A participaçao da mulher em esportes competitivos
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A participaçao da mulher em esportes competitivos A participaçao da mulher em esportes competitivos Document Transcript

  • FACULDADE ESTADUAL DE CIÊNCIAS E LETRAS DE CAMPO MOURÃO DEPARTAMENTO DE PEDAGOGIA ESPECIALIZAÇÃO EM EDUCAÇÃO FÍSICA NA EDUCAÇÃO BÁSICA A PARTICIPAÇÃO DA MULHER EM ESPORTES COMPETITIVOS ISMAR KATH Monografia apresentada à Faculdade Estadual de Ciências e Letras de Campo Mourão, para obtenção do título de especialista, área de concentração – Educação Física na Educação Básica, sob orientação da professora Helena
  • CAMPO MOURÃO, NOVEMBRO DE 1999 2
  • Agradecimentos Agradeço aos meus pais, que com carinho, dedicação e amor me conduziramdurante toda minha vida, ensinando, educando e mostrando caminhos, dando todo o apoio eo incentivo nos momentos de fraqueza Aos meus amigos que, na rotina do cotidiano que nos leva à acomodação e aodesânimo, estiveram ao nosso lado dando aquela palavra de carinho e incentivo, À Walkiria, companheira de todos os momentos, que com companheirismo, amor,paciência e dedicação, esteve sempre comigo. A todos os professores pela grande contribuição dada ao longo de todo o curso e,em especial, na execução deste trabalho. A todos o meu muito obrigado! 3
  • Todo mérito deste trabalho dedicoespecialmente aos meus pais,Hugo e Herta, porque são a fontede toda a força e coragem paraenfrentar todas as lutas.Para Walkiria, que, em todos osmomentos, esteve me dando oapoio e o carinho necessários paraque eu não desistisse de meusobjetivos.Para a equipe de futsal femininodo Colégio Estadual Prof. JaelsonBiácio (Piquirivaí – CampoMourão), formada em 1997, queinspirou e motivou o início desteestudo. 4
  • SUMÁRIOINTRODUÇÃO................................................................................................................... 5CAPÍTULO I....................................................................................................................... 61 - UMA ANÁLISE HISTÓRICA DA PRESENÇA DA MULHER NA SOCIEDADE 6– O avanço da participação da mulher no cenário esportivo internacional................... 151.1 – O avanço da participação esportiva da mulher no Brasil........................................... 24CAPÍTULO II..................................................................................................................... 312 - DIFERENÇAS ORGÂNICAS ENTRE O HOMEM E A MULHER....................... 312.1 – O Esqueleto................................................................................................................ 312.2 – Sistema vascular e respiratório................................................................................... 342.3 – Sistema muscular....................................................................................................... 37CAPÍTULO III.................................................................................................................... 413 - CONSIDERAÇÕES GINECOLÓGICAS ESPECÍFICAS DO ORGANISMOFEMININO......................................................................................................................... 413.1 – Menstruação............................................................................................................... 423.2 - Exercícios e distúrbios menstruais.............................................................................. 503.3 – Treinamento e competição durante a menstruação.................................................... 553.4 – Gravidez e parto......................................................................................................... 59CONSIDERAÇÕES FINAIS.............................................................................................. 63BIBLIOGRAFIA................................................................................................................. 65 5
  • INTRODUÇÃO Os registros que se referem à participação da mulher no esporte são recentes e estãorelacionados à sua ascensão na sociedade moderna. As competições esportivas eram privilégio dos homens, já que se considerava que aprática do esporte por mulheres as tornavam “masculinizadas” e viris, além desupostamente provocarem outros prejuízos ao organismo feminino, inclusive a suaesterilização. Até mesmo a prática da Educação Física só foi aceita após uma série dediscussões. A participação da mulher no esporte se iniciou de forma meramente recreativa. Emalguns lugares promoveram-se algumas competições regionais de determinadasmodalidades praticadas por mulheres, e com o passar do tempo surgiram outros eventosesportivos para mulheres de caráter regional, continental e mundial, sendo que a primeiraparticipação da mulher em uma Olimpíada aconteceu em 1928, em Amsterdã. Existem algumas particularidades que devem ser levadas em conta quando falamosda participação feminina em atividades físicas e esportivas: • menstruação • gravidez • diferenças orgânicas (esqueleto, sistema muscular, sangue, etc.) 6
  • • fatores sócio-culturais Essas diferenças e particularidades não permitem, sem um estudo mais aprofundado,afirmar que determinado esporte ou atividade física sejam contra-indicadas para o sexofeminino. O aumento significativo da prática de esportes de alto nível pelas mulheres é umfato, sendo que algumas modalidades, anteriormente praticadas quase que exclusivamentepelo sexo masculino, têm sido cada vez mais difundidas e praticadas também por atletas dosexo feminino, sendo que algumas destas modalidades passam a apresentar característicasdiferenciadas e próprias (tamanho do campo de jogo, peso da bola, etc.). Temos observado, em nosso trabalho como profissional da Educação Física, quealgumas equipes femininas, incluindo principalmente equipes de nível escolar, superam emqualidade técnica muitas equipes masculinas, sendo inferiorizadas, em algumas vezes,apenas na questão física. Através de um trabalho de pesquisa bibliográfica, procuraremos questionar eanalisar alguns aspectos que ainda são considerados “tabus”, em relação à participação dasmulheres nas práticas desportivas, seja por aspectos físicos, psicológicos ou sociais, everificar até que ponto conceitos que discriminavam o sexo feminino no cenário esportivopodem ser considerados procedentes ou não. 7
  • I – UMA ANÁLISE HISTÓRICA DA PRESENÇA DA MULHER NA SOCIEDADE Desde o tempo dos hominídeos, tanto a posição da mulher quanto a do homem erabem definida: ela encarregada da coleta, e ele da caça e de serviços mais pesados. Essatradição tem se mantido através dos tempos. A família romana tinha como prioridade o sexo masculino, sendo que as meninas eos que apresentavam algum tipo deficiência não tinham o mesmo valor. Conquistar terrasera lei, e, por isso, o padrão de corpo da sociedade, principalmente dos soldados, erarepresentado pelo homem com disciplina, dotado de um físico atlético e forte, com corageme rapidez para enfrentar o inimigo, o que, com certeza, descartava a necessidade do “corpomulher” para este objetivo. Podemos citar um fato interessante na cultura romana. As filhas, ao nascerem,recebiam o nome feminino do pai, ou seja, se o nome do pai fosse Júlio, a filha seriachamada de Júlia. Caso houvesse mais de uma filha, o nome era mantido, acrescido de umcomplemento (mais "nova", mais "velha" ou então "primeira", "segunda"). Esta falta deidentidade das mulheres ocorria porque eram consideradas partes anônimas e semimportância para a família. 8
  • O “corpo mulher” era associado à reprodução, tendo como destino o casamento,sendo considerado aos 14 anos em "idade núbil". A virgindade era altamente considerada,tanto que maridos e pais poderiam matar filhas e mulheres não castas. O casamento era um "dever cívico" que o homem deveria cumprir, sendo a mulherum ser periférico tão importante quanto qualquer outro objeto da casa, pois não contribuíaem nada, Mais tarde, alguns passaram a vê-la como companheira, desde que seus interessesfossem mantidos. Por outro lado, as mulheres eram consideradas perigosas e alvos de todas as falhashumanas. Temia-se que os homens, tomados por uma paixão, poderiam ficar dependentesda mulher amada, mergulhando em dolorosa escravidão e "perderiam a cabeça". “Um homem honesto só teria oportunidade de vislumbrar a nudez da amada se a luapassasse na hora certa pela janela aberta”. (Veyne, 1991, p. 197) Claramente se percebe, na Antiguidade, que o “corpo mulher” representava pavor,pelos "poderes" que os próprios homens desconheciam. No início da Idade Média, ocorre a mudança da cidade para o campo. O contatoentre as pessoas, bem como a vida, deixa de ocorrer nas ruas e construções urbanas, para seestabelecer nas casas e cabanas construídas no campo. O feudalismo se estrutura,caracterizando um sistema de pessoas com autoridade fracionada, onde cada um dos grupos 9
  • tem um dono, o senhor feudal, proprietário de um espaço de terra, que detém o poder decomandar e punir aqueles que trabalham ao seu redor, os vassalos. O Cristianismo consolida a sua influência na época, principalmente no início doreinado de Carlos Magno, que, não sendo simpático às mulheres, as proibiu de ajudar namissa e educar meninos, com o pretexto da fragilidade do sexo e a instabilidade da mente.Após a sua morte, as mulheres voltaram a ter prestígio no espaço religioso. As mulheres e os filhos deveriam prestar obediência e respeito ao pai. Embora, anosmais tarde, a mulher pudesse intervir junto ao marido, isto ocorria de forma restrita e sem oconhecimento da sociedade, porque, como corpo frágil, deveria ter responsabilidadesmenores. A mulher só era considerada esposa, devido à ênfase da mulher como corporeprodutor, sendo considerada uma peça uterina de pouco valor, resguardado de pudores erestrições, do nascimento até à morte. O ódio direcionado à mulher pode ser sentido nas torturas corporais dosinquisidores da época, nas quais as mulheres que eram acusadas de bruxaria eramsubmetidas. Eram-lhes depilados todos os pelos; o corpo era perfurado por agulhas embusca de zonas insensíveis, consideradas a marca da bruxa; mergulhavam-nas nuas com ospés amarrados com um peso e, caso flutuassem, eram inocentadas; ficavam nuas expostas àexecração pública ou ainda eram postas à prova pelo ferro em brasa. A imagem da mulher foi dualizada. Para contrapor à feiticeira lasciva, a IgrejaCatólica impôs a figura de Maria, que tenta resgatar a dignidade e a pureza da mulher: a 10
