PROGRAMA GESTÃO DAAPRENDIZAGEM ESCOLARGESTAR ILÍNGUA PORTUGUESACADERNO DE TEORIA E PRÁTICA 7LITERATURA INFANTIL
MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃOSECRETARIA DE EDUCAÇÃO BÁSICAFUNDO NACIONAL DE DESENVOLVIMENTO DA EDUCAÇÃODIRETORIA DE ASSISTÊNCIA A...
© 2007 FNDE/MECTodos os direitos reservados ao Ministério da Educação - MEC.Qualquer parte desta obra pode ser reproduzida...
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ApresentaçãoProfessorNos cadernos anteriores, estudamos as características de vários tipos de textos –narrativo, história ...
TeoriaePrática7•Unidade1911 Literatura infantil:conceito e especificidadesINICIANDO NOSSA COINICIANDO NOSSA COINICIANDO NO...
TeoriaePrática7•Unidade110Seção 111Os conceitos de literatura e de texto literárioObjetivo a ser alcançado no final desta ...
TeoriaePrática7•Unidade111b) Agora, procure explicar como você diferencia um texto literário de um texto não-literário.___...
TeoriaePrática7•Unidade112Quem observa a obra de um pintor, como, por exemplo, essa de Renoir, pode reco-nhecer ali aconte...
TeoriaePrática7•Unidade113Imagine quantas coisas podemos mostrar aos alunos para que percebam o modocomo o texto é organiz...
TeoriaePrática7•Unidade114A linguagem que caracteriza o texto literário éuma linguagem plurissignifplurissignifplurissigni...
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TeoriaePrática7•Unidade116INDO À SALA DE AULAAtividade 4Atividade 4Atividade 4Atividade 4Atividade 4a) Indique qual dos do...
TeoriaePrática7•Unidade117O texto literário é diferente de um texto cujas finalidades são informar, explicar,expor dados c...
TeoriaePrática7•Unidade118Se a maioria dos textos que circulam entre os alunos dos primeiros anos do ensinofundamental com...
TeoriaePrática7•Unidade119Há dois modos de compreender a literatura infantil. Por um lado, ela revela a preo-cupação do ad...
TeoriaePrática7•Unidade120Breve histórico da literatura infantil. Das origens a Monteiro LobatoAs obras que aparecem como ...
TeoriaePrática7•Unidade121No século XX, precisamente em 1921, acontecea publicação da obra A menina do narizinho arre-bita...
TeoriaePrática7•Unidade122Leia um trecho de uma das obras de Lobato. Observe bem a linguagem que eleapresenta.O irmão de P...
TeoriaePrática7•Unidade123Atividade 8Atividade 8Atividade 8Atividade 8Atividade 8a) Leia a seguinte afirmação:No texto que...
TeoriaePrática7•Unidade124Nessa época também muitos autores recorriam a animais como personagens desuas obras. O próprio L...
TeoriaePrática7•Unidade125obras de Maria José Dupré. Narrativas como essa certamente foram inspiradas nasfábulas e contos ...
TeoriaePrática7•Unidade126As primeiras obras européias destinadas ao público infantil surgiram no sé-culo XVIII. Eram obra...
TeoriaePrática7•Unidade127obras da literatura infantil e juvenil, incentivando a publicação de novos títulos, patro-cinand...
TeoriaePrática7•Unidade128Vamos ler um trecho da obra História meio ao contrário, de Ana Maria Machado, de1979....E então ...
TeoriaePrática7•Unidade129b) No trecho que lemos da obra de Ana Maria Machado, fica clara a finalidade dotexto. Também o t...
TeoriaePrática7•Unidade130INDO À SALA DE AULAAtividade 12Atividade 12Atividade 12Atividade 12Atividade 12a) Que personagen...
TeoriaePrática7•Unidade131Nos textos da literatura infantil moderna e contemporânea, os personagens passama apresentar um ...
TeoriaePrática7•Unidade132título como centro. Com ele se envolve um grupo de crianças, amigos de escola e debrincadeiras d...
TeoriaePrática7•Unidade133Imagine que você vai utilizar esse texto na sala de aula. O que você faria para des-pertar nos a...
TeoriaePrática7•Unidade134Lição de casaLição de casaLição de casaLição de casaLição de casaNos anos 70, houve um expressiv...
TeoriaePrática7•Unidade135TEXTO 2Lição de BiologiaEu plantei um pé de amorno fundo da minha vida.A semente foi brotando.Pr...
TeoriaePrática7•Unidade23722 Modalidades de textos de“literatura infantil”INICIANDO NOSSA COINICIANDO NOSSA COINICIANDO NO...
TeoriaePrática7•Unidade238SeçãoSeçãoSeçãoSeçãoSeçãoOs teOs teOs teOs teOs textos visuaisxtos visuaisxtos visuaisxtos visua...
TeoriaePrática7•Unidade239Leia atentamente as gravuras abaixo, na seqüência em que são apresentadas.
TeoriaePrática7•Unidade240Atividade 1Atividade 1Atividade 1Atividade 1Atividade 1É possível afirmar que essa seqüência de ...
TeoriaePrática7•Unidade241De acordo com Luís Camargo, em seu livro Ilustra-ção do Livro Infantil, a criança lê a imagem em...
TeoriaePrática7•Unidade242Atividade 4Atividade 4Atividade 4Atividade 4Atividade 4a) Você deve ter notado que, até a página...
TeoriaePrática7•Unidade243INDO À SALA DE AULAb) Depois dessa análise, que atividade você poderia propor para a classe?____...
TeoriaePrática7•Unidade244• a apresentação das cenas (verificar se a cena dá uma visão geral do ambienteou restringe-se à ...
TeoriaePrática7•Unidade245SeçãoSeçãoSeçãoSeçãoSeçãoOs teOs teOs teOs teOs textos em prxtos em prxtos em prxtos em prxtos e...
TeoriaePrática7•Unidade246nho azul. Vicente encontrou o cavalinho e voltou para casa, galopando nele.Leia o trecho inicial...
TeoriaePrática7•Unidade247AtiAtiAtiAtiAtividade 7vidade 7vidade 7vidade 7vidade 7Na conversa inicial desta seção, você viu...
TeoriaePrática7•Unidade248b) Observe as palavras e expressões que o narrador emprega para contar a história:Andava pelas e...
TeoriaePrática7•Unidade249INDO À SALA DE AULACertamente você levou em conta a forma como o narrador articula a história: e...
TeoriaePrática7•Unidade250• O assunto é apresentado de forma suficientemente aberta, de modo a permi-tir aos alunos desenv...
TeoriaePrática7•Unidade251O título, o início da história, o diálogo de Vicente com seu cavalinho, bem como alinguagem util...
TeoriaePrática7•Unidade252SeçãoSeçãoSeçãoSeçãoSeçãoOs teOs teOs teOs teOs textos teaxtos teaxtos teaxtos teaxtos teatraist...
TeoriaePrática7•Unidade253Vamos ler o trecho inicial da peça teatralO Cavalinho Azul, de Maria Clara Machado1 ato e 9 cena...
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TeoriaePrática7•Unidade255pouco sujo hoje, mas é porque a água do nosso rio está quase seca, não lava maisdireito, (Para o...
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  1. 1. PROGRAMA GESTÃO DAAPRENDIZAGEM ESCOLARGESTAR ILÍNGUA PORTUGUESACADERNO DE TEORIA E PRÁTICA 7LITERATURA INFANTIL
  2. 2. MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃOSECRETARIA DE EDUCAÇÃO BÁSICAFUNDO NACIONAL DE DESENVOLVIMENTO DA EDUCAÇÃODIRETORIA DE ASSISTÊNCIA A PROGRAMAS ESPECIAISPROGRAMA GESTÃO DAAPRENDIZAGEM ESCOLARGESTAR ILÍNGUA PORTUGUESACADERNO DE TEORIA E PRÁTICA 7LITERATURA INFANTILBRASÍLIA2007
  3. 3. © 2007 FNDE/MECTodos os direitos reservados ao Ministério da Educação - MEC.Qualquer parte desta obra pode ser reproduzida desde que citada a fonte.DIPRO/FNDE/MECVia N1 Leste - Pavilhão das Metas70.150-900 - Brasília - DFTelefone (61) 3966-5902 / 5907Página na Internet: www.mec.gov.brIMPRESSO NO BRASIL
  4. 4. SumárioSumárioSumárioSumárioSumárioSumárioSumárioSumárioSumárioSumárioTP7 : LiteraTP7 : LiteraTP7 : LiteraTP7 : LiteraTP7 : Literatura Infantiltura Infantiltura Infantiltura Infantiltura InfantilAPRESENTAÇÃO ................................................................................................................................. 7UNIDADE 1: Literatura infantil: conceito e especificidades................................................................. 9SEÇÃO 1: Os conceitos de literatura e de texto literário ............................................................ 10SEÇÃO 2: O gênero “literatura infantil”: origens e evolução...................................................... 17SEÇÃO 3: A literatura infantil brasileira: dos anos 70 até nossos dias ....................................... 26UNIDADE 2: Modalidades de textos de “literatura infantil”........................................................ 37SEÇÃO 1: Os textos visuais .......................................................................................................... 38SEÇÃO 2: Os textos em prosa ...................................................................................................... 45SEÇÃO 3: Os textos teatrais ......................................................................................................... 52UNIDADE 3: Atividades didáticas de leitura e interpretação de textos de literatura infantil ..... 65SEÇÃO 1: Atividades de leitura e interpretação de textos visuais ..................................................... 66SEÇÃO 2: Atividades didáticas de leitura e interpretação de textos em prosa ........................... 75SEÇÃO 3: Atividades de leitura e interpretação de textos teatrais ............................................. 83CorCorCorCorCorrrrrreção das aeção das aeção das aeção das aeção das atititititividades de estudovidades de estudovidades de estudovidades de estudovidades de estudoUNIDADE 1................................................................................................................................... 99UNIDADE 2................................................................................................................................. 102UNIDADE 3................................................................................................................................. 106OfOfOfOfOficinas de Ficinas de Ficinas de Ficinas de Ficinas de Fororororormação de Professormação de Professormação de Professormação de Professormação de ProfessoresesesesesSessão Presencial Introdutória .............................................................................................. 115Sessão Presencial Semanal: UNIDADE 1 .................................................................................... 117Sessão Presencial Semanal: UNIDADE 2 .................................................................................... 119Sessão Presencial Semanal: UNIDADE 3 .................................................................................... 121Anexos ................................................................................................................................... 123
  5. 5. ApresentaçãoProfessorNos cadernos anteriores, estudamos as características de vários tipos de textos –narrativo, história em quadrinhos, jornalístico, publicitário, poético, epistolar e infor-mativo – e pensamos nas diferentes maneiras de utilizá-los em sala de aula.Chegou o momento de pensarmos em como levar nossos alunos a identificarem oque caracteriza um texto literário. Para isso, teremos que discutir o conceito de litera-tura e situar o gênero a que se costuma chamar “literatura infantil”. É disso que trata-remos neste novo caderno.Geralmente se reconhece a importância da literatura infantil; sabemos que deveestar presente na escola, em casa, nas bibliotecas, mas sabemos também que nemsempre é utilizada de forma adequada. Há muito a fazer para melhorar os conheci-mentos dos professores sobre a literatura infantil. Todos nós queremos promovermudanças no tratamento desse assunto, mas estamos cientes de que as dificuldadessão inúmeras, principalmente devido ao desconhecimento.Nosso propósito, portanto, é mostrar que a literatura infantil não pode ser reduzi-da a exercícios de ensino da gramática ou a outros tipos de abordagem que privilegi-am o caráter educativo do livro para crianças. É preciso oferecer aos alunos a oportu-nidade de conviverem com textos cuja leitura seja fonte de prazer, de contato com alíngua e suas variedades, de conhecimento dos atos e dos sentimentos humanos.Na Unidade 1, discutiremos, primeiramente, os conceitos de texto literário e deliteratura. Em seguida, traçaremos um breve histórico da literatura infantil brasileirae identificaremos os traços temáticos e estilísticos dos textos que compõem o universoda literatura infantil.Na Unidade 2, estudaremos três modalidades de textos da literatura infantil – osque se apresentam apenas por meio de imagens, os textos em prosa e os textos tea-trais. Veremos que a imagem assume uma dimensão especial no texto da literaturainfantil e, assim sendo, o trabalho do ilustrador deve ser considerado, antes de tudo,como o de um criador de linguagens.Na Unidade 3, para que você possa aprimorar seu trabalho em sala de aula, serãoapresentadas sugestões de atividades de leitura e de produção que envolvem as trêsmodalidades de textos da literatura infantil analisadas na Unidade 2.Esperamos que você desenvolva um bom trabalho.
