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UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA Introdução aos Estudos da Tradução                                                 ...
INTRODUÇÃO AOS ESTUDOS DA TRADUÇÃO                                                                       Andréia Guerini -...
A palavra translation em código binário e em html (código usado para compor aspáginas na internet)   Código binário: 01010...
exportavam. Apenas com o desenvolvimento das religiões universais, a tradução     religiosa se torna o mais importante gên...
que a língua deles comece a diferenciar-se noutras línguas, de forma que uns não     entendam os outros.     8-9E foi dess...
Um bom exemplo das diferenças entre variedades da mesma língua é o caso doportuguês lusitano e o português brasileiro. Com...
Depois de Babel, de George Steiner, em tradução portuguesa de Miguel Serras Pereira(Lisboa: Relógio d’Água, 2002).     Emb...
Língua holandesa de sinais                     Língua norte-americana de sinaisHouve várias tentativas para contornar a ex...
http://www.cosacnaify.com.br/noticias/geracao_poetas.aspRoman Jakobson (1896-1982)      A tradução acontece entre sistemas...
A tradução intralingual engloba o texto de partida, o leitor-textualizador e otexto de chegada. Segundo Jakobson, “a tradu...
João Guimarães Rosa (1908-1967)http://www.releituras.com/guimarosa_bio.asp     Os diferentes estratos das sociedades human...
Não há duas épocas históricas, duas classes sociais, duas localidades que usem as     palavras e a sintaxe para expressar ...
A tradução interlingual engloba texto de partida, tradutor e texto de chegada. Éo tradutor, através de uma operação em que...
romanos, e não por acaso, já que a civilização romana é, em grande parte, o produto de umprojeto consciente de tradução e ...
Cícero (Marcus TulliusCicero 106 BC - 43 BC)http://www.utexas.edu/depts/classics/documents/Cic.htmlHorácio (Quintus Horati...
As religiões, especialmente as religiões de tipo universalista, sempre lidaram com atradução, elemento-chave para sua expa...
São Jerônimo (347- 420)       http://www.instituto-camoes.pt/cvc/olingua/02/sjeronimo.jpg       Curiosamente, na umbanda, ...
Martinho Lutero (Martin Luther, em alemão,1483-1546).         http://www.ccel.org/l/luther/         Essa preocupação com a...
Se Dolet foi um dos primeiros a tratar de maneira mais sistematizada questõesreferentes à tradução interlingual, a discuss...
Friedrich Hölderlin (1770-1843)   http://www.hoelderlin-gesellschaft.info/   John Dryden (1631-1700)   http://www.island-o...
Friedrich Schleiermacher (1768-1834)http://en.wikipedia.org/wiki/Friedrich_SchleiermacherEzra Pound (1885-1972)http://www....
3) o terceiro momento é o da corrente moderna. No final da década de 40       aparecem artigos sobre tradução automática. ...
Mas há autores como Jorge Luis Borges                                                               (http://www.literatura...
composto e ter sido bom escritor: enfim, uma tradução perfeita é obra mais da     maturidade que da juventude (1996: 730)....
Pound, Haroldo (www.haroldodecampos.com.br) trabalha com o conceito de recriação natradução poética. Haroldo vê a tradução...
quais as relações entre homem e mulher, qual o cheiro do país, não só o cheiro de     arquivos, bibliotecas e livrarias, m...
Boris Schnaiderman      http://www.wave.com.br/istoe/1826/artes/1826_noticias_de_uma_guerra_particular.htm      Exemplos d...
O segundo um fragmento de “Albertina desaparecida”, de Marcel Proust na tradução deIvan Junqueira: Chapitre premier       ...
E o terceiro é a tradução de Italo Eugenio Mauro do "Canto III", dA Divina Comédia, de Dante Alighieri: ExcertoPer me si v...
Ed elli a me: “Questo misero modo           E ele: “As almas que vês nesse amargor,tegnon lanime triste di coloro         ...
chi sappia quali sono, e qual costume         quem são? e por que cada qual assumele fa di trapassar parer sì pronte,     ...
Come dautunno si levan le foglie             Como as folhas que o vento outonal colheluna appresso de laltra, fin che l ra...
Madame de Stäel 1766-1817       http://en.wikipedia.org/wiki/Image:Madame_de_Sta%C3%ABl.jpgem seu famoso ensaio “Do espíri...
despertar de uma consciência coletiva de grupos étnicos e lingüísticos, para importarnovas idéias e valores, além de colab...
William Tyndale (1492-1536)     Embora os tradutores sempre tenham servido de elo na cadeia de transmissão doconhecimento ...
Outro tradutor, o italiano Ettore Capriolo, sobreviveu a um ataque em Milão. Noentanto, o castigo mais comum infligido a e...
pesquisar o trabalho dos tradutores. A defesa dos direitos do tradutor, ainda tão poucoreconhecidos aqui, tem sido a bande...
O carioca Paulo Henriques Britto, 52, dedica seu tempo à tradução e à poesia. Consideradoum dos melhores tradutores do ing...
Pergunta - E no seu caso?Britto - Eu e Glauco Matoso, por exemplo, não somos antimodernistas. Nós dois chegamos às formasf...
Pergunta - E quanto ao Byron?Britto - Com Byron foi diferente. Traduzi apenas um poema dele, um poema longo, masque também...
dele foi boa para me puxar para a realidade. Por outro lado, a Bishop eu traduzi quando jáestava com meu estilo poético já...
visão muito terra-a-terra. Para mim, a teoria da tradução deve servir acima de tudo parafundamentar a avaliação de traduçõ...
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Para Rónai, a tradução intersemiótica é “aquela a que nos entregamos ao procurarmosinterpretar o significado de uma expres...
Na tradução intersemiótica, mas também nos demais tipos de tradução discutidosacima, não é possível traduzir tudo. Quando ...
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tradução de determinados elementos estilísticos ou narratológicos do original”. (Inhttp://www.logos.it/pls/dictionary/ling...
Antes de finalizar, vale lembrar que há outros tipos de tradução como:   1) a tradução automática   2) a tradução simultân...
intérprete quem fazia tradução, tanto oral quanto escrita. A partir do século XII,    começa-se a falar de intérprete como...
portanto, ser considerada, uma quinta habilidade (ver “Tradução e ensino de línguas”. In:Bohn, Hilário I.; Vandresen, Paul...
contém alguns elementos ambíguos ou polissêmicos, o tradutor deve, em primeiro lugar, lê-los, identificá-los, interpretá-l...
BibliografiaBassnett, Susan. Estudos da tradução. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2003.Tradução de Vivina de Campos ...
Sites sobre tradução e outroshttp://www.todaytranslations.com/http://www.answers.com/translationwww.cadernos.ufsc.brhttp:/...
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  1. 1. UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA Introdução aos Estudos da Tradução Andréia Guerini Walter Carlos Costa ISBN: 85-60522-00- X Florianópolis, 14 de março de 2007
  2. 2. INTRODUÇÃO AOS ESTUDOS DA TRADUÇÃO Andréia Guerini - UFSC Walter Carlos Costa – UFSC 1. Questões gerais sobre tradução Nosso objetivo nesta parte é discutir o conceito de tradução. Para isso examinamos asdefinições apresentadas em obras de referência e nos principais autores que trataram do assunto. A palavra traduzir deriva do latim traducere e, segundo o dicionário Aurélio,etimologicamente significa “conduzir além”, “transferir”. Atualmente, seu leque designificados é muito amplo e além do original “transferir” quer dizer, entre outras coisas,também “transpor, trasladar de uma língua para outra”, “revelar, explicar, manifestar,explanar”, “representar, simbolizar”. Traduzir no sentido de “passar de uma língua a outra”é uma metáfora do ato físico de transferir. Por sua vez, o próprio verbo traduzir, e osubstantivo derivado tradução, são empregados, com freqüência, como uma metáfora paradescrever outros fenômenos parecidos. Assim, traduzir designa, de modo restrito, umaoperação de transferência lingüística e, de modo amplo, qualquer operação de transferênciaentre códigos ou, inclusive, dentro de códigos. A palavra tradução em algumas línguas Albanês: transmetim Alemão: Übersetzung Espanhol: traducción Esperanto: traduko Francês: traduction Grego: metaphrase Indonésio: terjemahan Inglês: translation Italiano: traduzione Guarani: ñembohasa Neerlandês: vertaling Húngaro: fordítás Tcheco: p eklad Turco: tercüme 2
  3. 3. A palavra translation em código binário e em html (código usado para compor aspáginas na internet) Código binário: 01010100 01110010 01100001 01101110 01110011 0110110001100001 01110100 01101001 01101111 01101110 Html: &#84 &#114 &#97 &#110 &#115 &#108 &#97 &#116 &#105 &#111 &#110 A tradução dentro da mesma língua, operação normalmente conhecida como paráfrase eque Jakobson denominou tradução intralingüística é assim descrita por Octavio Paz (1914-1998) (http://www.ensayistas.org/filosofos/mexico/paz/) em “Traducción: literatura yliteralidad”: aprender a falar é aprender a traduzir: quando uma criança pergunta a sua mãe o significado desta ou daquela palavra, o que realmente pede é que traduza para a sua linguagem a palavra desconhecida. A tradução dentro de uma língua não é, nesse sentido, essencialmente diferente da tradução entre duas línguas, e a história de todos os povos repete a experiência infantil (1990: 9).Dentro desta concepção não há atividade lingüística sem tradução e o próprio aprendizadode qualquer língua passa necessariamente pela tradução. Não espanta, portanto, que atradução seja uma das mais antigas atividades do mundo. Ela, de fato, existe desde temposimemoriais, em todo tipo de troca entre seres humanos. Os tradutores, figuras centrais nodesenvolvimento das civilizações, sempre contribuíram para a emergência, oenriquecimento e a promoção das línguas e literaturas nacionais, para o despertar de umaconsciência coletiva de grupos étnicos e lingüísticos, para importar novas idéias e valores,além de colaborar para a preservação do patrimônio cultural da humanidade. Um papelparticularmente importante ao longo da história é o dos intérpretes, especialmente emalguns momentos-chave da história mundial. Georges Mounin afirma que a tradução diplomática, pela sua utilidade prática, existe há mais de quatro milênios. Os tratados de paz criavam a exigência de tradutores já em épocas em que as religiões eram propriedade de uma única comunidade ética, e não se 3
  4. 4. exportavam. Apenas com o desenvolvimento das religiões universais, a tradução religiosa se torna o mais importante gênero de tradução (1965: 129). Derrida inicia o seu ensaio “Torres de Babel”,(http://www.estadosgerais.org/resenhas/telles-babel.shtml) evocando o texto bíblico e ao longo detodo o texto argumenta que Deus separou os homens para criar a tradução. Assim, o relato daconfusão babélica se origina na Bíblia, Gênesis 11 (tradução de João Ferreira de Almeida): A torre de Babel http://www.ibuscas.com.br/artigos/uma_nova_torre_de_babel.html 1. Naquele tempo toda a humanidade falava uma só língua. 2-4 Ora, deslocando-se e espalhando-se em direção do oriente, os homens descobriram uma planície na terra de Babilônia e depressa a povoaram. E começaram a falar em construir uma grande cidade, para o que fizeram tijolos de terra bem cozida para servir de pedra de construção e usaram alcatrão em vez de argamassa. E nessa cidade projetaram levantar um templo com a forma de uma torre altíssima que chegasse até aos céus, qualquer coisa que se tornasse um monumento a si próprios. Isto, disseram, impedirá que nos espalhemos ao acaso pela terra toda. 5 O Senhor desceu para ver a cidade e a torre que estavam a levantar: 6-7Vejamos: se isto é o que eles já são capazes de fazer, sendo um só povo com uma só língua, não haverá limites para tudo o que ousarem fazer. Vamos descer e 4
