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Esquizofrenia Social - Elza Pádua
 

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Introdução: identificando a Esquizofrenia Social ...

Introdução: identificando a Esquizofrenia Social
e procurando entendê-la

A descrição desta Esquizofrenia Social originou-se da tese submetida ao Programa de Pós-Graduação de Psicologia Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Brasil, como requisito para a obtenção de meu grau de Doutor em Psicologia Social,em 30 de março de 2005. Com ela, proponho a construção de um nova reflexão que se somará aos paradigmas já conhecidos como quando Kuhn, em seu livro Estrutura das revoluções científicas, destaca a Revolução Científica como contraponto à ciência normal.

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    Esquizofrenia Social - Elza Pádua Esquizofrenia Social - Elza Pádua Document Transcript

    • Elza Padua ESQUIZOFRENIA SOCIAL
    • 1 1 AGRADECIMENTOS A J. Roberto Whitaker Penteado, interlocutor sério, crítico, e que mesmo com seu jeito muitas vezes transverso, colocou-se a todo instante como meu melhor amigo. A meus Mestres, que foram os facilitadores desta jornada empreendida no amalgama da vida: com alegria, sofrimento e uma paixão solitária - minha gratidão. A Marcia Diogo, parceira exemplar, meu gesto de admiração. A Humberto Marini, pela inestimável ajuda. A João Mauricio Valladares Padua - companheiro na eternidade imolado neste processo - e que me deu a dimensão da necessária mudança. A minha filha Anna Luiza, que - por suas escolhas e solidez de caráter – fez valer a pena o esforço empreendido.
    • 2 2 DEDICATÓRIAS Este trabalho é dedicado primeiro a mim, pela coragem de aos 60 anos, decidir- me a trilhar esta empreitada, este ato de amor. Para que sirva de referência a esta nova geração de maduros-jovens que como eu, tem muito que contar, muito a aprender, muito que viver, muito que doar. É, também, dedicado a todas as crianças que ainda não foram maculadas e que na figura de meus netos, Theo e Juliana, me trazem a esperança.
    • 3 3 ÍNDICE 1 Introdução: identificando a Esquizofrenia Social e procurando entendê-la 2 Contorno e dimensões da Esquizofrenia Social O papel da Mídia 3 As relações sociais construídas a partir da família A insuficiência da visão individualista É na família que se define a pessoa 4 O sujeito fractal de Baudrillard Esquizofrenia como indiferença narcísica A alteridade no caminho da reconstrução psíquica A família e a construção coletiva 5 Qual realidade? Ódio e destrutividade Cisão e dissimulação Violência como patologia do sentimento Conformismo e rebelião são variações de violência 6 O poder é expressão do vazio interior Loucura, normalidade e literatura Simplificação, banalização e cisão 7 Leibnitz e Ibsen: do Pato Selvagem à pós-modernidade A função da memória no processo psicológico Memoria e grupos familiares 8 Comunicação e Vida Privada O público e o privado na sociedade A mídia definindo a ética no espaço público Ambivalências e contradições no modelo 9 Pragmatismo: as palavras ainda têm valor 10 Conclusão: a insuportável relevância do novo eu Referências bibliográficas
    • 4 4 1 Alguns chegam ao ponto de conjeturar que nunca houve outro louco além dele, em Itaguaí. (Machado de Assis – O alienista)
    • 5 5 Introdução: identificando a Esquizofrenia Social e procurando entendê-la A descrição desta Esquizofrenia Social originou-se da tese submetida ao Programa de Pós-Graduação de Psicologia Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Brasil, como requisito para a obtenção de meu grau de Doutor em Psicologia Social,em 30 de março de 2005. Com ela, proponho a construção de um nova reflexão que se somará aos paradigmas já conhecidos como quando Kuhn, em seu livro Estrutura das revoluções científicas, destaca a Revolução Científica como contraponto à ciência normal. Utilizei a minha formação de pesquisadora, que atravessa diversas áreas, sem que esta postura se confundisse com a interdisciplinaridade que elimina ou prestigia uma disciplina em relação a outra. Optei pela pluridisciplinaridade crítica, que deve ser entendida como a busca do rompimento com a fragmentação entre as disciplinas, gerada, de certa forma, pelo avanço científico e tecnológico. Diante das demandas do mundo contemporâneo, penso tornar-se necessário que se abordem os fenômenos globalmente, recuperando-se a unidade perdida. Minha formação de pesquisadora se inscreve no âmbito do multidisciplinar, com graduação e mestrado em Comunicação Social e experiência em pedagogia, administração de educação, jornalismo de reportagem. Profundamente comprometida, há 35 anos, com a terapia freudiana, kleiniana e de Winnicott, como paciente, tenho uma objetiva tendência à construção coletiva, em que se busca o diálogo como processo e se estabelece um confronto entre diferentes saberes, evitando-se hierarquizações. A história humana, muito difícil de se historiar, é mesclada de sentimentos diversos. Diferentes saberes são bem-vindos, mas sem as miopias dos conhecimentos especializados. Não é sair do formato científico, não é entrar no gênero literário – pensar livre é pensar –, mas pretender mesclar de forma saudável, eficiente e eficaz a apreensão do conhecimento. Sei que os temas e as agendas de assuntos mal definidos levam a digressões erradas, mas estou bem acompanhado quando enveredo pelos caminhos trilhados por autores como Gianne Vattimo e outros.
    • 6 6 Acredito que este sistema chama a contribuição de um amplo leque de disciplinas, sem preconceitos, somando os conteúdos relativos a cada uma delas, tão necessários à sistematização de determinados princípios e de certos conceitos. O desafio que se impõe, é de me voltar para os estudos sobre as renovações das relações interpessoais, a sua origem na família, a sua representação na mídia dos nossos tempos e a sua contribuição a uma qualidade de viver melhor para todos nós. Essas questões são fascinantes neste projeto: propor que uma intervenção ocorra antes que problemas maiores e irreversíveis aconteçam. Mesmo me considerando inserida na modernidade, com grande fascínio pelo contemporâneo, os autores nos quais este trabalho se respalda foram, muitas vezes, buscados nos clássicos eternos, referência ao saber, reverência à sabedoria que nada tem de obsoleta e anacrônica. Com a finalidade de particularizar essa experiência, tentei estabelecer uma visão filtrada pelo conhecimento vivenciado, que trilha os sentidos que percorreram, juntos, os caminhos do desenvolvimento deste trabalho, fazendo constar, na seqüência, um texto de reflexão sobre a condição humana e os valores perseguidos, os quais tomo como direção, rumo e tema de vida escolhida, onde se insere este percurso trilhado: "A abertura ao mistério possui a inocência da criança diante de um desmoronar do universo. A alma de pesquisador pensa o provável não-explícito, o desejo, a inadequação amorosa, a incomunicabilidade e o invisível, a tragicidade límpida e lúcida aliada à loucura de ver e a não-resignação ao determinismo. Debruça-se sobre si sem alhear-se do real e faz da meditação um ato criador. Toda a sua história traz consigo a sua versão, toda a sua cultura em soma. A criatividade é usada como quem descobre não sem medo que o não-conhecido é o canal que nos faz ultrapassar a dimensão do humano. Estes aspectos mágicos são o seu conceito do sagrado, do Divino. Liga-se ao ritual, criando uma sistemática amorosa com as suas fragilidades, num diálogo possível entre o visível e o invisível, no ver por dentro das coisas. A subversão do riso está sempre presente, o riso que vem do espírito, que dá Graça, que lhe enche de Graça. Ele é lúdico, atemporal e eterno. Não é um riso banal. Senta perto da ironia buscada. Aprendeu a jogar e o jogo da vida é fascinante. Nele vê regras para um melhor desempenho mas coloca a liberdade da razão na esfera dos sentimentos. Nesta fronteira em que vive, entre o diálogo e o duelo, está sua vontade de compreender e de se
    • 7 7 expressar. Esta é a sua religião, que crê em todas, mas não pratica especificamente nenhuma porque desenquadra do institucional este sentimento de princípio divino. Nesta criação erótica, neste êxtase com que se envolve de corpo e alma, está a dimensão sagrada da palavra. Este gesto humano que tem a sua importância original pela representação física das falas, onde busca a harmonia. O estudo da dicotomia das falas demonstra o mal imerso nesta disfunção. Isto aparece em Lévi-Strauss ao usar em suas teorias o Teorema de Gödel: “A história pode nos levar a qualquer lugar, sob a condição de que saiamos dela”. O que pode ser lido, ouvido, pensado, falado, tem na escrita em qualquer forma a sua representação. Mas a voz, aquilo que nos identifica na nossa singularidade e na nossa comunhão com o outro, é o que interage e o que distingue: as modulações dos sons e os ritmos diversos que são mensagens diferenciadas e que são sentidos com as vísceras. Na incompletude que encontramos na busca de uma razão transparente, onde estamos quase, sem nunca alcançar, vaga o seu espírito. Neste espaço cheio de vazios há gozo e prazer. É invisível, mas concreto. Sua busca pelo que está no fundo tem a dimensão da procura da origem do real como sucessão de acontecimentos. A imaginação transformadora não distorce a visão. Sua crença ficou na idade da criança. Acredita, é pura, mas tem basicamente uma maneira limpa de olhar, sem a ingenuidade da ignorância. Dessacralizar as palavras, tirar delas o peso mortal das definições imutáveis é dar ao tempo novas visões. Se a tragédia como humano é não conseguir entender mesmo tudo, é não saber mesmo tudo, é viver seguro na improbabilidade, é possível pensar, sem a tristeza que este reconhecimento dos limites traz, que a dimensão da finitude está nesta vitalidade, nesta dinâmica vital que se traduz pela enorme energia que nos move para a ação. Esta intensidade do sentir assusta. Por isso essa pesquisadora registra tudo que vê, que sente, tentando não esquecer. Sua memória tem hieróglifos (escrita dos deuses). De beleza, também." Assim, consegui fazer o meu próprio mapa com um certo distanciamento científico. A abordagem deste livro traz a contribuição fundamental de alguns autores, entre eles Sigmund Freud. Acredito que ter o olhar psicanalítico permeando este trabalho permitirá construir os indícios que me levarão ao exame da questão da esquizofrenia
    • 8 8 social no quadro da família contemporânea. Ao tomar Freud, que utilizou os mecanismos do inconsciente, trazendo uma visão do papel do indivíduo na história, criando, a partir daí, a teoria das repressões, como um dos pontos de partida para as minhas reflexões, o que penso é que a repressão individual está na esfera das repressões coletivas. Daí focalizar os fenômenos da repressão e da esquizofrenia (Freud e outros) sob um ponto mais social do que clínico-individual. O que proponho é estudar e desenvolver uma análise a respeito da noção de esquizofrenia social que vem sendo construída e está claramente desnudada em nossos dias. A partir do núcleo social primeiro que é a família, pretendo verificar até que ponto a dicotomia das informações veiculadas na mídia desvirtuam a integridade do homem, e as conseqüências sociais que isto provoca, levando-se em conta as contradições secundárias que ainda se permitem para que não se atinja o cerne de seus interesses e até para que se diga: “Vejam como a imprensa é livre”. A construção do sujeito social dentro do processo de desenvolvimento humano existe em caminhos diversos de socialização com características distintas. As ações práticas, das atividades e da interação, em contraponto com as representações, as crenças, idéias e concepções, levam a uma nova compreensão da natureza humana. A integração destas relações não é linear, mas baseia-se numa articulação de conhecimentos. É acreditando nesta premissa que considero que o desenvolvimento humano existe na junção de características biológicas com a história cultural do ser. Não se pode separar a linha cultural do desenvolvimento da linha natural, mas acredito que elas estão interligadas. Os estudos de Vygotsky, propõem algumas bases para pensar-se numa integração entre o biológico e o cultural, permitindo que se possa ter uma abordagem interacionista, ou seja, sociocultural do desenvolvimento dos sujeitos. É pela interação que se constroem, de forma dialética – entre natureza e história –, os processos do desenvolvimento humano. O que é importante são os mediadores, instrumentos e signos, dos quais nos apropriamos, dentro do caldo cultural, para tornarmos o que somos. O conhecimento se constrói pela rede de trocas que ocorre paralelamente ao desenvolvimento biológico da criança. Nesse sentido, é de fundamental importância, pensar o desenvolvimento individual dos sujeitos, como um estudo sobre as relações
    • 9 9 familiares na formação de adultos que desempenham papéis sociais e dos quais é cobrada uma série de comportamentos. Para isso abordei o desenvolvimento do ser no social e na família e as configurações da estrutura familiar frente às inúmeras pressões da sociedade contemporânea, dentro do quadro da esquizofrenia social. Criar adultos responsáveis e sociedades bem desenvolvidas nunca pareceu ter tanto a ver com a relação da pessoa, do indivíduo, e sua própria família, primeiro núcleo social produtor do desenvolvimento do ser. Criar adultos dignos, a partir da estrutura familiar, depende de duas vertentes: da maneira pela qual os pais vivem e da confiança que dão aos seus próprios valores e como os transmitem às novas gerações. Os pais têm um papel fundamental de estruturadores do caráter dos filhos. Os modelos – o que somos e quais as nossas identificações mais harmônicas à nossa integridade – são passos seguidos a partir de alguma referência imposta, inicialmente, pelo social familiar; pelo menos era assim até os primórdios disto que se tem chamado de Era Pós-Industrial ou Pós-Modernidade. As erupções das décadas de 1960 e 1970 (tendo como ícone o Levante de Maio a partir de Nanterre) com o advento das greves dos estudantes reduziram intensamente o papel da família, que se tornou, a bem dizer, ridicularizável. Hoje até se usa “fulano é do tipo família” no sentido depreciativo. Algo como ultrapassado, impotente. Mas, são os pais que primeiro definem as atitudes no espaço público e privado – através dos seus pensamentos e dos próprios modelos – construindo valores, estabelecendo e desenvolvendo a qualidade que desejam para os seus relacionamentos e para a convivência social. Por mais que aspirem a diferenças, as gerações apropriam-se das suas referências familiares, ao mesmo tempo ressignificando-as. Já os pais pós- modernos não criam valores, simplesmente, porque não os podem criar: estão imersos num mundo reduzido ao sentido de mercado, onde os “valores” se resumem àquilo que proporciona resultados financeiros. Esta é a dificuldade que têm os pais de formar as bases de que as novas gerações possam se adequar e reformular as referências familiares. Assim, não se trata de uma relação estática, mas de um permanente movimento que não envolve uma simples apropriação de valores e sim uma constante ressignificação. Há uma interconexão profunda entre as características iniciais da criança e o meio cultural no qual ela nasce. A família é o eixo principal do ser humano em seu
    • 10 10 desenvolvimento inicial. É ela que deixa marcas indeléveis, por toda a vida, façamos o que quiser para nos livrar das cicatrizes, pois é responsável não só por nossa introdução na cultura, mas também pelas nossas primeiras concepções de como agir nela, transformando-a ou não. Portanto, as reflexões a respeito da esquizofrenia social estarão sendo pensadas a partir de um conceito atual da idéia de família. Este trabalho visa caminhar pelo desenvolvimento de comportamentos esquizofrênicos dentro da sociedade contemporânea e seus entrelaces com os seguintes temas: família, indivíduo, mídia e, finalmente, ética. Observei como comportamentos solidificados e referendados pela estrutura familiar tradicional e pelo social têm-se transformado, nos últimos anos, em nossa sociedade. Por outro lado, tais comportamentos têm modificado a própria idéia de família, de núcleo seguro para a estabilidade do sujeito, influenciado pela multifacetada sociedade da informação, do valor da linguagem, da influência da nova forma dos espaços públicos e privados, da morte e seu confronto com a cultura vigente. Sem dúvida, a família monogâmica é, há muito tempo, compreendida como base de nossa sociedade, reconhecida e formalizada a partir da cultura religiosa cristã ocidental, e estabelecedora dos comportamentos desejados. Pude observar que os comportamentos sociais da atualidade têm como uma de suas características a dicotomia das falas, ou seja, a diferença entre o que se diz, se vê, se fala, se ouve, se faz e o que se acredita. Alteram-se assim as concepções tradicionais de família, indivíduo e ética, criando-se a “diferença entre o que se faz e se acredita”. A impossibilidade de acreditar no que se está fazendo, e mesmo a desnecessidade, pois o que vale é adquirir os meios da sociedade mercantil, é a responsável pela desistência dos valores que, mal ou bem, embasaram a sociedade até meados do século XX. As crenças se fragilizam e os jovens não acreditam nos mais velhos, com toda razão. A família contemporânea, especialmente no Ocidente - e o campo de observação é a classe média alta da sociedade brasileira palco dos modelos sociais - atravessa uma fase de falta de “sincro”, como nos filmes mal produzidos: seus membros, atrelados aos compromissos de consangüinidade, ainda declaram amor eterno entre si, mas encobrem competições, vilezas e ódios que, na verdade, são os sentimentos de ponta que permeiam
    • 11 11 as relações. Há uma conivencia no silêncio consentido. A família encontra-se fragmentada, como também está cada um dos seus membros. A vivência do indivíduo ocorre na duplicidade: um jogo de acobertamentos entre o que (se) sente e o que se diz. Pretendo conservar a esperança de um papel positivo da mídia e mesmo quanto aos “valores familiares”. Mas esse jogo de acobertamento entre o que se sente e o que se enuncia produz pessoas que passam diariamente mentindo por necessidade de acomodação social e por imperativo profissional. Fingem que não são roubadas em um centavo no troco do supermercado, fazem anúncios assegurando que “Omo lava mais branco” ou empenhando um desodorante maravilhoso, escrevem para o patrão jornalista que a eleição de um político notoriamente corrupto é garantia de honestidade para a cidade, agradecem uma homenagem com discurso de enaltecimento aos concedentes (e cujos aspectos negativos de caráter conhece como eles aos seus). Depois entram em casa, ficam sabendo que seu filho foi castigado na escola por mentir à professora e fazem o discurso de “Nunca minta, meu filho, isto é muito feio”. Quer que ele acredite na família? Representar dois papéis e não perceber a contradição que impossibilita a harmonia da esfera pública com a privada é o que chamo de esquizofrenia ética, base doente sobre a qual periclitam as palafitas da esquizofrenia social. O que desenvolvi buscou na família a origem deste comportamento social, representado pela dicotomia das falas, em função de sua própria história. Esta história mostra a família tradicional como espaço social central de produção daquilo que considero hipocrisia e que se fundamenta em sua origem religiosa e de controle social. Muitas vezes a criança é educada para se comportar não de acordo com seu pensamento individual e sim dentro das demandas sociais. Por outro lado, a sociedade ocidental é profundamente individualista, o que provoca uma cisão entre o que o sujeito considera ser sua identidade e os estímulos da sociedade, ou como deve se comportar para sobreviver. Daí resulta uma dicotomia com origem no interior da própria pessoa. Talvez seja necessário esclarecer de que Ocidente falo. Contemplei a Europa Central e do Sul e suas áreas de influência. A partir disto, pretendi analisar como a hiperinformação, que produz a desinformação, à qual as pessoas são submetidas pela mídia, é, em si mesma,
    • 12 12 multiplicadora deste processo. A hiperinformação cria o que chamo de esquizofrenia social, a saber, a incapacidade de ter-se a noção do conjunto social que nos circunda, bem como de se responsabilizar pelos próprios atos sociais. Por outro lado, a mídia é, ao mesmo tempo, denunciadora desta dicotomia/esquizofrenia. Isto se revela na própria produção jornalística sobre o comportamento, que volta seu olhar para a família tradicional e para o corpo social, criticando-o e analisando-o. A mídia não é geradora mas divulgadora da síndrome da esquizofrenia social, a qual vem da sujeição do ser humano ao sistema que dele se serve para multiplicar os resultados financeiros. Ao embaralhar os sinais, deixa o espectador/leitor perdido, mas também salvo para o mercado. Se ele começar a raciocinar, estará salvo para sua individualidade, mas perdido para o sistema, cujos “valores” refutará. Menciono uma sociedade que não se apresenta marxista, no sentido que define a História como a decisão dos interesses econômicos, nem darwinista, em que o sucesso só cabe aos mais fortes e protegidos sociais. Sem me abstrair de que falo de uma manifestação global, tentei sair das teorias conspiratórias das grandes corporações da mídia. Mas não nego a observação de que estamos numa sociedade conduzida pelos interesses econômicos, deslumbrada pelo sucesso a qualquer preço, e de que, às vezes, as definições nomeativas são inevitáveis na ciência social (o tráfico de drogas é mau, toda corrupção contamina a polícia, são juízos de valores inevitáveis), sem o que ela se esteriliza. De qualquer modo, olhando uma mídia mundial cujo centro não passa de meia dúzia de proprietários – Berlusconi, Ted Turner, Azcárraga e, mesmo mapeando a grande mídia brasileira, Marinho, Civita, Sirotsky –, é difícil desdenhar da hipótese da “teoria conspiratória das grandes corporações da mídia”. A pesquisa de base teórica que desenvolvi demonstrou a Esquizofrenia Social que vivencia o brasileiro na contemporaneidade e vislumbrou a busca de sinais de uma saída: o estabelecimento de novos ritos de passagem do núcleo familiar ao social como necessários ao crescimento e desenvolvimento de cada um – sem obsessões – embasados num novo compromisso ético-social. Ao observar que a instituição família e a educação de hoje não se voltam para a integração familiar, tem-se a hipótese de que, embora a dicotomia das falas tenha sido engendrada pela família tradicional do passado, a família, como grupo primário, é ainda a
    • 13 13 única opção de sobrevivência psíquica das pessoas. A estabilidade do compromisso familiar pode ser o espaço para a administração da integridade do sujeito, nesta sociedade na qual não se sabe que voz ouvir, devido à existência de informações díspares e em excesso. Penso que os indivíduos terão que recorrer a novos laços familiares, agora construídos por opção. A partir de minhas análises, pude levantar a hipótese de que os intuitos desses indivíduos talvez funcionem como uma fuga da duplicidade constante das mensagens contraditórias, que se encontram no seio da família, importante demais para ser desconsiderado e a busca da permanência de sua sanidade e da consciência de identidade diante da multiplicidade. A isso chamei de “escolha pela família”, que, agora, não será somente o núcleo de nascimento da pessoa, mas principalmente grupos identitários, subgrupos formados pela amizade, por laços afetivos, por objetivos comuns, com responsabilidades onde não se permita o uso manipulador das figuras de retórica, dos jogos de palavras, das omissões, que dificultam o entendimento e confundem. Eleições que se sobrepõem ao conceito de irmandade por fraternidade escolhida e que trazem embutida uma incondicional lealdade. Acredito que esta postura, quando retorna ao corpo social mais amplo, inaugura uma nova ética, a partir de pessoas formadas no seio desta nova família, surgida da necessidade de transparência e da ética do compromisso. Aqui o afeto – sem máscaras – é o princípio que rege a relação com o outro, em condições de confronto compassivo com a alteridade, que permitem o exercício da liberdade. Esta é a ética do cuidado, que surge da urgência de nossa cultura em transformar as bases para a formação dos indivíduos, como condição de nossa própria preservação. Em suma, tomei esta assertiva, mesmo questionando Ética como expediente de sobrevivência dentro da sociedade de comunicação, já que não é incomum a aceitação do sacrifício expressar melhor a vivência ética que o instinto de sobrevivência. Exemplos históricos como o de Leônidas nas Termópilas, ou o do rei ao dizer “Perca-se tudo menos a honra” podem parecer altissonantes ou pomposos, mas são pura escolha Ética. Outro argumento em favor da Ética não-relativista, tão comum hoje, é a existência inegável de paradigmas que todas as sociedades conhecidas seguem. Sejam simples ou complexas, ocidentais ou orientais, de nativos ou conquistadores: nenhuma aceita o
    • 14 14 princípio da traição, nenhuma aplaude o viajante que pede abrigo e assassina os anfitriões enquanto dormem, nenhuma se compadece com a figura tenebrosa do torturador. Há, certo, quem promova a Noite de São Bartolomeu, quem traia a confiança dos amigos, quem mate quem lhe dá abrigo, quem dê choques elétricos num bebê para extrair confissões da mãe, mas tais cometimentos pertencem a grupos interessados ou seitas fanáticas, não sendo socialmente aceitos, no sentido mais amplo. Assim, minha hipótese considera o nascimento de uma nova família, que será fundada na cooperação e no reconhecimento, e não mais na tradição. A falta de opção e a noção de urgente sobrevivência impulsionarão esta mudança, não pela via ética nem religiosa, mas pela via negativa – decorrente da consciência da fragilidade e impotência do indivíduo – e criarão esse canal alternativo ao desânimo e medo do universo social, desestimulando o simples “encostar” na família tradicional, independentemente de sua duplicidade e mensagens contraditórias. Há uma relação ao aspecto positivo da “separação” do homem-sociedade administrada que é muito visível: quem não adere corre o risco de ser rotulado de “esquizofrênico”. Tentar mudar este padrão, esta referência, este modelo, colocar este assunto em discussão é o esperançoso fio condutor deste trabalho. Eu os convido para fazermos, juntos, esta trajetória.