  • mãe que gera ao mesmo tempo em que permanece virgem. Restringiu-se a mulher à vidadócil e doméstica do seu lar, sob a proteção de seu marido e senhor. Criando estereótiposque ora tendem para o mal (a bruxa), ora para o bem (a virgem), a Igreja nada mais fez doque tentar desconstruir e classificar a figura ambígua e que tanto teme: a mulher. Portanto, justamente aquelas mulheres que tinham vida pública e eram livressexualmente foram torturadas e obrigadas a se declararem bruxas, para morrerem nasfogueiras. O auge desta discriminação se deu com a reforma gregoriana (Papa Gregório VII),que no final do séc. XI enclausurou a mulher, diminuindo seu acesso aos espaços públicos efortalecendo o celibato aos padres. O prazer e as mulheres eram considerados pela Igreja culpáveis, porque afastavam ohomem de Deus; eram, portanto, o pior dos pecados, pior do que a busca desenfreada dopoder e da riqueza. “A única mulher considerada era a Virgem Maria, cultuada como modelo ideal de mulher, enaltecendo princípios imaculados, sendo que as outras mulheres eram vistas como descendentes de Eva, símbolo de pecado e tentação, e... quanto mais a Virgem era exaltada, mais as mulheres comuns eram consideradas longe da mulher encarnada por ela”. (Muraro, 1992, p. 106) 11
  • Mistificava-se Eva como o símbolo do mal, pela sua fraqueza e leviandade. Emcontrapartida, Maria é a representação da imagem materna que concebeu sem pecado, ouseja, sem sexo, sem desejo e sem sensualidade. A perseguição à mulher se espalhou ao longo dos anos na sociedade centralizadapela dominação da Igreja e do sexo masculino. Aquelas que exerciam alguma profissãoeram caçadas, sendo o saber feminino sufocado pelo saber masculino. Neste quadro, o corpo da mulher de alta estirpe era colocado sob vigília desde ainfância, para que não fosse um estímulo para o pecado dos homens, estando preparadopara casar. O corpo da mulher deveria ser imóvel para manter o pudor, vestindo-se epenteando-se às escondidas. Os corpos mulheres menos poderosos deveriam ocupar-se daoração ou do trabalho em tecido. É quase que desnecessário citar que as mulheres eram barradas nas universidades,onde os rapazes eram educados. Estes rapazes eram incentivados, nesta época, a proezasamorosas, enquanto as mulheres sofriam as restrições da lei. O poder patriarcal sobre a feminilidade era reforçado, pelo perigo que o corpomulher representava. Porém, na ausência do marido, as mulheres geriam as propriedades,exercendo um papel econômico. 12
  • As mulheres nos primeiros tempos da Idade Média representavam importantesreservas de força de trabalho, manipuladas de acordo com os desejos e as necessidades doshomens. O corpo feminino era um tabu, recoberto de vestimentas longas e protegido para semanter casto, submetido à sexualidade masculina. O corpo nu era reservado à clausura e àsolidão, sendo permitido em momentos de privacidade, recebendo um tratamento especial àbase de ervas, principalmente para evitar a transpiração. O corpo feminino tinha o "poderfogoso" de destruição, representado o perigo da carne. Nas cerimônias pagãs, porém, ocorpo nu feminino era permitido como forma de provocar a fertilidade dos campos e dachuva. A sexualidade feminina, explicitada pelo orgasmo, era reprimida, porque estamanifestação era própria das prostitutas ou das ligações com o demônio, reforçando que opapel da mulher na sociedade deveria se associar ao de "Maria" e não ao de "Eva"... Como pode se comprovar, valorizava-se o belo do corpo, mas tal beleza deveria semanter escondida, sendo exibida somente por maníacos. O corpo era uma fonte de signosdesejável, mas ao mesmo tempo representava uma ameaçadora condenação. Após a Inquisição, os papéis sociais de homens e mulheres foram normatizadosculturalmente, e cada qual deveria desenvolver as características que lhes eram atribuídas.A mulher se caracterizava pela sexualidade desmedida, pela passividade e pela fraqueza de 13
  • intelecto e de espírito. O homem pela força para dominar e pelo papel de agente ativo noprocesso do saber e, por isso mesmo, o único capaz de criar. Contrapondo-se aos valores vigentes, uma mulher ousou desafiar os homens: JoanaDArc, a qual comandava as tropas guerreiras e vestia-se com roupas masculinas, parapavor do poder masculino. Este dado é relevante porque ela foi condenada à fogueira, poisos homens não admitiam que uma mulher pudesse competir com eles, desestabilizando suasregras de conduta. Ainda neste período, o espaço das festas foi valorizado, com a exibição de ricostrajes e maquiagem por parte dos mais nobres. Ocorreu uma excessiva valorização dovestuário como forma de invólucro social. Os trajes aqueciam, ornamentavam, protegiam e reforçavam a diferença entre ossexos, além de marcar etapas da vida, contribuindo na construção da personalidade. Nofinal da Idade Média, as mulheres ousaram mais em relação às roupas, valorizando asilhueta através da cintura marcada, do decote do ombro, inspirando sedução. Percebe-se,portanto, um declínio na rigidez dos limites que eram impostos ao corpo mulher na época. Dessa forma, ficam evidenciadas as tatuagens no corpo mulher, impressas ao longodo tempo pelos valores de uma cultura masculina, nas concepções da ética, da estética, dohigiênico e da educação. Ora, privilegiam-se Evas, ora cultiva-se a permanência de Marias.O “corpo mulher” numa visão dicotômica, maniqueísta. Hoje, importa superar estadualidade. 14
  • Na Europa do séc. XIX e do início do presente século, a Educação Física recebeuvárias elaborações pedagógicas, às quais foram acrescidas três temáticas: uma educaçãofísica para todas as classes sociais, uma educação física infantil e uma educação físicafeminina. A Educação Física na "Era do Capital" não foi sistematizada apenas para atendertodas as classes, no sentido de homens adultos, mas incluía o atendimento às crianças e àsmulheres. Não foi à toa que esses dois grupos foram incorporados na prática da atividadefísica principalmente a partir da segunda metade do séc. XIX, nos países europeus,especialmente na Inglaterra, na Alemanha, na França e na Bélgica. As mulheres e as crianças foram objetos de preocupação social, não no aspectopolítico, pois elas não votavam na chamada "sociedade democrática", mas pela importânciadesses dois grupos na produção material. Como exemplo, podemos citar que, em 1790, aprodução britânica de carvão, devido, entre outros fatores, à introdução da mão-de-obra demulheres e crianças, ou seja, a exploração do trabalho de mulheres e crianças fazia parte daestratégia para a diminuição dos gastos, já que pagava para as crianças a metade do saláriode um adulto, e aumento dos lucros. A sobrevivência naquelas dias levava toda a família a estar nas fábricas,principalmente na têxtil, exigindo o sacrifício dos filhos ao deus chamado Capital. Nasfábricas existiam os postos específicos para cada membro da família (crianças, moças,mulheres e homens adultos).. 15
  • 1.1 - O avanço da participação da mulher no cenário esportivo internacional A participação oficial de mulher dentro do esporte é relativamente recente e estárelacionada à sua emancipação na sociedade moderna, no início do século XX. A dança era a única atividade física permitida para as mulheres, sendo que estaseram excluídas totalmente dos jogos olímpicos, até mesmo como simples espectadoras.Caso esta regra fosse violada, a mulher se expunha à própria morte. Durante a Idade Média e a Renascença algumas mulheres caçavam, sendo que todaspertenciam obrigatoriamente à nobreza. As disputas desportivas eram consideradas masculinizantes e prejudiciais ao frágilorganismo feminino, sendo propagado até mesmo o conceito de que determinadas práticasfísicas poderiam levar à esterilização. A própria Educação Física para a mulher só foi aceitaapós uma série de discussões, sendo que a participação da mulher na prática desportiva sóaconteceria algum tempo mais tarde. Culturalmente, na maioria das sociedades organizadas, as meninas, desde a suainfância, não são estimuladas, e muitas vezes são até mesmo impedidas, de participar debrincadeiras consideradas mais agressivas e atléticas, largamente praticadas pelos meninos.Isso faz com que elas percam grandes oportunidades de conhecer e desenvolver suaspotencialidades. 16
  • “Os meninos quase sempre brincam com bolas, ou com brinquedos de guerra, que oferecem excelentes possibilidades de integração com as atividades físicas, enquanto que as meninas se entretêm com bonecas e brinquedos ‘passivos’. Conseqüentemente, os meninos são mais ativos e conseguem liderança através da força física, enquanto as meninas se dedicam às atividades manipulativas e recebem reconhecimento pela atividade verbal". (MASSUCAT e HATA, 1989, p. 20). Apesar do grande impulso dado para a estruturação do esporte moderno em 1932,por Thomas Arnold, diretor do Colégio de Rúgbi, que introduziu um sistema de educaçãoque permitia maior participação e iniciativa por parte dos alunos, as garotas continuaramsendo excluídas deste contexto. Apenas os cursos de danças e algumas lições de ginásticalhes eram permitidas, durante a sua formação. Em 1913, George Hébert estabelecia umaseção feminina no seu “Colégio de Atletas” em Reims, para a formação de monitoras deeducação física. Alguns dos primeiros registros de participação feminina em atividades esportivasmostram claramente uma finalidade apenas recreativa. Aos poucos surgiram competiçõesde caráter local e, posteriormente, campeonatos regionais, continentais e mundiais. Certas modalidades esportivas são praticadas pelo sexo feminino há muito tempo. Ojogo de bochas é praticado desde o século XIII, sendo que a mulher nele se iniciou muitocedo. 17
