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Monografia Revisada

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  • 1. Faculdade Estácio de Sá de Belo Horizonte  Curso de Jornalismo  REFLEXOS CULTURAIS E IDENTITÁRIOS  DA COMUNICAÇÃO CONTEMPORÂNEA:  uma análise da revista piauí.  JAUNER TORQUATO RODOVALHO  Belo Horizonte, dezembro de 2008
  • 2. JAUNER TORQUATO RODOVALHO  REFLEXOS CULTURAIS E IDENTITÁRIOS  DA COMUNICAÇÃO CONTEMPORÂNEA:  uma análise da revista piauí.  Projeto Experimental apresentado em cumprimento  parcial às exigências do curso de graduação em  Comunicação Social – Jornalismo  da Faculdade Estácio de Sá de Belo Horizonte para  obtenção do grau de bacharel.  Orientadora: Professora Luciana de Oliveira  Belo Horizonte, dezembro de 2008
  • 3. ATA DA DEFESA DE PROJETO EXPERIMENTAL DE  JAUNER TORQUATO RODOVALHO
  • 4. Agradecimentos  Resumir a construção e desconstrução de nossas vidas em meras referencias a todos  aqueles que integraram esse processo talvez seja a tarefa mais difícil desse trabalho. Lembrar  e relembrar de todos sem prescindir o apontamento de nenhum ente querido dessa estrada que  percorro é para mim tão perturbador quanto saber que vários deles podem me deixar sem o  meu consentimento.  Dito  isso,  começo  esse  compilado,  e  pretendo  ser  breve,  não  só  citando  como  homenageando meus grandes, queridos e saudosos avos. São, para tudo que sei, exemplos que  guardo no coração para sempre.  Porém,  assim  como  me  vi  sem  eles,  quase  que  brevemente  encontrei  com  as  duas  pedras  mais  raras  da  minha  vida,  Pedro  e  Davi. Meus  filhos  que  impulsionam  e  alimentam  esse espírito que até sua chegada vagava sozinho.  À  minha  mãe  atribuo  toda  força  e  determinação  que  correm  por  essas  veias  tão  medicadas pelo longo período da minha infância diante do seu olhar sempre atento, cuidadoso  e determinado a superar tudo.  Minha  linda  irmã  e  todos  os  meus  tios,  tias,  primos  e  primas  que  compõem  essa  imensa  e  fraterna  família  que  segue  o  legado  de  seu  Severino,  exemplo  maior  para  todos.  Guardo cada um no coração.  Nos capítulos mais recentes da vida, agradeço imensamente às duas famílias que me  incorporei. Dedé, Carlin e Pedro Ivo se encarregaram de parte dessa trilha, junto a Ronaldo e  Telma que souberam me entender nas horas mais improváveis do mundo.  Por fim, minha musa inspiradora dessas linhas desconstrutivas, mais do que querida,  a  tenho  guardada  como  mestra  e  exemplo  de  dedicação  e,  principalmente,  sinergia  com  os  meus  pensamentos.  Lu,  obrigado  por  conduzir  esse  fluxo  de  sinapses  e  se  empenhar  na  consolidação desse trabalho tão valioso para mim.  Amo todos vocês.
  • 5. Resumo  O  presente  trabalho  se  volta  para  a  compreensão  das  manifestações  editoriais  no  contexto da pós­modernidade. Para tanto, sua estrutura se divide em três eixos principais: uma  breve  descrição  das  mudanças  ocorridas  no  âmbito  social  entre  a  modernidade  e  a  pós­  modernidade  abordando  questões  relativas  às  novas  estruturas  da  vida  em  sociedade;  a  evolução tecnológica dos meios de comunicação e seus reflexos na estruturação das paisagens  culturais que resultam em identidades indissociáveis desse fluxo; por fim, a análise de piauí,  revista que concretiza essas mudanças na esfera das publicações editoriais.
  • 6. Lista de Figuras  Figuras...........................................................................................................................45  Figura 01: Estrutura aleatória das editorias.......................................................45  Figura 2: Fotos com intervenções artísticas......................................................46  Figura 3: Capas das edições selecionadas.........................................................47  Figura 4: Fotojornalismo subjetivamente exposto............................................48  Figura 5: Fotojornalismo subjetivamente exposto............................................49  Figura 6: Única menção da edição de natal à festa tradicional.........................50  Figura 7: Seqüência de quadrinhos distribuídos pelas páginas da revista........51  Figura 8: História em quadrinhos, paródia da  consagrada história de Hamlet..........................................................................52  Figura 9: Simulacro representado por colagem/montagem,  paródia e elementos de pastiche........................................................................53  Figura 9.1: Simulacro representado por colagem/montagem,  paródia e elementos de pastiche........................................................................54  Figura 9.2: Simulacro representado por colagem/montagem,  paródia e elementos de pastiche........................................................................55  Figura 10: Charges da editoria esquina.............................................................56
  • 7. Sumár io  Introdução.................................................................................................................08  Capítulo I – Uma Odisséia Social............................................................................10  Capítulo II ­ Panorama da comunicação contemporânea e suas relações com a cultura  e os indivíduos...............................................................................................................18  Capítulo III – Desconcertante Construção....................................................................30  3.1 Dimensão de análise produto e contexto.............................32  3.2 Dimensão de análise cânone jornalístico – objetividade e  subjetividade.............................................................................35  3.3 Dimensão de análise jornalismo literário.............................39  3.4 Dimensão de análise figuras de linguagem..........................43  3.4.1 Simulacro..............................................................43  Considerações Finais....................................................................................................57  Referências Bibliográficas............................................................................................59
  • 8. 8  Intr odução  Há  algo  de  muito  perturbador  nesse  trabalho.  No  que  concerne  aos  problemas  da  dialética, por maior que seja o número de elementos inseridos no processo de análise algum  aspecto sempre inclina­se para tencionar contrariamente ao proposto.  De  forma  elementar,  o  que  será  trazido  nessas  linhas  é  um  breve  retrato  ou  representação  fragmentada  dos  processos  culturais  e  sua  relação  com  a  sociedade  e  o  elemento institucional dos meios de comunicação.  O  primeiro  capítulo  traça  um  breve  panorama  da  transição  experimentada  entre  a  modernidade e a pós­modernidade. Resultante de uma série de alterações na esfera social, a  pós­modernidade  está  repleta  de  controvérsias,  principalmente  quando  referenciada  em  função do tempo que lhe antecedeu.  No entanto, a trajetória do homem moderno, iniciada a partir da ideologia iluminista,  que  proveu  o  alicerce  para  o  desenvolvimento  técnico­científico,  racionalização  e  emancipação, se projetou até os dias de hoje resultando em profundas mudanças dos atributos  culturais.  Para  arquitetar  essa  análise,  a  cultura  e  os  meios  de  comunicação  se  apresentam  sempre de forma transversal. Essa relação é concebida a partir da colocação de Castells (1999,  p. 354), ele enuncia que “a comunicação, decididamente, molda a cultura”.  Tendo a apreciação dessa constatação como desafio, a modernidade é trazida a partir  dos  seus  elementos  expostos  pelas  metanarrativas.  Se  durante  o  período  de  intenso  culto  à  prosperidade  e  ufanismo  científico  reinavam  os  profundos  esforços  interpretativos,  na  pós­  modernidade,  todo  o  conjunto  de  gêneros,  fronteiras,  linguagem  e  tipos  historicamente  estáveis  se  misturam.  Seus  fragmentos  deram  origem  a  infinidades  de  intertextualidade,  hibridismo através de recursos como simulacro, paródia, pastiche, colagem/montagem, entre  outros. Featherstone caracteriza esse fenômeno como “uma superprodução de bens culturais,  difícil de controlar e ordenar, que desestabiliza as hierarquias simbólicas existentes”.  Esses bens culturais estão inseridos tanto no contexto social, pelas vias da mediação,  quanto  na  esfera  econômica,  representada  pelo  capitalismo  que  se  serve,  junto  às  demais  instituições, da possibilidade de atribuição dos valores simbólicos aos seus produtos.
  • 9. 9  A  partir  desse  movimento,  novas  rupturas  sociais  são  expostas  de  forma  cada  vez  mais constante. O tempo assume modelos frenéticos, seja no transporte físico ou virtual, e a  nova relação do homem com o passado traz uma inconstância e por conseqüência o que Hall  (2001,  p.8)  denomina  de  fragmentação  das  “paisagens  culturais  de  classe,  gênero,  sexualidade,  etnia,  raça  e  nacionalidade,  que,  no  passado,  nos  tinham  fornecido  sólidas  localizações como indivíduos sociais”.  O  capítulo  2,  por  sua  vez,  expõe  um  histórico  sobre  a  evolução  dos  meios  de  comunicação  e  a  relação  mais  direta  entre  seus  desdobramentos  na  representação  do  poder  simbólico e a questão da “crise de identidade”. (HALL, 2001)  A discussão sobre identidade e cultura remete ao capítulo 3 responsável pela análise  do  objeto  proposto,  a  revista  piauí.  Com  o  objetivo  de  compreendê­la  tanto  perante  os  padrões  institucionais  dos  meios  de  comunicação,  quanto  ao  que  concerne  às  questões  técnicas, foram estipulados quatro eixos: produto e contexto, o cânone jornalístico, jornalismo  literário e figuras de linguagem.
  • 10. 10  Capítulo I  Uma Odisséia Social  Compreender o contexto atual das transformações sociais vigentes parece muito mais  um  exercício  de  experimentar  os  diferentes  fluxos  observados  na  informação,  no  deslocamento pelas cidades espalhadas ao redor do globo, diagnosticar nas paisagens urbanas  os fragmentos dos quais fazemos parte do que tentar fixar padrões simbólicos que possam nos  seguir  referendando  da  infância  ao  fim  da  vida. O  presente  capítulo  introduz  um  panorama  sobre a transição dos contextos sociais a partir de uma sociedade representada pela produção  industrial, bens materiais, situada na modernidade, até o seu modelo informacional, cujo papel  é o da abstração virtual, da velocidade instantânea, das representações simbólicas manifestas,  da completa efemeridade e descomprometido estado de ser vivenciados na pós­modernidade.  A  reconstrução  das  paisagens  contemporâneas  dessa  “realidade  complexa”  tem  se  processado de forma tão abissal que não só a estrutura física dos objetos é totalmente mutante  como a referência que temos dele é da mesma  forma fluida e  instável. (HARVEY, 1989, p.  46)  Os  meios  de  comunicação  através  do  seu  domínio  das  esferas  lingüísticas  e  de  expressão  têm  relevância  fundamental  nessas  transformações.  A  contínua  evolução  que  permitiu  a  sua  presença  cada  vez  mais  ubíqua  através  das  “novas  mídias”  (CASTELLS,  1999), responsáveis pela segmentação no consumo e participação produtiva, resultou em uma  recombinação dos elementos culturais construídos pela sociedade ao longo do tempo.  Conforme analisa Santos (1980, p. 15), “a linguagem dos meios de comunicação dá  forma  tanto  ao  nosso  mundo  (referente,  objeto),  quanto  ao  nosso  pensamento  (referencia,  sujeito)”.  Diante  da  onipresença  desses  meios,  “para  serem  alguma  coisa,  sujeito  e  objeto  passam ambos pelo signo... palavra, número, imagem” ali representados.  Hall  (2001)  atribui  a  esse  processo  de  “desreferencialização”  (SANTOS,  1980)  a  fragmentação  das  “paisagens  culturais  de  classe,  gênero,  sexualidade,  etnia,  raça  e  nacionalidade,  que,  no  passado,  nos  tinham  fornecido  sólidas  localizações  como  indivíduos  sociais”. (HALL, 2001, p. 8)  Isso é fruto da sociedade contemporânea denominada a partir de várias terminologias  como: Sociedade da informação, sociedade em rede, sociedade pós­industrial, sociedade pós­  moderna, sociedade de consumo ou simplesmente sociedade globalizada.
  • 11. 11  Mas  a  sociedade  industrial  e  a  modernidade  que  antecederam  o  contexto  pós­  moderno  e  se  posicionam  como  ponto de  referência  para  tal  caracterização,  ergueram  pelas  vias do contrastante e “sentidos conflitantes” permeados pelo ímpeto de mudanças profundas  da tradição, dos meios de produção, entre outros aspectos vigentes. (HARVEY, 1989, p. 21)  A  modernidade  foi  um  projeto  de  ideologia  humanista  estruturada  a  partir  das  concepções  iluministas.  “Esse  projeto  equivalia  a  um  extraordinário  esforço  intelectual  dos  pensadores iluministas ‘para desenvolver a ciência objetiva, a moralidade e a lei universais e a  arte autônoma nos termos da própria lógica  interna destas’”. Resultando em um movimento  que proveu o alicerce para o desenvolvimento técnico­científico, racionalização, emancipação  e, principalmente, da individualização. (HARVEY, 1989, p. 23)  O ideal de liberdade política pautado na racionalidade humana tinha como desafio o  rompimento das estruturas sociais  vigentes  no antigo regime, os estamentos. A dispersão do  modelo de  vida  comunitário  refletida  no  plano  social  paralela  à  dissociação  entre  público  e  privado,  com  o  surgimento  do  Estado  burocrático,  representando  um  novo  ordenamento  político,  foram  vias  para  o  surgimento  da  propriedade  e  por  conseqüência  de  um  senso  de  empreendedorismo individual.  O trabalho, as “mudanças técnicas, cientificas e  políticas” (BAUDRILLARD, 1982  p. 1) instituem um novo paradigma para a delimitação dos objetivos da vida. Perpetuar adota  uma conotação de transitoriedade do vigente, em substituição aos moldes antes consolidados  da tradição, agora tidos com residual.  A  dinâmica  espaço­temporal  moderna  também  incide  profundamente  na  compreensão  do  passado,  presente  e  futuro.  Esses  elementos  da  tradição  considerados  residuais são incorporados à vida como “um passado (tempo findo)” em oposição a um futuro  constantemente projetado à luz das rupturas que passam a ser cotidianas. (BAUDRILLARD,  1982, p. 3)  Essa  dialética  conflituosa  do  tempo,  que  se  configura  como  ponto  de  partida  da  tradição  em  uma  progressiva  linha  rumo  ao  moderno,  é  acompanhada  pelo  “aspecto  cronométrico” da produção industrial. A vida antes compreendida pelas estações, celebrações  comunitárias  em  dias  tradicionalmente  reconhecidos  por  datas  festivas,  e  até  mesmo  pela  paisagem  social  bem  delimitada,  que  possibilitava  o  acompanhamento  do  desenvolvimento  infantil até envelhecimento do adulto, é remontada sob escalas cronométricas. Os critérios do  novo  tempo  abstrato  se  apóiam  no  trabalho,  na  produtividade  e  se  apoderam  também  do  “tempo “livre”” e dos “lazeres”. (BAUDRILLARD, 1982, p. 3)
  • 12. 12  Conforme  Baudrillard  (1982,  p.  2)  afirma,  esse  presente  próspero  atendia  a  amplitudes e “simultaneidade mundial”. Berman descreve a total ausência de fronteiras:  Ser  moderno  é  encontrar­se  num  ambiente  que  promete  aventura,  poder,  crescimento,  transformação  de  si  e  do  mundo  –  e,  ao  mesmo  tempo,  que  ameaça  destruir tudo o que temos, tudo o que sabemos, tudo o que somos. Os  ambientes  e  experiências modernos cruzam todas as fronteiras da geografia e da etnicidade, da  classe  e  da nacionalidade, da religião e da ideologia; nesse sentido, pode­se dizer  que  a  modernidade  une  toda  a  humanidade.  Mas  trata­se  de  uma  unidade  paradoxal,  uma  unidade  da  desunidade;  ela  nos  arroja  num  redemoinho  de  perpétua  desintegração  e  renovação,  de  luta  e  contradição,  de  ambigüidade  e  angustia. Ser moderno é ser parte de um universo em que, como disse Marx, “ tudo  que é sólido desmancha no ar. (Berman apud HARVEY, 1992, p. 21)  Mas  esse  contexto do desenvolvimento dos processos  produtivos, oportunidades  de  conquista  da  autonomia  pelo  trabalho  também  foi  palco  para  as  críticas  a  essa  liberdade  e  mesmo  às  suas  impossibilidades  já  que  novos  constrangimentos  substituem  os  antigos  na  mesma proporção em que produzia riquezas e inaugurava um novo tipo de desigualdade:  (...)  nas  classes,  as  molduras  que  (tão  intransigentemente  como  os  estamentos  já  dissolvidos)  encapsulavam  a  totalidade  das  condições  e  perspectivas  de  vida  e  determinavam  o  âmbito  dos  projetos  e  estratégias  realistas  de  vida.  A  tarefa  dos  indivíduos livres era usar  sua nova liberdade para encontrar o nicho apropriado e  ali  se  acomodar  e  adaptar:  seguindo  fielmente  as  regras  e  modos  de  conduta  identificados  como  corretos  e  apropriados  para  aquele  lugar.  (BAUMAN,  2001,  p.13)  O  conflito  trazido  ao  espírito  empreendedor  do  homem  também pôs  em  dúvida  os  meios  e  fins,  aprofundando  a  descrença  ainda  maior.  O  legado  de  críticas  às  concepções  iluministas em torno dos usos e da aplicabilidade da racionalidade e do desenvolvimento da  ciência  é  trazido  por  Max  Weber  e  Nietzsche  com  tamanha  veemência  que  suas  palavras  parecem traduzir “o epitáfio da razão iluminista” (HARVEY, 1992, p. 25).  “ Weber  alegava  que  a  esperança  e  a  expectativa  dos  pensadores  iluministas  era  uma amarga e irônica  ilusão. Eles mantinham um forte vínculo necessário  entre o  desenvolvimento  da  ciência,  da  racionalidade  e  da  liberdade  humana  universal.  Mas,  quando  desmascarado  e  compreendido,  o  legado  do Iluminismo  foi  o  triunfo  da  racionalidade....proposital­instrumental.  Essa  forma  de  racionalidade  afeta  e  infecta  todos  os  planos  da  vida  social  e  cultural,  abrangendo  as  estruturas  econômicas,  o  direito,  a  administração  burocrática  e  até  as  artes.  O  desenvolvimento  da  [racionalidade  proposital­instrumental]  não  leva  à  realização  concreta  da  liberdade  universal,  mas  à  criação  de  uma  “ jaula  de  ferro”  da  racionalidade  burocrática  da  qual  não  há  como  escapar”   (Bernstein    apud  HARVEY, 1992, p. 25).