  5. 5. que a língua deles comece a diferenciar-se noutras línguas, de forma que uns não entendam os outros. 8-9E foi dessa forma que o Senhor os espalhou sobre toda a face da terra, tendo cessado a construção daquela cidade. Por isso ficou a chamar-se Babel, porque foi ali que o Senhor diferenciou a língua dos homens, e espalhou-os por toda a terra. (http://www.biblegateway.com) Ver também: http://www.bibliacatolica.com.br/ Segundo George Steiner, “o fato de que milhares e milhares de línguas diferentes emutuamente incompreensíveis foram e são faladas em nosso pequeno planeta é umaexpressão clara do enigma profundo da individualidade humana, da evidência biogenética ebissocial de que não existem dois seres humanos inteiramente iguais. O evento de Babelconfirmou e externalizou a interminável tarefa do tradutor” (2005: 72). Logo, a tradução énecessária porque os seres humanos falam diferentes línguas e também porque ela estápresente em diferentes situações e pode variar, por exemplo, entre homem e mulher, criançae adulto, entre classes sociais diferentes ou ainda na linguagem gestual.George Steiner (1929-)http://www.vivercidades.org.br/publique222/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=1089&sid=5 5
  6. 6. Um bom exemplo das diferenças entre variedades da mesma língua é o caso doportuguês lusitano e o português brasileiro. Com freqüência, obras contemporâneas,protegidas por direitos autorais e que em princípio poderiam ter uma só tradução, têm duastraduções, uma em português de Portugal e outra em português do Brasil. É o queaconteceu com o próprio livro Depois de Babel, de George Steiner, como para ilustrar oque ele defende no livro. Em 2002 a editora portuguesa Relógio d’Água publicou umatradução para leitores portugueses e em 2005 a editora da UFPR publicou uma traduçãopara leitores brasileiros.(http://cienciahoje.uol.com.br/controlPanel/materia/view/4118)Depois de Babel, de George Steiner, em tradução brasileira de Carlos Alberto Faraco(Curitiba: Editora da UFPR, 2005).http://www.somlivre.pt/loja/viewItem.asp?idProduct=673523 6
  7. 7. Depois de Babel, de George Steiner, em tradução portuguesa de Miguel Serras Pereira(Lisboa: Relógio d’Água, 2002). Embora algumas traduções portuguesas circulem no Brasil e algumas brasileirascirculem em Portugal, a tendência atual das editoras é apresentar traduções separadas para omercado português e brasileiro. Em conseqüência, os editores internacionais costumamvender os direitos autorais para portugueses e brasileiros separadamente. Assim, as Obrascompletas do escritor argentino Jorge Luis Borges têm uma edição em Portugal e outra noBrasil. O que é válido dentro da língua é também válido entre os diferentes sistemassemióticos e podemos, portanto, falar de tradução quando um texto é adaptado ao cinema,ao vídeo ou à história em quadrinhos, ou quando um poema é musicado. Esse tipo detradução, olhado com suspeição maior do que a que costuma haver contra a traduçãoverbal, atrai cada vez mais o interesse dos pesquisadores. A multiplicação das línguas humanas ocorreu também nas línguas humanas de sinais,tão antigas quanto as línguas baseadas no som. Contrariamente ao que se poderia pensar,não há uma língua universal de sinais e tampouco há uma correspondência entre línguas desinais e línguas verbais. Assim, a Língua Norte-Americana de Sinais é usada nos EstadosUnidos, Canadá e México e cobre, portanto, as várias línguas faladas nos territórios dessespaíses. Por outro lado, a Língua Britânica de Sinais difere da Língua Norte-americana deSinais, embora a Grã-Bretanha e os Estados Unidos compartilhem a mesma língua natural,o inglês. As variações podem ser ilustradas pela palavra mãe, bastante freqüente em todas aslínguas de sinais. 7
  8. 8. Língua holandesa de sinais Língua norte-americana de sinaisHouve várias tentativas para contornar a existência de tantas línguas diferentes no mundoatravés da invenção de idiomas universais, especialmente concebidos para facilitar acomunicação entre os homens. A mais famosa dessas línguas artificiais é o esperanto, quetem seus defensores em todos os países, sem, no entanto, ter conseguido uma adesãosuficiente para se impôr como uma língua universal. Nas línguas de sinais, houve também ainvenção de uma língua universal. Trata-se do Gestuno. O Gestuno, que vem do italiano,não é considerada propriamente uma língua por não possuir uma gramática. Os sinais sãoutilizados com a gramática de qualquer uma das línguas de sinais existentes. É utilizada emreuniões internacionais de surdos. A tradução entre as diferentes línguas verbais e as diferentes línguas de sinais nãosó é possível, como é vista atualmente como um direito de cidadania dos surdos. Tipos de tradução Esta parte trata dos diferentes tipos de tradução a partir da clássica divisão proposta por Roman Jakobson. Ao longo deste capítulo, discutimos os diferentes tipos de tradução através da abordagem de diferentes teóricos. 8
  9. 9. http://www.cosacnaify.com.br/noticias/geracao_poetas.aspRoman Jakobson (1896-1982) A tradução acontece entre sistemas textuais e entre sistemas semióticos. Para RomanJakobson (www.pucsp.br/pos/cos/cultura/biojakob.htm), existem três tipos de tradução: 1) A tradução intralingual, ou reformulação, consiste na interpretação dos signos verbais por meio de outros signos da mesma língua 2) A tradução interlingual, ou tradução propriamente dita, consiste na interpretação dos signos verbais por meio de alguma outra língua 3) A tradução intersemiótica, ou transmutação, consiste na interpretação dos signos verbais por meio de sistemas de signos não-verbais 1 .http://www.siciliano.com.br/livro.asp?tema=2&tipo=2&clsprd=L&id=1668&orn=SGDLHá outros tipos de tradução.1 Jakobson, Roman. “Aspectos lingüísticos da tradução” in Lingüística e Comunicação. São Paulo: Cultrix, 1975. Tradução de Izidoro Blikstein e José Paulo Paes, pp. 64-5. 9
  10. 10. A tradução intralingual engloba o texto de partida, o leitor-textualizador e otexto de chegada. Segundo Jakobson, “a tradução intralingual de uma palavra utiliza outrapalavra, mais ou menos sinônima, ou recorre a um circunlóquio. Entretanto, via de regra,quem diz sinonímia não diz equivalência completa [...]” (1975: 65). A traduçãointralingual acontece, por exemplo, quando um texto do passado, como Os Lusíadas(http://www.instituto-camoes.pt/cvc/bvc/lusiadas/index.html), de Luís de Camões, é lidopor um leitor atual da mesma língua, ou quando um texto do presente, mas particularmentecomplexo, como Finnegans Wake do irlandês James Joyce(http://www2.folha.uol.com.br/biblioteca/1/22/1999111301.html) e o Grande SertãoVeredas de Guimarães Rosa, é lido um leitor atual. No primeiro caso, acontece o queSteiner chama de tradução diacrônica no interior da própria língua, que, para ele é umfenômeno “tão constante, nós a realizamos tão inconscientemente que raramente paramospara observar seja sua complexidade formal, seja o papel decisivo que ela exerce na própriaexistência da civilização” (2005: 54). O segundo caso, quando explicamos para nósmesmos um texto complexo, remete a uma experiência que realizamos todos os dias, e nãoapenas em textos literários, e que Paulo Rónai caracteriza da seguinte forma: “ao vazarmosem palavras um conteúdo que em nosso pensamento existia apenas em estado de nebulosa,fenômeno constante em todos os momentos conscientes da vida, estamos tambémtraduzindo, mas praticamos a tradução intralingual, operação esta que tem as própriasdificuldades e cujo resultado muitas vezes nos deixa insatisfeitos” (1976: 1).http://www.online-literature.com/james_joyce/ 10
  11. 11. João Guimarães Rosa (1908-1967)http://www.releituras.com/guimarosa_bio.asp Os diferentes estratos das sociedades humanas também costumam usar um idiomadiferente, embora a diferença varie bastante de sociedade para sociedade. Exemplos nãofaltam: há comunidades que usam uma língua para a religião, outra para o governo, outrapara literatura, outra para a comunicação do cotidiano. Na época do descobrimento doBrasil, por exemplo, os índios falavam a sua língua, os colonizadores outra e índios ecolonizadores se comunicaram primeiro com gestos e, mais tarde, em uma língua franca, onheengatu, língua geral que se originou de uma língua do tronco tupi falada no litoralbrasileiro e que se difundiu na região amazônica. O nheengatu era largamente usado peloscolonizadores no Brasil até o século XVIII (ver a este respeito Raízes do Brasil, de SérgioBuarque de Holanda, Rio de Janeiro: José Olympio, 1973, pp. 88-96). Já quando se trata de classes sociais diferentes, o problema também se coloca: bastapensar no discurso entre o operário de uma fábrica e o patrão. Esta relação de falta decomunicação e compreensão entre o operário e o patrão já foi metaforicamente ilustrada,por exemplo, no famoso poema de Vinicius de Moraes “Operário em construção”(ler opoema no site http://www.astormentas.com/vinicius.htm). A tradução intralingual também se faz presente entre a língua usada pela criança e ado adulto e a usada pelo homem e a da mulher. Até bem pouco tempo atrás, os dois gruposforam discriminados e mantidos numa condição de inferioridade, às vezes combinada comcertos privilégios. Nessa situação, em certas sociedades surgiram linguagens diferenciadas,típicas desses dois mundos. Mas para alguns autores, como Steiner, a diferença estáinserida no centro mesmo da linguagem: 11
  12. 12. Não há duas épocas históricas, duas classes sociais, duas localidades que usem as palavras e a sintaxe para expressar as mesmas coisas [...]. Nem dois seres humanos. Cada uma das pessoas se serve, deliberadamente ou por costume espontâneo, de duas fontes de suprimento lingüístico: a língua corrente que corresponde a seu grau de letramento e um tesouro privado. [...] A língua de uma comunidade, por mais uniformes que sejam seus contornos sociais, é um agregado inesgotavelmente múltiplo de átomos de fala, de significados pessoais em último caso irredutíveis (2005: 70-1). Junto com uma língua comum a uma dada comunidade, teríamos, portanto,inevitavelmente, um grande leque de variantes segundo, a época histórica, a localizaçãogeográfica, a classe social, a faixa etárea, até chegar ao próprio indivíduo. Os conceitos de compreensão e interpretação são, portanto, palavras-chave nofenômeno da tradução intralingual. Mesmo quando nos limitamos a uma única língua,estamos em um universo altamente complexo e em constante mutação. Por isso, Steinerafirma que a operação tradutória intralingual está presente sempre, em todos os tipos detexto, independentemente de sua relevância cultural ou estética: quando lemos ou ouvimos qualquer enunciado verbal do passado, seja saído do Levítico ou do best seller do último ano, nós traduzimos. Leitor, ator, editor são tradutores de eventos lingüísticos fora de sua época. O modelo esquemático da tradução é aquele no qual uma mensagem passa de uma língua de saída para uma língua de chegada por meio de um processo transformador. A barreira é o fato óbvio de que uma língua difere da outra, de que uma transferência interpretativa deve ocorrer de modo a garantir que a mensagem “passe”. Exatamente o mesmo modelo - e isto raramente recebe o devido destaque – está em funcionamento no interior de uma única língua (2005: 53). 12
