Apostila 1 filosofia   cpia
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Apostila 1 filosofia   cpia Apostila 1 filosofia cpia Document Transcript

  • UNIDADE 1 – INTRODUÇÃO AO FILOSOFAR.*João Vicente Hadich Ferreira1 “SER ou NÃO SER, eis a questão” dirá começa a pensar!” Portanto, dentro desta proposta,Sheakspeare 22 séculos depois da primeira indagação algumas questões apresentam-se inevitavelmente: porsobre o SER. Uma depreciação da profundidade desta quê pensar é uma “aventura filosófica?” Mas, o que éindagação seria o popular “será que ele É?”, ao que filosofia? Pra que serve? Por que estudar ou ensinarcada um deverá responder dando conta de sua opção Filosofia?sexual. Para Moisés Deus disse: “EU SOU te envia”, Como responder a estas e outras questõesrespondendo a angustiada pergunta do profeta: “quem, que nos afetam? Questões existenciais, como pordirei ao faraó que me envia?” Por outro lado, a resposta exemplo: “Quem sou”? “De onde vim”? “Para onde vou”?“SOU, mas quem não É?” poderá justificar a consciência “Há um sentido para a vida?”.de quem não deseja mudar e, “SOU produto do meio” O homem sempre buscou explicações quepoderá endossar apenas uma visão determinista de um justificassem sua existência. Como já nos dizia PASCAL,“SER” sem liberdade para construir-se. Profunda e o homem é um ser pensante:intrigante, a questão do “SER” já aparece entre osgregos e, Parmênides, dos primórdios do pensar O homem não passa de um caniço, o maiscriticamente afirmará: “o SER É e, o não-SER, não É”. fraco da natureza, mas é um caniço pensante. Não éAparentemente simplória, a conclusão parmenídea preciso que o universo inteiro se arme para esmagá-lo:revelará a identidade entre o SER e o PENSAR, um vapor, uma gota de água, bastam para matá-lo. Mas,fundamentando o PRINCÍPIO de NÃO-CONTRADIÇÃO, mesmo que o universo o esmagasse, o homem seriaassaz importante para o pensamento lógico. Mas, para ainda mais nobre do que quem o mata, porque sabe quequê nos interessa tudo isto? morre e a vantagem que o universo tem sobre ele; o Evocar a questão do ser é adentrar num dos universo desconhece tudo isso. Toda a nossa dignidadecampos de estudo da FILOSOFIA, a metafísica e, neste consiste, pois, no pensamento.sentido, despertar nosso próprio ser para o pensar deum modo diferente. Despertar para o pensar... em que O homem portanto, pensa, não apenas vive.implica isto? Nós já não pensamos naturalmente? Mas Dirá o existencialismo, corrente da filosofia surgida noque tipo de pensamento nós temos, que “pensar” século XX que o homem é o único ser que existe, oupraticamos? Um pensamento livre? Ou será um seja, que tem consciência de seu ser. As coisas nãopensamento formatado, definido por alguém ou por existem como consciência, como o homem. O homemalgum sistema? Somos autônomos, ou seja, capazes de pode refletir sobre si, olhar-se de fora, fazer a aventurapensar por nós mesmos ou dependemos exclusivamente da auto-reflexão... só o homem temdo pensamento de outros para podermos “viver”? Afinal consciência...consciência de si.de contas, o que somos? É a questão do SER que se Tal capacidade, que difere o homem de todosapresenta... Pensar, palavra tão corriqueira, que nos os seres vivos existentes no mundo, possibilitou nãodiferencia dos animais, esconde muito mais do que o apenas conviver com a realidade, mas tambémsimples ato de fazer contas ou ouvir coisas... está além conhecê-la, apreendê-la e explicá-la. Pensar é tãoda condição de entender palavras pelo simples processo fantástico que não nos torna os mais fortesde memorização ou visualização. Mas o que é pensar? necessariamente, os mais perfeitos tecnicamente mas,Aqui somos convidados para uma viagem que, podemos nos torna diferentes, humanos e únicos. A capacidadeficar tranqüilos, não envolve substâncias ilícitas mas, de pensar nos permite criar, projetar. Dizia oapenas e tão somente, um exercício: o pensar! É uma existencialismo também que o homem é um projeto, oviagem pelo mundo de sophia, palavra grega derivada único capaz de projetar-se. Mesmo numa teoria maisde sophos (sábio) e que significa sabedoria. Unida à materialista, MARX - nos seus estudos sociais e napalavra philo, que derivou de philia (amor, amizade), deu produção da sua teoria - enaltece a capacidade doorigem à palavra philosophia, ou seja, filosofia que, homem de pensar:etimologicamente significa “amor pela sabedoria”. Aventurar-se portanto no mundo da As abelhas constroem colméias tão perfeitasFILOSOFIA é a proposta, não no sentido de tornarmo- que poderiam envergonhar a mais de um mestre-de-nos professores de filosofia mas de descobrir que somos obras. Mas o pior mestre-de-obras é superior à melhornaturalmente filósofos. Como dizia Kant, não se ensina abelha porque, antes de executar a construção, ele afilosofia mas apenas a filosofar. E, filosofar, é pensar!!! projeta em seu cérebro.Que maravilha e que impressionante é o homem! Por Pensar portanto, é uma grande viagem!isso, falar em educação, falar em conhecimento, falar no Podemos num momento estar aqui e noutro instantepensamento é falar dessa complexidade que é o ser localizarmo-nos em qualquer lugar. Criamos teorias ehumano. É falar em cultura, é falar no processo de buscamos conhecer mistérios. Pensamos em Deus ehumanização, no nascimento e na importância da pensamos na vida. Mesmo prisioneiros fisicamente delinguagem, sua relação com o conhecimento e com a situações adversas, podemos ser livres e independenteseducação. O homem, essa aventura interminável a ser no nosso pensamento, na nossa alma. Como diria Jean-vivida, descoberta. Pensar talvez, seja tanto mais Paul Sartre, “o homem é condenado a ser livre”. Mas, ocomplexo quanto mais complexo descobrimos que é o que é esta liberdade de pensar então? Pensar é buscarhomem. Por isso, pensar é uma grande aventura. Como respostas, é querer conhecer, entender, descobrir,dizia Lupicínio Rodrigues, “o pensamento parece uma explicar. O homem que pensa pergunta, quer sabercoisa à-toa, mas como é que a gente voa quando sobre si e sobre a realidade, a que ele vê e a que ele1 Professor de Filosofia, formado pela Universidade Estadual de Londrina – U.E.L., com pós-graduação em Filosofia Moderna eContemporânea: aspectos Éticos e Políticos pela mesma Universidade. 1
  • não vê. Podemos afirmar que o homem que pensa, mesmo, idéias que fogem, que desaparecem apenasproduz conhecimento e comunicação, aprende também esboçadas, já corroídas pelo esquecimento oua filosofar, ou seja, a ordenar seu pensamento em precipitadas em outras, que também não dominamos.função de iluminar as trevas da razão.2 Por isso, o [...] Perdemos sem cessar nossas idéias. É por isso quehomem que filosofa suspeita a existência de outra queremos tanto agarrar-nos a opiniões prontas.realidade que não a apenas aparente, e busca desvelá- A filosofia portanto, não quer calar. A suala decifrando os enigmas que a permeiam.3 proposta é de esclarecimento. Sobre esta questão, é Mas, qual é a realidade? Ou, filosoficamente muito interessante a explicação kantiana sobre “o que éperguntando, o que é a realidade? Aqui está um dos o esclarecimento” no seu artigo de 1783: Esclarecimentopapéis da filosofia. É a inquietação com o que está dado. [‘Aufklärung’] é a saída do homem de sua menoridade,É o voltar-se sobre o que está dito e explicado. Como da qual ele próprio é culpado. A menoridade é aescreveu MERLEAU-PONTY, a verdadeira filosofia é incapacidade de fazer uso de seu entendimento sem areaprender a ver o mundo. Reaprender a ver o mundo é direção de outro indivíduo. É a idéia de autonomia doum bom ponto de partida. A leitura que fazemos do sujeito (autonomia do grego autós – eu próprio e nomosnosso mundo, a nossa vivência, os nossos valores, as – norma, ou seja, o indivíduo capaz de determinar suasnossas crenças... Tudo influi na nossa visão de mundo. próprias normas).Deste ponto, destes questionamentos, nasceu a filosofia Como escreveu JEAN-PIERRE VERNANT, ana Grécia. Eis uma boa questão: qual é o mundo que filosofia traz o mistério para a praça. Não faz mais dele ovemos? Que mundo vivemos? Que sociedade criamos? motivo de uma visão inefável, mas o objeto de umaÉ uma sociedade crítica? Formamos as pessoas para investigação em pleno dia. Através do livre diálogo, doque mundo: o mundo do SER ou o mundo do TER? Que debate argumentado ou do enunciado didático, osociedade criamos e reproduzimos, que existência mistério se transmuta em um saber cuja vocação é serdefendemos para o homem: a da humanidade ou a da universalmente compartilhado. É o querer nietzcheano“coisificação”? A escola esclarece ou ideologiza o ao afirmar que caça homens como verdadeiro corsário,pensamento? Costumo dizer que vivemos uma não para vendê-los como escravos, mas para levá-lossociedade do “fast-food”. Você sabe o que é um fast- consigo para a liberdade. É, com certeza, uma grandefood, não é? Exatamente: “comida rápida”. São aquelas aventura.lanchonetes e restaurantes que te servem em cincominutos, que te “satisfazem” rapidamente. O problema éque, como a comida rápida, que se apresenta como amelhor alternativa para a vida corrida do dia-a-dia, assim FRAGMENTOS: QUAL A “UTILIDADE” DAtoda informação praticamente se constrói na sociedadedo “tudo pronto” e do “descartável”. Somos educados FILOSOFIA?dentro do lema “tempo é dinheiro!”. Portanto, não“podemos” perder tempo. Por isso, ávidos porinformações, mais do que por uma boa formação, Para responder à questão, precisamos saberestamos nos tornando extremamente generalistas e primeiro o que entendemos por utilidade. Eis ovazios, transformando nosso cérebro muitas vezes num primeiro impasse. Vivemos num mundo em que avoraz consumidor da informação fast-food, como nosso visão das pessoas está marcada pela busca dosestômago acostuma-se com o alimento rápido. É resultados imediatos do conhecimento. Então, éinevitável portanto que, nesta sociedade do consumo considerada importante a pesquisa do biólogo narápido, imediatamente depois de experimentarmos a busca da cura do câncer; ou o estudo de matemáticailusão de que fomos informados sobre tudo, percebemos no ensino médio porque “entra no vestibular”; eque nada sabemos.4 constantemente o estudante se pergunta: “Para que Libertar-se da ideologia dominante, construir o vou estudar isto, se não usarei na minha profissão?”pensamento crítico, refletir sobre a realidade, não aceitar Seguindo essa linha de pensamento, ao que está posto - dado como verdade - sem questionar- filosofia seria realmente “inútil”: não serve parase, sem procurar “ler a entrelinha”, é pensar o próprio nenhuma alteração imediata de ordem pragmática.pensamento. Por isso podemos dizer que FILOSOFIA É Neste ponto, ela é semelhante à arte. SeO DESENVOLVIMENTO DA CAPACIDADE DE perguntarmos qual é a finalidade de uma obra de arte,PENSAR O PRÓPRIO PENSAMENTO. Pensar todos veremos que ela tem um fim em si mesma e, nessepraticamente pensam mas, pensar o próprio sentindo, é “inútil”.pensamento... é um exercício. Entretanto, não ter utilidade imediata não Como escreveu BRECHT, Nós vos pedimos significa ser desnecessário. A filosofia é necessária.com insistência: Não digam nunca: isso é natural! Diantedos acontecimentos de cada dia, Numa época em que Onde está a necessidade da filosofia?reina a confusão, Em que corre sangue, Em que o Esta no fato de que, por meio da reflexãoarbitrário tem força de lei, Em que a humanidade se (aquele desdobrar-se, lembra-se?), a filosofia permitedesumaniza, Não digam nunca: isso é natural! Para que ao homem ter mais de uma dimensão, além da que énada passe a ser imutável!” dada pelo agir imediato no qual o “homem prático” se A Filosofia busca um despertar, um “algo” encontra mergulhado.diferente para o que é comum. É a busca de uma ordem, É a filosofia que dá o distanciamento para ada reflexão, como nos apontam DELEUZE & avaliação dos fundamentos dos atos humanos e dosGUATTARI: Pedimos somente um pouco de ordem para fins a que eles se destinam; reúne o pensamentonos proteger do caos. Nada é mais doloroso, mais fragmentado da ciência e o reconstrói na sua unidade;angustiante do que um pensamento que escapa a si retoma a ação pulverizada no tempo e procura compreendê-la.2 LOVO & RODRIGUES, 2000, p. 4. Portanto, a filosofia é a possibilidade da3 Idem, ibidem. transcendência humana, ou seja, a capacidade que4 só o homem tem de superar a situação dada e não- CHAUÍ, Marilena. Convite à Filosofia, 2003, p. 298. 2
