Alfabetização, letramento, variedade linguística, leitura, escrita

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Alfabetização, letramento, variedade linguística, leitura, escrita

  1. 1. Paulo já leu José Paulo lemos. Paulo escreveu uma redação sobre José Paulo Lemos. Paulo já sabe ler. Paulo já sabe escrever.Quando se diz que Paulo já sabe ler, entende-se que ele está semi-alfabetizado (reconhece asletras e consegue “juntá-las” para a sua leitura). Quando se diz que Paulo já sabe escrever,entende-se que ele está em um processo mais avançado: reconhece as letras, consegue“juntá-las” e formar certo tipo de frase.Quando se diz Paulo já leu José Paulo Lemos, entende-se que, além de reconhecer as letras econseguir juntá-las para sua leitura, ele, ainda, fez uma leitura específica sobre o autor ousobre alguma obra dele, ou seja, ele está em outro processo de leitura conseguindo ler algoespecífico sobre alguém ou sobre algo. Quando se diz Paulo escreveu uma redação sobre JoséPaulo Lemos, entende-se que, além de Paulo saber as letras do alfabeto, “juntá-las”, formarcerto tipo de frase, ele está em um processo mais avançado do que as outras alternativas pois,provavelmente, tenha algum conhecimento sobre como produzir um texto. Variedades lingüísticas: porque é diferencial e como ajudam no processo de alfabetizaçãoA linguagem é uma ferramenta para pesquisar, selecionar informações, analisar, sintetizar,argumentar, negociar significados, cooperar, de forma que o ser humano possa participar domundo social. Portanto, a linguagem, pela sua natureza, é transdisciplinar uma vez que é pormeio dela que a capacidade humana articula significados coletivos e compartilha-os, emsistemas arbitrários de representação que variam de acordo com a necessidade e experiênciade vida em sociedade.Como cada ser humano possui seu modo de pensar e a linguagem é uma atividade mental,ocorrem variações lingüísticas. O respeito às variedades lingüísticas e o seu reconhecimentonas diversas áreas do conhecimento é princípio escolar. Não faz sentido que se pretenda queexista apenas uma norma na Língua. Precisa-se trabalhar em sala de aula com todas asvariedades lingüísticas porque nas práticas sociais e na história elas se confrontam e fazemcom que a circulação de sentidos produza formas sensoriais e cognitivas diferenciadas. Nasinterações, relações comunicativas de conhecimento e reconhecimento, códigos, símbolos, sãogerados e transformados e representações são convencionadas e padronizadas. Os códigos sãomostrados nos discursos, gramáticas, fonologia, etc.Então, as variedades lingüísticas ajudam no processo de alfabetização e, como tal, deve-semostrar aos discentes as mais diferentes formas de linguagem (verbal e não verbal): o que são,para que servem, quando e como utilizá-las. Quando a criança está alfabetizadaA criança ou qualquer outra pessoa está alfabetizada quando ela for capaz de fazer perguntasa respeito da formação das palavras porque já introjetou que a escrita é um código e, comotal, possui regras estabelecidas que devem ser seguidas.Uma criança alfabetizada é aquela que tem a noção precisa de que a língua não se inventa acada dia, que as palavras pertencem a todos e que foram compostas a partir de determinadasregras; que o sistema lingüístico é flexível, pois novas palavras estão continuamenteaparecendo, mas todas elas surgem de forma coerente com o próprio sistema.Se a criança compreende isso, ela vai tentar seguir as tais regras de formação vocabular, deadequação sintática e semântica e será capaz de ler, compreendendo os significados dostextos, assim como de escrever suas próprias produções textuais. A alfabetização não se
  2. 2. resume em um processo de conhecimento das letras, mas de como elas se combinam, quaissão as possibilidades que elas contêm de se aglutinarem formando sílabas, destas sílabas sejustaporem formando palavras e de palavras comporem frases e textos. Diferenças entre alfabetizar e letrarNos dias de hoje, em que as sociedades do mundo inteiro estão cada vez mais centradas naescrita, ser alfabetizado, isto é, saber ler e escrever, tem se revelado condição insuficientepara responder adequadamente às demandas contemporâneas. É preciso ir além da simplesaquisição do código escrito, é preciso fazer uso da leitura e da escrita no cotidiano, apropriar-se da função social dessas duas práticas; é preciso letrar-se. O conceito de letramento, emboraainda não registrado nos dicionários brasileiros, tem seu aflorar devido à insuficiênciareconhecida do conceito de alfabetização. Entretanto, estudiosos o conceituam para melhorentendimento do assunto.Letramento é o estado em que vive o indivíduo que não só sabe ler e escrever, mas exerce aspráticas sociais de leitura e escrita que circulam na sociedade em que vive: sabe ler e lê jornais,revistas, livros; sabe ler e interpretar tabelas, quadros, formulários, sua carteira de trabalho,suas contas de água, luz, telefone; sabe escrever e escreve cartas, bilhetes, telegramas semdificuldade, sabe preencher um formulário, sabe redigir um ofício, um requerimento. Portanto,letrar é mais do que alfabetizar: é ir além da simples aquisição do código escrito, é fazer uso daleitura e da escrita no cotidiano, apropriar-se da função social dessas duas práticas.Alfabetização, por sua vez, é orientar a criança para o domínio da tecnologia da escrita, éensiná-la a ler e a escrever. Então, alfabetizar consiste no aprendizado do alfabeto e de suautilização como código de comunicação.Ainda temos: o letramento “focaliza os aspectos sócio-históricos da aquisição de um sistemaescrito por uma sociedade” (TFOUNI, 1995), e, é o estado ou condição de quem não apenassabe ler e escrever, mas cultiva e exerce as práticas sociais que usam a escrita (SOARES, 2003:56-57). Como podemos alfabetizar letrandoO professor deve fornecer ferramentas para o aluno construir o seu processo de aprendizagemda leitura e escrita.Na etapa inicial, isto é, na Educação Infantil, a escola tem obrigação de ajudar o aluno a seapropriar da escrita alfabética e informatizar o seu uso.Para realizar essa tarefa, o professor não deve deixar o aluno se esforçar sozinho paraentender este processo, ou seja, ele deve ter o papel de mediador. O professor deve ajudar oaluno a refletir sobre palavras retiradas de textos lidos (além de outras que são significativaspara o aluno).É essencial praticar a leitura e a escrita no cotidiano escolar “trabalhar com palavras”,propiciar aos alunos refletir sobre elas, montá-las e desmontá-las.
