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  • 1. In Memoriam IN MEMORIAM
  • 2. In MemorianJoaquim Dias Drummond 2
  • 3. Amigos das Letras de Sete Lagoas]ÉtÖâ|Å W|tá WÜâÅÅÉÇwO HomemO Mito In Memoriam Joaquim Dias DrummondAutor - Joaquim Dias Drummond – Nhô QuimCapa - Foto de Quim DrummondArte Final - Demétrius Cotta 3
  • 4. In MemorianJoaquim Dias Drummond 4
  • 5. Amigos das Letras de Sete Lagoas Numa época em que as memórias se perdem com facilidade, esquecidas em depósitos empoeirados, transformadas em lixos ou materiais descartáveis, este livro serve de alerta, para que cuidemos melhor de nosso passado. É nele que se encontram muitas das respostas sobre este futuro incerto e desconhecido, para onde inadvertidamente caminhamos, e que com certeza teremos de dar conta um dia às futuras gerações. 5
  • 6. In MemorianJoaquim Dias Drummond 6
  • 7. Amigos das Letras de Sete Lagoas PrefácioQuando remoemos o passado de nossa infância,buscando a lembrança de fatos que pareciam perdidosno tempo, somos levados a reinterpretar estes fatos à luzde novos parâmetros e de uma nova realidade.O primeiro sentimento que me acolhia, quando melembrava de meu avô Nhô Quim, era um misto derespeito e medo.A impressão de meu avô como uma pessoa muito séria esisuda, ficara gravada de uma forma tão consistente emminhas memórias, que só este mergulho no passado, queantes não se fizera necessário, permitiu-me reconstruiruma nova visão sobre sua imagem.Lembrei-me de meu avô e meu pai conversando, oprimeiro de forma ponderada e o segundo bem a seufeitio, afoito, expansivo.Algumas vezes capturei uma cena rara, o meu avôfalando de forma séria e firme, enquanto meu pai,respeitosamente se inclinava à sua autoridade.Ocorreu-me, após estas reflexões, que meu avô nãoabusava de sua autoridade, porque ela lhe era tão naturalquanto os ternos que ele raramente dispensava.Uma das palavras para descrevê-lo sucintamente seria“sistemático”.Lembrei-me das perguntas desconcertantes que NhôQuim lançava assim do nada, como que para testarnossa perspicácia e atenção: 7
  • 8. In Memorian- Qual é a diferença entre o universo e o infinito?E eu ficava, em minha mente de criança, a matutar adifícil questão, enquanto acentuava-me aquelesentimento de fragilidade e incapacidade diante de suaenorme sabedoria e inteligência.- Uma se refere às coisas materiais e a outra as coisassubjetivas.Ele mesmo respondia, após um tempo que considerassesuficiente para que eu resolvesse a questão.Quando alguém tomava conhecimento de que eu era seuneto a reação da pessoa era tal, que me causava aomesmo tempo, sentimentos conflitantes de orgulho emenos valia.Meu avô era tão considerado e admirado, que fazia comque eu me sentisse inibido diante da sua gigantescafigura.De certa feita, conversava com o inesquecível epolêmico Alfredo Valadares, conhecido pela forma àsvezes, mordaz e irônica de se expressar, quando lhedisse que era neto de Nhô Quim.O Alfredo olhou para mim diretamente e confirmou:- Você é neto de Nhô Quim?- Sou. (respondi orgulhoso).E o Alfredo retrucou:- Você nunca vai chegar a uma unha do pé do seu avô.Tomei um susto porque senti naquelas palavras umprognostico preconceituoso e ofensivo. Respondi apenasque provavelmente não, mas que tentaria.Joaquim Dias Drummond 8
  • 9. Amigos das Letras de Sete LagoasSó mais tarde, conhecendo a biografia do meu avô,entendi que era a forma de Alfredo Valadares prestigiá-lo e homenageá-lo. Hoje sei que continuarei na tentativa, não de competircom ele ou querer ser mais, nunca tive esta pretensão,mas de continuar tanto quanto possível sua obra emfavor da grandeza e da dignidade do ser humano.Ainda no grupo escolar eu era encarregado pelasprofessoras, de cumprir o intermédio entre meus colegase meu avô em pesquisas sobre a história da cidade.Ele sempre nos recebia de forma gentil e atenciosa,respondendo as questões oferecidas e ampliando-as deacordo com seu espírito educador e idealista.Olhando hoje seu retrato na parede do Casarão ou doClube de Letras, não me sinto mais acuado em minhasexpectativas pessoais, e nem sinto no seu olhar aquelareprimenda que me assombrou, em meus percalços etropeços pela vida.Sinto que Nhô Quim sorri para mim e sopra através dasdimensões seu doce alento e aprovação.Concede-me ainda, por uma talvez ironia do destino seusodalício patronal, nesta cadeira de numero nove daAcademia de Letras de Sete Lagoas, em defesa dosvalores mais nobres e humanos que as letras podem nosoferecer. João Drummond 9
  • 10. In MemorianJoaquim Dias Drummond 10
  • 11. Amigos das Letras de Sete LagoasJoaquim Dias Drummond Nhô Quim IN MEMORIAM João Antonio Drummond Amaziles Rosalina Viana Drummond Nhô Quim Drummond e Família 11
  • 12. In MemorianSete Lagoas, 24 de Dezembro de 1966Aos meus filhos, Roberto – Marcos – Magda – MariaAuxiliadora – Silvia – Marcelo – Maria José e MariaLúcia.Comemorando hoje, o 23º aniversário do passamento deminha estremecida mãe, entrego-lhes este modestotrabalho de reconstituição de vida de meus pais, da qualparticipei em quase todos os seus lances.Não se trata de uma produção literária, pois para tantoseria preciso que me sobrassem conhecimentos maisamplos da língua nacional, o que infelizmente não mepermitiu Deus que os alcançasse.Considero o meu trabalho como um simples relato daexistência daqueles que me deram o ser, cuja memória,procuro honrar na prática de todos os atos de minhavida. Nele extravasei toda a sensibilidade de minhaalma.Para outros, acredito, não terá nenhum valor. Mas, paravocês, em cujas veias corre o mesmo sangue dos que meprecederam em sua jornada por este mundo, existirásempre algo para despertar as suas reflexões e osconduzir por caminho mais seguro. Para tanto, basta quesaibam amar e perdoar.Joaquim Dias Drummond 12
  • 13. Amigos das Letras de Sete LagoasAbraçando afetuosamente a todos vocês, creiam que meenvaideço dos filhos que Deus se dignou premiar aminha vida de lutas e de sacrifícios.Cordialmente, Joaquim Dias Drummond 13
  • 14. In MemorianJoaquim Dias Drummond 14
  • 15. Amigos das Letras de Sete Lagoas Capitulo IO hotel de Sá Ninha da Lapa constituía a únicahospedaria de Sete Lagoas no fim do século passado.Em 1887, sem que um soubesse dos objetivos dosoutros, reuniram-se em torno de uma mesa, à hora docafé matinal, os viajantes João Antonio Drummond,Fernando Olímpio Drummond e Hermelindo Pinto.Conversavam banalidades; muito natural entre jovensmais ou menos da mesma idade e, sobretudo, quandoexercem atividades similares.À porta do hotel, cabrestos presos as estacas, trêsanimais de sela, cujos donos, após o café, cavalgariam etomariam destinos diferentes.Isto, pelo menos, era o que deveria estar passando pelopensamento de cada um deles.Concluída a ligeira refeição da manhã, troca de cordiaisdespedidas e os clássicos votos de bons negócios, compequeno intervalo, cada qual tomou a sua montaria esaíram da cidade.Aconteceu porem, que o objetivo de um era o de todos,embora o ignorassem: - rumo a Fazenda da Pontinha.Para despistar, cavalgaram em direções diversas. Oacaso, entretanto, os surpreendeu na encosta do “RolaPedras”.Detida a marcha, durante o bate-papo que se seguiu,chegaram à conclusão de que o mesmo intento osanimava – pedir casamento a uma das netas do Cel.Joaquim Gomes de Freitas Drummond. 15
  • 16. In MemorianUma dúvida pairava no espírito de cada um: - quaisseriam as respectivas candidatas?Quando descobriram que a preferida era uma só, deramboas gargalhadas e, como bons camaradas que eram,aceleraram a marcha de suas cavalgaduras.Até gozavam o desfecho do caso que os reunira,assumindo o compromisso de que, qualquer que elefosse jamais se alteraria suas relações de colegas, debons amigos, enfim.Na varanda da fazenda, de pé, o Cel. Joaquim Gomessaboreava seu clássico cigarro de palha, soltandobaforadas que embaçavam as lentes dos seus óculos.Os três cavaleiros que se aproximavam, agora emmarcha lenta, o surpreenderam com aquela visitamatinal.Recebidos com a cortesia tradicional da casa, foramintroduzidos no salão principal, de cujas paredespendiam velhos retratos de família, testemunhas mudasde vários acontecimentos.Para inicio de conversa, trocaram banalidades sobre oestado de saúde das respectivas famílias, previsões dotempo para a lavoura, intensificação do comercio detropas, etc.Um silêncio um tanto prolongado seguiu-se aconversação preliminar.Ao Cel. Drummond coube rompê-lo, perguntando-lhesde chofre: - Afinal, a que devo a honra dessa visitacoletiva?Joaquim Dias Drummond 16
  • 17. Amigos das Letras de Sete LagoasNão tiveram outro remédio, senão “por cartas na mesa”,para dizerem quase ao mesmo tempo: - Cel. Nós temosa honra de pedir em casamento sua neta Amaziles!O Cel. Joaquim Gomes sorriu, discretamente, peloinédito daquela cena e, logo depois, assumindo atitudemuito séria, disse-lhes:- A honra é toda nossa e como se trata de trêspretendentes para uma só candidata, reunireiimediatamente o conselho de família.O que for decidido terá o meu apoio, uma vez que entreos senhores eu não faço distinção. São todos dignos denossa amizade e merecedores do meu particular apreço.Com um pedido de licença, retirou-se para o interior dosobrado.À sós na austera sala de recepções do velho solar, ostrês pretendentes divagavam, percorrendo com as vistasos velhos retratos de família, detendo-se emobservações mais demoradas, no do Cel. JoaquimGomes, de barbas brancas, bem cuidadas.Austero como chefe respeitável de numerosa família,ele sabia aliar a severidade do seu perfil a amenidade deum trato cavalheiresco e inata fidalguia. A ele caberia aultima palavra sobre o assunto.O tempo passava e o silencio era perturbado apenaspelas conjecturas trocadas em surdina, entre oscandidatos impacientes.Foi neste momento que o Antero, jovem escravo, daconfiança do coronel, entrou na sala com grandebandeja, servindo-lhes um cafezinho reanimador. 17
  • 18. In MemorianA rubiácea deu-lhes novo alento e a conversa segeneralizou. Notava-se, entretanto, certo nervosismo,por que não dizer impaciência.Ouviam-se vozes conciliatórias no interior da casagrande e de passos que se aproximavam. A porta docorredor abriu-se de par a par e o coronel, a frente dasfiguras mais velhas da família, entrou solenemente nasala.Os jovens pretendentes a um noivado que só decidiria asorte de um, levantaram-se cortesmente, curvando-serespeitosamente, em retribuição aos cumprimentos dosque acompanhavam o coronel.Composto o grupo portador da mensagem, o coronelfalou pausadamente e com certa gravidade:- João Drummond, seu pedido foi o aceito; considere-senoivo de minha neta Amaziles.Meu pai quebrou a circunspecção do cerimonial, dandoum pulo insopitado de alegria.Abraços cordiais, apertos de mãos, os cumprimentosdos preteridos, selaram definitivamente o noivado demeu pai e de Amaziles.Meu pai, ansioso por beijar a mão de sua jovem noiva,com a devida licença do coronel, transpôs a porta docorredor e foi recebido por minha mãe, num transportede júbilo irreprimível.Hermelindo Pinto e Fernando Olímpio, (irmão de meupai), portaram-se, ante o desfecho, como autênticoscavalheiros.Joaquim Dias Drummond 18
