apostila de didática

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apostila de didática

  1. 1. D I S C I P L I N A Didática Tendências históricas do pensamento didático Autores André Ferrer Pinto Martins Iran Abreu Mendes aula 02
  2. 2. Governo Federal Revisoras de Língua PortuguesaPresidente da República Janaina Tomaz CapistranoLuiz Inácio Lula da Silva Sandra Cristinne Xavier da CâmaraMinistro da Educação IlustradoraFernando Haddad Carolina CostaSecretário de Educação a Distância – SEED Editoração de ImagensRonaldo Motta Adauto Harley Carolina CostaUniversidade Federal do Rio Grande do Norte DiagramadoresReitor Mariana Araújo BritoJosé Ivonildo do RêgoVice-Reitor Adaptação para Módulo MatemáticoNilsen Carvalho Fernandes de Oliveira Filho Thaisa Maria Simplício LemosSecretária de Educação a Distância Imagens UtilizadasVera Lúcia do Amaral Banco de Imagens Sedis (Secretaria de Educação a Distância) - UFRN Fotografias - Adauto HarleySecretaria de Educação a Distância- SEDIS MasterClips IMSI MasterClips Collection, 1895 Francisco Blvd,Coordenadora da Produção dos Materiais East, San Rafael, CA 94901,USA.Célia Maria de Araújo MasterFile – www.masterfile.com MorgueFile – www.morguefile.comCoordenador de EdiçãoAry Sergio Braga Olinisky Pixel Perfect Digital – www.pixelperfectdigital.com FreeImages – www.freeimages.co.ukProjeto Gráfico FreeFoto.com – www.freefoto.comIvana Lima Free Pictures Photos – www.free-pictures-photos.comRevisores de Estrutura e Linguagem BigFoto – www.bigfoto.comEugenio Tavares Borges FreeStockPhotos.com – www.freestockphotos.comMarcos Aurélio Felipe OneOddDude.net – www.oneodddude.netPedro Daniel Meirelles Ferreira Stock.XCHG - www.sxc.hu Divisão de Serviços Técnicos Catalogação da publicação na Fonte. UFRN/Biblioteca Central “Zila Mamede” Mendes, Iran Abreu Didática / Iran Abreu Mendes, André Ferrer Pinto Martins – Natal (RN) : EDUFRN – Editora da UFRN, 2006. 264 p. ISBN 85-7273-279-9 1. Ensino. 2. Aprendizagem. 3. Planejamento. I. Martins, André Ferrer Pinto. II. Título. CDU 37 RN/UFR/BCZM 2006/17 CDD 370 Todos os direitos reservados. Nenhuma parte deste material pode ser utilizada ou reproduzida sem a autorizaçãoexpressa da UFRN - Universidade Federal do Rio Grande do Norte.
  3. 3. ApresentaçãoN a aula anterior, você compreendeu os aspectos estruturais da Didática enquanto disciplina pedagógica, a qual tem como objeto de estudo o fenômeno ensino. Percebeu, portanto, que não se trata apenas de um conjunto de técnicas para ensinar, visto queessa disciplina constitui-se em um corpo ampliado de conhecimentos acerca das diversasáreas que contribuem para compreender e explicar o ensino como processo e produto. A construção de um corpo teórico acerca do que vem a ser a didática enquanto umpensamento explicativo do processo educativo estimulou inúmeros estudiosos ao longo dahistória a estabelecerem diretrizes teóricas, o que possibilitou o surgimento de diversascorrentes de pensamento acerca da didática como uma área de estudos ligada à investigaçãodo processo de ensino. Nesta aula, portanto, faremos um breve histórico das principais correntes do pensamentodidático, tendo em vista subsidiar a sua compreensão sobre o pensamento didático brasileirobem como das atuais tendências geradas nas discussões propostas por essas correntes depensamento.Objetivos Ao final desta aula, você poderá: relacionar as diversas correntes teóricas que contribuíram para a formulação das principais correntes de pensamento acerca da Didática enquanto área de estudos sobre o processo de ensino; analisar as concepções teóricas de cada corrente, 2 suas implicações no processo de ensino ao longo da história e seus reflexos na educação atual; caracterizar os modos de ensinar de acordo com 3 cada corrente de pensamento da Didática ao longo da história da Educação. Aula 02 Didática
