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Livro presídio  2013
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Livro presídio 2013

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  • 1. Vânia M. Lino, Wesley Campos G. Soares (Org.)Alunos da 1ª Etapa da Educação de Jovens eAdultos - EJA“E quando a solidãobate à porta?”3º edição2013
  • 2. 2Vânia M. Lino, Wesley Campos G. Soares (Org.)Alunos da 1ª Etapa da Educação de Jovens eAdultos - EJA“E quando a solidãobate à porta?”3º edição2013
  • 3. 3Governador do Estado de GoiásMarconi Ferreira Perillo JúniorSecretário de Estado da EducaçãoThiago Mello Peixoto da SilveiraSubsecretária Regional da Educação de UruaçuDania Solange Wobeto de FreitasTutora PedagógicaGilda de Fátima Mizael LopesColégio Estadual Professor Joaquim Francisco SantiagoDiretoraSimone Pires GomesVice-DiretoraMaria das Dores de Oliveira GonçalvesSecretária GeralAlcimária Antunes Borges MartinsCentro de Inserção Social de NiquelândiaDiretorGecélio Ferreira de AlmeidaSala de Aula Professora Querobina Daniel da SilvaExtensão do Colégio Estadual Professor Joaquim Francisco SantiagoCoordenadora PedagógicaLucilene Barbosa FiúzaEdição de texto:Vânia Moreira Lino / Wesley Campos G. Soares
  • 4. 4Edição de arte:Vânia Moreira Lino / Wesley Campos G. SoaresIlustração da capa:Vânia Moreira LinoRevisão:Vânia Lino e Wesley CamposImpressão:Vânia Lino e Wesley CamposAutoresAltiely Rodrigues da SilvaCélio Ferreira FrancoDeigivânio Barbosa de BarrosDilvange Perira de BritoEdivaldo Madureira TaveiraEliel França dos ReisJoão Batista Xavier FilhoLuciano Vicentin dos SantosOdair Domingos da SilvaOscalino Reges RodriguesOsvaldo Chaves MonteiroSamuel Francisco da SilvaSuelber Sidney Belos de LemosValdivino Rosa de SouzaWedson Tiburcio dos SantosWelliton Francisco da Silva
  • 5. 5SOBRE OS AUTORESOs alunos referidos nessa obra não são exatamente iguais aosdemais, pois possuem uma experiência de vida diferente. São pessoasque erraram e que desejam cumprir suas penas para se libertar do jugoque se transformou suas vidas. São pessoas que constroem ereconstroem suas histórias a partir do muito pouco oferecido na tristerealidade de um presídio.No cotidiano das suas atividades procuram dar o melhor de si,para quem sabe o dia passar mais rápido, ou para tentar extrair desseambiente tão triste, um pouco de alento para suas almas.São pessoas que apesar de não possuírem muitas alegrias eexpectativas, não desistem, buscam incansavelmente a liberdade e adignidade como cidadãos. Enfim, são seres humanos comuns quealmejam uma vida melhor, de recomeço, tropeços, e quem sabe erros,mas, sobretudo, uma vida intensa, verdadeira e digna, para entãopoderem ser verdadeiramente denominados cidadãos.Wesley Campos Gomes Soares
  • 6. 6AGRADECIMENTOSÀ Deus por nos permitir vislumbrar horizontes outroradesconhecidos.À Equipe Gestora do Colégio Estadual Professor JoaquimFrancisco Santiago pelo apoio e credibilidade dispensados a nós,durante o trabalho.Aos professores pelo apoio e dedicação.Ao Gecélio Ferreira de Almeida, diretor da Agência Prisional,pela contribuição e empenho na realização desse projeto.Ao apoio da Professora Daiane Narciso Dias Lima, queassumiu a sala, dando continuidade ao trabalho iniciado pelaprofessora Coraci Gonçalves da Silva.
  • 7. 7EPÍGRAFE“Sigamos em frente, desviando-nosquando for necessário desviar, curvando-nos quando for necessário curvar. Oraseguindo por caminhos floridos, oraenfrentando corredeiras. Em todos osmomentos, viver a VIDA, que avança cadavez mais bela e majestosa!”Anônimo
  • 8. 8SUMÁRIO Apresentação................................................................................10 Introdução.....................................................................................19 O Passado de Um Presente Desumanizador.................................21 O Recomeço.................................................................................29 Para Início de Conversa...............................................................30 Desalento......................................................................................31 Uma Pequena Luz no Fim do Túnel.............................................33 Um Sono Profundo.......................................................................34 Malandro.......................................................................................35 Cadeia: O Cômodo do Inferno.....................................................36 Deus: Nosso Verdadeiro Amigo...................................................39 A Liberdade..................................................................................40 Jogo de Dama...............................................................................43 Lixo Humano................................................................................44 Dia de Visita.................................................................................47 A Minha Vida na Prisão...............................................................48 Ilusão do Crime............................................................................49 O Valor da Liberdade...................................................................52 Drogas Matam..............................................................................53 O Amor: Espada Invisível............................................................55
  • 9. 9 Código Penal................................................................................56 A Injustiça Social..........................................................................58 Gírias de Prisioneiro....................................................................60 Vida na Roça................................................................................62 A Vida de Um Filho Desobediente..............................................65 Modos de Respeito.......................................................................68 Minha História.............................................................................70 Obrigado Senhor Por Este Dia a Dia............................................73 A Política......................................................................................75 Versos da Pinga............................................................................76 A Minha Vida...............................................................................79 O desencontro/ encontro da vida ...............................................80 Sonho Inesperado.......................................................................82 A Boa Convivência do Ser Humano.........................................84 A Vida de Um Detento...............................................................85 Lembranças................................................................................86 Avião..........................................................................................88 Um Novo Senhor........................................................................89 Referências Bibliográficas ........................................................90
  • 10. 10APRESENTAÇÃOQuando a Subsecretaria Regional de Uruaçu propôs à nossaequipe gestora do Colégio Estadual Professor Joaquim FranciscoSantiago, composta por Simone Pires Gomes, Maria das Dores deOliveira Gonçalves e Shirley Glória Reis, respectivamente, Diretora,Vice–Diretora e Secretária Geral, para que assumíssemos as trêsextensões que funcionam na Escola Municipal Padre ValentinRodrigues (Jardim Atlântico), Escola Municipal São Jorge (Povoadodo Machadinho) e Unidade Prisional (Bairro Santa Efigênia), a partirde agosto de 2010, senti-me bastante apreensiva, sobretudo em relaçãoà última, pois seria uma clientela muito diferente da qual estavaacostumada a trabalhar nas escolas públicas estadual e municipal deensino, ao longo dos vinte anos da minha carreira profissional comoeducadora.Ao visitar pela primeira vez a Unidade Prisional, para conheceros alunos, e a estrutura física da sala, a princípio foi uma situaçãoangustiante e desafiadora, porém o diretor do Presídio à época SenhorGenair da Abadia Souza Vieira, foi muito receptivo e atenciosoconosco, explicando-nos o funcionamento e normas da UnidadePrisional, sempre dando-nos o suporte necessário. Adentraram à salade aula naquele dia, o coordenador pedagógico Wesley CamposGomes Soares, as professoras, na época, Maria Abadia Aparecida eMaria Abadia Honório da Silva, os alunos reeducando e eu, ficando
  • 11. 11registrada em minha memória a conversa que tivemos, mantendo umdiálogo aberto, esclarecedor e respeitoso, com o intuito de nosfamiliarizarmos, pois a partir daquele momento iríamos trabalhar emsintonia para que as atividades pudessem acontecer de formaplanejada.Hoje, tenho uma visão diferente da inicial, encaro asadversidades com mais confiança, sempre acreditando que qualquersituação, por mais dolorosa que seja, não é instransponível, a luzsempre aparece após um dia nebuloso.Os alunos que estudam ali merecem todo o nosso carinho eatenção, independente da falta ou crime que cometeram. Não estoujustificando tais atos ou concordando com os mesmos, apenas, não meconsidero no direito de julgá-los e condená-los. Essa tarefa, cabe àDeus e às autoridades judiciárias legalmente constituídas para isso.Em nossa escola, procuramos trabalhar a Inclusão em seusdiversos aspectos: físicos, psicológicos, comportamentais, sociais,etc., buscando mecanismos para que todos os alunos possamapropriar-se do conhecimento formal, dentro de suas possibilidades ecapacidades cognitivas, independente da faixa etária, série oumodalidade de ensino, tendo direito a uma educação emancipadora,onde os resultados qualitativos sejam superiores aos quantitativos,proporcionando uma educação integral. Se a escola, não tem essamissão ou filosofia no processo de produzir conhecimento, entendoque é uma instituição ineficiente, não isentando a família e as outrasinstituições constituídas (públicas, privadas, igrejas, associações,
  • 12. 12sindicatos, etc.) dessa responsabilidade, pois cada uma, de acordo comas suas atribuições e competências, devem lutar incansavelmente poruma sociedade mais justa, democrática e ética, num regime decolaboração mútuo.Esse livro foi idealizado pela professora Maristela Aidar,diretora do Colégio Estadual Coronel Joaquim Taveira, pois asextensões, na época pertenciam ao referido colégio. A diretora nosinformou sobre o seu desejo de ver essa obra concluída, fato que nosimpulsionou a dar seqüência ao trabalho e agora celebrarmos essagrande conquista.Ressalto ainda o grande empenho que os meus colegasCoordenadores Vânia Moreira Lino e Wesley Campos Gomes Soarestiveram na elaboração desse livro, orientando e recolhendo os textosproduzidos pelos alunos. Muitos desses, já não se encontram naUnidade Prisional, pois cumpriram suas penas e retornaram àsociedade, resgatando a dignidade perdida e vislumbrando melhoresoportunidades de trabalho. Torço para que eles continuem seusestudos fora das grades que por muito tempo os separaram doconvívio familiar e amigos.Vários títulos foram pensados e discutidos para essa obra, sendoescolhido “E Quando a Solidão Bate à Porta?”, pois lendo os textosproduzidos pelos alunos-escritores, tivemos a sensação que mesmodiante de uma cela abarrotada de pessoas, há momentos em que asolidão é a única companheira, talvez, sejam nesses momentos quecada um possa refletir sobre suas condutas e motivos que os levaram a
  • 13. 13passar boa parte de sua existência longe da LIBERDADE, palavra tãoalmejada por todos que ali se encontram.Acredito de forma muito convicta, na capacidade deregeneração do ser humano, basta que ele manifeste através de seuspensamentos e ações o desejo de mudar e toda a sociedade busquemecanismos para ajudá-lo a concretizar o seu desejo.“Embora ninguém possa voltar atrás e fazer um novocomeço, qualquer um pode começar agora e fazer umnovo fim”.(Chico Xavier)Simone Pires GomesDiretora
  • 14. 14Fazer parte de um trabalho como esse, tanto na construção dolivro quanto no cotidiano com os alunos reeducandos, tem sidogratificante, além de estar me proporcionando um imenso crescimentopessoal e profissional. Agradeço de antemão à professora Vânia Lino,por estar junto conosco nesta bela e impressionante empreitada.Ainda na gestão da Professora Maria Abadia Aparecida, entãoDiretora do Colégio Estadual Coronel Joaquim Taveira, uma dasfundadoras da Sala de Aula Professora Querobina Daniel Silva, dentroda Unidade Prisional de Niquelândia-Go ouvi falar do ProjetoEducando para a Liberdade, fiquei curioso para conhecê-lo e, quemsabe um dia, nele poder trabalhar. Porém, na época, estava eu noperíodo de estágio probatório, não podendo fazer parte do projeto.Entretanto, com a transferência das extensões educacionais do ColégioJoaquim Taveira para o Colégio Professor Joaquim FranciscoSantiago, recebi da Diretora desta Unidade de Ensino, a ProfessoraSimone Pires, o convite para assumir a Coordenação da Extensão naEscola Municipal São Jorge no Povoado Machadinho, na Região doAcaba Vidas, a mais de 120 km da sede do município, escola em queingressei na carreira do magistério e trabalhei por onze anos, etambém da Extensão na Unidade Prisional, Projeto Educando para aLiberdade. Aceitei de imediato, ficando muito feliz, pois era aoportunidade de realizar o meu desejo de conhecer melhor o projeto etrabalhar nele.A inserção social tem como meta integrar o indivíduo nacomunidade família e sociedade, assumindo o caráter de reconstruçãodas perdas, e seu objetivo é a capacitação da pessoa para exercer em