    • 15 15 2 Deus engendrou um ovo, o ovo engendrou a espada, A espada engendrou Davi.... (Machado de Assis – O alienista)
    • 16 16 Contorno e dimensões da Esquizofrenia Social Diante do principal objetivo deste trabalho: analisar o conceito de esquizofrenia social e o seu desenvolvimento a partir das relações familiares, buscando refletir sobre o papel da mídia na formação dos sujeitos sociais e de seus comportamentos; precisava realizar, sobretudo, um estudo psicossociológico, no qual entra a cultura e o que é inerente ao ser humano como espécie. Mas o que é um objeto de pesquisa? O que é um método para o estudo de algo? O objeto de pesquisa supõe o sujeito que pesquisa o objeto. Objeto e pesquisador são partes inerentes deste trabalho que já é, em si, um método intuitivo utilizado. Desejava ancorar minha proposta em um duplo prisma: na utilização de contribuições de diversos autores e também na criação de um novo paradigma associado aos já conhecidos, e que fala de uma revolução científica em contraponto à revolução normal. Guiados por um novo paradigma, os cientistas adotam novos instrumentos e orientam seu olhar em novas direções. E o que é mais importante: durante as revoluções, os cientistas vêem coisas novas e diferentes quando, empregando instrumentos familiares, olham para os mesmos pontos já examinados anteriormente. Mas o que vem em primeiro lugar é o problema, já que sujeito e objeto se definem no processo de pensar a pesquisa. O problema é o que nos força a pensar nas vertentes diversas que se integram à produção do conhecimento. Não se tem a meta da solução, mas a construção do que ainda não está muito claro para que se possa pensar. Há algo nos vetores históricos que marcam o desenvolvimento das pesquisas. O tema começa a ficar insistente e força a pensar uma produção e o que se quer saber sobre o que é falado. Tomar isso, não como uma técnica, mas como uma interseção, forçou-me a ir a múltiplas direções. O objeto, recortado pela escolha metodológica, precisava ser conhecido; saber como ele foi produzido. As marcas da história, da sociologia, da antropologia esclarecem o recorte construído por esse hibridismo saudável, em que a purificação do objeto vai produzindo um foco, possibilitando um novo recorte. A lógica da separação entre sujeito e objeto é montada, repetindo esta mesma separação. Pensar de outro jeito, olhar sob um novo ponto de vista para criar um novo paradigma, uma outra maneira de experimentar o
    • 17 17 mundo. Desnaturalizar o objeto, com a força que o produziu, adentrando em seu plano como uma pesquisa de intervenção. Isso é o que o difere da pesquisa-ação. O positivismo da psicologia desarruma-se quando se pensa o que é neutralidade do sujeito frente ao objeto. Aí é que se dá a intervenção. Tentar deslocar-se do lugar prefixado, desconstruir, pensando na potência do problema. As cognições e as representações sociais, a partir da psicanálise vivenciada, foram as bases que sustentaram este projeto, que pretendeu clarear, explicar e apontar resultados, nunca definitivos. Cheguei aqui com uma angústia e uma inquietação. E estive buscando respaldo teórico, bibliográfico, acadêmico e de pesquisa psicossocial para sustentar uma percepção que fala do perigo, da convivência sem harmonia e sem responsabilidade, sobre as diversas formas dicotômicas de falas do ser humano e da sociedade. Junto com a família, a mídia e o fenômeno da comunicação globalizada foram os focos de investigação. Quiz, tambem, contemplar a ética, chegando pela via do negativo, na medida em que ela não será mais impulsionada por questões morais ou religiosas, mas sim por um determinismo de sobrevivência, dentro da sociedade da comunicação-informação. O conceito a que corresponde à “ética relativa” ou “ética do possível”, parece-me deplorável, pois consiste em sofismar a Ética como valor absoluto (a de Platão, Aristóteles, aquela que simplesmente significa verdade, justiça, amor, virtude, beleza). Tal contrafação encontra-se com freqüência dissimulada em “éticas” particulares, de entidades e associações, posto que são relativas e interessadas, quando a Ética não pode ser relativa. Mesmo quando contraposta a fins absolutos, é na verdade aí que está a quintessência de seu modelo ideal. É preciso que a Ética seja de Responsabilidade, não de sofismas. Um exemplo seria a compaixão do médico que conforta o doente terminal com a esperança de sobrevivência, fazendo-lhe bem em vez de destruí-lo. Essa idéia de ética como ethos (estilo ou modo de viver de um povo) se presta a naturais confusões, pois, por exemplo, tende a considerar ético o sacrifício humano numa sociedade que tem o ethos canibal. Na sociedade em que vivemos, a disciplina subserviente aos códigos de medicina junto a realidade das empresas hospitalares e seus convenios, tem levado muitos profissionais ditos sérios, a captularem diante da perspectiva da falencia de seus empregos, dos interesses políticos, a participarem da manutenção dos mortos-vivos. Em
    • 18 18 nome desta covardia, criou-se a sociedade da indústria da morte. Tudo na legalidade. Mas sabemos que há uma ética maior, que inclui nao so o respeito à vida mas ao Ser. Uma questão se impõe: o que fazer com minhas hipóteses? Precisava sistematizar, organizar, dar sustentação teórica, interpretar o meu objeto. O conjunto destes procedimentos podia confirmar ou não a hipótese formulada. A pesquisa é o lugar de quem não sabe, mas o pesquisador tem nela espaço para ser obsessivo. Não se interpreta a hipótese, mas tenta-se descrevê-la muito bem a fim de testá-la. Dessa maneira, unindo `a observação e análise, pesquisa documental, tornei-me apta a fazer uma análise do fenômeno estudado. Ao pesquisador atribui-se querer e gostar de olhar, de observar. A imersão no campo de observação é o que traz a interação com as questões que devem ser avaliadas. O que é a observação sistemática para o processo de pesquisa científica? Não é igual, mas diferente da percepção. Envolve inferência e vai além, inconsciente, mas consistente. É um processo cultural e requer capacitação metodológica e teórica. É uma trajetória, cujo processo envolve ao mesmo tempo: indução e dedução, participação e não-participação, o explícito e o não-explícito. Para dar conta das questões acima descritas, tive, antes, que me lembrar das palavras de Crago, pesquisador norte-americano, que, escrevendo sobre a metodologia utilizada no estudo de estímulos e respostas ligadas a textos e discursos, adverte que as respostas observadas à literatura não são equivalentes à experiência interior da literatura. Crago não hesita em afirmar que “jamais conseguiremos saber de que forma qualquer indivíduo experimenta o corpo particular de estímulos organizados que chamamos de "história". Embora ciente das limitações e imperfeições de quaisquer técnicas de pesquisa para obter dados objetivos sobre comportamentos, opiniões e atitudes dos sujeitos históricos, em relação a fenômenos tão sutis quanto complexos, como rever a importância do papel das falas no universo das famílias, ainda assim acreditava que tal tentativa permanecia válida. Qualquer que seja o estímulo determinante da pesquisa, existe, por parte do estudioso, o desejo da descoberta. Começa por uma indagação e chega ao conhecimento quando alcança resultados, mesmo modestos. A dedicação que abarca a tarefa, no campo da ciência, demanda uma relação de envolvimento total: está pautada a uma paixão de
    • 19 19 conhecer a verdade que não pode ser separada da paixão pelos resultados que essa verdade encarna. O pesquisador é conduzido a uma fixação pelos resultados, com os quais acaba por se identificar. A identificação é de tal ordem que, freqüentemente, um questionamento pode ser por ele ressentido como dúvida a respeito de sua própria identidade. A pesquisa, então, provoca a emergência do sujeito histórico. O pesquisador emerge na realidade socio-histórica como um ser singular, em uma sociedade singular. Fica estabelecida uma relação de questionamento entre a singularidade do pesquisador e a singularidade do assunto que ele se propõe a examinar. Assim, pensar a estrutura familiar contemporânea e a construção de comportamentos modificadores é tarefa complexa. Exige reflexões diante do conceito tradicional da família. Demanda um posicionamento do pesquisador. A questão é de relevo, em um trabalho que pretende investigar a subjetividade da família/sociedade, circulando em diferentes áreas do domínio do homem: a psicologia, a comunicação, a ética e a política. Se uma técnica de pesquisa, isoladamente, não me permitir obter um dado evasivo, o bom senso indica que deveria utilizar outras, e várias, na tentativa de fazer com que a soma de diversas abstrações possa resultar em algum tipo de concretude. Procurava reunir indicações a partir dos enfoques pluridimensionais que estavam ao meu alcance, me valendo da pesquisa bibliográfica e documental. Se os resultados obtidos pudessem ser considerados convergentes –, conquanto não chegado à prova, no sentido jurídico –, poder-se-ia admitir o suporte necessário ao que permanece sendo, afinal de contas, um estudo importante mas nunca um juízo definitivo. Para levantar os dados objetivos sobre qualificações, comportamentos, opiniões e atitudes do universo populacional que me interessava, tinha que efetuar ao longo do desenvolvimento do trabalho, observações e vivências pré-organizadas divididas em várias etapas que deveriam se complementar. Há duas análises às quais os dados podem ser submetidos: a qualitativa e a quantitativa. Ambas apresentam vantagens em relação aos objetivos do projeto, mas guardam características distintas. Através da pesquisa qualitativa, podem ser extraídos resultados como opiniões, atitudes, sentimentos e expectativas; ítens que não podem ser
    • 20 20 quantificados por serem diferentes de acordo com os sujeitos. São estes elementos os que mais interessavam. Diferentemente da análise qualitativa, que requer uma avaliação altamente escrupulosa, os resultados da análise quantitativa podem ser transformados em dados quantificáveis apresentados em gráficos e tabelas, prestando-se a mentiras comprováveis, criando estatísticas irreais regidas por critérios inescrutáveis na formatação de “verdades”. Neste tipo de pesquisa há uma grande preferência pelas amostras com resultados e análises revelados através de tabelas. Já a pesquisa qualitativa procura entender motivações, o que vai além de números, e corresponde a uma subjetividade maior. Minha pesquisa vinha com pressupostos humanistas. A abordagem humanista tem sido uma importante corrente nas ciências sociais, pois rejeita que apenas os números possam revelar o cerne da vida social e enfatiza ainda que o estudo da vida humana é, essencialmente, diferente do estudo de outros fenômenos, requerendo, portanto, uma metodologia diversa daquela proposta pela concepção positivista. Tentar reduzir as palavras e os atos das pessoas a equações estatísticas faz com que o pesquisador abdique do lado humano da vida social. Na pesquisa qualitativa o pesquisador parte de focos de interesse amplos, que vão sendo definidos à medida que o estudo avança. Era isso que desejava. Ter por objetivo observar o máximo possível a realidade construída e constitutiva dos indivíduos, interagindo nos seus mundos sociais para entender situações únicas como parte de um contexto particular e suas interações na família. A preocupação principal aqui era entender o grupo social, a família, em sua multiplicidade no cenário brasileiro, sob a perspectiva dos atores e não do pesquisador, correndo o risco de ver destruídas todas as minhas hipóteses. Novas hipóteses foram construídas numa troca de experiências, processos, sentidos e conhecimentos. Foi preciso que como pesquisador me colocasse na perspectiva do outro, não sendo o outro, o que daria a possibilidade de sair desta condição imaginária quando quisesse.
    • 21 21 O papel da Midia Constatava que a dicotomia das informações provenientes da produção intelectual divulgada pela midia, vem desvirtuando a integridade do indivíduo na sociedade brasileira e as conseqüências sociais que isso provoca podem ser sentidas no núcleo familiar. Passando para o plano do comportamento, pretendia demonstrar a necessidade de alterar as normas gerais que hoje legitimam as ações predatórias, reproduzidas no cotidiano das famílias e na mídia. Nesse contexto, esperava que fosse proveitosa uma percepção criativa própria, com estrutura histórica e dinâmica como fruto de uma enorme ligação com a realidade. Não só teorias ou terminologias fechadas e exclusivas de grupos especiais. Seriam válidas as vivências que guiariam o meu olhar sobre o material coletado na mídia impressa contemporanea. Ao término do século XX, batizado por muitos como o “Século da Comunicação”, ninguém mais discute que a mídia é poderosa e poucos discordam de que pode ser manipuladora e manipulada. Mas a mídia não é uma entidade personalizada, com desejos e aspirações singulares aos homens livres. A mídia é representação do tempo e da sociedade em que está instalada. É a sua reprodução. Não ser claro, isto é, fingir que se informa a verdade, não se fazer entender, é uma das estratégias da manutenção de um poder corrompido pelo medo dos confrontos a que os questionamentos costumam levar. Cria-se a sociedade das charadas e quebra-cabeças, com valores artificiais, fazem-se as caricaturas dos modelos idealizados e desejados, em exaltações doentias que afastam a realidade. Perdem-se os contornos na ausência da forma. Para estudar-se os comportamentos expressos na mídia era necessario fazer algumas colocações sobre a teoria da comunicação. O desenvolvimento de estudos mais sistemáticos sobre a comunicação é conseqüência, antes de tudo, do advento de uma prática da comunicação: a comunicação de massa. A teoria da comunicação é o conjunto de estudos e pesquisas sobre as práticas comunicativas. Porém, este conjunto é constituído por uma multiplicidade de conhecimentos, métodos e pontos de vista bastante heterogêneos e discordantes.
    • 22 22 Nesse conjunto diverso um primeiro autor que me servia como referência era Roland Barthes. Segundo ele, um texto não é apenas um produto estético, mas uma prática significante que não constitui um conjunto de signos fechados com um sentido único a ser encontrado, mas é um jogo estabelecido entre um volume de marcas em deslocamento. Podemos observar, pela semiótica de Barthes, que o texto implica um diálogo entre texto e leitor. Para um outro autor, Wolf, há uma tradição, principalmente dentro dos estudos americanos sobre os efeitos da comunicação, que pressupõe uma onipotência dos meios de comunicação. A síntese dessa tradição é que cada indivíduo é diretamente atingido pela mensagem veiculada pelos meios de comunicação de massa. Sua preocupação básica é justamente com esses efeitos. Essa concepção da ação comunicativa, como uma relação automática de estímulo e resposta, reduz a ação humana a uma relação de causalidade linear, e reduz também a dimensão subjetiva da escolha em favor do caráter manipulável do indivíduo. Por outro lado, a semiótica constitui um campo autônomo de estudos, composto por diversas perspectivas, que se desenvolvem de forma paralela à teoria da comunicação. Por si só, ela representa um complexo âmbito de estudos que não se preocupam nem com o processo comunicativo como tal, nem com a relação comunicação-sociedade; o centro da preocupação é a mensagem. Todos os sistemas de signos, e não só a língua, são estudados pela semiótica, a partir de unidades significativas, das definições de signo e símbolo, significante e significado, entre outras, na busca do processo de desencadeamento de sentido, do mecanismo de significação. Estas são algumas das possibilidades no estudo das mensagens. As tendências mais recentes buscam os elementos do processo comunicativo, na investigação do material simbólico veiculado pelos meios de comunicação de massa. Embora as análises semióticas e semiológicas não sejam estudos sobre o processo comunicativo mas apenas sobre um de seus elementos – a mensagem –, o desenvolvimento dessa vertente de estudo trouxe um grande avanço para a teoria da comunicação: a identificação do ato comunicativo como processo de significação e não apenas como um fenômeno transmissivo, linear, que foi a tônica das análises efetuadas até então.
    • 23 23 A apreensão do fenômeno comunicativo como significação implica considerar a especificidade dos processos da ordem do simbólico, da atribuição de sentido, da formação de imagens – o que vai de encontro à lógica transmissiva e linear dominante. A mensagem como significação não seria, pois, um elemento fechado em si mesmo, algo que sai de um emissor e chega a um receptor tal qual saiu. A idéia de um intercâmbio de sistemas é que coloca a dinâmica de significação como um processo de negociação. Portanto, pensar o papel da mídia na construção de comportamentos não implica uma análise mecânica, na qual se pressupõe que a imprensa constrói comportamentos de forma unilateral. Os meios de comunicação de massa, embora desempenhem papel fundamental na sociedade contemporânea, não são uma via de mão única, que simplesmente manipulam os indivíduos e suas identidades. Busquei suporte em Jean Baudrillard, que compreende o papel e o poder da mídia na sociedade contemporânea e a mensagem veiculada pelos meios de comunicação de massa como um sistema conjunto da informação e da mídia. Ele faz a analogia a uma gigantesca máquina produtora do acontecimentos, com valor permutável no mercado universal da ideologia, do starsystem, da catástrofe. Em suma, produtora do não- acontecimento. A abstração da informação é a mesma da economia: lança uma matéria codificada, decifrada de antemão, negociável em termos de modelos, assim como a economia só lança produtos negociáveis em termos de preços e de valor. Entra-se aí no trans-histórico, ou no transpolítico, onde os acontecimentos não ocorrem verdadeiramente, em função de sua produção e de sua difusão “em tempo real”, onde se perdem no vazio da informação (assim como a economia se perde no vazio da especulação). A esfera da informação é como um espaço onde, depois de se terem esvaziado os acontecimentos de sua substância, recria-se uma gravidade artificial e recolocam-se os acontecimentos em órbita em tempo real, em que, depois de desvitalizados historicamente, são projetados na cena transpolítica da informação.Assim, pude fortalecer o conceito de que a mídia desempenha papel importante na formação de identidades. Para Baudrillard, a sociedade atual se encontra em um processo catastrófico, e não de crise, no sentido de um “desregramento de todas as regras do jogo”. Estamos entrando num processo de realidade, de positividade, de acontecimentos, de informação em
    • 24 24 demasia, o que significa entrar em um estado não contraditório, e sim paradoxal. O mundo pós-moderno está centrado em um mundo coisificado, ditado pela tecnologia, pela genética, pela realidade virtual pela comunicação e, finalmente, pela informação. Dessa maneira, pensar a sociedade contemporânea pela via da construção de novos comportamentos e de uma nova família é uma tarefa imbricada com a análise do papel da mídia em um mundo globalizado. Mas esta análise deveria partir da compreensão da mídia não apenas como manipuladora de identidades, e sim como veiculando uma mensagem que engendra e parte de um conjunto de significantes e significados que estabelecem uma permanente relação entre o texto e o seu leitor e a relaidade social que a cerca. Chegava `a Família como expressão da menor estrutura do núcleo social.
    • 25 25 3- As relações sociais construídas a partir da família. Custaria [ a Dª Evarista] duvidar: o marido era um sábio, não recolheria ninguém à Casa Verde sem prova evidente de loucura... (Machado de Assis – O alienista) Na relação entre pais e bebês já se encontra o germe de relações sociais mais amplas. Isso fica claro na idéia de responsividade (receptividade) interpessoal, um conceito representado em psicologia pelas duas faces de Janus: a experiência individual do self e a que inclui o indivíduo e o self como partes integrantes de algo maior, no caso um sistema midiático de interação. A interação pode compreender algumas dentre as seguintes variáveis relacionais: sensibilidade interpessoal, consciência empática, previsibilidade ou consistência interpessoal, previsibilidade, não-intrusão, disposição emocional (engajamento). Todas estas faces da responsividade têm seu reflexo na vida adulta. No Ocidente elas são baseadas no modelo tradicional de família. Com a emancipação feminina isto tem se modificado. O elo da relação entre a mãe ou cuidadora e o bebê traduz o mundo para o universo infantil. Os primeiros registros deste contato tornam-se referências para o futuro adulto. A noção de contingência está implícita pois o domínio interpessoal depende das ações do outro. A nova postura materna pode modificar as relações futuras dos adultos devido à nova contingência das relações entre mães e filhos. A presença dos vários tipos de responsividade acima apontados podem formar adultos mais aptos ou não para o diálogo ético-político e para o próprio crescimento. Os níveis relacionais, enfim, são regulados por duas pontas: os parceiros envolvidos na relação e os conceitos
    • 26 26 transcendentes que determinam a relação. Isso forma um sistema, ao qual a responsividade, como domínio de pesquisa, deve sempre se remeter. A teoria dos sistemas familiares pode ser elaborada através da compreensão destes sistemas, nos quais os parceiros e o status da relação não podem ser analisados separadamente. A responsividade pode ser observada em outros grupos sociais e não apenas na família. Embora este conceito seja inerente à relação com bebês, é possível compreender que ele se estende ao adulto e à sociedade. Diante disso posso levantar a seguinte hipótese: o individualismo radical do Ocidente hoje tem no plano familiar um dos principais eixos de sustentação. A insuficiência da visão individualista Em nossa sociedade observamos a exacerbação do individualismo, a princípio um discurso igualitário. Este discurso, ao responsabilizar a todos, na verdade absolve os cidadãos médios de pensar. Ele delega-o aos cidadãos de maior prestígio. Quando se perde a capacidade reflexiva – substrato ideológico –desresponsabiliza-se do político. Indivíduos são iguais, pessoas são diferentes, de acordo com a rede social em que estão inseridas. As pessoas nem sempre se sentem responsáveis por aquilo que o conceito de indivíduo impõe justamente por causa do individualismo, termo que pode ser usado para analisar uma sociedade formada por pessoas que se fecham em si. Precisei, então, saber mais sobre o individualismo.No Ocidente seu surgimento fez emergir a fragmentação. O indivíduo passa a ser a totalidade, o fragmento do conjunto social em que vive. A gênese histórica disso é religiosa, prisma pelo qual se interpretam todos os fatos sociais, políticos e econômicos. Vem a construção da alma. Mas é a falta de intermediação, com a leitura da Bíblia em Calvino, que cria a linha direta com Deus. Então, a ética protestante fundamenta o capitalismo com a noção de poupança como prova da proteção divina. A acumulação e o direito à propriedade privada são os seus alvos. Em contrapartida a ética capitalista não tem que provar a salvação divina, que reside na economia por si. É aí que o todo social tem que ser protegido, igualdade e liberdade funcionando como freios da ganância individual. A ética é entendida como proteção pessoal, que se torna mútua. Esta lógica emancipa-se e torna-se a racionalidade econômica, mas seu fundamento é, sobretudo, religioso e onde a base da racionalidade pode ser o irracional (misticismo). O fio da sociedade moderna convive na divisão da explicação psicológica com a explicação científica. O individualismo, responsável pela construção do poder capitalista, cede lugar a uma complacência generalizada. A busca do conhecimento vai significar poder e relevância social. Cria-se o sujeito do individualismo epistêmico, com escolhas racionais que conduzem a ação. Isso pode ser verificado no reconhecimento da competência, onde a mobilidade social é possível.
    • 27 27 Mas, a cada processo de transformação da burguesia – que passa de uma classe para outra por imitação (são os novos nobres) –, a elite inventa outros padrões para manter a diferenciação. Este modelo perdura até o século XX como paradigma da Ciência. O mundo fáustico, contrário à tradição, precisa da intervenção do Estado para a economia moderna. Um Estado monopolizado pela classe dominante. O indivíduo moral, senhor de si, autônomo, é uma construção social, dependente do retorno ao respeito aos direitos naturais do homem, antes das diferenças na acumulação de capital. Será que tudo que as pessoas desejam é prestígio e reconhecimento social? Recompensas comuns num sistema econômico em que o público e o privado não se confundam – mas impossível na capilaridade do sistema social moderno. A ótica do que é público e privado sofre uma reviravolta. Considerei a possibilidade de ser partícipe de um momento histórico em que as superestruturas políticas e ideológicas estão enfraquecidas. As instituições civis e políticas estão rompendo seu equilíbrio, a socialização do capitalismo não é mais o desejo da instalação de um regime político mas a urgência da constituição de uma nova ordem social. O aparato do Estado tem atualmente que passar por uma superação radical da fragmentação (paradoxalmente globalizante), propiciando ao homem moderno transceder barreiras de gênero e classe social. A fluidez da economia, a absorção das necessidades locais pelo cosmopolitismo internacional fazem com que a sociedade crie o “terror” da antropofagia, própria da sua natureza autodestrutiva, em vez da superação das condições de nascimento. O sujeito passa a fazer parte do todo como objeto. Mas, o todo revelado na sua crueza, deixa clara a ascensão de um novo espectro na distinção entre o que é aberto e o que é velado. O indivíduo passa a ser explicado por si só. No individualismo, a referência é o eu-indivisível. Ele é todo nele mesmo. A organização da vida, a disciplina e o romantismo mantidos pela utopia gestam o espaço psicológico do mundo atual. A constituição do indivíduo é, essencialmente, a expressão do desenvolvimento das potencialidades pessoais, que o tornam auto-suficiente. A educação entra como a possibilidade de fazer florescer o que se é. Dá-se a predominância do ego sobre o superego, no plano da política os espaços públicos são levados para os conceitos privados. Uma das questões centrais da teoria política diz respeito à relação entre o público e o privado, entre a ação individual e a ação coletiva, interesse privado e interesse público, escolha individual e escolha coletiva, vontade particular e vontade geral, indivíduo e sociedade. O que se deseja, desde o romantismo, é o ser humano natural, mas está cada vez mais difícil achá-lo em sua humanidade. Uma nova preocupação com o indivíduo e a busca de formas criativas devem determinar as nossas vidas na sociedade atual. Para completar esta reflexão, referi-me ao texto de Postman que trata do tecnopólio como uma ameaça e um desafio contemporâneo ao individualismo. Diz que no tempo em que a tecnologia se multiplicava em seus triunfos geniais, como nas últimas décadas, velhas fontes de crença estavam sendo encurraladas: Nietzsche anunciou a morte de Deus; Darwin afirmou que a divindade humana passava por caminhos estranhos; Marx argumentou que a História tem uma agenda própria, e que todos somos levados por ela sem considerar nossos desejos; Freud enunciou que não suspeitávamos de nossas necessidades mais profundas; o behaviorista John Watson demonstrou que o livre-arbítrio é uma ilusão; Einstein, que tudo é relativo. Mais recentemente, Hawking, o maior físico
    • 28 28 da atualidade, revê seus cálculos sobre os buracos negros e declara: eles não são o caminho para um universo paralelo, ainda que isso frustre os amantes da ficção científica. No mesmo contexto desta reflexão poderia acrescentar ainda a análise de Hall, ao citar a contribuição de Copérnico, cuja descoberta de que a Terra gira em torno do Sol representou a primeira grande desilusão do homem a respeito de sua própria grandeza e centramento. Ele descreve que no século XX há pelo menos cinco modos importantes de mostrar esta ruptura crescente: – Althusser parte da semi-autonomia, na qual o signo abre-se de modo a que o significado (sentido) seja superado pelo significante, amarrando-se sempre a um fantasma de percepção do referente, como condição de autopreservação (o rompimento dessa amarra é característica da pós-modernidade). Mesma semi-autonomia pode ser transposta para a História, na qual o homem tem de respeitar as condições sociais. O homem, como sujeito da História, deixa de existir: sem uma essência universal (a História é relativa a cada povo) deixará de ser individual acima do social; – Freud provoca o segundo grande descentramento (primeiro, cronologicamente), com sua teoria do inconsciente, que passa a reger nossa identidade, a sexualidade e a estrutura de nossos desejos. O que era até 1900 um sujeito racional passa a ter três instâncias, id- ego-superego. – A lingüística, com Ferdinand de Saussure, volta a deslocar o sujeito, mas agora numa direção que nos faz perceber que ele não fala por si mesmo nem para expressar suas verdades, e, portanto, não é o autor de sua fala. A linguagem preexiste ao indivíduo, não sendo um sistema individual, mas social, que ao falar está ativando um código simbólico repleto de significados sociais; – Foucault também influiu no processo de descentramento. Hall destaca que, além de reforçar que não existe autoria, Foucault estabeleceu a genealogia do sujeito moderno, com seus estudos de micropolítica, efetuados em presídios, hospitais, oficinas, quartéis, clínicas etc. Neles, identifica um novo tipo de poder, o poder institucional, voltado para a normatização, a vigilância e a punição. Esse poder vigia, controla e pune o indivíduo desde que individualizado, a partir de fora: aí se definem o infrator, o louco, o doente, o esquisito etc. Nessa instância, a mania por ginástica aeróbica, alimentação macrobiótica, condenação ao fumo e às drogas, tudo, enfim, que, sob pressão da mídia diz respeito à política do corpo encontra sentido Outro fator decisivo para o descentramento, seria dado pelas reivindicações das minorias, uma politização da qual o feminismo foi a vanguarda nos anos 60, junto com a pós- modernidade. Seguem-se movimentos igualmente descentradores do sujeito racional e universal, os gays, os negros, os revolucionários do Terceiro Mundo, os pacifistas, os estudantes rebelados, os Verdes. Sua ação objetivou-se contra as instituições estabelecidas a Leste e Oeste, não indo diretamente ao sujeito. Preconizaram em lugar da burocracia os atos de micropolítica; apelaram sempre para a identidade do segmento envolvido na ação, cujo sentido era paradoxalmente marcar a diferença; entenderam o pessoal como político; questionaram a divisão social do trabalho e os papéis discriminadores aí estabelecidos. Na pós-modernidade, esgotado praticamente esse campo de luta e conquistado o lugar ao sol, o feminismo parte para veredas secundárias, como o lesbianismo militante. De qualquer forma, necessita de um Outro que confirme o Eu, tendo perdido força a “opressão machista”.
    • 29 29 Estes fatos faziam-me desconfiar dos nossos sistemas de crença e em nós mesmos, mas conferia que a defesa do individualismo continua como preocupação dominante do pensamento político, ético e filosófico contemporâneo. mesmo com seus males, o individualismo mantém-se salvaguardado, enquanto tudo e todos podem ser questionados. Porém, como diz Octavio Paz em O labirinto da solidão, “entre viver a história e interpretá-la, nossas vidas passam”. Considerava que era urgente repor o indivíduo no âmbito da moral. Partindo do que é a ética e para que servem os critérios morais, cada sujeito se responsabilizaria pelo desenvolvimento coletivo. É um processo que se dá, privilegiadamente, no interior da família. Mas deve evoluir para um tipo de grupo que produza solidariedade e compromisso ético. Um modelo prematuro para os tempos de hoje. A ética da sociedade moderna exige ser que os sujeitos passem além de espectadores: participantes, atores da cidadania democrática, portadores de novas idéias, agentes de mudanças. É o oposto do anestesiamento provocado pela vulgarização da delinqüência, as clonagens sem ética, o aumento da criminalidade e a perda das autoridade paterna. Há, sem dúvida, um aspecto cultural nesta patologia social. Cresce na ética social vigente o descompromisso entre ação e reação, causa e efeito, desejo e satisfação, calcados na impunidade e nos modelos deformados que ocorrem nas famílias, vitrine destas distorções. Quadros como estes são emblemáticos dos tempos esquizofrênicos, que levam Raquel Paiva a constatar: "É necessário pontuar que a origem do atualmente tão propalado atomismo social esteja na excessiva ênfase - nem sempre muito visível, mas nem por isso menos eficaz - que na história da humanidade deu-se ao indivíduo, em detrimento de uma visão de coletividade". É na família que se define a pessoa A família particularizada, incluída em meu foco de exame, faz parte de um desenvolvimento histórico da idéia de família-padrão no Ocidente. Ela submete-se e a todos os seus membros ao poder da instância do consumo, máxima da sociedade contemporânea, obediente à publicidade e aos meios de comunicação de massa. Esta família tem como meta a individualização precoce e a regulação interna dos afetos, enquanto há outras culturas onde as relações sociais são muito próximas e a compreensão do self é de co-agente, numa relação de dependência com o grupo. Minha crença é de que só com educação se desenvolve a adequada noção de self. É ela que faz com que o agente se compreenda e se auto-avalie, considerando-se bem- sucedido ou não. A auto-estima é a base do desenvolvimento do self, e por isso deve ser direcionada pela família e pelo social de forma salutar. Até que ponto o self autônomo pode mudar a própria cultura em que vive?
    • 30 30 Há chance para a criatividade. A rigidez com que um segmento social de adultos despreparados tenta consertar, corrigir e desvalorizar a criação original é a razão das inibições da idade adulta. Um uso de poder perverso. Muitos adultos nem pensam em tentar corrigir, por lhes faltar ferramentas. Essa “desistência” que chamo de liberalidade, mascara o desinteresse e a impotência. Não se vê em nossa sociedade a tendência para ampliar as opções de formação de futuros adultos, já que isso favorece o estímulo dos que buscarão intervir na sociedade, o que parece indesejável no contexto atual. Mas mesmo submetidos a instituições sociais, os indivíduos trabalham de forma própria as crenças que recebem, não estando apenas passivos. De acordo com o self desenvolvido pela família haverá mais transformação, até mesmo na negação da própria família. Diante da capacidade adaptativa, o natural e o cultural interagem no aprendizado do social. Cada vez mais, as interações internalizadas podem ser elementos de troca. Os processos interpessoais, como construção, são as bases dos processos intrapessoais. Daí nasce a questão: é a intersubjetividade produto ou conteúdo? Parece-me que as duas coisas. A base é inata, começa com uma sintonia e se transforma rapidamente no contato com outros seres. Os níveis de subjetividade atencional produzem a socialização e o estabelecimento de relações entre os seres humanos. A atenção voluntária que é mediada pelo outro ser humano é diferente da atenção conjunta onde se compartilham valores e crenças. O alicerce é a cultura. Convém que os scripts sejam construídos para o futuro adulto. No caso de uma sociedade individualista, o princípio básico das relações só poderá vir desta fonte primeira: a família. É nesse meio que se constrói o indivíduo social. A família como instituição primordial da socialização dos indivíduos, porém não a reduz a imperativos funcionais. É preciso banir o repúdio às contestações (a não ser que se chame de contestação um “É proibido proibir” – aforismo sobre o qual nada se pode construir). O que me preocupa – é a falta de valores familiares na pós-modernidade. A família tradicional, desatualizada e reacionária, constitui-se de loosers que nada têm a dizer.