  4. 4. Uma breve história do pensamento didático Falar das tendências do pensamento didático ao longo da história nos remete ao desdobramento histórico configurado por Franco Cambi (1999) em seu livro História da Pedagogia. Inicialmente, Cambi considera que (...) a história é um organismo: o que está antes condiciona o que vem depois; assim, a partir do presente, da Contemporaneidade e suas características, seus problemas, deve-se remontar para trás, bem para trás, até o limiar da civilização e reconstruir o caminho complexo, não-linear, articulado, colhendo, ao mesmo tempo, seu processo e seu sentido. O processo feito de rupturas e de desvios, de inversões e de bloqueios, de possibilidades não-maturadas e expectativas não-realizadas; o sentido referente ao ponto de vista de quem observa e, portanto, ligado à interpretação: nunca dado pelos “fatos”, mas sempre construído nos e por meio dos “fatos”, precário e sub judice. (CAMBI, 1999, p. 37)2 Aula 02 Didática
  5. 5. A partir dessa perspectiva histórica, o autor nos mostra que no contexto da Pedagogiae da Educação (compreendendo, certamente, a didática), a Antigüidade evidencia asestruturas educativas mais profundas como a identidade da família, a organização doEstado, a instituição-escola, os mitos educativos, entre outros modelos sócioeducativos quecaracterizam a formação do pensamento educativo ocidental. De acordo com Cambi (1999), é da influência da Antigüidade que se iniciam formulaçõese reformulações do pensamento e das ações educativas desde o período Clássico, comos gregos, passando pela Idade Média, a era Moderna e a contemporaneidade. Assim,constituiu a organização dos métodos e práticas para a efetivação de um processo de ensinoem diversas direções até os dias atuais. Até o século XVI, por exemplo, acreditava-se que a capacidade de assimilação da criançaera idêntica à do adulto, apenas menos desenvolvida. A criança era considerada um adulto emminiatura. Por essa razão, o ensino deveria acontecer de forma a corrigir as deficiências oudefeitos da criança. Isso era feito através da transmissão do conhecimento. A aprendizagemdo aluno era considerada passiva consistindo, basicamente, em memorização de regraspara a leitura, a escrita e para os cálculos com números e fórmulas. Os procedimentos deensino se apoiavam em verdades localmente organizadas e consideradas definitivas. Parao professor dessa escola, a sua função educativa era a de transmissor e expositor de umconhecimento pronto e acabado e, portanto, o uso de quaisquer materiais ou objetos quefizessem do ensino um processo dinâmico e criativo era considerado pura perda de tempo. No século XVII, entretanto, João Amós Comenius (1592-1670), considerado o pai daDidática, questionava esse tipo de ensino, afirmando em sua Didática Magna (1657) que“ao invés de livros mortos, por que não podemos abrir o livro vivo da natureza? Devemosapresentar à juventude as próprias coisas, ao invés das suas sombras” (Ponce, 1985, p.127).Esse princípio educativo se renovou ativando novos processos de teorização em relação àCiência, à Matemática, à História e ao processo pedagógico adotado pelas escolas. É nessareformulação que Comenius apresenta a sua Didática como forma de consolidar as novasproposições teóricas e práticas para uma educação universal centrada no diálogo entre opassado e o futuro. Suas concepções apóiam-se na renovação universal da cultura e dasociedade, colocando no centro o papel criativo da Educação. Seus trabalhos defendem opapel formativo do ambiente escolar através do desenvolvimento de um espírito competitivosadio do estudante. É durante o século XVII e através da obra de Comenius que o pensamento didáticocomeça a manifestar-se de forma estruturada, passando a influenciar substancialmente nafundamentação dos princípios pedagógicos da educação praticada pelas escolas da Europa.Os processos educativos, as instituições e as teorizações pedagógicas também se renovamgradativamente através das novas tendências da sociedade que se transformava com o inícioda industrialização e, ainda, influenciados pelo caráter humanístico e religioso dos princípioseducacionais implantados por Carlos Magno (século X) com o objetivo de disseminar a fécristã como base para a formação humana. Trata-se da escolástica: um tipo de vida intelectual Aula 02 Didática 3