  • escolhida. Pela transcendência, o homem surge como liberdades, é a de minar, pelas análises que ela opera ser de projeto, capaz de liberdade e de construir o seu e pelas ações que desencadeia, as instituições destino. repressivas e simplificadoras: quer se trate da ciência, O distanciamento é justamente o que do ensino, da tradução, da pesquisa, da medicina, da provoca a aproximação maior do homem com a vida. família, da polícia, do fato carcerário, dos sistemas Whitehead, lógico e matemático britânico burocráticos, o que importa é fazer aparecer a contemporâneo, disse que “a função da razão é máscara, deslocá-la, arrancá-la...” promover a arte da vida”. A filosofia recupera o Finalmente, a filosofia exige coragem. processo perdido no imobilismo das coisas feitas Filosofar não é um exercício puramente intelectual. (mortas porque já ultrapassadas). A filosofia impede a Descobrir a verdade é ter a coragem de enfrentar as estagnação. formas estagnadas do poder que tentam manter o Por isso, o filosofar sempre se confronta com status quo, é aceitar o desafio da mudança. Saber o poder, e sua investigação não fica alheia à ética e à para transformar. política. É o que afirma o historiador da filosofia Lembremos que Sócrates foi aquele que François Châtelet: “Desde que há Estado – da cidade enfrentou com coragem o desafio máximo da morte. grega às burocracias contemporâneas –, a idéia de verdade sempre se voltou, finalmente, para o lado dos poderes (ou foi recuperada por eles, como (ARANHA, M. L. de Arruda; MARTINS, M. H. Pires. testemunha, por exemplo, a evolução do pensamento Filosofando: introdução à filosofia. 2ª ed. rev. e francês do século XVIII ao século XIX). Por atualizada. São Paulo: Moderna, 2001.) conseguinte, a contribuição específica da filosofia que se coloca ao serviço da liberdade, de todas as UNIDADE 2 – O PENSAMENTO MÍTICO E O MITO NA GRÉCIA. mitos mas, em determinado momento, é preciso uma*João Vicente Hadich Ferreira racionalidade maior, a necessidade de uma explicação mais coerente e científica para os fenômenos. O mito, portanto, pode ser compreendido já de Para melhor compreendermos como nasce a início, como a primeira forma de explicação que oFilosofia, é fundamental entendermos primeiro como se homem tem para os fenômenos que contempla e paradá e o que representa um tipo de pensamento tão antigo as realidades em que se encontra e, cujas respostas, elequanto o próprio homem: o mito. Compreender a desconhece. Mas, qual a definição de mito? Um olharquestão do mito não implica em estabelecer um olhar apressado pode levar-nos ao “olhar negativo” sobre onegativo, condenatório mas, na realidade, buscar as mesmo, onde o mito aparece-nos apenas como sendobases desta forma quase natural, ou imediata, do algo fabuloso, alegórico, sem realidade. Podemos ver,homem dar respostas aos problemas que o afligem. Na por exemplo, no mini-dicionário Silveira Bueno aFilosofia não entenderemos o mito de forma pejorativa seguinte explicação: fato, passagem dos temposou completamente negativa. Para nós, o mito é a fabulosos, tradição que, sob forma de alegoria, deixaprimeira forma de explicação que o homem encontra entrever um fato natural histórico ou filosófico; (fig.)para aquilo que ele desconhece. Todos os povos, todas coisa inacreditável, sem realidade.5 A definição não estáas culturas possuem seus mitos: egípcios, babilônios, errada mas, dentro da concepção filosófica, porém,caldeus, romanos, gregos... Hoje ainda transmitimos interessa-nos aprofundar um pouco mais esta questão.nossos mitos de geração em geração, tornando Vinda do grego mythos, a palavra mito éplausíveis explicações que poderiam ser no mínimo derivada de dois verbos especificamente: mytheyo (queconstrangedoras para os nossos filhos se recorrêssemos significa contar, narrar, falar alguma coisa para outros) eapenas à racionalidade. Por exemplo, quando os pais mytheo (que apresenta a idéia de conversar, contar,recorrem ao mito da cegonha, buscam dar a explicação anunciar, nomear, designar). A importância disto é quepara a indagação da criança supondo que o interesse os gregos entendiam o mito como sendo um discursodela é o mesmo que eles pensam como resposta: o pronunciado ou proferido para ouvintes que recebem asexo. O que a criança espera é uma reposta à sua narrativa como verdadeira porque confiam naquele quepergunta sobre a sua origem, se ela é filha deles na narra; é uma narrativa feita em público, baseada,verdade e não um tratado de sexologia. Recorremos a portanto, na autoridade e confiabilidade da pessoa dovários tipos de mitos, como o Papai Noel e Coelhinho da narrador.6 Este narrador ou presenciou os fatosPáscoa, ou a mitos de “heróis”, buscando tranqüilizar narrados, testemunhou-os pessoalmente ou conheceunossa realidade, nossos sentimentos. Num determinado quem o fez e recebeu dele a narrativa. Na tradiçãomomento, contudo, o mito não satisfará mais como grega, quem detinha esta autoridade eram os poetas, ouresposta à criança que amadureceu e, nem tampouco os chamados aedos e rapsodos. Eram cantoresserá coerente com a realidade que ela observa. Neste ambulantes que apresentavam de forma poética ossentido, ela buscará uma explicação mais racional. relatos populares, recitando-os de cor em praça públicaAssim acontece com o homem na história do (ARANHA & MARTINS, 2003, p. 79). Sua narrativa erapensamento. No início, tudo era explicado através dos 5 BUENO, Silveira. Minidicionário da Língua Portuguesa, p. 435. 6 CHAUÍ, Marilena. Convite à Filosofia, 2003, p. 35. 3
  • respeitada porque acreditava-se que o poeta era um representavam a própria natureza (a beleza, o amor, aescolhido dos deuses. Estes, ao escolherem-no, colheita, a fertilidade...).mostravam-lhe os acontecimentos passados e permitiam Toda esta tradição mítica dos gregos foique eles vissem a origem de todos os seres e de todas construída, como já apontamos, a partir da autoridadeas coisas para que pudessem transmiti-las aos ouvintes dos poetas. Os dois grandes representantes desta(CHAUÍ, 2003, p. 35). Portanto, sua palavra – o mito – é tradição foram Homero e Hesíodo. Ao primeiro atribuem-sagrada porque vem de uma revelação divina. O mito é, se duas grandes obras clássicas: a Ilíada e a Odisséia.pois, incontestável e inquestionável.7 A Ilíada trata da Guerra de Tróia (Ílion é o original grego Apesar do mito pertencer à cultura dos mais de Tróia) e a Odisséia refere-se ao retorno de Ulissesdiversos povos, dedicaremos nossa atenção de forma (cujo nome em grego é Odisseu) para casa após aespecial aos gregos. O motivo disto está em que, a guerra. É bem verdade que não temos a confirmaçãoFilosofia, no entendimento que nos interessa abordar, é histórica de que Homero realmente as tenha escrito. Ogrega e fundamentou todo o pensamento Ocidental a mais provável é que tenha sido o compilador dos mitos epartir do pensamento grego. Veremos que a Filosofia tradições que se mantinham por gerações. O fato é quenasce na Grécia e que, somente lá houve uma sua importância é fundamental na construção destasistematização do pensamento de tal forma a propiciar a tradição. E é exatamente esta tradição, a chamadapassagem deste pensamento mítico para o que os “tradição homérica” que Platão criticará quandogregos chamaram de logos, ou seja, a razão, a palavra, “expulsa” os poetas da sua “cidade perfeita”. Homeroo discurso racional. representa o ápice e a vitalidade de todo um impulso A preocupação do mito não está na cultural dos gregos. É considerado o “pai” da culturaveracidade, no provar a realidade mas, apenas e tão helênica pois, dele, deriva a idéia marcante da mitologiasomente em explicá-la. Sem respostas para os grega: o destino, que comanda a vida dos homens esentimentos, fatos e fenômenos que contempla, o dos deuses. E esta força, atrelada ao mito é a perguntahomem recorre a mitos e encontra respostas que lhe básica na formação do pensamento ocidental: o que édão segurança. Saber o que é o amor, por que o essa força do destino que domina tudo? Por isso, auniverso está estruturado como está, por que a colheita originalidade de Homero consiste no fato de ter legado àfoi boa ou não, são algumas das indagações que tomam posteridade uma visão clara do espírito grego, em que aconta do homem antigo. Procurando respostas, os existência humana é profundamente permeada dagregos apresentaram seus mitos relacionados à presença do divino: cada momento da vida, nenhumgenealogias. Tais genealogias são compreendidas como detalhe da vida parece ter sentido sem referência àteogonias e cosmogonias. A palavra gonia, do verbo divindade. O ser divino não representa explicação,grego gennao (engendrar, gerar, fazer nascer e crescer) interrupção ou suspensão do curso natural do mundo: ée do substantivo genos (nascimento, gênese, o próprio mundo natural.9 Durante os séculos homéricosdescendência, gênero, espécie), unida à palavra theos a narração se organiza em torno dos personagens(deuses, coisas divinas ou seres divinos), representa a divinos, sendo os humanos reduzidos à essências com oidéia do nascimento, da origem dos deuses, ou seja, estatuto da quase-dependência. Por isso tudo se explicateogonia. No caso da cosmogonia, a mesma palavra pelas cosmogonias e teogonias, conforme já foi relatado.gonia aparece unida à palavra cosmos (mundo ordenado Num determinado momento contudo, oe organizado, o contrário de caos), o que nos remete à pensamento mítico começará a ser questionado. Nãoidéia do nascimento e a organização do mundo a partir perderão suas crenças mas, buscando respostas dede forças geradoras (pai e mãe) divinas.8 forma mais racional, os gregos darão nascimento ao Para apresentar estas origens, do mundo e pensamento filosófico. Por quê isto acontece na Grécia edas coisas, os mitos narram-nas de três maneiras: não nos demais povos? No Egito e na China, entre osrelatam o nascimento de tudo a partir da relação sexual Caldeus e Babilônios, saberes também se construíramentre os seres divinos que governam o mundo e os mas, nada como a Filosofia grega. O que permitiu àhomens (mitos sobre o nascimento dos titãs, dos heróis, Grécia desenvolver tal condição? É o que tentaremosdos humanos, dos animais, dos materiais da natureza e entender na próxima Unidade.das qualidades, como bem e mal, justo e injusto, onascimento do amor através do mito de eros...), da lutaentre estes deuses que afeta o mundo humano (o ciúmedas deusas na origem da Guerra de Tróia, por exemplo) FRAGMENTOS: MITOS GREGOSe das alianças destes com os homens (o mito dePrometeu, que protegia os homens e lhes dá a “luzdivina” como presente). Os deuses gregos, neste Um pai cruel.sentido, eram antropomórficos (do grego antropós =homem e morfo = forma), ou seja, criados à imagem e No alto da luminosa montanha grega dosemelhança dos homens, diferentemente da concepção Olimpo, na qual o ar era claro e transparente e ondejudaico-cristã, onde Deus nos fez a sua imagem e reinava uma eterna primavera, habitava Cronos, o reisemelhança. Criando e crendo em vários deuses – era do Universo, num magnífico palácio.uma cultura politeísta -, a relação que estabeleciam com Cronos, chamado Saturno pelos romanos,o divino era uma relação com a natureza. Por isso o era filho de Géia (a Terra) e de Urano (o Céu), osantropomorfismo, onde estes seres divinos não quais haviam tido, antes, muitos filhos, chamados osdiferenciavam-se muito dos homens em seus Urânidas: doze Titãs, seis varões e seis mulheres;sentimentos e atitudes (eram bons ou maus, invejosos, três Ciclopes (Brontes, Esteropes e Arges) e trêsciumentos, apaixonavam-se por humanos ou humanas e Centímanos (Briareu, Cotos e Gias), que haviam sidoprotegiam os homens ou faziam deles seus joguetes...) e 97 PAIM, Antônio; PROTA, Leonardo; RODRIGUEZ, Ricardo Idem, ibid. Velez. Curso de Humanidades 5 – Filosofia: guia de estudos,8 Idem, p.36. p. 45. 4
