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Slide 1: “Hiperatividade: doença ou rótulo” Desordem do Processamento Auditivo e sua relação com a aprendizagem Carla Queiroz Pereira Fonoaudióloga, Mestre em Lingüística/Unicamp
Slide 2: O objetivo é fazer considerações sobre... Crianças em idade escolar
Slide 3: Divisão da Apresentação A atenção está voltada para dois diagnósticos feitos em torno da criança em idade escolar: 1. Diagnóstico de hiperatividade 2. Diagnóstico de Desordem do Processamento Auditivo
Slide 4: Considerações Críticas Literatura Considerações críticas a partir Casos Atendidos de 3 tipos de fontes. Últimas Pesquisas Realizadas
Slide 5: “A criança é Hiperativa”: afirmação feita por professores, pais, pediatras, neurologistas, psicólogos e psiquiatras “Hiperatividade: doença ou rótulo?” (SUCUPIRA, 1985) Para entender “é preciso conhecer um pouco da sua origem e da sua história”.
Slide 6: Origem e História da Hiperatividade 1918 - EUA Encefalite Lesão Inatenção e letárgica Cerebral Hiperatividade Extrapolação deste dado Crianças com Comportamento Lesão Semelhante Cerebral
Slide 7: Origem e História da Hiperatividade Tentativa de estabelecer associação com traumas no parto ou meningite que justificassem alteração orgânica Mas as crianças não tinham histórico de problemas neurológicos Sugere-se o conceito de Lesão Cerebral Mínima (base das alterações de comportamento)
Slide 8: Origem e História da Hiperatividade A partir da década de 50: a hiperatividade + inatenção + impulsividade etc = entidade clínica passível de tratamento medicamentoso Difunde-se o uso de drogas no tratamento da hiperatividade
Slide 9: Origem e História da Hiperatividade Não se conseguiu detectar nenhuma alteração orgânica que pudesse ser causa da hiperatividade Mudança do conceito de lesão para disfunção (alterações na função cerebral; Disfunção Cerebral Mínima)
Slide 10: Origem e História da Hiperatividade Nas duas últimas décadas observam-se movimentos contraditórios. Houve ao mesmo tempo... Proliferação de Questionamento sobre trabalhos a validade do uso de (etiologia, drogas. tratamento etc). Questionamento sobre Tentativa de a validade do próprio uniformizar o conceito de conceito. hiperatividade
Slide 11: História da criança “hiperativa” nos consultórios médicos 1. Trata-se da criança que “não pára quieta”, perturba a classe: levanta, mexe com o colega, não termina as tarefas, é distraída e agresssiva. 2. É comum os professores chamarem os pais e indicarem a necessidade de procurar o pediatra, neurologista ou psicólogo e fazer eletroencefalograma. 3. Tenta-se encontrar uma alteração neurológica que explique os “distúrbios” do comportamento. 4. Um eletroencefalograma alterado (ainda que de forma inespecífica) ou com alterações compatíveis com a normalidade é suficiente para justificar o uso de medicamentos. 5. Prescrevem-se remédios, rotulando-se a criança como portadora de uma doença neurológica.
Slide 12: Reação dos pais e dos professores 1. Em geral passam a ter uma tolerância maior, pois agora o comportamento da criança tem como causa um problema neurológico do qual a criança não é culpada. 2. O rótulo de “criança neurológica” permite uma aceitação maior também do professor e tem servido para justificar o mau rendimento escolar, desmotivando o professor para investir naquele aluno. 3. Com o tempo, voltam a se acentuar os problemas de comportamento, numa história cujo final é quase sempre a mudança sucessiva de escolas até a evasão escolar.
Slide 13: Alguns pontos Sucupira (1985) em seu artigo “Hiperatividade: doença ou rótulo?”, explicita: •A inconsistência dos fundamentos que estabelecem o conceito da hiperatividade, DCM e distúrbios por déficit de atenção. •O diagnóstico de “anormal” estaria definido em função de comportamentos desviantes daqueles esperados. Isso implica que tal diagnóstico está sujeito às variações dos limites de tolerância dos observadores. •O uso de provas neurológicas e psicológicas (incriminadas como parte da DCM-ENE, testes de QI, testes de psicomotricidade etc.) são passíveis de críticas. Além disso, utilizam-se provas padronizadas para avaliação de crianças com contextos de vida tão diferentes. • É preciso sairmos do interior do modelo explicativo médico para entendermos os verdadeiros determinantes que envolvem esse processo.
