3Viver com criançasautora: Leonore BertalotRevisão: Ana PotérioDiagramação: Silvana MontevaniIlustrações Revista Chão & Ge...
4ÍNDICEIntrodução                                               5A própria criança nos ensina a lidar com ela             ...
5INTRODUÇÃOPara todos aqueles que trabalham ou convivem com crianças éuma grande alegria ter em mãos estes artigos, anteri...
6vivências essenciais para o seu desenvolvimento físico,psíquico e espiritual.No caso da comunicação, os freqüentes distúr...
7Rudolf Steiner, criador da Pedagogia Waldorf, já afirmara há80 anos, por ocasião de um curso para médicos, que ‚a hu-mani...
8a infância. Consciente deste fato, Leonore Bertalot convida-nos a parar e pensar com carinho no futuro das crianças quees...
9A PRÓPRIA CRIANÇA NOS ENSINAA LIDAR COM ELACom o correr dos anos, a criança cresce e sua relação comos pais e com o mundo...
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11fala, o instrumento básico para a comunicação com osoutros.Tendo conquistado a liberdade de se movimentar no espaço,a cr...
12movimento das perninhas, apenas com uma diferença: Paraaprender a falar, é necessário que as pessoas ao redor dacriança ...
13Também aí se expressa a sabedoria da natureza humana. Paraperceber o outro como alguém diferente dela mesma, elaprecisa ...
14                      A criança, ao falar, exercita o                      pensamento                     Para usar a fa...
15Pulando, cantando e falando sem refletir, a criança exercita opensar, da mesma forma que antes, ao movimentar osmembros,...
16A mãe me disse: - As meninas têm um jeito tão esquisi-to de falar, dizem coza, gala, madra, e depois acrescen-tam zinho ...
17da criança vão diminuindo à medida em que crescem areflexão, o raciocínio, o intelecto. A criança se torna cada vezmais ...
18Podemos ver que há uma coerência na seqüência, quecomeça quando o nenê se ergue e começa a andar e, a partirda liberdade...
19Pessoas que só conversam e não atuam são chatas. Assim, ojardineiro que cuida das plantas e limpa os canteiros é umapess...
20                              CRIANÇAS E                                       BORBOLETAS                              N...
21Mais tarde , foi até uma plantinha de folhas largas e, debaixode uma delas, depositou alguns ovinhos branquinhos, bempeq...
22cochichou: - Mãe Terra, acolhei-me! O sol mandou-meabandonar o mundo verde. - E, do fundo, surgiu a vozconsoladora da Mã...
23Neste momento, a borboleta se levantou da pedra para o ar,voou até as flores e se tornou a sua mais querida irmã.‛Com es...
24Como na formação do casulo e no preparo da borboleta atuamas sábias forças cósmicas, estas também estão atuantes nasfase...
25Educadores muito autoritários, duros e sem humor, que, seminvestigar as causas castigam a criança por uma aparentementir...
26CASTIGO E ELOGIOA palavra castigo exige reflexão. Não gosto de usá-la quandose trata de educar crianças. O homem é um se...
27Errar só pode quem sabe, mau só é quem conhece e sabejulgar entre o bem c o mal. Não se trata, por isso, de castigara cr...
28Em vez de ‚castigar‛, prefiro usar a palavra recuperar ouconsertar. Devemos ‚ensinar‛ como consertar estragos físicosou ...
29Quando a correção precisa seguir logo o ato incorreto, respiredez vezes para poder agir com calma. Quando nossa reaçãonã...
30ajudamos a consertar e corrigir o que ainda não foi certo,isto a encoraja a querer melhorar. Assim se cria um climade co...
31                             Crianças                                    Agressivas                            Crianças ...
32O sistema nervoso da criança ainda está muito delicado, estáem período de formação. No caso da criança hipersensível, én...
33Não há tempo para tais atividades? E o tempo que se perdedurante o ataque, e depois, para juntar os cacos?Em nosso progr...
34A televisão não substitui a carência de atenção e carinho. Elasó aumenta os problemas da criança, debilitando ainda mais...
35                    ONDE HÁ CRIANÇA, HÁ                    MOVIMENTO QUE DÁ VIDA.                        A atividade pri...
36com as mãozinhas para aplainar e alisar irregularidades doamontoado arenoso. É a calma em movimento.Da sala chega mais a...
37‚grande‛, que propôs o enterro.Numa das salas ficaram três crianças muito preocupadas com aboneca Marisa, que está com d...
38E logo todas as crianças entram. É hora da estória, dorecolhimento.Nesta época, a estória vem depois do ‚brincar livre‛....
39Durante algumas horas, os toquinhos e a areia, os pauzinhos epazinhas, os panos coloridos c os panos formando bonecas, o...
40AS FORÇAS DA VIDA ATUAMNA INFÂNCIA. No capítulo anterior, vimos como o movimento é a fonte de vida da criança pequena e ...
41seguro quando esse ‚todo‛ é o calor da mãe, o lar, o pátio oujardim, a rua, o bairro, etc. A relação com esse mundo aind...
42destas mesmas forças da alma para, conscientemente,aprimorar nossa auto-educação, o controle sobre o nossopensar, sentir...
43Um menino está parado alguns minutos olhando para a vacaque também o fixa com seus olhos: - ‚Pai, como se diz ‘sim’em va...
44EDUCAR PARA A VIDAEducar significa fazer futuro,promover saúde, amor, cons-ciência. Toda instrução étambém formação da p...
45capacidades mentais, emocionais e volitivas, inerentes a todoser humano. Graças à obra de Rudolf Steiner, seu fundador,a...
46Desse modo, na idade escolar, apresentam-se três etapas detransformação da experiência ‚eu e o mundo‛, que devem serresp...
47Ainda não desenvolve a autocrítica, mas se sente imperfeito eincompleto e, assim, projeta esses sentimentos no mundo,que...
48A HUMANIDADEPRECISA DE CONFIANÇAO que é confiança? É uma forçaque se entrega.Observe a criança pequena: ela nosensina o ...
49para a idade adulta é necessário adquirir conhecimento c ahabilidade de discernir. Confiamos, porque conhecemos aspessoa...
50O intelecto alimenta o egoísmo, o senso de superioridade,quando não é acompanhado, ‚humanizado‛, pelos sentimentoshumano...
51Para isto é importante saber que tudo evolui. A pessoa quehoje errou pode não errar amanhã. A criança que se apresentaco...
52BIBLIOGRAFIABERTALOT, Leonore - Criança querida: o dia-a-dia fa   alfabetização - 2o edição - São Paulo, Editora   Antro...
53LEONORE BERTALOT,            suiça de origem, énaturalizada brasileira e mora no Brasil desde1962. Formada em línguas e ...
ALIANÇA PELA INFÂNCIA NO                               BRASIL       Associação independente, seguindo os princípios da All...
NOSSOS OBJETIVOS1- Criar o consenso de que uma infância sadia é uma    necessidade básica da condição humana, protegendo a...
