Ferramentas para pensar e dialogar

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Objectivos
Descobrir, compreender e melhorar a forma como raciocinamos.
Identificar e nomear os vários “momentos” de um argumentos e raciocínio.
Fornecer ferramentas para pensar de forma crítica sobre qualquer assunto.
Ajudar o professor a moderar um diálogo em sala de aula.
Estrutura

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Ferramentas para pensar e dialogar

  1. 1. Ferramentas para Pensar e DialogarObjectivosDescobrir, compreender e melhorar a forma como raciocinamos.Identificar e nomear os vários “momentos” de um argumentos eraciocínio.Fornecer ferramentas para pensar de forma crítica sobre qualquerassunto.Ajudar o professor a moderar um diálogo em sala de aula.Estrutura1) Competências, estratégias e formas comuns de raciocínio eargumentação2) Erros comuns de raciocínio e argumentação3) Truques retóricos de persuasão e evasão4) Factores psicológicos que impedem o raciocínio claro.5) Ajudar a Pensar6) Regras do Diálogo Filosófico7) BibliografiaIntrodução
  2. 2. Desde 2006 que tenho vindo a trabalhar nas áreas do PensamentoCrítico (Curso de Pensamento Crítico para Jovens; Aplicação de Técnicasde Pensamento Crítico a Discussões Filosóficas Reais) e da FilosofiaPrática (Cafés Filosóficos, Filosofia com Crianças e Jovens, Oficinas deFilosofia, Debates Filosóficos, Acções de Formação e DiálogosSocráticos). Este pequeno glossário – Ferramentas para Pensar e Dialogar -surgiu da necessidade que senti em identificar e nomear muitas das estratégiase erros de raciocínio que os alunos (e não só) frequentemente cometem, assimcomo identificar e nomear certas dificuldades que quem tenta moderar umdiálogo filosófico com os seus alunos seguramente irá encontrar.Muitas entradas deste glossário são retiradas directamente desse meu“trabalho de campo”, isto é, são fruto de um contacto directo com as diferentesformas como diferentes pessoas raciocinam e argumentam. A grande maioriadessas entradas já se encontra referenciada e aprofundada em muitabibliografia especializada sobre o assunto (as iniciais no fim de cada entradaremetem para a sua fonte indicada na bibliografia), mas infelizmente poucodesse material se encontra disponível em Português.Todas as sugestões, críticas e correcções que os prezados leitores queiramenviar serão sempre bem-vindas.Aproveito para deixar aqui o meu agradecimento a todos os Filósofos (Jovens emenos Jovens) que através de inúmeras e riquíssimas discussões nos últimosanos me têm ajudado a percorrer os dificílimos caminhos do pensamentofilosófico.Ainda estamos muito no início!1) Formas comuns de raciocínio e argumentaçãoadvogado do diaboMétodo argumentativo em que se procura atacar da melhor forma possível umargumento, não porque se discorde desse argumento, mas para procurar torná-lo mais forte. Por este método testamos um argumento até ao limite,procuramos derrubá-lo, apesar de podermos concordar com ele.O pressuposto desta técnica argumentativa é que se um argumento aguentar oescrutínio de alguém que procura minuciosamente as suas fraquesas, então éprovável que seja um bom argumento.Quem usa esta técnica pode (injustamente) ser acusado de hipócrita, uma vezque aparentemente está a defender algo em que não acredita. No entanto, peloque atrás ficou dito, percebemos que essa crítica não é justificada.
  3. 3. No seu conhecido argumento céptico, “A dúvida metódica”, Descartes começoupor examinar todas as possíveis críticas dos cépticos ao seu argumentofundacionalista do conhecimento procurando antecipar essas mesmas críticase fortalecer dessa forma o seu argumento.[vídeo de alunos a fazerem de "advogado do diabo"]amostraElementos de um grupo cuja observação concreta serve de base parauma generalização.Para verificar se os grão de café de um determinado lote estão bons paraconsumir, retira-se uma amostra aleatória de grãos para análise. Em princípio aqualidade dessa pequena amostra é representativa da qualidade do lotecompleto.Por vezes a amostra pode não ser representativa do grupo, como acontecequando se quer sondar a opinião “dos portugueses” sobre determinado assuntotendo como base de observação uma amostra de cidadãos portuguesesadultos residentes em grandes cidades. Neste caso concreto, como há umasérie de pontos de vista e opiniões que não se vêm representadas na amostra(jovens residentes em aldeias, por exemplo) diz-se que a amostraé enviesada.O contrário de uma amostra enviesada é uma amostra representativa.(PW)ver também generalização; generalização abusivaanalogiaUma analogia consiste, basicamente, numa comparação entre duas relações.No entanto uma analogia é mais complexa que uma simples comparação.Numa analogia procura dar-se ênfase a algumas semelhanças entre o que écomparado com o objectivo de explicar ou clarificar o menos conhecido porsemelhança com o mais conhecido.O Dr. Antunes explicou-nos a infecção de um organismo recorrendo àanalogia de um exército invadindo um país.Por vezes as analogias não funcionam, ou seja não clarificam nem aprofundamo nosso conhecimento de algo, seja porque as duas coisas comparadas nãosão de facto semelhantes, seja porque se está a ocultar algumas diferençasimportantes.(PW)
  4. 4. ver também analogia, argumentar por; generalização; comparação;classificaçãoanalogia, argumentar por“Se olharmos à nossa volta encontramos enormes semelhanças entre omundo natural e o mundo criado pelo homem. Veja-se por exemplo o olhohumano (e de outras espécies) e a lente de uma câmara fotográfica, ou acomplexidade de uma colmeia e a de uma metrópole qualquer. Dado quenem a lente de uma câmara nem a organização de uma metrópolesurgiram por acaso mas, antes, foram resultado de uma operaçãointencional e inteligente de alguém, também o mundo natural foi oresultado de uma operação intencional e inteligente de alguém. Essealguém só pode ser Deus.”Uma analogia consiste numa semelhança entre duas relações. Uma analogiaé utilizada num argumento com base no pressuposto de que se umas coisassão parecidas em alguns aspectos, são provavelmente parecidas noutros.Porém, este pressuposto pode ser posto em causa.No argumento dado no primeiro exemplo – conhecido como o Argumento doDesign – uma aparente semelhança entre dois tipos de coisas – coisashumanas e coisas naturais – é tida como a prova de que essas duas coisastêm de ter origens semelhantes, neste caso uma “operação intencional einteligente de alguém. Esta premissa, aliada ao pressuposto de que só Deuspode ser esse ser intencional e inteligentecapaz de criar o mundo natural,leva à conclusão de que Deus tem de existir.Apesar de bastante utilizado – em variadíssimas formas – este argumentoparte de uma fraca analogia. Apesar de haver algumas semelhanças entre, porexemplo, um olho e uma câmara (ambos têm uma lente; ambos captam luz doexterior; etc.), existem inúmeros outros aspectos em que ambos são muitodiferentes (o olho faz parte de um organismo vivo, a lente faz parte de umamáquina; o olho teve a possibilidade de evoluir ao longo de milhões de anosnum processo explicado pela teoria da evolução das espécies, a lente não;etc.).Como o Argumento do Design depende de uma fraca analogia a sua conclusãoacerca das causas dos objectos naturais também tem de ser fraca (apesar depoder ser verdadeira!).Neste exemplo concreto temos à nossa disposição uma forte alternativa paraas semelhanças encontradas. Por ex. “o olho evoluiu por selecção natural, deum mecanismo muito simples de absorção de luz até aos olhos dos seres vivosactuais. Os seres humanos usaram esse olho, fruto dessa tecnologia natural,como modelo para construirem lentes.”
  5. 5. Assim, o Argumento do Design não é uma prova sólida da existência de Deusporque, em primeiro lugar acenta numa fraca analogia, e em segundo lugarporque existe uma explicação alternativa aceite consensualmente pelacomunidade científica, nomeadamente a teoria darwiniana que explica o designaparente dos organismos vivos através do “trabalho impessoal do ambientecombinado com a heriditariedade.”Para que um Argumento por Analogia tenha alguma força é necessário que aanalogia seja relevante em alguns aspectos importantes. E aqui o PensadorCrítico tem de estar atento ao contexto e às nuances de linguagem para ajuízardevidamente a relevância de uma analogia.“As sementes estão para a terra assim como os pensamentos estão paraa mente.”Qual o significado desta analogia?argumentoArgumentar é uma forma de persuasão racional. O objectivo de um argumentoé convencer os outros a acreditar em algo ou a fazer algo. Em filosofia éatravés de argumentos que procuramos levar os outros a aceitar a verdade deuma proposição, e fazemos isso apresentando razões ou provas em seufavor.Na sua forma mais básica um argumento é composto por uma conclusão (oque se pretende provar) e por uma ou mais razões para se acreditar naconclusão. O facto de uma frase apresentar uma conclusão é essencial paraser considerada um argumento: Sem conclusão não há argumento. Já asrazões são essenciais para justificar e sustentar aquilo que se diz. Semrazões uma frase é uma mera asserção.As conclusões de um argumento podem ser de diversa ordem:recomendações; reconhecimento de um facto; aprovação de um valor; etc.(AT)ver também conclusão; razões; argumento ampliativo; porquê; justificaçãoargumento ampliativoQuando num argumento se conclui mais que a informação contida nas suaspremissas (razões) diz-se que estamos perante um argumento ampliativo, umavez que amplia os alcance das nossas crenças.(SB)asserção
  6. 6. “O Pensamento Crítico melhora os nossos desempenhos cognitivos.”Esta frase é uma asserção uma vez que revela uma crença não fundamentada.Não foi dada qualquer razão ou prova para a sustentar.Enquanto o autor não apresentar um argumento, ou provas, de que aquilo quediz é verdadeiro não temos qualquer motivo para acreditar nele, a menos que oautor seja uma autoridade comprovada na matéria (e mesmo aí podemossempre pedir justificações para as suas asserções).No entanto seria desnecessário pedir justificações para todas as asserçõescom que nos deparamos (seria uma espécie de pedantismo fazê-lo) uma vezque muitas vezes partilhamos pressupostos essenciais com o autor o que tornaessa justificação desnecessária. Apenas temos de nos prevenir quanto àquelasasserções que suspeitamos não estarem devidamente justificadas e que, comotal, podem conduzir-nos a conclusões com as quais não temos de concordar.(NW)bivalência, lei daLei básica da lógica clássica que nos diz que qualquer proposição ou éverdadeira ou é falsa.“Há exactamente dois valores de verdade,verdade e falsidade,e, paraqualquer frase (simples ou complexa) S de L, ou S tem o valor deverdade verdade, ou S tem o valor de verdadefalsidade (mas não ambos).(JB & DM)classificação / categorizaçãoPor classificar entendemos distribuir por classes.Existem dois tipos de classificações que representam duas operaçõescognitivas distintas:1. a divisão dos elementos de um grupo grande por subgrupos maispequenos: Os meus livros estão classificados por temas: filosofia,história, literatura e ciência.2. a colocação de algum elemento num grupo de elementos comcaracterísticas semelhantes: A Crítica da Razão Pura do Kant deve estar nasecção de Filosofia.Apesar de semelhantes há uma importante diferença entre estas duas formasde classificar. No primeiro tipo de classificação organizou-se um determinadogrupo de coisas dividindo-o em partes. Ou seja, após uma verificação doselementos particulares de um grupo maior (o grupo dos meus livros) decidiu-
