Internet e o Empoderamento do Indivíduo: Como as redes sociais afetam as pessoas, a sociedade e seus reflexos no ativismo.

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Esse trabalho se propõe a analisar o desenvolvimento da internet, suas influências na sociedade e no indivíduo, e por fim as consequências disso no ativismo, com o surgimento do ativismo digital.

O desenvolvimento do estudo ocorre inicialmente com um histórico da internet, desde seu surgimento até sua transformação como é hoje. Posteriormente, são apresentados os usos da internet ao longo do tempo e analisados estudos que mostram como as redes sociais refletem na formação do indivíduo moderno frente aos seus relacionamentos e persona frente a sociedade. A mudança dos processos de comunicação, a convergência midiática e a dualidade entre informação e conhecimento fecham os estudos sobre sociedade e indivíduo, abrindo o caminho para o reflexo sobre os efeitos dessas mudanças na forma de engajamento das pessoas e em como o ativismo foi potencializado por isso. Por fim, é feita uma análise do ativismo no ponto de vista pragmático, e o trabalho é finalizado com o estudo de diferentes casos relacionados ao ativismo digital que concretizam esse hábito moderno.

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  • Jean, gostaria de ter o arquivo do seu trabalho para leitura com calma. Estou fazendo uma pesquisa de doutorado com este tema e me interessei por seu trabalho.
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Internet e o Empoderamento do Indivíduo: Como as redes sociais afetam as pessoas, a sociedade e seus reflexos no ativismo.

  1. 1. 2JEAN MICHEL GALLO SOLDATELLIInternet e o Empoderamento do Indivíduo:Como as redes sociais afetam as pessoas, asociedade e seus reflexos no ativismo.Trabalho apresentado ao Departamento deRelações Públicas, Propaganda e Turismo daEscola de Comunicações e Artes daUniversidade de São Paulo, formulado sob aorientação da Profa. Dra. Maria Clotilde PerezRodrigues Bairon Sant’Anna, para aConclusão de Curso de Comunicação Socialcom habilitação em Publicidade ePropaganda.CRP-ECA-USP
  2. 2. 3São Paulo, 2013A todos que encaram a vida como uma só,independente de como ou onde ela é vivida.
  3. 3. 4AGRADECIMENTOSNão tem como pensar na graduação que alcanço agora, precisoprimeiramente lembrar das pessoas e dos momentos que me fizeram chegar atéaqui. Certamente a principal dedicatória e o primeiro agradecimento a ser feito épara aqueles que primeiro cuidaram e acreditaram em mim. Minha avó Janetti,pessoa mais guerreira que conheço e que mesmo sem querer sempre foi quem maisapostou em mim. Volnei, o pai que por mais que a distância tente nunca deixou deestar presente e me inspirar. Ariane, minha irmã carinhosa que tanto me ensina comseu jeito carinhoso e que nunca deixou de estar ao meu lado. Aos meus tios Alô,pelo apoio incondicional, mesmo que muitas vezes viesse disfarçado como críticas edescrença, e Tita, pelo exemplo de luta e benevolência que tanto me influenciam.Por fim, a minha mãe Gislene, que mesmo com todas as adversidades possíveis meensinou como a felicidade está nas pequenas coisas, e como devemos acreditar naspessoas. Lições essas que a vida muitas vezes tenta subverter, mas sua lembrançae seu amor não me deixam desacreditar. Toda a minha família, seja ela em Franca,no Rio Grande do Sul, ou mesmo os nômades espalhados pelo mundo, me ensinoucom erros e acertos tudo que levo como índole hoje.Para completar minha lembrança a todos que me ajudaram a passar portodas as provações e entrar na USP, agradeço aos meu grande irmão de infânciaCaio, aos amigos e professores do Instituto Samaritano, e aos companheiros dostreinos de vôlei, principalmente Deime, Vinícius e Régis, pela amizade que me fazviajar 400 km sem pensar muitas vezes.A ECA mudou completamente minha forma de ver o mundo. Quando entreipela primeira vez nesse lugar não tinha ideia de como as coisas eram realmente,não sabia até onde eu podia alcançar. Essa escola me mostrou o que é liberdade,diversidade, parceria; me mostrou como enxergar a realidade e também como ébom às vezes fugir dela. O primeiro passo foi morar em uma república com duaspessoas tão diferentes de mim, que entre xingamentos e risadas me fizeram crescere encarar esse novo mundo. Das aflições na busca do apartamento até hoje, eu,Júnior e Guilherme crescemos juntos. Ao segundo e aos meus atuais companheirosde república, Maurício e Daniel, por mais que seja contra minha vontade, agradeço atodo ao terrorismo psicológico que me incentivou a terminar esse TCC.
  4. 4. 5A segunda grande mudança que passei foi entrar para a ECA Jr. Lá vi como avida em grupo é difícil, como eu não sabia direito viver assim, e como uma utopia asvezes pode dar certo. A todos da minha gestão, agradeço por tudo, das críticas aosabraços, que tanto me fizeram crescer. Àquela sala 3, minha eterna gratidão portodos os conhecimentos adquiridos, pela experiência vividas e pelas pessoas queconheci, e que levarei pra sempre com carinho.Tive sorte em estudar em uma sala que, pelas diferenças, transformou ocurso em algo além do aprendizado. Especialmente aos homens e mulheres daScuderia, com os quais tive e tenho experiências únicas, sejam festas memoráveis,trabalhos que nos orgulhemos, independente de suas notas, ou discussões sobre omercado e a profissão. Aqueles que sabem que juntos, nosso sucesso é inevitável.À todos amigos (alunos, professores, funcionários ou malucos) que fiz naUSP: vocês são a melhor universidade que alguém pode fazer. Todas as conversas,discussões, movimentos, instituições, JUCAs e QiBs, ensinam o que não está nemestará escrito em nenhum livro. Uma conversa na prainha muitas vezes vale maisque qualquer MBA, mais que qualquer fórum internacional, mais que qualquertrabalho em qualquer agência ou empresa. Esse espírito que torna a ECA essaescola maravilhosa, cheia de encantos mil; a valorização da vivência e da conversacomo um aprendizado maior. Dentre todos esses amigos agradeço especialmente aDébora, bixete que tanto ensinou esse veterano, por mais que as vezes ela nãoenxergue isso.Não posso deixar de lembrar também de todos aqueles com quem trabalheinos últimos anos, que me ensinaram aquilo que a ECA não se propõe a ensinar, eme mostraram como a comunicação como ela é, seja sua face cruel ou encantadora.Um abraço especial a todos da Router, agência que me acolheu e deu aoportunidade de crescer por mais difícil que seja aturar a minha pessoa, e todos osamigos que fiz lá.Por fim, agradeço aos professores, que nos passam mais do queconhecimento, nos ensinam a discutir, pensar, e a representar o nome USP paratodo o mundo.
  5. 5. 6RESUMOEsse trabalho se propõe a analisar o desenvolvimento da internet, suasinfluências na sociedade e no indivíduo, e por fim as consequências disso noativismo, com o surgimento do ativismo digital.O desenvolvimento do estudo ocorre inicialmente com um histórico da internet,desde seu surgimento até sua transformação como é hoje. Posteriormente, sãoapresentados os usos da internet ao longo do tempo e analisados estudos quemostram como as redes sociais refletem na formação do indivíduo modernofrente aos seus relacionamentos e persona frente a sociedade. A mudança dosprocessos de comunicação, a convergência midiática e a dualidade entreinformação e conhecimento fecham os estudos sobre sociedade e indivíduo,abrindo o caminho para o reflexo sobre os efeitos dessas mudanças na forma deengajamento das pessoas e em como o ativismo foi potencializado por isso. Porfim, é feita uma análise do ativismo no ponto de vista pragmático, e o trabalho éfinalizado com o estudo de diferentes casos relacionados ao ativismo digital queconcretizam esse hábito moderno.PALAVRAS-CHAVESInternet, redes sociais, empoderamento, convergência, ativismo digital.
  6. 6. 7ABSTRACTThe purpose of this study is to analize the internet’s evolution, its influencein society and in individuals as well as its consequences in the activism, with therise of the digital activism.Starting with Internet’s history: its creation, transformation and usenowadays . Showing its progress througout the years and evaluating studies thatdemonstrates not only how social networks reflects in the formation of the modernpersona towards its relationship with society are part of the development of thisessay. The changes in the process of comumnication, the midiatic convergence andthe duality in between information and knowledge complete the studies aboutsociety and individual. It also opens a path for reflections about the efects of it´schanges on people´s engagements ways, and how activism was potentialized bysuch a change. Closing , the pragmatic point of view of activism is analyzed , and theessay ends with the study of different cases of digital activism whichreassures/supports this modern habit.KEYWORDSInternet, social networks, empowerment, convergence, digital activism.
