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  • 1. OS CUIDADOS COM A “CARNE” NA SOCIALIZAÇÃO SEXUAL DOS JOVENS * Luís Felipe Rios # Vera Paiva ¶ Ivia Maksud æ Cinthia Oliveira Æ Claudia Maria da Silva Cruz ∆ Cristiane Gonçalves da Silva Ө Veriano Terto Junior Ф Richard ParkerRESUMO. Neste trabalho discutimos o posicionamento de lideranças cristãs sobre a “gestão” das sexualidades dos jovens, no contexto deinterpelação das políticas sexuais do Estado. As reflexões resultam de pesquisa etnográfica, conduzida através de levantamentodocumental, observação e entrevistas com 47 religiosos em Recife. A análise dos dados evidencia o espaço religioso como instânciadisciplinar que opera a partir de uma razão transcendente (“responsabilidade”). Espera-se que esta seja incorporada pela pessoa, que, então,passa a ser capaz de fazer escolhas apropriadas e diferenciar o “certo” do “errado”. Aids e gravidez na adolescência aparecem comoresultantes das “tentações da carne/erótico”. Na perspectiva dos Direitos Sexuais e à Saúde, o artigo visa desconstruir a carne comodomínio de “tentação” e de “força essencial” que leva ao desvio/pecado/“risco”; ressituando-a como instância positiva dos sujeitos (dedireitos), e condição de fertilidade social.Palavras-chave: juventude, socialização sexual, religiões cristãs. THE CARE OF THE “FLESH” IN YOUNG PEOPLE’S SEXUAL SOCIALIZATIONABSTRACT. The positions of Christian leaders on the “management” of young people’s sexuality, as contextualized withinthe sexual politics of the state, are discussed. They are the result of an ethnographic study undertaken through archival work,participating observation and interviews with 47 religious leaders in Recife PE Brazil. Analysis shows the space of religion asa disciplinary site, operating through transcendent reasoning (“responsibility”). The person is expected to incorporate suchreasoning and make the appropriate differentiations between “right” and “wrong”. AIDS and adolescent pregnancy appear asa result of “temptations of the erotic flesh”. From the perspective of human rights and health, the article deconstructs the ideaof the “flesh” as dominated by “temptation,” and as an “essential force” which leads the person to stray/sin/”risk”. It re-situates sexuality as a positive instance for the subjects (with rights) and a condition for social fertility.Key words: Young people, sexual socialization, Christian religions. LOS CUIDADOS CON LA CARNE EN LA SOCIALIZACIÓN DELOS JÓVENESRESUMEN. Eneste trabajo discutimos el posicionamiento de los líderes cristianos sobre la “gestión” de las sexualidades delos jóvenes, en el contexto de la interpelación de las políticas sexuales del Estado. Las reflexiones son resultados de pesquisasetnográficas realizadas a través del levantamiento documental,observación y entrevistas efectuadas en Recife con 47religiosos. El análisis de los datos evidencia al espacio religioso como una instancia de disciplina que opera a partir de una* Doutor, Laboratório de Estudos da Sexualidade Humana (Lab-ESHU), Universidade Fedral de Pernambuco-UFPE.# Doutora, Núcleo de Estudos para a Prevenção da AIDS-NEPAIDS, Universidade de São Paulo-USP.¶ Doutora, Associação Brasileira Interdisciplinar de AIDS-ABIA.æ Graduanda em Psicologia, Lab-ESHU-UFPE.Æ Mestranda em Antropologia, Lab-ESHU, UFPE.∆ Doutoranda em Psicologia, NEPAIDS, USP.Ө Doutor. ABIA.Ф Doutor. Columbia University e ABIA. Autores convidados.Psicologia em Estudo, Maringá, v. 13, n. 4, p. 673-682, out./dez. 2008
  • 2. 674 Rios et al.razón trascendente (“responsabilidad”) esperándose que sea incorporada por la persona que entonces será capaz de hacerelecciones apropiadas y diferenciar lo “cierto” de lo “errado”. El SIDA y el embarazo en la adolescencia aparecen comoresultado de las “tentaciones de la carne /erótico) En la perspectiva de los Derechos Sexuales y a la Salud, el articulo pretendedesconstruir la carne como dominio de “tentaciones” y de la “fuerza esencial”que lleva al desvío/pecado/”riesgo”;resituándola como instancia positiva de los sujetos (de derecho) y condiciones de fertilidad social.Palabras-clave: Juventud, socialización sexual, religiones cristianas. Vigiai e orai, para que não entreis em dessa questão se daria a partir da incorporação, pelos tentação; na verdade, o espírito está pronto, indivíduos, na dimensão mais privada da vida (a mas a carne é fraca (Mateus, 26, 41). sexualidade), de comportamentos qualificáveis como saudáveis agora definidos como práticas sexuais PREÂMBULO: SEXO SEGURO SEGURAS. Textos extraídos do site na internet da Coordenação Nacional de DST/AIDS do Ministério Nas últimas décadas a temática da vida sexual dos da Saúde do Brasil exemplificam como a perspectivajovens vem ganhando relevo e importância. Como nos do risco e da segurança se atualiza no caso daslembra Foucault (1993), no processo de políticas públicas brasileiras de resposta à epidemia:modernização, a sexualidade passa a ser percebidacomo ponto de intersecção entre indivíduo e O uso consistente do preservativo é o meiosociedade, operacionalizadora de questões mais seguro de prevenir-se contra as DST e o vírus da AIDS. Para isso é preciso saber usarrelacionadas à vida, à saúde, à doença e à morte – a camisinha de modo correto. (...)todas de especial interesse para políticas locais e Importância das medidas preventivas e aglobais, lugar estratégico para a gestão de populações. responsabilidade de cada um. (...) DiversosFoucault denominou de biopoder o operador da estudos confirmam a eficiência do preservativoarticulação entre tecnologias