“O título escolhido para a revista também justifica uma explicação breve. A pessoa humana constitui o único ser existente
busca permanentemente conhecê-lo, o que é inerente à sua sobrevivência e à afirmação da sua
no universo que
especificidade humana. Como Ser curioso, está condenado a aprender e a interrogar-se. É um trabalho permanente
e inacabado que implica colocar em causa os resultados e recomeçar, sempre. A produção de conhecimento
assume formas diversas, nas quais se inclui o saber científico. Este distingue-se pelo seu carácter
sistemático, pela utilização consciente e explicitada de um método, objecto permanente de uma meta análise,
individual e colectiva. O trabalho científico consiste numa busca permanente da verdade, através de um
conhecimento sempre provisório e conjectural, empiricamente refutável. O reconhecimento da
necessidade deste permanente recomeço é ilustrado historicamente quer pela redescoberta de teorias negligenciadas no
seu tempo e recuperadas mais tarde (caso da teoria heliocêntrica de Aristarco), quer pela redescoberta de visionários que
anteciparam os nossos problemas de hoje (Ivan Illich é um desses exemplos). É a partir destas características do trabalho
a aventura humana do conhecimento à condenação pelos
científico que é possível comparar
Sísifo
deuses a que foi sujeito de incessantemente recomeçar a mesma tarefa.”
revista de ciências da educação
Unidade de I&D de Ciências da Educação da Universidade de Lisboa
Direcção de Rui Canário e Jorge Ramos do Ó
03 · Mai | Jun | Jul | Ago · 2007
n.º
> TIC e Inovação Curricular
coordenação de Helena Peralta
e Fernando Albuquerque Costa
issn 1646-4990
http://sisifo.fpce.ul.pt
SíSifo
Índice
Editorial. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 1-2 REvISTA DE CIênCIAS
nota de apresentação. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 3-6 DA EDUCAçãO
DOSSIER n.º 03
TIC e Inovação Curricular
Tecnologias Educativas. Análise das dissertações de mestrado
realizadas em Portugal
Fernando Albuquerque Costa . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 7-24 Edição
Rentabilizar a Internet no Ensino Básico e Secundário Responsáveis Editoriais deste número:
Dos Recursos e Ferramentas Online aos LMS Helena Peralta e Fernando
Albuquerque Costa
Ana Amélia Amorim Carvalho. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 25-40
Director: Rui Canário
Limites e possibilidades das TIC na educação
Director Adjunto: Jorge Ramos do Ó
Guilhermina Lobato Miranda. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 41-50
Conselho Editorial: Rui Canário,
As TIC na Escola e no Jardim de Infância Luís Miguel Carvalho, Fernando
Motivos e factores para a sua integração Albuquerque Costa, Helena Peralta,
Lúcia Amante. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 51-64 Jorge Ramos do Ó
O projecto “Educação Tecnológica Precoce”
Colabor adores deste número:
Uma oportunidade para implementar práticas de inovação curricular
Ana Margarida veiga Simão, Belmiro Cabrito, Autoria dos artigos: Lúcia Amante,
Ana Amélia Amorim Carvalho,
Elisabete Rodrigues. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 65-76
Belmiro Cabrito, Telmo Caria,
Competência e confiança dos professores no uso das TIC Cristina Costa, Fernando
Síntese de um estudo internacional Albuquerque Costa, Guilhermina
Lobato Miranda, Carla Morais,
Helena Peralta, Fernando Albuquerque Costa . . . . . . . . . 77-86 João Paiva, Helena Peralta, Mónica
O Currículo numa comunidade de prática Raleiras, Elisabete Rodrigues,
José Luis Rodríguez Illera e Ana
Cristina Costa. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 87-100
Margarida veiga Simão.
Simulação digital e actividades experimentais em Físico-Químicas Traduções: Robert G. Carter,
Estudo piloto sobre o impacto do recurso “Ponto de fusão e ponto Thomas Kundert, Filomena Matos
de ebulição” no 7.º ano de escolaridade e Tânia Lopes da Silva
Carla Morais, João Paiva . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 101-112 Secretariado de Direcção: Gabriela
Lourenço e Mónica Raleiras
RECEnSõES
Logotipo Sísifo
Recensão da obra “A vida no Écrã. A identidade na era da Internet”,
Desenho de Pedro Proença
de Sherry Turkle [1997] Lisboa: Relógio d’Água
Mónica Raleiras . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 113-116
Informação Institucional
COnFERênCIAS Propriedade: Unidade de I&D
de Ciências da Educação
Como as comunidades virtuais de prática e de aprendizagem podem da Faculdade de Psicologia
transformar a nossa concepção de educação e de Ciências da Educação,
da Universidade de Lisboa
Texto da conferência proferida na Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação
issn: 1646-4990
da Universidade de Lisboa, a 31 de Maio de 2007
Apoios: Fundação para a Ciência
José L. Rodríguez . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 117-124
e a Tecnologia
OUTROS ARTIGOS
Contactos
A Cultura Profissional do professor de ensino básico em Portugal
Morada: Alameda da Universidade,
Uma linha de investigação em desenvolvimento 1649-013 Lisboa.
Telmo H. Caria . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 125-138
Telefone: 217943651
Fax: 217933408
Sísifo, revista de ciências de educação:
Instruções para os Autores . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 139-140 e-mail: sisifo@fpce.ul.pt
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Editorial
Paul Cézanne, um dos fundadores da pintura mo- necessidade e característica intrínsecas ao ser hu-
derna cujas rupturas abriram caminho às vanguar- mano de realizar a “expressão de si”, se inscrevem
das artísticas do início do século XX, artista ob- numa dimensão antropológica que não se acomoda
sessivo na busca da perfeição e permanentemente ao efémero, ao imediato, ao utilitário, ao conjun-
descontente e angustiado com a qualidade da sua tural. A criação supõe um tempo longo que inclui
produção pictórica (tal como o terá retratado Émile uma memória, uma visão de futuro e a capacidade
Zola no célebre romance “L’oeuvre”) afirmou, re- de explicitar uma narrativa coerente sobre uma tra-
ferindo-se à sua obra, que pretendia produzir uma jectória.
pintura “para os museus”. num autor sistematica- nos tempos que vivemos afirma-se uma cultura
mente relegado para os “salões de recusados” pelos do efémero, do conjuntural, do precário, do utilitá-
académicos de serviço e hostilizado pela crítica e rio, do curto prazo. nesta perspectiva não há pas-
por grande parte do público, esta explícita procu- sado, nem futuro, mas sim a linha de horizonte que
ra da construção de um novo classicismo só pode um personagem de um romance de Cormac McCar-
exprimir a recusa de encarar a criação, neste caso thy (2007, p. 112) define nestes termos: “As pessoas
estética, como algo de conjuntural e efémero. num estavam sempre a preparar-se para o futuro. Eu não
plano completamente diverso, o militante e teórico acreditava nisso. O futuro não se estava a preparar
comunista António Gramsci, durante os cerca de para elas. O futuro nem sabia que elas existiam”.
dez anos que permaneceu nos cárceres de Musso- Esta cultura do “novo capitalismo” produz seres
lini (de onde saiu para morrer), produziu uma obra humanos adaptados a uma total incerteza e tende a
intelectual notável, nomeadamente sob a forma de retirar-lhes a possibilidade de viver em comunida-
notas dispersas, reunidas nos “Cadernos do Cárce- de e de pensar e agir artesanalmente, ou seja, como
re”, preparatórias de um projecto que nunca viria escreve Sennett (2007), “fazer uma coisa bem feita,
ser concretizado. no entanto, apesar de desconhe- mesmo que não se obtenha nada com ela”. Acres-
cida e não publicada durante várias décadas, a pro- centa Sennett que: “só este tipo de compromisso
dução intelectual de Gramsci cumpriu o principal desinteressado pode enaltecer emocionalmente as
desígnio da sua actividade de criação no cárcere, pessoas, caso contrário, sucumbem na luta pela so-
comunicado por carta pouco depois da sua deten- brevivência” (p. 133).
ção: a de produzir algo “para sempre”. Gramsci A publicação deste terceiro número da revista
utiliza a expressão alemã “für ewig”, retomando de Sísifo coincide temporalmente com um processo de
Goethe a noção de trabalho erudito desinteressado. avaliação global das Unidades e Centros de Investi-
Com estes dois exemplos pretendo salientar como gação, nomeadamente no domínio das ciências so-
os actos de criação (estética ou científica), enquanto ciais e das ciências da educação. As organizações e
1
os investigadores (na sua vertente de equipas ou na o mínimo de riscos. A “bibliometria” que domina
sua vertente individual) vêem a sua actividade sujei- a avaliação contribui para promover formas diver-
ta a um escrutínio e a uma análise externas que tem, sas de redundância, para desencorajar a produção
como ponto de partida, um balanço retrospectivo desinteressada e “para sempre”, desvalorizando os
de natureza auto avaliativa. nada deverá ser con- “clássicos”, o que, felizmente, não consegue impe-
siderado mais normal, nem mais desejável, do que dir que Platão continue a ser bastante citado, apesar
encarar esse processo de explicitação e análise crí- de nada ter publicado nos últimos cinco anos. nes-
tica das actividades de investigação como algo que, te contexto, acentua-se a tendência para a produção
conduzido com rigor, clareza, na base de regras científica se centrar na especialização e na fragmen-
criteriosas previamente estabelecidas e conhecidas tação do saber o que, paradoxalmente, contribui
e num lapso de tempo razoável, é absolutamente para a sua inutilidade e para transformar o trabalho
necessário ao desenvolvimento de uma actividade de investigação num trabalho alienado. Este rumo
investigação fecunda, pertinente e que optimize os conduz a uma situação que, é Karl Popper (1999)
parcos recursos disponíveis. A prática de uma ava- que o afirma, é trágica, ou mesmo desesperada, e
liação externa, regular e exigente, constitui uma ne- induz por toda a parte “o jovem cientista desejoso
cessidade imperiosa que só ganha plena legitimida- de seguir a última moda e o jargão mais recente”
de se coexistir com a criação de condições favoráveis (p. 98). Cada vez mais candidatos a doutoramento
e propiciadoras de uma actividade científica que, são sujeitos a um treino, mas não iniciados na tradi-
para ser, simultaneamente, fértil do ponto de vista ção de “ser tentado e guiado por enigmas grandes
da produção de novos saberes e socialmente perti- e aparentemente insolúveis”. Se prevalecerem estas
orientações que desprezam de facto a ciência, meno-
nente, apela a condições que não têm vindo a ser as-
seguradas pelas instituições a quem isso competiria. rizando o seu carácter criativo, a tradição crítica e a
A “nova cultura do capitalismo” entrou “rapi- produção de um conhecimento não imediatamente
damente e em força” nas políticas de quem tutela a útil, isso conduzirá, continuamos a citar Karl Po-
investigação, em nome, obviamente, da “moderni- pper, “a uma catástrofe espiritual de consequências
zação”, da “produtividade” e da “competitividade”. comparáveis às do armamento nuclear” (p. 99).
A crítica a estas modalidades de “modernização”
não significa a defesa do “status quo”, nem satisfa-
ção com o que tem sido realizado. Exprime, sim, a Referências bibliográficas
McCarthy, Cormac (2007). A estrada. Lisboa: Re-
preocupação e a consciência dos efeitos negativos
da imposição de processos de incentivo à produção lógio de Água.
Crehan, Kate (2004). Gramsci, cultura e antropo-
científica inspirados na divisa “publish or perish”.
logia. Lisboa: Campo da Comunicação.
O campo da produção científica tende a instituir-se
Gramsci, António (2004). Cadernos do cárcere.
como um território onde impera uma espécie de da-
rwinismo, de produção em série, taylorizada, com volume 1. Rio de Janeiro: Editora Civilização
base numa “mão-de-obra” proletarizada e sujeita a Brasileira.
Popper, Karl (1999). O mito do contexto. Em defesa da
formas de trabalho cada vez mais precárias. O fi-
ciência e da racionalidade. Lisboa: Edições 70.
nanciamento determina e condiciona os temas e as
Sennett, Richard (2007). A cultura do novo capita-
conclusões do que se estuda (dizia-se, em França,
lismo. Lisboa: Relógio de Água.
que a criação do Prémio Goncourt fez florescer um
estilo literário próprio para tentar ganhá-lo). Os in-
vestigadores, em vez de uma comunidade de pares,
tornam-se concorrentes e tendem a valorizar o ime- Rui Canário
diato, procurando o máximo de rentabilidade com (Lisboa, 31 de Julho de 2007)
2 sísifo 3 | editorial
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nota de apresentação
TIC e Inovação Curricular
Fernando Albuquerque Costa
Helena Peralta
O terceiro número da Sísifo é especialmente dedi- Embora a proliferação de computadores tenha já
cado a questões relacionadas com as tecnologias alterado um pouco a face da Escola, é reconhecido
e a aprendizagem numa perspectiva de inovação que as práticas educativas continuam a ser, na gene-
curricular. Surge numa altura de grandes transfor- ralidade dos casos, semelhantes ao que sempre se
mações, nomeadamente em termos do poder das fez e como se fazia antes de os computadores serem
tecnologias digitais de informação e comunicação e usados (Papert, 2000). Pelo menos na sua essência,
após uma fase de renovado entusiasmo sobre a sua naquilo que é fulcral para definir a própria concep-
integração e utilização na Escola. ção de Escola: a relação de poder que existe entre
Transformações porque, com o surgimento da professor e aluno, a relação de ambos com o conhe-
Internet, passa a ser possível concretizar ideias até cimento, o modo como esse conhecimento é enten-
aí apenas imaginadas por alguns visionários e que dido, o modo como se entende a aprendizagem e,
poderão vir a constituir, pelo menos potencialmen- não menos importante, o papel atribuído aos meios
te, um valor de grande alcance em termos pedagó- na transferência de informação e na construção do
gicos e didácticos. conhecimento.
Entusiasmo renovado não apenas porque, tal Mantém-se, pois, o mesmo paradigma de en-
como acontecera no passado com outras “novas” sino e os mesmos processos para estimular a
tecnologias, se continua a acreditar que estas po- aprendizagem, apesar de uma nova concepção
derão mudar a face da Escola tal como a conhece- emergente sobre o que é aprender, de uma retóri-
mos, mas também porque, como defendem os mais ca francamente favorável à adopção de estratégias
optimistas, nelas residirá o potencial necessário à alternativas e de recursos e infra-estruturas cada
resolução dos problemas em que essa mesma Esco- vez mais evoluídos.
la se encontra enredada e para os quais parece não É também o que se passa em Portugal, que é,
haver solução. aliás, no panorama europeu, um dos países com
ratios de alunos por computador mais elevadas
Como vários estudos vêm demonstrando
(Cuban, 1993, 2001; Franssila & Pehkonen, 2005; (à volta de 1 computador para 15 alunos) e com um
OCDE, 2005; Paiva, 2002; Pelgrum, 2001; Wallin, nível dos mais fracos em termos de preparação dos
2005) a realidade é outra, tornando-se evidente que professores para o uso das tecnologias (European
não basta introduzir mais computadores, por mais Commission, 2006), o que não é de estranhar dado
poderosos que sejam, para que as mudanças acon- não existir qualquer atenção especial na formação
teçam e se possa efectivamente tirar partido da sua de professores neste domínio, seja em termos de
formação inicial ou de formação contínua (Brito et
vertente mais forte que é a construção de conheci-
al., 2004; Matos, 2004; Ponte & Serrazina, 1998).
mento pelos próprios alunos.
3
Paradoxalmente, ou talvez não, são os jovens domínio das Tecnologias Educativas. Síntese que
quem mais partido parece tirar das tecnologias dis- nos permite construir um panorama geral do que é
poníveis, fazendo-o de forma autónoma, sem apoio investigado e com que metodologias, quais os prin-
dos professores, usando-as, aliás, para objectivos cipais objectos de estudo e quais os quadros teóri-
que vão muito além das aprendizagens escolares e cos tomados como referência e, bem assim, perce-
fazendo-o com um grau de eficácia surpreendente, ber de que modo essa investigação contribui para
como parecem sugerir vários estudos nacionais e a criação de oportunidades de desenvolvimento da
internacionais. É o caso, por exemplo, dos resul- própria Escola.
tados do questionário aplicado juntamente com o Incidindo sobre as potencialidades da Internet
PISA 2003 (OCDE, 2005) em que os jovens portu- para uso educativo, Ana Amélia Carvalho conduz-
gueses de quinze anos de idade ocupam posições nos, no segundo texto, por uma leitura sustentada
interessantes nos rankings relativos às atitudes, mas dos diferentes tipos de recursos e questões que a
também aos saberes e competências necessários, sua introdução no ensino coloca, até às ferramentas
on-line mais recentes, como é o caso dos sistemas
precisamente, para o uso das tecnologias digitais.
Saberes e competências quase sempre ignorados ou de gestão da aprendizagem e daquilo que tem vindo
a ser designado globalmente como software social.
desvalorizados pela instituição escolar e que con-
tribuem para reforçar ainda mais o fosso existen- De carácter mais especulativo e com uma certa
te entre o que a escola oferece, o que os alunos aí preocupação em termos de enquadramento histó-
gostariam de ver tratado e o poder efectivo que as rico, Guilhermina Lobato Miranda elabora sobre
tecnologias assumiram já na nossa sociedade. os limites e as potencialidades das tecnologias da
informação e comunicação na educação no terceiro
Os textos que compõem este dossier temático, abor- texto do dossier.
dando aspectos muito diferenciados, têm como de- Lúcia Amante centra-se, no texto seguinte, na
nominador comum a intenção de contribuir para utilização das tecnologias de informação e comuni-
a reflexão sobre a problemática da utilização das cação em idades precoces, nomeadamente no Jar-
tecnologias digitais nas escolas portuguesas. Uma dim de Infância, tentando identificar motivos que
reflexão apoiada em perspectivas individuais sobre justificam a sua integração e factores a ter em conta
o que implica a integração das tecnologias em con- quando se pretende introduzir os computadores
texto educativo, mas também na investigação que é nesses contextos.
feita em Portugal, nomeadamente ao nível de mes- no mesmo sentido de uma intervenção precoce,
trado, e em propostas concretas de utilização dos embora com uma abordagem mais directamente re-
computadores que vão desde o ensino pré-escolar lacionada com a preocupação da igualdade de opor-
à formação profissional. Propostas que incluem as tunidades entre géneros no que respeita ao acesso e
mais recentes tecnologias em rede e uma reflexão uso de tecnologias, o texto seguinte, de Ana Maria
sobre o que elas permitem do ponto de vista pe- veiga Simão, Elisabete Rodrigues e Belmiro Ca-
dagógico, passando pela análise das práticas dos brito, relata o trabalho desenvolvido num projecto
professores ou de projectos didácticos em áreas internacional que envolveu diferentes instituições e
disciplinares específicas, como é o caso da Físico- que teve como base a iniciação ao pensamento tec-
-Química. Dito de outra forma, é um dossier que nológico de crianças em idade escolar.
pôde contar com o contributo de colegas com áreas O sexto texto, de Helena Peralta e Fernando
de interesse e de investigação muito distintas e que, Albuquerque Costa, resultante também de um pro-
por isso mesmo, acabam por representar a diver- jecto internacional visando estudar a competência
sidade de abordagens que tem caracterizado este e o grau de confiança, por parte dos professores, no
campo nos anos mais recentes. uso das novas tecnologias para fins pedagógicos,
no primeiro texto do dossier, Fernando Albu- apresenta os resultados de um estudo qualitativo,
querque Costa apresenta uma síntese analítica do que viria a ser a base de trabalho de uma investi-
conjunto das dissertações de mestrado realizadas gação mais ampla com o objectivo de comparar as
em Portugal, nos últimos vinte e cinco anos, no realidades dos diferentes países envolvidos.
4 sísifo 3 | nota de apresentação
no texto seguinte, Cristina Costa descreve uma Cuban, L. (1993). Computers meet classroom: clas-
comunidade de prática on-line de professores de sroom wins. Teachers College Record, 95, 2, pp.
língua inglesa como língua estrangeira em que assu- 185-210.
Cuban, L. (2001). Oversold and Underused. Com-
me papel central o próprio processo de construção
puters in the classroom. London: Harvard Uni-
do currículo enquanto gerador de aprendizagens
significativas e enquanto estratégia de formação versity Press.
European Commission (2006). Benchmarking Ac-
contínua de professores.
cess and Use of ICT in European Schools 2006.
O último texto do dossier, da responsabilidade
Final Report from Head Teacher and Classroom
de João Paiva e Carla Morais, descreve sumaria-
Teacher. Surveys in 27 European Countries.
mente um estudo em que os alunos são chamados
a realizar trabalho experimental, na disciplina de Franssila, H. & Pehkonen, M. (2005). Why do
Físico-Química, tendo como recurso principal a ICT-strategy implementation in schools fail and
ICT-practices do not develop? In Media Skills
simulação digital.
and Competence Conference Proceedings. Tam-
Tal como nos números anteriores e em comple-
mento do dossier temático, publicam-se ainda uma pere, Finland, pp. 9-16.
Matos, J. F. (2004). As tecnologias de informação e
recensão e o texto que serviu de base à conferência
comunicação e a formação inicial de professores
proferida por José Luis Rodríguez Illera, da Uni-
em Portugal: radiografia da situação em 2003.
versidade de Barcelona, e que teve lugar na Facul-
dade de Psicologia e de Ciências da Educação da Lisboa: Ministério da Educação, Gabinete de
Universidade de Lisboa em Maio de 2007. Informação e Avaliação do Sistema Educativo.
OCDE (2005). Are Students Ready for a Techno-
A recensão de “A vida no Ecrã”, de Sherry
logy-Rich World? What PISA Studies Tell Us.
Turkle, da autoria de Mónica Raleiras, tem o méri-
to de nos trazer um texto rico sobre as questões da OCDE.
identidade na era da Internet, já traduzido em Por- Paiva, J. (2002). As Tecnologias de Informação e Co-
municação: Utilização pelos Professores. Lisboa:
tugal, e que talvez só agora estejamos em condições
de compreender em toda a sua amplitude, dada a Ministério da Educação - DAPP.
maior familiaridade com os ambientes virtuais e Papert, S. (2000). Change and resistance to chan-
com o que eles implicam, quer do ponto de vista ge in education. Taking a deeper look at why
School hasn’t changed. In A. Dias de Carva-
pessoal, quer do ponto de vista educativo.
lho et al., Novo conhecimento. Nova aprendiza-
O texto, inédito, da conferência proferida por
gem. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian,
José Luis Rodríguez Illera sobre comunidades vir-
tuais de prática, analisa os conceitos centrais em pp. 61-70.
torno dos quais se desenvolveu, nos últimos anos, Pelgrum, W. J. (2001). Obstacles to the integration
esta nova problemática, articulando-a com uma of ICT in education: results from a worldwide
educational assessment. Computers & Educa-
nova perspectiva sobre o que é aprender e discutin-
tion, 37, 37, pp. 163-178.
do as suas implicações nomeadamente ao nível da
Ponte, J. P. & Serrazina, L. (1998). As Novas Tec-
educação e da teoria da educação.
nologias na Formação Inicial de Professores. Lis-
boa: DAPP-Ministério da Educação.
Turkle, S. (1997). A Vida no Ecrã. Lisboa: Relógio
Referências bibliográficas
d’Água.
Brito, C.; Duarte, J. & Baía, M. (2004). As tec- Wallin, E. (2005). The Rise and Fall of Swedish
nologias de informação na formação contínua de Educational Technology 1960–1980. Scandina-
professores. Uma nova leitura da realidade. Lis- vian Journal of Educational Research, 5, pp.
boa: Editorial do Ministério da Educação. 437–460.
5
sísifo 3 | nota de apresentação
6 sísifo 3 | nota de apresentação
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Tecnologias Educativas:
Análise das dissertações de mestrado
realizadas em Portugal
Fernando Albuquerque Costa
f.costa@fpce.ul.pt
Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Lisboa
Resumo:
Reconhecendo a importância que a investigação científica pode ter em termos de funda-
mentação, orientação e avaliação das práticas de uso das tecnologias em contexto educa-
tivo, é natural que se aprofunde também o conhecimento sobre a investigação neste do-
mínio realizada. É o que nos propusemos fazer, no âmbito de um colóquio recentemente
realizado em Portugal sobre a temática da Investigação em Educação1.
Tomando como ponto de partida o mote do próprio colóquio – a Investigação em
Educação entre 1960 e 2005 – decidimos debruçar-nos sobre o que tem sido investigado
no âmbito das Tecnologias Educativas, no nosso país.
Cedo nos apercebemos, no entanto, da quase inexistência de estudos neste domínio,
antes das universidades portuguesas passarem a assumir um papel activo, também no
campo das tecnologias educativas, nomeadamente depois do aparecimento dos primei-
ros cursos de mestrado, em 1987, na Universidade do Minho. Embora não conheçamos
nenhum estudo exaustivo que caracterize a investigação científica desenvolvida nesta
área em Portugal, são diversos os autores portugueses que de alguma maneira se referem
a esta mesma constatação (Abrantes, 1981, 1998; Blanco & Silva, 1993; Caldas, 2001; Fer-
nandes, 1969; Ponte, 1994; Silva, 2000).
Porque constatámos, por outro lado, que é precisamente ao nível desse grau académi-
co que se situa uma parte significativa da investigação realizada no nosso país neste cam-
po específico, decidimos centrar aí a nossa análise. neste artigo, apresentamos, pois, o
resultado do estudo das dissertações de mestrado realizadas em Portugal, tendo em vista
compreender melhor quais as problemáticas estudadas, os quadros teóricos e metodoló-
gicos em que se situam, as universidades onde se realizam e quem faz essa investigação,
as técnicas de recolha e análise de dados utilizadas, para apenas referirmos alguns dos
aspectos em que incidiu a análise.
Uma análise exploratória e de âmbito restrito, mas que esperamos possa contribuir
para um conhecimento mais profundo das práticas de investigação neste domínio parti-
cular das Ciências da Educação em Portugal.
Palavras-Chave:
Tecnologias educativas, Tecnologias em educação, Investigação científica, Dissertações
de mestrado, Paradigmas, Tendências, Portugal.
Costa, Fernando Albuquerque (2007). Tecnologias Educativas: análise das dissertações de mes-
trado realizadas em Portugal. Sísifo. Revista de Ciências da Educação, 03, pp. 7-24.
Consultado em [mês, ano] em http://sisifo.fpce.ul.pt
7
InTRODUçãO Em segundo lugar, parece persistir também uma
certa confusão sobre o que interessa verdadeira-
A investigação realizada no domínio da integração mente investigar e como fazê-lo, sendo colocada em
das tecnologias em contexto educativo é, reconhe- causa, em muitas situações, a própria credibilidade
cidamente, tal como noutros campos e áreas das dos estudos realizados. Fragilidades em termos de
Ciências da Educação, condicionada por múltiplos delimitação do quadro teórico de suporte, falta de
e variados factores. clareza na definição dos objectos de estudo ou ina-
Reconhecendo a importância fulcral que essa dequação ou insuficiências em termos metodológi-
mesma investigação pode ter na superação das am- cos são algumas das principais críticas apontadas
biguidades e insuficiências no que diz respeito à (Coutinho, 2000a; Reeves, 1995, 1997, 2000) e que
integração das tecnologias na escola e uma vez que contribuem para uma maior ou menor qualidade da
um dos objectivos do Colóquio referido era contri- investigação realizada.
buir para o balanço histórico sobre a investigação Do ponto de vista epistemológico as fragilidades
realizada nas diferentes áreas das Ciências da Edu- situam-se pelo menos em dois planos (Salomon,
cação, parece-nos adequado começarmos por tecer 2000, 2002). Em primeiro, porque continua a exis-
algumas considerações sobre os desafios com que a tir a crença de que o uso de determinados meios
investigação científica se confronta, nesta área es- produz melhores resultados na aprendizagem que
pecífica. outros, conduzindo a práticas de investigação po-
Uma das primeiras considerações que gostaría- sitivistas, segundo o autor desadequadas, uma vez
mos de fazer está directamente relacionada com os que são na maior parte das vezes desanimadores
resultados da própria investigação no domínio das os resultados a que se chega e porque, por isso, em
tecnologias educativas e que, de acordo com alguns nada contribuem para a valorização e aceitação do
estudos analíticos, não são conclusivos, antes pelo potencial revolucionário (Walker, 1994) das tecno-
contrário. Efeitos positivos modestos na aprendiza- logias na Educação. Em segundo, pela insistência
gem (Pelgrum, 2001; Pelgrum & Law, 2004; Plomp em se avaliarem os mesmos tipos de produtos e
& Pelgrum, 1991; Walker, 1994) e a inexistência resultados que a escola tradicionalmente privile-
de “diferenças significativas”, com ou sem uso das gia. na opinião de Salomon é precisamente aí que
tecnologias, são algumas das conclusões mais sa- reside o erro fundamental, uma vez que, podendo
lientes quando se analisa o conjunto de estudos em constituir ferramentas poderosas ao serviço de ou-
que o uso do computador é comparado com outros tro tipo de finalidades, mais exigentes do ponto de
meios tradicionalmente usados na aprendizagem vista cognitivo, seria de esperar que a investigação
(Russell, 1999). incidisse noutros objectos empíricos e adoptasse
8 sísifo 3 | fernando albuquerque costa | tecnologias educativas: análise das dissertações de mestr ado
metodologias mais adequadas e consistentes com não sendo este o lugar para aprofundarmos os
esses novos objectos de estudo2. aspectos relacionados com as dúvidas e interroga-
nessa linha, faria sentido, aliás, como sugerem ções sobre a crescente atenção atribuída aos dados
alguns autores, que a investigação se deslocasse para qualitativos e com as reservas de credibilidade
o estudo dos contextos em que a aprendizagem tem apontadas às abordagens qualitativas, por exemplo,
lugar, procurando sobretudo compreender como em termos de validade, objectividade, neutralida-
é que esses contextos deverão ser estruturados, de de, parece-nos fazer sentido, no entanto, a chamada
forma a estimular os alunos a utilizarem o máximo de atenção para o que isso pode significar para o
do seu potencial cognitivo (de Corte, 1996) e pode- investigador em termos de necessidade acrescida
rem alcançar, consequentemente, melhores resulta- de rigor no processo e de garantia da cientificidade
dos também em termos escolares. dos métodos utilizados.
Esta é uma forma de ver o problema da inte- A insatisfação com os resultados globais da in-
gração dos computadores no processo de ensino e vestigação a que já nos referimos, bem como os
aprendizagem que exige que a observação e a re- movimentos no sentido de uma abertura do pon-
colha de dados, numa perspectiva ecológica, tenha to de vista metodológico verificados nas discipli-
como base a exploração do potencial das tecnolo- nas afins, acabam por criar condições favoráveis
gias por alunos e professores e suas implicações na para que também aqui essa oposição se esbatesse
actividade de uns e de outros. Uma observação na e evoluísse para o compromisso e conjugação entre
acção, em que faz sentido uma abordagem mais in- as duas filosofias subjacentes, dando origem a um
dutiva e de cariz etnográfico, acompanhando, aliás, referencial metodológico próprio, porquanto mais
os movimentos nessa direcção que a partir dos anos adaptado à investigação em contextos de aprendi-
noventa se fazem sentir na investigação em geral e zagem enriquecidos com o potencial das novas tec-
na investigação nas Ciências da Educação em par- nologias (Coutinho & Chaves, 2001).
ticular. Este aspecto conduz-nos, aliás, a última ques-
Assim, em vez das técnicas de análise quantita- tão sobre a qual nos parece relevante tecer algumas
tiva utilizadas nos estudos correlacionais e expe- considerações, na medida em que pode estar ligada
rimentais clássicos (baseadas exclusivamente em ao maior ou menor impacto e influência da inves-
dados quantificáveis e mensuráveis), passa a justifi- tigação nas práticas educativas. Embora aceitemos
car-se, pois, a utilização de técnicas e métodos que que não seja um aspecto que diga directamente res-
permitam a captação da complexidade do real e a peito ao investigador, não deixa de ser importante
subjectividade dos actores (Figueiredo, 2005). Mais referenciá-lo, uma vez que pode afectar a decisão
do que a explicação dos fenómenos (construção sobre o “que” investigar e “para quê” (pertinência
de leis e teorias), importa compreendê-los (identi- e relevância social da investigação) e a consequente
ficação de regularidades, padrões, contradições, justificação em termos dos custos que envolve a sua
etc.) à luz do significado que os indivíduos lhes realização (análise do custo-benefício).
atribuem e da forma como os actores os percebem De facto, segundo alguns autores, os efeitos da
num dado momento e num dado contexto (Pour- investigação na prática educativa são na maior parte
tois & Desmet, 1988). Mais do que um plano rígido das vezes lentos e indirectos (Atkinson & Jackson,
e estandardizado, é uma perspectiva que exige do 1992; Holloway, 1996), embora isso possa aconte-
investigador uma grande flexibilidade e uma ati- cer por razões muito diversas. Poderá depender
tude clínica, podendo contar com uma grande di- não apenas da maior ou menor qualidade e credi-
bilidade da investigação realizada, mas também se
versidade de técnicas de recolha e análise de dados
e como essa investigação é posteriormente utilizada
(incluindo procedimentos quantitativos) e em que
está em jogo sobretudo a sua capacidade para criar (Holloway, 1996). no caso da investigação no do-
uma estratégia própria e adequada para abordagem mínio das tecnologias educativas, a constatação é
dos problemas em estudo, em função do terreno e de que pouca mudança tem havido ao nível da sala
dos objectivos de investigação (Pourtois & Desmet, de aulas, apesar de não serem muitos os estudos sis-
1988; Taylor & Bogdan, 1984). temáticos e em profundidade sobre o seu uso nas
9
sísifo 3 | fernando albuquerque costa | tecnologias educativas: análise das dissertações de mestr ado
práticas quotidianas de professores e alunos (Costa ções de mestrado ou teses de doutoramento) como
& Peralta, 2006). as que aqui analisamos, ou para progressão na car-
Por um lado, parece haver uma relação entre a reira académica. Uma investigação em certa medida
amplitude dos estudos realizados e o grau de in- estéril não apenas em termos dos resultados a que
fluência que essa variável é susceptível de exercer chega (vide o que se disse sobre a inconclusividade
ao nível da decisão política e, consequentemente, dos resultados), mas principalmente em termos de
embora que de forma indirecta, ao nível micro, nas utilidade prática e influência objectiva nos contex-
práticas concretas de ensino e aprendizagem. De tos em que foi desenvolvida que, em geral, não irá
acordo com Holloway (1996), os estudos visando além de eventuais mudanças a nível individual por
a descrição e caracterização da realidade (compre- aquele ou aqueles que a conduziram.
ender o grau de difusão e explicar o quê, onde e
porquê da aceitação ou rejeição das tecnologias em
Educação), normalmente realizados em grande es- QUESTõES DE PESQUISA E OBJECTIvOS
cala, através de inquéritos (“surveys”), acabam por
ter mais influência ao nível dos “decision makers”, Como contributo para a caracterização da actividade
que as investigações sobre realidades de âmbito de investigação científica realizada em Portugal, no
mais restrito (o que se passa na escola ou na sala domínio das Tecnologias em Educação, no período
de aulas, por exemplo), muito menos conhecidos compreendido entre 1960 e 2005, pareceu-nos perti-
em geral e menos considerados (reconhecidos) em nente colocar algumas questões nucleares, em torno
termos de decisão política (Holloway, 1996). Com das quais se organizam também os critérios de análi-
base numa revisão da investigação recentemente re- se e a apresentação dos resultados: Que problemáti-
alizada, o autor defende a ideia de que a maior par- cas são estudadas? Com que quadros teóricos de re-
te desses estudos criam uma visão dos problemas ferência? e Com que metodologias de investigação?
mais “centrada no equipamento”, no “potencial das no que diz respeito à análise das problemáticas
tecnologias” e nas questões técnicas, acabando por estudadas, interessava-nos principalmente com-
fornecer pouca informação sobre as mudanças ope- preender se é uma investigação determinada sobre-
radas na escola e sobre o modo como a própria in- tudo pelas necessidades da prática, isto é, investi-
vestigação afecta essas mudanças (Holloway, 1996). gação com origem nos problemas e questões que
Há, por outro lado, a preocupação referida por o uso das tecnologias veio introduzir no processo
Thomas Reeves (2000), de as revisões de litera- de ensino e aprendizagem, ou se, pelo contrário, é
tura e as meta-análises nesta área geralmente não principalmente uma investigação determinada pelo
fornecerem orientações práticas claras e suficien- modo como as diferentes perspectivas e ideologias
temente esclarecedoras, em grande parte devido a (explícitas ou implícitas) entendem o acto educati-
uma insuficiente qualidade dos estudos em que se vo e o papel que os meios tecnológicos aí podem
baseiam. Segundo o autor, apesar de um cada vez desempenhar. Pretendíamos ainda identificar as
maior número de investigadores venha perseguin- temáticas em que incide a investigação, os objectos
do objectivos de interpretação e compreensão dos empíricos e a finalidade com que são estudados: se
fenómenos e de resolução de problemas práticos e os estudos visam principalmente a análise e descri-
adoptando metodologias de orientação mais quali- ção da realidade, se têm como propósito a interven-
tativa, há ainda pouca evidência de que a qualidade ção, ou se visam sobretudo a concepção e realização
da investigação tenha melhorado, com as naturais de materiais ou quaisquer outros recursos de apoio
implicações daí resultantes. à comunicação ou à aquisição de conhecimento.