  7. 7. 8LISTA DE FIGURASFigura 1 - Gráfico de adesão das tecnologias do século XX na população americana......... 14Figura 2 - Crescimento de usuários de internet.................................................................... 14Figura 3 - Linha do tempo com momentos importantes da história da internet..................... 18Figura 4 - Interface do classmates.com ............................................................................... 20Figura 5 - Histórico das redes sociais, do serviço postal às redes digitais .......................... 23Figura 6 - A partir de 2011 o uso de redes sociais se tornou a atividade mais realizada nainternet ................................................................................................................................ 25Figura 7 - Passo a passo para a participação do programa Cielo Linkci .............................. 28Figura 8 - Charge que representa as mudanças no relacionamento interpessoal................ 29Figura 9 - Exemplo de Phone Stacking................................................................................ 32Figura 10 - Vazamentos de informações do governo americano pelo Wikileaks.................. 49Figura 11 - Interface do Xbox One, que irá integrar vídeo-game, tv e internet ..................... 54Figura 12 - Página principal do Avaaz, site de petições online............................................. 56Figura 13 - Quadrinho satirizando os "ativistas de sofá" ...................................................... 60Figura 14 - O presidente tunisiano retirado do poder visita o homem que com suaautoimolação deu início a revolta no país ............................................................................ 61Figura 15 - População tira fotos com os celulares do corpo do ex-ditador líbio.................... 63Figura 16 - Homem durante protestos no Egito.................................................................... 63Figura 17 - Efeitos da massificação das redes sociais no mundo árabe na criação daidentidade nacional e da globalização do indivíduo ............................................................. 65Figura 18 - Crescimento de usuários do Facebook durante o período de revoltas............... 65Figura 19 - Uso do facebook durante o período de revoltas................................................. 66Figura 20 - Fontes de informação dos cidadãos no período das revoltas............................ 66Figura 21 - Vídeo de divulgação do caso Kony, atualmente com quase 98 milhões devisualizações ....................................................................................................................... 68Figura 22 - Tempo levado até os vídeos mais vistos até agosto de 2012 atingirem 100milhões de visualizações ..................................................................................................... 69Figura 23 - Evolução do volume de buscas do termo Kony ................................................. 70Figura 24 - Áreas de atuação do Fora do Eixo..................................................................... 72Figura 25 - Modo de organização político do Fora do Eixo .................................................. 73
  8. 8. 9SUMÁRIO1. INTRODUÇÃO...................................................................................................102. INTERNET E REDES SOCIAIS: INÍCIO E DESENVOLVIMENTO ............................ 122.1. O SURGIMENTO DA INTERNET ............................................................................. 122.2. O DESENVOLVIMENTO DA REDE E SUA EXPANSÃO MUNDIAL................................ 132.3. A WEB COMO PLATAFORMA E O CONTEÚDO NA MÃO DOS USUÁRIOS................... 183. A INFLUÊNCIA DA INTERNET NA SOCIEDADE...................................................... 243.1. EVOLUÇÃO DO USO DA INTERNET ....................................................................... 243.2. A DUALIDADE DAS REDES SOCIAIS...................................................................... 283.3. A INTERNET MUDANDO OS PROCESSOS DE COMUNICAÇÃO ................................. 383.4. INFORMAÇÃO X CONHECIMENTO ......................................................................... 423.5. OS MEIOS DE COMUNICAÇÃO E A CULTURA DA CONVERGÊNCIA .......................... 484. ATIVISMO DIGITAL .................................................................................................... 554.1. ATIVISMO “REAL” X ATIVISMO DIGITAL ............................................................... 574.2. PRIMAVERA ÁRABE............................................................................................. 614.3. O CASO KONY..................................................................................................... 684.4. FORA DO EIXO .................................................................................................... 71CONSIDERAÇÕES FINAIS ............................................................................................... 76REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS.................................................................................. 81
  9. 9. 101. INTRODUÇÃODesde a idade das pedra, onde descobriu que organizar-se em grupos eraimportante para a sobrevivência, o ser humano é um ser social. Independente dosobjetivos e da forma que essa socialização é feita, nós sempre teremos essanecessidade de nos relacionarmos à grupos e isso afeta a forma como agimos, asnossas escolhas e até a formação de nossa personalidade.Esse estudo surgiu como a necessidade do entendimento da influência que ainternet, mais precisamente as redes sociais, nas pessoas. O que ela mudou naforma como nos relacionamos, nas pessoas que conversamos, nas atividades quefazemos, no nosso dia-a-dia de forma geral. Para isso, o primeiro passo foi estudar osurgimento da internet, desde os tempos militares, seu processo aberto ecolaborativo de massificação, suas características descentralizadas e democráticas,até seu futuro, presente basicamente em qualquer lugar e interferindo em todanossa forma de viver.Após entendermos de onde veio e para onde vai a internet, buscamosanalisar os reflexos disso na forma como as pessoas se comunicam, se relacionam,se mostram umas a outras. De casamentos que acabaram por causa do Facebookaté a forma como os relacionamentos online produzem hormônios semelhantes arelacionamento físicos, serão apresentados diversos estudos que expõem adualidade de efeitos proporcionados pelas redes sociais, em diversos pontos devista. Os efeitos dessas mudanças em uma visão de sociedade também serãoapontados, desde o poder conquistado ao usuário a convergência midiática que osprodutores de conteúdo estão tendo que se acostumar.Hoje a internet é a maior fonte de informações disponível, e isso pode acabarvirando um problema. Primeiro pela falta de privacidade e exposição exacerbada deinformações pessoais na rede, o que interfere desde no processo de conhecimentode uma pessoa até na diferença entre o que a pessoa é e o que ela parece ser.Segundo, o excesso de informações e o consumo simultâneo de mídias pode causar
  10. 10. 11consequências positivas e negativas, alterando nosso processo de transformação deinformação em conhecimento e nossa necessidade de certos conhecimentos em si.Na última parte do trabalho será feita uma análise do conceito de ativismo, asmudanças que o ele passa com o advento do digital e o cruzamento do conceito deativismo digital com o pragmatismo de Pierce. Para finalizar o estudo, veremos comoesses efeitos tem ocorrido na prática: como o ativismo digital pode ser utilizado parafazer revoluções como a Primavera Árabe, que surpreendeu a todos por acontecerem uma cultura que tradicionalmente possui uma lenta adesão tecnológica; comoinstituições tentam se aproveitar da questão do ativismo como status, utilizando oexemplo do caso Kony 2012; e finalmente como a nova geração vê o ativismo semuma causa definida, mudando paradigmas de mercados tradicionais e do consumode cultura no país.
  11. 11. 122. INTERNET E REDES SOCIAIS: INÍCIO EDESENVOLVIMENTO2.1. O SURGIMENTO DA INTERNETA guerra é conhecida por acelerar o desenvolvimento humano, apesar de sero exemplo máximo de involução da nossa espécie. Do micro-ondas a margarina,várias tecnologias e objetos do nosso cotidiano surgiram a partir dodesentendimento entre as pessoas. A internet é uma dessas filhas da guerra, e,justamente por isso, é interessante pensar que, o que o que hoje talvez seja a maiorferramenta de comunicação da sociedade, nasceu do símbolo do esgotamento dacomunicação entre povos.Na década de 1960, auge da Guerra Fria, o controle de informações era umadas grandes preocupações governamentais: espiões e interceptações decomunicação muitas vezes valiam mais que qualquer arma. Diante este cenário,manter as informações concentradas em apenas um local era um risco muitogrande, e a possibilidade de um bombardeio ao Pentágono, principal centro deinteligência do governo americano, fez com que este colocasse suas principaismentes, que na época buscavam colocar os EUA em pé de igualdade com a UniãoSoviética na corrida espacial, em busca de uma alternativa que mantivesse asinformações seguras.A partir do projeto de um psicólogo do MIT sobre computação interativa, foicriada a Arpanet (Advanced Research Projects Agency Network), uma rede decomunicação descentralizada que permitia a transmissão de informações entrediversas centrais. Contrariando o motivo inicial, a rede teve seus primeiros nós em1969 em quatro universidades: Los Angeles, Stanford, Santa Barbara e Utah. AArpanet foi sendo difundida no meio acadêmico não só americano e em 1983 oDepartamento de Defesa acabou criando uma rede militar dedicada, tornando aArpanet exclusivamente voltada a pesquisa.
  12. 12. 13Já neste primeiro capítulo de formação da internet, podemos perceber umamudança significativa: a informação não era mais escrava de um local. Apesar de aArpanet ter sido a base, a internet dos atuais moldes é resultado de diversasiniciativas. As primeiras transmissões de arquivos e de mensagens entrecomputadores pessoais foram feitas por dois alunos de Chicago, quedisponibilizaram os códigos para domínio público. Outro estudante californiano criouuma forma de conexão através de linhas telefônicas convencionais, barateando epopularizando a rede.Porém o grande marco da internet ocorreu em 1989: a criação da World WideWeb. Tim Berners-Lee, um pesquisador do CERN, Organização Europeia para aPesquisa Nuclear, pegou diversos trabalhos considerados utópicos e concretizou-osem um sistema de hipertextos chamado de World Wide Web, com isso o usuáriopoderia ir de um conteúdo a outro relacionado. O sistema WWW foi disponibilizadoonline e é a base usada para a internet até hoje.2.2. O DESENVOLVIMENTO DA REDE E SUAEXPANSÃO MUNDIALA partir daí o crescimento da internet foi exponencial. Em 1991 os hiperlinksforam liberados ao público. No mesmo ano o finlandês Linus Torvalds cria o Linux, oprimeiro sistema operacional aberto da história, o que ajuda a difundir a cultura deprogramação e desenvolvimento pelo mundo.
  13. 13. 14Figura 1 - Gráfico de adesão das tecnologias do século XX na população americana (fonte:W.Michael Cox)Porém, 1995 foi o ano que deu início a massificação da internet. Com oWindows 95 o computador se popularizou e a interface ficou mais amigável parausuários leigos. Se o sistema da Microsoft foi o responsável por facilitar o uso decomputadores pelo mundo, o Netscape teve o mesmo papel, facilitando o uso dainternet pelos usuários ao redor mundo. Em março do mesmo ano, o sistema debuscas de maior sucesso no início da internet foi lançado: o Yahoo auxiliava osusuários a encontrarem as informações na web. Já em julho, a Amazon vende seuprimeiro livro, sendo uma das pioneiras do e-commerce. Apenas um mês depois, elajá realizava entregas em 45 países. Em setembro foi realizado o primeiro leilãovirtual no eBay, inaugurando um papel mais ativo do internauta. Mais tarde, em1996, seria lançado o primeiro serviço de webmail do mundo, o Hotmail, que maistarde viria a popularizar a função mais usada pelos internautas.Figura 2 - Crescimento de usuários de internet (fonte: Internet Telecommunication Users)
  14. 14. 15Com todas essas mudanças, em 1997 a internet já contava com quase 120milhões de usuários1, transferia mais de 5 petabytes de informações por mês ebateu a marca de um milhão de websites2. Diante esse cenário de prosperidade, ainternet foi vista como uma mina de ouro, e a partir daí toda ideia poderia ser apróxima ideia de um bilhão de dólares. Uma dessas ideias foi o Google, o sistemade buscas que se transformaria em uma das empresas mais importantes do mundo.Ele surgiu em 1998, com o objetivo de “organizar a informação mundial e torná-launiversalmente acessível e útil” 3, e nos primeiros meses já teve um investimento de100 mil dólares, reflexo da confiança depositada na web. O Google organizou avasta quantidade de informações na web de forma que qualquer um pudesseencontrar o que precisava, sendo que hoje muitas pessoas acabam utilizando oportal como ponto inicial para a navegação, não só para procurar como para entrarem sites, ou até para verificar a grafia de uma palavra.No ano seguinte, surgiu o serviço que mudaria a economia mundial. ONapster criou uma das maiores revoluções na distribuição de conteúdo aopopularizar o sistema P2P – do inglês peer-to-peer, é uma rede decompartilhamento de arquivos onde os usuários podem trocar arquivos semintermediários – para a troca de arquivos de música. Após ter uma base de mais deoito milhões de usuários, a empresa foi bombardeada por processos das grandescorporações multimídia e acabou sendo obrigada a fechar seu serviço. Porém, aideia de compartilhamento de arquivos mudaria a indústria de entretenimento parasempre: diversos serviços semelhantes surgiriam e, por fim, as empresas teriam queadaptar seus negócios para sobreviver à rede.Na virada do século, a marca de 10 milhões de sites era batida, e asempresas de tecnologia, denominadas popularmente de “ponto com” tinham umcrescimento exponencial na bolsa. O ápice dessa euforia foi a compra da TimeWarner, um dos mais tradicionais conglomerados de entretenimento dos Estados1Google – Evolution of Web http://www.evolutionoftheweb.com Acesso em 14 de outubro de 2012.2A Internet, seis décadas. Discovery Channel. http://discoverybrasil.uol.com.br/internet/interactivo.shtmlAcesso em 14 de outubro de 2012.3Google Corporate – Missão http://www.google.com/about/company/ Acesso em 14 de outubro de 2012.
