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Ideias e Afecto - Espinosa Lido por G. Deleuze
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    Ideias e Afecto - Espinosa Lido por G. Deleuze Ideias e Afecto - Espinosa Lido por G. Deleuze Document Transcript

    • Jorge BarbosaESMGACurso de Artes Visuais, 11º 7ªJaneiro, 2013 INTRODUÇÃOApresentação de Espinosa Espinosa nasceu em Amsterdão no ano de 1632. Descartes tinha, então, 32 anos, Rembrandttinha 23 e Christiaan Huygens, um dos mais importantes astrónomos e físicos de todos os tempos,filho do mecenas de Rembrandt, Constantijn Huygens, nasceu no mesmo ano e na mesma cidade. Os seus pais, Miguel e Hana Debora, eram judeus sefarditas portugueses que se tinham instaladoem Amsterdão, para evitar as perseguições da Inquisição e, certamente também, para desenvolvermais livremente os seus negócios. Recebeu o nome próprio de Bento, um nome bem português;durante a infância e adolescência era chamado de Baruch, o termo hebreu que tem o mesmosignificado; e, aos 24 anos, Espinosa adotou para si o nome de Benedictus, em Latim. Todos os seusnomes significam Bendito, mas, de certo modo, as diferentes palavras, nas diferentes línguas, descrevemuma boa parte do seu percurso de vida: era filho de portugueses perseguidos que mantiveram, naaltura do seu nascimento, a ligação à sua língua (Bento), foi acolhido pela comunidade judia sefarditade Amsterdão, que traduziu o seu nome para Hebreu (Baruch) e, finalmente, justamente aos 24 anos,é expulso da comunidade judia a que pertencia, e ele próprio decide mudar o seu nome para umalíngua supranacional, embora não falada, o Latim (Benedictus). Tendo sido impedido de frequentar aSinagoga, é na mesma altura, ao 24 anos, que abandona o conforto da casa da família, e se instala emcasa do pintor Van der Spijk, onde ocupa os quartos do terceiro andar. O curioso seria saber queoutro nome teria dado a si próprio, se tivesse previsto o que aconteceu ao seu corpo depois damorte. As cerimónias fúnebres decorreram, em 1677, na Igreja Nova de Amsterdão, e, como erahábito, o seu corpo seria enterrado no adro da igreja, onde o esperava uma campa com uma lápideonde tinha sido inscrito o seu lema: “Caute”, que quer dizer “cuidado”. Só que o seu corpo foiroubado da igreja, não se sabe por quem, enquanto, depois das cerimónias, aguardava, no interior daigreja, o seu enterramento. E a campa lá ficou, com a lápide a recomendar cuidado, até hoje, vazia. Nos últimos dez anos da sua vida, com efeito, a sua correspondência era sempre identificada comuma espécie de logotipo em rodapé que continha a palavra caute (cuidado) por baixo de uma rosa.O seu Tratado Teológico-Político, foi publicado com um nome de impressor fictício, com um nome falsoda cidade de impressão (Hamburgo), e com o espaço para o nome do autor em branco. Apesar deter sido escrito em Latim, foi proibido pelas autoridades holandesas, e condenado pelo Vaticano. Foiconsiderado, por uns e por outros, um ataque à religião organizada e ao poder político. Na verdade,em coerência com a sua filosofia, limitava-se a explicar por que razão os poderosos (os déspotas, talcomo os padres) tinham tanta necessidade de promover a tristeza naqueles que lhes estavamsujeitos. A tristeza dos súbditos e dos fiéis seria necessária à manutenção do poder, dado que o poder
    • só se mantinha sem contestação, se esses súbditos ou fiéis vissem reduzida a sua força de existir ou oseu poder para agir (numa variação contínua da existência, a tristeza era justamente o pólo negativoda força de existir). A história de Espinosa e da sua família judia é feita de grandes injustiças. A perseguição aos judeussefarditas em Portugal era de uma crueldade extrema. Com efeito, os sefarditas, comunidade judaicade Portugal e de Espanha, formada na Península Ibérica ainda antes da ocupação Romana,conseguiram sobreviver a todas as crises e a todas as invasões até ao final do século XV. Grandeparte da cabala medieval é da responsabilidade dos sefarditas, e os rabinos desta comunidadeescreveram importantes tratados que ainda hoje são valorizados. Tinham um rito próprio (conhecidocomo Espanhol-Português) e uma forma tolerante de convívio com outras religiões ou práticasreligiosas. Dedicavam-se, obviamente, a atividades artesanais (ourivesaria, por exemplo), ao comércio eao negócio especulativo. Não há religião alguma que proíba a atividade principal do povo que apratica. Um Deus de uma sociedade de nómadas não poderia nunca condenar o nomadismo do seupovo; um Deus de uma sociedade de negociantes não poderia nunca condenar o negócio, mesmoque fosse especulativo. Se alguém assumia com um negociante judeu um contrato que lhe fossedesvantajoso, isso só poderia dever-se ao seu afastamento dos desígnios de Deus, ou à falta deinteligência, o que, de algum modo, era a mesma coisa. Um judeu não poderia entender as coisas deoutro modo. Compreendemos bem como, em qualquer época, aqueles que, acreditando que a suaatividade é protegida pelo seu Deus, (ou, mais atualmente, pelos “mercados”), não têm escrúpulos emtirar proveito da menor capacidade dos outros para o negócio, podem ser odiados por essesmesmos, sobretudo se o Deus dos desprotegidos condena e expulsa os “vendilhões do Templo”. Ora,por esta razão, por especular com a desgraça dos outros, qualquer um pode correr o risco de serperseguido. Se o povo pensa que esta propensão para o lucro financeiro tem fundamentos religiosos,então a perseguição toma um aspeto perigosamente radical e fundamentalista. Só que a Santa Inquisição não era o povo. Explorava a hostilidade do povo e as suas superstiçõesxenófobas, mas não era o povo; era uma organização, com método, planos e objetivos. Se for corretaa interpretação de Agostinho da Silva, segundo a qual o povo português praticava, na altura da contra-reforma, maioritariamente um catolicismo espiritualista, condenado por heresia pelo Vaticano, aperseguição aos judeus, eles próprios espiritualistas ou cabalistas da Península Ibérica, seria, antes detudo o mais, na minha interpretação, um combate exemplar contra o que era designado de práticaspagãs dos católicos. As celebrações dedicadas ao Santo Espírito tinham de ser erradicadas do espaçoterritorial português. E foram. Mantêm-se, de alguma forma, no interior do país, mas sobretudo nasilhas dos Açores que acolheram, sem possibilidade de controlo do poder central, muitos popularesque lá conseguiram manter as suas crenças e os seus rituais religiosos. Eram, portanto, as práticascatólicas tradicionais e populares que a Inquisição tinha de perseguir, e perseguiu, mas recorreutambém à perseguição exemplar daqueles, cujas crenças estavam supostamente a influenciar o povocatólico. É que tudo indica que os judeus sefarditas sempre tiveram menos dificuldade em se integrar,recebendo influências e influenciando os outros, nas comunidades ibéricas.
    • Para que se perceba em toda a sua extensão a crueldade, mas também o fanatismo, a cegueirada perseguição movida em Portugal contra os judeus sefarditas, ainda falta dizer que a comunidade dejudeus de origem portuguesa teve ainda a força de existir ou o poder para agir, como diria Espinosa,para construir a imponente Sinagoga Portuguesa1 de Amsterdão (denominada Esnoga), em plenocentro da cidade histórica, mesmo em frente ao atual Museu da História Judaica de Amsterdão. Foi aSinagoga desta Congregação Portuguesa Judaica de Amsterdão que expulsou o jovem Espinosa doseu convívio. Portugal perdeu, não só uma quantidade substancial do seu capital financeiro, mas também umimportantíssimo capital intelectual. Espinosa é só um exemplo dessa perda de capital intelectual. Porexemplo, um dos fundadores da escola clássica de economia inglesa, David Ricardo, era um judeusefardita de origem portuguesa (todos os eram, de acordo com o que preferiam dizer de si mesmos)da comunidade de Amsterdão. Mas a maior injustiça que recaiu sobre Espinosa, para além do roubo do seu corpo após a suamorte, terá sido o pouco relevo que, durante séculos, foi dado à sua obra filosófica. Descartes, 32anos mais velho do que ele, também teve de ter muito cuidado com o que escrevia, mas em muitascoisas, e no cuidado também, era bem diferente de Espinosa. O seu cuidado levava-o a enrolar aconversa, a fazer vénias, a fazer todo o tipo de concessões, em nome da salvação mais da pele do queda alma. Pelo contrário, o cuidado de Espinosa traduziu-se numa escrita rigorosa, sem desvios nemexplicações desnecessárias. Descartes, na peugada de Galileu, preferiu ver o mundo a reger-se por leismatemáticas (geométricas) atribuídas pelo Criador; Espinosa não só partilhava deste pensamentonovo na época, como ainda decidiu falar desse mundo como se estivesse a fazer demonstraçõesgeométricas, depurando a sua conversa da redundância e das proposições não demonstráveis. Não foium espírito tão analítico como o de Descartes, porque as suas demonstrações não eramempobrecidas pelo formalismo, mas foi mais rigoroso. Há, pelo menos, duas formas de ver esseespírito analítico: como o edifício que sustenta tudo o resto, ou como o andaime que sustenta oedifício e que tem de ser retirado para não estragar o que foi construído. Espinosa está mais próximodesta última forma de ver as coisas da análise. Por isso, as suas análises não são sem conteúdo e semprogresso, sem edifício, para usar a metáfora agora, que mais tarde não fará falta. Façamos então alguma justiça a Espinosa. Se Descartes foi mais útil para a construção da ciência eda filosofia modernas, a verdade é que Espinosa propôs um salto de vários séculos no tempo e é,1 Esta designação não significava que a comunidade sefardita de Amsterdão fosse exclusivamente constituída porportugueses. Com efeito, sob o reinado dos “Reis Católicos” , cerca de 130 000 judeus espanhóis refugiaram-se emPortugal, após terem sido expulsos pelo Decreto de Alhambra em 1492. No reinado de D. Manuel I de Portugal, quatroanos depois, todos os judeus, portugueses e espanhóis, foram obrigados a converter-se ao catolicismo. Esta obrigação legalfoi tanto usada para perseguições seletivas, quanto para “fazer de conta” ou, como se diz agora, “para inglês (neste caso,espanhol) ver”. Em todo o caso, as perseguições seletivas eram também sentidas pelos judeus como opressoras ehumilhantes. A ocupação da Portugal, em 1580, pelos Filipes, instalou em Portugal uma perseguição sistemática de todosos judeus. É nesta altura que se dá a grande fuga de judeus da Península Ibérica para a Holanda. Mas, como a Espanhaestava, por essa altura, em guerra com a Holanda, os judeus peninsulares preferiram, por motivos compreensíveis, adotaroficialmente a origem portuguesa. Mesmo os que tinham origem em Espanha, assumiram, uma vez instalados emAmsterdão, ter sido sempre portugueses. Esta comunidade sefardita, francamente minoritária face às comunidades que, docentro e do oriente da Europa, rumavam para a Holanda, era muito mais rica do que qualquer outra sua congénere, edesempenhou um papel fundamental no desenvolvimento e enriquecimento dos Países Baixos.
