tenho guardado panos bordados que ela fez pra mim e um livro de receitas, todo escrito a mão por ela.‖ Outra grande paixão da infância, levada por toda a vida, foi a leitura. Organizada e caprichosa com os seus livros, nas estantes as obras eram separadas por tema, nunca estavam misturadas. Lia sobre tudo, gostava de dicionários e tinha enciclopédias que, antes do advento da internet, eram a tábua de salvação para qualquer pesquisa. Diferentemente de Adélia Prado, que vive entre bolinhos de chuva e versos, Helena não foi excelente cozinheira: fazia apenas o básico para o seu cotidiano, mas adorava doces. É comum ouvir relatos de amigos sobre o famoso cálice de licor que a poeta servia aos visitantes de seu apartamento, que, entre tantos jovens em busca de conselhos, recebeu Wilson Bueno e Paulo Leminski, escritores que despontariam no cenário literário nacional. ―Lembro que quando íamos para Curitiba, era comum chegarmos e ter algum doce na casa da tia Helena, caso contrário ela nos levava à Confeitaria das Famílias ou à Schaffer‖, relembra Lígia, outra sobrinha da poeta, referindo-se a duas confeitarias tradicionais da Curitiba de Helena. Apaixonada pela natureza, a poeta adorava viajar para a praia. Teve uma casa no balneário de Capri, em São Francisco do Sul (SC). Com o passar dos anos, o custo de manutenção da casa e a instalação de um Terminal Marítimo da Petrobras, que destruiu parte da natureza do local, fez com que Helena, juntamente com as irmãs, vendesse a casa.
    • Sem casa na praia, a poeta passa a frequentar a sede da Associação dos Servidores Públicos do Paraná, em Caiobá. ―Ficávamos sempre nos mesmo quartos, eu no quarto 6 e a Helena no quarto 9. Eu gostava de fazer as minhas coisas, sair, passear. Já a Helena era mais reservada, tímida, preferia ficar no seu canto observando a natureza e lendo‖, diz a irmã Olga. Um anjo exilado na terra ―Ela era uma pessoa de personalidade forte, muito crítica com ela mesmo, mas doce e atenciosa com os outros‖, relata Adélia Maria Woellner, poeta e amiga de Helena. Como a maioria das famílias de descendentes de ucranianos e poloneses, a religião sempre esteve presente na casa dos Kolody, fato que refletiu diretamente na vida e na obra da poeta. Educada em escolas de influência religiosa, Helena frequentava a missa da igreja Bom Jesus, na praça Rui Barbosa, no centro de Curitiba. Seu poema ―Prece‖ recebeu o ―Imprimatur‖ da igreja, podendo ser lido como uma oração e está emoldurado em um quadro no corredor do apartamento em que viveu. A honraria da igreja, para Olga, demonstra que a irmã era ―uma pessoa mística, iluminada‖. Diva Torres revela que certa vez, ao ter um problema com determinada pessoa, uma amiga recomendou a Helena que se vingasse, ao que a poeta respondeu: “É preferível a gente chorar a fazer os outros chorarem‖. Depois de décadas lecionando, Helena viveu de duas aposentadorias e pouco se importava com questões práticas envolvendo dinheiro, como era o caso dos direitos autoriais de suas obras. ―Só peço alguns exemplares para poder guardar comigo e distribuir para os parentes‖, dizia a poeta. Helena aceitava tudo que a vida lhe oferecia, mas ficou sem realizar um dos seus maiores sonhos: casar e ter filhos. Foi noiva durante dois meses, mas acabou não casando. No entanto, não guardou qualquer tipo de mágoa ou ressentimento. Costumava dizer que seus alunos eram os seus filhos. Fato comprovado pela legião de ex-alunos que frequentou o apartamento da poeta ao longo dos anos até o seu falecimento, em fevereiro de 2004. Fonte: Jornal Cândido. Curitiba: Jornal da Biblioteca Pública do Paraná. n.15. out de 2012.
    • POETAS PARANAENSES Adélia Maria Woellner Comemoração Nos cadernos do tempo, desenhei os sinais de minh’alma. Contornos de fantasias impregnadas de loucuras, sem culpas ou desconsolos. Solto sorrisos no ar e o sol inteiro, faceiro, comemorando aniversário, vem nascer no meu olhar. Agenir Leonardo Victor Vai Ao Encontro Essa pressa é sua. Vai ao encontro sem espera Parece que tudo é tão calmo, mas não é! O mundo é um agito só. Um corre-corre interminável Chega noite e volta manhã Quantos problemas que não se acabam É bom parar para pensar! E no outro mundo, como será?
