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A Magia Do Deserto   Sophie Weston
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A Magia Do Deserto Sophie Weston

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  • 1. Sabrina 1182 - A magia do deserto – Sophie Weston A MAGIA DO DESERTO Sophie Weston Título original: The sheikh's bride Amor sob as estrelas do deserto... Leonora Groom deseja desesperadamente ser amada por aquilo que é e não pela fortuna de seu pai. Quando o irresistível Amer el-Barbary começa a seduzi-la sob o céu aveludado do Nilo, Leonora sabe que será difícil resistir... mesmo sabendo que o sheik é um verdadeiro dom-juan! Cansado de namorar mulheres fúteis, Amer . vê Leonora como uma tentadora novidade. Mas seu coração lhe prega uma peça... assim como o destino! Quando Amer pensava que iria sossegar seu coração, um acaso surge para modificar o rumo da sua vida... e da sua felicidade! Projeto Revisoras 1
  • 2. Sabrina 1182 - A magia do deserto – Sophie Weston Digitalização: Rita Revisão: Ana Ribeiro PRÓLOGO ― O que você está esperando? ― perguntou o co-piloto do jato. O piloto olhou de sua cabine para a pista de aterrissagem do Cairo. Sob a luminosidade da manhã, a poeira ao redor e o telhado do prédio distante do aeroporto cintilavam. Dois homens vestindo ternos escuros verificavam eficientemente a área onde o avião parará. — Procedimento de segurança — respondeu ele brevemente. O co-piloto era novo na frota particular do xeque de Dalmun. — Eles sempre fazem isso? O outro homem deu de ombros. — Ele é uma pessoa muito influente. — Quer dizer que é um alvo, então? — E milionário e é herdeiro do xeque soberano de Dalmun — disse o piloto com cinismo. — É claro que ele é um alvo. O companheiro abriu um sorriso largo. Sua namorada levava para casa revistas sobre personalidades da realeza com freqüência. — Atrai garotas feito um ímã, não? Homem de sorte. Os seguranças haviam terminado a inspeção. Um deles ergueu a mão e uma limusine branca aproximou-se lentamente, contornando o avião. O piloto, o quepe debaixo do braço, levantou-se e foi trocar um aperto de mão com o passageiro ilustre que desembarcava. A brisa de início de manhã soprou nas vestes brancas do xeque quando ele se adiantou até a limusine. A despeito da movimentação de pessoas gerada com sua presença, parecia uma figura solitária. O piloto voltou à cabine. — Aguardaremos um pouco — disse. Outros carros chegaram e neles entraram os membros da equipe de segurança. A limusine, então, começou a se afastar, ladeada por seus guardiões. Os pilotos recostaram-se nos assentos, aguardando uma escolta até o local de parada definitiva do avião. — O que ele está fazendo aqui? — perguntou o co-piloto num tom corriqueiro. — Veio a negócios ou por diversão? — Por ambos os motivos, acho eu. Ele não saía do Dalmun há meses — contou o homem mais velho distraidamente. — Por quê? O piloto não respondeu. — Ouvi dizer que houve um desentendimento. O pai queria que ele tornasse a se casar? — Talvez — foi a resposta monossilábica. — E o que você acha? Ele viajou para encontrar uma noiva? O piloto foi traído Projeto Revisoras 2
  • 3. Sabrina 1182 - A magia do deserto – Sophie Weston por sua indiscrição: — Amer el-Barbary? A procura de uma noiva? Quando chover canivete. CAPÍTULO I Leonora passou a mão pelos cabelos e soltou um profundo suspiro. O movimento no saguão do Hilton Nilo era intenso. Ela perdera três dos integrantes do grupo de ex- cursionistas que logo estaria de saída para visitar o museu. Não conseguira passar um tempo com sua mãe, que, conseqüentemente, estava furiosa. E, para ajudar, a cliente mais dinâmica que a agência já devia ter tido surgira com outra de suas intermináveis perguntas. — O quê? — disse Leonora, distraída. — Ele vai entrar a qualquer minuto. — A sra. Silverstein meneou a cabeça na direção da porta giratória. — Quem será? Uma limusine branca, as janelas discretamente escurecidas, parará diante do hotel, ladeada por dois Mercedes pretos. Homens de ternos escuros desceram e deram alguns passos estratégicos, enquanto vários funcionários do hotel se aproximavam do grupo. As portas da limusine permaneciam fechadas. Leo conhecia os sinais. — É provavelmente alguém da realeza. — Não estava muito interessada em saber de quem se tratava. A agência de viagens recém-adquirida por seu pai ainda não tinha clientes da realeza. Eles geralmente viajavam em seus jatos particulares. — Nada que tenha a ver comigo, felizmente. Você viu a família Harris? — Alguém da realeza. — exclamou a sra. Silverstein, alheia à pergunta. Leo sorriu amplamente. Gostava dela. — Um soberano do deserto — disse a mulher mais velha. — É bem possível. Leo resolveu não desiludi-la dizendo que, na certa, o homem também era formado em Harvard, falava vários idiomas e atravessava o deserto num automóvel luxuoso com ar-condicionado em vez de num camelo. Ao contrário dela, a sra. Silverstein era uma romântica. — Fico me perguntando quem será ele... Leo conhecia aquele tom. — Não faço a menor idéia — declarou com firmeza. — Você poderia perguntar. Ela soltou um riso. Aquilo fora o que a cliente mais lhe dissera durante três semanas. — Ouça, sou sua guia. Farei muito do que me pedir. Perguntarei às mulheres quantos anos têm e aos homens quanto custa alimentar um camelo. Mas não perguntarei a um bando de brutamontes a quem é que estão protegendo. Talvez me prendessem. A sra. Silverstein riu. Em três semanas, desenvolvera-se grande camaradagem Projeto Revisoras 3
  • 4. Sabrina 1182 - A magia do deserto – Sophie Weston entre ambas. — Covarde. — De qualquer modo, tenho que encontrar a família Harris. Leo abriu caminho pela multidão até uma mesinha de mármore encimada por um telefone e um arranjo de flores. Ligou para o quarto dos Harris, ainda olhando ao redor, caso já tivessem descido. Notou que o grupo que chegara escoltando a limusine continuava em ação. Homens abriam um corredor entre as pessoas. Atrás deles, caminhava uma figura alta, as vestes esvoaçando ligeiramente. A sra. Silverstein estava certa, pensou, irônica. O homem era magnífico. Naquele instante, ele virou a cabeça e olhou para ela. E, para sua perplexidade, Leo descobriu-se quase hipnotizada. — Alô? — disse Mary Harris do outro lado da linha. — Alô? Leo nunca o vira antes. Mas havia algo no homem que lhe chamara a atenção. Como se lhe fosse alguém importante. Como se o conhecesse. — Alô? Estava coberto da cabeça aos pés pelas vestes brancas e tradicionais de um árabe do deserto. Faziam-no parecer ainda mais imponente do que já era, levando em conta seu porte e a ação eficiente de sua comitiva. Tinha os olhos ocultos por óculos escuros, mas sua expressão denunciou cansaço quando olhou rápida e indiferentemente para ela e as demais pessoas ao redor, enquanto passava. — Alô? Quem é? Leo notou arrogância em cada aspecto dele. Não gostou daquilo. Mas, ainda assim, não conseguia parar de olhar para o homem. Era como estar enfeitiçada. A sra. Silverstein parou a seu lado e tirou-lhe o fone da mão. Ela mal percebeu. Tudo o que conseguia fazer era olhar... e esperar para que os olhos dele tornassem a encontrá-la. Não sou desse jeito, disse uma voz em sua mente. Não fico encarando desconhecidos bonitos. Mas ela ignorou a voz. Não podia evitar. Só conseguia ficar parada ali, imóvel como uma estátua, à espera... Um homem que reconheceu como o gerente do hotel conduzia o grupo. Estava fazendo uma mesura, alheio a tudo mais. Quando o fez, passou tão perto dela que Leo teve que dar um passo atrás abruptamente. Bateu com o quadril na mesa e segurou-se num pilar para se equilibrar. Normalmente um homem gentil e cortês, o gerente nem sequer notou. Mas o objeto de toda a sua atenção percebeu. O homem de vestes brancas parou de repente. Os olhos ocultos pelas lentes escuras voltaram-se na direção de Leo. Fora o que estivera esperando. E o impacto foi grande. Ela ficou com a respiração em suspenso e encostou-se ao pilar, como se temesse não poder se sustentar nas próprias pernas. — Oh, puxa — disse a sra. Silverstein com um suspiro. Projeto Revisoras 4
  • 5. Sabrina 1182 - A magia do deserto – Sophie Weston Leo segurou-se com mais força, confusa com sua intensa reação ao estranho. No momento seguinte, ele desviou o olhar e foi como se tivesse sido liberta de uma força hipnótica. Cambaleou de leve e respirou fundo, levando a mão trêmula ao pescoço. — Oh, puxa — repetiu a sra. Silverstein. Lançou-lhe um olhar velado e recolocou o fone no gancho. Um pouco além no saguão, houve um gesto imperioso. Um dos homens de terno aproximou-se respeitosamente do árabe alto, que lhe disse algo com um leve gesto de cabeça. O segurança olhou na direção indicada, encontrando a sra. Silverstein e Leo. Pareceu surpreso. Leo soube o motivo daquela surpresa e, como já acontecera com freqüência antes, sentiu pesar. Não era o tipo de mulher que os homens notavam em saguões apinhados. O homem de terno escuro também sabia daquilo. Ela era alta, pálida e desajeitada demais. Sem mencionar que agora seus cabelos castanhos estavam cobertos com a poeira do Cairo e o sisudo tailleur azul- marinho ficara todo amarrotado. Não era exatamente uma visão sedutora, pensou, tentando rir de si mesma. Acostumara-se a ser um tipo comum. Decidira que não iria deixar mais que aquilo a incomodasse. Mas a expressão de surpresa no rosto do homem atingiu-a de maneira surpreendente. O homem de vestes brancas disse algo num tom estranho. O segurança meneou a cabeça depressa e, um instante depois, aproximou-se delas. — Com licença — disse com um sotaque carregado. — Sua Excelência pergunta se a senhorita se machucou. Leo sacudiu a cabeça, atordoada. Estava abalada demais para falar... embora não soubesse a razão. Afinal, por causa dos óculos escuros não havia nenhuma evidência de que o homem de branco estava olhando em sua direção. Mas sabia que estava. Ninguém nunca lhe causara impacto semelhante. Achava chocante que um estranho, cujos olhos nem sequer pudera ver, fosse capaz daquilo. Engolindo em seco, disse comi toda a calma que conseguiu reunir: — Não, é claro que não. Não foi nada. A sra. Silverstein estudou-a. — Tem certeza? Está tão pálida. — Posso lhe oferecer algum tipo de assistência, senhorita? — perguntou o segurança polidamente. Leo umedeceu os lábios, mas conseguira se recobrar e disse com mais firmeza: — Não, obrigada. Não foi nada. Por favor, agradeça a Sua Excelência por sua preocupação, mas estou bem — declarou e virou-se, afastando-se um pouco. A. sra. Silverstein, porém, não deixaria passar a chance de uma nova experiência tão facilmente. Não quando havia realeza envolvida. Deu um tapinha no braço do segurança. — De que Excelência se trata? O homem ficou tão perplexo que acabou respondendo: Projeto Revisoras 5
  • 6. Sabrina 1182 - A magia do deserto – Sophie Weston — E o xeque Amer el-Barbary. A mulher estava encantada. — Um xeque! — disse num tom sonhador. Poucos passos além, os olhos por trás das lentes escuras voltaram a observá- las. Leo sentiu as faces queimando. Não fitou o homem, mas sentiu-lhe o peso do olhar sardônico e foi como se alguém tivesse lhe atirado um balde de água fria. Estremeceu. Como ele fazia aquilo?, perguntou-se, dando-se conta de que começava a ficar indignada. Ergueu o queixo num gesto atípico. Era uma pessoa pacífica, não hostil. Mas, daquela vez, era diferente. Lançou um olhar faiscante na direção do xeque. Teve a nítida impressão de que agora tinha a total atenção dele e de que não estava muito satisfeito. Oh, preciso de ajuda, pensou, aflita. Ele vai se aproximar. Sua pele se arrepiou por inteiro. Mas, de repente, a ajuda apareceu inesperadamente: — Querida! — chamou uma voz feminina. Leo sobressaltou-se e olhou freneticamente ao redor. O saguão fervilhava com grupos barulhentos conversando em diversos idiomas. Mas não podiam competir com sua mãe. Deborah Groom poderia espatifar vidros com sua voz aguda se quisesse. — Querida — tornou a chamar. — Estou aqui. Uma mão repleta de anéis valiosos acenou imperiosamente. Leo localizou-a e contou até dez. Tentara persuadir a mãe à não ir ao Cairo na semana mais movimentada do ano para a agência, mas ela, como esperado, não lhe dera ouvidos. Agora, já refeita, Leo disse num tom definitivo ao segurança: — Obrigada, mas estou perfeitamente bem. Por favor — acrescentou, permitindo-se um leve toque de ironia que, teve certeza, passaria despercebido ao homem —, tranqüilize Sua Excelência. — Disse num tom mais gentil a sra. Silverstein: — Dê-me dez minutos. Preciso resolver um assunto. Então, se ainda desejar ir, eu a levarei as pirâmides de Gizé. — Fique à vontade, querida — respondeu-lhe a mulher, ainda fascinada por seu breve encontro com a realeza. — Vou me sentar no café do hotel e tomar um cappuccino. Vá me encontrar quando estiver pronta. Leo agradeceu-lhe com um sorriso. Com a prancheta debaixo do braço, atravessou a multidão com seu ar mais profissional. — Olá, mãe. Está se divertindo? Deborah Groom era conhecida por ir direto ao ponto: — Estaria sendo melhor se eu pudesse ao menos ver um pouco a minha única filha. Leo esforçou-se para manter o sorriso no lugar. — Avisei você de que eu teria que trabalhar. — Não o tempo todo. — Há muito a resolver. — Se Leo soou distraída foi porque na distância, pôde ver Andy Francis tentando conduzir um grupo na direção do ônibus que havia à espera. Não estava tendo muito êxito, mas não deveria estar fazendo aquilo sozinho. Roy Projeto Revisoras 6
  • 7. Sabrina 1182 - A magia do deserto – Sophie Weston Ormerod, o gerente da agência de viagens Aventuras no Tempo, deveria estar com o grupo também. Deborah franziu o cenho. — O seu chefe sabe quem você é? Leo soltou um riso. — Está perguntando se ele sabe que sou filha do dono da agência? É claro que não. Isso poria a perder todo o meu propósito. Digo que me chamo Leo Roberts aqui. Deborah sacudiu a cabeça. — Simplesmente não entendo o seu pai às vezes. O que não era novidade. Ela abandonara Gordon Groom quatorze anos antes, dizendo exatamente aquilo e deixando-lhe a filha de dez anos de ambos, Leo, para acabar de criar. — Meu pai acha que é uma boa idéia eu aprender a me cuidar sozinha como ele mesmo fez — disse ela pacientemente. — Ouça, mãe... — O que quer dizer é que Gordon acha que, se lançá-la no mundo para que se arranje sozinha você se tornará um rapaz — revidou Deborah. Os olhos de Leo faiscaram. Mas havia verdade o bastante na acusação para fazê-la reprimir a vontade de responder à altura. Ambas sabiam que Gordon Groom sempre quisera um filho. Treiná-la para sucedê-lo nos negócios fora apenas à alternativa que lhe restara. Ele nem sequer tentava mais disfarçar o fato. A mãe mordeu o lábio inferior. — Oh, desculpe, querida. Prometi a mim mesma que não começaria com isso outra vez — disse, arrependida. — Mas quando vejo você se desgastando desse jeito, não consigo evitar. — Esqueça — disse Leo. Lançou um olhar sorrateiro à sua prancheta. Onde estaria Roy? Ele deveria ter pago ao motorista do ônibus pelo transporte do grupo de turistas japoneses. Se não aparecesse, ela teria que resolver o assunto. E quanto aos Harris? Esquecera-se por completo deles, e o grupo de visita ao museu estava de saída. Deborah soltou um suspiro. — Imagino que não haverá chance de eu tornar a ver você hoje, não é? Leo sentiu um peso na consciência. — A não ser que... Mary Harris aproximou-se, ofegante. — Oh, Leo, lamento muito. Timothy ficou trancado no banheiro. Eu não sabia o que fazer. Um funcionário do hotel acabou conseguindo tirá-lo. Nós perdemos o passeio? Leo tranqüilizou-a e reuniu os Harris rapidamente ao grupo que estava de saída. Voltou até o saguão onde deixara a mãe, revisando mentalmente a sua programação daquele dia. — Ouça, há mais um grupo de turistas cuja partida preciso supervisionar. Depois, tenho que levar uma pessoa até as pirâmides. Mas estará calor e ela é idosa. Duvido que vai querer ficar muito tempo lá. Que tal tomarmos um chá nesta tarde? — Ou poderíamos jantar juntas, não é? Leo hesitou. Projeto Revisoras 7