  6. 6. característico da Idade Média, cujo objetivo principal era demonstrar a fé cristã por meio da razão, tomando como base a lógica aristotélica. A partir do século XVIII surgem, pelo menos, duas perspectivas pedagógicas que Estado biológico ou passam a manifestar-se e se contraporem. Na primeira, a escola deve ensinar, instruir e psicológico formar. Nesse sentido, deve-se ensinar um assunto aos alunos partindo-se do princípio de A respeito do que a educação ocorre a partir de dois objetos: o conteúdo e o aprendiz. Para tanto, odesenvolvimento biológico e psicológico, os estudos aluno é retirado do seu estado biológico ou psicológico de criança ou adolescente para posteriores desenvolvidos ser dirigido, guiado e moldado de modo a ficar equipado para seguir as regras estabelecidas pela Psicologia, com pela escola. Esse é um pensamento didático antigo que continua a ter partidários apesar das base nas idéias de Rosseau, Pestalozzi e, críticas e variações que sofreu ao longo dos séculos. Constitui-se na semente do modelo que posteriormente, Piaget, estruturou a chamada escola tradicional. apontam detalhes sobre aimportância dessa variante Em contraposição à primeira perspectiva teórica do pensamento didático, surge, a partir no estabelecimento de de Rousseau (1727-1778), um pensamento segundo o qual o aluno traz em si os meios de uma nova didática para assegurar seu próprio desenvolvimento, sobretudo intelectual e moral, e que toda ação que o ensino da criança e do adolescente. intervém do exterior só pode deformá-lo ou entravá-lo. Rousseau, ao considerar a educação como um processo natural do desenvolvimento da criança, ao valorizar o jogo, o trabalhoAspectos biológicos manual, a experiência direta das coisas, seria o precursor de uma nova concepção de escola. e psicológicos Uma escola que passa a valorizar os aspectos biológicos e psicológicos do aluno em Esses valores referem-se desenvolvimento: o sentimento, o interesse, a espontaneidade, a criatividade e o processo às conexões existentes entre o desenvolvimento de aprendizagem, às vezes, priorizando esses aspectos em detrimento da aprendizagem dos biológico e o mental conteúdos. de cada indivíduo e suas implicações no É com base nessa nova concepção de educação e de homem que surgem as propostasprocesso de compreensão de Pestalozzi (1746-1827) e de seu seguidor Froebel (1782-1852) para um novo modelo de e explicação dos significados e relações escola e de ensino. Estes foram considerados os precursores dos princípios que nortearam atribuídas aos objetos. a configuração da “escola ativa”, disseminada entre o fim do século XIX e início do século XX, por John Dewey (1859-1952). Para Pestalozzi, uma educação seria verdadeiramente educativa se proviesse da atividade dos jovens. Fundou um internato onde o currículo adotado dava ênfase a atividades (dos alunos) como canto, desenho, modelagem, jogos, excursões ao ar livre, manipulação de objetos, em que as descrições deveriam preceder às definições; o conceito nascendo da experiência direta e das operações sobre as coisas. Após a segunda metade do século XIX, surgiram outros trabalhos propostos pela médica e educadora italiana Maria Montessori (1870-1952) e por Decroly (1871-1932), que inspirados em Pestalozzi iriam desenvolver uma didática especial (ativa) para a Matemática. Após experiências com crianças excepcionais, Montessori desenvolveu, no início do século XX, vários materiais manipulativos destinados à aprendizagem da Matemática. Esses materiais, com forte apelo à “percepção visual e tátil”, foram posteriormente estendidos para o ensino de classes consideradas regulares. Montessori acreditava não haver aprendizado sem ação. Entre seus materiais mais conhecidos, destacamos: o “material dourado”, os “triângulos construtores” e os “cubos para composição e decomposição de binômios e trinômios”. Aula 02 Didática
  7. 7. Decroly, no entanto, não propõe que se coloque qualquerobjeto manipulativo na mão da criança para que ela construa,mas sugere como ponto de partida fenômenos naturais (como ocrescimento de uma planta ou a quantidade de chuva recolhidanum determinado tempo, para, por exemplo, introduzir mediçõese contagem). Sua proposta didática sugere partir da observaçãoglobal do fenômeno para, por análise, decompô-lo. As informações históricas nos levam a admitir que atrajetória do pensamento didático parece ter originado edisseminado dois métodos de concepção e abordagem dosprocessos educativos: o tradicional e o novo. O primeiroexpresso pelas concepções e procedimentos antiquados doato de educar e o segundo representado pela mudança deconcepções e procedimentos a partir da Didática Magna, deComenius, seguido das idéias modernas de contraposição aosaspectos defendidos pelos educadores antigos. Outras