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De Leonore Bertalot (2001)

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Viver com crianças

  1. 1. 3Viver com criançasautora: Leonore BertalotRevisão: Ana PotérioDiagramação: Silvana MontevaniIlustrações Revista Chão & Gente: Luciana BettiIntrodução: Ana Cecília de Barros v. OsterrohtTodos os direitos desta edição reservados ao:Insti tuto ELOCaixa Postal: 32118609-730 Botucatu /SPfone/fax - (14) 6821 3317 / 6821 1739www.elo.org.brelo@elo.org.br
  2. 2. 4ÍNDICEIntrodução 5A própria criança nos ensina a lidar com ela 9 A criança, ao falar, exercita o pensamento 14 A fantasia infantil prepara o pensar do adulto 16Crianças e Borboletas 20 A Borboleta 20Castigo e Elogio 26Crianças Agressivas 31Onde há crianças, há movimento que dá vida 35As forças da vida atuam na infância 40Educar para a vida 44A humanidade precisa de confiança 48Bibliografia 52
  3. 3. 5INTRODUÇÃOPara todos aqueles que trabalham ou convivem com crianças éuma grande alegria ter em mãos estes artigos, anteriormentepublicados na revista Chão e Gente, agora reunidos em umlivro. Leonore Bertalot aborda neles diversos assuntosrelativos à infância a partir de uma profunda sensibilidade eum vivo conhecimento das fases evolutivas da criança, frutosde mais de trinta anos de experiência em educação infantil eformação de professores na pedagogia Waldorf. O leitorsensibilizado com a situação atual da infância e em busca denovos caminhos na área da educação, encontrará ideias einspiração para o trabalho com crianças, seja no âmbito dafamília ou da escola.O ser humano vem ao mundo com um infinito potencial dedesenvolvimento, necessitando por isso de um período longode maturação e proteção, que caracterizam o período dainfância.Paul MacLean, autoridade no estudo dos hemisférios cerebrais,após 50 anos de pesquisas concluiu que são três asnecessidades básicas, maravilhosas na sua simplicidade, para osaudável desenvolvimento do cérebro de todos os mamíferos:comunicação, nutrição (nurture em inglês, que se relaciona acuidar física e afetivamente de outro ser) e o brincar. O serhumano, cada vez mais emancipado dos processos da naturezae imerso em tecnologias, vêm privando as criançasprogressivamente dessas
  4. 4. 6vivências essenciais para o seu desenvolvimento físico,psíquico e espiritual.No caso da comunicação, os freqüentes distúrbios delinguagem que vêm se manifestando nas crianças já antes daidade escolar relacionam-se ao fato dos adultos dedicarempouco tempo para o diálogo com elas (segundo pesquisas ospais conversam uma média de 12 minutos por dia com seusfilhos!). Ao longo da história da humanidade dois momentossempre foram cultivados, satisfazendo essa necessidade básicado desenvolvimento infantil: o diálogo ao redor da mesa nasrefeições e o contar histórias. A presença massiva da televisãonos lares substituindo o diálogo familiar e o fato de muitascrianças passarem comprovadamente mais tempo diante da telado que na escola, acarretam um empobrecimento trágico dalinguagem, cabendo lembrar que esta é a base para odesenvolvimento do pensar. Como conseqüência, os profes-sores estão se confrontando com severas dificuldades deraciocínio e de pensamento analítico e criativo por parte decrianças e jovens habituados a receberem estímulos auditivos evisuais simultaneamente, tornando-se assim incapazes decriarem imagens internas e de associarem conceitos através deuma atividade própria.Quanto à segunda necessidade das crianças, de serem nu-tridas, acalentadas e cuidadas com afeto, a natureza pro-gramou para este fim um período de amamentação com amesma duração da gestação. Esta prática já chegou a serabandonada em grande parte, mas nos últimos anos, noBrasil, vem sendo retomada graças aos esforços e campanhasde inúmeras iniciativas do terceiro setor.
  5. 5. 7Rudolf Steiner, criador da Pedagogia Waldorf, já afirmara há80 anos, por ocasião de um curso para médicos, que ‚a hu-manidade começaria a perecer no dia em que acreditasse havercriado um alimento superior ao leite materno‛. O que na épocaparecia improvável e distante, tornou-se rotina, quandomassivas e milionárias campanhas publicitárias levaram aspessoas a crer, com o suporte da televisão, que os bebês teriamvantagens ao serem alimentados com leite de vaca em pó,acrescido de vitaminas artificiais, sendo privadosdesnecessariamente do contato afetuoso, da riqueza deestímulos táteis, da segurança e do calor materno que elesestavam destinados a receber através da amamentação.A infância vem sendo atacada por todos os lados e a terceiranecessidade primordial da criança apontada por MacLean, obrincar, é talvez das três a mais prejudicada: nos pátios nahora do recreio os professores estão às voltas com duasatitudes extremas por parte das crianças: apatia total ouagressividade desmedida. Aonde foram parar as cantigas deroda, as brincadeiras e jogos universais e atemporais, comoamarelinha, cobra-cega, corre-cotia, pião, bolinhas de gude, opedaço de pau que vira cavalinho, o trapo que vira boneca, asbrincadeiras de faz- de-conta, etc? O que estamos fazendo comas crianças, privando-as de tempo para brincar e sonhar?...Que fim levou a infância ??Os rumos que a humanidade vai tomar no futuro parasolucionar os seus problemas dependem dos esforços queempreendermos hoje para compreender e proteger
  6. 6. 8a infância. Consciente deste fato, Leonore Bertalot convida-nos a parar e pensar com carinho no futuro das crianças queestão sob os nossos cuidados e também na criança que querpermanecer viva dentro de cada um de nós - valiosa aliada natarefa de todo educador.Ana Cecília de Barros V. OsterrohtProfessora Waldorf, co-fundadora da Aliança pela Infância no Brasil
  7. 7. 9A PRÓPRIA CRIANÇA NOS ENSINAA LIDAR COM ELACom o correr dos anos, a criança cresce e sua relação comos pais e com o mundo ao redor se transforma e passa porvárias etapas bem determinadas. Conhecendo-as,aprendemos a atender às suas necessidades.Conduzida por uma grande sabedoria, a criança no primeiro anode vida já faz grandes conquistas quando se senta, engatinha etenta se levantar, assumindo a posição ereta. Sabemos que eladeve fazer estas conquistas na hora em que seu organismo estiverpronto, e sem a interferência do adulto.Assim como o nenê engatinha e depois se ergue para andar comsuas próprias pernas, a alma também assume uma nova relaçãocom o meio ambiente. As perninhas não se cansam de levar ocorpinho de lá para cá e de cá para lá.E as mãozinhas? A criança,nesta etapa, logodescobre um segredoescondido na liberdadede movimento dosbraços. As pernasassumem a tarefa decarregar o ser humanopor toda a vida. Elasestão a seu serviço,
  8. 8. 10levando-o pelos caminhos que ele quer traçar. São os fiéisservos do homem.Já as mãos, liberadas da tarefa de locomoção, podem servi-lodas mais variadas maneiras. Aquelas coisas que a mãe faziapara alimentá-la, vesti-la, penteá-la, etc, a criança agoracomeça a aprender a fazer por si mesma. Porém, antes ainda,ela descobre como carregar objetos de um lado para o outro,e assim comunicar-se com as pessoas e o espaço ambiental.Ela adora levar talheres, pratinhos e copos da cozinha para asala, da sala para a cozinha, levar o jornal ou o chinelo parao pai, subir a escada carregando o sapatão do vovô e descê-la novamente com ele, porque o vovô não precisou dele,etc...E tudo isso ela faz com a maior seriedade e concentração.Não deixa cair a xícara e a coloca sobre o pires certo. Elanão se cansa. A mãe talvez ‚se canse‛ de inventar tantosserviços para satisfazer o entusiasmo de servir, de ajudar, deouvir o ‚obrigado, querida‛, de solicitar nossa atenção eapreciação. É como se a criança dissesse: - Eu estou tão felizde descobrir que o ser humano é, feito para trabalhar para osoutros, cada um ajudando o outro!Nesse impulso espontâneo da criança de mover-se, existeuma grande sabedoria. Os pais não devem limitá- la, nãodevem ‚cansar-se‛ de oferecer-lhe todas as oportunidadessensatas para desenvolver suas habilidades motoras. Pois,quanto mais a criança usar e praticar o movimento,especialmente das mãozinhas, tanto melhor poderádesenvolver a próxima etapa, que é a
  9. 9. 11fala, o instrumento básico para a comunicação com osoutros.Tendo conquistado a liberdade de se movimentar no espaço,a criança vai descobrindo o espaço humano, a comunicação.De balbuciante se torna tagarela. Sem cansar, ela cantarolasons, fonemas, palavras e versinhos. Pouco a pouco, vaiconseguindo elaborar frases e repetir parlendas e estorinhasem rimas e ritmos. Estes versinhos folclóricos, quem não osaprendeu da mãe ou da avó, hoje deve procurá-los nasbibliotecas.Exemplos:(Olhando os dedinhos):Mindinho, seu vizinho, pai de todos, fura-bolo, mata piolho.(Brincando com sons):Pompo nêta, pêta pêta, petá peruge; pompo nêta, pêta pêta,petá petrim.(Estória rimada):Senhora Sant’Ana passou por aqui, com seu cavalinhocomendo capim. Deram-lhe pão, disse que não; deram- lhevinho, disse que sim.O instinto materno popular criou estes versinhos e estasbrincadeiras lingüísticas para ajudar o filho a se entrosar,como que sonhando, através de rimas e ritmos, com amaravilhosa faculdade humana que é a linguagem.O aprendizado da fala ocorre com a mesma naturalidade queo crescimento, o processo digestivo e o eterno
  10. 10. 12movimento das perninhas, apenas com uma diferença: Paraaprender a falar, é necessário que as pessoas ao redor dacriança conversem, cantem, recitem muito com ela. Éimitando os sons, as palavras e frases da língua, que se formao aparelho da fala.O andar é um movimento rítmico, repetido. Da mesma forma,o falar se produz por uma eterna repetição dos fonemas efrases ouvidos. Não é bom para a criança quando nósimitamos a sua linguagem infantil. Devemos articularcorretamente os fonemas para que ela aprenda, imitando-nos.E devemos lembrar o que toda mãe experimenta: o cantoacalma a criança. Quando ela está nervosa, cansada, não falecom ela, cante; diga-lhe cantando a mensagem ou estorinha,assim: -Lá, lá, lá, lá, o coelhinho volta já, para a toca da Tatá,etc.A seqüência se repete: Mamãe - Papai - Tatá - Tatá - quer -nanar - papar - Tatá - dodói, e assim por diante, até chegar aoeu quero - não quero, e, depois, ao Mãe, eu quero ir comSérgio!A palavra eu, como foi usada na última frase, mostra umaprimeira experiência importante de autoconsciência, queocorre por volta do terceiro aniversário. É precedida eacompanhada por uma fase de ‚birra‛, de aparente agressãocontra o meio ambiente.A criança, nesta fase, costuma enfrentar-nos com palavrascomo burro, bobo, feio, sai! sai daí!, etc., e mostra a línguacomo resposta às pessoas que querem se aproximar dela.