  • 8. Sabrina 1182 - A magia do deserto – Sophie Weston — Você acha que seu pai não iria gostar — disse Deborah, desapontada. Ela quase lhe tocou o ombro, mas a mãe teria praticamente se esquivado. Não eram uma família afetuosa. Assim, disse com gentileza: — Não é isso. Está havendo uma importante conferência de entidades filantrópicas no Cairo e dela faz parte um jantar beneficente que foi organizado pela agência. Haverá uma porção de figurões presentes. Eu terei que comparecer. — Se o jantar será de tamanha importância, por que seu chefe não vai para representar a agência? Leo soltou um riso. — Roy? Ele não... Mas, então, pensou a respeito. A lista de convidados incluía representantes de algumas das mais ilustres fundações de caridade do mundo, muitas mantidas pela realeza. Roy gostava de participar de festas, onde tinha uma boa chance de ser fotografado com os ricos e famosos. Alegava que era bom para a imagem da agência. — Mãe, você é um gênio. E exatamente o tipo de coisa para Roy fazer — disse, tirando o celular da bolsa. Só obteve resposta da caixa postal. Deixou uma mensagem breve e desligou. — Certo, isso está resolvido. Vejo você hoje à noite. Agora, tenho que levar uma senhora de setenta anos de Nova Jersey até as pirâmides. Deborah resmungou algo, parecendo descontente. — O que foi, mãe? — Não há algum subordinado na agência que possa levar essa mulher para ver as pirâmides? Leo abriu um largo sorriso. Deborah fora à filha de um homem rico quando se casara com o emergente Gordon Groom. Houvera sempre um subordinado para cuidar dos assuntos intediantes para ela durante sua vida inteira. Fora um dos motivos que levara Gordon a lutar tanto para ficar com a custódia da única filha. — Enquanto eu fizer parte da equipe cumprirei as tarefas que cabem a mim. — Às vezes, você é tão parecida com seu pai. Leo riu. — Obrigada. Deborah ignorou a resposta. — Não sei por quê, afinal, ele teve que comprar a Aventuras no Tempo. Por que não pôde se manter só no ramo hoteleiro? O que quer com uma agência de viagens? —: Diversidade. Você conhece meu pai... — Leo interrompeu-se. — Oh, puxa. No café do hotel, a sra. Silverstein conversava animadamente com um homem de terno escuro e expressão alarmada no rosto. Ela teve quase certeza de que era um membro da comitiva do xeque el-Barbary. — Parece que minha cliente está ficando entediada. Buscarei você às oito horas desta noite, mãe. Avançou pela multidão. Foi um alívio. O divórcio entre Deborah e Gordon Groom fora relativamente amistoso e o acordo firmado a deixara muito bem amparada, proporcionando-lhe uma vida luxuosa, Projeto Revisoras 8
  • 9. Sabrina 1182 - A magia do deserto – Sophie Weston mas ainda era capaz de ser ferina em relação ao ex-marido, obcecado por trabalho. Era um assunto sobre o qual ambas discutiam infalivelmente a cada vez que se viam. Naquela noite, prometeu a si mesma, não deixaria que a mãe mencionasse Gordon uma vez sequer. Começava a ter os próprios receios em relação aos planos do pai para ela. Mas não comentaria nada com a mãe enquanto não tivesse certeza absoluta a respeito. Portanto, ambas conversariam sobre roupas, maquiagem, namo- rados e todas as coisas pelas quais, queixava-se Deborah, a filha não se interessava. Uma noite divertida, pensou Leo, irônica, após um dia maravilhoso. Adiantou-se até o café para salvar o segurança. A comitiva do xeque adentrou pela suíte feito um exército invasor. Um dos seguranças foi direto até a sacada. O outro entrou rapidamente no quarto. O gerente, curvando-se, começou a demonstrar as luxuosas acomodações. Descobriu que o xeque não estava ouvindo. Um assistente, ainda segurando seu laptop e valise, meneou a cabeça com ar grave e guiou o gerente de volta até a porta. — Obrigado — disse-lhe. — Quanto aos outros quartos? O gerente tornou a curvar-se e conduziu-o pelo corredor. O xeque foi deixado a sós. Ele adiantou-se até a sacada e olhou para o Nilo, que serpenteava placidamente sob o sol da manhã. Havia uma pequena embarcação ao longe que pareceu-lhe um brinquedo. Fechou os olhos por um momento. Por que tudo se assemelhava a brinquedos recentemente? Até as pessoas. Mustafá, o chefe de sua segurança, parecia o protótipo de um robô. E a mulher que veria naquela noite... Pretendia se ausentar durante o entediante jantar beneficente com um pretexto qualquer a fim de vê-la, Mas, por um inquietante momento, permitiu-se perceber que a beldade o fazia lembrar de uma boneca vestida por um estilista. Na verdade, todas as mulheres que vira ultimamente pareciam-lhe daquela maneira. Exceto... por sua mente passou a fugaz imagem da garota que estivera se segurando junto ao pilar no saguão do hotel. Era alta demais, obviamente. E tinha os cabelos cheios de poeira e usava um tailleur que mais parecia um uniforme. Mas de uniforme ou não, não lhe parecera sem vida como uma boneca. Não com aqueles olhos grandes e alertas. O súbito choque neles fora intenso... e, sem dúvida, autêntico. O xeque franziu o cenho. Por que ela ficara tão chocada? De repente, ansiava por saber. Mas era evidente que jamais saberia. Soltou um resmungo mal-humorado. Seu assistente pessoal voltou à suíte. Hesitou junto à porta. O xeque endireitou os ombros. — Estou aqui na sacada, Hari. — Houve resignação em seu tom. O assistente reuniu-se cautelosamente a ele na sacada. — Tudo parece estar em ordem — relatou. O xeque tirou os óculos escuros. Havia um brilho divertido em seus olhos, mas também um profundo cansaço. — Tem certeza? Os rapazes verificaram milímetro por milímetro? Os Projeto Revisoras 9
  • 10. Sabrina 1182 - A magia do deserto – Sophie Weston telefones não estão grampeados? Minha comida não foi envenenada? O assistente sorriu. — Mustafá costuma levar seu emprego a sério demais, eu sei — admitiu. — Mas é melhor prevenir do que remediar. — Ambos sabemos que isso tudo é bobagem. — Os seqüestres aumentaram — apontou num tom neutro. — Em Dalmun — retrucou o xeque com impaciência. — Eles não têm dinheiro para me perseguirem pelo mundo, os pobres coitados. Além do mais, raptam próspero visitantes estrangeiros que pagarão resgates. Não um residente local feito eu. Meu pai não pagaria nem sequer uma ninharia para me ter de volta. Provavelmente, pagaria aos seqüestradores para ficarem comigo. Hari conteve um sorriso. Não participara da cria conversa entre pai e filho antes de Amer ter deixado Dalmun daquela vez. Mas as repercussões haviam abalado a cidade. Fora uma desavença definitiva, haviam dito no palácio, um ultimato. O filho avisara ao pai que não toleraria mais interferência em sua vida e não retornaria ao país enquanto o velho xeque não aceitasse aquilo. Amer estudou Hari por um instante. — Ora, eu sei. — Apenas ouvi os falatórios nos bazares, como todo mundo— respondeu o assistente, um tanto evasivo. — O que estão dizendo? Hari contou os rumores dos dedos: — Que seu pai quer matar você. Que você quer matar seu pai. Você se recusou a se casar novamente. Você está insistindo em se casar novamente. — Fez uma pausa, o rosto sério mas os olhos vivazes brilhando. — Você quer ir para Hollywood e fazer um filme. — Pelos céus! — Amer estava genuinamente perplexo. Soltou um riso divertido. — De onde surgiu esse último? Hari não era apenas seu assistente pessoal. Era também um leal amigo. Contou- lhe a verdade. — Foi por causa de Cannes no ano passado, acho eu. — Ah — disse Amer, compreendendo de imediato. — Estamos falando da sedutora Catherine. — Ou das sedutoras Julie, Kim ou Michelle. Amer riu. — Gosto de Cannes. — E o que se comprova nas fotografias. — Você não aprova, Hari? — Não cabe a mim aprovar ou não — apressou-se o assistente a dizer. — Apenas me pergunto... — Gosto das mulheres. Hari pensou na recusa veemente de Amer em se casar outra vez depois que a esposa morrera num acidente de cavalo. Guardou suas reflexões para si mesmo. Projeto Revisoras 10
  • 11. Sabrina 1182 - A magia do deserto – Sophie Weston — Gosto da maneira peculiar como a mente delas funcionam — prosseguiu o xeque. — É algo que me faz rir. Gosto de como tentam fingir que não sabem quando olhamos para elas. Gosto da fragrância que exalam. — Nem todas as mulheres cheiram a seda e perfume francês como as suas Julies e Catherines. — Bonecas — disse Amer num tom obscuro. — O quê? — Já se deu conta de quantas bonecas animadas eu conheço? Oh, elas se parecem com pessoas. Andam, falam, comem. Mas quando se conversa com elas, apenas dizem às coisas que foram programadas para dizer. — Presume-se que são as coisas que você quer que digam. Assim sendo, quem as programou? Amer sacudiu a cabeça com impaciência. — Eu não. O que quero é... — Sair com uma mulher que não foi programada para dizer que você é maravilhoso? — pressionou-o Hari sem remorso. Estudou o amigo com ligeiro ar desdenhoso. — Por que não tenta fazer isso algum dia? Amer não se ofendeu. Mas também não ficou impressionado. — Firme os pés na realidade — disse com ar cansado. Hari entusiasmou-se com sua idéia. — Só quero que tente fazer isso com aquela garota no saguão. Amer admirou- se. — Você aprendeu a ler pensamentos? — Vi você olhando na direção dela — explicou Hari simplesmente. — Admito que fiquei surpreso. A garota não faz o seu tipo. O xeque deu de ombros com ar zombeteiro. — Nada de perfume francês ali, você quer dizer. Eu sei. É mais como poeira e loção bronzeadora barata. Mas, ainda assim, ela tem todos os truques femininos. Você a viu tentando fingir que não sabia que eu estava olhando em sua direção? Hari mostrou-se intrigado. — Então, por que você a olhava? Amer hesitou, seus olhos indecifráveis por um instante. Enfim, tornou a dar de ombros. — Foram os meses de confinamento a Dalmun, acho eu — disse num tom duro. — Mostre pão amanhecido a um homem faminto e ele se esquecerá de que já provou enviar. — Pão amanhecido? Pobre garota. — Eu me lembrarei do caviar tão logo eu prove um pouco para avivar minha memória — disse Amor, malicioso. Hari conhecia o patrão. — Reservarei o hotel em Cannes. A visita às pirâmides não foi muito bem-sucedida. Como Leo esperara, a sra. Silverstein insistira em caminhar em torno de cada pirâmide e não pôde ser convencida a deixar de ver a de Quéops. Projeto Revisoras 11
  • 12. Sabrina 1182 - A magia do deserto – Sophie Weston Desde que chegara ao Egito em sua excursão organizada pela Aventuras no Tempo, quisera ver absolutamente tudo e, apesar de sua idade avançada e reumatismo, fizera entusiásticas tentativas de aproveitar cada passeio ao máximo. — A mulher nunca pára — reclamara Roy Ormerod a certa altura. — Acabará tendo um ataque qualquer e nós seremos responsáveis. Pelos céus, faça com que vá com mais calma. Mas Leo descobrira que tinha grande simpatia pela sra. Silverstein. Era uma mulher dinâmica, que ansiava por novas experiências, das quais a vida inteira cuidando da família a privara. A mulher também era corajosa. Confiara-lhe certa vez que, além do reumatismo tinha uma doença que a deixaria debilitada demais em menos de um ano. Queria, portanto, desfrutar ao máximo o que pudesse, a fim de ter boas lembranças para acalentá-la quando estivesse confinada a uma cama. Admirando-a ainda mais, Leo deixara de seguir as instruções de Roy e passara a se empenhar para que a sra. Silverstein visse tudo o que desejasse no Egito, mas sempre tomando um pouco de cuidado extra com ela. Não era fácil. Quando a levou de volta ao hotel, a mulher estava pálida e ofegante. Ajudou-a deitar-se na cama e deu-lhe as pílulas que pediu que lhe pegasse numa gaveta. Leo já estivera pensando em chamar um médico, mas o remédio pareceu fazê-la melhorar. O telefone tocou. — Sra. Silverstein? — disse um irritado Roy Ormerod do outro lado da linha. — Poderia me dizer aonde a srta. Roberts foi quando o passeio de vocês terminou? — Sou eu, Roy. A sra. Silverstein não estava se sentindo bem, então eu... Ele não lhe deu tempo para terminar. — O quê, afinal, você pensa que está fazendo? Já lhe disse para impedir que a velhota se exceda e pára não levá-la em passeios exclusivos. Você deveria estar de volta ao escritório. E o que pretendia, deixando-me a mensagem de que não irá ao jantar desta noite? Você terá que ir. Faz parte do seu serviço e... Roy prosseguiu por vários minutos mais. A sra. Silverstein abriu os olhos e começou a parecer apreensiva. Leo interrompeu-o. — Falaremos sobre isto no escritório. Estarei aí em meia hora. — Não, eu já estou... Mas ela já desligara. — Problemas? — perguntou a sra. Silverstein. — Nada que eu não possa resolver. — A culpa é minha? — Não — assegurou-lhe Leo. Porque não era culpa da mulher. Roy estivera querendo provocar uma briga desde que ela chegara de Londres. Esquecendo-se da discrição profissional, disse aquilo a sra. Silverstein. A mulher ficou pensativa. Conhecera Roy. — E aposto que o homem não gosta do fato de você não se sentir nem um pouco atraída por ele — observou sabiamente. — Sem mencionar que você é boa no seu trabalho. Independente. Os clientes gostam de você. É competição demais para ele e, na certa, deve se sentir ameaçado. Só com muita paciência você... Houve uma batida à porta, e a mulher interrompeu-se. Leo levantou-se da Projeto Revisoras 12