  15. 15. 16Unidos, pela AOL, na época o maior provedor de internet do mundo. Era o símbolodo triunfo da “nova economia” sobre a “velha economia”.Com o crescimento desenfreado de investimento nas empresas relacionadasà internet, o FED (Banco Central dos Estados Unidos) resolve interferir, e, apósenviar diversas mensagens ao mercado criticando sua “exuberância irracional”, eleaumenta em seis vezes a taxa de juros, visando moderar esse ímpeto4. A Nasdaq(bolsa eletrônica de Nova York) sofre com as especulações, e as cartas dasempresas relacionadas à tecnologia ficam hiperinflacionadas. Esse movimento foibastante incentivado pelos especialistas do mercado financeiro que controlavam odinheiro de pequenos investidores, como visto em Wheen:“A verdade só veio à tona em 2003, quando o procurador do estado deNova York, Elliot Spitzer, saiu em defesa dos pequenos investidores que sehaviam arruinado por seguirem os conselhos dos especialistas. Ainvestigação revelou que, enquanto Blodget exortava publicamente osclientes da Merrill a arriscarem a poupança de sua vida inteira em firmascomo a Goto.com e a Excite Home, seus e-mails particulares para colegasdescreviam essas mesmas ações como "papéis sem valor", "uma porcaria"e "uma bosta". (...) Seu equivalente no Citibank, Jack Grubman, foicondenado a pagar 24,4 milhões de multa por produzir relatórios depesquisa "fraudulentos e enganosos" sobre ações da Internet.”5Pouco tempo depois, as empresas “ponto com” começaram a sofrer dediversas correções e processos, como a declaração de monopólio do tribunal federalamericano contra a Microsoft. Junto a isso, vieram os maus resultados dos varejistasonline no Natal de 1999 e ausência de retorno do modelo econômico das empresas“ponto com”.Com o estouro da bolha, diversas empresas pediram falência, outras foramadquiridas e as que sobreviveram, como a AOL, que acabou se tornando uma seçãoda empresa que comprou, perderam grande parte do seu valor de mercado.4Ditados para Entender a Bolsa. Tarek Issaoui, Ivan Moneme. NBL Editora, 2007.5Wheen, 2007. P. 291
  16. 16. 17Apesar de todo o caso da bolsa, o uso da internet não parou de avançar emtodos esses anos. Em apenas oito meses, o número de sites existentes dobrou,totalizando 20 milhões. No ano de 2001, surgiu o serviço que iconiza o poder dousuário no controle da informação: a Wikipédia. Uma enciclopédia virtualcolaborativa, onde os próprios usuários escrevem e corrigem os verbetes. É o inícioda descentralização da informação, o que irá modificar bastante todo ocomportamento de uma sociedade anos depois. A partir daí, veremos uma grandemudança na utilização da web e nos principais sites, o que será tratado comprofundidade no próximo capítulo.É importante notar que as bases nas quais a internet foi construída refletembastante no que a internet tornou-se. Se existe essa rede mundial de computadoreshoje, deve-se ao trabalho colaborativo, feito por diversas pessoas, e principalmenteao compartilhamento livre, para que as pessoas modificassem e o sistema evoluísseindependente de direitos autorais. Castells resume todo o processo:"Antes de mais nada, a Internet nasceu da improvável interseção da bigscene, da pesquisa militar e da cultura libertária. Importantes centros depesquisa universitários e centros de estudos ligados à defesa foram pontosde encontro essenciais entre essas três fontes da Internet. A Arpanet teveorigem no Departamento de Defesa dos EUA, mas suas aplicações militaresforam secundárias para o projeto(...) Ele desempenhou um importante papelna construção da tecnologia de comunicação por pacote, e porque inspirouuma arquitetura de comunicações baseada nos três princípios segundo osquais a Internet opera ainda hoje: uma estrutura de rede descentralizada;poder computacional distribuído através dos nós da rede; e redundância defunções na rede para diminuir o risco de desconexão. Essas característicascorporificavam a resposta-chave para as necessidades militares decapacidade de sobrevivência do sistema: flexibilidade, ausência de umcentro de comando e autonomia máxima de cada nó.”66Castells, 2003. P.19
  17. 17. 18Figura 3 - Linha do tempo com momentos importantes da história da internet (fonte: joaobordalo.comcom informações de builderau.com.au)2.3. A WEB COMO PLATAFORMA E O CONTEÚDONA MÃO DOS USUÁRIOSSe a internet teve como premissa inicial o compartilhamento de conhecimentoe o armazenamento de informações, a partir da difusão social e de sua penetraçãona grande população percebemos uma clara expansão em seu uso. Essa expansão,causada por fatores como o amadurecimento dos usuários e a popularização daslinguagens de programação, mostrou o poder da utilização da grande rede comouma plataforma, interativa e colaborativa, fazendo com que a mesma se tornassegradativamente parte do dia a dia das pessoas, tanto a fins de relacionamento comode criação da identidade em si. Para essas mudanças foram criadas diversas
  18. 18. 19terminologias, como infoware, the open source paradigme shift, além da famosaWeb 2.07.A primeira plataforma online criada com fins sociais foi a Usenet, em 1979.Com ela os usuários trocavam mensagens de texto, agrupadas por tema, em umaespécie de fórum. Porém a popularização da troca de mensagens veio só em 1988,com o IRC (Internet Relay Chat). O sistema finlandês permitia encontros em grupo,mensagens privadas e mensagens em tempo real. Com a popularização da internet,o IRC se transformou na principal forma de bate-papo entre os internautas. Em1995, com o lançamento do Windows 95, foi criado o mIRC, um programa que utilizao protocolo IRC inicialmente para bate-papo, e posteriormente desenvolvido parafuncionar como servidor de jogos multiplayer, de arquivos e até leitor de MP3. OmIRC foi talvez a primeira plataforma de comunicação utilizada em nível mundial,uma sensação até 2003.Após o mIRC, programas de comunicação instantânea surgiram epopularizaram o uso da internet como forma das pessoas se conhecerem ecomunicarem. Menos formais que o e-mail, Instant Messengers (IMs) como o ICQ,Aol Messenger e MSN Messenger se difundiram e com eles o uso da internet comum objetivo mais voltado em interação social. O ICQ, pioneiro entre os IMs, teveforça o suficiente para fazer com que as pessoas decorassem o número de 8 dígitosque representava seu usuário para passar para pessoas que conhecessem na vidareal e assim mantivesse contato. Até hoje os IMs são responsáveis por grande partedo tempo gasto na grande rede, e estão crescendo cada vez mais graças ao uso denovas ferramentas como os formatos multimídia do Skype ou o uso em dispositivosmóveis, como no WhatsApp. Em 2012 existiam 3,18bilhões de contas de IMs nomundo, e a previsão é que esse número chegue em 3,8 até 2016.O uso com cunho de relacionamento da internet cresceu exponencialmentegraças as redes sociais. Redes sociais são estruturas compostas de perfis (sejam7Brady Forrest. Controversy about our "Web 2.0" service mark. http://radar.oreilly.com/2006/05/controversy-about-our-web-20-s.html Acesso em 06/05/2013.8The Radicate Group, INC. Instant Messaging Market, 2012-2016 http://www.radicati.com/wp/wp-content/uploads/2012/08/Instant-Messaging-Market-2012-2016-Executive-Summary.pdf. Acesso em28/04/2013.
  19. 19. 20eles de pessoas, empresas, ou outra entidade) conectados que se relacionam entresi, em busca de um mesmo interesse. Estas estruturas permitem relacionamentossem níveis hierárquicos, e com diversos objetivos, desde amorosos até profissionais.Redes não são, portanto, apenas uma outra forma de estrutura, mas quase uma nãoestrutura, no sentido de que parte de sua força está na habilidade de se fazer edesfazer rapidamente. Os limites das redes não são limites de separação, mas limitesde identidade. (...) Não é um limite físico, mas um limite de expectativas,desconfiança e lealdade, o qual é permanentemente mantido e renegociado pela redede comunicações.9Figura 4 - Interface do classmates.comEm 1995, o embrião da primeira rede social como é conhecida hoje nasceu. OClassmates.com tinha como objetivo fomentar o reencontro entre amigos queestudaram juntos. Em 1997 foi lançado o Six Degrees, considerado a primeira redesocial moderna. Com ele as pessoas poderiam criar perfis online e conectar-se auma rede de amigos. Porém a primeira grande rede social foi o Friendster, lançadaem 2002. O nome, junção da palavra friend com Napster, indica o principaldiferencial da rede: além de conectar-se aos amigos, você também pode descobriramigos de amigos ou pessoas com um interesse em comum. Com opções de grupospor interesse, atividade ou escola, além de interações por mensagens, jogos, blogse aplicativos, o Frindster teve um crescimento rápido, chegando em seu ápice a 115milhões de usuários. A partir de 2003, diversas redes surgiram, cada uma com um9DUARTE, F.; QUANDT, C.; SOUZA, Q. (Org.). O Tempo das Redes. Editora Perspectiva, 2008. P.21/23/156
  20. 20. 21propósito diferente para atender as necessidade dos mais de 600 milhões deinternautas da época. Com o MySpace os internautas começaram a mostrar o seuperfil através dos interesses que possuíam, conectando fãs e artistas, além de ter osprimeiros aspectos multimídia como upload de fotos e músicas. Já o LinkedIntransportou o conceito de redes sociais para o mundo profissional através de redesde pessoas que se conhecem profissionalmente, criando uma espécie de currículumvitae interativo e possibilitando recomendações e descobertas de vagas. Outroexemplo de rede social com um propósito definido é o Flickr, criado em 2004 paraconectar todos entusiastas de fotografia, ele massificou o hábito de guardar fotos nainternet, além de criar um grande banco de imagens com possibilidade decomercialização e um espaço onde grupos relacionados a fotografia podem trocarexperiências e informação.A geração que nasceu e cresceu com a presença constante das tecnologiasdigitais, os chamados nativos digitais, começou a encarar a internet como umaferramenta da sua vida social, algo que ela utiliza tanto para se relacionar como paradefinir quem ela mesma é10. Com esse amadurecimento dos usuários, a demandapor redes sociais mais abrangentes, que não focassem em um determinado perfil, foise desenvolvendo.Esse amadurecimento explica o sucesso estrondoso da plataforma criada em2004 que mudaria para sempre a forma que as pessoas utilizariam a internet: oFacebook. Feito com o objetivo de conectar os alunos de Harvard, o Facebooktornou-se a principal rede social e o site mais visitado do mundo11graças ao fato deser uma plataforma criada para o relacionamento entre as pessoas, possibilitando atroca de mensagens, formação de grupos e compartilhamento de conteúdo, e ainteração das pessoas com páginas e aplicativos, onde podem se conectar ainstituições e pessoas públicas, montando assim sua identidade digital.No mesmo ano, o Google lançava o Orkut, rede social semelhante aoFacebook que se tornaria a principal rede social de diversos países até a10PALFREY (2011), p-17.11DICKEY, MEGAN R.; CARLSON, NICHOLAS. The Biggest Websites In The World.http://www.businessinsider.com/biggest-websites-in-the-united-states-2013-2?op=1. Acesso em 06/05/2013.
  21. 21. 22disseminação deste mundialmente, a partir de 2008. O Orkut tinha característicasmais identitárias graças as comunidades, onde ao participar a pessoa atestava aconcordância do argumento chave daquela comunidade, e assim identificava seuperfil. A rede social do Google foi uma das principais responsáveis pela inclusãodigital no país, transportando o caráter social que o brasileiro já tem para a internet.Segundo o site de monitoramento de fluxo de sites Alexa, o Orkut teve seu pico em2010, quando teve 34 milhões de visitantes únicos, o que representava cerca de75% do alcance total de usuários brasileiros.No ano seguinte, o Youtube revolucionaria novamente a forma das pessoasconsumirem conteúdo, permitindo o compartilhamento de vídeos de forma fácil egratuita. Com a popularização das câmeras digitais e dos celulares, qualquer umpoderia produzir seu vídeo e até tornar-se uma celebridade da internet. O Youtubemudou não só a forma de se consumidor conteúdo na internet, como mudou aindústria de entretenimento como um todo, das emissoras de tv às gravadorasmusicais.Em 2006, o Twitter se destacou pela limitação em um mundo saturado deinformação. Se com o Youtube qualquer um poderia se tornar uma celebridade, como Twitter todos poderiam ser repórteres e transmitir informações em tempo real,muitas vezes em primeira mão. Além do caráter informativo, o Twitter massificou acomunicação entre usuários e o que antes era inacessível, colocado em pedestais,como empresas e artistas. Esse canal direto de comunicação tornou-se um dosmelhores exemplos da inversão do poder para as mãos do usuário, onde aexpressão “xingar muito no Twitter” tornou-se sinônimo de fazer valer os seusdireitos.