  • todos precipitados pelo pai no Tártaro, para que não A luta contra os Titãs durou dez anos. Foi pudessem destroná-lo. terrível e sem tréguas. Ao ver que não conseguia Cronos tomou por esposa a Réia, que se dominá-los, Zeus recorreu ao auxílio dos Ciclopes, sentia muito infeliz porque tinha tido muitos filhos irmãos dos Titãs, enormes gigantes de um olho só, no formosos e o cruel marido os havia devorado. Um meio da testa e, para assegurar a vitória, pôs oráculo anunciara ao feroz pai que seria destronado igualmente em liberdade os Centímanos (por ter cem por um dos filhos e ele tratava de evitar essa desdita, mãos cada um). Desencadeou-se, então, uma engolindo-os quando nasciam. espantosa luta: os Centímanos atiravam enormes A pobre mãe estava desesperada. Ao penhascos contra os Titãs e os Ciclopes feriam-nos e nascer-lhe um novo filho, ao qual pôs o nome de queimavam-nos com raios de fogo. O ardor e a cólera Zeus, saiu do Olimpo com o menino nos braços dos combatentes sacudiam toda a terra, desde os envolto no manto da Noite. Levou-o a uma gruta seus alicerces, e seus gritos raivosos rasgavam o céu. escondida na ilha de Creta e confiou-o ao cuidado das Zeus, no meio da peleja, resplandecente no seu carro Ninfas. Depois, tranqüila quanto à sorte de seu último doirado, animava os seus defensores e lançava contra rebento, voltou aos altos cimos de sua régia morada e os inimigos poderosos raios, acompanhados de apresentou ao marido uma pedra envolta em relâmpagos e trovões. paninhos, que ele engoliu, pensando que era o novo Por fim, decidiu-se a vitória e os Titãs foram recém-nascido. precipitados no tenebroso Tártaro, por toda a eternidade. Titãs, Ciclopes e Centímanos. Apenas vencidos os Titãs, Zeus teve de lutar novamente contra cem gigantes, nascidos do sangue de Urano, aos quais sua mãe, a Terra, incitou contra Zeus, a quem os romanos, mais tarde, Zeus, para vingar aqueles; mas foram também chamaram Júpiter, cresceu belo, forte e bom. Quando derrotados. Depois desta nova e dura luta, chamada a se tornou adulto, obedeceu ao que o Fado havia Gigantomaquia, todos os deuses do Olimpo se estabelecido: subiu ao Olimpo, destronou o pai e submeteram a Zeus, que pode, então, reinar em paz reinou em seu lugar. Mas os primeiros tempos do seu sobre o Universo. reinado foram turbulentos: ele era jovem e, portanto, inexperiente. Num momento de generosidade, pôs em liberdade os Titãs, monstros gigantescos, que, desde, muitos séculos, haviam sido encarcerados nas (MADEIRA, Marcos Almir (coord.). O livro dos entranhas da Terra por Saturno. Eles, porém, em vez nossos filhos: enciclopédia para adolescentes. de ficarem agradecidos ao generoso soberano, Volume primeiro. 2.ª ed. Rio de Janeiro: Editora saíram de sua morada subterrânea e, julgando-se Alfa S. A., 1961.) com mais direito a reinar do que o próprio Zeus, assaltaram o Olimpo. UNIDADE 3 – NASCE A FILOSOFIA.* João Vicente Hadich Ferreira. Filha dos gregos, a Filosofia tem data e local de nascimento específicos e, também, um “pai”, considerado oprimeiro filósofo datado historicamente: Tales. Mileto, a cidade de Tales, ficava na Jônia, atual Turquia, uma das colôniasmicênicas desenvolvidas após a invasão dos dóricos. É exatamente aí portanto, na Jônia, no século VI a. C. que surge aprimeira proposta filosófica. Mas, antes de tratarmos dos primeiros filósofos, vamos entender o contexto de formação dopovo grego e o processo que levou ao nascimento do pensamento filosófico. Geograficamente dispersa, a Grécia Antiga constituía-se por um grande número de pequenas comunidadesindependentes, no mar Mediterrâneo, desde o Jônia – atual Turquia -, na Ásia Menor até o sul da Itália. Apesar destadispersão, havia uma certa unidade cultural, expressa por uma língua comum, formas de organização política semelhantese mesmas crenças religiosas. A dispersão destas comunidades deveu-se, em grande parte, às invasões em busca de terraspara cultivo mas, também, devido aos conflitos entre dois povos que praticamente formaram a cultura grega. Vindos daEuropa, os micênicos, um povo mais avançado culturalmente, chega à Grécia por volta do ano 2.000 a. C. e, encontrandoum povo mais atrasado na região, logo se estabelece como a cultura dominante. Os micênicos – ou aqueus, como tambémficam conhecidos – encontravam-se na idade do bronze e tornam-se uma grande civilização, representada pela punjânciada cidade de Micenas. Isto prevalece até que, por volta do séc. XII a. C., os dóricos – povo guerreiro que já dominava oferro – invade a região e obriga o êxodo dos micênicos em busca de novas terras. Emigrando para a Ásia Menor - chamadaJônia na época -, os gregos fundaram novas colônias para fugir ao domínio dórico e preservar suas tradições. Destacolonização surgem duas cidades que se tornaram grandes centros culturais e econômicos: Mileto e Éfeso. Portanto, énesse conjunto de comunidades independentes que, no século VI antes de Cristo, vai se formando um dos elementos quemarcaram o surgimento do pensamento ocidental: a racionalidade.1010 PAIM, Antonio; PROTA, Leonardo; RODRIGUEZ, Ricardo Velez. Filosofia – curso de Humanidades 5, 1999, p. 45. 5
  • Como já podemos perceber, a filosofia não ciência filosófica. Nas demais culturas geralmente existianasce na Grécia propriamente dita, mas na Jônia e na uma casta sacerdotal dominante, responsável pelaMagna Grécia, colônias desta no Oriente e no Ocidente. interpretação dos livros sagrados e de verdadesMas, por quê nasce na Grécia e não nas culturas reveladas, o que determinava o comportamento moral,orientais antigas como Egito, Babilônia, China, Índia ou político e econômico do povo. A escrita era restrita aosentre os Hebreus? Sofreu influência destas pelo menos escribas – tratada como segredo e, portanto, acessívelou, terá sido apenas um "milagre" o que aconteceu na apenas à iniciados -, proibida aos homens comuns, oGrécia? Este é um ponto que nos interessa discutir. que impedia a ampla difusão e discussão de idéias.Durante algum tempo duas teses foram defendidas para Religiões com dogmas e uma certa teologia elaboradao fato de a Filosofia ter tido seu início na Grécia. Uma eram outros fatores que impediam o livreconsiderava o fato um “milagre”, ou seja, algo “a- desenvolvimento do pensamento, tornando a religião umhistórico”, desconsiderando as condições sócio- instrumento de poder. Aliado a isto ainda, a cultura doeconômico-culturais e políticas que faziam parte da poder vitalício do Rei e a figura do súdito, o que impediacultura grega. A outra considerava o nascimento da qualquer manifestação política ou reflexão sobre aFilosofia como sendo devida a “ensinamentos esotéricos questão do poder. Pois bem, o contexto grego eraque os gregos adquiriram em suas viagens pelo Oriente, contrário a este modo de ser.ou seja, a Filosofia nasceu por influência dos povos Com o fim do domínio dórico, nós vemos aorientais, sem mérito algum dos gregos e não, reconstrução da sociedade grega. Há um renascimentonovamente, por um contexto sócio-cultural próprio que do comércio em torno do século VIII a.C. e a tendência àexistia na Grécia. Estas duas correntes portanto, formação de centros maiores ao redor da ágora, - a“milagre grego” versus influência oriental estão praça pública - local das transações comerciais e dasdesacreditadas academicamente. A tese aceita discussões sobre a vida da cidade. É o nascimento daatualmente defende o nascimento da Filosofia devido a política. Esclarece-nos Paim, Prota & Rodriguez (1999):uma série de fatores sócio-político-econômico-culturaisque aconteceram somente na Grécia. Por isso, neste Vencendo o princípio de que todos são iguaisentendimento não foi possível o mesmo acontecer em diante da lei, a discussão torna-se a formaoutras culturas, não da forma como se dá no Ocidente. normal de tratar-se não só a política mas osCom isto esclarecemos que, no entendimento acontecimentos em geral; prevalece a opiniãoacadêmico estamos falando da Filosofia Ocidental e não de quem expõe suas idéias corretamente edas “filosofias orientais”, que apresentam sua sabedoria com argumentos válidos, quer dizer há ae importância mas, num olhar mais depurado, não supremacia do logos (que significa "palavra",desenvolveram uma sistematização do pensamento de "razão"). Assim que, enquanto antes ostal forma que permitisse o nascimento do que viria a ser fenômenos divinos, naturais e humanosconhecido posteriormente como ciência. confundiam-se e eram vivenciados sem Retomando a questão da formação da Grécia, necessidades de explicação, com a pólis,alguns contextos então contribuirão para uma esses fenômenos tornam-se problemas, àconstrução diferente da cultura grega com relação às procura de explicação.11outras culturas. No mesmo período, as outrascivilizações existentes apresentavam algumascaracterísticas que, contrapostas à cultura grega, podemnos ajudar a esclarecer porque estes últimos 11apresentaram um terreno fértil para o surgimento da PAIM, Antonio; PROTA, Leonardo; RODRIGUEZ, Ricardo Velez. Filosofia – curso de Humanidades 5, 1999, p. 47. 6
  • Na estruturação política, cada comunidade moeda e um desenvolvimento da escrita e dogrega era uma cidade-Estado – as chamadas polis -, calendário. Criada pelos sumérios, a escrita ganha novoautônoma, com a dimensão de pequeno município. Na sentido com os gregos que descobrem-se capazes dePólis é que se efetua a conquista política do estatuto expressar seu pensamento não mais de forma verbalcívico, da ordem da cidadania, na qual o destino de cada apenas mas, a partir da concepção do alfabeto e daum é definido não pela obrigação de lealdade à um construção fonética, de forma mais elaborada, porchefe, mas pela relação ao princípio abstrato que é a lei escrito. Estes fatos exigem uma abstração do- primeira etapa. Num segundo momento. A democracia pensamento, um maior rigor na formulação das idéias e,se instaura em Atenas. Apresenta-se a idéia de governo conseqüentemente, uma mudança cultural. O gregodo povo ou, governo no "meio" do povo e não governo descobre que não precisa trocar as mercadorias atravésdo "povinho". O grego tem consciência de sua cidadania de coisas concretas (um cavalo por um boi, porporque participa da vida pública da cidade. Os destinos exemplo) mas sim, que é possível uma troca abstratada pólis são de responsabilidade comum de todos os (um cavalo por 20 moedas, por exemplo). É ocidadãos, acima dos quais nada a não ser as leis que desenvolvimento da capacidade de elaboração doeles mesmos elaboraram. Escreve HOWART (1984): pensamento de forma diferente. O calendário produz condições semelhantes ao permitir uma observação Pode parecer exagero, porém acredito que sobre os dias e as estações do ano e, desta forma a seja justo afirmar que as realizações políticas percepção da natureza em seu curso, desmistificando a e as experiências práticas de governo dos ação divina sobre os fenômenos da natureza (como no gregos, nas quais se basearam todas as caso de a colheita ter sido boa ou ruim devido ao “deus” formas modernas de política da Europa e não às condições climáticas ou época do ano). Por fim, ocidental, pelo menos até a aparição do o surgimento da vida urbana, que impulsiona este marxismo, não poderiam ter acontecido em renascimento comercial e diminui o prestígio da classe outro ambiente que não fosse o da pólis. aristocrática, proprietária de terras, faz nascer a política, Conceitos tão familiares como, por exemplo, que exige a construção de uma nova relação social, governo constitucional, império da lei, como já foi explicado anteriormente. democracia e, acima de tudo, cidadania, eram Por todos estes fatores portanto, e não por um completamente desconhecidos até que os “milagre” ou por “influência do oriente” como já gregos começaram a experimentá-los.12 esclarecemos, é que, no século VI a.C. Tales inicia a jornada que se tornará a grande aventura na História do O modelo de governo da pólis como esforço Ocidente: o pensamento filosófico.coletivo e exclusivo dos cidadãos, até então As mudanças começam a acontecer. Em tornodesconhecida em outras civilizações tem por do século V a.C. o homem, como cidadão-guerreiro, quefundamento a idéia de que os deuses abandonaram os fala e que combate, aparece como assumindo o seuhomens. E a idéia do Destino, como força superior aos destino. Nesta época, os gêneros culturais mudam depróprios deuses, sugere a visão democrática de que a lei sentido e de estilo. A tragédia, antes fundamentalmenteestá acima dos