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  • 1. A MULHER NO ESPORTE E NA EDUCAÇÃO FÍSICA
  • 2. INTRODUÇÃO Apesar da mudança de relacionamento entre os sexos, causada pormudanças na estrutura da sociedade e mesmo com as conquistas no campo dosdireitos das mulheres, elas são, em muitos aspectos, inclusive no esporteconsideradas o segundo sexo. Em nossa cultura, o conceito do corpo feminino ainda se parece com o dopatriarcado ;isto é a força associada aos homens e fragilidade e sensibilidade, àsmulheres. Os homens tem o corpo mais livre e sua sensibilidade retraída, pois,quando exposta, ameaça sua virilidade. Já as mulheres não "podem" expor seuscorpos; ao contrário, terão sua imagem associada ao impuro, ao imoral. Suaagressividade é reprimida, porque a mulher é considerada passiva e portantosubmissa. Com isso, a mulher permite que a sociedade lhe imponha uma série devalores, como por exemplo a imagem de mulher vinculada ao lar, ao trabalhodoméstico e aos filhos. E quando trabalha fora enfrenta uma dupla jornada detrabalho, além da má remuneração por ser considerada inferior. Já o homem desdecedo é incentivado a sair de casa, buscar um trabalho, para mais tarde, ser oresponsável pelo capital da família. Para ele a casa é apenas um lugar de descanso. Estas diferenças estão acentuadas até mesmo nas aulas de educação Física,onde meninos e meninas são separados por turmas, por força e por habilidade,limitando o desenvolvimento motor dos mesmos. Assim, este estudo está voltado a uma análise da mulher, na sociedade e noesporte e as consequência que a resistência e à discriminação tiveram naconstrução da figura feminina na sociedade. 1.1) A mulher na sociedade : As diferenças entre os seres humanos são tantas que até permitemdiferenças culturais. O ser humano tem um potencial tão grande para a diferença,que ele nunca deveria ser mecanicamente trabalhado em termos machistas, racistasou etnocêntricos. Essas oposições mecânicas violentam , logo na primeira infância,tanto mulheres quanto homens – elas, reprimidas em sua agressividade, eles,bloqueados na sensibilidade e afetividade (WHITAKER ,1988). Ao longo da história as mulheres sempre estiveram presentes, mas excluídasda história social (HOBSBAWN,1988).Elas são simplesmente incluídas nageneralidade, a quem no máximo poucas linhas são dedicadas. Se as mulheresaparecem, e, frequentemente , como vítimas esquecidas, pela razão de suaexclusão, salvo pouquíssimas exceções. Excluir as mulheres de sua própria história,no entanto, é, em muitos aspectos, um instrumento de discriminação. Para SOARES (1998) a mulher é um sujeito social, historicamentedeterminado, mas a partir de uma história oculta e perdida no emaranhado do poderpatriarcal*. E esse é um fato que precisa ser desvendado como uma alternativa quelhe permita não só se apropriar dessa história, mas também para que possa seconverter em sujeito de sua realidade, em ser social transformador de si e de seugrupo. O autor relata ainda que situada na posição de oprimida por falta de opções amulher permitiu que a sociedade lhe atribuísse uma série de culpas, e ela própriagera em si esse sentimento, o que inviabiliza sua ascensão e permite que seudestino seja acoplado ao do homem ao qual se liga, bem ao contrário desse, 2
  • 3. preparado para a certeza de vislumbrar um caminho a seguir. Dessa maneira amulher acaba sempre por refletir a cultura que partilha. Vários autores constatam que desde as primeiras sociedades hominíades aatuação do homem era no trabalho e da mulher em casa e esse modelo aindapersiste em muitos locais na sociedade atual. Na Pré-história cabia à mulher cuidar dos filhos e do homem caçar; naAntiguidade era o ser procriador, na Idade Média, mãe, mas ao mesmo tempo objetode pecado e luxúria. Com a chegada da Idade Moderna muitas coisas mudaram masa posição social da mulher praticamente não mudara . BRUNHS (1995) descreve a mulher está assim presa à família e a tudo queela simboliza em termos de valores : o mito da mulher-mãe e da esposa submissa,voltada para o mundo interno da casa e cercada de uma série de qualificativos quedefinem um padrão ideal de mulher. PFISTER (1997) relata que teorias Darwinistas foram associadas a idéiaseugênicas e influenciaram a idéia de diferença sexual, natural realçando aimportância da maternidade e melhoria da raça. O que só veio a realçar que asdiferenças entre os sexos, eram naturais biologicamente determinadas eirrevogáveis, por um lado, e a necessidade da divisão específica de genêro notrabalho, por outro. Estas idéias tiveram um impacto decisivo na determinação dospapéis do homem e da mulher na sociedade. Segundo a autora (1997) a nova antropologia dos sexos aponta paracaracterísticas pretensamente naturais e inatas que distinguem homens e mulherespara sustentar suas características pretensamente naturais, elemento constituinte doesclarecimento, difundiu a idéia de que o ser humano é um indivíduo livre e racional,cuja liberdade deve ser regulada para o benefício da sociedade, ser o senhor de simesmo, entretanto era- no mais verdadeiro sentido da palavra- somente possívelpara membros do sexo masculino, desde que a declaração universal pela liberdadee igualdade foram associados com traços físicos do homem branco. Diferençasbaseadas em sexo ou raça, pele escura ou no corpo feminino foram associadas ainferioridade. As personagens masculinas são ilustradas e descritas mais frequentementecomo ativas, agressivas e em contextos externos; as femininas tendem a serilustradas e descritas em contextos mais protegidos e em atitudes mais passivas eafetivas. Enquanto o homem aparece como um ser voltado para o mundo contandocom o espaço da atuação física, temporal, profissional e cultural amplo, a mulhertem uma atuação mais restrita e voltada sobretudo para a família e a vida doméstica. * Para SOARES (1998) patriarcal é o que visualiza a mulher sempre pela óticada inferioridade e relega à posição de submissão. Categoria que ao longo dosséculos vem sofrendo a opressão e dominação dos grupos de reinvindicatórias devários movimentos sociais que eclodem em nosso país e em todo mundo. Segundo WHITAKER (1998) a mulher sujeita à dominação masculina, torna-se responsável pelo espaço doméstico da família e do lar, ou seja, o espaço privado.Vista uma pessoa frágil e dócil, ela não esta preparada para enfrentar o mundo. Oshomens sim, fortes, inteligentes, e capazes podem e devem comandar os espaçospúblicos, o mundo do trabalho, e tomar decisões dentro e fora de casa. Com issopodemos dizer que o espaço do homem é a rua e da mulher a casa. A Igreja Católica também teve um papel fundamental na construção do corpofeminino, levando- o a um conservadorismo e enfatizando o seu lugar como rainhado lar (SOUZA, 1994). 3