  • O cricket é praticado por mulheres desde o século passado e o arco e flecha têmregistros de participação feminina datados de 1770, na Inglaterra. Nesta modalidade, asmulheres participaram dos Jogos Olímpicos de 1904, em Saint Louis, sendo extinta estadisputa após 1920. No tênis, a mulher participa de campeonatos oficiais desde o século passado. MaudWatson foi a primeira vencedora de um campeonato de simples feminino em Wimbledon,em 1884. Helen Wills Moody, com oito conquistas, é a recordista de vitórias, sendo quatrodelas consecutivas. Entre as brasileiras, Maria Ester Bueno se destaca como a única latino-americana campeã em Wimbledon, tendo conquistado três campeonatos de simples (1959,1960, 1964) e cinco vezes o campeonato de duplas femininas. Em 1900, em Paris, as mulheres participaram do torneio de tênis dos JogosOlímpicos, nas modalidades de simples feminino e de duplas mistas. O uniforme eracomposto de uma saia branca à altura do tornozelo. O golfe, com origem na Escócia, no século XV, teve, oficialmente, a Sra. M. Scottcomo a primeira vencedora do campeonato inglês desta modalidade, em 1893. Aparticipação feminina no golfe é fato que remonta a um passado muito distante. Há registros de participação feminina na modalidade de hóquei sobre a grama, naEuropa, desde o século passado, com referências oficiais de disputas entre equipesfemininas da Irlanda desde 1896, e de campeonatos contra equipes inglesas desde 1898. 18
  • Em 1899, as senhoritas Lucas e Graeme venceram o primeiro campeonato inglês deduplas de badminton (esporte semelhante ao tênis). Na natação, há registros oficiais da participação feminina em campeonatosorganizados desde o século passado. Como exemplo, Srta. Hilda Thorn venceu a prova das100 jardas do campeonato nacional feminino da Inglaterra em 1901, com o tempo de 1 30"4/10. Na esgrima, a participação feminina parece ter se iniciado na Itália, depois naFrança e se espalhado posteriormente por toda a Europa. No atletismo, a participação parece ter acontecido mais tardiamente, na Inglaterra,durante a Primeira Grande Guerra, por ocasião de alguns espetáculos beneficentes. No remo e no caiaque as referências que temos são ainda mais recentes, sendo quea inclusão destas modalidades nos Jogos Olímpicos ocorreu depois de passado muitotempo. O esporte feminino tomou impulso e passou a ser organizado no setor internacional,com a criação da União Esportiva Feminina Internacional, em Paris, em 1922. Passou a seorganizar, a partir de então, diversos campeonatos mundiais nas modalidades esportivaspara o sexo feminino. 19
  • Historicamente, a participação feminina nos Jogos Olímpicos enfrentou sériasrestrições, inclusive pelo próprio idealizador dos Jogos da Era Moderna: Pierri de Fredi, oBarão de Coubertin. "O Barão (Coubertin) argumentava com o axioma de Proust, declarando: ou se fecham, ou se abrem todas as portas. E como o acesso a todas as portas não era permitido às mulheres, por que permitir-lhes a entrada nalgumas, proibindo-as nas restantes? ...Ele nem sequer admitia a realização de uma Olimpíada feminina, que seria qualquer coisa de impraticável, desinteressante, inestética e incorreta." (Esteves apud Romero, 1990, p. 276) O Barão de Coubertin chegou a deixar a presidência do Comitê OlímpicoInternacional, em 1928, em protesto pela autorização da participação feminina. Entretanto,pouco a pouco, as mulheres impuseram sua presença. Mesmo sendo exclusivamente masculinos, os primeiros Jogos Modernos (Atenas,1896) tiveram uma participação feminina. A Rainha Olga, da Grécia participousimbolicamente, abrindo o concurso de tiro, disparando com um fuzil nacarado. Em 1900, as mulheres participaram da competição de tênis, em Paris. Houve umtorneio simples feminino e um de duplas mistas. O uniforme era composto de uma saiabranca à altura do tornozelo. Nos Jogos seguintes (Saint Louis, 1904), as mulheresparticiparam do arco e flecha. 20
  • Porém, o grande marco do início da projeção da participação feminino no cenárioesportivo internacional ocorreu em 1928, em Amsterdã, quando pela primeira vezoficializou-se a participação das mulheres nos Jogos Olímpicos, nas provas de atletismo. Nos cinqüenta anos seguintes a mulher integrou-se cada vez mais no mundo dosesportes competitivos, participando oficialmente de um grande número de modalidades. Éfacilmente observável a contínua melhoria dos resultados esportivos obtidos pelas mulheresnos últimos anos, como por exemplo, nas provas de atletismo e natação, como podemosobservados no quadro abaixo, onde são comparados resultados obtidos nos JogosOlímpicos de Amsterdã (1928), de Munique (1972) e Montreal (1976).Quadro nº 1 - Resultados de algumas provas do atletismo, disputadas por mulheres emAmsterdã (1928), Munique (1972) e Montreal (1976)Provas Amsterdã (1928) Munique (1972) Montreal (1976)100 metros 12"2 11"1 11"08800 metros 216"8 158"6 154"944x100 metros 48"4 42"8 42"55Salto em altura 1,59 m 1,92 m 1,93 mLançamento do disco 39,62 m 66,62 m 69,00 mFonte: PINI, 1978, p. 206.Quadro nº 2 - Resultados de algumas provas da natação, disputadas por mulheres emAmsterdã (1928), Munique (1972) e Montreal (1976)Provas Amsterdã (1928) Munique (1972) Montreal (1976) 21
  • 100 m nado livre 11100 58"6 55"65200 m nado peito 312"6 241"7 213"43400 m nado livre 5"42"8 419"00 409"894x100 m nado livre 447"6 355"2 344"82Fonte: PINI, 1978, p. 206. Atualmente, as mulheres participam de numerosas competições, dentro dos JogosOlímpicos, mas, curiosamente, permanecem excluídas de esportes dos quais poderiamparticipar sem risco e brilhar sem perigo para a sua estética, como, por exemplo, os esportesà vela. É que, na verdade, não se fez um estudo científico a respeito das conseqüências alongo prazo da prática de algumas modalidades esportivas em função das capacidadesorgânicas femininas. Em 1996, nos Jogos Olímpicos de Atlanta, as mulheres iniciam sua participaçãooficial nas modalidades de futebol e softbol (adaptação do beisebol), até então modalidadesexclusivamente masculinas. Homens e mulheres simultaneamente iniciaram a disputa dovôlei de praia em Jogos Olímpicos. No atletismo, a prova dos 3.000 metros para mulheresfoi substituída por uma de 5.000 metros, além da inclusão do salto triplo feminino. 22
  • Quadro nº 3 - PARTICIPAÇÃO FEMININA NOS JOGOS OLÍMPICOSCIDADE ANO MASC. FEM. TOTAL % MASC. % FEM.Atenas 1896 311 0 311 100 0Paris 1900 1060 16 1076 98,5 1,5St. Louis 1904 619 6 625 99,0 1,0Londres 1908 1999 36 2035 98,2 1,8Estocolmo 1912 2490 57 2547 97,8 2,2Antuérpia 1920 2543 64 2607 97,5 2,5Paris 1924 2820 136 2956 95,4 4,6Amsterdã 1928 2724 290 3014 90,4 9,6Los Angeles 1932 1281 127 1408 91,0 9,0Berlim 1936 3738 328 4066 91,9 8,1Londres 1948 3714 385 4099 90,6 9,4Helsinque 1952 4407 518 4925 89,5 10,5Melbourne 1956 2958 384 3342 88,5 11,5Roma 1960 4738 537 5275 89,8 10,2Tóquio 1964 4457 683 5140 86,7 13,3México 1968 4750 781 5531 85,9 14,1Munique 1972 5848 1299 7147 81,8 18,2Montreal 1976 4915 1274 6189 79,4 20,6Moscou 1980 4265 1088 5353 79,7 20,3Los Angeles 1984 5458 1620 7078 77,1 22,9Seul 1988 6983 2438 9421 74,1 25,9Barcelona 1992 7108 2851 9959 71,4 28,6Fonte: Telecurso 2000 – Educação para o Esporte (p. 88) 23
  • Gráfico nº 1 - Comparação entre a participação masculina e feminina na História dos JogosOlímpicos 120 100 1896 1900 1904 80 1908 1912 1920 1924 1928 1932 60 1948 1952 1956 1960 1964 1968 40 1976 1980 1984 1992 20 0 % MASC. % FEM.Fonte: Quadro nº 3 24
  • Através da análise do quadro e do gráfico acima, podemos concluir que aparticipação feminina dentro dos Jogos Olímpicos vem crescendo a cada edição, sendo que,em 1928, houve um aumento considerável, transformando os Jogos Olímpicos de Amsterdãcomo um marco da afirmação do avanço da participação feminina no cenário esportivomundial. Nos Jogos Olímpicos de Barcelona, em 1992, a participação feminina chegou a28,6%, índice jamais alcançado anteriormente. Porém, ainda podemos considerar que estaporcentagem tende a crescer ainda mais, estabelecendo parâmetros de igualdade departicipação para os dois sexos nas próximas edições.1.2 - O avanço da participação esportiva da mulher no Brasil É necessário, para uma melhor compreensão da participação feminina na históriaesportiva brasileira, uma análise simultânea entre os conceitos de esporte e educação físicanas diferentes épocas da história do nosso país. A Educação Física no Brasil e, conseqüentemente, a prática desportiva, estevediretamente associada à vida militar, principal reduto de recursos humanos até a criação dasescolas de Educação Física, espaço vedado às mulheres até há bem pouco tempo. É visível a presença do preconceito sobre a participação feminina nos esportesdentro da literatura existente no Brasil, com argumentos baseados na suposta 25
  • "masculinização" da mulher esportista e na permanência de posturas declaradamentediscriminatórias. Podemos observar a existência de uma normatização intensa de uma estéticafeminina, como, por exemplo, nos textos de Pini, que distingue entre o poder e o dever deas mulheres participarem de qualquer modalidade esportiva. "Em nosso ver, a mulher não deve participar de modalidades esportivas como o rúgbi, o futebol, as lutas, além de outras, por exigirem condições especiais de treinamento e pelo enorme desgaste físico que acarretam, além da violência dos contatos físicos que podem surgir no ardor das disputas. Em compensação, existem outras modalidades esportivas que devem merecer sua preferência, pois melhor se coadunam com seu organismo e sua maneira de ser." (Pini, 1978, p. 209) Íris de Carvalho pleiteia, em depoimento prestado à Comissão Parlamentar deInquérito (CPI) sobre a Mulher, instalada pelo Congresso Nacional em 1976, a paridade dosprêmios esportivos masculinos e femininos no mesmo tipo de prova e a eliminação dodecreto-lei 3.199 que proibia às mulheres algumas práticas esportivas, como o futebol, quehoje é intensamente praticada entre o sexo feminino. Em um artigo datado de 1970, o professor Carlos Catalano Calleja defendia que asmulheres não deviam participar de competições de judô, principalmente infantis e mistas,porque as meninas venciam os garotos e "perder de menina é um tanto vexatório e podeocasionar uma problemática que iria afetar a personalidade em formação do menino". Tal 26