  • 15. 15plenitude o seu direito à cidadania. Hoje, acredito estar, junto com asProfessoras Maria Abadia e Coraci, construindo mais um grande passopara a reinserção social de nossos alunos reeducandos, dos quaisposso afirmar com certeza que, não só ensinamos, mas aprendemosmuito a cada dia.Se desejamos que a Educação seja um instrumento para ainclusão, o crescimento e o equilíbrio social, temos que correr osriscos e enfrentar as adversidades de quaisquer situações em quepossam estar inseridas a Educação.“A prisão não são as grades, e a liberdade não é arua; existem homens presos na rua e livres naprisão”.“É uma questão de consciência.”(Ghandi)Wesley Campos G. SoaresCoordenador Pedagógico
  • 16. 16Quando nos dispomos a implantar inovações no modo de agirque a sociedade culturalmente aceita como correto, corremos o sériorisco de obter como réplica a discriminação e o descrédito.Ainda que a intenção seja de mudar aquilo que não temfuncionado bem, a resistência ao novo, característica natural do serhumano geralmente fala mais alto. Quando dizem respeito ao modo detratar aqueles que por algum motivo encontram-se segregados em umambiente de cárcere, qualquer mudança toma dimensões absurdas doponto de vista daqueles que por ignorância desconhecem os benefíciosque podem advir da humanização da pena e recuperação dosapenados.Ao longo da história, tudo que se julgou eficaz para atenuar osíndices criminais foi exaustivamente tentado. Desde os castigosfísicos, passando pela segregação definitiva da liberdade e até a penade morte. Entretanto, nada do que foi instituído como forma decorreção e emenda surtiu o efeito desejado pelo homem. Cabe a nós,componentes desta sociedade que sofre a cada dia mais os efeitoscruéis da escalada do crime, refletir buscando novas formas deamenizar os efeitos de uma desigualdade social tremenda onde talvezesteja a raiz de boa parte da criminalidade.A simples segregação do indivíduo, fora do convívio social, emcondições subumanas, não parece ser a forma mais adequada deconter a escalada da criminalidade, tampouco constitui a maneira defazer com que quem passe por uma prisão não volte a delinqüir, poisse assim fosse, não teríamos cadeias superlotadas e ruas infestadas de
  • 17. 17criminosos reincidentes, já que a maioria dos presídios do Brasilostenta escancaradamente uma podridão asquerosa, para onde nenhumser humano em perfeitas condições mentais gostaria de retornar depoisde ganhar a liberdade.Quando lançamos o desafio de implantar uma extensão de salade aula dentro de uma unidade prisional, não obstante as críticas querecebemos, várias foram as pessoas que acreditaram neste projeto e dediversas formas nos ajudaram a levá-lo a termo, seja na doação derecursos ou na disposição de trabalho. A essas pessoas nossos sincerosagradecimentos, pois com suas atitudes mostraram um pensamentoinovador e despojado, como o saudoso Dr. Almir Araújo Dias, á épocapresidente do Conselho da comunidade de Niquelândia, que nosdisponibilizou parte dos recursos para que pudéssemos adaptar oespaço físico, ou o senhor José Eulálio, empresário niquelandensecarinhosamente chamado pela população de “Zé miau”, que foi nossoparceiro no projeto, assim como o prefeito Ronan Rosa Batista, quenão mediu esforços em nos auxiliar na árdua tarefa de reformar eadaptar uma estrutura decadente e arcaica e transformá-la numambiente aconchegante e adequado para se aplicar o ensino.Igualmente, em nome das professoras: Maristela Aidar e SimonePires Gomes e do professor Wesley Campos G. Soares, estendemosnossos agradecimentos aos servidores dos Colégios Estaduais:Coronel Joaquim Taveira e Joaquim Francisco Santiago, que comverdadeiro espírito de comprometimento, prontamente abraçaram a
  • 18. 18idéia de trazer a educação para o seio da execução penal, dando umextraordinário passo á frente e ousando tentar o novo.Agradecemos imensamente aos servidores da Agencia Prisionalque conosco trabalham esta unidade, sem os quais jamais teríamosalcançado êxito em nossa empreitada e dos quais dependemosincondicionalmente para manter funcionando nossos projetosprofissionais.Aos reeducandos que fazem parte desse projeto, queremos frisarque essa iniciativa é um marco no sistema penal e que vocês fazemparte de uma pequena parcela privilegiada da população carcerária doBrasil que está tendo a chance de reescrever a história da execuçãopenal e de mostrar que é possível oferecer ao mundo coisas positivas apartir da transformação pessoal e da valorização da educação. Valelembrar que o cárcere não é necessariamente o final de tudo, mas podeser o recomeço de uma nova existência. È necessário conscientizar-sede que ao sair da prisão para voltar ao convívio social, quase nada denovo lhes será oferecido, mas as cobranças serão gigantescas e seránecessária muita força de vontade, humildade e fé, para romper asbarreiras do preconceito e conquistar o direito de um lugar ao sol.Terminamos nossas palavras citando uma célebre frase deNelson Mandela, homem negro sul africano que ao sair da prisão ondeesteve preso por 28 anos acusado de terrorismo e traição, deu a voltapor cima e chegou a ser presidente de seu país: “Comenta-se queninguém de fato conhece uma nação até que se veja numa de suasprisões. Uma nação não deveria ser julgada pela forma que trata
  • 19. 19seus mais ilustres cidadãos, mas como trata os seus maissimplórios.” A vida deste homem, que sofreu na própria pele o maisacirrado preconceito e a mais ferrenha intolerância, ilustra bem aenorme capacidade intrínseca dos seres humanos em implementarmudanças positivas em suas vidas, mesmo quando todas as coisasparecem desfavoráveis e as condições no meio social são as maisinóspitas possíveis. Assim, faço votos no sentido de que os egressosdo sistema prisional, alavancados pela inovadora idéia de educação nocárcere, reflitam sobre as possibilidades de alçar novos vôos nocaminho do bem e que a sociedade compreenda que ao trabalhar pelarecuperação dos apenados, está buscando nada mais que benefíciospróprios, como a diminuição da reincidência criminal, a minimizaçãodos efeitos das desigualdades sociais e a soma de uma nova força detrabalho no meio social.Genair da Abadia Souza vieiraDiretor do Centro de Inserção Social de Niquelândia
  • 20. 20INTRODUÇÃOEm 2010 assumimos o desafio de trabalharmos com trêsextensões em diferentes lugares, dentre elas a extensão da Sala deAula Professora Querobina Daniel da Silva, na Unidade Prisional –Centro de Inserção Social de Niquelândia, que na ocasião, possuía a 1ªetapa da Educação de Jovens e Adultos - EJA. Naquele momento,apesar das dificuldades do trabalho aceitamos o desafio e seguimosadiante com a gratificante missão de ensinar.Convivendo mais próximos com os alunos, pudemos perceber asdificuldades que todos eles enfrentaram no decorrer de suas vidas, eque direta ou indiretamente contribuíram para que eles chegassem àtriste condição de presidiários. Suas mágoas, tristezas, angústias,ansiedade pela liberdade nos contagiou de tal forma, que decidimosconcretizar esses sentimentos e expectativas. Não foi um trabalhoisolado, professores, coordenadores, equipe prisional, e de forma todaespecial a gestão do Colégio nos incentivou e apoiou para quenascesse desse trabalho uma nova cara para a triste realidade dessaspessoas.Seus depoimentos, embora verdadeiros, possuem nomes fictíciospara evitar exposição desnecessária e possíveis constrangimentos.Assim, usando do anonimato eles puderam expor melhor seussentimentos e contar de forma muito real a história de vida de cada umdeles. Não esperamos que esse trabalho se torne um Bestseller, masque ao menos aumente a auto-estima e dê voz a esses homens
  • 21. 21esquecidos pela sociedade. E que acima de tudo, sempre gritaram porsocorro, agora encarcerados, gritam com mais veemência. É chegada ahora, de talvez, conhecermos e compreendermos melhor os diversoscaminhos tomados por eles que nem sempre foram os ideais, mas osúnicos possíveis de ser trilhados.Não é objetivo desta obra isentá-los de suas culpas, massobretudo, alertar a sociedade para sua responsabilidade com ocidadão carente, com o combate ao tráfico e principalmente com aoferta de educação de qualidade, que nem sempre são cumpridas.Como cidadãos, estado, justiça, entidades religiosas, enfim, cada umde nós temos responsabilidades com o outro que se encontra emsituação de vulnerabilidade social. Quando lhes foi propostoescrever textos e relatos de suas vidas que posteriormente comporiamum livro, se encheram de entusiasmo e alegria, haja vista, que muitosnunca foram ouvidos na família , na escola, em lugar nenhum. Eis queagora é chegada a hora, de gritar ao mundo seus conturbadossentimentos. Para muitos talvez, tardiamente, pois o caminho de voltaé difícil e a sociedade contribui para torná-lo quase intransponível. Odesfecho desse trabalho é desconhecido, porém, mesmo nãoultrapassando as grades de uma prisão, ainda assim, terá suasrecompensas, pois o importante é oportunizar quem sempre foiexcluído a fazer parte dessa sociedade, que embora falha e relapsa,ainda é o melhor lugar de se buscar a realização pessoal e a felicidade.
  • 22. 22O PASSADO DE UM PRESENTE DESUMANIZADORAo analisar os textos elaborados pelos alunos/detentos observa-se que cada um apresenta razões bastante fortes que possa justificar asua atitude infracional. E partindo do aspecto humano, social, eantropológico, constata-se que a razão da criminalidade tem muito desuas raízes encravadas no abandono social que sempre se viveu noBrasil. Grande parte dos textos relata uma vida privada de condiçõesmínimas de sobrevivência, falta de trabalho, falta de acesso àeducação de qualidade, saúde, bens culturais, enfim, condiçõesmínimas de dignidade humana. Não é intenção do presente discurso,isentá-los dos erros cometidos, mas tão somente questionar e conduziro leitor a uma reflexão sobre as condições sociais oferecidas àscrianças e jovens da sociedade brasileira, assim como, oportunizá-lo aconhecer um pouco mais a realidade que se encontra do outro lado dagrade.É apontado por diversas pesquisas que a sociedade tem suaparcela de culpa quanto ao aumento da criminalidade no Brasil e nomundo, quando esta se exime de suas obrigações enquanto Estado egestor direto do bem estar social, ou enquanto cidadão não contribuipara melhoria das condições de vida de muitos, que gritam porsocorro. É notório em várias comunidades carentes espalhadas pelopaís que a criação de políticas públicas que contemplam o bem estardo jovem com esporte, cultura, arte e educação, tem um índice decriminalidade reduzido consideravelmente em um espaço de tempo
  • 23. 23relativamente curto, e que as comunidades onde reina o tráfico, aviolência aumenta a cada dia.O famoso sociólogo Durkheim, dizia que:“... a sociedade não é simplesmente o produto da ação e daconsciência individual. Pelo contrário, as maneiras coletivasde agir e de pensar resultam de uma realidade exterior aosindivíduos que, em cada momento, a elas se conformam.”Parafraseando Durkheim, observa-se a importância da presençado Estado na composição social, no sentido de oferecer subsídiospreventivos para violência e criminalidade. Essas ações globais podemsalvar milhares de jovens da ação devastadora das drogas queinfluenciam diretamente nos demais atos de violência.Nesse contexto de desigualdade social, a educação pode assumirum papel singular de transformação, ainda que em longo prazo,oportunizando a crianças e jovens, o acesso direto ao esporte,conhecimento, cultura, e se afirmando enquanto agente social nacomunidade a qual está inserida. Porém, não se pode delegar à escolaa função totalizadora de salvação da humanidade, se faz mister quetodos se unam em prol de um mesmo objetivo e trabalhem por ummundo mais justo e igualitário. Se, de acordo com Durkheim, o serhumano é, parcialmente, resultado do ambiente em que vive e quepode ser influenciado por ele, se faz obrigação do Estado, registrar suapresença no âmbito familiar, educacional, social da criança paraprevenir, ou ao menos tentar fazê-lo, dos malefícios da falta deperspectivas que hoje é tão comum dentre os jovens.