indivíduos. É nesse quadro que surge a religiosa, torna-se cerimônia política. A história-geografiareflexão filosófica, que busca uma lei universal, acima de se afirma. As descrições lendárias e as genealogiastodas as coisas, que possa explicar o homem e o mundo míticas dão lugar à paisagens e costumes analisados esem recorrer a forças divinas. descritos com precisão. No campo da medicina surge Outras condições histórico-sociais também um apelo pela investigação das causas dasforam proporcionando o questionamento do mito. O enfermidades e não mais aos recursos ambíguos darenascimento comercial citado exigiu do homem grego o adivinhação. Na física o grego passa pouco a pouco das“lançar-se ao mar” para encontrar novos mercados. Com especulações mágicas para o estudo das relaçõeso desenvolvimento das viagens marítimas, os gregos fenomenais. A “arte da palavra” por sua vez deixa de sercomeçam a confrontar os fatos reais com as tradições privilégio das famílias nobres para ser o meio pelo qualmíticas. Chegando às ilhas e regiões que constituem o todo cidadão dispõe, pelo menos em direito, para fazerpano de fundo das epopéias e dos relatos poéticos, o valer suas opiniões e interesses.grego não encontra as “divindades” e as “criaturas” O mito contudo, não perdeu sua beleza, seucitadas pela tradição. Singrando os mares não encontra sentido que propiciou todo este progresso. É uma formaas sereias e nem tampouco é confrontado com diferente de olhar a realidade. Hesíodo fala em suasPosseidon13. Em Creta não depara-se com o Minotauro14 obras do "abandono dos deuses" com relação aosmas sim, com um povo que está disposto a homens. Há um princípio de "secularização" docomercializar também, como nas demais regiões. pensamento. O homem não precisa mais recorrer aosQuestionamentos surgem sobre a veracidade do mito e deuses para explicar o mundo. Na Teogonia – dea possibilidade ou não de encontrar novas explicações Hesíodo - o homem encontra-se sem deuses,para os fatos e fenômenos antes entendidos apenas de abandonado, mas livre para agir e pensar. Entre osforma mítica. Concomitante a isto, há a invenção da séculos VIII e V a.C., portanto, desenvolve-se o esforço para a construção de uma sociedade justa, propiciada12 pelas condições históricas próprias do mundo grego. É HOWART, Ian. In.: HUMANIDADES, Ed. Universidade deBrasília, Janeiro / março – 1984 – vol. II – n.º 6, p. 170-171. neste contexto que nasce a filosofia e aparecem os13 Posseidon: na mitologia grega é o nome do “deus do mar”, primeiros filósofos, os chamados pré-socráticos.irmão de Zeus. Teria, de acordo com o relato da Odisséia, sidoo mentor dos problemas de Ulisses (do grego Odisseu) no seu FRAGMENTOS: “TUDO COMEÇOU...”retorno para casa. Para os romanos chamava-se Netuno.14 Minotauro: criatura que habitava o labirinto em Cretas, ondeMinos, rei da ilha colocava seus inimigos para serem mortos Tudo começou no início do século VI a.C., na cidadepelo monstro. Teseu, o herói grego, vence a criatura e grega de Mileto, no litoral da Ásia Menor; onde os jôniosconsegue sair do labirinto utilizando-se de um novelo de linha estabeleceram colônias ricas e prósperas. No espaço depara reencontrar o caminho. 7
  • cinqüenta anos sucederam-se três homens, Tales, um círculo restrito de iniciados, ao lado também da profusão de Anaximandro e Anaxímenes, cujas pesquisas são bastante crenças comuns de que todo o mundo participa sem que próximas pela natureza dos problemas abordados e pela ninguém se interrogue a seu respeito, define-se e afirma-se uma orientação espiritual para que se os tenham considerado, desde nova noção da verdade: verdade aberta, acessível a todos e que a Antiguidade, como os formadores de uma única e mesma fundamenta em sua própria força demonstrativa os seus critérios escola. Quanto aos historiadores modernos, alguns acreditaram de validade. [...] reconhecer, na florescência desta escola, o fato decisivo Assim reconstitui, por detrás da natureza e além das anunciador do “milagre grego”. A Razão ter-se-ia subitamente aparências, um pano de fundo invisível, uma realidade mais encarnado na obra desses três filósofos milésios. Pela primeira verdadeira, secreta e escondida, que o filósofo se encarrega de vez, em Mileto, descendo do céu para a terra, ela ter-se-ia atingir e da qual ele faz o próprio objeto da sua meditação. Ao se irrompido no cenário da história; a sua luz, doravante revelada, prevalecer desse ser invisível contra o visível, do autêntico contra como se tivessem enfim caído as escaras dos olhos de uma o ilusório, do permanente contra o fugaz do certo contra o humanidade cega, não teria mais cessado de iluminar os incerto, a filosofia substitui, à sua maneira, o pensamento progressos do conhecimento. [...] religioso. Ela se situa no próprio quadro que a religião havia “Admirar-se”, declara o Sócrates do Teeteto, “a constituído quando, ao colocar além do mundo da natureza as filosofia não tem outra origem”. Admirar-se diz-se thaumazein, e forças sagradas que, no invisível, asseguram o seu fundamento, este termo, pelo fato de testemunhar a derrocada que a ela estabelecia um completo contraste entre deuses e os investigação dos milésios efetua com relação ao mito, homens, os imortais e os mortais, a plenitude do ser e as estabelece-os no mesmo ponto em que se origina a filosofia. No limitações de uma existência fugaz, vã fantasmática. Entretanto, mito, thauma é “o maravilhoso”; o efeito de assombro que ele a filosofia opõe-se à religião até nesta aspiração comum em provoca é o sinal da presença nele do sobrenatural. Para os ultrapassar o plano das simples aparências para aceder aos milésios, a estranheza de um fenômeno, em vez de impor o princípios ocultos que as confortam e as sustentam. Por certo, a sentimento do divino, propõe-no ao espírito em forma de verdade que a filosofia tem o privilégio de atingir e de revelar é problema. O insólito não fascina mais, ele mobiliza a inteligência. secreta, dissimulada no invisível para as pessoas comuns; a sua De silenciosa veneração, a admiração faz-se questionamento, transmissão, através do ensino do mestre ao discípulo, conserva interrogação. Quando o thauma, no final da investigação, foi em alguns aspectos o caráter de uma iniciação. Mas a filosofia reintegrado na normalidade da natureza, do maravilhoso só traz o mistério para a praça. Não faz mais dele o motivo de uma resta a engenhosidade da solução proposta. Essa mudança de visão inefável, mas o objeto de uma investigação em pleno dia. atitude ocasiona toda uma série de conseqüências. Para atingir Através do livre diálogo, do debate argumentado ou do o seu objetivo, um discurso explicativo deve ser exposto, não enunciado didático, o mistério se transmuta em um saber cuja somente enunciado sob uma forma e nos termos que permitem vocação é ser universalmente compartilhado. O ser autêntico ao compreendê-lo bem, mas ainda entregue a uma publicidade qual se liga o filósofo aparece assim como o contrário, tanto inteira, colocado aos olhos de todos, do mesmo modo que a quanto herdeiro, do sobrenatural mítico; o objeto do logos é a redação das leis, na cidade, torna-se um bem comum para cada própria racionalidade, a ordem que preside à dedução, o cidadão, distribuído com igualdade. Despojada do secreto, a princípio de identidade da qual todo conhecimento verdadeiro tira theoria do físico transforma-se assim no objeto de um debate; a sua legitimidade. ela se prepara para justificar-se; ser-lhe-á necessário prestar contas do que afirma, prestar-se à crítica e à controvérsia. As VERNANT, Jean-Pierre. Mito e pensamento entre regras do jogo político – a livre discussão, o debate contraditório, os gregos. Tradução de Haiganuch Sarian. Rio de o confronto das argumentações contrárias – impõem-se desde Janeiro: Paz e Terra, 1990. P. 375-81. então como regras do jogo intelectual. Ao lado da revelação religiosa que, na forma do mistério, permanece o apanágio de UNIDADE 4 – UM OLHAR SOBRE OS PRÉ-SOCRÁTICOS.* João Vicente Hadich Ferreira. o problema da física, da natureza o primeiro a receber o olhar do filósofo. Da atitude de espanto e perplexidade Já vimos o contexto que permitiu o nascimento surge a pergunta: o que é essa natureza, que apresentada Filosofia na Grécia e onde ela nasce tantas variações e mudanças? Há nela uma ordem ou éespecificamente. Vimos também o primeiro filósofo, absolutamente caótica? Os primeiros a se colocarem talTales mas, é importante ainda, entendermos um pouco questionamento foram os pré-socráticos. Assimdo seu pensamento e dos seus contemporâneos e chamados por antecederem à Sócrates, que serásucessores, que formarão as diversas escolas que se considerado posteriormente um marco no pensamentoseguirão na busca por respostas mais racionais sobre a filosófico clássico, ponto de mudança da perspectivarealidade. Na busca por estas respostas, os filósofos inicial dos antecessores, os pré-socráticos sãoestabelecerão suas teorias, acabarão formando “escolas conhecidos também como “fisicóides” – relativo à physisde pensamento” e encontrarão críticas às suas teorias. – ou “filósofos da natureza”.Começa a filosofia. O processo é de constante busca, de Tentando entender a natureza, os primeirosconstrução e desconstrução de teorias. Na crítica ao filósofos buscam um princípio para tudo. É a idéia deantecessor, o filósofo constrói sua teoria e, desta forma, que há uma arcké. Traduzida portanto como princípiodá nova resposta ou vislumbra novo caminho para o que geral, original, a arcké possibilita a construção de umaele considera “incompleto”. A filosofia ao nascer cosmologia, que se contrapõe às cosmogonias edefronta-se com problemas. E, o primeiro problema que teogonias anteriores. Do grego cosmos – que significadesperta o pensar filosófico está relacionado à physis. ordem, universo – e logos – palavra, razão – a derivaçãoDo grego, physis significa física, ou natureza. É portanto, logia pode ser entendida como teoria, estudo. 8
  • Etimologicamente portanto, cosmologia pode ser e aritmética surgiram os termos matemáticos “médiadefinida como “ordem racional” ou, “teoria racional para harmônica” e “progressão harmônica”.16 Noo universo”. Esta é a busca dos primeiros pensadores. entendimento pitagórico provavelmente as coisasNeste sentido, cada pré-socrático apresentará a sua manifestariam, de forma externa, a estrutura numérica“tese” sobre a arcké da physis, construindo assim sua da qual seriam compostas. Difícil de compreender mas,cosmologia. Vejamos alguns. possível de imaginar, o sentido seria a composição das Para Tales (séc. VI a.C.), o princípio de tudo, diversas substâncias através de unidades mínimas dea arkhé, seria a água. Apresentaremos duas matéria, unidades estas que promovem diversasinterpretações para o seu pensamento. Na primeira combinações em conjuntos de diferentes quantidades.acredita-se que Tales entenderia que, no princípio tudo Conforme esclarece BERTRAND RUSSEL (1967), eleestava encoberto pelas águas e que, ao evaporarem (sic!) considerava o mundo, provavelmente, comoestas surgem as coisas, a natureza. Na outra versão, a atômico, e os corpos feitos de moléculas compostas deafirmação de que “tudo surgia da água” permite entender átomos dispostos de várias formas. Esperava, assim,que esta, ao resfriar-se, torna-se deusa e dá origem à fazer da aritmética o estudo fundamental para a física eterra. Ao se aquecer transforma-se em vapor e ar, que, a estética.17por sua vez, novamente esfriados, retornam como Empédocles de Agrigento (viveu em torno dechuva. Desse ciclo provocado pela água, nascem as 440 a.C.). Figura controversa e interessante, este pré-diversas formas de vida. Independente de qual seja a socrático era um político democrático que, ao mesmointerpretação correta, o importante é compreendermos tempo, reivindicava para si a qualidade de Deus.18 Teriaque Tales expressa a primeira forma, rudimentar ainda, morrido por saltar à cratera do Etna tentando provar quede se fazer ciência. É o uso de um pensamento novo, de era deus. Escreveu-se num poema que O grandeuma racionalidade que é produzida filosoficamente. Empédocles, essa alma ardente, Saltou no Etna e foi Contemporâneo de Tales, Anaximandro totalmente torrado.19 Mas, independente disso,(610-545 a.C.) por sua