  7. 7. se em que subgrupos estes deveriam ser divididos(filosofia, história, literatura e ciência).Para Phil Washburn (PW 2010) este é o “primeiro passo de uma classificação:dividir grupos grandes em grupos mais pequenos baseado em determinadascaracterísticas.” O segundo passo será então identificar um elemento particulardo grupo – a obra A Crítica da Razão Pura - e colocá-lo num subgrupoapropriado.Ao primeiro sentido de classificaçãochamamos classificação de grupos e aosegundo classificação de indivíduos.Quando classificamos algo ou alguém de forma qualitativa (distinguimos omelhor do pior) estamos a atribuir-lhe uma categoria, estamos portanto acategorizar.Este é o melhor dos livros de Kant.(PW)ver também amostra; estereótipo; generalização; analogia; critério; padrãocompanheiros na culpa“Aqueles que defendem que o boxe profissional deve ser abolido, pois éum desporto perigoso que pode causar ferimentos graves ou até mesmona morte dos seus praticantes, esquecem-se que, por essa ordem deideias, outros desportos como o automobilismo, o rugby, o karate e oparaquedismo também deviam ser abolidos.Ao não defenderem a proibição destes desportos, aqueles que defendema proibição do boxe não estão a ser consistentes e, como tal, nãodevemos levar a sérios os seus argumentos.”Ao procurar demonstrar que o caso em questão não é único procura-seenfraquecer o argumento revelando uma possível inconsistência por parte doseu autor. Ou seja, procura-se mostrar que os princípios que o autor usa numcaso não são tidos em consideração noutro(s) caso eventualmentesemelhantes.O autor do argumento tem aqui duas alternativas para evitar a acusação deinconsistência:i) concorda que esses princípios devem ser tidos em consideração nos casosapresentados e aceita as consequências disso mesmo. Assim, no exemplodado, aceita que “outros desportos como o automobilismo, o rugby, o karaté eo paraquedismo também deviam ser abolidos” –engolir a bala).ou
  8. 8. ii) não considera que os exemplos aduzidos são, de forma relevante,semelhantes ao caso a que o seu argumento se reporta. Assim, no exemplo doboxe pode afirmar que o boxe é o único desporto em que o principal objectivo écolocar o adversário inconsciente.Usar esta técnica de argumentação obriga o autor a explicitar aquilo queconsidera único e essencial no seu argumento e é uma técnica legítima dePensamento Crítico. Já usá-la no sentido de desculpar algum tipo decomportamento na forma de “toda a gente o faz” é uma formaderacionalização que não deve ter lugar num debate saudável de ideias.(NW)comparar / contrastarAntes de votar quero comparar bem as ideias e os discursos de cada umdos candidatos.Comparar é uma das formas mais básicas de raciocínio e consiste, muitosimplesmente, em encontrar semelhanças ou diferenças entre coisas.Até mesmo os animais recorrem a esta competência para se defenderem deuma ameaça ou para escolherem a mais vantajosa de duas situações.No entanto os seres humanos são capazes de efectuar diferentes tipos decomparações. Por exemplo, contrastar é um tipo de comparação onde apenasse indicam as diferenças (e não as semelhanças) entre coisas.“O contraste entre os dois programas de governo é típico de dois partidosque defendem ideologias tão distintas.”Esta é uma forma de comparação mais específica uma vez que ao contrastarestamos apenas concentrados nas diferenças e não nas semelhanças.[vídeo de comparação / contraste num Diálogo Filosófico com jovens](PW)ver também analogia; modeloconceitoUm conceito é uma ideia geral que contêm em si um grupo de coisas ou dereferentes a um tipo de coisas.“O elefante é herbívoro.” O conceito de herbívoro é relativamente pacífico:animal que se alimenta de vegetais. No entanto grande parte das discussõesfilosóficas mais interessantes surgem do desacordo relativamente a alguns
  9. 9. conceitos não tão pacíficos: o que é um ser humano?; a verdade?; aliberdade?; a beleza?; etc.Actualmente distingue-se conceito de ideia para se evitar associações comimagens mentais subjectivas que podem nada ter a ver com a posse de umconceito.(PW; SB)conceito aberto/conceito fechadoUm conceito é aberto se não houver um conjunto de características fixas,ou condições necessárias e suficientes, a partir das quais ele possa serdefinido, isto é, a partir das quais se torna possível encontrar a sua extensão.Caso seja possível apresentar um conjunto de características fixas capazes deidentificar os objectos que fazem parte da extensão de um dado conceito,então esse conceito é fechado. Isto significa que um conceito aberto éreajustável, podendo ser corrigido de modo a alargar o seu uso a casoscompletamente novos. Esta noção surgiu com o filósofo austríaco Wittgenstein,que deu como exemplo o conceito de jogo. Segundo Wittgenstein, não épossível identificar um conjunto fixo de características comuns a todos osjogos, além de que podem ser inventados jogos com característicascompletamente diferentes dos que já existem. O mesmo se passa, segundo ofilósofo americano Morris Weitz (1916-87), com o conceito de arte, até porquea arte é sempre criativa e inovadora. Por isso, a arte também não pode serdefinida em termos de condições necessárias e suficientes.(AA)conceito operacionalA introdução de um novo conceito numa reflexão filosófica permite:Problematizar uma posição – perante a proposição de que a “certeza é igualà verdade”, o conceito de “erro” ajuda a pôr essa ideia em causa;Unir dois conceitos – para justificar a ideia que “opinião e verdade são amesma coisa”, o conceito de “crença” pode servir para unir esses doisconceitos num conceito mais abrangente:“Opinião e verdade são crenças”;Resolver um impasse – o conceito de “verdade pessoal” pode ajudar aultrapassar a dicotomia entre a crença numa “verdade absoluta” e a crença na“inexistência de verdade”.Distinguir dois conceitos – a noção de “raciocínio” pode ajudar a distinguir osconceitos de “conhecimento” e “sentimento”.
  10. 10. Clarificar uma ambiguidade – o conceito de “intencionalidade” pode ajudar adistinguir os sentidos diferentes da proposição “estava consciente do quefazia”.Aprofundar um conceito - a noção de “conhecimento intuitivo” podeaprofundar a questão dos diferentes tipos de conhecimento.Formular uma definição – qualquerdefinição (não circular) precisa de umconceito novo que explique o sentido do que se quer definir.(OB, 2006)conceptualizaçãoA capacidade que os seres humanos possuem de integrar e organizar asinformações que lhes chegam pelos sentidos, passando dessa forma do nívelperceptual, que partilhamos com os animais, para o nível conceptual único nosseres humanos.Existem diversas formas de se fazer sair os conceitos de uma discussão:Que nome se dá a uma pessoa que pensa assim?; Que conceitofundamental subjaz a esse argumento?; Qual o oposto desse conceito?;Que argumento defenderia quem preferisse esse valor/conceito?; etc.Os conceitos são os instrumentos de investigação filosófica por excelência.conclusãoA ideia defendida num argumento e que é apoiada pelas razões. Semconclusão não há argumento.condição necessária / condição suficienteUma condição necessária é uma condição ou acontecimento que tem de estarpresenteantes de uma outra condição ou acontecimento acontecer. Porexemplo, para haver fogo é necessário haver oxigénio.Já a presença de uma condição suficiente por si só garante a ocorrência deoutra qualquer condição ou acontecimento. Por exemplo, para a água congelaré suficiente que a sua temperatura baixe dos 0º.Repare-se na proposição “Se fervermos a água os germes que ela contémmorrerão.” A este tipo de proposições do género “se p então q” dá-se o nomede condicional. Se olharmos com mais atenção para as condicionaiscompreenderemos melhor a questão das condições necessárias e suficientes.No exemplo em cima sabemos que se a água foi fervida, então os germesmorreram. Para matar os germes é suficiente ferver a água. Mas será
  11. 11. necessário? Tentemos virar a proposição ao contrário. Se soubermos que osgermes estão mortos, sabemos automáticamente que a água foi fervida?Óbviamente que não. Os germes podem ter sido mortos de outra formaqualquer (adicionando cloro, por exemplo). Como tal ferver a água é umacondição que não tem de estar presente para que os germes morram, ouseja, não é uma condição necessária.Segundo Phill Washburn “é mais fácil encontrar condições necessárias paraum acontecimento que condições suficientes”, isto porque normalmente umacontecimento tem várias causas possíveis, ou seja vários factores podemcontribuir para um mesmo acontecimento.condição necessária e suficienteUma condição necessária e suficiente para ser F garante a coincidência entre Fe essa condição. Por exemplo, uma condição necessária e suficiente para serágua é ser H2O. Isto significa que tudo o que for H2O é água, e tudo o que forágua é H2O. Exprime-se muitas vezes uma condição necessária e suficienteusando umabicondicional; por exemplo: Sócrates era ateniense se, e só se,nasceu em Atenas. Encontrar condições necessárias e suficientes é o objectivoda definição explícita e parte integrante de uma compreensão aprofundada dascoisas.(AA)ver também definição explícitaconsistência / inconsistênciaDuas, ou mais, proposições são inconsistentes se não puderem ser todasverdadeiras ao mesmo tempo, são consistentes se puderem ser todasverdadeiras ao mesmo tempo.ver também inconsistência de crençascontra-exemplos- Todos os taxistas são racistas.- Mas, o senhor Silva é taxista e não é racista.Um contra-exemplo é um caso particular que refuta uma generalização.Se o contra-exemplo for verdadeiro só resta ao autor do argumento recusar asua generalização ou retirar o “Todos” do seu argumento colocando em suavez “alguns”, ou “quase todos”, o que enfraquece bastante o argumento, mastambém o torna bastante mais dificil de ser refutado.
  12. 12. Nalguns casos o “todos” não está explicíto no argumento mas sim implícito.Como na frase “Os taxistas são racistas”.Nesses casos um contra-exemplo obriga o autor do argumento explícitar se serefere a “todos os taxistas”, a “alguns taxistas”, à “maior parte dos taxistas”, etc.crençaTer uma crença é acreditar que determinadaproposição é verdadeira. Emfilosofia a questão das crenças é problematizada de diversas maneiras:queremos saber se há graus de crenças e quais são esses graus; se oirracional desempenha um factor importante nas nossas crenças; se as crençastêm de estar associadas à posse de capacidades conceptuais e linguísticas(“as crianças e os animais possuem crenças?”).Aqui interessa-nos sobretudo a primeira questão relativa aos graus de crenças.Para efeitos práticos vamos assumir que da mesma forma que os desejos nossurgem em graus (intenso, moderado, pequeno, nenhum), também podemosacreditar em algo com muita força, de forma moderada ou ligeira. Por exemplo,acredito com enorme segurança que amanhã será Domingo, pois hoje éSábado. Também acredito que vou conseguir terminar de escrever estaentrada sobre crenças ainda hoje. No entanto a electricidade tem faltadoalgumas vezes nos últimos dias aqui na zona, e se isso acontecer agora éprovável que só termine este trabalho amanhã, Domingo. Lembro-me de tercomido alheira a última vez que fui jantar fora, mas também posso ter comidooutra coisa qualquer, não tenho bem a certeza.O que estes exemplos mostram é que as nossas crenças têm graus e, comotal, é natural que tenhamos diferentes palavras para falar desses diferentesgraus de crenças. Assim, dizemos que a nossa crença é possível quando háuma possíbilidade de vir a acontecer e ainda não decidimos em que acreditar.Já uma crença provável é aquela em que estamos mais inclinados a acreditarpois há uma maior probabilidade que aconteça. Existem duas forma deaferirmos a probabilidade de uma crença. Podemos pensar em situaçõespassadas e lembrar-nos com que frequência aquilo em que acreditamosaconteceu. Por exemplo, sabemos que das últimas 8 vezes que fomos fazermergulho viemos para casa com uma dores de ouvidos. Dessa formaacreditamos que é bastante provável que isso volte a acontecer quando formosmergulhar outra vez. Outra forma de decidir se algo é provável é pensando emtodas as possibilidades que temos pela frente e calcular a percentagem deacontecer aquilo em que estamos pensar. Qual a probabilidade de sermosatingidos por um tsunami quando formos hoje à tarde dar um passeio junto aomar?
