Potugues - Libras Completo

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    Potugues - Libras Completo - Presentation Transcript

    1. Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais 9o TheoreTical issues in sign language research conference florianópolis, Brasil, Dezembro 2006. Organizadoras Ronice Müller de Quadros Maria Lúcia Barbosa de Vasconcellos
    2. Sumário Apresentação 4 Arqueologia das Línguas de Sinais: Integrando Lingüística Histórica com Pesquisa de Campo em Línguas de Sinais Recentes 22 Ted Supalla Raízes, folhas e ramos – A tipologia de línguas de sinais 30 Ulrike Zeshan Um estudo interlingüístico de segmentação da palavra em três línguas de sinais 52 Diane Brentari, Ronnie Wilbur Revertendo os verbos reversos e seguindo em frente: sobre concordância, auxiliares e classes verbais em línguas de sinais 65 Ronice Müller de Quadros, Josep Quer Repensando classes verbais em línguas de sinais: O corpo como sujeito 82 Irit Meir, Carol Padden, Mark Aronoff e Wendy Sandler A realização morfológica dos campos semânticos 102 Irit Meir Posse e existência em três línguas de sinais 117 Deborah Chen Pichler, Katharina Schalber, Julie Hochgesang, Marina Milković, Ronnie B. Wilbur, Martina Vulje, Ljubica Pribanić Uma Comparação Lexical de Línguas de Sinais no Mundo Árabe 130 Kinda Al-Fityani, Carol Padden Dêixis, anáfora e estruturas altamente icônicas: Evidências interlingüísticas nas línguas de Sinais Americana (ASL), Francesa (LSF) e Italiana (LIS) 140 Elena Pizzuto , Paolo Rossini , Marie-Anne Sallandre, Erin Wilkinson
    3. Tipos de Representação em ASL 159 Paul G. Dudis Estudos de aquisição de línguas de sinais: passado, presente e futuro 191 Diane Lillo-Martin Modalidade e Aquisição da Língua: Estratégias e Restrições na Aprendizagem dos primeiros sinais 211 Richard P. Meier Aquisição de concordância verbal em HKSL: Opcional ou obrigatória? 225 Gladys TANG, Scholastica LAM, Felix SZE, Prudence LAU, Jafi LEE Aquisição bilíngüe da Língua de Sinais Alemã e do alemão escrito: Ausência de sincronia no desenvolvimento e contato com a língua 249 Carolina Plaza Pust, Knut Weinmeister Gesticulação e aquisição da ASL como segunda língua 275 Sarah Taub, Dennis Galvan, Pilar Piñar, Susan Mather Variação na língua de sinais americana: o papel da função gramatical 286 Ceil Lucas e Robert Bayley Variação Sociolingüística em Numerais da NZSL 314 David McKee, Rachel McKee, George Major Imagens da Identidade e Cultura Surdas na Poesia em Línguas de Sinais 329 Rachel Sutton-Spence O sinalizante nativo não-(existente): pesquisa em língua de sinais em uma pequena população surda 340 Brendan Costello, Javier Fernández e Alazne Landa Reflexões sobre a língua de sinais e a cultura surda em ambientes de comunicação mediada por computador (CMC): explorações e considerações iniciais 356 Maria Mertzani Glossário 370
    4. Apresentação É com prazer que apresentamos à comu- representadas pela Profª Drª Ronice Muller nidade científica brasileira Questões Teóricas de Quadros e pela Profª Drª Maria Lúcia das Pesquisa em Línguas de Sinais – resultado Vasconcellos, respectivamente. Oportu- de uma seleção dos trabalhos divulgados no no mencionar que, estabelecendo de forma TISLR 9 (Theoretical Issues in Sign langua- concreta a interface entre as duas áreas, a ge Research 9) – 9º Congresso Internacional St. Jerome Publishing Ltd. (www.stjerome. de Aspectos teóricos das Pesquisas nas Lín- co.uk), uma das mais importantes editoras guas de Sinais – sediado pela Universidade especializadas em publicações em Estudos da Federal de Santa Catarina – UFSC, Florianó- Tradução, acaba de lançar o volume 1 de sua polis, SC, em dezembro de 2006. O TISLR, mais recente série, THE SIGN LANGUAGE evento internacional de maior importância TRANSLATOR AND INTERPRETER (ISSN em estudos de línguas de sinais, reuniu pes- 1750-3981): um dos artigos centrais do volu- quisadores de 33 países com várias línguas me (Nadja Grbic, 2007, pp.15-51) apresenta de sinais, trabalhando a partir de diferentes uma análise bibliométrica da pesquisa publi- arcabouços teóricos e metodológicos. Essa 9º cada sobre interpretação de línguas de sinais, edição do evento se voltou, especificamente, selando, de forma definitiva, a relação entre a para um mapeamento das pesquisas em Es- pesquisa em línguas de sinais e os estudos de tudos das Línguas de Sinais desde a década tradução e interpretação. Essa série re-afir- de 60 até 2007; assim sendo, nada mais opor- ma, sobretudo, a importância da tradução em tuno do que compartilhar, com pesquisado- seu papel de refletir e, até mesmo, criar valores res e estudantes brasileiros, o olhar reflexivo sociais e culturais, o que, no caso específico do desse novo campo disciplinar sobre si mesmo presente volume - Questões Teóricas das Pes- – evidência de sua maturação enquanto área quisas em Línguas de Sinais – consolida a pre- específica de estudos – via tradução dos tex- sença do ser surdo não apenas no contexto so- tos selecionados para a língua portuguesa na cial, mas na comunidade científica brasileira. sua variante brasileira. O projeto tem relevância acadêmica e O trabalho de produção deste volume social, uma vez que, ao trazer os textos na foi resultado da cooperação entre duas áreas Língua Portuguesa para o contexto brasileiro de especialização, quais sejam, Estudos Sur- com reflexões sobre as pesquisas nas diversas dos e Estudos da Tradução, áreas essas aqui línguas de sinais - cenário internacional - estará
    5. Apresentação oportunizando as análises comparativas contando com vários pesquisadores integrantes entre as diferentes línguas de sinais, bem destes programas. como contribuindo para a circulação do Maria Lúcia Vasconcellos vem desenvol- saber teórico nesta área específica, a partir de vendo pesquisa em Estudos da Tradução desde iniciativa da UFSC. Os textos traduzidos para início da década de 90, interessando-se, de este volume inauguram vários temas sobre as forma especial pela linguagem da tradução, línguas de sinais no Brasil, possibilitando a o que vem explorando por meio de pesquisa socialização de discussões teóricas, bem como de cunho descritivo, pelo viés da Lingüística a disseminação de terminologias específicas Sistêmico-Funcional hallidayana e por meio em português dessa área de investigação. de atividades de formação de tradutores/as, Ronice Müller de Quadros vem desenvol- nos cursos de Licenciatura e Bacharelado em vendo pesquisas no campo dos Estudos Surdos Letras/Inglês, do Centro de Comunicação e desde 1995, dedicando-se especialmente Expressão – CCE, da UFSC. A tradução deste aos estudos da aquisição da língua de sinais volume resultou do trabalho de uma equipe de Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais no sentido de elucidar questões relativas à tradutores coordenada pela Profª Maria Lúcia, estrutura da Língua Brasileira de Sinais. O in- que contou com a participação de um docente teresse especializado pela Língua Brasileira da UEL – Universidade Federal de Londrina de Sinais possibilitou o projeto de formação (Dr. Lincoln P. Fernandes, também membro do de professores surdos, professores bilíngües colegiado do Programa de Pós-Graduação em e tradutores e intérpretes de língua de sinais Estudos da Tradução - PGET) e graduandos, tanto no nível da graduação, como no nível da mestrandos e doutorandos que trabalham sob a pós-graduação. Na graduação, a Profa. Ronice supervisão da Profª Maria Lúcia, no Programa coordena o primeiro Curso de Licenciatura de Estudos da Tradução/PPGET, no Programa em Letras Língua Brasileira de Sinais que obje- de Pós-Graduação em Inglês/ PPGI e nos cursos tiva formar professores de língua de sinais, de Graduação em Letras. oferecido pela Universidade Federal de Santa O método de trabalho incluiu a formação Catarina (UFSC). Este curso será reeditado da equipe de tradutores, a formação da equipe com uma nova turma de Licenciatura e passará de revisores, a definição dos consultores para a ofertar o Bacharelado, sendo que este último questões terminológicas (Ronice Quadros objetiva formar os tradutores e intérpretes de trabalhando como consultora “natural” do Língua Brasileira de Sinais, contemplando mais projeto), bem como a definição de procedi- oito estados brasileiros. No total, o curso estará mentos de tradução a serem adotados e a seleção formando 950 professores e 450 tradutores do programa de apoio à tradução (PAT) a ser e intérpretes de língua de sinais até 2011. usado nos trabalhos. Além deste curso, a Profa. Ronice coordena o Valem algumas palavras sobre o Programa Inter-Programa de formação de professores de Apoio à Tradução (PAT) selecionado para e pesquisadores com 14 alunos de mestrado os trabalhos. O PAT utilizado, no nosso caso e dois alunos de doutorado com pesquisas específico, foi o Wordfast Versão 5.5 (www. sobre a língua brasileira de sinais em diferentes wordfast.net), um sistema de memória de programas, Programas de Pós-Graduação em tradução criado por Yves Champollion (para Literatura, de Pós-Graduação em Lingüística uma avaliação detalhada do Wordfast ver, e de Pós-Graduação em Estudos da Tradução, Nogueira & Nogueira, 2004 – www.cadernos. 
    6. Apresentação ufsc.br/online/volume14.html). Não é nosso (ver Halliday, 2001, “Towards a theory of objetivo detalhar o funcionamento desse a ‘good’ translation”) do texto de partida, programa; entretanto, salientamos o fato anteriormente textualizado em outra língua. de que, com o uso do Wordfast, os ganhos A noção de tradução como retextualização de produtividade foram grandes, sobretudo foi proposta por Coulthard (1986, 1992) e pelo fato de o trabalho ter sido feito com um explorada por Costa (1992), que desenvolveu conjunto de artigos sobre o mesmo tema o seguinte argumento: “por meio de tradução, (pesquisa em línguas de sinais) e por ter sido um dado texto adquire sua expansão máxima, desenvolvido por uma equipe de tradutores: o uma vez que transcende os limites lingüísticos processo exigiu uma rigorosa uniformização dentro dos quais foi concebido” (p. 138, terminológica, o que foi possibilitado por tradução nossa), tornando-se o ponto de meio dos recursos de memórias de tradução partida que possibilita ao tradutor produzir e criação de glossários, disponibilizados pelo um novo texto no contexto tradutório Wordfast. da chegada: aqui sua mais importante Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais Cumpre ressaltar que o projeto de decisão instala-se na dimensão do o que e tradução de Questões Teóricas das Pesquisas para quem retextualizar. As implicações e em Línguas de Sinais contribuiu, de forma conseqüências de tais decisões irão afetar a substancial, como laboratório para os seleção de significados a serem realizados e tradutores-em-formação da UFSC. A partici- a configuração textual da tradução. Decidir pação em um projeto real de tradução – em ‘o que’, ‘para quem’ e, adicionamos, ‘como’, todas as suas etapas, desde o contato inicial são as dimensões que vêem por informar a entre as coordenadoras, passando por todas definição das características textuais de um as etapas intermediárias, incluindo o processo texto a ser traduzido, em um dado contexto negociação de significados e de revisão e, tradutório (Vasconcellos, 1997). finalmente, de entrega do produto à Editora Nesse sentido, os procedimentos adotados Arara Azul – constituiu uma oportunidade neste trabalho de tradução estão intima- didática única que veio por desenvolver, mente ligados às convenções que regem a nos tradutores-em-formação, uma noção de produção de textos do tipo específico aqui profissionalismo que, de outra forma, não trabalhado – textos acadêmicos escritos teriam adquirido. – no contexto de chegada. No contexto dos No que tange o conceito de tradução procedimentos de tradução, é importante que informou os trabalhos, entende-se destacar três preocupações que permearam tradução como uma nova produção textual os trabalhos: (I) a adoção de convenções - certamente vinculada a uma produção genéricas do contexto de chegada; (II) o textual anterior - em novo contexto, em uma uso de nominalizações; e, (III) o uso de nova língua. Nesse sentido, e em termos do procedimento ‘explicitação’. arcabouço teórico hallidayano, entendemos a No que diz respeito ao item (I), o gênero tradução como uma re-textualização, ou seja, em questão é artigo acadêmico, que, no con- embora em uma nova configuração vinculada texto brasileiro (ocidental?), segue a tradição ao novo contexto lingüístico e cultural hegemônica da escrita acadêmica veiculada de recepção, o texto traduzido sempre se em inglês, caracterizada por um uso de lin-  relaciona, no mínimo, ao conteúdo ideacional guagem dita ‘objetiva’, tipicamente despida de
    7. Apresentação colorido ‘emocional’ (ver Bennett, 2007). Em- Com relação ao item (III), o procedi- bora estejamos cientes da ideologia embutida mento conhecido como ‘explicitação’ é uti- nesse tipo de ‘receita’ de discurso - que exclui lizado no sentido a ele atribuído por Blum- a circulação de conhecimento veiculada de Kulka (1986, p. 21): “... redundância semân- forma não canônica - optamos por seguir essa tica ausente no original”, ou seja, explicações convenção. Entretanto, uma vez que a natu- contextualizadoras que objetivam a leitura- reza da interface em que Questões Teóricas das bilidade do texto, tendo em vista os leitores Pesquisas em Línguas de Sinais foi produzido pretendidos. Inclui-se como ‘explicitação’ o – Estudos Surdos/Estudos da Tradução – é ine- uso de vários recursos, desde recursos coe- rentemente não-essencialista e busca o encon- sivos explícitos, até a adição de segmentos tro do “outro”, tentamos relativizar esse poder mais longos, ou glosas explicativas para con- do discurso hegemônico da escrita acadêmica, ceitos ou para ‘empréstimos’. A adoção des- respeitando as diferenças culturais manifestadas se procedimento, que Blum-Kulka (ibid.) no discurso dos artigos aqui agrupados. Como sugere ser um dos ‘universais’ da tradução, resultou em um maior número de palavras Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais ilustração, citamos o artigo de Kinda Al-Fityani e Carol Padden, “Uma Comparação Lexical de nos textos traduzidos, como pode ser ates- Línguas de Sinais no Mundo Árabe”, cujo estilo tado pelos dados gerados pelo programa metafórico, não usual em papers acadêmicos do de apoio ao tradutor utilizado – Word Fast. mundo ocidental, foi considerado na produção Como ilustração, citamos os dados referen- do texto traduzido, numa tentativa de levar em tes ao texto de Al-Fityani et al, nas Tabelas conta sua heterogeneidade discursiva e marcar 1 e 2 abaixo: sua dimensão cultural. C:Documents and SettingslautenaiAl-Fityani_Padden_EN.doc Quanto ao item (II), uma questão central Scanned: document, footnotes, headers/footers, textboxes. que permeou os trabalhos de tradução diz Analogy segments words char. % respeito ao fato de os textos em sua configu- Repetitions 10 15 90 0% ração no pólo de partida - inglês - terem sido 100% 0 0 0 0% “escritos-para-serem-falados”, já que foram 95%-99% 0 0 0 0% produzidos para serem apresentados no for- 85%-94% 0 0 0 0% mato “palestras” e/ou “comunicações”, no 75%-84% 0 0 0 0% _0%-74% 313 4601 28774 100% TISLR 9. Na produção dos textos traduzidos, Total 323 4616 28864 o ‘modo’ do discurso (ver ‘modo’ do discur- (character so, como uma das variáveis do conceito de count includes spaces) ‘registro’, em Halliday, 1989) – “escrito-para- ser-falado” – mudou, então, para “escrito- Tabela 1: Dados gerados a partir do texto-fonte para-ser-lido”, o que lhe conferiu algumas características não presentes em textos ditos Como é possível observar nos segmentos orais (Koch, 1997, p. 62), como, por exemplo, salientados em negrito nas tabelas 1 e 2, o nú- maior elaboração, densidade informacional, mero de palavras do texto-fonte corresponde complexidade oracional (sobretudo com o a 4616, enquanto o número de palavras do uso de orações complexas e subordinação), texto-alvo corresponde a 5038 ocorrências, uso de voz passiva, densidade lexical e uso de variação quantitativa essa que se constitui nominalizações nas traduções. como um dos parâmetros para aferir a uti- 
    8. Apresentação lização do procedimento de ‘explicitação’ na (III) problemas de língua e estilo (fluência, tradução. adequação ao público-alvo, uso de registro apropriado ou sub-língua, uso apropriado C:Documents and SettingslautenaiAl-Fityani_Padden_PT.doc de expressões idiomáticas, uso apropriado da Scanned: document, footnotes, headers/footers, textboxes. “mecânica” da escrita, envolvendo pontua- Analogy segments words char. % ção, espaçamento, tipicidades editoriais); e, Repetitions 102 329 2053 7% finalmente, (IV) problemas de apresentação 100% 0 0 0 0% 95%-99% 0 0 0 0% da tradução (layout, tipografia, organização). 85%-94% 0 0 0 0% Nos trabalhos de revisão de Questões Teóri- 75%-84% 0 0 0 0% cas das Pesquisas em Línguas de Sinais, a re- _0%-74% 226 4709 29083 93% visão do tipo “Grupo A” – cotejamento com Total 328 5038 31136 o texto-fonte – foi feita pelos coordenadores (character count includes spaces) de cada uma das quatro equipes de tradução, pela equipe de revisão e pela coordenado- Tabela 2: Dados gerados a partir do texto-alvo Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais ra geral; a revisão do tipo “Grupo B” leitu- ra apenas do texto alvo – foi feita por esses Ressalta-se o trabalho dos revisores dessa coordenadores, pela equipe de revisão e pela edição. O trabalho de revisão foi informa- coordenadora geral da tradução e, em última do pelos parâmetros de revisão sugeridos por instância, legitimada pela coordenadora do Mossop 2001 (Editing and Revising for Trans- Projeto Libras, Ronice Müller de Quadros, lators, St. Jerome, United Kingdom). Mossop sobretudo quanto à questão da terminolo- (ibid. pp. 100-112) sugere seus parâmetros a gia a ser adotada. Buscou-se, assim, garantir partir de pesquisa empírica sobre o que ele uma tradução que atendesse aos anseios de chama de “tipos de erros mais comuns” em seu público-alvo, a saber, pesquisadores, es- tradução. Embora o autor utilize o termo tudantes e todos interessados em uma visão “transferência” – do qual discordamos, por teórica dos estudos de língua de sinais. não ser compatível com a noção de tradução As organizadoras do volume estão cien- aqui adotada, como produção textual e não tes de sua responsabilidade no que tange à como transferência de significados – para seleção dos textos aqui organizados e o traba- descrever as ocorrências de erros, ele conse- lho de sua tradução, bem como da relevância gue sistematizar os problemas tipicamente do presente volume em termos da dissemi- encontrados e sugerir soluções para sua re- nação de terminologia a ser utilizada pela co- visão. Os problemas elencados são de quatro munidade científica da área, em língua por- tipos, sendo divididos em dois grandes gru- tuguesa. No mínimo dois motivos atestam a pos de trabalho de revisão, a saber: Grupo A relevância de Questões Teóricas das Pesquisas – que envolve leitura comparativa ou coteja- em Línguas de Sinais: (I) as traduções aqui mento do texto-fonte com o texto-alvo: (I) apresentadas foram utilizadas como ‘texto- problemas de ‘transferência’ de significado fonte’ para a tradução ‘indireta’ para Libras; (precisão; totalidade); (II) problemas de con- e (II) os termos aqui que escolhemos “pro- teúdo (lógica e fatos); Grupo B – que envolve duzir” irão, certamente, influenciar a produ- leitura unilingual, ou seja, já apenas do texto- ção e consumo de conhecimento na área, no  alvo enquanto entidade com status próprio; contexto brasileiro. Krieger & Finatto (2004)
    9. Apresentação apontam, com propriedade, a importância aqui publicados, com vistas a facilitar a comu- do processo denominativo para as atividades nicação na área, em termos de oferta de uma de conceitualização de uma área, explicando linguagem a ser compartilhada por pesquisa- o papel das terminologias na fixação e na cir- dores e estudantes interessados em pesquisa culação do saber científico: em línguas de sinais, no contexto de falantes da língua portuguesa. Apresentamos, a seguir O léxico temático configura-se, portan- e a título de ilustração, algumas soluções en- to, como um componente lingüístico, não contradas na tradução de termos centrais (para apenas inerente, mas também a serviço de mais detalhamentos, favor consultar o glossário comunicações especializadas, posto que os oferecido no final deste volume). Esclarecemos termos transmitem conteúdos próprios de que as decisões quanto aos procedimentos cada área. Por isso, os termos realizam duas adotados foram inspiradas pelo conjunto de funções essenciais: a de representação e a de possíveis estratégias tipicamente utilizadas por transmissão do conhecimento especializado. tradutores profissionais elencadas por Baker Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais (2004, p. 17) (1992, p. 34). Em alguns casos, a decisão das organizadoras do volume, em negociações com É nesse contexto que Questões Teóricas das a equipe de tradução, foi fazer uso de “emprés- Pesquisas em Línguas de Sinais busca oferecer timos” – introduzindo, em português, o termo uma contribuição, por meio da construção e em sua configuração morfológica na língua de apresentação de um glossário – aqui definido partida, o inglês, muitas vezes com o acom- como “... repertório de unidades lexicais de panhamento de uma glosa, como foi o caso, uma especialidade” (Krieger & Finatto, 2004, por exemplo, de “línguas pro-drop (línguas de p. 51), que reflete um panorama da produção sujeito nulo)” (Quadros & Quer) (ver métodos e do pensamento nacional e internacional de tradução em Vinay & Darbelnet 1958/1995, da pesquisa em línguas de sinais, conforme pp.30-40). Em outros casos, uma tradução manifestada nos textos selecionados para literal, como em “body-anchored verbs”, em compor Questões Teóricas das Pesquisas em cuja tradução foram feitos, apenas, ajustes Línguas de Sinais – base de dados para o corpus devidos aos diferentes sistemas lingüísticos, textual - centrando-se no léxico especializado nesse caso, mudança na ordem das palavras: e freaseologias típicas da área. O pesquisador “verbos ancorados ao corpo” (Meir). Outra responsável pela elaboração do glossário solução comumente adotada foi a recriação, em apoiou-se em ferramentas eletrônicas: Word- português, de um termo em inglês, de tal forma Fast, o programa de memória de tradução a explicar o sentido implícito na expressão da utilizado e a suíte de programas WordSmith língua fonte, como em “bilingual bootstrap- Tools, um software de análise lexical para ping” (que sugere sucesso e facilidade, por um PCs, criado por Mike Scott e publicado pela indivíduo, no processo de aquisição bilíngüe, Oxford University Press desde 1996, agora em com pouca ou nenhuma ajuda externa), retex- sua versão beta 5.0 (esclarecemos que a versão tualizado como “desencadeamento bilíngüe” utilizada foi a 4.0). (Pust e Weinmeister). O glossário, organizado em ordem alfa- Finalmente, cumpre observar que os bética, buscou representar os termos-chave e termos do glossário são apresentados com conceitos que se fizeram presentes nos artigos ilustração, a cada entrada, de sua ocorrência 
    10. Apresentação nos textos, tanto texto-fonte como texto-alvo, devido aos processos lingüísticos de mudan- para facilitar seu entendimento em seu habitat ça, mas talvez devido à natureza das próprias natural. línguas de sinais. O autor explora essas formas Resta, finalmente, apresentar os trabalhos que, como apontado por ele, incluem apon- que compõem Questões Teóricas das Pesquisas tadores espaciais, direção de movimento do em Línguas de Sinais. Os artigos selecionados verbo como um marcador de concordância e representam diferentes áreas da lingüística, o uso de configurações de mão classificadoras. bem como suas possíveis interfaces. Os temas Como resultado de pesquisa interlingüística abordados anunciam novas perspectivas nos envolvendo 15 línguas de sinais que surgi- estudos das línguas de sinais de questões que ram naturalmente em diferentes partes do são vistas e revistas, além de temas completa- mundo, Supalla consegue mostrar que todas mente originais. Os artigos dos palestrantes as línguas utilizam localização e movimento convidados, Ted Supalla, Ulrike Zeshan, Paul através do espaço de maneira similar, para Dudis, Diane Lillo-Martin e Richard Meier marcar concordância gramatical com o su- Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais estabeleceram uma divisão “natural” entre as jeito e o objeto e, com base nesses resulta- temáticas abordadas. Iniciamos com uma vi- dos, sugere que, devido a essas semelhanças são histórica dos estudos das línguas de sinais, entre línguas de sinais não relacionadas, partimos para as análises no campo da fono- falantes de línguas de sinais mutuamente logia, morfologia, sintaxe e semântica; vamos ininteligíveis são capazes de desenvolver para o bloco das interfaces da lingüística com um pidgin sinalizado (denominado sinal outros campos de investigação, com um foco internacional) que conserva tais estruturas nos estudos de aquisição da língua de sinais, morfológicas. Finalmente, observa que, na além de outras interfaces. Estes textos repre- pesquisa histórica e comparativa, é possível sentam algumas possibilidades das temáticas observar tanto processos de divergência, a serem investigadas na Língua Brasileira de quanto de convergência entre línguas de Sinais. Portanto, apresentam, de certa forma, sinais internacionais e tanto os processos impacto no desenvolvimento das pesquisas comuns a todas as línguas como processos no Brasil. específicos às línguas de sinais. O texto de abertura do volume, escrito A seguir, em “Raízes, folhas e ramos – A por Ted Supalla – “Arqueologia da Língua de tipologia de línguas de sinais”, Ulrich Zeshan Sinais: Integrando Lingüística Histórica com salienta o aumento de disponibilidade de da- Pesquisa de Campo em Línguas de Sinais Jo- dos de várias línguas de sinais ao redor do vens” – explora a interface entre a lingüística mundo como fator que possibilitou, pela pri- histórica e a pesquisa de campo para mostrar meira vez na história da pesquisa em língua a possibilidade de uma nova abordagem para de sinais, a ampliação do banco interlingüís- a arqueologia da língua de sinais, por meio tico de dados para realizar estudos tipoló- de um conjunto alternativo de ferramentas e gicos significativos entre línguas de sinais. de uma explicação alternativa para as formas Sua contribuição para a discussão se dá em atuais. Supalla argumenta que uma arqueo- termos de oferta de um estudo que resume logia deve reconhecer a existência de formas e exemplifica os importantes resultados que pré-determinadas comuns ao longo da história emergiram da pesquisa comparativa e siste- 10 das línguas de sinais que podem surgir não mática de línguas de sinais ao longo dos últi-
    11. Apresentação mos anos. Zeshan faz um passeio descritivo que informam o estudo são: Hipótese 1 - os e analítico, em oposição a um mero relatório sinalizantes demonstrarão maior sensibilida- sistemático e exaustivo de todo o campo de de com informações simultâneas e restrições estudo, examinando a nova sub-disciplina de fonológicas específicas da língua de sinais tipologia de língua de sinais sob uma varie- (LS) – tais como a distribuição de configu- dade de perspectivas. Observa, entre outras rações de mão (CMs), pontos de articulação fontes, aquelas cuja confluência cria o cam- (PAs) e movimentos (Ms) – do que os não- po de tipologia de língua de sinais (as “raí- sinalizantes; e Hipótese 2 – a natureza visual zes”, nos termos da metáfora do título), as do sinal fará com que tanto falantes, como si- diferentes maneiras de se fazer tipologia de nalizantes utilizem a informação em nível da língua de sinais e as metodologias associadas palavra para seus julgamentos na LS, apesar (os “ramos”) e alguns dados fascinantes e seu do fato de o trabalho em uma língua falada significado tipológico e teórico (as “folhas”). mostrar que falantes estão pré-dispostos a O autor organiza seu texto em quatro partes, usar seqüências de sílabas (por exemplo, o Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais que propõem: (i) apresentar a tipologia de pé) para fazer julgamentos de segmentação língua de sinais, concentrando a atenção nos da palavra nas línguas faladas. A Hipótese objetivos e metodologias da área; (ii) ilustrar 1 foi parcialmente confirmada: sinalizantes os tipos de resultados que emergem dos estu- são mais sensíveis às informações simultâ- dos interlingüísticos em línguas de sinais; (iii) neas no sinal do que não-sinalizantes. A Hi- examinar exemplos dos resultados de estudos pótese 2 também foi confirmada: não-sina- comparativos amplos, assim como dados de lizantes adaptaram-se às estratégias de LSs línguas de sinais utilizadas em comunidades ao fazerem julgamentos de segmentação da com surdez hereditária; e, finalmente, (iv) palavra na modalidade visual. mostrar, no contexto de uma questão teori- Ronice Müller de Quadros e Josep Quer camente importante a respeito da natureza revisam – em seu artigo “Revertendo os ver- da linguagem humana na modalidade visu- bos reversos e seguindo em frente: sobre al-gestual, como a ampliação do banco de concordância, auxiliares e classes verbais em dados na tipologia de língua de sinais pode línguas de sinais” – as idéias principais das conduzir a pontos teoricamente desafiado- diferentes abordagens sobre a concordância res. Como consideração final, Zeshan chama verbal em LS e aperfeiçoam algumas delas, a atenção do leitor para o impacto, para além contribuindo para uma caracterização mais da lingüística, que a pesquisa em tipologia de precisa da concordância, da tipologia verbal e língua de sinais tem em comunidades surdas, dos chamados predicados auxiliares nas LSs. em todo o mundo. Ao revisitar a classificação tripartite padrão O texto de Diane Brentari e Ronnie Wil- dos verbos da língua de sinais, que é baseada bur faz um estudo interlingüístico de segmen- na suposição da diferença entre a concordân- tação da palavra em três línguas de sinais, no cia exibida por verbos espaciais e aquela exi- qual os autores analisam as estratégias de seg- bida por verbos de concordância, os autores mentação da palavra utilizada em 3 grupos questionam essa diferença, mostrando que de sinalizantes surdos (ASL, HZJ e ÖGS) e 3 os predicados espaciais que expressam mo- grupos de ouvintes não-sinalizantes (falantes vimento e os verbos de concordância recor- de Inglês, Croata e Austríaco). As Hipóteses rem ao mesmo tipo de elemento morfológico 11
    12. Apresentação para realizar o suposto tipo diferente de con- espacial), com argumentos pessoais (con- cordância: TRAJETÓRIA (PATH). Confor- cordância de pessoa), ou ambos; (b) os pre- me afirmam, a contribuição semântica desse dicados auxiliares podem concordar, apenas, morfema nas duas classes seria essencialmen- com argumentos pessoais/animados (con- te a mesma: em verbos espaciais, as posições cordância de pessoa); (c) os verbos reversos (slots) iniciais e finais de TRAJETÓRIA estão são verbos lexicais manuais, cujas trajetórias alinhadas com as localizações e, em verbos de são determinadas pela concordância espacial concordância, estão alinhados com os loci de e não pela concordância de pessoa gramati- sujeito e objeto. Visto que os verbos de con- cal; (ii) a concordância com traços locativos cordância parecem denotar transferência de e de pessoa gramatical é, com freqüência, in- um tema ou um sentido literal ou abstrato, distinguível na superfície, embora a estrutura estabelece-se, então, a generalização semânti- do argumento de cada predicado imponha ca que os espaços do morfema direcional de condições de licenciamento, em que o ar- TRAJETÓRIA podem ser ocupados por pa- gumento-sujeito de um predicado manual Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais péis temáticos fonte e alvo em ambas as clas- deve ser licenciado pelo traço de pessoa; e, ses de predicados. Para verbos espaciais, isso finalmente, (iii) existe, ainda, ambigüidade é relativamente direto; para verbos de con- do locus como localização ou R-locus (por cordância, fonte e alvo são restritos a [+hu- exemplo, TELL [dizer] com concordância de mano], podendo, assim, ser renomeados pessoa gramatical vs. TELL com concordân- como agente e benefactivo, respectivamente. cia locativa no argumento-ALVO), havendo Quadros e Quer mostram que, por mais atra- necessidade de mais pesquisas para se de- ente que esse quadro possa ser, ele também se terminar até que ponto um locus atribuído depara com alguns sérios desafios, dentre os a um referente animado pode ser ambíguo, quais, provavelmente, o mais explorado é o entre um locus de pessoa gramatical ou um problema da subclasse dos verbos de concor- locus espacial. dância chamados “reversos” (backwards): em Em “Repensando classes verbais em lín- tais predicados, o alinhamento da trajetória guas de sinais: o corpo como sujeito”, Irit não é com o sujeito e o objeto, mas com a Meir, Carol Padden, Mark Aronoff e Wendy fonte e o alvo, o que resulta em uma trajetória Sandler lançam um novo olhar sobre a aná- que vai do locus do objeto ao locus do sujei- lise tradicional das classes verbais em línguas to. Para examinar essa questão e apresentar e de sinais. Para tanto, re-examinam o papel do sustentar seus argumentos, os autores discu- corpo e das mãos nos diversos tipos de verbos tem evidências recentes a partir da Língua de em ASL e ISL, voltam à classificação dos ver- Sinais Brasileira (LSB) e da Língua de Sinais bos nessas línguas e oferecem uma maneira Catalã (LSC). Os resultados de seus estudos alternativa de caracterizar estas classes: en- demonstram que: (i) o quadro que emerge quanto a análise tradicional se concentra no sobre concordância e classes verbais em LSs é papel das mãos na codificação das proprie- substancialmente modificado, com relação às dades gramaticais relevantes (as mãos são o suposições atuais, sendo possível afirmar que articulador ativo na língua de sinais e elas (a) os verbos não simples (“espaciais” + “de concentram a maior parte da carga informa- concordância”) podem, em geral, concordar cional contida no sinal), esses pesquisadores 12 com argumentos locativos (concordância propõem uma nova classificação dos verbos
    13. Apresentação em língua de sinais, observando não somen- nadas pelo campo semântico em que ele está te o que as mãos fazem, mas o papel que o sendo usado. Meir é cauteloso ao deixar claro corpo tem nas diferentes classes verbais. Afir- que não pretende sugerir a existência de um mam que a análise por eles proposta apresen- morfema específico na língua que codifique o ta vantagens, por ser capaz de explicar a pe- campo semântico ou indique o uso metafóri- culiaridade tipológica da concordância ver- co. Ao invés disso, afirma, diferentes campos bal em língua de sinais (a proeminência do semânticos possuem diferentes propriedades objeto em relação ao sujeito na concordância morfológicas na LSI, refletidas nas proprie- verbal) e a razão de algumas formas verbais dades morfológicas dos verbos utilizados serem mais complexas que outras, em rela- nesses campos. No desenvolvimento de seu ção à competição entre os diferentes papéis argumento, o autor analisa, primeiramente, do corpo em diversos sub-sistemas da língua as várias manifestações dos campos semân- e por conseguir fazer previsões interessantes ticos nas línguas faladas, para, a seguir, exa- acerca da tipologia e avanços diacrônicos em minar as propriedades morfológicas de cada Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais línguas de sinais. O padrão ‘corpo como su- um dos campos na LSI e, então, investigar as jeito’, mesmo sendo básico, como argumen- implicações da análise para a teoria lingü- tam, é freqüentemente ofuscado por outros ística. A contribuição de Meir, no contexto sistemas em línguas de sinais. Entretanto, dessa discussão específica, reside na explici- uma vez que este padrão é reconhecido, ele tação, feita por ele, do significado teórico da se torna uma ferramenta explicativa robusta realização morfológica desses campos se- para um grande número de fenômenos inter- mânticos que, conforme demonstra, pode linguais e intralinguais, explicando porque ser vista em três dimensões: (i) a aceitação ‘corpo como sujeito’ emerge como estratégia da realização morfológica desses campos se- modelo em verbos de concordância de argu- mânticos preenche uma lacuna na relação mento único, esclarecendo a complexidade entre semântica e morfologia, pois, como o das formas de objeto em 1ª pessoa e, final- trabalho demonstra, a polissemia sistemática mente, explicando a aparente supremacia do de itens lexicais usados em diferentes campos objeto no sistema de concordância verbal em semânticos é codificada em uma língua trans- línguas de sinais. mitida na modalidade visual-espacial, a LSI No contexto de um questionamento e, muito possivelmente, também em outras do fato comumente aceito de que a forma línguas de sinais; (ii) as formas morfológicas morfológica de um verbo não reflete o cam- são, freqüentemente, levadas em conta como po semântico em que ele está sendo usado, evidência para a existência da categoria se- Irit Meir aponta uma lacuna na relação en- mântica específica expressa por essas formas tre morfologia e semântica, em seu texto “A (por exemplo, a existência de morfemas em Realização Morfológica dos Campos Semân- algumas línguas que expressam certas distin- ticos”. Conforme ele argumenta, contrarian- ções semânticas - como telicidade - pode ser do esse axioma, a Língua de Sinais Israelense interpretada como evidência de suporte para (LSI), aqui investigada como uma represen- análises que assumem a existência de entes tante das línguas de sinais em geral, constitui primitivos semânticos correspondentes a tais uma língua em que as propriedades morfo- distinções; de modo similar, as diferenças lógicas de um verbo refletem e são determi- morfológicas entre as classes verbais em dife- 13
    14. Apresentação rentes domínios semânticos na LSI podem ser dada na literatura sobre a língua falada, mas interpretadas como suporte para teorias que ainda não investigada em dados relativos a assumem a existência dos campos semânticos línguas de sinais. Por fim, discutem as evi- e as propriedades morfológicas dos diferentes dências de uma natureza locativa subjacente campos podem oferecer uma perspectiva me- às construções possessivas e existenciais na lhor sobre suas propriedades); (iii) as distin- ASL, na ÖGS e na HZJ, geradas a partir dos ções morfológicas entre os campos semânti- dados analisados. Ao analisar seus dados, os cos, que uma vez identificadas, podem apoiar autores observam semelhanças entre essas uma análise específica em detrimento de três línguas quanto às estruturas sintáticas outra (por exemplo, no contexto da contro- empregadas para expressar posse e existên- vérsia existente com relação ao fato de verbos cia, bem como uma visível restrição com re- de MDE serem de natureza semelhante aos lação a quais dessas estruturas podem ocorrer verbos de mudança de localização). com possuidores inanimados e certos casos O estudo de Deborah Chen Pichler, Ka- de posse inalienável (por exemplo, posse de Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais tharina Schalber, Julie Hochgesang, Marina parte do corpo). Os autores explicam tal res- Milković, Ronnie Wilbur, Martina Vulje trição por haver possibilidade de ela decorrer e Ljubica Pribanić – “Posse e existência em do fato de que a posse é, em sua expressão três línguas de sinais” – descreve, compara mais canônica, uma relação entre um pos- e documenta construções possessivas e exis- suidor animado e um possessum inanimado tenciais em três línguas de sinais: Língua de e que essa relação particular é enfatizada pelo Sinais Americana (ASL), Língua de Sinais pronome POSS explícito. Os autores cha- Austríaca (ÖGS) e Língua de Sinais da Cro- mam a atenção para (i) as características lo- ata (HZJ). Os autores observam as similari- cativas ou espaciais subjacentes às estruturas dades estruturais em construções possessivas existenciais e possessivas observadas na ASL, e existenciais nas três línguas, bem como as na ÖGS e na HZJ, sobretudo no que se refere restrições semânticas nos tipos de ‘possuidor’ aos mecanismos alternativos para expressar e de ‘possessum’ permitidos. Apontam, ain- posse (envolvendo uma apontação em dire- da, evidências para uma relação subjacente ção ao locus do possuidor ou um movimen- entre possessivos, existenciais e locativos, si- to do sinal do possessum em direção ao locus milar ao que é relatado sobre muitas línguas do possuidor) e para (ii) a natureza também faladas. Inicialmente, fazem uma descrição espacial da expressão de existência por meio geral das construções relevantes produzidas do estabelecimento de construções de figu- pelos participantes de seu projeto, que in- ra-base, nas quais a base é codificada como clui uma comparação de características sin- locação e a figura como o objeto ao qual se táticas e semânticas de diversas construções atribui existência. Por fim, apontam uma possessivas nas três línguas em estudo, obser- evidência diacrônica secundária das origens vando a ocorrência de padrões semelhantes locativas do verbo existencial/possessivo usa- nos corpora utilizados. Em seguida, discutem do na ÖGS e de um verbo existencial na HZJ. a noção de que as construções possessivas e Os autores fecham seu artigo reconhecendo existenciais são sintaticamente relaciona- a necessidade de cuidado ao se aplicar aná- das, não apenas entre si, mas também com lises originalmente desenvolvidas para dados 14 as construções locativas, noção essa consoli- de línguas faladas para as línguas de sinais,
    15. Apresentação deixando claro, entretanto, sua crença que de sinais são línguas distintas, em oposição a as atuais evidências da natureza locativa de dialetos e não são relacionadas historicamen- (certas) estruturas possessivas e existenciais te, podendo, assim, as similaridades em seus na ASL, na ÖGS e na HZJ são suficientemen- vocabulários serem atribuídas aos valores te convincentes para merecer uma investiga- culturais comumente compartilhados e aos ção rigorosa. repertórios gestuais. No cenário de uma descrição das lín- Elena Pizzuto, Paolo Rossini, Marie- guas de sinais do Oriente Médio, o trabalho Anne Sallandre e Erin Wilkinson exploram de Kinda Al-Fityani e Carol Padden explora – em “Dêixis, anáfora e estruturas altamente a possibilidade de existência de uma relação icônicas: Evidências interlingüísticas nas Lín- entre as línguas de sinais da região, por meio guas de Sinais Americana (ASL), Francesa das estatísticas lexicais – um método de com- (LSF) e Italiana (LIS)” – fatores tipológicos, paração de vocabulário entre as línguas de supostamente específicos de línguas de sinais, sinais para determinar o tipo de extensão da que afetam a dêixis e a anáfora nessa modali- Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais relação lingüística. Os autores apontam pelo dade. Nesse contexto, o objetivo dos autores menos três circunstâncias simultâneas que é definir as estruturas dêitico-anafóricas como afetam a distribuição das línguas de sinais na recursos de coesão textual que permitem a fa- região: (i) as tradições de casamento comuns, lantes ou sinalizantes introduzir referentes no segundo as quais a existência de casamentos discurso (dêixis) e, subseqüentemente, referir- consangüíneos tem levado a altas freqüências se a eles em momentos posteriores (anáfora). de caracteres recessivos, em termos de sur- O estudo oferece evidências relevantes, a par- dez hereditária; (ii) as circunstâncias sociais tir de um exame comparativo de narrativas e culturais no mundo árabe que, de algum curtas produzidas nas três línguas de sinais; modo, propiciam mais oportunidades para amostras analisadas permitiram, também, se aprender a língua de sinais desde o nasci- avaliar, ainda que parcialmente, a influência mento, talvez em função de incidência mais das relações entre as línguas sobre os fenô- alta de surdez genética; e, (iii) as circunstân- menos investigados. A atenção da pesquisa cias culturais, sociais, políticas e econômicas, está concentrada em duas grandes classes de que levam as línguas de sinais no mundo recursos de referência dêitico-anafórica, no árabe a serem mais propensas ao isolamento contexto de línguas de sinais: (i) a classe ‘pa- umas das outras – aqui incluídos os costumes drão’, já amplamente investigada, realizada relacionados ao casamento no mundo árabe por meio de apontações manuais e visuais que e os fatores políticos das regulamentações estabelecem posições marcadas no espaço (os da imigração entre os países árabes que, por “loci”), às quais os referentes podem ser sim- dificultarem a migração, favorecem o desen- bolicamente atribuídos; e, (ii) a classe de com- volvimento de línguas de sinais isoladas. Os plexas unidades manuais e não-manuais que autores concluem que, dada a tradição de en- exibem características altamente icônicas e são dogamia no mundo árabe, o que leva a altas marcadas por padrões específicos do olhar, taxas de surdez genética, é muito provável que aqui referidas como Estruturas Altamente Icô- tenha havido uma longa história de línguas nicas (EAI) ou ‘Transferências’. Além dos pa- de sinais na região. Como mostram os resul- drões específicos do olhar, os autores apontam tados de sua pesquisa, muitas dessas línguas outros elementos que compõem as EAIs: (a) 1
    16. Apresentação formas manuais que codificam características contribui para uma categorização mais rigo- perceptivelmente salientes das relações entre rosa dos vários tipos de representação obser- os referentes e o referencial, identificadas na li- vados no discurso em ASL, o que, por sua vez, teratura sobre LS sob diferentes termos: “clas- leva a um maior entendimento de questões sificadores”, “morfemas produtivos”, sinais que envolvem a representação, dentre as quais “polissintéticos” ou “multicomponenciais”; e, a relação entre a representação de um evento (b) expressões faciais marcadas e/ou modifi- que envolve um sujeito e os sinais produzidos cações na direção da cabeça, dos ombros e do durante a representação. tronco, tipicamente identificadas na literatura Diane Lillo-Martin, no artigo “Estudos como “recursos de troca de papéis”. Conforme de aquisição de línguas de sinais: passado, concluem, diferentes subtipos de EAIs podem presente e futuro”, organiza uma apresenta- ser combinados entre si, ou com sinais padrão, ção das investigações no campo da aquisição para codificar simultaneamente informações da linguagem com crianças adquirindo algu- referentes a dois (ou até mais) referentes, per- ma língua de sinais, produzida nos últimos 20 Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais mitindo assim uma especificação multilinear anos. A autora propõe esta revisão consideran- da referência dêitico-anafórica, que parece ser do algumas categorias para a sua apresentação, exclusiva da modalidade visual-gestual. uma vez que estes estudos tiveram diferentes Discutindo o papel do corpo e do espaço enfoques ao longo de suas produções. Alguns ao seu redor na representação de cenários, ob- estudos ocuparam-se de analisar o processo de jetos e eventos no discurso da ASL, Paul Dudis aquisição da língua de sinais em crianças sur- - no artigo intitulado “Tipos de Representação das, filhas de pais surdos, ou seja, em ambien- em ASL” – mostra como, se demonstrado que tes de aquisição espontânea da língua de sinais. os verbos e as construções da ASL têm com- Tais estudos verificaram que essas crianças ad- ponentes representando traços semânticos, a quirem a língua de sinais nos mesmos estágios representação se torna o foco da análise gra- de aquisição observados em quaisquer línguas. matical, na perspectiva lingüística cognitiva Esses resultados estabeleceram o paralelo entre a que ele se afilia. Conforme aponta Dudis, a aquisição de línguas de sinais e de línguas fa- a abordagem estabelecida no artigo, iniciada ladas. A partir desta conclusão, os estudos co- por outros lingüistas cognitivos que investi- meçaram a enfocar aspectos da lingüística que gam línguas de sinais, demonstra o potencial pudessem trazer contribuições para o desen- de análises adicionais para elucidar o papel volvimento teórico da ciência. A busca pelos da representação na gramática da ASL, dando efeitos da modalidade tornou-se importante, suporte à visão que, embora existam algumas pois o fato de as línguas de sinais se apresen- facetas da gramática da ASL que “submergem” tarem em uma modalidade visual-espacial a iconidade, outras facetas existem onde a ico- poderia trazer contribuições relevantes para a nicidade “emerge”. Uma análise minuciosa ciência lingüística. Percorrendo os 20 anos de da representação usando padrões lingüísticos pesquisas produzidas nesta área, Lillo-Martin cognitivos sugere que componentes adicio- apresenta algumas perspectivas para o desen- nais se revelam nessas representações icônicas: volvimento de investigações no futuro, con- o sujeito (ou o ‘eu’), o ponto de visualização tando com a presença mais efetiva de pesqui- (vantage point ou V-POINT) e a progressão sadores surdos. Os estudos comparativos en- 1 temporal. A identificação desses componentes tre as diferentes línguas de sinais, bem como
    17. Apresentação as pesquisas tendo como interlocutores os servados em quaisquer crianças nesse perí- pesquisadores de aquisição da linguagem em odo de aquisição. geral, parecem ser passos importantes no fu- Gladis Tang, Scholastica Lam, Feliz Sze, turo para a continuidade das investigações da Prudence Lau e Jafi Lee também trazem um aquisição das línguas de sinais, além, é claro, estudo no campo da aquisição da linguagem de contarmos com crianças adquirindo lín- com crianças surdas adquirindo uma língua guas de sinais. de sinais. No artigo, “Aquisição de concor- Um dos pesquisadores que deu início dância verbal em HKSL: Opcional ou obriga- aos estudos da aquisição da língua de sinais tória?”, os autores apresentam uma análise de é Richard P. Meier, que nos brinda com um uma questão gramatical que tem sido motivo artigo sobre os efeitos da modalidade na de grande debate nos estudos lingüísticos das aquisição da linguagem, um exemplo dos línguas de sinais, a questão da concordância estudos mencionados por Lillo-Martin que, verbal. Considerando as categorias apresen- também, integra Questões Teóricas das Pes- tadas por Lillo-Martin, a pesquisa realizada Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais quisas em Línguas de Sinais (TISLR9). No por estes autores apresenta a característica seu artigo – “Modalidade e Aquisição da de desenvolver uma análise de um aspecto Língua: Estratégias e Restrições na Aprendi- gramatical que poderá elucidar aspectos da zagem dos primeiros sinais” – Meier apre- gramática das línguas de sinais e que podem, senta um estudo realizado com crianças também, representar uma contribuição teó- surdas adquirindo a língua de sinais muito rica para a lingüística. O trabalho apresentado cedo, por volta dos oito meses. As primeiras por estes pesquisadores está baseado em um produções das crianças, embora conside- estudo longitudinal com uma criança surda, radas como os primeiros sinais produzidos adquirindo a língua de sinais de Hong Kong. antes das primeiras palavras faladas produ- Os autores analisaram a produção de verbos zidas pelas crianças adquirindo línguas fala- com concordância verbal, observando que das, são, na verdade, combinações de mãos a aquisição desta categoria gramatical se dá com movimentos paralelos às combinações tardiamente. Os autores verificaram erros de dos primeiros sons produzidos pelas crian- omissão e comissão nesta criança traçando um ças ouvintes expostas a uma língua falada. paralelo com os estudos que verificaram este Nesse sentido, as crianças surdas balbu- mesmo padrão em outras línguas de sinais. ciam por volta dos oito meses e começam Carolina Plaza Pust e Knut Weinmeis- a produzir os primeiros sinais em período ter, em “Aquisição bilíngüe da Língua de Si- análogo àquele das crianças ouvintes. A nais Alemã e do alemão escrito: Ausência de questão da modalidade, especialmente, a sincronia no desenvolvimento e contato com aparente iconicidade de alguns sinais, não a língua”, avançam no campo da Psicolin- apresenta papel relevante no processo de güística, realizando uma análise da aquisição aquisição da língua de sinais, pois os sinais de crianças surdas na língua de sinais e na es- produzidos pelos bebês surdos apresentam crita da língua falada em seu país, Alemanha. o mesmo padrão arbitrário dos sinais pro- O estudo faz parte de um grande projeto que duzidos pelos adultos. Os erros observados coleta dados do desenvolvimento bilíngüe de na produção dos bebês estão relacionados crianças da escola bilíngüe de Berlim. A inves- com aspectos lingüísticos comumente ob- tigação objetiva analisar a interação gramatical 1
    18. Apresentação entre as duas línguas envolvidas no processo mento seja processo na língua de sinais gra- de aquisição, bem como os efeitos de modali- maticalmente. dade no desenvolvimento bilíngüe (língua de Entramos no campo da sociolingüística sinais e língua escrita). Na análise apresentada, com o artigo de Ceil Lucas e Robert Bayley Pust e Weinmeister elencaram evidências de – “Variação na língua de sinais americana: o variação inter- e intra-individual no desen- papel da função gramatical” – que analisa- volvimento bilíngüe da DGS e do alemão es- ram a variação de alguns sinais com mais de crito. Ao longo do período analisado, os alu- 200 sinalizantes americanos. Os autores ob- nos surdos apresentam um desenvolvimento servaram que os fatores fonológicos são con- significativo na produção de textos na língua sistentemente menos importantes do que a de sinais e na língua escrita. Esses alunos de- classe gramatical a que pertencem os sinais. A senvolvem a competência bilíngüe na escola, pesquisa realizada em escala significativa evi- onde aprendem a língua escrita alemã, e têm dencia a existência de restrições gramaticais contato com a língua de sinais alemã. que se aplicam à variação na língua de sinais Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais O último texto que envolve o campo de que podem ou não ser comuns às variações já aquisição de linguagem é o de Sarah Taub, identificadas nas línguas faladas. Dennis Galvan, Pilar Piñar e Susan Mather Relativo à variação sociolingüística lexical, – “Gesticulação e aquisição da ASL como se- David McKee, Rachel McKee e George Major gunda língua”. A pesquisa aborda a aquisição – “Variação Sociolingüística em Numerais da da língua de sinais americana como segunda NZSL” – apresentam uma análise das variantes língua por pessoas ouvintes, mais especifica- existentes na forma de apresentação dos núme- mente, as possibilidades de transferência de ros na língua de sinais da Nova Zelândia. Os au- uma língua para outra, tema de pesquisas no tores analisam as variantes sob três aspectos so- campo da aquisição de segunda língua em ge- ciais: a região, a idade e o gênero dos sinalizantes. ral. Por se tratar de uma segunda língua na Os fatores sociais mais marcantes na variação modalidade visual-espacial, os autores apre- dos numerais da língua de sinais da Nova Zelân- sentam a hipótese de haver o aproveitamen- dia foram referentes à idade, seguidos de fatores to do uso de gestos para produção de sinais. regionais e de gênero (variáveis não marcadas). A habilidade gestual existente entre pessoas De modo geral, portanto, os autores observaram falantes está relacionada com a capacidade que as variáveis sociais determinam a variação cognitiva de representar conceitos no es- das formas dos numerais nessa língua. Há uma paço. A pesquisa vai verificar se essa repre- tendência a uma padronização mais consistente sentação mental coincide com a capacidade entre os sinalizantes mais jovens. mental cognitiva de representar os conceitos Rachel Sutton-Spence nos remete à pro- por meio da língua de sinais, especialmente, dução literária na língua de sinais, mais espe- quando a expressão manual-gestual é similar cificamente, na produção poética com o texto (por exemplo, com o uso de dêiticos). Os au- “Imagens da Identidade e Cultura Surda na tores observaram que, embora haja esta apro- Poesia em Línguas de Sinais”. A autora analisa, ximação entre as formas gestuais produzidas por meio da produção poética, elementos que por usuários e aprendizes da língua de sinais, traduzem marcas culturais e identitárias. A po- há necessidade do aprendiz reavaliar o uso esia na língua de sinais é uma forma de cultuar 1 em termos lingüísticos para que o conheci- as questões relacionadas com o ser surdo, tor-
    19. Apresentação nando-a um instrumento de empoderamento em ambientes de comunicação mediada por da comunidade surda. A autora identifica as computador (CMC): explorações e conside- imagens que se refletem nas poesias, trazendo rações iniciais” – encerra o presente volume. elementos que identificam os surdos, como a Seu trabalho entra no campo da lingüística celebração da língua de sinais, a celebração do aplicada trazendo contribuições para o de- ser surdo, a surdez como perda, a experiência senvolvimento da tecnologia associada ao uso visual dos surdos, a opressão que os surdos da língua de sinais como instrumento de co- sofrem e o lugar dos surdos. Sutton-Spence municação. Mertzani observou em seu estu- analisa estas manifestações traduzidas em dois do que o ensino da língua de sinais utilizando poemas, A escadaria e Cinco sentidos. Esses são a interação síncrona e assíncrona proporcio- apenas dois exemplos da criação de imagens na aos alunos a possibilidade de desenvolver que empoderam os surdos por meio de uma habilidades receptivas, bem como, interativas expressão criativa poética. na língua de sinais. O uso da ferramenta ofe- O trabalho de Brendan Costello, Javier rece a possibilidade do desenvolvimento da Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais Fernández e Alazne Landa – “O sinalizan- interação negociada com feedback presente de te nativo não-(existente): pesquisa em língua forma sistematizada. As correções realizadas de sinais em uma pequena população surda” durante as interações online, normalmente, – concentra a atenção no conceito de usuário focaram o significado e a forma. Neste espaço nativo de uma língua e examina as diferentes de aprendizagem, houve negociações de tur- definições de sinalizante nativo no campo de no constante, instaurando-se o uso efetivo da pesquisa em línguas de sinais. Uma descrição língua de sinais entre os participantes. da população surda sinalizante do país Basco As organizadoras de Questões Teóricas mostrou que a porcentagem de 5% a 10% ti- das Pesquisas em Línguas de Sinais esperam picamente citada para indivíduos surdos nas- que a interface recém-instalada entre os Es- cidos de famílias surdas não se sustenta e, con- tudos Surdos e os Estudos da Tradução es- seqüentemente, existem poucos sinalizantes tará não apenas oportunizando contatos te- que podem ser considerados usuários nativos óricos e práticos entre as duas áreas, como da língua. Em virtude disso, foi desenvolvida também contribuindo para a circulação do uma metodologia de pesquisa que envolve o saber teórico na área de Estudos Surdos, no registro de meta-dados sociolingüísticos para Brasil. Reafirmamos, além disso, a relevân- cada informante, para que se meça até que cia do presente volume na criação de valores ponto um indivíduo pode ou não ser consi- sociais e culturais, o que, no caso específico derado um sinalizante nativo. Uma análise da de Questões Teóricas da Pesquisa em Línguas expressão de trocas de papel revela correlações de Sinais em Pesquisas sobre Línguas de Sinais entre competência nativa e aspectos específi- consolida a presença do ser surdo não apenas cos do uso da língua e sugere que o exame da no contexto social, mas na comunidade cien- produção lingüística de falantes não-nativos tífica brasileira. pode trazer informações importantes sobre os processos da gramaticalização e também sobre Florianópolis, 18 de março de 2008. a estrutura da língua em geral. Maria Mertzani com seu artigo – “Refle- Ronice Müller de Quadros e xões sobre a língua de sinais e a cultura surda Maria Lúcia Vasconcellos 1
    20. Apresentação Referências Language Interpreting. In: The Sign Language Yranslator and Interpreter, v.1, no. 1, p. 15- BAKER, M. In other words: A coursebook on 51, 2007. translation. London: Routledge, (1992). HALLIDAY, M.A.K. Spoken and Written Lan- BAKER, M. Corpus Linguistics and Translation guage. Oxford: OUP, 1989. Studies: Implications and Applications. In: HALLIDAY, M.A.K. Towards a theory of a ‘good’ BAKER, M.; FRANCIS; ELENA-TOGNINI- translation. In: STEINER, E.; YALLOP, C. BONELLI (Orgs.). Text and Technology: In (Eds.) Exploring Translation and Multilin- honour of John Sinclair. Amsterdam & Phila- gual Text Production: Beyond Content. Ber- delphia: John Benjamins Publishers Company, lin / New York: Mouton de Gruyter, p.13-18, pp. 233-50, 1993. 2001. BAKER, M. Corpora in translation studies: an KOCH, I. O texto e a construção dos sentidos. overview and some suggestions for future re- São Paulo, SP: Editora Contexto, 1997. search. In: Target – International Journal of KRIEGER, M. da G.; FINATTO, M. J. B. In- Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais Translation Studies, v. 7:2, p. 223-243, 1995. trodução à Terminologia. Teoria & práti- BENNETT, K. Epistemicida! The Tale of a Preda- ca. São Paulo: Contexto, 2004. tory Discourse. In: The Translator, v.13, n. 2, MOSSOP, B. Revising and Editing for Transla- p.141-149, 2007. tors. Manchester, UK: Sst. Jerome Publishing, BLUM-KULKA, S. Shifts of Cohesion and Cohe- 2001. rence in Translation. In: HOUSE, J.; BLUM- NOGUEIRA, D.; NOGUEIRA, V. M. Cadernos KULKA, S. (Eds.).Interlingual and Intercultu- de Tradução, v. 14,p. 17-35, 2004/2. ral communication- Discourse and cognition VASCONCELLOS, M. L. Retextualizing Du- in translation and second language acquisition bliners: A Systemic Functional Approach studies. Tübingen: Narr, pp. 17-35, 1986. to Translation Quality Assessment. Tese de COSTA, W.C. The translated text as re-textua- doutorado não-publicada. Programa de Pós- lization. In: COULTHARD, R.M. (Org.). Ilha Graduação em Inglês - PPGI, Universidade Fe- do Desterro, v. 28, Studies in translation, p. deral de Santa Catarina, UFSC, 1997. 133-153, 1992. VINAY, J.-P.; DARBELNET, J. Comparative COULTHARD, R.M. Evaluative text analysis. Stylistics of French and English: A Methodo- In: STEELE, R.; THREADGOLD, T. (Orgs.). logy for Translation. (traduzido e editado por Language topics: Essays in honour of Michael Juan C. Sager & M.-J. Hamel). Amsterdam Halliday. Amsterdam: John Benjamins, 1987. & Philadelphia: John Benjamins Publishing COULTHARD, R.M. Linguistic constraints on Company. 1995. Tradução de Vinay & Darbe- translation. IN: COULTHARD, R.M. (Org.). lnet 1958.] Ilha do Desterro, v. 28, Studies in translation, p. 9-23, 1992. Sites GRBIC, N. Where do we come from? What are www.wordfast.net we? Where are we going? – A Bibliometrical www.wordfast.net/zip/wf_brief.pdf Analysis of Writings and Research on Sign www.cadernos.ufsc.br/online/volume14.html 20
    21. Arqueologia das Línguas de Sinais: integrando lingüística histórica com pesquisa de campo em lín- guas de sinais jovens1,2 Ted Supalla University of Rochester 1. O Estado Atual da Teoria e da Prática majoritária. Além disso, os itens lexicais das línguas de sinais estrangeiras eram freqüente- A natureza de nosso entendimento das lín- mente importados na medida em que novas guas de sinais de todo o mundo baseia-se em escolas eram instaladas em países em desen- nossa história específica de pesquisa em lín- volvimento. Essa noção de línguas de sinais gua de sinais. A história de 40 anos da pes- “impuras” significou que os pesquisadores de quisa em línguas de sinais modernas inclui lingüística histórica se depararam com o fato tanto as conquistas importantes que fizeram de que processos históricos “naturais” eram avançar nosso conhecimento, quanto as pau- provavelmente ofuscados ou destruídos pelo tas de pesquisa que delimitaram nosso foco imperialismo lingüístico. Entretanto, tal visão e limitaram o nosso conhecimento. Durante nega, equivocadamente, a origem natural do esse período, a gênese e a evolução das línguas contato entre línguas na história mundial da de sinais se constituíram como uma área des- humanidade. O estudo da gênese e evolução considerada em nosso foco de pesquisa. Essa da língua é um “vôo cego”, se tais interações negligência pode ser atribuída à crença que as humanas naturais não forem levadas em con- línguas de sinais em desenvolvimento eram sideração na pesquisa em lingüística históri- freqüentemente “contaminadas” por práticas ca. Pesquisas como a reconstrução da lingüís- pedagógicas opressivas que tentavam moldar a tica comparativa em línguas de sinais não são língua de sinais para se adaptar à língua falada apenas possíveis, mas também valiosas, para 1 Traduzido por: Maria Lúcia Barbosa de Vasconcellos, Elaine Espíndola, Thiago Blanch Pires, Carolina Vidal Ferreira 2 O autor agradece a seus colaboradores pelas importantes contribuições ao trabalho sobre a história da ASL, das línguas de sinais recentes e da Língua Internacional de Sinais, especialmente, aos membros atuais e anteriores do Research Team do Sign Language Research Center: Aaron Brace, Patricia Clark, Merrie Davidson, Markku Joki- nen, Donald Metlay, Doug McKenney, Elissa Newport, Erin Sigmund, Annie Senghas, Marie Coppolla, Wanette Reynolds, Yutaka Osugi e Rebecca Webb. Agradece, ainda, a Betsy Hicks McDonald pela ajuda na escrita e na edição deste artigo. Esta pesquisa foi parcialmente financiada pelo NIH (National Institutes of Health), pela concessão da bolsa DC00167 para Elissa L. Newport e Ted Supalla e dois prêmios da NEH (National Endowment for the Humanities) Fellowship Awards a Ted Supalla.