Em seu entender isso deve-se também ao facto Relativamente à identificação dos quadros teó-
de grande parte da investigação neste domínio ser ricos de referência, procurámos encontrar marcas
realizada por investigadores isolados, ser uma in- que permitissem classificá-los dentro das princi-
vestigação raramente ligada a linhas ou agendas de pais perspectivas tradicionalmente utilizadas neste
investigação mais robustas, e desenvolvida sobre- campo, isto é, perspectivas behaviorista, cognitiva,
tudo no âmbito de trabalhos académicos (disserta- construtivista, sistémica, comunicacional, multi-
10 sísifo 3 | fernando albuquerque costa | tecnologias educativas: análise das dissertações de mestr ado
média, etc.. Sem prejuízo de referências explícitas assumir uma atitude exploratória que permitisse,
a outras abordagens, pretendemos perceber até que sobretudo, compreender a evolução verificada,
ponto a investigação realizada em Portugal acom- tentando evidenciar as grandes áreas e tendências
panha as grandes tendências da que é realizada da investigação. Conscientes da complexidade da
internacionalmente e quais as suas especificidades tarefa, em grande medida resultante da complexi-
em termos do suporte teórico em que assentam. dade própria das Ciências da Educação, quer do
no que respeita à caracterização das metodolo- ponto de vista da multiplicidade e inter penetração
gias de investigação, e uma vez que é uma dimensão de quadros teóricos de referência, quer do ponto
directamente relacionada com o próprio estatuto de vista estritamente metodológico, de que seria de
epistemológico da investigação realizada, impor- todo impossível desligarmo-nos, pretendemos estar
ta fazer aqui uma chamada de atenção particular, atentos à articulação com a evolução verificada nas
em articulação, aliás, com os aspectos acabados diferentes áreas afins (do ponto de vista da evolução
de mencionar. na verdade, este é um aspecto de dos quadros teóricos de referência), e às tendências
crucial importância, uma vez que é aí que muitos que internacionalmente se foram afirmando em ter-
autores encontram razão suficiente para as severas mos de metodologias de investigação propriamente
críticas feitas à qualidade da investigação realizada ditas (evolução dos paradigmas de investigação).
neste domínio. Se bem que, tal como afirma Ree-
ves, não seja mais pobre que a investigação em Edu- Corpo documental
cação em geral (Reeves, 2000), a qualidade efectiva Como tivemos oportunidade de referir, apresentar-
da investigação desenvolvida nesta área continua se-ão no âmbito deste artigo os resultados da análi-
a ser uma das principais fontes de controvérsia e se realizada às dissertações de mestrado que, desde
deve-se em muito, segundo o mesmo autor, à con- há cerca de década e meia, vêm sendo realizadas nas
fusão entre “investigação fundamental” (“basic Universidades portuguesas. O corpo documental
research”) e “investigação aplicada” (“applied rese- recenseado até ao momento é constituído por 254
arch”). Embora não tenhamos, obviamente, como dissertações (ver Quadro 1 – Corpo documental
objectivo imediato proceder à avaliação da qualida- recenseado).
de da investigação produzida, até pelas limitações
já anteriormente referidas, estaremos atentos a esta Quadro 1
questão, tentando recolher dados que nos permi- Corpo documental recenseado
Tipo de publicação Nº de textos*
tam voltar a ela mais tarde.
nessa medida, para se poder responder global- Dissertações Mestrado 254
mente à questão das metodologias de investigação Doutoramento 23
utilizadas, pareceu-nos pertinente: distinguir os ob- * Dados recenseados até Dezembro de 2005 (actividade em progresso)
jectivos de investigação enunciados em termos de “ex-
plicação” versus “compreensão” dos fenómenos ver-
Critérios de análise
sus “resolução de problemas”; caracterizar os designs
Dada a natureza do “corpus”, utilizámos, numa
metodológicos utilizados dentro do binómio “expe-
primeira abordagem, os procedimentos normais
rimental” versus “não-experimental”; caracterizar o
de análise documental para classificação e indexa-
tipo de análise de dados (“qualitativo” versus “quan-
ção dos textos identificados. Isso permitiu também
titativo”); identificar as técnicas de análise utilizadas;
a organização de uma base de dados de referência
e, por último, caracterizar a amplitude da amostra so-
nesta área, facilitando o acesso e posterior actuali-
bre a qual incidem os estudos (macro, meso, micro).
zação dos dados.
numa segunda etapa, procedeu-se à análise
qualitativa do conteúdo dos textos recolhidos, in-
METODOLOGIA
cidindo sobretudo nos resumos dos mesmos, de
forma a identificar os elementos que permitissem
não estando nos nossos propósitos imediatos pro-
“situar” cada investigação com base em critérios
ceder a uma análise histórica exaustiva, decidimos
11
sísifo 3 | fernando albuquerque costa | tecnologias educativas: análise das dissertações de mestr ado
previamente estabelecidos. Esses critérios, que de investigação utilizadas, este critério aplica-se
serão apresentados, com mais detalhe no ponto à descrição que, em cada trabalho, é feita sobre
seguinte, estão directamente relacionados e foram a natureza, fundamentos e técnicas de recolha
derivados dos objectivos atrás enunciados para de dados, bem como os procedimentos metodo-
este estudo. lógicos adoptados na sua planificação, análise
Sem prejuízo de alguns ajustes a que fomos pro- e interpretação. Tal como no critério anterior,
cedendo em resultado da necessidade de acomodar considerámos diferentes aspectos concorrentes
algumas categorias emergentes, foi construída uma para a caracterização das opções metodológicas:
os objectivos da investigação (procura da expli-
estrutura de análise organizada em torno dos três
eixos centrais anteriormente referidos: problemáti- cação, procura da compreensão, descrição do
real, resolução de problemas); o plano metodoló-
cas estudadas, quadros teóricos de referência e op-
gico (experimental, não experimental); a análise
ções metodológicas.
Critério 1 - Problemáticas estudadas. Tendo de dados (quantitativa, qualitativa); as técnicas e
instrumentos utilizados e a amplitude da amostra
como objectivo identificar as principais proble-
máticas estudadas, este critério aplica-se essen- considerada (ver Quadro 4 - caracterização das
cialmente à formulação da questão central de metodologias utilizadas).
pesquisa (determinante para a selecção do objecto
de estudo, mobilização de um quadro teórico de
referência, definição dos objectivos ou formulação Quadro 2
de hipóteses de investigação e elaboração de um identificação e caracterização
plano de recolha de dados empíricos). no sentido das problemáticas estudadas
de melhor se compreender o alcance da investiga- Imagem, Audiovisuais
Tecnologias da Informação
ção desenvolvida, explicitámos algumas facetas Tema
Ensino e Aprendizagem
central
deste critério, de forma a permitir a identificação Formação de Professores
não apenas do tema central estudado, e do campo Outros
Linhas de investigação
empírico onde são recolhidos os dados (objecto de
Origem Problemas concretos do real
estudo), mas também a própria origem da investi- Outros
Objectivo:
gação (linhas de investigação, problemas do real) Análise
Identificar Intervenção
e a sua finalidade última (análise do real, inter- Finalidade
as principais Concepção e desenvolvimento
venção, concepção e desenvolvimento). Incluímos Outras
problemáticas
ainda um critério referente ao contexto estudado, O aluno
estudadas
O professor
de forma a perceber o tipo de distribuição dos es-
Os materiais
Objecto
tudos entre contexto profissional e escolar e, den- O processo de ensino
de estudo e aprendizagem
tro deste, pelos diferentes níveis de ensino (ver
A formação de professores
Quadro 2 - Identificação e caracterização das
Outros
problemáticas estudadas). Escolar (nível de ensino)
Critério 2 - Quadros teóricos de referência. Com Contexto Profissional
Outros
o objectivo de identificar os quadros teóricos usa-
dos como suporte da investigação, este critério apli-
ca-se às referências feitas pelo investigador sobre as
As frequências de cada uma das categorias de
áreas científicas, teorias ou autores específicos, seja
análise e respectivas percentagens foram calcula-
para esclarecimento da questão de pesquisa, para
das com o SPSS. De forma a garantir a validade
orientar a recolha de dados ou servir de fundamen-
do processo de categorização, procedeu-se a uma
to à sua interpretação (Quadro 3 - identificação e
segunda classificação de uma amostra aleatória de
caracterização dos quadros teóricos de refe-
dissertações, tendo-se obtido um coeficiente de
rência).
83,50% no teste de equivalência entre as duas clas-
Critério 3 - Opções metodológicas. Por último,
sificações obtidas.
com o objectivo de caracterizar as metodologias
12 sísifo 3 | fernando albuquerque costa | tecnologias educativas: análise das dissertações de mestr ado
Quadro 3
identificação e caracterização Quadro 5
dos quadros teóricos de referência Dissertações por Universidade
Distribuição de frequências e percentagens
Perspectiva
comportamentalista (Skinner, Freq. %
UnIvERSIDADES
Gagné, Bloom…)
U. Aberta 41 18,1
Perspectiva comunicacional,
Objectivo: U. de Aveiro 25 11,1
Multimédia (Shannon e
Identificar
Weaver, Mayer…) U. de Lisboa 54 23,9
os principais
Referentes Perspectiva sistémica
quadros U. do Minho 98 43,4
teóricos* (Bertalanfy, Romiszovsky…)
teóricos de U. nova de Lisboa 8 3,5
referência Perspectivas cognitiva e
Total 226 100,0
usados como construtivista (Bruner, Piaget,
suporte da Giardina, Papert…)
investigação.
Abordagem hipermédia e
flexibilidade cognitiva (nelson,
A Universidade do Minho destaca-se das restan-
Spiro…)
tes, uma vez que aí foram realizadas quase metade
Outros
das dissertações analisadas (43,4%), seguindo-se a
* Classificação sistematizada por Chaves (1998) e Pereira (1993).
Universidade de Lisboa com 23,9%. Podemos aliás,
concluir que nestas duas Universidades se situam
três quartos da investigação académica realizada em
Quadro 4
Portugal no domínio das Tecnologias Educativas,
caracterização das metodologias utilizadas
ao nível de mestrado. Se, num mero exercício de
Procura da explicação
Objectivos da Procura da compreensão
análise, excluirmos a Universidade Aberta 4, parece
investigação
Resolução de problemas
legítima a associação entre as Universidades mais
Outros (mera descrição…)
recentes (Aveiro, Minho, nova) e o maior volume
Experimental
Plano
metodológico não experimental de investigação aí realizada: Cerca de dois terços,
Objectivo:
Misto
Caracterizar contra cerca de um terço realizada na Universidade
Quantitativa
as Tipo de
de Lisboa, a única representante das Universidades
Qualitativa
metodologias análise
de Mista ditas “clássicas” no universo considerado. Facto
investigação Análise estatística…
que poderá ser entendido em abono da hipótese de
utilizadas Observação, entrevistas
o aparecimento de novas Universidades, a partir da
Técnicas não estruturadas, análise
documental… década de oitenta, ter constituído um factor deter-
Mistas
minante no desenvolvimento desta área científica.
Macro
Amplitude da
Meso
amostra
Micro Como evolui o número de dissertações?
De forma a permitir verificar a evolução no tempo
desde o aparecimento dos primeiros estudos de-
APRESEnTAçãO E DISCUSSãO senvolvidos no âmbito de cursos de mestrado5 até
DE RESULTADOS hoje, procurámos perceber como se distribuem as
dissertações pelos quatro períodos de cinco anos
Onde se realiza a investigação? em que dividimos as duas últimas décadas.
Para melhor se compreender o panorama global da Assim, com base no Quadro 6 (Evolução do
investigação realizada, começamos por apresentar a número de dissertações), é possível observar um
informação relativa à distribuição das dissertações crescendo da investigação em termos gerais, sendo
pelas universidades onde foram realizadas. Como particularmente nítida a passagem da década de oi-
se pode observar no Quadro 5 (Dissertações por tenta (com apenas 8 dissertações concluídas) para a
Universidade), o universo das dissertações con- década de noventa, como mais de metade das teses
sideradas na análise (226) concentra-se em apenas analisadas (136), ou seja, 60,2% do total.
cinco universidades portuguesas3.
13
sísifo 3 | fernando albuquerque costa | tecnologias educativas: análise das dissertações de mestr ado
Quadro 6 investigação realizada em contexto académico e,
Evolução do número de dissertações eventualmente, abrir novos horizontes pelo me-
Distribuição de frequências e percentagens nos em termos de relevância social, ou seja, como
contributo para a inovação e mudança dos modos
Freq. %
PERÍODOS
1986-1990 8 3,5 de ensinar e aprender nas nossas escolas. Os qua-
1991-1995 77 34,1
dros seguintes referem-se concretamente a cada um
1996-2000 59 26,1
desses eixos de análise, isto é: aos principais temas
2001-2005 82 36,3
tratados; à origem dos problemas que motivaram a
Total 226 100,0
investigação; às finalidades enunciadas pelos auto-
res das investigações; aos objectos de estudo con-
cretos e, por último, aos contextos observados e
no último período considerado, já neste milé-
estudados.
nio, ou seja entre 2001 e 2005, situam-se 82 disser-
tações (36,3%). O conjunto dos resultados parece
Principais temas tratados
apontar para a continuação do ritmo de investigação
Com base na análise do Quadro 7 (Temas tra-
neste grau académico, podendo mesmo nos próxi-
tados na investigação) pode dizer-se que existe
mos anos ser fortemente reforçado com a produção
uma predominância do estudo de temas relaciona-
científica resultante de outros cursos entretanto ini-
dos com as “tecnologias de informação” enquanto
ciados, como é o caso do Mestrado em Informática
ferramenta e como meio passível de ser estudado
Educacional oferecido pela Universidade Católica
independentemente de poder estar ligado (ou não)
Portuguesa e que, como é sabido, talvez por se rea-
a objectos de estudo específicos, isto é, ao serviço
lizar predominantemente a distância, atingiu níveis
da aprendizagem por parte do aluno, ao serviço do
assinaláveis de adesão na sua primeira edição.
professor, ao serviço do próprio processo de ensi-
Estes resultados e a elevada procura de pós-gra-
no e de aprendizagem, em geral (41,1%). no caso
duações neste domínio, nomeadamente por parte
de não estar ligado a outros objectos de estudo, as
de professores, para além de ser um bom indicador
“tecnologias de informação” surgem, elas próprias,
do ponto de vista da quantidade da investigação
enquanto objecto de análise (avaliação de software,
realizada no nosso país, pode representar cenários
por exemplo), objecto de desenvolvimento, como é
mais favoráveis também no que diz respeito à utili-
o caso dos estudos tendentes à criação e desenvol-
zação propriamente dita das tecnologias para fins
vimento de novas aplicações para fins específicos
educativos. Principalmente pela massa crítica que
(uma aplicação multimédia sobre Desenho Infantil,
esses professores e outros intervenientes no fenó-
para referir um exemplo concreto).
meno educativo passam a constituir e pelo impacto
que a sua acção possa vir a ter num futuro próximo,
nomeadamente se devidamente enquadrados em
Quadro 7
termos de projectos de intervenção específicos e
Temas tratados na investigação
criados com esse intuito.
Distribuição de frequências e percentagens
Freq. %
TEMA CEnTRAL
Que problemáticas são estudadas?
Audiovisuais 39 17,8
Tal como tivemos oportunidade de explicitar ante-
Tecnologias de Informação 90 41,1
riormente, para a caracterização das problemáticas Ensino e Aprendizagem 47 21,5
estudadas, tomámos como referência um conjunto Formação de Professores 20 9,1
diversificado de critérios, de forma a conseguirmos Outros 23 10,5
Total 219 100,0
matizar a investigação realizada e, desse modo,
contribuir para um conhecimento mais profundo
do que se investiga, porque se investiga, em que
É, de facto, grande a distância relativamente
contexto e para quê. A ideia é, pois, que a análise
ao estudo dos “audiovisuais” (com apenas 17,8%),
articulada destes eixos venha a fornecer uma pers-
confirmando o crescente interesse pelas tecnologias
pectiva de conjunto sobre o esforço depositado na
14 sísifo 3 | fernando albuquerque costa | tecnologias educativas: análise das dissertações de mestr ado
digitais e a importância assumida por estas, relati- Minho as “tecnologias e informação” são de longe
vamente ao audiovisual e às tecnologias analógicas o tema preferido (22,83%); o mesmo acontece na
que lhe estão associadas e que, como se compreen- Universidade de Aveiro, ainda que em menor per-
de, predominam até ao momento em que os compu- centagem relativa (5,94%); na Universidade Aberta
tadores ganham expressão efectiva e generalizada o tema mais estudado é “imagem e audiovisuais”
na sociedade nos tempos mais recentes. (8,22%), seguido de perto pelas “tecnologias da in-
Apenas 9,1% dos estudos se debruçam sobre o formação” (7,31%); na Universidade de Lisboa o in-
tema “formação de professores” (20 dissertações), teresse principal é o “ensino-aprendizagem”, com a
mas cerca de um quarto tem o processo de “ensino e “formação de professores” em segundo lugar.
aprendizagem” como foco principal da observação
Origem da investigação
e análise. Dois resultados interessantes, sobretudo
pelo que cada um significa em si mesmo, mas tam- no que diz respeito à selecção dos temas estudados,
bém pelo facto de apontarem em direcções opostas. é possível observar, com base no Quadro 8 (Origem
Se por um lado é vital que se desloque a atenção para da investigação), que são os “problemas do real” a
o estudo dos modos como as tecnologias são integra- determinar o que vai ser investigado. De facto, pre-
das no processo de ensinar e aprender, é preocupan- dominam de forma muito clara, na quase totalidade
te o facto de se continuar a verificar a pouca atenção dos estudos (94,2%), razões que podemos associar
dada aos contextos em que seria de esperar que os ao interesse dos autores em aprofundarem o conhe-
professores também fossem preparados na dimen- cimento sobre as questões ou problemas com que
são profissional que implica a integração e uso des- de alguma maneira já se confrontaram na sua acti-
sas mesmas tecnologias nas suas práticas lectivas. vidade profissional.
Embora estejamos conscientes que não será no
âmbito de estudos académicos de natureza indivi- Quadro 8
dual que isso deva ser feito, não deixa de ser um in- Origem da investigação
Distribuição de frequências e percentagens
dicador da situação crítica em que nos encontramos
e que é caracterizada pela ausência completa de uma Freq. %
ORIGEM
Linhas de Investigação 2 0,9
visão integrada e articulada de desenvolvimento
Problemas do real 213 96,8
profissional dos professores neste domínio. Curio-
Outros 5 2,3
samente, como claramente evidenciam os poucos Total 219 100,0
estudos realizados sobre esta problemática (Costa
& Peralta, 2006; Matos, 2005; Ponte & Serrazina,
1998; Ponte et al., 2000), também isso acontece ao Como talvez fosse de esperar, dado o tipo de
relação esporádica que é estabelecida com as Uni-
nível da própria formação inicial, o que, quanto a
versidades para a obtenção deste grau académico,
nós, é um dos factores mais preocupantes no con-
são quase nulas as investigações em que é clara e
texto nacional. Embora em sintonia com o que se
expressamente assumida a sua inserção no âmbito
passa internacionalmente em termos do impacto da
de uma determinada “linha de investigação” exis-
formação inicial nas novas gerações de professores
(Brett et al., 1997; ITRC, 1998; Makrakis, 1997; tente, por exemplo, num determinado centro ou
unidade de investigação.
Willis & Mehlinger, 1996), mas com a agravante
de em Portugal isso não constituir de todo objecto
Principais finalidades
de intervenção estruturada, consistente e assente
De acordo com os resultados no Quadro 9 (Fina-
na reflexão prévia, aprofundada, sobre o papel das
lidades da investigação) e em sintonia com o que
tecnologias na aprendizagem.
se disse sobre a origem da investigação, pode afir-
Do ponto de vista da “geografia” dos temas, isto
mar-se que a principal motivação para a realização
é, da sua distribuição pelas universidades em que
do trabalho de pesquisa desenvolvido nas disser-
as dissertações foram realizadas, a observação dos
tações analisadas é claramente a compreensão dos
resultados sugere algumas preferências que pode-
fenómenos, situações ou contextos observados. De
rá ser interessante explorar: na Universidade do
15
sísifo 3 | fernando albuquerque costa | tecnologias educativas: análise das dissertações de mestr ado
facto, em quase dois terços dos estudos (70, 4%) nos casos das Universidades do Minho (26,39%), de
a finalidade dominante é a “análise”, seguida, da Lisboa (24,55%), de Aveiro (8,33%) e nova (3,70%),
“concepção e desenvolvimento” que aparece em e pelo “desenvolvimento” de materiais na Universi-
segundo lugar, embora a grande distância, com dade Aberta (11,57%), mas também na Universida-
25,5% dos casos, ou seja um terço das investigações de do Minho (10,65%).
consideradas.
Principais objectos de estudo
Quadro 9 Da análise dos resultados apresentados no Quadro
Finalidades da investigação 10 (Objectos de estudo) é visível que os “mate-
Distribuição de frequências e percentagens riais” são o principal foco da investigação desen-
volvida no âmbito das dissertações de mestrado
Freq. %
FInALIDADE
Análise 152 70,4 analisadas, com 37,1% dos estudos, ou seja 79 dis-
Intervenção 9 4,2
sertações6.
Concepção e Desenvolvimento 55 25,5
O foco no “processo de ensino e aprendizagem”
Total 216 100,0
surge em segundo lugar, com 22,5% dos estudos (48
dissertações). Conjugando este valor com o conjun-
Ambos os valores parecem fazer sentido, na to das teses que se debruçam mais especificamente
perspectiva de que estamos a referir-nos a algo mui- sobre o “aluno” (considerado individualmente e em
to recente, em constante evolução e cujos contornos relação directa com a aprendizagem), com 11,3% (24
não são, como vimos anteriormente, muito nítidos, teses), e sobre o “professor” (estudos sobretudo re-
pelo menos para quem é confrontado pela primeira lacionados com as atitudes face às tecnologias ou
vez com as dificuldades e implicações inerentes à visando conhecer o tipo de uso que fazem das tec-
utilização e integração de máquinas num ambiente nologias), com 15,5% (33 dissertações), é possível
até então quase exclusivamente reservado à acção observar também o especial interesse que merecem
e interacção humanas. Poderia ser, aliás, um bom os tópicos relacionados, não propriamente com as
indicador de desenvolvimento deste campo e das tecnologias em si mesmo, mas com o contexto em
suas aplicações práticas, se fosse outro o impacto que é suposto serem usadas, com os seus utilizado-
do conjunto das investigações realizadas para ob- res mais directos e com o papel que podem ter na
tenção de grau académico. aprendizagem.
Talvez devido à fragilidade do estatuto dos au-
tores dessas investigações que, como já tivemos Quadro 10
oportunidade de referir, são na sua maioria profes- Objectos de estudo
sores que procuram, a título individual, a obtenção Distribuição de frequências e percentagens
de um grau académico que lhes permita progredir Freq. %
OBJECTO DE ESTUDO
profissionalmente, não seria expectável que fosse Aluno 24 11,3
Professor 33 15,5
significativo o número de dissertações visando a
Materiais 79 37,1
“intervenção” propriamente dita. Pelo menos uma
Ensino e Aprendizagem 48 22,5
intervenção com carácter estruturado e com um
Formação de Professores 13 6,1
determinado suporte institucional, por exemplo Outros 16 7,5
ao nível de uma escola ou conjunto de escolas. O Total 213 100,0
elevado grau de aplicabilidade desta área contrasta,
aliás, com a baixa percentagem verificada em es-
tudos com essa finalidade (4,2%, ou seja, apenas 9 Por outro lado, apenas 6,1% dos estudos incidem
dissertações), o que não deixa de estar em sintonia na “formação de professores”, sendo esse, aliás, o
com o que se disse no parágrafo anterior. valor mais baixo verificado nesta categoria de análi-
no que se refere à associação entre universida- se. Apontando na mesma direcção e corroborando
des e finalidades, os resultados apontam para a pre- o que se disse anteriormente sobre a formação de
ferência pela “análise” e compreensão da realidade professores, é interessante verificar que apenas tre-
16 sísifo 3 | fernando albuquerque costa | tecnologias educativas: análise das dissertações de mestr ado
ze dissertações têm como foco central de observa- as que analisámos, é importante conhecer os referen-
ção e estudo, o processo e as práticas de formação tes teóricos usados na investigação, de forma a poder
de professores, o que não deixa de ser um aspecto avaliar-se quais são as tendências predominantes num
curioso a reter, até porque esse é, reconhecida e in- determinado momento e como se distribuem pelas
contornavelmente, uma pedra-de-toque nesta como universidades onde essa investigação é acompanhada.
em outras áreas das Ciências da Educação. De acordo com os resultados apresentados no
Em termos da geografia dos objectos de estudo, Quadro 12 (Quadros Teóricos de referência), é
é interessante verificar as preferências das Universi- possível concluir que a maior parte das dissertações
dades do Minho (18,78%), Aberta (11,74%) e Aveiro (53,6%) não toma como referentes teóricos aqueles
(5,63%) por estudos que incidem nos “materiais”. que tínhamos tomado como ponto de partida para a
no caso da Universidade de Lisboa a preferência re- análise e que, como referimos anteriormente, se ba-
parte-se de igual modo por dois dos objectos de es- seavam nas perspectivas que tradicionalmente são
tudo mais directamente relacionados com a situação mobilizadas para estudar a problemática das tecno-
didáctica em si mesma, isto é, o “professor” (7,98%) logias em Educação. Para além da dificuldade que
e o “processo de ensino-aprendizagem” (7,98%). tivemos, nalgumas investigações, em identificar o
enquadramento teórico tomado como referência,
Contexto em que a investigação incide quer por falta de clareza na sua explicitação, quer
Como já por mais de uma vez referimos, são princi- por não ser clara também a opção apenas por uma
palmente os professores que procuram a concreti- das perspectivas consideradas no nosso plano de
zação de pós-graduações no domínio das Ciências análise, incluímos também nesta categoria (“outros
da Educação e, em particular, as que directamente referenciais”) os estudos que apresentavam quais-
possam estar relacionadas com a reflexão estrutu- quer outras estruturas teóricas de enquadramento
que não as que havíamos definido a priori.
rada sobre a relação entre as tecnologias e o seu
uso para fins educativos, nomeadamente ao nível
de mestrado. Talvez por isso, o contexto “escolar” Quadro 12
represente, no corpus aqui considerado, a quase to- Quadros Teóricos de referência
Distribuição de frequências e percentagens
talidade das investigações realizadas (200 disserta-
ções, 95,7%), com apenas um valor residual (3,3%) Freq. %
REFEREnTES TEÓRICOS
Comunicação e Multimédia 32 22,9
de dissertações desenvolvidas em contexto “profis-
Cognitivismo e Construtivismo 16 11,4
sional” fora da Escola (ver Quadro 11 - Contextos
Hipermédia e Flexibilidade Cognitiva 17 12,1
em que a investigação é realizada). Outros 75 53,6
Total 140 100,0
Quadro 11
Contextos em que a investigação é realizada
Uma possível interpretação para este resultado,
Distribuição de frequências e percentagens
nomeadamente no que se refere à última alternati-
Freq. %
COnTEXTO
va, pode estar relacionada com o empréstimo pro-
Escolar 200 95,7
Profissional 7 3,3 curado em outras áreas científicas, nomeadamente
Outros 2 1,0 as que estão directamente ligadas às temáticas e
Total 209 100,0
objectos de estudo específicos, como é o caso da
Formação de Professores. Se uma determinada
dissertação tem como principal tema e objecto de
estudo a formação de professores, é natural que o
Principais quadros teóricos de referência
investigador procure fazer o respectivo enquadra-
A robustez do suporte teórico é um dos atributos
mento teórico à luz do conhecimento actual sobre
fundamentais da investigação científica e, como não
modelos de formação de professores, por exemplo.
poderia deixar de ser, uma garantia da qualidade e
Estaríamos assim numa situação, quanto a nós de
credibilidade dos estudos realizados. no caso das
grande interesse do ponto de vista interdisciplinar,
dissertações para obtenção de grau académico como
17
sísifo 3 | fernando albuquerque costa | tecnologias educativas: análise das dissertações de mestr ado
de abertura a áreas científicas afins, para estudo de mos, poderão constituir também fonte de reflexão,
questões muitas vezes apenas confinadas a investi- nomeadamente no que ao objectivo da qualidade
gadores provenientes da área das tecnologias, com da investigação se refere e que, como tivemos opor-
o que isso possa implicar em termos de impacto e tunidade de alertar anteriormente, deve constituir
relevância da investigação realizada, quer em ter- uma preocupação para a comunidade educativa em
mos gerais, quer mesmo em termos estritamente geral, e para cada investigador em particular.
científicos.
Objectivos de investigação
Uma vez que em apenas três das cinco catego-
rias de análise previamente definidas foi possível, no que se refere aos objectivos de investigação ex-
de uma forma clara, classificar as dissertações ana- plicitamente enunciados nas dissertações e com
lisadas, é por elas que se distribuem os restantes base nos resultados apresentados no Quadro 13
valores no que aos referentes teóricos diz respeito. (Objectivos de Investigação), é possível concluir
Em primeiro lugar, com 22,9% estão as dissertações que a “compreensão” dos fenómenos ou problemas
que tiveram como suporte teórico uma abordagem é a categoria mais frequente, com um total de 168
“comunicacional e multimédia”, seguindo-se, com dissertações (78,9%), seguindo-se, a grande distân-
valores muito próximos, as dissertações assentes cia, a categoria “outros” (13,6%), em que se incluí-
numa abordagem que designámos de “hipermé- ram, quer os objectivos que não correspondiam aos
dia e flexibilidade cognitiva” (12,1%) e os estudos critérios considerados, quer as dissertações em que
que tiveram como base uma abordagem “cognitiva mais do que um desses objectivos seriam visados.
e construtivista” (11,4%). Curiosamente, ou talvez Somente 15 teses (7,0%) referem explicitamente o
não, foi insignificante o número de estudos basea- objectivo de “resolução de problemas” e apenas
dos explicitamente, quer na perspectiva behavioris- numa das dissertações (0,5%) é visível a intenção de
ta, quer na abordagem sistémica, o que de alguma “explicação” dos fenómenos estudados.
maneira poderá ter a ver também com alguma infle-
xão de paradigma a que alguns autores se referem Quadro 13
(Coutinho, 2000b, 2005; Pereira, 1993) no sentido Objectivos de Investigação
Distribuição de frequências e percentagens
da compreensão dos fenómenos educativos à luz de
abordagens mais actuais e em maior sintonia com Freq. %
OBJECTIvOS DE InvESTIGAçãO
Explicação 1 0,5
os desafios que as tecnologias digitais e em rede
Compreensão 168 78,9
vieram trazer ao processo de ensinar e aprender.
Resolução de Problemas 15 7,0
Outros 29 13,6
Principais metodologias utilizadas Total 213 100,0
Embora as metodologias utilizadas numa determi-
nada investigação devessem resultar sobretudo do
que se pretende estudar e dos propósitos visados, De referir ainda que o cenário acabado de traçar
nem sempre a selecção e adopção de procedimen- acontece de forma clara em todas as universidades
tos metodológicos, como o estabelecimento do onde as dissertações foram realizadas.
plano de investigação ou a selecção de técnicas de
Plano metodológico
recolha e análise de dados, são determinados ex-
clusivamente pela análise aprofundada do que é o visando perceber como se situam as dissertações
no que se refere ao design metodológico, verificou-
mais adequado e mais consistente, do ponto de vis-
ta epistemológico, com a especificidade do objecto se um claro predomínio dos planos “não experi-
de estudo. São muitas vezes, pelo contrário, outros mentais”, com 78,7% do total dos estudos efectua-
factores de carácter mais circunstancial, que aca- dos (140 dissertações), sobre os planos organizados
bam por condicionar, quer o design da investigação, segundo uma lógica mais “experimental”, com ape-
quer a instrumentação utilizada. no caso concreto nas 34 dissertações (19,1%), e sobre planos “mis-
das dissertações de mestrado, muitas serão essas tos”, com apenas 4 estudos (ver Quadro 14 – Plano
contingências, pelo que os resultados a que chegá- Metodológico).
18 sísifo 3 | fernando albuquerque costa | tecnologias educativas: análise das dissertações de mestr ado
Quadro 14 notas pessoais…), com 57,8% do total de estudos
Plano Metodológico em que essa informação é fornecida, sobre as téc-
Distribuição de frequências e percentagens nicas ditas “estatísticas”, em apenas 31,3% desses
estudos. À semelhança do que se observou no pon-
Freq. %
PLAnO METODOLÓGICO
Experimental 34 19,1 to anterior, também aqui são identificadas disserta-
não Experimental 140 78,7
ções em que são usadas técnicas “mistas” (10,9%).
Misto 4 2,2
Total 178 100,0
Quadro 16
Técnicas utilizadas
Relativamente ao desenho metodológico pro-
Distribuição de frequências e percentagens
priamente dito, os resultados permitem concluir,
Freq. %
TÉCnICAS
por outro lado, que os métodos “não experimen-
Análise Estatística 46 31,3
tais” são a preferência em todas as universidades Observação, entrevistas não
85 57,8
sendo que, apenas na Universidade do Minho, tem estruturadas, registos…
Mistas 16 10,9
também alguma expressão os planos “experimen-
Total 147 100,0
tais”.
Apenas na Universidade do Minho é saliente
Tipo de dados
a preferência por técnicas “estatísticas” (25,85%),
De alguma maneira em sintonia com os resultados
muito embora as técnicas “não estatísticas” tam-
anteriores, é possível observar no Quadro 15 (Tipo
bém sejam aí usadas de forma relevante (14,97%).
de Análise) a preferência da maior parte das dis-
A opção por técnicas “não estatísticas” é claramen-
sertações por uma análise de dados de tipo “qua-
te a opção da Universidade de Lisboa (27,21%), da
litativo” (56,0%), em detrimento de uma análise
Universidade Aberta (8,84%) e também das disser-
“quantitativa”, utilizada em apenas 45 dissertações,
tações realizadas na Universidade nova (4,08%).
ou seja, 30,0% do conjunto dos casos em que é dada
explicitamente esta informação.
Amplitude da amostra
Sobre a amplitude das amostras estudadas, o Qua-
Quadro 15
dro 17 (Amplitude da Amostra) mostra que em
Tipo de Análise
68,0% das dissertações em que essa informação é
Distribuição de frequências e percentagens
explícita, incidiram, como talvez fosse de esperar,
Freq. %
TIPO DE AnÁLISE
em estudos de pequena dimensão (amostra “mi-
Quantitativa 45 30,0
cro”). Apenas 28,4% se enquadram em estudos já
Qualitativa 84 56,0
Mista 21 14,0 com amplitude assinalável ( “meso”) e 3,6% em estu-
Total 150 100,0 dos com amostra de grande amplitude ( “macro”).
numa pequena percentagem desses estudos Quadro 17
(14,0%) são utilizadas combinações de ambos os ti- Amplitude da Amostra
pos de análise (análise “mista”). A opção por dados Distribuição de frequências e percentagens
qualitativos é clara, por sua vez, em todas as uni- Freq. %
AMOSTRA
versidades em cujas dissertações foi possível apurar Macro 7 3,6
essa informação. Meso 55 28,4
Micro 132 68,0
Total 194 100,0
Técnicas utilizadas
Com base nos resultados apresentados no Quadro
neste critério particular, a opção é claramente
16 (Técnicas Utilizadas), é possível verificar, ain-
por amostras de fraca amplitude em todas as uni-
da em sintonia com os resultados anteriores, o pre-
versidades, muito embora se encontre também uma
domínio das técnicas de recolha de dados “não esta-
percentagem de dissertações com amostras relati-
tísticas” (observação, entrevistas não estruturadas,
19
sísifo 3 | fernando albuquerque costa | tecnologias educativas: análise das dissertações de mestr ado
vamente maiores nos casos da Universidade do Mi- e desenvolvimento de materiais assumem a segun-
nho (14,95%) e na Universidade de Lisboa (6,19%). da linha no que às finalidades da investigação diz
respeito.
Em termos de enquadramento teórico, dife-
SÍnTESE E PERSPECTIvAS rentes sinais parecem apontar no sentido do que
alguns designam de inflexão paradigmática em
Tentando dar relevo aos aspectos mais salientes direcção à utilização de abordagens mais actuais
da investigação científica aqui analisada, termina- e mais ajustadas às novas formas de equacionar a
remos recuperando algumas das linhas-força ante- aprendizagem e ao que as políticas educativas têm
riormente apresentadas, e que, de alguma maneira, vindo a incorporar no currículo oficial, isto é, o
poderão constituir uma sistematização das prin- aluno enquanto agente activo na construção da suas
cipais tendências do que se investiga em Portugal aprendizagens, aprendizagens que são socialmente
neste domínio ao nível de Mestrado. construídas, etc.. Inflexão também em direcção a
À semelhança do que se passa a nível interna- uma maior atenção, não às tecnologias em si mes-
cional nos últimos anos, é de realçar, em primeiro mo, mas na sua relação directa com o próprio pro-
lugar, a deslocação do interesse pelo estudo de te- cesso de aprender e ensinar, com o que isso implica
mas relacionados com os audiovisuais, para o estu- em termos de abertura e mobilização de outros sa-
do de temas mais directamente relacionados com as beres, conferindo-lhe uma dimensão interdiscipli-
“novas” tecnologias de informação e comunicação, nar e envolvendo áreas científicas de importância
isto é, as tecnologias digitais. Enquanto objecto de vital e tradicionalmente não consideradas, como
estudo em si mesmo (estudos com pendor tecnoló- por exemplo o Currículo, a Avaliação ou a própria
gico), mas também, ainda que com menor incidên- Formação de Professores.
cia, na sua relação directa com os actores, contextos Por último, pode falar-se também de inflexão ao
e objectivos de aprendizagem (estudos de pendor nível das metodologias (inflexão metodológica) uma
pedagógico). vez que parece ser evidente um claro afastamento
É de salientar, por outro lado, a pouca atenção dos métodos clássicos tradicionalmente preferidos
dedicada aos contextos de formação (formação ini- (o método experimental, os estudos correlacionais,
cial e formação contínua) e aos modos de prepa- a comparação de meios…), como alguns autores já
ração dos profissionais (professores, educadores, haviam referenciado, e que se torna transparente
formadores) para a integração das tecnologias nas na tendência para a utilização de desenhos de in-
suas práticas. vestigação “não-experimentais”, na preferência por
Ainda que as universidades possam ter linhas técnicas de recolha de dados “não-estatísticas” e na
de investigação com temáticas e abordagens pre- opção por dados de natureza qualitativa.
feridas, e isso possa de alguma maneira influen- Em síntese, pode dizer-se que a investigação
ciar o que é estudado ao nível das dissertações, é aqui realizada representa uma parte relevante da
o contexto escolar e são as questões ou os proble- investigação desenvolvida em Portugal nas duas
mas concretos do real que motivam os seus auto- últimas décadas. A elevada procura de pós-gradua-
res, na maioria professores, como se viu, e visando ções nas universidades a partir dos anos noventa e,
sobretudo analisar e compreender os fenómenos, em especial, neste domínio específico, correspon-
situações ou contextos observados. não é, pois, o dendo, aliás, ao forte apelo das novas tecnologias
propósito de intervenção a mobilizar em primeira e do seu potencial para uso em Educação, é talvez
instância o interesse destes professores investiga- uma das principais características desse período e
dores, até porque, como facilmente se compreende, acaba por determinar o que é investigado em Portu-
não seria muito fácil fazê-lo para além da sua esfera gal neste domínio. Até porque, como vimos, são os
individual de acção. professores quem mais procura a realização de cur-
Emergindo também com algum significado, sos de mestrado, nomeadamente nesta área, muito
uma vez que representam um terço das disserta- embora nem sempre as suas motivações tenham a
ções analisadas, os estudos referentes à concepção ver directamente com o estudo da integração das
20 sísifo 3 | fernando albuquerque costa | tecnologias educativas: análise das dissertações de mestr ado
tecnologias no ensino, mas por razões ligadas ao estudos científicos nas práticas daqueles que, por
desenvolvimento da sua carreira profissional. razões diversificadas e sobretudo circunstanciais,
Tendo crescido, em algumas universidades, a tiveram oportunidade de utilizar, para fins educa-
oferta de cursos de mestrado directamente relacio- tivos, as tecnologias num determinado momento
nados com as tecnologias educativas, a tendência disponíveis.
observada nos últimos quinze anos foi a de aumen- Embora o suporte científico e metodológico à
to significativo também ao nível da procura. Po- introdução das tecnologias em contexto educativo
dendo constituir, em si mesmo, um bom indicador assuma, à primeira vista, uma importância vital,
da quantidade da investigação realizada, esse facto podendo esperar-se, como acontece noutras áreas
pouco nos diz, no entanto, sobre o contributo di- do conhecimento, que a investigação precedesse
recto da investigação ao nível das práticas educa- as práticas dos profissionais respectivos, nas tec-
tivas, nomeadamente em termos de esclarecimento nologias educativas parece acontecer o inverso.
sobre modos de utilização das tecnologias, sobre As tecnologias chegam às escolas, são utilizadas,
as suas implicações na organização dos contextos, geralmente por professores mais sensíveis à sua in-
sobre o impacto na aprendizagem, para apenas refe- tegração no processo de ensino e aprendizagem, e
rimos alguns aspectos cruciais e sobre os quais não só muito tempo depois surge (quando surge) uma
há informação sistemática. eventual reflexão sobre os seus eventuais benefícios
não deixará de representar, de qualquer modo, para a aprendizagem. Uma reflexão dependendo,
um contributo importante, pelo menos ao nível dos na maior parte das vezes, de factores circunstan-
professores que as realizaram, pela massa crítica ciais (como é o caso da própria realização dos estu-
emergente e pelo impacto que a sua acção possa vir dos para obtenção de grau de mestre) e apenas es-
a ter, num futuro próximo, por exemplo, no seio das poradicamente enquadrada num qualquer projecto
escolas em que trabalham. Tal como tivemos opor- ou linha de investigação mais abrangente, visando
tunidade de questionar anteriormente, poderá ser equacionar novas formas de ensino e aprendizagem
um impacto de sinal positivo, pelo menos se esse com tecnologias e proporcionar apoio concreto a
capital for devidamente considerado e enquadrado diferentes tipos de usos e práticas dessas mesmas
em projectos de intervenção estruturados e conve- tecnologias.
nientemente suportados, por exemplo, ao nível dos Um aspecto de capital importância, sobretudo
projectos educativos dessas mesmas escolas. no que às novas tecnologias diz respeito, não só pe-
A pouca investigação realizada fora do contex- los desafios que constituem (podem constituir!) em
to académico e a ausência de estudos de avaliação termos de inovação das concepções e práticas de
sistemáticos sobre a introdução das tecnologias na ensino e aprendizagem, mas também pela necessi-
Escola são duas características que também po- dade de acompanhar de forma rigorosa e sistemáti-
demos associar ao segundo período considerado ca a sua implementação, ou de avaliar o seu impacto
e que, em sintonia com a tendência internacional, e respectivos efeitos aos mais diferentes níveis do
nos fazem supor o fraco peso dos resultados dos quotidiano escolar.
