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Revista Camponesa Nº 1
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A Revista Camponesa é de autoria da Associação de Apoio ás Comunidades do Campo - AACC/RN e este primeiro número tem como tema a SOBERANIA ALIMENTAR. Entrevistas com especialistas e ativistas do movimento social além de um artigo sobre a ação da AACC/RN no município de São Miguel do Gostoso.

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  • A Revista Camponesa é uma publicação da Associação de Apoio às Comunidades do Campo - AACC/RN, de distribuição gratuita, e, neste primeiro número, se propõe a discutir o tema da SOBERANIA ALIMENTAR. Entrevistas com especialistas e ativistas do movimento social além de um artigo sobre a ação da AACC/RN, em São Miguel do Gostoso, entre outros, compõem a revista.
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Revista Camponesa Nº 1

  1. 1. C A MPONESA Camponesa - Novembro de 2009 www.aaccrn.org.br ACC /RN Re vi s RN - A ta da A mpo d o s so ciaçã o d e Apo io à s Co muni da des do Ca Ano I - Número 01 - Novembr o de 200 9 Soberania Carlo Petrini Alimentos bons, limpos e justos alimentar Neneide Lima “Eu gosto de ser trabalhadora rural” Marília Leão Alimentação saudável é um direito humano inviolável 1
  2. 2. Camponesa - Novembro de 2009 www.aaccrn.org.br Editorial A Revista Camponesa é uma publicação semestral, de distribuição gratuita, e visa fortalecer o trabalho que esta instituição e seus parceiros desenvolvem no âmbito da agroecologia, economia solidária e gênero no RN, em particu- lar, na região do Mato Grande e no município de São Miguel do Gostoso. A Revista proporciona debater temas essenciais para a vida das pessoas na contempo- Esta publicação foi realizada com raneidade ao mesmo tempo em que dá visibilidade à ação realizada pela AACC/RN apoio da Fundação Konrad Adenauer e suas parcerias, acreditando que as questões que dizem respeito aos agricultores Fortaleza. O seu conteúdo não expressa e agricultoras familiares têm a ver com o conjunto da sociedade. Assim fortalece necessariamente a opinião da Fundação Konrad Adenauer. sua missão de “contribuir com a autodeterminação das agricultoras e agricultores familiares do Rio Grande do Norte através dos processos de agroecologia, economia solidária e convivência com o semiárido”. Nesta primeira edição, a Revista discute o tema “Soberania Alimentar” e conta com a colaboração dos seguintes pesquisadores, especialistas e/ou ativistas Conselho editorial: do movimento social: Carlo Petrini, sociólogo, jornalista e presidente da Fundação Antonia Geane Costa Bezerra Slow Food; Angela Küster, coordenadora do Projeto Agricultura Familiar, Agro- Bethânia Lima Silva ecologia e Mercado (AFAM) desenvolvido pela Fundação Konrad Adenauer (KAS); Emerson Inácio Cenzi Henrique Carneiro, professor do Curso de História da Universidade de São Paulo Haroldo Gomes da Silva (USP); Francisca Eliane (Neneide), coordenadora da Rede Xique Xique de Comer- Paulo Segundo e Silva cialização Solidária; Severina Carvalho, nutricionista; e Marília Leão, presidente da Ação Brasileira pela Nutrição e Direitos Humanos (ABRANDH) e conselheira Textos: representante da sociedade civil no Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Bethânia Lima Silva Nutricional (CONSEA). Haroldo Gomes da Silva Além das entrevistas, a Camponesa traz uma reportagem de Bethânia Lima sobre alguns experimentos em soberania alimentar e agricultura familiar Fotografia: em São Miguel de Gostoso e um artigo de Emerson Cenzi sobre o Censo Agro- Rodrigo Sena pecuário 2006, entre outros. A poesia “Cálice da Natureza”, na contracapa, é de au- Bethânia Lima Silva toria do poeta potiguar, Janduhi Medeiros, retirada de seu livro “Mensageiro das Haroldo Gomes da Silva Oiticicas”, de 2007. Neste número, contamos com a colaboração especial de Mariana Gui- Revisão: marães na tradução da entrevista a Carlo Petrini além do empenho, solidariedade e Bethânia Lima Silva apoio de toda a equipe de trabalho da AACC/RN. Mas esta publicação não seria pos- Haroldo Gomes da Silva sível sem a valiosa colaboração da Fundação Konrad Adenauer, a quem a AACC/RN Ariana Lopes Correia de Paiva agradece. Esperamos que esta Revista se constitua em alimento para a alma de espíri- Projeto gráfico tos livres desejosos de construir relações saudáveis, harmônicas e duradouras das e Diagramação: pessoas entre si e na relação com o meio ambiente em que vivem. Como diz Luís da Robson Nunes Câmara Cascudo: De todos os atos naturais, o alimentar-se foi o único que o homem cercou de Impressão: cerimonial e transformou lentamente em expressão de sociabilidade, ritual político, Offset Gráfica aparato de alta etiqueta. Compreendeu-lhe a significação vitalizadora e fê-la uma fun- ção simbólica de fraternidade, um rito de iniciação para a convivência, para a confiança Tiragem: na continuidade dos contatos (História da Alimentação no Brasil, p.36). 2000 exemplares A todas e todos uma ótima leitura e uma passagem de ano muito feliz! C A MPONESA Re vi s ta da A do RN - AAC C /RN ampo s so ciaçã o de Apo io à s Co muni dad e s d o C Ano I - Número 01 - Novembr o de 200 9 Soberania Carlo Petrini Alimentos bons, limpos e justos alimentar Neneide Lima “Eu gosto de ser trabalhadora rural” Marília Leão Alimentação saudável é um direito humano inviolável 2 Foto capa: Rodrigo Sena
  3. 3. Camponesa - Novembro de 2009 www.aaccrn.org.br NESTA EDIÇÃO Entrevistas 04 Carlo Petrini Alimentos bons, limpos e justos 07 Angela Küster O modelo é a agricultura familiar agroecológica 09 Henrique Carneiro O modelo alimentar do fast-food é pernicioso 11 Neneide Lima “Eu gosto de ser trabalhadora rural” 15 Severina Araújo Alimentação equilibrada é essencial para a vida 16 Marília Leão Alimentação saudável é um direito humano inviolável Reportagem 20 Quando o alimento é mais gostoso Com o apoio da AACC/RN, famílias rurais de São Miguel do Gostoso vivenciam a agricultura familiar de forma organizada e baseada na agroecologia Seções 19 Curtas 29 Para Aprofundar 31 Artigo: Emerson Cenzi - A agricultura familiar alimenta o Brasil 3
  4. 4. Camponesa - Novembro de 2009 www.aaccrn.org.br Entrevista: Carlo Petrini Alimentos bons, limpos e justos Na opinião de Carlo Petrini vivemos um momento de crise econômica, energética e agrícola e o futuro da alimentação exige mudanças nos hábitos de consumo pois a maior parte dos danos que a nossa terra sofreu até agora se deve à produção de alimentos O “ poder que o consumidor possui simplesmente pelo fato de escolher dia- riamente o próprio alimento é inacreditável: exercitá-lo com consciência e responsabilidade é um dever, um ato de civilidade, em relação a si próprios, às próprias famílias, às próprias comunidades e aos próprios povos”, afirma Carlo Petrini, presidente do movimento Slow Food. Na entrevista que concedeu à Cam- ponesa, considera que “estamos vivendo tempos muito difíceis” e que “é necessário re- definir todo o sistema atual, baseado no consumo”. Afirma ainda que “o bom, o limpo e o justo são os três adjetivos que definem em modo elementar as características que deve ter um alimento para responder a exigências de nós, ecogastrônomos” e que a principal via pela qual realiza “um percurso em relação ao bom, limpo e justo é aquela da economia para o re-posicionamento dos consumos e das produções agrícolas”. Carlo Petrini é italiano, estudou sociologia na Universidade de Trento e logo se envolveu com a política local e com o trabalho associativo. Entre suas muitas cria- ções está a Universidade de Ciências Gastronômicas, em Pollenzo e Colorno, a primeira instituição acadêmica a oferecer um acesso multidisciplinar nos estudos da alimenta- ção; é ele também que está por trás do Terra Madre, fabuloso encontro de 5.000 