  • 13. 13  A  pós­modernidade  tem  grande  fundamentação  no  ceticismo  anunciado  por  Nietzsche  anos  antes  da  sua  manifestação.  Surge  um  tempo  onde  impera  a  pluralidade  expressa  em  sistemas  abertos  de  expressão,  interpretação  e  entendimento.  As  figuras  representativas que perduraram durante a modernidade (o socialismo, o sujeito cartesiano, o  urbanismo),  através  de  tentativas  de  unificação  por  teorias  de  abrangência  universal,  as  metanarrativas, manifestaram pela espontânea impossibilidade de abarcar toda humanidade e  circunscrevê­la  em  uma  estrutura  determinista,  que  a  “gaiola  de  ferro”  da  racionalidade  apontada por Weber é incapaz de conter todas as complexas e diversas relações  sociais que  permeiam o contexto da vida humana.  A  trajetória  delimitada  pelo  indivíduo  passou  a  reconhecer,  também,  as  particularidades  inseridas  em  todos os  contextos.  Dessa forma,  foi  possível  perceber que  as  várias “realidades existentes podem coexistir, colidir e se interpenetrar”. (HARVEY, 1989, p.  46)  Ao  tratar do pós­modernismo,  Harvey  sugere  a  documentação  de  “mudanças  desse  tipo em toda uma gama de campos distintos”. Em análise ao “romance pós­moderno” através  da “passagem de um dominante “epistemológico” a um “ontológico” ele retrata o surgimento  de um “tipo de perspectvismo que permitia ao modernista uma melhor apreensão do sentido  de uma realidade complexa”. (HARVEY, 1989, p. 46)  Com  a  percepção  da  interseção  de  realidades  e  principalmente  de  um  novo  entendimento  das  instituições  que  alavancaram  a  modernidade,  o  pós­moderno  traz  à  tona  uma série de incertezas por aceitar com certa naturalidade a existência do transitório, fugidio e  contingente, fatores atribuídos à modernidade por Baudelaire, mas conforme conclui Harvey:  “contudo,  não  implica  que  o  pós­modernismo  não  passe  de  uma  versão  do  modernismo;  verdadeiras revoluções da sensibilidade podem ocorrer quando idéias latentes e dominadas de  um período se tornam explicitas e dominantes em outro”. (HARVEY, 1989, p. 49)  O questionamento a essas instituições representadas na economia pelo capitalismo e  na  política  pelo  Estado­Nação,  trouxe  dispersão  para  o  contexto  social  homogêneo  das  metanarrativas totalizantes.  A ênfase  à  interseção e à flexibilização da rigidez dos discursos modernos resultou  na  busca  por  formas  de  expressão  que  pudessem  dar  conta  da  pluralidade  existente.  O  isolacionismo lingüístico que por muito tempo imperou pelo estabelecimento de “fronteiras” e  “gêneros”  (Hassan  apud  HARVEY,  1989,  p.  22)  foi  se  descentralizando  no  discurso  pós­  moderno “no qual a “anarquia” e o “acaso” podem jogar em situações inteiramente “abertas”.  (HARVEY, 1989, p. 49)
  • 14. 14  Para dar conta de retratar o conjunto de elementos que compõem a realidade, a idéia  do fragmento foi evocada na construção desses discursos. Conforme o entendimento de que a  “significação  não  poderia  ser  unívoca  e  nem  estável”  (Derrida  apud  HARVEY,  p.  55)  modalidades como colagem/montagem reuniram elementos em combinações que recorrem ao  hibridismo. Se na metanarrativa o texto existia por si e para si, “o impulso desconstrucionista  é procurar dentro de um texto por outro, dissolver um texto em outro ou embutir um texto em  outro”. (HARVEY, 1989, p. 54)  O que Harvey traz como a caracterização da “minimização da autoridade do produtor  cultural”  traduz  a  ascensão  da  “produção  de  sentido”  nesse  jogo  aberto.  A  recusa  de  consumidores em aceitar o produto como algo pronto e com um fim em si mesmo, aliada à  despretensão de quem cria em fazê­lo, atribui a importância da contemplação “no processo”  na “performance”, no “happening”. (HARVEY, 1989, p. 55)  Essa nova postura do sujeito perante os diversos contextos se origina de mudanças no  surgimento  da  sociedade  pós­industrial.  As  tecnologias  de  disseminação  trazem  “uma  dramática transição social e política nas linguagens e comunicação em sociedades capitalistas  avançadas”. (HARVEY, 1989, p. 53)  Paralelo à ênfase dada à performance, a tecnologia dos meios de comunicação trouxe  o denominado por Santos como “hiper­real”, ou “real intensificado”. Os simulacros cada vez  mais  fiéis  à realidade  aliados  a  um  desenvolvimento  econômico  pautado  no uso dos bens  e  serviços resultaram na ascensão de um “moral hedonista” (SANTOS, 1980, p. 10).  Nessa  relação  econômica  e  de  produção  de  bens  culturais,  Featherstone  (1996,  p.  107) analisa o pós­modernismo como:  uma  superprodução  de  bens  culturais,  difícil  de  controlar  e  ordenar,  que  desestabiliza  as  hierarquias  simbólicas  existentes.  Essa  tendência,  que  Simmel  definiu  como  um  acúmulo  exagerado  de  cultura  objetiva,  difícil  de  lidar,  não  é  apenas  um  problema  intelectual.  Com  o  desenvolvimento  da  cultura  de  consumo,  costuma se dizer que aumentou não só a oferta de bens como também a de imagens  e signos. O consumo ficou mais difícil de decodificar porque aumentou o problema  de interpretar um campo mutável de signos.  A  evolução  tecnológica  trouxe,  portanto,  alterações  cada  vez  mais  profundas  na  maneira de experimentar situações cotidianas. A dissociação do espaço e do tempo observada  na  sociedade  industrial  com  a  invenção  dos  automóveis  e  posteriormente  dos  aeroplanos  deslocou­se na pós­modernidade para a escala virtual das mensagens eletrônicas.  Bauman (2000)  analisa  criticamente  essa  evolução  do  ordenamento  produtivo,  que  deslocou, também, a perspectiva da luta de classes com a presença do operariado, agora quase
  • 15. 15  extinto, através de três elementos que dizem respeito aos aparatos disponíveis. A partir do que  ele  denomina  como  “wetware”,  as  atividades  reduzidas  às  aptidões  físicas  do  homem,  potencializada com  a  invenção  dos  “hardwares”, instrumentos  responsáveis  pela  diminuição  do esforço físico, até a  chegada do “software”, que reduz o tempo e produção a quase total  instantaneidade,  é  possível  perceber  a  valorização  do  ato,  “mas  também  a  exaustão  e  desaparecimento do interesse” (BAUMAN, 2000, p.134)  Estabelecendo uma relação desses meios trazidos pelo “software” e a valorização do  happening,  a  análise  de  Harvey  (1989)  sobre  a  esquizofrenia  pós­moderna  é  corroborada.  Harvey  propõe  para  que  a  reflexão  sobre  o  contexto  pós­moderno  tenha  validade,  há  necessidade de identificar  o  “modo particular de experimentar,  interpretar  e ser  no mundo”.  (HARVEY, 1989, p. 56)  A  esquizofrenia  é  fruto  então  de  “um  agregado  de  significantes  distintos  e  não  relacionas  entre  si”.  Esse  problema de “uma  série  de presentes  puros  e  não  relacionados  no  tempo”  associa  essa  ênfase  à  performance  como  ausência  de  profundidade.  Diante  disso,  a  ausência  de  memórias  passadas  ou  projeções  futuras  aliada  à  eminência  do  presente  impossibilita  a  unificação  desses  três  tempos  e  como  conseqüência  da  completude  do  indivíduo,  agora  caracterizado  pelo  modelo  esquizóide.  (Jameson apud  HARVEY,  1989,  p.  56)  Segundo sua análise da teoria proposta por Jameson:  Quando  essa  cadeia  se  rompe,  ‘temos esquizofrenia  na  forma  de  um  agregado  de  significantes distintos e não relacionados entre si’. Se a identidade pessoal é forjada  por meio de ‘certa unificação temporal do passado e do futuro com o presente que  tenho diante de mim’, e se as frases seguem a mesma trajetória, a incapacidade de  unificar passado, presente e futuro na frase assinala uma incapacidade semelhante  de  ‘unificar  o  passado,  o  presente e  futuro  na  frase  da  nossa  própria  experiência  biográfica ou vida psíquica’. Isso de fato se enquadra na preocupação pós­moderna  com o significante, e não com o significado, com a participação... em vez de com um  objeto de arte acabado. (HARVEY, 1989, p.56)  Estabelecendo um paralelo entre o sujeito anteriormente unificado do modernismo e  o novo sujeito fragmentado da pós­modernidade Harvey (1989, p. 57) diz:  O  modernismo  dedicava­se  muito  à  busca  de  futuros  melhores,  mesmo  que  a  frustração  perpétua  desse  alvo  levasse  à  paranóia.  Mas  o  pós­modernismo  tipicamente  descarta  essa  possibilidade  ao  concentrar­se  nas  circunstâncias  esquizofrênicas induzidas pela fragmentação e por todas as instabilidades (inclusive  lingüísticas) que  nos impedem  até mesmo  de  representar  coerentemente,  para  não  falar de conceber estratégias para produzir, algum futuro radicalmente diferente.
  • 16. 16  A conflituosa negação do passado e a ausência de perspectivas na pós­modernidade  ilustram a postura hedonista. A cultura que deve estabelecer uma construção representativa da  sociedade  com  realces  históricos  se  reduz  ao  presente.  A  “lógica  cultural  do  capitalismo  avançado”  que  muito  utiliza  da  cultura  pela  “‘experimentação  estética’  com  intuito  de  produzir novas ondas de bens com aparência cada vez mais nova” (Mandel apud HARVEY,  1989,  p.  65)  constrói  essa  representação  histórica  por  “simulacros  pop  dessa  história”.  (Hewsison apud HARVEY p. 64)  Há  uma  relação  intrínseca  entre  o  modo  peculiar  de  compreensão  dos  diferentes  tempos  na  pós­modernidade  e  a  conseqüente  mudança  na  maneira  de  caracterizar  e  contemplar a experiência em sociedade. A idéia dos “presentes puros e não relacionados no  tempo”  induzem  ao  aumento  da  intensidade  vivida,  que  resultam  em  “uma  ilusão  estereoscópica”.  A  presença  dessa  conjuntura  no  tecido  social  dá  consistência  ao  “caráter  imediato dos eventos, o sensacionalismo do espetáculo (político, científico, militar, bem como  de diversão) se tornam a matéria de que a consciência é forjada.” (HARVEY, 1989, p. 57)  Além do simulacro, outros vários códigos de linguagem, às vezes isolados outras em  presença  concomitante,  são  responsáveis  pela  “dissolução  de  algumas  fronteiras  e  divisões  fundamentais”.  A  “sociedade  de  consumo”  fruto  da  “emergência  de  um  novo  tipo  de  vida  social e de uma nova ordem econômica” põe fim à fronteira entre “cultura erudita e cultura  popular (a dita cultura de massa)”. (JAMESON, 1985, p. 17)  A  paródia,  segundo  analisa  Jameson  (1985),  não  só  traça  um  paralelo  entre  as  diferenças  nos  modelos  de  expressão  moderna  e  pós­moderna  como  reafirma  a  importância  das figuras de linguagem na construção dos elementos culturais como expressão do contexto  social e também a relação inversa.  Conforme  ele  propõe,  a  fragmentação  está  presente  também  na  modernidade.  Manifestada na individualidade da “norma lingüística” o que caracteriza como “privatização  da  literatura  moderna  –  sua  explosão  em  um  bando  de  estilos  privados  e  maneirismos  distintos”.  Essa  fragmentação  autoral  das  metanarrativas  deu  origem  a  um  perturbado  isolacionismo lingüístico. (JAMESON, 1985, p. 18)  Ao  descrever  a  impossibilidade  da  paródia  frente  a  esse  movimento,  por  incapacidade de inserir qualquer idiossincrasia que pudesse originar a partir da interpretação  das  obras,  Jameson  descreve  o  pastiche  como  “paródia  lacunar”.  Tal  lacuna  origina­se  da  impossibilidade do parodista em desenvolver qualquer “simpatia tácita pelo original”.  A aversão a esse modelo metanarrativo de linguagem conduz as análises do seu uso  na  esfera  social  pela  inserção  plural  apoiadas  pelo  que  Focault  denomina  de  “poder  de
  • 17. 17  discurso”.  Conforme  aponta  em  sua  análise,  o  autor  descreve  uma  “íntima  relação  entre  os  sistemas de conhecimento (“discursos”) que codificam técnicas e práticas para o exercício do  controle  e  do  domínio  sociais  em  contextos  localizados  particulares”.  (Focault  apud  HARVEY, p. 50)  Sem  adentrar  ao  viés  político  de  Focault,  é  possível  perceber  o  valor  atribuído  ao  domínio  da  codificação  como  técnica  básica  da  interpretação  e por  conseqüência  do uso da  língua como código universal para o domínio cultural.  Sendo  a  pós­modernidade  palco  das  manifestações  plurais,  que  tendem  à  superficialidade fragmentada culturalmente e descentralizada em seus meios de produção, os  grupos  representativos  buscam  formas  de  apresentar  sua  voz  como  “autêntica  e  legítima”.  (HARVEY, 1989, p. 52)  Nesse  contexto  eles  estruturam  o  que  consideram  conhecimento  válido.  Como  conseqüência, temos a criação dos:  (...) ‘determinismos locais’... compreendidos... como ‘comunidades interpretativas’,  formadas por produtores e consumidores de tipos particulares de conhecimento, de  textos,  com  freqüência  operando  num  contexto  institucional  particular  (como  a  universidade, o sistema legal, agrupamentos religiosos), em divisões particulares do  trabalho cultural (como a arquitetura, a pintura, o teatro, a dança) ou  em lugares  particulares (vizinhanças, nações etc.).  (HARVEY, 1989, p.57)  O  novo  panorama  que  se  desvela  para  a  linguagem  é  o  da  fragmentação  cultural.  Todas  as  singularidades  concebidas  na  modernidade  são  fruto  do  indivíduo  unificado,  mas  que na pós­modernidade sofre todo processo de descentralização, conforme será abordado no  próximo capítulo.  Na pós­modernidade, o eu singular se perde em fragmentos das mudanças estruturais  dos  modelos  de  produção,  reprodução,  relações  sociais,  consumo,  entre  outros.  Com  a  dissolução das fronteiras  entre os gêneros, esgotamento das produções individuais, a cultura  passa a se alimentar dos códigos híbridos, do simulacro, do pastiche e da paródia para traduzir  o novo contexto onde as produções editoriais se encontram.
