A Cidade

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Leitura indispensável para nos entendermos

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  • 1. CUR SO TEL EFO 123 -456 NE -789 Jorge Nunes Barbosa ESM GA DE AR Esp TES VI inho SUA 123 A CIDADE Abril, 2013 Filosofia IS Pela primeira vez, FAX -456 -789 naquela cidade, os dentes Imprevisibilidade e Fatalidade I de leite destinados a cair na época das colheitas, caíram na época das sementeiras, que era esse o tempo que decorria na altura FRONTEIRAS E AUTOMATISMOS OS HIBERNÁRIOS Os Hiber nários viviam numa cidade muralhada. No interior da muralha, alguém tinha colocado uns botões e interruptores de cores diversas. Sempre que um Hibernário tocava num desses botões, algo acontecia, ou acontecia nada. Por outro lado, as muralhas eram móveis. Quando um grupo de Hibernários se deslocava para os limites da cidade, as muralhas afastavam-se para o exterior, e, quando os Hibernários voltavam a suas casas, as muralhas retomavam o seu lugar original. Esta forma de as fronteiras se definirem, fazia com que os Hibernários nunca conseguissem sair da sua cidade que, a cada momento, se redefinia em função dos movimentos dos cidadãos. Assim era a cidade dos Hibernários. Estes formavam um povo inteligente e uma sociedade organizada, mas, na sua ânsia de mostrar inteligência e organização, não conseguiam deixar de falar. Num dia em que a chuva os impedia de sair de casa, descobriram todos ao mesmo tempo que falar era uma manifestação de inteligência. Com medo de perder a inteligência, como acontecia à expansão da cidade sempre que voltavam a casa, havia grupos de Hibernários a falar, de dia e de noite. Formavam-se mesmo piquetes com essa missão específica. Como se verá, não só Mor continuava a considerar-se o único inteligente da cidade, como era o único que só falava no falatório e só meditava no meditório. Curso de Artes Visuais, Filosofia | Jorge Nunes Barbosa | 2013
  • 2. A CIDADE! PÁGINA 2 Imprevisibilidade e Fatalidade II FRONTEIRAS E AUTOMATISMOS Na cidade dos Hibernários, havia uma realidade persistente e garantidamente real: o ruído imparável das vozes que, nem por um segundo, deixavam de soar e de ecoar no interior das muralhas. Completamente esgotados por aquele vozear permanente, os cães desistiram de ladrar e os gatos de miar. Foram os primeiros. Seguiramse-lhes os pardais que deixaram de piar, as galinhas de cacarejar e os papagaios de papaguear. Os restantes animais seguiram, mais tarde, o exemplo dos cães, dos gatos, dos pardais, das galinhas e dos papagaios. O último e o mais teimoso foi o burro que, finalmente, deixou de zurrar. E fez-se silêncio nos ouvidos dos Hibernários. É que eles já não se ouviam uns aos outros, e não havendo quem ladrasse, ou miasse, ou piasse, ou cacarejasse, ou papagueasse, ou zurrasse, não lhes era dado ouvir o que quer que fosse. Concluíram os Hibernários que esse silêncio de todos os animais tinha subtraído a toda a bicharada a pouca inteligência que lhes restava. Certos de que, se se calassem, o mesmo aconteceria com eles, aumentaram o número de cidadãos falantes em cada piquete e, por conseguinte, o número de horas de falatório para cada um, de for ma a manter ininterrupta e altissonante a já enorme vozearia humana. Entretanto, um problema de g rande magnitude ocupava os Hibernários, quando não estavam a trabalhar nos campos, ou na sua hora de descanso, ou a desempenhar funções nos piquetes de falatório. E a pergunta era repetida vezes sem conta: para que serviriam aqueles botões e interruptores que ali ficaram esquecidos, ou ali foram colocados para os embaraçar? Um dia, uma criança que acompanhara o seu pai na tarefa de contemplar os botões e os interruptores, inadvertidamente, pousou a mão num interruptor. Um segundo não tinha ainda passado e já a mão direita do pai esbofeteava o desgraçado. Pela primeira vez, naquela cidade, os dentes de leite destinados a cair na época das colheitas, caíram na época das sementeiras, que era esse o tempo que decorria na