  22. 22. 23Figura 5 - Histórico das redes sociais, do serviço postal às redes digitais (fonte: skloog.com)Um dos grandes receios do uso da tecnologia móvel é a segurança, e divulgarsua localização a princípio não era algo que muitas pessoas fariam. Em 2009 oFoursquare mudou isso, aproveitando o anseio por status que as pessoas tem emdivulgar os lugares onde estão, juntando isso a uma plataforma gamificada12quegerava a competição entre amigos.Outra rede social a mudar paradigmas foi o Instagram, plataforma onde osusuários podem compartilhar fotos. Através do usos de filtros e alguns outros efeitos,a rede reforçou a fotografia móvel e popularizou a fotografia como registro docotidiano e expressão de sua identidade.Essa mudança de poder para o usuário causou também uma mudança narelação das pessoas com a internet. A partir da possibilidade de criação ecompartilhamento de conteúdos, a demanda pela massificação da internet aumentoue incentivou o surgimento de diversos dispositivos que trazem a internet ao alcancede qualquer pessoa, a qualquer hora. E essa simbiose da internet com o dia a diadas pessoas acaba mudando a forma que a sociedade é influenciada pela mesma,assunto que será abordado com profundidade no próximo capítulo.12Gamification é um conceito dado para a criação ou adaptação de projetos com premissas de games, comopontuação, ranking e prêmios.
  23. 23. 243. A INFLUÊNCIA DA INTERNET NA SOCIEDADEComo se pode perceber, a internet surgiu de uma forma razoavelmenteliberal, afinal as universidades podiam utilizar os investimentos para estudo comcerta flexibilidade; além de ser embasada em valores como colaboratividade ecompartilhamento. O surgimento da internet por si só já representa uma grandemudança social: desde a utilização de cada nó da rede como servidor até a divisãoda informação, o funcionamento da rede concretizou conceitos antes consideradosutópicos. A informação, antes geoescravizada, passou a ser praticamenteonipresente graças à revolução tecnológica. A comunicação humana mudou seuformato, seu conteúdo, seus limites e interlocutores; assim seria impossível passarileso por uma revolução dessas sem que as pessoas, e consequentemente, asociedade também mudasse.3.1. EVOLUÇÃO DO USO DA INTERNETAntes de analisarmos possíveis influências da internet na sociedade, éimportante entendermos a evolução do seu uso ao longo do tempo. A funçãoprimordial da rede em seus primórdios era o envio de mensagens, tanto que ahistória da internet e do e-mail se confundem. A primeira mensagem eletrônica foienviada em 196913, e acabou sendo a principal atividade feita na internet por umbom tempo. Para efeito de comparação, o primeiro site da história foi publicado emagosto de 199114, e a primeira imagem quase um ano depois15. É interessante notarque, mesmo 42 anos depois, o e-mail se manteve como a atividade mais popularentre os usuários da internet, ao lado do uso de serviços de buscas. Segundo aComscore, apenas em outubro de 2011, o uso de redes sociais se tornou a atividade13Diário Digital. http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=417591 Acesso em 05/10/2012.14G1 http://g1.globo.com/tecnologia/noticia/2012/08/primeiro-site-publicado-na-internet-completa-21-anos-veja.html Acesso em 05/10/2012.15Terra. http://tecnologia.terra.com.br/noticias/0,,OI5890774-EI12884,00-Primeira+foto+postada+na+web+faz+anos+conheca+a+historia.html Acesso em 05/10/2012.
  24. 24. 25mais popular na internet, responsável por um em cada 5 minutos navegados naweb16.Figura 6 - A partir de 2011 o uso de redes sociais se tornou a atividade mais realizada na internet(fonte: comScore)Partindo desta análise, podemos perceber que a internet sempre teve umcaráter social. Por mais que o compartilhamento e acesso a informações seja ogrande cerne da rede, as conversas movem grande parte das interações virtuais.Com a evolução na interação das pessoas com os computadores, onde cadavez mais uma questão individual se encaixa nesta nova forma de coletividade, ocomputador pessoal é transformado no que Chatfield17chama de computadoríntimo.Ele deixa de ser uma ferramenta para ser uma extensão da própria pessoa,com o qual ela convive praticamente todas as horas do seu dia. Essa relaçãopessoa-máquina vem evoluindo e caminha para uma relação de completa simbiose,que vem sendo chamada de Internet das Coisas, descrita de forma sucinta por Ningem seu livro “Unit and Ubiquitous Internet of Things”:“The phrase "Internet of Things" was proposed by MIT Auto-ID Center in1999. Such an embryonic definition of IoT refers to constructing an Internet-Based network covering all the thing in the world by using related16AccuraCast News. http://news.accuracast.com/social-media-7471/social-networking-most-popular-online-activity/ Acesso em 05/10/2012.17CHATFIELD (2012) – p.20
  25. 25. 26technologies (e.g., radio frequency identification [RFID]) to realizethingsautomatic identification and information sharing. In 2005, ITU InternetReports 2005: The Internet of Things, published by InternationalTelecommunications Union, pointed out the IoT concept and expanded itsmeaning, and indicated that RFID technology, sensor technology,nanotechnology, and intelligent embedded technology are the four coretechnologies to realize IoT. After IBM announced the SmartPlanet concept in2009, IoT became a hot topic and has been incorporated into many nationsdevelopement strategies. Along with the changes of applicationrequirements and technology development, the IoT concept has been rapidlyextended and new technologies have been involved in it.”18Essa evolução da internet, permitirá que tudo esteja conectado, portanto quetudo seja mensurável ou programável, o que é uma polêmica fundada em basessólidas. Gadgets como a Nike FuelBand, uma pulseira que calcula todos seusmovimentos durante o dia, e o Google Glass, óculos conectado com o qual a pessoapode tirar fotos, fazer videoconferências ou mesmo coletar informação apenas comcomando de voz ou gestos, já são realidade e nos faz pensar no limite entre vidasocial e vida privada. Grandes obras da ficção científica, como o conto de Philip K.Dick, Minority Report, 1984, de George Orwell, ou mesmo o conceito de panópticode Focault, já previram algum cenário para esse assunto e imaginaram até quando asociedade poderia chegar com essa quantidade de informações em mãos, e osperigos que corremos com isso. Se hoje, a superexposição de informações já é algorotineiro, imagine quando tudo que você vestir, interagir, ou passar por também tivero poder de realizar uma publicação ou uma ação sobre a sua presença ali.A realidade é que informação já é a moeda mais valiosa que podemos ter. Agrandiosidade do Google, que sabe tudo o que você faz e gosta na internet, doFacebook, que vê o que gosta, quem você é e com que se relaciona, ou mesmo deempresas de cartão de crédito, que através da análise de gastos podem prever porexemplo se uma pessoa irá se divorciar com até 2 anos de antecedência19, sãoprovas mais do que concretas do valor imensurável que a informação tem. A Internetdas Coisas possibilitará ainda mais a coleta e gerenciamento de informações, e18NING, Huansheng. Unit and Ubiquitous Internet of Things. CRC Press, 2013.19GARATONNI, B; DELFINI, M. Seu cartão sabe tudo http://super.abril.com.br/cotidiano/seu-cartao-sabe-tudo-543527.shtml. Acesso em 15/05/2013
  26. 26. 27quem tiver controle sobre a Big Data20, terá certamente um poder maior ainda doque o das empresas citadas anteriormente.A partir do momento em que a informação se torna a moeda mais valiosa, umdos principais assuntos em discussão é a privacidade de quem utiliza a internet, ouseja, de quem dá a informação. Empresas como Google e Facebook criam serviçosonde as pessoas em troca oferecem suas informações. Portanto, a busca de termosprecisa, o e-mail, a rede social, o espaço de armazenamento na nuvem, tudo issonão é pago financeiramente, porém as empresas recebem informações sobre vocêem troca. E elas podem, indiretamente, vender essas informações a terceiros,interessados em fazer com que você consuma o seu produto ou serviço. Outrosserviços, como nossa empresa telefônica ou cartão de crédito, podem dizer comquem mais falamos, aonde estamos e com que gastamos. Um exemplo interessantedo potencial que tem o cruzamento das informações de duas bases de dadosdiferentes, é o programa Cielo Linkci21, da líder do setor de cartões de pagamentono mercado brasileiro, com o qual os usuários podem cadastrar seu Facebook aoseu cartão e assim realizar check-ins em estabelecimentos para receber pequenosbenefícios em troca. Por trás do objetivo de marca e de divulgação do uso do cartão,está o cruzamento das informações do Facebook com o do cartão de crédito,criando um perfil muito mais completo sobre suas ações.20Big Data é o conceito criado pela IBM para mostrar a importância do gerenciamento de informações quetemos e que, com a Internet das Coisas, teremos ainda mais. A Big Data baseia-se em 5 V’s: volume,velocidade, variedade, veracidade e visualização. Portanto, o termo consiste em uma ampla base de dados,com fontes variáveis, processadas em menor tempo possível, para que se gere uma visualização simples econfiável das informação lá obtidas.21Cielo Linkci - http://www.releasecielolinkci.com.br/. Acesso em 19/05/2013
  27. 27. 28Figura 7 - Passo a passo para a participação do programa Cielo Linkci (fonte:facebook.com/cielolinkci)Aliado a isso, existe a superexposição de informações na internet, sejavoluntária ou não. O direito de uso de imagem, por exemplo, é algo muito difícil dese controlar em tempos que qualquer um pode fotografá-lo ou filmá-lo em qualquerlugar. Como lidar com materiais constrangedores que podem ser disseminados eacabar com o respeito das pessoas ao seu redor?A privacidade, seja a nível individual ou coletivo, é um dos principias guiaspara o futuro do uso da internet. Se ela estará em todos os lugares, para todas aspessoas, isso com certeza mudará tanto a forma das pessoas agirem quanto de serelacionarem. Se a Internet das Coisas ainda parece futurista, podemos analisar aprivacidade em um mundo repleto de redes sociais, onde “a questão central denosso exame de consciência está se deslocando de quem é você? para o que vocêestá fazendo?"22.3.2. A DUALIDADE DAS REDES SOCIAIS22CHATFIELD (2012) – p.43
  28. 28. 29Apesar do universo online geralmente ser vistocomo libertador pelas possibilidades democráticas queproporciona, temos que ficar atentos a todasconsequências possíveis dessa revolução digital nasociedade. Ao mesmo tempo em que você tem a voz parapassar sua mensagem, o local onde você a publica e operfil das pessoas que irão ler suas mensagens sãomodelos automáticos que definem seu tom e suamensagem. O dilema também está presente quandocomeçamos a nos questionar se as redes sociais estãonos deixando mais solitários ou mais sociáveis23.Hoje, cerca de dois terços das interações entreamigos são feitas digitalmente24, sendo a maioria delamensagens de texto – seja pelo Facebook, Whats App ouSMS tradicional. Porém, as mesmas pessoas queresponderam essa pesquisa, afirmaram que se vãoexpressar um sentimento, isso deve ser feitopessoalmente. A análise das formas de relacionamentodas pessoas hoje em dia e o que isso causa nas mesmasé crucial para entendermos a sociedade atual como umtodo, e para isso deve-se entender ao máximo adualidade dos efeitos causados por essas mudanças.Um estudo25da York University in Canada analisouas postagens de 100 estudantes universitários e mostrouque usuários destes canais possuem um comportamentoaltamente narcisista, exibicionista, grande parte devido a23MARCHE, Stephen. Is Facebook Making Us Lonely?http://www.theatlantic.com/magazine/archive/2012/05/is-facebook-making-us-lonely/8930/# Acesso em26/06/2012.24WALFORD, Charles. Forget face time, its all about Facebook time: Two-thirds of interactions among friendsare carried out electronically. http://www.dailymail.co.uk/sciencetech/article-2216742/Forget-face-time-Facebook-time-Two-thirds-interactions-friends-carried-electronically.html Acesso em 12/05/2013.25Facebook fanatic? You may just be insecure. http://alumni.news.yorku.ca/2010/09/10/facebook-study/?doing_wp_cron Acesso em 15/05/2013Figura 8 - Charge que representaas mudanças no relacionamentointerpessoal atualmente