  • professor defendia a prática do judô para o sexo feminino sob a forma utilitária de defesapessoal a partir da adolescência, indo frontalmente contra a prática do judô-competição pormulheres. Tal artigo destaca a máxima de que "homens sempre devem ganhar demulheres", que deveria causar impacto não só na vida das meninas como também dosmeninos. Durante um bom tempo no Império, a Educação Física era vedada às meninas. Oprimeiro livro editado no Brasil sobre o assunto deixa claro seu posicionamento: "Tratadode educação física-moral dos meninos" (1828). Vejamos o regulamento expedido pelo presidente da província do Amazonas, em1852, que não deixa dúvidas quanto ao impedimento da participação das meninas: [para os meninos] a instrução compreenderá a educação física, moral e intelectual (...); e para o sexo feminino a mesma instrução intelectual, mas modificada, e as prendas próprias ao sexo (...). As meninas não farão exercícios ginásticos. (Romero, 1990, p. 279) A grande proposta formalizada de educação física no geral, e específica para asmulheres, aparece no parecer de Rui Barbosa ao projeto de 1882 "Reforma do ensinoprimário e várias instituições complementares da instituição pública". O parecer recomendaa instituição de uma seção especial de ginástica em cada escola primária e tendo em vista,em relação à mulher, a harmonia das formas femininas e as exigências da maternidadefutura. 27
  • O parecer de Rui Barbosa parece muito próximo ao conceito do dever-ser esportivode Pini. Na época republicana, a primeira referência de destaque parece ser a ReformaFernando de Azevedo (1928) que traz em seu texto a afirmação de que a Educação Físicaaplicada à mulher seria conformada a seu sexo e às suas condições peculiares: "Concordam [os educadores] que para a regeneração do povo é preciso restituir à mulher a saúde, fortemente comprometida, a estabilidade e o equilíbrio. (...) A educação física da mulher deve ser, portanto, integral, higiênica e plástica e, abrangendo com os trabalhos manuais, os jogos infantis, a ginástica educativa e os esportes, cingir-se exclusivamente aos jogos e esportes menos violentos e de todo incompatíveis com a delicadeza do organismo das mães" (Azevedo apud Romero, 1990, p. 281). Nessa época, é necessário salientar, que existe uma diferença entre os conceitos demulheres que executavam exercícios ginásticos e as que praticavam esportes. O texto deFernando Azevedo afirmava que a atividade física para a mulher-mãe e dona de casa eranecessária, mas "no esporte, como um campo de predominância masculina com objetivosde vitória, rendimento e sucesso social é que as dificuldades aparecem". Na década de 20 encontramos registros referentes às primeiras exibições esportivasfemininas públicas, todas relacionadas à natação, que tentavam romper as barreirasantepostas à mulher no desporto, ao se apresentarem em público para nadar, ainda queenvoltas com costumes de banho abundantes em babados e dobras. 28
  • Como já citamos, Maria Lenk é a primeira brasileira a participar de JogosOlímpicos (Los Angeles, 1932). A composição das delegações brasileiras que participariamdos Jogos Olímpicos mostra uma lenta e irregular progressão da presença feminina,comprovando a dificuldade de penetração das mulheres num reduto considerado masculino. Outro indicador da dificuldade enfrentada pelas mulheres dentro do cenárioesportivo no Brasil é apresentada nas datas das primeiras competições masculinas efemininas em campeonatos brasileiros. Vejamos alguns casos:• Natação masculina - 1898; natação feminina - 1935,• Atletismo e basquetebol masculinos - 1925; atletismo e basquetebol femininos - 1940,• Tênis masculino - 1923; tênis feminino - 1947. Podemos citar ainda o futebol, que somente nos últimos anos tem proporcionadoalguns poucos campeonatos para as mulheres brasileiras, que, em pouco tempo, já mostrambons resultados em competições internacionais, como por exemplo, a terceira colocação naCopa do Mundo realizada nos Estados Unidos, em 1999. O Estado Novo foi responsável pela implantação de medidas normatizadoras daprática esportiva feminina. O decreto-lei 3.199, de 1941, proíbe às mulheres a prática deesportes "incompatíveis com as condições de sua natureza". Tal decreto foi regulamentadoem 1965 por uma deliberação do Conselho Nacional de Desportos que proibia às mulheres 29
  • a prática de lutas de qualquer natureza, futebol de salão, futebol de praia, pólo aquático,pólo, rúgbi, halterofilismo e beisebol. Nos depoimentos prestados à já citada CPI da Mulher em 1976, Iris de Carvalho eMaria Lenk recomendam a eliminação dessa deliberação: "(...) É nobre que os legisladores e os dirigentes se preocupem com a mulher e queiram protegê-la. Tais cuidados não deixam de ser uma discriminação contra o homem, que fica entregue à própria sorte. Certos esportes por ele livremente praticados podem ocasionar-lhe lesões irreversíveis. No entanto... não seria mais certo conferir à mulher o direito de escolher, por livre manifestação de vontade?" (Carvalho apud Romero, 1990, p. 284-285) Existe um relato terrível sobre a participação de mulheres no campeonato sul-americano de judô em 1979, na Argentina. Como a deliberação brasileira já citada proibia aparticipação de mulheres em qualquer tipo de luta, Joaquim Mamed, diretor daConfederação Brasileira de Judô, registrou as desportistas com nomes masculinos. Após avitória da equipe, a trama foi descoberta e, atendendo a uma intimação do ConselhoNacional de desportos, Mamed se apresentou com uma equipe trajando quimono e com asmedalhas conquistadas no peito. Desta forma, após quatorze anos de vigência, adeliberação 7/65 foi revogada. Hoje em dia, apesar de barreiras ainda não vencidas totalmente, o esporte femininobrasileiro se encontra em estágio bem avançado, com destaque internacional para diversasmodalidades, como o voleibol, o basquetebol e o futebol. Outras modalidades mostram 30
  • claro avanço técnico e em número de praticantes, como a ginástica artística, o judô e ohandebol. Outra grande barreira ainda enfrentada pelas mulheres quanto à sua participação emalgumas modalidades esportivas são alguns conceitos relacionados às diferenças entre ascapacidades orgânicas do homem e da mulher. Considerando que algumas destas diferençassão reais e comprovadas, determinados esportes carecem de adaptações para que possamser praticadas pelo sexo feminino. A análise destes aspectos orgânicos se constitui como ponto central doprosseguimento deste trabalho de pesquisa. 31
  • II - DIFERENÇAS ORGÂNICAS ENTRE O HOMEM E A MULHER Este capítulo analisará as características que tornam os corpos do homem e damulher diferentes, quanto aos aspectos significativos para a prática da atividade física e dosdesportos em geral. A mulher do século XX deseja ser igual ao homem. Além das diferenças anatômicasevidentes relativas aos órgãos genitais e aos caracteres sexuais secundários, o homem e amulher apresentam importantes diferenças morfológicas.2.1. - O Esqueleto Com a mesma altura em relação ao homem, a bacia da mulher é mais larga, o talhe eos ombros são mais estreitos, os fêmures mais convergentes e a lordose lombar maisacentuada. Com o mesmo peso em relação ao homem, a mulher apresenta um esqueleto maisfrágil, um tecido adiposo subcutâneo mais abundante e, sobretudo, um tecido muscularmenos desenvolvido. O esqueleto da mulher apresenta características de forma e de desenvolvimentoclaramente distintas em relação ao esqueleto do homem, com ossos menores, mais leves ecom tuberosidades, apófises e cristas mais delicadas e menos salientes. As articulações e o 32
  • aparelho capsuligamentar são mais delicados e mais adaptáveis aos esforços de naturezaleve. A conformação do tórax é diferente nos dois sexos. O tórax da mulher é menor emais estreito no seu conjunto, com ombros menores e a abertura inferior mais ampla emrelação ao homem. A pelve da mulher, condicionada à função da procriação, faz exceção a todos osoutros ossos do esqueleto, sendo mais larga e mais ampla que a do homem. Apresenta umamorfologia particular, que lhe permite desenvolver equilíbrios estáticos e dinâmicosdiferentes dos do homem, tanto nas condições normais quanto na correspondente àgestação, que lhe é específica. Nesta condição, o aparelho capsuligamentar das articulaçõespélvicas torna-se mais flácido, permitindo modificações das conexões dos ossos pélvicasdurante a mecânica do parto. Além do mais, os ilíacos da mulher apresentam acetábulosvoltados mais em direção antero-lateral em relação aos do homem, condicionandoarticulações coxofemorais diferentes das do homem. Nessas condições, há maiorconvergência dos fêmures para o plano mediano que dão aos membros inferiores femininosum aspecto que lembra o da letra "X". A maior largura da bacia feminina e a maior convergência dos fêmures para o planomediano imprimem à marcha da mulher uma movimentação balanceada lateralmente, paraa direita e para a esquerda, diferente da do homem, que é mais firme e retilínea. O tronco damulher, na maioria dos casos, é mais comprido do que o do homem, o contrário 33