vez, procura uma explicação Empédocles propõe uma cosmologia que merece serdiferente. Para ele o princípio de tudo, da phisis, é o tratada. Para ele, quatro elementos constituiriam todasápeiron, que significa "indeterminado", "ilimitado". É a as coisas: a terra, o ar, o fogo e a água. Permanentes,idéia de uma substância infinita, eterna e sem idade, que estes elementos poderiam contudo misturar-se emenvolveria todos os mundos. Para ele haveriam outros diferentes proporções e produzir, assim, as substânciasmundos.15 Transformada nas várias substâncias que complexas mutáveis que encontramos no mundo.20 Naconhecemos, que por sua vez se transformariam umas sua teoria, o Amor unia as coisas e a Luta as separava.nas outras, está em contínuo movimento, dando origem Substâncias primitivas, o Amor e a Luta alternavam suaa uma série de opostos, como água e fogo, frio e calor, predominância, ou seja, ora um era mais forte, ora outrodia e noite. A água, de Tales, seria muito “material” para e, desta forma estabelece-se um ciclo. Quando o Amorexplicar o imaterial, como no caso dos contrários. O une os elementos, a Luta aos poucos os separa e,ápeiron, desta forma, originaria tudo. quando isto acontece, o Amor novamente os reúne, Também de Mileto, como Tales e gradativamente. Por isso toda substância é temporal –Anaximandro, Anaxímenes (séc. VI a.C.) encontra uma passageira – e só os quatro elementos com o Amor e aresposta intermediária, considerando como princípio de Luta são eternos. Todas as transformações no mundotudo o ar – pneuma em grego -, que é um elemento nem não obedecem a uma finalidade mas, são produzidastão abstrato como o ápeiron, nem tão palpável como a apenas pelo Acaso e pela Necessidade. Neste sentido, aágua. O ar é respiração e vida; o fogo é ar rarefeito; a originalidade da teoria de Empédocles, à parte a ciência,água e a terra são condensação do ar; tudo o que existe, consiste na doutrina dos quatro elementos, e noreduz-se a variações quantitativas do ar. Neste sentido, emprego (sic!) dos princípios do Amor e da Luta paratodas as coisas seriam produzidas por um duplo explicar a mudança.21processo: a rarefação, que representaria a expansão, e Na “escola atomista” encontramos Leucipoa condensação, entendida como compressão. A água (provavelmente em torno de 440 a.C.) de Mileto esurgiria da condensação inicial do ar. Mais condensado Demócrito (aproximadamente 432 a.C.) de Abdera.ainda, teríamos a terra e, por fim, a pedra. Anaxímenes Acreditando que tudo é composto por átomos, estes pré-estabelece diferenças quantitativas entre substâncias socráticos formularam a teoria que ficou conhecida comodiferentes, dadas pelo grau de condensação, o que não “atomismo”. Geralmente mencionados juntos, torna-sedeixa de ser um mérito. Juntamente com seus dois difícil distinguir a obre de um e de outro. Os átomoscontemporâneos, constitui o que ficou conhecido como a seriam fisicamente mas, não geometricamente,“escola de Mileto” ou, a filosofia dos milésios. indivisíveis. Entre eles existiria um espaço vazio e, em Na ilha de Samos, surge Pitágoras e, eterno movimento, os átomos seriam também infinitos eposteriormente os seguidores deste que constituirão a indestrutíveis. Sendo de diversas espécies, seriam – os“escola pitagórica”. Voltado para a matemática, átomos – diferentes quanto à forma e ao tamanho.Pitágoras será o responsável pela criação do termo Seriam as combinações destes átomos portanto, quefilosofia. Considerado sábio pelos seus conterrâneos, o formariam os diversos tipos de substâncias existentes nomatemático dirá que sábios seriam os deuses e que, ele, Universo. Criticados na antiguidade como atribuindoseria um amigo (philo) da sabedoria (sophia). Criador do tudo à casualidade, os atomistas na realidade eramfamoso teorema que recebe seu nome, será um dos deterministas rigorosos, que acreditavam que tudoresponsáveis pela íntima ligação entre a matemática e afilosofia nos tempos que se seguirão. Para ele “todas as 16 Id., p. 40.coisas são números”, representando estes não 17quantidades mas a própria essência dos seres. Id., ibid. 18Descobriu a importância dos números na música e, RUSSEL, Bertrand. História da Filosofia Ocidental – livrodesta descoberta estabelecendo a relação entre música primeiro: a filosofia antiga, 2.ª ed. p. 61. 19 Id. Ibid. 2015 RUSSEL, Bertrand. História da Filosofia Ocidental – livro Id., p. 63. 21primeiro: a filosofia antiga, 2.ª ed. p. 31 Id., p. 66. 9
  • acontece de acordo com as leis naturais.22 Aproximando-se mais da ciência moderna do que os seusantecessores, os atomistas produzem uma explicaçãomecanicista do Universo. Considerando não o princípiooriginal do mundo mas sim que, uma vez este existindo,o seu desenvolvimento posterior teria sido fixado deforma inalterável por princípios mecânicos. Ao contráriode Sócrates, Platão e Aristóteles, procuravam explicar omundo sem introduzir a noção de ‘propósito’ ou ‘causafinal’.23 Revivida nos tempos modernos para explicar osfatos da química, a teoria atômica era original nosgregos, dada a questão de que eles desconheciamcompletamente estes “fatos”. Sem ser uma propostaempírica real, os atomistas contudo chegaram a umahipótese cuja comprovação se verificou mais de dois milanos depois.22 Id., p. 76.23 Id., p. 77 10
  • UNIDADE 5 – HERÁCLITO E PARMÊNIDES: sobre o SER e o DEVIR.* João Vicente Hadich Ferreira.Heráclito (544-484 a. C.) ser é’ e o ‘não-ser não é’. Mais tarde, os lógicos chamarão a isto de princípio de identidade, base de toda Nascido em Éfeso, na Jônia (atual Turquia), construção metafísica posterior.28 Considerando que sóHeráclito é aquele que trata do devir. É a idéia do o ser existe, isto deve ser para sempre, de forma única,movimento, de que tudo flui, nada é imóvel e os permanente, imóvel, imutável e eterna. Ou seja, nãocontrários formam uma unidade. Neste entendimento, pode mudar a todo instante. Por isso ele pode concluirpara Heráclito, a unidade do mundo resulta da contínua que o ser é único, imutável, infinito e imóvel.tensão da oposição das coisas: a harmonia nasce da Para explicar a questão do movimento (asprópria oposição. Aliás, a contradição não só produz a coisas nascem, morrem, mudam de lugar...),unidade do mundo, mas também a sua transformação. Parmênides afirmará que as mudanças, as contradiçõesO mundo é como um rio que flui continuamente; é e os aspectos diferentes que o mundo apresenta sãoimpossível banhar-se duas vezes na mesma água.24 simples ilusões, aparências, fruto de opiniões e não de Buscando compreender a multiplicidade do conhecimento do verdadeiro ser.29 Tudo isto existereal mas, contrariando os pré-socráticos anteriores, apenas no mundo sensível e, este, é o mundo da ilusão.Heráclito não rejeita as contradições e quer aprender a Desta forma, só o ‘mundo inteligível’ é verdadeiro, poisrealidade na sua mudança, no seu devir. Conforme o está submetido ao princípio que hoje chamamos deesclarecimento de ARANHA & MARTINS (2003), todas identidade e de não-contradição.30 Em consenso comas coisas mudam sem cessar, e o que temos diante de ARANHA & MARTINS (2003), afirmamos que a teorianós em dado momento é diferente do que foi há pouco e parmenídea produz como conseqüência a identidadedo que será depois25. Por isso é impossível nos entre o ser e o pensar, ou seja, a idéia de que o que eubanharmos duas vezes no mesmo rio pois, na segunda não posso pensar equivale a dizer que não existe. O quevez nós já mudamos e o rio também. Portanto, no está fora de mim deve ser idêntico ao meu pensar e,entendimento heraclitiano não há ser estático e, o deste modo, o ser é pensável e por isso existe. Assim,dinamismo de tudo pode ser representado pela metáfora ser e pensável se equivalem31. Parmênides estaria aquido fogo, forma visível da instabilidade, símbolo da inaugurando a lógica com esta teoria, que encontra-seeterna agitação do devir, ‘o fogo eterno e vivo, que ora no seu poema Sobre a Natureza. Dividido em três partesse acende e ora se apaga’.26 – introdução, “via da verdade” e “via da opinião” -, o O ser em Heráclito é múltiplo. Esta poema parmenídeo permite deduzir que ele inaugura aomultiplicidade não refere-se à idéia da existência de mesmo tempo a lógica e a metafísica. Enquanto a lógicamúltiplas coisas apenas, mas ao entendimento que o ser se coloca contra a “via da opinião”, a metafísicaé composto de oposições internas, por isso múltiplo em investiga o que está por trás das coisas naturais esi mesmo. Para este pré-socrático, o que mantém o físicas; procura algum princípio ou essência das coisas.fluxo do movimento não é o simples aparecer de novos Em Parmênides, a idéia abstrata de Ser indicaseres, mas a luta dos contrários, pois ‘a guerra é pai de precisamente o conjunto de toda realidade como a suatodos, rei de todos’. E é da luta que nasce a harmonia, essência.32 Por isso a identidade entre o ser e o pensar.como síntese dos contrários.27 Heráclito intui, com muitaantecedência, a lógica dialética, uma das grandes FRAGMENTOS:contribuições do pensamento hegeliano - e depoismarxista, no século XIX -, para a filosofia. Heráclito:Parmênides (540-470 a. C.) “Este mundo, que é o mesmo para todos, não foi feito nem pelos deuses nem pelos homens; mas sempre foi, é Tendo vivido em Eléia, sul da Magna Grécia e será um Fogo eterno, com unidades que se acendem(que é configurada na atual Itália), Parmênides é o e unidades que se apagam. [...] As transformações doprincipal expoente da escola eleática. Defendendo a Fogo são, antes de tudo, os mares; e o mar é metadeimobilidade do ser, afirmará que os contrários jamais terra, metade turbilhão. [...] Os homens não sabem – dizpodem coexistir. Elaborou importantíssima teoria êle – de que maneira o que não concorda está defilosófica na medida em que influenciou de forma acôrdo consigo mesmo. É uma harmonia de tensõesdecisiva o pensamento ocidental. Ocupou-se opostas, como a do arco e a lira. [...] As coisas pareslongamente em criticar a filosofia heraclitiana opondo ao são inteiras e não inteiras, o unido e o separado, o"tudo flui"(panta rei) de Heráclito, a imobilidade do ser. harmonioso e o discordante. O uno é feito de tôdas asNa sua teoria entende como absurdo e impensávelconsiderar que uma coisa pode ser e não ser ao mesmotempo. À contradição opõe o princípio segundo o qual ‘o 28 Idem, Ibid. 29 PAIM, Antonio; PROTA, Leonardo; RODRIGUEZ, Ricardo24 PAIM, Antonio; PROTA, Leonardo; RODRIGUEZ, Ricardo Velez. Filosofia – curso de Humanidades 5, 1999, p. 49.Velez. Filosofia – curso de Humanidades 5, 1999, p. 48. 30 ARANHA, M. L. Arruda; MARTINS, M. H. Pires.25 ARANHA, M. L. Arruda; MARTINS, M. H. Pires. Filosofando: introdução à filosofia, 2003, p. 119.Filosofando: introdução à filosofia, 2003, p. 119. 31 PAIM, Antonio; PROTA, Leonardo; RODRIGUEZ, Ricardo26 Idem, ibid. Velez. Filosofia – curso de Humanidades 5, 1999, p. 49.27 32 Idem, ibid. Idem, ibid. 11
  • coisas, e tôdas as coisas provém do uno. [...] Deus é diae noite, inverno e verão, guerra e paz, saciedade e fom;mas Êle adota várias formas, como o fogo, que, quandoé misturado a especiarias, é chamado segundo o saborde cada uma delas. [...] O fogo vive a morte do ar, e o arvive a morte do Fogo; a água vive a morte da terra, aterra a da água. [...] Devemos saber que a guerra écomum a tudo, e que a luta é justiça. [...] Não se podepisar duas vêzes nos mesmos rios, pois as águas novasestão sempre fluindo sôbre ti.”33Parmênides. “Não podes saber o que não é – isso éimpossível – nem manifestá-lo; porque é a mesma coisaque pode ser pensada e existir. [...] Como pode, então, oque é vir a ser no futuro? Ou como poderia vir a ser? Sevem a ser, então não é; tampouco o é, se vai ser nofuturo. Assim, o tornar-se desaparece, e o passar não sepercebe. [...] A coisa que pode ser pensada, e aquilopelo qual existe o pensamento, é o mesmo; porque nãopodes encontrar uma idéia sem algo que é, e a respeitodo qual ela se manifesta.”3433 RUSSEL, Bertrand. História da Filosofia Ocidental – livroprimeiro: a filosofia antiga, 2.ª ed. p. 50-51.34 Id., p. 56. 12
