OBRA INDICADA PELA UESPIVESTIBULAR - 2004RESUMO E COMENTÁRIO DA OBRAA Rosa do PovoCarlos Drummond deAndrade
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  1. 1. OBRA INDICADA PELA UESPIVESTIBULAR - 2004RESUMO E COMENTÁRIO DA OBRAA Rosa do PovoCarlos Drummond deAndrade
  2. 2. COLÉGIO PRO CAMPUS - “A PAZ ESTÁ NA BOA EDUCAÇÃO” - OBRA INDICADA - UESPI/20042“APAZESTÁNABOAEDUCAÇÃO”www.procampus.com.br procampus@procampus.com.brA Rosa do PovoCarlos Drummond de AndradeCONTEXTO HISTÓRICO-CULTURALOs poemas de A rosa do povo foram escritos entre 1943 e 1945, quando os horrores da IIGuerra Mundial angustiavam a humanidade e o exército nazista recuava, especialmente na extintaUnião Soviética. Graças à obstinação heróica do povo russo e sua imensa capacidade de sacrifício,as melhores divisões alemãs tinham sido desbaratadas no leste europeu, prenunciando a capitulaçãodo III Reich.À angústia da época somava-se, pois, uma reverência comovida da civilização ocidental aossoviéticos. O confronto capitalismo x comunismo, que se desenhara desde 1917, estavamomentaneamente eclipsado na união de esforços contra o nazismo. Stálin não era mais o ditadormonstruoso da década de 1930, mas um dos líderes da luta contra a barbárie. Havia, portanto, nosmeios intelectuais e artísticos não-comunistas, uma empatia não apenas com o povo russo, mascom o regime que mobilizara a sua enorme população para uma guerra justa.Simultaneamente, no Brasil, o Estado Novo – autoritário, policialesco, ainda que economicamentemodernizador e socialmente avançado (sob o comando de Getúlio Vargas) – perdia o apoio entre asclasses médias e as elites intelectuais(1) que aspiravam a um regime democrático. Neste caldeirãode conflitos e circunstâncias dramáticas, o foco poético de CDA – até então centrado mais nasubjetividade e no individualismo do eu-lírico -deslocou-se para uma ênfase no histórico-social .Anos depois, o autor explicou esta tendência de A rosa do povo como uma tradução daquelaépoca sombria:“... obra que, de certa maneira, reflete um “tempo”, não só individual mas coletivo no país e nomundo.(...)Algumas ilusões feneceram, mas o sentimento moral é o mesmo – e está dito o necessário.”(2)(1) Elites estas muitas vezes identificadas com o próprio regime através de altos cargosburocráticos exercidos por escritores, jornalistas e pensadores. Getúlio Vargas atraiu para o seuprojeto centenas de intelectuais. O próprio CDA foi secretário de Gustavo Capanema, Ministro deEducação e Cultura. Talvez isso em parte explique uma subjetiva sensação de culpa que percorrevários poemas participantes do autor.(2) Nos anos subseqüentes à publicação de A rosa do povo, Drummond desilude-secompletamente com o regime soviético e abandona suas posições esquerdistas.UMA OBRA INOVADORAEm seu conjunto, A rosa do povo traz importantes novidades:1) É a mais extensa de todas as obras de CDA, composta por 55 poemas. Embora em seupróprio título haja uma simbologia revolucionária, sem contar o número expressivo de poemassocialmente engajados, A rosa do povo apresenta grande variedade temática e técnica;
  3. 3. COLÉGIO PRO CAMPUS - “A PAZ ESTÁ NA BOA EDUCAÇÃO” - OBRA INDICADA - UESPI/20043BOAEDUCAÇÃO”www.procampus.com.br procampus@procampus.com.br2) Quase todos os poemas têm uma dimensão metafórica, apesar da linguagem aparentementeclara. Com freqüência, também nos surpreendemos com inesperadas associações de palavras,elipses, imagens surrealistas. Trata-se de poemas refinados, complexos e acessíveis somente aleitores com significativa informação poética. Paradoxalmente – como notou Álvaro Lins – a obra emque CDA mais se aproxima de uma ideologia popular é, na verdade, dirigida apenas a uma aristocraciaintelectual.3) Arosa do povo representa, na poesia de Drummond, uma tensão entre a participação políticae adesão às utopias esquerdistas, de um lado, e a visão cética e desencantada, de outro lado. Nãodevemos entender esta duplicidade (esperança versus pessimismo) como contraditória. Toda a obrado autor (incluindo-se aí a amplitude de assuntos da mesma) é marcada por uma visão caleidoscópica,polissêmica.A realidade, para ele, tem várias faces. Faces descontínuas, irregulares, opositivas. Tentarcaptar a essência humana é registrar ambivalências, ângulos variados. Nunca há em Drummonduma palavra definitiva, uma visão final. O fluxo desordenado da vida não permite uma única certeza,uma única convicção. Perceber a poesia de CDA como reflexo desta rica e quase caótica diversidadeé o começo de seu entendimento.4) O poeta vale-se tanto do “estilo sublime” (padrão elevado da língua culta) quanto do “estilomesclado” ( linguagem elevada e linguagem coloquial).5) Os versos, geralmente curtos das obras inaugurais, tornam-se mais longos. Há um predomíniodo verso livre (métrica irregular) e do verso branco (sem rimas).6) Ainda em relação às obras anteriores, o humor quase desaparece, o coloquial é atenuado eum tom grave e solene passa a impregnar os versos.7) As inquietações sociais anunciadas em livros anteriores como José e Sentimento do mundo– ainda vagas e mais ou menos abstratas – ganham, emArosa do povo, plena historicidade, referindo-se várias vezes ao cotidiano, quando não a acontecimentos concretos da década de 1940.TEMAS BÁSICOSValendo-nos de óbvia simplificação didática, podemos dividir os poemas de A rosa do povo emsete áreas temáticas(3). É claro que, dada à complexidade dos versos drummondianos, muitosdesses poemas podem ser enquadrados em mais de um núcleo de assunto. No entanto, a divisãoabaixo corresponde a um esquema estabelecido pelo próprio escritor em sua Antologia poética:- a poesia social;- a reflexão existencial (o eu e o mundo);- a poesia sobre a própria poesia;- o passado;- o amor;- o cotidiano;- a celebração dos amigos;
  4. 4. COLÉGIO PRO CAMPUS - “A PAZ ESTÁ NA BOA EDUCAÇÃO” - OBRA INDICADA - UESPI/20044BOAEDUCAÇÃO”www.procampus.com.br procampus@procampus.com.br(3) Além deste espectro de motivos, pode-se assinalar a existência de um texto paródico: Novacanção do exílio.1- A POESIA SOCIALPelo menos duas dezenas dos cinqüenta e cinco poemas de A rosa do povo podem serenquadrados nesta tendência na qual a angústia subjetiva do poeta transforma-se emengajamento e compromisso com a humanidade.De certa forma, é possível distinguir neles uma espécie de seqüência lógica que revela asmudanças de percepção do poeta face ao fenômeno social. Este processo temática não é unívoco,sendo composto por mais ou menos quatro movimentos muito próximos e que, na sua totalidade,formam a mais elevada manifestação de poesia comprometida na história da literatura brasileira.Vamos encontrar então:- a culpa e a responsabilidade moral;- o registro puro e simples de uma ordem política injusta;- a passagem da náusea à perspectiva de uma nova sociedade (em termos concretos e emtermos abstratos);- a celebração da nova ordem.1. 1 – A culpa e a responsabilidade moralA repulsa ao egocentrismo e a abertura em direção à solidariedade estão representadas pordois poemas totalmente simbólicos e despidos de referências à historicidade e ao cotidiano: Carregocomigo e Movimento da espada.Carrego comigoNeste texto, – composto por vinte e três quartetos com versos metrificados de cinco sílabas(redondilha menor) – o poeta começa aludindo a um misterioso embrulho que porta consigo, sem, noentanto, identificar o seu conteúdo:Carrego comigohá dezenas de anoshá centenas de anoso pequeno embrulho. (...)Não ouso entreabri-lo.Que coisa contém,ou se algo contém,nunca saberei.A única decifração do embrulho reside no fato de que o poeta ao invés de carregá-lo parececarregado por ele e de que perdê-lo significaria “perder-me a mim próprio”. No desfecho dopoema há a revelação de que o embrulho destrói a solidão e confere um sentido à liberdade de quemo carrega, porém o seu conteúdo não é explicitamente referido. Cabe ao leitor resolver o enigma,mas não é muito difícil supor que o embrulho é o peso da consciência moral do poeta.
  5. 5. COLÉGIO PRO CAMPUS - “A PAZ ESTÁ NA BOA EDUCAÇÃO” - OBRA INDICADA - UESPI/20045BOAEDUCAÇÃO”www.procampus.com.br procampus@procampus.com.br1. 2 – O registro da ordem política injustaAinda que toda a sua poesia social submeta a ordem vigente a um inquérito implacável, hásempre nestes poemas a indicação do novo, ou pelo menos das lutas que indivíduos, classes epovos travam para impugnar a injustiça do planeta. No caso de O medo, entretanto, a esperança ouo enfrentamento não se delineiam e o resultado é um dos textos mais opressivos de toda a obra deCDA.Os versos irregulares, (embora um bom número deles tenha sete sílabas) não impedem acriação uma cadência grave e soturna, nascida da repetição exaustiva da palavra medo. No desenrolardas quinze estrofes do poema, essa palavra e aquilo que ela traduz no contexto da época (ditadura,prisão, tortura, guerra, massacres, etc.) vão tecendo uma rede de tentáculos sobre os seres,impedindo-os de pensar, protestar e agir. A primeira estrofe já é elucidativa desta impotência(5):Em verdade temos medo.Nascemos escuro.As existências são poucas:Carteiro, ditador, soldado.Nosso destino, incompleto.O poema prossegue misturando referências objetivas (“E fomos educados para o medo.”) aoutras, mais metafóricas: (“Cheiramos flores de medo. / Vestimos panos de medo.”). Toda a açãohumana parece programada para evidenciar o império do pânico (“Faremos casas de medo / durostijolos de medo, / (...) ruas só de medo e calma.”)Na sétima estrofe, insinua-se a possibilidade da rebelião:Assim nos criam burgueses.Nosso caminho: traçado.Por que morrer em conjunto?E se todos nós vivêssemos?Porém esta ânsia libertária não se torna consistente, esmagada pelo terror frio e insidioso quese introjecta nas almas das pessoas, a tal ponto que até mesmo os filhos herdarão a falta de coragemde seus pais e nada restará à humanidade senão o “baile do medo.”:Nossos filhos tão felizes...Fiéis herdeiros do medo,eles povoam a cidade.Depois da cidade, o mundoDepois do mundo, as estrelasdançando o baile do medo.(5) Além da impugnação desta era de medo, CDA deixa transparecer no poema a sensação deculpa e de responsabilidade – que o acomete com freqüência, como vimos no item 1. 1 – frente aodesarranjo social.