  13. 13. A tradução interlingual engloba texto de partida, tradutor e texto de chegada. Éo tradutor, através de uma operação em que atua simultaneamente como leitor, intérprete etextualizador, que produz o texto de chegada em um código 2 através da leitura einterpretação do texto de partida em um código 1. Para Jakobson, no nível da tradução interlingual, não há comumente equivalência completa entre as unidades de código, ao passo que as mensagens podem servir como interpretações adequadas das unidades de código ou mensagens estrangeiras [...]. Mais freqüentemente, entretanto, ao traduzir de uma língua para outra, substituem-se mensagens em uma das línguas, não por unidades de códigos separadas, mas por mensagens inteiras de outra língua. Tal tradução é uma forma de discurso indireto: o tradutor recodifica e transmite uma mensagem recebida de outra fonte. Assim, a tradução envolve duas mensagens equivalentes em dois códigos diferentes (1975: 65). Como o tradutor interlingual trabalha com línguas diferentes, a tradução interlingualpode ser considerada, como diz Georges Mounin em Os problemas teóricos da traduçãocomo “um fato de bilingüismo” (1965: 6). Todos os tipos de texto podem ser submetidos a uma tradução interlingual: dostécnicos aos literários, passando pelos esportivos, religiosos e políticos, em uma riqueza talque com freqüência não avaliamos bem sua importância. Na prática, a própria existência dacivilização humana em escala mundial depende muito da tradução contínua dessesdiferentes tipos de texto. O que era visível apenas para os interessados no assunto, ficoumais claro com o surgimento e expansão da internet, pois agora existem online milhões dedocumentos em quase todas as línguas e uma boa parte dessa enorme massa textual é, deuma ou outra forma, tradução. No Brasil, por exemplo, calcula-se que a traduçãointerlingual representa cerca de 60 a 80% dos textos publicados e que 75% do sabercientífico e tecnológico provém das traduções, alimentando vários setores da vida nacional.Sem a tradução, muitos setores simplesmente não funcionariam. A tradução interlingual, sobretudo a tradução literária, recebeu sempre a atenção dosescritores e críticos. No Ocidente, os primeiros grandes pensadores da tradução foram 13
  14. 14. romanos, e não por acaso, já que a civilização romana é, em grande parte, o produto de umprojeto consciente de tradução e adaptação da civilização grega antiga. Cícero(www.arqnet.pt/portal/biografias/cicero.html) e Horácio foram os primeiros a estabelecer adistinção entre “tradução literal” e “tradução do sentido”, distinção que salta naturalmenteaos olhos de qualquer observador do fenômeno tradutório. Para ambos, preocupados emcriar uma cultura romana, não se deve traduzir palavra por palavra, mas o sentido; no casoo sentido textualizado pelos gregos deveria, para eles, receber uma coloração romana. Horácio (Quintus Horatius Flaccus, 65 BC - 8 BC) 14
  15. 15. Cícero (Marcus TulliusCicero 106 BC - 43 BC)http://www.utexas.edu/depts/classics/documents/Cic.htmlHorácio (Quintus Horatius Flaccus, 65 BC - 8 BC)http://pt.wikiquote.org/wiki/Hor%C3%A1cio 15
  16. 16. As religiões, especialmente as religiões de tipo universalista, sempre lidaram com atradução, elemento-chave para sua expansão entre os diferentes povos. Entre elas, talvez aque mais se dedicou às questões de tradução foi o cristianismo. De fato, a tradução daBíblia constitui um dos mais ricos capítulos da história da tradução, com momentossublimes, dramáticos e trágicos. Já no terceiro século a.C., quando o grego era a língua franca, eruditos judeuscomeçaram a traduzir o cânone hebraico ao grego, trabalho que só se completaria umséculo mais tarde. A tradição, contudo, era que cada uma das 12 tribos de Israel tinhacontribuído com seis eruditos para o projeto do que viria a ser conhecido como aSeptuaginta. Com a propagação do cristianismo novas traduções foram feitas para o copta,o etíope, o gótico e, o que foi crucial, para o latim. Em 1405, São Jerônimo completou suatradução, baseada em parte na Septuaginta. Apesar dos erros inseridos por copistas, aVulgata, como passou a ser conhecida a versão jeronimiana, se transformou na tradução dereferência do cristianismo ocidental, posto que manteve por cerca de um milênio. Em relação ao número de traduções, a Bíblia também impressiona. Se em 1450havia já 33 diferentes traduções, e em 1800 esse número tinha saltado para 71, no final doséculo XX, havia edições integrais em mais de 250 línguas e edições parciais em cerca de1300 outras línguas. Como não podia deixar de ser quando se trata de tradução, a tradução bíblica trouxenovamente à tona a discussão da oposição tradução literal versus tradução livre. SãoJerônimo, o patrono dos tradutores, ao traduzir o Novo Testamento, diz ter optado portraduzir o sentido e não palavra por palavra. 16
  17. 17. São Jerônimo (347- 420) http://www.instituto-camoes.pt/cvc/olingua/02/sjeronimo.jpg Curiosamente, na umbanda, São Jerônimo é o sincretismo de Xangô por havertraduzido a Bíblia e ser, portanto conhecedor das leis, o que vem demonstrar a importânciae o poder da tradução, aqui vista como instrumento de acesso ao saber. São Jerônimotambém foi um dos primeiros a se preocupar com os surdos ao afirmar em Commentariusin epistulam Pauli ad Gálatas I,3 que “os surdos podem aprender o Evangelho através dossinais”. Este é o primeiro documento que cita os sinais como meio para a instrução dossurdos (http://www.mclink.it/mclink/sordi/gerolam.htm). Lutero, o tradutor da Bíblia para o alemão, também se preocupava com o sentido,mas enfatizava o estilo do texto, com ênfase na ligação entre a língua da tradução e a línguafalada. Para que os seus seguidores pudessem ter acesso direto às Escrituras, estas tinhamque estar escritas em uma linguagem atraente e próxima à língua de todos os dias. 17
  18. 18. Martinho Lutero (Martin Luther, em alemão,1483-1546). http://www.ccel.org/l/luther/ Essa preocupação com a beleza da língua e com a proximidade com a língua oralvai caracterizar várias traduções protestantes da Bíblia. A mais célebre de todas, do pontode vista estético, é a chamada King James Version, ou Bíblia do Rei Jaime, verdadeiromonumento literário reivindicado por intelectuais e artistas, apesar de estar escrito em umalíngua da qual o inglês contemporâneo se afastou em muitos aspectos. Depois da tradução religiosa, foi a tradução literária que mais produziu textos decunho crítico e teórico. Um dos primeiros escritores a desenvolver uma teoria da traduçãofoi o francês Etienne Dolet (1509-1546). Em “A maneira de bem traduzir de uma línguapara outra” (1540), Dolet estabeleceu cinco princípios para o tradutor: 1. o tradutor deve entender perfeitamente o sentido e a matéria do autor a ser traduzido; 2. o tradutor deve conhecer perfeitamente a língua do autor que ele traduz; e que ele seja igualmente excelente na língua na qual se propõe traduzir; 3. o tradutor não deve traduzir palavra por palavra; 4. o tradutor deve usar palavras de uso corrente; 5. o tradutor deve observar a harmonia do discurso. 22 In Faveri, Cláudia Borges de, & Torres, Marie-Hélène (orgs.). Clássicos da teoria da traduçãofrancês/português, vol.2. Florianópolis: Núcleo de Tradução, 2004, pp. 15-19. Tradução de Pierre Guisan. 18
  19. 19. Se Dolet foi um dos primeiros a tratar de maneira mais sistematizada questõesreferentes à tradução interlingual, a discussão da tradução passa, a partir do Renascimento,a ser um dos tópicos da cultura do Ocidente, e muitos outros o seguiram. É o caso deDryden (1631-1700) que, no seu Prefácio às Cartas de Ovídio (1680), propõe três tipos detradução: 1) Metáfrase: verter palavra por palavra; 2) Paráfrase: tradução do sentido; 3)Imitação: recriação. Para Dryden, o método mais sensato para as traduções é a paráfrase,porque esta via intermediária permite uma leitura atenta do original para detectar asminúcias do estilo e da forma do texto a ser traduzido. Um outro autor de língua inglesa,Alexander Fraser Tytler (1747–1813) também trabalha com a tripartição dos aspectosconcernentes à tradução. Em 1791, Tytler escreve The principles of translation e defendetrês princípios: 1) a tradução deve fazer uma transcrição completa da idéia da obra original;2) o estilo e o modo da escrita devem ser os mesmos do original; 3) a tradução deveconservar toda a naturalidade do original. Já o alemão Friedrich Schleiermacher (1768-1834) em seu importante ensaio intitulado “Sobre os diferentes métodos de tradução”discute duas possibilidades em relação à tradução: 1. ou o tradutor deixa o autor em paz eleva o leitor até ele; 2. ou o tradutor deixa o leitor em paz e leva o autor até ele. Esta idéiaserá mais tarde retomada de maneira mais filosófica por Walter Benjamin e de modo maisideológico por Lawrence Venuti, que empregará, na avaliação das traduções, as expressões“tradução estrangeirizadora” “tradução domesticadora”, de clara inspiraçãoschleiermacheriana. Diante desta variedade de teorizações, Steiner(http://www.contemporarywriters.com/authors/?p=auth234) divide a produção teóricaocidental sobre o assunto em quatro grandes períodos: 1) o primeiro caracteriza-se como o mais empírico e abarcaria de 46 a. C. a 1804, isto é, de Cicero a Hölderlin. Entre essas duas datas, figuram São Jerônimo, Leonardo Bruni, Pierre-Daniel Huet, Du Bellay, Montaigne, Chapman, Dryden, Pope; 19
  20. 20. Friedrich Hölderlin (1770-1843) http://www.hoelderlin-gesellschaft.info/ John Dryden (1631-1700) http://www.island-of-freedom.com/DRYDEN.HTM2) o segundo período, de teoria e investigação hermenêutica, dá ao problema da tradução um caráter mais filosófico, iniciando-se com os escritos de Tytler e Schleiermacher, passando por Schlegel e Humboldt. Já os textos de Goethe, Schopenhauer, Matthew Arnold, Paul Valéry, Pound, I. A. Richards, Croce, Benjamin e Ortega y Gasset refletem as descrições da atividade do tradutor e das relações entre as línguas. Essa época comporta uma historiografia da tradução e se estende até Valery Larbaud (1946); 20
  21. 21. Friedrich Schleiermacher (1768-1834)http://en.wikipedia.org/wiki/Friedrich_SchleiermacherEzra Pound (1885-1972)http://www.lit.kobe-u.ac.jp/~hishika/pound.htm 21