disciplinares e na prevenção da aids e de outras doençasbiopolíticas que se expandiu e generalizou por todo o sexualmente transmissíveis. Em um estudo realizado recentemente na Universidade decorpo social durante o século XIX. Wisconsin (EUA), demonstrou-se que o correto e Ao longo dos séculos seguintes, cada vez mais os sistemático uso de preservativos em todas asaparelhos médicos se integraram aos aparatos relações sexuais apresenta uma eficácia estimadaadministrativos com funções reguladoras. No que se em 90-95% na prevenção da transmissão do HIV. Os autores desse estudo sugerem umarefere à disciplinarização dos sujeitos, Foucault (1995) relação linear entre a freqüência do uso deobserva que as condutas são apreendidas numa preservativos e a redução do risco de(aparente) flexibilidade das estruturas sociais, o que transmissão, ou seja, quanto mais se usa agarante o controle, intensificando-o e ampliando-o por camisinha menor é o risco de contrair o HIV 1todo corpo social; ao mesmo tempo, os indivíduos são (Grifos nossos).significados como “livres para escolher”. Nesseprocesso, a noção de “segurança” constitui-se como A lógica posta em ação é a do cálculo atuarial dascategoria-chave para a formação de sujeitos afins às companhias de seguridade, que mede exposições anormas do Estado - componente dominante da riscos na interface com custos, devendo deve sermoderna racionalidade governamental. incorporada e utilizada pelos indivíduos no dia-a-dia, Conforme Caliman (2006), neste quadro, “a de forma que estes possam avaliar, eles mesmos, ostentativa de banir qualquer possibilidade de riscos riscos de seus próprios comportamentos. Talvirtuais, prováveis e calculáveis através de novas perspectiva tende a considerar o risco uma experiênciaestatísticas de probabilidade torna-se ainda mais universal, de modo a ignorar as diferenças sociais,potente”. Neste âmbito é possível se compreender o como gênero, etnia/raça e pertencimento social.ideal de prevenção que “rege o sonho do absolutocontrole dos acidentes e o mito da razão calculada”,onde o risco “se encontra em tudo que o indivíduo SEXUALIDADE E RELIGIÃOainda não aprendeu a controlar” (p. 207). Sob a inspiração de Foucault, podemos entender a Foi neste panorama, que pensa os “perigos doepidemia de aids como questão de Estado, pensada sexo”, que os anos de 1980 viram emergir no Brasil acomo do âmbito de “o que a irracionalidade pode fazer 1com a vida das pessoas e da sociedade”. A resolução http://www.aids.gov.br/data/Pages/LUMISF11BF5B6PTBRIE.htmPsicologia em Estudo, Maringá, v. 13, n. 4, p. 673-682, out./dez. 2008
  • 3. Os cuidados com a “carne” 675epidemia da aids e uma série de estudos sobre a RESULTADOSsexualidade dos jovens, sobre o “risco” de seinfectarem por HIV/DSTs, concomitantemente à A sexualidade no ideário cristão: a socialização dadefinição do “perigo” da “gravidez na adolescência”. carneSem retomar aqui uma revisão de como evoluíram Corpo e Espírito são temas-chaves nos discursosestes dois campos de estudos (vide Paiva, 2006; Rios, religiosos cristãos, articulados quase sempre numaPimenta, Brito, Terto & Parker, 2002), gostaríamos de perspectiva teleológica de “salvação”, neste ou nochamar a atenção para temáticas pouco valorizadas na “outro mundo”. Assim, por meio de ações diversaselaboração de pesquisas e/ou intervenções: a sobre o corpo propõem o alcance de estados ideais deimportância das culturas religiosas na construção da “santidade” “técnicas de si” (Foucault, 2006) que, emsexualidade – na produção e reprodução da vida social menor ou maior grau, constituem um corpo carregado(Giumbelli, 2005). de sensações, desejos e prazeres. Destacamos que no Apesar de os clássicos da sociologia apontarem manual de técnicas de si cristão – a Bíblia – empara um futuro desencantado, em que a religião nenhum momento sexo/sexualidade e erotismocederia espaço à ciência, o vaticínio não se cumpriu aparecem assim nomeados2, já que são noçõesnem no Brasil nem no resto do mundo (Berger, 2001; recentemente inventadas na história do Ocidente. AMariz, 2001; Weber, 2004). Ao mesmo tempo, categoria êmica utilizada é carne.estudos sobre as relações políticas entre igrejas e Como se pode observar na citação em epígrafe,Estado sinalizam para a penetração das diferentes Mateus já alertaria sobre os riscos da carne para a vidaformas de religiosidade nas instâncias de poder espiritual, mas é Paulo quem situará, dentro do ideárioinstitucional e de formulação das políticas públicas cristão, o que seria para o Ocidente a “eterna” luta dobrasileiras, ou mesmo em recantos onde o Estado não Espírito contra o Corpo, entendido aí como carneconsegue chegar facilmente (Machado, 2003; (vide Gálatas 5:17, http://www.bibliaonline.com.br);Montero, 2006). carne que não será apenas fraca, mas especialmente A partir desse quadro, neste trabalho perigosa para a obra divina: “(...) na minha carne, nãodiscutiremos os posicionamentos de lideranças habita bem algum; e com efeito o querer está em mim,cristãs (evangélicas e católicas) sobre juventude e mas não consigo realizar o bem” (Romanos, 7: 18).sexualidade, pensando-os como uma das Ariès (1987) lembra que, em Paulo, os pecados seperspectivas sobre a “gestão” da sexualidade dos dividem em cinco grandes categorias: os pecadosjovens que é interpelada pelas políticas do Estado contra Deus, contra a vida do homem, contra o seubrasileiro para a prevenção da aids. corpo, contra os bens e as coisas, e os da palavra. O autor sublinha que a partir das epístolas paulinas surge “uma moral sexual, pecados contra o corpo, devidos