vezes, enfim, porque Rousseau e os pedagogos neleinspirados põem a ação na origem de todo o conhecimento, sãodenominados ativos os métodos que eles preconizam; depois,porque as oposições facilitam a classificação, diz-se que nosoutros o aluno não é ativo e denuncia-se, ao mesmo tempo, amultiplicidade das tarefas que eles obrigam o aluno a executar. Mais do que de oposições, ao fim de mais de um séculode conflitos, tornou-se necessário o surgimento de concepçõesdidáticas autênticas que conectassem as duas teses opostas eque, ao mesmo tempo, delas se destacassem, ultrapassandotanto uma quanto a outra. Tais esforços foram válidospara traçarmos o esboço de uma didática contemporânea,fundamentada, inicialmente, no confronto entre a tendênciatradicional e a nova, seguindo-se de uma crítica às didáticasnão diretivas. Talvez tenha sido desse processo que se originou,então, a teoria para uma indispensável renovação nas tendênciasdo pensamento didático. Aula 02 Didática
  8. 8. Atividade 1 A partir dos aspectos históricos mencionados até agora, faça um esquema que represente os pensamentos de autores que convergem para cada um dos métodos considerados: o tradicional e o moderno. Quais as relações que podem ser estabelecidas entre as informações 2 históricas apresentadas até então e os modelos de educação que você conhece? Cite exemplos da sua realidade. Caracterize o pensamento de cada um dos teóricos que influenciaram 3 a formação do pensamento didático. Tome como referência as informações até então apresentadas. As tendências didáticas: modelos e métodos pedagógicos adotados A discussão acerca dos métodos pedagógicos é freqüentemente reduzida a um mero conjunto de técnicas para serem aplicadas na sala de aula, sem levar em consideração os respectivos contextos escolares. Parte-se do pressuposto de que a relação professor-aluno esgota todas as determinantes do processo educativo. Ambos são encarados como seres desenraizados, sem ligações no espaço escolar, imunes à sua cultura e ao tipo de organização. A análise dos problemas enfrentados por um professor quando introduz um novo método pedagógico evidencia a importância do contexto escolar, do tipo de cultura e da organização escolar para o sucesso ou fracasso da inovação. Esse processo inovador quando operacionalizado a longo prazo (na continuidade) é naturalmente mais facilitado do que através de uma ruptura. Faremos, a seguir, uma breve referência aos diversos tipos de modelos organizativos de escolas, com base na sistematização elaborada por vários estudiosos sobre a formação do pensamento didático, de modo a evidenciar os modelos pedagógicos implícitos nesses modelos organizativos. Aula 02 Didática
  9. 9. Modelo da Escola Tradicional O modelo da Escola Tradicional foi inspirado na estrutura de funcionamento dasorganizações militares e das fábricas criadas a partir da Revolução Industrial. Tal modelo sedesenvolveu ao longo do século XIX e ainda hoje subsiste em muitos sistemas escolares,sobretudo, ao nível das práticas cotidianas. A importância atribuída à ordem externa e à disciplina normativa são dois aspectosque caracterizam o modelo organizativo dessa escola. Possui poucas e claras estruturasorganizativas, sendo estas de tipo linear, verticais e normativas. A autoridade do professor nãose questiona nem se discutem as decisões. O protótipo de gestor dessas escolas identifica-se com o burocrata autoritário, cuja principal preocupação é o controle da aplicação dosprogramas de ensino e ordens emanadas do Estado. A relação professor-aluno apóia-se em um modelo que centra as suas preocupaçõesna vontade dos alunos, na memória destes para reter ordens, normas, recomendações; mastambém na disciplina, na obediência e no espírito de trabalho. A instrução tende a ser exata, oconhecimento pronto e acabado e a cultura transmitida de forma repetitiva, ou seja, hábitos,valores e crenças são repassados como verdades a serem adotas de forma absoluta. Arelação é a de superior (adulto, professor) que ensina ao inferior (aluno), o qual aprendemediante a instrução e em clima de forte disciplina, ordem, silêncio, atenção e obediênciaem relação aos valores vigentes. O curriculum da Escola Tradicional concebe o conhecimento sob a forma de saberesisolados que se fragmentam segundo as capacidades cognitivas dos alunos, considerando-asem níveis limitados e sem possibilidades de conexão entre esses fragmentos. Essa organizaçãocurricular baseia-se no princípio da centralização, cuja concepção e administração competeà administração central. Os professores têm pouca capacidade de variação dos conteúdosprogramáticos. O controle é feito através de exames nacionais e por um conjunto de provasde seleção entre os diferentes níveis de ensino. Aula 02 Didática