  13. 13. O termo plausível tem um sentido muito próximo de possível, no entanto énormalmente utilizado de forma diferente. Falámos de possibilidade quandonos referimos a acções ou eventos, como em: “É possível que hoje chova”.Quando não nos referimos ao evento em si mas ao que alguém diz ou acreditasobre esse evento usamos o termo plausibilidade: “A Joana acreditava que iachover. A sua crença era bastante plausível pois o céu estava, de facto,carregado de nuvens. Mas acabou por abrir o sol.”Quando algo nos leva a adoptar determinada crença dizemos queé convincente. Podemos deixar-nos convencer por um argumento, por umdiscurso, por provas, por uma experiência, por uma observação, etc.Temos certeza numa crença quando a sentimos completamente segura, i.e.,quando não nos deixa qualquer dúvida. Aqui é importante distinguir uma crençaem que temos certeza de uma crença verdadeira. A certeza é um estadomental. Podemos ter a certeza de algo e, mesmo assim, estar errados. Pense-se nos nossos antepassados anteriores a Copérnico e Galileu que tinhama certeza que era o sol que rodava em torno da terra, e no entanto estavamerrados.Muitas vezes encaramos aquilo que nos querem fazer acreditar com uma certaatitude de desconfiança. Sentimo-nos inclinados a duvidar do que nos dizem.Nessas alturas dizemos que estamos cépticos e a essa nossa atitude damos onome de cepticismo. Outras vezes, porém, sentimo-nos confiantes a acreditarem alguma coisa, mesmo sem termos boas razões para o fazer ou, pior ainda,apesar de termos boas razões para não o fazer. Estamos aserdogmáticos sempre que possuimos uma ou mais crenças (dogmas) semas questionarmos racionalmente.(PW; SB)critérioA qualidade ou característica de algo que nos leva a classificá-lo dedeterminada maneira.Um critério pode ser problemático de duas formas diferentes. Podemos acharque determinada pessoa ou objecto não atinge os critérios estipulados. Ouentão podemos não concordar quanto aos critérios adequados para classificardeterminada coisa.Para o senhor Lopes um quadro ou uma escultura é uma obra de arte sefor apresentado num museu ou numa galeria de arte.Qual o critério do senhor Lopes para decidir se algo é uma obra de arte?
  14. 14. Concorda com o senhor Lopes? Se não concorda, que tipo de desacordo éesse?ver também classificação; padrão / princípiodefiniçãoUma definição é uma explicação do significado de uma palavra. Num sentidomais lato podemos ainda dizer que a palavra definição exemplifica algo quequeremos realçar, como na expressão “Leonardo Da Vinci define agenialidade”.Por vezes acontece que num argumento ou discussão sejamos confrontadoscom a necessidade de explicarmos o significado de alguns dos seus termos e éaí que surge a necessidade de uma definição. Dependendo daquilo quequeremos definir e do objectivo que pretendemos atingir com essa definiçãotemos à nossa disposição diferentes tipos de definições:definição de dicionárioRecorremos a uma definição de dicionárioquando queremos simplesmentecompreender o que outras pessoas nos querem dizer. Essa estratégia tem, noentanto, algumas limitações. As definições de dicionário são frequentementedemasiado vagas, outras vezes são demasiado restritivas, outras ainda nãonos dizem (e bem) o que deveríamos querer dizer com determinadaexpressão. Se o que queremos é problematizarfilosóficamente um conceito ouuma proposição não é para um dicionário que nos devemos virar.Além disso, este tipo de definições socorre-se frequentemente de sinónimos, oque não nos ajuda nada quando os termos sinónimos utilizados são tão vagosou imprecisos quanto o termo a definir. Por exemplo, se definirmos “verdade”como “realidade” (Dicionário da Língua Portuguesa, Porto Editora, 3ªEdição), estamos a usar um termo (“realidade”) filosoficamente tão pouco claroou específico quanto o termo “verdade”, e que precisa de ser ainda bastanteesmiuçado antes de o aceitarmos na nossa definição.definição operacional (ou estipulativa)Se o nosso objectivo é facilitar algum consenso e evitar ambiguidades no usode um termo numa discussão então nessa altura devemos procurar explicitaros critérios de uso desse termo através de uma definição operacional onde“um termo é definido através da especificação de certos testes ouprocedimentos que determinam se a palavra se aplica ou não”. Como quandodefinimos “bom aluno” como “aqueles alunos que terminarem o ano com umamédia superior a 16 valores”;definição de precisão
  15. 15. Numa definição de precisão o objectivo é tornar um termo mais preciso. Issopode ser necessário quer quando introduzimos um termo novo (edesconhecido) num argumento, quer quando estamos perante um termodemasiado vago. Ao tornarmos um termo mais preciso devemosevidentemente evitar o uso de termos abstractos, vagos e gerais.Ao introduzirmos um termo novo numa discussão podemos estipular a formacomo esse termo deverá ser utilizado. Neste caso estamos peranteuma definição estipulativa;definição essencialistaTalvez o tipo de definição mais problemática e interessante a nível filosóficoseja a definição essencialista. Precisamos de uma definição essencialistaquando o nosso objectivo é encontrar a característica comum que une oconjunto de coisas às quais uma palavra se aplica. O que une as aves, afinal, éo facto de terem penas. Podemos, portanto, definir aves comoanimais compenas.” Por outras palavras, numa definição essencialista procuramos aessência de X, ou seja aquilo que o define enquanto X.Uma boa definição essencialista (definiens) é aquela que não é demasiadoabrangente (não inclui mais que as coisas específicas queodefiniendum abrange), nem demasiado restritiva (não inclui menos do que ascoisas específicas que o definiendum abrange).O amor é uma emoção excitante positiva. Esta é uma definição de amordemasiado abrangente pois há muitas outras emoções excitantes positivasalém do amor. Já O amor é o sentimento que une duas pessoas nocasamento é demasiado restritiva pois há muitas outras formas de amor(amizade, amor filial, amor pelos animais, pela vida…)Preste atenção à seguinte definição: O Homem é o animal que fala.Este é um tipo de definição conhecida pordefinição pelo género próximo epela diferença específica. Sendo que animal é o géneropróximo dotermo Homem (uma categoria relevante mas muito abrangente) e oatributo que fala é a diferença específica, ou seja, o que o homem tem quesupostamente o distingue de tudo o que pertence ao género próximo, nestecaso, de todos os restantes animais.Esta definição parece-lhe demasiado abrangente ou restritiva?ver também definição circular; definiendum; definiens, falácia da definiçãopersuasiva, definição explícita, definição explícita.definição implícita
  16. 16. Uma maneira de definir algo sem recorrer a condições necessárias esuficientes. Por exemplo, para definir a cor verde basta apresentar váriosobjectos verdes; e podemos compreender o que é a melancolia lendo umromance que descreve uma personagem melancólica, apesar de no romancenunca se dizer explicitamente o que é a melancolia. Há dois tipos de definiçõesimplícitas: as ostensivas e as contextuais. Nas ostensivas apresentam-secasos que exemplificam a propriedade que se quer definir (como no caso dacor). Nas contextuais (como no caso do romance) apresentam-se várioscontextos nos quais se usa o termo a definir. É um erro tentador pensar quedesconhecemos algo se não o soubermos definir explicitamente; na maiorparte das vezes, as definições implícitas são perfeitamente adequadas.Contudo, faz parte do estudo sistemático em qualquer área, seja na filosofia ouna ciência, conseguir definir explicitamente os conceitos mais importantes ecentrais da área em causa. Do modo como Platão descreve Sócrates, esteparecia particularmente preocupado com o facto de os seus concidadãosserem incapazes de definir explicitamente alguns dos conceitos centrais dafilosofia, como os de justiça e conhecimento, por exemplo.(AA)definição explícitaUma maneira de definir algo por meio de condições necessárias e suficientes.Por exemplo: “o Homem é um animal racional”; ou: “um estudante transita deano se, e só se, tiver uma média igual ou superior a 50%”. Há três tipos dedefinições explícitas: extensionais, essencialistas e analíticas. As definiçõesextensionais limitam-se a procurar dizer o que as coisas são de facto, semprocurar dizer o que as coisas são necessariamente; dado que todos os sereshumanos são animais racionais, e que só os seres humanos são animaisracionais, esta definição é extensionalmente boa. Mas é uma má definiçãoessencialista, porque não é necessário que todos os animais racionais sejamseres humanos, nem que só os seres humanos sejam animais racionais. E éuma má definição analítica porque a expressão “ser humano” não significa“animal racional”. As definições explícitas contrastam com as definiçõesimplícitas. Em filosofia, procuram-se sobretudo definições essencialistas eanalíticas dos conceitos filosóficos centrais, como conhecimento, verdade, arte,etc(AA)definiendumO termo ou expressão que se pretende definir.definiensO termo ou expressão com que se define.
  17. 17. engolir a bala- Na minha opinião, em qualquer situação, o moralmente correcto a fazeré procurar levar a maior felicidade possível ao maior número de pessoaspossível.- Nesse caso aceitas que é moralmente correcto castigar, ou até mesmomatar, uma pessoa inocente desde que isso traga mais felicidade a maisdo que uma pessoa, por exemplo a duas!- Sim, aceito.- !?Diz-se que alguém “engole a bala” quando aceita as consequênciasaparentemente inaceitáveis (ou mesmo absurdas) a que o seu argumentoconduz.Esta manobra é extremamente desconcertante e deixa pouca margem para aargumentação racional subsequente.Esta manobra pode, por um lado, mostrar apenas má-fé (ou falta de fair-play)do autor do argumento que (julgámos ter refutado), ou pode simplesmentemostrar que ambos posssuímos pressupostos valorativos diametralmenteopostos.entimemaO António devia ser despedido porque roubou dinheiro públicoUm entimema é um argumento com um pressuposto tácito, sem o qual aconclusão não se seguiria, i.e., seria um nonsequitur.Se a frase em cima não tiver qualquer pressuposto, então não passa de umamera asserção. No entanto, se o autor pressupuser que“todas as pessoasque roubam dinheiros públicos devem ser despedidas”então ficamosperante uma dedução, isto é, perante um argumento válido, se bem que nãonecessáriamente sólido.estereótipoEstereótipos são generalizações pouco precisas, enganadoras e muitas vezes,tendenciosas. Ao generalizarmos acerca de um grupo baseando-nos apenasnuma amostra muito pequena e, como é comum, atribuindo-lhe característicasnegativas estamos a criar um estereótipo.(PW)ver também classificação / categorização; generalização
  18. 18. explicaçãoAo explicar algo estamos, normalmente, a responder a uma pergunta. Comoexistem vários tipos de perguntas existem vários tipos de explicações.Podemos explicar como se faz algo, por exemplo, como ir até Leiria pelaNacional 109. Podemos explicar o que é que alguém quis dizer, ou o que é queuma palavra significa. Podemos explicar o que aconteceu na semana passadaou vai acontecer na semana seguinte. Provavelmente a explicação maiscomum é aquela que procura responder à pergunta por quê, no sentido deporqual razão, ou por qual motivo? Por outras palavras explicar é,frequentemente, apresentar a causa de algo. (PW)Ou seja, no sentido mais geral, explicar é tornar algo mais compreensível, querseja indicando ummotivo, prevendo um acontecimento, contandouma história ou apresentando uma teoria.Num sentido mais estrito explicar poderá ser uma descrição das causas dealgo. Neste sentido estamos perante uma explicação causal.ver também explicação causal; motivoexplicação causalA linguagem que usamos para explicar a causa de algo é muitas vezessemelhante à que usamos para apresentar um argumento, como é o caso deconjunções e frases como porque, pois,portanto, como tal, é por isso que,etc.No entanto, apesar de recorrerem ao mesmo tipo delinguagem, argumentos e explicações causais são dois raciocíniosdiferentes. Aqui interessa-nos realçar essas diferenças uma vez que ambossão avaliados de maneiras diferentes.“Tirei boas notas porque estudei muito.”Aqui percebemos facilmente queestamos perante uma explicação causale não perante um argumento pois nãoestamos a tentar convencer o nosso interlocutor de que tiramos boas notas,mas antes a explicar por que é que isso aconteceu. Tirar boas notas foi umaconsequência de se ter estudado muito.a) “Napoleão morreu pois foi envenenado com arsénico”b) “Os dinossauros morreram porque um enorme meteorito colidiu com aTerra.”c) “Os governos devem limitar a produção de CO2 pois este prejudica acamada do ozono.”
