Herbert E. Douglass - O ministério profético de Ellen G. White

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  • 1. Mensageira do Senhor O Ministério Profético de Ellen G. White “Cedo, em minha juventude, foi-me perguntado várias vezes: Você é uma profetisa? Tenho respondido sempre: Sou a mensageira do Senhor. ... Meu Salvador declarou-me ser eu Sua mensageira.” – Mensagens Escolhidas, livro 1, pág. 32. Herbert E. Douglass Tradução José Barbosa da Silva Casa Publicadora Brasileira Tatuí, São Paulo
  • 2. Sumário Prefácio ix Agradecimentos xi Apresentação xiii O Sistema Divino de Comunicação 1 O Revelador e o Revelado 2 2 Deus Fala Pelos Profetas 8 3 Características dos Profetas 26 A Verdadeira Ellen White 4 A Pessoa e a sua Época 44 5 Mensageira, Esposa e Mãe 52 6 Saúde Física 62 7 Características Pessoais 68 8 Como Outros a Conheceram 80 9 Bom Humor, Bom Senso e Conselheira Prática 94 10 Pioneira Americana e Mulher Vitoriana 102 11 A Escritora Prolífica 108 12 A Oradora Solicitada 124 A Mensageira que Escuta 13 Transmitindo a Mensagem de Deus 134 14 Confirmando a Confiança 144 15 Instruções e Predições Oportunas 150 16 Percepção da Mensageira Sobre Si Mesma 170 II v I SEÇÃO CAPÍTULO SEÇÃO III SEÇÃO
  • 3. vii Como Avaliar a Crítica 41 A Verdade Ainda Liberta 468 42 Crítica Sobre Relacionamentos Pessoais 478 43 Predições e Observações Científicas 486 44 A Porta Fechada – Estudo de um Caso 500 Relevância Permanente da Mensageira do Senhor 45 Preenche Ellen White as Condições? 514 46 Ela Ainda Fala 528 47 Mensageira e Mensagem Inseparáveis 534 Apêndice A Reuniões Campais no Início do Século Dezenove 542 Apêndice B Contexto da Troca de Correspondência Entre Tiago e Ellen White em 1874 543 Apêndice C Trechos do livro de Robert Louis Stevenson Across the Plains (1892) 544 Apêndice D Lista Parcial das Visões de Ellen G. White 546 Apêndice E Pressuposições Básicas Compartilhadas Pela Maioria dos Críticos da Questão da Porta Fechada 549 Apêndice F Condicionada Pelo Tempo ou Relacionada com o Tempo? 550 Apêndice G O Progresso de Ellen White na Compreensão das Próprias Visões 552 Apêndice H Ellen White Enriqueceu a Expressão “Porta Fechada” 554 Apêndice I Ellen White Liderou o Desenvolvimento de uma Mensagem Orientada Pela Bíblia 555 Apêndice J Resposta Quanto à Supressão da Expressão “Mundo Ímpio” 557 Apêndice K Por que Ellen White Parecia Alcançar Somente os Defensores da Porta Fechada 559 Apêndice L Principais Acusações Contra Ellen White Sobre a Questão da Porta Fechada e Refutações Através dos Anos 560 Apêndice M Carta de 13 de Julho de 1847 a José Bates 566 Apêndice N Última Vontade e Testamento de Ellen G. White 569 Apêndice O Comentários de Líderes Nacionais, no Início da Década de 1860, a Respeito da Crise Escravista 572 Apêndice P A Elipse da Verdade da Salvação 573 Bibliografia 576 Índice Geral 580 vi A Voz de um Movimento 17 Organização e Desenvolvimento Institucional 182 18 Crises Teológicas 194 19 Evangelismo Regional e Relações Raciais 210 20 Mordomia e Relações Governamentais 220 21 Dissidentes, Dentro e Fora 228 21a Personalidades do Mundo Adventista de Ellen G. White (Seção de Fotos) 239 Promotora de Conceitos Inspirados 22 O Tema Unificador 256 23 Esclarecimento Acerca das Principais Doutrinas 268 24 Princípios de Saúde/1: Surgimento de uma Mensagem de Saúde 278 25 Princípios de Saúde/2: Relação Entre Saúde e Missão Espiritual 288 26 Princípios de Saúde/3: Melhor Qualidade na Saúde Adventista 300 27 Princípios de Saúde/4: Princípios e Práticas 310 28 Princípios de Saúde/5: Um Século de Princípios de Saúde 320 29 Educação/1: Princípios e Filosofia 344 30 Educação/2: Estabelecendo Instituições Educacionais 354 31 Princípios Editoriais, Sociais e de Temperança 362 Como Escutar a Mensageira 32 Hermenêutica/1: Princípios Básicos 372 33 Hermenêutica/2: Regras Básicas de Interpretação – Internas 386 34 Hermenêutica/3: Regras Básicas de Interpretação – Externas 394 35 Hermenêutica/4: Os Escritores Bíblicos e Ellen White 408 36 Hermenêutica/5: Autoridade e Relação com a Bíblia 416 37 Hermenêutica/6: A Autoridade de Ellen White em sua Época 426 38 Hermenêutica/7: Congresso Bíblico em 1919 434 39 Como os Livros Foram Escritos 444 40 Como os Livros Foram Preparados 456 IVSEÇÃO CAPÍTULO VII SEÇÃO CAPÍTULO VIII SEÇÃO V SEÇÃO VI SEÇÃO
  • 4. ix Prefácio E m meados da década de 1950, T. Housel Jemison, um dos diretores associados do Pa- trimônio Literário White, escreveu um livro intitulado A Prophet Among You. Essa abrangente obra sobre o dom de profecia focalizou especificamente a vida e o minis- tério de Ellen G. White e foi, durante muitos anos, utilizada nos colégios adventistas como livro didático sobre o dom de profecia. Em décadas recentes, porém, temos aprendido muita coisa a respeito de inspiração/revela- ção. Foi isso o que levou os Depositários do Patrimônio Literário White em 1989 a autorizar a produção de um novo livro. Entre os patrocinadores desse projeto, acham-se o Patrimônio Literário White, e também o Departamento de Educação e o Conselho de Educação Supe- rior da Associação Geral. Herbert E. Douglass foi a pessoa escolhida para escrever este livro. O Dr. Douglass, pro- fessor de Espírito de Profecia em seminários teológicos, também havia trabalhado como di- retor de colégio, redator associado da Adventist Review e editor de livros da Pacific Press. Ele começou a trabalhar no projeto imediatamente, fazendo uma pesquisa completa sobre o assunto. Embora as referências ao longo do livro reflitam a influência de uma plêiade de eruditos e de idéias, o fato de um autor ser citado a respeito de determinado assunto não deve ser en- tendido como endosso a ele nem a todas as idéias e posturas por ele defendidas. Cremos que este livro apresenta o ministério profético de Ellen G. White de um modo que o torna atrativo tanto para jovens como para idosos. Ao invés de abordar o assunto partindo do abstrato para o pessoal, ele o faz do pessoal para o abstrato. Em resultado, os leitores vão conhe- cer o dom de profecia à medida que obtiverem informações pessoais sobre a Sra. White. Além disso, eles serão dirigidos para mais perto do Deus pessoal a quem ela servia; admirarão a ma- neira sábia e cuidadosa como Ele transmitia Suas mensagens a Sua mensageira; e ficarão sur- presos ao observarem o modo como Ele a guiou através dos campos minados da teologia, da medicina e da sociologia de sua época. Os leitores encontrarão no fim de cada capítulo uma série de perguntas que os levará a um estudo mais avançado e profundo do assunto abrangido pelo capítulo. As perguntas podem funcionar como uma recapitulação do capítulo e podem ser um estímulo à pesquisa, aumen- tando a compreensão dos leitores sobre o tema apresentado. Cremos que todos quantos lerem este livro compreenderão melhor a maneira como Deus atua por meio de Seus profetas, e ficarão profundamente convictos de que Ellen White rece- beu o chamado divino para o ofício profético. Enfrentarão o futuro com confiança renovada e fé robustecida, exclamando juntamente com a mensageira de Deus: “Nada temos que re- cear quanto ao futuro, a menos que esqueçamos a maneira em que o Senhor nos tem guiado, e os ensinos que nos ministrou no passado.” – Life Sketches, pág. 196 (ver Mensagens Escolhi- das, livro 3, pág. 162). Depositários do Patrimônio Literário White Silver Spring, Maryland M E N S A G E I R A D O S E N H O R O ministério profético de Ellen G. White
  • 5. xi O s livros não surgem do nada. Uma vida toda de influências se derra- ma na mente do escritor, e todas aquelas pessoas, livros e professo- res do seu passado superlotam o ônibus cere- bral que o autor dirige na elaboração do seu manuscrito. Embora o escritor reconheça plenamente que foram outros que encheram para ele este imenso reservatório, ser-lhe-ia impossível agradecer a todas essas contribui- ções, pois elas se transformaram em pensa- mentos sem rosto. Contudo, na tarefa específica de atender à solicitação do Conselho de Educação Supe- rior da igreja e do Patrimônio Literário White, o autor deseja reconhecer o mérito daqueles que tornaram possível a produção de um livro um tanto técnico como este. Sem a enorme visão e a habilidade edito- rial de Kenneth H. Wood, este livro não te- ria sido idealizado nem completado em seu estado atual. Seu estímulo empático e suas percepções durante os mais de três anos de pesquisa e redação do material estabelece- ram as condições de raciocínio em áreas que muitos consideram nebulosas. Os dois diretores do Patrimônio Literário White – Paul Gordon e Juan Carlos Viera – em cuja administração fui incumbido de es- crever este livro e durante a qual o concluí deram-me não somente estímulo, mas tam- bém excelentes sugestões em pontos decisi- vos. A incansável e eficiente diretora associa- da, Norma Collins, inseriu pacientemente na cópia final em computador as muitas suges- tões e os comentários do autor, freqüente- mente revisados. O Patrimônio Literário White tem a sor- te de poder contar com dois experientes eru- ditos em suas especialidades particulares – Jim Nix em história e doutrinas adventistas, e Tim Poirier, arquivista e técnico perito dos materiais de Ellen White. Conquanto eles não sejam responsáveis pelos erros ou omis- M E N S A G E I R A D O S E N H O R O ministério profético de Ellen G. White sões presentes no texto, muito contribuíram para o nível de exatidão deste livro. Além destes dois eruditos, sinto-me em grande dé- bito para com os Drs. Robert Olson e Roger Coon, que, em anos anteriores, fizeram meti- culosa pesquisa sobre muitos dos temas trata- dos neste livro. Entre muitos outros que prestaram ajuda e forneceram sugestões oportunas, encontram- se meu irmão Melvyn, que atuou como meu “navegador” no misterioso mundo da Inter- net, localizando em muitas ocasiões, quase que instantaneamente, informações as mais vagas; os Drs. John Scharffenberg e Gary Fraser, que leram pacientemente os capítulos sobre saúde e fizeram contribuições; o Dr. Ri- chard Schwarz, que usou seu micrômetro his- toriográfico na revisão das últimas páginas; e Francis Wernick, Neal Wilson e Rowena Rick, membros da Comissão de Depositários do Patrimônio Literário White, que leram e criticaram o original. Desejo também expressar apreço especial a eruditos e especialistas capazes como P. Ge- rard Damsteegt, Frizt Guy, Bert Haloviak, Roland Hegstad, Robert Johnston, Mervyn Maxwell e Alden Thompson, os quais parti- lharam suas valiosas idéias sobre certos pon- tos do texto. Nenhum escritor pode ir muito longe sem uma editora que o compreenda e o estimule. Robert Kyte e Russell Holt deram os reto- ques necessários nos momentos exatos, o que conservou a janela para o futuro sempre aberta e cheia de luz. Eles estavam resolvidos a fazer do produto de suas mãos algo digno do assunto deste livro. E a tudo isso acrescento a contribuição de minha compreensiva esposa, querida Norma, que durante três anos e meio continuamente reajustou prioridades ao captar as dimensões desta tarefa. A Deus seja a glória! Herbert E. Douglass Agradecimentos
  • 6. xiii E ste livro foi escrito com dois propósi- tos em mente: (1) fornecer aos ad- ventistas do sétimo dia uma nova perspectiva da vida e do testemunho de Ellen White e (2) fornecer para colégios e universidades material de pesquisa sobre o dom de profecia, especialmente conforme manifesto na vida e ministério desta inspira- da mensageira de Deus. Algumas pessoas, a quem falta clara com- preensão da maneira como funciona a reve- lação/inspiração, deixaram que “problemas” e críticas enfraquecessem ou destruíssem sua confiança nos setenta anos do ministério singular da Sra. White. Apesar disso, mi- lhões de pessoas ao redor do mundo conside- ram Ellen White uma líder religiosa inspira- da que marcou época. Essas pessoas percebe- ram que o amor que sentiam por Jesus se aprofundou à medida que a escritora lhes di- rigiu a mente para a Bíblia, sua principal fonte de esclarecimento e alegria. Descobri- ram que os escritos dessa mulher fornecem idéias claras, bastante nítidas e precisas, so- bre o viver saudável e disciplinado. Mais im- portante ainda, descobriram nos escritos de- la concepções coerentes com a história bí- blica da salvação. Deste modo, além dos dois propósitos mencionados acima, este livro foi escrito pa- ra, pelo menos, duas classes de pessoas: (1) as que são imensamente gratas pela produção li- terária de Ellen White e desejam saber mais sobre ela, e (2) as que possuem problemas não resolvidos relativos a determinados as- M E N S A G E I R A D O S E N H O R O ministério profético de Ellen G. White pectos de seu longo ministério. Este livro apresenta abundantes razões que confirmam sua alegação de ser mensageira de Deus; for- nece ampla evidência capaz de satisfazer a mente mais perspicaz. Convicção, Autoridade e Confiança A preocupação do autor é com a maneira pe- la qual jovens e idosos adquirem convicção. Existe acaso alguma “autoridade”, em algum lugar, capaz de falar com tal clareza que satis- faça tanto à mente como ao coração? Os adventistas do sétimo dia respondem: “Sim! Há uma Autoridade.” Apontamos pa- ra Aquele que nos fez, a quem chamamos Deus – o Deus que Se comunica. Além dis- so, Ele nos fez com a capacidade de respon- der-Lhe. Que pensamento maravilhoso! Fo- mos feitos para escutar a nosso amigável Criador! E quando escutamos, ouvimos a verdade sobre quem somos, por que existi- mos e que espécie de futuro eterno Ele pla- nejou para nós – se tão-somente continuar- mos a ouvi-Lo. De que maneira Deus “fala” aos seres hu- manos? “Muitas vezes e de muitas maneiras”, escreveu Paulo em Hebreus 1:1. Por exemplo: • Por meio das obras criadas, que chama- mos “natureza”. • Por meio do Espírito Santo, que faz con- tato com a consciência de cada pessoa. • Por meio de Jesus Cristo, que era o pró- prio Deus. Mas Deus foi além. Ele sabia que milhares de anos antes de Jesus vir como ser humano, homens e mulheres precisavam ouvir a Sua Apresentação
  • 7. xiv xv versão da história do grande conflito entre o bem e o mal. Sistema Divino de Comunicação Limitado por Sua natureza humana, Jesus não podia estar em toda a parte ao mesmo tempo. Foi assim que, para poder comunicar Sua mensagem, Deus acrescentou ao Seu sistema próprio de comunicação um plano de inter- mediação humana: Ele falou “muitas vezes e de muitas maneiras... por meio dos profetas”. Heb. 1:1-3. Este sistema de comunicação “por meio de profetas” era bem conhecido durante os tem- pos bíblicos. O povo de Deus aprendeu por experiência própria que estava na sua melhor forma quando davam ouvidos aos profetas: “Crede no Senhor, vosso Deus, e estareis se- guros; crede nos Seus profetas e prospera- reis.” II Crôn. 20:20. Além disso, eles sabiam por experiência própria que Deus não lhes permitiria penetrar cegamente pelo futuro. “Certamente, o Senhor Deus não fará coisa alguma, sem primeiro revelar o Seu segredo aos Seus servos, os profetas.” Amós 3:7. A comunicação divina por meio dos profe- tas não ficou limitada aos tempos do Antigo Testamento. Durante Suas últimas horas na Terra, nosso Senhor prometeu que esta linha de comunicação entre o Céu e a Terra seria mantida sempre aberta – por meio do Espíri- to Santo, o Espírito da verdade, Seu represen- tante pessoal. Hoje, assim como nos tempos do Antigo Testamento, o Espírito Santo con- tinua a falar, não apenas à consciência de ca- da pessoa, mas por meio dos profetas: “Eu ro- garei ao Pai, e Ele vos dará outro Consolador, a fim de que esteja para sempre convosco o Espírito da verdade.” João 14:16 e 17. “E Ele mesmo concedeu uns para apóstolos, outros para profetas.” Efés. 4:11; ver I Cor. 12:28. O Espírito da verdade é também o Espíri- to de profecia! Isto significa que esses ho- mens e mulheres especialmente escolhidos “falaram da parte de Deus, movidos pelo Es- pírito Santo”. II Ped. 1:21. A igreja foi avisa- da de que este sistema de comunicação da verdade funcionaria até a volta de Jesus. conflito a respeito da verdade, isto é, quem está correto sobre a maneira como dirigir o Universo: Deus ou Satanás? A posição de Deus é que a verdade não precisa de defesa. Ela precisa apenas ser vista e demonstrada. Satanás, que é “mentiroso e pai da mentira” (João 8:44), consegue o que quer por meio de engano. Questionador esperto e insinuador astuto, Satanás pede com instância que o “coração” egocêntrico seja o árbitro final da “verdade”. Uma de suas ferramentas mais eficazes é susci- tar dúvida, provocando hesitação e adiamento do compromisso espiritual. Por esta razão, per- verter a verdade seja da maneira que for, lan- çar sombras injustificadas sobre o que talvez não esteja inteiramente claro, é um ato imoral. É parte de uma conspiração cósmica para obs- curecer a verdade e frustrar os planos divinos. Ellen White não podia ser mais clara do que quando pede encarecidamente para sermos francos e afastar o temor ao separar fatos de opiniões. Ela sabia que a fé está em perigo toda vez que impomos limites à pesquisa por temor de que novas descobertas possam desestabilizar a fé. Muitas vezes, porém, ela torna evidente que nossa fé também corre riscos quando per- mitimos que a razão ou os sentimentos huma- nos estabeleçam os limites da fé. Para ela, a verdade deve ser honrada, custe o que custar. Como o Livro Está Organizado Este livro se divide em oito seções: I. O Sistema Divino de Comunicação (capítulos 1 a 3). II. A Verdadeira Ellen White (capítulos 4 a 12). III. A Mensageira que Escuta (capítulos 13 a 16) IV. A Voz de um Movimento (capítulos 17 a 21) V. Promotora de Conceitos Inspirados (capítulos 22 a 31) VI. Como Escutar a Mensageira (capítu- los 32 a 40) VII. Como Avaliar a Crítica (capítulos 41 a 44) VIII. Relevância Permanente da Mensa- geira do Senhor (capítulos 45 a 47) Os capítulos 1 a 3 fazem uma breve análi- se do ensino bíblico relativo à maneira como Deus tem revelado a homens e mulheres as M E N S A G E I R A D O S E N H O R O ministério profético de Ellen G. White Esta visão bíblica geral ensina que nun- ca foi desejo de Deus que homens e mu- lheres ficassem na incerteza quanto ao propósito da vida. Especialmente durante o estresse sem paralelo dos últimos dias, Ele nos deu a certeza de que podíamos co- nhecer a verdade a respeito do futuro. Sempre que homens e mulheres ouvem cuidadosamente os profetas de Deus, eles “reconhecem” que estão ouvindo a “ver- dade”. A verdade carrega consigo sua pró- pria autoridade porque apela e satisfaz nossa busca de convicção objetiva e subje- tiva – o vínculo entre a mente e o cora- ção. Este livro ajudará a responder as se- guintes perguntas: Preencheu Ellen White as qualificações bíblicas de um profeta? Sob que base pode alguém considerá-la uma autoridade em seu papel como men- sageira de Deus? Ao recapitular seu ativo ministério de setenta anos, que diferença fez seu conselho na determinação do rumo e desenvolvimento da igreja? Qual o efei- to de seus conselhos pessoais? Manifestou ela as características de coerência e de confiabilidade e, por conseguinte, a prova da autoridade? Levaremos em conta “o peso da evidên- cia”. Seu longo ministério e os frutos do seu trabalho são um livro aberto. Não é necessá- ria nenhuma “evidência” ou “argumento” ar- tificial para confirmar sua pretensão de ser a mensageira de Deus. O próprio princípio permanente empre- gado por Ellen White governará a viagem que faremos juntos: “Os assuntos que apre- sentamos ao mundo devem ser para nós uma realidade viva. É importante que, ao defen- der as doutrinas que consideramos artigos fundamentais da fé, nunca nos permitamos o emprego de argumentos que não sejam in- teiramente retos. Eles podem fazer calar um adversário, mas não honram a verdade. De- vemos apresentar argumentos legítimos, que não somente façam silenciar os oponentes, mas que suportem a mais profunda e pers- crutadora investigação.” – Obreiros Evangéli- cos, pág. 299. No coração do grande conflito entre Deus e Satanás, entre o bem e o mal, acha-se o “boas novas” (o evangelho) da salvação. As “boas-novas” são a verdade sobre Deus e Seu modo de dirigir o Universo – um quadro em nítido contraste com as mentiras e calúnias de Satanás. Deus Se revela por meio de Jesus Cristo, o Revelador. O Espírito Santo trans- mite, por intermédio do “dom de profecia”, a verdade tal qual revelada em Jesus. Os capítulos 4 a 12 focalizam primeira- mente a infância e adolescência de Ellen Harmon. Depois, seu papel como a Sra. Ellen G. White – esposa, mãe, vizinha, ganhadora de almas e personalidade pública – exami- nando sua vida a partir de seus escritos, bem como a partir do ponto de vista daqueles que melhor a conheceram. Pelo fato de o pensa- mento e o temperamento de uma pessoa se- rem grandemente determinados pelas in- fluências sociais, econômicas e filosóficas do seu tempo, chamaremos brevemente a aten- ção para as circunstâncias predominantes no Nordeste dos Estados Unidos, e para os fato- res nacionais posteriores que provavelmente mais influíram sobre ela enquanto ela amadu- recia cumprindo a missão divina. Estudare- mos sua fascinante mistura de mulher vitoria- na e vigorosa pioneira norte-americana. Os capítulos 13 a 16 investigam a manei- ra como o dom profético atuava no ministé- rio de Ellen White. O pano de fundo históri- co das décadas de 1840 e 1850 nos ajudarão a compreender o clima desfavorável que existia para todo aquele que alegasse ter vi- sões. Apesar disso, o fenômeno visionário de Ellen White proveu clareza e segurança àqueles que desejavam uma explicação bíbli- ca para a experiência de 1844. Estudaremos Ellen White como escritora e oradora: • chamando a atenção para a evolução de seu estilo e conteúdo enquanto reagia às cir- cunstâncias em transição e a uma iluminação intensificada durante seus setenta anos de ministério; • reconstituindo a maneira como, à seme- lhança de qualquer outro escritor, ela empre- gou material de pesquisa para ampliar e tor- nar mais específica a mensagem central que recebeu a missão de apresentar; • chamando a atenção para a impressio- nante receptividade que os não adventistas davam a suas palavras faladas e escritas; APRESENTAÇÃO
  • 8. xvi xvii • analisando a capacidade incomum que ela possuía de falar em meio a circunstâncias físicas que afligiriam as pessoas de seu tempo, ou mesmo alguém da atualidade. Os capítulos 17 a 21 exploram o extraordi- nário relacionamento entre Ellen White e a igreja com a qual ela esteve tão intimamente ligada durante setenta anos. Nenhuma outra pessoa afetou de maneira tão direta o cresci- mento e a formação da Igreja Adventista do Sétimo Dia, tanto teológica quanto institucio- nalmente. Ela teve muito que ver com o pla- nejamento estratégico da denominação. Da Austrália até a Europa e através de toda a América do Norte se buscava seu conselho a respeito do estabelecimento de escolas, insti- tuições de saúde e casas editoras. Seus escritos tornaram-se faróis de luz a serem avidamente estudados pelas gerações posteriores. Os capítulos 22 a 31 examinam o papel de Ellen White como educadora conceitual. Ela possuía a capacidade singular de sinteti- zar a clara mensagem profética com a expe- riência humana e as idéias de outros. A par- tir desta síntese desenvolveu, de maneira fir- me e uniforme, um corpo de pensamento distintamente integrado e coerente, com fundamento bíblico firme e sólido. Esta inte- gração unificou sua vasta contribuição aos princípios práticos da educação, evangelis- mo, organização e saúde, pelos quais os ad- ventistas do sétimo dia se tornaram ampla- mente conhecidos. O Tema do Grande Conflito Analisaremos a maneira como usou ela deter- minados princípios de pesquisa à medida que processava e transmitia a verdade. Instrutiva é sua introdução ao Grande Conflito: “Os grandes acontecimentos que assinalaram o progresso da Reforma nas épocas passadas constituem assunto da História bastante co- nhecidos e universalmente reconhecidos pe- lo mundo protestante; são fatos que ninguém pode negar. Esta história apresentei-a de ma- neira breve, de acordo com o objetivo deste livro e com a brevidade que necessariamente deveria ser observada, havendo os fatos sido condensados no menor espaço compatível com sua devida compreensão. “Em alguns casos em que algum historia- pode ser diferente ao seguirmos esta regra da hermenêutica. Para entendermos Ellen White é funda- mental nossa necessidade maior de com- preender como Deus comunica Suas men- sagens a Seu povo por meio de Seus men- sageiros. Em anos passados, os adeptos da inspiração verbal ficaram grandemente perturbados com o que parecia serem “er- ros” e “contradições” bíblicas. Esta mesma confusão entre a inspiração mecânica ou na forma de ditado (cada palavra seria uma transcrição exata do que Deus falou ao profeta) e a inspiração do pensamento (Deus inspirou os profetas, não suas pala- vras) tem perturbado muitas pessoas que lêem os escritos de Ellen White. Mostrare- mos como esta compreensão incorreta do processo de revelação/inspiração levantou dúvidas e críticas injustificadas contra Ellen White. Uma questão igualmente importante é a relação existente entre os escritos de Ellen White e a Bíblia. Procuraremos entender ex- pressões como “níveis de inspiração”, “reve- lação progressiva”, “autoridade canônica” e “luz menor, luz maior”. Nos capítulos 39 e 40, examinaremos co- mo Ellen White escrevia seus livros. Obser- varemos como se relacionava com suas assis- tentes de redação e o papel que estas desem- penharam na produção dos livros Caminho a Cristo, O Desejado de Todas as Nações e O Grande Conflito. Nos capítulos 41 a 43, faremos uma ava- liação das críticas em relação a Ellen White. Os profetas inevitavelmente serão criticados por seus contemporâneos, principalmente porque se encontram muito à frente na compreensão do conflito de Deus contra o mal. Nenhum profeta bíblico desfrutou de condições favoráveis ao cumprir a tarefa que lhe fora confiada. Este fato lastimável nos leva a refletir que uma geração mata seus profetas apenas para que a próxima construa monumentos em honra deles. Algumas críticas têm sua origem na rea- ção constante daqueles que se opõem à ver- dade porque esta contraria inclinações pes- soais ou orgulho de opinião. Encontramos M E N S A G E I R A D O S E N H O R O ministério profético de Ellen G. White APRESENTAÇÃO dor agrupou os fatos de tal modo a proporcio- nar, em síntese, uma visão compreensiva do assunto, ou resumiu convenientemente os pormenores, suas palavras foram citadas tex- tualmente; nalguns outros casos, porém, não se nomeou o autor, visto como as transcri- ções não são feitas com o propósito de citar aquele escritor como autoridade, mas porque sua declaração provê uma apresentação do assunto, pronta e positiva. Narrando a expe- riência e perspectivas dos que levam avante a obra da Reforma em nosso próprio tempo, fez-se uso semelhante de suas obras publica- das.” – O Grande Conflito, pág. 7. O princípio organizacional que, à seme- lhança de um ímã, reuniu este material é, em sua síntese, o Tema do Grande Conflito. Pe- lo fato de ver a Bíblia como um todo e a re- lação de suas partes, Ellen White esclareceu as questões básicas relativas ao caráter de Deus, a natureza do homem, o surgimento do pecado e a maneira como Deus planeja final- mente tratar com este planeta rebelde. A compreensão do Tema do Grande Con- flito por parte de Ellen White forneceu ex- traordinária estabilidade e harmonia à Igreja Adventista à medida que esta desenvolvia sua teologia e estrutura denominacional. Es- sa compreensão tornou-se o centro concei- tual que lhe permitiu proporcionar conforto pessoal e correção teológica em situações em que outras organizações religiosas geralmen- te se fragmentam. Na seção 6, “Como Escutar a Mensagei- ra”, os capítulos 32 a 38 enfatizam a maneira como homens e mulheres devem “ouvir” a mensagem de Ellen G. White. Qualquer es- tudo de documentos escritos, sejam eles so- netos shakespeareanos sejam trechos das Sa- gradas Escrituras, envolve “hermenêutica”, isto é, o emprego de princípios de interpreta- ção que ajudam o leitor a entender o autor. Examinaremos regras de interpretação que nos ajudarão a determinar o que Ellen White queria dizer para aqueles que a ouviam e o que esses mesmos escritos significam em tempos modernos. Uma das regras, por exemplo, é levar em conta o tempo, o lugar e as circunstâncias ao fazermos uma aplica- ção atual de seu conselho. Os princípios são permanentes, mas a aplicação do princípio exemplos dessa rejeição nas críticas feitas a Jesus, Jeremias, Paulo e Ellen White. Esses capítulos não procuram contestar toda acusação ou crítica dirigida contra Ellen White, mas chamar a atenção para as formas mais comuns. Depois de avaliar tais críticas, o leitor será capaz de estabelecer a diferença entre a humanidade do vaso terreno e a au- toridade da mensagem transportada por esse vaso. (Ver II Cor. 4:7.) O capítulo 44 é um estudo da questão da “porta fechada”, que foi, por mais de um sé- culo, grande fonte de controvérsia. Como Ellen Preenche as Condições Na última seção, “Relevância Permanente da Mensageira”, perguntamos: Preenche Ellen White as condições de uma mensageira de Deus nos tempos modernos? Seu ministério de setenta anos estabelece suas credenciais como mensageira divina? Consideraremos a maneira como realizou seu trabalho, tan- to em público como em particular, e reca- pitularemos a relação, por assim dizer, inse- parável que havia entre o seu ministério e o desenvolvimento da Igreja Adventista do Sétimo Dia. Os adventistas do sétimo dia geralmente têm crido que Ellen G. White foi a mensa- geira de Deus. Por que os adventistas de sua época chegaram a tal conclusão, e por que, desde sua morte, os adventistas continuam chegando a esta mesma conclusão? Nas páginas de encerramento deste livro, perguntamos: Até que ponto Ellen White é re- levante para os dias atuais? Ela morreu em 1915. Será que ela é capaz de falar de modo significativo a um povoado global transistori- zado, onde a informação via Internet entre os computadores por todo o planeta é instantâ- nea, onde a ciência parece ter sempre, “no mo- mento exato”, mais uma solução para as neces- sidades do mundo? Embora as circunstâncias tenham mudado drasticamente, e o mundo só- cio-político seja extremamente diferente, per- ceberemos que os escritos de Ellen White fa- lam de maneira incisiva aos nossos dias, sendo neste tempo do fim cada vez mais relevantes. O Autor
  • 9. IO Sistema Divino de Comunicação 1 O Revelador e o Revelado 2 Deus Fala Pelos Profetas 3 Características dos Profetas CAPÍTULO SEÇÃO
  • 10. terminados homens e mulheres que logo co- municam a outros a verdade sobre Jesus. Eis a descrição da função do Espírito: “Falar a res- peito de” Jesus por meio de pessoas dotadas com o dom de profecia. Conhecer Jesus e aquilo que Ele nos pode dizer sobre Deus é a informação mais importante de que a família humana necessita, pois “conhecer [Jesus] é vida eterna”. João 17:3. No livro de Apocalipse, o profeta João escreveu sobre a maneira como este dom atuava em sua própria vida: “Revelação de Jesus Cristo, que Deus lhe deu para mos- trar... ao Seu servo João, o qual atestou a palavra de Deus e o testemunho de Jesus Cristo.” Apoc. 1:1 e 2. Vemos aqui o sistema divino de comunica- ção em funcionamento. O Revelador atuan- do por intermédio do Espírito para revelar a verdade sobre Deus por meio do Seu profeta. No capítulo 19, o anjo que visitava João lhe fez lembrar que o “testemunho de Jesus é o Espírito de Profecia”. Verso 10. A finalidade do dom de profecia é contar a história de Jesus. O Agente motivador que inspira o profeta humano a contar a verdade sobre Jesus é o Espírito Santo. No fraseado curto e simplificado da Bíblia, o Espírito de Profecia é “o testemunho de Jesus”. Pedro compreendia este sistema divino de comunicação: “Vocês O amam, mesmo sem O terem visto, e crêem nEle, mesmo que não O estejam vendo agora. Assim vocês se ale- gram com uma alegria tão grande e gloriosa, que as palavras não podem descrever. Vocês têm essa alegria porque estão recebendo a sua salvação, que é o resultado da fé que pos- suem. Foi a respeito dessa salvação que os profetas perguntaram e procuraram saber com muito cuidado. Eles profetizaram a res- peito da salvação que Deus ia dar a vocês e procuraram saber em que tempo e como essa salvação ia acontecer. O Espírito de Cristo, que estava neles, indicava esse tempo, ao pre- dizer os sofrimentos que Cristo teria de supor- tar e a glória que viria depois. Quando os pro- fetas falaram a respeito das verdades que vo- cês têm ouvido agora, Deus revelou a eles que o trabalho que faziam não era para o benefí- cio deles, mas para o bem de vocês. Os men- sageiros do evangelho, que falaram pelo po- der do Espírito Santo mandado do Céu, anunciaram a vocês essas verdades. Essas são coisas que até os anjos gostariam de enten- der.” I Ped. 1:8-12. Os profetas verdadeiros não são motivados por recompensa ou capricho pessoal, mas pe- la influência direta do Espírito de Cristo, o “Espírito Santo mandado do Céu”. Num sen- tido, o “Espírito de Profecia” é o Espírito de Cristo atuando por Seu Divino Auxiliador, o Espírito Santo, dado a conhecer a homens e mulheres por meio do profeta humano. Nou- tro sentido, o “Espírito de Profecia” é tam- bém o testemunho sobre Jesus, o alvo princi- pal do dom de profecia. Desde que Jesus voltou para o Céu, esta re- gra simples e de duplo aspecto tem constituí- do uma das maneiras mais claras e seguras de provar a autenticidade de alguém que alega ser “profeta”: Ele ou ela diz a verdade sobre Jesus? No espírito de Jesus? Por que o simples nome de Jesus tem, atra- vés dos anos, suavizado a voz e tranqüilizado o coração de pessoas em todos os continentes? Porque homens e mulheres lembram do ânimo que recobraram, da esperança que sentiram re- nascer dentro de si e da explosão de força que receberam para tornar a enfrentar os desafios da vida ao vir-lhes à memória o fato de que são importantes para Jesus, o mesmo Jesus que dis- se pelo Espírito de Profecia: “Não temas, por- que Eu sou contigo.” Isa. 41:10. “De maneira alguma te deixarei, nunca jamais te abandona- rei.” Heb. 13:5. Essas pessoas aprenderam por experiência própria o que Jesus queria dizer quando afirmou: “Não vos deixarei órfãos, vol- tarei para vós outros.” João 14:18. Dizendo a Verdade Sobre Deus Por que confiar tanto em um Homem chama- do Jesus, que viveu apenas trinta e três anos na antiga Palestina? Porque homens e mulhe- res chegaram a conhecê-Lo como o Criador que Se fez homem. Por quê? Porque Ele era o único ser no Universo que poderia, convin- centemente, dizer a verdade sobre Deus – Aquele que fora descrito de maneira tão des- virtuada pelo grande rebelde e por muitos dos 3 M E N S A G E I R A D O S E N H O R O ministério profético de Ellen G. White O evangelho não é algo sobre Jesus; o evangelho é Jesus e o que Ele ensi- nou. Embora os ensinamentos sobre Jesus forneçam a estrutura para a procla- mação das “boas novas”, o próprio Jesus é as “boas novas”. Jesus e Seus ensinos não são o prelúdio do evangelho; eles são o evangelho!1 As “boas novas” são que, na mente mara- vilhosa de Deus, uma das pessoas da Divinda- de decidiu vir a este planeta rebelde, de bra- ços abertos, convidando homens e mulheres de todos os lugares para retornarem à família de Deus. As “boas novas” são que o Deus- que-Se-fez-homem “deu-Se” para sempre à família humana. E para quê? Para mostrar- nos como é Deus! (João 14:7.) Conforme veremos, chamamos o Revela- dor de “Jesus”; chamamos o Revelado de “Deus”; e a Pessoa pela qual a Divindade acha conveniente “revelar” o Revelador à humanidade é o Espírito Santo. Jesus tornou isto bem evidente poucas ho- ras antes do Getsêmani: “Eu pedirei ao Pai, e Ele lhes dará outro Auxiliador, o Espírito da verdade, para ficar com vocês para sempre.” João 14:16. “É o Espírito Santo, o Espírito que conduz a toda a verdade [acerca de Deus].” João 14:17. Mais adiante: “Mas o Au- xiliador, o Espírito Santo, que o Pai vai en- viar em Meu nome, ensinará a vocês todas as coisas e fará com que lembrem de tudo o que Eu disse a vocês.” João 14:26. E para certificar-Se de que o assunto es- tava bem claro, afirmou: “Quando chegar o Auxiliador, o Espírito da verdade, que vem do Pai, Ele falará a respeito de Mim.” João 15:26. Jesus disse ainda: “Porém, quando o Espíri- to da verdade vier, Ele ensinará toda a verda- de [acerca de Deus] a vocês. O Espírito não falará por Si mesmo, mas dirá tudo o que ou- viu e anunciará a vocês as coisas que estão para acontecer. Ele vai ficar sabendo o que tenho para dizer, e dirá a vocês, e assim Ele trará glória para Mim. Tudo o que o Pai tem é Meu. Por isso Eu disse que o Espírito vai fi- car sabendo o que Eu Lhe disser e vai anun- ciar a vocês.” João 16:13-15. O Espírito Santo é o representante de nosso Senhor. O Espírito dirá e fará exata- mente o que Jesus diria e faria se estivesse hoje na Terra! Como tudo isso funciona? O Espírito San- to atribui a cada cristão algum dom especial: “Existem tipos diferentes de dons espirituais, mas é um só e o mesmo Espírito quem dá es- ses dons. ... Para o bem de todos, Deus dá a cada um alguma prova da presença do Espíri- to Santo.” I Cor. 12:4 e 7. O Dom de Profecia Um desses dons especiais é o dom de “profe- cia”. (I Cor. 12:10; Efés. 4:11.) Por meio do dom de profecia, o Espírito Santo liga-Se a de- 2 CAPÍTULO 1 SEÇÃO I O Sistema Divino de Comunicação O Revelador e o Revelado “Quando chegar o Auxiliador, o Espírito da verdade, que vem do Pai, Ele falará a respeito de Mim. E sou Eu quem enviará esse Auxiliador a vocês da parte do Pai.” João 15:26.
  • 11. CAPÍTULO 1 O REVELADOR E O REVELADO Muitíssimas vezes, após contemplar a con- descendência de Cristo na condição de Ho- mem perseguido e finalmente crucificado, os crentes pensam que o “dom” com que Deus presenteou a Terra cessou na cruz. Mas Deus não deu “Seu único Filho” (João 3:16) numa espécie de empréstimo ou arrendamento tem- porário. O Criador das centenas de bilhões de galáxias, Aquele que andou por entre as estre- las e fez os universos gravitarem em órbitas, aprisionou-Se dentro de Sua própria criação, não apenas por nove meses, não apenas por trinta e três anos, mas para sempre! Essa espécie de amor desperta amor. E apreciação sincera. E compromisso profundo, acima dos apelos mais sedutores deste mun- do, para com Aquele que muito nos amou. Antes de poder dizer a verdade sobre Deus, conforme revelada por Jesus, o profeta deve conhecer Jesus pessoalmente. Discutir teologia é coisa fácil; a experiência pessoal, porém, exige um preço. A Dedicação de Ellen G. White a Jesus Ellen White correspondeu a este amor de to- do o seu coração e fez dele o tema principal de seus escritos. Não importa o lugar onde abramos os volumosos livros que ela escreveu ou as cartas que endereçou a familiares, ami- gos e cooperadores, sempre encontramos evi- dências da profunda afeição que ela dedicava ao Salvador. Muitos que entraram em conta- to pela primeira vez com os adventistas do sé- timo dia por meio dos escritos de Ellen White ficaram admirados pela intuição e profunda apreciação manifestadas pela escritora ao tra- tar das dimensões do “Dom” de Deus a este planeta rebelde. Suas percepções espirituais começaram ce- do. Logo nos primeiros anos de sua adoles- cência, profundamente afetada pela pregação de Guilherme Miller, ela almejou por uma experiência religiosa mais profunda: “Ao orar, o fardo e a agonia de alma que por tan- to tempo eu havia experimentado deixaram- me, e as bênçãos de Deus vieram sobre mim como suave orvalho. Dei glória a Deus pelo que eu sentia, mas ansiava mais. Eu não esta- ria satisfeita até que estivesse repleta da ple- nitude de Deus. Inexprimível amor por Jesus encheu minha alma.”6 Ellen White era, acima de tudo, uma pes- soa espiritual, cheia de apreço por seu Salva- dor e Senhor. Este senso pessoal da presença divina a colocou em comunicação direta com Deus, permitindo que Ele lhe revelasse muito mais de Sua própria pessoa e dos Seus planos para este mundo. A experiência pessoal por que ela passou quando reagiu favoravelmente à simplicidade do evangelho precedeu a teo- logia. Jesus era o centro de interesse de todo o seu pensamento teológico. Eis um exemplo do tema que repassa toda a sua obra – a exaltação de Jesus: “Será pro- veitoso contemplar a condescendência, o sa- crifício, a abnegação, a humilhação, a resis- tência divinas que o Filho de Deus enfrentou ao realizar Sua obra em benefício do homem caído. Bem podemos sair da contemplação de Seus sofrimentos, exclamando: ‘Assom- brosa condescendência!’ Os anjos se maravi- lham a observarem com intenso interesse o Filho de Deus descendo passo a passo a sen- da da humilhação. Este é o mistério da pie- dade. É a glória de Deus ocultar a Sua Pessoa e os Seus caminhos, não para manter as pes- soas na ignorância da luz e conhecimento celestiais, mas porque isso está para além da capacidade do conhecimento humano. Uma compreensão parcial: isso é tudo o que o ser humano pode suportar. O amor de Cristo ‘excede todo o entendimento’. Filip. 4:7. O mistério da redenção continuará a ser o mis- tério, a ciência inesgotável e o incessante cântico da eternidade. A humanidade bem pode exclamar: ‘Quem pode conhecer a Deus?’ Talvez possamos, como Elias, cingir- nos com nosso manto e procurar ouvir a voz mansa e delicada de Deus.”7 Ellen White andou com Jesus na alegria e na tristeza. Escrevendo a seu filho William e à jovem noiva dele, Mary, falou sobre o com- panheirismo que desfrutara com o marido Tiago e da experiência que lhes era comum: “Estamos tentando seguir humildemente os passos de nosso amado Salvador. Precisamos a cada hora de Seu Espírito e de Sua graça, do contrário cometeremos graves erros e causa- remos dano.”8 Algumas semanas depois, durante uma viagem extremamente cansativa, do Texas para Kansas, numa carruagem coberta, ela tornou a escrever para Mary: “Estou exausta. Sinto-me como se tivesse 100 anos de idade. 5 M E N S A G E I R A D O S E N H O R O ministério profético de Ellen G. White mais ilustres pensadores do mundo. Deus não era ríspido, arbitrário e implacável, como fo- ra retratado. Quando Ele pedia a homens e mulheres que O servissem com lealdade vo- luntária, dava a conhecer que Ele mesmo, por natureza, também era um ser abnegado. Mos- trava-lhes que amar significa fazer pelos ou- tros aquilo que eles não podem fazer por si mesmos ou que nem ao menos o merecem. Como essas coisas foram reveladas? Paulo contemplou a magnífica revelação de Cristo como um “esvaziamento” de Suas prerrogati- vas divinas ao entrar Ele para a família huma- na. (Filip. 2.) Não de maneira súbita como um príncipe valente empunhando a espada da justiça, mas, lentamente, a partir do ventre de uma mulher. Não para ser honrado como um convidado especial, mas para ser mal com- preendido e caluniado devido à Sua integrida- de e maneira inequívoca de encarar as coisas. Como é possível que a única esperança da Terra se tornasse o alvo dos maus-tratos humi- lhantes deste planeta? “Veio para o que era Seu, e os Seus não O receberam.” João 1:11. Os cris- tãos sentem-se não apenas horrorizados com es- sa monstruosa ingratidão, mas também movi- dos de estranho pesar e resolvem acolhê-Lo afe- tuosamente na própria vida. Os cristãos ficam admirados da condescendência do Deus-ho- mem, e esta admiração torna-se parte da razão diária para honrá-Lo em tudo quanto fazem. Tanto o Sacrifício Como o Sumo Sacerdote Ao olharem para Jesus, vêem nEle tanto o Sacrifício como o Sumo Sacerdote.2 Ao der- rotar no Calvário o “salário do pecado”, Jesus fez algo que mudou para sempre nossa relação com Deus: Ele morreu! Ele é a única Pessoa que já morreu no verdadeiro sentido da pala- vra! Todos os outros homens e mulheres que “morreram” se acham agora dormindo,3 com exceção daqueles poucos que ressurgiram ou foram trasladados e agora estão no Céu.4 So- mente Jesus provou da “morte”, para que to- dos quantos fazem dEle o Senhor de sua vida jamais “morram”. “Porque o salário do peca- do é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus, nosso Senhor.” Rom. 6:23. E que dom! Por meio de Jesus, es- capamos daquilo que merecíamos! Mas isso não é tudo! Agora Ele está vivo e é nosso Sumo Sacerdote. O que significa isso? Que Ele Se encontra diante dos seres celes- tiais e dos mundos não caídos como um Ho- mem cuja alegre obediência provou que Deus não havia sido injusto em pedir obediência voluntária dos seres criados. Satanás estava errado! E eles vêem este heróico Vencedor, que passou pela inexprimível angústia de ser o “Deus-desamparado” do Calvário, provar que o próprio Deus realmente Se importava com Sua criação e que Ele era altruísta, a es- sência do verdadeiro amor. Todo o Universo (além dos confins da Terra) vêem Jesus no Lugar Santíssimo do santuário celestial como a resposta de Deus para as mentiras que Sata- nás inventou contra Ele. E nós, o que vemos quando pensamos em Jesus como nosso Sumo Sacerdote? Vemo- Lo como o Mediador entre Deus e a huma- nidade pecadora. Vemo-Lo como nosso Ad- vogado, que une justiça e misericórdia ao re- bater todas as acusações contra Deus e con- tra os crentes. (I João 2:1.) Ele é nosso Inter- cessor, o qual não só nos representa diante do Pai, senão que intervém entre nós e o mal. (Heb. 4:16.)5 O apóstolo Paulo expressa isso nos seguin- tes termos: “Tendo, pois, a Jesus, o Filho de Deus, como grande sumo sacerdote que pene- trou os Céus, conservemos firmes a nossa confissão. Porque não temos sumo sacerdote que não possa compadecer-se das nossas fra- quezas; antes, foi Ele tentado em todas as coi- sas, à nossa semelhança, mas sem pecado. Acheguemo-nos, portanto, confiadamente, junto ao trono da graça, a fim de recebermos misericórdia e acharmos graça para socorro em ocasião oportuna.” Heb. 4:14-16. Esta é a espécie de intercessão de que to- dos nós carecemos cada dia: a paz decorrente do perdão e o poder proveniente da graça in- tercessora. A presença poderosa de Cristo, por meio do Espírito Santo e dos anjos, esten- de-se a todos quantos com Ele estejam com- prometidos. Ele quebra o poder com que Sa- tanás mantinha as pessoas cativas. Comuni- ca-Se com seu sistema nervoso. Robustece a força de vontade do crente. E está sempre pronto para ajudar os seres humanos a resistir ao pecado, tanto o interno quanto o externo. Jesus literalmente compartilha conosco o sis- tema de defesa que usou para vencer a tenta- ção. (Apoc. 3:21.) 4 SEÇÃO I O Sistema Divino de Comunicação
  • 12. CAPÍTULO 1 O REVELADOR E O REVELADO vina por parte dos corações abatidos e neces- sitados. Para aqueles que a ouvem, Ellen White tem a marca inconfundível do “Espíri- to de Profecia”: Ela dá testemunho de Jesus. 7 M E N S A G E I R A D O S E N H O R O ministério profético de Ellen G. White ... Minha ambição acabou; minha força se esgotou, mas isso não vai perdurar. ... Tenho esperança que, mediante a luz animadora da face de meu Salvador, eu consiga recobrar as energias.”9 Enquanto aguardava o Natal de 1880, na época com 53 anos de idade, ela escreveu a uma amiga: “Passarei o Natal pedindo a Je- sus que seja o convidado de honra do meu coração. Sua presença dissipará todas as sombras.”10 Ellen White escreveu centenas de artigos para as revistas Review and Herald e Signs of the Times. Quase todo artigo continha alguma referência a seu Senhor, que Se tornara para ela não apenas a sua força, mas também a ale- gria de sua vida. Aos 69 anos de idade, ela es- creveu: “Gosto muito de falar sobre Jesus e Seu incomparável amor. ... Sei que Ele é ca- paz de salvar perfeitamente todos os que se chegam a Ele. Seu precioso amor é para mim uma realidade, e as dúvidas expressas por aqueles que não conhecem a Jesus, nenhuma influência exercem sobre mim. ... Crê você que Jesus é seu Salvador e que manifestou Seu amor por você ao dar Sua preciosa vida para salvá-lo? Aceite a Jesus como seu Salva- dor pessoal. Venha a Ele exatamente como está. Entregue-se a Ele. Apodere-se de Sua promessa com viva fé, e Ele lhe será tudo quanto você desejar.”11 Ellen White considerava Jesus seu Salva- dor e melhor Amigo.12 Contudo, mais do que isso, Ele era o seu Senhor. Disseram-lhe na Europa que as pessoas seriam mais receptivas à mensagem do advento “se falássemos mais sobre o amor de Jesus”. Chamaram a atenção para o “perigo de perder nossas congregações, caso insistíssemos nas questões mais severas do dever e da lei de Deus”. Tendo ouvido esse tipo de comentário an- tes, ela escreveu em suas notas de viagem: “Prevalece por toda parte uma experiência não genuína. Muitos dizem constantemente: ‘Tudo que precisamos fazer é crer em Cristo.’ Afirmam que fé é tudo de que necessitamos. Em seu sentido mais pleno, isto é verdade; mas eles não empregam a palavra no sentido mais pleno. Crer em Jesus é aceitá-Lo como nosso redentor e modelo. Se permanecemos nEle e Ele em nós, somos participantes de Sua natureza divina e praticantes de Sua Pa- lavra. O amor de Jesus no coração levará à obediência a todos os Seus mandamentos. Mas o amor que não vai além dos lábios é uma ilusão; não salvará nenhuma alma. Mui- tos professam grande amor por Jesus, ao passo que rejeitam as verdades da Bíblia. O apósto- lo João, porém, declara: ‘Aquele que diz: Eu O conheço, e não guarda os Seus mandamen- tos, é mentiroso, e nele não está a verdade.’ I João 2:4. Embora Jesus já tenha feito tudo no que diz respeito ao mérito, temos algo que fa- zer no que diz respeito ao cumprimento das condições.”13 O Tema do Grande Conflito O profundo discernimento manifesto por Ellen White em sua instrução teológica sobre o tema preponderante da Bíblia – o Tema do Grande Conflito14 – tornou clara a razão por que Jesus Se fez homem. Esta compreensão fundamental permeia todos os seus escritos. Por exemplo: “A fim de crescer na graça e no conhecimento de Cristo, é essencial que me- ditem muito nos grandes temas da redenção. Você deve perguntar-se por que Cristo assu- miu a natureza humana, por que sofreu sobre a cruz, por que levou os pecados dos homens, por que Se tornou pecado e justiça por nós. Deve estudar para saber por que Ele ascendeu ao Céu em natureza humana, e qual é Sua obra por nós hoje. ... Julgamos conhecer bem o caráter de Cristo, e não compreendemos claramente quanto se pode ganhar ao estu- darmos nosso esplêndido Modelo. Damos por certo que sabemos tudo sobre Ele, embora não compreendamos Seu caráter nem Sua missão.”15 “Escutar” Ellen White, página após pági- na, é como ouvir o “Messias” de Haendel. O “Espírito de Cristo” impregna seu ministério. Harmonia, clareza e coerência caracterizam a dedicação que ela consagra a seu melhor Amigo. Mais do que tudo isso, é provável que Ellen White ajude a satisfazer nosso anseio humano por graça. Em cartas pessoais, artigos de revista e apresentações diante de grandes auditórios, suas mensagens direcionadas para a graça aumentaram a aceitação da graça di- 6 SEÇÃO I O Sistema Divino de Comunicação 1. “O evangelho é glorioso porque é constituído da justiça de Cristo. O evangelho é Cristo revelado, e Cristo é o evangelho personificado. ... Não devemos exaltar o evangelho, mas a Cristo. Não devemos adorar o evangelho, mas o Senhor do evangelho.” – Manuscrito 44, 1898, citado em Seventh-day Adventist Bible Commentary (SDABC), vol. 7, pág. 907. 2. Atos dos Apóstolos, pág. 33. 3. A Bíblia fala da primeira morte como um “sono”. (Ver João 11:11-14; I Tess. 4:13-16; 5:10.) A segunda morte é reserva- da aos pecadores que rejeitam o convite do evangelho. (Ver Apoc. 20:6 e 14; 21:8.) 4. Enoque (Gên. 5:24), Elias (II Reis 2:11), Moisés (Jud. 9) e os que ressurgiram com Jesus (Mat. 7:52 e 53). 5. “Todo aquele que se libertar do cativeiro e do serviço de Sata- nás e se colocar sob a bandeira ensangüentada do Príncipe Emanuel, será guardado pela intercessão de Cristo. Na quali- dade de nosso Mediador, à destra do Pai, Cristo sempre nos conserva debaixo de Suas vistas, pois é tão necessário que Ele interceda por nós quanto o foi que nos redimisse pelo Seu san- gue. Se Ele nos deixa escapar por um só momento a Seu con- trole, Satanás está pronto para destruir. Aqueles a quem Cris- to comprou por Seu sangue, a estes protege Ele agora por Sua intercessão.” – Manuscrito 73, 1893, em SDABC, vol. 6, comen- tários sobre Romanos 8:34, pág. 1.078; também Manuscript Re- leases (MR), vol. 15, pág. 104. 6. Primeiros Escritos, pág. 12. 7. Bible Echo, 30 de abril de 1894. 8. Carta 18, 1879, citada em Arthur White, Ellen G. White Bio- graphy, vol. 3, (Washington, D.C.: Review and Herald Pu- blishing Association, 1984), pág. 105. Daqui em diante as re- ferências à biografia em seis volumes de Ellen White feita por Arthur White serão indicadas apenas pela palavra Bio- graphy, seguida do número do volume e das páginas. 9. Carta 20, 1879, citado em Biography, pág. 117. 10. Carta 51, 1880, citada em Biography, pág. 149. 11. Review and Herald, 23 de junho de 1896. 12. Ver James Nix, “Oh, Jesus, How I Love You!”, Adventist Re- view, 30 de maio de 1996, págs. 10-14. 13. Historical Sketches of the Foreign Missions of the Seventh-day Adventists (Basle, Suíça: Imprimerie Polyglotte, 1886), pág. 188; ver também Biography, vol. 3, pág. 320. 14. Ver págs. 256-263. 15. Signs of the Times, 1o de dezembro de 1890. Perguntas Para Estudo 1. Por que é errado fazer distinção entre Jesus e o evangelho? 2. Se o Espírito Santo é a Pessoa que “revela” as mensagens de Deus aos profetas, por que se fala de Jesus como o Revelador? 3. Qual a principal finalidade do “dom de profecia”? 4. Que textos do Novo Testamento ensinam que Deus continua a falar em tempos pós- apostólicos? 5. Que duplo papel desempenha Cristo como nosso Sumo Sacerdote? 6. Escolha um capítulo do Caminho a Cristo ou de O Desejado de Todas as Nações, leia-o e fa- ça uma lista de algumas coisas que lhe falam sobre Jesus. Referências
  • 13. Como Deus Transpôs o Abismo do Pecado Como o abismo do pecado poderia ser trans- posto? Deus sempre tem uma solução. Ele sa- be como adaptar-Se a circunstâncias em mu- tação. Por exemplo, em vez da comunicação face a face, Ele “fala” a todos através da “consciência”. (Ver João 1:9; Rom. 2:15.) De uma forma significativa, o Espírito Santo pe- de aos seres racionais que prefiram o certo ao errado, seja qual for a situação. Além disso, para aqueles que especificamente buscam o auxílio divino, ainda que não conheçam muito a Deus, estende-se a todos a promessa: “Reconhece-O em todos os teus caminhos, e Ele endireitará as tuas veredas.” Prov. 3:6.2 Deus também Se revela por meio dos an- jos: “Não são todos eles espíritos ministrado- res, enviados para serviço a favor dos que hão de herdar a salvação?” Heb. 1:14.3 Embora desfigurado pelos resultados do pecado, o mundo físico ainda revela muita coisa sobre a natureza e o caráter de Deus: “Porque os atributos invisíveis de Deus, assim o Seu eterno poder, como também a Sua pró- pria divindade, claramente se reconhecem, desde o princípio do mundo, sendo percebi- dos por meio das coisas que foram criadas. Tais homens são, por isso, indesculpáveis.” Rom. 1:20. Pessoas de todos os continentes e através da História têm associado Deus a “atributos” como ordem, beleza, previsibili- dade e desígnio, vistos nos corpos celestes ou nas maravilhas terrenas, tanto as animadas como as inanimadas.4 Antes que Moisés guiasse os israelitas para fora do Egito, Deus havia Se comunicado com homens e mulheres por meio dos pa- triarcas Noé (Gên. 5-9), Abraão (Gên. 12- 24), Isaque (Gên. 26:2-5) e Jacó (Gên. 32:24-30). Moisés foi o ilustre exemplo de um ser humano com quem Deus conversava (Êxo. 3, etc.). Com referência à nação de Israel em seus primeiros anos, Deus “falava” por Urim e Tu- mim, duas pedras preciosas engastadas no peitoral (éfode) do sumo sacerdote israelita. Quando os líderes da nação queriam conhecer a vontade de Deus, o sumo sacerdote fazia as perguntas específicas, e estas eram respondi- das pela luz que repousava sobre o Urim ou o Tumim.5 Para uma nação jovem, recém-saída do cativeiro e antes de existir a Palavra escri- ta, esse método de comunicação era decisivo e confirmatório. Deus falou também por meio de sonhos. Considere o significado do sonho profético de José (Gên. 37), os sonhos do copeiro e do padeiro de Faraó (Gên. 40), o sonho de Fa- raó (Gên. 41), o sonho do soldado midiani- ta (Juí. 7) e os sonhos de Nabucodonosor (Dan. 2 e 4). Não resta dúvida de que a revelação mais clara de Deus e de Sua vontade para homens e mulheres foi por intermédio de Jesus Cris- to: “Havendo Deus antigamente falado mui- tas vezes, e de muitas maneiras, aos pais, pe- los profetas, nestes últimos dias a nós nos fa- lou pelo Filho.” Heb. 1:1 e 2. Jesus foi explí- cito: “Quem Me vê a Mim vê o Pai.” João 14:9. Mas Cristo não chamou a atenção para Deus como todos os profetas vinham fazen- do; Ele era Aquele para quem eles chama- vam a atenção. AFormaMaisReconhecidadeRevelaçãoDivina Embora Deus tenha empregado muitos mé- todos, o “profeta” foi a forma mais reco- nhecida de comunicação divina. Os sacer- dotes de Israel eram os representantes do povo perante Deus; os profetas eram os re- presentantes oficiais de Deus perante Seu povo. O chamado do sacerdote era heredi- tário; o profeta era especificamente chama- do por Deus.6 Os profetas têm sido os canais mais visí- veis no sistema divino de comunicação. “Certamente o Senhor Deus não fará coisa alguma, sem primeiro revelar o Seu segredo aos Seus servos, os profetas.” Amós 3:7. “O Senhor, Deus de seus pais, começando de ma- drugada, falou-lhes por intermédio dos Seus mensageiros, porque Se compadecera do Seu povo.” II Crôn. 36:15. Deus foi bastante explícito quando disse que, se o povo não desse ouvido a Seus profe- tas, Ele não teria outro remédio para ajudá-lo a superar seus problemas pessoais ou nacio- nais: “Eles, porém, zombavam dos mensa- 9 M E N S A G E I R A D O S E N H O R O ministério profético de Ellen G. White D eus tem-Se comunicado com os seres humanos desde que criou Adão e Eva.1 Os seres humanos foram criados à semelhança de Deus, feitos “à Sua ima- gem”. Gên. 1:27. Ele os fez responsáveis, isto é, capazes de responder a Deus e às outras pessoas. Deus proveu todas as coisas imaginá- veis para a felicidade de nossos primeiros pais. “Plantou... um jardim” (Gên. 2:8) já flo- rido, cheio de plantas comestíveis. O primei- ro casal não precisava passar por dificuldade, nem lutar pela sobrevivência. Além disso, Deus fez homens e mulheres com capacidade de gerar filhos à imagem de- les, assim como criara Adão e Eva à Sua ima- gem. Nada foi omitido. Tudo o que homens e mulheres precisavam estava no lugar apro- priado – a espécie correta de alimento, a ale- gria do trabalho, a contemplação diária de um deslumbrante jardim de flores, sem chu- va e ferrugem, bem como o perfeito compa- nheirismo de um com o outro e com o pró- prio Deus. O plano de Deus para nossos pri- meiros pais ainda hoje continua a ser um projeto realizável para nós que buscamos paz e saúde em meio à ruína lastimável daquilo que o Senhor tinha em vista em relação à fa- mília humana. Comunicação Antes do Pecado Antes de pecarem, nossos primeiros pais desfrutavam constante comunhão com Deus e com Seus anjos. Foi dessa maneira que aprenderam a cuidar de todas as criaturas vi- vas e a suprir as próprias necessidades como mordomos deste fantástico paraíso chamado planeta Terra. É possível que todo dia, ao pôr-do-sol, eles realizassem um culto a Deus “na parte fresca do dia”. Gên. 3:8. Eles sa- biam que nem tudo era seguro, nem mesmo no Éden! O mal se emboscava na sombra da “árvore do conhecimento do bem e do mal”. Gên. 2:17. Terríveis mudanças ocorreram quando Adão e Eva pecaram. Já não conseguiam falar com Deus face a face. Não porque Deus hou- vesse mudado, mas porque o primeiro casal mudara – o pecado reconfigurou-lhes a men- te e as emoções. Isaías descreveu essa nova si- tuação em suas verdadeiras cores: “As vossas iniqüidades fazem separação entre vós e o vosso Deus; e os vossos pecados encobrem o Seu rosto de vós.” Isa. 59:2. O pecado danifica a trajetória dos nervos. Pessoa alguma continua a mesma depois de pecar. Formam-se novas ligações nos prolon- gamentos nervosos tornando mais fácil a re- petição do pecado. O pensar claramente de novo requer o auxílio especial de Deus. As- sim, quando nossos primeiros pais pecaram, Deus teve que mudar Seu sistema de comuni- cação com os seres humanos. Nem todos os deploráveis resultados do pecado sobrevieram a Adão e Eva imediatamente, mas a triste de- generação da humanidade começou no dia em que eles condescenderam com “a con- cupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida”. I João 2:16. 8 CAPÍTULO 2 SEÇÃO I O Sistema Divino de Comunicação Deus Fala Pelos Profetas “Havendo Deus, outrora, falado muitas vezes, e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas.” Heb. 1:1. “Se entre vós há profeta, Eu, o Senhor, em visão a ele Me faço conhecer, ou falo com ele em sonhos.” Núm. 12:6.