  11. 11. 13Também aí se expressa a sabedoria da natureza humana. Paraperceber o outro como alguém diferente dela mesma, elaprecisa da experiência da oposição.- Eu quero ir com Sérgio.- Enquanto dizia: - Tatá quer-, ela sesentia parte de um todo de seres e coisas com nomes: mãe, pai,mesa, água, etc. Já agora: -Eu quero ir com ... - expressa aexperiência de um ser único, diferente. -Eu com Sérgio. -Eucom alguém. - Eu!Esta palavrinha ela não aprende a usar neste sentido porimitação; surge de dentro dela, quando ocorre uma primeirasensação de distanciamento entre o mundo interior da própriaalma e o mundo exterior.A fase de oposição dá lugar a outra de muito carinho eabertura para todos. É só ter paciência e alegrar-se com cadasinal de progresso no desenvolvimento.Com muita alegria e animação, a criança dança, corre e pulacom suas perninhas que, à medida em que ela pratica, setornam fortes, ágeis e seguras. Assim também, ao falar ecantar, ela dança, corre e pula com suas cordas vocais, seusmúsculos bucais, sua língua e seus lábios. Realmente, quemdança é a alma da criança. As perninhas e o aparelho fonadorsão apenas os instrumentos a seu serviço.Na continuação, veremos como o pensamento também seforma cantando, correndo e dançando, na medida em que alinguagem dá estrutura à imaginação e à fantasia.
  12. 12. 14 A criança, ao falar, exercita o pensamento Para usar a fala como instrumento de comunicação e expressão do pensamento, o homem passa por um longo processo, que se realiza durante a infância e que continua durante a adolescência e a juventude. Esta capacidade maravilhosa será formada, de maneira mais ou menos elaborada, conforme as oportunidades oferecidas pelo meio ambiente, mas sempre terá o cunho característico de cada pessoa.Cada ser humano representa em si um grande mistério. Daprimeira à última respiração ele possui um corpo vivo e umaalma, por assim dizer, colorida, que, ora se esconde como portrás de um véu, ora se expressa de mil maneiras diferentes.Assim, o jeito de andar, de pisar no chão, de mexer os dedinhos,o tom da voz e a forma de articular as palavras, tudo isso revelaa pessoa que, desse modo, torna transparente o véu que aesconde. A nossa linguagem não é algo mecânico, uniforme ou estável. Um formidável artista parece estar brincando, ao inspirar as falas e as diversas línguas e sotaques regionais, e ele se manifesta nas crianças que brincam com as palavras e inventam outras tantas expressões e se divertem por horas repetindo variações de uma mesma palavra. Isto ocorre como um primeiro acordar do pensamento, ainda de forma balbuciante.
  13. 13. 15Pulando, cantando e falando sem refletir, a criança exercita opensar, da mesma forma que antes, ao movimentar osmembros, exercitava o aparelho da fala.Eis alguns exemplos:Em janeiro, mês de chuvas, a família passeia com as botasnovas. As duas filhas repetem, encantadas, dezenas de vezes,a frase: - Papai tem botona, mamãe tem bota, as meninas têmbotinha.Bota, botona, botinha - um mundo de tamanhos e sensaçõesdiferentes. Vivenciei um exemplo de criatividade deexpressão quando a menina de três a quatro anos, vendo o‚fusquinha‛ do avô coberto por um grande embrulho,exclamou: - Mãe, o vovô chegou com um encimão!Tudo, o embrulho e o carro, fica reunido nesta palavrasugestiva, despertada pela fantasia e pela vontade decomunicar a emoção que teve, ao ver o carro, tão esperado,chegar bastante crescido.Com o despertar da consciência, novas formas linguísticassão assimiladas e usadas instintivamente. Expressõesespeciais são percebidas, saboreadas e até transformadas.Eis um exemplo: a mãe está cozinhando e as meninas: - Mamãeestá na coza. Noutro dia: - A gala botou um ovo. E, ainda: -Vamos visitar a madra.
  14. 14. 16A mãe me disse: - As meninas têm um jeito tão esquisi-to de falar, dizem coza, gala, madra, e depois acrescen-tam zinho a toda palavra que lhes ocorra.Seria desejável que um pouco desta habilidade criativa seconservasse e não morresse com o despertar da razão,do intelecto. Os poetas desenvolvem este instinto e otransformam em arte. A fantasia infantil prepara o pensar do adulto A espontaneidade, a abnegação descomprometida em relação a tudo o que faz, a tudo que vem ao seu encontro, a pureza na expressão de satisfação e de desgosto, a inocência com que enfrenta tudo, são qualidadesque dão à criança pequena uma auréola paradisíaca, angelical.Dizemos: ela é pura, sincera, não consegue enganar. Por quê?E por que ela perde tudo isso e se torna envergonhada,sorrateira, fechada, cética? A infinita confiança com que seentrega ao nosso cuidado se transforma em desconfiança, emcrítica.É só observar o desvendar da personalidade autoconsciente,para compreender alguns dos mistérios da natureza humana.A naturalidade, a sinceridade de expressão, a espontaneidade
  15. 15. 17da criança vão diminuindo à medida em que crescem areflexão, o raciocínio, o intelecto. A criança se torna cada vezmais consciente de si mesma e da diferença entre ela e osoutros.Ela vai formando o seu próprio mundo interior e este,crescendo, se torna a base de sua expressão pelo mundo afora.Se antes ela reagia e se expressava respondendo aosestímulos, agora, chegando à puberdade, ela valoriza osestímulos e os impulsos que surgem do seu próprio ser.Porém, esta inversão ocorre gradualmente e o processo criainsegurança, o sentimento da vergonha, pois no íntimo todostemos o ideal da nossa origem pura e perfeita, única.O desenvolvimento da capacidade de julgar racionalmentediminui a espontaneidade de expressão. Com o acordar dointelecto, surgem a dúvida, o questionamento, o espíritocrítico, que bloqueiam os impulsos inatos.Tudo isso é um processo necessário na transformação dacriança em adulto, que pensa e julga seus atos e integra-secom autoconsciência na comunidade humana. Como pensará ejulgará, no futuro, a criança que hoje vemos brincando comtanta intensidade com apenas um toquinho de galho, oucantarolando enquanto toma um banho de lama na beira dalagoa ou, ainda, palidazinha, chupando o dedo quieta no seucantinho, porque não pode se sujar?
