Mapas do Encontro - Heloisa Neves

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Mapas do Encontro - Heloisa Neves

  1. 1. Aos que me ajudaram a entender teoricamente e corporalmente a relaçãoperceptiva, desenhando em mim mapas fabulosamente complexos eimprevisíveis.
  2. 2. PrefácioPor uma arquitetura das percepçõesO livro de Heloisa Neves nasceu de uma dissertação de mestrado orientadapor mim no Programa de Estudos Pós-Graduados em Comunicação eSemiótica da PUC-SP. No entanto, desde a sua concepção não foi umapesquisa acadêmica comum, refletindo a inquietação da autora e a suaaptidão para transitar pelas bordas.Heloisa conta com uma formação em arquitetura, desde muito cedocontaminada pela performance. Assim, para pensar a relação entre corpo ecidade, sempre optou por exercícios anti-cartesianos e anti-narcísicos.A sua metodologia anti-cartesiana nunca abandonou a capacidade deduvidar, tão cara a Descartes, no entanto, a fez trocar a prancheta, osesquemas racionais pré-estabelecidos e as regras habituais da pesquisaacadêmica pela experiência in vivo, pautada pela percepção do corpo epelos seus modos de (quase) representação nos diversos ambientes poronde decidiu trafegar.Particularmente interessada nos processos tradutórios das sonoridades docorpo, transformou a sua pesquisa em um jogo criativo e lúdico acerca dascomplexas relações entre tempo e espaço, traduzindo a espacialidade emmusicalidade, os espaços em territórios, e o habitar em presentificar.Se considero também a sua pesquisa como “anti-narcísica”, é no sentidoproposto pelo antropólogo Viveiros de Castro. Este tem buscado uma
  3. 3. antropologia que não se rende à dicotomia sujeito-objeto e ao invés de“imaginar as experiências”, opta por “experimentar a imaginação”. Omesmo ocorre com a pesquisa de Heloisa.Agora na sua nova versão para livro, integra uma bibliografia aindapequena mas bastante irreverente e empenhada em questionar ascompartimentações disciplinares que fundamentam a maioria dasdissertações de mestrado e teses. Abrindo caminhos cada vez maisindisciplinares, entra em sintonia com alguns autores da mesma família decruzamentos epistemológicos como Neil Leach e Joseph Roach.De certa forma, quando a arquitetura se aproxima da performance é ocorpo que se dá a ver em um salto gramatical - de substantivo estável averbo. Isto porque, deixa de ser compreendido como uma habitação (dosujeito, do fantasma ou da alma), passando a se afirmar como sistemadinâmico. Verbo de ação no mundo.Este caminho, que faz da arquitetura um operador de territorializaçõesassim como a arte e a filosofia, é inevitavelmente irreversível. Não poracaso, são poucos os pesquisadores que tem explorado estas novas trilhasentre nós, brasileiros. Mas é justamente neste circuito ainda restrito, queainda vamos ouvir falar muito de Heloisa.Christine Greiner
  4. 4. Notas iniciaisAntes de começar este livro sugiro que você respire, olhe à sua volta ebusque se perguntar sobre como nosso corpo percebe tudo que está aoredor. Foi assim que comecei minha inquietação acerca deste tema. Estelivro é o re-trabalho de uma pesquisa de mestrado que buscou entender etestar relações perceptivas entre corpo e ambiente. Para ser mais exata,parte deste projeto vem se desenvolvendo há alguns anos, quando euainda cursava a faculdade de Arquitetura e me deparei com aimpossibilidade de entender a cidade contemporânea dissociada doscorpos que vivem nela. Buscando bibliografia sobre o assunto, notei umaescassez de estudos em arquitetura que contemplassem esta relação.Existiam leituras que falavam de uma possível relação perceptiva entre‘espíritos’ ou ‘essências’ e a maioria da bibliografia relacionada à percepçãoem arquitetura trabalhava com o conceito de corpo separado de mente, oque para outras áreas como a filosofia contemporânea e a filosofia damente/ciências cognitivas já estava superado.No mestrado, encontrei (e fui encontrada) pelas Ciências Cognitivas, asquais me ofereceram respostas para muitas inquietações e me lançaramem um mundo totalmente novo e repleto de outras dúvidas. A maiordescoberta nesta etapa foi o fato da relação perceptiva (assunto principalda pesquisa) trabalhar diretamente com as emoções e os sentimentos,atuando no corpo e não mais em um ‘espírito’, o que me fez compreenderque na verdade não existe imaterialidade ou abstração nos elementosperceptivos.
  5. 5. Até este momento, o foco da pesquisa estava na relação perceptiva. Noentanto, conforme ela ia se desenrolando, alguns outros assuntos iamsendo incorporados. O estudo da representação foi um destes casos e,com ele, a pesquisa se abriu porque passou a falar de como o corpopercebe e representa sua relação com o ambiente. Neste ponto, percebique nem toda percepção pode ser representada. Há momentos, inclusive,que não se pode dizer que existe uma representação para a ação. Este fatoquestiona o próprio conceito de representação tradicional, o que levou apesquisa a nomear a representação enquanto ‘mapa’. Tal cambio mepareceu melhor porque reforça a idéia de representação plástica e emtempo real, em contradição com a representação imóvel e tardia, comoum simulacro.No entanto, nem tudo estava resolvido. Faltava uma palavra quedescrevesse melhor o trânsito entre o corpo perceptivo e o ambiente queestava sendo mapeado. A palavra ‘encontro’ surgiu espontaneamente epassou a significar o toque sutil entre o corpo e o ambiente, toque esteque coloca a percepção em ação.Ao unir as palavras mapa e encontro, a pesquisa ganhou novos contornos:o ‘Mapa do Encontro’ estava se delineando enquanto facilitador do estudodo grande emaranhado de relações que se formam emergencialmentequando corpo e ambiente estão em contato. O Mapa do Encontro é,portanto, um atrator de conceitos e realidades. É o objeto aberto,colaborativo e indeterminado que mapeia relações extremamentesensíveis.A base teórica do estudo partiu dos neurocientistas António Damásio eFrancisco Varela e do filósofo Gilles Deleuze. Alguns pontos específicosforam estudados à luz de Stevenn Johnson e Jane Jacobs, que discutem o
  6. 6. conceito de emergência e auto-organização das cidades. Ainda foramcitados pontualmente Hakim Bey, Margareth Wertein, Ítalo Calvino, oscríticos de arquitetura e urbanismo Rem Koolhaas, Peter Eisenman, oGrupo Archigram e Lina Bo Bardi. Os estudos acerca do Corpomídia,conceito criado por Helena Katz e Christine Greiner (orientadora destapesquisa) também foi utilizado, principalmente no que diz respeito aoentendimento das relações entre corpo e ambiente. Quanto à relaçãoindissolúvel entre corpo e mente e o trânsito entre objetividade esubjetividade, foram explicados conceitos investigados por George Lakoffe Mark Johnson. Na busca por identificar mapas do encontro já existentes,nos inspiramos em filmes, objetos de arte e até desenhos animados.Dentre os artistas e diretores estudados, destacam-se Helio Oiticica,Christopher Nolan, Craig McCracken, Blake Edwards e Jean-Pierre Jeunet.A partir da base teórica construída, sentiu-se a necessidade da construçãode um estudo prático que abordasse o assunto. Foi durante uma viagem aLima/Peru que a oportunidade para o início deste estudo surgiu. Durante opequeno tempo que estive pesquisando junto ao CIAC (Centro deInvestigación de la Arquitectura y la Ciudad) na PUC/Peru, tive acesso aoLaboratório de Biotecnologia. Tal laboratório disponibilizou osequipamentos necessários para que a medição de sinais corporaisprovenientes de um caso de percepção corpo-cidade fosse realizada.Uma pesquisa que aborda o tema da representação deve possuir umformato de apresentação coerente. O primeiro ponto a ser atendido foi anão-linearidade dos capítulos, fazendo com que a leitura do livro possa seriniciada por qualquer um deles. Não existe uma seqüência lógica. Se vocêreparar, existe uma marcação na lateral do livro, indicando onde estão osvários mini-livros, convidando você a abrí-lo na ordem que lhe fizer maissentido. A idéia é sempre permitir ao leitor uma interação com o texto e
  7. 7. uma re-criação a cada nova leitura, assim como acontece com a própriapercepção corporal.Ainda no mestrado, logo que os textos ficaram prontos, foram postadosem uma pagina web interativa. Esta interação possibilitou ummapeamento da opinião do leitor quanto à seleção do conteúdo dadissertação. Os textos que foram poucas vezes lidos em relação aos outros,em um período de seis meses, foram excluídos automaticamente do site enão utilizados ou reformulados para a publicação do livro.A preocupação com a forma de apresentação justifica-se pela necessidadede incluir, além da bibliografia estudada, as individualidades dopesquisador e, por conseqüência as do leitor. Pois já afirma AntónioDamásio: “como é possível que eu mesmo possa dar conta dasregularidades e variações perceptivas do meu próprio mundo, incluindo osurgimento de explicações sobre elas, se não tenho como me situar ‘fora’de minhas próprias percepções?”.O distanciamento total do pesquisador do seu objeto de pesquisa, assimcomo apregoam algumas metodologias é, portanto, impossível. Acontaminação por menor que seja é inevitável. Toda e qualquer leiturapassa por considerações individuais. Acima de qualquer título acadêmico,a partir do momento em que o pesquisador se coloca na pesquisa, estátambém ali exposta a sua vida. Renunciar à vida individual em favor deuma experiência objetiva e permanecer relativamente não afetado pelassuas descobertas foi o maior erro da ciência nos últimos trezentos anos,mas tornou-se rapidamente intolerável na era moderna, como afirmaFrancisco Varela. O profundo envolvimento com a pesquisa é positivo jáque a prática da experiência de pesquisa em questão envolve por inteiro ocorpo-mente do pesquisador e suas inquietações constantes.
  8. 8. Que estas inquietações sejam fortes a ponto de impulsionar outrosquestionamentos e contaminar outras pessoas. Boa leitura!