  10. 10. Quanto ao processo didático, essa escola preconiza os métodos dedutivos de ensino nos quais o aluno percorre o caminho da aprendizagem do sentido abstrato para o concreto, ou seja, o professor define e, em seguida, dá exemplos para finalizar com aplicações. Parte sempre do geral para o particular, como uma forma de mostrar que o conhecimento é padronizado e que há pequenos apêndices que, embora façam parte do padrão geral, apresentam pequenas características específicas. Nesse processo, geralmente, não é possível concluir os programas de ensino e o aluno fica sempre numa fase abstrata, sem qualquer ligação com a sua vida prática ou outras formas de explicação do conhecimento abordado pelo professor. A preocupação central de quem ensina concentra-se na memorização e na repetição dos conceitos. Em se tratando de materiais didáticos, o modelo adotado pela Escola Tradicional está centrado nos livros-texto, repletos de conteúdos informativos e conceituais, fragmentados de forma a serem mais facilmente memorizados pelos alunos. A avaliação dos alunos constitui-se no controle da aprendizagem e realiza-se unicamente mediante exames, que refletem a capacidade de retenção e de acúmulo de conhecimento memorizado pelos alunos. Modelo da Escola Nova Este modelo aparece no final do século XIX e desenvolve-se até as duas primeiras décadas do século XX. Foi desde o início uma clara reação contra o modelo da Escola Tradicional e tudo o que ela significava. Trata-se de uma escola aberta, descentralizada e crítica da sociedade, pois não mais prioriza o saber pronto e acabado centrado na autoridade do professor, assim como o programa passa a ser elaborado com base nas necessidades da classe e o modelo social é repensado com base nas perspectivas de transformação social. A melhor forma de identificar essa escola é ver o modo como ela valoriza as interações com o meio social e procura enriquecer as vivências dos alunos incorporando no curriculum a cultura circundante, ou seja, o contexto em que a escola está situada. A disciplina deixa de ser priorizada para que a convivência seja o elemento decisivo no estímulo à participação, autogestão e auto-responsabilidade, tanto por parte do professor e do aluno quanto da comunidade envolvida no processo. Quanto à gestão do sistema educacional, a Escola Nova sugere o princípio da convivência como um caminho para a construção de um modelo administrativo no qual o gestor passa a ser o articulador do contexto sociocultural, gerando um processo participativo no qual todos os envolvidos passam a ser autogestores, ou seja, todos são responsáveis pelo ambiente educativo. A relação professor-aluno parte do princípio de que o aluno é o centro da escola, o protagonista principal do processo de ensino-aprendizagem, em torno do qual se desenvolvem os programas curriculares e a atividade profissional do docente. O professor é o orientador Aula 02 Didática
  11. 11. do processo educativo e as relações sociais ocorridas na escola baseiam-se na atividadecomo um processo vital de ensino-aprendizagem. Além disso, são valorizados os princípiosda liberdade, da individualidade e da construção coletiva, considerando que tais princípiosestão estreitamente relacionados entre si no processo social. O curriculum, por sua vez é muito diversificado, contemplando todos os aspectos daformação integral de uma pessoa: “vida física”, “vida intelectual”, “organização e procedimentode estudo”, “educação artística e moral”, “educação social” etc. O processo didático sugere a perspectiva dinâmica de um ensino-aprendizagem quetem como centro de interesse a atividade, ponto no qual coincide com o modelo da EscolaAtiva. Mas a experiência do aluno serve, neste caso, de base para a educação intelectual. Éintroduzido o conceito de manipulação como princípio da aprendizagem. Reforçando a ligaçãoentre a teoria e a prática, é dada grande