Slide 14: Alguns pontos Sucupira (1985) em seu artigo “Hiperatividade: doença ou rótulo?”, explicita: • Nos EUA, a difusão e grande aceitação do conceito de hiperatividade, no interior da prática médica e nos meios pedagógicos, parece ter na sua raiz a necessidade de medicalização do mau rendimento escolar. • A medicalização do fracasso escolar encontra uma explicação que se adapta à tendência de isentar o sistema escolar e as condições familiares e sociais da criança, para colocar a nível individual, orgânico, a responsabilidade pelo mau rendimento escolar. •Nos grupos sociais mais diferenciados o diagnóstico de DCM tende inclusive a isentar, também, a criança, na medida em que a “causa” está em um problema neurológico. • Sobre o uso de drogas: podem induzir à dependência; muitas têm comercialização proibida; possível retardo do crescimento; pouco efeito direto é notado sobre o aprendizado.
Slide 15: Sobre a relação medicalização e comportamento da criança • Absurda a terapia medicamentosa embasada em critérios diagnósticos centrados no conceito de um comportamento “desviante”, definido por um determinado grupo social. •A definição do comportamento “desviante” vai depender das regras e normas existentes, dos níveis de tolerância do grupo e das sanções disponíveis. •A avaliação do comportamento hiperativo é sempre subjetivo e vai depender do ambiente onde esta criança é observada. •Um autor chamado Conrad (1977) observou discrepâncias no diagnóstico de hiperatividade nos diferentes sistemas sociais (família escola). O comportamento da criança em uma sala de aula pode diferir bastante daquele apresentado em uma consulta ou na família.
Slide 16: Mudança de perspectiva • Conrad (1977) indica perspectivas diferentes a serem pensadas: Crianças hiperativas não poderiam estar informando muito mais a respeito da situação que elas vivenciam do que sobre uma “patologia” individual? Na verdade não seria o sistema social, e não a criança, que necessitaria de “remediação”? • A evolução da hiperatividade parece estar ligada: à formação organicista do pediatra; caráter vago e subjetivo dos critérios diagnósticos; e intensa pressão social para encontrar soluções simplistas para problemas de origem psicossocial.
Slide 17: Como crianças “hiperativas” podem... Ficar atentas às histórias contadas no “ccazinho”? Permanecer quietas e atentas por mais de 30 minutos assistindo CD sobre os dinossauros na tela de um laptop e, ainda, com uma imagem reduzida?
Slide 18: Mudança do olhar sobre a criança A proposta de Sucupira (1985) é entender a criança em suas relações e não entender a hiperatividade em si, já que esta, enquanto um comportamento, seria apenas uma expressão dessas relações. Na prática clínica da médica, autora do artigo, a hiperatividade passa a ser considerada como ‘sintoma’ de uma problemática vivenciada pela criança; procura-se identificar as causas do comportamento.
Slide 19: Mudança do olhar sobre a criança Situações citadas como causa de comportamentos hiperativos: • Muitas vezes a criança desenvolve um comportamento hiperativo em reação às constantes críticas e repreensões dos pais ou professores; • Inadequação do método educacional levando ao desinteresse dos alunos e classes com muitos alunos; • ansiedade (pelas suas dificuldades e sentimento de fracasso) expressa através de desinteresse e movimentação excessiva; • enfrentamento, por parte de crianças de periferia, de uma situação onde se espera um comportamento ao qual não estão habituadas; • a gagueira, situações familiares problemáticas etc. podem gerar distúrbios emocionais que se expressam também como comportamentos agressivos, perturbadores da ordem da classe.
Slide 20: Desordem do Processamento Auditivo e sua relação com a aprendizagem
Slide 21: Processamento Auditivo: algumas questões Conceito de PA e DPA segundo a literatura fonoaudiológica: exemplo de KATZ & TILLERY (1997) - math X bath Segundo SCHOCHAT (1996) o termo processamento auditivo refere-se ao processo de decodificação das ondas sonoras desde a orelha externa até o córtex auditivo (conceito utilizado também por KATZ e col [1992]). As atividades periféricas são responsáveis pela sensação do som, enquanto as centrais são responsáveis pela percepção. O que a lingüística tem a dizer sobre o exemplo? Qual a concepção de compreensão subjacente? PEREIRA; NAVAS & SANTOS (2002) definem a Desordem do Processamento Auditivo como sendo perdas auditivas funcionais, que podem ser definidas como incapacidade de focar, discriminar, reconhecer ou compreender informações apresentadas por meio da audição.
