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  • 1. Índice Prefácio ............................................................................................................................. 3 Poesia (3º ciclo) ................................................................................................................ 4 A Paixão ....................................................................................................................... 5 O Amor na Adolescência.............................................................................................. 7 Bolhas (feias, bonitas, boas e más) ............................................................................. 11 Passagem .................................................................................................................... 12 Mundo dos sonhos ...................................................................................................... 13 Sou .............................................................................................................................. 15 Conversa de Silêncios ................................................................................................. 17 Sozinha ....................................................................................................................... 19 Se eu te perdesse ......................................................................................................... 21 África Minha............................................................................................................... 22 Simplesmente o mar ................................................................................................... 23 Não consigo esquecer ................................................................................................. 24 Prosa (3º ciclo)................................................................................................................ 26 Apocalipse .................................................................................................................. 27 Mortais ........................................................................................................................ 29 Horizonte .................................................................................................................... 30 Apocalipse .................................................................................................................. 33 Horizonte .................................................................................................................... 35 Fiapos da Noite ........................................................................................................... 38 Momentos ................................................................................................................... 72 Sophie ......................................................................................................................... 73 Dreams ...................................................................................................................... 110 Poesia (Ensino Secundário) .......................................................................................... 112 Morro ........................................................................................................................ 113 Vivo .......................................................................................................................... 114 Palavras para que? .................................................................................................... 115 A Nossa Cidade ........................................................................................................ 116 A Nossa Cidade ........................................................................................................ 116 Adeus, meu amor… .................................................................................................. 117 Esquece!.................................................................................................................... 118 1
  • 2. Saudade..................................................................................................................... 119 Tédio e cansaço ........................................................................................................ 120 Alma Embrulhada ..................................................................................................... 121 Verão ........................................................................................................................ 122 Perdida ...................................................................................................................... 123 Rumo de ninguém ..................................................................................................... 124 Sabores ..................................................................................................................... 125 Sem Nada Perceber................................................................................................... 126 Sensação ................................................................................................................... 127 Será que falta faço?................................................................................................... 128 Sonhos ...................................................................................................................... 129 Alma Natural ............................................................................................................ 130 Ao Fim da Noite ....................................................................................................... 131 Apenas esperar.......................................................................................................... 132 Brisa Fria .................................................................................................................. 133 Guerras de Tempestades ........................................................................................... 134 Prosa (Ensino Secundário)............................................................................................ 135 Devil May Cry - The Past Records – The Last Crusades ......................................... 136 First Record .............................................................................................................. 137 À Genicarla… amizade do outro lado do oceano ..................................................... 155 Nojo .......................................................................................................................... 156 Olhai ......................................................................................................................... 157 O Herói do século XXI ............................................................................................. 158 2
  • 3. Prefácio 3
  • 4. Poesia (3º ciclo) 4
  • 5. A Paixão O dia ensombrado, melancólico e absorto. Como eu. Olhei o céu de chumbo: quieto, frio, ausente… Inspirei fundo a solidão calma espelhada nas árvores e recordei: Foi num dia assim que me apaixonei, e agora estou sozinha, abandonada. Mas chega de lamúrias vou-vos contar tudo o que aconteceu: Estava no segundo ano de escolaridade não sei explicar foi amor à primeira vista, toda a gente me perguntava o que eu via nele mas eu não fazia a mínima ideia, era amor. O pior, era que para ele era uma simples rapariga. Ele “apaixonou-se” por muitas raparigas mas nunca por mim, até vos posso dizer os nomes dessas raparigas: Margarida Rute Joana Ana Laura Raquel Carla Nicole Rita Santana Alexandra E sabe se lá mais quantas que eu nunca ouvi falar… Esperei por ele quatro anos, até que um dia fiquei a saber que finalmente “gostava” de mim. Nenhum de nós avançava somos os dois muito tímidos. No dia seguinte houve a chuva de estrelas na minha escola, concorri para o impressionar e resultou, “houve namoro”. Acho que se passou uma semana e estava de férias de Carnaval, era terça-feira o último dia de férias e nós acabamos, aliás ele acabou comigo. Fiquei magoada e ainda gosto dele, mas como já disse agora estou sozinha e abandonada. 5
  • 6. Cláudia Pereira, Turma 7º A 6
  • 7. O Amor na Adolescência Tinha mudado de escola e era o meu primeiro dia de aulas, estava correr tudo bem até que duas das minhas amigas resolveram apresentar-me a um rapaz chamado Rodrigo. Ele não era, e não é, nada de especial, mas não sei como, apaixonei-me por ele, demorei muito tempo a resolver contar-lhe. O problema foi quando lhe contei, ele disse que se calhar poderíamos ser amigos coloridos. Mas depois perguntei-lhe se era a sério e ele disse que estava a gozar, por isso não liguei e segui com a minha vida. Passados alguns dias, eu, a minha melhor amiga e ele saímos da escola juntos e resolvemos ir por um caminho novo, estava a correr tudo bem éramos apenas três amigos felizes… No dia seguinte saímos da escola só os dois, estava muito nervosa, mas decidi relaxar, estava a correr tudo muito bem até que tivemos a seguinte conversa: - Eras capaz de voltar a sentir alguma coisa por mim? – perguntou ele. Eu disse que não como a todas as perguntas que ele me fez, por exemplo: - Posso pôr-te o braço por cima? Posso dar-te a mão?.... Quando nos tivemos que separar nós fizemos uma coisa que nunca tínhamos feito antes, despedimo-nos com dois beijos na cara. Ia a caminho do meu destino, quando ele me liga a dizer que me amava muito e que não aguentava mais sem me dizer, quando lhe ia responder, que sorte a minha, fiquei sem bateria no telemóvel. Quando cheguei a casa, a primeira coisa que fiz foi ligar o telemóvel à bateria e telefonar-lhe. Pedi-lhe desculpa por ter ficado sem bateria no telemóvel e perguntei-lhe se o que ele me tinha dito era mesmo verdade, ele disse que sim e perguntou-me se eu queria namorar com ele, mas ninguém podia saber ou desconfiar, eu sem evitar respondi logo que sim. Mas não me consegui conter e fui logo contar às minhas melhores amigas. Estava a correr tudo bem, éramos um casal de namorados perfeitamente normal, saíamos da escola e íamos namorar um pouco, ele telefonava-me todas as noites só para me dizer DORME BEM e coisas assim… Adorava estar com ele, ao contrário do que ele era na escola, quando estava comigo era um querido. Passadas mais ou menos duas semanas, uma das minhas amigas resolveu dar com a língua nos dentes. Toda a turma ficou a saber, resultado fomos gozados e não foi pouco, ele passou-se e acabou comigo, era uma quarta-feira, tínhamos tarde livre e a primeira 7
  • 8. coisa que fiz quando cheguei a casa foi tentar resolver as coisas, e felizmente ficou tudo bem. No dia seguinte, ele telefonou-me a hora de almoço para ir ter a casa dele, nós estávamos pouco tempo juntos por isso tomei o rumo a casa dele. Quando cheguei lá estava a correr tudo bem estávamos só aos beijos, o problema foi depois… fomos para o quarto dele e tirámos as camisolas, mas tenham calma não passámos daí, ficámos só aos beijos. Por fim, tivemos que ir para a escola. Isto repetiu-se em todas as quintas-feiras, até uma que despimos as calças, mas é claro que a minha amiga Marta tinha que estragar tudo estando sempre a ligar para mim… Voltei para a escola e falei com as minhas amigas elas já me estavam a imaginar como uma adolescente grávida. Um dia, resolvi perguntar-lhe se ele gostava mesmo de mim e ele disse que estava confuso e que já não sabia, por isso acabou comigo. No dia seguinte, ele começou-se a atirar à minha melhor amiga, a Patrícia, senti-me um pouco magoada e dias depois fui parar ao hospital por causa dele. Falei com a médica e contei-lhe tudo o se tinha passado, e ela disse que se calhar me tinha enervado demais. Passadas algumas semanas chegaram as férias de Natal, ele voltou a dar esperanças a uma rapariga, a Ana Sofia, quando finalmente consegui esclarecer as coisas e estava a conseguir esquecê-lo, ele perguntou-me se eu soubesse que ele ainda gostava de mim se voltava a namorar com ele e eu disse que talvez sim. Mas fiquei tão feliz que até parece que foi um sonho, e agora não sei se foi mesmo um sonho ou é realidade. Começaram as aulas e eu estava ansiosa para saber se afinal namorava mesmo com ele. Estava a correr tudo bem, eu só estava à espera da hora de almoço, porque era uma quinta-feira, quando ele me costumava ligar, e sempre era verdade namorávamos mesmo. Ele ligou-me, e eu atendi: - Estou! – Estou, amor! Era só para saber se podias vir a minha casa. - Não sei se vai dar, as minhas amigas não me largam… Foi aí que ele teve uma reacção que me espantou imenso. - Elas também podem vir. Eu não disse nada e seguimos caminho. Quando chegámos lá ele abriu-nos a porta e entrámos, apanhámos todos uma seca, ficámos o tempo todo sentados no sofá a olhar 8
  • 9. para a lareira apagada, devia ser para ver se a conseguíamos acender com os nossos olhos. Quando fomos embora o céu estava um pouco escuro, até que começou a chover a potes, não cabíamos todos debaixo do guarda-chuva, por isso desatámos a correr. Quando finalmente chegámos à escola, estávamos completamente cheios de frio e todos molhados, acho que a água que tínhamos no corpo dava para encher uma piscina. Foi quando as coisas pioraram e tivemos de ir ao rastreio. Quando as aulas acabaram eu era para ir para a minha antiga escola, os Salesianos, mas depois a minha mãe ligou-me a dizer que estava muito frio, então voltei para trás para casa da minha amiga, Marta. No caminho encontrei o meu suposto namorado, ele escondeu-se e chamou-me, eu fui e ele beijou-me, agora tinha mesmo a certeza de que éramos namorados. Têm sido uns dias muito excitados para mim, porque estou sempre à espera de um pouco de tempo para nós no fim das aulas. Na última aula do dia mais conhecida por chá das cinco ou aulas dos berros, tive uma conversa com as minhas amigas por causa das quintas-feiras, para disfarçar comecei a dizer que amava o Zac Efron, o pior foi que quando ouve um segundo de silêncio só se ouviu a minha voz a dizer: EU AMO O ZAC EFRON!!!!!!!!!!! Fiquei muito envergonhada e comecei-me a rir que nem uma perdida. Depois da aula estava muito nervosa, até porque a minha melhor amiga também gosta dele e queria vir atrás de nós, com esta confusão toda, acabei por perdê-lo pelo caminho. Como queria passar mais tempo com ele decidi mandar um sms à minha mãe a dizer que ia para casa de uma amiga, aproveitei e mandei-lhe também um a ele a dizer que tinha até às 16:30 para estar com ele. Passado um pouco, ele mandou-me um toque mas eu não tinha dinheiro para lhe telefonar, por isso tomei rumo a casa da minha amiga. O pior é que era uma sexta-feira e teria que esperar até segunda-feira para o ver outra vez e estarmos juntos na aula de Francês. Não sei porque ansiava pela segunda-feira talvez porque queria matar saudades, mas acabou por acontecer tudo ao contrário ele acabou tudo na aula de Francês. Fiquei mal disposta, cheia de tonturas e pedi a professora para me ir acalmar, saí da sala e comecei a chorar, parecia que tinha morrido alguém, e se calhar até morreu, eu. 9
  • 10. Perguntei-lhe porquê, e ele disse que eu só lhe mentia, ele pode não acreditar mas ele é a única pessoa a quem eu nunca menti, EU AMO-O E PARECE QUE A ÚNICA PESSOA QUE NÃO O PERCEBE E ELE. Estou muito abalada e não me apetece falar nisso, já é a segunda vez que ele me deita completamente abaixo e eu tomei uma decisão, a partir de agora A LILIANA MORREU E NÃO VOLTA. Era terça-feira e eu decidi ir para os Salesianos, precisava de desabafar com alguém e pensei logo na Inês. Quando ia a caminho, fui com ele e acabou tudo como sempre aos berros e aos pontapés, o pior é que na noite anterior um dos meus ex-namorados esteve- se a atirar a mim, o primo da minha melhor amiga, o Pedro, mas isso não interessa. Não sei como ao fim de uma semana ou mais, eu e o Rodrigo conseguimos fazer as pazes, ele disse-me que ainda me amava e eu senti-me obrigada a dizer-lhe a verdade, que também o amava. Também não posso deixar de admitir que estou feliz por namorarmos outra vez, e, que nunca mais vou esquecer este namoro, um dia mais tarde talvez… eu ao ler este texto me ria de tanta confusão. Cláudia Pereira 10
  • 11. Bolhas (feias, bonitas, boas e más) Bolhas, bolhas, bolhas Bolhas de sabão Bolhas de algodão Bolhas dos pés dos crentes caminhantes Bolhas de ar e labaredas de fogo “Bolhas” do rosto de gente de idade tenra Bolhas, bolhas, bolhas Todas juntas na banheira ou no tanque Nas mãos de um bebé Ou nas de uma lavadeira Lavadeira que tem bolhas nas mãos, nos pés e nas bolhas Bolhas, bolhas, bolhas. Ana Margarida Gonçalves Coelho Torres Centeno 8º ano 11
  • 12. Passagem O pincel com tinta negra Na água límpida se desfaz De água pequenina Passa para água de criador, Água de inventor, Água de pai e de mãe, Água de caiador ou de pintor. A tinta se desfaz na água Num simples poisar de pincel. Ana Margarida Gonçalves Coelho Torres Centeno 8º ano 12
  • 13. Mundo dos sonhos O mundo dos sonhos É um mundo invisível É um mundo transparente e mágico. Só alguns é que lá vão, E esses desejam ficar lá para sempre. É um mundo onde o imaginário é real Onde os pássaros voam mais alto, Onde as palavras pairam pelo ar, Onde o arco-íris é mais colorido, Onde o mar é mais azul, Onde o sol é mais brilhante, Onde podes ser aquilo que queres, Pois o mundo dos sonhos É o melhor refúgio. Para ir lá, Não é preciso ver, Nem ouvir, Nem sentir, Basta pensar que temos asas E voamos... 13
  • 14. Sofia Cordeiro Fadigas Rodrigues Colaço 8ºano 14
  • 15. Sou Sou aquilo que sou, Não sou aquilo que faço, Quero aquilo que sou, Não sou aquilo que quero, Apenas sou... Apenas eu... 15
  • 16. Sofia Cordeiro Fadigas Rodrigues Colaço 8º ano 16
  • 17. Conversa de Silêncios Não sei bem o que te quero dizer Procuro palavras para algo indefinido Estamos frente a frente, olhos nos olhos E a única coisa que sei é que quero ficar assim Sinto-me perdida, confusa Trocamos silêncios Pareces também não saber o que dizer Não sei ao certo Já nem tentamos proferir palavras Para quê?! Só complicam tudo! Quero tocar-te Quero sentir a tua realidade Aproximamo-nos a medo Centímetro a centímetro A distância encurta-se O tempo parece parar No momento em que te toco, alguém chama Palavras que parecem ferir Resgatam-me para a realidade Só tenho tempo para mais um olhar Antes de despertar Mas sei que ficarás sempre aqui Para terminarmos a nossa conversa de silêncios. Maria Teresa Torres Vaz Freire, 9º ano 17
  • 18. 18
  • 19. Sozinha Um dia serei uma folha, De um caderno na tua mão. Um dia serei uma palavra, Que sairá dos teus lábios Um dia serei um sussurro Numa noite escura Um dia serei um gesto Que farás sem pensar Um dia serei um resto De uma nada sem perdão Um dia serei um verso Que alguém irá repetir Um dia serei um olhar Esquecido nos teus olhos Um dia serei liberdade De cantar lá do fundo Um dia serei saudade Do tempo do passado Um dia serei nota Da música que não cantas Um dia serei fotografia De um momento parado Um dia serei magia Que não aprendeste a fazer Um dia serei alegria Por te ver Agora sou ilusão De quem procura um caminho Agora, simplesmente, Te espero Agora, simplesmente, 19
  • 20. Sou eu Agora, simplesmente, Sozinha… Maria Teresa Torres Vaz Freire, 9º ano 20
  • 21. Se eu te perdesse Se eu te perdesse, Não chorava, ria, Para me lembrar de ti. Ao rir-me sei que Onde quer que estivesses Ririas comigo, como rimos agora! Se eu te perdesse Sonhava, com o dia em que te iria encontrar! Sonhava todas as noites contigo, Com o teu sorriso inconfundível, Com as tuas gargalhadas, E aí sim, chorava, Por não te poder ter ao pé de mim, Por me teres deixado sozinha, Como tinhas prometido não fazer! Se eu te perdesse, Perdia uma parte de mim, A parte que não esquece que estás lá, Quando eu precisar, a toda a hora! Se eu te perdesse Nunca mais descansava, Até te encontrar, porque, Te adoro! Maria Teresa Torres Vaz Freire, 9º ano 21
  • 22. África Minha Tantas vidas que se perdem Porque ninguém vê! Tantas lágrimas que correm a juntar-se aos mares, lá longe Porque o gelo de alguns corações não derrete, por mais calor que esteja! Tanta tristeza que ensopa a terra No lugar da água que faz falta! Tantos sonhos que pisam Lugares que ficaram por descobrir! Tantas histórias que cá tão perto Parecem tão irrealizáveis como contos de fadas! Tanto “pó de perlimpimpim” Que perdeu a magia nas viagens do vento! Tantos olhos Que não viram senão nada! Tanta incerteza Num futuro tão distante! Tanta espiga Que nunca chega a crescer! África minha, Cá tão perto, lá tão longe… Maria Teresa Torres Vaz Freire, 9º ano 22
  • 23. Simplesmente o mar Porque é que eu não posso ser o mar, Viver o mar, amar o mar? Porque é que eu não posso ser uma onda, Uma simples onda num ciclo vicioso, Enrolada na areia? Porque não um peixe, uma onda, Simplesmente o mar? Simples e simplesmente o mar, A solidão do mar, A beleza do mar, A simplicidade do mar… Maria Teresa Torres Vaz Freire, 9º ano 23
  • 24. Não consigo esquecer Lembro-me daquelas horas De cada sessenta minutos De cada sessenta segundos Foram roubados Mudaram-me Lembro-me de cada palavra Lembro-me de cada lágrima Minha e tua O nosso olhar era um ciclo vicioso Tu começavas-me e acabavas-me Tu preenchias-me Ainda preenches, mesmo passado tanto tempo Lembro-me da chuva que caía Completando o meu estado de espírito Lembro-me de tudo o que senti Traíste-me, subjugaste-me Lembro-me de tudo o que ainda sinto: saudade Apenas não me lembro do que era Antes, muito antes de ti Esqueci-me, perdi-me sem poder evitar Não me revejo nas fotografias Tiradas há tanto tempo Não sou eu, não consigo ser Não vejo as mesmas coisas Não sinto nada Não existo concretamente Não consigo esquecer… 24
  • 25. Maria Teresa Torres Vaz Freire, 9º ano 25
  • 26. Prosa (3º ciclo) 26
  • 27. Apocalipse O século XXI permitiu grandes avanços tecnológicos e culturais no ramo da Ciência. Um deles foi a invenção de carros resistentes à gravidade, que eram capazes de flutuar na atmosfera e atingir grandes velocidades em caso de emergências (deixou assim de haver nascimentos em auto-estradas). Seguindo o exemplo dos carros Volkswagen, os líderes mundiais decidiram fazer estes automóveis os “carros do povo”, economicamente acessíveis, fáceis de conduzir e “com estilo”. Depressa, quase todos os cidadãos do mundo (que estava agora todo unido pela ONU) possuíam um carro destes. Contudo, tanto a construção como o uso destes carros causavam poluição e, em menos de sete anos, metade da já tão danificada camada de ozono desapareceu. Era raro o rio ou costa marítima com água limpa. Várias espécies animais e vegetais se extinguiram e as pessoas começaram a adoecer. A mortalidade subiu em todos os países. Os hospitais estavam cheios e o governo, não podendo ignorar mais esta situação, mandou construir mais hospitais. Edifícios como estádios de futebol, teatros e parques de diversões foram demolidos para dar lugar a hospitais. Em breve, a falta de espaço para hospitais obrigou as pessoas a demolir os monumentos históricos, como a Estátua da Liberdade, a Torre de Pisa e a Torre Eiffel. Por pedido dos egípcios, as grandes pirâmides não foram demolidas, tendo sido construídos hospitais dentro das pirâmides. Vendo as Sete Maravilhas do Mundo desaparecer, tal como tudo o que era bonito e pelo qual valia a pena a lutar, as pessoas (tanto saudáveis como doentes) começaram a entristecer de tal maneira que a percentagem de suicídios triplicou. Como muitos dos suicidas eram médicos, deixou de haver menos doentes curados e mais mortes. Por fim, o Aquecimento Global revela-se em toda a sua glória. Inundações em escala mundial. Os pólos desaparecem. A Madeira, o Havai, as Filipinas, o Japão, todas desapareceram. Uma segunda Idade do Gelo aparece. Os únicos vestígios da presença humana neste planeta são agora apenas fósseis e satélites artificiais que orbitam a Terra, inutilmente. 27
  • 28. Moral da História: Colhemos o que semeamos. O tão chamado “Apocalipse” não é o nosso castigo. São as nossas colheitas. David Chorão, 8º ano 28
  • 29. Mortais A peça acaba E os actores agradecem O prédio desaba Até as montanhas esmorecem As luzes são apagadas O livro é posto na prateleira As obras são acabadas Não duram uma semana inteira A queda de um Império A autoridade assassinada. Outra morte levada a sério Uma população vingada Tal como no farol Que sempre muda essa luz guia, Também nasce o Sol E não dura mais que um dia. David Chorão, 8º ano 29
  • 30. Horizonte Ele olhava para o vazio, como se nada nem ninguém o rodeasse. Os seus olhos transmitiam uma certa tristeza, parecia que o mundo tinha desabado sobre ele. E ele olhava com olhos, de quem olha para o infinito, tinha-se esquecido de tudo, era como se fosse o único ali sentado. Estava imóvel, parecia uma estátua, o seu rosto pálido transmitia a sensação de solidão, como se fosse o único à face da Terra. Tudo em seu redor tinha movimento, tudo se mexia, tudo falava, tudo gritava, tudo corria, e eu estava ali a olhar para ele, olhava para os seus olhos cor de esmeralda, ele não pestanejava, apenas olhava, talvez para o “nada”. Eu observava-o atentamente, acho que ele não se apercebeu que eu ali estava, aliás, acho que não se apercebia de nada. Era estranho ver no meio de tanto ruído, de tanto stress, um rapaz sentado, a olhar... simplesmente a olhar! Tão bom que era se todos nós olhássemos para o mundo só com olhos de olhar... E ele continuava ali, no meio de tudo, parecia que estava no centro de um remoinho. Eu continuava a observá-lo, ele parecia diferente dos outros, parecia que tinha algo especial. As esmeraldas no seu rosto cintilavam, e de repente ele fechou os olhos, as esmeraldas tinham desaparecido e pela sua face corriam lágrimas de esperança, esperança que o mundo se voltasse a erguer e que o sol voltasse a brilhar. Virou a cara e reparou que eu olhava para ele atentamente, fiquei um bocado embaraçada e reparei que os seus olhos cor de esmeralda, eram agora da cor do mar e que as lágrimas que corriam pelo seu rosto eram pequenas pedras de sal. Arrumei as minhas coisas e sai porta fora. Não tive coragem de ir ter com ele, tinha ficado um pouco envergonhada. Durante o caminho só pensava na tristeza dos seus olhos, nesse momento senti um vazio no peito, mas pensei que no fim os seus olhos transmitiam esperança de que um dia tudo se resolvesse. Ele deve ter ficado um pouco intrigado por me ver sair dali daquela maneira. Fiquei arrependida e voltei atrás, mas ele já lá não estava. Cheguei a casa um pouco triste, tirei a mochila e deixei-a ao lado da porta do meu quarto, normalmente costumo desarrumá-la e guardá-la no armário, mas naquela altura apetecia-me estender na cama para descansar. Foi o que fiz, abri a janela, deitei- me e olhei para o tecto. Tentei imaginar o “nada”, mas não consegui, tentei imaginar o 30
  • 31. infinito e também não consegui. Fechei os olhos, o vento que entrava pela janela batia- me na cara, imaginei que estava na praia a ouvir o som das ondas. O azul dos olhos do rapaz reflectia-se na vasta extensão de lágrimas salgadas que se tinham juntado e formado um grande lago azul, que junto à costa formava pequenas camadas de algodão provocadas pelas pequenas ondas, que faziam lembrar o cabelo ondulado do rapaz. Olhei para o fundo, onde o azul do grande lago unia-se com o tom rosado do céu, formavam uma longa e fina linha, era a única coisa que os separava, era o equilíbrio entre os dois. Parecia que o grande lago empurrava o céu, e este empurrava o grande lago. Lutavam os dois entre si, uma luta entre o mal e o bem. O mal queria reduzir tudo a cinzas, e o bem erguer-se delas. Mas os dois juntos, unidos, formavam a perfeição. Dei por mim fixada na linha perfeita que os dois formavam, olhava imóvel para o horizonte e sentia um vazio dentro de mim, sentia que a minha vida se resumia ao encontro da perfeição e que finalmente a tinha encontrado. Depois o sol emergiu do azul e rompeu o rosado do céu, o seu brilho formava um longo caminho no lago. Os meus olhos começaram a cintilar, tal e qual como os do rapaz, e o vazio que estava dentro de mim encheu-se de cor. A felicidade instalou-se no meu coração, e naquele momento desejei nunca mais acordar! 31
  • 32. Sofia Cordeiro Fadigas Rodrigues Colaço 8º ano 32
  • 33. Apocalipse O século XXI permitiu grandes avanços tecnológicos e culturais no ramo da Ciência. Um deles foi a invenção de carros resistentes à gravidade, que eram capazes de flutuar na atmosfera e atingir grandes velocidades em caso de emergências (deixou assim de haver nascimentos em auto-estradas). Seguindo o exemplo dos carros Volkswagen, os líderes mundiais decidiram fazer estes automóveis os “carros do povo”, economicamente acessíveis, fáceis de conduzir e “com estilo”. Depressa, quase todos os cidadãos do mundo (que estava agora tudo unido pela ONU) possuíam um carro destes. Contudo, tanto a construção como o uso destes carros causavam poluição, e em menos de sete anos, metade da já tão danificada camada de ozono desapareceu. Era raro o rio ou costa marítima com água limpa. Várias espécies animais e vegetais se extinguiram, e as pessoas começaram a adoecer. A mortalidade subiu em todos os países. Os hospitais estavam cheios, e o governo, não podendo ignorar mais esta situação, mandou construir mais hospitais. Edifícios como estádios de futebol, teatros e parques de diversões foram demolidos para dar lugar a hospitais. Em breve, a falta de espaço para hospitais obrigou as pessoas a demolir os monumentos históricos, como a Estátua da Liberdade, a Torre de Pisa e a Torre Eiffel. Por pedido dos egípcios, as grandes pirâmides não foram demolidas, tendo sido construídos hospitais dentro das pirâmides. Vendo as Sete Maravilhas do Mundo desaparecer, tal como tudo o que era bonito e pela qual valia a pena a lutar, as pessoas (tanto saudáveis como doentes) começaram a entristecer-se de tal maneira que a percentagem de suicídios triplicou. Como muitos dos suicidas eram médicos, deixou de haver menos doentes curados e mais mortes. Por fim, o Aquecimento Global revela-se em toda a sua glória. Inundações em escala mundial. Os pólos desaparecem. A Madeira, o Havai, as Filipinas, o Japão, todas desapareceram. Uma segunda Idade do Gelo aparece. Os únicos vestígios da presença humana neste planeta são agora apenas fósseis e satélites artificiais que orbitam a Terra, inutilmente. Moral da História: 33