  16. 16. 18Podemos ver que há uma coerência na seqüência, quecomeça quando o nenê se ergue e começa a andar e, a partirda liberdade adquirida na locomoção, desenvolve a fala e, apartir desta, o pensar.Até os cinco ou seis anos, o pensar e o agir são uma coisa só.A criança vai transformando com as mãos objetos maleáveiscomo o barro, a cera, a areia, pedaços de pano e depois diz emque eles se transformaram; quanto aos objetos não maleáveis,ela transforma com a imaginação rica em fantasia: o toquinhoé um nenê que dorme, que chora, que precisa ser embalado,depois é um cavalinho, um cachorro ou carrinho e ainda podeser a mamadeira para um nenê.Este pensar com as mãos, com o coração, com a imaginação, éfruto da fantasia, uma força que modela, plasma, forma etransforma, cria e inventa. É como força sábia que plasma eforma os órgãos do nosso corpo. Quanto mais a fantasia éestimulada, tanto mais criativa se tornará. A fantasia e aimaginação representam o esteio do pensar do adulto, assimcomo a alimentação sadia fundamenta a saúde futura.Refletir, opinar, explicar racionalmente, tudo isso per-tence ao adulto. Para sermos entendidos pela criança,devemos agir, fazer, dar exemplo, mostrar, e não explicar.Brinquedos simples despertam a fantasia, ao passo que oscomplicados e que fazem tudo por ela a coíbem. Sermões comlongas considerações nos afastam do mundo dela, ao passoque histórias, imagens, exemplos práticos são assimiladospela alma infantil. Gente que faz, pessoas atuantes, estimulamo interesse e a imaginação da criança.
  17. 17. 19Pessoas que só conversam e não atuam são chatas. Assim, ojardineiro que cuida das plantas e limpa os canteiros é umapessoa bem mais interessante e compreensível do que o papaiescondido atrás do jornal. Este, a criança cutuca, perturba ouevita. O pai se torna presente quando a convida para ajudar aconsertar o portão ou lavar o carro.
  18. 18. 20 CRIANÇAS E BORBOLETAS No último capítulo, mencionamos que o pai ativo, arrumando, consertando o necessário, desperta o interesse do filho pequeno, e não aquele pai que vive descansando, lendo o jornal.Porém, a mãe ou o pai que saiba contar histórias, estaráalimentando a alma da criança de uma forma toda especial.O prazer da criança ouvindo histórias com imagens ricas podeser comparado ao que sente o nenê quando se alimenta doleite materno.Como estamos na época em que a cristandade comemora amorte e ressurreição do Senhor, quero oferecer aos pais umahistória que fala deste grande mistério, mas em forma deimagem que a criança pode entender. A história é do autorsuíço Jakob Streit e a tradução é minha.A Borboleta‚ Havia uma vez uma borboleta que voava com asas cansadassobre um prado. Uma fria garoa pingava do céu, molhando-lhea veste colorida. Sentiu suas asas pesadas e pousou entre asfolhas da grama. O pó de suas asas tinha sido levado pelaágua. Por mais de uma vez ela tentou levantar vôo, mas semsucesso.
  19. 19. 21Mais tarde , foi até uma plantinha de folhas largas e, debaixode uma delas, depositou alguns ovinhos branquinhos, bempequenininhos. Como as asas fracas já não a carregavam, elaas dobrou e ficou quieta, sonhando com flores c com raios desol. Veio a chuva e a borboleta morreu com o vento frio doanoitecer.Os ovinhos que foram colocados no coração quente da MãeTerra foram bem cuidados. De dia, o sol lhes enviava seucalor e, à noite, o calor da terra os envolvia. A folha larga osprotegia da chuva. A luz da vida da velha borboleta havia seapagado; porém, em cada ovinho que ela havia botado,brilhava uma faísca de vida. Depois de alguns dias, algocomeçou a se mexer dentro da pele delicada e um raio de solque brincava com a folha, percebendo a nova vida nosovinhos, chamou: -Venha para fora, venha para fora! - Oovinho se mexeu, a pele rasgou e saiu uma pequena lagarta,amarelinha, de pele sedosa e com umas pintinhas escuras.Arrastou-se até uma folha verde, que se tornou seu jardim,sua mesa, sua casa. Ela gostou de beliscar as bordas da folhae, quando esta já estava esburacada, o raio de sol lhe cantou:- Continue a ir pelo verde mundo.- E, assim, a lagartinha foirastejando de planta em planta e, depois de umas semanas, jáera uma lagarta grande, com pelinhos nas costas.O verão estava chegando ao fim e o vento do outono trouxedias frescos. Então, o raio de sol disse para a lagarta: -Procure um lugar quieto, um quartinho para descansar. Entrepedras e folhas, vagarosa, a lagarta desceu para se entregar àMãe Terra. A escuridão a assustou e ela
  20. 20. 22cochichou: - Mãe Terra, acolhei-me! O sol mandou-meabandonar o mundo verde. - E, do fundo, surgiu a vozconsoladora da Mãe Terra: - Não fique triste por haverperdido o mundo verde, minha filha, o raio de sol lhe deu umbom conselho. Fique comigo, tire essa veste encolhida evelha. Durma, querida, as minhas fadas querem tecer lindossonhos para você.Quando a lagarta abandonou sua veste, teve uma sensaçãoestranha. Sua pele endureceu. Ela se sentiu presa, tinha medode morrer asfixiada e queria chamar por socorro. Mas já tinhacaído num sono profundo como a morte. A sua pele se tornouum caixão duro, lenhoso. Enquanto passava o inverno e nocéu da noite choviam estrelas cadentes, aconteceu um milagreno casulo da lagarta. Com mãos misteriosas, as fadas teceramuma veste celestial no túmulo escuro. Teceram o brilho dasestrelas e as cores escuras do arco-íris nos delicados fios daroupa nova. Com a primavera, a terra esquentou e nos camposo sol abriu as flores para a luz. O casulo na terra se abriu. Dotúmulo da lagarta acordou uma borboleta.Com passo leve, saiu entre as pedras em direção à luz quecantava: - Venha conosco, venha conosco! - Era o canto dasflores. Elas estavam pedindo ao sol: - Oh, sol, comogostaríamos de voar também e criar um jardimcelestial entre os seus raios! -Disse, então, o raio de sol: -Eu devo viajar por mares eterra. Esperem um pouco evirá até vocês o meu pássaro,que lhes contará sobre asestrelas e o arco-íris.
  21. 21. 23Neste momento, a borboleta se levantou da pedra para o ar,voou até as flores e se tornou a sua mais querida irmã.‛Com esta história, temos um exemplo de como um conteúdoprofundo, o da Morte e Ressurreição de Cristo, comemoradasna época da Páscoa , pode alimentar a alma da criança nalinguagem de uma fábula, de uma história como a daborboleta, em que seres da natureza se comunicam nalinguagem que as crianças entendem. E não existe exemplomais bonito da transformação da vida do que o processo dalagarta de se encolher, adormecer, morrer, para ressurgir comoum sonho colorido, como um mensageiro voador do Sol e dascores do arco-íris.Não é fantástica a imagem das borboletas que se desprendemdo casulo seco, abrem suas belas asas, delicadamentetrabalhadas, e, numa dança louca de cores, envolvem o mundodas flores, que parecem ser suas irmãs, porém presas pelasraízes no solo da terra?Esta mesma imagem serve também para expressar o queacontece com o espírito humano, com a personalidade. Presanum corpo que precisa alimentar-se - a ‚lagarta‛ - e que seenvolve e encobre de tudo que a forma - o ‚casulo‛ - ela deveescolher as cores e preparar as asas neste mundo escuro damatéria, da civilização agitada, insegura, competitiva, para umvôo colorido ao encontro do que floresce como espírito emcada época da História.
  22. 22. 24Como na formação do casulo e no preparo da borboleta atuamas sábias forças cósmicas, estas também estão atuantes nasfases evolutivas do ser humano em formação. E como todo omeio ambiente natural da planta - terra, água, ar, calor e luz -deve oferecer-lhe as condições adequadas para que floresça edê frutos, assim o meio ambiente humano, a educação, deveoferecer as condições para que a ‚borboleta- pessoa‛ tenha achance de fazer com que suas asas coloridas brilhem.Como já vimos anteriormente, a criança traz consigo muitascores, fantasia, imaginação, espontaneidade, uma alegria quecanta e dança e uma confiança imensurável no mundo e emnós.À medida que cresce, ela perde confiança, cria medos,vergonha, insegurança. Começa a mentir, a fugir dasresponsabilidades, se enche de ‚guloseimas‛, ‚pega‛ objetosque não lhe pertencem, agride e nega tudo o que poderiadiminuir a nossa estima, a imagem que temos dela. Isola-sedos outros ou, ao contrário, desgasta-se no contato e na farracom colegas e ‚turmas‛.Como devemos agir?Existem crises evolutivas passageiras em que aparecem taissintomas. É bom conhecê-las, e também os temperamentos eas outras características individuais de cada filho, aluno, paracompreendê-los melhor.Em todos os casos devemos refletir bastante sobre a causadesses comportamentos, que, quando se tornam hábitos, sãodevidos, na maior parte, ao meio ambiente inadequado.