  • 19. Amigos das Letras de Sete LagoasNão obstante, fizeram menção de se retirar, ao que seopôs o coronel, insistindo para que participassem doalmoço que dentro em pouco seria servido.E foi nesse ambiente de confraternização, entrefamiliares e amigos, que se marcou o destino de doisjovens da mesma estirpe, para os quais o futuroreservaria muitas vicissitudes e poucos momentos desatisfação, durante a sua trajetória de lutas e desupremos sacrifícios. 19
  • 20. In MemorianJoaquim Dias Drummond 20
  • 21. Amigos das Letras de Sete Lagoas Capitulo IIOficializado o noivado de meu pai, ele refletiu que nãopoderia continuar a exercer a sua profissão de caixeiroviajante.Seria sacrificar a mocidade de dois jovens que seamavam, privando-os de uma convivência intima tãoardentemente sonhada.Uma resolução se impunha imediatamente, uma vez quenão lhes faltavam recursos para tentar novo meio devida.Daí, o fazer-se comerciante, foi decisão de poucosmomentos. Estabeleceu-se com casa de comerciogeneralizado, a Praça Tiradentes, tendo como auxiliaresos jovens Armando Belizário Filho e Tito Vaz de Melo.De gênio expansivo, o novo comerciante assimilou-setão rapidamente ao meio que a sua casa popularizou-se,tornando-se a preferida da cidade.Os batuques ainda constituíam complementosindispensáveis mesmo nos bailes familiares e o sucessodo novo estabelecimento era glosado em trovasespirituosas.João Drummond participava da euforia do povo erecebia bem humorado os improvisos com que eramdecantados os seus sucessos.Transmitidas pela tradição, ainda conservo de memóriaas seguintes trovas: 21
  • 22. In Memorian“João DrummondAbriu farturaCachaça barataE rapadura.”“João DrummondEstá no quenteCaçamba de prataE selim patente.”Observa-se que pela predominância do nome de meu paia sua popularidade advinha mais da influência de suaatuação nos meios sociais.Espírito comunicativo, verve esfuziante, mão aberta,sempre pronto a servir aos amigos, sua roda era umaconstante de bom humor.A tristeza não morava em sua companhia. Esse sistemade vida, fruto de sua própria formação, acabariacertamente prejudicando seus negócios comerciais, aessa altura pouco assistido por seu zelo.Os empregados tinham carta branca, investidos da maisabsoluta confiança. Contudo, parecia que as coisascorriam bem.Foi aureolado por esse ambiente de festas que, emprimeiro de outubro de 1887, recebia em casamento suaprima Amaziles, no mesmo salão que servira de cenárioao seu pedido matrimonial.Todo o cerimonial decorreu em meio de expansãocomedida, respeitando a tradição com que a famíliaDrummond marcava esses acontecimentos.Joaquim Dias Drummond 22
  • 23. Amigos das Letras de Sete LagoasO sacramento do matrimonio era ato de sublimação ecomo tal fora praticado.Retornando à cidade, o jovem casal integrava-se nasociedade sete-lagoana para inicio de uma vida, quetodos prognosticavam de plena felicidade.Tudo fazia crer que nenhum imprevisto viesse perturbara serenidade de um lar, formado sob as bênçãos de Deuse os melhores augúrios de toda a família.Mas, há sempre um mas no final de toda a história. Avida de João Drummond não poderia fugir a essa regra.Ele pagaria pelo seu pecado de omissão, relativamente asua casa comercial.Os recém-casados viveram em plena lua de mel duranteos sete anos que decorreram após o casamento.Fernando, João, Joaquim e José foram os filhos quevieram coroar a sua missão de procriar.Contemplavam embevecidos os frutos do seu grandeamor, alheios a borrasca que se aproximava.A sabedoria popular ensina que “o olho do dono é queengorda o porco”. Meu pai não soube engordar o seu...Acabou quebrando!Naquela época não, era conhecida ainda a formalidadede uma concordata e mesmo o processo de falência.Tratou de fechar as portas, vender o estoque que restavae até a própria casa que construíra, esta para o Cel.Teófilo Marques que, anos depois, comprava também aFazenda da Pontinha.Era a derrocada do valioso patrimônio de uma famíliaque não sabia lesar o próximo. 23
  • 24. In MemorianJoaquim Dias Drummond 24
  • 25. Amigos das Letras de Sete Lagoas Capitulo IIILiquidados todos os compromissos da firma,desarvorado pelo insucesso de sua tentativa, meu pairecolhe-se com a família na Fazenda da Pontinha, atéque baixasse a maré montante.Foi ali que a “mosca azul” veio zumbir em seus ouvidose os animou a recorrer ao Espírito Santo. Sim, ao Estadodo Espírito Santo.O sucesso alcançado por João Antonio de FreitasCarvalho Drummond – tio de minha mãe, no Estadocapixaba, constituía num argumento convincente.Para la seguira bem novo ainda, e conquistara posiçãodestacada, no comercio de café, praticado em altaescala.Era senhor de grandes recursos, proprietário de doisengenhos para o beneficiamento do produto, luxuosacasa residencial, vários prédios, boas pastagens,numerosos lotes de burros de carga, indispensáveis aoseu comercio, e de um grande armazém de artigosgeneralizados.Com tanto cabedal, fácil lhe fora conquistar opredomínio político do município de Rio Novo.Os grandes do Estado hospedavam-se em suaresidência, quando então se abriam seus luxuosos salõesde festas, ricamente mobiliados.Ao fundo do principal, artístico painel da proclamaçãoda Republica, e nas paredes laterais, grandes retratosdos fundadores do novo regime. 25
  • 26. In MemorianTrês conjuntos de cadeiras austríacas, compostos de umsofá, duas poltronas, doze cadeiras, dispostassimetricamente; piano de alta classe, harmônio,consolos com tampos de mármore, encimados porconchas e caramujos de variada coloração, tapetesenormes, cortinas rendadas, lampiões belgas em finasarandelas de cristal, completava a harmonia dasinstalações exigidas para as grandes mansões daquelaépoca.O tio João Antonio não tinha filhos e a mulher, dosAlves de Souza, de tradicional família mineira,dispunha de uma invulgar capacidade de ação.O cérebro pensante do velho Drummond tinha namulher, na tia Sinhá, como era conhecida, a executorafiel de seus planos.Dona Maria Drummond era uma mulher forte, emarcante personalidade. Resolvia, sem o concursomaterial do marido, os mais intrincados problemas quesurgissem na sua afanosa lida comercial.Coisa singular: - em suas andanças, a cavalo,supervisionando os negócios do casal, não prescindia deum bom revolver.Sabia atirar bem, sem, contudo, ter sido preciso usá-locontra um seu semelhante.Tinha em José Belizário, irmão de minha mãe, e emLincoln Drummond, ambos sobrinhos do velho JoãoAntonio, seus mais dedicados auxiliares.O tio Juca, dirigindo os grandes armazéns da firma, eLincoln, ocupado exclusivamente com o intensocomércio de café.Joaquim Dias Drummond 26
  • 27. Amigos das Letras de Sete LagoasFoi conhecendo a prosperidade dos Drummond, noEstado capixaba, através das correspondências recebidaspelo velho da Pontinha, o que levou meu pai a resoluçãode também ir tentar a vida fora de Minas Gerais. Estavalançada a sorte. 27
  • 28. In MemorianJoaquim Dias Drummond 28
  • 29. Amigos das Letras de Sete Lagoas Capitulo IVData de 1894 a saída da família de meu pai da velhaFazenda da Pontinha, com destino a Rio Novo, noEstado do Espírito Santo.No dia da partida os moradores da casa grandedespertaram mais cedo, fora do horário habitual. Nopátio fronteiriço cruzavam-se os serviçais no apresto daliteira, velho sistema de transporte ainda em uso, e dosanimais de sela que nos transportariam até a estação deRio das Velhas, na histórica Santa Luzia, ponto final danossa primeira jornada.A estrada de Ferro Central do Brasil paralisara ali a suaavançada para os sertões de Minas Gerais. Todos seocupavam com os arranjos finais, de modo que nadafaltasse aos que iam empreender a grande viagem.Meu bisavô, o Cel. Joaquim Gomes de FreitasDrummond, com seu espírito bem formado, a tudoassistia e orientava, com natural serenidade.Sua fisionomia não demonstrava seu doloroso estadod’alma. A partida da neta que embalara desde seunascimento e que, com poucos meses, ficara órfã de painão podia deixar de magoá-lo profundamente, embora avisse ligada pelo matrimônio, a um primo em quedepositava toda confiança.Afinal, nas veias de ambos corria o mesmo sangue e elesabia do quanto eram capazes os homens da sua estirpe.Tudo pronto, os viajantes desceram ao pátio,acompanhados por todos da casa grande. 29
  • 30. In MemorianOs escravos, sempre tratados com dignidade cristã,alinharam-se, respeitosamente, para o ultimo adeus àSinhazinha.Sucederam-se os abraços prolongados; era o momentoda despedida. Lágrimas silenciosas rolaram pelo rostode muitos, estancadas a custo por lenços umedecidosque se puseram a acenar até que os viajores seperdessem na curva do caminho.Na liteira, minha mãe aconchegava ao colo o caçula dafamília – o Juquita, enquanto, com os olhos marejados,observava a acomodação dos outros filhos, assentadosem travesseiros, a frente das montarias.Traziam as cabeças protegidas por toucas de abaslargas, distendidas na frente por barbatanas.Na liteira, ao lado de minha mãe, vovó Lilia animavacom a sua presença a filha que empreendia uma viagem,em busca do desconhecido.Nenhuma palavra, nenhum gesto traia seuspensamentos. Conformada com o destino que a separavade seu velho pai, tão carinhoso, tão amigo, limitava-se asorrir discretamente para a filha que desejava verplenamente feliz.A viagem decorria normalmente e, ao termino dosegundo dia éramos acolhidos bondosamente, nahospedaria do velho Adão, a primeira casa instalada nasproximidades da estação de Rio das Velhas.Tudo muito discreto, muito simples, mas de apuradoasseio. No dia seguinte, enquanto embarcávamos pelaprimeira vez em um vagão de estrada de ferro, retornavaJoaquim Dias Drummond 30
  • 31. Amigos das Letras de Sete Lagoasà Fazenda da Pontinha, a caravana que nos conduziraaté ali.Agora, tínhamos como meta o Rio de Janeiro, capital deuma Republica ainda criança, em reiteradas tentativasde consolidação.Só se falava no novo regime, decantado em prosa eversos pelos jovens republicanos que o fundaram.No hotel em que nos hospedamos no Rio de Janeiro,meu pai mantinha-se discreto, como convinha aos quepisam pela vez primeira em terra alheia.Em palestra com o hoteleiro sobre a viagem marítimaque íamos empreender, foi informado de que o vaporSanta Madilde, navio costeiro que nos levaria até a barrado Itapemirim, saíra na véspera do estaleiro em que forasubmetido a consertos de relativa importância.Um tanto preocupado com esta noticia, meu pai mesmoassim, não desistiu da viagem, e embarcamos no diaseguinte.O navio de pequeno porte estaria sujeito a fúria dasondas, o que realmente se verificou. O mar brincavacom o barco balouçando-o na superfície de suas ondas.O enjôo generalizou-se e quase todos chegaram aosvômitos convulsivos. Um mal estar indefinido.Contudo, chegamos são e salvos ao pequeno portocapixaba.Nota curiosa: no seu regresso, o Santa Matildenaufragava nas costas de Cabo Frio, atirado contra osrochedos pela impetuosidade das vagas.Barra do Itapemirim, localidade na zona sul do Estadodo Espírito Santo, era porto de mar para barcos de 31