  22. 22. 3) o terceiro momento é o da corrente moderna. No final da década de 40 aparecem artigos sobre tradução automática. Os pesquisadores russos e tchecos aplicam a teoria lingüística e os métodos estatísticos à tradução. Os enfoques são: lógico, contrastivo, literário, semântico, comparativo ainda hoje pesquisados; 4) no quarto momento, por volta da década de 60, há o redescobrimento de A tarefa do tradutor, texto de Walter Benjamin, publicado em 1923, que dará nova vida aos estudos hermenêuticos, quase filosóficos, sobre a tradução e a interpretação. Decai a confiança que inspirava a tradução automática. Nessa época, o estudo da teoria e da prática da tradução torna-se interdisciplinar, com contribuições, entre outros, da psicologia, antropologia, sociologia e etnografia. Assim, a filologia clássica, a literatura comparada, a estatística lexical e etnográfica, a sociolingüística, a retórica formal, a poética e o estudo da gramática confluem no propósito de esclarecer o ato de tradução e os mecanismos da “vida entre as línguas”. (2005: 259-262). Walter Benjamin (1892-1940) http://62.97.114.150/traducirpagina.aspx?slyidioma=espbra&url=http%3A%2F%2F http://www.infoamerica.org%2Fteoria%2Fbenjamin1.htm Como se pode perceber, muito se falou sobre a tradução entre línguas diferentes e,grosso modo, a teoria sobre o assunto debate: 1) tradução literal; 2) tradução intermediária,que se dá com a ajuda de um enunciado que procura ser fiel e, no entanto, autônoma; 3)imitação, recriação, variação ou interpretação paralela. 22
  23. 23. Mas há autores como Jorge Luis Borges (http://www.literatura.org/Borges/), por exemplo, que vai além desse tipo de classificação e dá uma nova dimensão à tradução, valorizando-a por contribuirpara a discussão estética. Na concepção borgiana, as traduções são vistas não apenas comoderivadas de um original necessariamente superior, mas como atualizações do original que podem,eventualmente, ser tão ou mais significativas do que este. Assim, um conjunto de traduçõesrealizadas para diferentes línguas pertencentes a sistemas literários sofisticados pode ser representarpara seu leitor mais riqueza estética do que para o leitor monolingüe do original. Borges ilustra oaparente paradoxo de as traduções oferecerem mais prazer estético que o original, dizendo que pelofato de não conhecer grego, pôde ler Odisséia em várias traduções para diferentes línguas. ParaBorges, sua leitura de um conjunto de Odisséias em inglês, francês, alemão, representandodiferentes estilos e épocas, constituiu uma experiência literária mais rica do que sua leitura de DomQuixote, feita apenas em espanhol. (ler Las versiones homéricas no site:http://www.2enero.com/textos/borghom.htm). A tradução interlingual também serve como exercício de escrita e como meio dedesenvolver e/ou aprimorar o próprio estilo. Aliás, muitos escritores como, por exemplo, oitaliano Giacomo Leopardi (1798-1837) (ver www.leopardi.it) defende a prática datradução para o escritor iniciante. É traduzindo que se aprende a compor com estilo.Convém frisar que quando Leopardi fala que é traduzindo que se aprende a escrever, ele serefere à tradução de excelentes autores clássicos gregos e latinos, como Homero, Virgílio eHorácio. Mas no caso de ser escritor e escrever bem, a probabilidade de uma boa tradução ébastante alta, pois a tradução de qualidade é obra do escritor maduro. Assim, em uma desuas primeiras observações sobre tradução, que se encontra numa carta de 29 de dezembrode 1817 endereçada ao amigo e escritor Pietro Giordani, ele diz: [...] dou-me conta de que traduzir, assim por exercício, deve realmente preceder a atividade de compor, sendo útil e necessário para os que querem tornar-se escritores insignes; mas para tornar-se um grande tradutor convém antes haver 23
  24. 24. composto e ter sido bom escritor: enfim, uma tradução perfeita é obra mais da maturidade que da juventude (1996: 730). Giacomo Leopardi (1798-1837) http://it.wikipedia.org/wiki/Immagine:Giacomo_Leopardi.jpg Com essas idéias, Leopardi lança as bases da relevância do traduzir, estabelecendo arelação tradutor-escritor e escritor-tradutor, afirmando que somente um bom escritor podeser um bom tradutor. Ademais, para o escritor italiano, o tradutor é um leitor privilegiado,pois a tradução é a melhor forma de aprofundar uma leitura. Essa parece ser, em parte, idéia corrente entre autores como Haroldo de Campos.Contudo, o poeta brasileiro vai em outra direção, pois ancorado nas teorias de Jakobson e 24
  25. 25. Pound, Haroldo (www.haroldodecampos.com.br) trabalha com o conceito de recriação natradução poética. Haroldo vê a tradução como uma possibilidade de criação e também decrítica. A tradução de textos criativos sempre será para Haroldo de Campos “recriação”, oucriação paralela. Por isso, quanto mais inçado de dificuldades um texto, mais recriável,mais sedutor enquanto possibilidade aberta de recriação (2004: 35). Haroldo de Campos ((1929/2003) http://www.algumapoesia.com.br/poesia/poesianet033.htm August Willemsen, tradutor para o holandês de autores como Machado de Assis eGuimarães Rosa tem uma posição que vale a pena considerar. Estando em Florianópolis,em outubro de 1984, ele proferiu, na Pós-Graduação de Literatura da UFSC, uma palestraque foi posteriormente publicada no primeiro número da revista Fragmentos doLLE/UFSC. Nessa palestra ele declarou o seguinte: O tradutor tem de conhecer o país do escritor, até a região ou cidade do escritor e as particularidades lingüísticas correspondentes. Tem de saber sobre a época do escritor, a história e a literatura de seu país, bem como a eventual tradição literária em que se situa o escritor. Não adianta ter lido só o livro que pretende traduzir, pois acho que não se deve traduzir um livro, mas um escritor, mesmo que dele se traduza só uma obra. É preciso saber o que o autor leu, quais as suas preferências literárias, o que se escreveu a seu respeito. E preciso saber como as pessoas de seu país convivem, 25
  26. 26. quais as relações entre homem e mulher, qual o cheiro do país, não só o cheiro de arquivos, bibliotecas e livrarias, mas também o cheiro das ruas, das pessoas, da comida, da bebida, tudo. (Fragmentos 1: ) Essa tradução totalizadora, preconizada por Willemsen, em que o tradutor conhecenão apenas o texto a traduzir mas todos os textos do autor, a crítica, sua biografia, seu paísé, evidentemente, excepcional e exige um grau de dedicação impossível para a maioria dostradutores profissionais. Aplicada de forma sistemática e sensível, ela pode ser responsávelpor traduções de alta qualidade, como as do próprio Willemsen, na Holanda, e no Brasiltraduções como as realizadas por Boris Schnaiderman do russo. August Willemsen http://www.parceria.nl/cultura/Es060305_Willemsen 26
  27. 27. Boris Schnaiderman http://www.wave.com.br/istoe/1826/artes/1826_noticias_de_uma_guerra_particular.htm Exemplos de tradução interlingual são infinitos. Abaixo seguem alguns fragmentos deimportantes textos traduzidos para o português do Brasil. O primeiro é um trecho doCapítulo XXIII do Satyricon, de Petrônio com tradução de Paulo Leminski (verhttp://paginas.terra.com.br/arte/PopBox/kamiquase/ensaio37.htm). Refectum igitur est A festa recomeça, econvivium et rursus Quartila chama todoQuartilla ad bibendum mundo para recomeçar arevocavit. Adiuvit beber, ao alegre som dahilaritatem comissantis cymbalistria. Entra umcymbalistria.Intrat dançarino completamentecinaedus, homo omnium bicha, como, aliás, tudoinsulsissimus et plane illa naquela casa, e, batendodomo dignus, qui ut as mãos para marcar oinfractis manibus ritmo, largou um poemacongemuit, eiusmodi que dizia assim:carmina effudit: Huc huc convenite Vem comigo, vemnunc, spatalocinaedi, comigo, pede tendite, cursum Vocês que gozam pelosaddite, convolate planta, cinco sentidos, femore facili, clune agili Pezinho pra frente,et manu procaces, bundinha pra trás, molles, veteres, Deliaci Delírios e delíciasmanu recisi orientais. 27
  28. 28. O segundo um fragmento de “Albertina desaparecida”, de Marcel Proust na tradução deIvan Junqueira: Chapitre premier Capítulo primeiro (fragment) (fragmento) Le plus pressé était de lire la letre dAlbertine O mais urgente era ler a carta de Albertina, puisque je voulais aviser aux moyens de la faire pois queria descobrir os meios de fazê-la regressar. revenir. Je les sentais en ma possession, parce que, Sentia-os em meu poder porque, como o futuro é comme lavenir est ce qui nexiste encore que dans aquilo que existe apenas em nosso pensamento, ele notre pensée, il nous semble encore modifiable par nos parece ainda capaz de ser alterado pela lintervention in extremis de notre volonté. Mais en intervenção in extremis de nossa vontade. Mas ao même temps je me rappelais que javais vu agir sur mesmo tempo eu me lembrava de que vira atuar lui dautres forces que la mienne et contre sobre ele outras forças além da minha e contra as lesquelles, plus de temps meût été donné, je quais, por mais tempo que me concedessem, eu naurais rien pu. À quoi sert que lheure nait pas nada teria podido. De que adianta não haver ainda sonné encore si nous ne pouvons rien sur ce qui sy soada a hora, se nada podemos contra o que produira. Quand Albertine était à la maison jétais acontecerá? Quando Albertina ainda vivia em bien décidé à garder linitiative de notre séraration. minha casa, fui eu que decidi tomar a iniciativa de Et puis elle était partie. Jouvris la lettre nos separarmos. E em seguida ela partiu. Abri sua dAlbertine. Elle était ainsi conçue: carta. Estava escrito: Mon ami, pardonnez-moi de ne pas avoir osé "Meu amigo, perdoe-me por não haver ousado vous dire de vive voix les quelques mots qui vont lhe dizer de viva voz as palavras que se seguem, suivre, mais je suis si lâche, jai toujours eu si peur mas sou tão covarde, sinto-me sempre com medo devant vous, que, même en me forçant, je nai pas diante de você, que, mesmo me esforçando, tive eu le courage de le faire. Voici ce que jaurais dû coragem de fazê-lo. Eis o que lhe deveria ter dito: a vous dire: Entre nous, la vie est devenue vida entre nós tornou-se impossível; aliás, você impossible, vous avez dailleurs vu par votre decerto percebeu por seu falatório da outra noite algarade de lautre soir quil y avait quelque chose que algo mudou em nossas relações. O que se pôde de changé dans nos rapports. Ce qui a pu sarranger ajeitar naquela noite se tornaria irreparável poucos cette nuit-là deviendrait irréparable dans quelques dias depois. É melhor assim, pois tivemos a jours. Il vaut donc mieux, puisque nous avons eu la oportunidade de nos reconciliar, de nos separar chance de nous réconcilier, nous quitter bons amis; como bons amigos; por isso, meu querido, é que cest pourquoi, mon chéri, je vous envoie ce mot, et lhe escrevo essas palavras e rogo a você que seja je vous prie dêtre assez bon pour me pardonner si bom o bastante para perdoar-me se lhe causo algum je vous fais un peu de chagrin, en pensant à desgosto, imaginando o imenso que terei. Meu limmense que jaurai. Mon cher grand, je ne veux querido, não quero tornar-me sua inimiga; já me pas devenir votre ennemie, il me sera déjà assez dur será muito penoso tornar-me pouco a pouco, e bem de vous devenir peu à peu, et bien vite, depressa, indiferente a você; minha decisão é indifférente; aussi ma décision étant irrévocable, irrevogável e, antes de lhe enviar esta carta por avant de vous faire remettre cette lettre par intermédio de Francisca, terei pedido a ela minhas Françoise, je lui aurai demandé mes malles. Adieu, malas. Adeus, deixo-lhe o melhor de mim mesma. je vous laisse lê meilleur de moi-même. Albertine. Albertina." 28