  9. 9. Livro VioletaO mapa[representação dinâmica em tempo real] Existe uma vasta bibliografia em diferentes áreas, interessada noestudo dos mapas. Apesar da definição de mapa variar muito em cadaárea, há algo em comum em todas elas: mapear é representar algumacoisa, seja um espaço, um fenômeno ou uma organização corporal. Omundo da representação é extremamente amplo, já que representarenvolve criação; o que por sua vez está presente em toda e qualquer açãocognitiva. Um mapa de uma cidade, de um mundo, da população dessemundo, o desenho técnico de uma construção ou de um produto dedesign, uma foto, uma pintura, uma instalação, uma performance, umapeça de teatro ou a maneira como o corpo se organiza para perceber omundo são exemplos de mapas. O mapa cartográfico, exemplo mais comum, pode ser entendidoenquanto representação técnica geográfica. Busca-se nele o maior grau deobjetividade a fim de que qualquer pessoa, em qualquer lugar no mundoconsiga compreendê-lo da mesma maneira, através de mecanismos deorganização como padronização de símbolos e uso de escalas; sendo quepara a construção desse mapa torna-se imprescindível seguir regras eformas pré-determinadas em acordos de opinião, a fim de que oentendimento da mensagem ou o processo de comunicação seja eficiente.No entanto, alguns pontos me desagradam neste mapa tão objetivo e pré-determinado. Prefiro o mapa usado por outras áreas, o mapa enquanto
  10. 10. metáfora1. As ciências cognitivas vêm usando o mapa em suas pesquisas1 Metáfora entendida para entender certos tipos de representação interna corporal. O mapaenquanto processo cognitivo é uma forma de representação transitória emergente da relaçãocognitivo, não comorepresentação pura e perceptiva entre o dentro e o fora do próprio corpo. Este sim é um mapaobjetiva; mas como metáfora, assim como os mapas de Deleuze e de Hakim Bey, que veremosprocesso de um pouco adiante.intermediação entre as A palavra mapa começou a diversificar seu significadomentes e a cultura. recentemente, a partir do momento em que o mundo impôs uma2 rediscussão do espaço e das relações existentes, tornando-se Palavras-chave noentendimento de mapa e extremamente relevante discutir também como as pessoas estão tecendoas quais são melhor novas formas de mapear o mundo que habitam. No entanto, todas essasdiscutidas no Livro maneiras de se entender mapas dinâmicos, plásticos e interativos2 sempreLaranja. existiram. Os corpos sempre criaram mapas internos, representando-os de3 alguma forma. No entanto, foi a partir do momento em que os modelos Organizações ditos contemporâneos3 começaram a surgir, que o conceito de mapacomplexas emergentes, tomou maiores proporções. A partir desse momento, muitos autoresconceito de rede, caos,dentre outros. passaram a estudar o tema, fazendo com que a palavra ‘mapa’ pudesse também metaforizar alguns tipos de organização complexas emergentes. Dentre todas as possibilidades de mapas, este estudo busca entender o conceito e as formas de organização do mapa através de três autores: o filósofo Gilles Deleuze4 e os neurocientistas António Damásio5 e Francisco Varela6. 1 Metáfora entendida enquanto processo cognitivo, não como representação pura e objetiva; mas como processo de intermediação entre as mentes e a cultura. 2 Palavras-chave no entendimento de mapa e as quais são melhor discutidas no Livro Laranja. 3 Organizações complexas emergentes, conceito de rede, caos, dentre outros. 4 Gilles Deleuze, filósofo francês. Sua obra foi escrita, basicamente, entre os anos de 1960 e 1990. Debruçou-se fundamentalmente sobre a questão da complexidade,
  11. 11. António Damásio investiga como podemos verificar os mapas internos docorpo, através do estudo de imagens mentais e padrões neurais. GillesDeleuze propõe um conceito filosófico de mapa que busca mais omovimento de um fenômeno em processo do que seu resultado final.Francisco Varela discute a questão do tempo presente e as possibilidadesde visualização de mapas que estão sempre se atualizando, além de suasformas de organização. Alguns outros autores são também citadospontualmente. Falando mais especificamente sobre a relação entre oconceito de mapa de Deleuze e Damásio, ressalto que embora estesautores trabalhem com diferentes níveis de descrição, este estudo teóricoos relaciona por entender que o mundo contemporâneo está emconstante construção e movimento (tanto do ponto de vista macro quantomicro); sendo entendido portanto enquanto algo que se constróijuntamente com os pensamentos dos corpos que o habitam. Isto é, omundo se constrói a partir da relação entre mapas externos (descritos porDeleuze) e mapas internos (descritos por Damásio) e, embora os autoresnão partam dos mesmos pressupostos apontam para uma possívelsintonia e coerência, mostrando ao final que não há uma dualidade radicalentre ‘dentro’ e ‘fora’, mas sim, fluxos inestancáveis. Para António Damásio, a palavra mapa é inevitável e irresistívelnas discussões da neurologia. Segundo o cientista, mapa pode ser definidoanalisando movimento e multiplicidade. Criou muitos conceitos que botaram emcheque questões filosóficas tradicionais.5 António Damásio é neurocientista e neurobiólogo, estuda os processos deconsciência, imagem corporal, percepção corpo-ambiente, emoção e sentimentos.6 Francisco Varela foi neurologista e grande estudioso da relação corpo ambiente,juntamente com Humberto Maturana criou a teoria da ‘autopoiese’ a qual rompe abarreira conceitual entre corpo e ambiente. Além disso, Varela era adepto dameditação e tentou entender como seu corpo se organizava no momento em que aestava praticando.
  12. 12. enquanto um padrão neural ou uma representação da forma como ocorpo se organiza para perceber um objeto externo ou interno7. Os mapassão parâmetros necessários para que um objeto seja percebido, ou seja,são diagramas executados a partir da percepção desse objeto. Cada corpo-cérebro8 possui sua própria estrutura interna e, portanto, cada objeto serápercebido a sua maneira. “Quando as partículas de luz conhecidas comofótons atingem a retina em um padrão relacionado a um objeto específico,as células nervosas ativadas nesse padrão – digamos, um círculo ou umacruz – constituem um mapa neural transitório.” (DAMÁSIO, 1999, p.407). Seprosseguirmos com o que diz Damásio, entenderemos que existe umanoção legítima de padrão e de correspondência entre o que é mapeado eo mapa, mas essa correspondência não se dá ponto a ponto, permitindocom que o mapa não necessite ser fiel ao objeto em questão. O cérebro éum sistema criativo que constrói mapas através de seus própriosparâmetros e de sua própria estrutura interna. Ao invés de refletir‘fielmente’ o ambiente que o circunda, cada cérebro constrói mapas desseambiente usando seus próprios parâmetros e sua própria estrutura interna,criando assim, em certo sentido, um mundo único. Isso não se estabelececomo um problema já que enxergar o mundo por metáforas é inevitável(LAKOFF e JOHNSON, 1999). Podemos dizer, então, que construir mapas éconstruir representações. No entanto, é preciso esclarecer o significado dapalavra representação.Estamos acostumados com uma forma de entender representação quefoge um pouco a maneira como os autores citados neste texto aentendem. É difícil no começo entender o que muda, o que eles tanto7 Trabalharemos aqui nessa pesquisa somente com a percepção de objetos externos.8 Importante frisar a relação entre corpo, mente e cérebro. Em qualquer momentodeste estudo, ao se falar de corpo, inevitavelmente estaremos falando juntamente decérebro e mente.
  13. 13. vêem de diferente. No entanto, talvez fique mais fácil compreender esteconceito se tentarmos enxergá-lo sempre em movimento e sendoformado a cada nova interação de nosso corpo com o ambiente em queeste está inserido. Para entender o mapa metafórico, tente entender deinício que ele está sempre se reorganizando, sempre se reestruturando, emconstante movimento e, sempre de acordo com a pessoa e o ambienteque o está criando’. Talvez esta maneira de representar se assemelhemuito a “criar”, mas não se assuste , a idéia é esta. Damásio tem uma grande preocupação em esclarecer esse termopor ser, segundo ele, um termo problemático, mas praticamente inevitávelem discussões como essas. A forma tradicional de entender representaçãoé entender que a imagem mental que alguém tem de um rosto específicoé uma representação, assim como os padrões neurais que surgem duranteo processamento perceptivo-motor desse rosto, em diversas regiões docérebro - visuais, sômato-sensitivas e motoras. Essa forma nos parecebastante clara e não muito diferente de tudo que já vimos e significasimplesmente um padrão relacionado a algo, seja esse algo uma imagemmental ou um conjunto coerente de atividades neurais em uma regiãocerebral específica. A questão fundamental para Damásio e que transfiro aseguir na íntegra por ser um trecho muito esclarecedor é que: “Oproblema com o termo representação não é a ambigüidade, já que todospodem deduzir o que ele significa, mas a implicação de que, de algummodo, a imagem mental ou o padrão neural representa com algum graude fidelidade, na mente e no cérebro, o objeto ao qual a representação serefere, como se a estrutura do objeto fosse reproduzida na representação.Quando uso a palavra representação, não é isso que estou sugerindo. Nãotenho idéia de quanto os padrões neurais e as imagens mentaiscorrespondentes são criações do cérebro tanto quanto produtos darealidade externa que levou à sua criação. Quando você e eu olhamos para
  14. 14. um objeto exterior a nós, cada um forma imagens comparáveis em seucérebro. Sabemos disso muito bem, pois você e eu podemos descrever oobjeto de maneiras muito semelhantes, nos mínimos detalhes. Mas issonão quer dizer que as imagens que vemos sejam a cópia do objeto lá fora,qualquer que seja sua aparência. Em termos absolutos não conhecemosessa aparência. A imagem que vemos baseia-se em mudanças queocorreram em nosso organismo – incluindo a parte do organismochamada cérebro – quando a estrutura física do objeto interagiu com ocorpo. Os mecanismos sinalizadores de toda nossa estrutura corporal –pele, músculos, retina etc. – ajudam a construir padrões neurais quemapeiam a interação do organismo com o objeto. Os padrões neurais sãoconstruídos segundo as convenções próprias do cérebro, e são obtidostransitoriamente nas diversas regiões sensoriais e motoras do cérebro quesão apropriadas ao processamento de sinais provenientes de regiõescorporais específicas, digamos, pele, músculos ou retina. A construçãodesses padrões neurais ou mapas baseia-se na seleção momentânea deneurônios e circuitos mobilizados pela interação.” (DAMÁSIO, 1999, p.405) Portanto, as imagens que cada um de nós vê em sua mente nãosão cópias do objeto específico, mas imagens das interações entre cadaum de nós e um objeto que mobilizou esse organismo, construídas atravésde mapas que se formam segundo a estrutura individual daquele corpo. Énesse momento que a representação se forma e é conhecida pelos corpos,criando assim um mapa do objeto em tempo real e não uma relaçãosimbólica pré-estabelecida. “Não é que criamos filmes, somos o própriofilme.” (DAMÁSIO, 1999, p.23). A representação de algum objeto é feita emtempo real, caso contrário não existe mais, é muito efêmera. Portanto,estamos o tempo todo gerando mapas, os quais são constantementemodificados. Por esse motivo, Damásio diz que somos a própria músicaenquanto ela está a tocar. Nós somos a própria representação enquantoela está sendo feita. A partir do momento em que admitimos que as ações
  15. 15. são a própria representação, concluímos que, apesar dos objetos existiremrealmente, a estrutura e as propriedades da imagem que vemos sãoconstruções em tempo real, realizadas pelo cérebro e inspiradas por umobjeto. Possuindo uma afinidade teórica com Damásio, Alan Berthoz9 dizque o mapa é a ação de uma percepção simulada dentro de nós. Sendoassim, ele é a representação mais primária, é a própria ação experienciada.Não há, portanto, um retrato do cérebro que seja transferido do objetopara a retina e desta para o cérebro. O que existe é um conjunto decorrespondências entre características físicas do objeto e modos de reaçãodo organismo, segundo os quais uma imagem gerada internamente éconstruída. E, como do ponto de vista biológico, os seres humanos sãosuficientemente semelhantes, podemos aceitar sem hesitar a idéiaconvencional de que formamos a imagem de uma coisa específica. Masisso não é verdade. Cada corpo representa o mundo através demapeamentos diferenciados, porque cada corpo organiza a sua estruturade uma forma diferenciada. Como bem lembra Margaret Werthein (2001)quando fala da diferença existente entre o período Barroco e o períodoRenascentista, o qual tentava extrair a imagem mais realista possível, comose isso fosse possível. “A partir do momento que é a minha mão que estápintando o quadro e não a sua, a diferença e a subjetividade já estáimposta. Não existe objetividade na criação das ditas representações. Alémdisso, a representação no fundo não pode ser fiel, porque foram meusolhos que viram a paisagem a ser pintada e não os seus. Como saberemosqual dos dois olhos é o que enxerga a verdadeira paisagem?” (WERTHEIN,2001, p.57)9 Alan Berthoz é biólogo e se preocupa com a questão do movimento enquantoignição para processos comunicativos.