  3. 3. Nessas ocasiões, mesmo ainda sem saber ler convencionalmente, os alunos poderão seapoderar de algumas estratégias de leitura que podem ser antes, durante ou depois dela, taiscomo: estratégias de antecipação, de checagem de hipóteses, de comparação, entre outras (utilizadas por um cidadão letrado).Explorando e, também, produzindo textos observados pelo professor ou por outro aluno já“alfabetizado”, os alunos estarão desenvolvendo conhecimentos sobre a linguagem que seutiliza nos textos que percorrem a sociedade letrada.Com base nos estudos e pesquisas atuais, “Alfabetizar letrando” requer: democratizar avivência de práticas de uso da leitura e da escrita e ajudar o aluno a, ativamente, reconstruiressa invenção social que é a escrita alfabética.Se a escrita alfabética é uma invenção cultural, seguindo as idéias de Vygotsky, os professores,como membros mais experientes da cultura, devem auxiliar os alunos a prestar atenção,analisar e refletir sobre os pedaços sonoros e escritos das palavras.Na década de 80, com Emilia Ferreiro e Ana Teberosky, o professor começou a repensar a suaprática cotidiana em sala de aula. Nos dias de hoje, sabemos que um indivíduo plenamentealfabetizado é “aquele capaz de atuar com êxito nas mais diversas situações de uso da línguaescrita.Dessa forma, não basta apenas ter o domínio do código alfabético, isto é, saber codificar edecodificar um texto: é necessário conhecer a diversidade de textos que percorrem asociedade, suas funções e as ações necessárias para interpretá-los e produzi-los.O processo de alfabetização ocorre durante toda a escolaridade e tem início antes mesmo dacriança ingressar na escola. Implica em tomar como ponto de partida, o texto, pois este érevestido de função social e não mais as palavras ou sílabas sem sentido.O professor deve buscar um vocabulário que tenha realmente significado para seus alunos,isto é, que seja retirado das suas experiências. Atualmente, a cartilha não é o recurso maisfavorável à aprendizagem da leitura e da escrita, principalmente, porque não tem qualquersignificado para o aluno e apresenta textos desconexos, apenas garantindo a “memorizaçãodas famílias silábicas”.Para Teberosky, deve ser considerada no processo de alfabetização, a diferenciação entre aescrita e a linguagem. Segundo a autora, a escrita deve ser entendida como um sistema denotação, que no caso da língua portuguesa é alfabetização (conhecer as letras, suaorganização, sinais de pontuação, letra maiúscula, ortografia, etc.).A linguagem escrita é definida como as formas de discurso, as condições e situações de usonas quais a escrita possa ser utilizada (cartas, bilhetes, notícias, relatos científicos, etc.)Inicialmente, o professor precisa tomar por base o texto e não mais as palavras-chaves. Otexto deve ser o elemento fundamental para inserir a criança no universo letrado.Além da escrita espontânea, pode ser considerado também o trabalho com modelos, quepossibilitam as crianças comparem suas hipóteses com o convencional.