    • 31 31 4 A loucura, objeto dos meus estudos, era até agora uma ilha perdida no oceano da razão; começo a suspeitar que é um continente. (Machado de Assis – O alienista)
    • 32 32 O sujeito fractal de Baudrillard A idéia de sujeito, nos dias de hoje, retorna sobre si mesma, construindo o que se denomina “sujeito fractal”. As transformações nas estruturas mentais produzidas pela sociedade de consumo, a sua hiperinformação (desinformação para mim) é uma abundância indigerível de signos que conduz à fatal alienação, uma vez que a própria busca da felicidade vai desaguar no mascarar das desigualdades sociais. O denominador comum para a organização social seria a personalização publicitária (o consumismo), que, girando como um cata-vento, ao sabor dos interesses econômicos, induz o “sujeito fractal”. Tal “sujeito fractal” não tem nenhuma positividade, nenhum tipo de ressurreição do individualismo (mesmo narcisista). Toda a sua digressão inicia-se na tentativa de ligar o desaparecimento do sujeito ao individualismo ressuscitado, consubstanciado no individualismo narcisista contemporâneo. Nesse ponto reside a idéia de um sujeito fractal. Na verdade, não há mais a idéia de sujeito como dono de uma identidade, que é sua essência. . A pós-modernidade, ao fim de um processo de dessencialização da identidade, exalta totalmente a noção construtivista da identidade e retira-se de qualquer essencialismo, mesmo reconhecendo que alguns importantes autores – entre eles Stuart Hall – negam simplesmente o conceito de identidade e, portanto, impedindo que haja paradoxo. Para Esteves, a noção de identidade pós-moderna, encerra em si esse paradoxo, pois não deixa transparecer a mínima tensão entre pensamento e realidade, indivíduo e sociedade, elemento e todo. Este é, então, o paradoxo das identidades de nossos dias. Nossa miséria começa com as necessidades de eleição na construção de nós mesmos, com possibilidades aparentemente ilimitadas, para depois depararmo-nos, na vida real, com limitações drásticas, que impedem a mudança: a verdadeira escolha e construção da nossa identidade, que dificultam o nosso próprio reconhecimento e nos deixam perplexos com aquilo que nos tornamos. Sem a nossa vontade ou mesmo, na maioria das vezes, contra a nossa própria vontade. A idéia de que nossa personalidade tem que ser construída nos impõe uma ansiedade a respeito do que deveremos ser. Em geral, tal ansiedade vem do que a
    • 33 33 sociedade estabelece como padrão ideal para as pessoas. Tal padrão é “a instância do consumo” e tal instância gera o indivíduo fractal. Mas, acreditava que poderia ser possível, encontrarmos nossas próprias identidades, apesar das limitações drásticas que impedem a mudança. O risco é de como ficamos. No narcisismo esquizofrênico? Isto seria a confissão de derrota do caminho apontado? Resistia a uma mensagem de fé no futuro, tornando claras as fases de transição, apontando as deficiências e as incompreensões vivenciadas. No entanto, as transformações recorrentes nas sociedades se sobrepõem ao indivíduo. Ao mesmo tempo que ele se produz, encontra-se em meio a uma realidade provisória, sempre com algo de novo a se voltar sobre sua subjetividade. Dessa forma, ele nunca consegue construir aquilo que idealmente quer para si, uma vez que seu desejo inclui as facetas necessárias à vida em sociedade, que estão em constante mudança. Portanto, sobre a identidade dos sujeitos na sociedade pós-moderna, pode-se dizer que é extremamente fragilizada, que se apresenta como uma realidade cada vez mais instável, resultado de processos sociais complexos da vida coletiva nos nossos dias Esta é a encruzilhada de uma sociedade altamente individualista: a existência de um narcisismo esquizofrênico, caracterizado pela idéia de que o reconhecimento pleno das qualidades do indivíduo pelos padrões de seu grupo é impossível, uma vez que existe um corpo social extremamente complexo que lhe impõe sempre mais. Portanto, para que sua auto-estima não se reduza a nada, o indivíduo volta sua libido para seu próprio ego. Ama, então, a si mesmo e a sua constante transformação, encontrando nesta faceta camaleônica de sua personalidade dessencializada a realização de sua auto-estima. Só assim não se sentirá totalmente irrelevante para si e para o outro. Na verdade, fragmenta- se para não se autodestruir e mantém um equilíbrio tênue entre esta sobrevivência e a autodestruição. Conto do processo histórico pelo qual chegava à idéia de fragmentação dos sujeitos, ou seja, chegava ao sujeito fractal de Baudrillard. Para este, o sujeito agora é como um objeto fractal, que não é apenas fragmentário, mas despedaçado. O fractal contém, em cada uma das suas dimensões, o seu todo. Não é mais o indivíduo no sentido tradicional, mas estilhaçado em múltiplos fragmentos, dos quais cada um se assemelha a outro. O sujeito perde a sua síntese e torna-se múltiplo, vagueando de uma imagem a
    • 34 34 outra, e essas imagens são a melhor corporificação desta ruptura. De acordo com esse sistema, cuja figura central é o sujeito fractal, não há mais nenhum outro, restando apenas o eu estilhaçado, que se assemelha, sobretudo, a si mesmo. O termo “persona” deixa ver a superficialidade da determinação daquilo que somos numa série de facetas, o que permite fazer contato com o outro, pois não há uma essência de identidade, mas vários papéis assumidos no palco, de acordo com o grupo onde as relações se estabelecem. A partir desta idéia se descortina uma sociedade esquizofrênica. Todos preocupados em buscar sua auto-estima e exibi-la para não se destruírem. Mas auto-estima traduz inteireza, o que não combina com a idéia de consumista-giroscópio e o se saber descartável. A auto-estima na pós-moderna, só poderia advir de uma coletivização da capacidade de transformação, que dá prazer ao ego individual em meio a uma sociedade onde não se sabe o que esperar do outro. O sujeito fractal não tem ponto de apoio sobre o qual se edificar em eu, salvo as imposições mutantes da publicidade e do mercado, que o esvaziam e o tornam merecedores da exclusão e substituíveis. Ao indivíduo resta tornar-se máscara de si mesmo, pelas quais atua com atos específicos em momentos distintos na relação com os outros que o cercam, combinando- se circunstancialmente, sem essência de uma personalidade além daquela denominada pela característica mais marcante do animal, a que chamamos camaleão. Assim, chega-se a processos esquizofrênicos que se incorporam ao ser num processo cultural, pois o prazer do indivíduo pode vir até mesmo do fato de ser contraditório consigo mesmo. Andrade, psicanalista, refletindo sobre questões da contemporaneidade, diz que a pós- modernidade tem incluído nos currículos dos estudiosos a subjetividade e a sensação de um sujeito caótico fragmentado e mobilizado que, no senso comum, tem sido considerado o sujeito estressado. Esquizofrenia como indiferença narcísica O sujeito fractal contém a cristalização de diferentes looks em uma sociedade fragmentada, na qual o sujeito se dilacera em várias tribos, pequenos grupos que demonstram que, nesse jogo de aparições cíclicas, há mais máscaras do que indivíduos.
    • 35 35 Há, na verdade, uma indiferenciação radical, onde todos são clones de si mesmos, não importa o papel que representem. Não há drama, nem tragédia, mas identidades indefinidas que precisam produzir diferenças em solos indiferentes. Para a sociedade em que vivemos, este processo não é nem ao menos trágico, pois ocorre outro fenômeno: a indiferença. Não há mais nem alienação, nem ruptura provocada pela alienação. O que ocorre é a simulação, pois nos encontramos em uma área de identidades sem formato que precisam produzir diferenças infinitas, ao mesmo tempo que essas diferenças são compreendidas como naturais e parte da existência, sendo encaradas com extrema ingenuidade. Portanto, é fatídico! Tal processo se dá na existência de uma sociedade eminentemente narcísica devido a seus procedimentos voltarem-se para a satisfação individualista de cada ser. Seres que são as engrenagens que movem este corpo social, que o faz crer que a satisfação egocêntrica de seu prazer é a medida para as relações coletivas. Daí vem nossa esquizofrenia coletiva. Dentro do conceito de esquizofrenia analisado por Freud no interior de seus estudos e voltados mais para os casos particulares, sabia que o termo “esquizofrenia” não foi cunhado por Freud, mas sim por E. Bleuler para designar um grupo de psicoses cujas características principais são a incoerência do pensamento, da ação e da afetividade. O indivíduo volta-se para si, abandonando-se a produções fantasmáticas, em uma atividade delirante, relativamente marcada e mal sistematizada. É uma doença crônica. Evolui no sentido da deterioração intelectual e afetiva. No entanto, ao evocar Freud e Bleuler, não estaria, me referindo à esquizofrenia individual mas ao que ela assume de social. Para mim, o mais importante são as relações que Freud fez entre esquizofrenia e narcisismo. Isso seria extremamente necessário às minhas futuras reflexões sobre a sociedade atual e o papel que a família desempenha neste quadro. Baseada no texto Introdução ao narcisismo, publicado pela primeira vez em 1925, escrito em 1914, eis o conceito freudiano. Freud, diz, que pacientes esquizofrênicos caracterizam-se por dois aspectos: megalomania e desinteresse pelo mundo externo. Incrivelmente, estas são características do tipo de sujeito e da sociedade contemporânea, que se auto-reproduzem adorando a si
    • 36 36 mesmo, sua própria face, fragmentando-se em identidades múltiplas, estanques, impossibilitados de se integrar. Na verdade, o sujeito pós-moderno vive este quadro dramático num narcisismo esquizofrênico coletivo. Os esquizofrênicos, para Freud, são diferentes dos neuróticos. Os neuróticos perdem o interesse pelo mundo externo, mas desviam sua libido para suas fantasias, que se confundem com a realidade. Já os esquizofrênicos não transferem sua libido para a fantasia. O que fazem, então, com ela? A megalomania serve para explicar esse aspecto. Ao buscar subsídios no comportamento infantil e na dos povos primitivos, Freud diz que neles existem características megalomaníacas como, por exemplo, a onipotência do pensamento e a visão de eficácia da mágica. Isso reflete uma visão disposta a partir de seu próprio ego, para onde se volta toda a libido, chegando ao ápice do narcisismo que é a esquizofrenia, acreditando-se capazes de tudo e amando-se acima de qualquer coisa. Um doente! No entanto, pensava que o estabelecimento, a qualificação de “doente” obedece a interesses sociais vigente, com referencial estabelecido por determinação das classes dominantes. Historicamente, muitos foram os enganos cometidos por causa dessa definição, o que fazia conjecturar que o considerado doente pela sociedade, muitas vezes, na realidade é o são, pois, mais que megalomania e desinteresse, nutre verdadeira ojeriza pela falsidade do mundo externo, recolhendo-se ao interior de si onde crê encontrar sua individualidade íntegra. Numa leitura possível, que parece ser a dos antipsiquiatras: o indivíduo desloca sua libido para os objetos, mas, ao repudiar (com inteira justiça) a clonagem do mundo publicitário-consumista em que está imerso, repele os objetos que simbolizam essa sociedade e volta-se para dentro da integridade do eu. Seria então um esquizofrênico/são, ao passo que a sociedade seria esquizofrênica/doente. O narcisismo seria, para Freud, uma fase do desenvolvimento de todo ser humano. Esta constatação torna-se importante para o desenvolvimento de futuros conceitos freudianos, pois aqui nasce a idéia de ego ideal. O narcisismo, no curso normal de desenvolvimento humano, para Freud, é um complemento libidinal do egoísmo, do instinto de autopreservação, presente em todo sujeito. Porém, nas pessoas normais, ele
    • 37 37 existe submerso aos seus interesses pelos objetos do mundo externo, para os quais se voltam. Somente nas crianças ele é observado claramente, pois ainda não se transformou em interesse pelo mundo externo:"Esse ego ideal é agora alvo do amor de si mesmo (self- love) desfrutado na infância pelo ego real. O narcisismo do indivíduo surge deslocado em direção a esse novo ego ideal, o qual, como o ego infantil, se acha possuído de toda perfeição de valor. Como acontece sempre que a libido está envolvida, mais uma vez aqui o homem se acha incapaz de abrir mão de uma satisfação de que outrora desfrutou. Ele não está disposto a renunciar à perfeição narcisista de sua infância; e quando, ao crescer, se vê perturbado pelas admoestações de terceiros e pelo despertar de seu próprio julgamento crítico, de modo a não poder mais reter aquela perfeição, procura recuperá-la sob a forma de um ego ideal. O que ele projeta diante de si como sendo seu ideal é o substituto do narcisismo perdido na infância na qual ele era o seu próprio ideal ", escreve Freud. Freud define os impulsos como: a energia de instinto (instinto animal), o instinto do ego (algo como uma força psíquica do humano), a libido do ego (libido voltada para o próprio eu) e a libido objetal (libido voltada para o mundo externo ao eu). Isso ele faz por compreender o desenvolvimento de uma libido sexual a partir dos instintos do ego e transcendendo o puro instinto. Para explicar, o que é da natureza instintiva do homem e o que é da sua natureza psíquica, Freud exemplifica com a distinção entre fome e amor. Isso diferencia instintos sexuais e instintos do ego desde o início. Por isso, Freud tenta manter separado as idéias de algo orgânico e de energias psíquicas. Há uma antítese entre os instintos do ego e os sexuais. A partir disto, surge a noção de catexia libidinal original do ego, como força psíquica, normal em toda pessoa. Esta é, em parte, transmitida depois da infância, aos objetos. Ela pode ser comunicada aos objetos e retirada deles, de acordo com as experiências de cada um. Quando se fala de um ser em estado de paixão, ele se encontra no nível máximo de catexia objetal, já que desiste de sua própria personalidade e volta-se totalmente ao outro. A esquizofrenia é, justamente, o contrário desta postura não necessariamente uma doença. Dependendo da ótica do observador, o esquizofrênico seria são ao retirar-se de
    • 38 38 um mundo decepcionante para dentro de si mesmo, onde sabe ou acredita residir a integridade. Freud procura analisar a transferência de libido no caso de pessoas com doenças orgânicas. Elas negam seu interesse libidinal aos objetos amorosos e voltam-se só para si mesmas e suas doenças. Retiram suas catexias libidinais dos objetos e as retomam para seu ego, o que difere ao ficarem sãs. Libido e ego, aqui, não se distinguem; o egoísmo do enfermo está nos dois. A alteração da libido é, assim, resultado de alterações no ego. O hipocondríaco é um caso patológico do que se narra acima e que ocorre com pessoas “normais”. Ele não sai do estado de egoísmo, mesmo sem manifestações orgânicas de sua doença. Há a neurose de transferência dos interesses nos objetos aos interesses fantasiosos (as doenças). A hipocondria é uma egoista neurose de angústia. Neste contexto o conceito de “normal” entra com aspas por considerar de difícil interpretação o referencial a que estava aludindo. Sobre o egoísmo, tão questionado no foco dos valores judaico-cristão, é fato que ele evita que adoeçamos e coloca que é necessário amar-nos para nos manter saudável, ou seja, é necessário à nossa vida mental a orientação da libido aos objetos. Nos casos de neurose, no entanto, essa libido passa para objetos da própria fantasia. Nos megalomaníacos, volta-se inteiramente para o próprio ego. A libido liberada pela frustração não vai para fantasias, mas sim para o ego. O narcisismo, quando se apresenta desta forma, é patológico e próprio do esquizofrênico. Em certos tipos de patologias, as pessoas adotam como modelo o seu próprio eu. Essa é sua escolha objetal e revela-se narcisista. Nos adultos “normais”, sua megalomania infantil foi diminuída por características psíquicas da psicologia da repressão, através da qual a libido de seu ego foi moldada por um ego ideal. Nem por isso todos ficam, patologicamente, neuróticos. Em geral, os impulsos entram em choque com a cultura e a ética do adulto. Muitos desejos são abafados antes mesmo de virem à consciência. O ego ideal é despertado por terceiros, pelas outras pessoas; ele nasce da vida coletiva que pretende promover o desenvolvimento da capacidade crítica do ser humano. Mas a capacidade crítica do ser humano não pode, por definição de seus próprios termos, ser promovida por uma vida coletiva falseada pela hipocrisia e outros achaques aludidos
    • 39 39 ao longo do texto (hipocrisia, corrida pelo sucesso, afirmação via reconhecimento externo). Ela surge, quando surge, a contrapelo disso tudo. Este ideal substitui o narcisismo. A sublimação do ego real pelo ideal recai sobre os desejos. A libido narcisista também existe em adultos normais. Um exemplo é a auto- estima necessária a toda pessoa, mas isto se dá quando há um equilíbrio entre seu ego real e seu ego ideal. No esquizofrênico, a auto-estima aumenta, mas no neurótico diminui. Neste, o fato de não ser amado diminui a auto-estima, enquanto os primeiros amam a si mesmos, aumentando-a. Em ambos há a dependência do objeto amado. Quando há a catexia objetal, a pessoa apaixonada diminui seu narcisismo em prol do outro. Este amor só pode ser substituído pelo de outra pessoa. O estar apaixonado é um fluir do ego para o objeto amado. O neurótico perde-se no não-amor, e por isso busca a cura na psicanálise. A história está cheia de grandes amores neuróticos, a maioria dos quais se tornou lenda (o suicídio ou assassinato do arquiduque Rodolfo por causa de Maria Vetsera, que morre com seu amante, e o príncipe da Áustria, 1871-1889, personagem de conhecida tragédia internacional, chamada “O Crime de Mayerling”, por exemplo). São pessoas neuróticas que diante de tanto amor e de tanta possibilidade de felicidade preferiram se matar. Mas, na pós-modernidade, esta atitude parece não se sustentar. O neurótico deve retornar ao seu ego, reconstituindo sua auto-estima e equilibrando seu ideal de ego repressor. O medo de perder o amor deve desaparecer na cura pelo amor. As perturbações esquizofrênicas não respeitam esta lógica, pois elas são a transformação do ego em seu próprio objeto, e só dele pode ser retirado o prazer. Pode-se perguntar: que tipo de ego ideal poderia brotar, motivado pela sociedade contemporânea? O que o indivíduo deve ansiar para si é simplesmente a constante superação de si mesmo? Inevitavelmente, em uma sociedade só regida pelo capital e sucesso ocorre o contrário: esvaziamento e adesão aos símbolos de êxito social. Isso, certamente, o induziria a um processo sem fim, e, caso não voltasse para dentro de seu próprio eu, não se esgotaria? E as relações interpessoais, como se dariam nesta sociedade na qual tudo que o outro exige é que se dê o máximo possível, sem reconhecimento algum mas apenas como parte do movimento de um todo social que se acostumou à desestabilização?
    • 40 40 Tanto o outro quanto o próprio eu são incapazes do amor nessa sociedade, pois são incapazes de se reconhecer como elos de uma coletividade que corresponde aos anseios de seu ego. Não é a neurose que nos traga, mas a esquizofrenia, que foi constituída sobre a explosão do individualismo ocidental e da massificação. Até mesmo como sobrevivência do indivíduo, que se ama, para não sucumbir ao processo, sempre frustrante, de uma auto-superação infinita. Quanto à esquizofrenia, como já dito, resulta da sociedade que “construímos” em cima de valores pirotécnicos mais fáceis de nos atordoar, eliminando o medo do confronto com o que seja o sentido da vida. Por isso verificava que nossa sociedade transforma as relações com o outro em relações consigo mesmo. Ao não esperar reconhecimento no outro, o individualismo narcisista faz com que só certifiquemos a nós mesmos para equilibrar nossa auto-estima, além de tornar impossível que reconheçamos algo no outro, além do que tange a nós mesmos. Apresenta-se, então, uma sociedade não só egocêntrica, como egoísta. Na verdade, o outro, a idéia de alteridade, somos nós mesmos travestidos em nossas diversas personas. Nossa sociedade é esquizofrênica porque, em meio à exaltação do indivíduo, desaparece a essência da identidade, o que ocorre pelo desaparecimento do outro, da alteridade, instância necessária à formação de um ego saudável. Só restam os fractais de sujeitos que são outros de si mesmos, onde desaparece a auto-estima, fruto do amor de reconhecimento, e emerge a auto-adoração de um ego fragmentado e falido. Freud diz que para o neurótico o amor é parte da cura, para o esquizofrênico não. Isso ocorre porque antes de saber ser amado ele deve reaprender a viver com a alteridade, e depois amá-la. Creio que o grande exercício da sociedade contemporânea é desaprender a ler “alteridade” sob o manto da hipocrisia e do abandono e re-aprender a vivê-la sem o risco de significar, numa acepção mais ampla, a domesticação do indivíduo. A alteridade no caminho da reconstrução psíquica Essas reflexões serviriam como solução ao imenso egoísmo em que se vive. Não poderia mais achar que deveria estar sempre na superação, mas descobria o caminhar para a comunhão através da consciência de melhoria do conjunto social. Precisaria tentar
    • 41 41 superar a desgraça de um eu centrado em si, em troca de um eu em união com o outro, tentando organizar melhor o que é de todos. A importância desse novo eu, para um projeto social mais amplo e que vise superar a fragmentação das identidades em nossos dias, pode ser relacionada com a ação desse eu em prol do amor confluente. É possível relacionar o novo eu ao self reflexivo. O tipo de eu que se requer para o relacionamento só pode ser baseado na idéia de que o sujeito é quem se autoconstrói. O amor confluente nasce da necessidade de privacidade, mas se preserva na noção de cumplicidade e amizade, é a relação pura, que inclui confiança e responsabilidade. A necessidade destes eus deve, por prolongamento, remeter-se ao conceito de alteridade e à relação do eu com o outro, uma vez que não queria eliminar a individualidade, mas sim recolocar um ego saudável no ser contemporâneo. O amor confluente recoloca a auto-estima do ego, sem que ele deixe sua autoconstrução para trás, ao mesmo tempo que o preserva das frustrações a que levam as impossibilidades de ser totalmente onipotente o que produz a esquizofrenia do tudo querer/nada poder e transportam os sujeitos ao narcisismo, que o faz fractal por salvação. Esta forma de amor recupera parte da essência, sem engessá-la, através da relação do eu com o outro. No entanto, como vimos, Freud afirmava que o amor não funciona como remédio para a esquizofrenia. Antes o esquizofrênico tem de entender o que é o outro, para depois se deixar invadir pelo amor consciente. Este é um dos problemas cruciais da questão da alteridade. Jodelet, em seu texto A alteridade como produto e processo psicossocial, enxerga na alteridade o elo necessário para a recuperação dos sujeitos fractais, a partir do momento em que ela exista com base no amor, na ética, no convívio para a sobrevivência. A alteridade apresenta-se em um duplo processo: de construção e exclusão social. A alteridade que se coloca como elo de construção social é aquela alteridade de fora, de longe e do exótico, que define uma comunidade ao diferenciar-se das outras. A alteridade que se coloca dentro de uma sociedade e que define a exclusão em seu próprio interior refere-se àqueles marcados pela diferença (étnica, religiosa etc.). Uma definição mais geral de alteridade seria a distinção entre o eu e o outro, que nem todos percebem.
    • 42 42 Muitos vêem nela a própria condição para que a identidade exista. Decorre disso a noção de diferença, que, com a idéia de identidade, também define a idéia de pluralidade. Mas como isso poderia se dar no quadro terrível apresentado de uma sociedade em pleno desenvolvimento esquizofrênico? Alteridade é, em geral, um termo somente usado para apontar uma distância radical em relação a uma identidade. Como se passa do próximo ao outro e da diferença à alteridade no contexto do sujeito fractal? Na verdade, uma reelaboração do conceito de alteridade pode ser vista como retorno a uma certa essência, que permita ao sujeito fractal fugir de sua fractalidade e dessencialidade. O próximo é o alter, o outro constitutivo da identidade da pessoa, que se pressupõe como parte de seu superego, de sua estrutura una e coletiva, que a faz viver além de si mesma na busca de uma auto-estima existente além de seu narcisismo. Por que falaria de reelaboração do conceito de alteridade? Há a alteridade excludente que elimina o outro, que o considera não-humano e a alteridade radical que é um grau de diferenciação que nega ao outro sua própria humanidade. Um exemplo bem atual dessa polarização está no Eixo do Mal (Bin Laden) e do Bem (Bush), que demonstra um puro irracionalismo, modelo de “alteridade radical”. Jodelet vai mostrar esse processo no seio de uma comunidade que recebe doentes psiquiátricos e que constrói marcas de exclusão e hierarquização de alteridade radical frente aos doentes (totalmente outros, de natureza distinta dos homens normais), ao mesmo tempo que se define por sua atividade de acolher os loucos frente ao mundo externo. A comunidade, portanto, carrega em si a dualidade. O doente é considerado anormal, ou seja, é não-humano e perigoso. A comunidade que o acolhe é marcada pela crença de estar em constante ameaça. Porém, a alteridade insinua-se também no coração da identidade individual até fazer da pessoa do louco, nas sociedades igualitárias e democráticas, um estranho a si mesmo. A articulação entre identidade e alteridade faz parte de nossa base cognitiva fundamental. A partir daí, se inicia um processo de diferenciação. Há o outro-semelhante, que é o mediador da identidade, da representação que dá sentido ao que o sujeito ressente. Daí vem, nas comunidades, a essência de um nós. Esta é a alteridade de dentro, contraposta à alteridade de fora.
    • 43 43 Isso permitiria ao outro ser aceito na sociabilidade. É esse o tipo de alteridade que acreditava ser algo a se buscar como antídoto para as mazelas de nossa fractalidade. De uma sociedade esquizofrênica nasceria, por necessidade de preservação, na tentativa de sobrevivência, a demanda pelo reconhecimento de uma alteridade que pressuponha admiração e respeito pela diferença, compreendida em sua humanidade. Nos dias atuais também faz parte do individualismo a idéia de uma compreensão egóica da diferença. Talvez por isso seja possível construir, a partir do ego, a compreensão de um alter que o qualifique e o faça se retirar de seu narcisismo, devido a seu próprio prazer autocentrado. Ao querer ser mais generoso, ético e altruísta em seu individualismo, o narcisista também dá prazer a si mesmo, porém deste prazer pode nascer a consciência do outro. É um prazer que pode oferecer um elo de transformação ao esquizofrênico. Ao tentar, em seu narcisismo, demonstrar para si mesmo o desprendimento necessário ao individualista em uma de suas personas – numa sociedade da racionalidade que produz a ajuda –, o esquizofrênico pode deparar-se com a constatação de que a diferença realmente existe e vai além dele, reconhecendo, portanto, um outro real, além de si mesmo, e se abrindo para o amor confluente. Saindo da assertiva hegeliana de que o escravo só se reconhece através do olhar do dono, sua vontade pelo reconhecimento é tal que, na literatura, já despertou grandes paixões e dedicações do escravo pelo senhor. Desta maneira, de dentro da própria sociedade esquizofrênica nasceria a cura devido ao exagero da doença social, mesmo se considerando que sociedade esquizofrênica e alteridade não são necessariamente interdependentes e indissolúveis, em que a condição de uma será a reação de outra. A alteridade independente da esquizofrenia social é característica apenas de sociedades complexas. Os índios sabem que o guerreiro tem papel diferente do ancião. Da falta de diferenciação nasce a cura na diferenciação, se a preocupação com as mazelas coletivas possuir um elo com o direito narcísico ao altruísmo. Ou seja, não a cura pelo amor, mas a cura que vem ao se acordar para a diferença que pode ser amada. Afinal, em um ego reestruturado deve haver o amor redirecionado ao objeto. O que resta aos sãos, quanto a este processo, é educar para o diálogo, de forma que de uma doença não se passe a outra, da esquizofrenia para a neurose, em virtude de um amor mal
    • 44 44 direcionado. O diálogo, as ídas e vindas, os ajustes e a negociação, então, passarão a ser a base de uma construção amorosa. A família e a construção coletiva O desenvolvimento das competências cognitivas da criança está imerso em um certo cenário e é determinado por scripts de atividades determinadas pelos pais de acordo com as crenças do que deve ser o progresso da criança. Outro aspecto que deve estar mais presente nas discussões psicológicas é o aspecto cultural da linguagem. Aceita-se a idéia de uma base inata para a emergência da linguagem nos seres humanos, como em Chomsky, porém é necessário um mínimo de condições culturais para que se desenvolva a competência lingüística nos seres humanos. Na linguagem sempre ocorre a co- construção e ela é um limite. A língua oral tem diferenças de funcionamento em relação à língua escrita. Não se podem falar duas coisas ao mesmo tempo, apesar de, através da polissemia, da ambigüidade, podermos “falar” mil sentidos simultaneamente. Mas pode-se pensar em diversos canais. Estudam-se as manifestações das linguagens nas representações sociais, incluindo as tradições pessoais e as representações atuais que, muitas vezes, entram em choque com as contradições pessoais. O universo do grupo interagindo pela linguagem com o universo pessoal define como cada sujeito internaliza as representações sociais dos grupos e de sua história pessoal. Chegavamos aos princípios de identidade e de auto- estima em que as diferenças culturais e de individualidade modelam e limitam de forma diversa as etapas da evolução humana, diferentemente dos multiculturalistas, reconhecia que os processos de construção não serão abertos em grandes espaços para as diferenças culturais e que a oportunidade de apropriação dos conhecimentos diferentes depende de cada um isoladamente. A linguagem é pois, resultado de um processo em construção, formado junto com o desenvolvimento do sujeito ao longo de sua vida. No processo de construção do conteúdo não importa o que se faz, mas como se faz. A natureza da troca é o que vai ser determinante. Com produtos de interpretação tão diversos, o que fazer com os
    • 45 45 significantes culturais? Servem como carta de intenção no desenvolvimento sociocognitivo para estimular a pensar que as interações sociais são fatores constitutivos em que o nicho esta na família, acrescida do contexto sociocultural, do ambiente físico e dos costumes. O nicho é a unidade usada para observar a formação do caráter da pessoa e sua influência é a repetição dos padrões primeiros em todas as esferas sociais grupais e individuais. Filhos e pais não são propriedades inalteradas, passivas e estanques; mesmo ainda não tendo um claro modelo de família que irá substituir o arquétipo da família tradicional – que já não existe nesta sociedade fragmentada –, percebia suas mutações. Chamo de consciência da importância desta troca, o compromisso mútuo que deverá ser aceito ou não: a liberdade e a ética da co-responsabilidade. Considerando que as variáveis da responsividade existem em dois níveis e as variáveis moleculares da responsividade são bases das relações interpessoais particulares, nas quais as ações de um dependem das seqüências interativas de seu parceiro, quando os parceiros esperam a construção co-responsável de algo, isto contraria a limitação, a prisão que a “verdade” religiosa prega, a obrigação imutável. Promove uma necessidade de rever dinamicamente a relação, criando a possibilidade de continuidade por escolha e prazer. Esta ação, no entanto, deverá ser sempre compartilhada para ter validade. A construção de uma nova relação da família passa pelo afastamento da obrigação e pela disponibilidade e desejo do grupo envolvido. Não dá para querer viver sozinho, apesar da neurose do abandono individualista. Acreditava que na interação crescem todos os envolvidos, dentro de um mundo moderno com novos paradigmas e uma nova família.