  19. 19. Parece-nos bastante claro que em a) estamos perante uma explicação causal,pois o autor não nos apresenta uma razão para acreditarmos na morte deNapoleão, mas antes diz-nos o que causou a sua morte. O mesmo se passaem b), onde o autor está a avançar com uma explicação para a morte dosdinossauros e não nos está a tentar persuadir da sua morte.É exactamente este elemento de persusão (ausente nas explicações causais eessencial num argumento) que distingue um movimento do outro, comopodemos verificar em c). Aqui o autor procura convencer-nos da necessidadede se limitar a produção de CO2, apresentando-nos uma razão, os danoscausados pelo CO2 à camada do ozono.Um bom teste avançado por Robert Ennis para distinguirmos um argumento deuma explicação causal é o seguinte:Se o autor parece assumir que a consequência é verdade, então éprovável que estejamos perante uma explicação causal; se, por outrolado, o autor procura provar a consequência (neste caso, a conclusão),estamos provavelmente perante um argumento.Ou seja, podemos distinguir uma explicação causal de um argumento emtermos dos objectivos a que se propõem.Isto não quer dizer que as explicações causais não tenham importância para asanálises críticas dos argumentos. Muito frequentemente um argumentoapresentará uma ou mais explicações a apoiarem a sua conclusão. Nessescasos deveremos avaliar a explicação por forma verificar se apoia realmente aconclusão.(AF)experiência mental“Imaginemos que, como no filme Matrix, nos era dado a escolher entreviver uma vida cheia de prazer físico e mental, mas incoscientementeligados a uma máquina de realidade virtual, ou viver a nossa vida normal(real) cheia de incertezas, algumas alegrias mas também algumastristezas. Quanto de nós escolheriam ligar–se à máquina?”Uma experiência mental é o equivalente filosófico de uma experiência empírica.Trata-se de uma situação imaginária, frequentemente irreal, que tem a intençãode clarificar uma determinada posição ou marcar uma determinada posiçãoconceptual.Se, como na maioria dos casos a sua resposta à pergunta do exemplo acimafor não, isso sugere que valoriza outras coisas além do prazer físico e mental.Talvez valorize também a verdade, os sentimentos genuínos, o esforço para
  20. 20. conseguir algo, os sentimentos dos amigos e familiares, ou (porque não?) arealidade, e não se tenha apercebido disso até ter realizado esta experiênciamental.Não interessa que o exemplo aduzido nada tenha a ver com o mundo real, aideia de uma experiência mental é descobrir como é que nos posicionamosface a determinadas coisas, valores e ideias. Na experiência em cima oobjectivo não é o de saber se escolheriamos ou não viver ligados a umamáquina de realidade virtual, mas sim o de saber se valorizamos ou não oprazer acima de tudo o resto.[vídeo de uma experiência mental num Diálogo Filosófico com jovens]generalizaçãoUma generalização é uma asserção acerca de um grupo de coisas que tempor base o nosso conhecimento acerca de uma pequena parcela dessascoisas.Numa generalização procuramos alguma característica partilhada por muitositens particulares. Por exemplo todos os relógios indicam as horas, quer setrate de um relógio de sol ou de um moderno relógio digital.Nas nossas vidas estamos constantemente a fazer generalizações, pois nãosería possível tratar as diferentes coisas com que nos deparamos diariamente(objectos, animais, pessoas, situações, etc.) como se fossem coisas únicas eirrepetíveis.Por exemplo, sabemos que os nossos amigos nos vão receber bem quando osencontrarmos no café, por isso não temos de recear levar uma tareia a cadanovo encontro com eles. Quando de manhã rodamos a chave na igniçãoesperamos, sem grandes surpresas, que o carro irá pegar, como normalmenteacontece.Para algumas pessoas “todas as generalizações são estúpidas”, pelo quedefendem que não devemos nunca generalizar. No entanto para funcionarmosde todo, ou seja, para organizarmos minimamente as nossas relações com osoutros e com o mundo, precisamos constantemente de realizar generalizações.Apesar disso podemos, e devemos, ser muito cuidadosos com asgeneralizações que fazemos pois, como por vezes nos lembram algunscontra-exemplos aos casos anteriores, uma generalização nunca é 100% segura.Assim a nossa generalização “o carro vai pegar” pode por vezes deixar-nosapeados, assim como algumas reacções dos nossos amigos (e dos sereshumanos em geral) podem deixar-nos estarrecidos.Existem dois tipos de generalizações: ageneralização universal ea generalização limitada. Uma generalização universal é acerca de todos
  21. 21. os membros de um determinado grupo enquanto que umageneralizaçãolimitada é acerca de alguns membros de um determinado grupo.Assim, a asserção “todos os pássaros têm penas” é uma generalizaçãouniversal, uma vez que é acerca de todos os indivíduos da classe dospássaros. Já a asserção “a maioria dos pássaros voa” é uma generalizaçãolimitada pois é apenas acerca de uma parcela (mesmo que maioritária) dogrupo dos pássaros.Podemos ainda generalizar a partir de regras ou a partir de exemplos.Ao generalizar a partir de uma regra simplesmente deixamos de parte umacondição considerada supéflua dessa regra. Assim a regra “Se X tem asas e écastanho, então X consegue voar” pode ser tornada mais geral deixando cair acondição “X é castanho” produzindo a regra “Se X tem asas, então X conseguevoar.”Um exemplo clássico da generalização a partir de exemplos é oda inferência de que “todos os cisnes são brancos” baseada na observação dealguns seres que são cisnes e são brancos.Este tipo de generalização está intimamente ligado à nossa capacidade declassificação.ver também: amostra; estereótipo; classificação; analogia; critério, inferência,generalização abusiva.inferênciaUma inferência é uma relação entre proposições. Ao inferir estamos a decidiracreditar em alguma coisa com base noutra crença qualquer, ou seja, estamosa decidir que se uma proposição é verdadeira, outra proposição também éverdadeira. As inferências podem estar certas ou erradas. A lógica e aepistemologia clássica têm como objectivo compreender os diferentes tipos deinferências e encontrar os princípios que separem as boas das más inferências.(PW; SB)justificaçãoO termo justificação pode ser aplicado a duas situações distintas. Pode querersignificar que algo está correcto. “Tudo o que ele fez foi justificado. A razãoestava do seu lado.” Ou pode querer dizer que foram apresentadas razõespara algo, mesmo que não concordemos com essas razões. “Os nazisjustificaram o holocausto com a superioridade da raça ariana.”No que a um argumento diz respeito interessa-nos este segundo sentidode justificar:Apresentar razões que apoiem as nossas conclusões. Por outras
  22. 22. palavras, ao justificar um argumento estamos a explicar porque é que algumaacção, acontecimento ou crença (que apresentamos na conclusão) é correctoou deve ser valorizado.Nunca é demais sublinhar a importância da justificação quer no processo deapresentação das nossas ideias e argumentos, quer na crítica às ideias eargumentos dos outros. Se não formos capazes de justificar a nossa crítica nãotemos o direito de criticar.Existe uma diferença importante entre justificar juízos factuais e juízos de valor.Ao justificar um juízo de facto mostramos como esse juízo foi provado, querreferindo-nos à sua fonte, a uma autoridade fiável, ou a uma observaçãodirecta.Já justificar um juízo de valor implica explicar uma relação entre esse juízo eum padrão mais geral, ou seja uma medida que nos indica o que é bom, mau,certo errado, etc.Daí a dificuldade em justificar um juízo de valor. As pessoas muitas vezes nãoestão de acordo quanto aos padrões correctos para avaliar os juízos de valor.- “Concordo com a pena de morte pois é uma medida preventiva que dissuadefuturos criminosos.”- “Não estou de acordo. A pena de morte não tem justificação pois através delao governo está a fazer precisamente o que diz ser errado – matar”Ao contrário do que acontece num juízo de facto, aqui não é possível provarclaramente a verdade de um ou de outro argumento, simplesmente porquediferentes pessoas têm diferentes princípios morais.Que padrão, ou princípio moral, está por trás de cada um destes argumentos?(PW)ver também padrão / princípio, argumento, refutação / rejeiçãomodeloUm modelo é uma versão mais pequena e mais simples de algo.Recorremos a modelos para ilustrar as coisas maiores e mais complexas quequeremos perceber. Por exemplo, com uma bola de ténis e alguns berlindespodemos explicar a uma criança o funcionamento do sistema solar.Para Phill Washburn (PW) a diferença entre ummodelo e uma analogia é queos modelos podem ser construções completamente artificiais, como uma sériede riscos e onze pontos num cadernos de um treinador de futebol a
  23. 23. representarem um campo e as movimentações desejadas dos jogadores. Jánuma analogia recorremos normalmente a “tipos naturais, tais como crianças epapagaios, ou aprender e cultivar um jardim, ou entre uma sociedade e o corpohumano.”Também podemos ter um modelo de um bom trabalho, ou de um bomromance, ou de uma boa música. Nesse caso aqueles trabalhos, romances oumúsicas que se afastassem de uma forma relevante do nosso modelo seriammaus. Uma pessoa que admiramos pode também ser um modelo para nós.motivoAquilo que leva alguém a agir e que pode ser uma crença. um desejo ou umestado interior. Quando perguntamos o que levou uma pessoa a fazerdeterminada coisa queremos saber os seus motivos. Assim, perguntar pelosmotivos de uma acção é perguntar pelas suas causas.O que levou o toxicodependente a assaltar aquele carro foi uma vontadeenorme em satisfazer o seu vício por heroina.padrão / princípioUm padrão é a medida que alguém usa para avaliar alguém ou alguma coisa.Ao justificarmos um determinado juízo de valor estamos a expôr uma relaçãoentre esse nosso juízo de valor e um qualquer padrão daquilo queconsideramos ser bom ou mau, certo ou errado.A sociedade evoluiria muito mais se tivessemos políticos quecorporizassem os padrões de excelência e isenção na vida pública.Os nossos princípios morais são os nossos padrões. Por exemplo, alguémpode defender a pena de morte para crimes de sangue pois acredita que issoimpediria os criminosos de matar. Neste caso a pessoa defende a pena demorte com base em factos (a pretensa redução do número de vítimas), mastambém com base no seu padrão moral: o princípio moral de salvar vidas.No entanto outra pessoa pode opor-se à pena de morte defendendo que porprincípio matar é errado. Neste caso o princípio “matar é errado” é o seupadrão.A diferença entre um padrão, ou um princípio, e um critério é que recorremos aeste último paraclassificar algo e recorremos aos primeiros para avaliarqualitativamente algo.(PW)ver também justificação, critério, classificação / categorização
  24. 24. parecença familiarCertas coisas exemplificam um mesmo conceito, porque partilham certascaracterísticas, apesar de estas poderem ser diferentes de caso para caso.São tais semelhanças que permitem estabelecer uma relação de familiaridadeentre coisas que podem até ser muito diferentes entre si. Tal como um filhopode ter os olhos parecidos com os da mãe, o nariz com o do avô e a bocacom a do bisavô, mas não haver qualquer característica comum a todos.Esta ideia deve-se a Wittgenstein, que deu o exemplo do conceito de jogo, e éutilizada na filosofia da arte pelo filósofo Morris Weitz (1916-87).Segundo Weitz, o conceito de arte não pode ser definido, embora possamosreconhecer como arte obras completamente inovadoras, o que acontece devidoa haver parecenças familiares entre estas e alguma das obras anteriores.(AA)pensar o impensávelPerante a tese proposta, “o conhecimento liberta o homem”, pensar oimpensável consiste em analisar a tese oposta: “De que forma é que oconhecimento pode ser um entrave à liberdade do homem?”Arriscar uma hipótese e analisar as suas implicações e consequências mesmoque, dessa forma, estejamos a ir contra as nossas mais fortes convicções.Esta técnica é uma forma de procurar sair de impasses argumentativos, mastambém uma forma de ver todos os lados de uma questão e, dessa forma,aprofundar a nossa compreensão e procurar soluções criativas para algunsproblemas filosóficos que se nos deparam.Todos temos uma tendência natural para defender a todo o custo as nossasideias (o que por vezes nos leva a recorrer a técnicas pouco “críticas” comoa racionalização e o wishfulthinking), impedindo-nos de ouvirverdadeiramente o outro, de analisar os nossos próprios pressupostos e,consequentemente, problematizar verdadeiramente as nossas próprias ideias.A técnica de “pensar o impensável” consiste em, num contexto de umadiscussão filosófica qualquer e perante uma hipótese avançada, tentarencontrar as suas falhas – num processo semelhante ao do falcificacionismoproposto por Popper para a investigação científica. O próprio autor da hipótesenão está ali para defender a sua “criança”, mas antes deve entrar nesteprocesso de tentar provar que a sua hipótese está errada, descentrando-seassim o processo de investigação do autor do argumento (e do seu Ego) econcentrando-se apenas na ideia apresentada.