importância aos trabalhos manuais. O professorconduz o processo de aprendizagem partindo da experiência do aluno, da observação, damanipulação, de atividades sobre realidades concretas como forma de se atingir, através dométodo indutivo, a abstração. Quanto aos materiais didáticos, embora a Escola Nova não tenha secundarizado oslivros-texto no processo de ensino-aprendizagem, fizeram surgir um conjunto de recursosque o aluno utiliza nas suas experiências e atividades. A avaliação é de natureza qualitativa, valorizando a participação ativa dos alunos e o seucrescimento subjetivo dentro do processo de construção da sua aprendizagem.Modelo da Escola Ativa Esta escola surge como reação à Escola Tradicional, levando até às últimas conseqüênciasa Escola Nova, nomeadamente no modo como privilegia as atividades no processo educativo.Surgiu a partir da década de 1920; trata-se de um modelo escolar assente numa grandeinteração de todos os elementos que compõem a comunidade escolar. As relações pessoaissão privilegiadas, assim como a preocupação de manter todos os canais de informaçãofuncionando de forma eficaz. O poder está muito repartido e a discussão torna-se umelemento essencial na gestão, à medida que se procura obter contínuos consensos. Asestruturas organizativas são mínimas, funcionando sempre na perspectiva do apoio às váriasatividades em curso. Requer uma direção apostada na animação e negociação. O controleglobal é confiado a toda a comunidade escolar. Na relação professor-aluno, o professor assume uma posição de facilitador de umprocesso de aprendizagem que é da iniciativa do aluno. A criatividade, a iniciativa, a liberdadeindividual, a ação e a descoberta são valores que preconizam todas as relações de trabalho.Na organização do curriculum, tudo é orientado em função dos interesses e vivências dosalunos, nesse sentido, os programas são muito abertos e pouco estruturados. Professores ealunos fazem coisas e aprendem em conjunto. Aula 02 Didática
  12. 12. Quanto ao processo didático, a aula é convertida numa oficina, na qual os alunos aprendem destrezas, hábitos, técnicas para descobrir o mundo. A elaboração de quadros conceituais é, dessa forma, secundarizado face às atividades de realização de coisas. Como na Escola Nova, na Escola Ativa também não existe um livro-texto, sendo os próprios alunos que constroem os seus recursos educativos com a ajuda do professor. Quanto à avaliação, essa escola não dá ênfase a tal função, pois o importante é o próprio processo de aprendizagem. Modelo da Escola Comportamentalista Esta escola surge como reação à Escola Nova e à Escola Ativa e especialmente ao seu caráter aparentemente desordenado nos processos de ensino aprendizagem. A sua principal fonte de inspiração é a psicologia behaviorista (da palavra inglesa, behaviour = comportamento), desenvolvida por psicólogos como John Watson, Skinner e outros, mas também se inspira na reflexologia de Pavlov (escola que reduz todos os fenômenos psíquicos a reflexos condicionados). O seu modelo pedagógico é baseado na ‘pedagogia por objetivos’, cujo ensino e aprendizagem ocorrem a partir de objetivos pré-estabelecidos e normas a serem seguidas para que tais objetivos sejam alcançados, sem que possam ocorrer quaisquer flexibilizações de métodos. Identifica-se com o modelo de uma escola disciplinada, tendo os padrões elevados como sinônimo de eficácia. A Escola Comportamentalista propõe um tipo de gestão centralizada, com organogramas triangulares segundo os quais todo o processo administrativo deve seguir patamares de comandos até que se chegue ao gestor principal, ou seja, há uma forte dependência do poder central. A grande preocupação está na definição do papel das estruturas, funções, perfis e organogramas detalhados e normalizados. A legislação e a sua correta interpretação possui nessa0 Aula 02 Didática