    22. Arqueologia das Línguas de Sináis oferecer suporte aos objetivos da população lidade e do contato geográfico e social é parte surda mundial. Essa pesquisa complexa exi- integrante da pesquisa histórica. Entretanto, ge fontes de documentação multidisciplina- na pesquisa histórica em língua de sinais, os res e interpretação cuidadosa da linguagem e variados padrões de experiências de indivídu- pensamentos da população surda no contex- os surdos lutando para modelar suas vidas na to da comunidade/sociedade surda da época. sociedade ainda permanecem desconhecidos Com o tempo, os especialistas treinados em à comunidade científica. Às vezes, esse fato se língua de sinais para surdos e um crescente deve à noção de que o pensamento social e a conjunto de conhecimento nessa área darão resposta às condições políticas entre a popula- suporte aos esforços direcionados ao plane- ção surda têm se mantido uniformes ao longo jamento pedagógico e lingüístico útil para a do tempo. Dessa forma, a história da interação população surda mundial. entre pessoas surdas e ouvintes é fragmentada, A pesquisa em línguas de sinais moder- sendo presumida ao invés de documentada, nas teve início com o trabalho de William C. embora seja uma força que molda a evolução e Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais Stokoe e seus colegas sobre a validação lingüís- o crescimento das línguas de sinais. Além dis- tica da Língua de Sinais Americana (ASL). so, a robustez do processo de maturação das Compilando dados lexicográficos, Stokoe e línguas de sinais ainda não foi valorizada em sua equipe identificaram e documentaram sua totalidade, mesmo ao passar por reanálises aspectos de sinais individuais que eram estru- motivadas tanto por esforços intervencionais, turados de maneira similar às línguas faladas. quanto pela própria natureza diversificada da Durante o progresso da pesquisa, o trabalho comunidade surda, na qual apenas 5% são passou de validação para a instigante possibi- membros nativos, considerados ideais para lidade de a modalidade manual/visual ser um transmitir a língua para uma geração seguinte. “campo de testes” para os universais lingüísti- Diante desses fatos, fica claro que a trama da cos: aquelas tendências lingüísticas formais e comunidade surda é tecida pelos laços sociais substantivas contidas na teoria da Gramática entre indivíduos que utilizam uma língua de si- Universal. Muitos acadêmicos contribuíram nais comum. Uma infra-estrutura social como para o modelo lingüístico atual de um pro- essa pode ser afetada pela polarização entre as cesso multinível em camadas de co-articula- forças das línguas de sinais e das línguas fala- ção de auto-segmentos expressados através das competindo entre si. Além disso, tais forças das diferentes partes do corpo do sinalizante não são necessariamente uniformes ao longo e do espaço ao seu redor. Entretanto, em bus- do tempo, crescendo e decrescendo na história ca desse objetivo, observamos que essa pau- da comunidade. Geralmente, os pesquisadores ta passou a determinar as áreas de pesquisa têm deixado de incorporar padrões de inte- e os detalhes dos dados lingüísticos a serem ração entre surdos (ou sua ausência) em suas considerados “interessantes” em uma comu- pesquisas, baseando-se em pressuposições ou nidade. Trabalhar como um “pesquisador chegando a conclusões equivocadas sobre, por em língua de sinais” passou a ter significado de exemplo, a idade da comunidade sinalizante e pesquisar nessa área estritamente definida a capacidade de comunidades surdas alcançar de história e estrutura da língua. uma evolução lingüística completa. No campo mais amplo da sociolingüística, Apesar de sua complexidade, a pesquisa em o estudo de comunidades humanas e da mobi- lingüística histórica possui muito a oferecer ao 23
    23. Ted Supalla estudo da gênese e evolução das línguas de si- das, descobrimos a existência de um “Registro nais. Felizmente, muitas escolas têm em seus Clássico” da ASL, que não mais existe. arquivos registros históricos, revistas e filmes, Pesquisas histórico-literárias revelam tornando possível o traçado da história das co- a função desse registro como oratória clás- munidades sinalizantes e das línguas de sinais. A sica daquela época, praticada por sinali- integração de ferramentas lingüísticas, recursos zantes da elite, que transmitiam a língua de impressos, narrativos e visuais e documentação sinais tradicional do antigo Hartford, do podem resultar em uma análise cientificamen- Connecticut Institute for Deaf Mutes (Ins- te informada da história de uma língua. Essas tituto de Connecticut para Surdos-Mudos). técnicas serão úteis quando aplicadas tanto às Durante pelo menos sete gerações de trans- línguas de sinais estabelecidas regionalmente, missão da ASL, as formas arcaicas que foram quanto às línguas de sinais recém-emergentes originadas nessa escola desapareceram, res- e às línguas de sinais em desenvolvimento. À tando apenas os textos oratórios gravados em medida que observarmos os processos naturais vídeo. As pesquisas revelam, ainda, o motivo Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais atualmente em andamento em línguas jovens, da preservação desse registro por parte da será possível preencher lacunas na história das National Association of the Deaf [Associação línguas de sinais mais antigas. Nacional dos Surdos]. Ao criar um banco de dados completo, consistindo de corpora com- postos de textos e vídeos, inter-referenciados 2. Arqueologia e Lingüística Histórica lexicalmente com outras palestras gravadas e da Língua de Sinais Americana (ASL) dicionários históricos (antigos), nossa pes- quisa forneceu uma rica fonte para investigar A pesquisa interdisciplinar ampla e recente da as formas lingüísticas, as práticas literárias história e evolução da ASL tem contribuído e poliglóssicas e a metalinguagem da época. para remodelar nossa percepção de materiais e À medida que nos familiarizamos com a an- processos históricos. Tendo em mãos as ferra- tiga estrutura da ASL e com sua pedagogia mentas de reconstrução da lingüística históri- por meio desse trabalho, pudemos apontar ca, pudemos revelar processos lingüísticos na- uma lacuna na história da ASL, provocada turais e importantes esforços de planejamento pela Idade das Trevas da pedagogia oral para da língua nas séries de palestras filmadas ar- pessoas surdas. Realizamos comparações lin- quivadas pelo NAD (National Association for güísticas sincrônicas e diacrônicas, ambas the Deaf [Associação Nacional para os Sur- no limite temporal dos filmes e em épocas dos]) da Universidade de Gallaudet (Supalla, subseqüentes e anteriores, e interpretamos a 2001, 2004; Supalla e Clark, no prelo). Esses metalinguagem de várias épocas à luz desse documentários históricos da ASL eram con- novo entendimento. Finalmente, refizemos siderados “impuros” por serem resultantes um elo na corrente da história da ASL consi- da importação da Língua de Sinais Francesa derando a protogramática da ASL como uma (LSF), de intervenções educacionais e do co- forma dinâmica de incorporação do contato nhecimento e práticas bilíngües entre a ASL e com a LSF e a língua de sinais caseira. a língua inglesa. Entretanto, depois de rever os Nosso novo modelo de pesquisa amplia- filmes e conduzir pesquisa histórica adicionais do permitiu que expandíssemos o escopo da 24 sobre os indivíduos e as organizações envolvi- investigação e reinterpretássemos a docu-
    24. Arqueologia das Línguas de Sináis mentação histórica existente. As descrições especializado para uma categoria gramati- metalingüísticas antigas, da Idade das Trevas, cal específica, como por exemplo, gênero. estavam apenas escondidas e não perdidas. As O aumento das funções gramaticais adicio- pesquisas históricas sobre a metalinguagem nais para gestos específicos em paradigmas da pedagogia demonstram que, no passado, de justaposição dá origem à polissemia, na os educadores consideravam os discursos medida em que um item lexical indepen- naturais como um trampolim educacional dente e uma partícula gramatical emergente para crianças surdas que iam para a escola compartilham uma mesma forma. Portan- utilizando um sistema de sinais caseiro. As to, as formas originalmente independentes línguas de sinais planejadas artificialmente, são convertidas em morfologia pré-deter- como o “sinal metódico”, eram consideradas minada, em uma tendência unidirecional sem importância para essas crianças e eram de mudança gramatical, de maneira muito incorporadas apenas parcialmente em con- semelhante àquela descrita na lingüística textos educacionais. Na escola, o “sinal de- histórica e na mudança gramatical em lín- Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais senvolvido” era um discurso natural padro- guas faladas (Hopper e Traugott, 2003). Isso nizado promovido durante essa época. Um ocorreu quando o posicionamento de itens aspecto importante do “sinal desenvolvido” lexicais com carência de morfologia interna era o uso da sintaxe para expressar conceitos para recursão gerativa foi reanalisado como abstratos. Em inúmeros exemplos, o léxico uma relação gramatical entre uma partícula da língua de sinais foi expandido via “justa- hospedeira e uma secundária. Em ASL, tais posições” padronizadas. processos deram origem a um sistema de gê- De certo modo, podemos considerar nero em termos de parentesco. Nos primór- o sinal caseiro como uma protogramática dios da ASL, as justaposições incorporavam desse “sinal desenvolvido”, com seus gestos gênero nos seguintes termos: seqüenciais atuando como o precursor da justaposição. O laço semântico natural en- FEMININO, LEVANTA-BEBÊ “Mãe” tre os gestos adjacentes e os grupos gestuais MASCULINO, LEVANTA-BEBÊ “Pai” é reforçado pelo contexto do discurso. No MASCULINO, EMBALA-BEBÊ “Filho” discurso da língua de sinais, essas justapo- FEMININO, EMBALA-BEBÊ “Filha” sições funcionavam como um constituinte único. Como uma unidade única, eles eram Os itens lexicais importados da Língua de continuamente usados na mesma ordem e Sinais Francesa forneceram a matéria-prima nos mesmos ambientes, passando por pro- para muitas dessas justaposições. As pesqui- cessos lingüísticos naturais de redução e rea- sas históricas utilizando os filmes das palestras nálise, tais como a composição, um fenôme- da Universidade de Gallaudet nos permitiram no que foi bem descrito na área. Entretan- revelar as formas intermediárias, preenchen- to, no contexto da noção de composição, há do, portanto, uma lacuna na pesquisa em ASL uma outra distinção que tem sido ignorada. entre formas da ASL antiga e da ASL moder- Em alguns casos, esses processos de reestru- na, onde os morfemas MASCULINO e FEMI- turação e reanálise deram origem a paradig- NINO foram reduzidos a meras localizações, mas gramaticais, ativando um processo de como parte de um paradigma de parentesco cliticização, onde um componente se torna sistemático de afixos de gênero. 2
    25. Ted Supalla Gênero feminino + PROGENITOR “Mãe” tem sido reanalisado como uma partícula Gênero masculino + PROGENITOR “Pai” que significa AGENTE e é hoje um morfema Gênero masculino + DESCENDÊNCIA “Filho” semi-regular de escopo limitado. Na ASL Gênero feminino + DESCENDÊNCIA “Filha” antiga, também a negação, uma forma arcaica do NOT (NÃO), na qual uma ou, até mesmo, Essa gramaticalização procede da justapo- as duas mãos “moviam-se para fora” para ex- sição sintática de palavras de conteúdo à cliti- pressar negação, aparecia na posição final da cização da palavra julgada como “dependente” LC (Verb Phrase [Locução Verbal]), como e, em alguns casos, a um processo produtivo em: WANT NOT (QUERER NÃO) e evo- de afixação. A cliticização refere-se a um fenô- luiu para uma partícula reanalisada, que foi meno onde a partícula de uma palavra que fre- posteriomente incorporada, de maneira res- qüentemente ocorre apenas em combinação tringida, a itens lexicais específicos freqüen- com outra palavra torna-se dependente desse tes (cf. DON’T-WANT) (NÃO QUERO). A paradigma, como o clítico “’m” em “I’m”, na função geral da negação foi substituída pelo Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais língua inglesa. Essa dependência sintática ati- pré-verbal NOT (NÃO). Portanto, em mui- va processos fonológicos diacrônicos, como, tos paradigmas da ASL, observamos o padrão por exemplo, a redução natural de elementos histórico de desenvolvimento exposto abaixo redundantes encontrados na segunda posição (cf. Hopper e Traugott, 2003, para o padrão do constituinte. Em línguas de sinais, esse se- geral, e Supalla e Clark, no prelo, para uma gundo elemento é geralmente reduzido a uma descrição mais detalhada desses exemplos e mera localização, movimento ou característica do processo na ASL). da configuração de mão. Duas propriedades Portanto, a lingüística histórica possibili- de localização contrastantes exemplificam o tou uma abordagem científica para a Arqueo- resultado desse processo, uma localizada na logia da Língua de Sinais. Apesar de a origem área da testa e outra na parte inferior da bo- e a história dos sinais na ASL terem sido ex- checha, aparecendo regularmente no segmen- plicadas através da etimologia folclórica, tais to inicial de um paradigma mais amplo de pa- como a noção de que o sinal para “menina” rentesco sensível ao gênero. Um clítico pode representava o traçado de um cordão de cha- evoluir para um afixo quando se torna um péu ao longo da parte inferior da bochecha, morfema sistemático, produtivamente utiliza- dispomos agora de um conjunto alternativo do em processos flexionais ou para gerar itens de ferramentas e uma explicação alternativa lexicais derivados. para as formas atuais, graças à nossa “esca- Os sistemas de agenciamento e negação vação” da língua de sinais. É evidente, como na ASL também sofreram esse processo. De nas línguas faladas, que os processos em dis- maneira similar ao que ocorreu com as justa- cursos gestuais naturais levam a uma sintaxe posições mais antigas para os termos de pa- restringida e, finalmente, a uma morfologia rentesco, uma busca por formas mais antigas também limitada, o que nos permite obser- de agenciamento e negação revela frases sintá- var tanto os processos produtivos, quanto ticas regulares utilizando o sinal CORPO para os improdutivos ou obscuros remanescentes sinalizar uma pessoa envolvida em uma ativi- dessa evolução, na ASL moderna. dade específica, como BIGODE, ROUBAR, Ao mesmo tempo, nossa Arqueologia deve 2 CORPO = LADRÃO. O morfema CORPO reconhecer também a existência de outros ti-
    26. Arqueologia das Línguas de Sináis pos de formas pré-determinadas presentes nos 3. O Tema da TISLR9 primórdios da vida da língua e que aparecem em muitas línguas de sinais estudadas até ago- A atual integração entre a pesquisa em lingüís- ra. Tais formas, comuns ao longo da história tica histórica e os estudos de campo afeta dire- das línguas de sinais, podem não ter surgido tamente o trabalho relevante ao tema de nos- devido aos processos lingüísticos de mudan- sa conferência na TISLR9 – Línguas de Sinais: ça, mas talvez devido à natureza das próprias Tecendo e desfiando o passado, o presente e línguas de sinais. Essas formas incluem os o futuro. Essas pesquisas nos possibilitam re- apontadores espaciais, a direção de movimen- visitar e revisar pressuposições a respeito do to do verbo como marcador de concordância passado já conhecido, que podem estar incor- e o uso de configurações de mão classificado- retas. Além disso, novas ferramentas e novos ras. No artigo “Sign Language Research at the dados surgirão de pesquisas futuras sobre lín- Millenium” (Pesquisa em Língua de Sinais no guas de sinais emergentes. Cada um dos di- Milênio), Newport e Supalla (2000) discu- versos tipos de comunidades e variedades de Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais tem a tendência em direção a essas estruturas línguas de sinais possui um lugar e um papel nas línguas de sinais recentes, língua de sinais natural a realizar na Arqueologia das Línguas pidgins e até em sistemas de sinais caseiros. de Sinais, conforme demonstrado em nossas Recentemente, pesquisei 15 línguas de sinais análises recentes da história da ASL. Pude- que surgiram naturalmente em diferentes mos observar as contribuições para uma lín- partes do mundo. Essa comparação interlin- gua de sinais em evolução a partir de sistemas güística mostra que todas as línguas utilizam isolados de sinais caseiros de surdos, línguas localização e movimento através do espaço de sinais recentes em comunidades novas e de maneira similar, para marcar concordân- de registros de contato interlingüístico. Nesse cia gramatical com o sujeito e o objeto. “Os modelo, a pesquisa pode explorar mais do que pesquisadores também observaram estruturas uma única língua de sinais, como a ASL, no classificadoras em verbos de movimento em entendimento das dinâmicas sociais e lingüís- muitas línguas de sinais. Supostamente, de- ticas de contato de línguas e na reconstrução vido a essas semelhanças entre línguas de si- das histórias das línguas de sinais e suas pro- nais não relacionadas, falantes de línguas de togramáticas. Os elos ausentes na gênese e sinais mutuamente ininteligíveis são capazes na evolução das línguas de sinais podem ser de desenvolver um pidgin sinalizado (deno- refeitos e as observações sobre a variação ti- minado sinal internacional) que conserva es- pológica e os pressupostos universais sobre as sas estruturas morfológicas e que é, portan- línguas de sinais que sofreram mudanças irão to, surpreendentemente, mais complexo do emergir naturalmente. É possível que esse tipo que os pidgins falados (Supalla e Webb, 1995; de pesquisa venha estabelecer relações entre a Webb e Supalla, 1995)” (Newport e Supalla, pesquisa em língua de sinais e a pesquisa mais 2000, p. 12). Portanto, na pesquisa histórica e ampla sobre gestos humanos, a origem das lín- comparativa, observamos tanto processos de guas e a capacidade lingüística das espécies. Os divergência, quanto processos de convergência atuais e futuros trabalhos cumprem, de forma entre línguas de sinais internacionais e tanto direta, os objetivos do TISLR 9, de “situar o os processos comuns a todas as línguas como desenvolvimento dos estudos em línguas de processos específicos às línguas de sinais. sinais no tempo” e de “estabelecer relações in- 2
    27. Ted Supalla ternacionais entre pesquisadores em línguas As pesquisas histórico-lingüísticas que de sinais”, assim “criando oportunidades para compreendem a ecologia humana da história análises comparativas”. dos surdos, como por exemplo, os padrões Os participantes da TISLR e a World de interação e o contato interlingüístico, pro- Federation of the Deaf – WFD [Federação metem a realização de um “mapa rodoviário” Mundial de Surdos] têm aspirações maio- para a construção de uma infra-estrutura para res para os surdos e as comunidades surdas a língua de sinais na sociedade. A aplicação da mundiais. A visibilidade e a legitimidade para pesquisa promove credibilidade e visibilidade línguas de sinais nativas são objetivos-chave às línguas de sinais nativas existentes. Além tanto para a TISLR, quanto para a WFD. Em disso, a pesquisa em um paradigma arque- 1990, a WFD apresentou um relatório sobre ológico de bases-amplas fornecerá diretrizes o status das línguas de sinais demonstrando a para o planejamento e monitoramento das insatisfação da maioria dos participantes da línguas de sinais, em todo o mundo. Com o pesquisa em relação ao nível da língua de si- avanço da pesquisa, estaremos mais familia- Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais nais utilizado nas escolas. Em resposta à essa rizados com certos tipos de situações de con- necessidade claramente percebida, a WFD tato, seremos capazes de identificar situações lançou uma lista de prioridades para pro- similares já ocorridas na história mundial das mover as línguas de sinais em todo o mun- línguas de sinais e seremos capazes de jul- do e prosseguiu com a afiliação na união de gar os possíveis efeitos de uma variedade de organizações mundiais que deram origem à línguas “importadas” e as estratégias de pla- “Convention on the Rights of Persons with nejamento lingüístico, a partir de nosso co- Disabilities” [Convenção sobre os Direitos nhecimento do passado. Essa familiaridade das Pessoas com Deficiência]. Essa declara- nos ajudará a responder algumas perguntas e ção é um primeiro passo para a construção de preocupações, tais como aquelas dos surdos e uma infra-estrutura mundial para as línguas de líderes nacionais, listadas abaixo: de sinais. Conforme prosseguimos, encon- • Até que ponto devemos promover o conta- tramos desafios no planejamento do acesso to interlingüístico em comunidades emer- ideal à língua de sinais para as pessoas surdas. gentes? Como fazer com que direitos, como o direito • Qual a forma de apoio mais útil para pro- à língua de sinais e o direito à educação, se- mover a transição natural de sistemas de jam garantidos de maneira a evitar práticas sinais caseiros? opressivas e a respeitar as práticas e capaci- • Quais são as conseqüências de se adotar dades das comunidades nativas? Como pro- uma língua de sinais como superestratum mover as línguas de sinais das comunidades estrangeiro se não existe nem história, nem quando crianças surdas que nascem de pais comunidade para uma comunidade surda ouvintes não podem ter acesso à educação, em desenvolvimento? como ocorre em 80% de países em desenvol- vimento e, quando, mesmo na existência do Tal paradigma científico não apenas acesso, raramente é defendido um papel para apóia e concorda com a pauta da população a língua de sinais? Como devemos tratar os surda mundial, como também amplia o es- sistemas de sinais caseiros que encontramos copo da própria pesquisa e da profissão do 2 nessas situações? “especialista em língua de sinais”. O conceito
    28. Arqueologia das Línguas de Sináis desse profissional tem sido introduzido em cumentados de mudança em línguas de sinais. escolas em sociedades industrializadas para Entretanto, “o caminho a ser seguido” certa- complementar o trabalho dos patologistas mente está na ampliação da pesquisa, de forma da linguagem e da fala, no campo das ciên- a abranger a diversificada realidade do mundo cias da audição e da fala. Outras carreiras na surdo e seus robustos sistemas de línguas de si- pesquisa em línguas de sinais serão possíveis nais naturais. no interior da “aldeia global surda”. Um es- pecialista em língua de sinais adequadamente treinado poderia aplicar seu conhecimento Referências de pesquisa nas seguintes áreas: • A estrutura e história das línguas de sinais HOPPER, PAUL; CLOSS TRAUGOTT, E. Gram- no mundo. maticalization. Cambridge, Cambridge Univer- • A aquisição da língua de sinais e os efeitos da sity Press, 2003. idade em que a língua de sinais é aprendida. NEWPORT, Elissa; SUPALLA, Ted. Sign langua- • O processamento psicolingüístico de lín- Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais ge research at the Millenium. In: EMMORY, guas de sinais. K.; LANE, H. (Orgs.). The Signs of Language • A representação de línguas de sinais no cé- Revisited, Mahwah, NJ, 2000. rebro. SUPALLA, Ted; CLARK, P. Sign Language Ar- cheology: Understanding the Historical Roots Pontes para outros campos das ciências e of American Sign Language, Washington, no das humanidades serão construídas, a partir da prelo. pesquisa multidisciplinar demandada por esse SUPALLA, Ted. The validity of the Gallaudet amplo modelo arqueológico. Sem dúvidas, são Lecture Films. Sign Language Studies, v.4, 2004. muitos os desafios da pesquisa, em áreas tais p. 261-292. como a ausência de ferramentas para a ava- SUPALLA, T. Making historical sign language liação de línguas de sinais e de dados para seu materials accessible. Journal of Sign Language planejamento e monitoramento. Em relação Linguistics, v. 4, 2002. p. 285-297. à avaliação, não conhecemos a ampla gama de SUPALLA, Ted; WEBB, R. The grammar of variação e interação em língua de sinais. Ainda International Sign Language: A new look at não possuímos classificações tipológicas para as pidgin languages. In: EMMOREY, K.; REILLY, línguas de sinais. Por fim, conhecemos, apenas, J. (Orgs.), Sign, Gesture and Space. Mahwah, alguns marcos no desenvolvimento da aquisição NJ, 1995. de línguas de sinais nativas. Em nosso “banco” WEBB, R; SUPALLA Ted. Negation in Interna- de recursos para o planejamento de línguas de tional Sign. In: AHLGREN, I.; BERGMAN, B.; sinais, não possuímos dados suficientes sobre BRENNAN, M. (Orgs.), Proceedings of the a gênese e história das línguas de sinais e, tam- Fifth International Symposium on Sign Lan- pouco, possuímos padrões adequadamente do- guage Research. Hamburg, 1995. 2
    29. Raízes, folhas e ramos – a tipologia de línguas de sinais1 Ulrike Zeshan International Centre for Sign Languages and Deaf Studies University of Central Lancashire, Preston, UK 1. Introdução o campo de tipologia da língua de sinais (as “raízes”, nos termos da metáfora do título), Esta contribuição se propõe a resumir e a as diferentes maneiras de se fazer tipologia de exemplificar resultados importantes que língua de sinais e as metodologias associadas emergiram do estudo comparativo e sistemá- (os “ramos”) e alguns dados fascinantes e seu tico de línguas de sinais ao longo dos últimos significado tipológico e teórico (as “folhas”). anos. O aumento da disponibilidade de dados O restante deste artigo é organizado em de várias línguas de sinais ao redor do mun- quatro partes. A seção 2 apresenta a tipolo- do possibilitou, pela primeira vez na história gia de língua de sinais, concentrando-se nos da pesquisa em língua de sinais, ampliar sufi- objetivos e metodologias da área. As seções 3 cientemente nosso banco interlingüístico de e 4 ilustram os tipos de resultados que emer- dados para realizar estudos tipológicos signi- gem dos estudos interlingüísticos em línguas ficativos entre as línguas de sinais. Esse novo de sinais. Examinamos exemplos dos resulta- campo de estudo é conhecido como tipologia dos de estudos comparativos amplos, assim de língua de sinais. como dados de línguas de sinais utilizadas As seções a seguir examinam a nova sub- em comunidades com surdez hereditária. O disciplina de tipologia de língua de sinais a último tópico leva a uma questão teórica im- partir de uma variedade de perspectivas. Ao portante a respeito da natureza da linguagem invés de ser um relatório sistemático e exaus- humana na modalidade visual-gestual, mos- tivo de todo o campo de estudo, este artigo trando como a ampliação do banco de dados busca fornecer visões ilustrativas a partir de na tipologia de língua de sinais pode conduzir diferentes perspectivas2. Iremos observar, a pontos teoricamente desafiadores. O artigo entre outras, as fontes cuja confluência cria termina com a observação do impacto, para 1 Traduzido por: Maria Lúcia Barbosa de Vasconcellos, Elaine Espíndola, Thiago Blanch Pires, Carolina Vidal Ferreira 2 Zeshan (em preparação) é uma tentativa de resumir, de forma abrangente, o estado atual de conhecimento sobre a tipologia de língua de sinais.
    30. Raízes, folhas e ramos – A tipologia de línguas de sinais além da lingüística, que a pesquisa em tipolo- Em relação ao escopo total de sub-dis- gia de língua de sinais tem em comunidades ciplinas lingüísticas na pesquisa em línguas surdas, em todo o mundo. faladas, nenhum campo é mais naturalmente predestinado a ter um grande interesse em línguas de sinais do que o campo da tipolo- 2. Introduzindo a tipologia de língua gia lingüística. De um modo geral, desde seu de sinais surgimento na segunda metade do século 20, a tipologia lingüística tem se preocupado 2.1 As fontes da tipologia de língua de em avaliar as diferenças e semelhanças entre sinais as línguas. O artigo seminal de Greenberg (1963) é freqüentemente citado como um A tipologia de língua de sinais é influenciada por ponto crucial no desenvolvimento da tipo- duas disciplinas base da lingüística que anterior- logia lingüística e, desde então, tem havido mente apresentavam pouco contato entre si. um grande desenvolvimento na área. Ainda Como o próprio nome sugere, essas duas disci- Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais que os tipologistas utilizem uma ampla va- plinas são: a pesquisa em língua de sinais e tipo- riedade de dados lingüísticos para estudar os logia lingüística. A interação entre elas é ilustra- padrões de variação das línguas, incluindo da, de maneira esquematizada, na Figura 1, que muitas línguas “exóticas” de todas as par- demonstra o duplo sentido inerente à tipologia tes do mundo, os dados das línguas de si- de língua de sinais. Por um lado, a tipologia de nais são praticamente ausentes de pesquisa língua de sinais utiliza recursos teóricos e meto- em tipologia lingüística. Muitos tipologistas dológicos da tipologia lingüística, mas amplia a de línguas faladas provavelmente comparti- gama de línguas disponíveis para incluir as lín- lham a impressão explicitada no trabalho de guas de sinais. Por outro lado, a tipologia de lín- Haspelmath (1997:17), em que o autor expli- gua de sinais utiliza os resultados da pesquisa em ca que as línguas de sinais não estão presentes língua de sinais, mas concentra-se na diversidade em seu principal estudo sobre artigos indefi- lingüística no grupo de línguas de sinais, a partir nidos porque “o estudo interlingüístico das de uma perspectiva tipológica. línguas de sinais ainda está em seus primór- dios e minha competência não me permite dizer coisa alguma sobre uma língua indivi- dual de sinais” (nossa tradução)3. Pesquisa em Tipologia Tipologia O segundo tópico que é crucial à tipologia língua de sinais de língua linguística de sinais lingüística e que está intimamente relaciona- do ao primeiro, como a outra face da mesma moeda, é a busca por universais da linguagem (por exemplo, Comrie 1989, Whaley 1997, Song 2001). O que é que todas as línguas têm Figura 1: As disciplinas base da tipologia de em comum e que, portanto, pode-se consi- língua de sinais derar como sendo a verdadeira natureza da 3 “[t]he cross-linguistic study of sign languages is still in its infancy, and my own competence does not allow me to say anything even about an individual sign language.” 31
    31. Ulrike Zeshan linguagem humana? Além de qualquer outra não relacionadas constitui uma nova tarefa pergunta de pesquisa, torna-se imediatamen- sem precedentes paralelos em lingüística de te evidente que os tipologistas devem estar sinais, mas em vários aspectos similares ao tra- mais interessados no que a pesquisa em lín- balho correspondente na tipologia de língua gua de sinais tem a dizer sobre um tipo total- falada. Esses dois tipos de investigação têm o mente diferente de linguagem visual-gestual objetivo de conduzir a uma teoria de variação que ainda não tenha sido considerado antes. entre línguas de sinais, o que é o objetivo se- Assim como a maioria dos tipologistas que cundário mais importante da tipologia de lín- ignoraram as línguas de sinais, os pesquisado- gua de sinais. Considerar os padrões de dife- res de língua de sinais ainda não levaram em renças e semelhanças entre as línguas de sinais consideração uma perspectiva tipologicamente nos possibilita, também, reavaliar a questão informada em seus dados. Contudo, há muito dos universais da linguagem, tanto para as lín- a se ganhar com essa perspectiva, conforme se guas de sinais quanto para as línguas faladas, torna claro na seção 3, a seguir. De fato, a verda- bem como a questão das diferenças de moda- deira extensão da diversidade lingüística entre lidade entre línguas de sinais, por um lado, e Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais as línguas de sinais só se torna aparente quando línguas faladas, por outro. A figura 2 mostra se aplica uma perspectiva tipológica aos dados um fluxograma de inter-relacionamento dos conhecidos e aos dados recém descobertos e principais objetivos acadêmicos da tipologia esses resultados continuam a surpreender até de língua de sinais. Os objetivos não-acadêmi- mesmo os lingüistas mais experientes. cos da tipologia de língua de sinais estão deta- Apesar da evidente ligação entre tipolo- lhados na seção 5 deste artigo. gia de língua de sinais e suas duas áreas base, Documentação de língua Estudos interlingüísticos não estamos lidando apenas com uma fusão de sinais individuais de língua de sinais dos dois outros campos. Ao invés disso, a ti- pologia de língua de sinais traz consigo todo um conjunto de hipóteses e metodologias. Teoria da variação Tais hipóteses e metodologias são detalhadas entre línguas de sinais nas seções 2.2 e 2.3, respectivamente. Universais da linguagem que não dependem da modalidade 2.2 Os objetivos e metodologias da Diferenças de modalidades entre línguas sinalizadas e tipologia de língua de sinais línguas faladas A tipologia de língua de sinais possui dois ob- Figura 2: Os objetivos da tipologia de língua jetivos inter-relacionados, ambos associados de sinais a metodologias diferentes. A documentação detalhada de línguas de sinais individuais em todo o mundo se sobrepõe, em linhas gerais, à 2.2.1 Documentação de línguas de sinais pesquisa descritiva correspondente em lingüís- individuais tica de sinais, porém com um foco um tanto diferenciado. Por outro lado, o estudo inter- Uma vez que apenas uma minoria das línguas lingüístico sistemático de amostras amplas de de sinais existentes no mundo foi documen- línguas de sinais genética e geograficamente tada até agora, estudos individuais de tantas 32
    32. Raízes, folhas e ramos – A tipologia de línguas de sinais línguas de sinais diferentes quanto possível Sul e Central foram escritas em espanhol ou são essenciais para uma tipologia de língua português. de sinais. Sem um banco de dados formado A mais importante contribuição para o por um grande número de línguas de sinais mosaico de dados de língua de sinais consiste geográfica e geneticamente não-relaciona- de línguas de sinais em agrupamentos comu- das, seria impossível um trabalho tipológico nitários (village communities) (ver trapézio significativo. Além disso, o valor de qualquer roxo na Figura 3). Línguas de sinais de agru- generalização feita a partir de uma abrangên- pamentos comunitários (village sign langua- cia limitada de dados, por exemplo, as línguas ge) serão destacadas na seção 3.2 e na seção de sinais, principalmente da Europa Ociden- 4, a seguir. Finalmente, a última imagem na tal e da América do Norte, estaria seriamente Figura 3 contém um triângulo azul marcado comprometido. Portanto, um dos objetivos com um ponto de interrogação. Esse sinal re- da tipologia de língua de sinais deve ser cole- presenta quaisquer outros tipos de línguas de tar informações confiáveis e adequadamente sinais que certamente serão descobertos ao Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais estruturadas em uma vasta gama de línguas longo do percurso. E, o que é mais impor- de sinais. No momento, o estudo da extensão tante, é necessário investigar os vários tipos real da variação possível entre as línguas de de línguas de sinais minoritárias que podem sinais ainda é superficial. estar sendo utilizadas por grupos menores de Até agora, nosso conhecimento sobre as sinalizantes co-existindo simultaneamente línguas de sinais tem se desenvolvido como com línguas de sinais “nacionais”. um mosaico, que é, inicialmente, apenas es- boçado e com muitas áreas vazias, mas está, cada vez mais, nos fornecendo um quadro mais claro da extensão da diversidade das línguas de sinais (ver Figura 3). Nas primei- ras décadas, desde seus primeiros estudos, a pesquisa em línguas de sinais tem sido domi- nada pelas línguas de sinais “ocidentais”, da Europa e da América do Norte (neste caso, quase que unicamente a ASL) e, até certo ponto, isso ainda ocorre. Trabalhos recentes têm documentado línguas de sinais urba- nas em outras partes do mundo, como, por exemplo, na área do Levante Árabe (Hendri- Figura 3: O mosaico dos dados em línguas ks 2004, Hendriks & Zeshan, no prelo). Em de sinais muitas regiões, os resultados das pesquisas não são facilmente acessíveis ao público in- Para os propósitos da tipologia de lín- ternacional devido ao idioma de publicação. gua de sinais, nem todos os tipos de docu- Por exemplo, a maioria das publicações em mentação lingüística são igualmente válidos. Nihon Shuwa (língua de sinais utilizada no O tipo mais importante de documentação é Japão) está escrita em japonês e muitas pu- uma gramática de referência. Gramáticas de blicações nas línguas de sinais da América do referência são concisas; entretanto, elas con- 33
    33. Ulrike Zeshan têm relatos profundos de todas as estruturas entre lingüística tipológica e lingüística aplica- gramaticais encontradas em uma língua e são da será abordada detalhadamente na seção 5. importantes fontes de informação para tipo- logistas de língua falada, que podem se base- ar em centenas de gramáticas de referência, 2.2.2 Estudos interlingüísticos em línguas embora nem todas sejam de igual qualidade. de sinais Entretanto, até o momento atual, a pesquisa em língua de sinais ainda não produziu ne- Enquanto a documentação tipologicamente nhuma gramática de referência de nenhuma informada de línguas de sinais individuais língua de sinais. Dessa forma, os tipologistas busca descrever uma grande variedade de es- de língua de sinais têm de utilizar fontes não truturas dentro de cada língua, estudos inter- tão ideais. lingüísticos investigam um domínio grama- O arcabouço da tipologia de língua de tical específico em uma amostra suficiente- sinais é especialmente propício ao desenvol- mente ampla de línguas de sinais diferentes. Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais vimento de análises descritivas de línguas de As duas correntes de pesquisa são comple- sinais ainda não documentadas, pois ela in- mentares, mas os estudos interlingüísticos corpora uma ampla perspectiva baseada no propõem desafios teóricos e metodológicos conhecimento já existente sobre a diversi- específicos, que serão brevemente discutidos dade tipológica entre as línguas faladas. Por nesta seção. exemplo, pesquisadores de língua de sinais Para se chegar a uma teoria de variação irão não apenas se preocupar em saber como entre línguas de sinais, é necessário fazer ge- o plural é expresso em uma língua de sinais, neralizações entre dados comparativos co- mas também se preocupar com o fato de a letados de uma grande variedade de línguas língua ter ou não uma categoria não-mar- de sinais. É essencial que essas generalizações cada para número, ou se o número verbal e sejam empiricamente embasadas, isto é, ba- nominal é expresso de maneira diferente ou seadas em evidências reais de uma gama de semelhante e como a categoria de número dados primários, ao invés de serem baseadas interage com as outras categorias. Não per- em suposições dedutivas e/ou pressuposi- guntaremos apenas como uma língua de si- ções baseadas em poucas, ou apenas em uma nais expressa posse, mas também se há uma língua de sinais. Os estudos interlingüísticos relação entre possessivos e existenciais e se há em línguas de sinais propõem perguntas de diferença entre posse alienável e inalienável. pesquisa sobre os parâmetros de variação que Questões tipologicamente informadas dessa podem ser observados nas línguas de sinais, natureza precisam ser respondidas em rela- sobre o grau de variação exibido e sobre os ção a um grande número de línguas de sinais, padrões de variação. Essas são tarefas inter-re- antes que trabalhos mais amplos possam ser lacionadas, porém distintas. Por exemplo, no realizados em tipologia de língua de sinais. domínio das perguntas, os parâmetros de va- Ao mesmo tempo, esse tipo de informação riação para a investigação incluem expressões descritiva é um insumo muito útil para as di- faciais que marcam perguntas, o uso de partí- mensões aplicadas da lingüística de língua de culas interrogatórias, o conjunto de palavras sinais, tal como o desenvolvimento de mate- interrogativas em cada língua, o uso prag- 34 riais educativos de língua de sinais. A relação mático de perguntas, etc. Em cada parâme-
    34. Raízes, folhas e ramos – A tipologia de línguas de sinais tro, as línguas de sinais em uma amostragem da tipologia de línguas faladas. Inventários de exibirão um grau de variação e essas podem padrões, como por exemplo, um número li- ser comparadas entre si. Por exemplo, o grau mitado de tipos de construção utilizados para de variação relacionado a expressões faciais é expressar posse (como em Heine 1997), tam- bem pequeno entre as línguas de sinais por- bém podem ser aplicados às línguas de sinais. que há muita sobreposição de expressões uti- Entretanto, em outras áreas, é interessante lizadas em muitas línguas de sinais. Por outro observar que as línguas de sinais se compor- lado, os paradigmas de palavras interrogati- tam diferentemente das línguas faladas, por vas (isto é, conjuntos específicos de palavras exemplo, com relação a alguns aspectos do interrogativas para as quais existem itens domínio da negação (ver seção 3.1.1). lexicais distintos) demonstram um enorme Estudos interlingüísticos abrangentes en- grau de variação entre as diferentes línguas de tre línguas de sinais apresentam problemas sinais. Além disso, algumas palavras interro- teóricos e metodológicos específicos, alguns gativas, ou combinações dessas palavras são dos quais são comuns à tipologia de línguas Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais encontradas com mais freqüência do que ou- faladas. Um ponto crítico, por exemplo, é tras, havendo evidências de inter-relaciona- a confiabilidade dos dados. Sem dúvida, já mento de palavras interrogativas e artigos in- que é impossível a um pesquisador ter o co- definidos (Zeshan 2004b, 2006). Tais padrões nhecimento de dezenas de línguas de sinais de diferenças em variabilidade, freqüência de diferentes, como saber se a informação que ocorrência, inter-relacionamento de domí- está sendo coletada está correta? Não há uma nios gramaticais, etc. devem ser levados em resposta simples para isso e o problema de conta em um arcabouço teórico de tipologia confiabilidade de dados é inerente à pesquisa de língua de sinais. Na medida em que a pes- tipológica em qualquer uma das duas moda- quisa em tipologia de língua de sinais progri- lidades de língua. Entretanto, os projetos em de, poderemos mapear a diversidade estrutu- tipologia de línguas de sinais estão, de certo ral das línguas de sinais, de forma cada vez modo, em uma situação diferente, pois é ne- mais detalhada. cessário gerar realmente uma grande parte Para a tipologia de língua de sinais, é im- dos dados, ao longo do próprio projeto de portante investigar explicações funcionais tipologia de língua de sinais. Isso se deve ao para as diferenças e semelhanças entre as fato de que há pouca informação publicada línguas de sinais. Geralmente, os resultados que seja facilmente acessível, mostrando que prévios da tipologia de línguas faladas podem os tipologistas de línguas de sinais têm mais ser úteis aqui. Por exemplo, a estreita relação chance de tomar medidas diretas para me- entre palavras interrogativos e artigos inde- lhorar a confiabilidade dos dados4. Por outro finidos ou entre posse e existência tem sido lado, a coleta de dados interlingüísticos tam- encontrada tanto em línguas faladas, quan- bém apresenta seus próprios desafios. Um to em línguas de sinais e as explicações para exemplo de como isso pode ser feito é discu- esses padrões foram sugeridas pela literatura tido na seção 3.1.2. 4 Os tipos de medida a serem adotados não podem ser discutidos em detalhe aqui, mas consulte Zeshan (em preparação) para uma elaboração mais profunda desse assunto. 3
    35. Ulrike Zeshan Finalmente, os estudos interlingüísticos 3. Estudos de caso em tipologia de precisam lidar com a questão da amostra- línguas de sinais gem, isto é, a escolha das línguas a serem representadas em um estudo interlingüís- Os resultados do primeiro estudo amplo e tico. Pesquisadores em tipologia de línguas comparativo em tipologia de língua de sinais faladas trabalham com amostras de línguas foram publicados por Zeshan (2004a, 2004b, para as quais a informação sobre o domínio 2005 e 2006). Esse estudo concentra-se nas em questão está disponível. Essas amostras construções interrogativas e negativas (dura- têm de ser regionalmente equilibradas (isto ção do projeto 2000-2004) e foi seguido por é, não incluir muitas línguas de uma mesma um segundo estudo mais abrangente sobre região geográfica) e geneticamente equili- construções possessivas e existenciais (2005 bradas (isto é, não incluir muitas línguas de ainda em andamento; ver Perniss e Zeshan, uma mesma família lingüística). Entretanto, no prelo). Além de projetos de grande dimen- para as línguas de sinais, neste momento, são, pesquisas interlingüísticas de menor di- Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais isso é muito difícil de ser feito, pois pou- mensão sobre conjuntos de línguas de sinais quíssimos dados estão disponíveis. Além de vários tamanhos têm sido conduzidas atu- disso, sabemos muito pouco sobre como as almente, incluindo o trabalho de McBurney línguas de sinais estão historicamente rela- (2002) sobre pronomes pessoais, Eccarius e cionadas, ou seja, a qual família lingüística Brentari (2007) sobre construções classifica- as línguas de sinais conhecidas pertencem, doras e Schwager & Zeshan (no prelo) sobre mesmo para se considerar apenas a questão sistemas de classes de palavra. de uma amostragem geneticamente equili- Nesta seção, apresento uma ilustração brada. Atualmente, não há solução teórica das metodologias e dos resultados que os pro- satisfatória para esse problema, portanto jetos em tipologia de línguas de sinais produ- devemos trabalhar com base nas conside- ziram. Uma visão mais abrangente pode ser rações práticas e tentar, apenas, incluir o encontrada em Zeshan (em preparação). Ao máximo de informação do maior número invés de tentar resumir todos os vários tópi- possível de línguas de sinais em nossos da- cos investigados, irei me concentrar em al- dos, a fim de cobrir uma área razoável. Por guns pontos de interesse e mostrar como eles exemplo, Zeshan (2004a, 2004b, 2005) utili- são relevantes para as idéias teóricas esboça- zou informações de 37 línguas de sinais dis- das nas sessões anteriores. A seção 3.1 trata tintas. Nada a ser feito, no momento atual, da negação não-manual entre as línguas de contra a tendência geográfica e/ou genética sinais, ao passo que a seção 3.2 se concentra nesse tipo de amostragem, exceto estar sem- nos padrões de posse predicativa. pre consciente dessa questão e, conseqüen- temente, formular cuidadosamente nossas generalizações. 3.1 Negação não-manual Na próxima sessão, apresento alguns exemplos de estudos interlingüísticos re- O projeto interlingüístico sobre interrogati- centes para ilustrar os tipos de resultados e vas e negativas mencionado acima incorpo- metodologias que tipicamente encontramos ra dados de 37 línguas de sinais diferentes, 3 nesses projetos. embora algumas sejam representadas mar-
    36. Raízes, folhas e ramos – A tipologia de línguas de sinais ginalmente devido à mínima quantidade cia similar. Há muitos critérios que podem de dados. Os dados são baseados em fontes ser utilizados para determinar se um sistema variadas, sendo que a principal parte pro- de negação apresenta proeminência manual vém de respostas dadas a um questionário ou não-manual (ver Zeshan 2004a para uma tipológico distribuído aos co-pesquisado- discussão detalhada). Os exemplos (1), (2) res espalhados pelo mundo (Zeshan 2006). e (3) abaixo, de línguas de sinais na Alema- Além dessas fontes, dados primários de pes- nha, Turquia e Índia, ilustram alguns desses quisa de campo coletados por mim e dados critérios, concentrando-se na questão de qual provenientes de fontes publicadas também parte da negação – manual ou não-manual contribuíram para a formação do banco de – é obrigatória e qual é opcional5. dados geral, sendo compilados para análise e arquivados no sistema Microsoft Access. Alemanha (Deutsche Gebärdensprache, Esse estudo produziu muitos insights fas- DGS, Língua de Sinais Alemã): cinantes, dos quais temos apenas idéias su- (1a) neg Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais perficiais aqui. Um dos padrões mais interes- ICH VERSTEH santes emergiu de estudo da marcação não- IX1 UNDERSTAND manual de orações negativas entre línguas de sinais. Resumidamente, um movimento (1b) neg de cabeça para os lados em orações negativas ICH VERSTEH NICHT ocorre em todas as línguas de sinais para as IX1 UNDERSTAND NOT quais dados sobre esse tópico estavam dispo- níveis. Entretanto, o status gramatical desse (1c) * ICH VERSTEH NICHT movimento da cabeça negativo e as limita- IX1 UNDERSTAND NOT ções de uso são bem diferentes em línguas de “Eu não entendo”. sinais distintas. A principal diferença tipologicamente Turquia (Türk İşaret Dili, TID, Língua de relevante se relaciona à relativa proeminência Sinais Turca): da negação manual e não-manual nos siste- mas gramaticais das línguas de sinais. Todas (2a) neg-inclinar a cabeça as línguas de sinais nos dados coletados uti- BEN ANLAMAK DEGIL lizam tanto sinais negativos produzidos com IX1 UNDERSTAND NOT as mãos, quanto marcações não-manuais de orações negativas, principalmente na forma (2b) * neg-inclinar a cabeça de movimentos de cabeça, tais como o mo- BEN ANLAMAK vimento de cabeça para a esquerda e para a IX1 UNDERSTAND direita. Logicamente, então, ou a negação “Eu não entendo”. manual ou a não-manual poderia ser mais importante para marcar a oração negativa, Índia (Língua de Sinais Indo-Paquista- ou ambas poderiam apresentar proeminên- nesa, IPSL): 5 Para uma explicação sobre as convenções de transcrição, ver anexo ao final deste artigo. 3
    37. Ulrike Zeshan (3a) neg Um sinal manual negativo deve estar presen- IX1 UNDERSTAND NOT te na frase. Já que a negação manual é obriga- tória em TID, pode-se, então, considerá-la o (3b) neg sistema de negação manual dominante. Rela- IX1 UNDERSTAND tivamente poucas línguas de sinais nos dados coletados são desse tipo e estão todas fora da (3c) IX1 UNDERSTAND NOT Europa e da América do Norte, o que ilustra “Eu não entendo”. a importância de se ter uma grande variedade de dados disponíveis para um estudo tipoló- Em cada grupo de exemplos, a primeira gico. Além da TID, encontrou-se um sistema sentença (1a, 2a e 3a) é uma maneira comum de negação manual dominante em línguas de e gramatical de se dizer ‘Eu não entendo’. Na sinais do Japão, China e em um agrupamento Língua de Sinais Alemã (DGS), isso envolve comunitário em Bali. apenas a negação não-manual, não havendo Por fim, os dados da IPSL contrastam Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais necessidade de um sinal manual negativo. En- com os dados da DGS e com os da TID, no quanto a negação manual e não-manual pode sentido de que nenhum dos exemplos em ocorrer simultaneamente na DGS (exemplo IPSL é gramaticalmente incorreto (marca- 1b), não é gramaticalmente correto omitir o dos com um asterisco*). Em IPSL, as orações movimento da cabeça para os lados. Junta- podem ser negadas tanto de maneira manu- mente com outras evidências que não analisa- al, como também não-manual, embora seja mos aqui, isso nos permite concluir que a DGS mais comum a utilização de ambas as for- tem um sistema de negação não-manual do- mas, como em (3a). Essa e outras evidências minante, em que o movimento da cabeça de sugerem que nem a negação manual nem a negação é obrigatório. Nos dados utilizados não-manual são dominantes em IPSL; por- para o estudo comparativo, esse tipo de siste- tanto, podemos falar de um sistema de ne- ma era mais comum entre as línguas de sinais, gação equilibrado. Uma possibilidade que incluindo todas as línguas de sinais ocidentais, vale a pena explorar no futuro seria a de que sendo o melhor descrito na literatura. sistemas equilibrados desse tipo estão em um Um tipo de sistema menos conhecido é estágio menos avançado de gramaticalização, exemplificado nos dados da TID em (2). A onde, de certo modo, o sistema ainda não forma usual de expressar a mesma sentença “decidiu” qual caminho seguirá. envolve tanto negação manual quanto não- A categorização das línguas de sinais em manual (2a)6. Ao contrário da DGS, na Língua sistemas de negação manual dominante e de Sinais Turca (TID) não é possível negar essa não-manual dominante, conforme ilustrada sentença usando-se apenas um movimento da nos exemplos acima, é um bom exemplo dos cabeça negativo, sendo essa a razão pela qual o tipos de generalizações que é possível fazer exemplo (2b) não é gramaticalmente correto. em tipologia de língua de sinais, com base em 6 A negação não-manual aqui é um movimento de cabeça para trás acompanhado das sobrancelhas erguidas, o que é uma característica regional de algumas línguas de sinais do Leste do Mediterrâneo. A TID também utiliza um movimento de cabeça de lado para o outro além do movimento negativo para trás, mas isso não é diretamen- 3 te relevante para nossa presente discussão.
    38. Raízes, folhas e ramos – A tipologia de línguas de sinais uma investigação cuidadosa de dados empí- gravadas em vídeo. Os jogos são destinados ricos. As línguas de sinais podem se encaixar a elicitar construções possessivas e existen- em um dos três tipos, podendo-se determinar ciais, por exemplo, utilizando-se a imagem a freqüência relativa de cada tipo, resultando de uma árvore genealógica em uma ativida- em um padrão que consiste de vários outros de de jogo direcionada aos termos de paren- padrões possíveis, o que, ao longo do tempo, tesco relacionados à posse. Com base nos jo- contribuirá para uma teoria de variação tipo- gos gravados em vídeo, os co-pesquisadores lógica entre as línguas de sinais. extraem exemplos relevantes e respondem questões de um questionário tipológico que cobre vários sub-parâmetros desse domínio. 3.2 Posse predicativa A compilação desses dados leva a generali- zações indutivas, como a do tipo discutido Os dados desta seção provêm de um estudo abaixo. Assim, esses resultados podem ser, sobre as construções possessivas e existen- posteriormente, comparados com as línguas Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais ciais em línguas de sinais. Conforme será es- faladas e, por fim, esses resultados podem clarecido abaixo, essas duas noções estão inti- re-alimentar as considerações teóricas com mamente relacionadas, por isso constituindo as quais iniciamos nosso estudo (lado direi- um mesmo campo de investigação. Este estu- to da Figura 4). do também foi realizado por co-pesquisado- res de vários países, mas a metodologia para o presente projeto é mais sofisticada do que aquela do primeiro projeto. A Figura 4 repre- senta esquematicamente o ciclo de pesquisa deste projeto. Um projeto de tipologia de língua de si- nais começa geralmente com a identificação dos parâmetros de variação tipológica dentro de um domínio alvo, nesse caso dentro do domínio da posse e existência (canto supe- rior esquerdo da Figura 4). A coleta de dados Figura 4: Desenho da pesquisa para o projeto é baseada nessas considerações teóricas e, no interlingüístico em posse e existência caso deste projeto, envolve um questionário tipológico a ser respondido pelos co-pesqui- Um dos sub-domínios desse projeto é sadores e técnicas especializadas de elicitação, a posse predicativa, isto é, maneiras de ex- utilizadas de modo padronizado por todos os pressar sentenças como ‘Eu tenho um car- participantes do projeto (canto inferior es- ro’, ‘Quantos filhos você tem?’, etc., com querdo). a posse em uma frase completa, ao invés Os materiais de elicitação consistem em de apenas em um sintagma nominal (NP) várias atividades de jogos com conteúdo vi- (‘meu cartão de crédito’, etc.). Na litera- sual, por exemplo, figuras, em que dois/duas tura tipológica sobre as línguas faladas, a ou três sinalizantes devem interagir e as posse é uma área bem documentada (por conversações resultantes das interações são exemplo, Heine 2006, Baron, Herslund & 3
    39. Ulrike Zeshan Sorensen 2001, Payne 1999). Um número limitado de padrões para posse predicativa foi identificado nessa literatura e essa tipo- logia também pode ser aplicada às línguas de sinais com algumas modificações devido à natureza dos dados em língua de sinais. Exemplifico os diversos tipos nos exemplos abaixo: MIM CARRO (ME) (CAR) a) De “pegar, agarrar” para posse Nesse tipo, um sinal cujo significado original tem algo a ver com “pegar” ou “agarrar” é Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais utilizado para expressar posse. A Língua de Sinais Sul-Coreana possui tal sinal glosado como TER EM MÃOS (HAVE-IN HAND) (juntamente com outro sinal glosado TER/ EXISTIR (HAVE/EXIST), ver abaixo). Os exemplos (4a) e (4b) mostram que TER-EM- MÃOS pode co-ocorrer tanto com um sinal TER-EM-MÃOS TER existencial positivo, quanto um negativo. (HAVE-IN-HAND) (HAVE) Curiosamente, entretanto, o padrão TER- Figura 5: Língua de Sinais Sul-Coreana EM-MÃOS não pode ser usado para certas ‘Eu tenho um carro’. noções abstratas como “ter tempo” (exemplo 4c). Para tais itens, o padrão existencial com Os dados comprovam o tipo de constru- o sinal TER/EXISTIR deve ser usado, o qual ção possessiva “pegar, agarrar”; portanto, essa possui uma distribuição mais ampla e geral é, definitivamente, uma estratégia disponível do que TER-EM-MÃOS. A Figura 5 mostra para as línguas de sinais. Entretanto, trata-se um exemplo de frase que utiliza os sinais pos- de um tipo de menor importância e muito sessivos/existenciais. menos freqüente que o padrão existencial, Coréia do Sul (Língua de Sinais Sul-Co- discutido a seguir. reana): (4a) TRABALHAR TER-EM-MÃOS TER/EXIS- TIR (WORK HAVE-IN-HAND HAVE/EXIST) b) Da existência à posse ‘ter trabalho’ (‘have work’) (4b) TRABALHAR TER-EM-MÃOS NÃO-EXIS- TIR (WORK HAVE-IN-HAND NOT-EXIST) A maioria das línguas de sinais presente nos ‘não ter trabalho’ (‘not have work’) dados utiliza-se de uma partícula que expres- (4c) *TEMPO TER-EM-MÃOS TER/EXISTIR sa tanto existência quanto posse (partícula (*TIME HAVE-IN-HAND HAVE/EXIST) existencial). Por exemplo, tais partículas são 40 ‘ter tempo’ (‘have time’) utilizadas nas línguas de sinais da Índia/Pa-
    40. Raízes, folhas e ramos – A tipologia de línguas de sinais quistão, Turquia, Rússia, EUA, Reino Unido, Catalunha, Alemanha, Jordânia, Irã e China. Além disso, é muito comum que as partículas existenciais positivas e negativas sejam su- plementares, isto é, que tenham duas formas completamente diferentes e não relacionadas entre si. A Figura 6 mostra as partículas exis- tenciais positivas e negativas em Türk İşaret Dili (Língua de Sinais Turca – TID). Os pa- drões em (a) e (b) foram descritos para as lín- Figura 7: DGS (Alemanha): TER/EXISTIR em guas faladas por Heine (2006). espaço neutro (‘há’, ‘alguém tem’ (‘there is, someone has’); figura da esquerda) e com referência à primeira pessoa (‘Eu tenho’ (‘I have’); figura da direita) Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais c) De quantificador/modificador predica- tivo à posse Um outro padrão muito comum encontra- do em muitas línguas de sinais é a constru- ção “quantificador predicativo /modificador” (Hengeveld 1992). Nesse padrão, quando novas informações sobre o item possuído são fornecidas como, por exemplo, sua quantida- de ou algum tipo de informação adjetiva, não há partícula que expresse a relação possessiva. Então, diz-se algo como: ‘Eu, os filhos são três’ (‘I, the children are three’), ‘Meus filhos são três’ (‘My children are three’), (exemplo 5). Índia (Língua de Sinais Indo-Paquista- Figura 6: EXISTIR/TER e NÃO-EXISTIR/NÃO-TER nesa, IPSL): em Türk İşaret Dili (Turquia) (5a) IX1 FILHOS-pl EXISTEM (CHILD-pl EXIST) ‘Eu tenho filhos’ (‘I have children’). Em alguns casos, a partícula existencial/ (5b) IX1 FILHO-pl TRÊS (CHILD-pl THREE) possessiva pode ser flexionada no espaço, ‘Eu tenho três filhos’ (‘I have three children’.) isto é, o sinal muda sua forma de acordo (lit. ‘Meus filhos são três’/‘My children are three’). com o possuidor ou de acordo com o item (5c) s/n possuído. Exemplos desse tipo são encon- IX2 FILHO-pl EXISTEM? (CHILD-pl EXIST?) trados, por exemplo, em línguas de sinais ‘Você tem filhos?’ (‘Do you have children?’) na Coréia do Sul, China, Brasil e Alemanha (5d) qu (ver Figura 7). IX2 CHILD-pl NUMBER WH 41
    41. Ulrike Zeshan ‘How many children do you have?’ (IX2 FILHO-pl carro, etc. Esse sinal não pode ser usado em NÚMERO colocações com itens como uma caneta, uma “Quantos filhos você tem?) (lit. ‘Quantos são seus moeda ou um animal de estimação (exceto filhos?’/‘How many are your children?’) se, por exemplo, alguém possui uma loja de animais de estimação, onde os animais têm Vários outros padrões menos importan- extrema importância). Além disso, o uso do tes foram encontrados nos dados comparati- POSS é geralmente restrito a seres inanima- vos de língua de sinais (cf. Perniss & Zeshan, dos (e às vezes para animais) e não pode ser no prelo), sendo o principal interesse voltado usado para termos de parentesco (como pos- às estruturas de línguas de sinais de vilas; po- suir filhos), com itens abstratos (por exem- rém, não é possível discutir detalhadamente plo, possuir tempo) ou com termos para do- essa questão neste trabalho. enças e partes do corpo. d) A semântica da posse Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais No domínio da posse, há muitos outros pontos de interesse, por exemplo, as vá- rias restrições na forma de expressar as di- ferentes categorias de posse. Por exemplo, relações de parentesco (‘meus pais’, ‘meus irmãos’, etc.) geralmente são expressas de maneira diferente da posse de objetos. As partes do corpo (‘minha cabeça’), doenças CARRO ESPOSO/A (CAR) (SPOUSE) (‘tenho dor de cabeça’) e relação parte-todo (‘telhado da casa’) geralmente utilizam pa- drões diferentes. Uma investigação mais detalhada dos dados também revela distinções semânticas sutis no domínio da posse, comparáveis ao nível de complexidade encontrado no domí- nio da posse em línguas faladas. A Figura 8 mostra o exemplo da Língua de Sinais Tur- ca, onde o último sinal da frase é um outro possessivo, além da partícula existencial na Figura 6. NÓS-DOIS POSSUÍMOS O sinal glosado POSS na Figura 8 é mui- (BOTH-OF-US) (POSS) to mais restrito quanto a seu uso do que o Figura 8: Língua de Sinais Turca ‘O carro sinal possessivo/existencial mais generaliza- pertence a mim e à minha esposa’. do TER/EXISTIR. POSS somente é utilizado quando o item possuído é algo grande ou de Resumidamente,ainvestigaçãointerlingüís- 42 extrema importância como uma casa, um tica de posse e existência em línguas de sinais
    42. Raízes, folhas e ramos – A tipologia de línguas de sinais demonstra que os resultados da tipologia de as línguas de sinais analisadas na seção 3. Em língua faladas podem ser proveitosamente apli- oposição a essas línguas de sinais, há também cados às línguas de sinais, com algumas modi- as línguas de sinais utilizadas em agrupamen- ficações específicas à modalidade, tais como fle- tos comunitários com alto índice de surdez xões espaciais em possessivos. Mais uma vez, o hereditária, em que a situação sociolingüísti- projeto demonstra como os dados de língua de ca é radicalmente diferente. sinais podem ser agrupados em padrões tipo- O uso de línguas de sinais em agrupa- lógicos com valor explanatório. Além disso, a mentos comunitários tem sido identificado noção de uma perspectiva tipologicamente in- em muitas partes do mundo, por exemplo, a formada em língua de sinais, conforme discuti- vila Yucatec Mayan, no México, a vila Ada- do na seção 2.2.1, é claramente evidenciada nas morobe, em Gana, Providence Island, no Ca- distinções sutis e nos padrões lingüisticamente ribe, a tribo Urubu-Kaapor, na Amazônia, a ricos, como aqueles discutidos neste artigo. vila Ban Khor, no norte da Tailândia, a vila na região de St. Elizabeth na Jamaica, a tribo Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais Al-Sayyid Bedouin em Israel (cf. Marsaja, no 4. Línguas de sinais em agrupamentos prelo, para informações mais detalhadas so- comunitários bre essas comunidades). As línguas de sinais de vilas mais comuns Conforme mencionado na seção 2.2.1, é de possuem características semelhantes. Nelas, a extrema importância para a tipologia de lín- surdez hereditária ocorre ao longo de mui- gua de sinais coletar dados das mais diver- tas gerações e, portanto, uma língua de sinais sas línguas de sinais. Ao mapear o território local se desenvolve na comunidade, mas ge- de diferentes línguas de sinais, é importante ralmente há ausência de contato, ou contato considerar os parâmetros sociolingüísticos muito limitado com pessoas surdas de fora dos variados contextos onde existem comu- da vila. As pessoas surdas estão integradas nidades que utilizam línguas de sinais. Tais na vida cotidiana de maioria ouvinte e não parâmetros incluem, entre outros: enfrentam barreiras de comunicação, pois - idade da língua de sinais a maioria das pessoas ouvintes no agrupa- - tamanho da comunidade usuária mento comunitário é relativamente fluente - situação de contato com outras línguas (fa- na língua de sinais local. Portanto, os mem- ladas/escritas/sinalizadas) bros surdos da vila geralmente não formam - grau de ameaça de extinção uma sub-cultura e não possuem identidade - número relativo de usuários de língua ma- de “surdo”, como é o caso das comunidades terna (L1) versus usuários de segunda lín- surdas urbanas. Devido ao maior número de gua (L2) sinalizantes ouvintes na “vila surda”, a maioria dos usuários utilizam a língua de sinais como Esta seção analisa o tipo de língua de si- L2, apenas os indivíduos surdos sendo usuários nais que difere radicalmente da situação mais monolíngües da língua de sinais da vila como conhecida das grandes comunidades surdas L1. A língua de sinais da vila, nesses tipos de urbanas que são usuárias das línguas de si- contextos, geralmente é antiga e possui uma nais de minoria e são membros de um grupo comunidade estável que a utiliza e é, portanto, cultural minoritário, como é o caso de todas uma língua completamente desenvolvida. 43
    43. Ulrike Zeshan A pesquisa lingüística dessas línguas de sos mitos sobre sua origem. Diferentemente sinais, antes conhecidas apenas de uma pers- de outras línguas de sinais de vilas, que estão pectiva sócio-cultural, começou apenas re- ameaçadas de extinção pelas línguas de sinais centemente. Entretanto, já podemos obser- urbanas maiores em seus respectivos países, var claramente que essas línguas apresentam a Kata Kolok não corre perigo, embora essa estruturas que diferem radicalmente do que situação possa mudar a qualquer momento. é encontrado nas línguas de sinais urbanas. A extensiva coleta e transcrição de dados Um exemplo é o uso específico do espaço de de textos em Kata Kolok revelaram que o uso sinalização e dos aspectos espaciais da gramá- do espaço de sinalização difere radicalmente tica da língua de sinais. do que é conhecido sobre outras línguas de sinais. Na realidade, muitas das característi- cas estruturais consideradas universais entre 4.1 O uso do espaço de sinalização em todas as línguas de sinais se relacionam ao uso Kata Kolok, Bali do espaço de sinalização, como, por exemplo, Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais a concordância verbal espacial. Portanto, é de A partir de 2004, nosso Grupo de Pesquisa em suma importância encontrar evidências de Tipologia de Língua de Sinais (Sign Langua- diferenças entre línguas de sinais nesse do- ge Typology Research Group) no Max Plan- mínio. Nesta seção, apenas um breve resumo ck Instituto de Psicolingüística (Max Planck dos resultados iniciais pode ser apresentado. Institute for Psycholinguistics) e, subseqüen- Publicações futuras deverão explicar cada fe- temente, na University of Central Lancashire nômeno e justificar a análise, em cada caso (Universidade do Centro de Lancashire), tem (cf. Zeshan, em preparação). expandido seu foco de pesquisa de forma a Na língua de sinais Kata Kolok, o espaço abranger a documentação lingüística das lín- de sinalização é muito maior do que os espa- guas de sinais de vilas. Uma das línguas de ços utilizados nas línguas de sinais de comu- sinais investigada nesse subprojeto é a Kata nidades surdas urbanas e geralmente tende a Kolok (literalmente “linguagem surda”), incluir movimentos com os braços totalmen- utilizada em um agrupamento comunitário te estendidos, movimentos do corpo inteiro no norte de Bali. Kata Kolok é a primeira (e (por exemplo, virar-se, inclinar-se para bai- única) língua das pessoas surdas na vila. Essa xo) e “representação” de movimentos (por língua também é, em maior ou menor pro- exemplo, “caminhar”). Como em outras lín- porção, utilizada como segunda língua pela guas de sinais, os sinalizantes de Kata Kolok maioria das pessoas ouvintes. A Kata Kolok podem criar disposições espaciais complexas, não é relacionada a nenhuma língua de sinais incluindo construções de duas mãos. O es- conhecida. Embora a Kata Kolok esteja em paço de sinalização é freqüentemente usado contato com línguas faladas, parece não ha- para expressar o movimento e a localização ver influência significativa de línguas faladas de referentes e as relações espaciais entre os em sua estrutura. Entretanto, há evidências referentes. Entretanto, a escolha de locais de influência significativa dos gestos locais na para estabelecer referentes em Kata Kolok é Kata Kolok, como era de se esperar. Acredi- bem peculiar, pois a língua utiliza referência ta-se que a língua de sinais existe na vila há espacial absoluta. O que se torna especial- 44 vários séculos e a comunidade possui diver- mente evidente no caso do dedo indicador
    44. Raízes, folhas e ramos – A tipologia de línguas de sinais apontando. A referência espacial absoluta sig- referentes a dois touros, um que é bom para nifica que ao invés de selecionar locais arbitrários procriar e outro que não é tão bom. Em uma no espaço para estabelecer referência, por exem- língua de sinais urbana, como as Línguas de plo, à direita ou à esquerda do sinalizante, a loca- Sinais Indiana, Alemã, Japonesa ou America- lização dos referentes no mundo real determina na, os dois touros provavelmente seriam loca- para onde o sinalizante irá apontar. Para que isso lizados pelo sinalizante à direita e à esquerda, funcione, os sinalizantes precisam sempre saber respectivamente, já que o fato de colocá-los a localização dos referentes no mundo real (por em lados opostos reflete, metaforicamente, exemplo, a casa das pessoas de quem os sinali- o contraste lógico que está sendo feito entre zantes estão falando). Essa habilidade é comum os dois. Entretanto, o sinalizante Kata Kolok entre várias vilas comunitárias de pessoas ouvin- aponta para um local ligeiramente à esquerda tes, por exemplo, em comunidades aborígines com o braço levantado e quase todo esticado, australianas, podendo a influência de um sistema referindo-se ao primeiro touro e aponta para de referência espacial absoluta ser observada em trás de si mesmo, para referir-se ao segundo Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais seus gestos (Levinson 2003:244). Curiosamente, touro. A razão para isso é que no mundo real, a língua balinesa falada utiliza um esquema de esses eram os lugares onde os dois touros vi- referência absoluta, de tal forma que a lógica es- viam na vila e tanto o sinalizante quanto o pacial das línguas falada e sinalizada se sobrepõe, destinatário estão cientes da localização exata no caso do balinês e do Kata Kolok. das casas dos touros, a partir do lugar onde Para ilustrar como a referência espacial estavam sentados, durante a conversa. Esse absoluta funciona na língua de sinais Kata princípio de localização é radicalmente dife- Kolok, veja o exemplo a seguir de uma enun- rente do que sinalizantes de uma comunida- ciação sinalizada 7: de urbana fariam, em um texto similar. Além de utilizar a referência espacial (6) q absoluta, o uso do espaço de sinalização em ACASALANDO QU Kata Kolok também difere em outros as- pectos de línguas de sinais urbanas mais co- q nhecidas. Por exemplo, sinalizantes de Kata ACASALANDO IX:frente.l Kolok não utilizam uma linha metafórica de tempo onde o passado está atrás do sinalizan- IX:trás RUIM (MATING WH MATING IX: te e o futuro à frente. Além disso, um sistema fwd.l IX:back BAD) de concordância verbal espacial é quase com- ‘Onde/com qual você está acasalando (seu gado)?’ pletamente ausente (Marsaja, no prelo). Para (‘Where/with which one are you mating (your cow)?) uma análise mais abrangente dessas diferen- Você está acasalando com este? (Are you mating it with ças e seus significados para o estudo compa- this one?) Aquele é ruim. (That one is bad.) rativo das línguas de sinais (ver Zeshan, em preparação). Aqui o sinalizante utiliza o dedo indica- Curiosamente, outra língua de sinais de dor apontando (IX) para estabelecer dois loci vila, a Língua de Sinais Adamorobe em Gana, 7 WH (do inglês) em Kata Kolok é um sinal de pergunta com uma semântica geral, portanto se emprega para uma grande variedade de palavras interrogativas dependendo do contexto da expressão. 4
    45. Ulrike Zeshan também apresenta muitas peculiaridades no algumas pessoas ouvintes dessa comunidade uso do espaço de sinalização. Entretanto, esse usam comunicação sinalizada, mas dada a si- sistema é diferente tanto das línguas de sinais tuação sociolingüística, não está claro “se sua urbanas quanto da Kata Kolok (ver Nyst, sinalização constitui uma língua de sinais ou 2007), o que é interessante porque impossibi- um sistema de sinais caseiros compartilhado” lita qualquer conclusão prematura sobre tais (van den Bogaerde, 2006). Situações similares diferenças como sendo devidas a um novo e com qualquer número de pessoas surdas ob- unificado “tipo de língua de sinais de vila”. viamente existem em muitas comunidades, Certamente, afirmar isso seria muito simplis- especialmente em países em desenvolvimento ta e mais pesquisas sistemáticas em línguas e o status de sua comunicação estabelece um de sinais de vilas se fazem necessárias no mo- desafio teórico a lingüistas. mento. Resumidamente, a pergunta de pesquisa é a seguinte: O que é necessário para uma língua ser viável em termos de tempo e espaço? Essa 4.2 A sinalização em agrupamentos co- Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais pergunta não pode ser abordada no âmbito das munitários – A linguagem é gradual? línguas faladas, devido ao extremo isolamento lingüístico que as pessoas surdas podem en- As línguas de sinais utilizadas tanto na vila frentar e que produz os conhecidos sistemas Adamorobe, em Gana, como na vila surda em de sinais caseiros improvisados e idiossincráti- Bali, existem por várias gerações e seus status cos, de funcionalidade relativamente limitada lingüístico como línguas amadurecidas não é (ver, por exemplo, o trabalho de Goldin-Me- questionado. As comunidades que utilizam adow, 2003), não desenvolvidos entre pessoas línguas de sinais também são em número su- ouvintes. Se pensarmos em contextos onde a ficientemente alto para serem consideradas comunicação gestual é utilizada por pessoas uma comunidade lingüística viável; no caso surdas, o resultado pode ser uma variação des- da Kata Kolok, por exemplo, abrangendo cer- de sinalizantes caseiros extremamente isola- ca de 50 pessoas surdas de todas as idades e a dos até comunidades de línguas de sinais, com maioria dos mais de 2000 membros ouvin- todos os pontos intermediários possíveis, na tes8. Entretanto, a situação lingüística é tão escala de variação. São esses pontos interme- clara em outros contextos rurais onde as pes- diários, como possivelmente o de Suriname, soas surdas vivem e se comunicam por meio os casos de “sistemas de sinais caseiros com- do modo gestual. Por exemplo, uma pesquisa partilhados”, que se constituem como o maior de campo recente investigou uma comunida- enigma teórico. Em casos como esse, é possível de rural no Suriname, onde 11 pessoas surdas que um sistema de sinal tenha deixado de ser foram identificadas até agora e o período de um sistema de sinal caseiro limitado, mas ain- tempo conhecido de existência dessa comuni- da não seja uma língua de sinais amadurecida? dade sinalizante foi rastreado como sendo de É possível se pensar a linguagem como um fe- não mais do que 50 anos. As pessoas surdas e nômeno gradual? 8 Contudo, a Língua de Sinais Adamorobe está atualmente ameaçada devido à influência da Língua de Sinais 4 Ghaniana, que os membros mais jovens aprendem na escola local para surdos (Nyst 2007).
    46. Raízes, folhas e ramos – A tipologia de línguas de sinais A representação esquemática na Figura 9 passar do tempo. Entretanto, os semi-falan- ilustra esse ponto. Dois tipos hipotéticos de tes que ainda utilizam um pouco dessa lín- comunidades de pessoas surdas são represen- gua adotaram uma outra língua falada como tados. Nesta situação, haveria somente um ou sua língua principal e, portanto, não se pode dois indivíduos surdos em cada uma das vilas chamar essas pessoas de semi-linguais (‘semi- (indicados pelos pontos dentro dos quadra- lingual people’). A situação a respeito da sina- dos), cada qual podendo ser, a principio, um lização entre pessoas surdas é diferente, nesse sinalizante de sinal caseiro. Entretanto, esses aspecto. indivíduos podem ter contato irregular e não Esse conjunto complexo de questões sistemático um com o outro (indicado pelas ainda não foi abordado pela pesquisa em setas), por exemplo, encontrando-se uma ou língua de sinais, tendo as comunidades sina- duas vezes por ano para um grande festival, lizantes minoritárias do tipo discutido aqui especialmente se as vilas forem muito distan- acabado de começar a fazer parte do quadro tes umas das outras e o transporte for difícil. da lingüística da língua de sinais. Enquanto Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais Quando tal situação seria suficiente para uma as respostas ainda parecem estar muito lon- língua em comum surgir e ser mantida entre ge, o fato de se levantar as questões certa- essas pessoas? Em outras palavras, é possível mente demonstra como as novas evidências que um sistema lingüístico seja mantido ao a partir dos diversos conjuntos de comuni- longo do espaço? Qual distância pode ser to- dades sinalizantes podem ser uma experiên- lerada antes que o sistema seja rompido? cia enriquecedora e podem, potencialmente, levantar questões teóricas muito profundas em lingüística. Figura 9: Situação de contato hipotética entre 5. Conclusão: Tipologia de língua de sinais além da lingüística Este artigo demonstrou maneiras fascinantes como os resultados a partir da tipologia de língua de sinais podem enriquecer nosso en- pessoas surdas em uma área rural tendimento da diversidade lingüística entre as línguas de sinais e entre a linguagem hu- A mesma pergunta poderia ser feita em mana em geral. Contudo, a história não aca- relação ao tempo. Como deve ser a escala de ba aqui. A pesquisa em tipologia de língua de tempo de contato entre indivíduos surdos sinais também apresenta efeitos nas comu- para que surja uma língua de sinais verdadei- nidades usuárias, efeitos esses que vão além ra? Quanto tempo de ausência pode ser to- da pesquisa teórica. Muitos desses efeitos são lerado antes que o sistema seja rompido? As bem conhecidos na lingüística da língua de línguas faladas enfrentam essa questão prin- sinais, mas são invocados, de forma especial- cipalmente quando as línguas estão desapa- mente pronunciada, no campo da tipologia recendo e sabe-se que o processo de desgaste de língua de sinais devido à amplitude de sua começa a afetar o sistema lingüístico, com o pesquisa, que vai além das áreas de pesquisa 4
    47. Ulrike Zeshan mais estabelecidas em comunidades surdas mos em detalhes aqui, discuto brevemente urbanas, nas sociedades industrializadas do os benefícios potenciais às comunidades que Ocidente. utilizam línguas de sinais, geralmente asso- A pesquisa sobre línguas de sinais e so- ciadas à pesquisa em tipologia de língua de bre comunidades surdas precisa ser especial- sinais. mente sensível quanto às considerações éticas O maior benefício da pesquisa em tipolo- na maneira como a pesquisa é conduzida e gia de língua de sinais certamente refere-se às como os resultados são aplicados. Atualmen- muitas línguas de sinais cujas estruturas lin- te, com a pesquisa em língua falada penetran- güísticas ainda não foram documentadas até do novas áreas como a documentação em o presente. Tendo em vista que a tipologia de grande-escala de línguas ameaçadas, as pre- língua de sinais procura, sistematicamente, ocupações éticas se tornaram mais comuns essas línguas e se concentra ativamente no e mais abertamente discutidas na lingüística. campo da documentação lingüística (cf. se- Por exemplo, as diretrizes éticas do departa- ção 2.2.1), muitas comunidades de línguas Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais mento de lingüística do Instituto Max Planck de sinais podem se beneficiar desses recursos para Psicolingüística (Max Planck Institute adicionais, ao serem consideradas, pela pri- for Psycholinguistics) afirmam: meira vez, na pesquisa sobre suas línguas. Com o passar do tempo, essa pesquisa Os membros do departamento devem, sem- pode gerar importantes recursos lingüísticos, pre que possível, assegurar-se que estão con- uma vez que é apenas com base em trabalho tribuindo com as comunidades em que es- descritivo sólido que projetos em lingüísti- tão trabalhando. Exceções a essa política só ca aplicada, como, por exemplo, o ensino podem ser consideradas em circunstâncias da língua de sinais, o treinamento de intér- realmente não-usuais, onde a implementa- pretes, etc., podem se tornar bem sucedidos ção da política é impossível e tais exceções e sustentáveis. Um exemplo de como a pes- requerem justificação detalhada, bem como quisa teórica e a pesquisa aplicada podem ser a aprovação do diretor do departamento conduzidas simultaneamente é documenta- (MPI-EVA 2002). do, no caso da Índia, no trabalho de Zeshan, Vasishta e Sethna (2004). As comunidades sinalizantes são geral- Reforçar a lingüística e, subseqüente- mente vulneráveis e freqüentemente enfren- mente, as dimensões aplicadas da pesquisa tam opressão lingüística, portanto, a maioria em língua de sinais é especialmente impor- dos lingüistas de língua de sinais está ciente tante em muitos países em desenvolvimento e de seus deveres de “dar retorno às comunida- a tipologia de língua de sinais está em posição des”. Com a ascensão da pesquisa nas mais de contribuir para tais desenvolvimentos. Se diversas comunidades dentro do paradigma pesquisadores experientes conduzirem tra- da pesquisa em tipologia de língua de sinais, balho de campo em uma determinada região novas questões surgem relacionadas a tal lín- onde a língua de sinais e suas aplicações ainda gua, por exemplo, trabalhos na “vila surda” não se estabeleceram, a troca de conhecimen- ou em situações de línguas de sinais amea- to importante entre o pesquisador estrangei- çadas (cf. (Nonaka, 2004). Esse é um ponto ro e a comunidade surda local pode acontecer 4 muito crítico, portanto, ao invés de entrar- e sinalizantes locais terão uma oportunidade
    48. Raízes, folhas e ramos – A tipologia de línguas de sinais de receber treinamento lingüístico. Conse- IX1 qüentemente, o nível de consciência metalin- pronome de primeira pessoa güística em comunidades surdas sem experi- (first person pronoun) ência prévia em língua de sinais irá aumentar IX2 com o tempo. pronome de segunda pessoa Finalmente, participar de um grande (second person pronoun) projeto interlingüístico possibilita uma opor- tunidade de treinamento excelente, para pes- IX quisadores iniciantes, que passarão a fazer dedo indicador apontado para uma certa dire- parte de um grupo de pesquisa e poderão ser ção (index finger pointing in a certain direction) guiados por coordenadores do projeto e por frente.1 (fwd.l) colegas pesquisadores na equipe do projeto, direção para frente-esquerda para desenvolver um projeto de pesquisa que (forward-left direction) seja independente até certo ponto e, ao mesmo atrás (back) Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais tempo, que aconteça com um espaço estrutu- rado de acordo com padrões e metodologias direção para trás (backwards direction) comuns da pesquisa em línguas de sinais. -pl Embora ainda haja muitas questões não forma plural de um sinal (plural form of a sign) resolvidas no domínio do empoderamento das comunidades surdas mundiais, a pesqui- neg sa em tipologia de línguas de sinais claramen- movimento da cabeça negativo te tem uma contribuição a fazer e pode, po- (negative headshake) tencialmente, fazer uma diferença real para a neg-balançar a cabeça (neg-tilt) situação das comunidades surdas em muitas cabeça inclinada para trás para negar partes do mundo. (backwards head tilt for negation) Abreviações e convenções de transcrição: q expressão não-manual para pergunta (non- SINAL (SIGN) manual expression for question) glosa para s sinal manual (gloss for s manual sign) s/n (y/n) SINAL/SINAL (SIGN/SIGN) expressão não manual para perguntas sim/não sinal com dois significados (non-manual expression for yes/no question) (sign with two meanings) qu (wh) SINAL-SINAL-... (SIGN-SIGN-…) expressão não-manual para pergunta qu- sinal único transcrito por mais de uma pala- (non-manual expression for wh-question) vra de glosa (single sign transcribed with more than one gloss word) QU (WH) Agradecimentos palavra interrogativa generalizada (generalised question word) A Pesquisa em Tipologia de língua de sinais do Instituto Max Planck para Psicolingüísti- 4
    49. Ulrike Zeshan ca (Max Planck Institute for Psycholinguistics) University Press. 2. ed., 2006. em Nijmegen, na Holanda, e conseqüente- HENDRIKS, B. An introduction to the Gram- mente na University of Central Lancashire in mar of Jordanian Sign Language. Salt, 2004. Preston, Reino Unido, financiada pelo Con- HENDRIKS, B.; ZESHAN, U. Sign Languages selho Alemão de Pesquisa (German Research in the Arab World. In: VERSTEEGH, Kees et Council) (Deutsche Forschungsgemeinschaft, al. (Orgs.). Encyclopedia of Arabic Language DFG) através de um programa de pós-dou- and Linguistics (EALL). Leiden, no prelo. torado de excelência (Emmy Noether Award HENGEVELD, K. Non-verbal predication: The- ZE507/1-2 e ZE 507/1-3). Sou muito grato a ory, Typology, Diachrony. Berlim, Mouton de todos os participantes nos dois estudos in- Gruyter, 1992. terlingüísticos em interrogativas e negativas LEVINSON, S. Space in language and cognition e em possessão e existência (para uma lista – explorations in cognitive diversity. Cam- completa das contribuições ver Zeshan 2006 bridge: Cambridge University Press, 2003. e Perniss & Zeshan, a ser publicado, respec- MARSAJA, I. G.; KOLOK, Desa. A deaf village Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais tivamente). Obrigado também a Kang-Suk and its sign language in Bali. In: Indonesia. Byun, Hasan Dikyuva e Waldemar Schwager Nijmegen, NL: Ishara Press, no prelo. pelas ilustrações dos sinais neste artigo. MAX PLANCK INSTITUTE FOR EVOLUTIO- NARY ANTHROPOLOGY (MPI-EVA), De- partment of Linguistics .Ethics Guidelines. Lei- Referências pzig: MPI-EVA. Disponível em: <http://www. eva.mpg.de/lingua/files/ethics.html>. Acesso BOGAERDE, B. V. D. Kajana Sign Language. em: 2002. Trabalho apresentado ao Sign Languages in McBURNEY, S. Pronominal reference in signed Village Communities, Nijmegen, 2006. and spoken language: are grammatical cate- COMRIE, B. Language Universals and Linguistic gories modality-dependent? In: MEIER, R., Typology. Oxford: Basil Blackwell, 2. ed., 1989. KEARSY, C.; QUINTO-POZOS, D. (Orgs.). ECCARIUS, P.; BRENTARI, D. Symmetry and Modality and structure in signed and spoken dominance: A cross-linguistic study of signs languages. Cambridge: Cambridge University and classifier constructions. Lingua, v. 7, p. Press, 2002. p. 329-369. 1169-1201, 2007. NONAKA, A. Sign Languages - The Forgotten GOLDIN-MEADOW, S. The resilience of lan- Endangered Languages: Lessons on the Impor- guage: What gesture creation in deaf children tance of Remembering. Language in Society, can tell us about how all children learn lan- v. 5, p. 737-767, 2004. guage. Hove, Psychology Press, 2003. NYST, V. A descriptive analysis of Adamorobe GREENBERG, J. Some universals of grammar Sign Language (Ghana). Utrecht, 2007. with particular reference to the order of mean- PAYNE, D. External Possession. Typological Stu- ingful elements, In: GREENBERG, Joseph H. dies in Language. Amsterdam, v. 39, 1999. (Org.).Universals of language. Cambridge, PERNISS, P.; ZESHAN, U. (Orgs.). Possessive MA, 1963. and existential constructions in sign languages. HASPELMATH. Indefinite pronouns. Oxford: Sign Language Typology Series, Nijmegen, v. Clarendon Press, 1997. 2, no prelo. 0 HEINE. Possession. Cambridge: Cambridge SCHWAGER, W.; ZESHAN, U. Word classes in
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    51. Um estudo interlingüístico de segmentação da palavra em três línguas de sinais1 Diane Brentari Ronnie Wilbur Universidade de Purdue 1. Introdução isso, podemos lidar com algumas perguntas de pesquisa interessantes: A determinação dos limites da palavra fornece informações importantes sobre sua estrutura 1. Surdos, sinalizantes nativos e ouvintes fonológica. Cada língua tem um conjunto de não-sinalizantes utilizam os mesmos prin- restrições sobre o que pode ser uma possível cípios para identificar os limites da palavra palavra. Freqüentemente, essas restrições são em uma seqüência de sinais (em uma lín- estipuladas em termos prosódicos, tais como gua de sinais que nenhum dos dois grupos o número admissível de pés ou seqüências entende)? de tipos de pés. A especulação de que as lín- 2. A língua de sinais ou língua/cultura domi- guas de sinais são mais semelhantes entre si nante faz diferença na resposta à primeira do que as línguas faladas (Newport e Supalla pergunta? 2000) levanta a questão da possibilidade de as línguas de sinais compartilharem algumas A fim de lidar com essas perguntas, pre- das mesmas restrições quanto ao que pode cisamos considerar onde sinalizantes e falan- ser um possível sinal. Enquanto se sabe que tes preferem dividir uma seqüência de sinais inventários de Configuração de Mão (CM) e porque escolhem fazê-lo. Neste estudo, os diferem entre as LSs (Eccarius 2002), sabe-se, parâmetros de sinais, Configuração de Mão também, que os inventários de Localização (CM), Ponto de Articulação (PA) e Movi- (L) e Movimentos (Ms) não são estudados. mento (M) são sistematicamente variados Nosso estudo compara as estratégias de seg- para nos permitir testar as pistas (cues) que mentação de palavras utilizadas em três gru- são utilizadass para tomar tais decisões. A in- pos de sinalizantes surdos (ASL, HZJ e ÖGS) formação obtida nos permite entender mais e três grupos de falantes ouvintes de sinais sobre a estrutura do sinal, especificamente, leigos (Inglês, Croata e Austríaco). Ao fazer quais combinações dos parâmetros fonoló- 1 Traduzido por: Maria Lúcia Barbosa de Vasconcellos, Lincoln Paulo Fernandes, Lautenai Antonio Barthalamei Junior
    52. Um estudo interlingüístico de segmentação da palavra em três línguas de sinais gicos são permitidas em um sinal isolado e começa não é a mesma coisa que identificar bem-formado, e como isso pode ser diferente qual palavra está envolvida. A segmentação da por língua de sinais. A comparação entre sina- palavra também não é necessariamente base- lizantes e não-sinalizantes também nos permi- ada em unidades segmentárias. Por exemplo, te determinar o efeito da experiência sobre a palavras monossilábicas podem ser separadas análise (parsing) da seqüência de sinais. Ava- com base nas seqüências sonoras ao invés da liamos o impacto de dois fatores inter-sujeitos: seqüência de segmentos individuais das quais Modalidade de Língua (Falada e Sinalizada) e são compostas. Língua Específica e um fator intra-sujeito: Pa- Para investigar a segmentação da pala- râmetro Fonológico (CM, PA e M). vra, as pistas que podem ser utilizadas como A informação obtida a partir de um base na tomada de decisões são confrontadas estudo como este pode ser aplicada a uma para determinar a força relativa de cada uma. situação prática – a análise (parsing) auto- Possíveis pistas podem ser ritmo e proprie- mática das transmissões de sinais por algo- dades dos sons ou dos próprios sinais. As Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais ritmos computacionais de reconhecimento crianças adquirem as restrições/estratégias de sinais. O computador precisa saber quais de segmentação da palavra de uma língua pistas utilizar para decidir se um sinal come- específica através de algum tipo de aprendi- çou ou terminou. zagem estatística. O sinal por si só (visual ou Na Sessão 2, discutimos a importância da auditivo) tem algum efeito na maneira como segmentação da palavra para o entendimento uma pessoa decide onde estão os limites das da estrutura do sinal, percepção e aplicação palavras, isto é um “efeito de modalidade”. para reconhecimento automático do sinal e Devido a esse efeito de modalidade, nossa fornecemos detalhes importantes da fonolo- primeira hipótese é que sinalizantes terão gia da língua de sinais para o entendimento julgamentos mais rigorosos do que não-si- da natureza das tarefas e suas implicações. nalizantes sobre onde fazer a divisão entre Na Seção 3, o experimento é apresentado; na dois sinais. Os sinalizantes demonstrarão Seção 4, são apresentados os resultados e na sensibilidade a informações mais simultâne- Seção 5, discutimos os resultados e direções as e a restrições fonológicas específicas da LS futuras. – tais como a distribuição das configurações de mão (CMs), pontos de articulação (PAs), e movimentos (Ms) – do que os não-sinali- 2. Contexto zantes. Além disso, sinalizantes utilizarão as regras de sua própria LS para segmentação e 2.1 Segmentação da Palavra até mesmo para uma LS pouco conhecida. Nossa segunda hipótese é que a segmen- A segmentação da palavra é a competência ne- tação nas línguas de sinais e a segmentação cessária para dividir uma seqüência de sinais nas línguas faladas requerem estratégias di- ininterruptos da língua em partes menores ferentes. A natureza visual do sinal fará com e manejáveis para processamentos futuros. que ambos, falantes e sinalizantes, utilizem Entretanto, a segmentação da palavra não é informações em nível da palavra para seus identificação da palavra por si só, ou seja, sa- julgamentos em uma dada língua de sinais, ber onde uma palavra termina e a próxima apesar de trabalhos sobre línguas faladas de- 3
    53. Diane Brentari e Ronnie Wilbur monstrarem que os falantes são inclinados a reto. A repetição de um M é, também, tratada usar uma seqüência de sílabas (por exemplo, como um único sinal. o pé) para fazer julgamentos de segmentação Outras combinações de movimentos não da palavra em línguas faladas. Esperamos que são permitidas em um único sinal. Uma com- os falantes se adaptem à nova modalidade binação proibida é uma seqüência de um M de língua mudando para uma abordagem de de trajetória seguido por um M local ou vice- segmentação em nível da palavra. versa (Perlmutter 1992). Uma outra com- binação impossível para um único sinal é a seqüência de dois círculos, cada um em uma 2.2 Parâmetros Fonológicos da LS direção diferente (Uyechi 1996). Finalmente, embora a seqüência “M circular seguido por 2.2.1 Dados úteis: CM um M de trajetória reta” seja permitida, o in- verso, “M de trajetória reta seguido por um No experimento, concentramos a atenção M circular”, não o é (Uyechi 1996). Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais nas CMs marcadas e não marcadas. Consi- Apesar dessas restrições gerais, alguns si- deramos as CM não marcadas como sendo o nais lexicais, tal como DESTROY [destruir] dedo indicador “um” ou a mão inteira “to- (Figura 1), tem 2 CMs e 2 M e ainda assim dos”. Essas são as primeiras CMs adquiridas são bons. e as últimas perdidas, em casos de dano cere- bral. Consideramos todas as outras combina- ções de dedos selecionados sendo CM marca- das. Em uma palavra, quando há duas CMs, elas geralmente são versões abertas e fechadas da mesma CM, ou uma ou ambas CMs não são marcadas. 2.2.2 Dados úteis: M Dois movimentos podem ocorrer no mesmo Figura 1: O sinal dissilábico ASL2 DESTROY sinal sob certas condições. Se um M é uma trajetória (em Brentari [direção] ou [traço], com formas de “arco”, “reta”, “círculo” ou 2.2.3 Dados úteis: PA “7”) e o outro é o local (mudanças de abertu- ra, orientação ou colocação), ambos podem Existem quatro principais regiões do corpo: ocorrer simultaneamente em um único sinal. cabeça, braço, tronco e a mão não-dominan- Existem também sinais da ASL que permitem te. Um sinal monomorfêmico pode ter um a seqüência de um círculo seguido de um M ou dois PAs em cada região, porém não em 4 2 Reproduzido com permissão da MIT Press, Cambridge MA.