  • 14. CAPÍTULO 2 DEUS FALA PELOS PROFETAS mas faltavam homens e mulheres pelos quais pudesse, de maneira segura, comunicar Sua palavra. Quando as visões não eram freqüen- tes, a situação espiritual e política de Israel tornava-se embaraçosa. Israel só recuperava seu bem-estar quando o ofício profético era restaurado. Exemplo: a restauração de Israel como uma nação livre e abençoada coincidiu exa- tamente com o ministério profético de Sa- muel. A longa vida deste profeta é um relato surpreendente da maneira como um só ho- mem pode alterar o curso de toda uma nação. Os primeiros anos de sua vida, depois de sua mãe o haver entregue ao Senhor, são bem co- nhecidos: “E o menino Samuel ia crescendo em estatura e em graça diante do Senhor, co- mo também diante dos homens”. I Sam. 2:26. À medida que Samuel amadurecia, sua lide- rança espiritual se tornava manifesta: “Cres- cia Samuel, e o Senhor era com ele, e nenhu- ma de todas as suas palavras deixou cair em terra. Todo o Israel, desde Dã até Berseba, co- nheceu que Samuel estava confirmado como profeta do Senhor.” I Sam. 3:19 e 20. Poste- riormente, o “Senhor apareceu a Samuel em Siló. ... E veio a palavra de Samuel a todo o Israel.” I Sam. 3:21-4:1. A fidelidade de Samuel como mensageiro de Deus tornou possível a Deus inverter a desgraça de Israel. O exemplo espiritual, a exortação e a liderança nacional do profeta foram tão eficientes que o relato declara: “Assim, os filisteus foram abatidos e nunca mais vieram ao território de Israel, porquan- to foi a mão do Senhor contra eles todos os dias de Samuel.” I Sam. 7:13. A vida de Samuel é uma ilustração clara e profunda de como o Espírito de Profecia po- de ser eficiente no estabelecimento do pro- grama de Deus na Terra. Quem pode imagi- nar o que será possível realizar nestes últimos dias se dermos ouvido ao Espírito de Profecia! Tendo Samuel idade avançada, algo quase inexplicável aconteceu. Os líderes israelitas vieram ter com ele pedindo que lhes consti- tuíssem “um rei..., para que nos governe, co- mo o têm todas as nações”. I Sam. 8:4. Esque- ceram que sua soberania restaurada e situação aprazível se deviam à liderança profética de Samuel. Deus advertiu os líderes de que um rei tra- ria provas e dificuldades a seu país – mas eles persistiram: “Para que sejamos também como todas as nações; o nosso rei poderá governar- nos, sair adiante de nós e fazer as nossas guer- ras.” Verso 20. Embora Israel tenha rejeitado o plano de Deus governar Seu povo (teocracia), Deus, porém, não rejeitou a Israel. Não retirou o dom profético. Desde o tempo de Saul, o pri- meiro rei de Israel, até os dias da desolação em que tanto Israel como Judá foram levados cativos para Assíria e para Babilônia, trinta profetas são mencionados pelo nome na Bí- blia. Além deles, houve profetas anônimos, junto com os “filhos dos profetas”. Pouco Sucesso Quanto sucesso obtiveram os profetas? Bem pouco, em grande parte devido aos líderes na- cionais que os rejeitaram. Repare Jeoaquim (Jer. 36), para quem o profeta Jeremias rece- beu ordens de Deus de enviar palavras de condenação e esperança. Baruque, o assisten- te de redação de Jeremias, leu a mensagem “diante de todo o povo”. Verso 10. O rolo caiu sem demora nas mãos dos conselheiros da corte, os quais também ficaram grande- mente impressionados. Eles insistiram com o rei Jeoaquim para que também lesse a mensa- gem de Jeremias. O rei pediu a Jeudi que o lesse em voz alta. Mas, tendo o ministro de confiança do rei lido apenas “três ou quatro folhas do livro, cortou-o o rei com um canivete de escrivão e o lançou no fogo que havia no braseiro, e, as- sim, todo o rolo se consumiu no fogo que es- tava no braseiro. Não se atemorizaram, não rasgaram as vestes”. Jer. 36:23 e 24. Lamentavelmente, Jeoaquim era o tipo de muitos líderes espirituais, até mesmo de líde- res cristãos de nossa época, que destruiriam completamente, se pudessem, a mensagem de Deus e Seus mensageiros. Muitos têm pro- curado, através dos anos, seja com o “canive- te de escrivão”, seja com benigna negligên- cia, anular a eficácia de um profeta. 11 M E N S A G E I R A D O S E N H O R O ministério profético de Ellen G. White geiros de Deus, desprezavam as Suas palavras e mofavam dos Seus profetas, até que... não houve remédio algum.” II Crôn. 36:16. No livro A Prophet Among You,7 T. Housel Jemison alistou oito razões por que Deus usou profetas em vez de alguns recursos dramáticos e espetaculares tais como escrever Sua vonta- de nas nuvens ou proferi-la como trovão no amanhecer de cada dia: 1. Os profetas prepararam o caminho para o primeiro advento de Cristo. 2. Como representantes do Senhor, os pro- fetas mostraram ao povo que Deus valorizava os seres humanos a ponto de escolher dentre eles homens e mulheres para representá-Lo. 3. Os profetas eram um lembrete constan- te da proximidade e disponibilidade da ins- trução divina. 4. As mensagens comunicadas pelos profe- tas cumpriam o mesmo propósito que uma comunicação pessoal do Criador. 5. Os profetas eram uma manifestação do que a comunhão com Deus e a transformado- ra graça do Espírito Santo podia realizar na vida humana. 6. A presença dos profetas punha o po- vo à prova no tocante à atitude deles para com Deus. 7. Os profetas tomaram parte no plano da salvação, pois Deus tem coerentemente em- pregado uma combinação do humano e do divino como o meio mais eficaz de alcançar a humanidade perdida. 8. O resultado mais notável da atividade dos profetas é sua contribuição à Palavra Escrita. A Obra dos Profetas Dupla era a obra dos profetas: receber a mensa- gem divina e transmiti-la fielmente. Esses as- pectos se refletem nas três palavras hebraicas para “profeta”. Para ressaltar o papel dos profe- tas em ouvir a vontade de Deus conforme lhe era revelada, o escritor hebraico usava chozeh ou ro’eh, que traduzido significa “vidente”. A palavra hebraica nabi (a palavra hebraica mais freqüentemente usada para profeta) descreve os profetas enquanto transmitem sua mensa- gem pela palavra falada ou escrita. Em I Sa- muel 9:9, percebe-se ambos os papéis: “Anti- gamente em Israel, indo alguém consultar a Deus, dizia assim: Vinde, vamos ao vidente [ro’eh]; porque ao profeta [nabi] de hoje, ou- trora se chamava vidente [ro’eh].” Chozeh, derivada da mesma raiz da qual re- cebemos a palavra portuguesa visão, salienta o fato de que o profeta recebe mensagens por meio de visões dadas por ministração divina. Cada um dos três termos hebraicos para “profeta” sublinha o ofício profético como o la- do humano do plano divino de comunicação. No Novo Testamento, a palavra grega prophetes, equivalente a nabi do Antigo Tes- tamento, é transliterada como “profeta”. Seu sentido básico é “falar em nome de”. O verdadeiro “profeta” é aquele que fala em nome de Deus. Longa Linhagem de Esplendor O primeiro (tanto quanto sabemos) desta surpreendente linhagem de corajosos, fiéis e ilustres profetas por intermédio dos quais Deus disse o que pensava foi “Enoque, o séti- mo depois de Adão”. Jud. 14. Depois veio Abraão (Gên. 20:7) e Moisés (Deut. 18:15). Miriã foi a primeira mulher a ser chamada de profetisa (Êxo. 15:20). Com o passar do tempo, a nação de Israel perdeu seu enfoque espiritual e tornou-se igual a seus vizinhos na adoração de outros deuses. Durante o longo e sombrio período dos juízes, Israel foi oprimido e humilhado pelas nações vizinhas. Quando Samuel rece- beu o chamado para seu papel profético, os fi- listeus exerciam implacável domínio sobre Is- rael. Eli, o sumo sacerdote, era homem idoso e ineficiente. Seus dois filhos, Hofni e Fi- néias, embora responsáveis pela liderança do governo e do sacerdócio, “eram homens ím- pios; não conheciam ao Senhor”. I Sam. 2:12. Não é de admirar que “naqueles dias, a palavra do Senhor era mui rara; as visões não eram freqüentes”. I Sam. 3:1.8 A “palavra do Senhor era mui rara” em Is- rael porque raros eram os homens e mulheres a quem se podia confiar as mensagens celes- tiais. Deus estava disposto a guiar Seu povo, 10 SEÇÃO I O Sistema Divino de Comunicação
  • 15. CAPÍTULO 2 DEUS FALA PELOS PROFETAS anúncios oficiais feitos por reis a seus súditos. Alguns dos inspirados escritos proféticos nem mesmo foram escritos pelos profetas. Das abundantes mensagens proféticas apresentadas através de vários milhares de anos, Deus supervisionou uma compilação que chamamos de Bíblia. Esta amostragem foi preservada para um propósito: “Estas coisas lhes sobrevieram como exemplos e foram es- critas para advertência nossa, de nós outros sobre quem os fins dos séculos têm chegado.” I Cor. 10:11. Como os Profetas Transmitiam as Mensagens Através da História, o Espírito de Profecia tem usado três métodos para apresentar as mensagens de Deus: Oral, Escrito e Dra- matizado. Oral. A apresentação sob a forma de ser- mão normal talvez seja a modalidade mais conhecida da obra de um profeta. Pensamos imediatamente em Jesus proferindo Seu ser- mão no Monte das Bem-aventuranças (Mat. 5-7) ou do sermão de Pedro no dia de Pente- costes (Atos 2). Todo o livro de Deuteronô- mio foi um discurso oral em que Moisés pas- sou em revista os quarenta anos da história is- raelita. Muitos dos profetas menores apresen- taram primeiramente suas mensagens sob a forma oral. Além dessas apresentações de caráter mais formal, os profetas também registraram por escrito os conselhos dados anteriormente a lí- deres ou grupos. Isaías registrou sua entrevis- ta com Ezequias (Isa. 37). A maior parte do livro de Jeremias é um resumo escrito de suas mensagens públicas. Ezequiel transcreveu suas primeiras conversas com os líderes de Is- rael. Por exemplo: “No sexto ano, no sexto mês, aos cinco dias do mês, estando eu senta- do em minha casa, e os anciãos de Judá, as- sentados diante de mim, sucedeu que ali a mão do Senhor Deus caiu sobre mim.” Ezeq. 8:1. (Ver 20:1.) Algumas entrevistas particulares, como a de Natã com Davi (II Sam. 12:1-7), a de Je- remias com Zedequias (Jer. 38:14-19), e a de Jesus com Nicodemos (João 3), foram tam- bém consideradas pelo Espírito de Profecia como dignas de uma aplicação mais ampla. Além de seus deveres públicos e oficiais, os profetas escreviam cartas particulares às pessoas que tinham necessidades específicas. Escrito. As mensagens escritas apresentam vantagens sobre as outras formas de comuni- cação. Podem ser lidas e relidas. Comparadas com a apresentação oral, elas são menos su- jeitas a interpretações errôneas. O Senhor or- denou a Jeremias que escrevesse um livro contendo as palavras que Ele lhe daria. Jere- mias pediu a Baruque para ser seu assistente de redação, e o livro finalmente foi lido pe- rante o povo de Jerusalém e perante o rei. Anos depois, o profeta Daniel (9:2) declara haver lido as mensagens de Jeremias, nas quais este profeta prometia libertação para o povo de Deus após setenta anos de cativeiro. O próprio Daniel recebeu instruções para es- crever um livro dirigido especificamente àqueles que viveriam no “tempo do fim”. Dan. 12:4. O apóstolo Paulo escreveu catorze livros do Novo Testamento, sendo todos, exceto um, cartas para várias igrejas ou seus pastores. Algumas de suas cartas não foram incluídas na Bíblia, como é o caso da carta à igreja de Laodicéia (Col. 4:16). Pedro também escreveu cartas a vários grupos de igreja: “Amados, esta é, agora, a se- gunda epístola que vos escrevo; em ambas, procuro despertar com lembranças a vossa mente esclarecida.” II Ped. 3:1. Ele também escreveu cartas particulares, como a que foi endereçada a Silvano (I Ped. 5:12). João escreveu pelo menos três cartas, além do Evangelho e do livro de Apocalipse: “Es- tas coisas, pois, vos escrevemos para que a nossa alegria seja completa.” I João 1:4. Cartas Cheias de Autoridade As cartas dos profetas encerravam a mesma autoridade que seus sermões convencionais. Em alguns casos, as cartas eram mais úteis do que um sermão, pois eram escritas a pessoas específicas com problemas específicos. As cartas endereçadas a uma pessoa ou a uma igreja tornaram-se igualmente benéficas a ou- tras, à medida que essas cartas (e sermões) eram copiadas e amplamente distribuídas. Pessoas de todos os lugares, através dos tem- 13 M E N S A G E I R A D O S E N H O R O ministério profético de Ellen G. White A mensagem de Deus, porém, sobrevive em benefício daqueles que buscam conhecer Sua vontade. Davi é outro exemplo de líder israelita que recebeu uma mensagem de reprovação da par- te de um profeta. Mas o resultado foi o opos- to da experiência de Jeoaquim. Depois de o rei Davi ter mandado assassinar Urias para poder casar-se com Bate-Seba, a esposa de Urias, Deus enviou o profeta Natã a Davi. Sem procurar evasivas com palavras de com- paixão ou favor, Natã apontou o dedo para Davi e proferiu a palavra de condenação: “Tu és o homem!” II Sam. 12:7. Davi aceitou a pa- lavra do Senhor – e rendeu-se: “Pequei contra o Senhor.” II Sam. 12:13. (Ver também Sal. 51.) Davi é um dos mais admiráveis exemplos daqueles que, atendendo às palavras condena- tórias do Senhor, mudaram seu futuro para melhor. Seu exemplo tem sido muitas vezes mencionado na história da igreja. Nomes Aplicados às Mensagens Proféticas Diversos termos são empregados na Bíblia pa- ra descrever as mensagens apresentadas pelos profetas: conselho (Isa. 44:26); mensagem do Senhor (Ageu 1:13); profecia ou profecias (II Crôn. 9:29; 15:8; I Cor. 13:8); testemunhos (I Reis 2:3; II Reis 11:12; 17:15; 23:3; muitos versos do Sal. 119) e Palavra de Deus (I Sam. 9:27; I Reis 12:22). Cada termo, apesar de facilmente inter- cambiável, enfatiza determinado aspecto do sistema divino de comunicação. “Testemu- nhos”, por exemplo, sugere “mensagens”. O pensamento incluso na expressão “testemu- nho de Jesus” (Apoc. 12:17 e 19:10) é que as mensagens ou a vontade de Jesus são revela- das quando um profeta fala ou escreve. Como Deus e os Profetas Interagem Os profetas reconhecem claramente a pre- sença e o poder do Espírito Santo no papel que desempenham como mensageiros de Deus. Pedro compreendia bem essa relação: “Porque a profecia nunca foi produzida por vontade dos homens, mas os homens da par- te de Deus falaram movidos pelo Espírito Santo.” II Ped. 1:21. Considere a experiência de Saul: “Che- gando eles a Gibeá, eis que um grupo de pro- fetas lhes saiu ao encontro; o Espírito de Deus se apossou de Saul, e ele profetizou no meio deles.” I Sam. 10:10. Ezequiel referiu-se muitas vezes à presença do Espírito Santo: “Então, entrou em mim o Espírito, quando falava comigo, e me pôs em pé, e ouvi o que me falava.” Ezeq. 2:2. (Ver também 3:12, 14 e 24; 8:3; 11:5; 37:1.) De que modo o profeta reconhecia a pre- sença e o poder do Espírito Santo? Por meio de visões e sonhos fora do comum, acompa- nhados de fenômenos físicos. Muitos viram o cumprimento da promessa de Deus: “Se entre vós houver profeta, Eu, o Senhor, a ele Me fa- rei conhecer em visão, em sonhos falarei com ele.” Núm. 12:6. (A Bíblia não faz distinção clara entre visão profética e sonho profético. Os termos parecem ser usados de maneira permutável.) Em Daniel 10, o profeta descreve alguns dos fenômenos físicos que acompanharam “esta grande visão”. Verso 8. Embora ele ti- vesse caído “sem sentidos, rosto em terra”, conseguiu ouvir “a voz das suas palavras”. Verso 9. Havia outras pessoas com Daniel du- rante a visão, mas só ele teve “aquela visão”. Verso 7. Daniel sofria alterações físicas enquanto se achava em visão: “Não ficou força em mim; e transmudou-se em mim a minha for- mosura em desmaio, e não retive força algu- ma.” Verso 8. Quaisquer que possam ter sido os fenôme- nos específicos que acompanhavam uma vi- são ou sonho, os profetas sabiam que Deus lhes falava. O que sabemos sobre as mensagens dos profetas e a maneira como estas foram profe- ridas acha-se registrado na Bíblia. A princí- pio nem todas as mensagens que temos hoje estavam na forma escrita. Algumas eram ser- mões públicos, outras eram cartas a amigos ou a grupos congregacionais; algumas eram 12 SEÇÃO I O Sistema Divino de Comunicação
  • 16. CAPÍTULO 2 DEUS FALA PELOS PROFETAS Paulo utilizou diversos assistentes literários com variados talentos de redação.10 Pedro se referia a seu assistente de redação pelo nome de Silvano (Silas), “nosso fiel ir- mão”. I Ped. 5:12. Por que Pedro precisaria de auxílio em redação? Por várias razões: além de não ter recebido instrução acadêmica, Pe- dro passava pelas mesmas restrições carcerá- rias de Paulo; e visto que sua língua materna era o aramaico, ele provavelmente não era fluente no grego. A primeira epístola de Pe- dro é escrita em grego elegante e de alto ní- vel, sinal de uma mente culta que reflete a as- sistência de Silvano. A segunda epístola de Pedro, no entanto, é escrita num estilo literá- rio rudimentar, embora a verdade resplande- ça de maneira notável. Obviamente, Silvano não estava disponível a curto prazo, e Pedro escreveu-a ele mesmo ou contratou outro es- criba sem o talento literário de Silvano.11 Diferenças Óbvias Entre I e II Pedro A diferença entre a primeira epístola de Pe- dro e a segunda é tão óbvia que a autoria de Pedro, de uma ou mesmo de ambas as cartas, tem sido questionada. Allan A. McRae ob- servou: “Não podemos descartar a idéia de que um escritor possa, ocasionalmente, haver transmitido a um assistente a idéia geral do que ele queria, dizendo-lhe para colocar isto na forma escrita.12 Nesse caso, ele teria veri- ficado o original para ter a certeza de que o texto representava o que ele havia querido dizer e, portanto, ele podia verdadeiramente ser chamado seu autor. O Espírito Santo teria guiado todo o processo para que a redação de- finitiva exprimisse as idéias que Deus deseja- va transmitir a Seu povo. “É provável que Paulo raramente seguisse este último procedimento, visto ser bastante culto e ter confiança em sua capacidade de expressar-se em grego. Mas a situação pode ter sido diferente no caso de Pedro e João. O estilo da primeira epístola de Pedro difere tanto do da segunda que alguns críticos suge- riram uma fraude. Contudo, Pedro podia muito bem ter ele mesmo escrito um livro em grego (II Pedro?) e expresso seu pensa- mento em aramaico a um assistente que ti- vesse mais experiência de redigir em grego (I Pedro). Esse assistente podia então ter regis- trado as idéias de Pedro em seu estilo, efe- tuando depois as alterações sugeridas por Pe- dro. As duas cartas difeririam assim em esti- lo, mas, sob a orientação do Espírito Santo, expressariam o pensamento de Pedro como se ele houvesse verdadeiramente ditado cada palavra. João Calvino defendia esse ponto de vista, embora não tivesse dúvidas de que am- bas apresentavam com exatidão o pensa- mento de Pedro.”13 Ao comparar o Evangelho de João com o livro de Apocalipse, vemos novamente esti- los literários surpreendentemente diferentes. As evidências parecem indicar que o apósto- lo João escreveu ambos os livros, ainda que o estilo literário seja muito dessemelhante. O livro de Apocalipse é geralmente construído numa estrutura grega frouxa (ver pág. 541), enquanto o Evangelho de João se conforma aos padrões literários clássicos – uma indica- ção clara de que os escribas eram pessoas di- ferentes.14 Parte da diferença pode ser atri- buída ao fato de João estar em idade avança- da quando escreveu o Apocalipse. Como o Evangelho de Lucas Foi Escrito Outro modo de encarar a assistência editorial no preparo do material bíblico é fornecido pela análise de como e por que o livro de Lu- cas foi preparado. Lucas não foi uma testemu- nha ocular do ministério de Cristo. Provavel- mente ele nunca ouvira Jesus falar. Contudo, o Evangelho de Lucas pode ser comparado ao de Mateus, Marcos e João no que se refere à fidelidade com que palavras e atos de Jesus foram registrados. Como Lucas fez isto? Obtendo de testemu- nhas oculares os relatos mais válidos e apre- sentando-os de maneira coerente.15 Lucas diz isso da seguinte maneira: “Visto que muitos houve que empreenderam uma narração coordenada dos fatos que entre nós se realizaram, conforme nos transmitiram os que desde o princípio foram deles testemu- nhas oculares e ministros da palavra, igual- mente a mim me pareceu bem, depois de pro- 15 M E N S A G E I R A D O S E N H O R O ministério profético de Ellen G. White pos, têm-se identificado com essas inspiradas e práticas aplicações dos princípios divinos às particularidades da vida. Dramatização. A apresentação de parábo- las por palavras ou ações é um recurso de en- sino muito empregado pela Bíblia. Jesus fez uso abundante de parábolas para tornar claro o valor dos princípios divinos. O ministério de Jeremias utilizou muitas vezes a parábola da ação e do exemplo. Deus lhe pediu que não se casasse (Jer. 16:1 e 2) a fim de tornar-se para os judeus um lembrete vivo da experiência penosa por que estavam prestes a passar durante a destruição de Jeru- salém. Pense nos recursos audiovisuais da “botija de oleiro” (Jer. 19), quebrada como si- nal da queda de Jerusalém; ou das “correias e canzis” (Jer. 27) que pressagiavam o iminen- te jugo de Babilônia. À semelhança de Jeremias, Ezequiel mui- tas vezes exprimiu suas mensagens proféticas sob a forma de parábolas. Os exemplos in- cluem o rolo que ele deveria comer (Ezeq. 3:1-3); a espada afiada que usou como nava- lha de barbeiro na cabeça e na barba (Ezeq. 5:1); o caldeirão com comida (Ezeq. 24:3 e 4); e o vale de ossos secos (Ezeq. 37). As mensagens veiculadas por meio de parábolas captavam a atenção e eram mais facilmente relembradas. Ao examinar esses vários métodos de cap- tar a atenção, ficamos impressionados ao constatar o fato de que Deus selecionava o método que melhor se adaptasse à ocasião. Deus Se adapta com facilidade e é persisten- te. Todos os métodos são autênticos, pois pro- cedem da mesma Fonte. O sermão deutero- nômico de Moisés, as entrevistas pessoais de Isaías, os sermões transcritos de Jeremias, as cartas de Paulo, as dramatizações parabólicas de Ezequiel, os livros de Daniel, o sermão de Pedro no Pentecostes, a entrevista de Jesus com Nicodemos – tudo foi inspirado pelo Es- pírito. “Homens santos de Deus falaram ins- pirados pelo Espírito Santo.” II Ped. 1:21. Assistentes de Redação Sabemos bem pouco sobre a maneira como os autores bíblicos preparavam seus materiais. Sabemos apenas o que nos contaram. Jeremias explicou a maneira como utilizava Baruque como seu assistente de redação: “En- tão Jeremias chamou a Baruque, filho de Ne- rias; e escreveu Baruque, no rolo dum livro, enquanto Jeremias lhas ditava, todas as pala- vras que o Senhor lhe havia falado.” Jer. 36:4. Quando os oficiais do rei ouviram Baruque ler essas mensagens, perguntaram: “Declara- nos, como escreveste isto? Acaso, te ditou o profeta todas estas palavras?” Baruque lhes respondeu: “Ditava-me pessoalmente todas estas palavras, e eu as escrevia no livro com tinta.” Jer. 36:17 e 18. Baruque, conhecido como escrivão (36:26), ao que parece era bastante culto. Je- remias utilizava as habilidades literárias deste homem a fim de preparar a forma escrita das mensagens que comunicava oralmente: “To- mou, pois, Jeremias outro rolo e o deu a Ba- ruque, filho de Nerias, o escrivão, o qual es- creveu nele, ditado por Jeremias, todas as pa- lavras do livro que Jeoaquim, rei de Judá, queimara; e ainda se lhes acrescentaram mui- tas palavras semelhantes.” Jer. 36:32. Diversos Assistentes de Paulo No Novo Testamento, Paulo utilizou diversos assistentes de redação. Tércio ajudou-o a pre- parar o original da epístola aos Romanos (16:22). Ao que parece, Sóstenes o ajudou na escrita da primeira carta aos Coríntios (1:1). Na prisão romana, Paulo ditou sua segunda carta a Timóteo; e Lucas, seu médico, a prepa- rou na forma escrita.9 Paulo tinha excelentes conhecimentos de grego, conforme o atesta- vam os líderes judeus. Mas havia justas razões para que ele empregasse assistentes de reda- ção. Na prisão, sua capacidade de escrever fi- cara extremamente reduzida, mas os assisten- tes podiam tomar seus pensamentos e registrá-los da maneira mais conveniente. Alguns acham que seu “espinho na carne” era uma vista fra- ca (I Cor. 12:7-9; Gál. 4:15). Seja qual for o método que Paulo tenha empregado na escri- ta de suas epístolas, aqueles que liam essas car- tas (ou as ouviam ser lidas) sabiam que esta- vam escutando mensagens inspiradas. A diferença significativa no estilo grego (não necessariamente no conteúdo) de cada uma de suas cartas sugere nitidamente que 14 SEÇÃO I O Sistema Divino de Comunicação
  • 17. CAPÍTULO 2 DEUS FALA PELOS PROFETAS da a Escritura é inspirada por Deus”. II Tim. 3:16. A palavra grega usada por Paulo para “inspiração” é theopneustos, uma contração de duas palavras: “Soprado por Deus.” Isso é mais descritivo do que uma simples impressão poética. Quando Daniel, por exemplo, estava em visão, ele literalmente não conseguia res- pirar (Dan. 10:17)! Pedro disse que os profetas eram “movidos pelo Espírito Santo”. II Ped. 1:21. A palavra grega para “movidos” é pheromeni, a mesma palavra que Lucas usou (Atos 27:17 e 27) pa- ra descrever a maneira como o barco em que ele se encontrava estava sendo “impelido” por uma terrível tempestade através do Mar Mediterrâneo. Os profetas não confundiam o “movimento” do Espírito com as emoções normais. Eles sabiam quando o Senhor lhes falava. Eles eram inspirados! Outra palavra bastante usada para descre- ver o sistema divino de comunicação é ilumi- nação. Quando os profetas proferem suas mensagens, como homens e mulheres reco- nhecem que essas mensagens são autênticas? O mesmo Espírito que fala por meio dos pro- fetas fala àqueles que ouvem ou lêem a men- sagem do profeta. O ouvinte ou leitor é “ilu- minado” (mas não inspirado). Além disso, o Espírito Santo capacita o crente sincero a entender a mensagem e fazer dela uma apli- cação pessoal.19 A maneira como o processo de revela- ção/inspiração atuou no ministério de Ellen White será discutida no capítulo 13. Feliz- mente, a Sra. White falou convincente e cla- ramente sobre como funcionava esse proces- so tanto nos tempos bíblicos como em seu ministério. Mensagens Proféticas não Preservadas A Bíblia não contém tudo quanto os profetas falaram ou escreveram. Não dispomos, por exemplo, de tudo o que Jesus disse ou fez.20 Significa isso que as mensagens não pre- servadas eram menos importantes ou menos inspiradas do que as que foram registradas na Bíblia? Não! Tudo o que Deus diz é importan- te e inspirado. Algumas mensagens, porém, eram de interesse local. Algumas já estavam inclusas em outras mensagens que foram pre- servadas. Sem dúvida, a maior quantidade de mensagens proféticas, incluindo as palavras de Jesus, não foi preservada. Pode-se classificar os profetas bíblicos em quatro grupos:21 1. Profetas que escreveram uma parte da Bí- blia, tais como Moisés, Jeremias, Paulo e João. 2. Profetas que não escreveram nada da Bíblia, mas cujas mensagens e ministérios são amplamente descritos na Bíblia, tais como Enoque, Elias e Eliseu. 3. Profetas que deram testemunho oral (talvez até mesmo escrito), mas cujas pala- vras não foram preservadas. Através de todo o Antigo Testamento, há muitos profetas anônimos, incluindo os setenta anciãos, que receberam o Espírito Santo e profetizaram (Núm. 11:24 e 25), o grupo que se uniu a Saul depois que ele se tornou rei (I Sam. 10:5, 6 e 10) e aqueles que Obadias escondeu em cavernas (I Reis 18:4 e 13). No Novo Tes- tamento, por exemplo, as quatro filhas de Fi- lipe profetizavam, mas suas mensagens não foram registradas (Atos 21:9). 4. Profetas que escreveram livros que não foram preservados. Entre esses estavam Natã (I Crôn. 29:29), Gade (I Crôn. 29:29), Se- maías (II Crôn. 12:15), o autor do Livro dos Justos (Jos. 10:13; II Sam. 1:18), Ido (II Crôn. 12:15; 9:29), Odede (II Crôn. 28:9), Aías (II Crôn. 9:29) e Jeú (II Crôn. 20:34). O que foi preservado na Bíblia é a essência da gloriosa linhagem de esplendor pela qual Deus falou a homens e mulheres, “muitas ve- zes e de muitas maneiras”. Heb. 1:1. O propó- sito dos escritos bíblicos não é escrever a his- tória completa de tudo o que aconteceu ao povo de Deus no Antigo e no Novo Testa- mentos. O objetivo principal da Bíblia é dar aos leitores uma compreensão clara do plano da salvação e os melhores lances do grande conflito entre Cristo e Satanás. Além disso, Paulo escreveu que a Bíblia fornece “exem- plos” do que é certo e do que é errado, da ver- 17 M E N S A G E I R A D O S E N H O R O ministério profético de Ellen G. White funda investigação de tudo desde sua origem, dar-te por escrito, excelentíssimo Teófilo, uma exposição em ordem, para que tenhas plena certeza das verdades em que foste ins- truído.” Luc. 1:1-4. Deus comunicou Sua mensagem não por meio de transcrição mecânica, mas pelos atos e palavras que homens e mulheres podiam entender. Os profetas que ouviram Deus lhes falar diretamente comunicaram essas mensa- gens usando os processos mentais de sua épo- ca e os idiomas e analogias que seus ouvintes seriam capazes de entender. Compreender corretamente o processo de revelação/inspiração evita as angustiosas in- quietações que as pessoas sentem quando vêem nos Evangelhos claras diferenças entre os relatos do mesmo acontecimento ou até mesmo nas mensagens de Jesus. Nada pertur- ba mais alguns estudantes sinceros do que ob- servar as formas diferentes como os escritores bíblicos descrevem o mesmo acontecimento, “citam” o mesmo diálogo ou narram as pará- bolas de Jesus. Ter duas versões da Oração do Senhor, conforme registradas em Mateus 6 e Lucas 11, desconcerta aqueles que acreditam erroneamente que os escritores bíblicos es- creveram, palavra por palavra, o que o Espíri- to Santo lhes ditava. Inspiração Verbal ou de Pensamento A inspiração verbal e isenta de erro faz supor que o profeta é um aparelho de gravação, que transmite de maneira mecânica e infalível a mensagem de Deus. A crença numa inspira- ção mecânica não concebe diferenças no re- gistro de uma mensagem ou acontecimento. A inspiração verbal requer profetas que transmitam as palavras exatas fornecidas pe- lo Guia celestial assim como um escrivão re- gistra tudo quanto é dito pelas testemunhas num tribunal. Não se dá aos profetas nenhu- ma oportunidade para usarem sua própria in- dividualidade (e limitações) na expressão das verdades que lhe foram reveladas. Um dos problemas óbvios enfrentados pe- los que crêem na inspiração verbal é o que fa- zer ao traduzir a Bíblia, do hebraico ou ara- maico do Antigo Testamento ou do grego do Novo Testamento, para outras línguas. Outro problema é Mateus 27:9 e 10, onde o evangelista faz uma referência a Jeremias em vez de a Zacarias (11:12) como fonte do Antigo Testamento para uma profecia mes- siânica. Isso pode ter sido um erro do copista. Mas se o erro foi do próprio Mateus, é um equívoco humano que qualquer professor ou pastor pode cometer, um equívoco que não causa problema para os defensores da inspira- ção de pensamento. Por quê? Porque os de- fensores da inspiração de pensamento enten- dem o que Mateus queria dizer! Ou, o que Pilatos realmente escreveu na inscrição posta sobre a cruz de Cristo? Mateus 27:37, Marcos 15:26, Lucas 23:38 e João 19:19 registram a inscrição de modo diferen- te. Para os defensores da inspiração de pensa- mento, a mensagem é clara; para os propo- nentes da inspiração verbal, é um problema! Os Profetas São Inspirados, não as Palavras Para os que crêem na inspiração de pensa- mento, Deus inspira o profeta, não suas pala- vras.16 Os defensores da inspiração de pensa- mento lêem a Bíblia e vêem Deus atuando por intermédio de seres humanos com suas características individuais. Deus comunica os pensamentos; e os profetas, ao transmitirem a mensagem divina, usam toda a capacidade li- terária que possuem.17 Especialistas universi- tários relatarão uma mensagem ou descreve- rão um acontecimento de forma muito dife- rente da de um pastor de ovelhas. Mas se am- bos foram inspirados por Deus, a verdade será ouvida igualmente tanto por instruídos como por iletrados. Essa é a maneira como a Bíblia foi escrita, todos os escritores usando as melhores palavras para expressar fielmente a mensagem que haviam recebido do Senhor. No processo de revelação/inspiração, a re- velação enfatiza a ação divina que comunica informação. Os adventistas do sétimo dia crêem que a mensagem, ou conteúdo, divina- mente revelada é infalível e autorizada. “Lâmpada para os meus pés é a Tua palavra, e luz para os meus caminhos.” Sal. 119:105.18 Já a inspiração se refere ao processo pelo qual Deus habilita uma pessoa para ser Sua mensageira. Esse tipo de inspiração é diferen- te do uso coloquial da palavra quando descre- vemos algum poeta ou cantor talentoso como sendo “inspirado”. Paulo escreveu ao jovem Timóteo que “to- 16 SEÇÃO I O Sistema Divino de Comunicação
  • 18. CAPÍTULO 2 DEUS FALA PELOS PROFETAS Isaías se referiu à própria mulher como “a profetisa” (8:3) por ocasião do nascimento de seu filho, e em nenhum momento mais. Quando José e Maria levaram o menino Jesus ao Templo para dedicação, encontra- ram duas pessoas interessantes, além do sa- cerdote que realizava a cerimônia. (Ver Luc. 2.) Simeão “homem justo e temente a Deus”, esperava o Libertador de Israel, e ele mesmo fizera várias predições comoventes acerca do ministério do Salvador. Achava-se no Tem- plo naquele dia Ana, uma profetisa (verso 36) que também reconheceu o menino Jesus como o Messias. Devido a sua clara com- preensão das Escrituras, ela entendeu a im- portância da criança; e assim “falou a respei- to do menino a todos os que esperavam a re- denção de Jerusalém”. Verso 38. Mais de trinta e três anos depois, a jovem igreja cristã crescia rapidamente em número e influência. A presença de homens e mulhe- res piedosos mediante os quais Deus revelava Seu conselho era uma das razões para esse fe- nômeno religioso.22 A descrição bíblica do sistema divino de comunicação inclui tanto homens como mu- lheres. Embora mencionadas menos vezes que os homens, as mulheres profetisas foram reconhecidas por seus contemporâneos como autênticas mensageiras do Senhor. Elas expli- caram as Escrituras, aconselharam líderes e fi- zeram importantes predições. Abismo Entre Malaquias e João Batista O registro da ilustre linhagem dos profetas e profetisas contido no Antigo Testamento en- cerra-se com Malaquias, que viveu na última metade do século quinto a.C. Ficou o sistema divino de comunicação fora do ar por mais de quatro séculos? Ao que parece, Israel não recebeu mais o benefício dos profetas nacionais durante esse período. Em compensação, as Escrituras (o registro profético) foram grandemente valori- zadas. Tornaram-se o centro da adoração nas sinagogas, recentemente construídas por to- do o Israel durante a época do regresso do exílio babilônico. Mas será que Deus retirou o “dom de pro- fecia” durante esse período? Ellen White faz um interessante comentário sobre esse longo período entre os profetas bíblicos: “Fora da nação judaica houve homens que predisse- ram o aparecimento de um instrutor [divi- no]... e foi-lhes comunicado o Espírito de ins- piração.”23 Durante esse período intertestamentário (entre o tempo de Malaquias e o de Mateus), mestres “pagãos” estudaram as Escrituras he- braicas (talvez traduzidas para a sua própria língua). A estes Deus falou enquanto busca- vam a verdade.24 Os “magos” que vieram do Oriente (Mat. 2:1) eram, sem dúvida, exemplos daqueles que, em terras gentias, “predisseram o apare- cimento de um instrutor [divino]” e foram dotados com o “Espírito de inspiração”. Eles sabiam o tempo e o lugar do nascimento do Messias. Deus falou diretamente a esses ho- mens sinceros, instando com eles para que re- gressassem a sua terra sem entrar em contato com o perverso Herodes. Cumpre-nos meditar bem neste incidente e nesta verdade geral: “Deus não faz acepção de pessoas.” Atos 10:34. Toda geração possui, em algum lugar, homens e mulheres, judeus ou gentios, que são testemunhas divinamen- te inspiradas. Seus nomes talvez não constem nas Escrituras Sagradas, mas seu testemunho existe, mantendo acesa a chama da verdade. Malaquias, o último profeta do Antigo Testamento, encerrou suas mensagens com a predição: “Eis que Eu vos enviarei o profeta Elias, antes que venha o grande e terrível dia do Senhor.” Mal. 4:5. O Primeiro Século da Era Cristã 25 Falando a respeito de João Batista, disse Je- sus: “Mas para que saístes? Para ver um profe- ta? Sim, Eu vos digo, e muito mais que profe- ta. Este é de quem está escrito: Eis aí Eu en- vio diante da Tua face o Meu mensageiro, o 19 M E N S A G E I R A D O S E N H O R O ministério profético de Ellen G. White dade e do erro, advertindo os leitores a não caírem (I Cor. 10:12). Deus não Faz Discriminação de Sexo A Bíblia faz referência a muitas profetisas. Moisés considerava sua irmã Miriã uma pro- fetisa (Êxo. 15:20 e 21). Permanecendo ao la- do dele desde os seus primeiros anos, ela foi uma fiel porta-voz de Deus. Através dos sé- culos, Israel teve por ela grande considera- ção, e a incluiu como um dos três que haviam sido enviados “adiante de ti” (Miq. 6:4) para fundar a nação israelita após o Êxodo. A cer- ta altura, sua natureza humana fez com que ela se rebelasse contra Moisés (Núm. 12), mas este ato infeliz não colocou em risco seu cargo de profetisa verdadeira. Débora foi juíza durante um longo e som- brio período da história de Israel. Repare co- mo essa época foi desoladora: “Foi também congregada a seus pais toda aquela geração; e outra geração após eles se levantou, que não conhecia o Senhor, nem tampouco as obras que fizera a Israel. Então, fizeram os filhos de Israel o que era mau perante o Senhor; pois serviram aos baalins. Deixaram o Senhor, Deus de seus pais. ... Pelo que a ira do Senhor se acendeu contra Israel e os deu na mão dos espoliadores, que os pilharam; e os entregou na mão dos seus inimigos ao redor; e não mais puderam resistir a eles. ... Suscitou o Senhor juízes, que os livraram da mão dos que os pi- lharam. ... Quando o Senhor lhes suscitava juízes, o Senhor era com o juiz e os livrava da mão dos seus inimigos, todos os dias daquele juiz.” Juí. 2:10-18. Débora Era Mais que uma Juíza Débora não foi apenas uma juíza; ela foi a única juíza a ser chamada também de profeti- sa. (Juí. 4:4.) Foi uma líder espiritual tão con- vincente que, quando Baraque, seu general, foi convidado a liderar um exército contra os cananeus opressores, ele não quis ir sem a companhia dela. Israel havia reconhecido a liderança espiritual dela, e Baraque queria que a nação soubesse que o que ele tinha si- do convidado a fazer era um chamado da li- derança espiritual deles, e não uma conspira- ção ambiciosa ou pessoal. Afinal de contas, como poderia ele reunir 10.000 homens para lutar contra um exército adestrado e que pos- suía “novecentos carros de ferro” (Juí. 4:3), a menos que todos eles estivessem convencidos de que Deus estava na liderança do plano? O relato de Débora como juíza fiel foi tão con- vincente que seu conselho a respeito do que parecia ser uma empresa impossível foi aceito como a vontade de Deus. Ela falou a palavra do Senhor com autoridade, e colocou em ris- co a própria vida ao liderar seus compatriotas por preceito e por exemplo rumo ao futuro. Outras mulheres através da História assu- miram pesada responsabilidade profética. Fi- ca bastante claro que Deus não levava em conta o sexo quando escolhia uma pessoa pa- ra representá-Lo. Hulda foi profetisa durante um grande pe- ríodo de mudanças quando o jovem rei Josias se comprometeu, ele e sua nação, a promover uma profunda reforma espiritual. No processo de “limpeza” do Templo, os obreiros encontra- ram um exemplar do que podia ser Deutero- nômio – um livro que fora estranhamente ne- gligenciado pelos líderes religiosos da nação. Josias, sentindo a necessidade de saber mais sobre aquela descoberta, ordenou a seus conselheiros: “Ide, consultai ao Senhor por mim, e pelo povo, e por todo o Judá, acerca das palavras deste livro que se achou.” II Reis 22:13. Com quem foram ter o sacerdote e os principais conselheiros? Com a “profetisa Hulda, mulher de Salum”. Verso 14. Fazia cinco anos que Jeremias vivia em Jerusalém (compare II Reis 22:3 com Jer. 1:2), mas foi de Hulda que se valeram em busca de orien- tação espiritual! Seja qual for a razão, Hulda havia ganha- do o respeito e a confiança de seus contempo- râneos. Recorriam a ela quando queriam uma palavra do Senhor. Ela os ajudava a entender mais claramente o significado dos escritos de Moisés. Elucidava a Palavra escrita e fazia predições específicas. Suas percepções e pre- dições bíblicas eram aceitas como divina- mente inspiradas. 18 SEÇÃO I O Sistema Divino de Comunicação
  • 19. CAPÍTULO 2 DEUS FALA PELOS PROFETAS evangelistas, pastores e mestres serão neces- sários. Paulo relembra a seus irmãos coríntios que “em tudo fostes enriquecidos nEle, em toda palavra e em todo o conhecimento, assim co- mo o testemunho de Cristo tem sido confir- mado em vós”. I Cor. 1:5 e 6. Ou seja, eles haviam crescido espiritualmente e continua- ram a amadurecer até o ponto de continua- rem a ouvir com atenção as mensagens dos profetas, conhecidas como o “testemunho de Cristo”. Como vimos na página 3, “o teste- munho de Jesus [ou Cristo]” (Apoc. 12:17) é o “espírito de profecia”. Apoc. 19:10. Mais adiante Paulo declarou que, enquanto a igreja aguardasse a manifestação de nosso Se- nhor Jesus Cristo, “nenhum dom” lhe faltaria (I Cor. 1:7). Talvez seja significativo o fato de Paulo haver escolhido o “dom de profecia” ao enfatizar que a igreja não ficaria desprovida de qualquer dom até a vinda de Jesus. Provavel- mente nenhum dom seria mais necessário pa- ra o tempo do fim do que o dom de profecia. Mais tarde, na mesma carta, Paulo forneceu pormenores sobre a maneira como os dons atuariam nas atividades da igreja (I Cor. 12). Embora cada dom tivesse sua obra específica, todos os dons serviriam para o propósito co- mum de ajudar homens e mulheres a “crescer”. Evidentemente, os dons espirituais são con- cedidos pelo Espírito (I Cor. 12:7). Eles não são habilidades adquiridas por meio de instru- ção nem de honras conferidas por seres huma- nos. O “fruto do Espírito” (Gál. 5:22) deve ser buscado por todos, mas os “dons do Espírito” são distribuídos “como Lhe apraz, a cada um, individualmente”. I Cor. 12:11. Se alguém foi dotado com um dom específico não se deve fa- zer disso uma prova de comunhão cristã, por- que ninguém possui todos os dons. A permanência desses dons espirituais, em especial do dom de profecia, é pressuposta na instrução apostólica. Recordando o conselho de Cristo, de que surgiriam “falsos profetas” no tempo do fim (Mat. 24:24), Paulo adver- tiu: “Não apagueis o Espírito. Não desprezeis as profecias; julgai todas as coisas, retende o que é bom.” I Tess. 5:19-21. O bem-estar dos membros da igreja que aguardam o Advento dependerá da maneira como eles aceitam o conselho dos profetas verdadeiros, especial- mente da capacidade de discernir o verdadei- ro do falso. Desde os Tempos Apostólicos Vimos no último capítulo que os escritores do Novo Testamento esperavam que o dom pro- fético continuasse até o Segundo Advento. Vimos também que o dom profético seria par- ticularmente notório no tempo do fim. (Apoc. 12:17; 19:10.) Mas por que o eviden- te silêncio, a ausência de voz profética, logo após a morte de João? Os historiadores dividem-se quanto à pre- sença profética durante os últimos 2.000 anos. Em termos gerais, a maioria dos escrito- res crê que a iluminação profética cessou lo- go após o segundo século da era cristã. Paul K. Jewett escreveu: “Com a morte dos após- tolos, que não tiveram sucessores, gradual- mente os que possuíam o dom de profecia também desapareceram, de modo que, do ter- ceiro século em diante, da tríade original de apóstolos, profetas e mestres, ficaram apenas os mestres. ... Com o advento do montanis- mo no segundo século, pretendendo novas concepções proféticas que não correspon- diam à tradição recebida dos apóstolos, a igreja começou a fazer distinção entre essas profecias e as profecias verdadeiras contidas nas Escrituras. Desse tempo em diante, o dom profético aparece aqui e ali, mas vai dando cada vez mais lugar ao ensino. Ao tempo de Hipólito (235 d.C.) e Orígenes (250 d.C.), a palavra ‘profecia’ se limita às porções proféti- cas das Escrituras. No lugar do profeta encon- tra-se o mestre, em especial o catequista e o apologista, que se opõem a toda doutrina fal- sa e procuram apoiar a exposição que fazem da doutrina verdadeira apelando à autorizada palavra da Escritura.”28 Justino Mártir, um ilustre filósofo pagão do segundo século, uniu-se aos cristãos depois 21 M E N S A G E I R A D O S E N H O R O ministério profético de Ellen G. White qual preparará o Teu caminho diante de Ti.” Mat. 11:9 e 10. Mesmo antes de seu nascimento, João Ba- tista estava destinado a ser porta-voz de Deus. O anjo dissera a Zacarias, seu pai: “Zacarias, não temas, porque a tua oração foi ouvida; e Isabel, tua mulher, te dará à luz um filho, a quem darás o nome de João. ... Ele será gran- de diante do Senhor. ... Converterá muitos dos filhos de Israel ao Senhor, seu Deus. E irá adiante do Senhor no espírito e poder de Elias, para... habilitar para o Senhor um povo preparado.” Luc. 1:13-17. João encaminhou homens e mulheres para Deus. Não se transformou num guru com se- guidores a sua volta. Mais do que todos os ou- tros profetas, antes e depois dele, João tinha a honrosa missão de indicar pessoalmente o Cristo vivo. O momento mais sublime de sua vida foi quando afirmou: “Convém que Ele cresça e que eu diminua.” João 3:30. Nem todos pensam em Jesus como profe- ta. Mas Ele de fato o era: “E a multidão dizia: Este é Jesus, o Profeta de Nazaré da Galiléia.” Mat. 21:11; Luc. 7:16. O Profeta Jesus Os doze discípulos consideravam Seu Mestre um profeta: “O que aconteceu a Jesus, o Na- zareno, que era varão profeta, poderoso em obras e palavras, diante de Deus e de todo o povo.” Luc. 24:19.26 Jesus Se referia a Si mesmo como profeta: “E escandalizavam-se nEle. Jesus, porém, lhes disse: Não há profeta sem honra, senão na sua terra e na sua casa. E não fez ali muitos milagres, por causa da incredulidade deles.” Mat. 13:57 e 58. Jesus sentiu o aço frio da ingratidão e da rejeição que a maioria dos profetas e profeti- sas suportaram. Pessoa alguma apresentou melhores credenciais pessoais ou vida mais impecável e coerente do que Ele, mas os pro- fetas geralmente não são pessoas benquistas pelo fato de falarem em nome de Deus e não apoiarem os desejos do coração humano.27 Pela primeira vez na história do mundo, veio um profeta que não apontou para outro. O Profeta Jesus disse a respeito de Si mesmo: “A obra de Deus é esta: que creiais nAquele que por Ele foi enviado. ... Em verdade, em verdade vos digo: não foi Moisés quem vos deu o pão do Céu; o verdadeiro pão do Céu é Meu Pai quem vos dá. Porque o pão de Deus é o que desce do Céu e dá vida ao mundo. ... Eu sou o pão da vida.” João 6:29-35. Como no caso de todos os profetas verda- deiros, o principal alvo de Jesus era dizer a verdade sobre Deus e indicar a maneira pela qual homens e mulheres podem unir-se outra vez à família celeste: “E a vida eterna é esta: que Te conheçam a Ti, o único Deus verda- deiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste. Eu Te glorifiquei na Terra, consumando a obra que Me confiaste para fazer.” João 17:3 e 4. Antes de voltar para o Céu, Jesus tomou providências para que o ofício profético con- tinuasse até Sua vinda. Seria preciso conti- nuar proclamando as mesmas boas novas acerca de Deus. As mesmas boas novas sobre a maneira como rebeldes podem ser transfor- mados em crentes felizes e obedientes. Esta provisão profética seria uma das principais responsabilidades do Espírito Santo, que con- cederia “dons aos homens”. Efés. 4:8. O início da igreja cristã coincide com a re- novação dos dons espirituais: “E Ele mesmo [Jesus] concedeu uns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas e ou- tros para pastores e mestres.” Versos 11 e 12. Esses dons não foram atribuídos apenas à igreja cristã; eles deviam permanecer na igre- ja até o fim: “Até que todos cheguemos à uni- dade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus, à perfeita varonilidade, à medida da estatura da plenitude de Cristo, para que não mais sejamos como meninos, agitados de um lado para outro e levados ao redor por todo vento de doutrina.” Versos 13 e 14. Por quan- to tempo? Enquanto a igreja existir; enquan- to homens e mulheres imperfeitos e imaturos precisarem de tempo para “crescer” até à “medida... de Cristo”, apóstolos, profetas, 20 SEÇÃO I O Sistema Divino de Comunicação
  • 20. CAPÍTULO 2 DO MUNDO ADVENTISTA DE ELLEN G. WHITE entre Deus e a humanidade) e a instituciona- lização dos “santos” canonizados suplantaram a voz do profeta como um elemento visível na vida da igreja.34 Contudo, apesar de a igreja institucionali- zada ter deslizado para a escuridão da Idade Média, os dons espirituais se fizeram presentes onde quer que o evangelho fosse fielmente proclamado. Eles não cessaram totalmente. Uma das razões por que sabemos tão pouco sobre este período relativamente silencioso em relação ao dom de profecia pode ser o fato de os escritores da igreja institucionalizada haverem rejeitado os dons espirituais e perse- guido aqueles que os recebiam. Não existe, porém, registro daquele longo período: “A história do povo de Deus durante os séculos de trevas que se seguiram à supremacia de Ro- ma está escrita no Céu, mas pouco espaço ocupa nos registros humanos.”35 23 M E N S A G E I R A D O S E N H O R O ministério profético de Ellen G. White de estudar a vida de Jesus. Uma de suas defe- sas e apelos a seus amigos não cristãos é co- nhecida hoje como Diálogo com Trifo, um Ju- deu. Inclusa nesse longo colóquio encontra- se a seguinte referência aos dons espirituais, em especial o espírito de profecia: “Diariamente alguns (de vocês) estão-se tornando discípulos no nome de Jesus e abandonando o caminho do erro. Estão rece- bendo dons, cada um conforme seu mérito, iluminado pelo nome deste Cristo. Pois um recebe o espírito de entendimento, outro de conselho, outro de fortaleza, outro de cura, outro de presciência, outro de ensino e outro de temor a Deus. “A isto Trifo me disse: ‘Queria que você soubesse que está fora de si, falando destes sentimentos.’ “E eu lhe disse: ‘Escute, ó amigo, pois não sou louco nem estou fora de mim; mas foi profetizado que, após a ascensão de Cristo ao Céu, Ele nos libertaria do erro e nos concede- ria dons. As palavras são estas: ‘Subindo ao alto, levou cativo o cativeiro, e deu dons aos homens.’ Em conformidade com isto, nós que recebemos os dons de Cristo, que subiu ao al- to, provamos pelas palavras da profecia que vocês, os ‘sábios em si mesmos e entendidos a seus próprios olhos’, são tolos, e honram a Deus e a Seu Cristo somente de lábios. Mas nós, que somos instruídos em toda a verdade, honramos a Eles tanto em atos, como em co- nhecimento e de coração até a morte.”29 Mais adiante no diálogo, Justino Mártir continua: “Pois os dons proféticos permane- cem conosco até hoje. Portanto, você deve entender que (os dons), anteriormente entre sua nação, foram transferidos para nós. E as- sim como houve falsos profetas no tempo dos santos profetas, assim existem agora falsos mestres entre nós, dos quais o Senhor nos avisou de antemão para deles nos acautelar- mos; para que em nenhum aspecto sejamos deficientes, uma vez que sabemos que Ele predisse tudo quanto ia acontecer conosco após Sua ressurreição dos mortos e ascensão para o Céu.”30 Depois de apresentar a Trifo uma retros- pectiva mostrando que, depois de Cristo, “nenhum profeta se levantou mais dentre vós” (isto é, dentre a nação judaica), Justino Mártir explica o motivo. Os dons espirituais seriam concedidos novamente “pela graça do poder do Seu Espírito... àqueles que crêem em Jesus, de acordo como Ele avalia cada ho- mem. ... Ora, é possível ver entre nós ho- mens e mulheres que possuem os dons do Es- pírito de Deus.”31 Todos os apóstolos estavam mortos. Cris- to estava no Céu. O Espírito Santo fazia Sua prometida obra de conceder a homens e mu- lheres “dons” para a proclamação do evange- lho, sempre que lhe parecia sábio. Eusébio, bispo da igreja em Cesaréia (Palestina), é re- conhecido como respeitável fonte de histó- ria cristã do segundo e terceiro séculos. Em sua História Eclesiástica, ele registra os nomes de vários líderes cristãos que, segundo ele, foram dotados com os dons espirituais, inclu- sive o dom de profecia. Concluindo, ele diz: “Ouvimos falar que muitos dos irmãos da igreja possuem dons proféticos, e falam em todas as línguas através do Espírito, e tam- bém trazem à luz as coisas ocultas dos ho- mens para o benefício deles, e os quais ex- põem os mistérios de Deus.”32 Existem alguns fatores que se desenvolve- ram na igreja cristã capazes de nos ajudar a explicar por que o “dom de profecia” não era mais um fator proeminente? Percebemos que desde cedo o ensino tomou o lugar da profe- cia, mas por quê? O Ensino Substituiu a Profecia Pode-se apresentar pelo menos duas respostas razoáveis: 1. O excesso de montanistas na última metade do segundo século d.C., que come- çaram bem repreendendo as igrejas por sua falta de rigor e de zelo, mas que se tornaram “desordenados” em suas interpretações pro- féticas: “Logo os profetas cristãos deixaram de existir como classe distinta na organiza- ção da igreja.”33 2. O surgimento do sacerdotalismo (o ad- vento do sacerdócio como o principal mediador 22 SEÇÃO I O Sistema Divino de Comunicação 1. Para uma pesquisa mais extensa sobre os profetas e profetisas desde os tempos patriarcais até o Novo Testamento, leia de A. G. Daniells, The Abiding Gift of Prophecy (Mountain View, CA; Pacific Press Publishing Association, 1936), págs. 36-172. 2. Ver também Isa. 30:21; Mat. 10:19 e 20. 3. Ver também Gên. 19:15; Juí. 6:11-14; Sal. 34:7; Mat. 1:18-25. 4. Ver também Atos 14:17 e Sal. 19:1-2. 5. Ver Êxo. 28:30; Lev. 8:8; Núm. 27:21; I Sam. 22:10; 28:6. 6. Repare na diferença entre os deveres do sacerdote e do pro- feta: “O sacerdote ocupava-se das cerimônias e rituais do san- tuário, os quais se centralizavam no culto público, na media- ção do perdão de pecados e na manutenção ritual das corre- tas relações entre Deus e Seu povo. O profeta era principal- mente um mestre de justiça, espiritualidade e conduta ética; um reformador moral que apresentava mensagens de instru- ção, conselho, admoestação e advertência e cuja obra incluía muitas vezes a predição de acontecimentos futuros.” – Sieg- fried Horn, Seventh-day Adventist Bible Dictionary (SDABD Revised Edition), (Washington, D.C.: Review and Herald Publishing Association, 1979), pág. 903. 7. T. Housel Jemison, A Prophet Among You (Mountain View, CA: Pacific Press Publishing Association, 1955), págs. 24-28. 8. A expressão “as visões não eram freqüentes” é a tradução de duas palavras hebraicas: paras (“manifestar-se”) e chazon (“vi- são”). No que diz respeito à nação israelita, nenhuma “pala- vra do Senhor” estava-se “manifestando”. Este é o primeiro emprego de chazon no Antigo Testamento. A palavra usada com maior freqüência para “visão” é mar’ah, mensagens de Deus quer em sonhos quer em encontros pessoais. O signifi- cado básico de chazon é “perceber com visão interior”, en- quanto mar’ah deriva de uma raiz que significa “ver visual- mente”. 9. Testemunhos Para a Igreja, vol. 4, pág. 353. 10. Ao compararmos as diversas cartas de Paulo, percebemos no- tável diferença de estilo literário. As cartas pastorais (Primei- ra e Segunda a Timóteo e Tito), por exemplo, usam um vo- cabulário extremamente diferente das outras cartas de Paulo. Há nas cartas pastorais 902 palavras diferentes; dessas, 206 não ocorrem nas outras cartas paulinas. Das 112 partículas não traduzíveis (vocábulos enclíticos) presentes em outras cartas paulinas, nenhuma é encontrada nas epístolas pasto- rais. Ver William Barclay, The Letters to Timothy, Titus, and Philemom (Philadelphia: The Westminster Press, 1975, edi- ção revisada), págs. 8 e 9. 11. “Ele [Silvano] pode ter corrigido e polido necessariamente o grego inadequado de Pedro ou, sendo Silvano homem de tal eminência, pode ter-se dado o caso de Pedro lhe haver dito o que queria dizer e permitido que ele o dissesse, aprovando de- pois o resultado, e acrescentado ao texto o último parágrafo pessoal. ... Quando Pedro diz que Silvano foi seu instrumen- to ou agente na escrita desta carta, apresenta-nos a solução para a excelência do grego. O pensamento é o pensamento de Pedro, mas o estilo é o estilo de Silvano.” – William Bar- clay, The Letters of James and Peter (Philadelphia: The Wes- tminster Press, edição revisada, 1976), pág. 144. 12. . Certa ocasião quando Ellen White estava doente, ela resu- miu seus pensamentos a Marion Davis e esta os escreveu em uma carta a Uriah Smith e George Tenney. A Sra. White as- sinou a carta. (Carta 96, 1896, 8 de junho de 1896.) Ver 1888 Materials, pág. 1574, e Mensagens Escolhidas, livro 1, págs. 254 e 255. 13. “The Ups and Downs of Higher Criticism”, Christianity To- day, 10 de outubro de 1980, pág. 34. A seqüência imaginária de McRae não descreve a maneira como Ellen White escre- via. Ver págs. 108-121. 14. “Não é difícil entender as diferenças lingüísticas existentes en- tre o Apocalipse, escrito provavelmente quando João estava sozinho em Patmos, e o Evangelho, escrito com a ajuda de um ou mais correligionários em Éfeso.” – SDABC, vol. 7, pág. 720. 15. Ver George E. Rice, Luke, a Plagiarist? (Mountain View, CA: Pacific Press Publishing Association, 1983). 16. “A Bíblia foi escrita por homens inspirados, mas não é a maneira de pensar e exprimir-se de Deus. Esta é da huma- nidade. Deus, como escritor, não Se acha representado. Os homens dirão muitas vezes que tal expressão não é própria de Deus. Ele, porém, não Se pôs à prova na Bíblia em pala- vras, em lógica, em retórica. Os escritores da Bíblia foram os instrumentos de Deus, não Sua pena. Olhem os diversos escritores. “Não são as palavras da Bíblia que são inspiradas, mas os homens é que o foram. A inspiração não atua nas palavras do homem ou em suas expressões, mas no próprio homem que, sob a influência do Espírito Santo, é possuído de pensamen- tos. As palavras, porém, recebem o cunho da mente indivi- dual. A mente divina é difusa. A mente divina, bem como Sua vontade, é combinada com a mente e a vontade huma- nas; assim as declarações do homem são a Palavra de Deus.” – Mensagens Escolhidas, livro 1, pág. 21. Em outras palavras, Deus inspira profetas, não palavras. Compare a síntese do Sermão da Montanha feita por Mateus (Mat. 5-7) com a for- ma mais condensada de Lucas (Luc. 6). 17. Comentando sobre Gênesis 9:11-16, onde Deus é menciona- do como dizendo (ao referir-Se à promessa do arco-íris): “E Eu o verei, para Me lembrar do concerto eterno entre Deus e toda a alma vivente”, Ellen White escreveu que Deus não es- tá sugerindo “que houvesse de esquecer-Se, Ele, porém, fala- nos em nossa linguagem para que melhor O possamos com- preender”. – Patriarcas e Profetas, pág. 106. 18. Ver Raoul Dederen, “The Revelation-inspiration Phenome- non According to the Bibles Writers”, Frank Holbrook e Leo Van Dolson, Issues in Revelation and Inspiration (Berrien Springs, MI: Adventist Theological Society Publications, 1992), págs. 9-29. 19. João 14:26; João 16:13; I João 3:24; 4:6 e 13; 5:6. Referências
  • 21. CAPÍTULO 2 DEUS FALA PELOS PROFETAS Perguntas Para Estudo 1. Quais são alguns dos meios (Heb. 1:1) usados por Deus para comunicar-Se com os seres humanos? 2. Por que Deus escolheu profetas e profetisas como Seu principal método de comunicar Suas mensagens? 3. De que três maneiras gerais os profetas e profetisas transmitiam suas mensagens? 4. Que evidência temos de que os escritores bíblicos usavam assistentes de redação? 5. Qual a diferença básica entre inspiração verbal e inspiração de pensamento? 6. Na sua opinião, por que o dom de profecia é o método mais eficaz de Deus comunicar- Se com a família humana? 7. Quais são alguns riscos que Deus assume ao falar por meio de profetas e profetisas? 24 20. “Há, porém, ainda muitas outras coisas que Jesus fez. Se todas elas fossem relatadas uma por uma, creio eu que nem no mun- do inteiro caberiam os livros que seriam escritos.” João 21:25. 21. Ver Jemison, A Prophet Among You, pág. 73. “Nem todos os profetas receberam a mesma missão, nem realizaram a mes- ma espécie de trabalho, mas todos falaram em nome de Deus. Todos comunicaram mensagens inspiradas pelo Céu. Alguns profetas apresentaram padrões divinos para a con- duta humana; alguns revelaram os propósitos de Deus para indivíduos e nações; alguns protestaram contra os males prevalecentes; alguns estimularam o povo à fidelidade; al- guns fortaleceram e guiaram governantes nacionais; alguns dirigiram construções e outros tipos de atividades; alguns trabalharam como mestres. No transcurso de sua obra, al- guns realizaram milagres, alguns escreveram livros. Em cada caso, os verdadeiros profetas serviram a uma classe de pes- soas como porta-vozes de Deus; eles não foram meramente instruídos por Deus no nível pessoal ou familiar.” – Ken- neth H. Wood, “Toward an Understanding of the Prophe- tic Office.” – Journal of the Adventist Theological Society, pri- mavera de 1991, pág. 24. 22. Lucas menciona as quatro filhas de Filipe, “que profetiza- vam”. Atos 21:9. 23. O Desejado de Todas as Nações, pág. 33. 24. Ibidem. 25. Embora as designações A.E.C. (Antes da Era Cristã) e D.E.C. (Depois da Era Cristã) sejam populares hoje em dia, este li- vro emprega a.C. (Antes de Cristo) e d.C. (Depois de Cris- to) por serem as de uso mais antigo. 26. Veja também Jaroslav Pelikan, Jesus Through the Centuries (New Haven, CT: Yale University Press, 1985), págs. 14-17. 27. “Todo o ministério público de nosso Senhor foi o de um pro- feta. Ele era muito mais do que isso. Mas foi como profeta que Ele agiu e falou. Foi isso que Lhe deu autoridade sobre a men- te da nação. Ele entrou, como era natural, num ofício vago, mas que já existia. Todos os Seus discursos eram, no mais ele- vado sentido da palavra, ‘profecias’.” – Deão Arthur P. Stan- ley, History of the Jewish Church, volume III (New York: Char- les Scribner’s Son, 1880), pág. 379. 28. Artigo sobre “Prophecy” em The New International Dictionary of the Christian Church, J. D. Douglas, editor geral (Grand Ra- pids, MI: Zondervan Publishing House, 1974), págs. 806 e 807. 29. The Ante-Nicene Fathers (Grand Rapids, MI: William B. Eerdmans Publishing Company, 1981), vol. I, cap. 39, pág. 214. 30. Ibidem, cap. 82, pág. 240. 31. Ibidem, cap. 87, pág. 243. 32. The Ecclesiastical History of Eusebius Pamphilus, traduzido do grego por C. F. Cruse, A.M., (Londres: George Bell and Sons, 1879), Livro III, cap. 38, págs. 111 e 112; Livro V, cap. 7, pág. 175. 33. Artigo “Prophet” na Encyclopedia Britannica, 14ª edição, vol. XVIII. 34. Artigo “Prophet” na Encyclopedia Britannica, 11ª edição, vol. XXII. Artigo “Prophecy” no Westminster Dictionary of Chris- tian Theology, editado por Alan Richardson e John Bowden (Philadelphia: The Westminster Press, 1983), pág. 474. 35. O Grande Conflito, pág. 61. SEÇÃO I O Sistema Divino de Comunicação
  • 22. tiva. Primeiro, suas visões públicas: “Só eu, Daniel, tive aquela visão; os homens que esta- vam comigo nada viram [os outros não viram o que Daniel viu]; não obstante, caiu sobre eles grande temor, e fugiram e se esconderam. “Fiquei, pois, eu só e contemplei esta gran- de visão, e não restou força em mim; o meu rosto mudou de cor e se desfigurou, e não re- tive força alguma. [Os outros viam como o fe- nômeno afetava Daniel.] “Contudo, ouvi a voz das suas palavras; e, ouvindo-a, caí sem sentidos, rosto em terra. [Daniel experimentou o que parecia ser um pro- fundo sono enquanto estava prostrado no solo.] “Eis que certa mão me tocou, sacudiu-me e me pôs sobre os meus joelhos e as palmas das minhas mãos. Ele me disse: Daniel, ho- mem muito amado, está atento às palavras que te vou dizer; levanta-te sobre os pés, por- que eis que te sou enviado. Ao falar ele comi- go esta palavra, eu me pus em pé, tremendo. [Daniel estava cônscio de que um Ser Divino lhe falava]. ... “Ao falar ele comigo estas palavras, dirigi o olhar para a terra e calei. E eis que uma co- mo semelhança dos filhos dos homens me to- cou os lábios; então, passei a falar e disse àquele que estava diante de mim: meu se- nhor, por causa da visão me sobrevieram do- res, e não me ficou força alguma. Como, pois, pode o servo do meu senhor falar com o meu senhor? [Daniel falou com o Ser Divino.] “Porque, quanto a mim, não me resta já força alguma, nem fôlego ficou em mim [Da- niel não conseguia respirar]. “Então, me tornou a tocar aquele seme- lhante a um homem e me fortaleceu.” Dan. 10:7-11, 15-18. Daniel também teve visões noturnas ou sonhos: “No primeiro ano de Belsazar, rei da Babilônia, teve Daniel um sonho e vi- sões ante seus olhos, quando estava no seu leito; escreveu logo o sonho e relatou a su- ma de todas as coisas.” Dan. 7:1. Daniel re- cebeu um comunicado divino enquanto dormia. Não sabemos o motivo por que os profe- tas/profetisas tinham tanto visões públicas (ou em lugares abertos) como visões notur- nas ou sonhos. Sabemos, porém, que os pro- fetas/profetisas não faziam distinção entre elas no que diz respeito a seu significado e autoridade.2 Ezequiel provavelmente fornece mais in- formação sobre a maneira como as visões afe- tam os profetas e profetisas do que qualquer outro escritor bíblico. De vez em quando, ele era arrebatado para lugares distantes embora seu corpo físico não “viajasse”. Durante o tempo da visão em que era transportado para lugares longínquos, o que ele via era tão vívi- do e real como se ele estivesse presente fisica- mente nesses lugares. Embora Ezequiel vivesse em Babilônia, Deus lhe mostrou as condições deploráveis de Jerusalém: “A mão do Senhor Deus caiu so- bre mim. ... [Ele] estendeu uma semelhança de mão e me tomou pelos cachos da cabeça; o Espírito me levantou entre a terra e o céu e me levou a Jerusalém em visões de Deus, até à entrada da porta do pátio de dentro, que olha para o norte, onde estava colocada a imagem dos ciúmes, que provoca o ciúme de Deus. Eis que a glória do Deus de Israel esta- va ali, como a glória que eu vira no vale.” Ezeq. 8:1-4. Mais adiante no capítulo, Ezequiel descre- ve com forte realismo as condições prevale- centes no complexo do Templo em Jerusalém. Se bem que ele ainda estivesse em Babilônia, ele caminhou em visão pelo pátio do Templo, cavou na parede do Templo, ouviu as conver- sas e viu diversos grupos em abominável ido- latria. No capítulo nove, ele chega mesmo a contemplar acontecimentos futuros, em espe- cial a iminente destruição de Jerusalém. Zacarias, o pai de João Batista, recebeu uma visão que fornece compreensão adicio- nal sobre o estado de um profeta em visão: “E eis que lhe apareceu um anjo do Senhor, em pé, à direita do altar do incenso. Vendo-o, Zacarias turbou-se, e apoderou-se dele o te- mor. Disse-lhe, porém, o anjo: Zacarias, não 27 M E N S A G E I R A D O S E N H O R O ministério profético de Ellen G. White P or muitas razões cada profeta é “único”. As experiências de vida e sua própria missão específica num tempo específico da História conferem ao produto uma confi- guração não repetível de aptidões físicas, mentais, emocionais e espirituais. Desta ma- neira, mesmo os profetas podem olhar para seu chamado profético num sentido diferente de outros profetas. Kenneth H. Wood descre- veu isso muito bem: “Fazer dois biscoitos exa- tamente iguais é uma coisa; fazer dois profe- tas justamente iguais é outra coisa bastante diferente. Ao fazer um profeta, Deus toma a pessoa inteira – corpo, alma, espírito, inteli- gência, personalidade, fraquezas, forças, edu- cação, características individuais – e depois procura por meio dessa pessoa proclamar Sua mensagem e realizar uma missão especial.”1 Devido a essas diferenças individuais e pe- lo fato de cada profeta ser chamado a dirigir- se a determinado público em um momento específico da História (a maior parte da qual é difícil, se não impossível, de reconstruir), não existe nada melhor para o leitor da Bíblia e dos escritos de Ellen G. White fazer do que procurar concentrar a atenção mais na men- sagem do que no mensageiro. A autoridade da revelação encontra-se na mensagem, não no mensageiro. Isso não deve diminuir o valor do estudo da vida do profe- ta. Quanto mais soubermos sobre ele, melhor entenderemos a sua mensagem. Mas a preo- cupação prioritária deve ser o conteúdo da contribuição do profeta, não o vaso em que a mensagem está contida. Profetas Compartilham Características Comuns Os profetas assumem seus deveres proféticos com uma mistura única de experiências de vi- da reunidas em uma personalidade individua- lizada modelada por limitações físicas e men- tais. No entanto, quando em visão, todos eles entram em um estado “antinatural”. O que sabemos sobre as alterações das característi- cas de um profeta ou profetisa em visão? Apesar de suas graves dificuldades espiri- tuais, Balaão foi usado por Deus em benefício de Israel. Sua experiência em visão é esclare- cedora: “E, levantando Balaão os olhos, viu a Israel que se achava acampado segundo as suas tribos; e veio sobre ele o Espírito de Deus. Então proferiu Balaão a sua parábola, dizendo: “‘Palavra de Balaão, filho de Beor; palavra do homem de olhos abertos; palavra daquele que ouve os ditos de Deus, o que tem a visão do Todo-poderoso, E prostra-se, porém, de olhos abertos.’” Núm. 24:2-4. A experiência de Daniel também é instru- 26 CAPÍTULO 3 SEÇÃO I O Sistema Divino de Comunicação Características dos Profetas “Acautelai-vos dos falsos profetas, que se vos apresentam disfarçados em ovelhas, mas por dentro são lobos roubadores. Pelos seus frutos os conhecereis.” Mat. 7:15 e 16. “Não apagueis o Espírito. Não desprezeis as profecias; julgai todas as coisas, retende o que é bom.” I Tess. 5:19-21.
  • 23. CAPÍTULO 3 CARACTERÍSTICAS DOS PROFETAS Quando colocamos à prova as reivindica- ções de um profeta, fica muito mais fácil for- mar um juízo crítico depois de haver passado tempo suficiente para o amadurecimento do fruto do seu ministério. Talvez tenha sido es- ta a razão por que os conselheiros de Josias re- correram à experiente Hulda em vez de ao jo- vem Jeremias (ver páginas 18 e 19). Pode-se apenas imaginar o cuidado quanto à credibi- lidade requerida pelas pessoas que viveram durante o tempo em que os profetas estavam estabelecendo seu ofício profético. Portanto, as primeiras testemunhas da credibilidade ou não de um profeta devem ser a afirmação dos contemporâneos que conheciam o profeta e seu ministério. Mas em que contemporâneos devemos crer? Considere a experiência de Cristo. Quantos líderes religiosos e intelectuais O aceitaram? Alguns chegaram mesmo a dizer que Ele realizava milagres pelo “poder de Belzebu, maioral dos demônios”. Mat. 12:24. Seus irmãos, que por muitos anos convive- ram com Ele, a princípio não creram nEle (João 7:5). Seus discípulos muitas vezes “murmuravam” a respeito de Seus ensinos (João 6:61) e O abandonaram depois do Getsêmani (Mar. 14:50). Jesus advertiu Seus contemporâneos de que eles corriam o risco de repetir o erro das gerações anteriores: “Infelizes de vocês! Pois fazem túmulos bonitos para os profetas, os mesmos profetas que os antepassados de vo- cês mataram. Com isso vocês mostram que concordam com o que os seus antepassados fizeram, pois eles mataram os profetas, e vo- cês fazem túmulos para eles. Por isso a Sabe- doria de Deus disse: ‘Mandarei para eles pro- fetas e mensageiros, e eles matarão alguns e perseguirão outros.’ Por causa disso esta gen- te de hoje será castigada pela morte de todos os profetas assassinados desde a criação do mundo. ... Quando Jesus saiu dali, os profes- sores da Lei e os fariseus começaram a criticá- Lo com raiva e a Lhe fazer perguntas sobre muitos assuntos.” Luc. 11:47-54. Se Jesus, o Homem irrepreensível, para- digma da virtude, enfrentou essa espécie de recepção, o que devem esperar homens e mu- lheres menos importantes que possuem o dom profético? Causa admiração o fato de al- guém aceitar a responsabilidade quando ser ouvido imparcialmente era algo tão difícil! Mas alguns creram! Por quê? Em que base racional alguns contemporâneos de Jeremias ficaram gradualmente convencidos de que ele era um profeta verdadeiro? Pelo fato de existirem na sua época muitos pretensos pro- fetas, que pretendiam estar revestidos da mes- ma autoridade, eram necessárias algumas di- retrizes definidas. Escute o Senhor descrever esta estranha situação: “Os profetas profeti- zam mentiras em Meu nome, nunca os en- viei, nem lhes dei ordem, nem lhes falei; vi- são falsa, adivinhação, vaidade e o engano do seu íntimo são o que eles vos profetizam.” Jer. 14:14. (Ver também 5:13 e 31; 14:18; 23:21.) Toda geração tem a mesma responsabilida- de: “Não apagueis o Espírito. Não desprezeis as profecias; julgai todas as coisas, retende o que é bom.” I Tess. 5:19-21. 1. A Prova das Predições Cumpridas3 Os que viveram na época de Jeremias foram instruídos a usar o critério das “predições cumpridas” como uma das provas do profeta verdadeiro: “O profeta que profetizar paz, só ao cumprir-se a sua palavra, será conhecido como profeta, de fato, enviado do Senhor.” Jer. 28:9.4 Fazer predições, ou prenunciar, é apenas um dos aspectos da obra de um profeta. De fa- to, pode ser até a faceta menos importante. Pensamos muitas vezes em Daniel e João o Revelador em função de suas profecias. Con- tudo, a obra que eles fizeram proclamando a mensagem de Deus foi mais importante do que a obra que fizeram predizendo. Tanto João Batista como Moisés foram “grandes” profetas, não pelo cumprimento de suas pro- fecias mas por outras razões. Ao considerarmos as “predições cumpri- das”, devemos também entender o princípio da profecia condicional. Jeremias nos ajuda a entender este princípio quando relata a con- versa do Senhor com ele: “No momento em 29 M E N S A G E I R A D O S E N H O R O ministério profético de Ellen G. White temas, porque a tua oração foi ouvida; e Isa- bel, tua mulher, te dará à luz um filho, a quem darás o nome de João. ... Então, per- guntou Zacarias ao anjo: Como saberei isto? Pois eu sou velho, e minha mulher, avança- da em dias. [Zacarias conversou com o ser ce- lestial.] Respondeu-lhe o anjo: Eu sou Ga- briel, que assisto diante de Deus, e fui envia- do para falar-te e trazer-te estas boas novas. Todavia, ficarás mudo e não poderás falar até ao dia em que estas coisas venham a realizar- se; porquanto não acreditaste nas minhas pa- lavras, as quais, a seu tempo, se cumprirão. O povo estava esperando a Zacarias e admira- va-se de que tanto se demorasse no santuá- rio. Mas, saindo ele, não lhes podia falar; en- tão, entenderam que tivera uma visão no santuário. E expressava-se por acenos e per- manecia mudo.” Luc. 1:11-13, 18-22. Zaca- rias foi fisicamente afetado por sua experiên- cia em visão. Quando Saulo teve o encontro com o Se- nhor na estrada para Damasco, toda a sua vi- da foi mudada assim como foi mudado o seu nome. Analise as circunstâncias envolvidas nesta visão à beira do caminho: “E, indo no caminho, aconteceu que, chegando perto de Damasco, subitamente o cercou um resplen- dor de luz do céu. E, caindo em terra, ouviu uma voz que lhe dizia: Saulo, Saulo, por que Me persegues? E ele disse: Quem és, Senhor? E disse o Senhor: Eu sou Jesus, a quem tu per- segues. Duro é para ti recalcitrar contra os aguilhões. E ele, tremendo e atônito, disse: Senhor, que queres que faça? E disse-lhe o Se- nhor: Levanta-te e entra na cidade, e lá te se- rá dito o que te convém fazer. E os varões, que iam com ele, pararam espantados, ouvindo a voz, mas não vendo ninguém.” Atos 9:3-7. Saulo, também, após conversar com o Ser Di- vino, foi fisicamente afetado por sua expe- riência em visão. Posteriormente, ele comenta o fato de ter sido “arrebatado até ao terceiro Céu... ao Pa- raíso e ... [ter ouvido] palavras inefáveis”. II Cor. 12:2-4. O apóstolo João registrou uma de suas vi- sões e a maneira como esta o afetou fisica- mente: “Quando o vi, caí a seus pés como morto.” Apoc. 1:17. O que esses exemplos nos ensinam sobre os profetas durante suas experiências em visão? 1. Os profetas têm consciência de que uma Pessoa sobrenatural com eles Se comu- nica; eles sentem um senso de indignidade. 2. Os profetas freqüentemente perdem as forças. 3. Os profetas às vezes caem por terra em profundo sono. 4. Os profetas ouvem e vêem aconteci- mentos em lugares remotos, como se estives- sem realmente presentes. 5. Os profetas às vezes não conseguem fa- lar, mas, quando seus lábios são tocados, eles conseguem fazê-lo. 6. Os profetas muitas vezes não respiram. 7. Os profetas não têm consciência do que acontece ao seu redor, ainda que tenham os olhos abertos. 8. Os profetas às vezes recebem força su- plementar durante a visão. 9. Os profetas recebem força e alento re- novados quando a visão termina. 10. Os profetas ocasionalmente sofrem al- gum tipo de lesão física temporária como se- qüela da visão. Nem todas essas características físicas acompanham cada visão. Por este motivo, os fenômenos físicos não devem ser usados co- mo evidência única ao colocar-se à prova a autenticidade de um profeta. Mesmo porque elas podem ser facilmente falsificadas. As Es- crituras não as apresentam como provas. No entanto, a presença de tais caraterísticas de- vem ser consideradas normais naqueles que pretendem “falar em nome de Deus”. Embora os aspectos físicos sejam úteis ao levarmos em consideração as credenciais de um profeta, outros critérios são muito mais confiáveis, conforme veremos agora. Provas de um Profeta Verdadeiro Ao colocarmos tudo “à prova”, conforme Paulo nos aconselha, devemos lembrar-nos da advertência de Cristo: “Acautelai-vos dos falsos profetas, que se vos apresentam disfar- çados em ovelhas, mas por dentro são lobos roubadores. Pelos seus frutos os conhecereis.” Mat. 7:15. 28 SEÇÃO I O Sistema Divino de Comunicação
  • 24. CAPÍTULO 3 CARACTERÍSTICAS DOS PROFETAS critura é inspirada por Deus e útil para o en- sino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habili- tado para toda boa obra.” II Tim. 3:16 e 17. Essa segunda prova da autenticidade de um profeta é clara e não podemos dela esca- par. Embora os profetas posteriores revelem aspectos adicionais aos pensamentos de Deus acerca do plano da salvação, eles não contra- dizem os conceitos básicos já apresentados. 3. A Prova dos Frutos O cenário para a prova dos frutos encontra-se no Sermão da Montanha, que trata especifi- camente dos “falsos profetas”: “Acautelai-vos dos falsos profetas, que se vos apresentam dis- farçados em ovelhas, mas por dentro são lo- bos roubadores. Pelos seus frutos os conhece- reis. Colhem-se, porventura, uvas dos espi- nheiros ou figos dos abrolhos? Assim, toda ár- vore boa produz bons frutos, porém a árvore má produz frutos maus. Não pode a árvore boa produzir frutos maus, nem a árvore má produzir frutos bons. ... Assim, pois, pelos seus frutos os conhecereis.” Mat. 7:15-20. Que espécie de pessoa os contemporâneos do profeta vêem e ouvem? Qual o sentido ge- ral de sua vida? Confiável ou volúvel? Mun- dano ou piedoso? Fiel ou infiel aos compro- missos? Seus ensinos exaltam a Palavra escri- ta, ou criam novos e exóticos caminhos sem fundamento na Palavra? Acima de tudo isso, reflete o profeta com exatidão a clara e coe- rente mensagem bíblica? Qual o resultado da liderança do profeta? Sob a sua orientação, tem a obra de Deus prosperado de modo que cumpra melhor a missão evangélica? Vêem os outros coerência na maneira como o profeta anda com Deus? Encontram os pecadores o Senhor por meio de seus escritos? Através dos anos muitas pessoas lamenta- velmente têm seguido homens e mulheres eufóricos e carismáticos que assumem as cre- denciais de um profeta. Arrecadam-se vulto- sas somas de dinheiro e criam-se poderosos impérios religiosos. Devemos, porém, per- guntar: Reflete o líder o estilo de vida simples exemplificado pelos profetas bíblicos e pelo próprio Senhor? Na maioria das vezes, essa prova classifica rapidamente esses auto- intitulados “profetas” como impostores. Diferentemente das duas primeiras provas, a prova dos frutos muitas vezes leva tempo. O “fruto” se desenvolve lentamente. Contudo, a cuidadosa avaliação dos resultados do mi- nistério do “profeta” é tão necessária quanto as duas primeiras provas. O que aparenta ser bíblico e o que talvez se afirme ser “predições cumpridas” pode, a longo prazo, evidenciar- se outra coisa. A prova mais válida da auten- ticidade de um profeta são os resultados de seus ensinos. Dirige ele a mente e a conduta para Deus de modo que o padrão de vida re- flita o espírito e a prática de Jesus? Demons- tram seus ensinos teológicos simplicidade ainda que conservando a plenitude da Pala- vra escrita? Ou, criam seus ensinos “novas” doutrinas não alicerçadas nas Escrituras? Não resta dúvida de que os profetas são humanos. Moisés era um profeta que falava com Deus “face a face” (Êxo. 33:11), mas seu dom profético não era garantia de que ele não cometesse erros. Devido à sua falta de pa- ciência, ele não teve permissão de entrar na Terra Prometida, o merecido prêmio por sua longa e corajosa liderança. Poderíamos citar muitos outros exemplos bíblicos para mostrar que o recipiente profé- tico, às vezes, está sujeito às fraquezas da na- tureza humana. Mas o conteúdo é superior ao recipiente. A mensagem profética traz em si mesma o selo de sua autenticidade; o mensa- geiro é apreciado, mas não canonizado. Além do mais, mesmo que a mensagem do profeta consista exatamente naquilo que Deus deseja comunicar, é possível que o mi- nistério desse profeta pareça não causar im- pacto positivo. Pense nos heróicos, mas “infrutíferos” ministérios de Jeremias e Isaías. Esses homens parecem haver fracassado na época em que viveram. Mas não hoje! Pense na situação desagradável de Eze- quiel: “Quanto a ti, ó filho do homem, os fi- lhos do teu povo falam de ti junto aos muros e nas portas das casas; fala um com o outro, 31 M E N S A G E I R A D O S E N H O R O ministério profético de Ellen G. White que Eu falar acerca de uma nação ou de um reino para o arrancar, derribar e destruir, se a tal nação se converter da maldade contra a qual Eu falei, também Eu Me arrependerei do mal que pensava fazer-lhe. E, no momento em que Eu falar acerca de uma nação ou de um reino, para o edificar e plantar, se ele fizer o que é mal perante Mim e não der ouvidos à Minha voz, então, Me arrependerei do bem que houvera dito lhe faria.” Jer. 18:7-10. A profecia condicional, ou incerteza con- trolada, é um princípio bíblico aplicado a de- clarações de natureza preditiva que dizem respeito ou envolvem as reações dos seres hu- manos. Sempre que o desenrolar de um acon- tecimento depende da escolha humana, determinados aspectos do cumprimento pro- fético são necessariamente condicionais. Um profeta anônimo enfatizou este prin- cípio ao idoso Eli: “Portanto, diz o Senhor, Deus de Israel: Na verdade, dissera Eu que a tua casa e a casa de teu pai andariam diante de Mim perpetuamente; porém, agora, diz o Senhor: Longe de Mim tal coisa, porque aos que Me honram, honrarei, porém os que Me desprezam serão desmerecidos. Eis que vêm dias em que cortarei o teu braço e o braço da casa de teu pai, para que não haja mais velho nenhum em tua casa.” I Sam. 2:30 e 31. Jonas teve que aprender essa lição de condicionalidade pelo método difícil: “Viu Deus o que fizeram, como se converteram do seu mau caminho; e Deus Se arrependeu do mal que tinha dito lhes faria e não o fez.” Jo- nas 3:10. A experiência do jovem rei Josias, embo- ra triste, é outro exemplo de profecia condi- cional. Ele havia promovido notável reforma entre seu povo (II Crôn. 34). Por causa de sua fidelidade, o Senhor prometeu: “Pelo que Eu te reunirei a teus pais, e tu serás recolhi- do em paz à tua sepultura.” Verso 28. Mas Jo- sias não morreu em paz; morreu em uma ba- talha! O que houve de errado? Ele não obe- deceu à instrução divina. Deus não lhe deu ordens para atacar o Egito. Na realidade, o rei do Egito enviou uma mensagem especial para Josias, realçando o fato de que o Deus de Josias estava dirigindo o Egito a batalhar contra Babilônia: “Deus está comigo; por- tanto, se você lutar contra Deus, Ele o des- truirá.” II Crôn. 35:21. O jovem Josias devia ter obedecido a Deus e dado ouvidos à voz confirmatória do rei do Egito. Mas não; ele se disfarçou e liderou seu exército na Batalha de Carquêmis (605 a.C.), na qual foi morto. A promessa divina de que Josias teria morte pacífica era condicional à obediência constante. Quando líderes fiéis vão contra o conselho divino, escolhendo se- guir a inclinação pessoal, Deus não poupa os obstinados das conseqüências de seus atos. 2. A Prova da Harmonia com a Bíblia É óbvio que Deus não coloca contradições conceituais dentro de Seu sistema de comu- nicação. Nem dá aos profetas posteriores um botão para “cancelar” ou “apagar”. A imuta- bilidade de Deus se refletirá nas Suas revela- ções a homens e mulheres.5 Isaías chama a atenção para o fato de que os profetas verdadeiros serão provados por sua fidelidade às revelações anteriormente es- critas: “À lei e ao testemunho! Se eles não fa- larem segundo esta palavra, é porque não há luz neles.” Isa. 8:20. Muitas são as tentativas, em cada geração, de definir a “verdade” sobre a origem e desti- no do homem. Abundantes são os empreen- dimentos intelectuais que se arriscam a esti- pular o que é certo e o que é errado para a conduta humana. A Bíblia, porém, tem atra- vessado os séculos, sendo para homens e mu- lheres de todos os lugares e de todas as condi- ções a grande prova no que diz respeito à ver- dade sobre a origem e moralidade humanas. A Bíblia não é apenas a verdade inspirada, é também a norma decisiva de qualquer pre- tensão à inspiração. Todo profeta que sucedia a outro, nos tem- pos do Antigo ou do Novo Testamento, fazia de todos os escritos proféticos anteriores a norma de comparação para seu ministério. Cada qual foi, em certo sentido, uma luz me- nor que apontava para a luz maior. Paulo faz um breve resumo desta relação: “Toda a Es- 30 SEÇÃO I O Sistema Divino de Comunicação