  • 34. Colhemos o que semeamos. O tão chamado “Apocalipse” não é o nosso castigo. São as nossas colheitas. David Chorão, 8º ano 34
  • 35. Horizonte Ele olhava para o vazio, como se nada nem ninguém o rodeasse. Os seus olhos transmitiam uma certa tristeza, parecia que o mundo tinha desabado sobre ele. E ele olhava com olhos, de quem olha para o infinito, tinha-se esquecido de tudo, era como se fosse o único ali sentado. Estava imóvel, parecia uma estátua, o seu rosto pálido transmitia a sensação de solidão, como se fosse o único à face da Terra. Tudo em seu redor tinha movimento, tudo se mexia, tudo falava, tudo gritava, tudo corria, e eu estava ali a olhar para ele, olhava para os seus olhos cor de esmeralda, ele não pestanejava, apenas olhava, talvez para o “nada”. Eu observava-o atentamente, acho que ele não se apercebeu que eu ali estava, aliás, acho que não se apercebia de nada. Era estranho ver no meio de tanto ruído, de tanto stress, um rapaz sentado, a olhar... simplesmente a olhar! Tão bom que era se todos nós olhássemos para o mundo só com olhos de olhar... E ele continuava ali, no meio de tudo, parecia que estava no centro de um remoinho. Eu continuava a observá-lo, ele parecia diferente dos outros, parecia que tinha algo especial. As esmeraldas no seu rosto cintilavam, e de repente ele fechou os olhos, as esmeraldas tinham desaparecido e pela sua face corriam lágrimas de esperança, esperança que o mundo se voltasse a erguer e que o sol voltasse a brilhar. Virou a cara e reparou que eu olhava para ele atentamente, fiquei um bocado embaraçada e reparei que os seus olhos cor de esmeralda, eram agora da cor do mar e que as lágrimas que corriam pelo seu rosto eram pequenas pedras de sal. Arrumei as minhas coisas e saí porta fora. Não tive coragem de ir ter com ele, tinha ficado um pouco envergonhada. Durante o caminho só pensava na tristeza dos seus olhos, nesse momento senti um vazio no peito, mas pensei que no fim os seus olhos transmitiam esperança de que um dia tudo se resolvesse. Ele deve ter ficado um pouco intrigado por me ver sair dali daquela maneira. Fiquei arrependida e voltei atrás, mas ele já lá não estava. Cheguei a casa um pouco triste, tirei a mochila e deixei-a ao lado da porta do meu quarto, normalmente costumo desarrumá-la e guardá-la no armário, mas naquela altura apetecia-me estender na cama para descansar. Foi o que fiz, abri a janela, deitei- me e olhei para o tecto. Tentei imaginar o “nada”, mas não consegui, tentei imaginar o infinito e também não consegui. Fechei os olhos, o vento que entrava pela janela batia- 35
  • 36. me na cara, imaginei que estava na praia a ouvir o som das ondas. O azul dos olhos do rapaz reflectia-se na vasta extensão de lágrimas salgadas que se tinham juntado e formado um grande lago azul, que junto à costa formava pequenas camadas de algodão provocadas pelas pequenas ondas, que faziam lembrar o cabelo ondulado do rapaz. Olhei para o fundo, onde o azul do grande lago se unia com o tom rosado do céu, formavam uma longa e fina linha, era a única coisa que os separava, era o equilíbrio entre os dois. Parecia que o grande lago empurrava o céu e este empurrava o grande lago. Lutavam os dois entre si, uma luta entre o mal e o bem. O mal queria reduzir tudo a cinzas e o bem erguer-se delas. Mas os dois juntos, unidos, formavam a perfeição. Dei por mim fixada na linha perfeita que os dois formavam, olhava imóvel para o horizonte e sentia um vazio dentro de mim, sentia que a minha vida se resumia ao encontro da perfeição e que finalmente a tinha encontrado. Depois o sol emergiu do azul e rompeu o rosado do céu, o seu brilho formava um longo caminho no lago. Os meus olhos começaram a cintilar, tal e qual como os do rapaz, e o vazio que estava dentro de mim encheu-se de cor. A felicidade instalou-se no meu coração, e naquele momento desejei nunca mais acordar! 36
  • 37. Sofia Cordeiro Fadigas Rodrigues Colaço 8º ano 37
  • 38. Fiapos da Noite Juro solenemente que não revelo nada a ninguém. Mas posso escrever isto no papel, certo? Muito bem… Aqui vai. A minha amiga foi possuída por um espírito. E não estou a delirar. Tudo começou depois da entrega do teste de Matemática. Acho que a Kisa teve sempre uma auto-estima abaixo de zero, mas depois do teste… Bem, teve negativa, não porque não soubesse a matéria, porque saber ela sabe. O problema é o sistema nervoso. Acho que nem vale a pena dizer-lhe que tem de se acalmar porque ela já deve ter ouvido isso, tanta vez, que na minha opinião só a desmoraliza mais, pois ela tenta controlar-se, nota-se à distância, mas não consegue. A Kisa está sempre com medo e nervosa com alguma coisa, mas desta vez foi demais. Dizia que era uma inútil e que não sabia fazer nada de jeito, enquanto chorava copiosamente no chão da casa de banho. Eu, consternada, tentava animá-la como podia, mas desisti ao fim de algum tempo, pois, tenho de admitir que já passei exactamente pelo mesmo e sei perfeitamente que é melhor deixar-nos um bocado sozinhas para nos acalmarmos. Mas ela estava tão pálida e trémula, que de repente fez-se luz no meu espírito. Como sempre, a Kisa estava com o IPOD nos ouvidos e então percebi que ela usava esse IPOD como um escape ao mundo real e pela maneira como ela se estava a comportar nos últimos dias cheguei à conclusão que ela estava com uma ligeira depressão em cima. - Kisa…- comecei eu - Anda vamos para casa, as aulas já acabaram. Ela limpou os olhos com uma mão enquanto mudava mais uma vez de música. - Ok. – respondeu ela Durante o caminho tentei meter conversa com assuntos mas ela só acenava com a cabeça em concordância. Quanto chegámos à porta da casa dela reparei que ela estava novamente à beira das lágrimas. Abracei-a e tentei dizer alguma coisa, mas ela soluçava tanto que desisti. - Não consigo Chiyo. A sério que não. – acabou ela por dizer. - Claro que consegues. Só precisas de ter confiança em ti. Ela afastou – se e disse adeus com a mão enquanto tocava à campainha. 38
  • 39. - Vemo-nos amanhã! – disse eu um bocado à pressa porque já estava atrasada para a aula de violino. Se eu não tivesse desatado a correr, teria visto a Kisa a afastar-se de casa e a tomar um caminho completamente diferente do habitual. Nessa noite, eu tentava comer a minha sopa mas não tinha apetite nenhum. Não conseguia afastar o pressentimento de que tinha acontecido alguma coisa. - Mana… Mana… Terra chama Chiyo! Missão suspendida pode regressar! - O quê?! – perguntei eu sobressaltada fazendo com que a côdea do meu pão fosse parar à sopa do meu irmão mais velho - Já ouvi falar em guerras de tomate em Espanha, agora de pão… - Muito engraçado Len. - Mana, tá tudo bem? – perguntou a minha irmã mais nova. - Sim, acho que sim… - Não lhe ligues Yotsuba. Hoje a Chiyo está para lá de Bagdad. - E tu hoje deves estar com a síndrome da Geografia! Cada frase que dizes é sempre referente a uma terra! - Como diziam os Gregos… - Chega! – não sei porque é que estava tão irritada, normalmente eu dou-me muito bem com os meus irmãos – Vou telefonar à Kisa! - Boa ideia! Pode ser que ela te mude de humor! – afirmou o Len. - Depositas sempre tanta confiança nela. – provoquei eu – Não te preocupes, se queres um encontro é só pedir! O Len pôs-se muito vermelho e começou a tagarelar altíssimo com a Yotsuba sobre o aquecimento global, mas é claro que como ela é só uma criança de nove anos não percebeu muitos dos termos técnicos. Fechei a porta da sala e marquei o número da Kisa mas ninguém atendeu. - Estranho… - encolhi os ombros e desisti, muito provavelmente tinham a televisão alta e não ouviram o telefone. Voltei para a sala onde o Len e a Yotsuba estavam a levantar a mesa. Peguei num prato para os ajudar quando o Len: - Eis que regressa dos mortos, a filha do Drácula. 39
  • 40. Ele tinha razão. Eu estava com uma cara de moribunda, uma coisa sem explicação. Como sempre, estava a preocupar-me para nada, porque para não variar estava a dar demasiada importância aos meus pressentimentos esquisitos. - Antes do Drácula do que da Britney Spears – respondi. - Esta é a Chiyo que eu conheço! – exclamou ele com um sorriso. Tenho de admitir que o meu irmão é muito giro. Cabelo preto para o comprido e uns olhos muito azuis. E tem um grande sentido de humor. Deve ser por isso que as raparigas da escola dele o perseguem incessantemente. A Yotsuba ainda é novinha, mas é muito querida. Tem o cabelo castanho avermelhado e os olhos verdes. Anda sempre de totós que baloiçam de um lado para o outro. Parece a Pippi das meias altas, sem a força e sem as meias, claro. E eu? Sou normal. Quer dizer, sou ruiva, tenho o cabelo pelas costas ondulado, uma franja que me tapa metade da cara e os olhos verdes, tão verdes que quase parecem amarelos. Fim. É só. Avançando. Após ter levantado a mesa, fui para o meu quarto ouvir música. Estava tranquilamente a ouvir o “Runaway” da Pink, quando a Yotsuba bateu à porta do meu quarto entrando logo de seguida. - O que foi? – perguntei eu sem deixar de olhar para o ecrã do computador. - Está alguém lá fora para falar contigo. - É a Kisa? - Não. – achei o tom da voz dela demasiado tenso portanto virei-me e pude verificar que ela estava muito assustada. - Credo Yotsuba! – exclamei eu levantando-me – Estás com essa cara porquê? Saí do quarto e desci as escadas, indo ter ao hall de entrada, onde estava o Len com cara de caso. - Mas afinal o que é que se passa? – perguntei-lhe. - Vai até à porta e já vês. – respondeu-me ele com uma expressão muito séria. De repente fiquei preocupada. O meu irmão é uma pessoa sorridente e bem-disposta por natureza, mas quando põe uma expressão séria, parece que o mundo inteiro vai desabar. Corri até à porta com o coração nas mãos e quando lá cheguei vi dois polícias gigantescos, com uns braços com a espessura de uma casa e um pescoço como uma chaminé. - Sim? – inquiri eu um bocado a medo. De que eu me lembrasse, não tinha feito nada que infringisse a lei, por isso estava ali um pouco abananada. 40
  • 41. - Presumo que conheça a Kisa, certo? – começou um deles. - Sim. - Esteve com ela o dia todo? - Sim. – parecia que não conhecia outra palavra – Mas passa-se alguma coisa com ela? - A sua amiga desapareceu. Ninguém a viu, ninguém sabe dela. Gelei por dentro. “To runaway… Runaway” – a música continuava a tocar. - Não… Não sei de nada que os possa ajudar – acabei por dizer – Deixei-a à porta de casa e vi-a a tocar à campainha. Não sei mais do que isto. - Muito bem… Obrigado na mesma – disseram eles indo se embora – No entanto se se lembrar de mais alguma coisa, não hesite em telefonar para a esquadra. - Assim farei. O Len fechou a porta visto que eu fiquei especada sem conseguir mexer um único músculo. Estava demasiado ocupada a tentar decifrar onde raio é que a Kisa se teria metido. - Chiyo. É melhor ires te deitar. – sugeriu ele Acenei que sim com a cabeça e subi as escadas onde a Yotsuba estava sentada, agarrada ao seu coelho de peluche. - A Kisa fugiu? – perguntou ela - Não sei. – respondi eu, tendo raiva de mim mesma por me aperceber que não fazia a mais pequena ideia onde ela pudesse estar - Ela aparece. – declarou a Yotsuba calmamente – Talvez ela precise de estar um bocado sozinha para espairecer. De repente a situação pareceu-me menos negra. Talvez a Yotsuba tivesse razão. Mesmo só com 9 anos ela é uma pessoa muito racional e incrivelmente consegue sempre tirar uma conclusão lógica de cada caso. Ainda bem, eu cá sou daquelas pessoas que não pensa nas consequências e o meu irmão é do género “os cães ladram e a caravana passa”. Despedi-me dela e subi. Quando cheguei ao quarto, vesti o meu pijama e dirigi-me à minha secretária para desligar o computador, quando reparei num bilhete metido à pressa debaixo do teclado. Nele estava escrito: “Vem ter comigo ao parque”. Não estava assinado, nem nada, por isso presumi que fosse da Kisa e para além do mais, a janela estava aberta e eu tenho a certeza de que ela estava fechada antes de eu sair. 41
  • 42. Vesti-me novamente e esperei uns vinte minutos antes de pular pela janela. Graças a Deus que o Len estava com os phones nos ouvidos, porque eu consegui a proeza de cair com grande estrondo em cima de um arbusto. Sai de casa a correr em direcção ao parque, enquanto começavam a cair uns flocos de neve. Quando lá cheguei, não vi ninguém. Dei pelo menos umas três voltas ao parque e não havia vivalma ali presente. - Kisa! – chamei eu por fim. Nada. Cansada e cheia de frio, sentei-me num dos bancos e aconcheguei-me dentro do meu casaco. - Fixe… Quando chegar vai ouvir-me… - resmunguei eu entre dentes Estava quase a adormecer, quando ouvi uma voz indistinta a chamar-me. Pulei literalmente do meu assento e comecei logo a respingar. - Ouve lá, qual é a tua ideia?! Tu és maluca ou quê?! Fazes ideia do que… - parei. Não era a Kisa. À luz do candeeiro estava um ruivinho a olhar para mim com um ar muito surpreendido. - Olá? – arriscou ele – Vim em paz. - Desculpa. – disse eu embaraçada – Pensava que era outra pessoa. - A Kisa. - Sim, eu… Espera lá como é que tu… - Como é que eu sei que tu pensas que recebeste um bilhete da Kisa para vires até ao parque, mas ela ainda não apareceu? – ele sorriu amigavelmente – Fácil. Quem te mandou o bilhete fui eu. Fiquei embasbacada a olhar para ele. - Mas tu… - Se eu te conheço? Conheço-te muito bem Chiyo. Até sei que tens um género de “pressentimentos”, não é assim? Ok, tenho de admitir que estava a ficar assustada. Como é que ele sabia o meu nome? E os pressentimentos? Nem sequer os meus irmãos têm conhecimento disso, e eu conto-lhes sempre tudo. - Não te assustes. – tranquilizou-me ele com um gesto. Até parecia que me estava a ler a mente – Não te vou fazer mal e não sou nenhum pervertido que anda por ai. A questão aqui é a seguinte: A Kisa precisa mesmo da tua ajuda. - Precisa? O que é que aconteceu? 42
  • 43. - Acho que… Promete que não contas a ninguém. - Juro. Juro pela… - Jura pela tua aparelhagem. – o rapaz conhecia-me mesmo! Acho que me ia ter de habituar. - Pela minha aparelhagem, e que eu coma os meus CDS se quebrar a promessa. Ele sorriu outra vez. - Muito bem, isto é o seguinte. Acho que a tua amiga foi possuída por um espírito. Bloqueei como um computador velho. Quando voltei a mim articulei apenas a seguinte pergunta: - Onde estão as câmaras? Ele piscou os olhos confusamente. - Desculpa? - Sim, as câmaras. Isto é para os “Apanhados”, certo? - Não há câmaras Chiyo. É a verdade. A minha irmã detecta espíritos que possuem as pessoas. Olhei para ele desconfiada. - Como é que te chamas? - Claro, desculpa, que cabeça a minha! Chamo-me Raitou. - Muito bem… Raitou. Se o que tu dizes é verdade “e espero muito sinceramente que não seja” – pensei eu cá para mim – Quero provas. Isto não é chegar aqui e contar uma historinha qualquer. Dá-me complementos fiáveis. - Vi logo que ias dizer isso. – ele riu-se – Por isso mesmo tomei a liberdade de gravar isto. Passou-me uma câmara de filmar, e nela via-se a Kisa sentada ao pé de um pântano de águas turvas com uma espécie de sombra atrás dela, e quando ela levantou o olhar o vídeo começou a fazer barulhos estranhos e de repente apagou-se. - Meu Deus… O que é que eu faço?! – perguntei eu praticamente aos berros – Raitou! Tens de me ajudar! – estava tão desesperada que até me agarrei com todas as minhas forças à blusa dele. Ele atrapalhou-se um bocado com o meu gesto repentino, mas acabou por dizer: - Claro que te ajudo. Foi para isso que vim. Mas tens de ir ver a minha irmã. Ela é que pediu para vir buscar-te. Nem pensei duas vezes. Acenei logo afirmativamente com a cabeça fitando-lhe os olhos cinzentos. 43
  • 44. - Sim, sim! – Vá, vamos! – exclamei. Mais uma vez ele sorriu e começou a andar a toda a velocidade. Eu ia atrás tentando acompanhá-lo. De repente lembrei-me de uma coisa. - Olha, Raitou. – chamei eu. Ele parou e esperou que eu chegasse ao pé dele. – Tu disseste que me conhecias perfeitamente, mas eu, pelo contrário, estou a zero. Como é que isso é possível? Aí ele começou a rir-se como se eu tivesse contado a melhor anedota do mundo. Por momentos lembrou-me a Kisa, porque ela também se ria assim sempre que eu dizia a palavra “Topogigio”. - Desculpa… - disse ele ainda a rir-se – Tu realmente escolhes as perguntas a dedo! Mas eu não sou a pessoa mais indicada para te responder. Pergunta à minha irmã. Ela vai adorar essa. - … Ok. Já agora, podes andar mais devagar? - Isso é que já não pode ser! Mas não te preocupes, estamos quase a chegar… - Óptimo! estou estafada. Após andarmos mais 20 quarteirões. - Ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh! Tás a gozar! Senhor! – exclamei eu ajoelhando-me e bradando aos céus (isto no meio da rua, com algumas pessoas ainda a passarem por ali) – Tende piedade desta sua humilde serva. Transforme os meus pés em patins e arranje- me uma merenda para o caminho (acabei por não jantar) e transforme este vil torcionário – apontei para o Raitou – de doces olhos cinzentos para o inferno! – calei- me e desatei a tossir – Quer dizer… vil torcionário de olhos cinzentos como….. manatins, que são amorosos, para o inferno! - Acabaste? - Não! E salve a Kisa por favor. - Ok, Madre Superiora, a hora das rezas acabou. – reparei que ele estava ligeiramente corado. Se eu reparei ele também, porque virou imediatamente a cara para o outro lado e começou a andar novamente e ainda mais depressa. Fizemos o resto do caminho em silêncio e quando chegamos finalmente a uma pequena vivenda com vista para o lago e ele parou. - Bem… É aqui. Sei que não é muito grande… - Eu gosto. – disse eu espontaneamente – É bastante bonita. Ele sorriu e tocou à campainha. 44
  • 45. Veio abrir a porta uma rapariga que eu calculei que fosse a irmã dele. Estava escuro e eu não conseguir ver a cara dela, mas ela foi muito simpática e convidou-nos logo a entrar. - Está um gelo, não está? – perguntou ela enquanto passávamos pela porta. Eu continuava sem ver nada porque a luz continuava apagada. De repente o Raitou fez o favor de ligar o interruptor e eu vi a rapariga mais… Como dizer? Estranhamente bonita que se possa imaginar. Tinha o cabelo vermelho (pois eu disse que ela não era muito comum) duas madeixas de cabelo preto e depois alguns bocados de cabelo branco (pintado obviamente) a caírem- lhe até à cintura. Tinha uns olhos azuis mar esverdeado e uma blusa com umas mangas larguíssimas, sendo estas rasgadas artisticamente e umas calças de ganga à boca-de- sino. - Tu deves ser a Chiyo, certo? – perguntou ela sorrindo, fazendo umas covinhas. - Sim. Sou eu, E tu és a... - Muito prazer! – exclamou ela dando-me um vigoroso aperto de mão que me ia derrubando – Chamo-me Youko! Provavelmente deves ter mil e uma perguntas a fazer, por isso segue-me até à cozinha. Fiz bolachas de chocolate! Podemos falar enquanto comemos! - À meia-noite e meia?! – Perguntou o Raitou abismado – Já te disse que és doida? - Olha, aqui a “doida” vai comê-las juntamente com a Chiyo – ela deve ter reparado no meu ar esfomeado – por isso se o senhor “horas certas” quiser fazer-nos companhia está à vontade! – a Youko sabe mesmo responder ao irmão. E agora que reparava bem, ela devia ser mais nova do que nós. Pelo menos do que eu, mas o Raitou devia ser da minha idade. - Youko, se não é indiscrição, posso perguntar-te quantos anos tens? - Ora essa, que pergunta! Claro que podes! Tenho 14 anos e se conseguir aguentar a convivência com o meu irmão até daqui a 3 semanas, faço 15. – Ela lançou um olhar sugestivo ao Raitou que ripostou imediatamente com um sorriso muito cínico. - Vê lá a minha sorte! Há 14 anos que convivo contigo! – Feitas as contas, cheguei à conclusão que ele é um ano mais velho que eu. Ela ignorou-o completamente. - Anda. – Disse-me ela pegando-me na mão – As bolachas já devem ter arrefecido. Segui-a, visto que não tinha outra opção, mas aquelas bolachas deitavam cá um cheirinho... Sentei-me num banco que ela me indicou. 45
  • 46. Enquanto ela verificava as bolachas, pus-me a observar a cozinha. Apesar de pequena estava bastante arrumada e tinha uma grande janela que dava para o jardim. Reparei também que numa mesa que estava ao meu lado, estava uma fotografia com um homem e uma mulher sentados num muro. Subitamente, olhei para os olhos do homem e eram exactamente iguais dos da cor da Youko. Depois vi que a expressão da mulher fazia lembrar muito o Raitou. Estava tão entretida a descobrir mais semelhanças que nem se quer reparei que a Youko se tinha aproximado. - São os meus pais. – Disse ela de repente, fazendo me dar um salto do banco. - Já tinha reparado. – Disse eu – És muito parecida com o teu pai. - Sim... – ela sorriu tristemente – Costumava ser. - Youko... – comecei eu. Nunca me tinha passado pela cabeça que ela e o Raitou pudessem ser órfãos. - E o Raitou é a cara chapada da minha mãe. Ou pelo menos era. Mas temos a nossa tia. Órfãos de pai e mãe. Imagino as dificuldades porque tiveram de passar. E eu que me queixava que os meus pais estavam sempre a trabalhar e que nunca os via. Realmente, está provado que as pessoas nunca estão satisfeitas com o que têm. De repente, uma ideia afligiu-me a mente. Os meus pais! Eles deviam estar agora do trabalho e com certeza que iriam fazer a “ronda dos quartos”. O que é que diriam quando vissem a minha cama vazia? Duvido muito que eles acreditem que o sangue do Houdini me corre nas veias. - Youko estou com um pequeno problema. – disse eu Ela olhou para mim com uma cara como se tivesse acabado de acordar de um sonho muito profundo. - O quê? - Os meus pais! Eles devem estar a chegar e de certeza absoluta que vão dar pela minha falta! - Oh, claro, tens razão! Anda, vem comigo! – Agarrou-me no pulso e saiu da cozinha, mas não sem antes me enfiar três bolachas pela boca abaixo. Subimos as escadas e ela entrou de rompante no suposto quarto do Raitou. - Temos de ir! – Gritou ela assustando-me e ao irmão - Bate antes de entrar! Queres ser responsável por um enfarte?! – Exclamou ele agarrado ao peito, ofegante. 46
  • 47. - Deixa-te de queixinhas! Anda, os pais da Chiyo devem estar a chegar por isso temos que ir já para o Mundo dos Espíritos! - Mundo do quê? – Perguntei eu, mas acho que nenhum deles me ouviu. O Raitou saiu disparado do quarto e levou-nos até à cave. Na cave estava uma porta que ele abriu mas que tinha tijolo e cimento a tapar a entrada. - Ora bem... Como é que passamos? – Perguntei eu – E as minhas perguntas ainda não foram esclarecidas! Porque é que o Raitou sabe tanto sobre mim? Há algum motivo especial para a Kisa ter sido possuída por um espírito? - Boas perguntas, má altura para as fazer. – Disse a Youko muito rapidamente – Resumidamente isto é assim. O Raitou é um “Vision Guardian”, ou seja, desde que nasceu que a missão dele é proteger a pessoa que possui o dom da visão, ou seja, tu Chiyo. Ele sabe tudo sobre ti desde o teu primeiro minuto de vida. - Mas... Eu fiz as contas e quando eu nasci ele só podia ter um ano no máximo! - Sim, mas a especialidade dos “Vision’s Guardians” é terem o conhecimento total da pessoa que estão a proteger, mesmo que seja inconscientemente. - Mas eu não tenho o dom da visão! – Exclamei – Apenas tenho alguns pressentimentos! - E tu achas que isso vai derivar em quê? – Interrompeu o Raitou. - E porquê é que só agora é que eu sei disso? - Porque fizeste agora os 16 anos. – Explicou a Youko – É nessa idade que se dá a mudança. - E a Kisa? - Pelos vistos a tua amiga tem tendência para atrair espectros e segundo as minhas observações este não é particularmente amistoso. - De que eu me lembre, a Kisa nunca tinha ficado assim. Bem, é verdade que ela é um bocado nervosa, mas... - Não é questão de ser nervosa ou não, mas se uma pessoa está mais fragilizada do que o habitual e já tem apetências para ser possuída, então é mais do que certo que isso vai acontecer. – Disse o Raitou desenhando com a ponta dos dedos símbolos esquisitos na parede da porta. - Isto claro, se um dos espíritos tiver escapado da sua prisão. Existem espíritos benignos e malignos. Acho que nem vale a pena dizer a que classe este pertence. – Esclareceu a Youko – É por isso que vamos agora para o Mundo dos Espíritos. A Kisa está lá. - E ninguém vai dar pela nossa falta? 47
  • 48. - Não. Quando entras no Mundo dos Espíritos, o tempo pára no Mundo Real. - Ora bem minha gente está tudo pronto. – Informou o Raitou. Olhei para a suposta parede e verifiquei que esta tinha desaparecido. No lugar dela estava um enorme buraco preto que onde se escapava um vento frio e sibilante. - De certeza que é seguro? – Perguntei eu com dúvidas. Era impossível ver o fundo com aquela escuridão. Aproximei-me e pus-me a olhar para baixo. - Escusas de olhar. – Disse o Raitou – Isto não tem fundo. - E esperam que eu salte ali para dentro?! – Exclamei eu. - Yup! – Disse Youko deixando a sua cara transparecer a sua felicidade – Bora lá Chiyo! – Sem aviso prévio, correu para mim como uma flecha de braços esticados - Ah não, nem penses! – Guinchei eu afastando-me atabalhoadamente. A Youko com a velocidade que ia, não conseguiu travar a tempo e atirou-se literalmente em queda livre para o buraco. - Oh, meu Deus! – Bradei eu espreitando para o buraco – Acabei de matar a Youko! - Senhoras, primeiro! – Proclamou o Raitou empurrando-me com toda a força. Berrei tanto que mais parecia que me estavam a mutilar os membros e mantinha teimosamente os olhos fechados enquanto o vento fustigava a minha cara como lâminas afiadas. De repente ouvi um sonoro “splash” e senti-me molhada até ao tutano! Vim ao de cima, preparadíssima para descarregar toda a minha ira em cima do Raitou, quando vi a Youko rindo-se a bandeiras despregadas. Sai de água e olhei em volta. Estávamos na rua e era tudo............................. Absolutamente igual. - Bem-vinda ao Mundo dos Espíritos! – Exclamou a Youko feliz. - Obrigado... Mas isto é tudo exactamente igual ao Mundo Real. - Nem tudo. – Disse o Raitou aparecendo de repente – Aqui não existem “pessoas normais”. - Tu incluído! Ainda estou para me vingar! – Prometi eu, de dedo em riste. - Fico à espera. – Sorriu ele, divertido. - Muito bem pombinhos! – Corámos os dois. Eu não estava interessada nele! Nada! – A nossa missão é encontrar a Kisa! Para informações mais detalhadas vamos ter com o “Ghost Keeper” desta região! - Região? – Perguntei eu. - Sim, já disse que este mundo é exactamente igual ao nosso. 48
  • 49. - Então é como se isto fosse o mundo real do Além? - Podemos dizer isso. – Esclareceu o Raitou, tentando evitar cruzar o seu olhar com o meu. - Vamos embora! – Ordenou a Youko, tomando a liderança. Andámos pelas ruas onde os espíritos andavam em conversa amena ignorando-nos completamente. - Eles não estranham andarmos entre eles? - Não, eles não nos vêem. Estávamos a passar por um beco quando me deu a sensação de ter visto de relance a Kisa. Parei e entrei dentro do beco, mas ali só havia caixotes do lixo e latas vazias. - O que estás a fazer? – Perguntou o Raitou – Convêm não nos separarmos. - Pareceu-me ter visto a Kisa. – Justifiquei-me, olhando para ele. Ele franziu as sobrancelhas e olhou para cima como se estivesse a farejar o ar. De repente agarrou-se à cabeça e caiu desamparado no chão gemendo baixinho. - Raitou! – Exclamei eu, baixando-me para ficar ao mesmo nível que ele – O que foi? O que é que se passa? - Sai... Sai daqui. – Balbuciou ele, começando a contorcer-se como se tivesse apanhado um choque eléctrico. Obviamente que não fiz o que ele me disse, pois nunca ficaria com a consciência limpa se lhe acontecesse alguma coisa. Olhei para a parede e vi que ela tinha uma espécie de vórtice e que de lá saia uma espécie de energia. Tive o pressentimento que o problema vinha dali, mas até a pessoa mais obtusa chegaria a essa brilhante conclusão. Peguei num pau que estava ali caído e aproximei-me cautelosamente da parede. De repente fui assombrada por uma visão. Vi a Kisa num meio de um pântano, pálida como a morte juntamente com outros cadáveres. Ela movia a boca como se estivesse a dizer qualquer coisa e depois abriu os olhos completamente brancos a começou a sangrar abundantemente da boca e a rir-se até se engasgar e começar a arranhar-se ferindo-se de propósito como se a dor fosse benéfica. Virou-se de lado e sorriu para mim com um fio de sangue a escorrer-lhe novamente da boca. Perante aquilo que vi, investi com todas as minhas forças contra a parede, mas fui interrompida por um braço que me agarrou com força e me impediu de avançar. 49
  • 50. Continuei a movimentar o meu outro braço que tinha o pau como se estivesse a fazer golpes de espada mas um outro golpe fez com que eu o largasse. - Está quieta! – Ordenou a pessoa que me agarrou – Não consegues matar um “Death Soul” com um pau! – Pela voz percebi que era de rapariga. Olhei para ela e ela olhava para mim com tanta firmeza que parei de esbracejar como uma doida e recuei. Ela olhou para mim com um olhar satisfeito e percebi que tinha feito a escolha acertada. A rapariga fez um gesto no ar e apareceu uma foice que a representação da morte costuma trazer. Disse para ali uma ladainha qualquer e aquilo na parede começou a perder energia. O “Death Soul” tinha desaparecido mas deu-me a sensação que não tinha morrido completamente e o vento soprava com tanta força que até parecia ele furioso, a barafustar. A rapariga deve ter achado o mesmo porque agitou a foice ameaçadoramente como se fosse pregar com ela na cabeça dele caso ele voltasse. Depois correu para o Raitou que jazia ali no chão completamente inerte. Fiz o mesmo e pus-me de joelhos, bem na verdade atirei praticamente para cima dele, mas isso é apenas um pormenor... De repente ela passou com o dedo na lâmina da foice (ainda estou para descobrir como é que ela não se cortou) e apareceu vindo do nada um sujeito com um ar decididamente psicótico e que fazia parecer que o ar tinha ficado pesado sem motivo aparente. - Não te vai fazer mal. – Disse a rapariga calmamente – A sensação que sentes é apenas passageira, vais habituar-te. Pois, e até lá tinha que aguentar com um tipo mais gótico que o Marilyn Manson olhar- me pelo canto do olho. - Neji, não sejas indiscreto. – Ordenou a rapariga tentando manter-se séria, mas eu estava a ver que ela se estava a partir a rir. – Faz o teu trabalho. - Mas é tão emocionante! – Exclamou ele – Quer dizer, é tal e qual como dizia o teu pai! Um humano verdadeiro! Mesmo à minha frente! - Sonho de vida concretizado... Podes morrer em paz. – Disse a rapariga. - Disparate! Sabes perfeitamente que eu não posso morrer assim sem mais nem menos! Eu olhava para eles completamente a leste. Aqueles dois tagarelavam tão embrenhadamente que eu começava a desconfiar que eles se tinham esquecido do Raitou! - Desculpem... – interrompi eu suavemente – Mas, podem ajudar? É que eu gostava muito que o meu amigo vivesse se não se importam... 50