    54. Um estudo interlingüístico de segmentação da palavra em três línguas de sinais diversas regiões (por exemplo, não na cabeça e no braço). Além disso, existem três planos (vertical, horizontal e sagital mediano), nos quais um sinal monomorfêmico pode ser fei- to, mas mudanças através destes planos não são permitidas. 3. Método 3.1 Sujeitos Figura 2: Exemplo de visualização dos itens de Seis grupos de sujeitos participaram do estu- tarefa na tela do computador do: três grupos de sinalizantes surdos e três 3.3 Estímulos Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais grupos de ouvintes de sinais leigos dos EUA, Croácia e Áustria (Tabela 1). Todos os sinali- zantes eram culturalmente surdos (eram bem Todos os 168 estímulos eram “pseudo-sinais” integrados à Comunidade Surda) e haviam (ou seja, sinais sem sentido/nonsense), com- sido treinados nos últimos 20 anos. Os não- postos de combinações contrabalançadas de sinalizantes eram provenientes das mesmas Movimentos (Ms), Configuração de Mão áreas urbanas, assim como os sinalizantes de (CM), e Ponto de Articulação (PA), a fim de cada país e da mesma faixa etária (entre 20- criar uma pista de conflito. Há 6 condições M 55 anos de idade). vs. 5 condições CM vs. 2 condições PA3. Isso resultou em 28 células (duas são impossíveis de construir), nas quais as pistas M, CM e PA Tabela 1: Grupos Participantes são confrontadas para testar as estratégias Grupo & Língua EUA (N) Croácia (N) Áustria (N) mais resilientes de segmentação da palavra, em cada grupo de participantes. Nosso de- Sinalizantes surdos ASL 13 HZJ 10 ÖGS 10 senho procura determinar a força relativa de Falantes ouvintes Austríaco de sinais leigos Inglês 13 Croata 10 Alemão 10 cada uma dessas pistas em relação às outras, assim como os efeitos relativos de diferentes formas em cada um desses tipos de pistas. 3.2 Tarefas Configurações de Mão são separadas em grupos não-marcados (CMn) e marcados Os participantes foram solicitados a assistir a (CMm): (1) CMn inclui B,5,A,S e 1; e (2) alguns vídeo clipes e a clicar em uma das duas CMm inclui todas as outras CM. Existem cin- caixas para responder à pergunta: “1 sinal ou co condições de CM nos estímulos, duas das 2 sinais?” (A Figura 2 mostra os botões com a quais são permitidas em sinais monomorfê- etiqueta na língua alemã). micos da ASL e três que não são permitidas. 3 Detalhes da gravação em vídeo, o sinalizante e a cronometragem do estímulo são fornecidos em Brentari (2006). 
    55. Diane Brentari e Ronnie Wilbur Os tipos fonotaticamente permissíveis são Tabela 3: Condições de Ponto de Articulação (1) apenas uma CM ou (2) uma seqüência de duas CM que compartilham o mesmo con- Condição No. PA em estímulo Resposta prevista junto de dedos selecionados e são relaciona- 1 1 PA 1 dos por uma mudança de abertura ([aberto] 2 2 PA 2 [fechado]). Os tipos não permitidos são (3) duas CMn (ou seja, o indicador ou todos os Há seis condições de M, divididas na- dedos), (4) uma CMn e uma CMm, e (5) duas quelas que são permissíveis em sinais mo- CMm3. É previsto que combinações permis- nomorfêmicos e naquelas que não são (e síveis eliciarão respostas de 1 (significando, que também não são permissíveis em com- um sinal aceitável) e aqueles com combina- postos de ASL) (Tabela 4). Duas das con- ções não permitidas eliciarão respostas de 2 dições são permissíveis em sinais mono- (significando, o estímulo não pode ser um morfêmicos: (1) um grupo de 30 itens tem sinal aceitável). As condições, as marcações um movimento e (2) um outro grupo de Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais de suas CM, as combinações no sinal de estí- 30 itens com dois movimentos, o que é um mulo e a resposta prevista (número de sinais) movimento repetido. As quatro condições são apresentadas na Tabela 2. de M restantes contêm 108 itens que não são permissíveis, tanto em sinais monomor- Tabela 2: Condições de Configuração de Mão fêmicos quanto em sinais compostos. Essas condições incluem: (3) 24 combinações de Condição Marcação Resposta movimentos locais não permissíveis (por No. de CM CM em estímulo prevista exemplo combinações de mudanças de CM 1 U 1 CM (sem mudança 1 de abertura) e mudanças de orientação); (4) 30 com- 2 U 1 CM (+ mudança 1 binações ilícitas (illicit combinations) de de abertura) dois movimentos de trajetória (por exem- 3 U+U 2 CMn 2 plo reta + arco ou círculo + círculo com 4 U+M 1 CMn+1 CMm 2 o segundo círculo indo na direção oposta); 5 M+M 2 CMm 2 (5) 24 combinações de um movimento de trajetória e uma mudança de configuração Há duas condições de PA: um PA ou de mão; e (6) 30 combinações de um mo- dois PAs (Tabela 3). Novamente, as formas vimento de trajetória e uma mudança de com dois PAs não ocorrem em sinais mono- orientação. morfêmicos da ASL, mas podem ocorrer em A organização geral dos estímulos é re- sinais compostos. As escolhas de PA vieram presentada na Tabela 5. Colocando os sinais do conjunto de regiões mais importantes do em conflito nesta forma, podemos avaliar di- corpo (cabeça, tronco, H2, braço) e dos pla- retamente os seguintes fatores de segmenta- nos tridimensionais. ção da palavra. 3 Os tipos (3) e (4) são compostos possíveis, mas não são sinais monomorfêmicos e as combinações do tipo (e)  não ocorrem em sinais únicos de tipo algum.
    56. Um estudo interlingüístico de segmentação da palavra em três línguas de sinais Tabela 4: Condições de Movimento 3.4 Análise Condição Resposta Porque nossos dados são binários (os es- No. M Permissibilidade M em estímulo prevista pectadores respondem “1” ou “2”), fize- 1 1 M gramatical M 1 mos uso da regressão logística binária, em 2 2 M Gramaticais M+M 1 vez da tradicional ANOVA. A regressão nos 3 M locais agramaticais Local M1 + local 2 M2 diz quais fatores são importantes e nos dá valores de qui-quadrado, para o qual rela- 4 M de trajetória Trajetória M1 + 2 agramaticais trajetória M2 tamos a estatística de Wald e seu nível de 5 Trajetória agramatical + Trajetória + 2 significância. mudança de CM mudança de CM 6 Trajetória agramatical + Trajetória + 2 mudança de orientação Mudança de orientação 4. Resultados Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais Vamos relatar, inicialmente, os resultados Tabela 5. Distribuição dos itens no conjunto para os Parâmetros Fonológico e, a seguir, para de estímulos. As células cinza indicam formas os Grupos, primeiro utilizando a Modalidade fisicamente impossíveis. (“∆”= “mudança”) da Língua (sinalizante, não-sinalizante), de- pois utilizando Línguas individuais (seis pos- M M M M M M 1or+ 2 1path+ 1path+ sibilidades), e por fim as interações. Vamos 1 (repetição) 1hsA trajetória 1hsA 1orA seguir concentrando a atenção nos detalhes CM PA(1) 3 3 0 3 0 3 de uma condição, Condição 1 CM (CMnm), 1 PA(2) 3 3 0 3 0 3 que fornecem uma visão mais avançada das CM PA(1) 3 3 3 3 3 3 2- A de estratégias utilizadas para decidir a segmen- abertura PA(2) 3 3 3 3 3 3 tação da palavra. CM PA(1) 3 3 3 3 3 3 1u+1u PA(2) 3 3 3 3 3 3 CM PA(1) 3 3 3 3 3 3 4.1 Parâmetros Fonológicos 1u+1m) PA(2) 3 3 3 3 3 3 CM PA(1) 3 3 3 3 3 3 Achamos que CM, PA e M são todos efeitos 1m+1m PA(2) 3 3 3 3 3 3 principais significativos (CM: df=4, Wald = 280.0213, p<.0001; PA: df=1, Wald=755.8732, Os estímulos foram apresentados aos par- p<.0001; M: df=5, Wald=904.7584, p<.0001) ticipantes na tela do computador em quatro entre os Grupos (Tabela 6). Além disso, exis- blocos, com intervalos entre eles. Os blocos tem interações significantes entre três deles de apresentação foram revezados de modo (CM*PA: df=4, Wald=112.1380, p<.0001; que o primeiro sujeito iniciou com o bloco 1, CM*M: df=18, Wald = =238.0592, p<.0001; o segundo com o bloco 2, e assim por diante, PA*M: df=5, Wald = 42.9386, p<.0001). Isso retornando ao bloco 1 para o quinto sujeito quer dizer, se um espectador utilizar uma e repetindo o revezamento conforme neces- CM, PA, ou M para decidir sobre os limites sário, até que todos os sujeitos passassem por da palavra dependerá do que o outro CM, PA todos os blocos. ou M possa estar inserido no sinal. 
    57. Diane Brentari e Ronnie Wilbur Tabela 6: Efeitos da CM, M e PA e rem uso significantemente maior das infor- combinação de 2 parâmetros mações de CM do que os não-sinalizantes (df =4,Wald =13.4804, p=.0092). Retornaremos DF Qui-Quadrado de Wald P a seguir às diferenças de CM. CM 4 280.0213 <.0001 PA 1 755.8732 <.0001 M 5 904.7584 <.0001 4.2.2 Língua CM*PA 4 112.1380 <.0001 CM*M 18 238.0592 <.0001 A comparação de todos os sinalizantes com PA*M 5 42.9386 <.0001 todos os não-sinalizantes mascara a varia- ção em cada grupo. Para explorar isso ainda mais, analisamos os resultados pela língua (ASL, Inglês, HZJ, Croata, ÖGS, Austríaco 4.2 Grupos Germânico) e encontramos um efeito signifi- Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais cativo (df=5, Wald = 76.1424, p<.0001). Para Passemos agora para a análise das diferenças isto, uma análise post-hoc revelou que (1) a entre os grupos. Brentari (2006) relatou que ASL diferiu mais das línguas européias fala- não há diferença entre sinalizantes (ASL) e das (Croata, Autríaca-Germânica) do que do não-sinalizantes (falantes de Inglês). Nes- Inglês e não diferiram da HZJ ou ÖGS, (2) te estudo, estenderemos esses resultados a falantes de Inglês divergiram de todas as lín- dois grupos adicionais de sinalizantes (HZJ e guas européias (HZJ, ÖGS, Croata e Alemão- ÖGS) e dois grupos adicionais de não-sinali- Austríaco) e (3) não houve diferenças entre zantes (falantes da língua croata e da língua as línguas européias. alemã-austríaca). Para a modalidade de lín- Utilizando a língua em vez da modali- gua, ainda temos dois grupos, os sinalizantes dade de língua, continuamos sem encontrar e não-sinalizantes. Para a língua, temos seis interação com M (df=25, Wald=22.8873, grupos. p=0.5841) e continuamos a encontrar uma interação com CM – quer dizer, sensibilida- de a CM, porém não a M, depende da língua 4.2.1 Modalidade de Língua que o sujeito utiliza (df=20, Wald =42.6356, p=.0023); ou seja, a sensibilidade a CM va- Não há efeitos de grande significância na ria significativamente entre todas as línguas modalidade de língua (df=1, Wald =.0738, (também entre as línguas de sinais, não ape- p=.7859). Em ambos os grupos, sinalizantes nas entre sinalizantes e não-sinalizantes). e não-sinalizantes utilizaram as mesmas es- Para confirmar esta sensibilidade, em- tratégias gerais: 1 valor = 1 palavra. Isto é par- pregamos medidas de d-prime (d’), um teste ticularmente válido para parâmetro morfoló- estatístico de sensibilidade e que nos permite gico M, que não era afetado pela Modalidade reconhecer e controlar padrões de respos- de Língua. ta irrelevantes, como dizer sempre “1 sinal” Porém, os sinalizantes se mostraram independentemente dos estímulos (Keating mais sensíveis a uma quantidade maior de 2005). Isso é calculado a partir da diferença  informações simultâneas, no sentido de faze- de significado do Índice-Z das batidas (por
    58. Um estudo interlingüístico de segmentação da palavra em três línguas de sinais exemplo, o valor previsto de resposta era “1 para ASL como o foram para os sinalizan- sinal”, e a resposta verdadeira era “1 sinal”) tes pertencentes a ASL. As sensibilidades a menos os Alarmes Falsos (o valor previsto PA e a M indicam que restrições em nível da da resposta era “2 sinais” e a resposta foi “1 palavra da Hzj e da ÖGS também diferem sinal”) (Tabela 7). Um valor de 1.0 para d’ daquelas da ASL. inclui por volta de 69% de todos os casos. Tabela 7: Sensibilidade a cada parâmetro depois da aplicação de d’ Modalidade de Língua Língua d’-CM d’-PA d’-M Sinal ASL 1.65 .78 .79 Falado Inglês 2 .21 .04 .86 Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais Sinal HZJ 3 .33 .38 .23 Falado Croata 4 .01 .56 .04 Sinal ÖGS 5 .86 .54 .60 Falado Alemão Austríaco 6 .25 .02 .25 Observando-se, primeiramente, as dife- renças de sensibilidade entre o grupo de mo- dalidade falada e sinalizada percebemos que (1) a sensibilidade em geral para os não-sina- d’-CM azul Línguas d’-PA verde 1 ASL lizantes estava substancialmente abaixo dos d’-M bege 2 Inglês 3 HZJ sinalizantes e (2) a CM era mais importante 4 Croata para os sinalizantes e menos importante para 5 ÖGS 6 Austríaca não-sinalizantes (Figura 3). Alemã Comparando os três grupos de sinali- zantes (Línguas 1, 3 e 5), o que vemos na Figura 3: d’ para CM e M pela língua Figura 3 é que as CMs utilizadas nos estímu- los, retiradas da ASL, foram mais relevantes Examinando os grupos de não-sinalizan- para os sinalizantes da ASL e menos relevan- tes (Línguas 2, 4 e 6), percebemos que os fa- tes para os outros dois grupos de sinalizan- lantes de língua inglesa dependeram enorme- tes, embora com mais relevância para os si- mente de um M, os falantes da língua croata nalizantes da ÖGS, do que para os sinalizan- dependeram enormemente do PA, enquanto tes da HZJ. Isto sugere que os inventários os falantes da língua austríaca dependeram de CM e as restrições nessas duas línguas de igualmente do M e da CM. Em suma, eles sinais variam, em graus diferentes, daqueles adotaram estratégias diferentes para pesar as da ASL. Naqueles casos onde a CM pode ser pistas disponíveis que têm o efeito geral de a única pista disponível sobre o qual se base- produzir 2 valores = 2 palavras, 1 valor = 1 ar uma decisão, as CMs não foram tão úteis palavra. 
    59. Diane Brentari e Ronnie Wilbur 4.3 Condição 1 de CM diferente pelo PA para sinalizantes e não- sinalizantes e, curiosamente, também no Como visto na Figura 4, que mostra a res- interior do grupo de sinalizantes. Os sinali- posta média correta para as condições “sinal zantes da ASL mostraram-se sensíveis à CM, = 2”, a maior diferença entre sinalizantes e a despeito de os estímulos conterem um ou não-sinalizantes está na condição 1 de CM. dois PAs. Os sinalizantes da HZJ não se mos- Para esses itens, na base de uma CM isolada, traram sensíveis à CM quando os estímulos os sujeitos deveriam responder “um” para a apresentavam apenas um PA, porém mostra- questão se o estímulo é um ou dois sinais; no ram-se sensíveis, quando o PA apresentava entanto, cada estímulo também contém pelo dois PAs. Ao contrário, sinalizantes da ÖGS menos um PA e um M. A diferença entre mostraram-se sensíveis à CM quando os estí- essa condição e todas as outras é significativa mulos apresentavam apenas um PA, porém, (df=1, Wald= 9.3123, p=0.0023) em maiores não quando apresentavam dois PAs. Para os detalhes do que as outras. não-sinalizantes, se os estímulos continham Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais apenas um PA, suas respostas foram sensíveis à CM, ou seja, eles prestavam atenção se havia mais do que uma CM. No entanto, quando o estímulo continha dois PAs, os não-sinali- zantes não se mostraram sensíveis à CM. Tabela 8: O Efeito da Linguagem x PA na Condição 1 de Configuração de Mão Língua PA = 1 PA = 2 Figura 4: Respostas dos sujeitos para condições ASL Wald= 16.6679, p=.0022 Wald = 35.7146, p<.0001 de CM 1-5 para sinalizantes (1) e não- HZJ Wald=3.8585, NS Wald = 11.5864, p=.0207 sinalizantes (2) (cortesia de J. Bourneman) ÖGS Wald=24.7699, p<.0001 Wald = 3.5, NS Explorar essa condição com mais deta- Inglês Wald = 29.1783, p<.0001 Wald = 5.3665, NS lhe revela padrões interessantes de interação Croata Wald = 48.3648, p<.0001 Wald = 6.9677, NS entre parâmetros fonológicos e os grupos de Alemão Wald = 13.4635, p=.0092 Wald = 7.3515, NS Austríaco sujeitos. Na condição 1 de CM, os estímulos contêm um único CM não-marcado do in- ventário da ASL. O grau em que os sujeitos utilizam essa informação adicional virá por 5. Conclusões e trabalhos futuros afetar sua resposta - “um” ou “dois” - apesar de haver apenas uma CM. A primeira obser- 5.1 Hipótese 1 vação é que tanto sinalizantes, quanto não-si- nalizantes foram sensíveis ao M na condição Os sinalizantes demonstraram sensibilida- 1 de CM. de a informações mais simultâneas e a res- A segunda observação é que as decisões trições fonológicas específicas da língua de na condição 1 de CM são afetadas de forma sinais – tais como distribuição das configu- 0
    60. Um estudo interlingüístico de segmentação da palavra em três línguas de sinais rações de mão (CMs), pontos de articula- Os resultados apresentados aqui tam- ção (PAs), e movimentos (Ms) – do que os bém dão suporte à hipótese de que sinali- não-sinalizantes. zantes usarão regras de sua língua de sinais A hipótese 1 foi parcialmente confir- para a tarefa de segmentação, mesmo em mada: os sinalizantes são mais sensíveis às uma língua de sinais desconhecida. Os sina- informações simultâneas no sinal do que lizantes da ASL estavam, basicamente, lidan- os não-sinalizantes. Os resultados relatados do com o inventário fonêmico de suas pró- aqui demonstram duas tendências aparen- prias línguas, enquanto tomavam decisões temente contraditórias: nenhuma diferença sobre as restrições em nível da palavra em entre sinalizantes e não-sinalizantes e uma combinações. Ao contrário, os sinalizantes diferença clara entre sinalizantes e não-si- da HZJ e ÖGS lidaram de forma diferente nalizantes, com relação aos parâmetros fo- com os inventários fonêmicos e as restrições nológicos específicos. As semelhanças dos ao nível da palavra. Os estímulos podem ter sinalizantes e não-sinalizantes em geral é contido CM, PA e M que não são fonêmicos Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais o resultado do mesmo tratamento de Mo- tanto em HZJ, quanto em ÖGS. Além disso, vimento, ou seja, para ambos os grupos, o as restrições ao nível da palavra para essas Movimento foi um fator significativo na to- duas línguas de sinais podem ser diferentes. mada de decisão quanto à segmentação da Por exemplo, alguns dos estímulos que po- palavra. As diferenças entre os dois grupos deriam, claramente, ser separados em dois resultam do papel ou da falta de PA e CM. O sinais na HZJ ou ÖGS, na ASL podem ser uso do PA variou para os não-sinalizantes, sinais isolados admissíveis, ou vice-versa. O não havendo quase variação alguma para os exemplo da ASL DESTROY, discutido an- falantes da língua inglesa e da língua alemã- teriormente, ilustra a complexidade dessas austríaca e com significativa variação para restrições no sentido de que algumas com- os falantes croatas, assim como para os si- binações de dois movimentos ainda podem nalizantes, de forma similar ao que foi ob- ser consideradas um único sinal na ASL. servado em relação ao contraste entre HZJ Face aos inventários fonêmicos e combina- e ÖGS, no que diz respeito à forma como ções pouco familiares, os sinalizantes devem os valores de PA afetaram suas decisões nas utilizar as regras de sua própria língua de condições de CM. sinais para tomar decisões de segmentação. Nossos resultados indicam que a CM é Esse fato é sublinhado pelos diferentes pa- especial na fonologia da língua de sinais. Os drões de decisão para HZJ e ÖGS, ou seja, sinalizantes prestam mais atenção a ela na suas sensibilidades diferenciais para CM segmentação da palavra, do que os não-si- nas duas condições do PA. Os sinalizantes nalizantes. A CM também é claramente mais da HZJ não se mostraram sensíveis à CM categórica do que o PA, que pode ser tratado quando o estímulo apresentava apenas um de maneira diferente mesmo em línguas de PA, porém mostraram-se sensíveis, quando sinais distintas, ou o Movimento, que é tra- o PA apresentava dois PAs. Contrariamente tado de forma semelhante por sinalizantes e a essa situação, os sinalizantes da ÖGS mos- não-sinalizantes. Existe também uma grande traram-se sensíveis à CM, quando os estímu- diferença no inventário de CM entre as LSs e los apresentavam apenas um PA, mas não os sistemas de gestos. quando o estímulo apresentava dois PAs. Se 1
    61. Diane Brentari e Ronnie Wilbur fosse meramente uma questão de modali- padrão trocaico (forte-fraco) ou iâmbico dade, seria de se esperar que os sinalizantes (fraco-forte). Em vez disso, como acontece da HZJ e os sinalizantes da ÖGS agissem de com a segmentação da palavra baseada na forma semelhante e não no padrão contras- harmonia vocálica, cada mudança no valor tante como aqui foi observado. desencadeou a percepção de que ela sinalizou o início de uma nova palavra. Portanto, concluímos que os espectado- 5.2 Hipótese 2 res de LSs utilizam a palavra para segmentar as seqüências sinalizadas, o que atribuímos, A natureza visual do sinal fará com que tanto em larga escala, à natureza visual/gestual das falantes quanto sinalizantes usem informa- línguas de sinais, ao passo que os ouvintes das ção ao nível da palavra para seus julgamentos línguas faladas dependem muito mais de síla- na LS, apesar do fato de trabalhos sobre uma bas para a segmentação da palavra, o que atri- língua falada mostrarem que falantes são pré- buímos à natureza auditivo/vocal das línguas Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais dispostos a usar uma seqüência de sílabas (ou faladas (cf. discussão de diferenças em Allen, seja, o pé) para fazer julgamentos de segmen- Wilbur & Schick 1991; Brentari 1998; Wilbur tação da palavra em línguas faladas. & Allen 1991; Wilbur & Petersen 1997). A segmentação nas línguas de sinais e nas línguas faladas requer estratégias diferentes. A segmentação da palavra em línguas faladas 5.3 Direções futuras depende muito das pistas rítmicas – pés tro- caicos (por exemplo, “chil.dren, break.fast”). Existem vários fatores que merecem ser mais O que é mais “baseado na sílaba”. As línguas explorados. Um deles é a forma como “repre- de sinais utilizam pistas baseadas em domí- sentamos com palavras” a questão para nos- nios, que são mais baseados na palavra (1 va- sos sujeitos. Poderíamos antecipar resultados lue=1 word). Os sinalizantes abordam a tare- diferentes se reformulássemos as instruções fa de maneira diferente dos não-sinalizantes. para pedir aos sinalizantes “Esta forma poderia Os sinalizantes prestam atenção, primeiro no ser composta?” Na ASL, existem sinais com- M e depois na CM e, por fim, no PA. Os não- postos que permitem 2 PAs contrastivas, por sinalizantes prestaram atenção - na maioria exemplo: FEMALE (cabeça)^MARRY (mão) das vezes - primeiro no M, depois no PA e, = “wife”. Existem também sinais compostos geralmente, ignoraram a CM. que contêm 2 PAs contrastivas e 2 CMs, como Uma questão chave para a tarefa aqui em SLEEP^SUNRISE = “oversleep”. apresentada é se a dependência em pistas de Dada a interação entre a ASL e a soletra- M é um efeito da palavra ou um efeito da sí- ção de uma mão do alfabeto, existe um nú- laba. Gostaríamos de argumentar que essa mero substancial de sinais contendo 2 CMs dependência é um efeito da palavra, pois a contrastivas. Esses incluem empréstimos de estratégia geralmente utilizada pelos partici- sinais como #JOB (reduzido de uma seqüên- pantes é “1 valor=1 palavra”. Para a sílaba ser cia de letras soletrada manualmente para ape- uma unidade relevante, a evidência de uma nas a primeira e a última letra com um mo- seqüência silábica de um tipo em particular vimento de torção de pulso) e sinais iniciali- 2 seria necessária, assim como o pé, com um zados como #BACKGROUND e #PROJECT.
    62. Um estudo interlingüístico de segmentação da palavra em três línguas de sinais As respostas de sinalizantes da ASL para os Robin Shay da Purdue, por servir como um estímulos originais que apresentamos podem modelo para a criação dos estímulos; Pra- ser afetadas se considerarem a possibilidade dit Mittrapiyanuruk da Purdue, por criar de a forma ser um composto. o software da apresentação; Petra Eccarius Por outro lado, os compostos não são tão da Purdue, Marina Milković e Ljubica bem estudados na HZJ e na ÖGS e uma pri- Pribanić da University of Zagreb e Kathari- meira impressão é que, na HZJ, existem bem na Schalber da Áustria pela coleta de dados; poucos compostos. Na HZJ, não existem (vir- as comunidades de Surdos em Indianápolis, tualmente) sinais inicializados ou emprésti- Zagreb e Viena e a Vienna Deaf Association mo de sinas da soletração manual. A situação por seu auxílio e participação; ao Statistical para a ÖGS não é geralmente estudada. Então Consulting Service da Purdue e J. Bourne- fica difícil prever qual efeito a mudança nas man pela orientação e análise; à Purdue Uni- instruções pode ter nesses dois grupos. versity Faculty Scholars Fund e o National Ao mesmo tempo, fica claro que muitas Science Foundation Grant No. 0345314. A Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais questões sobre nossos resultados não serão pesquisa de Wilbur sobre o reconhecimento respondidas até termos descrições melhores automático dos sinais da ASL é conduzida das fonologias nas línguas HZJ e ÖGS. Um in- em parceria com Avinash Kak, EE na Pur- ventário dos PAs característicos na HZJ revela due e financiada com recursos da NSF Grant que na área da cabeça, a HZJ tem localização No. 0414953. característica em frente ao pescoço, localiza- ção não utilizada na ASL; caracteristicamen- te, a ASL utiliza a frente do pulso e o dedo da Referências mão não-dominante, diferentemente da HZJ; a HZJ utiliza o lado radial do pulso, o que não ALLEN, G. D.; WILBUR, R. B.; SCHICK; B. S. é característico da ASL (Šarac Kuhn, Alibašić Aspects of rhythm in American Sign Language. Ciciliani & Wilbur 2006). O inventário de CM Sign Language Studies 72: p.297-320. da HZJ também difere da ASL – nem todas BRENTARI, D. A prosodic model of ASL phonol- as CMs da ASL são utilizadas na HZJ e a HZJ ogy. Cambridge: MIT Press, 1998. tem CMs que não são utilizadas na ASL, por BRENTARI, D. Effects of language modality on exemplo, os dedos indicador e médio estendi- word segmentation: An experimental study of dos e adjacente, cada um com o polegar aber- phonological factors in a sign language, em: to (“U-th”) (Šarac Kuhn, Alibašić Ciciliani & ANDERSON, S., GOLDSTEIN, L.; BEST, C. Wilbur 2006). Ainda não temos informações (Orgs.) Papers in Laboratory Phonology, v. 8, equivalentes para a ÖGS, também não haven- p.155-164, 2006. do indicação alguma das restrições ao nível da ECCARIUS, P. Finding common ground: A com- palavra, para a ÖGS ou para a HZJ. parison of handshape across multiple sign languages. Dissertação de Mestrado - Purdue University, 2002. Agradecimentos KEATING, P. D-prime (signal detection) analysis. Disponível em: <ttp://www.linguistics.ucla. Os autores agradecem aos membros da sua edu/faciliti/facilities/statistics/dprime.htm> . equipe que tornaram este projeto possível: Acesso em 2005. 3
    63. Diane Brentari e Ronnie Wilbur NEWPORT, E.; SUPALLA, T. Sign language re- KUHN, N. S.; ALIBAŠIĆ, C. T.; WILBUR, R. B. Pho- search at the millennium. In: EMMOREY, K. & nological parameters in Croatian Sign Language. LANE, H., (Orgs.) The signs of language revisi- Sign Language & Linguistics 9, p.33-70, 2006. ted: An anthology to honor Ursula Bellugi and UYECHI, L. The geometry of visual phonology. Edward Klima, Mahwah, p. 103-114, 2000. Stanford, 1996. PERLMUTTER, D. Sonority and syllable struc- WILBUR, R. B.; ALLEN, G. Perceptual evidence ture. In: American Sign Language. Linguistic against internal structure in ASL syllables. In: Inquiry, v 23: p. 407-442, 1992. Language and Speech, v. 34: p.27- 46, 1991. ROZELLE, L. Does location predict handshape? WILBUR, R. B.; PETERSEN, L. Backwards sign- Dependence between phonological parame- ing and ASL syllable structure. Language and ters. TISLR 8, 2004. Speech, v. 40: p. 63-90, 1997. Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais 4
    64. Revertendo os verbos reversos e seguindo em frente: sobre concordância, auxiliares e classes verbais em línguas de sinais1 Ronice Müller de Quadros (Universidade Federal de Santa Catarina) Josep Quer (Universiteit van Amsterdam) 1. Introdução recem denotar transferência de um tema ou em um sentido literal ou abstrato, estabelece- A classificação tripartite padrão dos verbos se a generalização semântica que os espaços das línguas de sinais (Padden 1983/1988) do morfema direcional de TRAJETÓRIA po- baseia-se na suposição que a concordância dem ser ocupados por papéis temáticos fon- exibida por verbos espaciais e por verbos te e alvo em ambas as classes de predicados de concordância é de um tipo diferente: en- (Fischer & Gough 1975). Para verbos espa- quanto os primeiros exibem concordância ciais, isso é relativamente direto; para verbos locativa (ou seja, com os loci associados a ar- de concordância, fonte e alvo são restritos a gumentos locativos), os últimos concordam [+humano], podendo, assim ser renomeados morfologicamente com argumentos sujeito e como agente e benefactivo, respectivamente. objeto (ou seja, com os loci ligados aos seus Por mais atraente que este quadro pos- referentes). Entretanto, os predicados espa- sa ser, ele também se depara com alguns sé- ciais que expressam movimento e os verbos rios desafios. Provavelmente, o desafio mais de concordância recorrem ao mesmo tipo de explorado é o problema da subclasse dos elemento morfológico para realizar o suposto verbos de concordância chamados “rever- tipo diferente de concordância: TRAJETÓ- sos” (backwards): em tais predicados, o ali- RIA (PATH) (Meir 1998; DIR in Meir 2002). nhamento da trajetória não é com o sujeito A contribuição semântica desse morfema nas e o objeto, mas com a fonte e o alvo, o que duas classes seria essencialmente a mesma: em resulta em uma trajetória que vai do locus do verbos espaciais, as posições (slots) iniciais e objeto ao locus do sujeito. A solução de Meir finais de TRAJETÓRIA estão alinhadas com (1998) é separar concordância morfológica as localizações e, em verbos de concordância, com fonte e alvo de concordância sintática estão alinhadas com os loci de sujeito e obje- com o objeto, o que é explicitamente marca- to. Visto que os verbos de concordância pa- do pela orientação da mão em ISL2. 1 Traduzido por: Maria Lúcia Barbosa de Vasconcellos 2 Meir (2002) oferece uma versão mais elaborada desta análise baseada na sua proposta inicial.
    65. Ronice Müller de Quadros e Josep Quer No entanto, a perspectiva tradicional so- e/ou com os argumentos objeto do predica- bre a concordância verbal em LSs tem que do (Fischer 1973) e é morfologicamente rea- abordar mais profundamente questões que lizado pelo movimento de trajetória e/ou de receberam pouca ou nenhuma atenção na orientação3. Por outro lado, a concordância literatura relevante. Neste artigo, revisamos espacial é uma relação locativa estabelecida as idéias principais nas diferentes abordagens com pontos no espaço de sinalização cor- e, então, aperfeiçoamos algumas delas, assim respondentes às localizações. Quando esses contribuindo para uma caracterização mais pontos constituem o início e o fim de um precisa da concordância, tipologia verbal e movimento, eles são interpretados como ar- os chamados predicados auxiliares nas LSs. gumentos locativos do verbo de movimento A fim de sustentar os argumentos, evidências (FONTE-ALVO). Entretanto, há discordân- recentes são discutidas a partir da Língua de cia sobre esta proposta. Kegl (1985), por Sinais Brasileira - LSB - e da Língua de Sinais exemplo, observou que verbos espaciais e de Catalã – LSC. concordância podem concordar com a FON- Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais TE-ALVO, uma linha de análise desenvolvida no trabalho de Meir (1998, 2002). 2. Concordância Verbal e Classes A classificação verbal mais comum da Verbais nas LSs Língua de Sinais Americana [American Sign Language – ASL] segue o agrupamento tri- 2.1 Concordância sintática vs. partite de Padden (1983/1988, modificada concordância temática em 1990: 119): (1) verbos simples que não flexionam em número e pessoa e tampouco Há uma discussão clássica na literatura das aceitam afixos locativos; (2) verbos de con- línguas de sinais sobre o status da concor- cordância que flexionam em pessoa e núme- dância, nesse tipo de língua. A realização ro e não aceitam afixos locativos; e, (3) ver- morfológica da concordância é compreen- bos espaciais que não flexionam em número, dida como o movimento entre dois pontos pessoa ou aspecto, mas aceitam afixos loca- associados com os argumentos de certos ver- tivos. Observe-se que Padden diferenciou bos. Pesquisadores como Kegl (1985), Pad- entre flexão e afixação com verbos espaciais den (1983/1988), Janis (1992, 1995), Fischer e de concordância, respectivamente (concor- (1996) e Mathur (2000) apresentaram dife- dância sintática e morfológica). rentes análises identificando a concordân- Segundo Aronoff, Meir e Sandler (2005), cia como algo determinado por motivações concordância sintática consiste em copiar ín- sintáticas e/ou semânticas e concedendo um dices referenciais livremente sob condições status distinto à concordância sintática e es- sintáticas específicas (envolvendo a verifica- pacial. Por um lado, a concordância sintática ção de características). Concordância mor- (e/ou semântica) é interpretada como uma fológica nas LSs corresponderia à realização relação gramatical estabelecida com o sujeito manifesta daqueles índices sintáticos. Na re- 3 Para fins de simplicidade, neste artigo tratamos a questão da orientação (apresentando-se nos termos de Meir)  como expressão de concordância morfológica sobre o verbo.
    66. Revertendo os verbos reversos e seguindo em frente lação de concordância em geral, há um con- ses verbos de ‘verbos de movimento’. Fischer trolador e um alvo da concordância. O pri- (1973), Fischer & Gough (1978), e Baker & meiro é o nominal do qual o index é copia- Cokely (1980) os chamam de ‘verbos direcio- do, enquanto o segundo é o elemento sobre nais’. Padden (1983), inicialmente, denomi- o qual o indicador é copiado. Geralmente, o nou esses verbos ‘verbos de flexão’, mas após verbo leva consigo um marcador que refle- Padden (1990), ela adotou o termo ‘verbos te características morfológicas específicas do de concordância’, reconhecendo que verbos controlador do sujeito. A especificidade nas de flexão incluem verbos espaciais e de con- línguas de sinais é que a concordância é ex- cordância, assim como qualquer outro tipo pressa diretamente através de índices refe- de flexão que pudesse ser vinculada a qual- renciais, isto é, através da cópia dos loci re- quer verbo. Janis (1995) utiliza a terminolo- ferenciais (R-loci) nos espaços morfológicos gia ‘concordância locativa’ e ‘concordância correspondentes do verbo de concordância. não locativa’ para se referir à flexão locativa Arnoff, Meir e Sandler analisam o caso espe- e flexão de concordância, respectivamente. O Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais cífico da concordância morfológica nos ver- motivo da proliferação dos termos está pro- bos da língua de sinais como tendo dois espa- vavelmente relacionado à forma que a flexão ços de localização abertos que determinarão a vinculada ao verbo toma e também ao status TRAJETÓRIA do sinal à la Meir (1998). Para da concordância propriamente dita. Pare- verbos de concordância, existe a concordân- cem, também, existir verbos opacos (fuzzy) cia com os argumentos gramaticais. Para ver- que não se encaixam, rigorosamente, na clas- bos espaciais, há localizações em que a traje- sificação tripartite, visto que suas proprieda- tória do verbo é uma representação direta da des temáticas e gramaticais podem ser inclu- trajetória do objeto de movimento. Assim, no ídas em mais de uma classe. Kegl (1985:35) sentido proposto por Meir (1998), a direção observa que a necessidade de invocar noções da trajetória com os verbos de concordân- temáticas tais como agente, paciente, fonte e cia é determinada por papéis temáticos dos alvo “surge do fato que em línguas como o argumentos (argumentos FONTE-ALVO), inglês não há correlação fixa entre papéis se- enquanto a orientação das mãos é determi- mânticos/temáticos e relações gramaticais”. nada pelo papel sintático dos argumentos do Esse caveat é importante, na medida em que objeto. Em relação à interpretação semântica também se aplica às línguas de sinais. envolvida, os verbos de concordância deno- tam TRANSFERÊNCIA e os verbos espaciais denotam MOVIMENTO. Nessa perspectiva, 2.2 Concordância temática: incorporando a semântica do verbo é o que determina as verbos reversos (backward verbs) no classes verbais. cenário A terminologia adotada para as classes verbais em ASL não é universalmente aceita. O status atribuído à concordância por Meir Alguns pesquisadores tais como Loew (1984), (1998, 2002) está restrito às relações semân- Lillo-Martin (1986) e Emmorey (1991) se ali- ticas estabelecidas pela TRAJETÓRIA. Meir nham a Padden em sua classificação e uso do (1998) mostra que a direcionalidade deve ser termo ‘verbos de concordância’. Outros, en- isolada, devido à existência dos verbos rever- tretanto, como Supalla (1990), chamaram es- sos. Verbos reversos são predicados de con- 
    67. Ronice Müller de Quadros e Josep Quer cordância em que a posição inicial do sinal dessa abordagem é a omissão do marcador é a localização do objeto e a posição final é de concordância na ASL, por meio do que a aquela do sujeito, diferentemente de outros marcação do sujeito pode ser opcionalmente verbos de concordância. Na análise de Meir, omitida, nos verbos regulares e reversos. Isso “a direção do movimento de trajetória marca não seria de se esperar em uma abordagem as relações semânticas (ou temáticas) entre os temática como a de Meir, uma vez que de- argumentos do verbo enquanto a orientação veríamos especificar que em verbos regulares das mãos marca as relações sintáticas entre de concordância, o argumento opcionalmen- os argumentos do verbo” (Meir 1998). Meir te omitido é aquele que carrega a FONTE, (1998) argumenta que a direcionalidade não enquanto a concordância ausente nos verbos é o elemento fonológico relevante para carac- reversos é aquela associada ao argumento terizar relações gramaticais de argumentos, ALVO. mas, sim, a orientação das mãos. A orienta- ção das mãos é o direcionamento para o qual 2.3 Concordância Sintática vs. Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais a palma e/ou as pontas dos dedos são orien- tadas nos verbos de concordância, o que é de- Concordância Locativa terminado pelo locus referencial atribuído ao argumento-objeto do verbo. Padden oferece três testes para diferenciar a Os verbos reversos são os exemplos mais natureza sintática e locativa da concordância, apropriados para dar suporte ao argumen- em casos onde a similaridade superficial dos to de Meir. Nesses predicados, a direção do morfemas envolvidos pode levar a uma iden- movimento não se inicia na posição associa- tificação dos dois tipos. Ela distingue entre da ao sujeito gramatical e termina na posi- ‘concordância de pessoa’, na qual morfemas ção do objeto, mas, sim, de maneira inversa. de pessoa gramatical se diferenciam entre Entretanto, a orientação das mãos na direção primeira e não-primeira pessoa gramatical, e da localização do objeto é preservada. Por- ‘localização espacial’, na qual o que é men- tanto, Meir propõe a existência da marca- cionado é qualquer ponto físico sobre ou em ção dupla, isto é, concordância da trajetória volta do corpo do sinalizador. temática (FONTE-ALVO) e concordância Primeiramente, com verbos espaciais, a sintática (orientação da mão em direção ao interpretação da concordância é locativa, uma objeto). Alguns de seus verbos apresentados vez que ela é interpretada como movimento como exemplos desse padrão reverso em ASL entre localização específica no espaço (1a); a e ISL (Língua Israelense de Sinais) são COPY, concordância sintática implica a interpreta- INVITE, TAKE ou TAKE ADVANTAGE OF ção da pessoa dos vetores envolvidos no mo- [COPIAR, CONVIDAR, LEVAR ou BENE- vimento, isto é, os pontos iniciais e finais do FICIAR-SE DE]. movimento correspondem às posições asso- Sua análise difere essencialmente do re- ciadas aos argumentos sujeito e objeto (1b). lato de Padden sobre reversibilidade, o que oferece apenas uma abordagem sintática, isto (1) a. a-CARRY-BY-HAND-b [a-LEVAR- é, verbos reversos apresentam concordância COM A-MÃO-b] reversa com o sujeito e o objeto. Um forte ‘I carry it from here to there.’ [Eu o  argumento oferecido por Padden em favor levo daqui para lá]
    68. Revertendo os verbos reversos e seguindo em frente b. 1-GIVE-2 [1-DAR-2] Terceiro, a marcação recíproca apenas ‘I give you.’ [Eu lhe dou] ocorre com verbos de concordância (3a). Formas análogas com verbos espaciais rece- Padden alega que no primeiro exem- bem uma interpretação locativa (3b). plo, há concordância com o sujeito; isto é, a primeira pessoa está marcada através da (3) a. a-GIVE-b/b-GIVE-a [a-DAR-b/b- posição inicial do sinal, que envolve uma lo- DAR-a] calização próxima ao corpo do sinalizador. ‘They gave something to each other.’ No segundo exemplo, o ponto inicial está [Eles deram algo um para o outro] também perto do corpo do sinalizador. En- b. a-PUT-b/b-PUT-a [a.COLOCAR-b/ tretanto, no segundo caso há um morfema b-COLOCAR-b] locativo, em vez de concordância de pessoa ‘I put one in each other’s place.’ [Eu gramatical com a primeira pessoa, embora coloco um no lugar do outro] isso possa parecer concordância de pessoa. Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais Ela mostra essa diferença listando as possí- Rathmann & Mathur (no prelo) ofere- veis variações em (1a): I carry it from here cem alguns testes sintáticos adicionais que, (near my chin) to here [Eu o levo daqui argumenta-se, provocam a separação entre (meu queixo) para cá], I carry it from here verbos espaciais e de concordância, o que (near my chest) to here [Eu o levo daqui corresponde à distinção entre concordância (perto do peito) pra cá], I carry it from here locativa e sintática. (near of the lower part of my body) to here Primeiramente, nenhuma FONTE XP sur- [Eu o levo daqui (perto da parte inferior do ge com verbos de concordância (4a), enquanto meu corpo) para cá]. Entretanto, não há va- isso é possível com verbos espaciais (4b). riações significativas para (1b), isto é, (1b) será sempre entendido como tendo a pri- (4) a. *PAPER JOHN-i BILL-j MARY-k meira pessoa como sujeito da sentença, sem j-GIVE-k [*JORNAL JOHN-i BILL- mudanças na localização do sinal. j MARY-k j-DAR-k] Segundo, a marcação distributi- ‘John gave paper from Bill to Mary.’ va (também conhecida como marcação [John passou o jornal de Bill para a exaustiva (exhaustive marking)) só pode Mary] aparecer com concordância de pessoa b. PAPER JOHN-i HOME-a (2a). Uma forma similar ocorrendo com SCHOOL-b a-BRING-b [JORNAL um verbo espacial produz uma interpreta- JOHN-i CASA-a ESCOLA-b a- ção locativa (2b). TRAZER-b] ‘John brought paper from home to (2) a. 1-GIVE-3dist [1-DAR-3ista] school.’[John trouxe jornal de casa ‘I give it to (each of) them.’ [Eu o dou para a escola] para (cada um) (d)eles] b. PUT-a PUT-b PUT-c [COLOCAR-a Segundo, os verbos de concordância não COLOCAR-b COLOCAR-c] podem modificar a trajetória, ao passo que os ‘I put them there, there and there.’ verbos espaciais podem. De acordo com esses [Eu os coloco ali, lá e acolá] autores, interromper o movimento pela me- 
    69. Ronice Müller de Quadros e Josep Quer tade com verbos de concordância produz um Rathmann e Mathur (no prelo) analisam resultado agramatical (5a), ao passo que a a concordância verbal nas línguas de sinais mesma mudança em uma trajetória espacial como resultado de uma inovação lingüística simplesmente apresenta uma interpretação que permite a interação das propriedades lin- diferente (5b). güísticas dos verbos de concordância com o gesto: se um verbo seleciona dois argumen- (5) a. *PAPER JOHN-i BILL-j MARY-k j- tos animados, ele pode participar da concor- GIVE-k (halfway) [*JORNAL JOHN-i dância com o sujeito e o objeto, em traços BILL-j MARY-k j-DAR-k (inter- de pessoa e número. É importante observar rompendo o movimento)] que essa posição reduz a concordância verbal ‘John gave paper halfway to Mary.’ à concordância com argumentos animados, [John passou o jornal para Mary in- excluindo, assim, a concordância de pessoa terrompendo o movimento] com argumentos inanimados. Como vere- b. PAPER JOHN-i HOME-a SCHOOL-b mos abaixo, esta proposta enfrenta o desafio Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais a-BRING-b (halfway) [JORNAL empírico de esclarecer os chamados verbos JOHN-i CASA-a ESCOLA-b a-TRAZER- de concordância que concordam com um ar- b (interrompendo o movimento)] gumento inanimado. Esse aspecto se tornará ‘John brought paper halfway to essencial na elaboração de nossa proposta. school.’ [John trouxe o jornal para a Nesse sentido, Janis (1992, 1995) escola (interrompendo o movimento] adota uma perspectiva significativamen- te diferente, no sentido que descarta classes Terceiro, o argumento portando o papel verbais e estabelece que a concordância, nas temático de ALVO nos verbos de concordân- LSs, é, na verdade, uma concordância de caso cia não pode ser questionado por ONDE (6a), controlada pelo caso que o argumento dos ao passo que os verbos espaciais podem. verbos traz consigo e por seus papéis temá- ticos. A concordância se dá ou com o caso (6) a. WHO/*WHERE JOHN-i i-GIVE locativo ou com o caso direto (não-locativo, PAPER [QUEM/*ONDE JOHN- concordância gramatical), o primeiro tendo i i-PASSAR JORNAL] destaque sobre o segundo, no ranqueamento ‘Quem/*para onde o John deu o jornal?’ dos traços de controlador. Janis (1992: 192) b. *WHO/WHERE JOHN-i BRING- observa que a análise geralmente aceita da a PAPER [*QUEM/ONDE JOHN-i distribuição verbal da ASL não pode prever TRAZER-a JORNAL] com que o verbo irá concordar, tampouco ‘*Who/where did John bring paper que forma de concordância um verbo terá to?’ [*Para quem/onde o John passou em todas as situações. A partir dessa pers- o jornal?] pectiva, ela considera o caso de verbos como COPY [copiar] ou ANALYZE [analisar] na Posteriormente, retomaremos alguns ASL e sugere que a concordância apresen- desses argumentos empíricos, ora para tada com objetos animados e inanimados questionar sua validade, ora para utilizá- se correlaciona com a concordância do caso los em defesa da proposta apresentada nes- direto e locativo e que não é necessário pos- 0 te artigo. tular duas entradas lexicais diferentes para as
    70. Revertendo os verbos reversos e seguindo em frente duas opções de concordância: simplesmente incluem verbos como GIVE [dar], LEAVE depende do caso do argumento que funciona [deixar], BRING [trazer], BITE [morder], como controlador de concordância verbal. HIT [atingir], HURT [machucar] e BLEED Sua posição, nesse sentido, é muito pertinen- [sangrar] que concordam com os NPs (pro- te à proposta apresentada neste artigo. nomes pessoais), assim como PPs (por exem- plo, locativos). Esses verbos são ou espaciais ou de concordância, segundo a classificação 2.4 Conseqüências para as classes verbais de Padden. Talvez Fischer e Gough já tives- e a divisão de concordância sintática/ sem capturado a idéia que desenvolveremos locativa em nossa análise: há motivos para conside- rar ambas as classes como instanciações de A divisão entre verbos espaciais e de concor- uma classificação opaca (fuzzy classification), dância é relevante por motivos sintáticos, vis- embora possa haver outros motivos indepen- to que esses verbos possuem características a dentes para distinguí-las. Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais serem verificadas em Frases de Concordân- De acordo com Fischer e Gough, a re- cia (cf. discussão de Janis 1995). Entretanto, versibilidade é um processo que está parcial- mostramos nesta seção que a classificação mente relacionado à direcionalidade. Verbos verbal proposta por Padden não é sempre como MEET [encontrar], FLATTER [elo- apropriada, pelo menos se compreendida giar] e FREQUENT [freqüentar] são clara- como classes definidoras mutuamente exclu- mente reversos, isto é, há uma mudança na dentes: nos dados, encontramos verbos sim- orientação da mão, além do direcionamento ples com algum tipo de traço locativo, assim do sinal. Esses verbos são considerados ver- como verbos de concordância com concor- bos de concordância em análises recentes dância locativa e verbos espaciais com algu- (Padden 1990, Baker e Cokely 1980). Entre- ma concordância com traço de pessoa. tanto, nessa classe, Fischer e Gough também Há variantes diferentes na classificação incluem verbos tais como KICK e BITE, que dos verbos na literatura que refletem os limi- não são geralmente analisados como verbos tes opacos (fuzzy borders) entre classes ver- de concordância. Esses verbos podem ser si- bais em línguas de sinais, como a ASL. Um nalizados na direção da localização a que eles exemplo é uma versão inicial de classificação se referem, ou eles podem ser sinalizados em verbal de Fischer e Gough (1978), na qual três uma posição neutra. No primeiro caso, eles aspectos são identificados como correspon- parecem ter flexão e, no segundo caso, pare- dentes à flexão verbal para pessoa: direciona- cem ser simples. Esse tipo de exemplo reflete, lidade, reversibilidade e locacionalidade. novamente, os limites opacos da classificação A classe verbal direcional, conforme mencionada anteriormente. analisada por Fischer e Gough, inclui ver- A última característica da flexão verbal, bos que fisicamente se movem em direção para Fischer e Gough, é a locacionalida- ao argumento ou argumentos estabelecidos de. Eles apresentam WANT [querer] como no espaço. Nesse sentido, essa classe é mui- exemplo de um verbo locacional, no qual o to mais geral do que a classe verbal de con- sinal pode ser articulado ou perto da locali- cordância, conforme classificada por Padden zação do sujeito ou perto da localização do (1983/1988), visto que verbos direcionais objeto. Padden (1990) analisa WANT como 1
    71. Ronice Müller de Quadros e Josep Quer um verbo simples que pode portar um clítico te da concordância de pessoa, deve haver locativo. concordância da pessoa do sujeito em exem- É interessante observar que Fischer e plo da ASL como (1a), visto que ela permite Gough oferecem exemplos nos quais há com- um pronome do sujeito nulo (cf. Quadros binações possíveis das qualidades direcionais, 1999:105-106 for LSB)4. Em um exemplo da reversas e locativas, por exemplo, FLATTER LSB como (7), um argumento nulo do sujei- [elogiar], FOOL [enganar], FREQUENT to deve ser também colocado: [freqüentar], HIT [atingir] e PAINT [pin- tar]. Além disso, verbos como HATE [odiar], (7) <a+1> CARRY<b> [levar] BORROW [pegar emprestado], LOOK [olhar] ‘I carry it (from here) (to there).’ [Eu o e FEED [alimentar] podem ser tanto direcio- levo (daqui) (para lá)] nais quanto reversos, ao passo que LOCK [trancar], OWE [dever] e PITY [ter pena] po- Tal exemplo não seria possível se a locali- dem combinar aspectos reversos e locacionais. zação espacial a fosse sinalizada em uma loca- Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais Esses são exemplos que não possuem uma lização que não está associada a uma pessoa, análise clara nas línguas de sinais, se for levada como no exemplo agramatical apresentado a em consideração uma classificação rígida. seguir, retirado da LSB: Com relação a verbos simples, Fischer e Gough (1978) os descrevem como exceções. (8) *<a>CARRY <b> Por exemplo, verbos tais como HEAR [ou- ‘(He) carries it from here (a place that vir], LISTEN [escutar], EAT [comer], DE- does not coincide with the subject) to CIDE [decidir], PRAISE [louvar], DANCE there.’ [Ele o leva daqui (um lugar que [dançar], ASSOCIATE [associar], JOIN [li- não coincide com o sujeito) para lá] gar-se] e TEASE [provocar] são menciona- dos como exceções, pois eles não apresentam A sentença (8) só poderia ser gramatical se flexão de concordância. Hoje em dia, existe o sujeito fosse pronunciado. (7) é possível por- consenso quanto ao fato de esses verbos for- que, fonologicamente, a concordância e o lo- marem uma classe nas línguas de sinais, dife- cativo têm a mesma forma expressa no mesmo rente dos verbos que possuem uma concor- ponto e, como conseqüência, o pronome nulo dância explícita. para o sujeito é permitido e a sentença torna- Como vimos na seção 2.3 acima, Padden se gramatical. Pronomes nulos são permitidos (1990) apresenta evidências para a diferença em línguas tais como ASL e LSB, pois elas são entre os afixos de localização espacial para pro-drop (línguas de sujeito nulo) (Lillo-Mar- verbos espaciais e a concordância de pessoa e tin 1986, Quadros 1995). Em ambas as línguas, número para verbos de concordância. há restrições que se aplicam às sentenças que É importante observar que, embora a permitem pronomes nulos. A restrição básica localização espacial seja claramente diferen- se refere à informação contida no verbo, isto é, 4 Um caso comparável foi discutido por Padden (1983/88) para verbos espaciais (vide acima): mesmo se às vezes o locus da fonte ou alvo do movimento possa coincidir com um locus de pessoa, isso não quer dizer que o predi- 2 cado concorda em pessoa com o locus, segundo ela.
    72. Revertendo os verbos reversos e seguindo em frente se o verbo inclui informação de concordância em ASL que explica essa distribuição opaca relacionada à pessoa, ele permite argumentos (fuzzy distribution), com que estamos lidando nulos (externos e/ou internos). neste artigo. Sua análise estabelece que GIVE Portanto, como mencionado anteriormen- é uma extensão de CARRY-BY-HAND para a te, parece que a combinação de locativos em as- classe de posse e que INFORM é uma exten- sociação a verbos espaciais pode ser combinada são de GIVE para a classe cognitiva. O que faz com concordância não locativa, mas eles devem a diferença entre esses verbos são as formas ser pronunciados na mesma localização, para divergentes que o classificador manual (han- permitir uma concordância nula associada ao dling classifier) assume a cada exemplo. argumento não-locativo. Se não são pronuncia- Quadros (1999), como Janis, adotou dos no mesmo ponto e há um argumento nulo apenas uma distinção entre classes verbais, não-locativo, há um tipo de restrição morfoló- aquelas com marcadores de concordância gica em sinais que exclui a sentença. e aquelas sem tais marcadores, verbos não- Essa proposta difere da de Padden simples e simples, respectivamente, em sua Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais (1990), que exclui a concordância do sujeito terminologia. Seu argumento é sintatica- com verbos espaciais. Padden (1990) segue mente motivado, visto que as estrutura sin- Supalla (1986) e Liddell (1984) ao assumir que tática tem uma forma diferente em sentenças a morfologia de concordância co-ocorre com associadas a verbos não-simples e simples. a morfologia locativa. A conclusão de Padden Não há evidência, em termos de sintaxe, é que o espaço em volta do sinalizante possui para manter a divisão entre verbos espa- dimensões diferentes em cada nível de análise ciais e verbos de concordância; entretanto, (espaço fonológico para localizações contras- a autora reconhece que as relações semân- tivas; espaço morfológico para concordância ticas desempenham um papel na distinção e espaço sintático para indexação e anáfora). de verbos que têm concordância espacial ou Considerando os fatos em (3) e (4), parece de pessoa gramatical. Entretanto, conforme haver possíveis combinações entre esses dife- Quadros observou, não fica tão claro a que rentes níveis quando a sentença é produzida, classe o verbo pertence. Um verbo de con- diferentemente da análise de Padden. cordância padrão pode se comportar como Kegl (1985: 108) discute um tipo de ver- um verbo espacial padrão; um verbo simples bo que não está incluído na categoria (con- pode assemelhar-se a um verbo espacial ou cordância) GIVE [dar], tampouco na catego- de concordância. ria (espacial) CARRY-BY-HAND [levar com Janis (1992) observa uma relação entre a mão], mas está incluído “verdadeiramente verbos espaciais e de concordância que é si- a meio caminho entre os dois tipos de verbo”: milar ao que Kegl (1985) analisou como uma trata-se do exemplo do tipo HAND-OVER. relação metafórica entre os dois grupos. Ao Esse verbo tem uma localização associada a invés de manter uma análise sincrônica como uma localização (FONTE) e a outra a uma em Kegl, Janis propôs um relato em termos pessoa (ALVO). Nesse exemplo, o sinal pode de relações históricas: verbos não-locativos ser interpretado com ou sem a noção de trans- (concordância) seriam formas lexicalizadas ferência de posse. A análise de Kegl é bastante de predicados classificadores. elucidativa, visto que ela mostra uma manei- Janis (1992) observou que a proposta ra diferente de abordar a distribuição verbal lexical feita por Padden prevê, corretamen- 3
    73. Ronice Müller de Quadros e Josep Quer te, que todos os marcadores de concordân- (i) A generalização empírica que os ver- cia em um verbo serão, necessariamente, do bos de concordância em LS são a realização mesmo tipo (sujeito/objeto ou locativa). En- de um morfema de trajetória ligado a uma tretanto, como observado acima, alguns ver- interpretação subjacente de transferência é bos podem aparecer com mais de um tipo de falsa, pois tal significado de transferência não concordância, visto que eles são, realmente, está prontamente disponível. Isso se torna ocorrências verbais diferentes, isto é, a análise especialmente evidente com verbos de con- deve dizer, por exemplo, que há dois verbos cordância que são transitivos puros e não TEACH [ensinar], um que é membro da clas- bitransitivos (ditransitives) e, assim, apre- se de concordância e outro que é membro da sentam concordância com objeto direto, não classe espacial. Conseqüentemente, o verbo com o objeto indireto. Os predicados em (9) será listado duas vezes no léxico. Obviamen- são exemplos disso, em LSB e LSC. te, isso não é desejável. Além disso, a análise de classe verbal não pode prever quando uma (9) CHOOSE, SUMMON [escolher, convocar] Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais forma de concordância específica ocorrerá. (LSB, LSC) (ii) Ainda em relação ao problema anterior, 3. Problemas com os pontos de vista deve-se observar que o papel temático do se- alternativos existentes gundo argumento de concordância em um ver- bo de concordância não é sempre um ALVO, Além dos problemas empíricos mencionados mas é, freqüentemente, também um TEMA. para uma classificação estática tripartite dos Na LSB e LSC, encontramos verbos transitivos verbos e uma separação rigorosa da concordân- (ambos regulares ou reversíveis) onde o segun- cia locativa vs. sintática, estabelecida na propos- do argumento de concordância é um TEMA: ta amplamente aceita de Padden, precisamos abordar outras dificuldades existentes com os (10) PRESS, INVITE [pressionar, convidar] pontos de vista alternativos discutidos acima. (LSB, LSC) A abordagem temática, conforme apre- sentada no trabalho de Meir, reduz essen- (iii) O contra-argumento mais forte à cialmente a concordância da língua de sinais abordagem temática vem do fato de que, à concordância espacial com os papéis loca- nas LSs que têm um auxiliar de concordân- tivos temáticos trazidos pelos argumentos cia (AUX), o AUX concorda com o sujeito e envolvidos em uma relação de transferência. o objeto gramaticais, não com a FONTE e Entretanto, essa redução se depara com vá- ALVO temáticos.5 Conforme observado em rios contra-argumentos: 5 Conforme apresentado em Pfau & Steinbach (2005) e Steinbach (2005), um número significativo de LSs possui itens que podem ser rotulados como auxiliares. Diferentes tipos foram identificados inter- e intralinguisticamen- te. Na maioria dos casos, esse auxiliar somente marca o sujeito sintático e a concordância do objeto e não instan- cia outras características gramaticais como o aspecto. Concentramos aqui no mais discutido tipo “gramatical”, que é realizado como uma configuração de mão do indicador que move do locus do sujeito para o do objeto, 4 glosado como AUX por conveniência.
    74. Revertendo os verbos reversos e seguindo em frente Mathur (2000) e Pfau & Steinbach (2005) necessidade de se postular uma análise de aces- para a DGS, Smith (1990) para a TSL e Bos so duplo, o que parece pouco desejável. (1994) para a SLN, essa dissociação da con- cordância sintática se torna aparente apenas (12) a GIRL IX-1 3-BUY-1 (LSB) (LSC) quando um auxiliar co-ocorre com um verbo b. NOTES IX-1 3-COPY-1 (LSB) reverso: A direção da trajetória do AUX é a costumeira sujeito-objeto, o que é o oposto Além disso, os testes oferecidos em daquela realizada pelo verbo lexical: Rathmann e Mathur (no prelo) para distin- guir entre verbos espaciais e de concordância (11) a. IX-1 CHILD 3-TAKE-1 mostraram não serem válidos para a LSB e a 1 AUX-3 (LSC) LSC. Primeiramente, o argumento FONTE b. GIRL 2-AUX-3 TAKE-3 pode co-ocorrer com o TEMA pessoal de um (LSB) verbo de concordância, contra suas previsões: Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais Esses dados não têm sido levados a sé- (13) AIRPORT MARIA IX-2 2-PICK-UP-3 rio na discussão sobre concordância em LS, ‘You pick up Maria from the airport.’ apesar de sua enorme relevância6. Eles consti- [Você pega a Maria no aeroporto] tuem contra-evidência razoavelmente sólida, não apenas contra uma abordagem temá- Segundo, TEMA e FONTE podem ser tica aos verbos de concordância, mas tam- questionados exatamente com o mesmo verbo, bém contra a explicação de Liddell para con- conforme ilustrado nos seguintes dados da LSB: cordância como dêixis (vide, por exemplo, Liddel 2003). Tal AUX de concordância nun- (14) a. <WHERE IX-1 1-PICK-UP-3 ca surge com verbos espaciais que concor- WOMAN WHERE>wh dam com localizações ou com argumentos b. <WHO PERSON IX-1 1-PICK- inanimados. Além disso, o AUX emerge com UP-3 AIRPORT WHO>wh predicados psíquicos na LSC, que são tipica- mente estativos, não envolvendo transferên- Terceiro, a modificação da trajetória, tan- cia alguma de interpretação. to em verbos espaciais quanto em verbos de Juntamente com as objeções levantadas concordância, possui interpretação aspectu- sobre a abordagem temática à LS, gostaríamos al. A leitura obtida é aquela do iniciador não de mencionar problemas adicionais à aborda- realizado no caso do verbo de concordância, gem de animacidade (animacy approach), de conforme (15a); além da leitura puramente Rathmann e Mathur. Segundo eles, a concor- locativa, essa leitura aspectual é também pos- dância está restringida a argumentos anima- sível com verbos espaciais, conforme (15b). dos, mas também encontramos concordância com objetos inanimados. Em seu quadro teóri- (15) a. BOOK JOHN-i MARY-j i-GIVE- co, isso exigiria suposições adicionais e, talvez, a j (halfway) [LIVRO JOHN-i 6 Isso pode ser parcialmente atribuído ao fato de que a ASL, como outras LSs, não parece ter tal auxiliar de con- cordância. 