21
sísifo 3 | fernando albuquerque costa | tecnologias educativas: análise das dissertações de mestr ado
notas 6. Esta constatação parece estar de acordo com
os resultados observados a propósito do “tema cen-
1. Xv Colóquio da Secção Portuguesa da tral” em que o interesse pela vertente mais tecnoló-
AFIRSE – Association Francophone Internationale gica assumia uma relevância de destaque, atingindo
de Recherche en Sciences de l’Education (Lisboa, uma percentagem de 58,9% dos estudos quando
Fevereiro de 2006). considerados em conjunto as “tecnologias de infor-
2. “There are literally hundreds if not thousands mação” mais os “audiovisuais” (de referir que o con-
of studies that keep repeating this horse-racing para- junto dos temas não relacionados directamente com
digm, a paradigm that has been condemned and as “tecnologias” – “ensino e aprendizagem” e “for-
sentenced to death years ago when discovery lear- mação de professores” – representam um valor de
ning, educational television, and CAI were compa- apenas 30,6% dos casos).
red with their traditional competitors” (Salomon,
2000). no fundo é como se se pretendesse medir
um determinado objecto e não se dispusesse de uma Referências bibliográficas
unidade medida válida, uma vez que não fora cons-
Abrantes, J. C. (1981). Tecnologia Educativa. In
truída tendo em atenção a natureza e as característi-
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maneira relacionada com a área das Tecnologias
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and education reform : roles for the Office of Edu-
tempo útil, aceder às respectivas bibliotecas e cen-
cational Research and Improvement. Washing-
tros de documentação. Temos conhecimento de que
fazem parte deste grupo, entre outras, as Universi- ton, D.C.: national Academy Press.
dade de Coimbra, Porto e Algarve, muito embora Blanco, E. & Silva, B. (1993). Tecnologia educati-
os valores não sejam significativos até pela inexis- va em Portugal: conceito, origens, evolução, áre-
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tência, nessas Universidades, de cursos de mestrado
guesa de Educação - CIEd, 6, 3, pp. 37-55.
nesta área específica.
4. Apenas de justificará não incluir a Universi- Brett, A.; Lee, O. & Sorhaindo, L. (1997). Effect
dade Aberta pela natureza marcadamente diferente of Field-Based Technology Laboratory on Pre-
das restantes universidades, pelos menos no que se service Teachers’ Knowledge, Attitudes, and In-
fusion of Technology. Florida Journal of Edu-
refere aos meios que utiliza para cumprir a sua mis-
cational Research, 37, 1, pp. 1-16.
são, mas, neste caso concreto, somente como forma
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de Especialização em Tecnologia Educativa. Re-
na Universidade do Minho no ano lectivo de 1991/92
sumo das Dissertações da 1ª Edição do Curso.
(Chaves, 1998), embora nessa Universidade já exis-
tisse há algum tempo uma especialização em “Infor- Costa, F. & Peralta, H. (2006). Primary teachers’
mática no Ensino” (desde 1987). no ano lectivo de competence and confidence. Level regarding
the use of ICT. In ED-MEDIA - World Confe-
1991/92 é também iniciado um curso de Mestrado
rence on Educational Multimedia, Hypermedia
na Universidade Aberta, este sobre Comunicação
& Telecommunications. Orlando.
Multimédia.
22 sísifo 3 | fernando albuquerque costa | tecnologias educativas: análise das dissertações de mestr ado
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Rentabilizar a Internet
no Ensino Básico e Secundário:
dos Recursos e Ferramentas Online aos LMS
Ana Amélia Amorim Carvalho
aac@iep.uminho.pt
Universidade do Minho
Resumo:
O acesso à Internet nas escolas, o equipamento das salas de informática e a iniciativa
“Escola, Professores e Computadores Portáteis” criaram as condições tecnológicas para
que professores e alunos possam usufruir da diversidade de informação online, da comu-
nicação, da colaboração e partilha com outros, a que se acresce a facilidade de publicação
online. A integração dos serviços da Internet nas práticas lectivas com um propósito de-
finido de carácter disciplinar e transdisciplinar pode proporcionar um enriquecimento
temático, social e digital para os agentes envolvidos e sobre ela nos vamos debruçar na
segunda parte deste artigo.
Começaremos por salientar o emergir da economia do conhecimento em rede, enquanto
extensão cognitiva. Desta realidade, ressalta a necessidade de conectividade e a importân-
cia do conectivismo, imprescindível ao ser humano do século XXI e que abordamos na
segunda parte.
na terceira parte, incidimos sobre as vantagens da utilização de LMS (Learning Ma-
nagement Systems), como o Moodle, no apoio ao ensino presencial para o professor e os
alunos. Abordamos também as suas implicações ao nível de suporte ao aluno e de inte-
racção online, que conduz os agentes educativos de uma situação de ensino presencial
para o ensino misto: blended-learning.
Por fim, concluímos advertindo para a importância de se começar a utilizar os recur-
sos e as ferramentas online, para se evoluir para um ambiente que é familiar aos alunos e
através do qual podem aprender crítica e colaborativamente.
Palavras-Chave:
Colaboração, Comunicação, Conectivismo, LMS, Pesquisa, Publicação online.
Carvalho, Ana Amélia Amorim (2007). Rentabilizar a Internet no Ensino Básico e Secundário: dos
Recursos e Ferramentas Online aos LMS. Sísifo. Revista de Ciências da Educação, 03, pp. 25-40.
Consultado em [mês, ano] em http://sisifo.fpce.ul.pt
25
InTRODUçãO da Web se encontram, potencialmente, ao mesmo
nível: “uma criança encontra-se aí em pé de igual-
Termos como Internet e WWW (World Wide Web) dade com uma multinacional” (Lévy, 2000, p. 154).
enraizaram-se no vocabulário quotidiano e na vi- É, pois, imperioso preparar as gerações para esta
vência de cada cidadão, como comprova a expres- nova forma de estar, onde todos são consumidores
são “a Internet é o tecido das nossas vidas” (Cas- e produtores e onde as capacidades de pesquisar e
tells, 2004, p. 15). A Internet reflecte-se na reorga- de avaliar a qualidade da informação são críticas
(Carvalho, 2006; Carvalho et al., 2005).
nização das nossas vidas, no modo como comuni-
camos e como aprendemos. A sua importância é tão
Dentro de algumas dezenas de anos, o cibe-
marcante que Castells (2004) a compara, ao nível de
respaço, as comunidades virtuais, as suas reser-
impacto, à galáxia de Gutenberg, expressão criada
vas de imagens, as suas simulações interactivas,
por McLuhan (1962) para caracterizar o efeito da
o seu irreprimível aumento de volume de textos e
criação da imprensa por Gutenberg, propondo, por
analogia, a Galáxia Internet. sinais, será o mediador por excelência da inteli-
gência colectiva da humanidade. Com este novo
“não existe uma centralidade [na Internet], mas
sim uma nodalidade, baseada numa geometria re- suporte de informação e de comunicação emergem
géneros de conhecimentos extraordinários, crité-
ticular” (Castells, 2004, p. 267). Ela mantém-se
rios de avaliação inéditos para orientar o saber,
como uma rede aberta e como meio para aprender e
novos protagonistas na produção e tratamento dos
partilhar, suportando vários serviços.
conhecimentos. Toda a política de educação de-
A World Wide Web foi concebida com o intuito de
verá tê-lo em consideração (Lévy, 2000, p. 179).
ser um repositório do conhecimento humano, cons-
tituindo-se como espaço de partilha (Berners-Lee
et al., 1994), que cresce a um ritmo não imaginado. É nesta linha de preocupações que os Minis-
térios da Ciência e Tecnologia e da Educação têm
The World Wide Web (W3) was developed to be a promovido iniciativas várias que procuram fomen-
pool of human knowledge, which would allow collabo- tar a integração da Internet nas escolas. Em 2002,
rators in remote sites to share their ideas and all aspects o Ministério da Ciência e Tecnologia, em parceria
of a common project (Berners-Lee et al., 1994, p. 76). com a Fundação para a Computação Científica na-
cional (FCCn), as Escolas Superiores de Educação
Lévy (2001) clama da dimensão da Web “oceânica e algumas Universidades promoveu o Programa
e sem forma” (p. 154), para a qual todos os que nela Acompanhamento da Utilização Educativa da In-
publicam contribuem. Além disso, todos os autores ternet nas Escolas Públicas do 1º Ciclo do Ensino
26 sísifo 3 | ana amélia amorim carvalho | rentabilizar a internet no ensino básico e secundário
Básico, designado abreviadamente por Internet@ boa verdade, ela até pode reforçar abordagens cen-
EB1. Este programa teve continuidade no Projecto tradas no professor. no estudo realizado por Zhao
“Competências Básicas em TIC nas EB1”, da res- (2007), sobre a integração da tecnologia nas aulas,
ponsabilidade do Ministério da Educação através constatou-se que os professores usavam a tecnologia
da Equipa de Missão CRIE (Computadores, Re- num contínuo que vai de uma abordagem centrada
des e Internet nas Escolas), e, mais recentemente, no professor até uma abordagem centrada no aluno.
a “Iniciativa Escolas, Professores e Computadores A posição que defendemos dá particular ênfase
Portáteis”, em Março de 2006. Deste modo, muitas ao uso da Internet e dos seus serviços como meio
das escolas receberam computadores portáteis. Para para aprender, individual e colaborativamente, não
que estes equipamentos possam ser rentabilizados só através de pesquisa livre ou estruturada mas
e para que o potencial de aprendizagem através da também como meio para apresentar e partilhar
Internet possa ser aproveitado, é fundamental não o trabalho realizado à turma e a todos os que lhe
descuidar a formação dos professores. queiram aceder online.
A formação tem que incidir não só sobre a uti- neste artigo, começamos por abordar o emergir
lização da tecnologia mas também sobre a sua in- da economia do conhecimento em rede, alertando
tegração pedagógica na sala de aula. Para além da para as suas implicações na forma como depen-
contextualização teórica, os professores devem ser demos das conexões que estabelecemos na rede
confrontados com exemplos concretos de aplicação para uma permanente actualização. Assim, aliada
nas suas áreas disciplinares para que possam ver à necessidade de conectividade, impõe-se um novo
como integrar os recursos e as ferramentas, como conceito: conectivismo.
dinamizar a sua exploração, que papel desempe- Deste emergir da economia do conhecimen-
nhar na aula. Zhao (2007) salienta que o saber que to em rede, novas capacidades são exigidas como
o professor detém sobre a tecnologia e a sua experi- pesquisar, seleccionar e citar; cooperar e colaborar
ência em usá-la são factores críticos para a aprendi- presencialmente e online; e, ainda, publicar e par-
zagem bem sucedida dos alunos com a tecnologia. tilhar online. A diversidade de informação online
Com a rapidez de evolução do conhecimento, a bem como de actividades orientadas para a pesqui-
educação deve dar prioridade à “aquisição da capa- sa, de exercícios de correcção automática, de simu-
cidade intelectual necessária para aprender a apren- lações, de jogos, entre outros, constituem recursos
der durante toda a vida, obtendo informação arma- a integrar nas práticas lectivas. Por outro lado, a
zenada digitalmente, recombinando-a e utilizando- capacidade de colaboração é um requisito cada vez
a para produzir conhecimentos para o objectivo de- mais procurado, que compete ao professor dinami-
sejado em cada momento” (Castells, 2004, p. 320). zar nas aulas, ajudando os alunos a distinguir cola-
Para isso, o professor tem um novo papel a desem- boração de cooperação.
penhar: o de facilitador da aprendizagem, apoiando Por fim, focaremos as vantagens e limitações de
o aluno na sua construção individual e colaborativa um LMS (Learning Management System), como o
do conhecimento; proporcionando-lhe autonomia Moodle, plataforma de apoio à aprendizagem no
na aprendizagem, incentivando ao desenvolvimen- ensino presencial. Perante o elevado número de
to de pensamento crítico, à capacidade de toma- endereços de escolas portuguesas no site oficial
da de decisão e à aprendizagem de nível elevado1. do Moodle, provavelmente resultante do projecto
Por vezes, associa-se o professor que usa a tec- “moodle.edu.pt”, urge investigar sobre a utilização
nologia a um professor inovador, que rege as suas real e pedagógica da plataforma.
aulas seguindo uma abordagem construtivista.
Gostaríamos de alertar para o facto de que a utili- O EMERGIR DA ECOnOMIA
zação da tecnologia não é garantia, por si só, de um DO COnHECIMEnTO EM REDE
determinado tipo de abordagem – mais directiva,
centrada no professor ou mais centrada no aluno, O dualismo da sociedade do conhecimento e da
mais construtivista – ou do tipo de organização da economia do conhecimento estão relacionados,
turma, em trabalho individual ou colaborativo. Em como refere Peters (2007). As ideias de uma econo-
27
sísifo 3 | ana amélia amorim carvalho | rentabilizar a internet no ensino básico e secundário
mia associada à rede surgem nos anos 70, altura em do “social bookmarking”, como o Del.icio.us, e do
que Roland Artle, Christian Averous, Lyn Squire “social networking”, como a Elgg, que integra blog,
e Jeffrey Rohlfs demonstraram a possibilidade de arquivos e a categorização por etiquetas (“tags”).
um mercado alternativo. nos anos 90, verificaram-
se mudanças globais nas indústrias da informação, Além disso, a tecnologia RSS (Really Simple
seguindo-se a liberalização das telecomunicações Syndication) permite subscrever uma ligação à pá-
(idem). Burke (2002), referindo-se à segunda vaga gina2, recebendo o utilizador uma notificação de
da sociologia do conhecimento, menciona, entre cada vez que a página é alterada.
vários aspectos, que esta difere da primeira por se Devido à facilidade de acesso criada pela rede,
ter verificado uma mudança da aquisição e trans- uma nova abordagem vem ganhando terreno, a co-
missão do conhecimento para a sua construção ou nectividade, que exige aos professores e aos alunos
produção e por os detentores do conhecimento não a capacidade de lidarem com o conhecimento na
serem mais uma classe ou elite (apud Peters, 2007). rede. Com o conhecimento na Internet, segundo
O número de sites e páginas na Web cresce dia- Albion e Maddux (2007), emergem três pilares: di-
riamente. O conhecimento que se vai construindo reitos de autor e plágio, desenvolvimento de capaci-
duplica de 18 em 18 meses, segundo a American So- dades e competências para colaboração efectiva e a
ciety of Training and Documentation (ASTD apud avaliação do aluno. Sobre este último ponto, os au-
Siemens, 2005). A ênfase deixa de ser no acumular tores defendem que se o conhecimento está na rede,
conhecimento mas na capacidade de o seleccionar, a avaliação também se deve reflectir na rede.
transformar e de o reutilizar em novas situações. Monereo (2005) também reconhece que a Inter-
Para facilitar o acesso a informação similar ou re- net se tornou uma extensão cognitiva e um meio de
lacionada, Berners-Lee e o World Wide Web Con- socialização de grande magnitude, particularmen-
sortium (W3C) publicaram as especificações para te, para os jovens. O autor identifica quatro com-
a Web semântica, a nova geração Web, indicando petências sócio-cognitivas que podem e devem ser
as suas funcionalidades. O W3C pretende criar um rentabilizadas na Internet: aprender a procurar in-
meio universal para troca de informação, associando formação, aprender a comunicar, aprender a cola-
aos documentos descrições do seu significado para borar e aprender a participar na sociedade.
serem mais facilmente pesquisados e localizados. As oportunidades na rede são inúmeras para
professores e alunos desenvolverem uma aprendi-
The Semantic Web provides a common framework zagem autêntica.
that allows data to be shared and reused across ap- A diversidade de recursos é grande, implicando
plication, enterprise, and community boundaries. It tempo de pesquisa e de exploração. Para todas as
is a collaborative effort led by W3C with participa- disciplinas há conteúdos, actividades com correc-
tion from a large number of researchers and indus- ção automática, simulações e jogos.
trial partners (W3C, 2007, s.p.). O exemplo que se segue mostra como os alunos
podem ser envolvidos na aprendizagem e no ensi-
O’ Reilly (2005) propôs o conceito de Web 2.0, no de conteúdos, rentabilizando-se os recursos da
que consiste na conceptualização de uma nova gera- Web, partilhando-se o conhecimento, fomentando-
ção de aplicações na Web. A Web é vista como uma se a aquisição de competências tecnológicas pelos
plataforma em que tudo está acessível. As pessoas alunos. O autor reporta que também os resultados
deixam de precisar de ter o software no seu compu- obtidos nos testes foram superiores aos obtidos
tador porque ele está disponível online, facilitando numa abordagem tradicional.
a edição e publicação imediatas, como a Wikipe-
Instead of lecturing, the participant [teacher] di-
dia, o wiki, o podcast, o blog. É um novo patamar
vided students into small groups. Each group explo-
de interacção que facilita a colaboração e a partilha
red a different revolution, created a PowerPoint pre-
de informação, como acontece com o hi5, o mys-
sentation with pictures from the Internet, and then
pace, para mencionar alguns dos tipos de software
taught the class about their topic. Then, each group
social. Bryant (2006) salienta também a utilidade
28 sísifo 3 | ana amélia amorim carvalho | rentabilizar a internet no ensino básico e secundário
created test questions (…) and the teacher drew from - a aprendizagem é um processo de conexão de
their test questions to create a (…) test for the class to nós especializados ou fontes de informação;
take. Further, all students used Inspiration to create - a aprendizagem pode estar em aplicativos não
a web of the wars and Timeliner program to make a humanos;
timeline of the major war events (Zhao, 2007, p. 325). - a capacidade para conhecer mais é mais crítica
do que o que é conhecido;
- criar e manter conexões é necessário para faci-
COnECTIvIDADE E COnECTIvISMO litar uma aprendizagem contínua;
- a capacidade para identificar conexões entre
A conectividade caracteriza o estar do sujeito na áreas, ideias e conceitos é crucial;
rede. É uma capacidade imprescindível na eco- - actualização é a intenção de todas as activida-
nomia do conhecimento. Saber o que conectar, a des de aprendizagem conectivistas;
que conectar, passou a ser uma capacidade basilar, - a tomada de decisão é em si um processo de
perspectivada por vários autores. aprendizagem: escolher o que aprender e prever as
Por exemplo, Castells (2004, p. 76) reforça a co- consequências da nova informação no real que vai
nectividade através de um epíteto mencionando a ser alterado (idem).
“conectividade autodirigida, ou seja, a capacidade
de qualquer pessoa para encontrar o seu próprio Considerar o conectivismo uma teoria de apren-
destino na Rede e, se não o encontrar, para criar e dizagem, tal como está caracterizada por Siemens
publicar a sua própria informação, suscitando as- (2005), parece-nos infundado embora reconheça-
sim a criação de uma nova Rede”. Salvat (2003), ao mos a importância que a conectividade tem na era
enumerar dez aspectos que caracterizam a geração digital. A caracterização que o autor faz sobre a im-
digital em situações de ensino-aprendizagem, indi- portância das conexões na aprendizagem está bem
ca a conectividade, referindo que oferece oportuni- conseguida. Como refere o autor, as conexões que
dades variadas para aceder à informação e às rela- nos permitem aprender mais são mais importantes
ções sociais, concluindo que: “Por este motivo, esta do que o nosso estado actual de conhecimento.
nueva generación tiende a pensar de forma diferen-
Learning (defined as actionable knowledge) can
te cuando se enfrenta um problema y las formas de
reside outside of ourselves (within an organization
acceso, búsqueda de información y comunicación
or a database), is focused on connecting specialized
se realizan a partir del uso de las TIC” (s.p.).
information sets, and the connections that enable us
Siemens (2005) reconhece a importância da co-
to learn more are more important than our current
nectividade, referindo que “we derive our compe-
state of knowing (Siemens, 2005, s.p.).
tence from forming connections”. Salienta não só
a importância de estabelecer conexões entre fontes
de informação mas também criar padrões úteis de O conectivismo assenta no facto de que as de-
informação. Conexões entre ideias e áreas díspares cisões a tomar se baseiam em informações que
podem originar inovações. também estão em constante mudança. Daí que
O autor salienta que as teorias de aprendizagem, distinguir entre informação importante e muito im-
como behaviorismo, cognitivismo e construtivis- portante seja vital. Do mesmo modo, a capacidade
mo, não exploram o impacto das tecnologias e das de reconhecer quando uma nova informação vem
redes na aprendizagem, propondo uma teoria de alterar o estado das decisões tomadas torna-se tam-
aprendizagem para a era digital: o conectivismo. bém crítico, particularmente para as organizações.
Siemens (2005) menciona que o conectivismo inte- O autor salienta que o indivíduo e as organizações
gra os princípios das teorias do caos, da rede, da são organismos aprendentes (Siemens, 2005).
complexidade e da auto-organização. Considera os Uma das capacidades a desenvolver nesta era
seguintes sete princípios do conectivismo: consiste em reconhecer a importância de aprender,
- a aprendizagem e o conhecimento baseiam-se devendo o sujeito estar sensível à mudança resul-
na diversidade de opiniões; tante de novas informações.
29
sísifo 3 | ana amélia amorim carvalho | rentabilizar a internet no ensino básico e secundário
nA SEnDA DA PESQUISA: reagem positivamente envolvendo-se nas tarefas
SELECCIOnAR, CITAR E PLAGIAR solicitadas (Cruz, 2006; Cruz & Carvalho, 2005;
Guimarães, 2005; Martins, 2007).
Há 30 anos atrás, o acesso à informação era sobre- A Caça ao Tesouro apresenta uma introdução
tudo possível nas bibliotecas, onde se encontravam temática, questões várias sobre a temática, prefe-
livros e artigos recentes. Actualmente, tudo, ou rencialmente num crescendo de dificuldade, apre-
quase tudo, está na Web. Mesmo que determinado sentando apontadores para sites e termina com uma
texto não esteja disponível, pelo menos tem-se aces- questão aglutinadora de todas as questões coloca-
so à sua referência, podendo o utilizador proceder das, designada como a grande questão ou questão
à sua encomenda. nos últimos anos, a política de final (cf. exemplo sobre Albert Einstein3). A Web-
Open Access tem contrariado o modo de proceder Quest é mais complexa e é constituída por cinco
tradicional de algumas revistas científicas, fazendo componentes: introdução, tarefa, processo, avalia-
com que o acesso fique aberto a todos, gratuita- ção e conclusão (cf. Carvalho, 2002). O conceito
mente, mas mantendo os critérios de avaliação dos foi criado em 1995 por Bernie Dodge e Tom March
artigos por peritos na área. (Dodge, 1995), tendo por objectivo tirar partido dos
Deste modo se compreende, como referem Al- recursos existentes online e motivar os professores
bion e Maddux (2007), que mais do que o acesso a usar a tecnologia. Dodge (2002) considera a tarefa,
à informação o desafio está, agora, sobretudo na a componente mais importante da WebQuest, ten-
selecção da informação. Esta ideia é tanto mais im- do proposto doze tipos de tarefas – a “WebQuest
portante quanto a publicação online não é neces- Taskonomy”. Para grande surpresa sua, muitas das
sariamente sujeita a qualquer avaliação prévia da WebQuests que existem não são verdadeiras Web-
sua qualidade, como acontece, normalmente numa Quests, porque se limitam a solicitar a reprodução
editora. Por outro lado, com a Web 2.0 (O’Reilly, da informação encontrada nos sites (Dodge, 2006).
2005) a facilidade de publicação online veio alargar O processo constitui, em nossa opinião, uma com-
o espectro de possíveis autores. Assim, saber pes- ponente essencial na orientação do trabalho dos
quisar e avaliar a qualidade da informação encon- alunos. Eles recebem em cada etapa informação
trada passaram a ser dois requisitos complementa- sobre o que fazer, a que sites aceder, como apresen-
res de grande importância. É necessário orientar tar determinada informação. Por estes motivos, a
os alunos na avaliação da informação encontrada, WebQuest torna-se auto-suficiente, promovendo a
ajudando-os a identificar parâmetros que os orien- autonomia dos sujeitos na aprendizagem.
tem nesse processo (Carvalho, 2006; Carvalho et Um outro aspecto que não pode ser descurado
al., 2005; Pinto, 2006). prende-se com a referência aos sites consultados,
Fomentar uma pesquisa livre, sem qualquer acautelando-se desse modo os direitos de autor e
orientação, numa aula, com alunos inexperientes, o plágio. Reutilizar recursos em diferentes contex-
trará mais inconvenientes do que vantagens. Com tos é uma forma de rentabilizar a informação dis-
esse tipo de abordagens já há alunos que associam ponível. Sensível a estes aspectos, muitos sites têm
a pesquisa na Internet a uma aula para brincadeira a permissão de reutilização dos “Creative Com-
na rede; uma oportunidade para fazerem o que lhes mons”4, no entanto, isso não dá o direito a omitir a
apetece. Por esses motivos, para além do tema geral referência da origem da informação.
de pesquisa devem também ser solicitados aspectos Embora o acesso seja livre, a referência deve
específicos, que não só permitem afunilar a pesqui- aparecer tão completa quanto possível, com a in-
sa como orientam a selecção da informação que os dicação do autor, do ano, do endereço electrónico
alunos têm de fazer. (URL) e da data de acesso. Ao abordar estes aspec-
Têm surgido actividades, como a Caça ao Te- tos é também imprescindível distinguir entre citar
souro e a WebQuest, que tiram partido dos recur- e plagiar. Muitos professores constatam plágios fre-
sos existentes na Web, disponibilizando apontado- quentes nos trabalhos e muitos deles não são por
res para os sites e orientando os alunos nas etapas desonestidade dos alunos, é mesmo por ignorância.
a seguir. Tem-se vindo a constatar que os alunos Aprender a analisar, a sintetizar e a reaplicar em di-
30 sísifo 3 | ana amélia amorim carvalho | rentabilizar a internet no ensino básico e secundário
ferentes contextos, torna-se imprescindível e pode ponsabilizando-se cada um por uma. Por esse moti-
ser, simultaneamente, uma forma de combater o vo, cabe aos professores alertarem os alunos sobre o
plágio. modo como devem trabalhar, proporcionando-lhes
orientações (Hathorn & Ingram, 2002; Johnson &
COMUnICAçãO, COOPERAçãO Johnson, 2000; March, 2003; Paulus, 2005).
E COLABORAçãO Os espaços online síncronos facilitam o diálogo
e a negociação, como as salas de conversação (MSn)
As competências sócio-cognitivas são cada vez e as ligações telefónicas online ou videoconferência
mais valorizadas e podem ser também desenvolvi- (Skype), por exemplo. Ferramentas de escrita par-
das através da Internet (Monereo, 2005). Cada vez tilhada, como o Wiki, facilitam a publicação online
se dá mais ênfase à colaboração, à dinâmica de gru- e a construção de conhecimento.
po, à auto-regulação e à capacidade de liderança.
O construtivismo social valoriza a negociação na
construção de sentido com os outros (Bonk & Cun- PUBLICAR E PARTILHAR OnLInE
ningham, 1998; Jonassen et al., 1995; von Glaser-
sfels, 1996). vygotsky (1978) também perspectiva Quando os alunos sabem que vão disponibilizar os
a aprendizagem como um processo social, desen- seus trabalhos na rede, fazem-no, por vezes, com
volvendo o conceito de zona de desenvolvimento maior satisfação e empenho, porque outros ciber-
próximo. Os sujeitos beneficiam da capacidade de nautas podem ver o que eles realizaram. Esse as-
um colega ou do apoio do professor que esteja num pecto é particularmente sentido quando recebem
nível mais desenvolvido e os possa ajudar a subir um comentário ao trabalho realizado, por exemplo,
mais um degrau no seu desenvolvimento. através de um blog (Cruz & Carvalho, 2006). Des-
Actividades como a WebQuest, a Caça ao Te- te modo, passam a produtores na Web (Eça, 1998),
souro, entre outras, assentam no trabalho em contribuindo para a massa oceânica que refere
grupo, implicando a interacção entre os alunos, a Lévy (2001).
negociação da aprendizagem em curso, a respon- Com as ferramentas da Web 2.0, a facilidade de
sabilização pelo trabalho a realizar. Estas activida- publicação é uma realidade. O professor, os cole-
des, geralmente, pretendem fomentar o trabalho gas e os próprios encarregados de educação podem
colaborativo, que implica a interacção constante acompanhar os trabalhos realizados. Os alunos po-
entre os sujeitos durante a realização das tarefas. dem usar as salas de informática da escola ou a bi-
no entanto, muitas vezes, verifica-se que o traba- blioteca para realizarem as suas publicações online.
lho passa a ser cooperativo. Embora haja diferentes Os mais afortunados, podem trabalhar em casa. Al-
definições (Dillenbourg, 1999; Gokhale, 1995; Jo- guns já têm substituído o caderno diário pelo wiki
ou pelo blog (Carvalho et al., 2006).
hnson & Johnson, 2000) e, mesmo, quem não dis-
tinga colaborativo de cooperativo, consideramos Ao levar os alunos a utilizarem as ferramentas
que os termos nos reportam a situações diferencia- gratuitas e de fácil publicação existentes na Web
das, tendo o termo cooperativo antecedido o termo está-se a contribuir para o desenvolvimento e pre-
colaborativo. Os dois termos partilham a ideia de paração de cidadãos aptos para a sociedade da in-
“trabalhar com”, mas a diferença reside no modo formação e do conhecimento. E, deste modo, esta-
como o processo se desenrola. mos a proporcionar condições para que os alunos
aprendam com a tecnologia, apoiando-os na “cons-
Como mencionam Henri e Rigault (1996), numa
abordagem cooperativa as tarefas são divididas pe- trução de significados” (Jonassen, 2007, p. 21).
los membros do grupo e são realizadas individual- O que se tem verificado em estudos realizados
mente, numa abordagem colaborativa as tarefas são neste âmbito, é que os alunos aprendem os conte-
realizadas por todos num contínuo de partilha, di- údos, aprendem a pesquisar, a avaliar a informação
álogo e negociação. Muitas vezes verifica-se que os encontrada, a sintetizar, a apresentar e a disponibi-
lizar online (Cruz et al., 2007; Moura & Carvalho,
alunos rapidamente optam por realizar o trabalho
de forma cooperativa, dividindo as tarefas e res- 2006). Eles sentem orgulho dos seus trabalhos.
31
sísifo 3 | ana amélia amorim carvalho | rentabilizar a internet no ensino básico e secundário
Os professores que criam os seus sites de apoio USAR UM LMS (LEARnInG MAnAGEMEnT
às disciplinas que leccionam, não só apresentam a SYSTEMS): vAnTAGEnS E LIMITAçõES
planificação das suas aulas, como as actividades a
desenvolver com apontadores para os sites a con- Os LMS (Learning Management Systems) – plata-
sultar, bem como a integração de ferramentas que formas de apoio à aprendizagem - surgiram para dar
podem ser usadas como colaborativas, como o apoio à formação a distância online. As plataformas
blog, podcast e o wiki, e ferramentas de comuni- facilitam a disponibilização de recursos em diferen-
cação como o fórum e chat (cf. Cruz, 2006; Moura, tes formatos como texto, vídeo e áudio, apontado-
2005). As actividades podem ser WebQuest, Caça res para sites, avisos aos alunos, interacção profes-
ao Tesouro, outras actividades de pesquisa orienta- sor-alunos através de ferramentas de comunicação,
da, exercícios no HotPotatoes, informações áudio ferramentas de apoio à aprendizagem colaborativa
no podcast, vídeos no YouTube, entre outros. e registo das actividades realizadas pelos alunos. O
Perante os trabalhos disponibilizados pelos alu- aluno, através de um LMS, tem uma posição favorá-
nos, por exemplo, no Blogger, no Goowy, no Po- vel face à aprendizagem porque, como refere Mason
domatic, o professor disponibiliza um comentário (2006), “the learner now decides when and where
a cada um. Os debates também ocorrem de forma to log on, how to work through the course mate-
assíncrona no fórum. Por vezes, os alunos solicitam rials, what resources to draw on, whom to work
apoio online, fora do tempo escolar, no chat. with collaboratively, when to contribute to discus-
Os encarregados de educação, como também sions, and so on” (p. 65).
vêem as tarefas a realizar e os produtos feitos pelos Os LMS passaram a ser utilizados em regime
seus educandos, bem como os comentários da pro- blended-learning, no apoio às sessões não presen-
fessora a cada trabalho disponibilizado, deixam de ciais, e também no apoio ao regime presencial no
ficar apreensivos e de encararem a Internet como ensino superior e mais recentemente nos diferentes
um momento de lazer nas aulas. níveis de ensino.
neste momento existe uma variedade ampla de O Ministério da Educação através da Equipa
ferramentas5 que os professores e os alunos podem de Missão CRIE proporcionou formação a muitos
usar e que têm a vantagem de serem gratuitas e de professores das escolas portuguesas através e sobre
a plataforma open source Moodle, de acordo com
fácil publicação online. A título de exemplo, indi-
camos: Blogger, WordPress (blog); Pbwiki, Wikis- o Quadro de Referência da Formação Contínua
paces (wiki), Podomatic (podcast: áudio e vídeo), de Professores na Área das TIC. Estas iniciativas
Google Docs & Spreadsheets (processador de texto ajudam a sensibilizar os professores para o uso das
e folha de cálculo), Goowy (portal pessoal), Bubbl, tecnologias, neste caso da plataforma. no entanto,
Glinkr (mapa de conceitos); Timeliner, Dandelife a formação só poderá ser profícua se for ajustada
(barra cronológica), Slideshare (partilha de apre- ao estado de conhecimentos prévios dos formandos
sentações), Flickr (partilha de fotos), Bubblesha- e das suas práticas lectivas. Algumas questões in-
re, Slidestory (partilha de fotos e de áudio); voki quietam-nos como: um professor que não usa nas
(apresentações em 3D); Jumpcut (criação de vídeo suas práticas o blog, o wiki, o chat, por exemplo,
a partir de imagens); Modulus (vídeo), Google ví- vai conseguir passar a usar essas ferramentas na
deo, DailyMotion e YouTube (partilha de vídeos), plataforma adoptada? Isto é, vai conseguir mudar
Google Agenda (calendário), Google Page Creator rapidamente as suas práticas? vai conseguir inte-
(páginas Web), SurveyMonkey (questionários on- riorizar as vantagens e as limitações de cada uma?
no que concerne à formação, Duarte et al. (2007)
line).
Ainda há muitos (alunos, professores e pessoas e valente e Moreira (2007) mostram-se críticos e
em geral) que só querem ver o que os outros fazem. preocupados. Alguns formadores também têm
Esses ainda estão numa fase de “voyeur”, têm que desabafado que embora tentem abordar aspectos
crescer e atingir a maturidade, passando a contri- pedagógicos relacionados com o uso da plataforma
buir para a Web. vêem-se questionados sobre as funcionalidades téc-
nicas da mesma. Por outro lado, Duarte et al. (2007)
32 sísifo 3 | ana amélia amorim carvalho | rentabilizar a internet no ensino básico e secundário
referem que “as questões relacionadas com a admi- gar, indicado sites, testes de escolha múltipla rea-
nistração de uma disciplina moodle, constituíram o lizados no Hot Potatoes, chat, portefólios e fóruns
centro das preocupações dos formadores, em de- que foram usados por alunos (n=42) de duas tur-
trimento das questões relacionadas com o trabalho mas de 10º ano de Biologia e Geologia.
de projecto e com a integração contextualizada das Lopes e Gomes (2007) descrevem uma experi-
TIC no quotidiano da escola e da sala de aula, com ência realizada de Abril a Junho de 2006 com uma
a natureza dos materiais de apoio disponibilizados turma de 15 alunos de Biologia e Geologia de 11º
e dos produtos esperados da formação” (p. 614). Os ano, que pretendeu envolver os alunos em activi-
autores alertam para o facto de que: “embora haja dades de pesquisa, partilha e interacção. As acti-
vantagens numa certa uniformização no softwa- vidades propostas nos espaços da disciplina foram
re utilizado [Moodle] parece-nos que também há “a realização de diários de bordo para registo de
algum perigo em que se confunda o produto, por aprendizagens, a participação em fóruns de dis-
muito bom que seja, com a classe de software a que cussão e a organização de pequenos portefólios de
pertence” (Duarte et al., 2007, p. 616). valente e aprendizagem” (p. 820).
Moreira (2007) retomam, de certa forma, esta pre- Flores e Flores (2007) descrevem a utilização
ocupação, mencionando terem “também algumas da Moodle no 1º ano do 1º Ciclo do Ensino Básico,
reservas sobre a eficácia da moda em que se tornou tendo criado um espaço para alunos, para profes-
ter uma instância Moodle na retaguarda de tudo o sores e outro para os encarregados de educação.
que se chame formação” (p. 798). Para os alunos foi disponibilizado “um repositório
Com base nas interacções registadas no CCUM transdisciplinar: Jogos On-line, Língua Portugue-
(Centro de Competência da Universidade do Mi- sa, Estudo do Meio, Matemática, Inglês e Expres-
nho), valente e Moreira (2007) concluem que a uti- são Plástica” (p. 496), que os pais podiam explorar
lização da “plataforma é mais a de repositório de com os filhos em casa. Dos 22 alunos da turma, “10
informação do que de local de construção de co- tinham computador e destes apenas 5 tinham In-
nhecimento atendendo à diferença abismal entre ternet. no entanto, o entusiasmo levou a que alguns
visualizações e edições” (p. 789). Tendo presente pais adquirissem computador e aderissem à Inter-
que houve o cuidado da formação de professores net“ (Flores & Flores, 2007, p. 498). Também no
em TIC, realizada em 2006, ter sido comum a nível estudo realizado por Cruz (2004) os pais reconhe-
nacional, seguindo um mesmo modelo de forma- ceram a pertinência de aceder à Internet e compra-
ção, com os mesmos materiais de suporte e tendo ram computador e o acesso à rede.
o Moodle como plataforma de trabalho, valente e
Moreira (2007, p. 789) questionam-se sobre se “a Facilidade em usar
plataforma estará a tornar-se mais uma moda do Se muitas das ferramentas que as plataformas dis-
que um factor de inovação inequívoco”, referindo ponibilizam (blog, wiki, chat, fórum, testes de cor-
a necessidade de analisar os relatórios de avaliação recção automática, portefólios, etc.) se encontram
da formação. A que acrescentamos que é preciso ir gratuitamente na Web, a questão que se coloca é,
às escolas para avaliar o impacto da formação. então, a seguinte: porque usar uma plataforma
Resultante dessa formação, começam a surgir quando posso agregar num site apontadores para
relatos de utilização da plataforma Moodle, como diferentes ferramentas, que eu, enquanto docente
os de Lacerda (2007), Lopes e Gomes (2007) e Flo- posso escolher?
res e Flores (2007), professores experientes no uso note-se que este problema de sentir a necessida-
das TIC. Lacerda (2007) refere que “esta platafor- de de determinada ferramenta é colocado aos for-
ma permite ao professor definir uma metodologia madores, como reportam valente e Moreira (2007),
de ensino e aprendizagem, organizando o espaço “a diversidade de acessórios que a plataforma traz
de interacção de acordo com uma dada intencio- tem-se mostrado insuficiente para satisfazer a ânsia
nalidade, promovendo a auto-aprendizagem com de inovação ou de novidade que muitos dos utili-
recurso a uma rede de colaboração” (p. 316), tendo zadores manifestam, levando à procura de novas
colocado ficheiros para consulta ou para descarre- funcionalidades” (p. 786).