  • 18. 18  Capítulo II  Panor ama da comunicação contempor ânea  e suas r elações com a cultura e os indivíduos  A compreensão do papel e da presença dos meios de comunicação, em suas diversas  formas  tecnológicas  e  processos  lingüísticos  nas  sociedades  dos  últimos  séculos,  é  fator  determinante  para  situar  no  contexto  atual  a  identificação  dos  aspectos  presentes  nas  mudanças  de  expressão,  intercâmbio  e  características  culturais  que  compõem  os  atributos  identitários.  O olhar que se estende sobre a análise desses meios pode ser delimitado, com intuito  de estabelecer uma lógica didática, em dois aspectos preponderantes: o de cunho técnico e o  de viés social. Inseridos na perspectiva tecnológica, os meios de comunicação atuam na vida  da humanidade tecendo novas formas de lhe dar com o tempo, espaço e por conseqüência de  compreender globalmente contextos diversos, enquanto seus reflexos sociais são atuantes, na  maioria  das  vezes,  sob  condições  latentes  de  expressão  que  passam  a  se  apropriar  dialeticamente  dos  códigos  vigentes  em  um  processo  de  retroalimentação.  À  medida  que  o  meio  se  abastece  desses  códigos,  os  reproduz  em  novas  formas  de  expressão  que  também  criam novos códigos, ilustrando um ciclo hermético em sua ação, mas extremamente aberto à  configuração  e  captação  de  novos  elementos.  Essa  dinâmica  tende  a  se  clarear  durante  a  análise seguinte.  À medida que sua abrangência, principalmente a partir do século XIX, se expandia,  os  meios  de  comunicação  assumiram  traços  cada  vez  mais  relevantes  em  todos os  aspectos  cotidianos.  Essa  abrangência,  interligando  pontos  distantes  ao  redor  do  globo  e  suprimindo  distâncias,  propiciou  a  “disjunção  espaço  temporal”  (THOMPSON,  1998).    A  redução  do  tempo ao estado quase virtual no transporte das mensagens resultou em uma nova dinâmica  de  mediação.  As  telecomunicações  interligaram  todo  o  globo  e  dissociaram  a  idéia  de  presença e contato como atos simultâneos.  Novas  formas  de  intercambiar  as  experiências  e  fatos  do  passado  foram  surgindo  pelo registro e reprodução dessas experiências. Se nas tradições orais era necessário o diálogo  face  a  face  ilustrando  o  testemunho  como  força  maior  de  expressão,  pelos  meios  de  comunicação  o  sentido  do  passado  é  determinado  pela  “historicidade  mediada”  (THOMPSON,  1998).  O  conteúdo  simbólico  da  mídia  é  transformado  em  elemento  de  perpetuação dos fatos. Uma vez que a fixação em um substrato qualquer estava ao alcance do
  • 19. 19  homem,  o  fluxo  da  história  e  o  “nosso  sentido  do  passado  e  como  ele  nos  alcança”  (THOMPSON, 1998, p. 38) trouxe, também, novas experiências de compreensão do mundo.  A  caracterização  de  Thompson  para o  termo  genericamente  chamado  comunicação  de  massa,  dividida  em  cinco  partes  integrantes,  evoca,  ao  mesmo  tempo,  as  vertentes  tecnológicas e sociais dos meios e estabelece contextos de interseção entre as duas. No plano  social, a primeira das cinco características define os meios de comunicação como instituições  alicerçadas  por  aparatos  técnicos  que  atuam  em  consonância  com  a  busca  do  “poder  simbólico”  1 .  Institucionalizar  significa  estabelecer  um  “conjunto  relativamente  estável  de  regras, recursos e relações sociais”. (THOMPSON, 1998, p. 21)  A partir desse conjunto estável, as instituições, jornais, revistas, rádios, redes de TV,  tendem a atribuir certo valor aos produtos da comunicação, definindo a segunda característica  como  a  mercantilização  dos  meios.  O  potencial  de  abrangência  atende,  principalmente,  aos  anseios da sociedade moderna que passa a entender o mundo como um lugar sem fronteiras.  A  necessidade  de  difundir  produtos,  valores,  formas  sociais  de  convívio,  métodos  de  produção, atribui uma valorização tanto econômica como simbólica desses elementos.  Com  a  produção  desses  bens  simbólicos  e  a  necessidade  de  difundi­los  por  toda  extensão  do  globo  evidencia­se  uma  dissociação  entre  a  produção  e  a  recepção  das  formas  simbólicas. A terceira característica volta às atenções para o fluxo das mensagens transmitidas  para contextos distantes de onde foi produzida.  Acrescentado a isso o fato da disponibilidade dessas produções e sua permanência no  tempo  e  no  espaço,  como  sendo  quarta  característica,  reforça  o  teor  da  produção  e  sua  distribuição por terras distantes.  Como quinta e última característica, a comunicação implica “a circulação pública de  formas simbólicas mediadas” (THOMPSON, 1998, p.32). Com isso ela assume a condição de  quase onipresença nos espaços públicos de maneira geral. Passa, então, a registrar o mundo.  Em decorrência dessas características, a comunicação passa a alterar de forma cada  vez mais  incidente a compreensão da experiência além do campo de vivência do homem. A  “mundanidade  mediada”  (THOMPSON,  1998)  como  propriedade  de  retratar  a  realidade  de  forma  global  e  por  conseqüência  dilatar  os  horizontes  espaciais  alterou  o  sentido  de  comunidade  onde  indivíduos  atribuem,  através  de  um  senso  de  pertencimento,  valores  às  1  Thompson (1998) descreve em caráter analítico quatro formas de poder manifestadas nas sociedades, cada uma  atuando através de recursos que lhes competem. Esses poderes e seus respectivos recursos são: poder econômico,  poder  político,  poder  coercitivo  e  poder  simbólico,  exercidos  através  dos  recursos  materiais  e  financeiros,  autoridade, força física e armada, além dos meios de informação e comunicação.
  • 20. 20  histórias vivenciadas em um passado comum. O panorama da vida passa a ser delimitado por  diversas  formas  simbólicas  da  mídia  que  retratam  contextos  distantes  e  os  tornam  presentes  em espaços diferentes.  (...)  à  medida  que  nossa  compreensão  do  passado  se  torna  cada  vez  mais  dependente da mediação das formas simbólicas, e a nossa compreensão do mundo e  do lugar que ocupamos nele vai  se  alimentando dos produtos da mídia,  do mesmo  modo a nossa compreensão dos grupos e comunidades com que compartilhamos um  caminho comum através do tempo e  do espaço, uma  origem  e um destino comuns,  também vai sendo alterada: sentimo­nos pertencentes a grupos e comunidades que  se constituem em parte através da mídia. (THOMPSON, 1998, p.39)  Essas  formas  simbólicas  são  expressas  em  linguagens  que  durante  toda  a  trajetória  ascendente  da  integração  dos  meios de  comunicação  ao  convívio  social  se  alternaram entre  sistemas  expressos  ora  pela  escrita,  ora  pelo  audiovisual,  até  reuni­los  em  um  sistema  unificado.  O  que  Castells  (1999)  denomina  como  “Galáxia  de  Gutenberg...  um  sistema  de  comunicação  essencialmente  dominado  pela  mente  tipográfica  e  pela  ordem  do  alfabeto  fonético”  é  a  primeira  manifestação  instrumental  e  como  meio  técnico  da  comunicação  mediante o advento da imprensa e do papel que trouxeram consigo a produção e distribuição  em larga escala.  Mas  a  relação  entre  linguagem,  comunicação  e  cultura,  se  dá  de  forma  intrínseca.  Para  compreender  o  papel  da  evolução  desses  sistemas  tipográficos  e  audiovisuais  é  necessário  acompanhar  sua  incidência  na  esfera  cultural.  Para  tanto  Castells  (1999,  p.  354)  enuncia que  (...) a comunicação, decididamente, molda a cultura porque, como afirma Postman  ‘nós  não  vemos...  a  realidade  ...  como  ela  é,  mas  como  são  nossas  linguagens.  E  nossas linguagens são nossas mídias. Nossas mídias são nossas metáforas. Nossas  metáforas  criam  o  conteúdo  de  nossa  cultura’.  Como  a  cultura  é  mediada  e  determinada  pela  comunicação,  as  próprias  culturas,  isto  é,  nossos  sistemas  de  crenças  e  códigos  historicamente  produzidos  são  transformados  de  maneira  fundamental  pelo  novo  sistema  tecnológico  e  o  serão  ainda  mais  com    passar  do  tempo.  A  difusão  em  larga  escala  dos  impressos  proporcionou  grandes  mudanças  nos  aspectos  culturais  uma  vez  que  estabeleceu  a  lógica  cumulativa  do  conhecimento  e  da  informação.  No  entanto,  durante  todo  o  tempo  em  que  prevaleceu,  a  comunicação  escrita  condicionou  o  sistema  audiovisual  a  um  estado  de  pouca  expressão  delegando  a  ele  os
  • 21. 21  “bastidores das artes, que lidam com o domínio privado das emoções e com o mundo público  da liturgia”. (CASTELLS, 1999, p. 353)  Com o advento da televisão, porém, a incidência dessas transformações na expressão  cultural  se  intensificou  de  forma  jamais  vista,  ensejando  o  surgimento  dos  termos  comunicação de massa e delimitando novos traços na abrangência dos meios de comunicação.  Esse  “sistema  de  crenças  e  códigos”,  como  Castells  caracteriza  a  cultura,  é  veementemente  alterado pelo  novo  arranjo  sistêmico  da  comunicação  trazido pela  televisão,  que  assume  o  “epicentro  cultural  de  nossas  sociedades...  um  meio  fundamentalmente...  caracterizado  pela  sedução,  estimulação  sensorial  da  realidade  e  fácil  comunicabilidade”.  (CASTELLS, 1999, p. 358) O seu poder, continuando a linha de análise de Castells, está no  fato  de  que  ela  “arma  o  palco  para  todos  os  processos  que  se  pretendem  comunicar  à  sociedade em geral, de política a negócios, inclusive esportes e arte”. (CASTELLS, 1999, p.  361)  A  televisão  como  aparato  técnico  surge  em  meio  ao  rádio,  aos  filmes,  as  artes,  jornais,  revistas  e  livros,  tornando­se  o  centro  de  todas  as  vertentes  técnicas  e  suportes  da  comunicação. Seu aspecto informativo, de entretenimento, fixação, transmissão, entre outros,  logrou  de  um  poder  de  capilarização  e  penetração  em  escalas  jamais  experimentadas.  O  impacto  disso  foi  visto  por  muitos  como  uma  tentativa  de  homogeneização  que  inevitavelmente  ocorreria  mediante  e  existência  de  uma  massa  consumidora  portando­se  como receptáculos passivos a todo tipo de veiculação arbitrária.  A  televisão  não  só  inseriu  o  sistema  audiovisual  em  um  contexto  abrangente  como  seduziu a todos pelo tipo de postura que deveriam assumir perante a sua existência. Segundo  analisa Castells, a denominada lei do menor esforço decorre não da sedutora condição da TV,  e sim de um contexto social permeado por novas condições de vida, trabalho, família, “falta  de  alternativas  o  envolvimento  pessoal/cultural”  (CASTELLS,  1999),  que  de  certa  forma  delegaram ao homem o poder de escolha cercado por situações que o impeliam a uma opção,  assistir as exibições da nova tela desenhada por elétrons.  A relação entre o conceito de cultura de massa e a TV está basicamente apoiada no  controle tecnológico da comunicação eletrônica. No entanto, a relação entre o telespectador e  a  televisão  segue  uma  lógica  não  de  opressão  e  sim  emocional,  conforme  anuncia  Castells  (1999, p. 357)enfocando as idéias de McLuhan:  (...) os telespectadores têm de preencher os espaços da imagem e por isso aumentam  seu  envolvimento  emocional  com  o  ato  de  assistir  (o  que  ele,  paradoxalmente,  caracterizou como um “ meio frio” ). Tal envolvimento não contradiz a hipótese do
  • 22. 22  mínimo  esforço,  porque  a  TV  apela  à  mente  associativa/lírica,  não  envolvendo  o  esforço psicológico da recuperação e análise da informação (...)  Esse enfoque do poder de penetrabilidade social da televisão é fruto da afirmação de  McLuhan  que  o  diz  o  “meio  é  a  mensagem”.  Essa  supervalorização  do  meio,  como  significante, é desmistificada por Umberto Eco que diz:  Existe, dependendo das circunstâncias socioculturais, uma variedade de códigos, ou  melhor,  de  regras  de  competência  e  interpretação.  A  mensagem  tem  uma  forma  significante  que  pode  ser  completada  com  diferentes  significados...  Assim,  havia  margem  para  a  suposição  de  que  o  emissor  organizava  a  imagem  televisual  com  base nos próprios códigos, que coincidiam com aqueles da ideologia dominante, de  acordo com seus códigos culturais específicos.... aprendemos uma coisa: não existe  uma  Cultura  de  Massa  no  sentido  imaginado  pelos  críticos  apocalípticos  das  comunicações de  massa,  porque  esse  modelo  compete com  os outros (constituídos  por vestígios históricos, cultura de classe, aspectos da alta cultura transmitidos pela  educação, etc.) (Eco apud CASTELLS, 1999, p. 360)  Conceituando  o  processo  dessa  maneira,  Eco  introduz  a  percepção  de  que  há,  inserida em todas as relações entre receptores e os meios de comunicação, uma autonomia de  significação.  O  meio  (significante)  conduz  a  mensagem  que por  sua  vez é  transmitida  até  o  receptor, apoiado por uma gama de códigos culturais que embasarão seu viés de compreensão,  elevando o seu papel na construção final do significado referencial.  A  TV,  no  entanto,  é  um  meio  de  comunicação  que  atua,  como  todos os  outros, de  forma  institucionalizada  e  com  total  ausência  de  neutralidade.  Apesar  da  autonomia  dos  indivíduos frente à construção final dos significados, as mensagens veiculadas são carregadas  dos  mais  variados  artifícios  subliminares  ou  explícitos  e  talhadas  visando  uma  maior  penetração  e  identificação  nos  contextos  sociais.  O  emissor, então,  fica  longe  da  imaginada  opressão que poderia ter em uma conceituação mais simplista dos meios de comunicação, a  conseqüência disso é:  (...) aceitar ser misturado em um texto multissemântico, cuja sintaxe é extremamente  imprecisa.  Assim,  informação  e  entretenimento,  educação  e  propaganda,  relaxamento  e  hipnose,  tudo  isso  está  misturado  na  linguagem  televisiva.  Como  o  contexto do ato de assistir é controlável e familiar ao receptor, todas as mensagens  são absorvidas no modo tranqüilizador das situações domésticas ou aparentemente  domésticas (...) (CASTELLS, 1999, p. 361)  Esse  aspecto  multissemântico  é  corroborado  “mediante...  práticas  coletivas  ou  preferências  individuais”  (CASTELLS,  1999).  O  caracterizado  por  Castells,  “sistema  de  feedbacks entre espelhos deformadores”, é a estrita, contínua e inerente relação entre a cultura  e  a  sua  representação  mediada  pelos  meios  de  comunicação.  Com  o  crescimento  da