    75. Ronice Müller de Quadros e Josep Quer MARY-j i-DAR-j (movimento in- ferentemente de verbos de concordância “re- terrompido)] gular”, os verbos reversos, em sua maioria, ‘John almost gave the book to não são bitransitivos. Isso pode ser facilmen- Mary.’ [John quase passou o livro te observado nas listas dos verbos reversos em para a Mary]. ASL e ISL, fornecidas em Meir (1998): b. BOOK JOHN-i SCHOOL- a BRING-a (halfway) [LITERA- (16) ASL: COPY, EXTRACT, INVITE, TURA JOHN-i CASA-a ESCOLA- MOOCH, STEAL, TAKE, TAKE-AD- a a-TRAZER-a (movimento inter- VANTAGE-OF, TAKE-OUT, GRAB, rompido)] LIE-TO ‘John almost brought the book to school.’ [John quase trouxe o ISL: COPY, TAKE, CHOOSE, INVITE, livro para a escola] TAKE-ADVANTAGE-OF, ADOPT, IN- Com toda a evidência discutida até agora HERIT, IMITATE, SUMMON, IDEN- Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais e com a discussão dos argumentos oferecidos TIFY-WITH na literatura, parece claro que não podemos nos apegar a uma divisão mutuamente exclu- Nos levantamentos feitos para a LSB e a dente dos verbos em três classes morfossintá- LSC, os verbos reversos, em sua maioria, cla- ticas, conforme geralmente se assume. O que ramente não são bitransitivos: observamos é que os verbos, às vezes, apresen- tam um comportamento híbrido, pelo menos (17) LSB: TAKE/GET/PICK-UP, CHOOSE, entre a concordância e classes espaciais, e que COPY, IMITATE, PERCEIVE, EX- a concordância locativa e a sintática não são PLOIT, INVITE, SUMMON // ASK- sempre incompatíveis na mesma forma ver- FOR, BORROW, STEAL bal. Além disso, apontamos algumas inade- quações essenciais da abordagem temática à LSC: TAKE/BUY, CHOOSE, GET/ concordância. Entre outras contra-evidências, GUESS, SUMMON, COPY, INVITE, afirmamos que elementos AUX em LSB e LSC UNDERSTAND // ASK, STEAL, TAX são puras instanciações de concordância sintá- tica. Isso se torna claro com os verbos reversos. Surpreendentemente, esses predicados Entretanto, a questão que surge é o que a tra- têm, apenas, um argumento interno obriga- jetória está realizando naqueles verbos, já que tório, que é atribuído a um papel temático não é a concordância sintática. Na próxima se- ção, as questões relevantes são recapituladas e de TEMA, e não de FONTE. Essa diferença é uma tentativa de resposta é oferecida. importante para as explicações que baseiam a trajetória reversa dos verbos reversos em pro- priedades temáticas. Contra o argumento de 4. O que está concordando nos verbos Meir (2002), o único argumento interno deve- reversos? ria receber marcação acusativa e não dativa. Argumentamos que a interação de auxi- Uma generalização sobre os verbos reversos liares com verbos reversos revela propriedades  que geralmente não é mencionada é que, di- essenciais dessa classe. Conforme menciona-
    76. Revertendo os verbos reversos e seguindo em frente do acima, quando um auxiliar co-ocorre com b. IX-x IXy x-AUX-y TALK um verbo reverso, a trajetória vai de sujeito a (verbo simples) (LSB) objeto e isso é o oposto do que ocorre com a trajetória realizada pelo verbo lexical. Diferen- Nossa solução para este dilema é retirar temente da LSB, onde o AUX somente emerge os verbos reversos da classe de verbos de con- com verbos reversos, em LSC isso pode ocor- cordância e tratá-los como verbos manuais rer tanto com verbos de concordância regular, (handling verbs) com trajetória, onde a tra- quanto com verbos reversos7. jetória, na verdade, concorda com as locali- zações e não com os argumentos sintáticos. (18) IX-x IX-y x-AUX-y y-TAKE-x (LSC) Esse argumento é consistente com o fato de que o objeto pode, às vezes, ser inanimado, (19) a. *GRAMMA-x GRAMPA-y x- mas o sujeito deve sempre ser animado, con- AUXY-y x-TAKE-CARE-y (verbo de forme os predicados classificadores manuais. concordância) A partir dessa perspectiva, a concordância de Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais trajetória apresentada pelos verbos reversos b. IX-x IX-y x-AUX-y (y)-PICK-UP com o objeto (o argumento TEMA) não é (verbo reverso) (LSB) sintática, mas locativa. Isso parece um tanto simples, quando observamos predicados re- É interessante observar que, na LSB, es- versos cujos significados envolvem uma ope- ses são os únicos exemplos onde um auxiliar ração manual em sua interpretação básica, como o verbo TAKE: podem co-ocorrer com um verbo flexionado, em um contexto não marcado. Além disso, (21) BOOK-x x-TAKE-1 (LSC/LSB) a presença do auxiliar permite uma forma alternativa do verbo reverso que não possui Apesar disso, em alguns casos, uma trajetória, mas que pode apresentar orienta- transferência metafórica deve ser assumi- ção das mãos em direção ao locus do argu- da, desde uma operação de manuseio literal mento interno. até uma operação abstrata, conforme em COPY (22). Um outro bom exemplo disso é (20) a. IX-x IX-y x-AUX-y (y)-PERCEIVE o verbo UNDERSTAND [entender] na LSC (verbo reverso) (LSB) (23), que, como sua contraparte em inglês 7 Os elementos AUX não exibem propriedades idênticas em LSB e em LSC. Em LSB, o AUX pode ser identificado como somente tendo a função de explicar as características de concordância do sujeito e objeto. Ele não pode co-ocorrer com verbos de concordância quando forem flexionados, mas em contextos de elípse e estruturas de foco do verbo, o mesmo pode surgir juntamente com um verbo de concordância inflexivo. Além disso, sua dis- triuição sintática é altamente restrita na oração. A contraparte LSC do AUX parece se comportar mais como um predicado principal privado de conteúdo semântico, mais próximo de um verbo do que um auxiliar puro. Isso exibe mais liberdade de posicionamento na oração. Além disso, ele marca a concordância de sujeito e objeto, mas diferente da maioria dos exemplos de AUX descritos para outras LSs, O AUX LSC pode flexionar-se por aspecto. Além do mais, ele pode co-aparecer com verbos de concordância flexionados a fim de expressar ênfase. Entre- tanto, essas diferenças são tangênciais ao argumento proposto no texto com relação à natureza da concordância exibida por esses elementos. 
    77. Ronice Müller de Quadros e Josep Quer ‘grasp’[agarrar/compreender] liga a opera- e de concordância, com base nos insights ad- ção mental de entendimento a um movimen- vindos dessa discussão. to manual. Em outros casos, como INVITE Adotando a terminologia de Quadros, [convidar], a transferência metafórica pode os verbos em LSs deveriam ser classificados ser menos óbvia, mas argumentamos que ela como verbos com concordância e verbos está na base de sua origem etimológica. sem concordância (simples). A concordân- cia é morfologicamente realizada como tra- (22) BOOK-x x-COPY-1 (LSC/LSB) jetória8 e a concordância da trajetória pode ser com localizações (traços espaciais) ou (23) BOOK-x x-UNDERSTAND-1 (LSC) loci-R (traços de pessoa e número). Na maioria das vezes, a realização superficial Embora os detalhes de tal proposta ainda desses dois tipos de concordância é indis- necessitem ser mais trabalhados, a conclusão tinguível, mas a evidência baseada no AUX é clara: na verdade, os verbos reversos não de concordância na LSB e LSC nos permite Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais pertencem à classe de verbos de concordância concluir, com segurança, que ambos os ti- (sintática) “puros”, mas incluem a classe de pos de concordância podem (e deveriam) verbos manuais (altamente lexicalizados), uma ser tratados separadamente. Uma evidên- subclasse dos verbos espaciais transitivos. cia essencial para tal argumento pode ser Isso também explicaria porque certos ver- oferecida por meio de teste das possibilida- bos de transferência específicos como PHONE des de co-occorrência do AUX com verbos [telefonar] na LSB/LSC foram originalmente reversos. Conforme mencionado anterior- desenvolvidos de forma simples em verbos de mente, a trajetória dos elementos AUX se- concordância pela morfologização do afixo de gue na direção oposta daquela desse tipo de concordância em verbo lexical. É interessante verbo, ou seja, a partir do locus do objeto observar que, pelo menos no estado atual de para o locus do sujeito. Foi também apon- nosso conhecimento, casos desse tipo não são tado que o AUX ocorre, apenas, quando observados em relação a verbos reversos. concorda com objeto e sujeito animados. Visto que verbos reversos podem admitir objetos animados e inanimados, é possível 5. Retomando a concordância e as prever que o AUX pode aparecer apenas classes verbais com os primeiros e não com os segundos. Emerge, então, a seguinte predição: Tendo questionado a visão clássica sobre as classes verbais e a concordância em LSs, bem (24) *BOOK-x x-TAKE-2 2-AUX-x como a alternativa mais proeminente em ter- (LSC/LSB) mos de concordância temática, passamos, (25) a. CHILD-3 3-TAKE-2 2-AUX-3 agora, a um esboço de uma caracterização (LSC) que nos parece adequada de classes verbais b. CHILD-3 2-AUX-3 3-TAKE (LSB) 8 Conforme dito anteriormente, aqui glossamos orientação como um outro meio morfológico para expressar  concordância abertamente, em combinação com a trajetória ou por si só.
    78. Revertendo os verbos reversos e seguindo em frente A partir dessa sólida evidência, podemos (26) a. ASK (LSB: regular vs. LSC: reversa) concluir que apenas os traços de pessoa por- b. ASK-FOR (LSB: reversa vs. LSC: tadores do loci-R entram em concordância regular) pessoal/sintática. Torna-se claro que apenas argumentos animados podem portar tais Ao mesmo tempo, a mesma estrutura traços em LSs.9 Resta, ainda, uma pergunta, conceitual lexical, na mesma língua, pode quanto à natureza do tipo de concordância exibir formas lexicais com concordância e locativa. Gostaríamos de sugerir que ela, basi- sem concordância: camente, se reduz à concordância com os loci identificados pelos argumentos dotados de (27) BORROW (LSC)10 traços locativos. Dessa forma, abre-se, natu- ralmente, a possibilidade de uma mesma tra- Diante de todas estas evidências, parece jetória concordar com um argumento pessoal não ser mais possível manter a visão simplis- e um argumento locativo, na mesma forma ta de classes verbais e de concordância, con- Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais verbal. Vimos que tais instâncias ocorrem. forme proposto nas abordagens de Padden e Uma outra conseqüência da abordagem Meir. Os resultados desses trabalhos nos ser- sugerida aqui é que a concordância temáti- viram como ferramentas úteis para entender ca não pode ser mantida como o fator sub- os fenômenos em estudo, mas enfrentamos jacente que explica a gramática de trajetória novos desafios na análise. Parece estar na nas classes tradicionais de verbos de concor- hora de partir em busca de explicações mais dância (regulares e reversos) e verbos espa- complexas. ciais. Manter a análise FONTE-ALVO prova ser empiricamente incorreto, uma vez que muitas instâncias de verbos de concordân- 6. Conclusões cia não são bi-transitivos, mas simplesmente transitivos com um objeto TEMA/PACIEN- Após a discussão oferecida neste artigo, o qua- TE. Além disso, se a estrutura temática fosse dro que emerge sobre concordância e classes a motivação subjacente para a expressão de verbais em LSs é substancialmente modifi- concordância, variação entre as línguas ou cado, com relação às suposições atuais sobre dentro da mesma língua não seria de se espe- esses tópicos. Pode-se afirmar que os verbos rar. Esses contra-exemplos são encontrados não simples (“espaciais” + “de concordân- em LSC e em LSB, onde a mesma estrutura cia”) podem, em geral, concordar com ar- conceitual lexical foi lexicalizada com rela- gumentos locativos (concordância espacial), ção à direcionalidade, de maneira oposta, nas com argumentos pessoais (concordância de duas línguas: pessoa), ou ambos. Os predicados auxiliares 9 Uma exceção interessante a essa generalização que não podemos tratar aqui é a concordância AUX com o argu- mento inanimado de CAUSA, em declarações psicológicas. O fator crucial é que tais argumentos nunca podem ter uma interpretação locativa. 10 Na realidade, esse é o caso de um predicado que parece ter ido de verbo de concordância para verbo simples, embora ambas as formas coexistam sobre os falantes simultaneamente. 
    79. Ronice Müller de Quadros e Josep Quer podem concordar, apenas, com argumentos Referências pessoais/animados (concordância de pessoa) e apontam para o fato de que os verbos re- ARONOFF, M.; MEIR, I.; SANDLER, W. The versos são verbos lexicais manuais, cujas tra- paradox of sign language morphology. Lan- jetórias são determinadas pela concordância guage, v. 81, p. 301-344, 2005. espacial e não pela concordância de pessoa BAKER, C.; COKELY, D. American Sign Lan- gramatical. guage: a teacher’s resource text on grammar Conforme mencionado acima, a con- and culture, 1980. cordância com traços locativos e de pessoa BOS, H. An auxiliary verb in Sign Language of The gramatical é, com freqüência, indistinguível Netherlands. In: AHLGREN, I.; BERGMAN, B.; na superfície. Entretanto, a estrutura do ar- BRENNAN, M. (Orgs.). Perspectives on Sign gumento de cada predicado impõe as condi- Language Structure, v. 1, 1994. p. 37-53. ções de licenciamento, conforme discutido BRENTARI, D. Backward Verbs in ASL: Agree- nos exemplos (7) e (8), em que o argumen- ment Re-opened. In BRENTARI, D., LARSON, Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais to-sujeito de um predicado manual deve ser G.;MACLEOD, L. (Orgs.). CLS, Papers from the licenciado pelo traço de pessoa. 24th Annual Regional Meeting of the Chicago Existe, ainda, uma questão de ambigüi- Linguistic Society, Part Two: Parasession on dade do locus como localização ou R-locus Agreement in Grammatical Theory, p. 16-27. (por exemplo, TELL [dizer] com concordân- FISCHER, S.; GOUGH, B. Verbs in American Sign cia de pessoa gramatical vs. TELL com con- Language. SLS, v. 18, p. 17-48, 1978. cordância locativa no argumento-ALVO), FISCHER, S. Verb Inflections in American Sign havendo necessidade de mais pesquisas para Language and Their Acquisition by the Deaf se determinar até que ponto um locus atribu- Child. In: WINTER MEETING OF THE LIN- ído a um referente animado pode ser ambí- GUISTIC SOCIETY OF AMERICA, 1973. guo, entre um locus de pessoa gramatical ou FISCHER, S. The role of agreement and auxilia- um locus espacial. ries in sign languages. Lingua, v. 98, p. 103-120, 1996. JANIS, W. D. Morphosyntax of the ASL verb Agradecimentos phrase. Tese de Doutorado–State University of New York at Buffalo, 1992. Esta pesquisa foi parcialmente financiada por JANIS, W. D. A crosslinguistic perspective on recursos da bolsa CNPq #301993/2004-1 para ASL verb agreement. In: Karen EMMOREY, R. M. de Quadros, bolsa CAPES/ PVE (Brasil) K.; REILLY, J. S. (Orgs.) Language, Gesture, e projetos (Espanha) MEC BFF2003-04867 e and Space. NJ: Lawrence Erlbaum Associates, HUM2006-08164/FILO para J. Quer. Gosta- Publishers, 1995. p. 255-286. ríamos de agradecer Santiago Frigola por sua KEGL, J. Locative relations in American Sign Lan- ajuda com os exemplos em LSC e Nelson Pi- guage Word Formation, Syntax, and Discourse. menta pelos Clipes de LSB. Tese de Doutorado–MIT, 1985. LIDDELL, S.K. Grammar, Gesture and Meaning in American Sign Language. Cambridge: Cam- bridge University Press, 2003. 0
    80. Revertendo os verbos reversos e seguindo em frente LILLO-MARTIN, D. C. Parameter setting: evi- na língua de sinais brasileira e reflexos no dence from use, acquisition, and breakdown processo de aquisição. Dissertação de Mestra- in American Sign Language. Tese de Douto- do–PUCRS, Porto Alegre, 1995. rado–University of California, San Diego. Uni- QUADROS, R. M. de. Phrase Structure of Brazi- versity Microfilms International. Ann Arbor. lian Sign Language. Tese de Doutorado–PUC/ Michigan, 1986. RS, Porto Alegre, 1999. LOEW, R. C. Roles and Reference in American RATHMANN, C.; MATHUR, G. Verb Agree- Sign Language: A Development Perspective. ment as a Linguistic Innovation in Signed Tese de Doutorado–University of Minnesota, Languages. In: QUER, J. Seedorf (Org.). Signs 1984. of the time. Signum Verlag, no prelo. MATHUR, G. Verb Agreement as Alignment in SMITH, W.H. Evidence for Auxiliaries in Taiwan Signed Languages. Tese de Doutorado–MIT, Sign Language. In: FISCHER, S.D.; SIPLE P. 2000. (Orgs.), THEORETICAL ISSUES IN SIGN LAN- MEIR, I. Syntactic-semantic interaction in Israeli GUAGE RESEARCH, v. 1: Linguistics, p. 211-228. Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais Sign Language verbs: The case of backwards Chicago: University of Chicago Press, 1990. verbs. In: Sign Language and Linguistics, v. 1.1, STEINBACH, M. What do agreement auxiliaries p. 3-37, 1998. reveal about the syntax of sign language agree- MEIR, I. A Cross-Modality Perspective on Verb ment? In: SIGNA VOLANT, Milano, 2005. Agreement. NLLT, v. 20, p. 413-450, 2002. STEINBACH, M.; PFAU, R. Grammaticalization PADDEN, C.A. Interaction of Morphology and of auxiliaries in sign languages. In: PERNISS, Syntax in American Sign Language. New York/ P.; STEINBACH, M.; PFAU, R. (Orgs.). Vis- London: Garland Publishing, 1983/1988. ible variation: Cross-linguistic studies on sign QUADROS, R. M. de. As categorias vazias pro- language structure. Berlin: Mouton de Gruyter, nominais: uma análise alternativa com base 2007. p. 303-339. 1
    81. Repensando classes verbais em línguas de sinais: o corpo como sujeito1 Irit Meir, Carol Padden, Mark Aronoff e Wendy Sandler Este artigo oferece um novo olhar sobre a A análise acima se concentra no papel das análise tradicional das classes verbais em lín- mãos na codificação das propriedades grama- guas de sinais. De acordo com esta análise ticais relevantes. As mãos são o articulador (Padden 1988), os verbos de muitas línguas ativo na língua de sinais e elas concentram a de sinais podem ser categorizados em uma maior parte da carga informacional contida das seguintes classes: verbos simples, verbos no sinal. Entretanto, neste artigo gostaríamos espaciais e verbos de concordância. Essas de propor um novo olhar sobre a classifica- classes se diferenciam segundo as proprieda- ção dos verbos em língua de sinais, observan- des dos argumentos que cada classe codifica. do não somente o que as mãos fazem, mas Verbos de concordância, verbos que codifi- o papel que o corpo tem nas diferentes clas- cam transferência codificam o papel sintático ses verbais. Propomos que a função básica dos argumentos, bem como as características do corpo nas formas verbais em uma língua de pessoa e número através da direção do de sinais é representar o argumento sujeito. movimento das mãos e posição das palmas. Outras funções gramaticais codificadas pelos Nos verbos espaciais, isto é, a classe verbal verbos, por exemplo, a primeira pessoa, são que denota movimento e posição no espaço, desenvolvidas posteriormente e são sobre- a direção do movimento codifica a posição postas pela função básica do “corpo como dos argumentos locativos, o ponto de par- sujeito”, criando mais complexidade gra- tida e o destino. A forma do movimento de matical na língua. Esta análise apresenta as trajetória que as mãos estão executando ge- seguintes vantagens: explica a peculiaridade ralmente expressa a forma da trajetória que tipológica da concordância verbal em língua o objeto percorre no espaço. Verbos simples, de sinais, a saber, a proeminência do objeto que constituem a classe semântica padrão, em relação ao sujeito na concordância verbal; não codificam nenhuma propriedade grama- explica a razão de algumas formas verbais se- tical em seus argumentos. rem mais complexas que outras, em relação 1 Traduzido por: Maria Lúcia Barbosa de Vasconcellos, Elaine Espíndola, Thiago Blanch Pires, Carolina Vidal Ferreira
    82. Repensando classes verbais em línguas de sinais à competição entre os diferentes papéis do formacionais específicos de um sinal podem corpo em diversos sub-sistemas da língua; e, corresponder a componentes de significados; finalmente, faz previsões interessantes acerca isto é, a mão e o corpo (o peito e a cabeça) da tipologia e avanços diacrônicos em línguas podem ser usados separadamente para co- de sinais. dificar diferentes partes de um evento. Mos- tramos agora que essa correspondência entre uma parte de um evento codificado e o corpo 1. Padrão de lexicalização em línguas ou as mãos não é aleatória, pelo contrário, o de sinais corpo e a mão codificam aspectos particula- res do evento de forma sistemática. O termo ‘padrões de lexicalização’ foi usado pela primeira vez por Talmy (ex., 1983, 1985) em sua descrição de como as línguas faladas 1.1 O corpo como sujeito codificam eventos de movimento. Talmy Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais (1985, 2000) aponta que verbos por si só não O corpo do sinalizador não é meramente um codificam todos os componentes de signifi- lugar formal para a articulação dos sinais, mas cado de tais eventos. pode, em princípio, ser associado a um signi- As línguas têm a tendência a serem mais ficado em particular ou a uma função especí- sistemáticas a respeito de quais componen- fica. Argumentamos que em verbos icônicos tes de significado serão codificados por quais ou parcialmente icônicos articulados no cor- tipos de itens lexicais. Portanto, algumas po, os chamados “verbos ancorados no cor- línguas (ex. inglês, alemão, russo e chinês) po”, o corpo representa o argumento sujeito. codificam modo de movimento nos verbos Usamos o termo iconicidade para nos e codificam direção do movimento por pre- referir ao mapeamento regular entre os ele- posições ou partículas (“satélites” nos termos mentos formacionais de uma expressão e os de Talmy), enquanto que outras línguas (ex. componentes de seu significado (Taub 2001, hebreu, espanhol, japonês e turco) expressam Russo 2004). Este mapeamento pode ser de- a direção do movimento no verbo, sendo o monstrado analisando-se a correspondência componente de modo expresso por locuções entre os elementos formacionais e os compo- adverbiais. A maneira sistemática em que nentes de significado (conforme Taub 2001). uma língua codifica os componentes parti- Para exemplificar, o verbo COMER na Lín- culares de um evento por meios lingüísticos gua de Sinais Israelense (ISL) e na Língua de disponíveis é denominada de ‘padrões de le- Sinais Americana (ASL), está ilustrado na xicalização’. Figura 1 abaixo. A mão assume uma Forma Nas línguas de sinais, os meios lingüísti- particular , movendo-se em direção à boca cos empregados para comunicar um evento a partir de uma localização à sua frente e re- são as mãos e o corpo do sinalizador e o espa- pete este movimento por duas vezes. ‘Comer’ ço ao seu redor. Ao examinar os itens lexicais significa ‘colocar (comida) dentro da boca, que denotam eventos em três línguas de sinais mastigar se necessário e engolir’ (Webster’s diferentes (Língua de Sinais Americana, Lín- New Word Dictionary, Third College Edi- gua de Sinais Israelense e Língua de Sinais Al- tion). Uma representação possível da Estru- Sayyid Beduína) descobrimos que elementos tura Conceitual Lexical é: 3
    83. Irit Meir, Carol Padden, Mark Aronoff e Wendy Sandler 2. X causa [y ir [para dentro da boca COMER é sinalizado na boca do sinalizador, de x]] quer o sujeito da ação seja a 1ª, a 2ª ou a 3ª pessoa. Isto é, o sinal COMER possui uma Pela Figura 1, torna-se óbvio que o sinal CO- única forma em todas essas sentenças: “Eu MER é icônico. Entretanto, ao ir além da im- como”, “você come” ou “ele/ela come”, e esta pressão geral de iconicidade, é possível ob- forma é sinalizada na boca do sinalizador. servar que um mapeamento explicitado entre Ao examinar uma gama de verbos ancora- forma e significado como um conjunto de dos no corpo, observamos que em sinais icô- correspondências tem a vantagem de mostrar nicos, o corpo corresponde a um argumento qual dentre os vários elementos formacionais participativo no evento. Os exemplos seguin- corresponde a quais aspectos do significado. tes são da ISL, porém listas similares de pala- Tal mapeamento está ilustrado na Tabela 1. vras podem ser encontradas também em ASL. 1. Verbos psicológicos (Localização: Pei- to): FELIZ, AMAR, SOFRER, CHATEADO, Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais ESTAR CHATEADO COM, MACHUCAR: O peito corresponde ao local das emoções no argumento experienciador. 2. Verbos de atividades mentais (Loca- lização: Têmporas e testa): SABER, LEM- BRAR, ESQUECER, APRENDER, PREO- CUPAR, PENSAR, SONHAR, ENTENDER, Figura 1: O verbo COMER (ISL e ASL) COMPREENDER, INFORMAR (uma idéia) Têmporas ou a testa representam o local da Mapeamento Icônico para COMER FORMA SIGNIFICADO atividade mental do experienciador. Segurando um objeto 3. Verbos de percepção (Localização: Ór- -configuração de mão (comida) gãos dos sentidos): VER, OLHAR, OUVIR, Boca do sinalizador Boca do agente que come ESCUTAR, CHEIRAR: Os olhos, a orelha ou Movimento para dentro Colocando um objeto dentro o nariz representam o local da atividade do da boca experienciador. Movimento duplo Um processo 4. Verbos que indicam fala (Localização: Boca): FALAR, DIZER, PERGUNTAR, RES- Tabela 1: Mapeamento icônico para COMER PONDER, EXPLICAR, GRITAR, SUSSU- RAR: A boca representa a parte relevante do O que é crucial para nosso argumento corpo do argumento-agente. neste artigo é a relação de correspondência 5. Verbos de mudança de estado (Loca- entre a localização do sinal (a boca) e a boca lização: Rosto, peito, olhos): CORAR, ME- daquele que come, o agente argumentativo LHORAR, ACORDAR: O rosto, o peito e os no evento. Em outras palavras, o corpo, cons- olhos representam a parte relevante do corpo tituindo um dos componentes formacionais do argumento-paciente (undergoer). do sinal, representa um argumento particular Como a lista acima mostra, o argumento do evento, o agente. É importante notar que representado pelo corpo e correspondendo a 4 o corpo não representa a 1ª pessoa. O sinal propriedades específicas do corpo pode ser
    84. Repensando classes verbais em línguas de sinais associado a vários papéis temáticos: agente, as propriedades dos argumentos são inferidas paciente, experienciador e receptor. Entre- do significado dos verbos ou são parte dele. tanto, a escolha do argumento específico a ser Por exemplo, o verbo espirrar implica que o representado pelo corpo do sinalizador não é sujeito possui um nariz; que o sujeito de lam- aleatória. No caso de um predicado de um só ber possui língua; que o sujeito de desmaiar lugar, o corpo naturalmente é associado com é animado e que o sujeito de zangado é sen- o argumento único do predicado. No caso sível. Nas línguas de sinais, tais propriedades de eventos transitivos, observamos que o ar- podem ser representadas por certos aspectos gumento associado a propriedades do corpo da forma do sinal, particularmente, partes do é o argumento mais utilizado: o agente em corpo. Quando o sinal que denota um even- verbos <agente, paciente> (ex. COMER, BE- to é sinalizado em alguma parte do corpo, o BER, OLHAR) ou verbos <agente, paciente, corpo é interpretado como sendo associado às receptor> (ex. PERGUNTAR, INFORMAR, propriedades do argumento-sujeito3. EXPLICAR) e o experienciador e perceptor Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais em verbos <experienciador, tema> (ex. VER, OUVIR, AMAR)2. Segundo princípios gerais 2.2 Mãos como evento de mapeamento entre estruturas temáticas e sintáticas (ex. Fillmore 1968, Jackendoff O mapeamento icônico do sinal COMER 1990, Grimshaw 1990, Falk 2006 e outros), o aponta para a assimetria básica entre o cor- argumento associado ao papel temático mais po e as mãos. O corpo representa um aspecto utilizado é o argumento-sujeito. A generaliza- do evento, o argumento-sujeito. As mãos, ao ção correta a se fazer é que o corpo é associado contrário, possuem um grau maior de liber- ao argumento-sujeito do verbo ao invés de ser dade. As mãos possuem uma forma específica, associado a um papel temático específico. A em uma orientação específica e se movem de implicação desta análise é que o padrão básico uma maneira específica e em uma direção es- de lexicalização ao representar um estado em pecífica. Conseqüentemente, as mãos podem línguas de sinais é corpo como sujeito. representar muito mais aspectos dos compo- Em outras palavras, o corpo representa ou nentes do significado do sinal. Os aspectos do corresponde a alguma propriedade do argu- movimento podem corresponder aos aspec- mento-sujeito (de que tem sentimentos, é sen- tos temporais do evento (por exemplo, teli- sível, tem uma boca, etc.). Em línguas faladas, cidade), a direção do movimento geralmente 2 Verbos psicológicos (psych verbs) do tipo “assustar”, cujos argumentos são causador e experienciador, e exi- bem um mapeamento sintático-temático diferente, não são reconhecidos sem ASL ou ISL. De modo a expressar um evento de susto, ISL utiliza uma construção verbal leve e perifrástica “DAR SUSTO”, enquanto em ASL se usaria uma paráfrase como “Eu fiquei assustado porque...”. 3 Kegl (1986) também sugere que o corpo está associado ao sujeito argumentativo. Enquanto sua análise não é compatível com a apresentada aqui, ela difere em muitas maneiras importantes. Primeiro, ela refere-se a mudan- ça do corpo (“uma mudança sutil do corpo a uma posição específica no espaço sinalizador”, p.289), e não ao corpo em si, como parte dos componentes fonológicos do sinal. Segundo, ela argumenta que mudança do corpo (que ela denomina “Proeminência de papel clítico”) é um morfema, funcionando como sujeito clítico e como indicativo do “papel proeminente” (um termo vago em sua análise). Nós não argumentamos por um status de morfema do corpo, nem reivindicamos suas funções sintáticas. 
    85. Irit Meir, Carol Padden, Mark Aronoff e Wendy Sandler codifica papéis temáticos espaciais dos argu- sinalizador, em oposição aos demais aspectos mentos, tais como ponto de partida e destino do evento. e a localização final do sinal sendo associada ao argumento-recipiente. A configuração da mão geralmente representa o argumento em 2.3 Fatores que ofuscam o padrão básico movimento (o tema) ou a manipulação do argumento (paciente) pelo sujeito. Em CO- O padrão básico de lexicalização ‘corpo MER, por exemplo, o movimento para den- como sujeito’ descrito acima é mais presente tro do verbo representa o ato de colocar algo em verbos icônicos ancorados no corpo, os dentro da boca de alguém; a configuração de quais pertencem à classe dos verbos simples. mão específica representa o ato de segurar ou Em outros campos do léxico e da gramática manipular um objeto sólido, a comida, no de qualquer língua de sinais, outras estrutu- caso de ‘comer’ e o movimento duplo denota ras e processos na linguagem freqüentemente uma ação ou um evento atélico. ofuscam este padrão. A versatilidade das mãos Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais As mãos, portanto, podem codificar versus a estabilidade do corpo possivelmente muito mais aspectos do evento do que o significam que as mãos assumem cada vez corpo. Isso é o esperado. As mãos são mui- mais papéis nos níveis lexicais e gramaticais to mais versáteis que o corpo: primeiro, as das línguas de sinais, na medida em que o lé- mãos podem mover-se no espaço; segundo, xico expande, resultando em formas que não elas podem assumir diferentes configura- se encaixam no padrão ‘corpo como sujeito’. ções de mão; terceiro, elas formam um par. Dois fatores foram brevemente menciona- O componente movimento, em si mesmo, é dos, examinamos profundamente um tercei- complexo por incluir a maneira e a direção ro fator: a saber, o papel do corpo em formas do movimento. O corpo, ao contrário, não flexionadas dos verbos de concordância. demonstra nenhuma destas propriedades. O Primeiro, nem todas as partes do corpo corpo não se move da mesma maneira que são locais possíveis para a articulação de um as mãos e só existe um corpo. Deste modo, o sinal. Tipicamente, o espaço designado aos corpo codifica um número consideravelmen- sinais é no corpo ou em sua frente, na área lo- te menor de aspectos do evento. Curiosa- calizada entre a cintura e a cabeça. As partes mente, ele codifica um aspecto particular do do corpo localizadas abaixo da cintura rara- evento, um argumento - o sujeito. De certa mente funcionam como locais para a articu- forma, este argumento é privilegiado, pois é lação de sinais. Portanto, as ações praticadas formacionalmente colocado à parte dos ou- pelas pernas e pés do sujeito não são articu- tros componentes do significado do evento. ladas por estes membros, pelo contrário, as Percebemos, portanto, que um padrão básico pernas e pés são representados pelos braços de lexicalização nas línguas de sinais dá su- e mãos. Comumente em línguas de sinais, os porte à supremacia do sujeito na linguagem4 dedos indicador e médio representam as duas e é o argumento representado pelo corpo do pernas. Verbos que denotam ações como de  4 Para uma discussão mais a fundo sobre a primazia do sujeito na língua, Cf. Meir et al (2007).
    86. Repensando classes verbais em línguas de sinais pé, levantar, pular, cair, sentar-se, andar (em (ISL), quando sinalizado na têmpora (Figu- ASL e ISL) possuem a configuração de mão ra 2a), pode apenas se referir a um sujeito na mão dominante, geralmente pratican- absorvendo informação. Quando o sinal do a ação na mão não-dominante (no é sinalizado em espaço neutro (Figura 2b) plano horizontal, com a palma para cima ou ele pode referir-se a um sujeito inanimado, para baixo, representando uma superfície). como uma esponja absorvendo água5. Pare- Verbos que denotam uma maneira específica ce-nos que as propriedades do corpo em si, de caminhar, como, por exemplo, andar de o corpo de um ser animado, limita as pos- salto-alto, é expressa por uma configuração sibilidades de significado que o corpo pode de mão em ASL e por uma configura- representar. ção de mão em ISL, com o dedo mínimo apontando para baixo. Nestes verbos, o corpo não faz parte da estrutura fonológica do sinal e as propriedades do sujeito são representa- Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais das pela configuração de mão (por exemplo, o sujeito possui pernas). Segundo, o corpo representa o sujei- to apenas para seres animados. Os eventos que envolvem sujeitos inanimados são arti- Figura 2: ABSORVER: a. com um sujeito humano. culados pelas mãos, geralmente no espaço b. com um sujeito não-humano. à frente do sinalizador. Freqüentemente, a mão dominante pratica o sinal sobre a mão O CORPO EM VERBOS DE CONCORDâN- não-dominante. Como é o exemplo do ver- CIA: 1ª PESSOA bo ‘comer’. Em inglês e outras línguas fala- das, o mesmo verbo pode ser usado metafo- Os verbos de concordância são aqueles ricamente com sujeitos inanimados, como que codificam as propriedades de pessoa e em: O ácido comeu o metal, A casa comeu número de seus argumentos-sujeito e objetos todas as minhas economias. Em ASL e ISL, (indireto). No nível semântico, verbos de con- o verbo COMER não pode remeter a refe- cordância denotam eventos de transferência, rentes inanimados. A iconicidade do sinal, a transferência de uma entidade (concreta ou especialmente sua localização (a boca do si- abstrata) de um possuidor anterior para outro nalizador), limita os contextos possíveis e as posterior. Diferentemente dos verbos simples, extensões metafóricas do sinal (Meir 2004). que possuem uma única forma verbal, os ver- De modo semelhante, o sinal ABSORVE bos de concordância possuem muitas formas. 5 Há funções em ASL e ISL, notavelmente funções teatrais ou poéticas, em que o corpo pode ser usado para objetos inanimados. Estes são os casos de personificação, onde os objetos assumem qualidades de seres animados. Um humorista surdo famoso em ASL descreveu o trajeto de uma bola de golfe utilizando sua cabeça, com olhos expres- sivos e outras expressões faciais como se a bola de golfe fosse humana. A bola de golfe, “contente sentada em uma árvore” (com a árvore sendo representada pela mão em escala apropriada abaixo do queixo), foi “surpreendida voando pelo ar” quando foi atingida por um taco de golfe. Tais formas são raramente encontradas em conversas diárias em ASL, a não ser que o sinalizador pretende fazer um jogo de humor na linguagem. 
    87. Irit Meir, Carol Padden, Mark Aronoff e Wendy Sandler Entretanto, cada verbo de concordância pos- As formas flexionadas de verbos de con- sui também uma forma de citação, uma for- cordância são construídas no sistema de Loci- ma utilizada em verbetes de dicionário, para R e a oposição entre o corpo e o espaço. Nestas representar o lexema. As formas de citação de formas, os aspectos do movimento das mãos verbos de concordância ainda manifestam a codificam os papéis sintático e semântico dos estratégia ‘corpo como sujeito’: as mãos mo- argumentos do verbo, enquanto as localiza- vem-se em relação ao corpo. O movimento que ções iniciais e finais do sinal são associadas ao parte do corpo quando o argumento-sujeito Loci-R e codificam as propriedades prono- é o possuidor fonte (em verbos como DAR e minais dos argumentos. As mãos movem-se ENVIAR, os chamados ‘verbos de concordân- entre os Loci-R associados aos argumentos- cia regulares’) e em direção ao corpo quando o sujeito e ao argumento-objeto (indireto) do argumento-sujeito é o possuidor destino (em verbo de maneira sistemática. A ordem linear verbos como LEVAR ou COPIAR, os chama- do Loci-R codifica o papel semântico dos ar- dos ‘verbos reversos’). Entretanto, em formas gumentos: as mãos movem-se do argumento Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais flexionadas de verbos de concordância, o cor- fonte em direção ao destino, ou argumento po não é mais o sujeito, mas, ao invés disso, receptor. A orientação das mãos, isto é, a di- codifica a 1ª pessoa. reção da palma e da ponta dos dedos, codifica Formas flexionadas de verbos de concor- seus papéis sintáticos: as mãos se voltam para dância incorporam a categoria gramatical de o objeto sintático indireto (Meir, 1998a, b). pessoa, codificada no sistema pronominal da Nessas formas, o corpo representa a 1ª pessoa, língua por meio do emprego do contraste en- não o sujeito. Examinemos as seguintes for- tre o sinalizador e o espaço em sua volta. No mas verbais: 1DAR2 (‘Eu dei a você’), 2DAR1 sistema pronominal de ASL e ISL e em muitas (‘Você me deu’), 2DAR3 (‘Você deu a ele’). outras línguas de sinais, o corpo do sinalizador Em todas estas formas, as mãos movem-se representa a 1ª. pessoa, enquanto as localiza- do R-locus sujeito ao R-locus objeto. Se o ções no espaço de sinalização são associadas sujeito é a 1ª pessoa e o objeto é a 2ª pes- com referentes outros que não a 1ª pessoa soa, as mãos se movem do corpo em direção (Meier, 1990). A associação de referentes de ao destinatário. Se o sujeito é a 2ª pessoa e 3ª pessoa a localizações específicas no espaço o objeto é a 1ª pessoa, então, a direção do é freqüentemente alcançada através da sinali- movimento é invertida. No caso de ambos zação do sinal para aquele referente e depois os argumentos indicarem qualquer pessoa por meio de um sinal que aponta ou direciona que não a 1ª pessoa, o corpo não estará en- o olhar em direção a um ponto específico no volvido na forma e as mãos se moverão do espaço. A indicação subseqüente em direção R-locus associado ao destinatário em dire- àquela localização no espaço (freqüentemente ção a outro locus no espaço, associado a um chamada de locus R(eferencial), cf. Lillo-Mar- referente de 3ª pessoa. tin e Klima, 1990) tem a função de referência Os verbos de concordância codificam pronominal. Apontar em direção a alguém propriedades de pessoa e número dos argu- denota pronome pessoal de 1ª pessoa; apontar mentos-sujeito e argumento-objeto (indire- para um R-locus já estabelecido no espaço de to). Verbos de concordância codificam, en- sinalização denota referência pronominal ao tão, duas categorias gramaticais: pessoa gra-  referente associado ao R-locus dado. matical e papéis sintáticos.
    88. Repensando classes verbais em línguas de sinais A pessoa é codificada pelo corpo e locali- xibilidade para a codificação do evento: a zações no espaço: um locus na região ou pró- oposição corpo-espaço representa a categoria ximo da região do peito do sinalizador marca gramatical de pessoa (1ª pessoa versus não-1ª a 1ª pessoa. Qualquer outro locus ao redor pessoa), enquanto o movimento e orientação do corpo marca qualquer pessoa que não a das mãos podem codificar os papéis sintáti- 1ª pessoa, incluindo-se a 2ª pessoa e a 3ª pes- cos dos argumentos. Os verbos espaciais, in- soa (Meier, 1990). Os papéis sintáticos dos cluindo-se construções com classificadores, argumentos são codificados pelo movimento são aqueles que possuem pontos iniciais e das mãos entre esses loci. Conclui-se que, em finais determinados por referentes espaciais, formas completamente flexionadas de verbos isto é, pela localização real ou designada na de concordância, o corpo não é mais o sujei- disposição espacial e não pelos argumentos to, mas sim, a 1ª pessoa. O padrão de lexica- sintáticos do sujeito ou do objeto. As localiza- lização modelo e básico é ofuscado por um ções codificadas pelos verbos nesta classe são processo morfológico que utiliza os mesmos interpretadas analogicamente e literalmente Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais elementos formacionais, porém associa tais e não como representando os argumentos elementos a funções gramaticais diferentes. gramaticais (Padden, 1998). Nestes sinais, o movimento se inicia em um local e termina em um outro local diferente, descrevendo a 3. Classes verbais em língua de sinais trajetória do movimento de uma entidade. reconsideradas: o papel do corpo Verbos espaciais, por exemplo, DIRIGIR-A e MOVER-A incorporam distinções especí- Compreendidos o papel do corpo e os papéis ficas de localização e movimento através do das mãos nos diversos tipos de verbos em espaço de sinalização em frente ao corpo, ASL e ISL, é possível voltar à classificação dos mas não em contato com o próprio corpo, o verbos nessas línguas e oferecer uma maneira que é importante para tais distinções. Supalla alternativa de caracterizar estas classes, consi- (1982) descreve os verbos de movimento e derando o papel do corpo juntamente com o localização como se existissem em uma ‘esca- papel das mãos. la’ apropriada. Se os sinais estão em contato Verbos simples, especialmente aqueles com o corpo, então a escala torna-se relativa ancorados no corpo, podem agora ser defi- ao corpo do sinalizador e o significado muda nidos como um conjunto de verbos no qual para ‘um carrinho de brinquedo movendo-se o corpo é o sujeito e a categoria de pessoa para o lado de um corpo humano’. Nos ver- gramatical não é codificada. Nas formas fle- bos espaciais e construções com classificado- xionadas de verbos de concordância, o corpo res, a(s) mão(s) representa(m) entidades que não é mais o sujeito. Ao invés disso, o corpo se movem no espaço; tipicamente, o corpo é a 1ª pessoa e as localizações no espaço de não é envolvido no evento, de maneira algu- sinalização são associadas a referentes que ma ou pode ser usado como um ponto de re- não são de 1ª pessoa e as mãos, especialmen- ferência espacial (o chamado ground ou base, te a direção do movimento e a orientação cf. Talmy 1983), com relação à pessoa para das mãos, codificam os papéis sintáticos e quem o evento de movimento é descrito. A semânticos dos argumentos. O afastamento caracterização das três classes verbais está re- do evento do corpo oferece uma maior fle- sumida na Tabela 2. 
    89. Irit Meir, Carol Padden, Mark Aronoff e Wendy Sandler Classes verbais Corpo Mãos Espaço língua possui concordância com o objeto, ela Verbos simples Corresponde ao Não codifica -------- possui também concordância com o sujeito, sujeito propriedades porém não vice-versa. Portanto, a expectativa dos argumentos é que sejam encontradas línguas faladas com Verbos de 1ª Pessoa Codifica Referentes concordância os papéis a Não-1ª concordância de sujeito e sem concordância sintáticos e pessoa semânticos dos de objeto, mas não línguas com concordân- argumentos cia de objeto e sem concordância de sujeito Verbos Ponto de Codifica os Localizações (Cf. Keenan 1976: 316; Lehmann 1988: 64). espaciais referência papéis locativos no espaço espacial ou não dos argumentos Esta hierarquia também implica no fato envolvido de que em uma dada língua, se uma forma Tabela 2: Classes verbais redefinidas verbal codifica a concordância com o obje- to, ela também codifica concordância com o sujeito. Nas línguas de sinais, este não é o 4. Um enigma tipológico em língua caso. Primeiramente, não se sabe de nenhu- Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais de sinais ma língua de sinais que tenha concordância com o sujeito e não tenha concordância com 4.1 Supremacia do objeto sobre o sujeito o objeto. Segundo, e ainda mais importante, existem diversos fenômenos no sistema de A concordância verbal nas línguas de sinais concordância verbal em certas línguas de si- apresenta desafios interessantes para a teoria nais que resultam em formas marcadas para lingüística, porque é similar à dos sistemas concordância de objeto, mas não de sujeito. de concordância verbal em línguas faladas, Dois desses fenômenos são descritos aqui. embora seja, ao mesmo tempo, muito dife- (a) Verbos de concordância única: em rente dela. Uma diferença é que em línguas ASL e ISL, verbos de concordância encaixam- de sinais, a concordância verbal é marcada se em várias subcategorias. Alguns verbos apenas em uma classe verbal, verbos que de- concordam apenas com um argumento. Nes- notam transferência, enquanto em línguas ses verbos, o ponto inicial do verbo é marcado faladas, os sistemas de concordância geral- por ser localizado em alguma parte do corpo mente se aplicam a todos os verbos de uma (principalmente em alguma parte do rosto) língua específica6. Uma segunda diferença é e, portanto, não é determinado pelo R-locus que no sistema de língua de sinais, a concor- do outro argumento do verbo. PERGUNTAR dância com o objeto tem prioridade sobre a (ISL) é um desses verbos: sua localização ini- concordância com o sujeito. Esta situação é cial é perto da boca e sua localização final é diferente daquela das línguas faladas, onde o em direção ao R-locus do objeto do verbo. sujeito é o argumento de maior importância Mesmo que o sujeito não seja 1ª pessoa, o na Hierarquia de Relações Gramaticais (GR) verbo ainda assim se inicia em um local perto (Greenberg, 1966: 37-38) e, portanto, o argu- da boca. Portanto, uma forma verbal signifi- mento mais acessível à concordância verbal. cando “Ele perguntou a você” possui a forma Esta hierarquia implica no fato de que se uma PERGUNTAR2 ao invés de 3PERGUNTAR2. 0 6 Para uma análise sobre este tópico, Cf. Meir (2002).
    90. Repensando classes verbais em línguas de sinais Eis alguns exemplos de verbos com concor- verbo partindo do corpo, e não de uma locali- dância de argumento único em ISL: zação próxima ao R-locus do sujeito. Em ou- tras palavras, quando o R-locus que funciona RESPONDER, EXPLICAR, CONTAR como marcador de concordância de sujeito (boca), VER (olho), VISITAR (olho), IM- é omitido, o verbo geralmente é ancorado PORTAR-(se) (testa), TELEFONAR (orelha) ao corpo em seu ponto inicial, concordando apenas com seu objeto. Tais verbos asseme- Em ASL, formas de concordância de ar- lham-se às formas de verbos com concordân- gumento único incluem VER, TATEAR, ES- cia única, discutidas na sessão anterior7. PIAR. Curiosamente, nesses verbos é sempre As línguas de sinais, portanto, parecem, o marcador de concordância de sujeito (isto em um primeiro momento, obedecer a uma é, o R-locus associado ao sujeito sintático) hierarquia inversa em se tratando de concor- que é omitido. O marcador de concordância dância verbal: o objeto é mais proeminente de objeto, portanto, parece ser obrigatório, que o sujeito. Se um verbo concorda com Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais mas não o marcador de sujeito. O mesmo apenas um argumento, trata-se do argumen- fenômeno é descrito em outras línguas de si- to-objeto (recipiente). E, se uma forma ver- nais, ex. Língua de Sinais Dinamarquesa (Di- bal codifica concordância com o sujeito, ela namarquesa SL), (Engberg-Pedersen 1993: também codifica concordância com o objeto. 191), e Língua de Sinais Italiana (LIS) (Pizzu- Vários pesquisadores notaram este compor- to 1986: 25-26). tamento peculiar e tentaram oferecer uma ex- (b) Omissão do marcador de concordân- plicação. Janis (1995: 220) mostra que a hie- cia de sujeito: tem sido observado que o mar- rarquia de concordância da ASL assemelha-se cador de concordância de sujeito é opcional- às hierarquias encontradas em outras línguas mente excluído (Padden 1988; Bahan 1996; para marcadores de caso. Meir (1998b, 2002) Liddell 2003). Conforme Padden aponta, o se apóia nessa observação e analisa a orienta- marcador de concordância de sujeito de um ção das mãos (que segundo sua análise, mar- verbo pode ser opcionalmente excluído, seja ca os papéis sintáticos dos argumentos) como ele realizado como o ponto inicial do verbo marcações de relações de caso. Entretanto, (como nos tipos verbais ‘dar’) ou como seu tanto Janis quanto Meir admitem que as lín- ponto final (como nos tipos verbais ‘levar’). guas de sinais ainda não são usuais no sentido Quando o marcador de concordância de su- de que as relações de caso são marcadas no jeito é excluído, Padden observa, “a forma re- verbo e não nos argumentos. Portanto, ne- sultante possui movimento linear reduzido” nhuma solução satisfatória foi oferecida até (ibid. p. 117). Contudo, quando o sujeito de agora a esse enigma tipológico. tais formas verbais reduzidas é a 2ª ou a 3ª Sugerimos que o enigma pode ser re- pessoa, os sinalizadores tendem a sinalizar o solvido por uma nova maneira de se olhar a 7 Quando o objeto está em 1ª pessoa, o verbo retém o movimento em direção ao corpo do sinalizador. Nestas for- mas, o corpo é a 1ª pessoa e não o sujeito. As formas de verbos com concordância única descritas aqui ocorrem somente em objetos que não são em 1ª pessoa. 1
    91. Irit Meir, Carol Padden, Mark Aronoff e Wendy Sandler classificação verbal em línguas de sinais, que é representada pelo corpo do sinalizador. Em considera o papel do corpo nas três classes outras palavras, o sujeito não é codificado verbais. Essa abordagem mostrará que o su- pelo sistema de concordância verbal, mas, ao jeito é o argumento mais proeminente tam- invés disto, pela forma lexical do verbo, como bém em línguas de sinais, mas que essa proe- nos verbos simples. De certo modo, o sujeito minência é manifestada de uma maneira um é mais profundamente entranhado em verbos tanto diferente nas línguas de sinais. simples e em verbos de concordância única do que em verbos de concordância completa, por ser parte do próprio item lexical em si e 4.2 A solução não adicionado por um afixo flexional. Essa linha de pensamento sugere que o Conforme mostramos na sessão 3 acima, sujeito é um argumento privilegiado tanto uma diferença importante entre verbos de em línguas de sinais, como em línguas fa- concordância e verbos simples reside no pa- ladas. Mas as duas modalidades permitem Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais pel do corpo. Nos verbos simples, o corpo re- diferentes possibilidades para expressar este presenta o sujeito e a categoria da pessoa não status especial. A modalidade manual-visual é codificada. Nos verbos de concordância, o utiliza a assimetria natural entre o corpo e as corpo codifica a 1ª pessoa e as mãos codifi- mãos para codificar a assimetria sujeito-pre- cam todas as outras pessoas, isto é, codifican- dicado na forma de itens lexicais que deno- do os referentes que não são 1ª pessoa bem tam o estado das coisas. A assimetria é codi- como seus papéis sintáticos. ficada pela estrutura dos itens lexicais nessas Voltando aos verbos de concordân- línguas. Os processos gramaticais, tais como cia única, podemos sugerir uma solução ao concordância verbal, podem fazer com que enigma tipológico apresentado. Verbos de este padrão se torne opaco, mas essa tendên- concordância única podem ser considera- cia básica emerge como modelo padrão em dos como um tipo híbrido de verbos simples várias situações. A modalidade auditiva das e verbos de concordância. Assim como nos línguas faladas não pode codificar as proprie- verbos simples, nos verbos de concordância dades do sujeito na estrutura lexical das pa- única, o corpo representa o sujeito. As mãos, lavras. O status especial do sujeito é expresso ao contrário, comportam-se como nos verbos na estrutura gramatical, por ser o alvo mais com concordância (completa): elas codifi- acessível para vários processos morfológicos cam propriedades de não-1ª-pessoa e o obje- e sintáticos. to sintático. Esses verbos, então, representam o sujeito pelo corpo. O que não é indicado nessas formas não é o marcador de sujeito, 5. papéis competitivos do corpo: mas a especificidade a respeito da pessoa. Es- sujeito, 1ª pessoa, corpo humano ses verbos retêm suas trajetórias no que diz respeito ao corpo como sujeito, uma vez que A análise do papel do corpo em verbos sim- se movem de perto do corpo para fora (ou ples versus verbos de concordância demons- em direção ao corpo em caso de um “verbo tra que o corpo pode incorporar funções reverso”). Nossa análise sugere que a referên- gramaticais diferentes da língua, ambos fa- 2 cia ao sujeito é obrigatória, e não opcional, e zendo uso de propriedades diferentes do cor-
    92. Repensando classes verbais em línguas de sinais po humano. Os diferentes sub-sistemas da men). Nessas formas, o torso superior está língua utilizam essas propriedades diferentes disponível como um conjunto detalhado de do corpo. Os seres humanos usam seu corpo locais, usados por sinais para se referirem a para praticar vários tipos de ações. Portanto, pontos específicos do corpo. o corpo pode ser utilizado para representar Esses três papéis diferentes, de represen- essas ações, da perspectiva de um argumento tar o sujeito, a 1ª pessoa e as localizações no particular participante do evento, o sujeito. corpo, são empregados em três subsistemas Esse aspecto do corpo é codificado na forma distintos na língua. Entretanto, poderia ha- lexical de verbos simples. O corpo é também ver casos onde estes papéis competem entre o corpo do sinalizador, emissor na situação si. Por exemplo, em verbos de concordân- comunicativa. O papel do emissor é codifica- cia única o corpo representa o sujeito, mas do na categoria lingüística da pessoa; o corpo a representação das formas do objeto em 1ª representa a 1ª pessoa, como no sistema pro- pessoa também é necessária, como em (ISL): nominal e nas formas flexionadas dos verbos “ele pergunta a mim”. De modo similar, uma Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais de concordância. localização no corpo pode representar não só O corpo também pode representar um um evento acontecendo ao sinalizador, mas corpo humano e todos os seus vários órgãos: também pode representar o sinalizador atu- a boca, olhos, orelhas, testa, peito, braços, etc. ando em uma parte do corpo de um referente Apontar para um órgão específico pode ter a em 3ª pessoa, como em ‘Eu penteei o cabelo função de referir-se àquele órgão. Realmen- dele/dela’. Como as línguas de sinais resolvem te, os sinais para olhos, nariz, boca, coração, estas situações? Essas formas são, na verdade, braços e outros órgãos do corpo são freqüen- mais complexas e complicadas e diferentes temente sinais dêiticos, que apontam para línguas de sinais propõem soluções distintas o órgão em questão. Os sinais referentes às a esses problemas. Examinaremos, aqui, dois ações praticadas em vários órgãos do corpo casos: As formas de objetos de 1ª pessoa de podem ser modulados para expressar a parte verbos de concordância de argumento único do corpo específica envolvida no evento. O e verbos transitivos que denotam atividades sinalizador pode usar seu corpo para indicar do corpo. onde no corpo ele foi atingido em um even- to expressado pela seguinte sentença – “Ele me bateu no braço”. Dependendo de onde 5.1 As formas de objetos de 1ª pessoa de no braço a mão sinalizadora toca no corpo, um verbo de concordância de argumento por exemplo, a parte superior ou inferior do único braço, o sinalizador pode especificar onde, no braço, o evento aconteceu. Ou, em um Em verbos de concordância de argumento evento como ‘O cirurgião abriu meu peito’, o único, a posição inicial do sinal é no corpo e sinal OPERAR envolve um curto movimento as mãos movem-se em direção ao local no es- para baixo tocando o osso externo do sina- paço associado com argumento-objeto. Mas lizador. O sinalizador pode contrastar este se o argumento objeto é o primeiro referente, local com cirurgia em outro lugar no corpo, então as posições iniciais e finais do sinal são como cirurgia cerebral (tocando em alguma ambas no corpo. Se o mesmo local do corpo parte da cabeça) ou uma cesariana (no abdô- é utilizado, então o sinal não teria nenhum 3
    93. Irit Meir, Carol Padden, Mark Aronoff e Wendy Sandler movimento de trajetória, resultando em um 5.2 Verbos transitivos que denotam sinal fonologicamente impossível. Como as atividades do corpo línguas de sinais resolvem este conflito? A ISL e a ASL apresentam duas estratégias diferen- Os sinais para verbos que denotam ações tes. Em ISL, uma forma verbal como “ele me praticadas em órgãos do corpo, como ESCO- perguntou” começa no R-locus associado ao VAR-CABELO versus ESCOVAR-DENTES, referente sujeito (‘ele’), move-se em direção BATER-NO-OMBRO versus BATER-NO- à boca (o local lexicamente especificado do ROSTO são sinalizados nos órgãos respecti- sinal) e depois se move para baixo, em dire- vos. Tais formas se beneficiam do fato de o ção ao peito do sinalizador, a localização que corpo do sinalizador estar sempre lá no even- codifica a 1ª pessoa. Essa forma é, portanto, to discursivo e, portanto, referências a ór- mais complexa que as formas flexionadas re- gãos do corpo podem ser feitas simplesmen- gulares de verbos de concordância, já que tem te apontando ou sinalizando perto do órgão especificações de lugares para três locais dis- em questão. Em tais formas, o corpo não está Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais tintos: o R-locus do sujeito, a boca e o peito. necessariamente associado com o argumen- De maneira similar, a forma verbal de ‘você to-sujeito ou com a 1ª pessoa, mas, ao invés me vê’, começa no locus da 2ª pessoa, move- disso como uma entidade do mundo real que se em direção aos olhos e depois em direção está sendo empregada no discurso sinalizante ao peito. A ASL também utiliza essa estratégia como um dispositivo referencial. Contudo, a para alguns verbos como VER e CONTAR. interpretação padrão de tais formas é que o A ASL também apresenta uma diferente corpo é também o corpo do sinalizador, por- estratégia, utilizada com alguns verbos. Por tanto, 1ª pessoa. A interpretação não marca- exemplo, uma forma verbal significando “ele da de uma forma como ESCOVAR-CABELO me telefonou” começa na orelha, depois se é então, ‘Eu escovei meu cabelo’. Mas como move para o R-locus estabelecido para a 3ª sinalizar ‘Eu escovei o cabelo dela’? Articular pessoa e depois se move para o peito do sina- o sinal na cabeça do sinalizador tenderia a lizador. Em ASL e ISL, tais formas possuem ser interpretado como escovando o próprio especificações para os três lugares, mas a or- cabelo, enquanto articular o sinal em um es- dem desses lugares é diferente: o movimen- paço neutro, na direção do R-locus associado to vem do corpo para o R-locus do sujeito e ao referente da 3ª pessoa perde a especifici- depois para o R-locus do objeto. Se o objeto dade em relação ao cabelo. Tais formas são é a 1ª pessoa, o sinal parte do peito do sinali- notoriamente difíceis e os sinalizadores de zador, mas pode também partir de outro R- línguas diferentes podem utilizar estratégias loci. Em ISL, tais formas são restritas ao ob- diferentes para este desafio. Uma estratégia jeto como 1ª pessoa. Quando o objeto não é é articular o sinal primeiramente no corpo 1ª pessoa, o verbo não pode codificar o mar- do sinalizador, especificando o local exato cador de concordância de sujeito, resultando no corpo onde a ação acontece e depois di- em um verbo de concordância de argumento recionar o sinal para o outro referente, es- único. As diferenças e as semelhanças entre a pecificando o objeto gramatical. Uma outra ASL e a ISL mostram que as soluções a pro- técnica é dividir o evento transitivo em dois blemas lingüísticos similares podem assumir sub-eventos intransitivos, especificando o 4 diferentes formas. que cada argumento está fazendo. Um clipe
    94. Repensando classes verbais em línguas de sinais mostrando uma garota escovando o cabe- bem como formas complexas começando lo de sua mãe pode ser expresso por ‘MÃE com sinais ancorados no corpo. Na ISL, os SENTA; GAROTA PENTEIA’. Pedimos des- sinais direcionados a locais no espaço são crições das três ações envolvendo partes do preferidos e a ordem dos sinais varia nas corpo em duas línguas: ISL e ABSL. Estes formas complexas. Assim como acontece clipes mostraram: uma menina alimentando nas formas de objeto em 1ª pessoa, citadas sua mãe, uma menina escovando o cabelo de acima, desafios semelhantes podem resultar sua mãe e um homem dando um tapinha no em soluções diferentes, ou pelo menos em ombro da menina. As respostas de 16 sina- tendências diferentes em diferentes línguas lizadores de ABSL (adultos e crianças, faixa de sinais. etária 4-40) e 17 sinalizadores de ISL (faixa etária 30-90) foram analisadas e codificadas. Das 63 respostas em ABSL, 22 envolveram 6. Consequências e previsões para a verbos sinalizados no corpo do sinalizador teoria do ‘corpo como sujeito’ Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais (35%), 12 foram sinalizados em direção a um local no espaço (19%); 20 formas envolveram Argumentamos que o ‘corpo como sujeito’ é articular o sinal no corpo do sinalizador e de- um modelo básico de estratégia de lexicaliza- pois o sinal em direção a um local no espaço ção em línguas de sinais e que a concordân- e 7 foram sinalizados na ordem inversa. Duas cia verbal é um mecanismo mais complexo, formas envolveram três verbos: outro-eu- o qual se apóia nessa estratégia básica, mas outro. Parece-nos que a ABSL prefere sinais também a obscurece, pois envolvem uma ancorados no corpo ou primeiro, sinais an- categoria gramatical adicional (pessoa gra- corados no corpo e, depois, direcionando o matical) e o distanciamento do sujeito em verbo para fora do corpo. relação ao corpo. Levando-se em conta que Em ISL, encontramos um padrão dife- a configuração ‘o corpo é sujeito’ é mais bá- rente: das 72 respostas, somente 15 foram si- sica, as seguintes previsões emergem: (a) se nais ancorados no corpo (aproximadamente uma língua de sinais apresenta concordância 20%), enquanto 39 formas verbais foram di- verbal, ela deve apresentar verbos de ‘corpo recionadas a locais no espaço (54%). 23 for- como sujeito’ (isto é, verbos simples), mas não mas foram complexas: eu-outro (15), outro- vice-versa; (b) de uma perspectiva diacrônica, eu-outro(4), (3) e eu-outro-eu (1). os verbos de ‘corpo como sujeito’ aparecem Esses resultados indicam que em ambas antes dos verbos de concordância, isto é, uma as línguas não existem formas estabelecidas língua de sinais que possuía basicamente ver- para expressar tais eventos, mas cada língua bos de “corpo como sujeito” passaria a adicio- demonstra suas preferências. Na ABSL, os nar concordância verbal ao seu sistema verbal sinais ancorados no corpo são preferidos, somente em estágios avançados8. 8 Entretanto, não argumentamos que todas as línguas de sinais devem desenvolver concordância verbal à medida que envelhecem. Nosso argumento é que se uma língua de sinais desenvolve concordância verbal, esperamos que tal desenvolvimento atinja um estágio em que a língua tenha somente verbos de “corpo como sujeito”. 
    95. Irit Meir, Carol Padden, Mark Aronoff e Wendy Sandler Descrevemos duas línguas que se com- de surdez nesta comunidade, típica de sur- portam de acordo com estas previsões: A Lín- dez congênita recessiva (Lane, Pillard, and gua de Sinais Al-Sayyid Beduína (ABSL), uma French 2000), tem tido implicações sócio- língua recente com verbos simples, mas sem lingüísticas: membros surdos da comunida- verbos de concordância, e a Língua de Sinais de são integrados à estrutura social e não são Israelense (ISL), uma língua que não possuía estigmatizados ou marginalizados e a língua concordância verbal nos primeiros estágios de sinais desenvolvida na comunidade como de sua história e desenvolveu este sistema em um meio de comunicação é utilizada por estágios posteriores. membros surdos e uma fração significativa dos membros ouvintes da comunidade (Kis- ch 2000). 6.1 ABSL: Uma língua de sinais sem A Língua de Sinais Al-Sayyid Beduína concordância verbal (ABSL) possui estrutura lexical diferen- te de outras línguas de sinais utilizadas na Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais O grupo Beduíno Al-Sayyid foi fundado região, incluindo a Língua de Sinais Israe- aproximadamente 200 anos atrás, na re- lense (ISL) (Sandler et al. 2005) e a Língua gião da Negev, atual Israel. Originalmente de Sinais Jordaniana (LIU) (Al-Fityani & ‘camponeses’ fellahin do Egito que traba- Padden 2006) e, como o esperado, as lín- lhavam para Beduínos tradicionais como guas não são mutuamente inteligíveis. Em empregados, o grupo Al-Sayyid funciona um estudo anterior, mostramos que a ABSL atualmente com autonomia e é considera- desenvolveu consistentemente o fraseado do Beduíno por estrangeiros. Esse grupo SOB em uma geração, o que difere do fra- está atualmente em sua sétima geração e seado no ambiente sinalizado e de línguas têm aproximadamente 3500 membros que faladas (Árabe e Hebreu) da região. O que residem juntos em uma única comunidade não encontramos foram processos morfo- separada dos outros. O casamento consan- lógicos flexionais como concordância ver- güíneo é considerado a norma no grupo bal. Como resultado da falta de morfologia desde sua terceira geração. Tais padrões de de concordância verbal na ABSL, o padrão casamento são comuns na região e levam básico de lexicalização do ‘corpo como su- a laços internos muito fortes e à exclusão jeito’ é mais aparente. Das três classes ver- de membros externos ao grupo. É um in- bais - simples, com concordância e espacial dicativo de que os Al-Sayyid ainda se vêem - a ABSL possui somente duas: verbos sim- como uma única grande família, embora ples e verbos espaciais. Verbos que deno- agora subdividida em subfamílias. tam transferência, que em muitas línguas Na quinta geração desde a fundação de sinais constituem a classe dos verbos de da comunidade (há aproximadamente 70 concordância, comportam-se como verbos anos), nasceram quatro irmãos surdos na simples em ABSL. comunidade. As duas gerações seguintes Essa observação é baseada em dados também apresentaram surdez em muitas colhidos a partir de 9 sinalizadores da se- outras famílias. Atualmente, o número de gunda geração (faixa etária 28-45) e de 12 indivíduos surdos na comunidade é de apro- sinalizadores da terceira geração (faixa  ximadamente cem. A peculiar distribuição etária 4-24). Um conjunto de clipes desig-
    96. Repensando classes verbais em línguas de sinais nados a colher uma variedade de verbos transitivos e intransitivos perpassando diferentes categorias semânticas foi mos- trado aos sinalizadores. A partir desses dados, identificamos um subconjunto de clipes envolvendo as seguintes ações de transferência entre duas entidades: DAR, ATIRAR, PEGAR, LEVAR e ALIMENTAR. Figura 3: Mulher dá uma bola a Dois outros clipes envolveram as ações de um homem. VER e MOSTRAR, que em muitas línguas de sinais comportam-se como verbos de concordância. Analisamos as respostas dos sinalizadores a esses clipes coleta, re- sultando em um total de 201 formas ver- Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais bais (incluindo repetições e descrições de eventos únicos com duas orações). Das 201 formas de transferência produzi- das, 176 envolveram movimento em relação À direita à esquerda dar ao corpo. Movimentos de dentro para fora quando o sujeito é a fonte (como em DAR, Figura 4: Ele está aqui, ela está ali. Ela deu ATIRAR e ALIMENTAR), ou em movimen- (a bola) a ele. tos de fora para dentro se o sujeito é o desti- no (como em verbos reversos, LEVAR e PE- Em número menor de respostas (25 de GAR). Houve pouca ou nenhuma movimen- 201), os sinalizadores utilizaram uma for- tação para o lado; o movimento se concen- ma com um movimento de trajetória não trava do centro para fora ou do centro para partindo do corpo, mas de um lado para dentro. O movimento do centro para fora– o outro (ilustrado na Figura 6). Em uma dentro apareceu mesmo com o fato das ações análise detalhada, notamos que esses sinais nos clipes mostrarem os atores transferindo envolviam segurar ou manipular um objeto um objeto de um lado para o outro da tela. e movê-lo para outro local. Por exemplo, Os sinalizadores não imitaram a direção do cinco dessas respostas partiram de uma movimento na ação do clipe, ao invés disso, ação no clipe em que um homem ergue usaram o movimento de acordo com o plano um cachecol do chão e o move para frente central deles. Figura 3 mostra figuras de uma da mulher que então, o aceita. (Figura 5) ação em que uma mulher dá uma bola a um Essa ação assemelha-se menos a uma ação homem. Em sua resposta, a sinalizadora in- de transferência do que à ação de erguer o dica que a mulher está no lado direito da tela cachecol de sua posição inicial no chão e e o homem à sua esquerda, mas sua forma movê-lo em direção à localização da mu- verbal não utilizou nenhum desses locais, o lher. O cachecol não estava inicialmente em movimento do verbo DAR foi do centro para posse do homem, mas no chão à sua frente. fora. A Figura 4 abaixo mostra a resposta da Analisamos essas produções verbais como sinalizadora. verbos espaciais, já que eles estão conforme 
    97. Irit Meir, Carol Padden, Mark Aronoff e Wendy Sandler os outros sinais produzidos pelos mesmos ses verbos, o corpo representa o argumento- sinalizadores em resposta às ações nos cli- sujeito, seja o sujeito a fonte da transferência pes em que um objeto movia-se pelo espa- (como em DAR, ATIRAR e ALIMENTAR), ço sem envolver transferência. Por exem- ou o seu destino (como em LEVAR e PE- plo, ao descrever uma bola sendo atirada GAR). Essas formas não codificam distinções em um aro dentro de uma sala, sinalizado- de pessoa. Isto é, os sinalizadores não varia- res geralmente descreviam a trajetória da ram a direção da forma verbal quando a pes- bola movendo suas mãos de um lado para o soa do sujeito e o objeto da oração variaram. outro no espaço sinalizador. Dos 13 clipes Os verbos que envolvem transferência de destinados à geração mais nova, que envol- uma entidade a outra se comportam como a viam movimentos para o lado, 12 vieram classe padrão de verbos simples. de clipes exibindo um evento de ver e outro De acordo com o que foi mencionado de mostrar, sendo a forma verbal acompa- acima, em línguas de sinais com sistema de nhada por um movimento da cabeça para concordância verbal, o corpo é a 1ª pessoa Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais o lado. e as mãos codificam os papéis sintáticos dos argumentos. Nesse sistema, o padrão ‘corpo como sujeito’ não aparece mais, já que a cate- goria da pessoa está sobreposta a ele. O siste- ma verbal ABSL não codifica pessoa gramati- cal fornecendo evidência ao padrão básico de ‘corpo como sujeito’. Figura 5: Homem move o cachecol para a mulher. 6.2 Língua de Sinais Israelense: A perspectiva diacrônica A Língua de Sinais Israelense (ISL) é uma língua de sinais relativamente jovem, que passou a existir juntamente com a comuni- dade surda israelense há aproximadamente 70 anos. Diferentemente da ABSL, a ISL de- senvolveu-se em uma situação de pidgin. Os Cachecol dar membros da primeira geração da comuni- dade surda vieram de contextos diferentes, Figura 6: “Há um cachecol, ele (o) entregou em termos de país de origem e de língua. (a ela) (esquerda para direita)”. Alguns membros dessa geração nasceram em Israel, sendo a maioria composta de imi- A ABSL, portanto, não possui sistema de grantes que vieram da Europa (Alemanha, concordância verbal. O que é crucial ao nos- Áustria, Hungria e Polônia) e mais tarde do so argumento é o modelo de padrão lexicali- Norte da África e do Oriente Médio. Alguns zação do ‘corpo como sujeito’ que os verbos desses imigrantes trouxeram a língua de si-  de transferência em ABSL demonstram. Nes- nais de seus respectivos países. Outros não
    98. Repensando classes verbais em línguas de sinais possuíam sinais ou utilizavam algo como 7. Conclusões sinal caseiro9. Atualmente, quatro gerações de sinalizadores convivem simultaneamente As línguas de sinais demonstram que o sta- na comunidade surda: a primeira geração, tus privilegiado do sujeito se manifesta não que contribuiu para os primeiros estágios de apenas em seu comportamento nos vários formação e desenvolvimento da língua e a níveis estruturais, mas também na estrutura quarta geração, que adquiriu e desenvolveu lexical inerente aos sinais. Isto é, a noção de a língua moderna como um sistema lingüís- sujeito é construída na estrutura das palavras tico completo. em si, mesmo antes de elas se combinarem Enquanto a sinalização da primeira ge- em unidades maiores. A divisão do trabalho ração de sinalizadores (idade 65 em diante) entre o corpo e as mãos nesses sinais suge- demonstra variações individuais conside- re que o evento deve ser conceitualizado em ráveis em termos de vocabulário, fraseado termos de predicado em relação ao sujeito. O e dispositivos gramaticais, a sinalização agenciamento de um dos argumentos partici- Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais desta geração não possui concordância ver- pantes do evento é um componente básico da bal. Sinalizadores mais velhos geralmente estrutura lexical que expressa o evento. não flexionam os verbos de transferência. O padrão ‘corpo como sujeito’, mesmo Usam verbos simples, de modo similar aos sendo básico, como argumentamos, é fre- resultados encontrados no estudo da ABSL. qüentemente ofuscado por outros sistemas Sinalizadores, entre 40 e 50 anos, utilizam em línguas de sinais. Entretanto, uma vez verbos de concordância como verbos de que este padrão é reconhecido, ele se torna concordância única, partindo do corpo e uma ferramenta explicativa robusta para um concordando com o objeto (recipiente). grande número de fenômenos interlinguais e Sinalizadores jovens (30 anos ou menos) intralinguais. Ele explica porque este padrão flexionam verbos de concordância para o su- emerge como estratégia modelo em verbos de jeito e objeto, mas as formas de concordância concordância de argumento único, esclarece apenas com objeto ainda são utilizadas. a complexidade das formas de objeto em 1ª Engberg-Pedersen (1993: 193) descreve pessoa e explica a aparente supremacia do uma tendência similar na Língua de Sinais objeto no sistema de concordância verbal em Dinamarquesa: sinalizadores mais velhos ten- línguas de sinais. Os desenvolvimentos dia- dem a utilizar verbos de concordância como crônicos numa língua de sinais, bem como verbos de concordância única, concordando diferenças tipológicas entre línguas de sinais, apenas com o argumento-objeto (indireto). também encontram uma explicação natural Sinalizadores jovens, ao contrário, utilizam quando se reconhece o papel do corpo na es- formas verbais em que a concordância é mar- trutura do sinal. É útil também para demons- cada com o sujeito e objeto. Entretanto, o pa- trar a conexão com outros fenômenos, como drão anterior é também utilizado. por exemplo, o fato de que gestos da pers- 9 Para uma descrição da história da comunidade surda em Israel e o desenvolvimento da ISL, Cf. Meir & Sandler (no prelo). 