  • 24. 24Todo esse discurso não possui fundo sensacionalista, é a verdadeque se evidencia nos relatos redigidos nesse livro. Nossos alunos,antes de serem detentos, são seres humanos, que tem sede de sonhar,de conquistar, de se afirmar enquanto cidadãos de bem. Não são comomuitos pensam, o lixo da sociedade. No entanto, muitos se sentemassim - como poderão observar nos textos - cometem erros, sãojulgados, condenados, e jogados no depósito de seres humanos ondenão tem oportunidade nenhuma de se tornarem melhores.A dignidade no trato enquanto ser humano é um direito inerentea todos os indivíduos. A situação nos presídios brasileiros é caótica enão atendem às finalidades essenciais da pena, quais seja punir erecuperar. É necessário que sejam implementadas políticas públicasvoltadas para a organização desse sistema e promover uma melhorefetivação da Lei de Execução Penal. O encarceramento puro esimples não apresenta condições para a harmônica integração socialdo reeducando, como preconizada na Lei. Punir, encarcerar e vigiarnão bastam. É necessário que se conceda à pessoa de quem o Estado ea sociedade retiraram o direito à liberdade, o acesso a meios e formasde sobrevivência que lhe proporcionem as condições de que precisapara reabilitar-se moral e socialmente.Esses homens reclusos, não fogem às suas responsabilidades,querem pagar suas penas, mas anseiam por sair dali e reconstruir suasvidas, com suas famílias e amigos. Todavia, o que é oferecido a elescomo subsídio para recomeçar?
  • 25. 25Na Agência Prisional de Niquelândia é oferecido cursos deartesanatos que eles confeccionam e as famílias vendem para angariarrecursos de sobrevivência. Sabe-se, porém que ao serem libertos, essesartesanatos não serão suficientes para prover o sustento dos filhos.Em muitos casos não os restam outro caminho, a não ser areincidência.Outro aspecto importante na vida do reeducando é a família, quenão deve ser vista como uma mera vítima estática da aplicabilidade daLei que a pune compulsoriamente; ela deve ser percebida como peça-chave para o trabalho de diminuição da reincidência. Não perceber aimportância da família nesse contexto é não investir na possibilidadede resgate do reeducando. No entanto, o que é feito pelas famíliasenquanto os provedores de seu sustento cumprem sua pena?Percebe-se que sem o auxilio financeiro daquele que outrora amantinha, esta se torna alvo fácil e vulnerável do crime que a espreita.As crianças, em função da pobreza, entram no mercado de trabalhomuito cedo, aumentando os índices de evasão e repetência naeducação. Quando na pior das hipóteses não se embrenha pelocaminho das drogas e do crime. Cumpre-se aí o circulo vicioso damarginalidade, onde por consequência do cárcere paterno, os filhossem perspectiva tomam o mesmo caminho.A Lei nº 8213/91, estabelece o auxilio reclusão, que garanteprovisoriamente o sustento da família do reeducando, porém, semnenhuma assistência no que se refere à profissionalização doscomponentes adultos da família, ou à vinculação do beneficio àfrequência escolar dos filhos ainda menores. Assim, cai-se na política
  • 26. 26assistencialista imediata e provisória que não contribui para aindependência financeira e profissional dos beneficiados. O auxilioreclusão aparece como um importante recurso para as famílias e paraos encarcerados durante o cumprimento da pena, porém, é precisovislumbrar novos horizontes e oferecer instrumentos de trabalho edignificação para essas famílias.Uma conquista imensurável para o reeducando foi apossibilidade de retomar os estudos enquanto cumprem suas penas. Aeducação oferecida a eles possui falhas e ainda galga os caminhos daqualidade total, porém, apesar de imperfeita está levando a eles aoportunidade de crescer intelectualmente e sonhar com dias melhores.Nos textos redigidos, orientados pelos professores, é possível notar atristeza, a solidão e o desamparo próprio do lugar se entrecruzandocom a expectativa, as perspectivas, os sonhos e alegria de seremreconhecidos como parte integrante da sociedade. É esse o caminhoque se acredita ser o certo, o caminho da valorização, doreconhecimento, da solidariedade, e do apoio.Em muitas ocasiões, durante as aulas, os professores precisamdeixar de lado o oficio de ensinar para ouvir como um psicólogo, daratenção como uma mãe, orientar como um conselheiro, evangelizarcomo um pastor, amar como um irmão. E assim vai-se construindo umemaranhado de relações que extrapolam à de professor – aluno, setornando uma relação humanizadora e capaz de transformar.Vou contar a você, leitor, uma parábola que se trata dos seteprincípios para se alcançar a plenitude e a paz. Ela retrata um poucoda realidade de tribulação, dificuldade, e superação vivida por esses
  • 27. 27alunos e professores, além de contribuir para amenizar o peso doassunto aqui discutido:Essa é parábola do bambu:Depois de uma grande tempestade, o menino que estavapassando férias na casa de seu avô o chamou para a varanda e falou:__ Vovô, corre aqui! Como essa figueira, árvore frondosa eimensa, que precisava de quatro homens para abraçar seu tronco, sequebrou e caiu no vento e na chuva, e este bambu tão fraco continuaem pé?__ Filho, o bambu permanece em pé porque teve a humildade dese curvar na hora da tempestade. A figueira quis enfrentar as forças dovento.O bambu nos ensina sete princípios. Se você tiver a grandeza e ahumildade dele vai experimentar o triunfo da paz em seu coração.A primeira verdade que o bambu nos ensina é a mais importante:ser humilde diante dos problemas e dificuldades, ter fé, otimismo enão desanimar.A segunda verdade: o bambu cria raízes profundas. É muitodifícil arrancá-lo, pois o que ele tem para cima tem para baixotambém. Você precisa aprofundar suas raízes na oração e em Deus.A terceira verdade: o bambu vive em união. Antes de crescer elepermite que outros cresçam ao seu lado. Sabe que vai precisar deles nahora da tempestade. Uma das grandes forças de quem é fraco épermanecer unido àqueles que ama.A quarta verdade: O bambu nos ensina a não criar galhos. Comotem a meta no alto, em coisas grandes, não perde tempo com coisas
  • 28. 28insignificantes. Para ganhar, é preciso perder tudo aquilo que nosimpede de subirmos suavemente.A quinta verdade: o bambu é cheio de nós. Como ele é oco, sabeque se crescesse sem nós seria muito fraco. Os nós são os problemasque enfrentamos e que nos fortalecem.A sexta verdade: o bambu é oco, vazio de si mesmo. Abandona asi para doar-se aos outros, sem limites.A sétima verdade: ele só cresce para o alto, ele busca o que égrande. Essa é sua meta.Esse é o retrato de quem é detento e de quem procura por meioda educação levar um pouco de alento e esperança a esse lugar tão frioe solitário, que é o presídio. São superações diárias de professores ealunos, ambos lutam para isolar o ambiente em que estão inseridos ebuscar numa cela de aula pequena e trancada, a concentração paraensinar e aprender.Nos textos, os aluno reclamam constantemente da solidãovivenciada por eles, isso parece bizarro quando os detentos vivem emmeio a dezenas de pessoas e são amontoados em celas pequenas, elotadas. Porém, a solidão que mais incomoda não é a física, mas a daalma. Eles possuem seus colegas, mas se queixam da falta que sentemda família, dos amigos de “fora”. Quando passam por um julgamentoacontece um rompimento de tudo que são e têm para iniciar umarealidade que só tem a insegurança e o descrédito como certezas.Assim, a partir do momento que são isolados do mundo externo,inicia-se geralmente, um processo de esquecimento por parte dos quesão livres. Ainda que seja restrita a entrada no presídio, a família é a
  • 29. 29que possui acesso direto e frequente com os detentos, e não rarasvezes, nem mesmo ela oferece o apoio que se faz tão importante parasua recuperação. Assim, quando a solidão bate à porta, não resta maisnada e ninguém além de folhas frias de papel e caneta, onde podemconfessar suas mazelas e expor suas dores.Para concluir essa reflexão as palavras do ilustre jurista eprofessor João Batista Herkenhoff, neste momento final, servirão deesperança para aqueles que acreditam ainda na recuperação nãoapenas de infratores da lei penal, mas sim de toda a sociedade e doverdadeiro sentimento de justiça:Não creio no poder da repressão. Creio no homem. Creio norespeito ao homem. Creio na igualdade entre os homens. Creio napalavra. Creio no contato entre seres humanos, na possibilidade dacomunicação entre o homem que está sendo processado e o homemque, eventualmente, está sendo o juiz de seu irmão. Creio, sempieguismo, no amor. E mais ainda creio na justiça, como valorsupremo.A seguir, o leitor terá acesso aos textos redigidos pelos alunos,na integra. Para facilitar a leitura e compreensão realizamos algumascorreções ortográficas e de pontuação, porém sem modificar oconteúdo.