  6. 6. COLÉGIO PRO CAMPUS - “A PAZ ESTÁ NA BOA EDUCAÇÃO” - OBRA INDICADA - UESPI/20046BOAEDUCAÇÃO”www.procampus.com.br procampus@procampus.com.br1. 3 – A passagem da náusea à perspectiva de uma nova sociedade:Neste bloco, encontramos um significativo número de poemas. Eles refletem a transição deum clima acabrunhante – no qual um indivíduo em crise e um sistema desolador se identificam –para uma atmosfera radiosa de esperança e afirmativa do novo.Dentro desta ótica são escritos dois dos mais importantes poemas de A rosa do povo: A flor ea náusea (ver análise específica no fim deste trabalho) e Nosso tempo. São também os mais concretospois aludem diretamente ou indiretamente à realidade objetiva. Neles, o sentimento de culpa ésubstituído pela noção de náusea: a náusea existencialista, à maneira de Sartre, que, mais do queuma sensação física de enjôo, é uma situação de absoluta liberdade de quem a vivencia. Liberdadeno sentido da destruição de todos os valores tradicionais, da morte de todos os deuses e crenças. Anáusea decorre desta liberdade aterradora, próxima do absurdo. O homem, despojado de suas antigascertezas, vaga num universo de destroços, porém, ao mesmo tempo que o tédio e o desespero oameaçam, este mesmo homem pode, na grande solidão em que se converteu sua vida, encontraruma alternativa válida de existência individual e coletiva.Nosso tempoNos oito pequenos cantos que o compõem, nos versos irregulares, nos símbolos intrincados,nas imagens surrealistas (“Tempo de divisas, / tempo de gente cortada / e mãos viajando sem braços,/ obscenos gestos avulsos.”) e nos instantâneos realistas – quase cinematográficos – da vidacoisificada das massas urbanas, CDA elabora em Nosso tempo um “admirável afresco da alienaçãocontemporânea”, no dizer do crítico José Guilherme Merquior.Há uma visível ambivalência no dístico que abre o poema:Este é tempo de partido,tempo de homens partidos.Por um lado, partido conecta-se com política, com opção ideológica da qual ninguém poderiase furtar no contexto radicalizado dos anos de 1940; por outro, significa o homem mutilado, danificadotanto pela guerra como pela cidade opressora que esmaga corpos e consciências.Na segunda estrofe, surge o poeta (expressando o coletivo), seguro da inutilidade de seuslivros, viagens e visões falsas: “Em vão percorremos volumes, / viajamos e nos colorimos”. Surgetambém a rua, cheia de tensão pela perspectiva da hora da mudança e pelos sonhos de sobrevivênciados homens comuns. A ordem burguesa está em crise: “Meu nome é tumulto”, grita o poeta, que,simultaneamente, na voragem de sua liberdade absurda, procura uma alternativa: “Onde te ocultas,precária síntese?”As palavras do homem revoltado querem explodir para impugnar este “tempo de muletas”,tempo de aleijões morais. Muitas pessoas, também elas vítimas do processo de mutilamento, guardamsegredos que serviriam para consolidar uma revolta comum e estabelecer laços de companheirismoneste universo de solidão e egoísmo. O poeta – numa vertiginosa enumeração caótica – pede queelas se abram e contem o que sabem, invocando inclusive a fala de insetos e objetos:Ó conta, velha preta, ó jornalista, poeta, pequeno historiador urbano,ó surdo mudo, depositário de meus desfalecimentos, abre-te e contamoça presa na memória, velho aleijado, baratas dos arquivos, portas rangentes, solidão easco
  7. 7. COLÉGIO PRO CAMPUS - “A PAZ ESTÁ NA BOA EDUCAÇÃO” - OBRA INDICADA - UESPI/20047BOAEDUCAÇÃO”www.procampus.com.br procampus@procampus.com.brpessoas e coisas enigmáticas, contai, (...)Tudo tão difícil depois que vos calastes...E muitos de vós nunca se abriram.Após invocar a fala e o grito rebelde, o poeta reconhece no canto IV, que o “meio silêncio”, o“murmúrio” e a “palavra indireta” são quase um imperativo de sobrevivência num tempo de ameaças,espreita e delações. Afinal, “o espião janta conosco”.Se até então as imagens do texto parecem vir da interioridade do poeta em sua relação agoniadacom o mundo, a partir do canto IV elas adquirem autonomia e se independem do eu-lírico. Sãoimagens que surpreendem o vazio e a coisificação da vida citadina, em quadros realistas e surrealistasde impressionante vigor poético. Homens escravizados pela rotina, massacrados pela mediocridadede seus empregos burocráticos, indiferentes aos horrores da sociedade industrial/capitalista, multidãode zumbis cujos corpos pouco a pouco viram coisas na repetição exaustiva e alienada dos mesmosgestos:Come, braço mecânico, alimenta-te, mão de papel, é tempo de comida,mais tarde será o de amor.Seres e objetos se nivelam em um universo de vulgar materialismo. Como escravos desprovidosde esperanças, voltam para suas casas, imaginando que estão numa cidade (lugar humano), quandona verdade estão soterrados pelo caráter ínfimo de suas vidas quase vegetativas, onde até os muros(os delineamentos da realidade) se apagam, se esfumam nas sombras:Escuta a hora espandongada* da volta.Homem depois de homem, mulher, criança, homem,roupa, cigarro, chapéu, roupa, roupa, roupa,homem, homem, mulher, homem, mulher, roupa, homemimaginam esperar qualquer coisa,e se quedam mudos, escoam-se passo a passo, sentam-se,últimos servos do negócio, imaginam voltar para casa,já noite, entre muros apagados, numa suposta cidade, imaginam.Nas estrofes VI e VII, as imagens voltam a expressar a náusea e a revolta no poeta, ainda quede forma elíptica e metafórica, porém, na estrofe VIII todas as insinuações vagas e retorcidas contraa ordem vigente são substituídas por uma declaração intensamente panfletária que fecha o poema(4):O poetadeclina de toda responsabilidadena marcha do mundo capitalistae com suas palavras, intuições, símbolos e outras armaspromete ajudara destruí-lo* Espandongada: desengonçada, rota.
  8. 8. COLÉGIO PRO CAMPUS - “A PAZ ESTÁ NA BOA EDUCAÇÃO” - OBRA INDICADA - UESPI/20048BOAEDUCAÇÃO”www.procampus.com.br procampus@procampus.com.br(4) José Guilherme Merquior mostra como Drummond não consegue distinguir capitalismo esociedade industrial de massas. Ao identificá-los, ignora que o socialismo soviético também construiua sua multidão de trabalhadores robotizados e burocratas infelizes e que nenhuma formação industrialcontemporânea, com suas grandes e assustadoras metrópoles, pode prescindir desses contingenteshumanos.Poesia social (simbólica/abstrata)Vários outros poemas inscrevem-se no motivo da transição da náusea e da alienação àconsciência e à esperança. Porém, diferentemente dos anteriores, tanto a concretude do cotidianoquanto das alusões históricas objetivas diluem-se em inusitadas metáforas e símbolos. Constitui-seentão uma espécie de poesia social de linguagem abstrata.Áporo*Observemos este estranho soneto de versos curtos e regulares (cinco sílabas):Um inseto cavacava sem alarmeperfurando a terrasem achar escape.Que fazer, exausto,em país bloqueado,enlace de noiteraiz e minério?Eis que o labirinto(oh razão, mistério)presto* se desata:em verde, sozinhaantieuclidiana*uma orquídea forma-se.Áporo, muito exigido em vestibulares, apresenta em seus dois quartetos um inseto que cavainutilmente a terra em busca de uma saída. A situação asfixiante é reforçada pela metáfora queestabelece a noite, a raiz e o minério como os elementos constitutivos da realidade subterrânea,sugerindo escuridão, emaranhado, dureza e improbabilidade de escape.Nos dois tercetos, o labirinto em que se encontra o inseto é dissolvido pelo nascimento de umaorquídea antieuclidiana*. A formação da orquídea não é apenas desconcertante: ela estabelece umarica possibilidade de significados para um texto verbalmente tão despojado. Há pelo menos trêsinterpretações, igualmente válidas para o mesmo:a)Trata-se de uma metáfora da situação histórica /política dos anos 40 (Estado Novo, censura,espionagem, etc.), confirmada pelo segundo verso do segundo quarteto: “em país bloqueado”, sendoa orquídea uma imagem de esperança pelas transformações que já se anunciavam.b)O inseto é o poeta (o eu ou o ser humano) que, sufocado – seja pela culpa, pela náusea oupelo horror –, encontra na orquídea o novo, como aquele encontro com a rosa, em A flor e a náusea.c)O inseto é a palavra poética, presa no subterrâneo sombrio da interioridade, e que, por fim,liberta-se, concretiza-se na página, efetivando-se como escrita.