    99. Irit Meir, Carol Padden, Mark Aronoff e Wendy Sandler pectiva do sinalizador são mais transparentes LEHLANN, C. On the function of agreement. In: que os gestos da perspectiva do observador BARLOW, M.; FERGUSON, C. (Orgs.) Agree- (Marentette et al., 2007) e além de observa- ment in Natural Language. Stanford: CSLI, ções em relação aos estágios de aquisição da 1988. p. 55-65. concordância verbal por crianças surdas em LIDDELL, S. Grammar, gesture, and meaning várias línguas de sinais. Deixamos estes tópi- in American Sign Language. New York: Cam- cos para futuras pesquisas. bridge University Press, 2003. LILLO-MARTIN, D.; KLIMA, E. Pointing out differences: ASL pronouns in syntactic theory. Referências In: FISCHER, S. D.; SIPLE, P. (Orgs.). Theoreti- cal Issues in Sign Language Research. Chicago AL-FITYANI, K.; PADDEN, C. A lexical com- and London: The University of Chicago Press, parison of sign languages of the Arab world. 1990. p. 191-210. Trabalho apresentado ao TISLR 9, Florianó- MARENETTE, P.; VOGELSANG, N.; PIKA, S.; Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais polis, 2006. NICOLADIS, E. The transparency of iconic BAHAN, B. Non-manual Realization of Agre- gestures: Differences in viewpoint and language ement in American Sign Language. Tese de modality. Trabalho apresentado ao TISLR 9, Doutorado em–Lingüística Aplicada_Boston Florianópolis, 2006. University, 1996. MEIER, R. Person deixis in American Sign Language. ENGBERG-PEDERSEN, E. Space in Danish Sign In: FISCHER, S. D.; SIPLE, P. (Orgs.). Theoretical Language. Hamburg: Signum-Verlag, 1993. issues in sign language research. Chicago: Uni- FALK, Y. N. Subjects and Universal Grammar. versity of Chicago Press, 1990. p. 175-190. Cambridge: Cambridge University Press, MEIR, I. A cross-modality perspective on verb 2006. agreement. Natural Language and Linguistic FILLMORE, C. J. The case for case. In: BACH, E.; Theory, v. 20, 2002. p. 413-450. HARMS R.T. (Orgs.). Universals in linguistic MEIR, I. Syntactic-semantic interaction in Israeli theory. New York: Holt, 1968. p. 1-88. Sign Language verbs. In: Sign Language and GREENBERG, J. H. Language Universals. In: Linguistics, v. 1, 1998. p. 3-38. Janua Linguarum Series Minor, v. 59. The MEIR, I. Thematic structure and verb agreement Hague: Mouton. 1966. in Israeli Sign Language, Tese de Doutora- GRIMSHAW, J. Argument Structure. Cambridge, do–Hebrew University: Jerusalem, 1998. Mass: MIT Press, 1990. MEIR, I. Spatial Grammar in Signed and Spoken JACKENDOFF, R. S. Semantic and cognition. Languages: Modality Effects on Grammatical Cambridge, Mass: MIT Press, 1990. Structure. Trabalho apresentado ao TISLR 8, JANIS, W. D. A crosslinguistic perspective on Barcelona, 2004. ASL verb agreement. In: Karen EMMOREY, MEIR, I.; SANDLER, W. A Language in Space: K.; REILLY, J. S. (Orgs.) Language, Gesture, The Story of Israeli Sign Language. New York: and Space. NJ: Lawrence Erlbaum Associates, Lawrence Erlbaum Associates. Publishers, 1995. p. 255-286. MEIR, I.; PADDEN, C.; ARONOFF, M.; SADLER, KEENAN, E. L. Towards A Universal Definition Of W. Body as subject. Em andamento, 2007. “Subject” In: LI, C. (Org.). Subject and Topic. PADDEN, C. Interaction of Morphology and 100 New York: Academic Press. 1976. p. 303–333. Syntax in American Sign Language. Outstan-
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    101. A realização morfológica dos campos semânticos1 Irit Meir Universidade de Haifa, Israel 1. Introdução rações de mudança de valência. Em russo, por exemplo, um verbo télico pode derivar de um Apesar de o léxico às vezes se referir a ‘uma verbo atélico por afixação, como em (1). Em coleção de formas idiossincráticas’, também hebraico, muitas operações de mudança de já foi apontada a existência de uma série de valência são codificadas usando-se padrões regularidades e generalizações que se man- verbais diferentes (os chamados binyanim), têm entre itens lexicais. exemplificados em (2). Em tais casos, pare- Restringindo-nos aos verbos, essas rela- ce existir algum tipo de paralelismo entre a ções sistemáticas de significados podem se morfologia e a semântica, no sentido de que referir a noções de aspecto, como, por exem- a complexidade morfológica corresponde à plo, a perfectividade, telicidade e estaticidade; complexidade semântica. a operações de mudança de valência, como a causativização, passivização e reflexivização 1. Russo: pit’(‘beber’, atélico), vypit’ (‘beber e a extensões metafóricas sistemáticas entre tudo’, télico) campos semânticos diferentes, como, por 2. Hebraico: zaz (‘mover-se’,intransitivo) – exemplo, o uso de itens lexicais espaciais heziz (‘mover’, causativo); – huzaz (‘ser para denotar noções temporais ou de posse movido’) (RAPPAPROT-HOVAV & LEVIN (doravan- te RH&L) 1998). Entretanto, o terceiro tipo de relações se- Muito freqüentemente, relações sistemá- mânticas, as extensões metafóricas sistemáti- ticas de significado entre palavras são codi- cas sobre campos semânticos distintos, não ficadas morfologicamente. Muitas línguas se encontra morfologicamente codificado em faladas possuem marcadores morfológicos línguas faladas. Por exemplo, um verbo como para marcar noções de aspecto ou para ope- ir e as preposições de e para (em 3a-c abaixo) são sistematicamente polissêmicos, quan- 1 Traduzido por: Maria Lúcia Barbosa de Vasconcellos, Lincoln Paulo Fernandes, Lautenai Antonio Barthalamei Junior, Jose Rodolfo da Silva
    102. A realização morfológica dos campos semânticos do usados nos campos semânticos espaciais, ções semânticas relacionadas a aspecto ou a de posse e identificação (GRUBER, 1965 e valência serem expressas com freqüência na JACKENDOFF, 1990/2002). morfologia, os traços dos campos semânticos não o são. 3. a. The messenger went from Paris to Istan- Neste trabalho, argumento que a Língua bul [O mensageiro foi de Paris para Is- de Sinais Israelense (LSI), como uma repre- tambul]. sentante das línguas de sinais em geral, cons- b. The inheritance finally went to Fred [A titui precisamente uma língua de tal tipo, isto herança finalmente foi para Fred]. é, uma língua em que as propriedades mor- c. The light went from green to red [A luz fológicas de um verbo refletem e são deter- foi do verde para o vermelho]. minadas pelo campo semântico em que ele (JACKENDOFF, 2002, p. 356) está sendo usado. Com essa afirmação, não quero dizer que há um morfema específico Em (3a), o verbo denota movimento na língua codificando o campo semântico Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais real ao longo de uma trajetória. Em (3b-c), ou indicando uso metafórico. Ao invés disso, não existe movimento real; ao invés disso, o diferentes campos semânticos possuem dife- verbo expressa que o argumento sujeito so- rentes propriedades morfológicas na LSI, que freu algum tipo de mudança: mudança de são refletidas nas propriedades morfológicas possuidores em (3b) e mudança de proprie- dos verbos utilizados nesses campos. dades em (3c). O sentido específico de ir, em Primeiramente, analiso as várias mani- cada uma dessas frases, é inferido pela natu- festações dos campos semânticos nas línguas reza dos complementos das preposições de e faladas (Seção 2) e, então, examino as pro- para (locações, possuidores ou propriedades, priedades morfológicas de cada um dos cam- respectivamente). Usando a terminologia de pos na LSI (seções 3-6). A Seção 7 investiga as Jackendoff, podemos dizer que cada frase implicações da análise para teoria lingüística denota um evento em um campo semântico em geral. específico: espacial, de posse e identificação, respectivamente. É o campo semântico espe- cífico que determina a interpretação especial 2. Efeitos do campo semântico nas de ir, de e para. Entretanto, apesar de as re- línguas faladas lações de significado entre itens lexicais em diferentes campos serem sistemáticas e ocor- Antes de considerarmos a LSI, vamos primei- rerem em muitos itens lexicais dentro de uma ro examinar como os diferentes campos se- língua e em muitas línguas, tais relações não mânticos se manifestam na estrutura lingüís- são codificadas morfologicamente. Essa não tica das línguas faladas. Os exemplos aqui é, absolutamente, uma peculiaridade do in- apresentados são da língua inglesa, mas fenô- glês. RH&L (1998, p. 264) afirmam que “não menos similares são confirmados em outras conhecemos língua alguma na qual a forma línguas faladas. O termo ‘campo semântico’ morfológica de um verbo reflete o campo se- é usado aqui no sentido da teoria léxico-se- mântico em que ele está sendo usado”. Essa mântica de Jackendoff (1990, 2002), na qual afirmação aponta uma lacuna na relação en- uma situação é codificada em termos de fun- tre morfologia e semântica. Apesar de as no- ções conceituais nucleares, ao redor das quais 103
    103. Irit Meir situações são organizadas, tais como SER, 5. IR (X, [Trajetória DE (Y) PARA (Z)]) FICAR, IR, os argumentos dessas funções e um traço de campo semântico. As funções As frases em (4a-d) diferem em relação à na- conceituais especificam o tipo de situação tureza dos argumentos, ou seja, as variáveis na expressa pelo predicado e determinam os ELC. Isso é determinado pelo campo semântico (número e tipo de) argumentos que parti- específico, conforme resumido na Tabela 1: cipam do evento. O traço de campo semân- tico “...determina o caráter dos argumentos O campo semântico X YeZ o tipo de inferências que podem ser feitas.” Espacial Um objeto Locações Posse Um objeto (concreto Seres humanos (Jackendoff 2002, p. 360, ênfase minha). A ou abstrato) (possuidores) estrutura semântica de um predicado é dada Temporal Um evento Pontos no tempo em um esquema de Estrutura Lexical Con- Identificação Entidade Propriedades da entidade ceitual (ELC). Analisemos um grupo de frases expres- Tabela 1: A natureza dos argumentos em Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais sando um evento de MUDANÇA em quatro diferentes campos semânticos campos semânticos diferentes (as três primei- ras sentenças foram apresentadas acima (3a- Além de determinarem a natureza dos c) e são repetidas aqui por conveniência): argumentos, os campos semânticos freqüen- temente determinam escolhas lexicais especí- 4. a. The messenger went from Paris to Is- ficas. Por exemplo, em frases denotando esta- tanbul [O mensageiro foi de Paris para dos em inglês, cada campo semântico empre- Istambul]. [localização] ga uma preposição diferente (ou nenhuma), b. The inheritance finally went to Fred [A conforme ilustrado em (6a-d). A escolha de herança finalmente foi para Fred]. [posse] verbo pode variar, também dependendo do c. The light went from green to red [A luz campo: o verbo ir é usado nos campos es- foi do verde para o vermelho]. [identi- pacial, de posse e identificação, conforme ficação] as sentenças (4a-c) acima mostram, mas no d. The meeting was changed from Tuesday campo temporal, um verbo diferente é usado, to Monday [A reunião foi mudada de ser-movido ou ser-mudado (ibid., p. 359): terça-feira para segunda-feira]. [tem- poral] 6. Escolha de preposições: (JACKENDOFF, 2002, pp. 356-357) a) The book is in the drawer [O livro está na gaveta]. Todas essas frases denotam um evento b) The meeting is on Monday [A reunião é de MUDANÇA: o sujeito de cada frase sofre na segunda-feira]. algum tipo de mudança; está sendo caracteri- c) The money is with Fred.(?)[O dinheiro zado como estando no estado 1 no início do está com Fred] evento e estado 2, no fim. Isso é representado d) The light is ∅ green [A luz é ∅ verde]. esquematicamente pela ELC em (5), onde a mudança é capturada pela função IR e os es- 7. Escolha do verbo: tados 1 e 2 pelos argumentos das funções DE a) He went to Istanbul [Ele foi para Istam- 104 e PARA: bul].
    104. A realização morfológica dos campos semânticos b) The meeting (*went) was changed from tos da estrutura sintática das sentenças. Não Tuesday to Wednesday [A reunião (*foi) há efeito algum na forma dos verbos. Agora foi mudada de terça-feira para quarta- passamos a considerar uma língua em uma feira. modalidade diferente, a modalidade visual- (JACKENDOFF, 2002, p. 359) espacial, e examinamos os efeitos dos campos semânticos nesta língua. Minha tese é que em Outra diferença entre os campos está línguas visual-espaciais, ilustradas aqui pela na variedade de preposições que podem ser LSI, os efeitos de campo semântico são tam- usadas. O campo semântico espacial permite bém manifestados na morfologia dos verbos. distinções graduais mais finas (exemplifica- A razão disso é que cada campo semântico das em 8), enquanto outros campos são mui- tem propriedades morfológicas distintas, que to mais restritos (9-11). determinam, pelo menos, algumas das pro- priedades morfológicas dos verbos e predica- 8. He went to/towards/in the direction of/clo- dos naquele campo. Essas propriedades estão Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais ser to the hill [Ele foi para a/rumo à/na di- relacionadas a dois fatores: 1. o fato de loci-R reção da/mais perto da colina]. estarem ou não sendo empregados; 2. a natu- 9. He gave the book to/*towards/*in the di- reza do uso do espaço. As três próximas se- rection of/*closer to Tom [Ele deu o livro ções examinam as propriedades morfológicas para/*rumo a/*na direção de/*mais perto dos quatro campos semânticos na LSI, com de Tom]. relação a esses fatores. 10. The light changed to/*towards/*in the di- rection of/*closer to green [A luz mudou para/*rumo ao/*na direção do/*mais per- 3. Campos espaciais e de posse na LSI to do verde]. 11. The meeting was moved to/ closer to Os verbos que denotam mudança nos cam- /*towards/*in the direction of Monday [A pos semânticos espaciais e de posse apresen- reunião foi mudada para/*rumo a/*mais tam grande semelhança morfológica. Nos perto de/*em direção a segunda-feira]. dois tipos de verbos, os pontos iniciais e fi- nais não são lexicamente especificados, mas Jackendoff atribui esta diferença à na- são, na verdade, determinados por locações tureza do campo semântico em questão. Ele no espaço associadas com os argumentos do afirma (ibid., p.361) que posse, por exemplo, verbo. Esses pontos, freqüentemente chama- diferentemente de espaço, é descontínua; dos de loci-R, determinam a direção do mo- não existem pontos intermediários entre um vimento de trajetória do verbo. Os loci-R são possuidor ou outro. Conseqüentemente, os cruciais ao sistema referencial das línguas de únicos pontos especificáveis na ‘trajetória’ de sinais e são muito importantes para entender posse são os pontos iniciais e finais, ou seja, o as propriedades morfológicas dos diferentes possuidor anterior e o possuidor futuro. campos semânticos. Por essa razão, eles são Assim, vêem-se os efeitos dos campos descritos mais detalhadamente aqui. semânticos em português, principalmente Nas línguas de sinais, nominais em uma no tipo de argumentos e possíveis inferên- oração são associados com locações discretas cias, nas escolhas lexicais e em alguns aspec- no espaço, chamados de loci-R(eferenciais). 10
    105. Irit Meir Essa associação normalmente é estabelecida no espaço e a trajetória do verbo se move da sinalizando-se uma frase nominal e, então, localização de origem à localização do alvo. apontando ou direcionando o olhar para um ponto específico no espaço2. Esses loci-R são 12. JERUSALÉM INDICADORa, TEL-AVIV usados para referências anafóricas e prono- INDICADORb, CARROaTRAJETÓRIAb. minais para os nominais associados a eles e ‘The car went from Jerusalem to Tel-Aviv.’ são, assim, compreendidos como a mani- [O carro foi de Jerusalém para Tel-Aviv]. festação visual dos traços pronominais dos 13. BOY INDEXa, GIRL INDEXb, BOOK nominais em questão (vide, entre outros, a GIVEb [GAROTO INDICADORa, GA- Bahan 1996, Janis 1992, Klima e Bellugi 1979, ROTA INDICADORb, LIVROaDARb]. Lillo-Martin e Klima 1990, Meier 1990). Ob- ‘The boy gave the book to the girl’ [O me- serve, entretanto, que essas locações não são nino deu o livro para a menina]. determinadas por categorias de traços, como, por exemplo, gênero ou classe de substanti- Os dois sinais de apontar em (12), INDI- Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais vo. Cada argumento é designado seu próprio CADORa e INDICADORb, estão associados locus-R e assim ele pode ser compreendido com referentes locativos, ou seja, locações. mais como um indicador do que como um Os mesmos dois sinais em (13) estão associa- complexo de traços. Línguas de sinais, então, dos com referentes humanos, dois possuido- têm índices R manifestos (Lillo-Martin e Kli- res (anterior e futuro possuidor) no evento ma, 1990). (giving event) representado na frase. Em ambas Além de sinais pronominais, verbos que as frases, o predicado é um sinal cujo movi- denotam movimento (mudança de locali- mento de trajetória é variável, no sentido que zação) e transferência (mudança de posse)3 seus pontos iniciais e finais são determinados também se utilizam do sistema de loci-R: os pelos pontos no espaço estabelecidos pelos si- pontos iniciais e finais dos verbos não são le- nais de INDICADOR. E em ambas as frases, a xicamente especificados. Ao invés disso, eles trajetória se desloca da origem para o alvo. são determinados em cada discurso com as Ambos os campos semântico, espacial e locações no espaço associadas com os loci-R de posse, então, utilizam loci-R de um modo estabelecidos para os argumentos de origem e semelhante. Em verbos dos dois campos, os alvo do verbo. O movimento de trajetória do pontos iniciais e finais são associados com verbo, então, é do locus-R associado com o loci-R dos argumentos de origem e alvo dos argumento de origem para aquele associado verbos (Meir, 2002). Contudo, existem di- com o argumento alvo. ferenças importantes entre os dois campos. As duas frases em LSI abaixo (12-13) de- Essas diferenças estão relacionadas ao uso notam uma mudança de localização e uma do espaço. No campo semântico espacial, o mudança de posse. Em ambas, os argumen- espaço sinalizado é interpretado como uma tos estão associados com locações específicas representação análoga do espaço do mundo 2 O sinal de apontamento é freqüentemente glosado como INDICADOR e o subscrito que o acompanha indica um ponto específico no espaço. 3 Os verbos de movimento e de transferência são, freqüentemente, denominados ‘verbos espaciais’ e ‘verbos de 10 concordância’, respectivamente, com base na classificação de verbos na ASL, proposta por Padden (1988).
    106. A realização morfológica dos campos semânticos real, que é contínuo. No campo semântico de ser to Jerusalem’ [Eu moro em um lugar en- posse, o espaço sinalizado consiste de pontos tre Jerusalém e Tel-Aviv que é mais perto de discretos/sub-partes. Essa diferença, entre um Jerusalém]. A diferença entre (a) e (b) quan- uso contínuo e discreto do espaço, determina do se aponta para C, ao invés de A, enfatiza a interpretação da relação entre os loci-R e as as naturezas díspares dos dois usos do espaço. possíveis formas do movimento de trajetória Essa diferença se manifesta em vários aspec- do verbo. tos do comportamento morfológico dos loci- As diferenças entre os dois usos do espa- R e dos verbos nos dois campos, conforme os ço podem ser ilustradas pelo seguinte exem- itens (i-iv) descrevem: plo: Considere dois loci, A e B, no espaço de sinalização. Em (a) esses loci correspondem a I. Variações fonéticas: Variações nas pró- lugares, enquanto em (b) eles correspondem prias formas dos sinais de apontar, ou seja, a pessoas4. apontar para locações perto umas das ou- tras, mas não para a mesma localização, Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais 14. o o o são interpretadas como variações fonéticas A C B no caso de pronomes pessoais, mas como distinções de significado, no caso de pro- a) A=Jerusalém B=Tel-Aviv nomes locativos, conforme ilustrado aci- I LIVE INDEXA. [EU MORO INDICADO- ma5. RA]. ‘I live in Jerusalem’ [Eu moro em Je- II. Expressão de relações espaciais: Formas rusalém]. locativas expressam relações espaciais, en- quanto formas pronominais pessoais não o b) A=John B=Mary fazem. Por esta razão, loci associados a refe- INDEXA HAPPY [INDICADORA FELIZ]. rentes pessoais não implicam em nenhuma ‘He (John) is happy’ [Ele (John) é feliz]. relação espacial entre esses referentes; mas com referentes locativos, a posição relativa A diferença entre os dois tipos de pro- com relação aos mesmos é representativa nome aparece quando o sinalizante aponta das relações espaciais entre eles. para o ponto C, uma locação próxima, mas III. O espaço entre dois loci: Já que formas não idêntica ao ponto A. No caso de (b), essa locativas expressam relações espaciais, variação fonética não resulta em uma mu- quando dois loci locativos são estabeleci- dança do significado da frase. Contanto que dos, supõe-se, necessariamente, que exis- o ponto C esteja mais perto de A do que B, a te um espaço entre eles. Assim, a noção frase ainda significaria ‘John is happy’ [John ‘entre x e y’ está implicitamente expressa é feliz]. No caso de (a), entretanto, a frase te- (Janis 1992, p. 137). Em outras palavras, ria um significado diferente: ‘I live in a place o espaço entre dois pronomes locativos between Jerusalem and Tel-Aviv which is clo- é significativo e pode ser posteriormente 4 Este exemplo é baseado no exemplo de Janis para a ASL (Janis 1992;135), mas ele é, também, válido para a ISL. 5 Esta diferença foi mencionada por Padden (1988) como o critério mais evidente para a distinção entre os verbos de concordância e os verbos espaciais, mas ela é, também, válida para os pronomes, conforme apontado por Janis 1992. 10
    107. Irit Meir mencionado no discurso. No caso de pro- etc. A trajetória na mudança de verbos nomes pessoais, por outro lado, o espaço de posse não pode ser modificada dessa entre dois pronomes não carrega signifi- forma. Ela tem uma forma estável, espe- cado. cificada para cada registro lexical. Por IV. Apresentando um novo locus: Dado que exemplo, os verbos SEND [ENVIAR] o espaço entre dois pronomes locativos é e HELP [AJUDAR] têm um movimen- significativo e, de certo modo, implícito, to de trajetória retilíneo; GIVE [DAR], há também a implicação de que existem SAY [DIZER] e ASK [PERGUNTAR] outros loci naquele espaço. Conseqüen- possuem um movimento de trajetória temente, quando o sinalizante aponta curvado; os verbos TEACH [ENSINAR] para um novo locus não mencionado an- e EXPLAIN [EXPLICAR] possuem um teriormente (como o ponto C, no exem- curto movimento duplo. Não é possível plo acima), esse locus é interpretado em mudar os traços de movimento inerentes relação às ligações espaciais previamente desses verbos6. Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais estabelecidas que se mantêm entre A e B. VI. A relação entre a trajetória e os loci-R: Ou seja, é interpretado como um ponto No domínio espacial, se o movimento de (ou uma localização) entre A e B, mas trajetória não alcançar o ponto B, a inter- mais próxima de A. A situação é diferente pretação é que a entidade em movimento quando A e B são associados a referentes não alcançou o local associado com B. No não-locativos: o espaço entre A e B não domínio de posse, o que é importante é é significativo. Por esta razão, outros loci a direção geral da trajetória. Se ela real- não estão comprometidos. Quando se mente começa em A ou termina em B não aponta para um novo locus, existem duas resulta em mudança de significado. possibilidades: ou o novo ponto é com- preendido como uma dos loci existentes Apesar de existirem distinções claras en- (se está mais próximo de um do que do tre os dois usos do espaço, eles podem se so- outro), ou o outro locus não é interpre- brepor. Primeiramente, quando os referentes tável, já que não foi associado a referente estão presentes, os sinais de apontar são dire- algum. cionados aos seus locais reais. Em tais casos, V. Modificação do movimento da trajetória: as variações fonéticas dos sinais de apontar O movimento de trajetória dos verbos (por exemplo, apontar na direção próxima espaciais pode ser modificado para re- ao local de um referente) são mais provavel- fletir a forma da trajetória empreendida mente interpretadas como distintivas do que por uma entidade, como, por exemplo, quando os referentes não estão presentes. Ou zigue-zague, círculos, subindo, descendo seja, apesar de os sinais serem usados para re- 6 Uma outra modulação possível é a altura da trajetória. Como observado por Liddell (1990) para a ASL e válida, também, para a ISL, quando um dos argumentos é mais alto que o outro, a trajetória partirá de um R-loci mais baixo para um mais alto, ou o inverso. Por exemplo, quando os argumentos do verbo ASK (PERGUNTAR) são uma mãe e uma criança, a trajetória do verbo é de um ponto mais alto para um ponto mais baixo, se a mãe estiver 10 fazendo uma pergunta para a criança e de um ponto mais baixo para um ponto mais alto, no caso inverso.
    108. A realização morfológica dos campos semânticos ferir a pessoas e não a lugares, o uso do espa- 4. Campo semântico temporal ço parece ser contínuo, ao invés de discreto, nesses casos. Em muitas línguas, conceitos temporais são Em segundo lugar, às vezes um evento freqüentemente construídos usando-se ex- envolve tanto uma mudança de movimen- pressões espaciais, como preposições espa- to quanto de posse. Por exemplo, uma ciais e verbos de movimento, por exemplo, frase como ‘Mary handed Harry the book’ the coming year [o ano seguinte], the time [Mary entregou o livro para Harry]. Em ahead of us [o tempo a nossa frente], the worst tais casos, o verbo talvez exiba tanto uso period is behind us [o pior período já passou], contínuo quanto discreto do espaço, de- a year ago [um ano atrás]7. As línguas de si- pendendo do que está sendo enfatizado, a nais, como línguas articuladas no espaço, mudança de localização ou de posse (Meir podem incorporar essas noções espaciais nas 1998). próprias formas dos sinais. Em muitas línguas Em suma, verbos no campo semânti- de sinais, itens lexicais que denotam concei- Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais cos espacial e no campo semântico de pos- tos temporais são localizados em uma linha se compartilham uma estrutura morfológica do tempo imaginária, uma linha horizontal comum: em ambos os campos, as especifica- na altura do rosto ou do ombro. Nessa linha, ções fonológicas para os pontos de início e o corpo do sinalizante constitui um ponto de fim são determinados por loci-R associados referência denotando o presente. O passado ao argumento do verbo e a direção do mo- é conceituado como a área atrás do ombro vimento de trajetória se dá da origem para o ou rosto, enquanto o futuro ocupa a área à alvo. Eles diferem no modo como utilizam o frente do sinalizante. A direção do movimen- espaço. No domínio espacial, o espaço é con- to em sinais, que denota conceitos de tempo, tínuo; os loci-R são parte de um continuum; expressa relação temporal. Um exemplo pode desta forma, ao se estabelecer loci-R, o conti- ajudar. Os sinais YESTERDAY [ONTEM] e nuum entre eles também é estabelecido. Ou- TOMORROW [AMANHÃ] na Figura 1a-b tros pontos nesse continuum e a relação en- são um par mínimo. Eles têm a mesma con- tre diferentes pontos dentro dele (o sentido figuração de mão e localização, mas diferem de ‘entre’) estão todos contidos naquele sis- na direção do movimento. Em YESTERDAY tema. No domínio de posse, por outro lado, a mão se move para trás e em TOMORROW o espaço é composto de sub-partes discretas: a mão se move para frente. Outros pares de cada locus-R representa uma unidade inde- sinais em LSI são também diferenciados de pendente discreta. Portanto, o que importa é maneira similar pela direção da trajetória, que os loci são distintos entre si, mas o ar- por exemplo, ‘last week/year’ [semana/ano ranjo espacial e a relação entre as unidades é passado] versus ‘next week/year’ [semana/ irrelevante. ano que vem]8. 7 Lyons (1977;718) observa que “a espacialização do tempo é um fenômeno tão óbvio e difundido na estru- tura gramatical e lexical de tantas línguas do mundo que ela tem sido freqüentemente observada, mesmo por pesquisadores que não aceitam a hipótese de localismo”. 8 Para uma análise detalhada do uso da linha de tempo em expressões temporais na ASL, ver Taub 2001, cap. 7. 10
    109. Irit Meir nhã para semana que vem] (ou – ‘The mee- ting scheduled for tomorrow was postponed to next week’ [A reunião agendada para ama- nhã foi adiada para semana que vem]). Como é evidente pelas glosas da LSI, as expressões temporais TOMORROW [AMA- NHÃ] e NEXT-WEEK [SEMANA-QUE- Figura 1: (a) YESTERDAY [ONTEM] (b) TOMORROW VEM] não são associados aos loci-R no es- [AMANHÃ] paço. Portanto, os pontos iniciais e finais do verbo não podem ser determinados por asso- Visto que noções e relações temporais são ciações com os loci-R previamente estabele- expressas como movimento em uma linha cidos. A direção do movimento de trajetória temporal, pode-se esperar que a estrutura dos do verbo é determinada pelo seu significado. Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais sinais que denotam mudança no tempo seria Visto que o verbo POSTPONE [ADIAR] sig- muito similar à dos verbos denotando mu- nifica ‘mover para frente no tempo’, a dire- dança de localização, já que mudança de tem- ção se dá do corpo do sinalizante para frente, po poderia ser expressa como uma mudança ou seja, de um ponto proximal do sinalizante de localização espacial numa linha de tempo para um ponto distal. O movimento de um imaginária. E, de fato, existem algumas simi- ponto distal para um proximal tem o sen- laridades na estrutura dos verbos nesses dois tido de ‘adiantar’, movendo-se para trás no domínios; em ambos o sinal consiste de um tempo. Os pontos iniciais e finais, então, não movimento de trajetória cuja direção é vari- são associados aos loci específicos no espaço. ável. Entretanto, também existem diferenças Ao invés disso, é a relação espacial entre eles importantes. Essas diferenças se originam de (proximal ou distal em relação ao corpo do dois fatos: (a) na LSI, as expressões temporais sinalizante que codifica a direção da mudan- não são localizadas e (b) a natureza do espaço ça temporal). é diferente: expressões temporais, diferente- Alguns sinalizantes localizam o evento, a mente das espaciais, são localizadas em eixos reunião em (15) (MEETING TOMORROW específicos no espaço, não em um espaço tri- INDEXa [REUNIÃO AMANHÃ INDICA- dimensional. DORa]). A expressão temporal inicial é um Vejamos uma frase na LSI que expressa modificador do substantivo (‘the meeting um evento de mudança no domínio es- tomorrow’ [a reunião amanhã]) e não uma pacial, ou seja, re-agendando um evento no frase independente. O verbo, então, se move tempo: do locus-R associado ao evento ou para fren- te ou para trás, dependendo de o evento ter 15. MEETING TOMORROW INDEXa POS- sido adiado (postponed) ou adiantado (pre- TPONE NEXT-WEEK [REUNIÃO AMA- poned). Isso contrasta com os verbos de mu- NHÃ INDICADORa ADIAR SEMANA- dança de localização ou posse, onde a direção QUE-VEM]. da trajetória é totalmente determinada pelas ‘The meeting was postponed from tomorrow locações no espaço associadas aos argumen- 110 to next week’ [A reunião foi adiada de ama- tos de origem e de alvo.
    110. A realização morfológica dos campos semânticos As preposições from (de) e to (para) são O campo semântico temporal, então, usadas em inglês não apenas para expressar difere do espacial e de posse no sentido de mudança no tempo (como em 16), mas, tam- que seus argumentos Y e Z não são locali- bém, para expressar uma extensão de tempo zados. Além disso, verbos nesse campo se (como em 17): movem em eixos específicos no espaço: o eixo sinalizador-para-frente e o eixo lado- 16. The meeting was moved from 2 to 4 [A a-lado. Na LSI, parece que nenhuma re- reunião foi mudada das 2 para as 4]. ferência é feita a pontos específicos nesses 17. The meeting is from 2 to 4 [A reunião é eixos; o que importa é a relação entre os das 2 às 4]. pontos iniciais e finais. Outras línguas de sinais, entretanto, podem exibir comporta- A LSI difere nesse aspecto: para re-agendar mentos diferentes. De acordo com Wilbur eventos, o eixo ântero-posterior é usado (ou (no prelo, 17), na LSA . seja, um eixo perpendicular ao peito do sinali- Também é possível que o tempo do Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais zante, como nas Figuras 2a-b). Uma extensão evento seja significativamente manipula- de tempo, por outro lado, é expressa por uso do em contextos apropriados (18 [15 para de um eixo lado-a-lado (o eixo paralelo ao pei- ela]). Em (18b), a ocorrência final do sinal to da sinalizante, ilustrado na Figura 2c). POSTPONE pode ser feito com dois mo- Figura 2: Eixos no espaço temporal: (a) POSTPONE [ADIAR], (b) PREPONE [ADIANTAR], (c) extensão de tempo. vimentos para frente, um parando em um b. ONE-WEEK TWO-WEEK WANT ponto (py) significando uma semana e o X POSTPONEY WHICH XPOSTPONEY,Z+ segundo, em um ponto mais distal, signi- + [UMA-SEMANA DUAS-SEMANAS ficando duas semanas (pz). O contexto do QUERER XADIARY QUAL XADIARY,Z+ +] discurso determina como esses pontos são ‘Do you want to postpone it for one interpretados no tempo (semanas, minu- week or two?’ [Você quer adiar por tos, etc.). uma semana ou duas?]. 18. a. WEDDING MUST XPOSTPONEY Em ambas as línguas, porém, o domínio [CASAMENTO TER-QUE XADIARY]. temporal utiliza-se de eixos específicos no The wedding had to be postponed [O espaço, ao contrário dos domínios espaciais casamento teve que ser adiado]. e de posse, que empregam um espaço tridi- mensional, seja contínuo ou discreto. 111
    111. Irit Meir 5. Campo semântico de identificação: localização. De acordo com Lakoff e Johnson mudança de propriedades (1999, p. 52), nosso conceito de mudança de estado se baseia na experiência primária de As mudanças de propriedades nas línguas movimento ao longo de uma trajetória, onde faladas são freqüentemente denotadas por mudança de estado é percebida como parte verbos de mudança-de-estado (MDE): blush de uma mudança de localização durante o [enrubescer], redden [avermelhar], get well movimento. [melhorar]. Um verbo de MDE codifica, como parte de seu significado, o estado fi- nal do argumento que passa pela mudança. O verbo redden, por exemplo, especifica que um referente alcançou o estado de estar ver- melho. O estado inicial está contido e pode ser caracterizado como “Estado não Final”. Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais Ou seja, verbos de MDE só podem significar ‘mudar de não-A para A’. O verbo redden só pode significar ‘mudar de não-vermelho para (a) (b) vermelho’; não pode significar ‘mudar de amarelo ou de qualquer outra cor para ver- melho’ (CARTER, 1976). Quando expressam um evento de mudança onde os estados fi- nais e iniciais não são valores opostos da mes- ma propriedade, as línguas faladas freqüente- mente usam um padrão espacial, no qual os estados iniciais e finais são marcados como (c) origem e alvo, respectivamente, pelas prepo- Figura 1: Verbo de MDE em LSI: (a) (GET)-BETTER, sições from e to (ou into, em alguns casos), (b) BLUSH, (c) GET-PALE. como em (19-22): O que acontece quando não há um item 19. The light went from green to red [A luz lexical para expressar uma mudança específi- foi do verde para o vermelho]. ca de estado? Conforme os exemplos (19-22) 20. Things went from bad to worse [As coisas mostram, a língua inglesa utiliza um modelo foram de mal a pior]. espacial. Se a LSI fosse utilizar meios espaciais 21. The witch turned the frog into a prince para expressar mudança de propriedades, uma [A bruxa transformou o sapo em um frase significando ‘The leaves turned from príncipe]. green to yellow’ [As folhas mudaram de verde 22. He changed from this nice young guy into para amarelo] tomaria a seguinte forma: a horrible nerd [Ele mudou de um jovem simpático para um idiota horrível]. 23. *LEAVES, GREEN INDEXa, YELLOW INDEXb, CHANGE aPATHb [FOLHAS, Em tais frases, a mudança de proprieda- VERDE INDICADORa, AMARELO INDI- 112 de é conceituada em termos de mudança de CADORb, MUDANÇA aTRAJETÓRIAb]
    112. A realização morfológica dos campos semânticos Nessa sentença hipotética, o estado ini- ‘The green leaves turned yellow’ [As fo- cial GREEN está localizado no ponto (a), o lhas verdes ficaram amarelas]. estado final YELLOW no ponto (b) e a mu- 25. DOCTOR INDEXa THEN FAT NOW dança de um para outro seria denotada por CHANGE THIN [MÉDICO INDICA- um sinal cujo movimento de trajetória é de DORa ENTÃO GORDO AGORA MUDA (a) para (b). Conforme o asterisco indica, FINO]. entretanto, essa sentença é agramatical na ‘The doctor that used to be fat has become LSI. A agramaticalidade origina-se, primei- thin’ [O médico que costumava ser gordo ramente, do fato que os estados iniciais e ficou magro]. finais não podem ser localizados. Isso pode 26. BOY INDEXa THEN SICK NOW ser parte de uma restrição geral na língua HEALTHY [MENINO INDICADORa EN- em que somente expressões referenciais po- TÃO DOENTE AGORA COM SAÚDE]. dem ser localizadas. Os estados nas senten- ‘The boy that was sick became healthy’ [O ças acima são predicados, não argumentos. menino que estava doente ficou bom]. Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais Conseqüentemente, não são referenciais e, portanto, não podem ser localizados (Meir Uma mudança de evento no domínio de 2004). Qualquer locus-R estabelecido neste identificação, então, difere consideravelmen- discurso seria interpretado como se estivesse te dos tipos similares de eventos, em outros associado à expressão referencial na senten- campos semânticos. Os verbos MDE pos- ça (LEAVES), ao invés de estar associada às suem um movimento de trajetória invarian- suas propriedades. Além disso, visto que há te, completamente especificado no léxico. somente uma expressão referencial na sen- Ademais, os estados finais e iniciais (os argu- tença, a mesma não pode conter dois loci-R, mentos Y e Z na LCS) não podem ser locali- já que se espera que cada locus-R esteja as- zados. Portanto, nenhum meio espacial está sociado a um referente diferente. Portanto, disponível nesse domínio e a língua recorre à um modelo espacial não tem a função de ex- morfologia não espacial e à estrutura de fra- pressar mudança de estado na LSI. se para expressar uma mudança de evento de Como a língua expressa tais eventos, en- propriedade. tão? Há duas possibilidades. Uma é utilizar o verbo BECOME/CHANGE-TO [tornar- se/mudar para]. O estado final seria expres- 6. Resumo: As propriedades morfoló- so como complemento do verbo e o estado gicas dos quatro campos semânticos inicial como um modificador do nominal que se refere à entidade sofrendo mudan- Os verbos denotando mudança nos quatro ça, como em (24). A segunda, é utilizar um campos semânticos examinados possuem modelo temporal, onde os estados finais e propriedades morfológicas diferentes. Nos iniciais são marcados pelos advérbios tem- campos espaciais e de posse, as locações fi- porais THEN [então] e NOW [agora], como nais e iniciais dos sinais não são especifica- em (25-26): das lexicalmente e são determinadas pelos loci-R dos argumentos origem e alvo (Y 24. LEAVES GREEN CHANGE YELLOW [FO- and Z) dos verbos. Esses loci, por sua vez, LHAS VERDES MUDAM AMARELO]. determinam a direção do movimento de 113
    113. Irit Meir trajetória do verbo. A diferença entre os Uso do espaço Loci-R dois campos está nos seus usos de espaço – contínuo versus descontínuo. O espaço, Espacial Contínuo, Semelhante Locações no domínio espacial, é semelhante ao es- paço do mundo real e, conseqüentemen- De posse Descontínuo Referentes te, é contínuo. A relação espacial entre os loci-R representa a relação entre locações Temporal Consiste de eixos -------- e o espaço entre essas locações é signifi- --------------- cativo. No domínio de posse, os loci-R De identificação (sem uso direcional do --------- espaço) representam referentes e não locações. As relações espaciais entre os loci-R não são Tabela 2: Propriedades morfológicas dos significativas e nenhum espaço entre elas campos semânticos está envolvido. Os campos temporais e de identificação 7. Conclusões e conseqüências Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais não fazem uso dos loci-R; tanto expressões temporais quanto propriedades não podem ser localizadas. Portanto, frases denotando O significado teórico da realização mor- um evento de mudança nesses domínios não fológica desses campos semânticos possui envolvem localização dos pontos iniciais e três dimensões. Primeiro, ela preenche uma finais do evento. Ao invés disso, o referen- lacuna na relação entre semântica e morfolo- te sofrendo mudança (o argumento X no gia. Como apontado na Seção 1, das três rela- LSC) pode ser localizado, o ponto inicial ções sistemáticas de significado mencionadas (o argument Y) é freqüentemente expresso em RH&L (1998), somente duas – relações de como um modificador daquele nominal e aspecto e de mudança de valência – são co- o ponto final (o argumento Z), como um dificadas morfologicamente. O terceiro tipo, complemento do verbo. Assim, a estrutura a polissemia sistemática de itens lexicais usa- das frases nesses domínios pode ser bas- dos em diferentes campos semânticos, não é tante similar. Os dois domínios diferem no codificado morfologicamente nas línguas fa- uso do espaço. O domínio temporal faz uso ladas. Contudo, como este trabalho demons- de eixos no espaço, onde a direção do mo- trou, essa polissemia sistemática de itens lexi- vimento do verbo codifica a ordem relativa cais usados em diferentes campos semânticos (sequencing) dos eventos. Verbos no campo é codificada em uma língua transmitida na de identificação não possuem morfologia modalidade visual-espacial, a LSI e, muito espacial alguma; seus movimentos de traje- possivelmente, também em outras línguas tória, se é que existem, são completamente de sinais. Isso sugere que nenhuma relação especificados para cada verbo no léxico e sistemática de significados entre os itens le- não podem ser modulados para expressar xicais está livre, em princípio, de ser codifica- movimento ao longo de diferentes trajetó- da em termos morfológicos. A questão ainda rias no espaço. permanece com relação à razão pela qual so- As propriedades morfológicas dos dife- mente as línguas de sinais codificam campos rentes campos semânticos são resumidas na semânticos morfologicamente. Deixo essa 114 Tabela 2: questão em aberto, por enquanto. Provavel-
    114. A realização morfológica dos campos semânticos mente, isso está relacionado com o fato de as trimento de outra. Por exemplo, existe uma línguas de sinais serem articuladas no espaço controvérsia com relação ao fato de verbos de e terem o espaço a seu dispor, para expressar MDE serem de natureza semelhante aos ver- relações espaciais, assim como outros tipos bos de mudança de localização. Abordagens de relações que são metaforicamente cons- localistas, por exemplo, Andersen (1971), pro- truídas no domínio espacial. Entretanto, uma põem uma análise unificada para os dois tipos explicação completa e explicíta para a ques- de verbo. Jackendoff, em seus primeiros tra- tão ainda não foi formulada . balhos (por exemplo, 1983), também defende Segundo, formas morfológicas são fre- uma análise unificada, mas muda sua abor- qüentemente levadas em conta como evidên- dagem em seus trabalhos posteriores (1990, cia para a existência da categoria semântica 2002), onde ele sugere que os verbos de MDE específica expressa por essas formas. RH&L têm uma função INC(oativa) em seus (LCSs) e (1998, p. 260) afirmam, por exemplo, que a não uma função IR. RH&L (2002, 2005) apre- existência de morfemas em algumas línguas sentam fortes argumentos demonstrando que Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais que expressam certas distinções semânti- os verbos de MDE diferem de outros tipos de cas (como telicidade) pode ser interpretada verbos, do mesmo modo que seus argumentos como evidência de suporte para análises que semânticos são construídos na sintaxe. O fato assumem a existência de entes primitivos se- de os verbos de MDE na LSI não terem mor- mânticos correspondentes a tais distinções. fologia espacial pode apresentar suporte adi- De modo similar, as diferenças morfológicas cional a uma análise não-locativa dos verbos entre as classes verbais em diferentes domí- de MDE e para sugerir análises diferentes para nios semânticos na LSI podem ser interpre- um evento de MUDANÇA no campo espacial, tadas como suporte para teorias que assu- de posse e temporal e um evento de MUDAN- mem a existência dos campos semânticos, ÇA no campo de identificação. como Jackendoff (1990, 2002). Além disso, as propriedades morfológicas dos diferentes campos podem oferecer uma perspectiva me- Referências: lhor sobre suas propriedades. Por exemplo, Jackendoff sugere (2002, p. 361) que o ‘espa- ANDERSON, J.M. The Grammar of Case: Towar- ço’ de posse é descontínuo. Ele chega a essa ds a Localistic Theory. Cambridge: Cambridge conclusão apenas com base em possíveis in- University Press, 1971. ferências (“algo não pode estar no meio do BAHAN, B. Non-manual Realization of Agre- caminho entre pertencer a A e pertencer a ement in American Sign Language. Tese de B”). Contudo, na LSI, essa diferença é ex- Doutorado–Boston University. 1996. plicitamente evidente no comportamento CARTER, R. J. Some constraints on possible morfológico de verbos de transferência, em words. Semantikos, v. 1, 1976. p. 27-66. contraste com os verbos espaciais, assim ofe- GRUBER, J. Lexical structures in syntax and recendo fortes argumentos a favor da suges- semantics. North-Holland Linguistic Series, tão de Jackendoff. v. 25. Amsterdam: North-Holland Publishing Terceiro, as distinções morfológicas entre Company, 1976. os campos semânticos - uma vez identificadas JACKENDOFF, R. S. Semantic and cognition. - podem apoiar uma análise específica em de- Cambridge, Mass: MIT Press, 1983. 11
    115. Irit Meir JACKENDOFF, R. S. Semantic and cognition. MEIR, I. Thematic structure and verb agreement Cambridge, Mass: MIT Press. 1990. in Israeli Sign Language, Tese de Doutorado– JACKENDOFF, R. S. Foundations of language. Hebrew University: Jerusalem, 1998. Oxford: Oxford University Press, 2002. MEIR, I. Motion and Transfer: The Analysis of JANIS, W. D. Morphosyntax of the ASL verb Two Verb Classes in Israeli Sign Language. In: phrase. Tese de Doutorado – State University DIVELY, V. (Org.). Signed Languages: Discov- of New York at Buffalo, 1992. eries from International Research, Washington LAKOFF, G.; JOHNSON, M. Philosophy in The D.C, 2001. p. 74-87. Flesh, The Embodied Mind. New York: Basic MEIR, I. A Cross-Modality Perspective on Verb Books, 1999. Agreement. NLLT, v. 20, p. 413-450, 2002. LEVIN, B.; RAPPAPORT HOVAY, M. Argument PADDEN, C.A. Interaction of Morphology and realization. Cambridge: Cambridge University Syntax in American Sign Language. New York/ Press, 2005. London: Garland Publishing, 1983/1988. LIDDELL , S. Four Functions of a locus: Reexami- RAPAPORT HOVAY, M.; LEVIN, B. Morphol- Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais ning the structure of space in ASL. In: LUCAS ogy and lexical semantics. In: SPENCER, A.; (Org.) Sign Language Research, Theoretical ZWICKY, A. (Orgs.) Handbook of Morphol- Issues. Washington D.C, 1990. p. 176-200. ogy. Oxford: Blackwell, 1998. p. 248-271. LILLO-MARTIN, D.; KLIMA, E. Pointing out di- RAPAPORT HOVAY, M.; LEVIN, B. Change fferences: ASL pronouns in syntactic theory. In: of state verbs: Implications for theories of FISCHER, S. D.; SIPLE, P. (Orgs.). Theoretical argument projection. BLS, v. 28, 2002. p. Issues in Sign Language Research. Chicago and 269-280. London: The University of Chicago Press, 1990. TAUB, S. F. Language from the body: Iconicity and p. 191-210. metaphor in American Sign Language. Cam- LYONS, J. Semantics. Cambridge: Cambridge bridge: Cambridge University Press, 2001. University Press, 1977. WILBUR, R. B. Complex Predicates involving MEIER, R. Person deixis in American Sign Language. Events, Time and Aspect: Is this why sign In: FISCHER, S. D.; SIPLE, P. (Orgs.). Theoretical languages look so similar? In: QUER, J. issues in sign language research, Chicago: Uni- (Org.). Theoretical issues in sign language versity of Chicago Press, 1990. p. 175-190. research. 11
    116. Posse e existência em três línguas de sinais1,2 Deborah Chen Pichler Ronnie B. Wilbur Gallaudet University Purdue University Deborah.Chen.Pichler@Gallaudet.edu wilbur@purdue.edu Katharina Schalber Martina Vulje Sem afiliação institucional no momento University of Zagreb schalberk@yahoo.com martina_vulje@net.hr Julie Hochgesang Ljubica Pribanić Gallaudet University University of Zagreb Julie.Hochgesang@Gallaudet.edu ljubica@erf.hr Marina Milković University of Zagreb mmilkov@erf.hr 1. Introdução utilizados. Em seguida, discutiremos a noção de que as construções possessivas e existen- Este trabalho resulta de um estudo inter- ciais são sintaticamente relacionadas, não lingüístico sobre estruturas possessivas e apenas entre si, mas também com as constru- existenciais na Língua de Sinais Americana ções locativas. Essa é uma noção consolidada (ASL), na Língua de Sinais Austríaca (ÖGS) na literatura sobre a língua falada, tendo sido e na Língua de Sinais Croata (HZJ). Começa- popularizada pela proposta sintática de Free- remos com uma descrição geral das constru- ze (1992). Entretanto, ainda não se investigou ções relevantes produzidas pelos participan- a plausibilidade de estendê-la a dados relati- tes deste projeto. Tal descrição incluirá uma vos a línguas de sinais. Por fim, discutiremos comparação de características sintáticas e se- as potenciais evidências de uma natureza lo- mânticas de diversas construções possessivas cativa subjacente às construções possessivas e nas três línguas alvo, observando-se a ocor- existenciais na ASL, na ÖGS e na HZJ, gera- rência de padrões semelhantes nos corpora das a partir dos dados analisados. 1 Traduzido por: Maria Lúcia Barbosa de Vasconcellos, Ladjane Maria Farias de Souza, Alinne Balduíno Pires Fernandes 2 Este trabalho foi financiado pelo auxílio n. 0345314 da National Science Foundation. Agradecemos a todos os nossos participantes surdos pela contribuição para este projeto e a Ulrike Zeshan e seu grupo de pesquisa.
    117. Deborah Chen Pichler e outros 2. Metodologia 3.1 Locuções nominais possessivas: Características estruturais Nossos dados foram obtidos a partir de su- jeitos surdos da Gallaudet University, Esta- Encontramos estruturas possessivas na forma dos Unidos (6 sujeitos), Viena, Áustria (5 de locuções nominais nas três línguas alvo. sujeitos) e Zagreb, Croácia (4 sujeitos). Os Todas as três línguas empregam um pronome dados foram elicitados por meio de tarefas possessivo (glosado como POSS nos exem- desenvolvidas para o estudo comparativo plos abaixo), formado pelo deslocamento intitulado Sign Language Typology3: Pos- da configuração de mão “B” em direção ao session and Existentials, dirigido por Ulrike locus do possuidor4. A ordem canônica das Zeshan. Os sujeitos participaram de quatro palavras nas locuções nominais possessivas “jogos” que visavam à produção de constru- foi, em todos os casos, (Possuidor)-POSS- ções possessivas e existenciais. Uma breve Possessum, com o sinal do possuidor aparecen- descrição de cada uma destas tarefas encon- do apenas quando necessário (por exemplo, Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais tra-se no Apêndice A deste relatório. Em por motivo de esclarecimento ou ênfase). alguns casos, os dados de elicitação foram complementados por consultas e discussões (1) POSS-1s CAR / AUTO / AUTO com sinalizantes nativos, a respeito de estru- [ASL, ÖGS, HZJ] turas específicas (em diferentes níveis para poss-1s carro / carro / carro cada equipe). ‘my car’ (2) (MOM) POSS-3s COUSIN 3. Descrição das construções [ASL] possessivas e existenciais na ASL, na ‘Mom’s cousin / her cousin’ ÖGS e na HZJ (3) (VATER) POSS-3s BRUDER [ÖGS] Nossos dados compreendem uma vasta pai poss-3s irmão gama de construções possessivas e existen- ‘my father’s brother / his brother’ ciais, porém, apenas um subconjunto de- las será discutido aqui. Este artigo enfoca (4) (MAMA) POSS-3s MAćKA [HZJ] as construções existenciais (por exemplo, Mãe poss-3s gato There is a problem; There is a man in the ‘Mom’s cat / her cat’ room), locuções nominais possessivas (NP) (por exemplo, my car; John’s sister) e a for- Além dessa forma básica descrita acima, ma do verbo have nos predicados possessi- também observamos formas variantes de lo- vos (por exemplo, I have a car). cuções nominais possessivas, inclusive uma 3 N. do T.: Tipologia da Língua de Sinais: Construções possessivas e existenciais. 4 Consulte o Apêndice B para ver uma foto da configuração de mão B do pronome possessivo, bem como de 11 outros sinais possessivos e existenciais relevantes para este estudo.
    118. Posse e existência em três línguas de sinais na qual o pronome possessivo é substituído Os participantes austríacos e croatas não por pronomes pessoais correspondentes (5- produziram estruturas possessivas do tipo 7) ou totalmente suprimido (essa forma é mostrado em (10), embora ocorram emprés- chamada de estrutura de locução nominal timos lexicais do alemão e do croata sinali- possessiva “justaposta”, e está ilustrada nos zados para ÖGS e HZJ, respectivamente. Por exemplos 8-9). isso, não podemos comentar sobre a freqüên- cia e a aceitabilidade de estruturas semelhantes (5) (MOM) PRO-3s COUSIN [ASL] tomadas de empréstimo pela ÖGS e pela HZJ. ‘Mom’s cousin / her cousin’ (6) PRO-2 OMA LEBEN NOCH ? [ÖGS] 3.2 Locuções nominais possessivas: pro-2 avó viver ainda Características semânticas ‘Is your grandmother still living?’ As locuções nominais possessivas dos corpo- Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais (7) PRO-2 BAKA PRO-2 [HZJ] ra mostram algumas restrições estruturais, pro-2 avó pro-2 dependendo das características semânticas ‘your grandmother’ do possuidor e do possessum, assim como do tipo de posse entre eles (i.e. alienável vs. ina- (8) VATER BRUDER lienável). Essas restrições são, com algumas [ÖGS] exceções, notavelmente semelhantes para as pai irmão três línguas alvo. A configuração mais bási- ‘the brother of (my) father’ ca para as locuções nominais possessivas em nossos dados é a que envolve a posse alienável (9) MAJKA SESTRA de um possessum inanimado por um possui- [HZJ] dor animado. O possessum pode ser concreto mãe irmã (11) ou abstrato (12). Expressões de posse ‘the sister of (my) mother’ inalienável entre um possuidor animado e um membro da família também são bastante Na ASL, observamos uma quarta pos- aceitas nas três línguas alvo, conforme ilus- sibilidade de se construir locuções nomi- trado nos exemplos (5-9) acima. Em todos nais possessivas empregando-se o sinal esses casos, a estrutura da locução nominal APOSTROPHE-S, originário do inglês escri- possessiva pode ter a forma de quaisquer va- to. É provável que essa forma tenha sido to- riações estruturais discutidas na seção 3.1. mada de empréstimo pela ASL por meio do inglês sinalizado. No entanto, nossos infor- (11) POSS-1 AUTO [HZJ] mantes julgaram-na aceitável na ASL, parti- poss-1 carro cularmente em enunciados com posse reite- ’my car’ rada, como no exemplo abaixo. (12)POSS-1 IDEJA [HZJ] (10) POSS-1 FATHER ’S BROTHER’S WIFE poss-1 idéia [ASL] ’my idea’ ‘my father’s brother’s wife’ 11
    119. Deborah Chen Pichler e outros Há restrições estruturais em locuções no- exibem o padrão oposto, ou seja, expressam minais possessivas envolvendo a posse inaliená- existência com um verbo possessivo. Como vel de uma parte do corpo por um possuidor veremos, os dois padrões estão representados animado (13-14). Neste caso, a forma justa- em nossos dados: a ASL e a HZJ usam um posta é preferida, ou seja, a estrutura só é ple- verbo, glosado como have, para formar cons- namente aceita quando não há pronome entre truções possessivas e existenciais, enquanto a os sinais para possuidor e possessum. A mesma ÖGS usa um verbo, glosado como exist, para restrição se aplica nos casos em que há um pos- desempenhar as mesmas funções. suidor inanimado, como na relação parte-todo, observada em (15). Essas restrições se mostra- ram mais claras nos dados da ASL e da ÖGS. 3.3.1 Predicados possessivos na ASL e na Embora tenhamos alguma evidência de que as HZJ: Características estruturais mesmas restrições possivelmente se aplicam à HZJ, no momento, não temos dados suficien- Os predicados possessivos na ASL empregam Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais tes para determinar até que ponto elas são ati- o verbo possessivo HAVE (16). As constru- vas. O primeiro quadro do Apêndice C resume ções possessivas negativas tendem a empre- nossas observações a respeito das características gar a forma supletiva NONE (17). Embora semânticas da ASL, da ÖGS e da HZJ. nossos dados incluam exemplos de constru- ções possessivas negativas formadas por NOT (13) SISTER (?POSS-3) NOSE [ASL] HAVE, tais exemplos foram posteriormen- ’my sister’s nose’ te considerados como “soando inglês” por nossos informantes nativos e podem ter sido (14) MAćKA (*POSS-3) BRKOVI [HZJ] gerados pelas metodologias de elicitação usa- gato poss-3 bigode das neste projeto. Na HZJ, a posse é expressa ’the cat’s whiskers’ através do verbo IMATI have (18) e a forma negativa (também supletiva) é NEMATI not- (15) HAUS (*POSS-3) DACH [ÖGS] have (19). Como as duas línguas – ASL e HZJ casa poss-3 telhado – obedecem à ordem canônica sujeito-verbo- ’the house’s roof’ objeto (SVO), a ordem de sinais mais comum para os predicados possessivos é Possuidor- HAVE/IMATI -Possessum, como mostram os 3.3 Predicados possessivos exemplos abaixo. A seguir, passamos a tratar dos predicados (16) PRO-1 HAVE CAR [ASL] possessivos ou possessivos em forma de ora- ’I have a car’ ções. Eles podem ser classificados em duas subcategorias, dependendo do tipo de pre- (17) PRO-1 CAR NONE [ASL] dicado usado para expressar posse na língua ’I don’t have a car/ I have no car’ alvo. Analogamente ao que é observado nas línguas faladas, algumas línguas de sinais for- (18) DJED IMATI KAPA SIVO [HZJ] mam construções possessivas por meio de velho-homem ter boné cinza 120 uma construção existencial, enquanto outras ’The old man has a grey cap’
    120. Posse e existência em três línguas de sinais (19) PRO-1 NEMATI KUćA [HZJ] 3.3.3 Predicados possessivos na ASL, na pro-1 não-ter casa ÖGS e na HZJ: Características semânticas ’I don’t have a house/ I have no house’ Como observamos acima com relação às lo- Além das estruturas de predicado posses- cuções nominais possessivas, os predicados sivo discutidas acima, os participantes norte- possessivos na ASL, na ÖSG e na HZJ ocor- americanos também produziram uma varian- rem com mais naturalidade e aceitabilidade te sem o verbo possessivo, na qual dois itens com um possuidor animado e um possessum possuídos (elípticos, porém representados por concreto. Também se mostraram freqüen- seus modificadores VERDE e AZUL no exem- tes nos nossos dados as expressões de posse plo (20) abaixo) foram deslocados em dire- alienável de objetos abstratos (24) e de posse ção aos loci de seus respectivos possuidores. inalienável de membros da família (23; veja também o exemplo 22). (20) SEE BOOK THERE? GREEN (deslocado em Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais direção ao PRO-2), BLUE (deslocado em direção ao (23) PRO-3 HAVE THREE KIDS [ASL] PRO-1) ‘He has three kids’ [ASL] ’See books there? The green (one) is (24) PRO-1 IDEE DA [ÖGS] yours, and the blue (one) is mine.’ pro-1 idéia existir ‘I have an idea’ 3.3.2 Predicados possessivos na ÖGS: Carac- A posse inalienável de uma parte do cor- terísticas estruturais po parece ocorrer na ASL, na ÖGS e na HZJ conforme mostram os exemplos (25-27). No A posse é expressa na ÖGS por meio do verbo entanto, é possível que alguns desses casos, DA exist (ver Apêndice B para uma imagem particularmente nos dados da HZJ e da ASL, desse verbo). Como a ÖGS é uma língua SOV, revelem uma forte influência da gramática DA aparece no fim da oração, o que resul- das línguas majoritárias falada/escrita. Um ta na forma básica POSSUIDOR – POSSES- exemplo disso é o uso do verbo HAVE com SUM – DA para predicados possessivos (21). estados físicos, como no exemplo (25), ao in- As construções possessivas negativas são for- vés do deslocamento do sinal “HURT/PAIN” madas pelo sinal KEIN no ou ÜBERHAUPT- em frente à parte afetada do corpo, como na NICHT not at all, com ou sem o verbo DA (22). ASL padrão. Como a maior parte dessas ex- pressões foi produzida durante a tarefa “Mé- (21)PRO-1 AUTO DA [ÖGS] dico-Paciente”, acreditamos que a tarefa pos- pro-1 carro existir sa ter acidentalmente elicitado um registro da ‘I have a car’. ASL mais próximo ao do inglês comumente empregado com profissionais da área médi- (22) PRO-1 KEIN KIND (DA) [ÖGS] ca, os quais, nos EUA, são não-sinalizantes e pro-1 nenhum filho existir ouvintes em sua espantosa maioria. O exem- ‘I have no children / I don’t have any plo (26), em que a preposição croata u “in” children’. é articulada em silêncio, sem sinais corres- 121
    121. Deborah Chen Pichler e outros pondentes, também é compatível com essa (30) WALL CL-F:buraco-na-parede hipótese. [ASL] ‘The wall has a hole’ (25) PRO-2 HAVE HEADACHE? [ASL] ‘Do you have a headache?’ O segundo quadro do Apêndice C resu- me nossas observações a respeito das carac- (26) IMATI PRO-2 BOLJETI u UHO ? [HZJ] terísticas semânticas dos predicados possessi- ter pro-2 dor ‘in’ ouvido vos na ASL, na ÖGS e na HZJ. ‘Do you have an earache?’ (27) PRO-2 KOPFWEH DA? [ÖGS] 3.4 Expressões de existência pro-2 dor-de-cabeça existir ‘Do you have a headache?’ Como mencionamos anteriormente, a ASL e a HZJ são línguas que expressam existên- Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais Há em nossos dados alguns exemplos de cia usando um verbo possessivo, enquanto a predicados possessivos com um possuidor ÖGS mostra o padrão oposto, expressando inanimado, mas eles parecem estar sujeitos a posse com um verbo existencial. Essa diferen- severas restrições. Um de nossos consulto- ça tipológica, juntamente com o fato mencio- res austríacos, por exemplo, comentou que, nado anteriormente de que a ASL e a HZJ são enquanto objeto inanimado, uma casa “não línguas SVO enquanto a ÖGS é uma língua pode possuir coisa alguma”. Como vimos an- SOV, constituem as principais diferenças que teriormente com as locuções nominais pos- observamos nas construções existenciais das sessivas, os predicados possessivos com um três línguas alvo. possuidor inanimado (por exemplo, relações parte-todo) tendem a ser expressos por meio de mecanismos diferentes da construção pa- 3.4.1 Estruturas existenciais na ASL e na HZJ drão Possuidor-HAVE/DA/IMATI-Possessum. Nossos dados incluem diversos exemplos de A existência é expressa na ASL com o verbo relações parte-todo expressadas por meio de possessivo HAVE e com uma forma supleti- construções classificadoras, nas quais a entida- va negativa correspondente NONE. Em nos- de todo é estabelecida como entidade base e a sos dados, NOT HAVE também ocorreu em entidade parte como figura (cf. Talmy (1978)). algumas construções existenciais negativas. Três destes exemplos são mostrados abaixo. Há distinções entre NONE e NOT HAVE, particularmente o fato de que o último ten- (28) TAXI VIER REIFEN DA [ÖGS] de a acompanhar um possuidor animado. O taxi quatro rodas existir HAVE existencial aparece mais comumente ‘The taxi has four wheels’ antes do objeto cuja existência é expressa (31), enquanto NONE aparece com mais freqüên- (29) TAXI VIER REIFEN CL-rodas-forma-e- cia após o objeto (32). Além das construções locação [ÖGS] que usam HAVE, os participantes usaram táxi quatro rodas cl-rodas-forma- mecanismos alternativos para expressar exis- 122 e-locação ‘The taxi has four wheels’ tência, inclusive um aceno de cabeça em di-
    122. Posse e existência em três línguas de sinais reção ao objeto (33), uma apontação em di- 3.4.2 Estruturas existenciais na ÖGS reção ao locus do objeto (34) e construções classificadoras que estabelecem o objeto no Na ÖGS, a existência é expressa com o verbo espaço (35). DA exist (38). Esse verbo é posicionado no fim da oração e pode ser deslocado no espaço (31) HAVE PROBLEM [ASL] para mostrar multiplicidade ou locação (39). ‘There is a problem’ As construções existenciais negativas são si- nalizadas com KEIN no ou ÜBERHAUPT- (32) PROBLEM NONE [ASL] NICHT not at all, com ou sem o verbo DA ‘There is no problem’ (40). Os participantes austríacos, de modo análogo aos norte-americanos e croatas, __________aceno de cabeça freqüentemente produziram classificadores (33) PROBLEM [ASL] deslocados no espaço, como mostra o exem- ‘There is a problem’ plo (41). Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais (34) MONEY IX(table) [ASL] (38) PROBLEM DA [ÖGS] ‘There is money on the table’ problema existir ‘There is a problem’ (35) WALL CL-F:buraco-em-parede [ASL] ‘There is a hole in the wall’ (39) DREI BUCH DA+++ [ÖGS] três livros existir(rep) As construções existenciais na HZJ são ‘There are three books’ expressas com o verbo possessivo IMATI have, com uma forma supletiva negativa cor- (40) KEIN PROBLEM (DA) [ÖGS] respondente NEMATI not-have (36). Como nenhum problema existir na ASL, a existência também pode ser ex- ‘There is no problem’ pressa de forma alternativa por meio de uma apontação na direção do possuidor e de cons- (41) RAUM 25 SESSEL CL-reihe [ÖGS] truções classificadoras que estabelecem a po- sala 25 cadeiras cl-em-uma-fileira sição do objeto no espaço. Além disso, a HZJ ‘There are 25 chairs (in a row) in the room’ tem um segundo verbo somente-existencial POSTOJATI exist (37), que é usado princi- palmente em contextos formais e que não 4. A relação entre as estruturas apareceu em nosso corpus. possessivas, existenciais e locativas (36) PRO-1 SLIKA IMATI / NEMATI PTICE [HZJ] Muitos pesquisadores observaram que as pro-1 foto ter / não-ter pássaros expressões possessivas e existenciais de um ’In my photo, there are / are no birds’ grande número de línguas faladas mantêm certa relação com as construções locativas (cf. (37) POSTOJATI PROBLEM [HZJ] Lyons (1968), Clark (1978), Freeze (1992), existir problema Harley (2003), inter alia). Neste artigo, con- ‘There is a problem’ sideraremos, em linhas gerais, a análise sintá- 123
    123. Deborah Chen Pichler e outros tica proposta por Freeze (1992), amplamente citada, que visa a unificar essas três constru- ções. Freeze postula que tanto as construções possessivas quanto as existenciais derivam da mesma estrutura locativa subjacente. Ele ba- seia sua análise no paradigma do russo fala- do, onde as semelhanças estruturais entre as três construções em questão são prontamen- te identificadas. (42) Kniga byla na stole [Russo; construção locativa] do livro (na stole) para a posição de sujeito livro-NOM estava sobre mesa-LOC (spec de IP), tornando-o o sujeito gramati- ‘The book was on the table.’ Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais cal da oração. De modo semelhante, a cons- trução existencial em (43) é derivada quan- (43) Na stole byla kniga do o papel temático semântico, codificado [Russo; construção existencial] nesse caso pela locução nominal knjiga sobe sobre mesa-LOC estava livro-NOM ‘There was a book on the table.’ para se tornar o sujeito gramatical. Quan- to à construção possessiva, Freeze propõe (44) U menja byla sestra que a locução nominal do possuidor (menja [Russo; construção possessiva] no exemplo (44)) funciona essencialmente para 1sg-GEN era irmã-NOM como uma locação [+humana] para o pos- ‘I had a sister.’ sessum. Essa análise aplica-se diretamente a línguas como o russo, em que as constru- De acordo com Freeze, a estru- ções possessivas são realizadas usando uma tura subjacente nos exemplos (42- 44) preposição explícita. Em línguas em que isso inclui um complemento preposicio- não ocorre, Freeze supõe que a preposição nal do verbo «byla», como pode ser vis- é elíptica. Essa proposta tem a vantagem de to na representação mostrada em (45). reduzir as estruturas possessivas a estrutu- ras existenciais com uma locação humana. (45) Derivação das estruturas locativas, Como no caso das construções existenciais, possessivas e existenciais de acordo com a “locação” da locução nominal sobe para Freeze (1992)5 Spec de IP, tornando-se o sujeito gramatical da construção possessiva. Segundo a proposta de Freeze, a estru- Além das semelhanças estruturais, Free- tura locativa em (42) é derivada movendo- ze (1992) também menciona uma evidência se o constituinte P’ que codifica a locação diacrônica que corrobora sua hipótese sobre 124 5 Este gráfico foi extraído de Harley (2003).
    124. Posse e existência em três línguas de sinais a natureza locativa subjacente das constru- existência de uma estrutura locativa subjacen- ções possessivas e existenciais. Ele aponta a te nas construções possessivas e existenciais na existência de uma longa lista de proformas ASL, na ÖGS e na HZJ. Até agora, acreditamos com origens locativas usadas na expressão que dois aspectos particulares de nossos dados de existência no francês, catalão, italiano, es- apresentam características locativas: o uso re- panhol, árabe e samoano falados, bem como corrente do espaço (com pontos de locação e do sujeito locativo lexical there usado nas ex- classificadores) e o fato de que alguns dos pre- pressões existenciais do inglês. dicados que observamos são plausivelmente Embora as línguas sinalizadas e faladas derivados de sinais locativos. compartilhem um grande número de carac- De novo, sabe-se que a organização es- terísticas fundamentais, sabemos que elas di- trutural das línguas de sinais diverge da das ferem em aspectos importantes. Não é nossa línguas faladas em muitos aspectos e é impor- intenção, ao citar a análise de Freeze (1992), tante levar tais diferenças em consideração, insistir na estrutura sintática específica que ao se buscar estender para as línguas de sinais, Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais ele propõe. Ao invés disso, nós a tomamos análises originalmente desenvolvidas para como um modelo útil para a investigação línguas faladas. A análise de Freeze (1992) de- sistemática de relações subjacentes plausíveis pende de uma locução prepositiva na posição entre construções possessivas, existenciais e de complemento verbal em construções pos- locativas nas línguas de sinais. Nos últimos sessivas e existenciais e é nessa LP que as ca- anos, diversos pesquisadores apontaram evi- racterísticas locativas dessas duas construções dências para essa relação em várias línguas se originam. As preposições explícitas do tipo de sinais. Kristofferson (2003) observa que comum nas línguas faladas são bastante raras na Língua de Sinais Dinamarquesa, todas as nas línguas de sinais que estudamos (e talvez construções possessivas, existenciais e loca- nas línguas de sinais de um modo geral). En- tivas usam o mesmo verbo e são diferencia- tretanto, encontramos informações locativas das apenas pela ordem dos sinais (base-figura codificadas pelo uso do espaço. Por exemplo, para as construções possessivas e existenciais todas as três línguas do nosso estudo usam e figura-base para as locativas). Mais recente- a apontação (inclusive para pronomes pes- mente, Ulrike Zeshan e seu grupo de pesqui- soais) para expressar posse e existência. Na sa deram início a um projeto de comparação medida em que uma apontação usada como tipológica interlingüística das expressões pos- pronome pessoal indique a locação de um sessivas e existenciais em línguas de sinais, en- possuidor (por exemplo, à la Liddell 2003), focando a relação entre essas duas construções esse uso pode ser entendido como a codifica- em mais de vinte línguas de sinais, incluindo ção do possuidor enquanto locação humana, as Línguas de Sinais Finlandesa e Flamenca segundo a abordagem de Freeze (1992). Além (De Weerdt & Takkinen (2006)), a ASL (Chen disso, embora ainda não tenhamos dados re- Pichler & Hochgesang (no prelo)) e a ÖGS levantes da ÖGS ou da HZJ, a ASL permite a (Schalber & Hunger (no prelo)). Ao analisar- expressão de posse usando não mais do que o mos as construções possessivas e existenciais deslocamento de sinais no espaço em direção coletadas para o presente projeto, nos pergun- aos loci dos possuidores, como no exemplo tamos que evidência poderia haver nelas para a citado anteriormente em (20). 12
    125. Deborah Chen Pichler e outros Quanto às expressões de existência, o tóricos entre a HZJ e a ÖGS pode ser expli- uso da apontação ilustrado no exemplo (34) cada pelo fato de que crianças croatas surdas constitui um terceiro exemplo de uma carac- foram enviadas à Áustria para estudar no fim terística locativa. Observe-se que essas cons- do século XIX. De modo análogo, na HZJ, o truções são ambíguas, permitindo tanto uma verbo existencial alternativo POSTOJATI to leitura existencial (there is no money on the exist pode ter origens locativas, dada a sua se- table) quanto uma leitura mais diretamen- melhança superficial com o sinal da HZJ para te locativa (The money is on the table). En- STOJITI, que significa aproximadamente contramos a mesma ambigüidade (também “estar localizado em”. O sinal é claramen- observada por Kristofferson (2003) para a te locativo, permitindo o deslocamento no língua de sinais dinamarquesa) nas constru- espaço para indicar a locação do objeto em ções classificadoras de base-figura, como nos questão. É claro que esse tipo de comparação exemplos (29), (35) e (41), [que constitui] etimológica é um tanto quanto especulativa, outra estrutura alternativa usada na ASL, na porém nós a citamos aqui como uma evidên- Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais ÖGS e na HZJ para expressar existência. Se cia secundária, como o faz Freeze ao discutir nos dispusermos a considerar a locução no- a (igualmente sugestiva) evidência diacrônica minal que representa a base nestes exemplos das origens locativas das construções posses- (i.e. TAXI, WALL ou RAUM) como uma lo- sivas e existenciais nas línguas faladas. cação, e a locução nominal que representa a figura (i.e. REIFEN, HOLE ou 25 SESSEL) como o tema, essas estruturas podem até ser 5. Conclusões submetidas à análise sintática proposta por Freeze (1992), segundo a qual uma locação O objetivo inicial deste estudo foi descrever ocorre como “sujeito” gramatical (mas não e documentar construções possessivas e exis- necessariamente conceitual) da oração. tenciais na ASL, na ÖGS e na HZJ. Ao ana- Também foram insuficientes as evidên- lisar nossos dados, observamos semelhanças cias que obtivemos para sustentar a hipóte- entre essas três línguas quanto às estruturas se de uma relação diacrônica entre as cons- sintáticas empregadas para expressar posse e truções locativas, possessivas e existenciais. existência, bem como uma visível restrição É evidente o fato de que o verbo usado em com relação a quais dessas estruturas podem construções possessivas e existenciais na ÖGS ocorrer com possuidores inanimados e cer- permite uma glosa locativa (here). Schalber tos casos de posse inalienável (por exemplo, & Hunger (no prelo) mostram que, o sinal posse de parte do corpo). Nesses casos, tan- DA, usado em construções existenciais, indi- to as locuções nominais possessivas quanto ca a presença concreta e a locação do obje- os predicados possessivos tendem a não usar to ao qual se atribui existência e pode até ser um pronome possessivo explícito. Supomos substituído por um sinal de advérbio de lugar que tal restrição possa decorrer do fato de como HIER here. É interessante notar que a que a posse é, em sua expressão mais canôni- forma atual do sinal DA mostra uma notável ca, uma relação entre um possuidor animado semelhança com o sinal MJESTO place usado e um possessum inanimado, e que essa relação na HZJ (o sinal HZJ acrescenta uma configu- particular é enfatizada pelo pronome POSS 12 ração de mão “B”). A existência de laços his- explícito.