altura. E uma importante conclusão foi retirada do fenómeno: aquele interruptor servia para antecipar a substituição dos dentes de leite das crianças. Mais tarde, alguém haveria de chamar àquilo a fada dos dentes. Mas ainda havia muito caminho para percorrer. Antes disso, ainda seria necessário que o Hibernário, que sobressaía de todos os outros no falatório por falar mais alto e durante mais tempo sem respirar, ousasse, como ousou, tocar no interruptor. Não aconteceu nada. Os Hibernários esperaram mais um pouco. E nada. Como se aproximava a hora de os que agora estavam em contemplação formarem o próximo piquete de falatório, deixaram o problema sem solução definitiva para o dia seguinte. E foram, silenciosos e pensativos, para o falatório, onde, mais uma vez, a língua se lhes libertou. No dia seguinte, voltaram à zona da contemplação dos botões e interruptores. Mor (era assim que se chamava o Hiber nário com qualidades falantes acima da média) já tinha matutado no assunto. A sua ideia era a de que a criança tinha ligado o interruptor quando lhe tinha tocado e os dentes lhe saíram pela boca fora, e que ele, Mor, quando lhe tocou, afinal tinha-o desligado. Daí que nada tivesse acontecido. Estava, portanto, agora de novo na posição de poder ser ligado. Com um tremor nervoso, que lhe percorria o corpo, pousou a mão no interruptor e fez força. Clic. Suspendeu a respiração. Nada. Não aconteceu nada. O vizinho do lado sussurrou-lhe ao ouvido: “O que é que queres que aconteça? Tu já não tens dentes de leite, e até dos outros já tens poucos, como queres que isso faça alguma coisa?” Mor ficou de tal modo irritado, que se não se desse o caso de o seu vizinho já estar preparado para todas as eventualidades, e se não se tivesse prudentemente afastado de cena, um novo par de dentes, agora não de leite, teriam caído no chão. De longe, a uma distância bem superior ao comprimento de um braço, gritou: “Essa coisa só faz cair dentes de leite!” Curso de Artes Visuais, Filosofia | Jorge Nunes Barbosa | 2013
  • 3. A CIDADE! PÁGINA Mor dirigiu-se, então, ao pai da criança, que tinha ficado sem dentes de leite antes do tempo, e ordenou: “Preciso de uma criança para ver como isto funciona. Traz cá o teu filho.” O pobre pai, que ainda não compreendera o que é que o interruptor tinha a ver com os dentes do filho, afinal tinha sido o medo de que algo trágico pudesse acontecer que tinha dado força à sua mão, e até já estava arrependido, respondeu com a voz mais sossegada que pôde arranjar: “Mas o meu filho já não tem os dentes de leite. Para que é que serve ele voltar a tocar nesse interruptor, se só serve para os fazer cair?” Mor gritou: “Alguém me traga uma criança com dentes de leite. Agora, que depois faz-se tarde.” E deu um murro no interruptor Todos os Hibernários do piquete de Mor, à exceção do pai do filho sem dentes, se puseram a coçar a cabeça. Um denso nevoeiro tinha invadido as suas memórias. “O meu filho tem dentes de leite, ou não?” Pensavam quase todos. Outros: “Que idade tem o meu filho?” Um deles, visivelmente nervoso, pensava: “Um recémnascido já tem dentes, ou não? E serão de leite, ou de outra coisa qualquer?”. Todos coçavam a cabeça, como se tivessem sido atacados por um pelotão de piolhos. Finalmente, o pai do filho sem dentes, o único que não estava naquele momento a pensar em nada que importasse, disse mansamente: “Ó Mor! Afinal esse interruptor também serve para fazer com que 99% de pessoas adultas, com mais de trinta anos de idade, se ponham a coçar a cabeça. Se calhar, às crianças, atira-lhes com os dentes ao chão, e, aos adultos, põe-nos a coçar a cabeça.” “Justamente, era mesmo nisso que estava a pensar, disse Mor, tiraste-me as palavras da boca, Azulário” (Azulário era o nome do pai da criança). E Mor acrescentou: “Não podemos estragar este interruptor. Já sabemos para que serve. Não vamos agora esgotá-lo com trabalho. Mas temos de continuar a investigar. Amanhã vamos testar um botão. Entretanto, voltemos para o falatório. Por hoje, a meditação acabou.” Estavam