Your SlideShare is downloading. ×
Salazar e duarte pacheco não ouviam a mesma música
Salazar e duarte pacheco não ouviam a mesma música
Salazar e duarte pacheco não ouviam a mesma música
Salazar e duarte pacheco não ouviam a mesma música
Salazar e duarte pacheco não ouviam a mesma música
Salazar e duarte pacheco não ouviam a mesma música
Salazar e duarte pacheco não ouviam a mesma música
Salazar e duarte pacheco não ouviam a mesma música
Upcoming SlideShare
Loading in...5
×

Thanks for flagging this SlideShare!

Oops! An error has occurred.

×
Saving this for later? Get the SlideShare app to save on your phone or tablet. Read anywhere, anytime – even offline.
Text the download link to your phone
Standard text messaging rates apply

Salazar e duarte pacheco não ouviam a mesma música

4,336

Published on

Trata-se de um ensaio sobre as relações político governativas do ditador Oliveira Salazar com o seu Ministro das Obras Públicas, Engº Duarte Pacheco, acerca da construção de um dispendioso Palácio da …

Trata-se de um ensaio sobre as relações político governativas do ditador Oliveira Salazar com o seu Ministro das Obras Públicas, Engº Duarte Pacheco, acerca da construção de um dispendioso Palácio da Música

Published in: Education
0 Comments
0 Likes
Statistics
Notes
  • Be the first to comment

  • Be the first to like this

No Downloads
Views
Total Views
4,336
On Slideshare
0
From Embeds
0
Number of Embeds
36
Actions
Shares
0
Downloads
4
Comments
0
Likes
0
Embeds 0
No embeds

Report content
Flagged as inappropriate Flag as inappropriate
Flag as inappropriate

Select your reason for flagging this presentation as inappropriate.