  6. 6. TeoriaePrática7•Unidade1911 Literatura infantil:conceito e especificidadesINICIANDO NOSSA COINICIANDO NOSSA COINICIANDO NOSSA COINICIANDO NOSSA COINICIANDO NOSSA CONVERSANVERSANVERSANVERSANVERSANesta primeira unidade, vamos estudar os conceitos de texto literário e de literatu-ra, buscando definir o gênero “literatura infantil”, suas origens e evolução, e asespecificidades do texto produzido para o destinatário criança. Pensaremos nas finali-dades do trabalho com a literatura infantil na escola e nos critérios que devem guiar aseleção dos textos a serem utilizados em atividades de leitura e produção.Na seção 1, vamos abordar algumas características que nos levam a classificar umtexto como literário, estabelecendo confrontos com textos não-literários. Definiremosliteratura como uma forma de arte que nos permite vivenciar e recriar experiências,experimentar sentimentos e emoções.Na seção 2, vamos traçar um breve histórico do gênero a que costumamos chamar“literatura infantil”, identificando suas origens e evolução e ressaltando o papel deMonteiro Lobato na formação da literatura infantil brasileira.Na seção 3, trataremos das mudanças que ocorreram a partir dos anos 70 e identi-ficaremos as novas tendências que marcam os textos da literatura infantil brasileira.Pensaremos nos interlocutores desses textos e na relação que se estabelece entre eles,ou seja, entre o adulto, que produz o texto com finalidades educacionais e/ou estéti-cas, e a criança, destinatário principal desse texto. Analisaremos a linguagem empre-gada e os traços temáticos e estilísticos mais comuns dos textos voltados para o públi-co infantil.DEFININDO NOSSO PODEFININDO NOSSO PODEFININDO NOSSO PODEFININDO NOSSO PODEFININDO NOSSO PONTNTNTNTNTO DE CHEGO DE CHEGO DE CHEGO DE CHEGO DE CHEGADADADADADAAAAAEsperamos que, no final desta unidade, você possa:a) identificar os elementos que caracterizam um texto literário;b) descrever as origens e a evolução do gênero “literatura infantil”;c) distinguir os traços temáticos e estilísticos de textos da literatura infantil brasilei-ra moderna e contemporânea.
  7. 7. TeoriaePrática7•Unidade110Seção 111Os conceitos de literatura e de texto literárioObjetivo a ser alcançado no final desta seção:• Identificar os elementos que caracterizam um texto literário.ProfessorQuem não se lembra de uma história interessante, que foi contada, na infância,pelos pais, avós, tios, mestres, ou que foi apresentada no cinema ou na televisão? Equem esquece os poemas que aprendeu a declamar quando era criança?Contos, fábulas, romances, poemas estão muito presentes em nossa vida. Esses tex-tos nos proporcionam prazer, diversão, conhecimentos e experiências de vida. Sabe-mos reconhecer os elementos que caracterizam esses tipos de textos e temos até nos-sas preferências por alguns deles. Muitas vezes, ao lermos um poema, um romance,um texto teatral, reconhecemos situações que vivemos ou que gostaríamos de viver,compreendemos o que é adequado ou não para a convivência em sociedade, conhece-mos, enfim, os seres humanos.Pensar nesses textos, que nos proporcionam toda essa vivência, é pensar em litera-tura. É pensar também no papel do professor, que deve estimular a formação de leito-res apreciadores de literatura.Atividade 1Atividade 1Atividade 1Atividade 1Atividade 1a) Exponha, nas linhas abaixo, o modo como você costuma trabalhar na escola paraque os alunos desenvolvam o interesse e o gosto pela leitura. (É muito importante quevocê relate sua experiência, sem preocupar-se com críticas. Nossa intenção é que vocêfaça uma avaliação constante de seu trabalho em sala de aula e observe se as suges-tões aqui apresentadas podem contribuir para aprimorar seu desempenho como pro-fessor.)________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________
  8. 8. TeoriaePrática7•Unidade111b) Agora, procure explicar como você diferencia um texto literário de um texto não-literário.______________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________Se foi difícil responder, não se preocupe. Esta seção foi organizada para que vocêcompreenda os critérios que, em geral, são usados para caracterizar o texto literário.Para isso, precisamos definir bem o que é literaliteraliteraliteraliteraturaturaturaturatura.É comum encontrarmos a definição de literatura como uma forma de arte. Assimcomo a pintura é a arte dos traços e das cores, a música, a arte dos sons, a dança, a artedos movimentos, a literatura é a “arte da palavra”. Como todas as artes, a literaturanos faz pensar no homem e no universo.Pensemos no trabalho de um artista. Ao criar uma pintura, ele retrata a visão quetem do mundo, das pessoas, dos acontecimentos. Essa visão é única, pessoal. Cadaartista tem um modo individual (um estilo) de retratar a sua época.Atividade 2Atividade 2Atividade 2Atividade 2Atividade 2Observe atentamente a pintura abaixo, do famoso pintor francês Auguste Renoir(1841-1919). Repare nas figuras humanas, observe bem as expressões de seus rostos, oambiente em que se encontram, o que fazem. Em seguida, escreva tudo o que a pintu-ra sugere a você.______________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________Das Frühstück: Pierre und Jean Renoir, 1898. London, Sammlung Lady Marks.
  9. 9. TeoriaePrática7•Unidade112Quem observa a obra de um pintor, como, por exemplo, essa de Renoir, pode reco-nhecer ali acontecimentos e experiências que já viveu ou imaginou e pode experimen-tar sentimentos e emoções (alegria, prazer, dor, medo etc.), que são únicos, pessoais,como são os do artista. Este, por meio de traços e cores, nos permite recriar o mundoa partir do que observamos. Assim, podemos imaginar as atividades, as funções, omodo de ser das três figuras humanas retratadas; o local onde se encontram e ostraços desse ambiente. Percebemos os planos mais próximos e os mais distantes eassim por diante.Vamos fazer uma comparação dessa experiência com a que a literatura nos propor-ciona. A literatura permite ao leitor, por meio da interação com o texto, tomar contatocom uma série de experiências, de conhecimentos, de impressões, que os homensforam acumulando com o passar dos séculos. É como se esse conhecimento estivesseguardado em nossa memória até o momento em que o reconhecemos nas manifesta-ções artísticas. Esse reconhecimento é que provoca o prazer, faz sonhar, permite mui-tas interpretações e recriações.A literatura é feita de palavras – o mesmo material, portanto, de que são feitos osartigos científicos, as reportagens jornalísticas, as correspondências comerciais – mas,na literatura, as palavras são manipuladas de forma especial.Observe como um poeta define a poesia, no seguinte texto:ConvitePoesiaé brincar com palavrascomo se brincacom bola, papagaio, pião.Só quebola, papagaio, piãode tanto brincarse gastam.As palavras não:quanto mais se brincacom elasmais novas ficam.Como a água do rioque é água sempre nova.Como cada diaque é sempre um novo dia.PAES, José Paulo. Poemas para brincar. São Paulo: Atica, 1990.
  10. 10. TeoriaePrática7•Unidade113Imagine quantas coisas podemos mostrar aos alunos para que percebam o modocomo o texto é organizado, como as palavras se combinam para dar um ritmo especialao texto e para levar o leitor a imaginar, a recriar situações.Atividade 3Atividade 3Atividade 3Atividade 3Atividade 3Pense na sua experiência em sala de aula e no que você já estudou sobre o poemano caderno Teoria e Prática 6.Para trabalhar o poema de José Paulo Paes com seus alunos, o que é preciso anali-sar? Descreva a atividade que você pode propor.____________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________É bom lembrar que as primeiras manifestações literárias se deram em forma depoesia. A literatura, portanto, tem origem na poesia. As histórias antigas de grandesbatalhas ou de viagens extraordinárias, em que os heróis são muitas vezes descenden-tes dos deuses e realizam ações sobre-humanas, salvando até nações, foram escritasem forma de poemas. Você já deve ter ouvido falar nos dois maiores poemas da Gréciaantiga, a Ilíada e a Odisséia. Esses textos, que são o resultado de uma longa tradiçãooral de histórias e lendas, foram escritos em versos, pois dessa forma poderiam sermemorizados mais facilmente e preservados de geração em geração.É importante lembrar que, assim como todas as artes sofreram e sofrem transfor-mações ao longo do tempo, a literatura também passou e passa por mudanças cons-tantes. Há muitas diferenças entre obras literárias de épocas diferentes. O conjuntodessas obras de diferentes épocas nos permite compreender a literatura de hoje, queinfluencia nosso modo de pensar e de agir.Ao produzir um texto literário, o autor organiza a mensagem, recriando certos con-teúdos. Para isso, faz uso de variados recursos, de acordo com o tipo de texto queproduz. Escolhe com rigor as palavras, combina-as para dar ritmo e sonoridade aotexto, descreve situações, apresenta os personagens e suas ações e pensamentos. Notexto literário, não importa apenas o que se vai ser dito, mas o modo como se vai dizer.
  11. 11. TeoriaePrática7•Unidade114A linguagem que caracteriza o texto literário éuma linguagem plurissignifplurissignifplurissignifplurissignifplurissignificaicaicaicaicatititititivavavavava, isto é, apresentamuitos significados; é conotaconotaconotaconotaconotatititititivavavavava. Nesse tipo de texto, omodo como o assunto vai ser tratado é tão importantequanto o conteúdo a ser transmitido. O texto literárioexige, portanto, um leitor preparado para essa lingua-gem que sugere, que admite interpretações diferentes.Podemos afirmar que o texto literário tem umafunção estéticafunção estéticafunção estéticafunção estéticafunção estética, enquanto o não-literário tem uma fun-fun-fun-fun-fun-ção utilitáriação utilitáriação utilitáriação utilitáriação utilitária (pretende informar, provar, convencer).Vamos, então, confrontar dois textos em prosa para identificar qual deles é umtexto literário.TEXTO 1O Estado de S.Paulo. Caderno Telejornal, 7/10/01, ano 10, No 487, p.T8
  12. 12. TeoriaePrática7•Unidade115TEXTO 2Pôr de sol de trombetaO pôr do sol de hoje é de trombeta – disse Emília, com asmãos na cintura, depezinha sobre o batente da porteira onde,naquela tarde, depois do passeio pela floresta, o pessoal de DonaBenta havia parado. Eles nunca perdiam ensejo de apro-veitar os espetáculos da natureza. Nas chuvasfortes, Narizinho ficava de nariz colado àjanela, vendo chover. Se ventava,Pedrinho corria à varanda com o binó-culo para espiar a dança das folhassecas – “quero ver se tem saci dentro”.E o Visconde dava as explicações cien-tíficas de todas as coisas.O pôr do sol daquele dia estava re-almente lindo. Era um pôr do sol detrombeta. Por quê? Porque Emília tinhainventado que em certos dias o Sol “to-cava trombeta a fim de reunir todos osvermelhos e ouros do mundo para a festado acaso”. Diante dum pôr de sol de trombetaninguém tinha ânimo de falar, porque tudo quan-to dissessem saía bobagem. Mas Dona Benta não se conteve.- Que maravilhoso fenômeno é o pôr do sol! – disse ela.Emília deu um pisco para o Visconde por causa daquele “fe-nômeno”, e resolveu encrencar.- Por que é que se diz “pôr do sol”, Dona Benta? – perguntoucom o seu célebre ar de anjo de inocência. – Que é que o Sol põe?Algum ovo?Dona Benta percebeu que aquilo era uma pergunta-ar-madilha, das que forçavam certa resposta e preparavam o terre-no para o famoso “então” da Emília.- O sol não põe nada, bobinha. O sol põe-se a si mesmo.- Então ele é o ovo de si mesmo. Que graça!LOBATO, Monteiro. A chave do tamanho, In Obra infantil completa. Vol. 3.Edição Centenário (1882-1982), São Paulo: Brasiliense, p.1105.