  • 51. É claro que é uma maneira um bocado estúpida de pedir que “ressuscitem” uma pessoa mas eu estava chocada com a figura que se apresentava à minha frente. Quer dizer, o sujeito era altíssimo e tinha um cabelo preto escorrido e comprido que lhe chegava aos ombros e uns olhos amarelos e muito assustadores. Um autêntico Marilyn Manson! Estive tentada a perguntar-lhe se ele não tinha um olho de vidro. Vestia-se todo de preto com correntes a envolverem o casaco de cabedal e uns botas de tropa também pretas. A pele dele era extremamente pálida como se nunca tivesse apanhado um único raio de sol na sua vida, porém comportava-se de uma maneira completamente normal. Bem... excentricamente normal. - Oh, pois! – Exclamou a rapariga – Neji, dá aqui uma mãozinha. O Neji aproximou-se do Raitou e colocou o seu polegar no meio da testa dele. Depois uma espécie de halo emanou dos olhos do Neji e esfumou-se espalhando-se no corpo todo do Raitou. Este começou finalmente a dar sinais de vida. - Está vivo... – disse eu visivelmente aliviada. - Prontinho! – Anunciou o Neji satisfeito. - Obrigado! – Disse eu para a rapariga – Devíamos ter ficado os dois feitos num oito se não tivesses aparecido. - Não pude evitar. Achei estranho um “Death Soul” estar a emanar energia tão intensamente e decidi investigar. Quando chego aqui encontro um rapaz caído no chão e uma rapariga com um pau em punho indo atacar um demónio que a desfazia em mil bocadinhos se ela tivesse aproximado mais um centímetro. Engoli em seco fazendo um enorme ruído. De repente lembrei-me da Youko. Assustei-me à brava e perguntei abruptamente se não tinham visto uma rapariga de cabelos vermelhos com madeixas pretas e brancas. - Não. Ela estava convosco? - Inquiriu ela. - Espera, ela é baixinha, um bocado estrambólica e parece uma grafonola que nunca se cala? – Indagou o Neji. Não pude deixar de rir. A descrição da Youko estava perfeita e construída apenas em três palavras. Baixinha, estrambólica e grafonola, nem o Shakespeare faria melhor! - É isso mesmo. – Ri eu agarrada à barriga, se bem que aquele não era o momento para estar com risotas. - Eu conheço-a! – Informou ele. 51
  • 52. - Conheces? – Perguntei eu aliviada, pelo menos era mais alguém a quem podia pedir ajuda para a procurar visto que o Raitou encontrava-se naquele momento indisponível, pois ainda se encontrava a começar a respirar regularmente aos poucos. - Conheces?! – Disse a rapariga com um tom de voz surpreendido e com uma ponta de desconfiança. - Sim, sim! – Assegurou ele – Ela detectou-me daquela vez em que eu decidi fazer uma visitinha ao Mundo Real, se bem que ela descobriu-me antes de eu conseguir ver um humano... - Um momento... – disse a rapariga lentamente – Rebobina, deixa-me lá ver se percebi. TU foste ao Mundo Real?! Pela cara percebi que o Neji estava a magicar numa resposta decente para dar. - Se eu disser que sim vais torturar-me para a eternidade? – Perguntou ele cautelosamente. Ela sorriu maliciosamente e semicerrou os olhos. - Como deves calcular. - Então não. – Disse o Neji muito depressa. - Pois. Depois havemos de falar sobre: “Visitas perigosas ao Mundo Real sem protecção nenhuma, onde com toda a certeza se iria ser descoberto por um “Mystical Seeker” “ Supus que o tal “Mystical Seeker” fosse a denominação para o poder da Youko, mas esse pensamento foi afastado rapidamente pois o Raitou começava finalmente a despertar! - Raitou! – Exclamei eu ajudando-o a sentar-se – Sentes te bem? Ele olhou à volta com uma expressão de confusão no olhar e depois olhou para mim e sorriu docemente. - Então rapaz? – Perguntou a rapariga dando-lhe palmadinhas amigáveis nas costas – Isso vai indo? Pregaste-nos cá um susto! - O que é que aconteceu? – Perguntou ele à rapariga – E tu és? - Tentaram possuir-te. Devo dizer que fiquei deveras impressionada. Embora tenhas desmaiado mostraste ter um controlo de mente muito superior ao normal. – Explicou ela – O meu nome é Shiori. E este aqui é o Neji. É o meu “Following Phantom”. A nossa missão é guardar todos os espíritos que constituem perigo para a sociedade dos fantasmas. 52
  • 53. - Andávamos à tua procura! – Exclamou o Raitou com uma cara que parecia que tinha acabado de ganhar o Euromilhões. A Shiori pestanejou ligeiramente admirada e de seguida olhou para o Neji que observava o Raitou com toda a curiosidade. Eu e o Raitou trocamos olhares cúmplices e logo de seguida perguntámos os dois ao mesmo tempo se por acaso não tinha dado falta de algum espírito. - Escapou algum?! – Inquiriu logo ela com um olhar muito assustado. - Sim, e foi para o Mundo Real e possuiu a minha amiga. – Expliquei eu tentando ser o mais concisa possível. - Quando é que a tua amiga foi possuída? – Perguntou o Neji. - Bem, acho que foi a noite passada. A Shiori fechou os olhos pedindo um momento de silêncio com a mão enquanto se concentrava e falava muito baixinho consigo mesma. Parecia que estava a enumerar características de qualquer coisa, pois estava a contá-las pelos dedos. - Ela está a ver qual é o tipo de espírito que escapou e qual é a melhor maneira de o interceptar. – Explicou o Neji baixinho. Acenei a cabeça irreflectidamente, pois estava admirada com a quantidade de coisas que a Shiori estava ali a dizer, aquilo parecia pior que arcaico antigo! - Já sei!!!!! – Berrou ela de repente, fazendo com que nós os três, que olhávamos para ela fixamente, déssemos um salto daqui até a Alcabideche! - Cuidado... – avisou o Neji escondido atrás de mim – Ela é doida varrida... - O espírito que possuiu a tua amiga é um “Vampire Shapeshifter”! – Anunciou-me com uma expressão feliz. - Isso são boas notícias, espero? – Perguntei eu esperando ansiosamente por uma resposta positiva. A Shiori mudou a sua expressão de máxima felicidade para uma de desalento, o que provocou a um baque no peito que até parecia que me faltava o ar. O Raitou colocou-me a mão no ombro para me dar ânimo, mas não resultou. Ao ver o esmorecimento espelhado nos olhos da Shiori fez-me pensar que não havia réstia de esperança para a Kisa. - Lá por ser um “Vampire Shapeshifter” não quer dizer que não possa ser derrotado. – Disse a Shiori aproximando-se de mim. - Exacto! – Apoiou o Neji – É preciso ter fibra! É preciso levantar a cabeça e encarar o mundo de frente! É preciso... - O que o Neji está a tentar dizer, é que não te podes deixar abater. – Consolou-me o Raitou docemente – Se desistires agora a Kisa nunca poderá ser salva. 53
  • 54. Senti uma grande vontade de chorar de alívio. Todos eles tinham razão à sua maneira e se eu desistisse então nunca colheria frutos. Porém achei que era melhor informá-los da visão que tive antes de atacar o “Death Soul”. - Eu tenho uma coisa para dizer. – Anunciei –Antes de atacar o “Death Soul” eu tive uma visão. Vi a Kisa – olhei para a Shiori e para o Neji – é a minha amiga. E ela estava tipo num pântano com outros cadáveres à volta, e ela mexia a boca como se estivesse a falar sozinha e depois abriu os olhos e eles estavam completamente brancos e depois começou a sangrar da boca e a engasgar-se e a arranhar-se e depois, dá a sensação que ela se virou para mim e sorriu-me e um fio de sangue escorreu pela boca dela. Terminei o meu relato o mais depressa possível, pois só estar a recordar-me daquilo que vi dá me arrepios que vão até à espinha. Pela cara do Raitou percebi que ele estava um bocado hesitante no que havia de dizer, a Shiori olhava para mim com uma cara completamente concentrada, como se estivesse a tentar assimilar alguma informação extra tendo em conta o que ouviu, e o Neji... Bem, esse estava mais para lá do que propriamente para cá. Digamos que durante algum tempo ele só vai conseguir ouvir histórias da Bela Adormecida e coisas desse género. Acho que ele deve ter uma imaginação muito fértil, pois ele fazia uma cara terrivelmente chocada. - Bem... Não vai ajudar em nada se ficarmos aqui o resto do tempo. – Acabou por dizer o Raitou – E ainda temos de encontrar a minha irmã. - Correcto e afirmativo. – Assentiu a Shiori levantando-se – Vamos à procura dela. - Anima-te! – Exclamou o Neji para mim – Motivação! Já agora, como é que te chamas mesmo? - Chiyo. – Respondi a rir-me. Por muito que me esforçasse não conseguia imaginar o Marilyn Manson naquelas figuras. Já estava mais animada. Realmente, o Neji devia ser especialista em levantar o moral das pessoas. Virei-me e vi a Shiori com as mãos estendidas, segurando uma espécie de losango preto umas cornucópias muito rebuscadas e perfeitamente coincidentes, com uma pedra verde jade florescente. - E isso é? – Perguntei eu curiosa. O Raitou também se aproximou olhando por cima do meu ombro. - Isto? – Disse ela, mexendo na pedra fazendo com que uma espécie de fios muito finos como cirros brancos se movessem graciosamente – Serve para procurar pessoas, ou espíritos e etc. É bastante útil. - E como funciona? – Inquiriu o Raitou visivelmente interessado. 54
  • 55. - Muito simples. Basta pôr os fios que aqui estão de uma certa ordem, dependendo do que se quer encontrar, pessoa, espírito, animal ou outra coisa qualquer. Depois disso, basta dizer o nome daquilo que se procura e a Pedra emite um fio de luz que basta seguir até encontrarmos o desejado. - Há uma coisa que eu não estou a perceber. Vamos supor que tu queres procurar alguém chamado... Nayuki. Existem muitas pessoas com esse nome, como é que tu sabes que o fio te está a indicar a pessoa correcta? – Perguntei eu. - Porque Ela sabe quem procuras. Não lhe podes ocultar a tua mente, se queres procurar um a pessoa chamada Nayuki ou Akane ou lá o que for, Ela levar-te-á à pessoa que buscas. - Estás a dizer que a pedra está viva? – Indagou o Raitou surpreendido. - Tão certo em eu como me chamar Shiori. Esta Pedra é uma “Houkai Soul”, ou seja, um espírito sagrado do Sétimo Crepúsculo. - Sétimo Crepúsculo. – Repeti eu lentamente para assimilar bem o nome. - Já ouvi falar disso. – Informou o Raitou – Esses Crepúsculos só se dão quando uma alma é sacrificada brutalmente. Diz-se que os Houkais, deuses da natureza, enviam sempre um enviado que protege a alma torturada e as leva para o descanso eterno, ficando assim conhecidas como as “Houkai Soul”, os espíritos sagrados do Sétimo Crepúsculo. - Tal e qual. – Elogiou a Shiori agradavelmente surpreendida – Como é que sabes? Já não existe muita gente com esse tipo de conhecimento. - Sou o “Vision Guardian” da Chiyo. – Explicou ele – Passei a minha vida inteira a estudar coisas desse género. - Percebo. Bem, não nos vamos pôr com mais demoras, vamos lá à procura da tua irmã. Neji... Neji? Neji!!! - O quê? Estou aqui. – Ouvimo-lo a responder mas não o víamos em lado nenhum. - Aonde?! Ele apareceu vindo do nada e pôs a sua mão no ombro da Shiori que olhava para todos os lados, tal como eu e o Raitou, feitas baratas tontas. - Credo homem! – Exclamou ela dando um salto enorme – Não me assustes assim! - Desculpa. – Justificou-se estendendo-lhe um livrinho – Mas olha o que aquele “Death Soul” deixou cair quando se foi embora. 55
  • 56. A Shiori folheava as páginas do livrinho rapidamente e a cada passagem de folha um brilho de entusiasmo assentava-se cada vez mais no seu olhar até ela esboçar um enorme sorriso de lóbulo a lóbulo. - Neji, tu tens a consciência do que acabaste de encontrar?! - Não me digas! – Pediu ele divertido – Será... um livro de autógrafos? Não! Espera! É um documento de estado importantíssimo que alguém importante perdeu, e se o devolvermos seremos considerados heróis nacionais? - Não. Melhor. Este livro contém informações importantíssimas sobre espíritos, maldições, demónios e a melhor maneira de os interceptar! Isto é um bem valioso de grande magnitude! Foi escrito por um demónio convertido! Ele havia de saber o que estava a escrever! Sabes o que aconteceria se isto caísse nas mãos erradas? - Uma coisa má. Sendo assim, eu sou um herói! Venerem-me! -Excelente, óptimo, maravilhoso, lindo! Agora podemos ir procurar a minha irmã? - Sim, sim. – Disse a Shiori guardando o livrinho numa bolsa que ela trazia - Muito bem... – Agarrou no dito cujo losango e disse baixinho o nome da Youko. A Pedra “agitou-se” e emitiu um fiozinho que se prolongava até à rua principal fazendo depois uma curva. Sem mais demoras, seguimos o fio, mas entretanto lembrei-me de mais uma das minhas perguntas pertinentes. - Shiori, ouve lá os fantasmas não nos conseguem ver. Então e a ti? Tu não és humana pois não? Tu tens um não sei o quê de misticismo bastante forte. Consigo senti-lo. - É muito curiosa. – Justificou o Raitou perante o olhar da Shiori. - Estou a ver. - Ela fez uma pausa antes de começara contar - Eu nasci aqui. Mas não sou fantasma. Sou, como já disseram um “Ghost Keeper”. A minha família habita neste mundo há milhares de anos e somos os únicos que podemos afirmar que somos “semi- humanos” – ela fez um sorriso malandro – Quem nasceu neste mundo não pode ser totalmente vivo, pois se algum ser humano permanecer aqui mais de dois dias é considerado heresia e quando morrerem, as suas almas não são aceites aqui. Ou seja, morrem no instante a seguir e as suas almas irão vaguear para toda a eternidade, até que aconteça um outro Sétimo Crepúsculo. - Deixa-me adivinhar. – Pediu o Raitou – A sacrificada vai ser a Kisa? - É isso que eu estou a pensar. – Admitiu a Shiori – Lembro-me de o meu pai me ter contado que conheceu um humano foi para aqui para fugir à Idade das Trevas, que o Mundo Real atravessava. 56
  • 57. - Um momento – interrompi – A suposta Idade das Trevas deu-se em Inglaterra, isso foi mais ou menos no século XI, ou XII, como é que o teu pai o conheceu? - O tempo aqui não é igual ao vosso. Um ano aqui equivale a 250 anos no vosso mundo. Continuando. Esse homem era algo estranho. Dizia que era perseguido e que não queria voltar para o Mundo Real de maneira nenhuma. O meu pai tentou explicar-lhe que ele não podia ficar porque senão morria, mas ele não fez caso. Passaram-se dois dias e ele não morreu, pelo contrário, parecia cada vez mais vivo, porém desde a chegada dele que começou a haver mortes. - Mortes? Mas as pessoas daqui já não estão mortas? – Perguntou o Raitou. - Isso foi o que intrigou o meu pai. Após ter feito alguma pesquisa descobriu porque é que ele fugiu do Mundo Real. Era considerado um filho de Satanás. Um demónio vampiro, “Vampire Shapeshifter” o quer dizer que muda de forma. E o destino dele no Mundo Real nessa época era a fogueira. Então decidiu ir para aqui para se alimentar da energia espiritual das pessoas até as suas almas não serem mais do que pó e cinzas. - Percebo. – Disse o Raitou. - E não só! – Adiantou o Neji – Depois de se alimentar delas, as almas ficam possuídas por um Shougai. - Pelo quê? – Perguntei eu. Definitivamente não tenho jeito nenhum para apanhar definições de espíritos e muito menos os nomes deles. - Os Shougais são o oposto dos Houkais. Se os Houkais são deuses da natureza, os Shougais são deuses malignos que habitam nos pântanos e aproveitam-se das almas “mortas” para encontrar um sacrificado para que aconteça um outro Sétimo Crepúsculo. Quando isso acontecer basta apenas matar o Houkai enquanto ele inicia a passagem do sacrificado para um “Houkai Soul” e aí os Shougais como estão a possuir as almas “mortas” podem-se libertar e ir para o Mundo Real. O fio levou-nos até uma praça onde avistamos lá bem ao fundo a Youko que por ali vagueava à nossa procura. - Youko! – Chamou o Raitou acenando-lhe – Estamos aqui! Ela virou-se e começou a correr como um foguete para nós, e quando se estava a aproximar do irmão, saltou no ar e pregou um grande carolo na cabeça dele enquanto dava um grito digno de australopiteco. - Eu cá é que não me aproximo dela. – Declarou o Neji à Shiori – Pode ser perigosa. - Mas tu não a conheces? - Sim, e ela parecia amigável. Parecia. 57
  • 58. - TU! – Exclamou a Youko ao Raitou fazendo gestos perfeitamente exagerados – Seu estulto! Aboleimado! Como te atreves a deixar a tua irmã mais nova, abandonada em busca do “Ghost Keeper”?! - A culpa foi minha. – Interrompi eu pondo me no meio deles os dois. Ainda podia dar uma coisinha má à Youko e estrangular o irmão se lhe desse para isso. Naquele momento já acreditava em tudo, por isso essa hipótese parecia-me bastante plausível. O Raitou esfregava a cabeça e sorria ligeiramente para a Youko que olhava para mim ansiosa por uma resposta. Só me fazia lembrar os miúdos pequeninos à espera que se lhes conte uma história antes de dormir. – Pareceu-me ter visto a Kisa num beco, mas não era. O teu irmão veio ter comigo para me dizer que não era conveniente separarmo- nos, mas então, um “Death Soul” – a Youko susteve a respiração – apareceu vindo do nada e atacou-o deixando-o inconsciente. - Credo! – Disse ela toda aflita. Apesar de se estarem sempre a picar eles gostam muito um do outro. Amor de irmãos. Eu percebo isso. Bem demais. – Estás bem? - Estou óptimo. Pronto para outra! – Garantiu ele sorrindo – Não te safas de mim assim tão facilmente! Ela sorriu. - Continuando. – Anunciei – Eu ia atacá-lo mas então tive uma visão da Kisa... - Estás a ver?! – Exclamou a Youko felicíssima – Os teus poderes estão a desenvolver- se! Daqui a nada começas a dominar os poderes psíquicos! - Poderes psíquicos? – Perguntei eu – Bem, depois explicas se tivermos tempo. Deixa- me acabar de uma vez. Como estava a dizer, vi a Kisa no meio de um pântano rodeada de cadáveres e comportava-se de uma maneira no mínimo esquisitíssima. Entretanto, apareceu a Shiori. - Olá. – Cumprimentou ela. - Tudo bem? – Perguntou a Youko fazendo mais um dos seus sorrisos que põe logo toda a gente à vontade. - Que me impediu de avançar e afugentou o “Death Soul”. Depois o Neji... - Neji?! – Perguntou a Youko. Na verdade acho que foi mais uma exclamação, mas é irrelevante neste caso. - Sou eu! – Respondeu ele levantando a mão como se estivesse na sala de aula e estivesse a fazer a chamada. - Eu conheço-te! – Afirmou ela apontando – és aquele espírito que esteve há pouco tempo no Mundo Real! 58
  • 59. - Não percebo. – Disse a Shiori olhando para o Neji – Tu disseste que nunca tinhas visto um humano, porém tu conhece-la. Isso não conta? - Não. É mais do que obvio que ela não é um humano! - Não? – Perguntou a Youko. Eu e o Raitou olhávamos para o Neji um bocado receosos. Pelo nosso relacionamento com ele não podíamos esperar dali boa coisa. - Claro que não! É mais do que óbvio que és uma extraterrestre! - Bolas pá, és meeesmo perspicaz! – Ironizou a Youko fazendo uma cara de choque – Apanhaste-me! Sou uma marciana! - Eu sabia. – Disse ele fazendo uma cara convencida. - Podem deixar a Chiyo acabar? – Pediu o Raitou. - Obrigado Raitou. Depois, o Neji “ressuscitou” o teu irmão e... - Ressuscitaste o meu irmão?! – Ela fez uma cara que até parecia que tinha visto S. Gabriel. Depois correu para o Neji e atirou-se para o pescoço dele deixando-o terrivelmente embaraçado. Eu, o Raitou e a Shiori (especialmente a Shiori) riamo-nos a bandeiras despregadas e a Shiori até teve de se sentar no chão. - Obrigado, Obrigado! - De nada, de nada... – dizia ele dando palmadinhas na cabeça da Youko. - Lamento interromper este momento tão bonito e comovente, mas é necessário salvar a Kisa! – Disse eu puxando a blusa da Youko para lhe chamar a atenção. - Certo! – Concordou ela pulando do colo do Neji – Vamos à procura do “Ghost Keeper” e depois ao salvamento! Já agora... – virou-se para a Shiori – conheces o “Ghost Keeper”? E porque é que consegues nos ver? - Bem... – começou a Shiori – A verdade é que eu sou o “Ghost Keeper”. E consigo ver- vos porque não estou morta, apenas nasci aqui. - Oh... – disse a Youko com os olhos esbugalhados. - Pareces um sapo. – Disse o Raitou – Acorda do transe rapariga! - Muito prazer! – Exclamou ela fazendo vénias exageradas. - Não é preciso fazer vénias... Podíamos ter ficado ali eternamente com a Youko venerando a Shiori e eu, o Neji e o Raitou feitos parvos à espera que aquilo acabasse, mas de repente um grupo de espíritos apareceram com o terror espelhado nas suas expressões. - O que é que se passa? – Perguntei eu franzindo as sobrancelhas. Fosse lá o que fosse não era coisa boa de certeza. 59
  • 60. - Vou investigar. – Disse o Neji dirigindo-se para eles. - Sim, faz isso, eu vou pedir aos espíritos que se afastem, pois pode ser perigoso. – Anunciou a Shiori – Vocês. – Disse ela para nós – Encostem-se à parede, isto pode tornar-se uma numa multidão a fugir em debandada e, acreditem em mim, não é agradável sermos trespassados por um espírito. Eles tem uma espécie de líquido viscoso que é como se fosse o sangue deles, e sempre que atravessam alguém essa pessoa fica toda coberta com um líquido prateado. Falo por experiencia própria. - Nem vale a pena argumentar. – Sorri eu – Se precisares de ajuda grita. - Ok. Fizemos o que ela nos disse e observamos o Neji a falar os espíritos que gesticulavam furiosamente enquanto o Neji olhava e acenava com a cabeça com ar preocupado. Entretanto a Shiori mandava os restantes espíritos para dispersarem e não se aproximarem dali durante algum tempo e passarem palavra. Após algum tempo o Neji disse aos espíritos para se irem embora. - Então? – Perguntou o Raitou quando eles os dois se aproximaram – o que é que aconteceu? - Nada de bom. – Informou o Neji com um olhar triste – Disseram que viram manifestações de um próximo Sétimo Crepúsculo. Ou seja, vozes vindas do nada, sangue a sair das paredes e céu a ficar transparente mostrando o reflexo do pântano. - Traduzindo, não há tempo a perder. – Disse a Youko com um olhar decidido – Vamos lá pessoal! A equipa maravilha está pronta para a acção! - Assim é que é! – Apoiou o Neji. - Shiori mostra-nos o caminho. – Pedi eu com um olhar resoluto que ela respondeu com um vigoroso acenar de cabeça. - Sigam-me, o pântano fica nos arredores da cidade. Andámos uns dez minutos em passo acelerado, mas para mim parecia que estávamos em modo câmara lenta. Por todo o lado viam-se poças de sangue e murmúrios abafados que nos faziam ter arrepios na espinha. O Raitou caminhava ao meu lado em profundo silêncio enquanto a Youko seguia em frente falando baixinho com o Neji. - Estás bem? – Perguntou-me o Raitou de repente. Tenho de admitir que ele me assustou, estava tão absorta nos meus pensamentos que fez com que eu saltasse para o lado em posição de combate. Para ser sincera, eu não fazia mínima ideia como combater 60
  • 61. um espírito, um Shougai para ser concreta, mas adoptei uma posição defensiva olhando para todos os lados como se estivesse rodeada. - Calma. – Disse ele, mas a sua voz traía uma ponta de nervosismo. Aliás, o clima entre todos nós era bastante incomodativo. - Estou bem. – Respondi – Bem, talvez não esteja. Mas não há-de ser nada. Só vamos combater contra um Shougai. Para quê preocupar-nos? – Naquele momento deu-me para ironizar a situação. - Pois, eu também estou nervoso. – Admitiu ele – Quem é que não está? - Eu não. – Disse a Youko virando-se para nós – Só estou com uma pilha de nervos em cima. - Idem. – Concordou o Neji. - Chegámos. – Anunciou a Shiori parando à frente de um enorme portão enferrujado que bloqueava um longo caminho agreste sempre a subir. O portão estava fechado com umas correntes grossíssimas que balançavam ao sabor de uma brisa que nos arrefecia por dentro. Era como se o Vento nos estivesse a avisar para não entrarmos, mas obviamente que essa hipótese estava fora de questão. - Saiam da frente. – Pediu o Neji avançando para o portão com passos firmes. Com um golpe bem aplicado, as correntes partiram-se e caíram ao chão fazendo um enorme ruído. Ele empurrou o portão que estava bastante emperrado visto o grande chinfrim que fazia. - Eu vou primeiro. – Disse eu dando um passo em frente. - Nem pensar. – Impediu-me o Raitou agarrando me pelo braço – É demasiado perigoso. Eu vou. - Mas... – comecei eu, mas fui impedida de responder, pois o Raitou beijou-me ali à frente de tudo e todos sem cerimónia alguma. - Não discutas comigo. – Acrescentou ele. E dito isto virou-me as costas e entrou cautelosamente. Eu fiquei ali especada sem saber bem que reacção deveria ter, mas a Youko chegou-se ao pé de mim e disse-me ao ouvido: - Se sairmos desta inteiros eu aviso desde já que quero ser a madrinha. Vou adorar ter-te como cunhada! - Vamos. – Disse o Neji puxando-a para longe de mim. – Quando mais depressa acabarmos com isto melhor. 61
  • 62. Seguimos o caminho que se estendia á nossa frente, que parecia nunca mais acabar. Do Raitou, nem sinal, já devia estar no cimo do monte. Decidimos correr o mais depressa possível, e quando chegámos vimos o Raitou olhando para baixo com um semblante horrorizado. Á nossa frente estendia-se o pântano. Enorme, parecia cobrir tudo o que a vista alcançava, todo ele coberto de cadáveres que se movimentavam numa estranha dança. E foi então que eu a avistei. A Kisa. Tal como eu tinha visto na minha visão. No meio daquela horda de mortos decrépitos, ela estava com a água pela cintura, porém era possível ver que o pântano tinha vários metros de profundidade. Envergava um vestido branco com rendas, um bocado antiquado e umas longas mangas que lhe deviam chegar aos pés. O cabelo dela crescera consideravelmente, pois agora ultrapassava-lhe os joelhos sem a menor dificuldade. Porém, o que me assustava era os olhos dela. Em vez de serem de cor de mel, como costumavam ser estavam brancos, tal como eu tinha visto. Ela sorriu para nós e um fio de sangue escorreu-lhe pela boca indo cair no pescoço. - Vai começar o ritual. – Informou a Shiori num sussurro. - Olha lá, afinal o que possuiu a Kisa é um “Vampire Shapeshifter” ou um Shougai? – Perguntei eu. - Segue a minha teoria. Eu penso que foi um “Vampire Shapeshifter”, mas como já deves ter calculado a Kisa tem apetências para ser possuída e como ela emana uma aura muito forte um Shougai deve também a ter possuído, visto já se ter alimentado de grande parte do seu espírito. - Resumindo, a Kisa foi possuída por dois espíritos? - Isso mesmo. – Corroborou a Shiori. - Oh joy... – disse eu. Tal como ela dissera, o ritual tinha começado. Os cadáveres começaram a reunir-se à volta da Kisa que olhava para eles com um ar muito solene. Depois, começaram a passar entre eles uma faca magnificamente trabalhada em prata e com um gume de prata também. Em cada cadáver era desferido um golpe pelo companheiro do lado que passava ao outro e assim sucessivamente. Quando finalmente a faca chegou à Kisa, vislumbrava-se apenas um vulto vermelho a escorrer por todo o lado. Ela agarrou na faca calmamente e aproximou o gume do seu ombro e começou a cortar-se lentamente até à mão. Sem conseguir aguentar aquele ritual masoquista, atirei-me do monte para o pântano. Dentro de água, atrevi-me a abrir os olhos mas não via absolutamente nada. 62
  • 63. Queria vir ao de cima mas não conseguia, havia qualquer coisa que me puxava para baixo. De repente, senti uma mão a puxar-me. Era o Raitou. - És doida?! – Perguntou-me ele furioso quando voltámos á tona. Olhei para trás, e a Youko, a Shiori e o Neji estavam na margem aflitíssimos comigo. - O que sugeres que eu faça?! – Respondi eu também já de cabeça perdida – Que fique a assistir tranquilamente a este maravilhoso espectáculo?! - Não, é claro que não! Nós resolvemos isto juntos, lembras-te?! Individualmente não vamos lá! Subitamente lembrei-me de uma coisa. Sempre que eu lia algum livro em que o herói ou a heroína tinha que salvar alguém, criticava sempre a maneira como eles se comportavam quando chegava a hora de “pôr as mãos na massa”. “- Que estupidez! – dizia eu – Dizem sempre que tem de resolver tudo sozinhos, e que não querem de maneira nenhuma que os amigos se metam nos assuntos! Então não é mais do que óbvio que a união faz a força?!” “- Ora aí está uma maneira de pensar inteligente! – concordou o Len quando eu lhe disse o que pensava – E espero bem que se tiveres de enfrentar algum desses problemas que não te comportes do mesmo modo!” Desatei a corar quando me lembrei disso. Estava a comportar-me rigorosamente da mesma maneira que eu tanto reprovava! - Tens razão. – Disse eu ao Raitou – Vamos fazer isto em grupo! – E dito isto nadei para a margem. Quando lá cheguei o Neji ajudou-me a sair. A Youko pôs-me a mão no ombro e a Shiori no outro. - Vamos lá fazer isto... – disse eu com um olhar determinado. A Kisa que jazia inanimada na água ainda agarrava a faca coberta de sangue. De repente da água saiu uma criatura toda deformada, que é impossível descreve-la com precisão. Estão a ver os quadros do Picasso? As caras pintadas por ele são normalíssimas comparadas com aquela. - Aquele é o Shougai. – Disse a Shiori. - Não façam barulho, acho que ele ainda não nos viu, só se nos movermos. – Informou o Neji num sussurro – e ainda falta aparecer o “Vampire Shapeshifter”. E foi então que ele apareceu. O “Vampire Shapeshifter”. Foi chocante na verdade. Quando o vi, pensei que ia desfalecer. Ele era o... Len. O meu irmão. 63