  • 23. 23  abrangência desses meios, essa relação construtiva, onde a mídia expressa a cultura e essa por  sua vez se constrói, em parte, por elementos midiáticos, passou a ser preponderante na ênfase  ao receptor, antes descrito como receptáculo passivo e agora dotado de crescente autonomia.  O  período  compreendido  entre  a  eminência  da  escrita  até  o  advento da  televisão é,  então, descrito como “Da galáxia de Gutenberg à Galáxia de McLuhan” (CASTELLS, 1999).  No  entanto,  a  compreensão  da  mídia  de  massa  seguiu  sua  trajetória  alicerçada  em  novos  fatores que modificaram, ainda mais, a sua conceituação.  Nos  anos  de  1980,  tendências  tecnológicas  representaram  o  impulso  para  as  transformações  dos  atributos  interativos  das  mídias.  Jornais  impressos  com  edições  simultâneas e sob medida para áreas diversas, rádios e equipamentos de reprodução portáteis,  novos canais de TV a cabo e o aumento expressivo dos canais da TV aberta, o videocassete,  as máquinas fotográficas, tudo isso implicou em uma nova via para o consumo segmentado,  controle e direcionamento dos conteúdos e, principalmente, um alento para a interatividade e  maior efetividade na adequação das mensagens.  Esse  novo  panorama  que  se  desenhou  tornou  o  que  para  muitos  se  apresentava  de  forma obscura em cristalinas porções de água. O reflexo da divisão do grande bojo midiático,  que abarcava a sociedade de massa, em pequenos nacos de conteúdos heterogêneos entre si, a  exemplo dos canais de televisão, implicou que:  (...) a nova mídia determina uma audiência segmentada,  diferenciada que, embora  maciça  em  termos  de  números,  já  não  é  uma  audiência  de  massa  em  termos  de  simultaneidade  e  uniformidade  da  mensagem  recebida.  A  nova  mídia  não  é  mais  mídia  de  massa  no  sentido  tradicional  do  envio  de  um  número  limitado  de  mensagens  a  uma  audiência  homogênea  de  massa.  Devido  à  multiplicidade  de  mensagens e fontes, a própria audiência torna­se mais seletiva. A audiência visada  tende  a  escolher  suas  mensagens,  assim  aprofundando  sua  segmentação,  intensificando  o  relacionamento  individual  entre  o  emissor  e  o  receptor.  (Sabbah  apud CASTELLS, 1999, p. 361)  O  reflexo  do  papel  fundamental  e  atuante  do  receptor  pela  descentralização  do  processo  e  dos  instrumentos  de  mediação,  diversificação  de  conteúdo  e,  principalmente,  adequação ao público alvo, concebeu o novo viés da conhecida frase de McLuhan, porém pela  visão  trazida  pertinentemente  por  Castells,  “a  mensagem  é  o  meio”.  É  ela  quem  dita  e  determina  as  formas  de  estruturação  tecnológica,  interfacial,  profissional,  imagética,  de  conteúdo, produção, transmissão, entre outros elementos dispostos em canais de TV, produtos  musicais,  programas  de  rádio  e  a  infinidade  de  processos  abarcados  por  essa  “nova  mídia”  (CASTELLS,  1999).  Em  torno  dela,  a  aldeia  global  se  posiciona  estruturando­se  por
  • 24. 24  “domicílios  sob  medida,  globalmente  produzidos  e  localmente  distribuídos”  (CASTELLS,  1999).  Não obstante a tudo isso, um novo movimento tenciona esse contexto, a “formação  de megagrupos e alianças estratégicas para conseguir fatias de mercado” (CASTELLS, 1999).  Observando as novas iniciativas desse cenário de mudanças, os veículos de comunicação com  grande expressividade iniciaram fusões para acompanhar a lógica de produção de conteúdo e  a conseqüente exposição a eles.  “ O  resultado  da  concorrência  e  concentração  desse  negócio  é  que,  embora  a  audiência  tenha  sido  segmentada  e  diversificada,  a  televisão  tornou­se  mais  comercializada  do  que  nunca  e  cada  vez  mais  oligopolista  no  âmbito  global.  O  conteúdo real da maioria das programações não é muito diferente de uma rede para  outra,  se  considerarmos  as  fórmulas  semânticas  subjacentes  dos  programas  mais  populares  como  um  todo.  No  entanto,  o  fato  de  que  nem  todos  assistem  à  mesma  coisa  simultaneamente  e  que  cada  cultura  e  grupo  social  tem  um  relacionamento  específico  com  o  sistema de mídia  faz uma diferença  fundamental vis­à­vis o velho  sistema de mídia de massa padronizado.” (CASTELLS, 1999, p. 365)  Os impactos dessa “nova mídia” incidiram de forma definitiva na comunicação. No  entanto,  a  TV  como  representação  de  maior  amplitude  e  difusão  global,  até  então,  não  conseguiu se  livrar desse padrão unilateral e com ausência de feedback dos telespectadores,  salvo manifestações de prescindir o consumo. A rede de interatividade foi, então, trazida pela  internet.  A irrupção da multimidialidade que culminou na rede com milhões de computadores  interligados em  todo  mundo  ensejou  mudanças  que  tomaram proporções,  mais  uma  vez,  de  propagação  global,  já  amplamente  vivenciadas  no  século  XXI.  A  internet  em  função  do  espectro amplo de sua concepção até a plena existência  seria objeto de outra análise dada a  sua complexidade.  Porém, a multimidialidade inseriu uma nova perspectiva global no que diz respeito à  cultura e os meios de comunicação, o que norteia o cerne desse estudo. A inserção definitiva  das pluralidades dependia de instrumentos mais efetivos para a expressão. Captar, produzir e  reproduzir são ações no processo comunicativo que assumiram novos formatos e perspectivas  de  inserção  e  hibridização.    Assim  como  uma  profunda  mudança  foi  sentida  diante  da  presença sedutora do sistema audiovisual trazido pela televisão, a multimídia rompeu com as  condições  vigentes  em  sua  chegada  criando  um  “supertexto  histórico  gigantesco”  (CASTELLS,  1999).  Tudo  isso  resulta  em  um  “novo  ambiente  simbólico”  abrangendo  a  virtualidade e implicando na sua presença na realidade.
  • 25. 25  Essa  “virtualidade  real”  (CASTELLS,  1999)  é  o  elemento  ratificador  do  binário  “presença/ausência  no  sistema  multimídia  de  comunicação”  (CASTELLS,  1999).  Seria  entender  que  o  virtual,  exibido  imagético  e  simbolicamente  nos  meios  de  comunicação,  a  exemplo dos personagens, é  fruto do reflexo de padrões e códigos culturais, mas ao mesmo  tempo  incidem  mudanças  nesses  padrões  e  códigos  e,  portanto,  faz  parte  deles.    É  de  se  imaginar  que  com  o  crescimento  da  quantidade  de  “espelhos  deformadores”  (CASTELLS,  1999),  a  multimídia,  e de um  acentuado  aumento  na  autonomia dos  feedbacks,  essa  relação  cultura/meios  de  comunicação  assume  uma  consistência  fragmentada  impossível  de  ser  acompanhada.  O  fato  preponderante  é  que  sobre  um  “sistema  de  comunicação,  baseado  na  integração  em rede  digitalizada  de  múltiplos  modos  de  comunicação” e  “sua  capacidade  de  inclusão  e  abrangência  de  todas  as  expressões  culturais”  (CASTELLS,  1999)  esse  processo  tende a se consolidar e realimentar­se eternamente.  Tendo proposto essa breve descrição do panorama da comunicação contemporânea e  sua relação com os aspectos culturais das sociedades, um ponto torna­se crucial: o indivíduo  inserido  nesse  contexto  de  intensa  mudança  dos  elementos  identitários,  sendo,  portanto,  objeto de análise das próximas linhas.  O  que  genericamente  se  propõe  como  pauta  discursiva  no  campo  atual  das  identidades é a recorrente tradução da “crise de identidade” (HALL, 2001). Essa terminologia  crise dedica­se mais a confrontar a dinâmica referencial que se percebeu durante algum tempo  do  possível  ser  unificado  com  a  dinâmica  referencial  atual  que,  em  decorrência  de  vários  fatores  de  mudanças  sociais,  ou um panorama  cultural  difícil  de precisar  e perpetuar, o que  criou,  através  da  fragmentação  e  hibridismos,  processos  de  referenciação  mais  abertos  e  permeáveis. A tendência que antes prevalecia, de busca incessante da precisão referencial era  apoiada por um  centro que  em  seu  cerne  pairavam  as  instituições  bem delimitadas  de certo  período  histórico,  a  família,  o  estado­nação,  o  mercado,  entre  outras.    A  partir  delas  se  derivaria  todo  estado  incipiente  de  análise  para  então  compor  as  linhas  de  observação  e  formação identitária.  O desenvolvimento de uma nova mídia descentralizada, segmentada e composta por  múltiplos  meios  de  comunicação  apresenta  uma  profunda  relação  com  o  processo  de  constante  reestruturação  das  paisagens  identitárias.  Segundo  a  definição  de  Castells,  a  identidade pode ser entendida como um processo de “construção de significado com base em  um  atributo  cultural,  ou  ainda  um  conjunto  de  atributos  culturais  inter­relacionados,  o(s)  qual(ais)  prevalece(m)  sobre  outras  fontes  de  significado.”  (CASTELLS,  1999,  p.  22).  À
  • 26. 26  medida  que  a  pluralidade  de  expressões  torna­se  cada  vez  mais  acessível,  as  manifestações  culturais  remontam  a  ausência  de  um  centro  ou  atributo  uniforme  na  sociedade,  situando  vários elementos aleatoriamente posicionados.  Essa  ausência  de  um  centro  referencial  tida  como  a  “descentração  do  sujeito”,  implica a perda de um “sentido de si” e o deslocamento “tanto do seu lugar no mundo social e  cultural  quanto  de  si  mesmo”.  (HALL,  2001,  p.  9)  Esse  fenômeno  é  um  dos  elementos  da  discussão sobre a aventada crise das identidades analisada por Stuart Hall.  É pertinente retroceder um pouco no tempo para traduzir como os aspectos técnicos  da  comunicação  têm  desdobramentos  profundos  na  análise  social  das  identidades.  Hall,  em  sua  linha  de  raciocínio  para  explicar  quando  o  sujeito  realmente  pôde  ser  concebido  como  unificado, menciona uma importante definição trazida pelo iluminista John Locke que dizia:  “a  identidade da pessoa alcança  a  exata  extensão  em  que  sua  consciência  pode  ir  para trás,  para qualquer ação ou pensamento passado”. (Locke apud HALL, 2001, p.27­28).  Apoiado  nessa  perspectiva,  depreende­se  que  se  hoje  tendemos  a  uma  expansão  vertiginosa  no  aprofundamento  do  passado  graças  à  lógica  cumulativa  dos  meios  de  comunicação e se a presença de todos esses elementos registrados tem um caráter infinito de  existência temporal em função dos diversos suportes hoje existentes, é  notório perceber que  essa  unidade  de  alcance,  mencionada  por  Locke,  atualmente  vai  tão  além  do  poder  de  mensuração  do  sujeito  que  a  consequente  formação  identitária  se  multiplica  também  em  proporções  difíceis  de  acompanhar  e  impossíveis  de  precisar.  As  fontes  de  significado  se  entrelaçam para conceber uma rede na qual valores, crenças e  símbolos se conjugam para a  formação de novos valores, novas crenças e novos símbolos altamente permeados pela idéia  do simultâneo e passageiro.  2  O  esquema  proposto  por  Hall  (2001)  para  caracterizar  os  três  tipos  de  sujeito  existentes  segundo  a  sua  concepção  registra  as  primeiras  grandes  alterações  a  partir  do  “sujeito  sociológico”.  O  autor  pondera  que  a  partir  desse  sujeito  tivemos  a  introdução  da  lógica  da  mediação  dos  sentidos,  valores  e  símbolos  atuando  permanentemente  no  desenvolvimento  do  homem.  Esse  repertório  exibido  através  das  paisagens  culturais  dava  origem à identidade que preenchia o “espaço entre o “interior” e o “exterior” – entre o mundo  pessoal e o mundo público.” (HALL, 2001, p.11)  2  Hall  elenca  os  três  sujeitos  a  partir  de  determinados  momentos  históricos.  Devido  à  relevância  dos  sujeitos  sociológico  e  pós­moderno,  esse  último  de  forma  mais  abrangente,  vou  prescindir  e  menção  do  sujeito  do  iluminismo, de igual importância, porém que estenderia a análise desnecessariamente.