    • agora, bem mais actual. Não é por acaso que António Damásio, um dos mais importantesneurocientistas contemporâneos, inicia um dos seus livros (sobre as emoções sociais e a neurologiado sentir), com um elogio prolongado e pormenorizado da genialidade de Espinosa.Sobre a Tradução Todo o texto que se segue é uma tradução da transcrição integral de uma aula de Deleuze sobreEspinosa, na Universidade de Vincennes (Paris). A tradução de uma língua para outra comporta sempre alguma forma de imprecisão, ou, se sepreferir, de interpretação. Mas, quando o que se traduz é a língua falada e não a escrita, essa traduçãocorre ainda riscos mais sérios de alguma imprecisão. Gilles Deleuze não é do género de complicarmais esta tarefa de tradução do que o que é característico da própria tarefa sem mais. Na verdade, asua oralidade, por vezes, tem mesmo a qualidade e a forma da linguagem escrita. Mesmo assim,encontramos alterações dos tempos verbais e do sujeito das frases num mesmo período, comoacontece frequentemente quando a nossa conversa, simultaneamente, provoca a atenção dos outrose responde às reacções de quem nos ouve, desrespeitando, deste modo, o formalismo da escrita. Masé a sua oralidade que aqui será sempre respeitada, apesar das dificuldades que uma tradução destegénero implica, sobretudo para quem, como eu, entende melhor a forma de falar de Deleuze emfrancês do que a partir de uma eventual tradução para português, mesmo feita por mim. A segunda ordem de dificuldades na tradução relaciona-se com as diferenças linguísticas, desuporte ou que são suportadas por diferenças culturais Por exemplo, o termos “mode de pensée”será traduzido por “modalidade de pensamento” ou “modo de pensar”. A minha interpretação é aseguinte: o termo “pensée”, em francês, tem uma energia distinta do termo “pensamento” emportuguês. Na verdade, o termo “pensée” estabelece uma relação com a sua origem nominal muitopróxima da relação que “braço” tem com “braçada”, ou “touro” com “tourada”. O sufixo “mento” em“pensamento” também tem um seu correspondente (“ment”) em francês em outras palavras. Se nãoé usado nesta “pensée” é porque não é o que mais lhe convém. Por isso, o termo “modalidade” em“modalidade de pensamento” visa acrescentar essa dinâmica que o termo “modo” não atribuiria; emalternativa “modo de pensar” que, em bom rigor, deveria ser “modo do pensar”, para acentuar ocarácter substantivo, conceptual do termo “pensar” é uma opção que será usada, tendoexclusivamente em mente a musicalidade da língua portuguesa. Um termo ainda mais complexo - por isso, mais interessante, como diria Deleuze - é o deafeição. “Afeição” traduz o termo affectio, do Latim, e affection, do Francês. Ora, sucede que o termo,em Português, que mais espontaneamente corresponde ao sentido atribuído por Espinosa a affectio, éafecção. Afecção corresponde a uma feição do organismo que não é nem positiva nem negativa;infecção é uma feição negativa; aqui o prefixo “in” não significa negação, mas negativo: infecção não éuma não-feição, mas uma feição negativa; perfeição será uma feição positiva. Afecção será uma feição,suscetível de ser negativa ou positiva. Pois bem, afeição é uma palavra que é vulgarmente entendida
    • como algo positivo. A minha insistência em usar o termo afeição resulta justamente da necessidade dedestruir o preconceito de que a afeição é sempre algo positivo: pode ser ou não. Do ponto de vistacientífico, afeição não é a mesma coisa que afectuosidade, tal como afecto não é a mesma coisa queafectuoso. A afeição, tal como o afecto, pode ser negativo ou positivo. E, em ambos os casos, dizemrespeito a estados ou a dinâmicas do corpo. Não são vapor de água. Ora, é precisamente este osentido que é atribuído por Espinosa a affectio. É também esta concepção que o aproxima da ciênciacontemporânea, em particular das neurociências. Por isso, recorrerei, por teimosia, à palavra afeiçãoainda que daí possam resultar algumas confusões, sobretudo para quem tenha dispensado a leituradesta introdução. Já agora fica bem esclarecer que, para Espinosa, a afeição é uma ideia, isto é, um modo do pensarrepresentativo, que representa alguma coisa, enquanto o afecto não é, nem se reduz nunca a umaideia, porque é um modo do pensar não representativo, que não representa nada. Esta distinção vitalno pensamento de Espinosa resulta da sua convicção de que as ideias têm sempre primazia face aosafectos. Primeiro, temos uma ideia, e só depois somos afectados por ela. Primeiro, representamos aideia de raios de sol no nosso corpo, e só depois sentimos o conforto, ou o aconchego, ou oincómodo desses raios a bater no corpo. Esse conforto, aconchego ou incómodo não representamnada. São o que são, e mais nada. Espinosa sabia, no entanto, que um pôr do sol tanto podia estar naorigem de uma profunda tristeza como de uma enorme alegria. Como seria isso possível, se a ideiaconceptual, a noção de pôr de sol, era sempre a mesma? Numa imagem, ironicamente cartesiana, deum eixo de abcissas e ordenadas, numa perspetiva axial, era necessário conceber ideias nãoconceptuais. É aqui que surge a afeição, um modo do pensar representativo, uma ideia portanto, que,não sendo a mesma coisa que o afecto, lhe seria cronologicamente e logicamente anterior. Na neurociência contemporânea, este conceito de afeição corresponde, de algum modo, adisposições do corpo e do cérebro, a marcadores somáticos, etc que também não seria escandalosoconsiderar como um modo do pensar. Já vai longa esta introdução (que é mais uma espécie de medida cautelar), e o melhor será queouçamos a brilhante lição de Deleuze. Vamos a isso, então.
    • LIÇÕES DE GILLES DELEUZE SOBRE ESPINOSAA U L A D E 2 4 / 0 1 / 1 9 7 8 - O A F E C TO E A I D E I A Hoje2 vamos fazer uma pausa no nosso trabalho sobre a variação contínua, e vamos,provisoriamente, dar uma volta à história da filosofia, a respeito de um ponto muito preciso. É umaespécie de corte, pedido por muitos de vós. Esse ponto muito preciso diz respeito ao seguinte: o queé a ideia e o que é o afecto em Espinosa? Ideia e afecto em Espinosa. No próximo mês deMarço, faremos também um corte, a pedido de alguns de vós, sobre o problema da síntese e oproblema do tempo em Kant. Voltar à história produz em mim um efeito curioso. Quase desejo que tomem este pedaço dahistória da filosofia como simplesmente uma história. No final de contas, um filósofo não é somentealguém que inventa conceitos, ele inventa talvez também formas de perceber. Vou avançar quase porenumeração. Vou começar por alguns esclarecimentos terminológicos. Suponho que a sala érelativamente heterogénea. Creio que, de todos os filósofos de que nos fala a história da filosofia,Espinosa se encontre numa situação muito excecional: a maneira como toca aqueles que entram nosseus livros não tem equivalente. Não importa que o tenham lido ou não, eu estou a contar umahistória. Vou começar por algumas advertências terminológicas. No livro mais importante de Espinosa,a Ética, escrito em latim, encontramos duas palavras: affectio e affectus. Alguns tradutores, muitoestranhamente, traduzem as duas do mesmo modo. É uma catástrofe. Traduzem os dois termos,affectio e affectus, por afeição3 . Digo que é uma catástrofe porque, quando um filósofo utiliza duaspalavras, em princípio, é porque tem uma razão, e tanto mais quanto em francês4 também temos duaspalavras que correspondem rigorosamente a affectio e a affectus: afeição para affectio e afectopara affectus. Alguns tradutores traduzem affectio por afeição, e affectus por sentimento, o que émelhor do que traduzir as duas pela mesma palavra, mas não vejo a necessidade de se recorrer àpalavra sentimento, uma vez que o francês dispõe da palavra afecto. Portanto quando utilizo a palavraafecto quero significar o termo affectus de Espinosa, e quando recorro à palavra afeição querosignificar o termo affectio.2As lições aqui apresentadas referem-se a transcrições das aulas de Deleuze na Universidade de Vincennes, nas datasmencionadas para cada uma.3 O termo erudito em português, mais próximo do francês, é afecção (palavra que aqui escrevo propositadamente naantiga grafia, para que seja mais clara a sua origem latina, tal como a correspondente em francês affection). De agora emdiante, afeição (termo mais popular) será sempre o utilizado, embora o seu sentido seja sempre o erudito.4 e em português também.