  25. 25. Esta forma de discussão é contrária à forma “natural” como discutimos, o quesó vem provar o caracter “anti-natural” da Filosofia.“David Lewis decidiu arriscar e defendeu que os mundos possíveis – porexemplo, um mundo em que eu me tornei num baterista e não num filósofo –são tão reais e concretos quanto o mundo actual. (…) Esta sua teorianormalmente olhares incrédulos por parte dos seus ouvintes (…); mas Lewismantém que esta imagem dá-nos o melhor enquandramento sobre osconceitos de necessidade e possibilidade.” (cit. in Colin McGinn, The makingof a philosopher,Scribner, 2003)(OB, 2005)porquê?Estamos rodeados de pessoas ansiosas por nos darem as suas opiniõesacerca de tudo e mais alguma coisa. No entanto escasseiam as pessoas comvontade de nos apresentar as razões que os levam a defender essas opiniões.Ainda em menor número são as pessoas com vontade de pensar sobre essasmesmas razões. É devido a essa escassez de justificações para as crenças eopiniões que a toda a hora nos tentam impingir que um bom pensador críticoanda sempre “armado” com uma pergunta que tem o condão de exigir essasjustificações: porquê?Estamos rodeados de muitos o quês, mas raramente de bons porquês?.Sem esses “porquês” não somos capazes de compreender o mundo à nossavolta, nem muito menos a compreensão que os outros têm do mundo à suavolta. Sem bons porquês as nossas crenças são simplesmente arbitrárias. É ajustificação que possibilita que aquilo a que chamamos conhecimento sedistinga de um mero palpite e que sejamos capazes de encontrar boas crençasno meio de uma imensidão de crenças falsas e absurdas.(TS & LV)pressupostoOs vírus informáticos podem ser considerados seres vivos, uma vez que,como os vírus comuns, são capazes de se replicar e são parasitários.Na tradição do Pensamento Crítico entende-se por pressuposto (assumption)uma premissa que não está explícita no argumento, mas que o autor toma porgarantida.O autor do primeiro argumento está a pressupor que os vírus comuns sãoseres vivos, o que não é de todo uma asserção aceite por toda a comunidadecientífica.
  26. 26. Esse pressuposto estava presente no argumento, não de forma explícita massim implícita. No entanto o autor necessita de acreditar nele para concluir,por analogia, que os vírus informáticos são seres vivos . Uma vez revelado opressuposto podemos então aferir a sua verdade ou falsidade e, dessa forma,avaliar a força da analogia entre os vírus informáticos e os vírus comuns. Estetipo de argumentos (com uma premissa escondida) são conhecidospor entimemas.Existem dois tipos de pressupostos que nos podem surgir num argumento e éimportante que sejamos capazes de distinguir um do outro pois a forma comoos avaliamos é diferente. Assim num argumento podemos ter pressupostosfactuais (em que o autor pressupõe que algo acontece, aconteceu ouacontecerá) epressupostos valorativos (em que o autor pressupõedeterminados valores dos quais depende a conclusão do argumento.O cérebro das mulheres é em média mais pequeno que o dos homens,como tal as mulheres são menos inteligentes que os homens.Qual o pressuposto deste argumento?Trata-se de um pressuposto valorativo ou factual?problematizaçãoO ser humano é verdadeiramente livre de agir como quer?Problematizar é a capacidade para desenvolver e aprofundar problemas.Esta capacidade está intimamente ligada à nossa capacidade deconceptualizar, uma vez que, para aprofundar ou desenvolver um problematemos necessariamente de utilizar novos conceitos.Desenvolver e aprofundar filosoficamente o problema exemplificado é procurarsaber que conceitos é que lhe podem estar associados e perceber as suasimplicações:Posso ser consciente dos meus desejos?(consciência)Estarei condicionado a ter determinados desejos? (determinismo)A vontade é capaz de contrariar um desejo? (livre-arbítrio; vontade livre)Outra forma de problematização é relacionando duas oumais proposições diferentes, quer articulando-as numa problemática (naforma de uma pergunta) quer resolvendo-as com um novo conceito (na formade uma nova proposição).
  27. 27. Por exemplo, ao tratar a questão da generosidade deparamo-nos com duasproposições disitintas: “A generosidade é algo inerente a todo o ser humano” e“ A generosidade só se manifesta em actos humanos com consequênciassociais.” Aqui a problematização pode adoptar a forma de uma pergunta queabra ainda mais a rede deconceitos a explorar, “A generosidade humana podeser anulada pela própria inserção involuntária do homem numa sociedade?”proposiçãoUma proposição é o pensamento que é expresso, suposto ou sugerido por umafrase declarativa. Só as frases declarativas exprimem valores de verdade, ouseja, só elas exprimem pensamentos que podem ser verdadeiros ou falsos.Uma pergunta, uma ordem ou uma exclamação podem exprimir umpensamento, mas não um pensamento susceptível de ser verdadeiro ou falso.A mesma proposição (pensamento) pode ser expresso por diferentes frases,como por exemplo: “Deus é a causa primeira de todo o universo” e “O Universotem como causa primeira Deus”.redução ao absurdoTentativa de refutar uma determinada hipótese retirando dessa hipótese umaconclusão que se considera absurda. Perante uma “redução ao absurdo” oautor da hipótese ou aceita que esta conduz a uma conclusão absurda e aceitaa refutação ou explica porque motivo não temos de retirar essa supostaconclusão absurda. O autor pode ainda “morder a bala”, ou seja, aceitar que asua conclusão leva a uma conclusão absurda mas mesmo assim aceitar essaconsequência.[vídeo de um argumento por "redução ao absurdo"]refutação/rejeiçãoRefutar um argumento, uma afirmação ou uma acusação é provar a suafalsidade. Não deve ser confundido com “rejeitar” algo, uma vez que umarefutação requer uma justificação através de razões (provas, contra-exemplos, etc.), enquanto a rejeição é uma mera negação que não requergrande esforço argumentativo.“Eu estava em total desacordo com a sua (Michael Dummett) visão antirealistado mundo. Mas em filosofia temos de ser capazes de refutar o argumento dosoutros antes de podermos afirmar que pisamos terra firme, por isso tive deexaminar os argumentos complexos e obscuros de Dummett por forma adescobrir o que havia de errado neles.” (cit. in Colin McGinn, The making of aphilosopher, Scribner, 2003)suposição
  28. 28. Vamos supor que o criminoso entrou em casa pela janela. Nesse caso éde esperar que encontremos provas de que forçou a entrada.Uma suposição é uma premissa em que não se acredita necessariamente.Tem um valor instrumental no sentido em que é utilizada num argumento parase tentar descobrir a verdade.No argumento em cima o autor convida-nos a seguir um raciocínio a partir dasuposição de que o criminoso entrou pela janela. A suposição é, neste caso,uma hipótese do que poderá ter acontecido. Por vezes, ao supormos umadeterminada premissa estamos a fazer deadvogados do diabo.suspensão do juízoEstratégia de investigação filosófica em que se suspende temporáriamenteuma determinada crença (afastamo-la dos nossos juízos) com o propósito deanalisar e aprofundar as várias possibilidades de um raciocínio. Por exemplo,mesmo que acreditemos que a verdade é relativa a cada cultura, pôr entreparêntsis esta crença com o objectivo de problematizar a questão.(OB, 2005)2) Erros comuns de raciocínio e argumentaçãoambiguidadeNão há conhecimento sem razão.Uma palavra ou proposição é ambígua quando tem mais de um sentidopossível.Em que sentido o autor usa o termo razão?Causa?; Verdade?; Consciência?; Raciocínio?O significado da proposição varia conforme o sentido do termo.Ao longo de um argumento o sentido de um termo não pode mudar, casocontrário o argumento “está arruinado”.Existem vários tipos de ambiguidade:ambiguidade lexical: “O Mito dos Deuses” - o que significa o termo mito?Lenda?; Superstição?
  29. 29. ambiguidade referencial: “A laranja caiu para baixo da cadeira e eu pegueinela” – pegou em quê?ambiguidade sintáctica: “Eram casas de bonecas pequenas.” – o que é queera pequeno?argumento circularAs diferenças que existem entre homens e mulheres não nascemconnosco,mas são o resultado de educações diferentes dadas aos rapazes e àsraparigas.Como tal, o comportamentos do seres humanos é algo que é ensinado enão algo inato.Um argumento circular é um argumento em que a conclusão aparece tambémnuma das razões.Não é um argumento lógicamente inválido, no entanto, não é de todo umargumento informativo.ausência de argumentoRepetições, reformulações e paráfrases não são argumentos, mas é comumpassarem por tal. Comecem a prestar atenção!definição circularCoragem é um sentimento que nos leva a fazer actos corajosos.A filosofia é aquilo que os filósofos fazem.Nos dois casos apresentados aquilo que se quer definir (definiendum) surgede alguma forma na definição (definiens). Ora, o objectivo de definirmos umconceito é, exactamente, explicar o seu significado e isto não é possível se,para percebermos esse significado temos já de perceber o conceito. Se jápercebemos o conceito não precisamos para nada de uma definição.estereótipoUma generalização acerca de um grupo baseada numa amostra demasiadopequena de indivíduos pertencentes a esse grupo. Os estereótipos são,normalmente, enganadores e imprecisos. No entanto, nem todas asgeneralizações são estereótipos. Um bom pensador crítico sabe distinguir asboas generalizações das más generalizações.