  13. 13. TeoriaePrática7•Unidade116INDO À SALA DE AULAAtividade 4Atividade 4Atividade 4Atividade 4Atividade 4a) Indique qual dos dois textos (texto 1 ou texto 2) é literário e explique por que vocêchegou a essa conclusão.______________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________b) Agora, explique por que o outro texto não é literário.______________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________c) Compare as duas respostas anteriores com a resposta que você deu ao item bbbbb daAtiAtiAtiAtiAtividade 1vidade 1vidade 1vidade 1vidade 1 desta seção e responda:A forma de você definir um texto literário mudou com a leitura dos textos A volta doSítio do picapau e Pôr de sol de trombeta? Explique._____________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________É fácil perceber em qual dos dois textos o escritor se preocupa com o plano daexpressão, utilizando uma linguagem mais subjetiva, escolhendo e combinando aspalavras de modo a “jogar” com a imaginação do leitor, levando-o a também imaginare recriar experiências. Sua intenção é proporcionar prazer e diversão ao leitor e, aomesmo tempo, instigá-lo a questionar, a descobrir outros caminhos e soluções para osproblemas.Uma atividade interessante para levar os alunos a diferenciarem o texto literáriodo não-literário é solicitar que eles criem, a partir de um tema dado (escolha sempreum assunto que seja do interesse das crianças), um texto narrativo ou poético (ou osdois) e um texto informativo (depois de pesquisarem o assunto em livros, jornais,revistas ou outras fontes). Se a turma puder ser dividida em vários grupos, incluatambém na atividade o texto jornalístico. Dessa forma, os alunos terão também aoportunidade de identificar os elementos que envolvem a produção de cada tipo detexto.
  14. 14. TeoriaePrática7•Unidade117O texto literário é diferente de um texto cujas finalidades são informar, explicar,expor dados com exatidão, para esclarecer o leitor. Esse texto, não-literário, apresentauma linguagem mais objetiva, que não deixa espaço para mais de uma interpretação.Seu autor mostra-se mais preocupado com o conteúdo a ser transmitido do que com oplano da expressão. O leitor não é “chamado” a fazer parte do texto; situa-se externa-mente a ele.Para compreendermos o conceito de texto literário, devemos entenderbem o que é literatura.A literatura pode ser definida como uma forma de arte, a arte da palavra. Ela nospermite vivenciar e recriar acontecimentos e experiências, experimentar sentimen-tos e emoções.O texto literário é aquele que apresenta uma linguagem subjetiva, conotativa,plurissignificativa (que admite muitos significados). Por isso dizemos que o textoliterário tem uma função estética. Sua finalidade, em geral, é proporcionar ao leitorprazer, diversão, conhecimento e experiências vividas num mundo imaginário, in-ventado.O texto não-literário apresenta uma linguagem objetiva, precisa, que não admiteinterpretações diversas. Quem produz um texto não-literário, em geral, quer trans-mitir um conteúdo, apresentando dados, expondo fatos do mundo real. É um textoque tem função utilitária.Seção 222O gênero “literatura infantil”: origens eevoluçãoObjetivo a ser alcançado no final desta seção:- descrever as origens e a evolução do gênero “literatura infantil”.ProfessorQuanto mais nossos alunos tiverem contato com variados tipos de textos, fazendosua própria seleção, manuseando e conhecendo os livros, mais facilmente eles pode-rão adquirir o gosto e o interesse pela leitura.
  15. 15. TeoriaePrática7•Unidade118Se a maioria dos textos que circulam entre os alunos dos primeiros anos do ensinofundamental compõe o gênero a que chamamos literatura infantil, devemos compre-ender bem o que caracteriza essa literatura, entender como se formou, saber quaisforam seus principais momentos, os autores mais importantes e as obras que devemosselecionar para a leitura e o trabalho em sala de aula. Trataremos desses assuntosnesta seção.Vamos partir das seguintes reflexões: é possível falarmos de um tipo de literaturaque só agrade ao público infantil e outra que só agrade ao público jovem ou adulto?As histórias da literatura infantil não agradam também aos adultos? O que caracterizaa literatura infantil?Atividade 5Atividade 5Atividade 5Atividade 5Atividade 5Pense na sua experiência com os alunos e nos textos que você utiliza em suas aulas.Você conhece as preferências das crianças, sabe como elas se comportam diante doslivros. Responda, então:Para que as crianças se interessem pela leitura, que características as obras de lite-ratura infantil devem ter?______________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________É importante lembrarmos a definição de literatura como uma forma de recriar omundo, de apelar para a imaginação do leitor, de permitir que ele reconheça no textosuas próprias experiências de vida e experimente emoções e sentimentos.Quando se trata dos textos para crianças, imediatamente pensamos na espécie deleitor que os autores esperam atingir. Isso determina a inclusão de certos textos nogênero denominado literatura infantil. A origem dessa literatura se vincula ao apareci-mento desse público. Sua história compreende as transformações pelas quais se podeperceber o tratamento que se deu e se dá à infância.
  16. 16. TeoriaePrática7•Unidade119Há dois modos de compreender a literatura infantil. Por um lado, ela revela a preo-cupação do adulto em relação à criança. Intencionalmente ou não, o interlocutor-adultoinfluencia o interlocutor-criança, passando-lhe valores ideológicos. Dessa forma, o textoassume um caráter pedagógico.De outro lado, quando esses textos se comprometem com o interesse da criança,passam a ser um meio de acesso ao real, pois podem permitir que ela ordene suasexperiências e conhecimentos. É uma forma efetiva de desenvolver a linguagem, entreoutros benefícios. Além disso, esses textos em geral transitam do real para o maravi-lhoso, incorporam imagens e ilustrações e admitem modalidades próprias, como oconto de fadas ou a história com personagens animais.Existe, naturalmente, entre os interlocutores desses textos (adulto e criança), umadistância na capacidade de compreender o mundo, de captar conteúdos abstratos e dedominar plenamente a linguagem. Assim, o adulto-escritor procura reduzir essa dis-tância, adaptando os assuntos às experiências e conhecimentos da criança. Usa umvocabulário e construções sintáticas que devem estar ao alcance da compreensão des-se leitor e utiliza, para compor o significado geral do texto, recursos gráficos, imagens,ilustrações, muitas cores etc. Ele deve oferecer espaço para que a criança exercite aimaginação, crie, descubra.Muitos autores se dedicaram a escrever obras sobrea literatura infantil, nas quais você encontrará textosteóricos e práticos que podem ajudá-lo no seu trabalhoem sala de aula. Esses autores apresentam sugestõespara a seleção e para a análise dos textos destinados àscrianças. Eis as capas de algumas dessas obras:
  17. 17. TeoriaePrática7•Unidade120Breve histórico da literatura infantil. Das origens a Monteiro LobatoAs obras que aparecem como pioneiras na história da litera-tura infantil são aquelas que, no século XVII, eram considera-das adequadas ou apropriadas às crianças: entre outras, naFrança, as Fábulas, de La Fontaine (inspiradas na tradição defábulas de Esopo e também nas indianas) e os Contos de Ma-mãe Gansa, de Charles Perrault, que recolheu e adaptou his-tórias folclóricas muitas vezes inspiradas nos contos de fa-das que deviam ser populares na época. Algumas das fa-mosas histórias de Perrault são: O Gato de Botas, ABorralheira, Barba Azul etc.No século XVIII, começaram a ser publicadas, na Euro-pa, as obras que se destinavam especialmente ao públi-co infantil. Muitas dessas obras assumiam um caráterpedagógico, portanto eram vinculadas essencialmenteà educação das crianças. Outras eram adaptações detextos clássicos, como, por exemplo, os romances deaventuras Robinson Crusoé, de Daniel Defoe, e Viagens de Gulliver,de Jonathan Swift.São do século XIX os famosos contos dos irmãos Grimm, da Alemanha (A Bela Ador-mecida, Os Sete Anões e a Branca de Neve, Os Músicos de Bremen, O Chapeuzinho Verme-lho, A Gata Borralheira), os contos do dinamarquês H.C. Andersen (A Sereiazinha, OPatinho Feio, A Pequena Vendedora de Fósforos, A Roupa Nova do Imperador), As Aven-turas de Pinóquio, do italiano Collodi, Alice no País das Maravilhas, do inglês LewisCarroll, entre muitas outras obras e coleções.Atividade 6Atividade 6Atividade 6Atividade 6Atividade 6Dentre as obras acima citadas, é provável que você conheça algumas. É possível atéque as utilize em aula. Descreva o modo como você as apresenta às crianças, indiqueas histórias de que elas mais gostam, enfim, mostre sua experiência com esses textosna escola. Se não as utiliza, explique a razão.________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________No Brasil, até o final do século XIX, as obras destinadas às crianças eram traduçõesque chegavam principalmente de Portugal, muitas delas com objetivos bem definidosde educar e moralizar e, secundariamente, divertir. Em 1894, por exemplo, AlbertoFigueiredo Pimentel publicou os Contos da Carochinha, uma coleção de 40 contos po-pulares, traduzidos ou adaptados de outros povos, entre os quais alguns de Perrault,Grimm e Andersen.
