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Husserl, husserl. meditações cartesianas
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  • 1. Edmund Husserl ~ MEOITAÇOES CARTESIANAS lNTROOUÇÃO- À FENOMENOLOGIA Tradução: Frank de ()liveira SBD-FFLCH-lISP 1111111 11111 1111111111111111111111111111 ~~ 278408 ~~~~~ 1'~1iQ .......­ MAI)RAS
  • 2. y ,-""' 200 I , Madras Editora Ltda. ..itor: agner Veneziani Costa oordenador: of. Df. Márcio Pugliesi rofessor dos cursos de Pós-graduação em Direi to na Pontifícia Universi­ de Católica de São Paul o, Bacharel e Licenciado em Filosofia pela Univer­ <.lade de São Paulo ;'adução: rank de Oliveira apa: quipe Técnica Madras rodução: et-up Time Artes Gráficas uso'ação da Capa: enala Guedes Pacces ,evisão: ilson Ryoji abel Ribeiro SBN 85-7374-416-2 'roibida a reprodução towl ou p<lrc j~ll desta o bra. de qualquer forma ou por lualqucr meio eletrônico. mec5nico. inclu sive por lllCj() dc processos xero­ ~ráficos, sem permissão expressa do editor (Lei n~ 9.ú 10, de 19298). ~od os os direitos desta ed ição, reservados pela •.t'~...~ {~1.t. ~~ ; MADR;S EDITORA LTDA. e;':~/' . .; ~c=:,:·~~·,~'~v Rua P"ulo Gonçalves. 88 - Sanlana 024()~-() :' () - .são P~LI10 - Sp Cai x" l'()"t~il I221)) _ . - CEP 0209S-970 SP Te!.: (0__ I I) (,951).1) 27 - Fax: (0_ _ 11 ) ó959.3090 wVw.!lladra!->.l:nl n.!lr DEDALUS - Acervo - FFLCH-HI 1111111,11111 ~1I1111~11I1IIIIIIIIIIIIII~~ll111111~I~11111111 21200051764 PREFÁCIO ........ ............... ............................................. . . ......... 9 INTRODUÇÃO .............................. ............................. ... 19 I. As lv!editações de Descartes - protótipo da reflexão fil osófica voltada para o "eu" ................. ................. ........... 19 2.· Necessidade de um recomeço radical em filosofia ............. . 21 PRIMEIRA MEDITAÇÃO RUMO AO EGO TRANSCENDENTAL ~ J. A revolução cartesiana e a idéia-fim de um fundamento absoluto do conhecime ~ tGl ....._;.................. ......... ..... ........ 25 4. Revelação do sentido fin·a~~~c'ítncia pelo esforço de "vi - vê-Ia" como fenômeno noemático ............. ............. . 27 5. A evidência e a idéia de ciência verdadeira ........... 29 6. Diferenciações da evidência. A exigência filosófica ~Ie uma evidência apodíctica e primeira em si ...,............... . ...... 32 7. A evidência da existência do mundo não é apodíctic,l: "lia inclusão na revolução cartesiana ................. .... ... ..... ... 34 8. O ego cogito como subjetiviclade tran sce ndenta l . ...... ..... . 36 9 Alcance da evidéncia apodíctica cio eu S01f ...... 39 10. Digressão. Como f~dtou a Descartes a orientação tran s­ cendental ....... .... ... .......... ................................ .. 41 5
  • 3. 7NIcditnrrJrs Ctf1"tt:.~irmns Sumário I. O eu ps icológico e o eu transce nd e nt nl. A. tr<lnscen- QUARTA MEDITAÇÃO dência do mundo .......... ....... ... .. . 42 30. Os pr0 9~ma s constitutivos do r róprio "ego"transcen- . dental (-;:;...,C..L,J/ ..~ !rW !.~.~~ .:~:..c. • A...1-.1.'.i.'.t-(~..!.:.L.Lt."::..~!~.:::li 81 EGUNDA MEDITAÇÃO 31. O eu como pólo Idêntico dos "estados vividos" ...... ........ ..... 82 )CAMPO DE EXPERIÊNCIA TRANSCENDENTAL E SUAS ESTRUTU­ 32. O eu, s ubstrato dos habitus ............ .............. ............... ... ... 82 RA~ERA1S 33. A plenitude completa do eu como mônada e o problema 2. Idéia (ji!~ m fundamento transcende ntal do conhecimento .... 45 de sua autoconstituição ............... ................... ........ .. .. .......... 84 3. Da necessidade de excluir provisoriame nte os problemas 34. A elaboração dos princípios do m~J~do fenom enológ ico. relativos ao alcance do conhecimento transcendental ....... .. 47 A análise tran scendental comcfeY'd'êTica ............................... 8 5 4. A 4sh~~1e das cogitaTiones Cogito e cogiraTwn ..... ........ 49 35. Digressão nó campo da psicologia intel'l1a eidét·ica ........ ..... . 89 S. Reflexão natura l e refle xão transcendental........................ 51 ~"' '-' ~"'..... ""J' .v~'V"'~ " 36. O ego transcendental, U+H.:óefse uas Iormas posslvels de 6. Digressão. Necessidade, tanto {3ara a reflexão "purame nte experi ência. As leis essenciais que determinam a com­ psicológica" como pa ra a reflexão " transcendental", de co­ possibilidade d os estados vividos em sua coexistência e meçar pe lo ego cogiTo ............ ....... ... .... ..... ....... 55 em sua sucessão ....................... ..... ... .......... .... .......... ........... 89 7. O caráter bilateral da investigação da consciência; o ca- ...1.')nu ,, 37. O tempo como fomla universal de toda gênese ego lógica ..... 91 ráter corre bto de seus problemas. Direções da descrição. ~ ~ 38. Gêneses ativa e passiva .................... ..... .............. .. .. ... ......... 93 A síntese, forma original da consc iência ............................ 57 39. A associação como princípio da gênese passiva ............ ..... 96 8. A identificação, forma fundamenta l da síntese. A sínte­ 40. Passagem para o problema do idealismo transcendental ..... 97 se uni versal do tempo transcendenta l. .. ..... ........ ..... ... ..... ..... 59 41. A explicitação fenomenológica verdadeira do ego cogito 9. Atualidade e .f.~~~.~l~~i.~ade da Vida inte ncional . .. .. ....... 61 como idealismo transcendental ......... ......... ....... ....... ............ 98 O. A 01lglJlali'êl6aépâ anallsEf .lI1tenclOp<l1 .... . .... .. ........ 64 I. O objeto mtencional, ~'guUYri~$~·c'I%71tal." ....... ......... . . 67 2. A idéia da unidade universa l de todos os objetos e o probleJ~"t·) QUINTA MEDITAÇÃO .DETERMINAÇÃO DO DOMÍNIO TRANSCENDENTAL COMO ma de sua e lu c idação constitutiva .. ....... ........ ... ..... 70 "lNTERSUBJETIVlDADE MONADOLÓGICA" 42. Exposição do problema d a ex periência do outro; a obje-ERCElRA 11EDITAÇÃO ção ao solipsi sl11o ... .......... .... .......... ........... ....:.. . ............. 104S PROBLEMAS CONSTITUTIVOS VERDADE E RE:'JJDADE nnI11A 43. O modo ele apresentação ontonoemática do "outro" co­3. Prccis:lo do conceito d e constituição tr,lIlscendental pe- Ia Intl odu·.lo as noçoes.," e lazao e n,lO-rdzao .. .... . .. _- d - d" -" .. - - " 7; 111 0 fio condutor transcendental da s ua teoria constitutiva ~ c,!<dÇJ:l rt l M 4. da experiência ........ ... ......................... ..... ................ ......... .. 105 A ~ v,den~ I< CO ~11.0 dado ~ngtn~)~'7~ Ud S v,mant es ........ ... 73 5 Re.llJd,lde e qUdse-re,lldade . r.... . . . 7S 44. Redução da experiência transcendental à esfera da 6. A rca llddde consld er,1d a como corre lato ela venfl cação minha v incu lação .......... ...... ...... ... .... .... .. ..... ............ ....... ... 107 evidente ..... .... .... ... ............ .............. ...... ...... .... .......... 7S 45. O ego transccndental na qualidade de homem psicofí­ 7 EvidêIlCi , habitual e e vid ~ n c ia potenci,1. Se ll papel con s- s ico; a percepção de si mesmo reduzida às vinculações ...... 113 titutivo do "sentido" ele "objeto e xi);tente" .. ...... .. ........ ... ... 76 46. A v incllliição como esfera das atualidades e das potencia­ c ' I~ ' . I ~ I O I~t ';(.'lU.<J>..8 t: VI( CIlCI<l )l I CS11l1tlva ( a ex.lsU!nCI·'l o t11llJl( o. n.1Y nc o, lidades da corrente ela consciênci a ......... ...... ..... . 114 . " . l ~ . '~õ~~~'.'r.....-'>.~rR~~ t .. ( . ' I C!c I ~l cu rrel ;Jta dc lima e Vlc enCla ~.l .... ......... 77 47. O obj e to intencional pertence, também e le, ao ser ple na­ .9. As regiões ontol óg icas materiai s e formais como índices mente concreto (monádico) da "vinculação" . Transcen­ de siste mas transcendentais de ev idênc ias. 79 dência imanente e mundo primordial ....... ... .......... ........... ... 11 7
  • 4. R J1editnçócs Ca17e.<zn71as 48. A transcendência do mundo objetivo num grau superior em relação à transcendência primordial ........................... 119 49. Esboço prévio da explicitação intenci onal da experiência do"outro" .................. .. .. ..................................................... ]21 50. A intencionalidade mediata da experiência do outro como "apresentação" (percepção por analogia) ......................... 122 51. O "emparelhamento", elemento de constituição por asso­ ciação na experiência do outro .................. .................... 125 52 A apresentação como espécie de experiência, com ma­ neira própria de confirmação .............. ............................. 127 53. As potencialidades da esfera primordial e sua função cons­ . titutiva na percepção do outro ............................................. 130 54. 'Explicitação do sentido da apresentação; experiência do outro ...................................................... ............................ 13] 55. A comunidade das mônadas e a primeira forma da objeti­ vidade: a natureza intersubjetiva ........................................ 134 56. A constituição dos graus superiores da comunidade inter­ monádica..... .......... ............................................................. 142 57. Esclarecimento sobre o paralelismo entre a explicitação da vida psíquica interna e a explicitação egol6gica e trZlns­ cendental .................. ......... .... ....... ..... ..... .................. ........... 144 58. Análise intencional das comunidades intersubjetivas supe­ riores: encadeamento dos problemas. O eu e seu meio..... .. 145 59. A explicitação ontológica e seu lugar no conjunto da feno­ menologia constitutiva tr,lIlscendental .... .... ...... . 149 60 Resultados metafísicos de nossa explicitação ela experiên- Cid do outro. ... ........ 152 61. Os problem<ls traclicionais dZl "orige m psicológlcl" :.' seu esclarecimento fenomenológico ...................................... I S4 62. Explicitação int encional da experiência do uutro car,lcle­ rizadano seuconjunto ............................ .. . ............ 161 CONCLUSÃO 63 A necessidade de uma crítica da experiência c do conhe­ cimento tr,ln sce ndentais ............ ............. .... 164 EPÍLOGO .. 166 SOBRE O AUTOR ... .... .. ....... . 171 BIBLIOGRAFIA ............................... 173 Edmund Husserl nasceu em Prossnitz, Morávia, em 8 de Zlbril de ] 859 e estudou nas Univ e rsidades de Leip z ig. Berlim e Viena,1 tomou-se, em 1883, professor na Universidade de Berlim, como assistente de seu ex-professor Weierstrass, e depois em Viena, Halle, G6ttingen e Freiburg-im-Breisgau onde, após longos quarenta e c inco anos, encerrou suas atividades docentes no ,mo de 1928. Logo após seu doutoramento foi influenciado pelas concepções do professor F.anz Brentano, cuja importância na fil osofia pode ser avaliada pejo C)ue diz Stegmi.iller : ~ "Ele foi o mestre de Husserl, sobre o qu,ll exerceu uma 'influência não desprezível. sendo. dC.S'l forma. por assim dizer, o "avô" espi ritual de Max Schckr e de 1Llrtin Heidegger". A mente analítica de Husserl, entrel,lnto, I1J.O CLlIl--;cguiu permanecer nos horizontes percorridos por seu mestre Cjl1('. ,Ipesar disso, certamente preparou, com seu método. os c<lminh()~ .eguidos pela filosofia analítica anglo-s<lx5. O psicologismo ele BrcllLlllo pare­ Ci,l-lhe por demais acanhado para solver os problem:1s lógico-filosófi- I. Onde. com;1 IC,C "CnnlrihLJi.,-;h) par;l :l Tcori ;l do C;'i1cLJlo de V" ri;l," -'L'<' ObICT ,e u UOlllor;lUO. 2. SlcgmLiller, Wolfg,lIlg - A Fil<.)~oria Conlcmpllf:inc;I-llllrodu<;:io C rÍllcl. '01. I, São Paulo. EPU./EDUSP, 1977, p. 23. 9 •
  • 5. I ívfcditaçocs Cartesianaso os_ Assim, por exemplo, a identificação do sujeito do conhecimellto om o sUjeito psicológico parecia-lhe introduzir questões relevantes. Mas, antes de nos aventurarmos nessa seara, apresentaremos ma versão simplificada do exame das questões de Husser! pelo pris­ la de Descartes, precisamente porque, a partir desse mirante, edificou fenomenólogo o seu edifício. Buscava o fi lósofo francês, de resto, como também o fez 1usserl, um fundamento último para o conhecimento e compôs, além lO famoso Disçurso sobre o A1étodo, uma série de investigações cerca da natureza do conhecer e do sujeito cognoscente. Assim, ,roGurando estabelecer a existência enquanto ser pensante, afir­ nou na Segunda A1editaçZío que essa evidência era dada na medi­ la em que se repetia interiormente a fórmula do cogito, isto é, o ujeito cognoscente ao perceber que pensava, concomitantemente ssegurava, visto que do nada, nada, seu próprio existir. Para a fun­ lamentação de uma ciência isso era pouco satisfatório. O ponto lrquimediano, se pudesse comprová-lo, deveria defluir de algo ndubitável por si. Pensou, então, em um Deus não-enganador, que ervísse de aval para qualquer tipo de desenvolvimento racional que e desejasse estabelecer. Isso acaboll ocorrendo na Terceira Me­ litaçZío, através do recurso à idéia de perfeição e da evidência de lue esta idéia não pode ser produto do pensamento, lima vez que é, :ste finito, limitado e imperfeito e que é evidente '1ue uma causa -inita não poderi<1 produzir um efeito infilúto. Observe-se que esta déia de infinito, em Descartes, não é fruto da negatIva da finitude, ni1S sim positiva e anterior a tod<1s as demais 1 perfeição divina ü'io é potencial, mas é em ato; nosso elltendimento se desenvolve ndefínidamente por 3.dições subjetivas; Deus, contrariamente, é o ;er a que nada pode ser juntado, o ser absolutamente completo. Se )ells não pode vir de nós enquanto idéia, é preciso que exista para ]ue possamos pCllS:l-lo. Por outro lado. da idéla de Deus decorre sua própri3. existência, Jois este é um elemento esscncial da pcrfeição, sem a qual Deus ,cria o mais imperfeito dos seres. Este argumento que fOI desenvolvi­ jo por S1o. Allselmo não é o mesmo dilquele de Descartes. Não Jevemos dizer, segundo nosso autor: Deus existe porque meu espírito J concebe, IT1as sim. minha razão concebe Deus, porque Ele existe, o Prefácio 11 verdadeiro fundamento de nossa fé em Deus não é nossa concepção dele, mas sim Deus que em nós se afinna através da idéia de infinito. Sabemos então, até a Terceira lvfeditaçZío que: I - eu existo; 2 - Dells existe. Esta segunda certeza, no sistema cartesiano, é de importância capital, pois é nela que nosso autor funda toda verdade, toda certeza, toda ciência positiva e, através dela possibilita superar o abismo que a dúvida h3.via estabelecido entre meus pensamentos e as coisas exteriores. É a idéia de Deus que mostra a existência do mundo corporal e afasta totalmente do ceticismo, posto que se não homresse um Deus sempre poder-se-ia admitir que o mundo sensível fosse uma ilusão causada pelo Gênio Maligno ou ainda pela própria natureza de nosso espírito, mas como a existência de Deus·.implica a de perfeição e um ser perfeito não pode nos enganar, a existência do mundo está fundada. A Sexfa iV1editaçZlo é que se ocupará da existência dos corpos e isso segundo diz Gueroult em dois·tempos: a Quinta servirá para mostrar a realidade de sua essência e a Sexta de sua existência. Já na Quinto JvfeditaçZío ci1be notar a seguinte afirmativa: "'COII/O, por eXé'lJIplo, CJuando considero a .natureza do trWIl­ guio. conheço é'vldentemente, eu que sou pouco versado· em geometria, que se1ls três ângulos são iguais a dois retos e n{/o /IIé' é possível lIão acreditar nisso enquanto aplico IIIé'U !)el7.IOll1ellto ci sila demollstroçào; mos tZío logo eu o deSVie delo. e/llboru me recorde ré-la claramente CO/J7preel1­ c/u/o, l)()c!e ocoITeljacilmente que eu duvide de suo verdo­ dé' caso ignore que há /Im Deus." Serve então a idéia do ser perfeito ou ens ré'ulissilllus como fUllllamellto das certezZlS ,Ia adquiridas, conforme se pode depreender f{wiJ c cliret,llllellte cio cllLIIlciaclo número] 3 da mesma JHedituçâo: "Pois (lindo qzlé' e/l seja de tol 1I00urezo que. tilo logo COIII­ (;rcel/da basfol/tc c/ura e distif/rClll7ente, SOl! l1uf/lroll77é'nte levado {[ acreditá-lo '·é'rdadé'iro, no entanto, já que sou 10171­ béll7 c/c rol natureza que nZío posso manter sé'lI7pre o espírito ligado a uma mesmo coisa, e que amiúde me recordo de ter
  • 6. 2 Meditações Cm'tcsimzns ;ulgado uma coisa verdadeira, qualldo deixo de COllside­ rar as razões que me obrigam a julgá-la dessa maneira. pode acontecer que nesse ínlerim ou/ras raziJes se J7le opre­ sentem, as quais me fariam facilmel1le mudar de opiniào se eu ignorasse que há um Deus. E, assim. eu jornais lerio uma ciência verdadeira e cerla de qualquer coisa que sejo. mas opiniões vagas e inconstantes, " E ainda, na Quinta Mediwção, 15: "jUas após haver reconhecido haver UI1l Deus, porque ao mesmo lempo reconheci também que todas as coisas depen­ dem dele e que ele não é engallador, e qlle. em seguida a isso julguei que ludo quanto concebo clora e distin/al7lente não pode deixar de ser verdadeiro: ail1da qlle ,uío mais pense nas razões pelas quais julguei tal ser verdade iro, desde que me lembre de lê-lo compreendido clora e dislil1­ tamente, ninguém pode apresentar-me razão contrária al­ guma que me faço jamais colocú-lo em dúvida, e, assilll, tenho dele uma ciência cerla e verdadeiro, E esta mesma ciência se estende a todas as Olltras coisas que elt me lem­ bro ter olltrora demonstrado, COIIIO us "eul{/des da Ceome­ , Iria e outras sell1elhan/es; pois qlle me p oderão objetu/'. para obrigar-me a colocá-las em dúvidos? Dir-lIw-no que minha na/lIi'eza é tal que sou muito sujei/() li engullor-lIle) Alos já sei que me /7(10 posso enganar lias jllí::os cujos as raú5es conheço claramente. Dir-me-clu que Oll/rora /ive l7lui/as coi­ sas por verdodeiras e cerlOS, os quois /I/((is lorde reconheci serem folsas? lUas eu não havia cOJlheódo cloramel//e e dis/il7twllente tais coisas e nDo conhecendo ainda es/u re­ gro pela qllal me cerrifico da venlucle, cru levado a ucrei/i­ rar nelas j)()r razcJes que reconheci dCji(Jis serem menos jór­ /es do que cnlão imaginara. () que mui.' podere/o. pois, obje/CI/'-llIe/ Que /olvez eu durlllo (CO!110 ell meSlilO llIe ohje­ lei acilJla) ou que todos 05 penSmllel7/()S (jue lenho 0/1101­ mente não são mais verdadeiros que os sonhos que imagi­ namos ao dormir? Mas, mesmo que estivesse dormindo, tudo ~ P1Tfácio 13 que se apresenta a meu espírito com evidência é absoluta­ mente verdadeiro. E, assim, reconheço milito claramente que {[ certeza e a verdade de toda ciência dependem do tão-só conhecimento do verdadeiro Deus de sorte que, an­ tes que eu o conhecesse, niio podia saber perfeitamente nenhuma outra coisa, E agora que o conheço tenho meio de adquirir uma ciência no tocante a uma infinidade de coisas não somente das que existem nele, mas lambém das que pertencem a nalureza corpórea, na medida em que ela pode servir de objeto às demonstrações dos geõmelras, 05 quais não' .se preocupam de m odo algum com sua exislência, "(grifos meus) Até este momento, segundo a ordem de suas razões, Descartes pode afiançar a certeza científica para os domínios que lidem com as essências das coisas, a metafísica funda a ciência que se refira às essências, mas não ainda das coisas corpóreas, dos existentes corpo­ rais, É a Quinta Meditação que, operando a distinção entre alma e corpo no homem3 e estabelecendo a existência das coisas corporais possibilitçuá a inclusão da física no quadro das ciências cartesianas. Já na Sexla Meditação; Descartes admite a possibilidade da existência das coisas materiais, uma vez que podem ser objeto das demonstrações da geometria, por serem concebíveis clara e distinta­ mente, A segu ir, quando passa ao exame da imagi nação acaba por concluir como provável a ex istência das coisas materiais: "o espírilo .... se volta poro o corpo e cOllsidero ne/L olgo de conforme à idéio que formou de si meslllo ou que rece­ beu pelos sentidos. Concebo, digo, faci lmente que pode realizar-se dessa I!7cmeiro, se é verdode que heí corpos; e, 111110 vez que n clU posso encontrar l7enhlll11(( olltra vio para mostrar COIIIO elo se reolizo, conjecturo daí p/'ovavelmenle que os há. mos nelO é senão provavelmeJl/e e, emboro e,'o­ lIline cuidadosalllente rodos os coisas. nrlo "('l'ifico, 110 el7­ 3, Distinçào essa que ocupará muitos filósofos ao longo de séc ulos. entre os quais: Malebranche, Spinosa. An thony FlelV. etc.
  • 7. 14 ,Hcditrzçõcs Cartcsimlt/s tanto. que, desta idé ia distinta da natureza corporal que tenho em minha imag inação, possa tirar algum argumento que Deus IlCIO é enganador e que não tendo c/atado o sujei­ to cognoscente de nenhuma fa culdade que impeça o erro de tomar como corpo uma criatura mais nobre que o corpo em que a realidade das idéias esteja eminente e não for­ II/almente, seja preciso que há coisas cOlpóreas que exis­ tem. "(5 a 20) Assim, a metafísica cartesiana serve de substrato à possibilida­ :le de qualquer ciência que possa ser entendida C01ll 0 tal. Observe-se =lue relativam ente ao método empregado para a 'construção de sua física (particularmente) há discordância muito grande, ficand o pro­ fundamente aba lada a pretensão de nosso autor frente a construção je u 'a mothesis ulliversalis, ou mai s precisamente, de uma constru­ ;ão de teorias tomand o por base o m étodo elas matemáticas, pela introdução da experiência como critério de decisão em sua teoria fí s ica. O problema da ba se empírica da fí sica cartesiana não é :ranscurável como poderia ser aparente. É verdade que na Regra JI lfirma: "de 1Il0do que, se nosso cálc~(lo é exato. a observállcia Je nossa regra nos produz, entre as ciéncias já uchodas (os cos­ 'umes dos homens, as propriedades das plantas, movimento de -:1.1/1'05. trCll7sj'ormaçues dos metois e objetos de disciplinas aná­ 'oga.',) ali descohertas, à aritmética e à geometrio tclo-solllente ", 11as que também. no parágrafo precedente dei:-.:ar;-t claro que admite =Jue se cheguc a opin iões prováve is e não ú c iência perfeita. Ainda. na Regra 11 nos diz que : agoro. entrefanto, como dissemos mais ucillla que entre os c1iscipli11(fS cOllhecidas openCls a ari tmética e a geome fI' ia es favalJl IfTes de tod{/s falsidade 011 illcel'tr.':;u, VOIII OS e.'u­ JIIinor /I/{/is cllidu(/os(l/J1ente o roz(/o pelu (jllol isto é deslC/ !()}'IIlCl. OhSCITCIl7c!O q1le é duplo o camin/ro que nOS conduz ao conhecimellto dos coisas, {/ soher. () da experiência e () da deduç'r[o Deve-se 7101C/r, além disso. qlle us experiéncias que se refereJII eiS coisas são freqü entelllente enganosas. enqual7lo a dedução ou a operação pura pela qual se infe­ hefcíáo 15 re uma coisa da outra, pode não ser levada a cabo de modo incorreto pelo entendimento, nem pelo m enos razoável dos entendimentos. ... porque todo erro possível - e falo dos ho­ mens, não dos animais,- nunca provém de u 'a má inferência, mas somente do fato de que parte de certas experiências pouco compreendidas ou do fato de se formular juízos levia­ na e infundadamente. " Deste modo, embora a me.tafísica sirva de base para constityi­ ção de uma ciência segura, quando esta se imbrica com os dados da experiência parece perder seu caráter de certeza absoluta, uma vez que mesmo empregando os critérios estabelecidos na Regra XII para evitar que o entendimento caia em erro induzido por experiências, estes repousam nas naturezas simples que compõem as demais coi­ sas existentes, e que teriam sido originadas por Deu s, dotadas de certa quantidade de movimento, etc. e passíveis de demonstração. Embora neste contexto seja válida a observação de L oparic : " nesse contexto a palavra 'demonstrar' é usada ambiguamente como sinô­ nima ora de provar, ora de explicar . Para a distinção dos dois senti­ dos, Descartes rem ete ao Discurso do l1étodo: efeitos sensíveis atestados pela experiência sensível e deduz idos de causas invisíveis servem para demonstrar, 110 sentido de provar, essas causas, eJlquan­ to as últimas serv'em mais para demonstrar, 110 sentido de explicar os efei tos: prevê-se ainda um caso em que se pode di ze r também que as causas sel-vem para provar efeitos: é o caso em que é questi onada a existência dos efeitos que podem ser deduzidos de caL1sas já prova­ das por outros efe itos. Finalmente, quanto à aparente faciliel;-tde ele ajustar causas a efeitos sensíveis ela seria apenas aparente, sobretu­ do se fosse levado em conta o número muito gril ncle de fen (lIm:nos explicaelos e a extrcma economia e simplicidade de ca us:.1S propos­ tas. Assim, o poder exp licativo das causas seri;t p,lra nus persuadir de que os efe itos ex plicados nâo têm outras causas scnão aquelas quai s sâo deduzidos" (pp. J53- 154, Rev Discurso) De qualquer Illodo remontaríamos 8 experiência sensível e se posso demo nstrar as verdadeiras causas não sensíve is de efeitos sen­ síveis, não tenho como depurar as experiências sensíve is de possíveis más interpretações do entendimento.
  • 8. 6 Meditações Cartesianas Dessarte, se a metafísica fundamenta a possibilidade de todas as ciências, não é suficiente para fundamentar as ciências que se relacionam com a experiência, tomando-as não certas, mas simples­ mente prováveis. Por sua vez, Husserl buscou, também, esse ponto arquimediano e, em particular, para as ciências humanas. Um de seus principais pressupostoS consistiu, sempre, em admitir que um filósofo jamais deve considerar finda a busca e deve estar pronto a abandonar resul­ tados e começar tudo novamente. Desenvolveu um procedimento baseado no exame dos conteúdos da consciência do sujeito com ex­ clusão de todas assunções acerca de causas externas e resultados desses conteúdos, conhecido como a fenomenologia pura. A expressão "fenomenologia" utilizada por Husserl teve um cunho distinto daqueles usuais até esse tempo. O autor sustenta que seu método é descritivO mas distinto da descrição psicológica. Todas as coisas do mundo aí estão, percebamo-Ias ou não. A cons­ ciência é constituída por atos (noesis) que visam algum componen­ te desse mundo (noema). Assim , diversas noesis podem referir-se a um único l1oema. Assim a fenomenologia sendo a pesquisa des­ critiva pura das vivências é uma psicologia descritiva e a funda­ mentação última do conhecer só pode ocorrer a partir de uma pes­ quisa sobre os atos do conhecimento. Isto significa: não se contentá o filó sofo com as palavras mas deseja retornar às próprias coisas. Sendo essas últimas dadas em vivências, isto é, atos intuitivos, o mund o psíquico manifesta-se como inst5.ncia à qual os objetos são dad os de diferentes modos e a consciência torna-se inst ância constituti va do mundo objetivo. Husserl distingue, ao menos, dois conceitos de consciência: aquela rehlli va a uma relação consciente com al go, isto é, a intencionalidade ou vivência intencional, isto é, a consciência no sentido pleno da paL.l­ vra e um outro, diverso, representado apenas por uma corrente de vivências. intencionais e não intencionais, num fluxo contínuo, um movimento permanente de fenômeno, o fen ôme no originário. A':'. di­ ferenças essenciais d,lS vivências ucnuem da maneira como se refe­ rem aos objetos e se há diferentes modos ele dar-se o objeto, há dife­ rentes objetividades e esses diferentes modos pelos quais o objeto se apresenta ressaltam a necessidade ele se estudar os fen ômenos. Prefácw 17 As vlvenc ias intencionais podem ser propos icionais ou não proposicionais e essas últimas dispensam mediação lingüística por pressuporem uma relação direta sujeito-objeto, raiz da certeza da existência de uma objetividade. Assim, a ciência seria a conexão objetiva e ideal de noesis e noemas puros e caracterizar-se-ia por exigir uma noção de unidade, isto é, além das verdades empíricas construídas ou verificadas e das leis lógicas pressupõe uma esfera de condições (l priori de possibili­ dade de seu objeto e de seus métodos. A fenomenologia'ao descrever os atos intencionais, o vivido, o mundo da vida, os correlatos intencionais possibilita a instaura<;ão de uma filosofia como ciência de rigor e a fundamentação da.lógica. Papel importante na fenomenologia é desempenhado pela ope­ ração que permite abstrair a aceitação tácita da realidade do ohjeto para simplesmente aplicar-se às operações realizadas pela consciên­ cia. A redução fenomenológica afasta a tese natural do mundo e investiga como funciona e se estrutura a consciência para, en tão, assumi-la não como pressuposto, mas como etapa de um processar científico, haja vista sua fundamentação filo sófica. A epoque fenomenológica dá-se em dois movimentos: no primeiro há a redução eidética que busca essências ou significados e no segundo, a redução tran scendental, busca a essência da consciência enquanto constituin­ te das essências ideais. Haveria, então, pelo próprio flu xo elas vivências, a possibilidade ela fragmentação do eu? Ao contL1rio, Husserl acre­ ditava que não apenasseria possível captar a percepção pe.';so,d de outras pes':'.oas e coisCls por aplicação da redu ção fenomenológica mas, ainda, descobrir-se o próprio ego tran scc ndcnwl. Ao ' c' ;t k ,l n­ çar essa etapa o ponto arquimediano estaria dado: LI verdadeird t<l­ refa fenomenológica principia com o reconheci mento ela inegóvel existência do ego como pura consciência di ..;tinguindo-se d,lquele psicológico que é assunto da Psicologia. Mas, finalme nte, qual a rel;lção entre o pens;lr cLlrtesiClno e o de Hu sserJ'7 Antes de mais nada a exigência de um método. um a rerl exi'io acerca dos procedimentos exigíveis p:l ra o pensar filo só fi­ co e, adel11'lis. a demonstração de que a subjetividacle. C U I11 su a propriedade de permClnecer a mesma e conferir se ntido ao múltiplo, é o ponto arquimcdiano para a constituiçiio cio saber e não se con­ funde com o "eu psicológico" suj e ito à realidade empírica. A cone­
  • 9. 8 Meditações Cartesianas :ão é imediata: só possui sentido a subjetividade transcendental que : absolutamente e se permanece no texto de Descartes a questão la possível relatividade de apreensão do mundo objetivo pela subje­ ividade solitária, pela introdução da intersubjetividade acredita -:lusserl ter resolvido esse problema. E o outro problema caracte­ ístico de todo idealismo, ou seja, a da transformação de significa­ los ao longo do tempo, seria resolvido por serem esses significados deais sedimentados e reapropriados pela cultura. Este livro proporcionará ao leitor uma possibilidade ímpar de ,bservar a aplicação sistemática de um método de filosofar e a ho­ estidade inrelectual de um dos maiores filósofos do século passado , sem dúvida, um dos marcos da reviravolta filosófica que ainda rossegue motivando nosso pensar. Márcio Pugliesi ~ ~~lRODUÇAO 1. As (~cditações) de Descartes - protótipo da reflexão filosófica voltada para o ((eu)) Sinto-me feliz de poder falar da fenomenologia transcendental nessa honorável casa dcntre todas por onde floresce a ciência fran­ cesa. Tenho par<l isso razões especiais. Os novos impulsos que a fenomenoJogi<l recebeu devem-se a René Desca rtes, o maior pensa­ dor da França É pelo estudo das suas lvfecliloçi5es que a nascente fenoll1enologiZl tr;m sfo rl1lou-se em um novo tipo de filosofia tran sc~ ndentJI. PoderíaIllos quase cJ~nominá-la um ncocartesianismo. ainda que ela se tenh,l visto forçZlda a rejeitar quase todo o conteúdo doutrinário conhecido do cartesianismo, pelo próprio fato de ter con­ ferido a cer-tos termos cartesi,ll1OS um desenvolvimento radical. Nessas circl/Ilst,i ncias, desde o início posso esUlr seguro de en­ contrar junto aos senhores ullla acolhida favorcível se csclJliler, como ponto de p<lrlicla. entre os temas das A1edilul!0I1('S de prilllo !J!1I1osophia aqueles que tl'lll, a meu vet, um ZlIc~lllCC eterno, e se em seguida tentZlr C<lfZlctcrizZlr as transformações e inov~lções que derilm nascimento ao método e aos problemas tr,mscendentais. Todo inicianle em filosofia conhece a notélvel e surpreendente seqüência de pensamentos das Mediloçi5es. Vamos recordar sua idéia 19
  • 10. J) )'v1editaçõcs Cartesiai/as iiretriz. Ela objetiva uma refonna total ua filosofia, para fazer dela lIna ciência com fundamentos absolutos, o que implica, para Descar­ es, uma reforma paralela de todas as ciências, pois, a seu ver, essas 'iências não passam de componentes de ullla ciência universal, que ão é outra senão a filosofia. É somente na unidade sistemática desta ..ue elas podem tomar-se ciências de fato. Ora, se consideramos ssas ciências em sua formação histórica, percebemos que lhes falia sse caráter de verdade, que permite reconduzi-Ias integralmente e, 'm última análise, a intuições absolutas, além das quais não se pode "etroceder. E' é por isso que se faz necessário reconstruir o edifício ue poderia corresponder à idéia da filosofia, concebida como unida­ je universal das ciências que se ergue sobre um. fundamento de ca­ áter absoluto. Essa necessidade de reconstrução, que se impunha a escal1es, realiza-se nele sob a fonna de uma filosofia orientada Dara O sujeito. Em primeiro lugar, quem quiser realmente tornar-se filósofo cle­ erá "uma vez na vida" voltar-se para si mesmo e, dentro de s i, pro­ ~urar inverter todas as ciências admitidas até aqui e tentar recons­ ruí-Ias. A filosofia - a sabedoria - é de qualquer forma um assunto essoal do filósofo. Ela deve constituir-se como algo de/e , ser a sua sabedoria, seu saber, que, embora se volte para o universal, seja adqui­ ida por ele e a qual ele possa ter condições de justificar desde a origem ~ em cada uma de suas etapas, apoiando-se em suas intuições abso lu­ as. A .partir do momento em CJue tomei a uecisão de me voltar para esse objetivo, decisão essa que só pode l11e levar à vida c ao desenvol­ vimento filos ófico, conseqüentemente fi z c1 c ~~a forma meu voto de pobreza em matéria de conhecimcnto Desde cnt;lo fiC<1 claro que scr:i necessário primeiro me perguntar como poderia encont ri1" um método que me desse o caminho a seguir para chegar ao saber n ::rdadeiro. As meditações de Descartes não almejam, portanto. ser um assunto es­ sencialmente exclusi vo desse filósofo, e menos ainda uma :,;impks for­ Illel liter(tria que ele usaria para expor :,;uas visões filosóficas. Ao CO I1­ t,(II·io. cs:,;as mcclililçõcs desenham o protótipo do gênero de meditações necessárias a toclo fil ósofo que comcçLl SULl ohra. medit;H;ões CJue s07.i­ nhas podem elar origem a uma fil o~o ria I I. Para conllnnaressa interprelação, cc. a COr/u (/o!1l/{or c/U Íradl/{ordos Prin cíp ios (Descartes). Introdução 2 1 Se consideramos agora o conteúdo das Meditações, bem es­ tranho a nós, destacamos aí um segundo "voltar-se" para o eu do filósofo, num sentido novo e mais profundo: o "voltar-se" para o eu das cogitationes puras. Isso se dá pelo método bem conhecido e bastante estranho da dúvida. Sem conhecer outro objetivo senão o de um conhecimento absoluto, ele se proíbe de admitir como existente o que não está totalmente ao abrigo de qualquer possibilidade de ser posto em dúvida. Submete, portanto, a uma crítica metódica, quanto às possibilidades da dúvida que possa apresentar, tudo aquilo que na vida da experiência e do pensamento apresenta-se como certo, e busca alcançar - se possível - pela exclusão de tudo o que poderia apresentar uma possibilidade de dúvida, um conjunto de dados absolu­ tamente evidentes. Se aplicamos esse método à certeza da experiência sensível, na qual o mundo nos é mostrado na vida cotidiana, ele não resiste de forma alguma à crítica. Será preciso então que neste esta­ do inicial a existência do mundo seja colocada em suspenso. Diante da realidade absoluta e indubitável, o sujeito que medita só retém a si próprio como ego puro de suas cogitationes, como algo que existe indubitavelmente sem poder ser suprimido mesmo que esse mundo não existiss~. A partir daí, o eu, assim reduzido, realizará um modo de filosofar solipsista. Partirá en)" busca de caminhos de um caráter apodíctico, pelos quais poderá encontrar, em sua interioridade pura, uma ex terioridade objetiva. Sabe-se como Descartes procede dedu­ zindo de início a existência e a veracidade de Deus, depo is, graças a e las, a naturez;] objetiva, o duali smo das substâncias acabadas, em uma palavra o terreno objetivo da metafísica c d;JS ciências positivas, assim como essas próprias ciências. Todas essas inferência:,; scg lilc'm, como não poderia deixar de ser, os princípios imanentes ,lO ego, que lhe são "inatos". 2. N Ccc.:íidadCde um rccm11CfO radical C71'lfilosofia Tudo isso é Descartes. Mas valeria a pena, perguntamos nós, ten­ tar descobrir um sentido etemo escondido por trás dessas idéias? São elas ainda capazes de comunicar em nossa época forças novas e vivas?