  • 27. 27  Mesmo  visto  dessa  forma,  o  sujeito  ainda  era  compreendido  como  unificado,  pois  nascia  com  um  “núcleo  interior”  que  se  desenvolvia  na  “relação  com  “outras  pessoas  importantes para ele”. (HALL, 2001, p.11)  No  entanto,  essa  miríade  de  elementos  subjetivos  que  deveriam  ser  alinhados  socialmente sofreu mudanças intensas introduzidas pela idéia de que o sujeito não possui mais  uma identidade fixa ou permanente, assim se define o “sujeito pós­moderno”.  O processo de  identificação  tornou­se  “provisório,  variável  e  problemático”,  pois  “à  medida  em  que  os  sistemas de significação e representação cultural se multiplicam, somos confrontados por uma  multiplicidade desconcertante e cambiante de identidades possíveis, com cada uma das quais  poderíamos no identificar – ao menos temporariamente.” (HALL, 2001, p. 13)  Além do processo de identificação, outro fator de mudança estrutural compete para a  fragmentação do sujeito. As várias instituições do mundo pós­moderno exigem dele posturas  diferentes em momentos diferentes. Dessa forma, os papéis sociais que segundo Castells são  definidos  “pelas  normas  estruturadas”  por  essas  instituições  e  organizações  refletem  na  caracterização da identidade, resultando em “identidades diferentes em momentos diferentes”.  (HALL, 2001, p.13)  A crise da identidade resultante da descentração do sujeito pós­moderno é fruto desse  novo contexto. Para corroborar essa total desagregação, Hall enumera cinco avanços na teoria  social e nas ciências humanas, mas pela pertinência abordaremos somente três.  O  primeiro  deles  parte  da  estrutura  lingüística  e  está  associado  ao  trabalho  de  Ferdinand  de  Saussure.  A  língua,  assim  como  os  diversos  instrumentos  de  produção  de  significado,  possui  uma  dinâmica  autônoma  que  independe  de  quem  está  produzindo  as  mensagens. Assim como as identidades se comportam, as palavras estão sempre apoiadas em  um referencial que é um objeto externo às relações estruturadas em similaridade e diferença.  É nítido, portanto, que não há uma determinação final do significado e nem da identidade por  não  haver  mais  uma  determinação  categórica  de  similaridade  e  nem  diferença.  Na  mesma  proporção em que se tenta estabilizar esse significado em uma vertente cabal, a multiplicação  dos códigos e objetos referenciais perturbam pelo seu ininterrupto movimento multidirecional,  se situando como se estivesse em uma câmara espelhada observada por dentro sempre a partir  de diferentes pontos.  Nesse  aspecto,  a  produção  lingüística  em  geral,  que  venha  expressar  os  códigos  culturais, por maior precisão que se busque por parte do emissor, a recepção, conforme já foi  dito,  é  um  ato  cada  vez  mais  dissociado  da  produção  e  altamente  subjetivo.  O  que  torna  imprevisível os resultados da assimilação.
  • 28. 28  Outra  teoria  discutida  é  o  processo  denominado  por  Michel  Focault  de  “poder  disciplinar”  (Focault  apud  HALL,  2001).  Esse  poder  é  exercido  por  instituições  contemporâneas  como  escolas,  prisões,  hospitais,  entre  outras,  interessa  para  essa  análise  tendo como foco as instituições midiáticas.  O processo discutido anteriormente quanto à ausência de neutralidade dos meios de  comunicação  e  as  possíveis  iniciativas  frente  ao  consumo  segmentado  são  estratégias,  na  maioria das vezes de individualização em meio ao coletivo, exatamente como ocorre quando  se busca esse poder disciplinar.  Assim como hospitais possuem prontuários com excessiva carga descritiva em busca  de  delimitação  do  indivíduo  em  meio  ao  coletivo  para  fins  de  controle,  esses  meios  de  comunicação  ainda  tentam  descobrir  mecanismos  para  estabelecer  certos  denominadores  comuns de modo a interromper a segmentação ou pelo menos abrandar esse processo.  Por  outro  lado,  alguns  veículos,  como  a  revista  piauí,  se  integram  ao  fluxo  imprevisível  de  montagem  das  paisagens  culturais  para  expressar  a  impossibilidade  de  se  fechar  em  um  significado,  ao  contrário,  se  entrega  a  todos  eles  em  uma  dinâmica  oposta,  partindo da comunhão de várias individualidades para a composição de uma conteúdo voltado  para um coletivo socialmente segmentado e fragmentado.  A  última  teoria  diz  respeito  ao  impacto  social  do  feminismo.  Esse  movimento  representou,  junto  aos  movimentos  de  luta  racial,  gays,  lésbicas,  antibelicistas,  uma  contestação  social  que  permeou  todas  as  esferas  de  convivência,  mas  que  trouxe,  principalmente,  em  função  da  sua  amplitude,  a  idéia  da  “política  de  identidade  –  uma  identidade para cada movimento”. (HALL, 2001, p. 45)  Como  encerramento  é  preciso  trazer  a  nova  lógica  das  formações  identitárias  proposta por Castells. O autor aponta três formas e origens de construção de identidades:  Identidade legitimadora: introduzida pelas instituições dominantes da sociedade no  intuito de expandir e racionalizar sua dominação em relação aos atores sociais...dá  origem a uma sociedade  civil, ou seja, um conjunto de organizações e instituições,  bem como uma série de atores sociais(..).  Identidade de resistência: criada por  atores que encontram  em posições/condições  desvalorizadas(...)Leva à formação de comunas, ou comunidades...  Identidade  de  projeto:  quando  os atores sociais,  utilizando­se  de  qualquer  tipo  de  material cultural ao seu alcance, constroem uma nova identidade capaz de redefinir  sua posição na sociedade (...) (CASTELLS, 1999, p. 24)  Há  um  ponto  crucial  a  ser  pensado  considerando  esses  processos  de  construção.  Segundo a linha de raciocínio do próprio Castells, durante a modernidade, as identidades de  projeto  se  formavam  a  partir  da  sociedade  civil  com  o  intuito  de  propor  novas  lógicas  às
  • 29. 29  instituições dominantes, grande exemplo disso foi o socialismo. Com o advento dessa série de  movimentos  sociais  que  fragmentaram  as  identidades  em  uma  perspectiva  política,  a  identidade de projeto passa a se desenvolver a partir das identidades de resistência. É o que  ele chama de “transformação social na era da informação.” (CASTELLS, 1999, p. 28)  Com  a  finalidade  de  identificar  essas  manifestações  linguísticas  características  da  pós­modernidade, o pastiche,  a  paródia e  o simulacro, que visam  determinar  um público  de  consumo,  representando  segmentações  tanto  produtivas,  quanto  receptivas,  a  proposta  de  análise é a revista piauí. Além de se dirigir a um segmento de indivíduos, pelo uso de códigos  e elementos culturais específicos, piauí reforça o papel das identidades na determinação das  novas vertentes de produção editorial.
  • 30. 30  Capítulo III  Desconcer tante constr ução  O  presente  trabalho  encarregou­se,  até  agora,  de  apontar  algumas  mudanças  ocorridas  tanto  nas  dinâmicas  sociais  quanto  nos  aspectos  técnicos  da  comunicação  e  seus  desdobramentos  e  relações  com  os  processos  identitários.  Para  consolidar  esse  panorama  exposto até então, é imprescindível referenciá­lo em um produto que possa espelhar e traduzir  esses aspectos que serão exemplificados pela análise da revista piauí.  A modernidade foi descrita pela sua rigidez no estabelecimento de fronteiras claras  entre os gêneros, que se fundiram na pós­modernidade e deram origem a uma tensão contrária  ao  isolacionismo  lingüístico  e  disciplinar  das  metanarrativas.  A  pluralidade  manifesta  na  desrefencialização identitária implicou em novas maneiras de projetar culturalmente minorias  no  âmbito  social.  Novas  tendências  eclodiram  nos  meios  de  comunicação  pelo  consumo  segmentado e pela maior participação do receptor na produção dos significados. A cultura foi  apresentada como detentora de traços da sociedade assim como a sociedade incorpora traços  da cultura para se completarem mutuamente. Tudo isso resultou em perspectivas de uso das  figuras e métodos de linguagem em  novos moldes como o desconstrucionismo, a colagem e  montagem,  o  simulacro,  o  pastiche  e  a  paródia  e,  principalmente,  a  concepção  da  estrutura  mutante  dos  signos  sob  a  ótica  dos  atores  sociais.  Essas  foram  algumas  mudanças  que  eclodiram nessa transição.  O  termo  gramática   é  recorrentemente  utilizado  nas  elucidações  sobre  a  pós­  modernidade e suas várias manifestações lingüísticas que se relacionam com o meio em uma  dinâmica de recriação e rompimento com hierarquias e padrões de expressão. Gramática  tem,  como  uma  de  suas  definições  “em  lingüística  descritiva,  estudo  objetivo  e  sistemático  dos  elementos (...) e dos processos (de formação, construção, flexão e expressão) que constituem  e caracterizam o sistema de uma língua” (Dicionário de Língua Portuguesa, p. 1474)  Essa  ênfase  aos  processos  de  formação  e  caráter  sistêmico  da  gramática  reforça  o  valor  atribuído  ao  significante  na  pós­modernidade  e  situa  o  objeto  em  questão  como  importante  instrumento  para  identificar  de  que  forma  as  novas  manifestações  editoriais  se  apropriam dos padrões vigentes relacionando­os em torno de novos significados.  O jornalismo como autêntica forma de expressão e retratação dos fatos segue a sua  própria  gramática  e  se  resguarda,  em  seu  valor  institucional,  nos  cânones,  ou  regras  particulares,  incumbidas  de  mediar  as  mensagens  de  forma  mais  familiar  e  pragmática  ao
  • 31. 31  receptor. Mesmo compreendendo a vivacidade da língua, manuais de redação, extensas obras  sobre  técnicas  de  escrita,  entre  outras  publicações,  permeiam  o  cotidiano  da  produção  jornalística.  Conforme  já  elucidado  no  capítulo  anterior,  há  uma  crescente  tensão  entre  o  fator  institucional  dos  meios  de  comunicação  e  as  formas  participativas,  interativas  e  descentralizadas  impostas  pela  nova  ordem  de  exposição  do  receptor  às  mensagens.  É  fato  que  a  institucionalização  depende,  conforme  caracteriza  Thompson  (1998),  de  certa  estabilidade  e  projeção  no  tempo.  No  entanto,  a  própria  desrefencialização  identitária  dos  sujeitos sociais incide nos mais diversos substratos de maneira divergente a essa estabilidade  que anteriormente utilizava da comunicação de massa travestida nos recém trazidos aparatos  tecnológicos, a exemplo da televisão.  Seguindo a lógica cultural de relacionamento entre o “sistema de crenças e códigos  historicamente  produzidos”  e  os  sujeitos  sociais  que  referendam  o  seu  uso  e  a  sua  perpetuação, a tendência das novas manifestações editoriais é justamente de seguir esse fluxo  pluralista  e  aberto,  não  obstante  presenciarmos  constantemente  produtos  que  resistem  em  ceder e deslocar­se do seu cânone, representação típica desse fator institucional. (CASTELLS,  1999, p. 34)  Compreendendo  tais  obras  como  as  metanarrativas,  mencionadas  anteriormente  como os amplos esquemas interpretativos que norteavam os pensadores modernos, a revista  piauí remonta o movimento desconcertante da pós­modernidade ao reunir aspectos da cultura  erudita,  porém  em  uma  vertente  contrária  ao  isolacionismo  lingüístico  e  a  concepção  de  gêneros  totalitários.  Ela  se  insere  na  perspectiva  segmentada  de  produção  voltada  para  um  público  específico,  projetado  à  luz  da  afinidade  e  identificação  com  seus  conteúdos  discursivos. Se  as paisagens  culturais  conforme pressagiou  Hall  (2001)  se  fragmentaram,  as  nuances  editorias  tendem  a  se  expandir  para  atender  as  novas  demandas  lançadas  por  esse  fenômeno,  de  maneira  que  a  segmentação  muito  acentuada  não  torne  se  exageradamente  individualizada para resultar em publicações quantitativamente inviáveis.  Ao  tratar  das  instituições,  tão  dependentes  da  estabilidade  e  antes  apoiada  pelas  fronteiras,  Harvey  (1989)  sugere  que  a  explosão  de  gêneros  e  sua  conseqüente  heterogeneidade de  jogos  linguagem  dá  “origem  a  instituições  em  pedaços – determinismos  locais”. (Lyotard apud HARVEY, 1989, p. 57).  No entanto, a estabilidade, nesse caso, é conferida coletivamente dentro daquilo que  os  indivíduos  “consideram  conhecimento  válido”.  “Determinismos  locais”  são  compreendidos,  nessa  abordagem,  como  “comunidades  interpretativas”.  Com  isso  Harvey
  • 32. 32  ilustra o poder de constante recriação advinda tanto dos produtores quanto consumidores uma  vez que constroem mutuamente seu repertório de códigos inseridos nessas comunidades.  Analogamente,  a  análise  proposta  se  aproxima  da  apreciação  elaborada  por  ele  de  Soft  City.  Essa  obra,  conforme  propõe,  por  mais  ingênua  que  pareça,  uma  vez  que  foi  concebida por um jovem recém chegado a Londres, ilustra um importante destaque diante do  contexto que se pensava existir. Quando se propunha que o espaço urbano era dominado pela  síntese totalizante e que pelas ruas circulavam somente acadêmicos dignos de interpretações  abissais, Soft City constrói uma nova visão. Novas produções de significados eram realizadas  pela parte viva da cidade, o caos urbano que se apresenta como impossível de ser controlado,  a autonomia de cada um dos atores os destaca em meio aquilo que foram gestados.  Para compreender melhor, é necessário traçar um panorama histórico do surgimento  de  piauí.  As  edições  selecionadas  para  apreciação  foram  as  duas  primeiras,  a  mais  recente  datada (outubro de 2008) tendo como referência  a conclusão desse trabalho, além de outros  dois  números  que  abordam  duas  tradições  mundialmente  reverenciadas,  o  natal  e  as  olimpíadas, essas selecionadas para fundamentar o enfoque dado às pautas de temas sazonais  e amplamente retratados.  É  importante  para  essa  análise  compreender  que,  dentro  de um processo  aberto  de  construção,  não  há  determinações  a  serem  seguidas  durante  a  trajetória  da  revista.  Sendo  assim,  o  interstício  que  separa  suas  primeiras  edições  da  mais  atual  reflete,  em  diversos  aspectos, mudanças em algumas de suas características identitárias. Foram escolhidas quatro  dimensões de análise: produto e contexto, cânone jornalístico – subjetividade e objetividade,  Jornalismo literário, figuras de linguagem.  Tradicionalmente  o  jornalismo  enfatiza,  quase  sempre,  as  mesmas  questões  dentro  das coberturas de grandes datas ou eventos. Entender como a revista ressalta outros elementos  desse pragmatismo é, também, de fundamental importância para caracterizá­la.  3.1 Pr oduto e contexto  Piauí  foi  concebida  há  dois  anos,  em  2006,  fruto  de  um  projeto  idealizado  pelo  documentarista João Moreira Salles e teve sua primeira edição publicada em outubro daquele  ano.  Alguns  aspectos de  sua  identidade  trazem dificuldades para uma  caracterização  fixa,  o