  18. 18. TeoriaePrática7•Unidade121No século XX, precisamente em 1921, acontecea publicação da obra A menina do narizinho arre-bitado, de Monteiro Lobato, que inaugura a pro-dução regular brasileira de obras destinadas àscrianças.Atividade 7Atividade 7Atividade 7Atividade 7Atividade 7Nas linhas abaixo, descreva sua experiên-cia com as obras de Monteiro Lobato. (Mos-tre se já leu alguma delas, se assistiu ao se-riado O sitio do Picapau Amarelo, se reco-mendou a leitura das obras de Lobato aosalunos, se analisou com eles algum texto,enfim, exponha o que achar importantesobre essa experiência. Se não leu ou nãoutiliza os textos de Lobato, diga por queisso ocorreu ou ocorre.)__________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________Foi com Monteiro Lobato que, em nosso país, se começou a adquirir a consciênciade que a literatura infantil não deve ser considerada um gênero menor ou subliteratura.Em suas obras destinadas aos públicos infantil e juvenil, Lobato discute temas históri-cos, narra inúmeros contos e lendas de nosso folclore e cria aventuras de um mundoimaginário, maravilhoso. Além disso, traz para o universo infantil assuntos e temasque antes eram reservados ao público adulto. Consegue, em suas obras, expressar suapreocupação com os problemas do Brasil e do mundo, apresentando, nas discussõesdesses temas, o ponto de vista da criança ao lado ou em confronto com o do adulto.Um bom caminho para que os alunos, mesmo os menores, se familiarizem com ostextos de Lobato é contar-lhes (ou ler oralmente) alguns episódios narrados nas inú-meras obras do autor (Reinações de Narizinho, Caçadas de Pedrinho, O Saci, Memó-rias de Emília, A Chave do Tamanho, A Reforma da Natureza, O Minotauro, Fábulas etantas outras). Para alunos de 3oe 4oanos, você pode sugerir que eles mesmos pre-parem a leitura ou que dramatizem os textos. Se eles assistirem ao seriado O sítio doPicapau Amarelo, apresentado na TV, vão conseguir dramatizar os textos mais facil-mente.INDO À SALA DE AULA
  19. 19. TeoriaePrática7•Unidade122Leia um trecho de uma das obras de Lobato. Observe bem a linguagem que eleapresenta.O irmão de Pinóquio— Coitada de vovó! – disse um dia Narizinho. De tanto contar históriasficou que nem bagaço de caju; a gente espreme e não sai mais nem umpingo.Era a pura verdade aquilo – tão verdade que a boa senhora teve de escre-ver a um livreiro de São Paulo, pedindo que lhe mandasse quanto livro fosseaparecendo. O livreiro assim fez. Mandou um e depois outro e depois outro epor fim mandou o Pinóquio.— Viva! – exclamou Pedrinho quando o correio entregou o pacote. Voulê-lo para mim só, debaixo da jabuticabeira.— Alto lá! – interveio dona Benta. Quem vai ler o Pinóquio para quetodos ouçam, sou eu, e só lerei três capítulos por dia, de modo que o livrodure e nosso prazer se prolongue. A sabedoria da vida é essa.— Que pena! – murmurou o menino fazendo bico. Não fosse a tal sa-be-do-ri-a da vida, que nunca vi mais gorda, e hoje mesmo eu dava conta dolivro e ficava sabendo toda a história do Pinóquio. Mas não! Temos de ir natoada de carro de boi em dia de sol quente – nhen, nhen, nhen...Sua zanga, porém, não durou muito, e assim que chegou a noite e tiaNastácia acendeu o lampião e gritou o “É hora!”, ninguém se mostrava maisassanhado que ele.— Leia da sua moda, vovó! – pediu Narizinho.A moda de dona Benta ler era boa. Lia “diferente” dos livros. Como quasetodos os livros para crianças que há no Brasil são muito sem graça, cheios determos do tempo da onça ou só usados em Portugal, a boa velha lia tradu-zindo aquele português de defunto em língua do Brasil de hoje. Onde estava,por exemplo, “lume”, lia “fogo”; onde estava “lareira” lia “varanda”. E sem-pre que dava com um “botou-o” ou “comeu-o”, lia “botou ele”, “comeu ele” –e ficava o dobro mais interessante.LOBATO, Monteiro. Reinações de Narizinho, in Obra Infantil Completa. Vol. 1. Ed. Centenário(1882-1982). São Paulo: Brasiliense, p.102.
  20. 20. TeoriaePrática7•Unidade123Atividade 8Atividade 8Atividade 8Atividade 8Atividade 8a) Leia a seguinte afirmação:No texto que acabamos de ler, Lobato utiliza uma linguagem predominante-mente coloquial, simples e clara, marcada pelo tom de oralidade e pela explora-ção das várias possibilidades que a língua oferece para representar o ambientede conversa, de comunicação entre os personagens.Você concorda com essa afirmação? Justifique.______________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________b) O autor faz no texto uma crítica aos livros de literatura infantil de sua época. Oque ele diz sobre essas obras?______________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________As obras de Monteiro Lobato apresentam uma linguagem bem próxima da realida-de, tanto no discurso do narrador quanto na fala dos personagens. Você deve ter nota-do que a intenção de Lobato é mostrar o prazer de se comunicar, de contar e de ouvirhistórias, de trocar idéias. Suas obras tiveram grande aceitação por parte do público-leitor, razão pela qual foram publicadas sucessivas vezes. Dominaram, durante longotempo, o universo de livros destinados a crianças e jovens de nosso país e serviram demodelo a muitos outros escritores.Na época de Lobato, surgiram escritores que fica-ram famosos e cujas obras até hoje circulam entre nós.Eles também discutiram temas históricos, de inspira-ção folclórica e de aventuras, voltados para o públicojovem. É o caso de Graciliano Ramos (Alexandre eoutros heróis; A terra dos me-ninos pelados), José Lins doRego (Histórias da velhaTotônia); Viriato Correia (His-tória do Brasil para crianças,Cazuza), Érico Veríssimo (Asaventuras de Tibicuera; Ostrês porquinhos pobres), en-tre outros.
  21. 21. TeoriaePrática7•Unidade124Nessa época também muitos autores recorriam a animais como personagens desuas obras. O próprio Lobato apresentava animais falantes em seus textos: o porcoRabicó, o burro falante, o rinoceronte Quindim etc. Isso sem falar na boneca de panoEmília, no sabugo de milho, o sábio Visconde de Sabugosa, na Cuca. Mas, nos textos deLobato, os animais e bonecos não substituem as crianças; pelo contrário, convivemcom elas, dividindo as aventuras, os sentimentos e emoções.Leia um pequeno trecho da obra de uma autora que viveu na época de Lobato erepare como são utilizados os animais.Samba tem uma idéiaO cachorrinho ficou pensativo. Se nãohavia bicho algum mais forte que a Onça, haveriaalgum mais astuto e de qualquer modo ela seriaeliminada.A Macaca-de-Cheiro suspirou:— Tudo isso veio acontecer justamente na véspera do casamento de mi-nha filha. Que azar!O marido encorajou-a:— Vamos ter confiança e esperar. Quem sabe a Onça vai morrer e aindafestejaremos o casamento de nossa filha!— Qual! Já estou perdendo as esperanças. E o banquete que estávamospreparando ia ser uma coisa louca. Ia ter de tudo nesse banquete, tudo quese possa imaginar. A orquestra estava encomendada, os canários ensaiavamhá muitos dias...Quando os bichos ouviram falar em banquete, começaram a passar alíngua nos lábios, imaginando as coisas gostosas que iriam comer. Todosficaram ainda com mais raiva da Onça.DUPRÉ, M. J. O cachorrinho Samba na Floresta. 6ª ed. São Paulo: Ática, 1984, p.47, 1ª ed. 1940.Atividade 9Atividade 9Atividade 9Atividade 9Atividade 9A ler o texto, percebemos que os animais se comportam exatamente como sereshumanos. O que nos faz perceber isso?______________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________O cachorrinho Samba é um personagem que, a partir de 1940, aparece em várias
  22. 22. TeoriaePrática7•Unidade125obras de Maria José Dupré. Narrativas como essa certamente foram inspiradas nasfábulas e contos de fadas, cujas origens se perdem no tempo e que, muitas vezes,trazem, como personagens, animais que “representam” seres humanos.Samba desobedece aos donos, perde-se na floresta, passa por maus momentos,luta para voltar e, enfim, consegue. O cachorrinho, animal pequeno, doméstico, repre-senta a criança, a quem era preciso transmitir ensinamentos e modelos de comporta-mento, já que era considerada uma criatura frágil e incapaz de pensar por si mesma.Em geral, os valores transmitidos às crianças, naquela época, eram os valores do mun-do dos adultos e um desses valores era a obediência.Atividade 10Atividade 10Atividade 10Atividade 10Atividade 10Releia o texto de Maria José Dupré e observe atentamente a linguagem que elautiliza.Assinale com um (X) a alternativa correta.O texto apresenta palavras e expressões muito próximas da oralidade, do tomde conversa que acontece geralmente entre amigos, entre marido e mulher;a autora utiliza, portanto, um padrão coloquial de linguagem.A autora optou por utilizar um padrão mais próximo ao padrão culto da lín-gua, tanto para representar o discurso do narrador, quanto para mostrar afala dos personagens; não há, assim, uma preocupação em representar fiel-mente o “tom de conversa”, o diálogo entre os amigos.Justifique sua escolha.______________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________Se compararmos o texto de Maria José Dupré com os de Monteiro Lobato que jálemos aqui, vamos perceber o pioneirismo de Lobato, sua atitude renovadora, apoia-da no diálogo, como forma de ensino, no apego ao conhecimento, na busca de solu-ções, e, sobretudo, na aposta na capacidade da criança de contribuir para a transfor-mação da sociedade.
  23. 23. TeoriaePrática7•Unidade126As primeiras obras européias destinadas ao público infantil surgiram no sé-culo XVIII. Eram obras voltadas principalmente para a educação da criança.É no século XX que se inaugura a produção brasileira de obras especialmentevoltadas para as crianças. O ponto de partida é a publicação, em 1921, da obra Amenina do narizinho arrebitado, de Monteiro Lobato.Nos textos de Lobato destinados aos públicos jovem e infantil, a linguagem ébem próxima da realidade; é a linguagem das narrativas orais dos serões domésticos.A finalidade desses textos é mostrar o prazer de contar e ouvir histórias, de trocaridéias, de procurar soluções alternativas para os problemas do dia-a-dia, do país edo mundo.As obras de Lobato serviram de modelo a muitos escritores de sua época e inspi-ram até hoje autores que se preocupam em produzir obras que levem as crianças abuscar significados, a criar, a descobrir.Seção 3A literatura infantil brasileira: dos anos 70 aténossos diasObjetivo a ser alcançado no final desta seção:• Distinguir os traços temáticos e estilísticos de textos da literatura infantil brasi-leira moderna e contemporânea.ProfessorComo anunciamos no início deste caderno, nossa intenção é expor, aqui, um brevehistórico da literatura infantil, apontando os autores principais e os textos com osquais vale a pena trabalhar em sala de aula.Começamos esse histórico na seção 2; vamos retomá-lo, agora, verificando como seencontrava a literatura infantil brasileira nos anos 70 e identificando as principaistransformações que a partir dali marcaram os textos destinados às crianças.Nos anos 70, houve uma grande preocupação das autoridades educacionais com obaixo índice de leitura dos alunos. Assim, o Instituto Nacional do Livro (fundado em1937), em convênio com a iniciativa privada, começou a editar um grande número de
  24. 24. TeoriaePrática7•Unidade127obras da literatura infantil e juvenil, incentivando a publicação de novos títulos, patro-cinando novos autores e fazendo chegar às escolas essa produção.Já é possível imaginar como se desenvolveu, a partir dessa época, o mercado delivros destinados às crianças e aos jovens, quantas livrarias passaram a vender essasobras, quantos autores e ilustradores surgiram.Muitos autores, já famosos na época, como Cecília Meireles, Mário Quintana e ClariceLispector, que escreviam para o público não-infantil, passaram a produzir obras volta-das para crianças.Esse grande crescimento na produção de obras destinadas às crianças favoreceu oaperfeiçoamento das técnicas de editoração, a utilização mais adequada de recursosgráficos, o cuidado maior com as ilustrações.Outro aspecto que marca a literatura infantil nos anos 70 é que as obras apresenta-vam cada vez mais os problemas da sociedade contemporânea, a pobreza, o sofrimen-to infantil, a marginalização, os preconceitos, a injustiça social. Surgem obras comoJustino, o Retirante, de Odette de Barros Mott, Lando das Ruas, de Carlos de Marigny, ACasa da Madrinha, de Lygia Bojunga Nunes, Nó na Gar-ganta, de Mirna Pinsky. É pioneira na apresentação maisfiel da realidade social muitas vezes cruel e violenta aColeção do Pinto, inaugurada por Wander Piroli, com aobra O Menino e o Pinto do Menino, de 1975.Desaparecem os temas moralizantes, os valores auto-ritários e conservadores que eram comuns em épocasanteriores. Esses temas dão lugar ao humor, à ironia, àsaventuras policiais, à ficção científica. Os personagens,na maioria das vezes, são crianças que vivenciam osproblemas sociais e tentam resolvê-los.