Cancel
No notes for slide

Transcript

  • 1. Salazar e Duarte Pacheco não ouviam a mesma música 9 de Maio de 20131Salazar e Duarte Pacheco não ouviam a mesma música- um episódio quase anedótico com o ministro Duarte PachecoJosé Carlos Vilhena MesquitaO período histórico vulgarmente designado por «Estado Novo», corresponde,grosso modo, ao consulado político do Prof. Oliveira Salazar, que como estadistafoi uma das figuras mais marcantes da nossa História. Apesar de ter conduzido osdestinos do país em regime ditatorial durante mais de quarenta anos, a verdade éque ao longo desse longo período conseguiu equilibrar as finanças públicas eevitar que o país entrasse na II Guerra Mundial, para além de ter conservadointacto um vasto império colonial, que se estendia da Europa à Oceânia. Comoera um homem íntegro e estruturalmente honesto, tanto os políticos como oscidadãos em geral, não tinham outraalternativa senão imitarem-lhe osprocedimentos e atitudes. Daí que osportugueses se tornassem, por necessidadee obrigação, extremamente frugais epoupados, adquirissem uma mentalidadeconservadora, rústica, temente a Deus edesconfiada de tudo o que fosse novo,inovador e estranho ao carácter nacional.Salazar era tipicamente um rural emigradopara a cidade, escolarizado num semináriocatólico e intelectualizado numauniversidade muito conservadora, onde oespírito provinciano competia acesamentecom as novas ideias políticas que acabavamde invadir a lusa Atenas no princípio doséculo passado. Coimbra era um vulcão deideias, em cuja lava se caldeavam ideáriosrepublicanos, socialistas e anarquistas, aque se opunham, com a veemênciapossível, os monárquicos e católicosconservadores. Era neste último grupoque se integrava o jovem António deOliveira Salazar, que se distinguira como um aluno austero, rigoroso, frio,parcimonioso e moderado.Salazar e o seu íntimo amigo Gonçalves Cerejeira,nomeado Arcebispo de Mitilene em 23-3-1928.
  • 2. Salazar e Duarte Pacheco não ouviam a mesma música 9 de Maio de 20132Os seus colegas auguravam-lhe um futuro bastante promissor, cujo fadário,porém, não parecia ser aquele que, efetivamente, veio a ter. Lente daUniversidade seria o mais previsível, com as terras da Beira, ali ao lado, aoxigenarem-lhe os pulmões pouco recetivos aos ares da cidade cosmopolita. Maso destino reservou-lhe outros caminhos eoutras exigências, mais consentâneas comas suas aptidões morais e científicas. Aditadura militar foi buscá-lo ao remanso dauniversidade, fê-lo ministro das Finanças edeu-lhe a aura, que nunca perdeu, dehomem honesto e de boas contas. Masquando a crise americana de 1929 assoloua Europa deu origem à chamada “terceiravia”, isto é, ao surgimento dos regimes nazi-fascistas e aos nacionalismos autoritários,nos quais se incluiu o nosso país. As contaspúblicas estavam equilibradas quando acrise bolsista e dos mercados financeiroschegou a Portugal. Salazar tornou-seprimeiro-ministro, transformou a ditaduramilitar em ditadura civil e criou o seu próprioregime: o «Estado Novo» cujo sistemapolítico – o corporativismo – era umaimitação mais suave do fascismo italiano.Para dominar, sem restrições, o aparelho deestado e as organizações sociais, aeducação e os sindicatos, inventou a«União Nacional», que mais não era do que um partido nacional e único.O país foi sendo cada vez mais controlado, moldando-se às exigências e àmentalidade do Chefe. O povo tolerou-lhe as teimosias e perdoou-lhe osexcessos da PIDE durante quase meio século. O espírito austero e poupado deSalazar influenciou profundamente a maneira de ser dos próprios portugueses.Vivíamos praticamente numa autossustentabilidade económica, com base naexploração rural dos campos e na proletarização industrial, controlando aeducação básica e instruindo apenas uma minoria que tomaria a seu cargo osdestinos da nação. O país afirmava-se pobre e vivia como pobre, cerceandoaspirações individuais, nivelando por baixo a distinção, o talento e o génio,restringindo as ambições coletivas e proibindo qualquer manifestação deliberdade que pusesse em causa a autoridade do Chefe.Salazar tinha, em suma, a mentalidade de um feitor de quinta. Preferia nãofazer nada, do que arriscar fazer o que depois não pudesse controlar. OSalazar em 1918, lente de Ciências Económicasda Universidade de Coimbra