  • 64. - Não... Não pode ser... - Chiyo? – Perguntaram todos. - É o meu irmão. – Respondi num fio de voz – É o Len... O Shougai virou-se para nós juntamente com o “Len” e murmuraram os dois em perfeita sintonia. - Matem-nos. Os cadáveres que até ali tinham ficado completamente indiferentes à nossa presença olharam para nós agressivamente e atiraram-se literalmente para cima de nós. Surpreendidos com aquele ataque repentino fomos impelidos brutalmente para o chão húmido. O Neji sacou de duas pistolas da bainha das calças e desatou aos tiros, sem grande sucesso, por motivos óbvios. A Shiori fez aparecer novamente a foice e fez ali um feitiço que repeliu-os para trás durante uns escassos momentos pois eram tantos que não fazia praticamente diferença nenhuma. A Youko e o Raitou demonstravam toda a sua perícia em artes marciais, o que era bastante impressionante se não estivéssemos demasiado ocupados a manter-nos vivos... De repente fui abordada por trás por um cadáver particularmente grande que me começou a apertar o pescoço de tal maneira que nem me conseguia movimentar. De repente, vi ao fundo uma luz a descer sobre a Kisa e um ser tão belo que até parecia crime olhar para ele directamente. Supus que fosse um Houkai e que estivesse ali para transformar a Kisa num “Houkai Soul” mas foi aí que o Shougai e o “Len” emergiram das águas e agarraram o Houkai pelos pulsos e o atiraram violentamente para uma rocha que ali estava. O Houkai começou a cantar uma canção tão triste e melodiosa que me deu vontade de chorar. Foi então que os meus poderes despertaram. Senti uma força magnética a fluir pelo meu corpo acima e uma pressão na cabeça. Fechei os olhos e abri-os de repente. O cadáver que me tentava matar desapareceu numa névoa. Fiz o mesmo mas desta vez com um pouco de mais força e todos, mesmo todos os cadáveres desapareceram formando um espesso nevoeiro. Cai no chão ofegante mas satisfeita comigo mesma. Eles vieram ter comigo, menos a Youko e a Shiori que se atiraram para cima de mim felicíssimas. - És um máximo! – Berrava-me a Youko aos ouvidos – AGORA é que tens mesmo de casar com o meu irmão! Vai ser um copo-de-água de arromba! - Tu deves ser a pessoa mais espectacular que eu já conheci! – Guinchava-me a Shiori no outro ouvido – Aquilo que tu fizeste foi... Mas porque é que eu não registei em vídeo? - Meninas detesto ser desmancha-prazeres mas isto ainda não acabou. – Disse o Neji 64
  • 65. Ele tinha razão. O Shougai e o “Len” lutavam encarniçadamente com o Houkai. - O que é que fazemos agora? – Perguntou a Youko – Esperamos? Claro que não, ideia estúpida! Precisamos de um plano B. - Para ser sincera, nós nunca tivemos um plano definido. – Admitiu a Shiori. - Então está na hora de o termos. - Chiyo... – disse o Raitou baixinho. Desatei a corar novamente. Ainda não era capaz de o olhar nos olhos. – Nada. Corri para a água e eles seguiram-me. Chegado mais ou menos ao sítio onde a Kisa estava, verificámos que estávamos por cima da água. Aproximámo-nos dela e eu tomei-lhe o pulso. Nada. - Está morta? – Perguntei eu faltando-me o ar. - Não me parece. A alma dela é que está muito danificada. – Explicou-me a Shiori. - Com licença. – Pediu o Neji – Eu trato disto. - Não vais tentar fazer aquilo que eu estou a pensar, pois não? – Inquiriu a Shiori. - Podes apostar nisso. O Neji pôs-se no meio do Shougai do “Len” e do Houkai e formulou um feitiço que fez com que todos os seres vivos num raio de 30 metros ficassem em modo “câmara lenta”. - Neji! – Berrou a Shiori lentamente. - Tirem na daqui. – Gritou ele em resposta. E de seguida o “Len” lentamente desferiu- lhe um golpe nas costas fazendo com que o sangue dele espirrasse por todo o lado. Ele emitiu uns sons e caiu pesadamente. Para mim pareceu-me que o tempo tinha parado. Olhei para o “Len” e ele tinha um horrendo sorriso da cara. Com o sangue a ferver-me nas veias usei mais uma vez os meus poderes psíquicos e anulei o feitiço do Neji e desloquei uma enorme massa de água formando uma esfera flutuante que atirei para ele, mas no último momento falhei. Mesmo que não fosse o meu irmão assemelhava-se a ele e custava-me atacá-lo. - Chiyo. – Alguém me chamou – Não é o Len. Virei-me para trás, mas fui arremessada pelos ares. Tentei levantar-me, mas não conseguia. O “Len” não me deixava. Estava ao pé de mim de mão estendida fazendo com que eu ficasse colada à água. - Larga-a! O Raitou correu para ele e desferiu-lhe um murro na cara que fez com que ele cambaleasse para trás e caísse de costas. 65
  • 66. - Acham que me venceram? – Sibilou ele furioso – Eu?! O flagelo da Idade das Trevas? Ele levantou-se e assumiu a sua verdadeira forma. Pude ver um rapaz com uns vinte e dois anos com um cabelo branco azulado perfeitamente alinhado como se estivesse estado rodeado pelos melhores cabeleireiros do mundo. Ele sorriu maliciosamente e vi umas presas aguçadas. - Querem brincar? Está bem. - Ignora-os! – Gritou o Shougai de repente – Temos um trabalho a fazer! - Acredito. – Declarou a Shiori friamente com a voz a tremer descontroladamente - Temos contas a ajustar. Com um movimento fez aparecer a foice e com uma agilidade que me era desconhecida, atirou-se para o Shougai iniciando uma autêntica luta de titãs. De repente, a Youko com a Kisa já levantada (!) puseram-se costas com costas e começaram a entoar o seguinte feitiço: “ Tudok magyarul. Beszél itt valaki segítség. Vigyázz hagyj ne érj.” – Mais tarde vim a descobrir que essa língua tinha derivado para o nosso húngaro. Parou tudo. Mas desde quando é que aquelas duas sabiam feitiços tão poderosos? Bem, a Youko já não me admiro de nada, mas a Kisa?! Ela que achava o francês um bicho-de-sete-cabeças! E como é que ela já estava levantada? - Chiyo olha! – Disse o Raitou apontando para o Houkai. Aí percebi. O Houkai estava a utilizar os corpos delas as duas fazendo acreditar que ele estava inconsciente. O feitiço começava a fazer efeito e a água começava a correr a uma velocidade estonteante. O “Len” elevou-se no ar a toda a velocidade, para evitar ser molhado. - Ora, ora. – Disse eu feliz. Tinha me lembrado de uma coisa que tinha lido. – Sempre é verdade. Gato escaldado, da água fria tem medo. Mas não te preocupes, aprender a nadar é fácil! Utilizei os meus poderes para o obrigar a descer, mas ele lutava contra isso. O Raitou percebeu o que eu queria e agarrou numa pedra e atirou-lha. Isso foi o suficiente para o distrair e eu aproveitei esse momento para ganhar vantagem e consegui atirá-lo para dentro de água que corria cada vez com mais força. Isto fica aqui registado. Se no caso de alguém encontrar esta história, fiquem a saber que é totalmente verdade. E se porventura encontrarem um vampiro, uma das maneiras de o vencer é relativamente fácil, comparado com espetar estacas. Eles têm 66
  • 67. uma audição espectacular e possuem um faro melhor do que um cão de caça. Eles cheiram os acontecimentos antes de eles ocorrerem. Porém os vampiros não podem caminhar sobre água corrente, a não ser que esta seja muito fraca. Se um vampiro se encontrar imerso, fica completamente indefeso e acaba por ser destruído. Li isto no “Diário Perdido do Dr. Cornelius Van Helsing”. - Youko! – Chamei eu à pressa – Rápido, trás a Kisa e o Neji para aqui! Ela fez o que eu lhe disse sem contestar, e com alguma dificuldade arrastou eles os dois para o pé de nós. O Houkai agarrou na Shiori já estafada e cheia de escoriações que não tinham bom aspecto e voou com ela ao colo indo depositá-la ao colo do Raitou. Sei que isto não faz grande sentido levar o Neji para ali, mas eu naquele momento sabia que ele não estava morto. Não estava. Lembro-me de ele ter dito que não podia morrer assim sem mais nem menos e eu acreditava firmemente que não era com um golpe que ele iria desistir de viver. O Neji não. O Houkai formou uma barreira à nossa volta enquanto a água estava a inundar tudo. O “Len” tentava escapar de todas as maneiras possíveis imaginárias, até nadar à cão, mas era inútil. O Shougai flutuava com uma expressão serena (se é que aquilo se pode chamar sereno) e observava-o a debater-se. Por fim, a água cobriu tudo e nós ficámos submersos. Olhei para baixo e verifiquei que o escuro pântano era na verdade luminoso e repleto de vida. Um autêntico mundo subaquático, até me arrisca a dizer que era uma cidade de algas e peixes esguios, prateados e muito fugidios. Efémero foi o momento em que vi o “Len” a desaparecer por completo, e um longo suspiro de alívio escapou-me pela boca. Ouvimos todos uma respiração fraca vinda do chão e a Shiori mal se continha com as lágrimas de felicidade. - Mas porque é que está toda a gente a olhar para mim? – Perguntou o Neji com os olhos semi-abertos – Eu não morri minha gente! Ai, as minhas costas! - Mantêm-te quieto senão ainda pioras as feridas. – Aconselhou a Youko obrigando-o a deitar-se. - Ainda estás a chorar rapariga?! – Perguntou ele para a Shiori que chorava copiosamente a sorrir – E ainda por cima toda rasgada e suja de sangue! Quem devia estar a chorar é o tipo que te fez isso, porque vai haver problemas! 67
  • 68. - Cala-te! – Disse ela abraçando-o – Volta-me a fazer uma destas e sou eu que te mato pessoalmente! - Obrigadinho! Acabo de acordar e sou logo ameaçado de morte! - Vá, Neji, fica quieto. – Disse eu, empurrando-o para trás devagarinho, pois ele já estava a querer sentar-se outra vez – Se queres melhorar rapidamente vais ter de deixar alguém ver isso, e convêm não abrires a ferida desnecessariamente. - Pronto – resmungou ele – Que remédio! - A Chiyo é assim, sempre preocupada com os outros! – Exclamou a Youko com um grande sorriso nos lábios – E é por isso que o meu irmão gosta dela! Por falar em irmãos... Raitou?! Ele estava um pouco afastado do grupo, falando com o Houkai numa língua completamente ignota para mim. A Kisa estava encostada ao ombro do Houkai que estava ajoelhado ao pé dela dando-lhe uma coisa azul prateada para beber. - Então? – Perguntei eu, aproximando-me deles – Ela vai ficar bem? - Ele não tem bem a certeza, partes da alma dela foram muito danificadas e se o córtex cerebral que liga o espírito dela ao cérebro foi afectado, não há nada que se possa fazer e ela terá que ser transformada num “Houkai Soul”. - “Chiyo.” – Ouvi uma voz dentro da minha cabeça – “ O Shougai ainda não está derrotado” Olhei para todos os lados e percebi de repente que o Houkai estava a comunicar comigo mentalmente. - “Tens de usar os teus poderes para entrares dentro da mente da Kisa e expulsar o Shougai lá de dentro.” - Mas como é que eu faço isso? – Indaguei eu em voz alta. - O quê? – Perguntou o Raitou. - Acabam de me informar que tenho de entrar na mente da Kisa para expulsar o Shougai lá de dentro. - Isso é arriscadíssimo! – Exclamou ele brandindo os braços – Podes ficar lá presa! Quem é que te disse uma coisa tão absurda como essa? - O Houkai. - Oh. Pois. Estou a ver. Mesmo assim não concordo com isso. - E tens alguma sugestão melhor? Não. Pois então é isso mesmo o que eu vou fazer. Só preciso de descobrir como. 68
  • 69. - Peço desculpa por estar a interromper a conversa, mas não pude deixar de ouvir. – Atalhou a Shiori agarrando no livrinho que ela tinha guardado na bolsa – Acho que tenho a solução para o teu problema. Vejamos. Ela pôs-se a passar as páginas do livro a toda a velocidade e deu uma palmada no livro quando encontrou o que queria. - Achei. Diz aqui o seguinte: “ Para entrar dentro da mente de uma pessoa é necessário ter um poder mental bastante elevado, caso contrário as consequências podem ser desastrosas.” - E? – Perguntei eu ansiosa. – O resto? A Shiori suspirou desiludida e abanou a cabeça. - Mais nada. Também, é normal, não existiram muita gente com poderes psíquicos tão elevados. - Bem, vamos pensar. – Disse a Youko sentada ao pé do Neji que estava a dormir – Se no livro diz que é necessário ter um poder mental muito elevado então talvez tenhas de te concentrar na mente da Kisa. Encolhi os ombros. Naquele momento já aceitava qualquer alvitre. - Tentar não custa – conclui. Coloquei-me junto da Kisa e fechei os olhos e tentei concentrar-me. Às tantas comecei a ouvir um ligeiro som agudo dentro da minha cabeça que começou a aumentar gradualmente. Abruptamente senti-me a flutuar e quando abri os olhos estava num sítio transparente e dava-me a sensação que a cada passo que dava o chão fugia-me dos pés. Havia uma espécie de reflexo que me encadeava e só mesmo quando estava prestes a chocar contra ela é que vi uma suposta árvore roxa escura com várias ramificações irregulares. Olhei para cima e vi que os enormes ramos grossos cobriam todo o espaço em seu redor. - Deve ser este o córtex cerebral que o Raitou falou. – Pus uma mão no tronco espesso e não pude deixar de ver que apesar do seu enorme tamanho, estava bastante fragilizado. Por de trás do tronco, veio agarrar-me o ombro, uma mão amarela e muito deformada. Com um movimento brusco libertei-me e recuei atabalhoadamente. O Shougai saiu disparado no meu encalço e deu-me uma forte pancada na cabeça que me fez cair ruidosamente no chão. 69
  • 70. Agarrada à minha cabeça, levantei-me a custo e olhei para todos os lados em busca do meu adversário, mas ele tinha desaparecido de vista. De repente um som dentro da minha cabeça deu-me sinal que o Shougai iria atacar-me pela esquerda. Voltei-me mesmo a tempo de o agarrar pelo pulso e de o atirar uns metros para o chão. Fechei os olhos com toda a força que podia e utilizar os meus poderes, mas comecei a ouvir algo a estalar. A árvore começava a partir-se ao meio e a ficar de um cinzento decadente. O chão também lhe estava a acontecer o mesmo e tive de dar uns passos para o lado cautelosamente de modo a evitar que se partisse. O Shougai olhou para mim com um esgar, mas eu percebi que aquilo era um sorriso de escárnio, pois não podia usar os meus poderes sem pôr a Kisa em perigo. - “E agora o que é que eu faço?” – perguntei-me a mim mesma. Inesperadamente senti umas gotas a caírem-me em cima da cabeça vindas do tecto. - “Ah, deve ser aquela bebida que o Houkai deu à Kisa” – pensei eu – “E o fluxo está a aumentar”. O Shougai silvou e começou a infligir golpes no córtex da Kisa que espirrava um líquido escuro que liquefazia tudo onde tocava. O Shougai estava a usar esse líquido para me acertar de alguma maneira. Durante algum tempo só me esquivava daquele líquido peçonhento feita gazela da savana, mas comecei a fartar-me rapidamente daquele joguinho irritante do gato e do rato. Sem querer pisei uma poça daquela bebida azul prateada e reparei que o Shougai estremeceu por alguns instantes, como se estivesse com medo que eu descobrisse algo. Sorri lentamente para apreciar aquele momento de glória. Se eu conseguisse atingir o Shougai com aquilo... Aproveitando mais um ataque baixei-me, e com os pés fiz salpicar mais alguma da bebida que foi parar à árvore. Esta começou a ficar cerúlea e a deitar água pelos ramos inundando toda a zona. Tive mais um dos meus famosos pressentimentos que agora já era seguro utilizar os meus poderes, pois já não seria lesivo para a Kisa. Com a mente, desloquei uma enorme quantidade de água (já misturada com a famosa bebida) e atirei-a para cima do Shougai. Quando olhei novamente para o local onde ele estava ele tinha desaparecido. Compreendi que ele não estava morto, apenas derrotado. Acho que a guerra entre Houkai e Shougai vai continuar durante perpetuidades... 70
  • 71. A água continuava a inundar tudo e mesmo antes de chegar ao cimo da árvore fui “arrastada” para outro lugar. Era o pântano, mas desta vez estava calmo e a superfície do lago irisava-se com o sol poente. Fui abordada por trás pela Shiori e pela Youko que saltavam de felicidade. O Neji, esse, equilibrava-se ou pelo menos tentava no ombro do Raitou que fazia um esforço para não cair e não levar o Neji e a Kisa atrás, que dormia com uma expressão plácida. - Ganhamos, ganhamos! – Pulava a Youko, fazendo todas as piruetas possíveis e imaginárias. - Viste Neji, viste?! Foi... tão, tão... – balbuciava a Shiori com os olhos a brilhar de entusiasmo – Fixe! - Olhem, nada mais me agradaria do que ficar aqui a celebrar, mas não nos podemos demorar. – Cortou o Raitou. - Temos já de voltar? – Perguntei eu desiludida. - Ora essa! – Protestou a Youko chocada – Não é assim que a conquistas mano! Tens que o desculpar Chiyo, ele é um neófito nestes assuntos. Não disse nada por questões óbvias. - Eu e a Chiyo não mais nada para falar, pois não? – Perguntou-me ele com um sorriso acanhado – Acho que é bastante evidente. Sorri feliz. Realmente não era preciso dizer mais nada. - Vão se mesmo embora? – Perguntou o Neji. - Temos escolha? – Indagou a Youko – Tá na hora de ir! - Prometemos que voltamos para vos visitar. – Jurei eu. - Pois, porque senão vamos lá nós chatear-vos até à morte! – Disse a Shiori com um sorriso brincalhão. A Kisa foi entregue em segurança e despedi-me da Youko e, sim, do Raitou. Soprava um vento agradável naquela noite. Pelo caminho lembrei-me de uma das minhas canções favoritas: “Sanctus Espiritus, Redeem us from Our Solemn Hour.” Patrícia de Andrade Rovisco Matono– 9º ano 71
  • 72. Momentos Momentos… não sei o que são, não sei porque não os consigo esquecer. Aconteceram, não posso voltar atrás, por mais que queira, mas não sei se quero… Se fossem fotografias, ou mesmo páginas de um diário, podia rasgá-las em pedaços pequenos, e lançá-los no vento, para longe de mim. Mas não são, estão gravados, presos ao que eu própria sou, ao que vivi, por tantas e tantas vezes que me lembro de um sorriso, de um beijo que deixei escapar sem destinatário, por ter alguém ao meu lado que vive as coisas como eu vivo. Tentai apagar só o que não gostei de viver, asa vezes que deixei as emoções tomarem conta de mim e as lágrimas escorrerem livres, sem impedimento, as palavras que deixei escapar com o simples objectivo de magoar alguém, as vezes que desisti sem tentar, pelo facto de ter medo de não conseguir… Não consegui, mais uma vez desisti, ficou quase tudo na mesma, continuo a sorrir sempre que posso, os beijos solto-os no vento à espera que cheguem a alguém, continuo a perder o controlo pelas coisas mais estúpidas, a deixar as lágrimas correrem livres, já nem me dou ao trabalho de tentar pará-las, sei que não resulta e as palavras, palavras não têm significado, simplesmente existem para serem usadas como maneira de fugir, mas magoam, magoam tanto! Mas uma coisa mudou, deixei de tentar esquecer tudo o que se passou, percebi que foi e é nesses momentos que, de alguma maneira… eu sou feliz! Maria Teresa Torres Vaz Freire 9º ano 72
  • 73. Sophie Eric Esta história passa-se num monte onde o meu pai ia caçar. Eu ia com ele e o amigo dele à caça, mas não é que ela me interessasse ou fosse bom caçador, muito pelo contrário, sou péssimo a caçar e nunca feri sequer uma pata de um coelho. Eu ia à caça para ir ao monte. Esse monte era o mais bonito que eu já tinha visto. Em qualquer estação que fosse. Era lindo quer com neve a cobri-lo quer estando cheio de folhas vermelhas e amarelas por aqui e por ali. Mesmo vendo-se apenas um lençol verdejante de relva na Primavera e no Verão é bonito. Eu adoro aquele monte porque a paisagem acalma-me (mais uma razão para não conseguir caçar lá). Está cheio de árvores por todo o lado, a maior parte delas, pinheiros, carvalhos e abetos. Mas há lá uma árvore que eu adoro: Um chorão. É o único que lá há, mas é a árvore maior e mais bonita de todo o monte. No meio dessas árvores passa um riozito, cheio de pedrinhas e com a água completamente transparente e reluzente. Uma vez, decidi seguir o riozito. Passados alguns minutos cheguei a um moinho de água. Era grande e velho, mas estava em funcionamento. Ao lado desse moinho estava uma casa, também ela velha, de madeira apodrecida, mas com janelas verdes com grades verde escuras. De tão velha que a casa era, até me pareceu estranho que ainda tivesse telhas, apesar de pretas e podres também. A casa estava rodeada de flores bem tratadas e roxas. Tinha um pequeno alpendre. Dei a volta à casa e reparei que tinha poucas janelas e apenas uma porta, no alpendre. Cheguei-me ao pé de uma janela e limpei o vidro para tentar ver lá para dentro. O vidro, de tão velho que estava, era quase opaco, mas via-se ainda alguma coisa, se bem que muito mal. Consegui ver umas cadeiras e uma mesa. Havia um fogão e uma arca, que me pareceu ser uma espécie de frigorífico. Depois reparei na cama. Estava feita e pronta para que alguém se lá fosse deitar. «Será que vive cá alguém?», pensei. Nem tive tempo de me responder a mim mesmo, pois comecei a ouvir a flauta. Sim, a flauta. Sempre que cá venho, para além do monte emanar a sua calma, também ouço esta flauta. Uma música lindíssima, que me parece ser “Morning” de Grieg. 73
  • 74. Segui o som da flauta. Estava cada vez mais próximo. Cheguei ao pé do chorão e, gatinhando para não ser avistado, espreitei para o outro lado da grande árvore. À minha frente, uma rapariga pouco mais nova do que eu, de cabelos lisos e compridos loiros com um lenço na cabeça, um vestido laranja meio esfarrapado e com vários remendos, tocava serenamente uma flauta transversal quase do seu tamanho. A minha surpresa foi imensa, tanta que, ao levantar-me, pisei um tronco de árvore seco, que fez um enorme barulho. A rapariga parou de tocar com uma última nota desafinada devido ao susto e, vendo- me, largou logo a correr muitíssimo depressa. Sem saber bem porquê, comecei a correr atrás dela. Quando ela deu a volta a vários eucaliptos, perdi-a de vista. Nem vestígios dela. À minha volta só havia árvores, mas também só haveria um sítio para onde ela podia ter ido... ********* Sophie Corri o mais depressa que pude. Estava assustada por ter visto, pela primeira vez em três anos (que me pareceu mais um milénio), um outro ser vivo que não fosse o Sr. Squirrel, um esquilo que costumava ir pedir-me bolotas, os outros animais do monte ou a sua vegetação. Passei rapidamente o chorão, segui, subi o rio e passado pouco tempo, sem seguida, estava em casa. Fechei-me lá dentro, com trinco e tudo, e pus-me o mais escondida possível, agarrada com força à minha flauta. Sabia que, por mais que ele espreitasse pelas janelas, não me ia conseguir ver ali, escondida pela mesa, mas a flauta era o único que me restava e queria protegê-la mais do que à minha vida. “Muito provavelmente nunca vai encontrar a casa”, pensei eu. Mas, contrariamente ao pensado, ouvi passos lá fora. A mesma maneira de andar revelou-me que era o mesmo rapaz que me tinha visto e perseguido. Os seus passos revelaram-me que ele dava voltas à casa para tentar encontrar uma entrada, pois sabia que a porta estava fechada. 74
  • 75. A minha grande esperança era que ele não achasse a passagem que liga a casa ao exterior, que não passa de um buraco nas raízes de um velho sobreiro, ou uma toca de coelho para os pouco observadores. Tanta volta ele deu, que deixei de lhe ouvir os passos. Respirava cada vez mais depressa. Quem era ele? Que quereria de mim? Seria capaz de encontrar a passagem? Era apenas um miúdo, por isso, se a achasse, não seria difícil passar pelas estreitas paredes cavadas na terra e entrar dentro de casa. Não aguentei e tive de levantar-me. Fui até à janela e, apesar de não se ver tudo, sempre se vê qualquer coisita. Ouvi passos dentro de casa. Voltei-me e preguei um grito quando vi o rapaz, ali de pé a olhar para mim. Cai para trás e ele correu na minha direcção. Tentei gritar algo como “Não de aproximes!”, mas não consegui. Ele chegou ao pé de mim e... — Estás bem? – Ele pegou levemente no meu braço e ajudou-me a levantar – Desculpa se te assustei. Não era minha intenção. – Ele sorriu e disse – Só queria que soubesses que gosto muito de te ouvir tocar flauta. Tens imenso jeito. Ele preparava-se para ir embora, mas eu perguntei, gritando de uma só vez: — Quem és tu? Que fazes aqui? De onde vens? Eu chamo-me Sophie, e tu? Ele olhou-me, espantado, mas depois sorriu e respondeu: — Eu sou o Eric. E vim aqui ao monte com o meu pai e um amigo dele para caçar... — CAÇAR?! – Fiquei integralmente chocada. Para mim, caçar é a mais bárbara actividade dos homens. Eu sempre me alimentei de frutos, sementes e vegetais. — Sim, mas eu não caço. – Informou ele – Não gosto. E muito menos aqui no monte. Fiquei mais aliviada. — E quanto a de onde eu vim... Não queres ver com os teus próprios olhos? – E estendeu-me a mão com um sorriso amigável. Sabia que não devia confiar em mais ninguém, mas aquele sorriso era sincero. ********* Eric Ao contrário do que eu esperava, ela deu-me a mão e disse “Mostra-me, por favor!”. Saímos da casa e fui procurar o meu pai e Camus. Tinham terminado a caçada e estavam já à minha procura quando os encontrámos. 75
  • 76. — Mas que senhorita tão bonitinha vem a ser esta que o menino Eric encontrou? – Mal avistaram Sophie, Camus pôs-se logo a fazer as suas usuais “Perguntas Discretamente Indirectas”, como lhes chamamos lá em casa – Que carinha de boneca, não acha Edward? Parece uma boneca de porcelana! Que carinha pálida! E os cabelos?! Loiros como os dos anjos! E que olhos, meu Deus! Azul cor do céu! Sophie estava evidentemente incomodada. — Por favor, Camus, estás a assustar a criança! – Exclamou o meu pai, com os olhos verdes a luzirem de interrogação, olhando directamente nos meus. — Peço desculpa, Edward. Mas claro que o seu filho não fica atrás! Os cabelos dele são o tom de castanho claro mais lindo que já vi! E os olhos dele são exactamente da cor dos da Emily! Cor de avelã! — Escusas de me engraxar os sapatos a dizer bem da beleza do meu filho, mas assim vais amedrontar a menina. – O meu pai ajoelhou-se ao pé de Sophie, que já estava escondida atrás de mim, e disse – E de onde vens tu, minha menina? Ela, hesitante, levou a mão ao cabelo ruivo do meu pai, e puxou uma madeixa de cabelo. Sob o ar espantado de todos e o ar ainda mais espantado dela, ela disse: — Não queima! – Disse ela espantadíssima. — Pois não. – Disse o meu pai sorrindo – Se fosse fogo era um bocado invulgar eu estar tão tranquilo, não achas? Ela continuou com um ar espantado mas depois sorriu e voltou a puxar uma madeixa de cabelo do meu pai. — Não sabia que tinhas tanto jeito com crianças Edward! – Disse Camus, rindo. — Três filhos não é coisa fácil. Principalmente quando estavam na fase de discutir por tudo e por nada. – Respondeu o meu pai. — Eu sou a Sophie. E vim da casa do monte. – Disse Sophie. — E eu sou o Edward e vim daquela casa grande ali. – E apontou para a nossa casa, que se distinguia bastante bem das outras casas no vale do monte. Sophie mostrou-se admiradíssima. — Quantas pessoas lá vivem? – Perguntou ela. — Ainda bastantes. – Disse o meu pai – Uma família de cinco pessoas e depois os criados, a cozinheira, o motorista... – Sophie já abria a boca de espanto – Queres vir ver, Sophie? Ela acenou, contentíssima. Parecia gostar do meu pai. — Aqui este senhor velhote, que se chama Camus, também vem connosco, pode ser? 76
  • 77. — Ora vamos, Edward... Ah-ah! Velhote... Vens com cada uma... – riu Camus. Fomos de mãos dadas: eu, a Sophie e o meu pai, com a Sophie no meio de nós dois. De vez em quando o meu pai mandava-me olhares para tentar interpretar o que me vinha na cabeça. Eu sabia perfeitamente que o meu pai nunca se negaria a deixar ali a Sophie, sozinha. ********* Sophie A casa parecia ainda maior vista de perto! A Casa estava a uns tantos metros do portão, que foi aberto por um homem ainda jovem, com o cabelo castanho-escuro, um pouco acima dos ombros e olhos azuis. Só alguns (muitos) anos mais tarde é que me apercebi que ele era realmente muito giro (ou belo, como diz a Catarina). — Bom dia, senhores! – E olhou para o Eric, com um sorriso aberto, piscando-lhe o olho. Depois esbugalhou os olhos ao olhar para mim. — Uma longa história, Isaac... – disse o Sr. Edward – O almoço já está pronto? — Sim, senhor. Catarina já providenciou tudo. As senhoras estão na sala à espera. Acenei-lhe enquanto nos afastávamos, ao que ele sorriu e me acenou também. A casa era um branco para o prateado, tinha imensas janelas pintadas de um azul muito clarinho e a porta era altíssima, com quase quatro metros, e era uma porta com vitrais lindíssimos com flores, pássaros e outras coisas referentes à Natureza. A porta foi aberta por um homem já velhote. — Bom dia senhor. – E fez uma vénia – Senhor Camus. – Fez outra vénia, mas não se encurvou tanto como para o seu mestre – Menino Eric. – E quando ia a meio da última vénia, reparou em mim. — Bom dia, Gustaff! – Disse, muito bem-humorado, o Sr. Edward, passando por ele sem sequer dar explicações pela minha presença – Hoje o Camus almoça cá e esta adorável criança também. Por favor, anuncia à Catarina. Gustaff retirou-se para avisar Catarina e o Sr. Edward parou para me deixar admirar a casa por dentro. Entrámos num hall muito grande, mas também bastante vazio. Mesmo à nossa frente, uma grande escadaria, que tinha dois lances de escadas, um para a direita e outro para a esquerda, indo dar a uma infinidade de quartos. O hall estava repleto de portas. Reparei 77
  • 78. que havia uma meio escondida pelas escadas, que vim a descobrir que ia dar à residência dos criados. Tinha um candeeiro magnífico, monumental mesmo. O Sr. Edward perguntou-me: — Agora queres conhecer a minha mulher e as minhas filhas? — Sim! – Exclamei eu, contente – Gostaria muito. Entrámos por uma das portas do lado esquerdo, que ia dar a uma grande sala, com uma lareira apagada, sofás, uma mesa com cinco cadeiras e uma grande estante com uma quantidade enorme de livros. Sentadas nos vários sofás, estavam três mulheres, a ler cada uma seu livro. A mais velha, com os seus quarentas, mãe do Eric e mulher do Sr. Edward, seu nome Emma, tinha o cabelo loiro apanhado em tranças, enrolado atrás da cabeça. Os seus olhos eram cor de avelã. A filha mais velha, de dezasseis anos, a Emily, tinha os cabelos ruivos e soltos em caracóis perfeitos até à cintura, e os olhos verdes. A filha mais nova, de catorze anos, a Erika, tinha o cabelo loiro, mais para o doirado do que para o amarelo propriamente dito, também comprido e liso e olhos verdes. Erika foi a primeira a levantar os olhos. Mal viu o pai, marcou o livro e correu para ele abraçando-o. Beijou Eric na face e fez uma pequena vénia ao Sr. Camus. Depois os seus olhos caíram em mim. Quando reparei bem, as três olhavam para mim. ********* Eric Tal como eu estava à espera, Erika olhou para a Sophie, baixou-se a abraçou-a: — Tão querida! Quem é, pai? – Largou Sophie e olhou para ela com um grande sorriso, que não pareceu assustar Sophie, mas aliviá-la – Quem és tu? De onde vieste? Eu sou a Erika, e tu? — Eu sou a Sophie! – Respondeu ela, contentíssima. — Erika, querida, de uma coisa eu tenho a certeza: ela não é uma boneca! – Comentou o meu pai rindo – Não a podes apertar com muita força. — Ah!, desculpa! Magoei-te? – Erika reparou logo no erro e tentou emendá-lo. — Não. Estou bem. Emily levantou-se e baixou-se também ao pé dela. Afagou-lhe a cara e exclamou: — Estás toda suja! O que te aconteceu? Alguém te fez mal? 78