  • 4. No campo ou na cidade o ambiente comum era o lar; não participavam dapolítica, da economia e do mercado de trabalho. Mesmo assim algumas mulherescuidavam do ambiente familiar (filhos, maridos, atividades domésticas) e tambémexerciam tarefas além das do lar, geralmente mulheres de camadas mais pobreseram as que trabalhavam, e quando isso acontecia exerciam um papel econômico esocial não aceitos pela sociedade masculina e ignorado pelas outras mulheres dasclasses economicamente mais elevadas. Com a era Pré- industrial, a população nas cidades começou a aumentar e ohomem não suportava mais sozinho os gastos familiares. Lentamente as mulherespartiram para o mercado de trabalho, onde o sexismo era ainda mais evidente. Aremuneração feminina era bem inferior, as condições de trabalho eram piores e sóestavam presentes em setores de pouca resistência masculina (HOBSBAWN, 1988). Por isso as concepçõs de ordem social burguesa pregavam tanto a hierarquiaquanto a polaridade de sexos. Só assim a divisão de trabalho entre os sexos poderiaser vista como uma classificação sensata e como solução "natural" (FREVERT,1986citado por PFISTER, 1993) da força masculina versus a fragilidade feminina. Com o advento da industrialização, surgiu a classe das operárias. Mulheresde classes sociais mais baixas que precisavam aumentar a renda familiar ,contribuindo com peças e instrumentos para a casa , ou em tempos de recessãoajudar a colocar comida na mesa, ou ainda aquelas que precisavam sustentar-secomo era o caso das viúvas, divorciadas e " solteironas". Mas a imagem da mulherfrágil e delicada sempre estava presente por isso eram indicadas para trabalhos demenor esforço físico como a tecelagem. A natureza da participação da mulher está na imagem, em correspondênciacom seu lugar real na cidade. Onde está o "povo" a mulher está energicamentepresente(...). Nas classes, em contra partida, ela tem mais dificuldades em encontrarseu estatuto, pois as classes são estruturadas em torno dos elementos que não lhesão familiares: a produção,o salário e a fábrica. Na cidade dos bairros, elas estãoextraordinariamente presentes (PERROT,1988). Segundo HOBSBAWN (1988) as causas da ascensão de uma economia deserviços e de outras ocupações terciárias proporcionaram às mulheres umavariedade de empregos femininos e enquanto isso consequentemente o aumento daeconomia do consumo fazia delas um alvo de mercado, pelo óbvio motivo de queera muito promissor ganhar dinheiro por intermédio de quem decidia a respeito damaior parte das compras de uma casa. Era preciso trata-la com maior respeito, pelomenos da parcela desse mecanismo da sociedade, pois começava a surgir oconsumo em grande quantidade. Após a revolução econômica, a situação das mulheres começou a se alterar,pois havia uma necessidade de mudança, e aos poucos elas perceberam seuspoderes enquanto classe. Em meados do século XIX, na França, estas começarama administrar o salário de seus maridos operários juntamente com as economiasobtidas através de seus singelos trabalhos." Administrar a miséria, é antes de tudosacrificar-se. Apesar disso, é também a base do poder das donas de casa, ofundamento de suas intervenções, muitas vezes estriptosas nas cidades (PERROT,1988). As atividades desenvolvidas pelas mulheres das classes mais baixaspossuíam um caráter de "ajuda" na obtenção de recursos para a família.Paralelamente, as mulheres de classe média no final do século XIX começaram adominar empregos em lojas e escritórios, e mais tarde o magistério. O aumento nas 4
  • 5. instituições de ensino foi determinante para essa conquista, pois com o estudo elaspodiam ocupar cargos melhores e obter um salário melhor que das operárias. Foi na classe média onde houve uma mudança notável na posição e nasaspirações das mulheres, sendo a expansão secundária para meninas o mais óbviosintoma desta mudança (HOBSBAWN , 1988 ). O ambiente feminino da classe média era outro, mas não a condição socialocupada por ela. Nesta classe, as condições de chegar a pertencer a burguesia fezcom que ocorressem mudanças de cunho econômico e social (HOBSBAWN, 1988).Essa busca de mudança a nível de condição econômica e social fez com que,gradativamente, a condição social feminina também se alterasse. Com o aumento do número de pessoas alcançando o status de burguês,houve um afrouxamento das estruturas familiares, entre elas a emancipação damulher que tomou cada vez mais lugares fora do interior de suas casas. A mulher começa a descobrir o espaço da rua e das praças, e é no âmbitodos passatempos desportivos que ela vai fincar suas raízes para além dosparapeitos das janelas. São nesses espaços que as damas vão-se expor-se deforma mais completa. Antes, todo tempo circunscrita ao espaço de casa, sempre seretirando quando da chegada de um estranho ou visita, só vivendo entre acriadagem e o gato, ou o papagaio de estimação (LUCENA , sd ). A rua indica o mundo, seus imprevistos, acidentes e paixões, ao passo que acasa representa um universo controlado onde as coisas estão nos seus devidoslugares. Por outro lado, a rua implica movimento, novidade, ação, ao passo que acasa subentende harmonia e calma, local de calor e afeto. Pouco a pouco as mulheres abandonaram os corpetes, os salopetes ecomeçaram a utilizar roupas que permitiam maior amplitudes de movimentos. Umamaior liberdade de movimentos adquirida dentro da sociedade, tanto em seusdireitos como pessoas quanto em suas relações com os homens. 