  9. 9. COLÉGIO PRO CAMPUS - “A PAZ ESTÁ NA BOA EDUCAÇÃO” - OBRA INDICADA - UESPI/20049BOAEDUCAÇÃO”www.procampus.com.br procampus@procampus.com.brComo diz o crítico Francisco Achcar, Áporo é um “ponto de cruzamento de três temáticascentrais de A rosa do povo: a sociedade, a existência e a própria poesia.”* Áporo: inseto, algo sem passagem, situação sem saída, problema difícil, orquídea.* Presto: rápido.*Antieuclidiana: destruidora da geometria convencional, fenômeno que quebra a lógica.Outros poemasTrês outros poemas (Passagem da noite – Uma hora e mais outra – Noite na repartição) tambémlidam com a idéia de passagem de um estado de infelicidade, náusea e alienação para um estado decrença em um futuro melhor. Nestes três poemas, como notou José Guilherme Merquior, há umasuperação do desespero rumo ao gosto prazeroso de viver. Neles não aparecem as indicaçõesrealistas – verdadeiros instantâneos da grande metrópole – de Nosso tempo e A flor e a náusea.Tampouco chegam a ser explicitadas as circunstâncias históricas opressivas. São poemas de intençãosimbólica, mas que se encaixam na categoria da poesia social por anunciarem um porvir para o serhumano e não somente para o eu-lírico.NotíciasUma das expressões mais acabadas das relações entre a subjetividade culpada do poeta e arealidade exterior, Notícias cristaliza-se nos telegramas que chegam, vindos de além-mar:Entre mim e os mortos há o mare os telegramas.Mais do que notícias dos eventos, estes telegramas (7) deixam entrever que, em meio aoconflito e ao sofrimento humano, uma nova cidade (civilização) emerge:Vejo-te no escuro, cidade enigmática.Chamas com urgência, estou paralisado.Ainda paralisado por aquilo que nele é (ou foi) egoísmo e inconsciência, ele ouve as vozes quemandam recados e mensagens, são as vozes dos “irmãos sombrios”, são “vozes amigas” queatravessaram mares e terras para encontrá-lo e que agora o convocam para a luta. Daí os belíssimosdois últimos versos que desvelam a escolha e a intenção do poeta, embora não assegurem a suaação efetiva:Todo o homem sozinho devia fazer uma canoae remar para onde os telegramas estão chamando.(7) Na época, todo o noticiário do exterior e especificamente, os fatos da II Guerra chegavampor boletins de algumas rádios européias e norte-americanas, mas, principalmente, por telegramas.Daí a recorrência desta palavra em vários poemas de A rosa do povo.
  10. 10. COLÉGIO PRO CAMPUS - “A PAZ ESTÁ NA BOA EDUCAÇÃO” - OBRA INDICADA - UESPI/200410BOAEDUCAÇÃO”www.procampus.com.br procampus@procampus.com.br1. 4 A celebração da nova ordemO despojamento do egoísmo burguês e a superação da situação de náusea induziram CDA avários compromissos: primeiro, o moral; segundo, o humanista; terceiro, o ideológico. Imerso numaera onde a barbárie ameaçava a civilização, o poeta entende que a mera solidariedade ou apenas aargüição áspera da sociedade injusta não bastariam. Seria necessário que o indivíduo sujeitasse seuegocentrismo a um sistema de idéias em que a organização e os interesses coletivos prevalecessem.O marxismo – na sua formulação soviética – surge, então, como a possibilidade redentora dohomem. O heroísmo da URSS, na II Guerra, é o combustível desta expansão ideológica. Há, em todoo Ocidente, uma expressiva fraternidade em relação ao povo russo e ao seu regime. Como centenade intelectuais, Drummond não escapa da sedução comunista. Alguns poemasvão traduzir esta adesão. Com raras exceções, eles constituem a parte mais perecível de Arosa do povoCarta a StalingradoA resistência sobre-humana da cidade de Stalingrado às hordas nazistas é o motivo do maisdenso e vibrante poema da tendência que canta o socialismo. Os versos irregulares e longos quaseescorregam no prosaísmo, mas acabam mantendo, à beira do abismo, a sua condição poética. Aprimeira estrofe tem um uma espécie de sopro épico:Stalingrado...Depois de Madri e de Londres, ainda há grandes cidades!O mundo não acabou, pois que entre as ruínasoutros homens surgem, a face negra de pó e de pólvora,e o hálito selvagem da liberdadedilata os seus peitos, Stalingrado,seus peitos que estalam e caemenquanto outros, vingadores, se elevam.Depois de associar os telegramas que chegam da Rússia aos poemas homéricos, Drummondultrapassa a exaltação dos feitos militares da cidade russa, vislumbrando na indômita resistência(8)os sinais de uma nova ordem histórica:(...) Os telegramas cantam um mundo novoque nós, na escuridão, ignorávamos.Diante de tamanha grandeza, as outras cidades importantes do mundo se apequenam, tornam-se desimportantes, precisam aprender a lição épica:Stalingrado, miserável monte de escombros, entretanto resplandecente!As belas cidades do mundo contemplam-te em pasmo e silêncio.Débeis em face do teu pavoroso poder,mesquinhas no seu esplendor de mármores salvos e rios não profanados,as pobres e prudentes cidades, outrora gloriosas, entregues sem luta, (9)aprendem contigo o gesto de fogo.
  11. 11. COLÉGIO PRO CAMPUS - “A PAZ ESTÁ NA BOA EDUCAÇÃO” - OBRA INDICADA - UESPI/200411BOAEDUCAÇÃO”www.procampus.com.br procampus@procampus.com.brPorque agora para CDA há dois tipos de cidade: a cidade da repulsiva indiferença, da náusea,da brutalidade capitalista e do horror nazista e a outra, aquela onde os sonhos fraternos da humanidadese realizarão:As cidades podem vencer, Stalingrado!Penso na vitória das cidades, que por enquanto é apenas uma fumaça subindo do Volga.Penso no colar de cidades, que se amarão e se defenderão contra tudo.Em teu chão calcinado onde apodrecem cadáveres,a grande Cidade de amanhã erguerá a sua Ordem.(8)A resistência de Stalingrado (hoje Volgogrado) deu-se entre agosto de 1942 a janeiro de1943. Os nazistas entraram na cidade e tiveram de lutar prédio por prédio. Mesmo assim nãoconseguiram conquistá-la. Em hábil manobra o exército soviético cercou-os por fora do perímetrourbano, obrigando-os à rendição. Os alemães tiveram mais de 100.000 baixas, outros 100.000 serenderam. Entre os russos, houve centenas de milhares de mortos e feridos. Começava ali a derrocadado “Reich de mil anos”.(9)Referência a Paris que caiu nas mãos dos nazistas sem luta.Outros poemasA mesma dicotomia entre a cidade condenada e a cidade do futuro, entre as sombras de ummundo morto e as luzes da nova sociedade aparece em Com o russo em Berlim, Visão 1944 ,Cidade prevista, Mas viveremos e Telegrama de Moscou. Todos poemas de constrangedorabanalidade. Versos frouxos, idéias simplórias, revestidas de imagens aparentemente extraídas dematerial de propaganda do realismo socialista. Estamos longe da invenção verbal e da profundidadede pensamento que caracteriza a maior parte dos poemas de A rosa do povo.2- POESIA DE REFLEXÃO EXISTENCIALEntre os múltiplos temas de CDA, o único presente em todas as suas obras, de Alguma poesiaa Farewel, com maior ou menor insistência, é o do questionamento do sentido da vida. Mesmo numlivro em que o engajamento social e político exerce forte hegemonia, como é o caso de A rosa dopovo, sobressaem-se inúmeros poemas de interrogação existencial, alguns situados entre osmomentos culminantes do lirismo de Drummond.Principais motivos2.1 – Solidão, angústia e incomunicabilidadeMais centrada na esfera da subjetividade do poeta, esta tendência desvela a impotência do eu-lírico para estabelecer vias comunicantes com os demais seres humanos. Trata-se de uma solidãoterrível, pois ela ocorre na grande cidade, cidade antropofágica e impassível, onde o indivíduo caminhadesorientado em meio a uma multidão indiferente e sem rosto.AnoitecerTrata-se de um dos poemas-chave para a compreensão da intrincada visão drummondiana daexistência. Na hora do crepúsculo (o entardecer em CDA muitas vezes é metáfora do fim da vida), opoeta experimenta um medo que parece se aproximar do pânico. Em quatro estrofes de sete versosirregulares estabelece-se um fascinante jogo de antíteses. Observe que o primeiro verso das três
  12. 12. COLÉGIO PRO CAMPUS - “A PAZ ESTÁ NA BOA EDUCAÇÃO” - OBRA INDICADA - UESPI/200412BOAEDUCAÇÃO”www.procampus.com.br procampus@procampus.com.brprimeiras estrofes e mais o primeiro e segundo verso da última estrofe afirmam um mundo de códigosreconhecidos, permanentes e confiáveis:Estrofe I – “É a hora em que o sino toca...”Estrofe II – “É a hora em que o pássaro volta...”Estrofe III – “É a hora do descanso...”Estrofe IV – “Hora de delicadeza / gasalho,* sombra, silêncio.”Provavelmente estes versos indiquem o pequeno mundo provinciano – senão o próprio interiorrural – de onde o poeta procede e onde a ampla maioria do povo brasileiro ainda vivia nos idos de1940. É um mundo suspenso no tempo, patriarcal, letárgico, atrasado, mas que oferece segurançae tranqüilidade aos sujeitos que o habitam.Esta realidade feita de certezas desintegra-se, no entanto, a partir do segundo verso das estrofesI, II e III e do terceiro verso da estrofe IV, formando as antíteses que estruturam o poema:É a hora em que o sino toca,mas aqui não há sinos;há somente buzinas,sirenes roucas, apitosaflitos, pungentes, trágicos,uivando escuro segredo;desta hora tenho medo.Ao sino dolente e místico, o poeta opõe os ruídos exasperantes da metrópole. Ao sonsmelodiosos, ele contrapõe as “sirenes roucas, apitos aflitos, pungentes, trágicos”, isto é, ruídos quesugerem angústia, sofrimento, dramas desmedidos, mas que talvez permaneçam indecifráveis,“uivando escuro segredo”.A mesma estrutura ressurge na segunda estrofe, na qual a imagem do pássaro que volta a seuninho reforça a possibilidade destas referências – contidas no primeiro verso de cada estrofe –serem as de um mundo rural/provinciano. Ao vôo solitário da ave (com sua sugestão de beleza ebucolismo) opõe-se a multidão compacta e cansada nas ruas:É a hora em que o pássaro volta,mas de há muito não há pássaros;só multidões compactasescorrendo exaustascomo espesso óleoque impregna o lajedo;desta hora tenho medo.Na terceira estrofe, o próprio ciclo biológico do corpo, com seu natural tempo para o descanso,é quebrado porque, ao invés do sono reparador, o que este corpo exausto busca – atormentado pelopânico e pela indiferença desta cidade ameaçadora – é um mergulho no poço, no abismo, no fim detodas as atribulações:
  13. 13. COLÉGIO PRO CAMPUS - “A PAZ ESTÁ NA BOA EDUCAÇÃO” - OBRA INDICADA - UESPI/200413BOAEDUCAÇÃO”www.procampus.com.br procampus@procampus.com.brÉ a hora do descanso,mas o descanso vem tarde,o corpo não pede sono,depois de tanto rodar;pede paz – morte – mergulhono poço mais ermo e quedo;*desta hora tenho medo.A última estrofe condensa a antítese entre a ordem harmoniosa do passado, o tormento dopresente e a assustadora indefinição do futuro:Hora de delicadeza,gasalho, sombra, silêncio.Haverá disso no mundo?É antes a hora dos corvos,bicando em mim, meu passado,meu futuro, meu degredo;desta hora, sim, tenho medo.A poderosa metáfora do corvo que bica (a auto-escavação, a auto-análise), induzindo o poetaa comparar a serenidade provinciana com a desordem interior e as incertezas de sua existência nametrópole, desvela uma situação de desamparo e solidão que se repetirá em vários outros poemas.2.2 – O fluir do tempoUm dos temas nucleares da obra drummondiana, a percepção da passagem do tempo seestabelece através de interrogações diretas sobre o sentido deste fluxo que degrada os corpos, abeleza, as coisas e também as ilusões, os amores e as crenças dos indivíduos. Affonso Romano deSant’Anna, em ótima análise estilística, mostra a predominância em A rosa do povo de vocábulos queindicam mudança e viagem. A vida “flui e reflui, corre, passa, escorre, espalha-se, desliza, dissipa-se”, num desfile ininterrupto e cujo destino final é a morte.DesfileO tempo, ele próprio como motivo, aparece neste soberbo texto (redondilha maior), iniciadocom um aparente paradoxo, pois o poeta escuta algo que flui silenciosamente:O rosto no travesseiro,escuto o tempo fluindono mais completo silêncio.A seguir a dinâmica temporal (que, na verdade, flui pela memória) é expressa através de trêscomparações de grande poder sugestivo por identificarem esta passagem do tempo ao inesperado,ao toque sutil e ao contato quase evanescente do vento:Como remédio entornadoem camisa de doente;como dedo na penugemde braço de namorada;como vento no cabelo,fluindo...