  • 13. Sabrina 1182 - A magia do deserto – Sophie Weston beirada da cama. — Deve ser a limonada que pedi para você através do serviço de quarto. Mas não era. Foi um furioso Roy que encontrou à porta. — Oh, você estava ligando da recepção — disse ela, compreendendo. — Ouça aqui... — começou ele em voz alta. Leo conseguiu impedi-lo de entrar, saindo rapidamente para o corredor e fechando a porta atrás de si antes que a sra. Silverstein pudesse ouvi-los. — Você não pode fazer uma cena aqui — disse por entre os dentes. — Ela não está bem. Mas Roy estava além da razão. Continuou esbravejando e até a sacudiu pelos ombros. Uma voz autoritária disse: — É o bastante. Ambos se viraram, Leo confusa, Roy fervendo de raiva. O homem que interferira tinha um ar altivo e confiante. Alto e moreno, usava um terno cinza, sob medida, que o fazia parecer ainda mais distinto e bem-sucedido. Devia ser um empresário, pensou Leo. Alguém que pagara caro por tranqüilidade naquele andar de executivos e exigiria continuar usufruindo seu direito. Os olhos escuros que pousavam em Roy continham frieza o desprezo. — Esta é uma conversa particular — retrucou ele, mostrando que não gostara da interrupção. — Então, deveria ser conduzida em particular — declarou o homem, sua calma e polidez causando maior impacto do que qualquer demonstração de hostilidade teria conseguido. — Vocês têm um quarto aqui? — Não — respondeu Leo, apreensiva com a simples idéia de ficar a sós com Roy naquelas circunstâncias. Pela primeira vez, o homem tirou os olhos do beligerante chefe dela. Observou- a brevemente e meneou a cabeça. — Senhorita? — Arqueou as sobrancelhas, inquiridor. Leo não o reconheceu. Tentou se recompor e vasculhou a memória. Mas a atitude de Roy parecia tê-la desconcertado ao ponto de não conseguir pensar com clareza. Naquele meio tempo, o fato de que o estranho parecia conhecê-la deixou Roy ainda mais agitado. — Tome cuidado com essa garota, amigo. Ela vai apunhalar você pelas costas antes que se dê conta. Leo virou-se para fitá-lo abruptamente. Tudo o que podia pensar era que ele devia ter descoberto quem era o pai dela. — O quê? — disse, aturdida. O estranho estreitou o olhar para observá-la. — Talvez eu tenha interferido desnecessariamente — declarou, seu sotaque acentuado. — Senhorita? Leo sacudiu a cabeça, cada vez mais confusa. Roy esbravejou: — Você está despedida! Projeto Revisoras 13
  • 14. Sabrina 1182 - A magia do deserto – Sophie Weston Ela empalideceu. Podia imaginar o que seu pai diria quando soubesse daquilo. — Oh, céus — disse, preocupada. Daquela vez, o estranho não olhou em sua direção — Sua conversa seria melhor se usasse uma abordagem mais construtiva — disse a Roy. Ele soltou um grunhido deselegante. — Conversa encerrada — retrucou. Lançou a Leo um último olhar faiscante. — Você não quer ir ao jantar hoje à noite? Ótimo. Não vá. E não chegue perto do escritório outra vez também. E nem de ninguém da minha equipe. Leo começou a ficar apreensiva. Dividia um apartamento com os membros da equipe. — Ouça, eu... Mas ele a ignorou. — E não me peça referências! Ela não estava tão preocupada com aquilo quanto Roy obviamente achou que estaria. — Vamos conversar sobre isto — disse-lhe num tom conciliador. Mas Roy deu um passo à frente, o rosto muito vermelho. Ela deu-se conta de imediato de que pretendia esbofeteá-la. A situação era tão absurda que nem sequer tentou se esquivar. Apenas gelou no lugar, em pânico. Felizmente, o desconhecido que intervira não parecia ficar sem ação tão facilmente. Colocou-se rapidamente na frente dela. — Não. — Sua voz soou controlada o bastante, mas teve o impacto de uma bomba. Roy parou abruptamente e encontrou o olhar de seu oponente. Era corpulento, a vermelhidão em seus olhos alarmante. O outro homem era alto e tinha ombros largos, mas, naquele terno impecável, parecia comedido e elegante. Não parecia páreo para um brutamontes feito Roy. Ainda assim, não havia dúvida de quem estava no controle da situação. Houve um momento de pesado silêncio. Roy soltou um profundo suspiro. Então, sem mais palavra, virou-se e afastou-se bruscamente, chutando uma cadeira no corredor. Leo recostou-se na parede, o coração descompassado. Agora que tudo terminara, estava horrorizada com a desagradável cena. Numa outra parte do corredor que não se avistava, as portas do elevador se abriram e várias pessoas desceram, risos e vozes ecoando pelo andar. O estranho lançou um olhar pelo corredor e pegou-a pelo braço. — Venha comigo. E antes que os recém-chegados os tivessem visto, conduzira-a até o final do corredor e por uma grande porta dupla. Antes de se dar conta do que acontecia, ela viu-se sentada numa confortável cadeira no que reconheceu como a suíte presidencial. O homem permaneceu parado à sua frente, silencioso. — Você está bem? — perguntou-lhe, enfim. Enquanto o observava, Leo sentiu o coração disparando numa reação atípica e Projeto Revisoras 14
  • 15. Sabrina 1182 - A magia do deserto – Sophie Weston um pensamento dos mais inesperados e espantosos passou por sua mente: Quero que ele me abrace. Mal podia acreditar naquilo. — O quê? — disse, distraída. O estranho franziu o cenho, como se as pessoas costumassem prestar mais atenção quando falava. Agora que o observava melhor, ela notou que havia muito mais nele do que apenas elegância e roupas de ótimo caimento. O rosto duro podia parecer arrogante e distante, mas era incrivelmente bonito. E teve a impressão de ver um brilho naquele olhar que não tinha nada de distante. Achou que devia estar delirando. Aquilo não era de seu feitio em absoluto. Não flertava com estranhos e nem eles com ela. Aquela era a segunda vez que começava a ter um comportamento atípico. Estaria enlouquecendo? — Eu lhe perguntei se você está bem. — Oh. — Leo tentou se recompor. — Eu... acho que sim. — Acrescentou quase para si mesma: — Só não sei o que fazer. O homem soltou um suspiro. — Em que aspecto? — indagou, obviamente contrariado. Se ele não gostava da situação por que não a deixava em paz? perguntou-se Leo, irritada. — Roy disse que não devo voltar. Mas tudo o que tenho está no apartamento... Inesperadamente, sua voz falhou. Para seu horror, sentiu as lágrimas aflorando-lhe nos olhos. Zangada, afastou-as com a mão. Mas o gesto denunciou-a mais do que se tivesse caído em prantos. A expressão no rosto do estranho tornou-se indecifrável. — Você vive com esse homem? Mas a mente de Leo estava acelerada, propondo e descartando meios de ação em questão de segundos. Mal notou a pergunta. — Terei que telefonar para Londres. — Consultou o relógio de pulso. — E, depois, reservar um quarto em algum lugar. Se conseguir algum no auge da temporada turística. O homem tornou a suspirar. — Então, será um prazer oferecer-lhe minha assistência — disse num tom resignado. Adiantou-se até o telefone. Leo franziu o cenho. Havia algo de estranhamente familiar naquela frase formal. — Nós já nos conhecemos? Ele falava rapidamente em árabe ao telefone. Mas, naquele ponto, virou-se para fitá-la. — Não, srta. Roberts. O homem tinha olhos tão estranhos... Ela pensara que seriam castanhos ou pretos naquela tez morena, mas não eram. Tinham uma peculiar cor metálica, um tom cinzento semelhante a um céu tempestuoso, ou a um mar revolto. Leo sentiu-se como se estivesse sendo tragada pela intensidade que possuíam. Esforçou-se para se recobrar. O homem era um hipnotizador? Projeto Revisoras 15
  • 16. Sabrina 1182 - A magia do deserto – Sophie Weston — Você sabe meu nome — disse um tanto ofegante. Ele sorriu. Pela primeira vez. O sorriso iluminou-lhe o rosto atraente e másculo, deixando-o irresistível. — Eu sei ler. Ela o fitou sem compreender. Ele estendeu a mão e tocou-lhe o ombro. Uma corrente eletrizante percorreu-a, fazendo-a levantar-se abruptamente. — O que... — Li sua etiqueta. Ele removera a grande etiqueta com o seu nome que ela usara para receber um grupo de turistas no aeroporto naquela manhã ! Colocou-a em sua mão sem tocá-la. Suas faces queimaram. Sentiu-se uma tola. Aquilo não era de seu feitio tampouco. O que havia naquele homem que a desconcertava tanto? O telefone tocou. Ele atendeu-o, ouvindo com uma expressão neutra no rosto e agradecendo brevemente antes de desligar. — O hotel tem um quarto para você. Pegue a chave na recepção. Perplexa, Leo começou a protestar: — Um quarto? Aqui? Está brincando. Eles têm reservas para um período de muitas semanas. Eu sei porque estava tentando conseguir um quarto para uma pessoa que quis tomar parte no jantar beneficente sem ter feito reserva com antecedência. Ele deu de ombros com ar entediado. — Um quarto deve ter ficado disponível nesse meio tempo. Leo duvidava muito. Estreitou os olhos. Mas, antes que pudesse exigir explicação, a porta se abriu abruptamente e dois homens corpulentos de ternos escuros adentraram pela sala da suíte. Um dos dois empunhava um revólver. Leo observou-os, boquiaberta. Seu salvador virou-se na direção dos homens e disse algo sucinto. O brutamontes parou de apontar a arma para ela. Os dois recém-chegados pareceram constrangidos. Ela tornou a desviar a atenção para o estranho de misteriosos olhos cinzentos. — Quem é você? Ele hesitou apenas um segundo antes de responder calmamente: — Meu nome é Amer. A suspeita de Leo aumentou. Mas, antes que pudesse fazer outra pergunta, um dos homens corpulentos falou agitadamente. O estranho consultou o relógio. — Tenho que ir — disse-lhe. — Mustafá acompanhará você até o saguão e garantirá que não haverá problemas. Meneou a cabeça na direção dela. Foi um gesto brusco e definitivo. Já se retirava antes que Leo tivesse chance de se recompor o bastante para agradecer-lhe. O que foi bom. Pois ela não se sentia nem um pouco agradecida. CAPÍTULO II Projeto Revisoras 16
  • 17. Sabrina 1182 - A magia do deserto – Sophie Weston Leo não se surpreendeu muito quando constatou que o quarto não apenas estava disponível como também era extremamente luxuoso. Quando um discreto funcionário do hotel indicou-lhe que entrasse, ela descobriu que havia presentes à espera na mesa de centro da sala da suíte: uma bandeja de frutas, outra de doces árabes e uma grande cesta de flores. Teria um teto sobre sua cabeça naquela noite. Devia estar grata, disse a si mesma. O enigmático Amer dera-lhe a oportunidade de colocar sua vida de volta nos eixos. Consultou o relógio e começou a dar telefonemas. Sua mãe foi à quarta da lista. Esperou ter que deixar recado, mas ela estava no quarto. — Desculpe, mãe, você vai ter que jantar sozinha hoje à noite. Estou com sérios problemas. Levarei algum tempo para resolvê-los. — Conte-me a respeito. E Leo contou. A mãe ficou indignada. Embora não aprovasse que a única filha, herdeira de um verdadeiro império do ramo hoteleiro, ficasse zanzando pelo Egito como guia turística, não admitia que alguém a maltratasse. Sugeriu-lhe várias estratégias, embora a maioria delas teria levado Roy e Leo a serem deportados. Sabendo como a mãe tinha temperamento forte, falou-lhe gentilmente ao telefone até que sua fúria se abatesse. — Bem — disse Deborah, enfim — o sr. Ormerod certamente não vai arruinar meus planos para o jantar. Quero estar em sua companhia. Verei você às oito. — Mas não tenho nada para usar. — Você tem um cartão de crédito. — Ela pôde ouvir a alegria na voz da mãe. Deborah sempre reclamava da falta de interesse da filha por roupas. — E você deve conhecer esta cidade o bastante para saber onde ficam as butiques de classe. Verei você no saguão agora. Leo sabia que fora derrotada. Negociou uma demora de quinze minutos para dar o restante de seus telefonemas. Mas fora a única concessão que a mãe fizera. Deborah a aguardava no saguão e conduziu-a até uma limusine que alugara. — Já sei aonde ir e, portanto, não tente me despistar levando-me a um bazar qualquer. E, céus, você está mesmo precisando de roupas. Veste-se assim para tentar provar alguma coisa? Leo não se ofendeu. Já era mais alta do que a bonita e elegante mãe desde os onze anos. Com o passar do tempo, aprendera a disfarçar sua altura com roupas simples e de bom caimento. Deborah nunca ficara contente com o estilo escolhido pela filha. — Eu me visto deste jeito para parecer profissional durante um longo dia de trabalho. Além do mais, gosto das minhas roupas. — Bem, não vai precisar parecer profissional nesta noite. Assim, pode comprar algo bonito para variar. Não é como se você não pudesse pagar. O automóvel levou-as a uma butique exclusiva, e Leo reconheceu de imediato o famoso nome internacional. Resignada, acabou aceitando os esforços da mãe, que a ajudou a escolher uma calça de organza branca e uma blusa de crepe dourada. Deborah deu-lhe uma encharpe de seda em tons de bronze e bege para combinar. Projeto Revisoras 17
  • 18. Sabrina 1182 - A magia do deserto – Sophie Weston — Obrigada — disse Leo, tocada. A mãe piscou rapidamente. — Eu gostaria que você usasse isso para sair para jantar com alguém mais interessante do que eu. Por um espantoso momento, os pensamentos de Leo se concentraram no seu misterioso salvador. Sentiu o rubor se espalhando por suas faces alvas. O que não passou despercebido a mãe. — Ah, é alguém que conheço? — Não há ninguém — respondeu Leo num tom um tanto brusco e refugiou-se na limusine. Deborah esperou que o carro estivesse em movimento para prosseguir: — Querida, acho que precisamos ter uma conversa. — Tenho vinte e quatro anos, mãe. Já sei que não somos trazidos pela cegonha. — Fico contente em saber. Não que você pareça tão a par das coisas da maneira como vai. — Mãe... — disse Leo em tom de aviso. — Está tudo bem. Não vou perguntar detalhes sobre sua vida pessoal. Quero falar sobre o seu casamento. Leo franziu o cenho. — Mas não vou me casar. — Ah, então os rumores sobre você e Simon Hartley não são verdadeiros? Leo observou-a em aturdimento. — Simon Hartley? O novo diretor financeiro de papai? Eu mal o conheço. — Achei que fosse o irmão de uma amiga de escola sua. — Sim, é irmão de Claire Hartley, mas é mais velho do que nós. — Então, você não o conhece pessoalmente? — Bem, papai o trouxe até aqui há uns dois meses, para se familiarizar um pouco com a agência de viagens, ou algo assim. Toda a equipe da Aventuras no Tempo o conheceu. — E você gostou dele? Leo soltou um suspiro de exasperação. — Oh, pare com isso, mãe. Acredite, não adianta tentar me arranjar candidatos a marido. Acho que não fui feita para o casamento. Para sua surpresa, Deborah não argumentou a respeito. Apenas pareceu pensativa. — Por que não? Porque você tem coisas demais a fazer sendo a herdeira de Gordon Groom? Leo ficou tensa. Ali estava, pensou. Aquele seria o ponto em que a mãe começaria a atacar seu pai. —- Foi uma opção minha entrar para os negócios — disse com firmeza. Deborah também não argumentou sobre aquilo. De repente, perguntou-lhe: — Diga-me, você já se apaixonou? Leo não soube o que a teria deixado mais estupefata. Projeto Revisoras 18