Slide 22: Processamento Auditivo: algumas questões A concepção de compreensão como decodificação permite os testes serem como são (sobre as “redundâncias”). Dominância hemisférica X testes de PA: exemplo do teste SSW. Objetivo da avaliação: Segundo PEREIRA & CAVADAS (1998) o objetivo da avaliação de PA por meio dos testes comportamentais é medir a capacidade do indivíduo em reconhecer sons verbais e não verbais em condição de escuta difícil. Sobre a hipótese de tentar reproduzir situações da vida na cabina. As correlações estabelecidas entre alterações de linguagem/aprendizagem e Desordem do Processamento Auditivo e o encaminhamento: o que autoriza esse tipo de relação?
Slide 23: Processamento Auditivo: algumas questões Uma questão: Que outro tratamento podem receber as chamadas dificuldades de compreensão ou dificuldades de leitura/escrita - associadas pela literatura fonoaudiológica à desordem do processamento auditivo - quando analisadas a partir da lingüística discursivamente orientada? Recebendo tal tratamento, por um lado, e verificando o que os testes testam, por outro, será que podemos associar linguagem/aprendizagem ao PA? (Pois isso implicaria dizer que os testes são suficientemente capazes de avaliar o que foi observado em relação à compreensão e/ou a escrita, por exemplo, não bastando uma correlação meramente estatística) [PEREIRA, a sair].
Slide 24: Processamento Auditivo: algumas questões Questionando a correlação estabelecida entre compreensão e PA/DPA -Relatórios clínicos de avaliação do PA: o caso do sujeito OQ. 10/02/2003: a criança NP cursava, na época, a 3ª série e estava com 9a6m. Conforme consta no relatório foi encaminhada para o exame de PA com queixa de trocas na escrita, leitura silabada, dificuldade de compreensão etc. Consta nesse relatório, no item conclusão: “Apresenta Desordem do Processamento Auditivo de grau moderado (...)”. “(...) As alterações observadas podem gerar dificuldade na discriminação de fonemas, reconhecimento de leitura, dificuldade na habilidade de escrita, dificuldade de compreensão da mensagem verbal (...)”. “(...) Também, foi observado (sic) dificuldade na identificação do padrão tonal de duração do som; esta dificuldade sugere déficit em áreas do hemisfério direito, podendo gerar a queixa referente à dificuldade na compreensão de piadas, de palavras de duplo sentido e ironias”. - Sobre a complexidade envolvida no processo de compreensão de piadas e o sujeito OQ (que se mostrou um excelente contador de piadas em sessão individual).
Slide 25: Processamento Auditivo: algumas questões Questionando a correlação estabelecida entre escrita e PA/DPA Caso exposto por PEREIRA & OSBORN (1997): “Criança do sexo masculino, 12a, 2ª série do 1º grau. Queixa dos pais: ‘Meu filho não aprende a ler nem a escrever’. Encaminhada para fonoterapia em função de dificuldades escolares, a mãe decidiu, posteriormente, interromper, pois a criança não apresentou melhora escolar. Procurou em seguida do serviço de avaliação fonoaudiológica da Unifesp-EPA”. Na conclusão sobre PA consta: “Verificou-se uma desordem do processamento auditivo de grau moderado envolvendo os processos gnósicos auditivos de decodificação, ou seja, atribuir significado à informação fonêmica e de organização, ou seja, representar eventos sonoros no tempo”.
Slide 26: Processamento Auditivo: algumas questões Questionando a correlação estabelecida entre escrita e PA/DPA Caso exposto por PEREIRA & OSBORN (1997): As autoras também apresentam um dado de escrita da criança, obtido através de ditado das frases “Pedro foi ao rio pescar. Levou com ele seu cachorro”. Vejamos, portanto, como a criança escreve. Na conclusão da avaliação fonoaudiológica, observa-se o seguinte: “(...) leu de forma lenta e silabada, tem dificuldade para escrever: ainda não domina as regras da escrita e não respeita as fronteiras vocabulares”. Ainda podemos verificar nesta literatura as hipóteses diagnósticas: - sindrômica: distúrbio de aquisição de linguagem; -etiológica: disfunção auditiva central. E as considerações de ABAURRE (1991) sobre segmentação na escrita infantil? Como analisar tal escrita do ponto de vista da Lingüística?
Slide 27: O que você vê nessa figura? (BANYAI, 1995) “Nada é o que parece ser” (BANYAI, 1995) “Quem nunca teve a impressão de estar vendo algo e, logo em seguida, concluir que estava equivocado sobre o que via ? ” (PEREIRA, a sair). Por exemplo...
Slide 28: E nessa?
