Presidente da República:Fernando Henrique CardosoMinistro de Estado da Educação e do Desporto:Paulo Renato SouzaSecretário...
otempopassaeahistóriafica
Textos e Ilustrações   oProfessores Xacriabá                       T E M P O                       PASSA                  ...
SECRETARIA DE ESTADO DA EDUCAÇÃO DE MINAS GERAISSECRETÁRIO: JOÃO BATISTA DOS MARES GUIAPROGRAMA DE IMPLANTAÇÃO DAS ESCOLAS...
ÍNDICEPrefácioP a r t e I: 0 tempo passa e a história fica                                             9               Poe...
Prefácio Durante dois anos, os professores Xacriabá em formação, no Programa de Implantação das Escolas Indígenas de Minas...
Para isso eu dou terras,              pros índios morar              Daqui para Missões              cabeceira de Alagoinh...
aro leitor, foi pensando emvocê e em nosso povo, que escrevemos o livro Otempo passa e a história fica. Nós queremos,a t r...
Texto e ilustração: José Nunes Oliveira                    Domingos N. Oliveira
POESIA
Aproveitando do belo dia que está hoje, eugostaria de lhes contar uma história.          Conheci uma vez uma á r v o r e d...
Meu caro leitor amigoleia bem sem soletrarcoloque a mão na cabeçapra melhor mentalizaro t r i s t e padecimentodos índios ...
O órgão lhe deu uma cartadizendo este cidadãopode rodar pelo Brasilsem nenhuma interdiçãoessa carta foi tomadapor um forte...
Mas que luta desastrosadesse pobre cidadãoandou até mal vestidoe às vezes de pé no chãosó pra tomar nossas terrasda unha d...
Tinha também uns valentesda família dos Amaroque entrando aqui na terraalguns índios eles mataramArgílio e seus companheir...
Depois de todo o conflitoque o tiroteio paroumorto bem perto da estradase encontrava o Agenora força das leis divinassua s...
Nosso amigo Lúcio Fláviotrabalhou com atençãofez o máximo possívelna sua administraçãoentrando de corpo e almadentro da no...
Há vários anos a t r a sJ á existiam fazendeirosExpulsavam os índios da t e r r aE se faziam posseirosPois índio não t i n...
Sou filho de RosalinoE testifico a vocêQue o meu pai nos diziaQue um dia iria morrerMas ia deixar livre a terraPara o seu ...
No ano 87Dia 12 de fevereiroAli chegou Seu AmaroJunto com seus pistoleirosQuebrando todas as portasE fazendo um tiroteio.É...
Mas nosso Deus é tão justoE sempre nos amouNo meio do tiroteioAcertaram o AgenorEra um dos pistoleirosQue morto ali mesmo ...
Apesar do que aconteceuNão perdi minha esperançaAgora já estou casadoTenho esposa e duas criançasPra quando eu também morr...
João, Gilmar e José Nunes, da família de Rosalino Gomes de Oliveira.
Alfabetizar em face do destinoNosso curso vai passandoPor uma grande reforma0 tempo dos analfabetosEstá saindo fora de for...
Vimos as luzes do nosso mundojá ao romper da a u r o r aao saberem nossos paisdizem com alegria:Eu não posso lhe formarmas...
Ao sair da nossa áreaPelo cacique foi avisadoQue iam para um colégioOnde ficavam internadosSó vinham em casa com um mêsAté...
ProsaA pelejaXacriabá Das palavras mais bonitas o Rosalino falou: "Eu prefiro ser adubo mas sair daqui não vou". Ele morre...
Território Indigena   Xakriabá
Os Xacriabá vivem em uma r e s e r v a demar-cada pela Funai, 46 mil hectares de t e r r a s , àsmargens do rio Itacarambi...
"CERTIDÃO VERDUM ADVERBUM                          FRANCISCO N N S     UE          PACHECO ESCRIVÃO DE PAZ E OFICIAL DO   ...
Rosalino, como vice cacique, foi o                  primeiro a morrer.          O crime contra os Xacriabá aconteceu nodia...
O tiroteio despertou a atenção do índioManuel Fiúza da Silva, que correu até a casa docacique para verificar o que estava ...
Três índios morrem em invasão da aldeia.                               "O grileiro Amaro comanda o massacre."Quando um índ...
É com esse arcabouço ideológico que osfazendeiros consideram legítimo tomar as t e r r a sdos índios. São preconceitos ali...
O sepultamento dos três mortos Xacriabá.         Entoando cânticos, alimentados pelo sin-cretismo religioso, onde misturar...
O "bispo alertou as autoridades p a r a aquestão da r e s e r v a Xacriabá, ressaltando que oproblema somente teria uma so...
A Peleja Xacriabá          No início do século XX, entre 1906 e 1910,as nossas t e r r a s já estavam sendo invadidaspelos...
Em 1979, a á r e a foi demarcada, e, em1987, homologada e oficializada, reduzindodrasticamente a á r e a a que tinham dire...
Com o povoamento do norte mineiro, vieramas e s t r a d a s , os posseiros e os grileiros. O medodas tocaias e das embosca...
Amaro foi preso.          Aos 48 anos de idade, acusado, julgado eabsolvido por dois assassinatos em Itacarambi,indiciado ...
Decisão         Em decisão inédita, o Tribunal Federal deRecursos-TFR, no entanto, não só manteve a com-petência da justiç...
Genocídio                 Desde 1 9 8 0 , foram a s s a s s i n a d o svários índios, por disputa de t e r r a s dentro da...
APW - S e ç ã o P r o v i n c i a l , LIVROS PAROQUIAIS - CODIO" 107FL. 22 - R e g i s t r o do t e r r a s do p r o p r i...
CONTADAS POR:                    ESCRITAS POR:Antônio Ferreira do Nascimento   Alice Almeida MotaCalmecita Nunes da Mota  ...
PARTE IINossashistórias sãoum paraíso
eitor, tenho certeza que, ao lereste livro, você vai gostar muito. Ele mostratraços das histórias e culturas do nosso povo...
As três irmãs            Um pai que tinha t r ê s filhas. Duas casarame uma não casou. Duas eram bonitas e uma erafeia. Um...
Ele apertou duas vezes. Quando ele soltouum pouquinho, ela cantou:     — Oh, meu Deus, o que seria que o sinobateria, quem...
Tibicuera          Nasceu numa taba da tribo Xacriabá, seique foi numa meia noite clara, fazia luar. A mãeviu que o menino...
Iaiá Iaiá Cabocla      Tinha um homem na aldeia P r a t a , ele falavaque não tinha medo da Iaiá Iaiá Cabocla. Ele tinhacr...
A onça cabocla          Aqui na nossa aldeia tem uma cabocla índia.Ela é uma onça, mas ela é uma índia encantada.Ela conve...
O galo e a raposa          Era uma vez um galo velho m a t e i r o .Percebendo a aproximação de duas r a p o s a s ,empole...
Antigamente, quando J e s u s andava no mundo          Ele andava, mas um dos apóstolos dele eraSão Pedro. Ele passou por ...
O almoço        Um dia um menino me contou que conheciaum senhor, que todo dia que ele ia p a r a a roça,m a n d a v a a m...
A galinha risonha      Conta um senhor que lá na travessa do rioBarra do Sumaré, quando ele atravessava o rio ànoite, avis...
História do bobo      Era uma vez, um besta que o pai dele man-dou a n d a r p a r a conhecer e saber conversar. Aí eleche...
Dois Bodes Brigavam        Era uma vez, dois bodes que brigavam, e oleão queria resolver o problema deles, e entãochegou e...
A mãe dágua, Uíara                  Sabemos das ações de Uíara por meiode muitas lendas: conheça uma delas. Dizia-seque nu...
História dos dois compadres        Uma certa vez, dois compadres, tinha umdeles que não g o s t a v a de d a r almoço, see...
O tatu e a raposa      A r a p o s a encontrou com o t a t u e o cumpri-mentou, dizendo:      — Bom dia, amigo Tatu.      ...
O neguinho do pastoreio e o fazendeiro cruel          Era uma vez, um neguinho que era escravode um fazendeiro cruel. 0 ne...
O tatu            A Iaiá Cabocla, ela se t r a n s f o r m a emvários animais, onça, sapo, t a t u etc.      Um dia, o faz...
Jeca Tatu         O J e c a era um homem muito pobrezinho, esó dava p a r a beber pinga. Os pés dele eram muitograndes. Qu...
A onça e o coelho      A onça ia para a festa e chamou o amigoCoelho para ir com ela. 0 amigo Coelho disse queestava com o...
Ele pulou no chão e largou ela lá. Depois ela foiperseguir ele, e falou:     — En, amigo Coelho, eu te pego, nem que sejan...
Mas o coelho teve uma idéia p r a enganar osapo. Ele r e p r e s e n t a v a p a r a o sapo, sempremastigando. 0 sapo, que...
Depois, já dentro da água, ele gritou:      — Ô, bicho besta, era isso mesmo que eu que-ria, pois eu sou mesmo da água.   ...
O coelho e a raposa        Era uma vez um homem que gostava de plan-t a r roça. E até chegar o tempo, ele plantou umaroça ...
Redemoinho         No tempo dos antigos, aconteciam muitosredemoinhos fortes. Que carregavam até roupadas pessoas. Aí diss...
História de quando começou o mundo      Quando começou o mundo, t i n h a u m a m u l h e rsozinha, que morava no deserto,...
A aranha
Se os índios não usassem colares, pinturas,cocares, ficavam todos como brancos.         Mas não é bem assim, o que vale me...
PARTE IIIHistóriasdosantepassados
i n h a mãe me contou u m ahistória muito antiga que, de primeiro, os povosvelhos gostavam de comer v á r i a s raízes e f...
ntigamente, os índios só viviam dea r t e s a n a t o . Não existia isqueiro. Quando elesqueriam acender fogo, pegavam uma...
t i n h a a semente de b a t a t a r o x ae a r a i n h a . Semente de mandioca castelão, quee r a p r a fazer f a r i n h...
eu pai contava que, antigamente,as pessoas não gostavam muito de t r a b a l h a r noroçado. Ele contava que meu avô, que ...
ontam meus avós que antigamenteos índios viviam todos pelados. Só u s a v a m suaspróprias roupas de dança.         Quando...
té 1950, mais ou menos, o casa-mento era diferente de agora. Os rapazes sóviam a moça quando começavam a namorar. Aí,agora...
eu pai contou que o pai dele tra-balhava em uma fazenda, e não ganhava nada,somente a comida. Enquanto ia cuidar do gado d...
meu pai contava que, no tempo delepequeno, as coisas eram diferentes. A roupa devestir era feita assim: fiava o algodão na...
os antepassados da minha mãe edo meu pai, a vida era muito difícil e diferente.     Meus pais falavam que escola, principa...
eu pai contava que, no tempo decriança, eles brincavam, cantavam na beira deum fogo que e r a feito à noite.     A casa er...
eu pai contou p a r a mim que exis-tiam muitos e muitos animais, na época em queele era pequeno. Que existia paca, tatu, a...
ntes, nós vivíamos uma vida bemmais fácil e melhor, porque chovia mais, a nossat e r r a era mais rica em matéria orgânica...
Vocabulário XacriabáAiató dadamá olhoAmiotsché-bananaAngrata-avó e avôBacotong /Bicong-filhaBalozinha-menina/mulherDagrí-m...