os homens do piquete de Mor ainda a tentar decifrar o que o nevoeiro tinha posto fora do alcance da memória, quando uma gatinho recém-nascido sentiu uma necessidade imperativa de chamar pela mãe, e fê-lo da única forma que sabia, miando. A mãe gata, aflita, miou que se calasse. O pai gato, às voltas com um rato teimoso, ouvindo as duas, miou que se calassem ambas. Fez-se um silêncio assustador. A mãe gata, receosa de que o mundo pudesse finar-se ali mesmo, deu uma das suas tetas a mamar ao filhote para que não morresse com fome. Ao pai, só lhe ocorreu, pelo mesmo motivo, a ideia de fazer mais uma ninhada. O mundo ia acabar. Que mal podia vir ao mundo? E a ele 3 saber-lhe-ia bem. Entretanto, o tempo passava, o gatinho mamava, a mãe ronronava, o pai sonhava, e o mundo não acabava. Um gato jovem, empoleirado numa árvore, desatou, então, a miar. Um outro fez o mesmo. E, poucos minutos depois, toda a gataria da cidade miava a bom miar. Os cães deram-se conta da atrevida iniciativa dos gatos, e, também eles, desataram a ladrar e a uivar. De repente, o chefe do canil pediu silêncio. E colocou uma pergunta que só ele tinha legitimidade para fazer. “Com que direito, tendo sido nós os primeiros a calar as nossas vozes num momento difícil para todos os animais à face da Terra, os gatos se atreveram a ser eles os primeiros a abrir a boca para miar?” Em resposta, recebeu um silêncio agitado e, logo a seguir, uma grande miadela em uníssono de todos os gatos. E aqui teve início uma rivalidade entre cães e gatos que ainda hoje se mantém, e que só se esbate quando ambos conseguem guardar silêncio num eventual encontro que ocorra entre eles. Um não bufa nem mia, o outro não rosna nem ladra. A paz sempre teve um preço elevado. Alheios a esta rivalidade, os pardais começaram também a piar, as galinhas a cacarejar, os papagaios a papaguear e os burros a zurrar. Enfim, os animais recuperaram a voz. Curso de Artes Visuais, Filosofia | Jorge Nunes Barbosa | 2013
  • 4. A CIDADE! PÁGINA A voz que se ouvia agora aos animais era a mesma que se tinha ouvido antes. Só os burros, os últimos a deixar de a usar e os últimos a voltar a usá-la alteraram a sua forma de z u r r a r. D e s d e e n t ã o , z u r r a r transformou-se numa gargalhada de desprezo pelos Hibernários. E zurram ainda hoje como quem se ri desalmadamente do mundo e dos homens. O piquete que, na altura, estava no falatório sentiu algo a entrar-lhe pelos ouvidos. Pensaram os homens desse piquete que algo de grave estaria a acontecer e que talvez fosse melhor deixar de meditar sobre os botões e interruptores. Não percebiam o que estava a acontecer e menos ainda percebiam como era possível que coisas estranhas lhes entrassem pelos ouvidos dentro, sem que eles conseguissem, escarafunchando, retirá-las de lá. Um Hibernário muito idoso, com mais de cem anos, dispensado do falatório por ter ultrapassado a idade adequada para a função, saltou da cadeira de rodas e começou a correr pela avenida central da cidade, como se t i ve s s e t o m a d o u m e l i x i r d a juventude. Ainda se lembrava daqueles sons. E, ao piquete do falatório, gritou: “Calem-se”. A surpresa, o espetáculo de um velho que se tinha tornado novo, calaram o piquete. Os homens abriram a boca, mas não lhes saiu som nenhum dela. E o velho continuou: “Ouçam. São gatos a miar, cães a ladrar, pardais a piar, galinhas a cacarejar, papagaios a papaguear… só dos burros é que não sei o que estão a fazer, mas seja o que for isso, o certo é que são burros que o estão a fazer.” Os homens calados ouviram o que havia para ouvir e, não sabendo o que pensar, deixaram de pensar. E deixaram-se embalar pelo vazio preenchido pelo miar, pelo ladrar, pelo cacarejar, pelo papaguear e pelo gargalhar que nem o velho sabia que era o novo zurrar do burro. E Mor falou: “Não podemos deixar de falar… não podemos perder a inteligência… não podemos perder a organização da cidade. Voltemos ao falatório.” E fez-se mais uma vez silêncio. Os homens perceberam tudo o que ele tinha dito, como se, em