  23. 23. 25Educadores muito autoritários, duros e sem humor, que, seminvestigar as causas castigam a criança por uma aparentementira, por ter desobedecido ou quebrado um objeto, etc.,aumentarão a insegurança, o medo do castigo, a vergonha pornão ser ‚perfeita‛ aos olhos dos outros. Ela se sentirá culpada,ferida lá no fundo da sua alma, e se acostumará a esconderesta dor e sua má consciência com todo tipo decomportamento afetivo ou negativo.Por outro lado, um meio ambiente inseguro, desestruturado eque não sabe colocar limites e referências claras, e queexagera em mimos e proteção, causa melindres, revoltas,fraquezas e contestações, que poderiam ser evitados oucurados.Devemos descobrir as dores, as lesões que existem no íntimoda alma, e encontrar as medidas e os remédios.E, concluindo: iniciar ou reforçar a nossa auto-educação elimpar as nossas asas coloridas!
  24. 24. 26CASTIGO E ELOGIOA palavra castigo exige reflexão. Não gosto de usá-la quandose trata de educar crianças. O homem é um ser que aprendecom os seus erros, com as experiências e as consequênciasque os seus atos acarretam.A criança cresce imitando, espelhando as experiências, ashabilidades, os hábitos do seu meio. Ela realiza as suasexperiências próprias: o fogo queima, a chama é quente,certos objetos quebram ao cair, outros cortam; a terra, o sucode frutas, chocolate, etc., mancham, sujam a roupa; os galhosfinos das árvores quebram; existem coisas ‚proibidas‛,provocando que os grandes gritem, se assustem, ou façamlongos discursos, ou batam na criança que as toca, ou ascome, ou as investiga etc.A tarefa dos adultos é a de proteger o corpo e a alma dacriança nos casos de grandes perigos e, no restante, guiar,acompanhar o menor nas experiências que a vida lhe oferece.A criança pequena não erra, não atua por maldade.
  25. 25. 27Errar só pode quem sabe, mau só é quem conhece e sabejulgar entre o bem c o mal. Não se trata, por isso, de castigara criança, mas, sim, de ajudá-la a formar impulsos bons apartir de cada experiência.Quebrou o vidro da janela? Ou a xícara preciosa da avó? Obarulho, os cacos espalhados, a cara consternada ou triste dosgrandes assustam a criança, fazem-na sentir com muitaevidência a conseqüência do seu ato, premeditado ou não.Algumas recebem um grande choque e se este é aumentadopor exclamações ou agressões físicas (que só são um desabafoda nossa emoção), a experiência é traumatizante e, não,pedagógica.A criança ‚roubou‛ e ‚mentiu‛. Para que serve um castigo,tapas, ou fechar no quarto, ou mesmo sermões insinuando quea criança pode ser rejeitada, marginalizada, até presa por taisatos? O ato deve ser analisado e julgado, nunca a criança.Pegar coisas e dizer ‚não fui eu‛ não é ato de roubo e mentirana criança até 9-10 anos, nem defeito caracterológico do pré-adolescente, mas imaturidade ou conseqüência de atitudesincorretas do meio.O comportamento difícil da criança é um alerta para adultosem seu meio, especialmente para os pais e educadores. Faltade respeito, agressividade, sensibilidade exagerada podem sersinais de carências várias: falta de amor, de interesse e deatenção às suas necessidades, atitudes rígidas demais ounegligência dos que devem dar o exemplo.
  26. 26. 28Em vez de ‚castigar‛, prefiro usar a palavra recuperar ouconsertar. Devemos ‚ensinar‛ como consertar estragos físicosou psíquicos que causamos aos colegas, aos pais, à naturezaetc.O bom exemplo é um ato de educar bem mais eficiente quequalquer castigo.Ser repreendido por uma pessoa que amamos muito, édoloroso, constrangedor. Nós nos sentimos envergonhados,achamos que somos ruins, que não merecemos conviver comas pessoas que respeitamos.Por outro lado, quando a pessoa amada nos elogia, a sensaçãoé de felicidade profunda, sentimos um calor que nos permeiae um impulso de querer crescer e ficar sempre melhor.Quem não conhece tais sentimentos? Dos dois podemosaprender algo para a vida.O ser humano aprende e cresce como pessoa através dasexperiências que realiza. Uma reação de ira, como desabafodo adulto em resposta a um ato insensato do filho, nãodeixa de ser uma experiência esclarecedora sobre causa eefeito dos nossos atos, mas o efeito que produz na alma dacriança não é o de fomentar a autoconfiança e a confiançano adulto, é o de fazê-la sentir-se tolhida, repelida.Quando o ato da criança exige uma correção, esta será tantomelhor se, ao corrigir, também se criem nela os impulsosnecessários para crescer e melhorar.
  27. 27. 29Quando a correção precisa seguir logo o ato incorreto, respiredez vezes para poder agir com calma. Quando nossa reaçãonão pode ou não precisa ser imediata, é bom preparar aconversa que iremos ter, talvez só à noite ou no dia seguinte,ou ainda no fim de semana. Estudar, então, junto com acriança, como pode ser consertado ou reposto o que foiestragado; isto ajuda a querer crescer. Com crianças menoresnão serve muito conversar sobre o valor ou o perigo do queelas fizeram. Melhor é contar-lhes uma história em que alguémrepara ou vence a fraqueza que causou o problema. Então acriança se identifica com o herói da história que saiu vitoriosoe passa a querer ser como ele.É verdade que às vezes um tapa é melhor do que nenhumareação do pai, na hora em que o ato da criança exige umareprovação. Porém, a agressão física, no melhor dos casos, éapenas uma muleta, uma substituição, por não nos ocorrer nadamelhor. É nosso dever de adulto realizar um trabalho em nósmesmos, que nos possibilite aplicar correções maisconstrutivas.E o elogio deve ser autêntico, deve ser merecido, senão tem oefeito contrário, só alimenta uma falsa auto- estima. Também aforma como elogiamos deve ter um efeito na alma da criança,que lhe infunda o desejo de crescer e melhorar sempre.A criança cresce ao nosso lado. Se ela percebe que nós tambémcrescemos em acertos e autodomínio e que a
  28. 28. 30ajudamos a consertar e corrigir o que ainda não foi certo,isto a encoraja a querer melhorar. Assim se cria um climade confiança adequada para que sua alma possadesabrochar em toda a sua plenitude.
  29. 29. 31 Crianças Agressivas Crianças inseguras são tímidas e preferem esconder-se a enfrentar um desafio ou qualquer situação desconhecida. Já aquelas chamadas ‚agressivas‛ reagem nervosas a todo obstáculo que se opõe a seus impulsos fortes e descontrolados.Essas crianças são ‚auto-ativas‛, conscientes de si próprias,orgulhosas e facilmente irritadas. A sua aparente segurança eautoconfiança pode esconder uma carência, seja de calor deninho, de ritmos na alimentação ou no dormir e acordar, eainda de limites que proporcionem segurança e sirvam comopontos de referência. Assim como a mãe é, geralmente, oprimeiro ponto em que a criança pequena se apoia e confia,assim os hábitos do dia-a-dia, as refeições que se seguemnum ritmo regular, a higiene e os encontros familiaresrepresentam para ela indicadores, fatos amigos que sempreretornam. O organismo infantil se acostuma a esses ritmosque transmitem uma sensação de confiança e calma à almasensível do pequeno ser que precisa orientar-se na vida dosseres humanos aqui na Terra.Um ambiente agitado e barulhento, o que é bastante comumem nossas cidades, causa irritabilidade e agitação.