  29. 29. 30insegurança que a coerção social impulsiona – você precisa mostrar o local ondeestá, registrar esse momento em fotos ou vídeos, divulgar as pessoas que teacompanham – e isso acaba fazendo o usuário muitas vezes ter uma vida digitalcompletamente diferente da vida real, como apresentado por Callie Schweitzer noconsagrado festival SXSW em 2013.“Pick your favorite movie: The one you tell everyone you like, the movie youput on your OKCupid and Facebook profiles, the movie you talk about on afirst date. Now pick the movie you watch over and over, the movie fromwhich you can recite every line, your go-to home-on-a-Saturday-night-and-I-don’t-care movie. Which one is actually your favorite movie?For some of us, the two movies wed choose may be the same. But for mostof us — myself included — theyre different. So what is it about sharingsomething publicly thats different than when its between me and my closefriends? Sharing information between two people used to be about giving apart of yourself away. Now, Im wondering if its about crafting a persona.It takes courage to be genuine. And it takes real courage to be genuine onthe internet, where everyone is a critic, a cynic, and a comedian.”26Essa simulação de personalidade e a comparação entre o seu perfil e perfisde outras pessoas possui relação direta com o aumento dos casos de depressão naadolescência, como comprovado em pesquisa realizada por psicólogos croatas, queanalisou 160 adolescentes na High School27. Para esse problema, a AmericanAcademy of Pedriatrics deu o nome de Facebook Depression:“Facebook depression (...) may result if, for example, young users see statusupdates, wall posts, and photos that make them feel unpopular. Socialmedia sites may have greater psychosocial impact on kids with low self-esteem or who are already otherwise troubled.”28O reflexo da construção dessa persona aparece também em uma pesquisarealizada por acadêmicos da Carnegie Mellon University, intitulada de “I regretted26SCHWEITZER, Callie. You are what you share. https://medium.com/tech-talk/b5ab1f1806fb. Acesso em31/05/201327PANTIC, I. et al. Association between online social networking and depression in high school students:behavioral physiology viewpoint. Psychiatria Danubina, 2012; Vol. 24, No. 1, pp 90-93.28PELT, J. V. Web Exclusive – Is ‘Facebook Depression’ for real?.http://www.socialworktoday.com/archive/exc_080811.shtml Acesso em 13/05/2013
  30. 30. 31the minute I pressed share: A Qualitative Study of Regrets on Facebook”. Essapesquisa mostra os principais fatores que levaram os usuários a se arrependeremdas postagens. De uma forma geral, a maioria dos posts que as pessoas searrependem giram em torno de três assuntos: conteúdo opinativo (sobre sexo,religião, trabalho ou problemas familiares, conteúdo depreciativo (xingamentos ebullying) e mentiras. Quando perguntados sobre o por quê de ter feito aquelapostagem, grande parte respondeu que era porque era legal, e queria ser visto comoalguém interessante.“Some people reported wanting to be perceived as interesting orunique.However, when the content or behavior described in thepost wascontroversial, this caused regret. (...) Our researchreveals several possiblecauses of why users make posts that they later regret: (1) they want to beperceived in favorable ways, (2) they do not think about their reason forposting or the consequences of their posts, (3) they misjudge the culture andnorms within their social circles, (4) they are in a “hot” state of high emotionwhen posting, or under the influence of drugs or alcohol, (5) their postingsare seen by an unintended audience, (6) they do not foresee how their postscould be perceived by people within their intended audience, and (7) theymisunderstand or misuse the Facebook platform. Some reported incidentshad serious repercussions, such as breaking up relationships or job losses.”29Outro consequência da super-exposição nas redes sociais são os chamadosstalkers30, termo em inglês que define aqueles que invadem a privacidade da vítimae podem usar esses dados para causar algum mal a mesma, seja perseguindo-a oumesmo expondo dados pessoais na internet. Com o tempo, stalkers especialistasacabaram oferecendo uma espécie de detetive virtual, que vasculha a internet embusca de rastros digitais para descobrir informações do seu alvo. Graças a esseexcesso de informação e ao stalking, não é espantoso ver o Facebook como causa29ACQUISTI, A et al.; “I regretted the minute I pressed share”: A Qualitative Study of Regrets on Facebookhttp://www.andrew.cmu.edu/user/pgl/FB-Regrets.pdf p. 1-630BENCHOP, A. CyberStalking: menaced on the internet. http://www.sociosite.org/cyberstalking_en.php Acessoem 14/05/2013
  31. 31. 32de 33% dos divórcios no Reino Unido31, e usado como prova de infidelidade emcerca de 80% dos pedidos de divórcio nos Estados Unidos32.O vício em canais como o Facebook, onde os brasileiros passam em média4,8 horas por dia33, aliado ao aumento da conectividade móvel, têm transformadotambém o nosso relacionamento físico. Um bom exemplo é como sociabilidadedigital afeta talvez um dos maiores ícones do relacionamento entre os brasileiros, osbares. Foi criado um jogo chamado Phone Stacking34, onde todos da mesa sãoobrigados a deixar seus celulares empilhados em cima da mesa e são proibidos deinteragir de qualquer forma com os aparelhos até que todos vão embora. Casoalguém desrespeite a regra, paga a conta. Um movimento social tentando combatera sociabilidade digital pode parecer, e até ser, extremo, mas o fato é que, até queconsigamos conciliar nossas duas vidas em uma só, isso se mostra como umanecessidade.Figura 9 - Exemplo de Phone Stacking (fonte: Techcrunch)31Facebook é causa de 33% dos divórcios no Reino Unido, diz estudo.http://tecnologia.terra.com.br/internet/facebook-e-causa-de-33-dos-divorcios-no-reino-unido-diz-estudo,b518fe32cdbda310VgnCLD200000bbcceb0aRCRD.html. Acesso em 15/05/2013.32Adams, Richard. Facebook a top cause of relationship trouble, say US lawyers.http://www.guardian.co.uk/technology/2011/mar/08/facebook-us-divorces Acesso em 15/05/2013.33SBARAI, Rafael. Tempo gasto por brasileiros no Facebook cresce 8 vezes http://veja.abril.com.br/noticia/vida-digital/tempo-gasto-por-brasileiros-no-facebook-cresce-8-vezes. Acesso em 28/06/201234HA, Anthony. The Phone Stacking Game: Let’s Make This a Thing http://techcrunch.com/2012/02/04/the-phone-stacking-game-lets-make-this-a-thing/. Acesso em 28/06/2012
  32. 32. 33Tudo isso cria uma pressão gigantesca nas pessoas, afinal a percepção defalha, medos e problemas não vão para as timelines, por mais que sejam muito maiscorriqueiras que qualquer viagem ou evento. A frase que direciona a postagem doconsumidor na rede de Mark Zuckerberg é “No que você está pensando”, mas éinterpretada como “O que você quer que as pessoas pensem de você?”.Diante dessas informações também é cômodo crucificar tais redes. Uminteressante estudo35realizado por um neurocientista americano observou a relaçãoentre o uso de redes sociais e o aumento de Ocitocina, um dos hormônios maisrelacionados a prazer e amor. No estudo, ele percebeu que enquanto as pessoascompartilhavam alguma informação no Twitter, por exemplo, seus níveis de ocitocinaaumentavam cerca de 13%, além de diminuir o nível de hormônios relacionados aostress. O mesmo artigo expõe estudo complementares observando que as pessoascom mais amigos, independente de suas proximidades físicas, ficam menosdoentes. Por fim, é apresentado uma pesquisa feita com 200 estudantes onde elesdeveriam desistir de qualquer dispositivo de mídia por um dia. A sensação que osusuários tinham era semelhante a de viciados de drogas, com sintomas queindicavam a solidão e sofrimento.Esse estudo é um dos indicadores de que, principalmente nas gerações maisrecentes, nosso cérebro trata muitas das nossas experiências digitais da mesmaforma que a real. Por isso, muitas vezes aquela conversa até as 5 horas da manhãpelo Instant Messager ou pelo chat do Facebook flui naturalmente, causando atéefeitos semelhantes a conversa real, como reflexos físicos e emoções. Porém, éimportante salientar que seria leviano constatar que uma conversa virtual éequivalente a uma conversa real.“Our facial expression, physical gestures, and the emotional tone in ourvoice alter the meaning of our words, which is why it is very difficult toexpress ourselves fully and authentically in an e-mail or text-or even in frontof a Skype screen. So when we forego face-to-face encounters in favor of35PENEMBERG, A. Social networking affects brains like falling in love.http://www.fastcompany.com/1659062/social-networking-affects-brains-falling-love. Acesso em 08/05/2013.
  33. 33. 34screen-speak or emailed or texted words, our friends receive only a partialmessage. Whats missing are the feelings that inform the words”.36Na conversa real existem diversos elementos que fortalecem o que queremosexpressar, dão emoção as palavras e, assim, passam com mais credibilidade nossossentimentos. Esses elementos também tornam a memorização daquela conversamais completa, não mais atrelada apenas ao conteúdo dito, mas a tudo que seussentidos registraram no momento.Outros estudos reforçam essa sociabilidade causada pelas redes sociais.Durante uma pesquisa da Universidade de Toronto os heavy-users de internettiveram um crescimento cerca de 33% maior no número de amizades – físicas ouvirtuais – do que quem não utilizava a internet. A mesma matéria conjectura umaexplicação para esse fator, concluindo que “A internet raramente cria amizades dozero - na maior parte dos casos, ela funciona como potencializadora de relações quejá haviam se insinuado na vida real.”. Portanto, o que acontece é que quando umusuário de redes sociais conhece uma pessoa na vida rela, ele procura o perfil delae cria um vínculo, por menor que seja, enquanto aquela que não utiliza redes sociaisdepende de outras formas de contato. Porém, o mesmo estudo complementa:“As redes sociais têm o poder de transformar os chamados elos latentes(pessoas que frequentam o mesmo ambiente social que você, mas não sãosuas amigas) em elos fracos - uma forma superficial de amizade. Pois é.Por mais que existam exceções a qualquer regra, todos os estudosapontam que amizades geradas com a ajuda da internet são mais fracas,sim, do que aquelas que nascem e crescem fora dela.”37Quando a relação é simétrica, ou seja, eu só consigo acesso as suasinformações se você permitir, a intensidade do vínculo de amizade diminui. Issoacontece porque a pessoa acaba expondo informações muito pessoais a um grandenúmero de pessoas, portanto aquele conteúdo acaba tendo que ser filtrado.Portanto, a interação real nas redes sociais de um usuário gira em torno de um36NOGALES, Ana. “Facebook versus Face-to-Face”. http://www.psychologytoday.com/blog/family-secrets/201010/facebook-versus-face-face. Acesso em 10/05/201337COSTA, C. Como a Internet está mudando a amizade. http://super.abril.com.br/cotidiano/como-internet-esta-mudando-amizade-619645.shtml Acesso em 10/05/2013.
