Soneto de fidelidade

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  • 1. Soneto de FidelidadeDe tudo ao meu amor serei atentoAntes, e com tal zelo, e sempre, e tantoQue mesmo em face do maior encantoDele se encante mais meu pensamento.Quero vivê-lo em cada vão momentoE em seu louvor hei de espalhar meu cantoE rir meu riso e derramar meu prantoAo seu pesar ou seu contentamentoE assim, quando mais tarde me procureQuem sabe a morte, angústia de quem viveQuem sabe a solidão, fim de quem amaEu possa me dizer do amor (que tive):Que não seja imortal, posto que é chamaMas que seja infinito enquanto dure.<br />Vinícius de Moraes<br />TernuraEu te peço perdão por te amar de repenteEmbora o meu amorseja uma velha canção nos teus ouvidosDas horas que passei à sombra dos teus gestosBebendo em tua boca o perfume dos sorrisosDas noites que vivi acalentandoPela graça indizíveldos teus passos eternamente fugindoTrago a doçura dos que aceitam melancolicamente.E posso te dizerque o grande afeto que te deixoNão traz o exaspero das lágrimasnem a fascinação das promessasNem as misteriosas palavrasdos véus da alma...É um sossego, uma unção,um transbordamento de caríciasE só te pede que te repouses quieta,muito quietaE deixes que as mãos cálidas da noiteencontrem sem fatalidadeo olhar estático da aurora.<br />Vinícius de Moraes<br />Amor em pazEu ameiEu amei, ai de mim, muito maisDo que devia amarE choreiAo sentir que iria sofrerE me desesperarFoi entãoQue da minha infinita tristezaAconteceu vocêEncontrei em você a razão de viver E de amar em pazE não sofrer maisNunca maisPorque o amor é a coisa mais tristeQuando se desfaz<br />Vinícius de Moraes<br />Soneto a quatro-mãos Tudo de amor que existe em mim foi dadoTudo que fala em mim de amor foi ditoDo nada em mim o amor fez o infinitoQue por muito tornou-me escravizado. Tão pródigo de amor fiquei coitadoTão fácil para amar fiquei proscritoCada voto que fiz ergueu-se em gritoContra o meu próprio dar demasiado. Tenho dado de amor mais que coubesseNesse meu pobre coração humanoDesse eterno amor meu antes não desse. Pois se por tanto dar me fiz enganoMelhor fora que desse e recebessePara viver da vida o amor sem dano.<br />Vinícius de Moraes<br />Soneto da separaçãoDe repente do riso fez-se o prantoSilencioso e branco como a brumaE das bocas unidas fez-se a espumaE das mãos espalmadas fez-se o espanto.De repente da calma fez-se o ventoQue dos olhos desfez a última chamaE da paixão fez-se o pressentimentoE do momento imóvel fez-se o drama.De repente, não mais que de repenteFez-se de triste o que se fez amanteE de sozinho o que se fez contente.Fez-se do amigo próximo o distanteFez-se da vida uma aventura erranteDe repente, não mais que de repente.<br />Vinícius de Moraes<br />