    • A Ideia, modalidade de pensamento representativo. Primeiro ponto: o que é uma ideia? O que é uma ideia, para compreender as proposições,mesmo as mais simples, de Espinosa. Neste ponto, Espinosa não é original. Ele vai tomar o termo ideiano sentido em que toda a gente sempre o tomou. Aquilo a que se chama ideia, no sentidoem que toda a gente sempre a utilizou na história da filosofia, é uma modalidade depensamento (ou um modo de pensar) que representa alguma coisa. Uma modalidade depensamento representativo. Por exemplo, a ideia de triângulo é um modo de pensar que representa otriângulo. Ainda do ponto de vista da terminologia, é útil saber que, desde a Idade Média, a esteaspeto da ideia é dado o nome de “realidade objetiva”. Num texto do século XVII ou num textoanterior, quando encontrarem (a referência) à realidade objetiva da ideia isso quer dizer sempre: aideia concebida como representação de alguma coisa. Da ideia, na medida em querepresenta alguma coisa, diz-se que tem uma realidade objetiva. Ela corresponde àrelação da ideia com o objeto que ela representa.O Afecto, modalidade de pensamento não representativo Portanto, partimos de uma coisa muito simples: a ideia é um modo de pensar definido pelo seucarácter representativo. Isto já nos dá um ponto de partida para distinguir ideia de afecto, porquechamaremos afecto a toda a modalidade de pensamento que não representanada. O que é que isto quer dizer? Escolham ao acaso o que quer que seja a que se possa chamarafecto ou sentimento, uma esperança por exemplo, uma angústia, um amor, isto não é representativo.Temos, certamente, uma ideia da coisa amada, temos uma ideia da coisa que esperamos, mas aesperança enquanto tal, ou o amor enquanto tal não representam nada, rigorosamente nada. Toda a modalidade de pensamento não representativo receberá o nome de afecto. Uma volição,uma vontade, implica, é certo, em rigor que eu queira alguma coisa; aquilo que eu quero é objeto derepresentação, aquilo que eu quero é-nos dado numa ideia, mas o facto de querer não é uma ideia, éum afecto porque é um modo de pensar não representativo. Estão a entender (Ça marche)? Isto não é complicado. Daqui (Espinosa) conclui imediatamente um primado da ideia sobre o afecto, oque é comum a todo o século XVII. Até aqui, ainda não entramos na especificidade de Espinosa. Háum primado da ideia sobre o afecto por uma razão muito simples, que é que para amar é preciso teruma ideia, por muito confusa que seja, por muito indeterminada que seja, daquilo que se ama. Paraquerer, é preciso ter uma ideia, por muito confusa e indeterminada que seja, daquilo que se quer.Mesmo quando dizemos “não sei o que estou a sentir”, há uma representação, por muito confusa queseja, do objeto. Há, portanto um primado, ao mesmo tempo, cronológico e lógico da ideia sobre oafecto, isto é, das modalidades representativas do pensamento sobre as modalidades nãorepresentativas. Seria um contra-senso desastroso o leitor transformar este primado lógico em
    • redução. Que o afecto pressuponha a ideia, isso não quer dizer que ele se reduza à ideia ou a umacombinação de ideias. Devemos partir disto: que a ideia e o afecto são duas espécies de modos depensar que diferem em natureza, (que são) irredutíveis um ao outro, e que somente podem serconsiderados numa relação em que o afecto pressupõe a ideia, por muito confusa que seja. Este é oprimeiro ponto.Realidade Objetiva - Realidade Formal Segunda maneira menos superficial de apresentar a relação ideia-afecto. Lembram-se quepartimos de uma caracterização muito simples da ideia. A ideia é um pensamento representativo, éum modo de pensar representativo, e neste sentido podemos falar da realidade objetiva de umaideia. Só que a ideia não é unicamente uma realidade objetiva; seguindo de novo a terminologiaconsagrada, a ideia tem também uma realidade formal. O que é isso da realidade formal da ideia,sendo dito que a realidade objetiva é a realidade da ideia, na medida em que representa alguma coisa?A realidade formal da ideia, dir-se-á, é - e então tudo se torna mais complicado e, por isso,mais interessante - é a realidade da ideia, na medida em que ela própria também éalguma coisa. A realidade objetiva da ideia de triângulo é a ideia de triângulo, enquanto representante da coisatriângulo, mas a ideia de triângulo é, ela própria, alguma coisa; aliás, na medida em que ela é algumacoisa, posso formar uma ideia dessa coisa, posso sempre formar uma ideia da ideia. Diria então quetoda a ideia é ideia de alguma coisa - dizer que toda a ideia é ideia de alguma coisa é dizer que toda aideia tem uma realidade objetiva, que toda a ideia representa alguma coisa -, mas diria também que aideia tem uma realidade formal pois ela própria é alguma coisa, enquanto ideia. O que é que querdizer a realidade formal da ideia? Não vamos poder continuar muito tempo a discutir isto, vai serpreciso pôr isto de lado. Basta acrescentar que esta realidade formal da ideia é aquilo aque Espinosa chama muitas vezes um certo grau de realidade ou de perfeiçãoque a ideia possui enquanto tal. Cada ideia, enquanto tal, tem um certo grau de realidade oude perfeição. Sem dúvida, esse grau de realidade ou de perfeição está ligado ao objeto que elarepresenta, mas não se confunde com ele: a realidade formal da ideia, a saber, a coisa que é aideia ou o grau de realidade ou de perfeição que ela possui em si, é o seu carácter intrínseco.A realidade objetiva da ideia, a saber, a relação da ideia com o objeto que ela representa, é oseu carácter extrínseco; pode acontecer que o carácter extrínseco e o carácter intrínseco daideia estejam fundamentalmente ligados, mas não são a mesma coisa. A ideia de Deus e a ideia de rãtêm uma realidade objetiva diferente, isto é: não representam a mesma coisa, mas, ao mesmo tempo,não têm a mesma realidade intrínseca, não têm a mesma realidade formal, isto é, uma - percebe-sebem - tem um grau de realidade infinitamente maior do que a outra. A ideia de Deus tem umarealidade formal, um grau de realidade ou de perfeição intrínseca infinitamente maior do que a ideiade rã, que é a ideia de uma coisa finita.
    • Se compreenderam isto, já compreenderam quase tudo. Que há, portanto, uma realidade formalda ideia, isto é, que a ideia é alguma coisa em si mesma, que esta realidade formal é o seu carácterintrínseco e que ela contém em si mesma o grau de realidade ou de perfeição que lhe é próprio.O Afecto, variação contínua da força de existir ou do poder para agir. Há pouco, quando definia a ideia pela sua realidade objetiva ou pelo seu carácter representativo,opunha a ideia ao afecto, dizendo que o afecto é precisamente um modo de pensar que não temcarácter representativo. Agora mesmo, acabei de definir a ideia do seguinte modo: toda a ideia éalguma coisa, não somente é ideia de alguma coisa, mas é também alguma coisa, isto é, tem um graude realidade ou de perfeição que lhe é próprio. Temos, portanto, que descobrir, neste segundo nível, uma diferença fundamental entre ideia eafecto. O que é que se passa concretamente na vida? Passam-se duas coisas… é curioso comoEspinosa utiliza um método geométrico, sabem que a Ética se apresenta na forma de proposições,demonstrações, etc., e, ao mesmo tempo, quanto mais é matemático mais é extraordinariamenteconcreto. Tudo o que eu estou a dizer e todos estes comentários sobre a ideia e sobre o afectoremetem para os livros II e III da Ética. Nesses livros dois e três, ele tira-nos um retrato geométrico danossa vida que, parece-me a mim, é muito convincente. Este retrato geométrico, consiste em nosdizer, no geral, que as nossas ideias se sucedem constantemente: uma ideia apanha a outra, uma ideiasubstitui outra ideia. A percepção é um certo tipo de ideia, como veremos daqui a pouco. Há umbocadinho, tinha a cabeça virada para ali, via aquele canto da sala, viro, é outra ideia; passeio-me numarua, onde conheço pessoas, digo bom dia ao Pedro, e depois viro-me, e depois digo bom dia aoPaulo. Ou então são as coisas que mudam: olho para o sol, e o sol, pouco a pouco, desaparece e ficanoite; é, portanto, uma série de sucessões, de coexistências de ideias, sucessões de ideias. Mas o que éque se passa também (para além disto)? A nossa vida quotidiana não é só feita de ideias que sesucedem. Espinosa emprega o termo “automaton”; nós somos, diz ele, autómatos espirituais, querdizer que não somos tanto nós que temos ideias, mas as ideias que se afirmam em nós. O que é quese passa, então, para além desta sucessão de ideias? Há outra coisa, a saber: algo em mim não cessa de variar. Há um regime da variação quenão é a mesma coisa que a sucessão das ideias. Variações, isto (esta palavra) deve servirpara o que queremos fazer; o chato é que ele (Espinosa) não utiliza a palavra… O que é que é estavariação? Retomo o meu exemplo: cruzo-me na rua com o Pedro que me é muito antipático, depois passopor ele, digo bom dia Pedro, ou então tenho medo dele e depois vejo de repente o Paulo que émuito simpático para mim, e digo bom dia Paulo, tranquilo, satisfeito. Bem. Do que é que se trata? Porum lado, uma sucessão de duas ideias, ideia de Pedro e ideia de Paulo; mas há outra coisa: operou-seem mim uma variação - aqui, as palavras de Espinosa são muito precisas, por isso vou citá-las:“(variação) da minha força de existir” ou outro termo que ele usa como sinónimo, do “poder para