  • acontecendo com os membros inferiores. Por essa razão, a mulher geralmente tem o passomenor do que o do homem. A coluna vertebral, por sua vez, apresenta a curvatura antero-posterior da regiãolombossacra (lordose) mais acentuada da que a do homem, o que se relaciona também àfunção da procriação e proporciona uma estática diferente ao organismo feminino emrelação ao homem. No homem, pela menor largura da bacia e pela menor convergência dos fêmures emrelação ao plano mediano (na maioria das vezes os membros inferiores masculinosobedecem a um ligeiro valgismo, lembrando o aspecto de uma letra "O" alongada nosentido vertical), os membros inferiores se tornam mais adaptáveis às longas caminhadas,contribuindo para imprimir maior rapidez às corridas e maior eficiência motora aos saltos earremessos. Em relação a diferenças entre os aspectos físicos relacionados ao esqueleto, ohomem médio é aproximadamente 14 a 15 centímetros mais alto que a mulher. O homemtambém é mais pesado cerca de 20 a 25 por cento, apesar de as mulheres seremproporcionalmente portadoras de mais tecido adiposo. Por causa de sua maior altura, ombros mais largos e quadris mais estreitos, o centrode gravidade do homem é diferente do da mulher. Isto pode facilitar certos tipos de padrõesde movimento, como o salto. Em relação à altura, a circunferência da caixa torácica damulher é menor do que a do homem e sua cavidade abdominal é mais larga e maior. 34
  • Em geral, a calcificação de certas partes do esqueleto começa mais cedo na meninado que no menino. A junta do joelho feminino é mais estável do que a do masculino; oombro da menina é menos largo; o pélvis ósseo do menino é mais profundo e mais estreito. Na estrutura facial, o homem é propenso a ter os ossos do nariz salientes, ossosmolares altos e um queixo quadrado e pesado. O ângulo do braço da mulher tende a seguiro ângulo produzido por seus ombros estreitos e quadris levemente ressaltados.2.2 - Sistema vascular e respiratório O sangue apresenta diferenças significativas entre os dois sexos, com valoresmenores para a mulher. O volume total de sangue é menor na mulher, com 58 ml por quilo do pesocorpóreo, enquanto no homem este volume é de 64 ml por quilo. Para um mesmo volumede sangue, existe cerca de 10 por cento a menos de hemácias, com menor quantidade dehemoglobina por hemácia, o que diminui a quantidade desse pigmento no sangue damulher. A quantidade total de hemoglobina na mulher é de 0,86 % do peso corpóreo,enquanto no homem esta quantidade é de 1,16 %, o que corresponde a uma diferença de 25a 30 % a menos para a mulher. 35
  • Sendo a hemoglobina responsável pelo transporte de oxigênio pelo sangue esabendo-se que 1,0 grama de hemoglobina transporta igual quantidade de oxigênio nos doissexos, podemos entender que, em igualdade de condições físicas e de trabalho a realizar, amulher apresenta desvantagem em relação ao homem, pois sua capacidade de transporte deoxigênio é menor. O homem normalmente tem um coração maior que a mulher e essa diferença faz-sesentir no coração das mulheres durante a marcha rápida. A soma de glóbulos vermelhos no sangue é maior. A pressão sanguínea do homemmédio é 5 a 10 milímetros mais alta do que a mulher. A mulher, portanto, tem umalimitação circulatória, resultando em efeitos sobre sua resistência cardíaca que acabam porafetar a resistência geral. Levando-se em conta a as diferenças entre o nível de hemoglobina (Hb), o volumesanguíneo e as diferenças entre as dimensões funcionais do sistema aeróbico de homens emulheres, pode-se concluir que, se os demais fatores fossem iguais, o VO2 máximo damulher seria igual ao do homem, se ambos possuíssem a mesma Hb e o mesmo volumesanguíneo total. A função respiratória da mulher também é menos eficiente, levando-se em contatodos os parâmetros respiratórios, estáticos e dinâmicos, inferiores aos do homem, tanto emrepouso quanto sob condições de trabalho muscular. 36
  • Os demais sistemas ou aparelhos orgânicos também são mais delicados na mulher,impondo diferenças sensíveis no tocante à sua capacidade funcional, em relação à dohomem. Baseados em resultados de estudos feitos por Pate, Barnes e Miller, podemos chegara algumas conclusões em relação a certos aspectos fisiológicos na comparação entre odesempenho de homens e mulheres. Nestes estudos, em ambiente laboratorial, homens e mulheres eram submetidos aum teste progressivo na esteira rolante, com avaliação para VO2 máximo, relações depermuta respiratória (R), hematócrito e meoglobina, ácido lático e ácido 2,3-difosfoglicérico (2,3-DPG - que facilita a dissociação do oxigênio da hemoglobina). Acomposição corporal era avaliada por pesagem hidrostática. As composições corporais eram quase as mesmas (17,8% para as mulheres e 6,3%para os homens), sendo que os homens eram mais pesados que as mulheres. Os resultados obtidos foram os seguintes: 1. não houve diferenças significativas no VO2 máximo, (55,8 e 55,1 ml/kg/min para homens e mulheres, respectivamente), na freqüência cardíaca máxima (186 e 189 batimentos por minuto); 2. os níveis de ácido lático após o exercício eram bastante semelhantes e as concentrações de 2,3-DPG eram semelhantes em ambos os grupos. 37
  • Após o término desses estudos, chegou-se à conclusão que, quando homens emulheres exibem padrões de treinamento e de desempenho semelhantes, a maioria de suascaracterísticas fisiológicas é semelhante. Outros estudos evidenciam resultadossemelhantes. Uma implicação prática para os resultados desta natureza é que, nosambientes tanto da educação física como quanto nos desportos, onde o desempenho e ocondicionamento se baseiam na capacidade aeróbica, homens e mulheres podem e devemser colocados em grupamentos comuns. A diferença de VO2 máximo entre homem e mulher é negligenciável nos primeirosanos e mais pronunciada durante a fase da vida adulta. Essa relação tem como base o fatodas diferenças no tamanho e composição do corpo entre homens e mulheres seremmínimas antes da puberdade e máximas durante a vida adulta.2.3 - Sistema muscular Embora a maioria dos homens seja mais forte que as mulheres, não há provas deque o sexo afete de alguma forma os componentes musculares da mulher. O tecidomusculoso do homem e da mulher são iguais. Há uma proporção muscular maior no homem e as pessoas com um componentemuscular grande tendem a ser mais fortes do que as que possuem pequeno componentemuscular e componente gorduroso grande. Quando as mulheres executam trabalhospesados servindo-se dos músculos, desenvolvem uma força muscular proporcional ao seutamanho e igual à de um homem de igual tamanho e massa muscular. Obviamente, o modode vida característico de cada sociedade, determina, em parte, o total de trabalho fisiológico 38
  • que cada indivíduo, homem ou mulher, farão. Na cultura norte-americana, o costumesocial e os hábitos limitam o trabalho muscular da mulher. O potencial de força dasmulheres raramente é completamente desenvolvido. A força muscular geral da mulher equivale a dois terços da do homem. Entretanto,convém lembrar que as diferenças de força variam de acordo com cada grupo muscular. Porexemplo, em comparação com os homens, as mulheres são mais fracas no tórax, nosombros e nos braços, enquanto são mais fortes nas pernas. Provavelmente, isto se relacionaao fato de ambos os sexos utilizarem suas pernas em igual intensidade, para ficar de pé,subir escadas, andar, correr e outros movimentos do cotidiano, enquanto, na maioria dassociedades, as mulheres têm pouca oportunidade de utilizar os membros superiores, como oexemplo da sociedade norte-americana citado no parágrafo acima. Alguns testes demonstraram que, apesar das semelhanças dos níveis de força dosmembros inferiores, os homens demonstraram certa superioridade na força isocinética paravelocidades mais rápidas de movimento. As razões para essa diferença são desconhecidas,mas podem estar relacionadas com diferenças no tipo de fibras musculares ou nos padrõesde recrutamento das fibras entre os sexos. Porém, julga-se necessário uma pesquisa maisampla nessa área. Muito tem se falado que a mulher atleta tem um aspecto “masculinizado”, o que tirao encanto e a formosura de um corpo feminino delicado por natureza. 39
  • Este fato deve-se, sobretudo, ao tipo de vestimenta utilizado em determinadasmodalidades esportivas, a uma certa ausência de charme em algumas praticantes ou a umcorte de cabelos mais curto, mas nunca à realidade biológica. As mulheres virilizadas peloesporte certamente são aquelas que têm tendências andrógenas naturais e que vencem ascompetições devido a sua morfologia, como no caso das arremessadoras de peso. Há alguns anos, pensava-se que o aumento da atividade no córtex adrenal devido aoesforço físico poderia causar um estado de hiperandrogenia, que não parece fazer sentido,pois não foram encontradas diferenças significativas entre as dosagens hormonais dasdesportistas e das não-desportistas. As únicas alterações registradas são de ordem morfológica e geralmente o aumentoda cintura escapular é responsável pelo aumento do diâmetro bdeltoidiano, sem que omorfograma seja modificado no sentido andrógeno, o que não caracteriza uma suposta“masculinização” da atleta. Com relação à preocupação estética feminina, recomenda-se a realização deexercícios como a ginástica rítmica ou de relaxamento, da natação suave e outros exercíciosleves e graciosos, com a finalidade de modelar o corpo. No plano psicológico, o espírito de competição pode ocasionar nas mulheres umaagressividade máscula, que, geralmente, já existe anteriormente, mas se revela a partir domomento da escolha do esporte. 40
  • Porém, o que deve realmente ser levado em conta são os benefícios do esporte coma presença de pequenas sobrecargas ponderais. Para isso, basta lembrarmos as silhuetaslongas e esbeltas das velocistas, das jogadoras de voleibol e das evoluções graciosas dasginastas e das patinadoras, para nos convencermos dos benefícios que o esporte pode trazerà mulher que deseja ser “ainda mais mulher”. 41