  16. 16. Tudo que vemos, percebemos e representamos são merasalucinações da mente, não existe uma verdade. Cada vez que alguém olhapara uma pessoa querida, e ela pode estar a 10 cm de distância, aindaassim sua imagem nunca será real porque virá mesclada com tudo queesse alguém pensa sobre ela, todas as sensações que já teve dela e comogostaria que ela fosse; além da imagem da própria pessoa que está diantede seu nariz. Pode parecer estranho, mas tudo que vemos ou tocamos, outodas as pessoas que amamos, não podem ser reais nunca. Existe umaimpossibilidade de ver verdadeiramente, de conhecer verdadeiramente ede compreender o outro. O real é sempre impossível, portanto cabe-nos apossibilidade de criar situações que possam ser chamadas de real. A partir do ponto de vista e das pesquisas sobre os mapasinternos de Damásio, explícitos acima, discorreremos sobre os mapasexternos de Deleuze na tentativa de fazer uma possível ponte coerenteentre essas duas maneiras de analisar o trânsito entre corpo e objeto. ParaGilles Deleuze, o mapa seria uma representação “inteiramente voltada parauma experimentação ancorada no real, na ação. O mapa não reproduz uminconsciente fechado sobre ele mesmo, ele o constrói.” (DELEUZE,GUATTARI, 2002, p.22). O mapa entendido por Deleuze nunca deve voltar asi mesmo, não deve dar passos atrás porque o passado já foi modificado;não existe reversibilidade. Deleuze vai um pouco além nessa discussão fazendo umacomparação com outra forma de representar, a qual denomina decalque.Para Deleuze, o mapa é mais o “processo que a imagem formal, é o própriomovimento, o germinar, o crescimento, o ímpeto.” (JACQUES, 2003, p.108).Já no decalque, a imagem cristalizada e sem movimento temporal é oproduto obtido. A forma do mapa se difere da forma da pintura ou dafotografia porque o mapa possui uma estrutura caótica, absolutamentenão-hierárquica e potencialmente libertária a qual Deleuze chama derizoma e a fotografia ou pintura, em oposição, são decalques. O decalque é
  17. 17. a forma reprodutiva ao infinito, é recalcar o que já está feito, repetido,cristalizado. O decalque age como um modelo, enquanto o mapa agecomo processo, revertendo o modelo e criando sua estrutura. Trata-seentão de um modelo que se entranha, e do processo que se alonga, rompee retoma. Ambos são necessários para nosso entendimento, o mapaporque busca sempre o tempo real, e o decalque porque fixa a imagempor um tempo maior, permitindo ao nosso cérebro visualizar por maistempo o que foi decalcado do mapa. São forças que se auxiliam. A partir dessa diferença entre mapa e decalque, Deleuze nospropõe um jeito novo de olhar para a representação no mundo atual,englobando o movimento constante e um tempo simultâneo e mais veloz.Para ele, representar algo é diferente de fixar imagens, mapear é deixarque elas contenham o seu próprio movimento e processo. O mapa,portanto, constrói estruturas abertas e não algo sobre ele mesmo, ele seconstrói, contribuindo assim para a conexão e para sua abertura máximasobre o espaço. E, para não deixar calada a citação de Deleuze que melhorcontempla o conceito de mapa: “O mapa é aberto, é conectável em todasas suas dimensões, desmontável, reversível, suscetível de recebermodificações constantemente. Ele pode ser rasgado, revertido, adaptar-sea montagens de qualquer natureza, ser preparado por um indivíduo, umgrupo, uma formação social. Pode-se desenhá-lo numa parede, concebê-locomo obra de arte, construí-lo como uma ação política ou como umameditação.” (DELEUZE e GUATTARI, 2002, p.42). Continuando com a tentativa de busca de um mapa deleuziano,diz Hakim Bey10, na sua lógica da TAZ: somente a mente é capaz de10 Hakim Bey é uma personalidade bastante inusitada. Bastante misterioso,considerado por alguns como profeta do caos ou um filósofo político atual. Criou umconceito bastante conhecido, a Zona Autônoma Temporária (TAZ), zona esta ondefenômenos emergentes e temporários, independentes do controle político e intelectual
  18. 18. produzir um mapa 1:1, tão real quanto o próprio real. Os mapasrepresentam formas móveis de construção e organização, ações a seremconstruídas. É através deles que desenhamos nossas conexões, alongamosnosso espaço e atualizamos nosso modo organizacional. Se o mapa é aprópria representação da ação de perceber algo, representar (ou comodiria Deleuze, ter um pensamento ou uma idéia de alguma coisa) é recriaressa coisa como se fosse pela primeira vez, colocando em cheque a visãode representação enquanto reprodução do objeto externo. Deleuze eGuattari (1992) entendem que o mundo, assim como a nossa mente, épuro caos e aceitar que um mundo pré-estabelecido (ou pré-representado)não existe é difícil porque nos coloca numa posição dolorosa. “Nada émais doloroso, mais angustiante do que um pensamento que escapa a simesmo, idéias que fogem, que desaparecem apenas esboçadas, jácorroídas pelo esquecimento ou precipitadas em outras, que também nãodominamos. (...) Perdemos sem cessar nossas idéias. É por isso quequeremos tanto agarrar-nos a opiniões prontas.” (DELEUZE e GUATTARI,1992, p.259). Estes questionamentos sobre a representação sempre povoarama mente dos pensadores, afinal representar é um processo extremamenteantigo na linha da evolução. No entanto, a representação, até poucotempo, era entendida somente por dois pontos de vista. Francisco Varela(2001) faz um breve histórico sobre essas formas de estudar um objeto,agregando a elas uma terceira maneira de se pensar a representação. Essaterceira forma de enxergar o objeto de estudo vai ao encontro aos mapasde Damásio e Deleuze. Segundo Varela, os dois processos existentes eramo realismo e o idealismo. Ainda hoje eles são utilizadas, embora já bastantepodem surgir. Zona que se caracteriza por movimentos efêmeros e cuja principalidentidade é não ter um líder ou uma estrutura hierárquica.
  19. 19. bombardeadas por essa nova linha de possibilidade e entendimentoapresentada acima e que discorda de ambas.Entender que existem vários autores que enxergam um terceiro caminhopara o entendimento da percepção foi um grande alívio. Nem sempretemos que usar as catalogações prontas, devemos usá-las como maisliberdade. É normal para o pesquisador se sentir mais bem amparadoescolhendo uma linha de pensamento, mas, entender que não precisamosexcluir nenhuma delas, é o grande aprendizado da pesquisa complexa. Os realistas apostam na idéia de que o mundo possuipropriedades pré-estabelecidas e o processo de percepção erepresentação desse mundo nada mais seria do que receber imagens quejá estão prontas, simbolizá-las e devolver ao mundo. Imaginam que “omundo lá fora tem propriedades pré-estabelecidas e estas existem antesda imagem que se forma no sistema cognitivo, cuja tarefa é recuperá-lasconvenientemente seja através de símbolos ou de estados subsimbólicosglobais.” (VARELA, THOMPSON e ROSCH, 2001, p.205). Já os idealistas acreditam que o mundo em realidade não ‘existe’,que não é possível ter acesso ao mundo a não ser através dasrepresentações subjetivas. Pensando dessa maneira, não temos a menoridéia daquilo que o mundo exterior seja, exceto que é uma criação internade todos os corpos. Pensando através desse ponto de vista, “o sistemacognitivo projeta o seu próprio mundo e a realidade aparente destemundo é meramente uma reflexão de leis internas do sistema.” (VARELA,THOMPSON e ROSCH, 2001, p.205). Essas duas visões se distanciam bastante do enfoque da pesquisa,já que os autores aqui estudados acreditam que a percepção se encontra
  20. 20. na emergência11 de uma ação entre o mundo e o corpo-mente. Não sepode ter a noção de que existe um ambiente pré-dado, independente.Nem ao menos se pode esperar que exista um homúnculo12 no cérebro àespera desse mundo já pronto. Um ambiente não pode ser entendidoseparadamente de um corpo. Os objetos não estão ‘lá fora’, livres dascapacidades perceptuais e cognitivas, assim como não estão ‘aqui dentro’,independentes do mundo cultural e biológico que nos rodeia. Ou seja, aespécie especifica seu próprio domínio a ser resolvido, fazendo assim comque seu ambiente possa emergir. “Em outras palavras, essa relaçãoconsiste em descobrir os alicerces biológicos da curiosa capacidade quenós, humanos, possuímos de construir não só os padrões mentais de umobjeto – as imagens de pessoas, lugares, melodias e de suas relações; emsuma as imagens mentais, integradas no tempo e no espaço, de algo a serconhecido - , mas também os padrões mentais que transmitem, demaneira automática e natural, o sentido de um self no ato de conhecer.”(DAMÁSIO, 1999, p.27) Existe uma co-determinação entre os seres vivos e seu ambiente.Por exemplo, a cor das flores parece ter co-evoluído com a visão dasabelhas, sensível à luz ultravioleta. Essa visão de representação enquanto aemergência de uma ação é relativamente recente e surgiu no momentoem que a existência de um mundo com propriedades pré-estabelecidas foiquestionado, já que não fazia mais sentido pensar em um mundo estáticoà espera de que fosse reproduzido através de nossas mentes. Oquestionamento de um mundo pré-dado, por sua vez, teve inicio a partirdo momento em que a ciência começou a descobrir os pormenores dosmecanismos corporais responsáveis pela recepção desse mundo, ou seja,11 Mais um conceito que é melhor estudado no Livro Laranja.12 Acreditava-se, anteriormente, que a relação entre corpo e cérebro era feita atravésde um organismo humano em miniatura (homúnculo), o qual fazia a correspondênciaentre o cortex cerebral e as diferentes partes do corpo.
  21. 21. os mecanismos do cérebro que recebiam um mundo em movimento einteragiam com ele. Sendo assim, o mapeamento não é uma visualizaçãode um mundo pronto (visão realista) e nem uma visualização de algo quese cria dentro de um corpo (visão idealista). A visão do mapa buscadopelos autores estudados e por este estudo não é objetiva nem subjetiva;nem corporal, nem espacial; não fala somente do ponto de vista dopesquisador, e nem somente do pesquisado; nem experiencial, nemrepresentacional; mas sim relacional ao extremo. Busca sempre se locarentre uma coisa e outra, sem que haja exclusão de qualquer elemento. Nãopré-determina regras ou programas a serem seguidos e não deseja a formaestática e imutável. Conforme o conceito de mapa foi se ampliando, algunspensadores passaram a rever a própria utilização da palavra‘representação’, a fim de que a confusão conceitual fosse minimizada. Paraesses pensadores, que podem ser representados através de FranciscoVarela, António Damásio, Gilles Deleuze, Vilayanur Ramachandran13 e atémesmo Michel Foucault, dentre tantos outros; a palavra representação émuito carregada de usos pejorativos, dificultando o entendimento dessanova maneira de entender o ato representacional. Sendo assim, o termodeveria ser transformado para que a idéia de representação enquanto umasimples relação entre objeto e sua imagem correspondente pudesse seralargada. Francisco Varela (2001), por exemplo, propôs o termo enação emsubstituição à palavra representação. Por enativo, entende-se uma novaorientação da cognição, que provém do verbo inglês to enact (quesignifica pôr em execução), mas também representar ou atuar no sentidoque se dá ao trabalho do ator, representação que inclui tempo real,movimento e dinamicidade. A partir dessa proposta, deseja-se enfatizar a13 Vilayanur Ramachandran é neurocientista com trabalhos na área de percepção,consciência e imagem corporal.