    126. Posse e existência em três línguas de sinais Um segundo objetivo deste trabalho foi Sign Language. In: ZESHAN, U.; PERNISS, P. chamar a atenção para características loca- (Orgs.) Sign language typology: Possession and tivas ou espaciais subjacentes às estruturas existentials, no prelo. existenciais e possessivas que observamos na CLARK, E. Locationals: existential, locative and ASL, na ÖGS e na HZJ. Em particular, ob- possessive constructions”, In: GREENBERG, servamos mecanismos alternativos para se J. H. et al. (Orgs.). Universals of Human Lan- expressar posse que envolve uma apontação guage, v. 4, Stanford, 1978. p. 85-126. em direção ao locus do possuidor ou um mo- DE WEERDT, D.; TAKKINEN, R. Different vimento do sinal do possessum em direção ways of expressing existence in Finnish Sign ao locus do possuidor. Também de natureza Language and Flemish Sign Language. Trab- espacial é a expressão de existência por meio alho apresentado ao Sign Language Typology do estabelecimento de construções de figura- Workshop on Possession and Existentials, Max base, nas quais a base é codificada como loca- Plank Institute, Nijmegen, 2006. ção e a figura como o objeto ao qual se atribui FREEZE, R. Existentials and other locatives, Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais existência. Por fim, apontamos uma evidência Language, v. 68, 1992. p. 553-595. diacrônica secundária das origens locativas do HARLEY, H. Possession and the double object verbo existencial/possessivo usado na ÖGS construction, In: PICA, P. (Org.). Linguistic e de um verbo existencial na HZJ. Há muito Variation Yearbook, Amsterdam: John Ben- se discute na literatura sobre a língua falada a jamins, 2003. p. 31-70. respeito de uma relação sintática entre cons- KRISTOFFERSEN, J. Existence, location and truções possessivas, existenciais e locativas. A possession and the order of constituents in partir de tal literatura, discutimos a aborda- Danish Sign Language. In: A. Bake, A.; VAN gem de Freeze (1992), não no sentido de ado- DEN BOGAERDE, B.; CRASBORN, O. (Orgs.). tar sua análise em todas as suas nuances, mas Crosslinguistic Perspectives in Sign Language simplesmente como uma primeira tentativa Research: Selected Papers from TISLR 2000, de detectar semelhanças entre essas três estru- Hamburg: Signum Verlag, 2003. p. 131-139. turas nas línguas de sinais tal como nas línguas LIDDELL, S. K. Grammar, Gesture and Mean- faladas. Evidentemente, temos consciência de ing in American Sign Language. Cambridge: que é preciso ter cuidado ao se aplicar análi- Cambridge University Press, 2003. ses originalmente desenvolvidas para dados de LYONS, J. A note on possessive, existential and línguas faladas para as línguas de sinais. locative sentences. Foundations of Language, No entanto, acreditamos que as atuais v. 3, 1968. p. 390-396. evidências da natureza locativa de (certas) es- SCHALBER, K.; HUNGER, B. Possessive and exis- truturas possessivas e existenciais na ASL, na tential constructions in ÖGS – with locatives on ÖGS e na HZJ são suficientemente convincen- the side. In: PERNISS, P.; ZESHAN, U. (Orgs.). tes para merecer uma investigação rigorosa. Possessive and existential constructions in sign languages. Sign Language Typology Series, Nijmegen, v. 2, no prelo. Referências TALMY, L. Figure and Ground in Complex Sentences. In: GREENBERG, J. et al. (Orgs.) CHEN PICHLER, D.; HOCHGESANG, J. Posses- Universals of Human Language, v. 4. Stanford, sive and existential constructions in American 1978. p. 627-649. 12
    127. Deborah Chen Pichler e outros Apêndice A: Jogos de elicitação apresentados quase que exclusivamente por do projeto interlingüístico meio de gráficos. A língua escrita foi usada Zeshan somente para a lista de sintomas no jogo Médico-paciente e para registrar os nomes Todos os jogos usados neste estudo foram dos membros da família no jogo da Árvore executados por dois/duas participantes e são genealógica. Nome do jogo Descrição Estrutura(s) alvo Jogo Médico-paciente O participante A, representando o paciente, recebe um Posse inalienável (de partes do corpo e cartão marcado com uma seleção de sintomas como dor de estados físicos) de cabeça, febre etc. O participante B, representando o médico, tenta diagnosticar a doença do participante A perguntando-o se sofre dos sintomas. Jogo da Árvore genealógica O participante A pergunta o participante B sobre os Posse inalienável (de membros da família); membros de sua árvore genealógica, suas idades, Posse alienável de objetos abstratos trabalhos etc. (por exemplo, trabalhos, hobbies etc). Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais Jogo de atribuições Os participantes A e B atribuem uma série de objetos Posse alienável de objetos concretos concretos (por exemplo, um cavalo, um revólver, um livro) a uma variedade de indivíduos fictícios (por exemplo, uma menina, um homem, uma mulher idosa) Jogo de comparação de Os participantes A e B recebem, cada um, uma de duas Construções existenciais figuras figuras que diferem em 5 ou 6 pequenos detalhes. Eles devem identificar essas diferenças comparando verbalmente (por meio de sinais) os conteúdos de suas respectivas imagens. Apêndice B: Exemplos de sinais possessivos e existenciais na ASL, na ÖGS e na HZJ Exemplo da Descrição língua [ASL/ÖGS/HZJ] A configuração de mão POSS-2 “B” deslocada em direção ao locus do possuidor [ASL] HAVE A configuração de mão “B” curvada, as pontas dos dedos tocando o peito. O sinal pode ser feito com uma ou duas mãos. [HZJ] IMATI A configuração de mão “U” terminando (com o pulso dobrado para baixo) na configuração de mão “N”, mas conservando o polegar esquerdo estendido. 12
    128. Posse e existência em três línguas de sinais [ÖGS] DA A configuração de mão “8 aberto” produzida com um movimento curto para baixo; articulada com uma ou duas mãos; pode ser deslocada no espaço para mostrar locação ou multiplicidade. [ASL] A configuração de mão APOSTROPHE-S “S” mantida em frente ao sinalizante e girada para dentro uma vez. [ASL] O sinal GREEN é deslocado GREEN(PRO-2), em direção ao locus BLUE(PRO-1) do PRO-2 enquanto o sinal BLUE é deslocado em direção ao locus do Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais PRO-1. ‘O (objeto) azul é meu e o (objeto) verde é seu. Apêndice C: Resumo das Locuções nominais ASL …GS HZJ possessivas características semânticas das Possuidor animado com l l l locuções nominais possessivas e dos possessum concreto Posse inalienável: possessum predicados possessivos é parente l l l Posse inalienável: possessum é parte do corpo w l w Nos dois quadros seguintes, os círculos com- Posse alienável: possessum é conceito abstrato l l l pletos indicam uma construção comum e/ou Possuidor inanimado w w w completamente aceitável de acordo com nos- sos dados. Os meios-círculos indicam uma Predicados possessivos ASL …GS HZJ inconsistência ou restrições nos dados quan- Posse inalienável: to à aceitabilidade da construção específica. possessum é parente l l l Posse inalienável: possessum é parte do w l l corpo Posse inalienável: w w l estados físicos Posse alienável: possessum é conceito l l l abstrato Possuidor inanimado w w w 12
    129. Uma comparação lexical de Línguas de Sinais no mundo Árabe1 Kinda Al-Fityani e Carol Padden Departamento de Comunicação Universidade da Califórnia, San Diego 1. Introdução árabes. Embora não seja a língua materna de nenhum dos países árabes, o MSA é o padrão Mais de duzentos milhões de habitantes nos literário oficial desses países e é a forma de vinte e dois países do Oriente Médio e do língua árabe ensinada nas escolas em todos os Norte da África falam a língua árabe2. En- estágios. Na verdade, a língua árabe coloquial tretanto, caso um iemenita e um tunisiano falada, denominação freqüentemente dada às se encontrem, é pouco provável que a língua variedades regionais, é raramente encontrada árabe falada por um seja compreendida pelo em uma forma escrita. É comumente afirma- outro. O mundo árabe é caracterizado por do que a língua árabe é o que une os diferen- uma “diglossia” difundida, uma situação lin- tes membros da comunidade árabe, apesar güística em que dialetos regionais são falados das diferenças geográficas e tradições cultu- juntamente com uma língua escrita altamen- rais que podem ser encontradas pelo oriente te codificada. Dos dialetos árabes, o dialeto médio (Suleiman, 2003). egípcio é o mais amplamente entendido pelos Ao escrever sobre as línguas de sinais do árabes, uma vez que o cinema e outras for- oriente médio, Abdel-Fattah (2005) sugeriu mas de entretenimentos da mídia são, em sua que a presença de uma língua árabe falada maioria, produzidos no Egito e, tipicamente, padrão levou à expectativa de que haja uma utilizam atores egípcios. Caso um iemenita e língua de sinais comum compartilhada na re- um tunisiano se encontrem, eles podem re- gião. Este trabalho explora até que ponto as correr ao dialeto das estrelas dos filmes para línguas de sinais dessa região podem estar re- se entenderem ou podem usar a língua alta- lacionadas e examina as relações entre as lín- mente codificada da língua Árabe Moderno guas de sinais no mundo árabe por meio das Padrão (MSA), que é usada pelos apresenta- estatísticas lexicais, um método de compara- dores de jornal e oficiais públicos, nos países ção de vocabulário entre as línguas de sinais 1 Traduzido por: Maria Lúcia Barbosa de Vasconcellos, Gisele Daiana Pereira. 2 Os 22 membros são: Argélia, Barein, Cômoros, Gjibuti, Egito, Iraque, Jordão, Kuwait, Líbano, Líbia, Mauritânia, Marrocos, Omã, Palestina, Catar, Arábia Saudita, Somália, Sudão, Síria, Tunísia, Emirados Árabes, e Iêmen (Liga dos Estados Árabes).
    130. Uma comparação lexical de línguas de sinais no mundo Árabe para determinar o tipo de extensão da relação Através dos relatos sobre as línguas de si- lingüística, se houver. nais nessas comunidades, sabe-se que seu uso Pelo menos três circunstâncias simultâ- não é confinado a lugares onde pessoas surdas neas afetam a distribuição das línguas de si- se reúnem por instituições sociais, tais como nais nessa região. Primeiro, como Walsh et escolas para surdos ou clubes locais para sur- al. (2006) descrevem abaixo, algumas tradi- dos, apesar de eles serem comumente encon- ções de casamento são comuns na região: trados em cenários comunitários e familiares. Como Groce (1985) ilustra em sua história do A peculiar história demográfica do oriente Vinhedo de Marta do século XIX, onde havia médio levou a muitas comunidades [endogâ- um alto incidente de surdez recessiva, as lín- micas]. Por mais de 5.000 anos e até hoje, as guas de sinais são propensas a aflorar em tais costas orientais do Mediterrâneo têm presen- comunidades, uma vez que surdos e ouvintes ciado a imigração de povos oriundos de uma usam, regularmente, a comunicação sinali- ampla variedade de culturas. Freqüentemente zada. Kisch (2004) descreve o caso da comu- Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais as vilas foram formadas por algumas famílias nidade de Al-Sayyid no Negev (deserto que estendidas e, apesar de sua proximidade geo- ocupa o sul de Israel), onde o casamento con- gráfica, continuaram demograficamente iso- sangüíneo é comum e a freqüência de perda de ladas. Por séculos, os casamentos têm sido ar- audição é alta em 3% da população devido a ranjados dentro das famílias estendidas nessas características genéticas recessivas de profun- vilas, levando a um alto nível de consangüini- da surdez neurosensorial pré-lingual. Sandler, dade e, conseqüentemente, a altas freqüências Meir, Padden, e Aronoff (2005) também es- de caracteres recessivos (p. 203). crevem sobre essa comunidade: A prática comum da endogamia resultou Os membros da comunidade geralmente re- em uma alta incidência de surdez genética no conhecem a língua de sinais como a segunda mundo árabe, em comparação a outras socie- língua da vila. As pessoas ouvintes dessa co- dades exogâmicas, onde a surdez é mais pro- munidade rotineiramente avaliam sua pró- vavelmente um resultado de doença do que pria proficiência, elogiando aqueles que têm de herança genética. Shahin et al. (2002) do- grande facilidade na língua... um resultado cumentam que enquanto aproximadamente da [surdez recessiva] é que existe um núme- uma, dentre mil crianças no mundo, nasce ro proporcionalmente grande de indivíduos com perda de audição, comunidades com surdos distribuídos por toda a comunida- altos níveis de consangüinidade apresentam de. Isso significa que os membros ouvintes uma freqüência especialmente alta de surdez da comunidade têm contato regular com os genética na infância. Esses autores afirmam: membros surdos e que, conseqüentemente, a “a deficiência auditiva hereditária ocorre sinalização não é restrita a surdos. (p. 2662) na população palestina numa freqüência de aproximadamente 1.7 em cada 1.000 e é mais Segundo, as circunstâncias sociais e cul- alta em algumas vilas” (Shahin et al, 2002, p. turais no mundo árabe provêem de algum 284). Isso significa que na Palestina, a freqüên- modo, mais oportunidades para se aprender cia de surdez é 70% mais alta do que a média a língua de sinais, desde o nascimento. Com a global. incidência mais alta de surdez genética, as lín- 131
    131. Kinda Al-Fityani e Carol Padden guas de sinais são capazes de sobreviver por a distribuição geográfica das línguas de sinais muitas gerações nas famílias, em comparação que são usadas, diariamente, na família e na a outras regiões do mundo, onde a surdez ge- vida social da tribo, em oposição à distribui- nética é menos freqüente. Quando a surdez é ção encontrada em cenários institucionais resultado de doença, as chances de um surdo mais formalizados. aprender a língua de sinais dependem mais do acesso a organizações ou instituições or- ganizadas para surdos. No oriente médio, a 2. Revisão da Literatura sobrevivência da língua de sinais não depen- de de políticas institucionais formais. A metodologia da léxico-estatística compara- Terceiro, as circunstâncias culturais, da é usada para desenvolver hipóteses acerca sociais, políticas e econômicas levam as lín- de possíveis relações históricas entre as lín- guas de sinais no mundo árabe a serem mais guas faladas (Crowley, 1992). Isso é feito por propensas ao isolamento uma das outras. meio de um estudo quantitativo dos cognatos Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais Os costumes relacionados ao casamento no entre os vocabulários das línguas em estudo. mundo árabe dão um tratamento preferen- Cognatos são definidos como vocábulos de cial aos casais da mesma região já que eles dois idiomas diferentes que são homogêneos estão propensos a compartilhar o mesmo o suficiente para serem considerados como dialeto e costumes. Além disso, fatores polí- semelhantes no que concerne à derivação ticos das regulamentações da imigração entre lingüística ou à raiz. Uma comparação entre os países árabes dificultam para os nativos de as línguas faladas envolve a identificação de uma região migrarem para outra. Por essas similaridades na estrutura silábica e segmen- razões, uma mulher jordaniana tem maior tal; nas línguas de sinais, a similaridade dos probabilidade de se casar com um homem da cognatos é baseada na comparação das con- região do Levante (países ao norte do oriente figurações de mão, movimentos, localizações médio) do que com um homem do estado do e orientações da mão no vocabulário de duas Golfo. Isso porque ela precisaria de um vis- línguas de sinais diferentes. Muitos lingüistas to para viajar para Dubai, por exemplo, mas da língua falada usam uma lista básica de 200 não precisaria de um para viajar para Damas- palavras como base de sua pesquisa em léxi- co ou Beirut. Além disso, a proximidade de co-estatística ao invés de listas mais longas, Damasco e Beirut ao Jordão faz com que seja como um modo conveniente e representativo mais economicamente viável para uma jorda- de línguas de sub-grupos. Quanto mais alto o niana conhecer um homem dessas cidades do percentual léxico estatístico entre os cognatos que conhecer um catariano. Considerando- das línguas faladas, mais próxima é a relação se que os fatores culturais, sociais, políticos histórica entre essas línguas, uma vez que esse e econômicos restringem tal contato, as lín- fato mostra uma separação mais recente de guas de sinais no mundo árabe apareceriam uma língua comum (parent language) (Black dentro das fronteiras que possivelmente as & Kruskal, 1997). No contexto da metodo- isolam e permitem que elas se desenvolvam, logia léxico estatística, Crowley (1992) define independentemente uma das outras. Uma as línguas como dialetos se elas comparti- pesquisa nas línguas de sinais do mundo ára- lham 81-100% dos cognatos, nos vocabulá- 132 be pode revelar resultados interessantes sobre rios principais. Elas são consideradas como
    132. Uma comparação lexical de línguas de sinais no mundo Árabe da mesma família de língua se compartilham ao contrário dos resultados de estudos ante- 36-81% dos cognatos e como famílias de uma riores em línguas de sinais que afirmavam a “descendência” (stock) se compartilham 12- origem da ASL na LSF, é mais provável que 36% dos cognatos. Pela “descendência”, os algumas variedades das línguas de sinais nos léxicos estatísticos não precisam identificar Estados Unidos tenham surgido antes de as línguas como descendentes de uma língua qualquer contato com a LSF, após o processo ancestral comum; ao invés disso, o termo re- de creolização. conhece que as línguas dentro de uma região Woodward (1991) também comparou podem ter a oportunidade de entrarem em variedades de línguas de sinais encontradas contanto uma com a outra. Greenberg (1957) na Costa Rica. Com resultados variando de 7 fornece quatro casos de semelhanças lexicais a 42% de cognatos, ele concluiu que existem, entre as línguas, apenas dois deles sendo rela- pelo menos, quatro línguas distintas na Costa cionados historicamente: relações genéticas e Rica. Em um terceiro estudo, ele comparou empréstimo. Os outros dois casos são o sim- as variedades das línguas de sinais na Índia, Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais bolismo compartilhado - onde os vocabulá- Paquistão e Nepal com resultados variando rios compartilham motivações similares, icô- entre 62-71% cognatos (Woodward, 1993). nicas ou indicadoras - e, finalmente, o acaso. Conclui que essas variedades são línguas se- Woodward (1978) é um dos primeiros paradas, mas pertencem à mesma família de lingüistas de sinais a conduzir uma pesqui- língua. Do mesmo modo, a Língua Moderna sa léxico-estatística em línguas de sinais. Ele de Sinais Tailandesa Padrão e a ASL compar- comparou o léxico da Língua de Sinais Fran- tilham 57% de cognatos, o que faz delas lín- cesa (LSF) de um dicionário de língua de guas distintas historicamente relacionadas, sinais com a ASL, onde alguns sinais foram devido ao contato entre os educadores ame- elicitados de um homem surdo mais velho e ricanos de surdos e usuários surdos da Língua outros sinais de um sinalizante de ASL mais de Sinais Tailandesa (Woodward, 1996). novo. Esse pesquisador iniciou com uma McKee et al. (2000) usam a lista modifi- lista de 200 palavras nucleares da Lista de cada de vocabulário nuclear de Woodward, Swadesh, uma ferramenta comum entre an- de 100 conceitos, para estabelecer a relação tropólogos para elicitar um vocabulário bá- entre a Língua de Sinais da Nova Zelândia sico, mas excluiu os numerais, pronomes e (NZSL), a ASL, a Língua de Sinais Australiana partes do corpo, porque esses são altamente (Auslan) e a Língua de Sinais Britânica (BSL). icônicos e indicadores. Com relação às 77 pa- Os vocabulários foram retirados de dicioná- lavras restantes de sua lista que se repetiram rios e CD-ROMs de suas respectivas línguas no dicionário da LSF, ele encontrou 61% de de sinais. Os pesquisadores identificam os si- cognatos nas duas séries de comparações da nais como cognatos se todos os parâmetros LSF entre um surdo mais velho e um sinali- fonéticos (configuração de mão, localização, zante mais novo. Substituindo a lista modifi- movimento e orientação da palma) são idên- cada de vocabulários nucleares por todos os ticos ou se apenas um dos parâmetros é dife- 872 sinais disponíveis no dicionário da LSF, rente. O vocabulário que se enquadra nessa ele descobriu que o número de cognatos caiu segunda categoria é denominado relaciona- ligeiramente para 57.3-58%, nas duas séries do-mas-diferente, ou vocabulário similar o de sinais da ASL. Woodward conclui que, bastante para ter uma origem comum. Eles 133
    133. Kinda Al-Fityani e Carol Padden descobriram que entre 79-87% dos vocabu- Nova Zelândia introduziu o Sistema de Co- lários do Auslan, BSL e NZSL são cognatos, municação Total Australiano em 1979, que o que os classificaria como dialetos de uma continuou a ser usado até o inicio da década língua comum. Os pesquisadores esperavam de 90. Entretanto, eles tiveram dificuldade esse alto grau de similaridade, já que a Aus- em afirmar se a NZSL é uma língua separada lan e a NZSL têm origens coloniais: a BSL foi ou se é um dialeto da BSL, como no caso da trazida para a Austrália e Nova Zelândia pe- Auslan. Enquanto os resultados da primeira los educadores de surdos e outros imigrantes análise mostraram que a NZSL era um diale- do Reino Unido. Além disso, tem havido um to da Auslan e da BSL, porque se enquadrou freqüente contato entre surdos da Austrália na taxa da léxico-estatística de 81-100%, a e da Nova Zelândia. Tal fato contrasta com segunda análise sugere que a NZSL pertence a situação da ASL, que não apresenta ligação apenas à mesma família, como a Auslan e a histórica com as outras três línguas de sinais. BSL, com uma significativa divergência ten- Como esperado, os pesquisadores descobri- do ocorrido entre elas. Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais ram que apenas de 26-32% do vocabulário da Currie, Meier, e Walters (2002) con- ASL é idêntico ou similar ao vocabulário da taram os cognatos em suas comparações Auslan, da BSL e da NZSL, confirmando que léxico-estatísticas da LSM com a Língua de a ASL é uma língua separada das outras três. Sinais Francesa (LSF), Língua de Sinais Es- McKee et al. reconhecem que alguns lin- panhola (LSE), e Língua de Sinais Japonesa güistas criticam o método de se empregar vo- (NS). A LSM foi comparada à LSF já que há cabulários nucleares e seletivos. Pelo fato de razões para acreditar que elas são relaciona- serem conceitos de alta freqüência, tais voca- das historicamente. Um educador francês de bulários podem superestimar as similarida- surdos veio ao México em 1866, ao saber da des entre as línguas de sinais. Ao invés disso, primeira escola de surdos lá fundada. Por essa esses pesquisadores preferiram vocabulá- razão, alguns acreditaram que a LSF poderia rios aleatórios, para neles basear seu estudo ser uma fonte do empréstimo da(s) língua(s) léxico-estatístico. Alterando ligeiramente a de sinais no México. Pelo fato de a língua es- metodologia de Woodward para dobrar o panhola ser a língua falada compartilhada no vocabulário que está sendo comparado e in- México e na Espanha, a LSM e a LSE podem cluir mais vocabulários aleatórios, ao invés de ter uma base comum de similaridades. Final- vocabulários nucleares da Lista de Swadesh, mente, na ausência de uma relação histórica McKee et al. descobriram que o número de conhecida, a comparação entre a LSM e a NS cognatos entre a NZSL e a Auslan e a BSL é usada como um controle para aproximar o caiu drasticamente para 65.5% e 62.5% res- possível grau de similaridade entre duas lín- pectivamente. Como esperado, os cognatos guas de sinais não-relacionadas. entre a NZSL e a ASL continuaram baixos, Os dados para a análise foram coletados a 33.5%. Os pesquisadores argumentam que a partir de elicitações gravadas em vídeo. As a taxa ligeiramente mais alta de similaridade listas de palavras abrangeram de 89 vocabulá- entre a NZSL e Auslan do que aquela entre rios na comparação da LSM com a LSE a 112 NZSL e BSL está relacionada à proximidade vocabulários na comparação da LSM com a geográfica e às políticas educacionais históri- LSF e 166 conceitos para LSM-NS. Os con- 134 cas em que o Departamento de Educação da ceitos foram denominados cognatos se eles
    134. Uma comparação lexical de línguas de sinais no mundo Árabe compartilhassem dois de cada três parâme- se mudou para a Jordânia, em 1964, para re- tros. Diferentemente de McKee et al. (2002), abrir uma escola para surdos, que tinha sido Currie et al. (2002) excluíram o quarto parâ- inaugurada pelo Padre Andeweg (Holy Land metro de orientação. Os resultados mostra- Institute for the Deaf, 2004) ram 38% de cognatos para LSM-LSF, 33% de O Holy Land Institute of the Deaf (HLID), cognatos para LSM-LSE e 23% para LSM-NS. Instituto dos Surdos da Terra Santa, na cida- Apesar de haver história de contato entre a de de Salt, na Jordânia, hoje em dia é con- LSM e a LSF, fica claro que o desenvolvimen- siderado uma escola modelo para os surdos to histórico não é genético. Eles atribuem a do oriente médio. As escolas para surdos similaridade ao empréstimo. Seus resultados em outros países árabes foram abertas, ape- também não apóiam a similaridade entre a nas, vários anos e décadas mais tarde. Essas LSM e a LSE, embora ela exista em comu- escolas foram fundadas por seus respectivos nidades que compartilham a língua falada, a governos e, em grande parte, sem nenhuma língua espanhola. Finalmente, a comparação influência dos europeus. Com exceção da Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais entre a LSM e a NS fornece um nível base do HLID, a maioria das escolas para surdos no grau de similaridade entre quaisquer duas oriente médio enfatiza métodos orais de co- línguas de sinais que possam ter iconicida- municação, preferindo esses métodos à lín- de compartilhada. Currie et al. (ibid.) argu- gua de sinais. Devido à recente fundação de mentam que a modalidade visual-gestual das tais instituições e por seu apoio continuado línguas de sinais e sua capacidade para repre- aos métodos de comunicação oral, seria de se sentações icônicas dão suporte, no mínimo, esperar que o desenvolvimento da língua de a um nível mínimo de similaridade entre as sinais na região exibisse uma geografia dife- línguas de sinais não relacionadas. rente daquela na Europa e nos EUA. As relações genéticas entre as línguas de Esse artigo explora as similaridades e di- sinais nos Estados Unidos, no ocidente euro- ferenças entre as línguas de sinais no mundo peu e nas colônias britânicas coincidem com a árabe por meio do método léxico-estatístico. história da educação de surdos nessas regiões, As línguas de sinais que serão examinadas mas as relações entre as línguas de sinais do em comparação com a Língua de Sinais da mundo árabe podem seguir um padrão intei- Jordânia (LIU)3 são a Língua de Sinais Al- ramente diferente, visto que a escolaridade das Sayyid Beduína (ABSL)4, a Língua de Sinais crianças surdas foi introduzida muito mais do Kuwait (KSL), a Língua de Sinais da Líbia tarde no oriente médio. O Irmão Andrew, um (LSL) e a Língua de Sinais Palestina (PSL). educador pioneiro de surdos no oriente mé- A LIU também será comparada com a ASL dio, atribui ao Padre Andeweg, um missioná- como linha base, com a expectativa de um rio anglicano holandês, a abertura da primeira percentual de cognatos mais baixo devido à escola para surdos na região do Líbano, no fim ausência de relação histórica conhecida entre da década de 50. O Irmão Andrew chegou pri- elas. Entretanto, como existem profissionais meiro ao Líbano como professor e mais tarde jordanianos trabalhando com surdos que 3 LIU é a forma abreviada da tradução fonética Árabe-Inglês, Lught il-Ishara il-Urduniyyeh. 4 A ABSL é usada na comunidade Al-Sayyid no Deserto Negev, em Israel. 13
    135. Kinda Al-Fityani e Carol Padden estudaram nos EUA, bem como um núme- diferenças não manuais, tais como as marcas ro de surdos jordanianos que estudaram na faciais, não foram incluídas na comparação. Gallaudet University, pode haver emprésti- mos lexicais da ASL para a LIU. 4. Resultados Como ilustrado na Tabela 1, os vocabulários 3. Metodologia entre 165 e 410 foram examinados para di- ferentes comparações. O número de vocabu- O vocabulário usado na comparação foi extra- lário é similar ao número nos resultados de ído de dicionários publicados das respectivas pesquisas comparativas anteriores sobre lín- línguas de sinais, com exceção da ABSL onde guas de sinais. Como previsto, a relação LIU- o vocabulário foi elicitado por meio de uma PSL alcançou o número mais alto de cogna- entrevista gravada em vídeo, com um mem- tos com 58%, seguida pela relação LIU-KSL, bro surdo da comunidade Abu Shara5. Todo com 40%, a relação LIU-LSL com 34% de Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais o vocabulário no dicionário da LIU e cada um cognatos e a relação LIU-ABSL com o índice dos outros quatro dicionários foram usados mais baixo, 24% de cognatos. para as comparações. A razão para essa com- Dois sinais de línguas de sinais dife- paração extensa foi que usar uma lista nuclear rentes foram denominados idênticos se eles modificada ou uma lista de vocabulários se- compartilhassem todos os quatro parâme- lecionados aleatoriamente teria resultado em tros, como na Figura 1. Foram denomina- uma série menor de comparação de vocabulá- dos relacionados se eles se diferenciassem em rios dos dicionários do Kuwait e da Líbia, ou apenas um dos quatro parâmetros, como na em uma ausência de vocabulário de compara- Figura 2, onde a configuração de mão é o ele- ção, como foi o caso do dicionário palestino, mento diferenciador. Foram denominados que tinha por alvo os alunos do ensino médio diferentes se eles se diferenciassem em dois e da universidade de matemática e ciências, ou ou mais parâmetros. era muito focalizado em referências locais, tais como nomes de organizações e realezas, como é o caso do dicionário jordaniano. LIU PSL Os sinais individuais de línguas diferen- tes foram comparados com base nos qua- tro parâmetros fonêmicos (configuração de mão, movimento, localização, e orientação da palma) seguindo a orientação mais rigo- rosa de McKee et al. (2000). Para McKee et al., os cognatos são sinais que compartilham pelo menos três desses quatro parâmetros. As Figura 1. KORAN 5 Os dicionários usados para este estudo são: Hamzah (1993) para LIU, Palestine Red Crescent Society (2000) para PSL, Kuwaiti Sign Language Dictionary (1995) para KSL, Suwayd (1992) para LSL, Tennant e Gluszak Bro- 13 wn (1998) para a ASL.
    136. Uma comparação lexical de línguas de sinais no mundo Árabe LIU LSL ou divergiram enormemente, com o passar do tempo. Como esperado, a LIU e a PSL compar- tilham a maioria dos cognatos, dentre quais- quer das línguas analisadas nesse estudo. Esse resultado é esperado, já que as comunida- des palestinas e jordanianas são fortemente entrelaçadas, em termos de costumes e tra- Figura 2. ELEFANTE dições de casamento. Também como espe- rado, a KSL e a LSL têm um baixo número PSL KSL LSL ABSL ASL de cognatos com a LIU. Isso é atribuído às Idêntico 59 35% 40 22% 42 16% 25 15% 28 7% circunstâncias culturais, sociais, políticas e Relacionado 38 23% 33 18% 49 18% 14 9% 41 10% Cognatos 58% 40% 34% 24% 17% econômicas que limitam o contato entre as Diferente 70 42% 110 60% 176 66% 126 76% 342 83% três nações. Finalmente, a LIU e ABSL com- Total 167 183 267 165 410 Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais partilham a menor quantidade de cognatos, Tabela 1: Vocabulário compartilhado entre a LIU e dentre todas as línguas de sinais estudadas. a PSL, a KSL, a LSL e a ABSL Isso confirma relatórios etnográficos que mostram que a comunidade Al-Sayyd Bedu- ína é uma comunidade fechada, com pouco 5. Discussão contato com outras comunidades árabes. Do total de vocabulário comparado, apenas 24% A Tabela 1 demonstra que a LIU-PSL e a LIU- dos sinais foram considerados cognatos com KSL são relacionadas, mas, provavelmente a LIU, semelhante ao percentual da relação não são dialetos da mesma língua, já que LSM-NS, que demonstrou 23% de cognatos, seus cognatos estão na faixa de 36-81%. No o que foi considerado por Currie et al. (2002) que se refere à relação existente entre LIU- como um nível base de similaridade que pode LSL, LIU-ABSL e LIU-ASL, é provável que ser esperado entre quaisquer duas línguas de elas não sejam relacionadas, já que compar- sinais não relacionadas. Esse grau de diferen- tilham apenas 12-36% dos cognatos. Esses ça enquadra-se logo abaixo da linha base de resultados demonstram, antes de qualquer 26-32%, que McKee et al. (2000) propõem coisa, que a geografia das línguas de sinais para a relação ASL-NZSL. De fato, as relações nessa região não coincide com a geografia entre LIU-KSL e LIU-LSL com 40% e 34% das línguas faladas. Embora a ABSL, a KSL, dos cognatos não são significativamente mais a LIU, a LSL e a PSL sejam línguas existentes altas que o nível base. Isso sugere duas coisas: nas comunidades de língua árabe, elas são 1) A LIU, a KSL e a LSL, provavelmente, não línguas de sinais distintas. Esses resultados são historicamente relacionadas. Mas o grau contradizem a crença que as línguas de si- mais alto de similaridade pode ser devido ao nais do mundo árabe são, em sua maioria, fato que essas línguas de sinais existem den- ou similares ou diletos de uma única língua tro do mundo árabe, onde existem muitos de sinais. Ao invés disso, os resultados su- gestos emblemáticos em comum. De fato, é gerem que pelo menos tais línguas de sinais comum dizer que a fala, o gesto e a cultura no mundo árabe não têm origens comuns, estão tão intimamente interligados para os 13
    137. Kinda Al-Fityani e Carol Padden árabes que para segurar as costas de um ára- nais, como no modelo ocidental. Na verda- be enquanto ele está falando é equivalente a de, os sistemas educacionais organizados no segurar a sua língua (Barakat, 1973). É pro- mundo árabe são relativamente recentes. Isso vável que as comunidades surdas árabes com apresenta uma geografia única de línguas de pouco ou nenhum contato entre si tenham sinais, ao contrário da situação no ocidente. sinais similares devido ao repertório gestual Tal resultado pode, entretanto, ser compara- compartilhado. do aos resultados de Woodward (1991) so- Finalmente, os cognatos da relação LIU- bre as línguas de sinais usadas na Costa Rica, ABSL estão em 24%, o que é mais alto do onde ele encontrou várias línguas de sinais que os 17% dos cognatos compartilhados distintas, entre os vários pueblos indígenas. pela LIU e a ASL. Enquanto esses resultados Finalmente, a questão chave nas léxi- se enquadram na categoria de não relaciona- co-estatísticas das línguas de sinais é se duas dos, o nível base mais alto para a ABSL do línguas de sinais não relacionadas têm mais que para a ASL pode estar relacionado ao fato vocabulários em comum do que quaisquer Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais que a LIU e a ABSL compartilham a mesma outras línguas faladas não relacionadas. Des- cultura. Vale também observar que a diferen- cobrimos, em nossa comparação das línguas ça pode ser devida à discrepância nos voca- de sinais da região do oriente médio, que bulários comparados. Na comparação entre duas línguas de sinais geograficamente dis- a relação LIU-ASL e a relação LIU-ABSL, os tantes podem ter um nível de similaridade vocabulários estavam duas vezes mais dispo- base um tanto mais alto quando comparadas níveis na primeira relação. Possivelmente, se a duas línguas faladas não relacionadas, o que um vocabulário maior fosse comparado, o sugere a existência de algo inerente na moda- grau de similaridade cairia. lidade gesto-visual das línguas de sinais que predispõe seus vocabulários à similaridade. Talvez seja por isso que as línguas de sinais de 6. Conclusão uma região podem parecer similares, quan- do, sob uma análise mais profunda, elas se Dada a tradição de endogamia no mundo enquadram abaixo de um limiar de similari- árabe, o que leva a altas taxas de surdez gené- dade mensurável. tica, é muito provável que tenha havido uma longa história de línguas de sinais na região. Como mostram os resultados da presente Referências pesquisa, muitas dessas línguas de sinais são línguas distintas, não dialetos e não são re- ABDEL-FATTAH, M. Arabic sign language: A lacionadas historicamente. As similaridades perspective. Journal of Deaf Studies em seus vocabulários podem ser atribuídas and Deaf Education, v. 10, 2005. p. 212-221. aos valores culturais comumente comparti- BARAKAT, R. Arabic gestures. Journal of Popu- lhados e aos repertórios gestuais. Esses resul- lar Culture, v. 6, 1973. p. 749-791. tados seguem o padrão histórico das línguas BLACK, P.; KRUSKAL, J. Comparative lexico- de sinais no mundo árabe que se desenvol- statistics: A brief history and bibliography of vem, sobretudo, em instituições familiares key words. 1997. Disponível em: <http://www. 13 em contraposição às instituições educacio- ntu.edu.au/education/langs/ielex/BIBLIOG.
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    139. Dêixis, anáfora e estruturas altamente icônicas: evidências in- terlingüísticas nas línguas de Sinais Americana (ASL), Francesa (LSF) e Italiana (LIS)1,2 Elena Pizzuto1 , Paolo Rossini1,2 , Marie-Anne Sallandre3, Erin Wilkinson4 1 Istituto di Scienze e Tecnologie della Cognizione, Consiglio Nazionale delle Ricerche, Roma 2 Istituto Statale Sordi, Roma 3 UFR de Sciences du Langage, Université Paris 8 & UMR 7023, CNRS, Paris 4 Department of Linguistics, University of New Mexico, Albuquerque, USA 1. Introdução O foco da pesquisa são duas grandes clas- ses de recursos de referência dêitico-anafóri- Este artigo explora fatores tipológicos, su- ca já descritos para as LS. A primeira, dora- postamente específicos da modalidade, que vante denominada classe ‘padrão’, tem sido afetam a dêixis e a anáfora nas línguas de amplamente investigada. Ela é realizada por sinais (doravante LS). Tendo em vista tal meio de apontações manuais e visuais, que objetivo, definimos estruturas dêitico-ana- estabelecem posições marcadas no espaço, fóricas, de um modo bastante simplificado, normalmente chamadas de “loci”, às quais como recursos de coesão textual que permi- os referentes podem ser atribuídos simboli- tem aos falantes ou sinalizantes introduzir camente (para visões gerais que enfatizam a referentes no discurso (dêixis) e, subseqüen- uniformidade tipológica na LS com relação temente, referir-se a eles em momentos pos- a esse mecanismo básico, veja, entre outros, teriores (anáfora) (veja Lyons, 1977; Lom- Cuxac, 2000; Liddell, 2003; Lillo-Martin & bardi Vallauri [2004, no prelo] para uma Klima, 1990; McBurney, 2002; Rathmann & visão geral do assunto). Mathur, 2002; Pizzuto, 2004/no prelo). As- 1 Traduzido por: Maria Lúcia Barbosa de Vasconcellos, Ladjane Maria Farias de Souza, Lucas Hack de Mendonça 2 O presente artigo é uma versão revisada do artigo apresentado por Erin Wilkinson e Marie-Anne Sallandre no Encontro TISLR 2006 realizado em Florianópolis, Brasil (Wilkinson, Rossini, Sallandre & Pizzuto, 2006). Cada um dos autores contribuiu igualmente de diversas maneiras (em línguas escritas/línguas de sinais) para o trabalho descrito neste artigo. Nós agradecemos o apoio financeiro parcial oferecido por diversas agências, instituições e projetos em andamento: o Fulbright Mason Perkins Fund (2000-2001), por apoiar Erin Wilkinson em sua fase inicial de pesquisa no Istituto di Scienze e Tecnologie della Cognizione of the Consiglio Nazionale delle Ricerche in Rome; os Italian and French National Research Councils (CNR-CNRS Project “Language, its formal properties and cognition what can be learned from signed languages”); o Instituto Statale Sordi di Roma e os fundos “Progetti Felicità” (projeto italiano “Writing LIS and Sign Writing”); o projeto francês ACI Cogniti- que “LS-COLIN” 2000-2002 (CNRS UMR 7023, IRIT, LIMSI). Somos muito gratos aos sinalizantes da ASL, da LIS e da LSF que participaram desse estudo, e a todos os colegas surdos e ouvintes de nossas instituições pelas discussões relevantes a respeito dos tópicos por nós explorados. Todas as imagens dos sinalizantes incluídas neste trabalho foram reproduzidas com sua permissão.
    140. Dêixis, anáfora e estruturas interlingüísticas nas Línguas de Sinais Americana (ASL), Francesa (LSF) e Italiana (LIS) sim sendo, para introduzir um referente no geral identificadas na literatura sobre LS por discurso, o sinalizante pode produzir um si- diferentes termos como: “classificadores”, nal manual padrão (ou “cristalizado”)3 para o “morfemas produtivos”, sinais “polissintéti- referente e então marcá-lo no espaço de sina- cos” ou “multicomponenciais”; (2) expres- lização por meio de uma apontação manual sões faciais marcadas e/ou modificações na ou visual, ou ainda, por meio de uma altera- direção da cabeça, dos ombros e do tronco, ção morfológica do ponto de articulação do geralmente identificadas na literatura como sinal utilizado (que pode ou não ser acompa- “recursos de troca de papéis”, mas que tam- nhada por apontações visuais), estabelecen- bém recebem outras denominações (veja se- do, dessa forma, uma posição no espaço (ou ção 1.1 abaixo para uma discussão mais am- ‘locus’) para o referente simbolizado. A refe- pla). Como ilustraremos adiante, diferentes rência anafórica é feita então, apontando-se subtipos de EAI podem ser combinados entre novamente para aproximadamente o mesmo si, ou com sinais padrões, para codificar si- ponto no espaço, através de apontações visu- multaneamente informações referentes a dois Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais ais ou manuais (veja 1.1 para mais detalhes e (ou até mais) referentes, permitindo assim um exemplo ilustrativo). uma especificação multilinear da referência No entanto, como foi observado em ou- dêitico-anafórica, que parece ser exclusiva da tras pesquisas (Pizzuto, 2004/no prelo), a modalidade visual-gestual. referência dêitico-anafórica também é pro- Embora os recursos manuais e não-ma- duzida na LS através de complexas unidades nuais acima citados tenham sido descritos manuais e não-manuais, que não são sinais sob diferentes perspectivas e com terminolo- de apontação nem podem ser classificadas gias distintas, informações quanto ao seu uso como sinais padrões. Essas unidades exibem em operações de referência dêitico-anafórica características altamente icônicas e são mar- e/ou quanto à maneira como eles interagem cadas por padrões específicos do olhar, que as com os artifícios ‘padrão’ são escassas ou ine- distinguem dos sinais padrões. Ao longo des- xistentes. Nosso estudo oferece evidências re- se artigo, vamos nos referir a essas unidades levantes com relação a esse tópico, através de como Estruturas Altamente Icônicas (EAI) ou um exame comparativo de narrativas curtas ‘Transferências’, de acordo com Cuxac (1985; produzidas em três LSs: americana (ASL), 1996; 2000). Além dos padrões específicos francesa (LSF) e italiana (LIS). Sabe-se que a do olhar, outros elementos que compõem as ASL e a LSF são historicamente relacionadas, EAI são: (1) formas manuais que codificam enquanto a LIS não possui nenhuma relação características perceptivelmente salientes das estabelecida, seja com a ASL ou com a LSF4. relações entre os referentes e o referencial, em As amostras das línguas por nós analisadas 3 Sinais padrão são aqui definidos, conforme grande parte da literatura sobre LS, como sendo sinais que normal- mente aparecem em dicionários de LS, e são geralmente descritos como constituintes de um ‘léxico cristalizado’. Eles se diferenciam das ‘produtivas’ formas altamente icônicas, que serão descritas a seguir. 4 Devido à ausência de uma documentação escrita apropriada sobre LS, e também devido aos complexos fenô- menos de transmissão e variação da língua que são próprios das LS e das diferentes comunidades compostas por sinalizantes (Cuxac; 2000; Fusellier-Souza, 2004; 2006), ainda é muito difícil de afirmar os vínculos históricos existentes entre as LS utilizando-se dos mesmos critérios aplicados na pesquisa sobre línguas faladas/escritas. 141
    141. Elena Pizzuto, Paolo Rossini, Marie-Anne Sallandre e Erin Wilkinson nos permitem, dessa forma, avaliar, ainda que revisão detalhada de tais bases teóricas ul- parcialmente, a influência das relações entre trapassa o escopo deste artigo, portanto va- as línguas sobre os fenômenos investigados. mos apenas esboçar rapidamente alguns dos Caso encontrássemos semelhanças apenas pontos mais importantes, especialmente no entre a ASL e a LSF, isso poderia ser tomado que diz respeito às EAIs mencionadas ante- como evidência de que tais semelhanças po- riormente. Antes disso, convém examinarmos dem ser atribuídas ao vínculo histórico exis- brevemente o mecanismo ‘padrão’ para a re- tente entre essas duas LSs. Por outro lado, se ferência dêitico-anafórica, ilustrado no Exem- descobríssemos que os padrões semelhantes plo (1) abaixo, a partir de trechos de um texto se aplicam às três LSs investigadas, isso po- em LIS, que narra um evento comum5. deria ser tomado como evidência de que as semelhanças se devem a fatores mais univer- sais, ligados à modalidade visual-gestual de expressão lingüística. Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais A seguir, vamos apresentar nosso refe- rencial teórico e oferecer exemplos ilustrati- vos das estruturas mencionadas acima. 1a 1b 1.1 Referencial teórico e exemplos ilustra- tivos das estruturas analisadas O presente estudo origina-se de, e faz a ponte entre, trabalhos empíricos e teóricos desen- volvidos, de forma independente, por nossos grupos de pesquisa, sobre tópicos como: a 1c 1d morfologia, a dêixis e a anáfora nas LSs, em comparação com as das línguas faladas ou (1) ‘um colega’ […] ‘ele, o colega, ele...’ verbais (Pizzuto, 1978; 2004/no prelo; Pizzu- to, Giuranna & Gambino, 1990; Wilkinson, A imagem de vídeo congelada em 1a 2002); e, o papel crucial da iconicidade na mostra um sinal nominal padrão que signi- formação do léxico, da gramática e do discur- fica “colega”, por meio do qual o sinalizan- so nas LS (Cuxac, 1985; 1996; 2000; Cuxac & te introduziu deiticamente esse referente no Sallandre, 2004/no prelo; Fusellier-Souza, discurso: o sinal manual é deslocado para 2004; 2006; Russo, 2004; Russo, Giuranna & uma posição marcada à direita do sinalizante Pizzuto, 2001; Sallandre, 2003; 2007). Uma e acompanhado por uma apontação visual na Sendo assim, embora não haja documentação que comprove uma relação histórica entre LIS, de um lado, e ASL/LSF do outro lado, não podemos excluir a possibilidade de que, em algum momento da história passada ou recente, essas LS tenham entrado em contato umas com as outras de uma forma mais significativa do que nós podemos afirmar hoje. 142 5 Fragmentos extraídos do corpus ‘Necklace theft’ (Fabbretti, 1997).
    142. Dêixis, anáfora e estruturas interlingüísticas nas Línguas de Sinais Americana (ASL), Francesa (LSF) e Italiana (LIS) mesma direção. As imagens congeladas 1c-1d recem duas maneiras de se produzir significa- mostram como, em um momento subseqüen- do: pode-se ‘dizer e mostrar’, produzindo-se te do discurso, o sinalizante retoma anafori- assim EAIs ou ‘Transferências’, que são exclu- camente o mesmo referente, em um primeiro sivas da modalidade sinalizada, ou então se momento, por meio de uma apontação manu- pode ‘dizer sem mostrar’, por meio do léxico al para o mesmo ponto no espaço previamente padrão e da apontação, produzindo-se estru- marcado (1c); em um segundo momento, por turas mais compatíveis com as encontradas meio de uma nova instância do sinal ‘colega’, nas línguas verbais. dessa vez articulado em uma posição não-mar- Essas duas maneiras de se produzir sig- cada no espaço neutro (1d, compare com 1a- nificado refletem duas intenções diferentes 1b); e finalmente, por meio de uma segunda entre as quais o sinalizante pode optar, cons- apontação (significando ‘ele, o colega, ele...’). cientemente, a fim de articular seu discurso: Esse mecanismo ‘padrão’ de referência a de ilustrar e a de não ilustrar o que diz. As dêitico-anafórica no discurso sinalizado in- operações realizadas pelos sinalizantes quan- Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais terage substancialmente com as modificações do escolhem a intenção de ilustrar (e as estru- morfológicas sofridas por diferentes classes turas resultantes produzidas) são chamadas de verbos, alterando suas locações no espaço. de ‘Transferências’. Elas são concebidas como Não trataremos dessa interação aqui (para vestígios de operações cognitivas por meio isso, ver Cuxac, 2000; Pizzuto, 2004/no pre- das quais os sinalizantes transferem sua con- lo). O que queremos enfatizar é que estrutu- cepção do mundo real para o mundo tetra- ras como as mostradas acima, descritas já nas dimensional do discurso sinalizado (as três primeiras pesquisas sobre a ASL (por exem- dimensões do espaço acrescidas da dimensão plo, Friedman, 1975; Klima & Bellugi, 1979; tempo). Wilbur, 1979), são, aparentemente, muito Os componentes manuais dessas estrutu- semelhantes em várias outras LSs do mun- ras complexas são chamados de ‘proformas’. do, o que torna plausível se supor que elas O termo ‘proformas’ corresponde ao que é sejam estruturas universais ou quase-univer- tratado, na maioria das pesquisas sobre LS, sais (McBurney, 2002; Rathmann & Mathur, sob a rubrica ‘classificadores’ (ou sob outras 2002; Pizzuto, 2004/no prelo). rubricas mencionadas anteriormente – ver Passamos, agora, a uma breve ilustração Schembri, 2003 e os artigos reunidos em das EAIs e do modelo teórico no qual elas se Emmorey, para uma visão geral do assunto.) enquadram. Baseando-se em análises abran- A diferença entre ‘proformas’ e ‘classificado- gentes do discurso e da gramática da LSF, em res’, entretanto, não é puramente terminoló- um contexto interlingüístico, Cuxac (1985; gica, mas sim substantiva: ela é estabelecida 1996; 2000) sugeriu que todas as LSs têm por através de um modelo lingüístico que atribui origem e exploram a capacidade básica que à iconicidade um papel formal fundamental os sinalizantes têm de iconizar sua experiên- na construção do discurso e da gramática da cia perceptiva/prática do mundo físico. Um LS; de análises teóricas que mostram a ina- dos efeitos desse processo de iconização é o dequação do uso da ‘análise dos classificado- de dotar as LSs de uma dimensão semiótica res’ para os elementos aqui discutidos; e da adicional com relação às línguas verbais. As análise detalhada dos aspectos formais e arti- LSs, diferentemente das línguas verbais, ofe- culatórios característicos das EAIs, nos quais 143
    143. Elena Pizzuto, Paolo Rossini, Marie-Anne Sallandre e Erin Wilkinson as proformas estão inseridas, em especial os (Padden, 1986) ou ainda, em trabalhos an- padrões específicos do olhar (Cuxac, 1996; teriores, “pronomes corporais e pronomes 2000). Em contraposição, a análise dessas corporais projetados” (Kegl, 1976), e “mar- formas em termos de ‘classificadores’ focali- cadores corporais” (Pizzuto et al, 1990). O za principalmente os componentes manuais, foco principal de tais pesquisas é o conjunto desconsiderando ou subestimando o papel de características não-manuais apresentado dos padrões do olhar em sua especificação. por essas Transferências (expressões faciais A partir de Cuxac (1985; 2000), distin- marcadas, olhares, posturas corporais). guimos, neste artigo, três tipos principais de Como observado anteriormente, um as- Transferências (veja Sallandre 2003, para uma pecto relevante das EAIs é o fato de que os sub- classificação muito mais detalhada): tipos de Transferência podem ser combinados 1. As ‘transferências de forma e tamanho’ entre si, ou com sinais padrões, para codificar (TF) descrevem objetos ou pessoas de informações sobre dois (ou até mais) referen- acordo com seu tamanho ou forma (sem tes de uma forma multilinear e simultânea, Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais levar em conta o processo ou o papel en- que não tem equivalente na língua falada. volvido). O objeto é descrito por meio de Esse fenômeno é chamado de ‘Dupla Trans- proformas. O olhar se dirige às mãos e a ferência’ (DT) na terminologia de Cuxac (por expressão facial especifica a forma. exemplo, o emprego simultâneo de uma TP 2. As ‘transferências de situação’ (TS) envol- para especificar um agente e de uma TS para vem o movimento de um objeto ou per- especificar informações relativas à locação, sonagem (o agente, especificado pela mão ou ainda para especificar um segundo agen- dominante) com relação a um ponto de te). Fenômenos semelhantes foram descritos referência locativo estável (especificado por vários autores sob diferentes perspecti- pela mão não-dominante). A situação é vas e por meio de terminologias distintas (por mostrada como se a cena estivesse sendo exemplo, Dudis, 2004; Russo, 2004; a coletânea observada a uma certa distância. O sinali- de artigos em Vermeerbergen, e Leeson Cras- zante mantém uma distância com relação born, 2007; entre outros). No presente artigo, àquilo que ele está representando. O olhar denominamos esses fenômenos de operações se dirige à mão dominante e a expressão fa- de “Múltipla Referência” (MR) e avaliamos cial especifica o agente. sua incidência nas narrativas sinalizadas 3. As ‘Transferências de pessoa’ (TP) envol- selecionadas. vem um papel (agente ou paciente) e um Esses tipos de Transferência são ilustra- processo. O sinalizante ‘se transforma’ na dos abaixo. Os exemplos (2) e (3) foram tira- entidade a que ele se refere ao reproduzir, dos de narrativas feitas na LSF e destacam as em seu enunciado, uma ou mais ações re- diferenças existentes entre os sinais padrões e alizadas pela entidade. Em geral, as enti- as EAI. Observe que, na produção dos sinais dades a que os sinalizantes se referem são padrões, o olhar do sinalizador se dirige ao seres humanos ou animais, mas também interlocutor. Na produção das EAIs, o olhar podem ser seres inanimados. se desvia do interlocutor e se dirige às mãos O terceiro tipo de Transferências, TP, tem (durante a articulação das estruturas TS e TF), sido tratado na literatura da área sob rubricas ou a diferentes pontos no espaço, a fim de se 144 como “tomada de papéis”, “troca de papéis” reproduzir o olhar da entidade representada
    144. Dêixis, anáfora e estruturas interlingüísticas nas Línguas de Sinais Americana (ASL), Francesa (LSF) e Italiana (LIS) (durante a articulação de estruturas TP). O O exemplo (4) abaixo mostra três es- exemplo (2) mostra um sinal padrão e uma truturas TS extraídas das narrativas analisa- TF, ambos codificando o mesmo significado: das no presente estudo, respectivamente: na ‘árvore’. A proforma (configuração de mão LIS (4a), na ASL (4b) e na LSF (4c). Tanto o na TF) descreve a forma física da árvore. exemplo da narrativa na LIS (4a), quanto o da narrativa na ASL (4b) se referem à ‘que- da de um cachorro do peitoril da janela’. O exemplo da narrativa na LSF (4c) descreve ‘um cavalo saltando uma cerca’. Em todas as TS, o olhar se dirige primeiro para a mão do- minante e depois para a não-dominante. A mão dominante expressa o agente e o proces- so (‘cachorro-caindo’, ‘cavalo-saltando’), en- quanto a mão não-dominante expressa o lo- 2a 2b Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais cativo e o objeto implicado na relação locativa (‘peitoril da janela’, ‘cerca’). A expressão facial é congruente com o processo representado. 2c (2) ‘árvore via sinal padrão (2a) e via TF (2b-2c) (4) 4a: LIS 4b: ASL O exemplo (3) mostra um sinal padrão (3a) e uma TP (3b), ambos codificando o mesmo significado: ‘cavalo’. Na estrutura TP, todas as características manuais e não-manu- ais (olhar, expressão facial, corpo e mãos) re- produzem as características da entidade. 4c: LSF Os exemplos (5) abaixo mostram duas ocorrências de MR extraídas, respectivamen- te, das narrativas na LIS (5a) e na ASL (5b) (3) ‘cavalo’ via sinal padrão (3a) e via TF (3b) analisadas no presente estudo. No exemplo 14
    145. Elena Pizzuto, Paolo Rossini, Marie-Anne Sallandre e Erin Wilkinson 5a, as estruturas TP e TS produzidas permi- nas narrativas (uma média de 70%) do que tem ao sinalizante fazer simultaneamente re- nos textos prescritivos (uma média de 30%). ferências anafóricas a ‘uma criança segurando Desconsiderando-se as diferenças terminoló- um cachorro em seus braços’ e a ‘o cachorro gicas entre os autores, evidências semelhan- lambendo a bochecha da criança’. No exem- tes do uso generalizado das EAI em diversos plo 5b, os mesmos tipos de estrutura permi- gêneros do discurso sinalizado podem ser tem ao sinalizante representar ‘um cachorro’ obtidas em análises e observações referentes à com ‘um pote’ ao redor do pescoço. LIS (Pizzuto, 2004/no prelo; Pizzuto & al, 1990; Russo 2004; 2005; Russo & al, 2001; Wilkinson, 2002), à BSL (Brennan, 2001), à ASL (Emmo- rey & Reilly 1998; Emmorey, 2003) e à DSL (Engberg-Pedersen, 1993; 2003)). Contudo, nenhum estudo de que temos conhecimento tratou, de forma explícita, as Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais questões que buscamos esclarecer no presen- te estudo interlingüístico. 1. Com que freqüência as EAI são usadas para a realização de operações de referência dê- (5) 5a: LIS 5b: ASL itico-anafórica? 2. No que diz respeito à referência dêitico- Observe que as estruturas TS mostradas anafórica, as EAI são usadas com maior ou em (4) também são exemplos de MR. menor freqüência do que os sinais ‘padrão’ e as apontações manuais? 3. Qual a incidência de uso da MR na realiza- 1.2 Evidências encontradas em estudos ção de operações de referência dêitico-ana- anteriores e questões investigadas no fórica via EAI, isto é, com que freqüência presente estudo o uso das EAI permite aos sinalizantes in- troduzir ou re-introduzir no discurso dois Estudos anteriores sobre a LSF ofereceram (ou até mais) referentes simultaneamente? clara evidência do emprego generalizado das EAI nessa língua, em textos de diferen- tes gêneros. Tal emprego foi demonstrado 2. Dados usados no presente estudo em análises de textos longos, produzidos por um pequeno número de sinalizantes da LSF Os dados utilizados no presente estudo fo- (Cuxac, 1996, 2000) e em trabalhos mais re- ram extraídos de corpora mais extensos de centes envolvendo um amplo corpus de nar- diferentes gêneros do discurso sinalizado, rativas curtas e textos ‘prescritivos’ (receitas que foram coletados na França, na Itália e culinárias), produzidos por 19 sinalizantes nos Estados Unidos, com base na produção (Sallandre (2003). Os resultados obtidos por de um número considerável de sinalizantes Sallandre também destacam importantes di- nativos e não-nativos da ASL, da LIS e da LIF ferenças, no que diz respeito aos gêneros de (Wilkinson, 2002; Sallandre, 2003; 2007; 14 discurso: as EAI são muito mais freqüentes Pizzuto, Rossini, Russo & Wilkinson, 2005).
    146. Dêixis, anáfora e estruturas interlingüísticas nas Línguas de Sinais Americana (ASL), Francesa (LSF) e Italiana (LIS) No presente estudo, analisamos narrativas enfaixar a perna do cavalo. curtas obtidas por meio de duas histórias Essas histórias ilustradas foram mos- ilustradas diferentes, que têm sido ampla- tradas a todos os sinalizantes por entrevis- mente utilizadas em pesquisas tanto sobre LS tadores surdos fluentes em cada uma das quanto sobre línguas faladas. As narrativas LSs analisadas e com os quais os sinalizan- na LIS e na ASL foram elicitadas mediante o tes estavam bem familiarizados. Todos os uso da mesma história, “Frog where are you?” sinalizantes tiveram oportunidade de se [“Sapo onde está você?”] (Mayer, 1969). Já as familiarizar com as histórias, sem restrição narrativas na LSF foram elicitadas por meio de tempo, para então contá-las usando sua da história “The Horse” [“O Cavalo”] (Hick- memória. mann, 2003). Para cada LS, selecionamos, a partir dos Na versão utilizada como material de eli- corpora mais extensos mencionados acima, citação de dados, a história ‘do sapo’ é com- os textos produzidos por três sinalizantes posta de 24 figuras. Ela conta as aventuras nativos de idades e histórico sócio-cultural Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais de um menino, seu cachorro e um sapo. O comparáveis: jovens adultos surdos, na fai- menino (protagonista principal) encontra xa etária de 19 a 23 anos, de classe média, um sapo, leva-o para casa, coloca-o dentro com ensino médio concluído ou nos primei- de um pote que está em seu quarto e, então, ros anos da universidade. Focalizamos nossa vai dormir com o cachorro. Durante a noite, análise em seqüências textuais de conteúdo enquanto o menino e o cão dormem, o sapo análogo (episódios funcionalmente idênti- pula para fora do pote e escapa. Na manhã cos envolvendo referentes animados e ina- seguinte, ao acordar o menino descobre que nimados) e duração de tempo equivalente o sapo desapareceu. Então ele e o cachorro (aproximadamente 1 minuto de produção começam a procurar pelo sapo em todos os de sinais). Os dados referentes à ASL e à LIS lugares. compreendem partes da narrativa da ‘his- A história ‘do cavalo’ é composta de 5 tória do sapo’, correspondentes à seqüência figuras, portanto, muito ‘mais curta’ do que que vai do começo da história até o episódio a história ‘do sapo’. Ela narra ações simples em que o cachorro cai do peitoril da janela, realizadas por um cavalo, uma vaca e um pás- o menino o segura nos braços e ele lambe a saro no espaço de um pasto dividido por uma bochecha do menino. Os dados referentes à cerca. O protagonista principal é o cavalo, LSF correspondem a narrações completas da que galopa alegremente de um dos lados da ‘história do cavalo’. cerca, enquanto é observado pela vaca e pelo O leitor pode estar se perguntando pássaro, que estão, respectivamente, do outro porque usamos partes da ‘história do sapo’ lado da cerca e sobre uma das estacas da cer- para a coleta dos dados na ASL e na LIS e ca. Em um determinado momento, o cavalo uma história diferente, a do ‘cavalo’, para pula a cerca para se juntar à vaca do outro os dados na LSF. Nossa escolha foi parcial- lado, mas acaba batendo na cerca e caindo de mente motivada por indícios fornecidos costas do outro lado, machucando uma de por trabalhos anteriores, mas também foi suas pernas. A vaca e o pássaro chegam então influenciada por razões práticas. Pesqui- para ajudá-lo: o pássaro traz um kit de pri- sas conduzidas de forma independente so- meiros-socorros, que é usado pela vaca para bre as ‘histórias de sapo’ na ASL e na LIS 14
    147. Elena Pizzuto, Paolo Rossini, Marie-Anne Sallandre e Erin Wilkinson (Wilkinson, 2002) e sobre as ‘histórias de cavalo’ na LSF (Sallandre, 2003) indicaram 2.1 Transcrição, codificação e análise dos a relevância que características semânticas, dados como animado x inanimado e humano x não-humano, podem ter para um entendi- A metodologia de transcrição, bem como as mento mais claro dos artifícios dêiticos e categorias analíticas que utilizamos para a anafóricos nas narrativas sinalizadas. Am- codificação, foram estabelecidas de comum bas as histórias analisadas incluem referen- acordo entre todos os co-autores, a partir do tes animados e inanimados, mas elas se di- trabalho teórico e das análises empíricas sobre ferenciam com relação ao aspecto ‘huma- o discurso sinalizado realizados por Cuxac no’ x ‘não-humano’ de seus protagonistas: (2000), Sallandre (2003) Cuxac & Sallandre a história ‘do sapo’ tem um personagem (2004/no prelo), Pizzuto (2004/no prelo), e humano (o menino) como protagonista Pizzuto et al (2005). principal, enquanto, na história ‘do cava- Todas as produções de sinais foram trans- Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais lo’, todos os personagens são animais, por- critas e codificadas no mesmo formato Excel tanto não-humanos. Essa diferença exis- por sinalizantes fluentes em cada uma das LS tente entre as duas histórias pode, assim, nacionais investigadas6. Utilizamos as chama- fornecer informações sobre o papel que o das ‘glosas’ para anotar, respectivamente no aspecto humano x não-humano pode ter inglês, francês e italiano escritos, o significa- (dentro da categoria de referência a seres do básico das unidades lingüísticas que iden- animados), na seleção de artifícios de refe- tificamos nas narrativas da ASL, da LSF e da rência dêitico-anafórica nas narrativas. LIS7. Essa anotação por meio de ‘glosas’ foi Quando planejamos a pesquisa aqui re- acrescida, nas transcrições em Excel que pro- latada, pretendíamos expandir nosso banco duzimos, de informações sobre a duração de de dados com o intuito de analisar narrativas cada unidade identificada e de informações referentes a ambas as histórias produzidas em relevantes a respeito das características for- cada uma das LS investigadas. Entretanto, res- mais e articulatórias de tais unidades de sinal trições de tempo e de financiamento nos im- (por exemplo: cada unidade foi codificada pediram de manter esse objetivo. O presente quanto ao tipo - sinal padrão ou EAI? EAI do estudo comparativo foi então redesenhado e subtipo TF, TS ou TP?; quanto à presença/ deve ser visto como uma exploração inicial ausência de deslocamento espacial; e quanto da questão em foco. Reconhecemos que uma às mãos usadas na produção dos componen- análise mais abrangente requer uma maior tes manuais das unidades de sinal). quantidade de dados nas línguas analisadas, Todas as transcrições foram subseqüen- coletados a partir dos mesmos materiais de temente revisadas por todos os co-autores elicitação. (juntamente com os dados originais gravados 6 Erin Wilkinson transcreveu os dados da ASL, Paolo Rossino, os da LIS, e Marie-Anne Sallandre, os da LSF. 7 Os auores têm pleno conhecimento de que a chamada anotação baseada em glosas, apesar de ser ainda uma prática comum entre quase todos os pesquisadores de línguas, impõe severas limitações no que diz respeito à análise de enunciações e discurso sinalizados, e que é necessário que se desenvolva sistemas mais apropriados para a anotação de produções sinalizadas em forma escrita. Para alguns trabalhos recentes sobre esse assunto, bem como possíveis soluções para o problema, o leitor interessado pode consultar Di Renzo & al (2006), Garcia 14 & Boutet (2006), e Pizzuto, Rossini & Russo (2006).
    148. Dêixis, anáfora e estruturas interlingüísticas nas Línguas de Sinais Americana (ASL), Francesa (LSF) e Italiana (LIS) em DVD), para uma verificação da uniformi- proporção nos textos, como mostraremos a dade das transcrições e das metodologias de seguir. Agrupamos todas as ocorrências de codificação. referências dêitico-anafóricas e, então, divi- O foco das análises foi as expressões re- dimos o número de casos em que uma MR ferenciais utilizadas no texto para introduzir foi realizada pelo número total de operações (deiticamente) e retomar (anaforicamente) de referência dêitico-anafóricas produzidas. os referentes animados e inanimados sim- bolizados nas narrativas. Dividimos todas as expressões referenciais em duas classes prin- 3. Resultados: A importância das EAI cipais: (a) sinais padrões e (b) EAI. enquanto recursos dêitico-anafóricos A primeira classe (doravante SPR) in- nas narrativas sinalizadas cluiu: (1) todos os sinais de grande carga se- mântica que aparecem com freqüência nos Os principais resultados desse estudo estão dicionários de LS (por exemplo, os sinais resumidos na Tabela 1 e nas Figuras 1-5, Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais padrões para ‘sapo’, ‘cavalo’, e ‘pote’); (2) mostradas abaixo. Na tabela e nas figuras, apontações manuais usadas para posicionar os sinalizantes individuais são indicados por os referentes em determinados pontos do es- sua língua e diferenciados por números (por paço de sinalização. exemplo: LIS-1, LIS-2 e LIS-3 indicam os A segunda classe incluiu todas as EAIs, três sinalizantes da LIS). A Tabela 1 mostra o distribuídas nas três classes principais (TF, número total de ocorrências (e a porcentagem TS e TP), como descritas na seção 1.1 aci- relativa) dos artifícios de referência dêitico- ma. Observe-se que, para os propósitos do anafórica, identificados nos textos produzidos presente estudo, os subtipos TF e TS de EAI por cada sinalizante, e divididos em sinais foram agrupados em uma única categoria padrões, EAI e produções mistas compostas (TF/TS), na seção de descrição de resultados de sinais padrões e EAI. a seguir. Tabela 1 Distinguimos um terceiro tipo de produ- Distribuição geral (número e porcentagens relativas) de sinais padrões (PDR), EAI e produções mistas de ção dêitico-anafórica que inclui combinações sinais padrões e EAI (MIX) usados como artifícios de ‘mistas’ (doravante ‘MIX’) de EAI e sinais referência dêitico-anafórica nos textos da ‘história do sapo’ produzidos pelos três sinalizantes de LIS e de ASL PDR (por exemplo, uma TF produzida com e nos textos da ‘história do cavalo’ produzidos pelos uma única mão que veiculava o significado três sinalizantes de LSF de ‘pote’, acompanhada por uma apontação Língua Número de % manual produzida com a outra mão, signifi- Sinalizantes ocorrências cando ‘este pote’). PDR EAI mix TOT PDR EAI mix TOT LIS-1 26 77 0 103 LIS-1 25 75 0 100 Ao analisar a distribuição dos sinais PDR LIS-2 23 96 0 119 LIS-2 19 81 0 100 em oposição às EAI, nas operações de refe- LIS-3 27 118 1 146 LIS-3 18 81 1 100 rências dêitico-anafóricas, exploramos pos- ASL-1 28 96 3 127 ASL-1 22 76 2 100 síveis diferenças relativas ao status (animado ASL-2 38 105 0 143 ASL-2 27 73 0 100 x inanimado) dos referentes simbolizados no ASL-3 26 100 0 126 ASL-3 21 79 0 100 discurso. Por fim, examinamos a incidência LSF-1 5 41 0 46 LSF-1 11 89 0 100 das MR (como definidas e descritas acima LSF-2 12 42 0 54 LSF-2 22 78 0 100 – veja os exemplos [4] e [5]), calculando sua LSF-3 8 62 1 71 LSF-3 11 87 1 100 14
    149. Elena Pizzuto, Paolo Rossini, Marie-Anne Sallandre e Erin Wilkinson Como pode ser observado, a partir do nú- mero total de ocorrências mostrado na parte es- querda da Tabela 1, embora os textos analisados tenham aproximadamente a mesma duração (1 minuto), as histórias ‘do cavalo’, produzidas pelos sinalizantes de LSF, contêm um número menor de ocorrências de referência dêitico- anafórica (entre 46 e 71), em comparação com o número maior de ocorrências encontrado nas seqüências da história ‘do sapo’, produzidas pe- los sinalizantes de LIS e de ASL (entre 103 e 146, ou seja, um número quase duas vezes maior). Isso mostra que a história específica utilizada e, mais provavelmente, a ‘extensão’ diferente das Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais histórias em termos do número de figuras que as compõe, influencia a produção da língua, ao menos de um ponto de vista quantitativo, o que não é nenhuma surpresa. Ao examinarmos a distribuição dos dife- rentes tipos de recursos dêitico-anafóricos nas três línguas consideradas, observamos que as porcentagens relativas, mostradas na parte di- reita da Tabela 1, apontam para o fato de que Figura 1- Referência dêitica a referentes as EAI são, de longe, os recursos mais freqüen- animados e inanimados: distribuição (%) dos temente usados nessas línguas, para se fazer a sinais padrões (PDR), das EAI e das produções referência dêitico-anafórica. De fato, elas são mistas (MIX) nos textos produzidos por produzidas em proporções bastante altas e si- sinalizantes da LIS, da ASL e da LSF milares na LIS (75% a 81%), na ASL (73% a 79%) e na LSF (78% a 89%). Em contrapartida, Os dados mostrados na Figura 1 destacam a categoria dos sinais PDR corresponde a pro- que em todas as três línguas de sinais, com porções consideravelmente menores (de 11% apenas uma exceção, os sinais padrões cons- até no máximo 25%), enquanto as produções tituíram a forma preferida para se introduzir, mistas correspondem a uma proporção total por referência dêitica, referentes animados e insignificante, numa faixa de 0% a 2%. inanimados no discurso (uma faixa de 50% As Figuras de 1 a 5 abaixo fornecem uma a 83%). As EAI foram menos freqüentes, descrição mais pormenorizada das regulari- mas mesmo assim ocorreram em proporções dades que identificamos entre as línguas. A significativas (17% a 45%). Um sinalizante Figura 1 focaliza a referência dêitica a refe- (LSF-1) não seguiu esse padrão e usou as EAI rentes animados e inanimados (reunidos em com muito mais freqüência (83%) do que os uma única categoria), mostrando a distribui- sinais padrões. As produções mistas também ção (em porcentagem relativa) dos PDR, das ocorreram, em pequenas proporções, nos 10 EAI e das produções mistas. textos de dois sinalizantes (LIS-3 e LSF-3).