  • 11. 23~2 },;!rd'lflj ,ics Cm'{c:rirl7llu Um fato , é certo, convida à reflexão: as ciências positivas estão muito pouco preocupadas com essas Meditações, que, no entanto, se riam clpazes de lhes fornec er um fundamento racional absoluto . É verdade que, após terem se desenvol vido de forma brilhante durante três séculos, essas ciências se vêem hoje bloqueadas em seu pro­ gresso pela obscuridade que reina em seus próprios fundamentos. Mas mesmo quando tentam renovar seus fundamentos elas não pen­ sam em se voltar para as Meditações de Descartes. Por outro lado, é notáve l que em filosofia as M editações tenham marcado época, e isso de maneira bem peculiar, precisame nte em virtude de seu retor­ no ao ego cogito puro. Desca rtes inaugura um novo tipq de filosofia. Com e le a filosofia muda totalme nte de estilo e passa radicalmente UOobJeti vismo ingênuo ao subjeti vismo transcendental, subjetivismo esse que, apc~ar de ensaios sempre novos c sempre insuficientes, p'-lrece tender, no entanto, para uma forma definitiva. Essa tendência constante não teria um sentido eterno, não implicaria uma tarefa imi­ nente a nós imposta pela própria história e para a qual todos seríamos chamados a colaborar? O estado de divisão no qual se encontra atualmente a filosofia, a Ll tividade desordenada que ela empreende nos levam a pensar. Do ponto de vista da unidade científica, a filosofia ocidental e ncontra-s~, desde meados do sécul o passado, num visível estado de decadência· , e m re lação ~IS ép ocas precedentes. Por toda a parte, desapareceu a unidLlue: tanto na determinação do objetivo quanto na colocação dos problemas c no método. No iníc io da era moderna a fé religiosa trans­ formou-se cada vez mais em convenção externa, uma fé nova cap­ tou e pôs em destaque a hum,midadc intelectual a fé em uma filoso­ fia e em umLl ciência autônomas. A partir de então, toda a cultura humana devia ser guiada e esc larecida por visões científicas e por esse mesmo caminho reformad a c transformaua em uma cultura nova c autônoma. No cnt,lIllO, tLlmbém essa nova fé empobreceu: deixou de ser uma ré ve rdadeira. Não sem razão. Com ereito. em 'cz de um,1filo­ sofi LI viva e lInific;(b , o que te mos nós? U md produção de obras fil osófiGISque cresce infinitamente, m,IS;1CIll,t1 Ltlta qualquer ligação interna. Em lugar de um embate sério entre tcoriLlS diverge ntes, c uj o próprio antagonismo é suficiente para comprov'-lr a solidariedade in­ terna, a comunhão dos fundamentos e a fé inquebrantável de seus Introdltção autores em uma filosofia v.erdadeira, temos uma pseudo-exposição e uma pseudocrítica, uma aparência de colaboração verdadeira e de ajud a mútua no trabalho filosófico. Esforços recíprocos, consciência das respon sabilidades, espírito de colaboração séria visando a resul­ tados objetivamente válidos, ou seja, purificados pela crítica mútua e capazes de resistir a qualquer crítica posterior - nada disso existe. Como então seriam possíveis uma pesquisa e uma colaboração ver­ dadeiras? Não existem quase tantas filosofias quanto filósofos? Exis­ tem ainda Congressos Filosóficos; nees os filósofos encontram-se, mas não as filosofias. O que falta a elas é um "lugar" espiritual co­ mum em que possam tocar~se e fecundar- se mutuamente. A unidade é, talvez, mais bem preservada no interior de certas "escolas" ou "tendências", mas esse mesmo particularismo pe rmite manter nossa característica de estado geral da filosofia, ao menos em seus pontos essenciais. Essa situação atual, tão funesta, não é análoga à que Descartes encontrou em sua juventude? Não é o momento de fazer reviver seu radicalismo filosófico? A imensa produção filosófica de hoje, com sua mistura desordenada de grandes tradições, de recomeços e ensaios literários da moda -- visando não ao esforço, mas ao "efeito" -, não deveríamos, por nossa vez, submetê-Ias a uma revolução caltesiana e levar a efe ito novas Mcditationes de prima plzilosophia? A confu­ são da atual situação não seria decorrente do f,110 de os impulsos pro­ venientes dessas Mediraç()es terem perdido sua vitalidade primitiv·a, porque o espírito de rcsponsabilidade filosófica radical desapareceu? Qual é o sentido fundamental de toda filosofia verdaueira? Não é o de buscar libertm a filosofia de qualquer preconceito possível, para f'-lzer dela uma ciência realmente autônoma, realizada em vi rtude de evidên­ cias últimas tirauas uo próprio sujeito, e encontrando nessas evidências sua justificação ,Ibsoluta') ESSd exigência, que alguns acreditam ser exagerada, ni!o pertence ü própria es~ê n c ia ele qualquer filosofia ver­ dade ira? Em nossos dids, a nostal gia de uma fil osofia viva conduziu a muit os renascimentos. Perguntamos: o único renascimento realmen­ te fecundo 1:10 consistiria em ressuscitar as 1v1edir(/ç()l!s cartesianas, não, é claro, para adotá-Ias integralmente, mas para desvelar já de início o significado profundo de um retorno radical ao ego cogito
  • 12. 24 ivIcditnçõcs CaI"tesianas puro, e fazer reviver em seguida os valores eternos que dele decor-. rem? É, pelo menos, o caminho que conduziu à fenomenologia transcenden tal. Esse caminho vamos percorrer juntos. Como filósofos que bus­ cam um primeiro ponto de partida e não o têm ainda, vamos tentar meditar à maneira cartesiana. Naturalmente, observaremos uma ex­ trema prudência crítica, sempre prontos a transformar o antigo cartesianismo toda vez que a necessidade disso se fizer sentir. Deve­ mos também trazer à luz e evitar certos erros sedutores dos quais nem Descartes nem seus sucessores souberam evitar a armadilha. PRIMEIRA MEDITAÇÃO RUMO AO "EGO" TRANSCENDENTAL 3. A revolução cartesiana e a idéia-fim de um fundamento absoluto do conhecimento Como filósofos que adotam por princípio o que podemos cha­ mar de radicalismo do ponto de partida, vamos começar, cada um por si e em si, colocando de lado nossas convicções admitidas até aqui e, em paI1icular, não aceitando como certas as verdades da ciência. Como fez Descartes, vamos nos deixar gui ar em meditações pela idéia de uma ciência autêntica, possuidora de fundamentos absoluta­ mente CC I1 0S . pela idéia da ciência universal. Mas lIIlla dificuldacle se apresenta. Colocadas de lado as ciências (n?ío admitimos o valor- de nenhuma), nada mais resta que possa nos servir de exemplo de ciên­ cia verdadeira. Não se poderá então duvidar dessa própri a idéia, ou seja, da idéia de uma ciência de fund amento absoluto? Designa ela lIma idéia-fim legítima, um fim confiado a qualquer disciplina prótica possível') É evidente que não podemos admiti-la desde o início, e Illuito menos podemos reconhecer uma norma reguladora da estrutura COIl­ siderada naturéll e própria de uma ciência verdadeira como tal. Isso resultaria em outorgar de antemão todo um sistema lógico e toda lima teoria das ciências, quando, na verdade, também elas devem ser en­ globadas na revolução cartesiana. 25
  • 13. 26 27l11cdita0õC5 Cm·tcsianm o próprio Descartes inicialmente se propusera um ideal cientí­ fico, o da geometria, ou, mais exatamente, o da física matemática. Esse ideal exerceu durante séculos uma influência nefasta. Também suas A1ediLações se ressentem do fato de ele ter sido adotado sem uma crítica prévia. Parecia natural a Descartes que a ciência univer­ sal devesse ter a forma de um sistema dedutivo, sistema do qual toda a construção repousaria ordine geomelrico num fundamento axio­ mático que serviria de base absoluta para a dedução. O axioma da certeza absoluta do eu e de seus princípios axiomáticos inatos de­ sempenha em Descartes, em relação à ciência universal; um papel análogo àquele dos axiomas geométricos na geometria. Mas o funda­ mento é ainda mais profundo aqui do que na geometria e é chamado a constituir o último fundamento da própria ciência geométrica. Quanto a nós, tudo isso não deve de forma alguma nos influen­ ciar. Como filósofos que buscam aillda o ponto de partida, não admi­ timos como válido nenhum ideal de ciência normativa; somente pode­ remos tê-lo à medida que nós próprios o criarmos. Mas nem por isso abandonamos nosso objetivo geral, que é o de conferir às ciências um fundamento absoluto. Como em Descartes. esse objetivo vai orientar o tempo todo o desenrolar de nossas medi­ tações, tornando-se cada vez mais precIso e concreto à medida que formos avançando. Mas será necessário usarmos de prudência quanto, à maneira de colocá-lo como objetivo, e evitar, por ora, prejulgar atl~ mesmo a sua possibilidade. Como elucidar c, ao mC"smo tempo, fixar agora esse modo de posição? t claro que pedimos emprestaci:1 a idéia geral de ciênCia às ciências existentes. Ora, em Ilossa atitllde de crítica radical, essas ciências tornaram-se hipotéticas. Portanto, a idéia de seu {11l1 geral também é hipotética e não sabemos se ela é realizável. Ainda as­ sim, sob a forma de hipótese c a título ele generalidade fluida e indeterminada, lemos essa i(k·ia. Portanto, temos também a idéia de uma filosofia, sem saber se ela é realizflvel e ele que Illanelra o será jceitaremos essa idéia como hlpótese provisória, a título de ens<1io. para guiar-nos nas mcditações. e vamos avaliar em que me­ dida ela é possível e realizávcl. I~ bem verdade que entraremos assim cm estranhas complIcações, pelo menos no começo; mas estas serão lI1evitáveis se nosso radicalismo quiser passar para a ação em vez de permanecer um simples gesto. Sigamos então paciente­ mente nosso camm·ho. 4. ReJJelaçâo do sentido final da ciênciapelo e~forr:o de ((vivê-la)) conlOfenômeno noemático Em pnmeiro lugar, vamos tentar tornar clara a idéia diretriz que, no início, só se apresentava a nós como vaga generalidade. Vale es­ clarecer que não se trata aqui da formação de um conceito de ciênci.a por um.a abstração comparativa, que toma as ciências existentes como. ponto de partida Não há identidade entre as ciências como fenôme­ no cultural e as ciências "no sentido verdadeiro e estrito": o próprio sentido de nossas considerações implica essa afirmação. As primei­ ras encerram nelas, para além de sua existência de fato, uma preten­ são que não é justificada pelo próprio fato de soa existência como fenômeno cultural. Éjustamente nessa pretensão que está "implicada" a idéia de cicncia crdadeira. Como cxplic3r essa idéia e captá-la? QualqucrJ1Ilgill1lcnto pode nos ser proibido quanto ao valor das ciências existentes (quaisquer que seji11l1 suas pretensões em relação a isso), quanto à exaticliío de suas teorias e, ele forma correlata, quan­ to à sol idez de seus métodos construtivos. Em contrapartida, nada poderia nos impedir ele "viver" é1S tendências c a atividade científica, e de elabormmos uma opinião cbra e nítida do objetivo que busca­ mos. Se, agindo ao aCé1SD, c1ptamos progressivamentc a "intenção" da tendência científica. acabaremos por descobrir os elementos constitutivos da idéia teleológica geral, que é própria de toda ciência verdadeira. Antes de tudo, trato-se elc elucidar o ato de "julgar" e o próprio "j ulgamento'-. De In íc io. vamos fazer a cl ist inção cn tre julgamentos imediatos c rncdlatos O sentido dos julgamentos mediatos mantém com o de outros uma rciaçiio tal que a crcnça. que lhes é inerente, "pressupôe" a desses outros Julgamentos: uma crença é admitida porque outra o é. Em seguida, é preciso elucidar o sentido da tendên­ cia da ciência de "fundamentar" seus julgamentos, respectivamente,
  • 14. 28 i1ediraçõcs Cartesianas o sentido do ato de "fundamentar" (provar), ato no qual se deve "de­ monstrar" a exatidão ou a "verdade" de um julgamento, Oll, ao cOIÍ­ trário, sua "inexatidão" ou "falsidade". Nosjulgamentos mediatos essa "demonstração" é mediata; apóia-se naquela dos julgamentos imedia­ tos envoltos no seu sentido e engloba igualmente a justificação des­ ses. Podemos "voltar" à vontade, a uma justificação uma vez estabelecida, ou à "verdade", uma vez "demonstrad8". Essa libcrda­ de que temos de reproduzir e de perceber novamente em nOSS<l cons­ ciência lima verdade concebida, como sendo identicamente "a mes­ ma", faz eom que essa verdade seja para nós um bem definitivamente adquirido, chamado então de conhecimento. Se, prosseguindo nesse caminho (deve ficar claro que aqui nos limitamos evidentemente a simples indicações). analis<lI11os com mais exatidão o própri o sentido dajustificação ou do conhecimento, somos levados à idéia de evidência. Na justificação verdadeira, os julga­ mentos demonstram sua "exatidão" , seu "acordo", ou seja, o acordo de nosso julgamento com a própria coisa julgada. Ou, mais exat<l­ mente: o ato de julgar é uma "intenção" e em geral uma simples presunção de que uma coisa existe ou é de tal maneir<l. Nesse caso, o julgamento, quer dizer, o que é colocado pelo julgamento, é some nte coisa ou "fato" ("estado de coisas") presumido, ou ainda co isa ou "fato" visto. Mas, em relação a isso, pode haver ainda um o utro tipo , dejulgamento intencional, muito particular, uma outra maneira de ter a coisa presente em nossa consciência: a evidência. Na evidênci<l , a coisa ou o " fato" não é somente "vista", de ll1<lneira di stante e inadc­ quada; ela prójJrio está presente dion/e de nós, e o s ujeito que julga tem del<l UI113 consciência imanente. Umjulgamento quc se li­ mita a um3 simples pres unção, se é passado na consci ênci3 à evidê n­ cia correlativa, ajusta-se às coisas e aos " fatos" em si. Essa p<lssa­ ge m tem llm carúte r especial , pe la qual a simples intcnção vazia se " pree nche-- e se " completa": ela assume o caráter de lima sínte ~e pela recuperação exata ela intuiçiio e ela evidência correspondente. 3 i intuição ev idente de que essa intenção, até ent50 " distanci<ld<l da co i- ' S<l", é exal<l. Procedendo dessa forll1<l, logo vemos surgir cenos elementos fundamentai s da idéia teleológ ica que rege toda atividade científica. Vemos, por exemplo, que o estudioso quer não apenas emitir julga- Primeira Meditação 2') mentos, mas fundamentá-los. Ou, mais exatamente, ele se recusa a atribuir a um julgamento o título de "verdade científica", para si e p<lr<l outros, se de antemão não o fundamentou perfeitamente, e se não pode a cada momento retornar livremente a essa demonstração para justificá-Ia até em seus mínimos elementos. De fato, essa exi­ gência pode permanecer no estado de simples pretensão; no entanto, aí esconde-se um objetivo ideal. A título de complementação, vale a pena ressaltar ainda o se­ guinte: é preciso distinguir entrejulgamento (no sentido muito amplo de intenção existencial) e evidência, de um lado, e julgamento e evi­ dência antipredicativos, de Dutro. A evidência predicativa implica a antipredicativa. Toda coisa vjsta, respectivamente toda coisa vista na evidência, é expressa . Em geral , a ciência quer emitir julgamentos expressos e fixá-los, a verd<lde, a título de verdade expressa. Mas a expressão como tal corresponde mais ou menos bem à coisa vista ou dada "em si", portanto à s ua evidência ou à sua não-evidência pró­ prias, elementos constitutivos da predicação. Esta torna precisa a idéia de verdade científica, concebida como um conjunto de relações predicativas fundamentadas ou a serem fundamentadas de maneira absoluta. 5. A evidência e a idéia de ciência verdadeira Assim meditando, reco nhecemos que a idé ia cartesiana cI<l ciên­ cia, no caso Ull1a ciência lInivers<l1 funel<llllentada e justi fíCil ch. com todo rigor, nada mais é que o ideal que guia constantemente todas as ciências em sua tendência à universalidade, qualquer que seja o gr<lu de sua realiz3ção prática. Na evidência, 170 sell/ido mais omplo desse termo, temos <l expe riência ele um ser e de sua maneira de ser; é pOl1anto nela que o olhar de nosso espírito alcança a cois<l em si. A contr<ldição entre nOSS<l " intenção" e a coisa que essa " experiênci<l" nos mostra produz a negativa da evidência Oll a evidência negativa, cujo contellclo é a fal sidade evidente. A evidência - que abrange na realidade qual­ quer experiência no sentido comum , mais restrito do termo - pode
  • 15. .31 "U Al,dirl1 Ffiís ( ~n rtcsimws ser mai s Oll menos perfeita. A e1'idêncio perfeila e seu correlato, u verdade' pura e estrita, apresentam-se como lima idéio inerente à tcndência de conhecer, de preencher a intenção significante; a idéia que é possível obter ao se tentar viver essa tendênc ia. A verdade ou a falsidade, a crítica ou a adequação crítica a dados ev identes, eis aí tant os temas banai s que já atuam se m cessar na vida pré-científica. i v idJ cotidiana, para seus fins ariáveis e relativos. pode contcntar­ se com evidências e verdades relativas. Já a ciência quer verdades válidos de ImlO ve.::- por todas e pora todos, definitivas, partindo de verificações novas e finai s. Se, de fato. como ela mesma deve aca­ bar.se convencendo a respeito, a ciênci,l não cunsegue ~unslrllir um sistema de verdades "abso lutas", se precisa o tempo todo modifie<lr as "verdades" adquiridas, ela obedece, no entanto, à idéia de verdade absoluta, de verdade científica, e tcnd e por aí ir par;l um hori zonte infinito de aproximações que convergem tod as para essa idéia. Com a ajuda dessas apru.x.jmaçües, eld acredita poder ultrcq.Jas';d r seu C)­ nheci mento ingên uo e assim ultrapassa r infinitamente a si próp~ia. Crê poder fazê-lo também pelo objetivo que se propõe, o da universa­ lidade sistemática do conhecimento, universalidade relativa. seja num determinado campo científico fechado, seja na. unidade uniersa l do ser em geral, a qUJI deve pressupor se se trata de umJ "filosofi<1"'c se ela deve ser possível. Em conseqüência, do ponto de vista dJ in- ' tençi"ío final. a idé ia de ciência e de fil osofia impl ica l/IIIU orc!i!11/ di! conhecimentos ul/leriores em si. relucionados (/ oUlros. elll .i 1)()s{eriores. c, no final das contas, U III começo e 11111 progresso. começo c progresso não fortuitos. mas, ao con trário, funclamellt ,ldos "' na nature7.;1 das próprias coi sas'". Assi m. sem que tenhamos prej uIgado o que quer que sei a so bre a possibilidade de uma ciência verdadeir,l ou sobre Ui1l ide,ll científico prctensamellte "natuf<1 I", pelo simples fato de que vivernos por meio de noss<lllleciitaçfio o esforço cielltífico no que ele tem de mais geral, vemos surgir ce rtos elementos fundamentais da idéia tel eológlca dc ciência verdadei"l. idéia que, ilinda que c1e maneira muito agil de início, ori enta esse esforço do pcn s;jl1lento científico. Que n30 se diga aqui: De que serve se incomodar com con statações semelhan­ tes? Elas pertencem e lmarnente à ep istemologia geral ou à lógica . P'l!11ám AIcriirnrfio Ba staria simplesmente aplicá-Ia, tanto aqui como na sequencla. Ora, é exatamente con tra esse "si mplesmente" que devemos nos precave r. Vale sa lientar o que já hav íamos dito a respeito de Descartes: a revoluçào geral que levam os a efeito colocou de lado toda s as ciên­ cias e. em conseqüência. a própria lógica. Tudo o que poderia nos servi r ele ponto de partida possíve Iem fi losofia deve ser obtido unica­ mente por nossas próprias força s. Uma ciência rigorosa do tipo da lógica tradicional nos será concedida em conseqi.iencia? No momen­ to, nada podemos saber a respeito. Graças ao trabalho preparatório - mais esboçado do que efe­ tuado ou mesmo explic itad o ·~ que acabamos de real izar, adquirimos luzes suficientes para ter condições de fixar um primeiro princípio me/(Jc!icu. destinado a reger todos os nossos esforços posteriores. A ssumindo como filósofo meu ponto de partida, volto-me para o ob­ jetivo presumido de lima ciência verdadeira. Em conseqüência, nào poderia evidentemente nem em itir nem admitir como válido nenhulIl julgallJl.'nto, se 11(70 o obtellho a partir da evidêllcia, ou seja, em e:'periências em que as "coisas" e os "fatos" em questão me são apresentados "em si". Deverei, então, é verdade, refletir sobre a evi­ dência em questão, avnliar seu alcance e tomar evidentes para mim seus limites e seu grau de "perfeição", ou seja, ver a que ponto as coisas me são realmente mostradas em si mesmas. À medida que ho uver falha na evidência. não poderei querer chega r a nada de defi-. nitivo: na melhor das hipóteses, poderei conferir aoj ul ga mento o va­ lor de uma etapa intermediária possível no caminho queleva a ela. As cicllcias v isam a predicações destinadas a fo rnecer uma expressão completa e adequada da intuição antipredicativa . Fica cb­ ro que esse aspecto da evidencia científica não deverá ser negligen­ ciado. A linguagem comum é fugidia, equívoca. Tlluito pouco exige nte quanto à ;ldeq uaçi"ío dos term os. É por isso que, <l li mesmo onde se us meios de e"pressiio serão empregados, sera prec ISo cOlltenr as sig­ nifieaçôcs U1ll novo fundamellto. orielllj-Ias de modo original sobre as evidências adquiridas 110 tr,lba lho científico e fí:'ar Ila linguagem esses significados fundilll1 enwdos de rUfIl1 ,1 nova. O princípio metó­ dico da evidência, que, a partir de agora, deve reger todos os nossos esforços, prescreve-nos essa tarefa.
  • 16. ••••••••••••• •• ••••••• ~2 j1.cdltaçõr.s Cm'tcsianas Masde que nos serviriam esse princípio e todas as meditações efetuadas se eles não nos fornecessem o meio de adotar um ponto de partida real, permftindo-nos concretizar a idéia de ciência verdadei­ ra? Essa idéia implica a de uma ordem sistemática de conhecimen­ tos, e de conhecimentos verdadeiros. Em conseqüência, o verdadeiro problema inicial é este: quais são as verdades primeiras em si que deverão e poderão sustentar todo o edifício da ciência universal? Se o objetivo que presumimos deve ser praticamente realizável, é preci­ so que nós, que meditamos com o absoluto despojamento de todo conhecimento científico, possamos atingir as evidências que trazem, nelas mesmas~ a marca dessa prioridade, no sentido de que sejam reconhecidas como anteriores a todas as outras evidências imagináveis. Mas a evidência dessa própria prioridade deverá comportar também certa perfeição, lima certeza absoluta. Isso é indispensável se quiser­ mos que o progresso e a edificação, a partir dessas evidências primi­ tivas, de uma ciência adequada à idéia de um sistema de conheci­ mentos - com a infinidade que , presume-se, essa idéia implica-, tenha algum sentido. 6. Diferenciações da' evidência. A exigênciafilosófica de uma evidência apodíctica eprimeira em si Mas nesse ponto inicial e decisivo em que nos encontramos, trata-se de ir cada vez mais adiante em nossas meditações, Í.:: preciso elucidar a expressão de cerlez.{/ olJsolllta ou, o que dá no mesmo, de illdllbitabilidade absoluTa, Ela atrai nossa atenção para O fato de que, à luz de uma explicação mais completa, a perfeiçào ideal exigida para a evidêllcio dlferenciu-se, Ei-nos aqui no limiar da meditação fil osófica , tend o diante de nós a infinidade ilimitada das ex periências ou evidências pré-científicas. Ora, todas são mais ou menos perfei­ tas. Aqui , imperfeiçJo quer dizer, em regra geral, ill.l'lIficiên<Ío i'S l: v idência ~ imperfeitas são Lmilalcrais, relati vamente obSl't1 raS, indi s­ tintas quanto à maneira pela qual as coisas ou os "fat os" süo ,lí mos­ trados "em si". A "experiência" no caso é, portanto, viciada por ele­ m entos de intenção significantes não preenchidos (lindo por wno . ,PnmciraMedita.çiio ~.) íntwçao correspondente. O aperfeiçoamento dá-se, então, numa progressão sintética de experiências concordantes, em que essas in­ tenções significantes chegam ao estado da experiência real, que os •confirma e preenche. A idéia correspondente de perfeição seria a de evidência adequada, sem que pesquisemos se, em princípio, essa idéia está ou não si tuada no infinito. Ainda que essa idéia não cesse de guiar as preocupações cien­ tíficas, um outro tipo de perfeição da evidência assume aos olhos do estudioso uma dignidade mais alta. Nós o captamos à medida que, como dissemos, tentamos "viver" suas preocupações científicas. Trata­ se da apodicticidade. A apodicticidade pode, conforme o caso, per­ tencer a evidências inadequadas. Ela possui umo indubitabilidwle absolllta de uma categoria especial e bem determinada, aquela que o estudioso atribui a todos os princípios. Manifesta a superioridade de seu valor na tendência que tem o estudioso de justificar novamen­ te e num plano superior os raciocínios já evidentes em si, elevando-os a princípios, e de lhes proporcionar dessa forma a dignidade suprema da apodicticidade. O caráter fundamental dessa evidência deve ser descrito, como se segue. Em cada evidência, o ser ou a determinação de uma coisa é captada pelo espírito no modo "ela mesma" e com a certeza absolnta de que esse ser existe, certeza que exclui a partir de então qualquer •possibilidade de dúvida. No entanto, a evidência não exclui a possibi­ •lidade de seu objeto tornar-'se, em seguida, objeto de dúvida: o ser •pode revdar-se uma simples aparência; a experi ência sensível no ~ fornece muitos exemplos dela. De resto, essa possibilidade, ~e mpre '.aberta ao objeto da evidência de tornar-se, e m seguida, (lbjcto de dú vida, de poder não ser - apesar d(l evidência - , pode se r prc­ visl<l por nós por meio de uma reflexão crítica. Em contrapartida, uma n'idéllcia opodícTica tem essa particularidade de não ser so­ mente, de maneira geral. certeza da exis tê ncia das coisas ou "fatos" •ev identes: ela se revela ao mesmo tt::mpo à retlexão crítica como uma impossibilidade absoluta de que se conceba a sua não-existência e, portanto, exclui de antemão toda dú vida imaginável COlllO despro­ vicia clt:: sentido. Além disso, a evidência dessa reflexdo crílica em si é ainda uma evidência apodícti ca ; em conseqüência, a evidência da existência dessa impossibilidade de não ser aquil o que é dado e m
  • 17. 34 35l',.fcditações Cnrtcsirmas uma certeza evidente também o é . E o mesmo vale para qualquer reflexão crítica de ordem mai s elevada. Record emos imed iatamente o princípio cartesian o da indu­ bitabilidade absoluta, pel o qual deveria ser excluída qualquer dúvida concebível e mesmo qualque r dúvida não justificada, e vam os lem­ brar disso à medida que ele serve à edificação de uma ciência verda­ deira. Graças à nossa meditação, esse princípio foi sendo progress i­ va mente realçado e assumiu forma mais c lara. Trata-se agora de saber se ele pode nos ajudar a adotar um ponto de partida real e de que maneira pode fazê-lo. Conforme nossas afinnações anteriores, a primeira pergunta a ser formulada por uma filosofia que se inic ia é a seguinte: podemos "descobrir" evidências que contêm a "apodíctica" adiantar, como "primeiras em si", todas as outras evidências concebí­ vei s, e ao mes mo tempo percebê-las como apodícticas? Se elas fos­ se m inadequ ad as, ao menos deveriam ter um conteúdo apodíctico passível de ser conhec id o, um conteúd o assegurad o, graç as à apodicticidade, "de uma vez por todas", ou seja, de maneira absoluta e inquebrantável. A questão de como se pode e de se é possível ir mais longe na construção de uma filosofia apodicticamente segura com cer­ teza há de ser uma cura posterior. 7. A evidên.cia da existência do mun.do não é apodictica; sua inclusão na reJ7olucão cartesianaJ o problema relativo ús evidências primeiras em si parece reso l­ ver-se sem dificuldade. A ex istência de um mundo não ocorre como uma evidência desse tipo') Ao mund o re lac iona-se a atividade da vida coticli ;ma, assim como o conjunto das c iênc ias, as ciênc ias de fato de forma imed i.ll a, as c iências apri orístiC<ls de forma med iata co mo ins­ trurnentos de mét odo. A ex istência elo mundo OC OITe por si: eJ,) é de !<lI forma natural que ninguém pensarj em enunc iá-la explic itamente num<l proposição. Não temos nós LI cOIltinuidade da experiência, em qu e o Jl1l1ndo est,í o tempo todo presente diante de nossoS olh os de man eira incontest6vel? Essa ev idênci a é, e m si própria, anterior, tan­ to ~l S evidências da v ida cotidiana, que se relacionam com o mundo, 1'rimcirn 1Hcditt1ftZO qu anto ~Iqu e hl s de tod as as c iênc ias, que tê m o mundo como objeto, ciências d as quais a vida é, aliás, o fundamen to e o suporte perma­ nentes. No ent,mto, podemos nos perguIllar se, nessa fun ção de an­ terioridade CJue é a sua, ela pode almejar a um ca ráter apodíctico. Prossegu indo llessa dúvida, achamos que ela não pode nem mesmo almejar o privilégio da ev idência primeira e absoluta. N o que COllcerne ao prime iro ponto, fica claro que a experiên­ cia sensíve l universal , na ev idênc ia da qual o mundo nos é perpetu a­ m ente dado , não saberia ser considerada sem m ais como apodíctica, ou seja, como exc luindo de mane ira absoluta a possibilidade de duvi ­ dar da ex istência do mundo , quer di zer, a possibilidade de sua não­ existência. Uma experiência indi vidual pode perder seu valor e ver­ se degradar ant e uma simples aparência sensível. Também tod o o co njunto de ex pe riências, do qu al podemos abraçar ti unidade, poele revelar-se co m o simples apa rênc ia e ser apenas um "sonho coeren­ te". Não é o caso de já ver nessas observações que. acabamos de fazer, sobre as mudanças bruscas possíve is e reais da evidência, uma crítica sufic iente dessa própria ev idência, nem uma prova peremptó­ ria de que podemos conceber a não-ex istênc ia do mundo, apesar da experiê nc ia contínua que temos dele O impo rtante é le mbrar o se­ guinte: se qu eremos fundamentar as c iências ele mane ira radical ; a evidência do mundo que LI experiência nos fornece necessita de qual­ quer forma de uma crítica p révia de sua au to ridade e de seu alcance: pOl1anto, nJO podemos, sem contestaçJo, considerá-I a como apodíctica. N ão basta então suspend er nossa adesão" tod as as ciências e tratá­ las C0 l110 prcj ul gal11clllos inadmissíveis p,lr<1 nós. É prec iso tam bé m retir<lr cio t ~' ITc n o lllli ve rs,ll , cio qu;t! CL1S se ,t1imentalll, cio te rreno d o muncl o e mpíri co, sua aut oridade cspolltilnca. A existência el o mund o. fundamentada na ev idência da ex periência natural, não pode ma is ser para nós UJ1l fato que ocorre por si: ela em si não é pJra nós ma is gue um objeto de ,lfirmação T1as se 11 0S ati vermos a esse ponto , restar-nos-á ainda uma base para julgamentos qu,lisquer, ,llé mesmo ev idências, base gue possa sCl"vir de fund ament o, e ele fumLtmc llto apodíctico a uma fil o­ sofia llni 'crs,l]"l O mund o n:ío englob'l a ulli'crsalidade ele tnd o o glle é? Poderíamos a partir daí ev itar levar a efei to, ainda ass im, in eXTen­ so e a títul o de tarefa primeira, a críti ca da experiência do mundo que
  • 18. •••• •••••• ••••••• 36 31-1cditações Cm'tcúanas acabamos de esboçar? E se o resultado dessa crítica se afirmasse ela forma como o havíamos suposto, seria então o fracasso de toela nos­ sa empreitada filosófica? Mas o que dizer se o mundo n50 fos se. no final das contas, o domínio absolutamente primeiro de todo julgamen­ to, e se com a existência desse mundo já estivesse pressuposto UI11 domínio de ser anterior em s i? 8. O ((ego cogitoJJ.como subjetividade transcendc'fltal Façamos aqui, seguindo os passos de Descartes, o gr;lnde ges­ to de voltar-se sobre si mesmo, o qual, se corretamente r'ea li zado, conduz à subjetividade transcendental: o debruçar-se sobr:; o ego cogito, domínio último e apodicticamente celta sobre o qual deve se r f undamentada toda filosofia radical. Reflitamos. Como filósofos que meditam de manei ra radical , não possuímos no momento nem uma ciência válida nem um mundo existente. Em lugar de meramente existir, ou seja, de se apresentar a nós apenas na crença existe ncial (naturalmente válida) da e.' peri ên ­ cia, esse mundo é para nós uni camente um fenômeno que cria uma pretensão de existência. 1sso te m que ver também com a existênci<:) de todos os outros eus, na medida em que eles fazem parte do mundo circundante, se bem que no fundo não tenhamos mais o direito de falar no plural. Os o utros homens e os animais não passam par.:! mim de dados de experi ênda decorrentes daquela sensíve l que ten ho de seus corpos; pOl1anto, não posso me servir da a utoridade desta. posto que seu valor é colocado em questão. Com os outros eus desapare­ cem naturalmente todas as formas sociais e culturais. Em reStlmo, não somente a natureza corpo ral, mas o conjullto cio 111undo concreto que me circunda, a partir de agora, não é mai s pa ra mim um 111undo ex isten te, mas somente " fenômeno ele ex istênc ia:'. No entanto, qua lquer que seja a pretensão exi stenc ial rl'a l ine­ rente a esse fenômen o, e Cju;Iiquer que seja, e m reldçàn a i~ Sll. a miJ1ha deci são crítica - que cu opte pelo ser o u pela ;tparênci:1 --, esse fenômeno, como m eu. não é um puro nada. Elc é, ao contrário, justamente o que me torna possível uma tal dec isão: é também. po r­ P"imcim i1cdiração tanto, o que torna possível que haja para mim uma crítica do ser "verdadeiro", que determina o próprio sentido da validade de uma tal asserção. E mais: se, como pude fazê-lo livremente e como realmente acabo de fazer, abstenho-me de toda crença empírica, de maneira que a existência do mundo empírico não mais seja válida para mim, essa abste nção é O que ela é, e está incluída e m todo o coticliano da vicia perceptiva. Essa vida está continuamente ali para mim, tenho constantemente a consciência perceptiva dela num campo de per­ •cepção presente; ora ela está presente para mim em sua originalida­ ele mai s concreta, ora tais e tais formas passadas dessa vida " to r­ nam-se novamente" conscientes para mim pela memória, e isso implica que elas se tornem novamente conscientes como "essas próprias for­ mas passadas". Posso, a qualquer momento, na reflexão, dirigir um olhar de minha atenção a essa vicia espontânea, captar o presente como presente, o passado como passado, como eles de fato são. E o I • • • • • • • •• faço agora como eu filosófico, que pratica a citada abstenção. Num certo sentido, para mim, o mundo percebido nessa vida reflex iva está sempre ali; ele é percebido como antes, com o conteú­ do que, e m cada caso, lhe é próprio. Continua a aparecer para mim como até então, mas, n'a atitude refl ex iva qpe me é própria como filóso fo, não efetuo mais o ato de crença existencial da experiência .natural: não admito mais essa crença como válida, ainda que, ao mesmo tempo, c la esteja sem pre aI i e possa até mesmo ser ca ptad;l pelo 0 1h;1r da atenção. O mesmo vale pma tod as as outras intenções que pertencem ao meu cotidiano de vicia c que ultrapassam as intuições e mpíricas: representações abstratas, julgamentos de exist0Jlc ia c de va lo r, determ inações, pos ições de fin s e de me ios, etc.; ta111 béll1 n:l0 executo mais atos de autodeterminaç50, não " tomo posição": atos que são natural e necessariam ente executados na atitude irrefletida e ingênua da vida cotid iana; abste nho-mc de fazer isso precisamente na medida em que essas atitudes pressupõem o mundo e, por1anto, contêm nelas lima crença existcncial rel at iva ao mundo. Também aí , a bs t e n ç8o e o a t o de de ix a r c m s e gun do p Ian o a s a t it ucI c s determinativas pelo meio reJ1ex ivo do filósofo n30 significam que e las desa pareça m de seu campo de experiência. Os estados ps íquicos concretos, vale repetir, são o objeto do o lhar da atenção; mas o eu
  • 19. 39 ;~ /vI(dirn( rlc<Cnrtcsit17/aJ atcn cional, como e/l filosófico, pratica a abstenção em relação a esse ,ldo intuiti vo. D~l mesma forma, tudo O que nos estados vividos des­ se tipo estava, no scio da consciência significante, presente a título de coisa visado, ou seja, um julgamento determinado, uma teoria dos valores ou dos fins, nada disso é suprimido. Mas todos esses fenôme­ nos perderam sua "validade" e sofrem uma "modificação de valor"; eles nJo passam ilgora de "simples fellÔmenos·'. Em conseqüência, essa invalidação universal, essa "inibição" de todas as atitudes que podemos tcr em relação ao mundo objetivo - e, de início, das atitudes relativas à: existência, aparência, existên­ cia possível, hipotética, provável e outras - ou, ainda, como se.cos­ tunJa di ze r: essa E1lOX11 fenomenológica", essa "colocação entreya­ rênteses" cio mundo objetivo, não nos põem diante de um puro nada. O que, cm contrapartida e justamente por isso, torna- se nosso, ou melhor, o que dessa forma torna-se me u, a mim sujeito que medita, é minha vida pur~l com o conjunto de seus estados vividos puros e de scus objetos intencionais, Oll seja, a universalidade dos "fenômenos" no sentido especial e ampliado da fenomenologia. Pode-se dizer as­ sim que <1 E1l0Xll é o método universal e radical pelo qual me perce­ bo como eu puro, com a vida de consciência pura que me é própria, vicia na qual e pela qual todo o mundo objetivo existe pãra mim, exa­ tamente da fonna como exiqe para mim. Tudo o que é "mundo", todo ser cs pa c i~ll c temporal ex iste para mim, quer dizer, valc para l11im~ o próprio fato de eu ter dele a experiência, de percebê-lo, rCTllclllorú-lo , pensar nele de qu,t1qucr maneira, elaborar em relaçJo d .:Ic julg;lmenlOs de ex istência a li de valor, clesejj-lo, e as im por di'lnte. Tudo is:-;o. DCSGlrlcS designa. como se sa be, pela p;t1élvra C()giTO. A bem dizer, o mundo n:io é para mim outra coisa senão O que existe, e vale para a minh~l consc iência num cogito semclh'lIlte. Todo o seu scntido uni ve rs.t1 e )J<lrlicular, toda sua validade ex istcn­ Ci:l!. cle os tir~l exclusivanwnte desas cogit(l/iollcs. N elas transcor­ re toda d minha vida intrzlmundana, portanto também .15 PcsCluisas e es forços CJue te nham que ver eom minha vida científica. NJo ])OSO VI'er, cxperill1Cn!<IL pCnS(L ]) JU posso agir e emitir julgamentos de ',l1or num mundo OUlro que ,1LJlICil: CJue encontra em mim e lir'l de mim mesmo scu sentido e sua valid'1de. Se me coloco llcima de toda essa vida e me abstenho de efetuar a menor crença existencial que Primeira lvlailrnçiio coloca "o mundo" como existente, se volto exclusivamente para essa vida em si, na medida em que ela é consciência "desse" mundo, en­ tão me encontro como ego puro, com o cotidiano puro de minhas cogirationes. Em conseqüência, de fato, a existência natural do mundo - do qual posso falar - pressupõe, como uma existência em si anterior, a do ego puro e de suas cogitationes. O domínio de existência natural, portanto, só tem uma autoridade de segunda categoria e pressl1põe sempre o domínio transcendental. É por is so que o esforço fenomenológico fundamental, ou seja, a E1l0Xll transcendental, na medida em que nos leva a esse domínio original, chama-se redução fenomenológica transcendental. 9, Alcance da evidência apodíctica do ((eu souJ ) A qu estão seguinte é saber se essa redução toma possível uma evidência apodíctica da existência da subjetividade transcendental. A experiência transcendental do eu não poderá servir de suporte a julgamentos apodícticos, a não ser que ela própria o seja. É só então que uma filosofia será possível, ou seja, que ela será possível de criar, a partir desse campo de experiências e de julgamentos original , um edifício sistemático de conhecimentos apodícticos. Que o ego S Wl1 ou o S /.I!J1 cogitans deva ser visto como apodíctico e, portanto, que com cle tenhamos sob nossos pés um domínio de ser apodíctico e primeiro, Descartes, sabemos, já viu Ele assinala bem o clr:iter indubitáve l dessa proposição e afirma em alto e bom tom que mcsm o o eu duvido jú supõe o eu SOI/. Trata-se, é claro, também no caso dele, do eu que percebe a si próprio, após ter colocado de lado o mund o empírico como podendo ser objeto dc dúvida. Fica claro, após nossos esclarecimento. que o cnticio da certeza na Cjual, gr~lças ;1 red llc;Jo transcendental. o ego consegue revelar-se a nós correspon­ de realmente :10 conceito de apodicticidade que explicitamos acima. É verdade CJue o problem<t ela "podiclicid<tele e. dessa rorm,1. o cio fllnddm cnto primeiro de Uilla filosofia ainda nJo está de 1ll:IlCir:l alguma resolvido. Com efeito, as dúvidas Jogo surgem. Por exemplo, a subjetividade transcendental não contém necessariamente seu passa­
  • 20. •• ••••• ••••••••• 40 j11edirafue>" CClrtesianm do eventual, acessível, por sua vez, apenas pela memória? Podemos pensar no caso dela numa evidência apodíctica? É verdade que seria falso querer negar por causa disso a apodicticidade do eu sou; isso só é possível se, em lugar de a tomarmos presente, limitanno-nos a argumentar de maneira totalmente externa. Mas há um outro proble­ ma que irá se colocar agora: o do alcance de nossa evidência apodíctica. Vamos lembrar aqui uma observação anterior. Numa evidência, dizíamos então, a adequação e a apodicticidade não Ilecessaria­ mente camillham juntas. Talvez essa observação, no fundo, visasse ao caso da experiênciÇ! transcendental do eu. Nessa experiência, o ego é originalmente acessível a si mesmo. Mas, em cada caso, essa experiência não oferece mais que um núcleo de experiências "propria­ mente adequadas". Esse núcleo é a presença viva do eu, tal como o expressa o sentido gramatical da proposição ego cog ilO. Para além desse núcleo, estende-se apenas um horizonte indeterminado, de uma generalidade vaga, horizonte daquilo que, na realidade, não é o objeto imediato de experiências, mas somente o do pensamento, que, neces­ sariamente, o acompanha. A esse horizonte pertence o passado do eu, quase sempre totalmente obscuro, assim como as suas faculda­ des transcendentais próprias e as particularidades que, em cada caso, lhe são habituais. A percepção ex terna (que certamente não é apodíctica) é, sem dúvida, uma experiência do objeto em si - o pró­ prio objeto est:i ali [diante de mim] -, mas, nessa presença, o objeto possui, para o SUj eito que percebe, um conjunto aberto e infinito de possibilidades indeterminadas que não são, elas próprias, atualmente percebidas. Esse espectro, esse ·'horizonte" é tal que implica a possi­ bilidade de ser determinado em e por experiências possíveis. De maneira igualmente análoga, a certeza apodíctica da experiência transcendental percebe o meu ell sou transcendental como capaz de implicar a ind e terlTlina~ão de um horizonte aberto. A realidade cio domínio de conhecimento original está, portanto, absolut,ll11Cnle esta­ belecid;l, mas também sua limitação, que exclui tudo aquilo CJue aincla não se apresentou, "ele próprio". a descoberto na evidênci,l viva elo cu SOLl. Todos os atos de pensamento significante que <Jcompanham a experiência da evidência transcendental - e são implic;ldos por ela - não concorrem para sua apodicticidade, e a possibilidade que Primrirn Meditarão ·11 ••possuem -ou pretendem possuir - de poder ser "preenchidos" por uma intuição correspondente deve ser submetida à crítica, que, even­ tualmente, limitará de forma apodíctíca seu alcance. Em que medida o eu transcendental pode enganar-se a respeito de si próprio, e até onde se estendem, apesar dessa ilusão possível, os dados absolutos e indubitáveis? Por outro lado, ao instituirmos o ego transcendental - e nles­ •mo se negligenciarmos por enquanto os problemas difíceis relativos à •apodi.cticidade - chegamos a um pont~ perigoso. ••10. Digressão. Como faltou a Descartes a orientação transcendental Pode parecer fácil, se acompanhamos Descartes, captar o e/l puro e suas cogitationes. Mas, no entanto, parece que acabamos chegando num cume escarpado. Avançar com calma e segurança .:por esse cume é uma questão de vida ou mone para a filo sofia Des­ cartes tinha a firme vontade de se desfazer radicalmente de qu,llqtler preju lgamento. Mas sabemos, graças a pesquisas recentes e sobre­ tudo aos excelentes e profundos trabalhos de Gilson e Koyré, quantos "prejulgamentos" não esclarecidos, herdados da escolástica. as Me­ rlúoÇ"(Jes ainda contêm. Mas isso· não é tudo; é preciso acrescentar <.linda o prejulgamcnto que mencionamos acima, deco!TcJ1le ele sua admiração pelas ciê ncias m;ltem;'ticas. Nós próprios sofremos ;lin(b J influência dessa herança anti ga, da qual deve mos nos resguarddl Falo da tendência a consider;r o ego cogiTO como um "axiom;l" apodíctico, que, junto com outros ainda não desvelados, ou me ~ mo com hipóteses encontradas por um caminho indutivo. deve servir de /"undamento a uma ciência "dedutiva" e explicativa do mundo. ciên­ Ci;l "nomológica", e CJue procede orrli/le gCOIl1eTrico exatamente igual ús ciê ncias matcm;íticas. De furmd corrclata, não deveremos pens<lr de 1l1,1llcira ,1IgUI11<.l que, em IWS -;O c'1I J)lfro <Ipodíctico, conseguimos preservar uma pequcna parccl;1 ci o mundo. parcela que, p"rd o ( ' /f ji/osófico, seria a única co is;l não sujeita à dúvida, e que se tr,t, agora de reconquistar, por deduções bem conduzidas e seguindo ()s princípios inatos ao ego, tocl o O resto do mundo.
  • 21. 42 i'vJ.crútnçe"'i.:s Cnrtesirmas fnfelizm ente, é O que acontece com Descartes, em resultaclo de uma confusão, que parece pouco importante, mas acaba sendo muito funesta, e faz do ego uma substantia cogi/ans separada, um mens sive animus humano, ponto de partida de raciocínios de ca usalidade. É essa confusão que fez de Descartes o pai do contra-senso fi losófi­ co, que é o realismo tran scendental, o que, no entanto, não podemos ell:ergar ainda. Nada se melhante nos acontecerá se permanecer­ mos fi éis ao radicalismo do voltar-se para si mesm o e, dessa forma , ao princípio da " intuição" (ou evidência) pura, e se, em conseqüência, fizerm os valer a penas aquilo que nos é dado realmente - e imedia­ tamente - no campo do .ego cogito que a ErroXll nos abriu; portan­ to, se ev itarmos e nunciar o qu e nós próprios não vemos. Descartes não se conformou pl e namente com esse princípio. É po r isso que, num certo sentido, tend o feito já a maior das desco bertas, não captou nela o sentido co rreto, O da subj etividade transcendental. Ele não atra­ vessou O pórtico que leva à filosofia transcende ntal verdade ira. 11. O ((euJJ psicológico e o ((eu JJ transcendental. A transcendência do l1~undo Se mantenho em sua pureza o que, pela li vre EnoXll e l11 rel a­ çZio D. ex istência do mund o empírico, se ofe rece ao meu olhar. a lúil11. sujeito que medita, capto Ull1 fa to s ignificati vo: que eu mesmo e mi­ Ilha prórria vida permallecemos intatos (qu:lJ1to à posição dc nosso ser qu e permanece válida), qu a lquer qu e seja a ex istênci a ali não­ e: istênc ia do m li ndo, e q lla Iq lIU que possa se r o julgamento q lIC tere i sobre esse sujeito . Esse e u e sua v ida psíquica, que mantenho nec es­ sariamente apesa r da f noXll. n{ío sZio uma parte elo mundo: e se esse eu diz: ElI so u, cg () (;og i/o. isso ni'ío mai s quer dizer: Eu, como esse ho mcm. sou "Eu" nJ o é mai s o ho mem que se perccbe na intuiçZio niltmal de si cOll s idcrado como homem natural, nem tampo uco () honlC': Jll que. limitad o pe l:l abstraçZio aos eJéldos puros da e:pcri ên­ cia " inte rna" e purame nte ps icológica, ca pta se u próprio JIl l!JlS .., II·I! U77iIl7US sive in/ellcc/lIs, nem mesmo a alma, e ln própri a. tomada separadamente. Nesse modo de percepção "natural", eu e todos os 1'17i11Úm .;"''f..dira~iio 43 outros homens servimos de objeto ,1s ciências positivas ou objetivas no sentido comum do termo, como a biologia, a antropologia e a psi­ cologia empíricn. A vida ps íquicn, de que fala a psico logia, sempre foi concebida como vida psíquica no mundo. Isso vale manifesta­ mente també m para minha própria vida , já que podemos captá-Ia e analisá-Ia na e..periência puramente interna. Mas a oWXTJ feno­ men o lógica. tal como exige de nós o andamento das Meditaç ões cartesianas pllrificadas, inibe o valor ex istencial do mundo obj etivo e, dessa forma, o exclui totalme nte do campo dos nossos julgame ntos. O mesmo se dá com o valor ex isten c ial de todos os fatos obj etiva­ mente constatados pela experiência externa , assim como daqu e les da experiência interna . Para mim , sujeito que medita, colocado e per­ sistindo na é:nOX11', e pos icion a ndo-me assim como fo nte exclu s iva de todas as afirmaç ões e ele todas as justificações objetivas. ele I1Zio é, portanto , nem eu psicológico ncm fenomenos psíquicos no sentido da ps icologia. o u seja, compreendidos como elementos reais de seres humanos (ps icofísicos). Pela EnoXTJ fenomenol ógica, reduzo meu eu humano natural e minlw v ida rsíquica - elo míni o de minha experiência psicológica interno __o a mc:u eu transce ndental e fenomenológico, domíni o da experiêncio interno transcende77/ol e fenomenológica. O mundo objetivo, que ex iste para mim, quc ex istiu ou ex istirá para mim , esse mun do objetivo eo m todos os se us obj etos encontra em lIIim mesmo, com o disse ilcim,L todo o sentido e todo o val o r existencial que tem para mim; cle os encontra no II/C/! ell trulJ.lu:lldelltal, que só reve la a EnoX11 fellolllcnológic1 tr'1JlsCCnd,;ll(ll. DeCI1WS busc lr esse co nccitu llc tr,lIlsccnclclltal e se u conel:lt',. o conce ito de tr,mscendenle. c:cJus i<1mc nte em nossa própria Illedi­ tação fil osó fi ca. ; esse rcspe ito, vale ressaltar quc se o cu reduz ido nZio é ul11a p:lrte cio mundo. da meSlllZl (01'111<1, inve rs<1mentc, o mundo e seu s obj etos 11;10 S:IO partes re a is (lo meu e /l. Não é p oss ível enco ntr,í-l os Cm Jllil1h a vida pSÍqUi C:1 cumo r a rtes reai s dess<l vid<l, como um complexo de d<ld os scnS()ri ,l is ou de atos psíq uicos. ESS ,1 /rol1scel1dêllCIU é In erente no selll id u cspcc ífíco elc tlido o qu e faz pnrle do l1lundo, ,1iJl(1;} que n,ll) pOSS<t lllOS dar a essc " nlllI1d ) " c a suas determinações nenhum ) ulro scn lido senão aquele que c:traí­ mos de nossas experiências, n::pnêsclllilções, pensamentos,j ulgamentos
  • 22. 44 ,V1cditaFõcs Cartesianas de valor e ações, da mesma forma que não podemos justificar a atri­ buição a esse mundo de uma existência evidente, a não ser p::Htilldo de nossas próprias evidências e atos. Se essa "transcendência" de inerência irreal pertence ao sentido próprio do mundo, então o eu em si, que carrega nele o mundo como unidade de sentido e que justa­ mente por isso é uma premissa necessária dele, esse eu chama-se transcendental no sentido fenomenológico do termo, e os problemas fílosófícos decorrentes dessa correlação chamam-se problemas fílo­ sófíeos transcendentais. • •SEGUNDA •MEDITAÇÃO .'•••o CAMPO DE EXPERIÊNCIA .'TRANSCENDENTAL E SUAS •ESTRUTURAS GERAIS •••12. Idéia de umfundamento transcendental do conhecimento •Vamos agora dar uma nova direção à nossa meditação. Somen­ te dessa forma os resultados de nossas consideraçoes anteriores po­ •derão gcrar seus frutos. Eu, que medito segundo o modo cal1csiano, •o que posso extr:1ir do eu transcendental do ponto de vista filosófico? Cert:1lllcnte, do ponto de vista do conhecimento, o ser desse eu pre­ •cedc qualquer existência objetiva. Ele é num certo sentido o scu do­ •mínio. em que se fOflna todo o conhecimento objetivo no sentido nor­ malmente atribuído a esse termo. Mas esse fato de "preceder·' todo •o conhecimento objetivo acaso quer dizer simplesmente fazer uma •"premissa" dele? Não que se trate de abandonar a grande idéia •cartcsi:ll1a de ir buscar I12l subjctividade transcendental ajustifiC:1Ção t'i1tima de tod:ls as ciências. até mesmo da existência de Ulll mundo •objetivo. Nesse caso, não teríalllos conferido uma modific:1ção críti­ ca ;10 andamento das A1edi/oç-?5es; não scguiríamos mais nenhum r:1:-;ro delas_ Mas pode ser que a descoberta cartesiana clo eu •transcendental revele também uma idéio nova do jUlzdo!l7(!1710 do conhecimenlo, a saber de UIll fundamento ele ordem transcendental. •Com efeito, em lugar de utilizar o ego cogito como premissa •45 •••
  • 23. 46 47 .Jt'ilitl/{lIr:.< C nrtr.<imlf7s apodicticamcnte certa p<lfa raciocínios que devem nos levar a uma subjetividade transcendental. ei s aqui para o que iremos voltar nossa atenção: aos olhos do filósofo que medita, a E.TCOXll fenomenológica põe em destaque uma e.fera nova e illfilIita de ex istênci(/ que pod e atingir uma experi ênc ia nova, a experiência tran scendental. Observe rnos uma coisa: ~I cada tipo de experiência real e aos modos gcrili s de sua especificaçJo - perce pção, retenção, lembrança e outros - corresponde também uma ficção pura, uma "quase-experiên­ cia", que possui modos de especificação paralelos (percepção, reten­ ção, lembrança fictícios) . Assim sendo, estamos no direito de nos ater àquilo que existe também no domínio da possibilidade pura (re-: presentação pura ou irnagi nação), uma c iência especial de ordem '. a p riorís tica cuj os jul g amentos base iam-se não e m rea lidades tr;lllscenckntilis. mas ê m po~s ibilidad es apriorísticas, e que assim sendo prescreve regras, {l priori. a essas realidades. 1'.13s nos permitindo vagm ao acaso no sentido de conceber a idéia de uma ciência fen omenológica que deve trans formar-se numa jllosofia, logo encontramos, com o imperativo metódico fundamen­ taI de uma evidência que seria apodíctica, as difi culdades menciona­ das acima . Porque, como vimos, por mais absolutLl qu e seja essa ev idência para a exi stênci;1 do eg o e para esse próprio ego , 'ela n50 O é da me s llla forma P()f<1 o s múltiplo s dados da e xperi ê nciá tr;lllscendent<ll. C om efe it o. as cogiwlion es dadas na atitude da re­ dução tran scenden(;]1 como objetos de percepção, de lembrança. etc ., nJo poderiam ser tid as como ilbsolutamente certas qua nto ~I seu ser presente ou pass;l(o. No cnt :Il IO, é poss ível m ostrar que ;1evidência ilbsoluta do (:'// SOl! estende-se também , necessari amcnt e. ;IS 1l1ulti­ plic idades da ex periênci:1 interna que temos da vidu frU!1. u!/u lel1fu/ i' (Ins p{/uic l!l{./ ri r/(/(les /lOhifllnis do (' 11 , ;Ii nda qu e e b se iltenh,) a ,:crtos limitcs d e t e rlllill ~ ld os reln :Ilcance de t:1Ís ev idênc ias (por exem­ plo. as cid Icmbr;lllç:1 lllL'di:ltd ou illleúi:ltd, etc .). V :llll OS csc lmecer 11 0 SS0 pensillllclllo . O cUlllclÍd o ,Ibso lutillllcllte certo qu e nos é forne­ c icl o n;! cxpcri ênei;1 intcrIL! lransccndentdl não se reduz uni c;lll1ente ;1 idcnticbd e ci o C II S OIl . Por me io de t ()do~ os d,lc! OS singllLlres ela experi ênci<t interna rc;rI e possível - ainda quc n;IO sejam ,)bsoluta­ mente cert os no detalhe -, estende-se UJlla estrullll'o unive rsal e ({podícric(/ ria I'!xperii'n c iu d o eu, como, por e xemplo, :1 forma tem- Segunda .Hrditnplo poral imanente da corrente de con sciênci~, Em virtude dessa estmtu­ ra - e este é um dos seus caracteres próprios - , o eu possui um esquema apodíctico de si mesmo, esquema indeterminado que o faz aparecer a si mesmo como eu concreto, que existe com um conteú­ do individual de estados vividos, de faculdades e de tendências, por­ tanto, como um objeto de experiência, acessível a uma experiência interna poss ível, que pode ser infinitamente ampliada e enriquecida. 13. Da necessidade de excluirprovisoriamente osproblen"tas relativos ao alcance do conhecimento transcendental A realizaç ão efetiva dessa "descoberta" seria a /(Irefa ell7i­ n enle de umu c rítica da exp eriênc ia interna transcendenla l, crí­ tica que se basearia nas formas individuais e determinadas dessa experiência. Essa tarefa , como se vê, é de ordem superior e faz supor o cumprimento de uma primeira providência: seria preciso que, seguindo a evidência concordante da experiência tran scendental em Sl:U jogo, por ass im di zer, ingênuo, fôssemos de início orientados em seus dados c os tivéssemos descrito em seus caracteres gerai s. A ampliação das llll:ditações cartesianas que acabamos de efe­ tuar v,lÍ de terminar d e forma ~ e me lh a nte nossos esforços futuros. Pre vemos a partir de agura que os trabalhos científi cos agrupados sob o título coletivo de j<'l7 om el1 () /ogio Iml7sCendenlO/ deverão e fe­ tuar-se e m duos el({/m,'. Nu jJril/l eir{/, será nccess;írio perco rre r Ullla primei)';) '(:~z o CillllpO - imenso, como ve remos - do experiêl/c ia frol7 SCelldel/ fl/ / do eu. VdIllOS. desde o inÍL'i o. II/)ulldoll(lr-IIOS puro (' simp/esm el/ f(' (i ev;rlêllc;o /)/'/)/)ri(l do d e.·('1I1'o/,illl ellf u (,ollcordu/'I fe d cssl/ ex ­ jJ ('riêllci(/ . V,IIllOS, portanto. dci x:lr p,lra o futuro os pro bkll1 ~l" dl' lima crítica ci o ;rlc;rnce dos princípi os ;Ipodícticos. ESSLl prime ir;! cta­ pa (Iilldo n{IO é .fi/osójico !I() sentido pIeI/O da jJiI!UV/'O . V~lITlOS proceder no C<l SO à mane ira do naturalista que se ab;mdOIl<l ir evidên­ c ia da experi ência n;llur;r!, e que , como naturalistLl, exclui elo te ma de suas pesqui sas as questões re lacionadas a uma crítica geral dessa própria experiência.