  22. 22. crescente convicção de que a cognição não é a representação tardia de ummundo pré-dado por uma mente pré-dada, mas sim aquela a partir de ummundo e uma mente que se põem em ação, a partir de uma história davariedade de ações que um ser realiza no mundo. A teoria da enaçãoconduz à idéia de uma especificação mútua de assunto e objeto. Dizer quea percepção está contida em uma ação é admitir que o que é percebido, aessa extensão, é constituído. A idéia do movimento enativo é que seja aprópria ação no mundo e não uma representação dele. No entanto, comessa palavra é mais antiga, sendo que Martin Heidegger já preferia usar apalavra a-presentação ao invés de representação. Talvez as crianças já entendam melhor este conceito ampliado. Háum desenho infantil chamado “A Mansão Foster para Amigos Imaginários"(MCCRACKEN, 2005), que trabalha muito bem essa questão de um mundounificado para as ações e pensamentos porque propõe a questão darepresentação enquanto própria ação. O desenho se passa numa mansão,onde as crianças espacializam amigos imaginários conforme vão pensandoe construindo-os. Elas podem espacializar tudo que estão pensando, nomomento em que estão pensando. Você pode imaginar quantos ‘bichos’estranhos surgem! Um deles chama muita atenção: o amigo imaginário"Côco". A imagem é uma galinha com cabeça de coqueiro e barriga deavião. Pode-se imaginar que mapa fantástico passou na cabeça dessacriança que criou o Côco. É possível identificar uma relação entre a palavracôco e o cacarejo da galinha: cocoricó. O interessante é que não existeuma separação entre perceber uma coisa e já representá-la. Cada criançamapeia e representa em tempo real, e a sua maneira, o que está pensandoou vendo naquele momento. Esse tipo de mapeamento nada mais é doque o testemunho do que estão sentindo naquele momento. Portanto,estamos trabalhando com o momento presente do fenômeno e suasimplicações sensitivas e não mais com o mapeamento de conseqüências.
  23. 23. A arte contemporânea e, aos poucos a arquitetura, também vêemse apropriando dessa nova maneira de se pensar a representação.Iniciaram esse caminho buscando uma maior interatividade e quebra defronteiras dentro-fora e encontraram uma discussão mais profunda. Todoseles se depararam com a impossibilidade da soberania absoluta dasrepresentações simbólicas, do tempo linear e da memória histórica. Issoporque, cada vez mais, as buscas tiveram que incluir as preocupações commétodos de tempo real, tempos sobrepostos, experiências únicas eefêmeras, interatividade (acima de tudo). Uma arquiteta que sempretrabalhou muito bem essa relação interativa do corpo, espaço econstrução de ambos foi Lina Bo Bardi,14 que ao construir o Sesc Pompéia,levou seu escritório para a obra, desenhando seus projetos in loco,conforme a obra ia pedindo. Não ditava um mundo a ser reproduzido, massim o projetava conforme seu ritmo e necessidades. Isso é um exemplo deinteração entre mundo externo e interno, construção e criaçãoprocessadas juntas. Um mapa de processo que se constrói em tempo real,assim como o que os corpos já fazem há algum tempo e que somenteagora estamos percebendo. Esta alteração de postura nos parece muito bonita eperfeitamente adaptável ao mundo atual. No entanto, no dia a dia, comoficaria a arte e a arquitetura frente às propostas de uma nova forma derepresentação? Elas deveriam substituir a representação pela presença,por uma poética que não se comprometa, que não faça decalque? Queseja puro processo? Deve-se trabalhar no sentido de uma arte temporária,por uma busca do desaparecimento, uma presença evanescente, umanova entrada através de outra parte do rizoma? Estamos no caminho paraencontrar a criatividade não-mediada? “Onde poderíamos encontrar as14 Arquiteta italiana, naturalizada brasileira. Construiu importantes obras, ressaltandoacima de tudo a brasilidade e os costumes de cada espaço a ser construído.
  24. 24. sementes – ervas daninhas brotando entre as rachaduras das nossascalçadas – desse outro mundo para nosso mundo? As pistas, a direçãocorreta? Um dedo apontando para a lua? (...) A arte do mundo da artetornou-se uma mercadoria. Porém, ainda mais complexa é a questão darepresentação em si, e a recusa de toda mediação. (...) A mediação é difícilde ser superada, mas a remoção de todas as barreiras entre artistas e‘usuários’ da arte tenderá a uma condição na qual o artista não é um tipoespecial de pessoa, mas toda pessoa é um tipo especial de artista.” (BEY,2004, p.68) Considerando-se então que o mapa é mais do que umarepresentação formal, aproximando-se mais da ação presente do que deuma imagem simbólica dela, podemos concluir que o mapa é algointrínseco a cada um de nós porque os corpos criam imagens mentaisindependentes das vontades individuais. Possuímos um aparato biológicoque faz com que percebamos algumas coisas e outras não, mas não temoscomo não imaginar, como não criar. Fazemos o filme de nossa vidaenquanto ela acontece. A busca pelos mapas é também uma busca peloatual, movente, fluído, dinâmico, simultâneo, é a busca por representar aprópria história dos corpos. Vilayanur Ramachandran faz uma brincadeiraem um de seus livros, dizendo que Deus tem uma predileção exageradapor mapas, o que o leva a concluir que Deus provavelmente seja umcartógrafo. Ele fundamenta sua brincadeira na abundância de mapasexistentes em toda parte do cérebro. “Por exemplo, há mais de trintamapas diferentes envolvidos só com a visão. Da mesma forma, parasensações táteis ou somáticas – percepção sensorial de toque,articulações e músculos – existem vários mapas.” (RAMACHANDRAN, 2002,p. 87). Sendo assim, se Deus for realmente um cartógrafo, estamos imersosem um mundo repleto de ações-mapas. “Abra um mapa do território; sobre ele, coloque um mapa dasmudanças políticas; sobre ele, ponha um mapa da internet, especialmente
  25. 25. da contra-net, com uma ênfase no fluxo clandestino de informações elogística; e, por último, sobre tudo isso, o mapa 1:1 da imaginação criativa,estética, valores. A malha resultante ganha vida, animada por inesperadosredemoinhos e explosões de energia, coagulações de luz, túneis secretos,surpresas.” (BEY, 2004, p.29)
  26. 26. Livro GrisApêndiceo mapa do mapaOlhando para a cidade, filmes, músicas e tantas outras coisas, desde oinício de minha busca pelos assuntos do corpo e da percepção, busqueigarimpar mapas do encontro espalhados por esses lugares. Venhotentando reconhecê-los na tentativa de também aprender com eles.Alguns deles marcaram particularmente esta busca e me fizeram entendermelhor o que eu estava realmente buscando. Através dos exemplos,acessei a teoria e através da teoria, ampliei meu mundo de exemplos.O mapa das PedrasNo filme “O Fabuloso Destino de Amélie Pollan” (JEUNET, 2001), apersonagem Amélie, cria para si uma vida de contos de fada, acredita nelae a partir disso transforma seu mundo. Como uma rota, restam as pedrasque vai recolhendo pelos lugares que passa e que se tornam seu próprio‘mapa de vida’. Pelas pedras, que compõem seu mapa, Amélie sabe poronde passou e o que sentiu ao estar em cada lugar. As pedras se tornamassim, um mapeamento de sua mente e do movimento de seu corpo,assumindo a forma de seu mapa. Além disso, são um meio de transporteentre os dois mundos que se mesclam em sua vida: o externo e o interno.As pedras de Amélie são seu mapa. Existe um momento em que ela jogafora as pedras que possui, mostrando que sua escolha foi feita, um mapapossível foi apagado, e ela não quer mais viver no mundo “verde e
  27. 27. vermelho”, apesar de nem assim conseguir essa proeza 15. Para Amélie,assim como para qualquer ser humano, desistir do mundo imaginário étarefa impossível.O mapa da Pantera Cor de RosaO exemplo de Amélie pode ser alargado quando colocamos lado a ladocom o personagem de desenho animado, a Pantera Cor-de-Rosa. Elapossui também um mundo muito particular, enxergando tudo que está àsua volta em cor-de-rosa. Ela não reproduz um mundo, mas pinta o mundocom sua cor, rosa sobre rosa, “é seu devir-mundo” (DELEUZE e GUATTARI,2002, p.25), fazendo com que um desejo que se encontra constantemente15 Durante todo o filme e nas ocasiões em que as cenas são vistas pelo olhar deAmélie, as cores verde e vermelho se destacam perceptivamente.
  28. 28. dentro dela, exploda a barreira, e se torne atual. Para a Pantera, a forma domapa é a própria cor com a qual ela constantemente colore o mundo.O mapa da CarneNo filme “Amnésia” (NOLAN, 2002), tem-se um mapa em forma dedesenho tatuado sobre a pele, é o ‘mapa da carne’. Nele vemos um mapafeito no próprio corpo, mapa interativo e mutante, que tem a função defazer lembrar ao homem desmemoriado as instruções a serem seguidasem cada dia de sua vida. E como muitas das informações desse homemficam esquecidas como rastros perdidos, nota-se que ele brinca depossibilidades de vida, brinca de a cada dia escolher uma entradadiferente. Constata-se aqui um mapa que se atualiza diariamente atravésdas tatuagens, decalques de uma representação imagética. Um mapa quenão deixa rastro. Uma clara relação de tempos é exposta já que o homemnão tem uma seqüência linear de sua história, vive do descontínuo, viveem diversos tempos, se conectando por qualquer um deles. Não háreversibilidade, há uma busca de referências do passado, que já seencontram borradas com o presente e, a partir delas, uma continuação.O mapa VirtualSe partirmos para ambientes virtuais, podemos encontrar ainda maisformas para o mapa do encontro. Desde rotas de operações piratas atémapas cuja forma vai ao encontro de fractais. No livro TAZ (BEY, 2005,p.11), Hakim Bey descreve um ‘mapa de operação pirata’. No século XVIII,os piratas e corsários montaram uma rede de informações sobre o globoque funcionava de forma admirável. Essa rede se formava por ilhas,esconderijos secretos onde os navios piratas podiam se abastecer comágua e alimento, e assim continuar vivendo por entre as brechas domundo. Os assassins (seita muçulmana que no século XI assassinava líderescristãos), também descrito por Bey, criaram um ‘mapa do mundo paralelo’.
  29. 29. Esse mapa consistia em uma rede de remotos castelos em valesmontanhosos, distantes e invulneráveis a invasões. Tais castelos eramconectados por um fluxo de informações conduzidas por agentes secretos,os quais estavam em guerra com todos os governos. Eis aqui dois mapasbastante contemporâneos por existirem graças às brechas do sistema,assim como fazem hoje o hackers na internet. Este mapa pode também serchamado máquina de guerra16, a qual conquista sem ser notada e se moveantes de ser cristalizada. Um outro mapa, ainda proposto por Hakim Beyseria o ‘mapa da informação’, a projeção cartográfica da net como umtodo. Nesse mapa “teríamos que incluir os elementos do caos que jácomeçaram a aparecer, por exemplo, nas operações de processosparalelos complexos, nas telecomunicações, na transferência de ‘dinheiro’eletrônico, nos vírus, na guerrilha dos hackers etc.” (BEY, 2004, p.36). Omundo em fractais é desconstruído, dobrado e redobrado a cada segundo.Bey completa dizendo que o mapa estudado pela cartografia nada tem emcomum com o estudado por ele por. Por ser mais abstrato não cobre aterra com a precisão de 1:117.O mapa das PlantasO paisagista Gilles Clément propôs certa vez a criação de uma forma muitointeressante ao mapa do encontro, os ‘jardins em movimento’, utilizando acaracterística móvel e desterritorializante de algumas plantas escolhidaspor ele, no caso o ‘mato’ e uma planta denominada ‘vagabunda’. Para ele,os jardins tradicionais e, mais especificamente os jardins à francesa, estãofortemente ligados à noção de ordem estática, o que nos remete16 Máquina de Guerra é um conceito deleuziano discutido no livro Mil Platôs (2002),usado por Bey no seu livro TAZ.17 1:1 é uma medida de escala que indica tamanho real, espaço total.