MÉTODO ao uso ou abuso das inclinações sexuais, dir-se-á a concupiscência” (p. 52). Não obstante, algo da ordem As reflexões aqui apresentadas são resultantes de da carne precisa permanecer, de modo que adois estudos multicêntricos realizados no Rio de reprodução social aconteça e a ordenação do “cresceiJaneiro, São Paulo, Porto Alegre e Recife. Focaremos e multiplicai” se cumpra; e é o mesmo Paulo, mesmoa presente discussão nos dados e análises realizados considerando o ideal da castidade, quem vai oferecerno último sítio. A pesquisa foi conduzida a partir de os recursos para situar a vida sexual dentro douma perspectiva etnográfica e utilizou, além de casamento, bem como a dos solteiros e viúvos (videlevantamento documental, observação e entrevistas Coríntios, 7:1-40).temáticas, de história oral e histórias de vida com 47 Como operam, então, os mecanismos para que asclérigos, leigos e outros atores relevantes, todos de diretrizes do cristianismo se cumpram em seusalgum modo envolvidos na resposta brasileira à seguidores? Em "Omnes et Singulatim" Foucaultepidemia da aids. Utilizou-se também a metodologia (2006) discute o poder exercido pelo cristianismo nosdas cenas (Paiva, 2006) – em síntese, o levantamento adeptos através da instituição do pastorado. Estede narrativas detalhadas de episódios que permitem “pressupõe uma forma de conhecimento particularobservar e decodificar os significados e sentidos dasfalas de cada ator e seus atos em cena, o cenário 2sociocultural, a proteção ou violação de direitos. Para esta afirmação nos baseamos em consulta no site http://www.bibliaonline.com.br, acessado em 20 deRessaltamos que os nomes dos informantes citados no setembro de 2007. Nossa pesquisa se restringiu ao Novotexto são fictícios. Testamento.Psicologia em Estudo, Maringá, v. 13, n. 4, p. 673-682, out./dez. 2008
  • 4. 676 Rios et al.entre o pastor e cada uma das ovelhas. (...) Ele verdadeiramente demoníacas (p. 369,individualiza. Não basta saber em que estado se negrito nosso).encontra o rebanho. É necessário também conhecer ode cada ovelha” (p. 368), pois a perdição de uma só Foucault se refere aqui a duas das matrizes queovelha repercute na salvação do pastor e de todo o concorreram para a formação do que ele denominourebanho. biopoder. Podemos indagar então: não seria do âmbito O autor assinala que para dar conta do do demoníaco, ao qual Foucault faz menção, a tensãoconhecimento necessário pelo pastor sobre cada vivenciada pelos jovens religiosos? Não deve ser fácilovelha para bem guiar o seu rebanhado, o cristianismo encontrar-se no entrecruzamento de duas matrizes deirá se apropriar de e reconfigurar dois elementos que subjetivação tão “objetificantes”: a religiosa,são obra do mundo helênico: o exame de consciência viabilizada pelo pastorado, onde o compromisso maiore a direção de consciência. No contexto cristão é com a salvação de si e da comunidade de fé nohaverá um vínculo entre a obediência total e o “outro mundo”; e a do Estado que usa o biopoder paraconhecimento de si, articulado e mediado pela “educar” os corpos.confissão a alguém. Foucault (2006) nos lembra, Estes dois regimes de pensar e constituir aentretanto, que antes de se instalar o dispositivo da sexualidade não se encontram tão afastados econfissão – restrito à relação dual entre o pastor e a dicotômicos como pode parecer. Weber (2004) jáovelha – a principal forma de lidar com o pecado era o indicara que vem da própria “ética religiosa”que chamaremos aqui de testemunho público, a (protestante) muito do que faz o “espírito” do“exomologênese”. capitalismo moderno, não apenas como um modo de Finalmente, a última transformação – para operar economicamente, mas como um verdadeiroFoucault (2006), talvez a mais importante: “todas sistema cultural capaz de formar “personalidades”estas técnicas cristãs de exame, de confissão, de afeitas e prontas para reproduzi-lo. Os termos dadireção de consciência e de obediência têm uma reforma protestante mudam o necessário parafinalidade: levar os indivíduos a trabalhar na sua alcançar-se o outro mundo – suprimiu-se a magiaprópria ‘mortificação’ neste mundo” (p.369). Neste como meio de salvação; as “mortificações corporais”contexto, a penitência, enquanto forma de relação para transfiguram-se na ascese mediante o trabalho nesteconsigo mesmo, assume o sentido de “renúncia a este mundo; permitiu-se o acúmulo, ainda que austero, demundo e a si mesmo (...) que é considerada por dar a bens, enquanto demonstração da fruição da graça.vida no outro mundo” (p. 369). Conforme Weber (2004), com as mudanças trazidas Eis então, em linhas gerais, o dispositivo cristão pelo protestantismo o caminho estaria, então, abertode “sexualidade”: a centralidade dos pecados da carne, para uma perspectiva secular de estar no mundo, parano modo como se situam na ordem do mundo e em a emergência de um Estado laico e dissociado dasuas implicações para os indivíduos. Por meio do magia e religião.pastorado se estabelecem o jogo de controle para saber Não obstante, Sahlins (2004) mostra como ase o da disciplina para fazer cristãos responsáveis por si concepções cristãs, estruturas de tempo longo,e pelos outros, não apenas em seus atos públicos: o continuam presentes e orientando pensamentos etestemunho e/ou a confissão tornam possível ações. Assim, noções como as de providência divina e“desemboscar tudo o que de fornicação secreta possa de cidade celestial serviriam de base para pensar ese ocultar nos mais profundos vincos da alma” constituir o Estado moderno; do mesmo modo a(Foucault, 1987, p. 