  • 24. 48 49J'v!tdirnções Cnrtcsúmns A segunda etapa teria por objeto a própria crítica da expe­ riência transcelldental e conseqüentemente a do conhecimento Iransccndental em geral. Assim, oferece-se a nós uma ciência de singularidade extraordi­ nária. Ela tem por escopo a subjetividade transcendental concreta como dada numa experiência transcendental efetiva ou possível. Ela se opõe radicalmel/te ús ciências tais como as concebíamos até aqui, ou seja, às ciências objetivas. Estas compreendem igualmente uma ciência da objetividade, mas da subjetividade objetiva, animal, que faz parte do mundo. Mas aqui se trata de uma ciência, de qual­ quer modo, "absolutamente subjetiva", cujo objeto é independente do que podemos decidir quanto ~ existência ou não-exi stência do mun­ do. Isso não é tudo. Parece-me que meu eu, o eu transce ndental do filósofo, que é o primeiro objeto dessa ciência, seja também necessa­ riamente seu objeto único. Com certeza, ele está de acordo com o sentido da redução transcendental de não poder colocar de início ne­ nhum outro ser que não seja o eu e o que lhe é inerente, e isso com um espectro de determinações possíveis, mas não ainda efetuadas. A dita ciência começará, portanto, seguramente como egologia pura e, por esse fato, parece nos condenar ao solipsismo. pe lo menos transcendental. Ainua não vemos de forma alguma como, na atitude da redução, outros P flS poderiam ser colocados - não como s imples, fenômenos do "mundo", Illas como de outros cus transcenclentzlis-; portanto; como tais ('LlS poderiam tornar-se por sua vez sujeitos qua­ lificados de uma egologia fenomenológica. Como noviços em fil osofia, não pode mos nos elei xar intimidar por dú vidas uesse típu. A redução ao ell tran sce ndental tal vez nJo te nha mais que a ap"rênci~ cle um solipsismo; o desenvolvimento sistemático e conseqüe nte da análi se egológic<1 nos conuuzirá tal vez, llluito pelo contrJri o, a uma fenome nologia ela intersubjeti viuaue transcende nwl e - ucssa forma - a uma filosofia tmnscenuenwl em geral. Veremos, com efe ito, que um solipsismo tran sccnucntal não passa de uma cseda infe rior da filosofia, c que é preciso dese nvolvê-lo como tal por razões mctódicas, notauamente par<! co­ locar de maneira conveniente os problemas da intcrsubjetividade tr,m scendental. Est es pertencem, com efeito, a uma categoria supe­ rior. M as, no estado atual de nossas medildções, não podemos ainda Segzmdn JWcditnção afirmar nada de preciso. Além di sso, as antecipações que acabamos de elaborar só farão sentido a seguir. Em todo o caso, acabamos de definir com muita l1itidez o ponto em que nos desviamos de maneira essencial do caminho das Medita­ çoes cartesianas, o que será de alcance decisivo para o desenvolvi­ mento posterior de nossas m ed itações, Contrariamente a Descartes, vamos nos propor como tmefa explorar o campo infinito do expe­ riência lranscendental. Se a evidência cartesiana - a da propos i­ ção ego cogi~o, ego sUln - permaneceu estéril , é porque Descartes negligenciou duas coisas: inicialmente no que se refere a elucidar de uma vez por todas o sentido puramente metódico da EnoXll transcendental e, em seguida, quanto a dar-se conta do fato de que o ego pode, graças à experiência transcendental, ex plicar-se a si pró­ prio indefinida e sistematicamente; que, a partir desse fato, esse eu constitui uma campo de investigação possível, particular e próprio, Com efeito, sempre tendo em mente o conjunto do mundo e das ciên­ cias objetivas, a experiê ncia transcendental do eu não pressupõe, no e ntanto, sua existência e seu valor; ela se di stingue por isso mesmo de todas essas ciências, sem que no entanto jamais se limitem mu­ tuamente. 14. A corrente das ((cogita tiones)), (~Cogito)) e ((cogitatu711)) Por enquanto, não V,11110S nos ocupar uas questões reLlli vas <10 ,i1C;llCC lLl apoclicti ci uadc elo e ll so u. V"mos, sim , dirig.ir a lu z da cvidêncii transcende nwl não m;lis para o ego cogilo - te rmo tom(­ do <lqui no mais "mplo sentido cartesi;mo -, mas p"r<1 as co/{i!olioncs múltiplas, Oll seja, para a corrente de cOllsciênciil que forma a vida desse e l/ (meu cu, o eu do sujeito que medita). O C'1/ iuêntico pode ~I todo momento dirigir seu olhar refl ex ivo para esli.l vid<l, cJlIcr se trate de pe rcepção ou represcnt,lção, jlllg,l mento de ex istê ncia, de va lor Oll vo lic,:ão. Pode observ{i-Io a cada instante , explieí-Io e definir seu cuntnído. Mas, dirão alguns. seguir essa direção de pesqlliS<ls é simples­ m e nte fazer descriçâo psicológica, baseada na experiêncicl pura­
  • 25. 50 iHcdúações Cn.rtcsianm mente interna de minha própria vida consciente; não se pode esque­ cer que para ser pura essa desc rição deve excluir qualqu er coloca­ ção de uma re;llidade psicofísica. Mas Lima p sic%(5 ia p"ramente descritiva, ainda que devamos à nova ciência fenomenol ógica o fato de ter revelado seu sentido metódico verdadeiro, não é f enom enologia transcendental, no sentido em que definimos esta como redução fenomenológi ca transcendental. A psicologia pura forma , é verdade, um es/reilO paro/('lo com a fenomenologia tran scendental da cons­ ciência. No entanto, é preciso di stingui-Ias bem ; sua confusão carac­ teriza o psicolog isl11o /mns cendel1 wl, que torna impossível qual­ quer filosofia verdadeira. Tra~a- se aCJui de uma dessas nuanças aparentemente negligenciáveis, que decidem sobre a orientação da filosofia. O conjunto da pesqui sa fenomenológica tran scendental está ligado, não devemos esquecer, à observ,'ncia in violáve l da redução transcendental, redu<;ão qu e não se deve confundir com a limitação abstrata da in vestigação antropológica à mera vida psíquica. Em con­ seqüência, a in vesti gação fenomenológica transcendental da cons­ ciência e a investigação psico lógica diferem profundamente , ainda que os elementos a sere m descritos tanto em uma como em outra possanl coincidir. De um lado, temos dados que perten ce m ao "mun­ do", ao mundo colocado como ex istente, concebidos como elementos psíquicos do homem. De outro, mesmo com dados paralelos e con- , teúdo idêntic o, não há nada desse tipo; o mund o, na atitude fenomenológi ca, não ~ um,1ex istência, mas um s imples fenômen o. Mas s~ ev it,lmos essa confusão psicologista, rest;1 um outro ponto d e impo rtJnc i,l ckc isiv <l. (Ele dese mpenha, '11i<'íS. I17I1/u/is lI1utu/ldis , papel igualme nte importante no domíni o d,l experi ênc ia natural, psicolog io c/u c()/lscil?lIciu verdur/eira.) H:í um ,l co isa que a EJ10Xll concernente ~l ex istênc ia do mundo não poderia mudar: é que as múltiplas cogi/(lIio/l es que se re laciollam ,)O " mundo" con­ têm , /lelos m (,S!IlOS, eSS~1 relação; assim, por exe mpl o, a percepção dessa mesa é, tanto aJltes co mo depois, percepção r!{'ssu 111('S <I. Des­ sa forma, tod o estdd o de consc iência em geral é. em si mesmo, cons­ ciênci,l de alguma cois,l. qUdlquer qu e sejd a ex istê llc i,l re,d de sse objelo e seja lJu,1i for;l dhstenç:io cJue cu L(~',l , n,l ,Ititucle tr~ 1I1 sl'<.: nckllt;d que é minha, da posiç<'io clessa ex istência e ele todos os atos da atjtude natural. Em conseqüê ncia, será necessá rio ampliar o conteúdo do Sr.I7I1i1dl1.l[rtiill1rnll SI ego cog ito tran scende ntal. acrescentar-lhe um novo e le mento e di­ zer que todo cog ilO, ou aindLl todo estado de consciência, "assume" algo, e que ele ca rrega em si mesmo. com o "assumido" (como objeto de urna intenç ão) seu cogilOtW71 respecti vo. Cada cogito, de resto, o faz à sua mane ira. A percepção da "casa" "assume" uma casa ­ ou, mais exatamente, determinada casa indi vidual - da mane ira pe rceptiva; a le mbrança ela C<lsa "assume" a casa co mo lembrémça; a imaginação, c omo imagem: um julgamento predicativo que tem por objeto a casa "colocLlda ,di di ,Hlte de mim" a assume da maneira própria ao julgamento predi ca ti vo; um julgament o de va lor ,lcrescen­ tado a veria ainda à sua maneira, e assim por diante. E sses estCldos de consciência são também chamLldos de estados in/ellcio/luis. A palavra imenciol1o/idode niío sig nifica nada mai s qu e essa IXl rti cll­ laridade fundamental e ger,ll Cjue a consciência te m de se r consciên­ cia de alguma coisa, de conter. e m sua qu a lidade de cogilO. seu cog ilalUm em si mesma. 15. R eflexão natural e reflexão transcendental P'lr;.l efeito de c larez<l. é preciso acrescentélr que devemos di s­ ting uir duas coisas: de um lad o. os ,1I0s de consciência - percepção ex terior. le mbr,lIlçLl, prcJicaç;lll. julgdme nto de va lor, estabeleclmen­ lO de um obje ti vo, etc . - ercc{(/udos eS/}()J{!OJl eu!71ente e. Je ou tro. as ILjlexões (,ll OS re tlex ivos) CJue esses atos cspont J neos nos rce·· 1,1111 e que süo ,ltos perceptivos de Ul1l<l nOV;1 categori ,l. N <l pe rce p­ ção espo ntJ nea, capta1110s ,I C'ISd. nií.o ;1 sua percepção. Na retl ex Jo. somente nos "voltamos e m c1irc<;:IO" a esse ,ltO em s i c ;] SUd oricnlél­ ção perceptiva "( respeito (,1" C'IS,1. Na njle.fr/o IW/IIUt!. que não só ocorre na viclal·oticl iand. lTL1S tdl11bém em psicolog i,l (po n;lllt o, J1 ,1 cx pc rié nc i,l psicológ ic,l de mt'u s próprios estados psíquicos). som os coloC<ldos no te rren o cio mundo. do mund o <lpresentaJo CU Ill O c.'i is­ tellt e. É J essd forma que CJlUl1U,111l 0S na vicb cot iJi,Ill,L "Estuu C ll ­ do Ul1ld caS<l ali". o u, ,liIllLI , " Lembro- Ille ele te r olJvidll CSSd IllltSICd·'. e ,lss im po r diallt e. Ao contrJrio, na rejlexc/o f ello J}{('l!o/()g iclI tronscel1dental, abandonamos esse te rre no, praticando a EJ10X11
  • 26. 52 53 lvlcditaçoes CaHcsirmas universal quanto à existência ou não-existência do mundo. Pode-se dizer que a experiência assim modificada, a experiência trans­ cendental, consiste então no seguinte: nós examinamos o cogito transcendentalmente reduzido e, além disso, o descrevemos sem efe­ tuar a posição de existência natural implicada na percepção esponta­ neamente executada (ou em qualquer outro cogito), posição de exis­ tência que o eu "natural" tinha de fato espontaneamente efetuado. Um estado essencialmente diferente vem substituir dessa forma, é verdade, o estado primitivo, e pode-se dizer nesse sentido que a refle­ xão altera o estado primitivo. Mas isso é verdade em relação a toda reflexão, portanto também em relação à reflexão natural. A altera­ ção é essencial , pois o estado vivido, ingênuo de início, perde sua "espontaneidade" primitiva precisamente pelo fato de que a reflexão toma por escopo o que de início era estado e não objeto. A tareta da reflexão não é reproduzir uma segunda vez o estado primitivo, ma s sim observá-Ia e exp licar seu conteúdo. A passagem para essa atitude reflexiva naturalmente faz surgir um novo estado intencional, estado que, na s ingularidade que lhe é própria de "se relacionar ao estado anterior", torna consciente, até mesmo evidente, não qualquer outro estado, mas esse mesmo. E só dessa forma se torna possível essa experiência descritiva, à qual devemos tod o sabe r e todo conhe­ cimento concebíveis re l,ltivos à nossa vida intencional. O mesmo vale para a reflexão fenom enológica transcendental. O fato de O eu rejle-' xivo não efetuar a afirmação existencial da percepção espontânea da casa não muda nada quanto ao fato de essa mesma experiência ser refl exi va da perc epção " da casa", com todos os e Iemcn tos q lIe lhe eram e continuam a ser próprios. E entre esses elementos figu­ ram, em nosso exempl o. os da própria percepção como vivência em curso, e os da casa percebida como tal. Existe, de um lado, a posição existencial próprin da percepção normal (ou seja, a certeza in erente à percepção), da mesma forma que existe, do Indo ela CZ1SZ1 que apme­ cc, o car,üer da "'existência" pura e simples. A EITOXll, a abstenção do eu na atitude fenomenológica, tem que ver com ele. não com a percepção que ele observa na e pela reflexão. Ela rrópria é de resto passível de uma reflexão desse tipo, e somelte por meio dela pode­ mos saber qualquer coisa a respeito. O que acon tece <lqui pode também ser descrit o da seguinte maneir<l: Se dizemos do eu que percebe o "mundo" , e aí vive de ScgunrlruHcditaçiío fonna totalmente natural, que ele está interessado nele, entâo tere­ mos, na atitude fenomenologicamente modificada, um desdobramento do eu; acima do eu ingenuamente interessado no mundo estabele­ cer-se-á como espectador desinteressado o eu fenomenológico. Esse desdobramento do eu está por sua vez sujeito a uma nova reflexão, reflexão que, por ser transcendental, exigirá lima vez mais a atitude " desinteressada do espectador", preocupado somente em ver e descrever de maneira adequada. É assim que os acontecimentos da vida (psíquica), "voltada para o mundo" com todas as suas afirmações existenciais primárias e mediatas e os modos existenciais correlatos -'.tais como: ser certo, possível, provável, ser belo e bom, útil, etc. -, tornam-se acessíveis à descrição pura. É somente nessa pureza que elas poderão fornecer elementos para uma crítica geral da consciência, como o exigem com necessidade nossas preocupações filosóficas. Recordemos o radicalismo inerente à idéia cartesiana da filosofia, como ciência uni­ versal, fundamentada mesmo em suas providências últimas na evi­ dência apodíctica. Ass im concebida, essa ciência exige LIma crítica geral e absoluta; mas essa crítica deverá, por seu lado, abstendo-se de toelas as atitudes afirmativas de existência, criar para ~ i, logo de início, uma atitude absoluta de independência em relação a 'qualquer pré-concepção. A un iversa lidade da experiência e da descrição tr<lnscendentaJ atinge esse objetivo, pelo fato de que ela inibe o 'C prejulgaJl1ento" universal da experiência do mund o (ou seja, a cren­ ça no mundo qlle, inse nsivelmente, penetra todo ato e toela atitude natllrais). Tendo atingido ::I csJCra egológica absoluta não alcançada pela redução - esfera das intenções puras - , ela aspira fornecer lima descrição universa l delas, que, por sua vez, deverá constituir a base de uma crítica radical e universal. Tudo elepende rfI evidente­ mente ela observação estrita da imparcialidaele absoluta dessa dcscri­ do, quer di zer, da fidelidade:to princípio da ev idência pura colocado ll1Z1is alto. Dito ele outra forma, será preciso atcr-se estreitamente aos dndos ptiros da reflexão transcendcntal, tomá-los exatamente co mo se arrescntam l1a intlliç;Jo ela evielê ncia dirctZl e afa star cicies todas as interpretações que ui tr,] passem essa afi rm ação. Se observamos esse princípio de forma metódica 110 que se re­ fere à correlação cogito-cogitatlll11 (como cogitatum), descobrimos
  • 27. 5554 .1It-.-litnrllo C /lrtr.<ltl IlI IS em primeiro lu gar quai s desc rições gerais devem ser executadas de início, e isso semp re com base nas "cog irationes " puniculares e nas direções corrt'lulOs. A essas descrições pertence m, de um lado, as do objeto intencional como tal, quanto às determinações que o eu lhes atribui em m odalidades determinadas da consciência e nos m o­ elos próprios. que dp,l rece m ao olhar investi gador quando este pousa sobre essas modd lid'ldcs. Exemplo: os "modos" ex istenci ais como "cx istência cert<l , cx i st0n(' i~1 possíve l ou su posta", etc., O LI, aind a, os "modos temporai s subjeti vos": ex istênc ias presente, passada , futura. Essa direção d,l descrição c hama-se noell7ática. A ela se opõe a direção l1oéticu. Ela se refere às modalidades do próprio cogito, por exemplo àquelas da consciência, como percepção, lembrança, me­ mória imeeliata. com as diferenças m odais que lhes são inerentes, como a clareza c ,1d istinção. Compreende m os ago ra que pe la E1WX1l universal , quanto à ex istê ncia ou inex istê nc ia do mundo, a fenomeno logia na realidade não nos fez perde r o mundo co m o obje to fe nom enológico . N ós o mantemos com o cogiratLtln e isso não somente quanto às realida­ des particulares vistas e da forma com o são vistas, ou m e lh or, objetivadas em tai s atos p,l rticulares da consciê nc ia. P o rque sua particularizaçã o é no sentid o de um universo, universo esse cuja unidade nos "dparece" sempre, mes mo quando nos volwmos, ná percepçilo. pdLl o si ngular. Em outras palavras: d co nsciência cles­ se uni verso est<Í se mpre prese nte nd uni chde de lima con sc iê ncia quc podc. eLl mes m;l. tOrlur- se pcrcepti v,l, e. de f';ltO . co m freqiiê n­ Ci,l se to rn ,L O co njunto do Ill und o é aqu i objet() de co nsc iê nc i,l so b ,I for ma d,l illrilli d~IJe esp,lciLll c tc mpo r,lI qu e lhe é pr(l pri'L Por me io ele tod<ls eSS,lS fltltu ,H;ões da cOllsc iênc i,l , esse uni verso, uno c único - aind<l qu e suas p<lrticul,lrielacles pe n:cbilLls ou de outra fo rma objeti v<llLts sc j ~ lm submetidas à variação , pc nnanece como o fundo sobre () l]u<11 nossa vida natural se proje ta Portanto, d O e fe tuar ri go r os~lm c nt c ~l reduçilo fe no me llo lóg ica, mant e m os e m caráter noéti cu o C~lJllP () livre e ilimit<ldo da vida purd (LI cO llsc iê n­ Ci,l c, da parte lk sc u L'lrre Lll o noc m<Íti co. o Illund o-fenômcno como seu objeto illte ncioll ,t! . Assim. o Clt da rnedita ~ão feno me no lóg ica pocle torn ar-se em tOda ,1 uni ve rsalidade especlwlor imjJarci(/1 de si mesmo, não apenas em casos particulares, mas em gera l, e esse St:17I/J1dn /0editafão "si mes m o" compreende toda obj etividade qu.e "existe" para e le, tal como e la existe para ele. Portanto, será possível di ze r: Eu, que permaneço na atitude natural, sou também e a todo instan te eu transcendental, mas só me dou conta disso ao efetuar a redu ção fenomenológica. Ora, essa atitude nova me faz ver que o conjunto do mundo e tudo o que é em gera l não passam para mim de algo que "val e", que r dizer, só ex iste p,lra mim como cogitatu/11 d e minhas cogitGliones variáve is e li gadas en tre si nessa m esm a variação. É somente nessa acepção que lhe atribuo uma validade. Em c0l!seqüên­ cia, com o eu fen omeno lógico transcendental, só possuo, co mo ob­ jetos de minh as observações desc riti vas univ e r~ai s - quer se trate de particulari zações ou de conjuntos gerais -, correlatos intencio­ nais d e m odalidades da consciência. 16. Digressão. N ecessidade) tanto para a reflexão ('puramente psicológica)) como para a reflexão ((transcendental))) de começarpelo ((ego cogito)) Com base nesses desenvo lvimentos, o eu sou transcendent al abraça na universalidade de sua vida uma multiplicidade indefinida e inacabada de estados concretos indi viduais. "Revelar" esses estados e captar pe la descrição suas estruturas variáve is será uma de nossas prime iras tarefas. O mesmo ir<Í vale r para os modos de " li gação" próprios a esses estados, que formam SUas unidades complex<ls até a unidade do próprio eu CO/l creto. Vale esc lareccr que esse cu só é concre to no conjunto infinito c ilimitado de sua vida intenc iona l una. que fomlil uma unidade bem " ligada" e que envol ve, a título de cogilOta, os obje tos intencionai s corre iatos, qu e formam. por sua vez, conjun­ tos be m ligados, inte iros, e entre e lcs o mundo fenO lllcn,ll como t,1I O próprio C /I CO/l creto é o suje ito llni vers,11 da descri ção. Ou . em out r,lS pdL1vr,ls, a tarefa que proponho ils minhas medit,lções f'enomcnológic,ls é <l dc m e rel'c!or por 111;/11 II/ <'S/I1 0 como ell trflllSCC'!/(/e/llnl. c isso em minha plena concreçJo, aí, portanto, compreel/didos todos os objetos intencionais correlatos dos atos desse cu . C o mo j<Í menciona­ mos, essa "revelação" transcencle nta l do meu eu tem como poralelo
  • 28. 57Só iHcdirnf lics Cartesianas a revelação psicológica do mel/ eu a si mesmo, ou seja, de meu eu puramente psíquico (alma) no seio de minha vida psíquica. Mas, nes­ se caso, esse ser é o "objeto" de uma percepção natural, como ele­ mento constitutivo de meu ser psicofísico real (animal), portanto como elemento constitutivo do mundo, é claro, do mundo válido para mim. Como se vê, tanto para uma egologia transcendental descritiva como para uma psicologia de interioridade pura, ou seja, uma psicologia descritiva baseada real e exclusivamente numa experiên­ cia interna (indispensável como disciplina psicológica fundamental), só há começo possível a partir do ego cogito. Considerando-se o fracasso de todas as tentativas. modernas de distinguir entre teoria psicológica e teoria filosófica d~ consciência, essa observação é de importância capital. Começar por uma teoria da sensação, cedendo à influência d~1 tradição do sensualismo, ainda tão forte, é, portanto, ft:char--"e o ace-"so a essas duas disciplinas. Partir das sensações, com efeito. implica uma interpretação - como se fosse algo com­ preensível por si - da vida psíquica como um complexo de dados do sentido "externo" e - a rigor - "interno", dados para cuja unifica­ ção será preciso a intervenção a seguir das qualidades de forma. Acrescent,l-se ainda, para refutar o "atomismo", que as formas es­ tão necessariamente implicadas nesses dado.s, portanto que os todos são em si anteriores às partes. Mas a teoria descritiva da consciên­ cia, qu e procede com um radicalismo absoluto, não conhece dados nem tod os desse tipo, salvo a título de idéias preconcebidas. O início é a experiên cia pura c, por assim dizer, ainda mudei, que se deve levar ú expre-"são pura ele seu próprio sentido. Ora a expressão verdadei­ ramente primeir;l é :1do eli sou C<lrtesiano; por exemplo: eu percebo essa casa; eu me lembro de tal reuniJo de pessoas, etc., e a tarefa primeira e geral dil descrição consiste em distin guir cogito, de um belo. e cog ilutllJ}} , como cogitU llIl71 , de outro. M<1s em qual caso c em quais ~i!:,-niricações diferentes os d,lelOS sensoriais poderão ser cOJ1<;icit'rac!os como elementos constitutivos (LI comciência') A res­ post<1 ;1cssa pergunta pressupõe um trab,liho elescriti vo especi,d de ·'descoberta". pelo qual a psicologia traelicion,li. pitra seu gr:lIlde pre­ juízo, desinteressou-se complet'lmente. Tendo deix,lc1o na obscuriela­ de os princípios ele seu método, ela perdeu toti1lmente de vist,J a imensa tarefa represenwda pela descrição dos cogiwlr! considerados como Segunda J1cdimção cogiwta. Perdeu ao mesmo tempo a noção exata do sentido da des­ crição' das próprias cogitationes, concebidas como fonnas da cons­ ciência, e das tarefas particulares relacionadas a essa descrição, 17. O caráter bilateral da investigação da consciência)' o caráter correlato de seus problemas, Direções da descrição, A síntese) flrrl1a original da consciência Mas se, desde o início, temos a clareza a respeito do ponto inicial e das direções das nossas pesquisas, é possível extrair dela, com a atitude transcendental que nos é própria, importantes diretrizes p,lra a colocação posterior dos problemas. Sem tocar ainda no pro­ ­ blema da identidade do eu, poderemos definir o caráter bilateral da investigação da consciência, descrevendo-o como uma coordenação inseparável. Além disso, poderemos caracterizar o modo de ligação que une um "estado" de consciência a um outro, descrevendo-o como uma "síntese", forma de ligação pertencente exclusivamente à re­ gião ela consciência. Tomo, por exemplo, como objeto de descrição a percepção de um cubo. Vejo então, na reflexão pura, que "este" cubo indi vidual me é mostraelo ele maneira contínua como unidade objetiva, e isso numa multiplicid,lele variável e multiforme de aspectos (modos de apresentação) ligados por relações determ·inadas. Esses modos não são, em seu transc orrer, uma seqüência de estados vividos sem ligação entre si. Pelo contrário, sucedem-se numa unidade de "sínte­ se", segundo a qual é sempre do mesmo objeto - tal como ele se apresenta - que tomamos consciênci'1. O cubo único e idên ti co apre­ senta-se de maneira e sob aspectos diversos: ora de "proximielade", ora de "afastamento", em modos variáveis, "elaqui" e "dali", opostos a um "aqui" absoluto (que se encontri1 -,- para mim - em "meu próprio corpo", que me <1parece ao mesmo tempo), CUjd consciência, ;lin(L! que permaneça despercebiel a, os acompanha sempre. Cada "aspecto" que retém o espírito, por eXt~ l1lplo, "este cubo n;1 esfera de proximidilde", reve la-se por sua VeL como unidade sintética de uma multiplicidade de modos de ;lpresentação correspondentes. O objeto próximo pode-se apresentar como "o mesmo", mas sob tal ou tal
  • 29. 59SR 11cditarões Cnrtuinllns "face"; pode haver aí variação não somente das "perspectivas visuais", mas dos fenômenos "táteis", "acústicos" e outros "modos de apre­ sentação", como podemos observar dando à nossa atenção a direção conveniente. Se agora, na descrição desse cubo, consideramos em especial um de seus caracteres, por exemplo, sua forma, sua cor ou uma de suas superfícies tomada em separado, ou, ainda, a forma quadrada dessa superfície, ou sua cor em separado, e assim por dian­ te, o mesmo fenômeno se repete. Sempre o citado item apresenta-se como "unidade" de "multiplicidades" que se sucedem. Na visão dirigida para o objeto, teremos, por exemplo, uma forma ou uma cor que permanece identicamente a mesma. Na atitude reflexiva, tere­ mos os aspectos ou "aparências" correspondentes, modalidades de orientação, de perspectiva, etc., que se sucedem em uma seqüência contínua. Cada UI11 desses "aspectos", considerados em si mesmo, por exemplo, a forma ou a nuança em si mesma, é, t;1Jllbém, repre­ sentação de sua forma, c/e sua cor, etc. Assim, o cogito tem cons­ ciência de seu cogitalum não em um ato não diferenciado, mas em uma "estrutura de multiplicidades" de caráter noético e noemático bem detenninado, estrutura coordenada de maneira essencial com a identidade desse cogitatum detenninado. As descrições feitas para a percepção sensível podem ser rea­ lizadas paralelamente por nós para todas as modalidades da intuiçã,o e seus cogirula correlatos (como, por exemplo. a lembrança reprodutora cle uma intuição antiga e a espera que cspreita uma intui­ ção que está por vir). O objeto rememorado aparece, também, sob diversas faces, em diversas perspectiva.,>, etc. Como se percebe quan­ cio se procede ;1 execução, essas descrições vão extremamente lon­ ge. Mas, para poder di fcrenciar as modal idades da inl11 iç:lo (por exem­ plo, o dado da lllemóri,l e o dCl percepção), a descrição deveria recorrer a dimensões novas. No entanto. subsiste UIll fato gnal. CJuc vale para toda a consciênci,l cntcndida COIllO "consciêncIa de ;ligullla COiS'l". Temos conseiêncid dessa coisa, a s,lber, o seu "obJeto intenCIonal como tal" que csLí "nela"; como unidade idêntica de uma multiplicid,lcle de modalidades de consL~iência noelllato-noéticas, pouco importa que se trate de modalic];ldes intuitivas ou não. Uma vez que nos tenhamos apoderado da tarefa fenomenológica de uma descrição concreta da consciência, vemos surgir diante de S/! l lllJ(fn lHcrlita(tlO nós verdadeiros mundos de fatos. Esses fatos jamais h:JViam sido estudados antes do surgimento da fenomenologia. Todos eles podem também ser chamados de "fatos da estrutura sintética", pois d~o uni­ dade noemato-noética às cogilaliones pal1iculares (tomadas em si mesmas como os todos sintéticos concretos) e também a umas em relação às outras. A "demonstração" de que o cogilo, ou seja, o estado intencional, é consciência de alguma coisa, só se tomou fecunda pela elucidação do caráter original dessa síntese. Isso equivale a dizer que somente essa "demonstração" torna fecunda a importante descoberta de Franz Brentano, a saber, que a intencionalielade é o caráter descritivo fun­ damentaI dos "fenômenos psíquicos". Somente ela permite colocar realmente em relevo o método de llInél ciência descritiva ela consciên­ cia, tanto filosófico e transcendental quanto psicológico. 18. A identificação)for711afúndamental da síntese. A síntese universal do tempo transcendental Examinemos a form,l fundamental da síntese, ou seja, a d~l iden­ tificação. Ela se apresenta jlllcialmente como síntese cle um alcance universal que transcorre jJa..i]"(lIi7Cllle, sob ,1 forma da cOl7sciêl1cÚl inlerna contínua do rempo. Todo estado vivido tem sua duração vivida. Se se trata de um est,tdo de consciênci~l cujo cogil(ll/{171 é um objeto do mundo - como na percepção do cubo - , é o C;150 de distinguir a dur,lÇão objetIva C]uc dparece (por exemplo. a des"e cubo) da dur,lção "interna" do processo da consciência (por exemplo. a da percepção do cubo). Est,l "tr~lJlscorre" em períodos e fases tcmpo­ r,lÍs que são suas, e que ~;}() L'Lls próprias apresentações CJue se mo­ dificam de maneira contÍnu:l. rio único e mesmo cuho. .1/11 lIlIir/{/{/c é {I de limo sínlese. Ela não é Ullla simples liguç(/o contínua de cogiralioncs, por assim dizer, cxteriormente unidas Ull1(lS ;IS outras, mas sim uma unidadc de «()!l.ciêllci{; IIi/U, e nessa consciênci,l se c{)nslilui a unidade de uma cntiddclc intcncional, precis,llllcnte como o mesmo das diversas e múltiplas maneiras. A existência real de um mundo - portanto a do cubo aqui presente - é colocada pela 2TCOX1l,
  • 30. 60 61 A1edlrações C m'tes/Ilnas "entre parênteses"; mas o citado cubo, ao aparecer como uno e idên­ tico, é sempre " imanente" à corrente da consciência; está descriti va­ mente "nele" como o está o caráter de ser "identicamente o mes­ mo", Essa imanência à consciência tem um caráter todo particular. O cubo não está contido na consciência na qualidade de elemento real, ele o está "idealmente" como objeto intencional, como o que aparece, ou, em outras palavras, como seu "senso objetivo" imanente. O objeto da co nsciência, qu e mantém sua identidade "cons igo mes­ mo" e':lquanto transcorre a vida psíquica, não lhe vem de fora . E ssa própria vida tem implicações a título de se htido, ou seja, de "operação intenci onal" da síntese da consciência, M as o mesmo cubo - o mesmo para a consc iência - pode estar presente na consciência (ao mesmo tempo ou sucessivamente), porém, em modos sepclI'ados e muito diferentes, por exemplo, nas percepções, lembranças, ex pectativas, julgamentos de valor, etc , iso­ lados uns dos outros, No caso, também se trat;) ainda de uma síntese que realiza a consciência da identidade numa unidade de uma consciên­ cia, ultrapassand o e envolvendo seus estados isolados, e torna ass im possível todo conhecimento da identidade. M as fin a lmente, nesse sentido, toda consciência (por exempl o, aque la que podemos ter de uma multiplic idade, de uma re lação, etc.) e m que o não-idêntico é percebido por ela como um co njunto, tal v(lz qualificado de síntese, constituindo sinteticamente - Oll , poderíamos di zer a inda , s il/ f{/li co rn cll / e - o cog ilOlIlIll qu e lh e é pró pri o (multiplic idade, re lação, e tc.), que essa .operação sintática seja C<I­ racte rizad,l. aIi,ís, como uma pu ra passividade ou como uma at ivid<i­ de do eu. Mesmo as contradições e incompati bilidades são formas de "sínteses", ,linda que de uma espécie totalme nt e di versa. M as li ~ ínt ese não é somente o própri o de cada estado de COIlS ­ ciência ind ividual , e ela não liga estados ind ividuais a outros apenas de forma ocasional. Ao co ntrári o, di ssemos desde o início, toda a vieb psíquica em se u conju nt o é un ifi cada de m,me ira sintética. Deprecnclc­ ~e di sso quc essa vida é um cogito uni ve rsal, que envolve de m,lIleir,1 sintética todos os cswdos da con ~ci ênc ia indi viduais lJue podem emergir dessa vida, c que tem seu cogi/a/ul1I uni ve rsal fundame ntad o de mane iras di versas em múltiplos cogita /a pa rticul are~. Mas o fato de ser fundamentado não deve ser entendido no sentido da sucessão S,:glllldn jVIcditCT(âo temporal, de uma gênese, pois cada estado indi vidual que podemos conceber só e m erge sobre o fund o de uma consciê nc ia g lo bal , unifi cad a, qu e ele pressupõe sempre. O cogito universal é a própria vida uni versal em sua unid ade e em sua totalidade indefinidas e ilimi­ tadas. É pelo fato de ela apa recer sempre como uma totalidade que podemos "observ<:Í.- Ja" da maneira expressa em atos perceptivos ela dtenção, e que podemos fazer de la o tem a de um conhecimento uni­ ve rsal. A fo rma f w zdomcll/al dessa síntese uni versal, que torna pos­ s íve is todas as o utrJs s ínteses da consciê ncia, é a consciên cia imanen/c do tempo. De forma corre lata, con esponde-Ihe a própria duração imanente, em virtude da qual todos os estados do eu, acessí­ veis a essa refl exão, devem apresentar-se como order1.ados no tempo - simultâneos ou sucessivos - , tendo um começo e um fim no tempo, no sl:io elo ho ri zonte infinito e permanente do te mpo imanente "e m si", A di stinçJo entre a consciênc ia do tempo e o próprio tempo pode també m se ex primir como uma di stin ção entre o estado de COl/sciêllóa intratcmporal (respecti vament e sua fo rma temporal) e seus modos temporais de aparição, como " multiplicidades" corres­ ponde ntes, Levando-se em conta que esses modos de apresentação da consciência tem poral interna são "estados intencionais", eles de­ vem necessari ame nt e - na refl exão - se apresentar por sua vez como durações. E ncontramos aqui uma pa rticul aridade fundamenta l c ]J<lradoxa l da vi da da consciência, q ue parece assim ser afetada por Lima regressão infinita. A eluc idação desse fato e sua compreensão criam di ficuldades ex traordinári;1s. M as, seja como fOL esse fato é evi­ de nte, até ,lpodíc tico, c designa um dos lados do maravilhoso "ser para si mesmo" do ego, a saber, em primeiro lugar, que a viela da consciência relacioJl(l-se in/cncioIlUIIllf!J7/c cOl/sigo m eS/JIa , 19. Atualidade (potencialidade da vida intencional í multiplic id<ldc inerent c ,'I intenciona lidade ele todo cogilO - e de todo cogi/o relac ionado ao mundo pelo s imples fat o de que ele tem consciênc ia não some nte de um mundo, mas també m de si pró­ prio, como cogito na consc iê nc ia imanente do te mpo - , não é es­
  • 31. 6362 .IJcdrrl1j1'cs ( .'rtu(sinJ l tls gotada pela descrição dos cogilara atuais, Ao contrário, toda atuali­ dade implica suas potencialidades próprias. Estas, longe de serem possibilidades absolulalllente indeterminada s, são, qua nto ao seu con­ teúdo, intencional mente pré-traçadas no seu próprio estado atual. Além di sso, têm o ca ráter de "terem de ser realizadas pelo eu". Isso des ig na lIm novo traço essenciol do intencionalidade. Cada estado de consciência possui um "horizonte" que va ria confor­ me a modificclção de suas conexões co m outros estados e com as próprias fase s de seu decorrer. É um horizonl(;' illlencional, cuja caracleríslicu é rell1eler a potencialidades da consciência que per­ tencem a esse mesmo horizonte. Assim, por exemplo, em toda per­ cepção exterior, os lados uo objeto que são "realmente percebidos" remetem J.os que ainda não o são e que somente s50 antecipados na expectativa de maneira não intuitiva como Clspec tos "que estão por vir" na percepção Esta é uma "protensão" cont ínu a, que, para cada nova fase perceptiva, assume um novo sentido. Além disso, a percep­ ção possui horizontes que envolvem outras possibilidades perceptivas, aquelas que poderíamos ter, se, de m aneira ativa, déssemos ao curso da percepção uma outra uireção, se, por exemplo, em lugar de voltar os olhos dessa maneira, nós o fizéssemos de ou tra, se désse­ mos um passo J frente 0.1 para o lado, e assim por diante. Na lem-, brança correspondente, encontramos todas essas variações com certa modificação: assim, tenho consciência de que eu te ria podido, então, percebe r outros lados em vez daqueles que de fato vi - se, evide n­ te mente , tivesse direcionado minha ;:ttividade perccptiv~ de outra mane ira. r lém di sso - c vamos ,lqui prec.'llChcr uma 1,lcln<l - , a toda percepção pertence se mpre um espectro de percep<,:ões passa­ das, que se deve conceber como potenc ialiuacles de Ic mbranças sus­ cetíveis de ~crem rccorcLtdas, e ,) toda l elll br,lI1 ~' a em si pertence, como "espectro". ;t llltenci onaliuilde mcdiata c COll tínu<l de kl11hran­ ças possÍ'els (le,!II:;~ld<ls por minkl ati'i ebdc), ,ll~ chegdr alllllSLll1te ela minh, pl'rccp~'~lu <ltual. O tempo todo mistura-se aqui , essas po~slbilidaJes um "cu posso" e UJll "eu ~ljO", um "possO agir de m,1­ neira diferente cLt CJue de fato djO" - pouco importam, aliás, ~s il1lbl­ ções sempre possíveiS que possam entravar essa "liberdade", como toda "liberuade" em geral. SllJlmrin JVJerfiraçlÍ(J Os "espectros" ou "horizontes" são potencialidades pré-traçadas. Diremos também que podemos interrogar cada horiz'onte a respei­ to do "que está implicado nele", que podemos explicá-lo, revelar as potencialidades eventuais da vida psíquica. Ora, justamente dessa fonna desvelamos também seu sentido objetivo, que nunca é indica­ do no cogito atual e só está presente de maneira implícita. Esse sentido objetivo, ou seja, o cogitatll/11 considerado como tal, não se apresenta jamais como definitival11eme dado; ele só se esclarece à medida que se explicam Ohorizonte e os horizontes novos (e, no entanto, pré-traça­ dos) que se descobrem sem cessar. Certamente, esse "traçado" em'si é sempre imperfeito, mas tem, apesar de sua indeterminação, certa estrl/lura de detennÍnaçüo. Assim, o cubo - visto de um lado - não "diz" nada sobre a detenllinação concreta desses lados não visíveis; no entanto, ele é, de antemão, "percebido" como cubo, depois, em particu­ lar, como colorido, enru gado, etc., cada uma dessas determinações dei­ xando sempre outras particu laridades na indeterminação. Esse "deixar na indeterminação" das particularidades - anteriormente às detenni­ nações efetivas mais precisas que, talvez, jamais ir50 oconer - é um momento contido na consciência perceptiva em si; ele é precisamente o que constitui o "horizonte". É pelo progresso real da percepçüo - oposta ao simples "es­ clarecimento" por " representações" antecipadoras - que se efetua a determinação mais precisa, confirmando ou invalidando as "anteci­ pações", mas sempre implicando novos " horizontes" e abrindo novas perspectivas. Portanto, a toda consciência que é consciência de al­ guma coisa pertence essa propriedade essencial: não somente e la pode, de maneira gera L transformar e m modos de consciência sem­ pre novos, permanecendo consc iência de um objeto idênlico, objeto intencionalme nte inerente, com o sentido objetivo idêntico, os seus modos na unidade da síntese, mas toda "consciência de alguma coi­ sa" pode fazê-l o, c só pode fazê-lo em e por esses ho ri zontes ele intencional idade. O obJcto é por assim dizer um fJál() de idenlid{/de, apresentado sempre COlllum "sentido" "preconcchido" e "( ser" reali­ zado. Ele é, em caua momento da consciência, o indic{ldor de Limo illlenciollalidude 1I()~li('{/ que lhe pertence por sell seI/lido, illlell­ ciollaliJade que !wr!emos pesquisar e que pode ser explicada. Tudo isso é passível de jnvestigação concreta.
  • 32. 65(,4 J'vlcditaçõcs Crrrtc.'imlas 20. A originalidade da análise intencional Vemos que a allálise da consciência, entendida como inten­ cional, difere 10lalmente de sua análise no senlido comum e natu­ ral do termo. A vida da consc iência, como já di sse mos, não é um simples toclo composto de "dados", suscetíve l, conseqüentemente, de ser "analisado" e, num sentido muito ampl o, dividido em elementos primários ou secundários, caso em que se di spori am as formas de unidade (as "qualidades da forma") entre os elementos secundários. Certamente, a olIúlise intencional- em algumas pesquisas -leva­ nos wmbélll a divisões, e nesse caso o termo "allálise" poderá servir. Mas seu l}"obalho original é o de revela r as potencialidades "implicados" nas atualidades (estados atuais) da consciência. E é por aí que irá se dar, do ponto de vista noel11cltico, a explicação, a precisZio e a elucidação eventual daquilo que é "significado" pela consciência, ou seja, de seu sentido objetivo. A análise intencional deixa-se guiar por uma evidência funda­ mentaI: todo cogiro, considerado como consciência, é, num sentido bem amplo, a "significação" da coisa ele que ele trata, mas essa "sig­ nificação" ullropasso a todo momento aquilo que, no. próprio instan­ te, é dado como "explicitamente assumido". E le o ulirapassa, quer dizer, ele é aumentado de um "adicional" que se estende além. Em nosso exemplo, cada fa se da percepção era apenas um aspecto do objeto "em si", enquanto assumido pela percepçi1o. Essa superação da intcnçrlo 11tl própria inlellçâo, inerente a toda consciê ncia, deve ser considerada como essencial a essa consciência. Mas o fato de que a "superLlção" cb significação atu al esteja relacionada ao "próprio" objeto. "revela-se", na evidência, de pode r precisar nossa intenção e, finalmente, de "preenchê-la" intuiti vamente por mc io ele percepções posteriores ou ele le mbranças que eu mesmo posso efetuar. Or;. ,l dtividacJc do fenomenologistLl não se limita a uma descri­ ção "ingênua" do objeto intencional como tal : ele não se contenta em observ{l-Io diretamente, explicar seus caracteres. suas partes e suas propriedades. Se fosse assim, LI illtenci ondliebdc, que constitui a cons­ ciência intuitiva ou não intuitiva, assim como a própria observação que a explica, permaneceria "anônima". Em outras palavras, não se Segunda Mcditaçiío perceberiam nem as multiplicidades noéticas da consciência, nem sua unidade sintética, em virtude da qual podemos ter consciência do "mesmo" objeto intencional determinado, que temos, por assim dizer, diante de nós como significado dessa ou daquela maneira. Da mesma forma, permaneceriam veladas todas as operações constitutivas la­ tentes, graças às quais (se a observação prolonga-se pela explicitação) acabamos encontrando diretamente nas coisas - COI110 "caráter", "parte", "propriedade" - uma explicação do sentido objetivo da in­ tenção, ou captando-as intuitivamente como o que assumimos de maneira implícita. Quando o'fenomenologista estuda qualquer er1tida­ de e tudo o que n~la pode descobrir, exclusivamente como "corre/atum da consciência", ele a observa e a descreve não somente em si mes­ ma, e não somente relaci onando-a ao eu correspondente, quer dizer, ao ego cogito do qu al e la é o cogifatum. Ao contrário, seu olhar reflexivo penetra a vida anônima do pensamento, "descobre" as fa­ ses sintéticas de terminadas dos diversos modos de consciência e os modos mais recuados ainda da estrutura do eu, que permitem captar o sentido do que é intuitivamente ou não "significado" pelo eu - ou presente para ele. Ou, ai nda, que permitem compreender como a consciência, por si mesma e em virtude dessa estrutura intencional, faz com que, necessariamente, esse objeto "existente" ou "assim qualificado" lhe seja consciente, e que se encontre nela tal "sentido" determinado. O fenomenologista estudará assim, no caso da percep­ ção espacial - fazendo abstração, de início, de todos os predicados de "significação" e atend o-se puramente à res extensa -, os :'obje­ tos visuais" variáveis e os outros "objetos sensoriais", considerando­ se que eles mostram a si mesmos como apresentações dessa mesma res extensa. Ele ir<Í estudar para cada uma delas as variaçôes de perspectiva, depois, no que se refe re aos seus mod os ele prese nça (de ser mostrado) temporai s, na percepção, na lembr,lIlça c na me­ mó ria imediata ; enfim, do lado do eu, os modos de at enção, e <lssim por diante. Vale notar, no entanto, que a interpretação fenomenológica do que é percebido como tal não está ligada à explicação perceptiva dessa mesm a coisa percebida quanto a suas propriedades. da forma co mo se completa no curso da percepção reaL A e;-.,pllcação fenomen ológica elucida o que está "implicado" pelo sentido do cogitalum, sem ser intuiti vamente dado (por exemplo, o "avesso" do
  • 33. 66 67lvleditaf.-úcs Cartesianlls objeto), representando-se as percepções potenciais que tornariam o não-visível visível. Isso se aplica em gera~ a qualquer análise intencio­ naL Como intencional, ela llltrapassa os eSTados singulares que são objetos de análise. Explicando seus horizontes correlatos, ela coloca os estados anônimos extremamente variados no campo da­ queles que desempenham um papel "constitutivo" para a formação do sentido objetivo do cogiTatwn em questf1o. Trata-se, portanto, não somente dos estados vividos atuais, mas também dos estados poten­ ciais, que estão implicados, desenhados, pré-traçados na intencio­ nalidade dos estados atuais e carregam o caráter evidente de explicitar o sentido implícito delas. Somente dessa maneira o fenomenologista pode se dar conta de como e em quais modos determinados dessa corrente de consciência as unidades objeTiveis (objeTOS) fixas e permanenTes podem tornar-se conscientes. É particularmente dessa forma que ele pode compreender como essa maravilhosa operação, a saber a "constituição" de objetos idênticos, realiza-se para cada categoria de objeTOS, ou seja, qual é o aspecto para cada uma delas da vida da consciência constituinte, e qual é o aspecto que ela deve ter de acordo com as modificações noéticas e noemáticas correlatas do mesmo objeto. Em conseqüência, o fato de que a estrutura de qualquer intencionalidade implica um "horizonte" prescreve à análise e à descrição fenomenológicas um méTodo absoluTamenTe novo. Esse método atua em todo lugar em que consciência e objeto, inten'­ ção e sentido, ser real e ideal, possibilidade, necessidade, aparência, verdade, mas também experiência,julgamento, evidência, etc., figu­ ram como enunciados de problemas transcendentais e devem ser tratados como problemas da "gênese" subjetiva É eviclent"- que, I1JllTmis /I/Utandis. tudo isso vale para lima "psi­ cologia interna" pura. ou para uma psicologIa "puramente intencio­ nal", que permanece no terreno natural e positIVO. Destacamos, por algumas indicações sumilri~ls, gue ela é a paralela da fenomenologia constitutivil, ao mesmo tempo que transcendentaL A única reforma verdadeiramente rildical da psicologia reside na elaboração de uma psicologia intencional. Brentano já a reclamava, nws infelizmente ele não detectou o que faz o sentido fundamental de uma análise inten­ cional, port:lIlto do único método que tornd possívelulllé1 psicologia desse tipo, jil que somente cla nos revela os problemas verdadeiros e, a bem dizer, infinitos de uma tal ciência. ." :IJIIII/{I/ J1[",{tI,,, 1111 A possibilidade de lima rC I1 () 111V11()1 {J~~ i; 1 da CI ~ ll s (l (' nC"l pura pa­ rece, a priori, bastante duvidosa. Os l"L- n ) IIll' II O S (i;! co nsciência não pertencem ao campo do jluxo he/,{ldiT('({/I(I'! DL" falo , slcria inútil querer proceder aqui por meio de um nH:lodo ,k: rOllll,I';'i o de (.;o ncei­ tos e de julgamentos an,'ílogo àquele que preclomin,1 nas c iê lJcias ob­ jetivas. Seria tolice querer definir um estado de conscit2ncia como um objeto idêntico e fundamentar-se para isso nUllla experiéncia, assim como para um objeto da natureza, portanto, no fundo, com ,I presun­ ção ideal de poder explicá-lo, reduzindo-o a elementos idênticos, per­ ceptíveis por conceitos fixos. Isso não ocorre em virtude de uma imperfeição inerente à nossa faculdade de saber que os estados de consciência não têm relações e elementos últimos suscetíveis de uma definição fixa por conceitos; isso lhes falul, a priori, e a tarefa de definir de maneira aproximada tais elementos por conceitos fixos não poderia ser colocada de forma razoáveL Mas por isso mesmo tem sentido a idéia de uma análise intencional. Porque o tluxo da síntese intencional, síntese que, em qualquer consciência, cria a unidade e constitui noemática e noeticamente a unidade do sentido objetivo, é o reino de estruturas típicas, de natureza essenci(ll, susceTíveis de serem encerradas em cOllceiTos rigorosos. 21. O objeto intencional ((guia transcendental))y A estrutura mais ger;ll que, como foi-ma. abrange todos os ca­ sos particulares é aquela designada por nosso esquem,l geral 1'[1.0­ cogiTo-cogiTCIlUJ))_ A ela est;lo relacionadas as descrições mais ge­ rais que tentamos fazer da intencionalicbclc, ele sua síntese própria, etc. Na singularização e na descrição dessa estrutura, o ohjeTo in­ Tencional situado do lado do cogiTOT[(J)J desempenha - por razões fáceis de se depreender - o papel de um g[(ia Tro/Jscendc/lTol, em qualquer lugar onde se trate cle descobrir 0 tipos múltiplos de cogiTaTiones que, em uma síntese possível, o contêm como estado de consciência de um mesmo objeto. O ponto ele partiela é necessaria­ mente o objeto "simplesmente" dado; daí, a reflexão remonta ao Illodo de consciência correspondente e aos horizontes de modos potenciais implicados nesse modo, depois aos outros de uma vida de consciên­
  • 34. 6968 j1L-dilaçõcj-Cmtcsianc/.l­ cia possível, nos quais o objeto poderia apresentar-se como "o mes­ mo'-'. Se ainda, permanecendo no quadro da generalidade formal, concebemos um objeto em geral a título de cogitalUl11 , sem nos ligar­ mos por um conteúdo determinado, e se nessa generalidade nós o tomamos por "guia", a multiplicidade dos modos de consciência pos­ síveis que se relacionam a um mesmo objeto - ou seja, a estrutura formal geral -, especifica-se em uma série de estruturas-tipos noemato-noéticas especiais e rigorosamente diferenciadas_ Pode­ mos colocar entre essas estruturas tipos da intencionalidade: a per­ cepção, a memória imediata, a lembrança, a expectativa percepti va, a de~ignação simbólica, a exemplificação analógica, etc_ Esses tipos de intencional idade pertencem a qualquer objeto concebível, como também os tipos de coordenação sintética que a eles correspondem. Todos esses tipos se particularizam, por sua vez, em toela a sua com­ posição noemato-noética, tão logo determinemos O objeto intencio­ nal. As determinações poderão ser inicialmente lógicas formais, por­ tanto, ser modos da "qualquer coisa" em geral, como, por exemplo, o singular, o individual, o geral, a pluralidade, o todo, a relação, etc. Aqu i surge também a diferença radical entre entidades reais, em um sentido amplo, e entidades cMegoriais. Estas manifestam uma origem que provém de "operações" e de uma atividade do eu que as elabora e as constrói passo a passo; aquelas mostram que têm sua origem nas operações de uma síntese puramente passiva_ Além di s­ so, temos as dcterminações ontológicos maiaiois, partindo do con­ ceito do indi víduo real, conceito que se especifica. em seus dOll1tnios rt'uis, como, por exemplo, objeto espaci~d (puro e simples), ser ani­ mai, etc., o que ori gina, no que concerne a determinações lógicas formais correspondentes - tais como: qualidade real, pluralidade, relações reai s, etc. - , particularizações correlatas. Cad3 tipo que se descobre dessa maneira deve ser estudado quanto à sua cstflltura Iloemato-noética: deve ser sistematicame nte interpretado e explicado segundo os modos de seu fluxo intencional e so seus " horizontes" típicos e suas implicações, etc. Se fixamos um objeto qualquer em sua forma ou em ,,,ua categoria, e se mante mos cOlllinuamente em evidência sua identidade por meio das variações dos modos dc consc iê ncia, percebemos C]ue esses modos, por mais ondulantes que possam ser, e por mais difíceis de captar que sejam Se!Jlmdn lvJcdúarfto seus últimos e lemen tos, não são, no entanto, fortuita ou arbitraria­ mente v;lriáveis. Eles permanecem sempre ligoelos a uma estrutu­ m. I/pico , quc é semp rc a mesma e que não pode ser quebrada, quer se trate de uma consciência de tal entidade determinada, C]uer a evidên­ cia de sua identidade por meio da variação dos modos de consciência deva poder manter- se. A t('m-in Irrlllscendenlal terá por tarefa explicar sistema ti­ cameJlle essns estrllturas típicus. Se essa teo ria toma por guia uma generalidade objetiva e se se atém a essa generalidade, ela se chama teoria da constituiç50 transcendental do objeto em geral como objeto de uma forma ou de uma categoria, ou , ainela, num grau s upr~mo , de L1.ma dada reg ião. . Assim su rgem, inicialmente distintas, diversas teorias tran s­ cenclent<lis: uma teoria da percepção e dos outros tipos de intuição, Ullla teoria da significação, do julg<lmento, da vontade, etc. Mas es­ sas teorias convergem para uma unificação quando se trata de elucidar as conexões sintéticas superiores, e todas elas, em conjunto, desem­ penham seu papel na elaboração da teoria constitutiva geral e for­ m(/I de um ohjetu em geral; em outr<lS palavras, dc um horizonte li vre de obje tos possíveis, em geral, como objetos ele uma consciência possível. . Em seguida, vêm as teorias tran scendentais constitutivas que não s:io formais. E las estão relacionadas, por exemplo, com objetos esp,)Ciais. tomados indi vidualmente ou na conexão uni versal de uma natureza, d seres psicofí.-;icos, homens, comunidades sociais, objetos de cultura_ enfim, il um mundo objetivo em geral. como mundo de uma consciência possÍ'l'l c, trdnscendentalmente_ co mo se cons ti­ tu indo como objeto da consciência no ego tran scendcn tal. Tudo isso, é c laro, na atitude rigorosamente mantida da cTCOXTl tran sce ndental. Mas não devemos esq uecer C]ue os tipos dos o bjetos reais e ideais_ objetos de C]lIe temos consciênc ia "objeti vd- ', não S:10 os úni ­ cos g.uias possíveis nas pesquisas dc ordem "constjtl1tivil", Oll sej,l, nas pesquisas C]ue se propõem a descrever a estrutur,) universal dos modos de consci0ncid l'0ssíVé is de,>,<;cs objetos. ;s eslrlllllms ItfJi­ cus puíprius dos ohjelO.1 fJurW17elltc slIhjeri'()s e de todos os e:--.ta­ dos vividos illl,lIlelltcs podem igualmente d e~e mpenh ,lr esse papL:J. Ila medida em que têm. individual c ulli versalmente, .~lIa "constitui.