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  1. 1. Presidente da República:Fernando Henrique CardosoMinistro de Estado da Educação e do Desporto:Paulo Renato SouzaSecretário Executivo:Luciano Oliva PatrícioSecretária de Educação Fundamental:Iara Glória Areias PradoDiretora do Departamento de Política da Educação Fundamental:Virgínia Zélia de Azevedo Rebeis FarhaCoordenadora Geral de Apoio às Escolas Indígenas:Ivete Maria Barbosa Madeira CamposEquipe Técnica:Deuscreide Gonçalves Pereira, Deusalina Gomes Eirão, Andréa Patrícia Barbosa deCarvalho, Cristiane de Souza Geraldo.Comitê de Educação Escolar Indígena:Iara Glória Areias Prado-Presidente, Susana Martelleti Grillo Guimarães, Meiriel deAbreu Sousa, Luís Donisete Benzi Grupioni, Sílvio Coelho dos Santos, Aldir Santos dePaula, Rosely Maria de Souza Lacerda, Jadir Neves da Silva, Darlene Yaminalo Taukane,Alice Oliveira Machado, Valmir Jesi Cipriano, Algemiro da Silva, Nietta LindembergMonte, Bruna Franchetto, Terezinha de Jesus Machado Maher, Nilmar Gavino Ruiz,Marivânia Leonor Furtado Ferreira, Júlio Wiggers, Álvaro Barros da Silveira, GersenJosé dos Santos Luciano e Walderclace Batista dos Santos.Publicação financiada pelo MEC - Ministério da Educação e do Desporto, dentro doPrograma de Promoção e divulgação de Materiais Didático-pedagógicos sobre asSociedades Indígenas, recomendada pelo Comitê de Educação Escolar Indígena.
  2. 2. otempopassaeahistóriafica
  3. 3. Textos e Ilustrações oProfessores Xacriabá T E M P O PASSA E A H I S T Ó R I A SEE-MG/MEC 1997 F I C A
  4. 4. SECRETARIA DE ESTADO DA EDUCAÇÃO DE MINAS GERAISSECRETÁRIO: JOÃO BATISTA DOS MARES GUIAPROGRAMA DE IMPLANTAÇÃO DAS ESCOLAS INDÍGENAS DE MGCOORDENADORA: MÁRCIA MARIA SPYER RESENDECOORDENAÇÃO EDITORIALMaria Inês de AlmeidaPROJETO GRÁFICO E EDITORAÇÃO ELETRÔNICA:Maurício GontijoVitor RibeiroJosé Israel AbrantesCONSULTORIA ANTROPOLÓGICAAna Flávia Moreira SantosCAPA: Marcelo Pereira de SouzaTEXTOS E ILUSTRAÇÕES: Professores indígenas Xacriabá, em formação noPrograma de Implantação das Escolas Indígenas de Minas GeraisBELO HORIZONTE, 1997 - 1§ EDIÇÃO
  5. 5. ÍNDICEPrefácioP a r t e I: 0 tempo passa e a história fica 9 Poesia 11 P r o s a : A peleja Xacriabá 31P a r t e Il: Nossas histórias são um paraíso 49 As t r ê s i r m ã s 51 Tibicuera 53 Iaiá Cabocla 54 A onça cabocla 55 0 galo e a r a p o s a 56 A n t i g a m e n t e , q u a n d o J e s u s a n d a v a pelo mundo 57 0 almoço 58 A galinha risonha 59 H i s t ó r i a s do bobo 60 Dois bodes b r i g a v a m 61 A mãe d á g u a , U i a r a 62 Os dois c o m p a d r e s 63 0 tatu e a raposa 64 0 n e g u i n h o do p a s t o r e i o e o f a z e n d e i r o c r u e l 65 0 tatu 66 Jeca Tatu 68 A onça e o coelho 69 0 coelho e a r a p o s 73 Redemoinho 75 H i s t ó r i a de como começou o mundo 76 A aranha 78P a r t e III: Histórias dos antepassados 81Vocabulário 95
  6. 6. Prefácio Durante dois anos, os professores Xacriabá em formação, no Programa de Implantação das Escolas Indígenas de Minas Gerais, realizaram uma pesquisa, nas suas aldeias, sobre as tradições de seu povo. Esse trabalho resultou na escrita de três tipos de texto: — Narrativas, em verso, de acontecimentos e fatos impor- tantes na vida da comunidade Xacriabá: a luta pela posse da terra, a morte do líder Rosalino, a formação dos pro- fessores. — Narrativas, em prosa, do massacre ocorrido em 1987, na aldeia Sapé, no município de São João das Missões, quando Rosalino Gomes de Oliveira, pai do professor José Nunes de Oliveira, foi assassinado. — Coletâneas de contos tradicionais, que pertencem ao extenso universo ficcional do sertão mineiro, transmitidos, oralmente, de geração a geração. Os textos foram escritos num esforço conjunto dos profes- sores, que ouviram, gravaram e traduziram, na forma escrita, histórias e casos dos seus pais, avós, tios, enfim, daqueles que detêm os saberes tradicionais na aldeia. Pela escrita, eles pretendem constituir, esteticamente, novas imagens de sua comunidade. Escrever, para eles, é antes o ato político de dar um sentido para sua existência, junto à sociedade brasileira. Se os Xacriabá perderam, à força, sua língua, agora eles se apoderam da língua portuguesa, dando-lhe uma entonação cabocla. Como pesquisadores e professores das escolas Xacriabá, estes novos autores apontam p a r a uma outra cena literária: a produção comunitária do livro, livre do princí- pio da autoria, enraizada na oralidade. A grafia como um gesto de reafirmação da força política de quem, na con- quista do próprio território, transforma as penas em poesia:
  7. 7. Para isso eu dou terras, pros índios morar Daqui para Missões cabeceira de Alagoinhas Beira do Peruaçu até as Montanhas pra índio não abusar de fazendeiro nenhum eu dou terra com fartura pro índio morar. A missão para a morada 0 brejo para o trabalho Os campos gerais para as meladas e caçadas B as margens dos rios para as pescadas. Dei, registrei, selei Pago os impostos Por cento e sessenta réisAssim é que traduziram, em versos, um documento. Um dia,no Curso de Formação, no Parque Rio Doce, estávamos lendoO que é literatura, de Marisa Lajolo (Coleção PrimeirosPassos, Editora Brasiliense). Creuza Nunes Lopes, professo-ra Xacriabá, foi encarregada de transmitir oralmente aoscolegas os resultados da sua leitura, suas reflexões sobre otema tratado no livro. O que ela fez? Foi lá na frente dat u r m a e declamou versos que eram, literalmente, o textoensaístico de Marisa Lajolo. A t u r m a aplaudiu. Nós, profes-soras da UFMG, entendemos finalmente que a leitura é tam-bém a tradução do texto em uma cadência, um ritmo que nãoé outro senão o da tradição poética à qual pertencemos.Assim, a História, a Geografia, a Literatura, a Filosofia, asCiências Naturais, a Matemática, vão entrando pelos ouvidose saindo em ritmo Xacriabá, em forma de livros para seremlidos em voz alta, decorados, recontados, em volta de umafogueira, nas noites bonitas do cerrado, ou, quem sabe,numa boa sala de aula. Maria Inês de Almeida Profa, de Literatura Brasileira na UFMG1- MARIZ, Alceu Cotia (et alli). 1982. Relatório de viagem à área Indígena xacriabá FUNAI. P.16
  8. 8. aro leitor, foi pensando emvocê e em nosso povo, que escrevemos o livro Otempo passa e a história fica. Nós queremos,a t r a v é s dele, lhe contar um pouco de nossahistória. Este livro é muito importante porquefala dos acontecimentos e das h i s t ó r i a s reais. José Nunes de Oliveira
  9. 9. Texto e ilustração: José Nunes Oliveira Domingos N. Oliveira
  10. 10. POESIA
  11. 11. Aproveitando do belo dia que está hoje, eugostaria de lhes contar uma história. Conheci uma vez uma á r v o r e de tamanhomeio exagerado, a qual abrigava muitos pás-s a r o s . Mas um certo dia a p a r e c e r a m umas pra-gas p a r a destruir a á r v o r e . Os p á s s a r o s se reuni-ram e disseram: — Não podemos d e i x a r que as p r a g a sd e s t r u a m a nossa á r v o r e . Onde vamos encontraroutro abrigo, o fruto p a r a comermos? Então um grande p á s s a r o que havia e n t r eeles disse: — Vocês tomem conta da á r v o r e e eu voup r o c u r a r ajuda. Procurou, procurou até queencontrou um borrifador que acabou de vez comas pragas, dando de volta a vida da á r v o r e . Que nome poderemos dar aos personagensda história? À grande á r v o r e , eu daria o nome deReserva indígena do Xacriabá. Aos p á s s a r o s , eudaria o nome de índios Xacriabá. Às p r a g a s , eudaria o nome de posseiros, invasores de t e r r a .Ao grande p á s s a r o , eu daria o nome de ManuelGomes de Oliveira (Rodrigo).Ao borrifador, eu daria o nome de FundaçãoNacional do índio, FUNAI.Mas, agora, vamos contar essa história dife-r e n t e , vamos contar ela mais ou menos em versosrimados.
  12. 12. Meu caro leitor amigoleia bem sem soletrarcoloque a mão na cabeçapra melhor mentalizaro t r i s t e padecimentodos índios Xacriabá.Muito tempo esses índiossofrem de decepçãogrileiro tomando t e r r aformando perseguiçãopra acabar com os índiose t o m a r conta do chão.Mas como a t e r r a é sagradatinha uma doaçãomarcando todo limiteque pertencia à naçãoe por capricho da sortese encontra em boa mão.As boas mãos que eu falodo cacique Rodrigãoque lutou todo esse tempotendo até perseguiçãomuitos lhe deram fazendaspra deixar o seu irmão.Mas ele não aceitavaa oferta que lhe faziae continuou lutandop r a ver o que aconteciano peito uma esperançade bom resultado um dia.Foi quando teve notíciade um tal SPIprocurou denunciartodas invasões daquida á r e a Xacriabáperto de Itacarambi.
  13. 13. O órgão lhe deu uma cartadizendo este cidadãopode rodar pelo Brasilsem nenhuma interdiçãoessa carta foi tomadapor um forte capitão.Quando todos os fazendeiroscomeçaram a descobrirRodrigo pra viajartinha às vezes de fugirsem dizer pra onde iriapra ninguém lhe perseguir.Eles diziam um pro outroouça o que vamos fazerRodrigo sem essa cartanada poderá fazerentão mandamos prendê-lopara nada resolver.Rodrigo dizia eu seique eles vão me pegarmas não ligo para issoe nem paro de lutarenquanto livre estiverpretendo continuar.0 leitor pode bem verque tamanha paciênciadispensar uma fazendapra viver na sofrençasão poucos homens que têmessa tal de consciência.
  14. 14. Mas que luta desastrosadesse pobre cidadãoandou até mal vestidoe às vezes de pé no chãosó pra tomar nossas terrasda unha do tubarão.Um tal Bida a chamadofoi o primeiro posseiroque entrou dentro da áreacom o bolso cheio de dinheirofazendo muita desordemprovocando o desespero.Quando ele aqui chegoucom sua grande agoniaqueria toda a terraque por aqui existiaporém os Xacriabácontra ele resistia.Por ser bem conhecidocomo rico cidadãoadquiria o direitode trazer para o sertãoa polícia destemidapra fazer judiação.A casa desse bandidoera como um quartelforam detidos RodrigoLaurindo, Emílio e Miguela polícia por dinheirodesapoiou verdadeiro
  15. 15. Tinha também uns valentesda família dos Amaroque entrando aqui na terraalguns índios eles mataramArgílio e seus companheirosno outro dia chegaram.E dividido em dois gruposa derrota foi fazendomatadores intemerososa polícia foi prendendoquem não conhecia cadeiaagora está conhecendo.Vou falar bem direitinhopra melhor lhe explicaro nome dos pistoleirostambém preciso falarsó pra vocês conheceremos que gostam de matar.Perto do Barreiro Pretolá morava o AlfredãoVicente, Antônio e Martinhoe um tal Mané Paixãoquatro desses homensfilhos do dezasta Chicão.Germano de CanabravaRoberto Trinta e ArlindoAgenor também se envolvena morte do Rosalinoquatro foram pra cadeiacumprir seu cruel destino.
  16. 16. Depois de todo o conflitoque o tiroteio paroumorto bem perto da estradase encontrava o Agenora força das leis divinassua sentença assinou.Com a morte do Rosalinonós ficamo em desesperoo presidente da Funaiveio nos visitar ligeirotomou logo providênciapra idenizar os posseiros.Pomares, cercas e casasque dos posseiros ficarama Funai não quer pra elae para o cacique falouque distribuísse tudoprós índios trabalhadores.A Funai por sua vezfez papel de escoteiropra fazer a indenizaçãogastou um rio de dinheiromas trouxe a tranqüilidadeindenizando os posseiros.0 Incra e a Ruralminastambém me deixaram contentepois na hora do sufocoeles estavam com a gentefazendo muito esforçotrabalhando alegremente.