  25. 25. TeoriaePrática7•Unidade128Vamos ler um trecho da obra História meio ao contrário, de Ana Maria Machado, de1979....E então eles se casaram, tiveram uma filhalinda como o raio de sol e viveram felizes parasempre...Tem muita história que acaba assim. Maseste é o começo da nossa. Quer dizer, se a gentetem que começar em algum lugar, pode muitobem ser por aí. Vai ser a história da filha des-ses tais que se casaram e viveram felizes parasempre. E a história dos filhos começa é nahistória dos pais. Ou na dos avós, bisavós,tataravós ou requetatatataravós – se alguémconseguir dizer isso e se lembrar de todas es-sas pessoas.Bem,temalguémquelembra.Índiolem-bra. Em muitas tribos, pelo menos. (...)Mas isso é coisa de índio. Homem branco hoje em dia não liga mais paraessas coisas. Prefere saber escalação de time de futebol, anúncio de televisão,capitais de países, marcas de automóveis e outras sabedorias civilizadas.Você sabe a história dos seus pais? E dos seus avós? E dos seus bisavós? Eutambém não sei muito não. Mas quando não sei invento.Tem gente que gosta, acha divertido. Tem gente que só quer saber de his-tórias muito exatas e muito bem arrumadinhas – então é melhor mudar dehistória, porque esta aqui é meio atrapalhada mesmo e toda ao contrário.Ela nem começou direito e já apareceram aí em cima uns índios que não têmnada a ver com a história. Mas é que eu gosto muito de índios e piratas (porisso adoro a história de Peter Pan) e toda hora eu lembro deles.Mas vamos começar de novo pelo começo.... E então eles se casaram, tiveram uma filha linda como um raio de sol eviveram felizes para sempre.MACHADO, Ana Maria. História meio ao contrário. São Paulo: Ática, 1979.Atividade 11Atividade 11Atividade 11Atividade 11Atividade 11a) Observe, primeiramente, a linguagem que a autora utiliza. Compare esse tipo delinguagem com a do texto de Maria José Dupré (O cachorrinho Samba), que você anali-sou na seção 2. Explique quais são as diferenças.______________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________
  26. 26. TeoriaePrática7•Unidade129b) No trecho que lemos da obra de Ana Maria Machado, fica clara a finalidade dotexto. Também o título (História meio ao contrário) mostra a intenção da autora. Expli-que qual é essa intenção.______________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________Ao iniciar a leitura do texto de Ana Maria Machado, você deve ter se lembrado doscontos de fadas que geralmente terminam com “..e foram felizes para sempre”.No texto História meio ao contrário, a autora dá um rumo diferente à história daprincesa, que começa exatamente onde terminam os contos de fada. Mas, ao longo dotexto, a autora reproduz situações vividas pelos personagens dos contos das históriastradicionais.Observe como essas situações aparecem, lendo estes outros trechos da mesma obrade Ana Maria Machado.Mamãe, que escuridão! Cadê tudo? Onde estão os jardins? A aldeia? Oscampos? Tudo sumiu... – choramingava a Princesa.— Não sei, minha filha, nunca pensei que uma coisa dessas pudesse acon-tecer. Mas não tenha medo, filhinha. Seu pai vai dar um jeito. Vamos lá parajunto dele.(...)Mas o Rei não se atrapalhava. Ele já devia ter lido muitas histórias de reis,princesas e dragões, sabia direitinho o que dizer:— Avise a todos que quem conseguir liquidar o monstro terá a mão deminha filha em casamento.(...)No dia seguinte, a novidade da aldeia era a chegada de um Príncipe vin-do de terras distantes a todo galope em seu veloz cavalo. Não era um Prínci-pe Encantado, mas a Pastora, que o tinha visto chegar, afirmava que eraum Príncipe Encantador.(...)Aí é que foi a surpresa. Porque o que a Princesa disse era coisaque ninguém esperava:— Meu real pai, peço desculpas. Mas se o casamento é meu,quem resolve sou eu. Só caso com quem eu quiser e quandoquiser. O Príncipe é muito simpático, valente, tudo isso. Masnós nunca conversamos direito.(...)Foi um deus-nos-acuda. O Rei gritou, urrou, esbravejou. ARainha explicou que todas as princesas das histórias casamcom os príncipes que vencem os dragões e os gigantes. E queos dois vivem felizes para sempre.Não adiantou nada. A Princesa olhava a Pastora, via comoera bonita aquela moça de olhar firme e cabeça levantada, einsistia:— Nada disso. Minha história quem faz sou eu. Posso até casar comesse Príncipe. Mas só se ele e eu quisermos muito.(...)
  27. 27. TeoriaePrática7•Unidade130INDO À SALA DE AULAAtividade 12Atividade 12Atividade 12Atividade 12Atividade 12a) Que personagens e situações dos contos de fadas tradicionais você reconheceunesses trechos da obra de Ana Maria Machado?______________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________b) Que partes do texto mostram que nessa obra as situações dos contos de fada seresolvem de forma diferente?______________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________Em História meio ao contrário, o príncipe se casa com a pastora e não com a prince-sa. Essa alteração da história tradicional é exemplo das tendências da literatura infan-til moderna.Ao utilizar uma obra como a de Ana Maria Machado (História meio ao contrário)na sala de aula, você não pode perder a oportunidade de ler para os alunos ou desugerir que eles leiam alguns contos de fada tradicionais, que terminam com o “...eforam felizes para sempre” (Cinderela e Branca de Neve, por exemplo), apontando:• as finalidades dos textos,• os marcadores de tempo e de espaço,• o apelo ao sonho e à fantasia,• as provas pelas quais alguns personagens passam,• as ações da bruxa e da madrasta má e seus merecidos castigos,• o papel da fada-madrinha.É um bom exercício para que eles percebam as características do texto narrativoficcional. Ao comparar os textos, os alunos vão perceber que as histórias podem seradaptadas aos novos tempos e novos padrões sociais, ou subvertidas totalmente,mas que permanece o “diálogo” que os textos mantêm entre si.A comparação dos textos pode ser feita oralmente pelos alunos, que, primeira-mente, contam a história tradicional e, em seguida, apontam as partes do texto queforam subvertidas ou adaptadas a outros padrões.Você e os alunos certamente terão muitos assuntos para o diálogo que essa ativi-dade permite.
  28. 28. TeoriaePrática7•Unidade131Nos textos da literatura infantil moderna e contemporânea, os personagens passama apresentar um comportamento e um modo de pensar muito mais próximos da maneirade ser das crianças: questionam, imaginam, sonham, brigam, formam turmas,enfrentam problemas em casa, na rua e na escola. Além das obras de Ana Maria Machado,as de Lygia Bojunga Nunes (Os Colegas, Angélica, A Bolsa Amarela, O Sofá Estampado) ede Ruth Rocha (Sapo Vira Rei Vira Sapo; O Reizinho Mandão; Marcelo, Marmelo e OutrasHistórias) são exemplos dessas novas tendências de representar o universo infantil.À medida que os livros para crianças foram se multiplicando e sofrendo modificaçõesnos temas, como vimos, eles também manifestaram transformações em relação aosrecursos gráficos, que passaram a ser vistos não mais como simples ilustrações/enfeitespara os textos verbais, mas como recurso autônomo, que “dialoga” com o texto,acrescentando-lhe significados. Isso pode ser verificado nas obras de Ziraldo (O meninomaluquinho, Flicts), de Ricardo Azevedo (Um homem no sótão), de Angela Lago (Uma festano céu, Uni, duni e tê), de Helena Alexandrino, ilustrando o livro de Lúcia Villares (Cotovia),entre inúmeros outros exemplos.Atividade 13Atividade 13Atividade 13Atividade 13Atividade 13Leia o seguinte trecho de uma obra de Ricardo Azevedo e observe as ilustrações queele mesmo faz para seu texto.Essas ilustrações dão à criança a oportunidade de imaginar, recriar, divertir-se? Jus-tifique sua resposta, utilizando detalhes das imagens e de trechos do texto.________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________A obra O Marinheiro Rasgado traz uma série de aventuras que têm o personagem do1O homem apareceu um dia na praça, mas foi como se já fizesse parte dapaisagem desde sempre.Estava lá quando amanheceu, compenetrado, as mãos cruzadas nas cos-tas, andando devagar. Trouxe um saco de pano grosso cheio até a boca, duaslatas velhas de biscoito e uma caixa de sapatos amarrada com um laço defita. Ajeitou tudo numcanto debaixo de um banco de cimento e pronto! Demudança feita, passeava com um ar sério, mergulhando os olhos brilhantesem todos os lugares.Era uma figura, aliás, até um pouco bonita. Nem moço, nem velho. Ma-gro. De barbas longas. Pele queimada pelo sol. Usava um paletó cinzento elargo feito, sem dúvida, para um corpo maior e bem mais gordo . Vestiacalça de brim remendada e desbotada, com uma perna mais curta que aoutra. Num pé, calçava um tênis vermelho, amarrado com um fio de plásti-co. N outro, sandália havaiana. Na cabeça, uma espécie de meia de jogadorde futebol servia como chapéu e ainda ajudava a guardar sua imensa cabe-leira.Costumava passear arrastando uma lata de cerveja vazia. Amarrava alata na borda do paletó e saía devagar, segido sempre por um barulhinho demetal raspando no chão e por um animal de pêlo amarelo arrepiado quetalvez fosse um cachorro.Enquanto as pessoas passavam pela praça gesticulando, levando embru-lhos, bolsas e contas para pagar, o homem examinava de cócoras uma for-miga carregando uma folha no chão.AZEVEDO,Ricardo.Marinheirorasgado.SãoPaulo:Scipione.1990.
  29. 29. TeoriaePrática7•Unidade132título como centro. Com ele se envolve um grupo de crianças, amigos de escola e debrincadeiras de rua. As ilustrações, criadas pelo próprio autor, reforçam certos deta-lhes do enredo e criam um certo suspense, que pode provocar o interesse da criançapela leitura da obra.A imagem assume, assim, uma dimensão especial no texto da literatura infantil. Otrabalho do ilustrador passa a ser considerado como o de um criador de imagens enão como o de alguém que apenas dispõe formas e cores para ornamentar o texto. Aocriar ilustrações, o ilustrador cria linguagens.Também a poesia para crianças intensifica-se e transforma-se muito nos temposmodernos. A marca principal dessa nova poesia é também o abandono dos temasligados à tentativa de transmitir à criança conselhos e ensinamentos. Aposta-se, agora,no poder comunicativo das palavras, dos versos, dos sons; valoriza-se, por exemplo, arelação criança/natureza. Podemos citar inúmeras dessas obras. Eis algumas: Ou Istoou Aquilo, de Cecília Meireles, A Arca de Noé, de Vinícius de Morais, Poemas para Brin-car, de José Paulo Paes, De Cabeça pra Baixo, de Ricardo da Cunha Lima.Atividade 14Atividade 14Atividade 14Atividade 14Atividade 14Agora, leia trechos de outra obra, esta destinada a crianças menores. Observe bemas ilustrações, os espaços em branco, a combinação das palavras.
  30. 30. TeoriaePrática7•Unidade133Imagine que você vai utilizar esse texto na sala de aula. O que você faria para des-pertar nos alunos o interesse pela história?__________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________A autora constrói uma obra que tem duas capas e duas histórias paralelas (Formigarra,Cigamiga e Cigamiga, Formigarra), inspiradas, como você deve ter notado, na fábulatradicional que todos conhecemos. Por meio do jogo das palavras e dos movimentossugeridos pelas imagens, a cigarra e a formiga se fundem num só personagem e issoacontece numa e noutra história. O meio do livro é exatamente o final das duas histó-rias.É possível mostrar à criança a presença da fábula clássica nessa nova história dacigarra e da formiga, dando-lhe a oportunidade de analisar comportamentos e senti-mentos humanos com um olhar crítico, aberto às diferentes possibilidades de recria-ção e de descoberta que o texto oferece.Não podemos deixar de mencionar, neste breve histórico, o texto teatral destinadoàs crianças, que tem como principal representante Maria Clara Machado. Ela transferiupara o palco, para o visual, para o animado, muitos elementos dos contos clássicos,das histórias de piratas, pastores, reis, bruxas. São exemplos de suas peças: Pluft, oFantasminha, A Bruxinha que era boa, O Cavalinho Azul. Você vai estudar, na próximaunidade deste caderno, o texto teatral na literatura infantil.