  • 25. CAPÍTULO 3 CARACTERÍSTICAS DOS PROFETAS cidido a invadir Israel. Ele armou ciladas aqui e ali. Mas Eliseu mantinha o rei informado dessas ciladas, e o registro diz que o rei de Is- rael “assim, se salvou, não uma nem duas ve- zes”. Verso 10. O rei sírio ficou exasperado e desconfiou que havia espiões entre seus conselheiros, pois suas estratégias mais secretas vazavam quase que imediatamente para seu inimigo. Um de seus conselheiros, porém, sabendo o que acontecia, explicou-lhe: “O profeta Eli- seu, que está em Israel, faz saber ao rei de Is- rael as palavras que falas na tua câmara de dormir.” Verso 12. Para os contemporâneos de um profeta, a rápida e precisa intervenção dele mediante presença pessoal ou comunicação escrita é uma afirmação convincente de suas creden- ciais divinas. Testemunho Ousado e Inequívoco Numerosos são os exemplos bíblicos de intrépi- do testemunho por parte de profetas fiéis e ver- dadeiros. Natã proferiu pesada sentença conde- natória contra Davi, seu rei. (II Sam. 12.) Elias confrontou Acabe, seu rei (o que não foi tarefa fácil). Repare na resposta que ele deu à pergunta de Acabe: “És tu, ó perturba- dor de Israel?” I Reis 18:17. Resposta: “Eu não tenho perturbado a Israel, mas tu e a ca- sa de teu pai, porque deixastes os mandamen- tos do Senhor e seguistes os baalins.” Verso 18. Oportuna e corajosa! Associado às outras provas, o testemunho inequívoco é parte essencial do ministério de um profeta verdadeiro. Conselho Prático, não Abstrações, Caracterizam o Ministério Deles Os escritos dos profetas verdadeiros são conhecidos por sua grande praticidade. Considere o Sermão da Montanha de Cristo ou quaisquer das cartas de Paulo às novas igrejas. Comparada com os escritos religiosos em geral, a Bíblia é inigualável. Não apenas por causa do seu assunto, mas porque os profetas bíblicos falam ao ser humano. Eles não apresentavam admoestações teóri- cas, mas práticas, mesmo quando discorriam sobre os aspectos teológicos da natureza de Jesus, da razão de Sua vinda e de Sua obra atual. Uma característica de muitos falsos pro- fetas é seu apelo ao mistério e ao fascínio por novidade. De algum modo, as pessoas são propensas a seguir líderes religiosos que as atraem com interpretações proféti- cas imaginárias ou envolventes fantasias teológicas. Mas o profeta verdadeiro fala ao povo “co- mum”, a pessoas com problemas práticos que precisam de soluções práticas e conforto. Sem essa ênfase, faltam ao “profeta” as credenciais divinas. O Peso da Evidência Em resumo, quando uma pessoa apresenta to- das as características acima e passa nas pro- vas, o “peso da evidência” parece convincen- te, adequado e inevitável. Ao considerar to- das as provas observáveis, contudo, a prova suprema das credenciais de um profeta é a sua mensagem: conforma-se ela com todas as mensagens proféticas anteriores quando fala talvez em termos mais amplos à urgência da época do profeta? Podem Todos Ser Profetas? O chamado profético não é uma profissão pa- ra a qual uma pessoa pode estudar, tal como o magistério do ensino fundamental ou a práti- ca da advocacia. Os profetas são escolhidos por Deus. Homens e mulheres devem buscar o fruto do Espírito, mas os dons do Espírito são exatamente isto: dons.6 Apesar disso, a Bíblia também se refere aos “filhos dos profetas” e ao “grupo dos pro- fetas”, especialmente nos dias de Samuel, Elias e Eliseu.7 Parece que Samuel inaugu- rou a “escola dos profetas” com o objetivo de formar professores que ajudassem os pais a educar os filhos para uma vida inteira de utilidade e serviço. Embora não fossem dire- tamente inspirados como Samuel, os jovens dessas escolas eram “divinamente chamados para instruir o povo nas palavras e caminhos de Deus”.8 A pergunta sobre a possibilidade de todos poderem ser profetas torna-se extremamente prática. Em determinada ocasião, pergunta- 33 M E N S A G E I R A D O S E N H O R O ministério profético de Ellen G. White cada um a seu irmão, dizendo: Vinde, peço- vos, e ouvi qual é a palavra que procede do Senhor. Eles vêm a ti, como o povo costuma vir, e se assentam diante de ti como Meu po- vo, e ouvem as tuas palavras, mas não as põem por obra; pois, com a boca, professam muito amor, mas o coração só ambiciona lu- cro. Eis que tu és para eles como quem canta canções de amor, que tem voz suave e tange bem; porque ouvem as tuas palavras, mas não as põem por obra. Mas, quando vier isto, e aí vem, então saberão que houve no meio deles um profeta.” Ezeq. 33:30-33. Ezequiel foi saudado e louvado, mas rara- mente seguido. Foi por culpa do profeta que seus contemporâneos não se uniram a ele nu- ma reforma genuína? Mostra essa “falha” que as conseqüências de seu ministério foram ne- gativas e infrutíferas? Qual teria sido o fruto de seu ministério se seus ouvintes tivessem seguido seu conselho? Muitos homens e mulheres piedosos, coe- rentes e fiéis a seu chamado e às mais eleva- das normas bíblicas, foram líderes de igreja através dos séculos. Mas sua vida frutífera não prova que eles eram profetas. As provas de um profeta são cumulativas no sentido de que todas as provas devem ser aplicáveis; mas sem a prova do “bom fruto”, todas as outras pro- vas devem ser suspeitas. 4. Testemunho Inequívoco da Natureza Divino-Humana de Jesus Cristo João apresenta mais uma prova de um profe- ta verdadeiro: “Amados, não deis crédito a qualquer espírito; antes, provai os espíritos se procedem de Deus, porque muitos falsos pro- fetas têm saído pelo mundo fora. Nisto reco- nheceis o Espírito de Deus: todo espírito que confessa que Jesus Cristo veio em carne é de Deus; e todo espírito que não confessa a Jesus não procede de Deus.” I João 4:1-3. Conforme dissemos no primeiro capítu- lo, o Evangelho não é algo sobre Jesus; o Evangelho é Jesus. Mas durante os últimos vinte séculos raramente o mundo tem ouvi- do a verdade sobre Jesus. Daí um evangelho vago e confuso. A prova de João não consiste simplesmen- te em o profeta concordar que Jesus de Naza- ré algum dia viveu na Terra. A maioria dos cristãos crê assim, ainda que muitos não creiam que Ele é Deus encarnado. Muitos ou- tros crêem que Ele é de fato Deus em carne, mas não que Ele Se tornou verdadeiramente homem, um homem “em carne”. João percebeu o problema em seus dias, e sua advertência é hoje ainda mais rele- vante. Toda a verdade sobre a razão da vin- da de Jesus, a razão por que Ele Se tornou nosso Salvador e Exemplo, por que morreu e agora oficia como nosso Sumo Sacerdote – tudo isso está envolvido na prova de um profeta verdadeiro. Este reconhecimento de que Jesus veio “em carne” é mais do que um assentimento intelectual. Jesus não é nosso Senhor se não nos submetermos ao Seu senhorio. Jesus não é nosso Salvador se não permitirmos que Ele nos salve de nossos pecados. (Mat. 1:21.) As ações reve- lam a autenticidade de nosso comprometi- mento pessoal. E a correta compreensão nos ajuda a fazer compromissos de qualida- de que nos capacitem a praticar ações que honrem a Deus. Eis, portanto, a prova: Ensina o profeta to- da a verdade sobre o propósito da vinda de Cristo “em carne”? Manifestações Físicas Conforme observamos anteriormente (pág. 28), determinados fenômenos físicos acom- panham os profetas bíblicos enquanto em vi- são. Embora essas manifestações possam ser imitadas pelo “espírito” errado, quando com- binadas com as provas precedentes, elas for- talecem a evidência de que um profeta é ver- dadeiro. Oportunidade das Mensagens do Profeta Já vimos que o “fruto” do ministério do pro- feta muitas vezes leva tempo para “amadure- cer”. No entanto, muitas foram as ocasiões em que o profeta mudou o curso da História sendo a pessoa certa para o tempo certo, no lugar certo e com a mensagem certa. Pense em Eliseu e o rei da Síria, conforme registrado em II Reis 6. O rei sírio estava de- 32 SEÇÃO I O Sistema Divino de Comunicação
  • 26. CAPÍTULO 3 CARACTERÍSTICAS DOS PROFETAS até a caverna do Horebe. (I Reis 18 e 19.) Isaías tinha apenas uma pálida idéia de como e quando os terríveis dias que ele predisse sobreviriam a Israel e Judá. Jeremias viu mui- to mais claramente aquilo sobre o que Isaías havia escrito. Não sendo oniscientes, os profetas às vezes cometem erros de julgamento e precisam mu- dar seu conselho. O rei Davi consultou o pro- feta Natã sobre a construção de um templo apropriado em Jerusalém, e Natã replicou: “Faze tudo quanto está no teu coração, por- que Deus é contigo.” I Crôn. 17:2. Natã, po- rém, teve que mudar seu testemunho: “Po- rém, naquela mesma noite, veio o Senhor a Natã, dizendo: Vai e dize a Meu servo Davi: Assim diz o Senhor: Tu não edificarás casa para Minha habitação.” Versos 3 e 4. O fato de um profeta poder mudar sua mente em re- lação ao testemunho do Senhor deixa claro que alguém que verdadeiramente busca a vontade de Deus deve olhar para todo o qua- dro e não rejeitar uma mensagem devido à humanidade do profeta. Contraste Entre o Falso e o Verdadeiro Em vista do grande conflito entre Cristo e Satanás, era previsível que Satanás usasse sua mente brilhante para arruinar o sistema divi- no de comunicação com homens e mulheres. Isto ele tem feito. E os falsos profetas se tor- narão mais abundantes nos últimos dias da crise final.11 Um incidente registrado em I Reis 22 ilus- tra determinadas estratégias que Satanás em- prega para tentar subverter a obra dos profetas verdadeiros. Acabe, rei de Israel, havia pedido a Josafá, do reino do sul, para unir forças com ele contra o rei da Síria. Josafá concordou en- tusiasticamente, mas depois pensou uma se- gunda vez. Sentindo a necessidade da confir- mação do Senhor, perguntou a Acabe onde po- deria consultar um profeta sobre o assunto. Acabe estava preparado com seus próprios pro- fetas, “cerca de quatrocentos homens, e lhes disse: Irei à peleja contra Ramote-Gileade ou deixarei de ir? Eles disseram: Sobe, porque o Senhor a entregará nas mãos do rei”. Verso 6. Mas Josafá pressentiu que alguma coisa não estava certa. Ele sabia que esses 400 ho- mens eram profetas palacianos. Por isso per- guntou: “Não há aqui ainda algum profeta do Senhor para o consultarmos?” Verso 7. Respondeu Acabe: “Há um ainda... porém eu o aborreço, porque nunca profetiza de mim o que é bom, mas somente o que é mau. Este é Micaías.” Verso 8. Quando levaram Micaías para se unir aos 400 que continuavam insistindo na idéia de que o Senhor entregaria os sírios nas mãos deles, o profeta respondeu: “Tão certo como vive o Senhor, o que o Senhor me disser, isso falarei.” Verso 14. Acabe perguntou a Mi- caías se eles deviam sair a pelejar contra o rei da Síria. Numa disfarçada ironia, ele lhe res- pondeu: “Sobe e triunfarás, porque o Senhor a entregará nas mãos do rei!” Verso 15. Acabe, percebendo o tom sarcástico, lhe disse: “Quantas vezes te conjurarei, que não me fales senão a verdade em nome do Se- nhor?” Verso 16. O resto da história (versos 24-28) é um pa- radigma de como os profetas verdadeiros são atacados e ridicularizados por aqueles que não querem ouvir a verdade. Pouco depois, Acabe morreu em combate, exatamente da forma como Micaías havia predito. Esse episódio evidencia que mentir e enga- nar são ferramentas do ofício de Satanás. Ele investiga os desejos de homens e mulheres para depois produzir o que parece ser a con- firmação religiosa de seus desejos. Em outras palavras, as pessoas geralmente encontram a mensagem “profética” que seu coração dese- ja. De um modo ou de outro, elas receberão algum tipo de confirmação “espiritual” daqui- lo que realmente querem fazer. Se os desejos de uma pessoa não podem ser facilmente ra- tificados por aqueles que falam em nome de Deus, homens e mulheres egocêntricos e obs- tinados ridicularizarão e/ou atacarão o profe- ta verdadeiro. Josafá desejava sinceramente ouvir a men- sagem do profeta verdadeiro em meio a todas as outras vozes religiosas de seus dias. Micaías preferiu sofrer os maus-tratos da prisão a mu- 35 M E N S A G E I R A D O S E N H O R O ministério profético de Ellen G. White ram a Ellen White: “Acha a irmã que deve- mos entender a verdade por nós mesmos? Por que não podemos apanhar as verdades que outros reuniram e crer nelas porque eles in- vestigaram os assuntos e depois ficarmos li- vres para prosseguir...? Não acha a irmã que esses homens do passado que descobriram a verdade foram inspirados por Deus?” Sua resposta é instrutiva: “Não me atrevo a dizer que eles não foram guiados por Deus, pois Cristo guia a toda a verdade. Mas em se tratando da inspiração no pleno sentido da palavra, minha resposta é não.”9 A questão não diz respeito à guia pessoal do Espírito Santo que todos os crentes com- prometidos experimentam diariamente. Paulo, que enfrentou questão semelhante em I Coríntios 12, pergunta: “Porventura, são todos apóstolos? Ou, todos profetas? São todos mestres?” Verso 29. A resposta implí- cita era “não”. Em tempos modernos, entende-se muitas vezes a “pregação profética” em função de al- guém que procura interpretar e proclamar a Palavra de Deus, especialmente no que diz respeito a questões sociais. Se essa pregação ou escrita é feita com ímpeto e dramatismo fora do comum, descreve-se o esforço como feito em tom profético. Contudo, seria errado afirmar que tal proclamação é evidência de que a pessoa tem o dom do Espírito de profe- cia. Devem-se aplicar todas as provas do pro- feta verdadeiro. Jack Provonsha, por muito tempo profes- sor de Ética Cristã na Universidade de Lo- ma Linda, salientou três maneiras pelas quais os profetas diferem das pessoas co- muns do povo de Deus: (1) Os profetas são escolhidos, “não porque sua compreensão e transmissão seria perfeita, mas porque eles são os melhores veículos” disponíveis. Suas percepções, por exemplo, “são menos dis- torcidas pelo caráter e experiência que ou- tros”. (2) Uma voz é dada aos profetas por- que eles “exigem atenção”; seus contempo- râneos “vêem neles alguém especial, alguém diferente do comum”. (3) São dadas aos profetas “comunicações especiais” de Deus, algumas vezes de “forma extraordinária” e outras vezes “de forma um tanto comum, tais como pensamentos, impressões e intui- ções, percebidas pelo profeta como influên- cia do Espírito”.10 Alguns têm defendido o ponto de vista de que todos os crentes possuem o dom de pro- fecia no sentido de que todo crente tem a capacidade de distinguir entre escritos inspi- rados e não inspirados, ou seja, seu julga- mento determina o que é inspirado e o que não é, quando lê as pretensões de um profe- ta verdadeiro. Este ponto de vista não é en- sinado na Bíblia. Profetas nem Sempre Conscientes do Pleno Sentido Pedro observou que os profetas nem sem- pre entendiam o sentido total de seus pró- prios escritos, especialmente aqueles que se relacionavam com acontecimentos futu- ros: “Foi a respeito desta salvação que os profetas indagaram e inquiriram, os quais profetizaram acerca da graça a vós outros destinada, investigando, atentamente, qual a ocasião ou quais as circunstâncias oportunas, indicadas pelo Espírito de Cris- to, que neles estava, ao dar de antemão testemunho sobre os sofrimentos referen- tes a Cristo e sobre as glórias que os segui- riam. A eles foi revelado que, não para si mesmos, mas para vós outros, ministravam as coisas que, agora, vos foram anunciadas por aqueles que, pelo Espírito Santo envia- do do Céu, vos pregaram o evangelho, coi- sas essas que anjos anelam perscrutar.” I Ped. 1:10-12. Os profetas não são oniscientes. Sua com- preensão da verdade e do dever podem de- senvolver-se à medida que lhes for revelada. A menos, porém, que recebam ajuda divina, mesmo aquilo que é revelado só será entendi- do dentro do limitado contexto das próprias circunstâncias e experiência. O princípio da revelação progressiva (ver página 422) funciona na vida de cada profeta e de cada geração. Elias continuou a aprender sobre o caráter de Deus enquanto passava pe- la experiência do Monte Carmelo e viajava 34 SEÇÃO I O Sistema Divino de Comunicação
  • 27. CAPÍTULO 3 CARACTERÍSTICAS DOS PROFETAS 1840” é que muito do interesse “ficou fora dos limites da religião convencional”.14 Uma das vozes mais destacadas dessa efervescência religiosa foi a da expectação do milênio.15 Durante uma década ou mais, a América do Norte esteve ouvindo muitas vozes, no púlpito e na imprensa, anunciando que esta- va próximo o Segundo Advento. Mas a maior parte do mundo cristão cria que Jesus só vol- taria depois que o mundo estivesse converti- do ao cristianismo. Chamados pós-milenistas (o Segundo Advento ocorre depois dos 1.000 anos de Apocalipse 20), esses líderes cristãos olhavam com desdém para os pré-milenistas (o Segundo Advento ocorre antes do período de mil anos) que prediziam o retorno de Jesus para 1843-1844.16 Entre os muitos acontecimentos fascinan- tes da década de 1840, estava também o sur- gimento de várias pessoas que afirmavam possuir o dom profético. Nem todas essas pes- soas eram pré-milenistas; algumas desenvol- viam “novas” religiões; algumas se concen- travam em experiências sociais. Devido aos acontecimentos bizarros que muitas vezes acompanhavam essas experiências religiosas e sociais, muitos contemporâneos eram hostis a fenômenos carismáticos.17 Olhando para esse período do ponto de vis- ta de Satanás, à luz do Tema do Grande Con- flito (ver págs. 256-263), não era de se esperar que ele confundisse de tal modo os aconteci- mentos a fim de tornar mais difícil a aceitação de um profeta verdadeiro? O livro de Apoca- lipse deixa claro que Satanás está ciente da li- nha profética do tempo e o projetado fim de seu tempo no Universo. À medida que ocor- rem os acontecimentos divinamente preditos, “o diabo” terá “grande ira, pois sabe que pouco tempo lhe resta”. Apoc. 12:12. O extremo fanatismo e as manifestações estranhas associadas com os falsos profetas fi- zeram homens e mulheres equilibrados olha- rem com aversão qualquer pessoa que preten- desse falar em nome de Deus. Tanto os pós- milenistas quanto os pré-milenistas conside- ravam com desdém as manifestações do dom de profecia.18 J. V. Himes disse em 1845 na reunião dos líderes mileritas em Albany: “O movimento do sétimo mês produziu mesmerismo a sete pés de profundidade.”19 Os líderes mileritas, na mesma reunião, votaram a seguinte reso- lução, conforme relatada em The Advent Herald, 21 de maio de 1845: “Fica resolvido que não depositamos nenhuma confiança em quaisquer novas mensagens, visões, so- nhos, línguas, milagres, dons extraordiná- rios, revelações, impressões, discernimento de espíritos, ou ensinos, etc., etc., que não estejam de acordo com a não adulterada Pa- lavra de Deus.” Além disso, seguindo em grande parte pa- ralelamente ao surgimento da Igreja Adven- tista do Sétimo Dia, houve o desenvolvimen- to dos shakers, o da Igreja Mórmon e o da Ciência Cristã, bem como o advento do espi- ritualismo.20 É digno de nota que cada um desses movi- mentos religiosos modernos tenha sido con- cebido por líderes carismáticos que afirma- vam possuir o dom de profecia. Jemina Wil- kinson e Ann Lee foram as primeiras profeti- sas norte-americanas. Lee, mais conhecida por ser a “mãe” dos shakers, passou pela expe- riência do que parecia ser “transes e visões nas quais lhe foi revelado que a raiz e o fun- damento da corrupção humana e fonte de to- do mal era o ato sexual. ... Durante os quatro últimos anos de sua vida, relata-se que a Mãe Ann realizou milagres capazes de convencer a seus seguidores de que ela era o Cristo em sua ‘segunda vinda”’.21 O jovem Joseph Smith ficou muito pertur- bado com a mixórdia de escolhas religiosas: “‘No meio desta guerra de palavras e tumulto de opiniões’, eu dizia muitas vezes para mim mesmo: ‘Que devo fazer? Qual desses grupos tem razão? Ou estão todos errados?’” Logo sua oração foi respondida pela “aparição” tanto do Pai como do Filho. Se- gundo ele conta, Pai e Filho lhe disseram que ele não devia ingressar em denomina- ção nenhuma, pois todas eram corruptas. Depois de um período adicional de estudo, ele relatou que o anjo Morôni lhe aparece- ra e o conduzira às “placas de ouro que con- 37 M E N S A G E I R A D O S E N H O R O ministério profético de Ellen G. White dar seu testemunho. Mas os acontecimentos provaram que ele estava com a razão. Como Josafá, os cristãos de hoje devem discernir o ar de engano e ilegitimidade ao ouvirem a mensagem daqueles que falsamen- te pretendem falar em nome de Deus. Devem saber como aplicar rapidamente as provas de um profeta verdadeiro. Pessoa alguma deve ficar confusa com a maneira de decidir se um profeta é falso ou verdadeiro.12 Os Fenômenos Físicos Fornecem Muitas Vezes Evidência Convincente Antes de passar tempo suficiente para ser julga- do pelos “frutos” do Seu ministério, Jesus mos- trou a João Batista as manifestações físicas que acompanharam Seu ministério. João, na pri- são, à beira da dúvida mandou um recado a seu primo, Jesus: “És Tu Aquele que estava para vir ou havemos de esperar outro?” Mat. 11:3. Jesus não lhe enviou um simples “Eu sou”. O Batista precisava de algo mais do que pala- vras. Jesus instruiu os discípulos de João a anunciarem a “João o que estais ouvindo e vendo: os cegos vêem, os coxos andam, os le- prosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos são ressuscitados, e aos pobres está sendo pregado o evangelho. E bem-aventura- do é aquele que não achar em Mim motivo de tropeço”. Versos 4-6. Alguns anos mais tarde, após a ascensão de Cristo, chegou outro momento importan- te no plano de Deus: Como poderiam as boas novas de Jesus Cristo despertar atenção favo- rável e satisfatória? Bastaria um simples deba- te ou seria necessário algo mais? Deus resol- veu que seria algo mais. No dia de Pentecostes, os discípulos se reuniram para orar como havia sido seu cos- tume desde que Cristo ascendera ao Céu. (Atos 1:14; 2:1.) Embora não tivessem cons- ciência disto, o Senhor estava pronto para es- tabelecer a igreja cristã. Como Ele o faria? Enviando fenômenos físicos com a palavra profética. “De repente, veio do céu um som, como de um vento impetuoso, e encheu toda a casa onde estavam assentados. E aparece- ram, distribuídas entre eles, línguas, como de fogo, e pousou uma sobre cada um deles. To- dos ficaram cheios do Espírito Santo e passa- ram a falar em outras línguas, segundo o Espí- rito lhes concedia que falassem.” Atos 2:2-4. Com o passar do tempo, os fenômenos fí- sicos tornaram-se cada vez menos freqüentes, pois haviam alcançado seu intento: a igreja cristã havia tido seu dramático início. Essas exibições maravilhosas haviam dado credibi- lidade àqueles que viram e ouviram. Os fenô- menos públicos cessaram quando havia passado tempo suficiente para o fruto da mensagem cristã ter-se estabelecido. De muitas formas os dias iniciais do movi- mento adventista foram uma réplica dos pri- mitivos dias da igreja cristã. De que outra ma- neira poderiam poucos crentes chamar a atenção de pessoas suficientes para desenca- dear um movimento destinado a circundar o mundo? De que outra maneira poderia um profeta receber a atenção que sua mensagem merecia, a menos que Deus fizesse as visões serem apoiadas por fenômenos físicos? Os fenômenos físicos que atraíram a aten- ção no dia de Pentecostes não eram a mensa- gem cristã, mas foram eles que levaram as pessoas a ouvirem mais atentamente à men- sagem. Do mesmo modo, os fenômenos visí- veis (curas divinas, fenômenos relacionados com visões públicas, etc.) associados ao mi- nistério inicial de Ellen White não eram, e nem são, a mensagem dela. Nem são necessa- riamente provas de suas credenciais divinas. Mas os fenômenos físicos captaram a atenção de seus contemporâneos, atenção que ela conservou até muitos se convencerem de que sua mensagem era uma palavra de Deus. Com o passar do tempo, depois que milhares se ha- viam convencido do fruto de suas mensagens, as visões públicas, acompanhadas de fenôme- nos físicos, tornaram-se menos freqüentes. Apesar disso, Deus continuou a falar a Sua profetisa por meio de visões noturnas. A qua- lidade do conselho permaneceu a mesma, mas sem os fenômenos físicos.13 Década de 1840 – um Período Turbulento Para Reivindicações Proféticas Um dos aspectos mais destacados da agitação religiosa das turbulentas décadas de 1830 e 36 SEÇÃO I O Sistema Divino de Comunicação
  • 28. CAPÍTULO 3 CARACTERÍSTICAS DOS PROFETAS Finalmente pareceu-lhe ouvir uma voz que dizia: “Entristeceste o Espírito do Senhor.” Apavorado com essa possibilidade, ele convocou uma reunião para relatar a visão. Mas, depois de fazer várias tentativas mal-su- cedidas de relembrá-la, declarou: “Foi-se de mim. Não consigo dizer nada. O Espírito de Deus me abandonou.” Alguns que ali estive- ram presentes descreveram aquela reunião como “a mais terrível reunião em que já ha- viam estado”. Depois dessa experiência, Hazen encon- trou-se com Ellen em Poland, Maine. Embo- ra tivesse sido convidado para a reunião, ele permaneceu do lado de fora da porta fechada, embora próximo o bastante para entreouvir a mensagem dela. No dia seguinte, ele contou a Ellen: “O Senhor me deu uma mensagem para apresentar a Seu povo. E eu recusei, de- pois de saber das conseqüências. Fui orgulho- so; estava inconformado com o desaponta- mento. ... Ouvi sua palestra de ontem à noi- te. Creio que as visões foram retiradas de mim e dadas a você. Não recuse obedecer a Deus, pois será perigoso para sua alma. Sou um homem perdido. Você é a escolhida de Deus. Seja fiel em fazer a sua obra, e a coroa que eu poderia ter tido, você receberá.”28 Deus Se Revela em Tempos de Crise por Meio dos Profetas Deus é muito compassivo e solícito com Seu povo, especialmente quando Ele Se revela em períodos de crise. O aparecimento dos profetas muitas vezes se acha ligado a grandes crises. Assim quando surge um profeta, deve- mos examinar a natureza da crise. E ao estu- darmos a crise, devemos olhar para a mensa- gem do profeta. Pense no Dilúvio, e Noé vi- rá à sua mente. Israel no cativeiro egípcio – Moisés. Terrível opressão – Débora e, mais tarde, Samuel. Terrível apostasia – Elias. Trá- gica decadência nacional – Isaías e Jeremias. Cativeiro sombrio – Daniel e Ezequiel. Nas- cimento da igreja cristã – Pedro e Paulo. Res- tauração das verdades especiais para os últi- mos dias – Ellen White. Essa mesma espécie de preocupação divina fica evidente no domingo da ressurreição. Dois discípulos derrotados arrastavam-se para Emaús, caminhando à sombra misteriosa de uma crucifixão. (Ver Lucas 24.) O Senhor, porém, conhecia seu desespero e aproximou- Se deles. Ele sabia que havia permitido lhes sobreviesse aquela tristeza. Ele não os desam- pararia em seu pesar e confusão. Como Jesus Se revelou? Primeiro, diri- gindo a mente deles para as Escrituras. Ele os ajudou a investigar a verdade que eles haviam apenas compreendido vagamente. Esse tipo de estudo bíblico forneceu àqueles primeiros discípulos maior estabilidade e compreensão bíblica do que a realização de um milagre. Na década de 1840, ocorreu outro mo- mento notável no plano divino da salvação. O fim da mais longa profecia bíblica relacio- nada com tempo estava próximo (Dan. 8:14). A ocasião era tremenda – aproxima- va-se o advento. Contudo, embora a maioria do mundo tivesse ouvido a autêntica mensa- gem do advento, o tempo do advento se ba- seava numa interpretação errônea da profe- cia de Daniel. Durante a confusão e o desespero que se seguiram ao dia 22 de outubro de 1844, Deus Se aproximou de Seu povo. Por meio de uma adolescente, Ele o animou a reestudar a Bí- blia29 e o instruiu a ouvir Seu conforto e for- talecimento. Por meio da jovem Ellen Har- mon a perplexidade e a tristeza que envolve- ram o Grande Desapontamento de 22 de ou- tubro logo se mudaram em esperança e âni- mo. Assim como os discípulos a caminho de Emaús voltaram para Jerusalém com a alegria da verdade presente, assim aqueles primeiros adventistas enfrentaram o mundo novamen- te com a alegria da verdade presente. Ellen White Surgiu no Tempo de Maior Aflição Ellen White teve que lutar contra o senti- mento prevalecente entre os líderes mileri- tas de que todos os fenômenos carismáticos, tais como visões e transes, deviam ser rejei- tados.30 Igualmente perturbadoras foram as am- plas divisões e espantosos fanatismos surgi- dos entre os mileritas depois de 22 de outu- bro de 1844.31 Talvez mais opressivo ainda foi o escárnio daqueles que haviam rejeitado os mileritas 39 M E N S A G E I R A D O S E N H O R O ministério profético de Ellen G. White tam a história da última tribo perdida de Is- rael, que havia séculos antes habitado o con- tinente americano”. Posteriormente, em 1830, Smith publicou o Livro do Mórmon. Esta nova Bíblia se tornou a autoridade dos mórmons na maioria das questões. Ela de- clarava que “quem quer que negue ‘as revela- ções de Deus ou diga que elas cessaram e que não há mais revelações, nem profecias, nem dons, nem falar em línguas nem interpreta- ção de línguas’, revela sua ignorância e nega ‘o evangelho de Cristo’”.22 O espiritismo, ou espiritualismo, encontra suas raízes teológicas na predominante dou- trina cristã do estado consciente dos mortos, no Céu ou no inferno. A moderna ressurrei- ção deste antigo paganismo é atribuída a An- drew Jackson Davis (1826-1910), o “Vidente de Poughkeepsie”, e aos fenômenos audíveis na casa das irmãs Fox, perto de Rochester, Nova Iorque, em 1848. Davis é mencionado como aquele que introduziu o “espiritualismo intelectual”, e Katie Fox como a introdutora do “espiritualismo fenomenal”.23 William Foy e Hazen Foss Mais relevante para os primeiros adventis- tas do sétimo dia são as experiências de William Foy e Hazen Foss. Ambos tiveram visões similares à primeira visão de Ellen Harmon. William Ellis Foy (c. 1818-1893), um negro norte-americano na faixa dos vin- te anos de idade, recebeu diversas visões dramáticas em 1842, vários anos antes da- quelas recebidas por Hazen Foss e Ellen Harmon. A primeira (18 de janeiro) durou duas horas e meia, e a segunda (4 de feve- reiro) vinte horas e meia! Seu estado duran- te as visões assemelhava-se ao estado de transe de Daniel.24 Algumas vezes antes de 22 de outubro de 1844, Ellen Harmon ouviu Foy pregar no Sa- lão Beethoven em Portland, Maine. Algumas semanas depois, pouco antes da primeira vi- são dela em dezembro de 1844, Foy estava presente numa reunião realizada perto de Ca- pe Elizabeth, Maine, durante a qual ela falou da primeira visão. “Quando ela começou, Foy ficou fascinado com o que ela dizia. Deixou- se levar pelo entusiasmo e empolgação que acompanharam a apresentação dela. Ela falou das coisas celestiais – de orientações, luzes, imagens – coisas familiares a Foy. ... Arreba- tado pela alegria do momento, ele não pôde mais se conter. De súbito, no meio da apre- sentação de Ellen, Foy bradou de júbilo, er- guendo-se sobre os pés e ‘saltou inflamada- mente para baixo e para cima’. Segundo Ellen se lembra: ‘Oh! Ele louvou o Senhor, ele lou- vou o Senhor.’ “Ele repetiu várias vezes que a visão dela era justamente a que ele tinha visto. Ele sabia que não havia como falsificar tal experiência. A dela era legítima.”25 Em 1906 Ellen White lembrou-se de suas conversas com William Foy. Ela recordou que ele tivera quatro visões, todas antes da primeira visão dela: “Elas foram escritas e publicadas, e é [estranho] que eu não consi- ga encontrá-las em nenhum de meus livros. Mas nós nos emocionamos tantas vezes.” E depois ela fez um elogio muito significativo a Foy: “Foram notáveis os testemunhos que ele deu.”26 Hazen Foss encontrou-se com Ellen Har- mon em janeiro de 1845, em uma reunião em Poland, Maine. Ellen fora para ali, convidada por Mary Foss, para relatar sua primeira visão de um mês antes.27 Hazen, o cunhado de Mary [Mary era mu- lher de Samuel Foss], é lembrado “como um homem de boa aparência, boas maneiras e educado”. Antes de 22 de outubro de 1844, ele teve uma visão descrevendo a viagem dos adventistas (mileritas) à cidade de Deus. Ele foi instruído a tornar conhecida essa visão juntamente com mensagens específicas de advertência, mas recusou. Depois do dia 22 de outubro, ele sentiu que havia ficado confuso quanto à sua pri- meira visão. Em sua segunda visão, foi adver- tido de que, se não fosse fiel em relatar a pri- meira visão, a visão e a responsabilidade se- riam retiradas dele e dadas a outra pessoa com muito poucas qualificações. Ele continuou a temer pela possibilidade de ser ridicularizado e rejeitado por seus companheiros mileritas. 38 SEÇÃO I O Sistema Divino de Comunicação
  • 29. CAPÍTULO 3 CARACTERÍSTICAS DOS PROFETAS 1. Kenneth H. Wood, “Toward an Understanding of the Pro- phetic Office”, Journal of the Adventist Theological Society, pri- mavera de 1991, pág. 21. 2. Moisés registrou as palavras de Deus com respeito ao sistema profético, usando visões e sonhos de maneira intercambiável: “Ouvi agora as Minhas palavras: se entre vós houver profeta, Eu, o Senhor, a ele Me farei conhecer em visão, em sonhos falarei com ele.” Núm. 12:6. 3. T. H. Jemison foi um dos primeiros a categorizar essas quatro provas no livro A Prophet Among You, (Mountain View, CA: Pacific Press Publishing Association, 1955), págs. 100-112. 4. Neste exemplo Jeremias falava em tom irônico com o falso profeta Hananias. O princípio, contudo, permanece. 5. Ver Mal. 3:6; Tia. 1:17. Revelação progressiva (ver página 422) é o termo que descreve o plano divino de “educação contínua”. Ela se baseia na revelação anterior; não remove nem contradiz a revelação anterior. 6. Ver págs. 2 e 3. 7. Ver I Sam. 10:5 e 10; I Reis 20:35; II Reis 2:3 e 5; 4:38; 5:22; 6:1. 8. Educação, pág. 46. 9. Review and Herald, 25 de março de 1890. Ver também Men- sagens Escolhidas, livro 3, pág. 341, onde Ellen White teve oportunidade de esclarecer o papel de um profeta dotado: “Não hesito em dizer que teria sido melhor se essas idéias em relação ao ato de profetizar nunca houvessem sido expressas. Tais declarações preparam o caminho para um estado de coi- sas que Satanás certamente aproveitará para introduzir ativi- dades falsas. Há o perigo não somente de que mentes dese- quilibradas sejam induzidas ao fanatismo, mas também de que pessoas ardilosas se aproveitem dessa agitação para pro- mover seus desígnios egoístas.” 10. Jack Provonsha, A Remnant in Crisis (Hagerstown, MD: Re- view and Herald Publishing Association, 1993), págs. 57 e 58. Aplicando esses princípios a Ellen White, Provonsha es- creve: “Pelo visto, Ellen White ‘ouviu’ muitas vezes a voz de Deus lhe falando enquanto ela escrevia livros em sua biblio- teca. Uma pessoa que passou toda uma vida sendo mensagei- ra de Deus desenvolveu certamente uma sensibilidade fora do comum a essas intuições e é bastante compreensível que ela empregasse, às vezes, as próprias palavras dos autores pe- los quais essas intuições lhe foram apresentadas à mente, com ou sem aspas.” – Ibidem, págs. 58 e 59 11. Ver as predições de Cristo em Mat. 24:11. 12. Jeremias registra o que o Senhor disse sobre os “falsos profe- tas”: “Os profetas e os sacerdotes são ímpios; Eu os peguei fa- zendo o mal no próprio Templo. ... Vejo que os profetas de Je- rusalém... cometem adultério, dizem mentiras, ajudam os ou- tros a fazerem o mal, e assim ninguém pára de fazer o que é errado... ; eles estão iludindo vocês com falsas esperanças. Di- zem coisas que eles mesmos inventam e não aquilo que Eu fa- lei. ... Qual desses profetas algum dia conheceu os pensamen- tos secretos do Eterno? Será que algum deles viu e ouviu a pa- lavra do Eterno? Qual deles deu atenção à sua mensagem e obedeceu?... Eu não enviei esses profetas, nem lhes dei ne- nhuma mensagem. Mas assim mesmo eles saíram correndo e falaram em Meu nome. ... Eu sei o que têm dito esses profe- tas que falam mentiras em Meu nome e afirmam que lhes dei Minhas mensagens nos seus sonhos. Por quanto tempo ainda esses profetas vão enganar o Meu povo com as mentiras que inventam?... O profeta que teve um sonho devia contá-lo co- mo um simples sonho. Mas o profeta que ouviu a Minha mensagem devia anunciá-la fielmente. ... Eu sou contra esses profetas que roubam as palavras uns dos outros e as anunciam como se fossem a Minha mensagem. Também sou contra es- ses profetas que falam as suas próprias palavras e afirmam que elas vieram de Mim. Escutem o que Eu, o Eterno, estou di- zendo! Sou contra os profetas que contam sonhos cheios de mentiras. ... Eu não os enviei, nem os mandei ir, e eles não ajudam o Meu povo em nada. Eu, o Deus Eterno, falei.” Jer. 23:11-32, BLH; ver também cap. 28; 29:8, 15-19 e 31. 13. Escrevendo mais tarde, Ellen White referiu-se aos fenômenos físicos, que desempenharam papel importante com relação a seu ministério: “Algumas das instruções que se encontram nestas páginas foram dadas em circunstâncias tão notáveis que evidenciam o prodigioso poder de Deus em favor de Sua verdade. ... Essas mensagens eram dadas desse modo para confirmar a fé de todos, a fim de que nestes últimos dias te- nhamos confiança no Espírito de Profecia.” – Review and Herald, 14 de junho de 1906 (Mensagens Escolhidas, livro 3, págs. 38 e 39). Ver pág. 28. 14. Winthrop S. Hudson, “A Time of Religious Ferment”, The Rise of Adventism, ed. Edwin S. Gaustad, (New York: Harper & Row, 1974), pág. 8. 15. Ernest R. Sandeen escreveu que a América [do Norte] “esta- va embriagada com o milênio”. Citado por Ernest Dick, “The Millerite Movement”, Adventism in America, ed. Gary Land (Grand Rapids: William B. Eerdmans Publishing Company, 1986), pág. 3. Ver também Ernest R. Sandeen, “Millennia- lism”, em The Rise of Adventism, ed. Edwin S. Gaustad (New York: Harper & Row, 1974), págs. 104-118; George R. Knight, Millennial Fever (Boise, ID: Pacific Press Publishing Association, 1993), págs. 1-384. 16. A maioria dos cristãos eram “pós-milenistas”, que criam que Jesus voltaria após o período de mil anos de Apocalipse 20. O principal argumento deles era que Satanás seria preso na Terra pelo avanço do cristianismo através do mundo e que o bem venceria o mal à medida que o mundo se tornasse mais iluminado pelo evangelho. Ver Ernest R. Sandeen, “Millen- nialism”, Gaustad, The Rise of Adventism, págs. 10-118. 17. Harold Bloom, The American Religion (New York: Simon & Schuster, 1933), págs. 21-75; Hudson, “A time of Religious Ferment”, em Gaustad, The Rise of Adventism, págs. 1-17; William G. McLoughlin, “Revivalism”, em Gaustad, The Ri- se of Adventism, págs. 119-150. 18. “Declaration of Principles” no periódico de Carlos Fitch, The Second Advent of Christ (Cleveland, Ohio, 21 de junho de 1843): “Não confiamos de maneira alguma em visões, sonhos ou revelações particulares. ‘Que tem a palha com o trigo? Diz o Senhor.’ Repudiamos todo fanatismo e tudo quanto tende a extravagância, excesso e imoralidade, para que não seja censurado o nosso bem.” 19. Tiago White, “The Gifts of the Gospel Church”, em Review and Herald, 21 de abril de 1851. 20. Hudson, “A Time of Religious Ferment”, em Gaustad, The Rise of Adventism, págs. 9-17. 21. Ibidem, pág. 10. 22. Ibidem, pág. 13; H. Shelton Smith, Robert T. Hardy, Lefferts A. Loetscher, American Christianity: An Historical Interpreta- tion With Documents (New York: Charles Scribner’s Sons, 1963), págs. 80-84. 23. Citado em LeRoy Edwin Froom, The Conditionalist Faith of Our Fathers, vol. 2 (Washington, D.C.: Review and Herald Publishing Association, 1965), pág. 1.069. 24. O relato é de que ele não respirava, apresentava considerável perda de força, não conseguia falar, etc. Informações adicio- nais sobre William Foy podem ser encontradas em The Unk- nown Prophet (Washington, D.C.: Review and Herald Publishing Association, 1987), de Delbert W. Baker. Pastor batista vo- luntário de talentos extraordinários, sua primeira visão foi re- latada a uma congregação metodista. Depois desta visão, sua pregação, cheia de zelo e vigor, passou a centralizar-se na pro- ximidade do Advento e na preparação para o acontecimen- to. Baker não concorda com a opinião popular de que 41 M E N S A G E I R A D O S E N H O R O ministério profético de Ellen G. White antes do Desapontamento ao observarem a humilhação dos desapontados.32 Além disso, a jovem Ellen era apenas uma adolescente, uma garota tão fraca que mal conseguia falar acima de um sussuro. Mas, em dezembro de 1844, Deus lhe deu uma visão. Quem a ouviria, “a mais fraca das fracas”? À medida que o tempo passava, a relutan- te, modesta e inabalável lealdade de Ellen Harmon em ser uma mensageira de Deus nos tempos mais sombrios se tornou o centro de reanimação para sinceros estudantes da Bí- blia que queriam saber o que estava certo e o que estava errado com respeito a 22 de outu- bro de 1844. Assim como na estrada de Emaús, Jesus Se aproximou dos crentes since- ros mas perplexos nos meses que se seguiram ao “grande desapontamento”.33 40 SEÇÃO I O Sistema Divino de Comunicação Às vezes se faz uma comparação entre a his- tória da vida e visões de William Foy e Ellen Harmon. Ambos passaram por conflitos espi- rituais perturbadores antes das visões, ambos sentiram grande aversão em relatar as visões publicamente. Ocasionalmente, ambos usa- ram expressões comuns da época, como “confortar os santos”. Embora existam alguns paralelos verbais entre as visões de Foy e as de Ellen Harmon, existem importantes diferenças no conteúdo. Ao descrever a viagem de alguém que havia acabado de morrer como indo para o Céu em uma carruagem, Foy não menciona a ressur- reição no Segundo Advento, pois cria na imortalidade da alma. Foy vê uma montanha na qual estava impresso em letras de ouro: “O Pai e o Filho”, fornecendo um pano de fundo para a cena do juízo. Nada semelhante é en- contrado nos registros das visões de Ellen Harmon. Tanto Foy quanto Harmon (White) des- crevem a árvore da vida empregando pala- vras comuns tais como “o fruto parecia ca- chos de uvas em painéis de puro ouro” (Foy) e “o fruto era esplêndido; tinha o aspecto de ouro misturado com prata” (White). Falando sobre comer o fruto, Foy se lembrou: “O guia então me falou dizendo: ‘Os que comem do fruto desta árvore não voltam mais para a Terra.’” White escreveu: “Pedi a Jesus que me deixasse comer do fruto. Ele disse: ‘Ago- ra não. Os que comem do fruto deste país não voltam mais para a Terra.’” As desseme- lhanças contextuais saltam aos olhos. Ambos se referem a um grande grupo de remidos formando um “quadrado perfeito”. Foy escreveu que as pessoas desse grupo eram Nota do “tamanho de crianças de dez anos de ida- de” e que cantavam um “cântico que os san- tos e os anjos não podiam cantar”. Para Ellen White: “Ali sobre o mar de vidro, os 144.000 ficaram em quadrado perfeito.” No entanto, se as visões de Foy foram au- tênticas e fielmente reveladas, não devíamos esperar semelhanças e paralelos, pelo menos até certo ponto? Mas o conteúdo conceitual geral das visões publicadas de Foy não corres- ponde ao das visões de Ellen White.34 Existem algumas questões relativas aos Pearson (John Pearson, Jr., e C. H. Pearson) que publicaram o folheto de Foy, The Chris- tian Experience, e o “Pai” Pearson, menciona- do em Life Sketches, págs. 70 e 71 e em Teste- munhos Para a Igreja, vol. 1, pág. 64. “Pai Pearson”, um antigo líder do peque- no grupo dos crentes de Portland, Maine, opunha-se aos que afirmavam estar “pros- trados” pelo Espírito de Deus – até que ele e sua família passaram pela “experiência”.35 Tiago White havia trabalhado com o filho do “Pai” Pearson, John Pearson Júnior, em 1843 e depois disso. John, o filho, junta- mente com Joseph Turner, editava Hope of Israel, um periódico do Advento, e publi- cou o folheto de William Foy em princípios de 1845. Parece evidente que, se as visões de Ellen Harmon não passassem de cópia das primei- ras visões de Foy, os Pearson teriam sido os primeiros a perceber a fraude, especialmente considerando que o Pai Pearson era tão sen- sível e desconfiado de visões e outras chama- das manifestações do Espírito. O Pai Pearson creu na autenticidade de William e conti- nuou a apoiar solidamente Ellen Harmon. Referências
  • 30. CAPÍTULO 3 CARACTERÍSTICAS DOS PROFETAS Perguntas Para Estudo 1. Que exemplos bíblicos ilustram o princípio da profecia condicional? 2. Por que nem todos os crentes possuem o dom profético? 3. Quais algumas das características comuns compartilhadas pelos profetas em suas expe- riências em visões? 4. Quais as melhores provas de um profeta ou profetisa verdadeiro(a)? 5. Cite algumas circunstâncias existentes em 1845 que tornavam difícil para Ellen Harmon ser ouvida. 6. Por que nossa atitude para com os profetas é uma indicação de nossa atitude para com Deus? 7. Na sua opinião, por que os fenômenos físicos acompanham as visões em determinados períodos mais do que em outros? 42 Ellen Harmon mais tarde preencheu a responsabilidade atri- buída primeiramente a Foy. “William Foy trabalhou como porta-voz de Deus para o movimento do Advento no período do pré-desapontamento, enquanto Ellen White se tornou a profetisa do pós-desapon- tamento. Foy falou aos primeiros adventistas, assegurando- lhes o interesse pessoal de Deus e estimulando-lhes a um maior reavivamento e reforma. Ele trouxe à luz oportunas verdades que, se compreendidas, teriam posteriormente pou- pado o povo de Deus do grande Desapontamento ou pelo menos tê-lo-iam preparado para ele. Foy recebeu um núme- ro limitado de visões com um objetivo definido. Ele nunca sugeriu que seu papel profético se estenderia além de 1844, ou que receberia outras visões. “Uma desencaminhadora generalização que muitas vezes se faz é a de que, se Foy for aceito como profeta verdadeiro do movimento do Advento (pré-adventista do sétimo dia), ele também deve ser profeta do movimento adventista do sé- timo dia por todo o tempo restante. Esta crença, embora compreensível, não encontra base real.” – Delbert Baker, “William Foy, Messenger to the Advent Believers”, Adven- tist Review, 14 de janeiro de 1988. 25. Baker, The Unknown Prophet, págs. 143 e 144. Ver nota no fim do capítulo. 26. Ellen White, “William Foy”, Depositários do Patrimônio Literário White, Arquivo Documental 231. Apenas duas das visões de Foy foram publicadas em seu livro The Chris- tian Experience of William E. Foy Together With the Two Vi- sions He Received in the Months of January and February, 1842 (Portland, ME: The Pearson Brothers, 1845). A ter- ceira é resumida por J. N. Loughborough em Rise and Pro- gress of the Seventh-Day Adventists (RPSDA) (Reimpresso por Payson, AZ: Leaves-of-Autumn Books, 1988), pág. 71. Não se dispõe de nenhuma informação sobre o conteúdo da quarta visão. 27. Ver Robinson, James White, pág. 28; ver também Biography, vol. 1, pág. 71. 28. “Hazen Foss”, em Seventh-day Adventist Encyclopedia (SDAE), ed. Don. F. Neufeld, segunda edição revisada (Washington, D.C.: Review and Herald Publishing Associa- tion, 1996), vol. 2, pág. 562. 29. Considere os estudos bíblicos de Hiram Edson, O. R. L. Cro- zier e F. B. Hahn em fins de 1844 e princípio de 1845. Ver Schwarz, Light Bearers, págs. 60-63. 30. Knight, Millennial Fever, pág. 273. 31. Everett N. Dick, “The Millerite Movement, 1830-1845”, em Adventism in America, ed. Gary Land (Grand Rapids, MI: William B. Eerdmans Publishing Company, 1986), págs. 31- 35; Knight, Millennial Fever, págs. 245-293; R. W. Schwarz, Light Bearers to the Remnant (Boise, ID: Pacific Press Publis- hing Association, 1979), págs. 56-58. 32. Land, Adventism in America, págs. 29-30; Schwarz, Light Bea- rers to the Remnant, pág. 53; Biography, vol. 1, pág. 54. 33. Ver C. Mervyn Maxwell, Magnificent Disappointment (Boise, ID: Pacific Press Publishing Association, 1994). 34. Foy continuou a pregar para os Batistas do Livre-Arbítrio. Na década de 1860 ele se estabeleceu nas proximidades de East Sullivan, Maine, onde pastoreava uma igreja e traba- lhava em sua pequena fazenda. “‘O Pastor Foy’, conforme o chamavam, era grandemente estimado e amado naquela região. A tradição oral afirma que ele era amistoso e amá- vel, embora de fortes convicções. A história local afirma que Foy era excelente pregador e pastor experiente.” – Ba- ker, The Unknown Prophet, pág. 158. Ele morreu aos 75 anos de idade e foi enterrado perto de Ellsworth, Maine, onde seu túmulo pode ser encontrado no Birch Tree Ce- metery. 35. Testemunhos Para a Igreja, vol. 1, págs. 47 e 64. SEÇÃO I O Sistema Divino de Comunicação IIA Verdadeira Ellen White 4 A Pessoa e a sua Época 5 Mensageira, Esposa e Mãe 6 Saúde Física 7 Características Pessoais 8 Como Outros a Conheceram 9 Bom Humor, Bom Senso e uma Conselheira Prática 10 A Pioneira Americana e a Mulher Vitoriana 11 A Escritora Prolífica 12 A Oradora Solicitada CAPÍTULO SEÇÃO
  • 31. lher que fora apresentada ao público sob um falso prismacomoobjetivodetornarinoperanteaver- dade de Deus.”4 Mais adiante, naquela carta, ela escreveu: “Ninguém é obrigado a crer. Deus fornece evi- dência suficiente para que todos se decidam sob o peso da evidência, mas Ele nunca remo- ve nem jamais removerá toda chance [oportu- nidade] para a dúvida; nunca forçará a fé.” Citando um velho provérbio de lenhado- res, Carl Sandburg intitulou o penúltimo ca- pítulo de sua biografia de Lincoln em seis vo- lumes: “Uma árvore é melhor avaliada depois que cai.”5 Enquanto vivo, nenhum homem ou mulher pode ser avaliado completamente. Nunca foi isto mais verdadeiro do que com a vida de Cristo. Somente com o passar do tem- po pode a vida de alguém ser apropriadamen- te avaliada. Tanto o louvor afetado dos baju- ladores como o desdém sarcástico dos adver- sários são mais bem medidos e reconsiderados quando se levam em conta os resultados dura- douros das palavras e atos de uma pessoa. Em grande parte, somos todos filhos do nos- so tempo. Ellen Harmon nasceu num mundo em enorme efervescência e rápidas mudanças. Para ajudar-nos a compreender os assuntos so- bre os quais ela falou ou escreveu, mesmo as expressões que ela usou, bem como a espécie de vida diária que viveu, vamos mencionar brevemente os fatores geográficos, políticos, econômicos, sociais e religiosos capazes de ha- ver influenciado seu maduro ministério. Ambiente Geográfico Portland, Maine, a maior cidade mais próxima de Ellen durante seus primeiros vinte anos de vida, era também a maior do Estado em 1840, com uma população de 15.218 habitantes. Embora esse número hoje pareça pequeno, na década de 1840 Portland superava em tama- nho as cidades de New Haven e Hartford, Connecticut; e Savanah, Geórgia. Portland, um movimentado porto, colocava o Maine em terceiro lugar no total de carregamentos, atrás apenas de Massachusetts e Nova Iorque. O transporte em vapores regulares para Boston freqüentemente sofria guerra de preços, e o custo da passagem chegava a cair para apenas 50 centavos cada viagem em 1841.6 No tempo de Ellen White, assim como nos dias de hoje, os verões daquela região eram notoriamente agradáveis; e os invernos, rigo- rosos, com temperaturas muitas vezes abaixo de zero, chegando mesmo a atingir a marca dos 31° C negativos (1o de fevereiro de 1826). Freqüentemente o porto ficava coberto de ge- lo durante dias ou até mesmo semanas, en- quanto o campo, geralmente coberto de neve, tornava ideal a viagem de trenó.7 Portland tinha “um sistema escolar progres- sista” para estudantes entre os quatro e os 21 anos de idade. Depois da escola primária bási- ca [4 anos de estudo], o estudante podia entrar para a escola primária superior [4 anos de estu- do], chamada grammar school, após um exame público. A educação gratuita para as meninas, contudo, acabava na escola primária superior, enquanto os meninos podiam prosseguir na es- cola secundária [4 anos de estudo], que se es- pecializava no ensino avançado do inglês, de- pois de passar noutro exame público.8 Pelo fato de em Portland não haver hospi- tal até 1855, os doentes eram tratados em ca- sa ou no consultório de algum médico. Um doutoramento em medicina podia ser obtido no Bowdoin College, em Brunswick (cerca de 42 quilômetros de Portland), após três meses de aulas expositivas, uma tese escrita e um exame final diante do corpo docente do de- partamento de medicina (equivalente às me- lhores escolas norte-americanas de medicina da época).9 A estatística da cidade enumera uma am- pla relação de causas mortis, indo “desde uma extensa variedade de febres (tifóide, ti- fo, ‘febre pútrida’) e doenças comuns da épo- ca (cólera e sarampo) até algumas designa- ções hoje consideradas estranhas ou arcaicas (escrófula, ‘súbita’ e gravela). De longe, a mais comum causa de óbito era a tísica pul- monar (tuberculose), seguida por ‘febres’, hi- dropisia, ‘distúrbios intestinais’ e outras doenças que haviam atingido proporções epidêmicas (como o sarampo em 1835 e es- carlatina em 1842). “Os jovens eram os mais gravemente atin- gidos; os de 10 anos para baixo constituíam muitas vezes cerca de 50% das mortes anuais (sem contar os natimortos). Em outras pala- vras, a expectativa de vida média em 1840 era de 22,6 anos, a qual, segundo pretendia o Advertiser, demonstrava o ‘nível superior de saúde desfrutado em Portland’.”10 45 M E N S A G E I R A D O S E N H O R O ministério profético de Ellen G. White C omo alguém pode saber quem foi de verdade Abraão Lincoln, Florence Nightingale ou Booker T. Washington? Em parte, pela leitura do que eles escreveram. Mas para ganhar objetividade, é preciso ouvir o que os outros dizem sobre eles. Convém re- correr às pessoas que viveram na mesma épo- ca e analisar como foram elas afetadas ou in- fluenciadas por essas pessoas extraordinárias. Observe uma nação em pranto por oca- sião da morte de Lincoln. Enquanto o trem funerário que levava seu féretro se movia lentamente rumo ao oeste, levando o cor- po para seu lugar de repouso, em Spring- field, Illinois, milhares de pessoas perfila- vam-se na linha férrea, chorando copiosa- mente. Ricos e pobres, brancos e negros, doutos e analfabetos – o pesar se abateu por toda uma união de Estados agora qua- se em paz. Depois de sua morte, mesmo seus inimigos aplaudiram sua grandeza de espírito e transparente altruísmo.1 Para milhões que o chamavam de “Pai Abraão”, sua morte prematura foi como a morte de um dos pais. Quando os Estados Unidos construíram sua primeira auto-estrada transcontinental, que ia de Jersey City, New Jersey, até São Francisco, Califórnia, o Presidente Taft sentiu que dar a essa no- va estrada o nome de “Rodovia Lincoln” promoveria unidade nacional.2 No entanto, enquanto em vida, o Presi- dente Lincoln foi alvo de imensa ridiculariza- ção e sarcástica rejeição por parte de muitos líderes nacionais, de seus seguidores e da im- prensa. Mas depois que ele morreu, uma na- ção abalada começou a apreciar o que ele de- fendia. Uma nação triste mas agradecida en- tesourou seus discursos e escritos profundos, tais como o “Discurso de Gettysburg” e seu “Segundo Discurso Inaugural”. A enorme contribuição de Abraão Lincoln só pode ser vista em sua verdadeira perspectiva com o passar do tempo e depois de calma reflexão. Enquanto aguardava ansiosamente pela visita de Ellen White à Austrália em 1891, G. C. Tenney, primeiro presidente da Asso- ciação Australiana, escreveu na revista da igreja: “Quase não preciso dizer que este acontecimento é aguardado com grande inte- resse por todos nós. Creio que é bastante oportuno. A posição que a irmã White e sua obra ocupam em relação a nossa causa torna imperativo que nosso povo a conheça pes- soalmente, tanto quanto possível. “As evidências, do ponto de vista bíblico, da autenticidade da obra do Espírito de Pro- fecia em relação à última igreja são todo-sufi- cientes, mas parece ser necessário um conhe- cimento mais meticuloso da obra da irmã White a fim de satisfazer o indagador sincero de que essa obra preenche os requisitos da Pa- lavra de Deus.”3 Como Lincoln, Ellen White foi muitas vezes caluniada. Ela enfrentou mentiras, de “absoluta malícia e inimizade” e “pura invenção de malda- de”. Escrevendo de Greenville, Michigan, quan- do tinha 41 anos de idade, ela refletiu: “Não du- vido, por um só momento, que o Senhor me en- viara para que as almas sinceras que haviam sido enganadas tivessem a oportunidade de ver e de ouvir por si mesmas de que espírito era essa mu- 44 CAPÍTULO 4 SEÇÃO II A Verdadeira Ellen White A Pessoa e sua Época “Lembrai-vos dos vossos guias, os quais vos pregaram a Palavra de Deus; e considerando atentamen- te o fim da sua vida, imita a fé que tiveram.” Heb. 13:7.
  • 32. CAPÍTULO 4 A PESSOA E SUA ÉPOCA 11,3 litros em 1800 para 15,1 litros em 1830.16 Perto de 1839, a Sociedade Norte-Ameri- cana de Temperança, por intermédio de suas mais de 8.000 sociedades locais, havia con- vencido 350.000 pessoas a assinar um voto de abstinência total – sendo o “total” um grande passo, mesmo para os defensores da temperan- ça. A União Feminina de Temperança Cristã, organizada em 18 de novembro de 1874, era particularmente eficaz em nível regional.17 A última metade do ministério de Ellen White coincidiu com o surgimento fenome- nal das cidades industrializadas e urbanizadas. A nação que havia nascido na fazenda se mu- dara para as cidades. “O número de norte- americanos que viviam em centros com mais de 2.500 habitantes havia crescido de 19 por cento em 1860 para 39 por cento em 1900 e 52 por cento em 1920.”18 A mudança de ritmo natural, tradicional, da fazenda para a vida artificial da cidade exigiu muitos novos e difíceis ajustes. “A América do Norte rural tinha seus defeitos, mas nenhum pa- recia tão clamoroso como os da metrópole.” Pa- ra a maioria dos protestantes, a cidade era sím- bolo de tudo quanto não prestava – “um mundo estranho e hostil desesperadamente impregnado de aguardente e catolicismo romano”.19 Outro fator que polarizava as cidades eram os conflitos de classe – ricos ilustres sendo invejados pelos que trabalhavam nas fábricas, constituídos em sua maioria de imi- grantes estereotipados com seu jeito não convencional e isolado. Pela primeira vez, a América do Norte ouvia o termo “operaria- do sindicalizado”.20 O ministério de Ellen White correu parale- lamente a uma época turbulenta de grandes mudanças sociais. Ela escreveu muito sobre os tenebrosos anos da Guerra Civil e a situação difícil dos escravos, o impacto do êxodo rural, as implicações óbvias do consumo exagerado de álcool e a luta de classe entre ricos e pobres. Ambiente Religioso Seria difícil encontrar na história dos EUA um período que se aproximasse da efervescên- cia religiosa de meados do século dezenove.21 “Revivamentistas e milenistas, comunitá- rios e utopistas, espiritualistas e prognostica- dores, celibatários e polígamos, perfeccionis- tas e transcendentalistas” – todos adiciona- vam tempero ao cenário religioso anterior- mente dominado pelas organizações religio- sas convencionais.22 Igrejas oficiais foram desfeitas pelo confli- to, especialmente os calvinistas da antiga e da nova escola. A ênfase wesleyana sobre a graça livre fomentou impressionantemente a “preeminência da experiência religiosa”. Sur- giam novos grupos religiosos com estrondoso sucesso, mas “em nenhum lugar eles prospe- ravam em maior variedade que no cálido vi- veiro do norte do Estado de Nova Iorque”.23 As reuniões campais, principalmente me- todistas, eram estufas espirituais onde emer- giam diversos estágios de exuberância com o senso de “nova revelação”, a possibilidade de santidade imediata e a consciência de participar no cumprimento de “antigas espe- ranças mileniais”.24 Os gritos dos aflitos mis- turavam-se aos brados de louvor e glória. O cair por terra, o convulsionar-se, o clamar, mesmo o rastejar pelo solo, o rolar pelo chão, o dançar celestial, o gargalhar e o bra- dar de milhares de pessoas ao mesmo tempo, “criando um estardalhaço capaz de ser ouvi- do a quilômetros de distância” – tudo se tor- nava a característica marcante dos “mortos pelo Espírito”.25 O “espírito” da reunião campal era levado para os cultos semanais das igrejas e para os tabernáculos evangélicos da cidade. Evange- listas profissionais davam continuidade ao le- gado das reuniões campais com pregações de alta voltagem. O respeito pela “religião do tempo antigo” refletia-se nos cânticos das reu- niões campais, realizadas até o dia de hoje. Como era de se esperar, os primeiros ad- ventistas (muitos deles ex-metodistas) fre- qüentemente expressavam seus sentimentos espirituais como os outros protestantes evan- gélicos. “Bradar” por algum tempo era prova- velmente o modo mais característico de ex- pressão pública.26 A notável coincidência do florescimento do mormonismo, ciência cristã e espiritualis- 47 M E N S A G E I R A D O S E N H O R O ministério profético de Ellen G. White Frederick Hoyt, historiador adventista, re- sumiu assim o impacto de crescer nos arredo- res de Portland, Maine, nas décadas de 1830 e 1840: “Este foi, pois, o ambiente que ajudou a desenvolver o corpo, a mente e a alma da jovem Ellen Gould Harmon. De muitas ma- neiras aquele era um ambiente difícil que, quando não enfraquecesse o caráter, só podia fortalecê-lo. Nas palavras do historiador nor- te-americano James Truslow Adams, neste ambiente, ‘as cartilagens da consciência, do trabalho, da simplicidade, da perspicácia e do dever tornavam-se ossos’. Outras palavras po- deriam ser empregadas para caracterizar os habitantes da Nova Inglaterra: fervor religio- so, veemente busca pela verdade, obstinada independência, austeridade espartana, de- sembaraço, simplicidade, resoluta autonomia e uma propensão para aderir a causas impo- pulares e por elas lutar.”11 Ambiente Político É provável que não tenha havido nem uma outra década no século dezenove que tenha testemunhado crescimento mais rápido e acontecimentos mais momentosos do que as décadas de 1830 e 1840. Os Estados Unidos se unificaram de costa a costa. Durante essas duas décadas, sete Estados se uniram à União, juntamente com a Califórnia, que, em 1850, se tornou o trigésimo primeiro Estado. A guerra contra o México acabou com grandes anexações territoriais. A população dos Esta- dos Unidos elevou-se de cerca de 5 milhões em 1800 para mais de 20 milhões em 1850. Ondas crescentes de imigrantes alteraram a estrutura das cidades, de um minúsculo file- te de água de 150.000 imigrantes na década de 1820... para uma caudalosa corrente de dois milhões e meio na década de 1850. Em- bora eles trouxessem “vigor e variedade”, tra- ziam também “temor, suspeitas e hostilidade”. Os católicos romanos, vindos da Irlanda, Itá- lia e outros países europeus despertaram res- sentimento não só porque a sua totalidade inundou o mercado com mão-de-obra barata, mas também porque sua homogeneidade reli- giosa era uma ameaça à uniformidade anterior de uma América protestante.12 Embora fossem um fenômeno social, as re- lações raciais influíram grandemente nas ques- tões políticas nos Estados “livres” da escravi- dão. A questão escravista aumentou progressi- vamente através da primeira metade do século dezenove, culminando em uma nação polari- zada e na Guerra Civil que abalou e debilitou a União. Enquanto a jovem nação cambalea- va rumo à escura noite do conflito civil, mui- tos abolicionistas brancos arriscaram a própria vida, falando abertamente contra a escravidão e a favor de sua imediata extinção.13 Ambiente Social Os meados do século dezenove abalaram a di- nâmica das mudanças sociais, principalmente as dirigidas pela expansão do individualismo. Durante a presidência de Andrew Jackson a porta foi aberta para que o “homem comum” se libertasse daquele estado de coisas. Parecia que toda questão de reforma concebível era iniciada. Liceus e, mais tarde, o circuito Chautau- qua (ver pág. 541), atraíam milhões de pes- soas para ouvir palestras sobre temas tão di- versos como escravatura, fourierismo (peque- nas comunidades cooperativas), não-violên- cia, reforma agrária, perfeccionismo, mesme- rismo (hipnotismo), pão integral e todos os aspectos da saúde. E as publicações dessas “re- formas” inundavam o mercado. “Há periódi- cos sobre temperança. ... Há numerosas revis- tas dedicadas ao espiritualismo, socialismo, frenologia, homeopatia, hidroterapia, antiar- rendamento, bloomerismo, direitos femini- nos, sociedade secreta Odd Fellows, maçona- ria, antimaçonaria e todos os conceitos, mo- vimentos e sensações de uma comunidade de mente extremamente dinâmica.”14 A jovem América do Norte também era um caldeirão de polarizações sociais. As rela- ções raciais assustavam a maior parte das co- munidades em cada Estado. Grupos étnicos, que incluíam determinados europeus, orien- tais, hispânicos, negros e índios norte-ameri- canos, tinham que enfrentar o preconceito cego que afetava tanto o local de trabalho co- mo a vizinhança.15 O consumo de bebidas alcoólicas também era uma preocupação nacional. Certo histo- riador descreveu os Estados Unidos como uma “república de alcoólatras”. O consumo de álcool anual per capita havia subido de 46 SEÇÃO II A Verdadeira Ellen White
  • 33. CAPÍTULO 4 A PESSOA E SUA ÉPOCA transpiração, e ela ficava fraca e desmaiava. Foi assim que, com a idade de nove anos, es- ta brilhante estudante teve que, a contragos- to, abandonar seu preparo acadêmico, para nunca mais voltar à educação formal – a pri- meira das duas grandes decepções sofridas no início de sua vida. Sua mãe ficou sendo sua professora; e os campos ao redor de Portland, seu laboratório.36 Ellen, porém, sentiu suas esperanças se re- novarem em 1840, quando Guilherme Miller deixou seus ouvintes de Portland, Maine, fas- cinados ao delinear as profecias que pareciam indicar a proximidade da volta de Jesus. Esta nova compreensão, desconhecida (e, portan- to, controversa) para a maioria dos religiosos daquela época, afetou-a profundamente pelo resto da vida. As questões espirituais sempre foram im- portantes para a jovem Ellen. Mas o que a motivava era principalmente o medo – o me- do de não estar preparada quando Jesus vol- tasse, o medo de fracassar devido à sua instru- ção limitada e debilidade física e o medo de que Deus de algum modo a houvesse castiga- do com aquela terrível aflição física. Tudo is- so se tornou a “angústia secreta” que ela fe- chava a sete chaves em seu coração solitário. Anos escutando sermões sobre um “inferno de fogo” gravaram-lhe na alma uma falsa imagem de Deus. O Deus de Ellen era o Governante celestial, mas será que era seu Amigo? Dois sonhos e um conselho pastoral dado na hora certa tornaram-se na vida da jovem Ellen o terceiro momento decisivo que esta- beleceu o curso do resto de sua vida. Pelos próximos 75 anos, sua missão mais urgente era dizer a verdade sobre o caráter de Deus. Um desses sonhos retratava uma visita ao templo celestial; o outro, um encontro com Jesus. Com um sorriso, Jesus parecia tocar-lhe a cabeça dizendo: “Não temas.” Ele lhe deu um fio verde, que representava a fé, levando-a a declarar: “A beleza e sim- plicidade de confiar em Deus começaram a raiar na minha alma.” Ellen agora se sentia livre para discutir seus temores com sua mãe. Com rápida percepção e encorajamen- to, sua mãe lhe sugeriu que fizesse uma visi- ta ao jovem Levi Stockman, na casa dos trinta anos de idade. Depois que o Pastor Stockman ouviu a his- tória dos seus dois sonhos e o relato dos seus temores, ele disse: “Ellen, você é tão criança! Sua experiência é muitíssimo singular, numa idade tenra como a sua. Jesus deve estar pre- parando-a para algum trabalho especial.” Em seguida, o perceptivo pastor deu-lhe uma visão mais clara de Deus conforme reve- lado em Jesus. Escrevendo posteriormente, Ellen confessou: “Durante os poucos minutos que passei recebendo instrução do Pastor Stockman, obtive mais conhecimento sobre o assunto do amor de Deus e de Sua compas- siva ternura do que de todos os sermões e exortações que já ouvira.”37 A compreensão recém-encontrada – de que Deus é como Jesus, seu melhor Amigo – estimulou-a a compartilhar suas descobertas e gratidão com outros: “Enquanto relatava mi- nha experiência, pressenti que ninguém po- deria resistir à evidência do amor perdoador de Deus que em mim realizara uma mudança tão maravilhosa. A realidade da verdadeira conversão parecia-me tão evidente, que eu desejava ajudar minhas jovens amigas a vi- rem para a luz, valendo-me de toda oportuni- dade para exercer minha influência nesse sentido.”38 Nova Concepção de Deus Essa nova concepção de Deus, aliada a sua profunda convicção de que Jesus estava pres- tes a voltar, era também compartilhada por seu irmão Robert. Ele meditava com ela sobre o que esses novas descobertas lhes tinham feito: “Cada árvore é conhecida pelos seus frutos. O que tem feito por nós essa crença? Convenceu-nos de que não estávamos prepa- rados para a vinda do Senhor; de que deve- mos tornar-nos puros de coração, do contrá- rio não poderemos encontrar em paz o nosso Salvador. Despertou-nos para procurar nova força e graça divinas. “‘O que fez ela por você, Ellen? Você seria o que agora é se não tivesse ouvido a doutri- na da breve vinda de Cristo? Que esperança ela lhe inspirou ao coração? Que paz, alegria e amor ela lhe proporcionou? Para mim fez tudo. Amo a Jesus e a todos os cristãos. Apre- cio a reunião de oração. Tenho grande alegria na leitura da Bíblia e na oração.’”39 49 M E N S A G E I R A D O S E N H O R O ministério profético de Ellen G. White mo moderno com o surgimento da Igreja Adven- tista do Sétimo na primeira metade do século de- zenove já foi mencionado no capítulo anterior. Árvore Genealógica Fazendeiro e chapeleiro abastado, o pai de Ellen, Robert F. Harmon Sr. (1786-1866), foi ex- cluído da comunhão da Igreja Episcopal Me- todista de Portland em 1843 por abraçar a mensagem milerita.27 Eunice Gould Harmon (1787-1863) foi mãe de dois filhos e seis filhas, dos quais Ellen e sua irmã gêmea, Elizabeth, foram as últimas. O relato menciona que ela fora professora primária antes de se casar. Tornou-se mais tarde uma laboriosa dona de casa, no tempo de lamparinas a óleo de baleia e fogões à le- nha, e uma renda familiar imprevisível. Os pais dela descendiam de antepassados de muitos recursos. Haviam lutado nas primeiras guerras, a começar com a Guerra do Rei Philips (1675). Alguns haviam sido empresá- rios. O trisavô de Ellen construiu um moinho à beira do rio em Scarboro, Maine, conheci- do como o “Moinho dos Harmon”.28 Quatro dos oito filhos da família Harmon tornaram-se observadores do sábado – Ellen, suas irmãs Mary e Sarah (respectivamente seis e cinco anos mais velhas que Ellen) e Ro- bert. A filha de Caroline (1811-1883), Mary, trabalhou por breve período de tempo como assistente literária de Ellen (1876-77). Ro- bert Jr. morreu em 1853 de tuberculose, com a idade de 27 anos. Tanto o pai como a mãe de Ellen White posteriormente se tornaram adventistas observadores do sábado. Pouco antes de seu pai morrer (e depois de Ellen haver visitado suas irmãs mais uma vez), ela escreveu: “Embora, no que diz respeito ao dever religioso, não concordássemos em todos os pontos, era um o nosso coração.”29 Do casamento de Ellen com Tiago White, em 30 de agosto de 1846, nasceram quatro fi- lhos. Destes, somente dois sobreviveram até a idade adulta. O primeiro filho que lhes nasceu, Henry Nichols (1847-1863), um jovem feliz, morreu de pneumonia aos 16 anos de idade.30 James Edson (1849-1929) aprendeu com o pai o ofí- cio de impressor quando tinha 14 anos. Tor- nou-se um popular escritor e compositor ad- ventista. O trabalho pertinaz que realizou em favor dos negros nos Estados sulistas foi ini- gualável. Sua oficina gráfica deu origem à an- tiga Southern Publishing Association.31 Cedo ainda se reconheceu na vida de William Clarence (1854-1937) a capacidade administrativa. Foi eleito para diversas e pe- sadas responsabilidades na liderança da igre- ja. Depois da morte de seu pai, ele se tornou companheiro de viagem e conselheiro de confiança de sua mãe. Logo que a mãe mor- reu em 1915, ele foi nomeado secretário do Patrimônio Literário White e supervisionou suas atividades por mais de duas décadas. John Herbert, nascido em 1860, morreu três meses depois, de erisipela.32 Vida Anterior a 184533 Três principais acontecimentos ou circuns- tâncias ocorridos nos primeiros anos de Ellen White afetaram diretamente o resto de sua vida e serviram de ponto de convergência pa- ra ela: a lesão física que ela sofreu com a ida- de de nove anos; a pregação de Guilherme Miller; e sua profunda experiência religiosa. Em 1836, enquanto a juvenil Ellen cami- nhava com um grupo de colegas de classe, uma garota mais velha começou a persegui- las com ameaças. Assim que Ellen se virou, a garota mais velha atirou uma pedra que lhe atingiu violentamente o rosto, deixando-a inconsciente. Durante três semanas Ellen fi- cou praticamente em estado de coma. Dias mais tarde, quando o pai dela voltou de uma viagem de negócios, Ellen ficou ain- da mais constrangida – o próprio pai não a re- conheceu. “Cada traço” do seu rosto parecia alterado. Mais do que isso, a perda de sangue havia afetado gravemente o seu sistema respi- ratório, uma debilidade que ela carregou con- sigo pelo resto da vida. Além disso, pelo fato de ter ficado com mãos “trêmulas”, fez “pou- co progresso na escrita”.34 Ao fazer uma re- trospectiva de sua vida, quase cinqüenta anos depois, ela escreveu: “O golpe cruel que des- truiu para mim as alegrias da Terra foi o meio de dirigir meus olhos para o Céu. Talvez eu jamais tivesse conhecido a Jesus, se não fosse a tristeza que, nublando meus primeiros anos, me levou a buscar nEle o conforto.”35 Estudar tornou-se uma impossibilidade. As letras do alfabeto em seus livros confundiam- se, seu olhos ficavam turvos, sobrevinha 48 SEÇÃO II A Verdadeira Ellen White
  • 34. CAPÍTULO 4 A PESSOA E SUA ÉPOCA 1. Ver Carl Sandburg, Abraham Lincoln (New York: Charles Scribner’s Sons, 1939), vol. 6, págs. 387-413. 2. “Lincoln, Abraham”, The World Book Encyclopedia (Chicago: Field Enterprises Educational Corporation, 1960), pág. 287. 3. Review and Herald, 17 de novembro de 1891. 4. Biography, vol. 2, pág. 276. 5. Sandburg, Abraham Lincoln, págs. 387-413. 6. Frederick Hoyt, “Ellen White’s Hometown: Portland, Maine, 1827-1846”, ed. Gary Land, The World of Ellen G. White (Hagerstown, MD: Review and Herald Publishing Associa- tion, 1987), págs. 14, 15, 30 e 31. 7. Ibidem, pág. 14. 8. Ibidem, pág. 16. 9. Ibidem, págs. 26 e 27. 10. Ibidem, pág. 27. 11. Ibidem, pág. 31. 12. Ibidem, pág. xii; Ronald E. Osborn, The Spirit of Americam Christianity (New York: Harper & Brothers, 1958), págs. 18-21. 13. H. Shelton Smith, et al., American Christianity: An Historical Interpretation with Documents, págs. 167-212. 14. Thomas Low Nichols, Forty Years of American Life: 1821- 1861 (New York: Stackpole Sons, 1937), pág. 208. 15. “Dentro da estrutura da história norte-americana, o período mais decisivo quanto às relações raciais foi provavelmente o século dezenove. As questões raciais eram manchetes nos jor- nais sempre que norte-americanos brancos adotavam um ponto de vista de conflito ou concessão para com grupos ét- nicos como os negros, os nativos norte-americanos (índios), os hispânicos, os orientais e os europeus. Em cada choque a maioria caucasiana tinha que enfrentar seus próprios temores em relação aos grupos minoritários e os preconceitos que ali- mentavam contra eles. Muitas vezes o preconceito puro e ce- go ditava a maneira como as minorias deviam ser tratadas até que maior contato modificasse os pontos de vista mais extre- mos. ... O contato e a exposição entre as raças pouco fizeram para modificar os estereótipos atribuídos aos grupos minori- tários. Em tais situações, os relacionamentos complexos tan- to sociológicos como psicológicos militavam contra qualquer harmonia ou entendimento racial efetivo. Isto foi especial- mente verdadeiro no caso dos afro-americanos.” – Norman K. Miles, “Tension Between the Races”, em Land, The World of Ellen G. White, pág. 47. 16. Jerome L. Clark, “The Crusade Against Alcohol”, em Land, The World of Ellen G. White, pág. 131. 17. Ibidem, págs. 132 e 138. 18. Carlos A. Schwantes, “The Rise of Urban-Industrial Ameri- ca”, em Land, The World of Ellen G. White, pág. 47. 19. Land, The World of Ellen G. White, págs. 84 e 85; Osborn, The Spirit of American Christianity, págs. 16-18; Winthrop S. Hudson, The Great Tradition of American Churches (New York: Harper & Row, 1963), págs. 110-136. 20. “No fim do século dezenove, as pessoas muitas vezes se refe- riam às corporações como ‘trustes’, ‘monopólios’, ‘máquinas desalmadas’ ou ‘polvos’ cujos tentáculos gananciosos se es- tendiam por todos os lugares. As associações sindicais eram chamadas de ‘comunistas’ ou ‘anti-americanas’. Das duas for- mas de organização, os sindicatos pareciam a maior ameaça. ... À medida que o século dezenove chegava a seu termo, tor- nou-se mais evidente que o protestantismo estava perdendo seus membros da classe operária. A íntima aliança entre o protestantismo e a riqueza, bem como a atitude dos clérigos protestantes para com as lutas de classe, não passaram desper- cebidas pelos trabalhadores. ... Para muitos adoradores prove- nientes da classe trabalhadora ficava cada vez mais difícil en- contrar uma igreja protestante para freqüentar. Como a igre- ja adotara uma postura cada vez mais burguesa, ela não apenas se indispôs com muitos trabalhadores, mas também encontrou fortes razões para abandonar fisicamente as vizi- nhanças da classe trabalhadora da metrópole e fugir para as zonas suburbanas ou rurais.” – Land, The World of Ellen G. White, págs. 91-93. 21. K. S. Latourette, A History of the Expansion of Christianity (New York: Harper & Brothers, 1941), vol. VI, págs. 442, 443 e 450; VII, pág. 450. 22. Edwin S. Gaustad, “Introduction”, Gaustad, The Rise of Ad- ventism, pág. xv. 23. Winthrop S. Hudson, “A Time of Religious Ferment”, Gaus- tad, The Rise of Adventism, pág. 7. 24. Ibidem, pág. 9. 25. Charles A. Johnson, The Frontier Camp Meeting (Dallas: Southern Methodist University Press, 1955), págs. 52-64. Ver Apêndice A para a descrição de uma testemunha ocular de uma reunião campal em princípios da década de 1800. 26. Malcom Bull e Keith Lockhart, Seeking a Sanctuary (San Francisco: Harper & Row, 1989), pág. 152. 27. Biography, vol. 1, págs. 43 e 44. 28. Ver a árvore genealógica de Ellen Harmon em Biography, vol. 1, pág. 487. 29. Review and Herald, 21 de abril de 1868. 30. Biography, vol. 2, págs. 70-72. 31. SDAE, vol. 11, pág. 888. 32. Biography, vol. 1, pág. 430. 33. O relato mais completo sobre os primeiros anos de Ellen Har- mon encontra-se em Ellen G. White: The Early Years, o pri- meiro volume de sua biografia em seis volumes escrita por Arthur L. White, vol. 1: 1827-1862 (Washington, D.C.: Re- view and Herald Publishing Association, 1985), págs. 15-71. 34. Ellen White, Spiritual Gifts, vol. 2, págs. 7-11, citado em Bio- graphy, vol. 1, págs. 28-31. 35. Review and Herald, 25 de novembro de 1884. 36. Charles Dickens e Mark Twain, entre outros escritores, não es- tudaram o equivalente ao ensino secundário. – Antony Smith, The Mind (New York: The Viking Press, 1984), pág. 208. 37. Life Sketches, pág. 37 (parte em Vida e Ensinos, pág. 28); Max- well, Tell It to the World, pág. 56; ver também Biography, vol. 1, págs. 38-49. 38. Life Sketches, pág. 41 (parte em Vida e Ensinos, pág. 33). 39. Ibidem, pág. 45 (Vida e Ensinos, págs. 36 e 37). 40. Ibidem, pág. 61 (Vida e Ensinos, pág. 54). 41. Schwarz, Light Bearers to the Remnant, pág. 56. Ver pág. 559. 42. Ver pág. 134. 43. Ibidem, págs. 56-58 44. Ibidem, págs. 55 e 56; Maxwell, Tell It to the World, pág. 58; Spiritual Gifts, vol. 2, págs. 30 e 31; J. N. Loughborough, The Great Second Advent Movement (GSAM) (Washington, D.C.: Review and Herald Publishing Association, 1905), pág. 202. 51 M E N S A G E I R A D O S E N H O R O ministério profético de Ellen G. White É muito provável que, se Ellen não tives- se tido esse relacionamento com seu Senhor, ela não teria ficado preparada para o profun- do desapontamento de 22 de outubro de 1844. Ela relembrou: “Foi amargo o desapon- tamento que atingiu o pequeno rebanho, cuja fé tinha sido tão forte, e tão elevada a esperança. Estávamos, porém, surpresos de que nos sentíssemos tão livres no Senhor, e tão fortemente fôssemos amparados por Sua força e graça. ... Ficamos desapontados, mas não desanimados.”40 Assim, no fim de 1844, Ellen estava pre- parada para seu imprevisto futuro. Inteira- mente cônscia de sua fragilidade física, ca- tivada pela nova e atrativa concepção de Deus como seu Amigo celestial e concen- trada na absorvente verdade da iminente volta de Jesus, ela estava pronta para sua primeira visão. Ela a recebeu assim que completou 17 anos. Nem todos os mileritas, porém, tinham o mesmo parecer depois do Grande Desapon- tamento. Nem todos podiam dizer que esta- vam “desapontados, mas não desanimados”. Por um lado, idéias radicais geraram compor- tamento radical. Alguns antigos líderes, crendo que Cristo havia vindo de fato espiri- tualmente, adotaram “as núpcias espirituais”, através das quais renunciavam ao casamento e formavam novas uniões “espirituais”, desti- tuídas de sexo, com novos parceiros. Outros, crendo que o sábado milenar havia começa- do naquela época, e para mostrar sua fé nes- sa crença, não faziam mais nenhuma espécie de trabalho secular.41 Por outro lado, diferenças doutrinárias começaram a separar os seguidores de Mil- ler.42 Eles logo se dividiram em pelo menos quatro grupos: (1) Os conhecidos como adventistas evangélicos abandonaram os ensinos proféticos de Miller e foram absor- vidos em outros grupos protestantes ao tor- nar-se evidente que quase nada os separa- va. (2) Outro grupo cria que o milênio ha- via ficado no passado, que os mortos agora “dormiam” esperando a ressurreição e que os ímpios seriam aniquilados. Por fim, esses se tornaram conhecidos como a Igreja Cris- tã do Advento, hoje o maior remanescente não observador do sábado, proveniente do adventismo milerita. (3) Centralizado ao redor de Rochester, Nova Iorque, outro grupo via o milênio como estando ainda no futuro – durante o qual os judeus voltariam para a Palestina. Tenazmente contrários à organização formal da igreja, esses adven- tistas da “Era Vindoura” nunca se tornaram fortes nem unidos. (4) O quarto grupo ficou conhecido co- mo os adventistas do “Sábado e da Porta Fe- chada”. Por meio de oração, estudo da Bíblia e confirmação divina, eles desenvolveram uma base lógica para os acontecimentos centralizados em 22 de outubro de 1844. Es- te grupo disperso finalmente encontrou sua unidade e missão, vindo a chamar-se Ad- ventistas do Sétimo Dia, a maior corporação de mileritas hoje existente. Eles criam que alguma coisa havia acontecido em 22 de ou- tubro, mas o quê?43 Deus entendeu a dor e a confusão, exa- tamente como entendera o abatimento dos dois discípulos caminhando penosa- mente para Emaús, “entristecidos” (Luc. 24:17) depois da crucifixão. Há 2.000 anos Jesus não permitiu que Seus desalen- tados discípulos sucumbissem sem uma ex- plicação – e Ele não esqueceu Seus crentes no fim de 1844. Jesus, pois, fez-Se presente naquela ma- nhã de dezembro de 1844, quando um pe- queno grupo de mulheres adventistas em Portland, Maine, uniram-se em oração e es- tudo da Bíblia – recorrendo a Deus e uma à outra em busca de encorajamento e com- preensão. Fazia alguns dias que a macilenta Ellen estava na casa dos Haines, dando à sua mãe necessário repouso. O médico e os ami- gos haviam-na desenganado para morrer de tuberculose. Enquanto as mulheres estavam orando, esta adolescente de dezessete anos perdeu a noção de onde estava, e Deus lhe deu a espécie de encorajamento que aqueles crentes perturbados tanto precisavam. Teve início assim um ministério de setenta anos, que se tornou mais significativo à medida que o tempo passava.44 50 SEÇÃO II A Verdadeira Ellen White Perguntas Para Estudo 1. Como sabemos que Ellen Harmon era uma jovem de inclinação religiosa antes de 1844? 2. Que compreensão errônea da verdade bíblica levou Ellen Harmon a ter concepção errô- nea sobre o caráter de Deus? 3. Que temores assaltavam a jovem Ellen e como foram eles dissipados? Referências
  • 35. O público considerava Ellen a evangeliza- dora e Tiago, o organizador. “Como marido e mulher, eles formavam uma equipe evange- lística sólida e inigualável. Seu método e di- visão de trabalho eram perfeitos. Os adven- tistas nunca mais tiveram algo parecido.”6 Mesmo antes de casar-se, Tiago reconhe- cia as extraordinárias habilidades de Ellen como pregadora: “Embora tivesse apenas de- zesseis anos de idade, ela trabalhava esforça- damente na causa de Cristo, tanto em públi- co como de casa em casa. Adventista resolu- ta, possuía experiência tão rica e testemunho tão poderoso que pastores e líderes de diver- sas igrejas buscavam contratar seus serviços como exortadora em suas diversas congrega- ções. Naquele tempo, porém, ela era uma pessoa muito tímida, e mal lhe ocorria que ela precisava colocar-se perante o público pa- ra falar a milhares de pessoas.”7 Conhecido por sua persistência e são juí- zo, Tiago era considerado um líder de con- fiança por parte dos seus irmãos adventistas do sétimo dia. Era não apenas um estrategis- ta, mas lutava como um guerreiro no campo de batalha. Ele iniciou a obra de publicações da igreja a partir do zero, fomentou a organi- zação da igreja e desenvolveu o sistema edu- cacional quando outros viam nisso apenas um sonho. Sua robusta fé e contagiosa ale- gria comoviam o público ouvinte. Fundos e apoio apareciam. Seu extraordinário talento comercial salvou a denominação de muitas dificuldades.8 Quando Tiago White morreu, o redator do Battle Creek Journal (que acompanhara de perto muitos dos empreendimentos do Pastor White) escreveu: “Ele foi um homem da têm- pera dos patriarcas, um homem cujo caráter foi modelado no cadinho dos heróis. Se pos- suir clareza lógica para formular um credo; se possuir poder para contagiar a outros com o próprio zelo e impressioná-los com as pró- prias convicções; se possuir capacidade exe- cutiva para estabelecer um grupo religioso e imprimir-lhe forma e estabilidade; se possuir capacidade para moldar e dirigir o destino de grandes comunidades; se tudo isso é a marca da verdadeira grandeza, o Pastor White tem com certeza o direito a esse nome, pois ele não possuía apenas uma dessas qualidades, mas todas elas em assinalado grau.”9 É provável, contudo, que Tiago White não fosse hoje tão vividamente admirado e relembrado se ele não se tivesse associado a alguém que possuísse o Espírito de profecia. L. H. Christian escreveu: “Por maior que tenha sido o serviço de liderança que o Pas- tor White prestou à causa do advento, seu maior préstimo foi a fé duradoura que de- positou no Espírito de profecia e a defesa dele. O fato de ele – um decidido homem de negócios, absolutamente livre de fana- tismo, sempre contrário às manifestações falsificadas da religião e conhecedor íntimo da mensageira como sua esposa – apoiar sempre o chamado e a obra da Sra. White como mensageira de Deus deu a nossos membros grande confiança nos testemu- nhos dela. ... Ele achava que a missão de sua vida era ser um instrumento para tornar conhecidas à igreja as visões que o Senhor concedia à sua companheira. Esses teste- munhos também o instruíam e reprovavam como o faziam com outras pessoas, mas ele os aceitava e seguia implicitamente como se fossem a luz do Céu.”10 Mensageira e mestre-de-obras, profetisa e apóstolo, “Tiago e Ellen White formaram uma equipe inestimável. Ellen compartilhava com Tiago sua sabedoria baseada em suas re- velações; ele agia vigorosamente para imple- mentar o que ela aconselhava e o que a ele parecia sensato.”11 O papel de Ellen White como esposa amorosa e leal está bem documentado. Em 1876, enquanto estabelecia seu lar em Oa- kland, Califórnia, Ellen, na época com 49 anos de idade, sentiu a necessidade de con- centrar-se na finalização do segundo volume da série The Spirit of Prophecy, que enfatiza- va a vida e a obra de Cristo. Tiago partiu so- zinho para Battle Creek a fim de participar de uma assembléia extraordinária da Asso- ciação Geral. Em um bilhete típico, escrito dois dias de- pois da partida dele, ela diz (24 de março): “Estamos tão bem como de costume. Demora um pouco acostumar-se com a emoção de sua partida. Pode estar certo de que sentimos sua falta. Sentimos principalmente a perda de sua companhia quando nos reunimos à noitinha junto à lareira. Sentimos sua ausência quan- do nos sentamos à mesa social [mesa de jan- 53 M E N S A G E I R A D O S E N H O R O ministério profético de Ellen G. White D urante o ano de 1845, Ellen Harmon foi convidada para relatar suas pri- meiras visões a grupos adventistas no Maine, New Hampshire e Massachusetts. Um jovem pregador, seis anos mais velho que Ellen, convenceu-se de que as visões dela eram verdadeiras e que a mensagem de forta- lecimento que ela apresentava era necessária. Foi assim que Tiago White entrou na vida da jovem Ellen, e não com pensamentos român- ticos – pelo menos a princípio. Na verdade, durante alguns meses subse- qüentes ao dia 22 de outubro, ele e muitos outros pertencentes ao quarto grupo de mile- ritas mencionado no último capítulo encara- vam o casamento como uma negação de sua fé na breve volta de Cristo. Em Day Star, Tia- go condenou um casal que, ao anunciar seu casamento prestes a ocorrer, havia “negado sua fé ao ser proclamado seu casamento, e to- dos nós consideramos isto uma artimanha do diabo. Os irmãos firmes do Maine, que estão aguardando a vinda de Cristo, não comun- gam com semelhante atitude”.1 Mas a realidade e o bom senso prevalece- ram. Tiago descobriu que o amor estava se tornando mais do que um princípio! Depois de perceber que seu ministério conjunto com a jovem Ellen, apesar de contar sempre com a companhia de sua irmã Sara ou outras fiéis amigas, estava gerando mexericos, ele lhe propôs casamento. Ellen aceitou a proposta, e um juiz de paz realizou a cerimônia em Por- tland, Maine, em 30 de agosto de 1846.2 Ellen lembrou disso depois da morte de Tiago: “Pouco antes de haver completado um ano, Tiago White discutiu o assunto comigo. Disse que haviam surgido alguns comentá- rios, e que ele devia ou ir embora me deixan- do livre para seguir meu caminho, ou deve- ríamos casar-nos. Disse que alguma coisa precisava ser feita. Então nós nos casamos, e permanecemos casados desde então. Embora esteja morto, sinto que ele é o melhor ho- mem que já pôs os pés em sapatos de couro.”3 Tiago considerava Ellen sua “coroa de glória”.4 L. H. Christian, antigo líder da igreja, menciona uma conversa com uma senhora que, na tenra juventude, havia brincado junto com a jovem Ellen e se lembrava de seu lastimável acidente. Quando Christian perguntou do que se lembrava sobre Ellen como jovem, ela respondeu com um sorriso: “Bem, essa é uma história interessante que tenho prazer em contar. Tiago era mais ve- lho do que Ellen cerca de seis anos. Éramos jovens e andávamos juntos. A amizade deles era um modelo e uma inspiração para todos nós, e o casamento deles foi uma cerimônia muito bela e feliz.”5 Assim começou um notável casamento de 35 anos, alicerçado em amor mútuo e na con- vicção de que as visões de Ellen eram de ori- gem divina. Ellen Gould Harmon tornou-se a Sra. Ellen G. White, nome pelo qual se tor- nou conhecida como profetisa/mensageira da Igreja Adventista do Sétimo Dia. 52 CAPÍTULO 5 SEÇÃO II A Verdadeira Ellen White Mensageira, Esposa e Mãe “Mulher virtuosa, quem a achará? ... O coração do seu marido confia nela. ... A força e a dignida- de são os seus vestidos; ri-se do dia futuro. ... Levantam-se os seus filhos, e lhe chamam bem-aven- turada; o seu marido também, e a louva, dizendo: Muitas mulheres procedem virtuosamente, mas tu a todas és superior.” Prov. 31:10, 11, 25, 28 e 29.