    • Espero ser bem melhor que esse! Aqui as pessoas vivem no mesmo teto, Num céu criado por Deus Mas, ainda não chegaram à conclusão Que esse teto lindo azul, nublado Ensolarado, enluarado ou estrelado Também não é seu! Alba Krishna Topan Feldman Imensidão O sol se pôs ao léu Não há estrelas no céu Não há sons... nem cheiros Não há desesperos Nem imagens Nem miragens As emoções não afloram Os sonhos desbotam-se, descoram A palavra foi dita, mas não ecoa O sino está quebrado e não soa. Não chores quando eu me for Pois não mereço tua dor Apenas conte-me uma história com o olhar E me faça parar de chorar. Não, não faça nada por mim Me deixe ficar assim Tentando ler o que está escrito Na imensidão do nada Em algum lugar do infinito.
    • Andréa Motta Despertar “É pena que esta noite sempre acabe, que a chuva forte o teto meu desabe”. Versos de Lisieux de Souza É pena que esta noite sempre acabe e acorde deste sonho de amor, e que o descaso seja o arremate, cortando o coração de tanta dor. Inda aprendo a te amar sem ilusões e me entregar à tua carnal lascívia, como se fosse, o amor, rua de u’a via, sem medo de futuras punições. Então esqueço todo o meu cansaço e as rugas que já marcam minha face. Finjo não ter o meu peito em pedaço. Deixo, assim, de ser mera coadjuvante. Nesta vereda não haverá noite que a chuva forte o teto meu desabe. André Carneiro Palavra Por Palavra A palavra sai do hospício de madrugada e aprende tudo de novo.
    • Anjos mudos costuram asas, o homem confere sua bomba nesta idade média dura e obscura. A escola desce cortinas nas pálpebras, chaminés mastigam cidades. Deus fez o mundo com displicência. As nuvens lembram do fato, se transformam em chuva e voltam, úmida diversão além do orgasmo, a morte e a explosão do universo. Ceres De Ferrante Credo ao Homem Segue, não há razão para parar. Há mais caminhos a percorrer. Indômita é a vontade dos que acreditam
    • no hoje e no amanhã. Segue, há uma força maior guiando teus passos, por isso vencerás o espaço e encontrarás novos mundos em outras galáxias ou dentro de ti mesmo. Clara Andrade Miranda de Araújo Estrangeirismo Pobre do nosso idioma Que o estrangeirismo assola Pra se falar hoje em dia Na língua é preciso mola Estar bem na vida é o must O habitat é um flat Onde o chic é ter um site Relax na internet. My Darling tem mais um hobby Diz o brother da society Em weekend no Blue Moon Com Sunday e soda light Ganhei charm e new look Usando training de stretch Se o stress te deixa down Vá comer chips ou fresh No window uma homepage E um fax modem na house Para convidar pro new age É só clicar o seu mouse
    • I love you para o baby I’m sorry, como dói, Recado só por e-mail, Ou pelo Office boy Playback num happy end En passant com champignon Ticket num happy hour Champagne no reveillon O baby look dá o tom Antigo é o pullover Na rua tem dance street Cantor da moda é um cover Special é uma star Que usa babouche ou um Nike O fashion é o black tie Desconfiou é insight Bye bye que eu vou pros States Trabalhar num workshop Na bag só um Rocaille De cotton blue levo um top Talvez eu vire uma lady Ou uma star superpop. Dario Vellozo Flor de Cacto Vens do Azul, da Quimera, alma de olhos sidéreos, Que a minha alma de asceta aos paramos eleva E à minha viuvez de mágoas e mistérios Abre as aras do Além para o ofício da treva. E eu bendigo, e sigo o teu corpo de Sombra, Peito de névoa e luz; névoa das louras tranças,
    • Luz do olhar, desse olhar, deliciosa alfombra, Calvário e serial de minhas esperanças. Ilusões são punhais. Cada ilusão que aflora A penumbra de um sonho, alma de olhos sidéreos, Leva o espectro da cruz às flâmulas da Aurora Cruz do Além, cruz feral, de mágoas e mistérios. A carícia cruel de teu seio fremente Abre as asas do Além pra o ofício da Treva, E eu te digo. E a minha alma, ajoelhada, sente Que a tua alma de morta ao passado nos leva… Florisbela Margonar Durante Luzes A cidade dorme e do alto do meu edifício observo o silêncio escorrer pelas ruas e se perder no lusco-fusco de luzes que rompe a escuridão. Também a luz do seu olhar se projeta no espaço e como um facho de estrelas ilumina as trevas que anoitecem meu coração. Helena B. Bório Trindade Resignação Minha alma velha, cansada, teimosa e acomodada
    • criou na terra raiz e fez sem medo o que quis. Minha alma velha, cansada, chora baixinho, calada, a dor de ser infeliz e seu destino bendiz. Minha alma velha, ermitã,] Sacerdotisa pagã. Bruxa, pajé, feiticeira... Minha alma velha, experiente, solitária e indiferente aceita o carma, altaneira. Hélio Azevedo de Castro Hipocondria (Verborrágica) Caquético, apoplético, apático. Sorumbático, asmático, senil. Paraplégico, morfético e errático. O numismático está menos viril. Sendo hemofílico, logo está hemorrágico. Faz-se iminente a transfusão. Porém, Não existe um doador. É trágico! Com o seu RH não há ninguém. Soropositivo, anêmico e esquálido. É sintomático o tumor pancreático. Câncer prostático e forte dispnéia. Ainda assim, combalido e pálido. Arranja forças e pede ao esculápio: - Um comprimido para a minha cefaléia!