  13. 13. escola um papel fundamental, assim como tudo o que estáescrito: atas, normas, memórias etc. O estilo de direção é o doburocrata, ordenado e meticuloso, que tem facilidade com ospapéis. Na relação professor-aluno, o professor converte-se numburocrata, cujas únicas funções são interpretar em objetivosoperativos e terminais os objetivos gerais definidos pelo Estadoe verificar continuamente se os alunos os conseguem atingir.Essa relação professor-aluno está marcada por centenas demetas que devem ser atingidas ao longo de todo o processo deensino-aprendizagem. Na perspectiva da organização curricular, o saber étransmitido em pequenas unidades previamente divididasem função de objetivos específicos susceptíveis de seremmensurados. O aluno recebe esses conteúdos sem qualquerrelação com os seus conhecimentos prévios. É difícil nestemodelo pensar a globalização e a interdisciplinaridade,pois o curriculum transforma-se numa estrutura fechada eexcessivamente dirigida. A obsessão pela eficácia imediata daação educativa traduz-se numa programação dos conteúdos docurriculum de forma que se manifestem em condutas observáveisem cada objetivo, o que conduz a uma homogeneização demétodos e técnicas e de receitas para cada objetivo. O material curricular centra-se basicamente no uso delivro-texto, tendo como finalidade facilitar ao professor as tarefasprogramadas para conseguir atingir os objetivos. Muitas vezes,surgem como recursos as fichas de apoio destinadas a cobrirobjetivos mais específicos. Dado que o processo de ensino-aprendizagem se orienta para atingir condutas observáveis,a avaliação de cada conduta condiciona o passo seguinte deprocesso de aquisição de uma nova conduta. Esse fato implicaum controle absoluto em todos as etapas do processo de ensino,através de instrumentos de avaliação considerados infalíveis. Aula 02 Didática
  14. 14. Modelo da Escola Construtivista Este modelo aparece associado às contribuições no domínio da psicologia cognitivista de Jean Piaget, mas também de Bruner, Novak, Ausebel e outros. Surge, aproximadamente, na década de 1960, quando começam as discussões acerca da necessidade de ensinar aos alunos o processo da sua própria aprendizagem, ou seja, ensinar a aprender, o que implica diversificar os conteúdos do curriculum. Aprender conceitos, conteúdos e saberes culturais como unidades fechadas deixa de ser importante, priorizando-se os procedimentos e as estratégias cognitivas que conduzam o aluno à sua própria aprendizagem. Todavia, leva-se em consideração as normas, os valores e/ou os princípios que estão subjacentes ao contexto e ao processo de aprendizagem. Nesse sentido, o professor deve conhecer as principais formas de desenvolvimento dos conceitos, conteúdos e saberes, as fases de desenvolvimento mental e suas implicações na aprendizagem conceitual de modo a adaptá-las à sua prática pedagógica. Trata-se do modelo de uma escola cuja atividade gira em torno de um projeto educativo comum e de um projeto curricular que sistematiza a vida da escola. Todas as suas estruturas são envolvidas na aprovação dos seus documentos essenciais, assim como na sua avaliação. Essa gestão requer uma direção orientada para a planificação, orientação do processo, gestão dos recursos e estruturas, procurando suscitar permanentes consensos. Na relação professor-aluno, o professor é um mediador no processo de ensino- aprendizagem. Compete-lhe planejar, orientar, organizar, proporcionar recursos e encaminhas as diferentes atividades realizadas pelos alunos. Ele não é um mero instrutor nem um simples avaliador. Ele ajuda o aluno a relacionar os conhecimentos novos (descobertos na atividade) com os anteriores, deixando o controle de todo o processo a cargo dos alunos. O curriculum deve ser aberto e flexível, sendo definido conforme as necessidades es- pecíficas da escola, sem desconsiderar as metas estabelecidas pelo Estado para o desenvol- vimento educativo. Assim, o aluno avança no conhecimento com a mediação do professor através do planejamento e organização dos recursos (tempo, materiais, conhecimento das suas capacidades), da ação (atividades que conduzem à descoberta) e do controle, que per- mitem refletir e observar a própria prática. O processo didático fundamenta-se na aprendiza- gem significativa e numa metodologia inspirada na investigação-ação. Os manuais escolares e outros suportes de caráter instrumental são transformados em projetos curriculares a serem desenvolvidos na sala de aula, pois o aluno que enfrenta diferentes situações de aprendizagem necessita de materiais didáticos variados e adequados às novas situações. A avaliação dos alunos parte do pressuposto de que, em Educação, os progressos da aprendizagem amadurecem muito lentamente, não se manifestando de maneira imediata. Por conseguinte, é necessário relativizar a avaliação como medida de um produto, visto que é mais importante a continuidade do processo. Não valorizamos condutas observáveis, mas sim capacidades adquiridas no processo.2 Aula 02 Didática