    • agir” - e estas variações não param. Diria que, para Espinosa, há variação contínua - existir quer dizerisso mesmo - da força de existir ou do poder para agir. O que é que isto tem a ver com o meu exemplo estúpido, mas que é de Espinosa, bom diaPedro, bom dia Paulo? Quando vejo Pedro que me desagrada, é-me dada uma ideia, a ideia de Pedro;quando vejo Paulo, que me agrada, é-me dada a ideia de Paulo. Cada uma destas ideias, em relação amim, tem um certo grau de realidade ou de perfeição. Diria que a ideia de Paulo, em relação a mim,tem mais perfeição intrínseca do que a ideia de Pedro, pois a ideia de Paulo alegra-me e a ideia dePedro desgosta-me. Quando a ideia de Paulo sucede à ideia de Pedro, a minha força de existir ou omeu poder para agir aumenta ou é favorecido; quando acontece o contrário, é o inverso; quando,após ter visto alguém que me fazia feliz, vejo alguém que me põe triste, digo que o meu poder paraagir é inibido ou impedido. A este nível, não sabemos se ainda estamos a falar de convençõesterminológicas, ou se já estamos a falar de algo muito mais concreto. Diria, então, que à medida que as ideias se sucedem em nós, cada uma com o seu grau deperfeição, o seu grau de realidade ou de perfeição intrínseca, aquele que tem essas ideias, eu, não parode passar de um grau de perfeição para outro, por outras palavras, há uma variação contínuasob a forma de aumento-diminuição-aumento-diminuição do poder para agir ou da forçapara existir de alguém de acordo com as ideias que tem. Sintam como, através deste exercício penoso, pode a beleza florescer. Já não é nada má estarepresentação da existência, trata-se verdadeiramente da existência na rua. Podemos imaginarEspinosa a passear-se, e ele vive verdadeiramente a existência como esta espécie de variaçãocontínua: à medida que uma ideia substitui outra, não cesso de passar de um grau de perfeição paraoutro, mesmo que seja (uma diferença) minúscula, e é esta espécie de linha melódica da variaçãocontínua que vai definir o afecto, ao mesmo tempo, na sua correlação com as ideias e na sua diferençade natureza com as ideias. Tomarmos consciência desta diferença de natureza e desta correlação.Digam vocês se isto vos convém ou não. Todos nós temos uma definição (que pensamos) mais sólida do afecto; o afecto emEspinosa é a variação (é ele que fala pela minha boca; ele nunca disse isto porque morreudemasiado novo), é a variação contínua da força de existir, na medida em que estavariação é determinada pelas ideias que temos. Num texto muito importante do fim dolivro III, que tem o título “Definição geral do afecto”, Espinosa diz-nos: sobretudo não creiam que oafecto, tal como eu o concebo, depende de uma comparação das ideias. Ele quer dizer que de nadavale que a ideia seja anterior ao afecto, a ideia e o afecto são duas coisas que diferem na suanatureza, o afecto não se reduz a uma comparação intelectual das ideias, o afecto é constituído pelatransição vivida, ou pela passagem vivida de uma grau de perfeição para outro, sendo essa passagemdeterminada pelas ideias; mas em si mesmo, (o afecto) não consiste numa ideia, constitui o afecto.Quando passo da ideia de Pedro à ideia de Paulo, digo que o meu poder para agir é aumentado;quando passo da ideia de Paulo à ideia de Pedro, digo que o meu poder para agir é diminuído. O queé o mesmo que dizer que, quando vejo Pedro, sou afectado por tristeza; quando vejo Paulo, sou
    • afectado por alegria. Sobre esta linha melódica de variação contínua constituída pelo afecto, Espinosavai determinar dois pólos, alegria-tristeza, que serão, para ele, as paixõesfundamentais; a tristeza será toda a paixão, qualquer que ela seja, que envolva uma diminuição domeu poder para agir, e a alegria será toda a paixão que envolva um aumento da minha força para agir. Esta concepção permitirá que Espinosa exponha uma certa perspetiva sobre o problema moral epolítico. Como pode ser que as pessoas que detêm o poder, seja em que domínio for, têmnecessidade de nos afectar de maneira triste? O problema das paixões tristes como necessárias.Inspirar paixões tristes é necessário ao exercício do poder. Espinosa diz, no seu Tratado Teológico-Político, que é esse o elo profundo que liga o déspota e o padre; eles têm necessidade da tristeza nosseus sujeitos (nos que lhes estão sujeitos). Aqui compreende-se perfeitamente que Espinosa não falada tristeza num sentido vago, ela fala da tristeza no sentido rigoroso que ele lhe atribuiu: a tristeza éo afecto que contém a diminuição do poder para agir. Quando dizia, na minha primeira diferenciação entre ideia e afecto, que o afecto é o modo depensar que não representa nada, diria em termos técnico que não passava de uma simples definiçãonominal, ou, se preferirem, exterior, extrínseca. A segunda (definição), quando digo, por um lado, que aideia é o que tem em si uma realidade intrínseca, e o afecto é a variação contínua ou a passagem deum grau de realidade para outro, ou de um grau de perfeição para outro, já não estamos no domíniodas definições ditas nominais; aqui temos já uma definição real, entendendo-se por definição real adefinição que mostra simultaneamente que define a coisa e a possibilidade dessa coisa. O que interessa agora é que compreendam como, segundo Espinosa, somos fabricados comoautómatos espirituais. Enquanto autómatos, há sempre ideias que se sucedem em nós e, de acordocom essa sucessão de ideias, o nosso poder para agir ou a nossa força de existir é aumentada oudiminuída de um modo contínuo, sobre uma linha contínua, e é a isso que chamamos afecto, é a issoque chamamos existir. O afecto é, então, a variação contínua da força de existir de alguém, sendoessa variação determinada pelas ideias que esse alguém tem. Mas, mais uma vez, “determinado” não quer dizer que a variação se reduza à ideias que tenho,pois a ideia que tenho só tem a ver com a sua consequência, a saber, que aumenta o meu poder paraagir ou, pelo contrário, o diminui relativamente à ideia que tinha antes, e não se trata de umacomparação, trata-se de uma espécie de deslize, de queda ou de elevação, do poder para agir. Algum problema? Não há questões?As Três espécies de ideias: afeições, noções e essências Para Espinosa, há três tipos de ideias. Agora, já não estamos a falar de affectus, doafecto, pois, com efeito, o afecto é determinado pelas ideias que temos, não se reduz às ideias que
    • temos, é determinado pelas ideias que temos; portanto, o que é essencial é ver um pouco quais sãoessas ideias que determinam os afectos, mantendo bem presente no nosso espírito que o afecto nãose reduz às ideias que temos, é absolutamente irredutível. É de outra ordem. Os três tipos de ideias que Espinosa distingue são ideias afeições, affectio. Vamos ver que aafeição, ao contrário do afecto, é um certo tipo de ideias: Haveria, então, em primeiro lugar as ideiasaffectio, em segundo lugar, acontece-nos ter também ideias a que Espinosa chama noções(conceitos), e, em terceiro lugar, para um reduzido número de nós, porque é difícil, acontece termosideias essências.A Afeição, modo de pensar inadequado que representa uma afecção5 do corpo O que é uma afeição (affectio)? Vejo os vossos olhos a cair literalmente (baixar os olhos)… Noentanto, isto é engraçado, tudo isto. À primeira vista, numa interpretação literal do texto de Espinosa, isso não tem nada a ver comuma ideia, nem tão pouco tem a ver com o afecto. Tínhamos já determinado que o afecto seria avariação do poder para agir. Uma afeição, é o quê? Numa primeira abordagem, uma afeição é isto: é oestado de um corpo que sofre a acção de um outro corpo. O que é que isto quer dizer? “Sinto o solem mim”, ou então, “um raio de sol repousa sobre vós”; é uma afecção do vosso corpo. O que é queé uma afecção do vosso corpo? Não é o sol, mas a acção do sol ou efeito do sol sobre vós. Poroutras palavras, um efeito ou acção que um corpo produz sobre outro, sendo que para Espinosa, porrazões que têm a ver com a sua ideia de Física, - não acredita em acções à distância: a acção implicasempre um contacto - trata-se de uma mistura de corpos6. A afeição é uma mistura de dois corpos,(em que) um corpo é dito agir sobre o outro, e o outro recolher o rasto (vestígio) do primeiro. Atoda a mistura de corpos será dado o nome de afeição. Espinosa conclui a partir daqui que, sendo a afeição definida como uma mistura de corpos, elaimplica a natureza do corpo modificado, a natureza do corpo afeiçoado ou afectado; a afeição indica anatureza do corpo afectado muito mais do que a natureza do corpo afectante. Ele analisa o seucélebre exemplo: “quando olhamos para o sol, imaginamos que ele dista de nós cerca de duzentospés” (Livro II, proposição 35). Isto é uma afeição ou, pelo menos, é a percepção de uma afeição. Éclaro que a percepção do sol indica muito mais a constituição do meu corpo, a maneira como o meucorpo é constituído, do que a maneira como o sol é formado. Eu vejo o sol em virtude do estado dasminhas percepções visuais. Uma mosca percepcionará o sol de outro modo. Para salvaguardar o rigor da sua terminologia, Espinosa dirá que uma affectio indica a natureza docorpo modificado, mais do que a natureza do corpo modificante (que provoca a modificação), e que5Guardei para agora, por razões que serão sem dúvida compreensíveis, a utilização do termo em português de Afecção.Na verdade, e em bom rigor, significa o mesmo que afeição, no sentido de Espinosa. Mas, na nossa língua, afecção é umaacção de afectar que se aplica ao corpo. Mas fique bem claro: afeição é uma afecção do corpo, no sentido em que é usadopor Espinosa. Em língua francesa, o termo usado é affection em ambos os casos.6 Neste caso, dos raios do sol com o corpo de alguém.
    • inclui a natureza do corpo modificante. Eu diria que o primeiro tipo de ideia para Espinosaé todo o modo de pensar que representa uma afecção do corpo; isto é, a mistura deum corpo com outro corpo, ou então a um vestígio (la trace) de um outro corpo no meu corpo serádado o nome de ideia de afeição. É neste sentido que poderemos dizer que é uma ideia-afeição, é oprimeiro tipo de ideias. Este primeiro tipo de ideias corresponde àquilo a que Espinosa dá o nome deprimeiro género de conhecimento. É o mais baixo. Porque é que é o mais baixo? É evidente que é o mais baixo porque essas ideias de afeição sóconhecem as coisas pelos seus efeitos: eu sinto a afecção do sol em mim, o rasto do sol em mim. É oefeito do sol no meu corpo. Mas as causas, isto é, o que é o meu corpo, o que é o corpo do sol, e arelação entre esses dois corpos, de modo a que um produza sobre o outro um certo efeito em vezde outra coisa qualquer, delas não sei absolutamente nada. Vejamos um outro exemplo: “o sol derretea cera e endurece a argila”. Isto já é qualquer coisa. São ideias de afeição. Vejo a cera que desliza, edepois, mesmo ao lado, vejo a argila que endurece: é uma afeição da cera e uma afeição da argila, e eutenho uma ideia destas afecções, percepciono efeitos. Em virtude de quê a constituição corporal daargila endurece sob o efeito do sol? Enquanto me limito à percepção da afecção, não sei nada.Diremos que as ideias-afeição são representações de efeitos sem as suas causas, e é a istoprecisamente que Espinosa chama ideias inadequadas. São ideias de mistura separadas dascausas da mistura. Com efeito, que, ao nível das ideias-afeições, só tenhamos ideias inadequadas e confusas, issocompreende-se muito bem, pois são o quê, na ordem da vida, as ideias-afeições? E sem dúvida muitosde nós, os que não se dediquem o bastante à filosofia, só vivem assim. Uma vez, por uma única vez,Espinosa recorre a uma palavra latina, que é muito estranha, mas muito importante, que é ocursus.Significa literalmente encontro. Enquanto só tenho ideias-afeições, vivo ao acaso dos encontros:passeio-me na rua, vejo Pedro que não me agrada, em função da constituição do seu corpo e da suaalma e da constituição do meu corpo e da minha alma. Alguém que me desagrada, corpo e alma, oque é que isso quer dizer? Gostaria de vos fazer compreender porque é que Espinosa teve uma muito forte reputação dematerialista, quando não se cansava de falar do espírito e da alma, uma reputação de ateu, quandonão se cansava de falar de Deus - é muito curioso. Vê-se bem porque é que as pessoas diziam queera puro materialismo. Quando eu digo: aquele não me agrada, isso quer dizer literalmente que oefeito do seu corpo sobre o meu, o efeito da sua alma sobre a minha, me afecta desagradavelmente,são misturas de corpos ou misturas de almas. Há uma mistura nociva ou uma boa mistura, tanto aonível do corpo como da alma. É exatamente como: não gosto de queijo. O que é que isso quer dizer?Não gosto de queijo. Isso quer dizer que essa coisa se mistura com o meu corpo demaneira que sou modificado de uma forma desagradável, não quer dizer outra coisa.Portanto, não há razão nenhuma para fazer diferença entre simpatias espirituais e relações corporais.Em “eu não gosto de queijo” existe também um assunto de alma, mas em “Pedro ou Paulo não meagrada”, existe também um assunto de corpo… Simplesmente, por que razão é uma ideia confusa,esta ideia-afeição, esta mistura? É forçosamente confusa e inadequada, porque, a este nível, não sei