  30. 30. “Lançarmo-nos de um avião sem para-quedas é sempre muito perigoso” é,sem dúvida, uma boa generalização. Já a generalização “todos os taxistassão racistas”, é uma má generalização baseada num estereótipo muitocomum mas errado. Generalizar a partir de uma amostra de um punhado detaxistas racistas que conhecemos é uma generalização abusiva.ver também generalização abusivafaláciaUma falácia é um erro de raciocínio. Um raciocínio pode estar erradofundamentalmente de duas maneiras distintas. Pode pretender ser umraciocínio dedutivamente válido e não o ser. E neste caso estamos peranteuma falácia formal. Ou então pode cometer uma série de erros variados comosofrer de ambiguidade, ser demasiado vago, depender de premissasirrelevantes, etc. Neste caso estamos perante uma falácia informal.(SB)falácia etimológicaUma forma de falácia genética em que se defende que o significado actual deuma palavra deve estar ligado ao significado que essa palavra teve na suaorigem. Quem comete esta falácia desconhece que a lingua não é uma coisaestática e que o uso de uma palavra ao longo dos anos vai fazendo com queela adquira novos significados.falácia genéticaEm “A Genealogia da Moral” Nietzsche defende que certos valoresaltruístas como a piedade, a misericórdia e a caridade têm a sua origemem sentimentos de ódio e de culpa. Daqui conclui que esses valores nãotêm o valor moral que o cristianismo desde sempre lhes atribuiu.Este argumento é um exemplo de uma falácia genética em que se admite quepor algo ter origem em x deve ter características importantes em comumcom x.Podemos ver que este tipo de argumento é uma falácia se tivermos emconsideração alguns exemplos extremos:“As galinhas vêm dos ovos, mas daí não se segue que partam ao cair.”Reportando-nos ao argumento de Nietzsche, mesmo que estivesse certoquanto à origem dos valores altruístas daí não se segue que esses valores hojeem dia não devam ter importância moral.falácia do falso dilema
  31. 31. Temos duas formas de encarar o problema do excesso de pombos nasnossas cidades. Ou ignoramos o problema e deixamos que o número depombos continue a aumentar, com todas as consequências para a saúdepública que daí se segue.Ou, por outro lado, procuramos resolver o problema matando o maiornúmero possível de pombos, envenenando-os, disparando sobre eles oudestruindo os seus ninhos. Uma vez que só esta opção nos permitiráresolver todos os problemas que o excesso de pombos nos colocam,devemos optar por ela.Neste argumento o autor apresenta-nos apenas duas soluções para oproblema dos pombos, e depois opta por escolher uma delas. A que lhe pareceser a única que resolve o problema dos pombos: matar os pombos todos.No entanto o autor usou um truque argumentativo para nos convencer da suaconclusão. Apresentou-nos um falso dilema, ou seja ignorou outras soluçõesalternativas possíveis que poderiam resolver o problema de outra forma. Talvezuma dessas soluções alternativas nos convencesse a não apoiar a soluçãoapresentada pelo autor, ou seja, a não apoiar a matança indiscriminada depombos.Sem Deus a vida não tem sentido.Esta asserção é um falso dilema. Qual?(Rvd.BB)generalização abusivaOs Marroquinos são um povo chato. Na minha última viagem a Marrocosnem consegui descansar, sempre importunado por gente a tentar vendercoisas na rua e a oferecer-se para mostrar a cidade a troco de dinheiro.O autor deste argumento faz uma generalização abusiva pois conclui algoacerca de um grande número de pessoas (o Povo Marroquino) a partir deuma amostra pouco representativa de Marroquinos (os que o abordaram narua). Além disso ignorou um grande número de contra-exemplos que refutaria asua generalização (Marroquinos extremamente simpáticos e prestáveis, masque simplesmente não têm o hábito, ou a necessidade, de abordar turistas narua).Quem nos quisesse fazer acreditar numa generalização como esta teria aindade nos apresentar razões que provassem que ser Marroquino de alguma formafaz com que as pessoas sejam chatas ou, pelo menos, que há algo que todosos Marroquinos possuem que é desagradável e aborrece as sensibilidadesocidentais.
  32. 32. Alguns filósofos têm uma tendência natural para tentar fazer passar nos seusargumentos este tipo de generalizações. Este é uma espécie de truquesofístico pois uma vez aceite num argumento uma premissa “universal” (Todos,Nenhuns) como a do exemplo, é mais fácil fazer passar a conclusão final doargumento por uma dedução lógica, o que é uma mais valia óbvia de qualquerargumento, fazendo-o parecer mais forte do que realmente é.ver também amostra; generalizaçãoinconsistência de crenças1) Não existem verdades morais universais; os valores morais como oBem e o Mal são apenas uma expressão de valores de culturasparticulares.2) O holocausto foi a prova de que o homem é capaz de cometer grandesmales.Duas crenças pessoais são consistentes quando podem ser as duasverdadeiras. São inconsistentes quando apenas uma pode ser verdadeira.O homem que acredita ao mesmo tempo em 1 e 2 detém duas crençasincompatíveis entre si, ou seja, o seu sistema de crenças é, pelo menos nesteponto, inconsistente.Enquanto a crença 1) afirma que a moralidade é uma questão cultural a crença2) defende que o Holocausto foi um “mal”. Nesta segunda crença o significadode “mal” parece ir um pouco além do “mal cultural” ou “convencional”.É claro que é sempre possível defender que mesmo o Holocausto só foi um“mal” para determinadas culturas (para a nossa, por exemplo), mas quemdefende isso terá deengolir a bala e aceitar as consequências lógicas dessaposição. Terá de aceitar também, por exemplo, que os massacres no RuandadosTutsis pelas milícias Hutus só é um mal para a nossa cultura (e talvez paraa dos Tutsis) mas não é um mal para a cultura Hutu. Mas se os valores moraissão meras “expressões de valores culturais diferentes” não podemos afirmarque considerar o Holocausto um “mal” é de todo superior a defender outroHolocausto judeu. Pouca gente está disposta a aceitar estas consequências e,uma vez confrontadas com crenças inconsistentes temos três opções:- não nos preocuparmos de todo com a inconsistência das nossas crenças enão pensarmos mais nisso- desistir de uma das crenças- procurar reconciliá-las racionalmente(JB & JS)
  33. 33. ver também consistência / inconsistênciairrelevânciaMudar a direcção da discussão através da inserção de elementos que não serelacionam directamente com ela. Esta mudança de direcção pode serinadvertida, como quando se é incapaz de apreciar o essencial do tema emdiscussão, ou intencional, como quando um político se recusa a responderdirectamente às questões que lhe são colocadas ou quando se atacapessoalmente alguém numa discussão e não os seus argumentos.(NW)paralogismoNum argumento dá-se um paralogismo sempre que ocorre uma infracçãoinjustificada das regras básicas da lógica. Por exemplo alguém que defendaque “se uma verdade é válida para uma pessoa é válida para todas as outraspessoas” está a ir contra as leis da lógica. Se não justificar de alguma formacomo é que se dá essa estranha passagem do particular para o universal o seuargumento incorre num paralogismo.(OB, 2006)perda de unidade- A verdade existe?- Não existe a verdade mas sim várias verdades.O facto de existirem vários tipos de verdade (verdades científicas, verdades darazão, ou lógicas, verdades de senso comum, verdades pessoais, etc.) nãoimpede que exista algo que subsiste em todas elas. É esse vínculo que unevários exemplos de “verdades” que se procura numa definição mais geral deverdade.(OB, 2005)provincianismoForma de generalização pela qual concluimos que um determinadocomportamento é o correcto pois é assim que as pessoas à nossa volta secomportam.3) Truques retóricos de persuasão e evasãoalteração do sentidoNo decorrer de um argumento o autor transforma a proposição “Todos temosas nossas opiniões” em “Todos temos o direito a ter as nossas opiniões”.
  34. 34. Reformulação de uma proposição com um determinado sentido noutrasemelhante mas com um sentido diferente.Que alteração de sentido foi efectuada no exemplo dado?eulogístico / dislogísticoSe exprimimos algo de forma favorável estamos a usar o modo eulogístico.Já ao exprimirmos algo num tom mais desfavorável estamos a usar o mododislogístico.“Qual a diferença entre o luxo que o mundo condena e a prosperidade que omundo admira?”(JB & DM)exemplo injustificadoA fé é contrária à razão. Veja-se o caso da inquisição.Apresentação de um exemplo com a intenção de se justificar uma determinadaideia sem sequer se analisar a sua pertinência.falácia da definição persuasivaA democracia é o governo do povoléu.Neste exemplo o autor ao trocar a palavra “povo” por “povoléu” (que temconotações bem mais negativas) está nitidamente a tentar levar o seu auditórioa, de alguma forma, opor-se à democracia.Numa definição persuasiva o autor do argumento usa uma palavra com afinalidade de passar ao auditório uma determinada atitude que contamine oresto do argumento(PW; JB & DM)ver também definição; definição circular; definiendum; definiens; eulogístico /dislogísticojustificação subjectivista (falácia da)Eu quero/acredito na bondade humana, logo o Homem é bom.Argumento em que a única razão que procura justificar a verdade da conclusãoé a mera crença ou desejo que essa conclusão seja verdadeira.
  35. 35. Outros exemplos (mais camuflados desta falácia)Isso pode ser verdade para ti, mas não é para mim.Eu cresci para acreditar nisso.(DK)perguntas retóricasAlguém quererá viver num país governado pelo Engenheiro Sócrates?Quem acredita que somos realmente livres para fazer o que queremos?Quem é que duvida que o culpado é o João?Perguntas como estas são simplesmente substitutos para afirmação e nãopedidos de respostas. Colocar uma pergunta retórica é uma forma depersuasão, pois quem a coloca normalmente tenta convencer o auditório aaceitar o seu ponto de vista sobre o assunto.pseudo-profundidadeUsar deste truque retórico é proferir frases que parecem profundas mas nãosão com o intuito de enganar ou impressionar o auditório.Dentro de determinados contextos essas frases podem indicar-nospensamentos realmente profundos e levar-nos a interpretações bastanteinteressantes, mas uma vez que percebamos como é fácil escrever e dizercoisas que parecem inteligentes sem o serem de todo é menos provável quenos deixemos impressionar por elas:Não se pode acreditar em mais nada se não em Deus.O conhecimento é apenas outra forma de ignorância.O caminho para a virtude é o vício.A futilidade é uma forma de profundidade.Outra forma de parecer profundo é colocandoperguntas retóricas e deixá-laspairar sem tentar responder-lhes:Serão os homens realmente felizes?Será a vida um jogo sem sentido?Podemos alguma vez conhecer-nos a nós próprios?
  36. 36. A profundidade está em tentar responder a estas perguntas e não apenas emcolocá-las.(NW)vaguezaQuando for primeiro-ministro procurarei aumentar a eficiênciaempresarial deste país.Falta de precisão argumentativa. Uma asserção vaga pode ser usada poralguém que não se queira comprometer com alguma ideia ou curso de acção eque, para isso, se refugia na imprecisão das suas palavras.(NW)4) Factores psicológicos que impedem o raciocínio claro.bloqueio emocionalAlguém defende que “a razão impede-nos de ser livres” e é incapaz deresponder à pergunta“não serão os instintos uma prisão maior?”Atitude mental muito comum em que as fortes convicções de alguém oimpedem de problematizar e avaliar as suas próprias ideias.Podemos ajudar alguém a sair deste bloqueio: revelando as consequênciasdessa posição; sugerindo a defesa de uma posição oposta, no sentido dedescentrar o sujeito fazendo-o sair “de si mesmo” por forma a observar de forao problema; introduzindo um novo conceito operacional que clarifique oproblema; pedindo um exemplo e procurando analisar as suas consequências.(OB, 2006)certeza dogmáticaA ignorância é inimiga do conhecimento.A razão impede-nos de ser livres.Atitude argumentativa muito comum que julga incontestável e absolutamentesegura uma ideia particular sem que se procure justificar, compreender os seuspressupostos e consequências. Esta atitude dogmática é, a par daincertezaparalizante um dos factores comuns que impossibilitam toda aproblematização filosófica.No primeiro exemplo acima aduzido não é reconhecida a ignorância conscientecomo condição para adquirir conhecimento..O que podemos dizer do segundo exemplo?