  34. 34. 35grupo de amigos específico. É interessante pensarmos nesse grupo de pessoasrestrito com interagimos, com os quais temos um capital de ponte, como um limitefísico que possuímos, afinal seria impossível realmente ter uma interação socialprofunda com todas as centenas de amigos que uma pessoa tem no Facebook, porexemplo. O professor da Universidade de Oxford, Robin Dunbar, estudou38os limitesdo nosso cérebro em guardar informações detalhadas o suficiente para mantermosuma relação com alguém. Através de pesquisas práticas e análises antropológicas ebiológicas, ele chegou a um tamanho médio de grupo de 148 pessoas, com umaentre 100 e 230 amigos39. Diante essa demanda de catalogar seus amigos, diversosaplicativos foram criados, desde um onde você deve responder uma pergunta sobreseu amigo para não desfazer a amizade até outro que mostra quem realmenteinterage com suas postagens40.Apesar de não aumentar o número de pessoas com as quais você irá ter umrelacionamento interpessoal, as redes sociais fechadas, como o Facebook, causamum aumento do capital social, como discorre Shirky.“Uma razão para que a expressão “capital social” seja tão evocativa é queela conota um aumento de poder, de maneira análoga ao capital financeiro.Em termos econômicos, capital é uma reserva de riqueza e ativos; capitalsocial é aquela reserva de comportamentos e normas que permite, em umgrupo grande, que seus membros se deem apoio mutuamente. Quandofalam sobre capital social, os sociólogos muitas vezes fazem uma distinçãoentre capital de ligação e capital de ponte. Capital de ligação é um aumentona profundidade das conexões e na confiança dentro de um gruporelativamente homogêneo; capital de ponte é um aumento nas conexõesdentro de um grupo relativamente heterogêneo.”41Essa relação entre capital de ligação e capital de ponte exemplifica bem adiferença no significado da relação que as pessoas mantém nas redes sociais: comalgumas, tem uma relação superficial, quase inexistente; já outras você tem uma38Dont Believe Facebook; You Only Have 150 Friends. http://www.npr.org/2011/06/04/136723316/dont-believe-facebook-you-only-have-150-friends Acesso em 31/05/2013.39Dunbar, R.I.M. (1992). "Neocortex size as a constraint on group size in primates". Journal of Human Evolution20: 469–493.40Facebook Friend Audit. http://www.facebookfriendaudit.com/ Acesso em 31/05/201341SHIRKY, 2008, p. 188-189
  35. 35. 36interação pontual, e por fim tem aqueles que você interage constantemente. Shirkyexemplifica com uma suposição de empréstimo de dinheiro.“Para compreender a diferença, considere o número de pessoas a quemvocê emprestaria dinheiro sem lhes perguntar quando o devolveriam. Umcrescimento do capital de ponte aumentaria o número de pessoas a quemvocê emprestaria; um crescimento do capital de ligação aumentaria aquantia que emprestaria àquelas já incluídas na lista”.42Já em redes sociais como o Twitter, onde eu posso deixar minhasinformações livres a todos e isso não interfere na quantidade de informações que eureceberei, essa relação muda um pouco, facilitando a formação de laços deinteresse, ou seja, comunidades. Outra série de pesquisas43realizadas por umprojeto americano revelou que, justamente pelo fato de exporem suas informações esua personalidade, as pessoas que possuem Facebook são 43% mais confiáveisque outros usuários de internet. Esse dado nos mostra um paradoxo interessante:não queremos expor demais nossas informações nas redes sociais, porém o fato devocê possuir um perfil ativo e com bastante informação traz mais confiança para aspessoas que te conheceram digitalmente ou irão te adicionar após um encontrofísico.A sensação de compartilhamento e suporte emocional que o Facebook trazfoi outro ponto salientado pelas pesquisas. De uma forma geral, os usuários da redeazul são considerados mais companheiros que os usuários de internet como umtodo. Isso mostra bastante o uso que muitas pessoas dá a suas redes sociais, ondecompartilham dúvidas, sofrimentos e expõem muito da sua vida pessoal. Essaspessoas buscam um suporte que mostre que existem pessoas apoiando-a, e que elanão está sozinha no mundo. Rainie e Vellman (2012), tratam esse efeito em seusestudos sobre as redes sociais.“Different networks operate in different ways. Many provide havens: a senseof belonging and being helped. Many provide bandages: emotional aid and42SHIRKY, 2008. P-18943HAMPTON et al. Social networking sites and our lives . http://pewinternet.org/Reports/2011/Technology-and-social-networks/Summary.aspx Acesso em 10/05/2013
  36. 36. 37services that help people cope with the stresses and strains of their situatios.Still others provide safety nets that lessen the effects of acute crises andchronic difficulties. They all provide social capital: interpersonal resourcesnot only to survive and thrive, but also to change situations (houses, jobs,spouses) or to change the world or at least their neighborhood (organizingmajor political activity, local school board politics).”44Outros pontos interessantes que comparam os usuários de Facebook aosinternautas comuns são o maior nível de engajamento político, onde foi constatadoque nos Estados Unidos, aqueles que acompanhavam a corrida eleitoral pelas redessociais eram mais informados e mais condicionados a votar, e também que graças aredes sociais algumas amizades dormentes – como aquele seu amigo da escola ouo vizinho com o qual jogava bola – estão voltando a se aproximar.Como bem defendido por Marche quando questionado sobre a solidãocausada pelo Facebook, “não é o Facebook que está nos tornando mais solitários.Nós é que estamos”. Aqui é válido analisarmos as opiniões de outros doispensadores sobre o assunto. Chatfiled45, diz que “se quisermos conviver com atecnologia da melhor forma possível, precisamos reconhecer que o que importa,acima de todo, não são os dispositivos individuais que utilizamos, mas asexperiências humanas que eles são capazes de criar” e Palfray, complementa,comparando atributos da vida de uma garota de dezesseis anos dessa geração coma de antigamente.“A sixteen-year-old girls personal identity today is in some ways not all thatdifferent from what it would have been in the past. People still expressthemselves through their personal characteristics, interests, and activities inreal space - at least in part. For a typical girl living in a wired society, thedigital environment is simply an extension of the physical world. The fact thatshe lives part of her life in digitally mediated ways does not itself have alarge impact on her personal identity. She might be more or less interestedin digital activities inherently, but the effect of this interest is modest. Shemight express these personal characteristics online, but at its core, her44RAINIE, H.; RAINIE, L; WELLMAN, B. Networked: The New Social Operating System. MIT Press, 2012. P- 1945CHATFIELD (2012) – p.27
  37. 37. 38personal identity is unlikely to be much different from what it would havebeen in a previous era.”46Informação ou exposição? Pressão ou ajuda? Acompanhamento ou solidão?As redes sociais são ferramentas, e como qualquer ferramenta, podemos usá-labem ou mal, tudo depende de quem usa, e da forma que se usa.3.3. A INTERNET MUDANDO OS PROCESSOS DECOMUNICAÇÃOA massificação da internet trouxe com ela vários benefícios. Hoje, cerca de 80milhões47de brasileiros tem acesso aberto a informações variadas, não maistotalmente dependentes dos grandes conglomerados de mídia que concentram asinformações em seus canais. Porém, com a informação ao alcance de todos, aquantidade de informação é absurda, levando o público em geral a busca pelosserviços de curadoria de informação. Desta forma retorna-se ao início do ciclo, jáque os portais de curadoria mais procurados são aqueles “confiáveis” por suatradição nos antigos meios de comunicação. Ou seja, a informação continua de certaforma controlada.Entretanto é importante entendermos o que podemos considerar como os trêsprocessos básicos de comunicação48na atualidade para darmos um passo além evermos o porquê das afirmações acima não refletirem a realidade por completo. Sãoeles: interpessoal - pessoas que se comunicam presencialmente, interagem; massa- pressupõe transmissão e recepção de produtos a distância, com uma interatividadesimulada; e ciberespacial - a modalidade mais avançada, mediada pelo computadore feita através de redes interativas.46PALFRAY; 2010, p. 447Fonte: IBOPE/NetRatings – Abril/201248MARQUES, 2002
  38. 38. 39A internet permitiu que “pela primeira vez, todas as necessidades de mídia ede comunicação pudessem ser supridas por um único sistema integrado49”, ou seja,os três processos básicos podem ser realizados em uma só plataforma,independente do aparelho usado. As redes sociais tem um papel essencial no fluxode informações quando encaramos este cenário: elas são os meios por onde aspessoas se informam por fontes independentes, sejam seus amigos ou não. Noprocesso de informação atual da sociedade as redes sociais tem o papel decuradoria da informação, onde através de seus amigos você fica sabendo dosconteúdos mais relevantes para eles, e desta forma pode ficar sabendo de coisasque não saberia por qualquer outro local. Por outro lado, aqueles que não tinhamcomo se comunicarem, utilizam as redes sociais para disseminarem fatos ocorridos,experiências vividas, causas que acredita, entre outras coisas.O reflexo de tudo isso é a mudança da forma que se comunica hoje em dia.Para que se tenha atenção em meio a tantas informações você precisa mostrar seuconteúdo de uma forma diferente. Palavras e gestos dão lugar a manifestos emvídeos, pedidos de doação em imagens e a tentativa de conscientização em formatode infográfico.Portanto, se trouxermos os atos da fala determinados por Austin50para estecenário podemos entender que apesar da mudança no ato ilocucionário, operlocucionário se mantém, porém muda de forma. Se fisicamente, quando contaalgo a alguém, você deseja que essa pessoa sorria, pergunte sobre ou dissemine ainformação para as outras pessoas, no Facebook, por exemplo, isso foitransformado em like, comments e share. Mesmo o like, acabou desdobrando-se emdiversas funções, como discorre Sollero51: “Vejam o que aconteceu com o botão deLike/Love/Approve/etc. Ele deixou de ser algo na linha de Thumbs-Up para se tornaralgo do tipo do legal, ok, eu li/vi o seu post e, no caso de mensagens de felizaniversário, obrigado”.49CHATFIELD (2012) – p.2450AUSTIN, 199051SOLLERO, D. Salvem o Compartilhamento. http://www.brainstorm9.com.br/36872/opiniao/salvem-o-compartilhamento/ Acesso em 31/05/2013
  39. 39. 40Símbolo dessa nossa relação de aprovação nas redes é a criação doFacebook Demetricator52, uma ferramenta que tira os números relativos da suatimeline no Facebook, portanto, onde apareceria “48 pessoas gostaram disso”, comessa ferramenta aparecerá apenas “pessoas gostaram disso”. É uma tentativa defuga dessa dependência numérica que muitas vezes dita nossas postagens online,e, consequentemente, nosso parecer online.Outra mudança drástica ocorrida graças as possibilidades que o avanço datecnologia trouxe foi a ampliação das formas de comunicação e na disponibilidadedas pessoas para isso. Até meados do século XIX, uma pessoa comum tinha duasformas básicas de comunicação: instantânea presencial, ou seja, uma conversa caraa cara com outra pessoa, ou via carta, portanto de mais longo prazo e com conteúdodiferente. Ou seja, você só poderia dar informações rápidas para pessoas queestavam próximas fisicamente a você, e se quisesse informar alguém que estivessea uma distância maior a demora seria proporcional a distância.Isso só começou a mudar com a invenção do telefone e sua massificação apartir de meados século XX, o que ofereceu uma nova forma de comunicaçãointerpessoal onde as pessoas poderiam dar informações instantâneas a uma pessoadistante. Portanto, a primeira grande mudança trazida por esse novo meio foipraticamente a extinção da conversa a longo prazo por questões técnicas, todospoderiam falar a qualquer hora com outra pessoa e não precisariam esperar porisso. O telefone trouxe também uma mudança no conteúdo das conversas, onde aspessoas poderiam falar coisas que não tinham coragem de falar presencialmente.A próxima grande mudança na forma de comunicação veio com a internet,inicialmente com a possiblidade de enviar e-mails. Os e-mails são basicamentecartas virtuais, porém de envio instantâneo. A diferença do e-mail para o telefone, éque nem sempre queremos uma resposta imediata da pessoa, portanto é preferívelque a pessoa leia aquilo quando puder e responda posteriormente. Isso mudouainda mais com a massificação dos telefones celulares, e recentemente, dossmartphones. Com eles eu consigo tanto fazer videoconferências em tempo real,52TEIXEIRA, Fabrício. Dezoito pessoas curtiram isso. http://www.updateordie.com/2012/10/29/dezoito-pessoas-curtiram-isso/. Acesso em 30/08/2012.