  14. 14. COLÉGIO PRO CAMPUS - “A PAZ ESTÁ NA BOA EDUCAÇÃO” - OBRA INDICADA - UESPI/200414BOAEDUCAÇÃO”www.procampus.com.br procampus@procampus.com.brNeste desfile, primeiro aparecem as lembranças do frenesi da juventude (“E tento fazer poesia/, queimar casas, me esbaldar...”). Depois, em um admirável recurso associativo, o poeta justapõe aimagem objetiva da cerração que envolve o colégio e é expelida pela boca dos estudantes à imagemsubjetiva do estar perdido na névoa da existência: (“A montanha do colégio. / Colunas de ar fugiam /das bocas, na cerração. / Estou perdido na névoa / na ausência, no ardor contido.”)Após outras tantas lembranças, o poeta dá-se conta que está de novo no presente: (“E tenhomãos experientes. / Tenho calças experientes. / Tenho sinais combinados.”) Sabe que o tempoprosseguirá em sua marcha corrosiva, não aos solavancos, mas quase imperceptivelmente (“Comoplanta que se alonga / enquanto estamos dormindo.”) Sabe também que este fluxo o arrastará parao fim. Por isso quer dormir, o sono como ensaio para a morte: (“O rosto no travesseiro, / fecho osolhos, para ensaio.”)2.3 – Balanços da existênciaTambém como resultado da percepção da passagem do tempo, CDA submete a existência doeu e dos demais seres a um balanço permanente. Perdas e ganhos alternam-se nesta investigaçãoque poderia ser resumida numa pergunta essencial: Há algum tipo de lógica na vida humana ou elaé gratuita e vazia?Como já frisamos, não existe na obra drummondiana conclusões definitivas. Todas elas sãomovediças e inconstantes. O único procedimento uniforme do poeta é a interrogação. Nesta vertenteda poesia sobre a existência, há três poemas em que se processa a aceitação do primado da vida,mas de uma vida fria e indiferente ao drama subjetivo, obrigando o poeta a assumi-la estoicamente.*(Passagem do ano e Versos à boca da noite), ou quase vegetativamente (Vida menor). Já em Resíduo,aspectos positivos e absurdos da existência mantêm um confronto de resultado ambíguo. Porém, nomagnífico Consolo na praia o princípio da corrosão impõe-se sobre os valores que resistem à mortee ao nada.Passagem do anoOutro texto clássico da poesia drummondiana e que assinala a adesão (circunstancial) dopoeta a uma postura mais resignada face às correntes disparatadas da existência:O último dia do anonão é o último dia do tempo.Outros dias virãoe novas coxas e ventres te comunicarão o calor da vida.Os quatro versos iniciais registram o fluxo temporal, sendo que no verso 2 tempo significa nãoo de todos os homens, mas aquele que contém a vida do poeta. No verso 4 aparece uma das maiscriativas imagens de toda obra: só o sexo oferta o calor vital, só ele transmite ao ser a sensaçãoconcreta da existência.Em seguida, o poeta enumera todas as ocupações com que o homem tenta apagar aconsciência de seu destino, nivelando o irrisório e o importante, dupla face do mesmo e inútilenfrentamento do indivíduo contra a sua irremediável solidão:Beijarás bocas, rasgarás papéis,farás viagens e tantas celebraçõesde aniversário, formatura, promoção, glória, doce morte com sinfonia e coral,
  15. 15. COLÉGIO PRO CAMPUS - “A PAZ ESTÁ NA BOA EDUCAÇÃO” - OBRA INDICADA - UESPI/200415BOAEDUCAÇÃO”www.procampus.com.br procampus@procampus.com.brque o tempo ficará repleto e não ouvirás o clamor,os irreparáveis uivosdo lobo na solidão.O poeta sabe que o fim de seu tempo individual não é o da humanidade, por isso “Fica sempreuma franja de vida / onde se sentam dois homens”. A aceitação do destino parece ser o único atolúcido e possível, a única resposta ao desespero:Recebe com simplicidade este presente do acaso.Mereceste viver mais um ano.Desejarias viver sempre e esgotar a borra dos séculos.Teu pai morreu e teu avô também.Em ti mesmo muita coisa já expirou, outras espreitam a morte,mas estás vivo. Ainda uma vez estás vivo,e de copo na mão esperas amanhecer.Todas as consolações e hipóteses restam inúteis. Afogar a consciência, expressar o corpo,protestar através do grito, apelar para o lúdico, para a filosofia, para a poesia, nada disso adianta:O recurso de se embriagar.O recurso da dança e do grito,o recurso da bola colorida,o recurso de Kant e da poesia,todos eles... e nenhum resolve.Surge a manhã de um novo ano.E com a manhã vem a vida. Vida que se espalha por tudo, maior do que tudo, ultrapassando osdramas pessoais e o próprio tempo. Vida: essência indiferente, realidade fria, “oleosa”, com a qual opoeta deve se resignar:2.4 – A morteA consciência da progressiva destruição operada pelo tempo – núcleo principal de todo o amploespectro temático de CDA – condensa-se na convicção de que o ser é sempre o ser-para-a-morte.A “viagem mortal” do indivíduo percorre não apenas toda a poesia de indagação filosófica, masigualmente a lírica que expressa o passado, o cotidiano, o compromisso ético e político e até a quefala do amor. A tragédia da condição humana é a da certeza da finitude. Desta expectativa da própriadestruição, Drummond elabora poemas de desconcertante lucidez.Morte no aviãoUma das mais extraordinárias criações de CDA, a começar pela estruturação do poema que é,ao mesmo tempo:a) uma crônica (narrada em tempo presente) do último dia, despreocupado e comum, de umhomem que vai viajar de avião sem saber que a morte o espera;b) uma voz narrativa – já póstuma – do próprio eu, isto é, do homem condenado pelo desastredo avião. Esta voz anuncia, estrofe a estrofe, num crescendo terrível, a iminência do fim.