produ- tores de todo o mundo, ocorrido em Turim, para discutir problemas comuns e suas possíveis soluções. O seu último trabalho Buono, Pulito e Giusto. Principi di uma Nuova Gastronomia foi publicado em 2005 pela editora Einaudi e em 2009 foi traduzido para o português pela SENAC de São Paulo (Brasil) com o título “Slow Food, princípios da nova gastronomia”. No livro, Petrini descreve o desenvolvimento da teoria da “ecogas- tronomia”. O livro também foi traduzido para o inglês, francês, espanhol, alemão e po- lonês. Em 2001, seu livro Le ragioni del gusto foi publicado pela Laterza e em 2003 foi traduzido para o inglês como The Case for Taste pela Columbia University Press. Em janeiro de 2008 foi o único italiano a aparecer na lista das ‘50 People Who Could Save the World’ (50 pessoas que poderiam salvar o mundo) realizada pelo prestigiado jornal inglês The Guardian. Camponesa – O que é o movimento Slow a beneficiar-se deste prazer: uma atitude Camponesa – Como tem sido a aceitação no Food? Como surgiu? que chamamos de ecogastronomia, capaz Brasil e, em particular, no Nordeste? Na metade dos anos 80, o frenesi de unir o respeito e o estudo da cultura O Brasil - um país que possui uma consumista tinha invadido totalmente a enogastronômica sustentando aqueles que extraordinária biodiversidade agrícola, gas- Itália, de tal forma que se estava perden- atuam em todo o mundo para defender a tronômica, cultural e lingüística – há diversos do o contato com a terra, as tradições, as biodiversidade agroalimentar. anos tornou-se um interlocutor fundamental próprias receitas, em poucas palavras, as Partimos de 1986 do Piemonte, na do Slow Food. Em 2003 o Prêmio Slow Food raízes da identidade de cada um de nós. Itália, para nos tornarmos em 1989 uma asso- para a Biodiversidade foi concedido à tribo Quisemos iniciar da mesa, do alimento não ciação internacional que conta hoje com 100 indígena Krahô, na Amazônia nasceu uma das visto simplesmente como nutrimento, mas mil sócios em 130 países. primeiras Fortalezas internacionais (o Guaraná como elemento de prazer decorrente da Nativo dos Sateré-Mawé) e em 2004 o Ministé- possibilidade de apreciar as diversas recei- rio do Desenvolvimento Agrário do Brasil assi- tas e sabores, reconhecer as variedades dos “Para garantir alimentos nou um acordo que oficializou uma longa rela- locais de produção e dos artesãos, respeitar bons, limpos e justos, o con- ção de amizade e colaboração. Mas o grande os ritmos das estações e a convivência. Hoje desafio do Slow Food no Brasil é a mobilização estamos convencidos da necessidade de as- sumidor deve começar a se de todos os setores da sociedade, e temos con- sociar um novo sentido de sensibilidade ao sentir co-produtor” seguido superar este desafio com a criação de prazer e à reivindicação do direito de todos novos Convivia, os núcleos locais de sócios, e o 4
  5. 5. Camponesa - Novembro de 2009 www.aaccrn.org.br envolvimento cada vez maior de chefs, jovens “Comer torna-se um ‘ato dos sistemas produtivos agroalimentares – as e acadêmicos que juntos poderão permitir a comunidades do alimento representam um inserção do pequeno produtor na própria co- agrário’, e selecionando exemplo brilhante do que poderia significar munidade. Hoje temos no Brasil cerca de 600 sócios e este número vem crescendo exponen- alimentos de boa qualidade, pronunciar as palavras “economia local” ou “economia da natureza”. cialmente. No Nordeste, temos importantes produtos com critérios de Trata-se de pequenos produtores, projetos para a defesa da sua biodiversidade ambiental e cultural, como a Fortalezas do Ar- respeito pelo ambiente criadores, pescadores, coletores de produtos silvestres, artesãos do mundo agroalimentar roz Vermelho do Vale do Piancó na Paraíba e e pelas tradições locais, que a cada dois anos apresentam os seus tra- do Umbu no sertão baiano. Chefs de Fortaleza e Salvador