  • 19. Sabrina 1182 - A magia do deserto – Sophie Weston — Como disse? No momento em que falou aquilo, Leo arrependeu-se. A mãe interpretaria sua perplexidade como uma admissão de falha com o sexo oposto. Exatamente o que sempre avisara a filha que aconteceria se não abrisse seu coração. — Achei mesmo que não. Mas Deborah não soou triunfante. Pareceu preocupada. E, pelo que devia ter sido a primeira vez na vida, não prolongou o assunto. O que fez com que Leo se sentisse estranhamente inquieta. Estava acostumada a sermões maternais. Conseguia lidar com eles. Uma Deborah silenciosa e preocupada era algo novo em sua experiência. Não gostava daquilo. Amer deu várias instruções a Hari que fizeram o assistente arquear cada vez mais as sobrancelhas espessas. Tomou nota de tudo com a costumeira eficiência, no entanto. Mas ao ouvir a última instrução, deixou a caneta de lado e olhou para Amer com ar de reprovação. — O que direi ao seu pai? — Não diga nada. Reporte-se ao meu tio, o ministro da saúde. Meu tio dirá a ele que fiz o discurso que vim até aqui para fazer. E voilá. — Mas esperarão que você diga alguma coisa no jantar beneficente. Amer abriu-lhe um sorriso irônico. — Diga você. Foi você quem escreveu o discurso, afinal. Será mais convincente do que eu. Hari esforçou-se para não retribuir o sorriso. — Vão descobrir — disse com ar grave. — O que dirão? — Não me importo com o que um punhado de filantropos possa dizer ao meu respeito. — Eu não estava me referindo aos filantropos. Mas ao seu tio, o ministro da saúde, ao seu outro tio, o ministro das finanças, ao outro, o do petróleo... — Não me importo com o que pensem também. — Mas o seu pai... — Se meu pai não tomar cuidado, voltarei à universidade para terminar meu curso e me tornar o arqueólogo que nasci para ser. Hari ficou apreensivo. — A culpa é minha, não é? Eu não deveria ter dito que as mulheres que você conhece foram programadas para achá-lo maravilhoso. Você tomou isso como um desafio, não foi? Amer riu. — Digamos que você mencionou uma hipótese que estou interessado em testar. — Mas por que com a srta. Roberts? — E por que não? — Você disse que ela era como pão amanhecido.― Amer franziu o cenho. — Espero que você não esteja pensando em lhe dizer isso — avisou. — Não vou lhe dizer nada — apressou-se Hari a assegurar. — Nem sequer chegarei perto dela. Projeto Revisoras 19
  • 20. Sabrina 1182 - A magia do deserto – Sophie Weston — Não seja ridículo. Isso não é maneira de me impedir de vê-la. — Não estou sendo ridículo — defendeu-se Hari. Um pensamento lhe ocorreu. Estava começando a se divertir. — Se você quer brincar de ser um homem comum, a primeira coisa que terá que fazer é marcar um encontro pessoalmente, como faz o resto de nós. Amer encarou-o com ar surpreso, mas, então, começou a rir. — Mas é claro. Eu não pretendia agir de outro modo. Isso faz parte da diversão. — Diversão? — É evidente. Novos experimentos costumam ser divertidos. — Então, ela é um novo experimento. Vai lhe dizer isso? — perguntou o assistente polidamente. — Ainda não sei o que vou lhe dizer — admitiu Amer com franqueza. — Acho que dependerá em parte do que ela própria me disser. — Pareceu intrigado com a idéia. — A primeira coisa que a garota vai lhe dizer é como você se chama, qual o seu título e a sua renda anual — retrucou Hari. Mas Amer não deixaria que nada afetasse seu bom humor. — Estive pensando nisso. Se a srta. Roberts não me reconheceu até agora, não o fará mais, a menos que alguém lhe diga quem sou. Assim, é melhor você tomar todas as providências no seu nome. — Oh? E como será quando você aparecer, em vez de mim? Mesmo que consiga convencer o maitre a ser discreto, e quanto às demais pessoas no restaurante? — Já pensei nisso também. Agora, isto é o que eu quero que você faça... De volta do hotel, Leo descobriu que o pai tentara responder seu telefonema duas vezes. Deixara vários números onde poderia ser encontrado. Não estava muito ansiosa por aquela conversa. Mas os anos de convivência com o pai haviam-lhe ensinado que era melhor enfrentar a contrariedade dele logo do que tentar adiar as coisas. Assim, endireitando os ombros, fez a ligação. — O que aconteceu? — quis saber Gordon Groom de imediato, ignorando as perguntas da filha sobre sua saúde e bem-estar. Leo suspirou o contou-lhe sobre o incidente com Roy da maneira mais sucinta possível. Quando terminou, ficou um tento surpresa em descobrir que o primeiro pensamento dele foi para a sra. Silverstein. — Como ela está? — Dormindo, acho eu. — Vá vê-la — ordenou Gordon. — E mais uma vez antes de ir dormir. — Claro — disse Leo, tocada. — Não podemos esquecer do grande potencial que os americanos aposentados representam para nós em termos de turismo. Aquele soava mais como o pai que conhecia, pensou ela, contendo um sorriso. — Eu verei como ela está — assegurou-lhe. — E quanto a Ormerod? Está mostrando competência? Leo sentiu-se pouco à vontade com a pergunta. Fora bastante firme com o pai, Projeto Revisoras 20
  • 21. Sabrina 1182 - A magia do deserto – Sophie Weston dizendo-lhe que não iria ao Cairo para espionar a administração existente. — Alguns dos métodos operacionais do turismo local são um tanto arcaicos — disse, cautelosa. — Parece que está sendo necessária uma auditoria operacional aí. — Gordon, então, tirou o escritório do Cairo dos pensamentos e concentrou-se na filha. — E quanto a você? Acho que não adiantaria muito fazer com que Ormerod a readmitisse, não é? Ela estremeceu. — Não. — Então, é melhor você voltar a Londres. Alguns assuntos da Fundação Groom precisam de supervisão. Terá como cuidar deles aqui mesmo da empresa. Você poderá fazer isso até que... — O pai interrompeu-se. — Até que eu defina algo para você na própria empresa. Leo ficou intrigada, mas conhecia-o o bastante para saber que não adiantaria pressioná-lo. Não lhe diria qual cargo tinha em mente para ela na Hotéis Groom enquanto não tivesse se certificado de que estava apta a exercê-lo. — Está certo. Acabarei de resolver umas coisas aqui e voltarei para casa. Outros pais, pensou ela, teriam ficado contentes, dizendo quanto seria bom tornar a vê-la. Alguns até teriam desejado saber o horário do vôo para buscá-la no aeroporto. Gordon apenas disse: — Ainda tem suas chaves? Ambos viviam numa mansão em Wimbledon. Mas Leo preferia morar na agradável casa de hóspedes que ficava na propriedade. Não interferiam na vida um do outro. — Sim, tenho. : — Nós nos vemos quando você voltar, então. — Ele desligou. Leo disse a si mesma que não estava magoada. Gordon era um pai consciencioso e bom. Mas não era dado ao sentimentalismo, especialmente quando havia algum indício de que as emoções pudessem interferir nos negócios, Era tolice pensar que gostaria que ele tivesse ficado um pouco mais indignado por sua causa, pensou. Quando a mãe ficara irada com a atitude de Roy Ormerod, procurara acalmá-la. Ainda assim, como o pai não ficara, sentira-se como se não fosse amada. O problema era que não sabia o que queria, disse a si mesma, censurando-se. O melhor era esquecer. Mas não podia se esquecer de como o estranho de olhos cinzentos a defendera de Ormerod. A atitude a fizera sentir-se... o quê? Protegida? Estimada? Fez uma careta. Era uma Groom, uma executiva, não podia se dar ao luxo de se deixar levar por emoções, avisou a si mesma. De qualquer modo, não tornaria a ver o moreno misterioso. Fez uma reserva para o jantar para ela e a mãe. Depois livrou-se das roupas Projeto Revisoras 21
  • 22. Sabrina 1182 - A magia do deserto – Sophie Weston empoeiradas do dia e mergulhou numa banheira de espuma. Procurou relaxar em meio à água quente e perfumada. Quando o telefone na parede do banheiro tocou, ignorou-o. Pela primeira vez em meses, ao que parecia, não tinha que se preocupar com reuniões de equipe, roteiros e excursões. Fechou os olhos e permitiu-se desfrutar o prazer da liberdade. Houve uma batida à porta. Na certa era a mãe, indo até ali para se certificar de que não faltaria ao jantar de ambas. Com um suspiro, Leo saiu da banheira e vestiu o refinado roupão branco do hotel, fechando-o com o cinto. Abriu, então, a porta da suíte, tentando adquirir uma expressão de boas-vindas. Quando viu quem era, o que se evidenciou em seu rosto foi pura estupefação. — Você! O que quer? — Bela acolhida — disse o estranho misterioso com ar divertido. — Que tal um encontro? — Um encontro? — Um jantar. Com música, dança, conversa culta. O que você desejar. Leo sacudiu a cabeça, confusa. — Mas... um encontro? Comigo? Um quê de aborrecimento passou pelo rosto bonito de Amer. — Por que não? Porque os homens não me convidam para sair. Não sem mais, nem menos. Não sem saber quem é meu pai. Leo reprimiu o pensamento depreciativo. — Quando? — disse, ganhando tempo enquanto se acostumava à idéia de tentar aquela nova experiência. — Esta noite, ou nunca — respondeu ele com firmeza. — Oh, bem, então isso resolve tudo. — Leo não soube se ficou aliviada ou desapontada. Mas ao menos a decisão fora tirada de suas mãos. — Já tenho um compromisso para o jantar nesta noite. Tentou fechar a porta. Não conseguiu. Ele se recostara no batente como se pretendesse ficar ali a noite inteira. — Cancele — sugeriu. — Não — respondeu ela num tom de voz como o da professora mais formal que já tivera na escola de boas maneiras. Ele conteve um sorriso. — Desafio você. Leo fitou-o com ar contrariado. — Imagino que você pense que isso torna seu convite irresistível? — Bem, interessante ao menos. Ela tinha de admitir que o sorriso do homem era cativante. Sentiu o coração disparando inesperadamente enquanto o observava. Não sabia aonde um jantar com ele poderia tê-la levado. Felizmente passaria a noite com a mãe. Naquele instante, como se a tivesse evocado com seus pensamentos, surgiu Projeto Revisoras 22
  • 23. Sabrina 1182 - A magia do deserto – Sophie Weston Deborah Groom, adiantando-se pelo corredor. Leo soltou um suspiro. — Isso é um sim, ou um talvez? — perguntou Amer, divertido. —- Nenhum dos dois. Olá, mãe. Ele virou-se rapidamente. Deborah não hesitou. Presumindo que o homem à porta da suíte da filha era Roy Ormerod, partiu para o ataque: — Como você ousa vir até aqui para importunar minha filha? Já não fez o bastante? Eu me certificarei de que seu patrão saiba de tudo isso. Amer piscou. Um brilho peculiar de apreciação surgiu em seus olhos. — Não pretendi importuná-la — disse num tom de desculpas. Leo mal pôde conter o constrangimento. — Mãe, por favor. Este é o senhor... — Felizmente lembrou-se do nome bem a tempo: — ... Amer. Foi ele quem persuadiu o hotel a me arranjar um quarto. — Oh. — Deborah levou um momento para assimilar a informação. Então, mais um para avaliar Amer. Não lhe passou despercebido o fato de estar impecavelmente vestido e ser tão distinto. Oh — disse outra vez num tom diferente de voz. — Estendeu II mão graciosamente. — Que gentileza a sua, sr. Amer. Sou Deborah... Roberts, a mãe de Leo. — Leo? — murmurou ele, inclinando-se sobre a mão dela. — Ridículo, não é? Especialmente com um nome tão bonito quanto Leonora. Em homenagem à minha avó, sabe. Mas o pai Heinpre a chamou de Leo. E o apelido ficou. — Mãe — protestou Leo. Nenhum dos dois lhe deu atenção. — Leonora — disse Amer como se estivesse saboreando o nome. Deborah abriu-lhe um sorriso radiante. — E que bondade a sua vir ver como ela está. — Eu esperava persuadi-la a jantar comigo. Mas sua filha já tom um compromisso. Deborah pousou a mão bem-cuidada na face. — Ora, não é uma coincidência? Eu estava vindo dizer a Leo que mio me sentia muito disposta para sair nesta noite. — Deixou que os ombros caíssem com ar teatral. — Este calor me deixa tão cansada. Leo não podia crer naquela traição. — Que calor, mãe? Em cada lugar que esteve hoje havia ar-condicionado. Deborah pareceu contrariada, mas recobrou-se depressa. — Bem, é exatamente esse o problema. — Virou-se para Amer com ar queixoso. — Nós, ingleses, não estamos realmente acostumados ao ar-condicionado. Acho que devo ter apanhado um resfriado. — Chegou a tossir de leve, com a classe de uma dama. Leo fervia por dentro. Tinha quase certeza de que o arrogante homem estava rindo secretamente de ambas. — Então, é melhor você ficar na sua suíte — disse com firmeza. — Usaremos o serviço de quarto. Deborah abriu um sorriso valente. Na suite? — perguntou, ressentida. — Sabe que pensei que iríamos jantar num restaurante. Olhe para mim. Projeto Revisoras 23
  • 24. Sabrina 1182 - A magia do deserto – Sophie Weston Amer supervisionava a retirada de uma grande cesta de piquenique do jipe. Virou-se, então, para observá-la. Percorreu-a longamente com um olhar intenso, fazendo-a sentir-se pouco à vontade. — Você quer voltar? — perguntou-lhe, mais com um ar de desafio do que por cortesia. — Bem, uma vez que já estamos aqui... Amer ergueu as sobrancelhas espessas, seu ar sardônico. — Devemos chamar isso de um experimento, então? Para nós dois. O motorista desceu com a cesta de piquenique pelo banco de areia um tanto íngreme até o pequeno ancoradouro de madeira. Amer estendeu a mão para ajudar Leo. Ela aceitou-lhe a mão e desceu pelo caminho poeirento, esforçando-se para manter o equilíbrio. Era difícil também lidar com a corrente eletrizante que aquele simples toque lhe causava. No ancoradouro, ela parou abruptamente. — É um barco — disse entre deliciada e apreensiva. O pequeno veleiro não parecia estável. Oscilava gentilmente sobre a água, preso por uma corda. Havia um lampião na proa, nenhuma outra luz pairando sobre eles exceto a das estrelas. Um homem que se apresentou como Abdul, obviamente encarregado de conduzir a embarcação, saudou-os polidamente antes de pegar a cesta de piquenique. Amer virou-se para o motorista e deu-lhe breves instruções em árabe. O homem subiu de volta até onde deixara o jipe e ligou o motor. O veículo afastou-se na escuridão da noite. Virando-se para Leo, Amer notou-lhe a apreensão no olhar. — Não vai me dizer que fica enjoada em barcos — falou, divertido. Leo lançou- lhe um olhar exasperado. Deu-se conta, então, de que o melhor era admitir a verdade. — Sou uma pessoa desajeitada — anunciou, desafiadora. — Eu só estava tentando descobrir como fazer para subir nessa coisa. — É fácil. — Amer ergueu-a nos braços. — Cuidado — pediu ela, segurando-o com força pelo pescoço. Soltando um riso, ele manteve-a na altura do peito e subiu no barco, carregando-a. Almofadas delineavam o interior do veleiro, e ele agachou-se, fazendo menção de se sentar. Leo teve a im- pressão de que a segurou por mais tempo do que o necessário. Deu-se conta também de que seu pulso estava acelerado e o ar parecia lhe faltar. Por quê, afinal, o homem a afetava tanto? Como uma mulher de pouca experiência estaria tendo uma reação exagerada! Num esforço para se recobrar, desvencilhou-se daqueles braços Curtos e sentou-se numa grande almofada. Obrigada — disse, formal. ― Foi um prazer. Leo deslizou um pouco pela almofada para colocar alguma distância entre ambos. Amer notou, mas não fez comentário. Virou-se para chamar o navegador e não demorou para que o barco deixasse a margem, levado pela brisa do Nilo. Amer recostou-se nas almofadas e começou a indicar-lhe as estrelas que Projeto Revisoras 24