  4. 4. Através de listas de palavras de um mesmo campo da semântica (brinquedos, jogos prediletos,comidas preferidas, personagens de livros e gibis, nomes dos alunos da classe, frutas, dasparlendas e de outros textos), as crianças, hoje, podem ampliar suas concepções e progredirna aquisição da base alfabética como na compreensão de outros aspectos (a grafia correta daspalavras, o uso de sinais gráficos, etc.).Simultaneamente, os diversos tipos de texto necessitam aparecer como objeto de análise,propiciando aos alunos diferenciá-los, conhecer melhor suas funções e característicasparticulares. Para que isso ocorra, é essencial que saibam interpretá-los e escrevê-los.A expressão pessoal (bilhetes, cartas, diários, receitas culinárias, etc.) deve fazer parte dotrabalho do professor, N entanto, esta deve vir acompanhada pela escrita de outros textos,inclusive com o apoio de modelos.Cabe à escola, desde a Educação Infantil, alimentar a reflexão sobre as palavras, observando,por exemplo, que há palavras maiores que outras, que algumas palavras rimam, quedeterminadas palavras tem “pedaços” iniciais semelhantes, que aqueles “pedaços”semelhantes se escrevem muitas vezes com as mesmas letras, etc.Não se trata de apresentar fonemas para que os alunos memorizem isoladamente os grafemasque correspondem a eles na nossa língua. Como o aprendizado do sistema de escritaalfabética é, acima de tudo, conceitual, o que é preciso é que os alunos possam manipular,montar, desmontar palavras, observando suas propriedades; quantidade e ordem de letras,letras que se repetem, pedaços de palavras que se repetem, e que tem som idêntico.O professor deve estimular o desenvolvimento das habilidades dos alunos de reflexão sobre asrelações entre partes faladas e partes escritas no interior das palavras.O uso das palavras estáveis como os nomes próprios e de certos tipos de letra, como a letra deimprensa ou letra script, tem uma explicação.Quanto às palavras que se tornam “estáveis”, o fato de o aluno ter memorizado suaconfiguração, possibilita-lhe refletir sobre as relações parte-todo tentando desvendar omistério daquelas relações; por que a palavra inicia com determinada letra e continua comaquelas outras naquela ordem? Por que falamos tantas (pedaços) sílabas e tem mais letrasquando escrevemos?Quanto ao uso das letras de imprensa ou script, o fato de terem um traçado mais simplificado,e de cada letra aparecer mais separada das demais, possibilitando ao aluno saber ondecomeça e termina cada letra, permite ao aluno investir no trabalho cognitivo, fazer umareflexão necessária à reconstrução do objeto de conhecimento, isto é, o sistema alfabético.O professor deve garantir que as práticas escolares ajudem o aluno a refletir enquantoaprende e a descobrir os prazeres e ganhos que se pode experimentar quando a aprendizagemdo sistema de escrita é vivenciada como um meio para, independentemente, exercer a leiturae a escrita dos cidadãos letrados. Como devemos ensinar a ler e a escrever
  5. 5. O ato de ler é uma atividade complexa que envolve hábitos diários e estratégias de leitura. Aleitura na escola deve trabalhar com a diversidade de textos e de combinações entre eles a fimde tomar esta prática social em aprendizagem.Segundo o PCN:“Para aprender a ler, portanto, é preciso interagir com a diversidade de textos escritos, testemunhar autilização que os já leitores fazem parte deles e participar de atos de leitura de fato; é preciso negociaro conhecimento que já se tem e o que é apresentado pelo texto, o que está atrás e diante dos olhos,recebendo incentivo e ajuda de leitores experientes.A leitura, como prática social, é sempre um meio, nunca um fim. Ler é resposta a um objetivo, a umanecessidade pessoal”. (p. 56-57)Nesse ínterim, cabe ao educador e a família do aluno mostrar caminhos para que a criançagoste de ler. À família cabe auxiliar a criança na leitura de seu mundo e incentivá-la a ler e relero seu contexto sócio-cultural. A leitura em família é também um tempo de elo, de ligaçãoentre seus membros e este contato alimenta conhecimento, troca de idéias, diálogo, afeto,contato com livros/jornais/revistas/etc, bem como, transmite valores emocionais, psicológicos,físicos, cognitivos e lingüísticos.Em sala de aula, se faz necessário além de bons materiais de leitura e próprios de acordo coma idade, o incentivo para a leitura. Inicialmente, na escola, deve-se trabalhar com narrativascurtas, que apresentem início/meio/fim, personagens simples e linguagem clara (ex.: fábulas econtos). O texto deve ser de acordo com o universo do sujeito e que seu conteúdo seja vivo ede interesse do grupo instigando-os ao interesse pela leitura, despertando-os pela curiosidadee crítica. Também se faz necessário o professor mediar estratégias de leitura junto aos seusalunos uma vez que, quanto mais informações um leitor possuir sobre o texto (verbal ou nãoverbal) que lerá, menos precisará se fixar nele para construir a interpretação.Quanto à escrita, processo mais complexo, o educador deve entender que aprender a escreverenvolve dois processos paralelos: o de compreender o sistema da escrita da língua e ofuncionamento da linguagem que se usa para escrever. Feito isto ele planejará suas aulasdefinindo o conteúdo temático de suas aulas no que se refere a aprendizagem da escrita. Ouseja, o conjunto de conhecimentos dos mundos físico e social guardado e organizado namemória do futuro produtor texto. Dessa forma, o produtor de texto elabora sócio-historicamente o seu texto e controla o que e como escreve, vinculado a um gênero textual.

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