  16. 16. COLÉGIO PRO CAMPUS - “A PAZ ESTÁ NA BOA EDUCAÇÃO” - OBRA INDICADA - UESPI/200416BOAEDUCAÇÃO”www.procampus.com.br procampus@procampus.com.brAssim, o poema intercala a alienação do indivíduo, preso a seus afazeres habituais, com estaconsciência que relata antecipadamente a sua morte. O texto começa com a revelação brutal: “Acordopara a morte”. Em seguida, como contraponto, evidencia-se a banalidade do cotidiano de um homemque, nas próximas horas, vai desaparecer:Barbeio-me, visto-me, calço-me.É meu último dia: um diacortado de nenhum pressentimento.Tudo funciona como sempre.Saio para a rua. Vou morrer.Este processo de intercalação entre a rotina de quem nada teme e a consciência póstumadeflagra uma patética impressão de vacuidade e inutilidade dos gestos humanos:Visito o banco. Para queesse dinheiro azul se algumas horasmais, vem a polícia retirá-lo...?Almoço. Para quê? Almoço um peixe em ouro e creme. [...]Passa música no doce, um arrepioDe violino ou vento, não sei. [...]... Os bondes cheios. O trabalho.Estou na cidade grande e sou um homemna engrenagem. Tenho pressa. [...]Peço passagem aos lentos. [...]Tenho pressa. Compro um jornal. É pressa,embora vá morrer.Comprometo-me ao extremo, combino encontrosa que nunca irei, pronuncio palavras vãs,minto dizendo: até amanhã. Pois não haverá.Acada seqüência de ações relevantes para aquele que vai morrer, a voz da consciência póstumaantepõe a realidade final que o espera.Assim, a visão ilusória do ser sobre a “contínua vida irrefreável”é desmentida – num tom seco e quase neutro – pelos referências implacáveis à aproximação dodesenlace. Sob esta dualidade, a alienação do indivíduo a respeito da inevitabilidade trágica de seudestino torna-se patética.Verdadeira metáfora da existência, a viagem cega e sem pressentimentos rumo à mortedesintegra qualquer significado que a vida possa ter e instaura um grande vazio na alma humana.Poucas vezes, na literatura de língua portuguesa, a percepção da finitude atingiu tamanho nível dedramaticidade. Talvez só se encontre algo similar em alguns dos sermões do padre Vieira. Entretanto,no caso do orador barroco, a fragilidade da existência terrena era compensada pelas chances dohomem ascender ao paraíso. Já em Drummond não há perspectiva religiosa ou qualquer outro tipode conforto místico. O homem é um ser feito para a névoa do nada:A morte dispôs poltronas para o confortoda espera. Aqui se encontramos que vão morrer e não sabem.Jornais, café, chicletes, algodão para o ouvido,pequenos serviços cercam de delicadeza
  17. 17. COLÉGIO PRO CAMPUS - “A PAZ ESTÁ NA BOA EDUCAÇÃO” - OBRA INDICADA - UESPI/200417BOAEDUCAÇÃO”www.procampus.com.br procampus@procampus.com.brnossos corpos amarrados.Vamos morrer, já não é apenasmeu fim particular e limitado,somos vinte a ser destruídos,morreremos vinte,vinte nos espatifaremos, é agora.3. A POESIA SOBRE A POESIAA reflexão metapoética (ou metalinguagem) constitui uma das vertentes dominantes da obrade CDA. A própria poesia é tematizada, na forma característica do poema sobre o poema, e discute-se o ofício de escrever, a construção do texto, o âmago da linguagem lírica, etc.3. 1 – A poéticaConsideração do poema e Procura da poesia abremArosa do povo. Isso já revela a importânciaque Drummond confere ao problema do fazer literário, porque em ambos estabelece-se a tentativade fixação de uma poética, isto é, de um processo de enumeração – direto ou metafórico – dosprincípios técnicos e semânticos e dos valores filosóficos que regem a escrita do autor.Consideração do poemaObserve-se a primeira estrofe do poema:Não rimarei a palavra sonocom a incorrespondente palavra outono.Rimarei com a palavra carneou qualquer outra, que todas me convêm.As palavras não nascem amarradas,elas saltam, se beijam, se dissolvem,no céu livre por vezes um desenho,são puras, largas, autênticas, indevassáveis.É visível, nesses versos, a ruptura do escritor com a poética tradicional, a começar peladestruição do convencionalismo das velhas rimas, que sustentavam a melodia lírica do passado.“Sono” não rimará com “outono” e sim com “carne”(19). Também não há mais palavras interditas,sujas, feias. Todas podem servir a seu desejo de expressão. E é uma expressão nova e original queo poeta almeja, recusando-se às palavras “amarradas”, quer dizer, às formulações verbais prontas edesgastadas pelo uso, aos lugares-comuns poéticos. O seu projeto insere-se, pois, nas coordenadasde uma modernidade radical.Em seguida, CDA celebra os poetas contemporâneos que admira. Com uma única exceção(Murilo Mendes), são poetas engajados – se não politicamente, pelo menos com o canto da vidacotidiana – Vinícius de Moraes, Pablo Neruda, Apollinaire, Maiakovski. “São todos meus irmãos” –grita, lançando duas metáforas inesperadas para defini-los: “... não são jornais / nem deslizar delancha entre camélias”. Provavelmente aluda ao fato de que estes autores não expressam apenas asuperficialidade do dia (“jornais”) e tampouco uma delicada e romântica trajetória por entre flores,
  18. 18. COLÉGIO PRO CAMPUS - “A PAZ ESTÁ NA BOA EDUCAÇÃO” - OBRA INDICADA - UESPI/200418BOAEDUCAÇÃO”www.procampus.com.br procampus@procampus.com.brmas assumam – a exemplo do próprio Drummond – uma poética do risco, do compromisso com oshomens (“É qualquer homem / ao meio-dia em qualquer praça.”)No início da quarta estrofe, o autor mineiro faz uma profissão de fé que cristaliza toda a suapoesia social:Poeta do finito e da matériacantor sem piedade, sim, sem frágeis lágrimas,boca tão seca, mas ardor tão casto.Essa declaração de comprometimento com o “finito” e com a “matéria” (a realidade comumdos seres humanos) é reforçada pela imagem grandiloqüente dos últimos dois versos do poema:(...) Tal uma lâminao povo, meu poema, te atravessa.(19) “Sono” e “outono” trazem também uma carga conceitual passadista, representando,respectivamente, um estado de inconsciência e uma estação do ano associada à melancolia e/ou aodevaneio, realidades postas em questão pelo caráter de vigília e de comprometimento que imperaem A rosa do povo. Da mesma forma, carne parece aludir à existência concreta, à vida material doshomens.Procura da poesiaEste poema começa com uma série de interdições a respeito do fazer poético:Não faças versos sobre acontecimentos.Não há criação nem morte perante a poesia. (...)As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam.Não faças poesia com o corpo,esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efusão lírica. (...)Nem me reveles teus sentimentos,que se prevalecem do equívoco e tentam a longa viagem. (20)O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.Não cantes tua cidade, deixe-a em paz. (...)O canto não é a naturezanem os homens em sociedade.Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam.A poesia (não tires poesia das coisas)elide sujeito e objeto. (21) (...)Só então, após listar tudo aquilo que não é poesia (acontecimentos, corpo, cidade, natureza,emoções, infância, memória, subjetividade e objetividade), Drummond apresenta a sua poética:Penetra surdamente no reino das palavras.Lá estão os poemas que esperam ser escritos. (...)Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
  19. 19. COLÉGIO PRO CAMPUS - “A PAZ ESTÁ NA BOA EDUCAÇÃO” - OBRA INDICADA - UESPI/200419BOAEDUCAÇÃO”www.procampus.com.br procampus@procampus.com.brConvive com teus poemas, antes de escrevê-los. (...)... Aceita-ocomo ele aceitará sua forma definitiva e concentradano espaço.Chega mais perto e contempla as palavras.Cada umatem mil faces secretas sob a face neutrae te pergunta, sem interesse pela resposta,pobre ou terrível, que lhe deres:Trouxeste a chave? (...)20) Referência crítica de CDA à concepção tradicional da poesia como expressão dossentimentos.A“longa viagem” indica a transição da linguagem comum à verdadeira linguagem poética.(21) A poesia suprime a subjetividade e o mundo objetivo, independe delesRepare que as proibições anteriores têm a função de preparar a afirmação incisiva – feita nasúltimas estrofes – do primado da linguagem sobre o assunto. Para CDA, não é com temas que sefaz a grande poesia e sim com palavras. Ou, dizendo de outra maneira: o que importa não é anatureza da mensagem, mas a qualidade de sua realização literária. E esta só acontece quando oescritor descobre a chave que lhe permite entrar no reino da linguagem.Nesse reino de difícil acesso, vivem as palavras em “estado de dicionário”, com “mil facessecretas”, cabendo ao poeta o terrível esforço de selecionar o(s) sentido(s) de cada uma delas, paradepois ordená-las de maneira “definitiva e concentrada”. Com isto se forja uma composição de máximasíntese em que cada termo é tão essencial que não pode ser substituído por qualquer outro.Procura da poesia assinala a recusa de Drummond em aceitar uma poética da espontaneidade(inspiração, vislumbres, impressões, epifanias, etc.) ou uma poética conteudística, situada naexpressão direta dos inúmeros aspectos da realidade. Para ele, poesia é pesquisa, luta, busca domistério das palavras. Poesia, nesta óptica, não é um instrumento verbal para comunicar algo; antes,é um objeto válido em si mesmo, cuja força e autenticidade derivam da plenitude e da opacidade desua linguagem.3. 2 – Uma poética controversaOs críticos se dividiram a respeito do significado dos dois principais poemas de metalinguagemde CDA.Alguns interpretaram os textos como contraditórios porque afirmariam realidades antagônicas:um, o domínio do compromisso social; outro, o império da linguagem. Representariam, portanto, acondensação das tendências opositivas de A rosa do povo, obra dilacerada entre a esperança nofuturo socialista e a amargura filosófica.Já outros críticos especulam que Consideração do poema corresponde ao projeto ideológicodo autor, enquanto Procura da poesia traduz o seu projeto estético, não havendo diferenças estruturaisentre ambos, e sim uma variação de enfoque determinada pela especificidade de cada projeto.No entanto, para José Guilherme Merquior – o mais importante entre os estudiosos da obradrummondiana – os dois poemas formam um conjunto coerente, porque estão alicerçados sobreuma concepção dialética do gênero lírico, o qual se comporia de duas camadas interligadas:
  20. 20. COLÉGIO PRO CAMPUS - “A PAZ ESTÁ NA BOA EDUCAÇÃO” - OBRA INDICADA - UESPI/200420BOAEDUCAÇÃO”www.procampus.com.br procampus@procampus.com.bra)Anatureza preponderantemente verbal da poesia. Ou seja, poesia, em primeiro lugar, é seleçãoe ordenação de palavras;b)As palavras – captadas em seu mistério e em algumas de suas “mil faces” – não são vaziasde conteúdo. Ora, se o discurso poético não é um zero semântico, suas referências obrigatoriamentedesignam elementos do real.Em suma, a pesquisa e a invenção de linguagem constituem o cerne da poesia, mas as palavrastrazem consigo uma constelação de significados que o poeta escolhe. Não se trata – como já frisamos– de privilegiar a mensagem, exprimindo-a diretamente. Isso não é poesia. Apenas através dapenetração no “reino das palavras”, o autor lírico poderá dar um sentido a seu canto. Ou seja, aquiloque o poeta diz é também a forma como ele o diz.4. POESIA SOBRE O PASSADOA idéia do passado e de suas infinitas recordações afeta profundamente a criação poética deCDA, tanto que alguns de seus mais celebrados poemas giram em torno deste baú de lembrançasque, aberto, deixa entrever uma formidável multiplicidade de experiências pessoais, familiares ehistóricas.Em resumo, o passado é apresentado da seguinte maneira na poesia de Drummond:1-O registro realista (mais sugerido do que descrito) do quadro familiar e sócio-cultural dointerior rural mineiro de fins do século XIX e início do século XX;2-A evocação de um mundo estritamente pessoal, formado por fatos, palavras e sentimentosque tiveram eco ou atingiram a subjetividade do menino e/ou do jovem CDA;3-A projeção do passado (pessoal, familiar, social) no presente, fazendo com que toda aindagação daquilo que ficou para trás seja também uma indagação da identidade atual do poeta edos outros remanescentes do universo rural / provinciano, recuperados por uma memória que osinterpela incessantemente.Como um presenteNo dia do aniversário do pai morto, o poeta conversa imaginariamente com este homem quelhe foi um estranho, tentando compreendê-lo: “Teu aniversário, no escuro, / não se comemora. / [...]Numa toalha no espaço há o jantar, / mas teu jantar é silêncio, tua fome não come.”Ao fixar a figura paterna, CDA fixa também um sistema em que imperam a obediência e orespeito, simbolizados num gesto: “Não mais te peço a mão enrugada / para beijar-lhe as veiasgrossas.” O pai tipifica a velha ordem patriarcal em sua aspereza e frugalidade: “Tua imobilidade éperfeita. Embora a chuva, / o desconforto deste chão. Mas sempre amaste / o duro, o relento, a falta.”[...]Como em todos os poemas desta linha temática, o passado não é “apenas uma fotografia naparede”. Ao ser lembrado, ele renasce, adquire por instantes o hálito da vida, transita ao presente,fere e, por vezes, comove. No entanto, ao invés de submergir nas emoções, a consciência evocadorado poeta analisa, disseca, busca um sentido. O fantasma paterno começa a adquirir nitidez: “Teucavalo corta o ar, guardo uma espora / de tua bota, um grito de teus lábios, / sinto em mim teu corpocheio, tua faca, / tua pressa, teu estrondo... encadeados.”Descobrimos então que esta viagem pela memória prende-se a duas inquietudes queatormentam o poeta.Aprimeira é descobrir o segredo do pai, o segredo de sua força, poder, vitalidade,amplo domínio sobre coisas e seres:
  21. 21. COLÉGIO PRO CAMPUS - “A PAZ ESTÁ NA BOA EDUCAÇÃO” - OBRA INDICADA - UESPI/200421BOAEDUCAÇÃO”www.procampus.com.br procampus@procampus.com.brMas teu segredo não descubro.Não está nos papéisdo cofre. Nem nas casas que habitaste. [...]E pergunto teu segredo.Não respondes. Não o tinhas.Realmente não o tinhas, me enganavas?Então aquele maravilhoso poder de abrir garrafas sem saca-rolha,de desatar nós, atravessar rios a cavalo, assistir, sem chorar, morte de filho,expulsar assombrações apenas com teu passo duro,o gado que sumia e voltava, embora a peste varresse as fazendas,o domínio total sobre irmãos, tios, primos, camaradas, caixeiros, fiscais do governo,[beatas, padres, médicos, mendigos, loucos mansos, loucos agitados, animais, coisas:então não era segredo?A onipotência paterna desintegra-se, seja porque só agora o poeta pode encarar aquelapersonalidade autoritária e dominadora, sem as fantasias que os filhos alimentam a respeito dospais; seja porque CDA é capaz, neste instante, de interpretar as ações do pai como triviais nummundo onde os homens eram treinados para o “segredo” da dominação.A segunda inquietude do poeta vai além da argüição dos valores patriarcais para se situar noquestionamento mais íntimo das relações familiares. Em passagem belíssima, o eu-lírico amaldiçoaa idéia de família, os bens (espirituais) herdados, as perversões, as lembranças amargas, osobrenome e suas imposições e – às avessas do inseto do soneto Áporo – imagina-se cavando umburaco e desaparecendo na terra à procura de uma nova família desti-tuída de memória:É talvez um erro amarmos assim nossos parentes.A identidade do sangue age como cadeia,fora melhor rompê-la. Procurar meus parentes na Ásia,onde o pão seja outro e não haja bens de família a preservar.Por que ficar neste município, neste sobrenome?Taras, doenças, dívidas; mal se respira no sótão.Quisera abrir um buraco, varar o túnel, largar minha terra, [...]Contudo, no desfecho deste longo poema de versos irregulares – depois das reminiscênciasdeslindadas e da imprecação contra o destino familiar – o poeta reconcilia-se com o fantasma paterno,entendendo a forma peculiar de amor que este nutria pelos filhos: “Guardavas talvez o amor / emtripla cerca de espinhos.” Os três últimos versos expressam a sua contida emoção diante daredescoberta do pai:No escuro em que fazes anos,no escuro,é permitido sorrir.No país dos AndradesNeste poema, CDA indaga e invoca o “país” de sua família, isto é, menos um território histórico-geográfico, e mais um território de lembranças e de marcas profundas na alma. Este “país” é forradopelo estranho “cobertor vermelho de meu pai” (Imagem surrealista da herança familiar?; daquilo queum dia foi o calor paterno?; do sangue que fluía por aquela região do passado?).
  22. 22. COLÉGIO PRO CAMPUS - “A PAZ ESTÁ NA BOA EDUCAÇÃO” - OBRA INDICADA - UESPI/200422BOAEDUCAÇÃO”www.procampus.com.br procampus@procampus.com.brO poeta já não distingue as fronteiras do “país”, um país de “ordens peremptórias” e silenciosas,onde tudo era claro e todas as coisas definidas. Por isso, ele se sente “tonto”, “suspeitoso”. O seu“secreto latifúndio” está sendo corrompido pelo esquecimento, pela sombras do nada, por umadissolução implacável que atinge antigas formas de existência mas, que, dialeticamente, o libertadesse mundo de lembranças do qual era prisioneiro:No país dos Andrades, secreto latifúndio,a tudo pergunto e invoco; mas o escuro soprou; e ninguém me secunda.Adeus, vermelho(viajarei) cobertor de meu pai.Retrato de famíliaUm dos grandes textos líricos de nossa literatura. Através de uma velha fotografia empoeirada,o poeta examina os seus antepassados e os seus contemporâneos. Em princípio, ele observa aquiloque o retrato não contém mais, ou nunca conteve, essência oculta na aparência: “Já não se vê norosto do pai / quanto dinheiro ele ganhou. [...]Aavó ficou lisa, amarela, / sem memórias da monarquia.”Depois, o fluxo do tempo toca esta humanidade imobilizada que, então, parece movimentar-se, ultrapassando a moldura da fotografia, o oceano de névoa formado a seus pés e os limites daprópria finitude dos seres. Tangido por este sopro mágico de vida, o retrato (isto é, as criaturas que ocompõem) “se contempla nos olhos empoeirados” do poeta.Em seguida, como resultado deste frêmito que percorre a foto, multiplicam-se nela “parentesmortos e vivos”, sem que os “olhos empoeirados” do eu-lírico possam distinguir “os que se foram /dos que restaram.” O passado integra-se ao presente e Drummond percebe apenas “a estranhaidéia de família / viajando através da carne.”5.POESIA SOBRE O AMORCDA talvez seja a voz lírica/amorosa mais rica e complexa da literatura brasileira. Há em suapoesia uma inesgotável variedade de visões e abordagens do fenômeno afetivo, tanto nos aspectosespirituais quanto nos eróticos.No entanto, emArosa do povo a questão amorosa ocupa espaço mínimo, registrando-se apenasum poema de assunto estritamente sentimental: O mito. Verdade que não seria equivocado enquadrarO caso do vestido nesta vertente, mas por razões que veremos adiante, preferimos inseri-lo nacategoria dos poemas sobre o cotidiano.O mitoO único poema de amor é também o único da obra escrito sob a ótica do humor. O procedimentohumorístico exerce uma função corrosiva, pondo em xeque todos os valores humanos. E o humor jáaparece no título do poema, porque a palavra mito tem um amplo espectro semântico.Primeiramente, o mito em questão parece indicar a mulher pela qual o poeta mostra-seobcecado: um ser ideal, de quem o amante (platônico) sequer sabe o nome:
  23. 23. COLÉGIO PRO CAMPUS - “A PAZ ESTÁ NA BOA EDUCAÇÃO” - OBRA INDICADA - UESPI/200423BOAEDUCAÇÃO”www.procampus.com.br procampus@procampus.com.brSequer conheço Fulanavejo Fulana tão curto,Fulana jamais me vê,mas como eu amo Fulana.O segundo sentido de mito é o da paixão romântica, que, nos últimos séculos, percorreu acultura ocidental, aprofundando a sensibilidade dos indivíduos e gerando neles expectativas defelicidade que só se realizam com o triunfo do “grande amor”. E este sentimentalismo quase doentioe grotesco é que delimita o comportamento do poeta:Amo Fulana tão forte,amo Fulana tão dor,que todo me despedaçoe choro, menino, choro.Allheia à paixão que causa, (como freqüentemente ocorre com as heroínas românticas), Fulanasegue sua vida repleta de festas, encontros, atividades esportivas. Fala palavras da moda: “marxismo,rimmel, gás”. É rica, “tem latifúndios, iates”. Numa deliciosa hipérbole, o poeta chega a afirmar queFulana “sustenta cinco mil pobres”. Enquanto esta dama de agitada existência (uma legítima socialite)prossegue em seu cotidiano burguês, o amante – que ela ignora – vive imerso em desejos e ilusõesque expressam o desespero típico dos apaixonados não correspondidos. A dicção dos versos, noentanto, não apresenta a seriedade, por vezes melodramática, do discurso amoroso convencional.O tom humorístico corrói o que poderia haver de solene ou pungente:Amor tão disparatado.Desbaratado é que é...Nunca a sentei no meu colonem vi pela fechadura.Em dado momento, ele chega a duvidar da concretude de sua musa:Mas Fulana será gente?!Estará somente em ópera?Será figura de livro?tem coxas reais! Cintura?Em trinta e oito estrofes de quatro versos regulares (sete sílabas) – todas revestidas pela ironiasutil de CDA – acompanhamos a trajetória delirante deste ser exasperado pelo tormento da paixão. Aincerteza, os ciúmes e as dúvidas que roem os amantes infelizes tornam ainda mais tragicômica abusca do poeta. O enamoramento cria ânsias ardentes que jamais se realizam. Em seudesassossego, ele até imagina o próprio suicídio, simplesmente para que seu cadáver decompostofedesse à frente do apartamento de Fulana e assim quebrasse a indiferença da mulher. Estamos,portanto, na situação limite da mitologia romântica que atribui à camada sentimental a razão única daexistência.No entanto, uma imprevista guinada acontece nas sete estrofes finais (e mais um dístico) quefecham o poema.Adicção humorística cede lugar à seriedade. O poeta interrompe o canto engraçadode seus desalentos e substitui a Fulana real por uma outra imaginária, que aceita a efetivação amorosa.Os enamorados – ainda no plano da fantasia do poeta – são projetados para um universo harmoniosoe justo, para que nenhum drama social possa interromper ou turvar o êxtase de sua paixão:
  24. 24. COLÉGIO PRO CAMPUS - “A PAZ ESTÁ NA BOA EDUCAÇÃO” - OBRA INDICADA - UESPI/200424BOAEDUCAÇÃO”www.procampus.com.br procampus@procampus.com.brE colocamos os dadosde um mundo sem classe e imposto;e nesse mundo instalamosos nossos irmãos vingados.O amor, então, se concretiza:E nessa fase gloriosa,de contradições extintas,eu e Fulana, abrasados,queremos... que mais queremos!Porém, todo o ardor dos amantes, toda a exaltação entusiástica do desejo, toda a ânsia pelooutro convertem-se, após a consecução afetivo-erótica, em outra coisa:E digo a Fulana: Amiga,afinal nos compreendemos.Já não sofro, já não brilhas,mas somos a mesma coisa.(Uma coisa tão diversada que pensava que fôssemos.)Ao nomear a amada simplesmente de “amiga”, o poeta implode a intensidade emocional queconferira às estrofes finais do poema. Fulana não é mais uma deusa, uma criatura mítica. Ela quebrilhava, ela, mulher definitiva do mundo, ser de exceção, irredutivelmente singular como são todosos seres que amamos, ela, de quem cada detalhe, cada gesto, cada palavra o poeta extraía milressonâncias, a única mulher capaz de lhe dar prazer, alegria e vida, agora é apenas uma “amiga”!O sofrimento gozoso dos apaixonados desaparece e aquilo que fazia do objeto da devoção ummito (um ser superior) já não existe. “Somos a mesma coisa”, somos iguais. O estado de suspensãoda vida comum (estado próximo da loucura, do desespero e do ridículo) – característica doenamoramento – é substituído pela amizade trivial. Nos versos derradeiros, o desejo intenso (dor,pulsação, febre, assombro) transforma-se em melancólica tranqüilidade. E mito – observe o girosemântico sofrido pela palavra dentro do poema – passa a designar a paixão no que ela possui deilusão, de fantasia perseguida e derrotada pela realidade.6.POESIA DO COTIDIANOEmbora vários textos da poesia social de CDA retratem a vida diária com grande vigor, ainclinação participante do poeta dão a estes versos uma dimensão explicitamente engajada. Algoque não encontramos nos poemas específicos sobre o cotidiano. Neles, Drummond fixa cenas ounarra histórias – sem a intervenção do eu – quase como um repórter de linguagem apurada. Commuita propriedade, Merquior define estes poemas como “dramas do cotidiano”. Em regra geral, sãoos de leitura mais acessível, o que não lhes retira a beleza e a complexidade. Todavia, em A rosa dopovo só nos deparamos com dois desses poemas.A morte do leiteiroInúmeras vezes lembrado em vestibulares, o texto é uma espécie de crônica poética de estilonitidamente coloquial. Através dessa singela forma lírica, o poeta conta a história de um leiteiro que,tomado por ladrão, é morto na madrugada. As primeiras estrofes não se situam entre as melhorescoisas produzidas por CDA. Há nelas um certo primarismo como nesta antítese: “... sai correndo e
  25. 25. COLÉGIO PRO CAMPUS - “A PAZ ESTÁ NA BOA EDUCAÇÃO” - OBRA INDICADA - UESPI/200425BOAEDUCAÇÃO”www.procampus.com.br procampus@procampus.com.brdistribuindo / leite bom para gente ruim.” Ou como nesta celebração da qualidade do leite: “... trazero leite mais frio / e mais alvo da melhor vaca / para todos criarem força / na luta brava da cidade.”Também a cena em que um morador, por engano, assassina o leiteiro, é apresentada de maneirafrouxa e pouco dramática: “Bala que mata gatuno / também serve pra furtar / a vida de nosso irmão.”Contudo, a última estrofe do poema o reabilita por completo: o sangue do leiteiro mistura-se ao leiteno ladrilho da calçada e dessa junção nasce a surpreendente imagem da aurora, certamente umadas mais espetaculares imagens da poesia brasileira em todos os tempos:Da garrafa estilhaçada,no ladrilho já serenoescorre uma coisa espessaque é leite, sangue... não sei.Por entre objetos confusos,mal redimidos na noite,duas cores se procuram,suavemente se tocam,amorosamente se enlaçam,formando um terceiro toma que chamamos aurora.Caso do vestidoComposto por setenta e três dísticos de versos regulares, este poema tem uma estruturadramática (teatral), já que apresenta personagens, diálogos, e progressão de enredo, com clímax edesfecho. A abertura do texto dá-se através de um diálogo entre as filhas curiosas e a mãe:Nossa mãe, o que é aquelevestido, naquele prego?Minhas filhas, é o vestidode uma dona que passou.Passou quando, nossa mãe?Era nossa conhecida?Minhas filhas, boca presa.Vosso pai evém chegando.Em todo o poema há uma atmosfera de expectativa e tensão, seja pela terrível história que amãe vai relatar, seja pela iminente chegada do pai. Sofridamente, a mulher conta a loucura do maridoque se apaixonou por uma “dona de longe”:E ficou tão transtornado,se perdeu tanto de nós,se afastou de toda a vida,se fechou, se devorou, [...]A “dona”, no entanto, recusa o assédio. Irado e abatido, o marido pede a sua própria esposaque fosse implorar o amor da estranha. Ao lembrar do ocorrido, no presente, a mãe se emociona evacila. As filhas lhe oferecem um lenço para que limpe as lágrimas e continue o relato:
  26. 26. COLÉGIO PRO CAMPUS - “A PAZ ESTÁ NA BOA EDUCAÇÃO” - OBRA INDICADA - UESPI/200426BOAEDUCAÇÃO”www.procampus.com.br procampus@procampus.com.brMinhas filhas, procureiaquela mulher do demo.E lhe roguei que aplacassede meu marido a vontade.A “dona” diz que não ama aquele homem, mas se a mulher insistisse, ficaria com o maridodela.Olhei para vosso pai,os olhos dele pediam.Olhei para a dona ruim,os olhos dela gozavam. [...]Eu fiz meu pelo-sinal,me curvei... disse que sim.Apartir deste momento a mãe aspira à morte, mas não morre. Vende seus objetos de estimação(“... meus anéis se dispersaram, / minha corrente de ouro / pagou conta de farmácia.”); precisasustentar as filhas (“... costurei, lavei, fiz doce,”); envelhece (“... fiquei de cabeça branca, / perdimeus dentes, meus olhos,”).Até que um dia a “dona” reaparece, sozinha e abandonada. Vem pedir perdão à mulher que elatanto ferira e deixar-lhe, como recordação de tamanha perversidade, o último vestido de luxo queainda possuía.Aqui trago minha roupaque recorda meu malfeitode ofender dona casadapisando no seu orgulho.A mãe olha para esta “dona” destruída em sua beleza, não responde ao seu rogo e pendura ovestido no prego da parede para que ele ficasse ali, como memória dos tormentos. Logo depois, opai retorna ao lar. E, como se nada tivesse acontecido, pede que a mulher que coloque mais umprato na mesa:comeu, limpou o suor,era sempre o mesmo homem,comia meio de ladoe nem estava mais velho.O barulho da comidana boca me acalantava.O poema fecha-se em círculo, com a volta ao presente ocorrendo simultaneamente à chegadado pai:Minhas filhas, eis que ouçovosso pai subindo a escada.Verdadeira obra-prima, Caso do vestido, além de ser um drama do cotidiano, desvela abrutalidade masculina da sociedade patriarcal, em que o poeta nasceu e passou a sua infância e oinício da juventude. Desta maneira, o poema sobre o cotidiano é, igualmente, um poema sobre o
  27. 27. COLÉGIO PRO CAMPUS - “A PAZ ESTÁ NA BOA EDUCAÇÃO” - OBRA INDICADA - UESPI/200427BOAEDUCAÇÃO”www.procampus.com.br procampus@procampus.com.brpassado.Aprópria linguagem apresenta vários elementos do coloquial arcaico (“dona”, “evém”, “mui”,etc.), sem contar o uso de formas antigas de tratamento (“vosso”, “vossa”). Porém, o esplendor líricode Caso do vestido decorre de inúmeros outros fatores:a) da capacidade de resignação feminina e dessa misteriosa força vital que impede a mãe desucumbir (“Só pensando na morte / mas a morte não chegava.”);b) da pungente e ilimitada paixão da mulher que a arrasta da suprema humilhação ao supremoperdão;c) da pequena mas genial vingança que consiste em colocar o vestido da “dona” na parede,onde permanecerá como registro perpétuo da perfídia do marido;d) da crispada expectação que envolve toda a narrativa da mãe, continuamente ameaçadapela chegada do pai;e) da estrutura teatral que sedimenta o poema, já referida anteriormente;f) da formulação do poema em dísticos de versos regulares que emprestam ao mesmo umritmo recitativo;g) da utilização da linguagem coloquial, enriquecida por um processo estilístico pleno desugestões, eufemismos, metáforas, elipses, anáforas, aliterações, antíteses e rimas internas. Assim,a espontaneidade da fala da mãe e dos diálogos com as filhas em nenhum verso cai na banalidade,risco de todo o poema que elege o cotidiano como motivo.7. CELEBRAÇÃO DE AMIGOSEm vários de seus livros, CDA faz a louvação de personalidades que, de alguma maneira,marcaram-lhe a existência, seja pela amizade, seja pela grandeza artística/humana das obras queproduziram. EmArosa do povo, duas longas odes* expressam a referida tendência. Mário deAndradee Charlie Chaplin são os homenageados em textos arrebatadores, enfáticos e, no caso específico dosegundo, até mesmo um pouco palavroso.Mário de Andrade desce aos infernosA morte súbita de Mário de Andrade comoveu os meios artísticos, já que o escritor paulistadesenvolvia uma impressionante atividade intelectual, traduzida em obras poéticas e de ficção, críticaliterária, ensaios sobre assuntos variados e intensa correspondência com alguns dos principaisescritores brasileiros, entre os quais Manuel Bandeira e Carlos Drummond.Escrito certamente no calor da hora trágica, em que recebe a notícia da morte do amigo eprotetor, o poema começa com uma belíssima imagem:Daqui a vinte anos farei teu poemae te cantarei com tal suspiroque as flores pasmarão, e as abelhas,confundidas, esvairão seu mel.Porém, a urgência da dor o impele à escrita:Daqui a vinte anos: podereitanto esperar o preço da poesia?É preciso tirar da boca urgenteo canto rápido, ziguezagueante, rouco,feita da impureza do minutoe de vozes em febre, que golpeiamesta viola desatinadano chão, no chão.