    • Horácio Ferreira Portella Risonho Nascimento Piraquara Dourado, o sol desponta no horizonte, a dissipar das brumas a cortina. Ouve-se o manso murmurar da fonte, que desce pela encosta da colina, disseminando seu poder planctonte na verdejante mata e na campina, para ensejar que a Vida assim desponte em plenitude mágica, Divina. As borboletas colorindo a festa. As flores espargindo seu perfume. Os pássaros em mística seresta, após o parto, que a Natura espera por nove meses para dar a lume a deslumbrante filha: Primavera! Isabel Furini Perspectiva Uma fileira de velas sobre a aba do chapéu de Van Gogh, queimando sonhos na noite turbulenta. As cores vibram (quase fogo incandescente)
    • de perto ofuscam a lógica - perdem-se no mundo subterrâneo os contornos que falam à razão. De longe – formas e cores poetizam o mundo. Ivo De Angelis Três Quadras De lânguida flor, que murchasse o suave perfume, dolente, é qual a saudade que nasce, quando morre o sonho na gente. Nada transpassa a ferida de um coração que padece, como a lembrança perdida, que cai de dentro da prece. Mostra teu brilho e fulgor, ao mundo que te fascina, e nutre o teu esplendor, na mágoa que me domina. Janske Neimann Schelenker Tristeza A tristeza, que é música, a tristeza, que não se diz: eu não sei se estou triste mesmo ou se sou feliz...
    • A tristeza, que é silêncio, a tristeza, que é solidão: eu não sei se está em tudo ou só na minha mão... Jeanette Monteiro De Cnop Segredo Em alguma folha do livro competente, no cartório da vida, arquive-se o acordo, como segue. Prometo : a menina curiosa, arteira e sensível que aflora, irrompe, desabrocha e explode em mim acolhe você, moleque travesso, irreverente, deliciosamente sedutor (ainda que envolto em dualidades e mistérios) para juntos caminharem sonhadoramente, em meio a castelos de nuvens branquinhas, gordas de fantasias e desejos compartilhados, em direção à porta do céu.
    • José Feldman Realidade Não somos mais que esboços desenhados por outras mãos. Olhos cegos que veem sem ver. Fantasmas do passado, assombrando o amanhã. Lázaro Marinho Dominciano A Paz de Viver Expressa um sorriso mais que lindo Nele não há amargura, nem pranto! Eis como um grande dia vem surgindo. Festivo, rebelde: com muito encanto. Pois os puros anjos estão curtindo Este teu belo viver de acalanto. E o teu grande amargor foi sumindo Ficou fora do peito: preso num canto! Sacrificando teu viver tão lindo Para do outro não ver o triste pranto, Com grande humildade vai seguindo. Vejo contigo um lindo anjo santo, Vai com a brisa teu caminho florindo. ―Que a virgem lhe ampare com seu manto
    • Letícia Volpi Divagações Atemporais Ele, Senhor do tempo, colhe flores distrai-se a sentir a respiração do jardim, cada flor cada corpo cada organismo e ainda o caule por onde corre a seiva verde de todas as hipóteses. Eu fui essa árvore. Lúcia Constantino Decisão Estranhos encontros, estranhas partidas. Hoje vendo meus móveis na casada vida. Ainda vou chorar um pouco, mas não deixarei que sujem mais o meu rosto porque já não há mais tanto sal a gastar de dentro do meu corpo