  17. 17. Nosso amigo Lúcio Fláviotrabalhou com atençãofez o máximo possívelna sua administraçãoentrando de corpo e almadentro da nossa questão.Temos um chefe de postoque a Funai nos mandoué um homem de honestidadeque trabalha com amornunca fez nada de erradodesde quando aqui chegou.Seu nome é Antônioo sobrenome não seieu acho que esqueciou nunca lhe pergunteieu vou perguntar a elee lhe falo de outra vez.A Funai também nos dáuma bela enfermariaa enfermeira é Euniceremédio tem todo diaem caso de internaçãodá para o doente uma guia.Esta história é realabaixo deixo assinadoporém só peço desculpasSe tiver versos erradospois são meus primeirosversosque aqui estão mencionados.Poesia de João Batista de AbreuEscrita por José Nunes Oliveira.
  18. 18. Há vários anos a t r a sJ á existiam fazendeirosExpulsavam os índios da t e r r aE se faziam posseirosPois índio não t i n h a valorPorque não tinha dinheiro.A nação XacriabáEra sempre ameaçadaSendo obrigada a deixarA sua própria moradaQue os fazendeiros obrigavamSair sem direito e nada.O cacique RodrigãoFoi o primeiro a l u t a rP a r a defender a t e r r aDos índios XacriabáPois o índio tem que t e rO seu lugar p r a morar.Depois do RodrigãoVeio também RosalinoQue com muita g a r r a e forçaLutou contra os assassinosPois um dia queria verTodo o seu povo sorrindo.Rosalino como caciqueRecebeu autoridadeUniu com todos os índiosDa sua comunidadePara retomar a terraQue é nossa felicidade.
  19. 19. Sou filho de RosalinoE testifico a vocêQue o meu pai nos diziaQue um dia iria morrerMas ia deixar livre a terraPara o seu povo viver.No ano de 86Nao suportávamos maisPois éramos agredidosAté por policiaisPorém não desanimamosAí que lutamos mais.Foi quando os fazendeirosTomaram uma decisãoSe matarmos RosalinoTomaremos conta do chãoMas houve completo enganoA terra ficou em nossas mãos.0 meu nome é DomingosFilho de RosalinoQuando aconteceu a tragédiaEu era ainda meninoPresenciei a morte do meu paiCometida pelos assassinos.Os assassinos que eu faloSão um bando de pistoleirosEram 16 pessoasDo primeiro ao derradeiroMuitos não foi por quererMas por força do dinheiro.Irei relatar pra vocêTudo que aconteceuPois eu sou um daquelesQue lá sobreviveuNão porque eles quiseramMas foi por força de Deus.
  20. 20. No ano 87Dia 12 de fevereiroAli chegou Seu AmaroJunto com seus pistoleirosQuebrando todas as portasE fazendo um tiroteio.É muito triste esta históriaMas não consigo esquecerSabe o que é você deitarDepois não amanhecerCom o seu querido papaiQue tanto amou a você.Já era umas 2 horasAo romper da madrugadaChegaram aquele povoSem ter pena de nadaFez um grande tiroteioAté minha mãe foi baleada.A mãe que eu falo é AnísiaEsposa de RosalinoQue quando saiu foi detidaPelos malditos assassinosQue enquanto ela choravaEles estavam sorrindo.0 meu pai desesperadoMa porta ele apontouFoi quando foi baleadoEu não sei quem o matouSó sei que naquele momento0 meu coração cortou.Com a morte do meu paiEu fiquei desesperadoMas não podia correrPorque eu estava cercadoPor aqueles pistoleirosQue estavam todos armados.
  21. 21. Mas nosso Deus é tão justoE sempre nos amouNo meio do tiroteioAcertaram o AgenorEra um dos pistoleirosQue morto ali mesmo ficou.Naquele mesmo momento0 pistoleiro parouPra ver o que aconteceuCom seu amigo AgenorFoi quando saí correndoE fui avisar meu avô.Quando eles perceberamQue alguém tinha fugidoMe deram vários tirosQue balas zuaram no ouvidoPorém não me acertaramPois Deus estava comigo.Esta história aqui ficouMais ou menos na metadeMas tudo que está escritoÉ tudo realidadeMataram meu paiSem haver necessidade.A história é muito grandeDá pra você perceberPorém o tempo não deuPra mim pensar e escreverMas no próximo livroContarei tudo a você.
  22. 22. Apesar do que aconteceuNão perdi minha esperançaAgora já estou casadoTenho esposa e duas criançasPra quando eu também morrerEles ficar na lembrança.Aos professores indígenasAqui de Minas GeraisVão firme para o futuroE não olhem para trásTentem restaurar para nósAs tradições de nossos pais.Agradeço a meu irmão JoséPor ter me ajudadoColocando a minha históriaNo seu livro publicadoE a todos os leitoresDeixo meu muito obrigado. Domingos Nunes de Oliveira C.I. de Rosalino Gomes de Oliveira
  23. 23. João, Gilmar e José Nunes, da família de Rosalino Gomes de Oliveira.
  24. 24. Alfabetizar em face do destinoNosso curso vai passandoPor uma grande reforma0 tempo dos analfabetosEstá saindo fora de formaCom os costumes antigoshoje ninguém se conforma.É tanto que nós professoresescrevemos em cima da linhanum parque reservadoperto de uma cidade vizinha.Quem não conhece diz logoser conto da carochinhaPois Deus, deu-se diversos casosQue como recordaçõesainda hoje revivemospelas florestas dos sertõescom uma lembrança e t e r n aplantada nos corações.Portanto eu vou contaruma história das boasdo tempo dos analfabetosnos sertões de Alagoas.Uma época que no passadocomoveu v á r i a s pessoasAssim até que chegouaquela sublime horade nascer o nosso cursolindo como a Deusa Flora.1 -Timóteo
  25. 25. Vimos as luzes do nosso mundojá ao romper da a u r o r aao saberem nossos paisdizem com alegria:Eu não posso lhe formarmas desejo felicidadeaté o final do dia.A gente lá no cursonão perdia uma liçãoqueridos dos professorese dos irmãos no sertãonós rezamos todos os diaspra conseguir a formaçãoa gente aos seis mesesem nossa á r e a aprendiacom Zé Luís e Ana Fláviado A E H já sabiaAté dos primeiros livrosMuitas coisas resolviaMas a secretaria resolveuo nosso estudo a u m e n t a rvoltamos ao Rio Docep a r a a gente estudarem um colégio internodaí até se formarE quando p a s s a v a m as fériasa gente contente vinhaEstagiar com os alunosQue na nossa á r e a tinhaE explicar as m a t é r i a sDas que mais nos convinhamPorém nossos pais sabendoCada vez mais amavamQuanto mais nos explicavamMais a paixão a u m e n t a v aE indiferentesDeles nada suspeitavam.
  26. 26. Ao sair da nossa áreaPelo cacique foi avisadoQue iam para um colégioOnde ficavam internadosSó vinham em casa com um mêsAté que fossem formados.Logo se arrumaramEnfrentando certo riscoSe despediram dos paisSeguiram pelo apriscoNuma cidade que davaNo rio de São FranciscoDa cidade até o rioEra uma légua boa distanteAonde ficava uma balsa passanteA balsa estava um pouco à toaNós embarcamos nela,Dizendo: Deus nos perdoa...Abrindo os panos desceramLevados pelos "Terrar"Passando de meia-noiteComeçamos a cochilarPorque o "Nordeste" veioAjudá-los a viajarAlguém que não acrediteLeia o livro e se conformeMuitos casos são passadosEnquanto a justiça dormeAlfabetizando os analfabetosDos fracos para os valentesA diferença é enorme. João Pereira SantosS_Manoel
  27. 27. ProsaA pelejaXacriabá Das palavras mais bonitas o Rosalino falou: "Eu prefiro ser adubo mas sair daqui não vou". Ele morreu pra ser adubo pra justiça da fulô.
  28. 28. Território Indigena Xakriabá
  29. 29. Os Xacriabá vivem em uma r e s e r v a demar-cada pela Funai, 46 mil hectares de t e r r a s , àsmargens do rio Itacarambi, no município de SãoJoão das Missões, no norte de Minas. Vivem daagricultura de subsistência e da criação de gado. A r e s e r v a é constituída de cerca de quase 30aldeias afastadas entre si e dirigidas por umcacique-chefe. Cada aldeia tem seu representante,eleito pelos próprios índios, e as sucessões sãohereditárias. As mulheres cuidam dos trabalhosdomésticos e ajudam os homens a trabalharem nat e r r a e a cuidarem dos poucos animais. Os Xacriabá vivem cercados por fazendas epelos projetos da Sudene. A Companhia de Desenvolvimento do Vale doSão Francisco, CODEVASF, construiu uma barragemno rio Itacarambi para uma hidrelétrica, quealagou uma á r e a de 70 hectares da reserva. Castigados pelas inconstâncias do clima, osXacriabá, como todos os habitantes da região,índios ou não, permanecem na t e r r a durante oinverno, quando plantam e colhem com relativafartura. Mas, no verão, muitos são obrigados asair, em busca de trabalho nas fazendas do sul doEstado de São Paulo. Dentro da reserva, existe um posto da Funai,instalado na década de 70, p a r a coordenar asaldeias. Ele serve como ponto de referência paraos índios. 0 chefe do posto, cacique e liderançastrabalham juntos, trocando informações.