    • 46 46 5 O padre Lopes confessou que não imaginara a existência de tantos doidos no mundo.. (Machado de Assis – O alienista)
    • 47 47 Qual realidade? Continuava investigando na busca que explicasse, no iníicio, na infancia. Durante a infância é possível perceber um processo complexo na construção do eu dos indivíduos, mas a essência do próprio eu pode perder-se de vista à medida que a criança vê a si mesma não como é, mas através de um processo de “adaptação” às necessidades dos pais. Isto provoca uma cisão na estrutura psicológica individual, num verdadeiro ato de autotraição, desligando o seu mundo interior das ligações com o exterior. Ao perder o elo com seu interior, o sujeito terá que recorrer a um eu falsificado, geralmente, a imagem de um determinado comportamento e de atitudes que agradam a outros. A necessidade, até obsessão, de preservar tal imagem sobrepõe-se ao que poderiam ter sido percepções, sentimentos e vivências empáticas genuínas. Essa impossibilidade de estar enraizado em si próprio tende a provocar um comportamento destrutivo e maldoso, que pode se estabelecer através de um conjunto de relações, cuja raiz é o poder. Nesse processo de busca de uma fração, que seja, de um poder ilusório, composto de responsabilidade, dever e obediência, podemos estar diante de uma manifestação de loucura que encobre a si própria e se mascara como saúde mental e vida normal. A adaptabilidade, a não-independência interior e a realidade do poder sobreposta à realidade do amor – misto de conformismo e rebelião (que têm pontos em comum) – fazem com que se manifeste a loucura com aparencia e aceitação de normalidade. A negação da realidade ocorre quando o eu nascente, que deveria se moldar livre e abertamente em auto-responsabilidade, entrega-se obedientemente à influência marcante dos outros: “Torno-me no que queres para que me aceites”. Assim, o ato de se fazer dependente é convertido na vingança pela sujeição e pelo desprezo próprio. O desejo de vingança passa a ser a origem e determinante inconfessa e incógnita deste estado mental. Esse processo é de tal modo importante e dramático, que, segundo Gruen , a dor da não aceitação será, muito provavelmente, a razão de algumas crianças serem vitimadas pela denominada morte infantil repentina. A contradição entre a necessidade de manter as aparências perante si próprio e a disposição em subjugar-se ao poder é sustentada por uma ideologia social que identifica
    • 48 48 obediência com responsabilidade. Mas, enquanto a real verdade for evitada em proveito de ideologias pelas quais a cultura do poder assegura a sua sobrevivência, a infelicidade humana será uma constante. O mal e a desumanidade só são possíveis com a manutenção de estruturas e instituições sociais de apoio que encobrem a subjugação e a dependência e identificam a obediência sem críticas com atuação “responsável”. A falta de integração produz medo, não só pelo seu potencial desagregador, mas porque o homem, desde o seu nascimento, está destinado à integração. Já é um consenso entre os estudiosos de que recém-nascidos de poucos dias já acusam dor e desconforto se sua percepção da mãe for interrompida ou significativamente alterada. Minha perplexidade aumentava com o re-conhecimento. Talvez estivessemos mesmo precisando de uma definição mais exata do que seja doença mental, uma vez que a perda da ligação com a realidade é confundida com comportamento “normal”, embora consista numa patologia da adaptação em conseqüência da renúncia ao eu. De fato, talvez precizassemos repensar o que seja doença mental, apesar de que o ser tão re-pensado só aumentou o número de versões. É para enlouquecer supor que a adaptação só se dá mediante a anulação do eu. Diante desse quadro, trata-se de uma normalidade que engana a loucura, caracterizando-se pela fuga ao sofrimento, em que a dor, a preocupação e a impotência são negadas e o interior passa a ser temido, uma vez que a destrutividade e o ódio de si próprio se tornam os seus elementos dominantes. Quanto mais “saudável” a imagem da identidade que se assume, tanto maior será o sucesso dessa manipulação, já que a sua intenção não é exprimir-se, mas sim convencer aos demais de que como pessoas adequadas, agem, pensam e sentem de forma pertinente. Esse processo de cisão por adaptação é distinto do que se vê no esquizofrênico, por exemplo, que, na verdade, tenta se manter no seu mundo interior, não conseguindo suportar a hipocrisia do mundo “real”, exterior. O esquizofrênico divorcia-se do mundo externo para permanecer em contato com os seus sentimentos e com as possibilidades de autonomia que o mundo interior lhe oferece. A loucura que usa a mascara de normalidade difere, fundamentalmente, do que costumamos entender por esse conceito. Os padrões de comportamento hipócritas, por exemplo, deveriam ser reconhecidos como
    • 49 49 tais, assim como ódio, opressão e controle dissimulados, que se fazem passar por amor e outros sentimentos verdadeiros. O que estaria por tráz disto? Descia fundo na analise do que considerava um ponto crucial de impedimento ao desenvolvimento do Ser. O medo. Digrecionava desta maneira. O ser humano convive, ao longo da vida, com uma multiplicidade de medos em diversas dimensões: medo infantil, insegurança, medo de doenças. O medo do abandono, que se traduz por uma ansia de fusão, de permanência, de não ser desejado, de falhar. Medo de ser visto, do olhar dos outros e da idéia de que podemos sempre corrigir o que fazemos e criar uma nova imagem do que o outro deverá ter de nós. Medo dos rótulos, dos dossiês que o social faz de nós e de sermos reduzidos a uma definição sem a liberdade de a reformularmos. Medo de recomeçar tudo, já que o recomeçar é não ter o engate da continuação do que não acabou. O medo é o retraimento do espaço do possível que afeta a própria construção de nossa identidade sem reduto para nos esconder. O medo que nos vem de um fator externo em que não sabemos das normas. Enfim, este sentimento está ligado a um núcleo muito egoísta: se nos esquecemos do eu e entramos em comunhão com o outro, espalhamos o seu conteúdo de subtração. Estima, respeito, esperança – a alteridade reconhecida – a humanidade aceita sem onipotência um outro caminho para a inclusão no social, pela via do positivo, dessa pulsão de medo – e que muitas vezes se constitui no limite da harmonia da convivência entre as diferenças. O medo de conseguirmos a realização dos nossos desejos é, freqüentemente, a razão de destruirmos essas possibilidades, minutos antes de alcançar o sucesso. O medo internalizado, com o distanciamento como proteção, é uma das explicações do que leva povos a fazer a guerra. Esta condição da realidade interior, contudo, é uma constante fonte de medo. O medo, por seu lado, reforça a divisão, pois a incapacidade de suportar sentimentos divide o pensar do sentir. Nesse contexto, percebia que as relações humanas poderiam ser vistas como uma questão de relações de forças na tentativa de “dominar” os seus impulsos para obter uma
    • 50 50 certa harmonia com a realidade. A criança aprende que é amada quando se subordina com sucesso à vontade dos pais. A psicanálise localizou o conflito psicológico fundamental entre o instinto e as exigências da cultura – o princípio do prazer deve ser mantido em xeque pelo “princípio da realidade”. A chave desse tipo de desenvolvimento, entretanto, encontra-se nas expectativas e nos medos dos pais, e não nos supostos instintos da criança. A teoria dos impulsos, que Freud desenvolveu com base na observação dos seus doentes, considera que os “instintos” são em todos os casos socialmente negativos, sempre abaixo do ego. A criança mimetizada, passa a ser tão má quanto os pais, a escola e a sociedade que não se exprime nos seus atos, porque faz apenas aquilo que os outros esperam dela movida pelo seu próprio ódio, que resulta da submissão diária das suas potencialidades à vontade dos outros. Tais comportamentos compulsivos tomam então o lugar de uma face verdadeira. Com a sua teoria da inconciliabilidade do impulso com o desenvolvimento cultural – em nome do amor –, a psicanálise, nos ajuda a pensar como o indivíduo se vê obrigado ao abandono da autonomia e encobre os processos sociais que levam à cisão mental. Formas de comportamento onipotente são sinais de falha no processo do desenvolvimento para a autonomia, grave problema no desenvolvimento infantil. A autonomia como força integradora da personalidade nada tem a ver com idéias de importância e excepcionalidade próprias. Tais idéias derivam de uma ideologia do eu que – conscientemente ou não – segue o princípio segundo o qual o controle e o domínio sobre outros são a real fonte de valor. Até o rebelde – a quem o desejo de amor insatisfeito impele para formas militantes de oposição – continua condicionado por essa falsa ideologia do eu, pois ele interpreta mal a autonomia como “liberdade” de dar provas de força e de supremacia. Secundário é se a forma dessas provas entra em contradição com as normas sociais ou se está em consonância com elas. O que é decisivo é o sentir-se impelido para a auto-afirmação constante e desenfreada. Esse estado de tensão pouco tem a ver com a capacidade de assumir uma atitude afirmativa perante a vida. A autonomia deve ser um estado integral, no qual se afirma a capacidade de viver em harmonia com as próprias necessidades e sentimentos. Não os sentimentos e necessidades criados artificialmente, mas aqueles que são originados pelas realizações: por exemplo, sobre o amor da mãe à vitalidade do seu filho, ou pela infelicidade, quando esse amor falta.
    • 51 51 Se essa ligação for perturbada, a criança começará a reger-se exclusivamente pela realidade imposta de fora (a realidade do poder, que decidiu a separação da sua vitalidade interior) e irá alimentar um ódio internalizado de si própria, o que vai impeli-la cada vez mais para uma opção de vida deformada. O que temo é que essa “opção de vida deformada” se trate de um imperativo social. Quem não “opta” fica sendo looser, desde cedo, numa sociedade de vencedores. A criança “optante” certamente não será mais tarde um clássico modelo dos bem-sucedidos na classe dominante da sociedade consumista. Individualmente, é até possível encontrar esse tipo de excêntrico. Ódio e destrutividade De onde surge o ódio? A capacidade de odiar nasce do ódio de si próprio – de um eu que começou a temer quando não tinha correspondência na imagem que os pais tinham de si próprios, obrigando-o a subordinar-se à vontade deles. Isso destrói a relação com a própria humanidade e está estreitamente associado à sensação de fraqueza, ao reinterpretar o amor parasitário dos pais como amor verdadeiro. Muitos são os que pensam que identidade e dever são idênticos. A identidade dessa Pessoa – com um eu tão condicionado pelo exterior – desvenda ainda mais coisas sobre os indivíduos sem sentimentos verdadeiros. Esse tipo de “receptividade” é apenas a procura de uma identidade exterior, de algo ao qual se submete. O fenômeno verificava-se tanto entre os homens como entre as mulheres, pois ainda é freqüente que a auto-estima da mulher esteja relacionada a critérios masculinos, o que, muitas vezes, a leva a negar as próprias qualidades femininas. O que percebia como certo era que homens e mulheres são menos capazes quando estão desligados do seu interior. Ao reconhecer isso poderíamos ser poupados de muitos dissabores. A mulher, pensando atender às expectativas masculinas, adaptou-se perfeitamente a qualquer situação, representando o papel considerado certo e que foi confundido com sinceridade.
    • 52 52 Mas identidade é a constelação fundamental de características pessoais que são únicas numa certa pessoa e a distingue de todas as outras: sua uniqueness. Uma identidade que se baseie exclusivamente em fatores externos não pode consistir em outra coisa senão numa série de obrigações, às quais se sujeita para escapar a uma identidade autêntica, o que constitui uma traição do eu. A falta de um eu autêntico está por trás da capacidade de mudar de identidade, mas as duas coisas concorrem para o surgimento da destrutividade e estão na base da esquizofrenia social. Analizava as características da traição em mim. Uma das características da traição de si próprio não é a esperança de encontrar amor, mas a de encontrar a chave do poder para ultrapassar a impotência, sentida como uma falha pessoal insuportável. Outros vêem a promessa de redenção na aparente libertação pelo “Sucesso”. Mas como se pode sentir, se a sua identidade consiste na ausência da autenticidade própria? Se não existe um eu verdadeiro, faltam também os sentimentos verdadeiros, por isso também os verdadeiros pesar ou prazer são impossíveis. O problema está na falta de um eu autêntico; o narcisismo acerbado é apenas um sintoma colateral e não a causa, em sua raiva contra o amor, contra a pureza original dos sentimentos que existiram na criança. Nesses casos, só o ódio e a destrutividade fazem-os sentir vivos. Esse ódio é resultante do processo de socialização, e não de impulso inato. Outra forma de ser outsider seria descumprir as obrigações sociais. Esta é a maioria que perfaz essa sociedade dita normal, não doentia, que estamos vivendo. "Salvo-me e me torno criminoso social, dentro de uma sociedade que me aceita", poderia ser um lema. Se alguém desistiu do eu que poderia ser seu, mas não consegue identificar-se com uma ideologia do cumprimento de deveres, pode chegar, em casos extremos, à criminalidade. Mas esta, que é tão visível, precisa ser diferenciada da que é encoberta pelo manto da legalidade. Ambas se submeteram ao poder como única realidade válida, mas o abertamente criminoso odeia o “amor” que o levou a esse ponto e opõe-se à sua mistificação. Não aceita a ideologia do dever vigente, não se identifica com ela e, assim, não se comporta da forma que a sociedade espera dele. Ao contrário, a atividade criminosa que se oculta sob a aparência de uma identidade oficial tem necessidade de
    • 53 53 uma ideologia autoritária para esconder suas pulsões assassinas. Essa cobertura ideológica realmente ocorre quando um sistema, ou facções de um sistema (nazismo, por exemplo), legitima o culto à violência. Os próprios modernistas bizarros do início do século XX se gabavam desse desprezo pelo dever: Marinetti fez odes à guerra e à destruição, incentivando Mussolini. Talvez o acontecimento de 11 de setembro de 2002 que contempla o mundo com uma visão de horror e violência – no ataque às Torres Gêmeas de Nova York – ilustre bem esse pensamento. A utilização feita pelas televisões do mundo sobre este sinistro, hiperbolizou uma experiência comum ao sistema globalizado de áudio-visuais e construíram pelas imagens de terror o controle social do imaginário dos telespectadores. Cisão e dissimulação Duas concepções distintas de realidade se chocam nesse processo que estamos descrevendo: uma delas se fundamenta numa personalidade integrada que se comunica com a realidade exterior; a outra está dominada por influências exteriores. Também haveria posições intermediárias, que geralmente resultam em comportamentos de pessoas cindidas. As origens da cisão remontam ao pai e à mãe, ou aos que ocupam esses espaços, como substitutos, perante os quais a pessoa queria apresentar-se “como deve ser”, ou seja, como se espera dela. Os sentimentos que caracterizam tal atitude provêm não só da necessidade de agradar, mas também de agradar-se a si próprio através de um comportamento “correto” e “honesto”. Muitos não têm pais nem substitutos. Nesses casos, a inexistência de família não faz desaparecer a cisão. Certamente, ela será deslocada e corporificada numa entidade “de fora”: colégio interno, instituições militares, congregações religiosas, orfanatos e outras formas de mãe simbólica. Esta pessoa quer ser ou antes parecer agradável e é nesse contexto que mostra “sentimentos” pelos outros mas não os sente devido à percepção empática de outra pessoa. Esta é a verdadeira natureza do narcisismo, produto de uma cultura que aplaude o comportamento “simpático”, muitas vezes, "brilhante".
    • 54 54 Tal violência não revela apenas o cabedal de ódio que sem enraizamento transporta-se dentro de si, mas também o latente desprezo e o sentimento de fraqueza – destino de todos os que aceitaram a promessa de poder, em troca do amor que realmente desejam e deixaram-se fascinar pela morte, como herói libertador - o desejo da morte faz parte da estrutura da personalidade que não tem autenticidade. Onde o primitivo amor à própria maneira do ser foi substituído pelo amor narcísico, dependente de confirmação exterior, é impossível aventurar-se a amar o próprio eu verdadeiro, o que abandonamos e pensamos ter reencontrado no outro, mas que logo perdemos, desiludidos pela realidade. Um autêntico Narciso sem remissão. Também a pena de si próprio - o vitimoso - seria um meio de evitar a percepção empática e serveria para sentir-se no direito de atacar aqueles que ponham em causa a mentira fundamental. A integridade da consciência deriva do acordar da sensibilidade empática e caracteriza-se pelo pesar, aliado ao esforço por redimir-se de injustiças cometidas através de atos. Isso só é possível a quem realmente se assuste com o que fez devido a uma identidade falsa e enfrenta a dor que daí decorre. Os verdadeiros sentimentos são provenientes das vivências primárias de dor e felicidade que foram em tempos fixados no contato com a mãe real ou simbólica. O que nos confunde são os sentimentos fingidos. Podemos ter vergonha da comiseração empática com o sofrimento dos outros mas a empatia é a via primitiva da comunicação humana e a consciência o que nos leva a uma melhor percepção, se considerarmos a unicidade do caminho que cada ser humano trilha. O trabalho de investigação sobre uma condição denominada “prosopagnosia”, realizado por Damasio e Tranel, demonstrou isso claramente. Uma lesão bilateral do córtex occipital mesial do centro de visão torna impossível o reconhecimento dos rostos de pessoas íntimas. Tais doentes não vêem qualquer semelhança com fisionomias que conheciam anteriormente. Mesmo reconhecendo pela voz ou outra característica, a fisionomia continua sem lhes dizer nada, pois a doença caracteriza-se pela ausência de recordações cognitivas. Os investigadores não confiaram apenas nos depoimentos dos doentes, mas também levaram em conta a possibilidade de reações que se verificassem sem sua consciência. Com um eletrodermatograma mediram a resistência da pele - que reage a alterações no sistema nervoso vegetativo – que é também a parte do sistema
    • 55 55 nervoso que medeia a empatia. Isso torna o referido estudo elucidativo: apesar de os sujeitos não terem reconhecido as fisionomias, a resistência da sua pele se manifestava àquelas conhecidas. Os autores concluíram que ainda existe um estágio incipiente do processo fisiológico da percepção, mas que o resultado já não é transmitido ao consciente e os estímulos se distinguem apenas subconscientemente. Os estudos de Sacks, sobre a afasia também são pertinentes. A afasia é uma perturbação que não permite que o doente reconheça o significado das palavras, embora as ouça. Pode-se provar que esses doentes percebem o que lhes é dito, se os sinais habitualmente acompanhantes da fala estão presentes: tom e melodia da voz, a maneira de colocar as ênfases, expressões fisionômicas, gestos, posição do corpo. Estes são captados pelo sistema nervoso vegetativo e pelas vias perceptivas, que transmitem a sensibilidade interior dos músculos. Essa sensibilidade interior também faz parte das nossas percepções empáticas. A comunicação verbal, portanto, não consiste apenas em palavras: vive em companhia de formas de expressão além das puramente verbais, para as quais as pessoas afásicas são especialmente sensíveis. Mesmo que não se conseguisse compreender o significado correto de uma única palavra, o que se tem é a sensação de que é praticamente impossível lhes mentir. Não distinguem as palavras, por isso não os podemos enganar com elas; mas captam, com segurança infalível, as formas de expressão que as acompanham de forma tão acertada, espontânea e involuntária como não poderia ser fingida, o que é fácil de fazer com as palavras. Isto demonstrava claramente que, com a aprendizagem da língua, não só ganhavamos cultura como também nos apropriavamos de moldes de pensamento que nos adaptam à sociedade e distorcem as nossas percepções. Assim, uma inibição lingüística devida a uma lesão cerebral anula a inibição das nossas capacidades de percepção não- verbais existentes anteriormente. Desse modo, com a aprendizagem da língua, nossas capacidades empáticas passaram a segundo plano. Colocava-se, assim, a grande importância das expressões, da sensibilidade e dos gestos nas comunicações humanas. A TV inglesa BBC, em 1979, exibiu um programa denominado Camera, no qual mostravam a reconstituição dos arquivos clínicos do primeiro hospital psiquiátrico de Londres , Maudsley Hospital, destruído por um incêndio durante os bombardeios da II Guerra Mundial, e cujo trabalho foi todo resgatado na
    • 56 56 análise das diferenças histriônicas, através dos exames de seus registros fotográficos encontrados nos cofres de aço da Instituição. Sacks relata ainda, em seu artigo, como, um dia, chegando ao setor dos afásicos, ouviu gargalhadas. Os doentes estavam assistindo, pela TV, a um discurso do presidente dos EUA Ronald Reagan. O orador – com experiência de ator e talento teatral – provocava risos. Os afásicos reagem com grande sensibilidade a expressões e detalhes certos ou errados na atitude ou no posicionamento do corpo. E, se não puderem ver aquele que fala – especialmente no caso dos afásicos cegos –, têm ouvidos inconfundíveis para nuances acústicas: o tom, o ritmo, a melodia da frase e da voz, para modulações e entoações sutis que conferem ou retiram credibilidade à voz humana. Eles ainda conseguem distinguir a verdade da mentira sem perceber o significado das frases. O histrionismo, os gestos e, sobretudo, o tom e a melodia da voz do presidente norte- americano pareceram fingidos a esses doentes sem palavras, mas altamente sensíveis. Palavras e vozes enganadoras, combinadas, usadas de forma ardilosa, não conseguiram enganar doentes com lesões cerebrais. Esses relatos nos dizem muito sobre o forte papel que a empatia desempenha na comunicação humana. Compreendia-me afásica desde muito criança. Violência como patologia do sentimento Nem sempre é preciso matar o Outro, fisicamente. Pensava que o que acelerava, sem dúvida, a destruição interior era a tentativa desesperada de corresponder aos mitos com que se cresce. A par disso, aqueles que vivem com esses mitos, sem sentir a necessidade de correspondência entre a imagem e os atos, já apreenderam a hipocrisia fundamental da nossa cultura para “sublimar” a sua destrutividade de uma forma socialmente comportável. O trágico, em casos como este, é que algumas pessoas não sabem ser hipócritas. Descobria, que a única maneira de lidar com a destrutividade é encarar a impotência que a originou. Se resistirmos à idéia segundo a qual a impotência é expressão do nosso fracasso, podemos libertar-nos de uma raiva primitiva e destruidora.
    • 57 57 Todos somos obedientes a alguém, a algo, à lei, a alguma coisa que é mais forte que o indivíduo. Há, historicamente, exceções que confirmam a regra: Thoreau, Lobato, Emerson, Russell e alguns outros “desobedientes civis”. Segundo Penteado, um dos estudiosos desta questão, há um paralelismo na atuação de Lobato e Russell. Ambos consideravam o pensamento como único domínio em que o homem pode ser realmente livre e buscaram, com contundente lucidez, demolir tolices e mitos seculares que tentavam privar os homens de suas liberdades. A esse destino ninguém escapa, mas, se se é capaz de ser obediente porque isso se tornou o sentido da sua vida, aquele que for declarado oficialmente mais fraco transforma-se no bode expiatório em que a própria raiva pode ser descarregada e seus atos não têm qualquer relação nem com o que os provocou, nem com o que pretendia. A obediência e o conformismo transformam o ser humano. Precisamos de inimigos, não só para nos defendermos do nosso velho inimigo interior, mas também para descarregarmos a crescente raiva acumulada. A única verdade no meio disto é que tentamos corresponder às expectativas externas. O ódio a si mesmo sai reforçado da sua projeção num objeto exterior. Por isso a destrutividade aumenta a cada ato destrutivo. Quem tenta manter a ligação com o próprio interior quer superar o isolamento e conhecer amor e conforto. Mas quem trai o interior para abraçar "o poder" perde motivação pela esperança da intimidade humana. Só sofre quando os seus jogos deixam de ter êxito e impõe aos outros o seu vergonhoso fracasso: a desculpa remete à culpa do outro em mim. A pena de si próprio e não o pesar é o que caracteriza o seu sofrimento. Terapias farmacológicas são introduzidas, em casos de evidencia de desajustes social, como suporte ao indivíduo mas só ajudam a evitar a vida. Esta é a melhor saída que nossa sociedade tem encontrado para colocar a adequação e os freios necessários ao controle das manifestações do ódio latente, internalizado, proibido e impróprio. Como resultado temos o isolamento desses indivíduos, além dos fármacos. Onde a solidariedade social quase sempre se faz como expressão de um individualismo narcísico. Com uma certa ironia brincallhona, Otto Lara Resende, escritor brasileiro, de Minas Gerais, cunhou uma célebre fraze:"O mineiro só é solidário no cancer". Otto, devia saber do que dizia, pois ele mesmo era mineiro.
    • 58 58 De um militar, onvi descrevendo com orgulho o seu trabalho de identificar alvos de guerra, “O que me tornava tão insensível aos aspectos humanos naquela altura? Tomávamos café e almoçávamos sem quaisquer sentimentos de culpa ou laivos de autocrítica. Talvez seja por que fui treinado para dar minha vida pela pátria, morrer e matar”. A obediência obriga à supressão de todos os sentimentos que possam contrariar tal atitude; o que fica é a luta pelo sucesso que traga o reconhecimento, do qual depende a auto-estima. Mas o que torna a vida burocrática tão atraente é também a segurança que ela parece oferecer num mundo reconhecido como caótico. Quantas vezes ouvimos: “Apenas cumpri ordens”. A gênese da obediência: criada na obrigação de ser obediente mas sem consciência da possibilidade de pensar e sentir em si e por si própria, acaba acarretando autodestrutividade, da qual tenta-se em vão proteger-se pela imposição da obediência. Encontrava a percepção desta patologia em todas as áreas da sociedade. Dentro da realidade do mundo dos negócios, uma Instituição, torna-se inútil se não der lucro mesmo as ditas "sem fins lucrativos" e é este o dogma desse tipo de administração. Assim vivem, tambem, Instituições de Educação, que recebem aplausos como bem-sucedidas e são reconhecidas, basicamente, pelos resultados financeiros que se esperam delas. No entanto, estas são as Instituições que participam ativamente da formação dos valores de grande parte das pessoas desde a infância até a idade adulta numa sociedade, essencialmente, mercantil e com uma Instituição Familia falida. Como em todo o mundo capitalista, no Brasil, dentro das empresas, o dono do Poder passou a ser o senhor dos cofres. A respeito do novo homem da contabilidade, Trow, assim o descreve: ele defende o seu ponto de vista como se tivesse opinião própria, mas, na verdade, tem apenas uma função. Demonstra-se, assim, como os sentimentos são substituídos pela imagem. A impessoalidade daí resultante transforma-se num poder novo que domina cada vez mais a nossa vida e assim, escapa à responsabilidade, considerando-a determinismo deontológico, perfeitamente, aceito como adequado. Para minha pesquisa, pensava ser este caso uma bela representação da esquizofrenia social nas empresas, outro dos nucleos importantes das sociedades modernas. Estes sentimentos que em nome do poder desfiguram, matam e atrofiam a personalidade dos seus membros, baseadas em valores corrompidos e aceitos pela
    • 59 59 organização social como referência de poder. Este fenômeno que se passa nas empresas, é a lógica das organizações, cujo conjunto consubstancia a grande organização social. Em geral, é considerado a norma que evita a anarquia social. O que esperamos? Acredito que a obediência cega afasta a Pessoa do seu interior e protege-a simultaneamente de possíveis inquietudes daí decorrentes. O comportamento obediente possui diversas variantes mas todas têm em comum a necessidade de manter a mentira do amor. A sujeição a essa mentira substitui um estilo de vida orientado pela realidade. Quem, pelo contrário, conservou a capacidade de integrar o interior e o exterior considerará tal realidade doentia. Também o ódio, que resulta da vergonha de um dia termos nos transformado em vítimas pela nossa própria sujeição, de modo que fazemos o possível para que não nos seja lembrada, só recentemente começou a tornar-se conhecido em toda a sua dimensão. Um outro exemplo, que via citado com freqüência dessa inversão de valores era a violência contra as crianças. A preocupação da sociedade em ocultar sua existência é porque contraria o mito da ordem: Quantos adultos foram crianças molestadas, violentadas e agredidas, dentro da normalidade social de famílias bem constituidas? O disfarce de intenções destrutivas existe em inúmeras variantes: as pessoas que temem o sofrimento entendem como “normal” o apagamento da memória. A falta de empatia verdadeira é característica do mundo dos sentimentos falsos que esconde muita violência e destrutividade atrás de uma fachada de correção moral. Esses fatores podem nos levar a acreditar que a latente violência conformista e a violência aberta sejam da mesma proveniência. Conformismo e rebelião são variações de violência Enquanto o Sucesso for definido como forma de controle e de dominação e como forma de estabelecer as bases da auto-estima, as diferenças relativas à estrutura social terão pouca importância: o eu ficará mutilado em qualquer dos casos. Marx, estudando as condições econômicas do acúmulo de riquezas na forma de capital, estabeleceu como
    • 60 60 princípio que a impotência é uma fraqueza a ser superada pelo homem. Além disso, declarou ser a conquista das coisas – também da natureza – o seu objetivo supremo. Todavia, tratando as possibilidades humanas – inclusive morais – apenas sobre critérios econômicos, Marx acabou bloqueando o acesso a outros aspectos igualmente importantes sobre a avidez pelo poder. De fato, não se pode superar a impotência adquirindo e exercendo poder. Qualquer teoria que aspire a isso violenta o indivíduo na sua essência e atrofia o seu desenvolvimento. Esse é um dos aspectos mais tristes tanto de Marx como de Engels. Baseados nisso justificaram a apropriação das terras mexicanas pelos EUA, num determinado momento histórico. Nomeando-os de subgente, argumentaram que os nativos “não sabiam o que fazer com o que lhes pertencia”. Percebia que encontrava a questão do poder da mulher-mãe. Onde a ideologia do poder vigora, o eu é separado do seu cerne e, desse modo, também das raízes da sua experiência histórica – independentemente do seu matiz ideológico e da respectiva organização dos meios de produção. A destrutividade daí decorrente pode exprimir-se pelo conformismo ou pela rebelião. Tanto o conformismo como a rebelião são formas de dependência que têm uma origem comum: a fé na supremacia masculina que nega o carinho materno como base da auto-estima. Por outro lado, a auto-estima feminina, que nas sociedades ocidentais está extremamente atravessada por “qualidades masculinas”, nada tem a ver com a capacidade feminina de dar vida e cuidar da vida recém-nascida. Antill e Cunningham propuseram, que a “masculinidade”, caracterizada por determinação, poder e sucesso, é o único fundamento da auto-estima, tanto feminina como masculina. Onde a auto-estima das mulheres se orienta pelos exemplos masculinos, elas se abandonam e acabam por sentir desprezo pela sua feminilidade. Por ser sua vítima (ou poder sê-lo), a mulher adere à fé do homem na sua supremacia e o seu desprezo por tudo o que é feminino. As mulheres que se orientam, basicamente, pelo mundo masculino necessariamente cobiçam poder, e, por isso, é comum odiarem-se. Para essas mulheres, como o poder, em regra, não lhes é concedido, não há onde encontrar alívio mais facilmente do que no contato com os próprios filhos, suas propriedades. Estes, então, transformam-se no objeto de um afeto interesseiro com o qual os manipula e explora. Essas mães ficam prisioneiras do mito masculino e o impingem
    • 61 61 aos seus filhos. Pela sua admiração explícita, a mãe induz o filho à convicção de ter um significado vital, extraordinário para ela, pelo que lhe provoca, e constantemente reafirma, os seus sonhos de grandeza e o aprova. Por ela aplaudir tudo o que o filho faz, incondicionalmente, este tem dificuldades em desenvolver algum sentido do justo e do injusto. Também, pela insistência da mãe na sujeição em nome do pai, a criança desenvolve-se sem consciência, passando a ter um comportamento conformista e nenhuma noção de limites impeditivos ou limitadores da sua vontade. Vive e pratica a demasia, até que o mundo o apare, muitas vezes de forma surpreendente e cruel. Dentro do quadro que demonstrava a construção do eu podia observar que a integridade psíquica mantém uma relação conflituosa com o universo de ambivalências que nos cerca: ela é constituída por essas ambivalências, mas em determinados momentos não suporta a convivência e entra em conflito. A pessoa atém-se compulsivamente ao mito estabelecido pelos pais, porque não consegue lidar com a contradição entre mito e realidade. Assim, a mãe que sempre apresentou seus lados maus terá de ser vista e anunciada, socialmente, como “boa mãe” e aceita desta forma. “Queridíssima Mãezinha” poderia estar embutindo um rancor avassalador. A cisão da organização psíquica tornarva-se mais visível: as mães mereceriam uma veneração abstrata, mas as mulheres de carne e osso seriam odiadas e violadas. O pai, entretanto, manteria o seu papel de autoridade e o fato de ser inalcançável daria aquele ingrediente homoerótico a qualquer vida conformista. Os conformistas aderem a ideologias que distorcem a realidade, numa continuação da tentativa de não ver a mãe tal como de fato tenha sido. Por isso, quando corre o risco de ter de ampliar a sua consciência, o conformista fica invariavelmente cheio de pena de si. Isso o poupa de ter que enfrentar o medo da verdade. A autopiedade é uma digna saída para o pânico da responsabilidade sobre os atos praticados. A visão invertida do bem e do mal é uma característica que abrange todo o ser do conformista, como se vê também pelo tratamento que este dá ao seu próprio passado. Pela submissão às ditaduras paterna e materna, colocam-se de lado a dor e o sofrimento dos outros, apagando-se qualquer ação própria responsável. Tais situações aproximam-nos das origens da tendência para inverter os fatos: se mãe e pai reagem com simpatia à autocomiseração hipócrita, para se sentirem
    • 62 62 compreensivos e generosos e, com isso, aumentarem a sua autoconsideração, estão a ensaiar com o filho a arte de enganar. Cedo ele aprende o truque de como obter a adesão dos outros, apelando ao seu sentimento de culpa latente, para os libertar dele fazendo-se objeto da sua pena. A adesão à mentira fundamental sobre o amor faz perder a capacidade de pensar e sentir pelos seus próprios meios. A passagem da destrutividade é fomentada no interior, para a violência aberta, e tudo isto esta encoberto sobre a capa da moral e da decência. A violência combina muito bem com o medo das mudanças, o que caracteriza igualmente o cidadão conformista não-violento. Por isso estes últimos gostam tanto de “servir-se” dos símbolos violentos de autoridade para a manutenção da ordem. Em todas as sociedades há indivíduos doentes e perversos que gostariam de passar a vida a punir, humilhar, espezinhar, magoar, torturar e matar os seus concidadãos: tratam-se de pessoas cheias de violência mental e física contra os outros. Mas a sociedade que permite que essa atividade se torne profissão, normalidade e até charme social, comumente chamado de diplomacia e brilho de inteligência no uso de fina ironia social, demolidoura, que tem como alvo a destruição da auto-estima e o rebaixamento do ego do Outro, está doente de morte. Os jogos de olhos humanos como bolas de gude em brinquedo de crianças pareciam sair dos quadros surrealistas para a realidade social, sem espanto. Kosovski, define bem a regra ou lei, a norma, de onde deriva o termo “normal”, como parâmetro, módulo de classificação, fonte de aceitação ou de estigma, índice de integração com as regras vigentes ou sinal, às vezes alarmante, de marginalidade. No âmago de tais contradições estaria o amor-ódio produzido por pais que não tiveram sensibilidade nenhuma ou foram impotentes diante das necessidades do seu filho. Este, muito dependente deles, ao mesmo tempo que tenta morder a mão que o quer alimentar, tem tudo a lembrar-lhe o passado que provoca a vontade de se vingar “em nome do amor” pela má mãe que tem de ser defendida como boa, já que, a defesa da má mãe seria feita porque ameaça desativar as antigas necessidades do verdadeiro amor. O eu, baseado nesta cisão, não conseguiria salvaguardar a sua coesão quando transformações sociais o ameaçam. Pais e mães não são entidades sublimes ou santificadas mas seres comuns que falham por excesso ou omissão de energia na educação, já que ninguém conhece, exatamente, a medida de que necessita a criança.