  • UNIDADE 6 – SÓCRATES E A BUSCA DO CONCEITO.* João Vicente Hadich FerreiraSócrates (469 ou 470 - 399 a.C.) necessário produzir-se um “parto”, um “parto de idéias.” Neste sentido Sócrates cria um método que, em Considerado um marco na filosofia, nunca homenagem a sua mãe, que era maieuta – parteira emescreveu nada. Filho de um escultor – Sofronisco - e de grego -, chama-se maiêutico. “Parir idéias” é a propostauma parteira – Fenareta -, nasceu em Atenas, onde para o “conhecer-se a si mesmo”, encontrar a essênciaviveu o apogeu e a crise da democracia. Levando a dos conceitos e compreender do que se está falando. Éfilosofia para a ágora, criticando os sofistas e atraindo a deixar o mundo da opinião e alcançar a ciência.admiração dos jovens, Sócrates provoca também o Como funciona este método? Pautado nadesafeto de outros que o combatem por considerá-lo um ironia, o grande mérito dele é a busca do conceito. Aperigo para as tradições da pólis e uma má influência ironia tem um duplo aspecto: a refutação e a maiêutica.para a juventude. Admirado e criticado, Sócrates foi A primeira significa não responder à pergunta formulada,figura controversa e causou problemas à sociedade da mas retomar a resposta do interlocutor e demonstrar asépoca. O que sabemos de Sócrates foi-nos legado por contradições nela contidas. A função da refutaçãoseus discípulos ou detratores. Dentre os discípulos, os portanto, é a libertação do espírito, preparando-o paraprincipais são Platão e Xenofonte. Platão é o grande encontrar a solução. Esta será encontrada pelo própriodivulgador do mestre, colocando-o como o principal interlocutor, já que Sócrates finge ser capaz de atuarinterlocutor de seus diálogos e enaltecendo sua unicamente como parteiro, porém incapaz de concebersabedoria. Na crítica, o principal desafeto socrático era por conta própria; quer dizer, capaz de interrogar e nãoAristófanes, um comediante. Valoroso, virtuoso e de ensinar, porque o conhecimento já está dentro dedestemido, Sócrates foi levado a julgamento acusado de nós. Trata-se tão somente de extraí-lo do nosso interior.“não reconhecer os deuses do Estado, introduzir novas Aqui temos a maiêutica propriamente dita. Um clarodivindades e corromper a juventude”. O julgamento, exemplo da aplicabilidade do método está na obrarelatado por Platão no texto Apologia de Sócrates, chamada Laqués, de Platão. Laqués e Nícias são doisapresenta-nos o pensador enfrentando seus opositores famosos generais que travam uma discussão com dois– o poeta Meleto, o político Anitos e Licão, um cidadãos sobre o exercício militar. A questão levantada épersonagem de pouca importância – e mantendo sua se “é útil ou não este exercício, se ele serve ou não paraintegridade, suas convicções. Condenado por uma formar homens corajosos”. Convidado a participar dapequena margem de votos, Sócrates beberá cicuta e discussão, Sócrates muda o rumo da conversa: paramorrerá entre os seus amigos de forma serena e sabermos se a arte militar é útil para formar homensconfiante. Poderia ter evitado a morte – ele podia fixar corajosos, deve-se saber em primeiro lugar, o que éoutra pena para si – mas não abriu mão de sua coragem. É a busca pela essência do conceito, aquiloconsciência pois, escapar à morte seria admitir a culpa que é o verdadeiro ponto da discussão. Conforme nosno processo. Que ela recaísse sobre seus algozes. Ele indicam PAIM, PROTA & RODRIGUEZ (1999), ascumpriria a lei. questões que Sócrates privilegia são as referentes à Mas, por quê Sócrates incomodou tanto? moral. Por exemplo: o que é a coragem? O que é aConversando com todos, discutindo e instigando seus justiça? O que é a virtude? Quer saber o que é ainterlocutores, o filho do escultor buscava a essência dos "coragem em si", o universal que representa, ou seja,conceitos, a definição destes para fugir ao relativismo um conceito que seja o mesmo para todos e não apenassofístico, tão comum naquele momento. A crítica construído conforme o interesse de quem o expõe.socrática aos sofistas está tanto na cobrança pelos Dando novo sentido ao termo logos - que na linguagemensinamentos que eles dão quanto na “manipulação” comum significava conversa, palavra -, Sócratesque eles fazem dos conceitos para atender aos desenvolve a idéia do mesmo com o sentido de “a razãointeresses de quem os contrata. Tal atitude mantém os que se dá de algo”, o conceito. Por isso, buscando ahomens na ignorância, sem desenvolverem o verdadeiro essência das coisas nunca vai diretamente a pergunta oconhecimento. Aqui Sócrates entende sua missão: que é. Antes, ouve e apresenta objeções aos“libertar” os homens desta ignorância. argumentos dos outros. A pergunta remonta ao tempo Sobre esta “missão”, ela teria tido início dos jônios. Enquanto estes buscavam resolver opraticamente depois da visita de um amigo seu, problema da natureza - physis –, Sócrates pretendeQuerofonte, ao oráculo de Delfos. Este, querendo saber indagar o problema dos valores. Acompanhando ase havia homem mais sábio do que Sócrates, obtém decadência da democracia ateniense, momento em queuma resposta negativa dos deuses, ou seja, Sócrates é os valores políticos e morais aparecem sempre maiso mais sábio. Recebendo o relato do amigo, e não se conflitantes, Sócrates procura algo que constitua aconsiderando sábio, Sócrates fica pensativo e resolve essência de todas as virtudes particulares como adescobrir por que é considerado sábio. Intrigado, aborda coragem, a sabedoria, a justiça. Ele identifica a virtudeum político considerado sábio e, na discussão descobre com o Bem que, por sua vez, é identificado com aque este na realidade se considera sábio, sem saber de própria Razão. Conhecer a virtude portanto é o objetivonada. Entende então que ele – Sócrates - é mais sábio da ciência, do verdadeiro conhecimento. Nopor saber que nada sabe, ou seja, tem consciência de entendimento socrático só pratica o mal quemsua ignorância. Lembrando-se da inscrição na entrada desconhece o que seja a Virtude. Quem tem odo Templo de Delfos, o “conhece-te a ti mesmo”, e verdadeiro conhecimento só pode praticar o bem. Aafirmando que “de tudo quanto sabe só sabe que nada ciência para Sócrates é, desta forma, a ciência dosabe”, Sócrates entende que o conhecimento está universal, do permanente. Do indivíduo mutável só se dádentro do homem e que este o desconhece por não opinião. Desta forma Sócrates prepara a doutrina debuscá-lo. Para encontrá-lo, ele entende que é Platão: se com efeito, somente o conhecimento dos 13
  • conceitos é verdadeiro conhecimento, será verdadeirarealidade, unicamente, o objeto destes conceitos, isto é,o mundo das Idéias eternas.35 Este é outro assunto. FRAGMENTOS: DISCURSO SOCRÁTICO. “Enquanto viver, não deixarei jamais de filosofar. E, de instruir quem quer que eu encontre, dizendo-lhe à minha maneira habitual: Querido amigo, és um ateniense, um cidadão da maior e mais famosa cidade do mundo, pela sua sabedoria e pelo seu poder; e não te envergonhas de velar pela tua fortuna e pelo seu aumento constante, pelo teu prestígio e pela tua honra, sem em contrapartida te preocupares em nada conheceres o bem, e a verdade, e com tornares a tua alma o melhor possível? E se algum de vós duvidar disto e asseverar que com tal se preocupa, não o deixarei em paz; nem seguirei tranqüilamente o meu caminho, mas interrogá-lo-ei, examiná-lo-ei e refutá- lo-ei; e se me parecer que não tem qualquer arete, mas que apenas a aparenta, investigá-lo-ei, dizendo- lhe que sente o menor respeito pelo que há de mais respeitável, e o respeito mais profundo pelo que menos respeito merece. E farei isto com os jovens e com os anciãos, com todos os que encontrar, com os de fora e com os de dentro; mas sobretudo com os homens desta cidade, pois são por origem os mais próximos de mim. Pois ficai sabendo que Deus assim me ordenou, e julgo que até agora não houve na nossa cidade nenhum bem maior para vós do que este serviço que eu presto a Deus. É que todos os meus passos se reduzem a andar por aí, persuadindo novos e velhos, a não se preocuparem nem tanto, nem em primeiro lugar, com o seu corpo e com a sua fortuna, mas antes com a perfeição da sua alma”. Sócrates, Livro Paidéia.35 MONDOLFO, Rodolfo. In.: Paim, Antonio; Prota,Leonardo; Rodriguez, Ricardo Velez. Filosofia – curso deHumanidades 5, 1999, p. 51. 14
  • UNIDADE 7 – PLATÃO E O MUNDO DAS IDÉIAS.* João Vicente Hadich Ferreira,em parceria com José Roberto Garcia. Para compreensão da concepção de conhecimento personagens de seus escritos iam desenvolvendo temassustentada por Platão (428-347 a.C.), temos que polêmicos a partir de discussões entre si. Nos “Diálogosanalisar alguns traços principais de sua vida e de seu Platônicos”, Sócrates era o personagem principal.pensamento filosófico. Podemos dizer que Platão tentava reproduzir, em seus Platão nasceu em Atenas e seu verdadeiro nome escritos, o jogo de perguntas e respostas sobre o qualera Arístocles. Platão é um apelido que provavelmente se assentava a “Ironia Socrática”. Através da boca detenha derivado ou de seu vigor físico ou da largura de Sócrates, Platão cuida de disseminar suas teoriassua testa (platos em grego significa amplidão, largura). epistemológicas e políticas. Algumas de sua principais Nosso filósofo era descendente da fina flor da obras são: A República, Laqués, O Banquete, Fédro,aristocracia ateniense, pelo lado paterno, Platão Fédon, Teeteto, Timeu e Hípias Maior, entre outras.descendia do rei Codros e pelo lado materno do grandelegislador Sólon. Diante disso, é natural de desde tenra 6.1 - O mundo das idéias.idade ele tenha tomado contato com questõesimportantes, principalmente de ordem política e Considerando os conceitos como convenções,epistemológica. os sofistas estabelecerão assim também a questão da Platão foi discípulo de Sócrates, com quem entrou justiça ou injustiça. No entendimento socrático uma eem contato, provavelmente, com vinte anos de idade. outra se confundem, fato devido ao desconhecimentoAcredita-se que, no início, ele freqüentou o círculo que os homens têm da essência da justiça. Recusando asocrático com os mesmos objetivos da maior parte dos concepção sofística, Platão aprofunda a idéia deoutros jovens atenienses, ou seja, para melhor se Sócrates. O mundo dos sentidos seria constituído depreparar para a ativa vida política da Cidade Estado. No aparências. Chamado de mundo sensível, nele tudo éentanto, a convivência com o mestre e os demais instável e variável, sujeito às circunstâncias. Nesteacontecimentos de sua vida orientaram-no para outro sentido, há muitas opiniões variadas e divergentesrumo. relacionadas à forma como cada um percebe o mundo. O profundo desgosto com a política praticada em Viver desta opinião - doxa, no grego - não permite aoAtenas chegou ao ponto máximo com a condenação à homem alcançar o conhecimento real, verdadeiro. Este émorte do amigo e mestre Sócrates. A partir daí, o nosso chamado de episteme, ou seja, o conhecimento dasfilósofo resolve manter-se afastado da política militante. essências, das realidades que estão acima da opinião. Em 388 a.C., Platão empreende uma grande Tal conhecimento implica no que Platão chamou deviagem passando, entre outros lugares, pelo Egito e pela mundo inteligível ou, mundo das Idéias. Para que estaItália. Durante sua estadia na península itálica, Platão foi passagem ocorra, ou seja, do sensível para o inteligível,convidado por Dionísio I para ir até Siracusa, na Sicília. da doxa para a episteme, é fundamental admitir queParece claro que Platão tinha a intenção de inculcar no existem as essências. Partindo de dois princípios –tirano o ideal do rei filósofo, exposto no seu diálogo identidade e permanência – Platão recorre aos exemplosGórgias. Esta pretensão do filósofo ateniense logo fez da geometria, onde temos diversas figuras que, nasurgir uma indisposição entre Dionísio I e ele. O tirano realidade, não existiriam neste mundo sensível mas,ficou tão irado com Platão que acabou vendendo-o como apenas no inteligível (somente lá elas permanecem, nãoescravo a um embaixador espartano na cidade de Egina. mudam, não são diferentes de acordo com aFelizmente foi resgatado por um amigo da cidade de interpretação de cada um). É o caso das diversasCirene que, por sorte, se encontrava naquela cidade. árvores ou diversos cavalos. Apesar das diferenças Ao retornar a Atenas, Platão funda sua famosa entre os vários tipos, há algo, um essência que nos fazAcademia num ginásio que se situava em um parque