  • 35. 70 71.1 I.-dl!u!"o,·.' Co )" ,sin!I (!;" ção" própria como o bjetos da consciênci a interna do tempo. Sob to­ dos os aspectos, vemos se co locarem proviemos que atingem ora as espécies de obj etos considerad as individllalmente, ora sua univer­ salidade . Esses últimos dizem respeito ao eu na universalidade de seu ser e de sua vida, em relação à universalidade correlata de seus objetos. Se toma mos como guia transcendental o mundo obj etivo e uno, e le nos reenvia à síntese das percepções objetivas que englo ba a unidad e de todn nossa vida. assim como àque la das outras intuições o bjetivas possíve is, síntese em v irtude da qua l o ll1undo está a todo momento presente na consciênc ia como unidade e pode tornar-se seu objeto. D aí se depreende qu e o mundo é um problema egológico de caráter universal ; o mesmo va le, na orientação puramente imanente, para o conjunto da vida dn·con sc iênc ia em sua duração imanente. 22. A idéia da unidade universal de todos os objetos e o fJroblema de sua elucidacão constitutiva " T ipos de o bj e tos nos serv ira m de "gui a" na s pesqui sa s transcendenta is unificad as em to rno de um mesmo terna . Na redu­ ção fen omenológica, havíamos captado esses tipos a título de cogita~a puros, se m nos ins pirar em " prejulgamentos" de um sistema de con­ ceitos c ientíficos admitidos de antemão. Porque as multiplicidades ela consciênc ia q ue são "constituintes" - ou SCj:L aquelas que são o u que podem ser conduzidas à unidade da síntese no mesmo - estão ligadas. q uan to <] possibilielilde de uma 1;1 1sínt ese. por cond ições não acidentil is, mas es'scl7ciClis. E lils estno, portanto. submetidas n prin­ cípios, e m virtude dos qua is as pesqui sas leno mcno lógicas, em luga r de se perderem e m descrições sem li gação e ntre si, silo ordenadas por me io de rnzões imanentes. Codu objeto. em gerul (c tam bém cada objeto imanc nte). cOITespoJlde a ZIIIlU regra de estrlllllra do cu transcenclent<ll. Como representilçJo desse CII. e de alguma consc iênc ia que este tenha e1 e la, o objeto logo c1es igll:l Ulll:l regra uni versa l. pa ra outras posslhilidodes ele consciência do mesmo objeto e ele possibi­ lidades predeterminadas na essê nc ia. Ass jm é pilr3 todo obj eto "con­ cebíve l" , pa ra tudo o que possam os concebe!" como representado. A subjetiv idade tran scendental não é um caos de estados intenc io na is. Segunda j1editrrçâo Tampouco é um caos de tipos de estrutura co nstitutivos, do ql~al cada um seria ordenado em si mesmo por sua relação com uma espécie ou fonna de obj etos intencionais. Em outras palavras, a totalidade e tipos de o bj etos que posso conceber, o u, para falar numa lin g uagem transcendental, que o eu transcendental pode conceber, não são um caos, mas um conjunto ordenado; O mesmo vale para a totnlidade dos tipos de multiplic idades indefini das (fenômenos) ligadas 110éti ca e noematicamente, que correspondem aos tipos de objetos. Isso nos faz prever uma síntese constitutivo universal, em que todas as outras desempenham sua função juntas, segu indo uma ordem de.terminada, e que abrange, em conseqüência, todas as eJltjdades reaí.s e possíveis, à medida que elas existem para o eu transcendental, e, de forma correlata, todos os modos de consciência correspondente, reai s o u possíveis. Em outras pa lavras, uma tarefa formi dáve l dese­ nha-se, que é a de toda a f enomenologia transcendental. Eis essa tarefa : na unidade de uma ordem sistemática e universal , e toman­ do com o fi o condutor móve l o sistema de todos os objetos de uma consciência possível - sistema qu e será preciso manifestar gra­ dualmente - e, nesse siste ma, o de suas categorias forma is e ma­ teri a is, efetuar todas as pesquisas fenolllenológicas como p esqui­ sas constitutivos, ordenando-as sistemática e rigorosamente umas em relação às outras. Mas o melhor seria dizer que se trata, aqui, de uma idéio regulativa infin ita. O sistema - que temos de supor numa antecipação evidente - de obj etos possíveis como obj etos de uma consciência possíve l é uma idé ia (m as não uma invenção o u ficção) que nos fo rn ece um prin cí pio de ord em prútica. Esse principio nos permite re iigar entre e las as teo rias constituti vas re lativamente acabadas, elucida ndo não somente os ho rizontes ima nentes inerentes aos obj etos da consc iên­ c ia, mas taIllbém aqueles que enviam para fo ra, para as fo rmas es­ senc iais de li gaç ão. É verd ade que os problemas que se coloca m qu ando tomamos por gllias - ai llcla q ue limitados os ti pos ind ivi­ dua is de objetos silo de urn a co mplicação extrem ,1e nos leva m, por pouco que sejam aprofundados, a pesquisas muito complexas. É o caso, por exemplo, li;] tcori a tra nscendental da cOllstilll içJo de um obj eto espacial , até da de umél natureza em geral, da anim a li dade, da humanidade em geral, da cultura e m geraL
  • 36. 73 TERCEIRA MEDITAÇÃO OS PROBLEMAS CONSTITUTIVOS VERDADE E REALIDADE 23. Precisão do conceito de constituição transcendental pela introducão das nocões de ((razão)) e ((não-razão))J J Até aqu i entendem os por "constituiç?ío fenomenológica"· a cons­ tituiçilo de un1 obj eto intencional em gera l. Ela abrangia o conjunto cogito-cof.!,i/utZlIll em toda a sua amplidão. Vamos agora tentar dife­ renciar seu campo segundo suas estruturas. para elaborar 11171 con­ ceito moi.' preciso do que chamamos de constituição. Até :lqui a questão ele saher se se tratava de obj etos reai s ou irre;lis. de obj etos poss íveis ou impossíveis não desempenh ava nenhum papel. Ora, () fa to de termos ",v irado fazer um julgamento sobre 3 existênc ia ou ,1 inexistênci a cio Illundo (e de qualquer outra ohjetividade dada) nilo significa que tenh amos abandonado essa cliferença. Ao contrário. essa diferença constitlli. alinhada pelas noções Illuito ge rais de " ra7.ão"' e " não-razão"'. consideradas como corre latas do "ser" e do " não-se r'·. um tema uni versa I ela fenomenologia. Pe 1;1 rrrOXll reduzimos o dado rea l ;i simples "i nt en ~ão'; (cogito) c ao obj eto intencional tom ado pUr,lll1ente Cl)Il1 Cllal. E a esse objeto intencional que estão rel ac iona­ dos os pred icados "ser" e " não-ser" e suas variantes modai s; e les se relaci onam nJ o a objetos puros e simples, mas ao sentido objetivo. À illlençào (= ao ato) relacionam-se os predic<ldos verdade (justiça) 72 TáccimMcditaçií~ e fals idade, ainda que· num sentido extremamente amplo. Esses predicados não estão contidos simplesmente como " dados feno­ menológicos" nos estados ou nos próprios objetos intencionais; no entanto, têm "origem fenomenológica" . Entre as multiplicidades de modos de consciência sinteticamente ligados que ex istem para cada objeto, de não importa qual categoria e do qual se pode estudar a estrutura fenomeno lógica típica, podemos fazer uma distinção. AÍ encontram-se, de um lado, as sínteses que manifestam de maneira evidente --- quanto ao seu sentido :f(nal- sua conformidade com o tipo de estrutura em questão e, dessa forma , confirmam e verificam a intenção ou o sentido objetivo dado; existem aí, ao contrário, outros que O anulam e o destroem de maneira também evidente. Então, de forma correlata, o objeto da intenção poss ui o caráter evidente de ser um objeto "que é" ou "que não é" (ou seja, cujo ser está negado, " riscado"). Esses casos de síntese são intenciona lidacles de ordem mais elevada que, em disjunção exclusiva, dividem todo o campo do "sentido objetivo". São atos e correlata da "razão", essencialmente real izáveis pelo eu transcendental. A razão não é uma faculdade que tem o caráter d e um fato acidental; ela não engloba sob sua noção fatos acident<lis, mas é uma forma de estrutura universal e essencial da subjetividade transcendental em geral. "Razão" conduz a possibilidades de confirmação e de "verifica­ ção" , e estas, no final das contas, levam à evidência, quer sej a uma evidência ildquirida ou por âdquirir. Já falam os dessas ev idências no início de nOSS<lS meditações, quando, de forma totalmente ingênua, ainda precisávamos pl'OClirOrnossas diretivas metódicas, quando ainda não estúvamos no terreno fen omeno lógico propriamente cI ito. Vamos agora fa zer da evidê ncia o objeto de nOSS<l bu sca fenOlllelll)k )g iGl. 24. A evidência C071'ZO dado originário. Suas variantes 1 pa lavra evidênciu designa, num sentido be m ampl o 1111/ je­ })()/I/CI/O gerol c últill/o cb vi eL:-! intencional. Ela se upõe en tão úquilo que normalmente se entende por "ter consciênc ia ele alguma coi sa", podendo essa consc iência ser, apriori, " vazia" - puramente abstrata, simbólica, indireta, não expressa. A evidência é modo de consciência
  • 37. 74 75 ivfcclitaçõcs CC/iusianas de uma distinção particular. Nela uma coisa, um "estado de coisa", uma generalidade, um valor, etc. apresenlam-se, oferecem-se e mostram-se "em pessoa n. Ness e modo final, a coisa está, "ela própria, presente ", dada "na intuição imediata", "originalmente". Para O eu isso significa que ele assume alguma coisa não de forma confusa, por meio de pré-noções vazias, mas que está muito próximo da coisa em s i, que "a percebe, a vê e a maneja" . A experiência, no sentido vulgar, é um caso especial da evidência. Podemos até mesmo di zer que a evidência tomada em geral é experiência, em um senti­ do muito amplo e, no entanto, essencia1. Certamente, em relação a objetos quaisquer, a evidência não passa de um caso acidental da vida da consciência. No entanto, esse caso designà uma poss ibilida­ de, que é o objetivo para a realização do qual tende toda intenção para tudo aqu ilo qlle é ou poderia ser seu objeto. Ele designa, em conseqüência, um caráter fundamental e essencial da vida inten­ cional em geral. Toda consciência já tem em si mesma o caráter ele evidência, isto é, mostra autenticamente seu objeto intencional ou tende na essência a mostrá-lo autenticamente, ou seja, a chegar a sínteses de confirmação e de verificação que pertencem essencialmente ao domínio do eu posso. A toda consciência vaga podemos, com a atitu­ de da redução transcend ental, fazer essa pergunta: o objeto da inten­ ção'corresponde-Ihe ou pode corresponder-lhe, no modo do "si me;;­ mo", ficando preservada a identidade do o bjeto? E em que medida isso acontece? Ou, ainda, em outras palavras, que aspecto tomaria o objeto em questão se ele se apresentasse "a s i mesmo"? No processo da verificação, esta pode resultar mima negação. E m lugar do próprio objeto em questão, pod e ap,necer um outro, e isso no modo originário; a intenção primei ra " fracassa" então em sua posição do objeto e este tom a, por sua vez. o caráter de " não-exis­ tência" O nuo-ser não passa ele uma' modulli/ode do ser puro e sim­ ples. da ceJ1eza de ser moclalidade à qUi11 por determill<ldas razões a lógica oferece um lugar ele esc o lha. Mas a evid ê ncia tomada em um sen tido bem :-Implo é um conceito correlac io nado não somente aos conceitos elc " ser" e de " não-ser", mas também às outras variações m oda is do ser. tais como ser possível. provúvel, duvidoso; e ainda 3S variações que não pel1encem a essa série e que se originam na esfe­ ra afetiva e volitiva, tai s como: "ser um valor" e "ser um bem". lêrceira11cc/li/!fi/o 25. Realidade e quase-realidade Todas essas diferenciações dividem-se, também, em paralelas. Elas o fazem em virtude de uma oposição que atravessa toda a esfe­ ra da consciência e, de forma correlata, toda s as modalidildes do ser. É a oposição entre o real e o imaginário (= ficçi.lo de realidade). Do lado da imaginaç50 surge um novo conceito de possibilidade, con­ ceito geral em que encontramos de forma modificada, no aspecto do simples "imaginável" (na atitude do "como se"), todos os modos exis­ tenciais, a começar pela simples certeza da existência. Essa duplica­ ção se dá em modos que, por oposição àqueles do "real" (tais como: ser real , ser real provável, ser real duvidoso ou nul o, etc.), peJ1enCem a "irrealidades" puramente imaginárias. Assim se estabelece Lima distinção correlata entre os modos de cOllsciéncio de posiçilo e aqueles de consciência de quase-posiçüo (d o como se. da " imagina­ ção", expressão evidentemente muito imprecisa). A seus modos es­ peciais correspondem modos particulares de evidênc ia - eb evidên­ cia dos objetos que eles significam - , no próprio seio dos seus modos de ser respectivos, assim como potencialidades particulares de realização dessa evidência. É a esse domínio que pertence o que com freqüência chamamos de "elllcidação" ou "esc la reci m ento". O "esc larecimento designa sempre um modo de reoli::açâo da evi­ dência, o estabelecimento de um trajeto s intético, que v:-li de uma intenção confusa à correspondente intuição "exemplifi cativa". ou seja, aquela que leva implícito em si o sentido a paJ1ir do qual seria poss í­ vel, se conseguisse ser direta, levar à intenção e m Cjucstilo uma con­ firmação de sua s ignificação existencial e dc " rreenchê-Ja" de ma­ neira adequada. A intu iç50 "exempl ificati va.', Zl con fi rmaçi.lo ori gi nú ri;1. dá-nos não uma evidência realizad ora do ser. ma s da possibilidui/e de ser de seu contellclo. 26. A realidade considcrfldn C07no eorrc!ato da ver~fzeflç.ão evidcnte Com essas breves observações tocamos. apenas nos proble­ mas gerais formois do análise inlellcional, assim como nas pes­
  • 38. 76 77Meditações Cartcsirmns qui sas - Ja muito vastas e difíceis - a resp eito da origem fenomenológica dos princípios e conceitos fundamentais da ló­ g icafarmol qZle a ela se ligam. Isso não é tud o. Essas observações nos fazem entrever uma verdade muito importante. Esses conceitos, em sua generalidade ontológica formal , são índices de uma lei uni­ versal referente à estrutura da vida da consciênc ia em geral, estrutura em virtude da qual somente os termos de verdade e de realidade têm e podem ter um sentido para nós. Com efeito, se os objetos "são" para mim, no sentido mais amplo, reais, estados vividos, números, relações, leis; teorias, etc. isso inicialmente nada tem que ver com a eyidência. Isso significa que esses objetos "valem" para mim; em outras palavras, eles são meus cogiwta, e estão presentes na consciência no modo posicional da crença. Mas sél bemos muito bem que seria necessário renunciar logo a considerá-los como "vá lidos", se uma síntese de identidade evidente nos levasse a um a contradição com um dado evidente. Sabemos também que só podemos estar seguros do ser real por meio da sÍnte­ se de confirmação verificadora, a única que nos apresenta a realida­ de verdadeira. Fica claro que só se pode extrair a noção da verdade ou da realidade verdadeira dos objetos a partir da evidência; é gra­ ps apenas a ela que a des ignação de um objeto como realmente existente. verdadeiro, legit imamente válido - seja qual for sua for­ ma ou espécie - odquire paro nós wn sentido. e o mesmo se dá em n:::Jaç30 a toelas as determinações que - para nQs - lhe pel1en­ cem verdadeiramente. Q ualquer justificaç50 provém da evidência e, em co nseqliênc ia, encontra sua fo nte em nossa própria subj etividade transccnd ental. Q ua lq uer adequaç50 qu e se possa imaginar form a­ se C0l110 confirmação, como síntese que nos pertence, e é em nós qu e ela tc m se u fundamento transcendental último. 27 EFidblcia habitual e evidência potencial. Seu papel constitutivo do ((sentido)) de ((o~ieto existente)) Ccn amente, tal como aquela do obj eto da própria intenção, a iden tidade do objeto realmente existente, assim como a adequação entre o objeto intencional como tal e aquele rea lmente ex istente, não Terceira i0.cditnçâo é um elemento rea l da evidência e da confinnação como fen ômenos do jogo da co nsc iência. Trata-se aqui de uma imanência de ordem ideal, que nos remete a conexões essenciais de sínteses possíveis, novas. Qualquer evidência "cria" para mim uma aquisição durá­ vel. Posso "volfar sempre" à realidade percebida em si, em cadeias fOffi1adas por evidências novas que serão a " reprodução" da evidên­ cia primeira. Assim, por exemplo, na evidência referente aos dados imanentes haverá uma cadeia de lembranças intuitivas com a infini­ dade ilimitada do hori zonte potencial do "eu posso sempre reproduzi­ la de novo"- Sem tais possibilidades não haveria para nós o ser está­ vel e durável, não haveria mundo real ou ideal. Cada um desses mundos só é para nós por meio da evidência, ou pela presunção de se poder atii1gi- la essa evidência e de renovar a evidência adquirida. Daí se segue que a evidência de um ato sing ular nelO basto pura criar para nós t lllJ ser durável. Todo ser em um sentido bem omplo é um ser "em si" e tem, em contrapartida, o "para mim" acidelllal dos atos singulares. Da mesma fo rma, qualquer verdade é, nesse sentido muito amplo, "verdade em s i" . Esse sentido muito am­ plo do "em si" remete, portanto, à evidência, não exatamente a uma evidência tomada como fato vivido, mas a certas potencialidades fun­ damentadas no elltru17scendentol e em sua vida própria, e, de início, ;1 da infinidade de intenções que se relacionam sinteticamente com um único e mesmo obj eto, e depois às potencialidades de sua confir­ maç?ío, pOrtéllltO, ~l ev idênc ias potenciais indefinid amente renováveis como fat os vi'iJos. 28. Evidê'ncia presuntiva da existência do mundo. O 711-undo) idéia c07Telnta de uma evidência emph-ica perfeita As evidênci[lS t0m ainda um outro modo. bem l1l;Ji s complicado, de re,,?eter, no caso de um mesmo objeto, a mjlllidades de evidêll­ cios. E o qu e ocorre sempre que o objeto. originalmente mostrado ne las. o é de UJ1),l m,lJlc ira 1I11ilaferu!. Isso se r c l ~l c i() n::l a nada me­ nos que o conjunto das ev id ências, que, na intui<;?ío imediata, repre­ se nta para nós um mundo o bj etivo real , t8nto quando se trata do conjunto quanto quando se trata de objetos singulares quaisquer.
  • 39. 78 79..'-'f" lirllf i'i'5 C il rtni(!J/(!s A evidência que corresponde a esses objetos é a experleJ7clG externa; e torna-se claro que tais objetos só podem se r mostrados de maneira unilateral. Isso não é nem mesmo cOllcebível. Ma s fica cla­ ro também que, além disso, essa espécie de evidência possui neces­ sariamente um horizonte de antecipações não " preenchidas" ainda, mas tendo necessidade do ser, portanto que e la engloba conteúdos que são objetos apenas de um a intençilo significante, que nos remete a evidências potenciais correspondente s. Essa irnpcrfe içi'io da evi­ dência tende a diminuir na e pela reali zaç?ío de correntes de atos origin ários que conduzem, por passagens sintéticas, de uma ev idên­ cia a outra. Mas nenhuma síntese concebível pode atingir adequaç?ío completa e acabada, e ela sempre se faz acompanh ar de pré-inten­ ções e de co-intenções não " preendlidas" . Além di sso, é sempre possível que a crença ex istencia l que anima a zllltecipaçfío não se confirme, que aquilo que aparece no modo or iginiÍrio (do si mesmo) não seja ou que seja de outra maneira. No entanto, a experiência externa, no que se refere a seus objetos, assim como a todas as rea­ r lidades objetivas, é, em essência, a única instância de verificaç?ío, na medida, evidentemente, em que a experiência ---- transco rrendo ativa ou passiva mente - tem a forma de uma sín tese ele concordância. O ser do mundo é, portanto, "tran scendente" à consciência, mesmo na evidência originiÍria, e nela permanece necessa ri amente transcen.­ dente. Mas isso não muda nada em relação ao fato de qu e qualquer tran scendência constitui-se unicamente na v ida da consc iência, como algo insepa ra ve lmente li gado a essa vicl<l, e q ue essa v ida da co ns­ e iê nc ia - tomada nesse caso part icula r como co nsc iênc ia do m lindo carrega em si mesma a unidade ele sentido q ue constitui esse " mundo", assim como o ai' desse " mund o rea lmente existente" . So­ mente a explicitação dos hori zontes da cxperiéllc ia esc larece, no final das contas, o sentido da " realidad e do m undo" e de sua " transcen­ dência" E la nos mostra em segu icl:l que essa tLln scendência e essa realidade são inse paráveis ela subjetividade trélllsce nd ental. na qu al se constitui qualquer espécie de SClltic!o e de realicl8dc . Mas o que quer dizer o ato de remeter a infinicl8dcs concordéll1tcs el e umél expe­ ri ência posterior possível , implicélcl:ls em cad;] experiência cio Inundo. sc "ser um obj eto renlmente existente", Ill ostr<ldo "em pessoa" nUllI a evidência empírica perfe ita, não pode sig nifica r outra coisa senão se r Oobjeto idêntico das intenções atuais e potenciais na unidade da cons­ ]cneim i1editação ciência? Esse ato de remeter significa manifestamente que o "objeto real" pertencente ao mund o - e com mais razão ainda, o próprio mundo - é uma idéia infinita que se relaciona COm infinidades de experiências concordantes, e que essa idéia é correlata à de uma evidência empírica pe/feita, de uma síntese completa de experiên­ cias possíveis. 29. As regiões ontológicas materiais eformais como índices de sistemas transcendentais de evidências Compreende-se agora quai s são as gral7des lareJas da outo­ explicação transcendemol do eu ou de sua vida de consciênciél , tarefas que na scem em e pela consideração das entidades co loca­ das e a colocar nesta vida mesmo. As noções "ser real" e " verdade" (em todas as suas modalidades) designam para cada um dos objetos em geral que, como eu tral7scendental, eu "significo" e posso "signi­ ficar" uma dislinção das estruturas no seio das m ultiplicidades de cogilationes reais e possíve is que se relacionam com o objeto ern questão, ou seja, que não podem jamais se agrupar na unidad e de uma síntese de identidade. O termo "obj eto realmente existente" indica, no se io dessa Illultiplicidade, um s istema particulat; a saber o que compreende todas as evidênc ias que se refe rem a e le; e essas evid ências estão li gadas sinteticamente de maneira a se unirem em uma evidêllcia tOlO!. ainda que talvez infinita. Essa ev idência ser ia aquela absolutamcnte perfeita, que, no fin a l das con tas, lllostrari<l o próprio objeto em toda a s ua riqueza; e, na síntese dessa evidênci a, tudo aquilo que, nas ev idências singulares que a fundamentam, ainda é pré-intenção vazia c puramente simbólica, seria adequ ada mcnte confirmado e " preenchido" peja intui ção. Será o caso. para nós, nã o de re,l lizar essa evidê ncia de fato - para todos os o bjetos re8 is isso serin uma metél desprovido de sentido, pois, como di ssemos. lIrna evi­ dência empírica abso luta é lIlIla " idéia" - nlélS elllcido}' (e.plicilOr) SilO (!slrZllUl'[f essel7ciu!. assim com o as estruturas cssenc iais cL~ s dimen sões de infi nidade que constituem e compõe m de mallc ira sis­ temática sua síntese ideal infinita. É uma tarefa fantástica, mas bem
  • 40. 1'0 /VIcditações CartcJúmas dete rminada _ Consiste no estudo da constituição trclI1scendelltal da objC'/ividade real, sendo esses termos tomados em seu sentido próprio_ Ao lado das pesquisas gerais formais que se atêm ao concei­ to lógic o formal (ontológico formal) do objeto em geral- e que, em conseqüência, são indiferentes às determinações materiais das cate­ gori;lS particulares de objetos - , teremos então, como veremos, uma séric de problemas de constituição de ordem material , ou seja, de problema s de constituição particulares a cada uma das categorias (regiões) materiais supremas_ Será prec iso elaborar uma teoria constitutiva da natureza fisi­ co, sempre "mostrada" e - uma implicando a outra - pressuposta como exi stente; uma teoria do homem, da sociedade humana, da cli/tura, etc. Cada uma dessas noções designa um vasto conjunto de pesquisas diferentes, que correspondem aos conceitos de ontologia in­ gênua, tais como: espaço real, tempo real, casualidade real, objeto real, qualidade real, etc. Trata-se a cada vez de desvelar a intencional idade impl icada l1a própria experiência (s endo ela um estado vivid o transcende ntal); trata-se de lima explicitação sistemática dos "horizon­ tes" da experiência, ou seja, de uma explicitação das evidências possí­ veis que poderiam "preencher" suas intenções e que, por sua vez, de acordo com uma lei de estrutura essencial, tàriain renascer em volta delas " horizontes" sempre novos, e isso estudando continuamente as correlações intencionais. Percebemos então que, em sua relação com os objetos, as unidades sintéticas das evidências constituintes possuem uma estrutura bastante complexa; por exemplo, percebemos que, efe­ 'and o-se a partir ela base objetiva mais simples, elas implicam csca l:ls fCJrmad as pur " objetos" puramente subjetivos. E sse pape l de funda­ mento objetivo último é sempre preenchido pe la duração imanente, O ll seja. pela v ida que tran scorre e se constitui em si mesma e po r si mcs­ ma . [sc l;m::ccr a constituição dessa duração é tarefa própria da teoria ela consci ê ncia original do tempo, quc constitui os próprios dados tcm­ por,llS QUARTA MEDITAÇAO 30. Os problemas constitutivos do pr6prio ((ego)) transcendental Os objetos só existem para nós e só são o que são como objetos de uma consciência rea l ou possível. Se esta proposição prec isa ser algo diferente de uma afirmação no ar o u um tema ele espec ulações vazias, ela devc sercolllprovaela por uma explicitação fe nomenológica correspondente _ Só uma pcsquis;1 que abordasse a constituição no sentido mais amplo, indicado anteriormente, e em seguida no ma is restrito que aca­ béll1l0S de descrever, poderia levá-Ia a efeito . E isso segundo (' liilico método possível de élcordo com a essência ela intencionaliclade e de seus horizontes. Já as anúJises preparatórias que /lOS conduzem à inte­ ligência el o sentido do problema destacam o fato de que o ego transcendellta l Cc. se considerarmos sua rép lica psicológica, a alma) é aquilo quc el e é unic,lmente em relação ZlO S objetos intencionais. A esses últimos pertencem igualmente os objetos de ex istência necessári zl. e. CO lll O ego que se re laci o na com o Il1undo, não somente os objetos na esfera tempo ral imanente. susce tíve is ele uIl1aju stifíca­ ção adequada, mas també m aqueles do mund o que justificam sua existência no desenvo lvimento concordante de uma experiência ex­ 81
  • 41. l0cditnções CarttSirmnsR2 terior. inadequada e presuntiva. Pertence, portanto, à essência do ego viver sempre em sistemas de intencionalidades e em sistemas de suas concordâncias, ora transcorrendo no ego, ora formalldo potencia­ lidades estáveis que sempre podem ser realizadas. Cada um dos ob­ jetos que o ego alguma vez assumiu, pensou, qu alquer objeto de sua ação ou de seu julgamento de va lor, que ele tenha imaginado e que possa imaginar, é um índice de um tal sistema de intencional idades, e nada mais é que o correlato desse sistema . 31. O ((eu)) como pólo idêntico dos ((estados vividos)) M as devemos agora chamar a atenção para uma grande lacuna da nossa exposição. O ego existe por si meslllo; ele é existente para si mesmo com UI1ln evidê ncia continua e em conseqüência constitui continuamente a si mesm o como existente. Mas só tratamos até O momento de um ún ico lado dessa constituição de si mesmo; dirigimos nosso olhar apenas para o corrente do "cogito n. O ego não perce­ be a si mesmo unicamente como a vida que transcorre, mas também como eu, eu que vive isso ou aquilo, eu idêntico que vive tal ou tal cogito Ocupamo-nos até o momento unicamente com a relação en­ tre a consciência e ° seu objeto, entre o cogito e o cogitatu177, e só pudemos extrair a síntese pela qual as multiplicidades da consciência real e possível são "polarizadas" em objetos idênticos, e onele os ob­ jetos aparecem como " pólos", como unidades s intéticas. Uma se­ gl/l7da e,lpécie de polorizaçDo apresenta-se ,1 nós agora, uma ou­ tra espécie de sÍJ7Iese. que Clbrange as multiplicidades particul ares das cogitotiones, todas juntas e de maneira espec i,ll , a saber C0 l11 0 cogitotiones cio eu idêntico, que, otivo ou pussivo. vive em todos os estados vividos da consciência e que, por interméd io cleles, se liga a todos os pólos-objetos 3.2. O ((eu )) substrato dos Úhahitus)) É preciso notCl L no entanto, que esse eu centrolnelo é um pólo de identidade vazio (não mai s do que qualquer outro objeto); com Q:tnrta j)1"ditação ~3 qualquer ato que ele efetue e que tem um sentido objetivo !lOvo., o eu - em virtude das leis da "gênese transcendental" - adquire uma nova propriedade permanente. Se me decido. por exemplo. pela primeira vez, num ato de julgamento, pela existênci a de um ser e por esta ou aquela determinação desse ser esse ato passa, mas e u so u e permaneço daqui por diante um eu que decidiu destn ou daquela maneira, "tenho uma convicção correspondente". Ora, isso n30 significa somente que me lembro ou que penso lembrar no futuro desse ato; eu teria podido fazê-lo m esmo se ti vesse entrementes " perdido" essa convicção. Após ter estado " ri scada", ela não é mais minha convicção, mas o fora de maneira permane nte até então. Enquanto ela é válida para mim, posso "voltar" a ela mui­ tas vezes e sempre a encontro como minha, como me 'pertence ndo como habitus; encontro a mim mesmo como um eu que se COI/'el/­ ceu, como um eu permanente determinado por esse huhitlis perse­ verante. O mesmo se dá em relação a qualquer decisão que e u tome, Eu me decido, O ato vivido transcorre, mas a decisão permanece ­ quer eu me abata, tornando-me passivo no sono, quer eu viva em outros atos -, a decisão permanece continuamente em vigor e, de forma correlata, estou daqui em diante determinado de certa manei ­ ra, e isso durante todo o tempo em que não abandonar minha dec isão. Se a decisão tem por objeto uma ação, ela não é "abandon3da" com a real ização de seu objetivo . Ela perman ece em vigo r - no modo de finalização/cumprimento - e exprime-se assim: " é minha ação e a reconheço corúo minl13" . Mas eu transforll/o o II/i/ll lIIeSII/O, cu que persevero na m inha vontade permanente qll'llldo ;-lJlulo. quando nego minhas dec isões e meus CltOS. A pers istêncid, n durnção dessas determinações cio ('11 e S ll~l " transformaçJo específica" não significam , é claro, que o se lltcIllpO imanente seja continu;llllente preenchido, porque o próprio eU jJc?rll1o­ l7eJ1/e, pólo das GctcrminClções permanentes do eu . nJ O é um est;lGO vivido nem um a cOlllinuidade de "estados vividos". ainda que e le se ligue por tais detenninélções habituais ao corrente elos "cstClclos vi vi­ dos". Constituindo a si mesm o. como substr010 idélllico de SilOS propriedades perll/({Jlelltes, O eu se co nstitui pos teri orm ente como UIll eu-pessoo perllwl7cnte, no sentido mais éllllrlo desse lermo, qu e nos autoriza a L1Jar ele " personalidades" inferiores no homem E mesmo se, em geral, as convicções são apenas relativamente permanentes,
  • 42. 84 85 Meditações CmrtcsiclJIns mesmo se elas têm s~las maneiras de "se transformar" (as posições ativas modificam-se: elas são " riscadas", negadas, seu valor é redu­ zido a nada), o eu, no meio dessas transformações, mantém um "es­ tilo" constante, um "caráter pessoal". 33. A plenitude completa do ((eu)) como mônada e o problema de sua autoconstituição Do eu, pólo idêJ1tico e substrato dos habitus, distinguimos o ego, tomado em sua plenitude concreta (que vamos designar pelo termo leibiniziano de mônada), acrescentando ao eu-pólo aquilo sem o qual ele não poderi<l existir concretamente. Sobretudo, ele não po­ deria ser um "eu" de outra forma que não fosse no corrente multifonne de sua vida intencional e dos objetos assumidos por ela, constituindo­ se eventualmente como existente par<l esta. O caráter de existência e de determinação permanentes desses objetos é manifestamente um correl<lto do habitus correspondente, que se constitui no eu-pólo. É preciso entender isso da seguinte maneira. Na qualidade de ego, encontro-me num mundo ambiente que "existe par<l mim" de maneira contínua. Nesse mundo encontram-se objetos como "exis-· tentes par8 mim", sobretudo os que já me são conhecidos em suas articulações permanentes e <lqueles cujo conhecimento é ape'n8s éln­ tecip<ldo. Os objetos que existem no primeiro sentido existem pala mim gr;-tç;-ts 3. uma aquisição original, ou seja, a UIl1<l percepçiio origi­ nai e à explicit,lç50 el11 intuições p<l11icul:lfes d<lquilo que até cntão nunca foi percebido. Dessa fOrl1w, o objeto constitui-se el11 l11inha atividade sintética sob a forma explícita " de objeto idêntico de suas propried<ldes InLlltiplas" : ele se constitui, por1anto, como idêntico a si mesmo. eletermin<l ndo-se em suas propriedades múltiplas. Essa ativi­ c1;-tcle. pel:t qual coloco e explicito a e"isténci<l. cria um hobitus no meu 1.'11. e por meio desse habitlls o objeto em questâo me pertencc de formél 1)l:fl11<lnente. como objeto ele suas determinações. Tais aqui­ sições permanentes constituem o Illeu meio fàmili<lr, com se us hori­ zontes de obj etos <linda desconhecidos. ou seja, dos que devo adq uirir, mas que já antecipo em sua estrutura formal de objetos. Quarta i1cditarão Eu sou, numa experiência evidente, constantemente dado como eu mesmo. 1sso vale para o ego transcendental e para todos os sen­ tidos do ego. Como o ego 1l10nádico concreto contém o conjunto da vida consciente, real e potenc ial, fica claro que o problema da explicilação fellomenológica desse ego monádico (o problema de sua constituição p8ra si mesmo) deve abranger todos os proble­ /JIas consli/lItivos 1.'111 geral. E. no final das contas, <l fenomenologia dessa constituição de si para si mesmo coincide com a jenomenologia geral. 34. A elaboração dos princípios do método fenomenolÓfJico. A análise transcendental como ádética A teoria do eu, pólo de se us atos e substrato dos habitus, per­ mitiu-nos atingir um po nto onde se colocam os problemas da gênese fenomenológica e, dessa forma, o plano da fenomenologia genéti­ ca. Antes ele precisar seu sentido, façamos LIma nova reflexão sobre o método fenome nológico. Precisam os, enfim. colocar em desta-. que um dad o metódico fundamental que, uma vez percebido, deter­ mina todo o método d<l fenomenologia transcendental (e, no terreno natural, o de uma psicologia introspectiva autêntica). Se deixamos P,lr<l falar ckl<t tão l<Hclialllente, foi somellte para L"lcilitar o acesso à fenomenolog i;-t . A grande lllultiplicidade de fato s e de novos proble­ mas devi<l dc início Clprescnt:lr-se sob a fOrIll;-t m8is simples de uma descri ç50 empíri ca (ainda que ele uma ckscriC;âo cfetu<ldd na esfera da experiência tran scendentéll). Em contrapartid<l, o métudo da des­ criçZio cidéficu consiste em fazer p<lss<lr todas eSSélS descrições na dimensão dos princípios. o que teria sido difícil de entender no início, enq uanto depo is de certo nÚlllero de descrições empíricas podemos percebê-lo sem diliculcl<lde. Cada Ulll de nós. mcd itando ,1 m;-tn ei ra c<lrtesian3. foi Iev<ldo até seu ego Ir<lnscendent ~rI pelo melodo da rcduc;Jo fenomenológica. c. bem en tend ido. este ego de já/o, com seus contelldos monádicos concretos, como ao ego absoluto, só e único. Eu, enquanto sou esse ego. encontro. na seqüênc ia de minhas meditações, formações típi­
  • 43. 86 87iHediraçõcs Cartnú'lZi!5 cas, perceptíveis pela descrição, das quais se poderia extrair a estru­ tura intencional, e eu teria podido avançar gradualmente na elucidação das direções essenciais da intencional idade , de minha "mônada". Expressões como "necessidade essencial" ou "essencialmente" des­ lizam com freqüência , e por boas razões, em nossas descrições; es­ sas expressões traduzem um conceito determinado do ({ priori que somente a fenomenologia delimita e esclarcce. Os exemplos irão esclarecer do qu e se trata. Tomemos deter­ minada experiência intencional- a percepção, a memória imedia­ ta, a lembrança, a asserção, a aspiração a alguma coi sa. Conside­ remos sua estrutura e sua função intencionais, explicitando e descrevendo seus aspectos noético e noemátiço. Isso pode significar _ e até aqui nós o interpretamos assim - que se tratava de fatos típicos do eu transcendental dado e que as descrições transcendentais devi am ter um sentido " empírico". Mas, involuntariamente, nossa descrição mantinha-se num tal níve l ele universalidade que seus re­ sultados mostram-se independentes dos fatos empíricos do ego transcendenta I. Vamos elucidar esse ponto e torná-lo fecund o para o nosSO método. Panindo do exemplo dessa percepção da mesa, modifica­ mos o seu objeto - a mesa -, de maneira inteiramente livre, ao sabor da nossa fantasia, preservando no entanto o caráter de percep'" ção de alguma coisa: não importa oql1e. mas... alguma coisa. Come­ çan10s por modificar arbitrariamente - na imag.inação - sua forma, sua cor, etc., mantendo apenas o caráter de "apresentação perceptiva" Em outras pabvr;ls, transformamos o L.to dessa percepção, abstcn­ do-nos de afirmar seu valor existencial. em uma pura possibilidade. entre outras, perfeitamente arbitrárias, mas no entanto puras possibi­ lidades ele percepções. Transferimos dc qualquer forma a percepç80 real ao reino das irreal idades, ao do "como se". que nos dá as possi­ bi lidades " puras", puras de tudo aquilo que as lig~Hi a;l um fato qual­ quer. Nesse último sentido, não conservamos as lig.ações dessas pos­ sibilidades ao ego empírico, colocado como e~i stente: entendemos essas possibilidades como pura e livrementc im;1gin,íveis. uc maneira que desde o início não teríamos pocliuo lançar mão, C0111 0 por C:CI11­ pio de uma percepção imaginária sem relação com o resto da vid;l empírica. O tipo geral da percepção é elucidado na pureza ideal. Q!,arta Meditação Privado assim ele qualquer relação com o fato, ele se torna o eidos da percepção, cuja extensão "ideal" abrange todas as percepções idealmente possíveis como puras ficções. As análises da percepção são então "análises essenciais "; tudo o que dissemos sobre "sínte­ ses", "horizontes", "potencialidades", etc., próprias do tipo percep­ ção, vale - como é fácil perceber - "essencialmente" para tudo aquilo que teria podido ser formado com a ajuda de tal modificação livre, em conseqüência, para todas as percepções imagináveis em geral. Em outras palavras, é uma verdade de uma "generalidade essencial" e absoluta, essencialmente necessária para cada caso particular, portanto para toda percepção de um fato, na medida em que todo fato pode Ser concebido como sendo apenas um exem­ plo de possibilidade pura. Posto que supomos a modificação evidellte. ou seja, que apre­ senta as possibilidades como tais numa intuição pura, seu correlato é uma consciência intuitiva e apodíctica do universal. O eidos, ele próprio, é um universal visto ou visível; ele é um "incondicionado" e, mais precisamente, um não-condicionado por um fato qualquer e este conformemente ao seu próprio sentido intuitivo. Ele está "adian­ te " de todos 05 conceitos, entendidos como significações verbais; esses últimos, como conceitos puros, logo devem estar de acordo com o eidos. Se um ato particular é dessa forma transformado de dado de fato do ego transcendental em um tipo ou essencia pura, seus hori­ zontes intencionais, indicativos de relaçõe's com o interior do ego, não desaparecem de forma alguma. Mas os horizontes das ,.ela­ ções tornam-se eidéticos. Em outras palavras: quando lidamos com o tipo eidético puro, nuo mais estamos diante cio egu empírico, porém, diante do "eidos ego"; dito de outra forma, toda constituição de uma possibilid,lde realmente pura, entre outras possibilidades pu­ ras, implica, a títul o de horizonte, um ego jJo.lsíl'el - !7o sentido de IJl1ro possibilidade -. pura variante de m e L! ego empírico, pora II7Im. Podemos assim, clesde o início, conceber esse ego como livre­ mente variável e nos propormos a analisar a essência da constituição explícita de um ego transcendental em geral. É, aliás, o que a nova fenomenologia fez desde o início; deduz-se daí que todas as descri­