  37. 37. (OB, 2006)dificuldade em problematizarAtitude mental em que face a uma ou mais proposições contraditórias evitamosou recusamos articulá-las entre si. Nessa altura oscilamos de forma não críticaentre uma e outra, ou simplesmente as deixamos conviver uma com a outrasem tentar resolver a contradição. Por exemplo as proposições “Os homenssão livres graças às leis” e “As leis impedem os homens de ser livres” sãocontraditórias (i.e., não podem ser ambas verdadeiras). No entanto podemostentarproblematizar a questão da liberdade e superar a contradição propondoa proposição “O homem perde uma liberdade individual e ganha uma liberdadecivil.”(OB, 2006)explicações alternativas (ignorância de)Está provado que quem nasceu numa família de grandes talentosmusicais tem muito mais probabilidades de também se tornar um talentomusical. Daqui podemos concluir que o talento musical é herdadogeneticamente.Esta é uma forma comum de wishful thinkingque ignora a plausibilidade deexplicações alternativas para as mesmas observações.incerteza paralizante- Existem verdades morais absolutas?- Não sei. Isso é algo que está para além da nossa capacidade deconhecimento.Face a uma dificuldade em chegar a uma conclusão a mente recusa-se aarriscar uma hipótese ou suposição no sentido de analisar ou articular umproblema com o objectivo de melhor o perceber e aprofundar.(OB, 2005)mito da resposta correctaQualquer pessoa razoável aceita que o mundo físico é mais dependente dedeterminadas leis conhecidas que o mundo social ou que o mundo da mentehumana. Existem, de facto, determinados conhecimentos acerca do mundofísico que as ciências empíricas podem explicar e prever de forma correcta.
  38. 38. A complexidade do mundo social e do comportamento humano parece opor-sea essa certeza determinista. A consciência e a liberdade humanas parecemopor-se a estas certezas científicas nas respostas correctas.Esta incerteza leva-nos muitas vezes, na ausência de provas irrefutáveis, apreferir explicações que se adequem, racionalizando aquilo que acreditamosser a resposta correctaDada esta complexidade e incerteza no comportamento social e humanofrequentemente as nossas respostas nestes campos serão apenas de naturezaprobabilística. Uma vez que se reconheça o carácter probabilístico deste tipode crenças estaremos muito mais conscientes da possibilidade de as nossaspróprias crenças estarem erradas.Na verdade se houvesse certeza acerca dos assuntos sociais e humanospouco debate haveria sobre eles uma vez que pessoas razoáveis tendem aconcordar sobre temas em que há certezas científicas. Mas, como bemsabemos, tal não é o caso no que toca aos assuntos sociais e humanos.Mesmo que não se chegue à “resposta correcta” acerca deste tipo decontrovérsias, é possível desenvolver e seguir métodos e técnicas de análisecrítica que nos ajudem a chegar à “melhor e mais razoável resposta possível”,dada a natureza do problema e à informação disponível.(B & K)precipitaçãoResposta emotiva e pouco reflectida, mais preocupada em apresentar umaresposta (qualquer resposta) que em aprofundar os diversos conceitos efactores que poderiam ajudar a responder à pergunta colocada. Umaprecipitação facilmente nos faz cair em confusões e contradições.(OB, 2006)racionalizaçãoAlguém encontra uma mala com dinheiro na rua e fica com ela. Justifica-sedizendo que “qualquer pessoa o faria e, além disso ir à polícia não adiantarianada.”Esta pessoa está certamente a esconder as verdadeiras razões porque ficoucom o dinheiro e a apresentar razões que se adequam às suas intenções.É muito comum as pessoas acreditarem nas razões que elas próprias inventampara acreditarem no que acreditam.(NW)
  39. 39. wishful thinkingA vida sem Deus não faria qualquer sentido, por isso Deus tem de existir.Os factores inatos não têm qualquer importância na desigualdade socialentre os sexos.A verdade existe. É bom acreditar que ela existe.Acreditar que apenas porque algo seria bom se fosse verdade então deverealmente ser verdade. Apesar de estranho, este tipo de raciocínio éextremamente comum. Isso pode dever-se a uma característica única dosseres humanos: a imaginação.A capacidade que os seres humanos têm de pensar o que ainda não existe éuma capacidade fantástica que nos trouxe até ao estado actual da civilização.Sem ela nada poderia evoluir ou aperfeiçoar-se a não ser por acidente. Aimaginação, sem dúvida alguma, é uma coisa boa. Mas também é através delaque se abre uma fenda por onde entra o wishful thinking. Queremos que ascoisas melhorem, queremos que sejam como nós desejamos e começamos ailudir-nos, a pensar que isso certamente acontecerá, ou já aconteceu. (NW)5) Ajudar a Pensar: ferramentas de moderação de diálogosAncoragem – De que forma é que isso responde à pergunta inicial? Ou Oque é que isso que disseste tem a ver com o que estávamos a discutir?Trazer a discussão de volta à pergunta (ou tarefa) inicial. Esta é uma forma detrabalhar a pertinência das intervenções dos alunos e também de perceberalgumas subtilezas nos seus raciocínios que nos podem ter escapado.Comparar/Contrastar – Comparar é uma das formas mais básicas deraciocínio e consiste, muito simplesmente, em encontrar semelhanças oudiferenças entre coisas. Até mesmo os animais recorrem a esta competênciapara se defenderem de uma ameaça ou para escolherem a mais vantajosa deduas situações.No entanto os seres humanos são capazes de efectuar diferentes tipos decomparações. Por exemplo, contrastar é um tipo de comparação onde apenasse indicam as diferenças (e não as semelhanças) entre coisas.Ao pedirmos aos alunos para comparar/contrastar alguma coisa (proposição,conceito, objecto, pergunta, etc.) estamos a procurar que, em primeiro lugarcompreendam bem cada uma das entidades em causa e, em segundo lugar,que encontrem os critérios que as distinguem claramente uma da outra (quantoà sua função, natureza, relação, origem, etc.).Conceito operativo –
  40. 40. Conceptualizar -Crítico imaginário – O que diria alguém que não concordasse contigo?Muitas vezes o diálogo chega a um ponto em que todos estão de acordo. Comeste consenso (falso ou verdadeiro) pára o pensamento. Para ajudar os alunosa relançarem o debate podemos perguntar-lhes o que diria alguém que nãoconcordasse com eles. Esta técnica também incentiva os alunos adesenvolverem este “diálogo interior” com elas próprias, sem precisarem de uminterlocutor real para desafiar as suas ideias. Por vezes os alunos concordamcom o “crítico imaginário” e mudam de opinião.Diálogo Filosófico – Neste Manual partimos do pressuposto de que a filosofiaé, num certo sentido, acessível a todas aqueles que já possuímos algumaexperiência de vida e um conjunto de valores pessoais adquiridos com essaexperiência. Mesmo que não o saibamos todos nós já temos um ponto de vistafilosófico sobre o mundo. Quando respondemos a perguntas tão comuns como“Deus existe?”, ou “Como é que sabes isso?”, ou ainda “Devo copiar no teste?”revelamos respectivamente um posicionamento metafísico, epistemológico eético latente, mesmo que embrionário.Se olharmos do ponto de vista dos resultados todos nós possuímos desdemuito jovens alguma metafísica, como também possuímos algumaepistemologia e alguma ética. Todos temos crenças e opiniões para dar sobretodos estes assuntos. Nesse sentido todos somos um pouco filósofos.Por outro lado, se olharmos do ponto de vista do processo de pensamento peloqual adquirimos essas crenças e manifestamos essas opiniões, muito poucosde nós se podem dizer filósofos uma vez que, de uma forma geral, não somosparticularmente rigorosos e conscientes de tudo aquilo que dá origem eenforma esses nossos posicionamentos filosóficos (metafísicos,epistemológicos e éticos) sobre nós e o mundo.A Filosofia e do Diálogo Filosófico procuram tornar mais exigente e conscienteo processo pelo qual adquirimos o nosso ponto de vista filosófico em conjuntocom outros seres humanos racionais como nós.A Filosofia, entendida como uma actividade crítica de investigação e discussãode ideias em torno de alguns problemas fundamentais, é algo que pode e deveser experimentado por toda a gente de qualquer idade e nível académico.Neste Manual propomos o Diálogo Filosófico como uma forma de os nossosalunos colaborarem entre si na resolução dos problemas filosóficos propostospelo programa da disciplina de Introdução à Filosofia e de, nesse processo,serem capazes de descobrir e valorizar aquilo que a filosofia pode trazer debom para as suas vidas: consciência crítica, autonomia e independência de
  41. 41. pensamento, confiança nas suas capacidades intelectuais e um sentido demaravilhamento perante os grandes mistérios da vida.Para isso propomos aos professores que comecem, no início de cada Capítulo,por ouvir realmente as ideias e os argumentos dos seus alunos sobre cadaproblema filosófico do programa. Propomos que ouçam e aceitem mesmoaquelas ideias e argumentos que lhe pareçam absurdos e não vejam nelesqualquer pertinência. Esta é a única forma de conseguir com que os alunosfaçam seus os problemas filosóficos propostos. Conseguimos isso quando osalunos sentem que têm algo de interessante e importante a dizer sobre osproblemas e que deles não se espera que simplesmente decorem e repitamteorias e argumentos de filósofos.Por outro lado, ao perceber a forma como os seus alunos tentam resolver osproblemas filosóficos que lhes surgem pela frente o professor fica com umaimagem muito precisa da “matéria-prima pensante” que tem pela frente e a qualterá de moldar e moldar-se a ela ao longo de todo o ano lectivo.Todos sabemos que damos mais valor a uma actividade depois de aprocurarmos fazer e fracassar ao tentar. Reconhecemos-lhe valor poisconstatamos as suas dificuldades e a perícia que é necessária para as superar,seja essa actividade jogar ténis, tocar piano, pintar um quadro, fazer umacamisa ou uns sapatos. Da mesma forma os nossos alunos darão muito maisvalor aos esforços dos filósofos que estudarem ao longo do ano depois deterem tentado percorrer por eles mesmos os passos de uma investigaçãofilosófica: a descoberta do problema e as primeiras tentativas (normalmentefalhadas) para o resolver.Para pensar de forma livre, autónoma e crítica é necessário que, em primeirolugar, os alunos tenham interesse em fazê-lo e esse é um dos maiores desafiosque se coloca a um professor de Filosofia que quer Dialogar com os seusalunos: despoletar a chispa de entusiasmo pelo debate de ideias, muito naturalnas crianças e nos jovens, mas infelizmente abafada por anos e anos deensino passivo e acrítico, por horas e horas de aulas onde a sua opinião não épedida nem achada, ou quando é é-o apenas para fazer de caixa deressonância da opinião de outros (professor, autores, manuais, etc.).Em segundo lugar também é necessário que os alunos percam o medo deerrar (fruto desses anos e anos de ensino “avaliador”) e que sintam que, pelomenos durante o Diálogo, têm liberdade para dizer o que pensam desde querespeitem as regras do Diálogo Filosófico que são, basicamente, as regras decivismo e boa educação (esperar pela sua vez para falar, ouvir os outros,aceitar a crítica, etc.).O papel do professor