  • 32. In Memorianpequena cabotagem, para os costeiros que serviam aslocalidades litorâneas.Estávamos em terra firme e isso nos deu novo alento.Estremunhados, despertamos no dia seguinte, dispostosa reiniciar a jornada, agora demandando o seu pontofinal; O Rio Novo!A nossa chegada nesse município, em que o cel. JoãoAntonio Carvalho de Freitas Drummond dava cartas, foium acontecimento.Festivamente recebidas pela já numerosa colôniamineira e, sobretudo sete-lagoana, fomos hospedadosem casa do tio João Drummond que nos oferecia omáximo de conforto.A recuperação da estafa a que fomos submetidos, foiobra de poucos dias. A casa que no fora reservada, eraum velho sobradinho, estilo colonial, na saída dopovoado, a beira de estrada que seguia para a fazenda deRitinha Nogueira, outra mineira ali radicada, atraídatalvez pela conquista de fortuna fácil.Ali passamos os primeiros meses de nossa vida, nopequeno Estado do Espírito Santo que surgia para osmineiros como uma nova Canaã.Meu pai auxiliava o tio Juca no escritório da firma doCel. João Drummond e, na proporção que o tempopassava, adquiria maiores conhecimentos do comerciodo café, revelando-se um perfeito conhecedor de suasnovas funções.Minha mãe que partira de Minas nos primeiros meses degravidez de seu quinto filho vira-o nascer nas plagasJoaquim Dias Drummond 32
  • 33. Amigos das Letras de Sete Lagoascapixabas e dera-lhe o nome de Otávio. Viveu poucosmeses. Era o tributo pago a terra que nos acolhera.Rodeio, vila nas proximidades de Rio Novo prosperava.À frente do seu alto comercio pontificava outro mineirode fibra, o outro irmão de minha mãe, ainda solteiro.Não tardou que a ajuda de meu pai fosse reclamada paraa direção do seu escritório, o que não foi difícil, dadasas boas relações mantidas pela firma, com a do cel.Drummond. Carlos Gentil Homem era de Matozinhos ejá se considerava um autentico capixaba.Para lá se transportou minha família e fomos alojadosem casa alegre, edificada em terreno plano, com boavisão sobre o conjunto de moradas que formavam opovoado.Vivemos ali muitos meses, morando o tio Quincas emnossa companhia. Aí nasceu o sexto filho de minhamãe, como conseqüência de uma queda que ela levaraao lavar roupas as margens do ribeirão,A criança nasceu morta, e as conseqüências de um partoprematuro preocuparam toda a família. Vovó Lilia, deuma dedicação sem limites, desde que deixamos oterritório mineiro, se deslocou imediatamente do RioNovo onde se achava par assumir o controle da casa.De um acontecimento singular, registrado no rodeio,guardo ainda bem nítida recordação.Em um dia claro, uma nuvem negra e muito baixa,toldou por momentos a luz do sol. O fenômeno foinotado quando se verificaram correrias pelas ruas e osgritos angustiosos das primeiras vítimas. 33
  • 34. In MemorianEra um enxame de maribondos de desproporcionalextensão. Uma colona italiana, já bem velhinha, nãoteve pernas para fugir e caiu em plena rua, aos gritosalucinantes de “traditore”, “traditore”.Quando as portas e janelas se abriram, os mais corajososprocuraram socorrê-la. Estava morta!Joaquim Dias Drummond 34
  • 35. Amigos das Letras de Sete Lagoas Capitulo VIconha, vilarejo de aparência pouco agradável, jogava ascristas com as localidades circunvizinhas, disputando asupremacia no comercio de café, na zona sul, a essaaltura pontilhada de colonização estrangeira, bem maisnumerosa, em que predominavam os alemães e ositalianos.A cultura do café absorvia todas as atividades dessagente laboriosa, infiltrada no meio brasileiro, a cujoscostumes se adaptavam facilmente, sem o mínimopreconceito racial.Eram comuns os casamentos de caboclos brasileiroscom as mais belas filhas da Itália ou mesmo comalgumas louras tedescas, estas menos impetuosas queaquelas.A latina neste mister ocupa lugar destacado no concertouniversal.A firma Duarte Beiritz & Cia liderava todo o comérciode Iconha, estendendo seus tentáculos por outras praçasque se lhe afigurassem promissoras.Uma proposta vantajosa de seus chefes, fez com quemeu pai se desligasse da firma Carlos Gentil Homem ese transferisse com a família para nova localidade, seuterceiro pouso em terras capixabas.Iconha era um lugar de poucas atrações paisagísticas. Acasa que nos fora destinada, localizada a margem doribeirão que dava nome ao vilarejo, não impressionavabem. 35
  • 36. In MemorianPouco arejada e constantemente ameaçada pelasenchentes no inverno. O ribeirão de águas turvas corriapreguiçosamente em seu leito sem declive, quase ocultopelos ramos de mangue ou das mutambas. Era emresumo, um foco de endemias que sacrificava muitosdos que dele se aproximavam.Não poderíamos fugir a regra. Também pagamos onosso tributo, com a invasão da terrível malaria que nãopoupou ninguém.Sem medico, sem uma farmácia sequer, naturalmentepereceríamos, se não viesse nos assistir, o tio Juca quede Rio Novo, acorreu pressuroso, com os medicamentosadequados.Singular criatura esse irmão de minha mãe. Para todosos problemas da família, ele procurava e encontravasolução. Parecia um predestinado.Impaludados, gradativamente fomos recuperando asaúde, graças em grande parte a dedicação dessa alma.Meu pai fazia carreira progressiva e dia a dia, mais seimpunha a confiança de seus chefes.Após este acontecimento que acabaria por marcar anossa passagem por Iconha, vivíamos relativamentefelizes, apesar de minha mãe sentir-se esgotada comesses contratempos e com as nossas sucessivasmudanças. Mas não tínhamos chegado ao fim ainda.Interesses da firma Duarte Beiriz&Cia reclamavam apresença de um dos seus chefes, ou de outra pessoa desua absoluta confiança a frente dos grandes armazéns daempresa, na localidade de Piuma, porto de mar para anavegação de pequena cabotagem.Joaquim Dias Drummond 36
  • 37. Amigos das Letras de Sete LagoasEra por ele que se escoava toda a safra acumulada nostrapiches. Meu pai foi designado para essa missão e paralá seguimos incontinentes.Seria o nosso quarto posto de parada, mas não seria oultimo. O destino tem desses caprichos e não adiantaenfrentá-los com espírito de revolta.Estávamos finalmente instalados em Piuma, comendopeixes quase todos os dias, em sua maior partegentilmente oferecidos pelos pescadores que afrontavamos mistérios do Oceano, sem temer as suas emboscadas.Habituamo-nos aos banhos de mar, o que fazíamossempre pela manhã, de mãos dadas com os nossos paispara que não surpreendessem as ondas traiçoeiras. 37
  • 38. In MemorianJoaquim Dias Drummond 38
  • 39. Amigos das Letras de Sete Lagoas Capitulo VIFoi nessa época que fomos surpreendidos com a visitainesperada de Napoleão Bonaparte, cunhado de meu paique saíra de Itabira do Mato Dentro, para enfrentar asorte, como nós outros, nas plagas capixabas.Algo de anormal preocupava o seu espírito, o que foinotado por meu pai, sem, contudo ousar perguntar-lhe omotivo.A delicadeza de sentimentos que uniam um ao outro,impedia que se desvendasse o mistério, que fazia deNapoleão um homem taciturno.Raramente esboçava um sorriso e quando o fazia, seurosto se contraia como à querer censurar uma expansãoincompatível com sua própria dor.Depois de vários dias em nossa companhia, insistiu commeu pai para que o acompanhasse em um passeio aVitoria, a pequenina e graciosa capital do EspíritoSanto.Desejava distrair o espírito e trocar idéias sobre o planoque tinha em mente. Pretendia radicar-se no Estado econtava com o concurso do cunhado, do amigo.Meu pai anuiu em fazer-lhe a vontade, contanto queminha mãe o acompanhasse, pois não desejava separar-se da esposa, mesmo por poucos dias.A observação, Napoleão acrescentou:- Levemos também o Joaquim.Sobrinho que lhe merecia particular simpatia. Tudocombinado tomamos fora da barra um luxuoso navio de 39
  • 40. In Memorianpassageiros, para o qual fomos transportados empequeno bote a remos.De passagem, divisamos de bordo as pitorescaslocalidades de Guarapari e Beneventes, esta hojerebatizada com o nome de Anchieta, por ter sido ocenário da atuação do notável jesuíta, tão estreitamenteligado a nossa história.Vitoria com seu casario branco subindo morros, deu-nosa impressão de um grande presépio, encimado pelovelho convento de São Francisco, que era motivo deuma de nossas visitas.Um acidente com meu pai, ao galgar sua balaustrada,privou-nos dos passeios projetados, inclusive ao célebreconvento da Penha, em Vila Velha.O Hotel em que nos hospedamos, distava poucos metrosdo porto, o que nos permitia boa distração,acompanhando a entrada e saída de vapores, sem sair decasa.Os hospedes superlotavam quase todas as suasdependências, e os grupos se formavam a cada passodiscutindo assuntos vários.O tio Napoleão e meu pai integravam um desses.Discutiam as possibilidades econômicas da capital e deoutros centros de produção, em franco desenvolvimento.Colatina, pequeno núcleo que surgira às margens do RioDoce, apresentava-se como o de maior possibilidadepara a inversão de capitais.Ao tio Napoleão que fizera aquele passeio com umplano preconcebido, tais conclusões foram suficientespara que se firmasse o seu intento.Joaquim Dias Drummond 40
  • 41. Amigos das Letras de Sete LagoasRecolhido ao seu aposento particular trancou-se commeu pai, para uma dolorosa confidência que ainda nãofizera.Entre ele e a sua esposa, a tia Fernandina, surgira umincidente inesperado, que o compelira envergonhado, aabandonar a família, a sair de Itabira.E a narrativa dos acontecimentos foi feita comminúcias, entre lágrimas silenciosas de ambos, que seestreitaram em comovido abraço.A esse encontro confidencial seguiu-se prolongadosilencio, interrompido por meu pai apenas com umapalavra: - lamentável!Contudo restava-lhe o consolo intimo – não fora pordeslize de sua irmã que semelhante desinteligência seconsumasseApenas seu excessivo ciúme, por julgar-se preterida poroutra mulher que, segundo supunha, conquistara o seumarido.Estava desfeita uma prolongada união conjugal e comos filhos do casal, em plena juventude, sem a assistênciado pai que os idolatrava.Napoleão tinha decidido: - De Vitória seguiria paraColatina, estabelecendo-se naquela praça com uma casacomercial.Antes, porem, conseguiu a anuência de meu pai, deacompanhá-lo nesta aventura, em que se jogava seupróprio destino.Seu estado de espírito inspirava cuidados e daí aresolução de meu pai de assisti-lo como amigo certo, naexpectativa de que tudo corresse bem e novamente 41
  • 42. In Memorianunido o casal, fora do cenário dos acontecimentos quemotivaram a separação.Regressando a Piuma, meu pai deu ciência a seus chefesda sua resolução, comprometendo-se a desligar-se dafirma, depois do balanço que ainda demoraria algunsmeses.Consumado este, voltamos a Rodeio, de ondeiniciaríamos, a cavalo, a nossa grande viagem pelointerior do Estado, rumo a Colatina.Carlos Gentil Homem, de quem meu pai fora auxiliar eamigo desde então, aprestou-se no sentido de organizara cavalhada que nos transportasse, através de estradasbatidas apenas pelas tropas cargueiras.O percurso seria longo e as localidades de pousodistanciavam muito umas das outras. De Minas meu paihavia levado dois camaradas de absoluta confiança quecontinuavam em nossa companhia: Américo, filho deMaria Geralda, jovem de compleição robusta, eRaimundo, filho da velha escrava Tatá, tratadointimamente por Negro. Eram paus para toda obra.Organizada a caravana, iniciamos a penosa viagem,atravessando vales e florestas, viagem por vezesinterrompida pelas quedas de arvores sobre o caminho,obrigando os camaradas a empregarem a foice ou ofacão para que pudéssemos prosseguir.Com pernoite nas localidades de Santa Isabel, SantaTereza, Cachoeiro de Santa Leopoldina, Braço do Sul(hoje Ciqueira Campos), chegamos ao penúltimo pousoda nossa jornada. Daí até Colatina seria a nossa ultimaarrancada.Joaquim Dias Drummond 42