  • III - CONSIDERAÇÕES GINECOLÓGICAS ESPECÍFICAS DO ORGANISMO FEMININO O organismo feminino apresenta certas características e funções biológicaspeculiares, que devem ser estudadas de uma forma especial, para que as atividades físicaspraticadas pelas mulheres sejam adequadas a tais características. Existem diferentes tipos de exercícios físicos a serem recomendados, de acordo coma idade e ao estágio de desenvolvimento puberal da mulher. Entre nove e 12 anos de idade ocorre o período pré-puberal, onde é indicada aginástica geral, e não se recomenda que um órgão ou membro seja mais solicitado que ooutro. Ou seja, a especialização esportiva não deve ocorrer nesta fase. Entre os 12 e 15 anos de idade, temos o período puberal, onde é necessário dosar osesforços em função das qualidades de potência e resistência de cada indivíduo. A educaçãorespiratória é importante nesta fase e permite um bom apoio para o desenvolvimentomamário. Entre os 15 e 16 anos temos a idade de desenvolvimento muscular, onde já sãopermitidos os exercícios de força. 42
  • Na fase adulta, existem outras considerações importantes relacionadas ao exercíciofísico e ao desenvolvimento do organismo feminino que precisam ser levadas emconsideração, entre os quais podemos destacar a menstruação e os fenômenos relacionadosà gravidez. Neste capítulo estaremos analisando a influência destes dois aspectosrelacionados exclusivamente ao desenvolvimento da mulher, além de um pequeno estudosobre lesões das mamas e dos órgãos reprodutores da mulher. 3.1 - Menstruação A menstruação, que é uma função fisiológica como tantas outras, era considerada nopassado como um castigo divino de influência cósmica lunar, através do qual ocorria aexcreção de substâncias tóxicas orgânicas, fazendo com que a mulher se torne impura nesteperíodo, devendo ficar isolada de tudo e de todos. Essa e outras crendices sobre amenstruação perduraram por séculos, prejudicando a mulher em vários sentidos, incluindoas jovens atletas nos dias de hoje, que, por vezes, ainda sofrem com uma série detranstornos psicossomáticos que interferem diretamente no rendimento do trabalhoesportivo, unicamente por medo e ignorância. Ainda hoje, a menstruação continua a ser o maior problema de atletas malesclarecidas ou mal preparadas psicologicamente para enfrentar a competição nesseperíodo. O fator emocional chega a ser tão forte para algumas mulheres, que é comum ofluxo menstrual antecipar-se muitos dias, vindo a ocorrer exatamente na data de umacompetição importante. 43
  • O foco primário acerca do ciclo menstrual nos esportes está relacionado com osurgimento de um padrão irregular (oligomenorréia) ou com a cessação que se prolonga pormais de 90 dias (amenorréia). A amenorréia primária é definida como a demora da menarcaalém dos 16 anos de idade, enquanto amenorréia secundária é a ausência da menstruaçãoem mulheres que já menstruam. O ciclo menstrual (ovulatório) é um fenômeno fisiológico complexo. Podem seridentificados vários tipos de amenorréia secundária, entre eles a anovulação crônicahipotalâmica, a anovolução crônica hipofisária, a retroalimentação inadequada para ohipotálamo ou a hipófise e outras disfunções endócrinas ou metabólicas. A amenorréia atlética foi colocada na categoria geral de anovulação crônica. Ospesquisadores têm tido dificuldade em evidenciar uma relação de causa e efeito entrefatores específicos da participação nos esportes e a amenorréia secundária. Estaremos analisando mais profundamente os aspectos relacionados ao fenômeno damenstruação no prosseguimento deste estudo. Em comparação com a mulher comum, comprovou-se que a mulher americanaatleta inicia a sua menstruação (menarca) mais tarde, conforme quadro e gráfico a seguir. 44
  • Quadro nº 4 – Comparação entre a idade da menarca em mulheres americanasCategorias Idade da menarcaNão-atletas 13,02Atletas secundárias 13,05Nadadoras competitivas 13,4Atletas de pista e campo de nível nacional 13,58Atletas olímpicas (Jogos de Montreal, 1976). 13,66Corredoras de meia-distância de nível nacional 14,1Atletas olímpicas de voleibol 14,18Corredoras de nível nacional 14,2Fonte: FOX, BOWERS, FOSS, 1989, p. 284Gráfico nº 2 – Comparação da idade da menarca em mulheres americanas 14,4 Não-atletas 14,2 Atletas secundárias 14 13,8 Nadadoras competitivas 13,6 13,4 Atletas de pista e campo de nível nacional 13,2 13 Corredoras de m eia-distância de nível nacional 12,8 Atletas olím picas de voleibol 12,6 12,4 Corredoras de nível nacional Idade da menarcaFonte: Quadro nº 4 Como é demonstrado no gráfico, atletas tanto secundaristas quanto universitáriasalcançaram a menarca mais tarde do que as não-atletas, e os vários grupos de atletasnacionais e olímpicas chegaram à menarca muito depois que atletas secundaristas euniversitárias. Esses resultados indicam claramente uma menarca mais tardia para atletas de 45
  • porte nacional e internacional e sugerem uma relação entre menarca retardada e níveis decompetição mais avançados. Por outro lado, constatou-se que a idade da menarca para atletas húngaras é poucoafetada pela competição atlética e, que em nadadoras suecas, a idade da menarca foiligeiramente mais precoce do que em não-atletas, enquanto que em nadadoras mais jovens,entre 10 e 12 anos de idade, constatou-se uma maturidade sexual mais avançada, indicadapelo desenvolvimento das mamas e dos pêlos pubianos, nas finalistas de uma competiçãonacional em comparação com as semifinalistas do mesmo grupo etário. Esses resultadossugerem a possibilidade de existir diferentes relações de maturidade para esporte e níveiscompetitivos entre mulheres atletas de diferentes países. Porém, vale salientar que aocontrário dos resultados mais atuais apresentados nos estudos com mulheres americanasapresentados no gráfico anterior, essas informações obtidas com estudos com mulheres daHungria e da Suécia foram obtidas cerca de 25 anos atrás, numa época em que o nível detreinamento e de competição eram muito diferentes que os atuais, fator que deve influenciarsobremaneira os resultados obtidos. Cabe-nos analisar, portanto, possíveis fatores que retardam a menarca em mulheresaltamente qualificadas fisicamente e qual o significado deste retardamento. Foi constado que o exercício produz um aumento na prolactina, um dos hormôniossecretados pela hipófise e responsável pela preparação das mamas para a amamentação. Naatleta adolescente, isto poderia criar o que se chama de "impregnação prolactínica" doovário em maturação, o que seria suficiente para retardar ainda mais a maturação do ovário 46
  • por outro hormônio denominado folículo-estimulante. Por sua vez, isso poderia resultar emretardo da menarca ou na ausência de menstruação (amenorréia) transitória bastanteobservada nas mães que amamentam. Estudos realizados por MALINA, TATE e BAYLOR sugerem dois significadosprincipais para a relação entre a menarca tardia e o sucesso nos desportos, sendo um derelacionado com aspectos fisiológicos e outro com aspectos sociológicos. As características físicas e fisiológicas associadas à maturação tardia são, sobmuitos aspectos, favoráveis para o sucesso no desempenho atlético. Por exemplo, a mulhercom maturação mais tardia possui pernas mais compridas, quadris mais estreitos e menospeso por unidade de altura e menos gordura corporal relativa em comparação com a mulhercom maturação mais precoce. Na natação, porém, a maturação mais precoce pode serbenéfica, pois a maior força e a gordura corporal tendem a aprimorar o desempenho damulher nesse desporto. Isso se relaciona muito bem aos resultados obtidos nos estudosfeitos com nadadoras suecas mencionados anteriormente. No aspecto social, a mulher americana madura é, em termos genéricos,"socializada" longe das competições esportivas. Ou seja, as meninas cuja maturação é maistardia, tendem a permanecer por mais tempo nas competições esportivas e, porconseqüência, tendo maior possibilidade de competir em níveis mais elevados. Por outrolado, depois que a mulher tiver desenvolvido todas as suas características sexuais, ésubmetida à pressão social, e seus interesses afastam-se do esporte e se dirigem para 47
  • objetivos familiares ou de carreira. Embora atualmente este panorama já esteja semodificando, ainda constitui-se em fator importante. Com base em diversos estudos realizados, chegou-se à conclusão que o exercícioparece não influenciar de maneira significativa os distúrbios menstruais. 3.2 – Exercícios e distúrbios menstruais Numa pesquisa realizada por DALE e outros estudiosos, chegou-se ao resultado deque um terço das corredoras de longa distância apresentam amenorréia, isto é, cessação damenstruação durante suas temporadas de treinamento e de competição. Nota-se a incidênciade amenorréia em 34% de um grupo de corredoras e de 23% em um grupo que praticavajogging (trote) e de apenas 4% em grupo que não corria. Neste estudo, ficaram definidascomo corredoras as mulheres que corriam mais de 48 km por semana e que combinavamcorrida de longa distância, porém lenta, com um trabalho de velocidade. Por outro lado, astrotadoras (joggers) foram definidas como as mulheres que corriam lenta e livremente de 8a 48 km por semana. Os resultados obtidos podem ser analisados na tabela e no gráficoabaixo.Quadro nº 5 – Número médio de menstruações entre três categorias de mulheres americanas 48
  • Categoria Nº médio de menstruações por ano Corredoras 9,16 Trotadoras 10,32 Controle (não corredoras) 11,85Fonte: FOX, BOWERS, FOSS. 1989, p. 284.GRÁFICO Nº 3 – Comparação entre o número médio de menstruações entre três categoriasde mulheres americanas 12 10 8 Corredoras 6 Trotadoras Controle (não 4 corredoras) 2 0 Nº médio de menstruações por ano Fonte – Quadro nº 5 Um detalhe interessante a ser mencionado, é que até 24% das corredoras tinhamcinco ou menos menstruações por ano. Além disso, a incidência de amenorréia parece ser 49