  • 33. 33  que,  no  entanto,  lhe  atribui  a  singularidade  necessária  ao  reunir  várias  vertentes  e  um  anarquismo aleatório.  “ A piauí é saudavelmente anárquica. Ela muda muito; é muito dinâmica. Acho que  dá  pra  dizer  que  a  revista  é  centrada  na  singularidade.  Não  temos  temas  gerais,  mas  sempre  uma  pessoa,  uma  instituição.  Generalização  no  Brasil  é  algo  muito  complicado, acaba sendo contraditório. Estamos com sete meses de revista e ainda  procuramos  a  cara  dela.  É  difícil  definir  a  piauí,  assim  como  é  difícil  definir  o  Brasil” (SALLES, 2007)  O  conteúdo  da  revista  é  elaborado,  a  cada  edição  mensal,  por  colaboradores,  inclusive  internacionais,  se  aproximando  do  modelo  de  produção  em  rede,  autônomo,  descentralizado  e  subjetivo.  Escritores,  médicos,  atores,  humoristas,  entre  outros,  dão  consistência  ao  expediente  que  não  busca  uma  completude  na  perpetuação,  mas  no  caráter  aberto de novas possibilidades e participações.  Reflexo dessa ausência de rigidez, as editorias de piauí, ou não editorias, seguem a  mesma  lógica  aleatória.  As  denominações,  ordem  seqüencial  de  indexação  e  a  própria  publicação  em  si  não  são  perenes,  salvo  exceções  como  Chegada ,  Despedida,  Diário  e  Esquina  (Figura 1). A primeira, conforme o próprio nome já caracteriza, aborda sempre temas  novos colocados em pauta, já despedida, que talvez pudesse referenciar as seções de óbito do  jornalismo  convencional,  retrata  uma  espécie  memórias  póstumas  de  algum  fato,  tratando  tanto  de pessoas  quanto de objetos  inanimados. Dois  exemplos  estão  na  edição  de  agosto  e  outubro  de  2008  que  trazem,  respectivamente,  os  textos  ATÉ  TU,  ITAIPULÂNDIA  e  o  discurso  de  paraninfo  para  formandos  A  LIBERDADE  DE  VER  OS  OUTROS,  do  escritor  americano David Foster.  Esquina   poderia  ser  a  seção  que,  em  função  de  uma  peculiaridade,  a  ausência  de  assinaturas,  se  aproxima  dos  editoriais,  inexistentes  na  revista,  salvo  exceção  da  edição  de  outubro de 2008 que trouxe o primeiro deles. Composta por pequenas histórias que trazem os  mais  diversos  assuntos,  Esquina ,  representaria,  portanto, o olhar  da revista  diante  de  alguns  fatos  da  realidade,  porém  sem  a  pretensão  de  expor  nenhuma  opinião  sobre  eles,  se  encarregando  somente  de  retratar  os  acontecimentos,  em  sua  grande  maioria  totalmente  avessos aos parâmetros de relevância e noticiabilidade.  A discussão em torno da temporalidade em piauí é fator recorrente em função de sua  evocação a temas inusitados. Pena (2006) trata dessa questão temporal e de acordo com suas  considerações  “temporalidade  não  se  refere  ao  fato,  mas  à  forma  como  é  transmitido,  ou  melhor, mediado. É o instante da mediação que realmente conta”. (PENA, 2006, p. 39)
  • 34. 34  A pluralidade de temas contidos em Esquina  está paralelamente ligada aos conceitos  de atualidade e novidade.  A quantidade de informações veiculadas pela mídia e o interstício  com que são produzidas trazem uma dinâmica frenética às publicações diárias do jornalismo.  Sendo uma  revista  mensal,  piauí  tende  a  se  apropriar  do  fator  novidade  e  o  faz  com  muita  destreza. O texto Edemar,o artista  (edição outubro de 2008) trabalha  com detalhes do tema  abordado transitando entre o presente e o passado com enorme riqueza de detalhes que Pena  considera como fundamental na atribuição de relevância a temas já tratados ou ressaltados de  forma diferente.  Outra confusão muito comum é entre o novo e o desconhecido. É evidente que o fato  de  você  desconhecer  o  assunto  não  significa  que  ele  seja  novo.  Você  pode  simplesmente ter ignorado o tal assunto por algum tempo enquanto outras pessoas  tomavam conhecimento dele, deixando portanto de  ser novidade. Mesmo assim, na  primeira  vez  que  a  informação  chegar  até  você,  na  sua  acepção  será  sim  uma  novidade.  (...)  Em  outras  palavras,  não  só  novidade  e  atualidade  são  conceitos  diferentes  como  só  podem  ser  entendidos  por  meio  de  contextualizações  e  gradações.  E  as  mais  importantes  são  a  intensidade  e  imprevisibilidade,  sob  a  perspectiva  da  recepção. (PENA, 2006, p. 40­41)  O Diário, que como o próprio nome diz, relata o cotidiano de quem escreve, ilustra o  aspecto não hierárquico da produção de piauí, já referendado pela colaboração em rede, mas  que  se  substancia  através  inserção  de  cidadãos  comuns  experimentando  a  oportunidade  de  difundir os registros do seu dia a dia.  A edição de outubro de 2008 traz o diário de uma gari intitulado “Deita a vassoura,  gari!”.  Uma  personagem,  Vânia  Maria  Coelho, que  talvez  pouco  tendesse  a  agregar  valores  lingüísticos à revista, no entanto, a despretensão editorial de piauí se realça nesses detalhes,  que ao longo dos textos apresentam sua pertinência. Vânia completou dez anos de profissão  enquanto a revista completava dois anos na oportunidade do lançamento dessa edição.  Esteticamente piauí se destaca, primeiramente, pelas grandes dimensões que possui.  Todo o conteúdo de texto é dividido em quatro colunas acompanhadas de ilustrações que se  misturam  aos  caracteres  sem  pretensão de  referenciar  o  disposto  em  suas  proximidades.  Ao  mesmo  tempo  em  que  provocam  certa  dispersão,  essas  ilustrações  convidam  o  leitor  a  revisitar  as  páginas  já  percorridas  através  de  uma  nova  abordagem,  podendo  apreciar  essa  conjugação de forma dissociada e em vários tempos.  Com  relação  às  fotos,  também  não  há  fronteiras  em  seu  uso  na  revista.  Se  no  fotojornalismo o objetivo é a captura do momento crucial, em piauí esse momento pode ser  sintético ou simplesmente revigorado pela ação de intervenções construtivas através de filtros,
  • 35. 35  distorções, ênfases, entre outras estetizações fruto do crescente desenvolvimento dos aparatos  tecnológicos de intervenção imagética. (Figura 2)  A  análise  de  piauí  depende  muito  do  relacionamento  com  algumas  teorias  e  caracterizações do cânone jornalístico, principalmente a polissêmica definição de jornalismo  literário.  3.2 Cânone jor nalístico – subjetividade e objetividade  Os meios de comunicação já foram mencionados anteriormente como possuidores de  duas  características  imprescindíveis  em  sua  análise,  a  de  cunho  social,  referente  às  instituições, e a de vertente técnica que diz respeito aos mecanismos de expressão, difusão e  propagação.  Sendo a gramática um objeto de estudo sistêmico dos elementos que compõem um  vernáculo, pela ótica jornalística, outra obra se encarrega de complementá­la e contextualizá­  la dentro na esfera institucional.  Os manuais de redação, conforme o Manual de Redação de Estilo do jornal Estado  de  São Paulo descreve,  têm  como objetivo  “(...) expor, de  modo ordenado  e  sistemático,  as  normas editoriais e de estilo (...) não pretende, com isso tolher a criatividade (...) Seu objetivo  é  claro:  definir  princípios  que  tornem  uniforme  a  edição  do  jornal.”  (MARTINS  FILHO,  1997, p. 9)  A  preocupação  com  a  uniformidade  resulta,  também,  em  um  contínuo  acompanhamento  das  mudanças  advindas  dos  códigos  produzidos  e  perpetuados  em  sociedade,  esse  mesmo  manual,  para  tanto,  enuncia  que  a  razão  de  uma  nova  edição  é  necessária “para corrigir omissões ou incluir assuntos que passaram a ocupar o noticiário nos  últimos anos.” (MARTINS FILHO, 1997, p. 9)  Registrar  possíveis  omissões  aponta  que  dar  conta  de  todas  as  manifestações  lingüísticas no tempo e dinâmica com que surgem é quase tão improvável quanto a existência  de  uma  edição  perene.  No  que  tange  às  inclusões,  é  um  apontamento  do  processo  de  moldagem cultural da mídia em relação aos sistemas de códigos vigentes.  Os  periódicos  necessitam  dessa  uniformidade  institucional  para  representarem  algo  além  da  mensagem  que  veiculam,  um  padrão  identitário.  Apesar  da  maior  liberdade  linguistica  com  que  contam  as  revistas,  conforme  será  discutido  posteriormente,  a  unidade
  • 36. 36  institucional  deve  ser  preservada  não  implicando  em  tolhimento,  mas  talvez  adaptações  de  redações e formas de escrita.  As  capas  de  piauí  (Figura  3)  são o ícone  mais  representativo  do  seu deslocamento  em  relação  ao  fluxo  proposto  pela  linguagem  estruturada  firmada  pelo  cânone.  Conforme  Salles reforça,  a  capa  (de  piauí)  é  como  se  fosse  mais  uma  colaboração.  É  muito  difícil  ela  ter  relação com o conteúdo. Tem que ser interessante por si só. Chamar atenção e ser  divertida.  A  capa  da  primeira  edição  foi  feita  pelo  Angeli  em  dois  dias.  Ele  perguntou  o  que  tinha  na  revista.  Respondemos  que  ele  não  precisava  saber.  (SALLES, 2007)  O  símbolo  mais  impactante  dos  periódicos  em  termos  de  primeiro  contato  com  o  leitor são as capas. Nelas, além das fotos, artes ou ilustrações que de certa maneira anunciam  o  tema  principal,  também  estão  discriminadas  as  chamadas  para  outros  conteúdos  mais  relevantes.  Uma  boa  revista  precisa  de  uma  capa  que  a  ajude  a  conquistar  leitores  e  os  convença a levá­la para casa. “Capa”, como diz o jornalista Thomaz Souto Corrêa,  “ é  feita  para  vender  revista” .  Por  isso,  precisa  ser  o  resumo  irresistível  de  cada  edição, uma espécie de vitrine para o deleite e a sedução do leitor.  (...)  A  chamada  principal  e  a  imagem  da  capa  devem  se  complementar,  passando  uma mensagem coesa e coerente. (SCALZO, 2006, p. 62­63)  Três aspectos das capas de piauí são, portanto, desconcertantes. Primeiro, a ausência  de fotos desconstrói a temporalidade, não existem fatos que caracterizaram períodos ou datas  específicas  representados  ali.  As  ilustrações  são, dessa  forma,  realces  estritamente  estéticos,  dois apontamentos que contrariam a objetividade jornalística.  Segundo,  os  títulos  relacionados  não  são  colocados  pela  lógica  das  possíveis  editorias, sendo efetivamente chamadas consistentes e mote de um supertexto que inicia, já na  própria  capa,  a  navegação  pela  estrutura do  texto  interno. Mas  o que  chama  atenção  são os  nomes  dos  autores  apontados  logo  abaixo  resultando  na  ênfase  à  subjetividade  de  seus  colaboradores.  Já  o  próprio  nome  da  revista, diferentemente  de outras  publicações,  se  posiciona  a  deriva em qualquer um dos cantos do layout. Essa configuração que em outras publicações do  gênero se apresentam de forma estática é na verdade alheia à padronização.  As  questões  que  permeiam  a  objetividade  e  subjetividade  jornalísticas,  mais  enfaticamente o conceito dessa primeira “é um dos mais discutidos em jornalismo” (PENA,  2006, p. 49)
  • 37. 37  Objetividade e a presença, aguda ou não, de idiossincrasias possuem grande relação  com  a  variedade  lingüística  e  a  flexibilidade  de  registro  das  observações  realizadas  pelos  jornalistas. Pena (2006, p. 50) analisa que:  A objetividade é definida em oposição à subjetividade, o que é um grande erro, pois  ela  surge  não  para  negá­la,  mas  sim  por  reconhecer  a  sua  inevitabilidade.  Seu  verdadeiro significado está ligado à idéia de que os fatos são construídos de forma  tão complexa que  não se pode cultuá­los como a expressão absoluta da  realidade.  Pelo  contrário,  é  preciso  desconfiar  desses fatos e  criar  um  método  que  assegure  algum rigor cientifico ao reportá­los.  A  objetividade,  então,  surge  porque  há  uma  percepção  de  que  os  fatos  são  subjetivos, ou seja, construídos a  partir da mediação de um indivíduo  (...) E como  essas  coisas  não  deixarão  de  existir,  vamos  tratar  de  amenizar  sua  influência  no  relato dos acontecimentos. Vamos criar uma metodologia de trabalho.  É  interessante  observar  a  análise  da  relação  entre  objetividade,  subjetividade  e  idiossincrasias. Ao estruturar o processo da concepção do texto jornalístico ideal, três atores  são  apontados:  o  jornalista,  a  fonte,  que  tem  papel  de  testemunho  e/ou  ratificador  dos  acontecimentos, e o receptor.  As  idiossincrasias  são  inseridas  na  produção  e  recepção  por  todos  os  três  atores.  Porém, há certa peculiaridade concernente ao jornalista como Pena (2006, p. 51) aponta:  Mas o que o se observa no jornalismo atual é uma simbiose, não uma separação. A  noticia  nunca  esteve  tão  carregada  de  opiniões.  E  um  dos  motivos  é  justamente  atender ao  critério de objetividade que obriga o  jornalista a ouvir sempre os dois  lados  da  historia.  Os  jornais  valorizam  mais  as  declarações  do  que  os  próprios  fatos. Ou seja, preocupam­se mais com os comentários sobre os acontecimentos do  que com os acontecimentos em si.  Isso  demonstra  uma  intensa  destituição  de  relevância  ao  papel  do  jornalista  e  seu  ângulo  de  observação.  Se  o  testemunho  do  jornalista  é  prescindido,  sua  análise  passa  a  remeter a uma simples justaposição e intercalação coerente dos fatos.  Essa angulação é o que Salles trata quando enfatiza ter em Piauí  (...) uma preocupação da forma, que é uma preocupação cada vez maior (...) quanto  ao documentário, é também uma preocupação da revista em relação aos textos que  são  escritos,  não  interessa  só  a  história,  interessa  a  maneira  como  ela  é  contada.  (SALLES, 2007)  Duas  reportagens  da  edição  de  agosto  de  2008  revelam  as  preocupações  com  os  aspectos  do  ato  de  reportar  objetiva  e,  principalmente,  subjetivamente  em  piauí.  ACM  de  adereços  fluorescentes  já  traz  no  próprio  título  idiossincrasias  presentes  na  cobertura  jornalística.