  30. 30. 32O sistema nervoso da criança ainda está muito delicado, estáem período de formação. No caso da criança hipersensível, énatural que ela se torne irrequieta e irritadiça, pois não sabe sedefender contra tantas impressões.Também é bom lembrar que o organismo da criança é como umespelho, é como um olho que reproduz o que vê. Gestos epalavras agressivas penetram fundo no organismo e formam ocaráter, os hábitos.O que podemos fazer?Envolver essas crianças com muito carinho. Lembrar que aindanão estão em condição de dominar seus impulsos e instintos;que não é o seu verdadeiro ser que agride; que nestes casos aagressão é uma forma de chamar a atenção, um pedido desocorro. O nosso amor, a nossa oração em seu favor, a nossapaciência para com os ataques devem criar em nós a calmanecessária para lidar com elas. Se a agressão delas é reflexo domeio ambiente, pelo menos em boa parte, então, a calmacarinhosa do educador também poderá refletir-se nocomportamento dos educandos. A nossa confiança nelestransmite segurança e ajuda a fazer aflorar em seu íntimosentimentos afetivos para com o meio ambiente.E, só resta tentar aplicar o que é óbvio. Cuidar do ritmo no dia-a-dia, colocar os limites possíveis e necessários. Tentar evitaros ataques, inventando alguma distração, como, por exemplo,sugerir: - Vamos fazer um tapetinho para a mesa do telefone?Preciso que você me ajude a descascar as batatas. Vamoschupar uma laranja. Vamos ver se o gatinho do vizinho já deucria, etc.
  31. 31. 33Não há tempo para tais atividades? E o tempo que se perdedurante o ataque, e depois, para juntar os cacos?Em nosso programa diário é importante incluir momentos dededicação exclusiva aos nossos filhos. Pode ser na hora dedeitar, com uma história, por exemplo. Mas também é muitobom quando, durante o dia, uma criança tem toda nossaatenção e recebe elogios porque está lavando a louça ouaprontando a mesa. Com isto, ela adquire habilidades sociais,e a nossa atenção não reforça o egocentrismo que já costumaser bastante expressivo nas crianças agressivas.Sempre é bom verificar se a criança está sendo alimentada deforma adequada. Em todo caso, devem ser evitados exageroscom doces, feijão, ovos, etc. Na revista Chão & Gente,publicada pelo Instituto Elo, saíram vários artigos beminstrutivos sobre o assunto.À criança agressiva é imatura socialmente; ela é vítima dainsegurança e confusão proporcionadas pela nossa civilizaçãoe merece que o meio ambiente a ajude a se encontrarcorretamente na comunidade humana. O que a família nãopode dar, deve vir do interesse altruísta de outros. Por isso aescola tem uma tarefa toda especial, colaborando com aeducação em geral.
  32. 32. 34A televisão não substitui a carência de atenção e carinho. Elasó aumenta os problemas da criança, debilitando ainda mais aautodefesa, e, muitas cenas, nos programas, têm a característicade explorar, por exemplo, o instinto da agressividade.Uma avó que goste de contar histórias folclóricas, contos defada, pode oferecer o melhor remédio para qualquer criança,carente ou não. Vale tanto como o leite materno, amamenta aalma. E uma dica: quanto mais vezes recontar a mesma estória,maior será o efeito tranqüilizador para a agitação e ahiperatividade desgastante.A propósito, recomendamos esse procedimento para a vovóEdwiges, que pediu orientação sobre o tema aqui tratado: onetinho dela talvez gostasse de ouvir muitas, muitas e maisvezes a história dos- três porquinhos, que construíram cada umuma casinha para si. Um usou um monte de palha, outros gravetos e galhos, e o último a ter sua casa pronta, feita de pedras, viveu feliz e tranqüi- lo, porque o vento não a destruiu e o lobo não invadiu o seu lar aconchegante e bem protegido. O fim da história poderia ser queesse porquinho fosse convidar seus coleguinhas menosafortunados a morar com ele, ou algo assim.
  33. 33. 35 ONDE HÁ CRIANÇA, HÁ MOVIMENTO QUE DÁ VIDA. A atividade principal do Homem é crescer, transformar, construir. A criança vem de um reino vivo, onde não há morte. Ela é energia vital; transmite vida pela força da fantasia. Bom dia !...As crianças do maternal, de 2 a 3 anos, estão no ‚play-ground‛: tudo é movimento, é trabalho sério, executado namaior concentração.Dão-se ares de quem sabe o que está fazendo. Agora reinasilêncio, e logo dois ou três tagarelam sem preocupação se háou não ouvintes.O adulto perplexo pára, olha, observa esta atividadecompenetrada, isolada, vê este, aquele outro, o conjunto.Neste momento não há briga por objetos.Algumas crianças estão brincando na quadra de areia. Umadelas passa a pazinha a afundar na areia, para levantá-la e,com muito cuidado, esvaziá-la vagarosamente, de maneiraque cada grãozinho brilhe no sol suave da manhã de inverno.Ela não percebe os outros que cavam e enchem baldes ousimplesmente batem
  34. 34. 36com as mãozinhas para aplainar e alisar irregularidades doamontoado arenoso. É a calma em movimento.Da sala chega mais alguém. Vem correndo, pára um pouco eolha ao redor, com ar de quem procura uma situação propícia;fala algumas palavras, vira e volta em direção à sala. Levantae, cônscio da importância do que viu, corre mais rápido parainformar a ‚Tia‛- Tem bichinho morto na grama!Vários coleguinhas , ao ouvirem esta notícia, correm para vere pegar o besouro preto, que já não se move, está morto.Uma ‚maiorzinha‛ da classe do ‚jardim‛ declara:- Devemos fazer um enterro.Começa uma atividade determinada pela ocorrência. Omenino da pazinha é assaltado pelos colegas:- Dá a pá para fazer o enterro !O buraco é cavado, o besouro é envolto numa folhina e logo écoberto pela terra. Muitas mãozinhas ajudam. O assunto éresolvido, estão satisfeitos. Um pequeno curioso pergunta:- Por que estava morto esse bicho?- Porque já não sabia mais mexer as pernas e nem as asas.Daí, morreu e pronto! - é a resposta lacônica da menina
  35. 35. 37‚grande‛, que propôs o enterro.Numa das salas ficaram três crianças muito preocupadas com aboneca Marisa, que está com dor de barriga e muita febre. Elavomitou e está chorando muito, porque o médico deu umainjeção.Marisa é uma boneca de pano, um pouco gasta, tem doispontinhos no rosto indicando olhos e um traço horizontalcurtinho como boca.A mãe dela disse de repente:-Marisa já sarou, está rindo, quer comer.O pauzinho que já foi seringa, agora é colher para preparar asopinha.A Marisa dança, pula, bate palmas, abre a boca para comer...Mais trabalho! Todas as bonecas estão com fome!...Outra ‚maiorzinha‛, carregando uma cesta com galhinhos, diz:- Quer comprar cenoura?- Quero, diz a tia, me dá um maço.Uns tapinhas na mãozinha resolvem o pagamento e agora asbonecas irão aprender a comer cenoura crua, que faz bempara os dentes.
  36. 36. 38E logo todas as crianças entram. É hora da estória, dorecolhimento.Nesta época, a estória vem depois do ‚brincar livre‛. Quemchamou?As crianças foram entrando, seguindo seu relogio interioretérico, que o hábito criou. Também ficaram prontas para olanche na hora acostumada, assim como os passarinhos serecolhem para dormir, quando o ocaso fecha a tardeensolarada.A forma diária de atividades, o ‚horário‛, resulta domovimento rítmico vivo de diferentes atividades, repetidasdiariamente na mesma seqüência, harmonizando o grupo decrianças.Os brinquedos estão guardados, ficam imóveis como matériamorta e conceitos formados e prontos. A areia endureceu noponto em que as mãozinhas (e pezinhos) a deixaram. Estasagora também descansam, quando as crianças se sentam e comsua alma penetram nos contos mágicos cheios da vida emmovimento.A boneca Marisa está no carrinho. Ela é só um amontoado depanos arrumados à semelhança de um ser humano. Já não écapaz de chorar ou sorrir ou comer, e não sente dor de barriga.Ela apenas é a forma final de uma imagem que alguémproduziu e nada mais.Fim do dia:
  37. 37. 39Durante algumas horas, os toquinhos e a areia, os pauzinhos epazinhas, os panos coloridos c os panos formando bonecas, osanões ou os bichos sem muitos detalhes, foram instrumentosque viviam pela magia da imaginação infantil. Agora sãoobjetos sem vida, esperando ressuscitar com um toque mágicoda fantasia criativa do jovem ser humano.Até amanhã!..