    150. Dêixis, anáfora e estruturas interlingüísticas nas Línguas de Sinais Americana (ASL), Francesa (LSF) e Italiana (LIS) A Figura 2 mostra a distribuição de EAI em As Figuras 3a e 3b apresentam uma visão comparação com a dos sinais padrões quanto mais analítica das operações de referência dêiti- à referência anafórica a referentes animados ca, levando em consideração a variável anima- e inanimados. Os dados evidenciam grandes do/inanimado, e a distinção entre os subtipos semelhanças entre as línguas: as EAI são, de de EAI empregados pelos sinalizantes (isto é TP longe, a maneira predominante de se realizar a e TF/TS, conforme descritos anteriormente). referência anafórica, com proporções que va- Deve-se observar que, devido à estrutura das his- riam de 76% até 95%. Quanto ao uso dos si- tórias que analisamos, o número de referentes nais padrões, é interessante observar que uma introduzidos no discurso, portanto o número de proporção muito pequena das ocorrências de ocorrências das operações de referência dêitica, referência anafórica foi realizada apenas por limitou-se a: (a) apenas três referentes animados meio de apontações manuais. Tais apontações (o menino, o cachorro e o sapo para os sinalizan- não foram observados na produção de sinali- tes da LIS e da ASL; e, o cavalo, a vaca e o pássaro zantes da LSF, e são escassos nos textos da ASL para sinalizantes da LSF), e (b) um número pe- Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais (1% a 3%) e da LIS (5% a 7%). queno de referentes inanimados (de 4 a 10, de- pendendo da língua e do sinalizante). Figura 2 Referência anafórica a referentes Figura 3a - Referência dêitica a referentes animados e inanimados: distribuição (%) dos animados: distribuição (%) dos sinais padrões sinais padrões (PDR), das EAI e das produções (PDR) e das EAI (TP) nos textos produzidos por mistas (MIX) nos textos produzidos por sinalizantes da LIS, da ASL e da LSF 11 sinalizantes da LIS, da ASL e da LSF
    151. Elena Pizzuto, Paolo Rossini, Marie-Anne Sallandre e Erin Wilkinson Na Figura 3a, os dados mostram pa- drões de freqüência diferentes: um para a LIS e a ASL e outro para a LSF. Tanto na LIS quanto na ASL, a primeira referência dos sinalizantes aos três protagonistas ani- mados da história ‘do sapo’ é feita exclusi- vamente por meio de sinais padrões (os no- mes desses referentes). Em contrapartida, a primeira referência dos sinalizantes da LSF aos três referentes animados da história ‘do cavalo’ realizou-se ou por meio de si- nais padrões (em um ou dois dos três casos possíveis, dependendo do sinalizante), ou por meio de EAI, mais especificamente, por Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais meio de TP (nos casos restantes). É impor- tante lembrar que, enquanto a história ‘do sapo’ inclui um referente animado humano (o menino) além de outros dois referentes animais, a história ‘do cavalo’ tem apenas referentes animados animais. Não se pode ignorar o fato de que o uso de estruturas TP por parte de sinalizantes da LSF (além dos sinais padrões) foi, pelo menos em par- te, influenciado por essa propriedade dos referentes sobre os quais falavam. Também observamos que todos os três sinalizantes da LSF usaram uma estrutura TP para in- troduzir o referente ‘vaca’ em suas narra- Figura 3b - Referência dêitica a referentes tivas, articulando componentes manuais inanimados: distribuição (%) dos sinais padrões (PDR), das EAI (TP, TF/TS) e das produções mistas (ou ‘proformas’) bastante semelhantes. Tal (MIX) nos textos produzidos por sinalizantes da observação sugere a existência de uma in- LIS, da ASL e da LSF teração entre as propriedades semânticas e as propriedades constitutivas dos sinais Observando-se essa figura, percebe-se manuais usados para esses referentes, que que as EAI empregadas nesse caso perten- precisa ser investigada de forma mais apro- cem à categoria TF/TS. Observa-se, também, fundada. semelhanças consideráveis entre as três lín- A Figura 3b mostra o uso dos sinais pa- guas. Todos os sinalizantes, à exceção de um drões em comparação ao das EAI como re- (LSF-1), introduziram referentes inanimados cursos dêiticos para referentes inanimados. usando os sinais padrões (em proporções que 12
    152. Dêixis, anáfora e estruturas interlingüísticas nas Línguas de Sinais Americana (ASL), Francesa (LSF) e Italiana (LIS) variam de 43% a 78%), mas o uso das EAI foi entre os 9 sinalizantes, a TP anafórica ocor- também bastante representativo, seja isolada- reu em proporções que variaram de 48% a mente (de 22% a 50%), seja em conjunto com 93%, enquanto na produção de outro sina- as apontações (a categoria ‘mista’). O uso das lizante (ASL-2), a TP ocorreu em proporção estruturas TF/TS aumenta consideravelmen- reduzida, porém ainda significativa (33%). te na produção de LSF-1 (89%), o que sugere Quase todos os sinalizantes usaram também que a variação individual também precisa ser estruturas anafóricas TF/TS: estas ocorreram, levada em conta, para que se possa chegar a em média, em proporções menores (entre um melhor entendimento deste tópico. 2% e 27%), exceto na produção do sinali- As Figuras 4a e 4b focalizam, respectivamen- zante ASL-2, que usou a TF/TS anafórica te, a referência anafórica a referentes animados e mais freqüentemente (39%) do que a TP inanimados. Elas esclarecem as principais ten- anafórica (33%). O uso de sinais padrões dências e semelhanças entre as línguas destaca- para referência anafórica foi consideravel- das na Tabela 1 e na Figura 2, mostradas acima. mente menos freqüente (entre 22% e 26% Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais para os sinalizantes da LIS e da ASL, e, entre 7% e 10% para sinalizantes da LSF). Figura 4a - Referência anafórica a referentes animados: distribuição (%) dos sinais padrões (SPR) e das EAI (TP, TF/TS) nos textos produzidos por sinalizantes da LIS, da ASL e da LSF A figura 4a mostra que, em todas as três línguas de sinais, a re-introdução de refe- Figura 4b - Referência anafórica a referentes rentes animados no discurso foi realizada, inanimados: distribuição (%) dos sinais padrões, das principalmente, por meio de EAI, especial- EAI (TF/TS) e das produções mistas (MIX) nos textos mente as do subtipo TP. Na produção de 8 produzidos por sinalizantes da LIS, da ASL e da LSF. 13
    153. Elena Pizzuto, Paolo Rossini, Marie-Anne Sallandre e Erin Wilkinson A figura 4b mostra que, basicamen- te, o mesmo padrão se aplica à referência anafórica a referentes inanimados: em to- das as três línguas de sinais, observamos a ampla utilização de EAI, principalmente do subtipo TF/TS. Esta grande incidência de estruturas anafóricas TF/TS (de 73% a 100%) contrasta com o uso limitado dos sinais padrões. Esses não ocorreram na produção de três dos sinalizantes (ASL-3, LSF-1 e LSF-3) e ocorreram numa propor- ção de 3% a 27% na produção dos demais sinalizantes. Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais 3.1 A incidência das operações de múlti- pla referência A figura 5 mostra com que freqüência o uso Figura 5 – Proporção de operações dêitico- de EAI possibilitou aos sinalizantes a produ- anafóricas de múltipla referência (MR) realizadas ção do que denominamos ‘múltipla referên- a partir de EAI nos textos produzidos por cia’ (MR), isto é, uma organização multilinear sinalizantes de LIS, ASL e LSF de informações, por meio da qual dois ou até mais referentes podem ser simultaneamente especificados e/ou mantidos no tempo e no 4. Considerações finais espaço, e que parece ser exclusiva das LS (veja exemplos na seção 1.1). Os dados por nós analisados revelam uma Na figura 5, os dados mostram que hou- clara semelhança entre as três línguas exa- ve produção de MR em todas as três línguas minadas. Retomando as questões de pesqui- de sinais, embora em proporções diferentes: sa que formulamos, observamos que as EAI a freqüência de MR foi consideravelmente constituem o recurso mais usado para se fazer maior na produção dos sinalizantes da LIS referência anafórica no discurso sinalizado, (de 31% a 51%), e relativamente menor na sendo que as estruturas TP são mais usadas produção dos sinalizantes da ASL (de 17% a quando se trata de referentes animados, sen- 31%) e da LSF (11% a 23%). Embora sejam do as estruturas TF/TS mais usadas quando observadas diferenças de uso entre indivídu- se trata de referentes inanimados. Nesse as- os e entre línguas, parece inquestionável que pecto, foi interessante descobrir que as EAIs a MR é um fenômeno relevante que merece também podem ser usadas para a introdução total atenção em análises e descrições de nar- dêitica de referentes animados via estruturas 14 rativas sinalizadas. TP (o que observamos exclusivamente nas
    154. Dêixis, anáfora e estruturas interlingüísticas nas Línguas de Sinais Americana (ASL), Francesa (LSF) e Italiana (LIS) produções dos sinalizantes da LSF) e para a como as receitas culinárias. Resultados com- introdução dêitica de referentes inanimados paráveis relativos à LIS foram encontrados, via estruturas TF/TS (o que observamos, em utilizando-se uma terminologia diferente, proporções variáveis, mas significativas, em em um estudo comparativo de textos poéti- todas as três línguas de sinais). cos e expositivos (Russo, 2004; Russo & al, Nossos dados também mostram que em 2001). Embora tais estudos, ao contrário do todas as três línguas de sinais (novamente em nosso, não tratem especificamente das fun- proporções variáveis, mas significativas), as ções dêitico-anafóricas das EAI em compara- EAI permitem a realização de operações de ção com as dos sinais padrões, eles mostram referência dêitico-anafórica de MR, uma ca- claramente que o gênero do discurso é uma racterística exclusiva do discurso sinalizado, variável importante que precisa ser levada em que mereceu destaque, a partir de diferentes consideração. perspectivas, em vários estudos recentes e Relembrando a fundamentação teórica não tão recentes (Dudis, 2004; Pizzuto & al, apresentada na seção 1.1, pode-se observar Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais 1990; Russo, 2004; Russo & al 2001; Verme- o seguinte: as evidências por nós discutidas erbergen & al, 2007, entre outros). questionam a visão consideravelmente dis- As semelhanças interlingüísticas iden- seminada de que o estabelecimento de ‘loci’ tificadas parecem estar mais relacionadas a no espaço é a maneira principal ou ‘padrão’ características próprias da modalidade visu- de se realizar operações dêitico-anafóricas al-gestual, do que à língua específica. De fato, numa LS. Como já observamos, nas narrati- para além das diferenças individuais, encon- vas analisadas, essa estratégia nunca foi usada tramos padrões gerais semelhantes não ape- por sinalizantes da LSF e foi pouco usada por nas na ASL e na LSF, duas línguas com vín- sinalizantes da ASL e da LIS. culos históricos conhecidos, mas também na Nossos dados são mais compatíveis com LIS, uma língua que não apresenta vínculos - e, portanto, corroboram - modelos for- com a ASL ou com a LSF. mais que atribuem a características icônicas Antes que se possam fazer afirmações um papel estrutural central na produção mais conclusivas sobre a generalização dos do discurso sinalizado em diferentes níveis padrões por nós encontrados, é necessária a de análise (Cuxac, 1985; 1996; 2000; Cuxac realização de estudos interlingüísticos mais & Sallandre, 2004/no prelo; Pietrandrea & abrangentes. É necessário se coletar e analisar Russo, 2004/no prelo; Pizzuto, 2004/no pre- mais dados sobre LS sem relações históricas lo; Russo, 2004; Russo & al, 2001; Sallandre, e que sejam geograficamente distantes, além 2003; 2006; 2007; Sallandre & Cuxac, 2002). de se analisar diferentes gêneros de discur- Considerando-se que as operações dêitico- so sinalizado. As análises de diferentes tipos anafóricas são concebidas como uma função de discurso na LSF realizadas por Sallandre universal da língua humana para a realização (2003) já demonstraram que a freqüência da coesão textual, pode-se afirmar que a utili- com que as EAI são usadas é influenciada, zação generalizada das EAI em tais operações de forma significativa, pelos tipos de discur- constitui um indício extra da relevância das so. Como observado nesse estudo, na LSF, as propriedades icônicas para um melhor en- EAI são muito mais freqüentes nas narrativas tendimento e uma descrição mais completa do que nos textos ‘prescritivos/descritivos’, da gramática das LSs. 1
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    158. Tipos de representação em ASL1 Paul G. Dudis Departamento de Lingüística Dawes House Gallaudet University 800 Florida Avenue NE Washington, DC 20002 paul.dudis@gallaudet.edu 1. Introdução ral na qual o sujeito representado existe. O corpo e o espaço ao seu redor são freqüen- 2. Sinais de representação vs. Sinais temente usados no discurso em ASL, para des- de não-representação crever as entidades da cena sendo representa- da. Uma análise minuciosa da representação Muitas palavras nas línguas de sinais exibem usando padrões lingüísticos cognitivos sugere mapeamentos icônicos, mas apenas algumas que componentes adicionais se revelam nes- dessas palavras têm a habilidade de represen- sas representações icônicas, a saber, o sujeito tar visualmente componentes semânticos. (ou o eu), o ponto de visualização (vantage De acordo com Liddell (2003), utilizo o ter- point ou V-POINT) e a progressão temporal. mo representação (depiction) para descrever A identificação desses componentes contri- essa habilidade. A distinção entre sinais que bui para uma maior separação na descrição representam e aqueles que não o fazem é dis- dos vários tipos de representação observados cutida abaixo, seguida por uma descrição de no discurso em ASL, o que, por sua vez, nos um teste informal para determinar o status leva a um maior entendimento de questões de um sinal da ASL enquanto um verbo re- que envolvem a representação. Uma questão presentativo de evento. especialmente interessante é a relação entre a O substantivo PÁSSARO (BIRD) na ASL representação de um evento que envolve um (Figura 1) exemplifica um sinal icônico, mas sujeito e os sinais produzidos durante a re- não-representativo. As correspondências icô- presentação. A análise seguinte discute um nicas que o sinal exibe provavelmente podem padrão no qual, quando uma ação de um su- ser percebidas sem dificuldade, por qualquer jeito está sendo representada, qualquer sinal pessoa que saiba o que são pássaros e o que o ou gesto produzido é necessariamente asso- sinal significa. O articulador manual corres- ciado à representação da progressão tempo- ponde ao bico, sua localização corresponde à localização da cabeça do pássaro e assim por 1 Traduzido por: Maria Lúcia Barbosa de Vasconcellos, Lincoln Paulo Fernandes, Lautenai Antonio Barthalamei Junior, José Rodolfo da Silva
    159. Paul Dudis diante. Porém, o sinal não serve para des- de corrente de ação, a trajetória literal ou a crever a aparência de um pássaro, nem para trajetória metafórica – motivam a direcio- descrever suas ações. Para usar um termo nalidade nesses verbos. Entretanto, com um tanto popular, é um sinal “congelado” exceção desses e de outros elementos icôni- (frozen). Além disso, a iconicidade de mui- cos que podem ser discernidos, os verbos de tos sinais, como o sinal PÁSSARO, não cor- indicação não representam eventos. O verbo responde à esquematicidade do conceito que DARy codifica a transferência de qualquer este simboliza. De acordo com Taub (2001), objeto dentro de uma grande gama de pos- tais sinais designam uma categoria geral de sibilidades, por exemplo, um documento de coisas diversas, mas relacionadas – qualquer papel ou um utensílio de cozinha, como um ave com uma morfologia de bico diferente do liquidificador. Esses objetos são segurados protótipo pode ainda ser chamada de PÁS- de modos diferentes, alguns exigindo o uso SARO. de duas mãos, sendo muitos desses objetos impossíveis de serem segurados com a confi- Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais guração de mão similar àquela usada no ver- bo DARy. Além disso, o movimento restrito ao pulso em DARy tipicamente produzido durante a sinalização informal não lembra nenhuma das maneiras usuais de passar, fisi- camente, um objeto para alguém. Figura 1 Muitos verbos na ASL também são icô- nicos, mas não-representativos. Dois ver- bos desse tipo são os verbos de indicação DARy (GIVE) e EXPLICARy (EXPLAIN), parcialmente representados nas Figuras 2 e 3. Quando consideramos a configuração de mão do verbo DARy e o que o sinal sim- boliza, fica claro que existe uma iconicidade “mão-por -mão”. Ao contrário disso, quan- do consideramos a configuração de mão do verbo EXPLICARy e o que o sinal simboliza, uma iconicidade “mão-por-mão” não é facil- mente aparente. A direcionalidade é icônica em ambos os verbos. Taub (2001) descreve como as trajetórias conceituais – a trajetória 10 Figura 2
    160. Tipos de representação em ASL de demonstrar uma representação dinâmica e visual de uma transferência, o que é uma demonstração e, não, uma “simples” des- crição. Uma forma como o verbo pode ser usado é semelhante a uma re-encenação por um ator, mas com apenas a parte superior do corpo do sinalizante sendo usada para criar a única parte visível da representação, o “doador”. Ao invés de um objeto visível, a entidade transferida é representada por uma pequena porção de espaço ocupada Figura 3 em parte pela mão do sinalizador, e ao invés de outro ator, o destinatário é representado A representação é um tipo de iconicida- por uma porção maior de espaço diante do de diferente daquela exibida por substanti- Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais sinalizante. vos e verbos de indicação. Conforme des- A habilidade de um verbo representar crito em Liddell (2003), alguns verbos têm, um evento pode ser determinada por um além de suas funções comuns enquanto teste informal que inclui a representação de verbos, a habilidade de representar o evento uma seqüência de eventos executada pelo que eles codificam. ENTREGAR (HAND- sinalizante, que está representando um TO) é um exemplo de um verbo que repre- participante animado do evento durante senta um evento. Não se trata de uma for- a seqüência. Se o verbo em questão pode ma derivada do verbo DARy e, sim, de um ser sinalizado enquanto o participante do verbo independente (esses dois verbos são evento estiver sendo continuadamente re- também contrastados em Padden 1986 e P. presentado, então, provavelmente, ele é Wilcox, 1998). ENTREGAR pode ser usado um verbo representativo. Por exemplo, a forma para descrever apenas a transferência de ob- CUTUCAR-O-OMBRO (TAP-SHOULDER) jetos que podem ser segurados entre o po- representa a maneira prototípica de chamar legar e os outros quatro dedos da configu- a atenção de alguém na comunidade surda ração de mão – um documento de papel ou dos EUA. Já que o doador, tipicamente, tem um cartão de crédito, mas certamente não a atenção do destinatário anteriormente ao um liquidificador. Essa é uma das maneiras ato de transferência, é um verbo ideal para como a iconicidade do verbo restringe seu ser usado na primeira parte da representa- uso. Além disso, a orientação contínua da ção da seqüência de eventos. A cena sendo palma da mão para cima e a trajetória da representada, então, tem alguém chaman- mão criada pelo cotovelo emulam o movi- do a atenção de outro indivíduo e dando mento físico de um evento de transferência. um objeto a essa pessoa. A representação Entretanto, não é o alto grau de mapeamen- da parte da cena referente ao ato de cha- to da cena codificada com a forma do verbo mar a atenção está parcialmente represen- que ele codifica que faz com que o sinal seja, tada na Figura 4a. Aqui, o sinalizante está necessariamente, um verbo de representa- conceituado como sendo quem chama a ção. Ao contrário, é a habilidade do verbo atenção e imagina-se que a localização em 11
    161. Paul Dudis cuja direção a mão se move é o ombro de da tanto em um verbo representativo, como alguém. O verbo DARy não poderia se- em um verbo não-representativo. Outras ce- guir imediatamente isso se o sinalizante nas são codificadas de modo semelhante nes- desejar representar uma transferência. Já ses dois tipos de verbos, incluindo uma cena que o verbo ENTREGAR pode representar na qual um objeto é mostrado para alguém. uma transferência nesses termos (Figura MOSTRARy (Figura 5) é um verbo demons- 4b), seu status de verbo representativo é trativo na ASL. confirmado. A utilidade desse teste é evi- dente já que confirma também o status de verbo não-representativo de EXPLICARy assim como o de outros verbos indicativos como MOSTRARy (SHOW) e CONTARy (TELL). Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais Figura 4a Figura 5 A partir da semântica do verbo e do co- nhecimento cultural associado, suas configu- rações de mão podem ser vistas como icônicas para um objeto plano e para um dedo apon- tando para algo naquele objeto, por exemplo, uma informação em um documento. Para determinar se esse verbo pode representar um ato de demonstração, um teste da repre- Figura 4b sentação de seqüência de eventos similar ao acima pode ser usado. A primeira parte do teste representa um indivíduo sendo abor- Com os verbos DARy e ENTREGAR, dado por alguém, por exemplo, como um vemos que uma certa cena pode ser codifica- policial (Figura 6a). MOSTRARy não pode 12 seguir essa representação se o sinalizante de-
    162. Tipos de representação em ASL sejar continuar a representar o indivíduo. O bos). Durante toda a representação, o olhar contato visual estendido que haveria entre do sinalizante é continuamente direcionado os participantes na seqüência de eventos não ao indivíduo, mesmo durante a produção pode ser representada durante a produção de dos sinais. Além disso, depois de ser direcio- MOSTRARy nesse caso, demonstrando que nado ao indivíduo, a mão pode permanecer o sinalizante não está representando nenhum no lugar, com o olhar continuando fixo na dos participantes do evento. Se o sinalizante direção do indivíduo, representando a dura- desejasse representar essa pessoa enquanto re- ção da apresentação. Tipicamente, isso não é presenta o ato de mostrar o objeto, um verbo possível com o verbo MOSTRARy. O verbo diferente teria que ser usado. Se o objeto fosse de indicação é direcionado com as pontas dos um documento, a configuração de mão seria dedos da mão não-dominante (o “documen- similar àquela de ENTREGAR (Figura 6b). to”) mais ou menos apontando na direção da pessoa a quem o objeto é mostrado. Um ver- bo semelhante apresenta a palma direciona- Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais da a essa pessoa e pode permanecer no lugar com o olhar direcionado à mesma localiza- ção. Esse é um verbo diferente –– que é apro- vado no teste de representação de seqüência de eventos –– por meio do qual as mãos não apenas mostram, mas representam um docu- mento e um dedo apontando para algo nele. Figura 6a Existem algumas cenas que são codifica- das através de verbos de indicação que não estão presentes em verbos de representação. Alguns exemplos são as cenas que são codifi- cadas em CONTARy e EXPLICARy. Ambos os verbos exibem uma iconicidade “mão-por -mão” do mesmo modo que outros verbos de indicação o fazem. CONTARy tem um dedo indicador se movendo do queixo em direção à pessoa que recebe a informação. Esse dedo não parece representar nenhum dedo que faz parte do evento. EXPLICARy tem configu- rações de mão em F movendo-se bidirecio- Figura 6b nalmente em direção a um participante do evento e essas configurações de mão também Se for entendido que o documento já não são icônicas para nenhum componente está na mão, esse verbo pode seguir imedia- dentro do evento codificado. tamente o verbo que representa a abordagem Apesar de tanto CONTARy como de um indivíduo e pode ser direcionado à sua EXPLICARy parecerem não contar com presença imaginada (senão a representação verbos de representação correspondentes, de como o documento veio a ser segurado parece haver um modo de representar um 13 provavelmente interviria entre os dois ver-
    163. Paul Dudis evento no qual um indivíduo está explicando A habilidade de a forma aspectual de algo para alguém que não faz uso de diálogo EXPLICARy ser produzida como parte de construído. No teste de seqüência de eventos, uma representação de seqüência de eventos EXPLICARy não pode seguir CUTUCAR-O- na qual o sinalizador representa um partici- OMBRO ou outro sinal que representa o ato pante do evento parece invalidar o teste como de chamar a atenção por meio de um rápido modo de identificar verbos de representação. aceno da mão (Figura 7a). Porém, o que apa- O que acontece, ao invés disso, é que esse fato renta ser uma forma aspectual do sinal pode demonstra a maior aplicabilidade do teste. fazer isso. Na Figura 7b, o sinalizante, repre- O teste pode ser usado para determinar não sentando a pessoa que explica, demonstra apenas se um dado verbo pode ser produzido como o contato visual é feito, qual expressão dentro da representação de um evento, mas facial é usada e assim por diante. Durante essa também se outras unidades ou convenções demonstração, o sinalizante também produz lingüísticas podem ser produzidas dentro um sinal relacionado a EXPLICARy. Esse si- de representações de um evento. No restan- Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais nal pode ser produzido num espaço de tem- te deste artigo, minha intenção é explicar as po similar ao tempo que se leva para produzir circunstâncias que permitem que diferentes a forma de citação do verbo indicativo, mas tipos de representações sejam produzidos na pode ser produzido por um período de tempo ASL. A Seção 3 revisa o modelo de combina- mais longo. Isso sugere que o sinal é uma for- ção (blending model) (Fauconnier & Turner ma aspectual do verbo de indicação. 1886, 2002) que é usado aqui para analisar o processo conceitual subjacente à representa- ção. A Seção 4 descreve a variedade de repre- sentações observadas no discurso em ASL. A Seção 5 examina as restrições no uso de itens lingüísticos quando um participante anima- do de um evento está sendo representado pelo sinalizante, um produto de integração conceitual aqui chamado de |sujeito|. 3. A representação de diálogo na ASL Figura 7a A teoria de combinação conceitual (Fauconnier & Turner 1996, 2002) fornece uma manei- ra elegante de descrever representações na ASL. Nessa seção, a análise de combinação básica é aplicada à representação de diálo- go na ASL (ver Liddell e Metzger 1998, para uma análise de combinação similar); outros tipos de representações são analisados na próxima seção. A representação de diálogo 14 Figura 7b é popularmente conhecida como um tipo de
    164. Tipos de representação em ASL “mudança de papel” e é também chamada O diálogo construído não é simplesmente de “diálogo construído” (ver Tannen 1989, uma representação um-a-um. É um ato cria- para discussão sobre diálogo construído em tivo, em que o sinalizante e o destinatário ima- línguas faladas; ver Roy 1989, Winston 1991 ginam os interlocutores do diálogo representa- e Metzger 1995, para discussão sobre diálogo dos como estando presentes. O envolvimento construído na ASL). dessa imaginação fica claro quando se percebe O diálogo construído na ASL é, normal- que, onde o destinatário identificaria o “sina- mente, mais do que apenas a representação lizante-como-interlocutor”, outros indivíduos de um enunciado; como pode ser visto em sem acesso ao discurso identificariam o sinali- exemplares de diálogos construídos na ASL, zante apenas como sinalizante. Uma maneira o interlocutor que produz o enunciado tam- de representar como pode haver duas concei- bém está sendo representado. Na Figura 8, tuações diferentes associadas ao sinalizante é o sinalizante está produzindo um pronome utilizar o modelo de combinação conceitual, singular de segunda pessoa gramatical e o que passo a descrever. Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais sinal não-manual para perguntas sim/não. Os conceitos que são combinados duran- O sinalizante também está observando uma te o diálogo construído são correspondentes área acima da localização, em cuja direção o de dois espaços mentais distintos. É constru- pronome está sendo direcionado. A aparente ído um espaço mental por meio do discurso, mudança de foco de atenção do sinalizante no qual itens lingüísticos introduzem elemen- para além do destinatário enquanto conti- tos e estabelecem as relações entre eles. Como nua a sinalizar é uma das pistas que mostram o sinalizante está descrevendo um conversa que um diálogo construído está acontecendo. entre dois indivíduos, esse espaço mental tem Durante todo o diálogo construído, entende- dois elementos, interlocutor 1 e interlocutor 2. se que o sinalizante está representando um Se esses interlocutores fossem apresentados interlocutor e sua sinalização mostra o que foi pelo nome, então esses elementos podem ser dito no diálogo que está sendo representado. nomeados adequadamente no modelo, por Uma porção do espaço à direita do sinalizan- exemplo, Trancy e Dana. Esse espaço mental te nessa representação é entendida como es- é nomeado Espaço-do-Evento nos diagra- tando representando o segundo interlocutor. mas que se seguem. O outro espaço mental é diferente no sen- tido de que não é criado via meios lingüísti- cos, mas é uma conceitualização do ambien- te adjacente. Esse é o Espaço-Real (Liddel 1995). Para demonstrar, rapidamente, a na- tureza de alguns dos elementos dentro desse espaço mental, imagine que alguém mostre a você um instrumento de escrita. Você teria um elemento de Espaço-Real que é uma con- ceitualização do instrumento, mas que não é o instrumento em si. Você está ciente da pre- Figura 8 sença do instrumento na sua frente, porque seu sistema perceptual absorve o ambiente 1
    165. Paul Dudis externo e cria uma representação cognitiva dentes um do outro. O que o sinalizante e o dele. Já que os respectivos Espaços-Reais do interlocutor 1 têm em comum é que eles são sinalizante e o do destinatário diferem, eles conceitualizadores capazes de experienciar têm elementos de Espaço-Real diferentes. O pensamentos, sensações físicas, etc. Existem primeiro tem uma conceitualização do desti- vários termos candidatos para descrever os natário e o segundo, uma conceitualização do correspondentes, inclusive “eu” (self) (ver sinalizante. Um outro elemento do Espaço- Cutrer 1994, para uma discussão sobre versões Real é o espaço vazio adjacente aos dois. Em fortes e fracas do V-POINT). Ao descrever a investigações recentes acerca da representa- relação entre um participante de um ato de ção na ASL (por exemplo, em Liddle 2003), fala e o significado das expressões produzidas o sinalizante do Espaço-Real e o sinalizante durante o discurso, Langacker (2000) nomeia do espaço adjacente foram virtualmente os o primeiro como sujeito de concepção. Usa- únicos elementos que contribuem para a re- rei aqui sujeito para descrever o sinalizante presentação de diálogo (ou outras ações que do Espaço-Real e os correspondentes poten- Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais são representadas como passíveis de ocorrer ciais no outro espaço de input (e esse termo em uma escala humana). Liddel (2003:151) não deve ser confundido com a relação gra- não parece fazer distinção entre o sinalizan- matical de mesmo nome). Em sua discussão te e o corpo, mas como veremos na próxima sobre os efeitos de observação (viewing effects) seção, existem bons motivos para fazer isso. exibidos em várias expressões, Langacker ob- Além disso, outros elementos do Espaço- serva como noções associadas com percepção Real descritos abaixo também participam na têm análogos às noções de concepção e usa o representação de diálogo e outros eventos e termo “observador” (viewer) para descrever na próxima seção, ficará claro como a iden- o indivíduo que percebe entidades e o que tificação desses outros elementos apresenta apreende o significado das expressões. “Ob- benefícios descritivos. servador” é um termo candidato tão bom Parte do processo de representação de quanto “sujeito”, mas o segundo parece de- diálogo envolve a criação de conexões cor- mandar menos explicação. respondentes entre elementos dentro do Es- O interlocutor 2 também é um sujeito, paço-do-Evento, por um lado, e do Espaço- mas já que o sujeito do Espaço-Real já está Real, por outro. Para facilitar essas conexões, nomeado interlocutor 1, não existe sujeito do um processo de esquematização é necessário, Espaço-Real disponível para se integrar com assim como um Espaço Genérico, que con- ele. Ao invés disso, o que é utilizado é uma tenha os elementos relevantes que os inputs porção de espaço vazio perto do sinalizante, têm em comum. O sinalizante do Espaço- nomeado, por conveniência, “porção espacial Real e o interlocutor 1 do Espaço-do-Evento 2”. Esse espaço físico adjacente ao sinalizante são conceitos diferentes. As diferenças entre é um elemento do Espaço-Real que é divisível os dois podem ser de idade, gênero, raça, ca- em muitas porções diferentes. O mapeamen- racterísticas físicas e assim por diante. Além to correspondente entre o interlocutor 2 e a disso, apenas o sinalizante do Espaço-Real é “porção espacial 2” é em parte motivado por visível e tem dimensões específicas. É possível como ambos podem ser vistos como ocupan- abstrair essas diferenças para que os dois ele- do uma área de espaço dentro de um espaço 1 mentos possam ser vistos como correspon- maior. A localização específica do Espaço-
    166. Tipos de representação em ASL Real que é selecionada é freqüentemente mo- DANA [FRIO FRIO] “Engraçado – Dana fala tivada pelo conhecimento acerca das relações ‘Está frio, está frio!’” Nesse caso, no mínimo locativas não apenas entre os interlocutores, o co-anfitrião precisa estar ciente de certas mas também dentro de um cenário geral a circunstâncias anteriores à enunciação repre- partir da perspectiva do interlocutor 1. Aqui sentada, como o fato de o ar condicionado podemos ver que um outro mapeamento estar, no momento, em funcionamento má- correspondente acontece, o qual envolve os ximo, mas elas não precisam incluir a locali- elementos do cenário dentro dos espaço de zação específica onde a enunciação foi feita: input. O cenário do Espaço-do-Evento e ce- Dana poderia estar em qualquer lugar na casa nário do Espaço-Real, apesar de distintos, são (mas não no jardim), onde se sabe que existe obviamente correspondentes ideais. ar frio. Às vezes, as especificações do cenário não A representação não surge, simplesmen- são relevantes na representação de diálogo, te, das conexões correspondentes entre os mas já que todo diálogo e, na verdade, to- inputs. Em nenhum espaço de input existe Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais dos os eventos, devem ocorrer dentro de um algo sendo representado pelo sinalizante. É cenário, a rede de combinação subjacente em um quarto espaço mental, a combinação, ao diálogo construído invariavelmente terá que o diálogo e os interlocutores são repre- mapeamentos correspondentes de cenário. sentados. Os elementos correspondentes são Além disso, a interação entre os interlocuto- integrados na combinação, criando novos res é tanto espacial quanto energética. Assim, elementos. Já que o sinalizante está visível, ainda que o sinalizante possa escolher não essa propriedade é herdada pelo |interlocutor incluir detalhes sobre as circunstâncias do 1|, o único elemento visível na combinação. evento que está sendo representado, como a Enquanto essa combinação estiver ativada distância entre os interlocutores, ainda pre- e funcionando para representar diálogo, as cisará representar uma relação espacial entre ações executadas pelo sinalizante, ou seja, sua eles, independentemente de quão esquemá- sinalização, é entendida como sendo desem- tica sua construção possa ser. O lado para o penhada pelo |interlocutor 1|. O |interlocu- qual a canônica “mudança de corpo” se di- tor 2| é o resultado da integração do interlo- rige pode ser visto aqui, então, como menos cutor 2 e a “porção espacial 2”, assim esse ele- motivado, mas não completamente arbitrá- mento não é visível. Porém, ele não tem uma rio. Para que o sujeito do Espaço-Real par- presença conceitual na combinação. Exceto a ticipe da representação, um distanciamento atenção dada ao |interlocutor 2| por parte do temporário (mas não completo) do destina- |interlocutor 1|, a evidência de sua presença tário se faz necessário. Igualmente necessário está na habilidade de o sinalizante direcionar é o estabelecimento de uma relação espacial os sinais para a localização onde se imagina distinta da que existe entre os interlocutores que o |interlocutor 2| está, durante o diálogo, do Espaço-Real ou, pelo menos, a relação do construído ou não. A combinação também indivíduo com um cenário. Por exemplo, o apresenta um elemento, o |cenário|, que exis- sinalizante pode relatar a um co-anfitrião de te via integração dos elementos de cenário no uma festa de verão em uma casa sobre como Espaço-do-Evento e no Espaço-Real, ambos um dos convidados reagiu com relação à for- servindo como inputs para a combinação. A ça do novo ar condicionado: ENGRAÇADO Figura 9 ilustra o modelo em rede (network 1
    167. Paul Dudis model) de quatro-espaços de diálogo cons- mas entendemos o evento por inteiro como truído na ASL. (As linhas ligando elementos sendo o ato de comunicar algo a alguém, correspondentes não foram incluídas, para através de linguagem. A representação de fins de simplicidade diagramática.) ação ao invés de diálogo, usando expressão facial, postura corporal, maneirismos e ações Espaço genérico manuais não-lingüísticas, pode ser identifi- Individual 1 Individual 2 cada como ação construída (Winston 1991, Cenário de progressão emporal Metzger 1995). Antecipando a discussão de Espaço do Evento Espaço Real múltiplos elementos combinados visíveis na próxima seção, é válido observar que o mes- Interlocutor 1 Interlocutor 2 Cenário de progres- mo tipo de rede de combinação subjaz tanto são temporal representações mínimas, quanto elaboradas. Sujeito As representações de diálogo discutidas aqui Espaço i2 |interlocutor 1| |interlocutor 2 Cenário atual de têm, apenas, um elemento visível na combi- progressão temporal |progressão temporal| Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais |cenário| nação, o |interlocutor|. Todas as ações ma- nuais, as expressões faciais e as posturas cor- Espaço combinado porais que se pretende como demonstrações Figura 9 visuais são entendidas como ações feitas pelo |interlocutor|. Como descrito acima, a representação de diálogos diretos na ASL é mais do que apenas a representação de um conjunto de enuncia- 4. Projeção Seletiva de Componentes dos. No mínimo, o sinalizante direcionará do Espaço-Real seu rosto e olhar para uma porção seleciona- da de espaço físico para representar a atenção Na seção anterior, o diálogo construído foi dada por um interlocutor a outro. Um exem- descrito como um tipo de representação na plo de uma mínima representação de diálogo ASL e o processo de criar a representação foi ocorre como parte de uma porção maior de explicado, usando-se o modelo de combina- discurso. Aqui a única representação é de al- ção conceitual. Dois elementos do Espaço- guém perguntando “por quê?”, seguida por Real também foram introduzidos: o sujeito e continuação do discurso, em que não exis- o cenário. A seguir, descrevemos outros tipos te representação: PRO-1 [POR QUE], PRO de representação. Como demonstraremos, NÃO-SEI “Eu perguntei ‘Por quê?’ e ela dis- a existência de diferentes tipos de represen- se que não sabia.” Isso se contrasta a outros tação é uma conseqüência da disponibilida- exemplos de diálogo construído, tipicamente de de outros elementos do Espaço-Real que com maior duração, onde o sinalizante tam- participam da representação, assim como bém representa simultaneamente a expressão da projeção seletiva (Fauconnier & Turner facial, a postura corporal e até maneirismos. 1998) desses elementos na combinação. Esses, juntamente com a representação de Vale explicar o que se entende por “ele- atenção, complementam a representação do mento do Espaço-Real”. O que é relevan- diálogo em si e são ações, ao invés de diálogo. te aqui é a base (ground), que é usada para 1 A produção de sinais também é uma ação, “indicar o evento de fala, seus participantes
    168. Tipos de representação em ASL e o cenário” (Langacker 1987:126). Liddel (Langacker 2000). De qualquer modo, o sina- (1995:22) descreve Espaço-Real como um lizante sempre tem alguma consciência do eu “espaço mental enraizado”. Desse modo, o que existe como parte da base, sendo o “lócus Espaço-Real é contrastado com o outro es- de experiência” (Lakoff 1996:93). Esse sujei- paço de input que, nos termos de Liddell, é to/eu é parte do Espaço-Real de alguém, exlu- um espaço mental não-embasado que tem sivo àquele indivíduo. Também exclusivo ao elementos próprios. Como mencionado aci- conceitualizador é o ponto de visualização, ma, uma distinção útil entre os dois espaços “a posição a partir da qual uma cena é vista” de input é o fato de o espaço mental ser ou (Langacker 1987:123). Um objeto dentro de não ser estabelecido e estruturado via meios um cômodo pode ser um elemento do Espa- lingüísticos. O Espaço-Real não o é, já que é ço-Real para os indivíduos, mas a partir de o espaço mental de um indivíduo que está um ponto de visualização exclusivo. A noção continuadamente ativo dentro ou fora do de sujeito necessariamente supõe um ponto discurso. Esse espaço mental emerge da ab- de visualização exclusivo, já que uma pessoa Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais sorção contínua de informação externa atra- sempre se encontra em uma localização espe- vés dos sistemas visual e auditivo (Langacker cífica dentro de um cenário maior. Passamos 1987:112). A conceitualização que se faz de agora à discussão da vantagem descritiva de qualquer objeto percebido como presente é o se fazer uma distinção entre o sujeito e o pon- elemento do Espaço-Real e isso inclui outros to de visualização onde uma representação é indivíduos com quem se interage. O fluxo de envolvida. sinais lingüísticos é também uma entidade do Espaço-Real, mas as construções de significa- dos resultantes que os sinais ativam exigem um arranjo de espaços mentais contendo ele- mentos que não são (pelo menos, não estrita- mente) elementos do Espaço-Real. Outros componentes da base são tam- bém componentes do Espaço-Real. A au- toconsciência do sinalizante é certamente parte da base. O sinalizante não está sempre totalmente consciente de si mesmo, como Figura 10 acontece freqüentemente durante episódios de devaneio, mas ao retornar às circunstân- Primeiramente, é interessante usar ilus- cias presentes, o sinalizante se torna mais au- trações simples como a Figura 10 para mostrar toconsciente. Essa diferença de consciência os componentes combinados que existem em é uma diferença relativa à maneira como o diferentes tipos de representação. A Figura sujeito de concepção é construído. Em um 10 mostra os componentes combinados em extremo, o sinalizante está totalmente au- quase todo diálogo construído envolvendo toconsciente – e, assim, é construído como dois interlocutores. Representar o |cenário| é completamente objetivo – e no outro extremo, como um contêiner em forma de caixa, den- o sinalizante está menos autoconsciente – e as- tro do qual estão duas figuras. Uma delas é sim construído como completamente subjetivo o |sujeito| e sua visibilidade é indicada por 1
    169. Paul Dudis uma imagem com um campo sombreado. previamente estabelecido, contendo certos A segunda figura é o outro |interlocutor| e a elementos associados com a cozinha sendo ausência de campo sombreado indica a não- descrita. Elementos nesse Espaço-de-Cozi- visibilidade do elemento combinado (a seta nha incluiriam a cozinha e a luminária. Já abaixo do diagrama será explicada adian- que a cozinha é um elemento nesse espaço te). Deve-se reconhecer que esse diagrama mental, os sinalizantes também têm acesso ao e os outros abaixo basicamente indicam os conhecimento geral, ou um quadro mental componentes combinados e a sua relação es- (frame), referente a cozinhas, por exemplo, quemática um com o outro, por exemplo, o é um tipo de cômodo com as paredes, teto, |sujeito| existe dentro de um |cenário| com piso e entradas típicas. Se o sinalizante dese- um |interlocutor| à sua frente. A figura que jar descrever a localização dessa luminária, a mostra o |sujeito| é um boneco de palito que convenção gramatical da ASL é não produzir está em pé, mas os sinalizantes podem, obvia- uma construção perifrástica como “no teto”. mente, produzir enunciados enquando estão Ao invés disso, a convenção é direcionar um Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais sentados ou deitados, mesmo durante a re- único verbo representativo (normalmente presentação. Eles também tipicamente não com um olhar) em direção ao teto imagina- saem da posição quando estão sinalizando, do acima do sinalizante, como ilustrado na mesmo quando um movimento de trajetória Figura 11. do |sujeito| está sendo descrito. Na verdade, alguém correndo pode ser representado por um sinalizante confortavelmente sentado. Isso significa que, com freqüência, apenas uma parte do corpo do sinalizante participa do mapeamento que cria o |sujeito|. A com- plementação de padrão (pattern completion), outro processo cognitivo envolvido na com- binação (Fauconnier & Turner 1998), forne- ce o que for necessário para interpretar, com sucesso, a combinação apesar de informação Figura 11 visual mínima. A evidência de que o sujeito do Espaço- O verbo na Figura 11 é usado aqui para, Real e o ponto de visualização são compo- simultaneamente, representar várias caracte- nentes distintos pode vir de um tipo de re- rísticas da luminária. A configuração de mão presentação que utiliza uma combinação de representa a forma geral de uma luminária, em cenário. Tais combinações são criadas quan- cúpula. A orientação do sinal representa a di- do sinalizantes desejam falar sobre objetos reção para a qual lados específicos da luminária dentro de um outro ambiente que não o seu estão direcionados. Nesse caso, já que a palma atual. Um tipo de combinação seria criado da mão está virada para cima, a luminária é quando, por exemplo, o sinalizante está fa- representada como sendo convexa. Se for pos- lando com um destinatário sobre uma nova sível que a palma virada para baixo seja usada luminária na cozinha de um amigo comum. em uma representação similar, entenderíamos 10 Nessa situação, um espaço mental teria sido a luminária como sendo côncava. A localiza-
    170. Tipos de representação em ASL ção da luminária é representada através da di- Cozinha que seja um candidato correspondente recionalidade do verbo: o verbo é direcionado ao sujeito do Espaço-Real. Além disso, a combi- para cima e um pouco para longe do sinali- nação é criada para representar um cenário, ao zante. Para que seja possível direcionar esse si- invés de um evento e, como discutido a seguir, nal, tipicamente, uma combinação de Espaço- a combinação de cenário parece obstar a exis- Real precisa ter sido previamente criada (ver tência de um |sujeito|. Já que o ponto de visuali- Liddell 1003:154 para uma observação simi- zação do Espaço-Real é um tipo de localização, lar). Assim que o sinalizante imagina a pre- virtualmente qualquer localização na cozinha é sença de um |teto de cozinha|, o verbo pode um correspondente adequado. O ponto de vi- então ser direcionado para o elemento com- sualização não é meramente uma localização binado. De outro modo, não é possível usar o no chão, mas um conceito tridimensional. Para verbo (exceto em casos em que o sinalizante exemplificar rapidamente, considere as diferen- está falando sobre um teto real diretamente ças na articulação de um verbo produzido por acessível aos interlocutores). O uso desse tipo uma criança pequena e um adulto alto para re- Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais de verbo de representação é, com freqüência, presentar a localização de um quadro na parede um indicador de uma combinação de Espaço- da cozinha. A criança produziria o sinal acima Real e, nesse caso, fica claro que o sinalizante do nível dos olhos ao fazer referência à localiza- criou uma combinação de Cozinha. ção real da pintura no espaço, enquanto o adul- A combinação de Cozinha é um exemplo to produziria o sinal no nível dos olhos. Isso é, de uma combinação de cenário. Ela é criada obviamente, uma conseqüência dos pontos de integrando-se a cozinha do input do Espaço-da- observação tridimensionais diferentes que os Cozinha com uma parte do cenário do Espa- dois têm, o que é integrado a uma localização ço-Real em uma combinação, criando-se uma na cozinha para criar os respectivos |pontos de |cozinha|. O |teto| nessa combinação é o resul- visualização|. Se a criança ou o adulto repre- tado da integração do teto (acessível através do sentasse a experiência do outro da cozinha, suas quadro de cozinha) no input do Espaço-de-Co- articulações mudariam conforme a situação – o zinha com uma parte do espaço acima do sina- adulto elevaria ambos os braços para represen- lizante. A configuração da |cozinha| e do |teto| tar a localização do |quadro|, mas isso não seria não é possível sem que o sinalizante escolha uma necessário para a criança. localização dentro da cozinha, a partir da qual possa localizar a luminária. Existem muitas lo- calizações possíveis na cozinha que podem ser escolhidas para esse propósito. Assim que uma localização é selecionada, ela não se integra com o sujeito do Espaço-Real, mas apenas com o ponto de visualização do Espaço-Real. Por aca- so, o sinalizante está de pé no que é entendido como a |cozinha| e está também olhando para o |teto da cozinha| enquanto direciona um verbo para ele. Porém, isso não significa que a combi- Figura 12 nação de Cozinha contenha um |sujeito|. Não existe um ser animado no input do Espaço-de- 11
    171. Paul Dudis A Figura 12 representa as combinações as dimensões do |cenário| e as entidades nele de cenário que têm dimensões de tamanho são diminuídas em escala. Isso é o resultado natural. Assim como a representação de di- do processo cognitivo de compressão (Fau- álogo construído na Figura 10, o |cenário| é connier e Turner 2002). O cenário represen- representado por uma caixa. Em vez da fi- tado é comprimido com a porção menor de gura com um sombreado usado para repre- espaço na combinação. Porque esse espaço sentar um |sujeito|, uma figura pontilhada físico não inclui a área onde o sinalizante é usada aqui para representar o |ponto de está localizado, o ponto de visualização do visualização|. Essas representações distintas Espaço-Real não fica disponível para partici- não deveriam ser entendidas como sinal de par nos mapeamentos que criam essa com- que o |sujeito| não tem um |ponto de visu- binação, faltando-lhe, assim, um |ponto de alização|, mas, como mencionado acima, o visualização|. O ponto de visualização do Es- primeiro na verdade abarca o segundo. Não paço-Real do sinalizante continua em vigor. é possível para um sujeito não ter ponto de Contrastando com o espaço do observador, esse é um espaço diagramático (Emmorey e Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais visualização, porque a conceitualização da localização de alguém em um cenário maior Falgier ibid.), representado pela caixa peque- é um componente essencial de autoconsciên- na na Figura 13. O benefício (e necessidade) cia. Porém, como vimos, é possível projetar de compressão pode ser visto na representa- o ponto de visualização do Espaço-Real, in- ção das relações espaciais dos planetas e ga- dependentemente do sujeito do Espaço-Real. láxias. Os componentes da entidade que está Esse é um exemplo de projeção seletiva: em sendo representada são combinados com seus alguns tipos de representação, apenas um correspondentes menores de Espaço-Real na número de componentes do Espaço-Real combinação, permitindo uma conceituali- são selecionados para se integrar a seus cor- zação em escala comparável ao ser humano respondentes. O diálogo construído tem um que, de outro modo, não seria possível. |sujeito| com um |ponto de visualização| con- comitante, mas combinação de cenário com dimensões de tamanho natural apenas têm o ponto de visualização. Já que ambos os tipos de representação têm |cenários| com dimen- sões de tamanho natural, eles são exemplos do que Emmorey e Falgier (1999) chamam de espaço do observador (viewer space). Es- paço substituto (surrogate space) é o termo usado por Liddell (1995), embora, no meu entender, ele tenha sido usado para descrever Figura 13 apenas combinações de escalas semelhantes (similarly-scaled blends) que representam di- Aparentemente o |cenário| de elemento álogo ou ação. combinado é uma constante entre os vários Combinações de cenário também podem tipos de representação apresentados neste ser criadas com uma porção menor do espaço artigo. Já que o diálogo necessariamente se 12 na frente do sinalizante. Nessa combinação, passa em um cenário, a representação de di-
    172. Tipos de representação em ASL álogo exige um elemento de |cenário|. Isso tipicamente, outro componente combinado não se aplica apenas para ação construída, visível (enquanto no diálogo construído, por mas também para qualquer representação de exemplo, só existe um elemento combinado evento. Além do |cenário|, o que também é visível). Por exemplo, em uma representa- constante entre os vários tipos de combina- ção de um soco, o sinalizante pode direcio- ções de evento, que serão descritos adiante, nar um punho para seu queixo. Existem duas é um elemento de |progressão temporal| (e maneiras de interpretar essa representação, isso também parece ser o que, basicamente, se a considerarmos isoladamente. Uma ma- distingue combinações de cenário de combi- neira é que o sinalizante está representando nações de evento). Como descrito em Dudis alguém dando um saco em si mesmo. Nesse 2004b, esse elemento é o resultado da inte- caso, só existe um elemento combinado vi- gração de elementos de progressão temporal, sível, a |pessoa-que-soca-a-si-mesma|. Ou- a partir de dois inputs. O elemento tempo- tra interpretação é que o sinalizante é visto ral no Espaço-Real é a progressão de tempo como a |vítima| e que o |punho| pertence a Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais percebida no presente. Similarmente aos vá- um |agressor|. Essa interpretação exige sepa- rios graus de autoconsciência que temos de ração (partitioning) (Dudis 2004a) do pu- nós mesmo em um dado momento, também nho do sinalizante do resto de seu corpo. O não estamos continuamente conscientes da punho então fica disponível para se integrar progressão de tempo. Existem certas experi- com o punho do agressor, enquanto o sujeito ências em que essa consciência vem à tona, do Espaço-Real se integra com a vítima. Uma como quando se deseja ajustar a taxa de in- das mãos da |vítima| não é visível, mas através termitência do cursor em um monitor de da complementação de padrão, ela permane- computador. O correspondente a esse com- ce conceitualmente presente na combinação. ponente temporal do Espaço-Real é o Tem- Com separação e complementação do pa- po-do-Evento, ou seja, a progressão temporal drão, o sinalizante tem a habilidade de criar associada ao evento que está sendo descrito. componentes visíveis distintos em combina- A |progressão temporal| é mostrada nos dia- ções de evento, ao mesmo tempo permitindo gramas, por uma seta abaixo da caixa, como que se mantenha um ponto de vista único visto na Figura 10, anteriormente. durante a representação. Também é possível Os eventos são comumente representa- separar a porção do rosto que é usada para dos do ponto de vista de um |agente sujeito|, criar expressões faciais, assim como a região o resultado da integração do sujeito do Es- inferior do rosto que inclui a boca e as boche- paço-Real com o participante que tem status chas. O rosto inteiro (com exceção dos olhos) de agente no input do Espaço-do-Evento. Já pode participar na criação de uma |expressão que outros participantes animados do evento facial| visível que é distinta da expressão do também são sujeitos, eles são correspondentes |sujeito| (que não seria visível, pelo menos em potencial do sujeito do Espaço-Real. Na não completamente), como pode ser visto na verdade, existem representações do ponto de representação de alguém notando um olhar vista do, digamos, |paciente|. O que é interes- severo sendo direcionado para si. A boca-se- sante nessas representações com outros pon- parada pode ser usada para produzir o que tos de vista que não o do |agente| é que existe, parece ser unidades onomatopéicas repre- 13
    173. Paul Dudis sentando fenômenos relacionados à audição e à vibração nos eventos, por exemplo, aquele produzido quando dois objetos colidem. Outros tipos de representação de evento são possíveis por meio da seleção de menos componentes do Espaço-Real. Os eventos, que não apresentam um participante anima- do, por exemplo, um raio atingindo uma ár- vore numa floresta durante uma tempestade, podem ser representados com um cenário, Figura 14 um ponto de visualização e progressão tem- poral do Espaço-Real. Não é necessário que o Existe uma associação ente o sujeito e a sinalizante testemunhe o evento pessoalmen- progressão temporal do Espaço-Real com- te para representá-lo; uma reconstrução do parável à relação entre o ponto de visuali- Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais evento depois do fim da tempestade ou mes- zação e o cenário do Espaço-Real. O ponto mo apenas imaginação é suficiente. A árvore de visualização do Espaço-Real é um ponto e a floresta do Espaço-do-Evento se integra- específico dentro de um cenário do Espaço- riam com seus correspondentes espaciais no Real maior e o primeiro, claramente, não Espaço-Real para criar |árvore| e |floresta|. pode existir fora do segundo. A adoção de Uma localização v (esse é apenas um rótulo um ponto de visualização imaginado não é para um local escolhido dentro do cenário) possível sem um cenário imaginado. Assim, se integraria com o ponto de visualização do se o sinalizante cria uma combinação de es- Espaço-Real, resultando em um |ponto de vi- paço do observador, sabemos que o sinali- sualização| a partir do qual o raio é descrito. zante integrou não apenas os componentes A ação do raio é representada por um verbo do cenário, mas, também, o ponto de visua- na qual a trajetória do |raio| é visível. Essa lização do Espaço-Real com uma localização combinação é semelhante à combinação da no cenário representado. Essas integrações cozinha-observador, nos seguintes aspectos: não ocorrem em combinações diagramáticas ambas têm um |cenário| e um |ponto de vi- de cenário (Figura 13), nas quais um cenário sualização| e ambas representam uma relação é representado sem integração do ponto de entre uma |figura| e uma |base| (|luminária| visualização do sinalizante na combinação. O e |teto|; |raio| e |árvore|). Uma diferença cru- sujeito do Espaço-Real é caracterizado acima cial entre a combinação de evento e a combi- nação de cenário é a existência de um com- como auto-consciente e ser auto-consciente é ponente temporal combinado no primeiro. algo que ocorre em uma dimensão temporal. A comparação dos diagramas mostra até que De modo mais geral, um intervalo de tempo ponto existe um paralelo entre a combinação é necessário para abarcar qualquer conceito. do raio, mostrada na Figura 14, e a combi- Langacker (1987) distingue esse tempo de nação da cozinha. As Figuras 14 e 11 são, processamento de tempo concebido. Por basicamente, idênticas, a não ser pela seta na exemplo, é possível visualizar as folhas de primeira, que representa um componente uma árvore mudando de verde para verme- 14 temporal integrado. lho e laranja. A taxa de mudança pode ser
    174. Tipos de representação em ASL ajustada, resultando na visualização das co- Aqui, os dois articuladores manuais são res como que surgindo todas juntas ou gra- unidades lingüísticas e, nesse caso, são usa- dualmente, aparecendo folha por folha. Es- dos para representar a ação dos carros. Em- sas taxas diferentes de mudança envolvem bora haja |motoristas| nessa combinação, diferentes tempos concebidos, estendendo- conceitualizados como estando nos carros, se através do tempo de processamento do não há |sujeito| algum. Na verdade, parece conceitualizador. O tempo de processamen- ser impossível para qualquer combinação to é exigido para que o sinalizante imagine de evento diagramático ter um |sujeito|. Os combinações de cenário, mas já que nenhum únicos elementos do Espaço-Real que parti- evento ocorre nessas combinações, o tempo cipam nessa representação são as unidades concebido não teria função nelas. Um tempo representativas (os articuladores manuais), concebido |progressão temporal| é, necessa- o cenário e a progressão temporal. Uma vez riamente, um componente em combinações que a representação utiliza apenas uma por- de evento que contêm um |sujeito|, que está ção do espaço em frente ao sinalizante, não Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais ciente de si mesmo e de outras entidades. Essa há evidências para sugerir que o ponto de vi- consciência ou qualquer atividade não pode sualização do sinalizante se integra com uma ser representada independentemente de uma localização específica no cenário do evento. |progressão temporal|. Assim, quando fica Como visto na Figura 15, o olhar do sinali- claro que uma combinação tem um |sujeito|, zante está fixado na interação entre os dois sabemos que existe integração associada de carros, deixando claro que o sinalizante não está representando o motorista de nenhum componentes da progressão temporal. |Pro- deles. Se o olhar estivesse consistentemente gressão temporal|, como exemplificada pela direcionado para frente, em linha reta, isso, representação do raio acima, pode ser criada provavelmente, seria interpretado como as independentemente de um |sujeito|. ações de um motorista e, assim, constituiria Três outros tipos de combinação de even- evidência sugerindo a existência de um |su- to observados em ASL envolvem compressão. jeito|. Os articuladores manuais não têm a A Figura 15 é um exemplo de uma combina- capacidade de autoconsciência, não sendo, ção de um evento diagramático usado para portanto, considerados como sujeitos e sua representar um carro ultrapassando outro. integração com os carros no input do Espaço- Real resulta em elementos combinados que não são sujeitos. Isso é válido mesmo se o articulador manual que é convencionalmente usado para representar uma pessoa de pé (o dedo indicador) se integra com o sujeito do Espaço-do-Evento. Apenas quando o sujeito do Espaço-Real se integra com um corres- pondente do Espaço-do-Evento haverá um |sujeito| e isso é possível apenas em um espa- ço do observador. Figura 15 Aparentemente, o fato de que apenas um |sujeito| pode existir dentro de uma ins- 1
    175. Paul Dudis tância de representação também é verdade, um aclive. A configuração de mão-3 na Figura mesmo quando uma combinação de evento 16b é similar àquela na Figura 15, mas aqui é de observador e uma combinação de evento usada para representar a motocicleta. A con- diagramático existem, simultaneamente. Esta figuração de mão B-plana (flat-B) é usada para análise sugere que isso envolve a separação representar uma porção do aclive. Com base, dos articuladores manuais para criar elemen- em parte, na disposição da configuração de tos combinados visíveis, existentes apenas no mão-3, que está perto e perpendicular ao peito espaço diagramático. Para exemplificar, o si- do sinalizante, entende-se que a |motocicleta| é nalizante na Figura 16 está representando al- o correspondente combinado visual da |moto- guém subindo um aclive de motocicleta. cicleta| invisível na combinação do observador. Essa relação não seria possível se a |motocicleta| tivesse sido colocada apenas alguns centímetros mais longe do sinalizante ou a seu lado. A |mo- tocicleta| visível na combinação diagramática Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais seria, então, uma outra motocicleta diferente daquela que o |sujeito motociclista| está diri- gindo. Essa combinação serve como um cor- respondente de perspectiva global à perspectiva do participante na combinação do observador. As ações da |motocicleta| visível nessa combi- Figura 16a nação fornecem informações diretas, ao passo que informações relativas podem ser obtidas apenas indiretamente, na combinação de ob- servador. A Figura 17 organiza em um diagra- ma a co-existência do observador e dos espaços diagramáticos e os componentes neles combi- nados. Já que os dois espaços são combinações de evento, uma seta representando |progressão temporal| é incluída em ambas as representa- ções de combinação. Figura 16b Apenas uma combinação é usada para re- presentar essa cena e contém um |sujeito mo- tociclista| que se entende estar dirigindo uma |motocicleta| invisível. Assim, para adicionar detalhes à representação atual, o sinalizante cria uma combinação diagramática. A combinação diagramática é manifestada visualmente quan- do o sinalizante separa os articuladores manu- 1 ais para representar uma motocicleta subindo Figura 17
    176. Tipos de representação em ASL As outras duas combinações de evento Isso é evidência clara de compressão de pro- são combinações de observador e diagramá- gressão temporal. Como essa construção tica em que o Tempo-do-Evento é comprimi- pode ser usada para representar outras mu- do com um intervalo menor de progressão danças-de-estado, podemos tomar o sinal temporal do Espaço-Real. Provavelmente, o não-manual de cabeça recém descrito como que acontece é que muitas combinações de um indicador desse tipo de compressão. evento exibem compressão temporal, mas determinar se existe compressão temporal ou não é tão fácil como no caso de compres- são de cenário. Porém, o uso de construções aspectuais temporais ou alguns movimentos de cabeça acompanhados por sinais faciais não-manuais (como aceno rápido da cabeça com os olhos apertados e a boca levemente Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais aberta) são bons candidatos para indicado- res de compressão temporal, como descrita aqui. Dudis (2004b) descreve como alguns movimentos convencionais de cabeça, na ASL, acompanham representações gradu- ais de mudança-de-estado. Logo depois de Figura 18 representar o evento causador, o sinalizante faz um lento movimento de cabeça para trás, O último elemento do Espaço-Real a ser produzindo a seguir, um rápido movimento descrito nesse artigo é o corpo em si. Liddell de volta da cabeça para sua posição neutra, (2003:141-142) descreve como um sinalizan- enquanto produz, simultaneamente, um si- te utiliza uma combinação de Espaço-Real, nal descrevendo a mudança. Na expressão replicado na Figura 19, para descrever a pre- na ASL mais ou menos equivalente à ex- paração de um peixe antes de cozinhá-lo. O pressão “Eu pratiquei até ficar bom” (Figura sinalizante coloca a ponta de uma configu- 18), uma forma aspectual de PRATICAR é ração de mão-B na parte superior do peito, produzida com sinais não-manuais sugerin- próximo à garganta, movendo-a para baixo, do a existência de um |sujeito|. Durante a para sua cintura. Uma vez que o sinalizan- produção de uma forma aspectual, a cabe- te está especificamente falando sobre fatiar ça se move lentamente para trás, um gesto o peixe, entendemos que a configuração de que sugere o reconhecimento de que uma mão-B é usada para representar algo relativo mudança está ocorrendo. Na última parte ao ato de fatiar, ou uma parte da faca e seu da expressão, a produção do sinal de HABI- movimento de fatiar ou a trajetória do corte LIDADE e a volta da cabeça para a posição e, talvez, sua profundidade. Também inter- neutra (ou próxima a ela) ocorrem simulta- pretamos que o peito do sinalizante é usado neamente. A construção real de uma habi- para representar a lado inferior do peixe. O lidade exige mais do que alguns segundos, ventre do peixe no Espaço-do-Peixe é mape- mas esse intervalo de tempo é exatamente ado no peito do sinalizante do Espaço-Real e o quanto se leva para produzir a expressão. a sua integração resulta no segundo elemen- 1
    177. Paul Dudis to combinado visível, o |ventre do peixe|. E Tipos de combinação de Espaço-Real usados em representação quanto ao olhar do sinalizante para baixo? A Combinação de evento de observador com |sujeito| não ser em desenhos animados, peixes não Combinação de evento de observador sem |sujeito| podem se ver sendo fatiados, pode-se, então, Combinação de cenário de observador Combinação de cenário diagramático dizer com segurança que não existe |sujei- Combinação de evento diagramático to| algum nessa combinação. Então, aqui a Tabela 1 cabeça do sinalizante é apenas ela mesma. Porque peixes ocupam um espaço e os even- tos ocorrem em cenários, um |cenário| é es- tabelecido, mesmo que abstrato (dificilmente 5. Restrições no uso de itens sinalizantes imaginariam uma superfície, de lingüísticos quando um |sujeito| uma mesa, por exemplo, em um dos lados do está ativo sinalizante). Já que a combinação criada não é um espaço diagramático, mas parece ser um As análises de combinações conceituais em espaço de observador em escala-maior-que- expressões da ASL também esclareceram a Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais a-natural, fica claro que existe um |ponto de relação entre unidades lingüísticas da ASL e visualização| nessa combinação. Exemplos si- combinações de evento. O que interessa aqui milares de combinações de espaço de obser- é o conjunto de restrições que tipicamente vador que contêm |corpos| combinados, mas entra em vigor quando um |sujeito| está ativo. não |sujeitos| são freqüentemente encontra- Como descrito adiante, essas restrições estão dos em descrições de como as pessoas se ma- relacionadas à ativação de uma |progressão chucaram, ganharam cicatrizes, etc. temporal| e ao tipo de combinação de evento Nessa seção, demonstrei que os vários criado. Isso demonstra porque o teste infor- tipos de representação observados no dis- mal de representação de seqüência de eventos curso na ASL são resultados de uma proje- descrito na Seção 2 é útil para identificar se ção seletiva de elementos do Espaço-Real, uma unidade lingüística realmente represen- a saber, cenário, ponto de visualização, a ta um evento: se o sinal estiver associado à progressão temporal, o sujeito e o corpo, |progressão temporal|, então o sinal contri- juntamente com habilidades cognitivas que bui para uma representação geral do evento. incluem a habilidade de separação do cor- Fauconnier (1997) descreve o discurso po em várias zonas significativas, para com- como contendo vários espaços mentais em primir o cenário e o tempo da cena sendo uma única grade. Os participantes do dis- representada e criar combinações simultâ- curso são descritos como navegadores nes- neas. Os diferentes tipos de representação sa grade, o produtor do discurso é descrito são listados na Tabela 1, abaixo. Uma vez que qualquer combinação de evento pode como criando espaços e guiando os destina- ter uma |progressão temporal| comprimi- tários pela grade via uma variedade de pistas, da, nenhum item separado indicando com- tanto lingüísticas quanto não-lingüísticas. O pressão temporal é necessário. Além disso, o discurso começa com um espaço de base (base |sujeito| não está listado com combinações space) (Fauconnier ibid.), um “conjunto pri- diagramáticas porque esse elemento combi- vilegiado de estruturas de espaço mental que nado só pode ser parte de uma combinação [o falante] entende como correspondente 1 de evento de observador. à sua experiência real e/ou a situações que
    178. Tipos de representação em ASL acredita serem realmente válidas ou terem evento diferentes em uma porção de discurso ocorrido no passado” (Dancygier e Sweetser (Liddell e Metzger 1998; Liddell 2003). A Fi- 2005:31). (O Espaço-Real pode ser compre- gura 19 é um diagrama de um discurso que endido como parte do espaço de base do con- analiso como tendo duas combinações de ceitualizador). Espaços mentais distintos são evento criadas para representar um diálogo criados com relação não apenas a outros es- entre Dana e Tracy. paços mentais, mas, também, a este espaço de Base base. No que se refere a diálogos construídos, Espaço o Espaço-de-Evento que consiste de elemen- do Evento EspaçoRreal Passado tos relacionados ao diálogo é estabelecido com relação ao espaço de base (o termo “Es- paço-de-Evento” usado neste artigo é usado como rótulo para espaços de input que geram Combinação de Combinação de Evento 2 combinações de evento e não o “primitivo do |sujeito Tracy| |Dana| Evento 1 |sujeito Dana| |Tracy| Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais discurso” (“discourse primitive”) discutido em Cutrer 1994 e Fauconnier 1997). Assim (pelo menos) três espaços mentais têm papéis na representação de diálogo. Dentre os diferentes papéis que os espa- ços mentais têm no discurso, existe um no Figura 19 qual um espaço mental está sendo estrutura- do. Esse é o espaço de foco, “o espaço corren- Existe um Espaço-de-Evento estabeleci- te, mais ativo; o espaço ‘sobre’ o qual é um do com relação ao Espaço-de-Base. Porque enunciado” (Cutrer 1994:71). Uma expressão os interlocutores são conhecidos pelo sinali- na qual o diálogo é representado parece ter zante, eles são elementos do Espaço-de-Base. tanto o Espaço-de-Evento, quanto a combi- Os “mesmos” interlocutores são o assunto nação de evento como espaços mentais ativos. da conversa em um contexto diferente do Deixarei o exame detalhado dos espaços de Espaço-de-Base, um que é contido no Espa- foco em diálogos envolvendo representação ço-de-Evento anterior. Uma vez que esses para investigações futuras. É suficiente obser- interlocutores são identificados, talvez via um var o seguinte: quando uma combinação de grupo nominal, o sinalizante pode mudar de evento é criada, ela se torna parte da grade de posição, de uma posição voltada para o des- espaços mentais criados no discurso; depois tinatário, para uma posição no vídeo ainda de criada, ela permanece acessível durante o próxima à combinação denominada Combi- discurso em questão e no momento em que nação-de-Evento 1 (CE1). Enquanto se con- o sinalizante deixa de representar um even- siderar que o |sujeito interlocutor| está ativo to, a combinação de evento é desativada. Essa e produzindo diálogo, a CE1 (ou talvez mais combinação de evento pode ser reativada (ou precisamente, o elemento de |progressão talvez se torne um espaço de foco novamen- temporal|) continua ativa. Uma variedade de te), permitindo que o sinalizante continue o pistas sinaliza a desativação do elemento de discurso com representação adicional. Tam- |progressão temporal|. O olhar dirigido ao bém é possível haver duas combinações de destinatário é re-estabelecido e, simultanea- 1
    179. Paul Dudis mente, a posição do sinalizante não se apre- é relativamente simples é aquele em que uma senta mais alinhada ao |interlocutor sujeito|. ação manual é executada por um |sujeito|. A Se a posição agora assumida é uma previa- ação manual representada pode ou não ser mente adotada pelo sinalizante antes da cria- considerada um exemplo de um verbo repre- ção do CE1, então fica claro que a representa- sentativo. A Figura 20 mostra um verbo que ção terminou. Uma nova posição, como vista representa a ação de abrir uma garrafa com no vídeo, ainda próxima à Combinação-de- tampa. Evento 2 (CE2), sinalizaria a criação de uma combinação, que pode ser precedida por uni- dades lingüísticas identificando o interlocutor 2 como o participante do diálogo que está sendo representado. Essas três posições e as pistas a elas associadas auxiliam o sinalizan- te a se mover entre os espaços mentais. Fre- Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais qüentemente, o sinalizante alterna entre as posições associadas às combinações de even- to sem voltar à posição neutra de sinalizante, um processo de desativação-reativação entre CE1 e CE2. Quando uma combinação de evento criada para representar diálogo está ativa, virtualmente qualquer porção da expressão feita pelo sinalizante é entendida como diá- logo do |interlocutor|. Como discutido pre- viamente, uma vez que uma parte do corpo do Espaço-Real, especialmente da cabeça ao torso inferior, está integrada com o interlocu- tor do Espaço-do-Evento, qualquer ação do Figura 20 sinalizante do Espaço-Real é entendida como sendo a ação do |interlocutor|. É irrelevante, Os articuladores manuais aparentam ser nesse caso, saber se os sinais que estão sendo a |mão segurando o abridor| e a |mão segu- produzidos estão ou não representando uma rando (o gargalo) (d)a garrafa|, respectiva- ação. O que está sendo representado é o ato de mente. A |garrafa| e o |abridor| são elementos dialogar, que inclui tanto sinais representati- combinados que não são visíveis, mas que, vos, como sinais não-representativos. Essa é mesmo assim, estão conceitualmente presen- uma maneira como os sinais são associados tes. Observe que as duas |mãos| entram em à |progressão temporal|. Isso não exige mais contato uma com a outra. Esse contato não do uma combinação de evento e, quando ocorre tipicamente no ato real de abrir garra- comparada a outros tipos de combinações de fas. Isso não faz o verbo ser não-representa- evento discutidos a seguir, a representação de tivo, mas pode indicar a natureza unitária do diálogo é um processo relativamente simples. verbo, ao invés de ser apenas um gesto não- 10 Um tipo combinação de evento que também lingüístico.