  • 30. 30O RECOMEÇOPara uma pessoa andar ele precisa dar o primeiro passo.Assim não foi diferente com as primeiras redações que iniciamosa escrever. Começamos a escrever um pouco sem fé, sem acreditarque ia dar conta de escrever, mais cada um de nós, tem muita históriade vida, mais não era isso que queríamos escrever sobre violência,porque violência gera violência.Gostaríamos de passar para os leitores desse pequeno livro,como é a vida aqui dentro, e como nós pensamos e sentimos.Nós estamos esperando pelo menos cinco livros editados, já vaiser uma vitória porque jamais esperávamos que dentro de uma prisãopoderia acontecer algo de bom. Mas hoje estamos estudando nopresídio, o que era sonho virou realidade, hoje podemos enxergar avida, não só de forma quadrada, mais por maneira diferente, por causade duas pessoas que se arriscaram em trabalhar em área de risco. Maso que podemos é retribuir a professora e a diretora que elas fazemtudo com muito carinho e se tornando uma nova pessoa e provandopara o mundo que estudar é o melhor caminho. Converter a Deus e tereducação de qualidade para obter oportunidade de trabalhar, e nósgostaríamos de parabenizar e oferecer este livro para esta duasguerreiras, professora tia Abadia e diretora Maristela.Célio
  • 31. 31PARA INÍCIO DE CONVERSA...Quem somos nós?Somos pessoas, somos gente de carne e osso, ser humano que porfalta de reconhecimento e Deus no coração viemos parar aqui nestelugar que não é nada bom.E o momento não poderia ser mais oportuno, pois estamos lançandoesse livro que são frutos de anos de convivência e cada um com suahistória. Com esse livro você vai aprender mais sobre o que é ser umpresidiário. Agora com todo esse reconhecimento você com certezavai pensar duas vezes antes de cometer qualquer besteira e vir pararaqui, pense bem!Que Deus ilumine o caminho de todos vocês e boa leitura.Oscalino Rodrigues
  • 32. 32DESALENTOAssim foi a minha vidinha, sem graça até os 15 anos, nunca tinhafumado bagulho, porque lá na roça, não tinha esses trem. Mas era coisade outro mundo. A única droga era umas pinguinhas feitas ali mesmoalambique do finado Paulim Tadin. Pra estudar era um Deus nos acuda,tinha que andar umas duas léguas, mas mesmo assim, era bom demais daconta. Eu e meus irmãos ia todos dias e era o único jeito de escapar docabo da sem graça, (enxada) que era uma bichona grandona, uma pracada um. Nos finais de semana não tinha escapatória, o véio meu pai jádava logo o grito cedo. Vambora, menino, apruma, passarin que numdeve nada pra ninguém já ta com us pé moiado, ligeiro, pode levantar, enóis sem querer, mais num tinha jeito não, tinha que levantar. A nessasarturas já tava tudo pronto, um cafezinho quente, com uma broa e unspedaços de queijo, e vambora, menino, café bebido caminho seguido, elá ia continuando a prosa. Veio não sei de onde, uma tal de furna(FURNAS) e não se falava de outra coisa, o tal progresso tava chegando.E não demorou muito pra chegar em nosso rancho uns home compalavra difice e uma prosa boa, e chamou o pai lá prus morro, pra ispricaaté onde a água ia subir, e eu vi que o pai chegou diferente, discabriadocom o zoio cheio d’agua, e chamou a mãe, e disse: __ muié temo que irimbora. A mãe deu uma olhada pra nois, a escadinha sentada, no bancãoda sala.__ Mais home pra onde nois vai, pelo amor di Deus, o que ocê ta falano,pra onde nois vai e nossas coisa e os mininu? __ Eu não sei muié, elesvão dar uma mixaria pra nois, é capais di dá pra nois comprar umbarraco, lá na Niquelândia. Silenciou a mãe, e foi fazer a bóia, e
  • 33. 33enquanto preparava pensava na sua vida, a ingratidão do destino queagora depois de véia ter de enfrentá a cidade grande, tirano tudo dobraço, fazer hoje pra comer hoje mesmo. Teria que desfazer dos animais,da raladeira de mandioca, do muinho de café, o tacho de cobre, e enfimde tanta coisa pra ser trocada por um barraco apertado, em alguma vilapobre de Niquelândia. Jantamos em silêncio, pela janela entrava umasuave brisa, que fazia a luz da lamparina dançar tornando mais triste oambiente. O radinho ligado passava umas modinhas sentimentais, de vezem quando uns anúncios da casa do fazendeiro. O pai foi deitar logoapós, carregando a dor de um homem simples da roça. A mãe sozinhaajeitava as vazias da janta, penssano nas dores que a vida lhe impôs demuié da terra, ligada aos fazeres da roça, de pernas inchadas, porreumatismo, causadas pelas friaje do corgo, a torração di farinha, e terque sair na chuva. Olhei para céu e disse: __ Nosso Sinhozinho do céu,num deixa nois sofrer não, e pegou a lamparina, fechou a janela e ajeitouo fogo, que cozinhava o feijão. Desligou o rádio e si encaminhou para oquarto, viu o pai deitado acordado. Eu achei que ela tentou consolar,mais apenas fez o sinal da cruz e deitou ao seu lado, sem dizer nada, eapagou a lamparina. E no final de tudo isso, aconteceu que aqui nacidade, sem emprego, sem estudo e sem oportunidades, mim envolvicom a vida do crime. Foi a única porta que achei aberta, foi o mundo docrime. Fui preso. Torturado, fui humilhado, e não vejo a hora de sair evoltar a sorrir de novo, eu era realmente feliz e não sabia.Oscalino Reges RodriguesObs.: Esse texto não foi corrigido ortograficamente sob risco de perdera originalidade.
  • 34. 34UMA PEQUENA LUZ NO FIM DO TÚNELOs nossos olhos foram feitos para enxergar no claro mas tambémpode adaptar a enxergar no escuro. Quando uma pessoa cai dentro deuma cadeia, a vida dele desanda, o desespero, a agonia, ajuda aescurecer muito mais este caminho escuro que ele tem que caminhar,carregando este martírio de dor e sofrimento. A pior coisa na vida é aescuridão porque quando você está neste túnel cai, levanta, maissempre está com esperança de poder ver uma pequena luz no fim dotúnel.Cada dia que passa é um dia a mais de cadeia e um dia a menosneste inferno, cada ano que passa eu consigo enxergar uma pequenabrecha de luz muito longe, talvez quem esteja perto de mim nãoconsegue enxergar. Porque esta pequena luz é enxergada com os olhosde artista, que quando pinta um quadro enxerga de uma maneira, maisnunca aquele quadro vai ser enxergado daquela maneira quandooutros olhos for observar , vai ver de forma diferente. A escuridãocomeça no dia que entramos aqui, presos, e esta tão sonhada luz irárefletir o dia em que as portas deste inferno se abrir para quepossamos valorizar cada minuto de nossas vidas, e que Deus abençoee dê força a todos irmãos que passa para o outro lado do muro.LIBERDADE....Célio
  • 35. 35UM SONO PROFUNDOPor que não consigo largar de você? Às vezes sinto uma grandefraqueza chego a respirar fundo por sua causa. Faço loucuras paramatar a minha ansiedade. Quando te conheci era como se fosse umabrincadeira, não sentia tanta a sua falta, depois de algum tempo vocêficou fazendo parte da minha vida, você estava comigo em quase todolugar, eu ficava tão corajoso, e me sentia muito mais forte do que asoutras pessoas.Mas na verdade eu era o fraco, porque não conseguia tirar vocêdos meus pensamentos. Por que eu tentava e você sempre ganhava demim. Toda vez você me derrotava. Eu já não tinha mais forças paralutar contra meus desejos, com passar do tempo você me apresentousua prima, a primeira vez que conversei e sai com ela, eu já nãoconseguia largá-la, sofria tanto por sua ausência, que por muitas vezeschorava como um bebê ansioso pelo leite materno.Não conseguia mais largar você, parece que mandam em mim.Doze horas com você sempre foi pouco, a minha vontade era muitomais. Ultimamente eu estou tão longe, e não posso mais sentir seuperfume, não consigo parar, entrei em desespero, não percebi que erasó uma ilusão, até que um dia eu caí de overdose e não conseguisobreviver, mais com o sangue no nariz.Crack e a cocaína tiraram minha vida não deixe tirar a sua.Wedson Tiburcio dos Santos
  • 36. 36MALANDROTem alguns ditados certos, de que malandro é difícil chegar aos30 anos, o malandro não cria cabelo branco.Para quem está neste mundo é bom lembrar que se formos voltarno tempo, não vai ser difícil lembrar de uma centena de pessoas que jámorreram, antes dos trinta anos pelo envolvimento no mundo docrime.O crime te dá muita ilusão, muitas regalias, mas te cobra umpreço muito caro. Primeiro de cobra a liberdade, depois a suajuventude, e depois começa as perdas, de cabelos pretos, perda dosdentes, a perda da cor da pele por falta de sol, a perda da saúde, totalperda da dignidade.O malandro sonha muito alto, é um eterno sonhador, ele nãogosta de coisa ruim, mas é só ilusão, porque o diabo te dá muita coisacom uma mão, e te envergonha tomando com as duas mãos.O sonho do malandro, eu comparo com o sonho do garimpeiro,porque ele bamburra e joga tudo para o ar, aí o dinheiro acaba, mas osonho de bamburrar, jamais. E quando dá azar vai parar na cidade dospés juntos.Célio
  • 37. 37CADEIA: O CÔMODO DO INFERNOHoje a pessoa precisa parar para pensar o que é uma cadeia.Pensa numa criança que gera, nasce, mama, começa a dar os primeirospassinhos começa a falar as primeiras palavras, mamãe ou papai.Papai? Eu não vejo esse homem que eu estou chamando aqui mas éque eu vejo quase todas as semanas naquele lugar sujo e fedorento,escuro e cheio de grades, mas lá eu não vejo ninguém rindo, nemalegre, mais eu vejo minha mãe ansiosa para ir até o meu pai. Elatomou banho, me deu banho e passou perfume na gente, eu vejominha mãe alegre parecendo que nós vamos para festa, mais logochegamos num lugar com muros bem grandes, e uma fila bem enormee muito quente, porque não tem lugar na sombra pra ficarmos, masquando nós entramos numa sala, todo mundo tem que ficar pelado, aieu fico chorando, mas quando a minha mãe vê o meu pai fica alegre,eu sinto o coração dela bater mais forte, e quando o papai me dá umbeijo e mexe comigo, eu não aguento e logo eu entendo porque minhamamãe fica alegre quando o papai dá um beijo nela. Com 6 anoscomecei a estudar e assinar o primeiro boletim com o nome da minhamãe, porque o meu papai está preso.Começo as perguntas por que todas as crianças têm um pai emcasa, eu estou pequeno e que não entendo o que está acontecendocomigo, nos dias dos pais todos meus amigos ganham um beijo e umpresente dos seus pais e eu tenho que esperar o dia certo para vir
  • 38. 38visitar o meu pai, e fico pensando porque só acontece comigo, masolho para mãe e fico perguntando por que a senhora fica chorandoescondida, e eu pergunto, ela me fala que caiu ciscos nos meus olhos,e me dá um beijo, ai eu esqueço de tudo, mais logo eu pergunto,mamãe o papai vai vir pra casa ? Quando mamãe enche os olhosd’água e dá um nó na garganta e responde: __ Meu amor, se Deuspermitir o papai vai voltar pra nós quando a meu filho estiver com 10anos. 10 anos? Mamãe, mas vai demorar muito, não meu filho quandovocê estiver na quarta série. Mamãe eu vou estudar muito para que euchegue logo na quarta série. A mãe deu um beijo e sorriu, eu saí abrincar.Célio
  • 39. 39Célio