  • muito maior nas corredoras e trotadoras com menarca de início mais tardio, que nãotiveram nenhuma gravidez ou que haviam tomado hormônios anticoncepcionais. A causa da amenorréia em mulheres atletas é desconhecida. Porém, qualquer queseja a causa, parece ter relação com a intensidade do treinamento. Acredita-se que pode sercausada pelo próprio treinamento ou competição ou por outros fatores relacionados comoredução do peso corporal ou estresse psicológico geral. No caso do treinamentopropriamente dito, é importante salientar que um treinamento mais intenso pode gerar ummelhor desempenho, conseqüentemente, um maior estresse. Foi demonstrado que uma redução das reservas adiposas do organismo, obtidaatravés do treinamento, está associada à amenorréia. No caso específico de fundistas eginastas, essa continua sendo uma possível razão para a amenorréia destas. É provável que, com a suspensão do treinamento, dos exercícios e das competições,as menstruações readquirem um padrão normal e as funções procriativas da mulher serevelam normais sob todos os aspectos. A dismenorréia (menstruação dolorosa) provavelmente não é nem agravada e nemcurada pela participação nos esportes. Quando muito, pode ser menos comum nas mulheresfisicamente ativas. A dismenorréia, se não for intensa, não dificulta o desempenho atlético,pelo menos do ponto de vista fisiológico. Porém, é possível que fatores psicológicosrelacionados desempenhem um papel importante. 50
  • A participação em atividades esportivas tem relação com a dismenorréia. O fatorintensidade do exercício parece importante, pois se observou que um grupo de mulheresque seguiam um programa de exercícios regular tinha menos problemas nesse aspecto. A dismenorréia parece afetar especialmente as nadadoras, que são advertidas poralguns médicos para que evitem as piscinas durante a menstruação, para evitar o risco decontaminação bacteriana do endométrio, através da abertura do canal uterino. Apesar detudo, o treinamento e a competição não parecem causar problemas. 3.3 – Treinamento e competição durante a menstruação O fato de as mulheres competirem ou não durante o seu fluxo menstrual constitui-seassunto essencialmente individual. Porém, alguns aspectos podem ser analisados a respeito. Das atletas olímpicas examinadas nos Jogos Olímpicos de Tóquio, 69% competiramsempre durante a menstruação, apesar de apenas 34% treinarem durante esse período. Dos31% que às vezes competiam durante a menstruação, todas participavam de grandespelejas, especialmente as que consistiam em competições entre equipes. Do ponto de vista médico, existe uma discordância sobre o assunto. Alguns médicosacreditam que o treinamento e a competição durante o período menstrual não devem serpermitidos nos esportes em que se observa grande incidência de distúrbios menstruais,como a corrida de fundo, o esqui, a ginástica, o tênis e o remo. Quase todos os médicos 51
  • reprovam a natação durante a menstruação. Isso é interessante, pois foi determinado que,durante a menstruação, não existe contaminação bacteriana da água da piscina e nenhumsinal de aumento nas infecções bacterianas dos órgãos genitais das nadadoras. Além disso,o Dr. A. J. Ryan sugeriu que o uso do tampão intravaginal é conveniente e confortável paraa maioria das nadadoras durante a menstruação. Com base nessas informações, não se pode estabelecer nenhum motivo para que amulher não treine ou participe de competições durante o período da menstruação, desde quesua experiência própria lhe mostre que não haverá nenhum incômodo e que seudesempenho não será afetado. É importante salientar também que, para as mulherescompetitivas, não é nada agradável a idéia de perder três ou quatro dias de treinamento. Damesma forma, não é recomendável que se force uma mulher a participar de um treinamentoou competição, quando ela se sente mal e o seu desempenho torna-se muito precáriodurante esse período. O fluxo menstrual corresponde a uma etapa do ciclo menstrual em que a mulherreadquire suas melhores condições de funcionamento orgânico, o que possibilita um ótimodesempenho físico, sendo que algumas atletas chegam a alcançar seus melhores resultadosexatamente nesse período. Tal fato é tão significativo que ocorre, em diversas competições, uma espécie dedoping artificial, que consiste na utilização de hormônios (progesterona e estrógenos) paradeslocar o fluxo menstrual da atleta, visando à sua participação na competição com omáximo de desempenho. Esse procedimento artificial, antecipando ou retardamento o fluxo 52
  • menstrual da atleta, com o objetivo de a atleta poder participar com o máximo rendimentode uma competição, além de fraudulento e desleal, é contra-indicado para a saúde damulher. Além disso, todo agente que proporciona condições artificiais ao atleta nacompetição é considerado dopador. A capacidade física da mulher varia de acordo com o período do ciclo menstrual emque ela se encontra. Na primeira fase, também chamada "proliferativa" ou "estrogênica",ocorre a fixação de água no organismo (ação anabolizante). Por volta do 14º dia, verifica-sea ovulação, com ligeira diminuição de hormônios no sangue, que aumenta de novo porvolta do 18º dia, para cair novamente até atingir seus níveis iniciais, na fase pré-menstrual.Essa primeira fase do ciclo menstrual se caracteriza por pequenas alterações orgânicas, quenão chegam a perturbar muito a eficiência do trabalho físico e esportivo. Na segunda fase do ciclo menstrual, ocorrem alterações mais intensas, mesmo emmulheres com ciclo normal, que acarretam perturbações do psiquismo, cansaço, mal-estargeral, além de outras que constituem a "síndrome pré-menstrual". Tais modificações podemtrazer efeitos significativos sobre o rendimento muscular, em determinadas atletas,tornando seus resultados abaixo do que seria esperado. A progesterona provoca a eliminação da água que havia sido fixada pela ação dosestrógenos. Contudo, durante a menstruação, a mulher encontra-se menos perturbada quena fase anterior, estando livre dos problemas que caracterizam a fase pré-menstrual,readquirindo suas melhores condições de funcionamento orgânico e de eficiência dotrabalho muscular. 53
  • É fato comprovado que atletas em plena menstruação encontram-se com a suadinamometria, o tono neurovegetativo, a velocidade, a destreza, a habilidade e a resistênciaao cansaço em seus níveis normais, permitindo que a mulher obtenha seus melhoresresultados físicos e técnicos, qualquer seja a modalidade praticada, inclusive a natação. Nãosão raros os casos em que atletas em pleno fluxo menstrual conseguiram superar recordesolímpicos e mundiais. A queda de rendimento de atletas em fase de menstruação, portanto, deve-se, nagrande maioria dos casos, a um consenso psicológico negativo de que as mulheres devemreduzir suas atividades físicas nesse período, resultando em preocupações semfundamento, geradas por falta de informação e orientação. Mulheres com plena capacidade têm apresentado uma queda de rendimento físicodurante a fase da menstruação devido ao desconhecimento de suas funções biológicas,acreditando que, na fase da menstruação propriamente dita, seu corpo se encontre em umnível inferior, o que, cientificamente, não se constata concretamente. As diferenças de capacidade física do organismo da mulher durante as diferentesfases do ciclo menstrual podem ser identificadas no quadro a seguirQuadro nº 6 – Representação esquemática das variações aproximadas da capacidade físicada mulher durante o ciclo menstrual (mulher ginecologicamente normal, com ciclomenstrual de 28 dias). 54
  • Nº de dias Períodos Capacidade física 5 Tensão pré-menstrual Mínima 5 Fluxo menstrual Aumento progressivo (rápido) 8-9 Influência estrogênica Máxima 9-10 Influência progesterônica Diminuição progressiva (lenta)Fonte: PINI, 1978, p. 218. Vale ressaltar que a mulher com disfunções do ciclo menstrual apresenta a"síndrome pré-menstrual" de maneira mais intensa, apresentando cólica uterina, cefaléia,tontura, náusea, vômito, retenção hídrica e outras anomalias. A mulher que apresenta taissintomas deve se afastar das competições esportivas e, em alguns casos, permanecer emrepouso. É sabido, porém, que a atividade esportiva bem conduzida, atua de maneirabenéfica no organismo da mulher, tendendo para a regularização daquela atividade cíclicafisiológica. Por outro lado, a atividade física excessiva pode causar perturbações sérias nociclo menstrual da atleta. Portanto, a normalidade do ciclo menstrual da atleta demonstra a boa receptividadedo seu organismo em relação ao trabalho físico e esportivo por ela realizado. A grande maioria dos autores é unânime em afirmar que a atividade esportivaracionalmente conduzida não ocasiona nenhuma perturbação na menarca, no ciclomenstrual e na história obstétrica atual ou ulterior da mulher-atleta, preparando-a paratranspor com facilidade as perturbações que se podem instalar por ocasião do climatério. 55
  • 3.4 - Gravidez e parto Antes de abordarmos a gravidez com relação à atividade física, é importantereconhecermos as transformações fisiológicas que ocorrem no organismo feminino duranteeste período. Em posição sentada ou deitada, o VO2 em repouso é mais alto. Em início degravidez, o débito cardíaco é proporcionalmente mais alto que o VO2, ocasionando umaredução na diferença arteriovenosa de oxigênio. Por volta do sétimo e oitavo mês, o débitocardíaco, em posição deitada, é reduzido e, para fornecer o oxigênio requerido, a diferençaarteriovenosa aumenta. A gravidez não tem impedido certas mulheres de levar ao nível de competição suaatividade física. Nos Jogos Olímpicos de 1952, em Helsinque, uma mulher com três mesese meio de gravidez chegou a ganhar uma medalha de bronze. Quanto aos efeitos do treinamento intenso em atletas de nível internacional, eles nãoparecem prejudicar a gravidez e o parto, sendo que 87,2% das atletas entrevistadas tiverammesmo seus períodos de trabalho de parto diminuídos. Notou-se também uma redução paraa metade no número de cesarianas entre atletas, em comparação com as mulheressedentárias. 56