    • absolutamente nada (sobre) em virtude do quê e como é que o corpo ou a alma de Pedro éconstituída de tal maneira que o seu corpo não convenha ao meu. Só posso dizer que isso não meconvém, mas em virtude de que constituição dos dois corpos, quer do corpo afectante quer docorpo afectado, quer do corpo que age quer do corpo que sofre, a este nível não sei nada. Como dizEspinosa, são consequências separadas das suas premissas, ou, se preferirem, é um conhecimento dosefeitos independentemente do conhecimento das causas. É portanto o acaso dos encontros. E o queé que se pode passar no acaso dos encontros? E o que é um corpo? Não vou desenvolver; isso será objeto de uma lição especial. A teoria sobreo que é um corpo, ou então uma alma, é o mesmo, encontra-se no livro II da Ética. Para Espinosa, aindividualidade de um corpo define-se assim: é quando uma certa relação composta (insisto nisto,muito composta, muito complexa) ou complexa de movimento e de repouso se mantém ao longo detodas as mudanças que afectam as partes desse corpo. É a permanência de uma relação demovimento e de repouso ao longo de todas as mudanças que afectam todas as partes até ao infinitodo corpo considerado. Compreendem que um corpo seja necessariamente composto até ao infinito. O meu olho, porexemplo, o meu olho, e a relativa constância do meu olho, define-se por uma certa relação demovimento e de repouso, através de todas as modificações das diversas partes do meu olho; mas omeu olho, ele próprio, que já tem uma infinidade de partes, é uma parte das partes do meu corpo; oolho é uma parte da face e a face, por sua vez, é uma parte do meu corpo, etc. Portanto, temos todasas espécies de relações que vão compor-se umas com as outras para formar uma individualidadedeste ou daquele grau. Mas em cada um destes níveis ou graus, a individualidade será definida poruma certa relação composta de movimento e de repouso. O que é que acontece, sendo o meu corpo assim constituído, (como) uma certa relação demovimento e de repouso que assume uma infinidade de partes? Podem acontecer duas coisas: comoalguma coisa de que gosto, ou então, outro exemplo, como alguma coisa e sou envenenado.Literalmente, num caso, tive um bom encontro e, no outro caso, tive uma mau encontro. Tudo isto fazparte da categoria ocursus. Quando tenho um mau encontro, isso quer dizer que o corpo que semistura com o meu destrói a minha relação constituinte, ou tende a destruir uma das minhas relaçõessubordinadas. Por exemplo, como alguma coisa e fico com dores de estômago, não me mata;destruiu, portanto, ou inibiu, comprometeu uma das minhas sub-relações, uma das minhas relaçõescompostas. Depois, como alguma coisa e morro. Neste caso, isso decompôs a minha relaçãocomposta, decompôs a relação complexa que definia a minha individualidade. Não destruiusimplesmente uma das minhas relações subordinadas que compunha uma das minhas sub-individualidades, destruiu a relação característica do meu corpo. Passa-se o inverso quando comoalguma coisa que me convém. “O que é o mal?” pergunta Espinosa. Encontramos a sua resposta na correspondência. Nas cartasque enviou a um jovem holandês que era mau como tudo. Esse holandês não gostava de Espinosa eatacava-o constantemente; perguntava-lhe: diga-me o que é para si o mal. Sabem que, naquele tempo,
    • as cartas eram muito importantes, e os filósofos enviavam muitas cartas. Espinosa, que é muitosimpático, pensa no início que se trata de um jovem que quer instruir-se, e só aos poucoscompreende que não é nada disso, que o holandês quer a sua pele. De carta em carta, a cólera deBlyenberg (o tal jovem), que era um bom cristão, irrita-se e acaba por lhe dizer: você é o diabo!Espinosa diz que o mal não é difícil (de entender), o mal é um mau encontro. Encontrar um corpoque se mistura mal com o nosso. Misturar-se mal, isso quer dizer misturar em condições tais que umadas nossas relações subordinadas, ou que a nossa relação constituinte é, ou ameaçada oucomprometida, ou mesmo destruída. Cada vez mais entusiasmado, empenhado em mostrar que temrazão, Espinosa analisa à sua maneira o exemplo de Adão. Nas condições em que vivemos, parecemos absolutamente condenados a só ter uma espécie deideias, as ideias-afeições. Por que milagre poderemos sair destas acções de corpo que não esperarampor nós para existirem, como poderemos elevar-nos ao conhecimento das causas? Para já, vemosbem como, desde que nascemos, estamos condenados ao acaso dos encontros; ora, isso não é grandecoisa. Isto implica o quê? Antes de mais, implica uma forte reacção contra Descartes, poisEspinosa afirma convictamente no livro II que nós só conseguimos conhecer-nos a nós mesmos, e sóconseguimos conhecer os corpos exteriores através das afeições que os corpos exteriores produzemsobre o nosso. Para aqueles que se lembram de Descartes, esta é a proposição anti-cartesiana de base, poisexclui qualquer tipo de apreensão da coisa pensante por si mesma, a saber exclui qualquerpossibilidade do cogito (“penso, logo existo”). Só conheço as misturas de corpos e só me conheço amim mesmo através da acção dos outros corpos sobre mim, e através das misturas. Não se trata sóde anti-cartesianismo, trata-se também de anti-cristianismo. Porquê? Porque um dos pontosfundamentais da teologia é a perfeição imediata do primeiro homem criado, aquilo que se chama, emteologia, a teoria da perfeição “adámica” (de Adão). Adão, antes de pecar, foi criado tão perfeitoquanto podia ser, e depois há a história do pecado que é precisamente a história da queda, mas aqueda pressupõe um Adão perfeito como criatura. Esta ideia parece absurdamente cómica aEspinosa. A sua convicção é de que isso não é possível; supondo que pensamos na ideia de umprimeiro homem, só podemos pensar nele como o mais impotente, o mais imperfeito que sejapossível, pois o primeiro homem só pode existir no acaso dos encontros e das acções dos outroscorpos sobre ele. Portanto, supondo que Adão existiu, ele existiu num modo da imperfeição ou dainadequação absoluta, ele existiu no modo de um bebé que é entregue ao acaso dos encontros, a nãoser que esteja num meio protegido, mas aí já estou a falar demais… O que é que poderia ser ummeio protegido? O mal é um mau encontro. Isto quer dizer o quê? Espinosa, na sua correspondência com oholandês, diz: tu estás sempre a falar de Deus que proibiu Adão de comer a maçã, e tu citas issocomo um exemplo de uma lei moral. A primeira interdição. Espinosa diz-lhe: mas não foi de formanenhuma isso o que se passou, e Espinosa refaz toda a história de Adão sob a forma de umenvenenamento e de uma intoxicação. O que é que se passou na realidade? Deus nunca proibiu oque quer que fosse a Adão; concedeu-lhe uma revelação. Preveniu-o do efeito nocivo que o corpo da
    • maçã daquela macieira teria sobre a constituição do seu corpo, dele, Adão. Por outras palavras, amação era um veneno para Adão. O corpo da maçã existe sob uma tal relação característica (que amaçã) só pode agir sobre o corpo de Adão, tal como ele é constituído, decompondo a relação docorpo de Adão. E se ele errou por não ouvir a voz de Deus, não terá sido no sentido de que lhe terdesobedecido; o que se passou é que não compreendeu nada. Isso também acontece nos animais,alguns têm um instinto que os afasta do que é venenoso para eles; há outros que não têm esseinstinto. Quando tenho um encontro de tal qualidade que a relação do corpo que me modifica, que agesobre mim, se combina com a minha própria relação, com a relação característica do meu corpo, oque é que se passa? Diria que a minha força de agir é aumentada; pelo menos é aumentada sob oefeito dessa relação. Quando, pelo contrário, tenho um encontro de tal qualidade que a relaçãocaracterística do corpo que me modifica compromete ou destrói uma das minhas relações, ou aminha relação característica, diria que a minha força de agir é diminuída, ou mesmo destruída.Reencontramos aqui os nossos dois afectos - affectus - fundamentais: a tristeza e a alegria. Parareagrupar tudo neste nível, em função das ideias de afeição que tenho, há duas espécies de ideias deafeição: ideia de um efeito que se concilia ou que favorece a minha própria relação característica.Segundo tipo de ideia de afeição: a ideia de um efeito que compromete ou destrói a minha própriarelação característica. A estes dois tipos de ideias de afeição vão corresponder os dois movimento deda variação no affectus, os dois pólos da variação: num caso, o meu poder para agir é aumentado e euexperimento um affectus de alegria, no outro caso, o meu poder de agir é aumentado e euexperimento um affectus de tristeza. Espinosa vai engendrar todas as paixões, nos seus detalhes, apartir destes dois afectos fundamentais. O que é o mesmo que dizer que cada coisa, corpo ou alma,se define por uma certa relação característica, complexa, mas eu diria também que cada coisa, corpoou alma, se define por um certo poder para ser afectado. Tudo se passa como se cada um de nós tivesse um certo poder para ser afectado. Tomemos ocaso dos animais. Espinosa será muito assertivo a dizer-nos que o que conta nos animais, não é deforma nenhuma, os géneros e as espécies; os géneros e as espécies são noções absolutamenteconfusas, são ideias abstractas. O que conta é: do que é que é capaz um corpo? E lança umadas questões mais fundamentais de toda a sua filosofia (antes tinha havido Hobbes e outros), dizendoque a única questão é que nós não sabemos do que é capaz um corpo, falamos pelos cotovelossobre a alma e o espírito e não sabemos do que é capaz um corpo. Ora, um corpo deve ser definidopelo conjunto das relações que o compõem, ou, o que é exatamente o mesmo, pelo seu poder paraser afectado 7. Enquanto não soubermos qual é o poder para ser afectado de um corpo, enquanto oaprendemos assim ao sabor dos encontros, não levaremos uma vida sábia, não teremos sabedoria.Saber do que somos capazes. De forma nenhuma como uma questão moral, mas antes de mais comouma questão física, como uma questão do corpo e da alma. Um corpo tem algo defundamentalmente escondido: poderemos falar da espécie humana, do género humano, isso não nos7 Diríamos agora: pela sua afectividade