perceber, reconhecer em cada um algo que não muda,dedicado ao herói Academos, de onde derivou seu que permanece e lhe dá identidade de cavalo ou árvore.nome. Para Platão isto se dá no inteligível. Assim também se Não contente com sua malfadada experiência dá com os conceitos. Da justiça, por exemplo, o homemanterior, Platão retorna a Siracusa em 367 a.C., depois tem uma certa intuição. As opiniões divergem mas,da morte de Dionísio I. Quem assumiu o trono foi todos trazemos em nós a essência do que seja a justiça.Dionísio II que, para desespero de Platão, herdara do Denominadas por Platão de Eidós ("idéia" ou "forma"),pai a mesma incompreensão e truculência, basta dizer as essências existem como idéias perfeitas lá no mundoque manteve o filósofo ateniense prisioneiro por alguns inteligível. Dentro do sistema platônico, a teoria domeses, somente permitindo que este retornasse à mundo das idéias (hiperurânio) é um dos pontosGrécia porque Siracusa estava envolvida em uma centrais, pois nos dá a chave para a compreensão deguerra. boa parte de seu pensamento político e epistemológico. Em 361 a.C., Platão retorna pela terceira vez a O “Mundo das Idéias” é uma espécie de mundoSiracusa atendendo a um convite do próprio Dionísio II, transcendente, um lugar onde se encontram as formas,no entanto o tirano não queria outra coisa senão cuidar os modelos perfeitos, os paradigmas eternos e imutáveisse sua formação pessoal, o que causou uma nova e de tudo o que existe e dos quais os objetos que sedefinitiva decepção em Platão, que retornou a Atenas, encontram no mundo de nossa experiência sensível sãoonde permaneceu na direção da Academia até sua apenas cópias imperfeitas. Em resumo, as idéias quemorte. estão no hiperurânio são as verdadeiras e supremas Durante sua vida, Platão escreveu muitas obras e, causas e modelos do mundo sensível (o nosso).segundo os especialistas, seus escritos chegaram aténós na totalidade (cerca de 36 trabalhos). Normalmenteele escrevia na forma de diálogos, ou seja, os 15
  • 6.2 - O conhecimento como reminiscência Não podemos nos esquecer que Platão é um(anamnese) e seus graus: a opinião (doxa) e a idealista, isto é, alguém que acredita que as idéias sãociência (episteme). mais perfeitas e reais que as próprias coisas do mundo sensível. Portanto, quando falamos em contemplação Embora o problema do conhecimento tenha sido das “coisas verdadeiras” estamos falando emventilado por alguns filósofos precedentes. Foi com contemplação do “Mundo das Idéias”.Platão que o problema ganhou um tratamento mais A análise da alegoria da caverna pode ser feita apormenorizado e claro. Sem entrar nas minúcias do partir de duas perspectivas: a epistemológica (relativa aoproblema, podemos afirmar que o nosso filósofo conhecimento) e a política, neste caso vamos nos ater àpercorre um caminho totalmente novo, ou seja, para ele primeira.o conhecimento é anamnese, isto é, uma forma de Quanto à dimensão epistemológica, Platãorecordação daquilo que já existe desde sempre no compara os homens acorrentados aos homens comuns,interior de nossas almas, cumpre dizer que, para Platão, que permanecem dominados pelos instintos e sóas almas dos homens, antes de se encarnarem tiveram alcançam um conhecimento imperfeito da realidadecomo morada o Mundo das Idéias e, portanto, as (conhecimento do mundo sensível, corruptível erecordações seriam a partir das “marcas” ou impressões mutável) , a esse conhecimento imperfeito do real odeixadas pelas idéias em nossas almas. filósofo dá o nome de doxa (opinião). O homem que se Vamos agora tentar ilustrar a questão dos graus de liberta dos grilhões é o filósofo, ele ultrapassa os limitesconhecimento a partir do capítulo VII do diálogo “A do conhecimento sensível e alcança o conhecimento doRepública”, onde Platão expõe o mito da caverna, na mundo das idéias, a esse conhecimento (das essênciasverdade uma alegoria usada para tornar mais clara a eternas e imutáveis das coisas, as idéias) Platão chamasua teoria. Segundo esse famoso relato, os homens de episteme (ciência).encontram-se acorrentados em uma caverna desde sua Resumindo, as almas de todos os homens tiveram,infância, de tal forma que, não podendo voltar para sua em um dado momento, como morada, o mundo dasentrada, enxergam apenas o fundo da mesma. Aí são idéias, e ali conheceram as essências de todas asprojetadas somente as sombras das coisas que passam coisas. No entanto, estas foram esquecidas no momentoàs suas costas. Ora se um desses homens conseguisse da encarnação, quando as almas se tornaramlibertar-se dessas correntes para contemplar, à luz do prisioneiras do corpo. Por isso para nosso filósofo todadia, os “verdadeiros objetos”, quando voltasse para busca pelo conhecimento nada mais é do que o esforçocontar o que vira, não mereceria o crédito de seus para lembrar daquilo que outrora conhecemos,antigos companheiros, que o tomariam por insano e passando assim da doxa para a episteme, esta é apossivelmente o matariam. teoria da reminiscência. FRAGMENTOS: A ALEGORIA DA CAVERNA. Trata-se de um trecho do livro VII de A República: no diálogo, as falas na primeira pessoa são deSócrates, e seus interlocutores, Glauco e Adimanto, são os irmãos mais novos de Platão. ---Agora --- continuei ---representa da seguinte forma o estado de nossa natureza relativamente à instrução e àignorância. Imagina homens em morada subterrânea, em forma de caverna, que tenha toda a largura uma entrada abertapara a luz; estes homens aí se encontram desde a infância, com as pernas e o pescoço acorrentados, de sorte que nãopodem mexer-se nem ver alhures exceto diante deles, pois a corrente os impede de virar a cabeça; a luz lhes vem de umfogo aceso sobre uma eminência, ao,longe atrás deles; entre o fogo e os prisioneiros passa um caminho elevado; imaginaque, ao longo desde caminho, ergue-se um pequeno muro, semelhante aos tabiques que os exibidores de fantocheserigem à frente deles e por cima dos quais exibem as suas maravilhas. --- Vejo isso --- disse ele. --- Figura, agora, ao longo deste pequeno muro homens a transportar objetos de todo o gênero, que ultrapassamo muro, bem como estatuetas de homens e animais de pedra, de madeira, e de toda a espécie de matéria: naturalmente,entre estes portadores, uns falam e outros se calam. ---Eis---exclamou---um estranho quadro e estranhos prisioneiros! ---Eles se nos assemelham ---repliquei---mas, primeiro, pensas que em tal situação jamais hajam visto algo de sipróprios e de seus vizinhos, afora as sombras projetadas pelo fogo sobre a parede da caverna que está a sua frente? ---E como poderiam?---observou---se não forçados a quedar-se a vida toda com a cabeça imóvel? ---E com os objetos que desfilam, não acontece o mesmo? ---Incontestavelmente ---Se, portanto, conseguissem conversar entre si não julgas que tomariam por objetos reais as sombras queavistassem? ---Necessariamente ---Considera agora o que lhes sobreviverá naturalmente se forem libertos das cadeias e curados da ignorância.Que se separe um desses prisioneiros, que o forcem a levantar-se imediatamente, a volver o pescoço , a caminhar, aerguer os olhos à luz: ao efetuar todos esses movimentos sofrerá, e o ofuscamento o impedira de distinguir os objetos cujasombra enxergava há pouco. O que achas, pois que ele responderá se alguém lhe vier dizer que tudo quanto vira atéentão eram fantasmas, mas que presentemente, mais perto da realidade e voltado para objetos mais reais, vê de maneiramais justa? Se enfim, mostrando-lhe cada uma das coisas passantes, o obrigar, à força de perguntas, a dizer que é isso?Não crês que ficará embaraçado e que as sombras que viu há pouco lhe parecerão mais verdadeiras do que objetos queora lhe são mostrados? ---Muito mais verdadeiras ---reconheceu ele. 16
  • ---E se o forçam a fitar a própria luz, não ficaram os seus olhos feridos? Não tirará dela a vista, para retornar àscoisas que pode olhar, e não crerá que estas são realmente mais distintas do que as outras que lhe são mostradas? ---Seguramente. ---E se --- prossegui --- o arrancam à força de sua caverna, o compelem a escalar a rude e escarpada encosta enão o soltam antes de arrastá-lo até a luz do sol, não sofrerá ele vivamente e não se queixará destas violências? E quandohouver chegado à luz, poderá, com os olhos completamente deslumbrados pelo fulgor, distinguir uma só das coisas queagora chamamos verdadeiras? ---Não poderá --- respondeu ---; ao menos desde logo. --- Necessitará, penso, de hábito para ver os objetos da região superior. Primeiro distinguirá mais facilmente assombras, depois as imagens dos homens e dos outros objetos que se refletem nas águas, a seguir os próprios objetos.Após isso, poderá, enfrentando a claridade dos astros e da lua, contemplar mais facilmente durante a noite os corposcelestes e o céu mesmo, do que durante o dia o sol e sua luz. ---Sem dúvida. ---Por fim, imagino, há de ser o sol, não suas vãs imagens refletidas nas águas ou em qualquer outro local, mas opróprio sol em seu verdadeiro lugar, que ele poderá ver e contemplar tal como é. ---Necessariamente. ---Depois disso, há de concluir, a respeito do sol, que é este que faz as estações e os anos, que governa tudo nomundo visível e que, de certa maneira, é causa de tudo quanto via, com seus companheiros, na caverna. ---Evidentemente, chegará a esta conclusão. ---Imagina ainda que este homem torne a descer a caverna e vá sentar-se em seu antigo lugar: não terá ele osolhos cegados pelas trevas, ao vir subitamente do pleno sol? ---Seguramente sim ---disse ele. ---E se, para julgar estas sombras, tiver de entrar de novo em competição, com os cativos que não abandonaramas correntes, no momento em que ainda está com a vista confusa e antes que seus olhos se tenham reacostumado (e ohábito à obscuridade exigirá ainda bastante tempo), não provocará riso à própria custa e não dirão eles que, tendo ido porcima, voltou com a vista arruinada, de sorte que não vale mesmo a pena tentar subir até lá? E se alguém tentar soltá-los econduzi-los ao alto, e conseguissem eles pegá-lo e matá-lo, não o matarão? ---Sem dúvida alguma ---respondeu. ---Agora, meu caro Glauco ---continuei---cumpre aplicar ponto por ponto esta imagem ao que dissemos maisacima, comprar o mundo que a vista nos revela à morada da prisão e a luz do fogo que a ilumina ao poder do sol. No quese refere à subida á região superior e à contemplação de seus objetos, se a considerares como a ascensão da alma aolugar inteligível; não te enganarás sobre o meu pensamento, posto que também desejas conhecê-lo. Deus sabe se ele éverdadeiro. Quanto a mim, tal é minha opinião: no mundo inteligível a idéia do bem é percebida por último e a custo, masnão se pode percebe-la sem conclui que é a causa de tudo quanto há de direito e belo em todas as coisas; que elaengendrou, no mundo visível e a luz e o soberano da luz; que; no mundo inteligível, ela própria é soberana e dispensa averdade e a inteligência; e que preciso vê-la para conduzir-se com sabedoria na vida particular e na vida pública. ---Partilho de tua opinião ---replicou ---na medida em que posso. (Platão, A República, v. 11, p. 105 a 109) UNIDADE 8 – ARISTÓTELES: CAUSAS E TELOS.* João Vicente Hadich Ferreira. da zoologia e estudioso das constituições das pólis, fundará sua própria escola, o Liceu. Aristóteles (384-322 a.C.), que não era grego Para o estagirita, a ciência implica nona realidade, nasceu na Macedônia, na região chamada conhecimento verdadeiro. É um conhecimento dasCalcídia, na cidade de Estagira. Por isso será chamado causas, que supera os enganos da opinião.também de o estagirita. Seu pai foi médico do Rei Filipe Enveredando pelo caminho das causas, Aristótelesda Macedônia, pai por sua vez daquele que entraria para trabalha com a idéia de uma teleologia. Para ele tudoa História como Alexandre, o Grande. O jovem tem um telos, do grego fim, finalidade. A faca apresentaAlexandre foi discípulo de Aristóteles por um período até um telos: cortar. A cadeira tem o seu telos: serve paraque, com a morte do pai deixa os estudos para assumir sentar. É um metafísico. Retomando a tese heraclitiana,o poder. Discípulo de Platão por vinte anos na Aristóteles entende que isto permite compreender oAcademia, Aristóteles não poupou críticas ao mestre. devir, ou seja, o vir-a-ser, o movimento defendido peloJustificava-se dizendo que, apesar de amigo de Platão, pré-socrático. Retomando a questão do ser, demonstraera mais amigo da verdade. Produzindo uma vasta obra que há diferença entre “ser alguma coisa” e “serfilosófica, da qual muito se perdeu, entra para a História, absolutamente”. O primeiro refere-se a um predicativo,juntamente com Platão como um dos grandes sistemas ou seja, algo que atribuímos a substância ou ser. Ofilosóficos do Ocidente. Rigorosamente interligados, os segundo, por sua vez, é existencial, representando oassuntos de suas obras são muitos e abrangentes, o necessário, aquilo existe realmente, aquilo que é.que torna Aristóteles um dos grandes pesquisadores da Partindo destes pressupostos, criticará Platão e suaantigüidade. Responsável pelas primeiras classificações Teoria das Idéias. Para ele Platão não explica o “ser” 17