  • 3. Salazar e Duarte Pacheco não ouviam a mesma música 9 de Maio de 20133progresso e a distribuição da riqueza poderiam descambar no descontrolo políticode uma nação que se pretendia conservar na ignorância da modernidade cultural,económica e ideológica que vinha soprando da Europa do Norte e do Centro. Ademocracia, para Salazar, era sinónimo de anarquia, porque viabilizaria o retornodos partidos políticos, facilitaria a divisãoda nação em grupos e interessesfinanceiros, assim como abriria as portasà descolonização e desagregação doimpério colonial. E isso para Salazar seriao mesmo que perder a independêncianacional, porque em seu entender sem oimpério o país ficaria à mercê daintegração territorial na vizinha Espanha.Tudo isto porque Salazar sabia que eram,e sempre foram, essas as pretensões do“generalíssimo” Francisco Franco, cujatese apresentada na Academia Militar para a obtenção do generalato, consistiaum plano de invasão de Portugal. Mas, emOutubro de 1940, o ditador espanhol voltaria asustentar a pretensão de invadir Portugal,reunindo-se para o efeito com Hitler, na cidadefronteiriça de Hendaya.1Foi por causa da chamada «Guerra Fria», doequilíbrio geoestratégico no mediterrâneo e naEuropa do Sul, que a ditadura de Salazar semanteve e se prolongou durante quase meioséculo, sob o beneplácito da Grã-Bretanha e,circunstancialmente, dos Estados Unidos. Opróprio John Keynes, famoso economista1A 23 de Outubro de 1940, após a queda da França, Hitler encontrou-se em Hendaya com oditador espanhol Francisco Franco, para prepararam um plano de ataque conjunto a Gibraltar e aPortugal. Assim, a Espanha aceitaria quebrar o pacto de não-beligerância e entrar oficialmente naguerra ao lado dos nazis. Em troca os espanhóis exigiam a anexação de Portugal e a integraçãocolonial de Gibraltar, o Marrocos francês, parte da Argélia, a ampliação da Guiné espanhola e ailha de Fernando Pó. As intensões de Franco amputariam muito significativamente as possessõescoloniais francesas. Hitler achou o plano demasiado ambicioso para a importância do apoio militarque iria receber de Franco. A única vantagem seria fechar os portos de Portugal e privar a Grã-Bretanha do seu mais antigo aliado, o que obrigaria os ingleses a terem que dispersar o seuesforço de guerra pela Península Ibérica. Mas, por outro lado, Hitler receou com isso ofender ocolaboracionismo do governo francês do marechal Pétain, e ter que reforçar a sua ocupaçãomilitar em França, o que significaria um esforço acrescido para os seus planos futuros de guerra,nomeadamente o da previsível invasão da Rússia. A intenção de Franco era levar a cabo umataque surpresa, com um exército de 250 mil homens, sobre as fronteiras portuguesas do interiornorte e do sul, coordenado com uma ofensiva hispano-germânica sobre Gibraltar (operação Félix).Estação ferroviária de Hendaya, em 1940, Hitlerencontra-se com FrancoOs ditadores saudando as tropas nazis
  • 4. Salazar e Duarte Pacheco não ouviam a mesma música 9 de Maio de 20134britânico, criador das teorias macroeconómicas do moderno pensamentoeconómico (em oposição às ideias neoclássicas dos mercados) a que chamaram“escola keynesiana”, defendia a necessidade de manter a ditadura salazarista e oimpério lusíada, para impedir a contaminação comunista na Europa do sul e nomediterrâneo. Embora a política económica de Salazar estivesse muito longe dasideias de Keynes, o certo é que a estabilidade e o pacifismo político da ditaduralusa convinham sobremaneira aos interesses dos EUA, da GB e da própriaNATO.Apesar de Salazar ser um ultraconservador, antidemocrata e antipartidário, deespírito rural, atreito a modernismos e inovações reformistas, teve no seio do seuprimeiro governo uma figura de marcante iniciativa, contagiante ativismo,destacado empreendedorismo e de fulgurantereputação, que foi o Eng.º Duarte Pacheco. Não foium convicto partidário do corporativismosalazarista, até porque nas manifestações oficiais epúblicas, em que intervinha, não fazia a saudaçãofascista nem evidenciava o júbilo esfusiante, quasefanático, dos outros ministros e acólitos do «EstadoNovo». Inclino-me a aceitar que Duarte Pacheconunca foi um fascista, na verdadeira asserção dotermo, mas já não tenha dúvidas quanto às suas convicções nacionalistas.Todavia, essa é uma questão que não vale a pena discutir aqui nem agora.Por certo, e sem controvérsia, é ofacto do Eng.º Duarte Pacheco ter sidoum dos ministros mais queridos eadmirados por Salazar. Embora asmentalidades de ambos fossem, naminha opinião, diametralmente opostas,é indubitável que o dinâmico eempenhado ministro das ObrasPúblicas conseguia convencer sempreo Dr. Salazar a abrir os cordões à bolsae aprovar os seus projetos de fomentonacional. Convencia-o sob o pretextode que o investimento inicial acabariapor se pagar a si próprio, mercê dosproventos colaterais (leia-se fiscais)suscitados pelo progresso e evolução dos tempos. A tática usada era simples.Quando Duarte Pacheco decidia construir um equipamento âncora, isto é, umhospital, uma escola ou até mesmo uma avenida, tratava logo de mandarexpropriar todos os terrenos circundantes, de forma a canalizar as novasInauguração monumento Marquêsde Pombal em Lisboa, em 13-5-1934,Duarte Pacheco Min. Obras PúblicasDuarte Pacheco, Rua de Stº António em Faro, 13-6-1940, inauguração da Exposição dos Centenários