    • dirá o que é que é capaz de afectar o nosso corpo, o que é que é capaz de o destruir. A únicaquestão é o poder para ser afectado. O que é que distingue uma rã de um macaco? Não são as características da espécie ou dogénero, diz Espinosa, é o facto de não serem capazes das mesmas afeições. Portanto, seria necessáriofazer, para cada animal, verdadeiros mapas de afectos, os afectos de que um animal é capaz. O mesmopara os homens: os afectos de que cada homem é capaz. Neste momento, apercebemo-nos de que,de acordo com as culturas, com as sociedades, os homens não são capazes dos mesmos afectos. Ébem conhecido o método com o qual certos governos liquidaram os índios da América do sul; foideixar, nos caminhos onde passavam os índios, roupas de pessoas com gripe, roupas recolhidas nasenfermarias porque os índios não suportavam o afecto da gripe. Necessidade nenhuma demetralhadora, eles morriam como moscas. É evidente que nós, nas condições de vida da floresta,correríamos o risco de não viver muito tempo. Portanto, género humano, espécie humana ou mesmoraça, diz Espinosa, isso não tem qualquer importância, enquanto não fizermos a lista dos afectos deque cada um é capaz, no sentido mais forte da palavra capaz, incluindo as doenças de que somoscapazes. É evidente que um cavalo de corrida e um cavalo de lavoura são da mesma espécie, são duasvariedades da mesma espécie; no entanto, os seus afectos são muito diferentes, as doenças sãoabsolutamente diferentes, a capacidade de serem afectados é completamente diferente e, deste pontode vista, podemos dizer que um cavalo de lavoura está mais próximo de um boi do que de um cavalode corrida. Portanto, um mapa etológico dos afectos é muito diferente de uma determinação dogénero ou da espécie dos animais. Reparem que o poder de ser afectado pode ser cumprido de duas maneiras: quando souenvenenado, o meu poder de ser afectado é absolutamente cumprido, mas é cumprido de tal modoque a minha força para agir tende para zero, isto é, é inibida; Inversamente, quando experiencioalegria, isto é, quando encontro um corpo que compõe a sua relação com o meu, o meu poder deser afectado é igualmente cumprido e a minha força de agir aumenta e tende para… quê? No casode um mau encontro, toda a minha força de existir (vis existendi) é concentrada, tendendo para oobjetivo seguinte: investir contra o rasto do corpo que me afecta para afastar o efeito desse corpo,embora o meu poder para agir tenha diminuído. São coisas muito concretas. Temos dores de cabeça e dizemos: já nem consigo ler. Isto quer dizerque a nossa força de existir investe de tal maneira contra a dor, isso implica mudanças numa dasnossas relações subordinadas, investe de tal maneira contra o rasto da dor, que o nosso poder paraagir é diminuído proporcionalmente. Pelo contrário, quando dizemos : oh! Que bem que me sinto,estamos contentes porque corpos se misturaram connosco em proporções e em condições que sãofavoráveis à nossa relação; nesse momento, o poder do corpo que nos afecta combina-se com onosso de tal modo que o vosso poder para agir é aumentado. Nos dois casos o nosso poder de serafectado é completamente realizado, mas pode ser realizado de tal modo que o poder para agirdiminua até ao infinito ou que o poder para agir aumente até ao… infinito. Infinito? Será verdade?Evidentemente, não, pois, ao nosso nível, as forças de existir são forçosamente finitas. Só Deus tem umpoder absolutamente infinito. Bom, mas, dentro de certos limites, não deixarei de passar por essas
    • variações do poder para agir em função das ideias de afeição que tenho, não deixarei de seguir a linhade variação contínua do affectus em função das ideias-afeição e dos encontros que tenho, de talmaneira que, a cada instante, o meu poder de ser afectado é completamente realizado,completamente cumprido. Simplesmente cumprido no modo tristeza ou no modo alegria. Claro, osdois ao mesmo tempo também, porque, bem entendido, nas sub-relações que nos compõem, umaparte de nós mesmos pode ser composta de tristeza e uma parte de nós mesmos pode sercomposta de alegria. Há tristezas locais e alegrias locais. Por exemplo, Espinosa dá como definição dascócegas: uma alegria local, isso não quer dizer que tudo é alegria nas cócegas, pode ser uma alegria detal natureza que implique uma irritação coexistente de uma outra natureza, irritação que é tristeza: omeu poder de ser afectado tende a ser ultrapassado. Nada é bom para alguém que ultrapasse o seupoder de ser afectado. Um poder de ser afectado é realmente uma intensidade, ou um limiar deintensidade. O que Espinosa pretende realmente é definir a essência de alguém de uma forma intensiva comouma quantidade intensiva. Enquanto não conhecermos as nossas intensidades, corremos o ris de termaus encontros e de nada vale dizer: como é belo o excesso e a desmesura… nada de desmesura,só o fracasso, nada para além do fracasso. Aviso para as overdoses. É precisamente o fenómeno dopoder de ser afectado que é ultrapassado com uma destruição total. É certo que na minha geração, em média, éramos mais bem formados em filosofia quandofazíamos essa formação, e, em contrapartida, tínhamos uma espécie de incultura muito evidente emoutros domínios, em música, em pintura, em cinema. Tenho a impressão que, para muitos de vós, arelação mudou, isto é, não sabeis nada, absolutamente nada de filosofia, mas sabeis, ou sabeis manejarcoisas como uma cor, sabeis o que é um som ou o que é uma imagem. A filosofia é uma espécie desintetizador de conceitos, criar um conceito não é de forma nenhuma ideologia. Um conceito é umanimal. O que eu defini até agora foi unicamente o aumento e a diminuição do poder para agir, ou que opoder de agir aumenta ou diminui, sendo o afecto correspondente sempre uma paixão. Seja umaalegria que aumenta o meu poder para agir, ou seja uma tristeza que diminui o meu poder para agir,nos dois casos, são paixões: paixões alegres ou paixões triste. Mais uma vez, Espinosadenuncia uma conspiração no universo daqueles que têm interesse em nos afectar com paixõestristes. O padre tem necessidade da tristeza dos fiéis, tem necessidade de que os fiéis se sintamculpados. Ainda não defini o que é o poder para agir. As auto-afeições ou afectos activos supõem quepossuímos o nosso poder para agir e que, neste ou naquele ponto, saímos do domínio das paixõespara entrar no domínio das acções. É o que nos falta ver. Como poderemos sair das ideias-afeição, como poderemos sair dos afectos passivos queconsistem em aumento ou diminuição do nosso poder para agir, como poderemos sair do mundo dasideias inadequadas, sendo certo que a nossa condição parece condenar-nos a este mundo? É por aquique podemos procurar o golpe de teatro na Ética. Vai falar-nos de afectos activos, onde já não hápaixões, onde o poder para agir é conquistado, em vez de passar por todas as variações contínuas.
    • Aqui, há um ponto muito claro. Há uma diferença fundamental entre ética e moral. Espinosa não tratada moral, por uma razão muito simples: ele nunca se pergunta sobre o que devemos (fazer), elepergunta-se todo o tempo sobre o que somos capazes (de fazer), o que é que existe no nossopoder: a ética é um problema de poder, não é nunca um problema do dever.Neste sentido, Espinosa é profundamente imoral8. O problema moral, o bem e o mal, consiste embons encontros e em maus encontros, aumentos e diminuições de poder. Assim, o seu assunto dizrespeito à ética e de forma nenhuma à moral. Foi por isso que teve uma tão grande influência emNietzche. Nós estamos completamente encerrados neste mundo das ideias-afeição e das variaçõesafectivas contínuas de alegria e de tristeza; o nosso poder de agir ora aumenta ora diminui; mas querela aumente, quer diminua, eu mantenho-me na paixão, porque, nos dois casos, não o possuo (opoder), estou ainda separado do meu poder para agir. Então, quando o meu poder de agir aumenta,isso quer dizer que eu estou relativamente menos separado dele (do poder), e o inverso; eu não soua causa dos meus próprios afectos, e, não sendo a causa dos meus próprios afectos, eles sãoproduzidos em mim por outra coisa: estou, portanto, passivo, estou no mundo da paixão. Mas aindahá as ideias-noção e as ideias-essência.A Noção, modo do pensar adequado, graças à compreensão da causa Será ao nível das ideias-noção que vai aparecer uma espécie de saída deste mundo. Estamoscompletamente esmagados, fechados num mundo de impotência absoluta; mesmo quando o meupoder de agir aumenta, é um segmento de variação, nada me garante que, na esquina da rua, não voureceber uma pancada na cabeça e que o meu poder de agir não vai decair. Lembram-se de que umaideia-afeição é a ideia de uma mistura, isto é, a ideia de um corpo sobre o meu. Uma ideia-noção já não diz respeito ao efeito de um outro corpo sobre omeu, é uma ideia que tem por objeto a conveniência ou a inconveniência dasrelações características entre os dois corpos. Se há ideias deste género - ainda não sabemos se há, mas podemos sempre definir alguma coisa,antes de concluir que não podem existir - serão o que chamaremos uma definição nominal. Diria quea definição nominal da noção é que se trata de uma ideia que, em lugar de representar o efeito deum corpo sobre outro, isto é, a mistura de dois corpos, representa a conveniência ou a inconveniênciainterna das relações características dos dois corpos. Exemplo: se souber o suficiente sobre a relaçãocaracterística do corpo chamado arsénico e sobre a relação característica do corpo humano, poderiaformar uma noção daquilo em que essas duas relações não convêm (entre si), a ponto de o arsénico,sob a sua relação característica, destruir a relação característica do meu corpo. Se for envenenado,morro.8 Talvez Deleuze quisesse dizer “amoral”; mas a palavra que ele usa é, em francês, “immoral”.