  30. 30. fortemente ao decalque18. Ele acredita que a própria idéia de ‘jardim’impõe uma luta perpétua contra o movimento natural das plantas. O papeldo jardineiro é cortar tudo que no jardim transborda ao projeto original ouque é espontâneo, contendo o fluxo natural. O paisagista propôs entãouma concepção de jardim baseada no movimento, transformandoterrenos baldios ou abandonados. Com isso, ele propõe inverter umconceito: de uma coisa planejada e imóvel, ele torna-se um jardim quepossui características de terreno abandonado ou baldio, ou seja, natural,móvel e dinâmico. Fazendo então essa inversão do termo e tornando ojardim um local de movimento natural, ele explica:“oportunidade: o terreno vazio já existe. Intenção: seguir o fluxo dosvegetais, se inscrever na corrente biológica que anima o lugar e orientá-la.Não considerar a planta como objeto acabado. Não a isolar do contextoque a faz existir. Resultado: o jogo de transformaçõesdesordenaconstantemente o desenho do jardim. O movimento é suaferramenta, o mato sua matéria, a vida seu conhecimento.” (CLÉMENT,1994, p.5)Trata-se de uma situação de discussão de movimento. Nesse jardim móvel,o que se via ontem não está mais à vista hoje, o caminho por onde sepassava ontem, mudou de lugar hoje. É o espaço sendo continuamentemodificado, é o espaço processual.18 Decalque entendido à luz de Gilles Deleuze, termo oposto ao seu conceito de mapa.
  31. 31. O mapa das CapasHélio Oiticica19 com seus Parangolés é também um exemplo fundamentalpara demonstrar a experienciação do mapa do encontro. A propostaestava clara nas próprias “Instruções para feitura-performance de CapasFeitas no Corpo”:1. cada extensão de pano deve medir 3 metros de comprimento.2. o pano não deve ser cortado durante a feitura da capa, de modo amanter a estrutura-extensão como base viva da capa.3. alfinetes de fralda devem ser usados para a construção da capa, queserá depois cosida.4. a estrutura da capa-construída-no-corpo deve ser improvisada peloparticipador; se a ajuda de outros participadores vier a calhar, ótimo; aestrutura deve ser construída em grupo em cada corpo participante, e feitade modo a ser retirada sem destruir, como uma roupa.5. um grupo pode construir uma capa para várias pessoas, numa espéciede manifestação coletiva ao ar livre.6. o uso da dança e/ou performances criadas por outros indivíduos éessencial à ambientação dessa performance: assim como o uso do humor,do play desinteressado, etc. De modo a evitar uma atmosfera de seriedadesoturna e sem graça “. (OITICICA, 1968)19 Artista que trabalhava questões da arte móvel e realizada durante a ação. São obrasde Oiticica: Tropicália, Ninhos, diversos tipos de Parangolés, dentre muitos outros.
  32. 32. A pessoa que está usando suas obras, transforma-se emexperienciador e agente da obra. A barreira entre artista e observador éprofundamente permeável. O observador não experiência completamentea obra se também não fizer parte dela, se não houver no momento daleitura dessa obra um fenômeno que reconstrua a própria obra. O artistachamava seus Parangolés de ‘transobjetos’, isto porque quando vestidos,estes se transformavam. Suas capas buscavam reavivar sensações não-condicionantes e uma experimentalidade nova a todo momento, sendocriada e recriada continuamente. Nesse caso, o mapa se torna móvel eapto a muitas outras experienciações. “Já não é o objeto no que possuía de
  33. 33. conhecido, mas uma relação que torna o que já era conhecido num novoconhecimento e o que resta a ser apreendido, um lado poder-se-ia dizerdesconhecido, que é o resto que permanece aberto à imaginação quesobre essa obra se recria”. (OITICICA, 1963, p. 86).O mapa do Corpo ExperienciadorUm mapa somente pode ser construído em tempo real, por cada pessoaque está experienciando aquele momento, a qual passa imediatamente afazer parte dele. “Se essas imagens têm a perspectiva deste corpo quesinto agora, então essas imagens estão em meu corpo – são minhas – e euposso agir sobre o objeto que a causou.” (DAMÁSIO, 1999, p.236).“Enquanto olha essa página e vê estas palavras, querendo ou não, vocêsente, de maneira automática e ininterrupta, que é você quem está lendo.Não sou eu, nem outra pessoa qualquer. É você. Você sente que os objetosque está percebendo agora – o livro, a sala à sua volta, a rua vista da janela– estão sendo apreendidos de sua perspectiva, e que os pensamentosformados em sua mente são seus, e não de alguma outra pessoa. Vocêtambém sente que pode atuar na cena caso deseje – pode parar de ler,começar a refletir, levantar-se e sair para uma caminhada.” (DAMÁSIO,1999, p.168 e 169). Nós temos consciência desse fenômeno mental quenos faz observador de qualquer coisa que estivermos olhando ourelacionando. Todo indivíduo está profundamente envolvido no processode tomar conhecimento de sua própria existência. “O universo deconhecimento, de experiências, de percepções do ser humano não épassível de explicação a partir de uma perspectiva independente dessemesmo universo. Só podemos conhecer o conhecimento humano(experiências, percepções) a partir dele mesmo.” (MATURANA e VARELA,2001, p.18)
  34. 34. No mapa do encontro, é necessário que o leitor do mapa tenhaconsciência de que é peça fundamental do processo e que reorganize omapa de acordo com a legenda que deseja. É necessário que imprima suafábula da maneira que achar mais apropriada. Não existem legendas fixas edadas gratuitamente. Nele, há uma fuga dos rótulos, das frases feitas e dasnarrativas pré-estabelecidas. “Você está lendo este texto e, à medida que lê, está traduzindo osignificado das palavras em um fluxo de pensamento conceitual. Por suavez, as palavras e as sentenças da página, que são traduções de meusconceitos, traduzem-se, em sua mente, em mensagens não verbais. Oconjunto dessas imagens define os conceitos que originalmente estavamem minha mente. Porém, paralelamente à percepção das palavrasimpressas e à exibição do conhecimento conceitual correspondente que énecessário para compreendê-las, sua mente também o representa fazendoa leitura e compreendendo, momento a momento. O alcance total de suamente não se restringe a imagens do que está sendo percebidoexternamente ou do que é evocado em associação com que está sendopercebido. Ele também inclui você.” (DAMÁSIO,1999, p. 172).
  35. 35. Livro ChocolateO Encontroa percepção, o sentimento e a emoçãoAlém de ser muito musical, a palavra encontro surgiu espontaneamente.Eu sempre usava encontro para descrever o ato do corpo acessando oambiente. E, assim quase que por imposição da força do hábito, eu resolviadotá-la.O termo encontro tem como base os diversos estudos que, a cada dia, vêmcomprovando a relação inseparável entre corpo e ambiente. Esses estudos,que estão sendo realizados principalmente no campo das ciênciascognitivas e da filosofia da mente afirmam que fenômenos como apercepção, por exemplo, somente se processam no momento em que háum ‘contato’ entre corpo e objeto, através do qual as barreiras entre omeio interno e externo são quebradas. Essa maneira de olhar para omundo baseia-se em uma lógica conceitual emergente e auto-organizativae não mais determinista, ou seja, amparada por um mecanismo de causa eefeito. Isso faz com que o mundo seja visto a partir de uma lógica sistêmicacomplexa e integrativa, onde nenhum elemento pode estar ‘fora’ da ação,ou seja, existe uma co-determinação entre os seres vivos e seu ambiente20.Dentro e fora, corpo e ambiente devem ser estudados juntos porque a estaaltura não é possível insistir em uma fronteira intransponível entre essas20 Sobre este assunto, há uma explicação mais aprofundada no Livro Violeta, ondeestudamos a teoria de Francisco Varela acerca de um terceito caminho entre o‘realismo’ e o ídealismo’.