  • 36. CAPÍTULO 5 MENSAGEIRA, ESPOSA E MÃE dem como lidar com suas próprias tensões e conflitos. Essas cartas têm-se tornado uma fonte de esperança e força para muitos casa- mentos modernos.17 A fidelidade mútua do casal superou, por- ventura, os solitários momentos de incom- preensão? Sem dúvida. Os anos futuros reve- laram um amor persistente e tenaz. Um ano depois, a saúde de Tiago começou a decair novamente. No fim de outubro de 1877, Ellen escreveu a seu filho William, e a Mary, esposa dele, em Battle Creek: “Queridos filhos: Esta noite estou cansada. Estou tentando escrever uma matéria para a revista [Health] Reformer. É difícil escrever muito, pois papai está tão solitário que eu te- nho de sair com ele e dedicar bastante tempo em sua companhia. Ele está bem disposto, mas fala pouco. Temos desfrutado alguns mo- mentos de oração muito preciosos. Cremos que Deus vai melhorar a saúde dele. Estamos com bom ânimo.”18 O Aniversário de Cinqüenta Anos de Ellen White Tiago ainda conseguia escrever, se bem que falasse pouco em público. Em home- nagem ao aniversário de cinqüenta anos de Ellen, ele escreveu estas palavras em Signs of the Times: “Hoje, 26 de novembro, a Sra. White completa 50 anos de idade. Ela se tornou uma cristã dedicada com a tenra idade de 12 anos e imediatamente uma obreira em prol de ou- tras jovens, sendo bem-sucedida em ganhá- las para Cristo. “Com a prematura idade de 17 anos, tor- nou-se poderosa oradora, capaz de prender a atenção de grandes auditórios por uma hora ou mais. Ela tem viajado e falado a grandes auditórios, alguns com até vinte mil pessoas [sic], desde o Atlântico até o Pacífico, em de- zoito Estados, além do Canadá. Seus traba- lhos públicos perfazem trinta anos. “Além desta grande obra, ela tem escrito bastante. Seus livros impressos atingem não menos que a soma de cinco mil páginas, sem contar os milhares de páginas de matéria epistolar endereçadas a igrejas e indivíduos. “E apesar desta grande obra, a Sra. White acha-se, em seu qüinquagésimo aniversário, tão ativa como nos primeiros tempos de sua vida, e mais eficiente em suas tarefas. Desfru- ta saúde excelente, tanto que, durante a reu- nião campal da última estação, conseguiu realizar tanto trabalho de pregação, exorta- ção e oração, como dois de nossos pastores mais capazes. ... “A Sra. White entra na segunda metade do século de sua vida com a confiante expec- tativa de passar a maior parte dele na praia perene.”19 Essas são palavras de um marido amoroso e agradecido. O serviço zeloso e dedicado de Ellen como companheira de Tiago, especialmente em tempos de doença e desânimo, é extraordiná- rio. No entanto, em certa ocasião em 1878, Tiago, na época com 58 anos de idade, embo- ra tentando manter um rigoroso programa de produção literária, não experimentou melho- ra física. Ellen escreveu a Mary, esposa de William: “Sou a constante companheira dele nos passeios e junto à lareira. Se eu saísse, me fechasse em um quarto e o deixasse inativo, ele ficaria nervoso e desassossegado. ... Ele depende de mim, e eu não o abandonarei em sua debilidade.”20 Na noite do dia 4 de abril, Ellen recebeu uma visão em que lhe foi mostrado o verdadei- ro estado de seu marido, visão cujos detalhes ela passou para o papel na manhã seguinte: “Querido esposo: Sonhei ontem à noite que um médico afamado entrava no quarto onde estávamos orando por você. Ele disse: ‘Orar é bom, mas viver de acordo com a ora- ção é melhor. Sua fé deve ser mantida pelas suas obras, do contrário é uma fé morta. ... “‘Você não é valente em Deus. Se há algu- ma inconveniência, em vez de acomodar-se às circunstâncias, ficará com o assunto (por pequeno que seja) em sua mente até que se satisfaça. Você não trabalha, portanto, pela fé. Ainda não tem fé verdadeira. Não faz mais que suspirar pela vitória. Quando sua fé for aperfeiçoada pelas obras, deixará de prestar atenção em você mesmo e deixará seu caso nas mãos de Deus, tolerando e suportando 55 M E N S A G E I R A D O S E N H O R O ministério profético de Ellen G. White tar]. Mas logo ficamos mais acostumados a is- so. Hoje estivemos escrevendo.”12 Algumas semanas depois, ela escreveu uma carta que revelava mais do seu humor bem como de seu amoroso relacionamento com Tiago. Parte da carta reza: “Escrevi-lhe uma carta bastante longa na noite passada, mas a tinta entornou deixando uma feia mancha e eu não a enviei. Recebemos ontem à noite em um cartão postal suas breves pala- vras: ‘Battle Creek, 11 de abril. Faz dois dias que não recebo uma carta sua. Tiago White.’ “Esta longa carta foi escrita por você mes- mo. Obrigada por sabermos que você está vi- vo. Nenhuma carta de Tiago White antes desta, desde 6 de abril de 1876. Estamos mui- to gratos por ter recebido no dia 9 de abril al- gumas linhas da irmã Hall, falando a seu res- peito. Tenho esperado ansiosamente alguma coisa para responder.” Segue depois uma extensa descrição das atividades do dia anterior navegando na Baía de São Francisco, cujas ondas encapeladas a fizeram lembrar dos discípulos no tempestuo- so Mar da Galiléia. Algumas linhas depois: “Eu escreverei cada manhã. ... Você fará o mesmo?”13 Vários dias depois, ela colocou por escrito a afeição que sentia por Tiago e a solidão que sentia quando ele estava fora: “Vamos todos bem e estamos alegres. Cada dia sentimos de- sejo mais intenso de ter maior proximidade com Deus. Esta é minha oração, quando me deito, quando desperto à noite e quando me levanto de manhã: Mais perto de Ti, meu Deus, mais perto de Ti.”14 Como a maioria das esposas maduras des- cobrem mais cedo ou mais tarde, no casa- mento há também momentos de tensão. Em 1876, Tiago, com 55 anos de idade, assumia responsabilidades extremamente pesadas co- mo presidente da Associação Geral e cons- tante conselheiro da obra de publicações. Uma de suas maiores preocupações era a de que poucos colegas eram tão veementes e co- rajosos ante os desafios como ele. Sendo um homem de ação, Tiago tinha a tendência de tornar-se ditatorial e exigente. Às vezes ele se sentia pouco apreciado. Ao experimentar os efeitos de diversos derrames e o avanço da idade, pensamentos de desânimo e ressenti- mentos o assaltavam. Pensamentos desani- madores transpareciam nas cartas que envia- va a sua esposa. Em 12 de maio de 1876, Ellen White, aos 48 anos, respondeu a uma dessas cartas: “Com respeito à minha independência, não tenho tido mais do que devia ter na questão, dadas as circunstâncias. Não recebo [aceito] seus pontos de vista nem interpretação dos meus sentimentos nessa questão. Eu entendo a mim mesma muito melhor do que você. As- sim, porém, deve ser, e não direi mais nada com respeito a esse assunto. Alegro-me de que eu esteja livre e feliz. Regozijo-me de que Deus me haja abençoado com liberdade, paz, alegria e coragem. ... Recorrerei a Deus em busca de orientação e procurarei agir na me- dida em que Ele me conduzir.”15 Quatro dias depois, ela escreveu: “Lamen- to haver dito ou escrito algo que o magoou. Perdoe-me, e serei cautelosa em não iniciar nenhum assunto que o aborreça ou aflija. Es- tamos vivendo num tempo muito solene e não podemos permitir que, em nossa velhice, existam entre nós diferenças que alienem nossos sentimentos. Talvez eu não consiga ver as coisas como você vê, mas não creio ser minha função ou dever procurar fazer você ver como eu vejo ou sentir como eu sinto. Onde agi assim, lamento. “Desejo ter um coração humilde e um es- pírito manso e tranqüilo. Em qualquer oca- sião em que eu tenha permitido que meus sentimentos se exaltassem, errei. ... “Desejo ter minha personalidade escondi- da em Jesus. Desejo que o próprio eu seja cru- cificado. Não reivindico infalibilidade nem mesmo a perfeição do caráter cristão. Não es- tou isenta de erros e equívocos em minha vi- da. Tivesse eu seguido a meu Salvador mais de perto, e não teria que lastimar tanto mi- nha dessemelhança com Sua querida ima- gem. ... Nunca mais escreverei em minhas cartas uma linha ou expressão para o angus- tiar. Outra vez, lhe peço, perdoe-me, cada pa- lavra ou ato que o magoou.”16 Tiago e Ellen escreveram suas tocantes cartas pessoais sem sequer imaginar que al- gum dia elas seriam lidas por outras pessoas. Obtemos nessas cartas discernimento inco- mum sobre a maneira como cristãos compro- metidos resolvem sua tensão conjugal e por meio delas outros maridos e mulheres apren- 54 SEÇÃO II A Verdadeira Ellen White
  • 37. CAPÍTULO 5 MENSAGEIRA, ESPOSA E MÃE do”. A esposa mensageira fez uma retrospec- tiva da vida que tiveram em comum: “Agora, que aquele de cuja afeição generosa eu de- pendera e com quem trabalhara por 36 anos, fora arrebatado, a única coisa que pude fazer foi pousar minha mão sobre seus olhos e di- zer: Confio-Te, ó Senhor, meu tesouro até a manhã da ressurreição.”27 Alguns dias depois do funeral, Ellen Whi- te escreveu a amigos íntimos: “A luz do meu lar se apagou e daqui por diante devo amá-lo [o lar deles] em consideração a ele [Tiago] que lhe dava tanta importância. ... Ele satisfazia seu gosto. Mas como posso considerá-lo como faria se ele estivesse vivo?”28 Quem quer que examine o relato de sua vida de casados há de concluir que este era um relacionamento extraordinário de duas pessoas extraordinárias. Cada um tinha uma vida pública, apesar de sua afeição fluir por meio de suas mensagens e ações de um para o outro. Embora vivendo no “Período Vitoria- no”, a dedicação cálida e perseverante de El- len ao marido estava muito distante de ser platônica. O apreço que ele tinha por ela era notório, apreço cuja profundidade qualquer mulher ficaria contente em experimentar. Depois de ser liberada de suas responsabi- lidades de esposa, Ellen passou a viajar cada vez mais extensamente. Sua produtividade li- terária aumentou, não apenas em quantida- de, mas também na profundidade de seus li- vros maiores. Tiago havia sido seu útil editor; ele jamais foi a fonte das mensagens dela. Mãe Mensageira Débora talvez seja a profetisa bíblica mais co- nhecida. Sua reputação era tão grande, seu julgamento e conselho tão respeitados, que até sua residência recebia o nome de “palmei- ra de Débora, entre Ramá e Betel”. Juí. 4:5. Ela era, porém, mais do que uma sábia juíza. Seus contemporâneos confiavam nela como “mãe em Israel”. Juí. 5:7. (Ver pág. 18.) Semelhantemente, os contemporâneos de Ellen White a consideravam como “mãe em Israel”.29 Conheciam-na como esposa e mãe incrivelmente atarefada, uma dona de casa que, como é sabido de todos, abria as portas de seu lar aos necessitados, órfãos e a quem quer que precisasse de um pernoite. Se relembrar- mos o modo como conquistou o respeito de seus contemporâneos, ao combinar seu papel de mãe com seus deveres públicos, isto nos ajudará a apreciar mais plenamente seu con- selho para as mães e os pais de hoje em dia. Mas que sucedia a seus filhos enquanto di- vidiam a mãe atarefada com outros que exi- giam cada vez mais de seu tempo e energias? Conforme mencionamos anteriormen- te, Tiago e Ellen tiveram quatro filhos, to- dos homens: Henry, nascido em 26 de agosto de 1847; Edson, nascido em 28 de julho de 1849; William, nascido em 29 de agosto de 1854; e John Herbert, em 20 de setembro de 1860. Herbert morreu com apenas três meses de vida, vítima de erisipela. A mãe de 33 anos de idade relembrou essa dolorosa experiên- cia: “Grande foi o sofrimento de meu querido bebê. Vinte e quatro dias e vinte e quatro noites cuidamos dele com ansiedade, empre- gando todos os remédios possíveis para seu restabelecimento e apresentando fervorosa- mente seu caso ao Senhor. Às vezes eu não conseguia dominar minhas emoções ao teste- munhar seu sofrimento. A maior parte do tempo passei-o em lágrimas e humildes súpli- cas a Deus.”30 Ela descreveu as horas finais da criança: “Meu bebê piorou. Ao ouvir-lhe a respira- ção difícil e sentir-lhe o pulso fraquíssimo, soube que ele iria morrer. Aquela foi uma hora de angústia para mim. A mão gelada da morte já repousava sobre ele. Observa- mos-lhe a respiração fraca e arquejante até que ela cessasse, e pude apenas sentir-me grata pelo fim de seus sofrimentos. Quando meu filho estava morrendo, não consegui chorar. No funeral, desmaiei. Embora meu coração doesse como se fosse quebrar-se, não consegui derramar uma lágrima. ... De- pois que voltamos do sepultamento, minha casa parecia solitária. Senti-me conformada com a vontade de Deus, apesar do abati- mento e pesar que sentia.”31 O primogênito de Ellen White, Henry, morreu com a idade de 16 anos. Ele havia se tornado o deleite dos pais bem como o de um grande número de amigos. Sua nobre voz em 57 M E N S A G E I R A D O S E N H O R O ministério profético de Ellen G. White qualquer coisa, não exatamente de acordo com os seus sentimentos. ‘“Todos os poderes da Terra não poderiam ajudá-lo a menos que você trabalhe em har- monia, exercitando a razão e o juízo e deixan- do de lado seus sentimentos e tendências. Você se encontra em um estado crítico.’” Depois o “médico afamado” foi mais espe- cífico: ‘“Seus próprios hábitos desordenados estão mantendo não somente você, mas tam- bém sua esposa afastados da obra para a qual Deus os chamou. ... “‘Você se sente tão temeroso de ter seu vigor diminuído que come mais do que o necessário, colocando no estômago quanti- dade maior do que o organismo poderia su- portar. Deve tomar alimento sólido e [deve] dedicar mais tempo à mastigação. Coma de- vagar e em quantidade muito menor. Dois ou três alimentos em uma refeição é tudo o que deve ser colocado no estômago. ... Vo- cê está morrendo por capricho e contudo não emprega suficientes esforços para efe- tuar uma mudança radical. ... Sua vida seria mais confiante se você fosse mais altruísta. Deus tem uma obra para você e sua esposa realizarem. Satanás diz: ‘Se eu tiver poder para dominar a mente, você não realizará a obra. Posso dominar tudo e amarrar a ambos com grilhões de ferro.’ ... Você tem condi- ções de levantar-se. Você pode lançar fora essa invalidez.’”21 O conselho funcionou. Ele se sentiu enco- rajado com a promessa: “Você tem condições de levantar-se. Você pode lançar fora essa in- validez.” O estressado Presidente da Associa- ção Geral concordou em ir a Battle Creek e colocar-se sob os cuidados do Dr. John Har- vey Kellogg. Em 24 de junho, Tiago escreveu para Ellen: “Estou escrevendo para dizer que estou bem melhor.” Parte de sua alegria era o resultado de haver encontrado um homem que podia taquigrafar, capacitando-o assim a fazer em “dois dias... trabalho que tomaria to- da uma semana”.22 Em princípios de julho, Tiago saiu com destino a sua cabana no Colorado juntamen- te com Dudley Canright e Mary White (William foi depois). Quando Ellen se juntou a eles em agosto, escreveu: “Encontrei o pa- pai melhor, sob todos os aspectos. O clima aqui está sempre fresco. ... O papai é nova- mente o mesmo em quase todas as coisas. Ele está sempre bem disposto.”23 Devido aos compromissos no Leste, Ellen White não permaneceu muito tempo no Co- lorado. Informando a Tiago e aos filhos dos acontecimentos de Battle Creek, ela escreveu com entusiasmo e sabedoria de esposa e mãe: “Não considerem este tempo de recreação como obrigação ou trabalho penoso. Esque- çam o trabalho. Abandonem a escrita. Vão ao parque e vejam tudo quanto possam. ... Li- vrem-se das preocupações, e voltem a ser ga- rotos livres de inquietações. ... Papai precisa ser um menino novamente. Caminhem a es- mo pelos arredores. Subam uma montanha íngreme. Montem a cavalo. Encontrem cada dia uma coisa nova para ver e desfrutar. Isto favorecerá a saúde de papai. Não desperdi- cem nenhum pensamento ansioso a meu res- peito. Vocês verão como estarei bem depois da reunião campal. ... Esforcem-se por fazer uns aos outros felizes.”24 Perto de 1880, o corpo cansado de Tiago pedia descanso ainda que sua cabeça conti- nuasse a planejar novas campanhas. Outros assumiram as principais responsabilidades de- le, embora a retirada não fosse fácil para o ge- neral. Numa carta a Ellen, datada de 18 de abril, ele escreveu: “Estou pensando nessas coisas com muito cuidado. Seja o que for que o Senhor lhe tenha mostrado a respeito do meu dever, tome tempo para passar isso cui- dadosamente para o papel e me dar uma idéia completa. ... Nós ambos vemos quanta coisa precisa ser feita no ramo literário, e nossos ir- mãos insistem constantemente conosco que saiamos a pregar. No temor de Deus, devemos tomar essa questão em nossas próprias mãos e ser nossos próprios juízes quanto ao que deve- mos fazer e quanto.”25 Em 6 de agosto de 1881, o “cansado guerreiro” morreu. A notícia abalou os ad- ventistas desde o Atlântico até o Pacífico. Ninguém podia passar em revista o desen- volvimento da Igreja Adventista sem pen- sar em Tiago White. As honras póstumas, mesmo daqueles de quem ele diferia, colo- cavam o valoroso líder da igreja na devida perspectiva.26 Embora extremamente doente, Ellen White ergueu-se de seu leito de enfermidade para enaltecer seu “forte, bravo e nobre mari- 56 SEÇÃO II A Verdadeira Ellen White
  • 38. CAPÍTULO 5 MENSAGEIRA, ESPOSA E MÃE eles com muita severidade, mesmo perante outros, o que destrói seus sentimentos e torna coisa comum receber censura por insignifi- câncias e equívocos, e coloca acidentes e lap- sos no mesmo nível que pecados e erros de verdade. Sua disposição se torna amarga e cortamos o cordão que nos une a eles e nos dão influência sobre eles. ... Temos estado em perigo de esperar que nossos filhos tenham uma experiência mais perfeita do que sua ida- de permite esperar. ... “Nossos filhos nos amam e se renderão à razão, e a bondade terá influência mais pode- rosa do que a reprovação insensível. O espíri- to e a influência que têm circundado nossos filhos exige que nós os restrinjamos, os afas- temos das companhias jovens e lhe neguemos os privilégios que os filhos geralmente desfru- tam. Se adotarmos em relação a essas coisas a conduta que devemos adotar, devemos sem- pre manter palavras e ações perfeitamente ra- zoáveis diante das crianças, para que sua re- flexão não fique amargurada com palavras ru- des ou pronunciadas de maneira ríspida. Isto deixa no espírito uma ferida ou aguilhão que lhes destrói o amor pelos pais e a influência que estes teriam sobre eles.”36 Para Ellen White, seus filhos eram priori- dade máxima.37 Seus apontamentos de diá- rio, cartas a outros e aos filhos, tudo indica sua interminável preocupação por eles, espe- cialmente pelo seu crescimento espiritual.38 Ela levava os defeitos deles bem como os de- la própria muito a sério. Depois de um encon- tro difícil com o jovem Edson, ela escreveu em seu diário: “Tive uma conversa com Ed- son. Senti-me excessivamente aflita, achan- do que isto não estava sendo conduzido de maneira sábia.”39 Algumas pessoas tem achado estranhas de- terminadas expressões empregadas por Ellen White em algumas cartas endereçadas aos fi- lhos em princípios dos anos 1860. Em seu ter- no amor, ela apelava à alma deles de muitas maneiras. Em 1860, ela falava a filhos com idades entre 6 e 13 anos. Procurando tornar claro o grande quadro, em linguagem simples, esta mãe de 33 anos de idade empregava às vezes linguagem que mais se parecia a taqui- grafia teológica, especialmente quando ela escreveu que o Senhor ama as crianças “que procuram agir corretamente”, mas “as crian- ças más Deus não ama”.40 Exatamente assim como devemos exami- nar alguns textos bíblicos difíceis dentro do contexto bíblico total, o mesmo deve ser fei- to com Ellen White. Em Deuteronômio 7:9 e 10, por exemplo, percebemos que Deus “retri- bui diretamente aos que O odeiam, para os destruir; não será remisso para quem O odeia, diretamente lhe retribuirá. Guardarás, pois, os mandamentos, os estatutos e os preceitos que Eu hoje te ordeno, para os cumprires.” Isto parece cruel, mas quando colocado no con- texto de toda a Bíblia (assim como Isa. 1:18- 20; Jer. 31:3; João 3:16 e 17; João 14-17), seu verdadeiro sentido se torna claro. Observe o contexto maior do conselho de Ellen White aos pais (1892): “Jesus desejaria que os pais e mães ensinassem a seus filhos... que Deus os ama, que a natureza deles pode ser transformada e posta em harmonia com Deus. Não ensinem a seus filhos que Deus não os ama quando procedem erroneamen- te; ensinem-os que Ele os ama tanto que Seu terno Espírito Se entristece quando os vê em transgressão, porque Ele sabe que eles es- tão prejudicando a própria alma. Não ater- rorizem seus filhos falando-lhes da ira de Deus, antes busquem impressioná-los com Seu inexprimível amor e bondade, permi- tindo assim que lhes seja revelada a glória do Senhor.”41 Em outras circunstâncias, ela tornou bem clara a diferença entre Deus amar uma pessoa e aprovar o que a pessoa faz.42 Em claros termos teológicos, ela expôs o fato de que o caráter determina o destino. Mesmo um Deus amoroso não remodelará o caráter das pessoas após a morte delas a fim de redimi-las.43 Apesar disso, quanta teologia uma criança de seis anos é capaz de entender? Deus enca- rou o mesmo desafio quando instruiu os israe- litas recém-libertados depois da saída do Egi- to. Ele empregou linguagem e métodos em 59 M E N S A G E I R A D O S E N H O R O ministério profético de Ellen G. White cântico era bem conhecida entre os colegas de trabalho da editora Review. No fim de no- vembro de 1863, ele apanhou um resfriado que se transformou em pneumonia. Foi trata- do com drogas venenosas – a sabedoria da medicina convencional. Ellen e Tiago ha- viam pouco tempo antes naquele ano utiliza- do a hidroterapia para ajudar dois de seus fi- lhos na luta contra a difteria, mas eles ainda não tinham consciência do valor dela no tra- tamento da pneumonia. Como era esperado, Henry piorou rapida- mente. Ele e seus pais falaram abertamente sobre a morte. Ele confessou livremente seus pecados. Sua fé tornou-se mais forte e sua confiança na vida eterna mais brilhante. Cer- ta manhã, ele disse: “Prometa-me, mamãe, que se eu morrer serei levado para Battle Creek e sepultado ao lado de meu irmãozinho John Herbert, para que possamos erguer-nos juntos na manhã da ressurreição.”32 Mais tarde, ele disse para o pai: “Pai, o se- nhor está perdendo seu filho. O senhor sen- tirá minha falta, mas não chore. É melhor para mim. Escaparei ao alistamento [para a Guerra Civil], e não testemunharei as sete últimas pragas. Morrer feliz assim é um pri- vilégio.”33 Durante suas horas finais, ele ditou mensa- gens de admoestação e segurança a seus jo- vens amigos de Battle Creek. Adélia Patten, uma amiga íntima da família e uma das auxi- liares de Ellen White, registrou-lhe os últi- mos momentos: “‘Mãe, eu vou encontrar vo- cê no Céu na manhã da ressurreição, pois eu sei que você vai estar ali.’ Então ele chamou seus irmãos, pais e amigos e deu em todos um beijo de despedida, após o que apontou para cima e sussurrou: ‘O Céu é doce.’ Essas foram suas últimas palavras.”34 Depois da morte de Henry, publicou-se um pequeno livro que incluía o sermão fúnebre fei- to por Uriah Smith, uma breve biografia, e mui- tas das freqüentes cartas que Ellen White en- viava a ele e a seus irmãos, especialmente quan- do ela estava viajando a serviço da igreja. Essas cartas deixam claro o motivo por que Henry pô- de morrer com essa paz e confiança em Jesus. Adélia Patten, que vivera no lar dos White por quase dois anos, ajudou a montar esse pe- queno livro, An Appeal to the Youth. Escreveu ela: “Elas [as cartas da Sra. White aos filhos] foram escritas apressadamente, destinadas apenas aos filhos, sem o pensamento de se- rem publicadas. Isto as torna ainda mais dig- nas de publicação, na medida em que reve- lam mais claramente as verdadeiras emoções e sentimentos de uma piedosa mãe.”35 Ao ler essas cartas de família, particulares e íntimas, estamos lendo o coração de uma jovem mãe, e depois de uma mãe amadureci- da, raramente revelado a outros. Como era de se esperar, os filhos dos Whi- te desenvolviam-se como todas as outras crianças. Precisavam aprender pela experiên- cia e conselho paterno como todas as outras crianças. Além disso, Tiago e Ellen precisa- vam aprender como ser pais à medida que os filhos se desenvolviam. Conselho Dado por Meio de uma Visão Em 1862, Ellen, na época com 35 anos de ida- de, e Tiago, com 41, procuravam empenhada- mente equilibrar as responsabilidades deles na igreja com o cuidado de seus três filhos, então com 15, 13 e 8 anos. Em uma visão, Deus in- terveio para dar aos pais alguns conselhos ne- cessários: “Foi-me mostrado com respeito a nossa família que temos falhado em nosso de- ver. Não os temos restringido. Temos sido de- masiado complacentes com eles, temos tolera- do que sigam suas próprias inclinações e dese- jos e permitido suas tolices. ... Temos ficado tão separados deles que, quando estamos em sua companhia, devemos trabalhar perseve- rantemente para ligar seu coração a nós a fim de que, quando estivermos ausentes, possamos ter influência sobre eles. Vi que devemos ins- truí-los com austeridade, e no entanto com bondade e paciência; tomando uma atitude serena. Satanás é diligente em tentar nossos filhos e levá-los a ser esquecidos e a condes- cender com tolices que podem deixar-nos de- salentados, pesarosos e depois fazer-nos tomar uma atitude de censurá-los e criticá-los num espírito que somente causa danos e os desani- ma, em vez de ajudá-los. “Vi que é um erro rir de suas expressões e feitos e então, quando erram, lançar-se sobre 58 SEÇÃO II A Verdadeira Ellen White
  • 39. CAPÍTULO 5 MENSAGEIRA, ESPOSA E MÃE 30. Spiritual Gifts, vol. 2, pág. 296, citado em Biography, vol. 1, pág. 430. 31. Ibidem. 32. An Appeal to the Youth, pág. 26, citado em Biography, vol. 2, pág. 71. 33. Appeal, pág. 29, citado em Biography, pág. 72. 34. Appeal, pág. 31, citado em Biography, pág. 71. 35. Appeal, pág. 19, citado em Biography, pág. 62. 36. Manuscrito 8, 1862. 37. “Apesar de as ansiedades decorrentes da obra de publicações e de outros ramos da causa me acarretarem grande perplexi- dade, o maior sacrifício que fui chamada a fazer relativamen- te ao trabalho foi ter que deixar meus filhos freqüentemente aos cuidados de outrem.” – Life Sketches, pág. 165. 38. Ver Jerry Allen Moon, W. C. White and Ellen G. White (Berrien Springs, MI: Andrews University Press, 1993), págs. 34-42. 39. Manuscrito 12, 1868. 40. Um exemplo das cartas de Ellen White endereçadas ao pe- queno William de 6 anos de idade revela a tentativa mater- na de dirigir-lhe a atenção para a obediência prazenteira: “Você deve ser um garotinho doce e bom, e deve gostar de obedecer a Jenny [Fraser] e Lucinda [Hall]. Submeta sua von- tade, e quando tiver muita vontade de fazer algo, pergunte: Será que isso não é egoísta? Você deve aprender a ceder sua própria vontade e caminho. Será uma lição dura para meu menininho aprender, mas no fim lhe será mais valiosa do que ouro.” [“Pela bênção de Deus e as instruções de sua mãe, Willie venceu o espírito impaciente que algumas vezes mani- festava quando jovem, possuindo agora uma disposição bas- tante carinhosa, amigável e obediente.” – A. P. P.] “Apren- da, meu querido Willie, a ser paciente, a esperar pelo tempo e conveniência dos outros; então você não mais ficará impa- ciente nem irritável. O Senhor ama as criancinhas que pro- curam fazer o que é certo. Ele promete que elas estarão em Seu reino. Mas as crianças más, Deus não ama. Ele não as le- vará para a bela Cidade, pois ali só entram as crianças boas, obedientes e pacientes. Uma criança irritada e desobediente estragaria toda a harmonia do Céu. Quando você se sentir tentado a falar de modo impaciente e irritado, lembre-se de que o Senhor está vendo e não o amará se você agir errado. Quando você faz o que é correto e domina esses sentimentos errôneos, o Senhor sorri para você. “Embora Ele esteja no Céu, e você não consiga vê-Lo, mesmo assim Ele o ama quando você faz o que é certo, e re- gistra isso no Seu livro. Mas quando você faz coisas erradas, Ele coloca uma marca negra contra você. Por isso, querido Willie, procure fazer sempre o que é correto, e nenhuma marca negra será registrada contra você. E quando Jesus vol- tar, Ele vai chamar o bom menino Willie White e vai colo- car sobre sua cabeça uma coroa de ouro, vai-lhe entregar uma pequena harpa para que você possa tocá-la e extrair de- la bela música. Você nunca mais ficará doente, nunca mais será tentado a fazer o que é errado. Ao contrário, será feliz para sempre; comerá saborosos frutos e colherá lindas flores. Por isso, querido filho, procure ser bom. Sua afeiçoada mãe.” – Ellen White, An Appeal, págs. 62 e 63. Uma olhada cuidadosa em toda a carta (e a maioria dos escritos sobre orientação de filhos) sugere fortemente que ao escrever a frase “crianças más, Deus não ama”, ela queria realmente dizer que as crianças que continuarem a ser “más” não serão levadas para o Céu. 41. Signs of the Times, 15 de fevereiro de 1892: “Seu coração [de Jesus] estende-se, não somente para as crianças bem-compor- tadas, mas para as que têm, por herança, traços objetáveis de caráter. Muitos pais não compreendem quanto são responsá- veis por esses traços em seus filhos. ... Mas Jesus olha essas crianças com piedade. Ele segue da causa para o efeito.” – O Desejado de Todas as Nações, pág. 517. 42. Ver nos Testemunhos Para a Igreja, vol. 2, págs. 558-565, uma impressionante carta a uma adolescente mimada. 43. Parábolas de Jesus, págs. 74, 84 e 123; Testemunhos Para a Igre- ja, vol. 2, págs. 355 e 356. 44. Observe a atitude do primogênito para com os pais e para com a própria morte – página 58. 45. Ver notas anteriores citando Signs, 15 de fevereiro de 1892, e O Desejado de Todas as Nações, pág. 517. 46. Lar Adventista, pág. 289. 61 M E N S A G E I R A D O S E N H O R O ministério profético de Ellen G. White nível do jardim de infância – inclusive a ilus- tração da caixa de areia no ritual do santuá- rio no deserto. Afinal, este era o único nível de linguagem que eles conseguiam entender. Algumas vezes a ameaça de desaprovação e castigo pode captar a atenção de uma criança de seis anos, bem como a dos israelitas recen- temente libertados, quando a “linguagem do amor” não surte efeito. Ellen White empregou ambos os métodos ao tratar com seus garotos, evidentemente com bons resultados.44 O registro contém nu- merosos exemplos em que ela falou aos filhos de um Deus amistoso, orando com eles em muitas ocasiões a respeito de seu crescimento espiritual. Se a jovem Ellen fosse confronta- da com a possível má interpretação de suas palavras, ela diria rapidamente, em essência, o que escreveu depois de maneira mais com- pleta: “O que quero dizer – e que creio que os garotos entenderam – era que Deus não per- doa a desobediência, ainda que Ele sempre ame os meninos e as meninas, bons ou maus. A desobediência traz conseqüências desastro- sas; e Deus, em Seu amor, não quer que as pessoas sofram por causa da desobediência.”45 Grande parte do conselho de Ellen White à igreja focaliza a importância do lar e a inegá- vel atmosfera em que os filhos devem desen- volver-se. Os livros O Lar Adventista e Orien- tação da Criança (compilações de centenas de páginas de seu diário, manuscritos e sermões) têm sido estudados com apreço por milhares de homens e mulheres. É difícil encontrar ou- tro escritor que tenha focalizado tão claramen- te ou de maneira tão vívida a elevada vocação de mães e de pais cristãos. Seus claros apelos a todos os pais para que compreendam a enorme responsabilidade que têm em conduzir os fi- lhos rumo ao Céu são notáveis. Ellen White dava conselhos somente de- pois de ela mesma os haver praticado. Por exemplo: “‘Oh’, dizem algumas mães, ‘meus filhos me atrapalham quando procuram aju- dar-me.’ Assim faziam os meus, mas vocês su- põem que eu permitia que eles o soubessem? Elogiem seus filhos. Ensinem-nos, manda- mento sobre mandamento, regra sobre regra. Isto é melhor que ler novelas, que fazer visi- tas, que seguir as modas do mundo.”46 Embora a Sra. White seja melhor conheci- da como importante figura pública, para aqueles que melhor a conheceram, ela era uma esposa e mãe cristã coerente, que manti- nha íntimo e terno relacionamento com seu marido e filhos. 60 SEÇÃO II A Verdadeira Ellen White Perguntas Para Estudo 1. Que evidência temos de que Ellen White foi uma dedicada esposa, sempre leal ao ma- rido Tiago? 2. Que circunstâncias podem ter levado Tiago White a lutar contra o desânimo no fim da vida? 3. Que tensões óbvias surgiriam hoje em uma família, se a esposa tivesse que assumir mui- tas responsabilidades públicas e fosse mais popular que o marido? 4. Que papel, se é que existe algum, Tiago White desempenhou em ajudar a preparar os livros de sua esposa para publicação? 5. Cite algumas das experiências que demonstram a íntima relação de trabalho existente entre Tiago e Ellen White. 6. Que se pode aprender da educação que Ellen White deu aos filhos na qualidade de mãe que trabalhava fora? Referências 1. Day Star, de 11 de outubro de 1845, citado em Charles W. Teel, Jr., ed., Remnant & Republic (Loma Linda, CA.: Center for Christian Bioethics, 1995), pág. 148. Ver também The Day Star, 11 de outubro de 1845, pág. 47. 2. Ronald Graybill, “The Courtship of Ellen Harmon”, Insight (Washington, D.C.: Review and Herald Publishing Associa- tion), 23 de janeiro de 1973, págs. 4-7; Virgil Robinson, James White (Washington, D.C.: Review and Herald Publishing As- sociation, 1976), págs. 33-39; Schwarz, Light Bearers to the Remnant, pág. 66; Biography, vol. 1, págs. 110-112. 3. Arquivo de Documento 733-c, do Patrimônio Literário White, citado em Biography, vol. 1, pág. 84. 4. Life Sketches, Ancestry, Early Life, Christian Experiences, and Extensive Labors of Elder James White, and his Wife, Mrs. Ellen G. White (Battle Creek, MI.: Seventh-day Adventist Publishing Association, 1888), págs. 131 e 132. 5. Lewis Harrison Christian, The Fruitage of Spiritual Gifts (Washington, D.C.: Review and Herald Publishing Associa- tion, 1947), pág. 50. 6. Ibidem, pág. 98. 7. James White, Life Sketches, pág. 126. 8. Christian, The Fruitage of Spiritual Gifts, pág. 99; Robinson, James White, págs. 111-115, 151-163, 207-218, 226-231; Spal- ding, Origin and History, vol. 1, págs. 43-55. 9. George Willard, em Memoriam, A Sketch of the Last Sickness and Death of Elder J. White (Battle Creek, MI: Review and He- rald Press, 1881), pág. 10, citado em Robinson, James White, pág. 302. 10. Christian, The Fruitage of Spiritual Gifts, pág. 111. 11. Emmett K. VandeVere, “Years of Expansion, 1865-1885”, Land, The World of Ellen G. White, pág. 67. 12. Carta 1a, 1876, citada em Biography, vol. 3, pág. 23. 13. Carta 5, 1876, citada em Biography, pág. 26. 14. Carta 6, 1876, citada em Biography, págs. 27 e 28. 15. Carta 25, 1876, citada em Biography, pág. 34. 16. Ibidem. 17. Ver Apêndice B para troca de correspondência em 1874, que revela tensão conjugal, que ambos superaram juntos na base do amor mútuo e da sua confiança em Deus. 18. Carta 25, 1877, citada em Biography, vol. 3, pág. 73. 19.SignsoftheTimes,6dedezembrode1877,citadoemBiography,pág.76. 20. Carta 4d, 1878, citada em Biography, pág. 81. 21. Carta 22, 1878, citada em Biography, págs. 82 e 83. 22. Ibidem, pág. 90. 23. Ibidem, pág. 93. 24. Carta 1, 1878, Biography, págs. 94 e 95. 25. Biography, pág. 193. 26. Ver o sermão fúnebre de Uriah Smith, citado em Biography, págs. 174 e 175. 27. Ibidem. 28. Carta 9, 1881, citado em Biography, pág. 177. 29. Uma carta dos adventistas noruegueses a Ellen White em seu 85o aniversário, assim começava: “Querida Mãe em Israel e Serva do Senhor!” – D. A. Delafield, Ellen G. White in Euro- pe (Washington, D.C.: Review and Herald Publishing Asso- ciation, 1975), pág. 319.
  • 40. parciais complexas. Depois de cuidadosa aná- lise do material biográfico e autobiográfico disponível, levando-se em conta o conheci- mento atual deste tipo de desordem convulsi- va, é nossa opinião que: (1) Não há evidên- cias convincentes de que Ellen G. White so- fria desta espécie de epilepsia. (2) Não há possibilidade de que crises parciais complexas tenham sido as responsáveis pelas visões da Sra. White ou seu papel no desenvolvimento da Igreja Adventista do Sétimo Dia.”5 Donald I. Peterson, M.D., autor de mais de sessenta artigos no campo da neurologia em revistas científicas, professor de neurolo- gia da Escola de Medicina da Universidade de Loma Linda e chefe de neurologia do Hos- pital Geral de Riverside, Califórnia, apresen- tou uma resposta mais ampliada. No livro Vi- sions or Seizures: Was Ellen White the Victim of Epilepsy?,6 ele examina determinadas afirma- ções de que Ellen Harmon sofrera severos da- nos cerebrais, de que suas “visões” eram típi- cas das crises parciais complexas, de que suas feições durante as “visões” eram típicas do distúrbio de crise parcial complexa (“automa- tismos”), etc. Nenhuma Forma de Incapacidade Mental Depois de examinar os aspectos técnicos das alegações, à luz dos conhecimentos médicos mais recentes, o Dr. Peterson negou taxativa- mente a existência de qualquer correlação do estado de Ellen White durante as visões ou sua prolífica capacidade literária (hipergra- fia) com qualquer indicação que sugerisse da- no cerebral e o resultante distúrbio de crise parcial complexa. Concluindo, ele diz: “Um exame cuidadoso de[ssas] teorias, à luz do re- gistro histórico, mostra que elas não conse- guiram provar que a ‘doença’ de Ellen White consistia numa grave contusão do lobo tem- poral ou que os fenômenos associados a suas visões fossem conseqüência da afecção de ataque parcial complexo. ... É a convicção deste pesquisador que se trata de uma mani- festação de verdadeiro dom profético, e não de alguma forma de epilepsia.”7 Depois do acidente ocorrido aos nove anos de idade, Ellen passou a ser incomoda- da com dores de cabeça, inflamação dos olhos e debilidade respiratória. A tuberculo- se a debilitou, e os médicos não lhe deram nenhuma esperança, a não ser de uma mor- te prematura. Hidropisia, uma afecção car- díaca, acometeu-a na maior parte de sua vi- da. Quando ela recebeu sua primeira visão, em dezembro de 1844, teve que ser transpor- tada numa cadeira de rodas para a casa de Elizabeth Haines. Não conseguia falar além de um sussuro.8 Ao ser convidada para relatar sua visão de dezembro em Poland, Maine, no fim de ja- neiro de 1845, estava afônica. Contudo, logo que começou a falar, todas as promessas que Deus lhe fizera de ser sempre a sua força se cumpriram. Ela falou em alto e bom som por aproximadamente duas horas, e sem fatigar- se.9 Esta experiência de forças restauradas no púlpito diante dos olhos daqueles que viram a maravilhosa transformação da fraqueza pa- ra o poder se repetiu muitas vezes em toda a extensão de seu longo ministério. Em princípios do verão de 1845, a debili- tada jovem Ellen teve uma visão extraordiná- ria: “Até essa época eu não conseguia escre- ver. Minha mão trêmula era incapaz de segu- rar a pena com firmeza. Estando em visão, um anjo me ordenou que eu escrevesse a visão. Tentei, e escrevi facilmente. Meus nervos se fortaleceram, e minha mão ficou firme.”10 Em 1854, grávida do terceiro filho, Ellen White, na época com 26 anos de idade, lu- tava contra problemas de saúde. Ela relem- bra: “Eu tinha dificuldades de respirar quan- do deitada e não conseguia dormir a não ser que ficasse em posição quase sentada. Surgi- ra sobre a minha pálpebra esquerda um tu- mor que parecia câncer. Fazia mais de um ano que ele vinha crescendo gradualmente a ponto de tornar-se bastante doloroso e afe- tar-me a vista.”11 Um “célebre médico de Rochester” forne- ceu-lhe um “colírio” depois de lhe dizer que, segundo seu prognóstico, o tumor era cance- roso. Mas depois de verificar seu pulso, ele afirmou que ela morreria de apoplexia antes que o câncer se desenvolvesse! Disse ele: “Você está com uma grave afecção cardíaca.” 63 M E N S A G E I R A D O S E N H O R O ministério profético de Ellen G. White E llen White não era uma supermulher, embora seu programa de atividades e suas realizações pareçam indicar que sim. Imagine alguém atravessar os Estados Unidos vinte e quatro vezes por volta de 1885, apenas 16 anos depois de as estradas de ferro Union Pacific e Central Pacific se en- contrarem perto de Ogden, Utah, em 1869!1 Lembre-se então que esta líder de igreja iti- nerante falava a grupos grandes e pequenos aonde quer que fosse. E escrevia! Quando ela morreu, deixou cerca de 100.000 páginas de material publicado e não publicado, tudo es- crito à mão. Supõe-se que ela seja “o terceiro escritor mais traduzido na história da literatu- ra, a escritora mais traduzida e, dentre os es- critores norte-americanos de ambos os sexos, também a mais traduzida”.2 Aqueles, porém, que a conheceram viam nela algo mais do que uma oradora pública de 1,57m de altura e uma escritora prodigiosa, incansável em sua dedicação vitalícia a cau- sas nobres. Conforme já observamos, ela era uma dona de casa ativa, esposa leal e mãe amorosa. Como tudo isso seria possível, se com a idade de nove anos os médicos lhe deram apenas alguns meses de vida, depois de com- plicações decorrentes de um golpe fatídico no rosto?3 Alguns têm sugerido que o traumatismo sofrido no início da sua vida atingiu o lobo temporal de seu cérebro. Esta lesão, especu- lam eles, ocasionou-lhe uma espécie de epi- lepsia conhecida como crise parcial comple- xa. Por sua vez, alegam que as visões de Ellen White eram devidas à epilepsia no lobo tem- poral, e não à revelação divina. Em resposta à acusação de que ela sofria de epilepsia do lobo temporal, oito professores da Escola de Medicina e Enfermagem na Universidade de Loma Linda, incluindo três neurologistas, mais um psiquiatra do Norte da Califórnia, estudaram as evidências dispo- níveis. Em 1984 eles escreveram um relatório intitulado: “Sofria Ellen White de Crises Par- ciais Complexas?”4 O relatório afirmava: “Diagnosticar um distúrbio de crise parcial complexa (epilepsia psicomotora ou do lobo temporal) não é algo muito fácil, mesmo com a ajuda de técnicas modernas como a eletroencefalografia e a gravação em vídeo. Portanto, o estabeleci- mento de um diagnóstico dessa natureza, re- troativo a uma pessoa falecida há quase 70 anos e, levando-se em conta que não existem registros médicos, só pode ser, na melhor das hipóteses, especulativo, vago e controverso. “Os recentes artigos e apresentações suge- rindo que as visões e escritos de Ellen White eram resultado de um distúrbio de crise par- cial complexa contêm muitas inexatidões. Raciocínio ambíguo e aplicação errônea dos fatos levaram a conclusões equivocadas. “Esta comissão foi apontada para avaliar a hipótese de que Ellen White sofria de crises 62 CAPÍTULO 6 SEÇÃO II A Verdadeira Ellen White Saúde Física “Busquei o Senhor, e Ele me acolheu; livrou-me de todos os meus temores.” Sal. 34:4.
  • 41. CAPÍTULO 6 SAÚDE FÍSICA gratíssima por haver passado por essa expe- riência porque me tornei mais familiarizada com meu precioso Senhor e Salvador. ... “Senti a princípio que não seria capaz de su- portar esta inatividade. Eu achava que me afli- giria por causa disso e às vezes as trevas me ro- deavam. Essa falta de conformação existiu no começo de meu sofrimento e desamparo, mas não demorou muito e vi que o padecimento fí- sico era parte do plano de Deus. Fiz uma cui- dadosa retrospectiva da história dos anos pas- sados e da obra que o Senhor me havia confia- do. Nenhuma vez Ele havia falhado comigo. Muitas vezes Se manifestara de maneira notá- vel. Nada encontrei no passado de que me pu- desse queixar. Compreendi que, qual fios de ouro, coisas preciosas haviam se entretecido em todas estas penosas experiências. “Então passei a orar fervorosamente e sem- pre obtive o doce conforto nas promessas de Deus: ‘Chegai-vos a Deus, e Ele Se chegará a vós.’ ‘Vindo o inimigo como uma corrente de águas, o Espírito do Senhor arvorará contra ele a sua bandeira.’”14 Por razões que somente Deus pode expli- car, Ellen White sofreu muito na vida. Ape- sar disso, ela foi uma mulher extraordinaria- mente produtiva e diligente, e de seu sofri- mento veio uma filosofia de sofrimento que tem sido uma sólida rocha para milhões. Seu livro A Ciência do Bom Viver, além de muitas centenas de cartas a pessoas que também pas- saram por grandes padecimentos físicos, ja- mais teria sido escrito se sua experiência pes- soal não tivesse provido o ambiente humano para os princípios divinos básicos. Uma coisa é certa: Ellen White nunca se va- leu do fato de sofrer muitas enfermidades físicas como meio para obter a piedade alheia. Ao contrário, quando outros a viam, com espírito alegre e resoluta determinação, enfrentar inten- sas adversidades físicas, cobravam ânimo.15 Sua vida de produção literária e ministério pessoal, mais suas extensas viagens públicas, são um forte argumento de como a vontade humana pode triunfar sobre as dificuldades fí- sicas na busca do plano de Deus para nossa vi- da. Em 1915, alcançar 87 anos de idade não era comum! Seu último escrito conhecido, uma carta (14 de junho de 1914), transborda de esperança e alegria cristãs.16 A causa de sua morte, conforme se registrou tanto no seu atestado de óbito como no registro do coveiro do cemitério, foi: “Miocardite crônica; (Fator concorrente primário) Astenia resultante da fratura intracapsular do fêmur esquerdo (13 de fevereiro de 1915); (Fator concorrente se- cundário) arteriosclerose.” 65 M E N S A G E I R A D O S E N H O R O ministério profético de Ellen G. White Algumas semanas depois, ela teve um der- rame cerebral, que deixou o seu braço e lado esquerdo inertes e sua língua dormente. Fize- ram-se orações por toda parte, mas a cura não veio. Não obstante, ela manteve sua confian- ça no amor de Deus. Sussurrou para Tiago: “‘Creio que vou me recuperar.’ Ele respon- deu: ‘Gostaria de poder acreditar nisso.’ Re- colhi-me naquela noite sem nenhum alívio, mas depositando minha firme confiança nas promessas de Deus. Não pude dormir, mas continuei orando em silêncio. Pouco antes do amanhecer, adormeci.” Quando ela despertou, seu marido “mal pôde compreender a princípio, mas quando me levantei, vesti-me e caminhei pela casa, ele testemunhou a mudança do meu sem- blante e glorificou a Deus junto comigo. Meu olho doente não doía mais. Em poucos dias o câncer desapareceu, e minha vista foi total- mente restaurada. A obra fora completa.” Seu médico declarou posteriormente que havia ocorrido uma “completa” mudança – um mistério além de sua compreensão.12 Reumatismo nos Tornozelos Dois anos depois, Ellen White escorregou no gelo, torcendo gravemente o tornozelo, e te- ve que andar de muletas durante seis sema- nas. O reumatismo acabou lhe atacando am- bos os tornozelos, importunando-a cruelmen- te até o dia da sua morte. Aos três meses de gravidez, em março de 1860, ela, juntamente com Tiago, estava se dirigindo para Iowa. O relato de Tiago na Review (6 de março) era convincentemente realista: “Deixamos Battle Creek às 15h, mu- damos de trem em Chicago à meia-noite, chegamos ao rio Mississippi às 7h da manhã, atravessamos o gelo a pé, andando atrás da bagagem que estava sobre um trenó puxado por quatro homens, visto que a camada de água congelada era fina demais para suportar o peso dos cavalos. Fiquei aliviado quando pi- samos o solo de Iowa.” Na primeira noite em Iowa, Ellen White ficou gravemente enferma, com vômitos e hemorragia. Mas prosseguiu, através da lama da primavera de Iowa, e pregou muitas vezes nas reuniões. Depois do nascimento de John Herbert, ela começou lentamente a recobrar as forças. Seis semanas depois do parto, ela comentou em uma carta endereçada a Lucinda Hall que esta- va tão fraca que subia as escadas de joelhos e que desabafava “de vez em quando em um bom choro” e achava que “isto me faz bem”. Mal completara três meses de idade, o bebê morreu. Os anos que Ellen White passou na Aus- trália foram os mais produtivos, não somente por haver ajudado a estabelecer um sólido programa educacional e evangelístico naque- le país novo, mas por haver escrito O Deseja- do de Todas as Nações, além de milhares de pá- ginas de cartas oportunas. Mas isso teve um preço! Suas enfermidades na Austrália foram devastadoras: “Fiz a longa viagem e participei da assembléia realizada em Melbourne. ... Pouco antes do término da reunião fui acome- tida de uma grave doença. Durante onze me- ses sofri de malária e inflamação reumática. Durante esse período passei pelos sofrimentos mais terríveis de toda a minha vida. Não con- seguia erguer os pés acima do solo sem sofrer grande dor. Meu braço direito, do cotovelo para baixo, era a única parte do corpo livre de dor. Os quadris e a espinha doíam constante- mente. Eu não conseguia ficar deitada em mi- nha cama de lona por mais do que duas horas de cada vez, embora eu estivesse deitada sobre almofadas de borracha. Eu me arrastava para uma outra cama semelhante para mudar mi- nha posição. Assim passavam as noites. ... Os médicos diziam que eu jamais voltaria a andar, e eu receava que minha vida se tornasse uma luta interminável contra o sofrimento.”13 Como se arranjou ela? Aqueles que a aju- daram puderam com gratidão confirmar suas reflexões posteriores: “Mas em tudo isto hou- ve um lado positivo. Meu Salvador parecia estar bem perto de mim. Eu sentia Sua santa presença em meu coração, e ficava agradeci- da. Esses meses de sofrimento foram os meses mais felizes de minha vida por causa da com- panhia de meu Salvador. Ele era minha espe- rança e minha coroa de regozijo. Sinto-me 64 SEÇÃO II A Verdadeira Ellen White 1. Manuscrito 16, 1885, citado em D. A. Delafield, Ellen G. White In Europe, pág. 25. Ver págs. 104 e 105. 2. Roger Coon, A Gift of Light (Washington, D.C.: Review and Herald Publishing Association, 1983), pág. 21. 3. Ao tratar do nariz quebrado e da hemorragia, Ellen White re- latou: “Os médicos acharam que era possível enfiar um fio de prata em meu nariz para manter sua forma [evidentemente sem anestesia], mas me disseram que isso seria de pouca utili- dade. Disseram que eu havia perdido tanto sangue e sofrera abalo nervoso tão grande que meu restabelecimento era mui- to improvável; disseram também que, ainda que eu melhoras- se, não conseguiria viver muito tempo. Fiquei quase reduzida a um esqueleto.” – Spiritual Gifts, vol. 2, pág. 9. No fim de 1840, ela ainda não havia melhorado: “Minha saúde decaiu rapidamente. Eu só conseguia falar em sussurros ou num tom de voz baixo. Certo médico disse que minha doença era uma tuberculose hidrópica; que meu pulmão direito estava perdido, e o meu esquerdo afetado. Seu prognóstico era o de que eu não viveria muito tempo, podendo até morrer subitamente. Eu sentia grande dificuldade em respirar deitada. Passava as noi- tes apoiada em um travesseiro, numa posição quase sentada. Despertava muitas vezes com a boca cheia de sangue.” – Ibi- dem, pág. 30. 4. Ministry, agosto de 1984, e referida em Advent Review, 6 de agosto de 1984. 5. Ibidem. 6. Boise, ID: Pacific Press Publishing Association, 1988. 7. Ibidem, págs. 26 e 27. 8. Spiritual Gifts, vol. 2, pág. 30; Arquivo de Documento No 230 (Patrimônio Literário White), J. N. Loughborough, “Some Individual Experiences”, pág. 44. 9. Spiritual Gifts, vol. 2, pág. 38. 10. Ibidem, pág. 60. Anos mais tarde, ela refletiu: “O Senhor me disse: ‘Escreve as coisas que Eu te disser.’ Quando comecei a fazer essa obra, eu era muito jovem. Minha mão, que era dé- bil e trêmula devido às enfermidades, tornava-se firme assim que eu apanhava a pena, e desde aqueles primeiros escritos, tenho tido condições de escrever. ... Essa mão direita dificil- mente tem sensação desagradável. Ela nunca se cansa.” – Ellen White, Manuscrito 88a , 1900, citado em Biography, vol. 1, págs. 91 e 92. 11. Life Sketches, pág. 151. 12. Biography, vol. 1, págs. 292 e 293. 13. Biography, vol. 4, págs. 31 e 32. 14. Manuscrito 75, 1893, citado em Biography, vol. 4, pág. 33. 15. Poder-se-iam citar numerosas ocasiões para indicar os di- versos problemas físicos que Ellen White suportou sem queixas. Enquanto esteve na Nova Zelândia em 1893, por exemplo, ela teve problemas com abcesso nos dentes. Ela sabia por experiência própria que era alérgica a analgésicos. Colhemos a história do seu diário de 5 de julho: “A irmã Caro [dentista] chegou à noite; está aqui em casa. Encon- Referências
  • 42. CAPÍTULO 6 SAÚDE FÍSICA Perguntas Para Estudos 1. Que dificuldades a longo prazo Ellen White teve que enfrentar em resultado da lesão fa- cial que sofreu com a idade de nove anos? 2. Se Ellen White foi chamada por Deus para ser Sua mensageira especial, por que Ele lhe permitiu passar por tantas dificuldades físicas e emocionais? 3. A julgar pelo relatório médico de 1844 sobre Ellen White, quais são, para você, as mais fortes evidências que rebatem a acusação de que ela sofria de ataque parcial complexo? 4. Descreva o estado físico de Ellen Harmon no fim de 1844. 66 trei-me com ela de manhã à mesa do desjejum. Ela pergun- tou: ‘A irmã está triste em me ver?’ Respondi: ‘É claro que é um prazer para mim encontrar a irmã Caro. Não tenho, porém, tanta certeza quanto a encontrar a senhora doutora Caro, dentista.’ “Às dez horas eu estava na cadeira, e em pouco tempo oi- to dentes foram arrancados. Fiquei contente de que o trabalho tivesse terminado. Não recuei nem gemi. ... Eu havia pedido ao Senhor que me fortalecesse e me desse graça para suportar o doloroso processo, e sei que o Senhor ouviu minha oração. “Depois que os dentes foram extraídos, a irmã Caro tre- mia como uma folha de álamo. Suas mãos estavam trêmulas, e ela sentia dores. ... Ela receava causar dor à irmã White. ... Mas ela sabia que devia fazer essa intervenção e prosseguiu.” O diário conclui com a paciente tornando-se atendente, quando Ellen White levou a Dra. Caro para uma cadeira e providenciou algo para refrescá-la. – Manuscrito 81, 1893, citado em Biography, vol. 4, pág. 98. 16. Testemunhos Para Ministros, págs. 516-520. SEÇÃO II A Verdadeira Ellen White
  • 43. ... Quem dera eu pudesse impressionar a to- dos com a importância de exercer fé momen- to após momento, hora após hora!... Se cre- mos em Deus, estamos armados da justiça de Cristo; apossamo-nos de Sua fortaleza. ... Queremos falar com nosso Salvador como se Ele estivesse justamente ao nosso lado.”6 Grandiosos assuntos como a justiça pela fé, a importância da razão convicta e desapai- xonada na reação do cristão ao evangelho e a responsabilidade de um “povo preparado” pa- ra cumprir a comissão evangélica nos últimos dias foram claramente definidos em publica- ções e assimilados na própria necessidade diá- ria que ela sentia de perdão e poder.7 Confiança quando o futuro era incerto. Ellen White foi o exemplo de alguém que confiava em Deus mesmo quando as circunstâncias ex- ternas pareciam sombrias. Típica de centenas de cartas e de seus muitos livros é uma passa- gem de uma carta a Tiago, seu marido, data- da de Washington, Iowa, 2 de julho de 1874: “Somos justificados em andar pela vista en- quanto isto é possível, mas quando não pode- mos mais ver o caminho claramente, então precisamos colocar nossa mão na mão de nos- so Pai celestial e deixar que Ele nos guie. Há, na vida de todas as pessoas, emergências nas quais não se pode nem seguir a vista nem confiar na memória ou experiência. Tudo que podemos fazer é simplesmente confiar e espe- rar. Honramos a Deus quando confiamos nE- le, pois Ele é nosso Pai celestial.”8 Amor, seu princípio motivador. A clara compreensão que Ellen White possuía do amor a tornou diferente da maior parte dos outros escritores religiosos anteriores ou pos- teriores à sua época. O amor (ágape) como um princípio, não um sentimento motivado por esperança de recompensa ou favor, per- meava seus escritos. Por exemplo: “O amor é um princípio ativo; conserva continuamente diante de nós o bem dos outros, refreando- nos de praticar atos desatenciosos, a fim de não falharmos em nosso objetivo de ganhar almas para Cristo. O amor não busca seus próprios interesses. Não levará os homens a ir após seu bem-estar e a satisfação do próprio eu. É o respeito que prestamos ao eu que tan- tas vezes estorva o crescimento do amor.”9 Religião prática (teologia aplicada). A reli- gião prática era outro tema sempre presente nos sermões e escritos de Ellen White. Para ela, religião era mais do que uma fonte de sentimento. Se a religião não motiva uma pessoa a estender a mão para ajudar os outros, sem esperança de lucrar alguma coisa, não vale nada. Se a religião não transforma a pes- soa de modo que ela produza o “fruto do Es- pírito” (Gál. 5:22) e reflita o caráter de Jesus, seu professo cristianismo não tem nenhum sentido. Para Ellen White, o cristianismo prático não era algo opcional; tinha tudo que ver com nossa preparação para a vida eterna. Es- crevendo a uma mulher que possuía graves defeitos, ela declarou: “A menos que isto seja vencido agora, jamais o será; e a irmã King não terá parte com o povo de Deus, nem um lar no Seu reino eterno. Deus não pode levá- la para o Céu como se encontra. Você estra- garia aquele lugar pacífico e feliz. “Que se pode fazer a seu favor? Pretende esperar até que Jesus volte nas nuvens do Céu? Será que Ele vai reformá-la inteiramen- te quando vier? Oh, não. Aquela ocasião não será para isso. O preparo deve ser feito aqui; toda a lapidação e polimento do caráter deve ser feito na Terra, nas horas de graça. Você deve preparar-se aqui; aqui devem ser dados os últimos retoques.”10 Relação entre religião e saúde. Ellen White compreendeu bem a relação existente entre a religião e a saúde da mente e do corpo, que o bem-estar de um afeta diretamente o estado do outro. Suas percepções específi- cas sobre este tema foram muito além do pensamento convencional. Por exemplo: “A religião pura e imaculada não é um sen- timento, mas a prática de obras de miseri- córdia e amor. Tal religião é necessária à saúde e felicidade. Ela penetra no poluído templo da alma e com um açoite expulsa os pecaminosos intrusos. ... Com isso vem a serenidade e calma. Aumenta a força física, mental e moral, porque a atmosfera do Céu, como um agente vivo, atuante, enche a alma.”11 Muitos identificam o capítulo “A Cura da Mente” no livro A Ciência do Bom Viver co- 69 M E N S A G E I R A D O S E N H O R O ministério profético de Ellen G. White A principal ênfase na vida de Ellen White, nascida de sua própria expe- riência e ampliada em suas visões, foi obter e pintar um quadro preciso do caráter de Deus. Ela viu corretamente que as grandes divisões religiosas através do tempo e espe- cialmente dentro da cristandade haviam de- senvolvido uma compreensão inadequada da Divindade. Consciência Espiritual No início de sua vida, ela foi vítima dos erros predominantes que se haviam alastrado por diversas igrejas dentro do protestantismo. A má compreensão do caráter de Deus, por exemplo, bem como do plano da salvação, es- tava por trás de sua confusão juvenil “sobre justificação e santificação”.1 Posteriormente, tendo sido ensinada que a soberania e justiça de Deus eram os temas centrais do cristianismo, ela desfrutava pouca paz e quase total falta de percepção de um Deus amigo.2 A doutrina do castigo eterno, produto do pensamento calvinista, que focalizava a sobe- rania de Deus em detrimento da responsabi- lidade humana, lançou sobre a jovem Ellen uma profunda angústia, tal como faz alguém que se espanta ante a idéia de um Deus que castiga pecadores para sempre.3 Uma teologia claramente posta em evidência. Quando a luz divina lhe ajudou a ler a Bíblia sem ser influenciada pelas falsas concepções prevalecentes nas igrejas de sua época, a ver- dade sobre Deus se tornou cada vez mais cla- ra. Seus escritos logo focalizaram a questão principal do grande conflito entre Deus e Sa- tanás: Como Deus realmente é?4 Em quem se pode confiar – em Deus, ou em Satanás? Uma clara representação do caráter de Deus. Junto com a teologia que captou o principal tema da Bíblia, veio uma nova e cativante representação de Deus, que a atraiu a um profundo e dinâmico relaciona- mento com seu amorável, misericordioso e amigável Senhor.5 Durante o terceiro Concílio Missionário Europeu, em Basiléia, Suíça, em 22 de setem- bro de 1885, ela apresentou aos obreiros uma de suas típicas palestras: “Sinto-me tão grata esta manhã de podermos confiar a guarda de nossa alma a Deus como nosso fiel Criador. Algumas vezes o inimigo me assedia pertinaz- mente com suas tentações e trevas quando es- tou prestes a falar ao povo. Sobrevém-me ta- manha sensação de fraqueza que me parece impossível permanecer diante da congrega- ção. Mas se eu me entregasse a esses senti- mentos e dissesse que não conseguiria falar, o inimigo alcançaria a vitória. Não ouso proce- der assim. Vou em frente, ocupo meu lugar no púlpito, e digo: ‘Jesus, apóio em Ti a minha alma desamparada; Tu não permitirás que eu seja confundida’, e o Senhor me dá a vitória. 68 CAPÍTULO 7 SEÇÃO II A Verdadeira Ellen White Características Pessoais “Confia no Senhor e faze o bem; habita na terra e alimenta-te da verdade. Agrada-te do Senhor, e Ele satisfará os desejos do teu coração.” Sal. 37:3 e 4.
  • 44. CAPÍTULO 7 CARACTERÍSTICAS PESSOAIS se viu como uma “escritora em torre de mar- fim”, distante do mundo onde se travavam as batalhas espirituais a respeito das quais ela escrevia. Jovens e idosos encontraram a Jesus por meio de seu ministério pessoal. Um de seus contemporâneos escreveu: “Minhas lembran- ças da irmã White é que jamais em minha vi- da conheci uma mulher que parecesse tão completamente consagrada ao Senhor Jesus. Ele parecia ser para ela um amigo pessoal, que ela conhecia, amava e em quem confiava. Ela encontrava grande alegria em falar sobre Je- sus; e todas as pessoas mais jovens concordam que houve, pelo menos, uma jovem que vi- veu muito próximo do Senhor e que, de ma- neira sincera e prática, procurou de todo o seu coração seguir a Jesus.”18 Uma viagem a Vergennes, Michigan, em junho de 1853, é lembrada por algo mais do que ficar “perdido” numa estrada bastante conhecida pelo condutor da carruagem. Per- to da noitinha, depois de um longo dia de jornada sem água e sem alimento, Tiago e El- len White ficaram muito contentes em en- contrar uma solitária cabana feita de troncos e, nela, a dona da casa. Enquanto refazia as suas forças, a Sra. White falou com a hospi- taleira anfitriã a respeito de Jesus e lhe deu de presente um exemplar de seu primeiro li- vro Experience and Views. Durante anos, os acontecimentos desse dia não pareciam ape- nas estafantes mas sem sentido. Mas em 1876, numa reunião campal realizada em Lansing, Michigan, a dona de casa daquela cabana, mais de vinte anos antes, apertou a mão de Ellen White e relembrou o primeiro encontro de ambas. Em seguida, ela apresen- tou a Sra. White a um grupo de adventistas do sétimo dia, os quais haviam começado sua nova comunhão com o Senhor depois da lei- tura de Experience and Views. A dona de ca- sa havia contado aos vizinhos dispersos sobre esta senhora viajante que lhe “falara de Jesus e das belezas do Céu, e as palavras tinham tanto fervor que ela ficou encantada e jamais as esqueceu”.19 Apelos em Reuniões Campais Os apelos que Ellen White fazia em reu- niões campais, de costa a costa, tornaram-se tradicionais. Em 1884, por exemplo, com a idade de 56 anos, ela falou em quatro reu- niões campais. Sobre a reunião em Jackson, Michigan, o redator Uriah Smith relatou na Review que em várias ocasiões entre 200 e 350 pessoas atenderam ao apelo da Sra. White de irem à frente para orações. “Havia profun- da emoção e, embora sem agitação ou fanatis- mo, visível atuação do Espírito de Deus no coração”, escreveu Smith.20 Durante sua visita à Inglaterra em 1885, Ellen White foi convidada a falar para um auditório de 1.200 pessoas na prefeitura de Grimsby. Seu tema foi “O Amor de Deus”. Mais tarde, ela escreveu: “Procurei apresentar as coisas excelentes de Deus de maneira a di- rigir-lhes a mente da Terra para o Céu. Mas pude apenas admoestar e rogar, e exaltar Je- sus como o centro de atração, e um Céu de bem-aventurança como a recompensa eterna do vencedor.”21 Em 1885, Cecile Dahl, uma norueguesa, serviu como intérprete da Sra. White en- quanto ambas faziam uma excursão de seis se- manas pela Alemanha e países escandinavos. A Srta. Dahl era uma das muitas pessoas que a oradora levara para o Senhor. Ellen White estava sempre pronta a com- partilhar a verdade sobre Deus e a salvação, mesmo quando isso exigia uma reação agres- siva. Em uma viagem por mar, costa acima, de São Francisco a Portland, em junho de 1878, ela entreoviu um passageiro, um pastor, dizendo que “era humanamente impossível guardar a lei de Deus; que o homem nunca a guardou e jamais conseguiria guardá-la. ... Pessoa alguma iria para o Céu guardando a lei. Para a Sra. White tudo é lei, lei; ela crê que devemos ser salvos pela lei, e ninguém pode ser salvo a menos que guarde a lei.” Ressentida com a maneira injusta como era acusada, Ellen White achou que o grupo que ouvia esse pastor devia ouvir as correções necessárias. Encontrando um momento apro- priado, disse ao pastor: “Esta é uma falsa afir- mação. A Sra. White nunca viu as coisas des- se modo.” Então desenvolveu a história bíblica da lei 71 M E N S A G E I R A D O S E N H O R O ministério profético de Ellen G. White mo abrindo novo território. O capítulo ini- cia-se com o seguinte parágrafo: “Muito ínti- ma é a relação que existe entre a mente e o corpo. Quando um é afetado, o outro se res- sente. O estado da mente atua muito mais na saúde do que muitos julgam. Muitas das doenças sofridas pelos homens são resultado de depressão mental. Desgosto, ansiedade, descontentamento, remorso, culpa, descon- fiança, todos tendem a consumir as forças vi- tais, e a convidar a decadência e a morte.”12 Sua compreensão da causa do sofrimento e da morte. Os conselhos de Ellen White a respeito da causa do sofrimento e da morte não foram apenas profundos; eles têm resistido à prova de um século como um fiel reflexo da mente de Deus. Ela afirmava que “doença, sofrimento e morte são obra de um poder antagônico. Sata- nás é o destruidor; Deus, o restaurador”.13 Qual é, pois, a causa da enfermidade? Uma resposta era: as leis de Deus foram violadas por nossos antepassados ou por nós mesmos. Ela era inequívoca: “Quando Cristo curava a doença, advertia a muitos dos enfermos: ‘Não peques mais, para que te não suceda alguma coisa pior.’ João 5:14. Assim Ele ensinava que haviam trazido sobre si mesmos a doença transgredindo as leis de Deus, e que a saúde podia ser preservada unicamente pela obe- diência.”14 O sofrimento, além da doença devida à negligência das leis físicas, também é causado por Satanás e não pela deliberada interven- ção de Deus. Em muitas ocasiões ela reforçou o ensino de Jesus sobre este ponto. Em 1883, ela escreveu a respeito de um pequeno grupo de novos crentes em Ukiah, Califórnia: “Nosso coração se alegra ao vermos este pe- queno centro de conversos à verdade avan- çando passo a passo, tornando-se mais forte em meio à oposição. Eles estão se tornando mais familiarizados com o aspecto do sofri- mento na religião. Nosso Salvador advertiu a Seus discípulos que eles seriam desprezados por causa do Seu nome. ‘Bem-aventurado sois quando, por Minha causa, vos injuriarem e vos perseguirem, e, mentindo, disserem to- do mal contra vós.’”15 Seus ensinos a respeito da causa da morte, bem como do sofrimento, fluíram do quadro geral do grande conflito entre Deus e Sata- nás: “É verdade que todo sofrimento é resul- tado da transgressão da lei divina, mas esta verdade fora pervertida. Satanás, o autor do pecado e de todas as suas conseqüências, le- vara os homens a considerarem a doença e a morte como procedentes de Deus – como cas- tigos arbitrariamente infligidos por causa do pecado.”16 Rápida em reconhecer os próprios erros. Ellen White era bastante rápida em confes- sar seus erros e buscar perdão. Ela conhecia muito bem a paz decorrente do perdão e era rápida em aliviar os outros do peso do remor- so e da culpa. Baseado em sua própria expe- riência e refletindo a instrução divina, deu ela este conselho: “Não é louvável falar de nossa fraqueza e desânimo. Que cada qual di- ga: ‘Aflige-me ter cedido à tentação, e que minhas orações sejam tão débeis, minha fé tão fraca. Não tenho desculpa a apresentar por ser anão em minha vida religiosa. Mas estou procurando obter a plenitude do cará- ter de Cristo. Tenho pecado, e todavia amo a Jesus. Tenho caído muitas vezes, e no entan- to Ele me estendeu a mão para salvar-me. Contei-Lhe tudo acerca de meus erros. Te- nho confessado com tristeza e vergonha tê- Lo desonrado. Tenho olhado a cruz, dizendo: Tudo isso Ele sofreu por mim. O Espírito Santo me mostrou minha ingratidão, meu pecado em expor Cristo à ignomínia. Aque- le que não conhece pecado perdoou o meu pecado. Ele me chama para uma vida mais alta, mais nobre, e eu prossigo para as coisas que diante de mim estão.’”17 Incansável ganhadora de almas. Os contem- porâneos de Ellen White sabiam que ela era uma incansável ganhadora de almas. Eles ob- servavam sua vida diária; recebiam suas car- tas fervorosas. Seus vizinhos e companheiros de viagem eram abençoados por suas úteis iniciativas. Na verdade, a constante e presti- mosa preocupação que ela sentia pelo bem- estar espiritual dos outros se tornaram uma característica definida de sua vida. Ela nunca 70 SEÇÃO II A Verdadeira Ellen White
  • 45. CAPÍTULO 7 CARACTERÍSTICAS PESSOAIS sou aceita pelo Senhor. ... Tenho sentido ser imperioso que a verdade se manifeste em mi- nha vida, e que meu testemunho seja dirigido ao povo. Quero que faça o que estiver ao seu alcance para que meus escritos sejam postos nas mãos do povo nas terras estrangeiras. ... Tenho a impressão de ser meu dever especial dizer essas coisas.”32 Alguns dias antes de sua morte, uma ami- ga comentou sua alegria. Ela replicou: “Fico feliz de que você me tenha encontrado assim. Não tenho tido muitos dias tristes. ... O Se- nhor tomou providências e dirigiu todas essas coisas para mim, e estou confiante nEle. Ele sabe quando tudo isto acabará.” “Sim”, disse a visitante, “vai acabar logo, e nós vamos encontrar você no reino de Deus e ‘falarmos sobre tudo o que passamos’, como você escreveu em uma de suas últimas cartas.” Ao que ela replicou: “Oh, sim, parece bom demais para ser verdade, mas é verdade!” Suas últimas palavras ao filho e a Sara, sua enfermeira, foram: “Eu ‘sei em quem tenho crido’.”33 Capacidade Mental Embora não fosse mulher de instrução for- mal, Ellen White era uma pessoa que apro- veitava toda oportunidade para aumentar seu banco de informações e discernimento. Já fi- zemos menção ao traumatismo que deixou seu rosto marcado (págs. 48, 62 e 63), inci- dente que, conforme ela confessou depois, “iria afetar toda a minha vida”.34 Ela nunca mais pôde voltar a freqüentar a escola, contu- do sua busca inata de conhecimento a levou a reunir uma biblioteca pessoal e profissional que, ao tempo de sua morte, totalizava mais de 800 volumes.35 Quando ela vivia em Bat- tle Creek, utilizava livremente a biblioteca da Review and Herald Publishing Company. Na qualidade de mãe e esposa, ela e seu marido leram livros edificantes um para o ou- tro ou para os filhos, como, por exemplo, A História da Reforma do Século Dezesseis, de D’Aubigné.36 Ellen era uma ávida leitora de revistas re- ligiosas. Depois que Uriah Smith, veterano redator da Review and Herald, terminava de ler os periódicos que vinham para seu escritó- rio, ele os passava para ela a fim de mantê-la informada a respeito da marcha dos aconteci- mentos religiosos e políticos.37 A completa magnitude de sua produção li- terária, aliada às centenas de sermões que fo- ram transcritos, indica capacidade mental ex- traordinária. Apesar de na maioria das vezes estar com extrema falta de tempo e em cir- cunstâncias desfavoráveis, ela ainda era capaz de apresentar pessoalmente ou por escrito mensagens convincentes e interessantes. Experiências Comoventes Ellen White era uma mulher extraordinaria- mente sensível, aberta a todas as emoções hu- manas. A capacidade que ela possuía de ver- balizar suas diversas experiências indica uma aptidão incomum para a empatia, quer a ex- periência fosse triste, quer alegre. Sempre uma amante do belo, sua reação emocional aos espetaculares Alpes, às Mon- tanhas Rochosas do Colorado, a um pôr-do- sol na Noruega ou à Catedral de Milão reve- la uma profundidade de apreciação do belo que permeia seus escritos. No verão de 1873, por exemplo, os White foram ao Colorado para umas férias bastante atrasadas. Ela relembra: “Gosto muito das co- linas, das montanhas e das luxuriantes flores- tas de pinheiros. Gosto muito dos regatos, das correntes velozes de água que se precipitam, borbulhantes, sobre as rochas por entre os desfiladeiros, junto às encostas das monta- nhas, como se estivessem a cantar um alegre hino de louvor a Deus. ... “Aqui nas montanhas avistamos os cre- púsculos mais magníficos, mais repousantes e agradavelmente coloridos que já tivemos o privilégio de contemplar. O imponente qua- dro do pôr-do-sol, pintado pelo grande Artis- ta-Mestre, sobre a tela cambiante e matizada do firmamento, desperta em nosso coração amor e a mais profunda reverência a Deus.”38 Depois de um pôr-do-sol no início do in- verno na Noruega, ela escreveu: “Fôramos fa- vorecidos com o cenário do mais deslum- brante pôr-do-sol que tive o privilégio de ver. 73 M E N S A G E I R A D O S E N H O R O ministério profético de Ellen G. White como o espelho que mostra o pecado e Jesus como o Advogado que nos perdoa. “Pastor Brown, tenha a bondade de nunca mais tor- nar a fazer as afirmações errôneas de que não confiamos em Cristo para a salvação, mas confiamos na lei para ser salvos. Jamais escre- vemos uma palavra sequer nesse sentido, tampouco ensinamos semelhante teoria. Cre- mos que nenhum pecador pode ser salvo em seus pecados (e pecado é a transgressão da lei), enquanto vocês ensinam que o pecador pode ser salvo enquanto transgride conscien- temente a lei de Deus.” Recapitulando este incidente em um arti- go de Signs, Ellen White fez referência às pa- lavras de Cristo em Seu Sermão da Monta- nha: “Cristo mostra aqui o objetivo de Sua missão: mostrar por Seu exemplo ao homem que Ele era capaz de ser inteiramente obe- diente à lei moral e regular Sua vida por seus preceitos. Essa lei foi exaltada e honrada por Jesus Cristo.”22 Dois dias depois de seu sexagésimo oitavo aniversário, em 1895, Ellen White falava a um auditório numa reunião campal em Ho- bart, Tasmânia, e estava terminando um de seus sermões com um chamado ao altar. Grande parte do auditório veio à frente. Mas ela não ficou satisfeita. Ela buscava almas. Descendo da plataforma, dirigiu-se aos ban- cos de trás onde cinco jovens estavam senta- dos. Com sua maneira tranqüila, ela os con- vidou a entregarem o coração a Jesus. Todos os cinco o fizeram, e diversos outros jovens se uniram a eles enquanto eles se encaminha- vam para a frente em sua decisão de fazer de Jesus o seu Mestre.23 Claras prioridades. As pessoas podem ser julgadas pelos seus “desejos”. Ellen White re- petia muitas vezes sua “lista de desejos”: “De- sejo ser semelhante a Ele. Desejo praticar Suas virtudes.”24 “Desejo achar-me entre aqueles que terão seu nome escrito no livro e serão libertados. Desejo a recompensa do vencedor.”25 “Desejo meu tesouro no Céu.”26 “Desejo ser semelhante a Ele. Desejo estar com Ele pelos intermináveis séculos da eter- nidade.”27 “Desejo conhecer cada vez mais a Palavra de Deus e as Suas obras.”28 “Desejo ter um lar junto aos remidos, e desejo que vo- cê tenha um lar ali.”29 Confiança permanente. Na última parte dos seus oitenta anos (proeza pouco comum no início da década de 1900), Ellen White continuava a tomar parte ativa na elabora- ção de livros. Andava livremente por sua ca- sa em Elmshaven, sendo capaz de subir e des- cer escadas sem a ajuda de ninguém. Podia- se muitas vezes ouvi-la cantar um antigo hino adventista, “Uma Pátria Melhor”, es- crito por William H. Hyde. A letra do hino foi composta depois que Hyde ouviu a irmã White descrever sua primeira visão na pri- mavera de 1845. Muitas vezes ela se demora- va na última parte: “Dentro em breve estaremos ali, Reunidos aos puros, no gozo; Palmas, vestes, coroas teremos E pra sempre o eterno repouso.”30 Em 13 de fevereiro, Ellen White tropeçou e caiu ao entrar em seu escritório. Os raios X revelaram uma “fratura intracapsular do fê- mur esquerdo na junção entre a cabeça e o colo do osso”, uma lesão dolorosíssima, espe- cialmente sem os modernos medicamentos que suprimem a dor. Quando lhe pergunta- ram se sentia dor, ela respondeu: “Não é tão doloroso, mas não posso dizer que seja con- fortável.” Semanas depois, quando tornaram a lhe perguntar como se sentia, ela replicou: “Sinto-me bem... em alguns aspectos.” Seu longo hábito de andar com o Senhor fazia to- da a diferença.31 A Última Visão Ellen White teve sua última visão no dia 3 de março de 1915. Fazendo um resumo da visão, ela disse ao filho William C. White: “Há li- vros de vital importância que não são olhados por nossos jovens. São negligenciados por não lhes parecerem tão interessantes como certas leituras leves. ... Devemos escolher li- vros que os estimulem à sinceridade de vida, e os levem a abrir a Palavra. ... Não espero vi- ver muito. Minha obra está quase concluída. Diga aos nossos jovens que eu quero que mi- nhas palavras os animem naquela maneira de viver que mais atrativa será aos seres celestes, e que sua influência sobre os outros seja eno- brecedora. “Não tenho nenhuma certeza de que mi- nha vida se prolongue muito, mas sinto que 72 SEÇÃO II A Verdadeira Ellen White
  • 46. CAPÍTULO 7 CARACTERÍSTICAS PESSOAIS Mediante o relato dessa experiência, obte- mos um vislumbre da maneira como se er- gueu ela desse profundo poço de desânimo. Ela se arrependeu de ter ficado tão desalenta- da. Lembrou-se de que seu primeiro desejo era “seguir a Cristo e ser semelhante a Ele. Algumas vezes, porém, desfalecemos sob as aflições e nos distanciamos dEle. Os sofri- mentos e as provações nos aproximam de Je- sus. A fornalha consome a escória, fazendo reluzir o ouro.”43 Em Rochester, Nova Iorque, no fim de 1854, a Sra. White estava grávida de sete me- ses de seu terceiro filho. Mas outros proble- mas a defrontavam diariamente. Obreiros preeminentes de Rochester estavam morren- do de tísica pulmonar (tuberculose). O mari- do Tiago parecia estar desfalecendo também, não só devido aos sintomas da tísica pulmo- nar, mas também devido à falta de compreen- são dos colegas de trabalho, além do esforço excessivo de suas costumeiras viagens, prega- ções e produção literária. Procure imaginar a ampla gama de preocupações que enfrentava essa jovem mãe e esposa! “As provas se intensificaram ao nosso re- dor. Grande era a nossa preocupação. Os tra- balhadores do escritório hospedavam-se co- nosco, e nossa família cresceu de quinze para vinte pessoas. As grandes assembléias e as reuniões de sábado eram realizadas em nossa casa. Não tínhamos sábados tranqüilos, pois algumas das irmãs geralmente ficavam todo o dia com suas crianças. Nossos irmãos e irmãs geralmente não tomavam em consideração a inconveniência, preocupações e despesas ex- tras que nos acarretavam. Visto que os traba- lhadores do escritório, um atrás do outro, vol- tavam para casa doentes, precisando de aten- ção extra, eu receava sucumbir de ansiedade ou preocupação. Pensei muitas vezes que não conseguiria mais suportar; apesar disso as pro- vações aumentavam.” Que faz uma jovem mãe de dois filhos e grávida de sete meses, em tais circunstâncias? “Descobri com surpresa que não fôramos es- magados. Aprendemos a lição de que se pode suportar muito mais sofrimento e provação do que se julgava possível. Os olhos vigilan- tes de Deus estavam sobre nós, providencian- do para que não fôssemos destruídos. ... Se a causa de Deus fosse unicamente nossa, pode- ríamos ter tremido; mas ela estava nas mãos dAquele que diz: ‘Ninguém pode arrebatá-las das mãos de Meu Pai.’ Jesus vive e reina.”44 Nas semanas que precederam à assembléia da Associação Geral realizada em Mineápo- lis, em 1888, Ellen White ficou apreensiva com a “incredulidade e resistência à reprova- ção” que predominava contra seu ministério, em grande parte desenvolvida enquanto ela estava na Europa, entre 1885 e 1887: “Os ir- mãos parecem não ver além do instrumento. ... Também me fora dito [em visão] que o tes- temunho que Deus me havia dado não seria recebido porque o coração daqueles que ha- viam sido reprovados não se encontrava em estado de humildade capaz de ser corrigido e receber reprovação.” O desânimo parecia esmagá-la, e ela ficou muito doente. Relembrando o acontecimen- to, ela escreveu: “Eu não sentia desejo de res- tabelecer-me. Não tinha forças sequer para orar, nem tinha vontade de viver. Descansar, apenas descansar, era meu desejo, aquietar- me e descansar. Enquanto permaneci durante duas semanas em depressão nervosa, eu tinha esperança de que ninguém suplicasse ao tro- no da graça em meu favor. Quando veio a cri- se, a impressão era a de que eu morreria, e as- sim também pensava eu. Mas esta não era a vontade de meu Pai celestial. Minha obra ainda não estava concluída.” Reagindo ao Desânimo De que modo Ellen White reagiu ao opressi- vo desânimo? Do modo como fizera muitas vezes no passado: “Andar pela fé contra toda as aparências era exatamente o que o Senhor exigia que eu fizesse.”45 “Andar pela fé contra todas as aparên- cias.” Este era o conselho que ela procurou seguir durante toda a sua vida e era muitas vezes o conselho que ela dava aos outros. Em uma palestra matutina proferida na Assem- bléia de Mineápolis, em 19 de outubro de 1888, ela falou de comprovada experiência: “Vocês dizem: ‘Como posso falar de fé, como posso ter fé, quando as nuvens e as trevas, e o desânimo se apoderam de minha mente? Eu não sinto como se eu pudesse falar de fé; eu não sinto possuir nenhuma fé sobre a qual fa- lar.’ Mas por que se sentem dessa maneira? É porque permitem que Satanás lance negras 75 M E N S A G E I R A D O S E N H O R O ministério profético de Ellen G. White A linguagem é inadequada para pintar sua be- leza. Os últimos raios do sol poente, na colora- ção de prata e ouro, púrpura, âmbar e carme- sim, espalhavam seu esplendor pelo Céu, sem- pre mais brilhante, elevando-se mais e mais até dar a impressão de que os portais da cidade de Deus tivessem sido deixados semi-abertos e esplendores da glória interior brilhassem atra- vés deles.” Esta magnífica experiência precisou de duas páginas para ser registrada.39 Conheceu o Desânimo Ao cumprir seu papel como mensageira de Deus, Ellen White conheceu a desolação que acompanha o desânimo. Por toda a sua vida, o desânimo, de vez em quando, agitava com de- pressão temporária. Não resta dúvida de que sua debilidade física, sua afecção cardíaca e proble- mas respiratórios a tornaram suscetível ao desâ- nimo. O fato de ser uma mensageira do Senhor, que lutava no campo de batalha do conflito cósmico em posto mais avançado que seus con- temporâneos, também provocava os constantes ataques de Satanás. Como se relacionava ela com essa negra sombra experimentada por tan- tas pessoas, desde o princípio do tempo? O con- selho que ela dá a outros que estão desanimados ou mesmo deprimidos recebe a influência de suas próprias dificuldades pessoais. Durante todo o seu ministério, Ellen White enfrentou tanto o fogo do fanatismo como o gelo da indiferença.40 Suas palavras de conse- lho, muitas vezes de reprovação, eram freqüen- temente contrapostas com fofocas e calúnias. Isso a afetava fisicamente. A respeito de algo por que passou quando contava apenas 18 anos de idade e ainda estava fisicamente debilitada, ela relatou: “O desânimo produziu sobre mim tão forte impressão, e o estado do povo de Deus me encheu de tanta angústia que fiquei pros- trada com uma doença por duas semanas.”41 Os leitores de suas cartas e dos apontamen- tos de seu diário têm o privilégio de quase “ouvir” o coração dela bater à medida que re- lata suas reações àqueles momentos de desâni- mo provenientes de diversas causas. A manei- ra como repelia as “sombras infernais” do mal talvez seja justamente a compreensão de que alguns leitores precisam hoje! Embora estivesse no oitavo mês de gravi- dez em 1847, ela escreveu uma carta bem-hu- morada a José Bates, mencionando que “mi- nha saúde está ótima, no que me diz respeito”. Depois, ela abriu o coração: “Tenho passado por muitas dificuldades ultimamente; o desâ- nimo às vezes se apossa de mim com tal firme- za que parece impossível livrar-me dele. Mas graças a Deus, Satanás não obteve ainda vitó- ria sobre mim e, pela graça de Deus, jamais a obterá. Eu conheço e sinto a minha fraqueza, mas tenho me agarrado ao braço poderoso de Jeová, e hoje posso dizer que meu Redentor vive, e se Ele vive, eu também viverei.”42 Dificuldades? Poucas pessoas conheceram os tempos trabalhosos como os enfrentados pelos White. Esses líderes-servos haviam si- do incumbidos de uma missão e não ousa- vam voltar-se para uma vida de ocupações habituais. Considere, porém, que ali estava uma jo- vem família no inverno de 1847-1848 (Henry nascera em 26 de agosto de 1847) procurando falar e escrever à medida que Deus abria o caminho, e no entanto resolvi- da a ser financeiramente independente. Tia- go, aos 26 anos de idade, transportava pedras num túnel ferroviário que estava sendo esca- vado perto de Brunswick, Maine, até ficar com as mãos em carne viva, e também corta- va madeira para lenha em longas jornadas de trabalho a 50 centavos por dia. Com um “or- çamento” limitado como esse, Ellen, então com 20 anos de idade, só conseguia adquirir para si e para o filho pouco mais de meio li- tro de leite. Assim sendo, para poder comprar uma peça de tecido a fim de fazer uma roupa simples para Henry, ela era obrigada a cortar o suprimento de leite por três dias. Chegou o dia em que se esgotaram as suas provisões. Tiago caminhou quase cinco quilô- metros tanto na ida como na volta, debaixo de chuva, em busca do patrão para receber seu sa- lário ou os mantimentos necessários. Ao voltar ele com um saco de provisões, Ellen relembra: “Quando ele entrou em casa, muito cansado, meu coração desfaleceu dentro de mim. Minha primeira impressão foi a de que Deus nos havia abandonado. Disse a meu mari- do: A que ponto chegamos? Abandonou-nos o Senhor? Não pude conter as lágrimas e levantei a voz em choro durante horas até desmaiar.” Em outras palavras: “Senhor, por que a vi- da é tão dura quando nós nos dedicamos sem reservas à Tua causa?” 74 SEÇÃO II A Verdadeira Ellen White
  • 47. CAPÍTULO 7 CARACTERÍSTICAS PESSOAIS plo, que colhessem as rosas e ignorassem os es- pinhos.51 Na revista da igreja, ela escreveu: “Vamos representar a vida cristã como é na realidade. Vamos tornar o caminho alegre, convidativo e interessante. Podemos fazer isto, se quisermos. Podemos encher nossa própria mente com quadros vívidos das coisas espiri- tuais e eternas e, assim fazendo, ajudar a torná- los uma realidade para outras mentes.”52 Solidão, até mesmo frustração e desânimo, não precisam interromper a atividade de um cristão bem disposto. Durante um período di- fícil da década de 1860, em que os White es- tavam em Dansville, Nova Iorque, procuran- do ajuda para os problemas físicos de Tiago, Ellen registrou em seu diário uma conversa anterior: “É a falta da genuína religião que produz acabrunhamento, desalento, tristeza. ... Um serviço dividido, amando o mundo, amando o eu, amando divertimentos frívolos, faz um servo tímido, covarde; que segue a Je- sus de longe. O serviço feito de boa vontade e de coração a Jesus produz uma religião re- fulgente. Os que seguem a Cristo bem de per- to não se têm mostrado sombrios.”53 As pessoas podem ser felizes ainda que so- litárias. A capacidade que Ellen White pos- suía de manifestar esta verdade permeia o re- gistro histórico e dá garantia pessoal à decla- ração que ela fez em Great Grimsby, Inglater- ra, em 1886: “Eu não espero o fim para desfrutar toda felicidade; eu desfruto felicidade enquanto vou caminhando. Não obstante ter provas e aflições, olho para Jesus. É nas situações difí- ceis, árduas, que Ele está bem ao nosso lado, e podemos comungar com Ele, depor todos os nossos fardos sobre o Portador de Fardos, e dizer: ‘Eis, Senhor, não posso mais levar es- ses fardos.’”54 77 M E N S A G E I R A D O S E N H O R O ministério profético de Ellen G. White sombras ao longo de seu caminho, e não po- dem ver a luz que Jesus derrama em seu cami- nho. Outros, porém, dizem: ‘Sou muito fran- co. Digo somente o que sinto, falo somente o que penso.’ Será que esta é a melhor maneira de agir? Não. Deus quer que nos eduquemos para falar palavras corretas, palavras que se- jam uma bênção aos outros e que lhes derra- mem raios de luz sobre a alma.”46 Alguém poderia questionar se, após longos anos de serviço e confiança em Deus, os cris- tãos ficam fora do alcance dos momentos de trevas em que eles vêem mais nuvens do que sol. Pense em Jesus no Getsêmani. Ou na vi- da dos santos. O que eles aprenderam através dos anos foi como lutar contra as sombras in- fernais do diabo. No octagésimo sétimo ano de vida de Ellen White, C. C. Crisler, um dos seus secretários, escreveu ao filho dela, William: “Ela diz que não deseja fazer ne- nhum estardalhaço sobre o fato de estar sem- pre animada, embora ela sempre esteja. E acrescenta que o próprio fato de os membros da família despertarem, de vez em quando, ouvindo-a repetir as promessas de Deus e rei- vindicando-as como suas próprias é prova de que ela ainda tem suas próprias batalhas a travar contra Satanás.”47 Uma Senda Solitária Era, porém, a solidão, e não o desânimo, a companhia freqüente da escritora, se bem que tal solidão não fosse freqüente, nem ne- cessariamente acompanhada pelo desânimo. A natureza de sua tarefa divina parecia tornar inevitável que Ellen White palmilhasse sozi- nha a sua senda. O que espanta é que ela nem por isso era conhecida como uma sombria eremita. Sua família a considerava a alegria da casa; seus vizinhos e colaboradores lem- bram-se dela como sua fonte de estímulo. Os profetas, pela própria natureza da tare- fa que realizam, proferem mais reprovação do que elogio. Isso também era verdadeiro no que diz respeito à Sra. White. E nem todos os destinatários aceitam de bom grado as men- sagens de correção e censura. Devem-se espe- rar mal-entendidos e ressentimento. Além disso, estar na vanguarda de quase todo empreendimento da igreja desde o seu início requeria uma força emocional enorme, força que poucas pessoas possuem. Liderar um grupo de homens e mulheres obstinados pelos novos caminhos da organização da igreja, de- senvolver sólidas instituições médicas e edu- cacionais e ajudar a pilotar toda uma deno- minação através de difíceis conflitos teológi- cos – tudo isto provocava mal-entendidos e desavenças. Assim, somos capazes de entender Ellen White quando ela escreveu em 1902: “Tenho estado sozinha nesta questão, rigorosamente sozinha, com todas as dificuldades e com to- das as provações relacionadas com a obra. Só Deus pode ajudar-me.”48 Na Europa, aos 59 anos de idade, viúva havia cinco anos, ela procurava ativamente colocar o programa europeu sobre um sólido e unificado fundamento. Aí estava um desa- fio que amedrontaria, e amedrontou, até os lí- deres mais fortes. Em uma carta ao presiden- te da Associação Geral, ela escreveu: “Afir- mo-lhe que esses pontos difíceis em minha experiência me fizeram desejar o clima da Califórnia, e o refúgio de um lar. Mas será que eu tenho um lar? Onde está ele?”49 Em resultado da Assembléia da Associa- ção Geral de Mineápolis em 1888, Ellen White experimentou sua solidão mais pro- funda. Escrevendo veementemente a Uriah Smith, ela declarou: “Meus irmãos têm con- testado, criticado, comentado, rebaixado e selecionado tanto meus testemunhos até que não signifiquem nada para eles. Dão-lhes a interpretação que desejam em seu julgamen- to finito e ficam satisfeitos. Se eu tivesse ou- sado, teria desistido deste campo de conflito há muito tempo, mas alguma coisa tem me sustentado. Deixo tudo isso, porém, nas mãos de Deus. Sinto o afastamento de muitos dos meus irmãos. Eles não me compreendem, nem a minha missão nem a minha obra; pois se o compreendessem, jamais teriam adotado este modo de agir.”50 Através de tudo isso, Ellen White sabia o que era alegria e felicidade interior. Ela insis- tia com os outros, por preceito e por exem- 76 SEÇÃO II A Verdadeira Ellen White 1. “Minhas idéias sobre justificação e santificação eram confusas. Esses dois assuntos me foram apresentados à mente como algo distinto e separado um do outro. Apesar disso, eu não conse- guia compreender a diferença nem entender o significado dos termos, de modo que todas as explicações dos pregadores só contribuíam para aumentar as minhas dificuldades. Eu era in- capaz de implorar a bênção para mim mesma e perguntava-me se não devia permanecer apenas entre os metodistas, e se, ao freqüentar as reuniões do advento, não me estaria excluindo daquilo que mais desejava nesta vida: o santificador Espírito de Deus. Observei, no entanto, que alguns daqueles que pre- tendiam estar santificados manifestavam espírito amargo quando o assunto da breve volta de Jesus era apresentado. Is- to que eles professavam não me parecia uma demonstração de santidade.” – Life Sketches, págs. 28 e 29. 2. “[Os pastores] ensinavam que Deus não Se propunha salvar pessoa alguma, a não ser as santificadas; ensinavam que os olhos do Senhor estavam sempre sobre nós; que o próprio Deus, com a precisão de Sua infinita sabedoria, fazia a escritu- ração dos livros; e que cada pecado que cometíamos era ali fielmente registrado contra nós para que nos fosse aplicado o justo castigo. ... Se houvessem enfatizado mais o amor de Deus e menos Sua justiça implacável, a beleza e a glória de Seu ca- ráter ter-me-iam inspirado profundo e fervoroso amor por meu Criador.” – Ibidem, págs. 30 e 31. 3. “Em minha mente, a justiça de Deus eclipsava Sua misericór- dia e amor. A angústia mental por que passei nesta época foi enorme. Eu fora ensinada a crer num inferno que arde eterna- mente; e, ao pensar no estado miserável dos pecadores sem Deus e sem esperança, emergia em profundo desespero. Eu ti- nha medo de me perder e ficar durante toda a eternidade so- frendo uma morte em vida. Achava-se continuamente diante de mim o horrendo pensamento de que meus pecados eram grandes demais para serem perdoados, e que eu deveria estar perdida para sempre.” – Ibidem, pág. 29. 4. De muitas maneiras Ellen White desenvolveu o foco central do tema bíblico do grande conflito. Ver págs. 256-266. Por exemplo: “Desde o início do grande conflito, tem sido o pro- pósito de Satanás representar mal o caráter de Deus, e provo- car a rebelião contra a Sua lei; e esta obra parece ser coroada de êxito. As multidões dão ouvidos aos enganos de Satanás, e dispõem-se contra Deus. Mas, em meio da atuação do mal, os propósitos de Deus avançam perseverantemente ao seu cum- primento; a todos os seres criados está Ele a tornar manifestas Sua justiça e benevolência.” – Patriarcas e Profetas, pág. 338. “Os esforços de Satanás para representar de maneira falsa o caráter de Deus, para fazer com que os homens nutram um con- ceito errôneo do Criador, e assim O considerem com temor e ódio em vez de amor; seu empenho para pôr de parte a lei divi- na, levando o povo a julgar-se livre de suas reivindicações e sua perseguição aos que ousam resistir a seus enganos, têm sido prosseguidos com persistência em todos os séculos. Podem ser observados na história dos patriarcas, profetas e apóstolos, már- tires e reformadores.” – O Grande Conflito, pág. 12. “Deus deseja de todas as Suas criaturas serviço de amor – homenagem que brote de uma apreciação inteligente de Seu caráter.” – Ibidem, pág. 493. “O inimigo do bem cegou o entendimento dos homens, de maneira que foram levados a olhar a Deus com medo, consi- derando-O severo e inflexível. Satanás levou as pessoas a imaginar Deus como um Ser cujo principal atributo fosse a justiça sem misericórdia, um rigoroso juiz, um credor exigen- te e cruel. Retratou o Criador como alguém que fica esprei- tando desconfiado, procurando sempre descobrir os erros e pecados dos homens, para castigá-los com Seus juízos. Foi pa- ra apagar essa negra sombra, revelando ao mundo o infinito amor de Deus, que Jesus veio viver entre os seres humanos.” – Caminho a Cristo, págs. 10 e 11. Desse modo, Ellen White deixou claro que o tema princi- pal, o princípio que compeliria e organizaria a mensagem do evangelho eterno da igreja nos últimos dias, seria um reco- nhecimento do foco principal do Tema do Grande Conflito: “A escuridão do falso conceito acerca de Deus é que está en- volvendo o mundo. Os homens estão perdendo o conheci- mento do Seu caráter. Este tem sido mal compreendido e mal interpretado. Neste tempo deve ser proclamada uma mensagem de Referências
  • 48. CAPÍTULO 7 CARACTERÍSTICAS PESSOAIS gorosos em Cristo Jesus.” – Fé e Obras, pág. 68. Repare que noutras vezes, quando fisica e emocionalmente exausta, Ellen White prosseguiu com fé, falando de fé e levando este conceito a outros; na Austrália, por exemplo, em 1895, cita- do em Biography, vol. 4, pág. 228. 47. Biography, vol. 6, págs. 413 e 414. 48. Mensagens Escolhidas, livro 3, pág. 67. 49. Biography, vol. 3, pág. 354. 50. Ibidem, pág. 471. 51. Caminho a Cristo, pág. 117. 52. Review and Herald, 29 de janeiro de 1884. 53. Biography, vol. 2, pág. 122 (O Lar Adventista, pág. 431). 54. Life Sketches, pág. 292 (Mente, Caráter e Personalidade, vol. 2, pág. 556). 79 M E N S A G E I R A D O S E N H O R O ministério profético de Ellen G. White 78 Deus, uma mensagem de influência iluminante e capacidade salvadora. O caráter de Deus deve tornar-se notório. Deve ser difundida nas trevas do mundo a luz de Sua glória, a luz da Sua benignidade, misericórdia e verdade. ... Os que aguardam a vinda do Esposo devem dizer ao povo: ‘Eis aqui está o vosso Deus.’ Os últimos raios da luz misericordiosa, a última mensa- gem de graça a ser dada ao mundo, é uma revelação do cará- ter do amor divino.” – Parábolas de Jesus, pág. 415. 5. Ver pág. 5. 6. Historical Sketches, págs. 130 e 133. 7. Para uma análise típica da maneira como Ellen White com- preendia a “justiça que provém da fé”, ver Fé e Obras, págs. 15- 122; Mensagens Escolhidas, livro 1, págs. 350-400; Parábolas de Jesus, págs. 307-319. Para a opinião dela sobre a experiência religiosa dinâmica, ver O Grande Conflito, págs. 461-478. Pa- ra os ensinos dela sobre um “povo preparado”, ver Parábolas de Jesus, págs. 405-421; O Grande Conflito, págs. 582-634. 8. Biography, vol. 2, págs. 432 e 433. Ver Caminho a Cristo, págs. 96 e 104. 9. Testemunhos Para a Igreja, vol. 5, pág. 124 (Mente, Caráter e Per- sonalidade, vol. 1, págs. 240 e 241). “O amor é poder. Neste prin- cípio acha-se envolvida força intelectual e moral, e dele não se podem separar. O poder da riqueza tem a tendência de corrom- per e destruir; o poder da força é potente para causar dano; a ex- celência e o valor do amor puro, porém, consistem em sua efi- ciência para fazer bem, e nada senão o bem. Tudo quanto é fei- to por puro amor, por mais pequenino ou desprezível que seja aos olhos dos homens, é inteiramente frutífero; pois Deus olha mais a quantidade de amor com que alguém trabalha do que à porção de trabalho que realiza. O amor é de Deus. O coração não convertido é incapaz de originar ou produzir esta planta de procedência celeste, que só vive e floresce onde Cristo reina. “O amor não pode viver sem ação, e cada ato aumenta-o, robustece-o, expande-o. O amor obterá a vitória onde o argu- mento e a autoridade são impotentes. O amor não trabalha pelo proveito nem pela recompensa; todavia foi ordenado por Deus que grande ganho acompanhe seguramente toda a obra de amor. ... O amor puro é simples em suas maneiras de agir, e distingue-se de qualquer outro princípio de ação. O amor da influência e o desejo de desfrutar a estima dos outros talvez produzam uma vida bem-ordenada e, freqüentemente, uma conduta irrepreensível. O respeito de nós mesmos nos pode levar a evitar a aparência do mal. Um coração egoísta pode praticar ações generosas, reconhecer a verdade presente, e ex- primir humildade e afeição de maneira exterior, não obstante os motivos podem ser enganosos e impuros; as ações origina- das de um coração assim podem ser destituídas do sabor da vi- da, dos frutos de verdadeira santidade, dos princípios do amor puro.” – Testemunhos Para a Igreja, vol. 2, págs. 135 e 136 (Testemunhos Seletos, vol. 1, págs. 209-211). 10. Carta 3, 1863, citado em Biography, vol. 2, pág. 95. Ver tam- bém Testemunhos Para a Igreja, vol. 2, pág. 355: “Quando Ele vier, não nos purificará de nossos pecados, para remover de nós os defeitos de caráter, nem para curar-nos das fraquezas de nosso temperamento e disposição. Se acaso esta obra hou- ver de ser efetuada em nós, sê-lo-á totalmente antes daquela ocasião. Quando o Senhor vier, os que são santos serão san- tos ainda. Os que houverem conservado o corpo e o espírito em santidade, em santificação e honra, receberão então o to- que final da imortalidade. ... Nenhuma obra se fará então por eles para lhes remover os defeitos, e dar-lhes um caráter san- to. Então o Refinador não Se assentará para prosseguir em Seu processo de purificação, e para remover-lhes os pecados e a corrupção. Tudo isto deve ser feito nestas horas de graça. É agora que esta obra deve ser feita por nós. “Abraçamos a verdade de Deus com nossas faculdades di- versas, e ao chegarmos sob a influência dessa verdade, ela rea- lizará por nós a obra necessária a fim de dar-nos aptidão mo- ral para o reino da glória, e para a sociedade dos anjos celes- tes. Achamo-nos agora na oficina de Deus. Muitos de nós so- mos pedras rústicas da pedreira. Ao apoderar-nos, porém, da verdade de Deus, sua influência nos afeta. Eleva-nos, e tira de nós toda imperfeição e pecado, seja de que natureza for. As- sim estamos preparados para ver o Rei em Sua beleza, e unir- nos afinal com os puros anjos celestes no reino da glória.” 11. Mente, Caráter e Personalidade, vol. 1, pág. 27. “A saúde do corpo depende em grande parte da saúde da alma; portanto, quer comais, quer bebais, o que quer que façais, fazei tudo pa- ra glória de Deus. A religião pessoal revela-se pelo compor- tamento, pelas palavras e atos. Produz crescimento, até que afinal a perfeição reivindica o elogio do Senhor: ‘Estais per- feitos nEle!’ Col. 2:10.” – Ibidem. Ver também págs. 291-294. 12. A Ciência do Bom Viver, pág. 241. 13. Ibidem, pág. 113. 14. Ibidem. 15. Manuscrito 5, 1882, citado em Biography, vol. 3, pág. 220. 16. O Desejado de Todas as Nações, pág. 471. 17. Mente, Caráter e Personalidade, vol. 2, pág. 777. 18. Christian, Fruitage of Spiritual Gifts, pág. 50. 19. Biography, vol. 1, págs. 278 e 279. 20. Review and Herald, 7 de outubro de 1884. 21. Historical Sketches, págs. 162 e 163. 22. Signs of the Times, 18 de julho de 1878; ver também 23 de se- tembro de 1889. 23. Biography, vol. 4, pág. 235. 24. Manuscrito 12, 1894, citado em Sermons and Talks, vol. 1, pág. 246. 25. Review and Herald, 26 de março de 1889. 26. Signs of the Times, 14 de outubro de 1889. 27. Review and Herald, 16 de julho de 1889. 28. Review and Herald, 27 de setembro de 1892. 29. General Conference Bulletin, 3 de abril de 1901. 30. James Nix, Early Advent Singing (Hagerstown, MD: Review and Herald Publishing Association, 1994), págs. 141-144. William H. Hyde tinha apenas 17 anos quando escreveu es- te hino. Seu pai, William Hyde, foi destacado editor em Por- tland, Maine. 31. Biography, vol. 6, págs. 423 e 424. 32. Fundamentos da Educação Cristã, págs. 547-549, e Mensagens aos Jovens, págs. 287 e 289. 33. Biography, vol. 6, págs. 430 e 431. 34. Life Sketches, pág. 72. 35. Ver Libraries, a Bibliography of E. G. White’s Private and Offi- ce Libraries (por ocasião de sua morte em 1915). Este docu- mento está disponível em qualquer um dos Centros de Pes- quisa White. 36. Mensagens Escolhidas, livro 3, pág. 437. 37. Ibidem, pág. 463. 38. Health Reformer, agosto de 1873. 39. Historical Sketches, pág. 220 (Minha Consagração Hoje, pág. 337). Para a descrição feita por Ellen White de sua visita à Catedral de Milão e da viagem pelos magníficos Alpes em 1886, ver Arthur Delafield, Ellen G. White in Europe, págs. 175, 176 e 181-183. 40. Testemunhos Para a Igreja, vol. 5, pág. 644; ibidem, vol. 1, pág. 502; Review and Herald, 12 de fevereiro de 1901. 41. Biography, vol. 1, pág. 88. Mais tarde ela veio a compreender que o sofrimento mental afeta diretamente a saúde do corpo. Ver págs. 330-332. 42. Ibidem, pág. 131. 43. Ibidem, págs. 134 e 135. 44. Ibidem, págs. 304-306. 45. Ibidem, vol. 3, págs. 385 e 386. 46. Signs of the Times, 11 de novembro de 1889. Alguns meses depois, em uma reunião campal realizada em Ottawa, Kan- sas, ela disse: “Vocês têm de falar de fé, têm de viver pela fé, têm de agir pela fé, para que tenham um aumento de fé. Exercendo essa fé viva, tornar-se-ão homens e mulheres vi- SEÇÃO II A Verdadeira Ellen White Perguntas Para Estudo 1. Quais foram os passos no pensamento de Ellen White que a levaram à correta represen- tação de Deus como seu amigo? 2. Como Ellen White associava a crença teológica com a vida pessoal do crente? 3. Como você expressaria a compreensão de Ellen White sobre a relação existente entre a saúde e a vida espiritual? 4. Que percepções tinha Ellen White sobre a causa do sofrimento e da morte? 5. A que você atribuiria a notável carreira literária de Ellen White, levando em conta o fato de que sua educação formal acabou aos nove anos de idade?