  30. 30. "CERTIDÃO VERDUM ADVERBUM FRANCISCO N N S UE PACHECO ESCRIVÃO DE PAZ E OFICIAL DO REGISTRO CIVIL?VITALÍCIO, do d i s t r i t o e m u n i c i p i o do I t u c a r a m b i , E s t a d o d e Minas G e r a i s , R e p u b l i c a F e d e r a - t i v a d o B r a s i l , n a forma d e l e i e t c . CERTIFICA a s o l i c i t a ç ã o de I n t e r e s s a d o , q u e r e v e n d o em s e u c a r t ó r i o os l i v r o s de n o t a s d e s s e , em um d e s s e s de numero d e z ( 1 0 ) as f l s - 88 cvº e n c o n t r o u a s e g u i n t e p u b l i c a f o r m a , d o t e o r s e g u i n t e : P u b l i - - ca Forma de uma d o a ç ã o do t e o r s e g u i n t e : n 11 R.160 Pagou c e n t o e s e c e n t a r e i s 0 P 25 do S e t e m b r o de 1056 S i l v a R e i s J a n u á r i o C a r - doso d e A l m e i d a B r a n d ã o d e m i n i s t r a d o r d o s í n d i o s d a M i s s ã o d o S n r S .J o ã o do Riaxo do I t a c a r u a b i O r d e n a o C a p , Mandante Domingos Dias j u n t e t o d o s o s i n d i o s t a n t o s maxos como fêmeas Q " andarem p o r f o - r a p a a d - m i s s ã o com z e l l o o c u i d a d o . o s que forem r e b e l d e s f a r á p r e n - c h e r c o m c a u t e l a p a r a h i r e m p a r a ad-missão Copio e C h r s t ã o e z e l l o , andando - l h e e n s i n a r a D o u t r i n a p e l l o s o s q - m a i s soberem o s d o u - t r i n a t o s que v i v ã o bem e se casem os Mancebados não s e n d o emped i m e n - to ou avendo e m p e d i m e n t o f a z e n d o se c a z e com o u t r o q não t e n h a em- p e d i m e n t o f a z e n d o os t r a b a l h a r e p- t e r e m qi comer e n a o f u r t a r e m e o q _ f o r r e b e l d e a e s t a d u t r i n a que e x p e n d o n e s t e p a p e l o s p r e n d e - r á c a s t i g a r á como m e r e c e r s u a c u l p a e quando c a s c a r algum e n s o l e n t e ou levantado f a r á p r e n d e l l o s o t r e z e l l o s a m presca para l h e d a r o c a s t i g o c o n f o r m e m e r e c e r p o r q u e f e i t o t e n h o ordem d e q _ pode p a r a c a s t i g a r e p r e n d e l l o s e t i r a r o a b u s o de serem b r a v i o s e e s p e r o do Cap a s s i m o f a c a como a s i m d e t e r m i n o e do c o n t r a r i o p o r e l e e pelos mais e i s ç o d e i t e r r a com c o b r a p a r a não andarem p a r a a s f a - zenda a l h e i a d o R i a x o d o I t a c a r a m b y a c i m a a t e a s c a b i c e i r a s e v e r - t e n t e s e v e r t e n t e s e d e s c a n c o extremando na Cerra Geral para a p a r - t e d o p r e c u a ç u e x t r e m a n d o n a B o a V i s t a onde d e s a g u a p a r a l á e p a r a _ c á e p o r i s s o d e i l h e T e r r a com O r d i d a n o s s a M a g e s t a d e j a a s s i m n ã o Podem andarem p e l a s f a s e n d a s a l h e i a s incomodando o s f a z e n d e i r o s —m i s s o e s p a r a morada o b r e j o p a r a t r a b a l h a r e m Fora os g e r a i s p a r a a suas c a s s a d a e m e l a d a s . A r r a i a l d o s M o r i n h o s 10 de F e v e r e i r o de 728 digo de 1 7 2 8 . A D i m i n i s t r a d o r J a n u á r i o C a r d o s o de Almeida B r a n d ã o ( 0 0 2 o s i n a l p u b l i c o ) . E r a o que c o n t i n h a n a d o a ç ã o que m e f o i a p r e s e n - t a d a , q u a l p a r a a q u i t r a s l a d e i f i e l m e n t e como n e l l a s e c o n t i n h a e d e c l a r a v a , d o q u e dou f é , i s t o f e i t o , p e r a n t e duas t e s t i m u n h a s o que f i e l m e n t e f o i l i d a e c o n f i r m a d a a r e a l i d a d e d o que t u d o , c o n t i n h a amesma, A s s i g n a n d o as t e s t i m u n h a s e o a p r e s e n t a n t e , o p r e s e n t e t e r m o de t r a n s p e r i ç ã o de p u b l i c a f o r m a , i s t o , p e r a n t e mim e s c r i v ã o , que o D s c r e v i e a s s i g n o e d o u fé",em t e s t i m u n h o : ( s i n a l p u b l i o s ) d e v e r d a d e ) r a s o que u s o em p u b l i c o . R e s a l v o e n t r e l i n h a , q u e d i z que expendo - n e s t e p a p e l o s p r e n d e r á , que dou f é . E u F r a n c i s c o Nunes Pacheco,es- c r i v ã o d o Paz e o f i c i a l d o r e g i s t r o C i v i l V i t a l í c i o o e s c r e v i dou fé ,e a s s i g n o ( a ) Francisco Nunes Pacheco. Sobre s e l o s "aa" I t a c a r a m - by, 28 de f e v e r e i r o de 1931 A p r e s e n t a n t e : Salomé de P a u l a Santiago . testemunhas . A d o l p h o J o s é d e O l i v e i r a e _ J o ã o Rocha E r a o que continha no l i v r o e f l s que para a q u i t r u s l a d e i presente certidão d Publica e forma verbum- Adverbum e na escrita o r i g i n a l transcrita que c o n s e - t e i em d a t i l o g r a f i a o p r e s e n t e translado e dou fé em t e s t i m u n h o de verdade. Sem selos para efeito social Nacional Itacarambi, 5 de junho de 1969
  31. 31. Rosalino, como vice cacique, foi o primeiro a morrer. O crime contra os Xacriabá aconteceu nodia 12 de fevereiro de 1987, na aldeia Sapé,r e s e r v a indígena, hoje município de São Joãodas Missões, no norte de Minas. Um grupo de g r i l e i r o s , l i d e r a d o s porFrancisco de Assis Amaro, invadiu a aldeia, seidentificando como homens da polícia federal.Dividiram-se em dois grupos, a r r o m b a r a m acasa do vice-cacique Rosalino Gomes de Oliveira,por volta das 2 h o r a s da madrugada, iniciaramo tiroteio. As balas atingiram Rosalino mortal-mente. Sua esposa Anísia Nunes, grávida de doismeses e ferida com um tiro no braço, abraçou afilha Rosalina, de dois anos de idade, e saiup a r a fora do b a r r a c o . Picou sentada no t e r r e i r o ,por ordem dos pistoleiros. Queriam ver agora seRosalino, líder dos Xacriabá, e s t a v a mesmomorto. Os pistoleiros já saíam, mas ninguémt i n h a coragem de voltar p a r a casa. Com dois r e v ó l v e r e s apontados p a r a acabeça, J o s é Nunes de Oliveira, de 10 anos,filho de Rosalino, foi obrigado a a r r a s t a r ocorpo ensangüentado do pai, do quarto onde foifuzilado à queima roupa, até a porta do b a r r a -co. Franzino, o pequeno J o s é não a g ü e n t a v a opeso de Rosalino e chorava. Os pistoleirosameaçavam de novo: Vamos arrebentar seusmiolos se não arrastar seu pai para fora dacasa. Anísia, a mulher de Rosalino, suplicava aofilho p a r a que chegasse ao final. Com as duasmãos, J o s é segurou firme o braço de Rosalino epuxou o pai. Alguns minutos depois, Rosalinoe s t a v a ao lado de Santana, morto também. Ospistoleiros g r i t a r a m de alegria e d e i x a r a m aaldeia. Antes, a m e a ç a r a m voltar.
  32. 32. O tiroteio despertou a atenção do índioManuel Fiúza da Silva, que correu até a casa docacique para verificar o que estava acontecendo,mas foi atingido pelos tiros e morreu a caminhodo hospital. Durante todo o período, os grileirosusaram pseudônimos. Entretanto, os nomesreais só foram pronunciados diante da consta-tação de que Agenor Nunes Macedo, um dosgrileiros, também havia sido morto no tiroteio,pelos p r ó p r i o c o m p a n h e i r o s dele. Os t i r o svinham de diversos pontos diferentes, o quedificultava a identificação dos agressores. As investigações da chacina seguiram-se apassos lentos. Desde o início, Francisco de Assisamaro foi apontado como líder e principalresponsável pelo ato criminoso. No entanto, suaprisão só aconteceu oito dias após a chacina ecinco depois de expedido o mandato de prisão.T r a n s f e r i d o p a r a a S u p e r i n t e n d ê n c i a daPolícia Federal, em Belo Horizonte, ele foiassistido imediatamente por advogados. Os pedidos de "habeas corpus" foramnegados no Supremo Tribunal Federal e oministro Francisco de Assis Toledoenquadrou o grileiro por crime de genocídio,numa decisão inédita na justiça b r a s i l e i r a ,baseada numa lei de 1952. Os a s s a s s i n o s dosXacriabá ainda foram enquadrados emoutros artigos do código penal, por homicídioqualificado, formação de bandos ouquadrilhas e invasão de domicílio d u r a n t edescanso n o t u r n o . 36
  33. 33. Três índios morrem em invasão da aldeia. "O grileiro Amaro comanda o massacre."Quando um índio Xacriabá sorrir p a r a você, estána hora de começar a chorar. A frase é umaforma encontrada pelos fazendeiros da região deManga, Itacarambi, J a n u á r i a e Montalvânia,p a r a disseminar entre a população preconceitoscontra os 6 mil Xacriabá que habitam a r e s e r v ade 46 mil hectares demarcada alguns anos a t r á spela FUNAI, a 800 km de Belo Horizonte. E o pre-conceito vai mais além: são rotulados facilmente,na região, de impostores, aproveitadores, comu-nistas, e até de dar abrigo a bandidos condena-dos, p a r a não falar na tradicional alcunha depreguiçosos.
  34. 34. É com esse arcabouço ideológico que osfazendeiros consideram legítimo tomar as t e r r a sdos índios. São preconceitos alimentados pelohomem branco, desde que este chegou à América.Trata-se de uma das milhares de justificativaséticas p a r a dizimar totalmente uma cultura queos brancos provavelmente nunca estiveram àa l t u r a de compreender. 0 ódio a t r a v e s s o u osséculos, aliado à cobiça e ao exarcebado instintode posse. Possivelmente, além dos revólveres efuzis, foram as principais a r m a s que levaram ogrileiro Francisco de Assis Amaro e os pistoleirosClaudomiro Vidoca, Roberto F r e i r e Alkimin,Sebastião Vidoca, Germano Gonçalves e Venânciomais uma dezena de comparsas, a invadir ar e s e r v a , e a promover o fuzilamento sumárioque fez t r ê s mortes. Mataram a tiros o caciqueRosalino Gomes de Oliveira, e os índios Manuel eJosé Santana. De qualquer forma, a situação do índiobrasileiro, principalmente das tribos mineiras,vai continuar difícil. Ele permanece com asfeições heróicas e bonitas, mas a p e n a s n a shistórias nobres dos livros de José de Alencar,aliás, consideradas como obras obrigatórias nasescolas, e até mesmo nas poucas salas de aulaimplantadas nas aldeias. E os Xacriabá, emMinas Gerais, são um doloroso exemplo, comsuas histórias de lutas contra as opressões dosfazendeiros. Tantas b a t a l h a s consumiram suasforças, suas t e r r a s e, pior, sua própria história. Segundo relato do cacique Rodrigo, apenasem 1979, nosso povo teve devolvido seu ver-dadeiro nome Xacriabá. Foi quando conseguimos,com a j u d a d e i n d i g e n i s t a s , i d e n t i f i c a r t r a ç o sde parentescos com os Xavantes daAmazônia.
  35. 35. O sepultamento dos três mortos Xacriabá. Entoando cânticos, alimentados pelo sin-cretismo religioso, onde misturaram-se osdogmas católicos e a cultura Xacriabá, osíndios e n t e r r a r a m , no dia 13 de fevereiro de1987 pela manhã, as três vítimas. Num ambi-ente solene e triste, havia entre os índios umsentimento de revolta. O massacre t r a n s t o r n o ucentenas de índios, que compareceram parap r e s t a r a última homenagem a Rosalino, Josée Manuel. 0 cacique Xacriabá Rodrigo mantinha-sesilencioso. Ele ponderava, junto aos demaisíndios da tribo, a necessidade de permanecer-mos calmos frente à tragédia: nenhuma medi-da radical vai nos ajudar agora, salientava ocacique. Porém, nem assim conseguia reduziro grau de inconformismo e revolta. Rodrigochegou a admitir, para um agente federal, quea situação era incontrolável, podendo surgir aqualquer momento novo conflito. Segundo a t r a d i ç ã o X a c r i a b á , Rosalino,J o s é e Manuel foram sepultados próximos desuas casas. Um Xacriabá assassinado nãopode ser enterrado muito longe de sua casa. Em Itacarambi, o pistoleiro Agenor NunesMacedo, um dos quinze que participaram dachacina do Sapé, foi sepultado no cemitériolocal. Chocado com o triplo homicídio, o bispo deJanuária, Dom Anselmo Miller, defendeu o di-reito dos índios em relação à terra, considerandoa chacina como "um ato de vandalismo e vin-gança".
  36. 36. O "bispo alertou as autoridades p a r a aquestão da r e s e r v a Xacriabá, ressaltando que oproblema somente teria uma solução definitiva, ap a r t i r do momento em que os posseiros fossemassentados em Mocambinho, local próximo doProjeto Jaíba, no norte de Minas. Avalizando a posição do bispo, o secretáriodo Trabalho e Ação Social, Mário Ribeiro, emvisita a Montes Claros, comentou que o descasodo INCRA, ao não promover o imediato assenta-mento dos posseiros, era uma das causas desseconflito.