  36. 36. duas instâncias. Seguindo esse ponto de vista, o encontro seria a própriaação de entrar em contato com algo ou alguém, a qual causará umareorganização em ambos os lados. Ao estudar o encontro, nos deparamoscom algumas teorias já bastante familiares. No entanto, a grande diferençaé a nova maneira de se olhar para esse objeto. A percepção é um dessescasos. O encontro é, acima de tudo, uma ação perceptiva. Mas esta ésomente uma faceta do encontro, a parte mais íntima do processo. Podem-se verificar milhares de encontros no dia-a-dia, o corpoestá constantemente em contato com muitos objetos, situações e pessoas.No entanto, o que me estimulou a estudar tal tema foi a curiosidade peloencontro entre o corpo do homem e seu espaço próximo: sua vizinhança,seu bairro, sua cidade. Em parte, esta curiosidade se dá por eu possuir umacerta paixão pelas cidades (as que conheço e as que não conheço ainda);mas também por existir uma carência de estudos transdisciplinares emarquitetura e áreas afins que admita a filosofia da mente enquantoparceira. Nas faculdades, a bibliografia usada ainda hoje para o estudo dapercepção tem por base os estudos da fenomenologia e behaviorismo,teorias que estão sendo reformuladas pelos recentes estudos das ciênciascognitivas.A Fenomenologia trata de descrever, compreender e interpretar osfenômenos que se apresentam à percepção. Propõe a extinção daseparação entre "sujeito" e "objeto", opondo-se ao pensamento positivistado século XIX. O método fenomenológico se define como uma volta àscoisas mesmas, isto é, aos fenómenos, aquilo que aparece à consciência,que se dá como objeto intencional. Seu objetivo é chegar à intuição dasessências, ao conteúdo inteligível e ideal dos fenômenos, captado deforma imediata. Até aqui estamos de acordo com a fenomenologia. Adiferença sutil entre ela e os estudos recentes das ciências cognitivas é amaneira como essa relação corpo-objeto é formada. Nos estudos das
  37. 37. ciências cognitivas atuais busca-se chegar à relação perceptiva incluindotambém a organização corporal do processo. Já a fenomenologiaacreditava que a busca dessa resposta estaria somente no cérebro ou nasorganizações de uma suposta “alma”.O Behaviorismo, ou tranduzindo-o: comportamento, conduta, oucomportamentalismo, é o conjunto das teorias psicológicas que postulamo comportamento como único, ou ao menos mais desejável, objeto deestudo. Os behavioristas afirmam que os processos mentais internos nãosão mensuráveis ou analisáveis, sendo, portanto, de pouca utilidade para apsicologia empírica. Esta forma de pensar se difere das ciências cognitivasatuais porque ela considera todos os movimentos (internos ecomportamentais) como fatores extremamente relevantes. Historicamente, os filósofos da fenomenologia foram um dosprimeiros a tentar desvendar essa intrigante relação corpo-objeto. Com aampla divulgação da filosofia de Heidegger e Merleau-Ponty e, mais tarde,com o advento do Behaviorismo, o estudo da relação entre o corpo (meiointerno) e o ambiente (meio externo) começou a ser cada vez maisrequisitado. Voltando à explicação do encontro (e agora já deixando claroonde estamos buscando nossas bases), pode-se dizer que a percepção éum dos elementos fundamentais do encontro e vem sendo estudada demaneira bastante inovadora por muitos cientistas. O encontro é um atoperceptivo, mas não é só isso. O estudo da percepção vem sempreacompanhado do estudo de dois outros tópicos fundamentais: asemoções e os sentimentos. Os sentimentos e emoções estão sendo estudados enquantofenômenos processados não só na mente, mas também no corpo, avança-se no estudo da percepção a partir do momento em que passamos a
  38. 38. estudá-la de uma forma mais ampla. A busca é por descobrir a relaçãoessencial no ‘entre’ da percepção, isto é, na inseparabilidade do processosensório e motor, já que as estruturas cognitivas emergem dos mapasrecorrentes deles, os quais permitem que a ação seja guiada pelapercepção, emoções e sentimentos. Sendo as percepções, sentimentos e emoções os conceitosfundamentais do encontro, deve-se dizer que o encontro é um processocontínuo e sempre expresso de duas maneiras: uma totalmente íntima,onde somente quem está realizando a ação pode ‘tocar’; e uma segundaque pode ser externalizada e compartilhada com outras pessoas através deum regime coletivo e cooperativo. O encontro interno e individual,invisível para o público em geral, escondido de quem quer que seja, excetodo seu proprietário, é expresso através do sentimento e da percepção. Oencontro que se dá através de ações e movimentos públicos que seprocessam no rosto, na voz ou em comportamentos específicos, ou aindaaqueles que não são perceptíveis a olho nu, mas que podem se tornarvisíveis com sondas científicas modernas (como a determinação de níveishormonais sanguíneos ou de padrões de ondas eletrofisiológicas) échamado de emoção. O processo do encontro está totalmente enraizado na noção desubjetividade. No entanto, como esse é um termo que pode ser entendidode muitas maneiras, por ser usado por muitas linhas de estudo; torna-senecessário especificar melhor o que estamos entendendo porsubjetividade.É difícil dizer adeus ao conceito de subjetivo imposto por uma tradiçãodualista e simplista. Subjetivo é algo imaterial, referente aos nossopensamentos, nossa alma. Certo? Eu responderia que há como questionaresta afirmação. Subjetivo sempre envolve mente, corpo e ambiente. Ostrês sempre estão relacionados e se constroem juntos, são
  39. 39. interdependentes. O que devemos entender é que o subjetivo não é algototalmente individualizado, ele também depende e colabora com oobjetivo. Por isso dizemos que esta barreira entre os dois é sempre muitotênue. Buscamos esse esclarecimento nas pesquisas de George Lakoff eMark Johnson21, cujo trabalho possui coerência com as idéias dosneurologistas aqui estudados. Segundo Lakoff e Johnson (1999), asubjetividade depende do corpo em que se estabelece. Não existeinteração somente entre objeto e mente, mas necessariamente entreobjeto, corpo e mente. Além da experiência mental/subjetivizada, existeuma experiência sensório-motora. As duas estão sempre em interação,uma não existe sem a outra e o conhecimento depende dessa interação.Na visão tradicional, a subjetividade seria a parte imaterial do processo,algo abstrato. No entanto, nem mesmo essa palavra – imaterial - é aceitapelos novos estudos da subjetividade, porque ela vem sendo entendidajuntamente com o aspecto corporal, físico (algo totalmente material). Nãoexiste mais dualidade entre concreto e abstrato, corpo e mente. Nasciências cognitivas, as teorias refutam o dualismo mente-corpo e oreducionismo das redes neurais e empregam modelos dinamicistas. Oprocesso de percepção, por exemplo, parte e é inerente aos arranjosdisposicionais do corpo no tempo e espaço. Como atestam Lakoff eJohnson (1999), as primeiras organizações neurológicas pré-cognitivas têmpor base a relação espaço-direcional do corpo, que fundam as metáforasprimárias 22e defendem que é o corpo em sua natureza que formata asconceituações. Sendo assim, o processo de percepção seria um processo21 Lingüista e filósofo contemporâneo, estudam dentre outras coisas os conceitos demetáfora e subjetividade.22 No Livro Violeta, verificamos a estreita relação entre o mapa e a metáfora.
  40. 40. espaço-temporal porque é obtido tanto pelas propriedades baseadas nocorpo e mente quanto por suas projeções no espaço. Tais processos são abase da cognição humana, o que nos leva a entender que o corpo é algofundamental em qualquer processo de subjetividade. Isso mudaradicalmente o entendimento anterior de percepção e cognição distantedo corpo, enquanto processos puramente mentais. A subjetividade não serefere, portanto, a uma idéia abstrata relacionada a uma alma ou menteseparada do corpo. A subjetividade deve ser entendida enquanto umprocesso que ocorre simultaneamente no corpo, mente e ambiente e quesurge a partir de um ponto de vista que o organismo assume em suarelação com o objeto. Sendo assim, dualismos como: o que está dentro docorpo é subjetivo e o que está fora do corpo é objetivo também devem serentendidos como um pensamento errôneo. Não há como localizar osubjetivo e o objetivo, porque as fronteiras entre dentro e fora tambémestão muito tênues. Entendendo-se que não há mais barreira dentro – fora, torna-seinteressante entender como os corpos recebem os objetos que percebem.Objeto pode ser entendido amplamente: uma outra pessoa, um lugar, umamelodia, dor de dente ou estado de êxtase. A relação é sempre porimagens. Os corpos percebem os objetos e os subjetivizam através deimagens mentais. Desde que o corpo ‘toca’ um objeto e dá inicio aoprocesso do encontro, ele entende tudo que recebe enquanto ‘imagem’.Qualquer objeto, situação ou outro corpo que alguém percebe (visualiza,escuta, sente...) ‘entra’ em seu corpo na forma de imagem. O mundo é vistoatravés de imagens, sejam elas imagens sonoras, imagens visuais ouimagens sensoriais. A imagem designa um padrão mental em qualquermodalidade sensorial, como, por exemplo, uma imagem sonora, umaimagem tátil, a imagem de um estado de bem-estar. Estas imagenscomunicam não apenas características físicas do objeto, como também
  41. 41. afetos em relação a ele e à rede de relações deste objeto em meio a outrosobjetos.Emoção, sentimento e percepção são termos distintos, possuem açõesigualmente distintas, mas são de extrema necessidade um para o outropois fazem parte de um mesmo processo. Assim como é importante entender os termos subjetividade eimagem, se torna fundamental desmistificar a igualdade entre os termosemoção e sentimento e verificar qual é sua relação com a percepção.Apesar de não raramente estes termos parecerem significar uma mesmacoisa, o neurocientista António Damásio explica que eles estãointimamente ligados ao processo perceptivo, mas correspondem a açõesbastante específicas. Damásio (2003) chegou à conclusão de que existeuma tênue, mas importante separação entre emoção e sentimento a partirde experimentos práticos em laboratório, onde primeiramente foiconfirmado que as emoções e os sentimentos se processam em lugaresdiferentes do cérebro e, posteriormente, que é possível uma pessoa perdera capacidade de sentir certa emoção, permanecendo com a capacidade decontinuar com o correspondente sentimento. Em alguns experimentos,por exemplo, seus pacientes podiam exibir uma expressão de medo, masnão sentir medo. Essas conclusões foram obtidas com a ajuda de técnicasde neuroimagem, que permitem a criação de imagens da anatomia eatividade do cérebro humano. “A emoção e o sentimento eram irmãosgêmeos, mas tudo indicava que a emoção tinha nascido primeiro, seguidapelo sentimento, e que o sentimento se seguia sempre à emoção comouma sombra.” (DAMÁSIO, 2003, p.14). A emoção e as várias reações com ela relacionadas estãoalinhadas com o corpo, enquanto os sentimentos e a percepção estãoalinhados com a mente. Isso não deve levar à conclusão de que são coisas
  42. 42. separadas. Corpo e cérebro, emoção e sentimento andam sempre juntos,apesar de se expressarem em lugares distintos. Um objeto (imagemexterna ou interna23) pode desencadear uma emoção, porém somente asmodificações com que o corpo passa após receber essa imagem podemser chamadas de sentimento. Esse processo de reorganização corporal, o qual damos o nomede sentimento pode ser entendido também enquanto percepção. Aspercepções visuais, por exemplo, correspondem a objetos exteriores aocorpo cujas características físicas alteram o estado das retinas e modificam,temporariamente, os padrões sensitivos dos mapas do sistema visual. Ossentimentos também podem ser entendidos enquanto modificaçõessofridas pelo corpo, as quais foram desencadeadas por um objeto. A únicadiferença entre sentimento e percepção é que o objeto que desencadeia apercepção é uma imagem externa e a imagem que desencadeia osentimento é uma imagem interna (uma lembrança de alguma situação,de algum objeto, uma memória). Na percepção, portanto, uma parte dofenômeno é devida à construção interna que o cérebro faz de um objeto.Ao contrário, os objetos e situações que constituem as origens imediatasda essência do sentimento estão colocados dentro do corpo e não foradele. “Os sentimentos são tão mentais como qualquer outra percepção,mas os objetos imediatos que lhes servem de conteúdo fazem parte doorganismo vivo do qual os sentimentos emergem.” (DAMÁSIO, 2003, p.98).Como o encontro aqui estudado é com a cidade, objeto externo ao corpo,trabalharemos o encontro estudando somente a percepção e nãosentimento, mas isso não exclui a similaridade entre os dois termos.Nossos corpos praticam necessariamente os três níveis do processo do23 Objeto externo deve ser entendido enquanto qualquer objeto existente no mundo,externo ao corpo. Objeto interno deve ser entendido enquanto a própria recriaçãointerna de um objeto externo, ou seja, quando o corpo relembra algum objeto externo.
  43. 43. encontro: a emoção, a percepção, e o sentimento. Essas ações sãoimportantes no próprio processo evolutivo. O processo do encontro inicia necessariamente com a emoção,quando um corpo se emociona e expressa essa emoção em relação a umobjeto. Após emocionar-se com esse objeto, o corpo passa por algunsajustes e mapeamentos que lhe provocarão um outro estado: osentimento ou a percepção, dependendo da situação do objeto. Falando mais especificamente das emoções, pode-se dizer quesão processos pouco complexos dentro do plano da sobrevivência e sãoresponsáveis por respostas simples como aproximação ou retraimento deum organismo inteiro em relação a um objeto, ou ainda a outras respostascomo excitação ou quiescência. As emoções são coleções de respostasreflexas cujo conjunto pode atingir níveis de elaboração e coordenaçãoextraordinários. O processo emotivo trabalha muitas áreas do organismo,o qual vai se complexificando até que o corpo produza a percepção.Abaixo, estão variados ajustes que o corpo faz a partir do momento emque inicia o encontro. Os ajustes citados estão embasados nas pesquisasde António Damásio (DAMÁSIO, 2003, p.38, 39 e 40):• Em um nível mais baixo, a emoção trabalha os processos metabólicos.Esse processo inclui componentes químicos e mecânicos (secreçõesendócrinas/hormonais, contrações musculares relacionadas com adigestão) que mantêm o equilíbrio químico interior. Essas reaçõesgovernam o ritmo cardíaco e a pressão arterial, dos quais dependem adistribuição apropriada do fluxo sanguíneo no corpo, os ajustamentos daacidez e da alcalinidade do meio interior (os fluidos que circulam nosangue e nos espaços entre as células) e o armazenamento e distribuiçãode proteínas, lipídeos e carboidratos, necessários para abastecer oorganismo de energia, que por sua vez, é necessária para o movimento,fabricação de enzimas e para manter e renovar a estrutura do organismo.