    • Lucília Alzira Trindade Decarli Celeiros da Modernidade Antigamente a sobra de tostões ia direto a cofres bem pequenos. As cédulas, guardadas nos colchões, visavam novos dias...e serenos. De cereais, lotados os galpões, sem a penhora, livres os terrenos. Nem cheques pré-datados, nem cartões... Vaidade havia, só que muito menos. Tempos modernos... Nestes, quase loucos, endividados somos – salvo poucos -, mil promoções, ofertas endeusadas... De bugigangas cheios os armários; grande aparato exposto nos ―sacrários‖ onde ―coisas‖, por nós, são adoradas!... Marcelo Sandmann Cadeira na Varanda Pendurei meu pensamento entre a avenca e a samambaia. Num galho da roseira, espetei meu coração. Sossegados,
    • enfim, meus olhos pastam a grama do jardim. Márcio Américo O Minotauro Ela tem olhos de quem viu Deus de quem perdoou pecados Ela sorri vejo lágrima entre seus dentes tentaram amputar-lhe as asas insiste em voar Sob o chuveiro ela canta sozinha sonha com castelos que nunca penetrará Ela dorme um sono angustiado sonhos recusam-se a aparecer Ela caminha num labirinto e o minotauro tá de porre Ela congelou meu sorriso e mesmo que haja calor inventa icebergs Ela fechou a porta esqueci as chaves
    • Marcos Losnak Contando os Dedos Todos os acordos entre minhas mãos fracassaram. Os dedos romperam os limites, foram onde não deviam, tocaram aquilo que não podiam. As falanges esfolaram suas dobras, afogaram suas fendas, deixaram para os ossos o trabalho sujo. A guerra brotou como sorriso, desbotou como riso, deixou pássaros sem pena, cavalos sem couro. Tudo sob uma chuva de sal e vinagre. Os braços decepados foram atirados em riachos aquarelados. Precisaram aprender a nadar antes de engatinhar sugando os seios dos ciscos das chuvas. Os acordos foram rompidos como fita de inauguração. Nenhum órgão disse nada, nenhuma célula abriu a boca. Os olhos se fecharam da manhã ao entardecer. Tudo foi perdido. Lágrimas e lamentos se tornaram um álbum de retrato. Lâmpadas e sol, coisas do passado. Nelly de Mattos Mehl Piedade Queria ser mais ousada, Com desvarios e loucura
    • Nos versos que componho, Sem perder minha doçura. Poder até blasfemar! Ranger os dentes e cantar, Roer as unhas e dançar, Chorar o meu choro e poetar: Gemido que lacrimeja Saído da alma inteira Sangrando do coração Em forma de poema e canção. Piedade por querer tanto, Odiar pelo desencanto, Orar sem acreditar, Pedir e desenganar! Ponti Pontedura A Palavra Sabe (ou) Clareiras na Escrita Invento céu chão caminho lugares a casa onde eu moro. Ninguém vem bater, que porta não há. É casa de palavras minha moradia. Imagino dia, e o sol me envia claridades. Imagino escurecer, e minha sombra enorme — maior que a noite — enche o espaço escuro. Procuro no espaço escuro o claro sentido da luz: abrir em mim clareiras na escrita. O meu punhal — sedento de sangue — penetrasse a carne da poesia plácida
    • e a ferida abrisse seu corpo carnudo. Um corte na veia da palavra sanguinea lançasse sangue na minha face e extirpasse o tempo flácido. Poema abatido, animal prostrado, vertesse seu sangue para a minha língua. Mormaço de poesia ao meio dia escalda o chão por onde passo, descalço. Passo pela palavra gasta, gasto o chão por onde passo, e gasta a palavra me corrompe. Passo pela palavra devastada, devasto a terra por onde passo, e devastada a palavra só faz ruínas. Passo pela palavra sussurro, sussurro um poema por onde passo, e sussurrada a palavra é um segredo. Ele segreda ao meu ouvido, soletra palavras silenciosas, onde se esconde o poema infinito. Tranque-se em seu segredo, guarde-se num poema oculto, esconde esta palavra esconde. Não se revela nada. À palavra dada não se abre a boca. A palavra guarda todo sentido, encerra em si o que há em mim, entra muda e sai significada.