  • 43. Amigos das Letras de Sete LagoasEm Braço do Sul, lugar onde nos detivemos por maistempo, a fim de que os animais se refizessem, oAmérico, até então insensível aos apelos da mocidade,toma-se de amores por uma jovem e bela alemã, filha doestalajadeiro que nos hospedara.Não houve santo que o desalojasse dali. Despediu-se denós chorando como uma criança, e acabou casando-secom a linda loura tedesca. Até hoje deve estar lá. Aúltima carta que dele recebemos, datada de muitos anos,nos dá a noticia de sua prosperidade, da sua felicidadeconjugal.Pesarosos, por nos separamos de um bom amigo, de umfiel companheiro, iniciamos a ultima etapa da nossaarrancada para as barrancas do Rio Doce, deixando nasterras férteis do Espírito Santo um exemplar sadio daestirpe cabocla de Minas Gerais.Vovó Lilia, levando em sua companhia o Fernando,meu irmão mais velho, de Rodeio, onde nos separamos,regressou a Rio Novo e daí ao Estado de Minas Gerais,acompanhada pelo tio Quincas que vinha a Sete Lagoas,a fim de realizar o seu casamento.Ao fim do quinto dia de uma viagem estafante e cheiade peripécias, chegamos finalmente a Colatina,recebidos com manifestações de alegria por parte do tioNapoleão e de seus amigos.Estávamos por fim em casa e dispostos a participar daaventura em que se metera o cunhado de meu pai. 43
  • 44. In MemorianJoaquim Dias Drummond 44
  • 45. Amigos das Letras de Sete Lagoas Capitulo VIIColatina era um povoado que nascia à margem direitado caudaloso Rio doce e se resumia a um aglomerado depouco mais de cinqüenta casas, em sua maioria dandofundos para a ribanceira.As poucas que ficavam do lado oposto tinham seusquintais embargados pela densidade da mata virgem queprojetava sobre o povoado, sombras sinistras.A noite era comum ouvirem-se os rugidos das feras quea infestavam, não raro invadindo chiqueiros egalinheiros para devastarem as criações.À margem esquerda do rio, localizavam-se as tribos dosPuris, em suas malocas características. Quase todos jádomesticados, vinham sempre ao arraial em suasligeiras pirogas, para a troca do que já produziam, porfumo de rolo, sal e cachaça.Traziam chapéus de palha, esteiras, peneiras e atémesmo arcos e flechas e outros utensílios da tribo.Viviam em constante preocupação com os índiosTapuios, tribo aguerrida que vivia bem distante do seualdeamento, mas afeita aos ataques de surpresa.Temiam a possibilidade de suas investidas.Colatina não dispunha de uma capela para o culto, nãotinha medico e nem mesmo uma farmácia. Ocurandeirismo é que resolvia os problemas de saúdepublica.De escola nem se fala, A população crescia à lei danatureza, diferindo pouco dos hábitos nativos. Ali 45
  • 46. In Memorianvenceria o que fosse mais forte, ou o que pudesserealizar alguma coisa na base da persuasão, com osentimento de amor ao próximo. Napoleão estabelecera-se na localidade com essa intenção.Sua casa comercial, localizada eqüidistante dos doisúnicos concorrentes ali existentes, atraia gente de todasas classes.Ribeirinhos, indígenas, colonos e fazendeiros, em poucotempo dela se aproximaram e se fizeram bons fregueses.Com o senhor Pena; português de nascimento há muitoali estabelecido, foi fácil manter boas relações.Tornaram-se bons amigos. O mesmo, entretanto, não severificou com relação ao senhor Nogueira, ocomerciante mais antigo da praça e, sobretudo, o chefepolítico local.O Nogueira, por ter uma das mãos atrofiadas, era maisconhecido pela alcunha de Munheca, o que não lheagradava e, por isso mesmo, revelada aos forasteiroscom severas reservas.A rivalidade entre o pequeno régulo e meu tio esboçou-se desde logo, com a iniciativa de Napoleão de mandarconstruir à custa própria, o cemitério da localidade.Até então, os mortos eram sepultados no sopé dasmatas, em terreno aberto, como seres irracionais. Nãoraro os corpos eram profanados por animais carnívorosque os desenterravam, deixando expostos sobre a terraos restos de seus macabros banquetes.Foi contra esse estado de degradação social que seinsurgiu meu tio, levando-o aquele gesto deJoaquim Dias Drummond 46
  • 47. Amigos das Letras de Sete Lagoasbenemerência. O cemitério estava pronto e os mortosseriam respeitados.O Nogueira irritou-se com tais providências, irritaçãoque se agravava dia a dia, à medida que se estreitavamos laços de amizade entre o senhor Pena e Napoleão.Truculento por natureza, não compreendia o exercíciodo seu domínio senão por emprego da força bruta.Para tanto mantinha à seu mando, aguerrido magote depistoleiros, pronto para cumprir-lhe as ordens, aindamesmo as mais absurdas.Estabeleceu um regime de intimidação, com sucessivasameaças a meu tio, através de seus sequazes.Nada, porem alterava os planos de Napoleão quecontinuava impávido na execução de seus projetos.Em Colatina havia escassez de casas e Napoleãoresolveu iniciar a construção de algumas para odesafogo da população menos beneficiada.Em terreno próprio, começou a construir três chalés domesmo tipo, dando serviço a muitos homens que vivammarginalizados.As obras prosseguiam e os trabalhadores recebiamsemanalmente seus salários. Havia animação e aascendência de meu tio sobre aquele povo ensombrava oprestigio do soba prepotente.Os chalés eqüidistantes e rigorosamente alinhados jácomeçavam a receber cobertura. O povo exultava com avinda de um homem que se propunha a melhorar suascondições de vida. 47
  • 48. In MemorianColatina progredia. Ao Nogueira, entretanto, isso oangustiava; não podia continuar impassível ante o seuadversário.Certa manhã, ao chegarem às obras, os trabalhadoresconstataram que em cada chalé dois esteios haviam sidocortados, em sentido diagonal, sem, contudodesequilibrar as construções que viriam abaixo, apenasse iniciasse a cobertura.Napoleão revoltou-se contra aquele atentado que bemcaracterizava a índole de seu autor. Era obra doNogueira, às caladas da noite.Imediatamente escreveu uma carta enérgica aotruculento régulo, tratando-o por Munheca, protestandocontra sua prepotência, exigindo-lhe reparação urgente.Antes não o tivesse feito. Napoleão lavrara com aquelaatitude sua própria sentença de morte!A resposta do senhor Nogueira veio dura e seca: -estipulou o prazo para sua saída do povoado, sob penade fuzilamento por seus homens de confiança, (ospistoleiros), se sua intimação não fosse cumprida àrisca.Meus pais ficaram estarrecidos ante aquela ameaça quefatalmente seria cumprida.Napoleão conservou-se calmo, inalterado, não pareciaser um homem que acabava de ser ameaçado de morte.A notícia correu célere pelo povoado e só um amigo, omais corajoso, acercou-se de meu tio.Pena prontificou-se a prestar-lhe colaboração decidida,no sentido de facilitar sua fuga, embrenhando-se naJoaquim Dias Drummond 48
  • 49. Amigos das Letras de Sete Lagoasmata com seus homens de confiança, ou descendo rioabaixo, em demanda de povoação de Linhares.As cenas que se seguiram ao impacto que abalou toda aresistência de minha família, foram simplesmentedolorosas.Minha mãe soluçava convulsivamente, abraçada aos trêsfilhos que não sabiam avaliar a gravidade do momento.Meu pai, transfigurado, lívido, vagava atordoado portoda a casa, sem saber ao certo o que fazer.Napoleão fechara-se num mutismo indecifrável, porvezes interrompido para um dialogo surdo com osretratos de suas filhas, Maria de Lourdes e Maidê, jámocinhas, alheias aos acontecimentos quedramatizavam a vida de seu pai.Em tais momentos, lágrimas silenciosas turvavam-lhe avista, sem que se abatesse o seu perfil de homemobstinado, resoluto.A uma das reiteradas tentativas de meu pai para que eleanuísse aos anseios de seu amigo Pena, - fugir, enquantohavia tempo, ele respondia com firmeza: - Jamaisfugirei a luta. Lembre-se que me chamo Napoleão e nãoposso legar a meus filhos o nome de covarde!A incursão de pistoleiros amiudava-se, aumentandogradativamente o nosso terror. Bem montados efortemente armados, ostentavam publicamente seuaparato bélico, em correrias desbragadas, levantandonuvens de pó.Meu pai conseguiu de Napoleão que por prudência sefechassem as portas do estabelecimento. Passamos oresto do dia em verdadeiro estado de angustia, buscando 49
  • 50. In Memorianuma solução, antes que se esgotasse o prazo fatal. Tudodebalde. Napoleão mantinha-se na mesma atitude, nãofugiria.A luta que travava no espírito de meu pai era dramática,ou ficava com o cunhado até a hora extrema, ou salvariaa sua família de um trucidamento em massa. Opinou poresta ultima. Estava certo.Antes de nos recolhermos, expôs ao cunhado que nãopoderia sacrificar sua esposa e filhos; estava decidido afugir com os seus, antes que o dia amanhecesse.Os dois se defrontaram serenamente. Napoleãocompreendera que não podia exigir de meu pai mais doque já lhe tinha dado.Providências imediatas foram tomadas, aprestandoapenas o necessário para que nada nos faltasse, até queconseguíssemos nos alojar em pouso seguro, na fazendado senhor Artur Coutinho em Alvarenga.Joaquim Dias Drummond 50
  • 51. Amigos das Letras de Sete Lagoas Capitulo VIIISó Deus sabe os momentos que vivemos, após osacontecimentos precedentes, meus pais e Napoleãoadentraram-se pela noite em confidências recíprocas,por vezes interrompidas pelas lagrimas que lhessulcavam as faces.Os menores dormiam, recostados nas trouxasimprovisadas para a viagem. Alta madrugada foramdespertados. Era a hora da partida. Um silêncio demorte dominava a gravidade do momento.Napoleão, sem dizer uma palavra abraçou, um por umde seus sobrinhos, minha mãe e, finalmente, meu pai,estreitando-o de encontro ao peito, demoradamente,como se preparasse para enfrentar o pelotão defuzilamento.Era o ultimo abraço! Em plena escuridão, iniciamos a péa nossa marcha para o desconhecido.Abatidos, aniquilados sob o peso da dor de umaseparação, talvez para sempre, caminhávamos emsilêncio, temendo um ataque de surpresa, a cadamomento, pela horda de cangaceiros às ordens dofamigerado déspota Nogueira.À frente seguia meu pai sustendo pela mão o filho maisnovo, o Juquita. Eu e o João ladeávamos nossa mãe que,em adiantado estado de gravidez, caminhava com certadificuldade. 51