33
sísifo 3 | ana amélia amorim carvalho | rentabilizar a internet no ensino básico e secundário
A resposta prende-se com o facto de que é mais Mesmo em caso de doença, do professor ou de
fácil usar uma plataforma, na qual já existem várias um aluno, o acompanhamento pode ser dado atra-
ferramentas, do que criar um site e disponibilizar vés da plataforma, desde que haja um computador
os apontadores para as diferentes ferramentas. no com ligação à Internet em casa.
entanto, há duas grandes limitações na utilização
de uma plataforma: por um lado, as funcionalida- E o futuro?
des específicas de cada plataforma, por outro lado, O futuro está em aberto. Tudo depende das opções
as funcionalidades que o administrador do sistema feitas ou a fazer, da necessidade sentida por cada
definiu como pertinentes e que podem ser limitati- um de alterar as práticas.
vas para o professor. numa plataforma, o adminis- não nos agrada a ideia da plataforma também
trador define as funcionalidades que disponibiliza aparecer com a função de site da escola, como acon-
e se não tiver sensibilidade para abordagens cola- tece em alguns casos. Se pode parecer uma forma
borativas, por exemplo, poderá não colocar aces- de familiarizar professores e alunos com o ambien-
síveis as ferramentas necessárias. Ou então, consi- te da plataforma, com a sua interface, pode também
dera que determinada ferramenta não tem interesse ter o reverso da medalha. Pode induzir em erro al-
para as suas aulas, esquecendo-se de que pode ser guns docentes, motivando-os a usá-la como reposi-
pertinente para outros professores. Esse é um dos tório de conteúdos. Ora se se designa de plataforma
motivos por que se podem encontrar plataformas de apoio à aprendizagem, ou como se tem vulgari-
Moodle com diferentes funcionalidades. zado, plataforma de aprendizagem, por que há-de
A facilidade em usar é reconhecida pelos uti- funcionar como portal da escola? Porquê desvirtu-
lizadores depois de uma introdução à plataforma, ar as suas funcionalidades?
como também reportam Cowan (2006), Carvalho não seria mais vantajoso ter o site da escola com
(2007), Lacerda (2007), entre outros. informação útil e pertinente para os encarregados
de educação, professores e alunos, como localiza-
Privacidade e segurança na Internet ção, contactos, conselho executivo, horários, ca-
Aceder a uma plataforma, normalmente, implica lendário escolar, horário de atendimento dos direc-
ter uma palavra passe. Por esse motivo, a informa- tores de turma, entre outros. nesse site deve haver
ção fica privada ao professor e aos seus alunos, po- um apontador para a plataforma adoptada. Deste
dendo estes constituir uma pequena comunidade modo, distingue-se a informação da escola dispo-
de aprendizagem. Em privado, partilham as dúvi- nível para os agentes educativos e a comunidade em
das, as descobertas, as reflexões. Professor e alunos geral, da plataforma de apoio à aprendizagem. Este
ficam protegidos da curiosidade alheia. na plata- ambiente de apoio à aprendizagem deve ser preser-
forma está salvaguardada a falta de segurança da vado para orientar, para questionar, para reflectir,
Internet. Privacidade e segurança ficam garantidas para aprender colaborativamente.
com a plataforma. não nos parece surpreendente que numa pri-
no entanto, como se está num espaço protegido, meira abordagem a plataforma possa ser usada
o da plataforma, também se perde o contacto com como repositório. É preciso um período de adapta-
outros interlocutores quer sejam colegas da mesma ção, até porque é mais simples disponibilizar con-
escola ou de outras escolas e que até gostariam de teúdos do que utilizar as outras ferramentas. Além
deixar um “post” no blog. Tudo são opções com as disso, é bastante útil para o professor e os alunos
suas vantagens e as suas limitações. disponibilizarem os recursos a consultar e a anali-
O apoio a dar aos alunos online de forma sín- sar. valente e Moreira (2007) também referem que a
crona ou assíncrona, sob a forma de comentários a plataforma está a ser mais usada como repositório,
fazer aos trabalhos ou às mensagens colocadas no como já mencionámos.
fórum, de esclarecimentos de dúvidas, muitas vezes Lopes e Gomes (2007, p. 819) relatam que das 17
tirando partido dos “emoticons”, ajuda a criar um disciplinas na plataforma da escola, 6 “disciplinas
espírito de partilha e de companheirismo na apren- disponibilizaram materiais educativos, mas sem
dizagem. qualquer actividade de interacção”, 6 “com mate-
34 sísifo 3 | ana amélia amorim carvalho | rentabilizar a internet no ensino básico e secundário
riais educativos e um fórum para apoio e orientação sores e os alunos sobre a utilização da plataforma?
dos alunos, mas sem actividades explícitas de inte- Que papel tem o Conselho Executivo na dinamiza-
racção” e só 5 “com dinamização de diversas acti- ção da plataforma na escola?
vidades de interacção e colaboração entre alunos e Estas são algumas das questões a que urge res-
entre estes e o professor na plataforma”, neste caso ponder para se compreender como está a ser utili-
“foram utilizadas várias estratégias e actividades de zada a plataforma, que já se pode designar de fenó-
interacção, desde a participação e colaboração em meno Moodle.
fóruns temáticos, a realização de portefólios digi-
tais de aprendizagem e, nalguns casos, a realização
de diários da aula e actividades de auto-avaliação COnCLUSãO
online” (ibidem). Os próprios alunos valorizaram
os recursos na plataforma quando inquiridos, sen- Ao longo deste artigo defendemos a utilização dos
do esses dados confirmados pelos acessos, como recursos que existem na Web e salientámos a ne-
referem os docentes: “do total de entradas no espa- cessidade de saber pesquisar, saber avaliar a infor-
ço virtual, cerca de 80% foi para aceder a recursos mação encontrada e saber referir as fontes correcta-
e apenas cerca de 15% para participar em alguma mente. É importante que os alunos saibam distin-
actividade de interacção” (Lopes & Gomes, 2007, guir citar de plagiar.
p. 821). Existe uma série de ferramentas gratuitas e dis-
Os alunos também demoram a adaptar-se a no- poníveis na Web que permitem a construção de
vas metodologias. Em outros estudos tem-se verifi- blogs, wikis, podcasts, mapas de conceitos, etc.,
cado a necessidade dos alunos confirmarem com o que despertam o interesse dos alunos e que os mo-
professor a tarefa a executar por mais que ela esteja tivam para aprender porque também vão publicar
explicitada no site (Barros, 2006; Cruz, 2006; Gui- online e vão receber os comentários dos colegas, do
marães, 2005; Oliveira, 2002). Assumirem-se como professor e, possivelmente, de outros cibernautas.
condutores da sua aprendizagem, libertando-se da Aprendem a criticar os trabalhos uns dos outros
subserviência do professor demora tempo. Do mes- e a desenvolverem trabalhos colaborativos, apro-
mo modo, adaptarem-se a novas abordagens e reco- priando-se da facilidade de publicar e de interagir
nhecer a sua importância na aprendizagem também na Web através das ferramentas disponibilizadas na
necessita de tempo, de reconhecimento de uma for- Web 2.0.
ma diferente de aprender. não podemos descurar Professores há que, sensíveis à importância des-
que os alunos estão habituados a que a sua avaliação tas ferramentas, desenvolveram sites com recursos,
seja centrada nos conteúdos, por isso, reconhecer a com actividades, com ferramentas colaborativas e
importância dos conteúdos na plataforma é coeren- de comunicação, criando uma dinâmica interactiva
te com uma prática que lhes é comum. com os seus alunos, onde se partilham trabalhos,
no site oficial do Moodle6, o nosso país está dúvidas e reflexões e onde se fomenta a aprendi-
muito bem representado com 1023 sites portugue- zagem colaborativa através de tarefas desafiantes.
ses registados num total de 26846 provenientes Todas essas funcionalidades podem ser implemen-
de 184 países, a que não deve ser alheio o projecto tadas numa plataforma de apoio à aprendizagem,
“moodle.edu.pt”7. Precisamos, agora, de estudos com a vantagem de professor e alunos terem a pri-
que nos permitam avaliar o que está a ser feito com vacidade e poderem sentir-se seguros por não esta-
a plataforma. Dos professores que receberam for- rem expostos a outros cibernautas.
mação, quantos estão a usar a plataforma nas suas A plataforma exige do professor conhecimento
disciplinas? Que funcionalidades usam? Como da tecnologia, criatividade e muita dedicação para
rentabilizam a plataforma nas aulas e fora delas? conceber e dinamizar actividades. Outras platafor-
Dão apoio aos alunos online? A plataforma está a mas há, como a “Escola virtual”, que disponibili-
ser usada como repositório de recursos e/ou como zam os conteúdos programáticos de cada discipli-
espaço de partilha de aprendizagem? Que impacto na com actividades interactivas e orientadoras da
tem na aprendizagem? Que opinião têm os profes- aprendizagem dos alunos. no estudo realizado por
35
sísifo 3 | ana amélia amorim carvalho | rentabilizar a internet no ensino básico e secundário
Santos (2006), alunos e professores de Matemáti- ao longo da vida. Integrará espaços físicos e virtu-
ca do 12º Ano consideraram a integração da Escola ais e tem como foco o processo.
virtual nas aulas muito profícua. Como as tecnologias móveis, como Tablet PCs,
Cremos que nesta altura compete ao Ministé- PDAs e telemóveis, estão a ficar menos dispendio-
rio da Educação assumir responsabilidade pela sas, o acesso em qualquer lugar e a qualquer hora
disponibilização de conteúdos interactivos e com à informação desejada online começa a ficar faci-
qualidade para os diferentes níveis de ensino, como litado. Além disso, a partir de Setembro de 2007
acontece no Brasil no site RIvED (Rede Interacti- inicia-se o programa e-Iniciativas, no âmbito do
va virtual de Educação), onde há muitos objectos projecto novas Oportunidades, para professores e
de aprendizagem prontos a serem reutilizados, que alunos do ensino básico e secundário, entre outros,
pretendem estimular o raciocínio e o pensamento poderem adquirir computador portátil e acesso a
crítico. Assim, o professor pode descarregar os con- banda larga a preços reduzidos.
teúdos e inseri-los na plataforma, na sua disciplina. Acima de tudo, gostaríamos de concluir alertan-
Ambientes em 3D têm vindo a ganhar populari- do para a necessidade de se ter um espírito aberto e
dade como Active Worlds, There, Red Light Cen- adaptável a novas ferramentas que podem ser renta-
ter, destacando-se o Second Life (SL). O mundo bilizadas no processo de ensino-aprendizagem. O
virtual em 3D é construído pelos residentes, crian- que hoje parece fascinante em breve pertencerá ao
do cada um a sua personagem. Aberto ao público passado. Com a vinda do novo browser Seadragon
em 2003, contém actualmente 7 256 167 pessoas, vamos alterar o modo como usámos os ecrãs e na-
segundo informação no site SL8. Tem sido usado vegamos na informação. Com o Surface da Micro-
sobretudo no ensino superior, mas desde 2005, foi soft vamos alterar o modo como interagimos com o
criado um espaço para adolescentes, o Teen Se- conteúdo digital: sem rato nem teclado, o ecrã está
cond Life. integrado numa mesa e com as mãos interage-se no
A Open University, no Reino Unido, tem em conteúdo, permitindo também que várias pessoas
curso o projecto “Schome Park”, desenvolvido no trabalhem simultaneamente.
Teen Second Life. Os resultados favoráveis obtidos Face a estas inovações muito se vai alterar na
no estudo piloto, fazem encarar o ambiente como forma como interagimos com o conteúdo e como
promissor de aprendizagem em ambientes 3D. O comunicamos, mas o importante é criar situações
próprio nome do projecto Schome (not school, not que envolvam os alunos na aprendizagem, que os
home) sugere um espaço híbrido. no site (Twining, ajudem a desenvolver o pensamento crítico e que os
2007) do projecto advoga-se que é uma nova forma preparem para a tomada de decisão, numa socieda-
de educar, que apoiará a aprendizagem das pessoas de globalizada e concorrencial.
36 sísifo 3 | ana amélia amorim carvalho | rentabilizar a internet no ensino básico e secundário
nologies for literacy, apprenticeship, and discour-
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s í s i f o / r e v i s t a d e c i ê n c i a s d a e d u c a ç ã o · n .º 3 · m a i / a g o 0 7 issn 1646 -4990
Limites e possibilidades das TIC na educação
Guilhermina Lobato Miranda
gmiranda@fpce.ul.pt
Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Lisboa
Resumo:
neste artigo começo por clarificar o conceito de Tecnologia Educativa e termos afins. Se-
guidamente analiso os resultados mais conclusivos da investigação neste domínio, para
depois descrever projectos em que estive envolvida e onde a tecnologia foi usada para
produzir inovação. não refiro nenhuma “experiência revolucionária” a nível cognitivo e
educacional, pois as tecnologias não conseguem tal feito.
Parte da educação das novas gerações tem de ser conservadora, i.e., tem de passar o
testemunho e o conhecimento construído pelas gerações anteriores. Os conhecimentos
disciplinares são a condensação exemplar do esforço e talento humanos. Como podem
as tecnologias apoiar na transmissão e aquisição destes conhecimentos? não será neces-
sário que as novas gerações, além de saberem usar a tecnologia, saibam e tenham sobre
ela um discurso informado e racional? não é este também o papel da escola? Estas são
algumas das questões que orientam a minha reflexão.
Palavras-chave:
Tecnologia Educativa, Tecnologias da Informação e Comunicação, Aprendizagem e En-
sino, Ambientes virtuais de Aprendizagem.
Miranda, Guilhermina Lobato (2007). Limites e possibilidades das TIC na educação. Sísifo. Re-
vista de Ciências da Educação, 03, pp. 41-50.
Consultado em [mês, ano] em http://sisifo.fpce.ul.pt
41
InTRODUçãO DEFInIçõES
Os seres humanos têm uma tendência, que diria Comecemos por uma clarificação conceptual. De
natural, para simplificar a informação que recebem que falamos quando dizemos Tecnologia Educa-
do meio. Criam categorias e associações de modo tiva (TE), Tecnologias Educativas, Tecnologias
a memorizar e compreender o que se passa à sua Aplicadas à Educação, Tecnologias da Informação
volta. Uma das associações mais recorrentes em e Comunicação (TIC), novas Tecnologias da In-
educação é a de juntar ensino e aprendizagem. Com formação (nTI) ou novas Tecnologias da Informa-
razão. Porque o objectivo de quem ensina é que o ção e Comunicação (nTIC), Literacia Informática
que é ensinado seja aprendido. E reciprocamente e Educação Tecnológica?
O termo Tecnologia Educativa tem já alguma
o objectivo de quem aprende é memorizar e com-
preender o que é ensinado. Ensinar e aprender são tradição no mundo anglo-saxónico. É um domínio
as duas faces de uma mesma moeda, embora nem da educação que teve as suas origens nos anos 40
sempre em sintonia. Deveria existir uma qualquer do século XX e foi desenvolvido por Skinner na dé-
relação entre aquilo que é ensinado e o que é apren- cada seguinte com o ensino programado (cf. Skin-
dido, mas esta relação, como a investigação o tem ner, 1953, 1968). O termo não se limita aos recursos
mostrado, não é linear. técnicos usados no ensino mas a todos os proces-
Do mesmo modo se tem associado o conceito sos de concepção, desenvolvimento e avaliação da
de tecnologia ao de inovação e estes dois termos ao aprendizagem. Daí que no livro publicado em 1994,
pela Association for Educational Communications
de melhoria nos processos de ensino e de apren-
and Technology, tendo em vista estabilizar a termi-
dizagem. Considera-se que a introdução de novos
nologia usada neste domínio, os termos Educatio-
meios tecnológicos no ensino irá produzir efeitos
nal Technology e Instructional Technology surjam
positivos na aprendizagem, porque se pensa que os
novos meios irão modificar o modo como os pro- como sinónimos, referindo-se “à teoria e prática do
fessores estão habituados a ensinar e os alunos a planeamento, desenvolvimento, utilização, gestão
aprender. Considera-se também que novos progra- e avaliação dos processos e recursos da aprendiza-
mas, métodos e currículos são a senha que garante gem” (cit. Thompson, Simonson & Hargrave, 1996,
uma melhor aprendizagem. Como veremos ao lon- p. 2). Esta definição tem em conta o que é conside-
go deste artigo estas simples asserções nem sempre rado o domínio da Tecnologia Educativa que en-
são verdadeiras. globa três subdomínios que vão influenciar o aluno
e a sua aprendizagem. São eles: 1) as funções de ges-
tão educacional, 2) as funções de desenvolvimen-
42 sísifo 3 | guilhermina lobato mir anda | limites e possibilidades das tic na educação
to educacional, e 3) os recursos de aprendizagem. o uso de termos como Tecnologias Educativas ou
vemos pois que o termo Tecnologia Educativa está Tecnologias da Informação e Comunicação, desde
enraizado numa tradição anglo-saxónica que valo- que no sentido anteriormente assinalado.
O termo Literacia Informática pode ser definido
riza a instrução e é influenciada pela teorização pro-
duzida no âmbito da psicologia da aprendizagem, como “o conjunto de conhecimentos, competências
nomeadamente pelas teorias comportamentalistas e atitudes em relação aos computadores que levam
e cognitivistas e mais recentemente pelas teorias alguém a lidar com confiança com a tecnologia com-
construtivistas. Outras das inspirações teóricas do putacional na sua vida diária” (McInnerney, McIn-
domínio da Tecnologia Educativa são a Teoria dos nerney & Marsh; Soloway, Turk & Wilay, citados
Sistemas e a Teoria da Comunicação (cf. Thomp- por Tsai & Tsai, 2003, p. 48). Esta definição incluiu
son, Simonson & Hargrave, 1996). três termos que convém elucidar: primeiro, conheci-
O termo Tecnologias Aplicadas à Educação pode mentos e competências sobre a tecnologia computa-
ser considerado sinónimo de Tecnologias Educati- cional; segundo atitudes positivas face a esta tecno-
vas, pois trata-se de aplicações da tecnologia, qual- logia; e terceiro ter confiança para usar os computa-
quer que ela seja, aos processos envolvidos no fun- dores sem grande ansiedade. Por isso, o objectivo da
cionamento da educação, incluindo a aplicação da literacia informática deveria ser apoiar os professores
tecnologia à gestão financeira e administrativa ou a e os estudantes a iniciar ou melhorar as suas com-
outro qualquer processo, incluindo, como é óbvio, o petências e conhecimentos nesta área, desenvolver
processo educativo ou instrutivo propriamente dito. atitudes positivas face ao computador e à Internet
As pessoas que trabalham no domínio da Tecno- e diminuir a ansiedade face ao seu uso e aprendiza-
logia Educativa não se interessam só pelos recursos gem. Deveria ainda apoiar os alunos, sobretudo os
e avanços técnicos mas também, e sobretudo, pelos do ensino secundário, a analisar criticamente a evo-
processos que determinam e melhoram a aprendi- lução das tecnologias e seus campos de aplicação.
zagem. Estes processos podem integrar determina- E neste âmbito estamos já a entrar numa outra
área, a da Educação Tecnológica. Este é um conceito
dos tipo de recursos técnicos como, por exemplo,
o computador e a Internet. O uso educativo do mais amplo do que o anterior, pois implica “saber
computador e da Internet pode ser considerado um usar” a tecnologia e ainda analisar a sua evolução
subdomínio da Tecnologia Educativa. e repercussão na sociedade. Supõe ainda desen-
O termo Tecnologias da Informação e Comuni- volver um discurso racional sobre as tecnologias.
cação (TIC) refere-se à conjugação da tecnologia Como refere Postman (2002), “A educação tecno-
computacional ou informática com a tecnologia das lógica não é uma disciplina técnica. É um ramo das
telecomunicações e tem na Internet e mais particu- humanidades” (p. 218). Uma verdadeira educação
larmente na Worl Wide Web (WWW) a sua mais for- tecnológica só o é quando se ensina aos estudantes
te expressão. Quando estas tecnologias são usadas a história das diferentes tecnologias (iluminuras,
para fins educativos, nomeadamente para apoiar e alfabeto, prensa tipográfica… computadores e In-
melhorar a aprendizagem dos alunos e desenvolver ternet) e dos seus criadores, dos seus efeitos econó-
ambientes de aprendizagem, podemos considerar as micos, sociais e psicológicos e ainda de como elas
TIC como um subdomínio da Tecnologia Educativa. refizeram o mundo e continuam a refazê-lo. Igual-
Os termos Novas Tecnologias da Educação mente será necessário mostrar como as tecnologias
(nTI) e Novas Tecnologias da Informação e Comu- “criam novos mundos, para o bem e para o mal”
nicação (nTIC) parecem-me redundantes, pois a (Postman, 2002, p. 219). Os estudantes deveriam,
referência à novidade nada acrescenta à delimitação ainda, ser ensinados a ler e a interpretar e a saber
e clarificação do domínio. Mais ainda, o que é novo diferenciar a informação que nos é transmitida por
hoje deixa de o ser amanhã. vários símbolos. Por exemplo, em que diferem as
Como já devem ter reparado os leitores, prefiro imagens das palavras? Uma pintura de uma foto-
usar o termo Tecnologia Educativa para delimitar grafia? Uma fala de um texto escrito?
um domínio teórico e de investigação no qual me Retomando o conceito de literacia tecnológi-
reconheço. Contudo, não me parece desadequado ca, temos que levantar em primeiro lugar algumas
43
sísifo 3 | guilhermina lobato mir anda | limites e possibilidades das tic na educação
questões: a) Que conhecimentos e competências preende-se porquê. Existem várias razões. Enun-
deveriam os alunos adquirir na escola, desde o ciarei as duas que considero mais importantes.
pré-escolar até ao final do ensino secundário? b) A primeira prende-se com a falta proficiência
Como organizar e sequenciar a aprendizagem des- que a maioria dos professores manifesta no uso das
tes conhecimentos e competências, desenvolvendo tecnologias, mormente as computacionais. vários
um currículo em espiral? c) Devem estes conheci- estudos têm revelado que a maioria dos professo-
mentos e competências ser integrados nos currícu- res considera que os dois principais obstáculos ao
los das disciplinas já existentes, será preciso criar uso das tecnologias nas práticas pedagógicas são a
disciplinas autónomas (sobretudo a partir do 2º ci- falta de recursos e de formação (cf. Paiva, 2002; Pel-
clo do ensino básico) ou devem usar-se estas duas grum, 2001; Silva, 2003; entre outros).
estratégias em simultâneo? A segunda razão prende-se com o facto da inte-
não existem respostas inequívocas para estas gração inovadora das tecnologias exigir um esforço
questões. Penso que a melhor estratégia é apetre- de reflexão e de modificação de concepções e prá-
char as escolas com alguma tecnologia (nomeada- ticas de ensino, que grande parte dos professores
mente computadores com ligação à Internet) e usá- não está disponível para fazer. Alterar estes aspec-
la quer de uma forma transversal às várias discipli- tos não é tarefa fácil, pois é necessário esforço, per-
nas, quer em disciplinas próprias, como foi a opção sistência e empenhamento.
do Ministério da Educação ao criar a disciplina de O problema reside em que alguns professores
TIC no 9º e 10º anos da escolaridade. Esta deve- têm uma concepção romântica sobre os processos
ria ser ainda a base para uma verdadeira Educação que determinam a aprendizagem e a construção de
Tecnológica, entendida no sentido que atrás referi, conhecimento e concomitantemente do uso das tec-
que penso não estar em sintonia com a disciplina nologias no acto de ensinar e aprender. Pensam que
com esta designação que integra os planos curricu- é suficiente colocar os computadores com algum
software ligados à Internet nas salas de aula que os
lares dos 7º, 8º e 9º anos.
alunos vão aprender e as práticas se vão alterar. Sa-
bemos que não é assim.
A TECnOLOGIA E OS PROCESSOS Como já referi, os resultados mais conclusivos do
DE EnSInO E APREnDIZAGEM imenso esforço de investigação que acompanhou a
introdução em grande escala das tecnologias com-
nesta parte gostaria de descrever, com a brevidade putacionais no ensino (sobretudo a partir dos anos
necessária a um artigo, algumas experiências em 80) mostram que acrescentar estes recursos às acti-
que as tecnologias informáticas foram usadas para vidades já existentes nas escolas não produz efeitos
desenvolver ambientes de aprendizagem que consi- positivos visíveis na aprendizagem dos alunos, na
dero inovadores. Mas antes quero referir os resul- dinâmica da classe e no empenhamento do profes-
tados mais conclusivos da investigação no domínio sor (De Corte, 1993; Jonassen, 1996; entre outros).
da tecnologia educativa e o que hoje em dia se con- Existem mesmo autores, como Clark (1994), que
sidera ser as características de uma aprendizagem consideram que os Media Educativos por si só nun-
efectiva. ca influenciarão o desempenho dos estudantes. Os
efeitos positivos só se verificam quando os profes-
Resultados da investigação sores acreditam e se empenham de “corpo e alma”
A investigação tem demonstrado que a estratégia de na sua aprendizagem e domínio e desenvolvem ac-
acrescentar a tecnologia às actividades já existen- tividades desafiadoras e criativas, que explorem ao
tes na escola e nas salas de aula, sem nada alterar máximo as possibilidades oferecidas pelas tecno-
nas práticas habituais de ensinar, não produz bons logias. E para isto é necessário que os professores
resultados na aprendizagem dos estudantes (cf. De as usem com os alunos: a) como novos formalis-
Corte, 1993; Jonassen, 1996; Thompson, Simon- mos para tratar e representar a informação; b) para
son & Hargrave, 1996, entre outros). Esta tem sido, apoiar os alunos a construir conhecimento signifi-
contudo, uma das estratégias mais usadas. E com- cativo; c) para desenvolver projectos, integrando (e
44 sísifo 3 | guilhermina lobato mir anda | limites e possibilidades das tic na educação
não acrescentando) criativamente as novas tecnolo- os procedimentos e funções de um editor de tex-
gias no currículo. to. O mesmo se poderá dizer face aos programas
Analisemos brevemente cada um destes aspectos. de desenho, de gráficos, de bases de dados. Alte-
Considerar que os professores deveriam usar as ram o modo de conceber o desenho, de pensar um
ferramentas informáticas como novos formalismos gráfico, de classificar as coisas, pois assentam em
para tratar e representar a informação implica pri- formalismos diferentes dos tradicionais. Exigem
meiro perceber que a linguagem escrita, o sistema novas aprendizagens e aumentam as antigas. O que
decimal e as operações aritméticas elementares, a acontece na maioria das escolas é que os professo-
lógica das classes e das relações (sistemas de classi- res pensam que estas aprendizagens se fazem por
ficação), os gráficos… são Sistemas Convencionais transferência analógica, não necessitando de uma
de Representação e Tratamento da Informação, aprendizagem mais estruturada e formal, o que tem
residindo aí todo o seu poder comunicacional e levado a alguns dissabores.
de tratamento dos conhecimentos (Mendelsohn, Mas se o professor dominar estas novas ferra-
1999). Estes sistemas, no mundo alfabetizado e pós mentas poderá apoiar os alunos a explorar as po-
industrializado em que vivemos, devem ser apren- tencialidades destes novos sistemas de tratamento e
didos e dominados com alguma perícia até ao final representação da informação. A escrita pode expri-
do 1º Ciclo, quando as crianças têm entre 9 e 10 mir-se de um modo mais flexível e plástico quando
anos, continuando a sua aprendizagem até muito se usa um processador de texto. Fazer e transformar
mais tarde, para adquirirem uma certa mestria. gráficos pode ser uma actividade compensadora.
Aspecto interessante é que a aprendizagem destes E o que dizer da construção de bases de dados sobre
sistemas modifica de forma radical o modo como as quase todos os tópicos que se possam imaginar?
crianças percepcionam o mundo e a si próprias (es- As mudanças nos modos de aprender e de or-
tamos a referir-nos principalmente à autoconsciên- ganizar cognitivamente a informação não serão
cia), quer dizer, interferem no seu percurso natural visíveis de imediato, pois todos os processos de
de desenvolvimento (Luria, 1990; vygotsky, 1991, mudança mental são lentos, levam gerações. Mas a
1994), amplificando-o (Bruner, 1998, 1999). O de- aprendizagem de certos sistemas simbólicos e seus
senvolvimento cognitivo segue um padrão que se formalismos interfere, quer dizer, deixa “marcas”
caracteriza precisamente pelo progressivo domínio na organização mental e mesmo cerebral, como te-
das representações espaciais (formas e transforma- orizaram vygotsky (1991, 1994) e Luria (1990) e as
ções), das representações simbólicas (onde a lingua- investigações no domínio das neurociências estão a
gem e a escrita são determinantes), do tratamento comprovar (cf. Squire & Kandel, 1999).
das relações (gerando sistemas de categorias, clas- Com estes novos sistemas de tratamento e re-
ses e suas relações) e do tratamento das dimensões presentação da informação e de comunicação, os
professores podem desenvolver com os alunos acti-
(número, aritmética e mais tarde a álgebra). Parece
vidades que favoreçam a aquisição de conhecimentos
existir uma sintonia entre o desenvolvimento das
disciplinares significativos. Para que isto aconteça é
funções psicológicas superiores (vygotsky, 1994)
e os sistemas convencionais de tratamento e repre- necessário ter em consideração que a aprendizagem
sentação da informação. é um processo (re)construtivo, cumulativo, auto-re-
O que acontece é que os sistemas informáticos, gulado, intencional e também situado e colaborativo.
A aprendizagem é um processo re(construtivo),
considerados como novos formalismos para tratar
e representar a informação, ancorados nos siste- o que significa que os alunos constroem os novos
mas convencionais, vão modificar o modo como conhecimentos com base nas estruturas e represen-
as crianças estão habituadas a aprender e também tações já adquiridas sobre os fenómenos em estudo
amplificar o seu desenvolvimento cognitivo. Al- e que devem estar cognitiva e afectivamente envol-
guns exemplos: os processadores de texto alteram vidos no processamento da nova informação. Uma
o modo como as crianças estavam habituadas a es- aprendizagem efectiva deve exigir esforço e manter
crever; estas precisam não só de aprender as con- os alunos empenhados na realização das tarefas.
venções e procedimentos da escrita no papel como Para isso, deve ser feita com um nível óptimo de
45
sísifo 3 | guilhermina lobato mir anda | limites e possibilidades das tic na educação
incerteza (Bruner, 1999) e estar na zona de desen- tantes da aprendizagem, sobretudo dos ambientes
volvimento potencial (vygotsky, 1991), quer dizer, informatizados que actualmente se podem modelar
não deve evitar a crise do pensamento (van Hiele, com recurso aos computadores e à Internet.
A aprendizagem ser situada significa que o seu
1986). Os professores devem ter o cuidado de não
impor a sua estrutura e estilo de pensamento aos sentido advém do contexto onde foi realizada. São
alunos mas antes criar situações, problemas, exer- os contextos que facilitam ou, pelo contrário, difi-
cícios e projectos que conduzam os alunos para ní- cultam a aplicação dos conhecimentos. As pessoas
veis superiores de conhecimento. aprendem não só com o que lhes é directamente en-
Uma aprendizagem cumulativa implica que os sinado mas desenvolvem ainda padrões de partici-
novos conhecimentos são adquiridos com base nas pação em comunidades de prática, apropriando-se
aprendizagens realizadas anteriormente (Gagné, progressivamente do discurso, dos saberes e sabe-
1975). Todas as disciplinas exigem este saber pré- res-fazer próprios de cada comunidade, dos seus
vio. Há, contudo, algumas que são mais cumula- recursos e até identidades (cf. Greeno, 1998; Lave,
tivas do que outras. É o caso da matemática e tam- 1997; Lave & Wenger, 1995; entre outros). Ora, a
bém, em certa medida, da física. nesta o principal criação de comunidades de prática e de comunida-
problema parece advir da dificuldade em modificar des de aprendizagem está hoje facilitada pelo recur-
as concepções que os alunos desenvolveram para so à Internet.
Dizer que a aprendizagem é colaborativa signifi-
explicar diferentes fenómenos, antes de iniciar o
seu estudo científico. Estes conceitos espontâneos ca que esta se faz em contextos de práticas sociais
estão muitas vezes em contradição com os aceites que implicam a colaboração entre iguais e destes
pela comunidade científica e, na maioria das vezes, com os adultos que, em princípio, se tornam os
dificultam mais do que facilitam a aprendizagem tutores que modelam progressivamente determi-
posterior (cf. Gardner, 1993; Pina, 2005). nados conhecimentos e atitudes. A aprendizagem
A aprendizagem ser auto-regulada significa que é aqui considerada sobretudo um processo de in-
os professores devem apoiar os alunos a desenvolver teracção social que deveria ser promovido pelos
estratégias de aprendizagem de modo a adquirirem professores. Por exemplo, o desenvolvimento das
hábitos de estudo e de trabalho intelectual, e ainda estruturas cognitivas, sobretudo do pensamento
padrões de correcção do seu próprio trabalho, de formal, depende, em grande medida, da descen-
modo a progressivamente se irem autonomizando tração cognitiva, i.e., de se ser capaz de cooperar
da tutela do professor (cf. Brown, 1987; Collins & com os outros, quer dizer, realizar operações em
Brown, 1988). comum, ouvindo os argumentos e contra-argu-
A aprendizagem ser orientada para determina- mentando (Perret-Clermont & Schubauer-Leoni,
dos objectivos implica que o conhecimento, por par- 1989; Piaget, 1971). A Internet pode facilitar esta
te dos alunos, das finalidades ou metas a atingir em aprendizagem colaborativa, se o professor criar
cada situação de aprendizagem, facilita o processo projectos onde alunos (e outros adultos) possam re-
de construção de conhecimento, pois imprime-lhe alizar actividades, resolver problemas em coopera-
um intencionalidade e direcção (cf. Bruner, 1999). ção e participar em tarefas comuns. Mas nem todas
Tem ainda a vantagem de motivar os alunos para as aprendizagens se fazem de modo colaborativo e
alcançar os objectivos enunciados, garantindo uma nem todos os estudantes gostam e aprendem nestes
maior capacidade de vencer os obstáculos que se ambientes (cf. Hopper, 2003). Cerca de vinte por
encontram em qualquer processo de aprendizagem cento dos estudantes universitários preferem tra-
(cf. Gagné, 1984; Lemos, 2005). balhar e aprender sozinhos (McClanaghan, 2000,
Existe hoje uma tendência para considerar que citado por Hopper, 2003).
uma aprendizagem efectiva deve ainda ser situada e Como vemos não é suficiente introduzir os com-
colaborativa. Enquanto as características anteriores putadores e a Internet nas escolas para se começa-
não me levantam dúvidas, estas duas não estão ain- rem a obter resultados positivos na aprendizagem
da inteiramente comprovadas pelos resultados da dos alunos. É ainda necessário reflectir sobre o que
investigação. Contudo, são características impor- a torna efectiva e modificar a organização dos espa-
46 sísifo 3 | guilhermina lobato mir anda | limites e possibilidades das tic na educação
ços e das actividades curriculares de modo a que de escolaridade, por Ricardo Inácio, na altura estu-
estas novas ferramentas possam apoiar a aquisição dante do mestrado em Tecnologias Educativas. A
de conhecimento disciplinar significativo. Embora experiência tem tido continuidade.
a aprendizagem dos alunos seja a variável que con- O principal objectivo foi conceber, desenvolver
sidero mais importante quando se introduzem as e avaliar um ambiente virtual de aprendizagem de
tecnologias no ensino, outras existem que não de- matemática (AvA). visou ainda estudar os factores
vemos menosprezar. Por exemplo, o contributo que que influenciam positiva e negativamente o desen-
o uso das tecnologias nas práticas educativas dos volvimento de uma comunidade virtual de aprendi-
professores pode dar para uma maior literacia tec- zagem (CvA) em meio escolar, funcionando como
nológica de estudantes e docentes, a motivação que complemento e não como substituto das aulas pre-
geram, as redes de relações que criam, etc. Tudo senciais. A análise dos efeitos deste ambiente nos
aspectos que me parecem muito importantes quan- resultados escolares e nas abordagens à aprendiza-
do as tecnologias são integradas e não só acrescen- gem dos estudantes foi outro dos objectivos.
tadas às actividades curriculares. O Ambiente virtual de Aprendizagem (AvA)
baseou-se na WWW e funcionou como um meio
Experiências em análise de apoio à aprendizagem dos alunos nos três temas
As quatro experiências que vou referir permitem que compõem o programa da disciplina de Mate-
ilustrar o que acabei de dizer. Por falta de espaço, mática: Geometria no Plano e no Espaço I, Funções
apenas descreverei uma e de um modo muito su- I e Estatística. A construção deste ambiente virtual,
mário. Os leitores interessados podem consultar as como o autor refere, “caracterizou-se como sendo
obras que estão referenciadas na bibliografia. um processo lento, de carácter evolutivo e faseado”
Uma foi desenvolvida pela autora no âmbito da (Inácio, 2006, p. 99). A concepção e construção da
investigação conducente ao grau de doutoramento página demorou nove meses e passou por várias fa-
e designa-se Concepção de um ambiente de aprendi- ses. Refiro apenas as mais importantes: (a) elabora-
zagem Logo em meio escolar: efeitos na cognição e nos ção de um guião tipo cinematográfico (storyboards),
conhecimentos geométricos de crianças de 9-10 anos que constou da realização de desenhos e tabelas,
(Miranda, 1998). com referência às cores, fontes, textos, barras de na-
Duas foram realizadas por estudantes do mestra- vegação, disposição de conteúdos e ferramentas de
do em Ciências da Educação, área de especialização comunicação; (b) desenvolvimento da página, con-
em Tecnologias Educativas. Uma tem como título ciliando diversas linguagens de programação; (c)
Comunidade Virtual de Aprendizagem de Matemáti- validação da AvA, feita por especialistas, quer do
ca: uma experiência com alunos do 10º ano de escola- ponto de vista técnico quer do conteúdo matemáti-
ridade (Inácio, 2006) e a outra intitula-se Integrar a co; (d) apresentação da AvA aos estudantes, expli-
teoria e a prática através de um fórum de discussão: cando como iria funcionar e quais os seus objectivos.
um estudo de investigação-acção aplicado à enfer- Os conteúdos desta AvA são muitos e variados
magem da criança e do adolescente (Paixão, 2006). mas, do meu ponto de vista, o mais interessante é
A última das experiências referidas foi desen- a conjugação dos diversos conteúdos e activida-
volvida no contexto da preparação da monografia des matemáticas, com actividades de comunicação
de licenciatura e designa-se de Projecto Prom@tic síncrona e assíncrona e ainda actividades sociais.