1.2 ) O Esporte Moderno : Para entendermos a entrada da mulher no esporte, antes, é precisoconhecermos em cima de quais pilares o esporte moderno foi construído. Mudanças na vida social. Formação da mais nova classe : a burguesia. O que inicialmente identificava o status burguês - o acúmulo de bens e deriqueza – já não o era exclusivamente. Além do poder financeiro, a prática de umaatividade que ocupasse o tempo de ócio dos senhores, como a nova invenção, oesporte moderno, era um desses itens. Não necessariamente uma nova invenção,mas uma transformação dos jogos em esporte moderno. O esporte (...) formalizado na Inglaterra (...) alastrou-se como um incêndio aosdemais países. Em seu início, sua forma moderna foi associado à classe média ealta. Os jovens aristocratas poderiam experimentar (...) qualquer forma de proezafísica, mas o campo em que se especializavam era o dos exercícios ligados àequitação e à matança ou pelo menos ao ataque aos animais e às pessoas (...) NaInglaterra, a palavra "esporte" era restrita a tais atividades, sendo os jogos ecompetições físicas (hoje chamados esporte), classificados como "passatempo"(HOBSBAWN, 1988). A Inglaterra foi pioneira na divulgação do esporte entre a população industrialurbana. Mas isso se deu porque após a Revolução Industrial surgiu a classeoperária e com ela os sindicatos de trabalhadores que pouco a pouco conseguiamvitórias importantes como a redução da jornada de trabalho. Assim, a classe 5
  • 6. dirigente que estava sentindo-se ameaçada, viu a necessidade de organizaratividades que "afastassem" a classe trabalhadora dos comícios socialistas ereuniões sindicais e, simultaneamente, controlassem a agressividade dos homensrudes" (SILVA citado por RABISTEK, 1997) . O esporte retorna às classes menos favorecidas depois da apropriação daburguesia e a transformação dos jogos populares em esporte; sua difusão e o "real"surgimento da classe média. A divulgação em todos os segmentos sociais e o inícioda prática esportiva pelos menos favorecidos, tornou o esporte moderno umdistintivo para as diferentes classes. Havia nos esportes um fator de distinção social, como se o praticante dessaou daquela modalidade fosse identificado como sendo dessa ou daquela posiçãosocial. De um lado representava a atividade de formar uma elite dominante e poroutro "uma tentativa mais espontânea de traçar linhas que isolassem as massas,principalmente pela ênfase sistemática no amadorismo como critério do esporte declasse média e alta" (HOBSBAWN, 1988). Enquanto o boxe, a luta livre, o futebol e o ciclismo caracterizavam-se comoesportes do proletário pois proporcionavam aos seus praticantes a capacidade dedominar o próprio corpo; o tênis e o golfe eram praticados por pertencentes da elite. Isto posto, observa-se que o esporte moderno iniciado na Inglaterra eapropiado pelo mundo, foi uma prática onde interesses políticos-econômicos-socias,definiam e ajudavam a manter a estrutura social. 1.3 ) A mulher no esporte e na Educação Física : Como pudemos constatar no primeiro capítulo, a mulher na sociedade, foigrande a resistência à participação das mulheres na sociedade, a história delas noesporte não é diferente, pois a cultura esportiva seguia os traços patriarcais dacultura vigente na sociedade. Para (RODRIGUES, 1986 citada por SIMÕES e MOREIRA, sd) cada cultura"modela" ou "fabrica" à sua maneira um corpo humano. Toda sociedade preocupa-se em imprimir no corpo, fisicamente, determinadas transformações, mediante asquais o cultural se inscreve e grava sobre o biológico, arranhando, rasgando,perfurando, queimando a pele. A cultura tornou-se responsável por destacar ou não as diferenças entre ossexos e também por promover um ou outro a superior. Sabe-se que preconceitos e estereótipos sexistas tem relação com papéissexuais existentes na sociedade e que esses papéis são reflexos das estruturassócio-políticas e econômicas vigentes (AZEVEDO, 1988) . Por outro lado, o autor fazreferência à estudos como Mead (1971) e Mota (1985) que ratificam a teoria de quepapéis sexuais são antes de tudo aquisições culturais e não unicamente resultantede fatores orgânicos. Para AZEVEDO (1988) ainda constata-se que tendo como base concepçõessociais formulam-se restrições ou mesmo proibições à mulher na área desportiva,tais como a que limita sua participação em determinadas modalidades desportivas. As mulheres tiveram que lutar muito para obter uma participação nasociedade e no ambiente desportivo, mesmo que no começo como acompanhantesde seus maridos. A participação custou a acontecer justamente por estarem ligadosa valores culturais muito fortes. Para FERREIRA (sd) as questões sócio culturais dasrelações de gênero não podem ser quebradas repentinamente. O passado damulher, particularmente da brasileira, ligado ao patriarcado e ao machismo está 6
  • 7. presente no esporte, cujas raízes por sua vez européias também foram marcadaspela diferença de gênero e classe social. E muitas vezes, principalmente no início do esporte moderno, o esporte e acultura física só vieram acentuar essas diferenças sociais de gênero. SegundoPFISTER (1997) é preciso enfatizar que a cultura física não desempenha um menor,mais um maior papel na construção da hierarquia de gênero, cuja legitimaçãopreocupa-se nas diferenças entre os sexos e nos diferentes traços de personalidadecausados por elas. Nos séculos XVIII e XIX novas formas de cultura física forma desenvolvidasem países da Europa. Na Alemanha, foi chamado de "Turner" (forma de ginásticacaracterizado por exercícios militares) ; na Inglaterra foi chamado de "esporte".Essas novas formas foram relacionadas ao desenvolvimento social e àmodernização que invadiu a Europa – padrões racionais de pensamento, ascensãoda burguesia, o