vez de estarem no falatório, estivessem no meditório a meditar. É que, quando estavam no meditório, os homens percebiam tudo o que diziam uns aos outros, porque não falavam. Só meditavam. E no falatório não percebiam nada do que diziam, nem sequer ouviam uma única palavra, porque só falavam. Meditório era para meditar. Falatório era para falar. De facto, a organização da cidade já tinha sido profundamente alterada. Agora, falar no falatório podia ser como meditar no meditório. Podiam finalmente conversar. Só Mor não percebia nada. Nem ouvia coisa alguma. Para ele, falar era no 4 falatório e meditar no meditório. Nada tinha mudado. Como se verá, não só Mor continuava a considerar-se o único inteligente da cidade, como era o único que só falava no falatório e só meditava no meditório. Ele e todos os seus descendentes ficaram assim impossibilitados de meditar e falar ao mesmo tempo. Esta linhagem de Mor ainda existe, continua a ser Mor, Professor-Mor, Ministro-Mor, etc. Em Hibernisboa (a cidade dos Hibernários) a vida continuou. Mor e os seus descendentes escravizaram uns e contrataram outros para manter o falatório ativo. Os restantes Hibernários dedicaram-se à conversa e ao trabalho nos campos. No meditório conversavam, no falatório meditavam e nos intervalos sonhavam. Curso de Artes Visuais, Filosofia | Jorge Nunes Barbosa | 2013
  • 5. A CIDADE! PÁGINA 5 Imprevisibilidade e Fatalidade III FRONTEIRAS E AUTOMATISMOS O tempo foi passando e, em Hibernisboa, as mudanças não pararam de acontecer. Os animais, que entretanto tinham readquirido a sua voz completamente e que a usavam criteriosamente, reuniram-se para deliberar sobre o que fazer dos humanos. A crise que se abatera sobre a cidade parecia não ter fim. Os Hibernários que aprenderam a c o nve r s a r n ã o c u i d av a m d a s sementeiras e das colheitas como deveriam. O desejo de conversa era a única coisa que os fazia levantar da cama. E os falantes, comandados pelos descendentes de Mor, já não faziam a mais pequena ideia sobre como semear um feijão. O chefe cão ladrou em primeiro lugar: “Isto não pode continuar. Se os humanos não cuidarem das terras e de si mesmos, o mais certo é que nós próprios venhamos a sofrer consequências devastadoras. É preciso agir. Proponho que os ajudemos. O programa de ajuda deve respeitar os seguintes pontos: 1º agir como se fossem eles a mandar em nós; 2º segui-los para todo o lado; 3º aceitar que nos dêem de comer; 4º ladrar, ou miar, ou cacarejar, ou zurrar para os avisar do perigo; 5º não desistir nunca da nossa tarefa, mesmo que nos batam.” Esta proposta provocou um grande debate que, só muitos anos depois, foi dado por concluído. Na verdade, os motivos de desacordo foram enunciados logo nessa primeira assembleia. Um grupo de cães argumentou que a proposta do chefe correspondia mais a uma submissão dos animais aos humanos do que a uma ajuda para que resolvessem os seus problemas. O chefe cão contestou: “como todos sabemos, daqui a muitos séculos, um humano que ficará célebre, explicará que não há diferença, que valha o trabalho de ser esclarecida, entre ser-se senhor ou ser-se escravo. O escravo é escravo porque tem um senhor, e o senhor é escravo do escravo, porque, sem ele, não seria senhor. Todos nós sabemos isto. Os humanos ainda não. Mesmo quando esta regra simples da ordem das coisas for conhecida por humanos, isso não significará que a entendam e que sejam capazes de agir em conformidade com ela. Estamos, portanto, em vantagem. Se quisermos escravizar os Hibernários, também seremos escravos deles; se agirmos como se fossem eles os senhores, seremos nós que os escravizaremos.” Esta tese do chefe dos cães e a do grupo contestatário que defendeu que os animais deveriam deixar os Hibernários resolverem sozinhos os seus problemas, estiveram em debate, como já foi dito, por muito tempo. Embora o consenso se tenha revelado impossível - alguns cães preferiram abandonar a assembleia e adotaram o nome de lobos -, a verdade é que os humanos passaram a dispor de aliados