  • 25. Sabrina 1182 - A magia do deserto – Sophie Weston faiscavam no céu pelos nomes. O lampião na proa oscilava com o movimento suave do veleiro, lançando sombras sobre ambos como se estivessem debaixo d'água em vez de na superfície. Tensa, Leo não tirou os olhos das estrelas. Mas sabia que Amer estava a seu lado, sua proximidade desconcertante. Lançou-lhe um olhar e, por um momento, foi como se estivessem deitados numa cama, descansando entre travesseiros habitualmente partilhados. pensamento fez com que um súbito calor a percorresse. Não ajudou em nada quando ele estendeu a mão de repente e tocou-lhe nos cabelos. Os seus cabelos são como seda.—Aquela voz possante e aveludada como uma carícia, arrepiando-a por inteiro. — Mas curtos demais. Involuntariamente, surgiu na mente de Leo à imagem de ambos deitados numa praia deserta, as roupas espalhadas ao redor, Amer apoiado no cotovelo, correndo a mão sensualmente pelos cabelos dela. Era uma cena tão nítida que parecia real. Soltou um suspiro tremulo, esforçando-se para reprimir o choque e o constrangimento. ― Eu costumava usá-los bem mais comprido — disse depressa demais. — Até quase terminar a faculdade. Depois, achei mais prático cortá-los e... — Interrompeu- se, dando-se conta de que estava quase gaguejando. Respirou fundo e teve certeza de que ele sorriu na escuridão. ― Está nervosa? Acho que estou um pouco... apreensiva — respondeu ela com franqueza. Houve uma pausa como se o tivesse surpreendido. Ei, você deveria estar se divertindo, sabe? ― A propósito, aonde estamos indo? Quero dizer, isto é tudo? Ele soltou um ligeiro riso. ― Está com fome? Preferiu presumir que Amer falava apenas de comida. ― Bem, meu desjejum foi às cinco horas da manhã de hoje, quando levantei para ir esperar um grupo de turistas no aeroporto, e não comi nada desde então. — Pelos céus! Temos que fazer algo a respeito imediatamente. Disse algo em árabe a Abdul, que logo manobrou habilmente , o veleiro. — O que aconteceu? Foi alguma vingança do chefe pouco razoável? Ela sacudiu a cabeça, rindo. — Não. Isso é normal nesta época do ano. Às vezes, mal dá tempo de parar para comer alguma coisa entre uma excursão e outra. — Parece-me escravidão. Por que você faz isso? Ela sentia-se melhor agora que conversavam sobre um assunto corriqueiro. — E o meu trabalho. — E por que escolheu um emprego desses? Leo lembrou-se de quando o pai anunciara que a designaria para aquele trabalho de dois anos. — Bem, é quase como se o emprego tivesse ido ao meu encontro — disse, irônica. — Meu chefe me disse para onde eu iria. Não tive escolha. Projeto Revisoras 25
  • 26. Sabrina 1182 - A magia do deserto – Sophie Weston — Então, você deveria ter procurado um novo emprego com um chefe mais moderno — respondeu ele com impaciência. Leo aborreceu-se com aquele tom. — É fácil falar quando se tem uma infinidade de escolhas à disposição. A maioria de nós não as tem. Amer riu. — Ninguém tem uma infinidade de escolhas. A maioria das pessoas tem menos do que você pensa. — Está me dizendo que você é escravo das circunstâncias também? — desafiou-o Leo com ar zombeteiro. Ele não gostou daquilo e demonstrou no tom frio de voz: — Não estamos falando sobre mim. O barco aproximou-se de uma pequena ilha. D navegador recolheu a vela, ancorando-o junto ao banco de areia. Tirou, enfim, o lampião da proa, levando-o até eles com a cesta de piquenique. Amer, então, dispensou-o e o homem saltou do barco, desaparecendo na escuridão da ilha. Toda a confiança que Leo recobrasse foi com ele. Para sua surpresa, Amer abriu a cesta e começou a servir ai ambos, preenchendo dois pães sírios com uma deliciosa salada' aromática. Ela comeu com apetite e optou por um copo de água,j em vez de chá ou suco. Esvaziou-o de uma só vez. Puxa, você estava com uma autêntica sede do deserto — tomentou Amer comum ar divertido. A ansiedade sempre me deixa com sede — disse ela sem pensar. Ao vê-lo contrair o semblante de leve, mordeu o lábio inferior. — Desculpe, não tive a intenção de ser rude. Não quis dizer que... Acho que ambos sabemos o que quis dizer — declarou ele. Com o lampião mais próximo e não oscilando mais, Amer a veria corando. Ela lamentou ter aquela pele tão alva que sempre a traía. ― Desculpe-me — murmurou. Amer permaneceu em silêncio por longos momentos, sem expressão no rosto exótico e bonito indecifrável. — Você é um aprendizado — comentou, enfim. — Tenho profundo receio de que Hari esteja certo. Confusa Leo franziu o cenho. ― Quem é Hari? Amer soltou um riso inesperado. ― Mas eu estou certo também — prosseguiu, enigmático. — Você não é joguete de ninguém. E dona de si. Daí vem a sua bela franqueza. Mia percebeu que estava sendo alvo de zombaria e não gostou. Já me desculpei. Não se desculpe, Você deve ter orgulho por dizer a verdade. Não existem muitas pessoas assim no mundo. Leo sentiu-se impelida a desviar o olhar e fingiu concentrar-se na comida. Mas era difícil enquanto sentia o peso daquele olhar, Amor observando-a corno se nunca tivesse visto alguém semelhante. Após os momentos de incrível tensão, ele felizmente Projeto Revisoras 26
  • 27. Sabrina 1182 - A magia do deserto – Sophie Weston continuou unindo como um anfitrião atencioso, começando a conduzir assuntos mais amenos enquanto lhe servia mais iguarias da cesta. Falou-lhe sobre o Nilo, sua paixão por arqueologia, templos antigos n o céu do deserto, até que, finalmente, colocou-lhe uma caneca de café nas mãos, anunciando: É a sua vez. Chegou o momento que ela estivera temendo. ― Minha... vez? ― Sim. Fale comigo. ― Eu... Sobre o que vou falar? Leo soltou um riso suave. ― É comum começarmos com algo que desejemos que o interlocutor saiba a nosso respeito. ― Mas eu não quero que você saiba nada a meu respeito —disse Leo com franqueza. — Bem, então diga-me o que eu quero saber. — Como o quê? — indagou ela, cautelosa. — Conte-me de onde você é. Como acabou parando no Cairo. O que os homens na sua vida acharam disso. Leo pensou a respeito. Não haveria nada de pessoal demais naquelas informações, concluiu. Assim, respondeu sem hesitar: — Eu sou de Londres. A empresa em que trabalho é basicamente uma cadeia internacional de hotéis. Ela se diversificou, começando a abranger outras áreas de lazer, incluindo esta agência de viagens local. Fui enviada até aqui para ficar por um período de dois anos. Para adquirir experiência de trabalho pondo mãos à obra, por assim se dizer. Estou aqui há pouco mais de um ano. Eventualmente, voltarei à sede da empresa. Bem, depois do desentendimento com Roy, retornarei antes do previsto. — E quanto aos homens em sua vida? — Leo hesitou, não muito disposta a falar sobre os fracassos românticos em sua vida com aquele homem indecifrável. Por outro lado, o pai lhe ensinara que dizer a verdade era sempre o melhor caminho. Além do mais, depois daquela noite, jamais tornaria a ver Amer. Endireitando os ombros, respondeu num tom jovial: — Não há nenhum homem. Ele estreitou o olhar. — Nem mesmo... como foi que o chamou? Roy? — Não soou muito interessado. Seu tom era o de quem jogava conversa fora. Leo soltou um riso diante da simples idéia. Amer não achou graça. — Como ele conseguiu expulsar você do seu apartamento? — perguntou, rápido feito um predador no ataque. Apanhada de surpresa, ela manteve-se em silêncio. — Eu lhe perguntei se você vivia com o tal homem, se ainda se lembra. Não me deu uma resposta. Ela teve a impressão de distinguir raiva por trás daquele tom de aparente casualidade. — Era um apartamento mantido pela empresa — disse depressa! na defensiva, como se tivesse sido acusada de algo. — Saímos do Cairo com tanta freqüência com os Projeto Revisoras 27
  • 28. Sabrina 1182 - A magia do deserto – Sophie Weston grupos de turistas que não vale a pena cada funcionário ter o seu apartamento. Todos dividimos as acomodações. Roy, Vanessa, Kevin e quem mais houver! Mas, na verdade, Roy não fica lá durante a maior parte do tempo. — Não havia muita privacidade, então.― Leo ficou aliviada em notar que ele não parecia mais zangado! Mas ficou pensativo. — E esse o motivo? — O motivo de quê? — De não haver nenhum homem em sua vida. — Oh, issol — Sim, isso — sorriu ele, imitando-lhe o tom de voz numa descontraída provocação. — Se não há nenhum homem em sua vida tem que haver um motivo. Amer persistiria até que ela lhe contasse qual era. Soltando um suspiro, contou a verdade: — Eu não consigo me... entrosar com os homens. Nunca consegui realmente. É algo que enlouquece minha mãe. — Forçou um sorriso, mas não pôde mantê-lo no rosto e desviou o olhar. — Isso significa que você não se sente atraída por homens? Leo ficou perplexa. — Oh, não, não se trata disso. Tive uns dois ou três relacionamentos. Nada sério. E não deram certo. Esses namorados acabaram me deixando em pouco tempo e, para ser franca, foi um alivio. Acho que não fui feita para massagear o ego masculino. Não por muito tempo. Amer adquiriu um ar grave. — Há mais coisas num relacionamento entre um homem e uma mulher do que se massagear egos. — Há? — disse Leo secamente. — Não foi o que me pareceu. — Talvez você tenha sido infeliz em suas escolhas. Eu diria que você deveria ter tido mais de dois ou três experimentos insatisfatórios para basear suas teorias — declarou Amer, triunfante. — Acha que eu deveria ter continuado tentando? Bem, isso talvez seja bom para a maioria das garotas. Aliás, elas têm que tentar. Querem se casar. A reação dele foi de perplexidade. — E você não? — Eu diria que as circunstâncias conspiram contra mim. Amer notou que a resposta fora deliberadamente evasiva. — Ou seja, você quer se casar, mas acha que isso não vai acontecer. — Soou bem mais contente com aquela conclusão. Leo ficou furiosa. Levantou-se abruptamente, fazendo a pequena embarcação sacolejar com a violência de seu gesto. — Ouça, eu disse que jantaria com você. Mas não concordei em ser analisada desse jeito, como se fosse uma cobaia sendo dissecada em laboratório. — É o que estive fazendo? — Ele soou surpreso e não muito satisfeito. Seguiu- se uma pausa enquanto pensou a respeito. Disso, então, com ar divertido: — Está certo. Projeto Revisoras 28
  • 29. Sabrina 1182 - A magia do deserto – Sophie Weston Vingue-se. Eu lhe direi qualquer coisa que quiser saber. — Não, obrigada. Não quero dissecá-lo também. Amer sacudiu a cabeça, ainda divertido. — Ainda dizendo a verdade? Nem sempre é uma boa estratégia... mas é bastante impressionante. Levantou-se. Era mais alto do que ela, com seu porte imponente dominando a pequena embarcação. Leo lembrou-se de como aqueles braços a tinham envolvido quando fora carregada até o veleiro, e uma seqüência de arrepios subiu-lhe pela espinha. — Olhe para a lua. Ela o fez e sentiu-se quase hipnotizada, contemplando a lua cheia em meio às estrelas brilhantes. Nunca lhe parecera tão grande e luminosa, nem o céu tão aveludado. — Faz com que as incertezas humanas pareçam tão insignificantes, não é? — filosofou Amer. Leo fitou-o, então, e a intensidade naqueles olhos cinzentos, tão luminosos quanto a própria lua acima, desconcertou-a. Foi quase como se tivesse uma sensação de vertigem e, sem se dar conta do que fazia, tornou a sentar-se entre as almofadas. Não conseguiu parar de fitá-lo. Ocorreu-lhe de repente que queria aquele homem e que ele estava a par daquilo. Nunca se sentira daquela maneira em sua vida, jamais conhecera anseio tão forte. Nem sequer soubera que era capaz de tanto. Ele agachou-se até sentar-se nas almofadas, sem deixar de fitá-la um instante sequer. Era como se pudesse enxergar através dela, ver suas defesas, sua confusão, sua surpresa. Leo ficou imóvel, fascinada. E havia se julgado imune. Eram as outras garotas que esperavam ansiosamente junto ao telefone, que se derretiam diante de um olhar como aquele, que sucumbiam por causa de um simples beijo. E Amer não a beijara, nem sequer a tocara. Mas seu olhar continha um magnetismo incrível, era como uma carícia abrasadora... Abdul estava voltando. Ela ouviu-lhe o cumprimento cordial. Sentiu o movimento do barco enquanto ele subia a bordo. Amer não se moveu. Continuou fitando-a com seus olhos penetrantes. — Devo dizer a Abdul para tornar a descer e nos deixar a sós por umas duas horas? — perguntou-lhe, enfim, num tom suave. — Não sei o que você quer dizer — falou Leo com dificuldade, o céu estrelado parecendo rodopiar acima de ambos. Ele soltou um suspiro quase imperceptível de frustração. — Essa é a primeira mentira que você já me disse. — Pareceu haver uma espécie de agonia por trás de suas palavras. Leo soube que jamais voltaria a ser a mesma depois daquilo, não importando o que acontece. Conteve a respiração. Mas Amer não a tocou. Afastou-se por alguns momentos para dar instruções ao Projeto Revisoras 29
  • 30. Sabrina 1182 - A magia do deserto – Sophie Weston navegador e não soou aborrecido. Na verdade, pareceu quase indiferente. Leo soltou o ar devagar, enquanto os homens conversavam brevemente. Mal prestou atenção quando Abdul se aproximou para recolher a cesta de piquenique e, depois, foi se ocupar com a vela. listava atordoada demais. Talvez porque nunca tivesse sido tomada por sensações tão intensas antes, nem se dado conta de sua própria sensualidade. Porque nunca desejara tanto... Reprimiu os pensamentos abruptamente àquela altura. O que desejava? perguntou-se, zangada. Amer? Tolice. De repente, quis voltar ao seu quarto de hotel e recobrar-se do que lhe acontecera. Ao menos não tentara tocá-lo, pensou, aliviada. Ela manteve-se monossilábica na jornada de volta. Amer não a pressionou. Parecia tranqüilo, cordial, mas um tanto distante, quando entraram no hotel, agradeceu-a formalmente pela companhia e desejou-lhe boa-noite. Leo apertou-lhe a mão. — Obrigada — disse-lhe polidamente, como se estivesse falando com um dos motoristas de ônibus da Aventuras no Tempo. Aquele tom divertiu Amer. — Nos veremos em breve — assegurou-lhe ele. Leo não lhe dissera que esperava pegar um avião muito em breve. Nem mencionou nada naquele momento. Apenas despediu-no com um esboço de sorriso e encaminhou-se até os elevadores. Hari soube que a noite não fora bem-sucedida no momento em que Amer entrou na suíte. Bastou um olhar para o rosto do xeque c resolveu manter a conversa estritamente profissional. — Aqui está o relatório das várias conversas que tive antes do jantar beneficente — anunciou, entregando-lhe uma pasta fina. ― E os discursos que foram feitos. — Passou-lhe um calhamaço ÍIH mãos. — Ah, é uma mensagem de Sua Majestade — concluiu, apresentando-lhe um fax. — Meu pai pode esperar. O assistente absteve-se de comentários e consultou suas anotações. — Fiz reservas num vôo para Paris na quinta-feira. Achei que você iria querer parar lá primeiro. — Suspenda isso por enquanto. — Você quer ficar para a recepção que haverá ao final da conferência? — perguntou Hari, surpreso. — Talvez. Tenho assuntos inacabados no Cairo. O amigo ocultou um sorriso. — A srta. Roberts gostou do piquenique? — Ela... não é inteiramente como eu esperava. Nem à noite o foi, aliás. — Isso aconteceu porque você não lhe contou quem era. Amer sacudiu a cabeça devagar. — Não creio. Ela é incomum. Acho que o fato não teria feito a menor diferença. — Nesse caso, a srta. Roberts não é incomum, é única — opinou o cínico Hari. Surpreso, Amer riu. Projeto Revisoras 30