  • A gravidez não parece ter efeitos dignos de maior atenção sobre as respostasfisiológicas ao esforço. Parece que até a 36ª semana de gravidez. A mulher pode se dedicarsensatamente a atividades esportivas em que não precise erguer pesos. Quanto ao período pós-parto, observou-se que o exercício diminuía as doreslombares e a fadiga crônica das mulheres com musculatura abdominal fraca e com umpassado hipocinético. É comum as atletas retornarem ao treinamento e à competição em um período detrês a cinco meses após o parto. Parece que fazem tudo tão bem como antes da gravidez e,em alguns casos, chegam a melhorar seus desempenhos, apresentando melhores condiçõese mais equilibradas, tanto física como psiquicamente. Existem duas escolas de pensamento no que diz respeito aos efeitos da participaçãoatlética sobre a gravidez e o parto. Uma teoria considera que, em virtude da hipertrofia da musculatura pélvica queacompanha a participação nos esportes, os músculos tornam-se menos extensíveis e, porconseqüência, geram dificuldades durante o trabalho de parto. A outra teoria enfatiza osefeitos favoráveis ocasionados por músculos abominais mais fortes sobre o parto. Várias pesquisas foram realizadas até o momento, com o objetivo de esclarecer oproblema, sendo que alguns resultados obtidos podem ser resumidos no quadro abaixo. 57
  • Quadro nº 7 - Efeitos da participação atlética sobre a gestação e o partoVariável Atleta X não-atletaComplicações da gestação Menor númeroDuração do trabalho de parto Mais curtaNúmero de cesarianas MenorRupturas teciduais durante o parto MenosAbortos espontâneos Menor númeroFonte: FOX, BOWERS, FOSS. 1989, p. 289. É evidente, analisarmos tais dados, que as mulheres atletas costumam ter menoscomplicações relacionadas à gravidez e ao parto do que as mulheres normais não-atletas. Uma das questões mais polêmicas sobre a atleta é se esta deve continuartreinamento ou competindo durante o período de gravidez. Sabe-se que existem mulheresque competem durante os três ou quatro primeiros meses de gestação e outras até poucosdias antes do trabalho de parto. Foi relatado que uma corredora com seis meses e meio de gestação registrou umtempo de 4 horas nos primeiros treinamentos para a Maratona Olímpica nos EstadosUnidos, sendo que dez semanas depois deu à luz um filho sadio. Ainda mais, foi demonstrado que o exercício durante a gravidez não constitui umestresse fisiológico mais intenso durante a gravidez do que antes dela, desde que sejamminimizadas as atividades com levantamento de pesos, sendo que alguns médicosprescrevem com freqüência várias formas de exercício durante a gravidez. 58
  • É preciso, porém, enfatizar que a participação da mulher em competições ou emprogramas de exercícios deve ser determinada em uma base individual e sempre com oacompanhamento médico. Com relação ao desempenho após o parto, 46% das mulheres atletas queparticiparam dos Jogos Olímpicos de Tóquio, em 1964, e que continuaram em competiçõesatléticas após o parto, conseguiram superar seus resultados anteriores por volta do final doprimeiro ano após o trabalho de parto; 31% superaram seus desempenhos entre o primeiro eo segundo ano após o parto. Isto sugere que o parto não afeta o desempenho atlético. Alémdisso, foi demonstrado que o exercício não influencia o VO2 máximo, o fluxo sanguíneocoronariano em resposta ao estresse e nem a estrutura miocárdica na prole masculina deratazanas treinadas durante a gravidez. Portanto, parece não haver qualquer influêncianegativa do exercício realizado durante a gravidez sobre os futuros filhos. As pílulas anticoncepcionais já foram usadas pela grande maioria das mulheresdurante um período tempo bastante considerável. Os efeitos dessas substâncias químicassobre o desempenho atlético, porém, ainda são desconhecidos. Contudo, um estudo indicouque as mulheres que tomam pílulas anticoncepcionais são menos ativas do que as que nãotomam. Outro estudo mais recente indicou que tanto a endurance muscular quanto àprodução total de força são cerca de 20% menores em mulheres que usamanticoncepcionais orais. 59
  • Ainda se torna necessário muito estudo sobre o problema, mas algumas autoridadesmédicas acham que, considerando os efeitos metabólicos já conhecidos das pílulasanticoncepcionais, seria surpreendente não encontrar qualquer alteração no desempenhoatlético. 3.5 - LESÕES DAS MAMAS E DOS ÓRGÃOS REPRODUTORES Na verdade, as lesões dos órgãos reprodutores são mais comuns nos homens do quenas mulheres. A lesão mais comum na mulher atinge as mamas. Como exemplo, podemoscitar que golpes repetidos na mama podem resultar em contusões e hemorragias dentro dotecido adiposo frouxo, o que pode resultar em necrose gordurosa (morte do tecido adiposo). A mulher, em relação ao homem, encontra uma relativa desvantagem na práticadesportiva, devido ao volume de suas mamas. Este fato é verdadeiro, sobretudo nasmulheres que têm forte compleição ou que sentem dores devidas à congestão pré-menstrual. Na Antiguidade, este desconforto era eliminado pelas amazonas de forma radical,mediante a amputação do seio direito para poderem atirar melhor com o arco e a flecha. Hoje em dia, esta solução extrema pode ser evitada, o que, sem dúvida, é ótimo paraa estética das mulheres atletas desta modalidade. 60
  • Apenas as hipertrofias mamárias de puberdade, às vezes enormes, justificamintervenções cirúrgicas e, deve-se reconhecer que a cirurgia corretiva dos seios apresentaresultados muitas vezes notáveis. A prática desportiva pode beneficiar muito a estética dos seios. Os exercícios dogrande músculo peitoral promovem a formação de uma sólida base de sustentação para osseios. O desenvolvimento da caixa torácica permite que os seios repousem sobre uma baseinclinada e não vertical, o que limita o risco de ptose mamária. Na mulher, os seios são glândulas ao mesmo tempo frágeis e expostas aotraumatismo. A sensibilidade das glândulas mamárias ao choques e traumatismos repetidosé bem conhecida, além de ser acompanhada por uma repercussão psicológica, com efeito,nefasto sobre a qualidade dos desempenhos posteriores. Convém que as mulheres utilizem protetores mamários na maioria dos esportes decontato físico. Nos esportes sem contato, é recomendável o uso de um bom sutiã protetor, afim de minimizar os movimentos laterais e para cima e para baixo das mamas, que ocorremdurante os saltos e na corrida. Devido à sua posição e forma e ao fato de repousarem sobre uma parede rígida, asglândulas mamárias e os seios estão expostos aos choques, às lesões traumáticas e, maisraramente, pelas feridas. 61
  • As contusões mamárias normalmente ocorrem após um choque frontal direto queesmaga a glândula contra o gradil costal e produz uma lesão no ponto de aplicação. Namaioria dos casos, as lesões são cutâneas ou subcutâneas e se resumem a uma equimosediscreta e dor na região atingida. Às vezes, a glândula é atingida, causando um hematomadifuso ou localizado, que pode necessitar de uma drenagem cirúrgica. Raramente, porém, seobserva um derrame sanguíneo localizado no espaço retromamário. Os traumatismos dos órgãos genitais femininos, em geral, ficam limitados apequenas contusões e lacerações da genitália externa. Os órgãos internos, como os ovários,o útero e as trompas, estão bem protegidos em virtude de sua posição profunda dentro dapelve óssea. A única lesão séria conhecida desses órgãos foi a ruptura da parede vaginal,após uma queda numa competição de esqui aquático. Quanto a esse problema, foirecomendado o uso de roupas de borracha pelas mulheres que praticam essa modalidade. Nas demais modalidades, praticamente não existe o risco de lesões sérias oupermanentes das mamas ou dos órgãos reprodutores. Em geral, as mulheres atletas sofrem as mesmas lesões e em número relativamenteigual aos homens, com uma freqüência ligeiramente maior de lesões relacionadas à rótula eàs articulações nas mulheres. 62
  • CONSIDERAÇÕES FINAIS Pudemos observar claramente a importância de um estudo profundo sobre aparticipação da mulher dentro do mundo dos esportes competitivos e da atividade física emgeral. Dentro do atual quadro esportivo internacional, a mulher tem alcançado um nível departicipação muito superior ao verificado no final do século passado e no início do séc. XX.Ficou demonstrado que este fato é conseqüência da expansão da participação da mulher emtoda a sociedade, sendo que o esporte é apenas mais um dos vários espaços que a mulhertem ocupado com mais notoriedade em nossos dias. No que se refere ao mito de que a mulher organicamente se torna impossibilitada depraticar determinadas modalidades esportivas, ficou evidenciado que, cientificamente, nadade concreto existe que debilite ou impeça a participação feminina em esportes considerados“masculinos”. Em determinadas situações e em certas modalidades esportivas, o corpofeminino apresenta características que nos leva a observar certas vantagens de desempenhoem relação ao homem. 63
  • Apesar da diferença de opiniões entre alguns autores, concordamos com aqueles queconsideram a mulher apta a participar de qualquer modalidade esportiva, desde querespeitada sua estrutura física e com certas adaptações em algumas modalidades, como oque acontece, por exemplo, no voleibol, onde a altura da rede é diferente para homens emulheres, e no arremesso do peso, onde o implemento utilizado nas disputas femininas temum peso inferior. Fica notório, porém, que a diferença estrutural entre homens e mulheres, impedeque, em esportes onde ocorrem constantes contatos físicos e demonstrações de força física,homens e mulheres atuem uns contra os outros. 64
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