  29. 29. E o terceiro é a tradução de Italo Eugenio Mauro do "Canto III", dA Divina Comédia, de Dante Alighieri: ExcertoPer me si va ne la città dolente, Vai-se por mim à cidade dolente,per me si va ne letterno dolore, vai-se por mim à sempiterna dor,per me si va tra la perduta gente. vai-se por entre a perdida gente.Giustizia mosse il mio alto fattore; Moveu-se justiça o meu alto feitor,fecemi la divina podestate, fez-me a divina Potestade, maisla somma sapïenza e l primo amore. o supremo Saber e o primo Amor.Dinanzi a me non fuor cose create Antes de mim não foi criado maisse non etterne, e io etterna duro. nada senão eterno, e eterna eu duro.Lasciate ogne speranza, voi chintrate. Deixai toda esperança, ó vós que entrais.Queste parole di colore oscuro Essas palavras vi, num tom escuro,vid ïo scritte al sommo duna porta; escritas sobre o alto de uma porta,per chio: “Maestro, il senso lor mè duro”. donde eu: “Meu mestre, o seu sentido é duro”.Ed elli a me, come persona accorta: E ele, a mim, como um mestre que conforta:“Qui si convien lasciare ogne sospetto; “Livra-te desse medo circunspecto;ogne viltà convien che qui sia morta. aqui toda tibiez esteja morta;Noi siam venuti al loco ov i tho detto que chegando ora estamos ao conspectoche tu vedrai le genti dolorose das tristes gentes das quais já te dissechanno perduto il ben de lintelletto”. que têm perdido o bem do intelecto”.E poi che la sua mano a la mia puose Depois, na sua tomando com meiguicecon lieto volto, ond io mi confortai, minha mão, com o que me confortei,mi mise dentro a le segrete cose. fez que no umbral secreto eu o seguisse.Quivi sospiri, pianti e alti guai Gritos, suspiros, prantos lá encontreirisonavan per laere sanza stelle, que ecoavam no espaço sem estrelas,per chio al cominciar ne lagrimai. pelo que no começo até chorei.Diverse lingue, orribili favelle, Diversas línguas, hórridas querelas,parole di dolore, accenti dira, brados de mágoa, irrupções de ira,voci alte e fioche, e suon di man con elle com estalar de mãos em suas seqüelas,facevano un tumulto, il qual saggira formavam um tumulto que regira,sempre in quell aura sanza tempo tinta, no intemporal negrume, sem parada,come la rena quando turbo spira. qual turbilhão que areia em torno atira.E io chavea derror la testa cinta, E eu, co a cabeça já de horror tomada:dissi: “Maestro, che è quel chi odo? “Que gente essa é”, indaguei, “nesse clamor,e che gent è che par nel duol sì vinta?”. que parece em sua dor tão derrotada?”. 29
  30. 30. Ed elli a me: “Questo misero modo E ele: “As almas que vês nesse amargor,tegnon lanime triste di coloro são dos que têm no mndo – e ora deploram –che visser sanza nfamia e sanza lodo. vivido sem infâmia e sem louvor.Mischiate sono a quel cattivo coro Co aqueles anjos vis agora moramde li angeli che non furon ribelli que a Deus não opuseram rebeldiané fur fedeli a Dio, ma per sé fuoro. nem lhe foram fiéis, mas por si foram.Caccianli i ciel per non esser men belli, O céu exclui-os porque o aviltaria,né lo profondo inferno li riceve, e o fundo inferno também os proscreve,chalcuna gloria i rei avrebber delli”. que tê-los certa glória aos réus traria”.E io: “Maestro, che è tanto greve E eu: “Mas que pena têm, que tanto devea lor che lamentar li fa sì forte?”. pesar-lhes que clamar os faz tão forte?”.Rispuose: “Dicerolti molto breve. Respondeu-me ele: “Escuta, serei breve:Questi non hanno speranza di morte, Eles não têm esperança de morte,e la lor cieca vita è tanto bassa, e essa cega sua vida é-lhes tão crassache nvidïosi son dogne altra sorte. que inveja têm de qualquer outra sorte.Fama di loro il mondo esser non lassa; Lembrança deles o mundo rechaça;misericordia e giustizia li sdegna: misericórdia, e justiça, os ignora.non ragioniam di lor, ma guarda e passa”. Deles não cuides mais, mas olha e passa”.E io, che riguardai, vidi una nsegna E eu que olhei vi, em disparada agora,che girando correva tanto ratta, um lábaro que parecia sujeitoche dogne posa mi parea indegna; a rodear sem pouso e sem demora;e dietro le venìa sì lunga tratta imensa turba o seguia, que o conceitodi gente, chi non averei creduto deu-me, numa visão medonha e abstrusa,che morte tanta navesse disfatta. de quantos tinha a morte já desfeito.Poscia chio vebbi alcun riconosciuto, Alguns reconheci nessa confusavidi e conobbi lombra di colui multidão, e eis que aquele apareceuche fece per viltade il gran rifiuto. que fez por covardia a grã recusa.Incontanente intesi e certo fui Certo então fui, no entendimento meu,che questa era la setta di cattivi, que o abjeto grupo aquele era da gentea Dio spiacenti e a nemici sui. que a Deus despraz e ao inimigo seu.Questi sciaurati, che mai non fur vivi, Esses, de quem foi sempre a vida ausente,erano ignudi e stimolati molto estavam nus, às picadas expostosda mosconi e da vespe cheran ivi. de uma nuvem de vespas renitente,Elle rigavan lor di sangue il volto, que lhes fazia riscar de sangue os rostos,che, mischiato di lagrime, a lor piedi que, às lágrimas mesclado, a seus pésda fastidiosi vermi era ricolto. colhiam molestos vermes ali postos.E poi cha riguardar oltre mi diedi, Quando olhar mais pra frente isso me fez,vidi genti a la riva dun gran fiume; vendo mais gente à margem de um grão flumeper chio dissi: “Maestro, or mi concedi chamei: “Meu mestre, esses que ao longe vês, 30
  31. 31. chi sappia quali sono, e qual costume quem são? e por que cada qual assumele fa di trapassar parer sì pronte, sua vez, para que à travessia se apronte,com i discerno per lo fioco lume”. sem temor, ao que mostra o escasso lume?”.Ed elli a me: “Le cose ti fier conte “Claro terás, co a razão que os confronte,quando noi fermerem li nostri passi os fatos”, respondeu, “quando alcançadosu la trista riviera dAcheronte”. tivermos a orla triste do Aqueronte.”Allor con li occhi vergognosi e bassi, Baixei o olhar, temendo ter causadotemendo no l mio dir li fosse grave, algum gravame ao meu mestre supernoinfino al fiume del parlar mi trassi. e até à chegada ao rio fiquei calado.Ed ecco verso noi venir per nave Chegava agora um barco e, em seu governo,un vecchio, bianco per antico pelo, um velho, branco por antigo pêlo,gridando: “Guai a voi, anime prave! gritando: “Almas ruins! castigo eterno!Non isperate mai veder lo cielo: pra vós. Abandonai do céu o anelo;i vegno per menarvi a laltra riva vim levar-vos, pra lá desta corrente,ne le tenebre etterne, in caldo e n gelo. à treva sempiterna, ao fogo e ao gelo.E tu che se costì, anima viva, E tu que estás aí, alma vivente,pàrtiti da cotesti che son morti”. deles te afasta, que aqui só vem morto”.Ma poi che vide chio non mi partiva, mas vendo que eu não ia, mais calmamente,disse: “Per altra via, per altri porti tornou: “Por outra via, por outro portoverrai a piaggia, non qui, per passare: a outra praia virás, e à hora azadapiù lieve legno convien che ti porti”. mais leve lenho te dará transporto”.E l duca lui: “Caron, non ti crucciare: E o Mestre: “É vã, Caronte, a tua tirada,vuolsi così colà dove si puote pois lá, onde se pode o que se quer,ciò che si vuole, e più non dimandare”. isto se quer, e não peças mais nada”.Quinci fuor quete le lanose gote Vi o lanoso beiço emudeceral nocchier de la livida palude, do piloto do lívido palude,che ntorno a li occhi avea di fiamme rote. mas nos olhos em brasa a raiva arder.Ma quell anime, cheran lasse e nude, E as almas nuas, em sua lassitudecangiar colore e dibattero i denti, vi descorarem num tremor violentoratto che nteser le parole crude. ao ouvir de Caronte a fala rude.Bestemmiavano Dio e lor parenti, Blasfemavam seus pais, e Deus, e o eventolumana spezie e l loco e l tempo e l seme da humana espécie, e o germe, o sítio e a horadi lor semenza e di lor nascimenti. da geração sua e de seu nascimento.Poi si ritrasser tutte quante insieme, E depois, num magote só que chora,forte piangendo, a la riva malvagia foram se unindo, na beira malditachattende ciascun uom che Dio non teme. que aguarda quem a lei de Deus ignora.Caron dimonio, con occhi di bragia De olhos em brasa, Caronte os incita;loro accennando, tutte le raccoglie; lhes acenando todos os recolhe;batte col remo qualunque sadagia. bate co o remo quando algum hesita. 31
  32. 32. Come dautunno si levan le foglie Como as folhas que o vento outonal colheluna appresso de laltra, fin che l ramo uma após outra até que a nua ramagemvede a la terra tutte le sue spoglie, só fita os restos seus que a terra acolhe,similemente il mal seme dAdamo assim, dessa de Adão soez linhagemgittansi di quel lito ad una ad una, cada qual vai seguindo, vez por vez,per cenni come augel per suo richiamo. aos sinais, como em vil passarinhagem.Così sen vanno su per londa bruna, E todos vão, sobre a onda de pez,e avanti che sien di là discese, e, antes mesmo de haverem lá saltado,anche di qua nuova schiera sauna. aqui mais gente junta-se outra vez.“Figliuol mio”, disse l maestro cortese, “Filho”, disse o meu Mestre dedicado,”quelli che muoion ne lira di Dio “esses, que ousaram em vida o desafiotutti convegnon qui dogne paese; a Deus, chegam aqui de todo estado;e pronti sono a trapassar lo rio, e se dispõem a atravessar o rioché la divina giustizia li sprona, porque a divina lei os acorçoasì che la tema si volve in disio. a cambiar seu receio em alvedrio.Quinci non passa mai anima buona; Nunca passou daqui uma alma boa,e però, se Caron di te si lagna, portanto, se Caronte ora te estranha,ben puoi sapere omai che l suo dir suona”. podes saber o que seu dito soa.”Finito questo, la buia campagna Depois a terra da sombria campanhatremò sì forte, che de lo spavento tremeu tão forte que, ao meu espavento,la mente di sudore ancor mi bagna. inda a lembrança de suor me banha.La terra lagrimosa diede vento, E da lacrimejada terra um ventoche balenò una luce vermiglia surgiu, de um clarão rubro acompanhado,la qual mi vinse ciascun sentimento; que me tolheu de todo sentimento.e caddi come luom cui sonno piglia. E caí, como em sono derribado. A tradução entre línguas diferentes proporciona a construção de um enorme patrimônio cultural, basta pensar em Cícero e o seu projeto de tradução em massa da literatura grega, ou ainda do projeto de tradução realizado pelos alemães no século XIX. Nesse sentido, Madame de Stäel (http://www.cobra.pages.nom.br/fcp-stael.html) 32
  33. 33. Madame de Stäel 1766-1817 http://en.wikipedia.org/wiki/Image:Madame_de_Sta%C3%ABl.jpgem seu famoso ensaio “Do espírito das traduções” (1821) convida todas os países atraduzir, porque segundo ela: Não há mais eminente serviço que se possa prestar à literatura do que transpor de uma língua para outra as obras-primas do espírito humano. Existem tão poucas produções de primeira ordem; o gênio, em qualquer área que seja, é um fenômeno tão raro, que se cada nação moderna fosse reduzida a seus próprios tesouros, seria sempre pobre (2004: 141). Na tradução interlingual, como já visto, o tradutor é a figura central, pois éresponsável pelo desenvolvimento das civilizações, contribuindo sempre para osurgimento, o enriquecimento e a promoção das línguas e literaturas nacionais, para o 33