(Rolo, 2001). Foi publicado um artigo que descreve As ferramentas disponibilizadas foram usadas pe-
esta experiência (Miranda & Rolo, 2002) e que se los estudantes, umas mais do que outras, havendo
encontra disponível on-line em: http://www.leeds. ainda estudantes mais participativos e outros me-
ac.uk/educol/documents/00002194.htm. nos, como é habitual em qualquer ambiente, seja
ele presencial ou virtual. O papel do professor na
Comunidade virtual de Aprendizagem dinamização deste ambiente foi determinante, não
de Matemática só no que se refere ao processo de ensino e aprendi-
Esta experiência foi desenvolvida durante o ano zagem, mas ainda na construção de uma verdadeira
lectivo de 2004/2005, com uma turma do 10º ano comunidade virtual de aprendizagem de matemá-
47
sísifo 3 | guilhermina lobato mir anda | limites e possibilidades das tic na educação
tica. Transformar um ambiente numa comunidade disponibilizados. Esta tendência foi designada por
Resnick e Collins (1996) por the “rich get richer”
virtual não é tarefa fácil, pois esta caracteriza-se por
problem. Para estes alunos devem ser concebidos
ser um grupo de pessoas que partilham conheci-
mentos, interesses e objectivos num domínio espe- ambientes mais estruturados e direccionados para
cífico, podendo desenvolver laços de amizade atra- superar as dificuldades apresentadas. Ora este não
vés do ciberespaço (cf. Inácio, 2006). As CvA’s têm era o objectivo principal da experiência descrita.
também durabilidades diversas, dependendo de Como referi anteriormente penso que a introdução
vários factores. Contudo, o papel do dinamizador e uso das tecnologias da informação e comunicação
é fundamental para que o “tempo de vida” de uma no ensino não devem ser só avaliadas tendo como
CvA seja mais longo. A que estamos a descrever referência os efeitos que têm sobre a aprendizagem
durou um ano lectivo, embora o professor continue e os resultados académicos dos alunos. Esta é uma
a experiência com a nova turma do 10º ano. entre muitas variáveis a ter em conta, embora con-
Os resultados mais salientes deste estudo são: sidere ser a mais importante. Outras que também
(1) perceber que é possível conceber, desenvolver me parecem relevantes são: o contributo para uma
e utilizar comunidades virtuais de aprendizagem maior literacia tecnológica de docentes e alunos;
no ensino secundário, ao serviço dos alunos e da um maior interesse dos estudantes pelas discipli-
inovação dos métodos de ensino, sobretudo numa nas que usam recursos tecnológicos de um modo
disciplina que muitos consideram difícil e onde inovador e criativo; uma modificação dos métodos
existe muito insucesso; (2) análise dos factores faci- e estratégias de ensino dos professores, dando-lhes
litadores e inibidores da construção de uma CvA, uma sensação positiva de domínio das tecnologias
contribuindo para a compreensão da vida destas que são valorizadas na sociedade numa dada época
comunidades; (3) maior interesse de grande par- e por consequência um maior sentido de pertença a
te dos alunos pela disciplina, embora os que mais essa mesma sociedade.
usaram e aproveitaram este ambiente tenham sido
os estudantes que já à partida estavam predispos-
tos para estudar e valorizavam mais o desempenho COnCLUSãO
académico; (4) existência de uma correlação posi-
tiva e significativa entre a Frequência da AvA e as O uso efectivo da tecnologia nas escolas, nome-
Classificações dos alunos (r=0,715; p<.05); (5) os adamente nas salas de aula e no desenvolvimento
estudantes com uma abordagem profunda à apren- de ambientes virtuais de aprendizagem, é ainda um
dizagem antes da experiência (pré-teste) passaram privilégio de alguns docentes e alunos. As variáveis
a usar com mais frequência estratégias típicas desta que parecem ter mais influência neste processo são
abordagem, tendo a diferença entre o pré e o pós- múltiplas, como vimos, mas penso que uma sólida
teste sido significativa (p<.5); já os estudantes com formação técnica e pedagógica dos professores bem
uma abordagem superficial não alteraram significa- como o seu empenhamento são determinantes.
tivamente as suas estratégias de aprendizagem do Será ainda preciso pensar as tecnologias não como
pré para o pós-teste (p>.05). “apêndices” das restantes actividades curriculares,
Embora a AvA tenha contribuído para que a um prémio que se dá aos alunos bem comportados
maior parte dos estudantes se tenha interessado ou um “tique” insólito de alguns docentes, mas
mais pela disciplina de matemática, os resultados como um domínio tão ou mais importante que os
sumariamente descritos parecem querer dizer que, restantes que existem nas escolas. Só assim se con-
neste como noutros domínios, são os estudantes seguirá generalizar o uso das tecnologias no ensino.
mais motivados, empenhados e que mais valorizam Ou então, num olhar pessimista ou quiçá realista,
a aprendizagem e o sucesso académico os que mais esperar pelo impulso das gerações nascidas em ple-
proveito tiram dos meios e recursos postos à sua na era da “sociedade da informação”, até porque,
disposição. Os que têm mais dificuldades, desmo- como refere Arendt (2005) a novidade é e deve ser
tivados e que não valorizam tanto o desempenho trazida pelas novas gerações. É este o fluxo e desti-
académico usam pouco os recursos que lhes são no natural e cultural da humanidade.
48 sísifo 3 | guilhermina lobato mir anda | limites e possibilidades das tic na educação
com alunos do 10º ano de escolaridade. Disserta-
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50 sísifo 3 | guilhermina lobato mir anda | limites e possibilidades das tic na educação
s í s i f o / r e v i s t a d e c i ê n c i a s d a e d u c a ç ã o · n .º 3 · m a i / a g o 0 7 issn 1646 -4990
As TIC na Escola e no Jardim de Infância:
motivos e factores para a sua integração
Lúcia Amante
lamante@univ-ab.pt
Universidade Aberta
Resumo:
Baseados nos contributos proporcionados pela vivência de um projecto1 de investigação-
acção que desenvolvemos e acompanhámos ao longo de um ano lectivo num Jardim de
Infância, tendo em vista a integração das novas tecnologias no contexto das suas salas de
actividades (Amante, 2003, 2004b), bem como nos dados proporcionados pela investiga-
ção disponível, procuraremos, neste texto, dar conta das razões que, em nosso entender,
fundamentam e justificam a integração das TIC em contexto pré-escolar e escolar. Pro-
curaremos, ainda, salientar os factores que nos parecem fundamentais para que a integra-
ção e utilização das TIC nestes contextos seja potencializada e contribua efectivamente
para a promoção da sua qualidade educativa.
Palavras-chave:
Tecnologias da Informação e da Comunicação, Escola/Jardim de Infância, Desenvolvi-
mento, Aprendizagem.
Amante, Lúcia (2007). As TIC na Escola e no Jardim de Infância: motivos e factores para a sua
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Consultado em [mês, ano] em http://sisifo.fpce.ul.pt
51
COnTRIBUTOS DAS TIC • Os jogos de computador encorajam a produ-
PARA A APREnDIZAGEM nA InFânCIA ção de discurso mais complexo e fluente (Davidson
& Wright, 1994);
O debate sobre a utilização das TIC por crianças • As crianças são estimuladas a usar a lingua-
pequenas deu lugar a algumas tomadas de posição gem, sobretudo quando utilizam programas aber-
entre os que defendem, mais ou menos calorosa- tos que encorajam a exploração e a fantasia, como
mente, os benefícios educacionais da tecnologia e no caso dos programas de desenho, fazendo relatos
os que a ela colocam várias objecções. Essa contro- enquanto desenham, deslocam objectos, ou “escre-
vérsia, especialmente intensa no decorrer dos anos vem” (Clements & nastasi, 2002);
80 (Haugland & Wright, 1997) tem, contudo, nos • As crianças contam histórias mais elabora-
últimos anos, vindo a esbater-se. De facto, o poten- das acerca dos desenhos realizados em computador
cial destas novas tecnologias, quer no que se refere (Clements & nastasi, 2002);
à natureza dos programas utilizados, quer às pos- • A interacção com os computadores estimula a
sibilidades de acesso à informação e comunicação comunicação verbal e a colaboração entre as crian-
disponíveis através da Internet, aliado à sua presen- ças (Crook, 1998a, 1998b; Drogas, 2007) e propor-
ça, cada vez mais marcante no nosso dia a dia, tor- ciona situações de conflito sócio-cognitivo propi-
na difícil ignorar o contributo destes novos media ciadoras de aprendizagem (Amante, 2003, 2004a);
no enriquecimento dos contextos de aprendizagem • A estimulação de vocalizações em crianças com
para a infância (Amante, 2003; nAEYC, 1996; Ra- perturbações na fala tem também sido demonstrada
mos et al., 2001). (McCormick, 1987, cit. por van Scoter et al., 2001).
Desenvolvimento da linguagem no que se refere à linguagem escrita, a investiga-
O desenvolvimento da linguagem e da literacia ção demonstra que as TIC, designadamente a uti-
constituem as áreas curriculares mais estudadas lização de processadores de texto, proporcionam
no que se refere à sua relação com a utilização da às crianças oportunidades de se envolverem na
tecnologia na idade pré-escolar (Laboo et al., 1999; exploração e co-construção de conhecimentos so-
Mioiduser et al., 2000; Moxeley et al., 1997). bre representação simbólica e desenvolvimento da
Ao nível das competências verbais, contraria- literacia e de conceitos com ela relacionados, como
mente à opinião dos críticos (Cordes & Miller, direccionalidade da escrita, sequencialidade, etc.
1999; Healy, 1998), o computador não inibe o de- (Amante, 2004a; Laboo & Ash, 1998). A utilização
senvolvimento da linguagem. De facto a investiga- de livros de história electrónicos, bem como a sua
ção tem revelado que: criação pelas próprias crianças e educadores (La-
52 sísifo 3 | lúcia amante | as tic na escola e no jardim de infância
boo et al., 1999; Lefever-Davis & Pearman, 2005; samento geométrico e espacial, favorecendo o de-
Trushell, Maitland & Burrel, 2003), tem também senvolvimento de conceitos de simetria, padrões,
revelado ganhos significativos. Com efeito, os livros organização espacial, entre outros (Clements &
interactivos parecem contribuir para o desenvolvi- Swaminthan, 1995). nos programas gráficos as
mento de competências ao nível de vocabulário, crianças criam objectos e podem actuar sobre eles,
sintaxe e reconhecimento de palavras (Uchikoshi, aumentar ou diminuir o seu tamanho, juntar for-
2005), bem como da compreensão da estrutura mas que dão origem a novas formas, colorir espaços
narrativa das histórias (verhallen, Bus & De Jong, fechados, reflectir sobre as características topológi-
2006). Por seu turno, Lewin (2000) assinala que os cas desses espaços (Amante, 2004c; Clements &
programas interactivos multimedia complementam nastasi, 2002) e, tudo isto em consequência da sua
o desenvolvimento da literacia na medida em que acção, mais do que em virtude das características
a sua componente audio permite trabalhar ques- das formas estáticas, o que leva a considerar que
tões de pronúncia, bem como proporcionar leitura “o poder de tais ferramentas de desenho reside na
silabada ou centrada em segmentos fonémicos, de- possibilidade de as crianças virem a interiorizar os
senvolvendo deste modo a consciência fonológica, processos, construindo assim, novas ferramentas
como tem vindo a ser demonstrado por vários estu- mentais” (Clements & nastasi, 2002, p. 580).
dos (cf. Chera & Wood, 2003; Wise et al., 2006). Programar em LOGO pode também contribuir
Para além de programas que trabalham compe- para o desenvolvimento de conceitos geométri-
tências específicas, constata-se a importância de as cos e espaciais. De acordo com a teoria piagetiana
crianças utilizarem as TIC para desenvolverem a (Piaget, 1971), as crianças apreendem as noções de
sua aprendizagem na área da leitura e da escrita de formas geométricas não através da percepção, mas
uma forma mais global e funcionalmente significa- através das acções que exercem sobre esses objec-
tiva, integrada no conjunto de outras actividades tos, primeiro físicas e depois mentais. A programa-
e servindo necessidades reais, como escrever uma ção LOGO, que tem subjacente a perspectiva pia-
receita, um aviso, uma lista de compras, etc. Ine- getiana da aprendizagem, ajuda as crianças a rela-
vitável, aqui, uma referência às muitas possibilida- cionar o seu conhecimento intuitivo do movimento
des evidenciadas pelo uso do correio electrónico e do desenho com ideias matemáticas. Ainda que
(Amante, 2003, 2004a; Siraj-Blatchford & White- os resultados da investigação não permitam con-
bread, 2003) cuja facilidade de utilização aliada à cluir sobre a influência da programação LOGO nas
instantaneidade na troca de mensagens, histórias, competências matemáticas em geral, sendo inclusi-
desenhos, etc., se revela altamente motivadora para ve controversos, designadamente no que se refere à
as crianças e estimuladora da comunicação e desco- transferência dessas competências para outras situ-
berta da linguagem escrita. ações (Crook, 1998a; Underwood & Underwood,
1990) parece, indiscutivelmente, constituir-se como
Pensamento matemático um espaço de resolução de problemas que contri-
Também nesta área de desenvolvimento educacio- bui para o desenvolvimento de noções espaciais e
nal a utilização de computadores tem demonstrado numéricas, pensamento criativo e conhecimento
estimular a emergência de alguns conceitos matemá- metacognitivo (Amante, 2004c; Clements & nasta-
ticos tais como, reconhecimento de formas, conta- si, 2002; Underwood & Underwood, 1990).
gem e classificação. Clements e nastasi (2002) refe- De qualquer modo, importa sublinhar a neces-
rem que as crianças que têm a possibilidade de asso- sidade de assistência do educador no sentido de
ciar experiências manipulativas directas à utiliza- relacionar o trabalho no computador com o co-
ção de um programa de computador, demonstraram nhecimento matemático, seja através do LOGO ou
maior competência em operações de classificação e de outra qualquer aplicação. Esta mediação surge
pensamento lógico do que aquelas que apenas tive- como fundamental, pelo encorajamento activo,
ram acesso à experiência manipulativa concreta. pelo incentivo à verbalização pelas crianças das es-
Mas, o grande contributo do computador pare- tratégias seguidas, levando-as a reflectir sobre o seu
ce situar-se ao nível do desenvolvimento do pen- próprio pensamento e tornando conscientes os pro-
53
sísifo 3 | lúcia amante | as tic na escola e no jardim de infância
cessos de resolução de problemas (Amante, 2004b; representar e partilhar a sua experiência com ou-
Clements, 1999; Clements & nastasi, 2002). tras pessoas, nomeadamente familiares e amigos. A
exposição aos olhos dos outros, importantes na es-
Conhecimento do mundo fera relacional das crianças, valoriza o seu trabalho
É preocupação da educação Pré-Escolar proporcio- e atribui-lhe um sentido acrescido (Amante, 2003;
nar às crianças conhecimento do mundo, seja ele Cotrim, 2007; Drogas, 2007).
relativo ao seu mundo próximo que abarca o pró- Simultaneamente a estas possibilidades, os
prio contexto da sua sala de actividades, o espaço computadores permitem ainda às crianças comu-
exterior ao jardim de infância, físico e comunitário, nicarem facilmente com outras pessoas, família,
ou um mundo mais distante que abarca o conheci- amigos, outras escolas, instituições públicas da sua
mento e sensibilização a diferentes áreas científicas, comunidade ou quaisquer outras entidades de na-
o conhecimento de outras realidades, quer sejam tureza diversa. Ainda que a investigação a este nível
elas naturais, sociais ou culturais. neste sentido, seja ainda muito limitada, explorar a vertente da
como salientam, entre outros, Haugland e Wright comunicação interpessoal que a tecnologia oferece,
(1997), Grácio (2002) e Rada (2004) a tecnologia in- parece constituir-se como outra das suas vantagens
formática, designadamente as possibilidades dispo- que importa considerar (Shiels & Behrman, 2000).
nibilizadas pela Internet, podem proporcionar aos Com efeito, os relatos de experiências de utilização
educadores e às crianças oportunidades únicas de destes recursos (Amante, 2003; van Scoter & Boss,
acesso, a pessoas, imagens, sons e informações mui- 2002) evidenciam que, quer através de web-cams
to diversificadas e dificilmente acessíveis de outro que permitem a realização de fóruns on-line, e per-
modo, que podem seguramente constituir-se como mitem às crianças contactar com cientistas, palha-
poderosos recursos educacionais. Assim, desde ços, actores, ou simplesmente com outras crianças,
pesquisar informação sobre baleias e seus habitats, outras escolas, quer através da simples utilização
a “visitar” o país distante de onde veio o novo co- do correio electrónico - que permite a troca de
lega, a consultar uma enciclopédia interactiva para mensagens, cartões animados, textos, histórias,
saber o que são foguetões, ou tão simplesmente ver fotografias e desenhos digitalizados, com os seus
os trabalhos realizados por colegas de uma outra amigos, família, elementos da comunidade e cor-
escola ou jardim de infância, as TIC possibilitam respondentes - estamos a estimular as suas capaci-
dar resposta, de forma rápida, à grande curiosidade dades comunicativas, a desenvolver a sua apetência
das crianças, permitindo abrir a porta da sala de pela escrita, a favorecer a compreensão da sua fun-
actividades a todo um leque de conhecimentos que, cionalidade, sendo que o fazemos através de uma
integrado no conjunto do trabalho desenvolvido, forma de comunicação que faz, também ela, parte
pode contribuir para uma visão mais ampla e para integrante desse mundo que pretendemos que des-
uma melhor compreensão do mundo. cubra e conheça.
Mas, para além do acesso à informação, é tam-
bém possível utilizar a tecnologia para transformar Educação para a Diversidade
e produzir nova informação (Ponte, 2002). Assim, As TIC podem ser usadas de forma a contribuir
por exemplo, a Internet oferece às crianças a hipó- para que as crianças compreendam e aceitem a di-
tese de editarem em papel ou online os seus traba- versidade (Haugland & Wright, 1997). Com efeito,
lhos, seja um jornal escolar, um projecto de pesqui- as crianças não só desenvolvem desde cedo consci-
sa desenvolvido, ou uma história. A utilização de ência das diferenças sociais, culturais, raciais e ét-
câmaras digitais permite com facilidade documen- nicas como interiorizam os valores dominantes face
tar experiências vividas pelas crianças no âmbito ao estatuto social atribuído a estes grupos. neste
da sua comunidade ou noutros contextos, facilmen- sentido, a educação multicultural das crianças pe-
te editáveis no jornal escolar, no blogue da turma quenas assume toda a relevância e deve constituir
ou no site da escola. Para além de se estabelecer li- uma preocupação do jardim de infância, tendo em
gação com o mundo exterior à escola, ao tornarem vista desenvolver atitudes, percepções e compor-
público o seu próprio trabalho, é-lhe permitido tamentos transculturais positivos que contribuam
54 sísifo 3 | lúcia amante | as tic na escola e no jardim de infância
para a formação cívica dos futuros cidadãos de uma neste sentido importa considerar um conjunto
sociedade que se quer mais justa e tolerante. de factores que podem contribuir para uma ade-
Tal como em relação a outros materiais, tam- quada integração da tecnologia, nos contextos edu-
bém as novas tecnologias e o seu contributo para cativos. Assim, de acordo com vários autores (Hau-
esta educação multicultural dependem largamente gland & Wright, 1997; Stables, 1997; Sutherland,
da atitude e das escolhas do educador. Contudo, Robertson & John, 2004) bem como com os rela-
importa salientar que existe software educativo que tos de experiências bem sucedidas de integração
valoriza a diversidade social e cultural a vários ní- de computadores em escolas e jardins de infância
veis. Mas, mais do que qualquer software educati- (Amante 2003; Ramos, 2005; van Scoter & Boss,
2002; van Scoter et al., 2001) reunimos alguns
vo, pensamos que o verdadeiro potencial das novas
tecnologias neste âmbito reside efectivamente na princípios que aqui procuraremos abordar.
utilização da Internet para acesso a conhecimento
sobre outras realidades e culturas, bem como nas Localização e Acesso aos Equipamentos
possibilidades de comunicação que a esse nível se A localização dos computadores no contexto da sala
podem estabelecer. Este conjunto de possibilida- de aula emerge como um princípio básico para que
des permite-lhes expandir a sua visão do mundo, a sua integração ocorra verdadeiramente (Davis &
conhecer, questionar e compreender a sua diversi- Shade, 1994; Haugland & Wright, 1997). Papert
dade. (2001) considera a localização de computadores em
salas específicas, tipo “laboratório de computado-
res”, como uma resposta “imunológica” da escola
FACTORES A COnSIDERAR PARA UMA para “neutralizar” esse “corpo estranho”. De facto,
EFECTIvA InTEGRAçãO DAS TIC adoptar este procedimento, tão frequente nas nos-
sas escolas, constitui o primeiro passo para remeter
não basta integrar as novas tecnologias nos contex- o computador para fora do contexto de aprendiza-
tos de aprendizagem para assegurarmos a melhoria gem. no que se refere ao jardim de infância, a inves-
da sua qualidade. De facto, há que pensar uma ade- tigação levada a cabo por Susan Haugland (2002)
quada integração e utilização das TIC se queremos, demonstrou que quando os computadores são co-
efectivamente, criar ambientes educativos mais ricos locados fora da sala de actividades, as crianças não
que promovam uma aprendizagem de natureza cons- experienciam os mesmos ganhos desenvolvimen-
trutivista. De acordo com as características gerais tais do que quando eles lhe estão acessíveis na sua
desta perspectiva (Coll, 1992) a tecnologia deve pois: sala, como qualquer outro material. Por outro lado,
• Ser posta ao serviço da construção activa de como refere a autora, este procedimento cria desde
conhecimentos, não dando lugar a simples acumu- logo dois grupos de crianças, os que estão fora da
lação de saberes mas a uma transformação cons- sala a utilizar o computador e os que estão dentro
tante dos esquemas de conhecimento que integram sem possibilidade, sequer, de ver o que os colegas
as novas experiências e continuamente os recons- estão a fazer. O computador assume, assim, desde
troem (Coll, 1992); logo, um estatuto especial, não o estatuto de um
• Proporcionar uma “aprendizagem significa- qualquer outro recurso que as crianças utilizam de
tiva” (Jonassen et al., 2003) que estabeleça relação forma integrada, na sua sala de actividades. Impor-
entre as novas experiências com os conhecimen- ta, pois, que a área de trabalho com computadores
tos prévios e os interesses dos alunos, valorizando faça parte integrante da sala de actividades e que
nomeadamente as aprendizagens funcionais; à frente de cada monitor sejam colocadas duas ca-
• Considerar a importância dos contextos sociais deiras de modo a sugerir, desde logo, a possibili-
de interacção, já que a aprendizagem não decorre de dade de utilização partilhada daquele equipamento
forma isolada, nem compartimentada, sendo um (Haugland & Wright, 1997). Se existirem poucos
processo eminentemente social (Coll, 1992; Crook, computadores, é preferível o equipamento rodar
1998a, 1998b). entre salas, por períodos determinados (Haugland,
2000). A acessibilidade surge como importante por
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sísifo 3 | lúcia amante | as tic na escola e no jardim de infância
vários motivos: Permite às crianças saber quando • Sejam orientadas para a resolução de proble-
está disponível; Favorece a interacção entre os que mas, indo ao encontro de necessidades reais e dos
estão a usar o computador e as crianças envolvidas interesses da criança;
noutras actividades; Encoraja as crianças a apren- • Facilitem e promovam a cooperação entre
derem umas com as outras, cria oportunidades de crianças - em lugar da competitividade – e, conse-
tutoria entre pares e, simultâneamente, facilita a quentemente, a comunicação;
integração das actividades desenvolvidas na globa- • Estabeleçam relação com a vida real, sem
lidade do trabalho curricular. renunciar à fantasia;
• valorizem a diversidade, étnica, cultural, ou
Aplicações Educativas outra, permitindo às crianças estabelecerem pontos
Para além dos programas utilitários mais comu- de identificação com os conteúdos, independente-
mente do seu background de origem;
mente utilizados pelos adultos (Word, Paint, Po-
wer-Point) e que são igualmente úteis e adequados • Disponibilizem informação adicional aos adul-
para serem utilizados por crianças, mesmo as de tos, sobre objectivos do programa, idades adequa-
pré-escolar, cabe ao educador seleccionar alguns das, sugestões de acompanhamento da actividade, e
programas, de carácter especificamente educativo, ainda indicações relativas a instalação e resolução de
que possam ser utilizados pelas crianças. eventuais problemas.
Com efeito, a selecção de programas educativos
reveste-se da maior importância. Diversos autores Em síntese, trata-se de aplicar à utilização das
(Davis & Shade, 1994; Haugland & Wright, 1997; novas tecnologias aquilo que a investigação edu-
Ramos, 2005) têm posto em evidência que a qua- cacional nos diz sobre o modo como as crianças
lidade do software é determinante no desenvolvi- pequenas aprendem. Esses princípios são válidos
para o software, como o são para outro tipo de ac-
mento de experiências de aprendizagem adequadas
sendo, por outro lado, uma tarefa que assume par- tividades e experiências. Assim, a exploração, a
ticular dificuldade dado o mercado estar inundado descoberta, a actividade auto-iniciada, o controlo
de programas que se clamam de educativos, grafi- e flexibilidade inerente aos programas abertos ade-
camente em geral muito atractivos, mas que, quan- quam-se ao desenvolvimento de uma aprendizagem
do explorados se revelam decepcionantes. Assim, e activa especialmente adequada às crianças deste
considerando a investigação disponível, as crianças grupo etário.
parecem beneficiar da utilização de aplicações que:
• Apresentem características abertas (open- Integração nas Actividades Curriculares
ended) que encorajem a exploração e a imaginação, na verdade, importa não esquecer que utilizar a
por oposição aos programas muito estruturados do tecnologia na escola e no jardim de infância não
tipo exercício e prática (drill and practice); constitui um objectivo em si mesmo: “Learning to
• Sejam amigáveis e intuitivas, ou seja fáceis de use the computer should only be a secondary ob-
usar, apresentando menus e ícones figurativos facil- jective. Learning to communicate, to draw, to co-
mente associáveis à sua função; lor, to share and take turns-those preschool goals
• Sejam flexíveis, permitindo responder a diver- should be primary and one way of learning them
sas necessidades e objectivos educacionais, orienta- is to use the computer” (Pierce, 1994, pp. 15-16).
das para o sucesso, fornecendo feedbacks positivos e Efectivamente, não se trata de ensinar as crianças a
pistas que, se necessário, guiem a criança; usar as TIC mas antes, de as pôr ao serviço do seu
• Atribuam à criança um papel activo, solici- desenvolvimento educacional. neste sentido, uma
tando reacções, escolhas, exploração, tomada de utilização adequada das novas tecnologias é aque-
decisões, realização de actividades; la que permite expandir, enriquecer, diferenciar,
• Sejam multisensoriais, atraentes, interac- individualizar e implementar a globalidade dos
tivas mas não se reduzam a um espectáculo de objectivos curriculares. Portanto, as actividades
sons, música, cores e movimento, sem conteúdo e desenvolvidas em redor da tecnologia devem ser
relevância; perspectivadas como novas oportunidades educa-
56 sísifo 3 | lúcia amante | as tic na escola e no jardim de infância
tivas mas integradas num todo que lhes atribuirá e mulante da interacção, incentivando as crianças a
reforçará o seu sentido. Esta visão, partilhada por comunicarem, quer entre si, quer com o adulto. As-
vários autores (Crook, 1998a; Haugland & Wright, sim, para além da atenção do adulto às suas neces-
1997; Jonassen et al., 2003; Ramos, 2005), é apoia- sidades de apoio mais imediatas, importa também
da também por várias experiências de utilização que o educador saiba estimular uma interacção pro-
das TIC em contexto educativo (Amante, 2004b; dutiva, quer durante a realização das actividades,
van Scoter et al., 2001) e pela nAYEC (1996). De quer na sua exploração à posteriori, no sentido de
facto, esta integração surge como fundamental para fazer desses momentos importantes oportunidades
que se possa efectivamente tirar partido das poten- de aprendizagem. Com efeito, a literatura relativa à
cialidades da tecnologia e para que esta possa ser educação e tecnologia tem vindo a sublinhar a im-
vista também pelos educadores como um contribu- portância do papel dos professores quer ao nível da
to real à globalidade do trabalho que desenvolvem, orientação (De Corte, 1992), da criação de contex-
integrando-se nas rotinas de trabalho da sua sala, e tos adequados (Crook, 1998a, 1998b), quer ao nível
nas actividades habitualmente desenvolvidas, mas do desenvolvimento de modelos estratégicos e da
dando igualmente lugar a novos projectos e a novas atribuição de sentido (meaning-making) que con-
duza a uma aprendizagem significativa (Jonassen et
formas de acesso e de construção de saberes. Ou
al., 2003; Salomon & Perkins, 1996). nesta linha,
seja, as TIC na escola devem ser entendidas como
um instrumento cultural ao serviço de experiências vários trabalhos desenvolvidos a propósito das
de aprendizagem educacionalmente relevantes. interacções desencadeadas em redor do trabalho
com computadores (Amante 2004d; Fisher, 1997;
Mediação do Educador e Wegerif & Mercer, 1997) tendo como quadro teó-
Dinâmicas Sociais de Colaboração rico a teoria de vigotsky (1991) e seus seguidores,
O papel dos educadores é fundamental em vários demonstraram como algumas das actividades em
aspectos. Para além do papel inicial do educador/ que os alunos se envolvem utilizando este medium
professor na familiarização da criança com a tecno- (nomeadamente actividades de escrita), se consti-
logia, o seu apoio continua sempre a ser fundamen- tuem como momentos que confrontam a criança
tal, embora assumindo outras vertentes. Se, por com aprendizagens emergentes, ou seja em situa-
um lado, é importante que o adulto dê liberdade à ções em que a criança opera na Zona de Desenvol-
criança para experimentar e realizar o seu trabalho vimento Próximo (vigotsky, 1991) e que, como tal,
de forma autónoma, por outro lado, é importante necessita do apoio de um adulto (ou de um par) que
que esteja atento às suas necessidades, sobretudo lhe permita dar o salto desenvolvimental necessá-
no caso das crianças mais jovens. Estas tendem a rio para atingir um novo estádio de aprendizagem.
beneficiar de uma atenção mais sistemática do adul- A capacidade do educador para estar atento, re-
to, funcionando a mediação do educador como um conhecer estes momentos e intervir, adoptando
comportamentos de scaffolding2 (Wood, Bruner &
encorajamento ao mesmo tempo que dá resposta às
suas necessidades e evita que se sintam frustradas Ross, 1976) de forma a que a criança dê esse salto, é
com eventuais dificuldades surgidas (Clements & pois extremamente importante para que a aprendi-
nastasi, 2002); com as crianças mais velhas, que já zagem tenha lugar.
desenvolveram mais competências, é possível o de- Por outro lado, no âmbito do papel de media-
senvolvimento de formas de trabalho mais autóno- ção desempenhado pelo educador, cabe-lhe tam-
mas e menos dirigidas pelo educador que assume bém promover a interacção e a cooperação entre
então essencialmente um papel de monitorização, as crianças e desenvolver esforços para melhorar a
intervindo quando necessário, orientando e colo- qualidade dessas interacções (Dawes, 1997; Drogas,
cando questões que encorajem a criança a reflectir 2007; Pierce, 1994); designadamente estimulando-
sobre a actividade e sobre os procedimentos (van as a adoptar padrões de colaboração que contribu-
Scoter et al., 2001). am para ampliar a construção conjunta de aprendi-
O trabalho desenvolvido em redor dos com- zagens, diversificar pontos de vista e, desse modo,
putadores constitui-se como particularmente esti- promover a qualidade da prática educativa.
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sísifo 3 | lúcia amante | as tic na escola e no jardim de infância
Formação dos Educadores/Professores junto das crianças, são também meios de comuni-
A formação dos educadores é naturalmente crucial cação e de colaboração entre profissionais, consti-
em todo e qualquer processo que vise a adequada tuindo-se portanto como poderosos instrumentos
integração das tecnologias em contexto educativo do seu próprio desenvolvimento profissional. Para
(Clements, 1999; Haugland, 2000; Kosakowsky, além de permitirem a realização de um conjunto de
1998). Com efeito, uma das principais razões apon- tarefas de apoio ao desenvolvimento de trabalho
tadas para a resistência à integração das tecnologias com as crianças e de organização das actividades,
na escola prende-se com a inadequada ou limitada permitem ainda, através das possibilidades de co-
municação online, estabelecer facilmente interac-
preparação dos educadores e professores para a
sua utilização (Ponte, 2002; Stables, 1997). Quan- ção entre pares e com especialistas, abrindo desta
do os professores/educadores aprendem a usar a forma um leque muito vasto de oportunidades de
tecnologia no contexto da sua escola, da sua sala, formação cooperativa. na verdade, estas novas “co-
com as crianças reais e de acordo com objectivos munidades de aprendizagem” podem constituir-se
igualmente reais, têm muito mais possibilidades de como um novo e estimulante espaço pedagógico,
beneficiarem desta formação e com ela melhorarem também ao nível da formação de professores.
a qualidade dos contextos de aprendizagem em que As novas tecnologias e a Internet oferecem pois
desenvolvem a sua actividade. nesta perspectiva, oportunidades para o desenvolvimento profissional
interessa sublinhar alguns aspectos, que poderão que até há poucos anos não podíamos equacionar.
constituir-se como áreas chave no desenvolvimento À medida que os educadores/professores se tor-
desta formação: nam utilizadores mais competentes e confiantes da
• Desenvolver a compreensão dos professo- tecnologia utilizando-a no âmbito da sua formação
res/educadores acerca da tecnologia da educação; profissional, tornam-se também mais aptos a utili-
Existe uma ampla falta de conhecimento sobre as zarem-na adequadamente com os seus alunos (Jo-
nassen et al., 2003).
possibilidades e objectivos do uso das TIC em con-
texto educativo;
• Ajudá-los a ver de que modo o trabalho que Gestão da Escola/Liderança
habitualmente desenvolvem com os alunos e a expe- Tal como acontece relativamente aos processos
riência que já detêm pode ser adaptada e potenciada inovadores em geral, a adesão da administração da
pelo desenvolvimento de actividades que recorram escola, a sua atitude favorável à mudança, traduzida
à utilização da tecnologia; no suporte contínuo aos educadores/professores en-
• Desenvolver a sua confiança na capacidade de volvidos (Perrenoud, 1994) é também essencial no
utilização das TIC; a falta de segurança e a ansie- caso específico da integração da tecnologia (Han,
dade por ela provocada constitui um dos factores 2002; Haugland, 2000; Kosakowsky, 1998). Assim,
que mais inibe a utilização das novas tecnologias e de acordo com os relatos de várias experiências
(van Scoter et al., 2001) é fundamental uma gestão
pelos educadores/professores (Crook, 1998a; Sta-
bles, 1997); que, para além de facultar os eventuais recursos ne-
• Identificar actividades diversas a partir das cessários, adopte uma atitude aberta às sugestões,
quais os professores possam começar a relacionar- conceda independência aos educadores/professo-
se com as TIC, providenciando a possibilidade de res para que estes experimentem e implementem as
experienciarem por si próprios essa utilização antes suas ideias e incentive os seus esforços, prestando-
de a ensaiarem com as crianças; lhe colaboração, quer na eventual reorganização de
• Fornecer oportunidades para troca de ideias e espaços, quer na reestruturação de horários que se
partilha de práticas e constituir com base nessas tro- ajustem às necessidades de formação. Com efeito,
cas registos de “boas práticas”. uma administração que se preocupe essencialmen-
te em criar condições que favoreçam a melhoria do
Importa ainda fazer sentir aos educadores/pro- contexto de aprendizagem, que se preocupe com
fessores que as novas tecnologias, para além de ins- o desenvolvimento profissional dos seus docen-
trumentos promotores de experiências educativas tes, que adopte um estilo de liderança democráti-
58 sísifo 3 | lúcia amante | as tic na escola e no jardim de infância
ca em que todos se sintam envolvidos, num clima na escola e no jardim de infância assume particu-
de trabalho em que impere o respeito e o diálogo, lar relevância quer porque contribui para colmatar
tenderá a constituir-se como um contexto organiza- a desigualdade de acesso às mesmas, quer porque
cional facilitador dos processos de integração e do cria situações de aprendizagem conjunta entre pais
seu sucesso. Saliente-se, ainda, que os professores/ e filhos, em que as crianças têm possibilidade de
educadores precisam de sentir que o seu trabalho demonstrar as suas competências levando-os a re-
e investimento é reconhecido e caucionado supe- conhecerem e valorizarem o desempenho dos seus
riormente, constituindo esta atitude um reforço da filhos (Cotrim, 2007; Computer Family night Pro-
mudança, na medida em que a valoriza e legitima gram3).
(Thurler, 1994).
Assistência Técnica de Retaguarda
Ligação com as Famílias Por último, mas também essencial para o sucesso
A participação das famílias na vida escolar dos fi- da integração das TIC, é importante que as esco-
lhos é, naturalmente, sempre desejável. no que às las e jardins de infância disponham de apoios de
tecnologias diz respeito importa que a sua integra- retaguarda que providenciem assistência também
ção não descure também a importância desta liga- ao nível técnico, assegurando a manutenção dos
ção já que ela é relevante a vários níveis. Assim, dar equipamentos e a resolução de eventuais proble-
aos pais a possibilidade de visitarem a sala de acti- mas surgidos com o seu funcionamento (nÓnIO,
vidades/sala de aula dos seus filhos, utilizarem con- 2002). Sem este apoio corre-se o risco de um pe-
juntamente com eles o computador na realização de queno problema técnico inviabilizar durante meses
actividades relevantes para ambos, proporcionar- a utilização dos equipamentos e consequentemen-
lhes acesso não só às produções das crianças, mas te fazer regredir ou abortar todo o percurso até aí
à forma como as realizam, constituem, de acordo empreendido, ao mesmo tempo que desmoraliza
com algumas experiências e autores (Cotrim, 2007; e cria insegurança na sua utilização por parte dos
Thouvenelle, 2002; van Scoter & Boss, 2002; van educadores.
Scoter et al., 2001) importantes contributos para a
aproximação entre as famílias e a escola, para a va-
lorização da escola e do trabalho dos seus filhos e EM SÍnTESE
para o desenvolvimento de atitudes positivas face ao
papel das TIC neste contexto. Este tipo de iniciati- Em síntese, gostaríamos de reflectir sobre algumas
vas permite aos pais desenvolverem conhecimento questões que emergem deste texto. Por um lado,
sobre as possibilidades educativas que as tecnolo- constatámos que a investigação disponível aponta
gias oferecem, alertando-os igualmente para a ne- para resultados bastante favoráveis à utilização da
cessidade de uma adequada utilização das mesmas. tecnologia na escola e jardins de infância. Por outro
Com efeito, muitas crianças têm hoje acesso em lado, como assinala Becker (2000), é um facto que
casa à utilização de computadores e outros equipa- poucos são os professores e educadores que utili-
mentos electrónicos, utilização essa geralmente va- zam os computadores nas suas escolas de acordo
lorizada pelos pais, mas que requer a sua orientação com o lado mais construtivo e criativo que a tecnolo-
no sentido de se constituir como educacionalmente gia parece oferecer, lado esse que emerge em grande
relevante. É importante que os educadores/profes- parte nos estudos realizados e do qual derivam, em
sores proporcionem aos pais informação sobre a grande parte, os resultados positivos obtidos. Efec-
adequada utilização da tecnologia e que, conjunta- tivamente, a investigação cria por vezes contextos
mente com eles possam, enquanto consumidores, específicos e bem delineados, fornece apoios téc-
exercer pressão no sentido do desenvolvimento de nicos e formativos que não correspondem, exacta-
programas educativos apropriados a crianças desta mente, às condições da maioria dos contextos edu-
idade. Por outro lado, e em particular no caso das cativos experienciados nas escolas, onde as TIC são
famílias que não têm acesso a este tipo de meios, o subaproveitadas ou mesmo utilizadas para reprodu-
contacto e as possibilidades de exploração das TIC zir práticas antigas. nesse sentido poderá existir um
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hiato entre as possibilidades de utilização das TIC e mais uma vez, a resposta possível não está na tecno-
aquilo que efectivamente acontece quando são dis- logia mas sim nas pessoas e nas instituições. Para
ponibilizadas na maioria das escolas. Mas esse hiato, que esse projecto educativo se renove na globalida-
sendo sem dúvida uma realidade, poderá no entanto de das escolas é necessário um esforço concertado
ser reduzido se a investigação e a formação se cen- de todos os que, de um modo ou de outro, têm res-
trarem nas escolas e nas suas realidades concretas e ponsabilidades na construção da escola que quere-
específicas, considerando-as como unidades estra- mos, desde os decisores políticos, aos professores,
tégicas de inovação (Canário, 1996; Oliveira-For- às instituições que formam os professores, que têm
mosinho & Formosinho, 2001). aqui um papel determinante, aos pais e à comuni-
Existe capacidade e conhecimento para desen- dade educativa em geral. Se os avanços tecnológi-
volver uma tecnologia adequada e propiciadora de cos, que têm alterado o nosso mundo de forma tão
ambientes ricos de aprendizagem que prepare as profunda, servirem como um espelho que reflecte
crianças para aprender a construir conhecimento a imagem de uma Escola “insuficiente”, se através
e a viver num mundo de novas exigências que re- dessa imagem nos confrontarmos com a necessida-
quer cada vez mais a realização de aprendizagem ao de urgente e inevitável da sua renovação, então, im-
longo da vida. Melhorar a qualidade da educação porta fundamentalmente aproveitá-los como catali-
passa, entre muitas outras coisas, por saber tirar zadores dessa mudança, tendo em vista uma Escola
partido dessa tecnologia, por pô-la ao serviço de de construção de saberes e de formação de cidadãos
um projecto educativo renovado em que para além capazes de fazerem frente, como profissionais e
do que se aprende, se aprende a aprender. Assim, como pessoas, aos novos desafios deste novo tempo.
