A exactidão ou a fiabilidade de uma descoberta científica ganha corpo a partir de um
conjunto de dados que confirmam as premissas da descoberta, enquadradas num contexto
cultural e social preciso. Hoje, cada vez mais, a validação da argumentação certificando a
descoberta científica atravessa várias arenas e agendas (Hilgartner e Bosk, 1988; Rogers,
Dearing e Chang, 1991), incluindo o poder político, os congressos e as revistas
científicas. Destes, a descoberta científica salta para os jornais e outros media, onde,
através da simplificação e da construção narrativa lógica de personagens e
acontecimentos, alcança a opinião pública e obtém uma maior validação e popularidade.
Na notícia sobre a ciência, apresentada como pertencendo ao domínio da certeza, surge
um valor de racionalidade autojustificada, a que se juntam estórias curiosas que envolvem
os participantes e servem a narrativa da notícia. Daí, a notícia da ciência ser uma
realidade socialmente construída, sujeita a modelos e ideais de uma cultura e momento.
Do mesmo modo que a ciência, também a notícia sobre a doença se constitui como uma
representação social da realidade. Cada vez mais, a ciência e a descoberta científica para
combater uma doença passam pelas definições saídas nos textos publicados que um
especialista ou um grupo de cientistas escrevem para os seus pares e colegas, na tentativa
de obter aprovação. Mas a novidade científica no terreno da saúde e da doença também
conhece uma divulgação rápida nos media.
[...] A notícia constitui um campo de luta e conflito entre fontes de informação e
jornalistas, que negoceiam o significado do acontecimento. Enquanto a fonte procura
controlar a informação que sai da sua organização, criando dispositivos de publicitação e
secretismo do que se diz, o jornalista produz a notícia sobre o acontecimento dentro da
perspectiva de construção social da realidade (Santos, 1997: 11).
[...] Muitas vezes, os jornalistas aceitam os pontos de vista destas fontes, abordagem a-
crítica dos factos científicos e reverenciadora perante cientistas e especialistas, que detêm
saberes específicos. Outras vezes questionam o seu conhecimento, quando não surgem
respostas rápidas e precisas (resistência das bactérias aos antibióticos, Ebola, doenças das
“vacas loucas” e da sida). Por outro lado: o que procuram os cientistas nos meios de
informação? Quais os interesses destes naqueles? Como intermedeiam os
acontecimentos?
Tais questões fundamentais foram investigadas (Burkett, 1990; Hernando, 1992; Haslam
e Bryman, 1994; Jesuíno, 1995), tendo como pano de fundo o movimento registado no
campo científico, que passou da vulgarização para a mediatização (Zappalà, 1997: 181;
Wolton, 1997: 11). Pela vulgarização, a notícia transmite valores e conhecimentos,
enquanto a mediatização garante visibilidade e exibe a conflitualidade de interesses
políticos, económicos e científicos no par desenvolvimento tecnológico-descrença no
valor progresso. Os cientistas e os jornalistas jogam nas duas perspectivas, mas também
as organizações a que ambos pertencem, numa luta contínua por afirmações de confiança.
Num primeiro momento de relatos científicos nos meios de informação, escasseava o
número de fontes de informação científicas e restringia-se o acesso. Prevaleceu o
princípio das fontes oficiais, situadas perto do poder e das decisões. Neste domínio, os
grandes acontecimentos, figuras ou acções – na origem de muitas das notícias –
provinham maioritariamente do estrangeiro, caso dos EUA. Depois, outras vozes
começaram a ser ouvidas, surgidas de fontes não oficiais (como grupos de pressão) e de
cientistas independentes, cujos relatos rigorosos os transformaram em especialistas
credíveis, e de maior proximidade geográfica. Ao predomínio de um só tipo de fonte de
informação sucedeu um composição de vários tipos de fontes.
[...] Visando popularizar ou vulgarizar a ciência, nas notícias aligeiram-se conceitos
científicos ou técnicos, causando problemas à compreensão do corpo científico tratado e à
reputação das fontes que originam ou promovem a informação. Na televisão, isso é muito
perceptível: o reduzido tempo para explicar um assunto leva o cientista a construir um
enquadramento perceptível à audiência. Quando o programa inclui público a assistir –
pretendendo “democratizar” a discussão mas nivelando gostos e conhecimentos por baixo
–, o cientista sente-se inibido de desenvolver as suas ideias próprias, ficando pela pequena
frase (soundbite). Enganos, imprecisões ou omissões sobre a ciência atribuem-se aos
jornalistas, mas a responsabilidade também se imputa aos cientistas: estes não esperam
pelas reacções dos colegas aos textos publicados nas revistas científicas, mas publicitam
os trabalhos através de conferências de imprensa (Anderson, 1998: 284), como no caso da
fusão fria [...].