  • 40. 40DEUS NOSSO VERDADEIRO AMIGOPois esta é uma história real sobre a amizade, pois no mundo quevivemos não podemos falar que temos amigos. Pois temosconhecidos. Muitas pessoas que falam que é seu amigo, só são quandovocê tem algo que interessa a ele, pois o mundo que vivemos temmuita falsidade. Quando você tem dinheiro, um carro e casa têmamigos, mas quando está na miséria não tem, ninguém pode falar eusou seu amigo, vou te ajudar porque gosto de você; pois tenho 31 anosde idade e nunca vi isto acontecer. A prisão é a maior prova da vidareal, valemos o que temos hoje, falo com conhecimento de causa.Muitos na sua frente é uma coisa, por trás falam mal de sua pessoa.Mais fazer o que? A lei é da sobrevivência. Deixo aqui o meu recado,temos um amigo fiel de verdade: Que é DEUS e meu SENHORJESUS CRISTO que está no céu, pois ele deu a sua vida para nossalvar, a minha e de todos. Eu agradeço a ele pela saúde e pelo fôlegode vida, por ter me castigado severamente, mais não me entregou amorte.Deigivânio Barbosa de Barros
  • 41. 41LIBERDADENão sei se estou preparado para esse dia, está chegando este tãoesperado momento, afinal vai ser o meu recomeço, porque foram diaslongos trancafiado neste lugar triste, tenho pensado seriamente decomo vai ser minha vida quando chegar o grande dia. Até choro só delembrar quando as grades abrir. Oh! Meu DEUS que alegria, que bomque o senhor ouviu minhas orações.Lá fora está tudo mudado, não sei como vai ser a reação daspessoas que me conhecem, o que elas vão falar, o que vão pensar nãosei, eu só sei é que não vai ser fácil, pois a discriminação e opreconceito são muito grandes. Estou muito arrependido, errei e estoupagando, só não imaginava que o preço seria tão alto, porque tiraria demim o bem mais precioso que é a minha liberdade, família e moral.A caminhada vai ser longa, eu sei, mais o pior graças a Deus, jápassou, agora é olhar pra frente e pensar no futuro, não vou fazer aminha “coroa” chorar, pois depois que vim pra cá, percebi que com opassar dos anos ela ficou mais velha, mais séria e triste, sou ocausador de todo sofrimento não só dela, minha mãe, como de muitasoutras. Hoje eu sei o que é ter um dependente químico em casa, querouba, mente ou até mata por causa desse maldito vicio que atrasa edestrói lares.Se você que por acaso estiver envolvido com essa parada saiafora enquanto há tempo, pra não provar do veneno que eu provei, não
  • 42. 42tenho a ver com a sua vida, mais eu não desejo pro meu pior inimigo oque eu passei na cadeia. Que sirva de exemplo pra quem ler, o diabolhe dá com uma mão e toma com as duas. Não compensa sangue bom,vai por mim. Pra que escolher o destino pior se você pode ter omelhor?Que DEUS ilumine o caminho de vocês.Oscalino Rodrigues
  • 43. 43Célio
  • 44. 44JOGO DE DAMAEu vejo dois presos jogando damas para passar o tempo dentroda cadeia. Mais como este jogo é tão parecido com a família, por quese falta uma pessoa na família fica desfalcada. Talvez para os irmãos,com o corre corre do dia a dia, esta peça de dama não pode fazer falta,mais para a mãe, na hora da refeição, na hora de dormir, no final doano, junta todos os outros filhos, netos, genros, mas falta sempre umlugar na mesa. A mãe pode estar no meio de tantas pessoas ao redordela, mais mesmo assim ela sente falta daquele filho.Os filhos crescem, e os pais têm que deixar cair e levantar,porque cair é do homem e levantar é de Deus. Nesta caminhada davida o destino coloca caminhos diferentes, mais em suas orações ela,sempre entrega este filho, na mão de Deus. E que Deus carregue eleem sua mão e ajude ele a caminhar entre espinhos, em um caminhocheio de pedras, e na hora que ele achar que não tem mais jeito Deuspor ser um bom pai, pega ele em suas mãos e conduz para o bem,porque Deus nunca abandona nenhum filho porque ele veio parasalvar quem está perdido.O bom pastor vai atrás das ovelhas desgarradas, e coloca em seurebanho.Célio
  • 45. 45LIXO HUMANOEm vez de jogar pedras em nós presos reze por nós. Porque emum lugar que se amontoa presos não pode esperar bom resultado, ogoverno dá o cárcere mas não dá maneira de ressocialização do preso.Dizem que a justiça é cega, mais não é possível que ela nuncavai abrir os olhos, pra esta injustiça que faz com nós presos, porqueprende um homem e solta um lixo humano. Com muitos sonhos, masa sociedade prefere gastar milhões com segurança, mas insiste emfechar os olhos para nós. Mas isso tem que mudar se nós estamosfalando em lixos humanos, eu gostaria de dar um exemplo pela boaideia que uma pessoa teve. “O lixo do nosso Brasil, com a reciclagem,hoje o Brasil conseguiu reciclar mais de 50% do lixo, só nãoconseguiu cem por cento do por causa das nossas leis que em vez deinvestir no Brasil, exporta lixo de outro país. Nós precisamos depolíticos honestos que pensa em leis que beneficia a todos nósbrasileiros.Você que está lendo agora? Nos deixar amontoados, sempodermos ajudar nossas famílias, sem poder mostrar que cada um denós somos capazes de fazer algo para ajudar nossa família, temoscondições de ser regenerados ? Hoje nós acreditamos que só Deuspode tirar o homem da miséria e do pó. Porque o governo prefere darpena alta para meia dúzia de presos, para mostrar pra sociedade queestá fazendo justiça. Mais, hoje prende um ladrão de galinha mas se
  • 46. 46ele tiver a mente fraca sai roubando um carro ou um banco, agora eupergunto, você acha que pra sociedade melhorou alguma coisa?Cada preso aqui já foi um dia parte da sociedade, hoje sou eu eamanhã pode ser você? Por diversas maneira o tempo passa, o mundogira, a cadeia só está cada vez mais cheia por causa da criminalidade.Hoje aqui, somos o que enxergamos o mundo, como um reflexode um espelho, tudo o que vemos e revemos. É o que estamosreeducando, se prende um cachorro e só faz raiva nele, dificilmenteele vai ficar manso. Mas a nossa justiça tinha que fazer cada preso sercapaz de alguma coisa, de estudar e de fazer cursos, porque todos osseres humanos é capaz. Erra mais é capaz de consertar seus erros.Célio
  • 47. 47Célio
  • 48. 48DIA DE VISITAUm dia muito esperado pelo preso.Um dia que podemos ver as nossas mães, a nossa esposa, osnossos filhos, dia de esperança. Dia de poder saber como eles estãodia de saber noticia da rua, dia de aproximação com a pessoa queamamos. Mais ao mesmo tempo em que é bom, para muito colega é omomento de pensar em sua família que está longe, a pior coisa na vidado preso é o abandono dos seus parentes, da sua mãe e da sua esposa,porque irmão, tio, primos, só vem se puder vir.Você não sabe como é bom uma visita. Eu acho que é o momentode saber quem de verdade se preocupa com a gente e que lembra que agente é gente. Quando estamos na rua é muito fácil fazer amigos. Ohomem preso e limitado a tudo, o amigo lá fora te esquece. Pode atélembrar mais fica com medo de pedir alguma coisa. Mais eu acho queuma pessoa presa, doente, sente falta de um gesto de carinho, porqueaté Jesus Cristo relata na bíblia sagrada que ele esteve preso eninguém veio visitar, mais o ser humano só prefere ajuda dele depois.Célio
  • 49. 49A MINHA VIDA NA PRISÃOA vida é como mil nuvens no espaço, são como o fim. A cadadia que passa me sinto muito triste cheio de saudade da vida livre. Àsvezes fico pensando na rua da minha casa, tenho saudade daquelesmomentos de alegria no pensamento, e fico cheio da esperança devoltar um dia para os braços da minha família. Quando estoudormindo sonho com a minha liberdade, quando acordo eu estou atrásde uma grade, é uma angústia que não tem fim. Parece que tem umaagulha furando meu coração, mas só porque ainda não perdi minhaesperança em Deus. Sabe por quê?Se não tiver lutas na vida não temos vitória. Peço a meusirmãos, se você tiver algum problema na vida ponha na mão do mestreque ele socorre na hora certa, e quero agradecer a Deus por me daressa inspiração.Welliton Francisco
  • 50. 50ILUSÃO DO CRIMETenho momentos marcantes na minha vida, um dessesmomentos foi quando a minha mãe me levou para a escola pelaprimeira vez, com muita dificuldade ela conseguiu comprar meusmateriais chegando em casa a tarde me mostrando o meu primeirocaderno e lápis.Lembro das pequenas palavras que saiu da sua boca pelamanhã. Vamos para a escola estudar, eu perguntei meio assustado seela ia ficar comigo enquanto estudava, ela me respondeu: __ Nãoposso. Depois venho buscar você, e assim foi. O sino bateu, a horachegou, e eu entrei para sala de aula. Muito envergonhado, meioacanhado, conheci a minha professora e ela me apresentou para ascolegas de classe. Quando foi mais tarde, que acabou a aula, minhamãe ainda não tinha chegado. Eu já estava sendo uma dos últimos asair do colégio. Mais alguns minutos e a vejo entrando no portão decabeça baixa e muito triste. A professora perguntou por que elademorou e minha mãe pediu que eu fosse lá fora.Subi no banco do corredor para olhar o que as duas estavamconversando, mas antes não tivesse subido, porque vi minha mãechorando e falando para a professora que não chegou na hora certaporque tinha brigado com seu marido, ou seja, meu pai, e que ascoisas lá em casa não andava nada bem. Despedimos da professora e
  • 51. 51fomos embora para casa, no meio do caminho minha mãe perguntoucomo eu tinha passado. __Bem, e que tinha feito novos amigos.Ela sorria e brincava comigo o tempo todo, mas eu via e sentiaque ela estava sofrendo calada. Continuei a estudar alguns meses, e ainão passou muito tempo. Rapidamente num piscar de olhos eu jáestava com meus 12 anos de idade e comecei a sentir falta de dinheiro.Quanto mais dinheiro eu tinha mais amigos aparecia. Fazia loucuraspara conseguir o que eu queria, sem pensar nas consequências quemais cedo ou mais tarde estava por vir. Comecei a fumar drogas aofrequentar as festas, sem pensar que tinha uma pessoa lá em casa quesofria tanto por mim. Eu estava dominado pela ganancia e pelasdrogas, e pelos líquidos doces que exageradamente eu consumia, queas vezes me tornava tão violento. Com 13 anos eu era tão popular!Tinha tantas pessoas ao meu lado que eu pensava que era maioral.Muitas dessas pessoas falavam que eram meus amigos e leais a mim,tinha carros e motos. Era muita luxuria para eu poder desfilar pelasruas, não queria mais escutar minha mãe que sempre sonhou comminha felicidade, para mim vencer na vida. Ela que esforçou tantopara a sociedade me ver de igual para igual, uma mãe solteira como aminha que já passou fome e muitas dificuldades para não ver seus 05filhos de barriga vazia, e o que eu estou dando em troca? É só tristezae as mágoas, ela chega ver seu filho se matando aos poucos nasdrogas.No prolongar dos tempos vim parar na cadeia e comecei aperceber que toda beleza tem seu preço, quem dizia que eram meus
  • 52. 52amigos viraram as costas para mim. Hoje em dia vivo chorando naprisão, e pedindo perdão para todas as pessoas que eu fiz sofrer, peçodesculpa para minha mãe e minha família, por eu não ser tudo quesonharam, e peço para eles nunca dizer para mim que é tarde demais.Wedson Tiburcio dos Santos.