  37. 37. A Peleja Xacriabá No início do século XX, entre 1906 e 1910,as nossas t e r r a s já estavam sendo invadidaspelos brancos (fazendeiros). A r e s e r v a ainda nãoera demarcada e eles tinham proteção das autori-dades. Os brancos não respeitavam os direitos eenganavam os índios, compravam suas t e r r a s epagavam com objetos de pequeno valor. Os índios,muito simples, vendiam suas t e r r a s , sem p e n s a rque mais t a r d e isso viria a prejudicá-los. Em 1918 e 1920, muitas pessoas de fora jáestavam infiltrando em nosso meio, querendoroubar nossa identidade indígena, forçando osíndios a abandonar sua língua e seus costumes efalar o português, que é linguagem do branco. Em 1960, o cacique Manuel Gomes deOliveira iniciou seu trabalho em defesa de nossosdireitos, foi a Brasilia e a vários outros lugares,p a r a p r o c u r a r uma solução de amenizar aquelesproblemas, que estavam acontecendo na r e s e r v aXacriabá. Em 1969, a Ruralminas passou a cobrar dosíndios uma t a x a de ocupação. Disseram que aque-les que não pagassem seriam expulsos de suast e r r a s . Muitos índios tiveram que vender atéalguma vaca, p a r a dar subsistência a suasfamílias, p a r a pagar essa t a x a de ocupação. Casocontrário, tinham que abandonar suas t e r r a s . Em 1974, a FUMAI instalou um posto na á r e ap a r a dar assistência aos Xacriabá.
  38. 38. Em 1979, a á r e a foi demarcada, e, em1987, homologada e oficializada, reduzindodrasticamente a á r e a a que tinham direito osíndios, com 46 mil h e c t a r e s , o que correspondea um terço das t e r r a s ocupadas anteriormente. Segundo o Conselho Indigenista Missionário-GIMI, os Xacriabá da região do norte de Minaspossuiam um documento da coroa portuguesa,que lhes cedia uma á r e a calculada aproximada-mente em 130 mil hectares de t e r r a . Este docu-mento foi entregue à FUNAI, que demarcou aá r e a em 1979 (pouco mais de 46 mil h e c t a r e s ) ,e só em 87 foi homologado pelo Conselho deSegurança Nacional. Nesse período, havia 89famílias de posseiros vivendo dentro da reser-va Xacriabá. Após a chacina dos t r ê s índios,essas famílias foram r e t i r a d a s da r e s e r v a elevadas p a r a t r a b a l h a r e m no Projeto Jaíba. Desde que o imperador Dom Pedro It r a n s f o r m o u a á r e a em região de proteção eusufruto dos índios Xacriabá, há mais de umséculo, cultuar costumes indígenas passou ar e s u l t a r em prisão ou até morte. A t e r r a deabrigo dos indígenas era bem maior que ademarcada pela FUNAI. OS Xacriabá dominavam,há séculos, t e r r e n o s muito mais amplos, e con-templavam facilmente grandes porções do rioSão Francisco. Épocas de abundância p a r a atribo. 0 homem branco era hostil, mas aindadistante.
  39. 39. Com o povoamento do norte mineiro, vieramas e s t r a d a s , os posseiros e os grileiros. O medodas tocaias e das emboscadas l e v a r a m osXacriabá, antes u n i d o s / a dispersão, num proces-so contínuo. Como r a ç a vencida, b u s c a r a mabsorver traços dos brancos como forma desobrevivência. Um meio de evitar a luta secularcontra um inimigo cada vez mais numeroso,adversário vingativo e cruel. O homem branco: oanimal mais feroz que a tribo conheceu. O bichomais a p a v o r a n t e que a s s u s t o u todo o povoXacriabá.
  40. 40. Amaro foi preso. Aos 48 anos de idade, acusado, julgado eabsolvido por dois assassinatos em Itacarambi,indiciado por dano contra a união, invasão det e r r a s , receptação de gado roubado, formação dequadrilha e emboscada, e apontado como o man-dante da chacina no dia 12 de fevereiro de 1987,o cearence Francisco de Assis Amaro, no dia 20de fevereiro de 1987, pisou pela primeira vezem uma delegacia. Preso no centro de Montalvânia, norte deMinas, depois de uma engenhosa operação mon-tada pelo delegado federal Agílio Monteiro Pilho,Amaro foi levado direto p a r a o aeroporto dafazenda Cauê, a poucos quilômetros da cidade. Ele foi levado de avião p a r a Belo horizonte,onde foi preso no Departamento de PolíciaFederal. Nunca pisei em uma delegacia, gabou-seele ao delegado Monteiro, d u r a n t e a viagem.Poucas horas depois, estava na cela do subsolodo prédio do DPF, no b a i r r o Luxemburgo. Apontado como um dos maiores grileirosde t e r r a indígena Xacriabá, o fazendeiroFrancisco Amaro chegou à região em 1962,vindo da cidade cearense de J a r d i m . Em poucosanos, já era um homem rico, aumentando seupatrimônio de t e r r a s às custas da manutenção depequenos posseiros dentro da reserva indígena.
  41. 41. Decisão Em decisão inédita, o Tribunal Federal deRecursos-TFR, no entanto, não só manteve a com-petência da justiça federal, já que os índios sãoprotegidos pela união e estão em t e r r a s federais,como o m i n i s t r o Francisco de Assis Toledoenquadrou os acusados pela prática de crime deg e n o c í d i o , a p l i c a n d o p e l a p r i m e i r a vez a leifederal nº 2 8 8 9 / 5 6 , que ratifica um t r a t a d ointernacional assinado pelo Brasil e onde é pre-visto o crime de genocídio. A pena aplicável nestecaso é de 16 a 40 anos de reclusão.
  42. 42. Genocídio Desde 1 9 8 0 , foram a s s a s s i n a d o svários índios, por disputa de t e r r a s dentro dar e s e r v a , sem que n e n h u m a providência fosset o m a d a pelas a u t o r i d a d e s policiais. Os pis-toleiros e mandantes circulavam pela cidadei m p u n e m e n t e , i n c e n t i v a n d o a extinção dosXacriabá. A ação dos grileiros era capitaneada peloprefeito de Itacarambi, José F e r r e i r a de Paula, eos e m p r e s á r i o s Manuel Caribe Filho, AécioPereira Costa, Paulo Roque e outros, que tinhaminteresse nas t e r r a s indígenas. A história nossa é b a s t a n t e comprida, dariap a r a fazer muitos livros, se fosse contada desdeo começo. Muitas coisas aconteceram. Desde1979, sempre muitas agonias: perseguição, per-turbação, grilação de t e r r a s e extermínio.
  43. 43. APW - S e ç ã o P r o v i n c i a l , LIVROS PAROQUIAIS - CODIO" 107FL. 22 - R e g i s t r o do t e r r a s do p r o p r i e d a d e de VICENTE FERREIRA DE SOUZA - " . . . o p o s s u i d o r do uma s o r t e do t e r r a na Fazenda do I t a c a r a m b i em comum com o u t r o s p o s s u i d o r e s , ouja F a z e n - da e x t r e m a da B a r r a do I t a c a r a m b i r i o acima ao Riacho se da MISSÃO DOS INDIOS , e do o u t r o l a d o Riacho seco acima • a t e e x t r e m a d o s A l k m i n , n e s t e municípios e f r e g u e s í a de / Nossa S e n h o r a do A m p a r o . . . " - d a t a d a da 28 de dezembro de 1856.Fl 65v° A o s d e z e n o v e d i a s do men do a b r i l de m i l oitocentos e c i n - q u e n t a e s e i s n e s t a V i l a J a n u a r i a compareceu E u g ê n i o C o - mos de O l i v e i r a p e d i n d o quo r e g i s t r a s s e o seu exemplar o q u a l o f a ç o p e l a forma e m a n e i r a s e g u i n t e - Eugênio Cosmes de O l i v e i r a p o r si e p o r TODOS OS INDIOS Q E M R M NO SÃO U OA JOÃO DA MISSÃO d e c l a r a que possuem d e s d e o Riacho do I t a - c a r a m b i acima até a cabeceira vertentes o descanso, ( s i c ) , e x t r e m a n d o n a S e r r a g e r a l , e p a r a p a r t e d o Peruguaçu extre_ mando na Boa V i s t a , onde d e s a g u a p a r a c á , como os d i t o s In- d i o s _ p o r ordem do Sua Majestade J a n u á r i o Cardoso de ALMEIDA Brandão, e d i t a s é n e s t e município e f r e g u e s i a . Vila Ja n u á r i a d e z e s s e t e de a b r i l de mil oitocentos o cinqüenta o e seis. E u g ê n i o Gomes do O l i v e i r a - Nada mais ouve o d e c l a - rante declarar eu Timóteo Francisco da Costa escrevendo do P á r a c o o e s o r e v i . " Pesquisa do S i l v i o Gabriel Diniz 47
  44. 44. CONTADAS POR: ESCRITAS POR:Antônio Ferreira do Nascimento Alice Almeida MotaCalmecita Nunes da Mota Alvina Pereira de SouzaDominga Xacriabá Alvina RodriguesJoão da Cota Anide de Araújo SouzaJosé Carlos Antônio GuimarãesMaria das Mercês Caetano Cilene A. dos SantosMaria Pereira da Conceição Creuza Nunes LopesMaria Pinheiro das Neves Eunice Canabrava LopesRoberto Gomes Giovana PaulaSelestina Cardoso dos Santos Jeuzani Pinheiro dos Santos João Pereira dos Santos José Alves de Barros José dos Reis Lopes da Silva José Nunes de Oliveira Marcelo P. de Souza Maria Aparecida Nunes Barbosa Maria Francisca Caetano Maria de Lourdes C. Oliveira Rosa Ferreira Gama Rosenir Gonçalves Neves
  45. 45. PARTE IINossashistórias sãoum paraíso
  46. 46. eitor, tenho certeza que, ao lereste livro, você vai gostar muito. Ele mostratraços das histórias e culturas do nosso povo, quetrazemos guardados em nossas mentes, como umaforma cultural. Estaremos usando este livro naalfabetização de nossas crianças indígenas, queterão uma escola diferenciada, intercultural ebilíngüe. Mas ele poderá ser usado pelos nãoíndios também, p a r a que possam conhecer umpouco da nossa história e cultura.
  47. 47. As três irmãs Um pai que tinha t r ê s filhas. Duas casarame uma não casou. Duas eram bonitas e uma erafeia. Um dia ela deitou na cama. Quando foi bemt a r d e , o pai dela ouviu: — Rum, oi, oi. 0 pai dela perguntou: — 0 que foi Silivana? — Nada não, meu pai. No outro dia, ela já inventou uma música: — Duas se casaram, eu, por ser a mais "boni-ta e a mais formosa, que fiquei sem casar. De m a n h ã cedo, o pai dela mandou osnegros c h a m a r e m todos os homens e rapazes,p a r a Silivana escolher qual o que servia pra elase casar. Ela olhou todos os homens e rapazes,não achou n e n h u m que engraçasse ela, e começoua cantar: — No meio de t a n t o s h o m e n s , n ã o a c h e inenhum que me engraçasse, só achei Condão daLapa, que tem mulher e filho. 0 pai dela mandou: — Vai, negro, fala com Condão da Lapa quemate D. Condência, p r a ele casar com Silivana. Silivana subiu logo no palácio, batendo osino, dando sinal que D. Condência tinha morri-do. Quando o negro chegou lá, D. Condênciacomeçou a cantar: — Não me mate, nem de facaria nem det i r a r i a , me mate de toalha que é uma morte defidarguia.
  48. 48. Ele apertou duas vezes. Quando ele soltouum pouquinho, ela cantou: — Oh, meu Deus, o que seria que o sinobateria, quem será que m o r r e r i a , pra ser minhacompanhia? Quando ele ia a p e r t a r de novo, o negro veiocorrendo e falou: — Condão da Lapa, não m a t a donaCondência, não, que Silivana caiu do palácio emorreu. Os p a s s a r i n h o s já p a s s a r a m cantando,istum tum tum tum tum. Quebra bunda, relógio.