início da revolução industrial, etc. Turner e esporte foram criados pelo homem e para o homem e um de seuspropósitos foi a apresentação da elite e da masculinidade. Embora ambos osconceitos preguem uma participação geral, nem as classes mais baixas nem asmulheres foram incluídas. Para PFISTER (1997) no caso do "Turnen" o que estava acima de todaimportância da atividade era a defesa, vida pública e política, no caso do esporte,foram os princípios de competição que fizeram a exclusão das mulheres tão óbvia. Os homens, principalmente os burgueses em busca de ocupação parapreencher seu tempo ocioso, dominavam os esportes não só em termos dequantidade, eles também determinavam o que é esporte e o que não é, de que tipode esportes as mulheres devem participar e quais são os padrões válidos. Outro fator que afastou a mulher da prática esportiva é que as atividades emquestão estavam, e estão, de certa forma intensamente associadas a componentesviris, vinculados a agressividade, competitividade e força física - atributos doguerreiro, incompatíveis com o pudor, a fragilidade e a doçura – atributos da fêmeaque procria. " É certo que enquanto o esporte for considerado apenas como umtreinamento para melhorar o domínio do corpo tendo em vista o combate, ou comouma forma sublime de competição, ou de julgamento de Deus (que vença o melhor),observa-se que aí não há espaço para que a mulher participe." (CREFF e CONU,1982 citado por ROSEMBERG, 1995) O esporte era e muito uma representação da sociedade patriarcal,principalmente se analisarmos sob a ótica da violência. As raízes dos esportes deconfronto modernos podem ser determinadas diretamente a partir de variaçõeslocais medievais e dos jogos populares modernos. Jogavam-se de acordo com asregras transmitidas oralmente, pelo meio das ruas, cidades e através dos campos.Não existiam agentes de controle "externos" como árbitros e juízes. Apesar dasdiferenças que existiam entre eles, uma das características essenciais de tais jogos,em relação aos desportos modernos consistia no elevado nível de violênciamanifesta que implicavam. Como é evidente, jogos deste tipo correspondiam àestrutura de uma sociedade em que os níveis de formação do Estado e dodesenvolvimento social eram de um modo geral, relativamente reduzidos, onde aviolência era uma característica mais regular e manifesta da vida quotidiana e oequilíbrio de poder entre os sexos inclinava-se nitidamente a favor dos homens. Emresumo, estes jogos populares expressavam uma forma extrema de regimepatriarcal (DUNNING, 1985) . 7
  • 8. Uma das grandes preocupções que giravam em torno das mulherespraticarem esportes, tanto dos homens como das próprias mulheres, inclusive deMaria Lenk *, era de que o esporte e a Educação Física masculinizassem a mulher. Percebemos essa preocupação no trecho do livro de fisiologia esportiva dePINI (1978) apud ROSEMBERG (1995) : " (...) queremos nos referir às consequências traumáticas e/ou estéticas quese podem instalar, as quais são, até certo ponto, indesejáveis para o organismo damulher. Isto, no entanto, sem pretendermos chegar ao extremo de admitir aesterilização e a virilização da mulher pelo esporte o que realmente não ocorre." Mas PINI justifica ainda em seu livro, dizendo que as mulheres podiamparticipar das modalidades esportivas, no entanto não deveriam fazê-lo . Mesmo depois da inserção da mulher no esporte esses argumentoscontinuam presentes. Para MYOTIN (1995) citado por ROSEMBERG (1995) a mentalidademachista influenciava e influência na opção pela modalidade esportiva Em geral ajovem mulher escolhe aqueles esportes que *Maria Lenk foi em, 1932, a primeira brasileira a participar dos JogosOlímpicos ( Los Angeles), competindo na natação. não a masculinize, como voleibol, ginástica, natação e aeróbica. O atletismo eo basquete ainda são modalidades impregnadas de preconceitos. Mas apesar de todos esses preconceitos o mundo esportivo, inserido nagarra, na força, na disputa, na alta competitividade foi incorporado por bravasmulheres guerreiras, lutadoras entre si nas quadras, pistas, piscinas, porém unidasna luta maior, a dos obstáculos mais difíceis de serem transpostos- Segundo FERREIRA (sd) o futuro da mulher no esporte dependia dasociedade, mas principalmente dela própria. Este processo de desenvolvimento de "independência" feminina no esporte,talvez esteja associada a idéia de que as mulheres, começam a apresentar maisações unificadas do que no passado. Este fato segundo DUNNING (1985) é umponto que permite o equilíbrio de poder entre os sexos, ganha consistência namedida em que se valoriza cada vez mais, a própria pessoa. Nas sociedadesantigas, as ações em grupo predominavam sobre as ações individuais, e os homensapresentavam um poder maior de se organizar unidos muito maior que as mulheres. De acordo com PFISTER (1997) as mulheres reagem de diversas formas àdominação masculina no esporte, podendo abster-se completamente do esporte, poroposição ou condescendência; aceitando a situação das mulheres no esporte; lutarpela completa integração no esporte; ou finalmente procurar por uma cultura físicaalternativa. Segundo a autora ainda, por trás dessas estratégias, repousam noçõesteóricas comuns da "natureza" dos dois sexos, que são situadas em algum pontoentre os pólos da igualdade e diferença. Aqueles que estão convencidos de queambos os sexos – independente de mínimas diferenças físicas – são os mesmos, àprincípio tentarão provar isso através da melhora de performance, lutando contra adiscriminação e adquirindo os mesmos privilégios que os homens. Aqueles, poroutro lado, que acreditam que os dois sexos são diferentes aceitarão o status quo ouprocurarão alternativas fora do sistema de esporte tradicional e estrutura de valores. No século XIX, devido ao que diz respeito à "saúde pública" (incluindotambém o controle da sexualidade feminina e interesses financeiros), doutores eeducadores começaram a defender exercícios corporais para meninas e mulheres. Aparticipação das mulheres no "Turnen" e no esporte teve, a partir de então, efeitos a 8