  • 52. In MemorianPor ultimo, Raimundo, o negro de nossa confiança,trazido de Minas, carregando os poucos pertences quenão podíamos dispensar.Nota curiosa, o Negro como carinhosamente otratávamos era bom sanfonista e como tal relacionara-secom facilidade como os colonos da redondeza. Erafigura imprescindível nas festas familiares.Depois de caminharmos mais de três quilômetros, dia jáamanhecendo, fomos bater à porta de um velho casal deitalianos que considerava e acolhia o Negro, semnenhum preconceito racial.Diziam até que o nosso serviçal entretinha um romancecom Assunta, bela filha do simples casal. Foi umaparada providencial.Conhecedores da longa distância que ainda nos separavada fazenda do senhor Arthur Coutinho, os bons italianosaprestaram o único animal de sela que possuíam para amontaria de minha mãe.Reanimados com o ligeiro descanso a que nossubmetemos, reiniciamos a nossa dolorosa caminhada,esperançosos de chegarmos ao fim da nossa arrancada,sem maiores contratempos.Acomodada na montaria rústica, com o caçula dafamília, minha mãe olhava resignada para o marido e osfilhos que continuavam a grande jornada.Havia qualquer coisa de bíblico naquele grupo decaminhantes que fugia da morte. Repetia-se, respeitadaa irreverência símile, a fuga da Sagrada Família para oEgito.Joaquim Dias Drummond 52
  • 53. Amigos das Letras de Sete LagoasA fazenda do senhor Coutinho seria para nós o porto desalvação. Ao cair da tarde, transpúnhamos exaustos, agrande porteira do curral fronteiriço, e éramoshumanitariamente acolhidos por seus proprietários.Arthur Coutinho foi para nós o bom samaritano.Nenhum outro adjetivo poderia identificá-lo melhor.Fidalgo no trato, compreensível e amável, revelava nosseus menores gestos, na suavidade de suas palavras, agrandeza de seu coração.Estávamos em casa. Não demoramos a nos recolher aoamplo quarto que nos fora destinado. O cansaço que nosdominava pôs fim à conversação que se generalizava.Meu pai, entretanto, demorou-se em colóquio com osenhor Arthur Coutinho que ficou amplamenteinformado sobre a nossa situação. O bom fazendeirocolocou-se desde logo à disposição do meu pai,auxiliando-o como verdadeiro amigo, orientando-o emtodas as deliberações que a gravidade do momentoexigia.Na primeira noite, meus pais não conseguiram conciliaro sono. Dialogavam baixinho e por vezes soluçavam.Nesses momentos, suas preces se dirigiam a NossaSenhora da Penha, a virgem do Penhasco, a soberanaespiritual do Estado do Espírito Santo.Contemplavam os filhos que dormiam, estirados emsuas camas improvisadas e confiavam em Deus quejamais lhes faltou nos momentos mais críticos da vida. 53
  • 54. In MemorianJoaquim Dias Drummond 54
  • 55. Amigos das Letras de Sete Lagoas Capitulo IXNa noite imediata, porem, despertamos sobressaltadoscom os latidos de cães que guardavam a casa. Ouviramo tropel de um cavaleiro que se aproximava da fazendae ficaram de ouvidos atentos.Ao estacar da marcha do animal, pancadas vigorosasforam vibradas na porta principal, acordando quasetodos os moradores.O cavaleiro nem chegou a apear, talvez com medo doscães que continuavam a ladrar. Foi o senhor ArthurCoutinho que o atendeu. Era um emissário do senhorPena. Trazia uma carta para meu pai.Não foi preciso que o fazendeiro o chamasse; já tinhaaberto a porta do quarto, prevendo o que a mensagemdo amigo lhe trazia,O texto era lacônico; dizia simplesmente: - “JoãoDrummond, Napoleão foi fuzilado. Venha comurgência, providenciar o enterro, a fim de evitar maisgrave conseqüência. Pena”.Lívido, transfigurado, passou silenciosamente a carta aosenhor Coutinho. Igualmente emocionado, o fazendeiroabraçou-se com meu pai e foi logo dizendo de chofre:-Você não irá sozinho, pois que disponho de homens deconfiança para essas delicadas missões, Sairão pelamadrugada.Retornando ao quarto, meu pai abraçou-se com minhamãe, apenas articulando convulsivamente estaspalavras: 55
  • 56. In Memorian- Napoleão foi assassinado, eu irei providenciar seusepultamento.Acordados com a cena que se desdobrava ante nossosolhos, eu e meus irmãos, ainda sem conhecermos omotivo daquela explosão de sentimentos, fizemos causacomum com a dor que oprimia os corações de nossospais e acabamos por chorar com eles.O quadro era realmente comovedor. O resto da noite foiabsorvido pela luta travada entre meu pai e minha mãe.Esta tentando dissuadi-lo do cumprimento de suamissão, por julgar temerária. Seria expor sua vidainutilmente. Aquele inflexível no seu dever desolidariedade humana.Ao corpo do cunhado seria dada sepultura condigna,para que não viesse a ser profanado pelos abutres quelhe tiraram a vida.Acompanhados por dois guarda-costas de confiança,pela madrugada, meu pai se pôs a caminho de Colatina,apesar das ponderações de minha mãe. Na nossaausência, o bom amigo Pena levou o tio Napoleão parasua companhia, supondo erradamente que sua casa seriarespeitada pelos cangaceiros.Pois foi na contra-loja desse comerciante que o tioNapoleão fora fuzilado. Seu corpo estava estendido emdecúbito dorsal, no piso do estabelecimento, varado porbalas de fuzil.Duas velas alumiavam o cadáver que tinha as roupascoladas pelo excesso de sangue coagulado. Não foipossível mudá-las, apenas um lençol vedava-o àJoaquim Dias Drummond 56
  • 57. Amigos das Letras de Sete Lagoascuriosidade publica. Na porta da venda, humildescarpinteiros ultimavam o caixão.Meu pai velava o corpo do cunhado, trocando ligeiraspalavras com o senhor Pena, sobre as providências queiria tomar, logo que se refizesse do abalo sofrido.Ao bom amigo português confiava a guarda dos bens deNapoleão, até que se resolvessem todos os problemasligados à firma que se extinguia, em conseqüência dobárbaro trucidamento do seu chefe.Durante o curto velório que precedeu ao sepultamento,pistoleiros, ostensivamente armados, penetraram nacontra-loja. Meu pai pôs-se de pé, sem esboçar o menorgesto de repulsa. Não podia atinar o que pretendiameles.A gravidade do momento aconselhava-o a manter-secom prudência. O chefe do bando aproximou-se docadáver e o descobriu acintosamente, ultrajando amemória de sua própria vitima com as mais insultuosasexpressões.Meu pai não articulou uma só palavra de reprovação. Seo fizesse, fatalmente seria eliminado pela hordaassassina, a essa altura disposta aos maiores desatinospela força do álcool que já a dominava.Finalmente, um deles aproximou-se mais e de chofreperguntou a meu pai:- O senhor consente que acompanhemos o corpo de seucunhado?Era a gota de fel com que fariam transbordar a taça daamargura. 57
  • 58. In MemorianMeu pai o encarou serenamente, dando-lhe a seguinteresposta:- Perfeitamente. Seria um ato de caridade.Após estes lamentáveis acontecimentos, os pistoleirosse retiraram, dando expansão ao seu regozijo de ferassaciadas.Momentos depois saia o enterro, carregado somente pormeu pai, o senhor Pena e dois homens de confiança dosenhor Arthur Coutinho.No cemitério construído por Napoleão, ao ser baixado ocorpo à sepultura, atenção dos acompanhantes foidespertada por uma cavalgada desenfreada que seestacou em frente a sua entrada.Eram os pistoleiros que se puseram em linha decombate, empunhado suas armas assassinas.Meu pai sentiu que a vista lhe fugia e cambaleou nãocaindo por ter sido sustido a tempo pelo bom senhorPena.Imaginou ter chegado sua ultima hora. Refeitos dochoque, desceram o corpo à sepultura. Nesse momento,ouviram um alto grito de guerra, seguido pela descargasimultânea das armas dos cangaceiros. Era a ultimahomenagem dos facínoras.O abalo sofrido por meu pai foi superior a suacapacidade de emulação. Com o espírito conturbadoregressou à fazenda que nos acolhera.Traumatizado pela brutalidade da tragédia, nosprimeiros dias vagava a esmo pelos campos, falandosozinho, dialogando com o cunhado morto.Joaquim Dias Drummond 58
  • 59. Amigos das Letras de Sete LagoasMinha mãe o acompanhava em tais momentos,carinhosa, compreensiva, temendo que a sua depressãonervosa o levasse a um ato de desatino.E assim decorreram algumas semanas, nessa luta derecuperação de uma consciência, da qual dependíamosnós, esposa e filhos, perdidos em zona malsinada, sempoliciamento, ignorada pela justiça dos homens, masconfiantes na de Deus, que jamais nos faltou.Com a ajuda dos senhores, Arthur Coutinho e Pena,meu pai pode, afinal, liquidar de qualquer forma, osnegócios da firma de seu cunhado.Quase dois meses decorridos, depois dos trágicosacontecimentos de Colatina, meu pai pode tomar asprimeiras providências para o nosso regresso a RioNovo e daí ao Estado de Minas, mais precisamente, SeteLagoas.Minha mãe, cada dia mais pesada, em conseqüência deuma gravidez atribulada, temia pela sorte do embriãoque se desenvolvia em suas entranhas. Contudo, estavaresignada e disposta a enfrentar os contratempos de umaviagem penosa e cheia de imprevistos.Confiava em Deus que fora testemunha de seussofrimentos, de sua grande provação. 59
  • 60. In MemorianJoaquim Dias Drummond 60
  • 61. Amigos das Letras de Sete Lagoas Capitulo XAo deixarmos a fazenda do senhor Arthur Coutinho,meu pai externou ao bom fazendeiro, seu profundoreconhecimento por tudo quanto fizera por nós.Despedimo-nos de todos, comovidamente, sem poderconter as lagrimas que sulcavam nossas faces abatidas.A fim de nos acompanhar na viagem de retorno a RioNovo, foram escalados os mesmos serviçais queacompanharam meu pai e o assistiram, durante o velóriodo tio Napoleão.Aprestados os animais de sela, em um dia ensolarado,prenunciando tempo estável, deixamos definitivamenteo vale do Rio Doce, de tão amargas recordações.Sabíamos que a jornada seria difícil, perigosa mesmo,enquanto não alcançássemos o sul do Estado.Nosso primeiro pouso, já bem afastado do teatro dosacontecimentos, foi o sitio denominado BertolinoCasoti.O colono que o habitava cedeu-nos, desconfiado, umaárea do seu pátio para o nosso abarracamento.Passaríamos aquela primeira noite de certo modoexpostos aos imprevistos. A barraca não acomodava atodos. Os empregados dormiriam ao relento. Contudo,estreitamente unidos pelo instinto de defesa.Alta noite fomos despertados por tropel de animais quese aproximavam. Ouvimos uma ordem de comando quedeterminava o cerco, seguida de outra imperativa:- Não se mexam. 61
  • 62. In MemorianAo que meu pai respondeu:-somos de paz.À luz de um candeeiro, ambos se entenderam e os dobando se afastaram. Era uma escolta militar do Estado.Ia dar combate aos cangaceiros que fuzilaram Napoleão,homiziados em Baunilha, bem próximo daquele local.Eficiência de policiamento... Enfim, antes tarde do quenunca.No dia imediato prosseguimos pelo mesmo roteiro quenos servira quando da nossa viagem de penetração. Daí,até a meta desejada, o Rio Novo, nenhum sobressaltoperturbou a nossa marcha.O nosso reencontro com a família do tio Juca foi algosurpreendente. Não imaginavam que pudéssemos terescapado com vida, ao cerco dos cangaceiros.A alegria foi geral. O riso se confundia com as lagrimas,numa explosão inesquecível de fraternidade.Comemorava-se a nossa ressurreição!Após uma semana de descanso reparador, meu paiseguia para o Rio de Janeiro, levando cartas deapresentação firmadas pelo tio Juca e pelo velho JoãoDrummond.Tentaria restabelecer a sua vida de caixeiro-viajante, de“cometa”, como era conhecido aquele que exercia talprofissão.Foi feliz no seu intento. Colocou-se como representantecomercial das firmas, Barros dos Santos & Cia, à RuaPrimeiro de Março, tendo como um dos seus chefes osenhor Afonso Vizeu, que se projetou como líder emsua classe.Joaquim Dias Drummond 62