  • 49. Tiago levou para casa seis cadeiras velhas, dentre as quais não havia duas iguais. Pouco tempo depois adquiriu mais quatro, sem os tampos. Ellen fez os assentos. Batatas e manteiga custavam muito caro. As primeiras refeições eram servidas numa tá- bua posta sobre duas barricas de trigo. Ellen co- mentou: “Estamos dispostos a suportar priva- ções para que a obra de Deus possa progredir.”4 As circunstâncias domésticas melhoraram com o passar do tempo. Tanto Tiago como Ellen eram especialistas em viver com os poucos recursos disponíveis, ou mesmo sem nada. Apesar disso, Tiago sabia que muitas vezes Ellen faria sacrifícios excessivos. Em 1874, ele escreveu ao filho William, que esta- va com a mãe em Battle Creek: “Fiquei mui- to contente em saber que você está em com- panhia de sua mãe. Exerça com sua querida mãe o mais terno cuidado. Se ela quiser par- ticipar das reuniões campais do Leste, tenha a bondade de ir junto com ela. Procure uma tenda que seja apropriada para vocês; pegue tudo do bom e do melhor sob a forma de mo- chilas, cobertores, cadeira portátil para ma- mãe, mas não consinta com as idéias econô- micas dela, pois levarão vocês a privações.”5 Ellen White ensinou na Europa pelo pró- prio exemplo. Depois de desembarcar em Ca- lais, França, ela e suas companheiras de via- gem souberam que uma cabine-leito no trem para Basiléia custava 11 dólares por pessoa. Sempre econômicas, elas resolveram conten- tar-se com os assentos. Ellen comentou: “Fi- zeram-me uma cama entre os assentos em ci- ma de mochilas e caixas. Descansei um pou- co, mas não dormi o suficiente. ... Não la- mentamos que a noite houvesse passado.”6 De Dansville, Nova Iorque, em 1865, a Sra. White escreveu aos filhos a respeito de roupas pa- ra Edson: “Se um alfaiate fizer esses casacos, sua confecção vai custar muito caro. Caso encontrem uma costureira confiável, contratem-na para fazer ambos os casacos, se ela não cobrar muito.”7 Na Austrália, em 1894, Ellen White estava agora com 66 anos de idade. A Austrália pas- sava por problemas econômicos, com tempos piores por vir. E a Sra. White se sentia cansa- da por muitas razões. Enquanto estava em Melbourne escreveu: “Estou cansada, cansada o tempo todo, e devo o quanto antes conse- guir um lugar tranqüilo no campo. ... Este ano quero escrever e exercitar-me com prudência fora de casa, ao ar livre.” Mais tarde, ela escreveu: “Estou ficando mui- to cansada de mudanças. Aborrece-me ter que arrumar e desarrumar coisas, recolher manuscri- tos e espalhá-los, e recolhê-los novamente.” Pouco depois ela se mudou para um subúr- bio de Sydney. “Descobrimos que há muitas maneiras de gastar dinheiro e muitas manei- ras de economizá-lo. Temos uma armação de guarda-roupa com duas colunas perpendicu- lares e peças transversais afixadas a estas com uma prateleira em cima. Um laço muito sim- ples de cambraia barata azul ou vermelha foi preso no alto e por trás da prateleira. A parte posterior está presa às laterais da cabeceira da cama.” A maior parte do restante da mobília foi comprada em leilões.8 Em uma viagem de Melbourne a Geelong, mais de 64 quilômetros rumo ao sul, o grupo apanhou o barco lento que cobrava dezoito centavos por pessoa pela viagem de ida e vol- ta, em vez de o trem que cobrava oito xelins por pessoa (40 centavos). Escrevendo depois, a Sra. White declara: “Um centavo poupado equivale a um centavo ganho.”9 Generosidade Ellen White era econômica porque desejava contribuir tanto quanto possível com as pes- soas muito carentes de dinheiro e as crescen- tes necessidades da recentemente formada Igreja Adventista do Sétimo Dia.10 “Compartilhar” parece ter sido seu segun- do nome. Compartilhar seu lar com colabora- dores e pastores que estavam viajando, sem saber muitas vezes quantos apareceriam na hora das refeições, revela um espírito predo- minantemente generoso. Depois de inspirar e desafiar outros a construir igrejas, casas edito- ras, instalações de saúde e escolas, ela mesma saía à frente contribuindo com vultosas doa- ções, muitas vezes emprestadas de outros e que ela pagava com juro. Em 1888, em um encontro realizado em Oakland, Califórnia, talvez ela tenha erguido as sobrancelhas, sur- presa ao perceber que ela e o marido, em re- sultado de suas pequenas economias e sábios investimentos, haviam contribuído com “30.000 dólares” para com a causa de Deus.11 Em um sermão proferido na assembléia da Associação Geral de 1891, dez anos depois 81 M E N S A G E I R A D O S E N H O R O ministério profético de Ellen G. White E llen White praticava aquilo que prega- va? Sim. Outros a conheciam como uma líder cristã bem equilibrada e ex- traordinária. Embora sujeita a fraquezas hu- manas, ela era respeitada como alguém que praticava as idéias progressistas, inteiramente abrangentes e sempre em expansão que lhe eram constantemente reveladas. Simplicidade Ela aprendeu como suportar e superar dificul- dades financeiras. São bem conhecidos os seus hábitos de prudência. Os White começaram a vida doméstica na pobreza. Em 1848, deixaram a família Howland, em Topsham, Maine, onde haviam residido nos compartimentos do andar superior, com o obje- tivo de participar de uma assembléia dos adven- tistas observadores do sábado em Rocky Hill, Connecticut, a primeira de muitas que se segui- riam. Como planejaram pagar sua passagem? Tiago havia ganhado dez dólares cortando le- nha. Metade desse dinheiro foi gasto em prepa- rar a jovem família de três membros para a via- gem, e a outra metade, para pagar o transporte até Boston e daí para a casa de Otis Nichols. Embora não tenham dito uma só palavra sobre sua situação financeira, a Sra. Mary Nichols lhes deu cinco dólares. Depois de comprarem passagens ferroviárias para Middletown, Con- necticut, restaram-lhes 50 centavos. Eles tive- ram que enfrentar semelhantes desafios econô- micos muitas vezes nos anos que se seguiram.1 Em pleno inverno de 1851, os White fo- ram convidados a pregar numa assembléia em Waterbury, Vermont. Eles já haviam em- prestado Charlie, seu fiel cavalo, e a carrua- gem a S. W. Rhodes e J. N. Andrews para que esses dois pregadores pudessem atender compromissos no Canadá e no Norte de Ver- mont. Pelo caminho os White encontraram um crente pobre a quem incentivaram a par- ticipar da assembléia. Para tornar isso possí- vel, eles lhe deram o valor correspondente às suas passagens de trem para ajudá-lo a com- prar um cavalo, a fim de que todos os três fossem juntos de trenó. Logo encontraram outro crente e lhe deram cinco dólares para pagar a passagem de trem. Os White prosse- guiram pelo frio Vermont num trenó aberto, sem cobertor de lã ou manta de pele de búfa- lo. Ellen White escreveu: “Nós sofremos muito.”2 No verão de 1852, o escritório de publica- ções estabeleceu-se em Rochester, Nova Ior- que. Todo o equipamento gráfico, além da es- cassa mobília doméstica, foi enviado do Mai- ne para o Oeste, com dinheiro emprestado. Os White montaram a editora na sua própria casa, acomodando não somente o equipa- mentos gráfico, mas também alojando todos os obreiros. Fora o mestre gráfico não adven- tista, ninguém recebia pagamento, com exce- ção de uma pequena quantia destinada a ves- tuário e outras despesas “consideradas absolu- tamente necessárias”.3 80 CAPÍTULO 8 SEÇÃO II A Verdadeira Ellen White Como Outros a Conheceram “O amor seja sem hipocrisia. Detestai o mal, apegando-vos ao bem. Amai-vos cordialmente uns aos outros com amor fraternal, preferindo-vos em honra uns aos outros. No zelo não sejais remissos: se- de fervorosos de espírito, servindo ao Senhor; regozijai-vos na esperança, sede pacientes na tribula- ção, na oração perseverantes; compartilhai as necessidades dos santos; praticai a hospitalidade; ... se possível, quanto depender de vós, tende paz com todos os homens.” Rom. 12:9-13 e 18.
  • 50. CAPÍTULO 8 COMO OUTROS A CONHECERAM doado os salários que deviam ter sido pagos a elas. Quando foi feita a última convoca- ção, pela primeira vez meu nome não apare- ceu na lista. ... Não há nada que eu possa fa- zer a não ser permanecer aqui até que a obra seja consolidada.”18 Ao término da última década do século dezenove, a denominação achava-se em pe- sados débitos, em grande parte por ignorarem o conselho de Ellen White. Embora tivesse deixado muito claro aos líderes da igreja seu ponto de vista quanto às razões de evitar-se dívidas gigantescas, ela não se queixou nem fez críticas. Ao invés disso, apresentou um plano. Dispôs-se a dar os direitos autorais do livro Parábolas de Jesus (prestes a ser publica- do em 1900) para ajudar a saldar as dívidas das escolas denominacionais. Com a coope- ração dos membros da igreja por toda a Amé- rica do Norte, aquela doação rendeu mais de 300.000 dólares. Quando os fundos da igreja diminuíram em 1906, ela doou os direitos autorais do seu livro A Ciência do Bom Viver (vendido no Leste dos Estados Unidos) para a construção do Washington Sanitarium (atualmente Hospital Adventista de Washington) em Ta- koma Park, Maryland.19 Todos os direitos au- torais do livro A Ciência do Bom Viver foram utilizados para diminuir o endividamento das instituições médicas da igreja. De 1914 a 1918, L. H. Christian foi o presi- dente da Associação de Lake Union, que en- globava Wisconsin, Illinois, Indiana e Michi- gan. Muitos adventistas antigos desses Estados, os quais haviam conservado na memória as lembranças de Tiago e Ellen White, o impres- sionaram. Eles contaram como os White foram amáveis e prestativos para com os pobres num tempo em que os primeiros colonizadores necessitam muitas vezes de alimento e abrigo. Os homens gostavam de recordar a convincen- te liderança de Tiago e da maneira como ele di- zia para a esposa: “Ellen, falar é fácil. O que conta é o que você e eu podemos doar. É bom ter compaixão dessa gente, mas o resultado de nossa compaixão é determinado pela profundi- dade com que abrimos nossas carteiras.” Em seu livro The Fruitage of Spiritual Gifts, Christian relatou: “O que ela escreve em li- vros como A Ciência do Bom Viver e muitos dos Testemunhos sobre nosso dever para com os necessitados e doentes foi exemplificado muito belamente em sua própria vida. Este capítulo ficaria longo demais se eu fosse contar novamente todas as coisas que esses velhos conhecidos dizem da irmã White. Ja- mais ouvi, de maneira alguma, um deles cri- ticá-la.”20 Compromisso com o Dever Muitas foram as nobres virtudes que carateri- zaram a vida extraordinária de Ellen White, mas o compromisso com o dever parece sa- lientar-se sobre as demais. Para onde quer que olhemos em sua longa vida, o compro- misso para com a missão que Deus lhe confia- ra recebe a mais elevada prioridade. Quando contava apenas 22 anos de idade, com um bebê no colo, ela escreveu esta carta em 10 de fevereiro de 1850: “Devíamos ter escrito para você antes, mas não tínhamos lu- gar definido para morar. Viajávamos de um lugar para outro, sob chuva, neve e vendaval, com a criança. Eu não conseguia encontrar tempo para responder nenhuma carta, e Tia- go passava todo o seu tempo escrevendo para a revista e preparando o hinário. Não dispú- nhamos de muitos momentos de folga.”21 Em Battle Creek, em 1865, Ellen White sentiu a frieza mesmo de amigos. Ser uma fiel mensageira de Deus é sempre uma coisa difí- cil, mas viver próximo daqueles que recebem os testemunhos pessoais torna a vida bem mais difícil. Deus lhe dera a visão especial da videira murcha que recebia suporte especial. Isto representava a força que ela devia espe- rar receber de Deus à medida que continuas- se cumprindo seu dever: “Desde esse tempo fui confirmada quanto a meu dever e nunca mais me esquivei de apresentar meu testemu- nho ao povo.”22 Como compreendia ela seu dever? Em 1873, Tiago White estava sofrendo as conse- qüências de diversos derrames, quando a obra em Battle Creek precisou de sua sólida visão administrativa. A esposa Ellen, sabendo que era preciso tomar decisões imediatas, convo- cou os líderes da obra para orarem. No apon- tamento do dia 5 de julho do seu diário, ela 83 M E N S A G E I R A D O S E N H O R O ministério profético de Ellen G. White da morte de Tiago, ela escreveu: “Durante anos não recebemos pagamento algum, a não ser o que mal dava para prover-nos do mais simples em alimentação e vestuário. Alegrá- vamo-nos de usar roupas de segunda mão, e às vezes quase não tínhamos comida para nos sustentar as forças. Tudo o mais era aplicado na obra.”12 O altruísmo que ela demonstrava em rela- ção a seu tempo e escassos recursos tornou-se um modelo para todos. John O. Corliss (1845-1923), que viveu na casa dos White por diversos anos antes de seu batismo em 1868,13 escreveu a respeito do íntimo conví- vio que tivera com a Sra. White através dos anos: “Ela era muito escrupulosa em cumprir na própria conduta aquilo que ensinava aos outros. Por exemplo, ela freqüentemente in- sistia em suas palestras públicas sobre o dever de cuidar das viúvas e dos órfãos, dirigindo a atenção de seus ouvintes para Isaías 58:7-10, e exemplificava essas exortações levando pa- ra casa os necessitados a fim de acolhê-los, alimentá-los e vesti-los. Lembro-me muito bem de ela ter, em certa ocasião, como mem- bro de sua família um menino, uma menina e uma viúva com as duas filhas. Sei, além disso, que ela distribuía para os pobres roupas no valor de centenas de dólares, que comprava para esse propósito.”14 Não é possível recapitular a história da Igreja Adventista na Austrália sem mencio- nar que Ellen White era uma pessoa bastante generosa. Em 1892, a Austrália estava mergu- lhada numa depressão econômica. Eram me- nos de 1.000 os crentes adventistas. Contu- do, o constante lema da Sra. White era “avante!”, o que a princípio significava uma escola nas proximidades de Melbourne. Não existiam fundos, mas ela resolveu usar 1.000 dólares provenientes dos direitos autorais de seus livros publicados no exterior e vendidos na América do Norte, fundos que já estavam comprometidos em outro lugar.15 Enquanto se levantavam fundos em Parra- matta para o primeiro prédio de igreja de pro- priedade dos adventistas do sétimo dia na Austrália continental, enviaram para Ellen White, da Califórnia, uma doação de 45 dó- lares. Seus amigos desejavam que ela possuís- se uma cadeira confortável para sentar-se du- rante seus períodos de dolorosa enfermidade. Mas ela imediatamente colocou a quantia no fundo de construção de Parramatta, explican- do a seus atenciosos amigos que desejava sen- tir que eles também haviam investido alguma coisa na Austrália.16 Ellen White permaneceu no centro do mundo adventista na Austrália, não apenas por causa de seu estímulo, mas também por causa dos levantamentos de fundos. Uma car- ta de 1896, endereçada ao Dr. J. H. Kellogg, fornece um vislumbre do andamento, ano após ano, da luta na Austrália: “Tenho agido como um banco que patrocina, empresta e adianta dinheiro. Eu tenho me empenhado e me esforçado de todas as maneiras para fazer a obra. Outros farão algo quando virem que eu tenho fé para tomar a iniciativa e fazer doações. Aqui estão todos os nossos obreiros que devem ser pagos. Estou muito endividada neste país para com pessoas de outros países. Devo mil e oitocentos dólares a uma pessoa; esse dinheiro já se esgotou. Quinhentos dóla- res a outra pessoa na África, que é um em- préstimo e tem sido aplicado de diversas ma- neiras que exigem meios para promover a obra. Eu ajo por fé.”17 Em 1899, G. A. Irwin, presidente da Asso- ciação Geral, convidou a Sra. White para vol- tar para a América do Norte e participar da próxima assembléia da Associação Geral em South Lancaster, Massachusetts. Ela respon- deu: “Completei 71 anos de idade no dia 26 de novembro. Este, porém, não é o motivo por que peço que me desculpe por não compa- recer à assembléia. ... Temos avançado lenta- mente, erguendo o estandarte da verdade em todo lugar possível. Mas a escassez de recursos tem sido um grave obstáculo. ... Não me atre- vo a mostrar nenhuma partícula de increduli- dade. Avançamos somente até o ponto em que podemos ver, e depois um pouco além da vista, agindo pela fé. ... “Esvaziamo-nos de tudo que nos foi possí- vel poupar no que se refere a dinheiro, pois muitas são as oportunidades, mas grandes as necessidades. Temos aplicado dinheiro até o ponto de ser compelida a dizer: Não posso doar mais. Minhas obreiras são as melhores, mais fiéis e dedicadas jovens que eu pude en- contrar. A fim de promover a obra, tenho 82 SEÇÃO II A Verdadeira Ellen White
  • 51. CAPÍTULO 8 COMO OUTROS A CONHECERAM a premonição para mudar de vagão (o primei- ro vagão ficou “bastante destruído”). Mas eles voltaram a tempo para uma con- ferência de quatro dias em seu lar, com repre- sentantes vindos do oeste de Nova Iorque, Pensilvânia e Canadá. Ellen White suspira- va: “Voltamos... muito cansados, desejando repouso. ... Mas sem descanso fomos obriga- dos a tomar parte na reunião.”28 Apesar de sua grande agenda de constan- tes palestras, viagens e trabalhos literários, Ellen White também supervisionava uma so- brecarregada agenda doméstica. Conforme mencionamos anteriormente (pág. 75), ela geralmente contava com mais hóspedes do que membros da família. Um apontamento de diário do dia 28 de janeiro de 1868, escri- to em sua casa em Greenville, Michigan, é tí- pico: “O irmão [J. O.] Corliss [um jovem con- vertido] ajudou-me a preparar o desjejum. Tudo quanto tocamos estava congelado. Tu- do em nosso porão estava congelado. Prepa- ramos nabos e batatas congeladas. Depois de orarmos, o irmão Corliss embrenhou-se no bosque perto da casa de Thomas Wilson para apanhar lenha. Tiago, acompanhado pelo ir- mão [J. N.] Andrews, foi para Orleans, espe- rando voltar para o almoço. “Assei oito formas de biscoitos, varri os quartos, lavei os pratos e ajudei Willie [13 anos de idade] a colocar neve na caldeira, o que requer muitos baldes. Não dispomos de água de poço nem cisterna. Arrumei minhas prateleiras [armário] de roupas. Senti-me can- sada; descansei alguns minutos. Servi o almo- ço para Willie e para mim. Justamente na ho- ra em que íamos comer, meu marido e o irmão Andrews chegaram. Não haviam almoçado. Comecei a cozinhar de novo. Dentro de pou- co tempo lhes dei algo que comer. Passei qua- se todo o dia assim – nenhuma linha escrita. Sinto-me triste por isso. Estou extremamente fatigada. Minha cabeça está cansada.”29 Enquanto a nova casa deles estava sendo construída em Battle Creek no fim de 1868, os White cumpriam compromissos nos Esta- dos do Leste. Tiago contou aos leitores da Review and Herald do alívio que sentiu depois de voltar para casa em 30 de dezembro de 1868: “Encontramos uma casa cômoda e con- fortável construída em Battle Creek para nós, e parcialmente mobiliada com os móveis transportados de nossa casa de Greenville, no Condado de Montcalm. Este lugar parece um lar. Aqui encontramos repouso na verdadeira acepção da palavra. Estávamos cansados de reuniões, viagens, pregações, visitações e cui- dados de negócios decorrentes da ausência do lar, vivendo, por assim dizer, quase um terço do ano com nossas malas arrumadas. Encon- tramos aqui tranqüilidade para o presente.” Mais adiante no artigo, ele mencionou que sessenta cartas os aguardavam, todas para se- rem abertas e respondidas!30 Sucessivas Reuniões Campais Para Tiago e Ellen White, as reuniões cam- pais pareciam suceder-se uma após a outra, quase que ininterruptamente. Um exemplo disso foi a reunião campal de Kansas, realiza- da no fim de maio de 1876, onde Ellen devia encontrar Tiago. Ela vinha da Costa Oeste, ocupando todo o seu tempo na escrita do pri- meiro volume da vida de Cristo. O trem em que ela viajava, em vez de chegar na sexta- feira, após seis dias de espera, estava atrasado. Ela chegou no local do acampamento na ma- drugada de sábado, depois de percorrer quase 34 quilômetros de estradas acidentadas numa carroça de fazenda. Tiago escreveu em Signs of the Times: “Cansada, evidentemente, sem dormir e tremendo com dor de cabeça de ner- vosismo, ela subiu ao púlpito às 10h30 da ma- nhã, sendo maravilhosamente amparada em seu esforço.” Ellen falou diversas vezes nas reuniões no- turnas, e na terça-feira levantou-se às quatro da madrugada para uma “preciosa reunião so- cial de despedida”.31 Até 4 de julho, os White haviam pregado muitas vezes em seis reuniões campais! Antes de prosseguir para a reunião campal de Ohio, passaram rapidamente em casa, em Battle Creek, para tomar fôlego. Ellen escreveu a William e Mary (casados no início daquele ano) descrevendo a celebração de Quatro de Julho: “Algumas coisas são realmente inte- ressantes e outras, ridículas, mas não consigo escrever. Fiquei tanto tempo sob tensão que só agora estou me reencontrando e não sou muito inteligente. Não podemos, nem papai, nem Mary [Clough], nem eu mesma, fazer na- da agora. Estamos debilitados e exaustos co- mo um velho relógio.”32 85 M E N S A G E I R A D O S E N H O R O ministério profético de Ellen G. White escreveu: “Meu marido passou mal. Tivemos um período de oração em nosso quarto. Reu- nimos os irmãos e tivemos um período de oração em busca de mais clara compreensão do dever. Senti que era meu dever ir para a reunião campal de Iowa. Tivemos duas ses- sões de oração. Resolvemos finalmente pros- seguir no trem da manhã.” No local do acampamento em Iowa, que ficava próximo da casa de refúgio do casal em Washington, Iowa, Tiago falou quatro vezes e Ellen, cinco. Ambos ficaram reanimados, embora cansados. As quatro reuniões cam- pais da distante região ocidental dos EUA es- tavam à espera deles. Que fazer agora? Eles saíram para o pomar e oraram. Ao rela- tar esta experiência, a Sra. White continuou: “Sentimo-nos muito ansiosos por conhecer nosso dever. Não queremos tomar nenhuma atitude errada. Precisamos de discernimento santificado e sabedoria celestial para agir se- gundo o conselho de Deus. Clamamos a Deus por luz e graça. Precisamos do auxílio de Deus, do contrário pereceremos. Nossa mais ferven- te súplica é pela orientação do Santo Espírito de Deus. Não nos atrevemos a caminhar em qualquer direção sem clara luz.”23 Em South Lancaster, Massachusetts, em 1889, assuntos de imensa importância preci- savam ser tratados, especialmente no que di- zia respeito à compreensão da maneira como homens e mulheres se tornam justos e perma- necem justos diante de Deus. Em um relato para a Review and Herald, ela escreveu: “É pri- vilégio de toda pessoa dizer: ‘Executarei as or- dens do meu Comandante ao pé da letra, com vontade ou sem vontade. Não esperarei por uma sensação feliz, por um misterioso im- pulso.’ Direi: ‘Quais são as minhas ordens? Qual é meu ramo de dever? Que diz o Mestre para mim? Encontra-se aberta a linha de co- municação entre Deus e minha alma? Qual é a minha posição diante de Deus?’ Tão logo entremos na correta relação com Deus, en- tenderemos nosso dever e o cumpriremos. Não pensaremos nas boas coisas que faremos para termos direito à salvação.”24 Na maioria das situações, os profetas des- cobrem seu dever como todos os outros filhos de Deus. Até mesmo Jesus descobriu Seu de- ver, “tendo oferecido, com forte clamor e lá- grimas, orações e súplicas a quem O podia li- vrar da morte, e tendo sido ouvido por causa da Sua piedade”. Heb. 5:7. As decisões tomadas no desempenho do dever são muitas vezes confirmadas de formas convincentes. No úmido calor de julho do ano de 1881, em Battle Creek, Ellen White sentiu a necessidade de passar mais tempo no Colorado, onde conseguiria escrever em me- lhores condições. Mas as necessidades de Bat- tle Creek, particularmente da juventude, a impressionaram e ela resolveu permanecer ali. Uriah Smith escreveu sobre esse inciden- te: “Ao tomar esta decisão, ela sentiu imedia- tamente lhe voltarem o vigor físico e mental, dando-lhe evidência de que esta resolução es- tava em harmonia com o seu dever.”25 Algumas de suas últimas palavras a uma assembléia da Associação Geral (1913) resu- mem sua própria vida de compromisso com o dever: “Quando o Senhor põe a mão para preparar o caminho diante de Seus ministros, é dever deles seguir aonde Ele os dirija. Ele nunca abandona ou deixa em incerteza os que Lhe seguem a guia com inteiro propósito de coração.”26 Extenuante Agenda de Atividades Sua sobrecarregada agenda de atividades era árdua mesmo para homens vigorosos. Já men- cionamos seus exaustivos preparativos de via- gem sob terríveis condições meteorológicas. Naqueles primeiros dias, Ellen e Tiago White ficavam acordados até depois da meia-noite, lendo provas e dobrando revistas para depois enfrentar os deveres intermináveis de cada novo dia.27 Como um exemplo dos deveres da igreja que se amontoavam sobre Ellen White como telhas de madeira em um telhado, podemos citar o dia 23 de junho de 1854. Na época com sete meses de gravidez, ela e o marido voltaram para seu lar em Rochester depois de uma atarefada turnê de sete semanas através de Ohio, Michigan e Wisconsin. A viagem incluiu muitos compromissos de pregação, aconselhamento com evangelistas a respeito de melhores métodos, viagens noturnas de trem e um acidente ferroviário que envolveu 84 SEÇÃO II A Verdadeira Ellen White
  • 52. CAPÍTULO 8 COMO OUTROS A CONHECERAM Coragem e Perserverança Deus pode conceder mensagens a uma pes- soa, mas os profetas devem ter coragem e per- severança para cumprir sua tarefa. Pense nes- sa garota de 17 anos de idade, frágil e maci- lenta, pobre e gravemente enferma, mas que enfrentou o chamado divino para falar em nome de Deus. A idéia parecia absurda para a maioria dos adultos de sua época! Nos anos seguintes, ela cumpriu satisfatoriamente o papel de mãe e esposa, e, acima de tudo, en- caminhou-se com resolução para a senda do dever, senda que muitas vezes a levaria para longe de seus amigos mais íntimos. Não ad- mira que ela tenha escrito: “Eu desejava a morte como uma forma de fugir às responsa- bilidades que sobre mim se amontoavam.”39 Somente uma pessoa corajosa e perseverante poderia imergir nesse tipo de missão na vida – e ser bem-sucedida. A preocupação de Ellen White com o ma- rido, Tiago, vítima de esgotamento nervoso durante 1866/1867, é assombrosa. Levar um marido de 45 anos de idade, cansado, para o norte de Michigan em pleno inverno parecia loucura para todos, mesmo para o médico da família e para os pais de Tiago, que agora mo- ravam em Battle Creek. Todos acharam que ela, na época com quase 39 anos de idade, es- tava sacrificando a vida, e que, por amor aos filhos e à causa de Deus, devia deixar a natu- reza seguir seu curso. Todos acreditavam que Tiago jamais se recuperaria.40 Mas a coragem e a perseverança levaram- na a responder: “Enquanto ele e eu viver- mos, farei todo esforço em favor dele. Aque- le cérebro, aquela mente nobre e magistral, não será deixado em ruínas. Deus cuidará de- le, de mim e de meus filhos. ... Vocês ainda vão nos ver, ombro a ombro, no púlpito sa- grado, pregando as palavras da verdade para a vida eterna.”41 A assombrosa estratégia e esforço de Ellen White para restaurar a saúde física e mental do marido tornou-se desde então um modelo para muitos. Coragem, perseverança e eterno amor alcançaram a vitória, e Tiago voltou pa- ra iniciar o que talvez tenham sido as suas maiores realizações em prol do crescimento da igreja. Durante todo esse período extraor- dinário como enfermeira, confidente, tera- peuta natural e nutricionista do marido, a Sra. White cumpria uma agenda sobrecarre- gada de compromissos de pregação e trabalho literário. Sobre essa corajosa mulher no nor- te de Michigan repousava o futuro da Igreja Adventista do Sétimo Dia (conforme hoje a conhecemos). Ao mesmo tempo, porém, circulavam em Battle Creek acusações distorcidas e infunda- das, boatos que teriam abalado profundamen- te qualquer outra pessoa. Os White, especial- mente Ellen, enfrentaram a todos corajosa- mente. Agindo assim, ela e Tiago obtiveram profundo respeito e gratidão da maioria das pessoas envolvidas.42 Poucas personalidades públicas tiveram que suportar calúnias com tanta freqüência como Tiago e Ellen White. Mais de uma vez, os White foram acusa- dos de tirar proveito indevido de suas mui- tas transações comerciais. Com que rapidez foi esquecida a inigualável destinação de fundos que eles haviam feito para novos projetos, que incluíam desde construções de igrejas, instituições de saúde e casas edito- ras até o mais recente estabelecimento de ensino! Grande parte do ministério de El- len White não era assalariado. Durante muitos anos, os White arcaram com suas próprias despesas de viagem. Eram eles que pagavam os salários das empregadas domés- ticas contratadas para ajudar a cuidar dos seus muitos hóspedes e visitantes. Além dis- so, pagavam seus assistentes de redação com seus recursos pessoais.43 Já se fizeram freqüentes referências aos de- safios físicos que Ellen White teve que en- frentar quase que constantemente por toda a sua vida. Um exemplo de sua coragem sob condições difíceis ocorreu em Basiléia, Suíça, em 15 de junho de 1886, enquanto ela se pre- parava para partir com destino à Suécia. Na época, ela lutava dolorosamente contra a pleurisia. Num artigo da Review and Herald, ela comentou: “Cada respiração era dolorosa. Parecia-me impossível viajar, especialmente à noite. Tomar um carro-leito, ainda que so- mente por uma noite, envolveria despesas ex- tras no montante de dez a doze dólares, e isto estava fora de cogitação. Precisávamos, no entanto, partir de Basiléia naquela noite para podermos chegar em Orebro [Suécia] antes 87 M E N S A G E I R A D O S E N H O R O ministério profético de Ellen G. White Alguns dias depois, eles partiram rumo ao Leste para a próxima série de reuniões cam- pais. Em Norwalk, Ohio, havia 2.000 pes- soas; em Groveland, Massachusetts, um pú- blico estimado em 20.000 pessoas (o maior auditório a que Ellen White já se dirigiu). Escrevendo a William durante essa turnê, ela comentou maternalmente: “Seu pai e sua mãe estão esgotados. Estou parecendo velha e abatida, pelo simples fato de não termos descanso. Trabalhamos com afinco. Seu pai realiza o trabalho de três homens em todas essas reuniões. Jamais vi um homem traba- lhar de maneira tão enérgica e decidida co- mo seu pai. Deus lhe concede energia mais que humana. Se há algum lugar difícil, seu pai o assume.”33 Este programa de atividades de 1876 não era incomum. Típica também era a agenda de pregação de 1880. Tiago não estava bem; o excesso de trabalho havia lhe ocasionado di- versos derrames. Sua vontade era envelhecer galhardamente, coisa mais fácil de dizer do que fazer. As circunstâncias pareciam desper- tar pensamentos e palavras cruéis e insensí- veis. O velho guerreiro continuava a luta, de- sejando que outros levassem o fardo de ma- neira mais eficiente. Enquanto atendia compromissos de reu- niões campais na Costa Oeste, Ellen White recebeu um telegrama de Tiago pedindo que ela o ajudasse a atender aos chamados “do Maine a Dakota, e de Michigan a Kentucky”. Apesar de seu extenso programa literário, ela e Lucinda Hall apanharam o “trem vagaroso” para o Leste no dia 26 de julho. O “trem va- garoso” custava menos, mas, em compensa- ção, levou nove dias! Elas chegaram a Battle Creek ao meio-dia de quarta-feira. Às oito da noite, ela e Tiago tomaram o trem para uma viagem de duas horas até Jackson. Depois de passar a noite com os amigos, saíram no dia seguinte com destino a Alma, aonde chega- ram pouco antes de escurecer, no momento preciso de ela pregar na reunião da noite. De Alma, eles passaram os dois meses se- guintes viajando, semana após semana, para reuniões campais. Essas reuniões incluíam Maine, Massachusetts, Vermont, Nova Ior- que, Ohio, Indiana e a reunião campal nacio- nal em Battle Creek, Michigan, entre 2 e 9 de outubro. Na maior parte delas eles ficaram de três a cinco dias, mas sempre aos sábados e domingos. Tudo isso, não em automóveis se deslocando sobre rodovias asfaltadas, mas na- queles primitivos trens e outros veículos can- sativos – um feito que extenuaria o mais te- naz viajante de hoje, ainda que em carros e ônibus bastante confortáveis.34 Durante todos esses anos atarefados, Ellen White abastecia a Review and Herald e Signs of the Times com grande quantidade anual de artigos. A escrita do volume 4 de The Spirit of Prophecy (O Grande Conflito), embora retar- dada devido a seus muitos compromissos de pregação, estava sempre em sua mente. Em princípios de 1884, contudo, ela deci- diu concluir este original urgentemente: “Todo dia eu escrevo. Pretendo terminar meu livro no mês que vem. Tenho me aplica- do tanto nesta tarefa que mal consigo escre- ver uma carta.”35 Escrevendo para Harriet Smith, esposa de Uriah, ela deu este toque pessoal: “Ao escre- ver meu livro, sinto-me intensamente como- vida. Quero vê-lo sair o mais depressa possí- vel, pois nosso povo necessita tanto dele! Pretendo terminá-lo no mês que vem, caso o Senhor me conceda saúde como tem feito. Tem-me sido impossível dormir por noites, pensando nas importantes coisas que irão ocorrer. Três horas, por vezes cinco, é o máxi- mo de sono que obtenho. Meu espírito está tão profundamente agitado que não posso re- pousar. Sinto que preciso escrever, escrever, escrever, e não demorar.” Antes que ela pudesse concluí-lo, teve de atender ainda três compromissos de reuniões campais. Durante as últimas poucas semanas, ela escreveu a William pedindo que lhe levasse “outra boa caneta-tinteiro”.36 Somente a profunda dedicação ao dever e a energia concedida por Deus, ano após ano, podem explicar setenta anos de surpreenden- tes realizações sob condições as mais exte- nuantes.37 Escrupulosa no Exemplo Pessoal Enquanto Ellen White esteve na Europa (1885), alguém lhe presenteou com um reló- gio de ouro. Isso, no entanto, virou tema de conversa, de sorte que, para não ser mal com- preendida ou tornar-se uma pedra de tropeço, ela o vendeu.38 86 SEÇÃO II A Verdadeira Ellen White
  • 53. CAPÍTULO 8 COMO OUTROS A CONHECERAM passado por circunstâncias semelhantes: “Por que as pessoas sempre levam as coisas a extre- mo? Não conseguem parar quando já foram suficientemente longe, mas, se a conduta de um é questionada, não se satisfazem enquan- to não o esmagam. ... “As próprias pessoas que o [Tiago White] condenariam por usar palavras ríspidas, ser do- minador e autoritário são dez vezes piores do que ele, quando se atrevem a sê-lo. ... Durante meses me senti aflita e com o coração partido, mas lancei meu fardo sobre meu Salvador e já não sou como a cana quebrada. Na força de Je- sus eu afirmo a minha liberdade. …” A carta continuava, mencionando que sua preocupação mais profunda era a de que a contenda entre os principais líderes lanças- se uma sombra sobre a validade de seu minis- tério profético: “Estive em constante temor de que os equívocos e erros de meu marido sejam classificados junto com os testemu- nhos do Espírito de Deus, e minha influência seja grandemente prejudicada. Se eu apre- sentasse um claro testemunho contra erros existentes, eles diriam: ‘Ela se molda pelos sentimentos e pontos de vista do marido.’ Se eu reprovasse meu marido, ele acharia que fui severa e que outros me induziram a ter preconceito contra ele.” Então ela apresentou um resumo da ma- neira como avaliara essas duas reuniões: “Eu estava desolada [em espírito], mas não devia mais continuar assim. Eu devia agir com ple- na liberdade. Eles podiam pensar de mim o que quisessem. Eu lhes daria a reprovação, advertência e estímulo da forma como o Se- nhor me concedesse. O fardo de seus questio- namentos e dúvidas não deveria mais afligir- me nem fechar-me os lábios. Eu devia cum- prir meu dever no temor de Deus e, se eles fossem tentados [por dúvidas sobre ‘influên- cia’], eu não seria responsável por isto. Eu me defenderia no temor de Deus.”48 Uriah Smith, colega de trabalho de Tiago White por trinta anos, resumiu a notável ocasião com um relatório: “Oh, que todos se- jam capazes de atender às boas palavras de conselho e admoestação! Então o espírito de religião reviveria no coração de todos, e a causa de Cristo floresceria em nosso meio.”49 Somente os que estão seguros da missão de sua vida e são transparentes o bastante para todas as pessoas de seu tempo confiarem em seus motivos é que podem enfrentar dilemas de maneira tão corajosa como o fez Ellen White em Battle Creek, em julho de 1881. Tato Mary e John Loughborough foram amigos íntimos dos White, ambas as famílias intei- ramente comprometidas com a missão ad- ventista. Ambas haviam perdido um filho em princípios da década de 1860. As duas jovens mães muitas vezes trocavam pensa- mentos e sentimentos. Em junho de 1861, Mary (na casa dos vinte) havia escrito para Ellen (na época com 33), pedindo sua opi- nião sobre a última moda – usar saias-balão. Depois de apresentar seu conselho, Ellen aproveitou a oportunidade para dizer algo que não era fácil dizer: “Querida Mary, que sua influência fale em favor de Deus. Você precisa adotar uma atitude que exerça in- fluência sobre outros no sentido de elevar- lhes a espiritualidade. ... “E Mary, tolera-me um pouco sobre este assunto. Desejo, com toda bondade de irmã e de mãe, amigavelmente advertir você so- bre outro assunto: Tenho notado muitas ve- zes a maneira como você fala com John diante de outras pessoas, de um modo um tanto dominador e em um tom de voz que soa impaciente. Mary, os outros percebem isso e têm comentado comigo. Isto prejudi- ca sua influência. ... “Talvez eu tenha falado sobre esse assunto mais do que o necessário. Por favor tome cui- dado nesse ponto. Não estou reprovando vo- cê, lembre-se disso, mas apenas aconselhando cautela. Jamais fale com John como se ele fosse um menino. Respeite-o, e os outros as- sumirão uma atitude mental mais elevada, Mary, e você elevará a outros. “Procure ser mais espiritual. Estamos fa- zendo uma obra para a eternidade. Mary, procure ser um exemplo. Nós a amamos co- mo se você fosse um de nossos filhos, e dese- jo muito que você e John consigam prospe- rar. ... Escreva-me, por favor, Mary, tudo. Conte-me todas as suas alegrias, provas, de- cepções, etc. Com muito amor, Ellen G. White.”50 89 M E N S A G E I R A D O S E N H O R O ministério profético de Ellen G. White do sábado.” Elas acabaram embarcando num vagão de segunda classe, chegando à Suécia na manhã de sexta-feira. Esse tipo de coragem e perseverança de- monstrava a verdade de suas palavras escritas vários meses antes: “Eu posso fazer pratica- mente tudo, quando tenho de fazê-lo.”44 Um exemplo interessante da perseverança de Ellen White ocorreu quando seu filho Willie tinha vinte meses de idade. O peque- no Willie brincava com um “barco” na cozi- nha, perto de um grande balde de água de es- fregão. Sua babá saiu do compartimento por um instante a fim de pegar lenha para o fogo. Quando ela voltou, só viu um pezinho estira- do para fora da água suja. Ela puxou o meni- no para fora do balde, e então gritou para a mãe que o filho se afogara. Mandaram chamar Tiago e também um médico. Mas Ellen estava ocupada fazendo William rolar sobre a grama e tentando ex- trair a água de seu corpo. Um vizinho insistiu com Tiago: “Retire o bebê morto das mãos daquela mulher.” “Não”, replicou ele, “é filho dela, e nin- guém vai tirá-lo de seus braços.” Vinte minu- tos se passaram. Então Ellen viu um movi- mento rápido da pálpebra e uma leve contra- ção nos lábios do menino. Logo ele estava em seu berço, agasalhado com roupas quentes. A mãe não desistira. Anos depois, ela disse a respeito de Willie que Deus lhe havia mostra- do que ele nascera para ser o auxiliar dela quando o pai dele morresse. E isso aconteceu realmente.45 Coragem Quando Sozinha Em 1881, Tiago White enfraquecia rapidamen- te. Mais de quatro derrames o haviam deixado fisicamente e emocionalmente fraco, e o exces- so de trabalho consumiu-lhe o restante das for- ças. A Sra. White escreveu em 6 de janeiro que não sabia mais o que fazer para ajudar o marido: “Papai apresenta um estado mental que receio perca ele a razão. Mas ele acaba de suspender as responsabilidades dos assuntos do escritório e vai escrever. Espero que ele faça isso. ... Às ve- zes fico tão perplexa e mentalmente aflita que desejo a aposentadoria ou a morte, mas depois eu torno a cobrar ânimo.”46 Sua verda- deira prova de força veio, porém, de um acontecimento-surpresa. Por volta de maio, ela foi tão criticada em Battle Creek que mes- mo seus amigos mais chegados a tratavam com crescente frieza. Qual a crítica? A pala- vra dela não podia ser confiável porque ela era manipulada pelos outros! Como podia ser isto? Logo ela soube da tensão existente entre seu marido e o Dr. Kellogg. Em seus sombrios momentos de depres- são e paranóia, Tiago usava os escritos dela para questionar a liderança do presidente e do secretário da Associação Geral (G. I. Butler e S. N. Haskell, respectivamente). Do outro lado, J. H. Kellogg atacava Tiago White, e Tiago revidava. De que maneira ocorriam todas essas investidas desagradá- veis? Cada um citava as palavras de Ellen White para provar suas acusações mútuas, enquanto alegava que as “citações” empre- gadas pelo oponente não eram palavras vá- lidas “vindas do Senhor”! Embora cada qual estivesse tentando destruir a influência do outro, a verdadeira prejudicada nisso tudo estava sendo Ellen White. No dia 14 de julho, ela escreveu a William e a Mary, que estavam na Pacific Press, em Oakland, Califórnia: “Esta falta de harmonia está me matando. Tenho que manter meu conselho, mas não tenho confiança em nin- guém [de Battle Creek].… Pois bem, William, estou lhe escrevendo de maneira es- pontânea e confidencial. Espero que o Se- nhor conserve você bem equilibrado. Espero que você não vá a extremos em nada... nem se deixe moldar por nenhuma influência, a não ser a do Espírito de Deus.”47 Durante o sábado, 16 de julho, Ellen Whi- te, com coragem e sinceridade, estava pronta para aliviar a tensão. Ela pediu ao marido e ao Dr. Kellogg que se encontrassem com ela em particular. Leu para eles “uma grande quantidade de páginas”. Na terça-feira se- guinte, à noitinha, ela convocou os líderes denominacionais de Battle Creek e leu para eles as mesmas páginas lidas para Tiago e o Dr. Kellogg. Os resultados foram os mais positivos. A carta seguinte enviada a William e Mary era alegre, esclarecedora e útil a quantos tenham 88 SEÇÃO II A Verdadeira Ellen White
  • 54. CAPÍTULO 8 COMO OUTROS A CONHECERAM ter instrução cristã em Battle Creek College. A Sra. White imediatamente sugeriu que Edith voltasse com ela para a Califórnia e depois continuassem para Michigan. Em uma carta endereçada ao marido Tiago, ela deu mostras de seu bondoso coração. Descre- vendo Edith como “uma garota muito pro- missora”, ela escreveu: “Eu a quero como nossa hóspede e que ela receba todas as aten- ções de que precisa.”54 Ellen White recebeu muitas cartas daque- les que padeciam de doenças ou estavam cho- rando a perda de entes queridos. Quando a Associação Geral enviou J. N. Andrews à Eu- ropa como o primeiro missionário oficial da denominação, enviou um homem que já ha- via perdido a esposa e dois filhos bebês por doença. Ele partiu dos Estados Unidos com Mary, sua filha de doze anos de idade, e Char- les, de 16 anos. Quatro anos depois, em 1878, Mary morreu de tuberculose. Junto com a morte prematura da esposa e agora a de Mary, Andrews sentiu que estava agarrado a Deus “com mão insensível”.55 Uma de Suas Cartas Mais Afáveis Ellen White escreveu a seu amigo de longa data uma de suas cartas mais afáveis, a qual incluía as seguintes palavras: “Temos bebido do mesmo cálice de aflição, mas foi mistura- do com alegria, descanso e paz em Jesus. [Ellen White perdeu dois filhos por doença.] ... A nuvem da misericórdia paira sobre a sua cabeça, mesmo na hora mais escura. Os bene- fícios de Deus a nós são numerosos como as gotas de chuva que caem das nuvens sobre a terra ressequida. ... A misericórdia divina re- pousa sobre você. “Mary, querida e preciosa criança, repousa. Ela foi a companheira de suas tristezas e espe- ranças frustradas. Não mais terá tristeza, nem necessidade nem preocupações. Pelos olhos da fé, você pode antecipar em meio às má- goas, tristezas e perplexidades sua Mary junto com a mãe e os outros membros de sua famí- lia atendendo ao chamado do Doador da vi- da e saindo de sua prisão, triunfantes sobre a morte e a sepultura. ... Se você for fiel, den- tro em pouco estará caminhando com eles pelas ruas da Nova Jerusalém. ... Se seus olhos pudessem ser abertos, veria seu Pai ce- lestial inclinando-Se sobre você com amor; e se pudesse ouvir-Lhe a voz, ela seria em tons de compaixão por você que está abatido pelo sofrimento e aflição. Fique firme em Sua for- ça; há descanso para você.”56 O Dr. John Harvey Kellogg era como um filho para Ellen White. Os White ajudaram- no a pagar seu curso de medicina e lhe pres- taram grande ajuda no desenvolvimento da obra de saúde em Battle Creek.57 Mas em 1904 ele adotou uma conduta que podia po- tencialmente ter dividido a igreja. Em uma mensagem que devia ser apresentada durante a reunião da comissão de nomeações da Lake Union no fim de maio daquele ano, 1904, Ellen White falou de sua simpatia por seu ve- lho amigo, mas “a menos que ele mude de ati- tude, e tome um rumo totalmente diferente estará perdido para a causa de Deus. ... Tenho ficado acordada noite após noite, procurando um jeito de ajudar o Dr. Kellogg. ... Tenho passado quase noites inteiras orando por ele.” Ela fazia o possível para promover união entre o Dr. Kellogg e os líderes da igreja. Ela escreveu aos Pastores A. G. Daniells e W. W. Prescott, informando-os de que fora notifica- da por meio de uma visão que “agora é o tem- po de salvar o Dr. Kellogg”. Ela insistiu em seu propósito, nascido de um coração bondoso: “Nenhum de nós está acima da tentação. Existe uma obra para a qual o Dr. Kellogg está preparado a realizar como nenhuma outra pessoa em nossas filei- ras o pode fazer. ... Devemos empregar todas as nossas forças, não fazendo acusações nem prescrevendo o que ele deve fazer, mas dei- xando que ele reconheça que não queremos que ninguém pereça.” Então ela perguntou: “Isto não vale a pena?”58 As coisas não saíram como Ellen White esperara. As expectativas de unidade eram desalentadoras. Apesar disso, ela escreveu pa- ra o Pastor Daniells: “Se pudermos de algum modo fazer-lhe [a Kellogg] bem, vamos mos- trar que não queremos prejudicá-lo, mas aju- dá-lo. Evitemos tudo quanto provocaria reta- liação. Não demos margem para contenda.”59 Anteriormente, durante os tenebrosos dias da Guerra Civil, os adventistas andavam às 91 M E N S A G E I R A D O S E N H O R O ministério profético de Ellen G. White Acabamos de observar um belo exemplo de como a Sra. White mostrava tato, en- quanto cuidava de seu marido no norte de Michigan, em 1866/1867. Tiago estava imer- so em profunda depressão acompanhada de grave esgotamento nervoso causado pelo ex- cesso de trabalho. Ele achava que não ia du- rar muito. Ellen, contrariando a opinião de todos, inclusive dos médicos, cria que a con- fiança em Deus, o exercício e um regime ali- mentar apropriado dariam a seu marido as melhores oportunidades de restabelecimento. Todo dia eles faziam uma longa caminhada até que chegou a primeira nevada mais forte. Tiago aproveitou os flocos de neve como pre- texto para parar de caminhar! Não por muito tempo. Ellen White foi ter com o irmão Root, na casa de quem estavam hospedados, e lhe pediu emprestado um par de botas. Depois, ela andou com dificuldade mais ou menos quatrocentos metros sobre neve profunda. Ao voltar, pediu ao marido para fazerem sua costumeira caminhada. Ele objetou que não conseguiria caminhar com aquele tempo. “Oh, sim. Você pode”, replicou Ellen. “Por certo você pode seguir minhas pegadas.” Tiago, um homem que tinha grande respei- to às mulheres, viu as pegadas dela – e naque- la manhã “fez sua costumeira caminhada”.51 Ellen White percebeu que seu marido também precisava exercitar o cérebro. Mas ele não queria falar com ninguém exceto os de casa. Assim, com muito tato ela arquite- tou um plano. Quando chegava um visitante com perguntas inquietantes, ela rapidamente o convidava a entrar antes que Tiago pudesse desculpar-se. Então ela dizia: “Marido, está aqui um irmão que veio para fazer uma per- gunta, e como você sabe responder melhor do que eu, eu o trouxe aqui.” Tiago permanecia na sala tempo suficien- te para responder a pergunta. Essa tática fazia com que ele exercitasse a mente, e lentamen- te ele melhorava. Quando se precisou de lide- rança espiritual em Wright, Michigan, a igre- ja local dos White, Ellen forneceu muito conselho, mas “tomava o cuidado de deixar que o marido tomasse a dianteira”.52 Tempos depois, em 1867, a família White mudou-se para sua fazenda em Greenville, Michigan, novamente com o propósito de ajudar Tiago a recuperar a saúde. Ao preparar a horta da casa, a Sra. White pediu ao filho William que comprasse três enxadas e três ancinhos. Tiago não quis tomar sua enxada e seu ancinho, mas ela tomou os seus instru- mentos e começou a trabalhar, fazendo bo- lhas nas mãos. Relutantemente, Tiago foi atrás, movendo-se. Logo ele estava arreando os cavalos e comprando materiais domésti- cos. Ela relatou que ele dormia bem à noite e acordava refeito toda manhã. O planejamen- to, a perseverança e o tato da fiel esposa fun- cionavam, ainda que lentamente. Quando chegou o mês de julho, o feno es- tava pronto para ser cortado. Tiago combi- nou com os vizinhos para estes cortarem o fe- no, e esperava que eles voltassem para ajun- tá-lo em montões para o inverno. Sua esposa, porém, tinha um plano melhor. Ela foi ter com alguns desses vizinhos e lhes pediu para declinarem do compromisso, o que eles resis- tiram a princípio. Quando Tiago pediu que o ajudassem, to- dos os vizinhos se desculparam como se esti- vessem muito atarefados. Tiago ficou muito decepcionado, mas Ellen, com sua típica ani- mação, sugeriu que ela e Willie ajuntariam o feno e o carregariam com o forcado até junto da carroça se Tiago pusesse a carga sobre a carroça e guiasse os cavalos. Mas como se fa- riam os fardos? Os vizinhos ficaram surpresos ao verem aquela pequena mulher de 1,57m pisando e fazendo os fardos enquanto seu marido des- carregava a carroça. Que aconteceu a Tiago? Ele relatou aos leitores da Review: “Tenho trabalhado de seis a doze horas por dia, e tenho desfrutado de um abençoado sono de seis a nove horas toda noite. ... Meu trabalho tem sido preparar o fe- no, cultivar a terra, aplainar o terreno em volta de casa, capinar e colocar os tapetes.”53 O tato, a coragem e o espírito resoluto de Ellen estimularam Tiago a recuperar a saúde. Bondade Muitas foram as ocasiões em que Ellen Whi- te mostrou profundo interesse pelos jovens. Ela encontrou, por exemplo, uma nova famí- lia adventista na reunião campal de Oregon no fim de junho de 1878. A filha adolescen- te, Edith Donaldson, estava ansiosa por ob- 90 SEÇÃO II A Verdadeira Ellen White
  • 55. CAPÍTULO 8 COMO OUTROS A CONHECERAM Perguntas Para Estudo 1. A que você atribui a notável confiança que homens obstinados depositaram tão cedo no ministério de Ellen White? 2. Como você reagiria à sugestão de que Ellen White não vivia o que pregava? 3. Analise os acontecimentos que estimularam a notável generosidade e simplicidade de Ellen White. 4. Que exemplos você daria para ilustrar a coragem e perseverança de Ellen White? 5. Como Ellen White empregou coragem e bom senso na reabilitação do marido Tiago, no inverno de 1866-1867? 93 M E N S A G E I R A D O S E N H O R O ministério profético de Ellen G. White apalpadelas quanto à questão da não-comba- tência. Embora os diversos governos esta- duais bem como o federal tivessem reconhe- cido os adventistas do sétimo dia como não- combatentes, a questão ainda estava longe de ficar esclarecida entre os comandantes dos campos de batalha e muitos jovens ad- ventistas. Enoch Hayes, que havia ingressado no exército, foi excluído da “comunhão da igre- ja de Battle Creek, pelo voto unânime da igreja em 4 de março de 1865”. Quando Ellen White soube desse voto, reagiu com aquela atitude bondosa que caracterizava seu minis- tério. Ela expressou sua convicção de que o jovem não deveria ter sido excluído por se- guir sua consciência e atender o chamado de seu país. Resultado: a exclusão foi anulada e o jovem permaneceu como membro “regular e idôneo”. A bondade prevaleceu.60 92 SEÇÃO II A Verdadeira Ellen White 1. No verão de 1848, Tiago ganhou 40 dólares cortando feno e gastou parte do dinheiro em roupa e o restante em viagem para atender compromissos de pregação. – Biography, vol. 1, pág. 140. 2. Ibidem, pág. 205. 3. Virgil Robinson, James White (Washington, D.C.: Review and Herald Publishing Association, 1976), págs. 81-87; W. C. White, “Sketches and Memories of James and Ellen G. White, XXIV – Settling in Battle Creek”, Review and Herald, 22 de agosto de 1935. 4. Biography, vol. 1, pág. 230. 5. Ibidem, vol. 2, págs. 439 e 440. 6. Ibidem, vol. 3, pág. 293. Na Assembléia de Mineápolis, em 1888, os oficiais haviam alugado dois quartos elegantes e suntuosamente mobiliados. Ellen White objetou e encon- trou na pensão outro quarto modestamente mobiliado. – Ibi- dem, pág. 390. 7. Manuscript Releases, vol. 10, pág. 27 (daqui por diante, MR). 8. Biography, vol. 4, págs. 138-140. 9. Ibidem, pág. 343. 10. Emmett K. VandeVere, “Years of Expansion, 1865-1885”, em Land, Adventism in America, pág. 67. 11. Manuscrito 3, 1888, citado em Arthur White, Ellen G. White, Mensageira da Igreja Remanescente, 2ª ed. (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 1993), pág. 371. 12. General Conference Bulletin, 20 de março de 1891, pág. 184 (Mensagens Escolhidas, vol. 2, pág. 189). 13. SDAE, vol. 10, 1996, pág. 410. 14. Review and Herald, 30 de agosto de 1923. Ver também 26 de julho de 1906, para o relato de Ellen White sobre o minis- tério que ela desenvolvia em seu lar para com os órfãos e ou- tros. 15. Biography, vol. 4, pág. 44. 16. Ibidem, pág. 69. 17. Ibidem, pág. 266. 18. Ibidem, pág. 371. 19. Schwarz, Light Bearers to the Remnant, pág. 311. 20. Christian, Fruitage of Spiritual Gifts, pág. 49. 21. Carta 4, 1850, MR, vol. 1, pág. 31. 22. Para o histórico desta experiência e a maneira como Ellen White se referiu a seu dever específico de comunicar as mensagens divinas, ver Testemunhos Para a Igreja, vol. 1, págs. 583-585. 23. Biography, vol. 2, págs. 383 e 384. 24. Ibidem, vol. 3, págs. 425 e 426. 25. Ibidem, pág. 164. 26. Ibidem, vol. 6, pág. 389 (Mensagens Escolhidas, livro 2, pág. 401). 27. Ibidem, vol. 1, págs. 205. 28. Ibidem, págs. 205 e 301. 29. Ibidem, vol. 2, págs. 225 e 226. 30. Ibidem, pág. 252. 31. Ibidem, vol. 3, págs. 36 e 37. 32. Ibidem, pág. 42. 33. Ibidem, pág. 44. 34. Ibidem, págs. 142 e 143. Ver também pág. 104. 35. Ibidem, pág. 241. 36. Ibidem, pág. 242 (Mensagens Escolhidas, livro 3, pág. 109). 37. Os dois anos que Ellen White passou na Europa foram de tão prodigiosa atividade em escritos, pregações e viagens, muitas vezes sob as condições mais difíceis, que parecem superar mesmo seu programa de atividades na América do Norte. Ver Delafield, Ellen G. White in Europe. 38. Historical Sketches, pág. 123. 39. Life Sketches, pág. 70. 40. Ver págs. 89 e 90. 41. Biography, vol. 2, págs. 157 e 159. 42. Ibidem, págs. 160-170. 43. Ver Biography, págs. 277-284, para a maneira como essas acusações foram tratadas em Battle Creek em 1870. 44. Ibidem, vol. 3, págs. 344 e 345. 45. Ibidem, vol. 1, pág. 337. 46. Carta 1a, 1881. 47. Carta 5a, 1881. 48. Carta 8a, 1881. 49. Review and Herald, 19 de julho de 1881. 50. Biography, vol. 1, págs. 468 e 469. 51. Ibidem, vol. 2, pág. 161 (Mensagens Escolhidas, livro 2, pág. 307). 52. Ibidem, págs. 162 e 165. 53. Ibidem, págs. 188 e 189. 54. Biography, vol. 3, págs. 88 e 89. 55. Maxwell, Tell It to the World, págs. 171-173. 56. Nos Lugares Celestiais, pág. 272. 57. Richard W. Schwarz, John Harvey Kellogg, M.D. (Nashville, TN: Southern Publishing Association, 1970), pág. 30. 58. Biography, vol. 5, págs. 331-333. 59. Ibidem, pág. 339. 60. George R. Knight, “1862-1865: Adventists at War”, Advent Review, 4 de abril de 1991. Referências
  • 56. do Tabernáculo de Battle Creek fosse preser- vada,10 ela recebeu uma carta de A. T. Jones pedindo que ela lhe fornecesse os nomes dos envolvidos na tentativa de assumir o contro- le da propriedade. Compreendendo a verda- deira intenção do pedido, Ellen White repli- cou a sua secretária, Dores Robinson, que “se ela tivesse mesmo que escrever para o irmão Jones, dissesse para ele que tudo está escrito nos livros do Céu, mas que esses livros não estavam à disposição dela para serem envia- dos a ele”.11 A Sra. White sabia como lidar com situa- ção pública potencialmente embaraçosa. Seu filho William muitas vezes acompanhava a mãe em seus trajetos de pregação. Durante um sermão de sábado em Santa Helena, Ca- lifórnia, William sentou na plataforma en- quanto a mãe falava. Percebendo uma onda de riso reprimido na congregação, a Sra. White virou-se e encontrou o filho cochilan- do. Ela pediu desculpas com um toque de hu- mor: “Quando William era um bebê, eu cos- tumava trazê-lo para a plataforma e deixá-lo dormindo numa cesta embaixo do púlpito, e ele nunca perdeu o hábito.”12 Em seus últimos anos em Elmshaven, Ellen White recebia tratamentos de fricção com luvas frias. Isso significava ficar dentro de uma banheira enquanto alguém lhe apli- cava água fria e depois a friccionava com lu- vas para aumentar a circulação. Duas vezes por semana ela recebia uma fricção com sal (“fomentação salina”). Certo dia, sentindo diferença no líquido, molhou o dedo e o levou aos lábios. A enfer- meira havia usado açúcar por engano! Com bom humor, Ellen fez a seguinte observação: “Estava tentando me adoçar, hein?”13 Sensata Intérprete da Verdade Um dos princípios mais sólidos na formação de uma imagem de Ellen White (bem como do propósito de seus escritos) é estudar o tem- po, o lugar e as circunstâncias que regiam aqui- lo que ela escrevia.14 Em outras palavras, o que Ellen White pe- diu encarecidamente durante todo o seu mi- nistério foi bom senso. Em 1904, por exem- plo, o grupo de membros da igreja à qual per- tencia a escola de Santa Helena, Califórnia, tinha um problema. Alguns achavam que não deveriam ser feitas provisões para crian- ças abaixo de dez anos. Por quê? Porque a Sra. White alguns anos antes havia dado o conselho de que os “pais devem ser os únicos mestres dos filhos até que eles cheguem à idade de oito ou dez anos”.15 Outros acha- vam que para algumas crianças seria melhor ficarem na escola do que perambulando pelo povoado enquanto os pais trabalhavam no hospital ou por outras razões não podiam su- pervisionar os filhos. O problema não se restringia a Santa He- lena. Escolas de igreja estavam sendo estabe- lecidas ao redor do mundo onde quer que os adventistas fundassem igrejas. A questão, portanto, era: Que faremos com o conselho da Sra. White a respeito da época apropriada para escolarizar as crianças? Ellen White se achava presente naquela reunião da junta escolar de Santa Helena (realizada em sua casa em Elmshaven) e to- mou a iniciativa de resolver o impasse. Ela re- capitulou o conselho que tantas vezes enfati- zara sobre a responsabilidade dos pais e a fir- me disciplina no lar. Depois ressaltou que também havia observado negligência dos pais, com determinadas crianças que corriam soltas (especialmente na área do instituto de saúde), “de olhar penetrante, com olhos de lince, vagueando de um lugar para outro, sem ter o que fazer, fazendo travessuras” – não a melhor recomendação do decoro adventista perante os hóspedes do instituto de saúde! Sob tais circunstâncias, ela disse: “A me- lhor coisa que pode ser feita é ter uma esco- la... [para os que devem] estar sob a influên- cia refreadora que o professor deve exercer.” Depois ela explicou sua afirmação anterior quanto a manter as crianças fora da escola até os dez anos – um ensino que alguns estavam procurando seguir fielmente. Ela falou clara- mente: “Eu quis dizer-lhes que não havia uma escola na qual se observasse o sábado quando me foi dada a luz de que as crianças não de- viam freqüentar a escola até que tivessem idade suficiente para ser instruídas. Elas de- viam ser educadas em casa para saber quais eram as maneiras apropriadas quando fossem 95 M E N S A G E I R A D O S E N H O R O ministério profético de Ellen G. White E llen White tem sido estereotipada por pessoas desinformadas como uma amar- ga e implacável desmancha-prazeres. Nada mais longe da verdade! L. H. Christian relatou as memórias da mãe de sua esposa que viveu no lar dos White enquanto era secretá- ria de Ellen White. Ela lembra em especial “o espírito ensolarado daquela casa” e do “bon- doso humor e bom senso” de Ellen White.1 Bom Humor Os escritos de Ellen White revelam muitas vezes um toque de humor. Em 1882, ela havia acabado de fazer sua mudança de Oakland pa- ra Healdsburg. Aos 55 anos de idade, ela se di- vertiu comprando cereais e feno, uma vaca com seu bezerro e cavalos para o transporte e trabalho da fazenda. Um de seus cavalos se chamava Dolly, uma égua que parecia alérgi- ca a trabalho. Ellen White escreveu: “Ela fica olhando as montanhas e as colinas como se fosse um turista contemplando a paisagem.”2 Em 1855, ela estava por viajar para a Eu- ropa a bordo do S. S. Cephalonia que devia zarpar no sábado. Seu grupo fez os preparati- vos para embarcar na sexta-feira à tarde a fim de no sábado já estarem acomodados. Ela anotou em seu diário: “Quase conseguimos.”3 Enquanto esteve na Itália, ela escreveu sobre a equipe ministerial de Torre Pelli- ce. O pastor encarregado era ótimo em termos de planejamento, mas realizava pouco. Ellen White descreveu os esforços dele como “uma grande coleção de armas de brinquedo”.4 Alguns meses depois, ainda na Itália, ela desfrutou de alguns dias ensolarados após um período chuvoso e escreveu em seu diário: “Nós viajamos bem devagar, pois o cavalo, embora forte, não desejava prejudicar sua constituição.”5 Depois de um viagem de barco, ela escre- veu: “Quando desci do barco e caminhei rua acima, parecia como se eu ainda estivesse no barco e dava passos tão alterados que as pessoas devem ter pensado que eu estava bêbada.”6 O irmão mais velho de Ellen White, John, ao que parece, não gostava muito de respon- der cartas. Em 21 de janeiro de 1873, numa carta endereçada a ele, Ellen, de maneira gentil e bem-humorada, o censurou: “Queri- do John: Escrevi-lhe diversas cartas, mas não recebi sequer uma palavra sua. Concluímos que você devia estar morto, mas depois pen- samos que, se isso fosse verdade, seus filhos nos teriam escrito.”7 Ela demonstrou seu humor e propensão prática quando escreveu sobre a maneira des- mazelada de vestir de certas mulheres: “Suas roupas sempre parecem que vieram voando e pousaram sobre seu corpo.”8 Ou: “As irmãs não devem, quando no trabalho, usar vesti- dos que as façam parecer espantalhos para afugentar os pássaros-pretos do milharal.”9 No tempo em que Ellen White estava en- viando advertências para que a propriedade 94 CAPÍTULO 9 SEÇÃO II A Verdadeira Ellen White Bom Humor, Bom Senso e Conselheira Prática “Assim, pois, seguimos as coisas da paz e também as da edificação de uns para com os outros.” Rom. 14:19.