  • das coisas pois, ao desvincular a essência da própria Aristóteles temos aqui o devir: é o movimento quecoisa, não resolve o problema do conhecimento mas, envolve a passagem da POTÊNCIA para o ATO.apenas, demonstra a imperfeição deste Desenvolvendo uma análise dos movimentos, o estagirita terá que responder quais os tipos de causasmundo. Racionalista como Platão, Aristóteles contudo que ocasionam o devir já que, o movimento é aconsidera que o inteligível platônico não resolve o passagem da potência para o ato. Ele desenvolve entãoproblema. O conhecimento se dá não no inteligível, mas sua “teoria das quatro causas”. Todas as substânciasno próprio sensível. Para fundamentar sua tese, apresentariam quatro causas: uma material, umaAristóteles trabalhará com alguns conceitos. São eles: eficiente, uma formal e uma final. A material, ligada àsubstância, essência e acidente, ato e potência, matéria, representa “aquilo de que a coisa é feita”. Naforma e matéria e a Teoria das Quatro Causas que, causa eficiente, descobrimos “aquilo com que a coisa éinevitavelmente o levará à Teoria da Causa Primeira. feita”. Na formal está “aquilo que a coisa vai ser e, por No entendimento aristotélico, os dois mundos fim, na final, “aquilo para o que a coisa é feita” – seu– sensível e inteligível – fundem-se na substância telos, sua finalidade. É o fim a que se destina. Umenquanto “aquilo que é em si mesmo”. Para explicar a exemplo seria o da estátua, onde facilmentesubstância, Aristóteles entende que ela possui dois identificaríamos as quatro causas. Destas e outrasatributos: a essência e o acidente. A primeira é o análises, Aristóteles fundamentará a sua física geral,atributo que não pode faltar à substância, ou seja, sem entendida como a ciência que trata do movimento e queesta não é possível entendermos a substância que se estaria restrita aqui na Terra, local onde é possível odetermina. O segundo, por sua vez, é um atributo devir. A Terra, portanto, é o mundo da mudança.facultativo. Aparecendo ou não na substância, nós a A teoria das quatro causas, contudo, nãocompreenderemos da mesma maneira. Para explicar o fecha as questões. Se explica o movimento, não resolveprocesso de transformação dos seres, recorre aos a questão da petição de princípio em que cai o esquemaconceitos de forma e matéria onde, forma é o que faz proposto pelo filósofo. Por exemplo, se o carvalho emcom que uma coisa seja o que ela é, ou seja, ligada à ato foi antes uma semente com a árvore em potência,essência, está no inteligível (que não é o platônico). Já, que veio de outra árvore em ato que, por sua vez, antesa matéria, constituiria o princípio indeterminado que de ser ato estava também em potência, advinda de outracomporia o mundo físico. Em outras palavras, a matéria árvore em ato, onde está o início: na semente ou noseria “aquilo de que é feito algo”. A matéria, passiva, carvalho? Qual é a causa inicial? Para Aristóteles, seconteria a forma em potência e, o que geraria o todo este processo é gerado e exige uma contingência,movimento (o devir de Heráclito) seria a atualização da deve haver um SER que seja NECESSÁRIO e nãoforma. Partindo para mais dois conceitos – ato e CONTINGENTE. Este ser não precisou de outro parapotência – Aristóteles explica com isto que todo ser ser gerado. Seria portanto ATO PURO (nunca foi emtende a tornar atual a forma que tem em si como potência), incausado – já que seria CAUSA PRIMEIRA –potência, contida na matéria. Estes conceitos e, conseqüentemente, o responsável inicial por todo oexplicariam a relação dos seres entre si, da ação de um desencadeamento do movimento. Chamado de MOTORsobre o outro onde, para se tornar ATO, o ser em PRIMEIRO também, seria DEUS para Aristóteles.POTÊNCIA precisa de outro ser já em ATO. Isto gera Pairando acima do Universo, movendo-o como causauma CONTINGÊNCIA, ou seja, um ser precisando do final, não cria o mesmo e nem o conhece. O Universo éoutro. É o caso do carvalho que, primeiro é potência eterno. Incorpóreo, pura forma, Deus para Aristóteles édentro da semente. Para tanto, precisou de outro um pensamento auto-contemplativo. É fundamento paracarvalho, já em ato, para que, depois ele também possa a metafísica aristotélica.se atualizar e gerar outro ser em potência. Para 18
  • GLOSSÁRIO:Aedo: na Grécia antiga, poeta que recitava ou cantava suas composições religiosas ou épicas, acompanhando-se à lira.Antropomorfismo: crença ou doutrina que atribui a Deus ou a deuses forma(s) ou atributo(s) humanos.Arché: começo, ponto de partida, princípio, suprema substância subjacente, princípio supremo indemonstrável.Aristocracia: tipo de organização social e política em que o governo é monopolizado por um número reduzido de pessoasprivilegiadas não raro por herança.Cinismo: doutrina e modo de vida dos cínicos, partidários dos filósofos gregos Antístenes de Atenas (444-365 a.C.) eDiógenes de Sínope (413-323 a.C.), fundadores da escola cínica.Cosmogonia: mito ou doutrina referente à origem do mundo.Cosmologia: qualquer doutrina ou narrativa a respeito da origem , da natureza e dos princípios que ordenam o mundo ou ouniverso, em todos os seus aspectos.Empirismo: doutrina ou atitude que admite, quanto à origem do conhecimento, que este provenha unicamente daexperiência, seja negando a existência de princípios puramente racionais, seja negando que tais princípios, existentesembora, possam, independentemente da experiência, levar ao conhecimento da verdade.Épico: que diz respeito à epopéia e aos heróis.Epopéia: poema de longo fôlego acerca de assunto grandioso e heróico.Especulação: exame atencioso, averiguação minuciosa, observação, indagação, pesquisa.Ética: estudos dos juízos de apreciação referentes à conduta humana suscetível de qualificação do ponto de vista do bem edo mal, seja relativamente a determinada sociedade, seja de modo absoluto.Filosofia: (do gr. Philosophia, ‘amor à sabedoria’). Estudo que se caracteriza pela intenção de ampliar incessantemente acompreensão da realidade, no sentido de apreendê-la na sua totalidade, quer pela busca da realidade capaz de abrangertodas as outras, o Ser (ora ‘realidade suprema’, ora ‘causa primeira’, ora ‘fim último’, ora ‘absoluto’, ‘espírito’, ‘matéria’, etc.),quer pela definição do instrumento capaz de aprender a realidade, o pensamento (as respostas às perguntas: que é arazão? O conhecimento? A consciência? A reflexão? Que é explicar? Provar? Que é uma causa? Um fundamento? Umalei? Um princípio? etc.), tornando-se o homem tema inevitável de consideração. Ao longo da sua história, em razão dapreeminência que cada filósofo atribui a qualquer daqueles temas, o pensamento filosófico vem-se cristalizando emsistemas, e cada um deles com uma nova definição de filosofia.Genealogia: série de antepassados, estudo das origens das famílias, origem, procedência, linhagem.Helenístico: diz-se do período histórico que vai desde a conquista do Oriente por Alexandre até a conquista da Gréciapelos romanos.Heleno: indivíduo dos Helenos, povos que, substituindo a dominação dos pélagos, povoaram a Grécia.Laicização: exclusão dos elementos religiosos ou eclesiásticos de determinada organização estatal, de ensino.Mito: 1. narrativa de significação simbólica, geralmente ligada a cosmogonia, e referente a deuses que encarnam as forçasda natureza e/ou aspectos da condição humana. 2. Forma de pensamento oposta à do pensamento lógico e científico. 3.exposição de uma doutrina ou de uma idéia sob forma imaginativa, em que a fantasia sugere e simboliza a verdade quedeve ser transmitida, como por ex. no mito da caverna figurado no livro VII da República de Platão.Moral: conjunto de regras de conduta consideradas como válidas, quer de modo absoluto para qualquer tempo ou lugar,quer para grupo ou pessoa determinada.Paradigma: modelo, padrão.Patriarcal: diz-se de um tipo ou forma que se desenvolveu em certas épocas, como, por ex., na Antiguidade Clássica, e emque o chefe de família ou patriarca, duma autoridade absoluta, resumia toda a instituição social do tempo.Pedagogia: teoria e ciência da educação e do ensino.Pólis: cidades-Estado gregas.Politeísmo: religião em que há muitos deuses.Pragmatismo: 1. doutrina de Charles Sanders Peirce, filósofo americano (1839-1914), cuja tese fundamental é que a idéiaque temos de um objeto qualquer nada mais é senão a soma das idéias de todos os efeitos imagináveis atribuídos por nósa esse objeto, que possam ter um efeito prático qualquer, pragmaticismo. 2. Doutrina segundo a qual a verdade de umaproposição é uma relação totalmente interior à experiência humana, e o conhecimento é um instrumento a serviço da ação,tendo o pensamento caráter puramente finalístico: a verdade de uma proposição consiste no fato de que ela seja útil, tenhaalguma espécie de êxito ou de satisfação.Socratismo: relativo à Sócrates.Subjetivo: relativo a sujeito. Existente no sujeito. Que pertence unicamente ao pensamento humano em oposição aomundo físico, isto é, à natureza empírica dos objetos a que se refere.Suserania: autoridade sob determinado território.Teogonia: geração dos deuses e do mundo; cosmologia mítica.Theós: deus. 19
  • BIBLIOGRAFIA:ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. Trad. da 1.ª ed. bras.: Alfredo Bosi. São Paulo: Martins Fontes,2000.ARANHA, M. L. de Arruda; MARTINS, M. H. Pires. Filosofando: introdução à filosofia. 2ª ed. rev. e atualizada.São Paulo: Moderna, 2001.ARANHA, M. L. de Arruda; MARTINS, M. H. Pires. Temas de filosofia. 2ª ed. rev. São Paulo: Moderna, 2001.CHAUÍ, Marilena. Convite à filosofia. 12.ª ed. 7.ª impr. São Paulo: Ática, 2002.CHAUÍ, Marilena. Filosofia. Série Novo Ensino Médio. 1.ª ed. 5.ª impr. São Paulo: Ática, 2002.COULANGES, Fustel de. A cidade antiga. Coleção a obra-prima de cada autor. São Paulo: Martin Claret, 2002.EPSTEIN, Isaac. O signo. 4ª ed.: série princípios. São Paulo: Ática, 1991.HUISMAN, Denis. Dicionário de obras filosóficas. Trad.: Ivone Castilho Benedetti. 1.ª ed.. São Paulo: MartinsFontes, 2000.KANT, Immanuel. Resposta à Pergunta: Que é "Esclarecimento"? ("Aufklärung"). Petrópolis: Vozes, 19--.LORENZ, Konrad. A demolição do homem: crítica à falsa religião do progresso. Editora Brasiliense, SãoPaulo: 1986.LOVO, Adriana; RODRIGUES, Zita Ana Lago. Filosofia e Educação: a dimensão evolutiva do conheciemtno.Curitiba, Qualogic, 2000.MACDONALD, Fiona. Como seria sua vida na Grécia Antiga? Coleção como seria sua vida? Trad.: Maria deFátima S. M. Marques. São Paulo: Scipione, 1996.MEC. ENEM. Documento Básico do ENEM.MOUNIER, Emmanuel. O personalismo. 2ª ed., Livraria Morais Editora, Lisboa: 1964.OLIVEIRA, A. Serafim de & outros. Introdução ao pensamento filosófico. 2ª ed., Ed. Loyola, São Paulo: 1983.PAIM, Antônio; PROTA, Leonardo; RODRÍGUEZ, Ricardo Velez. Curso de Humanidades 5 – Filosofia: guias deestudos Londrina: Ed. UEL: Instituto de Humanidades, 1999.PESSANHA, José Américo Mota (Coord.). História das grandes idéias do mundo ocidental - vol. I. Coleção "Os Pensadores". São Paulo: Abril Cultural, 1972.RANDON, MARIA AUGUSTA. A origem do Mundo. Ilustrações de Maria da Graça Muniz Lima. Salamandra, Riode Janeiro: 2001.RONCA, Paulo Afonso Caruso. O pensamento prece uma coisa à-toa...: Caminhos que ligam o pensar aoconhecimento. 5.ª ed. São Paulo: Eesplan, 2001.SOUZA, Sônia Maria Ribeiro de. Um outro olhar: Filosofia. São Paulo: FTD, 1995. 20