  49. 49. Tibicuera Nasceu numa taba da tribo Xacriabá, seique foi numa meia noite clara, fazia luar. A mãeviu que o menino e r a magro e feio. Ficou triste,mas não disse nada. Meu pai resmungou: — Pilho fraco não p r e s t a p a r a a guerra. Pegou o menino e saiu caminhando p a r a abeira do córrego. Ia cantando uma canção triste,que me dava vontade até de morrer. De vez emquando gemia. Os caminhos estavam molhados eescorregamos nas águas da chuva. Um bichocomeçou a gemer no meio do mato escuro. Umasombra rodopiou rápido entre as á r v o r e s . 0 cór-rego estava barulhento, porque tinha chovidob a s t a n t e naqueles dias. 0 pai parou e olhou primeiro p a r a o filho,depois p a r a as ondas. Não teve coragem. Voltoup a r a a taba chorando. A mãe nos recebeu emsilêncio. P a s s a d a s algumas luas, n u m a t a r d e , omenino ia caminhando na cintura de sua mãe, eo pajé da tribo fez eles p a r a r e m em frente da suaoca. Olhou p a r a o menino, viu que ele era magroe feio. Examinou-o da cabeça aos pés, sorriu edisse: — Tibicuera! 0 nome pegou bem. Tibicuera, na língua dosXacriabá, quer dizer cemitério. 0 nome assenta-va bem porque ele era magro e chorão.
  50. 50. Iaiá Iaiá Cabocla Tinha um homem na aldeia P r a t a , ele falavaque não tinha medo da Iaiá Iaiá Cabocla. Ele tinhacriação de gado e falava que, se ela matasse gadodele, ele cortava ela no facão. J u s t a m e n t e , bem nafrente da casa dele, tinha um cercado de pasto. Um dia, ela matou um g a r r o t e dele que t i n h aa idade de dois anos. Então ele, p r a se ver livre,foi preciso ir até a casa do Estevão Gomes, quenaquele tempo era, dos índios, e que tinham umrelacionamento mais íntimo com a Iaiá IaiáCabocla, e só ele controlava ela. Depois que aconteceu isso este homemnunca mais falou mal dela, porque podia serpunido.
  51. 51. A onça cabocla Aqui na nossa aldeia tem uma cabocla índia.Ela é uma onça, mas ela é uma índia encantada.Ela conversava com os índios mais velhos que jám o r r e r a m . Conversava com Estevão Gomes. Elejá faleceu, mas meus tios ainda viram ele. Ele éirmão do avô da minha mãe, um homem quechamava Adrião. Estevão Gomes, quando viagente de fora na aldeia, o cabelo dele a r r e p i a v a .Meus tios conheceram a onça. De vez em quandoela assoviava. Os índios mais velhos entendiam,sabiam que ela estava querendo fumar. Eles iamcolocar fumo p a r a ela, mas não viam e nem con-v e r s a v a m com ela. Era só o Estevão Gomes.Abaixo de Deus, ela é a defesa da nossa aldeia. Estevão Gomes era homem apurado e adi-vinhão. Ele pediu um filho da cunhada, mas elanão ia dar. Ele só fez dar uma risada e não falounada. Depois o menino faleceu. Estevão Gomesfalou pra ela: — Oh, m i n h a c o m a d r e , eu bem que pedi omenino, você não quis dar. Eu s a b i a que ele n ã oia v i v e r , porque eu tinha visto ele chorar na suabarriga. Eu sabia e você não sabia. Estevão Gomes era índio e adivinhão, con- v e r s a v a com a cabocla índia, que é a defesa da nossa aldeia. Nós não vemos ela, mas direto ela vive no meio de nós.
  52. 52. O galo e a raposa Era uma vez um galo velho m a t e i r o .Percebendo a aproximação de duas r a p o s a s ,empoleirou-se nas á r v o r e s , e a raposa desaponta-da m u r m u r o u consigo: — Deixa e s t a r seu malandro, que já tecuram! E em voz alta: — Amigo, venho contar uma grande novi-dade. Acabou-se a guerra e n t r e os animais, loboe cordeiro, gavião e pinto, onça e viado, raposa egalinha, todos os bichos andam agora de mãos ebeijos como namorados. Desça desse poleiro evenha receber o meu abraço de paz e amor! — Muito bem! Exclamou o galo. — Não ima-gina como tal notícia me alegra! Que beleza vaificar o mundo, tempo de guerra e traições! Vou jádescer p a r a a b r a ç a r a amiga raposa, mascomo lá vem vindo t r ê s cachorros, acho bomesperá-los p a r a que eles também tomem parte daconfraternização. Ao ouvir falar em cachorros, dona Raposanão quis saber de história e t r a t o u de por-se àfresca, dizendo: — Felizmente, amigo Co có có có tenhop r e s s a e não posso e s p e r a r pelos amigos cães.Fica p r a outra vez a festa, sim? Até logo. A esperteza contra esperteza e meia. O galofoi mais esperto do que a raposa, pois ele, sabendoque ela tem medo de cachorro, falou que vinhamt r ê s cachorros, aí ela não esperou.
  53. 53. Antigamente, quando J e s u s andava no mundo Ele andava, mas um dos apóstolos dele eraSão Pedro. Ele passou por uma casa, tinha umamulher xingando, mas o coração dela estava con-trito a Deus, aí ele abençoou a mulher. Elespegaram a caminhar. Lá na frente, encontraramuma outra mulher rezando no cemitério, e ocoração dela estava mal. J e s u s excomungou ela,mas São Pedro falou: — Ora, J e s u s , aquela mulher estava xingan-do, o senhor não excomungou! Aí, J e s u s respondeu a São Pedro: — Não, Pedro, aquela estava xingando maso coração estava em Deus, e esta está rezando,mas o coração dela está mal, não está contrito aDeus. Continuaram a caminhar, depois encon-t r a r a m uma festa de casamento, e São Pedro,m u i t o do t e i m o s o , falou com J e s u s que elespodiam ficar na festa, e J e s u s falou: — Não, Pedro, essa festa nãovai dar em nada que p r e s t a . Pedro: — Não, J e s u s , vamos ficar. Jesus: — Moço, não adianta. São Pedro teimou, eles ficaram.D e i t a r a m p e r t o do t e r r e i r o , SãoPedro estava na frente de J e s u s . Opovo deu de brigar, teve um dosbrigadores que mandou um pau em São Pedro. Aí, São Pedro: — Vamos, J e s u s , aqui teve foi bom. E Jesus: — Eu falei p r a você.
  54. 54. O almoço Um dia um menino me contou que conheciaum senhor, que todo dia que ele ia p a r a a roça,m a n d a v a a mulher m a n d a r a onça comer ele. — Como é isso mesmo, menino? — É. Toda vez que ele vai p r a roça, ele fala:"Mulher, um dia você manda aonço p r a mecomer". A mulher fica perguntando: "Pra man-dar a onça te comer?", "Não, é p r a m a n d a r aonçop r a me comer".
  55. 55. A galinha risonha Conta um senhor que lá na travessa do rioBarra do Sumaré, quando ele atravessava o rio ànoite, avistou uma galinha dágua sorrindo.Disparadamente, galinha dágua é um p á s s a r oconhecido na região. Ele disse que ela sorriatanto, que ele não entendia nada, pois nuncatinha visto galinha sorrir. Que susto ele passou!
  56. 56. História do bobo Era uma vez, um besta que o pai dele man-dou a n d a r p a r a conhecer e saber conversar. Aí elechegou num lugar onde tinham uns caras matandoum porco, e ele falou: — Não m a t a o bichinho não, coração mal. E os caras responderam: — Esse homem é besta. É p r a falar: m a t a quecomo. Ele falou: — Agora já sei. Aí o bobo andou e chegou numa cidade ondetinham uns caras brigando. Ele chegou e falou: — Mata que eu como. Aí os caras falaram: — Esse homem é bobo. É de falar: Deus quedesaparta. Aí ele disse: —Já sei; Deus que d e s a p a r t a . Ele encontrou uns noivos casando e falou: — Deus que desaparta. E o povo falou: — Esse homem é bobo. É de falar: P a r a b é n s .E lá na frente ele encontrou uns homens conver-sando: — J u s t a m e n t e , perfeitamente, é lógico. E o bobo falou: — Agora já sei. Lá, ele encontrou uns matando os outros, e apolícia chegou e falou: — Foi você quem matou este homem aí? O bobo falou: — Justamente. — E você tem este coração mal? E ele: — Perfeitamente. A polícia falou: — Você vai p a r a a cadeia. E ele falou: — É lógico.
  57. 57. Dois Bodes Brigavam Era uma vez, dois bodes que brigavam, e oleão queria resolver o problema deles, e entãochegou e perguntou: — Por que vocês dois estão brigando? E eles responderam: — É porque nós estamos tentando dividir umpedaço de t e r r a . E m a n d a r a m o leão ficar no meio deles doisp a r a ele m o s t r a r o lugar onde eles queriamdividir. Empinaram os dois e b a t e r a m os chifresno leão, que saiu todo machucado e saiu andando. Quando chegou na frente, encontrou umaporca parida com os leitõezinhos. A porca, commedo do leão comer ela e os leitõezinhos, mandoueles pedirem a benção ao leão, chamar ele depadrinho, e o leão prosseguiu a viagem. Quando ele chegou mais na frente, encontrouuma égua e foi cumprimentá-la, mas quando eledeu a mão à égua, ela bateu os pés nele. Ele saiue falou que nunca mais ia resolver problemas debode, ser padrinho de leitão e nem cumprimentarégua.
  58. 58. A mãe dágua, Uíara Sabemos das ações de Uíara por meiode muitas lendas: conheça uma delas. Dizia-seque numa paragem longínqua do Brasil, haviauma s e r r a diferente das o u t r a s . Dizia-se que essat a l s e r r a e r a todav e r d e , por s e r deesmeralda toda ela.Os rios próximos,lagos, a r e i a s , os pás-saros, as nuvens,até o próprio luar,tinham tons esverdea-dos por causa dosreflexos verdesda s e r r a .Esta s e r r am a r a v i l h o s a ficavaàs margens da lagoade Vaparuçu, longe,muito longe.As p e d r a s v e r d e seram os cabelos deUíara, a mãe dágua.Uma linda sereia de cabelos v e r d e s e o l h o sa z u i s p r o f u n d o s . P o s s u í a u m palácio encanta-do e a t r a í a , com seus lindos olhos e com sualinda beleza, todos os que a viam. Ela a r r a s t a v a -os p a r a as p r o f u n d e z a s do mar. Nós nãoqueríamos que a Uíara, chamada de mãe dágüa,acordasse.
  59. 59. História dos dois compadres Uma certa vez, dois compadres, tinha umdeles que não g o s t a v a de d a r almoço, seestivesse na hora de almoçar. Não dava comidap a r a ninguém. Aí o compadre, um dia, resolveusair por aí bestando com uma espingarda. — Quem sabe se eu não mato uma caça. E, nesse tempo, a caça era muito difícil, eo compadre era bem pobrezinho, não tinha nada.0 outro era ricão, tinha gado, coisas de comer.Foi andando, andando, até que não estava agüen-tando mais de fome, e nada de caça. Aí ele falou: — Meu compadre não gosta de dar almoçopra ninguém, mas vou jogar uma nele que ele vaime dar comida. Foi p a r a lá, caminhou, caminhou até chegarna casa do compadre, e o ricão ainda não tinha almoçado. — Ô, compadre, tá bom? Tudo bem? O com-padre me a r r u m e um copo dágua, por favor, quejá estou pra m o r r e r de fome e sede. O ricão t r o u x e a água p a r a ele, ele bebeu eficou e s p e r a n d o o compadre c h a m a r p a r a almoçar, e quando ele viu que o compadre não iachamar, ele falou: — Será, compadre, que a gente, estando comfome e bebendo água e saindo logo, tem algumperigo? 0 compadre falou: — Não, se sair logo, não tem nenhum perigo.
  60. 60. O tatu e a raposa A r a p o s a encontrou com o t a t u e o cumpri-mentou, dizendo: — Bom dia, amigo Tatu. E o t a t u respondeu assim: — Eu me chamo é Cajueiro-peba, espada demeia-légua, tu não faz de besta, égua. Um belo dia o t a t u simplesmente encontroucom ela e disse: — Bom dia, amiga Raposa. E ela, já nervosa, por causa da decepção quejá tinha levado, respondeu assim : — Eu me chamo Rainha-das-coisas. Merespeita, corno.