  • 79. — Não. Não recentemente. Esta resposta deixou-nos a todos sem palavras. Foi a vez da minha mãe se aproximar. — Pobre criança! E as roupas! Anda, vamos dar-te um banho. Erika, vem comigo. Emily, por favor, chama a Catarina e depois que venham as duas ter connosco. E, com estas palavras, todas as mulheres abandonaram a sala e deixaram os homens sozinhos na sala. O meu pai sentou-se e fez-me sinal para me sentar ao lado dele. — Agora, meu amigo, é altura de me contares o que aconteceu. — Bem, sabe que eu não gosto de caçar... – comecei eu, ao que o meu pai acenou afirmativamente – Eu gosto é de ir ao monte. Bem, um dia pus-me a explorar e encontrei uma casa velha, que parecia abandonada, mas espreitei pelas janelas e parecia habitada. Depois também ouvia sempre uma flauta. Hoje decidi seguir o som da flauta e encontrei a Sophie. Ela fugiu e eu pensei logo que ela deveria ser a pessoa que morava na casa. Então fui lá ter e convencia a vir connosco. — E não sabes nada sobre ela? – Perguntou o meu pai. Acenei negativamente. — Pobre criança... Quem sabe o que lhe terá acontecido?! Depois de quase meia hora a ter de aguentar com as conversas estranhíssimas do Sr. Camus e do meu pai, Catarina apareceu à porta. Catarina é a nossa criada portuguesa. É a minha ama, mas também faz muitas outras coisas cá em casa. Tem o cabelo castanho claro sempre apanhado num toutiço e tem os olhos azuis. — Senhores, a menina Sophie já está pronta e as senhoras já se encontram todas na sala de jantar para o almoço. Se fizerem favor... – e deu uns passos para trás, permitindo que nós passássemos e pudéssemos ir para a sala de jantar. Catarina fechou a porta atrás de nós e abriu a da sala de jantar. Todas sentadas à mesa, as mulheres conversavam animadamente. Sophie estava à cabeceira da mesa, com um dos velhos vestidos azuis da Erika. Assentava-lhe que nem uma luva. O seu rosto já não estava sujo e parecia, tal e qual como o Sr. Camus havia dito, um anjo caído do céu. ********* Sophie 79
  • 80. Apesar de estar ainda muito confusa, sentia-me feliz. Aquela família não me conhecia de lado nenhum, apenas nos tínhamos encontrado há uma hora ou nem isso e já me tratavam e me falavam como se fizesse parte da família. Aliás, logo nesse almoço, o Sr. Edward falou da minha educação: — Então, Sophie, sabes ler? — Pouco, Sr. Edward. – Respondi eu, constrangida. Pensei que, ao saber do meu analfabetismo, eles iriam gostar menos de mim e olhar para mim com inferioridade, pois havia metido na cabeça que as pessoas ricas são assim. — E não gostarias de aprender? – Perguntou com um grande sorriso. — Oh!, sim, por favor! Adoraria! – Respondi, logo mais animada. — Então a Catarina cuidará de te ensinar. Pode ser? – Perguntou a Sra. Emma – Ela é muito simpática e é a ama do Eric, por isso pode dar-vos aulas aos dois. — Claro... – respondi eu. A minha primeira impressão da Catarina foi “Esta é uma pessoa eficiente”. Mas quando todas me davam banho, ela pareceu muito simpática, apenas aparenta ter medo de fazer algo que desagrade os patrões. — O que me lembra... – começou a Sra. Emma – Querido, já pedi à Catarina que, depois de almoço, fosse arranjar um quarto para a Sophie. — E fizeste muito bem. – Respondeu, bem disposto, o Sr. Edward. Depois de almoço, a Catarina levou-me até a um quarto. — É aqui que vai dormir. – Informou-me ela, abrindo a porta de um quarto de hóspedes enorme com a maior cama que eu já tinha visto, um enorme armário e um toucador. — Catarina, - disse eu – este quarto não é grande demais? Ela sorriu e respondeu: — Os senhores desejam que fique confortável. Por isso é que me disseram para a pôr no melhor quarto de hóspedes. E o resto das suas coisas? – Perguntou ela, pousando a minha flauta numa das mesinhas de cabeceira. — Não mais tenho nada. – Respondi – Apenas a minha flauta. Ela olhou-me com olhos tristes e depois mudou logo de assunto: — A Sra. Emma já a deve ter informado, mas a partir de amanhã eu vou principiar a dar-lhe lições. — Sim. Já fui avisada. — Ah!, e, por enquanto, lamento mas vai ter de usar os velhos vestidos das meninas. Quando tivermos tempo vamos comprar uns novos. Se quiser eu posso mostrar-lhe a 80
  • 81. casa. – Disse ela caminhando para a porta – Assim, se tiver medo ou não conseguir dormir sabe onde eu pernoito e pode lá ir quando pretender. — Catarina? — Sim? – Ela virou-se de imediato, dando a impressão de que, por pouco, ia caindo com a rapidez de movimento. — Agradeço, mas... – aproximei-me dela e, com um abraço terminei – por amor a quem quiseres, trata-me por tu. Ela, levemente paralisada, abraçou-me também. ********* Eric No dia seguinte, a Sophie andava muito bem disposta. Já conhecia todos os criados e já sabia o nome de todos eles. — De que nacionalidade é a Catarina? – Perguntou-me ela, nesse dia ao pequeno- almoço – Tem um nome tão engraçado. — É portuguesa. Veio cá para a Inglaterra há uns anos e tornou-se criada cá em casa. É muito simpática e eficiente também. Vais gostar dela. — Já gosto! – Respondeu ela misteriosamente – Mal posso esperar pela minha lição! Nesse mesmo dia, quando eu e a Sophie íamos para a nossa lição, de dentro da sala de estudo ouvimos a voz da Catarina: — Por favor, pare com isso! Mas que teimosia a sua! Os meninos devem estar quase a chegar e o senhor ainda aqui, a mangar comigo! Em resposta à voz de Catarina, a voz de Isaac ouviu-se com um ligeiro tom de ironia: — Mangar?! Por amor de Deus, Catarina! Não me digas uma coisa dessas que me despedaças o coração! — Mas qual despedaçar coração qual quê? E olhe que, para quem muito teima que o coração se lhe parte, o senhor parece não o ter e não compreender a necessidade que eu tenho neste trabalho... E pare de me chamar pelo primeiro nome! — Mas que mania tens, Catarina, de meter o trabalho no meio da nossa relação... — Mas que relação!? Que relação?! Não há relação nenhuma, Sr. Isaac! E não me chame Catarina! E o senhor sabe muito bem que os criados não podem relacionar-se entre si. E é esse o meu problema. Este trabalho é-me imprescindível... 81
  • 82. Nesta altura, resolvi bater à porta. Ambas vozes deixaram de se ouvir. Ouviu-se o barulho de passos desconcertados, mesas e cadeiras arrastadas e uma porta a abrir e fechar. Catarina abriu a porta, muito corada e com um sorriso nervoso. — Boa tarde, meninos! Como está a correr o dia? – E, indo sentar-se na sua habitual cadeira, apanhou os livros que tinham caído com a correria em que Isaac abandonara a sala pela outra porta – Eu decidi que, para poder mais facilmente acompanhar as necessidades de cada um, é mais fácil terem lições em separado. Nós entreolhámo-nos e eu disse: — Claro. Não há problema. – Não podendo aguentar mais, seguidamente acrescentei – Catarina, perdoa-me a minha indelicadeza, mas acho que devias dar uma oportunidade ao Isaac. – Ela pareceu espantadíssima – Ele é uma óptima pessoa e tu, tu Catarina, és ainda uma lagarta a tentar formar o seu casulo para poder transformar-se em borboleta – e, felicíssimo com os meus dotes metafóricos, olhei para a Catarina com os olhos luzentes. — Pois está a chamar-me lagarta, menino Eric? – Catarina, com uma mão no peito e um ar intensamente ultrajado. — N-Não... Não! – Respondi, gaguejando – É uma metáfora! — Vai-te embora, que a minha lição é primeiro! Além disso, não vês que estás a causar inquietação na alma de tão nobre dama? – Sophie, à vista do falhanço das minhas brilhantes metáforas, quis mostrar que estava mais do que pronta para a lição. Eu abandonei a sala sem me chatear nem dizer mais nada, mas ainda ouvi a Sophie: — Atira-te de cabeça! — Peço desculpa? ********* Sophie As lições com a Catarina são realmente divertidas, mesmo depois do «incidente» com o Isaac. Quando a lição acabou, decidi perguntar-lhe: — Catarina, porque é que não gostas do Isaac? Ela olhou pensativa para o chão e, muito corada, disse: — Não é que eu não goste dele... Aliás, ele é até muito belo... Mas, à medida que uma pessoa cresce, Sophie, vai percebendo melhor as coisas e pensar não só na sua 82
  • 83. felicidade, mas na felicidade dos outros. Eu tenho este trabalho para sustentar a minha família em Portugal, que é muito pobre. Aqui em Inglaterra, é proibido os criados terem qualquer tipo de relação mais íntima. Além disso é como eu digo... O Sr. Isaac só está a mangar comigo porque eu me irrito muito precipitadamente. Achei aquela conversa esquisita. — Portanto, tu gostas dele, mas achas que ele não gosta de ti. Além disso não podes dar-te ao luxo de falar muito com ele porque senão és despedida e tu e a tua família iam à falência e morriam todos de fome. É isso? — A parte do início está ligeiramente errada, mas o resto está correcto. — Mas o que eu quero saber é se gostas mesmo dele ou não. Catarina estava mais corada do que nunca. — Prefiro não responder a essa pergunta, pois o Sr. Isaac pode estar a ouvir. — Isso é a tua resposta. – Respondi eu, constatando que, se ela o via e achava que ele podia estar em todo o lado era óbvio que a resposta à minha pergunta é «sim». — Como é que é uma resposta, Sophie? — Eu cá sei. Eu chamo o Eric.– Disse, correndo para a porta e abrindo-a de repente - Mas não percebo como é que o Isaac pode estar a ouvir a nossa conversa! Mal abri a porta, Isaac caiu aos meus pés. Tinha estado a ouvir a conversa toda. Enquanto Catarina gritava e mandava maldições a Isaac por ter estado a ouvir a conversa, eu fui ter com o Eric, que estava no quarto dele a ler um livro de Hemingway. — Podes ir ter a tua lição. Mas aviso-te desde já que a Catarina é capaz de estar com um ligeiro mau humor, e muito me espantaria que o Isaac não tenha já levado com uns livros em cima. Estava à porta a ouvir a nossa conversa sobre ele... – acenei negativamente em desaprovação enquanto que Eric ria. Quando nos separámos, o Eric para ir ter com a Catarina e eu para ir para o meu quarto treinar o que tinha aprendido no dia, encontrei o Isaac com uma marca vermelha com um formato de mão na bochecha direita. Olhei para ele e tentei manter a minha seriedade, mas não consegui. A vontade de rir venceu contra a minha vontade de manter a seriedade. — Desculpa, mas mereceste. Quem te mandou andar a escutar atrás das portas? — Chegaste a alguma conclusão? – Perguntou-me ele. — Só te digo que se a Catarina estiver certa, e estiveres só a mangar, nem sabes o que perdes. – E continuei o meu caminho para o meu quarto, deixando o Isaac pasmado a olhar para mim e, esperava eu, também a pensar no que eu tinha dito. 83
  • 84. ********* Eric À hora de jantar, o meu pai fez o favor de lembrar que o décimo quarto aniversário da Erika estava a aproximar-se. E, como tal, queria fazer uma grande festa, e queria que a Sophie estivesse presente nela. Pelo que durante vários dias, ela teve de conciliar as lições da Catarina com as lições da minha mãe de boas maneiras. Ao contrário do que eu estava à espera, ela, apesar de cansada, andava feliz. Um dia, quando estávamos no intervalo da lição de dança (eu, devido à minha altura, tive de ser o seu acompanhante), e estávamos ambos a descansar, decidi perguntar-lhe como tinha ido parar à casa do monte. Ela, tristonha, olhou para o chão e disse: — Suponho que seja altura de contar... – depois de dizer isto suspirou e começou a contar aquilo que há muito me surtia interesse – Eu vivia com a minha mãe e o meu pai numa casa nem muito grande nem muito pequena. Acho que não éramos tão ricos quanto tu e a tua família, mas também não éramos pobres. Um dia, a casa ardeu. O meu pai conseguiu que eu e ele saíssemos da casa ilesos, mas a minha mãe não conseguiu sair. A casa ardeu com ela lá dentro. Nunca percebi muito bem, ainda era pequena... mas acho que foi fogo posto. – Ela fez uma pequena pausa para engolir em seco – Depois eu e o meu pai fomos para uma casa muito perto do monte, mas do outro lado. Vivíamos felizes, mesmo assim. Um dia, ele deu-me a flauta e disse-me: «Se algum dia te sentires só e triste, toca a flauta com a tua alma, que solidão desaparecerá.». No dia seguinte um homem que eu nunca tinha visto apareceu lá em casa e assassinou o meu pai à minha frente. O meu pai disse-me para fugir. Como vivíamos ao pé do monte, conhecíamo-lo melhor do que ninguém. Eu fui para aquela casa e nunca mais vi o homem. Isto passou-se há três anos. Não sabia o que dizer. Não sabia o que sentir. Não sabia o que pensar. Aquela rapariga que estava à minha frente, com a mesma idade que eu, tinha sofrido como eu nunca tinha sequer imaginado que era possível uma criança da nossa idade sofrer. Sabia que a infância dela não podia ter sido particularmente boa, mas nunca tinha esperado nada de tão mau. — Desculpa... – ela olhou-me espantada – Ter perguntado... 84
  • 85. — Não há problema... Desabafar faz bem... Há dois anos que não falava com ninguém... Não foi propriamente fácil... — Meninos, mais um pouco de treino? – A minha mãe, para grande alívio meu, apesar do sorriso de orelha a orelha de Sophie, terminou com a conversa. Eu levantei-me e, fazendo uma vénia estendi a mão à Sophie perguntando: — Concede-me a honra desta dança? — Claro, honorário senhor.. E estivemos ainda a dançar um bom bocado. Apesar de, muito provavelmente, a Sophie nunca ter dançado, ela dançava até muito bem, com suavidade e leveza, dando a impressão de que ela era capaz de voar. Naquele momento fiz uma promessa: Se aquele homem estivesse ainda vivo, eu iria apanhá-lo. Pela Sophie, por alguém que eu aprendi a amar como uma irmã e que mudou a minha vida. ********* Sophie Sabia perfeitamente que, mais dia, menos dia, teria de contar ao Eric o meu passado, mas nunca pensei em ficar tão afectada. Nessa noite não consegui dormir, por isso lembrei-me das palavras da Catarina. Agilmente e sem fazer ruído, fui até ao quarto dela. Bati à porta. Passado pouco tempo, Catarina apareceu à porta com um roupão por cima da sua camisa de dormir azul. Tinha o cabelo solto, pelo que não pude deixar de comentar: — O cabelo solto fica-te muito bem. – Ao que ela corou e afastou-se para me deixar entrar. — O que aconteceu? Não consegues dormir? – Perguntou-me ela, notoriamente desassossegada, levando-me pelas mãos e sentando-me numa cadeira à frente de uma outra onde ela própria se sentou. — Não, não consigo. – Respondi eu, prestes a chorar – É que hoje, quando estávamos a fazer um intervalo da lição de dança, o Eric finalmente me perguntou como é que eu tinha ido parar à casa do monte. Eu sabia que teria de contar... mas nunca pensei que me afectasse tanto... Quando acabei de falar dei por mim a chorar desalmadamente, ao que Catarina me pegou ao colo e abraçou-me com ternura. Aí contei-lhe também a ela o meu passado. 85
  • 86. Quando acabei, também ela chorava. Sussurrou-me ao ouvido umas palavras de conforto e depois disse: — Mas sabes, Sophie, quando uma pessoa tem um passado mau, não pode esperar logo superá-lo. É algo que trazemos connosco, quer queiramos quer não. É algo que nunca podemos apagar, mas neutralizar quando encontrámos uma nova felicidade. A tua nova felicidade está apenas a começar e foi por isso que te afectou tanto. A ferida ainda não está cicatrizada. E digo-te desde já que tiveste muita sorte. O Sr. Edward é um duque, o cargo mais elevado a seguir ao rei, mas, mesmo assim, é um homem bondoso que não gosta de se fazer superior a pessoas com menos dinheiro ou propriedades que ele, como seria normal esperar de uma pessoa com esse título. Se tivesse sido um filho de qualquer outro duque, marquês ou conde da região, não seriam tão simpáticos contigo... — Quer dizer que a sorte está a meu lado? – Perguntei. — Sim... Anda, vamos dormir. – Catarina levou-me até à cama dela e deitámo-nos as duas. — Se quiseres fazer alguma pergunta sobre o meu passado, podes aproveitar agora. É uma dívida por ter ouvido o teu. — Porque é que não podes mesmo perder o emprego? — Eu sou de Portugal e venho de uma família muito pobre. Sou a mais velha de dez irmãos, e apenas eu e outra irmã somos maiores de idade e podemos trabalhar. O meu pai desapareceu e a minha mãe anda muito doente. Eu trabalhei em Portugal numa família muito antipática que não me dava quase nada. Quando finalmente consegui juntar o suficiente, vim até Inglaterra. Consegui arranjar emprego aqui, onde sou muito melhor paga. A minha irmã está a trabalhar na mesma casa onde eu trabalhei e ganha ainda menos do que eu ganhava, por isso eu é que pago os medicamentos da minha mãe e a educação dos meus outros irmãos. — Estou a ver... E como é que foram os primeiros tempos aqui? — Não dos melhores... – comentou ela, sorrindo – A Emily era um diabrete e não gostava nada de mim... — E como é que conheceste o Isaac? Catarina fingiu não ouvir. ********* Eric 86
  • 87. No dia seguinte, à noite, depois de jantar, enquanto a Sophie estava a rever a lição no quarto dela, eu não pude deixar de contar aos meus pais o seu passado. A minha mãe ficou muito chocada: — Mas que raio de monstro é que ia matar o pai da menina à frente dos olhos dela?! — Tem calma, Emma. Havemos de descobrir, não é? – Perguntou-me o meu pai, ao que eu acenei afirmativamente. – Mas agora temos é de pensar na festa da Erika... É já para a semana e... – o meu pai continuou a divagar sobre a festa da Erika enquanto eu fui dormir. Todos os dias é o mesmo teatro e eu tenho de resignar-me com o papel insignificante que me foi atribuído. O toque estridente do nosso telefone, capaz de acordar toda a vizinhança doze quilómetros em volta, estava de regresso. Exactamente às 06:30 horas em ponto, nem mais, nem menos. E, como de costume, já estão todos levantados e ocupados com as suas futilidades matutinas, esperam que eu, ainda na cama, vá atender o telefone. Penso que ainda não compreenderam que a única acção possível a uma pessoa sonolenta nesta situação é pôr a almofada em cima da cabeça a tapar os ouvidos e esperar que o telefone pare de tocar ou que alguém decida finalmente atender. Pois é... Todos os dias o Sr. Camus telefona para combinar a próxima caçada ao monte, às quais não tenho ido ultimamente. Actualmente, quem vai atender é sempre a Sophie. Pobre rapariga! Todos os dias tem de ouvir a voz do Sr. Camus a dizer bem do seu cabelo doirado e do seu ar angélico... Depois da conversa parva do costume, o Sr. Camus pede à Sophie para chamar o meu pai, enquanto a Catarina tenta desesperadamente arrancar-me da cama pelos pés. Para ela não conseguir tirar-me da cama, eu seguro-me às barras da cama. — Vamos, menino Eric... Por favor! – Mas, nem percebi bem como, a Catarina largou-me os pés sem querer e, desequilibrando-se, caiu para trás. Sentei-me logo na cama, para ver se ela estava bem. Catarina nem tinha chegado a cair no chão. Isaac, que triunfantemente a agarrara antes de cair, endireitou-a, deu-lhe os bons dias, que ela retribuiu muito corada, e depois virou-se para mim: — Eric, o teu pai está a chamar por ti. Parece que hoje quer que vás à caça. O Sr. Ludwig chegou ontem e também vai acompanhá-los. Levantei-me e, pedindo desculpa à Catarina, fui aprontar-me para ir à caça. Quando cheguei à sala, a Sophie estava a ler um dos meus livros de criança e, quando me viu, sorriu, um sorriso que eu retribui. 87
  • 88. Mal me sentei, a campainha tocou. Ouviu-se a porta a abrir e o meu pai foi lá para fora. Ouviu-se o Sr. Camus dizer imensas coisas e depois a voz do Sr. Ludwig. Quando a voz deste se fez ouvir, Sophie levantou a cabeça do livro. Ouviram-se passos. Desta vez, Sophie estava com um ar aterrorizado. Levantou-se, mandando com o livro para o chão. — Sophie?... – A porta abriu-se e a primeira pessoa a aparecer foi o Sr. Ludwig, um homem de cabelo ligeiramente abaixo dos ombros e castanho escuro, com olhos azuis escuros. À visão de tal homem, Sophie encolheu-se, deu alguns passos para trás e, correndo, saiu pela outra porta, deixando todos estupefactos. — Oh!, homem! – Comentou o Sr. Camus, rindo – Assustaste a criança com o teu ar de antipático! – E riu-se. No entanto, foi o único. ********* Sophie Nunca na minha vida tinha tido tanto medo. Podia estar errada mas, no entanto, tinha a certeza. Era ele. Não aguentava mais. Peguei numa folha e numa caneta. Escrevi uma carta ao Eric: «Querido Eric: Estou a escrever esta carta para agradecer tudo. Fui muito feliz aqui, mas não posso continuar a viver nesta casa. Não foi por teres perguntado o meu passado, podes ficar descansado. Agradece por mim aos teus pais, às tuas irmãs, à Catarina (especialmente a ela), ao Isaac, ao Gustaff..., a todos. Adeus e obrigada. Sophie» Era este o conteúdo da carta, mas tinha alguns erros que decidi não transcrever. Peguei na minha flauta, fui ao quarto da Catarina, onde apenas deixei uma nota a dizer «Obrigada. Assinado: Sophie» e, como o quarto dela era no rés-do-chão, saltei pela janela. Passei pela janela da sala e ouvi os homens a conversar. Ainda não tinham ido para a caça. 88
  • 89. Com muita dificuldade, consegui sair sem que o Isaac me visse. Na verdade, tive de saltar das grades num outro lado, longe do portão principal. Quando me vi fora da propriedade do Sr. Edward, corri, corri o mais que pude, corri para o meu monte que, ao fim ao cabo, era a minha casa. Passei por todas as árvores que me eram conhecidas, pelo rio e parei, finalmente, ao pé do chorão. Levei a flauta à boca e comecei a tocar uma música que tinha ouvido quando era pequena. Toquei até não poder mais. Era verdade. No momento em que era só eu e a flauta, não me sentia mais só. Um campo de várias flores brancas apareceu na minha mente. No meio delas, estava eu, de pé, com um vestido branco. À minha frente, também de branco, os meus pais... Caí no chão, a chorar. Quando me dei conta de que se ali ficasse o Eric poderia descobrir-me antes de ler a carta, levantei-me e corri para casa. Fechei-me lá dentro. Lá dentro estavam as minhas poucas coisas: a minha cama, a minha mesa, as minhas cadeiras, a minha arca com a comida. Tudo estava ali. Tudo. Passei a mão pela mesa, sentei-me numa cadeira e depois na outra. Abri a arca da comida. Tirei de lá uma laranja que descasquei e, sentada na cama, comi. Quando acabei de comer a laranja, decidi deitar-me. Mal me deitei na cama, dei-me conta de que andava muito cansada e, então, adormeci. No meu sonho vi a minha antiga casa com a minha mãe a arder lá dentro. A minha mãe gritava, eu chorava e gritava e o meu pai chorava, mas pegou em mim e levou-me dali para fora. Encontrámos uma casa. Éramos felizes. O assassino apareceu e matou o meu pai. Corri para a casa do monte. Lá dentro, esperava-me uma pessoa, com o rosto meio tapado pelas sombras. Ao olhá-la, assustei-me. Mas, sorrindo, essa pessoa estendeu-me a mão. Logo, atrás dela, outras seis pessoas tapadas pelas sombras apareceram. Sabia quem eram aquelas pessoas... Sabia que queria voltar... Mas não podia. Quando abri os olhos, a cara do Eric foi a primeira coisa que eu vi e ia-me dando um enfarte. ********* Eric 89
  • 90. — Porque é que fugiste? – perguntei eu, assim que ela acordou. Foi após termos voltado da caça que eu tinha ido bater à porta do quarto da Sophie e tinha averiguado que ela não se encontrava em casa. Além disso, o meu pai tinha feito uma descoberta estupenda. — Eric... o que...? Porque é que vieste? — Para te levar para casa, é claro! – respondi – E para te dizer uma coisa de que o meu pai se lembrou. Tu nem vais acreditar! O teu pai chamava-se Albert e era um marquês. Era um grande amigo do meu pai, do Sr. Camus e do Sr. Ludwig. – ela fez um ar perplexo, mas eu continuei – E, já agora, a tua mãe chamava-se Sarah. — O meu pai era marquês? – perguntou ela, ainda estupefacta. — Sim. O amigo do meu pai, o Sr. Ludwig – ela estremeceu ligeiramente ao ouvir o nome dele -, é agora marquês porque pensava-se que a família tinha morrido toda. Mas tu estás viva! É só reclamares o teu título. Tenho a certeza que o Sr. Ludwig te deixará assumir o cargo. É claro que ele ficará com a tutela até teres dezoito anos, mas depois ficarás com o título de marquesa...! — Não me parece... – disse ela, misteriosamente, olhando para o lado. — O que é? O que foi? – perguntei, confuso. — É que, o... o... Sr. Ludwig... é a pessoa que assassinou o meu pai... Creio que nunca na minha vida tinha ficado tão admirado. — O quê? Mas... mas isso é impossível! O Sr. Ludwig é um dos melhores amigos do meu pai desde a infância... Tens... tens a certeza? — Eu própria também não queria acreditar. Aliás, eu tinha perdido completamente a esperança de encontrar o assassino do meu pai porque me tinha esquecido da cara dele, mas a sua voz ficou comigo e a sua maneira de andar também... É a única pessoa que tem aquela maneira característica de arrastar levemente os pés ao caminhar, fazendo um som particular. Nunca confundiria aquela maneira de andar. Tens de acreditar em mim! Pensei no que deveria acreditar. Seria o Sr. Ludwig um oportunista? Teria ele posto fogo à casa da Sophie e assassinado o pai dela para ascender a marquês? — De qualquer das maneiras, por favor, volta para casa. Estão todos preocupados. A Catarina anda a chorar por todos os cantos a dizer que a culpa é dela, mas não nos diz o que aconteceu, o Isaac anda imensamente enfadado por não te ter visto fugir, o meu pai já inventou as histórias mais malucas para o teu desaparecimento, a minha mãe anda morta de preocupação, a Erika anda a dizer que foste raptada, a Emily anda a tentar 90
  • 91. manter a calma, mas ela própria está também muito inquieta e eu fui o único que teve a genial ideia de te vir procurar aqui. Sophie, apesar da situação, não pôde deixar de se rir. Mas depressa parou e disse: — A Catarina diz que a culpa é dela? Pobre Catarina! Não percebo porquê... Pensou durante um bocado e depois perguntou: — Mas... tu acreditas em mim, não é? Sabia que a única maneira de levá-la para casa era dizer que sim, mas também não gosto de mentir-lhe. Apesar da história dela ser possível era quase impossível. Mas deveria confiar nos instintos e memórias transtornadas dela? — Eric? — Sim. Acredito em ti. ********* Sophie Quando o Eric me disse que acreditava em mim, foi como se uma nova luz me mostrasse o caminho. Mesmo que ele dissesse que não acreditava em mim, teria de voltar, nem que fosse apenas para dizer à Catarina que a culpa não era dela. Eric levou-me de volta para casa dele. Catarina estava sentada num dos bancos do jardim, a chorar descontroladamente, rodeada por Isaac e Emily, a tentar consolá-la. Mal ela me pôs os olhos em cima, correu para mim, deixou-se cair de joelhos à minha frente e, abraçando-me disse: — Sophie! Oh!, Sophie! Desculpa! A culpa foi minha não foi? – nem me deu tempo para responder. Continuou logo de seguida – Quando te disse que tinhas tido muita sorte ficaste assustada e depois quando viste o Sr. Ludwig que é um... bem, digamos que a simpatia não é o seu forte, ficaste aterrorizada e fugiste, não foi? Desculpa-me! Perdoas- me, Sophie? – ela finalmente me largou e me deixou responder: — Catarina, a culpa não foi tua. – ela olhou-me espantada – Foi outra coisa. — A sério? Mas... o quê? – perguntou ela. — Ficas chateada se eu te disser que ainda não te posso dizer? — Não... Aliás, até me tiraste um peso de cima. – ela limpou as lágrimas e riu-se da sua própria preocupação – Fui mesmo parva, não fui? — Não. – respondi – Foste uma querida em preocupares-te, mas desnecessariamente. 91
  • 92. — Estou muito zangado contigo, minha menina! – foi a vez de Isaac me falar – Porque é que fugiste? Não. Por ONDE é que fugiste?! Ainda por cima deixaste a Cat... – ele pigarreou e depois corrigiu - ...toda a gente morta de preocupação! Eu sorri e respondi: — Trepei pelas grades, aqui mesmo. Desculpa lá, mas se me visses não me deixavas ir... — É óbvio que não! Agora vou avisar o senhor, a senhora e a menina Erika. – e retirou-se, deixando Catarina entre nós, muito corada. — Aconteceu alguma coisa, Sophie? – Emily aproximou-se de mim e afagou-me a cara. — Agora estou bem... – respondi enigmaticamente, para não contar logo tudo. Logo a Erika correu ao meu encontro, sendo seguida pelo pai e depois pela mãe. Ela literalmente agarrou em mim, pôs-me à altura dos olhos dela e perguntou-me: — Quem foi o raptor?! — Filha! Larga a pobre rapariga! – exclamou a Sra. Emma – Não vês que se fosse um rapto ela só voltaria se pagássemos resgate? Que rapariga tão tonta! — Foi um rapto, não foi? – perguntou Erika, sem ligar à mãe. — Não... não foi... – Erika pareceu desiludida e aliviada ao mesmo tempo. Olhou para a mãe que lhe lançou um sorriso triunfante. — O que te aconteceu, querida? – perguntou a Sra. Emma. — Tive de ir a casa... – respondi eu – Desculpem se vos preocupei. — Mas... e a carta? – perguntou o Sr. Edward. — Bem me pareceu que, se calhar se assemelhava demasiado a uma carta de despedida... — Mas então, Sophie... – o Sr. Edward ajoelhou-se à minha frente – Porque fugiste quando viste o Ludwig? Nunca naquela família deve ter havido momento com mais silêncio... ********* Eric Eu ri-me. — Ora, pai! Não me vais dizer que eu não fiz figura parecida quando o vi pela primeira vez! – e continuei a rir, ao que toda família me acompanhou. 92
  • 93. — Pois foi! – lembrou-se o meu pai – Choraste tanto! Não me lembro de alguma vez teres chorado tanto! — Com todo o respeito que tenho por ele, – começou Emily, ainda entre as suas risadas e as das do resto da família – ele tem um ar demasiado enjoado. Quando o vimos pela primeira vez, assustou-nos de morte! – e riram-se ainda mais. Já todos mais aliviados, voltaram aos seus livros enquanto eu e a Sophie fomos até ao meu quarto para conferenciar. — O que queres fazer? – perguntei-lhe eu. — Não sei. – respondeu ela – Gostava de o apanhar em flagrante! Mas o que é que achas melhor? — Para o apanharmos em flagrante, tínhamos de pedir ajuda. Sozinhos não conseguimos. — Já sei! – exclamou ela, triunfante. — O quê? — Pedimos ajuda à Catarina e ao Isaac. – disse ela, contentíssima. Olhei-a para ver se estava a dizer a verdade ou apenas a ser sarcástica. O que é que iria sair se pedíssemos ajuda a esses dois? No mínimo, uma boa dose de gargalhadas. — De certeza? — Claro! Eles vão acreditar em mim! Tenho a certeza que sim! – disse ela, nem pensando duas vezes, correndo logo para a porta, indo para o quarto da Catarina, ao que eu a segui. Catarina encontrava-se a rezar, de joelhos em frente a uma figura de Nossa Senhora, muito provavelmente a agradecer por Sophie ter voltado. — Sophie! Menino Eric! O que aconteceu? — Catarina! Precisamos da tua ajuda! – disse Sophie, saltando para cima da cama. Ela olhou espanta de Sophie para mim e depois sentou-se numa cadeira. Sophie disse-lhe apenas que o Sr. Ludwig era o assassino do pai dela e que o queria apanhar em flagrante, mas que, para isso, necessitava ajuda. Catarina, espantadíssima, teve a mesma reacção que eu: — Sophie, querida, tens a certeza? – ela levantou-se e, aproximando-se de Sophie, colocou as mãos nos seus ombros. — Sim. – disse ela, com um ar tão sério que talvez até o meu pai pudesse acreditar nela. 93