  • 9. longo prazo: primeiramente, levantou forte oposição; em segundo lugar, teve grandeinfluência na discussão sobre gênero; e em terceiro lugar, modificou concepções,definições e associações a feminilidade sem remeter-se, entretanto, àsinterpretações biológicas. Na prática, certas propriedades, mas ainda no campo dahigiene e estética, foram delegadas às mulheres, ou identificadas como "coisas demulher". Não só a ginástica, mas, acima de tudo, o ensino do "Turnen" para asmeninas, assim como o treinamento de professoras, foram destinadas às mulheres. Saúde e beleza são identificadas não mais como um dom divino mas comoconquista individual – um capital, um investimento, uma mercadoria, cujos produtosvão crescer e multiplicar. Cresce o consumo, cresce a produção, cresce a carênciade mão-de-obra, cresce o trabalho feminino, cresce a educação do gesto, cresce anecessidade do lazer e do equilíbrio da energia física, crescem as opções corporaise esportivas, torna-se mais visível o corpo da mulher. Num ambiente de crescentes mudanças e de modernização a práticaesportiva, o cuidado com a aparência, a mudança de atitude, o desnudamento docorpo, o uso de artifícios estéticos ainda eram identificados como de naturezavulgar, se bem que em menor intensidade, não só por moralistas, médicos, juízes ereligiosos mas por grande parte das próprias mulheres, inclusive por muitasfeministas, que como os outros são portadores de uma rígida moral cujos preceitosdenunciam, nessa atitude modernizadora um ato de desonra (GOELLNER, sd). HOBSBAWN (1988) apresenta três sintomas da mudança de posição e dasaspirações das mulheres no final do século XIX. O mais notável foi a "expansão daeducação secundária para meninas", o segundo foi "a maior liberdade demovimentos adquiridos por elas dentro da sociedade, tanto em seu próprio direitocomo pessoas quanto nas relações como os homens"; e o terceiro, a "atençãopública, acentuadamente maior, concedida às mulheres, como um grupo quepossuía interesse e aspirações especiais como pessoas." Sem dúvida, a escola teve um papel fundamental ao acesso a EducaçãoFísica para a mulher. Existia no entanto, a tendência em atribuir à mulher umacaracterística peculiar, no sentido de preservá-la de determinados maléficos que oesporte pudesse causar a sua saúde e maternidade (CASTELLANI, 1982 citado porFERREIRA, sd). No final do século XIX, as garotas no sistema inglês de educação tinhamacesso á educação secundária e superior. Apesar de uma certa oposição, muitosfatores de educação dos rapazes foram adotados, particularmente, normas econteúdos, enquanto ideais vitorianos de feminilidade permaneciam. Até a metadedo século XIX, somente exercícios mínimos, geralmente os calistênicos, eramministrados nas escolas secundárias femininas. Perto do fim do século, contra umasérie de mudanças de papéis das mulheres, um rico debate sobre eugênia,constatou-se a necessidade de organizar e regulamentar a Educação Física parameninas (PFISTER, 1997). E em, 1881, Martina Bergman, especialista em ginástica sueca, foi apontadacomo "superintendente de Educação Física", em escolas de crianças e meninas. Em1885, ela fundou uma faculdade para formar professoras de Educação Física queserviu de modelo para outras faculdades. O treinamento de professoras de Educação Física foi baseado no sistemadesenvolvido pelo sueco Per Henriq Ling. Esse sistema, criado por homens emulheres, consistia em exercícios simples, com ou sem aparelhos, dando a todo ocorpo um programa de treinamento completo com base em conceitos anatômicos e 9
  • 10. fisiológicos. Seus princípios eram estéticos e harmoniosos, assim como a beleza e asaúde. Mas esta forma de exercício era não só compatível com a feminilidade mastambém bem simples de se ensinar. A ginástica nas faculdades e escolassecundárias femininas era suplementada por jogos tais como hockey, bola de rede etênis, tudo pensado em função de valores educacionais (PFISTER, 1997). Contudo,os jogos de equipes encontraram grande oposição, pois eram considerados pormuitos ofensivos às regras de decência, por impôr danos aos corpos e àspersonalidades das garotas, até tornando-as mais masculinas. O mais importante interesse da ginástica sueca e da Educação Física comoum todo, era a saúde das mulheres, que em seus papéis de mães deveriam garantiaque a nação florescesse. É preciso apontar, segundo PFISTER (1997), que as pioneiras na EducaçãoFísica feminina poderiam prosseguir com seu trabalho tranquilamente e sem chamara atenção porque elas nunca entraram no caminho dos homens. Elas reivindicavamdireitos iguais, mas, por outro lado, não tinham a intenção de mudar radicalmente aordem social ou a hierarquia de gênero. Fato que devemos considerar também nessa história foi a dupla resistênciaque as mulheres de classe inferiores enfrentaram nesse processo , pois não tinhamacesso à educação. Gradualmente, a necessidade da Educação Física para garotas foireconhecida e, a partir de então, as professoras de Educação Física em faculdadesfemininas ganharam mais e mais influência, em alguns países com maior facilidade,como nos Estados Unidos e em outros com maior dificuldade como aconteceu naAlemanha (PFISTER, 1997). A autora acima citada faz menção em outra oportunidade que em 1930,Doroty Ainsworth estabeleceu os princípios da Educação feminina em faculdadesfemininas. Seus objetivos eram melhorar a condição física e a saúde dasestudantes, tomar conhecimento de suas reais necessidades visando a diferentesmotivos, habilidades e aptidões, que elas trazem consigo, e motivá-las a praticaresporte após o horário de aulas. Não era uma questão de oferecer o esporte a umpequeno número de atletas talentosas e demonstrar a eficiência da faculdade, massim de alcançar o máximo de meninas possível e integrá-las no esporte. Como uma aletrnativa aos esportes de competição as faculdades organizaram"dias de jogos", quando a brincadeira e a