  • 53. 53O VALOR DA LIBERDADEEu diria que agora neste momento, não tenho a minha liberdade,às vezes penso que sou um pássaro com as asas machucadasesperando o tempo passar para me recuperar e poder voar. Hoje emdia não posso fazer nada para poder desfrutar da minha liberdade,porque estou pagando por um erro que cometi, não posso ir para asfestas, não posso levar minha namorada na praça para tomar umsorvete, nem passear pelas ruas. Não posso abraçar meu filho, nemdar o amor que ele merece. Porque eu não sou livre. Eu sou preso pelamão do homem. Mas pela vontade de Deus eu sempre estarei livre,todos os dias. peço ao pai que me livre deste lugar, quero viver comliberdade que é uma das maiores riquezas que o homem possui.Wedson Tibúrcio dos Santos
  • 54. 54DROGAS MATAMQuando somos criança, não temos noção de quase nada na vida.No passar do tempo as caminhos que descobrimos fazem nossosdestinos. Eu mesmo fui criado com meu primo e gostaria que vocêsvoltassem no tempo comigo para rever uma história de vida diferente,eu e meu primo éramos muitos amigos e entre nós não tinha segredose muito menos falsidades. Sempre que ele fazia algo de errado ficavamuito preocupado por que sua mãe, não podia ficar sabendo. Aindaéramos duas crianças, a nossa infância era tão maravilhosa que nósnão queríamos ser adulto.No decorrer do tempo fomos crescendo e conhecendo o prazerque a vida nos oferece, meu primo já conhecia as drogas e a bebida.Quando as drogas acabavam ele cometia furtos para sustentar o vicio.Teve um dia que eu, meu primo, mais seus amigos, estava nofundo do quintal da sua casa ouvindo o som e desfrutando do que eraproibido. Quando foi mais tarde escutamos um som mais alto na portada casa que estávamos, aí meu primo levantou para ver o que estavaacontecendo, foi quando viu que sua mãe tinha feito uma surpresa noseu aniversário de 18 anos. O som alto era de um carro mensagens.Ele se emocionou, seus olhos encheram de lágrimas, foi uma grandefesta.No outro dia um amigo dele foi em sua casa chamar para fazerum assalto, que era pra ganhar um dinheiro para eles matar a ressaca
  • 55. 55do seu aniversário. Marcaram a hora, pegaram as armas e os doisforam mais não deu certo, e os homens pegaram eles.Seu amigo menor de idade foi libertado e ele ficou preso, sua mãeentrou em desespero. Toda nossa família ficou muito triste. Ele passou01 ano e 06 meses atrás das grades. Duas viradas marcantes na suavida. Veja só. Depois de 2 meses ele falou para sua mãe que ia numafesta, sua mãe pediu que não fosse , por que estava compressentimento ruim, mas não adiantou. Chegando lá, encontrou seusamigos tomando uma cerveja e um inimigo do passado que pegou nasua mão, e meu primo despediu-se deles dizendo que ia embora ,quando ele virou as costas, essa pessoa sacou-se de uma arma edisparou 5 tiros. Alguns meses na barriga de sua mãe, alguns anospara entender a vida, um ano e seis para passar os obstáculos da vida ecom vinte anos nos deixou. Um minuto para morrer. Agora só restamlembranças dolorosas. Infelizmente a estatística não era diferente,quem envolvem com drogas, não se liberta, a vida é curta.Eu nunca vou te esquecer, sinto muito a sua falta Tibério, nascidoem 18/ 09/1980 finado 21/05/2001. Que Deus te coloque em um bomlugar, e que sua luz ilumine nossa família.Wedson Tiburcío dos Santos
  • 56. 56O AMOR: ESPADA INVÍSIVELAmor, meu Amor, tu que fez de mim um sonhador, um viajanteno delírio de amar, que fizeste de mim uma criança, tamanhainocência feliz a brincar. És que manda e demanda no meu coração,sinto muita falta do calor da paixão.Às vezes fico acordado nas madrugas e choro pelos cantos dacela, sem ninguém perceber, choro por falta de carinho, e amor, faltada minha família.Toda visita minha mãe vem mim ver, mas quando ela vira ascostas e fala tchau pra mim , o mundo todo cai sobre minhas costas, efico muito triste , a espera por mais sete dias para matar minhasaudade das pessoas que amo.O amor se fez falso infiel, e o que me resta é o rancor, ainsensata solidão que me devora calada por dentro do meu peito.Wedson Tiburcio dos Santos
  • 57. 57CÓDIGO PENALO código penal é cheio de brecha na lei, basta um defensor sabertrabalhar bem para que o seu cliente possa se beneficiar desta lei, queé feita para todos, mas infelizmente só para quem tem condições de terum bom defensor.Hoje, dentro de um presídio tem muito preso que furtaram Art.:155. Outros roubaram art.: 157. Outros, homicídio culposo Art.: 121.Outro por porte de arma Art.: 14 .Outros por estelionato Art.: 180.Outros por formação de quadrilha Art.: 288. Outros por lesãocorporal, Art.: 299, estes crimes são simples. A pena, a cada 12 mesespuxa 2 meses por ano, e recebe o direito de ir para o regime semi-aberto, e o preso pode puxar um sexto da pena para passar para oregime aberto (O regime que vem só dormir no final de semana ).Puxa mais um sexto e vai para o regime condicional (uma penasimples) ex.: um preso pega 8 anos, e puxa 16 meses , vai para o semi- aberto sobra 6 anos e 8 meses. Puxa 1 ano e 40 dias e sai para oregime aberto que vem só ao final de semana. Sobrou 5 anos e 6meses e 20 dias. Ele puxa 11 meses e 15 dias sobrou 4 anos, 7 meses e15 dias para pagar a condicional. O regime hediondo e 4 meses porano, ou 8 meses por ano, dependia do Estado que o preso estavapuxando. O crime hediondo são os crimes de homicídio doloso(aquele crime premeditado, a intenção de matar Art.: 121. Tráfico de
  • 58. 58drogas Art.: 33. Estupro Art.: 213, 214 latrocínio, assalto seguido demorte Art.: 157 parágrafo III.Na lei velha este crimes se fossem em são Paulo ou Brasília ouRio de Janeiro um preso que pega 6 anos puxa 4 anos e saia pracondicional.Se fosse no Goiás poderia ter a regressão de regime e do seisanos ele poderia puxar 2 anos e sair pro semi- aberto, 2 anos noaberto, 2 anos condicional.Isso são brechas da lei que só precisa de um bom defensor, hojeesta matemática do hediondo acabou. 4 meses por ano agora é 2/5 dapena, que é 4 meses e 26 dias por ano. Agora quando você ler estetexto , para e pensa se vale apena e mundo do crime.Célio
  • 59. 59A INJUSTIÇA SOCIALDignidade é uma palavra fundamental na vida do ser humano.Porque quando falta dignidade a vida perde o sentido e a tendência éafundar cada vez mais. Hoje eu vi num programa de televisão umafamília, catadora de papel, que a vida pra eles, não era tão boa,moravam num barraco porque eles não tinham banheiro, e nem tinhaum teto bom que em dia chuvoso, a família não podia descansar, nãotinha uma alimentação para matar a fome dos filhos com dignidade.Isso é muita injustiça porque qual o pai de família que não que verseus filhos com a barriga cheia?O Brasil é muito rico, mas muito injusto, porque os nossospolíticos prefere fazer leis que beneficiam só eles. Hoje no senadoestão falando de fazer uma lei que não pode candidatar políticoscorruptos, mas isso no Brasil é um sonho, que quando nós acordamosvira um pesadelo, porque só os pobres têm direito nesta lei falha elenta, porque dizem que toda pessoa tem direito a um defensorpúblico, mas na prática isso não existe porque este que ganha peloEstado pra defender um preso ele ganha não para defender , mas paraassinar papel. Hoje no fundo de uma prisão 90% do presos tem estestipo de defensor que não tem interesse, nem um pingo de dignidadepara defender o seu cliente, mas se for olhar quando vence a penaainda tem que fazer muitas novenas , pro preso hoje aqui até odefensor particular não mudou muito as coisas porque enquanto saber
  • 60. 60que o seu cliente tem dinheiro eles ficam com muita promessa, atésecar a fonte, e para poder conversar com eles só Deus na causa, ummilagre está acontecendo.Até que enfim está anunciando nos meios de comunicação, norádio, e na televisão que tem que dar uma chance pra um detento, queperdeu a sua dignidade mas seria muito mais fácil dar uma segundachance pra um detento e muito mais fácil recuperar eles dandooportunidade pra eles pagar sua pena enquanto ele está fechadoporque o Estado espera as pessoas pagar sua pena muito tem quepuxar 365 dias outros 3.650 dias ou mais e o Estado começa apreocupar como reintegrar estes presos pra sociedade, mas quando umpreso sai do sistema ele acha as porta da sociedade fechada mas oEstado dá uma ajuda pro preso, esquisita dá uma folha com umas Leismandamentos que não pode isso, não pode aquilo, mais o que ospresos queriam ouvir é que ele ia sair com um serviço garantido com asua carteira assinada, assim é o mínimo que o Estado poderia retribuira este preso, com uma vida nova pra que ele passasse e pudesserecomeçar uma vida nova com a sua família, lamento dizer Brasilescravo.O Brasil de cor, o Brasil de injustiça, mais somos Brasileiros e nãodesistimos nunca eu acredito que no nosso amanhã tudo pode mudarmesmo sabendo que a tendência , é a cada vez mais arruinar , maistenho fé em Deus que ele é justo e nunca deixa os teus filhosdesamparados.Célio
  • 61. 61GÍRIAS DE PRISIONEIROPreso não tem estudo nem conhecimento, mais conversam pordialetos diferentes, no popular e conhecido por “gírias”. Maneiradiferente de estorcer as palavras, o código penal, e combinado peloartigo de 171 estelionato. Na cadeia começa pelo o nome, meu nome éCélio, mas todos me conhecem por Pernambuco. O meu primo chamaFabrício e ele é conhecido por Nogueira, Quando você chega nopresídio pede licença pra entrar, e não precisa falar o que fez, já fala oartigo que automaticamente todos vão saber o que a pessoa fez. Se oboi estiver vazio pede licença pra pegar o boi e tirar o cheiro da rua. Edepois procura uma Jega pra poder descansar, mais nem sempreencontra, ai eu tenho que ir pra praia e eu estou com fome e procureium irmão: a chepa aqui e boa?Ele me falou: __ a brindada é só boi ralado zoizão e carne demonstro. Aqui paga o marocos? __Paga cedo. Olha, hoje é o dia delavar a cela, se você não quiser lavar, eu pego por dois fragantes.Dois fragantes? O que pode ser? Um caco de telha ou um mata rato,ou uns pneus de fusca. Os irmãos de outra cela está ligando pramandar a teresa, pra mandar o moca, porque o nosso megulhãoqueimou. Um irmão procurou se eu tinha uma gancha pra nós fazerum jogo, uma peita ou uma bona pra nós fazer um jogo com o meubobo.
  • 62. 62VOCABULÁRIOBoi= banheiroJega= camaPraia = pisoBobo = relógioZoizão = ovo fritoCarne de mostro = carne depedaço preta.Chepa e brindada= marmitexBoi ralado = carne moída Cacode telha = bolacha quadrada ede salMata rato = suco pequenoTereza = corda feita de lençolMoca= caféGancha= calçaPeita = camisaBona= bonéPneu de fusca = bolacha de docede forma redonda.Fragantes = pode ser um suco,um miojo, ou bolachaCélio
  • 63. 63VIDA NA ROÇATrem bão é vida na roça, trem batuta de bão foi quando eumorava na roça. No tempo antigo já quase esquecido, reza em casa,festa de pouso de folia, casamento por atacado, assação de batata,meninada espalhada pelo terreiro, muita lua clareando brincadeiras,finca pião, ordem, anelzinho, esconder, biloca sentados do quintalfazendo a gata parir. Programa de rádio, bichão grande resmungandonovas noticias da capital, coisa distante, gente mais velha contandocausos de assombração, lamparinas catingudas fazendo sombra noscantos. Pesadelo de noite mijo na cama. No terreiro, cebola e salsaplantada numa bacia velha, num cocho cânfora e alecrim. Bicharadapara todo lado. O ninho batido na cerca, abriga passarinhada nasombra, tratação de porco no mangueiro grandão, bicho redondo degordo, matação de capado, trabalheira o dia inteiro, mas faz choriço,fazeção de lingüiça, vento na tripa, furação com espinho de laranjeira,no quintal frutas demais, meninada bocuda com congestão,esgubilança, danação. As roças o milho, a pamonha quente com queijoe linguiça, colheita de feijão, varas batendo o dia inteiro, o tear velhoparindo no incessante rec rec e no vai e vem das canoinhas, panosbonitos. O baile de noite, sanfona, viola, namoricos, a luz daslamparinas catingudas, as romarias do muquém, procissões, chuvas,viagem nos carros de bois.Então isso meus amigos foi um pouco de mim, rapaz bobo, queveio pra cidade, que me envolvi com uns caras de vida muito louca e
  • 64. 64acabei com minha vida, e acabei sendo preso e sem previsão desoltura.Aqui onde estou agora só vejo grades por todos os lados. Hámeus amigos, como são tristes os dias meus, como eu me arrependo,as vezes me dá um descabreio danado da vida, mas Deus é pai e não épadrasto, tenho certeza que Ele vai me ajudar a sair desse inferno. Jáé madrugada e tarde, vou me deitar carregando a minha dor de homemesmagado pelo destino.Oscalino Rodrigues.