  • 94. — Mas... que posso eu fazer para ajudar? – Catarina levantou-se e começou a andar às voltas pelo quarto, como se estivesse ligeiramente aborrecida por não poder ajudar. Depois voltou a sentar-se na mesma cadeira - Sou apenas uma criada. Tenho a certeza de que, se conseguirem convencê-los, os seus pais serão de uma maior utilidade, menino Eric. — É esse o problema, Catarina. – intervim eu – Eles não iam acreditar. O Sr. Ludwig é amigo de infância do meu pai e do Sr. Camus e o nosso tutor. O meu pai não iria desconfiar dele... – mas, de repente, uma ideia horrível passou-me pela cabeça. Tentei pensar como o Sr. Ludwig. Se ele tinha matado um dos melhores amigos para se tornar marquês... Será que não o voltaria a fazer para poder tornar-se duque?... Reclamando a nossa tutoria... Matando o meu pai? ********* Sophie — Eric? O que se passa? – perguntei, dado que Eric estava com o olhar fixo no nada havia mais tempo do que me pareceu necessário. — É isso! – exclamou ele, de repente – Temos de o parar! Se ele conseguiu matar um dos melhores amigos e a sua mulher para se tornar marquês, nada nos garante que ele não tentará matar os meus pais e, dando uso à sua tutoria sobre nós, ser duque! Catarina olhou para ele de olhos esbugalhados e eu estava em estado de choque. Era verdade o que o Eric dizia. O homem que outrora já tinha destruído a minha felicidade, podia estar perto de o fazer novamente. — A festa da Erika... – sussurrei, inconscientemente. —... é a altura perfeita! – terminou Eric – Qualquer pessoa presente os poderia ter morto e... ele até... os podia envenenar... – notava-se que era muito difícil para Eric estar a falar da possível morte dos pais. — Temos de pedir ajuda ao Isaac também! – disse eu, tentando animar Eric – Ele de certeza que tem um plano! — Pois é! – disse ele, logo mais animado, talvez por ter percebido que eu o estava a tentar animar – Catarina, vamos! — E eu? – Catarina olhou-nos espantada – Menino Eric, o que vocês dizem são invenções das vossas mentes jovens. Ora agora o Sr. Ludwig! O melhor amigo de seu pai! 94
  • 95. — Vamos Catarina! Por favor! – insistimos imenso – Nós só fazemos alguma coisa se tivermos a certeza que ele é o assassino... — Mesmo assim... – Catarina parecia cada vez mais inclinada a ceder. Eu sempre soube que ela, depois de (muita) insistência, nunca seria capaz de nos negar um favor. E muito menos quando pedimos coisas sérias. Catarina olhou para o chão e depois disse: — Podemos investigar primeiro e... – ela hesitou e corou imenso – ...sem o Sr. Isaac? — Isso não, Catarina! – gritei eu – Nós também vos queremos aos dois para vos aproximar e para ver, de uma vez por todas, se ele te pede em casamento! Catarina estava agora tão vermelha que teve de se levantar e virar-nos as costas, fingindo estar muito zangada: — Ora, Sophie! Casar?! Onde foste a essa conversa? Nós nunca nos poderíamos casar! — De qualquer das maneiras... – começou Eric – A investigação já está feita. Catarina, já não tão vermelha, olhou-nos com curiosidade. — A Sophie não o reconheceu pela cara. – informei eu – Essa informação não seria de grande credibilidade, até porque já foi há muito tempo, a Sophie ter-se-ia esquecido da cara e a cara doo Sr. Ludwig já não seria a mesma. – Catarina estava interessada – Ela reconheceu-o pela maneira de andar. Se há coisa que não se esquece completamente são os sons. Uma vez que os tenhamos ouvido, se os voltarmos a ouvir algo no nosso cérebro desperta e lembramo-nos de os termos ouvido. Ao princípio podemos não nos lembrar de onde, mas quando é um caso deste é impossível não se lembrar de onde. Catarina estava agora pálida e olhou para Sophie. — Além disso, - continuei eu– eu confio na Sophie. Uma nova luz apareceu no rosto da Sophie que disse, saltando da cama: — Vamos buscar o Isaac! ********* Eric Quando chegámos ao jardim e vimos o Isaac, a Catarina tentou dar meia-volta e entrar novamente, mas nós empurrámo-la para o interior do jardim. Isaac, que estava a lavar o carro, pôs o pano no balde e cumprimentou-nos: — Ah!, mas a que se deve a honra desta pequena visita. 95
  • 96. Nós olhámos para Catarina com olhares ameaçadores e ela começou a explicar: — Pois bem, Sr. Isaac, aqui as crianças meteram na cabeça que o Sr. Ludwig é um assassino mentecapto e que as suas próximas vítimas serão o Senhor e a Senhora, para que ele consiga, com a tutela dos meninos, ser duque! Ora já se ouviu parvoíce semelhante?! — Estou a ver... – comentou Isaac, coçando o queixo com a mão cheia de sabão – Sempre achei que o Sr. Ludwig tem um ar suspeito... Nós entreolhámo-nos e sorrimos, triunfantemente, mas Catarina não ficou contente e continuou: — Pois vai fomentar estas imaginações férteis, Sr. Isaac? O que dirão o Senhor e a Senhora se eles fizerem alguma coisa ao Sr. Ludwig na festa? — Provavelmente alguma coisa como: “Isaac, Catarina... Muito obrigada por nos salvarem de tal angústia! Estaremos eternamente gratos!” – disse Isaac, dramaticamente, depois de coçar o queixo, fazendo movimentos teatrais, que faziam o sabão voar em volta, dando uma impressão de se estar a ver um drama, tirando que tinha o queixo cheio de sabão em forma de barbicha. — Ora!... – mas nem Catarina conseguiu não se rir com o aspecto de Isaac, do qual nós já nos riamos a bandeiras despregadas. — Então? – perguntou Sophie – Como é que fazemos? — Sophie, - começou Catarina – lá por eu me estar a rir não significa que já tenha concordado... — Tive uma ideia! – disse Isaac, ainda com a barbicha de sabão, fazendo brilhar os nossos olhos de excitação – Cheguem-se cá! – pediu para que nos puséssemos todos em volta dele e assim fizemos, arrastando Catarina para lá também. Isaac começou a contar o seu plano, sendo apenas interrompido algumas vezes pelos gritos de Catarina: — Ai, não! Isso não! – mas nós mandávamo-la calar – Por amor de quem quiser isso não! — Chiu! – fazíamos nós, para conseguirmos ouvir o plano de Isaac. — Isso é impossível! – replicou Catarina – o Senhor e a Senhora vão reparar! — Arranjamos uma desculpa! Além disso não me vais dizer que a casa é pequena! – disse Sophie, sarcasticamente. — Sim, sim! – concordei eu – Podemos dizer que vimos cá para fora brincar! O que falta é arranjar perucas para nós e roupas para vocês! 96
  • 97. — Por favor, não me façam fazer isto! – implorou Catarina. — Vais fazer sim. – disse Sophie – E sabes porquê? Porque se não o fizeres, vais ficar roída de remorsos! Catarina calou-se durante um momento e depois replicou: — Mesmo assim, onde é que vocês pensam que vão arranjar perucas? — Ora, Catarina... – disse Isaac – O problema é que a sua imaginação já não é o que era! — Não me chame Catarina! ********* Sophie Quando eu e a Catarina íamos a descer as escadas avistámos o Eric e o Isaac lá em baixo, já prontos. O Eric tinha uma peruca preta e com uma grande franja para que se não conseguissem ver bem os seus característicos olhos cor de avelã. Tinha um dos seus fatos de cerimónia, mas ligeiramente modificado por Isaac, para que não fosse fácil reconhecê- lo. O Isaac estava «belo» (mais uma vez as palavras da Catarina) e cómico ao mesmo tempo. Tinha um fato muito mais elegante que o costume (suponho que um dos fatos do Sr. Edward), todo preto e muito bem limpo. Mas depois tinha uma cartola também preta, um monóculo de prata e uma bengala muito trabalhada à mão. Ele ajeitava o fato dele e depois o de Eric. Mal o vi, não aguentei e fartei-me de rir. Eles olharam para nós e deu-me a impressão que, pela primeira vez, o Isaac olhou com o maior respeito para Catarina e, por momentos, deve ter pensado se não deveria mesmo casar com ela e não falar só nisso na brincadeira. Eu tinha arranjado uma peruca castanha (mais ou menos da cor de cabelo da Catarina) e a Catarina tinha-me apanhado parte do cabelo atrás da cabeça. Tinha um dos velhos vestidos da Erika que a Catarina tinha cortado e cosido até eu o achar mais diferente e a meu gosto. Era branco e tinha vários folhos e pregas. A Catarina estava mesmo deslumbrante. Tinha o cabelo castanho solto, que logo a fazia parecer mais jovem e bonita. Usava o vestido mais bonito que eu tinha encontrado 97
  • 98. no armário da Sra. Emma. Era azul e assentava-lhe lindamente, combinando na perfeição com o seu cabelo e, principalmente, com os seus olhos azuis. Como o Isaac não dizia nada e apenas olhava atónito para Catarina, Eric disse: — Sophie! Catarina! Vocês estão estupendas! Não é, Isaac? — Hum? Oh, sim! Catarina, vermelha que nem um tomate, tapou a cara com as mãos, numa estranha tentativa para que eles os dois parassem de olhar para ela e correu escadas acima. — Temos de treinar essa timidez! – gritei-lhe eu, enquanto se retirava novamente para o seu quarto. Isaac ficou a olhá-la afastar-se com um pequeno sorriso nos lábios. — Oh, homem! – censurou-o Eric, – Tinhas de ser tu a dizer qualquer coisa e não eu! — Hum? – ele olhou para ele e depois perguntou – Disseste alguma coisa? — És um caso perdido... – comentou o Eric. — Muito pelo contrário... – disse eu, diabolicamente – Até que enfim, não é Isaac? — De que é que estão a falar? – no seu estado de sanidade mental normal, tenho a certeza que o Isaac teria percebido a nossa conversa. — Não interessa! – disse eu, descendo as escadas e depois pondo-me a dar várias voltas à frente deles – Como estou? — Irreconhecível. – comentou Eric com um sorriso nos lábios. — Então está decidido! – conclui eu – Vamos assim na festa da Erika. É só eu conseguir que a Catarina mentalize a ideia. Ela não pode negar para sempre. E então, com um plano arquitectado e roupas arranjadas, estávamos mais que prontos para a festa da Erika. Só mais cinco dias... ********* Eric Lá em casa toda a gente andava de um lado para o outro, pendurando uma coisa ali, outra acolá e é melhor que nem comece a falar do rebuliço que ia na cozinha! Faltava apenas um dia para o aniversário da Erika. A Catarina tão depressa estava a pendurar qualquer coisa, como na cozinha, como a limpar a casa, como a informar os meus pais dos progressos. A Erika andava colada aos meus pais para tentar que estes lhe dissessem qual era a sua prenda de aniversário. 98
  • 99. Dado tudo isto, eu e a Sophie ficámos com imenso tempo para aperfeiçoar o plano do Isaac. De vez em quando, o Isaac ia lá ter connosco para ficar a par dos avanços, mas também para ver se tinha a sorte de Catarina estar a passar nesse momento... Eu e a Sophie começamos por dar uma vista de olhos à lista de convidados: para além de inúmeros amigos da Erika e outras pessoas importantes da região, obviamente estavam incluídos na lista o Sr. Camus e o Sr. Ludwig. — O que é que vocês estão a fazer? – a Emily pregou-nos um susto de morte ao aparecer atrás de nós e olhando por cima dos nossos ombros para tentar ler a lista que eu tinha na mão. — Nada! – gritámos nós, voltando-nos para ela, enquanto eu escondia a lista. — Nada? Nada mesmo? – perguntou ela. — Bem só estávamos a ver se... se o Sr. Camus estava na lista de convidados, não é? A Sophie gostou muito dele... — Mas é claro que ele está na lista! É o melhor amigo do nosso pai. — Foi o que eu disse à Sophie, mas ela quis ter a certeza, não é? – ela abanou afirmativamente a cabeça – Já sabes como ela é cabeça dura! – acrescentei, fazendo com que Sophie me olhasse, zangada – Já voltamos a pôr isto no sítio. Levantámo-nos os dois e subimos as escadas, para o escritório do pai. Sem aviso prévio, Sophie pregou-me uma cacetada e perguntou, ainda zangada: — Com que então eu sou cabeça dura, hein? – eu não pude deixar de sorrir e defender-me: — Foi a primeira coisa que me lembrei... — O quê? Dizer que eu sou cabeça dura? — Ora... Não fiques zangada... Entrámos no escritório e eu voltei a pôr a folha dos convidados no sítio. — Além disso, - continuei, na brincadeira – não me vais dizer que não és cabeça dura! Ela principiou a perseguir-me às voltas no escritório. Quando eu passei demasiado próximo à secretária, a minha manga ficou presa ao puxador da gaveta da secretária e, quando me afastei, a gaveta veio abaixo e, com ela, todos os documentos do meu pai. — Oh, raios! Temos de apanhar isto tudo! – disse eu. — Fala por ti! Eu não apanho nada! Ainda estou zangada! 99
  • 100. Eu comecei a apanhar e pedi: — Vá lá! Apanha pelo menos uma! — Certo. Apanho esta aqui. – e apanhou a folha, mas ficou a olhar para ela, com um olhar vazio e completamente fixo na folha. ********* Sophie A folha que eu tinha agarrado dizia respeito à tutória do Eric, da Erika e da Emily. Era bastante antigo e a tutória deles não estava encarregue do Sr. Ludwig, mas do Sr. Camus. — Sophie, que foi? – perguntou Eric. — Olha para isto! – disse eu, espetando o papel na cara dele. Esperei que ele acabasse de ler e depois perguntei – Achas que o Sr. Ludwig sabe? — Não sei... – disse ele – Quer dizer, o documento parece antigo, por isso ele deve saber, mas o meu pai também pode não ter dito nada... — Isto estraga um bocado os nossos planos, não é? – perguntei eu. — Bem... quer dizer... isto pode apenas significar que ele não quer matar os meus pais, não é? – replicou Eric – Quer dizer... tu lembras-te, certo? De o ver matar o teu pai? Nesse momento senti uma espécie de machadada no peito. — Bem, Eric... – comecei – É que... eu não o vi matar o meu pai... Eu lembro-me de ele estar a caminhar para mim e avançar a mão para mim, mas depois fugi a correr... Quase pude sentir o desapontamento de Eric a passar-me ao lado. Tinha tido eu algum trabalho a fazê-lo crer que o Sr. Ludwig era o assassino e, agora, já nem eu tinha a certeza... Ele olhou para o lado, meio pensativo, e eu usei os minutos de silêncio que se instalaram na sala para deixar a minha imaginação voar. Seria o Sr. Ludwig realmente um assassino? Ainda poderíamos executar o plano? E se ele não fosse o assassino? E se ele fosse vítima do ser ar mal-humorado? Então lembrei-me de uma outra coisa, que logo me recompôs. — Ajuda-me! – gritei para Eric, quando comecei a pegar em papéis ao calhas e a mandá-los ao ar depois de ver que não me interessavam. 100
  • 101. — O quê? O que estás a fazer? – perguntou Eric confuso, tentado olhar para a minha cara por entre a chuva de papéis. — Vê se há algum documento sobre mim. – pedi-lhe eu. E começámos os dois à procura dum documento em que falasse de mim. — Está aqui! – gritou Eric, triunfante, levantando acima da cabeça um documento. Corri para ele e observámos o papel. Era sobre a minha tutória: estava encarregada ao Sr. Ludwig. — Isto só confirma o que nós pensávamos. – disse Eric, como que derrotado. — Depende. – respondi eu – E se o meu pai mudou a tutória para ele quando suspeitou que a pessoa que detinha a minha tutória o queria matar? – Eric olhou para mim espantado, como se suspeitasse que a ideia tivesse vindo de mim – Temos de procurar algo que faça referência ao meu antigo tutor. Eric ficou a ler mais atentamente o documento enquanto eu tentava encontrar outro. — Olha! – gritou ele, de repente – Lê isto! — Diz aí o nome do meu antigo tutor? – perguntei eu, correndo para ele. — Sim... – disse ele, apontando com o dedo para um nome que estava mais carregado na folha. Os meus olhos mal podiam acreditar no que viam. Esse nome, o nome do meu antigo tutor: Sir Camus von Nahe Gorz. Fiquei perplexa a olhar para esse nome até que Eric me acordou dizendo: — Temos de avisar o Isaac e a Catarina! ********* Eric — Catarina! Catarina! – eu corri na direcção da Catarina, que estava a gozar um merecido descanso. — Que se passa, menino Eric? – perguntou ela – Onde está a Sophie? Sophie apareceu à esquina, de mão dada com Isaac, correndo os dois para nós. Catarina fez um ar muito envergonhado e olhou para o lado. — Ouçam. – disse Sophie – Eu e o Eric chegámos à conclusão que o Sr. Ludwig pode não ser o assassino... — Graças aos céus! – agradeceu Catarina, levantando os braços – Algum bom senso desceu e iluminou estas crianças... 101
  • 102. — Agora suspeitamos do Sr. Camus. – terminou ela. Catarina e Isaac ficaram alguns momentos em silêncio e, enquanto Isaac se partiu a rir, Catarina gritou ao céu: — Porquê?! Porquê, meu Deus?! Porque é que não se ficaram pelo Sr. Ludwig?! — A sério! – disse Sophie, tirando do bolso do vestido os documentos que tínhamos acabado de achar, explicando as nossas conclusões. — Oh, claro! – disse Isaac – Agora compreendo e faz sentido. – mas, ao ver as nossas caras e, principalmente a expressão espantada de Catarina, ele não aguentou mais e partiu-se novamente a rir. Sophie lançou-lhe um olhar que poderia matar, então ele parou de rir e ele teve de dar o seu melhor para transformar o seu riso em tosse – Desculpem. Esta constipação... Não perdoa! – e começou a balançar-se nas pontas dos pés. — Meninos... – começou Catarina – O Sr. Ludwig talvez fizesse algum sentido... mas o Sr. Camus... Sophie pôs um ar carrancudo e disse: — Mas agora lembrei-me! O Sr. Ludwig não estava a tentar assustar-me ou matar- me! Acho que ele estava a tentar ajudar! Eu era nova e, depois de ter visto o meu pai morto no chão era normal eu pensar que alguém que me estendesse a mão fosse para me matar! Acreditem! Mesmo que não seja o Sr. Camus, e olhem que agora tenho a certeza que é, o Sr. Ludwig não é o assassino! Quando acabou de falar, lágrimas vinham aos olhos de Sophie. — Fazemos assim... – disse eu, para acalmar os ânimos – Sei o medo que tens de ser despedida, Catarina, e é principalmente essa a maior razão pela qual te opões. É normal, mas ficas de já a saber que eu não permitiria que fosses despedida se fosse um erro da nossa parte... – Catarina baixou os olhos, como se pedisse perdão por pensar isso – Uma vez que não se pode ter a certeza absoluta de que o Sr. Camus é ou não o assassino, iremos na mesma disfarçados, mas apenas actuaremos se descobrirmos algo de suspeito no comportamento do Sr. Camus. Todos olharam para mim e matutaram na minha hipótese. — Visto que acho que ninguém tem nada com que se queixar, será assim que actuaremos. No fim, todos eles acabaram por concordar, até mesmo a Catarina. ********* 102
  • 103. Sophie O dia do aniversário da Erika tinha chegado. Ela estava felicíssima e nós os quatro andávamos taciturnos. O nosso humor mudou radicalmente quando eu e o Eric fomos dizer à Sra. Emma que íamos passar algum tempo a brincar no jardim, para a Erika ter a festa com os amigos. Fomos vestir os nossos fatos e encontrámos o Isaac e a Catarina, também já com as suas vestimentas, ao pé da porta das traseiras. Quando a hora de chegarem os convidados se aproximou, e conseguimos finalmente obrigar a Catarina a dar o braço a Isaac, fomos bater à porta. Quem veio abrir foi Gustaff, que franziu o sobrolho ao ver-nos. Por momentos pensei que ele nos tivesse descoberto, mas ele perguntou: — Posso saber quem posso anunciar ao senhor? — Muitas boas tardes! – disse Isaac, engrossando a voz, mas com um sorriso simpático, ligeiramente diferente do que ele habitualmente costuma ostentar – Nós somos a família Genoard, chegámos hoje mesmo e andamos a fazer visitas. Ah! – exclamou ele, olhando para dentro – Estou a ver que estão a preparar uma festa! Mil perdões! Não nos queremos fazer convidados! Voltaremos noutra altura. — Não, por favor! – disse Gustaff – Eu chamarei o senhor para que ele decida. Gustaff afastou-se para chamar o Sr. Edward e Isaac piscou-nos o olho. O Sr. Edward apareceu e cumprimentou-nos com um caloroso sorriso, apertando a mão de Isaac, beijando a de Catarina e fazendo festas na cabeça de Eric, que olhou para o chão. — Sejam muito bem-vindos! O meu nome é Edward. O Gustaff disse-me que são novos pelas redondezas... – o Sr. Edward olhou atentamente para nós – Se bem que me parece que vos conheço de algum lado... — Talvez... – disse Isaac – Nós chegámos ontem. Talvez nos tenha visto ontem. O meu nome é Thomas. Esta é a minha mulher Henrietta e os meus filhos: Angelica e Russel. — Muito prazer... – ele olhou para nós desconfiado. — Bem... Nós devíamos ir embora... Vocês têm uma festa... O Sr. Edward mudou logo o seu ar e disse: 103
  • 104. — Oh, não! Não queremos que fiquem a pensar que por estes lados são todos antipáticos! Por favor, fiquem para a festa! Será a melhor maneira de passarem a conhecer as pessoas. — Mas nós... — E eu não aceito um «não» em resposta a esta minha afirmação. Entrem! O Sr. Edward obrigou-nos a entrar e levou-nos até à sala de estar. Olhou-nos ainda a pensar de onde nos conheceria e disse: — Vou chamar a minha família. Os convidados devem estar a chegar. E afastou-se, indo buscar a Sra. Emma, a Erika e a Emily. Eu e Eric entreolhamo-nos e tivemos de fazer um esforço enorme para não nos rirmos. Catarina aproveitou a oportunidade para poder largar o braço de Isaac. — Nem acredito que deixei o Sr. beijar-me a mão! – Catarina estava vermelhíssima, tanto por isso como que ter que passar por mulher do Isaac. O Sr. Edward voltou com os restantes membros da família e, após comentar que não encontrava o Eric em lado nenhum, a campainha tocou, anunciando o primeiro convidado. ********* Eric A primeira pessoa a chegar foi o Sr. Ludwig. Vinha acompanhado da sua lindíssima mulher, Miria. Era uma mulher esbelta, bastante alta, com cabelo castanho comprido. Tinha olhos verdes escuros e vestia um comprido vestido vermelho que lhe assentava na perfeição. O meu pai cumprimentou o Sr. Ludwig com um sorriso e beijou a mão da Sra. Miria. Apresentou-nos ao par e depois ficamos a conversar até aparecerem mais convidados. O salão já estava quase cheio quando se voltou a ouviu a campainha. Passados uns poucos minutos, o Sr. Camus apareceu e cumprimentou toda a gente com um grande sorriso. — Edward! Ludwig! Emma – beijou a mão da minha mãe - Ah! Miria! – e beijou a mão da Sra. Miria – Como vão? Peço desculpa pelo atraso. Onde está a pequena Erika? Ah! Ali está ela! Vou-lhe dar o presente, se não se importam! – e afastou-se, indo dar o seu presente a Erika, que estava rodeada de amigas. 104
  • 105. Fomos ter com Isaac e Catarina, que estava nervosíssima e não parava de olhar de um lado para o outro, como se estivesse à espera de ver toda a gente a olhar para ela e pensar “Mas o que é que aquela criada está a ali a fazer?!”. — Temos de ficar em olho nele. – disse-lhes eu – E não se esqueçam que só fazemos alguma coisa se ele fizer algo de suspeito. Depois de ter dado a Erika uma boneca de porcelana, voltou para junto do meu pai, do Sr. Ludwig e a Sra. Miria. O meu pai disse qualquer coisa e eles vieram todos ter connosco. — E estes são os Genoard! – disse o meu pai – Este é Camus. — Prazer! – disse ele, rindo. Depois olhou para nós e comentou – Mas que crianças tão adoráveis! Permitam-me que vá buscar umas bebidas! — Ah! Não necessita ajuda? – perguntou Isaac – Somos muitos, certamente não vai conseguir trazer os copos todos... — Não precisa, que eu consigo! – e afastou-se, aparentando estar ligeiramente nervoso. Queríamos poder segui-lo, mas não íamos começar a correr sem razão atrás do Sr. Camus. — Meninos... – disse Catarina, falando docemente para nós – Vocês ainda não desejaram um feliz aniversário à menina Erika. Vão lá, por favor. E vejam se encontram alguns meninos da vossa idade para puderem brincar... A Catarina tinha-nos acabado de dar uma razão para nos deslocarmos. Em vez de irmos desejar um bom aniversário à Erika, seguimos discretamente o Sr. Camus, por entre os restantes convidados. O Sr. Camus abriu uma garrafa de vinho e encheu e pegou vários copos. Até ali, nada de mal, mas depois tirou do bolso um frasquinho, cujo conteúdo despejou em dois dos copos. — Eu sabia! – disse Sophie. O Sr. Camus voltou apenas com esses dois copos e disse: — Desculpem, mas tinha medo de deixar os copos cair se trouxesse mais do que dois. Para os anfitriões desta bela festa – e entregou os copos aos meus pais, afastando-se para ir buscar os outros. Eu corri para os meus pais gritando: — Pai! Mãe! Não bebam! 105
  • 106. O Isaac ia tentar mandar os dois copos, mas não foi o suficientemente rápido. Eles beberam tudo até ao fim e, mal acabaram de beber, caíram pesadamente no chão, sem vida. ********* Sophie O Sr. Camus correu para eles e gritou acima dos guinchos histéricos de algumas mulheres: — Ninguém beba daquele vinho! Algum criado lhe deve ter deitado veneno... — Não! É mentira! – gritou o Eric – Foi você! – todos o olharam – Eu vi! Erika e Emily correram para os pais e olharam Camus desconfiadas. Catarina e Isaac também se ajoelharam ao pé deles. — Vamos criança... – começou Camus, tentando não parecer nervoso. Sem aviso prévio, a mão do Sr. Edward agarrou o braço do Sr. Camus, fazendo todas as mulheres pregarem novos guinchos e os homens exclamações abafadas. — A criança é o meu filho e tem razão. – disse o Sr. Edward. O Sr. Camus fez um ar incrédulo ao ver a Sra. Emma levantar-se lentamente e abraçar as filhas e ainda mais incrédulo ficou quando o Sr. Ludwig lhe pegou pelo ombro, obrigando-o a levantar-se e dizer: — Confessa tudo Camus. Será o melhor que tens a fazer. — Confessar? – ele riu-se – Mas confessar o quê? — Que foste tu quem matou o Albert e a Sarah! – disse o Sr. Ludwig, já muito zangado. — Matar?! – exclamou o Sr. Camus – Eu nunca matei ninguém! — Ainda por cima deixaste uma criança órfã no meio de um monte! – continuou o Sr. Ludwig, olhando para mim. – Pede desculpa! – e mandou o Sr. Camus para o chão, mesmo aos meus pés. — Ah! Mas que bela partida vocês me estão a pregar! – disse ele, levantando-se muito lentamente -Ah-ah... De repente, Camus mandou com o Sr. Ludwig contra uma mesa próxima e tirou uma pistola do casaco. — Que ninguém se mexa! – todos estacaram e observaram – Se me deixarem sair daqui e sem chamar a polícia... eu não magoo ninguém... – e começou a andar lentamente para trás. 106
  • 107. A Sra. Miria estava ajoelhada ao pé do marido, que tinha ficado ferido na cabeça e olhava o Sr. Camus com um ar imensamente assustador que não combinava nada com a sua usual beleza. Os pais do Eric agarravam as filhas, esperando o desenrolar dos acontecimentos. Quando o Sr. Camus estava a passar por Catarina e Isaac, este estendeu a bengala, na qual o Sr. Camus tropeçou, caindo no chão e mandando com a pistola ao ar, o que gerou alguns risos, apesar da situação. Quando a pistola aterrou, a Sra. Miria pegou nela. — Peço imensa desculpa! – disse Isaac, levantando ligeiramente a cartola. O Sr. Camus levantou-se rapidamente e agarrou Isaac pelo colarinho. Parecia prestes a estrangula-lo quando Catarina lhe partiu um vaso na cabeça, pregando um guincho de seguida. O Sr. Camus estava estático no chão e Isaac abraçou Catarina, que só conseguia dizer: — O que fiz eu? Como é que eu lhe dei com o vaso? A Sra. Miria correu para ele e, espetando o seu enorme salto nas costas e apontando- lhe a arma à cabeça, ordenou: — Que alguém venha carregar esta escumalha! Logo alguns homens pegaram nele e um, que por acaso era da polícia, levou-o para a esquadra. ********* Eric A festa tinha terminado e estávamos os cinco, a Sophie, a Catarina e o Isaac a observar a bela noite que estava. — Vocês já sabiam? – perguntei eu. — Sim... – respondeu o meu pai – Eu e o Ludwig suspeitávamos, então dissemos ao Albert para mudar a tutória da Sophie – e sorriu para ela – Mas ele não acreditou, apesar de ter mudado a tutória na mesma. O Sr. Ludwig saiu acompanhado pela Sra. Miria, que já não estava com o mesmo ar aterrador. Este dirigiu-se a Sophie: — Desculpa-me. Deves ter-te assustado... Ela pegou-lhe na mão e disse: — Não. Eu é que peço desculpa... 107
  • 108. — Quando fizeres dezoito... Terei todo o prazer em devolver-te o que é teu por direito. — Sim... – foi tudo quanto ela conseguiu responder. Eles afastaram-se e nós ficámos em silêncio até eu olhar para Sophie, interrogativamente. Após ela ter feito um sinal, eu quebrei o silêncio: — Pai, por favor, ouve-me. Eu e a Sophie devemos muito ao Isaac e à Catarina. – esta fez um ar assustado, como se pudesse prever o que eu ia pedir – Por isso, peço-te, deixa- os casar e continuar a viver e a trabalhar cá em casa! Os meus pais entreolharam-se e puseram-se a olhar de mim para Catarina e depois para Isaac. Erika e Emily sorriram, pois sabiam do «romance». Catarina, imensamente corada, pousou as mãos nos meus ombros e disse: — Ora, menino Eric, mas que piada tão engraçada! – e riu-se, mas Isaac estava sério. — Senhor, rogo-vos. – foi a única coisa que ele disse. — Vamos, senhor Isaac... – Catarina estava ainda mais corada e já não sabia o que havia de dizer. O meu pai sorriu em aprovação, um sorriso retribuído por um sorriso aliviado de Isaac. — Isso quer dizer que sim? – perguntou Sophie, contente – O Isaac e a Catarina vão casar? — Não, Sophie. – disse Catarina – Ninguém vai casar. — Mas... — Senhor Isaac! – disse Catarina, severamente, mas ainda da cor do tomate – Pare de entrar na brincadeira e veja mas é se me dá uma mãozinha! Isaac pegou na mão de Catarina e, pondo-se de joelhos, olhou-a nos olhos, dizendo: — Catarina, aceitas casar comigo? Catarina ficou a olhá-lo inexpressivamente durante bastante tempo e, gaguejando, desmaiou. Toda a gente correu para ela e Isaac pegou nela para a deitar no sofá. — Acho que é um sim! – gritou Sophie – É um sim! Quando estávamos a ir para dentro a minha mãe perguntou-me: — Já agora... Posso saber porque é que a Catarina está com um dos meus vestidos? ********* Já se passaram treze anos desde aquele dia. 108
  • 109. A Catarina e o Isaac estão casados e têm dois filhos. No dia em que a Sophie completou os seus dezoito anos, o Sr. Ludwig devolveu-lhe o que era seu por direito. O Sr. Camus foi preso e ainda hoje está e lá estará durante mais alguns anos. Estamos todos muito felizes e ah! Eu e a Sophie vamos casar amanhã. Elsa Vila 9º ano 109