  61. 61. O neguinho do pastoreio e o fazendeiro cruel Era uma vez, um neguinho que era escravode um fazendeiro cruel. 0 neguinho era afilhadode Nossa Senhora. Certo dia, em que o neguinhop a s t o r e a v a no campo, t r i n t a cavalos se assus-t a r a m e fugiram p a r a longe. Já era tardezinha,quase noite, e o neguinho t e n t a v a j u n t a r os ca-valos com medo do fazendeiro ficar bravo. Sempre que o neguinho não dava conta doserviço, o fazendeiro dava-lhe uma s u r r a e odeixava de castigo sem comer. Já era noite, oneguinho acendeu uma vela e foi p r o c u r a r oscavalos, pedindo sempre ajuda à sua madrinha,Nossa Senhora. Logo em seguida, ele conseguiureuni-los. Numa outra vez em que o neguinho estavajuntando os cavalos, o filho do fazendeiro espan-tou-os de propósito. Como era de costume, espan-t a v a os cavalos p a r a que o neguinho t o r n a s s e ajuntá-los. O fazendeiro, que era muito cruel, bateu noneguinho até matá-lo, depois jogou numformigueiro p a r a que seu corpo fosse devoradopelas formigas. Depois de algum tempo, oneguinho foi visto vivo e feliz numcavalo em pêlo e sem rédeas. 0 fazendeiro viu o neguinhomontado, achou aquilo esquisito,pois t i n h a jogado o corpo noformigueiro p a r a que fosse devoradopelas formigas. Mas o neguinho foi muito feliz,pois sua m a d r i n h a lhe protegia.
  62. 62. O tatu A Iaiá Cabocla, ela se t r a n s f o r m a emvários animais, onça, sapo, t a t u etc. Um dia, o fazendeiro e s t a v a q u e r e n d oinvadir nossas t e r r a s e falou que tinha que tomarnossas t e r r a s , e saiu. Quando ele chegou emMissões, no meio da estrada, de longe, ele enxer-gou um t a t u . Ele falou: — Eu vou m a t a r aquele tatu. Ele foi p a r a pegar nele, mas quando eleabaixou p a r a pegar, só achou o lugar. Desse diaem diante, ele começou uma febre com frio, eficou de cama. E não demorou, ele morreu. Ele ficou com medo. Antigamente, os índioseram perseguidos pelos brancos.
  63. 63. Jeca Tatu O J e c a era um homem muito pobrezinho, esó dava p a r a beber pinga. Os pés dele eram muitograndes. Quando foi um dia, ele levantou cedinhoe foi catar coco; depois voltou e foi tomar pinga. Quando foi um dia, ia passando um vizinhodo Jeca e ele estava deitado. 0 vizinho falou: — Jeca, como você não faz igual o vizinhoitaliano? Compra veneno pra m a t a r formigas nossítios e planta muita lavoura. 0 J e c a respondeu: — Quá, não paga a pena! Só paga beberpinga. Depois de um dia, o J e c a teve uma idéia,resolveu caçar remédio p a r a deixar a pinga. Arranjou os remédios e foi tomar. Tomou,tomou até deixar de tomar pinga. Depois disso,ele colocou uma grande roça. Um certo dia, o J e c a estava trabalhando naroça, e por aí mesmo o italiano ia passando, efalou: — Pra que t a n t a roça, J e c a ? O J e c a Tatu respondeu: — Eu quero ganhar os meus tempos perdi-dos. 0 J e c a falou que depois que ele deixou debeber melhorou de situação, tinha b a s t a n t e cri-ação, fez uma casa boa, comprou um carro, anda-va no carro com a esposa e os filhos. O J e c a Tatu agradeceu muito a Deus de eleter bebido o remédio e ter melhorado. Agora oJeca Tatu está gordo, bom de situação, chega ae s t a r matando onça de morro.
  64. 64. A onça e o coelho A onça ia para a festa e chamou o amigoCoelho para ir com ela. 0 amigo Coelho disse queestava com o dente doendo e não ia. Mas a amigaonça implicou: — Vamos, amigo, vamos... 0 amigo Coelho decidiu: — Então vamos, mas assim, se deixar eu irmontado em você. Aí a amiga Onça falou: — Então eu levo. Pode arriar. Depois o amigo Coelho arriou ela. Depois dearriada, o amigo Coelho pegou a espora e colocou nopé. Aí a amiga perguntou: — Pra que as esporas, amigo Coelho? — É pra tinir, para não cochilar. Depois o amigo Coelho pegou o chicote, colocouno braço. A amiga quis desconfiar e perguntou: — Prá que esse chicote, amigo Coelho? — Pra espantar os mosquitos em meus olhos. 0 amigo Coelho montou e saiu deva-garinho.A amiga Onça começou a andar ligeiro, eo amigo Coelho falou: — Amiga Onça, não anda ligeiro,senão meu dente dói, anda devagarinho... Quando chegou pertinho da festa, oamigo Coelho riscou a espora nela, atéchegar na festa. Depois chegou lá. 0 amigo Coelho pulou nochão duma vez, e a onça ficou lá amarrada no pau.O amigo Coelho foi participar da festa, com outrosamigos. Quando chegou a hora de voltar, o amigoCoelho deu um jeito, tornou a montar. Chegou asesporas, chegou as esporas. Chegou no lugar ondeele pegou ela.
  65. 65. Ele pulou no chão e largou ela lá. Depois ela foiperseguir ele, e falou: — En, amigo Coelho, eu te pego, nem que sejana bebida. Deste dia, o amigo Coelho ficou esperto. Foi nomato, tirou u m a abelha, tirou o mel, e lambuzou ocorpo, enrolou nas folhas e desceu p r a bebida. Chegando lá, a onça já estava esperando,mas, como o coelho estava cheio de folhas, a onçanão o reconheceu e perguntou: — Amigo Folhaço, você não viu o amigoCoelho por aí? E ele: — Não, faz tempo que o vi. E bebeu, bebeu, mas assim, um de lá, outro decá, bebendo juntos. Depois, o folhaço saiu e, quandoestava lá longe, gritou p a r a a onça: — Amiga Onça, o coelho sou eu! E ela: — Ah, meu bichinho, eu te pego, não tem p r aonde você ir. Quando foi um dia, ele tornou a enganá-la, eencontraram-se na bebida. Ela distraiu e eleentrou no buraco. A onça deixou o amigo Sapovigiando, e n q u a n t o ia em c a s a pegar u m acavadeira. — Você vai vigiando ele aí. Se deixá-lo sair,eu te mato!
  66. 66. Mas o coelho teve uma idéia p r a enganar osapo. Ele r e p r e s e n t a v a p a r a o sapo, sempremastigando. 0 sapo, que era ambicioso, pergun-tou: — 0 que você está comendo, amigo Coelho? E ele: — Estou comendo farinha. Vou jogar umpouquinho pra você: abra bem as mãos, os olhose os braços p a r a aparar, porque eu não possosair. E encheu as mãos de t e r r a , jogando nosolhos do sapo. Enquanto o sapo tirava a t e r r a dosolhos, ele saiu fora e fugiu. Quando a onça chegou,perguntou: — E aí, amigo Sapo, o amigo Coelho está aí? — Está sim, pois eu não vi ele sair! A onça, para ver se estava mesmo, cavou oburaco, cavou, cavou e, já desconfiada, falou: — Amigo Sapo, você não vai sair daqui até euterminar. Quando deu no fim do buraco, e ela, nãovendo o coelho que havia fugido, pegou a perna dosapo e falou: — Pois, agora, quem vai pagar é você, que odeixou fugir. Vou jogá-lo no fogo! E o sapo, apavorado, gritava: — Não me jogue no fogo, amiga Onça, mejogue na água. A onça, perdendo a paciência, nãosabia se o jogava no fogo ou na água. Finalmente, ela resolveu e o jogou na água.
  67. 67. Depois, já dentro da água, ele gritou: — Ô, bicho besta, era isso mesmo que eu que-ria, pois eu sou mesmo da água. A onça, que ainda estava perto, segurou-lhe aperna, mas o sapo tornou a fintá-la, dizendo: — Você segurou foi um pedaço de pau. E ela, desapontada, falou: — Um ou outro vai ter que me pagar! Quando foi um dia, encontraram-se a onça e ocoelho. E, para se ver livre dela, ele disse: — Amiga Onça, eu vou fazer um pre-sente para você, mas você pretende saber agora? — O que é? Perguntou. — É um boi, para você comer e não meperseguir mais. — Hoje não posso, mas amanhã eu levo. Masse você ouvir gritar, sou eu quem vou tocando oboi. Cheio de travessura, o coelho subiu em cimada serra, caçou a maior pedra e falou para a onça: — Pica de braços abertos, olhos fechados eboca aberta. E assim mesmo ela ficou. — Lá vai o boi, amiga Onça. E jogou a pedrona na onça e a matou.
  68. 68. O coelho e a raposa Era uma vez um homem que gostava de plan-t a r roça. E até chegar o tempo, ele plantou umaroça que deu muito boa e o amigo Coelho descobriude quem era. E todos os dias, ele vinha comer naroça. Quando foi um dia, o coelho foi para a roça ena estrada encontrou a amiga Raposa e chamou-ap a r a ir com ele. Ela foi, mas o amigo Coelho falou: — Amiga Raposa, não vai comer muito,porque senão você não cabe na porteira. Muito bem! Chegando lá, eles foram comendo,comendo, e a raposa, que era ambiciosa, comeumuito. E não coube na porteira. 0 amigo Coelhofalou: — Amiga Raposa, vamos embora? Porque sea gente ficar mais tempo, o homem pegará nósaqui, e, se ele nos pegar aqui, ele vai nos matar. Depois os dois sairam, num gesto muitoligeiro. Mas quando passou na porteira, o coelhopassou e a raposa não passou. Mas porque a amiga Raposa não passou?Porque a barriga estava cheia. O coelho falou: — Amiga Raposa, deita no chão e faz que estámorta. Aí o homem pega você e joga fora e você saicorrendo pra nós irmos embora. E eu vou esconderaqui na mata. Pouco tempo depois, lá vem o homem olhar aroça, chamou os cachorros e lá se foi. Quandochegou, viu a raposa caída na porteira, e falou: — Sua bichinha, é você quem está comendoaqui? E por isso não morreu, fingindo de morta. O homem falou: — Vou tirar daqui de dentro da minha roça. E jogou fora! Ela caiu do outro lado da roça. Quando o homem foi embora, a raposa levan-tou e saiu correndo e chamou o amigo Coelho.Quando chegaram bem longe, a raposa chamou oamigo e falou: — Vamos t r a t a r de ser compadres? E abraçou ele, dizendo: — Amigo Coelho, obrigado pelo que você mefez, me livrou da morte. E até hoje eles são compadres.