28). E, sintetizando, Foucault oposição entre carne e espírito ecoa sub-repticiamente,(2006) sublinha: mesmo nas perspectivas ditas científicas, que, apartando corpo e mente, fazem do primeiro algo Podemos dizer que o pastorado cristão recorrentemente perigoso. O espírito feito razão, introduziu um jogo que nem os gregos nem contemporaneamente, embasa as ideologias da os hebreus haviam imaginado. Estranho jogo cujos elementos são a vida, a morte, a “escolha racional” que sustenta o individualismo, ou, verdade, a obediência, os indivíduos, a mais amplamente, o modo de interpretar identidade; jogo que parece não ter relação comportamentos individuais e coletivos – ainda no alguma com o da cidade que sobrevive campo do cálculo, do risco ou da segurança. através do sacrifício dos seus cidadãos. Combinando estes dois jogos - o jogo da O(s) cristianismo(s) contemporâneo(s) e a carne cidade e do cidadão e o jogo do pastor e do rebanho - no que denominamos os Estados Exploraremos a seguir como o ideário e as ações modernos, nossas sociedades revelaram-se prescritas para a carne se atualizam enquanto culturaPsicologia em Estudo, Maringá, v. 13, n. 4, p. 673-682, out./dez. 2008
  • 5. Os cuidados com a “carne” 677na prática (Sahlins, 2004), através das falas de nossos casamento. Antes do casamento (...) é um atoinformantes sacerdotes, clérigos e leigos, católicos e agressivo (...) Se é aquilo que ele quer: viverevangélicos, nossos contemporâneos: uma vida a dois; casar, entendendo o que é casamento, como é a vida a dois; as responsabilidades, tanto diante de Deus, Então, se por um lado você tem uma mídia como diante da Igreja e da sociedade” (Irmão precoce, com a erotização das crianças, José, 33 anos). com cinco, seis anos de idade, você tem uma igreja envelhecida. Ai existe um fosso (...) que a sociedade precisa repensar, não é? Padre Marcelo, que tem 28 anos, como outros (Clérigo Paulo - Anglicano). católicos entrevistados, também compartilha da percepção de que os jovens estão sendo chamados Católicos e evangélicos compartilham a crítica à muito cedo a assumirem uma vida sexualmente ativa.“erotização precoce”, a idéia de que os/as adolescentes Do mesmo modo, o senhor Natanael, líder leigo(e as crianças) são chamados a se assumir enquanto preocupado com o engajamento dos homens na Igrejaseres sexuais. É a partir deste pano de fundo mais Católica, comenta a dificuldade de socializar os jovensamplo que localizaram suas falas sobre os jovens e a nos preceitos sexuais da Igreja:carne – melhor dizendo, sobre a sexualidade najuventude. “Eu creio, fazia questão que os meninos Os entrevistados reconhecem as mudanças estudassem, fizesse sua independência, pelo menos profissional, para que eles pensassemculturais que foram acontecendo ao logo dos muitos em namoro. (...) Eu sempre defendi que fosseséculos de cristianismo(s) e que afetam as igrejas. pelos vinte anos ou vinte e um anos. (...) OSandra, clériga metodista, menciona as mudanças nas que eles discutem na rua vale mais do que“relações de gênero” (sic.), que lhe permitiram nós, pais, fala pra eles. E aí, com isso, queinclusive chegar à sua posição na sua igreja. Estas eles já estão tendo atividade sexual muitomudanças, ou contingências culturais - ela o mais cedo. (...) Por que era a orientação,reconhece - afetam a leitura cristã do mundo. Não também, que a gente dava, principalmenteobstante, em meio a um discurso que, muitas das como católico: que o casamento é fundamental. Mas, infelizmente, nenhumvezes, articula categorias feministas (gênero), filho meu, nenhum teve assim – a não serpsicanalíticas (transferência) e de outras narrativas de esse pequenino, o mais novo que tem 16mundo laicas, ela reafirma alguns dos preceitos anos, pelo menos esse, até agora... Por que ospaulinos. Especialmente aquele que circunscreve a outros...” (Sr. Natanael, 55 anos)vida sexual no interior do casamento: É recorrente nestas falas a referência a preceitos “E ela só deve acontecer quando houver religiosos afirmando uma sexualidade casta, que só compromisso mesmo, quando há clareza no deve ser vivida ativamente dentro do casamento, relacionamento, quando há um amor... Não atrelada à noção de responsabilidade, que, dentre suas quando há um amor imaturo e transferencial. (...) mas um amor que as pessoas parem e características (consciência, maturidade afetiva, sintam. [Não necessariamente com o formação educacional e inserção no mercado laboral casamento?] Nós, enquanto cristãos, etc.), tem no sacramento do matrimônio a entendemos que deve ser depois do característica fundamental de sua existência e casamento. [Depois do casamento legalizado expressão. Em outras palavras, sexo antes do ou na igreja?] Na igreja, mas quem não vive casamento é concebido como irresponsabilidade – isso, a gente procura dar assim mesmo” estejam presentes, ou não, os outros ingredientes. (Clériga Sandra). Disciplinando as ovelhas Para a clériga Sandra, do mesmo modo que para oIrmão José, liderança leiga em uma igreja pentecostal, Nas aulas de catecismo, nas escolas dominicais,esperar para casar é o atestado maior de nos sermões ou ainda nos encontros de casais e deresponsabilidade do jovem para com Deus e para com jovens e nas conversas informais nas igrejas, asa Igreja: assertivas morais sobre a sexualidade se mantêm em constante circulação, contribuindo para a socialização “... nós entendemos que o jovem, ele não está dos mais jovens e a reiteração das crenças professadas. preparado para encarar a vida sexual, né?! Todos os entrevistados reconhecem, entretanto, a (...) A Igreja entende, à luz da palavra de dificuldade de o ideal moral ser vivido por jovens e Deus, que ela só deve acontecer depois do adultos, influenciados que estão por discursos dePsicologia em Estudo, Maringá, v. 13, n. 4, p. 673-682, out./dez. 2008