  • 57. CAPÍTULO 9 BOM HUMOR, BOM SENSO E CONSELHEIRA PRÁTICA carecidamente aos pastores que estudassem a “maneira mais sábia” de usar os órgãos vo- cais “pelo exercício de um pouco de bom senso”.28 Ellen White preocupava-se com a manei- ra como a juventude estava sendo instruída para o mundo real. Ninguém parecia mais otimista quanto às possibilidades abertas a jo- vens laboriosos e dedicados. Ao mesmo tem- po, ela se preocupava com aqueles que “são simplesmente criaturas inúteis, que servem apenas para respirar, comer, vestir, e dizer to- lices. ... Poucas jovens, porém, mostram real discernimento e bom senso. Vivem uma vida de borboletas, sem objetivo especial.”29 Muitas vezes ela escreveu que o ensino manual bem como o preparo prático para a vida devem ser parte da educação cristã. Tal ensino tornaria a pessoa que se prepara para as diversas profissões científicas e acadêmicas bem mais habilitada para o cumprimento de seus deveres: “A educação tirada principal- mente dos livros conduz a um modo superfi- cial de pensar. O trabalho prático provoca a observação minuciosa e pensamento inde- pendente. Efetuado convenientemente, ten- de a desenvolver aquela sabedoria prática a que chamamos de bom senso.”30 Depois de assistir a cultos religiosos em al- gumas igrejas, a Sra. White observou: “Às ve- zes é mais difícil disciplinar os cantores e man- tê-los em forma ordeira do que desenvolver hábitos de oração e exortação. Muitos querem fazer as coisas à sua maneira. Não concordam com as deliberações, e são impacientes sob a liderança de alguém. No serviço de Deus se re- querem planos bem amadurecidos. O bom senso é coisa excelente no culto do Senhor.”31 Esse princípio de bom senso deve ser apli- cado a todas as áreas da vida cristã, como por exemplo no tipo de roupa que alguém deve usar.32 De tempos em tempos, as pessoas introdu- ziam o assunto do vestuário em um debate na igreja. Aqui novamente Ellen White usou o bom senso e deu um conselho prático: “A questão do vestuário não deve ser nossa ver- dade presente.” “Sigam costumes no vestir até onde eles se conformem com os princí- pios de saúde. Vistam-se nossas irmãs com simplicidade, como muitas fazem, tendo as vestes de material bom e durável, apropriado para esta época, e não permitam que a ques- tão do vestuário lhes encha a mente.”33 Em Christiana (Oslo), Noruega, em 1885, Ellen White aconselhou cerca de 120 novos adventistas, alguns dos quais precisavam de orientação sobre a freqüência dos filhos às es- colas públicas no sábado e sobre transações comerciais no sábado. Alguns, contudo, “fa- ziam da questão do vestuário a coisa de suma importância, criticando peças de vestuário usadas por outros, e sempre prontos a conde- nar todo aquele que não satisfizesse exata- mente suas idéias. Alguns condenavam as gravuras, insistindo em que são proibidas pe- lo segundo mandamento, e que tudo dessa es- pécie fosse destruído.”34 Que problema pressentia ela? Temia que os “descrentes” tivessem a impressão de que os adventistas “eram um grupo de fanáticos e ex- tremistas, e que sua fé singular os tornava des- corteses e mesmo de caráter não cristão”. Mais adiante: “Um só fanático, de espírito forte e idéias radicais, que oprima a consciência dos que querem proceder direito, fará grande da- no.”35 À medida que o tempo passava, agrada- va-lhe saber que o bom senso prevalecia. Em seus sermões e em muitas cartas ende- reçadas a jovens que ela conhecia muito bem, a Sra. White enfatizava a necessidade de bom senso ao fazer-se a escolha do companheiro da vida.36 Seu conselho de longo alcance incluía orientação direta e franca aos membros casa- dos da igreja. Ela mostrava que as tensões do- mésticas muitas vezes eram causadas por irres- ponsabilidade conjugal e falta de bom senso.37 Conselheira Prática A religião prática era, ao que parece, o tema harmonizador através de todos os escritos de Ellen White. Ela via uma relação direta entre fazer o trabalho da igreja e representar apro- priadamente o caráter de Deus. Quando a no- va casa editora australiana estava prestes a fa- lir, ela indicou os problemas: os orçamentos de serviços eram muito baixos, faltava ge- 97 M E N S A G E I R A D O S E N H O R O ministério profético de Ellen G. White à escola, e para não ser desencaminhadas. A iniqüidade que se espalha pelas escolas co- muns é quase inconcebível. É assim que é.” Ela foi mais fundo ao expressar sua preocu- pação com aqueles que faziam uma aplicação irrazoável de seus escritos: “Meu espírito tem sido muito agitado quanto à idéia: ‘Ora, a ir- mã White disse assim e assim, ... portanto, procederemos exatamente de acordo com is- so.’ Deus quer que todos nós tenhamos bom senso, e deseja que raciocinemos movidos pe- lo bom senso. As circunstâncias alteram as condições. As circunstâncias modificam a re- lação das coisas.”16 Junto com as palavras-chaves que melhor descrevem a verdadeira Ellen White, deve- mos incluir “bom senso”. Os princípios que ela revelou eram claros, oportunos e perenes. Mas aplicá-los exigia santificado bom senso. Ellen White compreendia muito bem a omissão da verdade.17 Ela sabia que teologia sem bom senso e um estilo de vida correspon- dente criaria preconceito contra o evange- lho. Através de todos os seus escritos ela en- fatiza que palavra e ação, doutrina e vida ja- mais devem ser separados.18 Exercer bom senso não é negar o conselho bíblico. O bom senso santificado aplica ver- dades imutáveis à situação humana, levando em conta todas as circunstâncias. O bom senso não rebaixa as instruções divinas com respeito ao pensamento e comportamento humanos; eleva as pessoas a elas, dentro das capacidades e possibilidades do tempo, do lu- gar e da circunstância. Os princípios são pe- renes, mas aplicá-los exige bom senso. Em certa ocasião, ao ser interrogada sobre deter- minadas práticas da Escola Sabatina, Ellen White respondeu: “Exatamente: não é esse o lugar para isso. Isso deve ser feito, mas tem seu tempo e lugar.”19 Por exemplo, ela escreveu bastante sobre princípios de saúde. Apresentou claramente algumas práticas de saúde bastante avançadas para o pensamento convencional de sua épo- ca. Mas esses princípios devem ser compreen- didos e aplicados utilizando-se o bom senso. Com respeito a tomar duas refeições por dia, ela escreveu: “Alguns ingerem três refei- ções ao dia, quando duas seria mais condizen- te com a saúde física e espiritual.”20 Mas ela também escreveu: “O costume de comer ape- nas duas vezes por dia, em geral, demonstra- se benéfico à saúde; todavia, sob certas cir- cunstâncias, talvez algumas pessoas tenham necessidade de uma terceira refeição.”21 Revelando também seu bom senso, ela es- creveu em 1903: “Eu tomo apenas duas refei- ções ao dia. Não penso, porém, que o núme- ro de refeições deva ser um teste. Se há os que desfrutam melhor saúde tomando três refei- ções, é direito seu tomarem três.”22 Sempre o Melhor O princípio do que é melhor sob todas as cir- cunstâncias, não meramente o que é bom, de- ve ser o ponto de referência do cristão. De- masiadas vezes, o bom é inimigo do melhor. Em outras áreas do viver saudável, o con- selho de Ellen White também foi benéfico para milhões de pessoas. Por quê? Por causa do seu princípio de bom senso, por exemplo, na área da combinação dos alimentos23 ou na recomendação das mesmas práticas de saúde para todos.24 Diferentemente das pes- soas de seu tempo, ela via a íntima ligação existente entre a vitalidade, o estado geral de boa saúde e o exercício físico. Não ape- nas exercitar-se, mas ter a atitude correta quando em exercício! Tudo era uma questão de bom senso.25 Ao dirigir a obra pública, principalmente em nossas instituições de saúde, Ellen White admoestou: “Ajam de tal maneira que os pa- cientes vejam que os adventistas do sétimo dia são um povo dotado de bom senso.”26 Além disso, os obreiros adventistas das áreas médica e ministerial não devem dar a impressão, como outros grupos cristãos têm feito, de que os doentes podem ser curados somente pela oração. Novamente, Ellen White apela para o bom senso.27 Ao que parece, ela dispunha de um conse- lho sensato para todas as áreas. Alguns pasto- res estavam sendo vítimas da moda de dicção predominante de pregar num tom de voz an- tinatural, longe do estilo coloquial que me- lhor reflete o raciocínio calmo. Ela pediu en- 96 SEÇÃO II A Verdadeira Ellen White
  • 58. CAPÍTULO 9 BOM HUMOR, BOM SENSO E CONSELHEIRA PRÁTICA vem enfermeira que possuía apenas algu- mas roupas, e por isso vovó lhe deu três cortes de fazenda suficientes para fazer três vestidos: um vermelho, um azul e um cor de ouro. Ela disse para aquela jovem, assim co- mo dissera para diversas mulheres, que ela devia ter pelo menos um vestido verme- lho.”43 Ellen White jamais perdeu a capaci- dade de relacionar-se com as pessoas de maneira prática. 99 M E N S A G E I R A D O S E N H O R O ministério profético de Ellen G. White renciamento no controle de custos e as des- pesas gerais com o escritório eram elevadas demais. Então ela escreveu: “Foi-me mostra- do que esta não era a maneira de lidar com o negócio. Não é da vontade de nosso Pai ce- lestial que Sua obra deva ser dirigida de mo- do a ser uma constante dificuldade. ... Al- guns dos obreiros não estão dispostos a aju- dar nem a instruir seus colegas de trabalho. ... Os obreiros da Editora Echo tinham pou- quíssima compreensão dos métodos corretos de obter sucesso.” Ela concluiu seu conselho com estas pala- vras: “Irmãos e irmãs ligados ao trabalho da Editora Echo, estas palavras que eu escrevi foram proferidas por meu guia.”38 Durante aqueles dias difíceis, quando o futuro de um colégio na Austrália parecia incerto, Ellen White confiava que um terre- no comprado “a baixo preço” atenderia efe- tivamente às necessidades de uma futura es- cola. Nenhum membro da comissão, porém, estava convencido a respeito do que lhe fo- ra mostrado. Ela ficou angustiada com a “precaução não santificada” demonstrada por eles.39 Em uma carta a Marian Davis, sua confi- dente e eficiente auxiliar na confecção de li- vros, a Sra. White usou sua imaginação práti- ca a respeito de Avondale e, baseada no con- selho de seu Guia, escreveu: “Planejei o que pode ser cultivado em diversos lugares. Disse eu: ‘Aqui pode ser uma plantação de alfafa; ali, de morangos; acolá, de milho doce e mi- lho comum. Este solo produzirá boas batatas, enquanto aquele produzirá boas frutas de to- das as espécies.”40 Parte do problema daqueles dias iniciais na Austrália era que não se havia feito mui- ta coisa no ramo da agricultura científica. Ellen White sabia que, se Avondale mos- trasse o caminho no adequado gerencia- mento do solo, o beneficiado não seria so- mente o colégio. Ela sabia que a pobreza da- quela região da Austrália seria grandemen- te reduzida quando o povo reconhecesse que era capaz de produzir com êxito o pró- prio alimento. Em uma carta endereçada a Edson, ela enfatizou o que havia exemplifi- cado no pomar da escola e em suas próprias terras: “O cultivo de nossas terras requer o exercício de toda energia cerebral e tato que possuímos. As terras ao nosso redor tes- tificam da indolência do homem. ... Espera- mos ver fazendeiros inteligentes, que sejam recompensados por seu ardoroso trabalho. ... Se fizermos isto, teremos feito uma boa obra missionária.”41 A Cura de Herbert Lacey Precisava-se muitas vezes de conselho práti- co no tratamento dos doentes. O Prof. Her- bert Lacey, que liderava em 1897 o progra- ma escolar em Avondale, foi afligido repen- tinamente por uma febre tifóide. Em apenas uma semana ele perdeu nove quilos; sua vi- talidade estava baixa e sua febre, alta. Con- victos do sucesso do Dr. Kellogg com a hi- droterapia, a equipe médica aplicou gelo pa- ra baixar a febre e restaurar a circulação de “seus intestinos”. Ao ouvir isso, Ellen Whi- te enviou rapidamente um telegrama para os médicos: “Não usem gelo, mas aplicações quentes.” Por que ela fez isso, e o fez com tanta rapi- dez? Ela viu muitíssimas pessoas morrendo de tifo, em grande parte devido às drogas con- vencionais que destruíam a capacidade de o paciente vencer o enfraquecimento causado pelas drogas. Mas ela sabia também que a hi- droterapia devia ser usada sabiamente. Apli- car gelo sobre a cabeça e o corpo de Lacey, que estava com baixa vitalidade, iria enfra- quecê-lo ainda mais. Tempos depois, a Sra. White escreveu a respeito desse grave acontecimento: “Eu não ia ser tão delicada com o médico a ponto de permitir que a vida de Herbert Lacey fosse jo- gada fora. ... Pode haver casos em que as apli- cações de gelo funcionem bem. Mas os livros de prescrições que são seguidos à risca no que diz respeito às aplicações de gelo devem ter explicações adicionais, para que as pessoas com baixa vitalidade usem o quente em lugar do frio. ... Fazer apenas o que o livro do Dr. Kellogg recomenda sem refletir sobre o as- sunto é simplesmente loucura.”42 A respeito do espírito prático e do bom senso de Ellen White, sua neta Grace White Jacques disse certa vez: “Lembro de uma jo- 98 SEÇÃO II A Verdadeira Ellen White 1. Christian, Fruitage of Spiritual Gifts, pág. 48. 2. Biography, vol. 3, pág. 195. 3. Ibidem, pág. 290. 4. Delafield, Ellen G. White in Europe, pág. 174. 5. Ibidem, pág. 177. 6. Manuscrito 4, 1878, citado em MR, vol. 5, pág. 178. 7. Glen Baker, “The Humor of Ellen White”, Adventist Review, 30 de abril de 1987. 8. Orientação da Criança, pág. 415. 9. Tetemunhos Para a Igreja, vol. 1, pág. 464 (O Lar Adventista, págs. 252 e 253). 10. Biography, vol. 6, págs. 124-129. 11. D. E. Robinson a W. C. White, 30 de setembro de 1906. 12. Baker, “The Humor of Ellen White”. 13. Ibidem. 14. Ver pág. 395. “Quanto aos testemunhos, coisa alguma é ig- norada; coisa alguma é rejeitada; o tempo e o lugar, porém, têm que ser considerados. Coisa alguma deve ser feita impor- tunamente. Alguns assuntos precisam ser retidos porque al- gumas pessoas fariam uso impróprio do esclarecimento dado. Todo jota e til é essencial e precisa aparecer em tempo opor- tuno. No passado, os testemunhos eram cuidadosamente pre- parados antes de serem enviados para publicação. E todo as- sunto é ainda cuidadosamente estudado depois de ser escrito pela primeira vez.” – Mensagens Escolhidas, livro 1, pág. 57. 15. Testemunhos Para a Igreja, vol. 3, pág. 137 (Fundamentos da Educação Cristã, pág. 21). 16. Biography, vol. 5, págs. 312-315 (Mensagens Escolhidas, vol. 3, págs. 216 e 217). Leia toda a seção, págs. 315-317, para co- mentários adicionais que mostram os claros princípios de Ellen White relativos à educação infantil, a quem e como de- via ser ministrada. 17. Ver Apêndice P. 18. “Precisamos ser guiados pela genuína teologia e o bom senso. Nossa alma necessita estar rodeada pela atmosfera do Céu. Homens e mulheres devem vigiar-se a si mesmos; estar de contínuo em guarda, não permitindo palavra ou ação que ve- nha fazer com que seja vituperado o seu bem. (Rom. 14:16.) O que professa ser seguidor de Cristo tem de vigiar-se a si mesmo, conservando-se puro e incontaminado em pensa- mento, palavra e ação. Sua influência sobre os outros deve ser de molde a elevar. Sua vida deve refletir os brilhantes raios do Sol da Justiça.” – Conselhos aos Professores, Pais e Es- tudantes, págs. 257 e 258. Ver págs. 305-307, 311, 326, 400- 402 e 436 para outros exemplos de Ellen White apelando pa- ra o bom senso. 19. Conselhos Sobre a Escola Sabatina, pág. 186. 20. Testemunhos Para a Igreja, vol. 4, págs. 416 e 417 (Conselhos Sobre o Regime Alimentar, pág. 141). 21. A Ciência do Bom Viver, pág. 321. Ver também Educação, pág. 205. 22. Conselhos Sobre o Regime Alimentar, pág. 178. 23. “No uso dos alimentos, devemos exercer discernimento e bom senso. Ao percebermos que alguma coisa nos faz mal, não precisamos escrever cartas de consulta [a Ellen White] para saber a causa do distúrbio. Usemos nosso raciocínio. Mudem o regime; usem menor quantidade de alguns ali- mentos; experimentem outras preparações. Logo sabere- mos o efeito que determinadas combinações exercem sobre nós. Não somos máquinas; somos seres humanos, inteli- gentes; e devemos exercer nosso bom senso. Podemos ten- tar diferentes combinações de alimento.” – The Kress Col- lection, pág. 144. 24. “Há verdadeiro bom senso na reforma do regime. O assunto deve ser larga e profundamente estudado, e ninguém devia criticar outros porque não estejam, em todas as coisas, agin- do em harmonia com seu ponto de vista. É impossível esta- belecer uma regra fixa para regular os hábitos de cada um, e ninguém se deve considerar critério para todos. Nem todos podem comer as mesmas coisas. Comidas apetecíveis e sãs para uma pessoa podem ser desagradáveis e mesmo nocivas para outra. Alguns não podem usar leite, ao passo que outros tiram bom proveito dele. Pessoas há que não conseguem di- gerir ervilhas e feijão; para outros, eles são saudáveis. Para uns as preparações de cereais integrais são boas, enquanto outros não as podem ingerir.” – A Ciência do Bom Viver, págs. 319 e 320. “Não fazemos da reforma de saúde um leito de Procusto,* cortando as pessoas quando o ultrapassam ou esticando-as até que atinjam as dimensões. Uma só pessoa não pode servir de norma para todas as outras. O que queremos é uma pequena pitada de bom senso. Não sejam extremistas. No caso de ha- ver erro, é melhor errar do lado das pessoas do que do lado em que não se pode alcançá-las. Não sejam diferentes simples- mente por querer ser diferentes. Fora com o bolo. As pessoas podem matar-se com doces. Os doces são mais prejudiciais às crianças do que qualquer outra coisa.” – Sermons and Talks, vol. 1, pág. 12. 25. “O mundo está cheio de mulheres com baixa vitalidade e pouco bom senso. A sociedade precisa muito de mulheres saudáveis e sensatas, que não temam trabalhar nem sujar as mãos. Deus lhes deu mãos para usarem no trabalho útil. Deus não lhes deu a maravilhosa máquina do corpo humano para ficar paralisada por inatividade. Era propósito de Deus que a maquinaria viva estivesse empenhada em atividade diária, pois é esta atividade ou movimento o que lhe conserva o vi- gor. O trabalho manual acelera a circulação do sangue. Quanto mais ativa for a circulação do sangue, mais livre será o sangue de obstruções e impurezas. O sangue nutre o corpo. A saúde do corpo depende da saudável circulação do sangue. Se a obra é realizada sem o coração estar nela, não passa de trabalho enfadonho, e não se obtém o benefício que deveria resultar do exercício.” – Signs of the Times, 29 de abril de 1885. 26. Evangelismo, pág. 540. 27. “Não permitam que prevaleça a idéia de que o Retiro de Saú- de é um lugar onde os doentes são curados pela oração da fé. Haverá ocasiões em que isto será feito, e precisamos constan- temente ter fé em Deus. Ninguém pense, porém, que aqueles que maltrataram a si mesmos e não cuidaram de si mesmos de * Leito de ferro onde, segundo a mitologia grega, Procus- to, famigerado ladrão, estendia suas vítimas, cortando-lhes os pés quando ultrapassavam, ou esticando-os quando não al- cançavam o tamanho do leito. Referências
  • 59. CAPÍTULO 9 BOM HUMOR, BOM SENSO E CONSELHEIRA PRÁTICA maneira inteligente podem vir para o Retiro de Saúde e ser curados pela oração da fé, pois isto é presunção. Eu vejo meus irmãos exercendo tão pouca sabedoria e tão pouco bom senso que meu coração fica pesaroso, dolorido e angustiado. Eles não têm idéias sensatas nem honram a Deus. Precisam do toque di- vino. Se predominar a idéia de que os doentes devem vir ao Instituto para serem curados pela oração da fé, vocês terão um estado de coisas que nem imaginam, ainda que eu lhes descre- vesse isso usando os melhores recursos da língua inglesa que eu fosse capaz de dominar.” – MR, vol. 7, pág. 370 (1886). 28. “Foi-me mostrado que nossos pastores estão causando grande prejuízo a si mesmos pelo descuido no uso dos órgãos vocais. Chamamos-lhes a atenção para este importante assunto e de- mos, por intermédio do Espírito de Deus, advertências e ins- truções. Era dever deles aprender a maneira mais sábia de usar esses órgãos. A voz, este dom do Céu, é uma poderosa fa- culdade para o bem e, caso não seja pervertida, glorificará a Deus. Tudo o que era essencial era estudar e seguir conscien- ciosamente algumas regras simples. Mas em vez de educarem- se, como deviam ter feito pelo exercício de um pouco de bom senso, contrataram um professor de técnica vocal.” – Teste- munhos Para a Igreja, vol. 4, pág. 604. Ver também Medicina e Salvação, págs. 264 e 265. 29. Testemunhos Para a Igreja, vol. 1, pág. 394. 30. Educação, pág. 220. 31. Evangelismo, pág. 505. 32. “As mulheres cristãs não se devem dar a trabalhos para se tor- narem objeto de ridículo por vestir diferentemente do mun- do. Mas, se seguindo suas convicções de dever a respeito do vestir modesta e saudavelmente, elas se acham fora da moda, não devem mudar de vestuário a fim de ser semelhantes ao mundo; porém devem manifestar nobre independência e co- ragem moral para ser corretas, ainda que o mundo inteiro de- las difira. Caso o mundo introduza um modo de vestir decen- te, conveniente e saudável, que esteja em harmonia com a Bíblia, não muda nossa relação para com Deus ou para com o mundo o adotar tal estilo de vestuário. As mulheres cristãs devem seguir a Cristo e fazer seus vestidos em conformidade com a Palavra de Deus. Devem evitar os extremos. Devem elas adotar humildemente uma conduta reta, apegando-se ao direito por ser direito, sem se preocupar com aplausos ou cen- suras.” – Testemunhos Para a Igreja, vol. 1, págs. 458 e 459 (Mensagens Escolhidas, vol. 2, págs. 476 e 477). 33. Para a citação completa, Manuscrito 167 (1897), onde Ellen White apresenta princípios orientadores sobre a reforma do vestuário, ver o Apêndice em D. E. Robinson, The Story of Our Health Message, terceira edição (Nashville: Southern Publishing Association, 1965), págs. 441-445. (Orientação da Criança, pág. 414.) 34. Mensagens Escolhidas, vol. 2, pág. 319. 35. Ibidem. 36. “A juventude confia demais no impulso. Não deve entregar- se demasiado facilmente, nem deixar-se cativar muito de- pressa pelo atraente exterior do pretendente. ... Se há algo em que seja preciso o bom senso, é este; mas o fato é que ele é pouco empregado neste assunto.” – Review and Herald, 26 de janeiro de 1886 (Mensagens aos Jovens, pág. 450). 37. Fazendo um apelo a uma esposa egocêntrica, Ellen White es- creveu: “Você acha que não é decepcionante para seu mari- do constatar que você é o que Deus me mostrou que você é? Será que ele casou com você com a expectativa de que você não assumiria responsabilidades, não compartilharia perple- xidades nem exerceria abnegação? Esperava ele que você não se sentiria na obrigação de exercer domínio próprio, ser ale- gre, bondosa, paciente e sensata?” – MR, vol. 16, pág. 310. 38. Biography, vol. 4, págs. 26 e 27. 39. Ibidem, pág. 215. 40. Ibidem, pág. 154. Para leitura adicional sobre o desenvolvimen- to divinamente orientado de Avondale College, ver pág. 355. 41. Ibidem, pág. 224 (Testemunhos Para Ministros e Obreiros Evan- gélicos, págs. 243 e 244). 42. Ibidem, págs. 292 e 293. 43. “My ‘Special’ Grandmother”, The Youth’s Instructor, 5 de de- zembro de 1961. 100 SEÇÃO II A Verdadeira Ellen White Perguntas Para Estudo 1. Se você tivesse que explicar o valor do “bom senso”, como você começaria, à vista do fato de que a Palavra de Deus, não nossa opinião pessoal, é a prova da verdade? 2. Como refutaria a acusação de que Ellen White era uma “desmancha-prazer” e uma “san- ta” mal-humorada? 3. Qual o princípio fundamental que decide como aplicar o bom senso em todos os aspec- tos da vida?
  • 60. Compradora Excelente Em determinado momento de seu movimen- tado programa de atividades na Europa, Ellen White sentiu a necessidade de diminuir um pouco o ritmo inflexível de suas atividades li- terárias e compromissos de pregação. Como forma de distração, ela e Sara McEnterfer, sua companheira de viagem, faziam trabalhos de costura para si mesmas e para os outros. Al- gumas mulheres, percebendo que ela mani- festava bom gosto e economia quando com- prava, freqüentemente queriam a ajuda dela ao fazerem suas compras.8 Em todas as coisas, porém, até mesmo na costura, ela recomendava o equilíbrio e insis- tia em que fossem mantidas as prioridades corretas. Falando a respeito das mães, escre- veu: “Mantenha-se ela bem-humorada e ale- gre. Em vez de passar todos os momentos num costurar sem fim, faça do serão um apra- zível período social, uma reunião de família depois dos deveres do dia.”9 Entusiasta Horticultora Ellen White era uma horticultora entusiástica, não apenas para atender suas necessidades do- mésticas de vegetais e frutas, mas também para embelezar o lar com flores frescas. A primave- ra em Battle Creek (1859) mexeu com a veia de jardineira desta atarefada mãe de 31 anos de idade e três filhos. A respeito de um 24 de mar- ço frio e ventoso, o diário dela diz: “Levantei cedo. Ajudei meu marido e o irmão Richard [Godsmark] a transportar uma muda de grose- lheira para plantar em nosso quintal.” No dia 30 de março, o tempo ficou mais quente, e eis o que ela fez: “Plantei framboe- seiras. Fui à loja Manchester buscar mudas de morangos. Adquiri algumas groselheiras. En- viei três cartas.” No dia seguinte, ela plantou “um canteiro de morangos”. Duas semanas depois escreveu: “Passei a maior parte do dia fazendo um jar- dim para meus filhos. Estou disposta a tornar- lhes o lar tão agradável quanto me for possí- vel, para que o lar seja para eles o lugar mais agradável de todos.”10 De seu pequeno lar em Washington, Iowa, ela escreveu para Edson: “Estamos cercados de flores de quase todas as espécies, mas o mais be- lo de tudo é estar rodeados de rosas por todos os lados, rosas perfumosas de todas as cores. As rainhas-do-prado acabam de desabrochar, bem como as campânulas de Baltimore. As peônias têm estado muito belas e perfumadas, mas es- tão começando a murchar rapidamente. Faz vários dias que estamos comendo morangos.”11 Praticar jardinagem significava para Ellen White trabalho, mas trabalho prazeroso. Es- crevendo de Oakland, Califórnia, para o ma- rido em Battle Creek, mencionou uma nova amiga que repartiu plantas para o seu jardim: “Organizei minhas coisas no jardim de minha nova casa à luz da lua e com a ajuda de meu lampião. As duas Marys tentaram fazer com que eu esperasse até o amanhecer, mas eu não lhes dei ouvido. Tivemos um belo aguaceiro na noite passada. Fiquei contente em ter in- sistido em arrumar minhas plantas.”12 Em 1881, os White tinham voltado a mo- rar em Battle Creek. Desta vez, escrevendo a Mary, sua nora, Ellen White pediu mudas do jardim que plantara em Oakland: “Quero lhe pedir um favor. Pegue uma caixa pequena e coloque nela pequenas raízes e mudas de cra- vos, alguns galhos de rosas seletas, brincos- de-princesa e gerânios e os envie para mim.” Alguns dias depois, ela escreveu: “Nossa ca- sa em Michigan está linda. ... Estive plantando arbustos e flores até formar um bom jardim. Te- nho um grande número de peônias; espero con- seguir cravos da Califórnia. Quero adquirir um pouco daquelas folhagens verdes para bordas de canteiro que conseguimos com a irmã Rollin. ... Desejo ter algumas sementes da Califórnia.”13 Esse grande e ávido interesse em jardim e pomar preparou-a para o desafio na Austrália na década de 1890. Ao perceber que a maior parte do incentivo que dera à expansão do de- senvolvimento da agricultura caíra em ouvi- dos pessimistas, declarou ousadamente que os homens da região estavam equivocados. Para dizer a verdade, ela afirmou que eles estavam levantando “falso testemunho” contra a terra. Pelo exemplo e pela exortação visionária, ela mostrou o caminho. O resultado foi reca- pitulado em carta escrita em 3 de fevereiro de 1896: “Tenho a prova de que, se cuidarmos das árvores e hortaliças na estação seca, tere- mos bons resultados. Nossas árvores estão in- do bem . ... Posso afirmar, por experiência própria, que disseram falso testemunho con- tra esta terra. No terreno da escola, temos to- mates, abóboras, batatas e melões. ... Sabe- 103 M E N S A G E I R A D O S E N H O R O ministério profético de Ellen G. White D e todas as líderes femininas de grupos sociais ou religiosos do século dezeno- ve, Ellen White foi, por assim dizer, única. Ela combinava as vigorosas caracterís- ticas de pioneira norte-americana com as vir- tudes da típica mulher vitoriana. À Vontade com Cavalos Eis uma mulher de 1,57m de altura, outrora frágil, que podia arrear e montar cavalos tão bem quanto a maioria dos homens.2 Além disso, baseada na própria experiência, insistia fortemente em que os rapazes deviam apren- der, em casa ou na escola, como “fazer a cama e arranjar o quarto, lavar a louça, preparar a comida, lavar e consertar a própria roupa”. As jovens deviam aprender a “arrear, caval- gar, usar a serra e o martelo, assim como o an- cinho e a enxada”.3 Habituada a Dificuldades Ellen White é com muita freqüência lembra- da como oradora convincente e escritora pro- lífica, mas as pessoas de seu tempo também a conheceram como dona de casa competente e mãe bem-disposta. Tudo isso não era fácil numa época em que não havia eletricidade nem sistema de abastecimento de água. Não era fácil também porque ela e o marido pas- savam anos sem nenhuma renda regular. Não ter um “lugar fixo para morar” tornava a vida completamente difícil.4 Habilidosa na Costura Mas os White e dois de seus filhos sobrevi- veram, assim como a maioria das outras fa- mílias dotadas com o espírito pioneiro do sé- culo dezenove. Durante a maior parte de sua longa vida, Ellen White fez suas próprias costuras. Certa vez, ela escreveu: “Os len- çóis, as fronhas e as minhas roupas estão em boa ordem.”5 Em um dos últimos dias de novembro de 1865, em Rochester, Nova Iorque, ela escre- veu uma cartinha para Tiago: “A noite passa- da foi uma noite fria. Eu receava dormir sozi- nha num quarto frio, mas minha bonita e quente camisola ficou pronta. Eu a vesti e fi- cou realmente confortável. ... Estou me sain- do muito bem como costureira, e sem ficar sobrecarregada.”6 Um Dia Típico Ao lermos os diários e cartas de Ellen Whi- te, podemos ter uma idéia de como era sua vida diária. Numa carta de 1873, endereça- da ao Pastor D. M. Canright e esposa, ela escreveu, em parte: “Faz algum tempo que sinto o dever de escrever para os irmãos, mas não tenho encontrado tempo. Levan- tei às cinco e meia da manhã, ajudei Lucin- da a lavar os pratos, escrevi até o escurecer, depois fiz algumas costuras necessárias e fi- quei sentada até perto da meia-noite. Ape- sar disso não fiquei doente. Depois de ter- minar as atividades literárias do dia, tenho lavado a roupa da família. Muitas vezes fico tão cansada que cambaleio como bêba- da, mas louvo ao Senhor porque tenho sido sustentada.”7 102 A Pioneira Americana e a Mulher Vitoriana “Ela se levantou do leito de enfermidade e deu os primeiros, débeis e hesitantes passos para tornar- se uma mulher vitoriana e uma profetisa adventista.”1 CAPÍTULO 10 SEÇÃO II A Verdadeira Ellen White
  • 61. CAPÍTULO 10 A PIONEIRA AMERICANA E A MULHER VITORIANA do o trem não pôde mais prosseguir, essas duas mulheres alugaram uma carruagem. Quando a carruagem foi obrigada a parar, elas puseram-se a caminhar, perfazendo os últi- mos 64 quilômetros em quatro dias. Essa viagem fenomenal é descrita por Ellen White na Review and Herald de 30 de julho de 1889: “Fomos obrigadas a caminhar quilôme- tros nesta viagem, e pareceu maravilhoso que eu conseguisse suportar o percurso como o fiz. Fazia anos que eu quebrara os tornozelos, e desde então eles haviam ficado fracos. Antes de partir de Battle Creek para Kansas, eu ha- via torcido um tornozelo, ficando confinada a muletas por algum tempo; mas, nesta emer- gência, não senti fraqueza nem desconforto. Viajei com confiança sobre rochas acidenta- das e escorregadias.”22 Na reunião campal de Williamsport, ela pregou treze vezes, inclusive em todas as reuniões realizadas de manhãzi- nha – e isso sem nenhum sistema de som! Esse espírito perseverante, bem-disposto e pioneiro manifestou-se, como sempre, quan- do os White atravessaram o rio Mississippi em 1857. Trinta centímetros de água corria por sobre o gelo, e outras parelhas de animais com carroças haviam recuado, mas o grupo dos White seguiram adiante. Em Iowa, em meio a ventos frios e intensos, com os cava- los abrindo caminho através da neve alta, eles finalmente chegaram a seu destino.23 A Mulher Vitoriana Contudo, apesar do valoroso exemplo de vigo- rosa mulher pioneira do século dezenove, Ellen White revelava as características da mu- lher vitoriana. A pesquisadora Kathleen Joyce chamou a atenção para uma passagem larga- mente citada por Bárbara Welter, que alistava quatro virtudes pelas quais se julgava uma mu- lher vitoriana: “Piedade, pureza, submissão e domesticidade. Misture tudo e elas formarão as palavras mãe, filha, irmã, esposa – mulher. Sem elas, não importava a fama, a realização ou a riqueza, tudo são cinzas. Com elas, havia a promessa de felicidade e poder.”24 Joyce acrescentou a área da “saúde e dos cuidados médicos femininos” como uma outra característica específica da mulher vitoriana. Observou que a carreira de Ellen White foi um equilíbrio constante entre o cumprimento das obrigações vitorianas (casamento, mater- nidade, tarefas domésticas) e a resposta a seu chamado profético. “Sua fragilidade, as visões sobre as quais não tinha controle, sua relutân- cia, particularmente nos primeiros anos, em aceitar posição de liderança que exigia dela ser mais do que uma amanuense de Deus, re- velam um padrão particularmente feminino de profecia religiosa. Era um padrão que aten- dia a necessidade de as mulheres serem mais servas do que mestras, e servia para reforçar a percepção confortável das mulheres como va- sos passivos por meio dos quais Deus e os ho- mens realizam grandes obras. Ao adotar esse padrão, Ellen White tornou-se o tipo de mu- lher profetisa que a América [do Norte] vito- riana era capaz de tolerar.”25 A Sra. White manifestou uma de suas mui- tas características do modelo vitoriano pelo uso freqüente de eufemismos. Por exemplo, ao referir-se à relação sexual, ela usava frases co- mo: “privilégio das relações conjugais,”26 “privilégios matrimoniais”27 e “privacidade e os privilégios da relação de família”.28 Os eufemismos vitorianos que ela empre- gava não eram meramente recato exagerado. Ela foi uma devotada e amorosa esposa que conquistou e conservou a admiração do mari- do até o dia em que ele morreu. Mas enten- dia de saúde mental e a maneira como se de- vem estabelecer as prioridades conjugais. Seu conselho freqüente a outros a respeito de re- lações conjugais desenvolveu-se não apenas por meio da inspiração divina, mas também por sua própria experiência pessoal. Defendia a civilidade e a modéstia cristã não apenas verbalmente, mas as colocava em prática com um marido que a adorava. Repare, por exemplo, em um conselho particular dado a Daniel T. Bordeau, um ten- so jovem de 26 anos de idade. Ordenado com a idade de 23 anos, fazia três anos que Bor- deau buscava uma esposa. Em 1861 ele casou- se com Marion Saxby em Bakersfield, Ver- mont, em uma cerimônia oficiada por Tiago White numa casa particular. Tiago tinha 40 anos e Ellen, 33, uma mulher ainda jovem. Pelo fato de a cerimônia ter sido no fim do dia, os recém-casados aceitaram o convite dos anfitriãos para passarem a noite na casa deles. Os White também ficaram como con- vidados da família. Quando Ellen White subiu as escadas para 105 M E N S A G E I R A D O S E N H O R O ministério profético de Ellen G. White mos que, com o devido cuidado, a terra irá prosperar.” Alguns dias depois, escreveu em seu diário que havia levantado às 4h30 e, antes das 5h, estava no jardim “cavando a terra com a pá e preparando-a para plantar minhas flores”. De- pois, com a ajuda de duas pessoas, ela plantou vinte e oito tomateiros. Na manhã seguinte foi ao pomar “amarrar as árvores. Coloquei um tu- fo de grama entre a estaca e as árvores para que as árvores não fossem prejudicadas”.14 Viajante Intrépida O espírito pioneiro de Ellen White foi prova- velmente mais bem manifestado no seu ex- traordinário itinerário de viagem. Até 1885 ela havia atravessado os Estados Unidos de trem, da Califórnia a Michigan, cerca de vin- te e quatro vezes, apenas dezesseis anos depois de a conexão transcontinental ter sido cons- truída em Promintory, Utah! Obviamente, es- sas viagens não eram nada parecidas com o que as pessoas de hoje imaginam nem tinham semelhança alguma com as idéias românticas que as pessoas atribuem ao viajar por via fér- rea na primeira metade do século vinte.15 Os vagões de passageiros, feitos de madeira e suscetíveis a acidentes, estavam na ordem do dia, não sendo substituídos pelos vagões de aço inteiriço a não ser em 1907. “Os assentos tinha espaldares retos e eram forrados com um estofamento fino, se é que eram. Um forno a carvão provia o único aquecimento; velas e lampiões forneciam a iluminação. Os espaços abertos das plataformas ofereciam pouca pro- teção contra o tempo quando se caminhava de uma composição para outra.”16 O maqui- nista “podia ser identificado por seu cheiro de uísque tão prontamente como o caixeiro-via- jante por sua pasta de amostras”.17 Os primeiros quarenta anos de viagem por via férrea rumo ao oeste foram “o apogeu do mineiro, do caubói, dos assaltantes de trem e das pessoas de má fama; você poderia encon- trar um ou todos eles viajando em bancos esto- fados ou de ripas dos trens a vapor”. A região que se estendia rumo ao oeste “era descalvada e agreste, açoitada por ventos cruéis e queima- da por tórridos verões. A chuva, quando apare- cia, era uma torrente destrutiva. As estiagens aconteciam a intervalos regulares. ... Em 1874, com a maior parte da construção da estrada de ferro parada devido à crise financeira de 1873, os gafanhotos atacaram comendo tudo o que crescia desde as fronteiras do Canadá até o nor- te do Texas. Um trem da Union Pacific em Kearney [Nebraska] entravou em um monte de gafanhotos de quase um metro de altura.”18 Em 1876, o tempo convencional de via- gem entre a costa do Pacífico e Nova Iorque era de sete dias e sete noites, com baldeações em Omaha e Chicago.19 Por três vezes Ellen White empreendeu a arriscada viagem marítima para Oregon (1878, 1880 e 1884), numa época em que os recursos ainda eram primitivos. A respeito de uma visita que recebeu de Ellen White em 1878, quando ela contava 50 anos de idade, a esposa de um obreiro relatou: “Ao contemplar a obra que devia ser feita, a irmã White empe- nhou-se tanto quando aqui esteve, que lhe pa- receu realmente esquecer sua idade. Sua visi- ta a Oregon foi o mais valioso benefício para a Verdade Presente nesta região.”20 Em 1852, os White saíram de Rochester, Nova Iorque, para uma viagem de dois meses à Nova Inglaterra a cavalo e de carruagem. Tiago organizou o itinerário e informou os adventistas pela revista da igreja sobre o tem- po e o lugar por onde os White passariam. O programa de atividades era extenuante; foi planejado percorrer um trecho de aproxima- damente 160 quilômetros em apenas dois dias! Mas com o bom tempo e a ausência de transtornos, eles conseguiram atender seus compromissos. Enquanto andavam aos sola- vancos sobre uma carruagem aberta, Tiago pensava sobre o que escreveria para a Review e Youth’s Instructor. Quando paravam para alimentar Charlie, seu cavalo, Tiago escrevia os artigos “sobre a tampa de nossa caixa de alimentos ou a copa de seu chapéu”.21 A experiência de Ellen White em tentar chegar a um compromisso na reunião campal de Williamsport, Pensilvânia, em princípios de junho de 1889, ilustra bem seu espírito perseverante e pioneiro. Este foi o ano da chuva torrencial e da inundação de Johns- town. Muitas estradas e pontes haviam sido destruídas. O trem partiu lentamente de Bat- tle Creek. Quando eles chegaram a Elmira, Nova Iorque, foram aconselhados a voltar pa- ra casa. Mas a Sra. White (na época com 61 anos) e Sara McEnterfer continuaram. Quan- 104 SEÇÃO II A Verdadeira Ellen White
  • 62. CAPÍTULO 10 A PIONEIRA AMERICANA E A MULHER VITORIANA discutido e usado como um exemplo a seguir, mas jamais con- siderado coisa extraordinária”. – The Fruitage of Spiritual Gifts, pág. 152. 23. Biography, vol. 1, págs. 346-349. Ver também pág. 431. Para outro exemplo da vida emocionante mas rigorosa dos pionei- ros, examine os meses passados no Texas durante o inverno de 1878-79 e a experiência penosa sofrida em um comboio de carruagens na primavera de 1879. – Ibidem, págs. 98-120. 24. “The Cult of True Womanhood: 1820-1860”, American Quartely, vol. 8 (1966), pág. 151, citado no original inédito de Kathleen Joyce, “An Ambiguous Woman: Victorian Womanhood and Re- ligious Prophecy in the Life of Ellen Gould White”, 1991. 25. Joyce, ibidem, pág. 24. 26. Testemunhos Para a Igreja, vol. 2, pág. 380. 27. Ibidem, pág. 391. 28. Ibidem, pág. 90. 29. Roger W. Coon, “Counsel to a Nervous Bridegroom”, Adven- tist Heritage, verão de 1990, págs. 17-22. 107 M E N S A G E I R A D O S E N H O R O ministério profético de Ellen G. White recolher-se, topou com um jovem muito ner- voso andando de um lado para outro em fren- te à porta fechada do quarto. Ela suspeitou que havia problema. Delicadamente disse ao jovem noivo (conforme a noiva citou poste- riormente ao narrar o incidente com o mari- do): “Daniel, dentro deste quarto, sobre a ca- ma, encontra-se uma jovem apavorada, petri- ficada de medo. Pois bem, agora vá até ela, ame-a e conforte-a. E, Daniel, trate-a com delicadeza, com ternura e com amor. Isso fa- rá bem a ela.” Depois ela acrescentou: “Daniel, isso tam- bém lhe fará bem!”29 Eis uma mulher vitoria- na que tinha as prioridades certas. Aquele jo- vem casal ficou eternamente grato. Em alguns outros aspectos, Ellen White era bastante diferente da típica mulher vito- riana. Ela não se valia de sua fragilidade pa- ra obter vantagens pessoais ou atenção espe- cial, mas sobrepôs-se a isso para o espanto de seus contemporâneos. Embora respeitasse Tiago, não possuía a típica submissão vito- riana ao marido nem se conformava às ex- pectativas sociais (apenas para obter a apro- vação masculina) ou à domesticidade vito- riana (para aumentar o prestígio entre ou- tras mulheres). Ao desempenhar seu papel profético, essas “virtudes” vitorianas assumi- ram um novo significado. A fragilidade físi- ca tornou-se um desafio para vencer a fra- queza pela graça de Deus, um feito que lhe deu maior força e resistência à medida que envelhecia. Embora a submissão ao marido e o atendi- mento das necessidades da família fossem im- portantes, a responsabilidade profética de Ellen White era a coisa mais importante de sua vida. Ela mostrava a todos que as responsabilidades religiosas não reduziam as responsabilidades domésticas. A vida, para ela, não era dividida em compartimentos, quer como profetisa, quer como dona de casa. Encarava a vida como um todo. Para cumprir suas responsabilidades reli- giosas, não precisava diminuir suas responsabi- lidades como esposa, mãe ou vizinha. 106 SEÇÃO II A Verdadeira Ellen White Referências 1. Jonathan Butler, “Prophecy, Gender and Culture: Ellen Gould Harmon [White] and the Roots of Seventh-day Ad- ventism”, Religion and American Culture: A Jornal of Interpre- tation, vol. 1 (inverno de 1991), págs. 3-29. 2. Algumas referências descrevem seus passeios a cavalo nas montanhas do Colorado, tanto por prazer como para propó- sitos de viagem. Ver MR, vol. 3, págs. 158, 163 e 170; vol. 8, pág. 121; vol. 20, pág. 208. 3. Educação, pág. 216. 4. Life Sketches, pág. 105. Ver pág. 80. 5. MR, vol. 5, pág. 430 (1874). 6. Ibidem, vol. 10, pág. 27. 7. Ibidem, vol. 15, pág. 231. 8. Delafield, Ellen G. White in Europe, pág. 200. Willie, viajan- do com a mãe, escreveu para sua esposa Mary, em Basilésia: “Mamãe e Sara continuam apresentando ótimo desempe- nho na costura. Se você alugar uma loja, acho que elas se- rão capazes de formar um estoque com bom sortimento de confecções.” 9. A Ciência do Bom Viver, pág. 294. 10. Biography, vol. 1, pág. 400. 11. Ibidem, vol. 2, pág. 340. 12. Ibidem, vol. 3, pág. 24. 13. Ibidem, pág. 158. 14. Ibidem, vol. 4, págs. 261-262. 15. Ver págs. 84-86. 16. Overland Route (No. Highlands, California: History West, 1981), pág. 17. 17. Lucius Beebe e Charles Clegg, The Age of Steam (New York: Rinehart & Company, s.d.), pág. 17. Um caixeiro-viajante era um vendedor itinerante. 18. Oliver O. Jensen, The American Heritage History of Railroads in America (New York: American Heritage Publishing Com- pany, 1975), pág. 123. Ver Apêndice C para trechos do rela- to de Robert Louis Stevenson de seu percurso de trem em 1879 rumo ao oeste. 19. Lucius Beebe, The Age of Steam, pág. 161. Em 1848 ninguém ainda havia viajado num veículo à velocidade de 1,6 quilô- metro por minuto. O Presidente Washington fora informado pelos principais médicos “que uma diligência que desenvol- vesse velocidade de 24km/h certamente ocasionaria a morte de quem nela estivesse, pois isto faria com que todo o sangue do corpo afluísse para a cabeça.” – Lucius Beebe, High Iron (New York: D. Appleton-Century Company, 1938), pág. 55. No capítulo “Overland by Rail, 1869-1890”, em Gary Land, The World of Ellen G. White, págs. 63-76, Randall R. Butler II escreveu que, antes de 1880, os trens da Union Pacific e da Central Pacific faziam a média de 35,4 quilômetros por hora. Depois de 1880 as velocidades médias dobraram, mas, devido às mais de duzentas paradas em estações e tanques de água, as horas totais gastas na travessia do país continuavam as mesmas. Concluindo este capítulo, Butler escreveu: “An- tes do meio da manhã, os trens que viajavam para o ociden- te chegavam ao terminal de Oakland. Os passageiros, cansa- dos e fatigados, geralmente se alegravam com o término da viagem. Eram quatro dias e meio, longos e penosos, desde Omaha, e a maioria dos passageiros que havia começado sua viagem ainda tinham pela frente de um a três dias rumo ao leste ou ao sul. Após uma semana de barulho, poeira e fuma- ça de locomotiva e de fumo, os passageiros que desembarca- vam queriam apenas um banho quente e repouso tranqüilo.” 20. Citado em Land, The World of Ellen G. White, pág. 83. Para compreensão das dificuldades enfrentadas pelos primeiros obreiros adventistas, ver ibidem, págs. 74-80. 21. Biography, vol. 1, págs. 232-234. 22. L. H. Christian lembra que “este artigo da Review foi lido, Perguntas Para Estudo 1. Quais as características distintivas da mulher “vitoriana”? 2. De que maneiras interessantes foi Ellen White uma mulher pioneira exemplar? 3. Na sua opinião, como a aptidão para jardinagem ajudou Ellen White em sua produção literária? Dê alguns exemplos. 4. Poderia uma mulher do mundo de hoje ser tanto “vitoriana” quanto uma pioneira norte-americana?
  • 63. família alguns trechos interessantes daquilo que escrevera. “Papai algumas vezes nos falava sobre o trabalho em que estava empenhado ou nos relatava incidentes interessantes relaciona- dos com o progresso da causa, no Leste e no Oeste. Às sete horas todos se reuniam na sa- la de visitas para o culto matutino... “Depois que papai saía de casa, mamãe gostava de passar meia hora em seu jardim de flores durante essas partes do ano em que as flores podem ser cultivadas. Nisto seus filhos era estimulados a trabalhar com ela. Depois ela costumava dedicar três ou quatro horas à escrita. Suas tardes eram geralmente ocupa- das em várias atividades: costurar, remendar, tricotar, cerzir e trabalhar em seu jardim de flores, com ocasionais viagens à cidade para fazer compras ou visitar doentes.”5 Muitas vezes ela costumava escrever en- quanto viajava. No apontamento de seu diá- rio de 18 de agosto de 1859 está registrado: “Acordei pouco depois das duas da madruga- da. Tomei o trem às quatro. Sentia-me muito deprimida. Escrevi o dia todo. ... Nossa via- gem de trem terminou às seis da tarde.”6 Naquela mesma viagem, no apontamento de seu diário de 10 de outubro, ela falou so- bre seu atarefado programa de atividades en- quanto permanecia na casa de um membro da igreja: “A casa está cheia de gente. ... Não tive tempo para conversar com eles. Encer- rei-me no quarto para escrever.”7 Após uma turnê de três meses pelos Esta- dos do Leste em 1891, pouco antes de partir com destino à Austrália, ela escreveu: “Falei cinqüenta e cinco vezes, e escrevi trezentas páginas. ... O Senhor é que me tem fortaleci- do e abençoado e sustido por Seu Espírito.”8 Encontramos em uma carta que Ellen White escreveu a G. W. Amadon em 1906 vislumbres sobre a maneira como suas assis- tentes a ajudavam: “Recolhi-me à noitinha, depois do sábado, e repousei bem sem dor ou incômodo até as dez e meia. Não consegui dormir. Eu havia recebido instruções [do Guia celestial], e raramente fico na cama de- pois de tais instruções me sobrevirem. Havia um grupo reunido em ______, e Alguém que estava em nosso meio deu-me instruções que eu devia repetir e repetir pela pena e pela voz. Saí da cama e escrevi durante cinco ho- ras, tão rápido quanto a pena podia traçar as linhas. Depois, descansei na cama por uma hora, e dormi parte do tempo. “Coloquei a matéria nas mãos de minha copista e, na segunda-feira de manhã, ela me esperava, tendo sido colocada no meu escritório no domingo à noite. Havia qua- tro artigos prontos para eu reler e fazer quaisquer correções necessárias. A matéria está pronta agora, e parte dela seguirá hoje para o correio. “Eis o ramo de trabalho que estou levando avante. Faço a maior parte de meus escritos enquanto os outros membros da família dor- mem. Acendo meu fogo, e depois escrevo ininterruptamente, às vezes por horas.”9 Assistentes de Redação A fim de atender à incessante demanda por artigos e livros, Ellen White desenvolveu por fim uma eficiente organização de assistentes de redação voluntárias e remuneradas. Nos primeiros anos, Tiago ajudou-a, de maneira perspicaz e desembaraçada, a preparar o ma- terial para publicação.10 A própria idéia de um profeta precisar de “assistência” redacional pode parecer nova para algumas pessoas em anos recentes. Mas aqueles que viveram na época de Ellen White sabiam como ajudantes literários eram neces- sários, levando-se em conta o volume de ma- terial que ela era incumbida de escrever.11 Muitas vezes as pessoas que ficam pertur- badas ante a idéia de um profeta usar assis- tentes não compreendem direito a maneira como Deus fala aos seres humanos. Crêem que as pessoas inspiradas, inclusive a Sra. White, escreviam de maneira mecânica, re- gistrando exatamente tudo quanto Deus lhes falava ou revelava, palavra por palavra.12 Al- guns supõem que Ellen White seja infalível, da mesma forma como o fazem em relação aos escritores bíblicos. A compreensão que a própria Sra. White tinha sobre a maneira co- mo a inspiração/revelação funciona será dis- cutida na página 421. Ellen White utilizava assistentes literárias pelas mesmas razões que os escritores bíblicos o faziam. Ela reconhecia as suas limitações de tempo e aptidões literárias. Em 1873 escre- 109 M E N S A G E I R A D O S E N H O R O ministério profético de Ellen G. White S upõe-se que Ellen White seja o terceiro escritor mais traduzido da História e o escritor ou escritora norte-americana mais traduzida de todos os tempos. Tanto quanto sabemos, ela escreveu e publicou mais livros, em maior quantidade de línguas e com maior circulação do que as obras escri- tas por qualquer outra mulher na História. Perto do encerramento do seu ministério septuagenário, sua produção literária totali- zava aproximadamente 100.000 páginas, ou o equivalente a 25 milhões de palavras, in- cluindo cartas, diários, artigos para periódi- cos, folhetos e livros.1 Na época em que a Sra. White faleceu (1915), havia vinte e quatro livros seus publi- cados, mais dois nas mãos de editores aguar- dando publicação. Na década de 1990, 128 livros publicados levavam o nome de Ellen White, inclusive compilações de seus pensa- mentos sobre diversos assuntos.2 Como tudo isso começou? Ela não era uma estudante brilhante, de formação universitá- ria nem uma escritora talentosa ou publica- da! Seria difícil dizer que a extraordinária obra literária de Ellen White é produto ape- nas da inteligência e invenção humanas. Seus contemporâneos, conhecedores de sua formação e educação mínima, também esta- vam convencidos de que uma sabedoria mais do que humana era responsável pela incisiva e impressionante eloqüência demonstrada por ela tanto no prelo como no púlpito. No fim da primavera de 1845, a mão de Ellen Harmon, trêmula de fraqueza, era inca- paz de escrever. Mas numa visão lhe foi dito que escrevesse o que via. Pela primeira vez, sua “mão ficou firme”. Muitos anos depois ela relembrou essa experiência: “O Senhor disse: ‘Escreva as coisas que Eu vou lhe transmitir.’ Comecei a fazer esta obra quando era muito jovem. A mão, que era fraca e tremia por cau- sa de enfermidades, ficava firme logo que eu empunhava a pena, e desde as primeiras vezes tenho sido capaz de escrever. Deus tem-me dado habilidade para escrever. ... A mão di- reita dificilmente tem sensação desagradável. Nunca se cansa. Raramente treme (1900).”3 Ellen White escrevia em papel de carta, folhas encorpadas e em cadernos de folhas pautadas, quase sempre utilizando uma pena. Depois de meados da década de 1880, suas as- sistentes datilografavam seus manuscritos.4 Ela escrevia em todas as ocasiões, dia e noite, e em circunstâncias que intimidariam a outros. Seu filho W. C. White recordou um típico programa de atividades na época em que os White se encontravam em casa, em Battle Creek: “Com bem pouca variação, o programa diário da família White era algo pa- recido com isto: Às seis horas todos se levan- tavam. Muitas vezes mamãe estivera escre- vendo durante duas ou três horas, e a cozi- nheira estivera ocupada na cozinha desde às cinco. Por volta das seis e meia o desjejum es- tava pronto. Mamãe costumava mencionar à mesa do desjejum que havia escrito seis, oito ou mais páginas e, algumas vezes, lia para a 108 CAPÍTULO 11 SEÇÃO II A Verdadeira Ellen White A Escritora Prolífica “De boas palavras transborda o meu coração: Ao Rei consagro o que compus: a minha pena é co- mo a pena de habilidoso escritor.” Sal. 45:1.
  • 64. CAPÍTULO 11 A ESCRITORA PROLÍFICA Prophecy] à apreciação e crítica da comissão editorial. Pus também esses originais nas mãos de alguns de nossos pastores para que os examinassem. Quanto mais os criticarem, tanto melhor para a obra.”20 Quando ela escrevia sobre assuntos médi- cos, suas ajudantes de escritório pediam a es- pecialistas em medicina que revisassem os originais atentamente: “Desejo que em tudo quanto lêem, vocês reparem nos lugares onde o pensamento é expresso de maneira a rece- ber a crítica específica de médicos e bondosa- mente nos dêem o benefício do seu conheci- mento quanto à forma de expressar o mesmo pensamento de maneira mais precisa.”21 Independentemente da pessoa de quem recebia ajuda redacional, Ellen White fazia sempre uma leitura do texto em sua forma fi- nal: “Encontro de manhã sob minha porta vários artigos copiados pelas irmãs Peck, Maggie Hare e Minnie Hawkins. Compete- me fazer uma leitura crítica de todos. ... Todo artigo que escrevo para ser preparado por mi- nhas obreiras, tenho sempre que lê-lo antes de ele ser enviado para publicação.”22 O Realce do Século Dezenove À semelhança dos profetas que escreveram a Bíblia, Ellen White escreveu inserida no con- texto literário, histórico, social e religioso de seu tempo. Escreveu não apenas com realce humano, mas também com o realce e as for- mas de pensar do século dezenove. À semelhança do que acontecia com os pro- fetas da antigüidade, as questões da época mui- tas vezes determinavam a ênfase e a freqüência sobre o que ela escrevia. Ao chamar a atenção para o movimento da lei dominical, ela via, por exemplo, profundas implicações na compreen- são dos acontecimentos dos últimos dias.23 Apesar de falarem sobre as questões existentes em sua época, tanto os profetas bíblicos como Ellen White nos forneceram princípios sem li- mites de duração, que se aplicam a nós hoje. Amplos Hábitos de Leitura Os amplos hábitos de leitura de Ellen White ajudaram-na a preencher a vasta estrutura conceitual com o pano de fundo histórico e as novas maneiras de declarar suas criteriosas percepções. Quando os filhos dos White eram jovens, sua mãe lia muitas revistas religiosas à procura de histórias com ensinamentos morais, que pudessem ser apropriadas em especial para se- rem lidas no sábado. Recortava os artigos pro- veitosos e os colava em cadernos de recortes.24 Na década de 1870, muitos desses artigos foram classificados em livros para diferentes faixas etárias. A primeira destas coleções, Sabbath Readings, Moral and Religious Lessons for Youth and Children, continha 154 histórias paginadas separadamente.25 Sabbath Readings for the Home Circle, uma coleção de histórias em quatro volumes, apareceu mais tarde em numerosas edições.26 Na virada do século, a Pacific Press Publishing Association publicou Golden Grains, uma série de dez brochuras, cada uma contendo 72 páginas.27 Publicou-se também uma coleção, sem data, de histórias infantis intitulada Sunshine Series, a primeira tinha dez brochuras de 16 páginas, e a segun- da, 20 brochuras de 16 páginas cada.28 Em princípios de 1900, enquanto estava na Austrália, Ellen White escreveu ao filho Ed- son, pedindo que ele lhe remetesse determina- dos livros da sua [dela] biblioteca: “Envie pelo correio os quatro ou cinco grandes volumes das notas de Barnes sobre a Bíblia. Acho que estão em Battle Creek, em minha casa agora vendida, em algum lugar junto com meus li- vros. Espero que você tome providências para que meus pertences, se é que ainda tenho al- gum, sejam cuidados e não se espalhem por to- da parte como se fossem de domínio público. É possível que eu não volte mais para a América do Norte, e meus melhores livros devem ser- me remetidos quando for conveniente.”29 Em 1920, E. E. Andross, presidente da Di- visão Norte-Americana, pediu que lhe expli- cassem a maneira como Ellen White utiliza- va o material encontrado em suas leituras. W. C. White respondeu: “Logo que começou a trabalhar, mamãe recebeu a promessa de que seria dotada de sabedoria ao fazer seleções dos escritos de outras pessoas e de que isto a ca- pacitaria a escolher as gemas da verdade den- tre o lixo do erro. Todos temos visto o cum- primento disto, e contudo quando ela me contou isso, me advertiu para que eu não o contasse aos outros. Nunca soube o motivo dessa restrição, mas agora estou propenso a acreditar que ela via como isso poderia levar alguns de seus irmãos a reivindicar desca- 111 M E N S A G E I R A D O S E N H O R O ministério profético de Ellen G. White veu em seu diário: “Meu espírito está chegan- do a conclusões estranhas. Estou pensando que preciso deixar de lado os meus escritos em que tenho tido tanto prazer, e ver se posso tor- nar-me uma pessoa erudita. Não sou uma pes- soa versada em gramática. Procurarei, se o Se- nhor me ajudar, aos quarenta e cinco anos de idade, tornar-me versada nessa ciência. Deus me auxiliará. Creio que Ele o fará.”13 Ela era muitas vezes interrompida en- quanto escrevia, e isto deixava o manuscrito emaranhado. Comentando sobre a necessi- dade de ajuda redacional neste particular, ela escreveu: “Escrevendo tanto como eu escre- vo, não admira que eu deixe tantas frases inacabadas.”14 Em uma carta a G. A. Irwin, presidente da Associação Geral, Willie White mostrou que sua mãe procurava ajuda literária porque re- conhecia a qualidade inconstante de seus es- critos: “Algumas vezes quando a mente de mamãe está descansada e livre, os pensamen- tos são apresentados em uma linguagem que é não apenas clara e forte, mas também bela e correta. Quando, porém, está cansada e oprimida com pesados fardos de ansiedade ou quando o assunto é difícil de ser descrito, aparecem repetições e frases incorretas.” Mais adiante ele descreveu as diretrizes se- guidas pela mãe com relação às assistentes literárias: “As copistas de mamãe são encarre- gadas de corrigir os erros gramaticais, de eli- minar as repetições desnecessárias e de agru- par parágrafos e seções na melhor ordem. ... As obreiras experientes de mamãe, como as irmãs Davis, Burnham, Bolton, Peck e Hare, que estão acostumadas com os escritos dela, são autorizadas a retirar uma frase, parágrafo ou seção de um original e incorporá-lo a ou- tro original onde o mesmo pensamento era expresso, mas não de maneira tão clara. Ne- nhuma obreira de mamãe, porém, está auto- rizada a fazer acréscimos aos originais, intro- duzindo pensamentos seus próprios.”15 Até 1881 Willie trabalhou como coorde- nador editorial dos assistentes literários da mãe.16 Pelo fato de Ellen White passar a maior parte do tempo viajando ou escreven- do material novo, preferia não envolver-se em detalhes editoriais. Sabia que deveria re- visar todos os documentos antes de serem pu- blicados, a menos que desse, quando necessá- rio, permissão específica para um redator de periódico fazer abreviações por economia de espaço. O registro mostra que eles fizeram poucas alterações. Desenvolveu-se uma “hierarquia de res- ponsabilidade”. Em se tratando de trabalhos editoriais de menor importância, por exem- plo, Marian Davis recebeu autorização para resolver as questões por si mesma; questões maiores deviam ser submetidas a W. C. White. Depois de William e Marian terem feito seu trabalho, caberia a Ellen White to- mar as últimas decisões relativas a modifica- ções editoriais.17 Marian Davis teve oportunidades para descrever seu trabalho, conforme ela o via: “Procuro iniciar tanto os capítulos quanto os parágrafos com frases curtas e simplificar real- mente onde for possível, retirar toda palavra desnecessária e tornar a obra, conforme te- nho dito, mais compacta e vigorosa.”18 Os editores esperavam manter Ellen den- tro do cronograma deles, o que não foi fácil durante o tempo de árduos deveres na Aus- trália. Marian escreveu a Willie: “A irmã White é constantemente importunada com o pensamento de que o original deveria ser enviado imediatamente para impressão. ... A irmã White parece propensa a escrever, e não tenho dúvida de que ela trará à luz coi- sas de grande valor. Espero que seja possível inseri-las no livro. Existe, porém, uma coisa que nem o mais competente redator conse- guiria fazer – preparar um original antes de ele ser escrito.”19 De vez em quando Ellen White procurava ajuda além de seus auxiliares imediatos. Ela explicou este procedimento a W. H. Little- john em 1894: “Examino detidamente mi- nhas publicações. Desejo que nada seja im- presso sem minucioso exame. Obviamente eu não desejaria que pessoas sem experiência cristã e aptidão para apreciar o mérito literá- rio fossem colocadas como juízes daquilo que é necessário ser posto perante o povo, como forragem limpa, totalmente peneirada. Sub- meti todos os meus originais do Patriarcas e Profetas e o volume quatro [de The Spirit of 110 SEÇÃO II A Verdadeira Ellen White
  • 65. CAPÍTULO 11 A ESCRITORA PROLÍFICA “Isso não foi omitido por ser menos verídi- co em 1888 do que em 1885, mas porque mi- nha mãe achou que não era prudente dizer essas coisas às multidões a quem o livro seria vendido em anos futuros. ... “Com referência a estes e outros trechos de seus escritos que foram omitidos em edi- ções posteriores, ela disse muitas vezes: ‘Essas declarações são corretas, e são úteis para o nosso povo; mas para o público em geral, pa- ra quem agora está sendo preparado este li- vro, são inoportunas. Cristo disse aos próprios discípulos: ‘Tenho ainda muito que vos dizer, mas vós não o podeis suportar ago- ra.’ João 16:12. E Cristo ensinou Seus discí- pulos a ser ‘prudentes como as serpentes e símplices como as pombas’. Mat. 10:16. Por- tanto, como é provável que mais almas sejam ganhas para Cristo pelo livro sem esta passa- gem do que com ela, omiti-a. “Quanto às modificações nas formas de ex- pressão, mamãe disse muitas vezes: ‘As verda- des essenciais precisam ser ditas com franqueza; mas, na medida do possível, devem ser ditas em uma linguagem que atraia, e não ofenda.’”34 Os sermões de Ellen White eram muitas vezes publicados sob a forma de artigos em Signs of the Times ou na Review and Herald. Apesar disso, preparar artigos para a Review era mais fácil do que prepará-los para a revis- ta Signs. Por quê? Porque os leitores da Re- view eram principalmente adventistas do sé- timo dia, enquanto os da revista Signs eram sobretudo o público em geral. Experiências Pessoais Enriqueceram sua Produção Literária Os pregadores criativos possuem “predisposi- ção homilética”, isto é, a tendência de apro- veitar em seus sermões futuros dados colhidos em todas as suas leituras e experiências pes- soais. Essas experiências enriquecem os temas sacros, aumentando o interesse dos ouvintes. Ninguém em tempo algum começa a pensar a partir de uma mente vazia. Na mente dos pensadores criativos o pensamento é a soma total de tudo quanto já leram ou experimen- taram. Além de tudo o que Ellen White estava lendo, suas muitas experiências de viagem contribuíram para a riqueza de seu pensa- mento. Depois de passar um dia num veleiro na Baía de São Francisco (1876), por exem- plo, ela escreveu sobre a vida de Cristo. O as- sunto daquele dia foi Cristo andando sobre o Mar da Galiléia, e, em sua mente, ela viu os discípulos avançando com dificuldade atra- vés da noite tempestuosa. Em uma carta ao marido, ela continuou: “Pode você surpreen- der-se que eu fiquei em silêncio e feliz com esses grandiosos temas de contemplação? Es- tou contente por ter estado sobre as águas. Agora posso escrever melhor do que antes.”35 Em 1886, enquanto realizava reuniões em Valença, França, ela visitou a Catedral de Santo Apolinário, onde observou um impressionante culto católico. Os padres oficiavam com suas batinas brancas, tendo por cima estolas de veludo preto guarneci- das por um trançado dourado. Essa expe- riência ajudou-a posteriormente a descrever em O Grande Conflito a imponência do cul- to católico.36 Enquanto esteve em Zurique, Suíça, visitou a igreja Gross Munster, onde Zwinglio pregara durante a Reforma Protestante. Ela ficou in- tensamente interessada em ver a Bíblia de Zwinglio, e sua estátua em tamanho natural onde “uma das mãos repousa sobre o cabo da espada, enquanto a outra segura uma Bíblia”.37 À vista do fato de que ela estava, na épo- ca, fazendo acréscimos ao livro O Grande Conflito, especialmente na parte que tratava do período da Reforma Protestante, os co- mentários de Ellen White sobre a excursão que fez por aquela cidade são compreensíveis: “Coletamos muitos itens de interesse, os quais utilizaremos.”38 Variedade de Cartas Pessoais Ellen White jamais esperou que suas cartas pessoais fossem divulgadas ao público, exceto aquelas porções que ela mesma empregava mais tarde na elaboração de um artigo para periódico ou em cartas que julgava serem de interesse geral. Como se sentiriam as pessoas de hoje se sua correspondência pessoal, de re- pente, caísse em domínio público? Principal- mente a correspondência escrita quarenta anos atrás? Especialmente cartas confiden- ciais endereçadas a membros da família? 113 M E N S A G E I R A D O S E N H O R O ministério profético de Ellen G. White bidamente que os escritos dela servissem co- mo norma para corrigir historiadores.”30 Em 1911, W. C. White escreveu à Comis- são de Publicações da Pacific Press: “Admi- te-se geralmente que, nas palestras da irmã White ao povo, ela usa grande liberdade e sabedoria na seleção de provas e ilustrações, a fim de tornar clara e eficaz a apresentação das verdades que lhe foram reveladas em vi- são. Admite-se também que ela seleciona es- ses fatos e argumentos na medida em que se adaptam ao auditório a que ela se dirige. Isto é essencial à obtenção dos melhores resulta- dos de suas palestras. Ela sempre achou e en- sinou que era seu dever empregar na seleção de matéria para seus livros a mesma sabedo- ria que emprega na seleção de matéria para suas palestras.”31 Com a mente e o coração transbordando de amor a Deus, Ellen White foi contempla- da com o grande quadro do plano divino pa- ra solucionar o problema do pecado. Compe- tia a ela encontrar a melhor maneira de co- municar isso a outros. Na introdução de The Great Teacher – livro que Ellen White tanto apreciava – John Harris escreveu: “Suponha, por exemplo, que fosse necessário surgir hoje na igreja um profeta inspirado, para fazer um acréscimo aos livros canônicos. Que confu- são de opiniões ele encontraria em quase to- do assunto teológico! É bastante provável que seu ministério consistiria, ou pareceria consistir, apenas em meramente selecionar e ratificar dentre essas opiniões as que se har- monizassem com a mente de Deus. A origina- lidade absoluta pareceria quase impossível. A inventiva mente humana já esboçou mental- mente quase todas as formas concebíveis de opiniões especulativas, antecipando e rou- bando o futuro de sua justa proporção de no- vidades e deixando, mesmo para um mensa- geiro divino, pouco mais que o ofício de apa- nhar algumas dessas opiniões e imprimir nelas o selo do Céu.”32 Essas palavras poderiam ser aplicadas a Ellen White. Sua capacidade de ler muito e fazer cuidadosas seleções lhe forneceram as ferramentas que sua missão profética exigia. Mentalmente equipada com o inspirado es- boço da verdade, sua leitura abrangente mui- tas vezes lhe ajudava a preencher os detalhes com o fundo histórico apropriado e com as adaptações literárias que tornariam seus es- critos convincentes, agradáveis e criativos. Escrevendo Para o Público em Geral Quando seus livros tiveram de ser publica- dos posteriormente para não adventistas, ela autorizou as revisões que eliminariam possíveis equívocos. Mais do que apenas au- torizar, ela estimulava entusiasticamente tais revisões. Por exemplo, o capítulo “Educação Apro- priada”, que se encontra agora em Testemu- nhos Para a Igreja, vol. 3, págs. 131-138, tam- bém foi publicado em Health Reformer, de se- tembro de 1872, embora com algumas dife- renças nas palavras, já que a revista se desti- nava especialmente ao público em geral. Sarah Peck, uma especialista em educa- ção, passou a fazer parte do grupo de trabalho de Ellen White na virada do século. Uma de suas tarefas consistia em reunir os escritos da Sra. White que tratavam de princípios de educação. A Srta. Peck logo percebeu que es- sas matérias podiam ser divididas em dois grupos. Os mais apropriados para a igreja apa- recem agora em determinadas seções dos Tes- temunhos Para a Igreja, vol. 6 (1900), e Con- selhos aos Pais, Professores e Estudantes (1913); os adequados para o público em geral encontram-se no livro Educação (1903). Enquanto ajudava a mãe a preparar a edi- ção de 1911 de O Grande Conflito, W. C. White escreveu à Comissão de Publicações: “Em O Grande Conflito, vol. 4, publicado em 1885, no capítulo ‘Os Ardis de Satanás’, há três ou mais páginas de matéria que não fo- ram empregadas em edições mais recentes, adaptadas para ser vendidas às multidões por nossos colportores. É a mais excelente e inte- ressante leitura para os observadores do sába- do, pois indica a obra que Satanás fará em persuadir pastores e igrejas populares a exal- tar o descanso dominical e perseguir os obser- vadores do sábado.”33 112 SEÇÃO II A Verdadeira Ellen White
  • 66. CAPÍTULO 11 A ESCRITORA PROLÍFICA pensou em casamento, sua mãe lhe escreveu uma de suas cartas mais francas. Nela, cha- mou a atenção para seu intelecto brilhante, “capaz de fazer dele um médico ou um execu- tivo”, mas o acusou de ser um “esbanjador”. Faltava-lhe domínio próprio. “Papai chora pelo seu caso. Nós temos o mesmo parecer. Por enquanto você não está em condições de constituir família, pois no juízo e no domínio de si mesmo ainda é uma criança. Não tem força para resistir à tentação, embora ceden- do a ela você traga vergonha sobre nós e vo- cê mesmo e desonre a Deus. Não suporta o jugo na sua juventude. Ama o ócio e a des- preocupação.”44 Durante sua juventude, Edson entrou em conflito com o pai. Mamãe Ellen procurou muitas vezes manter a paz, o que talvez não tenha sido plenamente apreciado por ambos. Tiago cria que a esposa favorecia Edson du- rante a fase em que ele e o filho tinham difi- culdade em comunicar-se. Se ela assim proce- dia, era talvez porque compreendesse melhor do que ninguém as circunstâncias especiais que envolveram Edson durante seus primei- ros dias de vida, tais como uma gestação ten- sa e influências pré-natais desfavoráveis; seu estado de saúde precário quando bebê; e des- de cedo as freqüentes separações enquanto os pais viajavam de um Estado a outro promo- vendo a união dos primeiros adventistas do sétimo dia. Essas foram as circunstâncias a que ela (na época com 50 anos de idade) se referiu quando escreveu a William em 1878: “As circunstâncias do nascimento dele [em 1849] foram completamente diferentes das do seu nascimento. Embora ninguém saiba, mamãe sabe.”45 Durante os anos de formação dos filhos, Ellen White cria que ela e Tiago haviam “fa- lhado” em restringir os filhos de seguir “suas próprias inclinações e desejos”, mas que ao mesmo tempo os havia censurado e criticado “em um espírito que somente os machucará e desanimará em vez de ajudá-los”.46 Tiago e Ellen White passaram pelas “dores do cresci- mento” que a maioria dos pais sérios e com- prometidos passam em seu elevado objetivo de ser responsáveis pelos filhos perante Deus. Não bastasse isso, ela recebera esclarecimen- to divino sobre a maldição que sobreveio a Eli e seus filhos devido à complacência do pai com o pecado dos filhos, e não queria cair em erro semelhante.47 Com esses antecedentes, pode-se com- preender melhor as cartas que ela escreveu a Edson, como a seguinte (na qual estava assina- lada “Leia isto sozinho. Particular”): “Meu que- rido filho Edson [15 anos de idade]: Quando fo- mos para Monterey no último verão, por exemplo, você entrou no rio quatro vezes e não apenas nos desobedeceu, mas ainda por cima levou Willie à desobediência. Desde aquele tempo, ao convencer-me de que você não era confiável, um espinho ficou cravado em meu coração. ... Uma tristeza inexplicável amorta- lha nossa mente com relação à sua influência sobre Willie. Você o leva a hábitos de desobe- diência, dissimulação e mentira. Vemos que es- ta influência tem afetado nosso Willie, que é veraz e nobre de coração. ... Você raciocina, fa- la e faz as coisas parecerem todas inofensivas para ele, quando ele não consegue enxergar o resultado das coisas. Ele adota seu ponto de vis- ta a respeito disto e corre o risco de perder sua candura e sinceridade. ... Você teve tão pouco senso do verdadeiro valor do caráter. Parecia agradar-se tanto com a companhia de Marcus Ashley como com a de seu inocente irmão Willie. Você nunca o prezou como ele merecia. Ele é um tesouro, amado por Deus, mas receio que sua influência o arruíne.”48 Temos nesta carta a típica sinceridade de uma mãe que prezava a sinceridade nos fi- lhos. Em sua tentativa de despertar a cons- ciência de Edson e tornar mais fácil para ele o cumprimento das expectativas paternas, utilizou o jovem Willie (cinco anos mais no- vo) como modelo para Edson. Anos depois admitiu que essa espécie de comparação en- tre irmãos não era o melhor método, ainda que ambas as crianças tivessem provas abun- dantes do amor materno. Ela mantinha sem- pre em mente os interesses eternos dos filhos, e simplesmente não queria que seu amor fos- se confundido com condescendência. Como se Desenvolveram as Categorias de Produção Literária Durante seus anos mais produtivos, princi- palmente após 1881, Ellen White manteve uma torrente constante de cartas, sermões, 115 M E N S A G E I R A D O S E N H O R O ministério profético de Ellen G. White Ou cartas de reprovação a líderes preeminen- tes da igreja ou às esposas deles? Devemos, porém, ser realistas. Boa parte da correspondência particular e confidencial de Ellen White (cartas que ela jamais publi- cou) tornou-se pública. Como isso veio a acontecer? Examinemos as diversas maneiras. Devido à posição única que Ellen ocupava dentro da igreja, os destinatários passaram a guardar as cartas como preciosidade. Os membros mais antigos as legaram aos filhos ou as entregaram ao cuidado de pastores ou estudantes. Logo eles fizeram uma aplicação delas à própria vida, geralmente sem os ante- cedentes de tempo, lugar ou circunstâncias que forneceriam o contexto para o significa- do e propósito de cada carta. Essa falta de contexto, evidentemente, não tinha importância para aqueles que, de algu- ma forma, criam na inspiração verbal!39 Para muita gente, cada palavra dessas cartas se tor- nava muitas vezes a “palavra final” sobre qual- quer assunto. O uso da expressão “a irmã White diz...”, na base dessas muitas cartas par- ticulares, freqüentemente obstruiu mais ainda o pensamento, trazendo perplexidade desne- cessária às discussões da igreja. Nos capítulos sobre “Hermenêutica” (32-34) discutiremos os problemas que surgem quando os escritos de Ellen White, principalmente suas cartas, são usados de maneira imprópria. Outra forma pela qual as cartas da Sra. White vieram a ser publicadas foi a liberação delas a pesquisadores por parte do Patrimônio Literário White. Depois que os pesquisadores utilizaram as cartas, o Patrimônio Literário White as disponibilizou nos 21 volumes dos Manuscript Releases. Outras cartas completas se encontram nos quatro volumes do 1888 Materials. Todas elas se acham disponíveis em CD-ROM [em inglês]. Muitas cartas de Ellen White foram envia- das a membros de sua própria família, inclusi- ve colaboradores mais próximos. Numerosas são as cartas de afeto endereçadas a Tiago e aos filhos. Conforme já observamos40 , algu- mas dessas cartas podem parecer rudes e de- fensivas. Ao levar em consideração o tempo, o lugar e a circunstância, o leitor de hoje po- derá facilmente ter empatia com uma esposa e mãe atarefada, intensamente comprometida e algumas vezes cansada. A verdadeira prova de uma carta familiar ocasional que hoje parece dura e insensível é a reação dos filhos e mari- do a essas cartas através dos anos. Os filhos amavam sua mãe ternamente e foram benefi- ciados pelo conselho dela. Tiago adorava a es- posa, mesmo durante os dias sombrios de doença e depressão por que ele passou.41 Em 1876, Tiago White estava preparando uma biografia da esposa. Pelo fato de as cartas dela serem vistas como a mais “frutífera fonte” para acompanhar o desenvolvimento de seu extraordinário ministério, ele notificou na contracapa da edição da revista Signs de 10 de fevereiro que os amigos de sua esposa deviam “enviar todas as cartas que tivessem em mãos”. Típica de centenas de cartas encorajadoras é aquela enviada por Ellen White a duas jovens famílias, os Robinson e os Boyd, quando eles partiram do Quinto Conselho Europeu, realiza- do em Moss, Noruega, em junho de 1887, para dar início à obra missionária na África do Sul. Durante essa reunião, a Sra. White havia pre- gado sermões evangelísticos ao público em ge- ral e sermões pastorais aos membros da igreja, dado conselhos em reuniões de negócios e par- tilhado experiências pioneiras com outros obreiros. Ao chegar, porém, a tarde de sábado, ela percebeu que seu trabalho ainda não estava concluído. Ela e a Sra. Ings caminharam até o bosque, estenderam uma manta e, em vez de repousar, escreveram uma carta de dez páginas de conselho e encorajamento aos jovens obrei- ros que estavam prontos para partir para o cam- po missionário. Aquela carta, agora conhecida como Carta 14, 1887, foi citada e publicada muitas vezes. Suas valiosas concepções têm, durante todos esses anos, servido de orientação para muitos obreiros.42 Às vezes, Ellen White era clara e direta em cartas confidenciais endereçadas a seus filhos bem como a coobreiros. Suas cartas pessoais a Edson parecem francas e até mesmo rudes, es- pecialmente quando se ignora o contexto his- tórico. Não foi senão aos 44 anos de idade que Edson se revelou como pregador e educador comprometido. Em anos posteriores, ele foi o primeiro a promover a obra adventista no Sul dos Estados Unidos após a Guerra Civil. Quan- do era mais jovem, porém, relutava em assumir responsabilidade quanto a decisões financeiras e quanto a sua conduta.43 Quando Edson, com a idade de vinte anos, 114 SEÇÃO II A Verdadeira Ellen White