  • 31. Sabrina 1182 - A magia do deserto – Sophie Weston — Você pode ter razão. — Deu um tapinha no ombro do amigo. — Intrigante, não é? — Puxa, você está linda — comentou a sra. Silverstein, deitada em sua cama, quando, ainda naquela noite, Leo foi verificar como estava passando. — Teve algum encontro interessante? — Saí para jantar. — Com alguém que conheço? — Um hóspede do hotel. — Ao menos aquilo soava melhor do que um encontro às escuras, pensou Leo, irônica. — Um tal de sr. Amer. Um sorriso radiante iluminou o semblante da sra. Silverstein. — Oh, o xeque! Leo arregalou os olhos. — Como disse? — O xeque Amer el-Barbary — respondeu a sra. Silverstein com satisfação. — Fiz questão de saber o nome dele. Leo encarou-a, boquiaberta. Lentamente, compreendeu o que acontecera, um súbito horror dominando-a. Ele mentira. Enganara-a deliberadamente. Convidara-a á fazer-lhe perguntas, sabendo que ela não o faria, e, o tempo todo, omitira a informação mais importante! Oh, que grande tola Amer devia achá-la... - Que grande tola era. CAPÍTULO III Seis meses depois, Leo ainda sentia o choque de sua descoberta. Era algo que podia fazê-la acordar no meio da noite e consumi-la de constrangimento. Ou evocar lembranças de momentos surpreendentes num veleiro no rio Nilo e reavivar o desejo que sentira por um homem que nem sequer a beijara. O que, obviamente, deixava-a ainda mais constrangida e não colaborava em nada para aumentar sua auto-estima. Costumava também pensar em tudo que teria dito a Amer se tivesse ficado frente a frente com ele outra vez. Mas não ficara. A sra. Silverstein tornara a se sentir indisposta e precisara ser acompanhada de volta aos Estados Unidos. Como Leo estava de partida do Egito, agarrara a chance de viajar de imediato. Assim, encontrava-se agora em Londres, tentando recomeçar sua vida. Sem muito êxito. — O que há de errado? — perguntou-lhe a amiga, Claire Hartley, enquanto Leo a levava de carro para passarem o fim de semana com a família Hartley. — Está sentindo falta das pirâmides? — Não estou sentindo falta de nada — respondeu Leo com mais ênfase do que o necessário. A amiga ficou pensativa e, enfim, comentou: Projeto Revisoras 31
  • 32. Sabrina 1182 - A magia do deserto – Sophie Weston — Você tem visto bastante o meu irmão Simon, não é? Leo lançou-lhe um olhar surpreso. — Apenas na empresa. — Você foi ao Baile Rouxinol com ele. — A trabalho. — Então, ele não tem nada a ver com o fato de você estar contente por ter voltado para casa? — Eu não disse que estava contente por ter voltado para casa. Apenas que não sentia falta do Cairo. Há uma diferença. — Oh... E o que aconteceu no Cairo? Ou, talvez, eu deva perguntar... quem você conheceu lá? Leo contraiu o rosto. Um príncipe árabe divertira-se a valer oferecendo a uma humilde guia turística uma noite romântica e requintada. Porque não passara daquilo para ele... uma diversão. A recusa em tocá-la só demonstrara quanto Amer estivera indiferente às suas reações. — Um representante da realeza que parecia gostar de se divertir à custa dos outros — respondeu, enfim, à amiga, cerrando os dentes enquanto recordava. Claire estava admirada. — Ele realmente mexeu com você, não é? Foi uma nova experiência para você, srta. Geleira? Leo sorriu com ironia. Sua reputação de indiferença ao sexo oposto começara muito tempo antes. Nos bailes da escola, mais exatamente. Desajeitada, mais alta do que a maioria dos garotos e terrivelmente tímida, descobrira que a melhor maneira de lidar com provocações e gracejos era fingindo que não se importava. Ninguém nunca desconfiara da verdade, nem mesmo Claire. Todos apenas haviam concluído que Leo era sensata demais para ter sofrido os traumas da adolescência. — Amer el-Barbary seria uma nova experiência para qualquer um. — Parece interessante — disse a amiga com inveja. — Conte-me a respeito. Leo olhou para a estrada interminável e sinuosa à frente. Soltou um suspiro. Seria uma longa jornada. Contou à amiga, o que acontecera no Cairo. Claire ficou atônita e, quando acabou de ouvir o relato, sacudiu a cabeça em incredulidade. — E você nem sequer escreveu para ele? — O que eu teria dito? Obrigada por ter-me feito de tola? — Pode ter havido vários motivos para que ele não tenha lhe dito quem era. — Como o quê? — Bem, talvez o homem tenha achado que você não sairia com ele sabendo que era tão importante. — Dificilmente. — Que tal este? Amer queria que você saísse com ele como um homem comum, não como alguém de sua posição. — Não acredito em contos de fadas. Amer só achou que era divertido tentar Projeto Revisoras 32
  • 33. Sabrina 1182 - A magia do deserto – Sophie Weston me seduzir com todo aquele clima romântico. Na verdade... — Por um momento, a expressão de Leo suavizou-se — ... ele ficou bastante aborrecido quando não reagi conforme o previsto. — Disse-lhe isso? — Disse que nos veríamos em breve — admitiu ela com relutância. Claire soou exasperada: — Então, você correu para os Estados Unidos, acompanhando uma viúva de setenta anos e, depois, veio para cá. Francamente! Diga-me, ele não tentou entrar em contato com você? — Não teria adiantado se tivesse tentado. Todos os meus dados eram vagos ou fictícios no escritório do Cairo. Ninguém de lá sabia quem eu era. Eu usava o sobrenome da minha avó. — O escritório ainda poderia ter encaminhado alguma correspondência destinada a você, eu suponho. — Já lhe disse. Eles não saberiam para onde encaminhar o que quer que fosse. Ninguém da equipe de lá sabe que a srta. Roberts é a filha do patrão, a srta. Groom. Claire sacudiu a cabeça, insatisfeita com o fim do que poderia ter sido um grande romance. — Se você o visse outra vez... — Eu lhe daria um soco no olho — declarou Leo, veemente. Claire era uma boa amiga, mas não tinha muito tato. — Mas pareceu-me que você estava quase se apaixonando pelo homem. — O amor — retrucou Leo, zangada — é o maior conto de fadas de todos. Não passa disso. — A maioria das pessoas espera acabar se apaixonando algum dia. Sem poder evitar, Leo recordou as palavras triunfantes de Amer: Você quer se casar, mas acha que isso não vai acontecer. Ele estivera falando sobre casamento, não amor. Mas ela corou como se o xeque estivesse no carro, lendo seus pensamentos. — Eu não. Tendo encerrado uma reunião que mal pudera suportar com assuntos pertinentes à Fundação Beneficiente el-Barbary, um irritadiço e impaciente Amer andava de lá para cá pelo escritório da mansão que mantinha em Londres. Ultimamente parecia não conseguir se concentrar em nada. E sua impaciência só aumentara quando o presidente da fundação lhe pedira que escrevesse um artigo para uma publicação destinada a fins de caridade, uma coletânea de artigos de autoria de várias personalidades. Hari escreveria o seu com certeza, pensou Amer com um profundo sus- piro, parando, enfim, diante de uma janela do escritório. Quando um homem alto, de ar tranqüilo, foi levado à sua presença, ele virou-se depressa. O visitante deixou transparecer sua perplexidade. Havia sombras escuras sob os olhos do xeque e, quando sorriu, foi com visível esforço. — Major McDonald. — Amer estendeu a mão. — Que bom ter vindo. Preciso de sua ajuda. Explicou a situação de maneira sucinta. Projeto Revisoras 33
  • 34. Sabrina 1182 - A magia do deserto – Sophie Weston — Mantive os detetives mais espertos que o dinheiro pode comprar investigando durante seis meses. A mulher desapareceu — concluiu. — Não — disse o major, confiante. —Apenas não a procuraram da maneira certa. Tem certeza de que é inglesa? — Sim. — Então, deixe-me usar meus contatos. Eu a encontrarei para você. Amer tornou a aproximar-se da janela e olhou para os amplos jardins abaixo. — Se você a encontrar, traga a informação diretamente a mim. Não comente com mais ninguém. E, mais importante, não diga nada a ela — acrescentou num tom duro. O fim de semana com os Hartley não foi como Leo esperara. Achara que seria um encontro descontraído e familiar, com caminhadas pela propriedade, conversas tranqüilas à beira da piscina e noites repousantes. Não poderia ter-se enganado mais. Houve um jantar formal na sexta-feira, quando ela e Claire chegaram, e um almoço especial no sábado, ambos os eventos com vários convidados. Na noite de sábado foi à vez de irem a um sofisticado clube. Enfim, na manhã de domingo, foi oferecido um lanche para dezenas de convidados na propriedade. E Simon estivera sempre por perto, dizendo-lhe incansavelmente o quanto estava se entendendo bem com o pai dela. Na tarde de domingo, Leo estava exausta e ansiosa por voltar para casa. — Não deveríamos estar retornando a Londres, Claire? — perguntou num sussurro. Lady Hartley, cuja audição teria causado inveja a um morcego, interveio: ― Simon, meu filho, você ainda não mostrou o rio a Leo. Por que não a leva até lá agora? A tarde está tão agradável. Quando subiam a colina atrás da casa, Leo virou-se para Simon com um sorriso forçado: — É sempre assim todo o fim de semana? — Não, mamãe apenas quis ter certeza de que você se divertiria. — É por isso que me senti o centro das atenções — disse ela, pensativa. — Na verdade, foi quase como se estivessem tentando me vender algo. —Vendo a expressão de Simon, Leo arrependeu-se do comentário. — Desculpe-me. Foi uma coisa estúpida de se dizer. > que sua mãe estaria vendendo, afinal? Mas ele era um cavalheiro. — A mim, eu receio. Ela não soube o que dizer. — Não vou tentar fazer nenhum jogo. Respeito você demais para isso. Além do mais, você logo perceberia. Apesar do luxo que ainda tenta ostentar, minha família acabou com toda a sua fortuna. Você deve ter notado que a propriedade precisa de reparos, que ou vários hectares de jardins estão negligenciados, enfim... A única MInda é uma injeção de capital dada por... bem... — Por mim? — indagou Leo, ainda surpresa. — Seus pais querem vender a propriedade? Quero dizer, vejo que este lugar tem potencial. Mas eles iriam realmente querer que se tornasse parte da cadeia de hotéis Groom? De qualquer modo, seria Projeto Revisoras 34
  • 35. Sabrina 1182 - A magia do deserto – Sophie Weston melhor se conversassem diretamente com meu pai. Simon pegou-lhe a mão. — Não é a propriedade que querem vender. Querem que eu peça você em casamento. — O quê? Ele soltou-lhe a mão. — Não há razão para ficar tão chocada. Você deve ter percebido. — Eu... — Ela sentiu-se uma tola. — Desculpe-me. Eu mio sabia. Simon não escondeu seu desapontamento. — Achei que ao menos seu pai tivesse dado a entender... — Meu pai? K, então, Leo compreendeu subitamente do que se tratava tudo aquilo. Por que Gordon Groom levara Simon ao Cairo, por que sua mãe lhe perguntara sobre seus sentimentos por ele meses antes, porque o pai ainda não lhe dissera de qual cargo pretendia incumbi-la. Tola! Mil vezes tola!, pensou, furiosa consigo mesma. Como não tivera o filho e herdeiro que desejara, apenas uma filha desajeitada, o pai estava lhe comprando um marido razoável e esperando pela geração seguinte. — Nunca existiu a chance de uma carreira para mim na Hotéis Groom, não é? — disse mais para si mesma do que para Simon. ... — Meu pai só estava tentando me distrair até que eu me casasse, j — Não sabia o que era pior, a dor, ou a humilhação. Ele não pareceu notar. Apenas meneou a cabeça, aliviado. ! — Você se casará comigo? Leo queria gritar de raiva e frustração. Queria dizer ao pai; exatamente o que pensava dele antes de sair de sua casa e afastar-se do falso emprego. Mas nada daquilo era culpa de Simon, e ela não seria injusta.; — Não, não me casarei com você — disse com gentileza. Simon reagiu com aturdimento. — Não vou desistir da esperança — assegurou-lhe, enfim, num tom manso. E, então, ela realmente gritou de raiva. — Bem — começou Amer, satisfeito —, você disse que o faria e o fez. Estou impressionado. O major McDonald deu de ombros. — Coloquei minha equipe nisso. O especialista em estatística mostrou-nos que Leonora é um nome incomum no país, informação que muito ajudou. Depois, concluiu-se que uma mulher que conseguiu esconder sua identidade desde sua chegada ao Cairo, devia ser provavelmente uma espiã, uma criminosa ou a filha de um milionário. Felizmente para você, trata-se do último caso. — Sim, felizmente. O sorriso frio de Amer levou o major a perguntar-se o que Leonora Groom teria feito. Gostava dele e o admirava, mas, apenas por um momento, quase sentiu compaixão pela mulher. O xeque abriu o dossiê que lhe fora entregue. — Leonora Groom — disse, como se saboreasse o nome. — Há apenas uma foto, numa festa beneficente. Ela parece conseguir ficar Projeto Revisoras 35
  • 36. Sabrina 1182 - A magia do deserto – Sophie Weston longe dos fotógrafos, mesmos nesses eventos de caridade. E quase como se quisesse se manter anônima. — É como você diz — concordou Amer num tom brando. Mas estava furioso. Como ela ousara mentir-lhe? Fazê-lo de tolo? Uma voz em sua mente lembrou-o que também não fora exala mente sincero com Leo. Nem sequer lhe dissera seu nome completo, afinal. Ignorou os pensamentos e fechou o dossiê. Depois que Hari entregou um cheque com uma soma vultosa ao major por seus honorários e o acompanhou à saída, Amer chamou-o. O assistente ficou surpreso em encontrá-lo debruçado sobre sua mesa, escrevendo depressa num bloco de papel, uma expressão sombria no rosto. — O que vai fazer? — perguntou-lhe, receoso. Amer estreitou o olhar na direção do papel à sua frente. Soltou um riso cruel que fez o sangue de Hari gelar. — Precisa perguntar? Farei com que ela venha até a mim, é claro. Leo pretendera esclarecer toda aquela situação com seu pai de Imediato. Mas esquecera-se que ele partira numa viagem longa He negócios pelo Oriente. Em sua ausência, quase parecia que ela tinha um emprego de verdade, afinal. Assim, permaneceu na empresa e na casa de Wimbledon. Maio chegou, os jardins da propriedade exuberantes no auge da primavera. A cada manhã, Leo inalava o perfume das flores riu pura apreciação. Mas à noite, no escuro, lembrava-se de outra paisagem, de um rio misterioso e romântico, de uma lua deslumbrante num céu de estrelas faiscantes. Lembrava-se em especial, porém, de um homem incrivelmente envolvente que a inebriara rom sua companhia num veleiro. Um homem que povoava seus sonhos... seus sonhos mais ardentes. Não pense nele!, ordenava a si mesma zangada. Apenas mio pense!, Mas não era fácil. E em seu esforço para tentar esquecer, mergulhava em todo o trabalho que pudesse encontrar. Aquilo deixou mm secretária em tamanho alvoroço que, quando um pacote chegou por remessa expressa, levou-o rapidamente até o escritório dela como se fosse uma mensagem de Marte. Leo abriu-o sem muito interesse. Era apenas um livro recém-publicado de artigos diversos, escritos por personalidades, que fora concebido por um grupo de associações beneficentes e cuja renda era revertida para a caridade. Seu pai era autor de um dos artigos e, na certa, era por aquela razão que um exemplar fora enviado a ela. Outro, sem dúvida, devia ter sido enviado à empresa em nome do próprio Gordon. Ela leu o índice à procura do artigo dele e parou de repente, empalidecendo quando deparou inesperadamente com um certo nome entre os demais. quot;Venha Comigo até o Niloquot; era o título do artigo. Seu autor, o xeque Amer el-Barbary. Com mãos trêmulas, Leo folheou o livro até chegar a pagina do artigo. Começou a lê-lo, quase podendo ouvir a voz zombeteira de Amer. Leo não sabia, evidentemente, mas, ao final, ele acabara tendo grande prazer em escrever o artigo. Iniciara-o num acesso de raiva, pensando em como ela o enganara Projeto Revisoras 36