    • Vê-se que, diferentemente da ideia de afeição, em vez de ser apreendida a partir da misturaextrínseca de um corpo com outro, ou do efeito de um corpo sobre um outro, a noção eleva-seà compreensão da causa, a saber, se a mistura tem este ou aquele efeito, é em virtude danatureza da relação dos dois corpos considerados e da maneira como a relação de um dos corpos secompõe com a relação do outro corpo. Há sempre composição de relações. Quando souenvenenado, é porque o corpo arsénico induziu as partes do meu corpo a entrar sob uma outrarelação diferente da relação que me caracteriza. Nesse momento, as partes do meu corpo entramsob uma nova relação induzida pelo arsénico, que se compõe perfeitamente com o arsénico; oarsénico fica feliz porque se alimenta de mim. O arsénico experiencia uma paixão alegre, pois, comobem diz Espinosa, todo o corpo tem uma alma. Portanto, o arsénico está feliz, eu, evidentemente, nãoestou. Ele induziu partes do meu corpo a entrar numa relação que se compõe com a sua, arsénico. Euestou triste, dirijo-me para a morte. Percebe-se que a noção, se formos capazes de chegar a ela, é umtruque formidável. Não estamos longe de uma geometria analítica. Uma noção não é de forma nenhuma abstracta,é concreta: este corpo, aquele corpo. Se eu soubesse a relação característica da alma e do corpodaquele de quem digo que não me agrada, relativamente à minha relação característica,compreenderia tudo, conheceria pelas causas, em vez de só conhecer efeitos separados das suascausas. Nesse momento, teria uma ideia adequada. Do mesmo modo, se compreendesse por querazão alguém me agrada. Tomei como exemplo as relações alimentares; não há que mudar, nemsequer uma linha no que diz respeito às relações amorosas. Não é que Espinosa conceba o amorcomo alimentação. A sua concepção aplicava-se a tudo, tanto à alimentação como ao amor.Consideremos uma família ao jeito de Strinberg 9, essa espécie de decomposição das relações que,depois, se recompõem para recomeçar. O que é essa variação contínua do affectus, e como é queacontece que alguma inconveniência convenha a alguns? Porque é que alguns só conseguem viver soba forma da cena de família indefinidamente repetida? Saem dela como se tivesse sido um banho deágua fria para eles. Compreendem agora a diferença entre uma ideia-noção e uma ideia-afeição. Uma ideia-noção éforçosamente adequada, pois é um conhecimento através das causas. Espinosa, neste ponto, empreganão somente o termo noção para qualificar esta segunda espécie de ideia, mas emprega também otermo de noção comum. A palavra é muito ambígua: quer dizer comum a todos os espíritos? Sime não. Espinosa é muito minucioso. Em qualquer caso, não confundam nunca uma noção com umaabstracção. Uma noção comum. Define-a sempre do seguinte modo: é a ideia de alguma coisa que é comuma todos os corpos ou a vários corpos - dois, pelo menos - e que é comum ao todo e à parte.Portanto, há seguramente noções comuns que são comuns a todos os espíritos, mas só são comuns atodos os espíritos, na medida em que elas são, antes de mais, a ideia de algo que é comum a todos oscorpos. Portanto, não se trata de forma nenhuma de noções abstractas.9Suponho que Deleuze se está a referir a August Strinberg, um escritor sueco, famoso pelas suas peças de teatro; foi umprecursor do expressionismo e do surrealismo.
    • O que é que é comum a todos os corpos? Por exemplo, estar em movimento ou estar emrepouso. O movimento e o repouso serão objetos de noções ditas comuns a todos os corpos.Portanto, há noções comuns que designam algo de comum a dois corpos ou a duas almas. Porexemplo, alguém que eu amo. Mais uma vez, as noções comuns, isso não é abstracto, isso não temnada a ver com espécies e géneros, é verdadeiramente o enunciado que é comum a vários corpos oua todos os corpos; ora, como não há nenhum corpo que não seja, ele próprio, vários, podemos dizerque há coisas comuns ou noções comuns em cada corpo. De onde se volta à questão: como é que sepode sair desta situação que nos condena às misturas? Neste ponto, os textos de Espinosa são muito complicados. Só podemos conceber essa saída daseguinte maneira: quando sou afectado, no acaso dos encontros, ou então (quando) sou afectado detristeza ou de alegria; quando sou afectado de tristeza, o meu poder de agir diminui, quer dizer queestou ainda mais separado desse poder; quando sou afectado de alegria, ele (o poder) aumenta, querdizer que estou menos separado desse poder. Bem. Se vocês se consideram afectados de tristeza,tudo está lixado, já não há saída por uma simples razão: nada, na tristeza que diminui o vosso poderde agir, nada vos pode induzir, na tristeza, a formar a noção comum de alguma coisa que seja comumaos corpos que vos afectam de tristeza e ao vosso. Por uma razão muito simples, é que o corpo quevos afecta de tristeza só vos afecta de tristeza, na medida em que vos afecta numa relação que nãoconvém à vossa. Espinosa quer dizer algo de muito simples, é que a tristeza não é coisa que dêinteligência. A tristeza: estamos tramados. É por isso que os poderes têm necessidade de que ossujeitos sejam tristes. A angústia nunca foi um jogo de cultivo da inteligência ou da vivacidade.Enquanto tiverem um afecto triste, um corpo age sobre o vosso, uma alma age sobre a vossa, emcondições tais e sob uma relação que não convém ao vosso. Desde logo, nada na tristeza vos podeinduzir a formar a ideia comum, isto é, a ideia de alguma coisa em comum entre os dois corpos e asduas almas. Está cheio de sabedoria o que ele está a dizer. É por isso que pensar na morte é a coisamais imunda. Ele opõe-se a toda a tradição filosófica de meditação sobre a morte. A sua fórmula éque a filosofia é uma meditação sobre a vida e não sobre a morte. Evidentemente porque a morte ésempre um mau encontro. Outro caso. Sois afectados de alegria. O vosso poder de agir é aumentado; isso não quer dizerque o possuís sempre, mas o facto de serdes afectados de alegria significa e indica que o corpo ou aalma que assim vos afecta, vos afecta sob uma relação que se combina com o vosso (corpo) e que secompõe com o vosso, e isto vale tanto como fórmula do amor, como fórmula alimentar. Num afectode alegria, portanto, o corpo que vos afecta é indicado como compondo a sua relação com o vosso, enão como relação que decompõe o vosso corpo Desde logo, algo vos induz a formar a noção doque é comum ao corpo que vos afecta e ao vosso, à alma que vos afecta e à vossa. Neste sentido, aalegria dá inteligência. Sente-se que aqui há um truque dos diabos, porque método geométrico ou não, temos deconcordar com tudo; ele pode demonstrar. Mas há um apelo evidente a uma espécie de experiênciavivida. Há um apelo evidente a uma forma de perceber, e bem mais, a uma maneira de viver. Para játemos que odiar as paixões tristes; a lista das paixões tristes é infinita em Espinosa, ele chega mesmo
    • ao ponto de dizer que toda a ideia de recompensa envolve uma paixão triste, toda a ideia deorgulho, a culpabilidade. Este é um dos momentos mais maravilhosos da Ética. Os afectos de alegria são como uma espécie de trampolim. Fazem-nos passar através de algumacoisa, pela qual nunca poderíamos passar se só houvesse tristezas. Incitam-nos a formar a ideia do queé comum ao corpo afectante e ao corpo afectado. Pode falhar, mas também pode ser um sucesso etorno-me inteligente. Alguém que se torna bom a Latim ao mesmo tempo que se apaixona… isto vê-se nos seminários das universidades. Isto está ligado a quê? Como é que alguém faz progressos? Nãofazemos nunca progressos numa linha homogénea, é uma coisa aqui que nos faz fazer progressos ali,como se uma alegria aqui fizesse disparar um clic. De novo, a necessidade de um mapa: o que é quese passou aqui para que aquilo se desbloqueie ali? Uma pequena alegria precipita-nos num mundo deideias concretas, que varre os afectos tristes ou que começa a lutar, tudo isso faz parte da variaçãocontínua. Mas, ao mesmo tempo, esta alegria propulsiona-nos, de algum modo, para fora da variaçãocontínua, faz-nos adquirir pelo menos a potencialidade de uma noção comum. Temos de conceberisto de forma muito concreta, são coisas muito locais. Se conseguirmos formar uma noção comum, apartir de que ponto da nossa relação de nós com esta pessoa ou com aquele animal, dizemos:finalmente, compreendi alguma coisa, sou menos estúpido do que ontem. O “eu compreendi” quedizemos a nós próprios, por vezes, é o momento em que formamos uma noção comum. Formamo-lamuito localmente, isso não nos dá todas as noções comuns. Espinosa está muito longe de pensarcomo um racionalista - para os racionalistas, há o mundo da razão e há o mundo das ideias: setivermos uma (ideia), evidentemente temo-las todas: somos razoáveis. Espinosa pensa que serrazoável, ou ser sábio, é um problema de nos transformar,mos o que altera singularmente o conteúdodo conceito de razão. Temos de fazer os encontros que nos convêm. Ninguém poderá alguma vez dizer que alguma coisa que ultrapasse o seu poder de ser afectadopossa ser bom para si. O mais belo é viver nas margens, no limite do seu próprio poder de serafectado, desde que seja uma margem alegre, pois há o limite da alegria e o limite de tristeza; mastudo o que excede o nosso poder de ser afectado é feio. Relativamente feio - o que é bom para asmoscas não é forçosamente bom para nós… Não há noção abstracta, não há nenhuma fórmula que seja boa para o homem em geral. O queconta é qual é o vosso poder, de cada um de vós. Lawrence10 dizia uma coisa claramente espinosista:uma intensidade que ultrapasse o nosso poder de ser afectado, essa intensidade é má (cf. Os escritospóstumos). É claro: um azul demasiado intenso para os meus olhos, ninguém me fará dizer que ébelo; será talvez belo para um outro qualquer. Há coisas boas para todos, dir-me-iam… Sim, porqueos poderes de ser afectado se compõem. Supor que haja um poder de ser afectado que defina opoder de ser afectado do universo inteiro, é bem possível, pois todas as relações se compõem até aoinfinito, mas não numa ordem qualquer. A minha relação não se compõe com a do arsénico, mas oque é que isso interessa? Evidentemente, a mim interessa muito, mas nesse momento as partes do10É quase certo que Deleuze se refere aqui a David Herbert Lawrence, um escritor inglês, influenciado por Freud eNietzsche, autor do famoso romance “O Amante de Lady Chatterley”, e crítico feroz dos efeitos desumanizantes damodernidade e da industrialização.