  • 44. 88 89,Hu {itnções Cartcsi fll1r<S ções e delimitações do problema efetuadas por nós até aqui n50 pas­ sam de retransposiç~o de suas análises, originalmente eidéticas, em descrições de tipos empíricos. Portanto, se representamos a fenomenologia sob a forma de ciencia intuitiva apriorística, puramente eidética, suas análises ape­ nas desvelalll {j estrutura do "eidos" universal do ego trans­ cendental, que ubrclllge rodas as variemtes possíveis do lJIeu ego elllpírico e, portanto, esse próprio ego, como possibilidade pura. A fenomenologia eidética estuda o a priori universal, sem o qual nem eu nem nenhum outro eu transcendental, em geral, seria "imaginável", e posto que toda universalidade essencial tem valor de uma lei inviolável, a fenomenologia estuda as leis esse nciais e universais que·, determinam de antemão o sentido possíve l (com seu oposto : o con­ tra-sentido) de toda asserção empírica rel"tiva ao transcendental. Eu sou um ego que medita à mane ira cartesiana; sou guiado pela idéia de filosofia , compreendida como ciência universal, funda­ mentada de maneira absolutamente rigorosa, da qual - a título de ensaio - admito a possibilidade. Depois de ter feito as reflexões anteriores, tenho a evidencia de, untes de qualquer coisa, ter de elaborar wl1ufenol7lel/ologia eidético, lInica fomla pela qual se reali­ za - ou se pode reali zar - uma ciência filosófica, a "filosofia pri­ meira ". Ainda que meu interesse se concentre aqui, paliicularrnente na redução transcendental, no meu ego puro e na explicitação desse ego empíri co, só posso analisá-lo de mane ira realmente científica, apelando aos princípios apodícticos que pertencem ao ego como ego em gera I l~ prec iso que cu recorra às ti niversa Iidades e às necessi­ dades essenciais, graças às quai s o fato pode se r relacionado aos fundamento s racionais de sua pura poss ibilidade, o que lhe confere a inte li gibilidade2 e o carúter científico, Assim. a ciência elas possibili­ dad es puras precede em si aquelas das realidades e as torna possí­ ve is co mo ciências , Chegamos, portanto. ú seg.uinte visão metódica: 2 . L I' reC!~() pJ'e5'tar atençàl) ao segu inte LllO : Jl :l r aSSagelll do J1leu ego ao ego CIll ge r;jl. nào se pre~su pC>(; n elll i1 realidadc ne m ~ poss ibilid,lde de um mundo dos llutIOS...' c:-;tcns;"io do eidos ego é dete rminada rel a 'ariaçao do illeu ego, EUille modifi co na imag inaçào, e u mesmo. eu m e represe nto co m o diferente, eu n30 imag in o " um outro Quarta M editarão ao lado da redução fenomenológica, a intuição eidética é a for­ ma fundamental de todos os métodos transcendentais particula­ res; ela determina, portanto, ao mesmo tempo, o papel e o valor de uma fenomen o logia transcendental. 35. Digressão no campo da psicologia interna eidética Saímos do ciclo fechado de nossas meditações, q·ue nos ligam à fenomenologia transcendental, fazendo a seguinte observação: quan­ do, na atitude natural, aspiramos a uma psicologia, ciência positiva e, acima de tudo, à psicologia pura intencional que essa ciência positiva exige - psicologia primeira em si e que só se alimenta das fontes da "experiência interna" - , podemos utilizar o conjunto das análises fund amentais que acabamos de efetuar, submetendo-as a pequenas modificações, que lhes tiram, bem entendido, o sentido transcendental. Ao ego transcendental concreto corresponde então o eu do ho­ mem, a alma, captada puramente em si mesma e por si mesma, alma polarizada num eu, pólo do meu habitus e dos meus traços de caráter. Em lugar de uma fenomenologia transcendental eidética, temos então uma teoria eidética da alma, que trata do eidos: alma cujos horizontes eidéticos não são, todavia, explorados. Porque se os explorássemos, encontraríamos a via para ultrapassar a positividade dessa psicologia, a via para uma fen ome nologia absoluta, a do ego transcendental, que não conhece nenhum horizonte capaz de conduzir para fora de sua esfera transcende ntal c de revelar seu can:íter relativo. 36 O ('(c[To )) transcendental, universo dasformas possíveis de cxperiência. As leis e.uenciaú que detcnl1inaJl1 a compossibilidade dos estados vividos e71I sua coexistência e C7n sua sucessão Após a importante transformação que a idéia do método eidético provocou na idéia da fenomenologia transcendental, vamos nos man.. ter, de agora em diante, retomando a elaboração dos problemas da
  • 45. 90 iVJcditaçõcs CaI'tl:5icznf15 fenomenologia no âmbito de uma fenomenologia pur(lmente eidética. .O ego transcendental mostrado de f(lto e as particularidades de súa experiência transcendental não serão mais que simples exemplos de puras possibilidades. Os problemas de que tratamos até aqui serão igualmente enten­ didos como eidéticos; admitiremos que a possibilidade de levá-los ao eidos puro - do qual nos asseguramos acima com a ajuda dc um exemplo - é universalmente realizada. É extremamente difícil detcc­ tar as estruturas essenciais do ego concreto em geral de maneira real­ mente sistemática ou elaborar um conjunto realmente sistemático de problemas e uma seqüência também sistemática de pesquisas. . Foi somente no curso dos últimos anos que esse conjunto come­ çou (l se tornar mais claro, inicialmente porque encontramos novas vias ele acesso aos problemas universais específicos da COJ7slitlli­ çelO do ego transcendental. O a priori universal, que pertence ao ego transcendental como tal, é forma essencial que abrange uma infinidade de formas, tipos apriorísticos de atualidades e de potencialidades possíveis da vida (intencional) e dos objetos que aí se constituem como "realmente existentes". Mas todas as possibilida­ des típicas particulares não são compossÍveis num mesmo ego, nem em qualquer outra ordem, nem em qu::lIquer outro momento de seu tempo próprio. Se construo uma teoria científica qualquer, essa ativi­ dade complicada da razão - assim como se u objeto - é de um tipo essencial que não é uma possibilidade de um ego qualquer, mas uni­ camente ele um ego "racional", no sent ido p;)11icu lar de um ego trans­ formado num ser do mundo, na fornlél essencial de homem (ul1ill7u! 'fol/unu!e "). Vislul1lbr(lndo minha atividade teórica mostrada em seu tipo eidético, submeto-me a um;) modificação, quer cu esteja cons­ ciente dela ou não; eSS(l variação n3.o é, no entanto, (lrbitrária, mas inserida no contexto do tipo esse ncial corre lato doser razoável N:lo posso manifestamente nem mesmo supor que a atividade teóri ca que e:xerço ou que possa exercer agora seja, na unidade da minha vicia, relacionada a qualquer momento elo passado, e essa impossibilidJde traduz-se igualmente em impossibilidJcle eidética. A idéia di! minha vida ele criança e de suas possibilidades constitutivas oferece-nos um tipo que só pode conter "a atividade teórica científica" no seu desen­ volvimento posterior, mas não no seu conteúdo atual. Essa restrição Qum'1a Meditação 91 tem seu fundamento numa estrutura apriorística universal, nas leis essenciais da coexistência e da sucessão egológicas. Porque todas as experiências, todos os habitus, todas as unidades constituídas que pertencem ao meu ego e, do ponto de vista eidético, a um ego em geral, têm seu caráter temporal e participam do sistema das formas temporais universa is, com o qual todo ego imaginável se constitui por SI mesmo. 37. O tempo comoflrmà universal de todagênese egolágica As leis essenciais da compossibilidade (e, do ponto de vista empírico, as leis da coexistência e da possibilidade de coexistência simultânea e sucessiva) são de "causalidade" num sentido IJ7l1ito amplo da relação entre condição e conseqüência. Mas é convenien­ te evitar aqui o perigoso termo causalidade e empregar para a esfe­ ra transcendenta l (e para a esfera psicológica "pura") o termo moti­ vação. O universo do vivido que compõe o conteúdo real do ego transcendental só é compossível sob a forma universal do transcor­ rer, unidade em que se integram todos os elementos particulares como se todos eles transcorressem nela. Ora, essa forma, a mais geral de todas as formas particulares nos estados vividos concretos e das for­ mações que, ao trans(;orrer, se constituem nessa corrente, já é aquela de uma motivação que liga todos os seus elementos e domina cada elemento particular. POdClilOS ver nelas as leis formais cio géllese /In iversal. segundo as qua is, de acordo com certa es.tru tura fo rma I noético-n ocmática, se constituem e se un em continuamente 110S mo­ dos do transcorrer: passado, presente, futuro. Mas no interior dessa forma, (l vida se desenrola como um en­ cadeamento de ativid(ldes constituintes pal1iculilres, determinado por uma multiplicidade de motivos e de sistemas de moti vos pZrticularcs que, conforme as leis gerais da gênese, formam a ullidode da gênese universo! do ego. O ego constitui-se para si mesmo em al gum tipo de unidade de uma história. Se pudemos dizer que n:1cons­ tituição do ego estão contidas todas as constituições de todos os ob­ jetos existentes para ele, imanentes e tran scendentes, reais e ideais, é
  • 46. 92 93J1cdúaçõcs CnrtcsianlH preci so acrescentar agora qu.e o sistema das constituições, graças às qua is esses ou aqueles objetos e categorias de objetos que existe m pa ra o ego só são possíveis nos quadros das leis genéticas. Esse sistema é , além disso, ligado pela forma genética universal que deter­ mina a possibilidade do ego c onc re to (mônada) como unidade compossível de conteúdos particulares. O fato de que uma nature za, de que um mundo da cultura e dos homens com suas formas sociais, etc. existam para mim, significa que experiênc ias correspondentes me são possíveis, ou seja, que, independen~emente da minha e xperiên­ cia real desses objetos, posso a todo momento realizá-las e desenvolvê­ ·1 las num certo estiLo sintético, Isso signifi ca, em conseqüê ncia, que outros m odos de consciência que correspondem a essas e xperiências, a atos de pensamento indistinto, etc . são possíveis para mim, e que poss ibilidades de serem confirmados ou zmulados por meio de ex­ periê nc ias de um tipo detemlinado de avanço são inerentes a esses atos. Um habitus firmemente estabelecido, adquirido por certa gê­ nese submetida a leis essenciais, está aí implicado. Vamos rele mbrar aqui os velhos problemas da o rigem psicológi­ ca da "representação do espaço" , do "tempo", da "coisa", do " núme­ ro" , etc. Eles reaparecem na fenomenol ogia na qualidade de proble­ mas tran scendentai s, com () sentido de p robLem as illtencionais, e notadamente como integrados aos problemas da gênese universal. . É muito difícil ter acesso à última generalidade dos problemas fenomeno lógi cos eidéticos e, dessa forma, aos problemas ge néti cos ' últimos. O fen om eno log isra iniciante vê-se in voluntariamente amar­ rado pe lo fato de tom;)r a si mesmo com o ponto de partida . N a éln<Í­ lise tran scendental, ele se vé como ego e depois com o ego em gcr,t1 , ma~ e s~c ego te m já a consc iê ncia de UIll mundo de /ipo ontológico q ue 110S é F Ullili{/}; contendo Ullla natureza, uma cultura (ciéncia~. belas-arte~, técnicas, etc. ), das personalidades ele ordem superior (E~­ tado , Igreja), etc. A fenomeno logia daborada em primeiro lu gar é eSlútico, suas desc rições são an<Ílogas às da história natural que es­ tuda os tipo~ particulare~ e. além di sso, os orden a de maneira si ste­ m<Ítica. Ainda estamos longe dos pro blemas da gênese uni versal e da estrutura genética do ego, que ultrapas~ Ll Ll si mples forma do tempo ; com efeito _são questõe~ de um tipo supe rior. M as mesmo qu ando a~ colocamos, não o fazemos e m total liberdade. Com efeito , a an álise Q lln /"In j j,diil1f'w essencial irú ate r- se inici a lme nte ao ego, mZlS ela só encontra um ego para o qual um mundo constituído exi ste desde j<.i. Trat a-se de uma etapa nccess,,'i rid , a pa rt ir du qu,ll somente ex traindo as form as das lei s ge néti c~l S qu e lhe são inerentes poclemos perceber as possi­ bilidades de L/l1l(/ fe nomello Logia eidética absolutamente uni versal. No domíni o desta última, O ego pode efetu <lf vari Zlções de si mesmo com liberdade (,li que não conse rva nem mesm o a su posição ide;)l de que um mund o de lima estnJlUrZl ont ológica que nos é familiar seja constituído por ele. 38. Gêneses ativa epassiva Na qualid Zlde de sujeitos possíveis que se rel ac ionam CO /71 o inun­ d o, vam os indagar quai s são os pril/cípios uni versai s da g~llese constitutiva. El es se apresentam sob duas form as jitndamentais : princípios da gêllcse ativa e da gên ese passiva. No primeiro caso, o eu intervém como fZltor que engendra, cri a e constitui com a ajuda de atos específicos dele. TodZls as funções ela ra züo p rática, no sentido amplo da p::lIa vrZl , pertence m a e la. Nesse sentido , a razão lógica é, também ela, prútica. O mome nto característico é o seguinte: os atos do CLt mutuamente li gados por laços (dos quai s resta estabelecer o sentido transcen dental) de comunidade sinté tica unem-se e m sínteses m últiplos do otíviduele específicu e, com base e m objetos já m ostra­ dos, con~tituull ele m aneira original o~ o bj etos no'os. E ~ ses ap<lreccm então pW D (/ c()l }sci;;/I ci(/ como prodll/os. A saber, no dto de Cl Ji igir, o conjunto. no at o de nume rar, o núme ro, na di visão, a p;lrle, na predic<lção. o predicado ou o "estado ele coi sas", no ato ele concluir. a conclusão, etc. T:lJllbém a con sciê nc i:l ori ginal da universalid ade é uma ati vidade em qu e o llni ve r~al se constitui com o obje to. Resulta então par:..! o CI/ Ulll //(/bítllS , que o m antém em vigor e qL1e inter v~ m igua lmente na con.qituiçi:io dos objetos com o e xist entes para 0 ell . P ode-se, em conseqiiência, re portm-se a i s~o ~e mpre _ sej a por L1m ato de reprorlws'(/o acompanh ado el a consc iên c ia d o " mesm o" o bje to, m ostrad o novame nte numa " intuição" , ou numa consc iênc ia vaga que lhe corresponde sinteticamente . A cons tituição tran scende ntal de tais
  • 47. 94 95Meditações C({rtcsic!1l(?s objetos, estando relacionada às atividades interslIhjetivCls (como as da cultura), pressupõe a constituição prévia de lima intersubjetividade transcendental, da qual falaremos mais tarde As formas superiores de tais atividades da "razão" e, de forma correlata, de produtos da razão que têm, em seus conjuntos, o curá­ ter de irrealidades (objetos ideais), não podem ser consideradas, como dissemos acima, como pertencentes necessari am ente a qual­ quer ego concreto (a lembrança de nOssa infânciaj(j noS mostra isso). No entanto, isso se dá de maneira diferentc em re lação às (ormos inferiores: como o ato de captar pela experiência, de explicitar a experiência em elementos particulares, de reunir, de aproximar, etc. Mas em todo o caso a estrutura da atividade pre?s upõe sempre c necessariamente, como camada inferior, um a passividade, que recc­ be o objeto e o encontra como algo pronto de antemão: ao ,1Ilalisc1-lo, vemo-nos diante da constituição por meio da gênese possivo. O CJuc na vida se apresenta a nós, de qualqucr forma, como acabado, como coisa real que não passa de coisa (abstração feita de todos os predicados que o espírito pressupõe e caracterizam a coisa como martelo, mesa, produto da atividade estética), é mostrado de maneira original e como "ele mesmo" pela síntese da experiência passiva. Esse é o objeto que as atividades do "espírito" - que começam COI11 a percepção ativa - encontram diantc delas como " acabado" 'e dado como tal. Enquanto essas atividades cumprem suas funç ões si ntéticas, a síntese passiva, fornecendo-lh es " a matéria" , continua a desenvolver-se. A coisa mostrada na intuição passiva continua (1 apa­ rccer na unidade da intuiçôo e, seja qu~li for:1 pane d,lS ll10difíeações devidas à atividade que a explicit:1, CJue percebe as P,Hlicularid,ldes das partes e os detalhcs, a coisa continua a ser mostrada durante e no exercício dessa atividade. Transcorrem os modos de aprese ntação Illllitiplos, as unidades das "imagens pcrcepti'as", tút e is e visu<1is. na síntese manifestamente passiva <1 partir dos quais "~lparcce" a unid a­ ele da coisa e de sua forma. Mas essa sí ntcse - como just:1I11ente síntese de forma - tem sua " história" , que se anuncia nela 1l1eSma É graças a um a gênese universa l que cu posso. cu, o ego. e desde o primeiro olhar, ter a experiência de uma " coisa". Isso vale, aliós, tan­ to para a gênese fenomenológica quanto para a psicológica. Dizemos com razão que em nossa primeira infância devemo s ter aprendido a Quarta Jl1cditnção ver as coisas e que tal aprendizagem deve preceder, do ponto de vista genético, todos os outros modos de se ter consciência das coisas. O campo da percepção que encontramos "mostrado" em nossa " pri­ meira infância" não contém, portanto, nada além daquilo que um sim­ ples olhar poderia explicitar como "coisa". No entanto, sem retornar ao terreno da passividade, e, bem entendido, sem fazer uso do méto­ do psicofísico da psicologia, podemos, como o ego que medita pode, mergulhar, no conteúdo intencional dos fenômenos mesmos da expe­ riência, e aí encontrar indicações intencionais que levam a uma "his­ tória"; essas indicações permitem reconhecer nesses fenômenos "re­ síduos" de outras formas que os precedem essencialmente, "ainda que essas últimas não se rel~cionem de forma precisa com o mesmo objeto intencional". Mas, aqui, encontramos as leis essenciais de uma constituição passiva das sínteses sempre novas que, em parte, precedem qualquer ati vidade e, em parte, a abrangem; encontramos uma gênese passiva das percepções múltiplas como formações persistentes sob a forma de habitus, que aparecem para o eu central como dados previa­ mente formulados e que, tornando-se atuais, afetam o eu e o inclinam à ação. Graças a essa síntese passiva (que engloba dessa forma a obra da síntese ativa), o eu está sempre rodeado de "objetos". O fato de tudo aquilo que afeta o meu eu - o eu do ego "plenamente de­ senvolvido" - ser percebido como "objeto", como substrato dos predicados a serem conhecidos, deve-se já a essa síntese passiva. Porque essa é Lima forma final possível - e conhecida de antemão - de explicitações possíveis, cuja função é a de "fazer conhecer" É a forma final da s ex plicitações que poderiam constituir o objeto CO I110 nossa possessão permanente, como sempre e novamente acessível. Essa forma final compreendemos de antemão, porque provém de Ullla gênese. Ela e nvi a a si mesma a sua fOllnação primeira. Tudo o que é conhecido remete a uma tomada de con hecimento original. e mesmo o que chamamos de de sconh ec ido tem a forma estrutural do conhecido, a fo rma do objeto e, mais precisa men te, a fOlllla do objeto espacial, cultural, usual, etc.
  • 48. 97 9(> ,11cdilações CnrU:.<Íanns 39. A associayão como princípio dagênese passiva o p rincípio ulliversal du gênese passiva que constitui todos os objetos que a atividade "encontra" intitula-se associação É, va le lembrar, LIma i17tencionalidade. P ode-se enti.io extrair por meio de uma c1cscriçâo suas formas primária s; suas funções intenciona is são submetidas a leis essenciais, que tornam inte ligível qualquer consti­ tui ção passi va, assim como a dos estados vividos - objetos tempo­ rai s imanentes - e a de todos os o bjetos naturai s e reais do mundo o bjetivo temporal e espacial. A associação é U III conceito fundamental da fenomenologia IroJ/sccnc1entol (assim como da psicologia intencional que lhe é pa­ ralela). O antigo conce ito da :1ssociação e das le is assoc iativas ­ ainda que. desde l-lume, cle tenha sido reg ularmente aplicado às re la­ ções da v ida psíquica pura - não passa de uma deformação natura­ li sta dos conceitos intencionais e autênticos correspondentes. Graças à feno meno logia, que só tardiamente encontrou um acesso para o estudo da associação, esse conce ito recebe uma significação inteira­ mente nova; é de limitado e defi nido de mane ira nova. Ele abrange, por exemplo, a configuração sensível de acordo com a coexist~ncia e a sucess50. É ev iden te. ainda que possa parecer estranho para aque­ le que está sob Ojugo da tradição, que a associação não é apcn;JS uíl1 tipo de le i empíri ca, segundo a qua l os dados "psíquicos" comb inalll­ se. algo C01110 uma g rél v itação ps íq uica. A assoc iaçJo abr,lngc UJ11 conjunto extenso de lei s esse nciais ela intencionalidaelc que presidcm ,1 co nstit uição concreta do ego puro; ela designa 1II1lU n :gií/() de.: a pri()ri "il1o!U ". sem a qual um ego co mo tal teria sielo impnss ívcl. I~ somc nte graças [] fe nom enologia da gê nese quc o ego tOrf);J-SC CUIll­ preensível como Ulll conjunto infinito ele funções s istcm,ltic;l!llCnte coerentes na unid;lelc da gênese unive rsal , e isso po r csc;i1~ s que deve m I1cccs s ~ ri ~ lll e ntc se ~d~pti1r fi forma univers<lJ c con s t ~1 nt c do tell/po. porque este último se constit ui numa gênese contínua. passiva c ,loso llltamCJl{C universal. ljue. na essênc ia, se estende a todo dado 110'0 . Essa g. J' ~'~ç5() se conscJ'<1 no ego plenamente desenvolvido, co mo LI!)) sistema persi stente elas formas da percepçào e. em conse­ qüênc ia, elos obj etos consti tu ídos, entre eles um universo obj etivo com estrutura ontológica constante, e mesmo essa conservação nào pas­ Qum-ta.A1editação sa de uma forma de gênese. Em todas essas .constituições, o fato é irracional, mas só é possível se integrado ao s istema das formas apriorísticas que lhe pertencem como fato egológico. A propós ito, não se deve esquecer que o próprio fato, com sua irracionalidade, é um conceito estrutural no sistema do a prio ri concreto. 40. Passagem para oproblema do idealismo transcendental Tendo reduzido esses problemas ao problema único da consti­ tuição (genética e estática) dos o bjetos da consciência possíve l, a fenomenologia parece poder definir-se como teoria transcendental do conhecimento. Vamos comparar essa teoria transcendental cio conhecimento com a tradicional. Scu problema é o da transcendência. Mesmo quando, na quali­ dade ele teoria empirista, ela se apó ia na psicolog ia, não quer ser uma simples psicologia do conhecimento, mas esclarecer os princípios e sua possibilidade. O problema coloca-se para ela na atitude natu­ ral, e é nessa atitude que e le é tratado. Eu encontro a mim mesmo como homem no mundo e, ao mesmo tempo, como tendo experiência do mundo, assim como um conhecimento científico, inclu indo-se aí eu mesmo. Então digo a mim mesmo: tudo ° que é para mim o é em virtude da minh a consciência: é o percebido da minha percepção, o pensado do meu pensamento, o compreendido da minha compreen­ são, o "i ntuíelo'· da minha intuição Se :1elmitimos a intencional idade seguin do os passos de F. Brentano, di zemos: a intenc ional idade. cará­ ter fund ame ntal da minha vida psíquica, é lima propried ade real, que pertence a mim, hom em - como a todo homem - , à minha interio­ ridade puramente psíqlIica, e I3rcntano já fez dela o ponto central da psicologia empírica. O eu desse início permanece um eu natural; per­ manece, ass im como todo o desenvolvimento posteri or cio problema, no terrcno cio mundo mostrado. Prossegu imos, por!;Jnto, de maneira bem racional: tudo o qu e existe e vale par8 o hom em , para mim, ex iste e v81e no interior da minha própria consciência; e essa última, em sua consciê nc ia do mund o, ass im como em sua atividade científi­ ca, não se ausenta dela mesma.
  • 49. 98 99 M edztaçocs C" rtcsianas Todas as distinções que estabeleço entre a experiência autênti­ ca e a enganadora, entre o ser e a sua aparência, realizam-se na pró­ pria esfera da minha consciência, assim como, num grau superior, di stingo entre o pensamento evidente e o não evidente, entre o neces­ sário a priori e o absurdo, entre o que é empiricamente verdadeiro ou falso. Ser real de maneira evidente, ser necessário para o pensa­ mento, ser absurdo, ser possível para o pensamento, ser provflvel , etc. são apenas caracteres que aparecem no campo da minha cons­ ciência do objeto intencional em questão. Qualquer prova e qualquer justificação da verdade e do ser completam-se inteiramente em mim, e o resultado é l.lm caráter do cogitatum do meu cogito. É aí que está o grande problema. É compreensível que no cam­ po da minha cons·ciência, no encadeamento dos motivos que me de­ tcrminJll1, eu chegue a certezas ou mesmo a evidências constrange­ doras. Mas como todo esse jogo, desenvolvendo-se na imanência da minha consciência, pode adquirir uma significação objetiva? Como a evidência (a c/ara et distincta perceptio) pode pretender ser mais que um caráter da minha consciência em mim? Aí está (com exce­ ção da exclusão da existência do mundo, que ta lvez não seja assim tão sem·importância) o problema cartesiano que deveria solucionar a veracidade divina. 41. A explicitaçãojenoNunológica verdadeira do ((ego cogito)) COlnO idealismo transcendental o que a auto-reflexão transcend ental da fenomenologia pode dizer a esse respeito? Nada men os que afirmar que esse problema é um contra-se n­ so, ao qual o próprio DescJr1es não escapou por ter se enganJdo a respe ito do sentido verdadeiro de sua EnoX11 transc endental e da redução ao ego puro. Mas a atitude habitu al do pensamento pós­ car1esiano é bem mais grosseira, precisamente por ter ignorado com­ pletamente a EnoXll cartesiana. Perguntamos: qual é esse eu que tem o direito de co locar essas questões transcendentais? Posso fazê- Quarta ivieditação lo como homem natural? Posso seriamente me perguntar como sa ir da ilha da minha consciência, como isso que na minha consciência é vivido como evidência pode adquirir uma significação objetiva? Apreen­ dendo a mim mesmo como homem natural, efetuei a percepção do mundo do espaço, percebi a mim mesmo como presente no espaço onde já possuo um mundo que me é exterior. O valor da percepção do mundo não está pressuposto na própria colocação do problema? Ora, é apenas de sua solução que deveria ter resultado ajustificação de seu valor objetivo. É preciso efetuar de maneira manifesta e cons­ ciente a redução fenomenológica pafa chegar ao eu e à consciência suscetíveis de colocar questões transcendentais, referentes à possi­ bilidade do conhecimento transcendente. Mas se em lugar de se con­ tentar com uma EnoXll fenomenológica rápida, aspira-se, como ego puro, tomar sistematicamente consciência de si mesmo e e lucidar o conjunto de seu campo de consciência, reconhece-se que tudo o que existe para esse campo constitui-se nele mesmo. Reconhecemos em seguida que toda espécie de existência, aí incluída qualquer existência caracterizada - seja em que sentido for - , C01110 " transcendente" tem sua constituição própria. Cada forma da transcendênci a é um sentido existencial que se constitui no interior do ego. Todo sentido e todo ser imagináveis, quer sejam chamados de imanentes ou transcendent es, fazem palie do campo da subjetividade transcendental, já qu e constituem todo sentido e todo ser. Querer captar o universo do ser verdadeiro como algo que se enc ontra fora do universo da consciência, do conhecimcnto, da evidência possíveis, supor que o ser e a consciência relacionam-se um com o outro de maneira puramente exterior, em virtude de uma lei rígida, é absurdo. Eles pertencem essencia lmente um ao outro; e o que está essencial­ mente li gad o é concretamente um, é um no concreto único e abso luto da subjetividade tran scendental. Se esta é o universo elo sentido pos­ síveL algo que lhe fosse exterior seria UIl1 não-senso. Mas mesmo todo não-senso não passa de um modo do sentido, e se u carJter ab­ surdo pode scr evidenciado. Ora, tudo isso não vale Jpenas para o ego empírico c para aquilo que lhe é cmpirical1lcnte acessível, por sua próp ri a constituição, como existente para cle. N em pMa :1 multiplicidade aberta de outros egos e de suas funções con stitutivas que existem para o ego empírico. Mais exatamente: sem mim, ego
  • 50. 100 101Meditações Cartesianas transcendental, outros egos são transcendentalmente constituídos, como de fato acontece, e se, a partir da intersubjetividade assim cons­ tituída em mim, constitui-se um mundo objetivo, comum a todos, tudo o que dissemos anteriormente não se apl ica somente a meu ego empírico, mas à intersubjetividade e ao mundo empíricos que em mim adquirem seu sentido e valor. A explicitação "fenomenológica" de mim mesmo que efetuo no meu ego, a explicitação de todas as sínte­ ses constitutivas desse ego e de todos os objetos existentes para ele, assumiu - necessariamente - o aspecto metódico de uma explicitação apriorística. Essa explicitação de si mesmo i'ntegra os fatos no uni­ verso correspondente das puras possibilidades (eidéticas). Ela só tem que ver com meu ego empírico na medida em que este último é uma das puras possibilidades às quais se chega quando se "transforma" livremente a si mesmo pelo pensamento (pela imaginação). Enquanto eidética, ela vale para o universo dos eus possíveis, para o ego em geral, para o conjunto indeterminado das minhas possibilidades de "ser outro"; vale, em conseqüência, para qualquer intersubjetividade possível que se refere a uma variação correlata a essas possibilida­ des e, portanto, para o mundo inteiro enquanto constituído nela de maneira intersubjetiva. Uma teoria verdadeira do conhecimento só pode ter sentido se for fenomenológica e transcendental. Em lugar de tentar, de maneira absurda, concluir sobre uma suposta imanência a uma suposta transcendência - que não o é menos --- de não sei quais "coisas em si" essencialmente não são cognoscíveis, a fenome­ nologia ocupa-se exclusivamente em elucidar de forma sistemiltica a funç ão cio conhecimento, único meio de torná-Ia inteligível na quali­ dade de operaç:ío intencional. Dessa forma, o ser também se torna inteligível, quer ele seja real Oll ideal ; ele se revcla como "formação" da subjetividade transcendental, constituída precisamente por suas operações. Essa espécie c1e inteligibilidade é a forma mais alta ele racionalidade. Todas as falsas interpretações do ser provêm da ce­ gueira ingênua em relação aos horizontes que determinam o scntido do ser e aos problemas corrcspondentes da elucidação da intcncio­ nalidade implícita. Dcsses horizontes percebidos e recolhidos resulta lima fenomenologia universa L explicitação concreta e evidente do ego por si mesmo. Mais exatamente, uma explicitação de s i mes­ mo no sentido estrito do termo, que mostra de maneira si stemática Q;tnrll1 j Muiilaçát' de que forma o ego constitui-se, ele próprio, como existência em si de sua essência própria; é, em segundo lugar, uma explicitação de si mesmo, no sentido amplo do termo, que mostra como o ego constitui nele os "outros" , a "objetividade" e, em geral, tudo aquilo que para ele - seja no eu, seja no nc/o-eu - possui um valor existencial. Realizada dessa maneira sistemática e concreta, a fenomenologia é, dessa forma, idealislllo Irol1scendenlol. embora num sentido fun­ damentalmente novo. Ela não o é no sentido de um idealismo psicoló­ gico, que, a partir dos dados sensíveis desprovidos de sentido, quer deduzir um mundo pleno de sentido. Não é um idealismo kantiano que crê poder deixar aberta, ao menos como conceito-limite, a possibili­ dade de um mundo de coisas ~m si. É lIm ideal ismo que não é nada além de uma explicitação de meu ego como sujeito de conhecimen­ tos possíveis. Uma explicitação conseqi"lente, realizada sob a forma de ciência egológica sistemática, levando em conta todos os sentidos existenciais possíveis para mim como ego Esse idealismo não é for­ mado por um jogo de argumentos e não se opõe numa luta dialética a qualquer "realismo". Ele é a explicitação do sentido de todo tipo de ser que eu, o ego, posso imaginar, e, mais especialmente, do s'.i1tido da transcendência que a experiência me fornece realmente: a da na­ tureza, da cultura, do mundo em geral , o que quer dizer: desvelar de maneira sistemática a própria intencionaliebde constituinte. Aproro desse idealismo é a própria jenomello!ogiC/ Aquele que compreen­ de maIo sentido profundo do método intencional ou O sentido ela re­ dução transcendental - ou um e outro - só pode querer separar a fenomcnologia e o idealismo transcendental. Quem incorre nesse tipo de mal-entendido nuo pode nem me:-,lllO compreender a própria es­ sência de lima psicol ogia intencional verdadeira (nem, conseqüente­ mente, de lima teoria do conhecimento intencional psicológico), nem seu papel ele peça fundamental e central de lIllla psicologia realmente científica. Aquele que desconhece o sentido e a função da reduçJo fenomenológica transcendental encontra-se ainda no terreno do psicologismo transcendenta l. que confunde :1 fen omenologia tr;tllS­ cendental c a psicologia intenci()I],!I: cai no absurdo ele uma filosofia transcendental que permanece no terreno natllr;tl. Nossas meditações avançar;tm o bastante para colocar em evi­ dência o caráter necessário da filosofia compreendida como fenome­
  • 51. 102 103 iMeditações Cartesianas nológica transcendental, e, de maneira correlata, no que se refere ao universo daquilo que é real e possível para nós, o "estilo" da interpre­ tação, a única possível, de seu sentido, a saber, o idealismo fcnome­ nológico transcendental. Essa evidência implica também que o lr<lba­ lho infinito da explicitação do eu que medita imposto a nós pelo plano geral também por nós traçado - explicitação das operações do eu e da constituição de seus objetos - integra-se como cadeia de "mcdi ­ tações" particulares no quadro de uma " meditação" universal indefi­ nidamente perseguida. Podemos nos deter aqui e abandonar todo o resto às análises particulares? A evidência adquirida e o sentido fínal que elas nos fazem prever são suficientes? Essa previsão avanço u o bastante para nos abastecer com uma fé suficientemente profunda nessa filosofia, no método da explicitação de si mesmo na meditaçilo, para que possamos fazer dela uma das metas ela nossa vontade c nos voltamlOs para o trabalho com uma alegre confiança? Dando lima rápida olhada nisso que nos é apresentado como "mundo", corno " uni­ verso" existente em nós, em mim - ego que medita -, não pude­ mos evitar de pensar nos "centros monádicos" e em sua constituição. Por meio das mônadas estranhas constituídas no meu próprio cu, forma-se para mim (como já dissemos) o mundo comum él " todos nós". Isso implica também a existência de uma fil osofia comllm a "todos nós", que meditamos em comum , de ullla !)hi!osophia p cr e17nis. Mas nossa evidência, da fil osofIa e do idealismo fenome­ nológicos, essa evidência da qual estávamos perfeitamente seguros, a ponto de, ao nos abandonarmos ao movimento das 110SS:15 med ita­ ções intuilivéls, afirmarmos as necessidades essenciais que ali surgi;1Il1. está ao abrigo da crítica') Por que, posto que av,mçamos o b:1s1 ;ml e com nossas pesquisas para tornar inteligível para nós, na SU:1 eSlrutu­ rél geral e essencial, a possibilidade (muito estrClnha, sabemos) ela existência do outro, e para explicitar os problemas a isso relacion,1­ cios, nossa evidência não se tornaria vacilante? Se nossas JWed iro­ (;cJes carlesiOlWS devem nos servir, ,1 nós fíló sofos cm forl11aç ,lo, como "introdução" verdadeira; se elevem ser esse " início'- qlle nos asseguraria a realidade dessa filosofIa a título de idéia prática neces­ sária (início ao qual peliencc, como elemento idcal neccssúrio. a evi­ dência de uma tarefa infinita), é preciso que nossas próprias medita­ ções nos conduzam longe o bastante para não deixar nenhuma dúvida Q:<-ilrlti Medi fação em relação a sua direção e a sua meta. Elas devem, como queriam também as velhas meditações cartesianas, elucidar e tornar absolu­ tamente inteligíveis os problemas universais pertencentes à idéia-fim da filosofia (para nós, conseqüentemente, os problemas constitutivos): isso implica que devem ter extraído o sentido autêntico e universal do "ser em geral" e de suas estruturas universais, na sua generalidade mais alta e, no entanto, rigorosamente circunscrita na generalidade que é a própria condição da possibilidade do trabalho ontológico rea­ lizador. Esse último se dá sob a forma de uma filosofia fenomenológica que se apóia no concreto e, posteriormente, sob a forma de uma ciência filosófica dos fatos. P~rque, para a filosofia e para a fenomenologia que estudam a correlação do ser e da consciência, o "ser" é uma idéia prática - a idéia ·de um trabalho infinito de deter­ minação tcórica.
  • 52. 105 QUINTA MEDITAÇAO DETERMINAC;AO DO DOMíNIO TRANSCENDENTAL COMO "INTERSUB0ETIVIDADE MONADOLOGICA" 42. Exposi.0ão do problelJlza da experiência do outro;' a objeção ao solipsismo Vamos relacionar nOSS8S IlOVélS meditações a uma objeção apa­ rentemente grave, já que atinge nad a menos qu e a própria pretensão ela fenom enologia transcendental de ser UIll;) filosofia tr;)nscendentaí e, cm conseqüência. de poder - sob a forma de aná lise e de teoria constituti va que se desenvolve no interior cio eZllronscendenlol redu­ zido - resolver os problema ~ lr,lllscenc!entais do mundo objetivo. QUilndo eL!. o eu que medita. me reduzo pela [TCOX11 fen o­ menológ.ica ao meu ego transcendental :lbso llltO. não me torn o por isso mesmo solus IjJSe e não perm8J1eçO assim à medida que, sob o rótulo da " fen onleno logia--. efetuo um;) explicitação de mim mesmo') Uma fenomenologia que pn:tcndesse resolveros probJeméls relativos :lO ser objetivo e se consider:lsse Lima filosofia não seria cstiglllatiz;)­ d:l co mo solipsisil1o tr,lnscend cnt:ll? Examinemos a s ituação mais de pe110. A redução transcendental me liga à corrente dos meus estildos ele consc iência puros e às unida­ des constituídas por suas atua lidades e potenc ialid ades. A pmti r daí, parece natu ral que ta is un id,ldes scj am insepa ráve is do meu ego e, dessa forma, pertençam ao seu próprio ser concreto. 104 Quinta .iv1editaçM M as o que acontece então com os outros egos? Eles não são por certo simples representações e objetos representados em mim das unidades sintáticas de um processo de verificação que se desen­ volve "em mim", mas justamente nos "outros". No entanto, essas considerações não são talvez tão justas como parecem. Devemos aceitá-Ias definitivamente como "algo natural" que nelas utilizamos e nos engajarmos em argumentações dialéticas e hipóteses pretensamente "metafísicas", cuja possibilidade presumi­ da se revelará talvez como perfeito contra-senso? O melhor, na ver­ dade, é começar por empreender e levar a cabo, num trabalho con­ creto e sistemático, a tarefa, sugerida aq ui pela noção de alieI' ego, da explicitação fenomenológica. Precisamos nos dar conta do sentido da intencional idade explí­ cita e implícita, em que, sob o pano de fundo composto pelo nosso ell lranscendenlal, se afirma e se manifesta o alieI' ego . Precisamos ver como, em quais intencional ielades, sínteses e "motivações", o sen­ tido do alier ego forma-se em mim e, sob as diversas categorias de uma experiência concordante do outro, afirma-se e justifica-se como "existente", e mesmo à sua maneira como estando presente "ele mesmo". Essas experiências e seus efeitos são precisamente fatos transcend€ntais de minha esfera fenomenológica: de que outra for­ ma, a não ser interrogando-os, posso chegar a uma explicitação com­ pleta da existência elo outro? 43. O modo de apresentação ontonot'111dtica do "outro)) como jío condutor transcende7ltal da sua teoria constitutiva da experiência Em primeiro lugar, o "outro". tal como surge na minha experiên­ cia, tell como o encontro ao aprofuncbr seu co nteúdo ontonoel1lático (unicamente como correlato elo meu cup,i/o cuj:1 estrutura detalhada ainda está por ser reveklela), não pass;l par:lmim ele UIll "fio conelutor transcend ental". A singu laridade e a vmieebck de seu conteúdo (onto­ noemático) já nos fazem pressentir a multiplicidade de aspectos e a dificuldade do problema fenomenológico.