60 sísifo 3 | lúcia amante | as tic na escola e no jardim de infância
notas Canário, R. (1996). A Escola, o Local e a Cons-
trução de Redes de Inovação. In B. P. Campos
(org.), Investigação e Inovação para a Qualidade
1. O referido projecto, “novas Tecnologias: Uma
das Escolas. Lisboa: Instituto de Inovação Edu-
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nanciado pelo Instituto de Inovação Educacional cacional, pp. 59-76.
no âmbito da 12ª edição do concurso “Inovar, Edu- Chera, P. & Wood, C. (2003). Animated multime-
cando/Educar, Inovando”, inserido no Sistema de dia “talking books” can promote phonological
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ce and orthography. Cognition, 81, pp. 227-241.
que não teria sido possível a sua concretização.
1. Este conceito refere-se aos passos dados por Clements, D. H. (1999). Effective use of compu-
ters with young children. In J. v. Copley (ed.),
um adulto no sentido de delimitar uma dada tarefa
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procurando levar a criança a centrar-se nas compe-
tências em jogo num dado processo de aquisição. national Council of Teachers of Mathematics,
Trata-se de antecipar o desenvolvimento da com- pp. 119-128.
preensão da tarefa por parte da criança e de agir em Clements, D. H. & nastasi, B. K. (2002). Os
consonância com essa antecipação através de “inter- Meios Electrónicos de Comunicação e a Educa-
ção de Infância. In B. Spodek (org.), Manual de
venções estratégicas”.
Investigação em Educação de Infância. Lisboa:
3. Esta iniciativa, e as reacções dos pais podem
ser consultadas no endereço: http://www.mcps.k12. Fundação Calouste Gulbenkian, pp. 561-619.
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64 sísifo 3 | lúcia amante | as tic na escola e no jardim de infância
s í s i f o / r e v i s t a d e c i ê n c i a s d a e d u c a ç ã o · n .º 3 · m a i / a g o 0 7 issn 1646 -4990
O projecto “Educação Tecnológica Precoce”: uma
oportunidade para implementar práticas de inovação
curricular
Ana Margarida veiga Simão
amvsimao@fpce.ul.pt
Elisabete Rodrigues
elisrod@fpce.ul.pt
Belmiro Cabrito
BelmiroGilCabrito@fpce.ul.pt
Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Lisboa
Resumo:
O Projecto europeu “Educação Tecnológica Precoce” visou promover a educação tec-
nológica de crianças, sensibilizando-as para a compreensão dos fenómenos científico-
tecnológicos.
Para a prossecução desta finalidade, procurou-se desenvolver material pedagógico
dirigido às crianças, com aplicação na formação inicial e contínua de Educadores e de
Professores do 1º ciclo do Ensino Básico, e devidamente enquadrado por propostas me-
todológicas de ensino-aprendizagem integrando as áreas da Educação e da Tecnologia.
Como produto, elaborou-se um manual digital, de recursos didácticos disponíveis on-
line (http://www.earlytechnicaleducation.org).
neste artigo, para além de apresentarmos o projecto e o site, referimos também os
estudos de casos realizados em Portugal, nomeadamente a valoração de algumas das op-
ções apontadas no manual.
Palavras-chave:
Metodologias de ensino-aprendizagem, Ciência e Tecnologia, Educação Tecnológica
Precoce, Inovação.
veiga Simão, Ana Margarida; Rodrigues, Elisabete & Cabrito, Belmiro (2007). O projecto “Edu-
cação Tecnológica Precoce”: uma oportunidade para implementar práticas de inovação curricu-
lar. Sísifo. Revista de Ciências da Educação, 03, pp. 65-76.
Consultado em [mês, ano] em http://sisifo.fpce.ul.pt
65
InTRODUçãO cias sociais e humanas, em detrimento dos domí-
nios científico e tecnológico;
O Projecto “Educação Tecnológica Precoce”1 (ETP) c) o gosto pela ciência e tecnologia e o processo
inscreveu-se na medida Sócrates-Comenius 2, que de construção de um pensamento científico inicia-
resultou de uma candidatura formulada por seis se nos primeiros anos de vida da criança.
instituições de diferente natureza de quatro países Cumulativamente, o projecto fundou-se ainda
da União Europeia2, permitindo colocar ao serviço na alegada diferente apetência da criança pelas ac-
da investigação entidades produtoras de conheci- tividades científicas e tecnológicas, em função do
mento e entidades produtoras de material pedagó- género. De facto, é usual atribuir-se aos jovens do
gico, na linha da “inovação/produção de materiais género masculino maior sensibilidade e capacida-
pedagógicos”. de de intervenção nestes domínios do que aos jo-
Deste modo, o projecto ETP (ver veiga Simão; vens do género feminino. Sendo uma questão algo
Cabrito & Rodrigues, 2003a) permitiu a partilha marginal no caso português (bem como no caso
de conhecimentos e experiências de instituições espanhol), face ao processo crescente de femini-
com vocações diversas, desde a formação de Edu- zação do ensino em todas as áreas científicas, ela
cadores de Infância e de Professores do 1º Ciclo continua, no entanto, a constituir uma preocupa-
ao desenvolvimento de tecnologias educativas, ção em alguns países europeus, nomeadamente da
passando pelo desenvolvimento curricular, a ava- Europa Central, onde ainda é baixa a participação
liação em educação e a produção de produtos e de das raparigas nas áreas científica, técnica e tecno-
artefactos destinados à utilização na prática peda- lógica.
gógica. Deste modo, o desenvolvimento do projecto,
Esta candidatura teve por justificação a neces- não discriminando qualquer dos géneros em bene-
sidade por muitos sentida de contribuir para o fício do outro, desenrolou-se, todavia, com a pre-
desenvolvimento de um pensamento científico e ocupação de desenvolver experiências, actividades
tecnológico junto dos jovens, assentando em três e materiais pedagógicos do domínio científico-tec-
pressupostos fundamentais: nológico apreciados por todas as crianças, de forma
a) sem depreciar as restantes áreas do saber, as a promover nelas, desde muito cedo, o gosto pela
ciências experimentais e tecnológicas constituem- ciência e pela tecnologia e a tomada de consciência
se em domínios indispensáveis ao desenvolvimento da necessidade de assumir uma postura rigorosa e
da sociedade do conhecimento; crítica face aos diferentes fenómenos.
b) na Europa comunitária, assiste-se a uma pro- no quadro dos pressupostos e finalidades já
cura cada vez maior de estudos nas áreas das ciên- evocados, o público privilegiado foi o conjunto
66 sísifo 3 | a.m. veiga simão/e. rodrigues/b. cabrito | o projecto “educação tecnológica precoce”
de crianças de ambos os géneros com idades com- PRESSUPOSTOS TEÓRICOS DO PROJECTO
preendidas entre os 3 e os 10 anos, bem como os “EDUCAçãO TECnOLÓGICA PRECOCE”3
profissionais que trabalham com elas (Educadores
de Infância e Professores do 1º Ciclo), no sentido Para satisfazer as condições de uma Educação orien-
de lhes oferecer sugestões de trabalho e de reflexão tada para o desenvolvimento, a educação tecnoló-
gica deve promover nas crianças: a autoconfiança,
que concorram para o desenvolvimento da Educa-
ção Tecnológica Precoce. levando-as a sentir que dominam a técnica, onde a
Após a decisão conjunta das premissas do de- condução das actividades respeita o seu ritmo e o
senvolvimento do projecto, nomeadamente dos seu nível etário e onde o trabalho com a técnica con-
duz a experiências de sucesso; o autodomínio, per-
conceitos pedagógicos, didácticos e psicológicos
que iriam suportar a investigação, procedeu-se à mitindo actividades diversificadas, executadas com
“divisão” de tarefas e de responsabilidades, à pla- prazer e segurança, dirigidas a diferentes estilos
nificação e concepção didáctica e pedagógica das de aprendizagem e a diferentes interesses; a curio-
sidade, propondo tarefas próximas da experiência
actividades a realizar e dos artefactos a construir e
à discussão dos resultados. A criação de uma plata- infantil, estimulantes, excitantes e provocatórias.
forma de ambiente colaborativo onde os produtos O projecto ETP assume que a Educação deve
parcelares iam sendo colocados, bem como as aná- ser orientada para o desenvolvimento e começar
lises/críticas e sugestões de cada parceiro, permitiu com actividades lúdicas, as quais subtilmente se
uma pilotagem do projecto assente na cooperação transformam em actividades (significativas) de
diária e na preparação das sessões de trabalho das aprendizagem. Esta educação comporta três ní-
várias equipas. veis: características básicas (liberdade emocional,
De acordo com o quadro teórico de referência, curiosidade, autoconfiança etc.); desenvolvimento
a Educação Tecnológica Precoce (ETP) foi caracte- global (ser activo, tomada de iniciativa, comuni-
rizada consensualmente do seguinte modo: “ (…) cação e linguagem, auto-expressão, compreensão
sensibiliza as crianças para os fenómenos científicos de símbolos, etc.), competências e conhecimentos
e técnicos. Cria oportunidades para desenvolver e específicos (competências motoras, conceptualiza-
apoiar o interesse das crianças e a sua compreensão ção, uso de instrumentos e técnicas, etc.).
de princípios básicos de ciência e tecnologia, pro- O desafio da ETP é o de olhar criativamente para
movendo experiências e desenvolvendo capacida- a tecnologia e para a educação científica e técnica, a
des. Está concebida para o grupo etário dos 3 aos 10 fim de as adaptar a um conceito global de objectivos
anos, para ambos os sexos, e ocorre no contexto do gerais para o desenvolvimento da criança. O ponto
mundo emocional, cultural e social das crianças. de partida é o da curiosidade natural desta acerca
Tem em conta uma variedade de conceitos de en- do mundo, tornando-se imprescindível tomar a sé-
sino, processos, materiais e métodos” (http://www. rio as perguntas (como? porquê? o quê? quem?),
earlytechnicaleducation.org). as quais devem constituir a base de aprendizagem,
no âmbito deste esforço de cooperação, o pro- aproveitando a criatividade própria deste nível etá-
duto final consistiu num manual on-line para/sobre rio sobre fenómenos científicos ou técnicos, de acor-
o ensino da ciência e da tecnologia a crianças entre do com o princípio básico de “aprender fazendo”.
as idades já mencionadas, que pode ser utilizado Com efeito, como lembram Pucket e Black
por qualquer educador e que pode servir como ins- (2000), as crianças mais novas têm uma necessidade
trumento para a formação dos educadores/profes- inata de saber e são, por isso, aprendentes fidedig-
sores neste domínio científico. nos. Ávidos de conhecimento, conseguem iniciar e
Seguidamente, apresentamos os pressupostos desenvolver os seus próprios processos de apren-
teóricos do Projecto, o manual construído e descre- dizagem, num ambiente securizante e estimulante,
vemos os estudos de caso realizados em Portugal constroem o saber em interacção com adultos, com
com a finalidade de valorar algumas das activida- os pares e com situações e materiais significativos,
des didácticas propostas. desenvolvendo-se física, emocional, social e inte-
lectualmente, em diferentes momentos.
67
sísifo 3 | a.m. veiga simão/e. rodrigues/b. cabrito | o projecto “educação tecnológica precoce”
Atendendo a estes pressupostos, as experiências adaptados a cada criança e às diferenças entre elas;
tecnológicas e científicas do projecto foram cons- compreender o essencial da disciplina e relacioná-
truídas para satisfazer a curiosidade da criança, lo com o mundo emocional e experiencial da crian-
para apoiar a sua tentativa de dar sentido ao mun- ça e completar e adaptar os recursos educativos às
do, para desenvolver a sua competência de planear suas necessidades e estilos de aprendizagem, em
e agir autonomamente e para a levar a responsabili- concordância com os objectivos do ensino.
zar-se pelo seu próprio processo de aprendizagem. Face a este leque tão diversificado de tarefas, pa-
no que respeita ao contexto, considerou-se que rece-nos natural que surjam obstáculos ao desen-
este tem de proporcionar espaço e oportunidades à volvimento de uma atitude adequada à implemen-
criança, apostando na experimentação e encorajan- tação da ETP, como os que identificámos ao longo
do-a a encontrar resposta para as suas perguntas, do projecto e que enumeramos a seguir.
desafiando-a. a) barreira cultural: modos de ensinar com ra-
Mas, para responder ao desafio de integrar a ízes na cultura nacional que são muito difíceis de
Educação Tecnológica no currículo escolar, é im- mudar. É preciso, por vezes, esperar pela melhor
portante que um Educador de Infância ou um Pro- oportunidade. Acreditamos que com este projecto
fessor do 1º Ciclo assumam como pressupostos que: estamos perante essa oportunidade e que o envol-
a) o ensino é centrado na aprendizagem da criança vimento dos professores (devidamente apoiados),
e não no currículo ou nas competências; b) o en- neste e noutros projectos, onde possam experimen-
sino reconhece e reage ao conhecimento, que cada tar inovações, pode conduzir à mudança;
vez mais se produz nas diversas áreas do currículo; b) atitude geral das pessoas: uma atitude cultu-
c) o ensino ocorre em situações individualizadas ralmente determinada, quanto ao que é próprio de
(aprendizagem) e de pequeno grupo; d) o ensino rapazes e próprio de raparigas e quanto ao que eles
admite culturas diferentes e estilos de aprendiza- e elas pensam sobre isso;
gem singulares; e) é preciso prestar atenção ao gé- c) teorias pedagógicas subjacentes: sobre o
nero no processo de aprendizagem. modo como as crianças se desenvolvem e em que
nesta óptica, os educadores têm de desenvol- idade se pode começar a estimular novos desenvol-
ver competências em sete domínios (vreugdenhil, vimentos. A este propósito, é importante ter conhe-
2003): pedagógico; científico na(s) disciplina(s); cimento sobre a “zona potencial de desenvolvimen-
relações interpessoais; organizacional; cooperação to” (vygotsky, 1991);
com os colegas e cooperação com o meio e, por fim, d) o conhecimento (ou a falta dele): além do co-
reflexão sobre o desenvolvimento profissional. Es- nhecimento, os professores também sentem a falta
tas competências, em conjunto com os novos de- da experiência. Como os professores são pessoas
senvolvimentos da psicologia da aprendizagem, são activas, aprendem experimentando ou observando
indiscutivelmente relevantes para o campo da ETP. os colegas a trabalhar com as crianças. Esta estra-
Para tal, os professores devem ter: autodomínio, tégia é motivadora e pode ser um processo de for-
autonomia, curiosidade, uma atitude positiva face mação profissional muito eficaz. no entanto, nunca
a novos desenvolvimentos, autoconfiança, com- será demais referir a indispensabilidade da aquisi-
petência científica e técnica no domínio da ETP e ção do conhecimento teórico;
e) falta de novo input: cremos que, depois de ini-
abertura a perguntas e necessidades de crianças e
colegas (nacionais e internacionais). ciarem um projecto no âmbito das tecnologias, os
vreugdenhil (idem), ao descrever as tarefas do professores necessitam de apoio e de novas ideias e,
professor, defende que este deve: despertar e de- certamente, também de intercâmbio de experiên-
senvolver a motivação e o empenhamento na apren- cias. Esta partilha de ideias é muito importante e é
dizagem da criança; incentivar o aluno a progredir essencial contactar com boas práticas;
no seu desenvolvimento; planear o ensino por ob- f) inexistência de um tempo dedicado à ETP
jectivos externamente definidos, orientado para o no currículo: pensamos que a ETP pode e deve ser
desenvolvimento, através do jogo, e orientado para incluída noutras actividades/disciplinas/projectos
a tarefa, através da aprendizagem; projectar meios de forma a não se perder a visão globalizadora ca-
68 sísifo 3 | a.m. veiga simão/e. rodrigues/b. cabrito | o projecto “educação tecnológica precoce”
racterística da Educação de Infância e do 1º Ciclo no sentido de facilitar e diversificar o seu acesso a
do Ensino Básico. É essencial gerir o currículo de todos os intervenientes no processo educativo.
modo global e integrado não caindo numa lógica O manual cumpre diversas funções, nomeada-
disciplinar. mente:
Para remover estes obstáculos, é necessário que a) a de constituir um instrumento de/para for-
se possa introduzir a ETP, quer no currículo da mação de Professores e Educadores em domínios
formação dos profissionais, quer nas suas práticas tão diversos como o processo de aprendizagem da
quotidianas. nesse sentido, sumariamos algumas criança, o planeamento e preparação das práticas
orientações numa visão prospectiva do projecto: a) educativas ou a selecção de metodologias didácti-
a autoconfiança e o à-vontade de um professor em cas e de desenvolvimento curricular;
relação à tecnologia aumentam as possibilidades de b) a de constituir um instrumento apetecível
experiência prática; b) é fundamental estimular o para os Professores e Educadores, em virtude de
um design que facilita a sua utilização;
desenvolvimento das crianças; c) temos de encon-
trar as condições básicas para promover a curiosi- c) a de poder ser utilizado em qualquer local
dade, a autoconfiança e o autodomínio; d) temos (sala de aula, jardim, etc.);
de promover a flexibilidade, isto é, ter em conta a d) a de concorrer para a prática da educação tec-
singularidade de cada criança; e) a educação tecno- nológica, apresentando uma grande variedade de
lógica pode ser mais bem executada, se estiver rela- propostas de actividades experimentais que podem
cionada com outras disciplinas de forma a torná-la ser realizadas com diferentes graus de dificuldade e
significativa para as crianças; f) a educação tecno- com crianças de diferentes idades;
lógica tem de ter um lugar claro numa sequência de e) a de promover uma educação para a cidada-
aprendizagem, tem de ser renovadora e de dar espa- nia, nomeadamente pelas estratégias propostas e
ço à criatividade de alunos e professores. pela natureza dos recursos que se podem utilizar
Por isto, consideramos que o envolvimento em para a realização das diversas experiências.
projectos de curto prazo não é suficiente para tor- Para além da descrição das actividades, o ma-
nar a atitude mais positiva de educadores e crianças nual refere ainda os recursos disponíveis, as estra-
face à tecnologia, assim como não permite a conso- tégias pedagógicas possíveis e os resultados espe-
lidação das competências. Por essa razão, os pro- rados. As actividades já foram testadas com dife-
dutos do projecto ETP foram concebidos para um rentes grupos de crianças nos países participantes
uso prolongado. e um dos capítulos dá conta, exactamente, da forma
como essas actividades foram realizadas e dos re-
sultados obtidos.
APRESEnTAçãO É de ressalvar que as metodologias de trabalho
DO MAnUAL ELECTRÓnICO propostas não são exclusivas, bem como os mate-
riais utilizados, constituindo-se em meros exem-
no cumprimento da finalidade central do Projecto plos, para que cada educador adapte a experiência
– promover a educação tecnológica precoce – es- proposta ao seu contexto.
tabeleceu-se como um dos objectivos principais o Analisados os currículos nacionais de ensino
desenvolvimento de materiais didácticos passíveis dos diferentes países participantes, e constatada al-
de serem utilizados com crianças (dos 3 aos 10 anos) guma diversidade não só quanto ao conteúdo mas
e aplicáveis à formação de Educadores e de Pro- também quanto às opções metodológicas e de con-
fessores do 1º Ciclo do Ensino Básico. Como for- textualização pedagógica, optou-se pela estrutura-
ma de consubstanciar esta missão, acordou-se na ção dos projectos em função de tópicos (III Capítu-
construção de um manual electrónico que também lo). O Projecto está disponível no site: http://www.
integrasse os projectos ou actividades concretas a earlytechnicaleducation.org.
desenvolver. Considerando a preocupação, já refe-
rida, da necessidade do uso prolongado dos mate-
riais produzidos, privilegiou-se o suporte on-line,
69
sísifo 3 | a.m. veiga simão/e. rodrigues/b. cabrito | o projecto “educação tecnológica precoce”
seguintes categorias: Máquina fotográfica, Grava-
dor de cassetes, Computadores, Construção/Mecâ-
nica, Electricidade, Óptica/Luz, Magnetismo, Som,
Água, Química, Tv. Algumas destas categorias
correspondem à apresentação de um projecto, cons-
tituído por um conjunto de actividades e subordina-
do a um tema. no entanto, outras dessas categorias
integram mais do que um projecto. Estão no primei-
ro caso as categorias: Gravador de cassetes, Com-
putadores (crianças e computadores), Electricidade
(electricidade, electromagnetismo), Magnetismo,
Água, Química (na pista do criminoso), Tv. As res-
18
Figura 1 – Projecto Europeu tantes categorias subdividem-se da seguinte forma:
(http://www.earlytechnicaleducation.org). • Máquina fotográfica: máquina fotográfica; a
árvore do nosso Jardim de infância;
Assim, educadores e professores terão oportuni- • Construção/Mecânica: aldeia de cartão; cons-
dade de contactar com sugestões didácticas e de ex- trução de um barco; como se faz uma torre de ber-
perimentar materiais novos. Por outro lado, com a in- lindes; caixa de areia; “storyline (abordagem temá-
serção de um Fórum no site, pretendeu-se incentivar a tica)”; “teddymobil”; “Harry Potter”; Pianola (som,
discussão sobre a aplicação dos materiais propostos, música e mecânica);
com o consequente prolongamento da ETP e o aper- • Óptica/Luz: milagre de luz e cores; luz; luz,
feiçoamento e adaptação desses materiais, conside- espelhos e imagens;
rando diferentes contextos e situações pedagógicas. • Som: (o que é o som?), relacionando a audição
Tirando partido das potencialidades do formato e a vibração;
hipermédia, o utilizador é convidado a escolher os De uma forma geral, para além das considerações
projectos pretendidos, segundo um dos critérios: a metodológicas e de fundamentação pedagógica e cien-
idade das crianças ou o assunto. tífica, e de contextualização, a apresentação de cada um
dos projectos consiste essencialmente na descrição por-
menorizada de uma sequência de actividades. Já quan-
to a estas, o formato escolhido foi o de uma grelha cons-
truída com a preocupação de responder às questões:
O quê? Porquê? Onde? Quando? Para quem? Como?
Assim, para cada uma, é apresentada essa grelha,
com a resposta aos itens que a seguir transcrevermos:
nome da actividade (assunto); Categoria (tópico
científico); Onde (contexto físico); Tempo (dura-
ção); O quê? (objectivos); Para quem (grupo etário e
número de alunos); Preparação (material, …); Pas-
sos (descrição pormenorizada do desenvolvimento
da actividade); Informação de apoio (explicação
20
Figura 2. Projecto ETP/III Capítulo científica, alguma bibliografia); notas (chamadas
– Actividades e materiais. de atenção, cuidados a ter na realização das experi-
ências ou relativas à adaptação ao contexto).
no primeiro critério, consideram-se duas cate- Como exemplo, refira-se o projecto “Crianças e
gorias: idade dos 3 aos 5/6 anos ou idade dos 5/6 aos computadores” que consta dos seguintes itens:
10 anos, incluindo-se, em cada uma, propostas para • Reflexões preliminares relativas à utilização
cada um dos escalões etários considerados. Quanto dos computadores no Jardim Infantil;
ao assunto, os tópicos apresentam-se organizados nas • Duração;
70 sísifo 3 | a.m. veiga simão/e. rodrigues/b. cabrito | o projecto “educação tecnológica precoce”
• Objectivos do Projecto; 6. Utilização de CD-Rom.
• Grupo Alvo; 7. Utilização dos computadores para transferir
• Planificação Geral das actividades: conhecimento.
1. Como é que um computador trabalha? 8. Inserção de imagens com o Clip Art.
2. Como trabalha a impressora? 9. Inserção de fotografias digitais.
3. O que está dentro da caixa? 10. Elaboração de um manual de computador
4. Manuseamento do computador (processa- (actividade transversal)
mento de texto WORD).
5. Utilização de um programa de desenho e de E ainda como exemplificação, segue-se a descri-
gravação dos dados. ção de uma destas actividades:
Quadro 1 – Actividade: Como funciona um computador
Actividade: Como é que um computador Categoria: AV-Media, Computadores
trabalha?
Tempo: aproximado O Quê? “Role play”: Como funciona um computador
Onde: numa sala à
parte, no hall. (1 Hora)
Preparação Passos
Material As componentes do computador estão no meio da sala. As crianças descrevem
Um computador (UCP, monitor, teclado, essas componentes e percebem que um computador só pode funcionar se
cabos), um computador grande de cartão. existirem cabos para conectar as partes individuais. Ligam todas as partes e a
Folhas de papel (pequenas e grandes) professora ajuda, se necessário, descrevem a ordem de transporte de dados (com
com letras (em cores diferentes, idênticas ajuda da professora, se necessário). As crianças transformam-se elas próprias
com cores idênticas), poster mostrando as num computador por um feitiço e vão com a professora para junto do grande
componentes de um computador, papel e computador de cartão. verificam se todas as partes e ligações estão lá, imitam o
canetas. transporte de dados utilizando diferentes estádios – “input” das letras através do
teclado de cartão (letras de diferentes cores) – transferindo as letras para a UCP
e desta para o monitor. Cada criança introduz o seu nome e transporta as letras
impressas até que ele apareça no ecrã de cartão. A professora mostra um poster
com as componentes do computador e uma criança adiciona os cabos de conexão
desenhando-os e explicando o caminho que os dados percorrem.
A professora explica que vão construir um manual de computador, para que as
crianças do Jardim Infantil também possam aprender como é que os computadores
trabalham. As crianças projectam e desenham a primeira página que mostra as
componentes de um computador e o caminho que a informação percorre.
Informação de Apoio:
Um computador é composto por um teclado, uma UCP (Unidade Central de Processamento), um Monitor e cabos de ligação.
Os dados começam por ser inseridos com a ajuda do teclado, um cabo transporta-os para a UCP – onde são processados – e
passam depois através do cabo para o Monitor que mostra a informação.
A UCP e o Monitor ligam-se, pressionando o botão para iniciar.
Através do site referido anteriormente, no III de cartão”, “como se faz uma torre de berlindes”,
Capítulo do manual, também é possível aceder a “storyline” e “teddymobil”.
relatos ilustrados (com imagens e filmes) da apli-
cação de actividades com crianças, realizada por
participantes no Projecto. Inserem-se nesta área A EXPERIênCIA: OS CASOS
as secções denominadas “Impressions” e integra-
das nos projectos: aldeia de cartão, caixa de areia, no decorrer do ano lectivo de 2005/2006, foram
“storyline”, “teddymobil” e “Harry Potter”. realizados doze estudosd de caso em contextos au-
Alguns relatórios das experiências efectuadas, tênticos (contextos diversificados escolares formais
incluindo algumas conclusões, sugestões e refle- e não formais), sustentados por dispositivos de en-
xões quanto a futuros desenvolvimentos e quanto sino/aprendizagem diversificados, integrados nos
à prossecução de objectivos, podem ser consulta- respectivos projectos curriculares dos contextos.
das nas rubricas “Test” em assuntos como “aldeia
71
sísifo 3 | a.m. veiga simão/e. rodrigues/b. cabrito | o projecto “educação tecnológica precoce”
Os contextos
Quadro 2a – Cinco Escolas do 1º ciclo do Ensino Básico
Crianças
Projectos/Temas Tópicos Tecnológicos (ETP)
número/Idade
“A Óptica e a Luz” Construir um periscópio; construir um caleidoscópio; fazer da água
26 10 a 12
Óptica /Luz uma lupa e conhecer como funciona um filme.
Tirar e fazer fotografias; saber como funciona uma máquina
“Pequenos Grandes Artistas”
20 8 a 11 fotográfica; construir uma máquina “pinhole”e uma máquina de
Máquina Fotográfica
verdade.
Investigar: tecnologia em edifícios e veículos; electricidade
elementar.
“Lisboa Iluminada”
Desenhar e construir edifícios e veículos; aplicar circuitos eléctricos;
21 9 a 11 Construção; Mecânica;
aplicar aprendizagens em Matemática.
Electricidade
Utilizar conhecimentos da língua; construir um dicionário técnico
ilustrado sobre construção.
Ouvir, fazer e sentir sons/ruídos.
“Os Amiguinhos do Mestre André
20 9 a 11 Fazer telefones com copos de plástico; fazer música com copos com
Som
água, com uma caixa de madeira, com os estranhos sons da selva.
“Aprender a Ouvir” Fazer telefones com copos de plástico; fazer música com copos com
27 6a7
Som água e construir uma caixa de música.
Quadro 2b – Três Jardins de Infância
Crianças
Projectos/Temas Tópicos Tecnológicos (ETP)
número/Idade
Som: ouvir, fazer e sentir sons/ruídos; o som pode ser canalizado; o
“Som Água e Cores” som é uma onda.
24 3a6
Som; Água; Luz Água: a arte da evaporação.
Milagre de cores: separar as cores.
“Uma casinha de madeira e uma
Projecto e desenho de edifícios e veículos.
Maqueta do Bairro ideal”
22 3a6 Construção de uma casa de madeira; construção dos acabamentos
Construção; Mecânica;
interiores; electrificação da casa.
Electricidade
“As minhas primeiras Água: copos agitados – flutuar e afundar;
experiências” Açúcar e tinta – o que se dissolve primeiro?
15 3a6
Água; Electricidade e Electricidade: manequins eléctricos saltitantes; construção de um
Electromagnetismo. electroíman.
Quadro 2c – Quatro “A.T.L.” Centros de Actividades de Tempos Livres
Crianças
Projectos/Temas Tópicos Tecnológicos (ETP)
número/Idade
Ouvir o som das árvores: som ou ruídos? Acústica; som; resistência
“Da Audição à Vibração” do ar.
6 3a5
Som Fazer telefones com copos de plástico; fazer música com copos com
água, com os estranhos sons da selva.
O que é o som?: ouvir, fazer e sentir sons/ruídos.
“A aventura do Som”
10 6a7 Fazer telefones com copos de plástico; fazer música com copos com
Som
água, construir uma caixa de música.
Água: copos agitados, flutuar e afundar.
“Aprender a Pensar” Mistura de água; o sabor da água; a água é dura? A água é um
10 5a6
Água solvente.
Açúcar e tinta: o que se dissolve primeiro?
Água: copos agitados, flutuar e afundar; a água é dura?
“Cientistas de Palmo e Meio
Electricidade: manequins eléctricos saltitantes.
12 6 a 10 Água; Som; Electricidade e
Som: fazer telefones com copos de plástico, ouvir os estranhos sons
Electromagnetismo.
da selva.
72 sísifo 3 | a.m. veiga simão/e. rodrigues/b. cabrito | o projecto “educação tecnológica precoce”
Os procedimentos profissionais com a introdução da tecnologia/ téc-
nas diversas experiências, a aprendizagem activa e nica no quotidiano das suas práticas?
auto-regulada, desenvolvimento de competências 3 - De que forma os dispositivos de ensino/
disciplinares e transversais, opção por tutoria, tra- aprendizagem implementados (tutoria, trabalho
balho colaborativo, resolução de problemas, traba- colaborativo, resolução de problemas e trabalho de
lho de projecto e articulação universidade/contexto projecto) contribuem para o desenvolvimento de
constituíram os eixos norteadores dos referidos competências na área da Educação Tecnológica/
projectos. técnica e promovem a sua articulação com o desen-
nestes doze estudos de caso, incidimos essen- volvimento de outras competências (leitura, escri-
cialmente no modo como os profissionais inter- ta, e aspectos sociais)?
pretaram a forma como foram concretizadas as 4 - Quais as possibilidades de transferência das
intervenções, enquadrando-a no paradigma in- aprendizagens identificadas pelos profissionais para
terpretativo pois “os acontecimentos só se podem os seus educandos, para si e para os estudantes uni-
compreender se compreendermos a percepção e versitários que participaram nas intervenções?
interpretação feitas pelas pessoas que neles partici-
pam” (Tuckman, 2002, p. 508). As potencialidades
Os dados foram recolhidos através de entrevistas Todos os profissionais que participaram nos doze
semi-directivas aos profissionais implicados (três estudos de caso apontaram potencialidades nas
educadores, cinco professores do ensino básico, intervenções realizadas no âmbito da tecnologia/
dois directores e dois monitores), e analisados re- técnica associadas essencialmente às razões se-
correndo à técnica da análise de conteúdo (Bardin, guintes:
1. integração nos projectos curriculares dos con-
1997). Salientamos que, para além destas entrevis-
textos, o que foi considerado “bastante oportuno,
tas, utilizámos, em todos os doze estudos de caso,
um amplo conjunto de instrumentos de recolha de pois inseria-se no Projecto Educativo de Turma e
dados nomeadamente questionários de diagnóstico de Escola, e muitos dos assuntos abordados eram
e de conhecimentos às crianças, observação parti- enfatizados em outras aulas/sessões, por outras ex-
cipante no decorrer das actividades, e reflexões dos periências semelhantes”;
2. bom suporte científico, dando reforço à per-
estudantes universitários.
O interesse em realizar estes estudos de caso tinência de projectos como a ETP, atendendo às
emergiu do contacto directo com os profissionais dificuldades que surgem neste âmbito e que dizem
(Educadores de Infância, Professores do Ensino respeito à complexidade dos conceitos abordados
Básico, Directores de Instituições, Monitores de e à necessidade da sua adequação a crianças dos 3
Tempos Livres) envolvidos na concretização das aos 10 anos, porque o “objectivo destes projectos
doze intervenções em contexto educativo (contex- na área da técnica/tecnológica é fazer um primeiro
tos diversificados escolares formais e não formais) contacto com métodos científicos possíveis e moti-
com crianças dos 3 aos 10 anos tendo como suporte var as crianças para fenómenos técnico-experimen-
o projecto internacional ETP (Educação Tecnoló- tais” e porque, “para além disto, existe a necessida-
gica Precoce). de de se realizarem actividades relacionadas com as
Com base na constatação de posturas diferen- Ciências para promover uma atitude investigativa
ciadas em relação à área da tecnologia/técnica pe- nas crianças” (…) “contribuindo para a utilização
los profissionais, foram definidas quatro questões de vocabulário científico”;
3. estímulo à participação activa dos alunos, que
gerais que constituíram o ponto de partida para a
realização deste recorte do estudo: “se envolveram bastante, existindo uma interacção
1 - Quais as opiniões dos profissionais face às positiva, quer entre eles, quer com as orientadoras
intervenções realizadas no âmbito da tecnologia/ e porque “era notória a motivação mostrada nas ac-
técnica? Quais as oportunidades propiciadas por ções dos alunos”, revelando “o como é bom serem as
essas intervenções? crianças a construírem pelas próprias mãos, sabe-
2 - Que questões éticas se põem à reflexão dos rem de onde é que as coisas vêm, como é que se che-
73
sísifo 3 | a.m. veiga simão/e. rodrigues/b. cabrito | o projecto “educação tecnológica precoce”
gou a determinado resultado, terem que pesquisar e um conteúdo e também como uma ferramenta para
reorganizar a informação e trabalharem em grupo”; aprender” que pode “promover o respeito mútuo, a
4. contribuição para aprendizagens e para desen- responsabilidade tendo em conta o desenvolvimento
volvimento de competências em várias áreas, que se das crianças”. Por outro lado, o projecto foi ainda
valorizado por permitir que os alunos compreendam
“verifica no geral nas aprendizagens efectuadas pe-
o vasto campo das tecnologias, fazendo-os perceber
los alunos, no aumento das competências técnicas,
(…) no ganho de conhecimentos científicos rela- que “tecnologia não é só computador (…) mas que
cionados com as actividades realizadas (passando tem a ver com domínios técnicos nas várias áreas”.
A necessidade sentida pelos profissionais de ino-
também pela aquisição de vocabulário), no aumen-
var ao nível dos métodos de ensino levou-os igual-
to de competências de reflexão (na medida em que
os alunos foram induzidos à reflexão) e no aumento mente a valorizar a introdução dos dispositivos de
da valorização intra-pessoal (através da potenciação ensino/ aprendizagem (tutoria, trabalho colaborati-
da autonomia dos alunos e a da sua auto-estima”; vo, resolução de problemas e trabalho de projecto),
5. aposta em dispositivos de ensino/aprendiza- dando ênfase os seus contributos para o desenvol-
gem (tutoria, trabalho colaborativo, resolução de vimento de competências na área da Educação Tec-
problemas e trabalho de projecto) que contribuem nológica/Técnica, face à sua possibilidade de arti-
para promover a autonomia do aprendente, a en- culação com o desenvolvimento de outras compe-
treajuda e uma atitude científica “permitindo que tências (leitura, escrita e aspectos sociais). Um deles
as crianças explorem o ambiente que as rodeia, sa- afirma que o projecto “desenvolveu as capacidades
ciando a sua curiosidade, evitando constrangê-las, que o método científico exige, a capacidade de ob-
como tantas vezes acontece, e impedindo-as de se- servação, de atenção, de concentração, de questio-
rem espontâneas na procura de respostas para as namento, de reflectir sobre o que viram, de diálogo
suas questões”. entre eles, de pesquisa, de domínio da Língua Por-
Foi amplamente referida a necessidade de reflec- tuguesa e ainda de outras áreas que são importan-
tir sobre o impacto da utilização das tecnologias no tes trabalhar” e um outro revela satisfação por “as
desenvolvimento das crianças tendo surgido ques- crianças conseguirem explicar alguns fenómenos e
tões de natureza ética. Por exemplo, um dos aspectos conceitos, terem capacidade de questionar, de ob-
que foram salientados prende-se com o acesso des- servar e de reflectir”, por ser uma “estimulação para
regulado à Internet que pode “transformar as nos- elas irem mais além e também o elas não tomarem
sas crianças em pessoas que pensam que o acesso a realidade como um facto adquirido”, bem como o
à informação faz delas, automaticamente, conhe- facto de se ter feito “a ponte entre as experiências e
cedoras da realidade”, bem como dos perigos que a escrita, os relatórios escritos em grupo ou indivi-
ela comporta o que leva à necessidade de “acompa- duais e o facto de as crianças estarem a ler, escrever
nhar as crianças na sua incursão (…)”. Uma preocu- e desenhar”. A ênfase na dimensão do registo teve
pação que atravessa as afirmações dos profissionais em alguns dos projectos um papel determinante
prende-se com a reflexão sobre o papel das tecno- pois, como afirma um professor, “faz com que as
logias no questionamento de valores, como defende crianças tenham possibilidade de reflectir sobre o
uma das educadoras, colocando a tónica na cons- que fizeram, sobre o processo (…)”.
no que diz respeito à transferência das apren-
ciencialização e na reflexão, ao salientar a “grande
dizagens proporcionadas pelas intervenções e à
urgência de as crianças se consciencializarem da
continuação deste trabalho, podemos considerar
necessidade de respeitar o ambiente, para a sua pró-
pria sobrevivência e para o bem comum. Através da existir concordância entre os profissionais, ao nível
experimentação e das construções técnicas, estas dos princípios, da necessidade e mesmo da sua im-
poderão tomar conhecimento das vantagens e das prescindibilidade, mas constatamos que, para uma
consequências potenciais ou efectivas de um mundo maioria, “a aplicação de projectos como estes, im-
tecnológico, de curto ou longo prazo”. plica que o professor esteja disposto e seja capaz de
A adesão dos profissionais ao projecto prende-se modificar as suas rotinas e hábitos de ensino”, o que
também com o facto de se “encarar a tecnologia como nem sempre acontece devido a uma multiplicidade
74 sísifo 3 | a.m. veiga simão/e. rodrigues/b. cabrito | o projecto “educação tecnológica precoce”
de factores (rotinas, falta de formação científica e pe- COnCLUSãO
dagógica, ausência de recursos, espaços inadequa-
dos …). Um dos directores “lamenta que os profes- Face ao exposto, podemos afirmar que o projecto
sores não apliquem mais este tipo de actividades nas ETP cumpriu os seus objectivos. De facto, partin-
suas disciplinas, na medida em que isso poderia ser do de uma caracterização consensual de ETP, foi
possível a edição on-line de um manual que pode
extremamente proveitoso para os alunos, pois o ní-
vel de motivação (…) aumenta quando as realizam” ser facilmente utilizado por qualquer educador no
(…) e “mostra como é possível trabalhar um concei- seu quotidiano. E este é, quanto a nós, certamente
to de uma forma palpável”, salientando que, por ve- um dos contributos mais valiosos: um manual de
zes, “a cultura de escola não é suficientemente per- fácil utilização que faz o inventário de problemas
meável para deixar entrar este tipo de actividades”. que se colocam aos educadores e professores na sua
Em síntese, a utilidade e flexibilidade das acti- prática, ao mesmo tempo que propõe actividades
vidades seleccionadas, a sua adaptação ao grupo de de execução extremamente fácil e adaptáveis a dife-
crianças e aos projectos curriculares das institui- rentes contextos, recursos e idades das crianças.