recreação, cooperação e companhiatomaram lugar da competição e quebra de recordes (PFISTER, 1997). A ideologia e prática da segregação dos sexos no esporte perdeu muito deseu significado durante a segunda onda do movimento de direitos das mulheres, nosanos 60 e 70. Em universidades e faculdades, o então chamado Título IX trouxe aigualdade (no papel pelo menos) entre atletas masculinos e femininos, embora essaigualdade não tenha contemplado as necessidades femininas. As educadoras perceberam porém, que os sexos eram diferentes e que porisso seria necessário ter suas prioridades separadas e uma forma diferente deeducação. Elas acreditavam na existência de qualidades específicas que segundoAinsworth, deveriam ser refletidas nos esportes femininos. Essa visão ocasionoudiversas divergências entre as próprias instituições femininas como nos EstadosUnidos. As visões e atividades das organizações esportivas femininas neste país,incluindo a Divisão de Mulheres da Federação Atlética Amadora, estavam totalmenteem desacordo com as iniciativas de outras organizações esportivas femininas, comopor exemplo a FSFI ( Federação Internacional Esportiva Feminina). Enquanto o lema 10
  • 11. das mulheres americanas era "jogue por jogar", a FSFI entrou na luta para aadmissão de mulheres nos Jogos Olímpicos. A luta por essa admissão. no entanto, não foi fácil, principalmente pelaintolerância do próprio Barão de Coubertin, idealizador dos Jogos Olímpicos.ROSEMBERG (1995) cita o relato feito por Coubertin em ESTEVES citado porPEREIRA, 1984 : " O Barão (Coubertin) argumentava com o axioma de Proust, declarando : ouse fecham, ou se abrem todas as portas. E como o acesso a todas as portas não erapermitido às mulheres, por que permitir-lhes a entrada nalgumas, proibindo-as Àsrestantes ?..." Ele nem se quer permitia a realização de uma Olimpíada Feminina, quesegundo ele seria algo impraticável, desinteressante, inestético e incorreto. Na primeira Olimpíada da era moderna, 1896, não houve a presença demulheres. Coubertin buscou reviver as Olimpíadas Gregas, onde o papel femininoera apenas o de coroar vencedores. Era também um nobre por isso fazia lembrarsempre quais os interesses políticos e sócio-econômicos circundavam os esportes; amanutenção da estrutura social vigente; o poder da elite; e o fato do esporte ser umdistintivo social – esporte profissional versus esporte amador, podendo estes seremitens explicativos para ausência feminina nos Jogos. Nas Olimpíadas de Paris, em 1900, ocorreu a primeira participação feminina.Um número pequeno de dezesseis mulheres disputaram duas provas: o tênis e ogolfe (LANCELLOTI,1996). Percebe-se que mesmo com esse salto, a participaçãode mulheres nos Jogos, a estrutura de classes que envolvia o esporte não se alterou, pois provavelmente as atletas que participaram de tal competição eram filhas deburgueses, já que golfe e tênis eram atividades exclusiva da classe dominante. Pouco a pouco, elas participavam cada vez mais em disputas esportivas e,consequentemente nos Jogos Olímpicos, conseguindo inserções nas federaçõesesportivas envoltas num processo de expansão, aglomerando, defendendo erepresentando atletas em competições, popularizando assim o esporte entre elas. Em Paris, 1924, foram 126 representantes femininas. Esta edição foi marcadapor uma melhora significante na organização e nas estruturas físicas, além daformulação do regulamento da competição. Apesar de deixar bem claro oamadorismo e outras tantas restrições o Cômite Olímpico, ainda presidido porCouubertin, cedeu à insistência das mulheres e consolidou a sua participação,contudo delimitando as fronteiras de suas disputas (LANCELLOTI, 1996). Nestecontexto ficaram claras as limitações impostas para as mulheres, mas essa portaque se abriu serviu acima de tudo para fortalece-las na busca incansável porreconhecimento. Foi em Los Angeles, 1932, que aconteceu a primeira participação da mulherbrasileira nos Jogos. Foi com Maria Lenk, competidora da natação no estilo peito.Apesar da nadadora não ter trazido nenhuma medalha para nosso país, suaparticipação acendeu uma nova expectativa para a Educação Física brasileira , queestava voltada ainda ao sistema de preparação da maternidade futura . A trajetória de Maria Lenk vem ao encontro da história do esporte mundial.Numa entrevista a Lino Castellani Filho, ela relata como começou seu interesse peloesporte : " Meu pai, alemão naturalizado brasileiro, me levou a ginástica para ver se elame ajudava a superar meu frágil estado físico, pois eu havia passado por váriasdoenças infantis, sendo que uma delas, a tosse comprida, aliada à uma pneumoniadupla deixou-me bastante enfraquecida (...) Me levou então, para uma associação 11
  • 12. alemã de ginástica, onde se cultivava até mesmo a ginástica olímpica, na intençãode me proporcionar ginástica além daquela escolar. Mas eu não tinha muita simpatiapela ginástica (...) Então ele procurou outro meio e me levou para uma associaçãode natação também alemã. Natação no rio Tiête, porque não haviam piscinas. Aídentro de pouco tempo aprendi a nadar, quase por mim mesma, isso porque oprofessor dava umas aulinhas, me pendurava numa espécie de anzol e cantava oscomandos para eu fazer. Mas, na realidade eu aprendi depois, brincando dentrod´água depois das aulas. Num instante apareceram as competições, infantis, masque eles chamavam de competições de provas femininas. Aí começou a minhaparticipação em competições. Fui evoluindo, participei do Campeonato interestadual– São Paulo e Rio de Janeiro – ganhando a prova e garantindo minha escalação naequipe que foi aos Jogos Olímpicos em Los Angeles, onde fui a única e primeiramulher sulamericana a participar (...) " (CASTELLANI, 1988). A prática esportiva brasileira estava ainda muito restrita e quanto a prática deatividades físicas pelas mulheres, defendia-se atividades harmoniosas, os esportes"menos violentos e compatíveis com a delicadeza do organismo das mães"(AZEVEDO citado por CASTELLANI, 1988). No