  34. 34. despertar de uma consciência coletiva de grupos étnicos e lingüísticos, para importarnovas idéias e valores, além de colaborar para a preservação do patrimônio cultural dahumanidade. Essas contribuições podem estar associadas a nomes tão heterogêneos, ede fama tão desigual, como Ulfila (evangelista dos godos), São Mesrop Mashtots(inventor do alfabeto armênio e tradutor da Bíblia), São Jerônimo, William Tyndale(primeiro inglês a traduzir a Bíblia diretamente das línguas originais), Martinho Luteroe Jorge Luis Borges, entre muitíssimos outros. Estátua de São Mesrop Mashtots (c. 345-440) em Ierevan, Armênia 34
  35. 35. William Tyndale (1492-1536) Embora os tradutores sempre tenham servido de elo na cadeia de transmissão doconhecimento entre sociedades separadas por barreiras lingüísticas, construindo pontesentre nações, raças, culturas e continentes, e entre o passado e o presente, sabemos queeles foram, por muitos séculos, relegados a segundo plano, desprezados e, em certasconjunturas, perseguidos. William Tyndale, por exemplo, foi queimado foi queimadona fogueira em 1536 em Vilvoorden (10 kms a nordeste de Bruxelas) por suastraduções da Bíblia, de inspiração protestante. E em pleno século XX o livro Os versossatânicos foi considerado ofensivo ao islã e seu autor, Salman Rushdie recebeu umasentença de morte em fevereiro de 1989 por meio de uma fatwa (edito religioso)impetrada pelo aiatolá Khomeini. O autor vive até hoje sob proteção da políciabritânica mas seus tradutores sofreram represálias. Assim, o tradutor japonês HitoshiIgarashi foi morto a facadas nas ruas de Tóquio, em 1991, por um radical islâmico. 35
  36. 36. Outro tradutor, o italiano Ettore Capriolo, sobreviveu a um ataque em Milão. Noentanto, o castigo mais comum infligido a estes mediadores, sem os quais não existiriacultura mundial, tem sido o silêncio. Ainda hoje é comum vermos, nos jornais erevistas, ou nos sites das editoras, resenhas e anúncios de livros traduzidos em que nãoconsta o nome do tradutor. Nas palavras do teórico norte-americano da traduçãoLawrence Venuti, os tradutores costumam ser "invisíveis". Hitoshi Igarashi http://nekklachten.web-log.nl/nekklachten/2006/07/hitoshi_igarash.html Lawrence Venuti http://www.mercuryhouse.org/venuti.html Tentativas de sanar esta lacuna têm sido feitas no âmbito internacional. Entre elas,cabe destacar Os Tradutores na História, organizado por Jean Delisle e JudithWoodsworth (Tradução de Sérgio Bath. São Paulo: Ática, 1998). Neste livro, ganharelevo o tradutor como personagem importante, e às vezes decisivo, na história culturalda humanidade. No Brasil, tem havido uma série de iniciativas para valorizar e 36
  37. 37. pesquisar o trabalho dos tradutores. A defesa dos direitos do tradutor, ainda tão poucoreconhecidos aqui, tem sido a bandeira do Sintra (Sindicato Nacional dos Tradutores -www.sintra.org.br) e da Abrates (Associação Brasileira dos Tradutores -www.abrates.com.br), enquanto que, nos meios acadêmicos, a Abrapt (AssociaçãoBrasileira dos Pesquisadores em Tradução - www.fflch.usp.br/sitesint/abrapt ) temrealizado congressos e estimulado a investigação dos múltiplos aspectos do fenômenotradutório. (linkar para http://www.dicionariodetradutores.ufsc.br/) ou ainda a revistaCadernos de Tradução, publicada desde 1996, conta com uma seção dedicada aostradutores (linkar para www.cadernos.ufsc.br). Um tradutor literário que representa bem a categoria no Brasil é PauloHenriques Britto. Contrariamente à maioria dos tradutores profissionais, ele é bastantereconhecido tanto por colegas como pelos editores. Paulo, que também é poeta econtista, representa também os múltiplos cruzamentos que a atividade tradutóriacostuma ter, já que, além de influenciar a cultura brasileira com suas traduções, eletambém escreve poesia, ficção e ensaio, além de ser professor na PUC-Rio. Aentrevista abaixo, concedida a Marlova Aseff e publicada no jornal Diário Catarinense,ilustra bem a relevância que o trabalho do tradutor tem na cultura brasileira.Paulo Henriques BrittoPor uma poesia liberta do "eu"Tradutor de Byron e Elizabeth Bishop, o poeta carioca Paulo Henriques Britto fala sobre asformas e o retorno ao sublimeMarlova Aseff/ Jornalista e doutoranda em Teoria Literária da UFSC 37
  38. 38. O carioca Paulo Henriques Britto, 52, dedica seu tempo à tradução e à poesia. Consideradoum dos melhores tradutores do inglês em atividade no Brasil, já traduziu mais de umacentena de livros, entre eles, grande parte da obra da poetisa norte-americana ElizabethBishop, num projeto que durou seis anos. Como poeta, sua produção é pequena, porémesmerada. São quatro livros, nos quais firma-se com uma poesia liberta do "eu", voltadapara as coisas do mundo. Herdeiro do modernismo, paradoxalmente, valoriza a forma. "Opoema, para mim, sempre foi algo mais sonoro do que visual, então eu, naturalmente,caminhei para o lado das formas fixas", explica Britto, que também atua como professor napós-graduação em Lingüística da PUC-RJ. Ele esteve em Florianópolis ministrando umcurso de tradução de poesia para os alunos da Pós-Graduação em Estudos da Tradução daUniversidade Federal de Santa Catarina. Nesta entrevista, ele fala do atual momento dapoesia e da prosa brasileiras e dos ofícios de poeta, tradutor e professor.Pergunta - Você e alguns outros poetas brasileiros estão escrevendo poesia não maisem verso livre, mas buscando formas fixas. Explique sua escolha:Paulo Henriques Britto - Há vários poetas da minha geração que estão trabalhando com formastradicionais. De um lado é uma certa tendência e, de outro lado, se você analisar, verá que cada casoé um caso. O que há de geral nisso é o seguinte: o verso livre foi importantíssimo como fator deliberação no modernismo. Depois, houve o refluxo, que foi a geração de 45, e nova reação contra oneoparnasianismo da geração de 45, que foi a geração da poesia marginal, na qual o verso livre foida maior importância, uma volta a Oswald de Andrade. Eu não participei do movimento, mas sãopessoas da minha geração. Agora, de novo, como uma espécie de reação a esse excessivoinformalismo, os poetas estão voltando a trabalhar com as formas. Então, de um lado, é umatendência geral. Mas quando você vai comparar os poetas que estão trabalhando com formas fixas,verá que cada um foi levado a isso por um motivo diferente. Há uma corrente literariamente eesteticamente conservadora, na qual a forma fixa é uma maneira de enobrecer a poesia e que tem odiscurso do sublime. O Ítalo Moriconi tem um artigo interessante sobre a volta do sublime. Os trêscasos mais típicos disso seriam o Ivan Junqueira, Bruno Tolentino, esteticamente o maisconservador, e o Alexei Bueno. Esse último é um caso mais problemático, pois também tem essavolta a uma dicção mais nobre, mas ao mesmo tempo tem uma produção importante em verso livre.Então, nesse primeiro grupo, a volta à forma fixa é uma rejeição ao modernismo. 38
  39. 39. Pergunta - E no seu caso?Britto - Eu e Glauco Matoso, por exemplo, não somos antimodernistas. Nós dois chegamos às formasfixas por motivos completamente diferentes. O Matoso é de uma tendência fortemente construtivista, edo construtivismo para a forma fixa é um pulo. Aí ele ficou cego. Ele me disse que, como cego, amelhor maneira de decorar um poema é a forma do soneto. Ele escreveu mais de mil sonetos, umaprodução imensa. Então juntou-se a esse lado construtivista a questão da cegueira. O meu caso écompletamente diferente, vem de longa data. Eu comecei a escrever poesia mais a sério no final daadolescência, no final dos anos 60, em um momento em que tinham muita força no meio poético astendências construtivistas. Havia os concretos, a poesia práxis, o poema-processo. E nessa época euestava lendo freneticamente Fernando Pessoa, Drummond, Manuel Bandeira e os poetas de línguainglesa. Eu li mais poesia de língua inglesa do que de língua portuguesa durante boa parte da minhavida. E os poetas que eu lia mais, produziam muito em formas fixas. Por mais que eu admirasse Álvarode Campos, Whitman, que foi um poeta que eu li muito, eu tinha uma atração muito forte pelas formasfixas, e essa atração não tinha nada a ver com uma volta ao sublime. Nada disso. Eu sentia uma certanecessidade de uma disciplina, mental até. Muita gente precisava disso, mas as pessoas encontravamessa disciplina no concretismo. Eu nunca me interessei muito pelo lado visual. O poema para mimsempre foi algo mais sonoro do que visual. Então eu naturalmente caminhei para o lado das formasfixas. Mas eu sempre me mantive muito próximo de uma concepção de poesia modernista, algumacoisa de dessublimização, de enfatizar o cotidiano, um certo elogio do "pé-no-chão", do concreto, doreal. Por isso, no meu caso, o sublime não tem nada a ver com o uso de formas fixas.Pergunta - Fale um pouco da experiência de traduzir e mergulhar na vida deElizabeth Bishop.Britto - Eu traduzi a sério, mesmo, três poetas: Wallace Stevens, Byron e Elizabeth Bishop. Foramos três projetos de tradução de poesia em que eu fui mais fundo. E dos três, o que eu fui mais fundofoi o projeto da Bishop, porque eu não apenas fiz uma antologia pegando quase metade do corpusda poesia dela, como também traduzi a prosa e as cartas dela. Foi uma coisa que eu nunca tinhafeito em minha vida, um projeto de pesquisa sério. Quando eu percebi, estava me tornando umentendido em Elizabeth Bishop. Fiquei mais ou menos seis anos imerso nesse projeto. 39
  40. 40. Pergunta - E quanto ao Byron?Britto - Com Byron foi diferente. Traduzi apenas um poema dele, um poema longo, masque também me ocupou durante anos e me obrigou a ler a obra toda dele. Foi tambémmuito interessante. Mas foi uma iniciativa minha, que fiz nas horas vagas. No caso daBishop, foi interessante porque eu fui remunerado. A editora comprou o pacote da obracompleta dela para lançar no Brasil as cartas, a prosa e uma seleção das poesias dela.Pergunta - Você é tradutor exclusivo da Cia. das Letras?Britto - Não, sou free-lancer, desde que a editora abriu em 1986. O primeiro livro desucesso deles fui eu quem traduziu. Temos uma relação muito boa, mas de vez em quandofaço um livro para outra editora, às vezes traduzo livros brasileiros para serem editados nosEstados Unidos. Vai sair agora a minha tradução de William Faulkner, de O som e a fúria,que fiz para a Cosac & Naify.Pergunta - Você assimilou algo da poesia de Byron e de Bishop em sua criação?Britto - Esses poetas em que eu mergulhei, todos deixaram uma certa marca. O WallaceStevens foi talvez o que deixou marcas mais fundas porque eu o li quando ainda estava emformação. Descobri a poesia dele quando eu estava com 23, 24 anos e estava escrevendo ospoemas que saíram no meu primeiro livro, de 1982. Dele peguei duas coisas importantes: umcerto olhar filosófico, uma poesia muito pensante, de caráter introspectivo, e uma coisa meioobjetiva, liberta do eu, porque o Fernando Pessoa, que foi minha leitura básica, reforçou umlado muito autocentrado, algo que todo adolescente tem, de esmiuçar o eu. O que eu gostei doStevens é que ele voltava seu olhar filosófico para outras coisas, para o mundo, para a arte, paraos objetos. Para mim, isso foi muito bom porque me obrigou a sair um pouco do "eu".Pergunta - Sua poesia fala do mundo, das coisas...Britto - Sim, e nisso o Byron foi fundamental para mim. Com ele aprendi duas coisas: umafoi lidar com formas fixas de uma maneira mais disciplinada, a outra tem a ver com a suapersonalidade voltada para o "aqui e agora". O poema dele que traduzi tem um fiapo dehistória, uma bobagem, mas cheia de digressões, que são o mais interessante. Ele fala malda Itália, da Inglaterra, dos amigos, dos inimigos. E essa coisa meio superficial e dispersiva 40