    • 63 63 Freud, em O mal-estar na civilização, parece deplorar que o esforço civilizatório seja tão necessário quanto nocivo. Isso explica o fato – aparentemente paradoxal – de as Forças Armadas serem capazes de atuar em nome de governos que representam ideologias, às vezes, completamente opostas, e de grupos de governos antagônicos se reorganizarem (da noite para o dia) em bases até então inaceitáveis, de forma cordial. necessário quanto nocivo. Um eu assim constituído também se caracteriza pela capacidade de voltar à “sanidade” com a mesma rapidez quando a autoridade da ordem social parece restaurada. O fator decisivo é o que se considera ser autoridade a cada momento – pois é assim que se mantêm de pé as suas personalidades, estruturadas sobre uma autoridade à qual podem voluntariamente subjugar-se. Se ela desaparece, a estrutura da personalidade fundamentada na conformidade desintegra-se. A identificação com a autoridade permite deixar livre curso ao ódio: pode-se fazer passar a destruição por bom ato sem ser obrigado a reconhecer e a enfrentar a mentira fundamental. Socialmente, não é considerado “bom” o pai que ajuda o filho a desenvolver um eu próprio quando isto exige impor-lhe limites mas sim o que lhe poupa o conflito interior. Até quando? Estas reflexões me levaram a questionar sobre o que vem a ser, então, o rebelde. Miller, escreveu, que a rebeldia está marcada pela procura da nossa verdadeira ligação com a humanidade, ao descobrir o nosso parentesco com toda a humanidade, mesmo com o mais baixo dos seus filhos. A aceitação seria, justamente, a grande pedra de toque. Tem que ser completa e não deve consistir em conformismo. A armadilha da atitude rebelde é nunca mais parar de encontrar razões de queixa e, com isso, sempre novas razões para a rebelião. Dois belos exemplos são encontrados em São Francisco e Guevara. Mas são criaturas de exceção. Nestes dois exemplos há um desrespeito à alteridade na medida em que esta representava o senso comum da sociedade: exatamente por isso queriam mudá-la: por isso não plantaram bases para um subsistema aceito por um sistema maior. Este tipo de procura da liberdade respeita as diferenças das outras pessoas não apenas as próprias. Ainda segundo Miller, o conformismo ocorre porque ainda estamos ligados à mãe. Pessoas desse gênero acabam se voltando contra o seu país, a religião ou a sociedade, porque de fato estão em busca do amor que lhes foi negado. Ela pode ser celebrada como grande rebelde, mas dificilmente encontrará amor. Mais do que todos os
    • 64 64 outros, o rebelde tem que conhecer o amor, oferecê-lo mais ainda que recebê-lo. Até ser mais que dar. Com isso, tocava no essencial: no rebelde, espreita o medo da mãe que poderia absorvê-lo, utilizá-lo e aproveitar-se dele, portanto, odeia tudo que é feminino. Já o conformista, pelo contrário, odeia o amor porque, de outra forma, teria de admitir que nunca foi amado por sua mãe. O rebelde afirma poder passar sem ele; o conformista diz estar na sua posse. A procura da boa mãe tem por base o desejo de uma ligação de amor com a humanidade. Mas tanto o rebelde como o conformista se opõem a isso, desistindo de sentir. Os jovens que posam de “rebeldes” e não podem se sentir gratos, para não se sentir “obrigados”, porque isso significaria para eles a obrigação de corresponder às expectativas de conformismo à autoridade, têm “bons” pais com características dos que procuram “comprar-lhes o afeto” dando-lhes tudo de material e que sinalizem poder. Contra esse tipo de manipulação que não pune, mas é de uma violência possessiva, embora disfarçada, uma criança só pode defender-se sentindo o menos possível. Como defesa ela se mantém longe do que a ameaça: da própria necessidade de amar e ser amada. E, para poder conviver com a dependência, em contrapartida, recusa a gratidão. Só assim pode viver com a falta de sinceridade do amor dos seus pais. Os rebeldes não podem reconhecer a sua própria necessidade de amor, porque isso os tornaria vulneráveis. O mal de que padecem o rebelde e o conformista seria não sentirem aquilo que realmente importa: o verdadeiro amor. Sem hipocrisia, sem mitos, sem mentiras nem farsas, simplesmente humano Todos nós pensamos que o amor se encontra precisamente onde não podemos obtê-lo. Assim, revivemos a recusa sentida antes e fornecemos a prova repetida de que não há nada para nós. Se um dia o verdadeiro amor acabar por cruzar o nosso caminho, nós o recusaremos pensando: “Quem haveria de nos amar, se somos tão imperfeitos?”. À procura de um amor que nunca existiu, insistimos em esforçar-nos desesperadamente pela nossa autodestruição. A rebelião é uma tentativa de libertar-se das correntes do passado e a renovação do amor é impossível sem a rebelião. Se não se puder insurgir, não se terá possibilidade de viver o próprio eu. A verdadeira aceitação exige tudo menos a submissão. Mas, como
    • 65 65 o rebelde no fundo deseja a submissão à mãe e está constantemente a lutar contra tal desejo, não pode admitir que o aceitem. Por outro lado, o conformista nunca assume uma verdadeira responsabilidade; antes se liga apenas ao poder de outros para dar mais livre curso ao seu desejo de vingança. O rebelde pretende ser diferente e assume a responsabilidade por isso, mas não compreende que, com essa pretensão, só quer provar a si próprio que não é dependente da sua mãe (ou do seu pai), à qual gostaria tanto de se submeter. Se fosse possível fazê-lo sentir o horror à má mãe, tirando-lhe o medo do amor à boa mãe, sendo este sobretudo uma conseqüência das promessas da má mãe, poderia romper-se o círculo – que produz apenas formas sempre novas de tirania. O pensamento conformista não está interessado em compreender. Ele é uma digressão confusa, um contra-senso, porque só conhece as categorias da punição e submissão, mas não o potencial que a compreensão encerra. A imagem do “inimigo” tem de ser mantida de pé; por isso, o inimigo não deve, em caso algum, tornar-se mais humano. Tanto o revolucionário como o conformista precisam da violência para se manterem fiéis aos seus papéis. Negri e Hardt escreveram sobre Stavroguin, um dos revolucionários de Os demônios de Dostoievski: “Preferiu arriscar tudo, só para não ficar na incerteza”. A insegurança provoca medo e este nos torna muito dispostos a correr riscos. Os terroristas, por exemplo, querem a morte porque desconfiam da vida e a odeiam. Mas sabemos também que a classificação de terrorista varia conforme a época e a posição de poder de quem avalia. Tiradentes foi chamado de terrorista e até hoje nunca foi legalmente reabilitado. Já é respeitado como herói nacional, brasileiro. Hoje, na imprensa dos EUA, fala-se constantemente sobre os jovens desmotivados que passam o tempo todo num hedonismo desesperado e desorientado, são outsiders em tudo e o conformismo faz com que seus sentimentos estejam atrofiados o suficiente para que reste apenas uma raiva assassina. Filmes como Elefante, de Gus Van Saint, e Dogville, de Lars von Trier, dois renomados diretores de cinema da atualidade, registram bem esta tendência atual. As forças que os impelem são, com efeito, as mesmas. O que difere são apenas as aparências, porque as pessoas “de sucesso”, na nossa sociedade, podem sublimar os seus desígnios assassinos, de maneira que não os vemos, como o disse Brecht:
    • 66 66 É que uns estão no escuro E os outros estão no claro. E vêem-se os que estão no claro Mas não se vêem os que estão no escuro Acreditava ser tarefa dos estudos da psicologia social, direcionar a luz para aquilo que se quer manter escondido na sociedade. Também, a noção de valor da utilidade dos conhecimentos e suas aplicações parecia necessária e concordava com o pensamento descrito em matéria publicada no jornal francês Le Figaro um dia após a morte de Sergio Vieira de Mello – representante especial da ONU, Organização das Nações Unidas –, no Iraque, em um ataque terrorista em 19 de agosto de 2003: “O universal e o abstrato não têm nenhum valor se não puderem ser traduzidos em prática”. Durante alguns regimes ditatoriais foram registrados baixos índices de criminalidade, como em Portugal, durante o regime Salazar, na Espanha de Franco, ou mesmo durante o regime militar no Brasil. Por um lado, via o potencial de ódio que é criado pela obrigação à conformidade, o que explicaria o encobertamento conivente pela sociedade de documentos históricos reveladores de suas mazelas. Por outro, as pessoas são impedidas de recorrer à violência declarada enquanto a autoridade tem tudo sob controle. Só quando esse enquadramento se desfaz e as promessas, pelas quais se submete ao poder sacrificando a auto-estima, já não têm efeito, é que o ódio vem à superfície. Mas o real problema das ditaduras é a perversão dos objetivos que perseguem, não a forma de autoridade em si. Ironicamente, podia observar que as crianças que recusam simpatia e dependência pelo menos não se iludiam e não partilhavam a hipocrisia do costume. A destrutividade transforma-se no princípio vital indisfarçado, mas é, também, um pedido de socorro. A tortura de Estado e o atentado terrorista são as duas manifestações extremas de conformismo e de rebelião. Os depoimentos que constam do livro Prisioneiro sem nome, cela sem número, do jornalista Jacobo Timmermann, preso e torturado pela ditadura militar da Argentina, forneceram indicações sobre como a intensidade da sua subjugação à autoridade, era acompanhada de um ódio próprio feroz: “O seu ódio dirige-se contra tudo o que lhe recorde o que é humano. O espírito totalitário, a violência” . O sádico revive, na tortura, o terror da sua primeira infância. Uma fantasia profundamente enraizada, latente dentro de todos nós, é a de acabarmos por ser salvos,
    • 67 67 apesar de tudo, pela má mãe. Ao desistirmos dessa esperança – ou se a reconhecessemos ao menos –, poderiamos pôr de lado dentro de nós tanto o conformista como o rebelde e começar a caminhar para um eu próprio. O conformista e o rebelde precisam ambos de um inimigo exterior – o “bode expiatório” ou melhor, o bode respiratório, canalizador das frustrações. Esta necessidade faz freqüentemente que seja impossível distinguir as ameaças verdadeiras das alucinadas. A necessidade de um inimigo vem de uma profundidade que nada tem a ver com a realidade exterior. O conformismo dá-se bem com qualquer ideologia. Encontra-se em qualquer lugar onde haja poder. Mas, nem o conformista nem o rebelde estão inseridos na realidade ou sabem algo da vida e da morte. Ambos alimentam a ilusão de uma existência que se prolongue para além da história, preservados em monumentos, de pedra ou ferro, dos poderosos que ele serve, no caso do conformista, e nas suas próprias “grandes” ações, no caso do rebelde. Mas, se conseguíssemos convencer o rebelde a aproximar-se um pouco mais da sua dor, talvez ele não sentisse tanta necessidade de fazer o papel do inimigo, do qual os conformistas precisam para não perder sua identidade. Nesse maniqueísmo de rebeldes e conformistas estão inseridos os “normais”, que adotam um aspecto e outro na composição de suas identidades, criando uma terceira via de utopia.
    • 68 68 6 Entendeis bem, tirano; queremos dar liberdade às vitimas do vosso ódio, capricho, ganância... (Machado de Assis – O alienista)
    • 69 69 O poder é expressão do vazio interior Analisava que quem se rendeu ao poder não poderia, por uma questão de princípio, aceitar a igualdade nas relações sociais em que pesem todas as declarações. O contato com outras pessoas é determinado pela força ou fraqueza. Por isso, mais e mais poder tem que ser acumulado. A finalidade é tornar-se invulnerável e provar a invulnerabilidade. Com a experiência fundamental da subjugação ao poder dos pais na primeira infância aprendeu-se que a dor é o meio de submeter as pessoas: O poder dita o que é realidade e impõe esse conceito de realidade sem dó nem piedade. Assim sendo, a única realidade é o mito do poder, o qual se baseia na fantasia dos jovens possuídos por essas idéias porque a sua primeira experiência foi a de se subordinar ao poder dos pais. Não se trata da perda do raciocínio, mas sim da sua redução. Essa redução é, por seu lado, uma conseqüência de processos emocionais diretamente ligados à pronta adaptação ao poder e à fuga da dor. Tal subordinação visa, em última análise, a conquista do mesmo poder a que a pessoa se sujeitou. “Subjugo-me, para assim compartilhar teu poder”. Com essa fórmula encobre-se o próprio ódio, criado pela entrega. A humilhação e o rebaixamento de outros se transformam no sentido de vida propriamente dito. Esta lógica acaba tornando necessário um inimigo que justifique as próprias necessidades de poder e as conquistas a que o ódio a si impele. Sabia que o poder, que vem sendo considerado a essência maior de todas as virtudes inquestionáveis, desde os gregos da Antigüidade , o que produz, é que todos os adeptos do seu fascínio como ideologia de um eu postiço, temem as pessoas que se deixam guiar pelo seu interior e aparentam desprezá-las, porque eles próprios não podem admitir esse temor. Nesses casos, pouco importa se há, por exemplo, uma identificação política com as tendencias partidárias de direita ou esquerda, pois se trata de uma obsessão pelo poder e não da abertura para a realidade e as suas potencialidades. Essa fixação e a necessidade doentia de ser poderoso levam ao poder muitas vezes justamente aqueles cujo vazio interior é maior. As pessoas que estão presas no ódio delas próprias não conseguem suavizar a dor com o humor e, em vez disso, fogem dele para uma postura arrogante. Nada é mais arrogante do que se sentir poderoso.
    • 70 70 Este é um problema que deveria preocupar a todos nós, já que há pessoas desse tipo em posições nas quais podem determinar o curso da História. O sintoma de uma verdadeira doença mental é fundamentado na perda da autonomia. Como os que dela sofrem são inteiramente condicionados pelo exterior, esta doença mental ainda não foi reconhecida como o que é: a negação da realidade em nome do realismo. A esses “realistas” não faltam certamente as capacidades mentais, mas eles não conseguem fazer livre uso delas porque têm de manter de pé a mentira fundamental, custe o que custar, e têm de empenhar-se toda a vida em negar a razão de ser ao seu interior. Esta loucura não reconhecida ameaça a humanidade, entre outros fatores, porque nunca o potencial destrutivo nas mãos dos que têm sede de poder foi tão grande como hoje. A perda da autonomia não reside apenas nos homens que apertam os botões da bomba. Se são mais perigosos, é porque chegaram lá. A natureza do problema é mais de grau que de gênero. Todos os que se comportam só de acordo com as leis do mercado também abriram mão de sua autonomia e tornaram-se igualmente doentes e prisioneiros. Esse tipo de doença difere do caso do esquizofrênico diagnosticado como patologico num ponto essencial: o esquizofrênico encontra-se numa luta consigo próprio para conseguir lidar com um mundo insuportável; a loucura dos considerados sãos é, pelo contrário, uma luta na qual outros têm de ser vencidos para que eles próprios possam se sentir seguros. Essa postura que reflete o processo pelo qual se toma o que se odeia e se teme e transforma-se isso numa ameaça externa como um verdadeiro inimigo, se esconde por trás da cisão entre o interior e o exterior e não é só a subjugação à mãe, mas também a raiva contra o pai que não protegeu o filho contra as pretensões de supremacia da mãe. O que todos os “machões” designam de feminino – o pendor para ter pena de si próprio – está estritamente ligado à mentira fundamental, segundo a qual a sujeição ao poder não se deu por iniciativa própria. O modelo “feminino” deles é uma distorção produzida pelo patriarcado, que desfigurou os valores da mulher para poder desrespeitá- los. Crianças que foram levadas a odiar as mães adquirem um ódio que leva a tudo, menos a uma verdadeira identificação com o feminino, o que conduz à sua paródia. O ódio e a morte caracterizam o relacionamento com outras pessoas, se a criança trocou a
    • 71 71 sua autonomia por poder. A total ausência de medo pretendida pelos líderes do tipo “machão” – como Napoleão, Adolph Hitler ou George Bush – demonstra o elevado grau da sua alienação em relação à realidade dos sentimentos humanos. Não raramente, fica patente que eram sujeitos a crises de medo, sempre que o controle da situação lhes escapou das mãos. O medo aparece sempre ligado às fantasias da grandeza nacional. Os estudos realizados pelo psicólogo alemão Gruen, sobre as relações que esses líderes tiveram com suas mães durante a infância indicam que sua sujeição aos desejos maternos parece ser provocada pela forma com que uma mãe escolhe o filho para objeto único do seu afeto. Uma mãe desse tipo nutre a ambição do seu filho. O fato de ter a atenção aparentemente total da mãe, e à medida que a própria existência a faz sentir-se mais importante, provoca na criança não só sentimentos edipianos em relação ao pai, mas, também, um triunfo secreto. A manifestação disso, freqüentemente, é em forma de um desprezo latente pelo pai, que reproduz os inconfessos sentimentos negativos da mãe em relação ao pai. Qualquer que seja a atitude de tal filho ou filha aos olhos da mãe, nunca será errada. Dessa maneira, a criança desenvolve não só uma mania de grandeza desenfreada, mas também um grande vazio interior. Isso acontece, como todos os pais sabem. Desolador é que os pais, por mais que tentem acertar, erram sempre, de alguma maneira. Mas vale afirmar, mais uma vez, as diferenças das naturezas desses erros. A mania de grandeza diminui a consciência do bem-estar do Outro e, com isso, a capacidade de sentir a aflição ou felicidade alheias, sem a qual uma vida interior não existe. Crianças que se desprezam e odeiam – por se terem deixado instrumentalizar – também desprezaram a mãe que estimulou nelas justamente aquilo que elas próprios, no seu interior profundo, sentem como vazio e um vazio muito concreto. Nem todos os homens poderosos tiveram mães possessivas. Muitos conseguem vê-las como pessoas reais, mas temem qualquer limitação da sua independência como uma dor e lutam contra tal com todos os meios à sua disposição. As mães possessivas incitam o filho à ambição ou fazem dele o seu salvador. Não amam o filho por ele próprio, mas usam-no como utensílio ou troféu na sua luta secreta contra o marido, o que poderia fazer com que o filho fosse recusado como o pai se deixasse de corresponder às expectativas maternas (aceitam o mito masculino, mas não o marido).
    • 72 72 Duas características desmascaram a destrutividade dos seres poderosos, que se oculta por trás da aparência de delicadeza e bondade: os inimigos externos que são incansavelmente multiplicados e a pena de si próprio, que se faz passar por sofrimento. Os políticos costumam estarrecer os circunstantes por seu ar de profunda tristeza, muitas vezes não faltando lágrimas, e, como o poder é a realidade deles, declaram guerra à psicologização da História. Também não é a psicologia que está em causa, mas sim a fuga da própria verdade interior. O “realismo” é a tentativa de viver sem a realidade de uma estrutura moral interior. A fuga da verdade é a pedra fundamental em que tal realismo se baseia. Loucura, normalidade e literatura Há cerca de cinco anos, pesquisas feitas por intermédio da internet revelaram pouca incidência do termo “esquizofrenia social”: nenhuma em alemão, uma ou outra em francês e inglês – geralmente quase acidental – e algumas em espanhol e em português. Tratava-se em todos os casos, de considerações feitas a respeito de situações socioeconômicas próprias da América Latina, cuja proximidade e exposição permanente à emanação de ingredientes da mídia norte-americana produzia um fenômeno de distorção cognitiva das percepções das populações de baixa renda em relação aos códigos de opulência presentes na informação jornalística ou ficcional de tais meios. Talvez não por coincidência seja o nosso continente berço do que se convencionou chamar no século 20, de “realismo mágico” na literatura – e que produziu obras como Ecué-Yamba-O e O reino deste mundo, de Alejo Carpentier, Cem anos de solidão e O outono do patriarca, de Gabriel García Márquez, Terra nostra, de Carlos Fuentes, El aleph, de Jorge Luis Borges ou O sumiço da santa, de Jorge Amado – todos citados por Moacyr Scliar entre o que considera as dez obras-chave dessa tendência. A expressão foi criada em 1925, pelo crítico alemão Franz Roh, para designar a arte pós-expressionista. Muitos escritores e artistas latino-americanos viviam na Europa e eram influenciados pelo surrealismo e pela valorização das fantasias nascidas no inconsciente. Voltando a seus países, contudo, descobriam que haviam procurado longe o
    • 73 73 que estava perto, em matéria de exótico, fantasioso ou mesmo demente. Embora essa temática não fosse novidade na literatura (ela está presente em Rabelais, Sterne e Hoffmann, entre outros), a fusão da narrativa realista com elementos fantásticos mostrava-se adequada às contradições políticas, econômicas e sociais do continente, bem como ao discurso dos movimentos reivindicatórios crescentes, abafados pela repressão das ditaduras militares prevalentes em função do jogo de forças da Guerra Fria. O realismo mágico era a maneira de driblar a não muito inteligente censura dos países da América Latina. Os escritores falavam de coisas fantásticas como se tivessem acontecido na realidade”, utilizando-se de concepções míticas de tempo e espaço. Não desejaria descartar a possibilidade interpretativa a que se referem, de descrições precoces de fenômenos sintomáticos da esquizofrenia social e cujo verdadeiro pioneiro teria sido o brasileiro Joaquim Machado de Assis, com a sua obra O alienista, cujas citações encaixam-se com perfeição nas titulações deste livro. Podia perceber que os dois comportamentos diferem do quadro que exponho: a esquizofrenia e a psicopatia. O esquizofrênico sofre por não conseguir aceitar a falsidade de um eu fundamentado na sujeição. Ele deseja amor, mas o que encontra é a hipocrisia de um falso amor que tem de ser comprado pela subjugação. Por isso, faz tudo para provar que o mundo nem pode amá-lo. Assim, ele escapa ao perigo da sujeição e, ao mesmo tempo, “salva” mãe e pai de terem de assumir a respectiva responsabilidade: se nem merece ser amado. É ele o responsável pela sua situação. Em conseqüência, conserva uma autonomia potencial e, ao mesmo tempo, a esperança paradoxal de qualquer dia ainda estabelecer uma comunicação amorosa com alguém. Além disso, verificava que a mutilação da possibilidade da relação com o eu interior produz a falta de autenticidade. O desprezo por si e pelos outros torna-se, assim, comportamento socialmente aceito. Aprende-se a influenciar as expectativas jogando com as esperanças do outro. Tal “realidade” das relações humanas esconde os sentimentos de vingança e destrutividade que se dirigem contra o amor desejado, mas não obtido. A partir disto, desenvolvia-se uma estrutura comportamental que caracteriza o psicopata como versão acentuada do conformista. O psiquiatra americano Cleckley descreve, na sua obra The mask of sanity, um fenômeno que tinha permanecido sem solução no quadro das descrições das doenças
    • 74 74 psiquiátricas. Todas as psicoses “ortodoxas” são acompanhadas de alterações mais ou menos nítidas do raciocínio ou outros indícios que mudam a personalidade, sejam eles desvarios, alucinações ou um pensamento destituído de qualquer lógica. Não é este o caso do psicopata caso tenha se deixado descobrir, de alguma forma, e tenha permanecido em observação psicológica ou psiquiátrica. Freud achava impossível analisar um psicótico, justamente por não haver contato. Cleckley analisa que o observador vê-se confrontado com uma máscara convincente de sanidade mental. O aspecto exterior dessa máscara é perfeitamente intacto; impossível penetrá-la com questões para atingir as camadas mais profundas. O examinador nunca encontra o caos que por vezes se enxerga debaixo da superfície do esquizofrênico paranóide. O raciocínio desenrola-se em moldes perfeitamente normais do ponto de vista psiquiátrico e os testes que poderiam revelar perturbações ocultas não indicam alterações. Aparente são as estruturas sólidas de uma personalidade sã e razoável, assim como com as formas de expressão histriônicas, lingüísticas e os juízos de valor intelectuais e emocionais. Só muito gradualmente se levanta a suspeita de que, apesar das aparências, não se trata de uma pessoa minimamente intacta, mas sim de verdadeira máquina de reações, sutilmente construída, que sabe imitar quase com perfeição uma personalidade humana. Esse aparelho psíquico afinado não só produz amostras corretas de pensamento, como também imitações dos sentimentos humanos que reagem a quase todos os estímulos da vida. Essa cópia de Ser perfeito e normal parece tão autêntica que ninguém que o atenda na situação clínica consegue especificar em termos cientificamente objetivos como e por que não é real. Mesmo assim, sabemos ou sentimos que ele não tem uma realidade no sentido de uma vida vivida de forma plena e saudável. Enquanto o psicopata foge ao seu núcleo interior, o esquizofrênico tenta ficar consigo próprio recusando as formas e as intenções da vida exterior. A fuga do psicopata para fora é a expressão da sua extrema sujeição ao exterior. O psicopata desvia as atenções das nossas percepções intuitivas e o faz da seguinte maneira: finge um estado de espírito com convicção, o que nos faz perder de vista o encadeamento dos fatos e a nossa interpretação deles. O psicopata alardeia sentimentos para confundir o outro até o ponto em que este duvida dos próprios sentimentos e fica com a culpa. O que sabia era que quando esses casos tornam-se clínicos – porque os familiares já não conseguem lidar com
    • 75 75 o comportamento estranho e estão preocupados com a insensibilidade manifesta ou porque precisa-se de uma justificativa social para um comportamento desviante–, em geral, os pacientes têm alta em pouco tempo porque não se descobre nenhuma doença. Mesmo especialistas não conseguiam ver a cisão. A incapacidade de autocontrole, a privação da capacidade de sentir vergonha e o sentido de culpa, fazia-me pensar na distinção entre “sentido de culpa” e “sentimento de culpa”. O primeiro advém de uma responsabilidade sentida; o último, do medo das autoridades. Pensava que poderia ser fatal se facilmente desculparmos essa autodestruição às pessoas com poder político, mesmo que com isso também nos prejudiquemos. De certa forma ao fazermos isto, queremos salvá-los porque, liberando-os da culpa, também aliviamos a nossa própria consciência. Trata-se do fingimento de sentimentos no quadro de um comportamento aparentemente normal. À medida que uma mãe impossibilita à criança a percepção de culpa – responsabilidade - isso é decisivo para a intensidade do desejo de exercer poder. Outro comportamento típico do psicopata, a autodestruição, seria uma maneira nada sutil de se vingar da mãe, ao contrário do esquizofrênico que tenta compensar as contradições, primeiro na sua mãe, depois à sua volta. Constrói para si uma realidade que corresponde ao caos interior do ódio e do desejo de vingança. O inconsciente dessas pessoas não é feito de necessidades sexuais reprimidas, como Freud pensava, mas sim do ódio de si próprio que decorre da perda da autonomia. O processo decisivo é o que cada um desses sentimentos contribui para a perda da sua humanidade. Se a traição de si próprio no caso do esquizofrenico é tão grande como no psicopata, o inconsciente dos dois está marcado pelo caos, um rancor extremo e muita dor. A língua do coração poderia ser o único meio de conexão com o psicopata e a salvação e a cura, assumir a responsabilidade pelo próprio eu. Desse modo, vía que tanto o neurótico como o esquizofrênico – assim como a pessoa criativa – têm acesso ao seu inconsciente. Os dois extremos da perturbação mental refletem aspectos distintos da realidade: o esquizofrênico, pelo excesso de sofrimento e desamparo, parodia o mundo interior do sentir, ao passo que o psicopata parodia, pelo seu comportamento, as regras da nossa realidade exterior. O psicopata, por assim dizer, prende-nos a essa realidade exterior, de maneira que a interior pareça não existir. O
    • 76 76 esquizofrênico tenta ganhar a nossa compaixão, mas a recusa quando a oferecemos porque tenta provar que todos são hipócritas. O psicopata joga com as nossas expectativas de sucesso e segurança que desilude mal as cria. O esquizofrênico faz de si o objeto das nossas piores expectativas. Assim, ele se faz vítima e, ainda por cima, insiste que a culpa é sua. O psicopata, pelo contrário, subtrai-se a todo gênero de responsabilidade, confundindo-nos, e conta com a nossa pena. De forma correspondente, percebía que a imagem que temos do próprio corpo e o nosso relacionamento com ele refletem a integração ou a dissociação entre interior e exterior. A percepção do corpo e dos seus processos interiores depende muito de processos sociais. Uma cultura que dê muita importância a exterioridades bloqueia o acesso à sensibilidade interior. Mas a discussão das aparências em confronto com a realidade e a essência das coisas é uma questão antiga que data de Platão, da filosofia grega. Na maternidade, uma mãe que deriva a sua auto-estima da sua atratividade para o homem ou da ilusão de poder na posse do filho não pode reconhecer e respeitar o valor próprio da criança. Só quando a mãe consegue questionar a própria ambição é que a criança tem uma possibilidade de encontrar uma vida própria. Só quando ela, mãe, puder abrir espaços na sua vida à parte da do seu filho – descolá-lo para fazê-lo viver – é que poderá doar ao filho a plenitude das suas potencialidades. Sobre o mito masculino, descobría que é de uma tenacidade traiçoeira e impede muitos homens de entrar em contato com o seu interior. Por isso, a psicopatologia masculina manifesta-se mais freqüentemente por um comportamento anti-social do que a das mulheres, as quais tendem mais a empenhar-se em lutar consigo próprias. As mulheres sofrem de depressão duas vezes mais do que os homens e mais do que isso em termos de esquizofrenia. Estamos mais fadadas à loucura explícita.