  31. 31. TeoriaePrática7•Unidade134Lição de casaLição de casaLição de casaLição de casaLição de casaNos anos 70, houve um expressivo crescimento da produção literária infantilbrasileira, motivado, principalmente, pelos projetos de autoridades educacionais,preocupadas com o baixo índice de leitura dos alunos e decididas a fazer chegar àsescolas um grande número de obras destinadas às crianças e aos jovens.A expansão do mercado dessas obras, além de provocar o aparecimento de novostítulos e de novos autores, favoreceu o aperfeiçoamento das técnicas de editoraçãoe de utilização de recursos gráficos e visuais.Os temas moralizantes, conservadores e autoritários, que predominavam em épo-cas anteriores, dão lugar ao humor, à narração de aventuras e de viagens espaciais,ao envolvimento dos personagens nos problemas sociais e na busca de soluções.Também na poesia destinada às crianças manifestam-se grandes transformaçõesnos temas e na própria construção do poema. Valoriza-se agora o poder comunicati-vo das palavras, dos versos, dos sons.As ilustrações passam a interagir efetivamente com o texto verbal, compondo oconjunto significativo do texto.Leia os dois textos a seguir.TEXTO 1SPENCE, M.. Energia Solar. Coleção S.O.S. Planeta Terra. São Paulo: Melhoramentos, p.4.
  32. 32. TeoriaePrática7•Unidade135TEXTO 2Lição de BiologiaEu plantei um pé de amorno fundo da minha vida.A semente foi brotando.Primeiro criou raiz,da raiz nasceu o broto,do broto nasceu o caule,do caule nasceu o galho,do galho nasceu a folha,da folha nasceu a flore da flor nasceu o fruto.E o fruto, que era verde,depressa ficou maduro.E com ele eu fiz um doce,que eu dei pra você provar,que eu dei pra você querer,que eu dei pra você gostar.Organize uma atividade didática para alunos de 3º ano, utilizando os doistextos que você leu. Mostre como você vai apresentar os textos, como vailevar os alunos a perceberem a linguagem que caracteriza cada texto, as fina-lidades de um e de outro, os recursos gráficos utilizados, o suporte em queforam publicados etc.AZEVEDO,Ricardo.DezenovePoemasDesengonçados.SãoPaulo:Ática,1998,p.25.
  33. 33. TeoriaePrática7•Unidade23722 Modalidades de textos de“literatura infantil”INICIANDO NOSSA COINICIANDO NOSSA COINICIANDO NOSSA COINICIANDO NOSSA COINICIANDO NOSSA CONVERSANVERSANVERSANVERSANVERSAProfessorNa unidade 1, deste caderno de Teoria e Prática -TP7, você teve a oportunidade deestudar o que é o gênero literário conhecido como literatura infantil. Você analisou oconceito de literatura infantil e identificou especificidades dos textos destinados àscrianças.Nesta unidade 2, você vai conhecer algumas modalidades dos textos da literaturadestinada às crianças. Ao longo deste projeto GESTAR, essas modalidades já foramestudadas. Nesta unidade, porém, três modalidades serão trabalhadas maisdetalhadamente.Na seção 1, você vai participar da análise de textos visuais, levando em conta aimportância que eles representam como “ponto de partida de muitas leituras, que po-dem significar um alargamento do campo de consciência: de nós mesmos, de nosso meio,de nossa cultura e do entrelaçamento de nossa com outras culturas, no tempo e no espa-ço”, como diz Luís Camargo em seu livro Ilustração do Livro Infantil, Belo Horizonte:Lê, 1995, p.79.Na seção 2, você vai ler textos em prosa e analisar a forma, estilo, tom, motivos etemas que caracterizam os textos em prosa destinados às crianças. A partir dessa aná-lise, vai avaliar a qualidade dos textos a serem levados para a classe.Na seção 3, estudará textos de teatro infantil, identificando a especificidade dalinguagem, os temas abordados, a forma como se estruturam e analisar as possibilida-des de esse tipo de texto ser levado aos alunos.DEFININDO NOSSO PODEFININDO NOSSO PODEFININDO NOSSO PODEFININDO NOSSO PODEFININDO NOSSO PONTNTNTNTNTO DE CHEGO DE CHEGO DE CHEGO DE CHEGO DE CHEGADADADADADAAAAAEsperamos que, ao final desta unidade, você seja capaz de:• distinguir os traços característicos dos textos visuais voltados para o universoinfantil;• identificar as características dos textos em prosa voltados para a criança;• identificar as especifididades dos textos teatrais destinados às crianças.
  34. 34. TeoriaePrática7•Unidade238SeçãoSeçãoSeçãoSeçãoSeçãoOs teOs teOs teOs teOs textos visuaisxtos visuaisxtos visuaisxtos visuaisxtos visuaisObjetivo a ser alcançado ao final desta seção:• Distingüir traços característicos dos textos visuais voltados para o universo infantil.ProfessorVocê já estudou que, em leitura, todos os elementos (visuais ou verbais, entre ou-tros) envolvidos no texto são importantes para a construção do sentido. Verificou queé importante dar ao aluno a oportunidade de ler textos diversificados, tanto aquelesem que predomina a linguagem verbal, como aqueles mais visuais.Nesta seção, você estudará um texto puramente visual, para analisar as imagens, oefeito que as cores e suas combinações produzem e verificar como tudo isso contribuina construção do significado do texto. Vai, também, pensar nos textos visuais comomeios para desenvolver a habilidade de construir seqüências narrativas, bem comopara estimular a percepção visual, a reflexão e a fantasia.Para iniciar esse estudo, você vai ler o texto Laura e Leo em Um Buraco No Telhado, deLiliana Iacocca e Michele Iacocca.Para tornar possível o acompanhamento da análise desse texto, o livro foi reprodu-zido, tendo as imagens reduzidas e agrupadas na mesma página.1
  35. 35. TeoriaePrática7•Unidade239Leia atentamente as gravuras abaixo, na seqüência em que são apresentadas.
  36. 36. TeoriaePrática7•Unidade240Atividade 1Atividade 1Atividade 1Atividade 1Atividade 1É possível afirmar que essa seqüência de gravuras constitui um texto? Por quê?____________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________Você deve ter considerado que, na forma como o livro foi reproduzido, a leitura ficaprejudicada: o tamanho reduzido das imagens e a apresentação de várias delas namesma página limitam o campo de ação do leitor. Leve em conta que, na forma origi-nal, cada quadro, identificado por um número no canto inferior, se encontra em umapágina. A passagem do olhar de uma a outra página, o ato de folhear o livro fazem oleitor criar expectativas, experimentar surpresas, formular hipóteses. Tudo isso con-corre para a construção de significados. Entretanto, essa foi a forma encontrada paravocê poder acompanhar a análise. Seria desejável que a biblioteca da escola pudessecontar com esse livro, para o aluno folheá-lo e apreciá-lo mais adequadamente. Ape-sar dessas limitações, é possível acompanhar a seqüência das ações e construir signifi-cados.Atividade 2Atividade 2Atividade 2Atividade 2Atividade 2Leia atentamente a imagem da página 1(do livro reproduzido). Observe que a ima-gem apresenta uma visão ampla, geral, do ambiente em que os fatos acontecem.a) O que é importante fazer o aluno analisar, na página 1?____________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________b) Observe, agora, as imagens da página 2. Note que são visões mais restritas, par-ticularizadas.Que mudanças podem ser notadas? Por que é importante levar o aluno a perce-ber a mudança que ocorre na imagem de uma página para outra?____________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________Você deve ter considerado que é importante levar a criança a observar as imagensdentro do contexto em que aparecem. Dessa forma, pode ser possível que ela levantehipóteses sobre os acontecimentos representados e acompanhe mais adequadamentea seqüência das situações.
  37. 37. TeoriaePrática7•Unidade241De acordo com Luís Camargo, em seu livro Ilustra-ção do Livro Infantil, a criança lê a imagem em três ní-veis de leitura, conforme a idade e o desenvolvimento:1. enumeração de elementos isolados;2. descrição de situações, cenas (elementos em relação);3. narração de uma história (seqüência de cenas).Levando em conta esses níveis, é possível concluirque é importante, desde o início da escolarização, a cri-ança ser habituada à leitura de imagens para alcançar,o quanto antes, um nível de leitura que possibilita com-preender a narração de uma história.Atividade 3Atividade 3Atividade 3Atividade 3Atividade 3a) Volte à página 1 do texto reproduzido. Observe as cores que os autores usam e omodo como fazem a combinação dessas cores. Que efeito esse uso e combinaçãodas cores produzem?____________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________b) Leia com atenção as outras páginas, observando o uso e a combinação das cores.É possível afirmar que esses elementos sofrem variações, acompanhando mu-danças na narrativa? Justifique.____________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________Certamente, você observou que as cores claras predominam em todas as imagens enão mudam ao longo da história. É possível que essa regularidade esteja relacionada ànecessidade de apresentar muitos detalhes e às características dessa história, cuja in-tenção parece ser divertir o leitor, revelando a fantasia que cada personagem cria, apartir dos mesmos fatos vivenciados.