  • 63. Amigos das Letras de Sete LagoasAlem desta, obteve a representação da casa de PaulinoDias Machado, Abílio & Gomes e A. Lameirão & Cia.Viajaria pelo interior de Minas.Não havia tempo a perder. Veio para Sete Lagoas eorganizou a sua tropa de viagem, dez animais, entre osde sela e os que conduziriam as canastrinhas deamostras.Como arrieiro e homem de confiança, engajou LourençoGomes Drummond, filho natural do velho da Pontinhacom a escrava, tia Eva, que ainda vivia como preta deestimação da família Chassim.De Sete Lagoas mesmo iniciou a sua primeira viagempelo centro de Minas, explicando a minha mãe, porcarta, os motivos que o levaram a assim proceder.Durante sua longa ausência de mais de oito meses,minha mãe deu a luz – Maria da Penha, modestahomenagem de reconhecimento à Virgem que se veneraem Vila Velha, no histórico convento, do qual dominatoda a enseada da Bahia de Vitória.Eu e meus irmãos fomos matriculados na escolaprimaria regida pelo professor Ozório Viana, outromineiro, de Cordisburgo, há muito radicado no RioNovo.Continuávamos morando com o tio Juca, e a tia Quita.Sua mulher, era extremamente dedicada à minha mãeque assim, via o tempo passar suavemente.Nessa ocasião sobreveio-lhe uma inflamação no seio eos sofrimentos físicos só foram debelados com aintervenção cirúrgica, habilmente praticada pelo Dr.Pinheiro. 63
  • 64. In MemorianRegressando de sua viagem inaugural, meu pai foi a RioNovo e providenciou a nossa mudança da casa do tioJuca. Fomos morar em uma pequena casa, nasproximidades da residência da Ritinha Nogueira, emplena fazenda, distante mais de um quilometro dopovoado.Somente depois da sua segunda viagem, aos sertões deMinas, providenciaria o nosso regresso a Sete Lagoas.Minha mãe conformou-se com a situação.No isolamento a que fôramos confinados pelo vaivémda sorte, minha mãe desdobrava-se em desvelo nacriação de Maria da Penha, menina pálida e tristonha,como que marcada pela angustia de sua concepção.Não parecia ser uma menina sadia e isso veio a positivaro nosso pressentimento. Acometida por sucessivosacessos, ficava desmaiada horas a fio, em convulsõesprolongadas.Os médicos que a examinaram atribuíam em parte, taisconvulsões à existência de vermes intestinais. Outros,porem, acrescentavam que o coração da menina nãofuncionava regularmente. Contudo sobrevivia e issoconsolava o coração de minha mãe.Eu e o João supríamos a casa da lenha necessária, indobuscá-la nas matas da vizinhança, em feixes queexcediam a nossa capacidade de resistência.Convivendo com os filhos de Ritinha Nogueira, que seentregavam aos trabalhos árduos da fazenda, nosdispusemos a arrendar uma área de terreno para ocultivo de milho, feijão e mandioca, obtendo resultadoscompensadores.Joaquim Dias Drummond 64
  • 65. Amigos das Letras de Sete LagoasPela primeira vez empunhávamos uma enxada, paratirarmos da terra um pouco do que precisamos para anossa alimentação.Apesar da ausência do chefe da família, vivíamosrelativamente felizes. E minha mãe controlava as nossasdespesas, cozinhando, lavando as nossas roupas ecuidando da casa.Dentro de poucos dias deixaríamos para sempre oEstado do Espírito Santo.A experiência fora difícil, dolorosa mesmo, mas aexpectativa de revermos a terra natal, de pisarnovamente o solo abençoado de Minas Gerais,compensava tudo quanto havíamos sofrido.Transpúnhamos um capitulo tétrico do livro da vida,sem aniquilar as forças morais que nos compeliam paranovos destinos. 65
  • 66. In MemorianJoaquim Dias Drummond 66
  • 67. Amigos das Letras de Sete Lagoas Capitulo XIA mensagem de meu pai abria novas perspectivas para anossa vida, até então marcada por uma serie deacontecimentos dolorosos.Urgia esquecê-los. Para tanto muito contribuiria oespírito forte de minha mãe. Como esposa, elacompreendia o drama a que fora arrastado o marido e ocumulava de carinhos, sempre dócil, extremamentepaciente.Como mãe, ninguém a excedia em zelo pela sorte dosfilhos que Deus lhe dera.Ultimadas as providências indispensáveis, a seis de abrilde 1902 deixávamos para sempre o Estado do EspíritoSanto.Lá, entretanto, permaneceriam as famílias dos irmãos deminha mãe e a do tio João Drummond, todas muitodedicadas e excessivamente boas para conosco.A nossa separação foi realmente emocional. A viagemse processaria a cavalo até São João do Muquy e daí emdiante por estrada de ferro.No primeiro dia pernoitamos em Cachoeiro deItapemirim, no Hotel Toledo, e no dia chegávamos aSão João do Muquy, dispensando então a comitiva queaté ali nos acompanhara.Na madrugada do terceiro dia embarcamos finalmenteem um comboio da estrada de ferro Leopoldina,pernoitando sucessivamente em Murundu, Muriaé e Juizde Fora, esta já pela Central do Brasil. 67
  • 68. In MemorianEssa viagem de certo modo nos distraia pela sucessãode quadros diferentes, pela diversidade das paisagens.O sentido, porem, estava preso a Sete Lagoas, a metaardentemente sonhada.Quando o comboio partiu de Prudente de Morais e ochefe de trem passou por nós gritando: - Sete lagoas!Sete Lagoas! Sentimos que um sangue novo percorriaas nossas veias, restituindo-nos a vitalidade amortecidanos ásperos entreveros da vida.A nossa recepção à porta do velho sobradinho da Praçade Santo Antonio, ao espocar dos fogos, em meio àsvibrantes manifestações de alegria, foi algo superior asnossas resistências emocionais.As lagrimas se confundiam com as risadas francas,ruidosas, que marcaram o acontecimento. Os menoreseram abraçados efusivamente, beijados e transportadosde um lugar para outro, como partículas que eram de umtodo indivisível, unidas tanto na dor como nosmomentos de euforia: a Família Drummond.O espírito do velho da Pontinha, do Cel. JoaquimGomes de Freitas Drummond, pairava certamente sobreas frontes daquelas criaturas, sangue de seu sangue,fibra da sua própria alma.A alegria fora realmente grande, grande demais paraaqueles que viveram tantos anos afastados dacivilização, confinados pela força do destino.Mas seria o ponto final dos sofrimentos predestinados ànossa família? O futuro responderia a semelhanteinterrogação.Joaquim Dias Drummond 68
  • 69. Amigos das Letras de Sete LagoasCom a saúde bastante abalada por sucessivos embates,contudo, animado para o prosseguimento de suas lutas,meu pai reiniciou o seu giro comercial.Jequitibá, Pau Grosso, Traíras, Conceição do Serro,marcavam as primeiras etapas de sua viagem depenetração pelos misteriosos sertões de Minas.Alegre, comunicativo, ele sabia fazer amigos por ondepassasse. Daí, a conformação da minha mãe. Seria o queDeus quisesse.Decorridos quase dois meses, já em Diamantina, quandoatendia a firma Antonio Eulálio, uma das maiores dapraça, meu pai, acometido por súbito mal-estar,recolheu-se ao leito e submeteu-se ao tratamento que oseu estado de saúde reclamava.Os médicos que o assistiam julgavam mais prudente queele não prosseguisse em suas viagens. Usaram-lhefranqueza. O retorno ao seio da sua família deveriaprocessar-se imediatamente.Abatido, ante a revelação da verdade sobre aprecariedade de sua resistência física, regressou a SeteLagoas.Minha mãe notou à primeira vista que seu marido já nãoera o mesmo. Emagrecera consideravelmente. Pálido,transfigurado, errava pela casa como um autômato,indiferente as preocupações que lhe cercavam.Insone, levantava-se por varias vezes durante a noitepara dialogar com o retrato de Napoleão. A fraquezaperturbara-lhe o espírito, reavivando em sua imaginaçãoos episódios do drama vivido em Colatina. 69
  • 70. In MemorianDurante o seu tratamento, em casa, minha mãedesdobrava-se em atividade, transformada emenfermeira solicita, dedicada e, sobretudo carinhosa.Com pouco mais de um mês, achava-se restabelecido,não para o prosseguimento de suas viagens a cavalo.Escreveu então à firma Barros dos Santos & Cia,expondo a sua situação, pedindo-lhe a vinda de um seurepresentante para o acerto de contas.Naquela época não existia ainda o regime de contasassinadas, não se emitiam duplicatas. O viajante exerciasimultaneamente as funções de vendedor e cobrador.Com a doença gastara bem mais do que já haviaganhado. Amantino Maciel, o enviado da firma queviera para o acerto de contas, era desprovido dequalquer noção de cavalheirismo.Não tomou conhecimento do estado de saúde de meupai. Foi mesmo grosseiro, irritante. Em pagamento doque ficara devendo à firma, meu pai sacrificou quasetoda a sua tropa, então entregue a seu indelicado colega.Livre de qualquer outra responsabilidade que pudessevir agravar a sensibilidade de seus nervos, meu paipensava em fugir da cidade, do reboliço das ruas, dosamigos que se escasseavam...Foi quando lhe surgiu a idéia de mudar-se para o Funil,lugarejo atrasado, desprovido de quaisquer recursos.Comprou da firma Simões Viana & Cia, uma pequenacasa no referido povoado, com boa área de terras e paralá mudamos.Joaquim Dias Drummond 70
  • 71. Amigos das Letras de Sete LagoasAbriu uma bitácula que serviria de motivo para suadistração. Eu e o João cultivamos o terreno, cujosfechos recompusemos, com esmerado capricho.Minha mãe e Maria da Penha, a menina triste, teriam emMaria Negrinha a companheira dedicada para osserviços caseiros.Tudo corria mansamente. Habituamos-nos rapidamentecom os usos e costumes da roça, chegando mesmo ausar alpargatas de sola, para não fugirmos à regra.A enxada não nos surpreendeu, uma vez que já aexperimentara no Estado do Espírito Santo. Para meupai, entretanto, ela fora inclemente.Suas mãos expostas ao frio e ao sol, no amanho ecultivo da terra, abriram-se nas costas, em feridas quepor vezes sangravam.Meu pai reunira em torno de si alguns de seus amigos,para os bate-papos nas horas de lazer. João Anastácio,Antonio Claudino, Evaristo Fernandes, João de Abreu,Jorge Guiscem e João André, formavam esse grupo de“bem-aventurados” que o ajudavam a espantar o seutédio.E com isso, empurrava a vida. Lentamente, como quemnão tivesse pressa de chegar ao fim. Apesar de sentir adebilidade do seu estado de saúde, mantinha-se aindabem humorado.Era o pivô das tertúlias semanais. À sua roda nãovingava os germes da tristeza.Em julho de 1904, um inverno inclemente crestava asfolhas da vegetação que despontava para a vida. 71
  • 72. In MemorianO vale em que terminava a nossa lavoura incipienteestava coberto por denso nevoeiro.Um frio úmido cortava a nossa epiderme, nãoacostumada com os rigores dessa estação. Nada,entretanto, arrefecia a nossa disposição para a luta.Caminhávamos para o eito com a alma em festa. A terranos daria um pouco do que precisávamos. Prelibávamoso prazer de saborear os frutos do nosso trabalho. Acolheita seria farta.Minha mãe animava com sua presença, como seuespírito de renuncia, o fogo sagrado que aquecia a nossacasa.Sempre agarrada as suas saias, Maria da Penha, airmãzinha triste, não a deixava um só momento. Era oresumo das emoções que marcaram a sua concepção.Meu pai contemplava aquelas cenas que sedesenvolviam, ante seus olhos atentos, com profundaamargura.Via em tudo aquilo, a marcha inexorável do destino,encarado com estoicismo, resignadamente. Nos seusdiálogos com minha mãe, tinha sempre uma expressãode reconhecimento, pela dedicação com que ela seimolara em holocausto à felicidade da família.Em uma sexta-feira, eu e o João tomávamos cafématinal que nos preparara a Maria Negrinha e nosdispúnhamos a prosseguir na capina iniciada.Tínhamos os pés metidos em alpercatas. Não devíamosnos diferenciar dos demais que cultivavam a terra. Foinesse momento que minha mãe apareceu para nosavisar:Joaquim Dias Drummond 72