    • 77 77 Simplificação, banalização e cisão Os “realistas” freqüentemente encontram o seu lugar na burocracia, em que podem amordaçar sentimentos em nome da lei e da ordem e, ao fazê-lo, sentir a razão do seu lado. Acreditava que é muito difícil distinguir como tipos puros o realista do idealista. Platão é chamado alternadamente das duas coisas. O brasileiro Monteiro Lobato era idealista e realista: queria um Brasil melhor, mas com essa raça de mestiços não era possível (achava). Para Marini Filho, Lobato dava como certo que o status quo brasileiro não se alteraria por reformas constitucionais ou barganhas políticas de superfície. Sua alteração exigia medidas mais profundas que mudassem a própria cultura da gente, fazendo emergir o povo capaz de constituir Nação. Além da melhoria da raça pela mistura com o europeu, seu nascimento teria que se dar em berço forte e moderno. Ainda sobre este escritor, Penteado acrescenta, que a importância maior de Monteiro Lobato foi a de ter contribuído, com inteligência e emoção, para o infindável processo de individuação de cada um de seus leitores, aguçando-lhes as consciências sobre o desenvolvimento do potencial criativo e das possibilidades de ação individual para aperfeiçoamento do ser humano e da sociedade. Sabia que, individualmente, pode-se recusar a “esquizofrenia ética” simplesmente não entrando no jogo: um relojoeiro de subúrbio sem ambições de tornar-se exportador de relógios; um advogado que aceite poucos clientes e poucas causas, nas quais acredite de fato; um cirurgião plástico que dedique seu tempo a modestas operações corretivas (queimados, deformações congênitas ou adquiridas) em vez de rendosas siliconagens. Contudo, o preço social é alto: tornar-se um looser é certamente o status mais detestado e temido na sociedade de consumo, por isso poucos se aventuram neste caminho. Weber, ao descrever de modo irretocável o contexto da burocracia, ou seja, das organizações que já no início do século assumiam o controle das coisas e que ele acabou repelindo como “jaula de ferro”, deu origem ao chamado Modelo Weberiano de Burocracia, baseado em seus preceitos, mas descrito textualmente por sociólogos que vieram depois: Hans Gerth, C. Wright Mills, Alvin Gouldner, Robert King Merton, entre
    • 78 78 outros. Tal modelo de organizações complexas pode ser resumido em três faces: Requisitos Funcionais, Condições Disfuncionais e Requisitos Funcionais Contraditórios. Naturalmente este último nos interessa mais porque dele derivariam forçosamente a incerteza, a ambigüidade e o conflito entre atitudes e comportamentos. Os “provérbios” administrativos funcionam bem nos dois primeiros casos: “Um chefe deve ser verdadeiro com seu subordinado” (requisito funcional) ou “O bom-mocismo do chefe gera indisciplina sob si” (condição disfuncional, muito encontradiça nas empresas públicas e privadas, não amarradas ao lucro). Mas a realidade das organizações complexas, de todos os tipos, precisa estar coerente com a realidade do ambiente externo, onde requisitos divergentes puxam em todas as direções. Assim, um chefe pode saber que seu assistente não tem condições de continuar na empresa, mas despedi-lo em um dado momento comprometerá uma série de instâncias e projetos em andamento. Se quer ser funcional, esse chefe precisa ser contraditório: sabe que vai dispensar o assistente em dois meses, se as variáveis estiverem em boa conjunção, mas até lá precisará mantê-lo a seu favor, em vez de transformá-lo em adversário interno. Muitos se utilizam deste estratagema como escudo contra seus desejos perversos, inconfessáveis, e encontram nesta“ação de fora” a forma conveniente de agir. Muitos sabem o que esses requisitos contraditórios representam de simulações, abraços de Boas Festas e demonstrações fictícias de confiança, mas tornam-se coniventes do que se convencionou chamar de polidez social e política. Há indícios, por exemplo, de que Franklin Roosevelt conhecia com antecedência os planos belicistas do Japão, talvez até os tenha incentivado nos bastidores, contando com um ato estrondoso como Pearl Harbour acontecido em 7 de dezembro de 1941, para sacudir a inércia dos isolacionistas norte-americanos que não queriam os EUA na guerra. Roosevelt, isto já não é hipótese, tinha certeza de o conflito ser inevitável, portanto o momento precisava ser escolhido para quando estivesse mais bem preparado. Esse jogo de manhas permitiu, inclusive, nas horas que antecederam o ataque, a diplomacia americana e a japonesa trocarem amenidades e gentilezas, como se ambas não estivessem prontas a se destruírem. Assim seriam, também, as relações das pessoas. O fato de, na sociedade moderna, as organizações complexas disporem de
    • 79 79 hegemonia incontestável e precisarem buscar a eficácia usando requisitos funcionais contraditórios, além de ser impossível as pessoas responsáveis pelas organizações se dissociarem dos princípios organizacionais, leva-as a valores e comportamentos contraditórios fracionados: os individuais – domésticos e íntimos – e os profissionais. O rótulo “esquizofrenia social” é uma forma expressionista – no sentido do desenho de Munch, O grito – de caracterizar a mentira inevitável, a ambigüidade dos que se compõem com o sistema e aspiram a ser ou são winners. Comporta “esquizofrenia ética”, pois a relativização da Ética é a restrição mental que os absolve e mantém unidos pregos e as tábuas da sociedade moderna, assentada no capital, na produção, no emprego e nos meios de comunicação. Essa disposição de mais respeito pelas regras do que pela vida real torna possível a aliança entre o conformista e o psicopata. Ela ocorre por diversas vias. Em primeiro lugar tem-se a atitude de simplificação, que representa a redução de acontecimentos a apenas uma determinada dimensão, com a intenção de impedir reações emocionais adequadas. As relações inoportunas entre as coisas e os fenômenos são omitidas. As pessoas responsáveis pelos acontecimentos nada sabem acerca dos outros, mas são elas que determinam como as realidades devem ser e qual deve ser a nossa percepção delas. A partir de tal idéia podemos inferir que este papel impregna com muita intensidade a mídia moderna da comunicação. A banalização é outra das três vias que podem unir conformista e psicopata. Se minimizarmos e banalizarmos os acontecimentos, podemos igualmente separá-los dos sentimentos que possam suscitar. Podemos reduzir a vida a uma estatística insignificante, como também podemos sujeitá-la às inovações técnicas – a tecnologia moderna que produz na pessoa a certeza de não ter de responder a si própria pelo que faz. Antes, nas guerras, os que matavam estavam sujeitos a ser mortos, mas hoje isso se faz ao comando de uma aparelhagem altamente complexa que limita a percepção daqueles que estão a matar e torna mínimo o risco pessoal que correm. Banalizar os fatos, as pessoas, é, muitas vezes, a expressão de um profundo desrespeito por si mesmo. Mas fica cada vez mais difícil fugir disso. Basta ver como a mídia noticia as catástrofes: “Ataque em Bagdá causa 200 mortos e prejuízo de 18 milhões de dólares”; “Furacão
    • 80 80 assola as Filipinas e os estragos são de 800 milhões de dólares; e também há centenas de mortos e milhares de feridos”. Por último temos a estratégia da cisão, que serve para desviar as atenções dos fatos e tratar de outras questões, destruindo a ligação entre os acontecimentos e os sentimentos que provocam. Este elemento pode atuar ainda de forma eficaz quando se desviam as atenções para detalhes. Este mecanismo faz-nos duvidar da nossa percepção da situação. Um dos meios mais utilizados é a manipulação da memória. Isso é auxiliado pelo fato de vivermos num mundo onde a densidade e a velocidade da informação são maiores do que nunca. A informação está disponível, mas é oferecida apenas em fragmentos que não têm nexo com a vida no seu conjunto. Os que desejam desequilibrar a nossa percepção integral, no entanto, não o fazem apenas por querer enganar-nos, mas porque temem para si próprios a integração dos mundos interior e exterior. Tal integração colocaria em perigo o seu equilíbrio aparente, por trás do qual espreita a psicose. O poder político é um meio de manter a cisão interior. Porém, quem o adota não o procura apenas como fim em si, mas para se apoiar nele e evitar a sua desintegração. Ela aprendeu bem as lições da sua infância: a dor é tomada como um instrumento de dominação, por isso só o poder e a violência contam. O colapso total da sua “realidade” talvez leve ao colapso da sua identidade psíquica, porque o mundo exterior é o revestimento protetor do seu caos interior. No caso do esquizofrênico o que é deplorável e, ao mesmo tempo, admirável é, pelas palavras de Siirala, que a esquizofrenia não é apenas um determinado tipo de fraqueza, mas também uma capacidade especial de reagir de uma forma muito direta aos aspectos intoxicantes da convivência humana”. Aqui, encontrava o esquizofrênico encarado como tipo positivo, capaz de proezas admiráveis em prol da arte, da literatura, da filosofia. Com o Museu do Inconsciente, doutora Nise da Silveira - notável psiquiatra brasileira- e a sua Casa das Palmeiras, mostrava-me essa possibilidade. A debilidade consistia em não se saber capaz de se defender de uma forma aberta e direta contra o caráter dividido da nossa civilização. O’Brien demonstrava-me num relato autobiográfico como é a luta de um esquizofrênico pela conservação da sua integração: “Fui uma criança normalíssima, que
    • 81 81 tinha apenas algumas características estranhas. Perdi a minha integralidade, para que só fossem aceitas umas partes de mim”. Ela aprendeu a desmontar o emaranhado de vias pelas quais se tinha desfeito do seu eu próprio e tinha adotado a negação social do interior. A desintegração do esquizofrênico, no fundo, é uma tentativa de integração, já que toda e qualquer interação comporta o perigo da subjugação, reduzindo progressivamente os contatos e esvaziando-os até oferecer a imagem do “assoreamento emocional” de um morto-vivo. Mas, quanto mais profunda a cisão, maior o medo e a derrocada pode significar reconstrução, se ainda houver restos do eu autônomo, mesmo isolados. Por isso, os sintomas do esquizofrênico têm sempre um sentido, mas são mensagens em código, porque ele teme a nossa compreensão. E, agora? Ao nos fazermos observadores conscientes, lúcidos e participantes ativos de nossas vidas familiares, somos capazes de refletir sobre o seu significado e seu impacto em nosso desenvolvimento pessoal. Só assim, podemos nos aprofundar em sua história, seu legado e suas crenças, a partir da compreensão de seus mitos, segredos e limitações transmitidos `as outras gerações, para que em cada uma delas podessemos viver com plenitude o presente, buscando mais autonomia no futuro, para que haja a liberdade de crer e recriar nossa realidade de forma distinta. O limite traçado entre a normalidade e a patologia é uma tentação freqüente, apesar de ter-me determinado que a reivindicação mais profunda que faço é, especialmente em relação à família, a valores de tolerância e de respeito à diversidade dos modelos familiares. Nenhuma ordem social gera as tendências fundamentais mas determina quais as que irão manifestar-se entre as muitas potencialidades. O critério que tomei como saúde mental não é o da adaptação do indivíduo a uma ordem social, mas um critério universal válido para todos os homens – o de dar uma solução suficientemente satisfatória ao problema da existência humana, de forma mais harmônica e desejável. O que a família é e o que significa para a sociedade deveria ser pensado nas suas diferenças mediante uma contribuição interdisciplinar na tarefa de entender a esquizofrenia social como uma manifestação cultural de um determinado tempo histórico.
    • 82 82 7 Nesse ponto, todos os cronistas estão de pleno acordo: o ilustre alienista fez curas pasmosas... (Machado de Assis – O alienista)
    • 83 83 Leibnitz e Ibsen: do Pato Selvagem à pós modernidade Buscava, bravamente, suporte `as revelações encontradas sobre a doença social. Sabia que a literatura e a poesia podem, em alguns casos, chegar mais perto da realidade humana do que a investigação psicológica, orientada demasiadamente pelo mito da “realidade” e das estruturas de poder daí decorrentes. O testemunho dos escritores, tanto a respeito da unidade como da divisão da percepção, fornece exemplos eloqüentes da loucura que se esconde sob a máscara da sanidade. Para clarear a questão da dicotomia das falas no interior da família pensei em utilizar uma peça do autor norueguês Henrik Ibsen: O pato selvagem,. Ibsen explora o mundo da família dos Ekdals, que levava uma existência pacífica e tranqüila até a chegada de um jovem, quando passa a se ver fragmentada e destruída em nome da verdade. Gregers Werle é o filho de Hakon Werle, um rico homem de negócios, que retorna para casa depois de dezessete anos. Nesse retorno ele reencontra Hjalmar Ekdals, seu amigo de infância que é um empobrecido fotógrafo. Hjalmar Ekdals estava casado e com uma filha de 14 anos, Hedvig. Mas Gregers Werle se vê diante de uma série de situações que o levam a crer que aquele mundo, do qual ele estava novamente diante, era fundado em uma série de mentiras. Em primeiro lugar ele descobre que a mulher de Hjalmar, Gina Ekdals, além de empregada de seu pai, também é sua amante, o que o leva a concluir que o casamento do amigo construíra-se sobre uma rede de ilusões. Além disso, ele desconfia que Gina seria o motivo da morte prematura de sua mãe. Gregers imagina, a partir de então, que seu pai teria arranjado o casamento de Gina com Hjalmar para tornar a gravidez de Gina respeitável e, com isso, preservar o próprio nome. Assim, Hjalmar não imaginava que Hedvig, na verdade, fosse filha de Hakon Werle. Diante de tal descoberta, Gregers deixa a casa de sua família e muda-se para a casa dos Ekdals, ocupando o sótão que divide com o pai de Hjalmar e uma coleção de galinhas, coelhos e um especial animal de estimação de Hedvig, um pato selvagem. Esse pato selvagem é uma peça central no sótão, no qual o pai de Hjalmar imagina poder caçar coelhos com uma pistola. Para Gregers, esse espaço de fantasia representa melhor a
    • 84 84 realidade da vida de mentiras dos Ekdals do que os espaços domésticos da casa, nos quais eles comiam, dormiam e conversavam. Gregers dedica-se a expor e desmantelar uma série de ilusões nas quais a felicidade dos Ekdals estava baseada. Convencido de que a realidade é sempre superior à ilusão, ele força seus amigos a ficar diante da verdade em suas vidas. A ação da peça consiste na implacável busca de Gregers por libertar Hjalmar das ilusões. Em alguns momentos Gregers consegue romper as ilusões do seu amigo. Mas, ao fim da peça, o que ele realmente consegue é levar Hedvig ao suicídio, diante do implacável encontro com a realidade. Gregers não considera as conseqüências de seu idealismo em nome da verdade. No caso da peça de Ibsen, desvendar a verdade levou à destruição de todas as pessoas que o personagem Gregers desejava salvar. O pato selvagem simboliza o universo familiar como sendo construído sobre mentiras que se deseja tomar como verdades – mentiras que as pessoas se recusam a encarar como tais e têm pouca resistência diante de seu desvendamento. A verdade desempenha um papel devastador na peça de Ibsen. Escrita no final do século 19, mostra-nos claramente a dicotomia das falas no interior de uma família, na qual o que se fala, vê e ouve não é correlato com a realidade. Na nossa sociedade atual, essa dicotomia das falas vem sofrendo uma radicalização. Esse traço é destacado por Baudrillard, para quem o mundo vem se constituindo, cada vez mais, como uma ilusão, fundamentando-se na incerteza, onde não há mais um sistema de referência interna diante da presença constante de um mundo virtual que faz com que o real não possa jamais se trocar por nada. Nesse mundo o outro vem perdendo o seu espaço. O indivíduo não confronta a sua fala e isto o leva ao isolamento e à esquizofrenia. No mundo contemporâneo não há mais uma realidade objetiva, permitindo a crítica sobre essa dicotomia das falas, que passa despercebida, como em O pato selvagem. Baudrillard identifica que a sociedade neste processo de involução marcado pelas máquinas, pelo excesso de informação e pelo desejo da clonagem, anula as diferenças e permite a duplicação de si mesmo. Esse domínio do mesmo é um aniquilador da individualidade, bem mostrado na análise que faz da simbologia dos irmãos gêmeos, quando diz que:"É, na verdade, com essa cesura
    • 85 85 “ontológica” para com o gêmeo que se inaugura o ser individual e, assim, a possibilidade de uma alteridade e de uma relação dual. Somos seres individuados, e orgulhosos de sê- lo, mas em alguma parte, no inconsciente ainda mais profundo do que no inconsciente psicológico, nunca nos recuperamos disso." Esse desejo de aniquilação do outro representa o desejo pelo retorno da natureza indivisa, que viria de um remorso pela individuação dos seres. Trata-se de encontrar uma forma de enfrentar a incapacidade de conviver com a diversidade, com a complexidade, com a alteridade. Daí o desejo de recriar o mesmo. O sujeito atual é indivisível, portanto, considerado perfeito, pois é o sujeito sem o outro, sem a alteridade. Esse quadro pode ser ainda mais radicalizado. O mundo futuro poderá abrir uma série de opções, de mudanças sucessivas para que os indivíduos controlem suas vidas antes mesmo do nascimento: sexo, genes, nascimento, signo astrológico etc. O destino, a eventualidade, não será mais dado neste mundo. Daí surge o conceito de sujeito fractal, de Baudrillard:" No estágio último de sua “liberação”, de sua emancipação no encadeamento das redes, das telas e das novas tecnologias, o indivíduo moderno torna-se um sujeito fractal, ao mesmo tempo subdivisível ao infinito e indivisível, fechado em si mesmo e consagrado a uma identidade sem fim. De alguma maneira, o sujeito perfeito, o sujeito sem o outro – cuja individuação não é, então, de forma alguma, contraditória em relação ao status de massa". A pós-modernidade adora aporias: ser, ao mesmo tempo, indivíduo e, sem contradição, dissolvido na massa. Assim, a rede de mentiras e de ilusões na qual a família Ekdals se fundamentava fez-me refletir sobre o conjunto de hipocrisias construídas no interior da estrutura familiar e que funciona como um dos aspectos construtores do contexto da esquizofrenia social. Parecia-me que as mentiras e as farsas são “simulacro moral”, uma representação aceita e nem sempre questionada. Mas penso que é necessário deixar de lado a legitimidade do direito e estabelecer a autenticidade ética na relação entre os membros da família e da sociedade, definindo o compromisso dos sentimentos. Cada um dos indivíduos deverá, então, colocar-se de verdade, para ter condições de ser sujeito de sua própria história, na realidade que vivencia. Sei que, ao fazer tais reflexões, também agito a eterna perplexidade do homem acerca do que seja a verdade. Como encontrar a verdade? Onde está? Neste trabalho,
    • 86 86 busquei uma leitura de mundo com “estranhamento”: tentando desvelar, em vez de simplesmente aceitar como dado, o que se costuma ver na superfície da sociedade. Como sustentação dessa angústia, fui buscar maiores explicações no PRS – Princípio da Razão Suficiente – que, com a intuição, com o motivo, com a causa, com o sentido, mesmo sem o significado lógico, racional, cerebral, demonstra-nos uma explicação. Para mim, e neste caso de esquizofrenia social, impuz ater-me ao conceito de razão, descrito no verbete "razão" de Ferreira, e que se constitui em: “a faculdade superior de conhecimentos que se pretendem dotados de necessidade e universidade, expressos de modo discursivo e cujos princípios são inatos. O sistema de princípios a priori cuja verdade não depende de experiência”. Assim, fui entender o princípio da razão suficiente, ou seja, que tudo o que existe e tudo o que percebemos tem uma causa determinada e que essa causa pode ou não ser conhecida. De acordo com esse princípio, todas as verdades de fato podem tornar-se verdades necessárias a serem consideradas verdades de razão, ainda que para conhecê-las dependamos da experiência. Chaui, define o Princípio da Razão Suficiente como o que afirma que tudo o que existe e tudo o que acontece tem uma razão (causa ou motivo) para existir ou para acontecer, e que tal razão (causa ou motivo) pode ser conhecida ou não pela nossa razão. Também chamado de Princípio da Causalidade, para indicar que a razão afirma a existência de relações ou conexões internas entre as coisas, entre fatos ou entre ações e acontecimentos, pode ser enunciado da seguinte maneira: “Dado A, necessariamente se dará B”. E também: “Dado B, necessariamente houve A”. Para Leibniz, precursor de Schopenhauer e Kant e que foi quem primeiro conceituou esta noção, um dos principios que governam o mundo é o Princípio da Razão Suficiente:“É em virtude deste princípio que não pode algum fato ser tomado como verdadeiro ou existente, nem algum enunciado ser considerado verídico, sem que haja alguma razão suficiente para ser assim e não de outro modo”. Enfim, o que percebia é que só podemos reconhecer um fato, um sentimento, um pensamento na medida em que conhecemos suas razões (origens). Até aí, na dúvida imperante, devemos cultivar o estímulo e a curiosidade que nos levarão à descoberta. Este processo evitará que a confusão, a perplexidade, a indignação – este estado ainda saudável – e a loucura destrutiva se instalem no ruído comunicacional, ambiente mais do
    • 87 87 que propício à formação da esquizofrenia social. Sobre a verdade, entre tantas opções, escolhi uma alegoria que a correlaciona à força que move a natureza, que ora se esconde, como o trigo que “morre” no inverno, ora se mostra, quando ele “nasce” na primavera. Da mesma forma o desejo da verdade move o homem reflexivo, levando-o a procurar distinguir o verdadeiro do falso, a tentar enxergar em meio à neblina. Aqui não tratei da physis no sentido que davam os antigos gregos ao se referirem à força que fazia brotar o trigo. Também não pensei a natureza em “sua” verdade, mostrando-se e escondendo-se. A solução para tal drama não se encontra exatamente num simples desvelar de mentiras, mas na invenção de novas tradições e, para o meu trabalho em particular, trata- se de um redimensionamento das estruturas internas das relações familiares, que deverão se dar sob uma nova ética e passar para além do fim, na realidade em demasia, na positividade em demasia, nos acontecimentos em demasia, na informação em demasia, é entrar em um estado paradoxal que não pode mais se satisfazer com uma reabilitação dos valores tradicionais e que exige um pensamento em si mesmo paradoxal que não obedeça mais a um princípio de verdade e aceite a impossibilidade mesma de se verificar, como afirma, Baudrillard. Dada essa importância vital, parecia-me que essa comprometida família, berço de modelos comportamentais da sociedade precisaria fazer uma autodenúncia – “canibalizar-se” – e buscar um novo papel. Ou seja, libertada do determinismo do que é, de fato, um acidente biológico, revelar-se sem culpas, assumir um compromisso ético diante de sua inegável importância para o equilíbrio de cada um dos seus participantes. Uma das hipóteses que defendo é a de que a substituição da mentira pela verdade é processo que já se iniciou. Está impresso na mídia e pode ser observado nela, na forma como são expressas as suas contradições, leviandades e manipulações, levando-a à fragilização e ao descrédito, condição de objeto descartável, dispensável. É um desejo da sociedade contemporânea que se manifesta em estados latentes de saturação. Se for atendido, ainda poderemos ser companheiros de uma geração que crescerá no reconhecimento da mudança, criando a possibilidade de romper o padrão desse processo antropofágico familiar que se reflete na sociedade: Através da ética da sobrevivência, irá estabelecer uma nova ritualística que vai consagrar a família como a nova família.