  • 65. 65Célio
  • 66. 66A VIDA DE UM FILHO DESOBEDIENTEÀs vezes um filho paga um preço muito alto pela adesobediência de seus pais, eu pela minhas aventuras da vida, que omundo nos oferece, estou pagando um preço muito alto, o qual é ficarprivado da liberdade por tempo indeterminado pela lei do homem, euaté com a idade de 33 anos passei a ser infiel a minha família, os meusamigos e principalmente a Deus, e a minha vida um dia era tudo debom e eu não sabia dar valor, mais hoje com 38 anos, já arrependimuito de tudo que eu já fiz de errado e jamais vou voltar a praticarqualquer tipo de crime que o ser humano comete, não vale a pena, eufui condenado por crime de baixa periculosidade que é dito pelas leisdo homem, mais para Deus todos são crimes, e quem comete qualquercoisa errada tem que pagar, já tem cinco anos que venho tentandoacertar com a justiça do homem mais sempre fazendo coisas erradas ecom isto a minha pena foi só aumentando, e só depois da minhasentença, já tá muito alta que eu fui dar conta o que eu tinha adquiridode ruim para mim mesmo, e fui ver que nada vale tanto dinheiro, senão tem como, e com o que gastar, usar o dinheiro com a gentemesmo, porque um homem na prisão é igual a todos os outros sejarico, pobre, todos são iguais, são vistos, como uma manada de porcos,só come na hora que eles trazem a comida e você só sai um pouquinhopro sol na hora que eles querem, se você é um cidadão que nuncaesteve em uma prisão e tem curiosidade de saber como é, para você
  • 67. 67não precisar ir visitar, é só você fazer um chiqueiro e por uma manadade porco que você tem uma imaginação de como pode ser, a vida emuma prisão, a diferença que você vai ter, é só que uns são ser humanose os outros são animais mais o modo de sobrevivência é um só.Hoje graças a Deus, eu tenho a minha família ainda, que meperdoou tudo que eu fiz eles passar, por minha causa, tanto sofrimentoque eles sofrem comigo até hoje aqui neste lugar, mais tem sido fortespara me ajudar a cumprir a minha pena com a justiça.Vicentin
  • 68. 68Célio
  • 69. 69MODOS DE RESPEITOTem um ditado muito certo que pra andar tem que dar oprimeiro passo, já foi dado a primeira largada para mudar o tratamentodo preso. O encarcerado não chega doente, mais amontoa pessoascomo lixo humano, e a sociedade esquece que são seus filhos queestão morrendo, estão vindo preso, se não veio ainda pode vir. Porquehoje a família esta muito desgarrada, já não deixa Deus entra nos seuslares, hoje o pai não leva o filho pra casa de Deus, os pais tem quefazer a sua parte porque se um dia ele entra em caminhos cheios deespinhos, aquela caminhada quando era criança indo para casa deDeus pode pesar em sua escolha de vida, por que aqui não tem meiocaminho, ou a direita ou a esquerda. O governo tem que investir maisna educação, na saúde, ninguém pede pra vim pra cadeia, mais se veiovamos tratar este problemas, muitos criticam o preso, mais asociedade não vem aqui ver que o preso tem capacidade de fazerserviço de qualidade, hoje a melhor pessoa pra poder falar algumacoisa é o diretor, o supervisor, o agente prisional, a nossa professora, anossa diretora, o nosso coordenador, que conhece as dificuldade dosistema, hoje o modulo de respeito tem oito presos mas emNiquelândia as empresas poderiam ser parceira e ajudar osreeducando, mesmo aqui com o seu trabalho ajudar sua família a abrirvaga para muitos irmãos que queira mudar de vida, o trabalho é omelhor remédio , físico, emocional e moral. Tudo no começo temcrítica, nós somos pioneiros neste projeto, mas o que mais me alegra éter dado um pouco de dignidade pros meus irmãos do semi-aberto, que
  • 70. 70muitos presos amontoados num quarto tendo que trabalhar no outrodia é difícil. Eu sei que ainda tem como melhorar muito. Nósconseguimos fazer 36 jegas (camas) para presos que dormiamamontoados numa situação crítica, dois até três presos num colchão.Hoje melhorou, cada preso fica em jegas separadas tem a sua cozinhapara colocar sua garrafa de café, até para lavar roupa hoje tem tanque.Hoje eu sinto feliz por ter ajudado a dar um pouco dedignidade aos meus irmãos, eu não sou a favor de preso parado não,todos aqui tem capacidade de fazer alguma coisa e ganhar um poucopara tratar da nossa família.Célio
  • 71. 71MINHA HISTÓRIAMeu nome é Sidney, tenho hoje 22 anos, eu era um rapazfeliz, sou feliz até hoje, não foi por causa disso que vou deixar deviver, na verdade. Mas nós vamos falar como aconteceu a fita, acadeia e como estou hoje. Eu era um rapaz normal, gosto de trabalhar,já trabalhei em frutaria e lava jato, em Pit Dog e de servente. Há umcerto tempo eu casei, estava bem no meu casamento, nós era feliz.Mais a um certo tempo as coisa não foi dando certo. Mais como euestava na igreja busquei mais em Deus para que não deixasseacontecer nada com o meu casamento. Mas o ciúme foi tanto, que nósnos separamos, foi ai que eu perdi a cabeça, nós estava morando emoutra cidade, eu não agüentei voltei pra Niquelândia, ela também veio,ai que eu perdi a cabeça mais ainda, fiquei doido. Amava ela muito eaté hoje eu a amo, ai foi passando o tempo, conheci os amigos quedizia que era amigo, me chamava para sair, eu ia, foi passando tempo,foi batendo mais saudade da esposa. Quando os amigos mim chamoupara fazer uma fita, como eu estava com a cabeça a mil, topei, fui lá eroubei, mais aconteceu errado. Saiu completamente errado, não deviater acontecido, eu sai correndo e fui embora, nunca mais converseicom eles, mas foi passando o tempo, eu voltei com minha esposa, tavavoltando tudo ao normal, já tinha esquecido que um dia a casa tem quecair, ela caiu depois da fita, eu fui preso. Quando a policia me prendeueles não falou por que eles estava mim prendendo, só queria conversar
  • 72. 72ai fui. Quando o Delegado me chamou ele perguntou, ai que eu fiqueisabendo que o Delegado chamou os outro dois, eles já tinha dado odepoimento, não tinha jeito falei tudo, confessei também o que tinhaacontecido, quando foi mais tarde fiquei sabendo que a minha mãe eminha esposa estava lá, fiquei bastante triste e sabendo que um dosdois falou onde eu estava trabalhando, já que os policiais não sabiamque eu estava junto na fita, dei o depoimento, quando foi mais tardemim levou para o presídio, quando cheguei na cela que era chamadade celão, a sela do inferno, porque era muito ruim, a pior cela dopresídio, mais não tinha como ir para outra, os preso não mimmaltratou foram todos de boa comigo, fiquei mais tranqüilo, foipassando o tempo, fui conhecendo todos. Alguns ficou meus amigosentre aspas, alguns se fingia de ser amigo, não pode confiar em todos,você tem que ser bastante esperto, tem que ser malandro, pegueiconhecimento. Foi passando o tempo, fui ao fórum, fui julgado a 20anos, dois quinto, é bastante grande a sentença, mais coloquei a minhavida na mão de Deus só ele pode mim ajudar. Foi passando o tempoaprendi a fazer artesanato por que a gente não pode ficar parado, entãoa gente fica doido, o tempo não passa. Algum tempo atrás minhaesposa arrumou os papeis do nosso casamento, eu casei quando estavapreso. Casei no civil, fiquei muito feliz, por isso foi passando o tempoe conhecendo a cadeia mais ainda. O ruim da cadeia e as micoses queda na gente por causa do mofo por que todos dormiam no chão,colocava o colchão no chão e deitava, agora melhorou mais um pouco,fizeram beliche de concreto,mesmo assim a cadeia é ruim. Tomemmuito cuidado para não vir pra cá não é bom, é ruim, eu vim preso
  • 73. 73com 19 anos, estava na flor da juventude. Cuida-se, pense bem o quevocê vai fazer.Vou ser papai estou muito feliz por esta noticia to muitoorgulhoso por isso, então é assim, fique com Deus e minha história.Deus ama todos nós igual, não é só porque você fez alguma coisa deerrado, é só se arrepender Jesus te Ama Muito e eu também.Suelber Sidney Belos de Lemos
  • 74. 74OBRIGADO SENHOR POR ESTE DIA A DIAÉ o Senhor que nos da saúde e paz no coração. É da paz doSenhor que todos nós precisamos para viver no dia a dia. É em Deusque encontramos a verdadeira paz, só Ele nos da à vida eterna. Só épossível quando seguimos os 10 mandamentos e colocamos emprática diariamente a Bíblia Sagrada. Conhecer e viver osensinamentos que o Senhor nos deixa e segui-lo, para poder trilhar nocaminho da paz.Quando pedimos algo a Deus, Ele conde a todos. Basta pedire o Pai realiza em nós a graça desejada e muito. É pena que às vezes,quando estamos felizes, não percebemos que essa felicidade vem deDeus e que somente Ele é a felicidade e tudo é dado por Ele. Seseguissem o caminho que o Senhor nos ensina, o mundo seria umparaíso de felicidade, não haveria sofrimento. Por isso quando forpedir algo a Deus, primeiramente,deve pedir a sabedoria, porque é asabedoria que precisamos para conhecer o amor, somente Deus é oamor. O amor é um sentimento de humildade, somente a humildadevence o ódio que gera a guerra, que destrói a felicidade, é pelo ocaminho da humildade que reina o amor e o amor é um presente queDeus dá para todos. Mais só será possível quando for capaz de colocarem primeiro lugar o mandamento Sagrado, amar a Deus a acima dequalquer coisa, lembrar sempre que Deus é a felicidade. Crer em Deuse será feliz! Ele quem nos abençoa sempre, obrigado Senhor!