    • Palavra calosa tem a mão pesada. Era a mão do meu pai que se estendia e pousava para o beijo da benção. Roberto Prado Buraco Negro de tudo que mais amo eu tiro o som falo o que cala fundo para que o poema, buraco negro, diga o que eu sou por mais absurdo só sobra cinema mudo daquilo que eu acho bom Roza de Oliveira Proposta Poética No dia do Poeta e da Poesia, sugiro uma sã pirataria: um ―Michelangelo‖ poético proponho, brincador, sonhador, feliz, risonho... Que, na telinha dos sofridos corações, O vírus da Poesia se propague. Que a beleza das sadias emoções
    • seja luz que nas almas não se apague. Um saber com sabor para as crianças será, com certeza, um belo meio de resgatar as suas esperanças. Sabendo que a Poesia vai jorrar paralela à Ciência... o devaneio, o reino da alegria há de instaurar! Rubens Luiz Sartori Velha Ponte Velha ponte de meu rio de infância ligaste os sonhos de amor-criança. Velha ponte de meu rio de infância, quantos sonhos que eu sonhei com ânsia. Foste ponte, de saudades quantas, Foste rio, de águas limpas, tantas. Velha ponte de meu rio de infância, quanta vida deste a tantos sonhos. Tasso da Silveira Torre Os ventos altos vindos das distâncias perdidas bateram a torre do meu corpo. Bateram a torre esguia e longa e puíram-lhe os ornamentos raros, desfiguraram-lhe a feição de beleza,
    • como o mar milenário desastou as arestas vivas dos rochedos imemoriais. Não apagaram, porém, a lâmpada solitária e serena que ardia no silêncio... e os meus olhos, rosáceas claras, abertas para a paisagem do teu ser, ficaram coando sempre o clarão suave e leve, ficaram adolescentes para sempre… Tereza Baldo A Rosa e o Cravo Ela tinha perfume de rosa E eu era o cravo dela Deus sabe o quanto amei Até serenata cantei Embaixo da sua janela Madrugada silenciosa E eu com saudades dela Ladrão não sou, eu bem sei Mas, quantas vezes forcei O trinco da sua janela Ensopado de perfume Com um cravo na lapela Certa noite me arrisquei Com voz mansa lhe chamei Mas, quem veio foi o pai dela
    • Vidal Idony Stockler Imaginável Lindezas do entardecer O sol perdendo o vigor Apara a noite aparecer Com lua e estrelas em flor! Envolvida de emoções Vem a aurora, um esplendor! Nos trinados, nas canções... Volta o dia! É revigor! Permanece a natureza Com as festas de beleza São relíquias do Senhor. Em composição adorável E feitura imaginável Do Deus Santo, o Criador! FONTES Alba Krishna Topan Feldman & José Feldman. Cavalgada de Sonhos. 2009. André Carneiro. Quânticos da Incerteza. Atibaia/SP: Redijo, 2007. Antonio Miranda. http://www.antoniomiranda.com.br Apollo Taborda França (editor). Boletim Cultural n. 86. Curitiba. setembro de 2011. Isabel Florinda Furini. Os Corvos de Van Gogh. Pará de Minas/MG: VirtualBooks, 2012. Jeanette Monteiro DeCnopp. Tecelã de textos. Maringá: Massoni, 2004. Jorge Fregadolli (editor). Revista Tradição n. 325. Maringá. Janeiro 2010. Jorge Fregadolli (editor). Revista Tradição n. 341. Maringá. Maio 2011. Maria Lúcia Siqueira. Asas ao Anoitecer. Curitiba: M. L. Siqueira, 2004. Revista do Centro de Letras do Paraná. N. 53. Agosto 2009. Ricardo Silveira Fingolo. Jornal Maringaense. N. 106. Maringá. Set-dez de 2006. Rubens Luiz Sartori (org.) Compêndio da Academia Mourãoense de Letras. Campo Mourão: UNESPAR/FECILCAM, 2004.
    • NOTA A Revista Virtual de Poesia do Paraná tem por objetivo propagar os poetas paranaenses e suas poesias, nascidos ou radicados no Estado. Esta revista não pode ser comercializada em hipótese alguma. Respeite os Direitos Autorais. A utilização de seu conteúdo é livre, desde que mencionada a fonte. EDITORAÇÃO Seleção, Organização, Pesquisa, Formatação e editoria: José Feldman Maringá/PR – março 2013. Contatos: e-mail: pavilhaoliterario@gmail.com Rua Vereador Arlindo Planas, 901 casa A Cep. 87080-330 – Zona 6 - Maringá PR Pavilhão Literário Singrando Horizontes http://www.singrandohorizontes.blogspot.com.br Trovas, Trovadores Concursos Literários Mensagens Poéticas de Ademar Macedo Contos, Cronicas, Haicais, Folclore, Dicas, Artigos, notícias, etc. Receba as postagens na íntegra diariamente em seu email. Cadastre-se no site. Participe colaborando com textos de sua autoria. e-mail: pavilhaoliterario@gmail.com