  40. 40. 41verificando as reações físicas que é importante para diversos tipos de conversas,como enviar mensagens, via SMS ou IM, para que a pessoa responda na hora ouquando puder. A duração de uma conversa mudou, as pessoas podem enviarmensagens durante todo o dia e discutir o mesmo tema que levariam em umaconversa de 30 minutos. Hoje, eu posso enviar praticamente qualquer conteúdo(foto, vídeo, documento, etc), em diversos meios (e-mail, redes sociais, SMS), e aqualquer hora. Ou seja, as pessoas estão acessíveis praticamente 24 horas por dia,todos os dias, e essa interação tende a aumentar, como vimos anteriormente com oconceito da Internet das Coisas.Podemos ver os efeitos dessa evolução na forma de se comunicar analisandoo papel dos Correios no Brasil. Hoje, a maior parte da função dos Correios é relativaao envio de encomendas, seja o interpessoais (SEDEX) ou por empresas, onde o e-commerce tem uma boa representatividade53. É interessante analisar como umainstituição governamental, geralmente rígida e imóvel, conseguiu se adaptar asmudanças da sociedade e crescer frente a isso.Isso trouxe também uma mudança na visão das pessoas frente acompromissos. As mensagens instantâneas também tem serventia para darinformações urgentes sem precisar de grandes explicações. Com isso, muitaspessoas banalizaram o ato de desmarcar compromissos, enviando SMSs ourecados no Facebook em cima da hora. Para esse novo movimento, um professorde comunicação da Universidade IT, em Copenhague, cunhou o termo de“microcoordenação”."Antes do celular, diz ele, as pessoas se planejavam com base em horáriose locais pré-estabelecidos, ao passo que agora podem se "microcoordenar",ou seja, ajustar os planos conforme os fatos acontecem em tempo real, sejaum congestionamento ou um serão no escritório. (...) Podemos ter três ouquatro coisas diferentes acontecendo ao mesmo tempo. Uma coisa pode53RITNNER, Daniel. Os Correios tentam se reinventar. Valor Econômico,número 2968, B2, mar, 2012.
  41. 41. 42dar errado, outra pode acontecer. Ou seja, há uma indeterminação básicacom a qual convivemos atualmente.”54A geração atual tem o costume de marcar diversos compromissos ao mesmotempo, e decidir no dia em qual deles irá. O envio de convites e a agenda doFacebook é um reflexo disso, o ato de confirmar presença em um evento na redesocial não dá nenhuma garantia de comparecimento.Os autores do livro Networked,Barry Wellman e Lee Raine, resumem o efeitodessas mudanças em nossos círculos sociais.“No passado, as pessoas tinham círculos sociais pequenos, fechados, nosquais familiares, amigos próximos, vizinhos e líderes comunitários formavamuma rede de proteção e ajuda. (...) Este novo mundo de individualismoconectado gira em torno de grupos mais soltos e fragmentados queoferecem auxílio.”553.4. INFORMAÇÃO X CONHECIMENTOEm meio a todas essa mudanças na forma das pessoas se comunicarem, edos efeitos que a comunicação na internet causa na sociedade como um todo, umponto pode ser considerado unanimidade entre todos estudiosos: nunca tivemostanto acesso a informação e nunca esse acesso foi tão democrático.Ao longo dos tempos, a informação foi escrava de seu formato, e isso era umdos fatores que limitava sua disseminação. Não era possível (e nem de interesse deuma parte da sociedade) que um livro chegasse a mão de todos, ou que todospudessem ver determinado filme ou ouvir determinada música. Por muito tempo, seeu quisesse encontrar determinado conteúdo, eu iria a biblioteca e tentaria encontrá-lo por lá. A partir do momento que a informação se desvincula do formato e torna-sedisponível digitalmente, sua abrangência não têm limites. Agora, com o acesso54TELL, Caroline. Mensagens por celular banalizam o ato de desmarcar compromissos.http://www1.folha.uol.com.br/tec/1187745-mensagens-por-celular-banalizam-o-ato-de-desmarcar-compromissos.shtml. Acesso em 17/05/2013.55Estudos reabrem debate sobre o impacto de redes sociais na vida das pessoashttp://www1.folha.uol.com.br/tec/1186647-estudos-reabrem-debate-sobre-o-impacto-de-redes-sociais-na-vida-das-pessoas.shtml. Acesso em 20/05/2013
  42. 42. 43digital disponível praticamente em qualquer lugar, o único fator determinante parapoder encontrar essa informação é fazer a busca certa. O problema é que aquantidade de informações disponíveis atingiu determinado patamar que essa buscapode acabar sendo complicada. Se eu quero saber sobre determinado sintoma queeu tenho tido, por exemplo, posso me deparar tanto com um artigo escrito por umdoutor especializado quanto por um paciente que possui um blog. E quem decidequal das informações é mais relevante é o público, que através dos acessos aossites e da referência aos mesmos56, qualifica-o mais ou menos para estar entre osprimeiros resultados da lista do Google. Portanto, se o blog do paciente for maispopular que o jornal cientifico onde consta o artigo do médico especialista, éprovável que eu entre em contato primeiro com as impressões do paciente para queeu tire minhas dúvidas.Esse é um dos princípios da Inteligência Coletiva, a colaboração de todosindependentemente de seu conhecimento ou experiência. Essa dualidade nacertificação da informação pode ser vista na comparação de Jenkins entre o quePeter Walsh definiu como “paradigma do expert” e o conceito de Lévy de“inteligência coletiva”.“O paradigma do expert exige um corpo de conhecimento limitado que umindivíduo possa dominar. As questões que se desenvolvem numainteligência coletiva, entretanto, são ilimitadas e profundamenteinterdisciplinares; deslizam e escorregam através de fronteiras e induzem oconhecimento combinado de uma comunidade mais diversa. (...) Emboraparticipantes de uma inteligência coletiva muitas vezes sintam anecessidade de demonstrar ou documentar como sabem o que sabem, issonão se baseia em um sistema hierárquico, e o conhecimento proveniente daexperiência real da vida, em vez da educação formal, pode ser, num certograu, até mais valorizado.”57No livro, eles exemplificam essas teorias analisando o comportamento de fãsde reality shows tentando descobrir informações sobre o programa. Portanto é56TEIXEIRA, Paulo Rodrigo. Entenda o PageRank: Google dá notas para sites.http://webinsider.uol.com.br/2007/10/17/entenda-o-pagerank-google-da-notas-para-sites/ Acesso em23/05/201357JENKINS, 2008. P.87-88
  43. 43. 44importante termos em mente que, se no caso de saber sobre os sintomas da minhadoença a inteligência coletiva pode parecer arriscado de se confiar, em outros ela éessencial.Para termos uma ideia da quantidade de informações que consumimos todosos dias, uma pesquisa da University of California58realizada em 2009 mostrou queum americano médio consome cerca de 12 horas de conteúdo por dia, cerca de 100mil palavras todos os dias, em diferentes meios. É como se lêssemos 34 mil livros de200 páginas por dia. Para efeito de comparação, em 1960 esse número era de cerca7,4 horas, um aumento de 62%. Nosso cérebro nunca esteve acostumado com essaintensidade de informações, o ritmo de aprendizado que temos biologicamente édiferente do ritmo de contato com a informação que temos atualmente.Buscando entender melhor os efeitos que esse excesso de informações trazao nosso cérebro, o psiquiatra Gary Small59realizou em 2008 um experimento paraentender a diferença de funcionamento do cérebro enquanto se navega na internet eenquanto se lê um livro. O principal efeito observado foi um aumento de atividade naárea do cérebro associada a tomada de decisões. Esse efeito é decorrente aquantidade de escolhas que temos que fazer toda vez que navegamos: clicar ou nãoclicar naquele link, compartilhar ou não essa postagem, conversar ou não comaquela pessoa. Todas essas opções acaba desviando nosso foco, e com issoatrapalham a absorção do conteúdo e o consequente aprendizado do mesmo.O fato de estarmos conectados 24 hora por dia nos deixa em um estadoperpétuo de distração e interrupção. Muitos acreditam que o fato de estarmosconectados a todo momento aumenta nossa capacidade de ser multitarefa, uma dascaracterísticas mais presentes na maioria dos estudos relacionados as novasgerações. Ser multitarefa é importante para diversos atos do dia a dia, porém para oaprendizado isso é diferente.58BOHN, R; Short, J. How Much Information. 2009, Global Information Industry CenterUniversity of California, San Diego.59Your Brain on Google. http://www.pbs.org/wgbh/pages/frontline/digitalnation/living-faster/where-are-we-headed/your-brain-on-google.html Acesso em 23/05/2013
  44. 44. 45“Já em 1998, a escritora americana Linda Stone cunhou o termo "atençãoparcial continua" para descrever a noção de acompanhar informações dediversas fontes, ao mesmo tempo, em nível superficial. Essa ideia de umaatenção rasa e oscilante é provavelmente a descrição mais precisa do quemuitos de nós fazemos a maior parte do tempo, em vez de sermosmultitarefa: executamos uma simples operação mental de deslocamento emmeio a uma enorme gama de fontes, a nenhuma das quais conseguimosdar atenção individual que uma verdadeira “tarefa requer”.”60Todas as notificações, pop-ups ou SMSs que paramos para ver em meio acada informação importante que temos atrapalha a retenção dessa informação.“(...) nós nos tornamos uma espécie de dependentes digitais, que precisamficar checando emails, smartphones e afins o tempo inteiro – curiosamente,uma espécie de evolução de instintos pré-históricos. Isso pode serprejudicial por várias razões, mas uma delas está ligada diretamente ànossa capacidade de aprendizado, denominada consolidação da memória.É o processo que leva a informação da memória recente para a memória delongo prazo e permite que a gente crie conexões entre elas.”61É importante ter em mente que todos esses efeitos citados não são causadospela internet em si. O aprendizado de alguém pode ser diminuído ou atrapalhadomesmo se a pessoa estiver desconectada, basta não focar-se no conteúdo. O que ainternet traz é o aumento da possibilidade e abrangência da distração.Se a disponibilidade de informações a qualquer hora e em qualquer lugar épositivo ou não, isso, assim como o uso das redes sociais, depende da pessoa. Dequalquer forma, a mudança que isso está ocasionando é biológica. Vivemoscercados por informações e a cada vez mais nossos aparelhos fazem o papel donosso cérebro. Eu não sei a data de aniversário de ninguém pois o Facebook meavisa, eu não me lembro dos telefones importantes pois estão no meu celular, eunão preciso aprender como chegar lá pois o meu celular me guia. Alguns dizem queisso é um grande problema, pois estamos deixando de exercitar nosso cérebro e60CHATFIELD, 2012. P.5461Almeida, A. O que a internet está fazendo com o nosso cérebro?http://www.brainstorm9.com.br/37184/opiniao/o-que-a-internet-esta-fazendo-com-o-nosso-cerebro Acessoem 23/05/2013