Ao cientista exige-se o lado de especialista “todo o terreno” e pronto-a-responder. Mas o
especialista não é nem sábio, nem investigador, nem par (Wolton, 1997: 13), embora a
sua especialização legitime e reforce a autoridade do seu saber (Monnoyer, 1997: 162) e
alargue mesmo a sua área de competência a outras actividades. Por isso, há cientistas
abordados a qualquer hora ou local para comentar tudo e nada. De modo idêntico ao
político, constrói-se a ideia de tecedor de factos (spin doctor) científicos, que elabora um
discurso em busca de visibilidade, prestígio e notabilidade, traduzíveis em lugares, poder
e angariação de fundos. Neste sistema de teorias simplificadas, os próprios cientistas
escrevem livros, limitando o jargão técnico ao mínimo indispensável, descrevendo os
fenómenos científicos com uma construção narrativa semelhante a um romance, com
estórias, romanesco, humor, drama emotivo e ficção.
Além disso, formam-se fortes grupos de pressão. Cientistas, médicos, pessoal
paramédico, associações de classe e laboratórios movem-se em grande actividade e
esforço propagandístico, visíveis na recomendação de dietas alimentares e na discussão
dos factores de origem e relação das doenças. A autoridade científica rodeia-se de uma
auréola mítica - muitas vezes, o médico é caracterizado como sábio, padre ou mágico
(Zappalà, 1997: 183). Nas notícias sobre a sida, a assídua presença dos grupos de pressão
detecta-se na profusão de propostas de vacinas para a cura da sida e de medicamentos
para atenuar os efeitos da doença, vindas de distintos países e tendo como cobertura
médicos, investigadores e laboratórios. As palavras e os projectos científicos ganham,
desta maneira, uma grande extensão de credibilidade.
Dramas médicos, como a talidomida, levaram a comunidade científica a utilizar
protocolos mais rigorosos, obrigando a produção de um medicamento apenas depois de
um período demorado de experimentação e em grandes grupos. Porém, a pressão das
associações de doentes com sida nos Estados Unidos facilitou o lançamento de produtos
médicos após curto período de experimentação e em apenas alguns pacientes (Flaysakier,
1997: 136). Tal aconteceu com o AZT, e a estratégia de Olga Visser no “Virodene”
seguiu o mesmo sentido. Claro que estas atitudes favorecem a indústria multinacional
farmacêutica, que não dispende anos de investigação e, assim, poupa bastante dinheiro,
apesar da redução na fiabilidade e segurança do medicamento a longo prazo.
[...] Detectam-se três momentos principais na narrativa da doença e suas explicações
científicas. No princípio, existe um modelo de aceitação e reverência perante médicos,
especialistas e congressos que os reúnem. O aparecimento de doentes que reivindicam e
de organizações especialistas da sida despertam o interesse da esfera política, com
diversas ONGs a forjarem a credibilidade após muitas lutas, a maior parte das quais
mediáticas. Um terceiro momento põe em questão o poder da medicina, quando as
respostas às doenças são lentas e não se encontram remédios capazes, como aconteceu
com a sida.
[...] Nas duas últimas décadas, a sida constituiu-se em importante tema noticioso. De
início, olhada como a doença do século, de fácil transmissão e associada a
comportamentos sexuais considerados de risco, o medo de a contrair estendeu-se
progressivamente a todas as camadas sociais e culturais e tornou-se um problema político
central na segunda metade dos anos 80. Uma explicação para a entrada demorada da sida
na agenda política reside na possibilidade do seu anúncio público gerar pânico (Cook,
1997: 221), o que colocou os meios de informação em situação delicada. Apesar dos
avanços e recuos, a opinião pública conseguiu que medidas sociais e políticas fossem
tomadas com razoável rapidez e fossem disponibilizados meios apreciáveis.