estão se unindo a acadêmicos do podemos favorecer a biodi- balhos em nível local na grande sede mundial de Terra Madre4, em Turim (www.terramadre. Maranhão e sócios espalhados ao longo de es- versidade e uma agricultura org). As comunidades do alimento geral- tados do Nordeste brasileiro promovendo uma mente atual na cadeia curta, ou em cadeias área com uma riqueza ainda pouco reconhe- igualitária e sustentável” longas altamente sustentáveis e baseadas cida e valorizada. no conhecimento recíproco dos envolvidos. complexa esfera de sentimentos, recorda- A comunidade é o local, o contexto, no qual Camponesa – Na visão do movimento Slow ções e aspectos determinantes de identidade, pode-se realizar o conceito de “adaptação lo- Food, qual o futuro da alimentação? decorrentes do valor afetivo do alimento; cal” que teorizou Wendell Berry5. É necessário Estamos vivendo tempos muito limpo, ou seja, produzido sem estressar a pressionar o quanto for possível para re-posi- difíceis, a crise que estamos atravessando é terra, respeitando os ecossistemas e o ambi- cionar produções e consumos, vida social e ao mesmo tempo econômica, energética e ente; justo, que quer dizer conforme com os tradições sem renunciar ao comércio e à troca agrícola. Não podemos considerá-la e en- conceitos de justiça social nos ambientes de que nos garantem a rede, mas fortalecendo as frentá-la como se fosse um momento de pas- produção e de comercialização. comunidades locais e as suas características sagem. É necessário redefinir todo o sistema de funcionamento. atual, baseado no consumo. É muito recente a 1A Global Footprint Network foi criada em 2003 e dedica-se a estimular o surgimento de um mundo no qual todas as notícia do Global Footprint Network1 de que pessoas tenham oportunidade de viver satisfeitas, dentro das possibi- 4 A rede Terra Madre é constituída por todos aqueles que querem agir para preservar, encorajar e promover métodos de o overshoot day2 aconteceu no dia 25 setem- lidades da capacidade ecológica da Terra. É responsável pela “Pegada produção alimentar sustentáveis, em harmonia com a natureza, a Ecológica”, que mede o grau em que as demandas ecológicas das eco- bro, ou seja, o dia que teremos terminado de nomias humanas respeitam ou ultrapassam a capacidade da biosfera paisagem e a tradição. 5 Wendell Berry é um ensaísta americano, autor de consumir as reservas que a natureza nos dis- de fornecer bens e serviços. livros como Know That What You Eat You Are (“Saiba que o que Você 2 Uma semana após o estouro da bolha econômi- ponibilizou para o ano em curso. A cada ano, co-financeira, no dia 23 de setembro, ocorreu o assim chamado Come, Você É”) e Life is a Miracle (“A Vida é um Milagre”). o dia no qual entramos em débito ecológico e Earth Overshoot Day, quer dizer, “o dia da ultrapassagem da Terra”. de excesso de consumo antecipa-se no calen- Grandes institutos que acompanham sistematicamente o estado da Terra anunciaram: a partir deste dia o consumo da humanidade, em Camponesa – Qual o papel do consumidor dário. Em 1986, ano do primeiro alarme, o 2008, ultrapassou em 40% a capacidade de suporte e regeneração na promoção de uma cultura do gosto e da overshoot aconteceu em 31 de dezembro. Em do sistema-Terra. Ou seja, a humanidade está consumindo um pla- neta inteiro e mais 40% dele que não existe. convivência? 