    • meu corpo entram numa nova relação que se compõe com a do arsénico 11. Temos de saber em queordem as relações se compõem. Ora, se soubéssemos em que ordem as relações de todo o universose compõem, poderíamos definir um poder de ser afectado do universo inteiro, seria o cosmos, omundo como corpo ou como alma. Nesse momento, o mundo inteiro não passaria de um único corpo, seguindo a ordem dasrelações que se compõem. Nesse momento, teríamos um poder de ser afectado universalpropriamente dito: Deus, que é o universo inteiro na forma de causa, tem por natureza um poderuniversal de ser afectado. Não é preciso dizer que ele está a fazer um estranho uso da ideia de Deus. Sentimos umaalegria, sentimos que essa alegria nos diz respeito a todos nós, que ela diz respeito a algo deimportante quanto às nossas relações principais, às nossas relações características. Aí, então, devemosservir-nos dela como de um trampolim, formar em nós a ideia-noção: em que é que o corpo que meafecta e o meu convêm um ao outro? Em que é que a alma que me afecta e a minha convêm uma àoutra, do ponto de vista da composição das suas relações, e já não do ponto de vista do acaso dosseus encontros. Estamos a fazer a operação inversa daquela que estamos habituados a fazer. Em geral, as pessoas fazem a soma das suas infelicidades, é aí que começa a neurose, ou adepressão, quando começamos a determinar os totais: oh merda! É isto e depois aquilo… Espinosapropõe o inverso: em vez de fazer a soma das nossas tristezas, escolher um ponto de partida localnuma alegria, desde que sintamos que ela nos diz verdadeiramente respeito. Sobre ela formamos anoção comum, sobre ela tentamos ganhar localmente, estender essa alegria. É um trabalho para avida. Tentamos diminuir a porção respectiva das tristezas relativamente à porção respectiva de umaalegria, e tentamos o seguinte golpe formidável: estamos suficientemente seguros de noções comunsque remetem para relações de conveniência entre tal e tal corpo e o meu; vamos agora tentar aplicaro mesmo método à tristeza, mas não o podemos fazer a partir da tristeza, quer dizer que vamostentar formar noções comuns através das quais conseguiremos compreender de forma vital em que éque tal ou tal corpo não convêm ou já não convêm. Isto já não é uma variação contínua, torna-senuma curva em sino12. Partimos das paixões alegres, aumento de poder de agir; servimo-nos (delas)para formar noções comuns de um primeiro tipo, noção do que havia de comum entre o corpo queme afectava de alegria e o meu, estendemos ao máximo as nossas noções vivas comuns e voltamos adescer no sentido da tristeza, desta vez, com noções comuns, que formamos para compreender emque é que tal corpo não convém ao nosso, que tal alma não convém à nossa. Nesta altura já podemos dizer que alcançamos a ideia adequada pois, com efeito, passamos parao conhecimento das causas. Já podemos dizer que alcançamos a filosofia, uma única coisa interessa: asmaneiras de viver. Uma única coisa interessa, a meditação sobre a vida, e a filosofia só pode ser a11Embora eu perca toda a força de existir, a verdade é que há partes de mim que se compõem com o arsénico… é istoo que Deleuze quer dizer.12 Em francês: “courbe en cloche”, em termos técnicos, uma curva em sino refere-se a uma curva normal numadistribuição estatística.
    • meditação da vida, e, longe de ser uma meditação da morte, é a operação que consiste em fazer comque a morte só afecte, no final de contas, a proporção relativamente mais pequena de mim, isto évivê-la com um mau encontro. Simplesmente, sabemos bem que, à medida que um corpo se cansa, asprobabilidades de maus encontros aumentam. É uma noção comum, uma noção comum deinconveniência. Enquanto sou jovem, a morte é verdadeiramente algo que vem de fora, éverdadeiramente um acidente extrínseco, salvo em caso de doença interna. Não há noção comum,pelo contrário, é verdade que quando um corpo envelhece, o seu poder de agir diminui: deixo depoder fazer aquilo que ainda ontem era capaz de fazer; isto, isto fascina-me, no envelhecimento, estaespécie de diminuição do poder de agir. O que é que é um palhaço, do ponto de vista vital, da vida? É o tipo que, precisamente, nãoaceita o envelhecimento, não sabe envelhecer à velocidade certa. Não devemos envelhecerdemasiado depressa porque é também uma outra forma de se ser palhaço: fazer de velho. Quantomais se envelhece, menos se tem vontade de ter maus encontros. É fascinante o tipo que, à medidaque o seu poder de agir diminui em função do envelhecimento, o seu poder de ser afectado varia,não aceita, continua a querer fazer de jovem. É muito triste. Há uma passagem fascinante numromance de Fitzgerald13 “o número de ski náutico”; são dez páginas de completa beleza sobre sabernão envelhecer… Estão a ver, os espectáculos que são incómodos para os próprios espectadores.Saber envelhecer é chegar ao momento em que as noções comuns devem fazer-nos compreenderem que é que as coisas e os outros corpos não convêm ao nosso corpo. Então, será, forçosamente,necessário encontrar uma nova graça que será a da nossa idade. É uma sabedoria. Não é a boa saúdeque faz dizer “viva a vida”, não é também a vontade de nos pendurarmos à vida. Espinosa soubemorrer admiravelmente, mas sabia muito bem aquilo de que era capaz, sabia dizer merda aos outrosfilósofos. Leibniz sacar bocados de manuscritos para dizer depois que era ele (que os escrevia). Háhistórias muito curiosas - era um homem perigoso, Leibniz. Termino dizendo que neste segundo nível, alcançamos a ideia-noção onde as relações secompõem, e mais uma vez não é uma coisa abstracta, pois esforcei-me por explicar que era umempreendimento extraordinariamente vivo. Não saímos das paixões. Adquirimos a posse formal dopoder de agir. A formação das noções, que não são ideias abstractas, que são literalmente regras devida, dão-nos a posse do poder de agir. As noções comuns são o segundo tipo deconhecimento.A Essência, acesso ao mundo das intensidades puras Para compreender o terceiro, temos de compreender o segundo. O terceiro tipo, só Espinosaentrou nele. Acima das noções comuns… vocês notaram que se as noções comuns não sãoabstractas, elas são colectivas, elas remetem sempre para uma multiplicidade, mas não são menos13Francis Scott Fitzgerald é considerado um dos maiores escritores americanos do século XX. As suas histórias foramreunidas sob o título Contos da Era do Jazz. Faz parte da “geração perdida” da literatura americana.
    • individuais. São aquilo em que tal e tal corpo convêm, no limite aquilo em que todos os corposconvêm, mas nessa altura é o mundo inteiro que é uma individualidade. Portanto, as noções comunssão sempre individuais. Para além, ainda, das composições de relações, das conveniência interiores quedefinem as noções comuns, há as essências singulares. Quais são as diferenças? Será necessário dizerno limite que a relação e as relações que me caracterizam exprimem a minha essência singular, noentanto não são a mesma coisa. Porquê? Porque a relação que me caracteriza - o que estou aqui adizer não está em absoluto no texto, mas está quase -, é que as noções comuns ou as relações queme caracterizam dizem respeito também às partes extensivas do meu corpo. O meu corpo écomposto por uma infinidade de partes que se prolongam até ao infinito, e essas partes entram sobtais e tais relações que correspondem à minha essência. As relações que me caracterizamcorrespondem à minha essência, mas não se confundem com a minha essência, pois as relações queme caracterizam são sempre regras sob as quais se associam, em movimento e em repouso, as partesestendidas (ou extensas) do meu corpo. Entretanto, a essência singular é um grau de poder (depotência), isto é, são os meus limiares de intensidade. Entre os mais baixo e o mais alto, entre o meunascimento e a minha morte, são os meus limiares intensivos. Aquilo a que Espinosa chama essênciasingular, parece-me que é uma quantidade intensiva, como se cada um de nós fosse definido por umaespécie de complexo de intensidades que remete para a sua essência, e também das relações queregulam as partes estendidas, as partes extensivas. Se bem que quando tenho o conhecimento dasnoções, isto é, das relações de movimento e de repouso que regulam a conveniência ou ainconveniência dos corpos do ponto de vista das suas partes estendidas, do ponto de vista da suaextensão, não estou ainda na posse plena da minha essência enquanto intensidade. E Deus, o que é que é? Quando Espinosa define Deus pela potência absolutamente infinita, elediz bem o que pensa. Todos os termos que ele emprega explicitamente: grau, grau em Latim é gradus,e gradus remete para uma longa tradição na filosofia da Idade Média. O gradus é a quantidadeintensiva, por oposição ou por diferença com as partes extensivas (ou extensas)14. Portantodeveremos conceber que a essência singular de cada um é essa espécie de intensidade, ou de limitede intensidade. Ela é singular porque, qualquer que seja a nossa comunidade de espécie ou degénero, nós somos todos homens por exemplo, nenhum de nós tem os mesmos limites deintensidade do outro. O terceiro tipo de conhecimento, ou a descoberta da ideia de essência, é quando, apartir das noções comuns, por um novo golpe de teatro, conseguimos pensar nessa terceira esfera domundo: o mundo das essências. Aí, conhecemos na sua correlação aquilo a que Espinosa chama - dequalquer modo não conseguimos conhecer um sem o outro -, quer a essência singular que é aminha, quer a essência singular que é a de Deus e a essência singular das coisas exteriores. Ainda que este terceiro tipo de conhecimento faça apelo, por um lado, a toda a tradição damística judia, e por outro lado, implique uma espécie de experiência mística mesmo ateia, própria de14 Podemos ver nesta distinção o embrião de uma outra distinção, agora, entre a “compreensão” e “extensão”, sendo aintensidade a compreensão e a extensão (ou o estendido) a extensão.; também a diferença entre compreensão eexplicação, etc.
    • Espinosa, creio que a única maneira de compreender este terceiro tipo, é assumir que, para lá daordem dos encontros e das misturas, há este outro estádio das noções que remete para as relaçõescaracterísticas. Mas, para além das relações características, há ainda o mundo das essências singulares.Então, a este nível, formamos ideias que são como puras intensidades, onde a minha própriaintensidade vai convir com a intensidade das coisas exteriores, neste momento estamos no terceirotipo, porque, se é verdade que nem todos os corpos convêm uns aos outros, se é verdade que, doponto (de vista) das relações que regem as partes extensas de um corpo ou de uma alma, as partesextensas, nem todos os corpos convêm uns aos outros; se alcançarmos o mundo de purasintensidades, todas são supostas convir uma às outras. Neste momento, o amor por nós mesmos é aomesmo tempo, como diz Espinosa, o amor pelas outras coisas, e o amor de Deus é o amor que Deusse dá a si mesmo, etc. O que me interessa neste ponto místico é este mundo das intensidades. Aqui (neste mundo dasintensidades), nós estamos em posse, não só formal, mas realizada. Já não é a alegria. Espinosa dá-lhe onome místico de beatitude ou de afecto activo, isto é, de auto-afecto. Mas isto continua muitoconcreto. O terceiro tipo (de conhecimento) é um mundo de intensidades puras. AS OUTRAS LIÇÕES DE DELEUZE SOBRE ESPINOSA NA U N I V E R S I DA D E D E V I N C E N N E S ( G R AVA DA S E T R A N S C R I TA S ) 24.01.1978 - Afecto e ideia 25.11.1980 - Teologia e Filosofia 09.12.1980 - O poder e o direito natural clássico Dezembro, 1980 - Ontologia, Ética 13.01.1981 - Correspondência com Blyenberg 17.03.1981 - Imortalidade e eternidade 24.03.1981 - As afeições da essência