  • 5. Salazar e Duarte Pacheco não ouviam a mesma música 9 de Maio de 20135construções para as renovadas áreas de expansão da cidade, cujos únicosespaços de edificação disponível acabara de espoliar aos seus antigos donospelo valor matricial, o que em vernáculo significa dizer por uma bagatela. Oslucros obtidos com a venda dos terrenos, acrescida da tributação fiscal aduzidacolateralmente, acabavam por amortizar a maior parte do investimento inicial. Eracom este argumento e este astuto procedimento que o Presidente do Conselho sedeixava convencer, usando o dinamismo empreendedor do seu ministro dasObras Públicas para aureolar o regime do «Estado Novo» com obras de fomentopara a modernidade nacional.Por outro lado, na Europa viviam-se tempos difíceis, de escassez e privações,com as nações do eixo mergulhadas numa guerra de impiedosa destruição física,material e espiritual. Nesses tempos de barbárie, Portugal aparecia aos olhos domundo como um oásis de paz e civilização, onde o nosso “fascismo de sacristia”,como lhe chamou Unamuno, parecia dar um exemplo de tolerância e deprogresso. Salazar aproveitou a guerra para vender volfrâmio e outros minériosassim como cereais, víveres eprovisões, para abastecimento dosexércitos beligerantes. Não teve pejoem vender para ambos os lados,abastecendo alemães e aliados,numa desenfreada promiscuidadecomercial, de que resultaramavultados proventos para os cofresdo Estado. Nunca como então asfinanças públicas e a balançacomercial estiveram tão sólidas e tãoequilibradas. Lisboa era o paraíso daEuropa, uma espécie de pequenaParis desocupada, com algunsrefrigérios de felicidade idílica, deque foram exemplo o Estoril (para ascoroas depostas) e Sintra (para osfinanceiros hebreus).Foi neste ambiente de aparentesucesso, prosperidade e progresso,do “fascismo clerical” de Salazar,que o ministro Duarte Pachecotentou convencer o Presidente doConselho de que a cultura não eraum luxo, nem uma manifestaçãoelitista da burguesia, mas antes umInauguração, em 23-6-1940, em Lisboa, da Exposiçãodos Centenários: Salazar fala com João Lumbrales,Carneiro Pacheco, e o grande obreiro da Exposição,Duarte Pacheco; à esquerda António Ferro observacom um sorriso o improvisado Conselho de Ministros
  • 6. Salazar e Duarte Pacheco não ouviam a mesma música 9 de Maio de 20136vetor de dinamização social e uma necessidade tão básica quanto vital. É claroque Salazar concordava com a ideia em abstrata, mas em concreto levantavasempre dúvidas e reticências. Tinha, porém, aquele polimento e cavalheirismo deestadista (a que alguns chamam hipocrisia), para ouvir, com uma paciência depadre confessor, os argumentos culturalistas de António Ferro (que era noassunto o mais persistente) e de Duarte Pacheco (que sendo o menos insistenteera, porém, o mais convincente). Em todo o caso, Salazar mantinha a convicçãode que a cultura era uma espécie de pílula dourada da despesa pública.No âmbito do desenvolvimento e da modernização cultural, consta que DuartePacheco, presume-se que a conselho de António Ferro, convidou em 1934 omaestro Pedro de Freitas Branco para criar e dirigir a Orquestra SinfónicaNacional, que deveria fazer parte dos quadros da Emissora Nacional deRadiodifusão. O maestro Freitas Branco, convém dizê-lo, era então muito famosoem Paris pelas suas interpretações de Ravel, e tudo garantia que Portugal com oseu concurso passaria a fazer parte da Europa Cultural da Música. O difícil erafazê-lo aceitar essa delicada missão. Mas para os aliciamentos patrióticosninguém era mais persuasivo do que Duarte Pacheco (que o digo o próprioSalazar). O maestro aceitou... Todavia, como era um cavalheiro educadíssimo,muito fino e distinto, terá respondido a Duarte Pacheco que embora aceitasseassumir essa incumbência, lamentava não poder cumpri-la integralmente por nãohaver no país uma sala pública para receber e acomodar uma orquestra com aquantidade de elementos necessária para realizar espetáculos de ópera. Convémdizer que o propósito de Duarte Pacheco era criar um programa anual de ópera,para que Portugal pudesse fazer parte do restringido grupo de nações cultas emodernas da Europa.Mas a única sala digna deespetáculos dessa naturezaera o Teatro de São Carlos.Aliás quando o construíram em1793 foi para substituir oTeatro Ópera do Tejo, queruíra com o terramoto de 1755.Porém, decorridos quase 150anos, estava velho edegradado, a precisar deurgentes obras deremodelação, que permitissemalargar o palco e aumentar ofoyer para acomodar uma numerosa orquestra. Só assim se poderiam realizar osmonumentais serões de ópera com que os serviços de Propaganda Nacional,pela mão de António Ferro, pretendiam iluminar o regime.Alçado original da construção do Teatro de São Carlos