[...] A sida associou-se a tudo o que é mau – sensacionalismo, aventureirismo, medo
(Montagnier et al., 1989: 546). A morte por doença contagiosa sempre despertou horrores
maiores do que a morte natural (Mattoso, 1998: 18). Tal medo conduz o homem a quase
perder a sua razão social, a excluir os contagiados (Ryan White, os irmãos de Fronteira), a
procurar culpados e castigar e exorcisar os desmandos sexuais, numa permanente
demonização e sentido de pecado dos considerados grupos de risco (homossexuais,
toxicodependentes, prostitutas). Se o risco se associa à representação da doença e da
morte, a sua eliminação passa por procedimentos aperfeiçoados de diagnóstico e anulação
de doenças parasitárias e infecciosas (Giddens, 1994: 107). Na história da sida, aos
poucos, ela deixou de ser doença afectando tais grupos de risco para passar a atingir
qualquer indivíduo. As campanhas públicas de comunicação acompanharam este
movimento, mas mantiveram-se algumas rejeições. [...]
10000
1000
tumor estômago
diabetes
enfarte miocárdio
sida
100
acidentes veículos motorizados
tuberculose
hepatite por vírus
10
1
83 84 85 86 87 88 89 90 91 92 93 94
Figura 1. Mortes dos indivíduos por doenças classificadas. Fontes: Instituto Nacional de Estatística e
Comissão Nacional de Luta Contra a Sida (1995). Sida - a situação em Portugal a 30 de Setembro de
1995. Lisboa: Instituto Nacional de Saúde, p. 10. Em 1983, não se registaram óbitos por sida.
A sida foi a primeira epidemia numa sociedade de comunicação de massa, com
quantidade de informação, extensão planetária, características emocionais e indicações
comportamentais paralelas ao acidente nuclear de Chernobyl (Zanini et al., 1991: 81). A
epidemia continha os ingredientes jornalísticos suficientes para atrair a atenção: novidade,
ausência de cura, sofrimento físico e infecção. O realce da doença reside no acto
voluntário decidido pelos dois indivíduos intervenientes, em termos de contacto de risco,
como salientou o título de um cartaz inglês Your next sexual partner could be that very
special person. The one that gives you AIDS.
Como doença, a sida ocorre num tempo de maturação da televisão, com as imagens da e
sobre a doença a adaptarem-se ao meio de informação. A representação da doença nos
jornais segue o enquadramento da imagem. A sida e a seropositividade descrevem estados
emocionais e de saúde de indivíduos jovens, apresentam-se como afectando jovens (ao
contrário da doença em si, identificada com a velhice e o consequente desaparecimento
físico). Por outro lado, a história clínica da sida mostra a ausência da autoridade absoluta
do médico sobre o doente. Sem cura à vista, e incidindo muito sobre jovens (caso dos
toxicodependentes), a experimentação de fármacos para prolongamento de qualidade de
vida dos seropositivos e dos doentes com sida tem sido feita em simultâneo pelo clínico e
pelo doente, tornando-se este tão especialista como aquele.
As razões residem, também, noutros aspectos. Primeiro, porque há fortes lutas na
obtenção de subsídios à investigação de fármacos, o que conduz a uma permanente
tomada de posições de médicos e outros especialistas em congressos e na divulgação de
vacinas para a cura da doença, quer individualmente (médicos e investigadores) quer
empresarialmente (companhias multinacionais). Segundo, porque a doença é atribuída
inicialmente a grupos de risco – um dos quais, o homossexual, lutava pelo sua
legitimidade social, política e cultural –, numa sociedade pretendente à limpeza e à
liofilização, em luta constante contra os micróbios. Daí, o contorno político da luta dos
homossexuais, estruturando organizações de garantia da tolerância pública e do
pluralismo sexual e contestando a terminologia da perversão e do desvio (Giddens, 1995:
23), contra uma sociedade que não aceita a diferença e se mostra alheada ao sofrimento.
[...] Deste modo, a sida preenche um quadro clínico formado por um amplo espectro de
doenças, como infecções e doenças oportunistas. A sida adquire uma identidade a partir
da presença de alguns sintomas, “significando” estes que o indivíduo tem a doença
(Sontag, 1998: 110-116). A ideia de construção clínica da sida surgiu de igual modo à da
sífilis, cujo estado clínico se degrada por etapas. O período de incubação entre a infecção
pelo vírus e a manifestação de sinais clínicos graves atinge até aos onze anos. Do mesmo
modo que a sífilis, outra doença transmitida sexualmente, a sida caracteriza-se por etapas,
com a doença a constituir a última de três etapas. À primeira delas - infecção pelo VIH e
primeiras manifestações da afecção do sistema imunológico - seguem-se os períodos de
latência e de sintomatologia “denunciadora” da doença.