  41. 41. dele foi boa para me puxar para a realidade. Por outro lado, a Bishop eu traduzi quando jáestava com meu estilo poético já mais ou menos definido, então o impacto da obra dela naminha poesia foi menor, mas ela trabalha muito bem com a forma e reforçou isso em mim.Pergunta - Como tradutor, você se preocupa em influenciar o ambiente cultural?Britto - Uma das coisas que me levaram a traduzir o Byron foi a idéia de que a poesiabrasileira estava precisando de um banho de objetividade. Eu não agüentava mais essa coisade poema sobre o poema, poema sobre a leitura, sobre a impossibilidade de escreverpoemas. Essas coisas cansam, caem numa certa esterilidade. Fiquei impressionado com ofato de o Byron fazer poesia e estar ligado no mundo. Isso me interessava na medida emque a poesia estava se descolando do resto do mundo.Pergunta - Enquanto professor e ensaísta de tradução, percebe-se sua crítica àsteorias pós-modernas e à desconstrução.Britto - Eu não me considero de modo algum um teórico da tradução. Não tenho grandeinteresse por teoria da tradução, meu interesse é pela prática, ensino e avaliação detraduções. Eu acabei sendo levado a ler a refletir sobre aspectos teóricos e me interessou ofato de que no Brasil, num determinado momento, estavam tendo grande impacto nosmeios acadêmicos teorias que à primeira vista pareciam apontar para uma completa aporia,para um beco sem saída para a prática da tradução. Eu me convenci de que essas teoriaslevavam a um impasse completo. Então tenho tematizado sobre esse divórcio crescenteentre a prática e a teoria da tradução. Como você vê, tem uma certa lógica nas minhaspreocupações. Já há algo de bizantino em discutir questões teóricas que vêm do tempo deCícero; mas pior que não chegar a conclusão nenhuma é tentar provar por A mais B quenão se pode chegar a conclusão nenhuma, que estamos irremediavelmente presos à nossaprópria subjetividade, que não se pode dizer nada sobre nada; isso me parecia uma coisabastante prejudicial. Minha formação é muito anglo-saxônica, logicista, tenho umapreocupação grande com a realidade. Para mim, a função da teoria deve ser esclarecer,orientar intervenções sobre a realidade. Daí essa minha incursão pela teoria, que está setornando algo mais profundo na medida em que agora estou trabalhando em um projeto depós-graduação de tradução. Isso me levou de novo a refazer meu compromisso com uma 41
  42. 42. visão muito terra-a-terra. Para mim, a teoria da tradução deve servir acima de tudo parafundamentar a avaliação de traduções, critérios para julgar e ensinar melhor a prática detradução.Pergunta - Fale um pouco sobre o seu método de avaliação de tradução de poesia.Britto - É algo que estou desenvolvendo agora. Não é nada de revolucionário, é uma coisabastante prática: tentar fazer uma análise do que você acha que são os elementos relevantes emdeterminado poema, atribuir um peso relativo a eles, determinando o que é essencial e o que nãoé tão importante. Na hora de traduzir, deve-se tentar recriar em português aqueles elementos quepareceram, à luz da análise, os mais relevantes. No mais, é uma prática em que entra muito bom-senso, muita lição de recriação de forma que eu aprendi com as traduções dos irmãos Campos,que foram a "universidade" de tradução que eu fiz. Eu não sou formado em tradução, minhaformação é em lingüística, mas aprendi muito lendo as traduções e os paratextos principalmentedo Augusto de Campos. Resumindo, estou tentando encontrar parâmetros que nos ajudem a dizerque a tradução A de determinado poema é melhor do que a tradução B.Pergunta - E o que você busca quando traduz prosa?Britto - Eu busco todas aquelas coisas que tradicionalmente todos os tradutoresbuscam, por mais que os teóricos esperneiem. Busco uma tradução fiel ao original,busco recriar em português os efeitos estilísticos do original e tento, na medida dopossível, me tornar transparente ou invisível, colocando o mínimo de mim noslivros que traduzo. O lugar para eu me colocar como tradutor é o paratexto, aintrodução, as notas, o posfácio. E o lugar para eu me afirmar como escritor é aminha poesia. No momento em que estou traduzindo, estou interessado em recriarem português, da melhor maneira possível, o que eu acho que sejam os valoresestéticos do original. É a mesma coisa que eu faço na tradução de poesia. A únicavantagem de trabalhar com poesia é que tudo é muito concentrado. Num textinhode 10 ou 15 versos, os problemas são muito mais críticos. O texto poético teminúmeros níveis, mais do que a prosa mais refinada. Mas tudo que estou propondopara a avaliação de poesia pode, mutatis mutandis, ser aplicado na prosa. 42
  43. 43. Pergunta - Como avalia o atual momento literário brasileiro?Britto - Acho que estamos num momento poético muito fértil, temos muitos nomes bons napoesia. Há também muitos autores ótimos de ficção. Temos uma nova geração de escritoresbastante interessantes. Pessoas na faixa dos 40 anos que são escritores de primeiraqualidade, como Rubens Figueiredo, Milton Hatoum e Bernardo Carvalho, cujos trabalhoscostumo acompanhar. Em poesia, poderia citar no Rio de Janeiro o Carlito Azevedo e aCláudia Roquette-Pinto; de uma geração um pouco mais velha, há o Armando Freitas Filho.Há também muita gente boa em São Paulo, como o Nelson Ascher, que também é umexcelente tradutor de poesia. No Nordeste há vários bons poetas, como Ruy EspinheiraFilho e Adriano Espínola. São os nomes que me ocorrem agora, mas eu poderia citarmuitos outros. Enfim, há um nível muito bom de produção poética no Brasil. Tradução intersemiótica Um dos campos mais promissores dos Estudos da Tradução é a traduçãointersemiótica. Ela pode ser definida, seguindo Jakobson, como a transmutação de umaobra de um sistema de signos a outro. A forma mais freqüente se dá entre um sistemaverbal e um não-verbal, como acontece com a passagem da ficção ao cinema, vídeo ehistória em quadrinhos; com a ilustração de livros; com a passagem de texto a publicidade.No entanto, ela pode acontecer também entre dois sistemas não-verbais, como por exemploentre música e dança e música e pintura. Na passagem de texto para outro sistema, temos o seguinte esquema: texto de partida-intérprete-ícone de chegadaatravés de códigos diferentes, isto é texto/imagem estática: desenho, foto, pintura ou texto/imagem animada através de vídeo, cinema 43
  44. 44. Para Rónai, a tradução intersemiótica é “aquela a que nos entregamos ao procurarmosinterpretar o significado de uma expressão fisionômica, um gesto, um ato simbólico mesmodesacompanhados de palavras. É em virtude dessa tradução que uma pessoa se ofendequando outra não lhe aperta a mão estendida ou se sente à vontade quando lhe indicam umacadeira ou lhe oferecem um cafezinho” (1976: 2). A transposição intersemiótica é feita deum sistema de signo para outro, por exemplo, da arte verbal para a música, a dança, ocinema ou a pintura. A semiótica (ver http://www.semiotic.com.br/conceito/semiotica.htme http://www.geocities.com/Eureka/8979/semiotic.htm), para Jakobson, está no centro dadiscussão sobre a tradução, pois esta é uma forma de interpretação de signos. Assim como a tradução intra e interlingual, a tradução intersemiótica tambémprocura, de acordo com Thais Nogueira Diniz (ver Cadernos VII in www.cadernos.ufsc.br), por equivalentes, ou seja, a busca, em um determinado sistema semiótico, de elementos cuja função se assemelhe à de elementos de outro sistema de signos. Entretanto, esse procedimento ainda leva em conta a existência de um sentido no texto, que deve ser transportado/traduzido para um outro texto/sistema, isto é, considera-se que o sentido (segundo os Novos Críticos) seja imanente ao texto, provenha de sua estrutura. (Cadernos de Tradução VII) 44
  45. 45. Na tradução intersemiótica, mas também nos demais tipos de tradução discutidosacima, não é possível traduzir tudo. Quando se pensa na passagem do verbal para o visualcomo na adaptação para o cinema do romance Anna Kariênina, de Liev Tolstoi, da peçaHamlet de William Shakespeare, do conto “Emma Zunz”, de Jorge Luis Borges ou dopoema “O padre e a moça”, de Carlos Drummond de Andrade, o intérprete/tradutor precisater, desde o início, uma estratégia de tradução para determinar quais são os componentesmais característicos do texto a ser traduzido entre dois códigos diferentes, pois quando umdos textos de uma tradução não é verbal, a eleição entre as partes que se traduzem e as quese sacrificam é muito mais evidente. Cartaz do filme Hamlet (1948) http://adorocinema.cidadeinternet.com.br/filmes/hamlet-48/hamlet-48.asp 45
  46. 46. De fato, como afirma Osimo: o tradutor intersemiótico, queira ou não, está sendo obrigado a dividir o texto original em partes. No importa como: denotação/conotação, expressão/conteúdo, diálogos/descrições, referências intertextuais/intratextuais etc. A seguir, deve desmontar tais partes do original, encontrar um elemento traduzível em cada uma delas e voltar a montá-las, recriando a coerência e a coesão, que, como já observamos, é a essência de um texto. (In http://www.logos.it/pls/dictionary/linguistic_resources.traduzione_bp?lang=bp)Ou ainda segundo Thais Nogueira Diniz: Mesmo que se estabeleçam equivalentes semânticos para os elementos de dois sistemas de signos diferentes, não se pode abranger todas as nuances de cada um dos sistemas. Por isso, como bem reconhecem todas as teorias de tradução, não se pode encontrar uma correspondência total entre dois textos (sejam eles ou não de sistemas diferentes). Toda tradução irá, portanto, oferecer sempre algo além ou aquém do chamado original, e o sucesso não dependerá apenas da criatividade nem da habilidade, mas das decisões tomadas pelo tradutor, seja sacrificando algo, ou encontrando a todo custo um equivalente. Se nos lembrarmos de que o sentido é o resultado de uma interpretação, de uma leitura, e da função que o texto/tradução terá para a audiência a que se destina, nunca poderemos avaliar uma tradução com critérios de fidelidade. (Cadernos de Tradução VII) Se tomarmos como exemplo a adaptação de um texto literário para o cinema, ointérprete/tradutor deve ter em mente que o texto literário utiliza a palavra enquanto um filme adotaoutros recursos como a imagem, o som. Na realidade, trata-se do uso da palavra escrita e da palavrapronunciada ou dos gestos, da música e das expressões no cinema mudo. Para realizar a traduçãofílmica de um texto verbal, vários elementos estão presentes: o diálogo, a ambientação, a trilhasonora, a montagem, o enquadramento, a iluminação, a cor, o plano, a perspectiva etc. Osimo dizque “para realizar a tradução fílmica de um texto verbal, é imprescindível fazer uma subdivisãoracional do original para decidir quais elementos da composição fílmica são confiáveis para 46