  • 38. 38  A reportagem inicia, em seus dois primeiros parágrafos, traduzindo certa onipresença  da jornalista Daniela Pinheiro que não poupa descrições no parágrafo seguinte, uma delas que  dá origem ao título.  No  cemitério  do  Campo  Santo,  em  Salvador,  há  uma  lápide  branca  na  qual  está  escrito:  “ A  Bahia  sempre  foi  e  será  a  razão  da  minha  vida.”   Uma  foto  antiga  do  morto  está  manchada  de  água  de  chuva  e  desbotada  pelo  sol.  Vasos  velhos  com  margaridas  murchas  e  ressecadas  são  as  únicas  homenagens.  Sacos  plásticos  e  duas  garrafas  jogadas  reforçam  o  abandono  do  túmulo  do  governador  Antonio  Carlos  Magalhães,  que  morreu  há  um  ano.  “ No  começo  ficava  cheio,  mas  agora  parece  que  esqueceram  dele” ,  disse  um  funcionário  do  cemitério  numa  manhã  de  julho.  A  10  quilômetros  dali,  no  estacionamento  de  um  supermercado,  duas  camionetes  aguardavam a comitiva do deputado Antonio Carlos Magalhães Neto, o candidato  melhor situado nas pesquisas de intenção de voto nas eleições para a prefeitura de  Salvador.  O grupo  seguiria  para  o  cortejo  de  2  de  julho, que  comemora  o  fim  da  guerra que, em 1823, expulsou os portugueses da Bahia. Para os políticos, o feriado  serve de termômetro de  popularidade. É a hora em  que eles  se  misturam ao povo,  são apalpados, agarrados, puxados, espremidos, aclamados – ou vaiados. Também  é a boa hora para gravar cenas do programa eleitoral na televisão.  Antonio  Carlos  Magalhães  Neto  chegou  de  tênis  branco  com  adereços  fluorescentes. “ Olha o tênis dele: igualzinho ao meu! Só que o dele fala inglês e o  meu é pirata mesmo” , brincou o ex­governador César Borges, colando o pé direito  ao esquerdo do candidato. De um carro saiu o senador Antonio Carlos Magalhães  Júnior, o pai de Neto, que  cumprimentou o filho com um beijo na cabeça. (PIAUI,  Agosto 2008, p. 21)  O  objeto ou personagem  protagonista  da  abordagem em  questão  é o político  ACM  Neto. Sua rotina política é descrita de perto, no entanto, a objetividade é trabalhada pelo seu  histórico  familiar,  abordado  pela  ótica  subjetiva  tanto  da  jornalista,  quanto  de  fontes  potenciais, sem comprometer o teor do texto.  O  outro  exemplo  em  questão,  de  título  Silhueta  olímpica   é  objetivamente  descrito,  porém o enfoque da pauta jornalística diz muito sobre a subjetividade e preocupação com a  dinâmica  na  abordagem  do  acontecimento  em  voga.  O  conteúdo  do  texto  relaciona  a  arquitetura do complexo olímpico com aspectos políticos dos jogos de Pequim.  Para entender a importância dos XIX Jogos Olímpicos para a China, basta ver onde  foi construído o Parque Olímpico. Durante o primeiro boom imobiliário de Pequim  –  seiscentos anos antes  do  atual  –,  a  cidade  se  distribuía  simetricamente dos  dois  lados de um eixo norte­sul.  Como ocorre em  Paris –  onde  o Louvre está alinhado  com o Jardim das Tulherias, o Arco do Triunfo e a avenida dos Champs­Elysées –,  as  estruturas  de  maior  importância  simbólica  de  Pequim  sucedem­se  ao  longo  de  um eixo principal. No centro fica a antiga residência imperial da Cidade Proibida.  Ao norte fica o Jingshan, um parque que cerca um morro artificial onde dizem que  se enforcou o último imperador da dinastia Ming, e, além dele, a Torre do Tambor e  a Torre do Sino, que por muitos séculos indicaram a hora aos moradores da cidade.  (PIAUI, Agosto 2008, p. 43)
  • 39. 39  Mas piauí trouxe em sua primeira edição o que pode ser considerado como o ápice  da  simbiose  descrita  por  Pena.  A  objetividade  do  fotojornalismo  acrescida  do  momento  subjetivamente  escolhido  pelo  fotografo  Orlando  Britto  deu  origem  ao  portfólio  intitulado  Vultos da Republica  (Figuras 4 e 5). O texto de Orlando Britto descreve com clareza.  As fotos de Orlando Britto captam vultos sombrios do poder. Captam a tensão entre  o  que  é  dito  nos  palanques  e  para  as  câmeras  da  televisão  e  aquilo  que,  nos  bastidores, é urdido de fato. As fotos estão além da retórica política, da imagem que  os  políticos  fazem  de  si  mesmos.  Elas  mostram  o  desespero  da  política.  (PIAUI,  Outubro 2006, p. 43)  A  objetividade  jornalística,  no  entanto,  é  traduzida  em  grande  parte  pelo  lead,  descrito por Pena (2006, p.42) como “relato sintético do acontecimento”. As revistas pela sua  relação distinta com o factual tendem a difundir as informações contidas no lead e distribuí­  las  aleatoriamente  pelo  texto.  Isso ocorre  em  função,  principalmente,  da  periodicidade  com  que são publicadas.  (...) não vemos numa revista fórmulas de redação muito rígidas, como no texto de  um  jornal  diário.  Nas  magazines  de  informação­geral,  o  texto  é  organizado  em  tópicos  frasais  e  documentações.  Trata­se  de  abordar  o  assunto,  não  o  fato.  (...)  Geralmente,  é  uma  estrutura  baseada  em  antíteses:  o  fato  e  sua  causa  surpreendente, a aberrante aproximação de dois casos; do fato e sua circunstancia,  do fato e sua conseqüência. (VILAS BOAS, 1996, p. 72)  Essa flexibilidade de abordagem dos assuntos é o que, mais uma vez, distância piauí  até  mesmo das  características  do  seu  tipo de publicação.  As  duas  edições  escolhidas  com  a  finalidade  de  analisar  o  enfoque  da  revista  aos  grandes  temas  em  voga  elucidam  bem  esse  distanciamento.  A  revista  de  dezembro  de  2007  retrata  o  natal  apenas  na  editoria,  nem  sempre  presente,  The  piauí  Herald´s.  Com  estrutura  de  paródia,  figura  linguagem  foco  do  quarto  tópico  dessa  análise,  o  número  referência  o  natal  caricatamente  através  de  um  guia  de  compras com produtos inexistentes e que ridicularizam autoridades e celebridades. (Figura 6)  A  olimpíada  de  Pequim,  que  esteve  tão  presente  em  todo  noticiário  durante  sua  realização,  também  teve  foco  completamente  avesso  aos  padrões  jornalísticos.  A  já  mencionada matéria que retratou as construções do complexo olímpico foi acompanhada da  intitulada Atletas, Dopai­vos. Sem nenhum aspecto pragmático da competição, sua abordagem  descreveu,  estritamente,  o  histórico  da  prática  do  doping  de  atletas  consagrados  e  a  conseqüente perda das medalhas.
  • 40. 40  3.3 J or nalismo literár io  A  complexidade  pós­moderna  e  sua  dinâmica  aberta  de  jogos  de  linguagem  já  foi  mencionada nesse trabalho como contexto fundamental para compreender em qual conjuntura  as relações lingüísticas, bem como as produções editoriais, se encontram.  A complexidade retratada por Featherstone (1996, p.17) da “superprodução de bens  culturais” paralelo à fusão de gêneros se espelha, também, nas tentativas de caracterização do  jornalismo literário.  Pena (S/D) propõe uma ampla discussão desse conceito, tanto histórica, retrocedendo  aos  tempos  nos  quais  o  jornalismo  literário  se  servia  apenas da veiculação  de romances  em  periódicos, quanto técnica, a partir da qual define:  (...) o jornalismo literário como linguagem musical de  transformação expressiva  e  informacional.  (...)  Não  se  trata  da  dicotomia  ficção  ou  verdade,  mas sim  de  uma  verossimilhança possível. Não se trata da oposição entre informar ou entreter, mas  sim de uma atitude narrativa em que ambos estão misturados. Não se trata nem de  jornalismo, nem de literatura, mas sim de melodia. (PENA, S/D , p. 14)  Essa  melodia  pode  ser  entendida  pelo  agregado  de  atributos  literários  a  serviço  da  redação  jornalística  produzindo  textos  híbridos  que  não  se  rendem  à  objetividade  preeminente, mas que também não se enveredam pelo caminho da subjetividade determinista  responsável pelo isolacionismo interpretativo das metanarrativas.  O  conceito  utilizado  para  relacionar  jornalismo  e  literatura  é  a  “estrela  de  sete  3  pontas”  (PENA, S/D). Em função da abrangência e extensão a que se prestariam essas sete  pontas, no emprego da análise de piauí, para fins de síntese, serão abordados quatro desses.  Primeiramente,  a  potencialização  dos  recursos  do  jornalismo  representa  a  apropriação  dos  “princípios  da  redação  (...),  a  apuração  rigorosa,  a  observação  atenta,  a  abordagem ética e a capacidade de se expressar claramente” de forma a contribuir para uma  composição harmônica.  A iniciar pela escolha pertinente do personagem, a matéria, estilo perfil, publicada na  edição de outubro de 2008, intitulada “Onze bilhões de reais e um barril de lágrimas” refere­  3  As sete pontas são em resumo: potencializar os recursos do jornalismo, ultrapassar os limites do  acontecimento cotidiano, a visão ampla da realidade, exercitar a cidadania, romper com a estrutura do lead,  evitar os definidores primários (fontes oficiais) e a perenidade.
  • 41. 41  se não só a essa potencialização, como também a outra ponta da estrela a ser abordada, a visão  ampla da realidade.  Com  traços  firmemente  apoiados  na  descrição  da  trajetória  de  vida  do  especialista  em  mercados,  Luis  Stuhlberger,  a  matéria  mistura  informações  biográficas  com  uma  importante  questão  em  pauta,  os  fundos  monetários,  bolsas  de  valores,  cotações  e  a  crise  financeira mundial.  Além de retratar o cotidiano de alguém que lida com o mercado financeiro, o texto se  encarrega, também, de coletar prenúncios sobre o contexto de crise mundial de alguém com  ampla bagagem profissional.  Stuhlberger não se destaca numa sala, e muito menos numa multidão. Magro, nem  alto nem baixo, está com 54 anos. Os  cabelos pretos são cortados rente à cabeça,  revelando  duas  entradas.  Seus  olhos  são  grandes  e  passam  a  impressão  de  constante surpresa. O raciocínio é rápido e nervoso como a sua fala e os gestos. Na  comprida mesa de jantar, ele tem pilhas de relatórios, anotações manuscritas, uma  calculadora  financeira  HP  e  um  enorme  mapa  de  São  Paulo.  Em  um  nicho  espelhado na parede atrás dele, há mais relatórios, com trechos marcados à caneta,  uma  infinidade  de  gráficos  e  livros  de  assuntos  disparatados:  Brasil:  Raízes  do  Atraso,  do  economista  Fabio  Giambiagi,  Um  Barril  de  Risadas,  um  Vale  de  Lágrimas, do cartunista e humorista americano Jules Feiffer,  e  The Year  of Living  Biblically, de A. J. Jacobs. (...)  No final de agosto, Stuhlberger teorizou: “ Está claro que o governo americano não  vai  deixar  o  sistema  financeiro  quebrar.  Quem  vai  começar  a  sofrer  agora  é  a  Europa, porque está com problemas no sistema financeiro. Por isso fiz operações de  dólar  contra  euro.”  Ele  pegou  um  papel  e  começou  a  desenhar  o  cenário  que  projetou.  Traçou  um  boneco  sobre  uma linha  reta  representando  o  euro.  Fez  uma  linha  levemente  inclinada  para  explicar  como  o  mercado  está  vendo  a  queda  da  moeda  européia.  Depois,  traçou  um  risco  vertical,  para  baixo,  explicando  sua  visão:  o  euro  despencando.  “ Essa  é  uma  enorme  oportunidade  que  ninguém  está  vendo.”   Há meses ele vem comprando papéis e moeda americanos a preços baixos para seu  fundo  internacional,  o  Global.  É  assim  que  ele  ganha.  “Tudo  o  que  eu  faço  é  comprar  barato.”   No  Verde,  ele  tem  posições  compradas  em  câmbio  na  BM&F.  Está convencido de que o dólar, no Brasil, não volta para os patamares inferiores a  1,70  real.  Já  as  ações,  ele  acredita  que  devem  apresentar  uma  estabilização  nos  preços. “Não terão mais as grandes altas de 2007.”   O que o faz  acertar quando boa parte do mercado erra? Ele  credita  seus acertos,  primeiro,  a  análises  exaustivas  das  conjunturas  econômicas  brasileira  e  mundial.  “ Eu  sou  muito  disciplinado  nos  meus  estudos,  leio  uma  quantidade  absurda  de  relatórios e depois tiro minhas conclusões”, disse. E filosofou: “O mercado tenta o  tempo todo prever o futuro. Só que a maioria dos gestores faz isso olhando para o  mundo  de  forma  setorizada,  através  das  informações  que  chegam  pela  tela  do  computador. Eu  tento olhar  esse  mundo  um  pouco  mais  de  cima.  Não  tão  do  alto  que não enxergue a  cidade e nem da rua.  Faço uma análise macro  e uma análise  micro de cada setor, e vou para a economia real ouvir as pessoas.”   Seu  segundo  ponto  forte,  avalia,  é  trabalhar  com  várias  teses  de  investimento:  “ Sempre faço um investimento protegendo o outro. Se perco numa ponta, ganho na  outra.” (PIAUI, Outubro 2008, p. 26­32)  A reunião de abrangência contextual também está ligada a outra ponta da estrela que  aponta  para a  necessidade  de  superar  os  fatores da periodicidade e  atualidade.  Conforme  já