  28. 28. COLÉGIO PRO CAMPUS - “A PAZ ESTÁ NA BOA EDUCAÇÃO” - OBRA INDICADA - UESPI/200428BOAEDUCAÇÃO”www.procampus.com.br procampus@procampus.com.brPoucas vezes o sofrimento pela perda de alguém encontrou uma expressão tão forte como aque se segue:No chão me deito à maneira dos desesperados.Estou escuro, estou rigorosamente noturno, estou vazio, [...]O poeta chega a pôr em dúvida a possibilidade de continuar a sua poética engajada, agora queestá só:A rosa do povo despetala-se,ou ainda conserva o pudor da alva?Depois de registrar o inconformismo com o destino do amigo e a sensação de orfandade queo acomete, CDA passa a exaltar a figura múltipla de Mário de Andrade, sua paixão pelo país, suacoleção de pinturas e obras de arte popular, sua fraternidade, a sua célebre casa na Rua LopesChaves, onde ele, Drummond, jamais esteve:Súbito a barba deixou de crescer. Telegramasirrompem. Telefonesretinem. Silêncioem Lopes Chaves.Canto ao homem do povo, Charlie ChaplinO poeta tenta aproximar-se da atmosfera dos filmes de Chaplin para celebrar aquilo que noartista é a sabedoria dos vagabundos “que o mundo repeliu, mas zombam e vivem / [...] e vencem afome, iludem a brutalidade, prolongam o amor”. Desconfia que o discurso, “acalanto burguês”, nãoagrada este homem do povo. Por isso, o poeta deve falar como um ser comum. Deve falar pelos quenão têm voz, “os abandonados da justiça, os simples de coração, / os párias, os falidos, os mutilados,os deficientes, os recalcados / os oprimidos, os solitários, os indecisos, os líricos, os cismarentos,”fundindo o seu canto com as palavras silenciosas dos que amam Carlitos.Mais do que uma simples ode, o texto torna-se reflexão sobre o fazer artístico. Aarte de Chaplincumpre uma função purificadora: “Falam por mim os que estavam sujos de tristeza e feroz desgostode tudo / que entraram no cinema com a aflição de ratos fugindo da vida, / [...] e te descobriram esalvaram-se.” A arte responde à opressão da realidade, libertando os indivíduos: “E já não sentimosa noite, / e a morte nos evita, e diminuímos / como se ao contato de tua bengala mágica voltássemos/ ao país secreto onde dormem meninos.”Depois de inúmeras referências a episódios dos filmes de Chaplin – que precisariam sercontextualizadas para quem não os assistiu – o poeta invoca (em tom exaltado e sublime, ou seja, aocontrário do estilo do cineasta) o poder de indignação e a onipresente esperança de sua arte:Poder da voz humana inventando novos vocábulos e dando sopro aos exaustos.Dignidade da boca, aberta em ira justa e amor profundo,Crispação do ser humano, árvore irritada, contra a miséria e a fúria dos ditadores,Ó Carlito, meu e nosso amigo, teus sapatos e teu bigode caminham numa estrada de pó[e esperança.8.ANÁLISE ESPECÍFICA DE A FLOR E A NÁUSEAFaçamos uma análise rápida deste que é o mais célebre poema de A rosa do povo:
  29. 29. COLÉGIO PRO CAMPUS - “A PAZ ESTÁ NA BOA EDUCAÇÃO” - OBRA INDICADA - UESPI/200429BOAEDUCAÇÃO”www.procampus.com.br procampus@procampus.com.br1 Preso à minha classe e a algumas roupas,2 vou de branco pela rua cinzenta.3 Melancolias, mercadorias espreitam-me.4 Devo seguir até o enjôo?5 Posso, sem armas, revoltar-me?6 Olhos sujos no relógio da torre:7 Não, o tempo não chegou de completa justiça.8 O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.9 O tempo pobre, o poeta pobre10 fundem-se no mesmo impasse.11 Em vão me tento explicar, os muros são surdos.12 Sob a pele das palavras há cifras e códigos.13 O sol consola os doentes e não os renova.14 As coisas. Que tristes são as coisas consideradas sem ênfase.15 Vomitar esse tédio sobre a cidade.16 Quarenta anos e nenhum problema17 resolvido, sequer colocado.18 Nenhuma carta escrita nem recebida.19 Todos os homens voltam para casa.20 Estão menos livres mas levam jornais21 e soletram o mundo, sabendo que o perdem.22 Crimes da terra, como perdoá-los?23 Tomei parte em muitos, outros escondi.24 Alguns achei belos, foram publicados.25 Crimes suaves, que ajudam a viver.26 Ração diária de erro, distribuída em casa.27 Os ferozes padeiros do mal.28 Os ferozes leiteiros do mal29 Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.30 Ao menino de 1918 chamavam anarquista.31 Porém meu ódio é o melhor de mim.32 Com ele me salvo33 e dou a poucos uma esperança mínima.34 Uma flor nasceu na rua!35 Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.36 Uma flor ainda desbotada37 ilude a polícia, rompe o asfalto.38 Façam completo silêncio, paralisem os negócios,39 garanto que uma flor nasceu.40 Sua cor não se percebe.41 Suas pétalas não se abrem.
  30. 30. COLÉGIO PRO CAMPUS - “A PAZ ESTÁ NA BOA EDUCAÇÃO” - OBRA INDICADA - UESPI/200430BOAEDUCAÇÃO”www.procampus.com.br procampus@procampus.com.br42 Seu nome não está nos livros.43 É feia. Mas é realmente uma flor.44 Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde45 e lentamente passo a mão nessa forma insegura.45 Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.46 Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.47 É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.Observe na primeira estrofe alguns dos recursos poéticos de CDA. No verso 1, uma insólitaassociação entre o concreto e o abstrato (“preso à minha classe e a algumas roupas”). No verso 2,a antítese (“branco x cinzenta”). No verso 3, a paronomásia* (“melancolias, mercadorias”),abruptamente personificada (“espreitam-me”), revelando tanto o caráter depressivo quanto acoisificação que imperam nesta cidade asfixiante por onde o poeta vaga, cheio de angústia. Limitadopelo seu individualismo, o eu-lírico não consegue imaginar outra revolta fora a das armas, que nãopossui.A segunda estrofe abre sob o signo do relógio da torre: o relógio da cidade que marca não ashoras, mas a marcha da história. Só que o tempo da justiça não chegou ainda. O tempo e o poetasão igualmente repulsivos e inconclusos, fundindo-se “no mesmo impasse”. O crítico Otto MariaCarpeaux mostrou que esta fusão entre o eu-lírico e o mundo objetivo dá grande consistência àpoesia de CDA, na medida em que ele não vê os problemas “de fora”, como outros poetas sociais.Ao inverso, ele mescla o particular ao geral, “vivendo” os problemas coletivos, seu drama é comumao drama da sociedade. Assim, a redenção do mundo será também a sua redenção pessoal.O perambular do poeta pela cidade inóspita e alienada prossegue nas estrofes seguintes. Noverso 11, descobrimos a inutilidade de suas explicações, pois os muros (metáfora de homens) sãosurdos. As palavras – também elas corrompidas pelo egoísmo das “cifras e dos códigos”- não servempara indicar qualquer caminho. Tampouco o sol pode curar os seres doentes, no máximo oferece umconsolo pobre.Na cidade reificada*, os homens caminham, feito autômatos, de volta para casa. A realidadepara eles é apenas a que alcançam soletrar nos jornais, enquanto o poeta, vagando sem rumo,pensa em vomitar sua náusea, sua liberdade inútil, sua incapacidade de relacionar-se. A literatura,percebe agora, de nada serve, é um pequeno crime, crime da subjetividade, crime de um eu que nãoconsegue encontrar os semelhantes, “ração diária de erro”.Os aparentemente enigmáticos versos 27 e 28: “Os ferozes padeiros do mal. / Os ferozesleiteiros do mal.” indicam tanto a banalização do mal quanto a sua irradiação pelo cotidiano, poisleiteiros e padeiros entregavam seus produtos diretamente nas casas e eram, portanto, personagenscomuns da vida diária das cidades brasileiras.O desespero segue no impulso suicida do verso 29: “Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.”Contudo, a partir do verso 30, a lembrança aparentemente irracional da revolta do menino, a quemchamavam de anarquista, traz à tona o ódio. Esse se insinua como possibilidade de salvação dopoeta e de esperança para outros homens.*Paranomásia: figura retórica que consiste na associação de palavras com semelhança fonéticae significado distinto.*Reificada: coisificada
  31. 31. COLÉGIO PRO CAMPUS - “A PAZ ESTÁ NA BOA EDUCAÇÃO” - OBRA INDICADA - UESPI/200431BOAEDUCAÇÃO”www.procampus.com.br procampus@procampus.com.brNa penúltima estrofe, entretanto, o nascimento de uma flor feia, raquítica, desbotada e tãovulgar que sequer está classificada nos livros, representa a emergência de algo novo, algo que surgepara romper com a coisificação e a náusea, algo que ultrapassa o ódio, enchendo de significado aliberdade vazia do poeta.A última estrofe é extraordinária. No verso 44, o poeta suspende a realidade alienada e a vidacomo ela é, na ordem capitalista, sentando-se assombrosamente no chão da capital do país àscinco horas da tarde. No verso 45, acaricia a representação da vida como um dia ela será ou poderáser. E enquanto uma tempestade se aproxima (versos 46 e 47), provavelmente para varrer com afúria dos elementos o velho mundo, a flor – no último verso de uma sucessão metricamente irregulare de poderosas imagens – fura a náusea e anuncia o amanhã.9.BIBLIOGRAFIA BÁSICAACHCAR, Francisco. Carlos Drummond de Andrade. São Paulo, Publifolha, 2000.(Excelente e acessível introdução à obra poética de CDA.)CANDIDO, Antonio. Inquietudes na poesia de Drummond in Vários escritos. São Paulo, LivrariaDuas Cidades, 1970.(Ensaio rápido, mas de notável abrangência sobre os elementos essenciais da obra.)CAMPOS, Maria do Carmo. A rosa do povo, memória e mutilação in A matéria prismada. PortoAlegre, MercadoAberto, 1999.(Em curto ensaio, uma instigante leitura de uma das obras-primas da poesia brasileira.)FISCHER, LuísAugusto.Arosa do povo in Leituras obrigatórias. PortoAlegre, Leitura XXI, 2002.(Boa síntese dos principais aspectos e poemas deste livro clássico, indicado para o vestibular.)LINS, Álvaro. A poesia de Drummond in Os mortos de sobrecasaca. Rio de Janeiro, CivilizaçãoBrasileira, 1964.(O primeiro trabalho crítico de alto nível sobre o autor mineiro, ainda que sintético.)MERQUIOR, José Guilherme. Verso universo em Drummond. Rio de Janeiro, José Olympio,1975.(Certamente a mais brilhante, complexa e sofisticada leitura da poesia de CDA.)SANT’ANNA, Affonso Romano de. Drummond, o gauche no tempo. Rio de janeiro, Lia Editor,1972.(Longa e profunda análise da poesia drummondiana, centrada especialmente nas suas imagense procedimentos mais recorrentes.)VÁRIOSAUTORES. Carlos Drummond deAndrade. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1977.(Conjunto de artigos e ensaios de inúmeros professores, críticos e escritores a respeito denosso poeta maior. O resultado é irregular, mas alguns textos, como os de Antônio Houaiss, OttoMaria Carpeaux e Waltensir Dutra, são excelentes.)

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