  • 53. 106 11-1cditaf()cs Cartcsianas Por exemplo, percebo os outros - e os percebo como existen­ tes realmente - nas séries de experiências a um só tempo variáveis e concordantes, e, de um lado, percebo-os como objetos do mundo, não como simples "coisas" da natureza, ainda que " também" o sejam de certa man eira. Os "outros" mostram-se igualmente na experiên­ cia como regendo psiquicamente os corpos fisiológico s que lhes per­ tcncem. Ligados assim aos corpos de maneira singular, como "obje­ tos psicofísicos", eles estão "no" mundo. Além disso, percebo-os ao mesmo tempo como sujeitos desse mesmo mundo: sujeitos que per­ cebem o mundo - esse mesmo mundo que percebo - e que têm, dessa forma, a experiência de mim, como tenho a experiência do mundo e nele, dos "outros". É possível levar a explicitação noemática ainda mais longe nessa direção, mas podemos considerar desde já como estabelecido o fato de que tenho em mim, no quadro de minha vida de consciência pura tran scendentalmente reduzida, a experiên­ cia do "mundo" e dos "o utros", isso de acordo com o próprio sentido dessa experiência - não corno de urna obra da minha atividade sin­ tética de alguma forma privada, mas como de um mundo estranho a mim, " intersubj etivo", ex istente para cada um, acessível a cada um em seus "objetos". E, no e'ntanto, cada um tem suas experiências, suas unidades de experiências e de fen ômenos, seu "fenômeno do mundo", enquanto o mundo da experiência existe "em si", por oposição a todos os sujeitos que o percebem e a todos os seus mundos-fen ômenos. Como se pode co mpreender isso? É preciso, em todo o caso, manter como verdade absoluta o seguinte: todo o sentido que tenha e possa tcr para mim qualquer ser, tanto pelo que faz a sua essência como pelo que faz a SWl ex istência rea l efetiva, é sentid o nZl minha vida intenc iona l, a paJ1ir de suas sínteses constitutivas, el uc idZllldo-se e descobrindo-se parZl mim nos sistemas de verificação conco rdante. Trata-se, pois, de criZlr, para os problel11Z1s desse gênero - nZl rnécli­ da em quc, em geral, podem ter um senticlo - um campo a pZlrtir cio qual se possa responder a todas as perguntas imagináveis CJue pos­ S,lm tcr sentid o e inclusivc de dclincá-Ias e respond ê-I Zls passo a pas­ so: começa r com um desenvo/vimcnto sistemático das estruturils in­ tencionais - explicítas e implícitas -, nas quais a ex istênc ia cios outros "constitui-se" para mim e explicita-se em seu conteúdo justifi­ cZldo, ou seja, no conteúdo que "preenche" suas intenções. Q!tinta Meditação ]07 O problema apresenta-se então, de início, como um problema especial, colocado ao sujeito " da existência do outro para mim", con­ seqüentemente como problema de uma teoria transcendental da experiência do outro, como o da chamada "endopatia". Mas o alcan­ ce de semelhante teoria logo se revela muito maior do que parece à primeira vista: ela fornece ao mesmo tempo as bases de uma teOl'ia transcendental do mundo objetivo. Corno já mostramos anteri or­ mente, pertence ao sentido da existência do mundo e, em particular, ao sentido do termo "natureza", como I1;atureza objetiva, de existir para cada um de nós, caráter sempre co-entendido cada vez que falamos de rea lidade objetiva. Além disso, o mundo da experiência contém objetos detenninados por predicados "espirihlais", que, confor­ me sua origem e sentido, remetem a sujeitos e, geralmente, a estranhos a nós mesmos e a sua intencional idade constihlinte; são esses todos os objetos de civilização (livros, instrumentos, toda espécie de obras, etc.) que se apresentam igualmente com o sentido de "existir para cada um" (para qualquer um que pertença a uma civilização correspondente à européia, por exemplo, mais estreitamente, à francesa, etc.). 44. R edução da experiência transcendental à esfera da minha vinculação Por se tratar da constituiçZio tran sce ndenta l das subjetividades estrZlnhZls, e por ser esta ZI concliçZio clZI possibilidade da ex istêncin para mim de um mundo objetivo, ni10 se podem mais discutir aqui as subj etividades estranhas no sentido de renlidades obj etivas que exis­ tem no mundo . A fim de não desviar o ca minho, devemos, segundo as ex igê nc ias de nosso método, proceder, no interior da esfera transcendel1fol Zlniversol, a 111J/U novu Eí1:0Xl1, tcndo por meto de­ !imilar () objelo de nossus pesquisos. Eliminamos cio campo elZ! pesqui sa tudo aquilo que, agora. está em ques tão para nós. o u seja. fazemos abslraçào das funções constitutivas da intcncionolidodc que se ligo direta ou indirctomcntc às subjetividades estranhas a ela, e delim itamos de início os conjuntos coerentes da intencionalidade
  • 54. Meditaçóes CartesianaslOS _ atual e potencial - , nos quais o ego se constitui no seu ser próprio e constitui as unidades sintéticas, inseparáveis entre si, que, em conseqüência, é preciso atribuir ao ser próprio do ego. A redução de meu ser à minha esfera transcendental pró­ pria ou a meu eu mesmo transcendental e concreto, por meio de uma abstração exercida em relação àql.lilo que a constituição transcendental me apresenta como estranho a mim mesmo, possui um sentido muito especial. Na atitude natural, encontro-me no seio do mundo, "eu e os outros", dos quais me distingo e aos quais me oponho. Se faço abs­ tração dos outros, no sentido habitual do termo, permaneço "só ". Mas tal abstração não é radical; essa solidão não muda nada no sen­ tido existencial da existência no mundo, que é sua possibilidade de ser o objeto da experiência de cada um. Esse sentido é inerente ao eu, entendido como eu natural, e permaneceria (lssim mesmo se uma peste universal me tivesse deixado sozinho no mundo. Na atitude transcendental e na abstração constitutiva de que acabamos de falar, meu ego, o ego do sujeito que medita, não se confunde no seu ser transcendental próprio com o eu humano habitual; não se confunde com o eu, reduzido a um simples fenômeno, no interior do fenômeno total do mundo. Bem ao contrário, trata-se de uma estrutura esse/]­ .cial da constituição universal, que apresenta a vida do ego transcendental como constituinte do mundo objetivo. O q1le me é especificamel7te próprio, a mim ego, é o meu ser concreto na qualidade de '·lI7ónada ", além da esfera forJ11odu pela intenciol7alidade de meu ser próprio. Essa esfera abrange a intcncionalidade que visa "aos outros" da mesma forma que qU<llqucr outra intencional idade. No ent:lI1to, por razões dc método, comcça­ mos por eliminar do compo de IIOSSUS pesquisas a ohra silltético dessa il/tencionalidade (a rcalidade dos outros para mim). Nessa i17tellciollolidade bem particular constitui-se um sentido existen­ ciul17(}vo, que transgride o scr próprio do mcu ego monádico; cle se cOllstitui então num ego não mais como eu m e SIllO, mas CO/110 se ··refletindo" 110 meu ego próprio. em mil7ho mrJl7ada. Mas o sc­ gundo ego não está simplesmente lá_ nem_ <l bcm dizer, mostrado cm pessoa; ele é constituído a título dc ulter ego. c o ego que essa ex­ pressão designa como um de seus momentos sou eu mesmo, no meu ser próprio. "O outro" remete, por meio do seu seI/tido constitutivo, a mim mesmo; "o outro" é um " reflexo" de mim mesmo, e, no entanto, •Quinta. ivlalirnçeio 109 • I • a bem dizer, não é um reflexo; ele é o meu o17ologon e não é um •analogon no sentido habitual do teml O. Se, em primeiro lugar, delimi­ ta-se o ego no seu ser próprio, e se se abrange com um olhar de •conjunto seu conteúdo e suas articulaçõcs - e isso não somente •quanto a seus estados vividos, mas também quanto às unidades de •significação válidas para ele e insep<lráveis de seu ser concreto -, necessariamente se coloca a seguinte quest80: como pode scr que •meu ego, no interior de meu ser próprio, possa, de alguma fonna, •constituir "o outro", "justamente como lhe sendo estranho", ou sej a, conferir-lhe um sentido existencial qlle o coloca fora do conteúdo •concreto do eu mesmo que o constitui? De início, isso tem que ver •com qualquer a/ter ego, mas depois com tudo aquilo que, pelo seu sentido existencial, implique um alter ego: em suma, o mundo objeti­ vo, no sentido pleno e próprio do termo. •..A inteligibilidade desse conjunto de problemas irá crescer se •nos dispusermos a carac1erizar a esfero própria do ego ou a efe­ •tuar explicitamente a énox'l abstrativa que nos é entregue. Eliminar do nosso campo a obra constitutiva da experiência estranha e, com •ela, todos os modos de consciência referentes àquilo que me é estra­ •nho é algo bem diferente do que exercer a énoX'l fen omenológica em relação ao valor existencial do "outro" na vida ingênua, como fizemos em relação a toda objetividade da atitude natural. •., Na atitude transcendental tento, antes de tudo, circunscrever, •no âmbito dos horizontes da minha experiência transcendental, o que me é próprio. É, inicio dizendo, o nelo-estronho. Por meio da abs­ tração,"começo por liberar esse hori zonte de experiência de tudo o • .'•que não é estranho. PeI1ence ao "fenômeno transcenclental'- do mundo o fato de ser mostrado diretamen te numa ~xpe riência concord,lIlte; assim, trata-se de prestar atençi'io, abarcando-o de forma p;1norâmi­ •ca, na maneira pela qual o que me é estranho intervém na determina­ ção do sentido existencial de seus objetos, c em climiná-Io por meio da abstração. Dessa maneira, fazclllos inicialmcnte abstração c!<lqui­ lo que confere aos animais e aos homcns s ~u caráter específico de seres viventes e, por assim dizcr, el11 alguma medid<l pessoais; depois, de todas as determinações do lllllIldcl fCll omcll;!l que, por seu sentido, remetem a "outros", como a eus sujeitos e que, em conseqüência, os pressupõe; é o caso, por exemplo, dos predicados que exprimem va­ lores de cultura. Dito de outra forma, fa zemos abstração de qualquer
  • 55. 111J"1cditaçõcs Cartesianasla spiritualidade estranha, justamente pelo fato de ela tomar possível o sentido específico" desse "estranho" que é colocado em questão. É ecessário, da mesma forma, não perder de vista e eliminar por meio la abstração esse caráter de pertencer ao ambiente de alguém, pró­ rio a todos os objetos do mundo fenomenal e que os qualifica como ~xistentes e acessíveis a alguém, como capazes, em certa medida, de crem importância ou permanecerem indiferentes para a vida e as spirações de alguém. Constatamos uma coisa importante a esse respeito. Efetuada a bstração, resta-nos uma camada coerente do fenômeno do mundo, orrelato transcendental da sua experiência, que se desenvol ve de maneira contínua e concordante. Podemos, apesar da abstração. que elimina do fenômeno "mundo" tudo o que não é propriedade exclusiva­ do eu. al'ançar de maneira contínua na experiência intuitiviI aten­ do-nos exclusivamente a essa camada de "vinculação". Com essa camada atingimos o limite extremo a que pode nOS conduzir a redução fenomenológica . Evidentemente, é preciso pos­ suir a experiência dessa "esfera de vinculação" própria do eu pJra poder constituir a idéia da experiência de "um outro que não eu" ; e sem ter essa última idéia não posso ter a experiência de um "mundo objetivo". Mas não tenho necessidade da experiência do mundo obje­ tivo nem da experiência do outro para ter a da minha própri, "esfera de vinculação" , Consideremos mais de perto o resuLtado da nossa abstração. ou seja, seu resíduo, O fenôm e/lo do mundo, apresentando-se com se ntido objetivo, destaca-se de um plano que podemos designar pe­ los termos: "noturez.a" que 'me pertence. Esta dev e ser hem distinguida da naturezJ pura e simples, ou seja, da naturc ZJ. objl'to das SU;s ciências. Esta última é. sem dúvida, o resultacl() de lima <lhstração, , saber, daquela de todo o "psíquico", de touos os prcdic,dos do mundo objeti'o que extraem SUd origem da 'ilL! da pcrsoll;liidadc . Mas o resultado dessa abstração da ciéncia é um;) C<lll1d(]a no Inundo objetivo (n, atitude transcendental dir-~e- i<L c;)­ l11<1da pertencente ao objeto imanente, visado pela expre~são --nlllll­ do objetivo"): ea é, portanto. um, camada objetiva, tal como ;1C]ue­ I;)s clilllin"das pela ahstração (o psíquico objetivo, os " predic;clns culturais" ohjetivos, etc.). Ora, em nosso caso, esse senso ue ubJc­ tivicade inerente a tudo O qlll.: é "mundo", considerado como consri­ Illído pela intcrsubjctivid<lde ~' "CL~ssível à experiência de alguém, Ouinta JHcrbrrrçiío etc., desaparece totalmente. Assim, também, o que na esfera da­ quilo que me pertence (de onde se eliminou tudo aquilo que remete a uma subjetividade estranha) chamamos de natureza pura e sim­ pLes não possui mais esse caráter de "ser objetivo" e, em conseqüên­ cia, não deve de forma alguma ser confundido com uma camada abstrata do próprio mundo ou de seu "sentido imanente". Entre os corpos desta "natureza", reduzida "àquilo que me pertence", encon­ tro meu próprio corpo orgânico, que se distingue de todos os outros por uma particularidade única; é, com efeito, o único corpo que não é somente isso, mas precisamente corpo orgânico; é o único corpo no interior da camada abstrata, recortada por mim no mundo, ao qual, de acordo com a experiência, relaci'~no, ainda que segundo os modo s diferentes, os campos de sensações- (do toque, da temperatu­ ra, etc.); é o único corpo, do qual disponho de maneira imediata assim como ele caela um de seus órgüos. Percebo com as mãos (é graças a elas que tenho - e que posso sempre ter - as percep­ ções cinestésicas e tácteis), com os olhos (é graças a eles que vejo), etc.; e esses fenômenos cinestésicos dos órgãos formam um tluxo de modos de ação e estão submetidos ao meu eu posso. Posso, em seguida, ao colocar em jogo esses fenômenos cinestésicos, empuITar, deslocar, etc. e, dessa forma, agir por meio do meu corpo, imediata­ mente de início, e depois com a ajüda de outra coisa (m~diataIllente). E mais: por m eio de minha atividade perceptiva, tenho a experiência (ou posso ter a experiência) de qualquer "natureza", aí incluída aquela de meu próprio corpo, que por uma espéc ie de "reflexão" relaciona­ se Jessa forma com ele mesmo. Isso se tornou possível pelo fato de que ~I touo momento eu "posso" perceber uma mão "por intermé­ di o" ua OlHra, um olho por intermédio de uma mão, etc. O órgão deve então se tornar objeto, e o objeto, órgão. O mesmo vaJe par~! a açüo ori ginal possível, exercida pelo coq)O sobre a natureza e sobre o próprio corpo. Esse últinlO se relaciona, portanto, consigo mesmo também peLl prática. Faze r -;obressair meu corpo, reduzido à minha vinculação. é já pJrc i,11 Illellle fazer sobressair o fenôme no objeti 10: "eu, como esse homem". em sua essência-vinculação. Se reduzo ~l "vinculação" os outros homens, obtenho corpos materiais reduzidos?! vinculação: mas se me reduzo (/ mim mesmo como homem, chego a meu organismo e li min/w alma, ou a mim mesmo, unidade psicofísica e, nessa unidade, ao eu-persollalidade; chego então ao eu que "em" e "por
  • 56. 112 /v!rditnfõ,-s Cnut"simzas intermédio" desse organismo age e padece no mundo exterior, e que, em geral, constitui-se em unidade psicofísica em virtude cla ex­ periência constante dessas relações absolutamente únicas do eu e da vida com O corpo. Se o mundo exterior, o organismo e o conjunto psicofísico são dessa forma depurados de tudo "o que nelo é vin­ culação ", não sou mais um eu no sentido natural na medidajustamen­ te em que eliminei qualquer relaçiio com um nós, assim C0l110 tlldo o que faz de mim um ser do "mundo". No entanto, na minha particulari­ dade espiritual, pennaneço um eu, pólo idêntico de minhas múltiplas experiências puras, de minha vida intencional ativa ou passiva e de todos os habitus que ela cria ou pode criar em mim. Em conseqüência dessa.eliminação abstrativa de tudo o que é estranho a mim, restou-me uma espécie de mundo uma natureza re­ duzida à "m inha vinculaçâo" - um eu psicofísico, com corpo, alma e eu pessoal, integrado a essa natureza graças a seu corpo Aí encontramos igualmente predicados que devem todo o seu sentido a esse eu; é o caso, por ex.emplo, dos predicados que carac­ terizam o objeto como "valor" e " produto" Mas tudo isso não é de forma alguma do mundo no sentido natural do termo (daí as muitas aspas); é o que, na minha expericncia do mundo, me pertence de maneira exclusiva, a renetra totalmente, e que, intuitivamente, for­ ma lima unidade coerente. Todas as articulações que saberemos distingu ir nesse fenômeno do "mundo", reduzido "àquilo que me per­ tence", form am, no entanto, uma unidade concreta; o qu e se mani­ festa também no fato de que a formo espoço-temporol, reduzida de mane ira correspondente a isso que me pertence, é preservada ncsse fenômeno "red uz ido" do "mulluo'·. Os "objetos reduzidos", dS "'coi­ sas", o "eu psicofísico" são, em conseqüência, também cles, ex/erio­ res uns aos outros. Mas somos tocados aqui por um falO notfIvcL eis um encadeamento de evidências que, em seu próprio encadea llento_ têm aparência de paradoxos: ao e liminarmos o que nos é '·cstl'lII ho, não alcançamos o conjunto da minha vicia psíquica, ~ videl desse cu psicofísico; minha vida permanece experiência do ·'mundo" c. ro r- t<111tO, experiência possível e real docjllilo que nos é estrzmho. 1 tota­ lidade da constituição cio mundo, existente rara mim, assim como sua divisâo posterior em sistemas constitutivos de vinculações e daquilo que me é estranho, é, dessa forma , inerente ao meu ser psíquico. E u, o "eu humano" reduzido Co eu psicofísico"), sou, portanto, constituí- Quillta J11cditaréio 11 3 do como membro do "mundo", com uma "exterioridade" múltipla; mas fui eu quem constituí tudo isso, eu mesmo, em minha alma, e carrego tudo isso em mim como objeto das minhas " intenções". Se tivesse de mostrar que o todo constituído como pertencente a mim (portanto também ao "mundo" "reduzido") pertencia à essência con­ creta do sujeito constituinte como inseparável detemlinação interna, a auto-expl icitação do eu encontraria o "mundo" que lhe pertence como sendo " interior" a ele e, de outro lado, percorrendo esse "mundo", o eu se encontraria a si próprio como membro dessas "exterioridades" e se distingu iria do " mundo exterior". 45. O ((ego)) transcendental na qualidade de homem psicofísico)' a percepção de si mesmo reduzida às vinculações Tal como todo o conjunto das meditações, efetuamos essas últi­ mas na atitude da redução transcendental, ou seja, do "eu" que medi­ ta na qual idade de ego transcendental. É preciso perguntar-se agora qual é relação do eu-homem , reduzido com a sua vinculação pura no interior do fenômeno do " mundo" " reduzido" da maneira correspon­ dente, ;)0 CII, ego transcendental. Esse último é resultado da coloc([­ ção entre jJorênteses do mundo objetivo em seu conjunto c de todas as entichdcs objetivas em geral (também as objetividades ideais). Por me io dessa ·'eo locação entre parênteses". tomei consciência de mim mesmo cumo de 1I111 ego transcendental, que, em sua própria vid~l. constitui tlldo êll]uilo l]uejama is pode ser objetivo para mim ; tomei co n sci(~ ncia de UIll eu que existe em suas experiências potenciais e atuais, <lssiJll como 110S seus hobi/lIs. (: Ilns seus habi/lIs e experiências que ele se constitui a si pró­ prio (COJllO tudo que é objetivo), como ego idêntiCO. Podemos di ze r ,lgora : :1 0 haver constituído e continuar a constituir esse mundo que existe pélra mim na qualidade de fenômeno (correlato), eu, na quali­ dade desse ego. efetuei, por me io de sínteses constitutivas corres­ pondentes, umo percepçDo de lJ1im lIleSillO (como "cu" no sentido habitual de uma personalidade humana mergulhada no conjunto do mundo constituído), que m e /ransjórmu em um ser do "mundo "­ Essa percepção, continuo a efetuá-la, completando-a, e a manter
  • 57. 114 115:Hcrlzmçõcs CC/rtesianas constantemente seu valor. Graças a essa transformação do eu em "ser do mundo", tudo aquilo que, do ponto de vista transcendental , é uma vinculação do eu, desse ego, é englobado sob a forma de psí­ quico pela "minha alma". Essa percepção, que me transforma em ser do mundo,já a encontro efetuada, mas posso sempre, pal1indo da alma como fenômeno ou parte do fenômeno "homem", retornar a mim mesmo como ego absoluto, universa l e transcendental. Se, em conseqüência, na qualidade desse ego , reduzo o meu fenômeno do munelo objetivo "àquiJo que me per1ence nele", e se acrescento a isso tudo aquilo que encontro ainda ele perlencente a mim (não podendo mais, após essa redução, conter aquilo que é estranho a mim), °COI1­ junto daquilo que pertence ao meu ego pode ser encontrado 110 fellômeno reduzido do mundo, co·mo pertencente à "minha olmo ", exceto que do p onto de vista lranscenden/al ele é, como compo­ nente ela minha percepção do mundo, ul71 jenôl7leno seczmdârio. Se nos éltivermos ao ego transcendenta l e último e à universa lidade da­ quilo que é c.onstituÍdo nele, encontramos, perten cendo de IJwlleira imediata ao ego, a divisão de toelo o seu campo transcend enta l de experiênc ia na esfera "que lhe pertence" - aí incluída a camada coerente de sua experiência do mundo, reduzida à "v inculação" (da qual tudo o que lhe é estranho é descal1ado) - e na esfera el8CluiJo que lhe é estranho. No entallto, toda consciência do que lhe é estra­ nho, cada um dos seus modos de apresentação pertence à primeira esfera. Tudo aquilo que o eu transcendental constitui nessa primeira c8ll1ada, como "não estranho", como "aqII ilo qu e Ihe pertence'·, é, com efei to, para ele, a título de componente de seu ser próprio e ('ollere/(), como dem onstramos e como demo nstraremos aincl8. Ele é il1scpar{lVel de seu ser completo Iéls. no interio r e por intermédi o c1e suas vinculações, o ego constitui O mundo objetivo. como a unin.:rSil­ liclilue do ser que é estr,mho ao ego, e, em primeiro lu gar, o scr do (flter e"() .(~ 46. A vinculação CQ7no esfera d~7S atualidades e dAs .potencialidades da corrente da consciência Até o momento, caracterizamos o conceito fundamental da "vin­ culação", daquilo "que me pertence", como o " não estranho" - carac­ Quil1taA1cditC/féio terística ind ireta que, do seu lado, repousava sobre a noção do ou­ tro, e," em conseqüência, a pressupunha. Mas é importante, para esclarecer seu sentido, elaborar também umu característica posi­ tiva desso noção de "vinculação ", ou do "ego " naquilo que lhe é próprio. Nas últimas frases do parágrafo anterior, fizemos apenas uma alusão a isso. Vamos agora partir de um ponto de vista mais geral. Quando, na experiência, um objeto concreto se destaca como algo para si, e é "notado" pelo olhar da atenção perceptiva, essa percep­ ção direta só se aprbpria dele como "objeto indeterminado da intuição empírica". Ele só se torna objeto determinado, e cada vez mais deter­ minado, na seqüência da experiência, que, de início, só determina o objeto interpretando-o a si e por si mesmo; ela ocorre, portanto, como explicitaçi'ío pura. Baseando-se no objeto que é mostrado na sua iden­ tidade consigo mesmo, graças a uma síntese identificadora, contínua e intuitiva, a experiência no seu progresso sintético explicita no enca­ deamento das intuições particulélres as determinações inerentes a esse mesmo objeto. E essas determinações aparecem desde o início como determi­ nações nas quai s o objeto, o idêntico, é aquilo que é - o que é "em si e por si"-, determinações nas quai s seu ser idêntico explicita-se em propriedades particulares. Esse conteúdo essencial e próprio élinda é antecipado apenas ele maneira geral e sob a forma de um horizonte. Ele só se constitui originariamente pela explicitação (com o se ntido de Índice interno. próprio, essenciéll- e mais espec iél lmcntc de propdedade). Vamos aplic lr essas verdades. Q Uilnd o, na redução tran sce n­ dentaL ren ito sobre mim mesmo, ego transcendental, mostro-me ­ como esse ego - num modo perceptivo, mais precisamente, eu me (ego) ca pto nUJll<l percepção. Percebo também que tal como ocolTera anteriormente, sem me se r percebido, eu estava sem pre lá para mim numa intui ção original (percebido no sentido mais amplo do termo) e, de certa forma. "pre­ sente de antemão". Eu estou presente com o hori zonte aberto c infi­ nito das propriedades internas aindél n110 descobe l1as. O que me é próprio revela-se, também, somente pela explicitaçã(), e é na e por meio da sua obra que recebe seu sentido original. Ele se revela origi­ nalmente no olhar da experiência explicitante dirigida sobre mim mes­
  • 58. i0cditaçÕC5 Cartuiana5lló 1110, sobre o meu "eu sou", percebido e mesmo mostrado de maneira apodÍctica, sobre minha identidade comigo mesmo, conservando-se na síntese contínua e coerente da experiência original de si. Aquilo que é a essência própria dessa identidade caracteriza-se como ele­ mento real e possível de sua explicitação, como qualquer coisa em que eu apenas desenvolva meu pró prio ser idêntico, tal como ele é em si mes mo, como idêntico em suas particularidad es. Eis agora um ponto importante. Ainda que eu esteja em condi­ ções de falar da percepçâo de mim mesmo e precisamente da per­ cepção do meu ego concreto, isso não quer dizer que eu me mova sempre na esfera das p ercepções particulares propriamente ditas, e que eu não chegue a outra coisa senão elementos 'perceptivos da explicitação, como é o caso na explicitação de um "objeto da visão", mostrado pela percepção. Porque, na explicitação dos horizontes do meu ser próprio, defronto- me, em primeiro lugar, com a minha temporal idade imanente e com Omeu ser sob a forma de UJlla infini­ dade aberta da corrente da consciência; infinidade de todas as mi­ nhas propriedades, incluídas, não importa de que maneira, nessa cor­ rente, acrescentando-se aí até mesmo a minha explicitação. Essa explicitaçãO, ao se efetuar no presente vivente, só pode captar numa percepção verdadeira aquilo qu e se efetua no presente. O passado que Ine é próprio, ela só o desvela para mim ~ da man eira mais original CJue se pode conceber ~ na e pela lembrança. Seja o que for que eu tenha mostrado co nstantemente a mim meslllo de maneira original, e ainda que eu possa, avançando sempre, explicitar aquilo Cjue me pertence essellciallllc nte. esso exp!icitoç(/o se efet1lo em g/"onde porte por m eio de {/tos de COlIsciêl1cio (]11<' ll c/O S(/() de /01"1110 OlgulllO p ercepçDes dos momentos correspondentes ele m i­ nha essência pró pria. A corrente do v ivido, na sua qualidade ele cor­ rente, onde vivo como eu idémi co, só pode tornm-se acessível a mim ela seguinte maneira: nas suas atualidades. inicialme nte, e em seguida nas suas potencialidades. que, de forma visÍeL me são iguallllente essenciais e próprias. Tod ~5 as poss ibilidades do gênero ell p osso Oll ell p oderiu - posso desencad ear essa ou aq uela série de estados vividos, posso prevcr a li olhar para trás, posso penetrá-las cksvelan­ do-as nos horizontes de mcu ser tem poral - , todas essas possibi Iida­ des pertencem c!u)"C/lJ/C'J/te de !IIOl1eiro esse/Jcial e próprio a mim mesmo. •Quin ta M cditrzçfw 11 7 ••Mas a explicitação, no entanto, é original se no terreno da expe­ •riência original de si é o próprio objeto experimentado que ela explicita, •tornando-o "presente em pessoa", segundo um modo quc, na circuns­ tância, é O mois original possível. A evidéncio apodícrica da per­ •cepção transcendental de mim mesmo (do "eu sou") estende-se a essa •explicitação, ainda que com urna restrição analisada mais acima. •As forma s estruturais universais aparecem tão-somente com uma evidé ncia absoluta nessa explicitação; notadamente as formas •nas quais existo como ego, e somente nas quais ~ tomando-se isso •numa universalidade da essência - posso exi stir assim. É preci so contar entre elas (entre outras) a maneira de existir sob a forma de •certa vida universal em geral , sob a forma de constituição constante •por si mesma e seus próprios estad os como temporais no interior de •UIl1 templo universal, etc. Desse a priori apodíctico 1/11;'e/"sol, !W sua gellerolidode indeterminada, m as determinável, participa todo •a explicitaçào dos dados egológicos particulares, como, por exem­ •plo, a evidência ~ por mais imperfeita que seja ~ da lembrança que cada um tem de seu passado próprio . Essa partic ipação na •apodicticidade revela-se na lei formol. ela mesma apodíctico: tanto •da aparência quanto do ser (que a aparência apenas esconde e fal­ •seia) que podem os buscar e que podemos encontrar seguindo uma rota traçada de antemão, ou, pelo m enos, que podemos alcançar por •aprox imações sucessivas de seu conteúdo inteiramente determinado. •Esse último, no sentido de um objeto suscetível de identificação rigo­ rosa cm todas as suas partes e em todos os seus momentos, é uma •"idé ia'" v{)lida a priori •••47. O objeto intencionalperten cc) ta711bi7n ele) ao ser •plenamente concreto (nwnrídico) da ((vil1culaçtio". •Transcendência imanente e m undo primordial •o que forma minha vinculação essencial como ego estende-se de maneira visível (e isso é par1icularmente impol1ante) não somente •para as atualidades e as potencialidades da corrente do vivido, mas •também para os sistemos constitutivos, da mesma forma para com ••••
  • 59. 118 IY.!criitações Cartesianas as objetividades constituídas. Esse último ponto deve ser visto com cenas reservas. Notadamente, ali e na medida em que a unidade constituída, enquanto un ida, ela própria, à constituição original de uma maneira imediata e concreta, é inseparável dela/dele - sendo a per­ cepção constituinte, ass im como o ser percebido, pertencentes a mi­ nha esfera própria concreta. Isso não tem que ver apenas com os dados sensíveis, que, en­ tendidos como simples sensações, constituem-se como meus na qua­ lidade cje " elementos tempor(li s imanentes" ao interior do meu ego . Isso é verdade também em relaçãD aos meus habilus, que, igualmente, me são "próprios", que se constituem a partir dos atos que os fundamentam (e " me pertencem" também) e formam convic­ ções duráveis ; convicções que fazem de mim " alg uém convencido de algo", e graças às quais adquiro, como pólo [de atos], determin(lções especificamente próprias ao " eu". Mas, por um outro lado, os obje­ tos transcendentes, por exemplo, os objetos dos .'sentidos ., exterio­ res - unidades das multipl icidades dos fenômenos sensíveis - , per­ tencem igualmente a essa esfera , se, no entanto, na qualidade de ego, unicamente levo em co nta aquilo que é constituído de maneira verdadeiramente original por minha sensibilidade própri(l, por minhas percepções pró prias, como fen ô meno de objeto espacial, inseparável, no concreto, dessa sensibilidade e dessas percepções. Vam os ver isso em seguida: a tOlOlidade ci o " mundo" que anteriormente "reduzi­ 1110s" , eliminando de seu sentido elementos daquilo qu e me era estr(l­ n110. pertence a essa esfera e. portanto, faz partc do contelldo concreto (positivamente definido) ci o ego. na quaiidacle dOCjuilo (/ue lhe p er­ tei/ce. Posto que fazemos (lbstração d(l o bra constitutiva (Iil endop;ni(l (da ex periênci(l do outro). temos uma n(ltllleza e um o rg(lnisll1o qu e. certamente, se constituem como objetos espaci(lis, COJllO unidades tr(lns­ cendentes em relação é) corrente J(l vida , mas que não pass(lm ele 111 ult ipJ ic idade ele objetos c!(l experiêJ1c ia possível, sendo q uc eSS(l cxpe­ riên cia se co nfunde totalmente com olllin/w próprio vido. c o objeto dessa experi ência não é o utr(l co isa senZio U!11(l unid(lde s inté tica , in separável dessa vicia e de SU,lS potencialidades. Isso nos fa z ver que o ego cO/lsiderudo COl7cretwllr.!I7IC pos­ sui um u/liverso "doquilo que lhe pertence ", universo que se re­ vcla numa explicitação original do ego SUII1, ex plicitaçãO apoelíctica, pelo menos quanto à SU;) forma. No interior dessa esfera original Quillta .J'vleditapío 119 (da e:-:plicitação de si mesmo)~ encontramos larnbélll um "mundo lronscendente ", resultado da redução do fenômeno intencional " mun­ do objetivo" -, àquiJo que me pertence" (no sentido positivo que colo­ camos agora em destaque); no entanto, todas as "aparências" cor­ respondentes do transcendente, fantas ias, "puras" possibilidades, objetivi(lJdes eidéticas, na medida em que sofrem a nossa redução à ·'vinculação". fazem igualmente parte desse domínio, domínio do que me é essenci(llmente própri o, daquilo que sou na minha exi stência plenamente concreta ou, como voltamos a dizer, daquilo que sou en ­ quanto sou essa " m ô nada". 48. A transcendência do mundo objetivo num,grau superior em relação à transcendência prim,ordial o fato de, em geral, eu poder opor esse ser que me é próprio a qualquer outra coisa ou de poder estar consciente desse outro que não sou (de qualquer coisa que me é estranha) pressupõe que os modos de consciência que me pertencem não se confundem todos com os modos de minha consciência de mini mesmo. Posto que o ser real constitui-se primitivamente pela concor­ d ância da experiênci:1, é preciso que haja em meu próprio eu, di<lnte da expcriênci;) de mim mesmo e de seu s is tema coerente (ou seja. diantc d,l explicit(lçã o sistemática de mim mesmo em vinculações), outr,lS c:-:periên c ias que formam sistem(ls concordantes; e o proble­ 111;1 consi ste em sa ber como se pode compreender que o ego possa c:1ITcgar eJ11 s i esse no vo gênero de intencional idades e possa SCI11­ pre fo rma r ou tra s novas. com sen tido ex istenc iai total mente tran s­ cendente a seu próprio ser. C01110 o ser real. o u seja, não somente o o bjeto intenciona l de UJ11 ato qU.11quer. mas aquele " que se confirma" em mim de mancira co nc orcL1I1te, C0l110 pode ele ser para mim o utra coisa senão, po r é1Ssi l11 di zer. o po nto de interseção das minhas sínteses constitutiv,ls? Pelo próprio rat o de ele ser concretamente insepar{1Ve l delas. esse ser 1130 me pertence zj7so facto? Mi1S já a poss ibilidade de se relacionar de forma tão vag(l c vazia C0111 alguma coisa que me seja estranha é problemática, consi­
  • 60. 120 Medill1çóCJ CnrtcsiaJ/ns derando-se que as possibilidades de elucidação pertencem essencial­ mente a todos os modos de consc iência desse gênero, aLi seja, que é possível levá-las a experiências que as confirmem, " preenchendo" sua intenção, ou, ao contrário, "desiludam-nos" quanto aO ser do ob­ jeto relacionado; e considerando-se também que, ainda por cima, todo modo de consciência desse gênero (significante) rem ete. do ponto de vista de sua gênese, às SUélS e:-;periências que tratam do mesmo obje­ to intencional ou de um objeto análogo. O fato da experiência do que me é estranho (do nelo-eu) apre­ senta-se como aque la do mundo objetivo, onde se encontram "ou­ tros" não-eus sob a f0rl11a de outroS eus; e foi um resu ltado impor­ tante da "redução à vinculação" dessas experiências o de ter colocado em re levo sua camada intencional profunda. cm que um "mundo" reduzido revela-se como "transcendência imanente" . Na ordem da constituição de um mundo estrél nho ao eu, de um mundo " exterior" ao meu eu concreto e próprio (mas exterio r num sentidu to ta lmente diferente daquel e natural e espacial desse termo), é uma transcen­ dência (01.1 um "mundo") primeira em si, "primordial" . Apesar da ideal idade que caracteriza csse mundo coma unidade sintética de um sistema infinito das minhas potencialidades, ele é ainda uIll elemento determinante da minha e:-; istência própria e concrew como ego. É preciso, portanto, fazer co mpreender como, num plano supe­ rior e baseado nesse primciro. se efetua a atribuição a um objeto do sentid o de transcenclê nciél objet iva propriamente dita, seg.und a n,) or­ dem da constituição, c isso sob a fOllna de experiência "i:1o se tr<l ta aqui de colocar em destaquc uma gênese que se complct~l no tempo. mas uma ",l11álise estátic a" . O mundo objetivo o.cmprcj ú est:l lá, aca­ bado: ele é um dado de minha experiência que sc descnvol ve alUal e vivo; e o que não é mais objeto da cxperiênci;) guarda seu val o r sob a forma de hobiluS. Trata-se de inlenogilf essa própria expericn cia c de elucidar pela análise da intenc ionalidace a maneira pela qual ei) '··confere sen­ tido" , a maneira pela q ual pode aparecer como cxperi t'nci a e justi{j- . car-se como evidência de um ser real. e tendo uma cssência própria. suscetíve l de explicitaçi'ío. como evidênci a de um ser que não é se r próprio e não é parte integrante dele, ainda que só possa adquirir sentido ou justificação a pilrtir de meu ser a mim. Q!tín ta ivlcditafâo 12 1 49. Esboço prévio da explicitação intencional da experiência do ((outro)) A unidade de sentido "mundo objetivo" constitui-se, em vários graus, com base no meu mundo primordial. É preciso iniciil lmente pôr em rel evo o plano da constituição do "outro" o u dos "outros em ge­ raI", ou seja, os egos excluídos do ser concreto "que me pertence" (excluído do eu - ego primordia l). Junto com essa "colocação em relevo", e motivad o por ela, um outro sentido se superpõe, de mane i­ ra geral, ao "m.undo" primordial; esse último torna-se, dessa forma, "fenômeno de" um mundo "objetivo" determinado, mundo uno e idên­ tico para qua lqu"cr um, inc lus ive eu mesmo. Em conseqüência, o o u­ tro, primeiro em si (o primeiro não-eu), é o o utro eu. E isso to rna possíve l a constituição de um domínio novo e infinito do "estranho a mim", de uma natureza o bjetiva e de um mundo o bjeti vo em geral , ao qual pertencem os outros e eu mesmo. Ele está na essência dessa constituição que se ergue a partir dos outros eus puros (não tendo a inda o sentido dos seres do mundo), de modo que aqueles que são "outros para mim não fiquem isolados, milS que, ao contrário, se cons­ titUillll, na esfera que me p~rtence (bem entendido), uma cOlll unidade de eus que ex istem un s ca ril os o utros e uns para os o utros, e que cngloba a mim mesmo. Em última análise, é uma cOlllunidade de mônadas e, notadam ente, ullla comunidade que constitui (por sua inlCncil)naliclade constiruinte comum) um Lmico e mesmo mundo. Nesse mun do e neontwm-se todos os eus, milS na ·percepção objetiva ntc. dessa vez. COIll sentido ele " homcns". o u seja, de hOlllens psicofísicos o bjetos do mundo. A intersubjetividade transcendental possui, graças a essa coloGl­ ção em comum, uma esfera intersubj ctiva de vinculação. cm que ela constitui de maneira intersubj eti va o Illundo objetivo: e la é, dessa fo r­ ma. 1W Clua lidade de Ulll " nós" transcendental, sujeito para esse lllund o e também para o illundo dos homens. fOnl13 sob a qual esse sujeito se realizJ c le próprio como objeto. Distinguimos, m,lis uma vez, a esferél de vincu lJção intersubjetiva e o Illundo o bjetivo. Todavi a, ao me co lo­ car como ego, no terreno da intersubjeti vidade constituída, paI1Índo de fontes que me são essencialmente próprias, devo reconhecer que o Illundo objetivo não lhe é mais, a bem dizer, tran scendente, ou seja, não
  • 61. 122 .V1cditnpJC5 Cm-tc5imws transcende sua esfera ele vincul ação intersubj etiva; o mundo objetivo lhe é in erente na qua lidade de transcendência " ima nente" . M as, precisamente, o Illundo obj etivo, como idéia, como correlato idea l de uma experi ê nci8 intersubjeti va idea lmente concordante ­ de uma experi ência em comulll na intersubjetividade - , deve em essênc ia ser re lac io nado com a intersubj eti vidade, constituída, ela própri a, COIll O idea l de uma comunidade infinita e aben a, c uj os suj ei­ tos p8rtic ul ares são dot8dos de s istemas constitutivos qu e correspon­ dem uns 80So utros e se lig8 m entre s i. E m conseqüên cia, a co nstitui­ ção do Jl1 undo s ubjetivo com porta esse nc ialmente ullla " harmoni a" el as mônadas, ma is prec is8111 cnt e um a constituição ha rmo ni osa parti­ cul ar em c8da mô nada e, co n se qücnt~m e nte , uma gênese que se re,lliza de fo rma harmoniosa nas mô nad'as paniculares. N ão se trata absolutamente de un1i1 subestrutu ra " metafísica" da ha rmon ia das ll1 ô nadas, na medid a em qu e e las não são in venções ou hipóteses me tafís icas. E ssa harmoni a perte nce, ao co ntrári o, à explicitação dos conteúdos intenc ionais, inc luídos no pró prio fato de que um mundo de experiê nci a ex iste para nós O qu e acabamos de expor é uma a ntecipação dos resultados da exp licitação inte ncio na l que deve mos efetuar passo a passo, se qui­ sermos re so lver o prob lem8 transce nd e nta l e elaborar re8lmente o idea lismo tra nscendental d8 fe no meno logia. 50.A intencion aLidade N'lcdiata da experiência do outro [07110 ((apresenUlF{lO») (percepção por analogz'a) Após te r definid o a esfera primord ia l e ter elucid ado suas a rti­ c ul ações - p rc limin ares Ill ui to im po rtant es do po nto el e v ista tra nscendent81- , e ncontramos, desde nosso primeiro pa sso em di­ reç;jo 3 constitu ição do mundo objetivo, dificul dades rea lmente consi­ deráveis. Essas difi culdades re s idem na eluc id8ção transcendental dél experi ênci8 d o outro, cm qu e o <'out ro" 8ind a não adq uiriu o senti­ elo de " homem". A experiê nci a é um modo de consciê nc ia em que o o bjeto é m ostrado " no ori gin a l" ; com efe ito, ao ter a ex periênc ia do o utro di­ zemos, em geral, que e le está ali , e le mesm o, "em carne e osso" Quíll ta Mcdíta fiW ] 23 diante de nós. Por outro lado, esse caráter de " em carne e osso" não nos impede de 'concordar, sem dific uldades, que este não é o o utro eu que nos é mostrad o no origin al, não sua v ida, seus próprios fe nô me­ nos, nada do que pertence a seu ser próprio. Porque se fosse esse o caso, se aquilo que pe rtence ao ser próprio do o utro estivesse acess í­ vel para mim de ma neira direta, isso seria ape nas um momento do me u ser a mim, e, no fin al das contas, e u mes mo e e le mesm o_ nÓs seríamos o mesmo. O mesmo aconteceria com seu organismo se e le não fosse outra co isa senão um "corpo" f ís ico, unidade que se cons­ titui na minh a experiê ncia· rea l e poss íve l e que pertence u à minha esfera primordia l como formada exclus ivamente po r minha " sensibi­ lidade". Deve ha ver a í certa inte nciona lidade medi ata, partindo da camada profunda do " mundo primo rdi al", que, em todo caso, pe rma­ nece sempre fundamental. E ssa intencionalidade representa uma " co­ existê ncia" , que não está jamais e que não po de j amais estar lá "em pessoa" . Trata-se, portanto, de um a espécie de ato que to rn a " co­ presente" , de uma espécie de percepção po r analogi a que va mos desi gnar pela palavra "apresentação" . A expe ri ênc ia do Jllundo exteri or ca racteriza-se j á dessa ma­ nci ra . Com e fe ito, o 18do verclad e ir8mente " vi sto" de um o bj eto, sua " face" vo It8da para nós, a present8 sempre e necessariamente sua "out r8 face " - escondida - e faz prever sua estrutura, m a is ou menos determ inada. M as, po r outro lado, no nosso CélSO pode nno se tratar prec isam e nte desse gênero de apresentação que intervém na co nstituição da natureza primordi al. Essa Ciltima, com efeito, pode ser con firmada pela a presentação co rrespondente que preenche sua in­ tenção (o -<avesso" pode se to rn ar o " d ire ito"), enq uanto isso é, {/ priori, im possíve l para uma ap re se nt ação que deve nos introdu zir na esfer8 "orig in al" do o ut ro. Como então a a presentação de uma o utra esfe rél <'originar ' - que confere um sentido à pa l8vra " um outro" ­ p ode ser mo tivada na minha esfcra o ri gina l - sendo a élprese ntação compree nd ida aq ui co mo experiênc ia e fetiva? N enhuma representa­ ção sélbcria fn e- Io. Ela só pode fazê- lo se está ligad8 a uma 8pre­ scnt8ção, a um éltO no qua l o obj eto se mostra, a be m dizer, em pes­ SO:1 E é sOl1l ente quando exi g ida po r essa apresentação qu e e la pode ter o C<lr<1ter de apresentação, d;l Il1esma fo rm a que, na percepção da coisa, a ex istência pe rcebida é o moti vo da pos ição da " coex istên­ cia". A percepção de UIl1 mundo reduzido à esfera primordial, que se
  • 62. 124 lvirditaçõcs Cal1:csianns desenvolve de maneira contínua nas articulações descritas acima, no interior no quadro geral da percepção constante do ego por si mesmo, fomece-nos a camada fundamental da percepção. O problema con­ siste em saber como se encadeiam os motivos e como se explica a operação intencional- bastante complicada - da apresentação efe­ tivamente realizada. Podemos encontrar um primeiro fio condutor no próprio sentido das palavras: "os outros", um "outro eu". A/ler quer dizer a/ler ego, e o ego que aí está implicado sou eu mesmo, constituído no interior da esfera da minha vinculação "primordial", de maneira única, como unidade psicofísica (como homem primordial), como um eu "pes­ soal", imediatamente ativo no meu corpo LJnico e intervindo por meio de ação imediata no mundo ambiente primordial; além disso, sujeito de uma vida intencional concreta, sujeito de uma esfera psíquica que se relaciona consigo mesmJ e com o "mundo". Todas essas estruturas estão à nossa disposição; e elas assim estão nos seus aspec tos típi­ cos, elaboradas pe la vida consciente, com suas formas familiares de decurso e de complicação. Não estudamos as intencionalidades mui­ to complexas que as constituíram; esse é um vasto campo de pesqui­ sas especiais, no qual não nos detivemos e no qual não poderíamos nos deter. Vamos supor um outro homem presente no campo de nossa percepção; ell1 termos de redução primordial, isso quer dizer que, no campo da percepção da minha natureza primordial, aparece um cor­ po que, na qualidade de primordial, não pode ser mais que um ele­ mento determinante desse eUl1lesmo (transcendência imanente). Posto que nessa natureza e nesse mundo meu corpo é o lmico que é e que pode se r constituído ele maneira original como o rganismo (órgão que funciona), é prec iso que esse outro corpo -o. que, no entanto, também se mostra como organismo - tenha esse sentido de transposição perceptiva a partir elo Jl1eu próprio corpo. E isso de maneira a excluir umajustificação realmente diret a e, em conseqüência. primordial­ por meio de pereepç;'io no sentido exato do termo - , predicados específicos do orgallislllo. A partir disso, fieJ claro que so mente uma semeIhança que vi nc ule, dent ro da m inha esfera pri mord iaL esse ou­ tro corpo com o meu pode fornecer o fundamento e o mo tivo ele conceber, "por anal ogia'·, esse corpo C0l110 outro o rga nism o. 1sso seria então certa percepção assimiladora, o que não quer dizer de forma alguma raciocínio por analogia. A percepção não é •QJtinta A1cditação 12S ••um raciocínio nem um ato do pensamento. Toda pcrcepção, pela qual •concebemos e percebemos de maneira imediata os objetos qu e IJ OS são mostrados, como o mundo de nossa vida cotid iana que se oferece •ao nosso olhar, os objetos dos quais não compreendemos imediata­ •mente o sentido e os horizontes, contém uma intencionaJidacle que remete a uma "c riação primeira", em que o objeto de sentido anú logo •era constituído pela primeira vez. Mesmo os objetos desse mundo que nos são desconhecidos são, falando em termos gerais, conheci­ dos segundo seu tipo. Já vimos coisas análogas, ainda que não exata­ •mente essas. Todo elemento de nossa experiência cotidiana oculta uma transposição por analogia do sentido objetivo, originalmente cria­ da, no novo caso, e contém uma antecipação do sentido desse liltimo • • • .'como o de um objeto análogo. Por toda parte, em qualquer lu gar onde há "dado objetivo" existe essa transposição; e aquilo que na experiên­ •cia posterior revela-se como tendo sentido realmente novo pode ter a funç?io de "criação primeira" e servir de fundamento a " dado obje­ •tivo" de sentido mais rico. A criança que já sabe ver as coisas com­ •preende, por exemplo, pela primeira vez, o sentido final de uma te­ soura, e a partir desse momento percebe de imed iato a tesoura como •tal. E isso não acontece, bem entendido, sob a forma de reprodução •(pela memória), comparação ou raciocínio. No entanto, a maneira pela qual as percepções nascem e remetem posteriormente, por e las •mesm as, por seu sentido, por seus horizo ntes e por meio da •intenc iona Iidade, à sua gênese, é bem di feren te, conformc os casos. Aos graus de formação do sentido objetivo co rrespondem aqueles •elas percepções. No final das contas, chegamos a uma distinçiio radi­ •caI entre percepções que pertencem por suá gênese à esfera rrimor­ •dial e percepções que aparecem C O ill o sentido ele oller ego c lJUE.', graças a uma gênese de grau superioL clefineril. dessa fOIlIl: I. UIll •sentido novo. • 51. O ({ernparelhamel1to )), clemcnto dc constituiçâo por associação na c."Cpcyiência do outro • • .'• Se é preciso indicar o que é próprio da apresentação assi­ miladora, graças à qual, no interior da minha esfera primordial, UIl1 •corpo semelhante ao meu próprio corpo-organismo igualmente apre­ • • •I-
  • 63. 126 iHI:ditaçÔl'S Ca7-/csianas E;ndido como organismo, deparamo-nos, em primeiro lugar, com o se­ guinte fato: aqui, o o rig inal do qual vem "a criação primitiva" está constantemente presen te e vivo e, em conseqüência, a própria "cri a­ ção primitiva" conserva sempre seu movimento vivo e ativo. E, em segundo lugar, depélramo-nos cum a particularidade da qual já conhe­ cemos o caráter necessário: o objeto apresentado por essa analog ia não pode jamais estar presente, não pode jamais ser mostrado numa percepção verdadeira. O fato de o ego e o a/ler ego serem sempre necessariamente mostrados num empare lhamento ori ginal está em estrei ta relação com essa primeira particularid':lde. O em parelhamento - Oll seja, uma confi guração em " pares" que, e m segu ida, tran sforma- se na configuração em grupo, na multiplicidade - é um fen ômeno un iversa l da esfera transcendental (e, paralela mente, da esfera ps icológica intenc io nal ). E. vamos dizê­ lo imed iatamente, sempre q ue o emparelhamen to está presente en­ contra-se também essa espéc ie particular de cri ação primitiva - e que permanece presente - da apreensão assimi lador;:l. Destacamo-a como prime ira particu laridade da experiência do outro, mas ela não pertence exclusivamente a essa experiência . Vamos explicar prime iramente o essencia l desse "emparelha­ mento", assim como da formação das pluralidades em geral. É uma das fornlas primitivas da síntese passiva que, por oposi­ ção à passiva da " identificação", des ignamos como "assoc iação". A característi ca de 1I111 él assoc iação emparelh adora é que, no caso ma is simples, dois conteúdos a í são ex pressos e intuiti vamente mostrados na unidil c!e de 1I111<1 consciênci<1 e, de ssa forma , em pura passiv id<1d e, o u sej;:l, sej <1 111 eles " notados" ou niio, fllndam fenomcn o logic;:l mente, 8 medida qlle aparecem como di stin tos, uma uni c];lc!e de semelha nça: e les aparecem, pO!1;1llto, se mpre formando um pa r. Se há ma is de do is dados, a se constitui então uma unid ade fenomenal do "grupo" da " pluralidade", baseada nos pares pa l1icu lares. Um<1 análise mais avançada mostra-nos, como essencial a essa associação. uma espé­ cie de "contágio" intencional, que se estabel ece na ordem genética (por um a lei essencial ). cOllsiderando-se que os elementos que se emparelham são mostrados ú consciência ao mesmo tempo "juntos" e "distintos"; m<1is precisamente, eles chamam um ao outro mutua­ mente e por este que é o seu sentido o bj eti vo se sobrepõe m, transmi ­ tindo mutuamente se us elementos. E ssa sobreposição pode ser to tal ou parcial; e la implica sempre uma gradação, que tem como caso Q 1Iinta /'v[rdilllfão ]27 limite a "igua ldade". Sua obra consiste em tran spor o sentido no inte­ rior do conjunto emparelhado, ou seja, em apreender um de se us mcmbros de acordo com o sentido do outro, na medida, bem entcndi­ do, em que os " momentos" do sentido, realizados na experi ênc ia do objeto, não criam a consciência das "dife renças" e não anulam, des­ sa forma, a transposição. No caso da associação e percepção do alter ego pclo ego, que nos interessa particularmente, o emparelhamento só aco ntece qU<1n­ do o "outro" entra no campo da minha percepção. Eu - o eu psicofísico primordial- sou constantemente "d istinguido" no interior do campo primo rdial das minhas percepções, independentemente da atenção que presto em mim mesmo, ou seja, independentemente do . fa to de que eu me vo lte "ati va mente" para mim OLl não. É particular­ mente o meu corpo que está sempre al i, di stintamente presente para a minha se nsibilidade, mas que, além disso, de maneira primordi:-tl e origiJlal, é afetado po r um "sentido" espec ífico do organismo. Se na minha esfera primordia l sur.ge, como objeto di stinto, um corpo que " se parece" com o meu, ou seja, se ele tem lima estrutura graças à qual deve submeter-se com o meu ao fenômeno de empare­ lhamento, parece imediatamente claro que ele deve adquirir logo a significação de organ ismo, que lhe é transferida pelo meu. Mas a estrutura di) percepção mos tra-se re<1 lmente tran sparente no ponto em que estamos? Seria ela uma simples percepção por tran sferên cia, Como qu alquer ou tra? O que tàz com que esse corpo seja o corpo de um outro e não um seg undo exemplar do meu próprio corpo? Fica cl.:lrO que é preciso levar em con!<1 aqu i o que foi assi nalado como segundo car{l ter fundamenta l c/a percepção em qucstão: o fat o que Jl:10:1 do sentido tran sferido (o ca ráter específico de ser um ()rgani~­ mo) poderia ser rea li zado, de maneira original , na minha esfera pró­ pria primordi;1). S2. A apresentação conzo cJpécie de experiência comJ m.aneira própria de confinnação Mas aqu i s urge a tarefa difícil de fazer compreender como uma percepção semelhante é possível e por que ela não é imediatamente