Brasil, a exemplo de outros países, a Educação Física esteve diretamenteassociada à vida militar, principalmente reduto de recursos humanos até a criaçãodas escolas de Educação Física. Espaço também velado ás mulheres até há poucotempo. A chegada dos esportes e da Educação Física no Brasil, segundo a literaturadatam do final do Estado Novo. Esse momento da história do Brasil paraCANTARINO FILHO citado por ROSEMBERG (1995). O Estado Novo cristaliza, pelocultivo do corpo masculino guerreiro e do feminino materno, a tendência eugênica. AEducação Física e o esporte neste contexto constituem o instrumento para amelhoria da raça brasileira. Durante um bom tempo no Império, a Educação Física era vedada àsmeninas. PEREIRA (1984) citado por ROSEMBERG (1995) assinala que a Lei nº630, de 1851, que inclui a ginástica no currículo escolar, não faz referência ádiscriminação de sexo. Mesmo que essa menção não exista na lei, e que poucasmeninas tivessem acesso ao ensino, a diversidade de discursos e práticas nasprovíncias parece indicar a persistência de oposição à ginástica feminina. Porexemplo, o regulamento expedido pelo presidente da província do Amazonas, em1852 (ROSEMBERG, 1995). [para os meninos] a instrução compreenderá a Educação Física, moral eintelectual (...); e para o sexo feminino a mesma instrução intelectual, masmodificada, e as prendas próprias do sexo (...) As meninas não farão exercíciosginásticos. O relatório de um diretor de instrução pública do Rio de Janeiro, citado porROSEMBERG (1995) também comprova a oposição : "Repugnância com que foi recebida pela opinião pública a aula de ginástica,principalmente o que se refere ao curso de alunas (...) Foi preciso suspender aexecução e ainda assim houveram pais que proibiram às suas filhas o exercíciosginásticos (...) Chegou a tal ponto a oposição que algumas alunas, aliás, com boafrequência nas aulas, deixaram ir por acinte à ginástica, ficando todavia no edifícioda escola ." Segundo a autora citada a grande proposta formalizada da Educação Físicano geral, e específica para as mulheres, está contida no parecer de Rui Barbosa aoprojeto de 1882. O parecer recomenda a "instituição de uma seção especial de 12
  • 13. ginástica em cada escola primária de todos os graus, tendo em vista, em relação àmulher, a harmonia das formas femininas e as exigências da maternidade futura". A Reforma Fernando Azevedo (1928), que reorganizou os ensinos primário,normal e profissional no Distrito Federal, especifica que a Educação Física "aplicadaà mulher, seria conformada a seu sexo e às suas condições peculiares" (MARINHOs/d citado por ROSEMBERG, 1995). "Concordam [educadores] que para a regeneração do povo é preciso restituirà mulher a saúde, fortemente comprometida, a estabilidade e o equilíbrio (...). AEducação Física da mulher deve ser, portanto, integral higiênica e plástica eabrangendo com os trabalhos manuais, os jogos infantis, a ginástica educativa e osesportes, cingir-se exclusivamente aos jogos e esportes menos violentos e de todocompatíveis com a delicadeza do organismo das mães" (AZEVEDO citado porCASTELLANI FILHO, 1982). É preciso segundo ROSEMBERG (1995), destacar a diferença que sepercebera na mentalidade da época entre o significado de mulheres "executaremexercícios gímnicos" e praticarem esportes. Para AZEVEDO citado por PEREIRA(1984) a atividade física é necessária para a mulher-mãe e dona de casa. "Noesporte, como um campo de predominância masculina com objetivos de vitória,rendimento e sucesso social é que as dificuldades aparecem" Durante a década de 1920 é que se encontra as primeiras referências àexibições esportivas públicas das mulheres no Brasil * e a partir da década de 30elas tornaram-se menos raras. Sendo a natação o primeiro esporte à ser exibido pormulheres em lugares públicos. Foi na gestão de Gustavo Capanema (1931 a 1944) que o então Ministério daEducação e Saúde definiu o programa de Educação Física para o ensinosecundário, estipulando a periodicidade de aulas para rapazes de três vezessemanais e para as meninas duas vezes. Provas e exercícios eram adaptados aossexos. O Estado Novo foi responsável por mediadas normatizadoras da práticaesportiva feminina. Data de 1941, o decreto Lei 3199 que proíbe as mulheres àpratica de lutas de qualquer natureza, futebol de salão, futebol de praia, póloaquático, rugby, halterofilismo e beisebol. CARVALHO (1978) descreve o depoimento de Maria Lenk e Iris de Carvalhoà respeito: (...) é nobre que os legisladores e os dirigentes preocupem-se com a mulher equeiram protegê-la. Tais cuidados não deixam de ser uma discriminação contra ohomem, que fica entregue a própria sorte. Certos esportes por eles livrementepraticados podem ocasionar-lhes lesões irreversíveis. No entanto... não seria maiscerto conferir a mulher o direito de escolher, por livre manifestação de vontade ? * Violeta Coelho Neto, no tanque natatório do Urca, Anésia Coelho e AlicePassalo na travessia da Bahia de Guanabara. Maria Lenk destaca também a proibição da prática do futebol: "Acentuo bem o futebol, porque atribuo a essa restrição, a essa proibição aquase impossibilidade do desenvolvimento do esporte feminino no Brasil (...) Ofutebol é o nosso esporte nacional, e através do esporte se revelam, se projetam oscampeões, os ídolos do povo que merecem imitação. Então veêm-se terrenosbaldios e qualquer local que se preste, transformados, espontaneamente, numcampo ou numa quadra, no caso se não tiver gramado, e é ocupado por quem ?Garotos, meninos. 13