  • 6. 678 Rios et al.sexualidade mais liberais. Neste contexto, a gravidez suas contradições e paradoxos, como acena Foucaultna adolescência e a aids, enquanto “testemunhos” não (2006).planejados, são fenômenos que tornam explícitos para Mas, como fazer aparecer o que está no fundo dasa comunidade religiosa o fato de se estar vivendo a consciências e nos “vincos da carne” – pecados quesexualidade em desacordo com os preceitos do não se expressam diretamente em mudanças corporais,matrimônio, da castidade ou da fidelidade. Sobre a como a gravidez ou a fase sintomática da aids? Nosgravidez na adolescência comenta a clériga Sandra: discursos de nossos interlocutores a confissão individual, pastor/fiel, ganha pouca expressão “Ela não pode ser excluída da igreja, nem enunciativa, mesmo entre católicos – talvez devido ao pode ser punida, entendeu!? É para ela ser “segredo de confissão”. Os sacerdotes católicos quase acolhida. Se ela tiver numa posição de nunca falam de casos específicos – mencionam apenas liderança, aí sim, ela precisa deixar essa como acolhem “o” pecador (genérico) em silêncio, posição de liderança. (...) Acolhe, cuida, orienta, e ver o que é possível naquela acolhimento sempre individualizado, que mantém a situação o que é possível fazer, fazer com invisibilidade do soroporsitivo no seio da Igreja. que os danos sejam menores ainda” (grifos Já nos depoimentos evangélicos, lidar com a nossos). soropositividade está comumente associado a descobrir a verdade de si através do testemunho – um A referência ao acolhimento aos que contrariam ato público. O testemunho pode ser “em primeira” ouos preceitos religiosos e sofrem “danos”, como “em terceira pessoa”. Sobre esta última modalidade,denomina nossa entrevistada, é outro elemento muito lembremos que, desde o cristianismo nascente, orecorrente no discurso evangélico, tanto quanto no pecado de um é pecado de todos e a “fofoca” pode,católico: então, ser importante ferramenta de controle. Um caso paradigmático do lugar do testemunho “A Igreja se encontra diante da aids na foi relatado por Ana Maria, evangélica ligada a uma realidade da pessoa que necessita de ONG cristã. Paradigmático porque os atores mudam, tratamento, da pessoa que necessita de mas cenas do enredo reaparecem rearticuladas em carinho, da pessoa que necessita ser acolhida, diferentes narrativas obtidas ao longo da pesquisa: o e não excluída. (...) Então é a pessoa que foi infectada e a gente não entra aí no mérito de testemunho tem lugar ora enquanto tentativa de o que foi que aconteceu. A vida, vamos dizer acolhimento que redunda em expulsão (do assim, sexual que ela assume, né?!” (...) soropositivo) da igreja; ora como estratégia mesmo de (Padre Marcelo). estigmatização. Passemos ao episódio: uma mulher evangélica comentou com uma de suas amigas da Essa posição não implica, em especial nos casos igreja o fato de ser soropositiva. A amiga se sentiu nade gravidez, que punições deixem de ocorrer, até para obrigação de contar para o pastor, que, num dos cultosque o caso sirva de exemplo para outros jovens da mais concorridos de sua comunidade, revelou acomunidade. O clérigo Antônio, de confissão soropositividade da primeira.3 A mulher soropositivaAnglicana, bastante crítico em relação ao que acontece foi compelida a dar seu testemunho e demonstrarno mundo evangélico, comentando o que ouviu falar arrependimento, enquanto o pastor referia ae/ou presenciou nos muitos anos de militância na misericórdia divina e o acolhimento da comunidaderesposta à aids nas igrejas, afirma: como princípios que deveriam guiar o relacionamento do rebanho com a ovelha. A partir de então passou ao “Infelizmente, a igreja ainda exclui, pune, estatuto estigmatizante da desviante que se né? Essa exclusão, ela não é meramente de arrependeu, e a recomendação do acolhimento não se expulsar a pessoa da igreja, mas de humilhar. cumpriu. A mulher passou a ser apontada por todos. A De expor a pessoa à humilhação, ao ovelha se retirou do rebanho, em busca de outro constrangimento, ao vexame, de forma que a pessoa se sinta humilhada pelo que fez, se pastorado para continuar a viver e expressar sua fé, sinta... tenha um sentimento de culpa”. 3 Uma evangélica, presente na devolutiva dos resultados em Pode-se inferir do relato da clériga Sandra que o seminário promovido pela Coordenação Municipal deafastamento da posição de liderança da jovem que DST/AIDS em Recife, comentou que atitudes como esta, deengravida fora dos laços do casamento, ainda que revelar segredos, é considerada impropriedade ética pelaspareça contrariar o princípio do acolhimento e igrejas evangélicas, estando o pastor passível de punição, fato também assinalado pelos entrevistados como falta nacuidado, está a serviço da instituição do pastorado - e condução do pastorado.Psicologia em Estudo, Maringá, v. 13, n. 4, p. 673-682, out./dez. 2008