  44. 44. • Também trabalha os reflexos básicos como o reflexo de startle (alarmeou susto), que os organismos exibem quando reagem a um ruídoinesperado; e os tropismos ou ‘taxes’, que levam os organismos a escolhera luz e não o escuro, ou a evitar o frio e o calor extremos.• O sistema imunológico que defende o organismo de vírus, debactérias, de parasitas e de moléculas tóxicas que podem invadir oorganismo.• Comportamentos associados à noção de prazer (e recompensa) ou dor(e punição). Esses comportamentos incluem reações de aproximação eretraimento do organismo em relação a um objeto ou situação específicos.No seres humanos, os quais podem de alguma maneira relatar aquilo quesentem, essas reações são descritas como dolorosas ou aprazíveis, comorecompensadoras ou punitivas. Esses comportamentos são uma série deações, por vezes sutis, por vezes óbvias, com as quais a natureza tentarestabelecer o equilíbrio biológico de forma automática. Dentre essasações, faz parte o retraimento do corpo (ou de uma parte dele), em relaçãoà origem do problema, a proteção da parte do corpo afetada e expressõesfaciais de alarme e sofrimento. Essas ações são acompanhadas de diversasrespostas, invisíveis a olho nu, organizadas pelo sistema imunológico. Aparte visível desse processo culmina com a dor ou o prazer.• Certas pulsões e motivações como a fome, sede, curiosidade e oscomportamentos exploratórios, os comportamentos lúdicos e sexuais.• As emoções propriamente ditas. Da alegria à mágoa, do medo aoorgulho, da vergonha à simpatia. Existem três tipos de emoçãopropriamente dita, as emoções de fundo, as emoções primárias e asemoções sociais. Depois do aparecimento desse tipo de emoção, apercepção do objeto está por vir. A emoção se esquematiza da seguinte maneira: uma emoção éuma coleção de respostas químicas e neurais que formam um padrãodistinto. Essas respostas são produzidas quando o cérebro normal detecta
  45. 45. um estímulo, o objeto cuja presença real desencadeia a emoção.Importante ressaltar que as respostas são automáticas. O cérebro respondeaos estímulos com repertórios e ações muito específicos. No entanto, alista dos estímulos não se limita aos que foram criados pela evolução, incluitambém outros adquiridos pela experiência individual; os quais ainda nãopossuem respostas muito específicas ou prontas. O resultado dessasrespostas é uma alteração temporária do estado do corpo e do estado dasestruturas cerebrais que mapeiam o corpo e sustentam o pensamento. Ofinal desse processo é reagir ao objeto a fim de que direta ouindiretamente o corpo possa entrar em circunstância de bem-estar. Essessão os comportamentos clássicos da emoção, apesar da separação dasfases do processo e o valor de cada uma não ser convencional, segundocomprova Damásio. (DAMÁSIO, 2003, p.61). As emoções são um meionatural de encontrar o ambiente, no caso dessa pesquisa, a cidade;reagindo de forma adaptativa. Podemos encontrar a cidade e seus diversosobjetos conscientemente ou inconscientemente. Quando a encontrarmosconscientemente, estamos realmente avaliando, notando a presença deum objeto, sua relação com outros objetos e com o passado. Quando oencontro é consciente, podemos modular as reações. Quando ocorre umencontro inconsciente, ainda assim a emoção continua a fazer parte doprocesso e indica que o organismo avaliou de maneira menos atenta asituação. Por isso podemos dizer que o encontro é também uma reaçãoautomática do corpo de tal maneira que não é possível viver em umacidade sem se ‘embriagar’ dela. Aliás, a maior parte dos objetos que nosrodeia acaba por ser capaz de desencadear emoções, sejam elas fortes oufracas, boas ou más. Alguns espaços da cidade ou situações nos encontrampor razões evolucionárias. Mas, outros se transformam em estímulosemocionais criados pela experiência individual. Por isso dizemos que ossignificados nem sempre estão prontos, mas sim a serem significadosdurante o ato do encontro. Apesar de bastante completas, a evolução e a
  46. 46. história não têm respostas para todas as situações, sendo necessário aoscorpos encontrar formas criativas de reagir a elas. A emoção é a parte doprocesso do encontro que pode ser trabalhada na coletividade. É visível eexterna e por isso se encontra completamente exposta a muitascontaminações tanto da cidade quanto de outros corpos. Os estímulos doambiente e as influências dos outros corpos são detectados facilmentepelos corpos, os quais respondem impensadamente com a emoção. Quando as conseqüências da emoção são mapeadas no cérebro, oresultado é o sentimento ou a percepção. São eles que abrem a porta parao controle voluntário daquilo que até então era automático. SegundoDamásio, a percepção assim pode ser descrita: “um organismo estáempenhado em relacionar-se com algum objeto, e o objeto nessa relaçãocausa uma mudança no organismo.” (DAMÁSIO, 1999, p.38). Essa relaçãoexistente entre corpo e objeto é vital. Perceber o mundo é algo inevitávelpara qualquer um de nós. Para explicar melhor como podemos perceberalgo, devemos começar dizendo que acima de qualquer coisa existe umaperspectiva individual e muito subjetiva24. Damásio propõe um exercícioprático para essa situação, onde pede que nos imaginemos atravessandouma rua e, de repente aparece um carro vindo rapidamente em nossadireção. A percepção que temos desse carro vindo em nossa direção é apercepção do corpo que está vivendo a situação, e não pode ser o corpode mais ninguém. Uma pessoa que está no terceiro andar de um prédio evê a mesma cena, percebe de um ponto de vista diferente, o do corpodela. Enquanto o carro se aproxima, uma série de ajustes corporais sãofeitos rapidamente. A sinalização dessas mudanças são um meio deimplementar na mente dessa pessoa a percepção do seu corpo. Essapercepção acontece primeiro graças ao seu sistema perceptivo específicoe segundo através dos variados ajustes que são efetuados24 Subjetivo entendido como foi exposto acima.
  47. 47. simultaneamente por diferentes setores musculares do corpo e pelosistema vestibular. Há também sinais derivados das reações emocionais aum objeto específico. Estes ajustamentos descrevem tanto o objeto (quenesse exemplo é o carro) que ganha vulto ao aproximar-se do organismo,quanto as reações do organismo em direção ao objeto, à medida que oorganismo se regula para manter um processamento satisfatório doobjeto. "Para perceber um objeto, visualmente ou de algum outro modo, oorganismo requer tanto os sinais sensoriais especializados como os sinaisprovenientes do ajustamento do corpo, que são necessários para aocorrência de percepção.” (DAMÁSIO, 1999, p.192). Quando alguém ouve uma música ou é tocado por um objeto, o mapaformado é sempre em relação ao próprio corpo, pois ele é traçado combase nas modificações sofridas por seu organismo durante os eventos deouvir ou tocar. A forma como o organismo percebe, ou seja, o mapa que oorganismo faz durante o processo de percepção é essencial para aresposta que dará ao objeto. “A perspectiva correta em relação ao carroque se aproxima é importante para que se arquitete o movimento com oqual vai se escapar do veículo, e o mesmo se aplica à perspectiva de umabola que se deve apanhar com a mão. O senso automático da condição deagente individual nasce naquele exato momento.” (DAMÁSIO, 1999,p.194). O sistema que, supostamente, transmite os sinais e faz com que todoesse processo descrito acima ocorra chama-se sistema sômato-sensitivo.Esse sistema designa a percepção sensitiva do soma, palavra que significacorpo. No entanto, geralmente se usa esse termo restritivamente, sendoevocado somente para se referir ao tato ou à sensação nos músculos e nasarticulações. No entanto, esse sistema relaciona muitas outras coisas, naverdade relaciona uma combinação de vários sistemas responsáveis portransmitir ao cérebro sinais sobre vários aspectos do corpo. Enfim, essesistema é responsável por mapear o corpo enquanto realiza a percepção e
  48. 48. transmitir essa informação ao cérebro. Esse mapeamento é feito pordiferentes mecanismos, alguns não usam nem ao menos os neurônios parafazer a transmissão, mas sim substâncias químicas que estão disponíveisna corrente sanguínea. Apesar das percepções corporais serem mapeadaspor diferentes mecanismos, elas atuam em perfeita cooperaçãoproduzindo uma infinidade de mapas dos vários estados perceptivos docorpo, em qualquer momento. Quando um objeto é percebido, os órgãos sensoriais periféricoscomo o olho ou o ouvido, são acionados sensorialmente. Geralmente sãoacionados simultaneamente. “Não existe percepção pura de um objeto emum canal sensorial, por exemplo, a visão ou audição, as mudançassimultâneas não são um acompanhamento opcional. Essas sensações sãotransmitidas ao córtex cerebral. Além dos córtices sensoriais primários,podemos acionar também mapas neurais, caso o objeto percebido ativealguma memória dessa representação. Quando o objeto atinge o córtexsensorial, há uma primeira representação a partir do processamento decores, formas, movimentos e freqüências auditivas. A partir daqui, o corpopassa a realizar ajustes motores necessários para que os sinais do objetocontinuem a ser reunidos por ele e então uma segunda representação éformada. Essa segunda representação é a relação entre objeto, organismoe a relação dos dois. Resumindo, o encontro perceptivo acontece quando aimagem do objeto afeta um corpo (e isso acontece a todo momento). Apercepção que esse corpo tinha antes de ter recebido essa imagem eradiferente, possuía um desenho diferente do que a que ele tem nessemomento. Agora, a imagem do objeto que o corpo percebeu através doencontro afetou-o de tal maneira que ele precisou se reorganizar, sereestruturar, modificar seu desenho. Como o próprio estado do organismoé afetado nesse encontro, havendo uma acomodação interna da imagemexterna, diz-se que o evento possui um contexto espacial e temporal. Ocorpo entrou em interação com o objeto e se transformou. Ou seja, não
  49. 49. existe percepção pura de um objeto porque, além da imagem já chegar aoaté o corpo através da simultaneidade de sentidos (o olho enxerga juntocom o tato que sente e com o nariz), ao entrar no organismo passa porajustamentos corporais necessários para sua perfeita percepção. Esse mapeamento que se cria em trânsito é elaborado ouorganizado através da permeabilidade da fronteira dentro-fora já que elaestá sendo continuamente alterada por encontros com objetos ou eventosem seu meio ou também por pensamentos e ajustes internos do processoda vida. Esse mecanismo é extremamente complexo e capta umaimensidão de imagens perceptivas, as quais são geradas a cada segundo.Importante ressaltar que, apesar de extremamente complexo, o processoperceptivo acontece independente de nosso poder de escolha. Perceber éum ato cognitivo que perpassa nossa própria vontade, e por isso se tornatão vital quanto respirar. A percepção é uma atividade colaborativa entreum corpo e no mínimo um objeto. A percepção é uma atividade doambiente processada no corpo, nós somos o mundo e o mundo viveatravés de nós. (KATZ e GREINER, 2004) A percepção e as “sensações,emoções, pensamentos, imagens, idéias não operam sobre o corpo, são ocorpo, são expressões da dinâmica estrutural do sistema nervoso em seupresente.” (MATURANA e VARELA, 2001, p.38). E, se existe uma cooperação entre exterior e interior ali, elatambém se faz presente entre os próprios mecanismos internos do corpo.Por exemplo, quando existe uma percepção visual, o nervo ópticoestabelece a ligação entre os olhos e uma região do hipotálamo designadapor núcleo lateral geniculado e daí até o córtex visual. A explicação queestamos acostumados a ouvir sobre esse mecanismo perceptivo visual éque a informação entra através dos olhos e é
  50. 50. retransmitida sequencialmente através do tálamo ao córtex paraprocessamento adicional. Mas, se observarmos melhor e entendermos quea percepção trabalha criando mapas do objeto e do corpo ao mesmotempo, veremos que essa informação não faz muito sentido. “É evidenteque 80 por cento daquilo que qualquer célula LGN escuta não provém daretina, mas sim da densa interconexão de outras regiões do cérebro. Alémdisso, podemos ver que há mais fibras vindo do córtex para o LGN do queaquelas que seguem no sentido oposto. Olhar para os circuitos visuaiscomo constituindo um processador seqüencial parece inteiramentearbitrário; seria igualmente fácil ver a seqüência ir no sentido inverso.”(VARELA, THOMPSON e ROSCH, 2001, p.134). Portanto, o encontro é mais uma ação conjunta entre as diversaspartes envolvidas (informações do objeto, córtex visual primário, formaçãoreticular, descarga corolária de neurônios que controlam o movimento dosolhos...) do que um processo que faz com que somente um dos elementosenvolvidos cumpra a ação, como se fosse possível uma informação comuma direção de atuação definida. Esse mecanismo de reconhecimento deum objeto é concebido atualmente como emergência de um estadoglobal. O estado global envolve mais elementos do que se imaginava hápouco tempo. Ao se estudar a visão, atualmente, devemos prestar atençãoà forma do objeto, propriedade de superfície, relações espaciaistridimensionais no espaço e movimento tridimensional. “Essas diferentesmodalidades visuais são propriedade emergentes de sub-redesconcorrentes, que têm um grau de independência e mesmo umaseparabilidade anatômica, mas que se correlacionam e trabalham emconjunto, de tal modo que praticamente em qualquer momento umapercepção visual se torna coerente.” (VARELA, THOMPSON e ROSCH, 1991,p.213). Além disso, a percepção visual mantém um intercâmbio ativo comoutras modalidades sensoriais como as associações de cor e som, bemcomo cor e percepção horizontal/vertical. “A rede neuronal não funciona
  51. 51. como uma rua de sentido único da percepção para a ação. Percepção eação, sensorium e motorium encontram-se interligados na qualidade depadrões sucessivamente emergentes e mutuamente selecionadores.”(VARELA, THOMPSON e ROSCH, 2001, p.215) Através dessa nova maneira de entender a percepção, semprealiada à emoção e ao sentimento, não mais de maneira linear, mas de umamaneira emergente, o corpo-mente torna-se elemento fundamental noprocesso perceptivo e representacional. Segundo Varela “o papel do meiomudou-se tranquilamente da posição em que era um ponto de referênciapreeminente, retrocedendo cada vez mais para o pano de fundo,enquanto a idéia da mente como uma rede emergente e autônoma derelações adquiriu uma posição central. Chegou então a altura de pôr aquestão: o que há em tais redes, se é que há alguma coisa, derepresentacional?” (VARELA, THOMPSON e ROSCH, 2001, p.185). Construir mapas do encontro é o mesmo que misturar corpos emtransformação, colocar forças em tensão. O objetivo desse jogo é fazercom que as partes envolvidas entrem em um processo de reorganização ecriação de outros estados, outras imagens; as quais podem ser chamadasde percepção ou até mesmo de ação.