Podemos associar doenças diferentes como a lepra, o cancro e a sida, em termos de medo,
discriminação e vergonha. Caracterizada pela reabsorção de músculos, insensibilidade das
extremidades e afecções cutâneas, a lepra possuía um significado específico: a impureza,
a falta, o pecado dos homens (Béniac, 1997: 133-137). Separado do convívio dos
indivíduos não afectados e expulso de casa, a interdição do leproso era de ordem
sanitária: ele usava um fato comprido, luvas e um chapéu grande para dissimular as
deformidades. Se não estava internado numa leprosaria e mendigava, a sua passagem
fazia-se anunciar por uma matraca.
Afastada a lepra do universo horroroso das doenças que deformam o homem, o cancro
invadiu o universo psicológico e social da humanidade. Considerado doença vergonhosa,
consequência de um pecado desconhecido (Imbault-Huart, 1997: 184), com o cancro o
homem redescobriu a estigmatização (Sontag, 1998: 105). A maior parte das vezes, o
doente preferia não reconhecer a sua doença, embora nos anos mais recentes o médico
anuncie abertamente o mal que padece o doente. Já na sida, o medo reside no vírus e na
ideia de contaminação e vulnerabilidade permanente. Com as defesas imunitárias
enfraquecidas em milhões de indivíduos em todo o mundo afectados com o VIH,
ressurgiu o medo das doenças contagiosas consideradas debeladas ou controladas - a
tuberculose e outras doenças infecciosas e parasitárias (Montagnier, 1993). Mas, devido
ao isolamento dos dois vírus da sida e ao teste de despistagem desta, praticamente parou a
transmissão de doença pelo sangue e derivados, enquanto as políticas de prevenção e o
uso de medicamentos de acção limitada (AZT, DDI) prolongaram a vida dos doentes.
As notícias sobre a doença reflectiram esses medos colectivos, situações de pânico e
horror a que corresponderam representações de estigma e discriminação. Devido à falta
de tempo, espaço e recursos materiais por parte dos jornalistas, bem como à representação
social que estes, as fontes e as audiências constroem da sida (doença não tratável,
associação a grupos de risco, medos morais e punições religiosas) leva a um
enquadramento que permite a criação de uma primeira definição. Para além da orientação
para o acontecimento, o jornalista é conduzido para o acontecimento previamente
marcado, transformando-se os profissionais dos meios de informação em jornalistas das
fontes (Chaparro, 1996; Mesquita, 1997), alimentando a ideia da definição prévia de
significado por parte das fontes com poder.
No entanto, os jornalistas podem ultrapassar a ideia de segundos definidores (Hall et al.,
1978), ao assumirem a decisão de atribuir importância a uma determinada fonte
(Schlesinger, 1990; Schlesinger e Tumber, 1994; Anderson, 1997). A presença da
“Abraço” nas notícias indicia esta situação. Apesar da ONG funcionar como entidade
lobbyista, os jornalistas concedem-lhe espaço porque ela veicula críticas pertinentes
acerca da actividade da agência governamental, dizendo aquilo que os jornalistas
partilham e querem transmitir.
Pela escolha de fontes, selecção dos quadros de referência em que se expressam e citações
mencionadas, numa apresentação adversarial do acontecimento, com as fontes a
quererem esconder e os jornalistas a revelar (Pereira, 1997: 208), aos jornalistas é
devolvido o protagonismo de decidir o que é notícia. O tipo de género jornalístico usado
influencia esta escolha. Chaparro (1997) considera que o jornalista faz uma opção
privilegiada pelo artigo, de entre o conjunto de géneros, utilização que evidencia os
comentários e argumentos e conduz o jornalista a opções de escolha de fontes e citações
das mesmas.
Contudo, sabendo da influência e permanente presença por parte das fontes e da decisão
final sobre o material a editar do lado dos jornalistas, conclui-se pela existência de uma
negociação contínua na decisão de atribuir significado ao acontecimento (Ericson et al.,
1989). A noção de campo de notícia, onde fontes lutam entre si e jornalistas e
organizações noticiosas entre si disputam informações novas sobre um acontecimento, dá
conta final da complexidade da construção da notícia e do controlo do significado
atribuído ao acontecimento e que o leva a transformar-se em notícia. Daí que a notícia
encerre nela mesma a disputa travada entre diferentes actores, no período anterior à sua
elaboração.
Por outro lado, o campo de notícia remete para lá da peça jornalística em si, pois
informações, respostas, insinuações e complementaridades migram para outras notícias,
citando outros actores interessados na decisão e em novos significados, e servidas por
outros jornalistas ou meios de informação.
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