  • 7. Os cuidados com a “carne” 679levando a lição de que nunca mais deveria falar para como “paradoxal”, já que o não à camisinha é definidoos irmãos de crença sobre a sua enfermidade. como um obstáculo ao enfrentamento da epidemia, Diferentes relatos apontam, em especial no caso ponto retomado por Frei Afrânio:das igrejas pentecostais ou neopentecostais, outrosusos do testemunho, não menos opressivos, como “...existe um ideal que se propõem, masrelatos do púlpito da igreja por pessoas atormentadas existe uma realidade que nós vivemos. (...) eupelo resultado do teste do HIV, ou pelo agravamento estou de acordo com as normas eclesiásticas, já que elas se referem a princípios éticosdo quadro da doença, interpretados como resultantes evangélicos; agora, certamente que estoudos pecados cometidos. disposto e gostaria também que a própria Igreja se abrisse sempre mais para o diálogoE a camisinha? e para a realidade. (...) De fato, nós estamos Como nem só de espírito vive o homem, a religião sempre diante de realidades que nos interpelam...”reconhece e dialoga com o mundo da vida laica e éinterpelada pelo discurso da prevenção da aids. Os A vida prática dos sacerdotes e clérigos seprogramas estatais têm estabelecido como centro de sua desdobra em muitas nuanças. No caso dos evangélicosestratégia a disseminação do uso do preservativo nas é importante retomar uma advertência do clérigorelações sexuais, sem considerar as implicações de seu Antônio sobre a diversidade de denominações ediscurso para a sexualidade em “mundos religiosos”. perspectivas sobre o ser evangélico: “Porque cada umVejamos como os diferentes religiosos reagem. tem sua elaboração teológica, (...) tem suas relações Os sacerdotes católicos entrevistados, se falavam com a sociedade. (...) Você tem várias matrizes dentrocom facilidade do adoecimento de aids no contexto do de uma matriz”.acolhimento, ficavam incomodados quando convidados a Para Irmão José, líder leigo numa denominaçãose posicionar sobre prevenção – em outras palavras pentecostal, o “não à camisinha” se constitui como oconfrontar a proposta do uso da camisinha com a da verdadeiro trabalho de prevenção:abstinência/fidelidade. O discurso biomédico e da saúdecoletiva vigente indica que o não-uso do preservativo “A base do trabalho de prevenção não é oexpõe as pessoas ao HIV, portanto, em última instância, uso da camisinha. (...) Se hoje a sociedade éestá se posicionando sobre morte e vida. vitimada por esse mal, cabe a gente agora fazer o preventivo, através de quê? “O grande obstáculo que a Igreja mantém é o Conscientização, de ensino, orientações, (...) uso do preservativo. É até um paradoxo dizer Sem induzir a pessoa à prática sexual!”. uma coisa dessa, né? O governo, como o Ministério da Saúde, vê como uma A clériga Sandra reconhece a moral cristã como o preservação, né? O uso de preservativo, eh, melhor caminho a ser seguido em matéria de vida preserva a saúde, evita a contaminação. Já a sexual, mas também não ignora a dificuldade das Igreja diz que isso vai perdurar, vai perdurar por muito tempo e só vai facilitar e vai ajudar pessoas comuns, não religiosas, em levar adiante uma a indústria farmacêutica, na produção de perspectiva de prevenção baseada na castidade e milhares de camisinhas. Então a Igreja vê, fidelidade. Considera que o governo deve, sim, focar que esse aspecto, como eu já falei, moral, na camisinha: cristã... Que ela tem uma visão, por mais arcaica que possa parecer, mas é a visão da “nem todos são da nossa prática de fé. E se o Bíblia, que é o uso do sexo dentro do maior caminho de transmissão do HIV e das matrimônio. E para quê? Para a procriação, DSTs é o contato sexual? Se previna, que se gerar filhos, mais (risos)...” (Padre Julião). use o preservativo! [Então a igreja aceita?] (...) não pela prática ideal e nem de fé, mas Padre Julião e outros sacerdotes católicos enquanto direito de cidadão.entrevistados afirmaram que, por um lado, asexualidade, para os católicos é uma questão moral, e Dois de nossos entrevistados anglicanos,como tal é apreendida nas teias dos caminhos a serem integrantes de ONGs de referência da respostaseguidos com vista à salvação – neste contexto, apenas religiosa à epidemia em Pernambuco, destacaram odistribuir preservativos não adianta. Em adição, desafio de mobilizar os evangélicos e lidar com seusacrescentam que questões como a aids envolvem dogmas e interpretações da vida sexual. Lembram amúltiplas dimensões- econômicas, comunicacionais... dificuldade que as igrejas têm com a sexualidade deAinda assim, Padre Julião reconhece esta posição seus jovens e, ao mesmo tempo, com o fenômeno daPsicologia em Estudo, Maringá, v. 13, n. 4, p. 673-682, out./dez. 2008
  • 8. 680 Rios et al.infidelidade conjugal. Dizem realizar o trabalho de espírito; não obstante, a todo momento o discurso doprevenção e acolhimento numa perspectiva nem risco, próprio às ciências da saúde contemporâneas, sesempre tranqüilamente aceita pelos evangélicos: insinua. É a própria noção de segurança que ressalta outra importante categoria emergente entre católicos e “Trabalhamos muito a partir da atuação do evangélicos: a da responsabilidade. Os religiosos governo brasileiro. (...) na perspectiva da reconhecem que a juventude recebe “chamados” redução de danos. (...) O público evangélico laicos (e perigosos) da sociedade. Os jovens ampliam que, em geral, é um pouco conservador. (...) seus espaços de circulação diminuindo a eficácia de Então, o que a gente diz é: a nossa vida tem caráter de individualidade. Isso é uma opção mecanismos mais “tradicionais” de controle – como a pessoal e o caráter de coletividade, é uma opção fofoca. Mais que nunca, o controle, também para os pessoal também. Cabe, para o bem da vida, é jovens religiosos, precisará estar no próprio indivíduo você saber quais são os riscos que você corre na a peregrinar pela vida, que precisa desenvolver sua opção pessoal. Quem define é você, não é “responsabilidade”. verdade?” (clérigo Antônio). A dificuldade de promover a obediência, antes