  • 75. 75Só a te Deus Pai criador do Céu e da terra!Senhor, guia nos no caminho da verdade, dá-nos sabedoria paracompreender o que certo e o errado. Guia senhor, para que sejamossábios, vivendo em vosso amor, amando o próximo, seguindo osensinamentos de Jesus. Senhor conduz a todos ao vosso amor,seguindo fielmente os vossos mandamentos.Guia Senhor a minha filhinhaConduza-a no aprendizadoDa Sabedoria e abençoa todosQue ama o próximo.Que Deus proteja todos que estão em minha vidaOdair Domingos da Silva
  • 76. 76A POLÍTICAA política representa uma Lei que ao mesmo tempo tem umacoletividade por atuar de várias formas. Seria que tão bom que osrepresentantes colocassem em pratica e procurando buscar e criar umdesenvolvimento democrático para o crescimento e o bem estar detodo cidadão. Como seria importante que a política fosse a busca decompromissos sérios e responsáveis, visando cumprir e retribuir tudoaquilo que é sua finalidade. Mais as maiorias das vezes sabem que nãoé assim, não agem para obter um bem comum, a corrupção existe e omal feitor estraga a perfeição. Sendo que é através dessa casa de Leique acreditamos que poderá acontecer homens de bens que poderáagir e construir um País melhor, baseado na verdade e na construçãode igualdade nos deveres e direitos para todos, assim teríamos um Paísque sonhamos um mar de rosas, o respeito e valor para todos.Mais acreditamos na política e por ela que encontraremos uma boasolução.Valdivino Rosa de Souza
  • 77. 77VERSOS DA PINGAA pinga é filha do cãoe neta de satanásjunta 60 homeme não faz o que a pinga faz.Nasci na bacha da éguaMe criei no fim do mundoTirei carta de safadoCertidão de vagabundoSubi pelo poleiroE desci pelo pau cascudoSó para de beber cachaçaQuando o copo cai o fundoA chave da casa sumiuE a minha mulher desapareceuO delegado daqui é cornoE o homem daqui sou eu
  • 78. 78Achei a chave de casaMinha mulher apareceuO delegado daqui é homemE o corno daqui sou euPapagaio mata periquito,Periquito mata jandaia,O bicho que mata o homemÉ um rabo de saiaVerde com verde,rosa com rosaSeu corpo é bonitaTua boca é gostosaEm encima daquela serraNasci água cristalinaQuem mexer com meu amorEstá na ponta da carabinaVim de uma cidadezinhaMontado em seu paiCampeando o seu avo
  • 79. 79Seu pai é bom de selaE seu avo é machadorObrigado por ter lido esses versos, professores, alunos e pais doColégio Estadual Francisco SantiagoDilvange
  • 80. 80A MINHA VIDAEu Osvaldo Chaves Monteiro, casei em 1994, tinha um a vidaboa, até no ano de 2000. Por uma mentira fui preso. Por não terdinheiro, estou preso ate hoje, pagando por algo que fiz a minha vidatransformou em um pesadelo.Apesar de tanta injustiça ainda sou um homem feliz, sei que não sourico, não possui bens matérias, mais sou rico de graças e bênçãos deDeus. Tenho uma linda família. Hoje sei que bens materiais o únicotesouro coisa que me restou, a minha esposa e filhos. Hoje meencontro com sérios problemas de saúde gravíssimos, a minha colunaestá quase entrevada tenho muitas dificuldades no andar. Não seicomo irei fazer para sair, pedir os meu recurso, estou doente e tenho 4filhos para cuidar.Osvaldo Chaves Monteiro
  • 81. 81O DESENCONTRO / ENCONTRO DA VIDASou um sertanejo, que nasci as margens do rio Tocantins nafazenda São Jacob, Município de Niquelândia. A minha família nuncateve condições de colocar os filhos na escola para estudar ou melhor,não havia escola na região e nem tinha recursos, para ir até uma escolaloca vim para a cidade.Algo que marcou forte mente a minha vida, foi quando tinha 11anos de idade. Numa tarde ensolarada, sai alegremente para buscaralgumas canas caianas. No memento em que estava cortando as canas,uma enorme cobra cascavel, pecou-me no pé direito. Após esseacontecimento fiquei dezoito dias sem enxergar nada, a minha mãeficou muito aflita e pensou seriamente: - Meu filho perdeu a visão,está cego. Foi quando ela se agarrou no impossível. Depois de muitaoração e muita fé em Deus; conseguimos um grande milagre, voltei aenxergar!Sempre morei na fazenda e continuamente trabalhei comolavrador. Sou uma pessoa que temo pela sinceridade, honestidade,sempre vive do meu trabalho. Depois de alguns anos, fui esquecendo-se das coisas mais preciosas que aprendi quando criança. Apesar, daserenidade, fui envolvendo com pessoas, que tentaram destruir-me,em todos os sentidos. Hoje me encontro no presídio, mais tenho Deuscomo o meu escudo. Toda a amizade e envolvimento que vive antesna vida são passado e nessa nova pagina da minha vida, que ser uma
  • 82. 82nova pessoa, resgatada no amor de Deus e por incrível, o que nãopode ter quando criança, e nem mesmo, quando adulto, estou vivendoagora. Tendo oportunidade de estudar, realizando o meu sonho decriança. Hoje, aqui no presídio, apesar de tudo, estou estudando e soufeliz por essa dádiva em minha vida.Samuel Francisco da Silva.
  • 83. 83SONHO INESPERADOA vida só tem senti quando há um encontro consigomesmo. Não importa quando e nem mesmo aonde. Fui preciso serpreso, para perceber: quem sou eu? Os valores e dons especiais, quesó a mim, foi dado por Deus. As pessoas que realmente me amam enem dava valor e muito menos sentia. Era feliz e não sabia.A dor que me consume, delata o me coração de dor, dor essaque não se cura com remédio. O Único remédio que aliviará a minhador será no dia tão sonhado e desejado. O dia inesquecível! Que ireipassar pela porta da liberdade, livre e sendo uma nova pessoa.Não desejo para ninguém, esse lugar. Aqui vivemos todo tipode sofrimento, que alguém possa imaginar. Além de ser privada daliberdade, ausência da família, dos amigos e dava vida digna de umser humano. Mais apesar de todo esse pesadelo, reencontrei comigomesmo e estou buscando força e coragem para libertar do vício debebida alcoólica.A certeza que hoje, tenho é essa: quando sair, quero ajudar aminha família e dos valores em detalhes que antes não percebia, ocarinho de minha mãe e do meu pai. Sei, o quanto é bom ter umafamília. É a única certeza que temos na vida.Três anos no presídio e nunca discutir com ninguém, fizgrandes amigos, amizades que irei levar para sempre comigo. Graças
  • 84. 84essas amizades tenho força para suportar e esperar o memorável dia daminha saída.Eliel França dos Reis.
  • 85. 85A BOA CONVIVÊNCIA DO SER HUMANOComo seria bom se todos fossem amigos um dos outros.Dividindo as dificuldades, alegrias e conquistas. Assim,compartilhando todos os momentos da vida.Peço sempre a Deus que transforma a vida do homem,principalmente aqueles que não conhecem a Deus e não busca asabedoria e prudência que vem dele. Pois ele poderá ser a nossa amplasolução de resolver os nossos problemas, que as vezes parecemimpossível. O seu amor pode transformar e fazer tudo que é bom paraa nossa vida. Basta pedir com fé e confiar: pois ele e o nosso senhorsupremo, todo bem.Eu, particularmente gosto de ser amigos das pessoas, tentofazer-las felizes. Pois o Amor de Deus esta em todos os corações.Somente amando uns os outros, será possível promover a paz!Altielle
  • 86. 86A VIDA DE UM DETENTOA vida passa por muitas mudanças a partir do momentoem que entrei no portão do presídio. Os meus primeiros dias nacadeia, me encontrei profundamente aborrecido, com tudo quehavia acontecido. A maior alegria que invadiu todo o meu ser foi àprimeira visita, que recebi da minha família.Hoje sei que cada dia, passo aqui não é em vão. Porque,sei que nasce dentro de mim, um novo jeito de ver a vida , derelacionar tranquilamente com todos, tenho um novo olhar para assituações que envolvem o meu viver. Sou muito feliz! A palavra deDeus faz parte do viver.João Batista Xavier Filho.
  • 87. 87LEMBRANÇASUm dia estava eu, Nega e a minha filha. E nós vivíamos uma vidafeliz! Mas, eu tinha que planta uma semente de pimenta. Comecei aenche o corpo de terra preparada e a minha filha perguntou:- Pai o que o senhor está fazendo?Eu disse: - Filha o papai está enchendo os copos de terra para plantarpimentas.Ela disse-me sorridente:- Pai eu quero também plantar com o Senhor.Disse a ela: - Filha, esta terra tem formigas, mas ela insistiu, atéchegou a chorar. Naquele momento a Nega, estava fazendo almoço.Quando ela ouviu o choro da nossa filha, veio saber o que estavaacontecendo. E disse-me:- O que está acontecendo com a Geovana?Expliquei o que estava acontecendo e ela insistiu para eu deixar amenina colocar a terra no copo. E assim fiz:- A deixei ela encher os copos descartáveis. Estava sendo ummomento especial quando disse a ela:- Filha, minha filha, enche os copos de terra e o papai plantarem assementes.
  • 88. 88Quando a Geovana olhou e viu os 40 copos para encher, eu comecei aplantar as sementes e a minha filha olhou para mim, e falou chorando:- Mãe o meu pai quer, que eu encho todos esses copos! Deixou e foiembora. No momento, achei tudo muito engraçado, pensei que aminha filha estava correndo das formigas. Percebeu que a brincadeiraestava virando serviço.Filha o papai te ama muito!Célio
  • 89. 89AVIÃOUm dia resolvi comprar uma carroça, e ninguém estava gostandoda minha idéia, mesmo assim continuei com essa idéia.A minha esposa já estava pensando a vida: - o meu cachorronão gosta de cavalo. Sendo que a minha filha estava alegre por causado cavalo.Quando arriei a carroça e a levei no colégio particular. Lá estava ospais dos alunos chegando de carro. Eu e a Geovana chegando decarroça. Foi normal na chegada. Quando foi a tarde as crianças logoaproximaram do cavalo e para tirar fotos.Quando saímos a minhafilha perguntou:- Pai, como chama o cavalo do senhor? Eu não sabia o nome dele,mais pensei logo. Mo momento, quando percebi que ele era muitolento. Foi quando, pensei logo no nome. Avião. No outro dia a tarde ,quase todas as crianças, já sabiam o nome do cavalo.Sei que o pai da Geovana não tinha nem uma Ferrari e nem umfusquinha, mais tinha algo diferente, que deixava, a minha filha ficatoda fofinha, por isso o papai dela tinha um cavalo chamado avião.Célio
  • 90. 90UM NOVO SENHORDescobri que a minha vida desde os dezessete anos, vivesempre no presídio. Não contei muito com a sorte! Morei mais nacadeia do que na rua. Nesse momento, o que eu, mais gostaria: seriaser uma pessoa livre, para viver em liberdade com a minha família.Há muito sofrimento aqui neste lugar. Sei que errei, por issopreciso pagar pelos meus erros. Tenho uma certeza. A partir domomento, quando deixar este lugar. Com a graça de Deus nãocometerei mais os mesmos erros.Sou eternamente grato a Deus, por proteger a minha vida. Foiaqui no presídio que aprendi a pensar melhor na minha vida, dar valorno dom da vida, descobri o que é viver.Fui uma pessoa cheia de vícios, cachaça, drogas. Hoje tem umaúnica certeza. Não quero esse tipo de vida para mim e para a minhafamília. Tenho fé em Deus , que estarei recuperado e serei uma novapessoa. Hoje, é essa convicção que quero e irei reconstruir o meuviver.Edivaldo Madureira Taveira
  • 91. 91REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICASAndrade, M. V. & Lisboa, M. B. (2000). Desesperança de vida:Homicídio em Minas Gerais. In Henriques, R., editor, Desigualdade ePobreza no Brasil, pages 347 - 384. IPEA, Rio de Janeiro.Araujo Junior, A. F. & Fajnzylber, P. (2001). O que causa acriminalidade violenta no Brasil? Uma análise a partir do modeloeconômico do crime: 1981 a 1996. Belo Horizonte: UniversidadeFederal de Minas Gerais, CEDEPLAR, 88p. Texto de Discussão 162.Beato Filho, C., Peixoto, B. T., & Andrade, M. V. (2004). Crime,oportunidade e vitimização. Revista Brasileira de Ciências Sociais,19(55): 73{89}.Kahn, T. (2000). Os custos da violência: Quanto se gasta ou deixa deganhar por causa do crime no Estado de São Paulo. Fórum de Debates,Rio de Janeiro: IPEA, SESC.Sites que tratam dos assuntos da criminalidade.
  • 92. 92CélioAPOIO:PROFESSORA SIMONE PIRES GOMES
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