  • 37. Sabrina 1182 - A magia do deserto – Sophie Weston quanto à sua identidade. E, depois, na maneira como desaparecera sem deixar pistas, submetendo-o a um verdadeiro tormento durante seis meses de tentativas frustradas para encontrá-la. Como ousara desaparecer sem o menor remorso? Faria com que se arrependesse, jurara. Mas, então, enquanto continuara escrevendo, a fúria de Amer começara a se dissipar e dera lugar ao divertimento. Terminara num tom de provocação. Depois, instruíra Hari a encaminhar o artigo antes que pudesse mudar de idéia. Agora, enquanto o lia, Leo sabia que fora destinado a magoá-la. quot;Rodolfo Valentino é em grande parte responsável por ter-se criado esse fascínio em torno de nósquot;, escrevera Amer com cinismo. quot;Seduziu as mulheres com seu charme. Depois disse que o que elas buscavam poderia ser encontrado nos homens do deserto. Para aqueles de nós que carregamos essa enorme responsabilidade, sugiro algumas dicasquot;. O que se seguia era uma descrição precisa da estratégia dele para a noite de ambos. Não se esquecera de nada. Praticamente, só não citara nomes. Falava como se devia erguer a mulher nos braços para ajudá-la a entrar no barco, como criar um clima romântico sob a lua e as estrelas, como ser o anfitrião perfeito fazendo um exótico piquenique. Leo sentiu as faces queimando enquanto lia, um misto de indignação, raiva e humilhação consumindo-a. quot;Nunca se esqueça de que você as está levando numa jornada exótica através das próprias fantasias delasquot;. — Oh, não — gemeu Leo. quot;Mantenha-se no controle da situação. Elas aceitarão quaisquer regras que você estipule, não importando quanto sejam absurdas. E; o que as mulheres querem secretamente. Só não conseguem admitir.quot; Leo colocou o livro de lado num gesto brusco. ― Eu vou matá-lo! — exclamou em voz alta. Por um momento quase acreditou que seria capaz daquilo. Sacudiu a cabeça, inconformada. Quantas mulheres já teria levado em sua fantasia no Nilo? Perguntou-se, furiosa. Quantas fitara com aquele olhar intenso, fazê-las tremer, desconcertadas? E o tempo todo rindo delas pelas costas! Passou os braços em torno de si de maneira protetora. Era como reviver o pior de sua adolescência. A confiança adquirida a duras penas não valia de nada. De repente, era desengonçada, pouco sutil e nada atraente. Nenhum homem olharia em sua direção, nunca mais. Exceto Simon. Podia não estar apaixonado, mas gostava dela. Ele a respeitava. E era sincero. Leo tirou o fone do gancho. Amer tomava o café da manhã numa agradável saleta de sua casa londrina. Desfrutava o sol que se filtrava pelas vidraças, enquanto bebericava suco de laranja e folheava o jornal. Não estava a espera de nada, assegurou a si mesmo. Apenas porque Leo devia ter recebido o livro com o seu artigo quatro dias antes não precisaria aguçar Projeto Revisoras 37
  • 38. Sabrina 1182 - A magia do deserto – Sophie Weston os ouvidos na direção do telefone. Ainda assim, a sua embaixada fora informada de que a srta. Groom, excepcionalmente, poderia ser dado o número de seu telefone particular em Londres. Amer soltou um suspiro e continuou folheando o jornal, os olhos profundos sem o menor interesse na coluna de anúncios de casamentos iminentes. Estava prestes a virar a página quando, de repente, não pôde acreditar em seus olhos. O copo de cristal caiu-lhe da mão, espatifando-se no chão de mármore. Ela não podia ter feito aquilo, não era tola. Não podia. Mas estava ali. Era irrefutável. Leonora Jane, filha única de Gordon Groom, da Casa Wisteria, Wimbledon, e da sra. Deborah Groom, de Kensington, casar-se-á com o sr, Simon Hartley, filho primogênito de sir Donald e lady Shirlley da Casa Serena, em Devon. Leo ficara noiva. — Vou matá-la — esbravejou Amer. CAPÍTULO V Leo telefonou para o pai em Cingapura para contar-lhe que estava noiva de Simon. A reação de Gordon Groom decepcionou-a. Ele mostrou-se contente como es- perado, mas aquilo pareceu mais como o tipo de aprovação que costumara manifestar quando ela tirara boas notas na escola, não como a reação de um pai diante de um passo tão importante na vida da filha. Talvez a mãe ficasse realmente feliz por ela, pensou Leo. Mas, ao contrário de Gordon, Deborah não aprovava o noivado e não fez segredo daquilo durante o almoço semanal de ambas. — Você não consegue me enganar, Leo. Isso é coisa do seu pai. — Não, papai não fez nada. Simon me pediu em casamento. Eu aceitei. Isso é tudo. Eu pensei bem a respeito antes, mãe. — Pensou? Quando uma pessoa está apaixonada, ela não pensa, apenas segue o que lhe diz seu coração. Sem mencionar que um casamento é um passo muito sério. —Eu o estou levando a sério. Admito que nós não nos amamos, mas temos muito em comum. Vai dar certo. A mãe pareceu inconsolável de repente e Leo tentou pensar em algo para tranqüilizá-la: — Você conhece os homens melhor do que eu. Sabe que fazem jogos. Que nos confundem. E nada do que dizem ó verdade. Simon, ao menos, é sincero comigo. — Alguém magoou você — disse a mãe, perspicaz. Projeto Revisoras 38
  • 39. Sabrina 1182 - A magia do deserto – Sophie Weston — Tolice — declarou Leo num tom breve, tentando não demonstrar a raiva que ainda ebulia dentro de si a cada vez que pensava nas atitudes de Amer. — Vou me casar com Simon porque acho que é o melhor para mim é ponto final. Quando voltou ao escritório e viu em sua mesa a lista das pessoas que haviam lhe telefonado, tornou a ficar possessa. Amer não ligara apenas uma, mas várias vezes. falou com sua secretária pelo interfone: Estou vendo a lista de recados, Joanne. Fale-me sobre o Amer el-Barbary. O que ele queria? Uma fúria cega tomava conta de Amer. Hari, a quem já colocara a par da verdadeira identidade de Leonora, acabara de informá-lo que a secretária da srta. Groom lhe dissera mais uma vez que ela não estava no escritório. Era evidente que Leo não queria atender seus telefonemas. Amer adiantou-se até a janela de seu quarto. Ás cerejeiras dos jardins estavam em flor. Olhou naquela direção sem realmente vê-las. Faria com que ela o ouvisse, prometeu a si mesmo. Nem que tivesse que raptá- la e amarrá-la a uma cadeira, ela o ouviria! Encostou a fronte no vidro da janela, as têmporas latejando. Não devia tê-la deixado escapulir naquela noite no Cairo. Estava tão perto de ser sua. Era experiente o bastante para saber que se a tivesse tocado, Leo teria se rendido. Era inocente demais para esconder seus sentimentos, talvez até inexperiente demais para sequer reconhecê-los. Mas ele os reconhecera, sem dúvida. Poderia ter feito o que tivesse desejado com ela naquela noite. Mas quisera... Bem, o que quisera, afinal? — perguntava-se a si mesmo, com amarga ironia. O que quer que tenha sido, tivera meses para se arrepender de não ter tomado o que estava em suas mãos. Não permitiria que aquilo tornasse a acontecer. Na próxima vez em que tivesse Leonora Groom diante de si, não a deixaria enquanto não conseguisse o que queria. O que quer que fosse. Subitamente, tomou uma decisão, chamando Hari. — Telefone para a mulher outra vez. ― Mas ela saiu. ― Não Leonora Groom — disse Amer com impaciência. — A secretária. Pergunte-lhe se ela recebeu aquele livro com artigos de personalidades. Hari compreendeu de repente. ― Você enviou o livro à srta. Groom? — perguntou, incrédulo. — Com aquele seu artigo que mais poderia se chamar: quot;Vinte Maneiras de Seduzir uma Mulher, pelo último dos conquistadores”? Deve ter perdido o juízo. Ela jamais tornará a falar com você. — Falará. É uma simples questão de tempo. Hari retirou-se com sua incumbência, voltando poucos minutos depois: — Leonora Groom recebeu o livro — declarou em tom fatídico. — A secretária tem certeza absoluta disso, porque foi um pouco depois que ela a deixou no escritório examinando o livro que a srta. Groom ligou para o sr. Hartley. Foi quando os dois Projeto Revisoras 39
  • 40. Sabrina 1182 - A magia do deserto – Sophie Weston ficaram noivos. Houve um longo silêncio carregado de incredulidade. Amer, então, praguejou por entre os dentes. Amer atrevera-se a lhe telefonar! O primeiro ímpeto de raiva de Leo transformou-se em algo mais complexo. Admitiu que o que sentia era em parte empolgação. Que tipo de pessoa era?, perguntou-se, horrorizada. Noiva de um homem e ficando toda eufórica quando um outro lhe telefonava! O interfone tocou, despertando-a dos pensamentos. — Ligaram da recepção, avisando que já há um carro a disposição para quando desejar — disse-lhe a secretária no final da tarde, quando Leo teria que sair para um evento social. — Obrigada Joanne. Descerei em alguns minutos — respondeu ela. Seu entusiasmo não era dos maiores para mais um daqueles eventos, mas era um compromisso de trabalho e talvez fosse uma boa chance de desviar os atuais pensamentos. Simon não iria, estava em Birmingham visitando um dos hotéis da cadeia. Ela desceu até o estacionamento no subsolo do Edifício Groom, encaminhando- se até a área reservada para os membros da diretoria. Um homem uniformizado aproximou-se de imediato para abrir-lhe a porta do carro. — Olá — disse ela, surpresa. — Darren tirou o dia de folga? Mas o homem apenas sorriu e pegou-lhe a bolsa e a pasta de couro que segurava. Um tanto admirada, ela sentou-se no banco de trás, afundando no estofado de couro e esticando as pernas confortavelmente. Nem mesmo seu pai exigia tanto luxo. Só percebeu que havia alguém sentado a seu lado quando o motorista deu a partida. — Boa noite, Leonora — disse uma voz saída de seus sonhos. Leo sentiu-se como se o ar lhe faltasse de repente. A limusine deixou o estacionamento do prédio e seguiu pela rua movimentada. — O que você está fazendo aqui? — indagou ela, ainda mal recobrando do choque. — Vim tentar fazer você agir com bom senso antes que faça algo que nenhum de nós poderá consertar — disse Amer com louvável sinceridade, mas sem muito tato. — Deixe-me sair deste carro. — Não fala sério — disse ele com ar confiante. Leo se recompôs. — Você sabe que sim. Isto é seqüestro. — Não houve tempo para troca de amenidades. Eu precisava Ciliar com você com urgência. Sabendo que não seria prudente saltar de um carro em movimento, Leo fez o que lhe restava. Recostou-se no assento e -fitou-o com toda a zombaria de que foi capaz. — E mesmo? Foram seis meses, não é? Quase sete? Quanta urgência... Amer apertou os lábios. Projeto Revisoras 40
  • 41. Sabrina 1182 - A magia do deserto – Sophie Weston — Você cobriu seus rastros muito bem. Leo conteve um sorriso. — Nem me dei conta de que eu estava fazendo isso. — Nome falso. Emprego de fachada. Nenhum endereço para correspondência. Minha busca foi infrutífera até bem pouco tempo atrás. — Busca? — Leo virou-se no assento para encará-lo. — Está dizendo que colocou um detetive particular atrás de mim? Estava furiosa. Mas sentia um estranho entusiasmo também. Então, Amer não encarara a sua partida com, mera indiferença, apagando-a logo dos pensamentos, como imaginara. — Eu queria encontrar você — respondeu ele como se aquilo Justificasse qualquer atitude. — Oh, está bem, então. — Leo usou um tom afável enquanto fervia de raiva por dentro. E sentia outras coisas que preferia ignorar no momento. — Tudo o que o xeque quer, ele consegue, certo? À vontade dos outros não conta. Amer abriu um sorriso. — Você deixou os cabelos crescerem. Leo estava tão zangada que nem sequer respondeu ao comentário. — Cabelos mais compridos ficam bem em você. Eu sabia. — Pare este carro. Quero descer. — Não entre em pânico. Estou levando você para casa. — Não estou entrando em pânico. E não quero ir para casa. Devo ir a uma recepção na Galeria Nacional. — Você trabalha demais. Sua secretária poderá se desculpar por você amanhã. — Ah, mais uma coisa que o xeque quer, não é? Amer riu de repente. — Pare de me atacar, Leonora. O que é uma recepção entre tantas outras? Isto é importante. Há assuntos inacabados entre nós. — Estou noiva — declarou Leo num tom duro. Gostaria de ter o anel de noivado no dedo para provar, mas ela e Simon ainda não haviam saído para escolher um. — Sim, essa é uma das coisas sobre a qual quero falar. Leo virou-se no assento de imediato para fitá-lo, os olhos faiscando em seu ultraje. — Como disse? Ele recostou-se em seu lado do assento e abriu-lhe aquele sorriso sexy que a deixava quase sem fôlego. — Foi uma grande tolice a sua ter ficado noiva só para me atingir —• disse com ar indulgente. — O quê? — Você não estava noiva antes de eu ter chegado à cidade. — Foi uma simples coincidência. — E foi coincidência você ter lido o meu artigo naquele livro destinado à caridade e ficado noiva logo em seguida? — Como você soube... — Leo interrompeu-se, mas foi tarde demais. Mordeu o lábio inferior. Projeto Revisoras 41
  • 42. Sabrina 1182 - A magia do deserto – Sophie Weston — Foi uma reação bastante compreensível — assegurou-lhe Amer num tom benevolente. — Li o artigo outra vez e admito que me excedi um pouco em certos trechos, mas... — Excedeu-se um pouco? — Ela o fuzilou com o olhar. — Oh, eu não diria isso. Acho que você foi até bastante preciso em suas descrições. Mas você deveria confirmar com as suas outras vítimas. — Vítimas? — A surpresa na expressão de Amer foi autêntica. — Alvos, então. Como isso soa? — Como... premeditação. — Eu não poderia ter encontrado palavra melhor. Houve um tom de descoberta na voz dele: — Foi por isso que ficou noiva, então? Porque achou que eu estava fazendo um jogo com você? — E não estava? Não foi tudo calculado? — Leo fitou-o com ar ressentido. — Ou vai querer me dizer que todo aquele cenário de sedução destinava-se a levar ao amor, a um casamento e a uma vida inteira de dedicação e respeito mútuo? Amer franziu o cenho. Eu não sei ao que ia levar — retrucou. — Você não nos deu tempo para descobrir. Mas um casamento estava nos planos? — indagou ela, zombeteira. Houve uma pausa e, então, Amer admitiu com um profundo suspiro: — Não. — A verdade, finalmente — declarou Leo com desprezo. — Portanto, encare-a e saia da minha vida. — Inclinou-se para frente e bateu no vidro que os separava do motorista, indicando-lhe que o abrisse. Quando o homem o fez, disse-lhe com firmeza. — Vá para a Galeria Nacional, em Trafalgar Square. Sua Excelência se enganou. Tenho que comparecer a uma recepção. O motorista olhou pelo retrovisor em busca de instruções. Amer meneou a cabeça, uma expressão fechada em seu rosto. Leo teve um início de semana difícil. A despeito de suas tentativas de se concentrar no trabalho, parecia haver tempo demais do sobra para pensar em Amer el- Barbary. Especialmente porque ele não lhe telefonara mais. Não que estivesse disposta a atender alguma ligação daquele homem. Tornou a ler o ultrajante artigo de sua autoria para se lembrar exatamente do porquê. Leu-o diversas vezes. Na metade da semana, ela pegou seus cosméticos e vestido de Costa ao final da tarde e foi ao toalete feminino para se trocar. Naquela noite, haveria um coquetel no Museu de Ciência para o lançamento da segunda fase de um projeto de pesquisa denominado Autika, de patrocínio da Fundação Groom em conjunto com outras entidades. Ela iria para o coquetel diretamente da empresa, como costumava fazer nos eventos que aconteciam durante a semana. Havia uma pequena divisão com chuveiro no espaçoso toalete, onde ela tirou as roupas e ligou a água. Sentia-se tensa. Automa- ticamente, aplicou seu gel de banho favorito. Especialmente importado do Japão, era Projeto Revisoras 42