1995 a falência ecológica aconteceu no dia 21 3 O Millennium Ecosystem Assessment (Avaliação A esfera sensorial do homem con- do Milênio de Ecossistemas, MA) foi pensado para fornecer parte de novembro. Dez anos depois as contas com da informação científica necessária para a implementação da Con- temporâneo claramente empobreceu. O tato, a natureza entraram no vermelho já no dia 2 venção da Diversidade Biológica, da Convenção do Combate à De- o gosto e o odor sofreram uma profunda re- sertificação e da Convenção das Áreas Húmidas. O MA foi lançado de outubro. Agora retrocedemos até o dia 25 a nível mundial pelo Secretário Geral das Nações Unidas em Junho gressão. O tempo cada vez mais escasso e a de setembro: consumimos 40% a mais do que de 2001. É uma avaliação multi-escala, consistindo em avaliações velocidade das nossas vidas nos estão privan- interligadas aos níveis global, sub-global e local. Existem cerca de a terra pode gerar. Em 2050, se a crise ener- 15 avaliações sub-globais aprovadas, entre as quais as da Noruega, do dos instrumentos que nos podem consen- gética não nos tiver obrigado a adotar a sa- do Sul de África, da América Central e da China. A Avaliação Portu- tir um conhecimento mais profundo, variado guesa foi iniciada em Maio passado e irá decorrer até meados de bedoria ecológica para manter as contas em 2005. É liderada pelo Centro de Biologia Ambiental da Faculdade e autêntico do mundo que está à nossa volta. paridade, teremos necessidade de um pla- de Ciências da Universidade de Lisboa (FCUL). Por isso, treinar novamente os nossos senti- neta gêmeo para usar como supermercado dos e aguçar a percepção, são os principais e retirar as matérias-primas, água, florestas e Camponesa – Como se vinculam os con- instrumentos que pequenos e grandes con- energia. ceitos de soberania alimentar e economia sumidores devem possuir para se re-apropriar Se pensarmos ainda que a maior solidária? De que forma o movimento Slow da própria capacidade de decidir com qual ali- parte dos danos que a nossa terra sofreu até Food se relaciona com eles? mento nutrir-se. Destas considerações, nasce agora se deve à produção de alimento, como A principal via pela qual realizar um o projeto de Educação do Gosto, destinado a se nota no relatório da ONU Millennium Eco- percurso em relação ao bom, limpo e justo é educar as crianças para desenvolver a sensori- system Assesment3, entendemos que a forma aquela da economia para o re-posicionamen- alidade, fazendo-as compreender a importân- como nos relacionamos com a gastronomia é to dos consumos e das produções agríco- cia dos produtos alimentares como parte inte- central para o nosso futuro. las. A economia de mercado, assim como a grante da cultura das sociedades. Comer torna-se um “ato agrário”, e conhecemos e como está organizada graças Com relação ao grande público, a selecionando alimentos de boa qualidade, também às dinâmicas da globalização, está melhor ideia foi sem dúvida a dos Laboratóri- produtos com critérios de respeito pelo am- revelando enormes limites econômicos. Seja os do Gosto, que recolhem exigências do con- biente e pelas tradições locais, podemos fa- do ponto de vista da sustentabilidade das suas sumidor contemporâneo: o desejo do contato vorecer a biodiversidade e uma agricultura atividades, seja por seu modo de gerar rique- direto, da prova em uma degustação guiada, igualitária e sustentável. Bom, limpo e justo za. Os seus maiores expoentes são conscientes enfim, a recuperação da sensorialidade; a são os três adjetivos que definem em modo que “anti-ecologia” começa evidenciar-se cada aproximação do alimento como diversão e elementar as características que deve ter um vez mais como uma “anti-economia”. ato gratificante mais do que necessidade ou alimento para responder às exigências de nós, Em um quadro deste tipo – cujas obrigação nutricional; o suprimento da curio- eco-gastrônomos. Bom, relaciona-se com as causas devem ser identificadas também nas sidade em relação aos alimentos, às vezes rara sensações de prazer derivadas das qualidades mudanças que sofreram o sistema agrícola e preciosa, unido à gratificação intelectual de sensoriais de um alimento, mas também à mundial, na industrialização, na centralização conhecer a história e a particularidade. 5