  42. 42. Num Diálogo Filosófico o professor deve tentar aproximar o mais possível oseu papel do de um “professor socrático” que faz perguntas não porque sabeas respostas às suas perguntas e quer avaliar o conhecimento dos seusalunos, mas porque genuinamente não sabe essas respostas e pede aos seusalunos que o ajudem nessa procura. Durante o Diálogo Filosófico o professordeve suspender o seu papel de professor e esforçar-se por “ensinar semensinar”, ou seja ensinar os seus alunos a filosofar sem lhes transmitirconhecimentos filosóficos, procurando subtilmente que esse conhecimentosurja dos próprios alunos e que isso aconteça de forma cada vez mais natural erigorosa.Como uma boa “parteira de ideias” o professor deve a todo o custo evitar dirigiro Diálogo para onde acha que os alunos devem ir, pois aí seriam as suasideias que estariam a nascer e não as dos alunos. Num Diálogo Filosófico oprofessor deve ter a humildade de aprender a gostar dos filhos dos outros,neste caso, das ideias dos seus alunos, mesmo que estas lhes pareçampequenos monstros que não deviam ter lugar na sala de aula.Sabemos bem que muitos colegas professores de filosofia terão dificuldade em“abrir-se ao diálogo” com os seus alunos, ou porque não veem qualquerpertinência em fazê-lo, ou porque a exposição, a explicação e a transmissão deideias é já uma prática bastante incrustada no seu código genético deprofessor. A esses colegas apenas podemos dizer que tentem. Que, pelomenos uma vez, arrisquem mudar as suas estratégias e formas confortáveis deensinar. Encontrem em vocês a “chispa filosófica” que querem acender nosvossos alunos e acreditem que os resultados surgirão. Rapidamente verão osseus alunos entusiasmados com a matéria que lhes é dada estudar e sobre aqual têm uma palavra a dizer. Esse entusiasmo, essa “chispa filosófica” é omotor da nossa disciplina, provavelmente foi o motivo que vos levou a estudarfilosofia (lembram-se?) e é, também, o ponto a partir do qual será mais fácilintroduzir as ideias e os argumentos tradicionais dos filósofos que,possivelmente, não serão mais encarados pelos alunos como “corposestranhos e intrusivos”, mas como amigos que têm algo interessante a dizer eos podem ajudar a resolver um problema partilhado por todos.O papel do alunoPor sua parte os alunos não devem esperar pelas respostas que acham que oprofessor sabe ou que quer ouvir. Durante os Diálogos devem sentir que sãolivres para dizer o que pensam ser importante e pertinente para o problema emquestão. Devem sentir que não vão ter má nota se exprimirem uma ideiaerrada nem vão ser censurados pelo professor por dizer um disparate. A únicaobrigação que têm durante um Diálogo é a de justificar de forma clara, séria ecom as melhores razões que forem capazes aquilo que defendem. O único
  43. 43. crivo a que estão sujeitos é o da crítica e censura pelos seus pares quandoisso não acontece.É esta maturidade no diálogo que o “professor socrático” deve ter comoobjectivo central logo desde as primeiras sessões de Diálogo Filosófico e paraa atingir deve desenvolver por si mesmo as estratégias que achar maisadequadas. Neste Manual procurámos ajudá-lo nessa tarefa com algumasdicas e sugestões (Obstáculos ao Pensar e Ferramentas de Moderação)fruto da nossa experiência na prática de Diálogo Filosófico dentro e fora docontexto de sala de aula.Dialéctica –Dilema -Eco – Fazer Eco é repetir, ou pedir para um aluno repetir, exactamente aspalavras de outro. Esta técnica é bastante útil com crianças pequenas que,num Diálogo, frequentemente se esquecem do que os amigos disseram.Enumeração -Exemplos e Contra-Exemplos – Alguém tem um exemplo do que aCarolina está a dizer? Ou Já viste alguma vez um caso em que isso nãoaconteça?Para evitar a abstracção excessiva e facilitar a compreensão pelos colegasdevemos convidar os alunos a ilustrar as suas ideias com exemplos. Por outrolado, uma forma de provar que uma ideia está errada é encontrar um exemploque o demonstre (contra-exemplo). O grupo deve pensar se os exemplos e oscontra-exemplos são bons ou não.Hipóteses – Sabemos que não existem seres imortais, mas e seexistissem, que implicações isso teria para o sentido das suas vidas?É muito comum que uma discussão filosófica entre os alunos termine no “becosem saída” de uma discussão acerca de factos. Uma forma de evitar que adiscussão se perca nos factos é trazê-la de volta para o conceptual. Opensamento hipotético (Se fosse assim…) é uma parte muito importante dopensamento filosófico pois permite-nos explorar as implicações das nossasideias, fazer previsões para o futuro, pensar em cenários possíveis, tomardecisões, etc.Podemos também usar esta técnica das “hipóteses” para trazer a discussão devolta à pergunta inicial (ancoragem) ou juntamente com outra técnica de
  44. 44. moderação (suspensão do juízo) propor que a situação seja temporariamenteaceite por todos até que sejam analisadas as suas implicações para oproblema em causa.Ao examinar, por exemplo, a “Alegoria da Caverna” de Platão é frequente osalunos perderem-se em considerações factuais acerca da possibilidade ouimpossibilidade de os “prisioneiros da caverna” poderem viver acorrentadossem olharem uns para os outros. “Como eram alimentados?”, “Como é que seconseguia que não olhassem para o lado e vissem os outros prisioneiros?”, sãoalgumas das perguntas que costumam surgir. Como é óbvio este tipo deproblemas não são os que Platão quis representar com a sua famosa“alegoria”. Perante esta situação o professor pode dizer: Mesmo semsabermos se a situação dos “prisioneiros” é possível ou não vamosaceitá-la temporariamente e tentar descobrir o que Platão nos queria dizercom esta alegoria.Esta estratégia de trazer a discussão para o campo das hipóteses pode serutilizado quer com factos que os alunos considerem impossíveis, quer comideias que os alunos considerem inaceitaveis. Tanto uma situação como aoutra podem bloquear o pensamento e o diálogo. Ver também Pensar oImpensável.Ideia-Chave/Conceptualização –Linhas de Pensamento – Em que é que isto tem a ver com o que disse aMatilde? OuSó levanta a mão quem tiver algo a dizer sobre este ponto.Pedir ao aluno para explicitar uma linha de pensamento é uma forma decultivar o “espírito dialéctico” em vez da conversa livre em que as respostaspertinentes se perdem pois a sua oportunidade passou. Para evitar isto omoderador deve, durante o diálogo, detectar e sublinhar algumas ideias eargumentos dos participantes que estejam ligadas entre si (linhas depensamento). À medida que o grupo vai amadurecendo este trabalho devecomeçar a ser cada vez menos desempenhado pelo moderador e cada vezmais pelos próprios elementos do grupo.Método Socrático – Uma forma de investigação filosófica posta em práticapela primeira vez nas ruas de Atenas no século V a.c. por aquele que éconsiderado o pai da Filosofia Ocidental, Sócrates. Através do Diálogo com osatenienses Sócrates procurava a verdade sobre um determinado temadesafiando as pretensas verdades e pondo a descoberto a ignorânciafundamental daqueles com quem falava. Neste sentido o Método Socrático nãotem por função simplesmente descobrir a verdade ou a falsidade de uma
  45. 45. determinada proposição mas procura algo muito mais profundo e pessoal, acoerência e a validade do conjunto de crenças daqueles que defendem essaproposição. Não é de admirar que Sócrates irritasse tantos dos seusconcidadãos pois com as suas perguntas impertinentes obrigavaconstantemente os seus interlocutores a examinar profundamente a formacomo viviam e aquilo em que acreditavam. De facto, as suas perguntaspunham repetidamente em causa as crenças fundamentais daqueles comquem conversava e dessa forma revelava-lhes a fragilidade desses mesmosfundamentos. Sócrates foi condenado à morte em 399 a.c.Uma das ideias associadas a Sócrates e ao seu método é a de que “a vida nãoexaminada não merece ser vivida”. Ora para Sócrates esse exame não eraconseguido isolando-nos dos outros e examinando as nossas vidas através deum exercício de introspecção. Sócrates era um homem da cidade e, para ele,esse exame deveria ser feito procurando uma perspectiva exterior sobre nós esobre os nossos pensamentos e a melhor forma de o conseguir era,exactamente, conversando com outros cidadãos interessados nesse exame eencontrando nessa conversa diferentes pontos de vista sobre nós e os nossospensamentos, os pontos de vista dos outros.Nos dias de hoje o Método Socrático tem, ao mesmo tempo, implicaçõesepistemológicas e didácticas. Se por um lado nos diz que qualquer pessoaracional é capaz de chegar à verdade sobre alguns dos problemas maisfundamentais para o Homem (problemas éticos, epistemológicos emetafísicos), também nos diz que para o fazer deverá esforçar-se por usar oseu próprio intelecto e deixar para trás hábitos ancestrais de conformismo epreguiça mental. Não devemos esperar que essa verdade nos seja entreguepela tradição, por um professor ou por um livro sagrado mas, antes, devemosser nós mesmos a fazer um esforço para a atingir. Neste sentido podemosafirmar que Sócrates preparou há 2500 anos atrás o ideal iluminista proferidopor Immanuel Kant no sec. XVIII da nossa era: Ousa Pensar!Ousar Pensar – Qual é a tua hipótese? Ou,Queres saber? Então pensa!Uma forma de conseguirmos que os alunos vençam a vergonha ou o medo deerrar é pedindo-lhes hipóteses para pensar em vez de respostas definitivas.Pedir uma hipótese é, ao mesmo tempo uma forma de conseguirmos que osalunos se comprometam com alguma ideia sem sentirem que se comprometemdefinitivamente com essa ideia. A incerteza e a dúvida são próprias dashipótese e não devem ser vistas como obstáculos ao pensamento mas simcomo incentivos para procurar saber. Queres saber? Então pensa!,pode oprofessor sugerir aquele aluno que sente que não deve arriscar uma resposta e
  46. 46. deve esperar pela resposta do professor ou, pelo menos por uma indicaçãodeste de qual seja a resposta certa.(Ver também, Mito da Resposta Certa)Pedir Razões – Por que pensas isso? OuQue razões tens para defenderessa ideia?O aluno deve habituar-se a explicar e a justificar a pertinência daquilo que diz,e não simplesmente a enunciá-lo de forma mais ou menos intuitiva.Pensar o Impensável – Trata-se aqui de avançar uma hipótese mesmo quecontrária àquilo que acreditamos ser verdade com o objectivo de a analisar e,dessa forma, aprofundar a nossa compreensão do problema. Pensar aquiloque não nos parece aceitável permite-nos:- transcender os significados comuns (e tantas vezes rígidos) associados aosconceitos que normalmente utilizamos.- construir um sistema alternativo de conceitos em relação aos mais diversosproblemas (existência, verdade, liberdade, sujeito, etc.) dando-nos confiança eautonomia intelectuais e permitindo-nos emancipar dos usos comuns,tradicionais e óbvios que fazemos desses conceitos.- admitir diversas interpretações racionais e coerentes de um mesmo fenómeno(teórico ou empíricoProblematizar -Propor um dilema – O professor deve utilizar com precaução esta estratégia.Por um lado ao indicarmos duas direcções possíveis para o pensamento(“ou…ou…”) estamos a manter o Diálogo dentro do que o professor consideraser o interesse filosófico da discussão. Além disso não estamos a retirar aosalunos o poder de escolha, desde que lhes apresentemos um verdadeirodilema e não uma pergunta retórica ou uma falácia da derrapagem escondida.Por outro lado devemos ter cuidado pois, se utilizada vezes demais, mesmoque de forma não consciente, esta estratégia serve para conduzir a discussãopara onde o professor acha pertinente ou interessante retirando dessa formaautonomia e controlo sobre o diálogo aos sues alunos.

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