ções, a preocupação com a criação pelas crianças O manual apresentado constitui-se, portanto,
da possibilidade de acção, articulada com o rigor como um instrumento de auto e hetero-formação,
científico, o facto de este projecto ter sido uma opor- já que pode ser utilizado, simultaneamente, quer
tunidade de os profissionais actualizarem conheci- pelo educador, que aprende a fazer e a reflectir so-
mentos científicos e metodológicos, assim como a bre o seu próprio percurso, quer pelo formador de
oportunidade de os estudantes universitários arti- educadores que nele encontra sugestões de leituras
cularem a teoria e a prática, podem ser considerados e de actividades que proporcionam e potenciam a
os principais contributos deste tipo de intervenção. sua reflexão com os formandos.
Podemos também constatar que os estudantes Considerando que constituir-se num instru-
da licenciatura em Ciências da Educação que par- mento de formação dos educadores era um dos
ticiparam nestes estudos de caso puderam consoli- objectivos subjacentes à própria ideia do projecto,
dar, aprofundar e aplicar os conhecimentos sobre apreciamos positivamente o trabalho realizado, que
pedagogia, investigação e apresentação. Adquiri- se transformou num itinerário formativo para aque-
ram conhecimentos nas áreas do desenvolvimento les que nos ajudaram a construir o manual, através
curricular, sobre o Sistema Educativo e sobre me- da experimentação de algumas das actividades
todologias de ensino baseadas na experimentação, propostas. Para além disso, o (in) sucesso dessas
ficando assim mais sensibilizados para a impor- concretizações no terreno permitiu aferir melhor
tância da educação tecnológica, para as questões o fio condutor de natureza pedagógica, didáctica e
de género e para a pertinência de uma perspectiva psicológica que norteou o desenvolvimento do pro-
construtivista do conhecimento científico a desen- jecto e um mais adequado ajustamento do proposto
volver com as crianças. à população alvo.
Quanto a estas, concluiu-se que, de uma forma no nosso caso específico dos investigadores, o
geral, todas aprenderam os conceitos pretendidos, projecto ETP contribuiu para o aprofundamento
mostrando-se curiosas, interessadas e motivadas da respectiva reflexão sobre a problemática da edu-
pelas actividades e experiências, as quais contribu- cação científica, técnica e tecnológica bem como
sobre a utilização da ciência e a exigência do rigor
íram para o estímulo da sua interactividade e cria-
tividade, assim como para o desenvolvimento de na prática educativa, desde os primeiros anos de
competências técnicas de raciocínio lógico e cien- vida da criança. Foi uma reflexão que deu corpo a
tífico. Foi ainda possível observar a evolução das um conjunto de actividades e das quais se alimen-
suas primeiras intuições (concepções alternativas) tou, concretizando um processo de investigação na
para concepções mais correctas cientificamente. e para a acção.
75
sísifo 3 | a.m. veiga simão/e. rodrigues/b. cabrito | o projecto “educação tecnológica precoce”
de investigação em educação. Lisboa: Fundação
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76 sísifo 3 | a.m. veiga simão/e. rodrigues/b. cabrito | o projecto “educação tecnológica precoce”
s í s i f o / r e v i s t a d e c i ê n c i a s d a e d u c a ç ã o · n .º 3 · m a i / a g o 0 7 issn 1646 -4990
Competência e confiança dos professores
no uso das TIC. Síntese de um estudo internacional
Helena Peralta
hperalta@fpce.ul.pt
Fernando Albuquerque Costa
f.costa@fpce.ul.pt
Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Lisboa
Resumo:
Este artigo tem como propósito apresentar um estudo de caso múltiplo, de natureza qua-
litativa, sobre a competência e a confiança dos professores do ensino básico1 no uso das
TIC nas práticas educativas. Cada caso refere-se a um dos cinco países europeus (Es-
panha, Grécia, Holanda, Itália e Portugal) envolvidos no projecto IPETCCO “Investi-
gation in Primary Education Teachers’ Confidence and COmpetence. Supporting In-
novation...”2, um projecto de investigação em parte financiado pela Comissão Europeia
(Programa Socrates/Minerva). Utilizou-se a entrevista de grupo como técnica principal
de recolha de dados. Tendo principalmente em vista a elaboração dos instrumentos de
recolha de dados da fase seguinte do estudo, emergiram da análise das entrevistas três
grupos de factores ou dimensões centrais em torno dos quais se viria a organizar um
questionário: factores individuais, factores contextuais (ao nível macro e micro) e factores
relacionados com a formação de professores (a consciência dos professores sobre a sua
prática).
Palavras-chave:
TIC, Inovação, Professores, Competência, Confiança.
Peralta, Helena & Costa, Fernando Albuquerque (2007). Competência e confiança dos professo-
res no uso das TIC. Síntese de um estudo internacional. Sísifo. Revista de Ciências da Educação,
03, pp. 77-86.
Consultado em [mês, ano] em http://sisifo.fpce.ul.pt
77
InTRODUçãO ência nos modos de desenvolvimento profissional
dos professores e funcionará, por outro lado, como
Estudos recentes, realizados nomeadamente no factor motivacional para os próprios professores
âmbito de projectos europeus, sugerem que os ní- se empenharem mais claramente ou, pelo menos,
veis de resistência à introdução de inovação basea- considerarem o seu envolvimento em práticas de
da nas TIC nas escolas do ensino básico nos países inovação.
do sul da Europa são superiores aos dos países do Como base comum de fundamentação para ser-
norte (Barajas, 2002; Barajas et al., 2002; Costa et vir de enquadramento e guia ao estudo empírico,
al., 1999; Eurydice, 2001). Este facto depende de tomaram-se, como ponto de partida, algumas de-
uma variedade de factores que vai das estruturas finições dos conceitos-chave com os quais traba-
curriculares e da organização da educação à aces- lhámos, ou seja, os conceitos de competência e de
sibilidade de equipamento e da compreensão do confiança. nessa linha, usamos aqui o conceito de
professor sobre o potencial (e/ou as limitações) das competência enfatizando a sua complexidade e a
TIC para uso pedagógico e didáctico. A investiga- sua dependência do contexto, na linha de Rychen
ção revela ainda que a competência e a confiança e Salganik (2003, p. 44) que afirmam: “Ter uma
dos professores são factores decisivos na implemen- competência significa não só possuir as componen-
tação da inovação nas práticas educativas (Becker tes que a constituem, mas também ser capaz de mo-
& Riel, 2000; Williams, 1993). O “espaço” de flexi- bilizar esses recursos adequadamente e usá-los, no
bilidade permitido no currículo em conjunto com momento adequado, numa situação complexa”, e
os níveis de confiança e de competência dos profes- do projecto DeSeCo (2006) que acentua a natureza
sores parecem, pois, definir o âmbito e a abrangên- holística da competência. Importantes são também
cia da inovação das TIC em contextos educativos os contributos de especialistas como Eraut (1994),
(Barajas et al., 2002). Le Boterf (1997, 2000) e Perrenoud (2000, 2001).
O estudo aqui apresentado investigou a questão A competência, de acordo com Eraut (1994) é um
da inovação no ensino básico precisamente dessa “conceito lato que incorpora a habilidade para
perspectiva, tentando perceber qual a relação en- transferir capacidades e conhecimentos para no-
tre as capacidades, conhecimentos e atitudes dos vas situações, no âmbito da sua área de ocupação.
professores em relação às TIC e a sua predisposi- Abrange a organização e a planificação do trabalho,
ção para utilizarem os computadores numa pers- a inovação e o envolvimento em actividades fora da
pectiva de inovação curricular. A ideia subjacente rotina habitual. Inclui aquelas qualidades de eficiên-
é que uma tal identificação facilitará, por um lado, cia pessoal que são necessárias no local de trabalho
alcançar índices mais elevados em termos de efici- para lidar com colegas, gestores e clientes” (p. 160).
78 sísifo 3 | h. per alta / f. albuquerque costa | competência e confiança dos professores no uso das tic
Para definir o conceito de confiança baseámo- PLAnO GLOBAL DE InvESTIGAçãO
nos no conceito de auto-eficácia de Bandura (1977,
1997). A confiança dos professores é entendida não O estudo que agora se apresenta é parte de um pla-
apenas como a percepção da probabilidade de su- no de investigação mais amplo desenvolvido no seio
do Projecto IPETCCO: Investigation in Primary
cesso no uso das TIC para fins educativos, mas
Education Teachers’ Confidence and COmpetence.
ainda em que medida o professor entende esse su-
Supporting Innovation… Reporta-se, mais concre-
cesso como dependendo do seu próprio controlo.
Segundo Keller (1987), baseado também em Ban- tamente, à primeira fase da investigação sobre a uti-
dura, a confiança tem diferentes componentes: in- lização das TIC nas práticas de ensino e aprendiza-
teresse (preferências e atenção num determinado gem e desenvolveu-se numa perspectiva de estudo
contexto); relevância (utilidade percebida e objec- de caso. Constituindo essencialmente um estudo
tivos de uma determinada actividade); expectativas de natureza exploratória e qualitativa, foi suporta-
(perspectivas de sucesso do próprio indivíduo); e do pela realização de um conjunto de entrevistas de
resultados (valor de reforço dos resultados obtidos, grupo em cada um dos países e pela subsequente
aqui, dos ganhos alcançados com o uso das tecno- análise qualitativa dos dados recolhidos. A segun-
logias na aprendizagem). da fase da investigação é um estudo quantitativo,
Além disto, e de modo a que o nosso estudo baseado na análise estatística dos dados recolhidos
pudesse fazer sentido, quer no plano teórico, quer através da aplicação do questionário construído
do ponto de vista pragmático, optámos por um com base nos resultados do primeiro estudo, e apli-
quadro de referência provisório, de forma a que os cado a uma amostra estratificada de 150 professores
indicadores seleccionados para ancorar as ques- em cada um dos países envolvidos no projecto.
tões de investigação fossem garantia de validade
em termos conceptuais. nessa linha, definiram- Figura 1
se, com o acordo dos parceiros dos diferentes pa- Plano global da investigação
íses, alguns princípios basilares que acabam por
constituir o enquadramento teórico em que a pri-
meira fase do estudo se situou: o construtivismo
como perspectiva de aprendizagem privilegiada,
quer do ponto de vista ideológico, quer em termos
pedagógicos; uma teoria de ensino que enfatiza
o profissionalismo e a autonomia do professor,
considerando o professor como um construtor de
currículo (uma perspectiva de currículo aberto,
com foco humanista, centrado no aluno e orienta-
O plano global de investigação, organizado em
do para o processo; uma perspectiva de formação
três fases distintas, como se pode observar na Figu-
de professores baseada na observação, na acção e
ra 1, incluía diferentes objectivos complementares,
na reflexão, etc.); uma teoria da “inovação baseada
dos quais se destacam: a) a análise das estruturas
nas tecnologias”, que atende às características de
curriculares dos quatro países do sul da Europa
legitimidade em função do currículo formal e do
com o propósito de identificar e caracterizar o “es-
currículo prescrito, ao nível de confiança e poder
paço curricular” de inovação respectivo; b) a refle-
de decisão dos professores, à competência pro-
xão sobre a situação actual relativa à aplicação das
priamente dita no uso das TIC na prática de sala
TIC na prática de ensino e aprendizagem (estudos
de aula, à autonomia dos alunos e dos professores,
de caso); c) a investigação sobre a competência e os
ao isomorfismo na formação de professores como
níveis de confiança de futuros professores (estu-
estratégia central para se aprender a trabalhar com
dantes menores de 25 anos a frequentar cursos de
as TIC em sala de aula.
formação inicial de professores) e de um grupo de
professores do ensino básico (estudo quantitativo);
79
sísifo 3 | h. per alta / f. albuquerque costa | competência e confiança dos professores no uso das tic
e, por último, d) a sistematização e disseminação que medida as diferenças verificadas na integração
dos resultados dos diferentes estudos efectuados. das TIC nas práticas pedagógicas dos professores
participantes é influenciada pela sua competência e
confiança no uso das TIC? e) Em que medida o ní-
O ESTUDO QUALITATIvO vel de confiança dos professores é influenciado pelo
seu efectivo domínio das TIC, isto é, pelo seu nível
É o estudo qualitativo, correspondente à primeira de competência?
fase, que apresentamos neste artigo. E referir-nos-
emos apenas aos quatro estudos de caso relativos Objectivos do estudo
aos países do sul da Europa. numa fase posterior Baseados nestas questões, e de modo a operacio-
seria, então, estabelecida a comparação dos resulta- nalizar a forma de lhes responder, foram definidos
dos destes estudos com os do estudo de caso relati- dois objectivos de investigação: O primeiro, pro-
vo à Holanda. ceder à análise comparativa da competência e do
Como ponto de partida demos relevo a algumas nível de confiança dos professores no uso das TIC
ideias que emergem da observação da prática, na nas suas práticas de ensino; O segundo, identificar
forma de três pressupostos: 1) Geralmente, os pro- e seleccionar os factores mais importantes a incluir
fessores não usam as TIC nas suas práticas peda- num questionário destinado a mapear as capacida-
gógicas; 2) Mesmo quando o fazem, essas práticas des, os conhecimentos e as atitudes dos professores
não são pedagogicamente muito consistentes, quer em relação à inovação baseada nas TIC.
com os princípios da aprendizagem construtivista
tal como são enunciados nos currículos da maioria Metodologia
Abordagem metodológica: De carácter explorató-
dos países participantes, ou sugeridos pelos estu-
dos europeus que serviram de guia a este estudo, rio, este estudo segue uma metodologia qualitativa
quer com o estado da arte no que se refere a contex- apoiada por um conjunto de entrevistas de grupo
tos de ensino e de aprendizagem enriquecidos com como técnica de recolha de dados (Carey, 1994;
tecnologias; 3) O uso das TIC pelos professores é, Krueger, 1997; Morgan, 1997; Powney, 1987) e pela
de acordo com a literatura e os exemplos de boas subsequente análise qualitativa dos dados recolhi-
práticas, um factor estimulante para a inovação dos (Anderson, 1994; Denzin & Lincoln, 1994; Ru-
curricular. bin & Rubin, 1995). A razão para a escolha deste
suporte metodológico prende-se com a necessidade
Questões de Investigação de recolher informação de um número significativo
A análise destes pressupostos deu origem às se- de sujeitos, neste caso, professores em diferentes
guintes questões de investigação: a) Há diferenças situações e, provavelmente, com perspectivas dife-
assinaláveis entre os vários grupos de professores renciadas relativamente ao uso das TIC em contex-
no que respeita ao uso e integração das TIC nas to educativo.
População e amostra: Abrangendo um total de
suas práticas pedagógicas? b) Essas diferenças são
determinadas sobretudo por factores individuais 80 professores (4x20), o estudo envolveu 20 pro-
(contexto pessoal), por factores de ordem estru- fessores em cada país, organizados em quatro gru-
tural e organizacional ao nível da escola (contexto pos de cinco professores cada (4x5): 2 grupos de 5
local), ou por factores de ordem estrutural e orga- professores do ensino básico, com experiência de
nizacional, de natureza macro, ao nível da política ensino (Grupo I e II), 1 grupo de 5 futuros profes-
educativa e da estrutura curricular de cada um dos sores (Grupo III) e 1 grupo de 5 professores em iní-
países (nível regional/nacional)? c) Em que medi- cio de carreira (Grupo Iv). O grupo I é composto
da os sistemas de formação de professores (inicial por cinco professores aleatoriamente seleccionados
e contínua), em cada um dos países envolvidos no de entre os professores de uma escola considerada
estudo, influenciou a competência e o nível de con- inovadora (designados no estudo por professores
fiança dos professores no que diz respeito à integra- inovadores); o grupo II é composto por cinco pro-
ção das TIC nas suas práticas pedagógicas? d) Em fessores aleatoriamente seleccionados de entre os
80 sísifo 3 | h. per alta / f. albuquerque costa | competência e confiança dos professores no uso das tic
professores de uma escola tradicional, isto é, uma da formação na competência e no nível de confiança
escola com funcionamento dito “normal” (desig- dos professores relativamente à integração das TIC
nados aqui por professores tradicionais); o grupo nas suas práticas educativas; iv) impacto da compe-
III é composto por cinco professores em formação, tência e da confiança dos professores na integração
aleatoriamente escolhidos de entre os estudantes das TIC nas suas práticas pedagógicas; e v) depen-
do último ano do curso de formação de professores dência do nível de confiança dos professores no
(designados por futuros professores) e, finalmente, uso das TIC do domínio efectivo que têm das TIC
o grupo Iv é composto por cinco professores no (competência).
seu primeiro ano de ensino (designados por profes-
sores iniciados). Devido à probabilidade mínima Diferenças e/ou semelhanças entre grupos
de encontrar professores que obedecessem a esta Concluída a análise, verificámos que há, de facto,
condição numa só escola, usaram-se critérios di- mais semelhanças do que diferenças entre os pro-
ferentes para a sua selecção, reunindo, por exem- fessores do ensino básico nos quatro países alvo do
plo, professores provenientes de diferentes escolas estudo e mesmo entre os diferentes tipos de profes-
numa mesma entrevista de grupo. sores, quando foi possível fazer a sua identificação,
Recolha e análise de dados: A entrevista de gru- quer no texto explícito (o que disseram) quer no
po foi a técnica de recolha de dados escolhida. É texto implícito (o que se pode inferir do que não foi
uma técnica na qual um entrevistador/moderador mencionado).
introduz temas ou questões de forma a suscitarem no geral, os professores dos quatro países mos-
a discussão entre os entrevistados e de modo a ob- tram uma atitude positiva para com as TIC e estão
ter-se uma cobertura ampla do tópico, no âmbito conscientes das suas potencialidades para respon-
do grupo em estudo. Para além de consumir menos der aos desafios sociais e educativos, agora e no fu-
tempo do que outras técnicas possíveis, pareceu- turo, mas, ao mesmo tempo, também das suas limi-
nos ser a melhor opção precisamente pelo facto de tações, quer no plano institucional, quer no plano
permitir captar a diversidade de perspectivas entre pessoal. Só os professores tradicionais, em Itália,
os professores envolvidos. O conteúdo das entre- parecem manifestar uma atitude negativa em rela-
vistas foi, depois, analisado tendo como base um ção às tecnologias. Outra diferença diz respeito aos
sistema de categorias e de subcategorias, parcial- futuros professores: enquanto na Itália declararam
mente identificadas a priori (sistema construído a não ter conhecimento sobre a existência das TIC
partir das questões centrais do guião de entrevista) nas escolas, em Espanha parecem bastante familia-
e parcialmente emergentes do texto produzido com rizados com elas “quanto mais jovens e inexperien-
base na transcrição das entrevistas. tes são os professores, mais parecem conscientes do
potencial das TIC para as necessidades educativas
e, em termos mais gerais, da necessidade de uma
ESTUDOS DE CASO nACIOnAIS: individualização das actividades educativas…”,
UMA SÍnTESE COMPARATIvA pode ler-se na síntese do caso espanhol.
É opinião geral que as TIC assumem um papel
Os principais tópicos para questionamento na en- secundário nas práticas dos professores, sendo
trevista foram: a) as relações dos professores com apenas usadas como complemento de outros mate-
as TIC; b) o uso das TIC na escola; c) a relação das riais. Com uma ou duas excepções (por exemplo o
programas Click em Espanha), os professores dos
TIC com o currículo; e d) a formação de professo-
res para as TIC. Estes tópicos foram considerados quatro países conhecem as mesmas ferramentas e
como guias de acção, o que nos permitiu organizar os mesmos programas. não há muitos exemplos
os resultados mais significativos em cinco catego- concretos de actividades de aprendizagem dura-
rias: i) principais diferenças e/ou semelhanças entre douras e significativas apoiadas pelas TIC, excepto
grupos; ii) fontes destas diferenças (factores de or- a referência a alguns projectos na Grécia e em Por-
dem individual, factores estruturais e organizacio- tugal. Contudo, mesmo nestes casos, não é clarifi-
nais em diferentes níveis e contextos); iii) influência cado o papel das TIC no seu desenvolvimento, nem
81
sísifo 3 | h. per alta / f. albuquerque costa | competência e confiança dos professores no uso das tic
as vantagens de usar novas tecnologias. Além disso as TIC” como uma prioridade. Os professores são,
não são identificados ganhos na aprendizagem re- eles próprios, uma das principais causas da dificul-
sultante do uso das TIC. não são feitas referências dade em introduzir a inovação na educação. Muitos
ao valor das TIC como factor de inovação, excepto nem sequer se preocupam em saber qual a pers-
na Grécia onde “todos relacionam a inovação com pectiva de aprendizagem que fundamenta a orga-
a disponibilização e uso das TIC nas escolas”. Os nização curricular que seguem. Apesar da retórica
outros países concordam com o que é referido no oficial, explicitada em muitos textos curriculares,
relatório espanhol em que se escreve que “a palavra os professores não parecem estar conscientes de
‘inovação’ em relação com as TIC nunca foi referida uma abordagem curricular centrada no aluno, com
pelos professores”. ênfase em práticas individualizadas e diferenciado-
ras, nem parecem preocupar-se com as abordagens
Causas das Diferenças construtivistas que usam as TIC para enfatizar
Como dissemos anteriormente, as diferenças não metodologias abertas, trabalho de projecto, activi-
são tão flagrantes e significativas que mereçam ser dades autónomas e de investigação, isto é, um con-
referidas como tal. Preferimos, por isso, dar espe- texto privilegiado para explorar o potencial peda-
cial atenção às causas das barreiras mais referidas gógico das TIC. Muitos professores não se sentem
relativamente à implementação das TIC numa suficientemente confiantes para usar um computa-
perspectiva de inovação educativa. Das principais dor com os seus alunos ou mesmo para aprender a
fontes de dificuldades consideradas nos quatro pa- trabalhar com ele.
íses, salientam-se o tempo e o equipamento, apoio
técnico incluído. O tempo, como um dos maiores Influência da Formação de Professores
desafios referidos por todos os grupos de professo- na Competência e no nível de Confiança
res (tempo que não tiveram na sua formação, pres- dos professores no uso das TIC
são do tempo para “dar” o programa, tempo de que na sua prática pedagógica
precisam para adquirir novas competências, tempo A maioria dos professores experientes (de escolas
para conhecer novo software, tempo para “seguir tradicionais ou inovadoras), nos quatro países, afir-
o programa”, etc.). O equipamento e apoio técnico ma que as TIC nunca foram objecto de trabalho
constituem outro conjunto de dificuldades, embo- da sua formação inicial. Alguns deles adquiriram
ra sejam percebidas de modo diferente pelos vá- literacia informática posteriormente, em cursos de
rios grupos de professores, até porque, as escolas formação contínua ou, informalmente, em casa.
inovadoras, por exemplo, tendem a dispor de mais Mesmo os professores iniciados e os futuros pro-
equipamento e mais actualizado do que as outras fessores admitem que não foram convenientemente
escolas. preparados, ainda que em Portugal e em Espanha
Por vezes o problema reside também na própria tenham obtido “alguns créditos” em cursos de “no-
organização escolar – grande número de alunos por vas tecnologias”.
turma, número reduzido de computadores dispo- Apesar da falta de formação para as TIC, ou de
níveis para uso dos alunos, falta de apoio técnico e uma formação insatisfatória, a maioria dos profes-
pedagógico, individualismo de muitas das tarefas sores atribui grande importância à formação como
dos professores (o ensino colaborativo ainda é uma forma de desenvolver a sua confiança no uso das
utopia e a cooperação é uma excepção ocasional). TIC e de desenvolver uma atitude positiva para
Somente a Grécia e a Itália, no seio do grupo de com as TIC em contexto escolar. Só os professores
professores inovadores, referem que as TIC pro- gregos não partilham esta opinião, relacionando
movem o trabalho colaborativo. Outro condiciona- este aspecto mais com factores de ordem pessoal
mento à inovação por meio das TIC são as autorida- (tais como o interesse pessoal e a necessidade de
des educativas locais, que não demonstram grande excelência profissional) e com outros factores de or-
interesse pelas novas tecnologias. dem externa, do que com a formação propriamente
O curriculum (formal ou real) nos diferentes dita.
países participantes não considera “ensinar com
82 sísifo 3 | h. per alta / f. albuquerque costa | competência e confiança dos professores no uso das tic
Relação da competência e do nível de um decréscimo de problemas disciplinares e um
confiança dos professores com a integração acréscimo da eficiência docente são mencionados
das TIC na sua prática pedagógica como efeitos positivos do uso das TIC, a par com o
Todos os grupos de professores parecem conscien- desenvolvimento da autonomia dos alunos.
tes da pluralidade das competências necessárias ao na Grécia, os professores inovadores relacio-
uso das TIC para fins pedagógicos. Os professores nam o ensino e a aprendizagem baseados nas TIC
italianos dão grande importância à competência com a pedagogia adoptada, que é, segundo eles, de
técnica, embora acreditem que esta só por si não natureza construtivista. Por outro lado, os profes-
é suficiente; são de opinião que a competência pe- sores tradicionalistas consideram o currículo como
dagógica e a competência didáctica também são um factor condicionante da aprendizagem.
necessárias se se quiser levar a cabo intervenções Para os professores inovadores, em Itália, as
educativas efectivas e eficientes. TIC desempenham o papel de “um recurso cogni-
Ao contrário dos italianos, os professores gregos tivo na aprendizagem permitindo o desenvolvimen-
dão ênfase especial às competências pedagógicas e to de pensamentos mais complexos e mais ricos”
didácticas, assim como às características pessoais e os professores iniciados sustentam que aumenta
dos professores, embora todos os grupos refiram a auto-estima dos alunos. Os futuros professores
também a importância da competência técnica. portugueses partilham a mesma opinião, acrescen-
Em Portugal, os professores partilham pontos tando que os computadores favorecem a motivação
de vista diferentes sobre as competências mais im- dos alunos para aprender. Os professores inovado-
portantes para ensinar recorrendo às novas tecno- res consideram que as TIC contribuem tanto para
logias: quer os professores experientes, quer os que a melhoria da aprendizagem como para o processo
iniciam a sua profissão enfatizam as capacidades de ensino, ao ajudar os alunos a desenvolver o pen-
técnicas e a atitude para com as TIC, sendo que os samento crítico, a responsabilidade e estratégias de
professores inovadores valorizam as competências autonomia. Os professores tradicionais, pelo con-
curriculares e didácticas. Os futuros professores trário, exprimem a opinião de que o computador
acham que são igualmente importantes a compe- diminui as capacidades cognitivas e comunicativas
tência técnica e a eficiência para o uso das TIC em e a interacção com a máquina torna os alunos passi-
contextos educativos e acentuam a necessidade de vos, ao não os estimular a pensar autónoma e cria-
experiência. De uma maneira geral, podemos dizer tivamente, embora pensem que as TIC os ajudam a
que os professores com mais experiência no traba- resolver problemas de disciplina.
lho com computadores têm mais confiança na sua na Grécia todos os grupos acreditam nos efei-
capacidade para os usar de forma eficaz. tos positivos das TIC, independentemente da pers-
Em Espanha, os professores experientes enfa- pectiva de aprendizagem que seja considerada. Os
tizam precisamente a competência técnica como o professores tradicionais tendem a manter as suas
principal suporte da confiança. Outro factor salien- rotinas de ensino apesar das TIC.
te para o desenvolvimento da confiança, de alguma Em todos os países se reconhece que o currículo
maneira referido nos vários contextos, é a experiên- formal abre portas para a integração das TIC, até
cia prévia com as TIC e a exposição dos professores mesmo na Grécia, país em que o currículo não é, de
ao verdadeiro potencial das TIC em educação. todo, aberto. O facto é que, subordinados às mes-
Para lá destas considerações mais gerais, vale a mas orientações curriculares, as escolas inovadoras
pena referir algumas percepções de diferentes pro- relatam o seu uso regular das novas tecnologias,
fessores sobre o efeito das TIC nas actividades de enquanto outros o não fazem. O problema reside
aprendizagem e a sua relação com o currículo. A mais na vontade dos professores e nas condições
maioria dos professores relaciona as TIC com a me- das escolas, porque, como se afirma no relatório
lhoria do processo de ensino e aprendizagem e com espanhol: “… esta abertura dificilmente pode ser
o melhor aproveitamento dos alunos. Em geral, os considerada uma vantagem, porque tirar benefício
professores consideram que as TIC favorecem a dela significaria investir muito mais tempo do que o
motivação dos alunos para aprender. Em Portugal, disponível, dadas as actuais condições de ensino”.
83
sísifo 3 | h. per alta / f. albuquerque costa | competência e confiança dos professores no uso das tic
A maioria dos professores mostra uma atitude Em Portugal, os professores inovadores asso-
passiva e obediente para com o currículo. Os pro- ciam o conceito de confiança à perda de medo de
fessores ajustam as suas práticas às regras implíci- danificar o material ou de fazer erros ao usar as TIC
tas do currículo formal, embora muitos deles (Es- e, ao mesmo tempo, a um sentido de poder sobre
panha, Portugal e Itália) adoptem uma perspectiva a máquina. Apontam as seguintes condições como
flexível permitindo redesenhá-lo ao planificarem as sendo favoráveis ao ganho de confiança: necessida-
suas aulas. Só o currículo grego não tem, de acor- de de muito tempo disponível (a confiança é ganha
do com todos os grupos, qualquer compatibilida- de forma lenta trabalhando e praticando muito com
de com o uso das TIC. Isso explica por que razão o computador), apoio de colegas mais experientes
só os professores inovadores parecem acreditar no e treino. Os professores tradicionais referem-se
efeito positivo das TIC em termos de inovação cur- sobretudo a questões organizacionais, ao nível da
ricular. escola, como factores facilitadores da confiança. Os
na Grécia, no que diz respeito à planificação professores iniciados, embora reconhecendo o va-
das aulas, os futuros professores dizem integrar as lor das componentes técnica e pedagógica, afirmam
TIC nos seus planos, enquanto que os outros pro- que a confiança no uso das TIC depende, acima de
fessores só o fazem ocasionalmente. na Itália só os tudo, de factores pessoais.
professores inovadores e os que estão no início de De acordo com o relatório espanhol: “o grau de
carreira incluem as TIC, parcialmente, na sua pla- competência é reconhecido em todos os grupos de
nificação e, em Portugal, só os professores inova- professores como o factor mais crítico para criar um
dores admitem fazê-lo. Contudo, temos de admitir sentimento de confiança pessoal nas TIC. Um grau
que a integração das TIC no currículo, com suces- mínimo parece ser necessário para mostrar uma tal
so, depende sobretudo do facto de o professor estar confiança pessoal. Contudo, por outro lado, nem a
convencido da relevância das TIC como meio de competência nem a confiança são suficientes para
promover o acesso a um conjunto mais alargado de instilar nos professores a necessidade de promover
recursos, para eles próprios e para os seus alunos, inovação educativa baseada nas TIC”.
mais do que de decisões políticas. Quanto às áreas
curriculares mais abertas às novas tecnologias ne-
PRInCIPAIS COnCLUSõES E IMPLICAçõES
nhuma parece ser excluída, embora a Matemática,
PARA A InvESTIGAçãO FUTURA
as Ciências e as Línguas tenham quase a preferên-
cia total.
Se não se tratasse de um estudo exploratório com
um objectivo pré-determinado, de alcance limita-
Dependência da competência e do nível
do, seria agora o momento para apresentar algumas
de confiança dos Professores no uso das TIC
conclusões e fazer as sugestões apropriadas. Contu-
do seu domínio efectivo das TIC (competência)
do, o que nos cabe fazer agora é tentar extrair des-
Os relatórios nacionais sugerem que a confiança no
ses resultados a identificação das principais dimen-
uso das TIC é ainda um aspecto polémico para os
sões que nos permitiriam organizar o questionário
professores do ensino básico. Os professores italia-
anteriormente referido e, por fim, sugerir alguns
nos privilegiam a competência técnica, e bem assim
tópicos para nele serem incluídos.
a didáctica, como essenciais para melhorar a con-
Assim, sobre o uso das TIC nos quatro países
fiança na utilização das TIC. na Grécia, os profes-
do sul da Europa, assumimos os seguintes pontos
sores mais experientes (inovadores e tradicionais),
principais como síntese emergente da análise dos
e somente estes, referem os factores pedagógicos e
dados, e que viriam a funcionar como pontos de an-
pessoais como os que mais contribuem para a sua
coragem para a investigação quantitativa:
confiança no uso das tecnologias. Os professores
• As TIC não são ainda um recurso integrado
iniciados põem a ênfase no desenvolvimento de
nas actividades de ensino;
competências pedagógicas e didácticas como forma
• Os professores usam as TIC sem a compreensão
de ganhar confiança, e os futuros professores ambi-
cabal dos princípios de aprendizagem subjacentes;
cionam mais experiência com as TIC.
84 sísifo 3 | h. per alta / f. albuquerque costa | competência e confiança dos professores no uso das tic
• Os professores sabem usar o computador, mas rados necessários para o uso pedagógico e a explo-
não em sala de aula com os seus alunos; ração das TIC; 1.6) Conhecimento de diferentes so-
• no caso dos professores que já usam os com- luções tecnológicas (programas, aplicações...); 1.7)
putadores, as TIC não alteraram significativamente Domínio técnico destas soluções tecnológicas; 1.8)
as atitudes, os papéis, e as formas de ensinar e de Conhecimento de modelos de exploração das TIC
aprender. para fins educativos; 1.9) Experiência no uso das
Em suma, fica a ideia geral de que não há muitos TIC em contextos educativos; 1.10) Relação com o
professores competentes no uso das TIC no ensino, desenvolvimento profissional; 1.11) Capacidade para
pelo que se torna necessário investir na sua re-educa- trabalhar em colaboração e para tomar a iniciativa;
ção. Mesmo os professores que estão agora a iniciar 1.12) Consciência das teorias da aprendizagem, da
a sua profissão não foram adequadamente prepara- filosofia de ensino e do modelo didáctico que sus-
dos para o uso das novas tecnologias. Por isso, pre- tenta o uso pedagógico das TIC em cada contexto.
parar os professores para usar as tecnologias é uma 2. Factores Contextuais: A escola enquanto faci-
responsabilidade que as instituições de ensino supe- litadora do trabalho dos professores em termos do
rior responsáveis pela sua formação devem assumir. uso pedagógico das TIC: 2.1) Equipamento e infra-
Da análise apresentada é possível inferir também estruturas tecnológicas; 2.2) Recursos humanos
que o trabalho com as TIC com objectivos pedagó- para apoio técnico e pedagógico; 2.3) Ferramentas
de software (software comum, aplicações pedagógi-
gicos acentua aspectos incluídos em três dimensões
principais: a primeira relaciona-se com o conheci- cas, etc.); 2.4) Integração das TIC no currículo; 2.5)
mento e as capacidades de base dos professores, isto Uso das TIC em projectos curriculares; 2.6) nível
é, com aquilo que eles aprenderam anteriormente e de iniciativa dos professores; 2.7) Liderança por
como o aprenderam; a segunda, que é uma dimen- parte da direcção da escola, mas também políticas
são crucial, refere-se às características individuais, nacionais e regionais para a promoção e o apoio às
quer de natureza afectiva, quer cognitiva; a terceira TIC para uso pedagógico: 2.8) Infra-estruturas em
tem a ver com factores de ordem contextual, quer rede; 2.9) Apoio técnico; 2.10) Incentivos ao desen-
no plano organizacional da escola, quer de ordem volvimento de projectos; 2.11) Parcerias na indús-
macro estrutural. Cumprindo o objectivo princi- tria; 2.12) Sistema de formação contínua e desenvol-
pal deste estudo qualitativo, terminamos com a vimento profissional de professores; 2.13) Quanti-
apresentação dos indicadores, organizados em três dade e qualidade dos conteúdos pedagógicos e do
dimensões, de onde haveriam de emergir os itens suporte; 2.14) Observatório de práticas inovadoras;
para construção do questionário: 2.15) visão das TIC no currículo nacional e regional.
1. Factores Individuais: sobretudo de ordem 3. Factores relacionados com a formação de pro-
afectiva, relacionados, em geral, com a percepção fessores: 3.1) Uso das TIC no ensino de professores;
dos professores sobre as TIC, e, em particular, com 3.2) Integração (desenvolver a capacidade de inte-
a sua utilidade e eficácia para a aprendizagem: 1.1) grar as TIC no processo de ensino); 3.3) Uso das TIC
Atitude geral para com as TIC; 1.2) Expectativas por futuros professores durante as suas actividades
face ao uso das TIC em contextos educativos; 1.3) escolares (uso das tecnologias durante o trabalho de
valor atribuído às TIC como facilitadoras da apren- campo); 3.4) Aconselhamento por parte dos super-
dizagem; 1.4) Satisfação com os resultados; 1.5) visores sobre o uso das TIC; 3.5) Envolvimento dos
Sentir-se bem preparado. Sobretudo factores cog- formadores e dos futuros professores em projectos
nitivos relacionados com o domínio efectivo de um de investigação relacionados com o uso das TIC
conjunto de capacidades e conhecimentos conside- em situações reais de ensino e de aprendizagem.
85
sísifo 3 | h. per alta / f. albuquerque costa | competência e confiança dos professores no uso das tic
tributions for the Pedagogical Efficiency and the
notas
Quality Assessment (no. Project PEDACTICE).
1. Utilizamos aqui a designação de ”professores do Lisboa: Faculdade de Psicologia e de Ciências
ensino básico” por nos parecer ser a mais adequada da Educação.
para traduzir, no contexto português actual, o Inglês Denzin, n. K. & Lincoln, Y. S. (eds.) (1994).
Handbook of Qualitative Research. Thousand
“primary teachers” utilizada no projecto IPETCCO.