  69. 69. Redemoinho No tempo dos antigos, aconteciam muitosredemoinhos fortes. Que carregavam até roupadas pessoas. Aí disse que, uma vez, tinha umamulher que se chamava Maracajó, e ela era mãesolteira. Tinha uma criancinha de um ano e nãogostava do filho. Aí veio um vento, com um redemoinho tãoforte, que o povo correu p r a dentro das casas eo redemoinho passou no t e r r e i r o da casa daMaracajó. Aí ela jogou a criança pela janela dacasa e falou: — Redemoinho, Saci-pererê! Leva, que esseaí é p a r a você. Aí uma vizinha, que era m a d r i n h a da cri-ança, viu aquela coisa tão b r a n q u i n h a , no meiodaquele redemoinho, chamou o marido e falou: — Olha lá, que coisinha tão alvinha! E perguntou p a r a ele: — Será que é o Saci? Aí o marido respondeu: — Que Saci, que nada. Deus nunca deixa agente ver aquele sacerdote tão feio, de umap e r n a só, gorro vermelho na cabeça e cachimbona boca, que eu tenho até medo de lembrar. E elenão é branco, ele é preto. Aí a mulher ficou triste e falou: — Aquele vai ser o meu afilhado. Minhacomadre falou que ela ia dar ele p a r a o sacer-dote. Aí ela gritou, com uma toalha na mão: — Saci-pererê, você é um sacerdote. Somedaqui, p a r a mais nunca. E deixe o meu afilhadocair aqui. Cai, cai, cai! Aqui, anjinho, porquevocê é abençoado. Quando a criança caiu, já era um beija-flor. 7S
  70. 70. História de quando começou o mundo Quando começou o mundo, t i n h a u m a m u l h e rsozinha, que morava no deserto, sem vizinho e semninguém, nem parentes. E onde ela morava, tinhabicho-homem. Quando entrava a noite, ela ficava gritandoalguém p a r a dormir com ela, porque ela estava commuito medo de ficar ali sozinha. Um dia, ela gritou, e o bicho-homem respondeuassim: — Vai eu! Ela tornou a gritar: — Quem quer dormir mais eu? Ele respondeu de novo: — Vai eu! E assim continuavam todos os dias, até que umdia o bicho acertou com a casinha dela. Ele chegou e bateu na porta. Ela tinha u m acachorrinha muito valente que começou a latir, mas elecontinuou batendo na porta. A mulher abriu a porta. Quando ela olhou, quasedesmaiou de medo dele. Ele tinha os dentes muitograndes. Ela perguntou: — P a r a que esse dentão tão grande? Ele respondeu: — Pra te morder. Ela perguntou: — P r a que essa unhona? Ele falou: — É p r a te unhar. E ela foi ficando com muito medo dele. Aí per-guntou: — P r a que essa bocona? Ele falou: — É p a r a te comer. E pulou nela. Ela saiu correndo e entrou n u m abruaca. Ele engoliu a bruaca com a mulher dentro. No outro dia, ele fez cocô. A mulher ainda esta-va viva e saiu correndo e foi embora. 76
  71. 71. A aranha
  72. 72. Se os índios não usassem colares, pinturas,cocares, ficavam todos como brancos. Mas não é bem assim, o que vale mesmo é ahistória. Se não tivesse história, não existia índio.Então, se existe a história, é porque nós somosíndios. Nós não falamos a nossa língua, mas esta-mos correndo atrás disso. Na nossa área Xacriabá, tem muita gentemais velha. Sabem falar a língua. Então, com isso,nós poderemos recuperar a nossa língua.
  73. 73. PARTE IIIHistóriasdosantepassados
  74. 74. i n h a mãe me contou u m ahistória muito antiga que, de primeiro, os povosvelhos gostavam de comer v á r i a s raízes e folhasde á r v o r e s . Por exemplo, folha de cariru, raiz deumbu etc. Os povos velhos antigos e r a m muitosabidos. Na época deles não existia milho, sómandioca. Eles cortavam u m a casca de á r v o r eáspera p a r a r a l a r a mandioca. Esta á r v o r e nósconhecemos até hoje, que é o angico. Naquela época, não existiam as sementesque tem agora. Só existiam o milho maroto, opreto e o branco. Agora é a semente do feijão daronca, feijão vagem roxa e o carioca preto. Existiam também o feijão catador e o decorda. O catador era o feijão roxo e o feijão decorda era o feijão pau, sobe-pau, barrigudo epaquim-pimenta. E o feijão mangalô, preto ebranco. Agora é a semente de a r r o z . Era o a r r o zamarelo guapo e chemanguim. Essas sementeseram muito boas, porque se plantava no seco eno brejo. Todas saíam. Agora é que não sai mais,porque as chuvas e n c u r t a r a m .
  75. 75. ntigamente, os índios só viviam dea r t e s a n a t o . Não existia isqueiro. Quando elesqueriam acender fogo, pegavam uma pedra, ajun-t a v a m um matinho de bucha de peneira, colo-cavam em cima de uma pedra grande e batiamuma pedra na outra com força e o fogo acendia.Depois eles colocavam lenha. Ali a s s a v a m tatu,mandioca, b a t a t a etc. P a r a fazer f a r i n h a de mandioca, elest i r a v a m casca de angico p a r a r a l a r e lasca dea r o e i r a p a r a raspar. Tiravam cordas de imbiruçup a r a fazer tipitir p a r a espremer a m a s s a e p a r at o r r a r a farinha. Tinham um tacho de b a r r o e obeiju a s s a v a m em cima de uma pedra. Colocavamfogo em cima da pedra. Quando estava bemquente, eles t i r a v a m o fogo e a cinza e colo-cavam a m a s s a e faziam o beiju. Assim que viviam os índios antigamente, nahistória que minha avó conta.
  76. 76. t i n h a a semente de b a t a t a r o x ae a r a i n h a . Semente de mandioca castelão, quee r a p r a fazer f a r i n h a e tapioca p r a fazer o beijue o biscoito. E a mandioca m a n s a e a manteiga.Estas mandiocas servem p a r a comer cozida ecortada com feijão. As s e m e n t e s de b a n a n a s e r a m só deb a n a n a s r o x a s : São Tome e naniquinhas. Assementes de abóbora eram só a j a c a r é e a japone-sa. Tinha as sementes de melancia comum, queera a melancia p r e t a e a branca. E a semente doquiabo era só o chifre-de-veado. E o algodão erasó a semente de algodão crioulo e o algodãomaranhão. Os índios antigos falavam assim: — Vamos p l a n t a r mais algodão crioulo, queé mais inteiro que o m a r a n h ã o e mais quebrado,limpão.
  77. 77. eu pai contava que, antigamente,as pessoas não gostavam muito de t r a b a l h a r noroçado. Ele contava que meu avô, que era paidele, não gostava de trabalhar, ele gostava era decaçar animais no mato p a r a o sustento dafamília. Caçava todos os dias. Mas, nessa época, existiam muitos animais,não tinha quase desmatamento e queimadas.Então, agora, se a gente não t r a b a l h a r no roça-do, não tem jeito mais de s u s t e n t a r a família, nãotem quase animais de caça na á r e a indígena. Quando eu era pequeno, meu pai saía comi-go e com meus irmãos e a t r a v e s s a v a um morroalto que, do outro lado, se chamava Custódio. Então, nessa época, que meu pai me levavap a r a a caça de animais, só existiam t a m a n d u á s ,que nós chamamos de bandeira, e o michita, acutia, o veado, a paca etc.
  78. 78. ontam meus avós que antigamenteos índios viviam todos pelados. Só u s a v a m suaspróprias roupas de dança. Quando chegava o final de semana, elesp r e p a r a v a m seus próprios remédios p a r a levarao t e r r e i r o . Picavam sábado e domingo cumprindoordem. 0 remédio necessário que eles usam é a"bucha ou r a s p a de j u r e m a , que é uma á r v o r emuito sagrada, usada em caçadas de animaisp a r a ter mais sorte. Contam meus avós que a dança Toré é umsegredo muito escondido. Quando estiver dançando, ficam todos silen-ciosos, chegam até a ter o poder de conversarcom nosso pai Tupã.
  79. 79. té 1950, mais ou menos, o casa-mento era diferente de agora. Os rapazes sóviam a moça quando começavam a namorar. Aí,agora, pronto: não a viam mais nunca. No dia emque o r a p a z ia na casa da moça, os pais não deix-avam eles se encontrarem. As moças, quando viam os r a p a z e s chegan-do, corriam, escondiam dentro dos quartos. Comvergonha, aquelas que não corriam ficavamespiando nos buracos das paredes, nas frinchasdas j a n e l a s . O rapaz, de vez em quando, freqüentava acasa da moça, mas só que não adiantava nada,porque nem a cara dela ele via. E tinham as m o s t r a s de casamento. Setivesse uma moça bem bonita, aquela era amostra das o u t r a s . No dia em que o rapaz pediao casamento, o pai da moça a p r e s e n t a v a estamoça bem bonita, aí o rapaz ficava doidão: — Se for aquela ali, eu estou bonito.Ele ficava todo fofo. Quando dava no dia do casa-mento, o pai levava uma das mais feias. 0 rapazficava todo t r i s t e , mas... fazer o quê ?
  80. 80. eu pai contou que o pai dele tra-balhava em uma fazenda, e não ganhava nada,somente a comida. Enquanto ia cuidar do gado dafazenda, seu pai falava: —Vão, meus filhos, t r a b a l h a r também,porque cada um de vocês vai a r r u m a r o quecomer. Então meu pai era criança e ia. Quando chegava lá, eles colocavam meu paip a r a ajudar na fabricação de açúcar, p a r a gan-h a r a comida. E as i r m ã s iam cuidar das cri-anças e ajudar no serviço da casa. No dia em queeles saíram de lá, tiveram que sair escondidoporque senão o fazendeiro ia persegui-los.Quando meu pai chegou, casou com minha mãe,que morava em Xacriabá.
  81. 81. meu pai contava que, no tempo delepequeno, as coisas eram diferentes. A roupa devestir era feita assim: fiava o algodão na roda etecia o pano, depois t i n t a v a de tinta de pauchamado muçambé. Fazia uma camisa bem com-prida, e vestia sem a calça. O t r a n s p o r t e era com carro de boi ou cava-lo. Vendiam algumas coisas, trocando a troco deoutras p a r a o seu alimento. Gastavam dois out r ê s dias p a r a chegar na cidade.
  82. 82. os antepassados da minha mãe edo meu pai, a vida era muito difícil e diferente. Meus pais falavam que escola, principal-mente, quase não existia. As crianças cresciame iam t r a b a l h a r na roça junto com o pai. Eu e meus irmãos, p a r a começarmos aaprender, quando éramos pequenos, meu paicolocou um professor dentro de casa p a r a nosensinar, porque a escola não tinha prédiopróprio. Hoje, escola, tem em quase todas asaldeias, com prédio próprio.
  83. 83. eu pai contava que, no tempo decriança, eles brincavam, cantavam na beira deum fogo que e r a feito à noite. A casa era grande, não tinha luz, u s a v a m oóleo da mamona com a xícara feita de b a r r o e umpuxador feito de algodão. Colocavam um pouco deóleo de mamona, o puxador e acendiam. A luzera muito boa. E o pai dele ensinou a conhecer muitos tiposde raízes e a fazer benzimentos. Meu pai sabe fazer isso até hoje.
  84. 84. eu pai contou p a r a mim que exis-tiam muitos e muitos animais, na época em queele era pequeno. Que existia paca, tatu, anta-mateira, moco, onça, veado, cacheiro, caititu,t a t u - c a n a s t r a , cutia, tiú. Ele conta que o t a t u - c a n a s t r a pesava maisde 40 quilos, os menores pesavam uns 25 quilose no casco deles cabia uma q u a r t a de milho.Esses eram os grandes. Nos pequenos, cabiam demeia q u a r t a a 15 p r a t o s .
  85. 85. ntes, nós vivíamos uma vida bemmais fácil e melhor, porque chovia mais, a nossat e r r a era mais rica em matéria orgânica, nãohavia muita erosão. As coisas eram bem maisfáceis e a gente vivia uma vida bem mais tran-qüila, quase tudo era produzido pelas roças quea gente plantava. Nós plantávamos o milho, feijão, a r r o z ,algodão, mamona, cana-de-açucar e t c , e tudodava com a maior facilidade. A gente só ia nas cidades vender algumascoisas p a r a comprar outros produtos igual acafé, sal querozene etc. 0 r e s t a n t e todo a genteplantava aqui mesmo na roçada. Então, antes era bem melhor, a gentedependia pouco do comércio das fábricas. Hoje,tudo ficou mais difícil: nossas t e r r a s ficarammais pobres, estão ocorrendo muitas erosões,chove pouco, nós trabalhamos muito p a r a colherpouco. A dificuldade é demais, cada dia que passaas coisas mais difíceis ficam, quase não colhe-mos nada porque as plantações morrem com osol. 0 r e s t a n t e que fica os insetos destróem.
  86. 86. Vocabulário XacriabáAiató dadamá olhoAmiotsché-bananaAngrata-avó e avôBacotong /Bicong-filhaBalozinha-menina/mulherDagrí-mulherEstragó-solDateà-pernaDatohá-bocacorne kané-arcoCudaió-criou-tamanduá bandeiraCudaió-porco do matoUkú-onçaInscgiutú-tioLavazar/manãmam -fumoNhionosso-cacauIngrá-filhoEtiké-flechaDagrang-cabeçaDahaschi-cabeloGoabsang-cãoGrí-casaOaitomorim-estrelaOá-luaOté-árvoreKupaschú-farinhaKuú-águaKutsché-fogoNchatari-mãeNotsché-milho.Mamang paiChurer-anta

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