muito vantajosos. Os cães, a galinhas, os próprios gatos e, sobretudo, os burros escravizaram, à sua maneira, os Hibernários e passaram a ser a garantia de progresso da própria humanidade. Hibernisboa viveu um longo período de desenvolvimento e de bem-estar. Contavam-se histórias sobre os botões e os interruptores, cuja localização, entretanto, os Hibernários deixaram de conhecer. Dizia-se que um interruptor serviria para ajudar à mudança dos dentes de leite nas crianças, mas havia quem pensasse que era um bom remédio para carecas que quisessem evitar e até reverter a queda de cabelo. Haveria ainda um botão que, quando acionado, fazia chover, um outro para fertilizar as terras, um outro para garantir a vitória aos guerreiros, e por aí fora. Havia, algures, botões e interruptores que seriam responsáveis por tudo o que pudesse acontecer. Estas histórias eram contadas às crianças pelos conversadores, e faziam parte das lengalengas dos falantes que as recitavam, sem verdadeiramente as ouvirem. E assim se foram conservando, alterando e enriquecendo histórias que explicavam tudo o que acontecia em Hibernisboa. Com o tempo, revelouse indispensável distinguir botões de interruptores. Coisas com nomes diferentes deveriam servir para coisas diferentes. Curso de Artes Visuais, Filosofia | Jorge Nunes Barbosa | 2013
  • 6. A CIDADE! Deste debate grandioso sobre o que poderia distinguir os botões dos interruptores, surgiram explicações para coisas que nunca tinham existido, nem existiam, mas que, por via do debate, passaram a existir. Descobriram, deste modo, os Hibernários que, para que uma coisa ou acontecimento existisse, bastava que falassem dela ou dele. A questão que surgiu a seguir foi a de saber como é que poderiam os humanos falar de coisas que não existiam, para que existissem. Falar de coisas que não são coisas parecia complicado. E era. As discussões em torno deste problema não cessavam de gerar explicações e descrições pormenorizadas de coisas que nunca tinham existido, nem existiam e que passavam automaticamente a existir. Só que os Hibernários não tinham consciência deste fenómeno imparável de gestação e geração de coisas novas que tinha origem nas suas conversas mais animadas. O problema subsistia, portanto. Como é que podemos criar coisas novas falando delas? E como é que será possível falar de coisas que não são nada, isto é, falar de nada? A maior parte dos animais acompanhava os humanos nas suas reuniões e assembleias. As aves, embriagadas pela sua recentemente adquirida capacidade para voar, não tinham tempo livre para se preocuparem com o que se passava; o s r é p t e i s, s u b r e p t i c i a m e n t e, PÁGINA aproveitavam a distração dos humanos para se porem ao sol, sem correr o risco de serem pisados; muitos animais achavam piada, mas não reagiam àquela conversa que não traria nada de de bom, mas também nada de mau; os burros zurravam como quem se ri à gargalhada, e só os cães estavam dispostos a intervir. E assim foi. Um Hibernário conversador, num momento de profunda reflexão solitária, enunciou o problema em voz alta, para melhor o ouvir, na esperança de melhor o entender: “Como é que se pode falar de nada?” No segundo exato em que a primeira palavra da pergunta foi enunciada, o cão, de voz mais afinada em toda a matilha, latiu com estrondo. E um falante, descendente de Mor, que andava por perto, sentiu os ouvidos a abrir-se e, como se fosse um trovão, ouviu a pergunta: “Como é que se pode falar de nada?”. Pela primeira vez em toda a história de Hibernisboa, um falante disse uma coisa com sentido: “Mas é isso que nós, os falantes, andamos a fazer desde que o mundo é mundo. Fazemo-lo para não perder a inteligência. Falar de nada é a única coisa inteligente que se pode fazer”. O Hibernário conversador abriu a boca de espanto, e o cão de voz afinada, a cauda a abanar de felicidade, dirigiu-se à matilha: “Missão cumprida. Agora, seja o que Deus quiser.” Coleccionador, Rua Central 12, Cód. Postal Localidade | 123-456-789 | www.apple.com/pt/iwork 6