  15. 15. Atividade 2 Caracterize cada uma das escolas originadas pela formação do pensamento didático, evidenciando seus principais elementos estruturais. Relacione cada uma das escolas didáticas discutidas até agora com 2 os pensadores mencionados anteriormente. Relacione os modelos de ensino e de escolas que você conhece, 3 bem como as experiências vivenciadas ao longo da sua vida, com os modelos de escolas apresentados nesta aula.Leituras ComplementaresLIBÂNEO, José Carlos. Didática. São Paulo: Cortez, 1994. 21ª Reimpressão. (ColeçãoMagistério 2º grau. Série formação do professor). Neste livro, seu autor faz uma abordagem teórico-prática dos aspectos ligados àDidática enquanto disciplina de formação pedagógica do professor, tendo em vista que aDidática constitui-se em uma disciplina que enriquece os conhecimentos e práticas a seremdesenvolvidas nas metodologias específicas de ensino, bem como na formação integral doprofissional da Educação. O livro está dividido em onze capítulos nos quais são abordados temas como a práticaeducativa, a pedagogia, a didática, a democratização do ensino e a teoria da instrução e doensino. Discute o processo de ensino na escola e o ensino ativo. Trata de questões teórico-práticas da formação do professor como os objetivos, os conteúdos e os métodos de ensino,tendo em vista a aula como forma de organização do ensino. Aborda, ainda, o planejamento,a avaliação e as relações entre o professor e o aluno na sala de aula. Aula 02 Didática 3
  16. 16. MIZUCAMI, Maria da s Graças Nicoletti. Ensino: as abordagens do processo. São Paulo: E.P.U., 1986. (Temas básicos de educação e ensino). Este livro aborda aspectos básicos acerca das diferentes abordagens do processo ensino-aprendizagem, considerando a importância da discussão desses aspectos para a formação dos profissionais em Educação. O livro visa contribuir para que esses profissionais, em formação inicial ou continuada, reflitam sobre suas ações docentes e desenvolvam estratégias didáticas com base em uma abordagem do ensino-aprendizagem voltada para a realidade da escola e dos alunos. Resumo Nesta aula, fizemos uma breve síntese histórica acerca da formação do pensamento didático. Destacamos, principalmente, a inter-relação entre os diferentes tipos de organização e os métodos pedagógicos formulados e praticados em cada modelo estabelecido. Concluímos que cada escola tende a valorizar uns métodos em detrimento de outros. Auto-avaliação Com base na leitura do texto e nas atividades desenvolvidas por você, faça uma análise dos principais aspectos mencionados nesta aula. Quais os aspectos considerados mais importantes para você durante toda a sua leitura e reflexão? 2 Quais as dúvidas evidenciadas no texto? Que relações podem ser estabelecidas entre as situações didáticas que você conhece 3 ou pratica em sua sala de aula e as situações didáticas caracterizadas nesta aula? Aula 02 Didática
  17. 17. ReferênciasCAMBI, Franco. História da Pedagogia. Tradução Álvaro Lorencini. São Paulo: editora daUNESP, 1999.FIORENTINI, Dario e MIORIM, Maria Ângela. Uma reflexão sobre o uso de materiais concretose jogos no Ensino da Matemática. São Paulo: Boletim SBEM-SP. Ano 4 - nº 7, 1992.LIBÂNEO, José Carlos. Didática. São Paulo: Cortez, 1994. 21ª Reimpressão. (ColeçãoMagistério 2º grau. Série formação do professor).MIORIM, Maria Ângela. Introdução à história da Educação Matemática. São Paulo: Atual, 1998.MIZUKAMI, M. da Graça Nicoletti. Ensino: as abordagens do processo. São Paulo: EPU,1986. (Temas básicos de educação e ensino).NOT, Louis. As pedagogias do conhecimento. Tradução Américo E. bandeira. São Paulo:DIFEL, 1981.NOVA ESCOLA – A Revista do Professor. Grandes Pensadores. São Paulo: Abril e FundaçãoVictor Civita, 2004. (Edição Especial).PIAGET, J. Coleção Grandes Educadores – JEAN PIAGET. Vídeo. Apresentação de Yves de LaTaille. São Paulo: ATTA – mídia e educação. (Fita VHS) s.d.PONCE, Aníbal. Educação e luta de classes. São Paulo: Cortez, 1985. Aula 02 Didática
  18. 18. Anotações Aula 02 Didática

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