  38. 38. TeoriaePrática7•Unidade242Atividade 4Atividade 4Atividade 4Atividade 4Atividade 4a) Você deve ter notado que, até a página 6, há uma regularidade nos modos comoas imagens são apresentadas (à esquerda, uma visão mais ampla do ambiente e,à direita, visões mais particularizadas de cada personagem) e, a partir da página7, há uma variação. Qual é a regularidade e qual é a mudança que podem seridentificadas?____________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________b) Que significados podem ser atribuídos a esses modos de apresentação das imagens?____________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________c) Observe que, nas páginas 13 e 14, outra alteração é percebida. Que significadopode ser atribuído a esse novo modo de apresentação das imagens?____________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________Certamente, você considerou que a organização de um livro de imagens pode apre-sentar alguma semelhança com a forma de estruturar uma narrativa puramente ver-bal. Ou seja, é possível identificar as partes que compõem uma narrativa: orientação,complicação, desenvolvimento da complicação, clímax e resolução.Atividade 5Atividade 5Atividade 5Atividade 5Atividade 5Suponha que você esteja utilizando, em sua classe, o texto Leo e Laura em Um Bura-co no Telhado.a) Por que é importante levar o aluno a observar elementos como o modo de apre-sentar as situações (numa visão mais ampla ou mais restrita), o uso e a combina-ção das cores, a forma como o texto se organiza?____________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________
  39. 39. TeoriaePrática7•Unidade243INDO À SALA DE AULAb) Depois dessa análise, que atividade você poderia propor para a classe?____________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________Certamente, você considerou que, durante essas atividades de análise, o aluno tevea necessidade de verbalizar o que ia observando e que essa verbalização é fundamen-tal para o desenvolvimento das habilidades de usos da linguagem. Ou seja, você deveter compreendido que, ao participar dessas atividades, o aluno teve oportunidade dedesenvolver habilidades relacionadas à leitura e produção de textos.Atividade 6Atividade 6Atividade 6Atividade 6Atividade 6Para que classes esse tipo de atividade – leitura e análise de livros de imagens –pode ser adequado? Justifique.____________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________Você deve considerar que é importante oferecer ao aluno oportunidades de ler osmais variados tipos de textos, uma vez que o objetivo do ensino de Língua Portuguesana escola é formar bons leitores e produtores competentes de textos. A leitura e análi-se de diferentes tipos de textos que circulam em nossa sociedade ampliam as possibi-lidades de desenvolvimento do aluno. A adequação não se encontra no próprio texto,mas no uso que se faz dele. Ou seja, é o uso do texto que o torna adequado ou nãopara esta ou aquela classe.Professor, há uma variedade muito grande de livros só de imagens que podemser utilizados em sala de aula, seja de 1º , 2º , 3º ou 4º ano.Por exemplo, há um livro de Eva Furnari chamado Esconde-esconde, São Paulo:Ática, que apresenta pequenas histórias que podem ser facilmente utilizadas comqualquer classe. Utilizando esse livro, você pode ler, analisar, observando com osalunos:
  40. 40. TeoriaePrática7•Unidade244• a apresentação das cenas (verificar se a cena dá uma visão geral do ambienteou restringe-se à apresentação dos personagens);• a organização das partes da narrativa;• o uso e a combinação das cores.Depois dessa leitura, é possível você propor atividades que levem o aluno a:• contar oralmente a história que foi narrada pelas imagens;• escrever a história que foi narrada;• ler para os colegas a história que escreveu;• ilustrar a história que escreveu;• expor, no varal da classe, a história escrita e ilustrada de cada aluno.Nesta seção, você estudou que a presença do livro de imagens na sala de aulaé importante porque contribui no desenvolvimento das habilidades de uso da lin-guagem. Para ser possível essa contribuição, é preciso que o aluno seja levado a lere analisar livros de imagens, considerando as especificidades dos textos visuais des-tinados às crianças. É importante que o aluno perceba:• o efeito que produzem o uso e a combinação de cores;• o modo de apresentação das imagens (visão mais ampla ou mais restrita doambiente);• as mudanças que ocorrem nas imagens de uma página a outra ou de umquadro a outro;• a organização da narrativa expressa pelas imagens;• a possibilidade de verbalização das ações expressas pelas imagens;• a possibilidade de produzir textos orais e escritos a partir das imagens.A presença de livros de imagens é importante, sobretudo, para a fruição, o prazerdo contato com a arte.INDO À SALA DE AULA
  41. 41. TeoriaePrática7•Unidade245SeçãoSeçãoSeçãoSeçãoSeçãoOs teOs teOs teOs teOs textos em prxtos em prxtos em prxtos em prxtos em prosaosaosaosaosaObjetivo a ser alcançado ao final desta seção• identificar as características dos textos em prosa voltados para a criança.ProfessorNa seção 1, desta unidade, lemos um livro só de imagens e analisamos as possibili-dades de esse tipo de texto freqüentar as salas de aula e contribuir na formação deleitores entusiasmados e produtores mais competentes de textos. Identificamos, ain-da, alguns elementos que fazem dos textos visuais instrumentos importantes para de-senvolver habilidades das crianças no uso da linguagem.Nesta seção, estudaremos textos em prosa, uma modalidade muito comum na lite-ratura em geral. Os textos em prosa se distinguem da poesia: não são escritos emversos; em sua organização não são levados em conta o ritmo, a sonoridade que resul-ta das rimas, aliterações, assonâncias e metro; levam em conta um ritmo decorrenteda própria organização da trama, articulada por uma tensão. São valorizados, ainda,outros elementos como a seqüência lógica, as relações de causa e conseqüência, aarticulação das partes (coesão), formando um todo coerente. Muitos textos em prosa jáforam lidos e analisados em todos os cadernos estudados até aqui, na forma de narra-tivas ficcionais.Para esse estudo, vamos ler trechos de um texto em prosa, O Cavalinho Azul, deMaria Clara Machado. Trata-se de um texto narrativo ficcional, derivado da peça deteatro infantil, de mesmo título, da mesma autora. Esse texto foi escolhido porquepermite distinguir as características de um texto em prosa das de um texto de teatro (aser estudado na seção 3, desta unidade), destinados ao público infantil.O Cavalinho Azul é uma narrativa em que sonho e realidade se confrontam: o so-nho do menino Vicente choca-se com a realidade dos adultos, preocupados em ga-nhar dinheiro, sem tempo a perder com as preocupações de um menino à procura deseu cavalinho azul.Vicente era um menino sonhador. Para ele, um velho pangaré feio, marrom, magroera um cavalinho azul, mágico que cantava, dançava e, juntos, ele e o pangaré, sabiamfazer coisas de circo. Depois que o pai vendeu o velho pangaré, o menino saiu pelomundo a sua procura. Encontrou uma menina que gostava de circo e aceitou sair emsua companhia. Os dois enfrentaram bandidos interessados em roubar o cavalinhoazul, quando o menino o encontrasse. Os bandidos foram presos e Vicente continuousozinho, porque a menininha se cansou e voltou para casa. O menino conversava sem-pre com um velho, João de Deus, que encontrara na estrada a quem confessou já estarcansado e com saudade de casa, mas não voltaria enquanto não encontrasse o cavali-2
  42. 42. TeoriaePrática7•Unidade246nho azul. Vicente encontrou o cavalinho e voltou para casa, galopando nele.Leia o trecho inicial de O Cavalinho Azul.Esta história foi um velho que me contou.Um velho com uma barba enorme, tão grande quequase chegava ao chão.Ele se chamava João de Deus.Era um vagabundo. Andava pelas estradas vendoas coisas.De tanto ver, sabia uma porção de histórias dosoutros.Foi ele que me contou a história de Vicente ede seu cavalo.Vicente era um menino pobre que tinha um pangaré.O pangaré era marrom, bem feio, bem magro e bem velho.O cavalo servia para puxar a carroça do pai de Vicente que levava para acidade verduras que ele colhia, vendia e ganhava um dinheirinho. Quando o ca-valo não estava puxando a carroça quem brincava e dava capim a ele era Vicente.Vicente adorava dar capim a seu cavalo. Era nesta hora que ele conversavacom o pangaré.Ele dizia uma porção de coisas também quando o levava a beber água nabeira do córrego que passava atrás da casa.CONVERSA DE VICENTE COM SEU CAVALO— Bebe água, meu cavalinho azul! Este rio está meio sujinho, mas vou te levarpara um rio enorme de água limpa e branquinha que tem lá atrás daqueles mor-ros! Vamos atravessar uma enorme campina verde, toda verdinha de tanto capimverde! Depois, quando você estiver bem treinado, bem escovado, vou te levar parao circo lá da cidade!— Lá, vou andar com um pé só em cima de você, sem cair. O outro pé eu deixoboiando no ar, para mostrar aos meninos que vão ao circo como nós dois sabe-mos fazer coisas de circo! Nós vamos fazer outras coisas difíceis. E todo mundo vaificar olhando a gente, e admirando seu pêlo brilhando de tão azul naquela luzforte do circo!MACHADO, Maria Clara. O Cavalinho Azul. Rio de Janeiro: Cedibra, 1969.
  43. 43. TeoriaePrática7•Unidade247AtiAtiAtiAtiAtividade 7vidade 7vidade 7vidade 7vidade 7Na conversa inicial desta seção, você viu que texto em prosa se distingue de textoem versos. Prosa tem também o significado de conversa, maneira natural de falar e deescrever, uma forma simples de contar uma história.A leitura desse trecho permite classificar o texto como uma prosa? Por quê?____________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________Certamente o trecho transcrito representa uma amostra muito pequena do texto,mas já oferece elementos para que o leitor faça uma avaliação inicial. É possível iden-tificar elementos que caracterizam o tipo de texto, a linguagem utilizada, o leitor aque se destina, a intenção com que foi escrito e uma idéia da imagem que o autor temdo seu leitor.Atividade 8Atividade 8Atividade 8Atividade 8Atividade 8Releia o trecho inicial do textoEsta história foi um velho que me contou.Um velho com uma barba enorme, tão grande que quase chegava ao chão.Ele se chamava João de Deus.Era vagabundo. Andava pelas estradas vendo as coisas.De tanto ver, sabia uma porção de histórias dos outros.Foi ele que me contou a história de Vicente e de seu cavalo.a) Observe que o narrador apresenta esta história dizendo Esta história foi um ve-lho que me contou. É possível afirmar que o narrador participa da história ouapenas conta o que observa? Justifique.____________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________
  44. 44. TeoriaePrática7•Unidade248b) Observe as palavras e expressões que o narrador emprega para contar a história:Andava pelas estradas vendo as coisas. ... sabia uma porção de histórias dos ou-tros. Vendo as coisas. ...uma porção de histórias... são expressões normalmenteutilizadas em conversas. Você considera que esse modo de começar uma histó-ria é adequado para atrair a atenção de leitores infantis? Por quê?____________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________Ao realizar essas atividades, você deve ter lembrado o que já estudou no cadernoTeoria e Prática 4 – TP 4: as narrativas ficcionais, os elementos que caracterizam essasnarrativas, analisando a importância do narrador e os diferentes modos como ele seapresenta para contar a história. Esses diferentes modos podem revelar intenções quemotivam a produção de um texto.Professor, mesmo alunos que ainda não conseguemler com autonomia, podem envolver-se em histórias,ouvindo a leitura que um adulto faz em voz alta. Umaleitura cuidada permite ao aluno perceber a mudançano humor dos personagens, emoção, sentimentos de rai-va, medo, o mundo da fantasia vivido na história, as in-tenções que determinaram a produção de um texto. Éuma fonte muito rica de vivências para os alunos. É umaforma de exercitar a imaginação, além de capacitar osalunos a se familiarizarem com a estrutura da língua es-crita. É, portanto, uma forma de desenvolver nos alunoshabilidades no uso da língua.Atividade 9Atividade 9Atividade 9Atividade 9Atividade 9Releia o trecho CONVERSA DE VICENTE COM SEU CAVALO.a) Que impressão causou em você a presença de um título, marcando a fala dopersonagem? Justifique.____________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________
  45. 45. TeoriaePrática7•Unidade249INDO À SALA DE AULACertamente você levou em conta a forma como o narrador articula a história: enquan-to apresenta os personagens e fatos, revela um estilo particular de contar histórias.b) Releia o trecho que conta a conversa do menino com o cavalinho. Que caracterís-ticas você pode identificar no personagem Vicente? Justifique.____________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________Você pode ter considerado que esse diálogo funciona como uma apresentação dopersonagem para o leitor. O comentário inicial do narrador dá apenas algumas dicassobre as características de Vicente e esse diálogo permite que o leitor comece a conhecê-lo.c) Suponha que você vai ler esse texto com seus alunos. O que você considera im-portante analisar com eles em relação à escolha e à combinação das palavras?Justifique.____________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________É importante conversar com os alunos sobre o que eles entenderam da leitura elevá-los a pensar a respeito do valor das palavras, do modo como elas são escolhidas ecombinadas para permitir que o leitor construa significados a partir delas. Você podeter pensado, ainda, que seria bom solicitar que os alunos destacassem palavras poucoconhecidas e conferir se a presença delas impediu ou não a compreensão do texto.Professor, a existência de grande quantidade de textos destinados às criançasrepresenta, ao mesmo tempo, um benefício e um problema para aquele que desejaescolher livros destinados a esse público. Ao selecionar livros para a leitura de seusalunos, você pode ter em mente, questões como:• o texto é para ser lido de forma autônoma pelo aluno ou para ser lido peloprofessor?• O assunto tratado é do interesse de que alunos?• A linguagem é adequada aos alunos a quem se destina?• O texto está bem articulado?