  • 110. Dreams Há coisas que fazem pensar se teremos tempo, tempo para conseguir lutar por uma tentativa de concretizar os sonhos que vão crescendo desde que nascemos. Com os anos, alguns vão aprendendo a ceder aos caprichos do tempo, a viver o momento e aproveitar a que pode ser uma única oportunidade. Passo a passo, fazemos conquistas de que nos orgulhamos, seguimos caminhos importantes e dizemos que somos felizes porque concretizamos um sonho, depois, num piscar de olhos, aparece logo outro que nos obriga a desistir dessa felicidade, para lutar ainda com mais força e não perder o rumo. No meio dessas batalhas encontramos importantes ajudas, amigos, o nome simples que têm essas pessoas que nunca abandonam o nosso lado em todas as lutas. É por causa desses amigos que cada momento de luta não chega ao desespero, que cada lágrima acaba por ser substituída por um sorriso. Cada segundo, cada conquista, cada gargalhada com ao sem motivo, cada sonho ou pesadelo, cada sentido, nada seria tão importante, sem ter com quem partilhar. O tempo, esse sim, não espera por ninguém, na volta atrás em busca de uma oportunidade que alguém perdeu, em vez disso, prega-nos partidas, passa rápido demais, e os momentos de felicidade não duram suficiente para serem reconhecidos, são confundidos com mera emoção passageira e empurrados lá bem para o fundo da lista de recordações. Os amigos, esses são tomados como dados adquiridos, desvalorizados, os sonhos, os sonhos, os sonhos vão-se confundindo com simples desejos, já não vale a pena lutar, é demasiado fácil… E então, nesse momento algo acontece… Por alguma razão percebemos que o tempo chegou ao fim, que o tapete que pisávamos fugiu debaixo dos nossos pés, percebemos que perdemos tempo, esquecemos os sonhos e muitos ficaram por realizar, e então, tentamos corre e apanhar a ponta do tapete, gozar tudo o que deveria ter sido gozado numa vida, naquele instante, e é também nesse instante que percebemos que não vale a pena correr, nunca faremos tudo, mas podemos aproveitar esse pouco tempo, sem pressas, para dizer tudo o que queremos, amar todos os que tivemos medo de amar, enquanto andávamos perdidos na correria, chorar todas as lágrimas que foram privadas, e rir, rir com um amigo, rir das recordações que agora chegam apressadas e que mostram, que apesar de parecer, nem fomos assim tão infelizes. 110
  • 111. Por vezes, não nos apercebemos do momento único que passou, pensamos que se vai repetir tantas e tantas outras vezes que nem merece a importância de um olhar mais atento, mas que no fim de contas pode acabara mais abruptamente! O desgosto ameaça tomar-nos quando temos percepção disso, mas não podemos deixar, ainda há uns instantes que não se renderam à velocidade do tempo, e estão à espera de ser aproveitados. Há também, quem veja o seu tempo roubado, quem por muitos sonhos que queira concretizar, e por mais exemplar que seja a sua maneira de o tentar fazer, não tenha todo o tempo que deveria! Então, se já sabemos que de uma maneira ou de outra, nem todos os nossos sonhos se irão realizar, porque continuamos a lutar? Continuamos a lutar porque é assim que tem que ser, se não desistirmos, podemos não os concretizar todos, podemos chegar ao fim cansados de lutar sem os resultados que queríamos, mas vamos descobrir que é isso que nos faz felizes, uma vida de luta para perseguir os nossos sonhos, ao lado dos nossos amigos. Assim, podemos não descobrir uma parede cheia de “diplomas” de sonhos realizados, mas descobriremos com certeza recordações de momentos que nunca esqueceremos! Maria Teresa Torres Vaz Freire 9º ano 111
  • 112. Poesia (Ensino Secundário) 112
  • 113. Morro Morro por te perder Morro por não te beijar Morro sem te dizer, Como é te amar. Morro por estares longe Morro por o amanha não ser diferente Morro porque hoje, Eu te fui indiferente. Morro por não estares Morro por causa desta dor Morro por tu não me deixares, Dar-te o meu amor. Morro por este poema escrever Morro por saber que nunca o iras ler Morro porque nunca iras saber, O que tenho para te dizer. ___________________________________________________________ Fábio Borralho, 11º CT1 113
  • 114. Vivo Vivo para te ver sorrir Vivo para te fazer rir, Vivo para perseguir O amor que anseio sentir. Vivo para estar contigo Vivo para sonhar, Vivo para meu castigo? Por apenas te amar… Vivo para voar Vivo para explorar, Vivo para me cruzar Com o teu olhar. Vivo para ti! Vivo pois amor nunca senti, Vivo para o encontrar Junto a ti, sob o luar. ____________________________________________ Fábio Borralho, 11º CT1 114
  • 115. Palavras para que? Não sabes como é viver Com medo de te perder, Não sabes como é viver Sem de poder dizer, Que o meu coração bate por ti Saber que te amo mas duvidar do teu amor Estar vivo, mas viver com esta dor. Não aguento mais viver assim Viver uma vida cheia de nãos. Sem nunca receber um sim Sem nunca poder tocar nas tuas mãos. Não sabes como é amar Sem ser amado. Tentar revelar E ser ignorado. Enfim palavras para que? _____________________________________________ Fábio Borralho, 11º CT1 115
  • 116. A Nossa Cidade Nada me prendia a isto… Esta cidade não tinha nada que encantasse, até te conhecer. Contigo descobri os segredos que se encontram nela, e como a noite é bela quando esta estende o seu manto, colorindo a cidade com o seu encanto. Contigo vi as flores desabrocharem lentamente, e sentei-me do teu lado vendo as estações passarem. Do outro lado do rio, conseguimos ver as luzes de uma cidade por descobrir, num diferente país. E não a desejamos. Amamos a nossa cidade, assim como ela é quando a noite cai... Daniela Parra, 12ºSH2 116
  • 117. Adeus, meu amor… Abraçaste-me… Tocaste-me, parecia que estavas perto. Parecia que era o começo, e não o fim. Era um adeus, os teus olhos diziam-me adeus, e eu não o percebi. Sorri na minha ignorância, na minha ilusão. Quando cai na realidade, tudo á minha volta caiu… Eu própria caí, numa realidade cruel… Os meus medos transformaram-se em certezas… O meu maior medo concretizou-se, já não estavas cá. Foste embora, perdi-te. E não te disse adeus. Daniela Parra, 12ºSH 117
  • 118. Esquece!... Esquece! Esquece o meu rosto, cada traço do meu rosto, cada recanto do meu corpo, esse que tu tantas vezes devoraste, que apreciaste, que conheceste, esquece! Esquece cada toque, cada momento em que os nossos corpos se tocaram. Esquece o meu nome, cada sorriso meu para ti, cada gesto que fiz por ti, todas as palavras que te disse ao ouvindo, apenas á luz das velas. Esquece todas as vezes que disse-te amo-te como se fosse a única palavra que eu tinha para classificar tudo aquilo que eu sentia por ti. Esquece cada teoria nossa, as palavras que inventamos, e tudo o que passamos. Esquece cada lágrima que caíram sobre ti. Nada do que aconteceu volta. Tudo acabou, tu mataste o amor que havia entre nós. Eras um arcanjo assombrado pelas asas de um demónio que não te deixava acreditar no nosso amor, que não te deixava vive-lo. E condenaste-me a viver no teu medo, a viver presa no meio das brumas daquilo que se chama ciúme. Não aguentei, desculpa por não ter aguentado, desculpa por todas as promessas que te fiz, e que não cumpri. Desculpa-me se ainda choras por mim, se ainda vives preso no teu ciúme. Daniela Parra, 12ºSH2 118
  • 119. Saudade Saudade, este sentimento sempre viveu dentro de mim. Perdi um ente querido, e em tudo o que faço sinto a sua ausência. Como se estivesse um vazio dentro de mim, que nunca será completado. Todos os planos que fizemos, nunca foram realizados. E num sonho constante, ele está do meu lado… Mas quando acordo… Vivo com a sua ausência e a saudade do que nunca vivi, por ter partido cedo. Daniela Parra, 12ºSH2 119
  • 120. Tédio e cansaço Não sei o que dizer. Não sei o que escrever. Falta-me inspiração E até motivação Faltam-me as palavras bonitas de outrora Faltam-me as ideias. E até já não sei filosofar, Nem falar. Em mim está o cansaço. Cansa-me escrever. Cansa-me filosofar. Porque falar se parecem não ouvir? Remeto-me ao silêncio Guardo para mim o que poderia dizer. Cansa-me pensar E procurar Procurar o sentido de viver. Cansa-me viver Cansa-me esta ilusão, Esta mentira! Cansaço, é apenas isso que sinto… Daniela Parra, 12ºSH2 120
  • 121. Alma Embrulhada Reflicto a imagem na água de uma alma embrulhada que mais parece despida e de calor despovoada; é uma alma que desconheço, mas no meu corpo se parece encaixar, faz-me recordar os sonhos de menina que apenas nas fotos amarelecidas gosto de visualizar. Vejo a alma tão triste, interrogo-me e porquê desconheço, talvez no fundo conheça, mas apenas na minha realidade mundana permaneço. Olho de relance as paredes, os quatro cantos da casa banais, e relembro na memória amarelecida actos e cenas ancestrais. É como se apenas nada significado fizesse, é como se um corpo permanecesse mas em presença psicológica há muito não estivesse; é um recuar no tempo, que para trás nos faz olhar, é simplesmente em tudo pensar, mas realmente em nada raciocinar. São as chamadas memórias que ao tempo nos fazem prender, prendem-nos a ele de forma a que dele jamais possamos esquecer; É como se o mar a areia enrolasse e dela nunca mais se quisesse desprender, assim é o tempo ancestral connosco, com ele temos de nos habituar a conviver... Carla Romeiro, 12º CT1 121
  • 122. Verão Sente o calor da luz do sol na tua pele queimar Sente o vento quente nos teus lábios passar Sente o poder do Verão nas tuas mãos tocar Sente os aromas que o calor e o sabor do vento deixam no ar O mar é quente como um vulcão A areia brilha como um diamante na tua mão O sal salga a tua pele e tempera o teu coração O verão tem um poder extremo que nos leva a querer ser perfeição Os olhos de cores ofuscantes brilham sem parar Os corpos tomam formas que só o calor lhes pode proporcionar O mundo parece perfeito com o sol e com a brisa do mar; Sentimos aromas e cheiros de encantar O sol brilha com uma intensidade que não conseguimos entender A lua e as estrelas a noite deixam decorrer A água é tão cristalina e os seus sais a pele nos deixam enternecer Será o Mundo perfeito ou perfeito nós o queremos ver? Puramente é isto o Verão, é isto, é calor, é sol, é pura iluminação puramente é intenso o modo como nos consegue tocar é isto é a forma como os aromas intensos se misturam no ar Carla Romeiro, 12º CT1 122
  • 123. Perdida Todos nos perdemos numa infindável e denuda amargurada crueldade de tempo, que no concreto nem os deuses podem mudar num gesto de pensamento; Perdemo-nos nas arruelas da vida, Numa passagem sem saída; Perdemo-nos na praia deserta da paixão que esconde por detrás e em si o sincero coração que mais parece corrompido ou talvez de felicidade embevecido ao certo sei que nas ruas e avenidas que a vida tem nos perdemos perdemos, deixamo-nos perder, sumariamente enlouquecemos. Encontro o mundo rasgado, perdido numa avenida sem saída sem luz a brilhar no canto, sem alma vivida sem um sol rasgado e em contrapartida contemplamos um luar morto perdida, perdido, perdidos, sinceramente precisamos urgentemente de um abrigo, de um porto. Carla Romeiro, 12º CT1 123
  • 124. Rumo de ninguém Parto para aqui e para além, na procura de um ninguém ou talvez de um alguém ao certo parto na procura de não sei quem Parto na busca de uma investida ou talvez ao encontro de uma saída ao certo não sei bem o que faço não sei se sorria, ou se chore, apenas sinto embaraço. Questiono-me com o rumo do mundo no qual vagueamos sem qualquer raiz nem fundo onde mero transeunte é chamado de vagabundo, é aqui que vivemos e onde tudo é puramente um mero deslumbro. Apenas sei não saber sei de tudo desconhecer, sei que a nós próprios nãos nos conseguimos na realidade descodificar ; somos complexos no nosso reduzido pensar. Parto para uma vasta gota de mar é aí que me sinto livre e onde meus pensamentos podem navegar; simplesmente é aí uma enorme e grandiosa casa pelo menos nesse subsistema não me sinto completamente rasa. Carla Romeiro, 12º CT1 124
  • 125. Sabores Os sabores que testam o nosso paladar ficam-nos na memória como as velhas fotos num álbum para mais tarde recordar.... cada qual com um significado momentâneo visto no tempo com um descrever contemporâneo que nos afagam simples momentos de prazer ou pelo contrário que nos recordam reencontros de entristecer; São sabores de café, ou de um beijo quiçá, são sabores de agora, de ontem, de amanhã, que param aqui e acolá. São sabores de vivências certamente que nos põem à prova da vida meramente como na medida de um álbum psicológico de sabores traçar, para em todos e alguns momentos de tristeza e felicidade recordar. São sabores semelhantes, mas diferentes nenhum igual por mais semelhante que seja certamente; São sabores que só a vida sabe proporcionar, São sabores daqui, de lá, que nos vêem chegar. Carla Romeiro, 12º CT1 125
  • 126. Sem Nada Perceber Ando na volta redonda que o meu espírito toma de modo eloquente faço sentir a brisa deslizar no meu corpo como o deslizar da serpente para poder sentir, sentir algo na pele passar algo que faça meu espírito de certo jeito arrepiar Sinto que os aromas trocados devem andar porque a Primavera cheira a Outono e a terra cheira a mar; Tudo isto pode ser mera intuição, mas algo se passa, por mais que não seja dentro de mim, senão. Enfim, sem nada perceber, continuo às mesmas perguntas a responder e no entanto no concreto a nenhuma concreta resposta obter, continuo portanto num mar de dúvidas a viver. Será o Inverno Verão? Será que são só absurdos pensamentos então? Será que já ninguém mais se recorda do pequeno Plutão? Será que somos seres comodistas ou comodistas seres porque não? O céu já não tem o mesmo tom azulado, a noite já não tem o mesmo luar estrelado, tudo na natureza parece estar a mudar mas o Homem parece nem sequer reparar...... Sem nada perceber Sem nada entender meramente relato aquilo que em meu redor estou a ver parece que somos poucos os que a mensagem da Natureza querem receber. Carla Romeiro, 12º CT1 126
  • 127. Sensação Deixo correr uma sensação por dentro do meu ser que não sei como por palavras poder descrever somente no vocabulário palavras inexplicáveis me conseguem surgir, para uma sensação sentida deixar na pele florir. Cai redonda no pensamento e parece nele se acomodar como quem quer dele se vir a apoderar ou simplesmente apenas uma carícia manifestar . Sensação tenebrosamente febril Será paixão, será amor, será desejo de algo venil? Só pode ser sonho, mero sonho aquilo que sinto que faço sentir no interior de uma alma, uma alma de corpo faminto que se deixa levar pelo pensamento e cai no puro entretenimento e numa sociedade mundana, superficial sem qualquer fundamento... Sensação, deixa-te manifestar nessa via que é a minha pessoa, e caminha, lenta e rapidamente, mas entoa se és paixão, amor ou simples e meramente perca de saudade. Apenas deixa que meu pensamento irrequieto se contenha sê uma simples sensação, que deixa minha alma livre e plena. Carla Romeiro, 12º CT1 127
  • 128. Será que falta faço? Olho-me ao espelho num breve relance de embaraço e ele sorrateira e finalmente visiona-me com um duro olhar de aço e vislumbro apenas um corpo sem graça nem cor que morreu num dia em que o diabo a alma me arrancou e deixou incolor Quando o mar dos meus olhos se inunda de inchaço pergunto-me a mim mesmo qual a falta que faço E a minha mente por mim responde alguma…. mas o lado negro da mesma diz somente e bem alto nenhuma. Se Somente o espelho ao mundo os sentimentos conseguisse demonstrar como por dentro nos sentimos, talvez o mundo nos pudesse um segundo só escutar e perceber que actos de desespero que cometemos jamais são em vão são mera e simplesmente a nossa forma de desistir deste mundo cheio de desilusão Queria desta escura imensidão e tristeza interior me libertar para num regaço de amizades e ternura me voltar a acomodar. Continuo pertinentemente com esta questão e neste impasse Será que falta faço? Carla Romeiro, 12º CT1 128
  • 129. Sonhos Sonhos que passam num relance que mais parecem vir de mundos sem alcance sonhos perdidos num luar cantado num luar suado, amado, corpos enlaçados; Sonhos distantes por campos entreabertos numa encosta que o céu tem como tecto Sonhos em cetim amados sem fim que à memória trazem recordações de ti; Sonhos de desejos fazem lembrar a mente de algo profundo como uma tela pintada, colorida de amor e mundos não percamos tempo em sonhos, vivamos a realidade enquanto há tempo, amor e ainda a juventude da idade, amemos sim agora não deixemos nos sonhos o amor, nem o percamos no outrora, soltemos o grito que há em nós porque enquanto houver corpos, sentimentos e vós, existirá amor. Carla Romeiro, 12º CT1 129
  • 130. Alma Natural Deixa-me ver a alma de um ser Deixa-me sentir o aroma do seu poder Deixa-me tocá-la, a sua beleza eu quero ver Deixa-me apenas o seu perfume ter. Como é bom ser-se natural, é tão simples e torna-nos tão especial... como é bom existir imperfeição para amarmos a Divindade pela sua perfeição É tão bom escrever e ao mesmo tempo a palavra amor todos os dias reler; É tão bom respirar, é tudo tão bom, então para quê em tudo pensar? Pensar faz falta à nossa imensidão Pensar faz falta ao nosso coração Pensar faz de nós uma grandiosa multidão Pensar faz-nos não ser apenas um ser de imperfeição Carla Romeiro, 12º CT1 130
  • 131. Ao Fim da Noite Ao fim da noite vejo o céu escurecer Ao fim da noite despeço-me do sol para ver a lua aparecer Ao fim da noite deixo o cantar dos pássaros para o dos grilos escutar Ao fim da noite deixo o pôr-do-sol para contemplar o luar Na noite vem um vento húmido e refrescante que nos toca nos cabelos e nos deixa cintilantes Na noite vem uma magia que por palavras não consigo explicar, apenas consigo sentir, ouvir, e nela me embrenhar. Não sei se gosto da noite ou a prefiro em dia transformar, sei que nela às vezes me sinto bem, mas outras vezes me pode matar; Não sei se gosto de os seus barulhos ouvir, sei que apenas o vento e o fresco da noite às vezes gosto sentir. Apenas não sei se gosto ou desgosto do gostar da noite ... Carla Romeiro, 12º CT1 131
  • 132. Apenas esperar Apenas esperar por um café tomar, por uma brisa suave nos lábios passar, esperar pela torrente de uma onda nos pés suavizar, apenas nada de nada esperar, apenas tudo apenas deixar passar. Um toque suave nos olhos de cor e brilho cintilante de uma imagem meramente marcante que passa diante de nós quando menos esperamos e pudéssemos de um sonho que nos parece um tanto ou quanto estranho. Esperamos tudo e nada acontecer e um acto rarefeito nos leva a enloquecer; Esperamos na fila de uma simples estrada, esperamos na mesa do café por uma bebida gelada.... A vida é feita para nos auto-controlar, não só ontem, nem amanha, mas hoje sim teremos de nos habituar, levemos isto como uma investida, não somente como uma contra-partida, assim é realmente a vida. Apenas esperar Apenas por um doce suspirar, por um toque com simples suavidade, que nos deixe a alma com integridade. Carla Romeiro, 12º CT1 132
  • 133. Brisa Fria Como o mar abre portas e janelas na areia e o ar reflecte as escamas esplêndidas de uma sereia a brisa corre nos olhares esquecidos corre nas mentes e suores perdidos brisa fria que corre nas veias de leão transmite a dor de uma sofridão sofrimento esse tão sofrido que somente uma brisa demonstra revencido coração Vagueio sem rumo num luar neutro e puro e a brisa corre por entre os cabelos escuros como se de um pente de tratasse ou de uma faca que me cortasse È esta uma brisa fria e dura que me arrefece que de certo modo o coração gela e aquece Carla Romeiro, 12º CT1 133
  • 134. Guerras de Tempestades Guerras de tempestades que caiem nas nossas mãos Guerras de desigualdades que caiem na esquecidão Frieza de olhares perdidos numa rua sem saída Calor de um deserto ermo onde deambulam areias perdidas O céu já não é o mesmo, caí num escuro de estremecer As pessoas humanas não são, e das poucas humanas que há se parecem esquecer As estrelas ainda brilham na esperança de algo mudar O que será afinal desta humanidade se este mundo ainda mais desabar? São pássaros que migram para terras de ninguém, na esperança de se refugiarem no além como se tudo lá os pudesse de repente surpreender e o sol os voltasse de novo a embevecer. A água acidifica a nossa pele, e teima em nos queimar A pureza da natureza que outrora havia parece querer-se de nós se refugiar As estações andam trocadas, Primavera e Outono, já não há, e tudo o que diante dos nossos olhos estava, de repente, já não está. É uma vida vivida, passada, sofrida, esquecida, não sei se perdida, só sei que afinal, não quero saber, apenas nada disto que em nosso redor se passa consigo entender. Carla Romeiro, 12º CT1 134
  • 135. Prosa (Ensino Secundário) 135
  • 136. Devil May Cry - The Past Records – The Last Crusades Prefácio Antes de passar à história propriamente dita, gostaria de vos explicar onde fui buscar estas ideias mirabolantes sobre um demónio chamado Sparda e a sua rebelião contra um Devil-King chamado Mundus… Foi há três anos, se não me falha a memória, que uma amiga minha me emprestou um jogo do qual eu tinha ouvido falar. Chama-se “Devil May Cry 3: Dante’s Awaking”, nós chamávamos-lhe, simplesmente, DMC3. Desde esse dia, o sentimento de gosto pelo jogo foi crescente. Não. Não era apenas um jogo… Era uma verdadeira lição de vida… Uma história épica que muda a nossa visão sobre o mundo. No início só via humanos, agora vejo humanos e demónios. Os demónios são aqueles que [supostamente] são maus, mas nós nunca sabemos até que ponto são maus. É isso que acontece com o VERDADEIRO protagonista da saga (que já conta com 5 jogos, se contarmos como a Special Edition do DMC3), Dante, um dos dois filhos de Sparda. Embora a história seja inspirada no jogo, grande parte das personagens e o seu passado é inspirado na minha imaginação. Por exemplo, o passado de Sparda foi completamente imaginado por mim, já que nós, fãs, não sabemos nada sobre o passado dele. Resumindo: Esta história é as teorias de uma fã sobre uma saga de jogos chamado “Devil May Cry” condensadas e de uma forma romanticamente leve. 136
  • 137. First Record Lady Tarja Is Putted under the Great Lord’s White Wings Tudo começou há muito, muito tempo… Quando os dois Mundos foram criados. Originalmente havia só um. Feito de Trevas sem fim. Mas tudo mudaria, com o Ray Of Light que o dividiu em dois e lhes deu a forma que hoje conhecemos. São dois, hoje, os Mundos. O Human World, que é o Mundo onde vivem os Humanos e onde estes se resignam à sua eterna ignorância sobre a verdadeira origem das coisas arranjando teorias cientificas para esconder a verdade sobre a sua existência. O Demon World, onde vivem os Demónios, aqueles que assistiram ao nascer dos Mundos e sobre os quais recai a sobrevivência Humana. Eles são os que existem, desde sempre e sabem tudo. Não vivem na escuridão Humana, embora sejam feitos das mais puras Trevas. Ao contrário do Human World, que é reinado por escolha, o Demon World é reinado pela lei do mais forte. Eles têm um Devil-King e diversos Devil Lords. Os Devil Lords não são mais que os chefes dos Clãs de Demónios que vagueiam sobre o Demon World. Há muitos Clãs (ou Raças, se assim lhe preferirem chamar) e todos eles têm um chefe, sendo, o máximo, o Devil-King Mundus. Os Demon Lords principais são: Tarja, chefe dos Negra Fantasia ß Gaara, chefe dos Natskashi ß Axelia, chefe dos Nobodies ß Nevan chefe das Succubus ß PH chefe dos Silence ß Aku chefe dos Souless ß Tarja era a mais nova, herdou a chefia do seu Clã muito moça, devido à morte do pai, que era leal ao anterior Devil King, que Mundus matou. Mundus matou, igualmente, a maior parte dos Negra Fantasia e Traja era uma jovem que desejava, 137
  • 138. acima de tudo, vingança. Dava-se bastante bem com Gaara e os dois forjaram uma aliança, secreta, contra Mundus e depositaram todas as suas esperanças numa só cria de um Clã que fora completamente arrasado pelas forças de Mundus e do seu fiel servidor, PH. A própria Tarja tratou de criar a filhote de demónio (Sparda) à maneira dos Negra Fantasia, mas Tarja tinha uma fraqueza: o seu fascínio pelos Humanos. Por Natureza, os Negra Fantasia são curiosos, mas nunca pelos Humanos, até eles começarem a entrar no Demon Wold, quando Traja era apenas uma cria. Como teve escravas Humanas, Traja ouviu histórias vindas das suas bocas e ficou maravilhada. Eventualmente, passou este gosto à cria que criava na altura a qual chamou Sparda. -Sparda? – Perguntou Gaara a Tarja -Sim. Vem de Esparta, uma cidade-estado grega de guerreiros ferozes que sobrevieram e venceram os Presas, tal como nos vamos fazer ao Mundus, – Explicou Traja, orgulhosamente a Gaara que a olhava sem compreender -Não te percebo. Depois de todos estes séculos juntos, continuo sem te perceber, Traja. -Eu explico-te, quando for livre. -Livre? Controla lá os impulsos Humanos! -Mas não é isso que tu queres? -Eu só me quero ver livre daquele filho da mãe! -A isso chama-se ter liberdade. -Já te pedi, Tarja, controla-te! Traja apenas lançou uma gargalhada para o ar. Sabia que Gaara nunca a compreenderia, por mais que tentasse explicar-lhe o que ela e os outros Negra Fantasia sentiam. Diz-se que, os Negra Fantasia eram Humanos, antes de o seu primeiro líder (conhecido por Fausto, por entre os Humanos) fazer um acordo com um Devil King. Este mito, explica a sua aparecia quase Humana, os seus sentimentos e ideias. Mas o nome, vem das asas de Anjo que cada um dos Negra Fantasia tem. Foram eles, próprios, que começaram a chamar-se assim e o nome começou a pegar, até que Negra Fantasia foi tomado como nome “oficial” do clã, muito antes que Tarja nascer. Embora Tarja estivesse sempre em campanhas e banquetes, longe da sua capital (Treminus), ela não pensava duas vezes antes de levar Sparda consigo. 138
  • 139. Mais rápido do que Tarja ou Gaara esperavam, Sparda mostrou-se um demónio cruel, mas um honrado lutador ciente das suas capacidades e fraquezas. Tinha uma personalidade forte, mas reservada. Quando Tarja o apresentou a Mundus, o jovem Sparda limitou-se a ficar no seu lugar, quieto, mas não resignado, enquanto Mundus ouvia as queixas que Tarja. -Ora, Tarja! O demónio mais poderoso, ele já é, por natureza. – Contrapôs Mundus, tentando acalmar Tarja -E foi por isso que arrasastes com o Clã dele? Porque são poderosos por natureza? – Perguntou Tarja, como uma insolência que mentia nojo a qualquer demónio. -Havia uma rebelião e tu sabes, melhor que muitos demónios, o quando eu odeio rebeliões. – Respondeu Mundus, dando argumentos calmos, mas inconclusivos Tarja limitou-se a dar meia volta. Odiava quando ele falava da morte do seu Pai e não o consentia, de maneira, alguma, mas que podia fazer, ela uma simples Negra Fantasia, contra Mundus? Nada, pelo menos agora, ele não esperava pela demora! -Ele vai ver o que é bom para a tosse! – Dizia Tarja para si mesma, como um reconforto da sua mente cansada de esperar por algo que teimava em não chegar -Lady Tarja! – Chamou uma voz vinda das suas costas. Tarja virou-se para ver quem era. Era apenas Sparda, parecendo algo confuso com o que Tarja tinha falado com Mundus, mas principalmente com o que Mundus lhe perguntou, depois de ela sair do Salão. -Sim? – Perguntou Tarja, tentado mostra-se calma, como sempre era na presença dele. Tarja era o tipo de demónio que escondia o que sentia para que ninguém lhe perdesse o respeito. Tinha consciência do que poderia acontecer a um líder fraco, principalmente com uma tarefa tão importante entre mãos como era esta rebelião. -O Mundus – quero dizer, o Devil King Mundus- convidou-me para fazer parte do exercito dele. Eu queria saber o que a Senhora acha disso. – Respondeu Sparda, mostrando um enorme respeito por Tarja -Já? Nunca esperei que isto acontecesse tão cedo… – Disse Tarja, pensando alto para si mesma, só depois falando para Sparda – Ele viu-te a lutar, Sparda? -Foi o Lord PH que lhe disse o quando eu luto bem… Sua Excelência disse que ouviu dizer que eu era o melhor dos lutadores dos Negra Fantasia. – Explicou Sparda, respondendo à pergunta de Tarja e ignorando os seus pensamentos altos. 139
  • 140. -Melhor? Ainda terás de me vencer, um dia destes! – Exclamou Tarja mostrando um sorriso que automaticamente tirou, mostrando que iria falar de assuntos mais sérios – Mas, finalmente, chegou a hora de saberes as razões pelas quais eu me meti nesta alhada como o Gaara. -Da rebelião? – Perguntou Sparda, esperando uma resposta positiva dela -Sim. – Respondeu Tarja sem dar mais pormenores sobre o assunto -E porque fez isso, M’Lady? Poderíamos ser um Clã próspero e poderoso. Terminus poderia ser a melhor das capitais de todo o Devil Kingdom. – Perguntou Sparda não arranjando uma explicação minimamente aceitável para o que Tarja andava a tramar com Gaara. -Primeiro que tudo, o Mundus é um tipo de Negra Fantasia. – Explicou Tarja mostrando uma raiva misturada com algum tipo de tristeza por partilhar o mesmo sangue e poderes com Mundus. Sparda não se mexeu, talvez estivesse admirado por o Clã que Mundus tinha quase dizimado era o seu próprio Clã. Mas, então, ele não sabia o que era a admiração. Tarja também não ligou e continuou a falar. Não estava interessada em saber o que ele achava disso, acreditava que ele iria aceitar os factos tal como eles eram. -Depois, ele matou milhares de demónios, como ele ou diferentes. Ele matou o SEU pai, acabou como o TEU Clã e vai acabar como todos nós, se nada fizermos, meu Querido, por isso é que tu me vais ajudar. – Continuou Tarja, mostrando-se particularmente carinhosa quando se dirigiu directamente a Sparda -Se a Senhora o diz. – Aceitou o demónio, sem se mexer -Só fazes se quiseres, Sparda. – Disse Tarja, dando a Sparda a escolha de sair daquela alhada. -Mas, se a Senhora quer que eu faça, eu faço. – Reforçou ele, mostrando-se altamente leal a Tarja e aos Negra Fantasia, mesmo não sendo um deles -Muito bem… – Aceitou Tarja, mostrando-se satisfeita com a escolha dele. Depois, passou a explicar-lhe o seu plano – Quero que leves o Mundus a querer que lhe és leal, assim ele pensará que tem o controle sobre os Negra Fantasia. Eu, o Gaara e Axelia arranjamos uma maneira de entrar no Palace Of Dark Crysral quando ele estiver a fazer o Dark Assumption e tentamos matá-lo. Se não conseguirmos, morremos honrados… Tarja era um demónio de palavra e Sparda sabia-o muito bem. Conhecia como ninguém os pontos fracos de Mundus e todo o Palace Of Dark Crystal e Sparda confiava nela, sabia que ela não o ia deixar mal. Ela nunca o tinha feito, não era hoje que iria 140