  • 42. 42  discutido, a novidade traz um ritmo frenético ao jornalismo. Não só o jornalista responde por  isso, se submetendo aos prazos de entrega, como o próprio leitor tenciona pela exigência de  estruturas de lead cada vez mais concisas, objetivas e eficiente na abordagem de todo espectro  informacional.  O jornalismo literário deve, portanto, convidar o leitor para perspectivas mais amplas  de atualidade e romper com a estrutura do lead permitindo uma melhor distribuição de todos  os dados a serem transmitidos ao longo da composição harmônica do texto.  Em sua segunda edição, piauí evidenciou um tema atual em função da relevância e  não temporalidade, recorrendo, já inicialmente, a outra forma de iniciar o texto, prescindindo  o tradicional lead.  Quem  faz  a  cabeça  do  brasileiro  é  o  Toxoplasma  gondii.  Não  adianta  dizer  que  nunca  o  viu  mais  gordo.  O  Toxoplasma  gondii  é  assim  mesmo,  “ incrivelmente  comum e incrivelmente obscuro” , segundo o jornalista Carl Zimmer, que outro dia  o  apresentou  aos leitores  do  New  York  Times numa  página  cheia  de  superlativos.  Zimmer  tratou­o  como  uma  “criatura  extraordinária”   e  “ espantosamente  bem­  sucedida”.  E  lançou  no  caminho  da  fama  esse  personagem  onipresente  mas  discreto,  ainda  que  prive  da  intimidade  de  pelo  menos  um  terço  da  humanidade.  Sem  conhecê­lo,  no  mínimo  2,2  bilhões  de  pessoas  convivem  diariamente  com  o  Toxoplasma gondii. (...)  Os parasitas são vítimas de uma longa história de incompreensão. A começar pelo  nome. “Parasita” vem da palavra grega para designar o criado que servia comida  em  banquete.  Eles fazem  o  contrário:  servem­se  num  banquete  de  vida  alheia.  Os  cientistas hesitaram muito em levar os parasitas a sério. Charles Darwin baniu­os  do  esquema  geral  da  seleção  natural,  supondo  que  essas  criaturas  “ rastejantes”   eram  desvios  regressivos  no  curso  natural  da  evolução.  Logo  eles,  que  parecem  estar  na  vanguarda  dos  processos  evolutivos,  mudando  tantas  vezes  de  forma  quantos  forem  os  desafios  ao  seu  talento  adaptativo  e  habilitando­se  a  viver  nos  ambientes mais impróprios. Nós, por exemplo.  Bilhões  de  seres  humanos  são  ninhos  inconscientes  de  Toxoplasma  gondii.  Esse  parasita oblíquo e dissimulado pode varar a membrana das células de autodefesa e  penetrar  seu  núcleo  como  clandestino,  iludindo  as  barreiras  imunológicas  do  cérebro,  tido  como  o  último  bastião  do  organismo  contra  micróbios  patogênicos.  Ele fura as muralhas orgânicas como “ cavalos de Tróia” , diz Zimmer. Uma vez no  cérebro, dali ninguém o tira, entre outros motivos porque o Toxoplasma gondii se  esmera em perturbar o mínimo possível a vida de seu anfitrião. “ Ele simplesmente  vai ficando por lá, e o hospedeiro não o reconhece como um invasor que deveria ser  destruído” ,  afirma  David  Sibley,  professor  de  microbiologia  molecular.  (PIAUI,  Novembro 2006, p. 34)  Fica  claro,  portanto,  que  piauí  dentro  da  perspectiva  trazida  por  Pena  reúne  as  características do jornalismo literário. A revista traz uma gama de informações em estruturas  de texto com inteligibilidade própria da perenidade da redação literária, contextualiza temas  relevantes pouco abordados se apropriando das faculdades jornalísticas. Prescinde ao uso do  lead  tradicionalmente  presente  nos  periódicos  diários.  Evidencia  que  a  periodicidade  e  atualidade efetivamente se relacionam em torno da ciência dos temas em tempos diferentes a
  • 43. 43  depender  do  contato  com  as  informações  bem  como  do  interesse,  momentâneo  ou  não,  do  leitor por aqueles temas específicos.  3.4 Figuras de Linguagem  Fator preponderante da pós­modernidade, a enfática  valorização do happening  e da  performance redundam em um novo interesse na produção de mensagens, ou mesmo da arte,  em prover ao objeto veiculado um estrutura que permita a adequada apreciação e valorização  por parte do receptor.  A  enorme  quantidade  cambiante  de  significantes,  fruto  da  superprodução  cultural,  dedica  aos  meios  uma  atenção  à  estética  como  poderoso  instrumento  para  potencializar  significados.  Piauí  não  ingressa  no  mercado  de  forma  tímida,  ao  contrário,  despoja  em  artigos  gráficos,  imagéticos,  recorre  a  estilos  consagrados,  mistura  texto,  fotos  e  ilustrações.  O  resultado  disso  é  ampla  presença  das  figuras  de  linguagem  típicas  da  pós­modernidade:  pastiche, paródia, colagem/montagem, simulacro. Esse encadeamento de signos transita entre  o referente (objeto) e a referencia (sujeito) traduzindo em formas aleatórias de significação.  A  primeira  edição  de  piauí  trouxe  dispersa  em  suas  páginas  uma  história  em  quadrinhos (Figura 7) que traduz muitos aspectos da utilização de imagens na revista, sejam  elas  fotos  ou  ilustrações.  A  presença  de  ilustrações  sem  nenhuma  conexão  com  os  textos  remonta a idéia da revista como objeto de apreciação por várias formas e condutas. A leitura  apurada de todos os textos seria uma forma de consumo e apreciação. Paralela a ela, o simples  trânsito  entre  as  páginas  permitiria  outra  maneira  de  entendimento.  Como  significante,  isso  traz o contato com todo o conteúdo compartilhado através de inúmeras possibilidades.  Seguindo  as  determinações  pós­modernas  relativas  à  fusão  de  gêneros,  o  uso  de  imagens e ilustrações na revista reúnem quadrinhos, charges, simulacros, em perspectivas de  uso da linguagem envolvendo a paródia, o pastiche, além da colagem e montagem. (Figura 8)  3.4.1 Simulacro
  • 44. 44  A  editoria  The  piauí  Herald  é  um  simulacro  que  mistura  recursos  de  paródia,  pastiche,  colagem/montagem  resultando  em  uma  nova  versão  da  revista  Caras.  (Figura  9)  Reproduzido com enorme fidelidade pela sua diagramação, além de apropriação da estrutura  de  texto,  o  simulacro  satiriza  personalidades  conhecidas,  sejam  elas  presentes  como  de  costume na versão original, Galisteu e Luana Piovani, sejam figuras de grande apelo político,  cientifico ou filosófico como Che Guevara, Einstein e Freud.  Os  recursos  de  colagemmontagem  se  desdobram  em  fotomontagens  que  substanciam o conteúdo junto aos textos divididos em elementos de pastiche e paródia.  A mistura de ilustrações junto aos textos é também mais uma peculiaridade de piauí.  A editoria esquina  é sempre composta por desenhos como espécie de charges representativas  dos textos. (Figura 10)  Como  último  objeto  de  análise,  os  quadrinhos  se  encarregam  de  compor  a  pluralidade expressa na revista. Ao tratar de fusão de gêneros, piauí é um compêndio não só  de  figuras  de  linguagem,  como  publicações  jornalísticas  de  cunho  informacional,  de  entretenimento e puramente artístico.
  • 45. 45  Figura 01: Estrutura aleatór ia das editor ias.  Fonte: Revista piauí edições: outubro e novembro de 2006, dezembro 2007, agosto e  outubro de 2008
  • 46. 46  Figura 2: Fotos com intervenções artísticas.  Fonte: Revista piauí edições de outubro e novembro de 2006
  • 47. 47  Figura 3: Capas das edições selecionadas  Fonte: Revista piauí edições de outubro e novembro de 2006, dezembro 2007, agosto e  outubro de 2008
  • 48. 48  Figura 4: Fotojornalismo subjetivamente exposto  Fonte: Revista piauí edição outubro de 2006
  • 49. 49  Figura 5: Fotojornalismo subjetivamente exposto  Fonte: Revista piauí edição outubro de 2006
  • 50. 50  Figura 6: Única menção da edição de natal à festa tradicional  Fonte: Revista piauí edição dezembro de 2007
  • 51. 51  Figura 7: Seqüência de quadr inhos distribuídos pelas páginas da revista  Fonte: Revista piauí edição outubro de 2006
  • 52. 52  Figura 8: Histór ia em quadr inhos, paródia da consagrada histór ia de Hamlet  Fonte: Revista piauí edição outubro de 2008
  • 53. 53  Figura 9: Simulacro r epresentado por colagem/montagem,  paródia e elementos de pastiche  Fonte: Revista piauí edição outubro de 2008
  • 54. 54  Figura 9.1: Simulacro r epresentado por  colagem/montagem,  paródia e elementos de pastiche  Fonte: Revista piauí edição outubro de 2008
  • 55. 55  Figura 9.2: Simulacro r epresentado por  colagem/montagem,  paródia e elementos de pastiche  Fonte: Revista piauí edição outubro de 2008
  • 56. 56  Figura 10: Charges da editor ia  esquina   Fonte: Revista piauí edições (de cima para baixo) de outubro e novembro de 2006, dezembro  2007, agosto e outubro de 2008
  • 57. 57  Considerações Finais  A premissa que norteou o escopo desse trabalho foi se desvelando à medida em que  dentro  das  reflexões  teóricas  surgiram,  espontaneamente,  os  enquadramentos  relativos  ao  objeto de análise empírica.  Dessa forma, a cultura foi retratada a partir de códigos que propiciam e conferem aos  atores  sociais  conhecimentos  para  decodificação  das  mensagens.  A  partir  da  relação  estruturada entre repertório cultural e os meios de comunicação foi possível compreender que  as mensagens vinculadas nos diversos contextos se distribuem em duas vertentes, a de cunho  técnico e a de viés social.  Nesse ciclo, a abordagem social remete ao entendimento de que assim como cultura  alimenta  o  conteúdo  da  produção  simbólica,  essa  por  sua  vez,  ao  espelhar  o  repertório  de  códigos  vigentes,  produz  novos  significados  em  um  processo  dialógico.  A  partir  da  ênfase  determinada ao conjunto de significantes, a pós­modernidade catalisa esse processo abarcando  todos  os  signos,  transformando­os  constantemente  sob  novas  formas  de  veiculação,  manipulação ou intervenção.  Os  aspectos  técnicos  agregaram  a  essa  conjuntura  o  potencial  instrumental  para  difundir essas iniciativas ao redor do globo, interligando distancias e reunindo a humanidade  na grande aldeia global.  No  entanto,  o  fato  do  domínio  tecnológico  dos  meios  de  comunicação,  principalmente da televisão pela sua característica de imensurável de amplitude e assimilação,  perdurou durante muito tempo como razão para a existência da denominada comunicação de  massa.  Aos poucos esse conceito foi adotando novas nuances e com o surgimento das novas  mídias percebeu­se uma ampla e crescente participação e autonomia do receptor no processo  de  significação  das  mensagens  veiculadas.  Ao  possibilitar  a  descentralização  produtiva,  os  novos  aparatos  técnicos  da  comunicação  romperam  com  parte  das  hierarquias  que  condicionavam a audiência como meros receptáculos.  Uma nova tensão foi se desenhando e o fator institucional dos meios de comunicação  voltou­se para o processo de difusão com a intenção de adotar dinâmicas centralizadoras que
  • 58. 58  possam  estruturar  as  identidades  das  produções  editoriais  e  impor  pelas  vias  do  poder  simbólico repertórios culturais específicos.  No  entanto,  paralelo  a  esse  amplo  desenvolvimento  tecnológico  e  a  conseqüente  redução  das  distancias  pela  virtualidade  de  transmissão  das  mensagens  pelos  meios  de  comunicação, as identidades dos sujeitos sociais assumiram novas formas de estruturação. A  chamada “crise de identidade” resultou na desreferencialização do homem pós­moderno.  Com isso, as paisagens culturais se fragmentaram e os valores consistentes evocados  pela vida comunitária se diluíram a partir da instituição dessa aldeia global. Os atores sociais  foram se posicionando de formas diferentes tendo em vista a relativização de suas intenções e  papéis nessa sociedade.  A  partir  do  que  Castells  (1999)  trata  como  identidade  legitimadora,  identidade  de  projeto, identidade de resistência constata­se diferentes formas de relação desses atores com  os meios de comunicação.  Esse  novo  sujeito  fragmentado  parte,  então,  para  um  processo  de  releituras  e  interseções de todos os  valores que  compõem  seu  repertório  cultural.  Na comunicação esse  fenômeno é acompanhado pela segmentação do consumo, mote para o surgimento de novas  produções profundamente diferentes do modelo canônico institucionalmente existente.  Piauí  surge  como  grande  exemplo  desse  fenômeno.  Uma  revista  que  transita  pelo  descontrucionismo  pós­moderno  e  rompe  com  as  barreiras  dos  gêneros  através  da  fusão  de  aspectos isolados e deterministas.  A  pluralidade  expressa  no  âmbito  social  passa  também  a  refletir  nos  produtos  editoriais.  O  aspecto  técnico  é  incorporado  a  esse  movimento  e  as  possibilidades  de  intervenções artísticas e lingüísticas tornam o processo de significação cada vez mais aberto  para construções coletivas.  Ao abandonar o cânone jornalístico, piauí se destaca como produto pós­moderno que  reúne  aspectos  de  várias  estruturas  lingüísticas  de  expressão.  O  pastiche,  a  paródia,  a  colagem/montagem, o simulacro se encarregam de conjugar textos, imagens e outras formas  de representação, relacionando os temas abordados sob um novo perspectivismo.  Além de todos esses aspectos, o modelo de produção em rede da revista descentraliza  e  fragmenta  sua  identidade.  Finalmente,  a  intensa  preocupação  com  a  composição  estética  traduz a ênfase ao significante extremamente anárquico na significação. O fluxo da leitura de  piauí  é  ao  mesmo  tempo  difuso  pela  quantidade  de  signos  cambiantes  e  cativante  pela  qualidade dos textos, imagens e demais manifestações inusitadas.
  • 59. 59  Refer ências Bibliográficas  BAUDRILLARD,  Jean.  “ Modernité” .  In:  Biennale  de  Paris.  La  modernité  ou  léspirit  Du  temps.  Paris,  Editions  LÉquerre,  1982,  PP.  28­31,  tradução  livre  de  Léa  Freitas  Perez  e  Francisco Coelho dos Santos. Texto policopiado.  BAUMAN, Zygmunt. Modernidade Líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2001.  CASTELLS, Manuel. A Sociedade em Rede . 4° edição, São Paulo: Paz e Terra, 1999.  _________________ O Poder da Identidade, 2° edição, São Paulo: Paz e Terra, 1999.  FEATHERSTONE,  Mike.  Globalização  da  Complexidade:  Pós­modernismo  e  cultura  de  consumo, RBCS, n° 32, ano 11, outubro/1996  HALL, Stuart. A identidade cultural na pós modernidade. 2° edição. Rio de Janeiro: DP&A,  1998  HARVEY,  David.  Condição  pós­moderna:  uma  pesquisa  sobre  as  origens  da  mudança  cultural. São Paulo: 2001.  HOUAISS,  Antônio;  VILLAR, Mauro de Salles.  Dicionário  Houaiss da  língua portuguesa.  Rio de Janeiro: Objetiva, 2001. 2922 p.  JAMESON, Frederic. Pós­modernidade e sociedade de consumo. Novos Estudos/ CEBRAP,  n. 12, p. 16­26, São Paulo, Junho 1985.  MARTINS  FILHO,  Eduardo  Lopes.  Manual de Redação  e  Estilo de  O Estado de S.  Paulo.  São Paulo: O Estado de S. Paulo, 1997.  PENA, Felipe. Teoria do jornalismo. 2° edição. São Paulo: Contexto, 2006.  ____________ O jornalismo Literário como gênero e conceito. [Internet]
  • 60. 60  Disponível via WWW  http://www.felipepena.com/download/jorlit.pdf [20/11/2008]  REVISTA PIAUÍ. São Paulo, editora Alvinegra, número 01, ano 01, outubro/2006  REVISTA PIAUÍ. São Paulo, editora Alvinegra, número 02, ano 01, novembro/2006  REVISTA PIAUÍ. São Paulo, editora Alvinegra, número 15, ano 02, dezembro/2007  REVISTA PIAUÍ. São Paulo, editora Alvinegra, número 23, ano 02, setembro/2008  REVISTA PIAUÍ. São Paulo, editora Alvinegra, número 25, ano 03, outubro/2006  SALLES, João Moreira. Entrevista concedida a Marcelo Tavela em 16/05/2007. [Internet]  Disponível em:  http://www.comunique­se.com.br/conteúdo/newsprint.asp?editoria=8&idnot=36409  _________________ Entrevista disponível em:  http://www.youtube.com/watch?v=hjz85xs9bQc  [20/11/2008]  _________________ Entrevista disponível em:  http://www.webtv.ufrj.br/?option=com_content&task=view&id=67&Itemid=98 [20/11/2008]  SANTOS, Ferreira Jair dos. O que é pós­moderno. 21° edição. São Paulo: Brasiliense, 2001.  SCALZO, Marília. Jornalismo de Revista. 3° edição. São Paulo: Contexto, 2006.  THOMPSON, Jonh.  Comunicação  e  Contexto  Social.  In: A  mídia  e a  Modernidade. 7° Ed.  Petrópolis: Vozes, 1998.  VILAS BOAS, S. O Estilo Magazine: O Texto em Revista. São Paulo: Summus, 1996.

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