  46. 46. TeoriaePrática7•Unidade250• O assunto é apresentado de forma suficientemente aberta, de modo a permi-tir aos alunos desenvolverem a imaginação, a observação, o levantamento dehipóteses, a ampliação de experiências?• As ilustrações contribuem para ampliar a construção dos significados dotexto?• A história foi produzida com a intenção de emocionar, divertir, instigar acuriosidade , despertar o desejo de ler outros textos?Esses são alguns questionamentos que podem contribuir na escolha de livros maisadequados para que os alunos desenvolvam habilidades de leitura e se tornem leito-res competentes.Atividade 10Atividade 10Atividade 10Atividade 10Atividade 10No trecho que leu, você pôde perceber um jeito particular de contar história: apre-sentar os personagens, marcando a parte com um título. O narrador conta que conhe-ceu essa história por meio de outro personagem, João de Deus. Além dessas caracterís-ticas, constrói um personagem sonhador que transforma o mundo pobre, feio e mal-vado em um mundo fantástico, azul e iluminado.Você gostou desse jeito particular de contar história, observado neste texto? Por quê?____________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________Os diferentes modos, formas, de narrar uma história, de relatar fatos, de exporinformações determinam os diferentes tipos de textos. Mas há também modos parti-culares, pessoais de narrar, relatar ou expor e que marcam estilos diferentes de autor,de época e de sociedade. Dizemos, então, que em cada texto podemos identificar umestilo ou tom que o diferencia de textos de autores, épocas e lugares diferentes.Atividade 11Atividade 11Atividade 11Atividade 11Atividade 11Você já estudou que o título deve ser uma síntese do texto.Você considera que o título O Cavalinho Azul, bem como a apresentação da históriapelo narrador, o diálogo de Vicente com o cavalinho permitiram fazer uma idéia dotema (assunto principal) desse texto? Justifique.____________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________INDO À SALINDO À SALA DE AA DE AULULAA
  47. 47. TeoriaePrática7•Unidade251O título, o início da história, o diálogo de Vicente com seu cavalinho, bem como alinguagem utilizada dão mostras de que o tema se refere à capacidade de um meninode inventar um mundo colorido, cheio de alegrias, para compensar tudo o que faltaao seu mundo real.Você deve observar que textos em prosa dirigidos ao leitor infantil se preocupam,quase sempre, em desenvolver temas relacionados a esse universo de fantasia, com-patível com o modo como a criança vê o mundo.Atividade 12Atividade 12Atividade 12Atividade 12Atividade 12Outro elemento importante a ser considerado na análise de um texto é identificar omotivo que conduz toda a história.Releia o resumo de O Cavalinho Azul apresentado na introdução desta seção 2.Qual pode ser o motivo condutor dessa história? Por quê?____________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________Você pode considerar que seria necessário ler o texto na íntegra para identificar omotivo condutor da história. Mas é importante considerar, também, que um resumodeve dar conta do tema e do motivo condutor da história para permitir ao leitor fazeruma idéia do significado do texto.Nesta seção, você estudou que, na análise de um texto em prosa, alémdo modo de o narrador contar a história, a organização do texto, a caracte-rização e a apresentação dos personagens, é importante considerar fatores como:• o estilo ou o tom particular do autor;• o motivo que conduz a história e• o tema em torno do qual se desenvolve a história.
  48. 48. TeoriaePrática7•Unidade252SeçãoSeçãoSeçãoSeçãoSeçãoOs teOs teOs teOs teOs textos teaxtos teaxtos teaxtos teaxtos teatraistraistraistraistraisObjetivo a ser alcançado ao final desta seção• identificar as especificidades dos textos teatrais destinados às crianças.ProfessorNas seções 1 e 2, desta Unidade, lemos e analisamos um texto visual e um texto emprosa, procurando identificar-lhes as características e pensar na importância de levaresses tipos de texto para a sala de aula.Nesta seção, vamos ler e analisar trechos de um texto teatral e discutir as razões quejustificam a presença desse tipo de texto em classes do ensino fundamental.Para discutirmos a importância de o texto teatral estar presente nas salas de aulado ensino fundamental, é preciso que analisemos o papel que o teatro, o jogo dramá-tico exercem no processo de formação da criança. Chamamos de jogo dramático aimitação, a representação, o “faz de conta”, em que a criança se envolve, imitando asatitudes dos adultos, colocando-se no lugar do outro, aprendendo a se relacionar come no meio em que vive.Segundo Peter Slade, um autor inglês que se dedicou ao estudo dojogo dramático infantil, “o jogo dramático é uma parte vital da vidado jovem. Não é uma atividade de ócio, mas antes a maneira dacriança pensar, comprovar, relaxar, trabalhar, lembrar, cri-ar, absorver. O jogo é na verdade a vida.” (Peter Slade. Ojogo dramático Infantil, São Paulo: Summus Editorial, 1978.)No âmbito do ensino de Língua Portuguesa, além daimportância do teatro, do jogo dramático na formação dacriança, o que justifica a presença de textos teatrais na salade aula é o seu valor como um tipo específico de texto.Tendo em vista que sua função é dar sustentação ao ato derepresentar, o texto teatral apresenta características pró-prias, não encontradas em outros tipos de texto.Para observarmos essas características, optamos por re-tomar O Cavalinho Azul, de Maria Clara Machado, que foiapresentado, na seção 2, para exemplificar texto em prosa. Trata-se da mesma histó-ria, contada em linguagens diferentes: narrativa e teatro.Maria Clara Machado é autora de textos teatrais para crianças. Além de escrevertextos, ela fundou o Tablado, uma oficina de teatro infantil. Dedicou a vida toda aoteatro para crianças.333O Estado de São Paulo. Caderno 2. São Paulo, 25/10/2001
  49. 49. TeoriaePrática7•Unidade253Vamos ler o trecho inicial da peça teatralO Cavalinho Azul, de Maria Clara Machado1 ato e 9 cenasmúsica de Reginaldo de CarvalhoPERSONAGENSJoão de DeusVicente, o meninoO paiA mãeO pangaréO palhaçoO músico gordoO músico altoO músico baixoA meninaO 1º homemO 2º homemO 3º homemA lavadeiraO vendedorOs três soldadosVelha-que-viuO cowboyOs três elefantesOs quatro cavalosOs personagens dos três elefantes podem ser os mesmos dos três soldados. Os qua-tro cavalos podem ser os soldados, o 1º e o 2º homem.CENÁRIO - O palco vazio com fundo azulado. Os elementos das várias cenas vãosendo colocados à medida que a ação se desenrola.1ª cena: Sugestão de uma casa.2ª cena: O mesmo.3ª cena: Cena vazia.4ª cena Sugestão de arquibancada de circo, 3 cadeiras.5ª cena: O mesmo.6ª cena: Cena vazia.7ª cena: Sugestão de uma cidade: um coreto.8ª cena: O curral do cowboy.9ª cena: Cena vazia.1ª CENA(Ao abrir-se o pano, vê-se apenas o palco vazio. Enquanto se ouve a música 1A, 1B, umvelho de longas barbas, maltrapilho e vagabundo, simpático e bonachão se dirige emdireção à platéia segurando um tamborete.)
  50. 50. TeoriaePrática7•Unidade254Velho: Eu me chamo João de Deus. Sou vagabundo. Estou aqui para contar ahistória do menino Vicente e de seu cavalo. Um dia perdi a tesoura de cortar barba etive que deixar crescer esta barba. No princípio não gostava; sujava muito quando eucomia, mas agora gosto; quando faz frio cubro-me assim. (Mostra) e minha barba ser-ve de cobertor. Também aprendi a comer com minha barba: faço assim. (Mostra.)gosto dela também por causa do Vicente, que me achou parecido com o Padre Eterno.Isto quer dizer que a minha barba se parece com a barba de Deus. Por isso cuido dela.Barba de Deus é coisa séria. Vou contar como é que essa história começou. Aqui (Pelaesquerda entram o pai e a mãe carregando a casa.) morava Vicente com seu pai e suamãe, nesta casinha. (O pai e a mãe colocam a casa e o banquinho e desaparecem.) Eali vem ele — nem me viu ainda — com seu cavalo. Vou deixar esta história contar-sepor si mesma, enquanto vou ajudando aqui, ao lado. (O velho senta-se no tamborete,fora da cena, perto da cortina, na semi-obscuridade, enquanto a luz cresce dentro dopalco, onde se vê um menino pobre puxando uma enorme corda que prende ao pesco-ço de um feio pangaré, sujo, magro, com cara infeliz. O menino, em êxtase, procuraconvencer o cavalo. (Dois atores em pé, um fazendo a cabeça com uma máscara e ooutro fazendo o traseiro.)Vicente: Se você der mais uma voltinha, só mais uma voltinha, meu cavalinho,eu prometo levar você lá numa campina toda verdinha de tanto capim verde. Vamos,vamos, meu cavalinho azul! (O cavalo se levanta com grande esforço e começa a trotarem volta do menino.) Vamos, meu cavalinho azul! Upa! Upa! Upa! (O cavalo, cansado,começa a se arrastar.)Vicente: (Zangado.) Assim você não poderá trabalhar no circo! Não pode. Veja comoeu faço. Como aquele grande cavalo branco lá do circo da cidade. Buuuuuuuu, assim,levantando as patas e depois me levando na garupa como a bailarina Lili, toda verdede tão bonita, e o domador Rogério de boné dourado e calças vermelhas...Upa! upa!Upa! Vamos, vamos! (O cavalo está exausto.) Bem, por hoje, chega. Amanhã treinare-mos mais. Você está cada vez melhor e mais bonito.Mãe: (De dentro.) Vicente!Vicente: O que é, mamãe?Mãe: (Saindo com uma trouxa de roupas para lavar.) Venha estudar, menino.Está quase na hora da escola.Vicente: Já vou, mamãe. Deixa eu conversar mais um pouquinho só com meu cava-linho azul.Mãe: Que cavalinho azul, que nada! Um pangaré velho que não presta maisnem para puxar a carroça de teu pai (Saindo com a trouxa.) Cavalinho azul!... Azul!Vicente: (Baixo, para o cavalo.) Não liga não, meu cavalinho. (Para a platéia.) Ma-mãe chama meu cavalinho de sujo e velho porque ela pensa que ele é sujo e velho,porque mamãe é gente grande e gente grande tem que lavar roupa, fica cansada emaltrata o cavalinho, sem querer. Como é que ela pode saber a cor do meu cavalo senem vê ele direito de tanto cozinhar, arrumar e lavar a roupa? Também ele anda um
  51. 51. TeoriaePrática7•Unidade255pouco sujo hoje, mas é porque a água do nosso rio está quase seca, não lava maisdireito, (Para o cavalo.) mas amanhã vou também te levar num rio muito grande,muito branco de tão limpo, que passa perto da campina verde. Lá você tomará umbanho e vamos para o circo. Quem não estiver muito limpo e lindo também não podeentrar no circo, está ouvindo?Pai: (Chegando com o balde.) Vicente, olha a ração do Mimoso. E chega de fazê-lo rodar. Ele está muito magro, precisa descansar.Vicente: Vou levar ele, papai, para a grande campina verde e vou dar um banhonele no rio de água branca.Pai: (Bem humorado.) Onde é que existe esta campina, menino? Tudo está seco,isto sim. Seco e esturricado. Onde é que tem um rio grande e branco?Vicente: Aquele lá longe.Pai: Longe, onde?Vicente: Ora, papai, lá longe, do outro lado daquele morro mais longe.Pai: Lá longe é a cidade.Vicente: Onde está o circo, não é?Pai: É. Vá estudar, menino.Vicente: Vou buscar meu livro e venho estudar aqui, tá bem? (Entra por trás da casa.)Pai: (Depois de misturar a comida do cavalo.) Toma, pangaré, come isto paranão morrer de fome. (O pangaré enfia a cara no balde. O pai sai e volta o menino.)Vicente: Você sabe o que é uma ilha? É uma quantidade de terra cercada deágua por todos os lados... Um istmo (Diz baixinho, como procurando decorar.) Umistmo ... é... Sabe, cavalinho, nós vamos lá... nós vamos na ilha cercada de água portodos os lados, cercada de istmos... de cabos, de tudo. Depois vamos ao promontório.Depois, eu monto em você e saímos correndo atrás das capitanias hereditárias... Vaiser ótimo!Mãe: (De dentro.) Vicente, venha estudar cá dentro. Sozinho, longe deste cavalo.Vicente: Estou indo. (Entra gritando.) Vamos para as capitanias hereditárias! Eue meu cavalinho azul...Pai: (Chegando e ouvindo as últimas palavras do filho.) Mulher! Venha cá. (A mãechega.) Mulher, temos que vender o pangaré. (O cavalo levanta a cara do balde, assus-tado.)Mãe: (Preocupada.) Vender? Por quê?Pai: Este pangaré não serve mais para nada. Já vendi a carroça. Este cavalosó serve para comer mais dinheiro. Se for vendido, posso apurar uns cobres e com elescomprar umas galinhas e começar uma criação.
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