  45. 45. 46criar um conhecimento sobre algo importante, como por exemplo o fato de sedeslocar na cidade onde vivo ou ligar para as pessoas que convivo. Outros dizemque essas são informações secundárias, que estão dando lugar a informações maisimportantes e dessa forma não sobrecarregam o cérebro. Eric Kandel, vencedor doprêmio Nobel de Medicina em 2000, deixa sua opinião em entrevista para a revistaGalileu62: “Quando os livros surgiram, a oratória desapareceu. Em cada ponto,quando você ganha algo, perde algo. A questão é: os ganhos superam as perdas?Meu palpite é que sim”.O grande segredo talvez seja equilibrar o consumo de informações, semsobrecarregar nossa mente e sem nos excluirmos de interações sociais. Utilizandoisso a favor do conhecimento, vemos grandes feitos da inteligência coletiva, quegera aprendizado a todos que participam. Por isso, para o autor Don Tapscott, “aweb está criando a geração mais inteligente de todas”.Shirky traz um bom exemplo de como a inteligência coletiva gera conhecimentoquando fala sobre o Flickr e a troca de informações sobre técnicas fotográficas queocorre no site.“Antes dos serviços de compartilhamentos de fotos, alguém olhando parauma dessas fotos poderia perguntar a si mesmo: "Como isso foi feito?”.Com o compartilhamento, cada foto é um lugar em potencial para interaçãosocial, e os observadores podem fazer a pergunta diretamente: "Como vocêfez isso?. (...) Essa forma de comunicação é o que o sociólogo EtienneWenger chama de comunidade de prática, um grupo de pessoas queconversam sobre alguma tarefa compartilhada com o objetivo de seaperfeiçoar nela.”63Essa mudança no processo de aquisição de conhecimento das novasgerações leva também a discussão sobre a reformulação do formato de educaçãonas escolas. Ao longo do desenvolvimento tecnológico as gerações foramaprendendo a conviver com o acesso as informações de formas diferentes, ondeuma vê a Wikipédia com desconfiança, por exemplo, outra utiliza o portal62PONTES, F; MALI, T. A internet está deixando você burro?http://revistagalileu.globo.com/Revista/Common/0,,ERT156864-17773,00.html. Acesso em 23/05/201363SHIRKY, C; 2008, p.87
  46. 46. 47colaborativo como base primária de informação. Esse choque de gerações começaa ter efeitos nas escolas, a formação que os professores recebem não leva em contaessas mudanças e acaba prejudicando a relação professor-aluno. Ao mesmo tempoque existe uma quebra de respeito, afinal o aluno muitas vezes tem acesso ainformação antes do próprio professor, essa informação é superficial e deve seraprofundada pelo professor. Nas palavras de Adriano Gosuen, psicólogoespecializado em educação e direito das criança e do adolescente64: “A escola temde ensinar aos alunos como lidar com as informações recebidas; ensiná-los a teruma leitura crítica”.Todo esse excesso de informações também gera um reflexo psicológico ondeas pessoas sentem-se escravas da informação: precisam saber sobre tudo, sepossível assim que as coisas acontecem, e precisam posicionar-se socialmentequanto a isso para fortalecerem sua imagem digital. Essa busca excessiva deinformações também é prejudicial a pessoa, e em meio desse cenário que acuradoria de conteúdos se mostra tão necessária.“(...) é fundamental filtrar o que se vai mandar para dentro do cérebro,selecionar com critério o que é mesmo relevante. Quem não faz isso podeacabar ficando doente. A pessoa se irrita facilmente, fica com sentimento deimpotência, insatisfação e ansiedade. Também aparecem sintomas físicoscomo dores no corpo, palpitação e sensação de cansaço”65Steven Rosenbaum, autor do livro Curation Nation, em entrevista após umevento sobre a era digital colocou sua visão sobre o futuro dos internautas viciadosem informação66: “As pessoas precisam entender que nem todo Tweet ou SMS serárespondido, que a nossa caixa de entrada do e-mail não ficará zerada. Portanto, aprimeira mudança é cultural, é aceitar que não conseguimos administrar tudo que éenviado para nós”. A lição que pode-se tirar de tudo isso é de que não é porque a64Crianças aprendem mais cedo e deixam professores para trás.http://noticias.terra.com.br/educacao/criancas-aprendem-mais-cedo-e-deixam-professores-para-tras,0e7b24e4d3b4d310VgnVCM20000099cceb0aRCRD.html Acesso em 23/05/201365Excesso de informações pode causar problemas de memória no dia a dia. http://g1.globo.com/globo-news/noticia/2013/01/excesso-de-informacoes-pode-causar-problemas-de-memoria-no-dia-dia.html Acessoem 23/05/201366Entrevista com Steven Rosenbaum - Digital Age 2.0 2011http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=E4lvv1x39R8#! Acesso em 23/05/2013
  47. 47. 48internet oferece toda a informação do mundo que você deve consumi-la. Pelocontrário, quanto mais paulatino e atencioso for esse consumo, maior a chance doda informação transforma-se em conhecimento, e dessa forma, em algo mais útilpara você.3.5. OS MEIOS DE COMUNICAÇÃO E A CULTURA DACONVERGÊNCIANão podemos analisar as mudanças causadas pela internet sem analisar asmudanças que os meios de comunicação de massa sofreram ao longo do tempo.Estes meios sempre tiveram um papel muito bem posicionado na sociedade:transmitir informações e gerar entretenimento. Por muito tempo, eram essasinformações que controlavam de uma forma geral o conhecimento do povo quanto adeterminados assuntos, não é a toa que grandes movimentos políticos como onazismo investiam grande parte de seus esforços na produção de informações e nocontrole dos meios. Porém por mais que os meios influenciem a sociedade, elestambém sempre serão influenciados por ela. Um meio de comunicação pode ter sidocriado para determinada finalidade, e a sociedade acaba utilizando-o para outra.Podia atender determinado público, mas com a evolução dos meios ele acabaatendendo outro. Independente disso, uma vez que o meio se estabelece, eledificilmente perderá uma função na sociedade. Nas palavras de Jenkins.“O conteúdo de um meio pode mudar (como ocorreu quando a televisãosubstituiu o rádio como meio de contar histórias, deixando o rádio livre parase tornar a principal vitrine do rock and roll), seu público pode mudar (comoocorre quando as histórias em quadrinhos saem de voga, nos anos 1950,para entrar num nicho , hoje) e seu status social pode subir ou cair (comoocorre quando o teatro se desloca de um formato popular para um formatode elite), mas uma vez que um meio se estabelece, ao satisfazer algumademanda humana essencial, ele continua a funcionar dentro de um sistemamaior de opções de comunicação.”6767JENKINS; 2008, p. 41
  48. 48. 49Pode-se ilustrar essa teoria com a internet. A internet surgiu com o objetivo deproteger as informações do Pentágono. Em 2006 foi criado o WikiLeaks, umaorganização colaborativa exclusivamente dedicada a publicação de documentossecretos de governos ou empresas, garantiu sua visibilidade mundial divulgandouma série de documentos secretos do Pentágono sobre a morte de civis e soldadosna guerra do Afeganistão. Esse fato irônico exemplifica as mudanças de função eforma que a internet sofreu ao longo dos anos. De uma rede militar controlada com oobjetivo de proteger informações ela se transformou em uma rede acadêmica com oobjetivo de difundir conhecimento e troca de informações, e, posteriormente, a umarede mundial com objetivos de acordo com a necessidade de cada usuário.Figura 10 - Vazamentos de informações do governo americano pelo WikileaksCom isso em mente, pode-se perceber que grande parte dos meios decomunicação que tiveram grande importância para a sociedade se mantém até hoje.Começando pelo jornal, presente desde a Roma Antiga mas que se tornou um meiode massa apenas após a invenção da prensa por Gutenberg no século XV, quesempre teve como objetivo disseminar as principais informações baseando-se emquatro pilares: abrangência, periodicidade, atualidade e universalidade. Seu formato,da prensa até hoje, basicamente se resume a algumas folhas de papel comconteúdo diverso. É de conhecimento comum de que o consumo de jornais tem
  49. 49. 50caído vertiginosamente ao longo dos últimos anos, ocasionando o fechamento dejornais consagrados pelo mundo. Analisando os quatro pilares do jornal hoje,podemos perceber que o que mudou, basicamente foi a periodicidade, afinal nostempos de informação ao alcance de todos para se manter a atualidade você develançar notícias suas notícias não mais diariamente, mas de segundo a segundo.Para atender essa demanda de informação, o jornal (conteúdo, não meio) teve demudar de formato, saindo do papel e indo para meios mais dinâmicos como o rádio,a tv, e a internet. Porém, em meio de tantas informações, o jornal impresso aindasobrevive, seja com um formato resumido, como o Metro ou o Destak, que sãodistribuídos gratuitamente e representam um consumo de informação essencial paragrande parte dos moradores de metrópoles, ou mesmo com o formato tradicionalmas pautado por colunas analíticas e opinativas, como o tradicional USA Today68oua iniciativa holandesa De Nieuwe Pers69, um jornal que permite a assinatura apenasde determinados colunistas/jornalistas.Avançando cronologicamente, temos o rádio como segundo grande meio decomunicação da sociedade. Criado no final do século XIX e popularizado no iníciodo XX, o rádio surgiu com a função de comunicação entre navios e posteriormenteentre tropas militares, bastante difundido na primeira guerra. Ao grande público orádio começou com dois objetivos: difundir informações, com maior periodicidadeque o jornal, e contar histórias. As novelas, que vieram de livros ou contos dejornais, acabaram indo para a televisão, deixando para o rádio o papel de granderesponsável pela música. Ao longo do tempo, apesar de LPs, CDs e MP3 players, orádio se manteve com dois objetivos: lançar artistas (por muito tempo a expressão“está tocando em todas as rádios” é sinônimo de sucesso) e informar. O rádio foitalvez o primeiro grande meio interativo, onde as pessoas poderiam ligar ou enviarcartas dando opiniões e pedindo músicas. Atualmente, o rádio se modernizoutornando-se bem mais colaborativo: as estações que informam a situação dotrânsito, por exemplo, recebem grande parte das informações dos ouvintes.68USA Today encourages journalists to pepper reporting with personality. http://blog.wan-ifra.org/2013/04/23/usa-today-encourages-journalists-to-pepper-reporting-with-personality Acesso em19/05/2013.69LUDWIG, Guilherme. Jornal holandês permite que leitor assine jornalistas individualmente.http://www.colunadigital.com/2013/04/paywall-por-jornalista.html#.UWWIXZOkomE Acesso em 19/05/2013.
  50. 50. 51A diferença da internet é que ela não é apenas mais uma forma depropagação de informações, histórias ou experiências. A grande revolução que ainternet trouxe foi um poder aos usuários de produzir conteúdo, portanto a mudançado simples papel de espectador para um papel mais ativo, criando assim umacultura participativa.A cultura participativa nada mais é do que a amplificação de algo que sempreaconteceu como reflexo a um conteúdo midiático: a fofoca e discussão sobre oassunto. Assim como as vizinhas brasileiras da década de 80 se reuniam todamanhã para comentar sobre a novela e criar teorias sobre o que viria a acontecer, osfãs de diversos segmentos se reúnem online para trocar informações e teorias sobreseus objetos de desejo. Essa cultura participativa é caracterizada por Lévy comointeligência coletiva, definida dessa forma:“uma inteligência distribuída por toda parte, incessantemente valorizada,coordenada em tempo real, que resulta em uma mobilização efetiva dascompetências. (...) a base e o objetivo da inteligência coletiva são oreconhecimento e o enriquecimento mútuo das pessoas, e não o culto decomunidades fetichizadas ou hipostasiadas.”70Portanto a internet possibilita que cada um pudesse expor suas opiniões,divagar sobre diversos assuntos, e ter contato com as mais diversas informações.Desta forma o conhecimento, antes restrito, se espalha, e torna-se colaborativo,onde cada usuário consome e produz conteúdo.Analisando casos como as grandes comunidades de fãs de reality shows, quetentavam descobrir detalhes sobre os vencedores ou a lógica por trás das votações,Jenkins percebeu que por trás do conceito de inteligência coletiva defendido porLévy, onde a comunidade possui conhecimento de tudo e coletivamente compartilhae divaga sobre o mesmo, existe sim uma hierarquização, um grupo de pessoas quetrocam informações mais restritas e divulgam esse conteúdo apenas após umacuradoria desse grupo, chamados de “brain trusts”.70LÉVY, 1998. P. 28-29

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