    180. Tipos de representação em ASL O verbo representativo recém descrito de classificativa de instrumento e utilizá-lo em abrir garrafas é um exemplo do que é conhe- uma combinação de evento com um |sujeito| cido como uma construção classificativa de exige separação da mão do sinalizante. A com- manuseio. A expressão “manuseio” é utiliza- binação descrita na Seção 4, em que uma | víti- da para esse tipo de verbo porque ele apre- ma sujeito | recebe um |soco| também envolve a senta uma |mão| visível que se considera estar separação da mão, mas a separação só é exigida segurando ou manuseando |algo|. O segundo se o soco é desferido por outra pessoa que não elemento combinado é invisível, mas a con- o |sujeito|, o que é verdade também para verbos figuração da |mão| indica parte da forma do “representativos-de-mãos”. Verbos “represen- |objeto manuseado|. A Figura 21 ilustra ou- tativos-de-instrumento” precisam de separa- tro verbo desse tipo, que representa uma arma ção quando produzidos com um |sujeito| ati- sendo empunhada. Um verbo representativo vo, não importando se o |sujeito| é entendido diferente é mostrado na Figura 22. como estando segurando o objeto ou não. Apesar das diferenças entre esses dois tipos Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais de verbos representativos, apenas uma única combinação de evento é necessária para que qualquer um desses dois verbos sejam utili- zados. No caso de verbos “representativos- de-mão”, a |mão| é parte do |corpo| que o |sujeito| possui e qualquer |objeto manusea- do| não é visível, mas está presente como um elemento pertencente à combinação. No caso de verbos “representativos-de-instrumento”, Figura 21 o |instrumento| é visível, mas a |mão| que o segura não o é. Estamos começando a ver as diferenças entre expressões que representam diálogo e expressões que representam ações manuais ou instrumentos. Apesar de a diferença en- tre as combinações de evento nessas expres- sões não ser óbvia, fica claro que elas diferem quanto ao tipo de unidade lingüística usada. Novamente, qualquer sinal produzido em uma combinação criada para representar di- Figura 22 álogo será entendido como parte do diálogo de um |sujeito|. Isso inclui substantivos como O verbo na Figura 22 é muito similar ao ARMA (GUN), um empréstimo articula- seu correspondente, exceto que ele represen- do com o alfabeto manual, e relações como ta o objeto manuseado, ao invés da mão que PRATA (SILVER) (como não fica absoluta- o segura: temos, aqui, dois elementos visíveis, mente claro que esse sinal é um adjetivo, opto o | atirador sujeito | e a |arma|. Esse tipo de pelo uso de “relação”, termo da Gramática verbo é conhecido como uma construção Cognitiva que descreve a classe dos verbos, 11
    181. Paul Dudis adjetivos, advérbios e preposições). Uma vez É possível produzir o sinal não-repre- que nem ARMA, nem PRATA representam sentativo PRATA com a mão representando coisa alguma, eles não poderiam ser produ- uma arma ou com uma mão que está segu- zidos por meio de uma combinação criada rando uma arma permanecendo no lugar. para representar eventos que não sejam di- O fato de uma combinação de eventos ser álogos. Os dois sinais podem ser produzidos ativada ou não depende do que o sinalizan- em um teste de seqüência de eventos apenas te está fazendo com PRATA. Se o sinalizante como diálogo construído. Os verbos nas Fi- está representando a maneira como a pessoa guras 21 e 22 podem ser usados em combi- com a arma a está descrevendo, por exemplo, nações de eventos, não apenas porque estão “Aqui está a arma, é toda de prata”, então representando verbos. O verbo exibido na PRATA é produzido como parte de um diá- Figura 11 (repetida a seguir como Figura logo construído e isso exige ativação de uma 23) é produzido para representar a forma e combinação de evento. Apenas uma combi- localização de uma luminária, mas não uma nação de evento é necessária para represen- Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais ação. Os verbos representativos-de-mãos e tar tanto o diálogo, quanto a arma na mão. representativos-de-instrumentos são verbos Se o sinalizante e não o |sujeito| está descre- representativos-de-eventos. Uma vez que re- vendo a arma, então a |progressão temporal| presentam eventos, eles têm um elemento de foi desativada. A desativação da |progressão |progressão temporal|. Assim como o verbo na temporal| não necessariamente desativa ou- Figura 23 exige que uma combinação de cená- tros elementos da combinação. Mesmo o |su- rio esteja ativada para que ele seja produzido, jeito| estando desativado, a |mão| visível ou esses verbos exigem que uma combinação de a |arma| visível podem continuar ativos por- eventos esteja ativa para que eles sejam pro- que a mão e a arma resultam da integração de duzidos. A combinação de evento não precisa um componente do Espaço-do-Evento com se manifestar ao destinatário anteriormente ao o corpo do Espaço-Real, o que é conceitual- uso dos verbos representativos-de-eventos. O mente independente da progressão temporal. surgimento de tais verbos, com pistas não-lin- O sinalizante pode, então, falar sobre a arma güísticas concomitantes, é suficiente para que usando sinais como PRATA e direcionado os o destinatário crie ou ative uma combinação sinais para a |arma|. Esse é um exemplo de de eventos na grade de espaços mentais. uma estratégia de discurso em que |a progres- são temporal| fica desativada mantendo ati- vos não os verbos representativos-de-even- tos, mas os elementos visíveis combinados a eles associados. A relação entre o verbo representativo- de-evento que os sinalizantes conhecem e o uso real do verbo dentro de uma combina- ção de evento pode ser descrita em termos da Gramática Cognitiva (Langacker 1987, 1991) como uma relação esquema-instância. Na visão de modelos gramaticais baseados-no- Figura 23 12 uso, dos quais a Gramática Cognitiva faz par-
    182. Tipos de representação em ASL te, as unidades lingüísticas são obtidas, em o |instrumento| é o único elemento visível, parte, por meio de recorrência de usos reais mas um |sujeito| pode ser (e normalmente é) dessas unidades. As características não-recor- visível, somando um total de dois elementos rentes são abstraídas durante o processo em combinados visíveis na representação em si. que as expressões ganham status de unidade. Nos verbos representativos-de-mãos e de ins- trumentos descritos acima, parece que a(s) unidade(s) que eles instanciam não especifi- cam para onde as mãos devem ser dirigidas. Ao invés disso, a direcionalidade é esquemá- tica, mesmo que seja uma característica es- sencial de um esquema do verbo representa- tivo-de-evento. O uso real desses verbos são instâncias do esquema do verbo e sua dire- Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais cionalidade é, na maioria das vezes, motiva- Figura 24 da pelo conhecimento do sinalizante quanto ao evento que está sendo representado (por exemplo, se a arma está apontada para um lado, ou em direção ao lado, etc. Parece que as características esquemáticas desses verbos constituem o aspecto a que Liddell (2003) se refere em sua discussão sobre gradiência (gradience) em verbos representativos.) Uma vez que verbos representativos de mãos e de instrumentos consistentemente ativam |progressão temporal|, isso constitui evidência de que, no que se refere a esses ti- Figura 25 pos de verbos, essa ativação não é opcional. O que significa que a |progressão temporal| é Esses dois tipos de verbos representati- um componente do verbo representativo-de- vos de eventos são também conhecidos como evento: utilizar um verbo representativo-de- construções classificativas e, quando essas são evento é criar ou manter uma combinação de usadas para representar eventos, uma análise evento com, pelo menos, um elemento com- similar se aplicaria. A expressão parcialmen- binado visível. No caso de verbos representa- te ilustrada na Figura 15 (aqui repetida como tivos-de-mãos, no mínimo a |mão do agente| Figura 25) foi rotulada como construção clas- está visível. O |sujeito agente| pode ser visível, sificativa de “entidade inteira”. Uma vez que mas, através da separação da mão do sina- o seu uso envolve a ativação de uma combi- lizante do Espaço-Real, ele pode ser a única nação com um elemento de |progressão tem- parte visível do |agente| agindo sobre o |su- poral|, a unidade esquemática que sanciona jeito paciente|, como na representação de al- o uso dessas construções tem esse elemento guém levando um soco (Figura 24). No caso como componente. Como essas construções de verbos representativos de instrumentos, ativam uma combinação diagramática, elas 13
    183. Paul Dudis não têm um componente |sujeito|. Esses ver- manual com o |sujeito| de acordo com a tese bos poderiam ser considerados como “pre- apresentada nessa seção. Minha análise preli- viamente separados (previously partitioned)”. minar de FAZER-COISAS é que é um verbo Se um participante animado também é parte que representa alguém fazendo certas coisas da cena sendo representada, isso permite a (algumas, talvez todas, envolvendo o uso das criação de uma combinação com um |sujei- mãos). Existem algumas características do si- to|, resultando em múltiplos elementos visí- nal manual que, sob exame mais atento, pa- veis combinados. recem exibir mapeamentos icônicos. As pal- mas dos articuladores manuais estão viradas para longe do sinalizante, sugerindo contato ou interação com alguma entidade. O movi- mento do sinal para um lado e depois para o outro sugere interação com mais de uma entidade. O movimento dos dedos nesse sinal Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais também é encontrado em um sinal que signi- fica “um tempo depois”. A duração do sinal é relativamente prolongada quando compa- rada com outros sinais não-representativos e isso é um indicador de |progressão temporal|. Figura 26 Se essa análise se confirmasse, esse sinal seria evidência de que, além de separação do cor- A ASL também parece ter verbos repre- po e de compressão do cenário, a progressão sentativos-de-eventos que não seriam tradi- temporal desempenha um papel na criação cionalmente considerados como construções de sinais. Interessante que FAZER-COISAS classificativas. SER-SURPREENDIDO (BE- também seria um possível sinal para exibir a TAKEN-ABACK) e FAZER-COISAS (DO- compressão de cenário em uma combinação THINGS) (Figura 26) são dois exemplos de de observador: a atividade esquemática sendo verbos desse tipo. Quando um desses sinais representada não é necessariamente limitada é produzido, as várias pistas não-manuais ao espaço na frente do |sujeito|, mas pode ser (mudança de direção do olhar, de postura, entendida como abarcando todo um cômodo mudança na expressão facial, etc.) são exibi- ou uma variedade de cenários. das, sinalizando a existência de um |sujeito|. Além dessas expressões que criam com- SER-SURPREENDIDO parece ser icônico binações diagramáticas com elementos dis- de um indivíduo experienciando algo tão in- tintos e visíveis (por exemplo, Figura 25), a tenso que precisa jogar os braços para cima maioria dos sinais descritos até aqui prova- para recobrar o equilíbrio. Contrastando velmente são vistos como monomorfêmicos, com isso, não fica imediatamente óbvio de se seguirmos a abordagem de Liddell de 2003 que os articuladores manuais em FAZER- à análise de verbos representativos. Nova- COISAS são icônicos, muito menos o que mente, tais unidades lingüísticas têm com- eles representam. Não é suficiente conside- ponentes esquemáticos que ativam o ma- rar apenas esses articuladores como separa- peamento de componentes semânticos nos 14 dos do |sujeito|. Isso não reconciliaria o sinal elementos do Espaço-Real. Dada a visão da
    184. Tipos de representação em ASL Gramática Cognitiva, podemos, então, dizer te um |sujeito que explica| visível, o resultado que a representação tem um papel no léxico da integração do sinalizante do Espaço-Real da ASL, no qual conceitos como |cenário| e e da pessoa que explica (explainer), um dos |sujeito| são componentes essenciais de cer- participantes do evento codificado no verbo tas unidades. Unidades simbólicas são vistas EXPLICARy. Esse |sujeito| e outros traços, como contendo uma rede em que as unida- incluindo-se a prolongada duração, sugerem des do nível mais baixo têm mais especifica- que a forma aspectual é comparável com FA- ções semânticas e fonológicas e aquelas que ZER-COISAS, exceto que a forma aspectual estão nos níveis mais altos são, sucessivamen- é analisável como sendo multi-morfêmica. te, mais esquemáticas com relação às infor- Como mencionado antes, não é possível pro- mações semântica e fonológica. O papel da duzir EXPLICARy em uma combinação de representação se estende para a gramática da evento, além de instâncias de diálogo cons- ASL? A Gramática Cognitiva e as abordagens truído; então esse sinal não seria analisado construcionais à gramática (como Goldberg como tendo um |sujeito| ou um componente Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais 1995) não supõem uma rígida divisão entre de |progressão temporal|. A forma aspectual gramática e léxico, afirmando que as unida- pode ser analisada e a fonte óbvia é o esque- des frasais e oracionais devem ser, também, ma construcional aspectual que a forma ins- tratadas como pares formadores-de-signifi- tancia. O esquema construcional é um esque- cado. Isso significa que, se descobrirmos que ma produtivo, uma vez que existem várias a representação desempenha um papel em incidências desse esquema, por exemplo, as expressões multi-morfêmicas ou expressões formas duracionais de ESPERAR (WAIT) e multi-palavras, isso sugeriria que a represen- USAR-TECLADO (USE-KEYBOARD), todas tação tem, também, um papel na gramática. exibindo pistas associadas ou com o |sujei- to| ou com a |progressão temporal|. (Klima e Bellugi 1979 e Liddell 2003 usam o termo “aspecto duracional” para nomear um tipo de construção aspectual, o que parece apro- priado para a forma aspectual aqui descrita). Outros esquemas construcionais aspectuais, inclusive o esquema construcional inceptivo não-realizado (Liddell 1984), são, também, analisados como detentores de, no mínimo, um componente de |progressão temporal|. Uma vez que é na progressão temporal que Figura 27 os processos morfológicos se fazem sentir, isso sugere que componentes representativos A Figura 7b, repetida aqui como Figura são encontrados, não apenas no léxico, mas, 27, ilustra parcialmente a forma aspectual de também, na gramática. EXPLICARy. Como discutido na Seção 2, não Voltando à tese desenvolvida nessa seção, se percebe, de imediato, de que os articulado- a não-iconicidade dos articuladores manuais res manuais de EXPLICARy são icônicos, o em EXPLICARy ou outro sinal componen- mesmo valendo para essa forma. Porém, exis- te envolvido na criação de formas aspectuais 1
    185. Paul Dudis não impede que uma combinação de evento A primeira parte da construção tem uma esteja ativa. Isso se deve ao fato de que os ar- forma aspectual, aqui uma forma duracional ticuladores agora fazem parte de uma expres- de PRATICAR. Enquanto continua a produ- são representativa produzida por integração zir a forma aspectual, o sinalizante lentamen- de um verbo com um esquema construcional te move sua cabeça para trás, o que represen- aspectual. Assim, esse é um caso da relação ta não o movimento real da cabeça, mas um esquema-instância que satisfaz a condição de reconhecimento de que uma mudança está que unidades ou gestos lingüísticos produzi- começando a ocorrer. Próximo ao fim da dos com um |sujeito| ativo estejam associados expressão, o sinalizante produz SER-HABI- com a |progressão temporal|. A natureza não- LIDOSO (BE-SKILLED) com a cabeça retor- representativa dos articuladores não significa nando à posição neutra. Uma vez que nem que eles não contribuem para a combinação. PRATICAR nem SER-HABILIDOSO são Ao invés disso, eles podem ser vistos como unidades representativas, a representação na marcadores temporais cuja presença estendi- Figura 27 é atribuída ao complexo esquema Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais da mapeia, de uma forma icônica, a duração construcional. A associação que os articula- do evento sendo representado. dores de PRATICAR têm com a |progressão Mais evidências de que a representação de- temporal| é similar àquela que os articulado- sempenha papel na gramática da ASL se encon- res de EXPLICARy têm na forma aspectual. tra nas construções de mudança-de-estado da Isso sugere que uma construção aspectual é ASL (Dudis 2004b). A Figura 18, repetida aqui parte dessa construção de mudança-de-esta- como Figura 28, parcialmente ilustra a repre- do. SER-HABILIDOSO descreve a mudança sentação de um evento em que um indivíduo resultante e inclui a parte final da porção ma- pratica uma habilidade, como fazer cestas ou nual da construção. Sua produção pode ser soletração manual, até que um nível mais alto vista como marca do ponto na |progressão de competência seja alcançado. Analiso essa temporal| em que a mudança prevista é com- expressão como sendo uma instância de uma pletada. O conjunto de sinais não-manuais construção gradual de mudança-de-estado. é um componente de um esquema constru- cional de mudança-de-estado. Parece que a informação fonológica do sinal não-manu- al durante a fase inicial é esquemática, pelo menos no que se refere ao movimento da ca- beça, mas é específico para as seguintes fases (a cabeça, vagarosamente, se move de volta, etc.). Novamente, o movimento de cabeça está associado à aparição de uma mudança prevista. No geral, existe ampla evidência de que esse esquema construcional é uma uni- dade representativa, na gramática da ASL. O fato de essa construção representar uma mu- dança-de-estado esquemática explica porque sua incidência pode ser produzida com um 1 Figura 28 |sujeito| ativo.
    186. Tipos de representação em ASL Até aqui vimos que itens não-represen- Aqui, claramente, o |sujeito| está pre- tativos podem ser produzidos quando um sente. O sinal ESTAR-FECHADO é dirigi- |sujeito| está ativo, contanto que eles estejam do primeiro para a esquerda e depois para associados à |progressão temporal|, ou como a direita do sinalizante, acompanhado do parte de um diálogo construído ou como uma olhar dirigido à mesma direção respectiva. instância de uma unidade lingüística que tem Fica também evidente, que os sinais são di- um componente de |progressão temporal|. recionados ao lugar onde se imagina que as Uma terceira possibilidade já foi aludida na duas |lojas|estejam. De acordo com Liddell descrição do componente não-manual da (2003:179), o sinal ESTAR-FECHADO é construção de mudança-de-estado, asso- analisado aqui não como uma instância de ciada ao reconhecimento do surgimento de um verbo indicativo ou representativo, mas uma mudança e ao acompanhamento de seu como uma instância de um verbo simples que progresso. Além de se representar diálogos e o sinalizante direciona a um elemento com- eventos externos, também é possível repre- binado. Aqui, o |sujeito| não está sinalizando Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais sentar eventos fisiológicos. A Figura 29 ilustra, para pessoa alguma, em especial. Se conside- parcialmente, a expressão representativa de al- rarmos isso como uma representação de diá- guém notando, ao chegar a um shopping, que logo interior, intuitivamente o consideramos duas lojas estão, inesperadamente, fechadas. como uma representação esparsa, quando comparada a outras instâncias de represen- tação de diálogo interior. Existe uma análise alternativa. ESTAR-FECHADO é produzido para representar a percepção do |sujeito| da cena. Uma vez que o sinal ESTAR-FECHA- DO não é parte do diálogo construído (ou um verbo representativo-de-evento), entende-se que os articuladores manuais estejam separa- dos do |sujeito|. O espaço mental do qual é parte está separado do espaço do observador de modo similar à independência do espaço combinado diagramático em relação ao es- paço do observador, na representação de um motoqueiro subindo uma colina. A diferença é que ESTAR-FECHADO não é um espaço dia- gramático, mas um espaço perceptual associado ao |sujeito|. ESTAR-FECHADO é, então, asso- ciado à progressão temporal|, apesar de ser uma unidade não-representativa. Um espaço perceptual relativo a uma combinação-de-evento também é criado para representar o foco do |sujeito| sobre um Figura 29 |objeto| dentro de um |cenário|. A Figura 30 ilustra, de forma parcial, uma expressão re- 1
    187. Paul Dudis presentativa de alguém vendo uma luminária Espero ter demonstrado acima que quan- recém instalada em um teto. Aqui fica claro do um |sujeito| está ativo, restrições específi- que não há representação de um diálogo. Um cas com relação ao uso de sinais entram em articulador manual está separado do |sujei- funcionamento. A Tabela 2 apresenta uma to| para produzir uma instância do mesmo lista dessas restrições. verbo descrito na Seção 4, um que não repre- senta um evento, mas a forma e a localização Sinais produzidos quando um |sujeito| está ativo de um objeto, no caso, a luminária. Uma vez O sinal é parte do diálogo (ou gesto) sendo representado O sinal representa um evento psicológico experienciado pelo que esse verbo não representa um evento, |sujeito| ele carece de um componente de |progressão O sinal é uma instância de uma unidade esquemática contendo temporal|. Porém, uma vez que se entende um componente de |progressão temporal. que ele representa o que o |sujeito| está ven- Tabela 2 do, então, ele tem uma associação com |pro- gressão temporal|. Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais 6. Conclusão A representação de cenários, objetos e even- tos, explicada neste artigo é, sem dúvida, uma questão básica do discurso da ASL. Quando fica demonstrado que os verbos e as cons- truções da ASL têm componentes que repre- sentam traços semânticos, a representação se torna o foco da análise gramatical, na pers- Figura 30 pectiva lingüística cognitiva aqui discutida. A abordagem específica estabelecida aqui, A combinação-de-evento aqui tem ele- iniciada por outros lingüistas cognitivos que mentos similares àqueles encontrados na investigam línguas de sinais, demonstra o po- combinação de cenário criado para repre- tencial de análises adicionais para elucidar o sentar a localização da luminária (descrito papel da representação na gramática da ASL. na Seção 4). Sem acesso à informação prévia, Essa abordagem dá suporte à visão que, em- não seria possível determinar se um evento, bora existam algumas facetas da gramática da ou apenas um cenário, está sendo represen- ASL que “submergem” a iconidade (Klima e tado. Uma ambigüidade semelhante diz res- Bellugi 1979), outras facetas existem onde a peito ao fato de a combinação do observador iconicidade “emerge” (S. Wilcox 2004). conter um |sujeito| ou simplesmente um |ponto de visualização|. Isso demonstra não só como o contexto é uma parte essencial da Notas expressão, mas também a utilidade de iden- tificar os componentes conceituais distintos, Esta pesquisa foi financiada pela National envolvidos na representação do cenário e dos Science Foundation (Fundação Nacional de 1 eventos. Ciência), por meio de bolsa número SBE-
    188. Tipos de representação em ASL 0541953. Quaisquer opiniões, resultados e KLIMA, E.; BELLUGI, U. The signs of language. conclusões ou recomendações expressas aqui Harvard University Press, Cambridge, 1979. são do autor e não refletem, necessariamente, LAKOFF, G. Sorry, I’m not Myself Today, In: FAU- a visão da National Science Foundation. CONNIER, Gilles; SWEETSER, Eve (Orgs.). Spaces, Worlds, and Grammar. Chicago Uni- versity Press, Chicago. 1996. p. 91-123. Referências LANGACKER, R. W. Foundations of Cognitive Grammar. Theoretical Prerequisites, v. 1, CUTRER, M. Time and Tense in Narratives and Stanford, CA, 1987. Everyday Language. Tese de Doutorado – Uni- LANGACKER, R. W. Foundations of Cognitive versity of California, San Diego, 1994. Grammar. Descriptive Application, v. 2, Stan- DANCYGIER, B. & SWEETSER, E. Mental Spaces ford, CA, 1991. in Grammar: Conditional Constructions. Cam- LANGACKER, R. W. Grammar and Conceptuali- bridge University Press, Cambridge, 2005. zation. Mouton de Gruyter, New York, 2000. Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais DUDIS, P. G. Body partitioning and real-space LIDDELL, S. K. Unrealized-inceptive aspect in blends. Cognitive Linguistics, v. 15 (2 ed.), American Sign Language: Feature insertion in 2004. p. 223-238. syllabic frames. In: DROGO, J.; MISHRA, V.; DUDIS, P. G. Depiction of Events in ASL: Con- TESTON, D. (Orgs.). Trabalho apresentado ao ceptual Integration of Temporal Components. 20 Regional Meeting of the Chicago Linguistic Tese de Doutorado – University of California, Society, Chicago. p. 257-270. Berkeley, 2004 LIDDELL, S. K. Real, surrogate, and token space: EMMOREY, K.; FALGIER, B. Talking about Space Grammatical consequences in ASL. In: Emmo- with Space: Describing Environments in ASL. rey, Karen & Reilly, Judy (Orgs.). Language, In: WINSTON, E.A. (Org.). Story Telling and Gesture, and Space, Hillsdale, NJ, 1995. p. Conversations: Discourse in Deaf Communi- 19-41. ties. Washington, D.C.: Gallaudet University LIDDELL, S. K. Grammar, gesture and meaning Press, 1999. p. 3-26. in American Sign Language. Cambridge Uni- FAUCONNIER, G. (1997). Mappings in Thought versity Press, Cambridge, 2003. and Language. Cambridge University Press, LIDDELL, S. K.; METZGER, M. Gesture in sign Cambridge. language discourse. Journal of Pragmatics, v. FAUCONNIER, G.; TURNER, M. Blending as a 30, 1998. p. 657-697. Central Process of Grammar. In: GOLDBERG, METZGER, M. Constructed Dialogue and Cons- Adele (Org.). Conceptual Structure, Discourse tructed Action in American Sign Language. In: and Language. Stanford, 1996. p. 113-130. LUCAS, C. (Org.). Sociolinguistics in Deaf FAUCONNIER, G.; TURNER, M. Conceptual Communities, Washington, 1995. p. 255-271. integration networks. Cognitive Science, v. 22, PADDEN, C. Verbs and role-shifting in ASL. In: n. 2, 1998. p. 133-188. PADDEN, C. (Org.). Proceedings of the Fourth FAUCONNIER, G.; TURNER, M. The Way We National Symposium on Sign Language Rese- Think: Conceptual Blending and The Mind’s Hid- arch and Teaching, MD, 1986. p. 44-56. den Complexities. Basic Books, New York, 2002. ROY, C. Features of Discourse in an American Sign GOLDBERG, A. Constructions. The University Language Lecture, em: LUCAS, C. (Org.). The of Chicago Press, Chicago, 1995. Sociolinguistics of the Deaf Community, San 1
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    190. Estudos de aquisição de línguas de sinais: passado, presente e futuro1 Diane Lillo-Martin University of Connecticut Haskins Laboratories Neste artigo, apresento uma visão geral de guas de sinais e, que buscam, freqüentemen- aspectos dos estudos de aquisição de línguas te, explicá-las recorrendo à modalidade. Em de sinais conduzidos nos últimos vinte anos alguns casos, as diferenças são bem visíveis, e faço uma especulação sobre o futuro desses devido à modalidade (por exemplo, embora estudos. Ao invés de uma visão geral crono- a fonologia sinalizada e a falada tenham prin- lógica, organizei a pesquisa em cinco temas, cípios abstratos comuns, estão calcadas em de acordo com alguns dos objetivos desses diferenças de modalidade). Em outros casos, trabalhos. Os temas são os seguintes: argumenta-se por uma explicação das dife- 1) Exploração dos paralelos entre aquisi- renças em termos de um aspecto específico ção de línguas sinalizadas e faladas. Nesta ca- da modalidade. tegoria, incluo uma variedade de estudos que 3) (a) Utilização de dados de aquisição mostram que a aquisição da língua de sinais é de língua de sinais para fornecer informações similar à aquisição da língua falada, sob con- sobre a gramática da língua de sinais. (b) Uti- dições de input comparáveis (isto é, crianças lização da gramática da língua de sinais para para quem os pais sinalizam fluentemente, fornecer informações sobre a aquisição de desde o nascimento). Esses estudos servem língua de sinais. Essas duas categorias estão para demonstrar que as línguas de sinais são agrupadas para enfatizar a importância de línguas naturais completamente desenvolvi- uma relação forte e recíproca entre os estudos das, merecendo, portanto, todos os direitos gramaticais e os estudos de aquisição e para associados às demais línguas naturais com- mostrar como os estudos de aquisição podem pletamente desenvolvidas. afetar questões teóricas na análise gramatical 2) Explicação das diferenças entre aqui- e como os avanços gramaticais podem levar a sição de línguas sinalizadas e de línguas fa- novas questões ou a re-análises, nos estudos ladas. Nesta categoria, encontram-se estudos de aquisição. Tais relações entre aquisição e que observam as diferenças potenciais na tra- gramática não são, obviamente, exclusivas jetória da aquisição de línguas faladas e lín- dos estudos de língua de sinais; entretanto, 1 Traduzido por: Maria Lúcia Barbosa de Vasconcellos, Elaine Espíndola, Thiago Blanch Pires, Carolina Vidal Ferreira.
    191. Diane Lillo-Martin pesquisadores de língua de sinais podem e pendentemente de seus objetivos originais. participam, com bons proveitos, desses tipos A visão geral apresentada aqui não preten- de trabalho. de ser exaustiva, mas seleciona exemplos 4) Utilização de dados de aquisição de de estudos que são incluídos em cada tema, língua de sinais para oferecer informação so- fornecendo ao leitor uma noção de dire- bre teorias de aquisição da linguagem. Nova- ções e possibilidades. Pesquisa adicional mente, a pesquisa em língua de sinais não está em todas essas áreas se faz extremamente sozinha na busca do objetivo de desenvolver necessária. e testar teorias explícitas de como ocorre a aquisição da linguagem, mas tem muito a contribuir para alcançar tais objetivos. É es- 1. Exploração dos paralelos entre pecialmente importante incluir as línguas de aquisição de línguas sinalizadas e sinais no banco de dados dos fatos de aquisi- faladas ção de língua que as teorias se esforçam para Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais explicar, uma vez que qualquer teoria desse Nesta categoria, incluo uma pesquisa que pro- tipo teria como objetivo fornecer uma expli- cura mostrar que uma língua de sinais especí- cação para a habilidade que qualquer criança fica ‘é uma língua’ e é adquirida em igualdade possui de aprender a língua natural a que é de condições com as demais línguas faladas exposta. (ver Lillo-Martin, 1999; Newport & Meier, 5) Utilização de dados de aquisição de 1985, para uma revisão da literatura de algu- línguas de sinais para oferecer informação mas dessas pesquisas). sobre a natureza da linguagem. As línguas de Um exemplo claro vem do trabalho de sinais e as comunidades surdas permitem-nos Laura Ann Petitto. A pesquisa por ela desen- entender, mais detalhadamente, a natureza volvida fornece fortes evidências para argu- da linguagem, uma vez que, a partir de expe- mento que as línguas de sinais são adquiridas rimentos de natureza (experiments of nature), exatamente da mesma forma que a linguagem elas às vezes revelam o que acontece com a oral. Por exemplo, em uma de suas análises linguagem em situações extremas. Informa- ela alega, “Crianças surdas expostas a línguas ções sobre o que emerge dos experimentos de sinais desde o nascimento adquirem essas são de grande significado para as teorias da línguas em tempo de maturação idêntico ao linguagem. de crianças ouvintes que adquirem as línguas Obviamente, muitos estudos são inclu- faladas” (Petitto, 2000)2. ídos em mais de uma das categorias acima Os marcos que Petitto afirma serem e talvez outros não tenham sido especifica- ‘idênticos’ entre crianças sinalizantes e crian- mente direcionados a nenhum desses tópi- ças falantes incluem o balbucio (7-12 meses cos. Entretanto, acredito que possa ser útil de idade); o estágio da primeira palavra (11- adotar esse tipo de visão e examinar os im- 14 meses) e o estágio dos primeiros pares de pactos mais amplos desses estudos, inde- palavra (16-22 meses). 2 “Crianças surdas expostas às línguas de sinais desde o nascimento adquirem essas línguas em um período ma- 12 turacional idêntico ao das crianças ouvintes adquirindo línguas faladas”.
    192. Estudos de aquisição de línguas de sinais: passado, presente e futuro Além disso, Petitto afirma, “padrões con- monstraram organização silábica; em terceiro, versacionais e sociais do uso da linguagem ..., foram utilizados de forma não-comunicativa. bem como os tipos de coisas sobre as quais Petitto (2000) conclui, “A descoberta do bal- elas ‘falam’ ..., demonstraram, sem sombra bucio em outra modalidade confirmou a hi- de dúvida, que seu processo de aquisição se- pótese que o balbucio representa um estágio gue a mesma trajetória de crianças ouvintes distinto e crítico na ontogênese da linguagem da mesma idade, em processo de aquisição da humana”4. língua falada” (Petitto 2000)3. As semelhanças de balbucio entre crian- Relatos similares que consideram a traje- ças aprendendo línguas de sinais e crianças tória geral da aquisição da linguagem similar aprendendo línguas faladas foram enfati- para línguas sinalizadas e faladas podem ser zadas e expandidas no estudo de Meier & encontrados em estudos de línguas de sinais Willerman (1995) e Cheek et al. (2001); en- além da ASL. Por exemplo, Língua de Sinais tretanto, eles sugerem que o balbucio, nas Italiana (Caselli & Volterra, 1990), Língua de duas modalidades, é uma conseqüência do Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais Sinais Brasileira (Quadros, 1997) e Língua de desenvolvimento motor e não especifica- Sinais Holandesa (Van den Bogaerde, 2000), mente uma expressão da faculdade lingüísti- entre outros. ca. Assim como Petitto & Marentette, Meier Consideremos o caso do balbucio. A pes- & Willerman e Cheek et al. observaram o quisa referente ao balbucio de crianças ouvin- balbucio manual em crianças expostas a lín- tes revela que o balbucio vocal (sons repetitivos guas de sinais: observaram cinco crianças e silábicos como “baba”) emerge por volta dos surdas na faixa etária entre 7, 10, e 13 meses 6 a 8 meses de idade e continua (com algumas e relataram o balbucio manual entre 25% e mudanças) até a sua substituição por palavras. 93% de todos os gestos produzidos. Do mesmo modo, Petitto & Marentette (1991) Contudo, ao contrário de Petitto & observaram que crianças surdas expostas à Marantette, que relataram que o balbucio língua de sinais produzem ‘balbucios manu- manual era bem menos freqüente nos três ais’ durante o mesmo período. Descobriram sujeitos ouvintes analisados por eles (aproxi- a ocorrência de atividades de balbucio manu- madamente 20% dos gestos), Meier & Wil- al entre 32%-71% dos gestos produzidos por lerman e Cheek et. al. relatam que as cinco duas crianças surdas observadas aos 10, 12 e crianças ouvintes não expostas a línguas de 14 meses de idade. Petitito & Marentette ar- sinais que eles estudaram produzem balbu- gumentaram que o balbucio manual é similar cio manual muito semelhante ao das crianças ao balbucio vocal, ao satisfazer três condições. surdas, em uma média entre 44% - 100% de A primeira é que os balbucios utilizaram uni- todos os gestos. dades fonéticas restritas àquelas usadas em si- Os dois estudos relatam fortes similari- nalização; em segundo lugar, os balbucios de- dades entre crianças que estão desenvolvendo 3 “padrões sociais e interacionais do uso da língua… assim como os tipos de coisas que elas falam…, demonstraram inequivocamente que suas aquisições de língua seguem trajetórias idênticas verificadas em crianças ouvintes adqui- rindo línguas faladas”. 4 “a descoberta do balbucio em uma outra modalidade confirmou a hipótese de que a balbucio representa uma etapa crítica e distinta na ontogenia da linguagem humana”. 13
    193. Diane Lillo-Martin a língua de sinais e crianças que estão desen- 2. Explicação das diferenças entre volvendo a língua falada. Ambos os estudos aquisição de línguas de sinais e de também relacionam seus resultados a expli- línguas faladas. cações teóricas que ressaltam similaridades no desenvolvimento de línguas de sinais e Esta categoria de pesquisa se concentra nos de línguas faladas, embora suas teorias sejam aspectos onde a aquisição de línguas orais e a diferentes. Os dois são, portanto, bons exem- aquisição de línguas de sinais podem ser di- plos de paralelos entre aquisição de línguas ferentes e busca explicar essas possíveis dife- de sinais e aquisição de línguas faladas. renças como, por exemplo, os efeitos da mo- Por que é importante demonstrar que dalidade. Tais efeitos de modalidade podem crianças surdas com input de sinalização na- incluir iconicidade e desenvolvimento motor / tivo adquirem línguas de sinais num tempo articulatório, entre outros. ‘idêntico’ – ou até mesmo paralelo – ao de Um exemplo de pesquisa que considera o outras crianças que aprendem línguas fala- papel da modalidade na explicação das dife- Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais das? Para Petitto, a implicação desse resulta- renças entre o desenvolvimento da língua de do é que a propensão dos seres humanos para sinais e da língua falada examina o surgimen- a aprendizagem de línguas não é dependente to dos primeiros sinais versus palavras faladas. de modalidade. Ao contrário, os mecanismos Inúmeros autores afirmam que os primeiros que possibilitam o desenvolvimento lingüís- sinais surgem, aproximadamente, 6 meses tico aplicam-se igualmente bem a uma língua antes das primeiras palavras e o entusiasmo visual-gestual, como a uma língua auditiva- atual pela ‘sinalização do bebê’ na popula- vocal (auditory-vocal language). À medida ção ouvinte baseia-se nessa idéia. Meier & que procuramos compreender como é pos- Newport (1990), em uma minuciosa revisão sível a aquisição da linguagem, nossas teorias de literatura que documenta marcos impor- talvez tenham que ser repensadas para aco- tantes na aquisição sinal versus fala, chegaram modar essa independência de modalidade. a importantes conclusões gerais acerca das si- Essas conclusões sobre a natureza dos milaridades e diferenças. Primeiro, a ‘vanta- mecanismos de aquisição da linguagem só gem’ dos sinais parece ser de 1,5 a 2,5 meses seriam autorizadas se as línguas de sinais fos- (idade aproximada de 8,5 meses para os pri- sem consideradas como não sendo línguas meiros sinais e 10-11 meses para as primeiras humanas naturais completamente desenvol- palavras), e essa diferença é vista apenas com vidas (full, natural human languages), com as os primeiro sinais ligados ao contexto e não mesmas fundações biológicas e com ambien- com os sinais puramente simbólicos. Segun- tes sociais similares. Atualmente, lingüistas e do, os autores afirmam que a vantagem dos psicólogos bem informados não questionam sinais existe apenas em relação às primeiras o status das línguas de sinais. Entretanto, ain- palavras e não às primeiras combinações de da existem muitas pessoas que não são bem palavras (sintaxe inicial). Finalmente, Meier informadas sobre esse assunto e estão, muitas & Newport oferecem uma possível explica- vezes, em posição que lhes permitem tomar ção para a vantagem dos sinais em termos de decisões a respeito do bem estar de usuários mecanismos ‘periféricos’ – aqueles utilizados (potenciais) de língua de sinais. Por esse mo- na produção e/ou percepção de sinais versus 14 tivo, nunca é demais ressaltar essa questão. palavras. Eles apresentam argumentos para
    194. Estudos de aquisição de línguas de sinais: passado, presente e futuro pensarmos que leva mais tempo para a crian- Conlin, Mirus, Mauk, & Meier, 2000; ça falante desenvolver o controle articulató- Marentette & Mayberry, 2000). Por outro rio suficiente para produzir expressões que lado, alguns pesquisadores sugerem que tal- podem ser reconhecidas como palavras, do vez seja mais fácil para as crianças percebe- que para crianças sinalizantes desenvolverem rem diferenças na localização quando com- um controle comparável a esse. Portanto, a paradas com as diferentes configurações de diferença se resume a uma desvantagem da mão, também contribuindo para a precisão língua falada em seus primeiros estágios de mais antecipada com relação à localização. desenvolvimento lexical. Pesquisadores também observaram que Outra área de pesquisa que examina os os sinais iniciais das crianças freqüentemente efeitos da modalidade na aquisição de línguas envolvem repetição de movimento (Meier, de sinais diz respeito à fonologia do sinal ini- 2006). Isso pode estar diretamente relacio- cial. Pesquisadores estudaram os componen- nado aos movimentos repetidos no desen- tes de sinais com os quais as crianças apresen- volvimento motor, como os estereótipos de Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais tam maior ou menor precisão e observaram pontapés repetidos ou acenos com os braços. que, em muitos casos, o desenvolvimento Meier (2006) também afirma que as formas das crianças pode ser explicado levando-se iniciais não-alvo (non-target forms) de crian- em conta o desenvolvimento de mecanismos ças, que ocorrem em sinais formados com motores e perceptuais. As duas explicações as duas mãos (two-handed signs), podem ser enfatizam o papel da modalidade no proces- explicadas por referência a um fenômeno co- so de aquisição de línguas de sinais. É muito nhecido como “solidariedade” (sympathy), provável, portanto, que a modalidade tenha em que as crianças apresentam dificuldade um papel importante na explicação de pa- em inibir o movimento de uma mão enquan- drões de desenvolvimento fonológico. to a outra está ativa. Por exemplo, muitos pesquisadores en- Meier (2006) afirma que o estudo de fa- contram mais erros na configuração de mãos tores articulatórios no desenvolvimento da do que na localização nos sinais iniciais. Os fonologia dos sinais é importante devido a, primeiros sinais produzidos por crianças de pelo menos, duas razões. Primeiramente, sa- tenra idade tendem a utilizar a configuração ber quais efeitos têm sua origem na articula- de mão com todos os dedos estendidos, aber- ção ajuda a identificar aqueles que requerem tos ou relaxados (5); ou com os dedos cer- outras explicações. Segundo, ele sugere que rados (A); ou apenas com o dedo indicador fatores articulatórios podem promover tipos estendido (1). Essas configurações de mão específicos de organização lingüística - prin- freqüentemente serão substituídas por outras cipalmente para as crianças – o que pode nos em sinais da língua alvo que utilizam confi- levar a crer que esses efeitos podem refletir gurações de mão mais complexas. Uma pos- não apenas diferentes níveis de desempenho sível explicação oferecida para esse padrão é gramatical (para crianças sinalizantes e falan- que a coordenação motora fina (fine motor tes), como também diferentes competências. control) necessária para configuração de mão É difícil precisar o ponto em que o de- desenvolve-se mais tarde do que a coordena- senvolvimento da habilidade da criança para ção motora grossa (gross motor control) ne- produzir sinais reflete diferenças de desem- cessária para localização (Cheek et al., 2001; penho e competência, mas há alguns casos 1
    195. Diane Lillo-Martin para os quais uma explicação com base no as- lizados para testar os modelos. Esse é um pecto articulatório/perceptual provavelmente princípio da pesquisa em línguas faladas, as- não se sustenta. Por exemplo, Conlin et al. sim como da pesquisa em línguas de sinais, (2000) e Marentette & Mayberry (2000) su- embora tal princípio tenha sido aplicado so- gerem que alguns erros de localização não mente à pesquisa em línguas de sinais, em são consistentes com uma explicação moto- época relativamente recente. Discutirei aqui ra; mas, ao invés disso, afirmam que a crian- dois exemplos, sendo que o primeiro apenas ça não representou corretamente o valor de brevemente. localização de certos sinais. Essa sugestão re- Conlin et al. (2000) afirmam que “Es- força o comentário de Meier que conhecer os tudos do desenvolvimento dos sinais ini- aspectos articulatórios ajuda a identificar os ciais ... podem nos ajudar a decidir entre os aspectos do desenvolvimento que necessitam modelos concorrentes da linguagem adul- de explicações alternativas. ta” (p. 52)5. Por exemplo, eles sugerem que Esses exemplos enfatizam a dependência os sinais iniciais das crianças podem ajudar Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais de modalidade das explicações propostas para na determinação de sinais canônicos. Há o desenvolvimento fonológico. Entretanto, tempos já se admite que as configurações de deve-se apontar que os fatores articulatórios mão que ocorrem mais cedo são também as podem, também, explicar alguns aspectos formas ‘não-marcadas’ na linguagem adul- do desenvolvimento fonológico inicial, nas ta (Battison, 1978); portanto essa afirmação línguas faladas (por exemplo, MacNeilage & já foi parcialmente comprovada. Os autores Davis, 1990). Assim, os efeitos de ‘modalida- também esperam que a análise da sinaliza- de’ estão presentes em ambas as modalidades ção de crianças possa ajudar na avaliação de e, nesse sentido, atentar-se para a modalidade modelos da gramática adulta, especialmente é não apenas uma forma de se explicar como quando certos modelos são mais capazes de o desenvolvimento de línguas de sinais e o capturar generalizações a respeito das pro- desenvolvimento de línguas faladas são dife- duções de crianças. Karnopp (2002) assume rentes, mas, também, como são semelhantes. essa abordagem em sua investigação sobre o desenvolvimento da fonologia na Língua de Sinais Brasileira. Ela adota o Modelo de De- 3(a). Utilização de dados de pendência de Van der Hulst (1993) e seus re- aquisição de línguas de sinais sultados mostram que este modelo possibilita para fornecer informações sobre a fazer importantes previsões sobre a aquisição gramática de línguas de sinais da fonologia de sinais que emergiram dos da- dos analisados por ela, a partir da observação Quando modelos gramaticais concorrentes de uma criança surda sinalizante. Ela conclui fazem previsões diferentes sobre o processo que os dados de aquisição de língua de sinais de aquisição, dados relativos ao desenvolvi- que ela analisou oferecem um sólido embasa- mento (developmental data) podem ser uti- mento para o modelo teórico utilizado. 5 “Estudos sobre o desenvolvimento inicial de sinais podem nos ajudar a decidir entre modelos concorrentes da 1 linguagem adulta”
    196. Estudos de aquisição de línguas de sinais: passado, presente e futuro Um segundo exemplo vem da área da Segundo um tipo de análise gramatical, sintaxe. Lillo-Martin & Quadros (2005; 2006) a duplicação e a construção final estão rela- afirmam que a aquisição de tópico, foco e cionadas. As duas construções são utilizadas perguntas QU- em ASL e LSB ajudam a reve- para enfatizar o foco (for emphatic focus) e, lar as análises corretas dessas estruturas. Co- segundo essas teorias, ambas apresentam meçaremos com alguns exemplos. derivações relacionadas (Nunes & Quadros, Nas duas línguas (ASL e LSB), certos si- 2006, 2007; Petronio, 1993; Wilbur, 1997). nais podem aparecer duas vezes na sentença, Entretanto, existe um outro tipo de foco, uma vez em sua posição habitual e uma vez conhecido como foco de nova informação no final da sentença, para enfatizar aquele (new information focus) (abreviado como “I- sinal. Essas construções são geralmente de- focus”). Diferentemente do foco enfático, o nominadas ‘duplicação’ (doubling). Damos foco de nova informação posiciona o mate- alguns exemplos em (1) (os exemplos nesta rial focalizado na posição inicial da senten- sessão são extraídos de Lillo-Martin & Qua- ça (Lillo-Martin & Quadros, 2007; Neidle, Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais dros 2007). 2002). O foco de nova informação é utilizado, por exemplo, no contexto de resposta a uma (1) a. JOHN CAN READ CAN [John sa- pergunta, como no exemplo (3). A ordem de ber ler saber] palavras não-marcada (SVO) também é per- ‘John really CAN read.’ [John real- mitida nesses contextos. mente SABER ler] b. MARY FINISH GO SPAIN FINISH (3) S1: O QUE VOCÊ LER? (WHAT YOU [Mary terminar de ir Espanha terminar] READ?) ‘Mary ALREADY went to Brazil.’ ‘O que você leu?’ (‘What did you [Mary JÁ foi para o Brasil] read?’) c. I LOSE BOOK LOSE [EU PERDER I-foco LIVRO PERDER] S2: LIVRO STOKOE EU LER (BOOK ‘I did LOSE the book indeed.’ [Eu STOKOE I READ) realmente PERDI o livro de verdade] S2: EU LER LIVRO STOKOE (I READ BOOK STOKOE) Também nas duas línguas, a mesma ca- ‘Eu li o livro do Stokoe’. (‘I read Sto- tegoria de sinais que pode ocorrer nas cons- koe’s book.’) truções duplicadas, pode ocorrer, também, apenas em posição final na sentença. Essas De acordo com a proposta de Lillo- sentenças podem ser nomeadas ‘construções Martin & Quadros, o I-focus é derivado finais. Veja os exemplos em (2). sintaticamente por meio de um mecanismo completamente diferente daquele do foco (2) a. JOÃO LER SABE (JOHN READ enfático. Elas previram que se suas análises CAN) estivessem corretas, as crianças iriam adqui- b. MARIA IR ESPANHA TERMINA rir, simultaneamente, as construções finais (MARY GO SPAIN FINISH) e a duplicação, já que as duas são exemplos c. EU LIVRO PERDER (I BOOK LOSE ) de foco enfático, mas essas construções po- 1
    197. Diane Lillo-Martin dem ser adquiridas independentemente do construções finais em ASL e LSB e refutam I-focus, pois seu processo de derivação é di- as análises que dão origens distintas a essas ferente. construções. Lillo-Martin & Quadros (2005) testaram Esses dois exemplos demonstram áreas sua previsão observando os dados de produ- nas quais dados gerados a partir de aquisição ção longitudinal espontânea de duas crianças de línguas de sinais podem afetar questões surdas que adquiriam a ASL como língua teóricas de análises gramaticais. Tanto para materna (Aby e Sal) e de duas crianças sur- as línguas sinalizadas como para as línguas das que adquiriam LSB como língua materna faladas, há muitos casos em que propostas te- (Ana e Leo). óricas diferentes, obviamente, não fazem di- As quatro crianças são filhas de pais ferentes previsões para a aquisição. Sendo as- surdos e sinalizantes. As crianças foram fil- sim, os dados de aquisição podem não afetar madas com regularidade, desde um período tais questões. Entretanto, outros casos levam anterior à idade de 2 anos. Suas enunciações à expectativa de ordem, de tal forma a ser Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais foram examinadas para determinar quando possível esperar que os fenômenos que estão começaram a utilizar, produtivamente, o I- relacionados na gramática adulta possam ser focus, a duplicação e as construções finais. adquiridos simultaneamente; ou que os fenô- Os resultados desse estudo estão sintetizados menos que são separados, sejam adquiridos na Tabela 1. separadamente. Em alguns casos, é possível fazer previsões de ordenação específicas, por Tabela 1 exemplo, quando uma construção especifica apresenta outras, como pré-requisitos (para Síntese dos resultados - Lillo-Martin & Quadros (2005) discussão de exemplos, ver Snyder & Lillo- Idade de aquisição de cada estrutura Martin, no prelo). Nesses casos, os dados de aquisição da linguagem fornecem importante Criança I-focus Duplicação Posição Final confirmação – ou disconfirmação – de supo- sições teóricas. Aby 1;9 *** 2;1 2;0 Sal 1;7 *** 1;9 1;9 3(b). Utilização da gramática de línguas Ana 1;6 ** 2;0 2;1 de sinais para fornecer informações sobre a aquisição de línguas de sinais Leo 1;10 *** 2;1 2;2 ** p < .005 *** p < .001 A categoria 3A examina as maneiras como os estudos de aquisição podem fornecer infor- É evidente que as crianças adquiriram mações para os estudos gramaticais. A pre- simultaneamente a duplicação e a constru- sente categoria de estudos segue em direção ção final; porém, essas duas construções contrária, utilizando novos avanços gramati- foram adquiridas depois do I-focus (o que cais para fornecer informações aos estudos de é altamente significativo para a Probabili- aquisição. Essas duas categorias estão intima- dade do Binômio Exato). Pode-se dizer que mente ligadas, já que ambas demonstram a os resultados obtidos confirmam as análises estreita relação entre os estudos de aquisição 1 teóricas que relacionam a duplicação e as e a teoria lingüística. De fato há, freqüente-
    198. Estudos de aquisição de línguas de sinais: passado, presente e futuro mente, um efeito espiral tal que os dois cam- ‘As bonecas estão chorando.’ (‘The pos se beneficiam e se influenciam reciproca- dolls are crying.’) mente, no mesmo domínio. Um exemplo dessa categoria provém Coerts (2000), então, re-analisou os da pesquisa sobre o desenvolvimento de or- dados de crianças, estudados anteriormen- dem de palavras por crianças. Coerts & Mills te por Coerts & Mills. Primeiro, ficou evi- (1994) dedicaram-se a um estudo sobre o dente que as crianças sabiam que a SLN desenvolvimento da ordem de palavras (su- permitia o uso de sujeitos nulos, pois elas jeito – objeto – verbo) na Língua de Sinais utilizavam o sujeito nulo apropriadamente da Holanda (SLN), em duas crianças surdas e freqüentemente. Utilizou um critério rí- sinalizantes, com idade entre 1,5 e 2,5 anos. gido para o processo de aquisição do SPC: Os resultados de seu estudo mostraram que as a criança deveria utilizar um pronome na crianças demonstraram um alto grau de varia- posição final de uma frase com um sujeito bilidade em sua ordenação de sujeitos e ver- explícito, para mostrar que havia adquirido Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais bos. Essa variabilidade na aquisição da ordem o SPC. Depois que as crianças demonstra- de palavras foi intrigante e permaneceu sem ram ter adquirido o SPC, por volta dos dois uma explicação completa, no trabalho inicial. anos de idade, toda ocorrência posterior da Então, Bos (1995) identificou na SLN um ordem verbo – sujeito, em que o sujeito processo conhecido como Cópia do Prono- após o verbo é um pronome – foi conside- me do Sujeito (Subject Pronoun Copy - SPC) rada um caso de SPC. (cf. Padden, 1988). De acordo com o SPC, o Utilizando essa re-análise, Coerts desco- sujeito de uma frase pode ser repetido como briu que a maioria dos exemplos prévios de um pronome na posição final da frase, con- ordem de palavras que se mantinham ‘sem forme exposto em (4)a. Contudo, também explicação’ era, na verdade, explicável e que a é possível que o sujeito na posição inicial da aquisição da ordem de palavras por crianças sentença esteja ausente (esse é um processo estava de acordo com as expectativas. Coerts geral encontrado na SLN e também em ou- conclui que: tras línguas de sinais). Quando o sujeito na posição inicial da frase não é expresso, mas o o conhecimento da linguagem adulta con- pronome na posição final da frase está presen- duz a escolha dos procedimentos de análise te, a ordem superficial é verbo - sujeito, como a serem utilizados para os dados de aquisição em (4)b (exemplos extraídos de Coerts 2000). ... um procedimento de análise que leva em conta a cópia do pronome do sujeito resulta (4) a. INDICADORbeppie FILME INDICADOR- em um quadro mais claro a respeito da aqui- beppie ( INDEXbeppie FILM INDEXbeppie) sição da posição do sujeito e do verbo na sen- ‘Beppie está filmando’ (‘Beppie is fil- tença (Coerts 2000)6. ming’.) b. CHORAR INDICADORbonecas (CRY Um projeto desenvolvido por Chen INDEXdolls) Pichler (2001a; 2001b) chegou a resultados 6 “O conhecimento das línguas adultas direciona a escolha de procedimentos de análise utilizados para os dados de aquisição… um procedimento de análise que leva em consideração cópia do pronome sujeito resulta em uma descrição muito mais clara em relação à aquisição da posição do sujeito e verbo”. 1
    199. Diane Lillo-Martin semelhantes relacionados à ASL. Seu estu- quando se estuda o desenvolvimento lingüís- do vai além da consideração isolada da SPC tico. O objetivo de se estudar a aquisição de e inclui outras ocorrências de mudanças da linguagem é compreender como as crianças ordem das palavras, permitidas na gramática se tornam semelhantes aos adultos, em ter- adulta. Apesar de existirem argumentos ante- mos de seu conhecimento da língua. Quan- riores quanto ao fato de as crianças seguirem do as crianças diferem dos adultos, é preciso estritamente a ordem de palavras básica SVO buscar uma explicação para essa diferença. utilizada pelos adultos, Schick (2002) não en- Porém, algumas vezes, ao analisarem o de- controu evidências dessa estratégia em crian- senvolvimento da criança, pesquisadores não ças com dois anos de idade, concluindo que, levam em conta os avanços no estudo da gra- na verdade, a ordem de palavras das crian- mática adulta. A descrição da linguagem a que ças era ‘aleatória’. Chen Pichler utilizou uma as crianças estão expostas e da qual elas serão abordagem semelhante à de Coert e determi- usuárias muda à medida que pesquisadores nou quando o uso da ordem verbo – sujeito coletam mais dados e formam hipóteses que Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais por crianças poderia ser considerado um caso apontam em novas direções para futuras pes- de SPC e quando a utilização da ordem objeto quisas. Pesquisadores da aquisição de língua – verbo poderia ser considerada proveniente podem frustrar-se com esse alvo móvel, mas de operações de mudança da ordem de pa- eles também podem se beneficiar disso, em lavras, similares à de adultos (por exemplo, termos de análises melhoradas e sugestão de mudança do objeto). hipóteses próprias. Chen Pichler estabeleceu critérios cla- ros para considerar enunciações como mu- danças de ordem permitidas (legal order 4. Utilização de dados da aquisição changes). Por exemplo, os sujeitos que apa- de língua de sinais para fornecer recem após os verbos (post-verbal subjects) informações sobre teorias de devem ser pronomes, para serem conside- aquisição da linguagem rados SPC; objetos que aparecem antes do verbo (pre-verbal objects) que ocorrem com Na seção anterior, consideramos teorias da verbos marcados para aspecto, localização gramática adulta e sua relação com a pesqui- espacial, ou classificadores manuais foram sa na aquisição da linguagem. Nesta seção, considerados exemplos de mudança do ob- descrevemos teorias do processo de aquisi- jeto. Utilizando esses critérios, Chen Pichler ção. É possível testar teorias alternativas a descobriu que a maneira como as crianças respeito de como a linguagem se desenvolve usam a ordem das palavras demonstra con- e refinar a pesquisa, utilizando-se dados de formidade regular com as opções gramati- aquisição de línguas de sinais coletados em cais, em fase muito anterior ao que antes se tempo-real, da mesma forma como se testa imaginava. Dessa forma, a consideração de teorias utilizando-se dados gerados a partir tais avanços nas análises sintáticas nos leva de línguas faladas. Essas são teorias mais ge- a pesquisas mais confiáveis nos estudos de rais sobre aquisição da linguagem, não espe- aquisição. cíficas às línguas de sinais (e, em geral, não Os dois exemplos ilustram a importân- desenvolvidas com base em dados de línguas 200 cia de se considerar a gramática adulta alvo, de sinais).
    200. Estudos de aquisição de línguas de sinais: passado, presente e futuro Consideremos a Hipótese da Ilha Verbal demonstraram padrões de ordem consistentes (Verb Island Hypothesis) de Tomasello (1992), com alguns verbos. Entretanto, ela descobriu como exemplo. De acordo com esse modelo que, em muitos casos, a ordem das palavras era de desenvolvimento lingüístico (geral), as muito variada, até mesmo para verbos indivi- crianças passam por um período em que “os duais. Isso, aparentemente, não mostra nem verbos são ‘ilhas’ individuais de organização ilhas verbais, onde verbos individuais com- em um sistema gramatical que seria, sem sua portam-se de forma semelhante, nem fornece presença, um sistema não-organizado” (cf. evidências de regras de ordem de palavras, que sintetizado por Schick 2002)7. O modelo pre- se aplicariam a todos os diferentes verbos. vê que alguns padrões (como ordem das pa- Nesse contexto, podemos retomar os resul- lavras ou flexões) irão ocorrer com verbos in- tados de Coerts (2000) e Chen Pichler (2001), dividuais, embora não haja evidências de que relatados na seção 3B. Esses autores relataram o uma classe gramatical inteira se comporta da uso sistemático da ordem de palavras por crian- mesma maneira. Esse período inicial das ilhas ças sinalizantes bem jovens, quando alterações Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais verbais teria início quando as crianças estão gramaticais possibilitadas pela gramática adulta começando a usar combinações de duas pa- também são consideradas. De acordo com esses lavras, mas só se percebem generalizações em resultados, a sinalização infantil não é nem alea- sua produção alguns meses depois (digamos, tória e nem organizada em ilhas verbais especí- por volta dos dois anos, para a maioria das ficas. Ao invés disso, as regras que caracterizam crianças). a gramática adulta são também encontradas Sustentando essa proposta, Morgan & nesse domínio da linguagem infantil. Resta sa- Woll (2002) concluem: “não encontramos ber se os dados analisados por Morgan & Woll evidências para a exploração da criança de um (BSL) e por Schick (ASL) possibilitam que se conjunto abstrato de estruturas verbais antes da chegue às mesmas conclusões. idade de 3,2 anos. A criança parecia construir Outro exemplo parte do estudo de Reilly estrutura de argumento (argument structure) a sobre o desenvolvimento da marcação não- cada vez, com cada novo verbo e esses verbos manual (cf. sintetizado em Reilly, 2006). eram, individualmente, atrelados à sua função Reilly e seus colegas têm se interessado pelo comunicativa.”8 Somente mais tarde, os autores desenvolvimento infantil do uso da marcação argumentam que as crianças constroem regras lingüística não-manual, em oposição às ex- que são válidas para múltiplos verbos. pressões faciais afetivas e comunicativas fre- Schick (2002) também examinou a hipó- qüentemente muito parecidas. Reilly vê esse tese da ilha verbal em seu estudo sobre as pri- projeto como, em parte, um teste da questão meiras combinações de sinal. Ela encontrou referente ao “grau em que a linguagem é uma apenas evidências limitadas para confirmar função inata, específica, cognitiva e indepen- a hipótese: algumas crianças que ela analisou dente”9, uma vez que avalia a separabilidade 7 “Verbos são ilhas individuais de organização em um sistema gramatical contrariamente desorganizado”. 8 “Não encontramos nenhuma evidência da exploração por parte da criança de um conjunto abstrato de quadros verbais antes de 3.2. A criança pareceu construir novamente estrutura argumentativa com cada novo verbo e esses verbos estavam exclusivamente ligados a suas funções comunicativas”. 9 “o grau no qual a linguagem é uma função cognitiva, inerente, específica e independente” 201
    201. Diane Lillo-Martin da linguagem de outras funções cognitivas. Reilly e seus colegas descobriram que Ela sugere que uma abordagem à aquisição crianças surdas que adquirem línguas de si- da linguagem segundo a qual a linguagem é nais, assim como crianças ouvintes não-si- vista como um sistema cognitivo geral pode- nalizantes, produzem movimentos da cabe- ria prever que crianças colocariam pronta- ça negativos comunicativos por volta dos 12 mente suas habilidades pré-lingüísticas afe- meses de idade. Os primeiros sinais de nega- tivas e comunicativas a serviço das funções ção, NÃO (NO) e NÃO-QUERO (DON’T- lingüísticas e que, portanto, elas adquiririam WANT), emergem entre 18-20 meses, segui- a marcação não-manual juntamente com dos por outros sinais negativos até a idade de seus componentes manuais coincidentes (co- 3,6 meses. Para sete dos oito sinais de negação occurring manual components). Por outro investigados, Reilly descobriu que o sinal ma- lado, “as crianças lidariam com cada estrutu- nual aparece primeiro sem a co-ocorrência do ra lingüística e sua morfologia novamente”10 movimento de cabeça exigido. Diversos me- em uma abordagem mais modular. ses depois, o movimento da cabeça negativo Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais Essa questão é claramente discutida com é utilizado juntamente com os sinais de ne- os dados do desenvolvimento da marcação gação. Essa separação ocorreu apesar do fato não-manual da negação. A marcação não- de o movimento negativo de cabeça ter sido manual negativa utilizada na ASL adulta é usado pré-lingüisticamente por essas crian- essencialmente similar ao movimento da ças, para significar, essencialmente, a mesma cabeça negativo usado comunicativamente coisa. Reilly conclui que as crianças conside- por crianças bem jovens, expostas ou não à ram o movimento da cabeça negativo, como é língua de sinais. A negação pode ser expressa usado na ASL, como um elemento lingüístico na ASL adulta por um sinal negativo co-ocor- que deve ser analisado independentemente. rendo com o movimento da cabeça negativo, Isso não seria previsto pela teoria lingüística ou mesmo isoladamente, pelo movimento como um sistema cognitivo geral, mas ape- da cabeça negativo, conforme mostram os nas pela abordagem modular. exemplos em (5) (extraídos de Reilly 2006). As duas teorias discutidas nesta seção – a hipótese da ilha verbal e a modularidade da t neg língua em relação a outros sistemas cognitivos (5) a. LIVRO LER EU NÃO POSSO – podem ser futuramente testadas utilizan- (BOOK READ ME CAN’T) do-se dados da aquisição da língua de sinais, ‘Eu não posso ler o livro’. 9 ‘I can’t assim como outras teorias de desenvolvimen- read the book.’) to lingüístico. Em alguns casos, as línguas de neg sinais fornecem uma nova forma de dados b. EU COMER SORVETE (ME EAT que seria inacessível apenas por meio de estu- ICE-CREAM) dos de línguas faladas. O estudo da marcação ‘Eu não como sorvete’. (‘I don’t eat ice não-manual negativa é um desses casos. Em cream.’) outros casos, as línguas de sinais fornecem a 202 10 “as crianças lidariam com cada estrutura lingüística e sua morfologia novamente”.
    202. Estudos de aquisição de línguas de sinais: passado, presente e futuro necessária amplitude e diversidade de línguas de 95% das crianças surdas possuem pais ou- que podem ter implicações para a discussão vintes (Mitchell & Karchmer, 2004), não é de de uma questão teórica. se admirar que a grande maioria não esteja exposta à língua de sinais desde o nascimen- 5. Utilização de dados de aquisição to. Ocasionalmente, os pais decidem educar da língua de sinais para fornecer seus filhos oralmente (sem utilizar língua de informações sobre a natureza da sinais); algumas dessas crianças são, poste- linguagem riormente, expostas à língua de sinais, após terem aprendido apenas uma porção da lín- O estudo das línguas de sinais e comunidades gua falada (geralmente não o suficiente para surdas pode fornecer informações sobre o de- comunicar-se efetivamente). Em outros ca- senvolvimento lingüístico em circunstâncias sos, as crianças têm contato tardio com a extremas que não são encontradas em outro língua de sinais simplesmente porque os re- lugar. Essa é uma contribuição única à nossa cursos necessários para expor a criança a essa Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais compreensão da natureza da linguagem e dos língua, mais cedo, não estavam disponíveis mecanismos que possibilitam a aquisição da à sua família. Por várias razões, as crianças linguagem. Pesquisadores que estudam essas podem ser expostas à língua de sinais ape- circunstâncias possuem um papel muito espe- nas depois dos dois, cinco ou doze anos de cial no avanço do conhecimento científico. idade. Não se entende muito bem como essa Alguns exemplos dessas contribuições exposição lingüística tardia afeta o desenvol- provêem de estudos de línguas de sinais re- vimento lingüístico, porém, fica evidente que cém desenvolvidas, aprendizes tardios da lín- os efeitos existem. gua de sinais como L1, aprendizes com input Morford & Mayberry (2000) apresentam prejudicado, aprendizes de sistema de sinais um panorama de alguns efeitos investigados inventados, sinalizantes caseiros, etc. Esses sobre o input tardio na aquisição e processa- estudos nos informam sobre a amplitude de mento da (primeira) língua. A maioria dessas possíveis línguas, a trajetória e as proprieda- pesquisas foi conduzida com adultos que fo- des da emergência da língua, as propriedades ram expostos à língua de sinais em diferentes ‘resilientes’ da língua que aparecem na au- períodos. Ao estudar adultos que após anos sência de evidência, efeitos do período crítico de experiência tornaram o uso da língua de na aquisição da linguagem, como o aprendiz sinais uma habilidade bastante praticada e modifica o input recebido, etc. A amplitude conhecida, pesquisadores investigaram o re- de resultados a partir dessas pesquisas é tão sultado do processo de seu desenvolvimento grande e importante que não há como men- lingüístico. cionar todos, aqui, detalhadamente. Entretan- De modo geral, as pesquisas com adultos to, darei um exemplo para aguçar o apetite do que tiveram seu primeiro contato com a ASL leitor; para uma refeição completa, por favor, com idade aproximada entre 4 – 16 anos, consulte os trabalhos originais na área. comparados a sinalizantes nativos (aqueles Aprendizes tardios da primeira língua com contato desde o nascimento), apresen- são praticamente inexistentes em comunida- taram, consistentemente, diferenças relata- des de língua falada, o que não é o caso em das tanto nos testes de produção, como nos comunidades sinalizantes. Um vez que cerca de compreensão. Além disso, pesquisas que 203
    203. Diane Lillo-Martin observam o processamento lingüístico tam- jovens têm a habilidade de detectar padrões bém encontraram diferenças entre grupos do tamanho ideal para o desenvolvimen- com idades diferentes de exposição à língua. to de morfologia complexa, enquanto que O grau de um efeito não é uniforme nos dife- as capacidades cognitivas mais importantes rentes estudos. Por exemplo, Newport (1990) de crianças mais velhas ou adultos interfe- descobriu que aprendizes tardios (com expo- rem, de fato, nesse tipo de análise, levando, sição após os 12 anos) tiveram uma pontua- portanto, às diferenças na performance em ção mais baixa do que aprendizes ‘mais jo- testes sintáticos versus testes morfológicos vens’ (exposição entre 4 e 6 anos), que por observados. sua vez pontuaram menos do que sinalizantes Uma hipótese alternativa é proposta por nativos, em testes de morfologia, produção Morford & Mayberry (2000), que enfatizam e compreensão em ASL. Entretanto, os três as diferenças nas habilidades de processa- grupos não apresentaram diferença em um mento fonológico de nativos ou aprendizes teste de ordem básica de palavras. De forma jovens versus aprendizes tardios e sugerem Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais semelhante, Emmorey et al. (1995) descobri- que o que falta aos aprendizes tardios é o que ram que sinalizantes tardios eram diferentes é aprendido por aqueles com exposição à lín- de sinalizantes nativos em um estudo de pro- gua nativa (native exposure) no primeiro ano cessamento em linha (on-line processing) de de vida. Particularmente, grande parte de de- concordância verbal, mas não na marcação senvolvimento fonológico acontece durante de aspecto. esse período e estudos comprovam a sensibi- Mayberry et al. (2002) expandiram seus lidade dos bebês às informações fonológicas resultados comparando aprendizes de ASL desde a mais tenra idade. O que Morford & como L1 com aprendizes tardios de ASL Mayberry propõem é que “a verdadeira van- como L2: adultos que ensurdeceram tardia- tagem da exposição mais cedo à língua é o mente que foram expostos à língua de sinais desenvolvimento do sistema fonológico antes ao mesmo tempo em que os aprendizes tar- do desenvolvimento dos sistemas semântico- dios de L1 (9-13). lexicais e morfo-sintáticos”11. Problemas de Os efeitos do contato tardio foram mais processamento fonológico podem apresentar evidentes nos aprendizes tardios de L1; os um efeito ‘cascata’ em outros níveis de pro- aprendizes tardios de L2 tiveram desempe- cessamento lingüístico, aparecendo em várias nho mais próximo àquele dos nativos. áreas de efeitos de atraso na aquisição da lin- Esses resultados reforçam a idéia de que guagem (language delay). o contato mais cedo com a língua é crucial A hipótese de Morford & Mayberry deve para sua aquisição normal. Mas qual(quais) ser testada em outros estudos sobre efeitos fator(es) será(ão) o(s) mais afetado(s) pelo do input lingüístico tardio. Uma questão im- input tardio enquanto outros fatores são re- portante é saber se a hipótese do déficit de lativamente poupados desse efeito? Newport processamento fonológico pode explicar to- (1990) levanta a hipótese que crianças bem talmente as áreas de diminuição da capacida- 11 “A vantagem real da exposição precoce à língua é o desenvolvimento do sistema fonológico antes do desenvol- 204 vimento dos sistemas léxico-semânticos e morfo-sintáticos”.
    204. Estudos de aquisição de línguas de sinais: passado, presente e futuro de e as áreas de preservação, encontradas em outra categoria específica. Uma área de pes- aprendizes tardios. Existem também diferen- quisa que evidentemente tangencia todos os ças especificamente gramaticais entre apren- temas é a aquisição da concordância verbal, dizes precoces e tardios? Algumas evidências que tem sido o foco de atenção por mais de de tais diferenças foram fornecidas por um vinte anos. estudo de duas crianças cuja exposição à ASL Meier (1982) examinou a aquisição da teve início aos seis anos de idade. Os resulta- concordância verbal em ASL, comparando- dos desse estudo (Berk, 2003) mostram que a com a aquisição da morfologia verbal em os aprendizes tardios são especialmente afe- línguas faladas. Ele colocou a questão de a tados em sua produção de concordância pes- concordância ser ou não adquirida de for- soal, nos verbos em ASL. Outras morfologias ma diferente nas duas modalidades, já que a verbais, indicando concordância de lugar, concordância em línguas de sinais pode ser não são afetadas, embora a forma dessa con- considerada icônica (por exemplo, a concor- cordância seja muito parecida com a de mar- dância do verbo EU TE DOU (I GIVE YOU) Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais cação pessoal. Parece haver uma implicação pode parecer uma mímica da ação de “dar”). de déficit especificamente gramatical (possi- O autor argumenta que a concordância em velmente, além das dificuldades no processa- língua de sinais é adquirida de forma seme- mento fonológico). lhante à concordância verbal complexa e não O estudo sobre aprendizes tardios tem marcada em algumas línguas faladas. Espe- muito a oferecer às teorias da linguagem e cificamente, ele descobriu que a concordân- desenvolvimento lingüístico. Os efeitos do cia só é dominada por volta dos 3 anos (não input tardio não devem ser aleatórios ou ge- antes, devido à iconicidade aparente). Esse rais, mas devem incidir sobre as brechas que domínio é definido como uso correto em a gramática disponibiliza. As teorias que bus- contextos obrigatórios, uma consideração cam explicar porque as crianças são melhores importante, já que nem todos os verbos ad- aprendizes de língua do que adultos precisam mitem concordância. fazer referência aos aspectos cruciais do meca- Por outro lado, Morgan et al. (2006) nismo do aprendizado de língua. Tais teorias argumentam que os aspectos ‘espaciais’ de têm poucos dados para ir além do domínio concordância verbal em línguas de sinais se da aquisição da L1 em crianças surdas, já que comportam de maneira diferente das línguas a aprendizagem da L2 parece apresentar limi- faladas. Além disso, eles alegam que fatores tações e conseqüências diferentes. Portanto, tipológicos e de modalidade explicam os torna-se evidente a necessidade de pesquisas padrões desenvolvimentais na aquisição da nessa área. Língua de Sinais Britânica (BSL). Eles argu- mentam que a morfologia verbal em línguas de sinais possui um alto grau de simultanei- 6. Pesquisa com temas inter-cruzados dade, o que torna a segmentação difícil para a criança jovem. Esse fato contribui para a Muitas áreas na pesquisa de aquisição de lín- aquisição relativamente tardia observada em guas de sinais tangenciam mais de um dos te- uma das crianças surdas que utilizou a con- mas acima, embora tenha sido possível ‘for- cordância produtivamente, por volta de 3 çar’ alguns estudos a se encaixar em uma ou anos de idade. 20
    205. Diane Lillo-Martin Contudo, mudanças na classificação de analisada em aprendizes tardios e aparenta ser verbos em verbos que exigem ou não con- uma área de problemas especiais. Aprendizes cordância e diferentes propostas acerca de tardios adultos (Newport 1990) e crianças como a concordância verbal deveria ser ana- com exposição tardia (Berk 2003) apresenta- lisada, levaram a uma visão diferente da na- ram erros na morfologia verbal e demonstra- tureza das primeiras concordâncias verbais. ram ter dificuldades de processamento nesse Casey (2003) observou os primeiros usos de domínio (Emmorey et. al. 1995). A concor- concordância verbal em um grupo de crian- dância verbal também é alvo de interesse na ças em processo de aquisição da ASL, embo- pesquisa de línguas emergentes (Aronoff, Pa- ra tenha identificado erros de omissão em dden, Meir, & Sandler, 2004; Senghas, 2000). contextos obrigatórios até os 3 anos, mesmo Esse campo de pesquisa tem sido extre- com a incorporação de novas idéias sobre a mamente produtivo, com questões e preocu- classificação verbal. Quadros & Lillo-Martin pações que vão além daquelas aqui mencio- (2007) utilizaram avanços recentes na análise nadas. Ver também Meier (2002), para uma Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais da morfologia da concordância verbal para revisão crítica de muitas dessas observações. identificar contextos de uso obrigatório e observaram que erros de omissão são extre- mamente raros, em duas crianças adquirin- 7. O futuro da pesquisa em aquisição do ASL e duas adquirindo LSB. Esses estudos de línguas de sinais atualmente estão trabalhando nas duas dire- ções, uma vez que Quadros & Lillo-Martin Como será o futuro da pesquisa em aquisi- (em preparação) mostram que os dados de ção de línguas de sinais? Um destino possí- aquisição ajudam a identificar contextos adi- vel pode ser aquele em que os estudos em cionais de opcionalidade que são confirma- aquisição de línguas de sinais desaparecem, dos nos estudos com sinalizantes adultos. devido à falta de interesse; outro destino se- Em relação ao quarto tema, os estudos da ria pesquisa conduzida apenas por uns pou- aquisição da concordância verbal foram de- cos pesquisadores isolados. Nossa esperança, senvolvidos para discutir várias questões te- entretanto, é que esses estudos se ampliem óricas. Por exemplo, Morgan & Woll (2002) e que cada vez mais pesquisas dirigidas por discutem as várias abordagens ao problema hipóteses (hypothesis-driven research) sejam do ‘mapeamento’, isto é, como as crianças conduzidas nesse domínio. É importante que aprendem a ‘mapear’ várias representações mais pesquisadores surdos se envolvam nes- conceituais conhecidas em estruturas lingü- sa área de estudo, já que seus conhecimentos ísticas que elas estão adquirindo. Os teóricos da língua e de seu contexto são incomensu- utilizam a aquisição da concordância verbal ráveis. Isso significa que mais oportunidades como uma fonte de dados para analisar esse para treinamento e colaboração deveriam ser problema, concluindo que as crianças devem criadas e incentivadas. desenvolver lentamente estruturas mais com- Esperamos que pesquisas futuras tam- plexas (por exemplo, aquelas com um grande bém aumentem as conexões com as questões número de posições de argumento), depois relativas à aquisição de línguas faladas. As de iniciar com as mais simples. teorias da linguagem e de aquisição da lin- 20 Finalmente, a concordância verbal foi guagem devem incorporar dados em língua
    206. Estudos de aquisição de línguas de sinais: passado, presente e futuro de sinais, para que a pesquisa em línguas de drecht: Kluwer Academic Publishers, 2004, pp. sinais se informe e se beneficie dos estudos 19-40. das línguas faladas. Incentivamos, também, BATTISON, R. Lexical borrowing in American Sign estudos com uma variedade maior de po- Language. Silver Spring: Linstok Press, 1978. pulação - por exemplo, comparações entre BERK, S. Sensitive Period Effects on the Ac- línguas de sinais, estudos dos efeitos das di- quisition of Language: A Study of Language ferenças de qualidade e tempo de input, etc. Development. Unpublished Ph.D. Dissertation, Todos esses estudos têm muito a oferecer, University of Connecticut, Storrs, 2003. tanto em termos de sua contribuição à co- BOS, H. Pronoun copy in Sign Language of the munidade científica quanto em termos de Netherlands. In BOS, H.; SCHERMER, T. sua aplicabilidade. (Orgs.). Sign Language Research 1994: Proce- Por fim, todos esses anseios por pesqui- edings of the 4th European Congress on Sign sas futuras se baseiam na premissa de que as Language Research. Hamburg: Signum, 1995, crianças surdas continuam a ser expostas às p. 121-147. Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais línguas de sinais e continuam a adquirir tais CASELLI, M. C.; VOLTERRA, V. From communi- línguas. Esse é o componente mais impor- cation to language in hearing and deaf children. tante do futuro da pesquisa em aquisição de In: VOLTERRA, V.; ERTING, C. J. (Orgs.). línguas de sinais. From Gesture to Language in Hearing and Deaf Children. Berlin: Springer Verlag, 1990, p. 263-277.. Agradecimentos CASEY, S. ‘Agreement’ in gestures and signed languages: the use of directionality to indi- A autora agradece sinceramente a Ronice cate referents involved in actions. Tese de Müller de Quadros e à comissão organizado- doutorado (Ph.D. Dissertation) - University ra do TISLR 9, pelo convite para apresentar of California, San Diego, 2003. este trabalho e pela organização de um con- CHEEK, A.; CORMIER, K.; REPP, A.; MEIER, R. gresso tão agradável e educativo e a seus co- P. Prelinguistic gesture predicts mastery and legas participantes, por suas apresentações error in the production of first signs. In: Lan- estimulantes e pelas discussões no local e nos guage, v. 77(2), p. 292-323, 2001. arredores do evento. CHEN PICHLER, D. Evidence for early word order A preparação da apresentação e do texto acquisition in a variable word order language. foi parcialmente financiada por uma bolsa do In: A. H.-J. DO; DOMINGUEZ, L.; JOHAN- National Institutes of Health (Instituto Na- SEN, A. (Orgs.). Proceedings of the 25th cional de Saúde) (NIDCD #00183). Boston University Conference on Language Development. Sommerville, MA: Cascadilla Press, 2001a. Referências CHEN PICHLER, D. Word Order Variability and Acquisition in American Sign Language. Tese ARONOFF, M.; PADDEN, C.; MEIR, I.; SAND- de doutorado (Ph.D. Dissertation) - University LER, W. Morpological Universals and the Sign of Connecticut, Storrs, 2001b. Language Type. In: BOOIJ, G.; van MARLE, J. COERTS, J. Early sign combinations in the ac- (Eds.), Yearbook of Morphology 2004. Dor- quisition of Sign Language of the Netherlan- 20
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