  38. 38. 40AS FORÇAS DA VIDA ATUAMNA INFÂNCIA. No capítulo anterior, vimos como o movimento é a fonte de vida da criança pequena e como ele se mani- festa em ação, alimentado pelas circunstâncias externas e pela fantasia que brota da alma. Vimos como a criança‚dá ‚ vida, põe movimento no que émorto ou imóvel.A criança apreende, constrói seu conhecimento por meio daação do corpo, de forma sensata, quando imita o que vivênciaao seu redor. Ela apreende da vida de maneira direta, porque‚sabe‛ imitar.Como entender isto?Nos primeiros anos de vida, a criança precisa de um ponto dereferência interior próprio.Mesmo quando diz ‚eu ‚, referindo-se a si mesma, ela temuma sensação semelhante à que teria um dedo da mão sepudesse falar, sentindo-se parte do todo da pessoa à qualpertence.Pois a criança se vivência como alguém que é também o‚todo‛ ao seu redor. E esta sensação pode ser um pólo
  39. 39. 41seguro quando esse ‚todo‛ é o calor da mãe, o lar, o pátio oujardim, a rua, o bairro, etc. A relação com esse mundo aindanão se realiza por meio do raciocínio, da reflexão e da reaçãoconsciente.Sendo o ‚todo‛ o ponto de referência, a verdadeiraexperiência do ‚eu sou‛ é mais um ‚nós somos‛. Por isso acriança faz o que nós fazemos, imita inconscientemente o quefazem as ‚outras partes do todo‛.Isto não deixa de ser fantástico, maravilhoso! O ser humanonasce sobre a Terra, vindo de um mundo onde espaço e temponão existem, onde tudo permeia tudo, e tudo é intemporal,eterno. Para o ser espiritual que se nomeia Eu (o Eu emDeus), este nosso mundo material é algo bem estranho esomente passo a passo aprendemos a usar nossos membros enossa cabeça de acordo com as leis que regem a matéria.Outras leis regem o reino da alma e são estas que atuam noinconsciente da pequena criança, de forma que ela seidentifique com os sentimentos, os pensamentos e asatividades da pessoas em seu ambiente. E ainda ela nãodiferencia os reinos animal, vegetal e mineral, tudo é vida.São as forças da vida opostas às forças da morte. E, graças aointeragir das duas forças, o aprendizado para a vida na terrase efetiva na primeira fase da vida, até mais ou menos a trocados dentes, por meio do dom da imitação, da total entrega econfiança no agir dos próximos.É bom refletir sobre isto, como pais e educadores. Diantedeste fato tão grandioso, parece-nos indicado fazer umarevisão do nosso comportamento diante e em torno dascrianças delas, e por amor a elas fazer uso
  40. 40. 42destas mesmas forças da alma para, conscientemente,aprimorar nossa auto-educação, o controle sobre o nossopensar, sentir e agir. Isto, para que a nova geração possacrescer acreditando em nosso ideal de servir ao progressohumano pleno.A capacidade de se relacionar com o mundo por meio doinstinto da imitação se perde no fim do primeiro setênio e setransforma num sentimento de admiração e veneração peloque fazem ‚os grandes‛, que é preciso apreender. A escola , oeducador, tornam-se o novo ponto de referência em que seapoiar. Agora a criança está madura para receber um ensinodirigido. A força que anteriormente a fazia crescer e imitaragora vai se transformando em capacidade de representar erecordar. A pessoa é vivenciada por ela como um indivíduo eo seu próprio interior como algo diferente dos outros, porémainda como num sonho (semi-consciente). Esta transformaçãoocorre entre os 6 e os 9 anos.Seguem alguns exemplos que ilustram um momento destatransformação.A filhinha da violinista, que até então vinha tocandoalegremente no seu pequeno violino, imitando a mãe, disse derepente: - ‚Mãe , eu não sei tocar, eu preciso tomar aulas quenem seus alunos‛.
  41. 41. 43Um menino está parado alguns minutos olhando para a vacaque também o fixa com seus olhos: - ‚Pai, como se diz ‘sim’em vaca? ‚ Ele, de repente, percebeu que já não sabe falar alíngua da vaca, ou que a sua língua é diferente da dela. Emcontraste, eis o irmãozinho menor, que sobe no banquinho,eleva seus braços ao céu e grita: - ‚A lua é minha!‛.Numa cidadezinha, a mãe leva seu filho de seis anos e meiopara a escola pública. É o primeiro dia de aula. O menino, demãos dadas com a mãe, caminha em silêncio. De repente,pára e diz com tom enfático: - ‚Mãe, você precisa dizer àprofessora que eu quero aprender tudo!‛O ensino, nesta faixa etária, deverá trazer o mundo pleno devida, vivências, atividades e imagens que formem umconhecimento afim com as leis da alma, da vida que cresce eevolui.
  42. 42. 44EDUCAR PARA A VIDAEducar significa fazer futuro,promover saúde, amor, cons-ciência. Toda instrução étambém formação da pessoa,do caráter, dos hábitos e da habili-dade social do futuro adulto. O educador não colhe osfrutos do seu trabalho. Estes se manifestarão nos acertos e nosproblemas da vida pessoal e da comunidade social do amanhã.Como todos queremos e ansiamos por esse tal de ‚futuromelhor‛, é e anseios de transformação e crescimento. necessárioque a educação do presente atue contra as forças da teoriaabstrata e da máquina burocrática, cemitério de todos os ideaisA saúde, a autoconfiança, a criatividade e a habilidade social daspessoas dependem, em grande parte, do tipo de educação querecebem na primeira infância e na idade escolar.O profundo respeito pelo ser de cada criança deve despertar oamor e o interesse do professor pelas necessidades da almainfantil, a cada hora e em cada passo da sua evolução.Nas escolas que seguem os princípios da Pedagogia Waldorf, háum esforço por compreender, cada vez melhor, as leis universaisque regem o desabrochar das
  43. 43. 45capacidades mentais, emocionais e volitivas, inerentes a todoser humano. Graças à obra de Rudolf Steiner, seu fundador,aprendemos a observar e reconhecer as leis das fasesevolutivas que se processam em ritmos periódicos, de 7 em 7anos, nos quais o desenvolvimento físico corre paralelamentecom o despertar dos estados de consciência do agir, do sentire do pensar infantil. Compreendemos que, respeitando essasleis, estamos respondendo às necessidades intrínsecas danatureza infantil. Então, educar é ajudar o futuro adulto a sedesenvolver conforme a sua natureza e, em cada etapa,solicitar e treinar as forças que estão prontas e precisam sertrabalhadas de forma adequada.Assim vemos ocorrer, por exemplo, na faixa etária de 7 a 14anos. A criança passa por uma transformação total na suaexperiência do relacionamento ‚eu e o mundo‛. Ocorre, nestesetênio, o amadurecimento da vivência interior, que sedefronta com o mundo exterior. Aos 8 ou 9 anos, a criançaperde a comunicação espontânea, natural na primeirainfância, com o mundo ao redor. Parece-lhe que a naturezaexterior emudece. E o começo de um longo caminho deinteriorização e isolamento, que culmina na tão sofridasolidão da puberdade.Por outro lado, a partir dos 7 anos, a criança desenvolve oanseio de amar a perfeição, a beleza, o certo e rejeitar evencer o erro, superar obstáculos, da mesma forma que, nafase anterior, se erguia e vencia todo tipo de obstáculo comseu corpinho em formação. O esforço agora é mais no nívelanímico-afetivo. Apenas mais tarde, a partir dos 12 anos, teráinício a aspiração intelectual lógica para abordar o mundoracionalmente.
  44. 44. 46Desse modo, na idade escolar, apresentam-se três etapas detransformação da experiência ‚eu e o mundo‛, que devem serrespeitadas na elaboração do currículo e da abordagemmetódica:1) dos 6 ou 7 até os 9 anos, rege a sensação: eu e o mundosomos um, tudo vive e se comunica. É a fase em que a alma dacriança precisa do alimento que oferecem os contos de fadas,os contos populares - tipo fábulas - e as lendas, nas quais aspessoas, os animais, as plantas conversam com astros, anjos,gigantes, pedras, nuvens, etc... Quando isso falta, éempobrecida a relação espontânea, volitiva, da criança com anatureza;2) dos 9 aos 12 anos, a criança sente o mundo lá fora e,também, dentro de si, querendo conhecê-lo. Ela precisa agoraapreender a nova comunicação com a natureza. É necessáriotreinar muito a observação exata, ferramenta esta que será útilpara o julgamento objetivo no futuro. Ela precisa conhecer,envolver-se afetivamente com as características dos animais edas plantas, em seu ambiente natural, e não receber aclassificação abstrata das espécies, que vem colocar uma listade termos como uma cortina entre a criança e o mundo, queela quer observar e amar;3) dos 12 aos 14 ou 15 anos reina o impulso: eu querocompreender o mundo. Desperta o intelecto pleno, que é frioanalisador, questionador, crítico. O pré-adolescente está numaexcelente fase para descobrir os enigmas do conhecer e treinara nova força do pensar lógico-causal.