  • 14. Medidas restritivas quanto a prática de Educação Física pelas mulheres aindavieram à luz em 1977 : a Lei 6503 de 13/12/1977 dispõe que é facultativo a práticade Educação Física em todos os graus e ramos de ensino à aluna que tenha prole, oque entre outros fatores trouxe consequências, como o retardamento para aexplosão das mulheres no esporte. As pesquisas realizadas na década de 1980 sobre a participação dasmulheres em atividades esportivas encaminham-se para conclusões semelhantesàquelas contidas em diagnóstico publicado pelo MEC em 1971 : " a participação das mulheres é ainda inexpressiva e o baixo índice deadolescentes federados (...) permite comprovar dificuldades quanto à renovação [ deatletas) principalmente nas modalidades mais sofisticadas" (CNRH, MEC apudROSEMBERG, 1995). Enfim, as tentativas de organização esportiva no Brasil, têm sido inúmeras. Asituação da mulher tem modificado e o número crescente de atletas tem aumentadosignificativamente, mas mesmo assim continuam em menor número. Os órgãos públicos e privados no Brasil têm incentivado o esporte feminino,embora ainda haja preconceitos, tabus e discriminação. Algumas modalidades sãomais aceitas do que outras por serem consideradas "femininas". A história da mulher no Brasil e no mundo, na sociedade e no esporte, evoluiumuito nesses últimos anos, mas vemos em muitas situações ainda, resquícios devalores patriarcais que estão impregnados em nossa cultura. Temos esperança queesse quadro mude e que todas as mulheres recebam não só um reconhecimento,mas um reconhecimento à altura de seus esforços. CONCLUSÃO De acordo com o referencial bibliográfico utilizado conclui-se que a diferençaentre os sexos, que se perpetuam até hoje, tiveram suas raízes à partir de valoressócio-culturais enraízados em nossa mentalidade desde o princípio da convivênciahumana. A humanidade desde então, em vez de buscar as igualdades existentes entreos indivíduos, para monopolizar o poder, criou moldes e estigmas para enfatizar asdesigualdades. A nossa área, de Educação Física, não fugiu desse padrão. O esporte àprincípio foi criado pelo e para o homem – forte e viril – onde a mulher – frágil esensível não tinha espaço. Mas a mulher após longos anos de total submissão, começa a reagir,ganhando seu espaço à curtos passos na sociedade. Uma maior liberdade demovimentos as incentivou a tomar o lugar nas ruas e praças, a conquistar empregose por que não a educação também. E foi neste último item que se iniciou a jornadafeminina na história do Esporte e da Educação Física. Não podemos deixar de mencionar a força e a coragem dessas meninas emulheres que enfrentaram não somente uma sociedade, e sim uma herançapatriacal por seus sonhos e direitos. Com certeza essa conquista, propiciou e propicia para nós mulheres novasoportunidades e uma vivência mais justa, visto que as diferenças não estão fora, nofísico, das pessoas e sim dentro, no seu caráter, competência, sonhos e anseios. Infelizmente, a história delas no esporte e na Educação Física não temtomado o rumo que gostaríamos. Em meio à grandes vitórias e resultados de váriasmulheres pelo mundo, resquícios de machismo ainda perseveram. Enquanto 14
  • 15. assiste-se o futebol dos homens pelo seu nível técnico, as mulheres são assistidaspor suas belas pernas. Enquanto em certos sportes o homem é exaltado por suaforça e determinação, a mulher é humilhada, colocando-se a prova sua própriafeminilidade. Até quando essa sociedade dará mais ênfase à exclusão em vez derespeitarmos e construírmos nas diferenças ? 15
  • 16. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS :AZEVEDO, Tania M. Cordeiro de " A mulher na Educação Física : Preconceitos eestereótipos ". Dissertação de Mestrado, Niterói 1988.BRUNHS, Heloísa Turine. "Corpos femininos na relação com a cultura." IN :ROMERO, Elaine. Corpo, mulher e sociedade . Campinas, SP. Papirus, 1995 (Coleção Corpo e Motricidade )CASTELLANI, Filho Lino . * "Ensaio sobre a mulher brasileira, face a legislaçãoda Educação Física e desporto." IN: Desporto e lazer nº 8 São Luiz, 1982* "Educação Física no Brasil : a história que não se conta ." Campinas, SP.Papirus, 1988CEBULSKI, Janine Valéria . "A mulher, o esporte e as olimpíadas." Monografia deconclusão de curso, Departamento de Educação Física, UFPR , 1996DUNNING, E." O desporto como uma área masculina reservada: notas sobrefundamentos sociais da identidade masculina e as suas transformações." IN :ELIAS, N . A busca da exitação. Difusão Editorial Ltda, Lisboa, 1985.FERREIRA, Maria Beatriz Rocha. "A mulher e esporte no Brasil : umaabordagem histórica- antropológica." V Congresso de História do Esporte, lazer eEducação Física. Coletânea, 1997GOELLNER, Silvana Vilodra." As mulheres e as práticas corporais e esportivasno início deste século: beleza, saúde e feminilidade" . VI Congresso Brasileiro deHistória, lazer e Educação Física, 1998HOBSBAWN, E ." Quem é quem ou as incertezas da burguesia" . A era dosimpérios 1875-1914 . Rio de Janeiro – RJ. Paz e Terra, 1988LUCENA, Ricardo . O Esporte na cidade .MACÁRIO, Rejane Cristina." A visão do corpo e as relações de gênero comoformadores de estereótipos socialmente construídos ". Monografia de conclusãode curso, Departamento de Educação Física, UFPR. 2000PEREIRA, L E . "Mulher e esporte: um estudo sobre a influência dos agentes desocialização." Dissertação de Mestrado- USP. São Paulo, SP. 1984PFISTER, G. "A história delas no esporte: rumo a uma perspectiva feminina ?"IN: ROMERO, Elaine (org), 1997PERROT, M." Os excluídos da história: operários, mulheres e prisioneiros." Riode Janeiro, RJ . Paz e Terra, 1988RABISTEK, Eliane. "A mulher e sua participação esportiva." Monografia deconclusão de curso. Departamento de Educação Física , UFPR. 1997ROSEMBERG,F . "A Educação Física, os esportes e as mulheres: balanço dabibliografia brasileira." IN: Corpo, mulher e sociedade . ROMERO,Elaine 1995SIMÕES, Regina e MOREIRA, Wagner Wey. " Evas ou Marias : o corpo damulher na antiguidade e idade média. " V Congresso de História, lazer eEducação Física. Coletânea, 1997SOARES, Guiomar Freitas." Reflexões sobre a situação da mulher". Rio Grande .Momento v1 1998SOUZA, E. S. " Meninos à marcha! Meninas à sombra! A história do ensino daEducação Física em Belo Horizonte. " Tese de doutorado, UNICAMP, SP. 1994WHITAKER, Dulce. " Mulher & Homem: o mito da desigualdade." 7ª edição.Moderna , São Paulo, SP , 1988 16

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