  • 141. começar. Acreditou nela como sempre o fez, sem questioná-la sobre se seria o melhor. Ele não conhecia outra forma de actuar perante Tarja. Respeitava-a de tal forma. Durante o resto do banquete, Mundus pode ver melhor a forma como Sparda, o seu novo guerreiro, respeitava a rebelde Tarja dos Negra Fantasia. Era irritante, para ele, saber que um dos seus soldados respeitava mais a sua chefe de clã do que o respeitava a ele, o Todo-Poderoso Senhor do Demon World e de grande parte do Human World. Irritou-o de tal forma que teve de interromper aquela cortesia enorme que o levava à loucura de ciúmes que sentia por ela ter algo que ele há tanto procurava ter para si mesmo. -Tarja, conta-me o segredo para que ele te respeite tanto! – Pediu Mundus interrompendo uma conversa entre ela e Sparda. -Ora, Mundus, eu não tenho segredo nenhum. Ele admira-me e é o que basta. – Respondeu Tarja, acrescentando mais antes que Mundus lhe pudesse responder – Deixo que ele me pergunte e conto-lhe a verdade sobre os factos. Tu, seu Devil King de meia tigela, matastes o Clã de origem dele e vais-te arrepender disso e por isso! Tarja preparava-se para sair e voltar para casa quando Mundus -proferiu uma palavra que a deixaria sem qualquer influência. -Presa! – Disse ele, apontando para a pequena Tarja Estava arruinada. Ira ficar o resto dos seus eternos dias entro que uma prisão desejando morrer. Sparda olhou para Tarja, sem saber o que fazer, agora que saberia que iria ficar longe dela. -Corre para o Gaara, ele sabe o que fazer. – Disse Tarja sem lhe ser perguntando, com uma calma imprópria para altura O próprio PH, um verdadeiro carrasco de elmo a esconder-lhe a cara e uma faca incrivelmente grande, encarregou-se que levar Tarja para junto de Mundus e prende-la aos pés do seu Senhor, à ordem de Mundus. -Agora, Mouro, ou te portas bem ou acontece isto à tua querida e adorada M’lady Tarja. Pegou num humano e partiu-o ao meio com as próprias mãos. Sparda não sabia muito bem o que fazer. Tarja tinha lhe ensinado tudo o que sabia fazer e agora não podia fazer nada por ela… Era estranho saber o que era o medo nesta altura da vida, um humano conhecia-o bem mais cedo e ele andava ali, sem saber o que fazer sem Tarja. 141
  • 142. -O Mundus prendeu a Tarja? – Perguntou Gaara sem saber muito bem o que dizer -Sim. O Sparda estava lá, mas o imbecil não fez nada para parar o PH que levava a Tarja! – Exclamou outro Demon Lord, Axelis, irmão de Axelia -Ela deve de ter um plano na manga. Se não fosse assim, ela não se tinha Deixando perder. – Calculou Gaara, pensativo. -A Tarja foi presa! – Exclamou Sparda, entrado pelo salão a entro em pânico, -Nós sabemos, Senhor Imbecil. – Informou Axelis, com uma voz sarcástica, sem querer saber do que Sparda sentia -Eu não tive culpa, a Senhora Tarja ofendeu o Devil-King Mundus. - Explicou Sparda, tentando que os outros não o culpassem -Ninguém te culpa. – Disse Axelia – A Tarja deve de ter um plano na manga. Ela é inteligente, ao contrário de certos bruta montes! Axelis virou a cara à irmã e fez ar de zangado. Sabia que não tinha razões para isso, mas Axelis era um pouco minado. Tal como os Negra Fantasia tem uma cultura completamente diferente, também os Nobodies a tem. São demónios completamente diferentes, porque descendem directamente de almas humanas, ou seja, cada um dos Nobodies é uma alma humana que não pode ser castigada por nenhum dos 7 Hells. São, por isso, demónios raros e que surgiram há poucos milhões de anos, mas eram muito poderosos. Os Nobodies gabam-se de podem tornar a imaginação humana real. Além disso, a cultura deles, está extremamente ligada à cultura humana. -Por amor do Devil-King Amarath! Vamos parar com isto, Alexis! É infantil de mais para a tua idade! – Pediu Nevan -Bem, temos de entrar em contacto com a Tarja. – Concluiu Gaara, depois olhou para Sparda, que trazia um ar temido e constrangido pelas palavras de Alexis – Tu, Sparda, vais fazê-lo. Sei que é um trabalho perigoso e difícil, mas eu acredito em ti. Gaara saiu logo depois. Já não tinha mais nada para fazer naquele lugar. Tinha de voltar ao seu Clã e tratar dos seus próprios problemas. Alexis também saiu pouco depois, acompanhado de Nevan. Alexia tinha ficado para trás, a olhar para Sparda com os seus olhos amarelos e quase humanos. 142
  • 143. Tal como Tarja, Alexia tinha uma aparecia humana., ao contrário do irmão, que se encontrava mais próximo dos demónios. Alexia tinha um longo cabelo liso e cor de fogo, acompanhado pelos seus olhos amarelos e uns lábios rosa vivo. Ao contrário de Nevan e um pouco à semelhança de Tarja, tinha seios pequenos. Talvez, maiores que os de Tarja. Nesse aspecto, Tarja não era avantajada, mas tinha uma beleza fora do comum, mesmo para um demónio. Tinha a pele branca, como todos os espíritos humanos que se tornavam demónios e usava longas unhas de cor vermelha. Quando se aproximou, seus delicados lábios rosa quase tocaram a pele rude do jovem Sparda, que se sentiu intimidado pela presença de Alexia. -Faz um bom trabalho, a Tarja está a contar contigo. – Disse ela, afastando-se em seguida. Mas como é que ela sabia que a Tarja estava a contar com ele? Talvez usasse a lógica humana perceberia, mas isso era algo que ele não conhecia, mas Tarja sabia que existia porque passou de geração em geração entre os Negra Fantasia. Talvez, Alexia quisesse que ele a usasse, para compreender Tarja. Second Record Memories Lost In the Dawn Os treinos eram duros. Ele mal tinha tempo para dormir, quanto mais para falar com Tarja… Lembrou-se dos tempos em que ainda estava em Terminus, no abraço de Tarja e em que pensava que aqueles braços suaves e quentes nunca o deixariam… Se ao menos Amarath não tivesse sido assassinado… Se ele estivesse vivo, ainda estaria nos braços dela em Terminus e estaria no exercito de boa vontade e não obrigado por uma vontade demoníaca de soltar alguém que o tinha criado desde que era apenas uma cria abandonada no meio do campo de batalha. Quando era a apenas o único sobrevivente dos Requiem… Ainda o era, mas, agora, era-o de uma forma diferente. Era, talvez, mais humano devido à beleza que Tarja lhe tinha mostrando. Era mãe dele, a única mãe que alguma vez teve e agora não conseguia ouvir a sua musical e bela voz…. -Tarja… - Suspirou Sparda, sem querer 143
  • 144. -Tarja? – Perguntou o soldado que se sentava ao seu lado -Sim. – Respondeu Sparda timidamente Só depois de o soldado responder é que ele percebeu que era uma fêmea, uma Succubus. -Essa Negra Fantasia parece mesmo Pura comparado com qualquer um de nós… Mas, não aspires aos seus sentimentos não vais ser capaz. Sparda percebeu o que Tarja sentia quando Gaara não a percebia. Deu-lhe vontade de se rir. Era mesmo um demónio, aquela gaja. Não percebia nada do que ele sentia. Mas talvez tivesse razão numa coisa, talvez ele aspirasse aos sentimentos de Tarja, mas não tinha a certeza. Afinal de contas, ele não sabia o que era o amor… Nessa mesma noite, enquanto olhava o vermelho céu do Mundo que conhecia, decidiu tomar conta dos prisioneiros para poder ver e falar com Tarja. Sentia a sua falta, acima de tudo, mesmo sem dar conta de tal e pensar que era tudo uma mera estupidez humana. Afirmou estar sem sono ao seu superior, o que não deixava de ser verdade, mas ele queria era ver Tarja. Assim que pode, foi vê-la. -Estas diferente, Sparda… Mais tímido? Talvez. Penso que seja porque não estou contigo. – Divagou Tarja ao vê-lo -É verdade, Lady Tarja… - Afirmou ele, muito vagamente -Estás a experimentar sentimentos humanos, não consegues é saber o que é… É muito confuso, não é? Eu sei o que é, mas irá acabar. -Eu já tentei que acabasse, M’lady Tarja! Mas não vou capaz… -Tenta não pensar nisso. Irá cessar mais rápido do que pensas. -Só queria que poder voltar a Terminus consigo… Tarja voltou para ele com verdadeiros olhos de ver pela primeira vez. Ele estava MESMO a experimentar o amor humano, algo que Tarja não conhecia nem conseguia explicar. O que é o amor? Mas o que é esse sentimento? Tarja não o sabia e tinha medo de o descobrir da pior maneira. Estava com medo de o descobrir naquele momento, por isso afastou-se um pouco para pensar. Sparda, por momentos quis perguntar-lhe o que se passava e porque se tinha afastado das grades, mas não o fez. Queria respeitar a vontade de Tarja enquanto sua superiora. 144
  • 145. Tarja pensava confusa. -Como pode uma cria apaixonar-se pela própria Mãe? – Perguntava-se Tarja não compreendendo o comportamento de Sparda Ocasionalmente, os Requiem “juntavam-se” com outros com quem tinham laços familiares, mas isso acontecia em tempos de crise no Clã. Não sabia se era instinto dos Requiem ou se era a cultura deles… Talvez isto estivesse a acontecer porque eles não partilhavam o mesmo sangue. Tarja sabia que isto acontecia entre os humanos, embora não fosse tolerado e fosse muito raro, porque os humanos criaram uma aversão genética a este tipo de comportamentos que os impede de se “juntarem” com membros da própria família. Talvez Tarja não suportasse este pensamento porque considerava Sparda o filho que nunca teve… Mas se ele a amasse, como os humanos fazem, Tarja teria de o enfrentar. Não estava preparada para avançar neste campo, mesmo sendo a líder dos Negra Fantasia. -O que vai fazer Lady Tarja? – Perguntou Sparda, chamado a atenção de Tarja – O Gaara e os outros querem saber o que vai fazer para sair daqui. -Nada. – Respondeu simplesmente Tarja Sparda não reagiu. Não sabia em que ela estava a pensar, e não percebia o porquê de ela não ir fazer nada em relação a sua prisão. -Não te angusties dessa maneira... – Pediu Tarja bondosamente – Vamos levar isto para a frente. Poderás vingar quer o teu Clã quer a minha prisão. E, não me vires a cara, o Mundus poderá ser morto. Tudo ficará bem. E vamos voltar para Terminus juntos, como antes... Prometo. “Prometo.” Porque todos à sua volta sempre prometeram tanto? Tarja prometia-lhe que tudo acabaria bem. Mundus prometia-lhe que matava Tarja se ele não fosse leal. Gaara e os outros prometeram ajudá-lo a soltar Tarja, se necessário. Ele não compreendia. Preferia a vida simples que levava em Terminus quando era uma cria. Sim, preferia mil vezes Terminus à capital, Silencius. Não sabia o que Tarja pensou que a tanto a fez recuar, naquela hora. Tentou saber, mas não conhecia nada do que Tarja conhecia, porque era um Requiem… Se, tivesse nascido um Negra Fantasia não seria tudo muito mais fácil? Pelo menos não teria de ficar por baixo do céu vermelho a pensar que nunca perceberia porque queria Tarja e porque não a poderia ter. 145
  • 146. Third Record Birth of a Secound Life Tarja sabia que tudo podia acabar em menos de nada, decidiu que deveria de manter o sangue dos Negra Fantasia vivos. Teria de usar magia, coisa que não gostava muito. Não que fosse anti-magia, mas exigia muito da sua energia e poderia mata-la, principalmente uma magia chama Dance Of Fate, que lhe permitia ter uma gémea. Ela tinha de fazer essa magia e criar uma outra Tarja para manter a sobrevivência dos Negra Fantasia, mas tinha de arranjar um Plano, para mantê-los enquanto demónio. Porque um Dance Of Fate, não garante que não seja criado um demónio. Tarja respirou junto e pensou para si mesma que ira usar o Sparda como parte do seu plano apenas em último caso e não como uma primeira opção. Mas depois pensou nos perigos que havia no Human World…. Tinha de usar Sparda… Só não sabia como… Se ele a amasse era relativamente fácil, mas se ele estivesse só confuso iria ser uma grande algazarra. -Enfim… Uso primeiro o Dance Of Fate com um Dearly Beloved que é para ter a certeza que ela sai uma humana e depois logo vejo como vai ser com o Sparda… O Dearly Deloved é uma outra magia que pode ser usada como auxílio ao Dance Of Fate. Esta aumenta a probabilidade que nasça um humano em vez de um demónio, e Tarja queria uma humana a tudo o custo. Ninguém nunca soube muito bem o porquê e há apenas teoria e especulação em relação ao que Tarja realmente queria com isto, porque desconfia-se que ela queria mais que a sobrevivência dos Negra Fantasia. Há quem diga que ela fez isto por amor de mãe a Sparda… A maioria das pessoas que sabem disso, admitem que ela estava a lutar pela sua sobrevivência e não a fazer um acto de amor desesperado. Depois de desenhar mil e um círculos e pentagramas, Tarja proferiu palavras numa língua que os demónios não compreendiam. Nunca foram achadas as palavras que ela disse para que o feitiço fosse bem sucedido. Receia-se que a jovem Chefe dos Negra Fantasia tenta usado Alquimia que possa ter aprendido com algum guerreiro Árabe capturado na guerra. Tarja sentou-se a um canto, cansada, esperando resultados, que só vieram na manhã seguinte. 146
  • 147. Quando acordou, Tarja deu com uma cria humana nos seus braços. Era a sua gémea. Nessa amanhã, concentrou-se em dar-lhe um nome e alimenta-la com o que lhe poderia dar, o mesmo que a sua mãe humana lhe daria, leite. Era uma das poucas coisas, se não única, que os Negra Fantasia tinham que era completamente humana. As fêmeas podiam amamentar as suas crias junto do seu peito, ao contrário dos outros demónios que lhe davam logo sangue ou carne. As crias de Negra Fantasia guardavam, sempre, um carinho especial às suas mães. Enquanto Tarja dava alimento a sua gémea, começou a pensar perguntando-se onde teria falhado para que o Sparda lhe guardasse demasiado amor. Não sabia. Talvez porque fez tudo demasiado bem. Mas a pequena arrancou-a dos pensamentos sobre Sparda, como se pedisse por mais. Tarja sabia isto, porque as crias de Negra Fantasia a e Nobody também choravam e Tarja tinha tomando conta de crias destas durante a vida inteira. Os Requiem eram muito fácies de criar, nunca choravam e nasciam a saber falar, devido à forte Blood Memory dos Requiem. -Calma, pequena… Calma… Vai tudo ficar bem para ti… Vais te casar com alguém te consiga proteger e, acredita, ele é bom. – Tranquilizou Tarja, dando, já, um futuro à pequena humana. Tinha de pensar num nome, mas não conseguia. Nunca foi muito boa a dar nomes e foi um milagre Sparda ter o seu nome agora. Então, um guarda passou e perguntou a Tarja de quem era a cria. -Encontrei-a num dos corredores, ontem, quando voltava do banquete. Não tinha pele nem nada, como os humanos costumam fazer. Penso que a mãe deve ter morrido ali mesmo e os guardas do Mundus não devem de ter reparado nela. – Explicou Tarja, olhando para a pequena, em vez de olhar para o guarda -Teremos de a levar para o Human World, Lady Tarja, é uma humana. – Disse o guarda Tarja estranhou que um guarda lhe chamasse Lady Tarja em vez de “Insolente Negra Fantasia”. Então reconheceu a voz. Era uma voz familiar, de alguém que ela adorava muito. -Vergilius? – Perguntou ela feliz O guarda tirou o capacete revelando a sua cara jovem. Era um Negra Fantasia loiro de olhos claros e era o irmão mais velho que Tarja julgava morto numa batalha. 147
  • 148. -Vou tirar-te daqui, Tarja. O Sparda já está com o Gaara. – Anunciou Vergilius à irmã -Não posso sair! – Exclamou Tarja -Podes sim. Tarja chegou-se às grades para reclamar com o irmão sobre isto, mas ele tirou- lhe a cria e pegou na cara a irmã e beijou-a. -Tinha saudades de te pegar, Tarja. Passou muito tempo. Tarja afastou-se confusa com o que irmão tinha feito. Nunca ele tinha feito isto, porquê começar agora. -Estava cheio de saudades tuas, Tarja. Queria poder sentir-te mais uma vez… -Corta-te, Vergilius e leva a Eva daqui. -Ela tem nome? -Acabei de lho dar, agora, desaparece. -Claro, Lady Tarja. Parecia que toda a gente queria beija-la, mas apenas o seu próprio irmão tinha coragem para o fazer. Mas porque demónio lhe estava a acontecer isto? Fourth Record Bloodline Tarja fugiu logo depois, com a ajuda do irmão, mas quando encontrou Sparda, ela apanhou a maior das surpresas da sua vida. -Sparda! Ainda bem que te encontro! – Exclamou Tarja ao avistá-lo – O Vergilius informou-me que irias estar aqui, à minha espera. – Informou ela, algo feliz -O Lord Vergilius? Mas Lady Tarja, eu não fazia ideia que ele estava vivo. Tarja estranhou. Mas como é que ele não sabia? E como é que ele sabia que Sparda estava à sua espera. Só podia ser uma armadilha. -Alguém te seguiu? – Perguntou Tarja, preocupada -Não. -Óptimo. Vamos ter com o Gaara, ele vai querer saber o que se passou. -Mas Lady Tarja, e o Mundus? -Ele vai ter o que merece, mas primeiro temos de tratar do judas do Vergilius. -Judas? – Perguntou Sparda confuso 148
  • 149. -Sim, ele traiu-me, a mim. Sua irmã. Vai ter o que merece! Sparda nunca tinha vido Tarja tão enraivecida por tão pouco. Para os demónios, a traição era algo normal e Sparda não conseguia compreender porque Tarja ficou tão irada ao ver que o seu irmão, Vergilius, se tinha juntado a Mundus. -Lady Tarja, porquê a zanga? Podemos acabar com ele quando acabámos com o Mundus. -Para acabarmos com o Mundus TEMOS de acabar com o Vergilius. -Mas porquê? -Quando chegarmos explico-te, agora, corre antes que os guardas nos apanhem. Sparda não tinha percebido nada. Era suposto o Vergilius ser bom? Afinal de contas, ele tinha protegido, várias vezes, Tarja de Mundus, principalmente durante a infância. Ele não sabia era porquê ou do quê. Imaginava que Mundus queria matar por ela ser a herdeira legítima do trono… É verdade que, a maior parte das vezes eram os filhos mais velhos, macho ou fêmea, porque o Demon World já teve Devil-Queens e normalmente elas eram as melhores, mas os Demónios, ou contrário dos Humanos, tinha mais machos que fêmeas, mas ainda assim eles têm de competir pelas mais fortes e mais belas da sua raça ou de outra e criar híbridos… À conta dos híbridos havia mais de 2.000 raças de demónios, mas muitas delas faziam parte de outras raças, ou seja, eram sub-raças, e actuavam como parte do Clã principalmente quer gostem ou não. Sparda sabia disto tudo, mas se um grande e poderoso homem como o pai de Tarja mudasse esta ordem, a filha mais poderia ser a chefe… Mas, Sparda pensava que isto andava tudo à ronda dos Negra Fantasia, nunca pensou em grande. -Garra! – Exclamou Tarja a entrar na sala -Tarja? – Perguntou ele admirado – O que fazes tu, aqui? -O Vergilius ajudou-me a escapar. – Respondeu Tarja, sendo interrompida por Axelis logo depois. -O Vergilius? O que é que esse quer agora? -Cala a boca dos minutos, Alexis, eu quero ouvir o que a Lady Tarja tem para dizer. Devias de fazer o mesmo. – Ripostou Sparda, assim que viu a ironia e indisposição de Axelis. 149
  • 150. Tarja olhou para ele triunfalmente. Sparda estava, finalmente, a usar o seu bichinho da ironia, que todos os Requiem têm, por natureza. Não admira que o Mundus os odiasse tanto. -O Vergilius estava vivo e do lado do Mundus. – Declarou Tarja, com ar de poucos amigos -Do Mundus? Mas porquê? – Perguntou Sparda -Porque aqueles dois campónios querem o trono que é meu, por direito! – Exclamou Tarja, irritada só de se lembrar o quanto Vergilius e Mundus eram judas. -Dos Negra Fantasia? – Perguntou Sparda, com poucas certezas -Não, meu simplório, do Demon World. – Respondeu Alexis. -Do Demon World?! Isso significa que… -Pensavas que havia dois Amarath? – Perguntou Tarja. -Os Negra Fantasia é que tem a tradição de meter o mesmo nome nos gémeos. – Contrapôs Sparda, pensando que o Devil-King tinha um irmão gémeo. -Não é nada disso… Eu sou irmã do Mundus e do Vergilius. Sou a mais nova, mas um adivinho viu que, eu é que devia de ser a nova governante deste Mundo, para continuar o que o meu pai começou. Era a única capaz de o fazer. – Explicou Tarja, nem olhando para o ar farto de Alexis. -Pois… Eu não sabia… - Comentou, desnecessariamente, Sparda -Claro! Só vistes o meu pai meia dúzia de vezes, não tiveste tempo para pensares que ele era o Devil-King. -Tarja, temos de tratar do Vergilius? – Perguntou Axelia. -Deixa isso comigo, querida. Para mim, isso é fácil, afinal, sou uma Succubus! – Pediu Nevan, virando-se amigavelmente para Axelia. -Claro, Nevan, afinal o Vergilius sempre teve um fraquinho por ti. – Aceitou Tarja, animada por não ser ela a fazer esse trabalho sujo e desesperante. -Alguma coisa que queres eu traga alguma coisa? – Perguntou Nevan, antes de sair. -A Eva. – Respondeu simplesmente Tarja. Nevan saiu fazendo um sorriso, parecia saber do que ela falava, mas Sparda percebia cada vez menos do que se passava. Fifth Record Tear Miracle 150
  • 151. -Lady Tarja. Tarja virou a cabeça para ver que era. Em vez de ser um criado, era Sparda. -O que foi? Confuso? – Perguntou ela carinhosamente -Bastante… – Respondeu Sparda, num misto de tristeza com embaraço. -Senta-te ao pé de mim… – Sprada sentou-se ao lado de Tarja tal como ela mandou – Diz-me, o que te fez tanta confusão? -Tudo… O trono, a Bloodline, mas, principalmente, a Eva… Quem é ela? – Respondeu Sparda, tentado ter respostas para a sua confusão. -A Eva é a minha Dance Of Fate. Sparda fez um ar confuso. -O que quero dizer, é que ela resulta de um feitiço que eu realizei: o Dance Of Fate. -Isso quer dizer que ela é sua irmã? -Uma coisa assim. -E dói? -Ter uma irmã? -Fazer um Dance Of Fate. -Bastante. -Então… …porquê o fez? -Porque não quero que o sangue real dos Negra Fantasia morra para sempre nesta batalha. Calaram-se durante um bocado, mas depois Tarja, decidiu que estava mais que na hora que fazer a segunda parte do SEU Dance Of Fate. Chegou os seus lábios ao ouvido de Sparda e murmurou palavras que ele jamais esqueceria. -Se eu dissesse que gostava de ti, o que é que fazias? Isso queria dizer que podia ter Tarja para si… Se Sparda tivesse olhos humanos, de certeza que teria ficar com a pupila tão pequena que parceria um ponto final numa folha A4. Estava tão admirado que não conseguia responder e quando deu por si, Tarja já o tinha transformado num Negra Fantasia, porque ela podia transformar os outros nem criaturas diferentes. O que ia fazer? Como ia reagir? Tarja estava a sua frente, mas ele não se sentia capaz de agarrar… 151
  • 152. O que se passava dentro dele? Não era capaz de fazer algo tão simples que já tinha feito tantas vezes? Tinha se esquecido como se agarrava uma mulher? Tarja limitou-se a tirar o capacete que representava a sua cabeça de demónio e colocou-a, cuidadosamente, ao lado dela. A sua cara de Negra Fantasia era das mais belas que Tarja já tinha visto. Tinha a pele branca, mais branca que a cal da parede, os olhos azuis como o gelo mas transparentes como o vidro. O cabelo dele era branco e estava pouco mais baixo que os ombros e a franja davam pelo meio do nariz. Tarja passou-lhe a mão pela cara. Tão suave… Por momentos fez-lhe lembrar o pai e deu-lhe vontade de chorar. E não se conseguiu conter de o fazer. Baixou a cabeça até ao ombro dele e desatou a chorar como um humano faz, Sparda já tinha visto alguém a chorar na sua vida, mas não era Tarja. Lembrava-se de, uma vez, num banquete, ver uma jovem humana rogar, entre lágrimas, para não matarem a sua família. Chorava tanto e tão alto que todo o banquete parou e olhou para ela, até ele. Lembrava-se de ter sentido pena por ela, por que, também lhe tinham assassinado a família, embora não soubesse, na altura, quem. Também sentiu pena de Tarja. Percebia a dor dela, porque se lembrava dos pais. Porque nunca os tinha conhecido e lembrava-se deles. Sorte, a dele, um Requiem não tem lágrimas para chorar, mas os Negra Fantasia tinham. Pegou em Tarja com as suas duas mãos. Também ele sentia dor, mas não tinha como demonstra-la porque não sabia fazer uma expressão para tal, não tinha lágrimas para chorar, nem mesmo que sangue… Sempre quis ter Tarja junto a ele, mas não nesta situação. Queria que fosse algo mais calmo… Mas, no fundo, sabia que aquilo tinha de acontecer e não podia fazer nada contra. A isso, chama-se DESTINO. Sixth Record Inactive Daybreak -Fizeste o teu trabalho? – Perguntou Tarja a Nevan assim que a viu 152
  • 153. -Mas é claaaro que fiz! Não deixaria passar uma oportunidade tão boa de me alimentar tão requintadamente… Afinal, ele tinha sangue real. – Respondeu Nevan, lambendo os dedos em sinal de satisfação -Óptimo! E fico feliz por teres gostado do sangue do Vergilius, se tiveres de morder o Mundus já sabes o que te espera. – Anunciou Tarja, fazendo uma pequena piada. -Ai credo! Nem penses! Morder aquilo? Fogo! Não! Pelo menos o Vergilius era bonitinho. – Recusou-se Nevan, logo sem ouvir tudo o que Tarja tinha para dizer. -Ele é virgem, mas tu não queres… – Informou Tarja, muito disfarçadamente, dando um ar de inocência e gozo para ver se Nevan aceitava e tinham um Plano B. -ELE É VIRGEM!!!! – Nevan desatou a rir que nem uma perdida, nem parecia ela – TEMOS UM DEVIL-KING VIRGEM!!!!!! Ouvistes, Gaara, o Mundus É virgem! -O Aramath também era. – Contrapôs, Gaara, que acabava que entrar e não estava a perceber nada. -Isso foi antes de subir ao trono, depois casou-se logo com Alex não sei das quantas. – Opôs Nevan, olhando para as unhas com um ar falsamente inocente. -Não era a Alessa, essa é a irmã dele. A mulher era Arioch. – Corrigiu Gaara. -Pois, eu nunca as distingui, eram muito parecidas, - Disse Nevan, com ar de quem não precisa de nomes quando se percebe a ideia. -Nós percebemos… - Calculou Tarja, virando costas. -EU NÃO SOU TUA MÃE! – Exclamou Nevan, para ter a certeza que ninguém tinha a ideia errada. -Ninguém disse isso. – Disse Tarja, olhado por cima do ombro para Tarja. -Por falar em saber ou deixar de saber… O Sparda? Ainda não o vi hoje e precisava de explicar como é que ele vai actuar daqui para a frente. – Perguntou Gaara com ar preocupado, pensado que ele estava morto. -Ora, Gaara, ele está a dormir. – Respondeu Tarja, virando-se para o resto -O que estás para aí a dizer? – Perguntou Axelis com ar maldoso e curioso -Que, ele, se portou bem ontem a noite. – Respondeu Tarja, muito descontraída. -O QUÊ?! – Exclamaram todos. -O que foi? Parece que é uma grande coisa… – Perguntou Tarja, sem perceber a grande admiração sobre o que se passa. -Até é. Imagina que ficas grávida. – Propôs Axelis, fazendo logo um filme de duas horas e meia com meia dúzia de palavras. 153
  • 154. -Mas eu QUERO ficar grávida dele. – Reforçou Tarja, sem medo do que os outros pudessem pensar de si. -Tarja, tens febre? – Perguntou Axelis, pensado que o jantar da noite passada tinha feito mal a Tarja. -Não. – Respondeu friamente Tarja – É apenas uma questão de sobrevivência. -Até não é, Tarja. – Contrariou Axelia -O que queres dizer? – Perguntou Gaara, preocupado com Tarja. -No fundo, ama-lo, não amas? – Perguntou Axelia, tentando desafiar Tarja -Deixarei isso à vossa interpretação. – Respondeu Tarja, deixando para atrás aquele grupo de demónios de bocas abertas. Todos eles conheciam a admiração, todos eles se podiam dar ao luxo de abrir a boca enquanto se apercebiam que havia casamento para depois de uma batalha ganha. E até houve… Continua... ...na próxima jogada... Ana Rita Mexia da Costa, 11º SH 154
  • 155. À Genicarla… amizade do outro lado do oceano Sinto a incerteza como uma constante na minha vida. Enfrento diariamente uma luta que não sei quando irá terminar, uma luta entre o coração e a razão. Por um lado, o meu coração fala baixinho e eu sinto uma força imensa para correr o mundo, atravessar o oceano que nos separa e, por fim, poder encontrar-te, abraçar-te e dizer o quanto és importante na minha vida. Quero falar contigo a olhar-te nos olhos, quero conhecer o meu sobrinho que nasceu ontem, quero adormecer num sono profundo e não mais acordar, pois em sonhos nós iremos poder estar juntas, e a nossa amizade nunca morrerá. Mas, por outro lado, vem a razão e, esta fala mais alto, mostra-me a realidade em que vivo, da qual eu não posso fugir para viver num conto de fadas. Não posso deixar o meu país, a escola, os amigos, a família e partir para Brasília só para viver um sonho. Será que pela nossa amizade eu devo deixar tudo para trás? Tenho medo de partir para um mundo desconhecido, mas acima de tudo desejo estar contigo, recomeçar uma vida nova aí no Brasil e ser muito feliz. A nossa amizade vai ser eterna!!! Ana Rita Amante Leal, 12º ano 155
  • 156. Nojo Sinto nojo...nojo deste ser, desta ânsia, deste saber tão ignorante.. Nojo de tudo o que é efémero, de tudo o que leva pouco e regista pouco... Nojo da ignorância desta gente que só sabe ver com os seus olhos e não com olhos de leão... que só sabe olhar realmente e não profundamente... É nojo que sinto...sim!! Nojo desta civilização que apenas se mostra delimitada e envolvida pela sua própria estupidez. O nojo é meu e de mim..sim..porque também sou humana! Também me deixo envolver pela estupidez desta nossa espécie que tão cega é do que é puro e vital. Cansa-me esta gente, cansa-me este desgosto, este calafrio...cansa-me a burrice, o ódio, a frustração... Sinto nojo...nojo de ti, de mim....nojo de nós!! Ana Patrícia Costa Pinto 12º ano 156
  • 157. Olhai Olhai para mim e dizei-me o que vedes… dizei-me o que sentis ao ver os meus olhos brilhantes fixados na vossa alma.. Dizei-me...sentis dor? Angústia? Raiva? Raiva por ver que sei que sois diferente do que aparentais ser? Talvez...talvez esse seja o motivo para não olhar para mim... Vós detestais que eu vos olhe… mas eu gosto de vos ver assim..tão estranho e confuso...tão ansioso e delimitado...e apenas pelo simples facto de eu vos olhar. Olhai... Vede o que sou! Ainda tenho tanto para vos dar... Olhai...olhai... vede o sorriso grande que tendes pela frente...vede o rosto belo e suave que permanecerá eternamente…vede o amor inconfundível que circula pelo sangue...pelo calor do corpo... Não...não é de mim que falo...falo de vós! Falo do vosso sorriso, do seu rosto belo e do vosso amor... ...pois só é possível tudo se tornar transparente se tornar a olhar para mim... Ana Patrícia Costa Pinto 12ºano 157
  • 158. O Herói do século XXI Tanto Luís de Camões como Fernando Pessoa, nas suas obras, têm um herói colectivo, o povo português, um povo cheio de virtudes que deu novos mundos ao mundo. Este foi o grande herói colectivo da História de Portugal. Os anos foram passando e as mentalidades evoluíram, mas com esta evolução surgiram novos hábitos e comportamentos. A violência, o individualismo e a criminalidade tornaram-se cada vez mais comuns nos nossos dias e já não podemos dizer que existam heróis, apesar de, ainda existirem pessoas dispostas a ajudar os outros. O herói do século XXI é alguém que esteja sempre disposto a ajudar os outros, que se preocupe com os conflitos existentes e pense em soluções para os resolver e que desenvolva um bom trabalho, a fim de alcançar os seus objectivos. Que tente fazer algo para mudar o mundo, fazendo com que este se torne mais justo. Actualmente já não existem heróis, mas ainda existem pessoas que arriscam a própria vida para ajudar os outros, como Jean Sasson, que foi para o Médio Oriente, onde formou uma Organização Não Governamental e evitou que várias mulheres fossem torturadas e mortas, por vezes arriscando a própria vida, uma vez que nessa zona do mundo os direitos das mulheres são violados e, só os homens lideram. Esta senhora publicou vários livros, onde faz duras críticas às regras que lá predominam e denúncia algumas das torturas a que assistiu. Apesar de não podermos dizer que existam heróis, existem pessoas que deveriam ser destacadas pelo seu notório trabalho para com as outras pessoas e para com o mundo. Ana Rita Amante Leal, 12º ano 158