  • 73. Amigos das Letras de Sete Lagoas- Seu pai não os acompanhará hoje; passou muito mal ànoite.Descemos silenciosos para o quintal e no mesmo estadode espírito ali permanecemos, até que nos chamassempara o almoço. Não voltamos ao trabalho, naquele dia.Meu pai piorava progressivamente. Aflita, minha mãe,sem saber o que fazer em uma terra desprovida dequalquer recurso, sem medico, e muito menos de umafarmácia, lançava mão dos remédios caseiros parasuavizar as aflições em que se debatia meu pai. Tudoinutilmente.No domingo imediato, pela manhã, de regresso dafazenda do senhor João Anastácio, onde fora a serviçode sua profissão, passava em nossa casa o Dr. Avelar,medico de Sete Lagoas, amigo de meu pai.Do exame a que procedeu, nada revelou à minha mãe.Como medico nada poderia fazer. O seu silencio, após avisita, demonstrou claramente a sua desilusão.Aconselhou-a, contudo, a continuar ministrando aoenfermo os calmantes que lhe vinha dando. A crisecertamente seria vencida.Teria assim procedido por caridade? Para poupar àminha mãe da certeza antecipada do irremediável?É o que veremos, a seguir. 73
  • 74. In MemorianJoaquim Dias Drummond 74
  • 75. Amigos das Letras de Sete Lagoas Capitulo XIIA discrição do medico não escapou à observação deminha mãe. Viu desde logo, que ele agira no caso, maiscomo amigo da família, cujas aflições não desejavaaumentar.Daí em diante redobrou seus cuidados, na certeza de quea viuvez lhe batia à porta, com todo o seu cortejo desofrimentos.Lembrara-se dos lances angustiantes que marcaram asua vida de esposa e de mãe, analisando a dedicaçãodaquele que Deus lhe dera por esposo, sempre fiel ecompanheiro.A sua resignação era surpreendente. Sublimava-se pelaternura com que afagava os filhos, vendo-os, dentro empouco, privados da assistência de seu pai que por elestudo sacrificara.No seu leito de dor, meu pai compreendia e avaliava odrama então vivido por sua família. Sabia que o seu fimestava próximo e que ele nada mais poderia fazer.Não perdera o sentido até na hora extrema. Faziarecomendações, como se fora o timoneiro de um barcoprestes a soçobrar e com ele ir ao fundo,Distribuiu com os filhos os objetos preciosos de seu usoparticular. Para cada caso apontava uma providência.Seu senso de humor se fez sentir quando lembrou àminha mãe que, naquela terra, nenhum velório se faziasem cachaça e carne frita. 75
  • 76. In MemorianQue da vendinha fosse retirada toda a carne salgadapara isso, e que o João não se esquecesse do garrafão depinga...Segunda feira, pela manhã, minha mãe nos acordousoluçando:- Seu pai está morrendo, Venham tomar-lhe a benção,pela ultima vez.Em decúbito dorsal, seu corpo estava inerte; os olhos,entretanto, brilhavam com intensidade, pousandodemoradamente em cada um de nós.Enquanto minha mãe sustinha-lhe o crucifixo na mãodireita, na esquerda eu mantinha acesa a vela benta.Chorávamos copiosamente.Ele fitou-nos demoradamente, balbuciando sua ultimafrase:- Vocês vão chorando e eu vou morrendo!E duas lagrimas silenciosas rolaram de suas pálpebrassemicerradas. Estava morto!Cruzamos-lhe as mãos sobre o peito, velando-lhe ocorpo com um lençol.A notícia correu logo e a nossa casa se encheu deamigos e de pessoas da vizinhança. Pensamos emremover o corpo para Sete Lagoas.Idéia logo afastada, por impossível. Dificilmenteromperíamos, em carro puxado a boi a distancia que nosseparava da nossa cidade.O enterro seria lá mesmo, no dia seguinte. EvaristoFernandes e Jorge Guiscem, bons amigos nossos,tomariam as providencias.Joaquim Dias Drummond 76
  • 77. Amigos das Letras de Sete LagoasMandaram buscar em Jequitibá, o Padre José Gonçalvespara a encomendação. O caixão foi feito em bancotosco, à nossa porta.Noite adentro, o martelo batia, fazendo aumentar anossa angustia. Uma fogueira foi improvisada noterreiro. Em torno dela comia e bebia a gente simples dopovoado.O fumo de rolo, em densas espirais, completava oquadro tétrico daquela noite de velório. Conversavamanimadamente, falavam de tudo e de todos.Só nós permanecíamos junto do cadáver, em oraçõescontinuas, ao crepitar dos círios que ardiam lentamente.O funeral de meu pai realizou-se na manhã seguinte,acompanhando pelo Padre José Gonçalves. Para omesmo fim vieram de Sete Lagoas, DomitilaDrummond, Manuel de Assis Gonçalves, Amador LuizMoreira e João Chassim, este residente também noFunil, mas ausente por ocasião do desenlace.Satila, como era conhecida aquela prima, desvelou-seem prestar a minha mãe carinhosa assistência. Cincodias depois deixamos o povoado de tão tristesrecordações.Em Sete Lagoas, no sobradinho, velha residência dosmeus avós aguardavam a nossa chegada, vovó Lilia,Fernando, Juquita e tia Babita com esposo e filho.Inúmeras foram as visitas então recebidas. Uma,entretanto, muito nos sensibilizou pelo seu ineditismo.Tratava-se do senhor Hermelindo Pinto, um dos trêspretendentes à mão da minha mãe. 77
  • 78. In MemorianDe Curvelo, onde residia e constituíra família, veiosolidarizar-se com ela na sua dor.Era uma pessoa bem instalada na vida e de fartosrecursos. Dirigindo-se a minha mãe disse-lhe, por fim.- Dona Amaziles; minha visita é de enternecidasolidariedade com seus sofrimentos. Estou em plenascondições de servi-la e ponho a sua disposição os meuspréstimos, em qualquer sentido.Sensibilizada com a delicadeza do gesto, minha mãenão pode conter as lagrimas. Intimamente reconheceu anobreza de sentimentos daquele que soubera conservartão pura uma velha amizade.Estendeu-lhe a mão num gesto de profundoagradecimento, declinando de qualquer outro apoioalém daquele que o levara a sua presença, o dasolidariedade moral.A nossa situação era de serias dificuldades. Meu painada deixara, alem da casinha que tínhamos no Funil,vendida logo depois para o senhor José Martins deAbreu, por dois contos de réis.Fernando, já era empregado no comercio do Rio dasVelhas, ganhando por mês, dez mil réis. O tio Juca, bome prestimoso com sempre, anuíra em aumentar a cota defornecimento mantida na casa comercial do senhorManuel Chassim Drummond.Com essa providência, nós tínhamos garantido onecessário para a subsistência. Outras providências seimpunham para fazer face as demais despesas.Minha mãe se dispôs a luta. Ora na costura, fazendocamisas para homens, a mil e quinhentos reis; ora noJoaquim Dias Drummond 78
  • 79. Amigos das Letras de Sete Lagoasformo, fabricando bolachas, biscoitos e pães de queijoque eu e o João vendíamos pelas ruas, em grandestabuleiros.As laranjas da chácara, plantada por meu pai,constituíam outra fonte de renda, vendidas emcarrocinhas de mão, a mil réis o cento.E assim fomos vivendo até que se definisse a situaçãode cada um de nós, de menor idade.Fernando veio do Rio das Velhas para trabalhar nocomercio local. João também se empregou comocaixeiro em uma casa de gêneros como meu pai.Eu declinei-me para o oficio de alfaiate e em poucotempo já ajudava em alguma coisa. A essa altura nãopesávamos mais ao tio Juca.O falecimento de Maria da Penha, poucos meses após ade meu pai, veio encher de tristeza a nossa casa. Tãomeiga, tão pura, com seus cabelos longos e pretos,parecia-nos uma mocinha. O coração traiu-a, antes quepudesse sorrir para a vida. 79
  • 80. In MemorianJoaquim Dias Drummond 80
  • 81. Amigos das Letras de Sete Lagoas Capitulo XIIIRefeita em parte do abatimento que lhe causara ofalecimento de Maria da Penha, (a Bioca, como achamavam no Rio Novo, talvez porque suasbrincadeiras não tivessem a vivacidade própria a suaidade), minha mãe passou a concentrar suas atençõesnos filhos que iam se fazendo homens, alguns jáensaiando suas conquistas amorosas.Cuidava dos seus arranjos, não lhes permitindo que seapresentassem em reuniões sociais, sem que estivessemdecentemente trajados.Até Juquita, o mais moço da turma e que fizera cursopratico de guarda-livros, do qual auferia boa renda, jáentretinha seu romance com uma pequena da Rua SilvaJardim. Um só objetivo o dominava: o casamento.Como conseqüência, embora dissuadidos por minhamãe a não realizarem tais intentos, por serem muitosjovens ainda, no período de 1910 a 1922 os quatroherdeiros do nome de João Drummond contraírammatrimonio.Como aves implumes bateram asas, ainda meiodeficientes para aqueles vôos. Deixaram a casa materna.Minha mãe ficara no velho sobradinho, com vovó Liliae a tia Babita, todas viúvas, alimentando o fogo sagradoque as unia e ainda aqueceria os novos lares emformação. Não foram esquecidas. Continuavam a serassistidas pelos filhos que se casaram. 81
  • 82. In MemorianA convivência que se estabeleceu entre elas – símbolode um passado digno de respeito e de veneração, e osque se separaram para uma nova vida, foi exemploedificante e consolador.Não tardou que os netos viessem a suavizar sua vida,enchendo a casa com a alacridade de seus brinquedosinfantis, com a graça natural dos que ensaiavam osprimeiros passos.O desaparecimento um pouco mais tarde de Juquita,vovó Lilia, João, tio Juca e tio Quincas foram golpesprofundos vibrados na sua sensibilidade tãoatormentada.Daí por diante, minha mãe se repartia morando ora comum, ora com outro filho, cabendo-me a ventura de tersido o meu lar no que mais tempo se deteve, o queatribuo a nossa afinidade espiritual.Eu era impetuoso na minha mocidade e a tudo meatirava sem temer conseqüências. Acredito que ela tenhachegado à conclusão de que, por isto mesmo, era o quemais precisava da sua assistência.À minha mãe eu devo o que tenho procurado ser navida. Confesso, com vaidade.Quando me retirei para Paraopeba, o inicio do ano de1943, minha mãe voltou para o sobradinho, passando aviver em comum com a tia Babita e sua cunhada Sabita.Entendiam-se muito bem. O estado de minha mãe,entretanto, inspirava cuidados. Não era mais a mulherforte que vencera heroicamente tantos obstáculos. Seucorpo franzino ia cedendo lentamente aos impactos delonga enfermidade, própria do sexo.Joaquim Dias Drummond 82
  • 83. Amigos das Letras de Sete LagoasNão resistindo às crises sucessivas que tanto a abatiam,em fevereiro do mesmo ano caiu de cama para não maisse levantar.Embora ausente eu tive no Dr. Avelar Campos e nofarmacêutico Deusdedit Correa, autênticos abnegadosno exercício das suas profissões.A dedicação que tiveram com minha mãe foi algosuperior ao simples cumprimento do dever profissional.Como enfermeiras, revezavam-se em um trabalhoextenuante, a tia Babita, Sabita, e Sacalina, sempreauxiliadas por minha mulher que tinha o pensamentovoltado para o marido ausente.Assistida espiritualmente pelo Padre Flavio D’Amato,com os sacramentos e as orações da Igreja, pela manhãde 24 de dezembro de 1943, entregava sua alma aoCriador.E assim terminava a sua vida, purificada pelossofrimentos e abençoada pelas gerações que lhesucederam!Quer como esposa ou mãe, sua vida constitui umexemplo edificante para as gerações que surgem, tãoeivadas de um preconceito social que desvirtuam afunção precípua da mulher.Eu que assisti ao passamento de meu pai e de meusirmãos, não pude prestar a minha mãe a assistência quelhe era devida em sua hora extrema.Confinado em Jaboticatubas, onde a correspondênciapostal chegava apenas duas vezes por semana, foi por 83