  45. 45. 47Ainda não desenvolve a autocrítica, mas se sente imperfeito eincompleto e, assim, projeta esses sentimentos no mundo,querendo conquistá-lo.Isto e a compreensão da própria situação, no contexto darealidade social-histórica, são os impulsos que caracterizamas etapas futuras.Os educadores devem aproveitar a fase, tão bela ecomplicada, do nascer da vida íntima e a qualidade sublimeda natureza, que é o amor no mais amplo sentido da palavra.Somente entre os 12 e 16 anos de idade se completa amaturidade física e psíquica, que desperta o amor sexual.Este representa apenas uma mínima parte do que entendemoscomo a força afetiva que o pré-adolescente pode desenvolvernessa fase. Ao ministrar um ensino natural, que envolve osentir dos alunos - para que não esfrie a sua relação com omundo vivo através de um espírito crítico precocementesolicitado, baseado em teorias abstratas, sem elo com omundo vivo - , nós estaremos educando com vida para avida.
  46. 46. 48A HUMANIDADEPRECISA DE CONFIANÇAO que é confiança? É uma forçaque se entrega.Observe a criança pequena: ela nosensina o que é entregar-se.A criança, ao nascer, é toda confiança.Ela se entrega inteiramente aos nossoscuidados.Confia em nós, dependendo do carinho e da atenção que sedêem a todas as suas necessidades. Ela vive, cresce, anda, fala,pensa e se torna um ser humano, conforme os cuidados eexemplos das pessoas ao seu redor.Esta confiança infantil é intensa, espontânea. Conforme asexperiências e à medida em que cresce, ela tambémdesenvolve a força oposta: a desconfiança.Com a experiência do eu, de ser diferente dos outros e com odespertar do intelecto, que tudo analisa e questiona, perde-se,aos poucos, a confiança instintiva, a ‚confiança cega‛.Ocorre ainda um processo interessante, quando a criançaentra na idade escolar. Ela já sabe falar e recordar, usa suaspernas e braços com autonomia, mas a sua alma se entregacom toda a confiança aos professores, para aprender o queos ‚grandes‛ sabem. Para desenvolver a confiançaconsciente na passagem da infância
  47. 47. 49para a idade adulta é necessário adquirir conhecimento c ahabilidade de discernir. Confiamos, porque conhecemos aspessoas ou as circunstâncias, etc.No entanto, quantas vezes essa confiança em alguém, ou numremédio ou serviço não é abalada! Perde-se a confiança nosamigos, no destino, em Deus. Parece que a confiança mútuaestá se perdendo cada vez mais. O ‚saber demais‛ nos fazduvidar, desconfiar. As sequelas são a insegurança, o medo, onervosismo, a depressão. Não poder confiar significaenfraquecer, isto é, perder a força com que viemos ao mundo.Como vimos, a primeira confiança nos é dada. Ela faz parte danatureza, é um instinto do organismo, assim como o são arespiração, a motricidade, a capacidade de chorar e rir. Porém,para nós, adultos, a confiança instintiva permanece esquecidano subconsciente. Às vezes, apesar de uma noite passada ‚emclaro‛, com mil preocupações, a nossa confiança retorna como nascer da luz do novo dia. E, como pais corujas, ou digamos,instintivos, insistimos numa confiança cega, quando alguémduvida da integridade inabalável do filho!A pessoa autônoma quer confiar no próprio julgamento e, emconformidade, confiar no que ela acha confiável.Não deixa de ser presunçoso achar que possamos discernir osuficiente para confiar somente no que nos parece confiável. Ofato é que toda organização pública e privada costuma fixarsuas leis e estatutos na desconfiança.
  48. 48. 50O intelecto alimenta o egoísmo, o senso de superioridade,quando não é acompanhado, ‚humanizado‛, pelos sentimentoshumanos nobres. Ele, por si, é frio, calculista e desconfiado.Os sentimentos humanos nobres desenvolvemos pelo amor aobelo, pelas forças de fé, isto é, de confiança numa sabedoriasuperior. Essa que se nos revela justamente nas forçasinstintivas, que podem ser chamadas de divinas, e que atuamna natureza infantil muito antes de ela ter adquirido acapacidade de raciocinar.O adulto pode crescer espiritualmente e ampliar os horizontesda sua personalidade, afinar sempre mais suas habilidades,estender seus conhecimentos, se mantiver um vivo interessepor tudo e, também, por meio da auto-educação, a disciplinado caminho do autoconhecimento.Rudolf Steiner, ( 1861-1925 —fundador da Ciência Espiritual:Antroposofia ) alertou, prevendo esse crescimento perigoso dadesconfiança na integridade do ser humano, que só pode levara guerras e brigas entre povos e parentes, que os homensdeverão aprender a confiar, praticar a confiança, se nãoquiserem acabar numa guerra de todos contra todos.Guerras e brigas entre tribos, povos e parentes temos por todoo lado. Mas, sabemos praticar a confiança?Praticar confiança no que confiamos é ficar onde estamos.Aprender a confiar só podemos com o desconfiável c com odesconhecido.
  49. 49. 51Para isto é importante saber que tudo evolui. A pessoa quehoje errou pode não errar amanhã. A criança que se apresentacom birra típica da crise orgânica por que passa, se tornarátoda amorosa ou razoável em outros estágios evolutivos.Exercitar, dessa forma, a força da confiança é realizar umaterapia para o indivíduo e para a convivência social nomundo. Será a base para uma verdadeira fraternidade cristãuniversal: POR SERES HOMEM, TU ÉS MEU IRMÃO.
  50. 50. 52BIBLIOGRAFIABERTALOT, Leonore - Criança querida: o dia-a-dia fa alfabetização - 2o edição - São Paulo, Editora Antroposófica, 1995IGNÁCIO, Renate Keller - Criança querida: o dia-a-dia das creches e jardins-de-infância. - 2o edição - São Paulo, Editora Antroposófica, 1995.LANZ, Rudolf - A pedagogia Waldorf - 7o edição - São Paulo, Editora Antroposófica, 2000STEINER, Rudolf - A educação da criança segundo a Ciência Espiritual - 3o edição - São Paulo, Editora Antroposófica, 1996.
  51. 51. 53LEONORE BERTALOT, suiça de origem, énaturalizada brasileira e mora no Brasil desde1962. Formada em línguas e estudosantroposóficos na Inglaterra, praticou pedagogiaWaldorf na escola Rudolf Steiner de São Paulodurante 25 anos. Dedica-se à formação deprofessores há 26 anos. Atualmente, dedica-se àtradução de livros e atua como consultora emPedagogia Waldorf. A Associação ComunitáriaMonte Azul lançou um livro de sua autoriaintitulado ‚Criança Querida‛ - o dia-a-dia daalfabetização.
  52. 52. ALIANÇA PELA INFÂNCIA NO BRASIL Associação independente, seguindo os princípios da Alliance for Childhood (www.allianceforchildhood.org)A ALIANÇAA Aliança pela Infância tem por finalidade pesquisar e divulgaros problemas que afligem a infância e suas causas, e encontrar epromover soluções para os mesmos, inclusive por meio de elosde parceria com pessoas e organizações das mais diversas áreasde atuação. site provisório: www.ime.usp.br/~vwsetzer/aliancapelainfancia
  53. 53. NOSSOS OBJETIVOS1- Criar o consenso de que uma infância sadia é uma necessidade básica da condição humana, protegendo assim os direitos da humanidade;2- Incentivar e desenvolver formas de educação que respeitem a infância, reconheçam a necessidade do tempo e do espaço adequados para crescer, e promovam o brincar em um ritmo de vida saudável;3- Pesquisar o impacto da tecnologia, computadores e meios de comunicação eletrônicos no desenvolvimento da criança, avaliando seus resultados e efeitos na prática diária;4- Incentivar a cooperação entre profissionais de diferentes áreas direta ou indiretamente envolvidos com crianças - educadores, terapeutas, médicos, nutricionistas, psicólogos, bem como juristas, políticos, religiosos, arquitetos, enfim, todos nós;5- Estimular uma nova visão científica e pesquisa sobre o desenvolvimento do ser humano pleno, em especial a fase da infância;6- Estimular ações políticas para a consecução desses objetivos.

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