  • 64. •• 128 iVlcditações C(lrt,-,úr]wõ­ anulada? Como acontece que, de acordo com os fatos, o sentido trans­ ferido seja aceito como tendo valor essencial, como conjunto de de­ terminações "psíquicas" do corpo do outro, enquanto estas não po­ demjamais se mostrar, em si mesmas, no domínio original da minha esfera primordial (o único que eStá a disposição)? Vamos ver mais de perto a situação intencionaL A apresenta­ ção que nos mostra aquilo que, no outro, nos é inacess íve l como ori­ ginal está ligada a uma apresentação original (de seu corpo, elemento constitutivo da minha natureza, mostrada como "pcrtencente a mim" )­ Mas, ne~sa ligação, o corpo do outro e o outro eu que é senhor dele são mostrados na unidade de uma experiência essencialmente trans­ cendente_ Toda experiência relaciona-se a outras que confinnam e realizam aquilo que é s ignificado em seus 'horizontes ue apresenta­ ção. Esta abrange s ínteses, suscetíveis de verificação, de uma expe­ riência que se desenvolve em concordância consi go mesma; ela as engloba sob a forma de antecipação não-intuitiva . No que se refere à experiência do outro, fi ca claro que sua progressão verificadora e realizadora só pode realizar-se mediante novas séries de apresenta­ ções sinteticamente concordantes e graças à maneira pela qual essas apresentações devem seu valor existe ncial à sua conexão com as apresentações verdadeiras, que mudam constanteme nte e. não me­ nos constantemente, as acompanham. A proposição seguinte pode servir de fio c0ndutor para os es­ clarecimentos: o organismo estranho afirma-sc no dccorrer da expe­ ri ência como organismo ve rdadeiro, unicamcnte por seu " comporta­ mento", que se modifica, mas que é se mpre concorc!Clnte F isso da seguinte maneira: esse comportamento tem UIll I;l( l I"i s icl que ,lprc­ senta o psíquico como scu indicado r. É sobre c~sc "comportamento" que se apóia a experiê ncia originZlL que se vcril'lcZl e sc confirma 11,1 sucessão ordenauZl ele suas f,lses_ E quando cssa sucessão coerente elas f(]sc~ nJO ucorrc, o curpo é apreendido como se ndo organismo apcnas ilZl <lP;Hêllcia. t nessa accssibiliuade indireta. mas vercl,lcleir;l, do que é i11Zl­ ccssível diretamente e em si mesmo que se baseiJ pZlra nós a exis­ tência do outro. O que pode ser apresentado e justificado dirctamcnte é "eu mes­ mo" ou " me pertence". O que, pelo contrário, só pode ser mostrado por meio de uma experiência indireta, " fundamentada ", de uma ex­ •129Quin ta JvJ.cditaçáo ••periência que não apresenta o próprio objeto, mas somente o sugere e •verifica essa sugestão por uma concordância interna, é o "outro". Só poderíamos pensá-lo como algo análogo àquilo que "me per­ •tence". Graças à constituição de seu sentido, ele aparece de maneira •necessária no meu "mundo" primordial, na qualidade de modificação •intencional do meu eu, a objetividade em primeiro lugar. Do ponto de vista fenomenológico, o outro é uma modificação do "meu" eu (que, •de sua parte, adqu ire esse caráter de ser "meu" graças ao empare­ •lhamento necessário que os opõe). •Fica claro que, dessa forma, apresentamos numa modificação analógica tudo aqui10 que pertence ao ser concreto desse outro ego, de início, na qualidade de seu mundo primordial, e, em seguida, na •qualidade de ego plenamente completo. Em outras palavras, uma outra •mônada constitui-se por apresentação na minha. Vamos citar um exemplo instrutivo: no interior "daquilo que me •' pertence", e mais precisamente na esfera viva do presente, meu •passado é mostrado, de maneira indireta, pela lembrança somente, e •se apresenta com o caráter de um presente passado como modifica­ ção intencional do presente. A confirmação pela experiência desse •passado, co.mo de modificação, efetua-se então necessariamente nas •s ínteses concordantes da lembrança, e é dessa maneira somente •que o passado como tal se verifica. Da mesma forma que o meu passado co mo lembrança transcende meu presente vivo como mo­ •dificação dele, assim também o ser do outro que eu apresento trans­ •ccndc meu próprio ser no sentido " daquilo que me pertence" de •maneira primordial. Tanto em um COIllO no outro caso, a modificação é lIIlll:lcmento •do próprio sentido; ela é um correlato da intencional idade que Zl cons­ •titui_ Da mesma maneira que o meu passado se forma no mc u pre­ sente vivo, no campo da "percepção interna", graças às lembrailças •concordantes que se encontram nesse presente, e também, grZlças ;lS •apresentações que aparecem na minha esfera primordial e são moti­ •vadas pelos conteúdos dessa esfera, posso constituir no mcu ego um ego estranho, o que quer dizcr que posso constitUÍ-lo cm rcaprc·· •sentações de um tipo novo, que têm como correlato um outro gêner0 de modificação. No entanto, quando se trata de reapresentação IlO interior da minha esfera de vinculação, o "eu-central" que lhe 11l'111.!1I
  • 65. 131/Hedill1Ç<Jcs C rn-ccsin l1 flSI .:; () ce não é outro senão e u mesmo, enquanto a todo aquele que me é estranho pertence um eu apresentado, que não sou eu mesmo, mas que é minha modificaç:io. um outro eu, que permanece intimamente Iigado aos horizontes apresentados de seu ser concreto. Uma explicitação das conexões noemáticas da experiência do "outro", suficiente para os nossos fins e totalmente necessária para elucidar sua obra con stitutiva que se realiza por meio da associação, não é concluída pelas análises que fi zemos até o momento. É preciso completá-la c levá-la mais adiante, para que a possibilidade e O alcan­ ce de uma constituição transcendental do mundo objetivo possa tor­ nar-se evidente e para qlle o idealismo fenomenológico transcendental possa tornar-se plenamente transparente. . 53 As potencialidades da esfera primordial e sua função constitutiva na percepção do outro Na minha esfera primordial, meu corpo, que se relaciona consi­ go mesmo, é mostrado no modo do aqui; qualquer outro corpo - e também o corpo do mltro - , no modo dó ali. A orientação desse ali é, graças a meus estados cinestésicos, suscetível de variação livre. Ao mesmo tempo, por causa dessas mudanças de orientação. e nessas mesmas mudanças. constitui-se na minha esfera primordial uma "na­ tureza" espacial. e eb se constitui em relação intencional com meu corpo. considerado comO sede das percepções O Cato de que meu org,lllisl11o corporal é e podt: ser apreendido como um corpo natural, que se t:ncontra c sc 1110'e no espaço como qualquer outro corpo, estú visivelmente ligado ~l possibilidade que é enunciada como se se­ gue: eII posso, por uma livre 1l10d ificação das m inhas sensações cincstésicas e. em particular, pelo ato de "girar em volta", mudar minha posição ele uli lll~lJleira que todo ali se transforme cm Jq ui , ou seja. posso ocupar com o JlleU corpo qualquer lugar no espaço. Isso implica que se eu percel)cssc a partir dali, teria visto as llleSI11JS coi­ sas, Illas mostradas por meio de fen ômenos diferentes, t,ll como eles pertencem "ao scr visto dali", ou, ainda, que à constituição de qual­ quer coisa pertencem, essencialmente, não apenas os sistemas dos Qytinta AIcditaçiio fenômenos próprios da minha percepção aqui e agora, mas sistemJs inteiramente determinados, coordenados à mudança de situação que me colocaria ali, e o mesmo acontece com todo ali. A correspondência, ou melhor, a coordenação dos elementos da constituição primordial da "minha" natureza, correspondência e coordenação caracterizadas, elas próprias, como associações, não deveriam contribuir essencialmente para elucidar o papel associativo da experiência do "outro"? Isso porque eu não apreendo "o outro" simplesmente como meu duplo, f!ão o apreendo nem em razão da minha esfera original ou de uma esfera semelhante à minha, nem em razão de fenômenos espaciais que me pertencem como ligados ao "aqui", mas - se considerarmos a coisa mais de perto - com fenô­ menos tais que eu poderia ter se eu fos se ali e se ali estivesse. Em seguida, o outro é apreend ido na apresentação como um eu de um mundo primordial ou lima mônada. Para esta mônada, é o seu corpo que é constituído de maneira original e mostrado no modo de UIll "aqui absoluto", centro funcional de sua ação. Em conseqüência, o corpo qlle aparece na minha esfera monádica no modo do ali, apre­ endido como o organismo corporal ele um outro, como o organismo do alter ego, o é ao mcsmo tempo como o mesmo corpo, no modo do "aqui", cujo "outro" tem a experiência na sua esfera monádica. E isso, c1e maneira concreta, com todas as intencional idades constitutivas que esse modo implica. 54. Explicitação do sentido da apresentação.; experiência do ou.tro o que acabamos de c1izer tem rebção visível com o decurso da Jssociação que constitui o fenômeno do "outro" . Ela não é illl cd íat;, O corpo (daquele Cjue vai ser o o utro) que pertence ao meu alllbiente primordial é para mim um corpo no modo do ali. Seu modo de parecer niio se empJrelh;, por associação c1iretJ ao modo ele aparecer. que é const;,nte c atualmente inerente ao Illeu corpo (no mododo aqui) Ele desperta e reproduz Ulll outro modo de aparecer, imediatamente aná­ logo àquele; modo de aparecer dos fenômenos que pertencem ao
  • 66. 132 133Meditaçõcs Cartesianas sistema constitutivo do meu organismo entendido como corpo espa:­ cial. Esse modo de aparecer lembra o aspecto que teria meu corpo "se eu estivesse ali". Nessa ocasião, completa-se um emparelhamen­ to, ainda que a evocação não chegue a ser uma lembrança intuitiva. Desse emparelhamento participam não somente os modos de apare­ cer do meu corpo, evocados em primeiro lugar, mas o meu próprio corpo na qualidade de unidade sintética daqueles modos e de seus outros modos de aparecer, múltiplos e familiares. É assim que a per­ cepção assimiladora, graças à qual o corpo exterior (ali), análogo ao meu próprio corpo, adquire o sentido de organismo, toma-se possíveL Ele adquire, em conseqüência, a significação de um organismo qu~ se encontra num outro "mundo", análogo ao meu mundo primordial. O estilo geral dessa percepção, como o de toda percepção pro­ veniente da associação, deve ser descrito da seguinte maneira: quan­ do os dados, fundamentos da percepção, se superpõem mutuamente na associação, uma OLltra de grau superior ocorre. Se um desses dados é um dos modos de aparecer de um objeto intencional- índi­ ce despertado pela associação de um sistema de fenômenos múlti­ plos, nos quais ele mesmo poderia se apresentar - , o outro dado é . então "completado" de maneira a tornar-se fenômeno de alguma coisa e, sobretudo, fenômeno de um objeto análogo. Isso não significa que a unidade e a multiplicidade transferidas a esse segundo dado apenas o "completem" por intermédio dos modos de aparecer característi­ cos da primeira; muito pelo contrário, o objeto apreendido por analo­ gia ou o sistema dos fenômenos do qual ele é o indicador élJusta-se precisamente, de forma análoga; aos fenômenos análogos qut: evo­ caram todo esse sistema. Toda transferência proveniente do elllpa­ relhamento associativo é ao mesmo tempo uma fusão e, na medida em que não há incompatibilidade entre os dados. assimilação e adap­ tação mútuas de seus significados. Se retornamos agora ao nosso caso da percepção do altcr ego, temos como certo que aquilo que foi apresentado, no mcu ambiente primordial, pelo corpo que está ali, não pertence à 111 inha esfera psí­ quica, nem, em geral, à esfera que me é própria. Pelo meu corpo orgânico, sou aqui o centro de um "mundo" primordial, orientado em torno de mim. Dessa forma, o conjunto de minha esfera de vincula­ ção primordial possui, como mônada, a estrutura do aqui e não o QJ;inta JlIcditação conteúdo de um ali qualquer, variável no modo do "eu posso" e "eu faço", nem, em conseqüência, de um ali determinado. Um e outro excluem-se reciprocamente. Mas posto que o corpo estranho (ali) entra num emparelhamento associativo com o meu corpo (aqui) e, mostrado na percepção, torna-se o núcleo de uma apresentação ­ aquela da experiência de um ego coexistente -, esse último deve necessariamente ser apresentado de acordo com todo o dccurso da associação que constitui seu sentido como um ego que coexiste nes­ se momento no modo do ali ("como se eu estivesse ali"). Mas o meu ego próprio, mostrado nunla percepção constante de mim mesmo, existe nesse momento, de maneira atual, com o conteúdo de seu aqui. Existe, portanto, um ego apresentado como outro. A coexistência incompatível na esfera primordial toma-se compatível pelo seguinte fato: meu ego primordial, que constitui para ele outros egos. llledi,1lltc uma percepção apresentativa que, de acordo com seu sentido espe­ cífico, não existe e não admite jamais sua confirmação por uma apre­ sentação. Compreende-se facilmente também a maneira pela qual uma apresentação desse gênero fornece, na progressão constante da as­ sociação, dados apresentativos sempre novos; e como ela 110S traz cert.o conhecimento dos conteúdos variáveis do alter ego; e, por ou­ tro lado, compreende-se como verificação afirmadora dessas apre­ sentações é possível graças, principalmente, à sua ligação com apre­ sentações constantes. A apreensão da estrutura orgiinica do corpo do outro e de seu comportamento específico forma o primeiro con­ teúdo determinado; é a apreensão dos membros como mãos qlle to­ Ci11l1 ou que pressionam, como pernas que andam, como llllhh que vêem, etc. O eu é, de início, determinado somente como agindo no corpo. E ele se afirma de Illaneira contínua na medida em que todo o desenvolvimento dos dados da Illinha sensibilidade primordi;d c direta con'espondem aos processos que. em seus tipos, me são familiares. graças à minha própria atividade no meu corpo. Chegamos em segui­ da à endopatia de conteúdos determinados da esfera psíqllica supe­ rior. Eles nos são sugeridos. indicados, pelo corpo e pt:lo comp0J1a­ mento do organismo no mundo exterior, por exemplo, comportamento exterior de quem está tomado pela cólera, de quem está feliz, etc. Eles me são compreensíveis a partir do meu próprio comportamento
  • 67. 135/v[cdiraçõe5 Cartesianas1:14 em circunstâncias análogas. Os processos psíquicos superiores ­ por mais múltiplos e conhecidos que sejam - têm de novo seu estilo necessário de coesão e de desenvolvimento, podendo ser compreen­ síveis para mim por seus laços associativos com o meu próprio estilo de vida que me são empiricamente familiar no seu tipo aproximativo. Cada compreensão do outro que realizo tem como efeito criar novas associações e abrir novas possibilidades de compreensão, e também inversamente, posto que toda associação em par é recíproca, a com­ preensão realizada desvela nossa vida psíquica própria, na sua seme­ lhança e na sua diversidade e, por meio de novas apreensões distin­ tas, torna-a capaz de formar associações novas. 55. A com.unidade das 711ônadas e a primeira forma da objetividade: a natuJl"eza intenubjetiva Mais importante ainda é a elucidação da comunidade que se forma em graus diferentes e que, graças à experiência do outro, logo se estabelece entre mim - ego psicofísico primordial que age no meu corpo primordial e por meio dele - e o "outro", mostrado na experiência da apresentação; ou, se considerarmos a coisa de manei­ ra mais concreta e radical, da comunidade que se estabelece entre mim e o ego monádico do outro. O que se constitui em primeiro lugar sob a forma de comun idade e serve de fundamento a todas as outras comunidades intersubjetivas é o ser comum da "natuITza··. aí incluído o do "corpo" e o do "eu psicofísico" do outro, emparclhado com o meu próprio eu psicofísico. Posto que a subjetividade estranha, revestida do sentido e do valor de uma "outra" subjetividade que tem um ser esscncialmcnte próprio, provém da aprescntação que se efetua no interior dos limites fechados do llleu ser próprio, estaríamos inclinados. inicialmcnte, a ver nisso um problema obscuro. De fato, como a comunidade realiza­ se a não ser sob essa primeira forma de um lllunclo comum? O orga­ nismo estranho, ao aparecer na minha esfera primordial, é, de início, um corpo no interior da minha natureza (unidade sintética que me é quase primordial) e, em conseqüência, na qualidade de elemento Quin ta .I1cdiraçiio determinante do meu ser próprio, é inseparável de mim mesmo. Se esse corpo tem lima função apresentativa, tenho consciência do ou­ tro ao mesmo tempo que desse corpo; tenho consciência do outro, inicialmente, na ligação com seu corpo, que se reveja a ele em um "aqui absoluto" . Mas, então, como posso falar em termos gerais da identidade de um corpo que, n;) minha esfera primordial, aparece para mim !la modo do ali e que aparece para ele, na sua esfera, no modo do aqui'; Essas duas esferas primordiais, a minha que, para mim­ ego - é a esfera original, e a dele que, para mim, é apresentada, não estão separadas por um abismo intransponível para mim? Até porque atravessar esse abismo significaria ter do outro uma experiência or.i­ ginal c. não ilpresentativa. Se nos ativermos à experiência do outro~ da forma como ela de fato se efetua e se realiza, vamos constatar que o corpo é imediatamente mostraclo na percepção sensível como corpo (vivo) do outro, não como si mples indicador da sua presença; essc fato não é um enigma? Como se identificam o corpo da minha esfera original e o corpo - tota Imente separado - constitu ído no outro ego, o qual, no entan­ to, uma vez constituídos apresenlam-se como identicamente o mes­ mo? Como essa iclentificaçi10 é, em geral, possível? Todav!a, o enig­ ma só ocorre se as duas esferas de originalicladejá são distintas. Ora, essa distinção pressupõe quc a experiência do outro já completou sua obra. Posto que aqui não se trata de forma alguma de uma gênese tcmporal desse gênero de experiência, a partir de uma experiência de si mesmo qlle a teria precedido no tempo_ somente lima explicitação C:;lta da intcnc ionalidade. efetivamente incluída na experiência do outro_ que !lOS fi·lIia ver a Jllotivac;ilo interna dessa experiência. pode­ ri,l vir em nosso auxíl io. f apresentação. COIllO tal. pressupõe - como já afirmamos­ Ulll núcleo de apresentações Ela é uma reapresentação ligada por élssociZlções Q apresenl<lçiío ou pcrcepçiío propriamcnte dita: mas ela é uma re,lpresentação que_ fundida com a percepção, cxeree a função específica de co-aprescntação. Dito de outra forma. lima e outra estão unidas de tal m,ln eira qu e têm uma função COIllUIll. a de uma pcrcepção única que, aklll ele apresentar, no que se refere ao seu objeto no seu conjunto. mostra a consciência de que ele está presente em pessoa. No objeto mostrado "em pessoa" por lima per­
  • 68. •• 136 NIeditações Cartesianas cepção (apresentação apresentativa) desse tipo, é preciso distinguir, do ponto de vista noemático, o que é realmente percebido nela; e o adicional que não é, mas que coexiste para e na percepção. Dessa forma, cada percepção desse tipo se transcende, coloca como "pre­ sente em pessoa" mais do que ela " realmente" faz presente. Não importa qual seja a percepção exterior; por exemplo, il percepção de uma casa (a fach ada, a parte de trás) pertence a esse grupo. Mas, no fundo, toda percepção, toda evidência em geral, é descrita dessa for­ ma na sua estru!ura mais geral, contanto que a palavra "apresenta­ ção" seja entendida num sentido suficientemente amplo. Se aplicamos essas generalidades ao caso da experiência do outro, vemos, também aí, que o elemento presente deve, desde o início, pertencer à unidade do objeto apresentado. De outra forma. a coisa não se passa como se O corpo da minha esfera primordial, cor­ po que é um indicador do outro eu (e dessa forma uma esfera primor­ dial totalmente outra, um outro ego concreto) poderia apresentar a existência e a coexistência desse outro eu, sem conferir a esse corpo primordial um sentido de um corpo que pertence, também ele, ao outro ego, e, em conseqüência, sem que esse receba - de acordo com todo esse gênero de atividade associativo-perceptiva - o senti­ do de um organismo estranho. As coisas não acontecem, portanto, como se o corpo que, na minha esfera primordial, está ali permanecesse separado do organis­ mo corporal do outro, como espécie de indicador do se u ollulogon (colocando emjDgo uma motivação evidentemente inimilgini1vel), como se a minha natureza primordial e a natureza ;lpresenwda elos outros. e, em conseqiiência, o meu ego concreto e o dos ou tms permaneces­ sem separados no ca mpo da associação e da apresentação. Muito pelo contrário, esse corpo ali, pertencente à minha ntltureza primor­ dial, apresenta imediatamente, de qualquer forma. o outro eu: e isso, graças ao empare lhamento assoc iativo entre csse corpo. ele um lado. e mell organismo corporal, com o eu psicofís ico que é se u mestre, de outro. Ele apresenta antes de tudo a atividade imed iata desse eu nes­ se corpo (a Ii) e sua ação (med iata). por in terlll écl io desse corpo. so­ bre a natureza que cle percebe, sobre a mcsma natureza à qual ele (ali) pertence e que é também a minha natureza primordial. É a mes­ ma natureza, mas mostrada no modo do "como se eu estivesse no •137 • Ouinta J1editação • lugar desse outro organismo corporal". O corpo é o mesmo; ele me •foi mostrado como ali, a ele como aqui, como "corpo central", e o conjunto da minha natureza é o mesmo que o do outro. A natureza é •constituída na minha esfera primordial como unidade idêntica dos meus múltiplos modos de apresentação, idêntica nas suas orientações va­ •riáveis em relação ao meu corpo, que é o "ponto zero", o aqui abso­ luto; a natureza é constituída como identidade das multiplicidades ain­ •da mais ricas que, sob a forma de fenômenos variáveis dos diferentes •"sentidos", sob a forma de " perspectivas" variadas, pertencem a cada •orientação particular aqui e ali, e pertencem ao meu corpo ligado ao aqui absoluto de maneira t<?da especial. Todas essas estruturas me são mostradas originalmente como "vinculação", como aquilo que •me é diretamente acessível por uma explicitação original de mim •mesmo. Na apresentação do outro, esses sistemas sintéticos que cons­ tituem os modos de aparecer são os mesmos; conseqüentemente, •todas as percepções possíveis de seus conteúdos noemáticos tam­ •bém o são; no entanto, as percepções efetivas e as "maneiras de •mostrar o objeto" que realizam e, em parte também, os objetos que aí são efetivamente percebidos não são os mesmos, mas prec isamente aqueles que se ter~a ali. O mesmo ocorre com tudo "aquilo que me •pertence" e com tudo aquilo que me é' estranho, e isso mesmo quan­ •do a explicitação original não se desenvolve como percepção. Não tenho de início uma segund a esfera original apresentada, com uma •segunda natureza e um segundo organismo corporal (o organismo do •outro) nessa natureza, para me perguntar em seguida como chegar a •conceber as duas esferas como modos ele apresentação ela mesma natureza objetiva. Mas, pelo próprio fato da apresentaçãu c de sua •unidade necessária com a apresentação que a acompanha (graças à •qu;tl somente o outro e seu ego concreto podem, em geral. existir para mim), a identidade da minha natureza primordial e daquel a re­ presentada pelos outros é necessariamente estabelecida. Temos. por­ •tanto, o dire ito de falar aqui da percepção do outro e, em seguida, da •percepção do munclo objetivo, da percepção do fato ele que o outro " possa ser" a mesma coisa que eu, etc., ainda que essa percepção se desenvolva exclusivamente no interior da minha esfera de vincula­ '.ção. M as isso não impede, precisamente, a sua intencional idade de •transcender àquilo que me é próprio e, em conseqüência, não impede •• -I
  • 69. 139!"S ,1]cdilações Cnrtesimlf/S meu ego de constituir em si mesmo um outro e de constituí-lo como ex istente. O que vejo, verdadeiramente, não é um signo Oll um sim­ ples (/nolugoll , não é lima imagem - seja qual for o sentido -; é o outro e aquilo que é apreendido sobre ele na originalidade verdadeira; esse corpo - ai i (e mesmo somente uma de suas faces superficiais) - é o próprio corpo do outro; ele somente é visto do lugar onde me encontro e desse lado; é, conforme o sentido constitutivo da percep­ ção do outro, um organismo co rporal que pertence a lima alma que, na essência, é inaccssível diretamente, sendo os dois mostrados na unidade da realidade psicofísica. Por outro lado, à essência intencional dessa percep'ção do outro - que agora existe como eu mesmo, no interior do mundo, a pal1ir de <lgora objetivo - pertence o fato de que, na qualidade de sujeito que percebe, posso encontrar essa distinção entre a minha esfera primor­ dial e aquela purameIlte representada do outro, O fato de que posso seguir essas suas camadas do noema na sua especificidade e explicitar as conexões das intencional idades associativas. O fenômeno da ex­ periência: "a natureza objetiva" carrega, acima da natureza constitu­ ída ele maneira primordial, uma segunda camada, simplesmente apre­ sentada, proveniente da experiência do outro. Esta tem que ver inicialmente com o org,lI1ismo corporal do outro, que é, por assim dizer, o objeto primeiro em si, da mesma form<l como o outro homem é n<l ordem da constituição o homem primeiro em si. Esses fen ômenos primeiros da objetivid<lde já foram por nós esclarecidos: se sobreponho, se anulo a ex periência do outro, obtenho a constillliçJo no interior da 1l1inh<l esfera primordial na sua camada <lpresentativa nwis profu nda: se a isso acrescento essa experiência do o utro. tenho UJll~l <ljxesentação do mesmo organismo. apresenta­ ção que, ao recobrir a camada apresentativa e entrilJ1do em síntese com ela, me mostra esse organismo no modo como foi mostrado ao próprio outro. A partir disso. todo objcto natural, do qual tenho e posso ter a experiênci<l na minha canwdil profunda. recebe, como se pode tàcil­ mente compreender. uma camacl<l apresentativa (que niio é de forma alguma percebida e..pl iciwll1ente). Isso forma uma unidade sintética de identidade com a camada mostrada na originalidade primordial e constitui, assim, O objeto natural idêntico mostrado nos modos de re- Qy<illta A1fditação presentação possíveis do outro. Isso se reproduz, mutalis ll7ulandis, para as objetividades de graus superiores, constituídos no mundo ob­ jetivo concreto, tal como ele está sempre presente para nós como mundo dos homens e da cultura. Ora, o sentido da percepção que consegue atingir o outro im­ plica necessariamente uma experiência imediata da identidade en­ tre o mundo dos outros, mundo que pertence a seus sistemas de fenômenos, e o mundo do meu sistema de fenômenos. E isso impli­ ca, por sua vez, uma identidade entre os sistemas respectivos de fenômenos. Mas, no entanto, sabemos bem que existem anomalias, que existem cegos, surdos, e~c.; os sistemas de fenômenos não são, portanto, de forma alguma idênticos, e camadas inteiras (ainda que não todas) podem diferir. No entanto, é preciso que a anomalia cons­ titua-se de início ela própria como tal, e ela só pode fc1.zê-lo com base na normalidade que, em s i, a precede. Isso conduz a novos problemas de análise fenomenológica de grau superior da origem constitutiva do mundo objetivo, ou seja, do mundo que existe para nós e que tira a sua existência da nossa própria sensibilidade. De outra forma não poderia haver para nós nem sentido nem existên­ cia. O mundo possui a existência graças à verificação concordante da constituição perceptiva, uma vez formada, que se efetua na mar­ cha progressiva e coerente (e que implica "correções" constantes que restabelecem a coerência) da nossa experiência viva e por meio dela. A concordância manté m-se também graças à modificação' das percepções decorrente c!<l distinção entre a normalidade e as anomalias - sendo estas cOJ))pree~didas como modifícações in­ te ncionais daquela -, graças às novas unidad es constituíd,ls rlJ. variação dessas anomalias. Aos problemas da anormalidade per­ tence aquele da animalidade e da classificação dos animais como " inferiores e superiores". Do ponto de vista d<l constituição, o ho­ mem representa, e m relação aos animai s, o caso normal ; ela mesma forma que eu meSI11O, eu sou na ordem da constituição a norma primeira para todos os seres humanos. Os animais são essencial­ mente constituídos para mim como "variantes" anormais da minha humanidade, sem que isso l11e impeça de di stinguir novamcJ1le no reino animal o normal do anormal. Trata-se sempre de modifica­ ções intencionais que se revelam como tais na estrutura de seu
  • 70. 140 141IHeditações Cartesianas sentido. Tudo isso exigiria explicitações fenomenológicas mais pro­ fundas; uma exposição mais geral é suficiente, portanto, para o nosso objetivo. Após esse esclarecimentos não há nada de enigmático em que eu possa constituir em mim um outro eu ou, para falar de maneira mais radical ainda, que eu possa constituir na minha mônada uma ou­ tra e, uma vez constituída, apreendê-Ia precisamente na qualidade de outra; compreendemos também esse fato, inseparável do primeiro, de que eu possa identificar a natureza constituída por mim com aquela constituída por outro (ou, para falar com toda precisão necessária, com uma nat:lreza constituída em mim como constituída por outro). Essa ide·ntificação sintética não apresenta mais mistério que qualquer outra; consequentemente, não mais que qualquer identifica­ ção que ocorre no interior da minha esfera original própria, graças à qual a unidade do objeto pode, em geral, adquirir para mim um sentido e uma existência por intermédio das representações. Tomemos os exemplos seguintes muito instrutivos, e vamos empregá-los, ao mes­ mo tempo, para desenvolver a idéia de um elo constituído por inter­ médio da representação. Como a minha própria experiência vivida adql!ire, para mim, o sentido e o valor de ser, existir na sua forma temporal e no seu conteúdo temporal idênticos? O original não é mais, mas nessas representações repetidas, e por meio delas, retorno a mim tendo a evidência "de poder sempre proceder ao acaso". Mas essas representações repetidas formam, evidentemente, elas mes­ mas, uma sucessão e são separadas umas das outras. Isso não impe­ de que uma síntese identificadora as ligue, acompanhada de uma cons­ ciência evidente do " mesmo", o que implica uma mesma forma temporal que não se repete, preenchida com o mesmo conteúdo. Portanto, o mesmo significa aqui, como aliás em toda parte, objeto intencional idêntico de experiências distintas, imanente a elas, pois somente a título de irreal (de não ingrediente). Um outro caso, muito imponante em si mesmo. é o da constitui­ ção (no sentido estrito do termo) dos objetos ideais, como aqueles ideais da lógica .Numa atividade viva do pensamento -- uma ativida­ de com várias articulações -, constituo um teorema, uma figura geométrica, uma formação aritmética. Mais uma vez repito esse ato acompanhado da lembrança precedente. No mesmo instante, por uma Q!<intaMeditação lei essencial, uma síntese de identificação entra emjogo, e uma nova se forma a cada repetição que na consciência de nossa liberdade podemos realizar: é a " mesma" proposição, a mesma formação arit­ mética; ela é de novo produzida ou, o que é a mesma coisa, de novo tomada evidente. A síntese estende-se, portanto, aqui (por intermé­ dio das representações-lembranças) no interior da corrente das mi­ nhas experiências, mostrada sempre como já constituída, do lIleu pre­ sente vivo nos momentos passados da minha vida, e estabelece assim . uma ligação entre eles. Aqui, o problema transcendental, muito importante em si mes­ mo, dos objetos ideais propriamente ditos, encontra, aliás, sua solu­ ção; sua supratemporalidade revela-se como onitemporalidade,· correlata a uma possibilidade de serem livremente produzidos e re­ produzidos, em qualquer momento do tempo. Tudo isso - o mundo objetivo uma vez constituído com seu tempo objetivo e seus homens objetivos, sujeitos de pensamento possíveis - se aplica evidente­ mente às formações ideais, objetivadas por sua vez, e à sua onitem­ poralidade objetiva. Compreende-se também que elas se oponham da mesma forma às realidades objetivas, individualizadas no espaço e no tempo. Vamos voltar agora ao nosso caso da experiência do outro. Na sua estrutura complicada, ela estabelece uma conexão semelhante a essa ligação por intermédiQ das representações. Estabelece urna co­ nexão entre a experiênc ia viva e sem entraves nem interrupção que o ego concreto tem de si mesmo, ou seja, sua esfera primordial, e a esfera estranha representada nessa última. Ela estabelece essa liga­ ção por meio de uma síntese que identifica o organismo corporal do outro, mostrado de maneira primordial, e o mesmo organismo. mas apresentado segundo outro modo de aparecer. Dali ela se estende à síntese da natureza idêntica, mostrada, ao mesmo tempo. ele maneira primordial na origin81id8de da sensibilidade pura e n~ apresentação verificada. Dessa fonl1a, fica definitiva e primitivamcnte fundada a coexistência do meu eu (e do meu ego concreto, em geral) com o cu do outro, da minha vida intencional e da dele, elas Illinhas rcalidades e das dele; em suma, é a criação de uma forma temporal comum, e qualquer tempo primordial adquire espontaneamente a significação de um modo particular da aparição original e subjetiva do tempo ob­ •• I
  • 71. 142 Meditações Cartesianas jetivo. Percebe-se aqui que a comunidade temporal das mônadas, mútua e reciprocamente unidas na sua própria constituição, é inseparável, pois está ligada à constituição de um mundo e c1e um tempo cósmicos. 56. A constituição dosgraus superiores da comunidade interrnonádiea Dessa forma, elucidamos o primeiro e mais baixo grau de co­ munidade que se' estabelece e se efetua entre mim, mônada primor­ dial para mim mesmo, e a mônada constituída em mim como estra­ nha, conseqüentemente como existente para ela me sma, mas que só pode justificar sua existência, para mim, de Jl1:lneira puramente apresentativa. Admitir que é em mim que os outros se constituem como outros é O único meio de compreender que possam ter para mim o sentido e o valor de existências, e de existências determina­ das. Se adquirem esse sentido e esse valor nas fontes de uma verifi­ cação constante, eles existem, e é preciso que eu o afirme, mas so­ mente com o sentido com o qual são constituídos: são mônadas que existem para elas mesmas da mesma maneira que existo para mim. Mas então elas existem também em comunidade, conseqüentemente (repito, enfatizando-a, a expressão empregad a acima) em ligação comigo, ego concreto, mônada. Elas estão, 110 cntanto, realmente se­ paradas da minha mônada, na mcdida em quc nenhuma ligação real leva elas suas experiências até as minhas, daquilo que lhes pertence úquilo qL1e me pertcnce. A essa sep:lraç80 corresponele, na "rcéllida­ de", no " mundo", entre Illeu ser psicofísico c o ser psicofísico do outro, Ul11él sepélração que se apresenta como espélciéll por causa do caráter cspacial dos org::lIl iSl110S objetivos. Mas, por outro lado, essa comuni­ dade original n:io é um n'lda. Se. "rcalmente". toda mônada é uma unidade absolutamcntc circunscrita e fechadél, no entélnto él penetra­ çJo irreal, penetr:lç30 intencional elo outro na J11 inha esfera primor­ diéll não é irreéll no sentido do sonho ou da LlntZ"lsi;1. É o ser que está em comunhiio intencional com o ser. I~ uma lig<lç:io que. cm princípio, é sui generis, um:1 comunhão efetivél, est:1 que e precisamente a condição transcendental da existência de um mundo, de um mundo dos homen s e das coisas. .Jui7ltll JHrditnfiio J43 Depois qL1e o primeiro grau da comunidade e, o que é quase equivalente, o da constitui.ção do mundo objetivos; a pal1ir do mundo pri mord ia I, cncontrZ"l 111 -se sufic ientemente eIucidados, él anál ise dos graus superiores oferece relativamente menos dificuldades. Ainda que em vista de sua explicitação completa seja necessário efetuar pesquisas exten sas, concentrando-se em conjuntos de problemas bem diferenciados, podemos nos contentar aqui em traçar suas linhas bá­ sicas, facilmente perceptívcis. Partindo de mim, mônada primitiva na ordem da constituição, chego às mônadas que são "outros" para mim, ou aos outros na qua­ lidade de sujeitos psicofísicos. 1sso implicél que chego aos "outros" não pela sua oposição a mim por meio de seus corpos, e se relacio­ nando, graças ao emparelhamento associativo e ao fato de eles só poderem ser mostrados a mim numa cel1a "orientação", a meu scr psicofísico (ser que em geral- mesmo no " mundo comum" cio grau que estudamos - é "corpo central"). Muito pelo contrário, o sentido de uma comunidadc dos homens, o sentido da palavra "homem", que, já como indivíduo, é essencialmente membro de uma sociedade (o que se estende também às sociedades animais), implica uma existên­ cia recíproca de um P;ll<1 o outro. Isso origina urna assimilação objetivante, que coloca meu ser e o de todos os outros no mes~no plano. Eu e cada outro somos, portanto, homens entre outros ho­ mens. Se me introduzo 110 o utro pelo pensamento, e se penetro mais adiante nos hori zontes daquilo que lhe pel1ence, logo me defronto com o seguinte fato: d;l J11CSl11:1 forma que seu organismo corporal encontra-se no meti campo de percepção,' assim também o meu se encontra no C<lmpo dele e. geréllmente, ele me :1preende de mZlneira igualmente imedi;lta como "'outro" pZlr;l ele, :1ssim corno eu O apn:cn­ do como "outro" p;lra mim Vejo iguZ"llmente que a multiplicidade cios outros se apreende reciprocamente como "outros", e tZlmbém que, em conseqüênciél. posso ,lpreendcr C<1(Zl um dos "outros" niio so­ mente como "'outro", nw s como se re l<1cionando :1 todos ;lqueles que são "outros" para ele e. port:lnto. ao mcsmo tempo. imediatZ"lmcntc a mim mcsmo. Fica claro U1Il1bém que os homens só podem ser :1pre­ endidos ao encontrarem (na rcalidZ"lde ou potenciZ"llmente) outros ho­ mens em torno deles. A natul"C1<1 infinita e ilimitaúa torna-se então, ela própria, lima natureza que abrZlnge lima multiplicidade ilimitada de homens (e, mais geréllmente, de animalia), distribuídos, não se
  • 72. - •••••• 144 Meditações Cartesianas sabe como, no espaço infinito, como sujeitos de uma intercomunhão possível. A essa comun idade corresponde, bem entend ido, no concreto transcendental, uma outra ilimitada de manadas, que designamos como intersubjetividade. É desnecessário dizer que ela é constituída como existente puramente em mim mesmo, ego que medita, constituída como existente para mim, partindo das fontes da minha intencional idade c, no entanto, como ser que, por meio de todas as modificações de suas formas de constituição, se vê como idêntica e destacando-se apenas pelos seus modos subjetivos de aparecer e na qualidade de portadora em si mesma desse mesmo mundo objetivo. Ele pertence de maneira manifesta à essência do mundo transcendentalmente constituído em mim (e, ao mesmo tempo, à essência do mundo constituído em qual­ quer comunidade, possível e imaginável, das manadas), quer esse mundo seja ao mesmo tempo de homens, quer ele seja constituído com mais ou menos perfeição, na alma de cada homem em particu­ lar, nas suas experiências intencionais, nos seus sistemas potenciais de intencional idade, os quais, na qualidade de vida psíquica, já são constituídos, por seu lado, como existentes no mundo. A constituição do mundo objetivo na alma deve ser entendida, por exemplo, como minha experiência real e possível do mundo, minha experiência, de um eu que apreende a si próprio como homem. Essa experiência é mais ou menos perfeita; ela tem sempre seus hori zontes abertos e indeterminados. Nesses horizontes, cada homem é, para cada ou­ tro, um ser físico, psicofísico e psíquico, que forma um mundo aber­ to e infinito ao qual s~ pode chegar, mas no qual gera lmente nilo se penetra. 57 Esclarecimento sobre oparalelisnzo enl1"C a cxplicitaçuo da vida psz'quica interna e a explicitação egolágica e transcendental Partindo-se disso, não é difícil elucidar o paralelismo necessário entre a explicitação da vida psíquica interna e a explicitação cgológica e transcendental, ou o fato de que a alma pura é, cOl11ojá dissemos, a manada objetivada por ela e nela mesma. As diferentes camadas • • •• •• •• , Quinta Medx·tação 145 dessa objetivação são essencialmente necessárias para que "outros" possam existir para a manada. Disso decorre que qualquer análise e qualquer teoria fenome­ nológica transcendental - aí incluída a da constituição transcendental do mundo objetivo, que acabamos de esboçar em linhas gerais ­ pode ser desenvolvida no âmbito natural no abandono da atitude transcendental. Se nos colocamos no âmbito da ingenuidade transcendental, chegamos a uma teoria psicológica. A uma psicolo­ gia pura, ou seja, a uma psicologia que explicita exclusivamente a essência intencional própria da alma humana, do eu do homem con­ '•.creto, corresponde, tanto na sua. parte empírica quanto na sua parte eidética, urna fenomenologia trao.scendental, e vice-versa. Mas isso é algo que é preciso elucidar por meio de análises transcendentais. 58. Análise intencional das comunidades intersubjetivas fupeyioyes: encadeamento dos pyoblemas. O ((eu)) e seu meio A constituição da l:tumanidade ou da comunidade que pertence a sua essência completa ainda não foi completada pelo que foi dito até aqui. Mas, partindo da comunidade, no sentido estabelecido por último, compreende-se facilmente a possibilidade de atos do eu que, por intermédio da experiência apresentativa do outro, penetram no outro eu; compreende-se a possibi Iidade dos atos do eu - no sentido de personalidade - que têm o caráter de atos que vão "de mim para você'·, de atos soc iais, somente por meio dos quais pode-se estabele­ cer qualquer comunicação entre pessoas humanas. É um problema importante o de estudar com cuidado esses atos em suas diferentes formas e, partindo disso, tornar compreensível, do ponto de vista transcendental, a essência de toda socialiclade. Com a comunidade propriamente dita, com a comunidade so­ cial, constituem-se, no interior do mundo objetivo. na qualidade de objetividades espirituais slIi generis os diferentes tipos de cOJ11unida­ de social. Essas comunidades constituem-se nas suas gradações pos­ síveis, notadamente os tipos bem pal1iculares, que possuem o caráter de personalidades de ordem superior.
  • 73. 147] .l-() 11-f u{itrrçõn Cm·tniarws E m seguida, seria preciso considerar um problema, inseparável daqu e les que acabamos de tratar e que lhes é d e alguma forma corre lato, o problema da constituição para cada hom em e para cada comunidade humana de um meio especificamente hum ano e, mais precisamente, de um mundo da cultura e de sua objetividade própria, a inda que limitada. Essa objetividade é limitada, ainda que para mim e para qu alquer outro, o mundo só seja mostrado, concretamente, como mundo da cultura, sendo, por seu sentido, acess íve l a cada um. Mas essa acess ibilidade justamente não é absoluta, e isso por razões es­ senc iais de sua constituição que uma explicitação mais precisa de seu sentido facilmente traz à luz. Ela se distingue manifestame nte dessa forma da acessibilidade incondicionada, que pertence essencial­ mente ao sentido constitutivo da natureza, do corpo e do homem psicofísicos É certo que entra ainda na esfera da universalidade incondicionada (como correlato da constituição do mundo segundo s ua forma essencial) o fato de que, a príorí, cada um vive na mesma natureza comum a todos que, g raças à comunidade essencial de sua vida com a dos outros, alguém transforma , por sua ação individual e comum com outros, em um mundo de cultura - por mais primitiva que seja ela - , revestido de valor para o homem . Mas isso não ex­ clui de forma alguma - nem a príori, nem de fato - ' a idéia de que os homens de um mundo uno e idêntico vivam em comunidade (de cultura) muito distante, ou mesmo sem nenhuma li gação entre eles, e de que e les constituem, dessa forma, culturas - m e ios de vida con­ creta -- diferentes, nos quais vivem, ativa ou pass iva mente, socieda­ des relativa o u absolutamente separadas. Todo ho me m compreende, de início, o essenc ial de seu mundo ambiente concreto, o nLlcl eo e os horizon tes a inda ocultos da sua cultura. Ele compreende sua cultura, precisa m ente como membro da sociedade que a formou historica­ mente. Uma compreensão mais profunda, que desve la o horizonte do passado. fator determinante do próprio presente, é. em princípio, pos­ síve l para qua lquer membro dessa sociedade. Ele pode chega r a ela com ceJ1a imediação que lhe é exclusiva, e que é inacess íve l a um ho mem de o utra comunidade. que entra em relação com esta sem pertencer a ela. Este de início compreende os homen s do mundo estra nh o em geral, como homens de "certo" mundo de cultura. A partir disso , devem-se criar, passo a passo, novos meios de com- Ouinta Meditação preensão. É preciso, partindo daquilo que é geralmente compreensí­ vel, abrir um acesso à compreensão de camadas sempre mais vastas no presente, depois mergulhar nas do passado, que, por sua vez faci­ litam o acesso ao presente. A constituição de todos esses gêneros de "mundos", a começar pela corrente própria da consciência e chegando até o mundo objeti­ vo em seus diferentes graus de objetivação, está submetida às leis da constituição "orientada", constituição que, em diferentes graus, mas num sentido muito amplo, pressupõe um constituído "primordial" e outro "secundário". O que é constituído de maneira primordial entra na constituição do mundo do grau superior, de maneira a ser o ele­ mento central de seus modos de apresentação orientados. O mundo " secundário" é necessariamente mostrado sob a forma de um hori­ zonte, ou seja, é acessível a partir do mundo primordial em urna série ordenada de atos e experiências. O mesmo v ale para o primeiro " mun­ do", aquele imanente que chamamos de corrente da consciência. Ele é mostrado como um sistema de elementos, exteriores uns aos ou­ tros, orientados em rel ação ao presente vivo. Esse último constitui-se de maneira primordia l, e é partir dele que se torna acessível tudo aquilo que se encontra fora dele no tempo imanente. Nosso corpo, por sua vez, no interior da esfera primordial- no sentido específico que atribuímos a esse termo - , é o elemento central da "natureza" como "mundo", que só se constitui na atividade e por meio dela. Da mesma forma meu organismo psicofísico é primordial em relação à constituição do Inundo objetivo da exterior.idade e desempenha o pa­ peI de elemento central para seus " modos de apresentação" orienta­ dos. Se o "mundo" primordial, no sentido privilegiado que atribuímos a esse tenno, não é, e le próprio, O centro do mundo objetivo, é que este se objetiva de tnl maneira que não cria uma nova "exterioridade". Em contrapartida, a multi plicidade do mundo " dos outros" é mostrada como "orientada" em relação ao meu, porque ela se constitui ao mes­ mo tempo que o mu ndo objetivo comum que lhe é imanente. Voltemos agora ao Inundo da cultura : como ll1undo de culturas diversas, também e le é mostrado como "orientado" em relação a um " ponto zero" 01I a uma " personalidade" . Somos eu e minha cultura que formamos aqui a esfera primordial em relação a qualquer cultura "estranha". Essa última é acessíve l a mim e àqueles que formam
  • 74. 148 i",,1editações Cartesianas comigo uma comunidade imediata, por uma espécie de "experiência do outro", espécie de endopatia em uma cultura estranha. E esse tipo de endopatia deve, também, ser estudado na sua intencional idade. Devemos renunciar a uma investigação mais precisa da cama­ da que confere ao mundo dos homens e da cultura, como tais, seu sentido específico e que os reveste de predicados especificamente "espirituais". As explicitações constitutivas que acabamos de efetuar fizeram-nos ver o encadeamento dos motivos intencionais por meio dos quais - e nos quais - se constitui a camada coerente funda­ mentaI da totalidade do mundo concreto que nos resta quando faze­ mos abstração de todos os predicados do "espírito objetivo". Conser­ vamos a totalidade da I1~tureza, constituída em si mesma já como unidade concreta e, nessa natureza, os organismos humanos e ani­ mais; mas não conservamos a vida psíquica na sua plenitude concre­ ta. pois o ser humano, como tal, relaciona-se pela consciência com meio prático, a partir de agora revestido de predicados que o tornam importante para o homem, o que pressupõe a constituição psicológica desses pred icados. Não há necessidade de se provar que cada predicado desse gênero seja atribuído ao mundo em virtude de uma gênese temporal, que tem sua fO'!te no "agir" e no "padecer" do homem. A origem dos predicados desse gênero em cada subjetividade particular e a origem de seu valor intersubjetivo que permanece inerente ao mun­ do da comunidade de vida pressupõem, portanto, que uma comuni­ dade humana existe, como ocorre com cada homem, em particular, num ambiente concreto, e que se relaciona a esse mundo ambiente na sua atividade e passividade. Com a transformação constante do mundo da vida humana. os próprios homens, entendidos como per­ sonalidades, também se modificam claramente, na medida em que, cOITelativamente à transformação do mundo, devem adotar habilus próprios sempre novos. Aqui se percebe a grande importância dos problemas da constituição estática e genética, essa última vista como problema parcial da enigmática gênese universal. No que se refere à personalidade, por exemplo, não se trata somente de explicitar a constituição estática da unidade do caráter pessoal, por oposição à l1lultiplicidade dos hobilUS, criados e novamente destruidos, trata-se também de resolver o problema genético, que remete ao enigma do caráter "inato". Quín ta Medítaçâ<J 149 Devemos nos contentar de ter feito alusão a esses problemas de grau superior, caracterizando-os como constitutivos, e de ter as­ sim tomado compreensível o fato de que a progressão sistemática da explicitação fenomenológica transcendental do ego apodíctico che­ gou a descobrir o sentido transcendental do mundo em toda a plenitu­ de concreta, na qual ele é o mundo de nossa vida para todos. Isso tem que ver também com todos os elementos particulares do mundo am­ biente, sob os quais ele se manifesta para nós segundo a educação e o desenvolvimento pessoais de cada um, conforme ele pertença a esta ou àquela nação, a este ou àquele outro círculo de cultura. Exis­ tem em tudo isso leis essenciais ou um estilo essencial, cuja raiz se encontra no ego transcendental, de início, e na intersubjetividade transcendental que o ego descobre em si, em seguida conseqüente­ mente nas estruturas essenciais da motivação e da constituição transcendentais. Se chegássemos a elucidá-Ias, esse estilo apriorístico teria encontrado dessa forma um explicitação racional de dignidade superior, a de uma inteligibilidade última, de uma inteligibilidade transcendental. 59. A explicitação ontológica e seu lugar no conjunto da fenomenologia constitutiva transcendental Graças aos conjulltos coerentes de análises efetuadas e, em parte, à antecipação que as acompanha dos problemas novos e da ordem na qual eles se encadeiam, chegamos a intuições filosóficas fundamentais. Partindo do mundo mostrado como existente na expe- . riência - e na atitude eidética - da idéia de um mundo de experiên­ cia, em geral, mostrado como existente, efetuamos a redução transcendental, ou seja, voltamos ao ego transcendental, que constihli nele e no fato de que ele nos é mostrado e presente como "acabado", C0l110 já constituído, e todos os modos posteriores de apresentação. Depois, graças a uma modificação eidética de nós mesmos, chega­ mos ao ego transcendental em geral. Nós o concebemos como um ego que tem em si uma experiên­ cia do mundo e que ajustifica por sua progressão concordante. Ana­ lisando a essência de uma semelhante constituição e suas escalas •••