  52. 52. Livro LaranjaO Mapa do EncontroA representação da percepçãoResumidamente, e conforme está descrito nos livros Violeta e Chocolate,‘mapear’ é representar algo dinamicamente e em tempo real, enquanto aexpressão ‘encontro’ tenta mostrar a inseparabilidade do corpo-ambientequando estes estão inseridos em um processo perceptivo. O Livro Laranja,este que você está lendo agora, tenta verificar a potencialidade dos doisconceitos unidos. Através de alguns exemplos, na maioria das vezesextraídos da relação entre o corpo e a cidade25, e de conceitos-chave parao mapa do encontro, tentarei delineá-lo. Importante ressaltar que oconceito de mapa do encontro não é aplicado somente à cidade, mas aqualquer objeto ou ambiente que nosso corpo possa experienciar: o usode um objeto de design, a ação de escutar uma música, assistir um filmeou navegar pela internet. Para o melhor entendimento do mapa, pode-se dizer que ele temuma estrutura fixa e algumas aspirações. Através da estrutura, podemosobservar quais são suas preferências teóricas e as posições conceituais.Através das aspirações, delineamos um caminho a ser testado, conceitos eformas de acontecimento ainda em fase de teste, as quais o mapa doencontro busca experimentar.25 Uso exemplos extraídos da relação entre corpo e cidade primeiramente por eu serarquiteta e grandes admiradora das cidades, mas também por este ser o estudo de casoda pesquisa, o qual é apresentado no Livro Pink.
  53. 53. A ‘estrutura’ do mapa do encontro, ou seja, seus parâmetrosfundamentais se organizam da seguinte maneira:1. inseparabilidade subjetivo-objetivo2. alta plasticidade3. indeterminismo4. impossibilidade da representação do processo completo No entanto, ele possui ‘aspirações’ que lhe dão vida nova, respiro,retro-alimentação e formas de experimentação. Eis algumas delas:1. ser colaborativo2. ser emergente3. ser lido através de padrões4. ser construído horizontalmente5. possuir código aberto6. ser criado e interagir com “open bodies”estrutura 01inseparabilidade subjetivo – objetivoO subjetivo não nasce do nada, ele precisa negociar com a situaçãoexterna. Ele faz um trabalho mais de recodificação e reorganização do quede livre criação propriamente dita. Não existe uma direção única para ainformação, porque ela é sempre construída no entre, na mediação entre oobjetivo e o subjetivo. A função do mapa é, sem dúvida, ‘relatar’ essasrelações. É fazer vir à tona o caminho feito pelo corpo e ambiente para quea imagem de algo seja formada.
  54. 54. Humberto Maturana e Francisco Varela, no livro “El Arbol delConocimiento” (2003) e através de sua vasta pesquisa relata esta relaçãoinseparável. Segundo estes autores, não existe uma forma de separar osujeito da sua própria ação sobre o objeto. Um necessita e constrói o outronum processo contínuo dentro-fora, o que cria este espaço intermediáriodo ‘entre’ (o qual não pode ser descrito enquanto uma união de duaspartes mas sim como a criação de uma terceira). “Não é possível conhecer‘objetivamente’ fenômenos em que o próprio observador que descreve ofenômeno esteja envolvido. Tem sido precisamente esta noção de‘conhecer’ que vem bloqueando firmemente o passo do conhecimentohumano à compreensão de seus próprios fenômenos sociais, mentais eculturais.”26 (tradução nossa). O fato da humanidade vir tentandocategorizar e separar estes dois processos acaba por simplificá-lo demais, oque nos leva ao entendimento errôneo do estudo da percepção. Segundouma visão global, defendida tanto por Maturana e Varela quanto poroutros autores como Edgar Morin27, a visão segmentada e simplista tomaconta e se alastra mais rapidamente por ser mais fácil de sercompreendida. No entanto, nem sempre devemos tomar este caminhomais fácil. Tomar este caminho é o mesmo que dizer que seria possível aoser humano sair de sua própria percepção e criar objetivamente um objetoou um ambiente. E, depois disso, voltar a sua consciência perceptiva esignificá-lo. Os processos não podem ser separados porque elesacontecem ao mesmo tempo. Como é possível que alguém possadescrever com validez universal um objeto? Como é possível que a26 “Nos es posible conocer ‘objetivamente’ fenómenos en los que el proprioobservador que describe el fenómeno está involucrado. Ha sido precisamente estanoción del ‘conocer’ la que ha bloqueado firmemente el paso del conocimientohumano a la comprensión de sus proprios fenómenos sociales, mentales y cuturales.”(MATURANA e VARELA, 2003, p. 11)27 Edgar Morin, filósofo Frances, grande teórico da complexidade.
  55. 55. consciência possa descrever algo subjacente a ela própria se não nos épossível descrever nada sem usarmos nossa própria consciência? “Há um círculo, com o observador no centro, e o observar é só ummodo de viver o mesmo campo experiencial que se deseja explicar. Oobservador, o ambiente e o organismo observado formam agora um só eidêntico processo operacional Isso é o que se pode chamar de propriedadeemergente global, de dinâmica de rede, de rede não-linear, sistemascomplexos ou fecho operacional. Se o mapa do encontro for criado atravésde fecho operacional, descarta-se o agente externo responsável por girar amanivela do sistema. Não existe um observador que não esteja implicadona ação. Não existe um Deus dando ordens ou desenhando a vida dealguém, porque tudo está sendo feito no lugar e no momento peloscorpos envolvidos no processo. Um está sempre se conectando ereinventando o outro. Por isso, posso dizer que o mapeamento dependeda visão subjetiva tanto quanto de suas próprias particularidades objetivas(sejam elas espaciais, materiais...). Mapear um encontro se torna complexo principalmente porquenão temos um modelo ‘ideal’ de corpo a ser estudado (e nem de ambienteou objeto) porque os dois estão em constante movimento. A partir domomento em que passamos a entender nosso ambiente dessa maneira,perdemos a noção de homem ideal e de ambiente ideal. Segundo algunsarquitetos, estudiosos da percepção “a união entre mundo e menteimplica em aceitar que os objetos tangíveis (materiais) produzidos pelosarquitetos não conferem, por si sós, qualidade e eficiência, uma vez quesua aceitação e eficiência estão diretamente relacionadas com os aspectosintangíveis – os pensamentos, a imaginação, os desejos, as idéias e asconcepções arquitetônicas voltadas para as demandas de um homemideal – conforme imaginados por Da Vinci e Le Corbusier.” (ALCÂNTARA,ARAÚJO e RHEINGANTZ, 2004). A cidade e a arquitetura que o corpo sentenesse processo não retribui com respostas esperadas pelos arquitetos e
  56. 56. urbanistas, porque as respostas estão sendo criadas no momento em queo corpo acessa o espaço. A cidade que cada corpo mapeia tem comoresultado o próprio encontro entre as informações que chegam com asinformações que o corpo é capaz de perceber e retribuir ao ambiente.Portanto, a cidade que o corpo percebe é sempre diferente da cidade queo arquiteto projetou. Conforme vamos reconhecendo que o corpo possuio poder de re-arranjar imagens externas, de mesclar as imagenspercebidas com imagens internas e de seu repertório individual, passamosa perceber que nosso ambiente é criado com a ajuda das percepções esentimentos de cada corpo. É o trânsito entre os mapas internos e externosque vai fazer e refazer constantemente a imagem da cidade, de um espaçoespecífico ou mesmo de um objeto a cada um de nós.estrutura 02alta plasticidadeO processo de mapear objetos dinâmicos através de ajustes corporaistambém dinâmicos é um processo que inclui alta plasticidade. Entende-sepor plasticidade a facilidade com que um corpo ou um objeto possui de sere-fazer, re-organizar ou re-codificar; a capacidade que o cérebro tem defazer com que sua estrutura neural seja reformulada a cada novainformação externa que recebe. O que temos nesse processo é, portanto,um corpo que faz e refaz constantemente as imagens externas recebidas,tornando assim seu ambiente e as representações do próprio processotambém plásticos. Os corpos fazem isso muito bem e com muita agilidade.“Há pouco minha cabeça estava voltada para aí, eu via tal canto da sala, eume viro, é uma outra imagem; eu passeio numa rua onde há pessoasconhecidas, eu digo ‘bom dia Pedro’, depois me viro e então digo ‘bom diaPaulo’.” (DELEUZE, 2006). Essa sucessão de imagens nos leva, portanto, a

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