    • 88 88 Paralelamente a isso, são necessários também a construção de novas memórias coletivas e individuais para o rompimento de antigas tradições e o estabelecimento de uma nova tradição, mesmo que ainda ancorada em alguns valores anteriormente constituídos. A função da memória no processo psicológico Como mantemos este "patern", padrão que nos acompanha gravado no DNA da nossa história? Falava sobre a memória coletiva e a memória individual. Esses dois tipos de memória encontram-se sempre relacionados e numa permanente dialética. Um dos mais importantes pensadores sobre esse tema, o sociólogo Maurice Halbwachs dava algumas pistas para pensar a respeito da memória nos tempos atuais e suas relações com a família. Centralizei minha analise no texto A memória coletiva. Partindo do conceito de memória coletiva construído por Halbwachs, encontrei uma definição que a descreve como um conjunto de representações que faz sentido para um grupo social:"A memória coletiva tira sua força e sua duração do fato de ter por suporte um conjunto de homens, não obstante eles são indivíduos que se lembram, enquanto membros do grupo. Dessa massa de lembranças comuns, e que se apóiam uma sobre a outra, não são as mesmas que aparecerão com mais intensidade para cada um deles. Diríamos voluntariamente que cada memória individual é um ponto de vista sobre a memória coletiva, que este ponto de vista muda conforme o lugar que ali eu ocupo, e que este lugar mesmo muda segundo as relações que mantenho com outros meios. Não é de admirar que, do instrumento comum, nem todos aproveitam do mesmo modo. Todavia, quando tentamos explicar essa diversidade, voltamos sempre a uma combinação de influências que são, todas, de natureza social". Para esse autor, quando não conseguimos lembrar um fato é porque uma memória coletiva mais ampla que compreendia ao mesmo tempo a memória individual e a do grupo desapareceu. A memória individual não se basta; ela precisa se apoiar na memória dos demais do grupo. A importância dessa análise se faz sempre atual, pois há alguns
    • 89 89 anos podemos observar um esforço das sociedades e dos governos no intuito da preservação das memórias coletivas. Carl Jung já falava em “símbolos”, “mitos” e “inconsciente coletivo” como bases de uma memória que se perpetua por todos os meios disponíveis ao homem. Na contemporaneidade, quando o assunto é memória nos encontramos em um impasse: quase tudo já foi dito sobre memória. Por quê? Porque colocamos memória como contraponto de esquecimento. Mas, a transmissão de memórias distintas e diversas desempenhadas por indivíduos, que não são necessariamente individuais, traz impressa a história. Paralelamente a isso é possível que o atual fóco obsessivo pela memória, detectada nas sociedades, indique o seu enfraquecimento tanto no plano individual quanto no plano coletivo. A ação de esquecer, como atividade saudável, pretendida por Nietzsche, já não é possível pela eternalização introduzida pela internet e por outros recursos ligados ao mundo da informática. A informatização e a mídia têm um papel importante nas questões que envolvem a memória: são produtoras de uma construção de memória. Frente à provocação da arte atual que convive com a globalização, são engendradas a possibilidade do enfraquecimento de determinados fragmentos da memória e a tendência de um conflito entre um pensamento único e a sobrevivência das memórias plurais. A função da memória no processo psicológico total é permitir a relação do presente com o passado, o que interfere de modo decisivo no processo atual das representações. Algo que estava em nosso cérebro de forma subliminar e que, ao vir à tona, influencia nossa percepção do presente. Hoje, a função de memória, como arquivo de conhecimento, pode ser delegada ao computador. Um bom ponto de partida para o trabalho de conservação da memória é pensar nos termos de uma polaridade entre desejo e consciência. A “posse” e a “presença”, como parte do que esteve ocorrendo – congelados nos registros visuais e escritos –, nos chamam a não nos fazer esquecer. Há uma obrigação de examinar o que se passa, nem sempre como interferência nem voyeurismo, mas como uma estrada que nos leva a um conhecimento maior do passado e que pode ser usado como referência no presente e nos levar ao futuro. É este claro déjà-vu. Lembrar e esquecer envolvem uma dinâmica que
    • 90 90 está, sobretudo, inserida no plano coletivo. As lembranças familiares são construção da Familia. Dessa forma, com a partilha de noções dentro do grupo, é que podemos compreender como as lembranças podem ser reconhecidas e reconstruídas; e também como a coletividade, e aquilo que é partilhado com ela, tem papel preponderante na construção de memórias. da forma como são influenciados cotidianamente por referências externas. O problema é que nós não temos consciência do papel que desempenham os fatores coletivos em nossa vida individual. Nossas opiniões, sentimentos, preferências são expressões das relações que mantemos com grupos diversos e das influências, em intensidade desigual, que cada um exerce sobre nós. A sensação de agirmos livremente, que experimentamos, é conseqüência do fato de que nós não impomos nenhuma resistência a uma sugestão de fora. A maioria das influências sociais a que obedecemos nos passa despercebida. Essas influências sociais se fazem mais complexas à medida que estão cada vez mais entrecruzadas. Ao mesmo tempo, elas se tornam mais difíceis de serem percebidas, dando-nos a impressão de que não somos influenciados por parte alguma e que a maior parte de nosso pensamento é individual. Um forte aspecto, mesmo inconsciente, que a memória coletiva exerce sobre os indivíduos pode nos ajudar a pensar por que há, na atualidade, uma obsessão pela memória. E mais: qual o futuro da memória? O que via é que trazer a memória do mundo nas empresas e nas bibliotecas tornou-se um culto ao patrimônio como afirmação do tempo, do espaço e da identidade social. O que tal fixação indica é a ausência ou talvez o enfraquecimento da memória e da capacidade de lembrar. Ao mesmo tempo, isso traz a ilusão de preservação e de continuidade. O enfraquecimento da memória coletiva nos faz vislumbrar a memória do futuro como projeto e dominação do “agora”, elemento corrosivo de uma idéia prospectiva da memória do passado. O passado é colocado em um refúgio, e é valorizada uma memória como reconstrução idealizada e fictícia, que nada tem a ver com a memória de fato. Nisto não se instala a questão da ética, porque ela não existe neste cenário. Na observação do que se ganha e do que se perde com a memória manipulada e com uma tecnologia que liberta o espírito da prisão dos dogmas e dos escritos, libera-se a capacidade do ser humano fora do conhecimento e do saber, indo ao encontro do
    • 91 91 universo da memória como projeto futuro, criando-se problemas com os projetos a longo prazo. Há uma patologia da memória que promove uma ruptura entre a memória dos vestígios (responsabilidades) e das promessas. Surge aqui uma nova ética: a ética do futuro. Essa ética será capaz de prometer a responsabilidade de virar o futuro, de lidar com o patrimônio e a transmissão comprometida. A sociedade do saber e da memória irá se preocupar com aquilo que está por vir. O entroncamento entre memória, cultura, ciência, tecnologia e comunicação, graças aos avanços das comunicações globalizadas e suas várias interseções, deveria retirar o saber das garras do slogan: “quais saberes para quais sociedades”. Este “entroncamento”, porém, não contempla a humanidade carente do mais essencial, precisando, com urgência, gerar ações mais promissoras. E a memória não pode ser universalizada porque representa identidades sociais. O “puramente” articulado com o “transitório” são possíveis devido à recuperação da memória buscada dos baús, fazendo ressurgir sentimentos imaginados mortos e compostos por datas, impressões, elementos adaptados e rejeitados pela adequação ao momento histórico e à sua comunidade. A visibilidade social não é mais do que a exibição – extremamente importante na preservação da memória, mas que constitui um obstáculo ao que não está visível, ao que existe latente e, portanto, estranho à razão. Mas cada memória coletiva tem razões específicas. Os grandes mecanismos de como se constrói a memória coletiva – que é um produto – resultam de uma divisão da seleção dos fatores que compõem a memória, sendo, principalmente, a simbolização e a legitimação do produto final. Desse modo, no interior das lembranças trabalham noções gerais que são veiculadas pela linguagem. Menos óbvio é o passado e a memória que nos leva a ele. Diante de tantos aparatos tecnológicos há um ataque especulativo do futuro virtual que se precipita no presente e determina o real presente pelas perspectivas já traçadas. Isso é resultado da hipereficácia da cultura, da tecnologia e dos seus sistemas. Vivemos uma cultura na qual o fundamento não existe, não temos referências e o efeito da velocidade engendra efeitos em que o “novo” é o preponderante. O que rege o mundo não é mais a essência, e sim o novo. O passado se virtualiza, sem tempo verdadeiro. O passado virtual e disponível neste agenciamento do futuro-
    • 92 92 presente traz uma ética do vazio. A memória parece enfraquecida e esta é a questão. A memória é um importante ponto de referência do passado, patrimônio que conjuga o artístico, o ecológico, o animal e o vegetal. As novas tecnologias deveriam estar preocupadas em multiplicar as referências do passado. Memoria e grupos familiares Chegava a família, finalmente. Constatava que o grupo primário de formação da memória individual continua sendo a família, seu grupo inicial, sua tribo existencial primária. Quando Halbwachs analisa a dificuldade de recordar momentos da primeira infância, ele explica que isso ocorre porque nossas impressões não se podem relacionar em profundidade com o grupo social. O que temos é ainda a família como grupo de maior contato. As memórias da primeira infância se situam no quadro do grupo familiar em que a criança se encontra. Portanto, nesse quadro caótico no qual se estrutura a memória contemporânea, tanto individual quanto coletiva, a família ainda é aquele grupo primário de construção e de reconstrução de memórias e de identidades, numa sociedade permeada por uma série de contradições que aceleram e acentuam um contexto de esquizofrenia social. Na relação entre memória e grupos familiares, que me interessava de perto, a família desempenha importante papel na formação de estruturas de pensamentos, de comportamentos e, principalmente, de representações sociais: a relação entre memória, família e ideologia. O conceito de memória coletiva é muito importante para os estudos sobre ideologia e que é determinada no plano coletivo. Nesta concepção, a própria ideologia é uma forma de memória social, o que nos permite pensar que a memória, inclusive aquela construída pela família, desempenha papel importante nas estruturas de pensamento dos indivíduos e na internalização de conduta sociais. Distinguia dois traços da memória: a memória como processo e a memória como um objeto do pensamento. Relembrar o passado não é apenas reconstruir um evento específico, mas é também garantir que um grupo, seja ele a nação ou a família, possua uma história, seja preservada e recriada como narrativa.
    • 93 93 Dentro da Familia, uma de suas funções é reproduzir suas tradições e, com isso, solidificar o próprio grupo familiar. Na tentativa da manutenção ou transformação do status quo, com vista ao fortalecimento das origens e à não-perda de poder. Quando os membros de uma família lembram de algo juntos, isso expressa a sua unidade interna, principalmente a unidade entre as gerações que a compõem. O ato de rememorar no interior de apenas uma família ajuda a manter não só a tradição desse único grupo, como ajuda a manter viva as memórias de uma coletividade. Assim, uma ideologia mais ampla sobre a família e sobre a posição social está sendo reproduzida. A memória é sempre um ponto do discurso ideológico e sobre a vida social. O discurso e a narrativa desempenham papel decisivo na existência e na recriação da memória e da ideologia, e um dos nichos fundamentais em que esse processo se concretiza é na família. No interior da família pode-se observar como a memória e a ideologia são mantidas cotidianamente vivas. Assim, como qualquer outro grupo, a família também constrói uma memória coletiva. Mas sua importância reside no caráter de grupo primário que a família desempenha, pois é o primeiro grupo social com o qual os indivíduos têm contato. Os laços internos são tão fortes que mesmo quando um membro de uma família encontra-se distante de seu grupo ele continua participando de um passado familiar comum, vivo em sua memória. Em seu texto La mémoire collective de la famille, Halbwachs destaca a importância da família e de sua memória na construção de identidades sociais, dizendo que, de alguma maneira, ao se entrar em uma família pelo nascimento, pelo casamento, ou de outro modo, passa-se a fazer parte de um grupo cujos sentimentos pessoais não são nossos. Mas as regras e os costumes, que não dependem de nós e que existem antes de nós, fixam nosso lugar. Portanto, a união entre familiares não se dá apenas pela consangüinidade. A criança não adota os comportamentos de seus pais e irmãos pela intimidade da vida doméstica. Os sentimentos familiares não dependem da vontade individual e sim da sociedade. A partir da família tomamos os primeiros contatos com o mundo social e suas representações. A família não é apenas um grupo de parentes, mas está envolvida em todo o conjunto da sociedade. A memória familiar constrói na memória individual de cada um dos seus membros uma imagem rica e precisa de cada pessoa. Essa memória garante o
    • 94 94 fortalecimento dos laços familiares internos entre aqueles que compõem esse grupo. Por isso, é necessário, que diante da chegada de um novo membro a família lhe reserve um lugar em seu pensamento. Cada família, embora faça parte de um todo social maior, tem sua própria rede de tradições internas. Isso porque a memória familiar guarda as lembranças que reforçam as relações de parentesco assim como os acontecimentos e as pessoas que marcaram sua história. Por outro lado, as memórias familiares mantêm um elo com a sociedade, reforçando tradições maiores. As crenças da sociedade atuam mais sobre a família através daqueles membros que estão em contato mais direto com a vida coletiva. Porém, os traços externos são adaptados ou mesmo transformados diante da tradição familiar. O papel da família na formação de identidades é tão forte que um indivíduo, ao integrar uma outra família através do casamento, passa a estar exposto a um novo pensamento e a uma nova memória, que a partir de então torna-se parte deste novo membro. A nova memória passa a ocupar o primeiro plano de sua consciência. Portanto, pode-se perceber que a família é uma esfera que envolve seus membros, através de mecanismos como memória, pensamento e linguagem, numa rede de valores dos quais dificilmente se escapa. Ao integrar uma nova família, ou mesmo uma nova estrutura familiar que acreditamos estar se formando no mundo contemporâneo, o indivíduo entra em contato com uma nova memória e, com isso, forma uma nova tradição. Como a memória não é uma tábula rasa, parte daquela memória do grupo familiar anterior segue com esse novo membro, mas sua consciência, a partir deste momento, está dominada pela memória do novo grupo. As memórias, em especial as construídas no interior da família, envolvem formas de pensar, concepções de vida e de homens. Os pensamentos e as lembranças familiares evitam o isolamento do homem, pois o mantêm ligado a crenças e concepções coletivas. As regras e as crenças de uma família se baseiam nas memórias que formam a história de cada grupo e estão, na verdade, fundamentadas em crenças e regras da sociedade, que envolvem todas as famílias. Para o Bem e para o Mal. Assim, a família tem sua lógica e suas tradições somadas às da sociedade em geral, regendo as relações de seus membros com os diversos grupos sociais. O indivíduo não pode deixar a família; escolherá não necessariamente a de origem, mas terá
    • 95 95 forçosamente de fazer parte de uma tribo, de um grupo societário. O lá-fora é isolado e solitário; é assustador e inóspito. Compreendo que esse grupo familiar deve sustentar-se sobre novas bases para romper com a dicotomia das falas e a obrigatoriedade da manifestação do amor a alto custo da hipocrisia, que leva à esquizofrenia social.
    • 96 96 8 A Câmara recusou aceitá-la, declarando que a Casa Verde era uma instituição pública... (Machado de Assis – O alienista)
    • 97 97 Comunicação e Vida Privada O que tem isto a ver com a Esquizofrenia Social? Considerava de fundamental importância a mudança dos espaços privados em públicos. Trata-se de uma das claras explicações da evidência contemporânea da esquizofrenia social, que não julgo um fenômeno surgido nos nossos dias, mas – sem dúvida – por esta razão, hoje, desnudado em radiografia profunda e transparente. Pensava o espaço público como um espaço importante – um lugar de destaque no ordenamento de novas sociedades – intervindo nestas próprias sociedades: agentes de ação social, impondo uma nova ordem social, um espaço de comunicação, um instrumento necessário na vida dos participantes. Procurava montar os traços de entendimento da importância do processo de comunicação e de sua influência nos nossos comportamentos sociais a partir dos espaços públicos, determinando o padrão em que os indivíduos estabelecem laços de inter-relação na sociedade e que tem uma singularidade em relação às outras formas do passado. Isto justificaria o deslocamento do privado para o público e de como se torna impossível a manutenção de “verdades” divergentes neste cenário. Não se deve confundir público e massa (no mesmo espaço físico) com multidão. Se os membros do público não puderem se manifestar, deixa de existir público. Nas massas há uma pasteurização histórica, pois estas foram processos de transformação das sociedades. Só nesse ponto elas se identificam com os públicos. Quando falamos de públicos em termos de mass media, do rádio, imprensa e TV, na verdade estamos falando de audiências, de processos de troca de opinião que nascem da disponibilidade interna da compreensão do outro, o que permite construir consensos e compromissos razoavelmente agregadores – ou desagregadores – entre os membros. É a comunicação que permite o público se sobrepor ao individual privado ao mesmo tempo que depende da própria individualidade dos seus membros. Este elemento traduz-se na reserva do indivíduo distinguindo-se dos outros.
    • 98 98 O público e o privado na sociedade O Renascimento, que fez a releitura da cultura da Antiguidade, pode ser usado como analogia de que os públicos – a sua importância nas sociedades modernas – fazem a sua recolocação em algumas dicotomias da Antiguidade: Num contraponto entre Antiguidade versus Sociedades Modernas, víamos: Política X Economia Poder X Dominação Liberdade X Necessidade Vícios X Virtudes O indivíduo helênico – como o moderno – é duplo, esquizofrênico – exerce na ágora a liberdade do cidadão e a constituição do poder político, mas no espaço privado tem que se preocupar com a economia, necessidades e dependências: ele é um escravo da dominação (oikos) mas detém o poder sobre o escravo, as mulheres e as crianças. O domínio público no indivíduo helênico é completamente separado do privado. Na modernidade são domínios diferenciados, mas imbricados. Para Arendt, o espaço que identificamos como público equivalia no mundo helênico à praça pública, chamada de ágora, ou seja, o lugar no qual os cidadãos se reuniam para discutir os assuntos que diziam respeito à cidade e à vida coletiva. Portanto, a esfera pública tinha um significado mais próximo de político. O espaço privado, da casa, chamado de oikos, dizia respeito às leis de dominação sobre as mulheres, as crianças e os escravos, e às leis das necessidades biológicas que orientam a vida e a morte. O que as sociedades modernas fizeram para que isto se desse? Recuperando da sociedade clássica (sociedade tradicional) a valorização do espaço público mais as leis da liberdade (do domínio público da ágora) com o conceito de liberdade moderna e suas idéias individualistas, desloca-se o centro da liberdade do espaço público para o indivíduo. Como esta fonte está no privado, não se pode mais ter a separação do passado na disponibilidade da participação dos seus membros do privado para o público. A forma que permite que o privado saia para a esfera pública é através da liberdade de expressão e de pensamento (comunicação) individual, que difundem as idéias individuais.
    • 99 99 A grande originalidade da sociedade moderna é a projeção do público e do privado. O público se confunde com o Estado e é regido por uma idéia de dominação: razão do Estado e segredo do Estado convivem com o espaço privado e levam ao desejo de se unir. O princípio da verdade, adquirido através de discussões públicas, cria a inversão do ordenamento da nova sociedade que não é mais do domínio do público – mas cada qual com seu ethos, um patrimônio pessoal. A diferenciação entre público e privado deixa de ser uma separação. O privado precisa do público e o público só existe por causa do privado. A autonomia pressupõe múltiplas dependências. O fenômeno da comunicação globalizada e a utilização de diferentes mídia como veículos de interconexão entre público e privado transformam tudo que é privado em público. A mídia definindo a ética no espaço público . Na análise social contemporânea todos os analistas concordam que ” este espaço público em crise, patológico., ele está afetado e frágil. Indivíduos são marcados por uma grande instabilidade psicológica, com grandes exigências de mudanças e adequações sociais. As normas do controle e da solidariedade humana se acinzentam, se tornam opacas, fogem do discernimento do próprio indivíduo. A razão de ser escapa às pessoas: a massa gerada do interesse dos públicos e a transmutação dos públicos em algo completamente diverso dão origem a indivíduos isolados, longe dos pontos de encontro tradicionais, e mudam a feição da sociedade. A forma habilidosa de gerência, a negociação, o jogo estratégico, o calculismo, o tráfego de força e decisão, a capacidade de “indexação” do indivíduo do ponto de vista do número e das questões de como foram argumentadas nas pesquisas passam a ser a moeda de troca, a mais-valia. O sujeito social – indivíduo – desaparece. A base comportamental é reativa (a favor ou contra) aos estímulos inerentes e a responsabilidade é inexistente. Os formadores de opinião das massas, são medidos pelos Institutos de Pesquisa, que se alimentam e isolam as pessoas no anonimato como condição e produto. Como empresas privadas que visam o lucro, suas pesquisas são feitas para atender a
    • 100 100 encomendas dos clientes de qualquer cunho ou facção, bastando que os remunerem pelos serviços prestados. Mesmo quando fazem parte do aparelho do Estado, suas amostras se apresentam tendenciosas porque se esquece de que a pesquisa – como um instrumento de aferimento – não define, pragmaticamente, os resultados desejados, mas apenas aponta as tendências do que se apresenta. O que isto retrata, o que se acredita, é que se a massa pensar – sair do sistema binário, do sim e do não, do pró e do contra, do favor ou do contra –, o sistema explode. A massa e o público são interligados, são as mesmas pessoas sociais, constituídas pela estrutura própria dos indivíduos. O sentimento de desproteção, de instabilidade emocional, o estado de confusão mental (desconhecimento dos assuntos) e a ansiedade são os aspectos característicos da sociedade contemporânea: a necessidade constante de ser reativo, acelerado, o pânico do silêncio da mídia, uma imposição. Estas manifestação são, talvez, uma forma de compensação, elementos falsos de integração. Quem tem opinião, quem está a par – por dentro – faz parte, é o que está na origem da base do mass media. Tudo o mais é nulo, inexistente. Ambivalências e contradições no modelo O produto da opinião pública é o instrumental da sua dinâmica. A instrumentalização da opinião pública serve a interesses particulares da sociedade que representam diferenças submissas a uma sociedade civil de onde nasce a expressão da opinião geral: o modo como o Estado, as empresas, a sociedade utilizam a opinião pública como condução das massas, legitimadas pelos Institutos de Pesquisa na produção da ordenação. A massificação das estruturas comunicacionais constrói os públicos das massas, que transformados em massa fazem aparecer uma comunicação apoiada na mass media como significado. O sujeito passa a ser um interlocutor que se anula e se vê reduzido a um mero recurso de “mercado”. Não se leva em consideração o desequilíbrio entre os que emitem e os que recebem a informação, causando uma distorção na
    • 101 101 capacidade de resposta. A pessoa é banalizada. O estatuto do sujeito da fala é substituído na informação pelo produto de consumo. A comunicação é produzida, geram-se os assuntos que são os processos de opinião que racionalizam e criam bases para o consumo da informação. A mídia, que deveria ser o campo social autônomo, constrói-se com bases em grandes corporações. De caráter comercial, tem como destinatário “o cliente”. Tudo isto é simultâneo. A mídia faz o pacto comunicacional de mera troca de consumo de informação ser realimentado pela comunicação, que a legitima evitando o descrédito. A motivação básica e real é mercantil. A contabilidade é quantitativa. Dentro destas construções ideais, que nos ajudam a entender a sociedade, percebia que a mudança dos espaços públicos não depende da mídia, mas estão a elas condicionadas, não sendo possível pensar na sua existência sem o político e o econômico. A base igualitária que sustentava a economia mercantil – com os agentes econômicos agindo livremente no mercado, a burguesia homogênea – perdeu o sentido. Até porque dentro desta burguesia dá-se uma fragmentação de interesses, resultado da quebra da base igualitária que existia. O modelo do desenvolvimento econômico que nasce nas crises com grandes penalizadores sociais foi sofisticado. O espaço público se relaciona com outras instâncias sociais, Estado, família e a comunicação é área da comunidade econômica. É a indústria da cultura (Adorno, Durkheim, Escola de Frankfurt), o esvaziamento e a diminuição do valor do significado singular. A presença da mídia é essencial e vital neste processo que representa diferentes interesses mercantis. Mas o universo da sociologia da comunicação transcende a teoria dos efeitos. Das questões dos estudos das audiências, dos padrões diferentes das mensagens midiáticas, dos processos de delimitação dos diversos elementos envolvidos na comunicação e transmissão das mensagens. Seu objeto de estudo são os efeitos sociológicos da comunicação, os que afetam o conjunto das pessoas na sua vida cotidiana e no modo como as sociedades organizam a comunicação midiática, relacionadas com os nossos meios de processamento da linguagem. As línguas naturais são tomadas como um tipo de mídia, assim como os gestos são processos comunicacionais. A tecnologia passa a ser uma concessão.
    • 102 102 A comunicação social, de caráter público – imprensa, rádio, TV – diferentemente das comunicações telefônicas, por exemplo, é o objeto do olhar da sociedade da comunicação onde se situam as principais escolas e os principais estudos desta matéria. Goffman, um dos mais importantes autores desta sociologia, é quem melhor percebeu as relações interpessoais, saindo do campo definido pela sociologia da comunicação. Estes estudos são importantes para que se possa entender a gênese da comunicação, e que define num certo sentido, o mundo profano não é tão irreligioso quanto parece. Muitos deuses foram abandonados mas o indivíduo continua obstinadamente deificado com uma importância considerável. A mídia é considerada responsável pela instabilidade social difusora das mensagens midiáticas com grande influência na forma de agir das pessoas. Os regimes autoritários e a utilização que estes regimes fizeram do papel das tecnologias da comunicação na consolidação destes regimes, historicamente, trazem o fortalecimento e a mítica da mídia. A grande mudança social – um espaço público configurado com a total dependência da transmissão da mídia através dos meios tecnológicos embasados na instabilidade social – é o que se traz como resposta à sociologia da comunicação (cidadania – participação através dos meios técnicos e a desigualdade das possibilidades). Todos os novos mecanismos da mídia – imprensa de massa, cinema, rádio – foram aproveitados com fins propagandísticos. Sem dúvida há uma pertinência histórica e o medo que desenvolvia este tipo de fenômeno, quanto ao poder da mídia. Medo versus segurança. Ignorância versus conhecimento. A lógica dos interesses, geral e coletivo, a partir dos sentimentos generalizados não se restringe a um núcleo social, mas permeia todos. O que torna pertinente um trabalho científico, com método de pesquisa, é que há um interesse geral pelo conhecimento desta matéria. na busca de respostas que traduzam estes interesses e apontem soluções, já que afetam todos os grupos e têm efeito em toda a sociedade. Empresas midiáticas, os seus proprietários e seus responsáveis, os produtores, a gestão da mídia como empresa de negócios impulsionam o conhecimento destes fenômenos. Este é o sentido de urgência que é dado ao interesse do conhecimento da mídia.
    • 103 103 Dá-se, então, o controle dos organismos de pesquisa na medida em que condicionam os objetivos e os meios de realização do próprio trabalho científico, cujas prioridades desta forma são as prioridades de quem paga. Estas duas tendências se equilibram e desequilibram. Adorno e Horkheimer, referem-se à pesquisa crítica e à pesquisa administrativa (através de encomendas do exterior), o que caracteriza a ambivalência. A pesquisa administrativa deve ser conduzida a alguma instância de caráter público ou privado, como empresas, Estados, sendo representativa de um determinado tipo de interesse, incluindo, ainda, os partidos políticos. Prioritariamente visa o estudo da mídia no atual sistema social. Já a pesquisa crítica analisa e estuda o papel da mídia na sociedade. Dentro da concepção objetivista dos efeitos, o conceito de objetivismo dá-se na conscientização da mídia em termos comportamentais. Os efeitos se situam no modo como os indivíduos se comportam. Sendo assim, podemos observar que a mensagem da mídia altera e dirige os comportamentos, mas é possível mensurar os efeitos da mídia. Apresenta-se com diversas expressões: efeitos totais, efeitos ilimitados, teoria epidérmica da comunicação dos efeitos e medem a influência que a mídia tem no comportamento e os efeitos diretos sobre as pessoas que estabelecem com a mídia alguma relação. Como eles podem ser avaliados, mensurados, efeitos irreversíveis, os incontestáveis efeitos. Todas estas concessões da mídia não são indissociáveis do momento histórico em que elas se situam: inovações tecnológicas e o conhecimento sobre elas. O clima social de enorme instabilidade econômica e social, sobretudo no sistema europeu – durante o entreguerras e a Segunda Guerra Mundial – e a percepção de que o desenvolvimento do totalitarismo e o da própria mídia estavam relacionados como difusão das ideologias destas sociedades criam um clima de temor sobre o poder da mídia. Este contexto é determinante no recorte da problemática: os fenômenos propagandistas de como a mídia conduz, influencia e “cria” os fenômenos e os efeitos. Os efeitos da propaganda, a posição decisiva de seu poder, não faz uma aferição equilibrada da mídia em cima das particularidades, mas da própria propaganda. Qual é, então, o recorte desse estudo? No trabalho de pesquisa que é desenvolvido, os instrumentos escolhidos são operacionais e estudam a proposta política. O próprio quadro histórico leva a dizer que a teoria dos efeitos totais é a “teoria da propaganda” e é a
    • 104 104 limitação em termos científicos porque se circunscrevem somente no âmbito da propaganda. No estudo deste efeito, o rigor científico vivencia este fechamento de horizontes. Vivemos em uma sociedade de massa e ela própria é determinante para a noção dos efeitos totais da mídia: uma ampliação dos processos de como se organizam na sociedade, na economia, no desenvolvimento do urbanismo na sociedade dos fluxos. Produtos, pessoas, idéias, circulam em múltiplos níveis. A ampla difusão das ideologias esteve desde sempre ligada profundamente aos conceitos de massa e de mídia, mas a ambivalência das posições dos autores leva a identificar a crítica, os processos negativos do entendimento dominante, até no processo de democratização das sociedades. Isto envolve graves fatores que influenciam a vida dos indivíduos. Sodré muito bem o define numa análise do Brasil desde 1982, que a distância entre retórica de mass media e realidade do poder ficou patente no processo eleitoral de 1982 no Brasil, que significou um passo importante no caminho da liberalização do regime e da vida pública nacional. Ao lado da anistia dos exilados, do esvaziamento dos cárceres políticos, o Governo outorgou liberdade à imprensa, rádios e, principalmente, à televisão, com debates momentosos. Entretanto, debate equivale à participação efetiva no processo decisório, isto é, à penetração popular no sistema de poder. São estes os traços negativos ligados ao processo de massificação como um declínio das elites das sociedades tradicionais: culturais, econômicas e políticas. Desestruturam-se as sociedades tradicionais. O significado de ser membro da massa traduz-se por um indivíduo isolado, anônimo social, sem identidade, igual a todos os outros, indefeso, frágil do ponto de vista pessoal. Corre-se o risco de a lógica passar a ser a de que os indivíduos é que são os alvos da mensagem e não as massas, de que o funcionamento da mídia é bala dirigida aos alvos inertes e que permite provocar uma reação espontânea sem nenhuma autonomia pessoal. A sociedade de massas já havia criado as condições da idéia do poder ilimitado da mídia. A teoria behaviorista, de caráter biologizante do comportamento humano e de como ele se desenvolve e se institui, traz a relação entre organismo e meio, articulando linearmente entre estímulo e resposta o que é o comportamento do indivíduo, fazendo
    • 105 105 com que as mensagens da mídia sejam os estímulos desencadeados e provocadores nos indivíduos de uma determinada resposta. Juntam-se a estes dois esquemas: estímulo e resposta, a caracterização dos indivíduos da sociedade de massa que são indivíduos iguais entre si, indiferenciados, homogêneos. As respostas produzidas ao mesmo estímulo são iguais e os efeitos da mídia são concebidos como totais quando são caracterizados os indivíduos de massa: Uma massa composta dos milhares de ouvintes, leitores, espectadores passivos e dispostos a receber a mensagem, estímulo forte que obtém receptividade de um sistema nervoso simples – a mídia – que alcança os olhos e os ouvidos de todos em uma sociedade amorfa e escassa das relações interpessoais. Face a este tipo de modelo articulava que poderia ter algum conhecimento sobre os processos comunicacionais, ajudando-me a saber mais sobre a comunicação e como se encaixam entre si. A propaganda – basicamente política – é o que respalda o trabalho de Lasswell e o condiciona. Seus estudos estão concentrados sobre os efeitos e os conteúdos, áreas nevrálgicas do estudo da eficácia da propaganda. O modelo linear de Lasswell situa-se dentro da ambigüidade, da preocupação dos critérios científicos, e é um pioneiro trabalho sobre a própria formulação do modelo comunicacional. Ele nos leva a entender melhor a questão na medida em que desenvolveu instrumentos que dão credibilidade a esta idéia. Mas estes instrumentos são intrínsecos aos fenômenos. Fazem do processo comunicacional uma espécie de ilha auto-suficiente que pode ser explicado pela análise dos elementos a partir da lógica dos efeitos totais (estímulos e respostas). Este modelo é sustentação para os estudos dos efeitos, e toda sua estrutura já está pré-formatada para dar a resposta. A partir daí poder fazer pesquisa científica foi suficiente para preparar o desenvolvimento da sociologia da comunicação que resultou na criação de estudos que questionam o próprio modelo: Os efeitos da mídia são mais imprevisíveis do que se pensava, o que obriga uma revisão. Os destinatários, o alvo indivíduo massa, são revelados mais complexos em permanentes movimentos muito longe da passividade suposta. Os institutos de pesquisa se desacreditam na medida em que expõem as suas contradições e divergências entre eles mesmos, mostrando sua fragilidade. A teoria morre
    • 106 106 aqui: as pessoas decidem o que querem escutar, se deslocam do alvo da mensagem e a comunicação poderá causar efeitos opostos ou nenhum.