garantida sem maiores reflexões sobre o que estava “As instituições religiosas não nos vêem muito à sendo prescrito, implica na necessidade de os vontade, com relação a isso. (...) Estou sempre sacerdotes cristãos apelarem para a “razão” médica e o orientando os casais ao uso do preservativo. Então, os adolescentes que estão iniciando sua “bom senso” individual, se querem que se realize o vida sexual, que a gente dá um suporte cumprimento do que dizem doutrinas e dogmas. A emocional, mas sem esquecer de que ele vai ter responsabilidade é a instância internalizada de sua primeira relação e o preservativo tem que cálculos de riscos: a segurança do Clérigo Paulo e de estar sempre presente na sua... Enquanto você Foucault (1995). Aos que a desenvolveram, assegura- não tiver segurança, que você está tendo uma se a saúde e a formação de indivíduos capazes de relação saudável, o preservativo vai fazer parte agradar a Deus, garantindo o acesso à salvação. do seu cotidiano. (...) O que é uma contradição Vale destacar que religiões e Estado, como pra igreja – eu mesmo sendo pastor, frade... - uma vez que a cultura religiosa não permite. instâncias disciplinares, muitas vezes operam Mas é preciso transgredir esse dogma, porque o oprimindo os sujeitos com base em um ideal de que a gente tá discutindo é vida. Vidas humanas hetoronomia; em ambos há o foco numa razão não têm preço, a gente tá lutando por esse bem transcendente, a ser incorporada pela pessoa, capaz de maior” (Clérigo Paulo). fazer com que escolhas apropriadas ocorram, quando se sabe o certo e o errado das coisas (ideal do cálculo Em outros momentos da entrevista, fica claro que, atuarial); em ambas há pessoas que são pensadaspara o clérigo Antônio e o Clérigo Paulo, o início da como apresentando “comportamentos desviantes”,vida sexual deveria acompanhar o amadurecimento da pessoas que “desrespeitam” a doutrina, a norma, e/oucapacidade reprodutiva das pessoas. Do mesmo modo, não recorrem ao cálculo e se infectam e engravidamcompartilham do ideal da fidelidade conjugal e da (contra-ideal de pecado e de exposição ao agravo).castidade dos não-casados. Os outros entrevistados Neste contexto, a estigmatização constitui estratégiaapresentam a mídia como a grande vilã, que erotiza a importante para manter o rebanho sob controle (usosinfância, trazendo-lhe algo que só mais tarde chegaria do testemunho no púlpito ou do aconselhamentode modo normal, natural, ao seu conhecimento. Não psicológico prescritivo) - o uso do sofrimento pessoalobstante, algo de “estranho” se insinua, desde os como meio para o controle populacional. Como diriacomentários da clériga Sandra sobre gravidez na Foucault (2006), modos de operar “verdadeiramenteadolescência, quando fala de “danos”, radicalizando demoníacos”! Diante do contorno apresentado, anoções de individualidade, risco e opção apresentadas questão que nos surge não é bem a “de que lado ficar”,pelos dois pastores. mas “qual caminho alternativo tomar”. Orai e vigiai. Cuidai e zelai! DISCUSSÃO Sem negar a inspiração de Foucault (2006),Subjetivação sexual e a prevenção: a perspectiva dos tomemos outra via para pensar, uma vez mais, sobre oreligiosos e a do Estado demoníaco ao qual ele se refere. Também não seria esta a condição de ser sujeito (d)à carne, entendida Como observamos, no relato dos religiosos como concupiscência no ideário religioso, ou como oprepondera o ideário paulino de submissão da carne ao erótico no ideário científico moderno? A essência doPsicologia em Estudo, Maringá, v. 13, n. 4, p. 673-682, out./dez. 2008
  • 9. Os cuidados com a “carne” 681sexual que se nega à disciplina? Afinal, a força 1999)? O erótico seria percebido pelas instânciaserótica, essencializada pela religião e pela normalizadoras como um problema? Será que não sebiomedicina, se interpõe e subverte toda tentativa de organizaria um erótico-arte, aquele que cria e recria asdisciplina e desestabiliza o cálculo. O “vigiai e orai” é possibilidades que os corpos podem oferecer, noestratégia para manter adeptos e cidadãos a serviço da processo de encantar a existência?obra (divina e/ou do Estado), bem longe das Nessa linha sugerimos uma redefinição da noçãotentações4, pois no final das contas o espírito (que é de responsabilidade: que não seja entendida como umarazão) não é tão forte quanto deveria e a carne (que conquista individual (individualista), mas sejadeseja) também não se mostra tão fraca. Fomentar reinscrita na condição humana de fragilidade ecálculos de risco, intervenções individualizantes que exposição diante do outro, implicando, como propõesobrecarregam o espírito, perseguir a culpa individual Butler, “realmente uma obrigação ética, uma atençãoque deve advir depois do erro, são estratégias para especial diante da precariedade da vida”. Nesselidar com as forças que os entrevistados vêem contexto, responsabilidade surgiria como a capacidadeexcitadas pelos apelos da mídia. Eles mesmos, por “para encontrar as condições em que essa vida frágiloutro lado, reconhecem, assim como os ativistas e possa prosperar” (Cavarero & Butler, 2007, p. 653).técnicos dos programas de prevenção, que o real Assumir “a condição humana entendida em termos desempre desafiará o ideal. relacionalidade entre seres vulneráveis” traria, Seria esta a melhor forma de lidar com a carne conforme Cavarero (Cavarero & Butler, 2007), “a(concebida como o mal) e a prevenção (prescrita como potencialidade crítica e política com respeito aouma forma de inculcar a segurança)?; de indivíduo autônomo e liberal da modernidade” (p.conceitualizar o erótico (tomado como a essência dosexual) e a subjetivação sexual (um processo de 654).disciplinar o indisciplinável)?; de apreender a Talvez esteja neste traçado a possibilidade de sairdiferença (enquanto desvio moral)? dos dispositivos de segurança, reinscrevendo a Como alternativa, sugerimos contrariar, junto com prevenção, ou, mais amplamente, a socializaçãoParker (1991), sexólogos e psicanalistas, e localizar o sexual dos jovens, em uma ética de solidariedade,erótico não como uma força das profundezas à qual numa subjetivação que pressupõe contexto. Ações emninguém poderá resistir, mas como numa disposição que o orai seja cuidai, e o vigiai, seja zelai! Religiõessocialmente informada que surge na dialética com os e modelos tecnocientíficos que informam as políticasdispositivos institucionais para gestão da sexualidade. governamentais talvez se enriquecessem ao valorizarPara o autor, as disposições do erótico, sem negar seu as tentações como os desafios inerentes ao processo decaráter disruptivo e transgressor, são subjetivação humana. Assim as fraquezas da carne“desessencializadas”, organizam-se em relação aos serão compreendidas como condições prazerosas ediscursos instituídos. Para superarmos os impasses caminho para a fortidão do espírito humano, que temgerados quando se conduz a prevenção pela via da como sua maior prerrogativa a capacidade de superarfrágil segurança da responsabilidade individualizante, as adversidades ao se projetar de formas as maismelhor reposicionar a subjetivação do sexual e erótico diversas – criativas, inusitadas e não calculáveis!e a prevenção nas estruturas e relações sociais.Incorporar o sexo e o erótico como condição de REFERÊNCIASfertilidade social e não como força essencial que deveser combatida por se colocar contra a vida. Ariès, P. (1987). São Paulo e a carne. Em P. Ariès & A. Béjin Tomando esta outra via, podemos questionar: (Orgs.), Sexualidades ocidentais. São Paulo: Brasiliense.como se configurariam o sexual e o erótico se Berger, P. (2001). A dessecularização do mundo: uma visão global.ingressássemos num regime fundado em princípios de Religião e Sociedade, 21(1), 9-23.consentimento e autonomia, de não-violência, de Caliman, L. (2006). Dominando corpos, conduzindo ações:direito ao prazer e garantia de equidade (Petchesky, genealogias do biopoder em Foucault. Em A. M. Jacó-Vilela, A. C. Cerezzo & H. Rodrigues (Orgs.), Clio-Psyché –4 Subjetividade e História (pp. 200-211). Juiz de Fora: Clio É interessante notar que para o Modelo Transteórico Edições Eletrônicas. (Prochaska & Velicer, 1997), o mais citado entre as abordagens individualistas para a promoção da saúde, as Cavarero, A., & Butler, J. (2007). Condição humana contra mudanças de comportamento devem ser compreendidas e “natureza”. Estudos Feministas, Florianópolis, 15(3), 647-662. estimuladas a partir de cinco construtos: estágios de Foucault, M. (1987). O combate da castidade. Em P. Ariès e A. mudança, processos de mudança, balanço decisório, auto- Béjin (Orgs.), Sexualidades ocidentais (pp. 25-38). São Paulo: eficácia e tentação (temptation). Brasiliense.Psicologia em Estudo, Maringá, v. 13, n. 4, p. 673-682, out./dez. 2008
  • 10. 682 Rios et al.Foucault, M. (1993). História da sexualidade I: a vontade de saber. Parker, R. (1991). Corpos, prazeres e paixões: a cultura sexual no Rio de Janeiro: Graal. Brasil contemporâneo. São Paulo: Best Seller.Foucault, M. (1995). O sujeito e o Poder. Em H. Dreyfus & P. Petchesky, R. (1999). Direitos Sexuais: um novo conceito na prática Rabinow (Orgs.), Michel Foucault, uma trajetória filosófica: política internacional. Em R. Barbosa & R. Parker (Orgs.), para além do estruturalismo e da hermenêutica (pp. 231-249). Sexualidades pelo avesso: direitos, identidades e poder. São Rio de Janeiro: Forense Universitária. Paulo: Editora 34.Foucault, M. (2006). Ditos e escritos: estratégia, poder-saber (Vol. Prochaska, J. O., & Velicer, W. F. (1997). The transtheoretical 4). Rio de Janeiro: Forense Universitária. model of health behavior change. American Journal of HealthGiumbelli, E. (Org.). (2005). Religião e sexualidade: convicções e Promotion, 12(1), 38-48. responsabilidades. Rio de Janeiro: Garamond. Rios, L., Pimenta, C., Brito, I., Terto Jr, V., & Parker, R. (2002).Machado, M. D. (2003). Existe um estilo evangélico de fazer Rumo à adultez: oportunidades e barreiras para a saúde sexual política? Em P. Birman (Org.), Religião e espaço público (pp. dos jovens brasileiros. Caderno CEDES, Campinas, 22(57), 283-308). São Paulo: CNPq/PRONEX & Altar Editorial. 45-62.Mariz, C. (2001). Secularização e dessecularização: comentários a Sahlins, M. (2004). Cultura na prática. Rio de Janeiro: Editora um texto de Peter Berger. Religião e Sociedade, 21(1), 25-39. UFRJ.Montero, P. (2006). Religião, pluralismo e esfera pública no Brasil. Weber, M. (2004). A ética protestante e o espírito do capitalismo. Novos estudos CEBRAP, 74, 47-65. São Paulo: Companhia das Letras.Paiva, V. (2006). Analisando cenas e sexualidades: a promoção de saúde na perspectiva dos direitos humanos. En C. Cáceres Recebido em 17/05/2008 (Org.), Sexualidad, stigma y derechos humanos. Desafíos para Aceito em 21/08/2008 el acceso a la salud en América Latina (pp. 23-51). Lima: Universidad Peruana Cayetano Heredia.Endereço para correspondência : Luís Felipe Rios. Laboratório de Estudos da Sexualidade Humana. Av. Acadêmico Hélio Ramos, s/n - 7º andar, Cidade Universitária, CEP 50670-901, Recife-PE. E-mail: lfelipe-rios@uol.com.brPsicologia em Estudo, Maringá, v. 13, n. 4, p. 673-682, out./dez. 2008