  • 7. Salazar e Duarte Pacheco não ouviam a mesma música 9 de Maio de 20137O ministro Duarte Pacheco, no seu espírito criativo e inovador, pensou logo naconstrução de um “Palácio Nacional da Música”, que fosse capaz de receber anova Orquestra Sinfónica, e simultaneamente ascompanhias internacionais de ópera que percorriam omundo inteiro. Como alternativa (numa espécie de planoB) procederia a obras de restauro no Teatro de São Carlospara albergar os espetáculos nacionais de ópera.Logicamente que um edifício novo, construído de raiz,envolvia verbas bastante consideráveis, mas sendo umequipamento cultural tinha o atrativo de poder incluir-se noplano de comemorações centenárias que se avistavampara 1940. No espaço dos seis anos que ainda distavam,as despesas de construção do Palácio da Música ou orestauro do velho Teatro de São Carlos podiam diluir-senos orçamentos anuais do ministério das Obras Públicas.Em todo o caso havia que previamente pedirautorização a Salazar e explicar-lhe o projeto, para que oditador concedesse o aval e assentimento, sabendo-se deantemão que era pouco afeito a coisas culturais e mais avesso ainda a despesaspúblicas com luxos sociais, como eram os que se incluíam no âmbito da culturade elites. Numa reunião de conselho de ministros, o que com Salazar funcionavaem absoluta restrição, isto é, em junção particular e exclusiva com o ministro, oEng.º Duarte Pacheco apresentou a Salazar o projeto de construção do PalácioNacional da Música com os respetivos alçados arquitetónicos, as dimensões, acapacidade do loteamento e, logicamente, as despesas previstas, que ficariamcabimentadas no orçamento do ministério para a realização das ComemoraçõesCentenárias da Independência de Portugal.Estava, por conseguinte, tudo previsto, idealizado e bem sustentado, comoaliás era timbre emDuarte Pacheco. Sóque o Dr. Salazar nãoachou convenientenem urgente avançarcom o projeto. Usou asua tática docostume: em vez dediscordar ou de vetardecidiu adiar. Era aforma polida edelicada para dizerque não aprovava.Salazar, sorriso charmosodesdenhando da culturaFrontaria da Exposição do Mundo Português, comemoração histórica doseventos centenários de 1140, 1640, 1940.
  • 8. Salazar e Duarte Pacheco não ouviam a mesma música 9 de Maio de 20138Mas descaiu-se em dizer que as despesas cabimentadas eram muito avultadas, eque tudo aquilo lhe parecia um exagero para as necessidades do país. Por isso,achava um investimento desnecessário para comprazer uma cultura de elites.O ministro Duarte Pacheco foi aos arames com o argumento do “investimentodesnecessário” pois parecia-lhe que o fomento da cultura não tinha preço. E porisso insistiu na utilidade do projeto e na valorização do investimento, para amodernização e projeção da imagem do país no contexto europeu. Além disso, amúsica era, no seu entender, o sublime alimento do espírito, tão necessário comoo pão para a boca.Salazar não gostou do argumento, e muito menos da metafórica associação damúsica com o pão. Achou-a desprovida de qualquer razão. Por isso lhe pediu quesopesasse bem as suas palavras, pois que a música nos termos das despesasapresentadas não seria o pão nosso de cada dia, mas antes uma espécie de«pão-de-ló das tias para as visitas do domingo». Queria referir-se ao caso muitocomum das senhoras burguesas que ficaram solteiras, mas que continuando aviver desafogadamente e acima das posses comuns, eram visitadas ao domingopelos familiares e amigos para desfrutarem de lautos lanches, nos quais ascrianças comiam pão-de-ló e bebiam preciosos chás das índias. O que Salazarqueria dizer é que as despesas com o Palácio da Música iriam beneficiar umpúblico-alvo muito restrito e possidente, bastante divorciado da realidade de vidaque enfrentava o povo português.É claro que a reunião do “conselho de ministros” terminou com a rejeição doPalácio Nacional da Música, mas com a aprovação das obras de restauro doTeatro de São Carlos, o que já não foi mau.«A Cultura é a fachada de uma Nação, é o que se vê de lá de fora», afirmaraSalazar numa entrevista que dera a António Ferro, pouco tempo antes desteepisódio caricato e hilariante com o seu ministro Eng.º Duarte Pacheco, o maiorespírito empreendedor do «Estado Novo». Só lhe faltou acrescentar que a Culturaera um luxo dos países ricos, ilustrados, livres e democráticos, o que não era ocaso de Portugal.

×