  • 75. 151ISO Meditações Cartesianas egológicas, tomamos manifesto um a priori totalmente novo, o a priori da constituição. Aprendemos a distinguir, de um lado, a cons­ tituição do ego em si mesmo, para si mesmo e no seu ser "primordial" e próprio, e, de outro, a constituição das diferentes escalas de tudo o que é estranho a partir das fontes do seu ser próprio. Daí a unidade universal do conjunto da constituição que se efetua no meu ego se­ gundo suas formas essenciais. Seu correlato é o mundo objetivo que existe para mim e para qualquer ego; em geral, mundo ao mesmO tempo já presente e que se constitui constante e continuamente em diferentes conjuntos sistemáticos e ordenados de atos significantes enquanto seu sentido imanente; tudo isso seguindo uma forma estru­ turai apriorística. E essa constituição apresenta, ela mesma, um a priori. Essa explicitação, a mais radical e a mais conseqüente possí­ vel daquilo que implicam as intenções e os motivos do " meu" ego­ e suas modificações eidéticas -, mostra que a estrutura geral e empírica do mundo objetivo mostrado - natureza pura, simples animalidade, humanidade, comunidades de diferentes graus e dife­ rentes culturas - é, em grande medida, e pode ser numa medida maior ainda do que podemos divisar, uma necessidade essencial. Daí essa conseqüência necessária: o problema de uma ontologia apriorística do mundo real - que nada mais é que a elucidação do a priori de sua estrutura universal- é, no entanto, um problema uni­ lateral e, no sentido mais profundo do temlO, não é um problema filosófico. Porque um a priori ontológico desse gênero (como o da natureza, o da animalidade, Oda comunidade e o da cultura) atribui bem uma inteligibilidade relativa ao fato ôntico do mundo empírico nessas " contingências", a da conformidade necessária de sua es­ trutura a leis essenciais, mas ele não lhe atribui uma inteligibilidade filosófica, a transcendental. A filosofia exige uma explicitação que trata das necessidades essenciais últimas e mais concretas. Essas são as Içis essenciais que determinam a maneira pela qual o mundo objetivo finca suas raízes na subjetividade transcendental, ou seja, leis que, de maneira concreta, tornam compreensível Omundo como sentido constituído. Só então se abre para nós o campo das pergun­ tas, as m<li s c.lev<ld<ls e finais que se poderia fazer ao mundo assim compreendido. Um dos sucessos da fenomenologia, em seus primórdios, con­ sistiu no fato de que o seu método de intuição pura e, ao mesmo Quinta i1edltarão tempo eidética, tinha conduzido a ensaios de uma nova ontologia, es­ sencialmente diferente daquela do século XVlll, que operava de maneira puramente lógica. A fenomenologia a conduziu - o que dá no mesmo - a se tentar construir, bebendo diretamente nas fontes da intuição concreta, das ciências apriorísticas (a gramática pura, a lógica pura, o direito puro, a ciência eidética do mundo intuitivamente aprendido, etc.). e LIma ontologia geral do mundo objetivo que envol­ ve todos eles. Desse ponto de vista nada se opõe a que se comece, de manei­ ra inteiramente concreta, pelo mundo ambiente de nossa vida e pelo próprio homem, considerando-se que ele está essencialmente em re­ lação com esse mundo. Nada se opõe a que se pesquise de maneira puramente intuitiva o conteúdo apriori, muito rico - e que nunca se elaborou--, de um tal mundo ambiente, a que se parta para explicitar sistematicamente as estruturas essenciais do ser humano e as cama­ das do mundo que se revelam a ele como seus correlatos. Mas os resultados dessas pesquisas, ao apresentar um sistema de a priori, não se tomam, de acordo com o que dissemos acima, um a priori filosoficamente inteligível, e só estão relacionados às últimas fontes da inteligibilidade quando os problemas constitutivos são entendidos como aqueles de plano especificamente filosófico e quando o domí-: nio natural dos conhecimentos é abandonado em favor do domínio transcendental. O que implica é que tudo que procede da atitude natural, tudo que é simplesmente mostr<ldo e presente seja reconstruído com uma originalidade nova, e não somente interpretado como dado útil. Em geral, o fato que um procedimento que se baseia na intuição eidética possa ser nomeado fenomenologicamente e aspire a uma significa­ ção filosófica só pode justificar-se porque toda intuição verdadeira tem seu lugar num conjunto coerente da constituição. É por isso que toda constatação ontológica que trata da esfera dos fundamentos pri­ meiros (da esfera axiom6tica), toda constatação intuitiva positiva de­ sempenha o papel de UIl1 trabalho preparatório, e mesmo de um tra­ balho indispensável (/ priori. Ela fomece o fio condutor transcenclenta I para a elucidação plen<lmente concreta da constituição na sua dupla estrutura noético-noell1ática. Os resultados " monadológicos" de nossa pesquisa mostram tudo aquilo que esse recurso aos problemas da constituição nos traz de
  • 76. 52 l0editaçõcs Cm-tesianas vo e de essencial, sem contar que nos desvela, na própria esfera do r, horizontes noético-noemáticos que, de outra forma, permanece­ a m ocultos, o que, por sua vez, limitaria o valor das constatações riorísticas e tornaria sua aplicação incerta. 60. R esultados metaftsicos de nossa explicitação da experiência do outro Eles são metafísicos, se é certo que o conhecimento último do ser ve ser chamado de metafísico. Mas eles não são menos que elofísica no sentido habitual do termo: essa metafísica, degenerada ) longo de SU3 histó ria, não está de forma alguma de acordo COI1l o ;pírito segundo o qual ela foi originalmente fundada como "filosofia -imeira". O método intuitivo concreto, mas também apodíctico. da .nomeno logia exclui toda "aventura metafísica", todos os excessos ·peculativos. Vamos re levar a lg uns de nossos res ultados, anexando a eles gu mas conseq Liên c ias posteriores. Meu ego, mostrado a mim mesmo de man e ira apodíctica ­ lico ser que posso co locar como existente de m3neira abso lutal1len­ apodíctica· só pode ser aquele que tem a experiê nci a cio lllllndo : ele está em cOl11 unid ade 'com o utros egos , seus seme lhantes. se e é membro de uma soc iedade de mônad 3s qu e lhe é mostrada de aneira orientada. /justifieação conseqüente cio J11undo da cx periên­ a objetiva implica ull1ajustificação conseqüent e da ex istênc ia elas .I tras m ônadas Inversame nte, e u não podcri,l imaginar UIl1i1 uralidade de l1l ô nadas q ue, estando explícitil Oll il1lplic itamente C I11 )municação, o u seja, como sociedade que constitui nela UIl1 ll1undo )jetivo e que se espac ia liza, se temporaliza, se re a li za, ela própria. :sse mundo sob a forma de seres vivos e, em particular de seres lm3nos. A coexi stê nc ia das mônadas, sua sim ples simultaneidade. gnifica necessariamente um a coexistência tem poral e uma "teJ11­ )l3Iização", sob ,IfO lma de tempo real. Ora, resultados metafísicos posteriores de 3lta im portância vêm ntar-se a isso. Posso imaginar (eu que O digo e, da mesma forma Qumta J1.cditaçM 153 • •• que eu qua lquer outro eu imagináve l, que poderia dizê-lo) que di ver­ •sas multiplicidades de mô nadas coexistem separadas umas das ou­ •tras, o u seja, sem se comunicar entre si, e que, em conseqüência, cada uma delas constitui um mundo próprio? Posso imaginar que ha­ •veria assim dois mundos infinitamente separados, com dois espaços e •dois espaços-tempos infinitos? Fica muito c laro que isso não é a lgo concebível, mas sim um puro contra-senso. É bem verdade que cada um desses grupos de mônadas, na qual idade de unidad e intersubjetiva e podendo dispensar qua lquer comunicação atual com os outros, tem, apriori, seu mundo próprio, que pode ter, para cada um, um aspecto diferente. Mas esses d o is mundos não passa m então de ambientes dessas unidades intersubjetivas e dos aspectos de um mundo objetivo úni co que lhes é comum. Porque as duas unid ades intersubjetivas não estão suspensas no ar; enquanto imaginadas por mim, elas estão necessariamente em relação comigo (ou comigo como variante possível de mim mesmo, C01110 eidos), comigo que desempenho, em relação a elas, o papel da ma nada constituinte. Elas pertencem então, na verdade, a uma co­ munidade universal única, que engloba a mim mesmo e que abrange todas as mônadas e todos os grupos de mónadas de que se poderia imag inar a coexistênci a. Portanto, na realid ade, só p'ode haver uma Llll ica comlln idade de mônadas, a de todas as mônadas coex isten tes; em conseqüência, um LlJ1ico mundo objetivo, um único tempo objetivo, um único espaço objetivo, uma única natureza; e é preciso que essa Llnica natureza exista, se é verdade que carrego em 111 i111 estruturas que implicam a coexistência de outras mónadas. Apenas o seguinte fato é possível: os mundos c os diferentes grupos de mónadas estão recipro­ camente num8 relação zlJ1á loga úqucla que ex iste entre nós e os grupos de mônadas que pertencem eventualmente aos mundos cios astros invi­ síve is, conseq üentemcnte entre nós e os onil77olia privados de qual­ quer comunicação at ual COI1OSco. M as se us mundos são mundos am­ bientes, cercad os ele horizontes abel10s que, por ra zões de fato e puramente contillgentcs. não podcm se abrir diante de nós. No entanto. o sentido dessa unicidade do mundo Illonac!ológico e do mundo objeti vo, q ue é " inato", deve ser bem compreendido. Leibniz n<ltura lmente tem razão quando diz que uma multiplicidade infinita de mônad as e de grupos de mônadas é concebível, mas que,
  • 77. 155;-1 /1cdiU'![un Cnrtrsin1/ m 10 entanto, essas possibi Iidades não são todas compossíveis; ele tem azi'ío, em seguida, de dizer que um número infinitamente grande de 11undos podcriil ter sido criado, mas não vários ao mesmo tempo, por :ausa de sua incompatibilidade, É preciso notar, aqui, que posso mui­ o bem imaginar Iivremente variações de mim mesmo, desse ego lpodíctico c existente de fato, e chegar assim ao sistema das variações Jossíveis de mim mesmo: mas cada uma delas é destruída por cada Jutra e pelo eu que sou realmente. É um sistema de incompossibilidades lpriorísticas. O fato cio eu sou determina de antemão se e quais outras nônadas s30 "outras" para mim, tais como elas devem ser para mim. 3ó posso cnCoIltr<l-las e não criá-Ias. Se me transformo pelo pensa- . 11ento cn? pura possibilidade, essa possibilidélde determina de antemão, ambém ela, as Illônaclas que são "outras" para elas. E avançando lssim, reconheço que cada mônada que possui o valor de uma possibi­ idade concreta determina de antemão UIll universo compossível, um 'mundo de lllônadas" fechado , e que dois mundos de mônadas são llcompossíveis, da mesma maneira que duas variantes possíveis do eu ego e ele qualquer ego concebível em geral. Partindo desses resultados e das pesquisas que a eles condu­ _em, compreende-se que perguntas (qualquer que seja a sua solu­ ' ão) que, pela tradição, deveriam estar além de qualquer Limite cien­ ífico reencontram UIl1 sentido e um valor p(jra o pensamento. Tais 'ão os problemas que acabamos de tocar. 61. OSjJroblcmas tradicionais da ((ori..qem psicolrfqica)} e seu esc!arecúnentofe1107'l1e7101rf....qico No interior cio munclo dos homens e dos animais, encontramos Jroblemas bem conhecidos das cicncias da natureza, os da origem e J,l evolução (géllcsis) psicofísica, fi siológica e psicológica. O proble­ 11<1 da origcn1 lL1 alm<l l<1mbéIll se inclui entre esses. Ele nos é suge­ ido pelo desenvolvimcnto da criança, no qual c pelo qual caela cri<ln­ a deve construir para si sua "represeI11i1ção do Inundo". O sistema Jerceplivo, graças ao qual um mundo como conjunto coordenado de _xperiências possíveis e reais existe e está constantemente presente Ouin ta McditafiU:J para nós como já formado, deve de início constituir-se no e pelo de­ senvolvimento da alma infantil. Do ponto de vista objetivo, a criança "vem ao mundo"; como um começo de sua vida psíquica pode ocor­ rer? O tàto psicofísico de vir ao mundo leva ao problema do desenvol­ vimento orgânico do indivíduo (puramente "biológico"), ao da filogênese, que encontra seu paralelo numa filogênese psicológica. Mas, levando-se em conta que os homens e os animais não passam, do ponto de vista psíquico, de auto-objetivações das mônadas, esses problemas da origem não remetem às relaçõe~ corresponden­ tes nas mônadas transcendentais absolutas? Não indicam eles a exis­ tência de problemas que uma fenomenologia constitutiva, entendida como filosofia transcendental, não tem o direito de deixar de lado? Os problemas genéticos, e sobretudo aqueles do grau funda­ mentai e primeiro, efetivamente constituíram, em larga medida, O ob­ jeto de estudo da fenomenologia. Esse grau fundamental é natural­ mente o do "meu" ego no seu ser próprio e primordial. A constituição da consciência interna do tempo e toda a teoria fenomenológica da associação a ela pertencem. E aquilo que o meu ego primordial en­ contra na explicitação intuitiva e original de si mesma (e por meio dela) aplica-se imediatamente, por razões essenciais, a qualquer ou­ tro ego. No entanto, com certeza ainda não chegamos aos problemas da origem, des ignados acima, aos do nascimento, da morte e da liga­ ção pela geração na natureza animal. Esses últimos pertencem visi­ velmente a uma esca la superior e pressupõem uma explicit(jção labo­ riosa das esferas inferio res: e é um trabalho de tal amplitude que durante muito tempo ainda esses problemas não podcrào ser coloc<1­ cios de maneira r<lcioJléll. Mas para os problemas colocados no campo cio trabalho real mencionamos os imensos conjuntos cle problemas (esti'lticos e gené­ ticos) que nos conduzcm ?iC]ueJes da tradição filosófica Os esc lareci­ mcntos sistemi'ltic()s da intencionaliclade que fizcmos no que se refe­ re iI experiência do outro e no que concerne à constituição do mundo objetivo desenvolv:.'ram-se nUlll terreno que a atitucle transcendental nos fez encontrar: !'or;)!ll efetuados a pal1ir de uma estrutura articu­ lada da esfera primordi'll. na qual encontramos um mundo primordial como ji'l presente. Pudemos penetrar nesse mllndo partindo do mun­ do concreto tomaclo como "fenômeno" reduzido, com a ajuda da re­
  • 78. ]::;6 lVicdirações Crn-tcsiallas dução primordial à vi nculação, a um "mundo" de transcendências imanentes. Ele abrange o conjunto da natureza, reduzido àquela que pertence a mim mesmo, e extrai sua proveniênc ia da minha sensibili­ dade; ele abrange então o homem psicológico, assim como sua alma, sob a reserva de uma redução correspondente. Quanto à "natureza", não somente os visibilia, os tactibilia, etc. a e le pertenciam, mas também coisas em alguma medida concretas, substratos das proprie­ dades causais e revestidas da forma universal do espaço e do tempo. Fica claro que o primeiro problema a se colocar, para elucidar, do ponto de vista constitutivo, O sentido da posição ex istencial do mundo objetivo, consiste em esclarecer de início a o rigem dessa "natureza" primordial e das unidades psicofísicas primordiais e sua constituição c:omo transcendências imanentes. A rea lização desses esclarecimentos exige pesquisas de grande pOJ1e. Novamente lembramos aqui os problemas da "origem psicoló­ gica" da "representação do espaço, do tempo, da coisa", problemas tão freqüentemente tratados no sécu lo passado pelos mais eminentes psicólogos e fisiol ogistas. Ainda não se chegou a esclarecimentos verdadeiros nesse campo, embora grandes esboços carreguem a c:hancela da grandeza.de seus autores. Se vo ltarmos desses proble­ mas aos que de limitamos e integram os ao s istema das análises fenomenológicas, fica evidente que a psicologia, assim como a teoria do conhecimento modernas não captaram o se ntido próprio dos pro­ blemas que devem ser colocados aqui. tanto do ponto de v ista psico­ lógico quan to do transcendenta l. T rata-se. com efei to, precisamente de problemas de exp licitaçfío, estática e gClléti ca, das intenções. De fato, era imposs ível de ver, mesmo para aq ue les qu e ace itaram a teoria de Brentano sobre os fenôm enos ps íqu icos, "estados v ivi dos" intenc iona is. Fa Itava a COJll­ preensi'io do C<HfIter próprio da análise intenc iona l, do conjunto dos problemas noéticos c noemáticos que co loca a consc iência como tal, e do método, totalmente novo. que eles exigem. No que se refere ú "ori gcm psicológica da representação do espaço, do tempo, ela coi­ sa", nem a física nem a fi sio logia nada tem a di zer a respeito, não mais que lima psicologia indutiva que, experimental ou não-experi­ mental, acaba mantendo-se no exterior dos fenômenos. Trata-se aí exc lusivamente de problemas da constituição intencional dos fenô- Quinta M editaçéio ]57 menos. Esses últimos nos são mostrados como já estando lá, na qua­ lidade de " fios condutores" (eles podem também eventualmente nos ser mostrados de maneira isolada), mas só devem ser analisados quanto ao seu sentido com a ajuda de um método intencional que os integra nos conjuntos coerentes e universa is--da constituição psíquica. O gê­ nero de universalidade que abordamos aqui é tornado suficientemen­ te claro pela unidade coerente e sistemática das estruturas, em que a unidade do meu ego desenvolve-se em elementos " que me perten­ cem" e que me são estranhos. Com efeito, a fenomenologia fornece à própria psicologia méto­ dos inteiramente novos. Aliás, a parte mais importante das pesquisas fenomenológicas pertence a uma psicologia intencional apriorística e pura (ou seja, liberada de tud o aquilo que tem que ver com a psicofisiologia). É a essa psico logia que muitas vezes fizemos alusão, dizendo que com a transformação da atitude natural em transcendental ela permite um "giro coperniciano", graças ao qual adquire um senti­ do novo. Ela se torna uma consideração transcendental, plenamente radical, do mundo e confere essa significação a todas as análises fenomenológico-psicológicas. É un icamente essa significação nova que torna todas elas utili záveis na qualidade de transcendentais e filo­ sóficas, e as integra mesmo a uma " metafís ica" transcendental. É exatamente dessa forma que encontramos a possibilidade de explicar e de superar o psicologismo transcendenta1.que paralisou e induziu ao erro toda a filosofia moderna. Assim como a estrutura fundamental de iJma fenomenologia tran scendental, nossa ex posição esboçou a de uma psicologia inten­ cional que lhe seja paralela (na qualidade de ciência "positiva"); ela determinou uma d ivisão das pesquisas eidético-psicológicas naquelas que explicitem a inte nciona lidade do ser próprio e concreto de uma alma em geral, e naquelas que explic item a inte ncionalidade que se constitui nessa alma. como se fosse estranha para e la. À primeira esfera de investigações pertence o campo principal e fundamental da ex pl ic itação inte nc iona l da " represent ação do Jllundo" ou, mais preci­ samente. do " fenômeno'· do mundo existente. que aparece no interior da alma hum ana como mundo de experiência uni ve rsal; se esse mun­ do de experiência é reduzido a um constituído primordialmente na alma particular, ele não é ma is o mundo de cada um, não é mais o
  • 79. 158 159A1editaçõcs Cm-tcsianas mundo que mi1ntém seu senso de .experiência humana comum, mas é exc lusivamente o correlato intencional da experiência de uma alma particular e, em primeiro lugar, da minha vida e de seus conjuntos de signi fic ações, formados, gradualmente, na originalidade primordial. Seguindo-os passo a passo, a explicitação intencional deve tornar in­ te ligível, do ponto de vista da constituição, esse núcleo primordial do mundo fenomenal ao qual cada um de nós, outros homens, e, ac ima de tudo, cada psicólogo, pode chegar da maneira descrita anterior­ mente, pela eliminação dos momentos de "~stra nheza". Se, nesse mundo primordial, fazemos abstração do ser psicofísico "eu, homem", "a natureza primordial" nos resta,.na qualidade de natureza da minha própria "sens ibilidade" pura. O problema fundamental da "ori gem psicológica do mundo da experiência" a parece como o da ori gem da "coisa fan tasma" ou da "coisa sensível", com suas diferentes cama­ das (visível, táctil , etc.) e de sua unidade s intética. Esse "objeto do sentid o" é mostrad o (sempre nos quadros dessa produção primor­ dial) como pura unidade dos modos de aparições sens íveis e de suas s ínteses. A coisa fantasma (visível) com suas modificações de "coisa próxima" e de "coisa distante", que se coordenam de maneira s inté­ tica, não é ainda a "coisa real" da esfera primordial da a lma; esta pertence já a Llm grau superior de constituição, como co isa ca usal, substrato idêntico ("substância") das propriedades causa is. A substancia li clade e a causalidade designam manifestamente graus superiores de constituição. O problema constitutivo da co isi1 pura­ mente sensíve l. da espacialidacle e da espaço-tempora lidade que lhe são essenciais e fundi1J11cnti1is confunde-se com os problemas que acabi1l1los ele mencionar. Buscamos, portanto, descrever os conjun­ tos coerentes e s intéticos dos modos de ;1presentação da coisa (apa­ rênc ias. aspectos. perspectivas, etc.). Mas tr;1ta-se aí apenas de Ullla descrição unil;lterfl! : o lado oposto do problema cons iste na relação intenci ona l dos fe nôme nos no o rga ni smo , que, ele sua pane, eleve se r descrito na sua constituição para c por ele mesmo, tend o em vist;1 o ca ráter anso lut:lme nte particular ele v inc ul ação inerente ao sistema de seus fenômenos constitutivos. Prossegui ndo nesse sentido, percebemos prob le mas sempre no­ vos de explicitação descritiva, que devem todos ser tratados de manei­ ra sistemática, mesmo se limitamos nossa atenção à constituição do 1uÍ1/W 11 feriitalá" " mundo" primo rdial, como "mundo" de " rea lid ades", e aos grandes problemas, referentes à constituição dO'espaço e do tem po - como tempo e espaço dessc mundo - que e la implica. Isso constituijá um campo formidável de pesquisas e, no entanto, não passa de uma eta­ pa inferior de uma fenomenologia completa da natureza concreta como tal, e que, em conseqüência. está longe de atingir o mundo concreto. O fato de term os tocado na questão da ps ico logia deu-nos a oportu nidade de exprimir a di stinção entre o primordial e aq uilo que é constituído como estranho em termos de v ida ps íquica pura, e de esboçar, a inda que de forma rápida. a mane ira pela qual os problemas de constituição de uma natureza primordial e objeti va co locar-se-ão como problemas psicológicQs. M as se vo lta rmos à atitude tran scend enta l, nossos esboços da o ri gem psicológica da represent ação do espaço, etc . podem nos serv ir inversam ente d e indicação para os problemas transce nd entais correspondentes, notadamente para aqueles de explicação concre­ ta da natureza e do mundo primordiais, e m gera l, o que preenche uma grande lacuna no encadeamento dos problemas da constitui­ ção do mundo como fe nômeno transcend e nta l, que esboçamos an­ terionnente. Podemos designar o conjunto extremamente rico das pesquisas relaci onadas ao mundo primordial (que fo rmam toda uma d isciplina) pela expressão "estética transcendental", vi sta num sentido bem amplo. Tomamos de empréstim o essa expressão kanti a na, porque as pesqui­ sas sobre o tempo c o cspaço da crítica da razão pura abordam niti­ damente - ai nda que de maneira extremamente limitada e pouco c lara - Ulll a p riori noemático da intuição sens ível: esse (I priori. a mpliado até aquele concreto da nélturcza intuiti va , puramente se nsí­ vel (da natureza primordial). exige o co mple me nto fenomenológico transcendenta l dos problemas da constituição. Todavia, não estar ia co nforme o sent ido da cxpressão kantiana " ana lítica tran scendcntal", oposta à anterior. Chal1l;1! com esse no me o estágio superior do (I !wiori constitutivo. o do próprio mundo objet ivo e das multiplicidades q ue o constituem (e, no p.rau mais e levado. o a priori dos atos teórICOS e "idealizantes'· que constituem, em definitivo, o mund o e a natureZ;1 eb c iê ncia) O primeiro estág io, ac im a de nossa estética transcendental, deve ser ocupado pela teoria da experiênci a
  • 80. 60 161Meditações Cartesianas o "outro" (é o que chamamos de "endopatia"). Basta indicar que udo aquilo que dissemos sobre os problemas psicológicos da "ori­ rem" que se colocam no estágio inferior é também verdadeiro para o stágio superior: o problema da endopatia só pode adquirir seu senti­ ia e método de solução verdadeiros com a ajuda da fenom enologia 'onstitutiva. Essa é a razão pela qual as teorias propostas até aqui (aí ncluída a ele Max Scheller) permaneceram ineficazes. Também nU/l­ 'a se reconheceu como a alteridade dos "outros" é tran sferida para o nundo inteiro, na qualidade de sua "objetividade", e lhe conferejus­ amente esse sentido. Indiquemos agora de maneira expressa que seria evidentemen­ e inútil querer tratar em se parado da psicologia intencional C0l11 0 ,iência positiva e da fenom enologia transc endental. Desse ponto ele ista, é sobre a última que recai o trabalh o efetivo, enquanto a psico­ ogia, despreocupada em relação ao giro copernicano, irá lhe tomar e empréstimo seus trabalhos. Mas é igualmente importante notar ue a alma e o mundo objetivo, em geral, não perdem, na considera­ 'ão transcendental, seu sentido existencial ; ao contrário, este se tor­ ou inteligível para nós, porque a análise nos revelou sua natureza ultiforme; da mesma forma a psicologia positiva não perde O con­ eúdo que lhe cabe por direito, mas, liberta ela positividade ingênua, se orna ela própria uma disciplina da filosofia transcendental universal. Desse ponto de vista, pode-se dizer que na série de ciências que se elevam acima da posi tividade ingênua, a psicologia intencional é a primeira em si. Em relação às outras ciências pos itivas, ela chegZl mesmo a ter 11J11Z1 vantagem. Se, ciêncià positiva, ela se constitui pelo método da Zlllálise intencional, não pode se confrontar com proble­ mas de "fundamentos", como ocorre nas outras ciências positivas. De fato, esses problemas têm sua origem no caráter unilateral dZls objetividades ingenuamente constituídas, as quais, para serem con­ sideradZls na tot<llidade de seus aspectos. exigem a passagem à consi­ deração transcendcntal do mundo. Mas a psicologia intenciona l ­ ainda qu e de man ei ra implícita - já carrega o transcendental em si llleSJ11Z1; basta-lhe apcnas uma última tomZlda de consciência para completar o giro copernicano que não muda nada no conteúdo de se us resultados, mas extrai deles o sentido último. Seria possível dizer que a psicologia só tem, em definitivo, um único problema fundamen­ tai - o conceito de alma. Ouinta ldeditaçiio 62. Explicitação intencional da experiência do outro caracterizada no seu conjunto Ao concluir esse capítulo, vamos voltar à objeção - da qual nos deixamos afastZlr - contra a pretensão da nossa fenomenologia de ser uma filosofia transcendental e, em conseqi.iência, de reso lver com o talos problcmas da possibilidade do conhecimento objetivo. De acordo com essa objeção, a fen omenologia não seria capaz disso, pois, ligada no seu ponto de partida ao seu ego transcendental da redução fenom enológica, recairia, sem querer se dar conta di sso, num solipsismo transcendental, e qualquer passageni. para a subjetividade estranha e para a objetividade verdadeira só seria possível por uma metafísica não afirm ada, por uma retomada disfarçada das tradições leibinizianas. Tendo em conta as explicitações efetuaelas, a objeção di sso lve­ se e mostra-se sem consistênci a. É preciso, antes de tudo, ter em mente o seguinte fato: em nenhum momento a atitude transcendental, {qllliJ transcendental, foi abandonada. Nossa " teoria" da ex­ periênc ia estranha, ela experiência dos "outros", não queria nem po­ deria fazer qualqu er outra coisa senão explicitar, partindo da obra constitutiva da experiência, o próprio se ntido da posição de um "ou­ tro" e, partindo elas sínteses correspondentes, explicitar o sentielo da "ex istênc ia verdade ira dos outros". Isso que minh a experiência COI1­ cordZlnte mostrZl como send o "os outros", is so qu e me é mostrado de maneira neccss:1 ri,] e nilo por ilcaso a títul o de rea lidade a conhecer é,justamente IlZl at itude transcendental, o outro existente, o olrer ego, que se justificZl pn.:c isZl Illcnte no interior da intcncionaJidade do meu ego. Na at itude pos itiva - e é bom qu e sej a assim - dizemos: por meio da minha c:peri ência própria não apreendo somente a mim mesmo, mZls. gr,lç,ls a uma formZl especiill ela cxperiência, apreendo tillllbém o outro. / c:plicitnção tran scendentill mostrou-nos não so­ mente que ess,] aflllllação positiva é transcenclcntZllmentej ustific ada, mas também que o ego transcendental (que a redução transcendental rcv ela-nos, logo de início, com seus hori zontes indeterminados) per­ cebe também il si mesmo, no seu ser primordial próprio, que, sob a forma de sua experiênc ia transcendental elo outro, os outros egos
  • 81. 163,Hcdún!",Jc. Cm ·tcsiulitlS)2 anscendentais, ainda que esses Cdtimos não sejam eles próprios .lostrados diretamente nelll na evidência apodíctica a bsoluta, mas omente na evidência da experiência Lexterior··. O outro, eu o apreen­ O "em" mim, constitui-se em mim mesmo pela apresentação sem star "ele próprio" presente. Também posso dizer num sentido mais mplo: o ego. que encontro e:plicitando a mim mesmO na meditação exp Iic itando o que encontro em mi m), at inge a total idade do ser trans­ ,endente, constituído de maneira transcendente c de forma alguma o er simplesmente aceito na positividade ingênua. A idéia, segundo a ual tudo o que eu conheço - eu, O ego transcendental - eu o .0nJleço como existente partindo de mim meSIllO, e tudo o que explicito '01110 constituído .em mim mesmO deve penencer a mim mesmo, a eu ser próprio, é uma ilusão, Isso não passa de "transcendências manentes / constituição como s is tema de atualidades e de oteneialidades s intéticas que me apresentam - a mim, o ego -, os seres e das unidad es se sentido na esfera cio meu s~r próprio, uer dizer justamente: constituição da realidad e objetiva imanente. o início da fenomenologia, na atitude do iniciante, daquele que eom­ leta pela primeira vez a redução fenomenológica e que cria assim m habillls universal das pesq uisas constitutivas. o ego transcendental ue surge diante do nosso olhar é bem percebido ele maneira apodíctica, las é cercado de horizont es totalmente ineletermiJ1ados, limitados por ssa única condição: que o mundo e que tudo o que sei a respeito dele se transforma cm puros " fenômenos". Nesse início, fazem-me falta necess,lri,l1llCnte todas <lS distinções qu e <l penas <l ex.plicitação inten­ cional nos ir;'J rOJ'Jlccer c que. no entanto. me pertencem de m<lne ira evidellIc c e,;scllci'lJ. Fé1Ita-llle. aci1l1<1 dc tud o. a compreensão do meu ser primordiaL da esfera daquilo que me pertence no se ntido estrito e d<lquilo que. a título de experiêncin do outro, se constitui nessa e~J'L-r<l como sendo estranho. C01110 "apresenlnclo". lllas que <lí não estú e qlte 11iío pode jamais ~lí ser mostrado ele man e ir<l original. De iníci o. preciso e:plicitilL como t;l1. o que pertence a mim propri'llllcnte. ,1 fim de comprecnder que no "próprio" o '"não-pró­ prio" adquire. t<lI11bém ele, seu sentido ex istcJlCi<lJ. principalmente por 8nalogia. Eu. que medito, não compreendo no começo, em geral, como chegar aos "outros" e a milll mesmo, posto que os "outros" são toclos tomados "e ntre parênteses". E, no fundo, não compreendo <linda, e o OuintaivIeditação reconheço somente apesar de mim, que "me colocando entre parên­ teses", eu mesmo, como homem, como pessoa humana, conservo­ me no entanto ainda como ego. Não posso portanto saber nada ainda sobre uma intersubjetiviclade transcendental e, sem o querer, consi­ dero a mim, o ego, como um solus ípse; mesmo após ter adquirido uma primeira compreensão das funçõe s constihltivas, diviso todos os conjuntos constitutivos C0l110 simples vinculações desse ego único. As explicitações mais extensas desse capítulo eram , portanto, neces­ sárias. É graças a elas somente que compreendemos o sentido. pleno e verdadeiro do "idealismo" fenomenológico-transcendental. A apa­ rência do solipsismo é dissipada, ainda que seja verdade que tudo o que existe para mim só pode extrair seu sentido exi stencial em mim, na esfera da minha consciência. Esse idealismo apresenta-se como monadologia. Apesar dos ecos da metafísica le ibinizi8na, que evoca de maneira querida para nós, ele busca seu conteúdo na explicitação fenomenológica pura da experiência transcendental, obtid<l pela re­ dução transcendental. Baseia-se na evidência mai s original, em que todas as evidências possíveis e imagináveis devem ter seu funda­ mento no direito mais origin81, em que todos os direitos e, em particu­ lar, todos os direitos do conhecimento devem buscar suajustificação. A explicitação fenom enológica re8lmente não é de forma alguma algo como uma "construção metafísic8", não é uma "teoria" que co­ loca em jogo - abert8mente ou dissimulando-os _. os conceitos e os prejulg8111entos d<l l11et8fís ica tradicional. Ela se distingue deles da maneira mai s decisiva. já que coloca em ação os dados da pura "in­ tuiç50" e não passa de pura "e:plicitação do sentido", que a intuição "preenche" de m<lneira original. Em p<lJlicular. no que se refere ao lllundo objetivo elas rea lidades (como os múltiplos mundos ideais ob­ jetivos, campos de ciências apriorístic<ls pur<ls), a explicitação fenomenológica Ilão faz mais do qUe explicitar - e não poder ia ja­ l1l<li s colocar muito em destaque - o sentido que esse Tllundo tem p<lr<l nós todos, anteriormente a qualquer filosofia, e que, mélnifesta­ mente. lhe confere 110 SS:.1 experiência. Esse sentid() pode l1luito bem ser extraído pela f'il oso fl<l, mas não pode j<ll1l<lis ser J1loclific<ldo por ela. E, em cada experiência atual, ele está cerCildo - por razões essenciais e não por caUS<l da nossa fraqueza - de horizontes que necessitam de elucidação.
  • 82. CONCLUSÃO 63. A necessidade de uma crítica da experiência e do conhecimento transcendentais Efetuando as pesquisas da presente Medit·açào e já aS das du,ls lvfeditações precedentes, co locamo-nos no plano da experiênciél tran scendental , da experiência de si mesmo propriamente dita e da experiência do outro. Confiamos nessa experiência em virtude de sua evidência vivida, e confiamos também. de maneira an~llog,l, na evidência dosjulgamentos descritivos e, ger;.llmente, em todos os pro­ cedimentos metódicos do conhecimento transcendental. Se perde­ mOS de vista a exigência, na qual insistimos tanto no início, de lIm conhecimento apodíctico como sendo o único conhecimento "autenti­ cam ente científico", ainda assim, de forma alguma, o abandonamos M:1s, em lugar de no s ocupar aqui de problemas posteriores e últim os da fenomenologia, preferimos esboçar em linhas gerais os problemas Jiríceis da primeira fen omenologia. ainda de alguma forma afctad,l por uma ingenuidade (uma ingenuidade apodíctica); fenomenologia encarregada da grande tarefa - a ma is especificamente fenome­ nológica - de dar à ciência forma nova e su perior. Preferimos isso ao conjunto das pesquisas que constituem a autocrítica da fenollle­ 1M Conclusão 165 nologia com o objetivo de detenninar a extensão, os limites, mas tam­ bém os modos de sua apodicticidade. Nossos esboços precedentes dão uma idéia, pelo menos provisória, dessa crítica do conhecimento fenomenológico transcendental, como por exemplo as alusões à maneira pela qual, com a ajuda de uma crítica da lembrança transcendental, pode ser circunscrito um conteúdo apodíctico dessa lembrança. Toda teoria do conhecimento transcendental fenomenológico, como crítica do conhecimento, conduz à crítica do conhecimento transcendental fenomenológico, e de início da própria experiência transcendental; em virtude de a fenomenologia voltar-se para si mesma, essa crítica exige, também ela, outra crítica. Mas a possibilidade evidente da rei­ teração das retlexões e das críticas transcendentais não implica, de forma alguma, o perigo de um regressus in Ínjinitum.
  • 83. EPíLOGO No essencial, nossas meditações - podemos dizer bem - atin­ giram seu objetivo: notadamente o de mostrar a possibil idade concre­ ta da idéia cartesiana de uma ciência universal a partir de um funda­ mento absoluto. A demonstração dessa possibilidade concreta, sua realização prática - ainda que, bem entendido, sob a forma de um programa infínito -, não é outra coisa senão a invenção de um ponto ele pal1ida necessário c indubitável ele um método, igualmente neces­ sári o, ql1C, ao mesmo tem po, perm itc esboçar um sistema de prob Ie­ mas que podem ser colocados sem se incorrer no absurdo. É este o ponto q uc at ingi 1110S A lln iCél co isa que nos fa Ita incl icar é a ram iIlca­ ção, facilmente compreensível, ela fenomenologia transcendental em ciências objetiv3s particulares e a sua relação com essas ciénci;ls d~l positividade ingênua qlle ela encontra diante de si. A vicia coticli,úla é ingênua. Viver assim é engajar-se no mundo qlle nos é mostrado pel,l experiêncii1. pelo pensamento: é agir, é emitir julgamentos de v3101" Todas CSS;lS fllnções intencionais da experiênci,1. graças às quais os objetos estão simplesmente prescntes, completam­ se ele maneira impesso(ll: o sujeito !1a(b sabe ele Ias. O mesmo ocorre com o pensamento atio: os I1lll11eros. os "'estados de coisas" predicativos, os valores, os fatos, as obr3s aparecem graças a um funcionamento oculto, que se constrói gradativamente, mas são somente elas que ve­ 166 Epfll.!! !U 167 mos. O mesmo se dá com as clencias positivas. São construções ingênuas, ainda que de um tipo superior: são produzidas por uma téc­ nica teórica, sem que as funções intencionais, de que, em última aná­ lise, tudo provém, sejam explicitadas. Com certeza, a ciência preten­ de justificar seus esforços teóricos e se apóia sempre sobre uma crítica. Mas sua crítica do conhecimento não é última, ou seja, um estudo e uma crítica das funções originais, Ulll esclarecimento de todos os seus horizontes intencionais. Somente esslCS últimos podem captar de maneira definitiva o "alcance" das evidências e, corre­ lativamente, estabelecer o sentido da existência dos objetos, das cons­ truções teóricas, dos valores e dos fins. Assim, reencontramos nós - e precisamente no nível elevac:jo da ciência positiva moderna ­ crises, paradoxos, coisas ininteligíveis. Os conceitos primeiros que abrangem toda a ciência e determinam a esfera de scus objetos e o sentido de suas teorias têm uma origem ingênua: eles têm horizontes intencionais indeterminados: resultam das ["unções intencionais des­ conhecidas, exercidas de maneira grosseiramente ingênua. Is~o vale não somente para as ciências especiais, mas também para a lógica tradicional com todas as suas normas formais. Toda tentativa feita pelas ciências, tais como se constituíram historicamente, de encon­ trar um fundamento melhor, de compreender melhor a si mesmas, de compreender seu próprio sentido e seu próprio funcionamento é uma tornada de consciência de si mesmo do estudioso. Mas só há uma tomada de consciênci3 de si mesmo que seja r3dicaL a da fenome­ nologia. Seu radicalismo é inseparável de SLJ3 universalidade, e é ao mesmo tcmpo insep:1r:1vel do método fenomenológico: tomada dc consciência de si mcsmo sob él forma da reduç~lu tr;lnscenc!ent:ll. explicitação intencionéll de Sl mcsmo - do ego tr3nscendent31 resul­ tante da redução -. descrição sistemática nil forma lógica dc Ull13 cidéticil intuitiva. Mas explicitar a si mesmo de milneirél universal e eidética é ser J11estl"C de tod3S as possibilidades constitutivas possí­ veis e imagináeis "in3t;ls·· ao ego e à intersubjctlvidade transcendental. Uma fenomenologia que se desenvolve rigorosamente constrói, p0l1anto, (f priori. mas com uma necessidade e lima genera Iidade estritamente intuitivas. as formas cios mundos imagináveis: ela os constrói nos quadros de tocl3s as formas imagináveis do ser em geral e do sistema das suas articulações. Mas isso de maneira "original",
  • 84. 168 IHeditaçõcs Cartesianas ou seja, em corre lação com o a priori da estrutura das funções in ­ tencio nais que as constituem. Posto que, em sua caminhada, a fenomenologia não e ncon tra realidade nem conceitos de realidade m ostrados como "ac<1bados", mas que os extrai na esfera original da constituição captada, e l<1 m es­ m a, em conceitos o ri g in a is, j á que, obrigada a elucidar todos os hor i­ zontes, domina todas as distinções de "a lcance" - e tod<1s as rc l<1ti­ v idades abstratas -; ela deve c hegar por si mesma aos s istem8s de conceitos que d efinem o sentido fundé!m ental de todos os domínios científicos. São os conceitos que traçam de antemão as linh as de demarcaç ão na idé ia formal de um universo de existê ncia possível em gera l, e em conseqüência ta mbém de um mundo possíve l em ge­ ral. Eles d evem por isso mesmo ser os conceitos fundamentais ver­ dadei ros de todas as ciências. Para os conceitos desse gênero, for­ m ados dessa m aneira orig ifl a l, não se pode falar e m paradoxos. O mesmo vale para todos os conce itos fundamentais que se relacionam à constituição das c iênc ias que tratam ou devem tratar d as dife rentes regiões d o ser e que tê m que ver com a forma d e conjunto dessa constituiç ão. As pesquisas a que rapidame nte nos referimos ac ima, rel ativas à constituição transcendental do mundo, não são dessa for­ ma nada a lém d e um começo de esc larecimento radical do sentido e da o ri ge m (ou do sentido a partir da o ri gem) dos conceitos, ta is com o mundo. natu reza, espaço, tempo, se r a nima l, ho mem, alma, org.;lni s­ m o, comunidade soc ia l, cultura. etc. Fica c laro q ue a realização verdadeira das pesq uisas indic;ld as deve conduzir a todos esses concei tos que, se m ser ,111:1 iS<ldos c c lucidJdos, servem C0l11 0 fundamc ntais às ciênc ias positiv::ls. mas lluc , 11<1 feno menolog ia, se e nge ndra m no meio de uma clarez<1 e de um a di stinção que não Illilis ild mite q ualque r dúvida. Podemos dizer tilmbém que todas as ciências aprio ríst icils enl ger<1 1têm SUil o ri gem íiltim3 11:1 fenomenologiil <1priorístic<l transcc n­ de ntal. É aí. gr<1ças à a nfIlise das corre lações, que e l<1s c nco ntr,lll1 seus últimos fundamentos . [Ias peI1encem, portanto, do ponto de v is­ ta de sua o ri gem. <l lima fen o ll1eno Iogia uni versa I aprioristic8. d<1 S q1l8is são 8S ramificaçõcs s istem áticas. Esse sistem a de LI p riori universa l deve, pOI1<1nto, se r des ignado como o d esabrochar sistem á­ tico do a p riori universa l inato na essênc ia da subj eti v idade e, em l.Jn7o/Jo 169 conseqüência, da inte rsubjetividade transcendent al. É o desabrochar do·logos universal de todo ser possível. Poderíamos e ntão ex primir a mesma co isa da seguinte manei­ ra : a fenomenologia transcendent;:d , s istemática e plenamente de­ se nvo lvida, é o ipso de urna autêntica o ntologia universal. Não mai s uma o nto logia formal e vazia, mas uma que inc lui todas as poss ibi­ lidades reg io nai s de existência, segundo todas as cOlTelações que e las implicam . Essa onto log ia unive rsa l e concreta (ou essa teoria das ciências conc reta e uni versal, essa lóg ica concreta do ser) apresentaria, em conseqüênc ia, o uni verso das ciências, primeiro em si, e tendo um fundamento abso luto. A o rdem das disciplinas filos·óficas seria a se­ gu inte: de iníci o a egologia "solipsista", a do ego reduzido à esfera primordial; e m seguida viria a fenomenologia intersubjetiva, funda­ m entada na egologia solipsista. Essa última estuda inicialmente as ques tões universais, para, e m seguida, ramificar-se em ciências apriorísticas particulares. Essa ciência tota l do a priori seria então o fundamento das ciências e mpíricas autênticas, e de uma fil osofia universal ilutê ntica, no sen tid o cartesiano de ciência uni versa l.e de fundamento absoluto d o que ex iste de fato. Toda a racionalidade do fat o conciste no (l priuri. A c iê ncia apri orística é aquela d os princípios aos quais as ciências empíricas devem recorrer p <1ra e ncontrar seu fundamento defin it ivo. Mas a c iê nci a apri o rís tica não deve ser ingênua ; deve pro­ vir d,IS fontes transcendentai s fenomenológicas mai s pro fundas e ter <I fOrIll,l de Ulll (I priuri, que o é em toelos os aspectos, que se ,lpóia e m si mesmo c se Ju sti fica por si mesmo. E u gostélri 'l. paril te rminar, e a rim de ev itar ma l-entendidos. de mencionar q ue a fenome no logia , como a desen vo lvemos acima, e li ­ min a apenas ,I metafísica in gênua. que opera com as coisas absurd8s em si. ll ~lS nüo exclui ,l llletafísica e m geral. E la n50 ataca os m o tivos c os p rob leill8s que animavam intername nte a tradição antiga. Era scu m étodo e SUil colocação dos prob lemas que eram ab .~ urd os, de fOfm;1 dlglllllil os seus probl e mas e os m o ti vos de s ua colocaçJo. A fenomeno logia não i1firll18 que se deté m diante "d8s últimas pergun­ tas m<li s clevad<'ls". "O ser, prime iro e m si", que serve de fundamen­ to a tudo o que há ele obj e ti vo no mundo, é a intersubjeti vi dade
  • 85. 170 /vIcdlrnfúc.< Cnru.,úll1nJ tran scendental, a totalidade das mônadas que se unem nas diversas formas de comunidade e de comUnhão. Mas, no interior de qualCJuer esfera monádica, e, a título de possibilidade ideal, no interior da esfe­ ra monádi ca imaginável, reaparecem todos os problemas da realida­ de contingente, da morte, do destino, o problema da possibilidade de uma vida "uutenticamente" humana e tendo um "senso" na acepção mais forte desse termo e, entre esses problemas, os do "sentido" da história e assim por diante, subIndo cada vez mais alto. Podemos dizer que silo esses os problemas éticos e religiosos, mas postos num terreno onde deve ser colocada toda questão que possa ter num sen­ tido possível para nós. É assim que se realiza a idéia de uma filosofia universal de forma bem diferente daquela representada por Descartes e pe lo seu tempo, que foram seduzidos pela idéia da ciência moderna Ela não se realiza sob a forma de um sistema uni versal de teoria dedutiva, como se tudo que existe estivesse englobado na unidade de um cál­ cul o. O sentido essencial e fundamental da ciência transformou- se radicalmente. Temos diante de nós um sistema de di sc iplinas fenomenológicas, do qual a base fundamental não é o axioma ego cogito, mas uma plena, inteira e universal tomada de consciência de SI mesmo. Em outros termos, a via que conduz a um conhecimento dos fundamentos últimos, no mais alto sentido do termo, ou seja, a uma ciência filosófica, é aque la em direção a uma tomada de consciênc ia universLll de si mesmo. ele início mon:ldica e depois intermon<Ídica . Podemos igualmente afirmar que:l própria fil osofia é um desenvolvi­ mento radicCll e uni vcrs,!l das meditações cartcs i:.lIl<1s, ou seja, um conhecimento universal de si mesmo, c abrange toda ciência autêllti­ ca, responsável por si mesma. O or<Ículo délfico !..I v LU o'l 0 E ') 'lo') adquiriu um novo sentido. A ciência positi va é uma ciência do ser, a qual se perdeu no mundo . É prec iso de início perder o mundo pela E1WX'l, para reencontrá-l o em seguida numa tomada de consciência uni versal de si mesmo. N() /ifo/'(/s ire, di sse S,ll1to Agostinho, il! le reai, ill illteriore hOlllin e habiwl ,'erit{/s. , I I SOBRE O AUTOR Cronologia 1859 - Nasce a 8 de abril em Prossnitz, Morá via. 1876/1878 - Estuda na Universidade de Leipzig. 1882 - Obtém seu doutorado, em Matemática, na Universidade de Viena. 1883 - Professor assistente na Uni versidade de Berli 111. 1884 - Volta <l VienJ e torna-se discípulo de BrentallO. 1886 - Torna-se luterano. 1887 - Casa-se com MalvillC SteinschneÍckr e toma-se li vre-do­ cente na Universidade de Halle. 1906 -..- Torn:l-sc professor ordinário na Uni v(' rsidaJe de Gottingen. 1933 _ . O Ilazismo proíbe sua saída do Pilís sem autorização prévia. 1938 Morre no dia 27 de abril. Principais obras 1 ­ Phi/osophie der Arilhmcrik, T J, J-'bllc, 1891. 2 ­ "Psychologische StuJien zurelementarcn Logik", artigo publi­ cado em Phifosophische MO!lmshe[le, T XXX, 1894 171
  • 86. --- - - - ·r • ••lv1editnções Cartcsia1lCL172 •3 _ Logische Untersuchungen, HaJle, TI, 1900; T lI, 190 I, Max •Niemeyer Verlag. 4 - "Berich über deutsche Schriften zur Logik in den Jahren 1895­ •99", publicado no Archiv Jiir systematische P/úlosophie, T •BIBLIOGRAFIAX, pp. 397-400,1903. •5 - "Philosophie aIs strenge Wissenschaft", artigo publicado em Logos, TI, 1910. •6 - Ideen zur einer reinen Phal1omenologie und phiinomena­ •logischen Philosophie, HaJle, 1913. 7 - Logische Ulltersuchungen, 2~ ed ., com o II tomo bastante •alterado e aumentado pelo autor e sua parte final só foi publicada em 1921, contendo. a Sexta Investigação, publicada em portu­ guês como: Investigações Lógicas - Sexta Investigação - Elemelltos de uma Elucidação Fenomenológica do Conhe­de Boer, Th. ­ The Development of Husserl 's Thought, The Hague, cimento, em tradução dos Profs. Drs. Zeljko Loparic e Andrea Boston, Londres, 1978. •M. Altino de Campos Loparic, São Paulo, Abril Cultural, 1980. Descartes, Rene - Obra escolhida - trad. J. Guinsburg e Bento Pra­ 8 - " Husserl s Vorlesungen zur Phanomenologie des innern do Jr., Difusão Européia do Livro, 1962,442 ps. .:•Zeitbewusstseins" publicadas no lahrbuchJür Phifosophie L/nd - Princípios da Filosofia, trad. Torrieri Guimarães, Hemus Ltda., phiinomenologische Forschung X, 1928. 1986, 110 ps. 9 - "Formale und transzentantale Logik - Versuch einer Kritik der - RegIas para la dirección de la mente, trad. Samaranch, F.P., Logischen Vemunft" publicad.o no lahrbuch Jiir Philosophie Aguilar, 1970, Argentina. wul phànomenologische Forschul1g X, 1928. - Discurso sobre o M étodo, trad. Márcio Pugliesi, Hemus, SP, )0 - HusserlioJ1([, uma edição dos Arquivos Edmund Husserl , com 1972. IX volumes publicados por Martinus Nijhoff em Haia. Farber. M. (ed .) - Philosophicol esso·ys in memor.y of Edm/ll1d Husserl, Harvard Uni'ersity Press, Cambridge, 1940. Gueroult , Martial - Descorles selol1 l'ordre des roisolls. Ed. M ontaigne, Paris, 1953,21. Loparic, Zeljko - "À procura de um Descartes segundo a ordem das dificuldades", Rev. Disclfrso, n. 6, São Paulo, 1975. Mouny, Paul - Le déve/oppement de la physique ca rlé. iel1/le, .. §~D I FFLCl:iJ.u_~P - Librairie Philosophique J.Vrin, Paris, 1934. , Bib. Florestan Fernandes Tombo: 278408 -_.-- - Pivcevic , E. (ed.) - Phellomcllology (//ul I)hilosophicol lIl1de}"s­ Aquisição: ~~.ml'!a I .R_LJSP __ !ol/d/llg. Carnbridge Univcrsity Press, Cambridge, 197). Proc. / BOTINO I RS 22 ,41 25/11/2009 1 N.F. 000721 ISBD/FFLCH1, . ~ 173
  • 87. ----- o LIVRO DOS CINCO ANÉIS O Clássico Guia de Estratégia Miyanwto Musashi Escrito no século XVIl, este livro continua sendo referência para os homens de negócios e de marketing do Japão. É considerado um dos melhores guias psicológicos de estratégia, excelente p,lra profissionais que precisam impor sua marca por meio de campanhas e táticas de vendas no competitivo mercado de hoje. FILOSOFIA AMERICANA Urna Introdução Seleção e Organ.izaçiio: PJ'of D1: Mánio Pvtgliesi e lMrgner Ve11.eziani Costa Dos pensadores que marcaram época no período de consolidação do modo de pensar americano no planeta, este li vro Jpresenta: Benjamin Frnnklin, BenjJmin Rush, Charles Sanders Peirce. John TJy lor, Roger Williams, Samncl John son, Thom~s Jefferson e William James. ALÉl1 DO BEM E DO MAL Prelúdi() de um:l Filosofia do Futuro FrzCrinclJ /IV Nletz1'chc Alélll d" IJt"m I.' tio ;101- unJn obr~ nfi rm ati,,;! voltada ~ ;lpr-:sCllt;It,::i[) dos novos va lores da moral , CJl tcilllid" como insll·111llCl11O tk snpcriJçno das lilllitnçõcs impost;ls pela L' jvili;;::IC,'iio Jucl:lico-cristã. Neste li vro encontra-se: Ulll ;1 argllliJ critica ;i ll1 11tkrn i d~de c às SLl JS cOl1scqiiênci:ls MADRAS® ;'i~J~~~~~~;"~~~~"~~,~,:,~~ a dos nossos lançamentos, lias áreas que determinar ~ome _ Elldereco Residencial, Bairro Cjdade Estado CEP - _ _ o Fone Sexo DFem, D~!lasc. Tascimento _____ Profissão - _ Escolaridade (nÍvel)__ Você compra livros: iA I . O livrarias O feiras O telefone O reembolso postc11 O outros: _____ A Quajs os tipos de literatura que você LE: t O jurídicos O pedagogia O romances O técnicos O esotérjcos O psicologia O informática O religiososI O outros: Qual sua opinião a respeito desta obra? __ lndiquc amigos que gostariaJll deJ"('('dwJ' a/ALA /)lBET.: ~ume Endercl'o HesidenciaI., Bairru CEP Cidaoe Nomedo LIVRO adqUl'rido: . !'~ ED I TCÕE5_Cí RTESIAN/~5 l1ADRAS Editora Ltda,Hll d />,I1I /(J ( ~ 4'11(~'dh-t"":--:~ g('$ _ SdJll;'") ~ 1 U2-'1()·'-()2U - :-;,,) P,," I,) - S P ( :<I' X " 1"'''' <1 1 1:22')() - 020<Jt;.<)7() _ SP '1'... 1 (()__ 1 1) ()');")') 1 127 - I;... ,,, (0 __ , I) ()<).)<) . )()<J(J ""'V. ll l<'li Inl ~.( o( Hn . hr
  • 88. P:lra receber c:tt:ilogos, lista de pl-CÇüS e Outr:lS inforllJ:lções escreV:l p:tLl: NIADRAS" RU:lP:tulo Gonçalves, 88 - S:lnt:V1:1 02403-020 - S50 Paulo - SP Te!.: (0__11) 6959.1127 - Fa:x: (0__1]) 6959.3090 w.vw. Inadras.coI11.br

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