  • 67. CAPÍTULO 11 A ESCRITORA PROLÍFICA cortes de revistas, de meia dúzia de volumes encadernados [E. G. White] e cinqüenta manuscritos, todos abrangendo milhares de páginas.”54 Mas Marian não redigia nada. Quando Marian morreu em 1904, Ellen White recor- dou sua companheira íntima com grande apreciação: “Estivemos lado a lado na obra, e em perfeita harmonia nessa obra. E quando juntava os preciosos fragmentos que tinham aparecido em revistas e livros e os apresenta- va a mim, ela dizia: ‘Agora está faltando al- guma coisa. Eu não posso supri-la.’ Eu exa- minava o que era, e num momento conse- guia achar o fio da meada. Trabalhamos jun- tas, sim trabalhamos juntas em perfeita har- monia durante todo esse tempo.”55 Outros, inclusive Mary White, J. H. Waggoner, W. W. Prescott e J. H. Kellogg, também ajuda- ram W. C. White e Marian Davis na elabo- ração dos livros. O Dr. Kellogg auxiliou na publicação de Christian Temperance and Bible Hygiene. Es- crevendo a introdução do livro, chamou a atenção para a maneira como o livro foi ela- borado: “Este livro não consiste numa nova apresentação... mas é apenas uma compilação e, em alguns aspectos, um sumário dos diver- sos escritos da Sra. White a respeito deste as- sunto, ao qual se acrescentou diversos artigos do Pastor Tiago White, esclarecendo os mes- mos princípios e a experiência pessoal do Pastores J. N. Andrews e José Bates, dois dos pioneiros do movimento da saúde entre os adventistas do sétimo dia. O trabalho de compilação foi feito sob a supervisão da Sra. White por uma comissão que ela designou para este propósito, e o original foi cuidado- samente examinado por ela.”56 Testemunhos. O termo “testemunhos” logo se tornou bem conhecido entre os adventis- tas do sétimo por três razões: (1) os adventis- tas que no passado haviam sido metodistas estavam acostumados com reuniões “sociais” e reuniões de “testemunho”, onde os mem- bros relatavam experiências pessoais e seus compromissos de fé; (2) as mensagens que Ellen White apresentava a outros, quer oral- mente, quer por escrito, tornaram-se conhe- cidas como “testemunhos”; (3) as compila- ções publicadas de cartas, originais e artigos para periódicos previamente publicados fo- ram finalmente reunidos em nove volumes conhecidos como Testemunhos Para a Igreja. Esses “testemunhos” eram escritos sempre que Ellen White dispunha de tempo e opor- tunidade para escrever as revelações recebi- das, seja por meio de sonhos noturnos, seja por meio de visões diurnas. Uma oportunida- de interessante ocorreu em Adams Center, Nova Iorque, no começo de novembro de 1863. Quase toda uma Igreja Batista do Séti- mo Dia se havia convertido à mensagem ad- ventista. Tiago e Ellen pregaram diversas ve- zes, como o fizera J. N. Andrews. Na tarde de domingo, enquanto Andrews pregava, a Sra. White escreveu seis páginas durante o sermão, e isto a apenas a um metro e meio do púlpito, usando a Bíblia como su- porte. Quando o sermão terminou, ela se le- vantou e se dirigiu à congregação. Certo membro da igreja relatou na Review que “as palavras dela eram suficientes para derreter um coração de pedra”. A capacidade de con- centração que ela possuía é bem ilustrada pe- la maneira como reagiu mais tarde no mesmo dia ao ser interpelada por alguém que queria saber o que ela achava de Andrews como pregador. Ela respondeu que “não podia di- zer, visto fazer muito tempo que o havia es- cutado pregar”.57 Muitas das mensagens originais e pessoais de Ellen White foram posteriormente reco- nhecidas como tendo valor também para ou- tras pessoas. Atendendo a solicitações, os White providenciaram para imprimi-las em forma de brochura. Os dez primeiros desses Testemunhos, entre 1855-1864, continham de 16 a 240 páginas cada um, publicados em for- mato de bolso. Em 1874 os dez primeiros fo- ram reimpressos na forma de livro. (Obvia- mente, após dez anos, os originais, não em forma permanente, não eram facilmente acessíveis.) Contudo, a revisão feita em 1881-1883 dos Testemunhos publicados anteriormente, 1-28, tornou-se um projeto de maior enver- gadura. O fato de os escritos públicos de uma mensageira poderem ou deverem ser “revisados” trouxe novo enfoque sobre a maneira como Deus atua por meio de Sua 117 M E N S A G E I R A D O S E N H O R O ministério profético de Ellen G. White artigos para periódicos e livros. Esses mate- riais foram posteriormente adaptados em ou- tras formas para publicação, por suas assisten- tes literárias. Sermões tornaram-se artigos pa- ra periódicos, e cartas, sermões e artigos foram muitas vezes reunidos sob a forma de livro. O resultado era prodigioso, conforme as revistas Review e Signs o atestam, além dos li- vros que surgiram de sua pena durante os úl- timos trinta e cinco anos de sua vida. Diários. O Patrimônio Literário White possui cerca de 60 diários pertencentes a Ellen White que remontam a 1859. Alguns registram acontecimentos do dia-a-dia, iguais aos diários como os conhecemos hoje; outros são simplesmente livros de folhas pautadas usados para escrever cartas ou manuscritos de natureza geral. Não é incomum encontrar uma série de escritos de diversos anos num único diário, anos que poderiam sobrepor-se aos escritos de outros diários. Isso se deve ao fato de que ela regularmente passava esses li- vros para suas secretárias copiarem. Assim, vários livros podiam estar em uso ao mesmo tempo, alguns nas mãos de copistas, enquan- to ela continuava a escrever em outro diário disponível. Cartas. Editar as cartas de Ellen White an- tes de enviá-las pelo correio envolvia mais do que datilografar seus originais manuscritos. W. C. White observou o processo numa car- ta endereçada à mãe, depois de receber uma longa carta dela para A. C. Bordeau (4.000 palavras). Ele conta que sua esposa, Mary, “procurava corrigi-las conforme suas for- ças”.49 “Corrigi-las” significava que ajustes gramaticais eram esperados. Esse tipo de as- sistência redacional pode ser visto facilmente quando se compara matérias apressadamente escritas à mão com as cópias editadas e dati- lografadas. Sermões e Artigos Para Periódicos. Muitos dos sermões de Ellen White foram estenogra- fados. Mary K. White e Mary Clough, além de outras, muitas vezes prepararam sermões para publicação. Ambas as revistas da igreja buscavam esses artigos regularmente. Em vir- tude das interrupções de viagem e outros pra- zos literários de urgência, não era fácil man- ter a agenda de trabalho. Para facilitar as coi- sas para todos os envolvidos, principalmente para suas assistentes sob grande pressão, Ellen White dava permissão para os redatores da Review e de Signs apanharem os originais da- tilografados e os prepararem conforme suas necessidades específicas. Ao proceder assim, eles deviam “suprimir os assuntos pessoais da matéria e torná-la genérica, empregando-a como julgassem melhor para os interesses da causa de Deus”.50 Embora os redatores houvessem ganho tal confiança, mudavam o menor número possível de palavras e frases para ajustar o texto a sua necessidade. Atribui-se a isso as pequenas dife- renças entre os artigos para periódicos e o mes- mo material usado posteriormente num livro. Livros (com exceção de Testemunhos Para a Igreja). Durante a década de 1890, diversos livros estavam sendo processados simultanea- mente, inclusive Obreiros Evangélicos, Cami- nho a Cristo51 e O Desejado de Todas as Na- ções52 – sendo o primeiro uma compilação completa, e os dois últimos, a maior parte compilação e reorganização de matéria escri- ta anteriormente. Marian Davis, “Minha Compiladora de Livros” Em uma carta datada de 1900 e endereçada a G. A. Irwin, Ellen White chamou Marian Davis de “minha compiladora de livros”. Na mesma carta, ela descreveu como Marian tra- balhava: “Toma meus artigos que são publica- dos nas revistas e cola-os em livros em bran- co. Também possui uma cópia de todas as cartas que escrevo. Ao preparar um capítulo para um livro, Marian se lembra de que eu es- crevi alguma coisa sobre esse ponto especial, que talvez torne o assunto mais convincente. Ela começa a procurá-lo, e se, ao encontrá-lo, percebe que isso tornará o capítulo mais cla- ro, acrescenta-o a ele. “Os livros não são produções de Marian, porém minhas, tirados de todos os meus escri- tos. Marian tem vasto campo de que colher, e sua habilidade em arranjar matéria é de gran- de valor para mim. Ela me poupa o ficar aten- ta a uma massa de escritos, o que não tenho tempo de fazer.”53 Marian escreveu a Willie expressando o peso do trabalho dela: “Talvez você possa imaginar a dificuldade que é procurar reunir pontos relacionados a um assunto, quando es- ses devem ser coligidos de trinta álbuns de re- 116 SEÇÃO II A Verdadeira Ellen White
  • 68. CAPÍTULO 11 A ESCRITORA PROLÍFICA visão, que estava quase concluído: “Foram recebidas informações provenientes de Bat- tle Creek de que a obra relacionada com os Testemunhos não está sendo aceita. Desejo declarar algumas coisas, com as quais poderá fazer o que lhe aprouver. Já me ouviu fazer essas declarações antes – que me foi mostra- do anos atrás que não devíamos adiar a pu- blicação da importante luz que me foi dada porque não pude preparar o assunto com per- feição. Meu marido às vezes estava muito doente, incapaz de prestar-me a ajuda que eu deveria ter e que ele me poderia haver con- cedido caso estivesse com saúde. Por este motivo demorei a pôr diante do povo aquilo que me fora dado em visão. “Mostrou-se-me, porém, que devia apre- sentar ao povo, da melhor maneira possível, a luz recebida; então, à medida que recebesse maior luz e usasse o talento que Deus me deu, teria crescente habilidade para usar em escre- ver e falar. Eu devia melhorar tudo, condu- zindo-o tão perto da perfeição quanto fosse possível, para que pudesse ser aceito por men- tes inteligentes. “Tanto quanto possível, todo defeito de- via ser removido de todas as nossas publica- ções. À medida que se desdobrasse a verdade e se tornasse mais difundida, devia ser exer- cido todo cuidado para aperfeiçoar as obras publicadas. “Com respeito à History of the Sabbath, do irmão Andrews, vi que ele adiou a obra por muito tempo. Obras errôneas estavam ocu- pando o terreno e obstruindo o caminho, pa- ra que as mentes fossem imbuídas de precon- ceitos pelos elementos oponentes. Vi que as- sim se perderia muita coisa. Depois que se es- gotasse a primeira edição, ele poderia fazer melhoramentos; mas ele estava se esforçando demais para chegar à perfeição. Essa demora não era o que Deus desejava. “Pois bem, irmão Smith, tenho feito cui- dadoso exame crítico do trabalho efetuado nos Testemunhos, e vejo algumas coisas que penso deverem ser corrigidas na questão apresentada à sua pessoa e a outros na Asso- ciação Geral [novembro de 1883]. No en- tanto, ao examinar o assunto com mais atenção, vejo cada vez menos algo que seja censurável. Onde a linguagem usada não é a melhor, quero que a tornem correta e gra- matical, como creio que devia ser em todo caso em que for possível, sem destruir o sen- tido. Este trabalho está sendo adiado, o que não me apraz. ... “Meu espírito tem-se concentrado na questão dos Testemunhos que foram revisados. Nós os examinamos de maneira mais criterio- sa. Não posso ver a questão como meus ir- mãos a vêem. Penso que as modificações me- lhorarão o livro. Se nossos inimigos o manu- searem, que o façam. ... “Acho que tudo que for publicado será cri- ticado, torcido, deturpado e enlameado, mas devemos avançar com a consciência limpa, fazendo o que podemos e deixando o resulta- do com Deus. Não devemos adiar a obra por mais tempo. “Agora, meus irmãos, que pretendem fa- zer? Não quero que este trabalho se prolon- gue mais ainda. Quero que se faça alguma coisa, e que se faça agora.”63 Mas a carta de Ellen White a Uriah Smith não foi suficientemente forte. Prevaleceram os temores de que as modificações destrui- riam a confiança nos escritos dela. “Uriah Smith enfrentou uma saraivada de oposição por parte dos crentes de Battle Creek. Nin- guém iria tocar nos Testemunhos deles!”64 Mas a Sra. White, com bom senso e discerni- mento, reconheceu os temores da liderança e fez seus assistentes “revisarem outra vez” o projeto, de modo que somente as imperfei- ções mais gritantes fossem alteradas. William explicou tudo isso a O. A. Olsen: “Recoloca- mos muitas páginas referentes àquilo que ha- via sido criticado em Battle Creek e fizemos centenas de modificações nas chapas para le- var a fraseologia da nova edição tão próxima quanto possível da fraseologia da antiga sem tornar as expressões deselegantes e a gramáti- ca incorreta.”65 Os primeiros quatro volumes dos Testemu- nhos Para a Igreja, conforme os temos hoje, conserva as correções da impressão de 1885. Experiência da Revisão Ensina Lições O que aprendemos dessa experiência de revi- são? 1. Temos uma compreensão “oficial” 119 M E N S A G E I R A D O S E N H O R O ministério profético de Ellen G. White mensageira. Para muitas pessoas, isso parecia ser uma nova concepção. Em 1878, a Associação Geral votou que todos os Testemunhos anteriores fossem reim- pressos de forma permanente. A reimpressão implicou uma completa recomposição dos ti- pos, criando um novo formato de página e fornecendo paginação consecutiva. Ellen White e seus assistentes mais próxi- mos (W. C. e Mary White, Marian Davis, Eli- za Burnham e J. H. Waggoner) viram tal so- licitação como uma oportunidade para me- lhorar imperfeições gramaticais e tornar mais claras algumas expressões. O alvo dela conti- nuava sendo apresentar a verdade da manei- ra mais clara possível. Por que as Revisões Foram Necessárias Em 1883, uma resolução da Associação Geral endossa o voto de 1878, chamando a atenção para as circunstâncias em que os Testemunhos haviam sido escritos: “Muitos desses testemu- nhos foram escritos sob as mais desfavoráveis circunstâncias, achando-se a autora demasia- do premida de ansiedade e trabalho para dar atenção à perfeição gramatical dos escritos, e os mesmos foram impressos tão apressada- mente que deixaram passar tais imperfeições sem serem corrigidas; etc.”58 Os redatores levaram a sério essa tarefa de revisão. Mary escreveu ao marido W. C. White: “Com respeito às modificações, pro- curaremos aproveitar as suas sugestões. Perse- gue-me dia e noite o receio de fazer altera- ções excessivas ou de alguma maneira mudar o sentido.”59 Mas nem todos estavam entusiasmados com a revisão dos Testemunhos publicados. Surgiram no coração da liderança da igreja sombrios temores. Da Assembléia da Asso- ciação Geral em 1882, W. C. White escreveu à esposa Mary informando-a da resistência: “Butler e Haskell não encontram falhas gra- ves nas provas do Testemunho, mas dizem que não vêem nenhum benefício em aproxi- madamente um terço das alterações. Eles desejam que você vá com eles às reuniões e veja homens como Mooney [polemista anti- adventista] apresentar uma edição e depois outra, mostrar as alterações e tentar chamar a atenção especial para isso. Eu argumentei que não havia salvação em erros gramaticais, etc. Um pensamento expresso gramaticalmente correto é tão bom para alcançar o coração duro e pecaminoso quanto o expresso incor- retamente.”60 Os temores vinham de duas direções: os lí- deres sabiam (1) que os críticos da denomina- ção aproveitariam sofregamente a oportuni- dade para mostrar que a “profetisa” adventis- ta não era confiável, que era manipulada pe- las circunstâncias e por outras pessoas; (2) que alterar o que havia sido publicado deses- tabilizaria alguns adventistas, fazendo-os crer que haviam sido desencaminhados e que Ellen White não era um guia seguro. Eram esses temores justificados? Sim e não. Os temores eram justificados quando os líderes observaram que muitas pessoas, tanto adventistas quanto não adventistas, adota- vam um ponto de vista inadequado sobre a maneira como Deus fala a Seus mensageiros humanos. Eles criam que Deus ditava as pala- vras exatas que os profetas empregavam em revelar as mensagens divinas. Contudo, os te- mores eram desnecessários sempre que as pes- soas entendiam que Deus inspirava o mensa- geiro com pensamentos, e não com palavras. Em 1883, a resolução da Associação Geral esclareceu da melhor maneira possível a ver- dade sobre a natureza da revelação/inspira- ção: “Cremos que Deus dá a Seus servos a luz mediante a iluminação da mente, comuni- cando assim os pensamentos e não (a não ser em raros casos) as próprias palavras em que as idéias devem ser expressas; portanto, “Fica resolvido que se façam na reedição desses volumes as modificações verbais ne- cessárias à remoção das mencionadas imper- feições, o quanto possível, sem qualquer alte- ração do pensamento.”61 A resolução da Associação Geral tornou- se uma referência para a compreensão adven- tista do processo revelação/inspiração.62 Oposição às Revisões Os temores, porém, não se dissiparam. Uriah Smith, redator da revista da igreja, como muitos outros, opôs-se às revisões, mesmo de- pois de a resolução ter sido aprovada. Três meses depois da assembléia, Ellen White es- creveu a Smith, defendendo o projeto de re- 118 SEÇÃO II A Verdadeira Ellen White
  • 69. CAPÍTULO 11 A ESCRITORA PROLÍFICA terem sido claramente instruídos, continuam a sentir-se mais seguros com algumas formas de inspiração verbal. A instrução cautelosa da liderança, tal como a que W. C. White procurou comunicar, cai geralmente em ou- vidos moucos.70 121 M E N S A G E I R A D O S E N H O R O ministério profético de Ellen G. White do que os adventistas crêem sobre revelação/ins- piração. Os adventistas defendem a inspiração do pensamento, não a inspiração verbal. 2. Temos um exemplo dos problemas que surgem quando as pessoas adotam uma concep- ção errada do processo de revelação/inspiração. A compreensão incorreta da maneira como os pensamentos de Deus se convertem nas pala- vras de um mensageiro inspirado afeta direta- mente a maneira como a pessoa lê a Bíblia bem como os escritos de Ellen White. A compreen- são equivocada deste assunto cria problemas na compreensão da verdade, podendo finalmente destruir a confiança tanto na Bíblia como nos escritos da Sra. White quando se descobrem imperfeições de linguagem. 3. A publicação dos Testemunhos conforme revisados em 1885 foi usada por críticos dos adventistas para atacar a inspiração de Ellen White. Pelo fato de muitos críticos crerem que as verdadeiras mensagens proféticas são verbalmente inspiradas, eles ficam grande- mente perturbados quando aquelas palavras são alteradas ou contestadas. Neste sentido, as modificações nos escritos da Sra. White são, para eles, evidências claras de que esses escritos não foram inspirados por Deus. Em sua carta a Uriah Smith, Ellen White escreveu que sabia que “inimigos” usariam a revisão para zombar dos adventistas, mas ela disse: “Deixem que façam isso.” Ela não faria a verdade silenciar apenas para evitar ataques injustos e inescrupulosos fundamentados nu- ma compreensão errônea da maneira como a inspiração funciona. Não decorreu muito tempo, e D. M. Can- right “usou” a revisão! Em 1889, esse ex-pre- gador adventista, que havia entrado e saído do ministério pelo menos quatro vezes, escre- veu em seu livro mordaz Seventh-day Adven- tism Renounced: “Em 1885 todos os ‘testemu- nhos’ dela foram republicados em quatro vo- lumes, sob as vistas do próprio filho e de um redator crítico. Abrindo aleatoriamente o volume um em quatro diferentes páginas, li- as e comparei-as com a publicação original que possuo. Encontrei em média vinte e qua- tro alterações de palavras em cada página! As palavras dela foram removidas e substituídas por outras, e outras modificações, em alguns casos tantas que foi difícil confrontar as duas edições. Se aplicarmos essa mesma proporção aos quatro volumes, deve haver 63.720 alte- rações. “Levando-se, depois, em conta as palavras que foram postas por seu marido, pela copis- ta, pelo filho, pelos redatores e as que ela co- piou de outros autores, abrangem provavel- mente de um décimo a um quarto de todos os seus livros. Que bela inspiração!”66 Embora Canright tenha exagerado bastan- te na quantidade de revisões efetuadas, ele não estava sozinho em seu desassossego em relação às revisões das obras publicadas de Ellen White. Líderes como W. W. Prescott, S. N. Haskell e Milton Wilcox (redator da re- vista Signs of the Times) defendiam alguma forma de inspiração verbal que, por sua vez, influiu sobre as atitudes que adotaram poste- riormente em relação a determinadas ques- tões doutrinárias. Prescott, particularmente, parecia ter sofrido a influência de um livro de ampla circulação de autoria de Louis Gaus- sen, Theopneustia (1841), que era uma clara defesa da infalibilidade bíblica.67 Gaussen e, tempos depois, Prescott vive- ram em uma época de grande reviravolta teo- lógica. Racionalistas ingleses, místicos ale- mães e incipientes liberais norte-americanos combinavam métodos da alta crítica em seu frontal ataque contra a integridade da Bíblia. Gaussen e outros eram líderes que defendiam os princípios cristãos fundamentais, embora a maior parte dessa defesa estivesse entrinchei- rada por detrás do fosso da infalibilidade bí- blica, a qual, para eles, significava alguma forma de inspiração verbal. Eles criam que era uma guerra de um contra o outro: ou a al- ta crítica ou a inspiração verbal. Querendo defender a elevada concepção da Escritura, empregavam um ponto de vista de inspiração verbal indefensável. Gaussen, por exemplo, cria que as palavras do profeta eram inspira- das, e não o profeta: “Se as palavras do livro são ditadas por Deus, que me importam os pensamentos do escritor?”68 Com o passar dos anos, a confusão anterior de Prescott, junto com a de outros líderes, contribuiu para expectativas desnecessárias e inexeqüíveis com relação aos escritos de Ellen White. Essa confusão irrompeu de tem- pos em tempos, especialmente na Assembléia Bíblica de 1919, e, depois, na década de 1970.69 Muitos pastores e leigos, pelo fato de não 120 SEÇÃO II A Verdadeira Ellen White Referências 1. Uma pesquisa de Roger Coon (a partir de 1983) feita na Biblioteca do Congresso, Washington, D.C., revelou os se- guintes dez escritores modernos mais traduzidos: “1. Vladi- mir I. Lenin, líder comunista russo – 222 línguas; 2. Geor- ges Simenon, escritor franco-belga de romance policial – 143 línguas; 3. León Tolstoy, romancista russo – 122 lín- guas; 4. Ellen G. White, co-fundadora norte-americana dos ASD – 117 línguas [mais de 140 a partir de 1996 tor- nam Ellen White possivelmente a segunda escritora mais traduzida de todos os tempos]; 5. Karl Marx, filósofo socia- lista alemão – 114 línguas; 6. William Shakespeare, dra- maturgo inglês – 111 línguas; 7. Agatha Christie, escrito- ra inglesa de romances de mistério – 99 línguas; 8. Jakob e Wilhelm Grimm, organizadores alemães de numerosos contos de fada – 97 línguas; 9. Ian Fleming, criador britâ- nico dos romances policiais de James Bond – 95 línguas; 10. Ernest Hemingway, romancista norte-americano – 91 línguas.” – A Gift of Light (Washington, D.C.: Review and Herald Publishing Association, 1983), págs. 30 e 31. Na- turalmente, os escritores bíblicos têm sido mais traduzidos do que quaisquer outros. 2. Pode-se obter uma lista completa de todos livros e folhetos publicados por Ellen G. White em Ellen G. White Estate (Patrimônio Literário White), 12501 Old Columbia Pike, Silver Spring, Maryland 20904-6600, USA. 3. Biography, vol. 1, págs. 91 e 92. 4. “Nós usamos o dactilógrafo [máquina de escrever] com bons resultados.” – Manuscrito 16a, 1885, citado em Biography, vol. 3, pág. 291. A máquina de escrever, apesar de ter sido in- ventada em 1843, recebeu numerosos melhoramentos até 1883, quando Remington vendeu 3.000 máquinas contendo teclas que possibilitavam o uso de caixa alta e caixa baixa. Em 1894, Underwood produziu uma máquina datilográfica que permitia ao datilógrafo ver o que estava sendo escrito. – James Trager, The People’s Chronology (New York: Henry Holt and Company, 1992), págs. 435, 548, 566 e 612. 5. William C. White, “Sketches and Memories of James and Ellen White”, Review and Herald, 13 de fevereiro de 1936. 6. Citado em Arthur White, Ellen G. White, Mensageira da Igre- ja Remanescente, 2ª ed. (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 1993), pág. 331. 7. Ibidem. 8. Manuscrito 4, 1891, citado em ibidem. 9. Carta 28, 1906, citado em ibidem, pág. 332. 10. “Enquanto meu marido viveu, desempenhou o papel de aju- dador e conselheiro no envio das mensagens que me eram dadas. Viajávamos longamente. Por vezes eram-me concedi- dos esclarecimentos durante a noite, outras, de dia, perante grandes congregações. As instruções recebidas em visão eram fielmente escritas por mim, segundo eu tinha tempo e força para a obra. Posteriormente examinávamos juntos o as- sunto, meu marido corrigia os erros gramaticais e eliminava as repetições desnecessárias. Então elas eram cuidadosamen- te copiadas para a pessoa a quem se dirigiam, ou para o pre- lo. À medida que a obra aumentou, outros me auxiliaram no preparo da matéria para a publicação. Depois da morte de meu marido, juntaram-se a mim fiéis auxiliares, que traba- lharam infatigavelmente em copiar os testemunhos e prepa- rar os artigos para serem publicados. As notícias que têm cir- culado, porém, de que qualquer de minhas auxiliares tenha permissão de acrescentar matéria ou mudar o sentido das mensagens que escrevo, não são reais.” – Mensagens Escolhi- das, livro 3, pág. 89. 11. As páginas 14-16 tratam dos ajudantes literários dos escrito- res bíblicos. 12. As páginas 16, 120, 173, 375, 376 e 421 tratam da diferença entre inspiração verbal e inspiração do pensamento. 13. Mensagens Escolhidas, livro 3, pág. 90. 14. Carta 103, 1895, a Marian Davis, citada em “The Fannie Bolton Story” (Washington, D.C.: Patrimônio Literário White, 1982), pág. 49. 15. W. C. White a G. A. Irwin, 7 de maio de 1900. Poerion ci- tado em Moon, W. C. White and Ellen White, pág. 115. Tim Poirier descreve “dois níveis” de edição entre o original de Ellen White, documentos manuscritos, e suas formas atuais conforme referidas em 7 de maio de 1900, em uma Carta a G. A. Irwin. O Nível Um refere-se a “corrigir erros gramati- cais, eliminar repetições desnecessárias, etc.” As mais expe- rientes assistentes de Nível Dois iam além do nível de apre- sentar o material na forma gramatical desejada; elas reorga- nizavam, reuniam e compilavam o material datilografado do Nível Um num novo documento literário (“incluía-o em ou- tro original”), como um artigo para periódico ou um livro (por exemplo, o Caminho a Cristo e O Desejado de Todas as Nações). As fotocópias de como esses dois níveis se desenvol- veram em diversos estágios dos materiais de Ellen White en- contram-se em “Exhibits Regarding the Work of Ellen White’s Literary Assistants”, 1990, de Tim Poirier, disponí- veis nos Centros de Pesquisa ASD Ellen G. White. 16. A princípio, Mary K. White e Marian Davis eram as princi- pais assistentes. “Entre as que ajudaram Ellen White a prepa- rar seus escritos para publicação através dos anos encontram- se Tiago White, Mary Kelsey-White, Lucinda Abbey-Hall, Adelia Paten-Van Horn, Anna Driscol-Loughborough, Ad- die Howe-Cogshall, Annie Hale-Royce, Emma Sturgess- Prescott, Mary Clough-Watson, Sra. J. I. Ings, Sra. B. L. Whitney, Eliza Burnham, Fannie Bolton, Marian Davis, C. C. Crisler, Minnie Hawkins-Crisler, Maggie Hare, Sarah Peck e D. E. Robinson.” – Robert W. Olson, One Hundred and One Questions (Washington, D.C.: Patrimônio Literário White, 1981), pág. 87. 17. Moon, W. C. White and Ellen G. White, pág. 114. 18. Carta de Marian Davis a W. C. White, 11 de abril de 1897. Em uma Carta de Marian Davis a G. A. Irwin: “Faz mais de vinte anos que estou ligada à obra da irmã White. Durante este tempo jamais ela me pediu para transcrever um testemu- nho a partir de instrução oral, ou inserir informações em ma- térias já escritas.” – Anexada à Carta 61a, 1900, de Ellen White endereçada a G. A. Irwin. 19. Marian Davis a W. C. White, 9 de agosto de 1897, citado em Robert W. Olson, How The Desire of Ages Was Written, pág. 34. 20. MR, vol. 10, pág. 12. Enquanto Tiago White estava na Cos- ta Oeste lançando as primeiras edições de Signs of the Times (1874), sua esposa escreveu de Battle Creek: “Acabamos de concluir Sufferings of Christ. Willie me ajudou, e agora nós o levamos à editora para que Uriah [Smith] o critique. Acho que dará um folheto de 32 páginas.” – Cartas, 11 e 17 de ju- lho de 1874. 21. W. C. White a David Paulson, sobre o original do livro A Ciência do Bom Viver, 15 de fevereiro de 1905. (WEDF 140-a.) 22. Carta 84, 1898: “Leio do princípio ao fim tudo que é copia- do, para ver que tudo esteja como deve estar. Leio todos os
  • 70. CAPÍTULO 11 A ESCRITORA PROLÍFICA 54. Marian Davis a W. C. White, 29 de março de 1893, citado em Biography, vol. 4, pág. 383. 55. Manuscrito 95, 1904, citado em ibidem (Mensagens Escolhi- das, livro 3, pág. 93). 56. Biography, vol. 3, págs. 446 e 447. Ver J. H. Kellogg, prefácio de Christian Temperance and Bible Hygiene, de E. G. White e Tiago White (Battle Creek, MI: Good Health, 1890), pág. iv. 57. Biography, vol. 2, págs. 68 e 69. 58. Review and Herald, 27 de novembro de 1883, Resolução No 33, 741 (Nota de Mensagens Escolhidas, livro 3, pág. 96). 59. Biography, vol. 3, pág. 218. 60. W. C. White a M. K. White, 31 de dezembro de 1882, cita- do em Moon, W. C. White and Ellen G. White, pág. 124. 61. Biography, vol. 3, pág. 219 (Nota de Mensagens Escolhidas, li- vro 3, pág. 96). 62. Esta declaração sobre revelação/inspiração não era nenhuma novidade para os adventistas do sétimo dia. Em carta a L. E. Froom, W. C. White escreveu: “Essa declaração feita pela As- sociação Geral em 1883 estava em perfeita harmonia com as crenças e posições dos pioneiros desta Causa, e era, penso eu, a única posição adotada por todos os nossos pastores e profes- sores até que o Prof. [W. W.] Prescott, presidente do Colégio de Battle Creek, apresentou de maneira muito vigorosa um outro conceito – o conceito mantido e defendido pelo Prof. Gausen [Gaussen]. A aceitação desse conceito pelos estudan- tes do Colégio de Battle Creek e muitos outros, incluindo o Pastor Haskell, resultou na introdução em nossa obra de questões e perplexidades sem fim, e em constante aumento.” – Mensagens Escolhidas, livro 3, pág. 454. 63. Carta 11, 1884, citada em Mensagens Escolhidas, livro 3, págs. 96-98. 64. Alden Thompson, “Improving the Testimonies Through Re- visions”, Adventist Review, 12 de setembro de 1985, pág. 14. 65. 11 de julho de 1885, citada em Moon, W. C. White and Ellen G. White, pág. 128. 66. D. M. Canright, Seventh-day Adventism Renounced (New York, Fleming H. Revell Company, 1889), pág. 141. W. H. Branson escreveu uma réplica de 395 páginas a Canright, In Defense of the Faith (Washington, D.C.: Review and Herald, 1933). 67. François Samuel Louis Gaussen (1790-1863), um pastor suí- ço reformado, foi o autor de muitas obras calvinistas, embo- ra a mais conhecida seja Theopneustia. – J. D. Douglas, edi- tor, The New International Dictionary of the Christian Church (Grand Rapids, MI: Zondervan Publishing House, 1974), pág. 402. 68. F. S. L. Gaussen, The Plenary Inspiration of the Holy Scriptures (London: Samuel Bagster, tradução inglesa, 1841), pág. 304. 69. Ver págs. 439 e 440. 70. Ver o artigo em quatro partes de Alden Thompson, “Adven- tists and Inspiration”, Adventist Review, 5, 12, 19 e 26 de se- tembro de 1985. 123 M E N S A G E I R A D O S E N H O R O ministério profético de Ellen G. White 122 originais dos livros antes de serem enviados para o prelo. Po- dem ver, portanto, que meu tempo precisa ser muito bem aproveitado.” – Carta 133, 1902, citado em Mensagens Esco- lhidas, livro 3, pág. 90. “Desejo escrever palavras que remo- vam da mente de qualquer dos meus irmãos a impressão de que não li, antes de sua publicação, as páginas de Testemu- nhos Para a Igreja, vol. 9, que falam sobre o trabalho no do- mingo. Li esta matéria antes de ela ser enviada para o prelo, e já li o livro diversas vezes, e não consegui ver nele nada que dê a alguém razão para dizer que ali é ensinada a observância do domingo. O conselho apresentado neste livro não contra- diz a Bíblia nem meus testemunhos anteriores.” – Carta 94, 1910, citada em MR, vol. 8, pág. 21. 23. Eventos Finais, págs. 123-142. 24. Esses cadernos de folhas pautadas estão expostos no escri- tório do Patrimônio Literário White, em Silver Spring, Maryland. 25. Battle Creek, MI: Steam Press of the Seventh-day Adventist Publishing Association, 1863. 26. Oakland, CA: The Pacific Press, 1877, 1878, 1881; Nashvil- le, TN: M. A. Vroman, editor, 1905. 27. Data desconhecida. 28. Em 1881, Tiago White escreveu: “A Sra. White é grande lei- tora, e em nossas longas viagens ela tem reunido grande quantidade de livros e revistas infantis dos quais seleciona li- ções morais e religiosas a fim de lê-las para seus próprios e queridos filhos. Faz quase trinta anos que ela começou a fazer isto. Compramos todas as séries de livros para crianças e jo- vens, impressos na América do Norte e na Europa em língua inglesa que chegou ao nosso conhecimento, e adquirimos, tomamos emprestado e solicitamos uma quantidade quase in- contável de diversos livros dessa categoria. ... Publicamos ali a Sunshine Series, uma coleção de pequenos livros para crianças de 5 a 10 anos de idade; a série Golden Grains, pa- ra crianças de 10 a 15 anos, e os volumes de Sabbath Readings for the Home Circle para leitores mais avançados. ... Que li- vros valiosos! Os compiladores passaram anos lendo e rejei- tando noventa e nove partes e aceitando uma. Livros precio- sos, de fato, para jovens preciosos.” – Review and Herald, 21 de junho de 1881. 29. Carta 189, 1900, citado em Biography, vol. 4, pág. 448. 30. Arquivo de Correspondência do Patrimônio Literário Whi- te, citado por Robert W. Olson, “Ellen G. White’s Use of Historical Sources in The Great Controversy”, Adventist Re- view, 23 de fevereiro de 1984. 31. Mensagens Escolhidas, livro 3, pág. 441. 32. The Great Teacher, páginas xxxiii, xxxiv. 33. Estas páginas se encontram em Testemunhos Para Ministros, págs. 472-475. 34. Mensagens Escolhidas, livro 3, págs. 443 e 444. Numa decla- ração feita por W. C. White ao Concílio da Associação Ge- ral, em 30 de outubro de 1911, ele disse (a respeito das mu- danças feitas na edição de 1911 de O Grande Conflito): “Em vários lugares, houve modificação na forma das expressões, a fim de evitar desnecessária ofensa. Um exemplo disto é a mu- dança da palavra ‘Romish’ [romanista, papista] para ‘romano’ ou ‘católico romano’. Em dois lugares a expressão ‘divinity of Christ’ é mudada para ‘deity of Christ’ [divindade de Cristo – em português não há diferença]. E as palavras ‘tolerância religiosa’ foram mudadas para ‘liberdade religiosa.’ ... O con- tato de minha mãe com o povo europeu trouxe-lhe à mente uma porção de coisas que lhe haviam sido apresentadas em visão durante os anos passados, algumas delas duas ou três ve- zes, e outras cenas muitas vezes. Sua contemplação de luga- res históricos e seu contato com o povo reavivaram-lhe a me- mória no tocante a essas coisas, e assim ela desejou acrescen- tar muito material ao livro. ... Após o nosso regresso à Amé- rica [do Norte], saiu uma nova edição mais ampla. Nessa edi- ção omitiu-se alguma matéria usada na primeira edição em inglês. A razão para essas modificações estava no fato de que a nova edição destinava-se à circulação mundial.” – Ibidem, págs. 435-438. 35. Carta 5, 1876, citado em Biography, vol. 3, pág. 27. 36. Ibidem, págs. 566 e 567. 37. Manuscrito 29, 1887, citado em Delafield, Ellen G. White in Europe, pág. 273. 38. Manuscrito 29, 1887, citado em Biography, vol. 3, pág. 363. Repare no comentário de W. C. White sobre a visita de sua mãe a Basiléia: “Durante os seus dois anos de residência em Basiléia, ela visitou muitos lugares em que ocorreram acon- tecimentos de especial importância nos dias da Reforma. Is- to avivou-lhe a lembrança do que lhe fora mostrado e con- duziu a importante ampliação das partes do livro que trata- vam do tempo da Reforma.” – Mensagens Escolhidas, livro 3, pág. 465. 39. Ver págs. 16, 20, 173, 375, 376 e 421. 40. Ver pág. 54. 41. Quando a Sra. White ainda se recuperava do nascimento de seu quarto filho, John Herbert, ocorrido em 20 de setembro de 1860, Tiago teve que ficar ausente por seis semanas. Ele lhe escreveu um bilhete que terminava com estas palavras: “Não lhe peço para cansar-se com cartas longas. Grande é a preocupação que você tem por mim. Que Deus ajude você e as crianças.” – Citado em Biography, vol. 1, pág. 429. Tempos depois, meses antes de Tiago morrer, ela sentiu que chegara o tempo de suspender as pesadas responsabilidades da lide- rança da igreja, mas isso era difícil. Alguns dias antes do seu falecimento, ele escreveu ao filho Willie: “Onde eu errei, ajude-me a corrigir-me. Reconheço meus erros e estou ten- tando refazer-me. Preciso de sua ajuda, e da ajuda de mamãe e de Haskell.” – Ibidem, vol. 3, pág. 145. 42. Ver Evangelismo, págs. 89-91, 94, 97, 132, 142, 248 e 553. 43. Para antecedentes gerais sobre Edson White, ver Alta Ro- binson, “James Edson White: Innovator”, em Early Adventist Educators, ed. George R. Knight (Berrien Springs, MI: An- drews University, 1983), págs. 137-158; Virgil Robinson, Ja- mes White (Nashville, TN: Southern Publishing Association, 1959), págs. 135-144; Jerry Allen Moon, W. C. White and El- len G. White (Berrien Springs, MI: Andrews University, 1993), págs. 42-54. 44. Carta 6, 1869. 45. Carta 12, 1878. Em 1899, quando Edson tinha quinze anos de idade, Ellen White escreveu a W. C.: “Eu... sou mais com- passiva com Edson do que com você porque as circunstâncias do nascimento dele foram especialmente desfavoráveis a seu cunho de caráter. Meu relacionamento com outras pessoas enquanto eu o esperava, as experiências singulares pelas quais fui obrigada a passar foram muito desagradáveis e extre- mamente penosas. Durante anos, após o nascimento dele, is- to não abrandou. Foi completamente diferente no seu caso.” – E. G. White a W. C. White, Carta 12, 1899. Esta carta en- dereçada a Willie era franca e direta como as que ela enviou para Edson. 46. Manuscrito 8, 1862. 47. Testemunhos Para a Igreja, vol. 1, págs. 118-120, 216-220. 48. Carta 4, 1865, de E. G. White a Edson. 49. W. C. White a E. G. White, 22 de novembro de 1886, cita- do em Moon, W. C. White and Ellen G. White, pág. 116. 50. E. G. White a Uriah Smith, 19 de setembro de 1892, citado em Moon, ibidem, pág. 118. 51. Ver págs. 444 e 445. 52. Ver pág. 450. 53. Mensagens Escolhidas, livro 3, págs. 91 e 92. “Sinto-me mui- to grata pela ajuda da irmã Marian Davis na produção de meus livros. Ela colhe materiais de meus diários, de minhas cartas e dos artigos publicados nas revistas. Aprecio grande- mente seu fiel serviço. Ela está comigo há vinte e cinco anos, e constantemente tem adquirido maior habilidade pa- ra o trabalho de classificar e agrupar meus escritos.” – Ibi- dem, pág. 93. SEÇÃO II A Verdadeira Ellen White Perguntas Para Estudo 1. Qual a diferença entre a responsabilidade de Marian Davis e a de outras assistentes de redação de Ellen White? 2. Que significa escrever com “realce humano”? 3. Na sua opinião, por que um profeta deve ser um grande leitor? 4. Por que Ellen White escrevia de um modo para o público em geral e de outro para os adventistas? Forneça exemplos. 5. Que problema subjacente gerou um conflito na década de 1880, ao tentar empreender- se uma nova edição dos Testemunhos Para a Igreja?
  • 71. minha última palestra. Eu devia fazer meu discurso de despedida. ... De repente senti so- brevir-me um poder, como um choque elétri- co. Perpassou-me o corpo e subiu em direção à cabeça. As pessoas dizem ter visto clara- mente o sangue subindo a meus lábios, ouvi- dos, face e testa.” Um comerciante da cidade, ficando de pé, exclamou: “Está-se realizando um milagre dian- te dos nossos olhos. A Sra. White está curada!” O Pastor Waggoner, o pregador que falara antes dela naquele dia, escreveu em seu rela- tório na revista Signs: “Sua voz e aparência se modificaram, e ela falou durante algum tem- po com clareza e energia. Depois convidou os que desejavam dar o primeiro passo no servi- ço de Deus e os que se haviam apostatado pa- ra irem à frente, e um número expressivo atendeu o apelo.”7 Estilo de Oratória As características vocais de Ellen White eram consideradas extraordinariamente agradáveis e persuasivas. Um pastor, relatando a expe- riência por que passara em 1874 no Instituto Bíblico de Battle Creek, escreveu sobre Tiago e Ellen White: “Eu me aventuro a afirmar que nenhuma pessoa de mente sã pode ouvir um deles e não ter a certeza de que Deus está com eles. O estilo e linguagem da irmã White são, em geral, solenes e impressionantes, e exer- cem sobre a congregação influência indescri- tível e sempre na direção do Céu.”8 L. H. Christian ouviu Ellen White pela primeira vez em Mineápolis em 1888. Basea- do nessa experiência, ele escreveu: “Ela co- meçou a falar com sua voz baixa, afável, me- lodiosa... agradavelmente natural. Poder-se- ia pensar que ela falava a pessoas à distância de um metro e meio de onde ela estava. Eu ti- nha curiosidade em saber se as outras pessoas podiam ouvi-la. Tempos depois, na assem- bléia de 1905 em Takoma Park, Washington, D.C., depois de haver ingressado no ministé- rio, tive a oportunidade de testar sua voz. Ela estava de pé, bem à frente, sobre uma grande plataforma, dirigindo-se a um auditório de cinco mil pessoas, algumas das quais se acha- vam na parte mais posterior da grande tenda. Sentado na frente, eu disse para mim mesmo: Essas pessoas da parte de trás jamais irão sa- ber o que ela está dizendo. Dei uma escapuli- da e caminhei para a parte detrás da tenda e, quando entrei e me detive por trás da grande multidão, pude ouvir cada palavra e quase to- da sílaba de cada palavra de maneira tão cla- ra como eu ouvira da frente. “Com seu magnífico dom de pregar e sua aptidão para dirigir auditórios, induzindo-os quer para o raciocínio sólido quer para a mais profunda emoção, ela parecia bastante segura de si como mensageira do Senhor e contudo não chamava a atenção para si mesma nem enaltecia a própria autoridade. A única coisa que fazia era colocar-se como porta-voz de Deus, pensando somente em Sua Palavra e procurando exaltar somente a Jesus, a fim de que pudéssemos contemplar somente a Ele.”9 Para os estudantes de oratória e persuasão, o estilo de homilética de Ellen White era um depósito de riquezas de onde se extraíam exemplos ininterruptos de clareza, vigor e be- leza. “Ela atingia a clareza escolhendo pala- vras e frases descomplicadas, que se caracteri- zavam pela objetividade e pela improbabili- dade de serem mal compreendidas. Imprimia força por meio da reiteração, de vínculos re- petitivos, do clímax, da anáfora, dos desafios e do imperativo. Atingia os elevados píncaros da beleza em suas imagens descritivas por meio de tropos e figuras que, apesar de fami- liares e comuns, mantinham-se em equilíbrio com os seus temas. Havia muitas vezes, no ritmo de sua prosa, uma cadência agradável que relembrava muito de perto a linguagem das Escrituras.”10 O médico S. P. S. Edwards lembrou que Ellen White possuía uma voz que servia tan- to “para conversar” como “para falar em pú- blico”. Na conversação, ela era um “mezzo so- prano”, um “tom doce, não monótono, mas especialmente evidente por causa do meigo sorriso e o toque pessoal que ela punha na- quilo que dizia”. “Voz de Diafragma” Ao pregar, a “voz de diafragma” de Ellen White como Edwards a descreveu, era um “contralto profundo com maravilhoso poder de repercussão. ... Podíamos sempre escutá- la. ... Não estou certo se era a voz que reper- cutia ou o poder das palavras que ela profe- ria. ... Todos podiam escutá-la sempre... 125 M E N S A G E I R A D O S E N H O R O ministério profético de Ellen G. White P rovavelmente nenhum orador público teve começo mais impróprio do que Ellen Harmon, mas no fim de 1844 ela ouviu o convite: “Torne conhecido a outros o que lhe revelei.” Coisa alguma lhe causou mais desespero do que isso. Ela orou para ser desobrigada dessa responsabilidade; ela até “desejava a morte”.2 Será que ela estava meramente sendo mo- desta? Era sua relutância motivada pela hu- mildade cristã? De certo modo, a resposta é “sim” para ambas as perguntas, embora tam- bém fosse uma atitude realista dela e de outros que conheciam aquela frágil jovem de dezes- sete anos de idade, pesando pouco mais de 36 quilos. Contemporâneos não esperavam que ela vivesse; seus problemas respiratórios pare- ciam terminais. Segundo ela mesma conta, “[eu] era tão desabituada à sociedade e de na- tureza tão tímida e retraída, que me era dolo- roso enfrentar pessoas desconhecidas”.3 O que aconteceu quando Ellen Harmon aceitou o primeiro convite para relatar sua visão em Poland, Maine? Movida pelo senso do dever, capaz de falar apenas sussurrando, ela começou a tornar “conhecido a outros” o que Deus lhe havia revelado. Depois de cin- co minutos, sua “voz ficou clara e forte”, e ela falou “com toda a facilidade” por quase duas horas “com plena desenvoltura”.4 Terminada a mensagem, seus problemas vocais reapare- ceram até a próxima vez em que se colocou perante o público para apresentar sua mensa- gem. Cada vez que a “restauração” de sua for- ça e desenvoltura vocal se repetia, ela ficava mais convicta de estar seguindo o caminho do dever. A partir daquele começo pouco promissor, os setenta anos de trabalho público de Ellen White revelam um registro surpreendente e imprevisto. Ela se tornou uma oradora bastan- te solicitada tanto por adventistas quanto por não adventistas. Durante muitas décadas foi uma das principais oradoras das assembléias da Associação Geral e possivelmente a oradora mais concorrida nas reuniões campais de uma costa a outra dos Estados Unidos. Não adven- tistas aos milhares (os auditórios variavam de 20 a 20.000 pessoas) ouviam com grande apre- ço seus sermões evangelísticos, muito antes de existirem equipamentos de som.5 Como conseguiu ela isso? Sem dúvida, Deus lhe deu especial auxílio quando em 1845 ela prosseguiu pela fé. Outras experiências foram semelhantes à que se seguiu à reunião campal realizada em Healdsburg, Califórnia, em outu- bro de 1882. Durante o verão, ela se esgotou em numerosas viagens, muita pregação e gran- de produção literária.6 Embora confinada ao leito, pediu para ser levada à grande tenda pa- ra ficar sentada num sofá. Depois que J. H. Waggoner terminou seu sermão, ela pediu ao filho para ajudá-la a chegar até o púlpito. Relembrando posteriormente o episódio, escreveu: “Durante cinco minutos fiquei de pé tentando falar e pensando que aquela seria 124 CAPÍTULO 12 SEÇÃO II A Verdadeira Ellen White A Oradora Solicitada “Leram no livro, na Lei de Deus, claramente, dando explicações, de maneira que entendessem o que se lia.” Nee. 8:8. “Animem todos a usar linguagem simples, pura e elevada. Fala, pronúncia e voz – cultivem esses talentos, não sob a orientação de qualquer grande retórico do mundo, mas sob o poder do Espírito Santo de Deus.”1
  • 72. CAPÍTULO 12 A ORADORA SOLICITADA os ministros do evangelho: “Os que conside- ram coisa de pouca importância falar com dicção perfeita desonram a Deus.”16 “Façam os estudantes em preparo para o serviço do Mestre decididos esforços para aprender a fa- lar corretamente, com vigor, de modo que, quando em conversa com outros acerca da verdade, ou quando empenhados em ministé- rio público, possam apresentar pela devida maneira as verdades de origem celeste.”17 Para Ellen White, os métodos errados de falar afetavam diretamente a saúde do orador: “Seu uso excessivo [dos órgãos vocais]... caso isto se repita muitas vezes, há de não somen- te prejudicar os órgãos vocais, mas ocasionar indevida tensão em todo o sistema nervoso. ... A educação da voz ocupa lugar importante na cultura física, visto que ela tende a expan- dir e fortalecer os pulmões, e desta maneira afastar as moléstias.”18 Através dos anos, estudantes sérios têm sido gratos ao conselho de Ellen White sobre o falar em público. Sua própria experiência, que começou com um sussurro rouco e se de- senvolveu até tornar-se uma oradora muito solicitada, deu profunda autenticidade a seus princípios. Esses princípios expressos em tó- picos como “Atitudes Cristãs no Falar”, “Cultura da Voz”, “Métodos Eficazes de Falar em Público”, “Conteúdo de Nossas Pales- tras” e “Uso da Voz ao Cantar” foram reuni- dos no volume intitulado The Voice in Speech and Song.19 Temas Gerais Quais eram os temas gerais da Sra. White? Suas mensagens públicas, de acordo com os ouvintes, concentravam-se na alegria, na animação dos desalentados e na apresentação dos encantos de um amorável Senhor. A con- clusão de um sermão típico seria: “Esta vida é um conflito, e temos um adversário que nun- ca dorme, e que está em constante vigilância para destruir nossa mente e, seduzindo-nos, afastar-nos de nosso precioso Salvador, que por nós deu a vida. Tomaremos a cruz que nos foi dada? Ou continuaremos em satisfação egoísta e perderemos a eternidade de bem- aventurança?...”20 A pregação de Ellen White se baseava muito freqüentemente em Isaías, no Antigo Testamento, e em João, no Novo. Os capítu- los do Novo Testamento mais usados por ela eram João 15 (“Eu sou a Videira...”), II Pedro 1 (a escada do crescimento cristão) e I João 3 (“Que grande amor...”).21 Os pastores observaram que as mensagens dela sobre os temas bíblicos mais simples, co- mo a conversão, a obra do Espírito Santo e o amor de Deus, tornavam-se raros momentos de exame do coração que lhes animavam o espírito com coragem e perspectivas mais profundas. Na última assembléia da Associa- ção Geral de que participou (1909), na épo- ca com 81 anos de idade, ela pediu para falar aos pastores. Eles podiam pensar em muitos assuntos sobre os quais queriam ouvir a opi- nião dela. L. H. Christian relatou que ela escolheu João 3:1-5 como seu texto, concentrando-se em “Importa-vos nascer de novo”. Os pasto- res ficaram desapontados, achando que o te- ma não era apropriado; queriam alguma coisa mais sólida. Contudo, após dois minutos, Christian es- tava dizendo para si mesmo: “Isso é algo no- vo. É mais profundo, elevado e sublime do que qualquer coisa que eu já li ou ouvi sobre o tema do novo nascimento como experiên- cia diária para o pregador.” Depois, ele registrou seus pensamentos adicionais: “Eu nunca havia ouvido nem te- nho ouvido desde então exposição tão bela sobre a obra do Espírito Santo em transfor- mar vidas humanas à gloriosa semelhança de Cristo conforme ela nos apresentou. ... Quando ela terminou de falar (isso durou menos de trinta minutos), nós pregadores dissemos: ‘Foi a melhor coisa para a nossa al- ma que já ouvimos.’ Não foi crítico, nem de- sanimador; não nos condenou; mas nos deu um vislumbre das alturas da excelência espi- ritual que somos capazes de alcançar e à qual nos devemos apegar se formos realmente ser- vos de Cristo ao levar as pessoas a uma viva fé no Senhor Jesus.”22 Ocorria muitas vezes interessante fenôme- no quando Ellen White estava no púlpito. De 127 M E N S A G E I R A D O S E N H O R O ministério profético de Ellen G. White quer fossem 10.000 pessoas ao ar livre ou um coração solitário na privacidade do próprio aposento.”11 Em 1957-1959, Horace Shaw, que foi du- rante muito tempo professor de oratória do Emmanuel Missionary College (atualmente Andrews University), elaborou uma lista de 366 pessoas que tinham ouvido Ellen White pregar. Pediu-lhes que procurassem lembrar o modo como se comportava ela na plataforma, se o acontecimento era público ou particular, o que os havia impressionado mais e o que lembravam da mensagem. Também lhes pe- diu para descreverem a influência que a pre- gação dela exercia sobre o auditório.12 Tendo em vista que esses “ouvintes” fo- ram entrevistados perto do fim da vida, ob- viamente tiveram a oportunidade de obser- var a Sra. White em seus últimos anos. As frases típicas incluíam “aos 82 anos, curvada pela idade”, “pequena e frágil”, “estrutural- mente baixa... de compleição um tanto ro- busta, mas não obesa”. A respeito do semblante, o rosto é o que foi lembrado por mais tempo – “feições arre- dondadas e cheias”, “deixava escapar de vez em quando um sorriso dulcíssimo”, “repara- vam no seu nariz, mas logo o esqueciam, achando que ela era realmente bela, digna” e “o rosto parecia iluminar-se”. Linguagem dos Olhos Seus olhos – “belos olhos castanhos e olhar distante”, “olhar leal”, “olhar penetrante”, “seus olhos eram grandes e ficavam maiores ainda quando ficava séria ou emocionada e diminuíam quando ela sorria”. Havia unanimidade sobre o cabelo de Ellen White: “usava uma rede sobre o cabe- lo bem arrumado”, “estilo simples de pen- teado”, “cabelo escuro e sempre partido e penteado para trás, terminando em uma trança em formato de coque na parte poste- rior do pescoço”. Vinte e nove pessoas referiram-se ao teci- do de sua roupa, descrevendo-o como “velu- do ou seda preta”, “uma roupa de duas peças”; “o vestido não parecia adorná-la; ela parecia adornar o vestido”. Para acentuar o preto, a Sra. White usava muitas vezes punhos e golas brancas. Outros acessórios mencionados eram uma “corrente de ouro para relógio” com um “relógio de prata no bolso e um bro- che simples”. As centenas de entrevistados relembraram igualmente que a Sra. White usava poucos gestos, não balançava os braços nem as mãos – “porte natural e gentil e maneiras afáveis”. Na maioria das vezes, ela pregava sem au- xílio de anotações, embora em algumas oca- siões lesse um manuscrito. Com a Bíblia aber- ta, falava com tal poder e lógica que cativava seus auditórios.13 Observando um dos ser- mões pregados por Ellen White, um repórter do Detroit Post descreveu-o como uma expe- riência “extraordinária e emocionante”: “Embora seus dotes de eloqüência e persuasão fossem bem conhecidos do auditório, ainda assim os ouvintes estavam despreparados pa- ra o apelo poderoso e irrefutável que ela fez. Ela parecia realmente quase inspirada quan- do rogou aos pecadores que fugissem dos seus [deles] pecados. O efeito de sua oratória e ma- neira magnéticas foi extraordinário.”14 Obviamente, a Sra. White via e ouvia es- ses comentários sobre sua notável competên- cia em oratória. Ela dava glória a Deus, mas nem sempre achava o fenômeno miraculoso. Aprendera a falar em público estudando os princípios da projeção da voz. Além disso, escrevera muito conselho geral sobre a comu- nicação oral eficiente e, muitas vezes, especi- ficamente aos pastores que estavam arruinan- do não somente sua voz, mas também a saúde, por hábitos impróprios de falar. Ela defendia o apoio do diafragma e a respiração profunda: “O falar da garganta, fazendo a voz sair da parte superior dos ór- gãos vocais, forçando-os e irritando-os con- tinuamente, não é a melhor maneira de proteger a saúde ou aumentar a eficácia des- ses órgãos. ... Caso deixem que suas palavras venham do profundo, exercitando os mús- culos abdominais, podem falar a milhares de pessoas com a mesma facilidade com que o fariam a dez.”15 A instrução de Ellen White sobre falar em público envolvia mais do que a capacidade de falar a milhares de pessoas. Era, acima de tu- do, um assunto espiritual, especialmente para 126 SEÇÃO II A Verdadeira Ellen White
  • 73. CAPÍTULO 12 A ORADORA SOLICITADA ve a ocasião em que ouviu Ellen White falar pela primeira vez: “Durante toda a minha vi- da ouvira falar desta mulher, e desejava ouvi- la e vê-la por mim mesmo. ... Tenho escuta- do seus críticos declararem que os escritos dela são, em grande parte, produto de suas se- cretárias. Observei, porém, que em sua pales- tra improvisada seu enunciado estava cheio de expressões exatamente idênticas àquelas que eu havia lido tantas vezes em seus escri- tos. ... Ao relatar suas várias experiências... ela deu-me a impressão de ser alguém que ti- nha satisfação em compartilhar com outros a riqueza e a bênção que recebera.”26 Os comentários do mundo jornalístico não se limitavam à “talentosa” habilidade que Ellen White possuía ao usar a tribuna. Incluíam também sua mensagem honesta: “Gostaria que todas as outras crenças reli- giosas de Battle Creek fossem tão fiéis aos princípios morais como a Sra. White e seus adeptos. Então não teríamos vergonhosos antros de vícios, bares, tabacarias, casas de jogos nem a atmosfera poluída dos vapores do rum e desse cruel destruidor de homens chamado fumo.”27 A Sra. White gostava de aceitar convites de igrejas não adventistas. Em 1880, depois de ouvi-la pregar na reunião campal de Sa- lém, Oregon (realizada numa praça munici- pal), alguns metodistas ficaram impressio- nados. Os líderes da igreja pediram que ela pregasse para eles no domingo seguinte. Numa carta endereçada a Tiago, ela descre- veu o acontecimento: “No domingo à noite a Igreja Metodista, um majestoso edifício, ficou completamente lotado. Falei para aproximadamente setecentas pessoas, que ouviram com profundo interesse. O pastor metodista agradeceu-me pelo sermão. A es- posa do pastor metodista e todos pareceram muito satisfeitos.”28 Naquela extraordinária viagem de com- boio de carroções, realizada em 1879, Tiago e Ellen White pregaram quase todas as noites para “os viajantes” e os que se achavam ao longo do caminho. Escrevendo a respeito de certa experiência, ela disse: “Na noite passa- da preguei para cem pessoas reunidas numa respeitável casa de culto. Encontramos ali uma classe de pessoas excelentes. ... Tive grande liberdade em apresentar-lhes o amor de Deus evidenciado ao ser humano no dom de Seu Filho. Todos ouviram com o mais pro- fundo interesse. O pastor batista levantou-se e disse que tínhamos ouvido o evangelho na- quela noite e ele esperava que todos atentas- sem para as palavras proferidas.”29 Os líderes adventistas reconheciam a con- tribuição inigualável dos White a suas diver- sas reuniões. Uriah Smith apresentou um re- latório sobre a reunião campal de Sparta, Wisconsin, em 1876: “Aqui, como em Iowa, a presença do irmão e da irmã White consti- tuiu, em grande parte, a vida da reunião. Seus conselhos e trabalhos deram significado aos cultos e progresso da obra. Freqüentemente a irmã White fazia apelos impressionantes e as mais convincentes descrições de cenas da vi- da de Cristo das quais se podem extrair lições aplicáveis à experiência cristã diária. Isso foi de total interesse para toda a congregação. Esses servos da igreja, embora já tenham lon- ga e larga experiência, apesar de todas as suas cansativas atividades, continuam a crescer em força mental e espiritual.”30 Uma das Mais Capazes Oradoras de Tribuna Quando Tiago morreu em 1881, diversos jor- nais registraram as contribuições que ele dera à causa. Esses esboços biográficos e elogios in- cluíam comentários sobre a Sra. White e sua obra pública: “Ele recebeu, em seus trabalhos ministeriais e educacionais, a inestimável ajuda de sua esposa, Ellen G. White, uma das mais competentes oradoras de tribuna e escri- toras do Oeste.”31 “Em 1846, ele se casou com Ellen G. Har- mon, mulher de talentos extraordinários, que foi uma colaboradora em toda sua obra e con- tribuiu grandemente para o sucesso dele por seus dotes como escritora e principalmente como persuasiva oradora pública.”32 Em 1878, com a idade de 50 anos, Ellen White foi incluída na obra de referência American Biographical History of Eminent and Self-Made Men of the State of Michigan, Third Congressional District, pág. 108, nos seguintes termos: “A Sra. White é uma mulher de mentalidade singularmente bem equilibrada. 129 M E N S A G E I R A D O S E N H O R O ministério profético de Ellen G. White vez em quando, ela parava a mensagem que havia preparado e reconhecia no auditório pessoas que não havia visto antes, exceto em visão. Em Bushnell, Michigan, em 20 de julho de 1867, Ellen e Tiago White en- contraram, do lado de fora, debaixo de ár- vores, um grupo espiritualmente pouco promissor. Tiago relatou que logo depois que sua esposa começou a falar, ela colocou a Bíblia de lado e começou a dirigir-se aos recém-batizados. Pelo fato de não os ter visto antes, a não ser em visão, “dirigiu-se a cada irmão e irmã por sua localização, co- mo um que estava perto daquela árvore ou outro sentado perto daquele irmão ou irmã da igreja de Greenville ou de Orleans, a quem ela conhecia pessoalmente e a quem chamava pelo nome”. Durante uma hora, ela passou em revista os casos, um por um, declarando que o Se- nhor havia mostrado a condição deles dois anos antes; que, enquanto ela estava lendo textos da Bíblia, as necessidades individuais deles foram esclarecidas “como um súbito re- lâmpago em uma noite escura revelando cada objeto ao redor”. Qual foi a reação? Cada pessoa, ao ser mencionada, levantava-se e “dava teste- munho de que seu caso havia sido descrito melhor do que eles conseguiriam fazer por si mesmos”. Erros foram corrigidos e efe- tuou-se uma reforma que os tornou uma igreja forte.23 Algumas vezes Ellen White foi tomada em visão enquanto pregava. Em Lovett’s Grove, Ohio, em meados de março de 1858, após seu marido ter pregado um sermão fúnebre, ela apresentou seu testemunho sobre a conforta- dora esperança do Segundo Advento. Escre- vendo posteriormente, ela disse: “Fui arreba- tada numa visão da glória de Deus.” Durante as duas horas que se seguiram, ela permane- ceu em visão naquele prédio escolar lotado que a observava com ávido interesse. Aquela visão de Lovett’s Grove veio a ser conhecida como “a visão do grande conflito”.24 Auditórios Não Adventistas Auditórios não adventistas ouviam-lhe as mensagens, que demoravam muitas vezes mais de uma hora, enlevados e com grata apreciação. Um repórter de jornal noticiou uma palestra que ela apresentou em Battle Creek, Michigan, em 1887: “Esteve presente à palestra da Sra. Ellen G. White, realizada ontem à noite, no Ta- bernáculo, uma assistência considerável, inclusive grande número das pessoas mais ilustres de nossa cidade. Esta senhora apre- sentou aos ouvintes uma palestra bastante eloqüente, que foi ouvida com assinalado interesse e atenção. Sua exposição foi en- tremeada de fatos instrutivos coletados por ela mesma em sua recente visita a terras es- trangeiras, o que demonstrou que, além de muitas outras raras qualificações, essa mu- lher talentosa possui grande faculdade de atenta e cuidadosa observação e extraordi- nária memória para detalhes. Isto, aliado à sua magnífica forma de falar e a faculdade de revestir suas idéias com linguagem sele- ta, elegante e apropriada, tornou sua pales- tra uma das melhores que já foi pronuncia- da por qualquer mulher em nossa cidade. Que ela possa em breve brindar nossa co- munidade com outra palestra, é o sincero desejo de todos quantos a ouviram na noite passada, e se ela assim o fizer, será uma reu- nião muito concorrida.”25 Alguns têm afirmado às vezes que a beleza, a força e o poder dos escritos de Ellen White se deviam a seus assistentes de redação. Mas quem eram os assistentes de redação que se interpunham entre ela e seus auditórios? Não havia nenhuma assistente literária ao seu la- do, “polindo” sua gramática, “corrigindo” seus detalhes, etc., quando ela usava “lingua- gem seleta, elegante e apropriada”. Essa “mulher talentosa” e dotada de “ex- traordinária memória para detalhes” demons- trava, como é verdade para muitas pessoas públicas, que o dom de oratória é freqüente- mente diferente das técnicas de redação. Os hábitos de escrita revelam muitas vezes que a mente do escritor corre mais rápido do que a pena é capaz de escrever; independente disso, o escritor sabe que o produto final é o que realmente importa, não as técnicas rápidas que o escritor emprega para colocar o pensa- mento no papel. Clifton L. Taylor, que durante muitos anos foi professor de Bíblia em faculdades, descre- 128 SEÇÃO II A Verdadeira Ellen White
  • 74. CAPÍTULO 12 A ORADORA SOLICITADA todos os lugares do país, sendo grande parte de seu tempo de- dicado a esta obra.” 26. Review and Herald, 25 de setembro de 1958, pág. 3. 27. Lansing [Michigan] Republican, 7 de janeiro de 1880, citado em Biography, vol. 3, pág. 131. 28. Carta 33a, 1880, citada em Biography, vol. 3, pág. 142; mais adiante na carta ela mencionou: “Um dos pastores metodis- tas disse para o irmão Levitt que ele lamentava que a Sra. White não fosse uma sólida metodista, porque eles a ordena- riam episcopisa imediatamente; ela faria justiça a esse cargo.” Ver também Ibidem, pág. 88. 29. Carta 36, 1879, citado em ibidem, pág. 111. Em outubro de 1886, Ellen White apresentou doze mensagens evangelísticas consecu- tivas, dez das quais dispomos hoje. Os textos e temas que ela usa- va revelam a ênfase cristocêntrica de seus sermões. Ver também Delafield, Ellen G. White in Europe, págs. 239 e 240. 30. Review and Herald, 29 de junho de 1876, pág. 4. 31. Lansing [Michigan] Republican, 9 de agosto de 1881, citado em Nichol, Ellen G. White and Her Critics, pág. 475. 32. The Echo [Detroit], 10 de agosto de 1881, citado em Nichol, ibidem, pág. 475. 33. Citado em Shaw, “A Rethorical Analysis of the Speaking of Mrs. Ellen G. White”, págs. 28 e 29, e em Arthur White, Men- sageira da Igreja Remanescente, segunda edição, págs. 348 e 349. 131 M E N S A G E I R A D O S E N H O R O ministério profético de Ellen G. White Seus traços predominantes são a benevolên- cia, a espiritualidade, a conscienciosidade e o idealismo. Suas qualidades pessoais são de molde a granjear-lhe as mais calorosas amiza- des entre todos com quem se põe em contato e a inspirar-lhes a maior confiança em sua sinceridade. ... Não obstante, seus muitos anos de trabalhos públicos, tem conservado toda a simplicidade e honestidade que lhe ca- racterizaram o princípio da vida. “Como oradora, a Sra. White é uma das mais bem-sucedidas entre as poucas mulheres que se têm distinguido como conferencistas neste país, durante os últimos vinte anos. O contínuo uso lhe tem por tal forma fortaleci- do os órgãos vocais, que lhe dão à voz rara profundidade e potência. A clareza e força de articulação são tão grandes que, falando ao ar livre, ela tem sido com freqüência distinta- mente ouvida a quilômetro e meio de distân- cia. Sua linguagem, conquanto simples, é sempre elegante e convincente. Quando ins- pirada pelo assunto, é muitas vezes maravi- lhosamente eloqüente, mantendo os maiores auditórios fascinados por horas, sem um sinal de impaciência nem fadiga. “O tema de suas palestras é sempre de na- tureza prática, tratando principalmente dos deveres domésticos, da educação religiosa das crianças, da temperança e assuntos con- gêneres. Nas ocasiões de reavivamento, é ela sempre a oradora de maior êxito. Tem falado freqüentemente sobre seus temas fa- voritos, a auditórios imensos, nas maiores cidades, sendo sempre recebida com grande simpatia.”33 130 SEÇÃO II A Verdadeira Ellen White Referências 1. The Voice in Speech and Song, pág. 15. 2. Testemunhos Para a Igreja, vol. 1, pág. 62; Life Sketches, pág. 70. 3. Life Sketches, págs. 69 e 70. 4. Ibidem, pág. 72. 5. A presença de aproximadamente 20.000 pessoas na reunião campal de Groveland, na cidade do mesmo nome, Massachu- setts, de 25 a 30 de agosto de 1876, alcançou o recorde máxi- mo das reuniões campais adventistas. Segundo um repórter, muito mais gente teve seu acesso negado às reuniões porque todos os serviços de transporte, inclusive trens, barcos flu- viais, barcas, etc., estavam lotados além da sua capacidade de acomodar todos quantos desejavam comparecer ao evento. – Review and Herald, 7 de setembro de 1876, pág. 84. Assim que a reunião se encerrou, Ellen White foi convidada pelo Clube da Reforma da Temperança de Haverhill para pregar na noite seguinte. Ela relatou: “A Rainha da Inglaterra não poderia ter sido mais honrada. ... Estavam diante de mim mil das pessoas mais finas e seletas da cidade. Parei várias vezes ante os aplau- sos e as batidas dos pés. ... Nunca antes testemunhei tanto en- tusiasmo como o que essas nobres pessoas que lideravam a re- forma da temperança demonstraram em relação à minha pa- lestra sobre temperança. Era algo novo para eles. Falei do je- jum de Cristo no deserto e seu objetivo. Falei contra o fumo. Depois da reunião, fui cercada e elogiada, e insistiram comigo para que, se eu voltasse a Haverhill, falasse para eles nova- mente.” – Carta 42, 1876, citado em Biography, vol. 3, pág. 46; ver Uriah Smith, “Grand Rally in New England”, Review and Herald, 7 de setembro de 1876, pág. 84. 6. Em julho ela havia escrito quinhentas páginas de manuscrito. Ver Biography, vol. 3, pág. 202. 7. Biography, vol. 3, pág. 204; ver também pág. 158. Refletindo sobre este fenômeno acontecido repetidas vezes, Mervyn Maxwell sugere que “Deus poderia tê-la curado completamen- te, mas é evidente que preferiu apresentar esta prova de Sua proximidade quando ela se levantava para pregar.” – Maxwell, Tell It to the World, pág. 197. 8. Review and Herald, 8 de janeiro de 1875, pág. 14. Em outra ocasião, J. N. Loughborough observou: “A irmã White apre- sentou duas palestras profundas, práticas e convincentes.” – Signs of the Times, 11 de janeiro de 1877, pág. 24. D. M. Can- right, na época presidente da Associação de Ohio, escreveu: “A irmã White falou um pouco sobre a grande importância da Escola Sabatina, daquele seu jeito convincente e eloqüente.” – Review and Herald, 4 de setembro de 1879, pág. 85. 9. Christian, Fruitage of Spiritual Gifts, págs. 45 e 46. 10. Horace Shaw, “A Rhetorical Analysis of the Speaking of Mrs. Ellen G. White, A Pioneer Leader and Spokeswoman of Seventh-day Adventist Church” (Michigan State Uni- versity, 1959, dissertação de doutorado), pág. 282. 11. Ibidem, pág. 514. 12. Ibidem, págs. 502-510, 606-644. 13. “Quando estou falando ao povo, digo muita coisa que de for- ma alguma premeditei. O Espírito do Senhor freqüentemen- te vem sobre mim. Parece-me que sou levada para fora de mim mesma e a vida e o caráter de diferentes pessoas me são claramente apresentados. Vejo seus erros e perigos que cor- rem. Sinto-me então compelida a falar do que me tem sido mostrado.” – Testemunhos Para a Igreja, vol. 5, pág. 678. 14. Citado em Review and Herald, 18 de agosto de 1874, pág. 68. 15. Testemunhos Para a Igreja, vol. 2, pág. 616 (Evangelismo, pág. 669). “O devido uso dos músculos abdominais no ler e falar mostrar-se-á remédio para muitas anomalias da voz e do tó- rax, e meio de prolongar a vida.” – Conselhos aos Pais, Pro- fessores e Estudantes, pág. 297. 16. Evangelismo, pág. 665. 17. Ibidem, pág. 666. 18. Ibidem, págs. 667 e 669. 19. Pacific Press Publishing Association, 1988. 20. Life Sketches, págs. 291 e 292. 21. Shaw, “A Rethorical Analysis of the Speaking of Mrs. Ellen G. White”, pág. 355. 22. Christian, Fruitage of Spiritual Gifts, pág. 47. 23. Signs of the Times, 29 de agosto de 1878, pág. 260. 24. Ver capítulo 22; Biography, vol. 1, págs. 368-375. 25. “Mr. Ellen G. White’s Able Address. A Characteristic and Eloquent Discourse by This Remarkable Lady”, Battle Creek Daily Journal, 5 de outubro de 1887. O editor do Free Press de Newton (Iowa) dedicou amplo espaço à reunião campal adventista realizada naquela cidade no começo de julho de 1875. Entre outras observações, ele diz: “A Sra. White é uma pregadora de grande talento e eficácia, muito solicitada co- mo conferencista das reuniões campais da denominação de Perguntas Para Estudo 1. Quais as principais características do estilo de oratória de Ellen White? 2. Como o falar corretamente ajuda na saúde física? 3. Que passagens bíblicas Ellen White citava com maior freqüência? 4. Quais eram os temas favoritos de Ellen White, aqueles que ela enfatizou durante todo o seu ministério? Consulte o CD-ROM contendo os escritos publicados de Ellen White para encontrar pistas. 5. Do ponto de vista da persuasão, como Ellen White usa a linguagem para captar clara e favoravelmente a atenção? Pense em exemplos que reflitam simplicidade, propriedade, ilustrações, etc.
  • 75. IIIA Mensageira que Escuta 13 Transmitindo a Mensagem de Deus 14 Confirmando a Confiança 15 Instruções e Predições Oportunas 16 Percepção da Mensageira Sobre si Mesma CAPÍTULO SEÇÃO
  • 76. naram-se o centro confirmador, corretor e confortador para o surgimento da plataforma bíblica integrada do terceiro grupo.6 Propósito das Visões Pessoa alguma é capaz de estender-se muito na leitura dos escritos da Sra. White sem fi- car consciente de sua profunda veneração pela Bíblia. Ela era uma defensora do estu- do da Bíblia, e recomendava com grande insistência o estudo bíblico coerente e me- ticuloso.7 Na verdade, um dos sinais dos falsos profe- tas é procurarem anular a obra dos profetas anteriores (Isa. 8:20). Um dos principais si- nais dos profetas verdadeiros é fazerem cons- tante referência aos profetas anteriores. A coerência e a unidade da Bíblia repousam neste simples fato, confirmado através dos anos. Uma das observações comuns feitas a respeito de Ellen White é que ela empregou extensivamente as Escrituras em seus sermões e volumosos escritos. Mas se a Bíblia é “o único guia verdadei- ro em todos os assuntos de fé e prática”8 , por que as mensagens de Ellen White foram necessárias? Qual o propósito de seu papel profético? Ela explicou por que sua mensagem era necessária: “Tomei a preciosa Bíblia, e agrupei em torno dela os diferentes Teste- munhos Para a Igreja, dados ao povo de Deus. Aqui, disse eu, se encontram os casos de quase todos. Os pecados que devem evi- tar estão neles apontados. Os conselhos que desejam, dados em outros casos que de- finem situações semelhantes às deles mes- mos, podem ser encontrados aqui. Aprouve a Deus dar-lhes ‘preceito sobre preceito’ e ‘regra sobre regra’. Mas poucos entre vocês sabem realmente o que está contido nos Testemunhos. Não estão familiarizados com as Escrituras. Se tivessem feito da Bíblia o objeto de seus estudos, com o propósito de atingir o padrão bíblico e a perfeição cristã, não necessitariam dos Testemunhos. É por- que negligenciaram familiarizar-se com o Livro inspirado de Deus que Ele procurou chegar até vocês por meio de testemunhos simples e diretos.”9 Somente quando seus propósitos forem claramente compreendidos é que os escritos de Ellen White serão devidamente aprecia- dos. Ela explicou por que Deus viu a neces- sidade de falar por meio dela: “Chamar... a atenção de Seu povo para a Sua Palavra”,10 simplificar “importantes verdades já revela- das”;11 chamar a atenção para os princípios bíblicos “para a formação de hábitos corre- tos de vida”;12 especificar “os deveres do ho- mem para com Deus e seu semelhante”;13 e “animar os abatidos”.14 Em essência, as mensagens de Ellen White foram dadas “não para uma nova re- gra de fé, mas para conforto do Seu povo e para corrigir os que se desviam da verdade bíblica”.15 O Fenômeno das Visões Ellen Harmon/White partilhava com os profetas bíblicos características físicas se- melhantes enquanto em visão pública ou em lugar aberto.16 Em 1868, Tiago White fez a seguinte descrição abrangente da espo- sa em visão: “1. Ela fica inteiramente inconsciente de tudo quanto ocorre ao seu redor, como se tem demonstrado pelas mais rigorosas provas, po- rém se vê a si mesma como afastada deste mundo, e na presença de seres celestiais. “2. Ela não respira. Durante todo o perío- do de sua visão que, em diferentes ocasiões, tem variado de quinze minutos a três horas, não há nenhuma respiração, como se tem comprovado repetidas vezes ao fazer-lhe pressão sobre o tórax, e fechar-lhe a boca e as narinas. “3. Imediatamente depois de entrar em vi- são, seus músculos se tornam rígidos, e as jun- tas fixas, no que respeita à influência de qual- quer força exterior sobre eles. Ao mesmo tempo, seus movimentos e gestos, que são fre- qüentes, são livres e graciosos, e não podem ser impedidos nem controlados mesmo pela pessoa mais forte. “4. Ao sair da visão, seja durante o dia ou num aposento bem iluminado à noite, tudo 135 M E N S A G E I R A D O S E N H O R O ministério profético de Ellen G. White O s mileritas, em princípios da década de 1840, com suas expectativas mile- niais, estavam “predispostos... ao po- deroso derramamento de predições carismáti- cas, línguas, curas e outros ‘sinais e maravi- lhas’, que cumpririam a promessa bíblica para os ‘últimos dias.’... Suas assembléias es- tremeciam com brados, louvores, pranto e ‘períodos enternecedores de oração’.” Embora líderes mileritas como o próprio Miller, Carlos Fitch e Josué V. Himes se opu- sessem aos “fenômenos carismáticos”, o mo- vimento era “normalmente criticado” por es- ses “fanatismos” como curas, falar em línguas, visões e profecias. Diversas mulheres mileri- tas tiveram suas “visões” noticiadas pela im- prensa.1 Depois do dia 22 de outubro de 1844, para a maioria dos mileritas e para o mundo reli- gioso zombador em geral, os fenômenos caris- máticos como visões eram altamente suspei- tos. Os mileritas, ofendidos por serem rotula- dos de fanáticos, ficaram bastante desconfia- dos de quem quer que afirmasse ter visões.2 Dois outros “mileritas” (William Foy e Hazen Foss) haviam sentido a oposição às vi- sões. Foy teve quatro visões, embora não te- nha recebido mais nenhuma depois de 1844. Relatava-as às pessoas sempre que encontra- va ouvintes interessados. Foss nunca revelou suas visões a outros, mas reconheceu a autenticidade de Ellen Harmon quando ouviu as explicações das vi- sões dela.3 No fim da década de 1840, os mileritas desapontados dividiram-se em diversos gru- pos principais de acordo com suas crenças sobre o que acontecera em 1844: (1) aqueles que continuavam a crer que a volta de Jesus era iminente e que seu erro consistira na fi- xação de uma data errada; este grupo incluía os principais líderes mileritas (Miller, Bliss, Hale e Himes); (2) aqueles que criam que na realidade Jesus tinha vindo, mas não como um acontecimento físico; a experiência es- piritual por que os crentes passaram se tor- nou para eles a “segunda vinda”, e assim fo- ram rotulados de “espiritualizadores”; (3) aqueles que acreditavam que a data estava correta, mas que o acontecimento ocorrera no Céu assinalando o início da ministração sumo sacerdotal de Cristo no “lugar santíssi- mo”, dos quais surgiu a Igreja Adventista do Sétimo Dia.4 Ellen White tornou-se a única voz clara que reanimou o terceiro grupo, o qual acredi- tava que a data de 22 de outubro de 1844 en- cerrava um importante significado cósmico.5 Ela ajudou a dirigir o grupo de estudantes da Bíblia por entre o fanatismo dos “espirituali- zadores” à esquerda e os adventistas do pri- meiro dia à direita, os quais repudiavam tan- to o significado do dia 22 de outubro como os “dons espirituais”. A confusão e a rejeição predominavam em ambos os lados dos primi- tivos adventistas sabatistas. As visões de Ellen Harmon (antes de seu casamento, 1844-1846; Ellen White depois de 1846) tor- 134 CAPÍTULO 13 SEÇÃO III A Mensageira que Escuta Transmitindo a Mensagem de Deus “Então, entrou em mim o Espírito, quando falava comigo, e me pôs em pé, e ouvi o que me fala- va.” Ezeq. 2:2.