  47. 47. tradução de determinados elementos estilísticos ou narratológicos do original”. (Inhttp://www.logos.it/pls/dictionary/linguistic_resources.traduzione_bp?lang=bp). Exemplos de tradução intersemiótica não nos faltam. Pensemos na adaptação parahistória em quadrinhos do romance Em busca do tempo perdido, de Marcel Proust, do livrode história e sociologia Casa Grande e Senzala, de Gilberto Freire; adaptação para o vídeode crônicas de Nelson Rodrigues e Luis Fernando Veríssimo, do romance Grande Sertão:Veredas, de João Guimarães Rosa; adaptação para o teatro do romance Macunaíma, deMário de Andrade; adaptação para o balé de conto de fada “A bela adormecida”, doromance Don Quijote, de Miguel de Cervantes ou dos poemas João Cabral de Melo Netomusicados por Chico Buarque de Holanda.http://www2.uol.com.br/chicocesar/novidades/livro.htmEm busca do tempo perdido Casa grande e senzalahttp://www.zahar.com.br/cat_detalhe.asp?id=0842&ORDEM=Ahttp://www.sodiler.com.br/prod-detail.cfm?CodProd=27890&departamento=1 47
  48. 48. Antes de finalizar, vale lembrar que há outros tipos de tradução como: 1) a tradução automática 2) a tradução simultânea e 3) a tradução consecutiva. Por tradução automática entende-se a tradução feita por meios mecânicos, ou seja,sem a intervenção direta de um ser humano. Quando surgiu, na década de 50 do século XX,a tradução automática era feita através de programas elaborados para grandes computadoresmas com a invenção do computador pessoal e o progressivo aumento de sua capacidade evelocidade de processamento de dados, ela é feita através de programas de softwaredestinados a rodar nos computadores pessoais facilmente acessíveis aos consumidores.Esses programas são especialmente desenhados para lidar com certos pares de línguas, sejadiretamente, seja através de uma língua intermediária. Esses programas costumam seroferecidos em duas versões atualmente: uma livre, e mais limitada, que se pode copiar nainternet e outra paga, com mais recursos, destinadas sobretudo a empresas. Alguns dessesprogramas conseguem um surpreendente grau de exatidão e rapidez, sobretudo para textostécnicos e outros tipos textuais bem definidos, com sintaxe, vocabulário e fraseologia bemdefinidos. Em textos mais híbridos e com grande variedade vocabular, sintática efraseológica, como os textos literários, de humor e de publicidade, a eficácia dessesprogramas é limitada, ainda quando, em sua maioria, eles possam ser ¨treinados¨ para lidarcom dificuldades específicas. Os aspectos polissêmicos do uso do vocabulário, as figuras delinguagem, os jogos de palavras e outras complexidades normais nesses tipos de textodificultam, ou tornam inócuo, o uso da tradução automática. Quanto à tradução oral, ou interpretação, ela, como a literatura oral, existiu desde o início do surgimento das línguas e do contato entre povos de línguas diferentes, desempenhando um papel importante nas trocas comerciais e culturais, para não dizer na solução de problemas bélicos e diplomáticos. Nos tempos modernos, com a chamada globalização, ocorre um verdadeiro florescimento da interpretação com a multiplicação de colóquios e congressos internacionais. Cabe recordar a diferenciação paulatina entre a figura do intérprete e a do tradutor. Até o século XI, aproximadamente, era chamado 48
  49. 49. intérprete quem fazia tradução, tanto oral quanto escrita. A partir do século XII, começa-se a falar de intérprete como aquele que faz tradução oral, ou seja interpretação, e de tradutor, como aquele que faz tradução escrita. O ponto comum é a o trabalho com texto e com língua estrangeira, pois segundo Melanie Metzger, “a tradução e a interpretação lidam com um determinado texto em outra língua” (2002: 3). O intérprete atua com a forma oral ou gestual e instantânea ou consecutiva detradução, já o tradutor, que trabalha com o texto escrito, sempre terá mais tempo paraconsultar os instrumentos do ofício, diferentemente do intérprete. O intérprete, segundoMounin “deve ser um orador e até mesmo um ator: um virtuoso, um artista” (1965: 179).Há dois tipos básicos de interpretação, que exige do intérprete habilidades específicas: ainterpretação simultânea e a interpretação consecutiva. Na interpretação simultânea, ointérprete deve ter uma memória excelente, rapidez de intuição, além, obviamente, doconhecimento da língua e da cultura da qual traduz, requisito fundamental para todatradução. A tradução simultânea tem a vantagem de não aumentar o tempo do evento masexige recursos técnicos como uma cabine para o intérprete e fones de ouvido para osassistentes. A tradução consecutiva, por sua vez, não exige nenhum recurso tecnológicoadicional. Nela, o intérprete escuta trechos do texto a ser traduzido, eventualmente com oauxílio de notas, e em seguida produz um texto em suas próprias palavras e que não seguenecessariamente as frases do orador. Tanto na tradução simultânea quanto na consecutiva éfreqüente que o texto a traduzir seja colocado previamente à disposição do intérprete. Cabeassinalar, no entanto, que muitas vezes o orador improvisa e se afasta do texto entregue aointérprete.ConclusãoAinda hoje, quando se pensa em tradução, apesar de o assunto ser objeto de um númerocrescente de pesquisas acadêmicas e de ser ensinada em diferentes disciplinas do currículo,tanto em graduação como em pós-graduação, é comum que ela seja considera como umsimples ato mecânico. Na realidade, como se viu anteriormente, as coisas se passam demaneira diferente, pois em qualquer tipo de tradução as palavras não possuem sentidoisoladamente, mas dentro de um contexto e por estarem dentro deste contexto. Ela pode, 49
  50. 50. portanto, ser considerada, uma quinta habilidade (ver “Tradução e ensino de línguas”. In:Bohn, Hilário I.; Vandresen, Paulino. (Org.). Tópicos em lingüística aplicada.Florianópolis: Editora da UFSC, 1988, p. 283-291.) A tradução também pode serconsiderada uma atividade paradoxal por excelência. Aliás, como afirmou José Ortega yGasset (linkar para http://www.ensayistas.org/filosofos/spain/ortega/).José Ortega y Gasset (1883-1955)http://www.ensayistas.org/filosofos/spain/ortega/Em “Esplendor y Miseria de la Traducción” (Obras, Madrid, Espasa-Calpe, 1943), ela é, eaqui ele fala especialmente da tradução interlingual, em princípio, impossível. Pois, selemos num texto brasileiro a palavra "floresta", logo pensamos na floresta amazônica, nummundo de vegetação luxuriante e diversificada, ou nas queimadas que a devastamatualmente, enquanto um alemão, quando lê wald, vê mentalmente uma floresta européia,regular e uniforme, com as árvores mais agrupadas por espécies. Mas, impossível emprincípio, a tradução tem de ser feita. E Ortega y Gasset afirma então que tudo o que ohomem realiza de grande situa-se no campo do impossível.Como se pode perceber, a complexidade permeia os três tipos de tradução. Traduzir, sejadentro da mesma língua, entre línguas ou entre sistemas semióticos, é uma tarefa que exigeinterpretação, escolhas, leitura atenta e a bibliografia acerca deste assunto é extensa. Em umsentido mais amplo, Osimo argumenta que “traduzir equivale a racionalizar. Se o original 50
  51. 51. contém alguns elementos ambíguos ou polissêmicos, o tradutor deve, em primeiro lugar, lê-los, identificá-los, interpretá-los e, a seguir, traduzir o traduzível de uma maneira racional”.E se para Torop a tradução pode ser considerada qualquer tipo de compreensão, para SusanSontag, “tradução diz respeito a diferenças. Um modo de enfrentar, aprimorar e, sim, negara diferença – mesmo se for também um modo de afirmar diferenças” (2005: 432), pois afinalidade da tradução é sempre “ser resgatado da morte ou da extinção” (p. 433). Ademais,devemos ter em mente que para os três tipos de tradução propostos por Jakobson(intralingual, interlingual e intersemiótico), as possibilidades de traduções são múltiplas ediferentes, pois não existe tradução única. Podemos concluir que a multiplicidade dastraduções, junto com a melhoria progressiva de sua qualidade, pode contribuir para que opatrimônio cultural acumulado esteja ao alcance do público. 51
  52. 52. BibliografiaBassnett, Susan. Estudos da tradução. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2003.Tradução de Vivina de Campos Figueiredo.Borges, Jorge Luis. Obras completas. Buenos Aires: Emecé, 1976.Campos, Haroldo de. Metalinguagem e outras metas. São Paulo: Perspectiva, 2004.Costa, Walter Carlos. Tradução e ensino de línguas. In: Bohn, Hilário I.; Vandresen,Paulino. (Org.). Tópicos em lingüística aplicada. Florianópolis: Editora da UFSC, 1988, p.283-291.Faveri, Cláudia Borges de, & Torres, Marie-Hélène (orgs.). Clássicos da teoria datradução francês/português, vol.2. Florianópolis: Núcleo de Tradução, 2004.Fragmentos 1. UFSC, Florianópolis, 1984.Holanda, Sérgio Buarque. Raízes do Brasil. Rio de Janeiro: José Olympio, 1973.Jakobson, Roman. “Aspectos lingüísticos da tradução” in Lingüística e Comunicação. SãoPaulo: Cultrix, 1975. Tradução de Izidoro Blikstein e José Paulo Paes, pp. 64-5.Metzger, Melanie. Sign Language Interpreting. Deconstructing the Myth of Neutrality.Washingtom: Gallaudet University Press, 2002.Mounin, Georges. Os problemas teóricos da tradução. São Paulo: Cultrix, 1965. Traduçãode Heloysa de Lima Dantas.______________. Teoria e storia della traduzione. Torino: Einaudi, 1965. Tradução deStefania Morganti.Paz, Octavio. Traducción: literatura y literalidad. 3ª edição. Barcelona: Tusquets, 1990.Rónai, Paulo. A tradução vivida. Rio de Janeiro: EDUCOM, 1976.Schleiermacher, Friedrich. “Sobre os diferentes métodos de tradução”. Tradução deMargarete von Mühlen Poll. In: Clássicos da teoria da tradução – vol. 1: alemão-português. Florianópolis: UFSC, 2001, p. 26-87.Sontag, Susan. Questão de ênfase. São Paulo: Companhia das Letras, 2005. Tradução deRubens Figueiredo.Steiner, George. Depois de Babel: questões de linguagem e tradução. Curitiba: EditoraUFPR, 2005, pp. 533. Tradução de Carlos Alberto Faraco. 52
  53. 53. Sites sobre tradução e outroshttp://www.todaytranslations.com/http://www.answers.com/translationwww.cadernos.ufsc.brhttp://www.instituto-camoes.pt/cvc/olingua/05/index.htmlwww.intralinea.ithttp://www.erudit.org/revue/meta/http://www.machadodeassis.org.br/http://www.logos.it/pls/dictionary/linguistic_resources.traduzione_bp?lang=bphttp://traduccion.rediris.es/historia.htmhttp://www.scientiatraductionis.ufsc.br/http://www.ctts.dcu.ie/trasnairchsspage.htmlSites sobre tradutoreswww.dicionariodetradutores.ufsc.brhttp://www.sintra.org.br/site/index.php?pag=noticiasDicionários onlinehttp://www.freelang.net/references.htmlWebsters Online Dictionary with Multilingual Thesaurus Translation – inclui traduçõespara várias línguas, inclusive para a Língua Norte-Americana de Sinais, e para várioscódigos (entre outros, binário e Morse)http://www.websters-online-dictionary.org/definition/translationASL/Sign Dictionary - 2,515 palavras do inglês-signoshttp://www.handspeak.com/tour/index.phpDicionário da língua de sinais holandesahttp://www.effathaguyot.nl/index.php?sid=79Gran diccionario español-portugués português-espanhol Espasa Calpe, S.A., Madrid,2001. Versão onlinehttp://www.wordreference.com/ptes/ 53
  54. 54. 54

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