Slide 29: Se você pensou que eram crianças em uma fazenda (sítio, vila etc.), observe a próxima figura...
Slide 30: E agora ? Você continua vendo o que via?
Slide 31: E agora então?
Slide 32: Não conhecendo o funcionamento da linguagem e o trabalho lingüístico-cognitivo realizado pelo sujeito, certas afirmações, avaliações e diagnósticos podem parecer realidade. Se assumimos uma outra concepção sobre a linguagem e o sujeito perceberemos que Nada é o que parece ser (BANYAI, 1995). A perspectiva do olhar (ou com que olhar se olha para algo) modifica a impressão sobre o que se vê (PEREIRA, a sair). Essa perspectiva já vem anunciada no Cours: “Bem longe de dizer que o objeto precede o ponto de vista, diríamos que é o ponto de vista que cria o objeto (...)” [SAUSSURE,1916, p. 15].
Slide 33: Referências Bibliográficas ABAURRE, M. B. M. Dados da escrita inicial: indícios de construção da hierarquia de constituintes silábicos? In: LAMPRECHT, R. R. (org.). Aquisição da linguagem: questões e análises. Porto Alegre: EDPUCRS. p. 167-186. BANYAI, I. Zoom. Rio de Janeiro: Brinque-Book, 1995. BERGAMO, G. Neurônios à deriva: Finlandeses descobrem um novo método para o diagnóstico precoce da dislexia. Revista Veja, São Paulo, n. 22, p. 104-105, jun. 2005. CONRAD, P. Situational hyperactivity: a social system approch. The Journal of school health, 74: 280, 1977.. COUDRY, M. I. H. & POSSENTI, S. Avaliar discursos patológicos. Cadernos de estudos lingüísticos, Campinas, n. 5, p. 99-109, 1983. COUDRY, M. I. H.; FREIRE, F. M. P. O trabalho do cérebro e da linguagem: a vida e a sala de aula. (A sair). GERALDI, J. W. Portos de passagem. São Paulo: Martins Fontes, 1991. GINZBURG, C. Mitti Emblemi Spie: Morfologia e Storia. Torino, Einaudi. Tradução brasileira: Mitos emblemas sinais: mofologia e história. F. Carotti (trad.). São Paulo: Companhia das Letras, 1986.
Slide 34: Referências Bibliográficas KATZ, J.; TILLERY, K. L. – Uma introdução ao processamento auditivo central. In: LICHTIG, I.; CARVALHO, R. M. M. (orgs.). Audição: abordagens atuais. Carapicuíba: Pró-fono, 1997. KAY, J.; LESSER, R.; COLTHEART, M. PALPA: Psycholinguistic Assessment of Language Processing in Aphasia. Hove, UK; Lawrence Erlbaum Associetes, 1996. LURIA. A. R. Fundamentos de Neuropsicologia. São Paulo: Ed. USP, 1981. MOYSÉS, M. A. A. A institucionalização invisível: crianças que não-aprendem-na-escola. Campinas: Mercado de Letras; São Paulo: Fapesp, 2001. PEREIRA, L. D. & CAVADAS, M. Processamento auditivo central. In: FROTA, S. Fundamentos em Fonoaudiologia: Audiologia. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1998. p. 65-76. PEREIRA, L. D.; OSBORN, E. Casos sem alterações neurológicas. In: In: PEREIRA, L. D.; SCHOCHAT, E. Processamento auditivo central: manual de avaliação. São Paulo: Lovise, 1996. p. 211-218. PEREIRA, C. Q. Processamento auditivo: o que a lingüística tem a dizer? (A sair). PEREIRA, C. Q.; COSTA, F. M. Prova de consciência fonológica: o que fazem as crianças [e adultos] quando erram e acertam? (A sair). PEREIRA, C. Q. Linguagem e aspectos vísuo-espaciais: uma abordagem discursiva. (Dissertação de Mestrado em fase de qualificação - Título provisório). POSSENTI, S. Línguas: sistema de sistemas. In: Damasceno, B. P. & Coudry, M. I. H. (eds). Temas em neuropsicologia e neurolingüística. São Paulo: SBNp, vol 4, 1995. p. 20-25. _____. O humor e a língua. In: Ciência Hoje. Vol. 30, nº 176, 2001. p. 72-74. RISCHBIETER, L. Opinião. 2004. Disponível em: http://www.educacional.com.br/foruns.asp?id=80551. Acessado em abril/2005. SAUSSURE, F. Cours de Linguistique Générale. Paris: Payot, 1916. SUCUPIRA, --------. Hiperatividade: doença ou rótulo? -------------



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