  • 84. In Memorianum cartão de pêsames que tomei conhecimento da suamorte. Caprichos do destino!Logo que regressei a Sete Lagoas, fiz erigir sobre osseus restos mortais e os de vovó Lilia, modesto túmuloencimado pela imagem do Crucificado.Símbolo da verdade eterna.Meus filhos – este é o relato fiel da vida daqueles queme sucederam o ser. Saibam como eu, honrar-lhes amemória, porque souberam edificar com seu exemplo. Joaquim Dias DrummondJoão Antonio DrummondNascido em 14 d março de 1862Falecido em 11 de julho de 1904Amaziles Rosalina Viana DrummondNascida em 5 de dezembro de 1869Falecida em 24 de dezembro de 1943Napoleão Teixeira de Novais (Napoleão Bonaparte)Era filho de Inácio Teixeira de Novais, de nacionalidadeportuguesa, e de Maria Madalena Guedes Torres.Joaquim Dias Drummond 84
  • 85. Amigos das Letras de Sete LagoasNotas complementaresEm 1911 estiveram em Sete Lagoas vovó MariaRaimunda, mãe de meus pais, e a tia Ferdinanda, suairmã, viúva do desventurado Napoleão Bonaparte,barbaramente trucidado em Colatina – Estado doEspírito Santo, em 1900.De um caderno de produções literárias, escritas por tiaFernandina e deixado sobre a mesa de meu quarto,retirei a sextilha que abaixo transcrevo que foi publicadano Correio de Itabira e no Serro Azul de Ponte Nova, noano de 1899.O poema retrata seu arrependimento de um gestoirrefletido, ante uma simples suspeita, gesto, que levou aseparação um casal cheio de filhos que vivia até entãoplenamente feliz.Os julgamentos precipitados acarretam quase sempregrandes tragédias. 85
  • 86. In MemorianJoaquim Dias Drummond 86
  • 87. Amigos das Letras de Sete Lagoas PartidaPartiste, que triste desalento,Depois de tantas horas inefáveisDe amor no doce laço.Dorida, contemplo muda, o firmamento.Baixam a Terra nevoas insondáveis,Frias como aço!Escute quando despontar a aurora,Bordando o céu com flocos luminosos,Tu seguirás alem.Talvez tua alma nessa triste hora,Sinta saudades daquela que em silêncioPor ti sofrido tem.Pensaras nesta terra estremecida,Onde de novo tu virás viverEm doces afeições,Lembrando-se sempre que és amado,Nessas felizes horas de prazer,Horas de emoções.Terás o talismã abençoadoA que recorras se tu sentiresDa saudade a dor.Permita Deus que possas brevemente,De novo a terra estremecida ver,Com acrisolado amor.Fernandina DrummondItabira 05/06/1899 87
  • 88. In MemorianJoaquim Dias Drummond 88
  • 89. Amigos das Letras de Sete LagoasAncestrais de Joaquim Dias DrummondTetravós Antonio João de Freitas Carvalho Drummond Engracia Michaela de Freitas HenriquesTrisavós João Antonio de Freitas Carvalho Drummond Anna Luiza EmilianaBisavós- Paternos Fernando Antonio de Freitas Drummond Thereza Miquelina da Silveira Bicalho- Maternos Joaquim Gomes de Freitas Drummond Balbina Julieta de Freitas BicalhoAvós- Paternos Fernando Antonio Drummond Junior Maria Raimunda dos Santos Drummond- Maternos Joaquim Dias Bicalho Neto Maria Claudina Vianna DrummondPaisJoão Antonio DrummondAmaziles Rosalina Vianna Drummond 89
  • 90. In MemorianNotas – Meus Bisavós Fernando Antonio de FreitasDrummond e Joaquim Gomes de Freitas Drummonderam irmãos, filhos do primeiro matrimônio do GuardaMor João Antonio De Freitas Carvalho Drummond.Minha bisavó materna – Balbina Julieta de FreitasBicalho era descendente de tradicional família de SantaLuzia do Rio das Velhas.Joaquim Dias Drummond, autor destas notas, nasceu emSete Lagoas no dia 22 de janeiro de 1891.e faleceu noano de 1975,Em 27 de outubro de 1915, uniu-se pelo matrimoniocom a senhorita Aida Raposo, filha do senhor JoséEstevam Raposo e da senhora Antonia de Melo Raposo,todos da cidade de Prados, oeste de Minas.Ainda nasceu em 13 de setembro de 1897.São filhos deste casal:Roberto Rômulo, Marcos Vinício, Magda, MariaAuxiliadora, Silvia Marina, Marcelo Arinos, Maria Josée Maria Lucia.Joaquim Dias Drummond 90
  • 91. Amigos das Letras de Sete Lagoas BiografiaPesquisa baseada no livro de Márcio Vicente da SilveiraSantos – Apontamentos Para a Biografia de JoaquimDias DrummondJoaquim dias Drummond - Nhô QuimNasceu em Sete Lagoas no dia 22 de janeiro de 1891Filho de João Antonio Drummond e Amaziles RosalinaVianna Drummond.Seu bisavô materno foi o coronel Joaquim Gomes deFreitas Drummond, o primeiro membro da famíliaDrummond a se estabelecer na região pelos idos de1833.Em 1894 a sua família mudou-se para o Espírito Santoresidindo em seqüência nas cidades de Rio Novo,Iconha, Piuma e Colatina.Em 1902 a família voltou a residir em Sete lagoas.Nhô Quim casou-se em 27 de outubro de 1915 comAida Raposo, filha de José Estevan Raposo e Antoniade Melo Raposo, família originaria de Prados – MG.Deste casamento nasceram dez filhos, sendo que seteainda estão entre nós e cinco vivem em Sete lagoas.Nhô Quim iniciou-se nas primeiras letras na escola doprofessor Osório Vianna e fez o curso primário na 91
  • 92. In Memorianescola do professor Cândido Maria de AzeredoCoutinho ambos na cidade de Rio Novo - ES.Diplomou-se com distinção no ano de 1904 e nestemesmo ano foi colhido por fato triste e marcante: amorte prematura do pai aos 42 anos de idade.Aos 14 anos começou a trabalhar como balconista e empoucos meses aprendeu com o Sr. Antonio Gregório deFreitas a profissão de alfaiate.Em 1909 conseguiu emprego na grande alfaiataria dePedro Paulo Galoti, o mais conceituado da capital. Um ano depois regressou a Sete Lagoas para montarseu próprio ateliê, a Alfaiataria Central, situada na RuaSilva Jardim (hoje Monsenhor Messias).Em 1920 foi nomeado Coletor de Rendas Municipaisem ato assinado pelo então secretario das finanças, JoãoLuiz Alves.Em 1922 Nhô Quim arrematou em leilão público, atipografia do Jornal O Reflexo e inaugurou a seguir aPapelaria e Tipografia Kosmos.A sua antiga sede, situada na esquina entre a RuaTeófilo Otoni e a atual Avenida Lassance Cunha cedeulugar ao Ed. Vera Cruz, o primeiro “arranha céu” deSete lagoas.Joaquim Dias Drummond 92
  • 93. Amigos das Letras de Sete LagoasEm 1942 iniciou sua carreira bancária ingressando naCasa Bancária Wanderley Azeredo & Cia, como gerenteda agência de Paraopeba.Após um ano foi transferido para Jaboticatubas, namesma função.Em 1944 a Casa Bancária foi encampada pelo BancoIndustrial de Minas Gerais S.A., e Nhô Quim foidesignado para a agência de Belo Horizonte no cargo deinspetor.No ano de 1945 transferiu-se para o Banco da Lavourade Minas Gerais, instalando como gerente, a agência deSete Lagoas.Em 1951 ingressou nos quadros do Banco Agrícola deSete Lagoas, mais tarde Banco Agrícola de MinasGerais, do qual se aposentou em 1964.Joaquim Dias Drummond era dotado de naturezadespojada e cooperativa tendo participado ativamente davida da cidade em vários setores.Foi vereador, secretario do legislativo municipal,presidido à época pelo Dr. Zoroastro Passos. Nomeadoem 1920, coletor de rendas do município pelo entãosecretário de finanças do Estado.Era secretario da câmara municipal que foi destituídapela revolução constitucionalista de 1930 quando 93
  • 94. In Memoriantambém acumulava a função de tesoureiro. Respondeupela direção do município entregando-o ao prefeitonomeado para Sete Lagoas Dr. João Batista ProençaSigaud, que o manteve como colaborador.Em 1926 foi nomeado pelo juiz de direito, SenhorAmarilio Moreira Pena, promotor de justiça pelo prazode trinta dias. Em dezembro daquele ano foi nomeadopelo governador do Estado, Doutor Antonio CarlosRibeiro de Andrade, adjunto promotor de justiça dacomarca, cargo que deixou ao ser eleito pela câmaramunicipal secretario do poder executivo.Nhô Quim foi ainda arbitrador judicial.Como colaborador da Igreja e suas instituições NhôQuim exerceu os cargos a seguir:Vicentino da Conferência de Nossa Senhora das GraçasProvedor da Irmandade do Santíssimo Sacramento daMatriz de Santo Antonio, em apoio ao Padre Sanson.Primeiro Presidente do Conselho Paroquial de SantoAntonio, em apoio ao Padre Flávio D’Amato.Provedor do Hospital Nossa Senhora das Graças pordois anos.Secretário da Comissão Pró Construção do novo prédiopara o Hospital Nossa Senhora das Graças.Um dos fundadores da Sociedade de Proteção à Infânciae Adolescência (SPIA), da Paróquia de Santana.Diretor Administrativo do Ginásio Dom Silvério.Joaquim Dias Drummond 94
  • 95. Amigos das Letras de Sete LagoasEditor do Jornal Católico Alvorada.Fundador e primeiro Presidente da AssociaçãoComercial de Barão de Cocais.Participou da fundação da Associação Comercial deSete lagoas como primeiro secretário, e foi seu terceiropresidente.Fundou o Avante Futebol Clube, surgido no mesmo anoque nascia o Democrata.Foi vice-presidente do Ideal e alguns anos mais tardepresidente do Democrata por dois períodos e oradoroficial do Bela Vista.Em sua trajetória participativa e abnegada Nhô Quimexerceu ainda os seguintes cargos:Primeiro secretário da Liga OperáriaSecretario do S.A. Cine TrianonDiretor do Automóvel Clube de Sete LagoasTesoureiro da Caixa Escolar Cândido AzeredoSecretario do Diretório Municipal do PartidoRepublicano MineiroCorrespondente do Banco Mineiro da Produção S.A.Entusiasta das artes cênicas ingressou no quadro deamadores do Grupo Dramático Melanciense e após suaextinção passou a pertencer ao Grupo Dramático JoãoCaetano, o primeiro de Sete lagoas. 95
  • 96. In MemorianFundou com amigos e dirigiu o Grupo Dramático CarlosGoes e o Grupo Dramático Dr. João Avellar, de efêmeraexistência.Mais tarde exerceu o cargo de diretor do GrupoDramático Guerra Junqueiro, formado por operários daEstrada de Ferro Central do Brasil.Foi presidente do Centro Cívico Dr. Melo Viana ediretor do Rose Clube de Sete lagoas.Foi ainda diretor da corporação musical Nossa Senhoradas Dores quando regida pelo maestro Orozimbo deMacedo.Joaquim Dias Drummond exerceu no jornalismoatividades como fundador, redator e/ou editor nosseguintes jornais:AlvoradaNossa TerraSete LagoasMensagemFolha CacoenseFoi ainda colaborador das seguintes publicações:AcaiacaA RondaCorreio de Sete LagoasCeres (jornal dos funcionários do Banco Agrícola)O Jornal do Centro de MinasPublicou ainda:História do Centenário da Paróquia de Santo AntonioJoaquim Dias Drummond 96
  • 97. Amigos das Letras de Sete LagoasHistória do Teatro de Sete lagoasIn Memoriam (inédito)PiquetesPassado CompassadoJoaquim Dias Drummond conquistou o Diploma deMérito Cultural concedido pela Câmara Municipal deSete Lagoas.E para finalizar a sua brilhante biografia, foi sóciohonorário das seguintes associações culturais:Clube de Letras de Sete lagoasAcademia de Letras de Sete lagoasUBT – União Brasileira de Trovadores. FIM 97
  • 98. In MemorianJoaquim Dias Drummond 98

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