2. Mais informação sobre o projecto IPE- Oaks: Sage.
TCCO pode ser consultada em http://www.fpce. DeSeCo/OCDE (2006). Definitions and Selection of
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s í s i f o / r e v i s t a d e c i ê n c i a s d a e d u c a ç ã o · n .º 3 · m a i / a g o 0 7 issn 1646 -4990
O Currículo numa comunidade de prática
Cristina Costa
c.mendesdacosta@salford.ac.uk
Universidade de Salford, Inglaterra
Resumo:
Com este artigo pretendemos descrever o processo de construção do currículo no inte-
rior de uma comunidade de prática online constituída maioritariamente por professores
de língua inglesa como língua estrangeira – os Webheads in Action (WiA). Centrais neste
artigo são as temáticas do currículo flexível e construtivista, das comunidades de prática
online e da formação de formadores. Para tal realizámos um estudo de investigação, de
cariz qualitativo, tendo por base uma estratégia de estudo de caso, que será aqui suma-
riamente descrita.
Como pontos-chave desta investigação, reconhecemos que os Webheads in Action são
realmente uma comunidade de prática online, uma vez que reúnem as três características
principais apontadas pela teoria da especialidade (Wenger, 1998a): (1) uma empresa con-
junta; (2) um compromisso mútuo e (3) e um reportório partilhado. A par disso, apresen-
tam, igualmente, outros elementos que permitem relacionar os Webheads in Action com
as comunidades de prática: história, identidade, pluralidade, autonomia, participação,
mutualidade, integração, futuro, tecnologia e aprendizagem (Schwier, 2002). verificou-
se, também, que a sua actividade assenta numa estrutura curricular flexível e aberta,
segundo uma abordagem sócio-construtivista. A aprendizagem, centrada no indivíduo,
ocorre em situações contextualizadas e autênticas, sendo essas práticas, e a comunidade,
o próprio currículo (Wenger, 1998a).
Concluímos, ainda, que a actividade desenrolada no seio da comunidade gera uma
dinâmica de grupo, que potencia aprendizagens significativas e viabiliza a formação con-
tínua de professores de uma forma eficaz e motivadora.
Palavras-chave:
Comunidades de Prática, Currículo flexível, Aprendizagem, Tecnologias educativas,
Formação, Construtivismo.
Costa, Cristina (2007). O Currículo numa comunidade de prática. Sísifo. Revista de Ciências da
Educação, 03, pp. 87-100.
Consultado em [mês, ano] em http://sisifo.fpce.ul.pt
87
InTRODUçãO neste sentido, orientámos o nosso estudo com
base nas seguintes questões de investigação: Que
características reúnem os WiA para que efectiva-
A tecnologia está hoje presente na nossa vida pes-
soal e profissional. Em boa verdade esta é parte mente possam ser considerados uma Comunidade
integrante da nossa sociedade. Graças à Internet e de Prática, segundo os parâmetros teóricos previs-
às tecnologias que nos auxiliam no dia-a-dia temos tos pela literatura? Como se caracteriza o modelo
assistido à emergência de inúmeras Comunidades curricular que orienta as práticas efectuadas pelo
em espaços online. Estas são criadas em torno de grupo? Que papel desempenha a comunidade de
vários objectivos, uns de carácter lúdico, outros de prática de professores de língua Inglesa enquanto
cariz mais sério, de entre os quais destacamos as modelo de formação profissional partilhada?
Comunidades de Aprendizagem e, especialmente, A resposta às questões acima mencionadas foi
as Comunidade de Prática (Wenger, 1998a). As Co- encontrada com base na informação recolhida atra-
munidades de Prática (CP) caracterizam-se por um vés da análise de dados e com o apoio da teoria pro-
grupo de pessoas, que se une espontaneamente, não duzida nas áreas de sustentação deste trabalho, isto
só com o objectivo de partilhar interesses comuns, é, sobre o que nos diz a literatura relativamente às
Comunidades de Prática online, ao currículo numa
mas também, e maioritariamente, de reportar as
suas actividades e de se empenhar colaborativa- Comunidade de Prática, às teorias da Aprendiza-
mente em práticas que potencializem a sua aprendi- gem que o legitimam e, ainda que de influência in-
zagem e beneficiem o seu desempenho profissional. directa, à formação contínua de professores.
Actualmente, os participantes de CP dependem,
cada vez mais, de meios tecnológicos para estabele-
cer contacto entre si e desenvolver a sua prática con- EnQUADRAMEnTO TEÓRICO
juntamente. Os indivíduos que compõem uma dada
Comunidade de Prática são conhecidos não só pe- Parece-nos, assim, pertinente começar por enun-
los seus interesses, mas também pela sua actividade ciar alguns desses pressupostos teóricos em função
profissional e pela forma como a desempenham, da sua área mais específica.
através da partilha de histórias e experiências que
acabam por contribuir para o conhecimento dos As Comunidades de Prática Online
demais, numa perspectiva de formação. É sobre As Comunidades de Prática não são propriamente
este tipo de comunidade, como forma de formação uma novidade deste século, nem tampouco uma
contínua de professores, que a nossa investigação experiência recente, quer na esfera da educação,
incidiu, a par do modelo curricular a ela subjacente. quer na profissional, ou nas duas que aqui se encon-
88 sísifo 3 | cristina costa | o currículo numa comunidade de pr ática
tram interligadas por objectivos óbvios. Tal como muns aos seus membros. Lave e Wenger definem
definidas por Wenger (1998b) as CP caracterizam- CP como
se, em traços largos, por três dimensões:
um conjunto de relações entre pessoas, activida-
• O que as define (o que são): uma actividade
de e mundo, estendidos no tempo e em ligação com
conjunta, que é contínua e conscientemente ali-
outras Comunidades de Prática que culminam e se
mentada e renegociada pelos seus membros;
tocam (…) Implica a participação num sistema de
• Como funcionam: a sua actividade mantém-se
actividades, acerca das quais os participantes parti-
graças ao empenho das partes implicadas, acaban-
lham percepções relativamente ao que fazem e ao que
do inevitavelmente por estabelecer elos de ligação
isso representa nas suas vidas e para as suas comu-
e, por conseguinte, formar uma identidade social;
nidades (1991, p. 98).
• Que capacidades desenvolvem: reportório
partilhado de recursos comuns, progressivamen-
te desenvolvidos pelos indivíduos que constituem Em relação às comunidades de prática, Schwier
a CP e que activamente participam nela, entre os (2001, 2002) identifica também um conjunto de ele-
quais se destacam hábitos, sensibilidades, artefac- mentos inerentes à sua constituição, que embora
tos, linguagem própria, estilos, etc. toquem alguns dos pontos já aqui anteriormente
As CP estão associadas a actividades e/ou inte- tratados, trazem alguma novidade ao estudo deste
resses de carácter profissional, evidenciando deste tema, como podermos constatar através do quadro
modo objectivos e interesses bastante claros e co- apresentado abaixo.
ELEMEnTOS DA COMUnIDADE DESCRIçãO
História As comunidades são mais fortes quando partilham uma história.
Identidade As comunidades encorajam a um sentido de identidade partilhada.
Pluralidade As comunidades devem muito da sua vitalidade a “associações intermédias”, como
famílias, igrejas, e outros grupos periféricos.
Autonomia Dentro da ênfase sobre a identidade do grupo é importante que as comunidades
respeitem e protejam a identidade individual.
Participação A participação social em comunidade, especialmente a participação que promove
autodeterminação favorece a autonomia e sustenta a comunidade.
Integração Todos os elementos acima mencionados dependem de normas de apoio, crenças e
práticas.
Futuro As comunidades de aprendizagem não são estáticas; elas criam movimento numa
direcção ao prepararem-se para o futuro.
Tecnologia nas comunidades de prática virtuais a tecnologia pode facilitar e desenvolver a
comunidade, mas também pode inibir o seu crescimento.
Aprendizagem A aprendizagem é um elemento central das comunidades de prática, embora a
natureza da aprendizagem possa ser definida de modo muito genérico e contextual.
Mutualidade A Comunidade é formada e mantêm-se através de uma interdependência e
reciprocidade .
Quadro 1: Elementos das Comunidades de Prática segundo Schwier
(Adaptado de Schwier, 2002, p. 4).
A grande novidade no caso deste autor consis- o empenho dos seus participantes como práticas
te no facto de este já contemplar a tecnologia como que se desenvolvem num sentido inovador, em di-
uma variável associada às comunidades de prática, recção ao futuro, facto igualmente considerado por
embora com algumas restrições, e de percepcionar Wenger (1998a).
89
sísifo 3 | cristina costa | o currículo numa comunidade de pr ática
Currículo de uma Comunidade de Prática como uma actividade social plenamente integrada”
e Teorias de Aprendizagem (Figueiredo, 1999, p. 3).
nos últimos tempos o currículo tem vindo a ser Em suma, o currículo como prática proporciona
entendido, por alguns autores, como uma constru- aprendizagens de naturezas diversas, que se inter-
ção social e cultural, como forma de organizar um relacionam (Coll, 1998) e que incidem “nas diver-
conjunto de práticas e saberes que reflectem uma sas capacidades das pessoas, em suas competências
cultura, uma sociedade, um cenário histórico e cul- e no seu bem-estar” (Zabala, 1999, p. 104). É este
tural. Pensar o currículo é, assim, segundo Grun- também o tipo de currículo que se encontra patente
dy (1987), considerar um grupo de pessoas que se no contexto das comunidades de prática.
interrelacionam mediante certas situações e certos Esta concepção de currículo em construção é
interesses que lhes são comuns e se emancipam por reforçada pelas teorias de aprendizagem que as su-
meio de práticas conjuntas, que lhes abrem novas portam: as perspectivas construtivistas. Estas têm,
perspectivas sobre a realidade. “O currículo não é em grande parte, servido de base teórica para a
um mero conjunto de planos a ser implementado; construção do currículo e para a aplicação das tec-
é antes constituído através de um processo activo, nologias no ensino e aprendizagem.
no qual planear, agir e avaliar estão reciprocamente A teoria construtivista, associada à filosofia, psi-
ligados e integrados” (Grundy, 1987, p. 115). cologia e cibernética, tem tido elevada expressão
O currículo é, deste modo, visto como uma for- nos últimos tempos e define-se resumidamente pela
ma de prática social, que ocorre no mundo real em forma como os indivíduos apercebem e apreendem
que está inserido, em situações autênticas e, portan- o mundo (von Glaserfeld, 1989). O indivíduo, en-
to, significativas para os sujeitos participantes. O quanto aprendente, desempenha um papel activo,
conhecimento, visto por este prisma, é também ele é responsável pela sua própria aprendizagem e é in-
uma construção social, na medida em que os parti- terveniente directo na construção de conhecimen-
cipantes, ao empenharem-se numa reflexão crítica to, à medida que reflecte sobre as suas experiências
sobre uma dada área de saber, pela qual partilham e interage em situações de aprendizagem significa-
interesse, se tornam activos na construção do seu tivas e contextualizadas.
próprio conhecimento. “A prática assume, [assim,] Das várias abordagens desenvolvidas pela teoria
um processo de fazer-sentido que reconhece o sig- construtivista, consideramos como a mais relevante
nificado como uma construção social” (Grundy, para o nosso estudo a que se designa por constru-
1987, p. 116), um entendimento colectivo de algo. tivismo social, a qual está especialmente ligada às
“A ideia de uma comunidade crítica é importante teorias desenvolvidas por vygotsky, Bruner e Ban-
aqui” (Grundy, 1987, p. 124), até porque este tipo de dura (Shunk, 2000).
currículo está vocacionado para grupos de pessoas O construtivismo social atribui especial impor-
cuja relação é alimentada, e se caracteriza, pela discus- tância à cultura e ao contexto em que a aprendiza-
são permanente de interesses mútuos. Como Grundy gem ocorre. Outro factor enfatizado por esta pers-
(1987) relembra, através das palavras de McTaggart e pectiva é a natureza colaborativa da aprendizagem,
Singh (1986, p. 44), este “criticismo pode apenas ser principalmente desenvolvida por vygotsky (1978).
conduzido numa comunidade onde haja determina- Este autor sublinha a importância da interacção
ção para aprender racionalmente uns com os outros”. social na aprendizagem. O desenvolvimento cogni-
Este relevo atribuído ao currículo negociado tivo do sujeito está directamente relacionado com o
não implica que não exista uma estrutura a este seu desempenho em sociedade e o modo como este
subjacente. Contudo, um dos aspectos fulcrais de interage e comunica com ela. A aprendizagem acon-
um currículo mais dinâmico será, sem dúvida, o es- tece primeiro em sociedade e só depois tem impac-
tímulo de uma consciência crítica, através da cons- to ao nível dos processos cognitivos do indivíduo.
trução de conhecimento por meio de uma aborda-
Cada função do desenvolvimento cultural da crian-
gem mais flexível dos conteúdos, que proporcione
ça aparece duas vezes: primeiro no nível social e depois
uma aprendizagem em contextos autênticos e que,
no nível individual; ou seja, primeiro entre as pessoas
por sua vez, possibilite a construção do “saber
90 sísifo 3 | cristina costa | o currículo numa comunidade de pr ática
(interpsicológica) e depois no interior da criança (in- níveis de conhecimento (Lave & Wenger, 1991; Mc-
trapsicológica) Tal aplica-se igualmente à atenção Mahon, 1997; Oliver & Herrington, 2000).
voluntária, à memória lógica e à formação de concei- Desta forma, as abordagens sócio-construtivis-
tos. Todas as funções superiores têm origem nas rela- tas preconizam a colaboração de pares e a multipli-
ções reais entre os indivíduos (vygotsky, 1978, p. 57). cidade de perspectivas (Jonassen, 1994), a partilha
mútua de conhecimentos, a aprendizagem baseada
vygotsky defende, portanto, a aprendizagem com em problemas e em contexto e outras formas que
base na construção de conhecimento em comunidade, envolvam o aprender no e com o meio circundante,
a partir da colaboração e interacção entre os indiví- a sociedade, ou seja, a aprendizagem situada e em
duos.Ocontextosocialé,pois,umaspectoimportante comunidade (Lave & Wenger, 1991; Scardamalia &
e determinante na aquisição e construção de saber. Bereiter, 1996).
A interacção pressupõe igualmente um ambiente
favorável a uma multiplicidade de perspectivas. no que respeita aos novos modelos de aprendi-
zagem (principalmente com base na web), Oliver
Assim, o impacto da teoria construtivista na
aprendizagem começa logo com o currículo. O e Herrington (2000) chegam mesmo a propor um
construtivismo apela à eliminação de um currículo conjunto de nove elementos-chave que, na sua pers-
padronizado, promovendo, por outro lado, a cons- pectiva, reúnem os desígnios essenciais para criar
trução de currículos alternativos e flexíveis, base- um ambiente de aprendizagem contextualizado e as-
ados nos conhecimentos prévios dos aprendentes sente num modelo construtivista de aprendizagem.
e na realidade destes. Para além disso, esta pers- Os elementos-chave são apresentados abaixo em
pectiva valoriza igualmente a prática e construção forma de esquema, seguido de uma explicação su-
de saber activo entre intervenientes com diferentes cinta sobre cada um deles.
Actividades
Autênticas
Articulação
Construção Colaborativa
de Conhecimento
Acesso a Diferentes
Papéis e
níveis de Conhecimento
Perspectivas
Múltiplas
Elementos
Estruturantes
de Aprendizagem Online
Contextos
Reflexão
Autênticos
Coach e Avaliação
Scaffolding Autêntica
Esquema 1. Elementos-chave do Modelo de Aprendizagem online
(Baseado em Oliver, Herrington, Herrigton & Sparrow, 2006).
91
sísifo 3 | cristina costa | o currículo numa comunidade de pr ática
1. Contextos autênticos: o ambiente de aprendiza- indivíduos, que vêem nesta uma forma não só de
gem deve ser desenhado como um todo complexo, melhorar as suas práticas, mas também de progre-
que seja passível de ser explorado espaçadamente dir na sua carreira e no seu desenvolvimento sócio-
no tempo e que motive e dê sentido à aprendizagem; profissional. A formação contínua de professores
2. Actividades autênticas: as estratégias de apren- não tem sido excepção. Como modelos e respon-
dizagem devem ser organizadas para providenciar sáveis pela formação de futuros profissionais, os
tarefas que se baseiem no mundo real e não que não professores devem mais do que nunca acompanhar
passem de uma série de exemplos sem nexo ou liga- a evolução da sociedade e adaptar as suas práticas
ção ao que se pretende aprender; de ensino/aprendizagem à realidade vigente. Como
3. Acesso a diferentes níveis de conhecimento: defende nóvoa, a “formação de professores é algo
(…) que se estabelece num continuum” (2001), sen-
acesso dos participantes com vários níveis de co-
nhecimento, acesso à periferia social ou a eventos do a aprendizagem um processo que se estende ao
reais, tal como estes ocorrem; longo do percurso profissional, e individual tam-
4. Papéis e perspectivas múltiplas: a importância bém, e que deve reflectir as necessidades do tempo
dos indivíduos acederem e explorarem perspecti- presente. As tecnologias educativas são nossas con-
vas diferentes; temporâneas e por isso não podem ser ignoradas
5. Construção colaborativa de conhecimento: pelos indivíduos e muito menos pela escola.
elemento fulcral, especialmente na aprendizagem Como relembra Costa é
a distância. A colaboração deve ser proposta de for-
importante que os professores possam beneficiar
ma a empenhar o grupo e não apenas o indivíduo,
do potencial dessas tecnologias em termos do seu pró-
através de tarefas apropriadas e da comunicação via
prio desenvolvimento profissional, mas sobretudo,
tecnologia;
6. Reflexão: a reflexão eficaz decorre de contextos para poderem utilizá-las com os seus alunos, propor-
cionando-lhes situações de aprendizagem inovado-
e actividades autênticos, anteriormente descritos
7. Articulação: as tarefas devem articular o co- ras, mais interessantes e mais próximas da realida-
de envolvente (2003, p. 1).
nhecimento tácito e o explícito;
8. Coaching e Scaffolding: Providenciados atra-
vés da aprendizagem colaborativa, onde professores O desenvolvimento de competências profissio-
e alunos contribuem e negoceiam significado. Igual- nais (Perrenoud, 1998), e de conteúdos de aprendi-
mente visto como uma forma de o professor mediar zagem, bem como a adequação de práticas é, pois, o
e facilitar a aprendizagem através das tecnologias; intento da formação contínua de professores.
9. Avaliação autêntica: integrada no processo O século XXI representa o continuar de uma
de ensino/aprendizagem, nas actividades levada a era onde o progresso tecnológico se demarca niti-
cabo pelos alunos. damente de todos os outros avanços concretizados
pela humanidade. As tecnologias abriram novos
Contudo, estes elementos só têm expressão se horizontes e providenciaram novas perspectivas.
estiverem inseridos num contexto de aprendiza- no caso dos professores, a necessidade de actuali-
gem, se as actividades aí propostas fomentarem uma zação face a este fenómeno emergente, bem como a
aprendizagem mais centrada no aluno e de carácter adopção de novas práticas para a sala de aula, tor-
colaborativo e se a tal modelo estiver subjacente um na-se quase imperativo, de modo a conseguir, com
dispositivo de apoio e moderação de aprendizagem tais práticas, uma visão renovada e moderna da es-
eficaz, onde o conhecimento activo é valorizado e cola, fazendo, assim, a ponte entre a realidade esco-
facilitado pelas tecnologias da comunicação. lar e a realidade do dia-a-dia tal como é vivenciada
pelos alunos.
Formação Contínua A introdução das Tecnologias de Informação e
A formação contínua tem vindo, nos últimos tem- Comunicação (TIC) em ambientes de aprendiza-
pos, a ser encarada como um “mal necessário” ao gem pode fazer essa diferença. As tecnologias edu-
desenvolvimento das aptidões profissionais dos cativas, quando eficazmente utilizadas, podem au-
92 sísifo 3 | cristina costa | o currículo numa comunidade de pr ática
xiliar a aprendizagem positivamente. Aprender com OPçõES METODOLÓGICAS
as tecnologias, como Costa (2005) valoriza no seu
site1, pode ter os seus benefícios, tanto para alunos no âmbito da investigação qualitativa, que orien-
como para professores: a possibilidade de ambos tou o nosso percurso de investigação, adoptámos o
aprenderem e ensinarem, respectivamente, com método de Estudo de Caso, de natureza descritiva
recurso à tecnologia e a ferramentas disponíveis e interpretativa, por ser esta uma investigação que
da Internet pode enfatizar, melhorar e motivar a visa focar um fenómeno da realidade actual, em que
aprendizagem, bem como toda a prática educativa. o investigador não tem qualquer tipo de controlo
Preparar os professores para o uso destas, dotan- sobre o ambiente que se propõe estudar e porque
do-os com os conceitos e conhecimentos base, é o gostaríamos de nos centrar numa investigação de
primeiro passo a dar. Transformar as suas perspec- cariz descritivo e interpretativo, a partir de uma
tivas e entusiasmá-los para o uso eficaz das tecno- perspectiva exploratória (Yin, 1994). “O objecti-
logias educativas nas suas actividades de ensino e vo (…) é compreender o mundo dos sujeitos e de-
terminar como e com que critérios eles o julgam”
aprendizagem passa, essencialmente, por uma for-
mação adequada e actualizada das práticas educa- (Bogdan & Biklen, 1994, p. 287).
tivas. As comunidades de prática online são, neste Recorremos a diferentes formas de recolha e
sentido, dinamizadoras e fontes eficazes de forma- análise de dados, para que pudéssemos, de forma
ção contínua. mais completa e com base em vários pontos de vis-
ta, fazer uma leitura mais precisa do nosso objecto
de estudo (Cohen, Manion & Morrison, 1989). A
O CASO EM ESTUDO comparação de dados a partir de várias fontes pren-
de-se com a necessidade de conferir validade ao es-
O caso em análise, nosso objecto de estudo, consis- tudo e de lhe atribuir fiabilidade, por meio de uma
tiu num grupo de professores de língua inglesa, apo- análise de perspectivas múltiplas.
logista das tecnologias educativas ao serviço da edu- Os procedimentos de recolha de dados foram
cação, que se reúne online com o intuito de introdu- tomando forma à medida que fomos avançando no
zir e debater tal temática, é designado por Webheads terreno e conhecendo melhor o nosso objecto de
in Action (WiA). O objectivo principal desta comu- estudo. Começámos por efectuar uma observação
nidade consiste na utilização, por parte dos parti- exploratória, que nos permitiu não só recolher in-
cipantes, das ferramentas de comunicação, media- formação preciosa em relação ao grupo, mas tam-
das por computador, numa perspectiva de inter- bém estipular as primeiras categorias de análise,
ajuda; que colaborativamente aprendam algo mais que em muito contribuíram para um entendimen-
sobre ambientes de aprendizagem online e mistos to mais claro do nosso problema. Posteriormente
(blended) e que possam aplicar os conhecimentos procedemos à recolha de documentos produzidos
produzidos às suas realidades de ensino e/ou a pro- pelos participantes durante o período de observa-
jectos, que pretendam desenvolver (Stevens, 2001). ção e, já numa fase final do nosso estudo, aplicámos
Trata-se, portanto, de um grupo de professores-alu- um mini-questionário aos participantes, onde so-
nos, que usam as tecnologias para aprender e para licitámos a resposta aberta às três questões funda-
ensinar. mentais do nosso estudo, cujo principal intuito era
Os seus membros estão espalhados pelos qua- confirmar a informação recolhida e tratada e assim
tro cantos do mundo e a sua maioria só se conhece triangular os dados extraídos a partir das três for-
virtualmente, ou seja, por meio de ferramentas de mas de recolha e análise de dados.
comunicação síncronas e assíncronas, via Internet.
A sua actividade é frequente, e o grupo é, nas pala- RESULTADOS
vras do seu coordenador, coeso (Stevens, 2001). Os
Webheads in Action parecem representar, portanto, Como resultado da análise e interpretação dos da-
dos, apurámos que os WiA se definem, de facto,
um exemplo exímio daquilo que se espera de uma
comunidade. por um leque de características referenciadas na
93
sísifo 3 | cristina costa | o currículo numa comunidade de pr ática
literatura, que nos permite “denunciar” este grupo e motiva a continuação da comunidade até aos dias
de professores como uma comunidade de prática e de hoje. De facto, este é, sem dúvida, um dos as-
que passamos a seguir a enunciar. Retomando a te- pectos curiosos desta comunidade, na medida em
oria de Schwier (2002), verificámos que aos Webhe- que o seu objecto de aprendizagem é igualmente o
ads in Action está subjacente um passado histórico, meio pelo qual os seus membros efectuam as suas
que remonta a vários anos de uma actividade no aprendizagens, ou seja, estes aprendem sobre as
plural, que não só fundamenta a sua existência en- tecnologias com as tecnologias, tal como Schwier
quanto comunidade, mas que também permite aos (2002) prevê e Costa (2005) preconiza. Estamos pe-
seus membros identificarem-se com ela. Ao longo rante um paradigma de aprendizagens autênticas e
do nosso estudo verificámos, na postura dos seus contextualizadas.
membros, uma forte identificação com o grupo, ao Convém ainda realçar, tal como frisam Wenger,
designarem-se e assumirem-se como Webheads, o McDermott e Snyder (2002), que os Webheads in
Action podem ser vistos como uma comunidade de
que nos leva, portanto, a concluir que existe igual-
mente um sentido de unidade e de pertença que prática porque existe um objectivo comum e parti-
fundamenta esta identidade adoptada pelo grupo, lhado pelos indivíduos que a compõem; porque é
apesar deste ser composto por uma grande varieda- visível uma paixão sobre uma área temática que es-
de de indivíduos de diversos países e com perspec- tes pretendem cultivar e desenvolver em conjunto, a
tivas e experiências totalmente díspares. Da Euro- fim de beneficiar a sua prática individual, ao mesmo
pa ao continente Americano, passando pela Ásia e tempo que cada um dos participantes activos, con-
Austrália, esta comunidade conta com um número tribui igualmente para o conhecimento comum, o
de toda a comunidade. É também graças às tecno-
bastante vasto de representantes de várias nacio-
logias que estes não só melhoram as suas práticas
nalidades e com apetências diferentes. Esta diver-
sidade possibilita aos WiA a construção conjunta enquanto professores, actualizando-as e preparan-
de conhecimento, de interdependência uns com do-se para a educação do presente e do futuro, mas
os outros, com base numa pluralidade de ópticas e também desenvolvem afinidades entre eles, o que
acepções, visíveis através da uma multiplicidade de permite a construção de laços afectivos, que se es-
perspectivas emitidas para o seio da comunidade. tendem para além dos interesses de aprendizagem
Tal acaba por contribuir para um conhecimento e que os levou a integrar a comunidade em primeiro
uma aprendizagem mais significativa dos indivídu- lugar. Estes laços têm por base não só as interac-
os que a compõem. não quer isto, contudo, dizer ções frequentes, mas também um forte sentimento
que o indivíduo se anule perante o grupo; antes de socialização e de relacionamento sócio-afectivo,
pelo contrário, e tal como tivemos oportunidade que é evidenciado pelo entusiasmo e pela motivação
de verificar na nossa análise, essa pluralidade é sempre presentes na relação que estes estabelecem
aceite e valorizada, o que acaba também por faci- uns com os outros e que se verifica igualmente no
litar a integração e a participação dos indivíduos seu percurso de aprendizagem. A socialização é, na
na comunidade. Aos membros dos Webheads está nossa opinião, um elemento que gostaríamos aqui
igualmente reservada uma autonomia que é implí- de frisar como sendo um dos principais catalizado-
cita à actividade e à postura destes perante a apren- res da actividade e aprendizagem em comunidade.
dizagem. Aqui cada um aprende o que quer, me- verificámos, de acordo com a análise e interpre-
diante os seus interesses práticos e ao seu próprio tação efectuadas, que estamos perante um currícu-
ritmo, sem que isso seja encarado como um ponto lo decisivamente flexível e baseado em pressupos-
negativo da participação de cada um na actividade tos construtivistas.
da comunidade. A postura é de flexibilidade e de Como Oliver e Herrington (2000) apontam, o
uma aprendizagem baseada em interesses próprios, modelo de aprendizagem que define a comunida-
de de prática online Webheads in Action pressupõe
concretizada por uma actividade de reflexão e de
contextos autênticos de aprendizagem, uma vez que
práticas conjuntas e constantes, dentro de um con-
texto específico: o das tecnologias educativas. É a os participantes aprendem sobre as tecnologias
exploração entusiastica desta temática que alimenta com recurso a estas mesmas tecnologias. O espaço
94 sísifo 3 | cristina costa | o currículo numa comunidade de pr ática
de actuação desta comunidade é online e as tarefas constante e intensa, manifesta ao longo de todo o
processo de aprendizagem. num esforço de refle-
propostas são igualmente efectuadas neste mesmo
xão contínua sobre os conhecimentos adquiridos e
cenário, o que viabiliza o empenho dos participan-
tes em actividades autênticas e contextualizadas, aplicados à prática, da articulação entre o conheci-
uma vez que estes não só exploram as ferramentas, mento tácito e o explícito, visível através dos resul-
como também as aplicam na sua prática de ensi- tados práticos aplicados aos contextos profissionais
no, transportando assim para a sala de aula e, por dos participantes na CP, sobressai uma construção
conseguinte, para a sua vida profissional, os conhe- colaborativa de conhecimento, que marca e define
cimentos adquiridos em comunidade. Este facto todo o percurso de aprendizagem e que reflecte um
contribui para o nosso entendimento de currículo currículo flexível. Este currículo vai-se construindo
como uma prática que possibilita uma aprendiza- à medida que a comunidade evolui na sua prática,
avalia o seu desempenho, individual e colectivo, e
gem efectiva e baseada em situações reais. não se
trata aqui de um currículo prescrito, nem formal, (re)define o seu propósito. Como Wenger propõe
mas antes de um currículo que se constrói à medi- (1998a) “a aprendizagem não pode ser desenhada”
da que a comunidade se desenvolve e que reflecte o (p. 225), mas pode, sem dúvida, ser baseada na ex-
que ela é. periência e na prática progressivas de um grupo de
Para além disso, a aprendizagem efectuada pelos indivíduos, que sirvam de sustentação de uma es-
membros desta comunidade realiza-se numa dia- trutura, que ainda que informal, se verifica eficaz
léctica de dar e receber, onde os noviços aprendem em garantir a construção de conhecimento signifi-
com os mais experientes, onde diferentes níveis de cativo com base numa prática partilhada.
conhecimento concorrem para uma aprendizagem Assim, concluímos que estamos perante um
efectiva e onde o Scaffolding é uma realidade. Con- modelo curricular que assenta numa prática e em
sequentemente, desta união de indivíduos, com ní- situações reais, que visa uma aprendizagem contex-
veis de saber e perícias diferentes, resulta uma troca tualizada, onde a colaboração e a interacção entre
de informação e uma prática de ensinar e aprender indivíduos, permitindo o contacto com diferentes
conjunta que se verifica rica e influente nas apren- perspectivas do saber, promovem oportunidades
dizagens da comunidade. Com dúvidas e/ou suges- de aprendizagem reflexivas e autênticas. Ou seja,
inerente aos Webheads in Action está intrínseco um
tões todos acabam por contribuir para o objectivo
currículo de aprendizagem tal como definido por
comum da comunidade: o de aprofundar conheci-
mento e também o de construir novas linhas de pen- Lave e Wenger (1991).
samento. O acesso a uma multiplicidade de perspec- É, igualmente, nosso entendimento que esta
tivas e papéis é também contemplado na actividade comunidade desempenha um papel fulcral na vida
dos WiA, onde facilmente qualquer um dos indi- dos seus participantes, quer ao nível profissional
víduos, que detenha conhecimento sobre um dado quer ao nível pessoal, influenciando decisivamente
assunto, desempenha, a dada altura, um papel de as suas práticas de uma forma positiva e inovadora.
destaque, que se prolongará enquanto esse mesmo Como pudemos constatar, ao longo de todo o pro-
contributo for entendido como pertinente para a ac- cesso de investigação, a actividade da comunidade
tividade da comunidade, podendo outros assumir é intensa e motivante e reflecte-se na prática diária
alternadamente essa liderança, nesta perspectiva de dos seus membros que transportam as competên-
aprender e contribuir para a aprendizagem dos ou- cias adquiridas para a sua esfera de desempenho
tros, sempre que tal se justifique. Este é igualmente profissional, ao introduzirem e aplicarem os novos
um factor de enriquecimento da comunidade, tal conhecimentos nas salas de aula, enquanto profis-
como o são as interacções e os aspectos colabora- sionais de educação.
tivos a que a estrutura implícita a esta comunidade Esta comunidade de prática é, sem sombra de
impele. De facto a aprendizagem dos indivíduos dúvidas, uma excelente e eficiente maneira de pro-
desta comunidade reflecte-se principalmente nos mover a formação profissional no âmbito das tecno-
resultados de conhecimentos partilhados e traba- logias educativas — área que esta comunidade privi-
lhados em conjunto, por meio de uma interacção legia, como é logo à partida desvendado pelo nome
95
sísifo 3 | cristina costa | o currículo numa comunidade de pr ática
que adoptaram: Webheads in Action, ou seja, estamos e no seu desempenho profissional ao desenvolverem
perante um grupo de indivíduos (Heads) intelec- novas competências e aptidões, ao fazerem parte de
tualmente estimulados e interessados em aprender uma rede de conhecimento, na qual está patente
com recurso à Web, interesse esse que os une no em- uma multiplicidade de perspectivas, ao dinamiza-
penho mútuo de uma actividade (action) conjunta. rem práticas e ao estabelecerem um forte sentido
Em colaboração com os Webheads não só se de identidade profissional, que lhes confere uma
aprende sobre as tecnologias como também se maior motivação e confiança para progredirem na
aprende a utilizar as tecnologias e a aplicá-las ao con- sua actividade educativa. A par disso, a inter-ajuda
texto de cada um. nesta comunidade exploram-se e a colaboração em novos desafios, o acesso a co-
vários tipos de conteúdos, que concorrem para uma nhecimento especializado e diversificado, a interac-
aprendizagem mais eficiente e também mais com- ção e a socialização entre pares, a participação sig-
pleta. Estes reflectem-se tanto no indivíduo como nificativa e o forte sentido de pertença evidenciados
pelos Webheads facilitam-lhes a progressão na sua
no profissional que cada um é, e em que cada um se
transforma à medida que desenvolve o seu conheci- experiência profissional e no estatuto de professo-
mento e, consequentemente, evolui na sua prática. res inovadores e ousados, muitas vezes apelidados
pelos próprios de Tech-Teachers.
Retomando Wenger, McDermott e Snyder
(2002), consideramos que a comunidade Webheads Apresentamos, seguidamente, um esquema do
in Action consiste numa forma activa e inovadora de que acreditamos ser a essência dos Webheads in Ac-
tion, com base na relação entre os pressupostos teó-
estímulo ao desenvolvimento profissional. Enquan-
to membros activos desta comunidade, os professo- ricos anteriormente referidos, aos quais acrescentá-
res Webheads conseguem progredir na sua carreira mos alguns aspectos que considerámos pertinentes.
Elementos de uma CP
ELEMEnTOS
Identidade Mutualidade
ESTRUTURAnTES
Actividades Contextos
Estimulados Por:
Autênticas Autênticos
Pluralidade
Resultado
Articulação Avaliação
entre Integrada
Autonomia
História
Conhecimento
Desenvolvimento
Tácito e
Profissional
Explícito
Coach e
e Aquisição de Scaffolding
BOAS PRÁTICAS
Comunicação Discussão
Acesso a Papéis e Socialização
Diferentes Perspectivas
níveis de Múltiplas
Conhecimento
Participação Construção
Partilha Colaboração
Colaborativa de
Orientação
Conhecimento
para Futuro
DE APREnDIZAGEM
Integração
nUMA CP OnLInE Tecnologia
Aprendizagem
Esquema 2. Esquema Conclusivo relativo aos Webheads in Action.
96 sísifo 3 | cristina costa | o currículo numa comunidade de pr ática
O esquema acima é a nossa visão sucinta do que pação nesta. As conclusões patentes nestes dois úl-
caracteriza os WiA. nele estão expressos dez ele- timos níveis são fruto das nossas interpretações no
mentos que representam esta comunidade, à luz da âmbito desta investigação.
Em suma, os Webheads in Action reúnem os
proposta de Schwier (2002) e aos quais sentimos a
necessidade de adicionar um décimo-primeiro – o pressupostos antecipados pela literatura para se-
rem uma comunidade de prática online, sendo que
da socialização – de modo a frisar a dimensão só-
cio-afectiva, também expressiva nesta comunida- a sua actividade se encontra estruturada em torno
de. Ao esquema adicionámos, igualmente, os ele- de uma base curricular de cariz flexível e constru-
mentos que estruturam a aprendizagem online da tivista, que fomenta um conjunto de boas práticas
comunidade, com base nos aspectos apontados por aplicadas ao ensino e aprendizagem de línguas. De
Oliver e Herrington (2000). O esquema foi comple- facto, a comunidade tem impacto na vida dos seus
tado por nós com mais dois níveis, respeitantes aos professores participantes, na medida em que esta
estímulos, que mantém a chama desta comunidade é, ela própria, um modelo de formação profissional
acesa, e aos resultados obtidos a partir da partici- activo, eficaz, gratuito e voluntário.
97
sísifo 3 | cristina costa | o currículo numa comunidade de pr ática
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100 sísifo 3 | cristina costa | o currículo numa comunidade de pr ática
s í s i f o / r e v i s t a d e c i ê n c i a s d a e d u c a ç ã o · n .º 3 · m a i / a g o 0 7 issn 1646 -4990
Simulação digital e actividades experimentais
em Físico-Químicas. Estudo piloto sobre o impacto
do recurso “Ponto de fusão e ponto de ebulição”
no 7.º ano de escolaridade
Carla Morais
carlamorais@imediato.pt
João Paiva
jcpaiva@fc.up.pt
Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Lisboa
Resumo:
As tecnologias devidamente integradas e em sintonia com o currículo constituem um
meio de renovação do ensino e das práticas pedagógicas. Em particular, a aplicação de
simulações é vantajosa para o processo de ensino-aprendizagem das Ciências. neste ar-
tigo apresenta-se o desenvolvimento de uma simulação, designada por “Ponto de fusão e
ponto de ebulição”, que tem como objectivo proporcionar aos alunos situações de apren-
dizagem que lhes permitam aprender de forma mais significativa os conceitos inerentes
às Ciências Físico-Químicas no 7.º ano de escolaridade. Levou-se a cabo um estudo, de
cariz qualitativo, baseado na observação dos alunos e na realização de entrevistas. Defen-
de-se que a utilização didáctica desta simulação sirva como complemento da componente
prático-experimental e nunca para a substituir.
Palavras-chave:
Educação, Tecnologias da Informação e da Comunicação, Ciências Físico-Químicas, Si-
mulação computacional.
Morais, Carla & Paiva, João (2007). Simulação digital e actividades experimentais em Físico-
Químicas. Estudo piloto sobre o impacto do recurso “Ponto de fusão e ponto de ebulição” no 7.º
ano de escolaridade. Sísifo. Revista de Ciências da Educação, 03, pp. 101-112.
Consultado em [mês, ano] em http://sisifo.fpce.ul.pt
101
InTRODUçãO Se uma sociedade é influenciada de forma decisiva
pelas questões comunicacionais, como é aquela em
Actualmente o mundo depara-se com uma imensi- que vivemos actualmente, todos os comportamen-
dão de linguagens e códigos semióticos em que o tos e, sobretudo, os que se encontram mais directa-
paradigma analógico perdeu face ao digital. Devido mente ligados às questões da aprendizagem sofrem
à conjugação de apenas dois algarismos, o 0 (zero) grandes alterações.
e o 1 (um), é possível colocar a circular na Internet A garantia de uma educação relevante e com
um núm
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