  6. 6. Camponesa - Novembro de 2009 www.aaccrn.org.br Para garantir alimentos bons, lim- “A esfera sensorial do homem do. Conferências, laboratórios, degustações, pos e justos, o consumidor deve começar a atividades de educação do gosto para crian- se sentir co-produtor. O tempo do consumi- contemporâneo claramente ças e adultos e, sobretudo a possibilidade de ir dor terminou: ele literalmente consome o a fundo nos argumentos ligados ao alimento mundo e é figura chave da sociedade base- empobreceu” que hoje se encontram nos discursos de todo o ada na economia de mercado resultando, mundo mas somente em nível superficial, sem para sua infelicidade, em ser o cúmplice prin- mais estão na base do nosso futuro produtivo aprofundamento. No entanto, o movimento de cipal do massacre que a terra está sofrendo. se quisermos frear as mudanças climáticas. As ideias que lançamos não se limita somente à Educando-nos, conhecendo os produtos, os notícias que nos chegam são, no entanto muito estrutura associativa, com Terra Madre nasceu próprios produtores, as técnicas para alimen- mais preocupantes e, sobretudo, relacionam-se uma rede mundial de pessoas que valorizam a tar-se melhor e poluir menos, o co-produ- menos com este simples compartimento mas diversidade do nosso planeta e que atuam para tor, inserido em sua comunidade, torna-se com a modalidade abrangente de produção preservá-lo, para nós e para as gerações futuras. concretamente e individualmente o motor e de fluidez das reservas. Deve-se então não No próximo 10 de dezembro, para celebrar os 20 de uma verdadeira mudança. O poder que o reiniciar como se nada acontecesse, não in- anos do nascimento do Slow Food, uma grande consumidor possui simplesmente pelo fato sistir no relançamento de consumos que não jornada de mobilização acontecerá em todo o de escolher diariamente o próprio alimento podem ser a solução para esta crise. É ne- mundo envolvendo sócios e líderes de todos os é inacreditável: exercitá-lo com consciência e cessário repensar o modelo de produção que convivia, pequenos produtores, criadores e pes- responsabilidade é um dever, um ato de civi- todos nós escolhemos e que acreditamos ser cadores de todas as comunidades do alimento lidade, em relação a si próprios, às próprias único e indiscutível e ter a coragem de confiar e das Fortalezas, professores e estudantes de famílias, às próprias comunidades e aos novamente nas economias de pequena esca- hortas escolares. Cada um poderá promover o próprios povos. la, as únicas em condição de dar uma resposta tema central da filosofia do Slow Food: o acesso eficaz e radical à situação atual, as únicas em a um alimento bom, limpo e justo; a biodiver- Camponesa – Há quem diga que as raízes da condição de serem auto-suficientes porque sidade; a produção em pequena escala; a so- fome e da desnutrição no Brasil associam- mantêm uma estreita relação com a própria berania alimentar; o conhecimento das línguas, se a duas dimensões interdependentes de terra, as próprias tradições, os próprios ali- das culturas e das tradições; a produção que uma mesma crise de nosso modelo de de- mentos. respeita o meio ambiente; o comércio équo e senvolvimento: baixo poder aquisitivo da sustentável. Em programa haverá pequenos população e insuficiência de produção de Camponesa – Como as pessoas podem par- encontros e grandes eventos: degustações e alimentos para o consumo interno. À luz ticipar do movimento Slow Food? jantares, filmes e concertos que ressaltam a im- da experiência do movimento Slow Food, Slow Food é uma associação, então portância de um alimento bom, limpo e justo; como enfrentar essas questões? o primeiro passo é tornar-se sócio, desta forma visita a produtores de Terra Madre, campanhas O respeito pelo meio ambiente, a cada um pode participar das iniciativas do de sensibilização, atividades de educação ali- tutela dos territórios, a pureza das águas, a de- próprio Convivium, os grupos locais nos quais mentar e do gosto; encontros entre produtores,

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