  • 77. CAPÍTULO 13 TRANSMITINDO A MENSAGEM DE DEUS Ellen White recebia mensagens de Deus de diferentes maneiras. As mensagens recebi- das durante as horas em que ela estava acor- dada chamavam-se visões “abertas” ou públi- cas, enquanto as que ocorriam durante o so- no se chamavam sonhos. A duração das vi- sões variava desde menos de um minuto até mais de uma hora, havendo uma ocasião em que durou quase quatro horas. Às vezes as vi- sões aconteciam “[mostrando] como que num relâmpago certas situações ou condições. Em tais casos, a visão relacionava-se em geral apenas a um assunto, ou a um aspecto do as- sunto, ao passo que as visões mais prolonga- das incluíam muitos, muitos assuntos, ou li- davam com acontecimentos que ocorriam durante longo período de tempo.”22 As visões públicas podiam acontecer em quase qualquer ocasião. Às vezes, enquanto anotava no diário acontecimentos do dia, so- brevinham pensamentos aplicáveis ao assun- to “como jatos de luz... de maneira tão distin- ta [que] eu escrevia durante muito tempo”.23 Enquanto um grupo de crente estava reu- nido em oração familiar numa manhã de sá- bado, Ellen White deu aquele ressonante bra- do de “Glória! Glória! Glória!” (a que os es- pectadores haviam se acostumado através dos anos), e seu marido Tiago se ergueu infor- mando aos presentes que sua esposa estava em visão.24 Com freqüência ela recebia visões em cultos na igreja. A visão de Parkville, Mi- chigan, em 12 janeiro de 1861, na qual des- creveu os fatos e horrores da Guerra Civil, aconteceu na igreja depois que ela concluiu sua poderosa exortação e se assentou. A vi- são durou aproximadamente vinte minutos. Depois que ela voltou a respirar, falou breve- mente sobre o que lhe fora revelado, em es- pecial sobre determinados pontos direta- mente relacionados com aquele auditório intensamente interessado. A última visão pública de Ellen White, da qual dispomos de informações detalhadas, ocorreu em Battle Creek em 3 de janeiro de 1875. Contudo, J. N. Loughborough (que tes- temunhou pessoalmente “cerca de cinqüenta” visões) declara que sua última visão pública foi a da reunião campal de Oregon em 1884.25 As visões da noite, ou sonhos, aconteciam de diversos modos, como, por exemplo, “no início do sábado eu adormeci e algumas coisas me foram claramente apresenta- das”.26 Centenas de cartas contêm a ex- pressão “no período da noite”, no qual ela ouvia ou via uma mensagem que devia ser comunicada a alguma pessoa ou grupo em particular, como uma igreja, reunião cam- pal ou reunião de oficiais. Às vezes a ex- pressão “no período da noite” podia estar ausente, mas a ocasião era óbvia: “Não consigo dormir. Levantei à uma hora da madrugada. Fiquei ouvindo uma mensagem destinada a você.”27 As visões noturnas ou sonhos tornaram-se mais rotineiros à medida que as visões abertas se tornaram menos freqüentes. Reconhecendo que surgiriam perguntas a respeito da natureza particular dos “sonhos” e de sua autenticidade como revelações, Ellen White escreveu: “Grande número de sonhos [sonhos comuns] origina-se das coisas co- muns da vida, com as quais o Espírito de Deus nada tem a ver. Há também falsos sonhos, bem como falsas visões que são inspirados por Satanás. Mas os sonhos provenientes do Se- nhor estão classificados na Palavra de Deus com visões, e são tão verdadeiramente frutos do Espírito de Profecia como as visões. Tais sonhos, levando-se em conta as pessoas que os têm e as circunstâncias sob as quais foram dados, contêm suas próprias provas de genui- nidade.”28 Mensagens Recebidas de Formas Diferentes Variedade é uma palavra que descreve bem a maneira pela qual a Sra. White recebia visões e sonhos. A maneira como comunicava ela as mensagens a outros variava tanto quanto a maneira como recebia as visões. As visões e sonhos de Ellen White eram apresentados em pelo menos nove manei- ras diferentes.29 As visões referidas neste livro podem ser classificadas sob estas no- ve categorias: 1. Às vezes, ela parecia estar presente e participar nos acontecimentos da visão.30 2. Algumas visões eram panorâmicas, com cenas que abrangiam o passado, o presente e o futuro.31 137 M E N S A G E I R A D O S E N H O R O ministério profético de Ellen G. White lhe é completa escuridão. Sua capacidade de distinguir mesmo os objetos mais brilhantes, segurados a pouco centímetros de seus olhos, só volta gradualmente, às vezes não sendo restabelecida senão depois de três ho- ras. Isso tem acontecido durante os últimos vinte anos; contudo sua vista não sofre o mí- nimo prejuízo. Pouca gente tem a vista tão boa quanto ela. “Provavelmente, durante os últimos vinte e três anos, ela teve de cem a duzentas visões. Estas foram dadas sob quase toda sorte de cir- cunstâncias, mantendo, não obstante, admi- rável semelhança. A mudança mais visível é que nos últimos anos elas se têm tornado me- nos freqüentes, porém mais abrangentes. Ela tem sido arrebatada em visão com maior fre- qüência quando em oração. “Diversas vezes, enquanto se dirigia à congregação, de maneira inesperada para ela mesma ou para os que estavam à sua volta, era tomada instantaneamente em visão. Foi isto o que aconteceu em 12 de junho de 1868, na presença de nada me- nos que duzentos observadores do sábado, na casa de culto em Battle Creek, Michi- gan. Ao ser batizada por mim, num perío- do inicial de sua experiência, enquanto eu a emergia da água, ela imediatamente en- trou em visão. Diversas vezes, acamada por doença, foi ela restaurada em resposta à oração da fé e arrebatada em visão. Nes- sas ocasiões a restauração de sua saúde foi miraculosa. “De outra vez, enquanto caminhava com amigas, conversando sobre as glórias do rei- no de Deus, passando ela pelo portão da ca- sa de seu pai, o Espírito de Deus veio sobre ela, que foi instantaneamente tomada em visão. E o que pode ser importante, para aqueles que julgam as visões resultado de mesmerismo, ela foi muitas vezes arrebatada em visão quando orava sozinha no bosque ou no quarto. “É bem possível falar a respeito do efeito das visões sobre sua constituição ou força. Quando ela teve sua primeira visão, era uma doente macilenta, desenganada pelos ami- gos e médicos para morrer de tuberculose. Pesava, na época, pouco mais de 36 quilos. Seu estado nervoso era tal que ela não con- seguia escrever e dependia de que alguém sentasse à mesa ao seu lado até mesmo para despejar sua bebida na xícara. E apesar de suas ansiedades e aflições mentais, resultan- tes do dever de apresentar ao público suas visões, suas atividades na pregação pública e em questões gerais da igreja, suas fatigantes viagens e trabalhos e preocupações domésti- cas, sua saúde e força física e mental têm melhorado desde o dia que ela teve sua pri- meira visão.”17 Mas as visões não podem ser explicadas ou autenticadas apenas pelas características físi- cas. Muitas vezes, especialmente durante as visões/sonhos da noite, Ellen White não apresentava as típicas caraterísticas físicas. Os fenômenos físicos não eram prova das cre- denciais divinas.18 Além disso, como Arthur G. Daniells escreveu, “aqueles que aceitam esses fenô- menos físicos como evidência determi- nante podem ser enganados, pois o inimi- go da justiça é capaz de produzir condi- ções similares em pessoas sujeitas a seu domínio.”19 Ellen White advertiu: “Have- rá pessoas que pretendem ter visões. Quando Deus der clara evidência de que essas visões são dEle, vocês podem aceitá- las; mas não as aceitem mediante nenhu- ma outra prova; pois o povo será mais e mais extraviado nos países estrangeiros e na América [do Norte]. O Senhor quer que Seu povo proceda como homens e mulheres sensatos.”20 Por que, então, os fenômenos físicos acompanhavam as visões dadas aos profetas bíblicos? Por que as manifestações físicas fo- ram tão extraordinárias e tão amplamente documentadas durante as visões públicas de Ellen White? Ao que parece, assim como nos tempos bíblicos, Deus Se serviu das coisas prodigiosas para chamar e conservar a aten- ção das pessoas tempo suficiente para que ou- vissem a mensagem do profeta. A mensagem em si mesma levava as credenciais divinas; os fenômenos físicos demonstravam a presença do sobrenatural.21 136 SEÇÃO III A Mensageira que Escuta
  • 78. CAPÍTULO 13 TRANSMITINDO A MENSAGEM DE DEUS o orgulho foi terrivelmente magoado. Nós conversamos por um instante, e ambos fica- ram maravilhosamente calmos e disseram que agora viam diferentemente as coisas.”42 As visões muitas vezes se referiam a acon- tecimentos específicos capazes de convencer não adventistas de que Ellen White era uma autêntica mensageira do Senhor. Em 1850 os White estavam em Oswego, Nova Iorque, empenhados no costumeiro trabalho de es- crever e pregar. O tesoureiro do município, que também era pregador leigo da igreja me- todista local, havia desenvolvido intenso interesse entre o povo da cidade. Dois jo- vens, Hiram Patch e sua noiva, haviam as- sistido tanto às reuniões metodistas quanto às adventistas, e estavam indecisos quanto a que grupo deviam unir-se. O casal presen- ciou Ellen White tendo uma visão, após o que lhe perguntaram: “O que a irmã acha do irmão M [tesoureiro do município]? A Sra. White (conforme o Sr. Patch recordou), de- pois de chamar a atenção para Oséias 5:6 e 7, respondeu: “Foi-me dito [em visão] para eu lhes dizer que a declaração do texto vai cumprir-se literalmente neste caso. Esperem um mês, e conhecerão por si mesmos o cará- ter das pessoas envolvidas neste reaviva- mento e que professam ter grande preocupa- ção pelos pecadores.”43 Pouco tempo depois dessa conversa, o te- soureiro do município rompeu um vaso san- güíneo e ficou em casa em “estado debilita- do”. O delegado de polícia e seu assistente, depois de se encarregarem das finanças mu- nicipais, encontraram um rombo de 1.000 dólares. Quando confrontado em sua casa, o tesoureiro alegou ignorância. Mas o subdele- gado entrou trazendo consigo o dinheiro que faltava em uma sacola que a esposa do tesoureiro havia tentado esconder num monte de neve. Encerraram-se as reuniões evangelísticas do tesoureiro, e os dois jovens decidiram unir-se aos adventistas. Eles haviam sido tes- temunhas da clara evidência da autenticida- de e da utilidade das visões de Ellen White.44 Uma visão (ou um sonho) fez muitas ve- zes um grupo mudar de decisões apressadas para um modo de agir correto a ser melhor compreendido com o passar do tempo. No verão de 1881, Tiago e Ellen White estavam cansados. Ela estava doente. Contudo, sentia uma “profunda impressão” de que deveriam partir da reunião campal de Michigan e ir para a reunião campal de Iowa, a iniciar-se dentro de dois dias. Ao chegarem em Des Moines, ela disse para um pastor: “Bem, esta- mos aqui conforme a ordem do Senhor, para um propósito especial, que ainda não sabe- mos qual é, mas que sem dúvida o saberemos no decorrer da reunião.” Os White pregaram bastante. No do- mingo à noite, depois que a Sra. White se havia recolhido, a comissão conduzia uma reunião de negócios sobre o assunto de vo- tação, especialmente com respeito à tem- perança e à lei seca. Pouco depois chegou a mensagem de que o grupo desejava o con- selho dela. G. B. Starr lembrou posterior- mente que Ellen White relatou um sonho que descrevia a situação de Iowa e que o porta-voz celeste havia dito: “Deus preten- de ajudar as pessoas num grande movimen- to sobre este assunto. É Seu propósito tam- bém que vocês, como um povo, sejam a ca- beça e não a cauda do movimento; mas por enquanto a posição que vocês ocupam é a de cauda.” Na reunião, perguntaram à Sra. White se os adventistas de Iowa deviam votar a favor da lei seca. Sua resposta foi rápida: “Sim, to- dos à uma e em toda a parte, e talvez eu cho- casse alguns de vocês se dissesse que, se fosse necessário, votassem mesmo no dia de sábado a favor da lei seca, caso não pudessem fazer is- so noutro dia.” Escrevendo posteriormente, Starr enfati- zou: “Posso testificar que o efeito do relato daquele sonho sobre a assembléia foi elétrico. Um poder convincente acompanhou-a, e vi pela primeira vez o poder unificador do dom de profecia na igreja.”45 Algumas vezes transmitir um testemunho era algo extraordinariamente dramático. Em maio de 1853, em Vergennes, Michigan, aconteceu um incidente que aumentou gran- demente a confiança nas visões de Ellen White. O primeiro dizia respeito à Sra. Al- cott, mulher que professara grande santidade e agora estava se insinuando entre os novos crentes. A Sra. White havia tido antes, em 139 M E N S A G E I R A D O S E N H O R O ministério profético de Ellen G. White 3. Um anjo (ou algum outro ser celestial, como “meu Guia”, etc.) costumava observar o acontecimento com ela e dar-lhe uma in- terpretação.32 4. Ocasionalmente ela via edifícios ainda por construir e recebia instruções a respeito do papel que ela desempenharia na instrução dos que de- viam trabalhar naquela futura edificação.33 5. Seu Guia explicava as representações simbólicas ou o significado delas era eviden- te por si mesmo.34 6. Ela muitas vezes “visitava” diversas ins- tituições, reuniões de comissão, famílias em seus lares e pessoas que pensavam não estar sendo observadas por “ninguém”.35 7. Algumas vezes lhe eram mostrados des- dobramentos contrastantes: um seria a conse- qüência de não seguir o conselho inspirado; o outro, o resultado de seguir o conselho dela.36 8. Freqüentemente ela dispunha de infor- mações específicas para benefício do marido, para eles mesmos como pais e para os compa- nheiros que trabalhavam na liderança da igreja e de suas instituições.37 9. Muitas vezes lhe eram mostrados princí- pios abrangentes que integrariam algumas opiniões avançadas de seu tempo com idéias adicionais sobre assuntos como saúde, educa- ção e temperança.38 Mensagens Amplas e Diversificadas Ellen White recebia mensagens para indiví- duos e grupos que abrangiam ampla variedade de assuntos. Homens e mulheres recebiam ad- moestação, encorajamento e reprovação no que dizia respeito à sua vida pessoal e influên- cia cristã. Indivíduos e grupos recebiam con- cepções, avisos e instrução sobre idéias gerais, que incluíam educação, saúde, métodos admi- nistrativos, princípios de evangelismo e de publicações, e finanças da igreja.39 Variadas Maneiras de Transmitir as Mensagens A maneira de transmitir a informação recebida em visão era variada e imprevisível. Às vezes, Ellen White era instruída a “tornar públicos” testemunhos pessoais. Como podia ser isto? Ela via em visão pessoas e acontecimentos que outros não conseguiam ver em seu verda- deiro aspecto. Quando essas pessoas resistiam ao conselho, ignorando a reprovação que fo- ra enviada em caráter particular, ela se sentia em débito para com toda a igreja. Seu Guia celestial lhe dizia que a igreja não devia con- tinuar a padecer por causa daqueles que recu- savam a correção: “Fui tomada em visão e vi os erros de certas pessoas os quais estavam afetando a causa. Não me atrevo a ocultar da igreja esse testemunho para poupar os senti- mentos de indivíduos.”40 Que acontecia depois que ela divulgava esses testemunhos pela imprensa, muitas ve- zes identificando seus colegas de trabalho pe- las iniciais? Na Review and Herald dos meses seguintes, a maioria daqueles que haviam si- do identificados reconhecia a veracidade des- ses testemunhos e confessava seus erros. Dez anos depois, quando esses testemunhos foram reimpressos, ela substituiu as iniciais por es- paços vazios. As referências às pessoas foram retiradas, mas os princípios continuaram os mesmos. Em outras ocasiões, ela reprovou homens e mulheres abertamente em reuniões públicas. Em seu diário, por exemplo, ao descrever uma reunião de sábado em 1868 em Tuscola, Mi- chigan, ela registrou que havia pregado du- rante uma hora, reprovando erros indivi- duais: “Alguns ficaram extremamente cons- trangidos de que eu revelasse esses casos pe- rante outros. Eu lamento ver este espírito.”41 Numa carta endereçada a Edson, seu filho, explicou que esses testemunhos públicos fo- calizavam “os pecados do falar precipitado, da zombaria, da frivolidade e da ridicularização” – todos manifestações bastante públicas. Mas um casal ficou seriamente ofendido. A esposa veio junto com o marido lamentan- do: “Você me destruiu; você me destruiu completamente.” Na carta enviada a Edson, Ellen prosseguiu: “Descobri que a maior difi- culdade deles consistiu em ter sido o testemu- nho apresentado diante dos outros. Se eu houvesse enviado o testemunho só para eles, teria sido bem recebido. O orgulho foi ferido, 138 SEÇÃO III A Mensageira que Escuta
  • 79. CAPÍTULO 13 TRANSMITINDO A MENSAGEM DE DEUS aconselhando, reprovando, animando, qualquer que fosse a necessidade. Em todos os exemplos, tanto os destinatários quantos os observadores perceberam que pessoa al- guma teria a possibilidade de conhecer os fatos da situação a menos que o Espírito de Deus houvesse inspirado Seu mensageiro humano.”49 141 M E N S A G E I R A D O S E N H O R O ministério profético de Ellen G. White Tyrone, Michigan, uma visão a respeito do verdadeiro estado espiritual dessa mulher e pôs por escrito alguns detalhes. Dois pasto- res, M. E. Cornell e J. N. Loughborough, es- tavam a par dos detalhes escritos e disseram: “Ora, vamos esperar para ver como o caso se desenrola.”46 Chegando finalmente a Vergennes, na companhia de Loughborough e Cornell, a Sra. White disse ao marido na frente da ca- sa onde deveriam permanecer que deviam encontrar a igreja onde “vive aquela mulher que eu vi na visão de Tyrone”. Ela também mencionou o fato de que o casal que os re- cepcionava conhecia essa mulher. A esposa não confiava na Sra. Alcott, mas o marido “pensa que ela é de bem”. (Não tinha havi- do ainda nenhuma conversa entre o casal e os White.) Logo uma carruagem encostou, e Ellen White disse que ninguém naquele veículo confiava nas “pretensões daquela mulher”. Quando a próxima carruagem chegou, ela disse que os passageiros estavam divididos. No terceiro grupo, os passageiros estavam “todos sob a influência da mulher”. Então ela disse: “Esta deve ser a igreja onde essa mulher vive; pois vi todas essas pessoas relacionadas com aquele caso.” No sábado, enquanto Tiago White prega- va, um homem idoso, um jovem e uma mu- lher entraram, mas a mulher ficou junto à porta. Quando Tiago concluiu o sermão, Ellen White levantou-se para dizer algumas palavras sobre o cuidado que os pastores de- vem tomar em seu trabalho. Para chegar ao ponto desejado, ela se referiu àquela “mulher que acaba de assentar-se junto à porta. ... Deus me mostrou que ela e este jovem viola- ram o sétimo mandamento”. Loughborough comentou: “Todos naquele barracão sabiam que a irmã White jamais havia visto essas pessoas até o momento em que entraram na- quele local. Seu reconhecimento das pessoas e a descrição dos casos tinham peso em favor de sua visão.” Qual foi a reação da Sra. Alcott? Lough- borough escreveu: “Ela se pôs em pé lenta- mente, lançou um olhar de santarrona e disse: ‘Deus... conhece... o... meu... cora- ção.’ Aquilo foi tudo quanto ela disse, e as- sentou-se. Fora exatamente aquilo que o Senhor lhe havia mostrado (28 de maio) que a mulher diria. Em 11 de junho ela fez precisamente como fora dito que faria, e disse as mesmas palavras preditas ao ser re- provada, e nada mais.” Que dizer do rapaz? Algumas semanas de- pois, antes de voltar para o Canadá, ao ser perguntado sobre a visão de Ellen White, ele respondeu: “Aquela visão era a mais pu- ra verdade.”47 Talvez o incidente mais dramático – que poderia ser o mais desventurado se as visões de Ellen White não fossem exatas – aconte- ceu na reunião campal de Wisconsin em princípios da década de 1870. O orador já havia começado a pregar quando os White chegaram. Ellen e Tiago White pararam en- quanto ela disse para Tiago algo que os seus observadores não escutaram. Mas aqueles que estavam mais próximos ouviram Tiago dizer: “Tudo bem!” Eles caminharam pelo corredor central, mas Ellen White não se as- sentou. Olhou diretamente para o pregador e, apontando o dedo para ele, disse: “Irmão, ouvi sua voz em visão e, ao entrar nesta ten- da nesta manhã, reconheci essa voz. O Se- nhor me disse que, quando eu ouvisse essa voz, eu olhasse direto para o dono dela e co- municasse a mensagem que Ele me deu para ele e eu terei que fazê-lo.” O pregador parou. Ellen White continuou: “Irmão, conheço na Pennsylvania uma mu- lher com dois filhos. Aquela mulher chama você de marido e aquelas crianças chamam você de pai, e embora andem à sua procura por toda a parte, não o conseguem encontrar. Não sabem onde você está. Há neste acampa- mento outra mulher com seis filhos pendura- dos na saia, que chama você de marido, e eles chamam você de pai. Irmão, você não tem o direito de estar nesse púlpito.” O pregador precipitou-se pela porta da tenda e desapareceu. O irmão dele, que esta- va assentado no auditório, levantou-se de um salto e falou para os pasmos ouvintes: “O pior, irmãos, é que tudo isso é verdade.”48 Muitas foram as experiências de toda espé- cie com as quais Ellen White lidou, sempre 140 SEÇÃO III A Mensageira que Escuta Referências 1. Jonathan Butler, “The Making of a New Order”, em Ro- nald L. Numbers e Jonathan M. Butler, editors, The Disap- pointed (Bloomington, IN: Indiana University Press, 1987), pág. 196. 2. Ver págs. 36 e 37. Winthrop S. Hudson, “A Time of Reli- gious Ferment”, em Rise of Adventism, págs. 8-10; Knight, Millennial Fever, págs. 267-293 e 303. 3. Ver págs. 38-40; Baker, The Unknow Prophet, pág. 130. 4. Ver Knight, Millennial Fever, págs. 245-300; Schwarz, Light Bearers to the Remnant, págs. 56-58. 5. Ver págs. 40 e 41. 6. Ver págs. 182-238 para a contribuição de Ellen White para a elaboração da doutrina adventista do sétimo dia e, desse mo- do, para a estabilidade da Igreja Adventista do Sétimo Dia. 7. Ver Parábolas de Jesus, págs. 109-114; Conselhos aos Pais, Professores e Estudantes, págs. 138 e 139; Educação, págs. 185-192; Fundamentos da Educação Cristã, pág. 187; Mensa- gens Escolhidas, livro 1, págs. 15-18, 242-245; Testemunhos Para a Igreja, vol. 2, pág. 694; Testemunhos Para Ministros, págs. 105-111. 8. Review and Herald, 4 de janeiro de 1881, pág. 3 (Mente, Ca- ráter e Personalidade, livro 1, pág. 89). 9. Testemunhos Para a Igreja, vol. 5, págs. 664 e 665 (Testemu- nhos Seletos, vol. 2, pág. 280). 10. Ibidem, pág. 663 (Testemunhos Seletos, vol. 2, pág. 278). 11. Ibidem, pág. 665 (Testemunhos Seletos, vol. 2, pág. 280). 12. Ibidem, págs. 663 e 664 (Testemunhos Seletos, vol. 2, pág. 279). 13. Ibidem, pág. 665 (Testemunhos Seletos, vol. 2, pág. 280). 14. Review and Herald, 10 de janeiro de 1856, pág. 118. Leia Tes- temunhos Para a Igreja, vol. 5, págs. 654-696 (Testemunhos Se- letos, vol. 2, págs. 270-302), para o contexto completo. 15. Primeiros Escritos, pág. 78; ver págs. 170-172. 16. Ver págs. 26-40. 17. Tiago White, Life Incidents in Connection With the Great Ad- vent Movement, págs. 272 e 273, citado em F. D. Nichol, El- len G. White and Her Critics (Washington D.C.: Review and Herald Publishing Association, 1951), págs. 52 e 53. Presen- te na visão recebida em 12 de janeiro de 1861 em Parkville, Michigan, estava um médico espiritualista que anteriormen- te se havia vangloriado de ser capaz de tirar Ellen White de seus transes “hipnóticos” em um minuto. Ao ser lembrado de sua pretensão, ele adiantou-se para começar seu exame. Su- bitamente “ele se virou mortalmente pálido, e tremendo co- mo uma folha de faia. O Pastor White perguntou: ‘Então, doutor, que diz do estado dela?’ Ele respondeu: ‘Ela não res- pira’, e dirigiu-se rapidamente para a porta. Os que estavam junto à porta e sabiam de sua arrogância disseram: ‘Volte e fa- ça como o senhor disse que faria. Tire essa mulher da visão.’ Em grande agitação, ele agarrou a maçaneta da porta, mas não lhe permitiram abri-la enquanto os que estavam junto à porta não lhe fizeram a pergunta: ‘Doutor, que é isto?’ Ele res- pondeu: ‘Só Deus sabe! Deixem-me sair desta casa.’” – J. N. Loughborough, GSAM, págs. 210 e 211. Em 26 de junho de 1854, três pessoas relembraram como dois médicos examina- ram Ellen White quando ela se achava em visão. Um deles colocou um espelho próximo da boca da Sra. White e decla- rou: “Ela não respira.” Depois de examiná-la, continuou a não encontrar evidências de respiração. Posteriormente, de- pois de colocar uma vela acesa perto dos lábios dela e a luz não piscar, o médico afirmou: “Isso estabelece definitivamen- te que não há respiração em seu corpo.” – Biography, vol. 1, págs. 302 e 303; ver também pág. 351 para um acontecimen- to em Hillsdale, Michigan, em 12-15 de fevereiro de 1857. 18. Ver págs. 28 e 32. 19. The Abiding Gift of Prophecy, pág. 273. “Não nutra ninguém a idéia de que providências especiais ou manifestações mira- culosas devam ser a prova da genuinidade de sua obra ou das idéias que defende. Caso conservemos essas coisas diante do povo, produzirão efeito nocivo, uma emoção que não é sau- dável. ... Encontraremos falsas pretensões; erguer-se-ão falsos profetas; haverá falsos sonhos e visões falsas; preguem, po- rém, a Palavra, não se desviem da voz de Deus em Sua Pala- vra. Coisa alguma distraia a mente. Será representado e apre- sentado o admirável, o maravilhoso. Mediante enganos satâ- nicos, maravilhosos milagres, serão instantemente recomen- dadas as pretensões dos instrumentos humanos. Acautelem- se de tudo isso.” – Mensagens Escolhidas, livro 2, págs. 48 e 49. 20. Evangelismo, pág. 610. 21. Ver “Physical Phenomena Often Provide Coercive Eviden- ce”, pág. 36. 22. Arthur White, Ellen G. White, Mensageira da Igreja Remanes- cente, segunda edição, pág. 19. 23. Biography, vol. 4, pág. 359. 24. Ibidem, vol. 1, pág. 275. 25. Ibidem, vol. 2, pág. 462. 26. Ibidem, vol. 4, pág. 424. 27. Carta 21a, 1895, citado em Biography, vol. 4, pág. 251. 28. Testemunhos Para a Igreja, vol. 1, págs. 569 e 570 (1867); re- petido em ibidem, vol. 5, pág. 658 (Testemunhos Seletos, vol. 2, pág. 274). 29. Arthur White, Ellen G. White: Mensageira da Igreja Remanes- cente, segunda edição, págs. 9-11. 30. Primeiros Escritos, pág. 14. 31. O Grande Conflito, págs. 12 e 13. As duas visões sobre a Guerra Civil são reexaminadas em Roger Coon, The Great Visions of Ellen G. White (Hagerstown, MD: Review and He- rald Publishing Association, 1992), págs. 76-89. 32. Testemunhos Para a Igreja, vol. 9, págs. 92 e 93. 33. Carta 135, 1903, citada em Biography, vol. 6, págs. 96 e 97. 34. “Fazer um grande trem subir uma ladeira íngreme.” – MR, vol. 1, pág. 26. “Satanás... o condutor do trem.” – Primeiros Escritos, págs. 88 e 89. “Um gigantesco iceberg... ‘enfrentem- no!’” – Mensagens Escolhidas, vol. 1, pág. 205. 35. Carta 1, 1893, em MR, vol. 20, págs. 51 e 52. 36. Testemunhos Para a Igreja, vol. 9, págs. 28 e 29. 37. Ver págs. 114 e 115. 38. Ver págs. 278-369. 39. Para uma amostra de alguns desses variados testemunhos, re- pare: “Em 5 de novembro de 1862, vi a condição do irmão Hull. Ele se encontrava em estado alarmante.” – Testemunhos Para a Igreja, vol. 1, pág. 426. “Em 5 de junho de 1863, foi- me mostrado que Satanás está sempre trabalhando para desa- lentar e desencaminhar os pastores. ... O modo mais eficaz por ele [Satanás] empregado é mediante as influências do- mésticas, através de companheiras não consagradas.” – Ibi- dem, pág. 449. “Foi-me mostrado que os observadores do sá- bado, como um povo, trabalham demasiado e arduamente sem se permitirem mudanças ou períodos de repouso.” – Ibi- dem, pág. 514. “Na visão que me foi dada em Rochester, No-
  • 80. CAPÍTULO 13 TRANSMITINDO A MENSAGEM DE DEUS Perguntas Para Estudo 1. Qual a compreensão de Ellen White sobre suas exatas responsabilidades como mensa- geira do Senhor? 2. Como você descreveria as características de uma visão pública? 3. Quais as variadas formas empregadas por Ellen White para comunicar a outros mensa- gens recebidas em visão? 4. De que diferentes maneiras Ellen White recebia visões e sonhos? 5. Que Ellen White quer dizer quando afirma que seus testemunhos não seriam necessários se os membros da igreja tivessem sido diligentes estudantes da Bíblia? 6. Pode Satanás causar confusão imitando as características físicas das visões públicas de um profeta? Qual o perigo de depositar confiança em uma pessoa, baseando-se apenas nas características extraordinárias de uma visão pública? 143 M E N S A G E I R A D O S E N H O R O ministério profético de Ellen G. White va Iorque, em 25 de dezembro de 1865, foi-me mostrado que nosso povo, os observadores do sábado têm sido negligentes... com respeito à reforma de saúde.” – Ibidem, pág. 485. 40. Testemunhos Para a Igreja, vol. 1, pág. 210. “Foram-me mos- trados indivíduos que haviam evitado o testemunho direto. Vi a influência de seus ensinos sobre o povo de Deus.” – Ibi- dem, pág. 248. Ver Testemunhos Para a Igreja, vol. 1, págs. 210-252 para uma visão geral de como Ellen White tornava públicas mensagens dadas previamente em caráter particular. Em uma mensagem anterior ela escreveu: “Meu caminho agora está livre para não mais prejudicar a igreja. Se as repro- vações são dadas, não ouso apresentá-las sozinha às pessoas para que as enterrem, mas leio perante as pessoas de expe- riência da igreja o que o Senhor achou conveniente me con- ceder, e se o caso exigir, levo-o perante toda a igreja.” – Spi- ritual Gifts, vol. 2, págs. 293 e 294. Em 1868, ela continuou a instruir os outros acerca de divulgar testemunhos particula- res: “Ao repreender os erros de uma [pessoa], Ele pretende corrigir a muitas. Se estas, porém, deixam de tomar para si a repreensão, lisonjeando-se de que Deus passa por alto os seus erros porque não os aponta individualmente, elas enganam a si mesmas e se afundam em trevas, sendo abandonadas aos próprios caminhos para seguirem ‘as imaginações de seu co- ração’.” – Testemunhos Para a Igreja, vol. 2, págs. 112 e 113. 41. Manuscrito 13, 1868, citado em Biography, vol. 2, pág. 228. 42. Carta 6, 1868, citado em Biography, vol. 2, págs. 228 e 229. Mais tarde, na página de seu diário referente àquele dia, ela concluiu: “Não aliviemos o fardo, pois tudo o que aconteceu demonstrou apenas o quanto ela precisava de reprovação.” – Ibidem, pág. 229. 43. Loughborough, GSAM, pág. 231, citado em Biography, vol. 1, pág. 175. 44. Ibidem, págs. 175 e 176. 45. Biography, vol. 3, págs. 158-160. Ellen White endossou o re- latório de G. B. Starr. 46. Ibidem, vol. 1, pág. 277. Loughborough escreveu: “Na descri- ção por escrito que a irmã White fez da mulher, ela não ape- nas relatou seu modo de agir, mas também o fato de que, ao ser reprovada, ela lançaria ‘um olhar de santarrona e diria: Deus... conhece... o... meu... coração.’ Ela disse que essa mulher viajava de um lado para outro do país na companhia de um rapaz, enquanto seu marido, um homem de mais ida- de, ficava em casa trabalhando para sustentá-los. A irmã White disse que o Senhor lhe havia mostrado que ‘com to- das as pretensões de santidade dessa mulher, ela era culpada de violar o sétimo mandamento’.” – Loughborough, Review and Herald, 6 de maio de 1884, pág. 299. 47. Ibidem, págs. 279-281. 48. O Pastor Armitage contou essa história em princípios de 1931, na igreja de Redlands, Califórnia, onde G. B. Starr era pastor. Tempos depois, naquele mesmo ano, na reunião cam- pal de Oakland, Califórnia, no dia 30 de junho, Starr recon- tou a história. O fato interessante que acompanha esse rela- to é que, quando o Pastor Armitage o contou em Redlands, ele também disse que, quando sua mãe morreu, seu pai casou com a irmã daquela mulher de Wisconsin, que tinha seis fi- lhos. Todos os seis eram membros da igreja, um deles “ocu- pando lugar muito importante no Loma Linda Sanitarium”. Depois, para tornar a história ainda mais dramática, apontou para a mãe que havia sido enganada pelo marido bígamo: na- quele dia ela estava na igreja visitando a filha, uma dentre os seis filhos. – DF 496-d. 49. Para uma lista parcial de outros acontecimentos nos quais o olho e o dedo profético de Ellen White conduziram as pes- soas rumo ao Céu, atente para o seguinte: (1) O gerente fi- nanceiro do St. Helena Sanitarium (1887), cuja infidelida- de moral foi revelada a Ellen White enquanto ela estava na Europa e trazida à atenção dele mediante as cartas que ela lhe escreveu, agradeceu por fim o confronto persistente de Ellen White e a maneira como lidara com ele. – Roger Coon, A Gift of Light (Hagerstown, MD: Review and He- rald Publishing Association), 1983, págs. 34 e 35. (2) Elbe (Sam) Hamilton, um jovem moribundo diagnosticado por Ellen White como acometido de triquinose, aprendeu a co- zinhar e a comer adequadamente em sua própria cozinha. Anos depois, ela levou Sam até o Paradise Valley Sanita- rium, onde ele testemunhou a existência do famoso poço es- cavado conforme as surpreendentes predições dela. – Ibidem, págs. 35-38. (3) Nathaniel Davis, redator da revista Signs of the Times na Austrália que passava por graves problemas fi- nanceiros, morais e envolvimento com espiritualismo, foi exposto numa reunião pública, mas depois ficou extrema- mente grato pela persistência de Ellen White. – Ibidem, págs. 38-41. (4) No fim de 1851 em Johnson, Vermont, o ir- mão Baker e outros estavam tendo diferenças doutrinárias que levavam a discussões extremamente acaloradas. As vi- sões de Ellen White durante um período de vários dias trou- xeram clareza e calma. Baker voltou ao ponto de partida, confessando que “toda palavra da visão relatada pela manhã a seu respeito era, literalmente, verdadeira e exata”. – Bio- graphy, vol. 1, págs. 220 e 221. (5) Em Vergennes, Vermont, pouco depois da experiência de Baker em 1851, Ellen Whi- te, por meio de uma visão, ajudou um membro da igreja que estava confuso com respeito ao erro da “era vindoura”. “De- pois que eu tive a visão e a contei, o irmão Everts começou a fazer confissão e a humilhar-se na presença de Deus. Re- nunciou à ‘era vindoura’ e sentiu a necessidade de conservar a mente de todos na mensagem do terceiro anjo.” – Ibidem, págs. 222 e 223. (6) Ellen White relatou uma visão incluin- do um pregador (que ela não conhecia) que estava ausente de casa num itinerário de pregação, e no entanto violando o sétimo mandamento. Seis semanas depois, ela encontrou-se com o homem na presença de outras pessoas e disse: ‘Tu és o homem.’ Ele confessou tudo imediatamente, confirmando uma visão dada a mais de oito quilômetros de distância. – Loughborough, Review and Herald, 4 de março de 1884. Ver também Loughborough, GSAM, págs. 319 e 320. (7) Em ju- nho de 1853, uma visão de Ellen White ajudou a encerrar uma áspera disputa sobre “quem disse o que”, a qual dividia a igreja de Jackson, Michigan. Mas o incidente também for- neceu ambiente para o primeiro movimento dissidente en- tre os adventistas observadores do sábado, conhecido como o Grupo Messenger. – Biography, vol. 1, págs. 276 e 277. (8) Victor Jones, um jovem de Monterey, Michigan, tinha uma luta com o apetite. Ellen White escreveu-lhe um testemu- nho baseado numa visão, um apelo eloqüente. – Carta 1, 1861, citado em Biography, vol. 1, pág. 465. 142 SEÇÃO III A Mensageira que Escuta
  • 81. Bates parecia ter compreendido dos breves comentários feitos por ela. Os telescópios de hoje revelam muito mais sobre os planetas, o número de suas luas e outros fenômenos side- rais que Bates sequer sonharia. Mas o que realmente o deixou surpreso não foi a descri- ção dos “planetas”, mas a descrição que a Sra. White fez da “abertura no céu”, uma referên- cia ao assim chamado “espaço aberto em Órion”. Relatou-se que ele teria dito que a descrição dela “superava em muito qualquer relato da abertura do céu que ele já havia li- do de qualquer autor”.6 Não uma Lição de Astronomia O assunto parece claro: a visão não era uma lição de astronomia com pretensões de ser confirmada pelos telescópios modernos. Ao contrário, por meio de uma jovem inteira- mente desconhecedora de astronomia, forne- ceu informação capaz de se conformar ao li- mitado conhecimento que Bates, um astrô- nomo amador, possuía em 1847.7 Se Ellen White tivesse dado uma pré-visualização do que o telescópio Hubble revelou na década de 1990, José Bates certamente se teria con- vencido de que Ellen White era uma fraude, uma fanática iludida. As dúvidas dele teriam se confirmado, e é provável que ele não se houvesse identificado posteriormente com os adventistas do sétimo dia. A confiança de Bates nas visões da Sra. White foi testada dois anos mais tarde. Os White estavam precisando muito de recursos para continuar publicando a revista Present Truth. Infelizmente, Bates criticava muito a disseminação da verdade por meio de perió- dicos. Ele preferia o método dos folhetos. No ponto mais crítico do desacordo e da falta de recursos, Ellen White teve uma visão de que o periódico “era necessário. ... Que a revista devia continuar... que ela iria onde os servos de Deus não conseguem ir”. Quando Bates soube que a Sra. White apoiava, parou de fazer oposição e dedicou sua influência ao desenvolvimento da obra de publicações.8 O jovem Daniel Bourdeau, com a idade de vinte anos, fazia trabalho missionário para a Igreja Batista no Canadá quando soube que seus pais e seu irmão mais velho (Augustin C.) haviam se tornado membros dos adven- tistas sabatistas no Norte de Vermont. Na tentativa de dissuadi-los, descobriu que eles o haviam persuadido com respeito ao sábado e a outras doutrinas. Mas Daniel ainda era um “descrente nas vi- sões” – até a manhã de domingo do dia 21 de junho de 1857, quando ele observou Ellen White em visão em Buck’s Bridge, Nova Ior- que. Disseram que ele podia examiná-la du- rante a visão. Em suas palavras, “para satisfazer minha mente com respeito a se ela respirava ou não, pus a mão no seu tórax tempo sufi- ciente para verificar que não havia mais eleva- ção dos pulmões do que haveria se ela fosse um cadáver. Depois coloquei a mão em cima de sua boca, apertando-lhe as narinas entre o po- legar e o indicador, de modo que lhe era im- possível inalar ou exalar ar, ainda que o dese- jasse fazer. Fiquei com a mão nessa posição por cerca de dez minutos, tempo suficiente para que ela ficasse sufocada em circunstâncias nor- mais. Ela não foi afetada em nada por esta ex- periência. ... Desde que testemunhei este ma- ravilhoso fenômeno, já não me inclino a duvi- dar da origem divina de suas visões.”9 A visão mais longa de Ellen White (qua- tro horas) ocorreu em 1845, antes de seu ca- samento com Tiago. Uma das acusações fei- tas contra ela era a de que não conseguiria ter visões se Tiago White e sua irmã Sarah (am- bas as pessoas acompanhavam Ellen em suas primeiras viagens) não estivessem presentes. Esperando revelar a verdade sobre a acusa- ção, Otis Nichols convidou Ellen e Sarah a sua casa, mas deixou Tiago em Portland. En- tre os da região de Boston que contestavam a validade da experiência de Ellen Harmon, es- tavam líderes fanáticos, incluindo Sargent e Robbins, que também defendiam a idéia de que trabalhar era pecado.10 Sargent e Robbins foram convidados e compareceram à casa de Nichols, mas, quando souberam que Ellen Harmon estava presente, 145 M E N S A G E I R A D O S E N H O R O ministério profético de Ellen G. White A s visões nem sempre envolviam dra- máticas revelações ou instruções es- petaculares durante deliberações da igreja. Algumas visões tratavam sobre ques- tões comuns do dia-a-dia. Em 1850, os membros da igreja de Sutton, Vermont, perceberam que os White estavam cansados de viajar em diligências ou carro- ções. Contribuíram com 175 dólares para aju- dá-los a comprar um cavalo e uma carruagem, deixando-os à vontade para escolherem o ca- valo. Não demorou muito tempo para ser to- mada esta importante decisão. Durante a noi- te, a Sra. White teve uma visão na qual ela teria que escolher entre três cavalos. No dia seguinte, ela compreendeu claramente que o belo cavalo malhado de pêlo castanho, cha- mado Charlie, era aquele que devia servi-los por muitos anos, porque o anjo havia dito em visão: “Este é o cavalo para vocês.”1 Visões Públicas Freqüentemente Transformavam Céticos em Crentes Durante várias décadas, contemporâneos ob- servaram Ellen White em visão e fizeram por escrito as descrições desses acontecimentos impressionantes. As visões públicas freqüen- temente transformavam pessoas céticas, e até mesmo adversários, em crentes. Um dos mais antigos e destacados céticos convertidos foi José Bates.2 Junto com outros que sabiam apenas do rumor das primeiras vi- sões de Ellen White, Bates não estava con- vencido de que as visões dela “eram de Deus”.3 Naquele tempo, as visões eram con- fundidas com sessões espíritas ou mesmeris- mo. Bates pensava que as visões não passa- vam “do produto de um estado debilitado do corpo dela”.4 Mas mudou de idéia depois de observar várias experiências dela em visão. Uma visão, em particular, o impressionou. Em novembro de 1846, um pequeno grupo de observadores do sábado se reuniu na casa de Stockbridge Howland em Topsham, Maine. Entre eles estavam José Bates e os White. Ellen White foi tomada em visão e “contem- plou pela primeira vez outros planetas”. De- pois da visão, ela relatou o que vira. Bates, um astrônomo amador, perguntou se ela já havia estudado astronomia. Surpreso com o que ouviu, exclamou: “Isto é do Se- nhor.” Mais tarde, depois de observar diversas outras visões, escreveu em um pequeno folhe- to: “Dou graças a Deus pela oportunidade de, juntamente com outros, testemunhar estas coisas. ... Creio que a obra é de Deus, e é fei- ta para confortar e fortalecer Seu povo espa- lhado, atormentado e aturdido.”5 Ellen White jamais escreveu esta “visão sobre astronomia”. Jamais identificou pelo nome os planetas que viu. Mas Bates ligava os nomes dos planetas àquilo que ele pensava que Ellen White estava descrevendo, e ou- tros, inclusive Tiago White, relataram o que 144 CAPÍTULO 14 SEÇÃO II A Mensageira que Escuta Confirmando a Confiança “E eles, tendo partido, pregaram em toda a parte, cooperando com eles o Senhor e confirmando a Palavra por meio de sinais, que se seguiam.” Mar. 16:20. SEÇÃO III A Mensageira que Escuta
  • 82. CAPÍTULO 14 CONFIRMANDO A CONFIANÇA meses para empreendermos outra. Refere-se a esta viagem, contudo não sei como vai acontecer.” Perto do pôr-do-sol, lembrando que um amigo recém-casado morava nas proximida- des, os White pararam para um visita e foram recebidos com muita alegria. Marion Stowell continuou a história: “De- pois do jantar, Emily disse: ‘Irmão White, o ir- mão se importaria em falar a meus vizinhos so- bre a breve volta de Jesus? Posso em pouco tem- po encher ambos os compartimentos. Eles têm- me ouvido falar muito sobre vocês dois, e virão.” E eles foram. Somente quando já estavam a caminho da próxima parada, Saratoga Springs, foi que o grupo de viajantes se lem- brou da ligação entre a visão anterior e aque- la reunião vespertina. Marion confidenciou a Ellen White: “Desde aquela ocasião até ago- ra Satanás não mais me tentou a duvidar de suas visões.”13 Muitas são as histórias, cada uma singular, que revelam como homens e mulheres fica- ram convencidos da autenticidade das visões da Sra. White. A experiência de Stephen Smith é típica. Relatos na Review and Herald indicavam que Smith passou por uma série de experiências na década de 1850 que levaram à sua exclusão da comunhão da igreja. Du- rante este período, a Sra. White lhe escreveu um testemunho. Quando ele o recebeu, lan- çou-o no fundo de um baú sem abri-lo e ali o deixou por vinte e oito anos! Durante esses anos a Sra. Matilda Smith permaneceu fiel e recebia semanalmente a Review and Herald. Finalmente seu marido apanhou os exemplares, começou a lê-los e foi abrandado pelos artigos escritos por Ellen White, de quem ele se lembrava desde a dé- cada de 1850. Depois ele assistiu a uma reu- nião de reavivamento na igreja de Washington, New Hampshire, uma igreja que durante três décadas ele havia ridicularizado. Depois de fazer uma confissão pública, em determinado sábado, sobre o quanto estivera errado, lem- brou-se na quinta-feira seguinte que o teste- munho não aberto estava no fundo do baú. No sábado seguinte, ele voltou à igreja de Washington e contou sua história: “Irmãos, cada palavra do testemunho que me foi enviado é verdadeira, e eu o aceito. Cheguei ao ponto em que finalmente creio que todos eles [os testemunhos] são de Deus, e se eu houvesse atendido àquele que Deus me enviou, bem como o restante, ele teria mudado todo o rumo de minha vida, e eu te- ria sido um homem muito diferente. ... “Os testemunhos diziam que não haveria mais pregação de ‘data definida’ depois do movimento de 1844, mas eu pensava que sa- bia mais do que as visões de uma velha, co- mo eu costumava chamá-la. Que Deus me perdoe! Mas, para minha tristeza, descobri que as visões estavam certas, e o homem que pensava saber tudo estava completamente errado, pois preguei sobre o tempo em 1854, e gastei tudo quanto possuía, quando se os houvesse atendido, ter-me-ia poupado tudo isto e muito mais. Os testemunhos estão cer- tos, e eu estou errado. ... Quero que digam a nosso povo em toda parte que se rendeu ou- tro rebelde.”14 Como as Visões Eram Lembradas A maior parte das visões ou sonhos de Ellen White era provavelmente escrita num am- plo esboço logo depois que ela os recebia. Com o passar do tempo, ela preenchia os detalhes.15 A visão que ela recebeu no Natal de 1865, em Rochester, Nova Iorque, foi particular- mente abrangente. Até 1868, de acordo com Tiago White, Ellen White havia escrito “vá- rios milhares de páginas” baseando-se naque- la única visão.16 Os muitos assuntos daquela visão se tornaram parte importante de sua agenda para os três anos seguintes. A Sra. White não se lembrou de uma só vez de todos os elementos da visão. Ao visi- tar igrejas e famílias em sua turnê pelo Leste no fim de 1867 e pelo norte de Michigan em 1868, ela viu muitos rostos que instantanea- mente lhe fizeram lembrar de mensagens que tinha para elas, as quais então transmitiu oralmente ou por escrito.17 Muitas vezes, as pessoas que recebiam tes- temunhos orais específicos queriam ter uma cópia escrita. Obviamente esses eram crentes sérios que desejavam colocar a vida em har- monia com a admoestação da profetisa. Com 147 M E N S A G E I R A D O S E N H O R O ministério profético de Ellen G. White retiraram-se rapidamente, advertindo Ni- chols de que as visões dela eram “do diabo”. Antes que eles saíssem, Nichols lhes disse que Ellen Harmon gostaria de comparecer à próxima reunião deles em Boston, com o que concordaram. Mas à noite, antes da reunião prevista, foi mostrado em visão a Ellen White que esses homens não tinham plano nenhum de en- contrar-se com ela. Eles haviam alertado seus seguidores para reunirem-se em Ran- dolph, quase 21 quilômetros ao sul de Bos- ton. Naquela visão também lhe foi dito que ela deveria encontrar-se com este grupo em Randolph, pois ali Deus lhe daria uma men- sagem que convenceria “os sinceros e os sem preconceitos, se suas visões eram do Senhor ou de Satanás”.11 Quando Ellen Harmon e seu grupo chega- ram, Sargent e Robbins suspiraram de sur- presa. Robbins disse a Sarah, irmã de Ellen, que Ellen não conseguiria ter uma visão se ele estivesse presente! Na reunião daquela tarde, porém, conforme relata Otis Nichols, Ellen foi “arrebatada em visão com extraor- dinárias manifestações, e continuou falando em visão com uma voz penetrante, que podia ser entendida distintamente por todos os presentes, até perto do pôr-do-sol [cerca de quatro horas]”. Que fizeram Sargent e Rob- bins durante esse tempo? “Esgotaram toda a sua influência e as forças físicas para destruir o efeito da visão. Uniram-se para cantar muito alto e depois, alternadamente, fala- vam e liam a Bíblia em voz alta, a fim de Ellen não ser ouvida, até que suas forças se esgotaram, e as mãos lhes tremiam de modo que não podiam ler a Bíblia.” A Pesada Bíblia de Família O Sr. Thayer, o dono da casa, não estava muito convencido de que Ellen Harmon era do diabo. Ouvira dizer que uma das maneiras de provar se as visões eram de Satanás era co- locar uma Bíblia aberta sobre a pessoa em vi- são. Ele pediu a Sargent que fizesse isso, mas ele se recusou. Sendo um homem de ação, Thayer tomou sua pesada Bíblia de família, abriu-a e colo- cou-a sobre o peito de Ellen Harmon (que es- tava inclinada contra a parede). Ela se ergueu imediatamente e caminhou até o meio da sa- la, segurando a Bíblia bem alto com uma das mãos. Com a mão livre, tendo os olhos volta- dos para o alto e não para a Bíblia, ela come- çou a virar as folhas, colocando o dedo sobre determinadas passagens. Muitos que estavam na sala e que viram as passagens indicadas pelo dedo dela percebe- ram que ela as citava corretamente, ainda que seus olhos fitassem o alto. Mas Sargent e Robbins, embora estivessem em silêncio ago- ra, continuaram a endurecer-se, recusando dramaticamente a desmentir tudo quanto ha- viam dito. Nichols relatou mais tarde que este “Gru- po Antitrabalho” tornou-se mais fanático, declarando-se livres de todos os pecados. Cerca de um ano depois, o grupo se dispersou em meio a revelações “dos atos vergonhosos da vida deles”.12 Em 1852, um acontecimento muito pes- soal convenceu Marion Stowell de que as visões de Ellen White eram autênticas. Em um de seus itinerários através do norte e oes- te de Nova Iorque, os White encontraram Marion exausta após dois anos e meio cui- dando da Sra. David Arnold. Ao prossegui- rem viagem, convidaram-na para juntar-se a eles em seu trenó. Marion Stowell relembrou posteriormente em uma carta endereçada à Sra. White: “Não tínhamos andado muitos quilômetros quando a irmã disse: ‘Tiago, tudo quanto me foi mos- trado a respeito desta viagem aconteceu, me- nos uma coisa. Realizávamos uma pequena reunião em uma família particular e você fa- lava com grande liberdade sobre seu tema fa- vorito: A breve vinda de Cristo.’” Tiago respondeu: “É impossível [que isto] aconteça nesta viagem, pois não existe ne- nhuma família adventista daqui até Sarato- ga. Ficaremos hospedados em um hotel esta noite, e certamente não teremos nenhuma reunião ali, e amanhã à tarde chegaremos em casa. Talvez isso ocorra em nossa próxi- ma viagem.” Ellen replicou: “Não, Tiago, com certeza isto se referia a esta viagem; pois nada me foi mostrado em relação à próxima, e faltam três 146 SEÇÃO III A Mensageira que Escuta
  • 83. CAPÍTULO 14 CONFIRMANDO A CONFIANÇA Perguntas Para Estudo 1. Que circunstâncias mudaram o ceticismo de José Bates em serena confiança? 2. Por que Deus não deu a Ellen White uma imagem de Órion tal como um moderno te- lescópio Hubble forneceria? 3. De que forma a mais longa visão de Ellen White inspirou confiança aos observadores? 4. Como a visão ocorrida em 1852 no leste de Nova Iorque trouxe confiança a outros? 149 M E N S A G E I R A D O S E N H O R O ministério profético de Ellen G. White respeito a esta prática, Tiago White escreveu em 1868: “Desejo dizer a esses amigos que so- licitaram à Sra. White que ela escrevesse os testemunhos pessoais que neste ramo de ati- vidades ela tem em mãos trabalho para cerca de dois meses.”18 Essa prática de não escrever toda a visão imediatamente não era incomum. Em 1860, Ellen White refletiu: “Depois que saio de uma visão não me lembro imediatamente de tudo o que vi, e o assunto não me é claro até que começo a escrever; então a cena surge perante mim como me foi apresentada em vi- são, e posso escrever com liberdade. “Algumas vezes as coisas que vi me são ocultas depois que saio da visão, e não as pos- so evocar até que me encontro perante um grupo de pessoas no lugar a que se aplica a vi- são; então o que vi me vem com força à men- te. Sou tão dependente do Espírito do Senhor ao relatar ou escrever uma visão, como ao ter a visão. É-me impossível evocar o que me foi mostrado a menos que o Senhor o apresente diante de mim ao tempo que é de Seu agrado que eu o relate ou escreva.”19 Nem Todas as Visões Foram Escritas Ocasionalmente Ellen White não escrevia as particularidades de uma visão; o que sabemos sobre a visão foi relatado por observadores. Sua primeira visão sobre saúde, por exemplo, em 1848 foi descrita por seu marido Tiago vinte e dois anos depois na Review and Herald de 8 de novembro de 1870. Sua primeira visão sobre a Guerra Civil, recebida em Parkville, Michigan, em 12 de janeiro de 1861, ao que parece, não foi regis- trada. Contudo, depois de sair da visão de vinte minutos, ela contou ao auditório os acontecimentos que em breve teriam lugar. J. N. Loughborough estava presente e fez co- piosas anotações.20 148 SEÇÃO III A Mensageira que Escuta Referências 1. Biography, vol. 1, pág. 178. 2. Para uma biografia de José Bates, ler Godfrey T. Anderson, Outrider of the Apocalypse: Life and Times of Joseph Bates (Mountain View, CA: Pacific Press Publishing Association, 1972); Schwarz, Light Bearers, págs. 59-70; Spalding, Origin and History, vol. 1, págs. 25-41; ver também Joseph Bates, Au- tobiography (Battle Creek, MI: Seventh-day Adventist Publishing Association, 1868, reprodução em fac-símile, Sou- thern Publishing Association, Nashville, TN, 1970), para um retrospecto de sua vida até 1858. Bates, um capitão da mari- nha convertido, gastou sua fortuna promovendo a mensagem milerita. Tornou-se um dos primeiros adventistas sabatistas (1845), o primeiro a imprimir um folheto sobre o sábado co- mo dia de repouso, The Seventh-day Sabbath a Perpetual Sign (1846). Esse folheto tornou-se para Tiago e Ellen White uma convincente confirmação de que o sábado, e não o domingo, era o dia de repouso cristão. – Schwarz, Light Bearers, págs. 59 e 60; Biography, vol. 1, págs. 116 e 117. 3. Life Sketches, pág. 97. 4. Ibidem. 5. A Word to the Little Flock, pág. 21, em Knight, 1844 and The Rise of Sabbatarian Adventism, pág. 175; ver J. N. Loughbo- rough, Rise and Progress of the Seventh-day Adventists (Battle Creek, MI: General Conference Association of the Seventh- day Adventists, 1892, reimpresso por Payson, AZ: Leaves of Autumn Books, Inc., 1988), págs. 125-128; Schwarz, Light Bearers, pág. 67; Biography, vol. 1, págs. 113 e 114. 6. Loughborough, GSAM, págs. 258 e 259. 7. Alguns talvez perguntem por que Deus não revelou a Ellen White “toda a verdade” sobre planetas, espaços abertos, etc. As experiências mostram que Ele nunca revelou “toda a verdade” a nenhum profeta de uma só vez. Paulo, por exem- plo, tinha muito que dizer sobre a maneira como os donos de escravos cristãos deviam tratar seus escravos, mas ele não en- xergava “toda a verdade” sobre como o sistema da escravidão devia ser desmantelado. O Senhor enfatizou este princípio: “Tenho muito ainda que vos dizer, mas vós não o podeis su- portar agora” (João 16:12); ver também Mar. 4:33 e I Cor. 3:2. 8. Biography, vol. 1, págs. 171 e 172. 9. Loughborough, GSAM, pág. 210. 10. Ver pág. 50. 11. Biography, vol. 1, págs. 100-102. 12. Ibidem, págs. 103-105. 13. Carta de Marion Stowell a Ellen White, Crawford, 9 de ou- tubro de 1908, citada em Biography, vol. 1, págs. 225 e 226. 14. Ibidem, págs. 490-492. 15. Ver a história da visão de 1890 em Salamanca, Nova Iorque, em Biography, vol. 3, págs. 464-467, 478-483. Ver também pág. 188. 16. Review and Herald, 16 de junho de 1868, pág. 409. 17. Ver a experiência de Bushnell, págs. 127 e 128. 18. Review and Herald, 3 de março de 1868, pág. 192. 19. Spiritual Gifts, vol. 2, págs. 292 e 293 (Mensagens Escolhidas, livro 1, págs. 36 e 37). 20. Ver págs. 159 e 160. Loughborough, RPSDA, págs. 236 e 237. Em seu prefácio, Loughborough escreveu: “Desde no- vembro de 1853 tenho mantido um diário das ocorrências de cada dia.” A narrativa em (RPSDA) daquela data é prove- niente do relato deste diário.
  • 84. O s profetas nem sempre estão cientes do tempo a que as visões se aplicam. Enquanto esteve na Austrália, Ellen White escreveu a um pastor, reprovando-o por violar o sétimo mandamento. O pastor, perplexo com o testemunho pois não havia cometido atos adulterinos, dirigiu-se a W. C. White em busca de uma explicação. O Pastor White lembrou-lhe que os homens podem fa- zer sutis distinções nesta área, mas Deus olha para o coração. Dentro de seis meses, esse pastor foi dispensado do ministério devido ao problema pelo qual a Sra. White o havia re- provado.2 Também enquanto esteve na Austrália, “foi-lhe mostrado em Chicago um grande edifício... suntuosamente mobiliado”. Ela fi- cou intrigada quando lhe disseram que “tal edifício não fora construído em Chicago”. Mas ela sabia o que havia visto em visão: “O Senhor me mostrou o que homens estavam planejando fazer. Eu sabia que o testemunho era verdadeiro, mas o assunto só foi explica- do recentemente.”3 Como foi ela esclarecida? O Juiz Jesse Ar- thur, que fora por muito tempo advogado do Battle Creek Sanitarium, conversou com ela no verão de 1902. O Juiz Arthur contou-lhe que o testemunho a respeito de um “grande edifício em Chicago” estava claro para ele, “pois sabia que estavam sendo feitos prepara- tivos para erguer em Chicago um edifício correspondente àquele que fora mostrado... em visão”. Tempos depois, o juiz confirmou sua con- versa por meio de uma carta escrita em 27 de agosto de 1902. Ele era o presidente da co- missão de construção, composta de três mem- bros: “A comissão reuniu-se [em 26 de junho de 1899] e imediatamente formulou planos para a compra de um terreno e a construção de tal edifício. Na qualidade de presidente da comissão, recebi instruções para abrir as ne- gociações... e, além disso, levantar os fundos necessários para a compra do terreno e a construção do edifício projetado.”4 Em 28 de outubro de 1903, Ellen White escreveu a Kellogg: “Se eu não tivesse recebi- do esta visão e não tivesse escrito ao irmão sobre o assunto, ter-se-ia feito um esforço pa- ra erguer tal edifício em Chicago, em um lu- gar em que o Senhor disse para não se cons- truir edifícios grandes. Na época em que a vi- são foi dada, as influências atuavam em prol da construção desse edifício. A mensagem foi recebida a tempo de impedir a elaboração dos planos e a execução do projeto.” Depois de receber essas mensagens, Kellogg afastou-se do projeto de Chicago.5 Foi assim que se esclareceu o motivo para a visão de Ellen White. Comunicação de Visões Muitas Vezes Decisivas no Momento Certo Freqüentemente uma carta de Ellen White chegava a uma distante reunião de comissão ou a uma decisiva reunião de igreja no dia exato em que era necessária, ainda que a re- metente estivesse a milhares de quilômetros de distância. Outras vezes, não uma carta, mas sua pre- sença modificava o rumo de uma reunião, principalmente porque ela recebera instru- ções por meio de uma visão. Em 1887, em Vohwinkel, Prússia, competia-lhe falar na manhã de sábado, 28 de maio. Durante a sexta-feira à noite, teve um sonho daquilo que enfrentaria no sábado pela manhã. No sonho o ancião da igreja “parecia tentar fe- rir alguém. ... A reunião não beneficiara ninguém”. Um estranho, que já se havia sentado anteriormente na assembléia, le- vantou-se para falar no fim do culto, apon- tando para Jesus como exemplo para eles em todas as coisas. Depois que Ellen White concluiu o ser- mão (que ela intitulara “A Oração de Cristo Para que Seus Discípulos Sejam um Como Ele e o Pai São um”) no qual ela descreveu o sonho, houve por toda a congregação confis- sões, pranto e regozijo. O culto se prolongou por três horas enquanto a “suave luz do Céu” enchia o recinto.6 As assembléias da Associação Geral eram ocasiões freqüentes para a direta intervenção de Ellen White. Enquanto a assembléia de 1879 estava em andamento, ela teve uma vi- são, sobre a qual escreveu: “Em 23 de novem- bro de 1879, foram-me mostradas algumas coisas com relação às nossas instituições e os deveres e perigos daqueles que nelas ocupam posição de liderança.” Seguiam-se setenta pá- ginas, repletas de conselho, reprovação e en- corajamento – todas as quais forneceram o conteúdo das várias palestras que ela apresen- tou à delegação. Antes do término da assembléia, foi toma- do o seguinte voto: “Considerando que Deus falou mais uma vez de maneira misericordio- sa a graciosa a nós, como pastores, em pala- vras de admoestação e reprovação pelo dom do Espírito de Profecia; e “Considerando que essas instruções são jus- tas e oportunas, e de suma importância em sua relação com os nossos trabalhos e utilida- de futuros; portanto, “Fica resolvido que, por meio deste, expres- samos nossa sincera e reverente gratidão a Deus por Ele não nos haver deixado em nos- sa cegueira, como poderia com justiça ter fei- to, mas em nos haver concedido outra opor- tunidade para vencer, apontando fielmente nossos pecados e erros e nos ensinando a ma- neira de agradarmos a Deus e tornar-nos úteis em Sua causa. “Fica resolvido que, embora seja correto e apropriado expressarmos desta forma nosso agradecimento a Deus e a Seus servos, a me- lhor maneira de expressarmos nossa gratidão é atentando fielmente para o testemunho que nos foi apresentado; e, por meio deste, com- prometemo-nos a empenhar os mais diligen- tes esforços para reformar-nos nesses pontos em que somos deficientes conforme nos foi mostrado, e a ser obedientes à vontade de Deus graciosamente por Ele revelada.”7 A Visão de Salamanca A presença decisiva de Ellen White durante a assembléia da Associação Geral realizada em março de 1891 em Battle Creek, Michi- gan, impediu a liderança de cometer grave er- ro com respeito ao programa de liberdade re- ligiosa da igreja e outros regulamentos de pu- blicações.8 A utilidade do propósito e rele- vância das visões é destacada no momento de sua apresentação ao público. Conquanto concedida à Sra. White em novembro de 1890, em Salamanca, Nova Iorque, e embora ela encontrasse muitas oportunidades para aplicar muito da mensagem da visão às con- dições correntes, a parte central da visão fi- cou guardada em sua memória até o momen- to exato em que seria mais eficaz. Se ela tivesse relatado toda a visão (como tentou fazer em várias ocasiões) em qualquer outro tempo a não ser naquela famosa reu- nião secreta no sábado à noite, a mensagem teria sido obviamente tida na conta de falsa informação.9 Mas não foi apenas com as questões da As- sociação Geral que os líderes denominacio- nais reconheceram o conselho oportuno da- do pelo Espírito de profecia. Aqueles que se envolveram em crises como a da proposta de venda do Boulder Sanitarium (Colorado) ja- mais se esqueceram da orientação rápida, adequada e lúcida que a situação exigia – sa- 150 151 M E N S A G E I R A D O S E N H O R O ministério profético de Ellen G. White CAPÍTULO 15 SEÇÃO III A Mensageira que Escuta Instruções e Predições Oportunas1 “O profeta que profetizar paz, somente quando se cumprir a palavra desse profeta é que será conhecido como aquele a quem o Senhor, na verdade, enviou.” Jer. 28:9.
  • 85. CAPÍTULO 15 INSTRUÇÕES E PREDIÇÕES OPORTUNAS SEÇÃO III A Mensageira que Escuta bedoria que a liderança não conseguiria ver, não fosse o testemunho inspirado de Ellen White. A crise do Boulder Sanitarium [hospital] nos últimos meses de 1905 é uma ocorrência que foi estudada e mostra como alguns planos comerciais podem parecer “razoáveis”, mes- mo quando se negligenciam princípios e pro- pósitos elevados. Naquela época, os líderes e leigos que dirigiam a associação criam que fa- ziam um favor à denominação vendendo a instituição. Contudo, Ellen White deixou claro que não era propósito de Deus que se devesse construir outro hospital em Boulder ou em Canon City, 160 quilômetros ao sul de Boulder – pelo menos não pelos adventistas. Seu conselho sem ambigüidades, escrito a pessoas-chaves fez refluir a maré, embora essa advertência tenha caído sobre os líderes co- mo um pesado golpe.10 Tensões em Língua Estrangeira Também em 1905, outro problema que se agravava estava chegando a um ponto críti- co. Os líderes da obra em língua estrangeira na América do Norte lutavam furiosamente para separar os estabelecimentos editoriais para a obra em línguas alemã, dinamarquês- norueguês e sueco. Além disso, esses líderes queriam associações separadas para os três grupos étnicos. No Concílio de Departamen- to Estrangeiro da Associação Geral, realizado em College View, Nebraska, em 5 de setem- bro de 1905, os líderes da igreja reuniram-se com grande apreensão. Ellen White, que morava na Califórnia, foi solicitada a dar seu conselho. Além de reunir matérias relevantes que havia escrito anteriormente, ela escreveu três novos teste- munhos. O tema central de seu conselho, claramente afirmado nos dois anos que pas- sou na Europa onde o assunto estava sempre diante dela, foi: “De acordo com a luz que me foi dada por Deus, organizações separadas, em vez de gerar unidade, criarão discórdias. ... Devo escrever francamente a respeito da construção de paredes de separação na obra de Deus. Foi-me revelado que essa atitude é uma falácia de invenção humana.”11 G. A. Irwin, vice-presidente da Associa- ção Geral, que estava presente na reunião de College View, escreveu depois do concílio: “Alegro-me em dizer-lhes que o Senhor nos concedeu a vitória aqui de forma tão assina- lada como o fez no Colorado [a crise do Boulder Sanitarium no mesmo ano]. As mensagens da irmã White chegaram justa- mente no momento certo e responderam às perguntas mais importantes que tínhamos diante de nós. Tornaram o assunto tão claro e simples que até mesmo os defensores mais extremistas de uma separação foram induzi- dos a aceitá-las.”12 Durante o conflito de 1905 com John Har- vey Kellogg, muita gente em Battle Creek fi- cou convencida de que ele havia sido injusti- çado ou, no mínimo, mal compreendido. A reação comum de Kellogg às intervenções de Ellen White no começo da década de 1900 fora: “Alguém contou isso à irmã White!” A crise Kellogg foi talvez mais grave do que o conflito denominacional mencionado anteriormente. Em 21 de dezembro de 1905, Ellen White havia enviado um telegrama a A. G. Daniells, presidente da Associação Geral, dizendo que ela possuía conselho es- pecial para ele e para outros naquela hora crítica. O pacote de manuscritos chegou em 26 de dezembro e foi lido diante do auditório superlotado do Tabernáculo de Battle Creek. O que surpreendeu a todos foi o fato de dois dos manuscritos terem sido escritos com muita antecedência (agosto de 1903 e 1o de junho de 1904), mas não terem sido copia- dos até que ela fosse impressionada a fazê-lo na quinta-feira anterior, dia em que havia enviado o telegrama. O efeito dos manuscritos, lidos sem comen- tário, foi impressionante. Vários homens que haviam sido seduzidos pelos argumentos de Kellogg aproximaram-se rapidamente de Da- niells dizendo que a notável reunião realizada por Kellogg na noite anterior havia sido clara- mente descrita por Ellen White nos manuscri- tos escritos meses antes e copiados apenas dias antes. Também disseram que, “se havia qual- quer dúvida na mente deles quanto à fonte dos testemunhos, isto fora varrido por suas pró- prias declarações [conforme apresentadas por Ellen G. White] nos testemunhos”.13 O Testemunho Mais Curto O mais breve testemunho que Ellen White já deu foi um telegrama recebido por M. N. Campbell, pastor da igreja (tabernáculo) de Battle Creek, durante o litígio pela proprie- dade do Tabernáculo em 1906-1907. O grupo do hospital estava decidido a obter a proprie- dade. A maioria dos depositários da igreja es- tava predisposta a apoiar os desejos do grupo do hospital. Mas o jovem pastor, igualmente determi- nado de que a propriedade deveria permane- cer nas mãos da denominação, convocou al- guns dos membros mais influentes da igreja para uma oração especial antes da última e mais decisiva reunião. Campbell relatou o acontecimento: “Todos eram homens bons e fiéis, mas não sei se já vi um grupo de homens mais ame- drontados. O idoso irmão Amadon,14 um dos cristãos mais gentis que já viveu, lamentava: ‘Se apenas a irmã White estivesse aqui, se apenas a irmã White estivesse aqui.” Todos sabiam que Ellen White estava na Califórnia, mas Amadon continuava: “Oh, se apenas a irmã White estivesse aqui.” Momentos depois, dez minutos antes da abertura da tensa reunião, chegou um tele- grama para Campbell. Continha esta men- sagem: “Filipenses 1:27 e 28. (Assinado) Ellen G. White.” Aquele texto com a mensagem que a Sra. White tinha em vista fortaleceu os homens para o que precisava ser feito. Campbell es- creveu: “Isso resolveu a questão. Aquela era a mensagem da irmã White que precisáva- mos naquele exato momento. Deus sabia que estávamos realizando aquela reunião, que tínhamos um grupo de homens ame- drontados e que precisávamos de Sua ajuda; por isso Ele nos enviou a mensagem que chegou até nós na hora H. Aquilo nos pare- ceu muito bom.”15 De vez em quando, Ellen White instava com pessoas quando estas se achavam diante de uma decisão séria que poderia mudar-lhes a vida, ad- vertindo-as da própria crise que as ameaçava. Sua preocupação por seu velho amigo, D. M. Canright, enquanto ele passava por sua última deserção, é um exemplo dentre muitos. Canright havia solicitado a exclusão do seu nome dos livros da igreja em Otsego, Mi- chigan, solicitação que foi atendida em 17 de fevereiro de 1887.16 Embora estivesse na Europa, Ellen White não ficou surpresa com esses acontecimentos lamentáveis. Numa visão ela vira Canright navegando em “águas muito agitadas”. Ela instou com ele: “Espere, e Deus o ajudará. Se- ja paciente, e aparecerá a clara luz. Se ceder às impressões, perderá a salvação. ...” Esta carta foi posteriormente impressa nos Teste- munhos Para a Igreja, vol. 5, págs. 571-573 (Testemunhos Seletos, vol. 2, págs. 216 e 217), com “irmão M” referindo-se a Canright. Mas Canright não esperou, e a predição da Sra. White de que seu “sol certamente se porá na obscuridade” se cumpriu tragicamente.17 Em 1900, Daniel H. Kress, um médico ad- ventista, foi nomeado para chefiar a obra mé- dica na Austrália. Ele defendia zelosamente a abstenção de todos os produtos animais. Mas em suas freqüentes viagens na virada do sécu- lo tinha dificuldade em adquirir alimentos adequados a um regime alimentar equilibra- do. Por isso, com a idade de quarenta anos, desenvolveu uma anemia perniciosa. Quan- do Ellen White o viu em visão, ele estava às portas da morte. Falando daquela maneira sincera que lhe era característica, ela o instruiu a “fazer mu- danças, e desde logo. Ponha em seu regime algo do que dele você excluiu. ... Obtenha ovos, de galinhas sadias. Use esses ovos cozi- dos ou crus. Ponha-os crus no melhor vinho sem fermento [suco de uva] que possa obter. Isto lhe suprirá ao organismo o que lhe é ne- cessário.”18 Seu conselho, inspirado na visão relacio- nada ao terrível estado de saúde de Kress, era exatamente o que o médico enfermo precisa- va. Ele se recuperou inteiramente e viveu mais cinqüenta e dois anos em uma vida de serviço médico e administração.19 Às Vezes as Visões Mudavam os Hábitos e Opiniões da Sra. White De vez em quando, Ellen White se sentia co- mo Natã quando descobriu haver dado um conselho errado ao rei Davi.20 Em 1902, ela teve a oportunidade de mudar o conselho da- do aos principais oficiais da Associação Geral. 152 153 M E N S A G E I R A D O S E N H O R O ministério profético de Ellen G. White
  • 86. CAPÍTULO 15 INSTRUÇÕES E PREDIÇÕES OPORTUNAS SEÇÃO III A Mensageira que Escuta Na virada do século, Edson White enca- beçava o trabalho em favor dos negros no Sul, principalmente por meio da publicação de literatura no Sul para o Sul. Sua mãe ha- via dado bastante apoio a sua obra, princi- palmente porque era a única obra significa- tiva que estava sendo feita. À medida que o trabalho de Edson progredia, elaboraram-se planos para o estabelecimento de uma casa editora denominacional em Nashville, Ten- nessee. Mas a força de Edson repousava, não nas finanças, mas na promoção, impressão e redação de literatura que atendesse às neces- sidades do Sul. Os débitos se elevavam peri- gosamente enquanto os líderes denomina- cionais tentavam estabilizar a grave crise fi- nanceira que acometera a igreja. Mas os lí- deres hesitaram em fechar as portas da nova casa editora de Nashville pelo fato de Ellen White estar apoiando o filho naquele traba- lho pioneiro.21 Numa reunião especial convocada em Elmshaven, no dia 19 de outubro de 1902, os líderes da igreja precisaram de conselho, parti- cularmente a respeito da dívida e da obra de- nominacional em Nashville. Depois que a Sra. White ouviu os fatos, disse: “A causa de Deus não deve ser exposta ao descrédito. As coisas devem ser postas em ordem, doa a quem doer. Edson deve dedicar-se ao ministério e a escre- ver, e renunciar às coisas que o Senhor lhe im- pediu de fazer. As finanças realmente não são seu forte. Quero que os irmãos... ajam exata- mente como agiriam se meu filho não estives- se ali. ... Não quero que ninguém pense que es- tou apoiando Edson num erro.” A. G. Daniells, presidente da Associação Geral, satisfeito com a entrevista, regressou para Battle Creek com uma cópia da entre- vista no bolso. A liderança agora estava con- victa de que fechar o estabelecimento de Nashville era a coisa mais acertada a fazer. Mas dentro de vinte e quatro horas, após a entrevista em Elmshaven, a Sra. White es- creveu uma carta que mudaria todo o quadro. Inspirada por uma visão da noite (ou sonho noturno), ela viu que não era preciso fechar a gráfica de Nashville, que a consolidação de interesses editoriais denominacionais não era plano de Deus e que “o campo sulista [devia] publicar seus livros em sua própria editora”.22 Visão Muda o Conselho da Profetisa Semanas depois, ela explicou à liderança de- nominacional: “Durante a noite seguinte à nossa entrevista realizada dentro de minha casa e fora no gramado sob árvores, em 19 de outubro de 1902, com respeito ao trabalho no campo sulista, o Senhor me instruiu que eu havia tomado uma atitude errada.” Tempos depois, escrevendo palavras de en- corajamento, disse: “Desta luz central irradiará o ministério da Palavra, na publicação de livros grandes e pequenos”, porque “mal temos toca- do o campo sulista com a ponta dos dedos”.23 Todos os envolvidos compreenderam que haviam sentido as mesmas emoções sentidas por Natã e Davi três milênios antes. O Se- nhor estava muito próximo de Seu povo que desejava ouvir o Espírito de Profecia. Em 1849, o povo adventista reunia-se em diversos núcleos através da Nova Inglaterra e no interior do Estado de Nova Iorque. S. W. Rhodes, um antigo líder do movimento mile- rita, desanimado, recusava intercâmbio so- cial. Mas seus amigos perseveravam em sua atenção para com ele, embora muitas vezes ele se recusasse a aceitar. Os White achavam que não valia a pena fazer qualquer esforço adicional em favor de Rhodes. Apesar disso, enquanto um grupo de adventistas orava, Ellen White teve uma visão “que contrariava sua opinião e sentimento anterior com rela- ção ao trabalho de recuperação do irmão Rhodes, até o momento em que o Espírito a tomou em visão”.24 Ao planejar a construção da primeira igre- ja de Avondale em 1897, predominava o de- sânimo. A crítica situação financeira por to- da a Austrália afetava diretamente o desen- volvimento da obra educacional e médica da igreja. Ellen White sabia que a construção da igreja era essencial ao espírito geral que devia promover maior desenvolvimento do colégio que lutava com dificuldades. Apesar disso, ela estava disposta a ouvir a advertência dos líderes locais. Sabia que eles arcavam com pesadas responsabilidades e que o quadro fi- nanceiro era desanimador. Certo dia, em so- lidariedade humana, ela mencionou a um dos líderes: “Não teremos pressa em construir a casa de culto.” Naquela noite, porém, teve uma visão que mudou suas “idéias substancialmente”. Em uma carta endereçada à pessoa com quem concordara poucas horas antes, disse ela: “Recebi instruções para falar ao povo e dizer- lhe que não devemos deixar a casa do Senhor em segundo plano. ... Construa a casa de Deus sem demora. Adquira o local mais favo- rável. Prepare assentos que sejam apropriados à casa de Deus.”25 Às Vezes as Visões Modificavam as Opiniões Teológicas de Ellen White Os profetas crescem em graça e conhecimen- to como os demais crentes. Ao escolher Seus profetas ou profetisas, Deus sempre selecio- nou os que se adequassem melhor a Seus pro- pósitos – mas apenas os melhores daquela época! Ele escolheu polígamos e duvidosos, até mesmo alguns que mentiram (por exem- plo, Abraão e Davi). Profeta algum contemplou o quadro intei- ro do começo ao fim. Todos os profetas passa- ram por “aprendizagem no trabalho”. Se co- nhecêssemos todos os fatos sobre cada profe- ta, descobriríamos que cada um continuou aprendendo cada vez mais sobre sua missão e sobre o plano de Deus para eles e para Seu povo. Eles tinham muito que aprender e mui- to que desaprender. Como resultado, suas mensagens tornaram-se mais precisas com o correr do tempo. Pense em João Batista, a quem Jesus decla- rou ser “muito mais que profeta. ... Entre os nascidos de mulher, ninguém apareceu maior do que João Batista”. Mat. 11:9 e 11. Contu- do, João “não compreendia a natureza do rei- no de Cristo”.26 Em seu dramático ministé- rio, ele aplicou erroneamente as profecias de Isaías e, até certo ponto, compreendeu mal o caráter de Deus. Na prisão, sentiu-se “cruel- mente decepcionado com o resultado de sua missão” e considerou-se um fracasso. João, com todo o seu estudo da Bíblia e missão pro- fética, “não entendera plenamente a vida fu- tura e imortal mediante o Salvador”.27 Mais tarde ele chegou mesmo a duvidar da expe- riência do Jordão, o dia em que batizou Jesus: “És Tu Aquele que estava para vir, ou have- mos de esperar outro?” Mat. 11:3. Contudo, Jesus aplicou a João o termo de Malaquias: “Meu mensageiro.” Mensageiro, sim, mas uma “luz menor, que havia de ser se- guida por outra maior”.28 Pense em Pedro, a quem Deus escolheu pa- ra ser o vínculo do evangelho para Cornélio, o centurião gentio (Atos 10). Pedro, mesmo de- pois de abençoado pelo Pentecostes, conti- nuou a crer que o evangelho de Cristo se des- tinava apenas aos judeus. Ele precisava mudar sua teologia, e uma visão realizou essa mudan- ça. Cada passo rumo à casa de Cornélio foi da- do relutantemente.29 Sua teologia da “porta fechada” modificou-se numa porta amplamen- te aberta para o mundo gentio e finalmente para Roma e para sua própria crucifixão. Ellen White foi a primeira a reconhecer que seu julgamento e percepção haviam se ampliado e aprofundado grandemente atra- vés dos anos. Ela era uma mensageira huma- na que, com toda sua bagagem humana co- mum aos profetas, seguia constantemente a Luz. Falando desse processo de desenvolvi- mento vitalício, ela diz: “Com a luz comuni- cada pelo estudo de Sua Palavra, e com o co- nhecimento especial que me foi dado de ca- sos individuais entre o Seu povo, sob todas as circunstâncias e em todas as fases da vida, po- deria eu continuar ainda na mesma ignorân- cia, na mesma incerteza e cegueira espiritual que ao começo de minha experiência? Que- rerão meus irmãos sustentar que a irmã White foi uma aluna tão falta de inteligência que o seu juízo a esse respeito não é para ser estima- do mais agora do que antes de ela entrar para a escola de Cristo, a fim de ser preparada e disciplinada para essa obra especial? Por- ventura não terei compreensão mais nítida 154 155 M E N S A G E I R A D O S E N H O R O ministério profético de Ellen G. White
  • 87. CAPÍTULO 15 INSTRUÇÕES E PREDIÇÕES OPORTUNAS SEÇÃO III A Mensageira que Escuta dos deveres e perigos do povo de Deus do que aqueles a quem estas coisas nunca foram apresentadas? Não desonraria meu Mestre admitindo que toda essa luz, toda a manifes- tação de Seu grande poder em meu trabalho e vida, foi inútil, não tendo logrado educar meu juízo ou tornar-me mais idônea para Sua obra.”30 Ellen White crescia, guiada pelo Espírito de Deus. A maior parte dos mileritas que não rejeitaram a experiência de 1844 cria que “a porta se fechou” (Mat. 25:10) para aqueles que haviam rejeitado sua mensagem do “cla- mor da meia-noite”, bem como para a popu- lação em geral.31 O grupo em desenvolvi- mento que veio a ser conhecido como adven- tistas sabatistas, do qual Tiago e Ellen White faziam parte, também manteve essa crença por alguns anos. Mas as primeiras visões da Sra. White mostraram-lhe o significado do dia 22 de ou- tubro de 1844, e que a porta estava fechada apenas para aqueles que haviam consciente- mente rejeitado a luz da verdade. É muito provável que, sem a liderança visionária de Ellen White, os adventistas sabatistas não tivessem um quadro tão amplo dos aconteci- mentos celestiais relacionados com o dia 22 de outubro. Seu conceito animador e instru- tivo quanto ao papel dos adventistas do séti- mo dia na transmissão do último convite di- vino ao mundo se tornou o elemento central e unificador da igreja. Corrigida Através de uma Visão O horário de iniciar-se o sábado semanal foi outra questão doutrinária sobre a qual a Sra. White foi corrigida através de uma visão – uma história instrutiva sobre a maneira como Deus guia mansamente Seu povo por meio de Seus mensageiros. Na sexta-feira, 16 de no- vembro de 1855, a Associação Geral reunida em assembléia recepcionou o sábado às 18h, embora o Sol se houvesse posto uma hora an- tes. Encerraram o sábado, no dia seguinte, ao pôr-do-sol! O que aconteceu? Durante anos os adventistas haviam segui- do o raciocínio de José Bates, de que o ocaso do Sol no equador (18h) seria a maneira mais uniforme de lidar com o sábado num mundo esférico, independente da época do ano.32 (Iniciar e encerrar o sábado no nascer do Sol ou à meia-noite eram outras opções.) Alguns crentes, porém, levantaram a ques- tão de Levítico 23:32: “Duma tarde a outra tarde, celebrareis o vosso sábado.” Procuran- do unificar os pontos de vista, Tiago White havia pedido a John N. Andrews que fizesse um estudo da Bíblia sobre o assunto e prepa- rasse um documento. Quando este documen- to foi lido no sábado de manhã na assembléia da Associação Geral de 1855, a questão ficou solucionada para Tiago White e o restante dos delegados – todos, com exceção de José Bates e Ellen White! Dias depois, em 20 de novembro, a Sra. White teve uma visão que tratava de muitos assuntos, inclusive a ratificação do estudo bí- blico de Andrews. Tanto ela quanto José Ba- tes se renderam de todo o coração. O estudo bíblico, confirmado pela visão, continuou a ser a regra geral no desenvolvimento da teo- logia adventista.33 Comentando depois, Uriah Smith escre- veu: “Para que ninguém dissesse que a irmã White, havendo mudado de idéia, teve uma visão em conformidade com isto, de- clararemos que o que foi mostrado em visão com respeito ao começo do sábado era con- trário a sua opinião na ocasião em que a vi- são foi dada.”34 A atitude de Ellen White para com o consumo de carne de porco foi outro exem- plo de como a luz progressiva mudou sua in- terpretação pessoal das Escrituras. Em 1858, ela escreveu aos Haskell (irmão e irmã A) sobre alguns pontos, repreendendo-os por insistirem em que comer carne suína era uma violação de Levítico 11:7: “Vi que suas idéias sobre a carne de porco não seriam pre- judiciais se vocês as retivessem para si mes- mos, mas, em seu julgamento e opinião, os irmãos têm feito deste assunto uma prova. ... Se Deus achar por bem que Seu povo se abs- tenha da carne de porco, Ele os convencerá a este respeito.”35 Por que Deus não disse a Ellen White que o estudo bíblico de Haskell sobre Levítico es- tava correto, seguindo o padrão geral de confirmar o estudo bíblico pela luz revelada em visão? Parte da resposta pode ser encontrada na nota escrita por Tiago White na segunda im- pressão deste testemunho a Haskell: “Este notável testemunho foi escrito em 21 de ou- tubro de 1858, cerca de cinco anos antes da grande visão de 1863, na qual a luz sobre a reforma de saúde foi dada. No devido tempo o assunto foi dado de maneira a persuadir to- do o nosso povo. Quão maravilhosas são a sabedoria e a bondade de Deus! Pode ser tão errado insistir agora na questão do leite, sal e açúcar, quanto na questão da carne de porco em 1858.”36 A visão da reforma de saúde de 6 de junho de 1863 revelou grande e ampla quantidade de princípios de saúde.37 Em 1864 Ellen White fez sua primeira apresentação pública dessa visão, um capítulo de cinqüenta e cin- co páginas intitulado “Saúde”, no volume 4 do livro Spiritual Gifts. Com referência à car- ne de porco, ela disse: “Jamais foi propósito de Deus que a carne suína servisse de alimen- to sob quaisquer circunstâncias.”38 Em 1865, ela preparou uma série de seis artigos sob o título Health, or How to Live.39 Nesta série ela ampliou as conseqüências pre- judiciais do consumo de carne suína, fato que continuou a enfatizar em livros posteriores.40 Lições Aprendidas Que podemos aprender dessa experiência pe- la qual Ellen White mudou de opinião entre 1858 e 1863? (1) Ela não havia recebido de Deus luz sobre a carne suína antes de 1863. (2) Ela achava que isso não devia criar divi- são entre os adventistas; não era uma questão de prova. (3) Quando Deus torna Sua vonta- de conhecida, ela será revelada a mais de “duas ou três pessoas. Ele ensinará a Sua igre- ja o dever dela”.41 A prova da lógica envolvi- da em sua mudança de opinião sobre o comer carne suína é que, quando a visão foi dada, toda a igreja compreendeu a questão clara- mente e nunca mais houve divisão com res- peito a este assunto.42 Comunicar Reprovação – uma “Cruz” Ellen White era uma adolescente tímida e frágil quando Deus lhe disse para relatar suas visões a outros. Conforme vimos, nem todas as suas visões ou sonhos encerravam conteúdo teológico. Alguns continham re- provação e conselho a indivíduos. Às vezes a reprovação era severa e nem sempre apre- ciada. A Sra. White se esquivava de seus deveres proféticos.43 Descrevendo a experiência por que passou em 1845, quando contava 18 anos de idade, Ellen White escreveu: “Era uma terrível cruz para mim relatar aos errantes o que me fora mostrado a respeito deles. Causava-me gran- de angústia ver os outros perturbados ou des- gostosos. E, quando obrigada a apresentar as mensagens, desejava muitas vezes suavizá-las e fazê-las parecer tanto quanto possível favo- ráveis às pessoas, e depois me retirava e cho- rava em aflição de espírito.”44 Em uma carta escrita em 1874, ela relem- brou os trinta anos passados: “Tenho senti- do durante anos que se eu pudesse escolher o que quisesse e também agradar a Deus, preferiria morrer a ter uma visão, pois toda visão me coloca sob a grande responsabili- dade de dar testemunhos de repreensão e de advertência, o que sempre se tem oposto a meus sentimentos, causando-me inexprimí- vel aflição de alma. Nunca ambicionei mi- nha posição, e, contudo, não ouso resistir ao Espírito de Deus e buscar uma posição mais fácil.”45 Em 1880, na época com 52 anos de idade, Ellen White estava na reunião campal de Vermont, onde devia apresentar vários teste- munhos. Ela se referiu a essas grandes respon- sabilidades pessoais: “Além de minhas ativi- dades em comunicar a verdade, tenho tido muitos testemunhos individuais para escre- ver, o que tem sido um fardo bastante pesado para mim.” (“Comunicar a verdade” envolvia seus sermões diários, chamados ao altar e sua costumeira palestra sobre temperança aos do- mingos à tarde, em Vermont, para auditórios de 1.000 a 4.000 pessoas.) Com referência a um casal, ela escreveu: “Tive que realizar al- guns trabalhos muito ruins, muito ruins mes- mo. Chamei o irmão Bean e a esposa e con- versei com eles com muita franqueza. Eles não se rebelaram contra isto. Não pude con- ter-me, chorei.”46 156 157 M E N S A G E I R A D O S E N H O R O ministério profético de Ellen G. White
  • 88. CAPÍTULO 15 INSTRUÇÕES E PREDIÇÕES OPORTUNAS SEÇÃO III A Mensageira que Escuta Algumas Visões Continham Predições Conforme já vimos na página 29, a responsa- bilidade de um profeta abrange mais do que predizer o futuro. Os profetas são, antes de tu- do, mensageiros de Deus, Seus prenunciado- res, não necessariamente Seus videntes. Ape- sar disso, os profetas de vez em quando rece- bem informações e instruções que efetiva- mente predizem o futuro. Ellen White predisse eventos específicos e atividades ou tendências em geral. Alimento Para Vermes A assembléia de Battle Creek, realizada em 27 de maio de 1856, é lembrada especial- mente em virtude de uma visão incomum a respeito de algumas pessoas que estavam no auditório.47 No meio do relato encontra-se esta predição: “Foi-me mostrado o grupo presente à assembléia. Disse o anjo: ‘Alguns servirão de alimento para os vermes, alguns estarão sujeitos às sete últimas pragas, ou- tros estarão vivos e permanecerão sobre a Terra para serem trasladados na segunda vinda de Jesus.’” O que significava isso? Três dias depois da as- sembléia, Clarissa Bonfoey morreu. (Clarissa Bonfoey era amiga íntima dos White, a quem eles haviam confiado Edson durante seus pri- meiros anos de vida, enquanto não possuíam casa própria.) Essa irmã parecia estar bem de saúde por ocasião da assembléia. Ao sentir aproximar-se a morte, expressou a convicção de que ela era uma das pessosas que foram repre- sentadas na visão que serviriam de “alimento para os vermes”.48 Durante anos, algumas pessoas mantive- ram listas dos presentes àquela assembléia, crendo que Jesus voltaria antes que todas elas morressem. Mas Ellen White havia apresen- tado um quadro do que poderia ter sido se o povo de Deus houvesse despertado para sua divina missão. A Sra. White não deve ser submetida a um padrão mais elevado e mais restrito do que aquele que aplicaríamos aos profetas bíblicos.49 Em 1883, ela precisou es- crever: “É verdade que o tempo tem prosse- guido mais do que esperávamos nos primeiros tempos desta mensagem. Nosso Salvador não apareceu tão depressa como esperávamos. Fa- lhou, porém, a Palavra do Senhor? Nunca! Devemos lembrar que as promessas e ameaças de Deus são igualmente condicionais. ... “Houvessem os adventistas, depois da grande decepção de 1844, ficado firmes na fé, e seguido avante em união no caminho aber- to pela providência de Deus, recebendo a mensagem do terceiro anjo e proclamando-a ao mundo, no poder do Espírito Santo, have- riam visto a salvação de Deus, o Senhor ha- veria cooperado poderosamente com seus es- forços, a obra se haveria completado, e Cris- to haveria vindo antes disto para receber Seu povo para lhes dar o galardão.”50 Guerra Civil Ellen White recebeu sua primeira visão sobre a Guerra Civil em uma tarde de sábado, 12 de janeiro de 1861, em Parkville, Michigan. Du- rante aproximadamente vinte minutos a con- grega