    • 107 107 9 Bastavam [estas palavras] para mostrar que a excelente senhora estava enfim restituída ao perfeito desequilíbrio das faculdades.... (Machado de Assis – O alienista)
    • 108 108 Pragmatismo: as palavras ainda têm valor Pão, pão, queijo, queijo. A grande importância da linguagem é estar em todas as configurações dos sentidos do homem: falar, ouvir, pensar, ver e sentir. Ao pensar a lingüística e a comunicação como suportes de minhas inquietações, podia dizer, pragmaticamente, que há um aspecto do signo que se relaciona com o outro, independente do objeto, criando uma relação naquilo que posso designar, naquilo que sei o que é e em tudo que posso nomear. Nas relações que os signos criam uns com os outros, há que haver correspondência entre o que ele diz e o que ele denota, observando-se que a boa conformação dos signos depende do intérprete. A partir dos questionamentos do pragmatismo, o que se coloca é: . Como sei que o que aprendo com os meus sentidos efetivamente existe? . Como sei que não é ilusão? . Como posso dizer que o que vejo do mundo é isto? As respostas se sujeitam às circunstâncias, às condições das proposições verdadeiras e aos métodos que possam averiguar se o que chega através dos sentidos é verdadeiro ou falso. Encontrar no mundo algo que valide nossas próprias crenças começa na busca dos saberes a priori da percepção. O que está fora disto são crenças impossíveis. Elas são tais como aparecem. Segundo Rodrigues, a linguagem, além de servir para afirmar qualquer coisa acerca do mundo e de poder apresentar, por conseguinte, valores de verdade ou de erro, de poder ser submetida a provas de veridicção ou de falsificação, é usada também para agirmos, para efetuar nossos atos. O pragmatismo é a resposta que se dá a estas questões. Seu eixo é a verdade que só pode ser buscada frente às proposições. O que garante é o fato de que elas são verdadeiras no estado em que se encontram no momento da pesquisa e tem um valor fiduciário que vem da consideração de que a proposição é a mais explicativa do que qualquer outra dentro do conhecimento humano. A verdade é como uma moeda: válida enquanto não houver outras. A base do verdadeiro é o entendimento dos seres humanos. É um valor que, ao ser apresentado a um
    • 109 109 outro novo, mais útil à explicação dos fenômenos do mundo, será substituído. Depende do consumo dos intérpretes para ser verdadeiro e decorre essencialmente da aceitação deles, criando a natureza consensual dos valores da verdade. Assim, seguindo a linha de pensamento estruturada por Rodrigues, tudo que aprendemos é signo de algo. Nesta realização mental o que dá sentido ao signo é um outro signo, gerado pelo primeiro, que é o interpretante, formando algo que o interpreta. O entendimento passa pela produção deste signo pelo interpretante. Se ele for capaz de formular este outro signo, dá-se a compreensão. A atualização da interpretação é constante, e, potencialmente, o signo está disponível à interpretação. É este o objeto da pragmática. Não busca o valor se é bem ou mal formado em termos de formato, de sintaxe. Tem que ser constituída de signos que podem ser explícitos ou implícitos. Ao vivemos numa sociedade midiática, o que é a realidade, para nós, depende do que a mídia transcreve e repercute. O ritmo da vida passa a ser a programação e o funcionamento da mídia, que traduz e induz a percepção do mundo. As instituições enquadravam a nossa experiência no passado. Hoje, por causa da dependência da mídia, somos todos parte da sociedade da comunicação. A lógica que caracteriza o que podemos designar como funcionamento da mídia não é totalizante, mas fragmentada, e caracteriza a lógica do mercado de modo diferente da lógica da comunicação, esta, sim, totalizante. A natureza problemática entre estas duas lógicas é o que reforça o fato de que a mídia tem grande importância. Estamos, portanto, numa sociedade de comunicação. Mas a realidade constituída se sobrepõe por processos tradicionais de comunicação que é a construção através dos órgãos do sentido. Esse é um sistema natural diferente daquele imposto pela mídia, no qual a produção e a simulação interferem nas possibilidades humanas, através dela, no que entra pelo rádio, TV, jornal e que muitas vezes depende da capacidade técnica disponível e da mediação. Quais são os efeitos desse processo? Não é de graça que as guerras – os eventos desestabilizadores – são programadas para os horários dos jornais de grande audiência no Ocidente. Cidadãos amedrontados são mais suscetíveis de manipulação e, nas famílias, sentem-se as referências das programações, afetando a vida das pessoas comuns.
    • 110 110 Horários, locais, datas, tudo se subordina ao fato do que é tecnicamente possível para a mídia. Mas, será que podemos, que queremos, nos realizar somente com esta midiatização? Então, perderemos as funções dos nossos sentidos. A lógica midiática substituirá a mediação dos sentidos. Mais um dilema se estabelece: há ainda alguma experiência humana possivel ou ela já é totalmente construída e tudo é ilusão? Tudo passa a depender da força imperativa da vontade de quem tem o poder nas mãos; impõe-se aos valores negativos destas questões a designação positiva de ser a sociedade da informação. A informação se impõe. Uma leitura otimista considera que o conjunto das técnicas que forma a sociedade da comunicação seria composto por artefatos que nos suportam para entrar numa nova era, resolvendo todos os problemas, introduzindo outras oportunidades e ultrapassando os resquícios deixados pela sociedade da produção. O determinismo técnico aceita como verdadeira uma crença na qual a capacidade de automatismo dos eventos técnicos resolveria os problemas que os homens não conseguem solucionar. O erro está em considerar que as técnicas por si sós são capazes de resolver as questões humanas. Mas as técnicas são resultados da própria experiência humana. Esta visão eufórica se contradiz com os resultados das próprias implementações. Nada é gratuito, mesmo quando aparente. Há sempre alguém que paga. Para entrar nesta sociedade é preciso competência, alta formação para ser capaz de usufruir as informações e muito senso crítico, para manter-se a autonomia e a sanidade. A única saída real – a educação – é lenta, gradual e constante. Quanto mais esta separação se dá, mais o fosso do isolamento se faz entre os grupos civilizacionais. O que não sabemos dizer não existe para nós, só, tudo que podemos dizer. Mas podemos faze-lo com pensamentos e atos, além das palavras. Com sentimentos e idéias. Com o corpo e com o vestuário. Com a casa e o trabalho. Somos esta rede de comunicação que sem harmonia causa ruídos de efeitos nefastos. O limite do nosso mundo é o limite da nossa linguagem. A linguagem que traduz todo o comportamento. Ela mesma é um comportamento ancorado pelos sentidos na tradução das outras percepções. As representações são distintas, mas os conceitos com os símbolos de
    • 111 111 linguagem são únicos, e na afirmação dos atos da linguagem é que traduzimos as representações do mundo. Tudo que percebo com os sentidos vem através da experiência. Mas, a imagem que associamos é única; o que podemos é construir no outro a representação similar mas conceitual, que nos associa com sentido de natureza universal. Somos da mesma espécie, mas limitados quando pensamos que o outro pode ter muitas diferenças na própria construção da sua representação. A imagem e a cor da linguagem são efêmeras, subjetivas e só podemos dizer da cor da linguagem que falamos. A representação do eu é construção pessoal. Os pressupostos dos quais partimos para entender o sentido da enunciação é que são diferentes. Nenhum falante controla todas as interpretações que existem e só podem ocorrer mal-entendidos com quem entende o que se diz. A interpretação é que causa equívocos: Utilizamos os signos da mídia sem crítica nem contestação e, como toda a aceitação superficial, ela é volátil. O que precisamos saber é da influencia deste conhecimento. Como intervêm estes saberes? Intervêm como fundo sobre o qual se recortam as formas que nós identificamos como sendo dotadas de sentido. Deste fundo, pressupostos do que se faz e do que se diz, as ocorrências e os objetos se relacionam sobre a forma inconsciente, implícito ao seu comportamento. Para Goffman, as frames – quadros de experiência – são o que dá sentido, que circunda, que dá a possibilidade de ver a fronteira do que imprime significado ao mundo. Ao resto não damos sentido, nem sequer processamos, já que não temos o conceito. Os “quadros dos sentidos” são o que importam e o que está fora deles não informam nada. As frames definem as premissas da ação, em geral e, nesta medida, servem como quadro de referência das “representações” e conferem um sentido ao fluxo aparentemente caótico dos acontecimentos. O conhecimento científico entra em choque com o que efetivamente realizamos na linguagem e na enunciação: formulamos proposição e produzimos o enunciado.
    • 112 112 10 ...se tantos homens em quem supomos juízo são reclusos por dementes, quem nos afirma que o alienado não é o alienista?. (Machado de Assis – O alienista)
    • 113 113 Conclusão; a insuportável relevância do novo eu Grandes autores dos estudos sobre o desenvolvimento mental e físico dos sujeitos, como Lightfoot e Valsiner, consideram que a concepção do que é ser pai e mãe na sociedade está submetida, historicamente, a uma série de influências, desde a própria tradição de maternidade, da cultura e da genética, do social e da influência da propaganda. A família de hoje é parte de um desenvolvimento histórico da própria idéia de família no Ocidente e introduziu, como relevante adição ao seu funcionamento, a permissão de que todos os que pertençam a ela exerçam de maneira individual o poder do consumo, máxima da sociedade contemporânea. A criança, o homem e a mulher – as Pessoas – são todos consumidores, sem hierarquias. As imagens que circulam no meio publicitário legitimam esta tendência. Penso que esta família tem como meta fazer com que o indivíduo, muito cedo, se sinta um ser particular. Ou seja, busca a formação de uma personalidade independente, que tire a responsabilidade do núcleo familiar, se torne adulto e atue livremente no mundo, compre, consuma e se mostre individualmente. Já em outras culturas as relações sociais são muito próximas, e a compreensão da personalidade é de co-agente, numa relação de dependência com o grupo. Entendo a vida humana dividida em fases, as quais chamo de transformação, onde na conduta do adulto é esperada a repetição da cultura em que ele está inserido. Esta reprodução não é só biológica, mas pretende ser a transmissão dos costumes e valores da família e da própria sociedade a que pertence. O desenvolvimento do ser humano é largamente explicável em termos das respostas psicológicas aos estímulos externos que ele recebe. Este condicionamento operante de estímulos e respostas dos ambientes em que o organismo funciona irá reproduzir o encorajamento ou o desencorajamento de situações iguais no futuro. A questão que temos é: que estímulos têm sido dados pela família ocidental, principalmente em função dos modelos familiares e das propagandas às quais têm sido submetidas nossas crianças? A família atual se vê mais apta a continuar ou a mudar no quadro das informações que recebe da mídia? Não estou falando apenas de propaganda, como publicidade comercial, comunicação aplicada, persuasiva e com objetivo claro de venda
    • 114 114 de produtos, mas sim de tudo que é veiculado por mensagens em diferentes meios da mídia, e que influi na estruturação da personalidade do ser humano. A mídia contribui para a educação, deseducação, formação e deformação dos sujeitos individuais, mas é a educação formal dada pelas instituições de ensino e pela família, que irão fazer a introdução ao social, o que desenvolve a noção de personalidade e deve ser pensada com isso em mente, pois é ela que faz com que se crie o espírito crítico que tornará possível a avaliação do ser humano nas situações em que ele está inserido, considerando-se bem-sucedido ou não, frente às referências da sociedade da qual ele faz parte. Como Brumer, afirmo ser a auto-estima a base do desenvolvimento da personalidade. Mesmo dentro das estruturas de uma cultura, os indivíduos trabalham de forma ativa os estímulos que recebem. De acordo com a personalidade desenvolvida pela família haverá mais transformação, até mesmo na negação da própria família. O papel das pessoas em torno atua como uma das bases deste desenvolvimento. As suas ações inspiram os comportamentos da criança, pois eles são sua rede de sustentação vivida. Diante da capacidade adaptativa do ser humano, o natural e o cultural dialogam interagidos, processo que advém da nossa origem, explicando a capacidade de absorção do social desde o nascimento. O desenvolvimento da pessoa fará sentido em relação com o outro e com a cultura, dentro das condições de cooperação e colaboração com o grupo que afeta o desenvolvimento pessoal. Este processo se dá na família e influencia as sociedades. As interações aprendidas na família podem ser elementos ou não de troca com a sociedade. Precisam, no entanto, ser promovidas como desenvolvimento, e não consideradas “naturais”. Seria a interação humana produto ou conteúdo? Parece-nos que as duas coisas. A base já nasce conosco, começa com a harmonia do bebê com a mãe e se transforma rapidamente no contato com outros seres. As diferenças de atenção que forem dadas a este bebê irão produzir a sua socialização e o estabelecimento de suas relações com os outros seres humanos. Neste momento, o outro ser humano reflete, para esta criança, a cultura na qual se compartilham valores e crenças: numa sociedade mercantilizada, valores e crenças de
    • 115 115 “instâncias de consumo”. A base é a cultura, o ambiente e as capacidades iniciais que formam o desenvolvimento da pessoa. Aponto que numa sociedade individualista o princípio básico das relações só poderá vir da família. A origem da palavra “família” vem do grego famulo e significa “servo”. Estou falando de uma instituição muito antiga e forte, portanto importante para o desenvolvimento do ser humano, e que deve ser libertada deste estigma maldito. Sabemos e vemos, entrando pelas portas das famílias, o processo da hiperinformação, produtora de desinformação, à qual as pessoas são submetidas pela mídia, que é, ela mesma, multiplicadora deste processo. Na sociedade contemporânea esse mecanismo é ainda marcado pela dicotomia das falas, explicitamente ou de forma subliminar. Podemos ouvir, falar, sentir, pensar e ver uma mesma ação e um mesmo fenômeno de diferentes formas, ao mesmo tempo, sem coerência nem relação. Esta falta de harmonia entre as falas causa confusão e insegurança sobre em qual delas acreditarmos. Este processo caótico é muitas vezes inconsciente e na maior parte das vezes produto de uma cultura transmitida pela família. A mídia, ao mesmo tempo, intensifica e divulga esta dicotomia das falas, o que se revela na própria produção jornalística e na propaganda. Porém, a interligação entre comunicação, mídia, família e dicotomia das falas, na sociedade, remetem-se à formação da identidade no mundo atual. A noção de identidade se altera no mundo moderno com as visões de um mundo multicultural e com o processo de globalização. Hoje, há um ser humano que pode ser qualquer coisa, que varia no quadro global de acordo com o lugar em que nasce ou está. Este grau de liberdade do indivíduo em relação ao sistema pode condizer com alguns atores, mas inexiste em outros. Neles, atrai o simbólico “esquizofrênico”. As perguntas que me ficam são: herdamos ou estaremos vivendo em uma sociedade de esquizofrênicos construída por nós mesmos? O que vamos fazer com ela? Sei que a “doença” é um padrão social estabelecido a partir de uma referência do dominador. 1 Não se trata, aqui, de questionar se não será legítima tal sociedade, mas não 1 Em quaisquer circunstâncias pode acontecer a um homem ficar atordoado, perder-se de si próprio, ter de andar às voltas e recuar grande parte do caminho percorrido, para voltar a encontrar-se. Mas só em determinadas condições socioeconômicas sofrerá de esquizofrenia (Laing, 1970, p. 76).
    • 116 116 se conhece um estado de satisfação na esquizofrenia que me induza a clamar por ela. O que sinto é que se trata de um estado de sofrimento profundo. Das atitudes mentais que determinam, algumas vezes, sentimentos de inutilidade e superficialidade, como medo e preconceito, a memória é um processo cognitivo que nos habilita a estabelecer relações entre passado e presente e é suporte para as tomadas de decisão. Temos que rever como fica o real desvendado pela dinâmica da comunicação e pela exposição excessiva de conteúdos que, se não se apresentarem verossímeis, perderão a credibilidade. Vislumbro que pode haver um horizonte para essa questão angustiante. Os temas introduzidos neste livro têm a intenção de ligar o acadêmico ao vivenciado da “vida lá fora”. Para tanto fui buscar sustentação bibliográfica nas palavras de Hall, que bem descrevem essa crença. Como Hall, que se autoproclamou “antropófago” em palestra no Congresso da Associação Brasileira de Literatura Comparada (Abralic) em Salvador em julho de 2000, diante do trabalho de alguns autores, contemporâneos e antepassados teóricos, degluti e me apropriei de suas idéias na busca de respaldar o tema de minha inquietação na tentativa da manutenção do debate e do aprofundamento da temática. Transportar as teorias de um autor ou de uma época para pensar as manifestações das tensões da esquizofrenia social é tornar úteis as idéias que legitimaram a importância e a complexidade do que levantei, na intenção de teorizar esta abordagem, influir e intervir nas suas manifestações sociais. Acredito que só podemos conhecer o passado, a memória, o consciente, através de seus efeitos. Esta é a justificativa do uso de muitas das minhas experiências pessoais como sustentação de minhas hipóteses. Hall confirma tal idéia, dentro do respeito à História, quando diz:”A questão não é de opor a experiência vivida ao discurso teórico acadêmico de tal forma que a subjetividade autorize o discurso, mas reconhecer que o trabalho de elaboração e produção de cultura, em todos os âmbitos, é de interesse público e político.” O que tenho em mente é que as “modernidades” que estão por toda parte nos processos de funcionamento das formas contemporâneas de globalização carecem de uma reflexão sobre os efeitos e as enormes conseqüências da dicotomia das falas na estruturação da Família, trazendo uma nova compreensão da importância de seu
    • 117 117 fortalecimento na sociedade, aproveitando-se deste momento histórico de contestação política, de mudanças decisivas em todo o mundo, tentando uma reconfiguração estratégica desta força e destas relações sociais. . Afinal, estamos tratando de Pessoas comuns, não de treinados atores que conseguem manter o saudável distanciamento dos seus diversos papeis. Falo do Brasil e de sua classe social dominante e privilegiada, modelo da sociedade dos bens-sucedidos mas concordo que o “meramente” local e o global estão atados um ao outro, não porque este último seja o manejo local dos efeitos essencialmente globais, mas porque cada um é a condição de existência do outro, como bem diz Hall. Mesmo considerando as especificidades particulares da construção da sociedade brasileira, isto se aplica a nós, brasileiros. As palavras explicativas inseridas nesta conclusão têm o papel de demonstrar o caminho da pessoa que sou, percorrido, até chegar a este trabalho final. Caminho este que se interliga a uma trajetória acadêmica. Isto foi importante para lembrar que as idéias contidas neste trabalho não é fruto gerado em gabinete. Elas nasceram de reflexões sobre acontecimentos dramáticos vivenciados por mim e a constatação da identificação destes fenômenos com os meus relacionamentos pessoais, nos quais o bem-estar não se coloca como carência que justifique violência e agressões cruéis. Esta análise contempla as limitações que a noção de carência pode apresentar. Observo que, paradoxalmente, numa sociedade que privilegia os ganhos materiais, quem é submetido a toda espécie de privações pode sujeitar-se mais facilmente às dificuldades que se interpõem em seu caminho do que outra, criada em condições mais afortunadas. São as circunstâncias, descritas por Ortega Y Gasset-“Yo soy yo y mis circunstancias”. Com tristeza lembro um amigo, muito próximo. Nascido no Brasil, classe média alta, 37 anos: “Fui criado como príncipe, da classe dominante de um país subdesenvolvido, passaram-se os anos e me perguntei: Onde está meu principado e que gente é essa que não me reconhece como eleito pela graça de Deus?” Não se tratava de paródia `a Realeza de Franco, na Espanha mas uma constatação da crença num destino maior cunhada na educação e nos mitos familiares. Esta é a classe social focada neste trabalho, assim como o jogo de poder a que ela está acostumada, o mal que se fabrica a partir dessa perversidade e como isso se perpetua e se multiplica, marcando toda a sociedade. Esta construção é percebida por mim em
    • 118 118 plena fase de elaboração teórica desta discussão que está apenas começando. Estas questões ancoram-se na certeza de que são fundamentais as mudanças necessárias para a reconstrução de um mundo melhor e de uma sociedade reconciliada – capaz de realizar e participar –, a fim de que se instale a paz no reconhecimento das responsabilidades dos direitos e da justiça, como resultante de mudanças operadas no comportamento social. O que pretendo é fazer parte da construção de um novo pensar, do início da análise desta forma degenerativa da sociedade contemporânea, onde todos parecem estar perdendo. Aspiro a uma sociedade com novas formas de relacionamentos, já que atribuo importância instrumental às regras de conduta, como referência e modelo para as novas gerações. Faz-se necessária reforçar a reflexão de que é nas famílias que deve residir a mudança que leve ao reconhecimento da igualdade entre os homens e não das suas diferenças. As leis do mundo adulto se fazem verdadeiras na coerência da postura dos pais, dos seus sentimentos de aceitação, da consciência da necessidade do respeito ao diverso em harmonia com as falas expressas, na reverência responsável ao carinho que devemos a nossa continuação. Acredito que só a educação, no sentido amplo e que contemple o estímulo ao senso crítico, dando espaço à criatividade e ao desenvolvimento da inteligência emocional, permitirá a mudança lenta desta visão arcaica deformante, que permeia as relações humanas. Mas é em casa, na educação amorosa e cuidada de nossos filhos, que faremos a revolução dos costumes arraigados por necessidades que, na verdade, são necessidades da própria manutenção do sistema vigente, no âmbito do político-social. Creio nestes parâmetros, mesmo sabendo das dificuldades dos caminhos a trilhar. O Ser Pessoa não é difícil de amar se ensinarmos que o amor – melhor que o ódio – nos liberta da obrigação da obediência cega, dos reconhecimentos das verdades do Outro, dos medos. Os pais, adotando consciente e verdadeiramente o papel de líderes no seu ambiente, com o seu modelo, irão montar um sentir generoso que não irá permitir a presença destrutiva banalizada. Procurei estabelecer traços de entendimento da importância da expansão da comunicação e de sua influência nos comportamentos sociais a partir dos espaços públicos, determinando o padrão em que os indivíduos estabelecem laços de inter-relação
    • 119 119 na sociedade e identificando esse comportamento como uma forma própria de sociabilidade: o caráter simbólico do espaço público moderno e sua cisão com o espaço privado proporcionando uma série de reações nos indivíduos. Nesta análise, pensei o espaço público moderno como um ator social e, portanto, como uma imensa rede de comunicação. Desse modo, posso dizer que esse espaço possui uma dimensão ético- moral cujo ideal é definir regras sociais. A partir daí, tive que perceber uma intrínseca relação entre essas questões e o papel da mídia no mundo contemporâneo. Por outro lado, ao estudar o desenvolvimento da sociologia da comunicação reinterei que os efeitos da mídia são mais imprevisíveis do que se pensava, o que significa dizer que os destinatários, o alvo indivíduo, são revelados mais complexos e em permanentes movimentos muito longe da passividade suposta, dinamizando ainda mais as argumentações acerca da relação entre espaço público-privado e comunicação. Para lidar com esse complexo cenário, em que o indivíduo está exposto ao excesso de informação contida no fenômeno da comunicação global, e que em cada ato/palavra/idéia está sendo digerido/comparado e, portanto, avalizado ou demolido, devemos fazer nascer uma nova ética. Não se trata de uma ética que virá mais impulsionada pela religião, ou pela moral, mas de uma questão de sobrevivência ecológica e de autopreservação: Tomar consciência de que precisamos uns dos outros, como náufragos em um mesmo barco, não por romantismo mas pelo entroncamento da rede de sobrevivência que a globalização com todas as suas conseqüências nos impõe e nos mistura. A credibilidade de nossas ações está passando o tempo todo por uma avaliação de nós mesmos, em relação ao outro que nos observa e influencia nossas vidas, como influenciamos a dele, muito bem expressa no Big Brother 2 – representação televisiva do cotidiano, em que Brasil, França, EUA criaram programas de grande audiência que “simulam” uma espontaneidade inexistente e que como essência de todo reality show são demarcados, traçados na prancheta e nada se passa que provoque escândalos que não estejam programados para render audiencias. Mas, para o grande público, esse “olhar pela fechadura” é fascinante e reproduz um hábito social, natural, 2 Programa de TV do tipo reality show no qual os participantes ficam fechados em uma casa durante várias semanas e são monitorados, 24 horas por dia, através de câmeras posicionadas em vários pontos.
    • 120 120 importante para as suas vidas na falsa intimidade com as celebridades que suprem a consciência de sua desimportância social. Na análise que fiz do universo político enunciado na mídia – como a representação mais conseqüente em influência social – das características de uma sociedade esquizofrênica, o que se configura como certo é que, uma vez no poder, o que se tenta é o estabelecimento de uma máquina política de, efetivamente, um só partido no comando por tempo indefinido. Sei por que vivi, que a ocupação política dos cargos profissionais desestabiliza e desrespeita o quadro do aparelho do Estado, mas o traço disseminado pelas elites do capitalismo para os outros e o socialismo para si reduz à ridicularização o capitalismo como agente de bem-estar social: mesmo quando tudo muda, permanece igual. Portanto, o processo democrático de escolhas surge como a expressão da esquizofrenia estabelecida. Focando o jogo de cena político, não importa a linha ideológica, o que vemos é a mesma condição verbalizada desacreditada, indesejável, com propostas exclusivas de manutenção de poder. O discurso do diferente se iguala, vive-se um mundo capitalista onde as falas dizem respeito ao sistema econômico das grandes corporações sem espaço ao convívio social igualitário, à qualidade de vida, ao descanso, ao silêncio, ao uso do tempo, à esperança, ao diverso. Um não se apresenta diferente do outro. Ao dissolvermos estas definições, estamos identificando os sistemas como iguais. Não são mais fluentes, nem menos acirrados e nem mesmo distintos. A ocupação não é só de palavras, mas de ação. Não se consegue decifrar os significados de formas distintas. Palavras e atos dos agentes políticos provam que o verniz – o convívio político desenvolvido ao longo de dois séculos – gerou um quadro melhor, mas nada de tão novo que contemple o pluralismo, sem palavras crispadas, sem violências, sem autoritarismo, sem dominação. As forças são muito semelhantes, têm o mesmo espectro. As oposições sem propostas reais se diferenciam só pela competência diante do idêntico, ficando sem discurso próprio, sem possibilidade de divergências puras. A consolidação de poucos e grandes partidos políticos parece trazer um contorno ainda nevrálgico mas já delineado. Estaria aí embutida a possibilidade da transparência desejada? O novo, agora, se mostra antigo e o que se pretende é que não se mostre
    • 121 121 ortodoxo, arcaico ou anacrônico, disfarçado, indefinidamente. Eliminar a esquizofrenia é o que se deseja. A partir da insuportável manutenção da situação como está, amedrontados pela insustentável permanência das nossas diversas verdades no confronto com a exposição excessiva da mídia que nos coloca a todos nus, teremos então a ética da sobrevivência que, vindo pela via negativa de um compromisso com o indivíduo, trará reflexos positivos na coletividade, transformando o ser humano de individualista em comunitário, por falta de opção. Mesmo assim, isto resultará na superação da desgraça de um eu centrado em si, por um eu em união com o outro, que tentará organizar melhor o que é de todos, ligado que está e sem outra saída. A relevância desse novo eu, para um projeto social mais amplo e que vise superar a fragmentação das identidades em nossos dias, pode ser relacionada com a ação desse eu em prol do amor. O amor que nasce da necessidade de privacidade, mas guarda também as noções de cumplicidade e de amizade. O amor que é a relação pura, que inclui confiança e responsabilidade. Esse processo deve ser iniciado na família, porque a família é a menor partícula de um Estado e de uma nação e, por tudo que disse anteriormente, núcleo da formação da personalidade. Para a família tradicional, o nome é uma marca, que deve ser usada e integrada enquanto satisfatória, prazerosa e legítima enquanto desejo e que nomeia um clã. Vislumbro uma hipótese: o que “manterá” o elo, a força do novo grupo, das novas tribos, será a coincidência, o fortalecimento e a disponibilidade das intenções dos seus membros comprometidos e da ética, o cuidado e a preservação das emoções e sentimentos estimuladores da florescência do ser e do respeito à individualidade na visão do conjunto. Assim, a manutenção da força da Família se fará consciente e responsável sob o alicerce da afetividade “crua” e da amorosidade sem pieguice. Iniciei este trabalho acreditando que a esquizofrenia social – reflexo da hipocrisia e da personalidade fractal – era uma patologia das sociedades, exposta pela rede de comunicação da sociedade moderna, com causas e efeitos bem determinados. Termino convencida de que ela é a loucura da normalidade. O mal que este fenômeno produz está aí.
    • 122 122 Ter iniciado esse processo de imersão na discussão deste tema deixa-me angustiada e esperançosa de que outros projetos virão. Depois de pesquisar na CAPES – Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – Brasil; e no CNPq – Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – Brasil; e em registros internacionais com pesquisa na EBSCOhost- Research Database – portal internacional de periódicos, base on line de serviços eletrônicos da CAPES; encontrei um número reduzido de materiais publicados sobre Esquizofrenia Social. Diante desse resultado considero, portanto, ser este o primeiro estudo acadêmico sobre Esquizofrenia Social. Transfoma-lo em livro, ser lido e digerido, analizado, apoiado e contestado, fazer pensar, refletir, o que deu sentido.
    • 123 123 Na companhia da Lua O que quero? O céu sem lua Em noite de eclipse A Fé, a Vontade Dura De ir Continuar Começar
    • 124 124 Referências Bibliográficas
    • 125 125 Adorno, T. & Horkheimer, M. (1985). Dialética do esclarecimento. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. Andrade, R. G. N. (2003). Personalidade e cultura: construções do imaginário. Rio de Janeiro: Revan/Faperj. Antill, J. K. & Cunningham, J. D. (1979). Self-esteem as a function of masculinity in both sexes. Journal of Consulting and Clinical Psychology, 47. Arendt, H. (1993). A condição humana. Rio de Janeiro: Forense Universitária. Aronson, E. & Rosenbloom, S. (1971). A percepção do espaço na infância prévia. A percepção dentro de um espaço auditivo-visual comum. In Ciência, 172. Assis, M. de. (1998). O alienista. Porto Alegre, L&PM. Barthes, R. (1987). A aventura semiológica. Lisboa: Edições 70. Baudrillard, J. (1987). D´un fragment à l’autre: entretieus avec Yves Laurent, Paris, Albin Michel. ______. (2002). A troca impossível. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. Berman, M. (1982). Tudo que é sólido desmancha no ar: a aventura da modernidade. São Paulo: Companhia das Letras. Billig, M. (1994). Collective memory, ideology and the British Royal Family. In D. Middleton & D. Edwards (Orgs.). Collective remembering. London: Sage. Borges, J. L. (1988) Ficciones. Buenos Aires: Emecé. Brecht, B. (1995). Teatro completo. Rio de Janeiro: Paz e Terra, vol. 6. Bruner, J. S. (1989). Culture, mind and education. Cambridge: Harvard University Press. Chauí, M. de S. (2003). Convite à filosofia. São Paulo: Ática. Cleckley, H. (1964). The mask of sanity. St. Louis: Mosby. Cole, M. (1998). Culture in development. In M. Woodhead, D. Faulkner & K. Littlenton (Orgs.). Cultural words of early childhood. London and New York: Routledge. Crago, H. (1985) The roots of response. Children’s Literature Association Quaterly, 10 (3). Damasio, A. R. & Tranel, D. (1985). Knowledge without awareness. An autonomic index of facial recognition of prosopagnostics. Ciência, 228. Dumont, L. (2000). O individualismo: uma perspectiva antropológica da ideologia moderna. Rio de Janeiro: Rocco. Eco, U. (2003). O nome da rosa. São Paulo: Biblioteca Folha. Esteves, J. P. (1995). Questões políticas acerca da teoria crítica: a indústria cultural. Textos de Cultura e Comunicação, 33, Salvador: UFBa/FC. ______. (2000). Nova ordem dos media e identidades sociais. Compós 9, 2000, Porto Alegre. Grupo de Trabalho: Comunicação e Sociabilidade. Anais. Porto Alegre: UFRGS. ______. (2003). A ética da comunicação e os media modernos: legitimidade e poder nas sociedades complexas. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian. Ferreira, A. B. de H. (1995). Dicionário Aurélio básico da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. Freud, S. (1914). Introdução ao narcisismo. In Obras completas. Rio de Janeiro: Imago. ______. (1933). O mal-estar na civilização. In Obras completas . Rio de Janeiro: Imago Fukuyama, F. (1992). O fim da história e o último homem. Rio de Janeiro: Rocco.
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