  • 43. Sabrina 1182 - A magia do deserto – Sophie Weston uma de suas únicas extravagâncias. Deixava a pele macia e perfumava-lhe o corpo inteiro com uma fragrância suave mas duradoura de flores da primavera. Enfim, começou a relaxar e a pensar com mais clareza. Como o pai ousara tratá-la como uma marionete? Depois de tê-la mandado ao Egito, tentara distraí-la com uma ocupação insignificante na sua volta e, de repente, parará de falar com ela sobre quaisquer assuntos da empresa... tão logo soubera que ficara noiva do homem da escolha dele! Simon, por sua vez, parecera ter adquirido uma importância ainda maior como membro da diretoria e era quase somente com ele que Gordon falava quando telefonava do Oriente. O pai realmente nunca pretendera colocá-la à frente dos negócios no futuro. Bastava olhar para as evidências. Ele nunca nem sequer colocara uma mulher na diretoria da empresa, nem mesmo em certos cargos de gerência. De fato, não era de admirar que tivesse colocado Simon Hartley na diretoria e passado a lhe dar cada vez mais responsabilidades. E o próprio Simon, como pudera ter a completa falta de sensibilidade, enviando a seu escritório um joalheiro com opções de anéis de noivado para que ela escolhesse o seu sozinha? Desconcertada, escolhera um quase ao acaso. E, acima de tudo, como Amer el-Barbary tivera o atrevimento de praticamente raptá-la em sua limusine e, depois, de tê-la deixado sem sequer uma palavra por vários dias? Quando acabou de colocar o sofisticado vestido preto e prender os cabelos no alto da cabeça, a fúria dela já fora renovada. — Malditos homens! — exclamou, zangada, olhando para seu reflexo no espelho. Seus olhos tinham um brilho intenso, mas continuava pálida demais. Sacudiu a cabeça. Não sairia com aquele aspecto. Pelos céus, acabara de ficar noiva. Até que tivesse reassumido o controle de sua própria vida e lidado devidamente com os homens que a haviam usado para seus propósitos, tinha que parecer radiante. Fez um inventário de seus atributos. Não contou muitos. Mas ao menos não podia ver os pés grandes naquele espelho alto, pensou, irônica. O que via era sua pele translúcida e as embaraçosas formas voluptuosas num vestido caríssimo. Nada mais. Era por aquela razão que os homens achavam que podiam manipulá-la de acordo com seus planos. Se tivesse sido atraente, eles teriam pensado no que era melhor para ela. No que queria, teriam lhe dado ouvidos. Em sua raiva, deixou a maquiagem borrar e teve que removê-la e começar novamente. O que não melhorou seu humor. Acalme-se — disse a si mesma, assegurando-se de que era perfeitamente capaz de se maquiar. Como presente de Natal, a mãe lhe dera várias sessões de tratamento de beleza numa famosa clínica de estética. Leo aceitara • «mi relutância e, como puro meio de defesa, acabara comprando M maioria dos cosméticos e produtos que a esteticista lhe oferecera. Uma parte do pacote, aprendera vários truques de maquiagem e cuidados com a pele. Bem, pensou, zombeteira, agora tudo o que tinha que fazer era se lembrar de como combinar as cores. Projeto Revisoras 43
  • 44. Sabrina 1182 - A magia do deserto – Sophie Weston Leo lembrou-se. Dez minutos depois, mal reconheceu o rosto que estava de volta através do espelho. Olhos misteriosos, cílios longos e sedutores, lábios provocantes... Ao menos não teria que ficar a um canto naquela noite, sentindo-se desajeitada e como se fosse alvo da compaixão alheia, pensou, desafiadora, mas satisfeita. Quanto ao vestido... observou-o com olho crítico. Era simples e elegante, desenhado para exibir seus ombros alvos. Baixou-o um pouco para acentuar o efeito. Aquilo acabou aumentando o decote. Tude, bem, pensou Leo, instigada pela raiva. Por que não? Colocou um xale bordado e cintilante sobre o vestido e desceu, para o estacionamento, onde o carro já a aguardava. A raiva que a consumia por dentro não transpareceu quando chegou ao museu. Desceu do carro com o ar majestoso de uma rainha. Ou foi o que pensou Hari, que fora incumbido de ficar de sobreaviso para quando ela chegasse. — Oh, puxa — murmurou para si mesmo, receando quase ter falhado em sua missão. Somente a vira uma vez antes e, como Leonora Groom mudara incrivelmente, não fora fácil reconhecê-la. Foi avisar Amer imediatamente. Leo aceitou uma taça de champanhe de um dos diretores da fundação mantida por seu pai e deixou-se conduzir pelo museu, ouvindo um discurso um tanto entediante que descrevia as mais recentes realizações da entidade. Todos pareceram desconcertados com aquela nova Leo. Até o professor Lane balbuciou em seu monólogo e um ou dois dos estudantes mostraram-se nervosos e admirados. Ótimo, pensou ela furiosamente. Esvaziou a primeira taça de champanhe e aceitou outra de um garçom que passava. Circulou com ar compenetrado, dizendo firmemente ao diretor do projeto Antika, cuja verba ela teria que autorizar na ausência de seu pai, que seu plano de metas tinha que ser completamente refeito. Ele transpirava ligeiramente quando ela o deixou para examinar uma antiga locomotiva em exposição. — Puxa — disse o diretor do projeto, enxugando a fronte. Foi em busca de reforços. Leo ocultou um sorriso. Ao menos aquele era um homem que a levaria a sério dali em diante. Sentindo-se cada vez melhor, aceitou uma terceira taça de champanhe de outro garçom. Naquele momento, teve a impressão de ouvir uma voz conhecida do outro lado da locomotiva. — Diga a ela — exigiu a voz num tom de urgência.— Agora. Leo franziu o cenho. Seria alguém do trabalho? Não. Mas era alguém com quem conversara recentemente. Uma cliente da empresa? Não... De repente, lembrou-se. Aquela voz pertencia a uma jornalista que a entrevistara no começo da semana para uma revista. Ela sempre procurava se esquivar da publicidade em torno de sua pessoa. Mas a jornalista era amiga de Simon e ele lhe pedira para dar-lhe a entrevista como um favor pessoal. Anne Marie Dance, porém, não se mostrara muito grata. Fora um tanto hostil em suas Projeto Revisoras 44
  • 45. Sabrina 1182 - A magia do deserto – Sophie Weston perguntas, dando a entender que ela vivia à sombra do pai dos negócios. Leo respondera a tudo imperturbável, reafirmando seu valor profissional, mas sentira-se péssima quando, enfim, a entrevista terminara, especialmente num momento de crise pessoal como aquele. Do outro lado da locomotiva, uma voz masculina resmungou algo ininteligível em resposta. — Você não pode fazer isso — disse a jornalista. Parecia à beira da histeria. — Seria loucura. E a sua vida inteira. — Anne Marie, por favor. Não vamos falar sobre isto aqui — pediu o homem num tom desesperado. Leo estivera prestes a se afastar com todo o tato quando ouviu algo que a fez parar abruptamente. — Simon, você não pode fazer isso. Simon? Leo deixou a taça intocada em cima da locomotiva de valor inestimável e contornou-a deliberadamente. Simon Hartley estava do outro lado, segurando Anne Marie Dance pelos ombros. A aura de intimidade entre ambos era evidente e fez Leo empalidecer de imediato. Ficou claro que os dois já haviam estado bem mais próximos do que aquilo muitas vezes. Anne Marie viu-a por sobre o ombro dele. A expressão em seu rosto mudou. Simon virou-se. Quando a viu, pareceu confuso por um instante e, depois, atônito. ― Oh, céus — disse. Anne Marie, por outro lado, mostrou-se quase aliviada. Então, Leo entendeu por que houvera a inexplicável hostilidade na entrevista daquela semana. Então, agora você sabe — declarou Anne Marie. Colocou a mão com ar possessivo no braço de Simon. Após um momento, ele cobriu-lhe a mão com a sua num gesto protetor, como se tivesse feito aquilo centenas de vezes. Leo sentiu-se apunhalada pelas costas. Não porque amasse Simon, mas por ter sido feito de tola mais uma vez. ― Leo, eu lamento muito — disse ele, mortificado. ― Eu não — declarou Anne Marie, triunfante. — Já era tempo de alguém mostrar ao seu pai que há coisas que ele não pode comprar. Como um genro. Simon largou-lhe a mão como se o tivesse queimado. — Pare, Anne Marie — ordenou, assumindo o controle da situação de repente. — Leo, não podemos conversar aqui. — Por que não? — disse a jornalista em voz alta. Aproximou-se de Leo, fitando- a bem de perto nos olhos. — Seu pai mandou Simon pedir você em casamento. Disse que você queria se casar , que não conseguia arranjar um homem sozinha. Leo sentiu-se em meio a um pesadelo. Toda a estimulante fachada de desafio e coragem desvaneceu-se. Sentiu-se insegura e sozinha. A hostilidade de Anne Marie magoava. — Ele estava enganado — declarou Leo num tom glacial. Retirou o anel de noivado do dedo com certa dificuldade, as mãos trêmulas. — Não aqui — implorou Simon, olhando ao redor ansiosamente. Mas estavam Projeto Revisoras 45
  • 46. Sabrina 1182 - A magia do deserto – Sophie Weston numa parte do salão onde quase ninguém os observava. Leo colocou o anel no bolso do paletó dele. — Não se preocupe. Direi ao meu pai que mudei de idéia — declarou ainda com aquela assustadora frieza na voz. Sabia que devia estar arrasada pela traição de Simon. Sem dúvida, ficaria depois que tivesse tido tempo para refletir a respeito. Mas, no momento, sentia-se entorpecida. A pior coisa era a humilhação. E se tentasse se controlar e saísse dali depressa, poderia até lidar com aquilo também, disse a si mesma. — Meu pai não despedirá você se achar que a culpa é minha. Simon contraiu o rosto. Leo experimentou uma ligeira satisfação e fez menção de se afastar. — Mandarei um comunicado de cancelamento do noivado aos jornais amanhã. — Viu-o corar e perguntou-se como pudera achar que daria certo entre ambos. Como pudera confiar nele? Simon era tão desprezível quanto Amer el-Barbary. Disse com um absoluto tom definitivo: — Adeus. Longe do abrigo da grande locomotiva, ela sentiu-se subitamente exposta. Passou por corredores e salas de exposição o mais depressa que pôde sem parecer estar correndo. Tudo o que queria era ir para casa. Estava tão próxima à saída quando ouviu alguém chamando seu nome que poderia ter gritado de frustração. — Leonora! Quando se virou, deparou com o xeque Amer el-Barbary caminhando em sua direção. — Eis o fim de um dia perfeito — murmurou, irônica. Ele era incrivelmente bonito, com o tom bronzeado de sua pele e aqueles intensos olhos cinzentos que ela se empenhara tanto para tentar esquecer. Estudou-o com animosidade. — O que é que você quer? Amer franziu o cenho diante de seu tom brusco. — Quantas taças de champanhe você tomou? Ela ignorou a pergunta. — Não vim até aqui para conversar com você. Deixe-me em paz. Mas, ao contrário, Amer pegou-lhe o braço e conduziu-a a um canto da sala, o que a deixou ainda mais zangada. — Tenho algo a conversar com você. Negócios — acrescentou ao vê-la lançar- lhe um olhar faiscante. — Que negócios? — indagou ela, desconfiada. : — O projeto de pesquisa Antika. Pelo que entendi, você não gostou do plano de metas. Leo disse-lhe de maneira sucinta exatamente o que julgara errado. Amer piscou algumas vezes. — Não é de admitir que você deixou o pobre diretor do projeto apavorado — murmurou. — Agora, diga-me como posso resolver esses pontos que você criticou? Projeto Revisoras 46
  • 47. Sabrina 1182 - A magia do deserto – Sophie Weston — O que isso tem a ver com você? A fundação el-Barbary também estará ajudando a financiar a pesquisa. O professor Lane me pediu para ver o que eu poderia fazer para convencer você a dar sua autorização para a verba. A voz dele era como uma carícia, o leve sotaque e a precisão de que falava o idioma dela acentuando mais tal impressão. Muitas mulheres deviam derreter-se quando as acariciava com aquela voz. No Nilo, fora exatamente o que quase acontecera com Leo. Não acredito na maneira como o projeto foi concebido. Como conseguirei convencê-la? Leo observou-o, tremendo de raiva por dentro... e com algo mais do que raiva. De repente, um interessante estratagema ocorreu-lhe. Ia deixá-lo furioso, mas ela não podia resistir, em especial levando em conta seu estado de espírito naquela noite. ― Está certo. Você acredita na pesquisa Antika. Eu não. Assim, dei-me o seu parecer a respeito. Amer foi apanhado de surpresa por um momento. A expressão no rosto dele não compensava a humilhação que ela passara naquela noite, mas ajudava. Ajudava um bocado. ―Você tem um parecer, não tem? ―Acho que eu não... Leo interrompeu-o. ― Não tem um parecer? Está certo. Eu já estava mesmo de saída, disse, virando-se. — Se fizer o favor de chamar o meu carro... Amer colocou-se rapidamente diante dela. ― Pensarei num parecer. Dê-me só um segundo. Leo cruzou os braços, observando-o com ar triunfante. Amer, por sua vez, fitou-a de alto a baixo com seu olhar penetrante. Soltou um riso repentino. ― Sabe, você não é nem um pouco como pensei que fosse no Cairo. Leo piscou, surpresa. — O quê? — Você me pareceu uma mulher tímida, plácida, comedida. Eu não sabia que havia todo esse fogo explosivo por baixo da fachada de serenidade. Leo enrolou o xale em torno de si, o comentário desconcertando a. Achou prudente retomar um assunto mais seguro. — Se quer falar de negócios, falarei de negócios. Do contrário... — Ótimo. Então, talvez possamos sair para jantar. Assim, poderia lhe falar detalhadamente sobre a proposta do projeto. — Já analisei a proposta. Deveria ir para o lixo. Os olhos de Amer faiscaram. — É um projeto visionário... — Sim e da maneira como está sendo elaborado não dará certo. Não sou uma cientista com meia dúzia de diplomas, mas sei como avaliar um plano de metas. Esse fracassará em seus objetivos. Amer fitou-a como se não pudesse crer nos próprios ouvidos Ela era provavelmente a única mulher que já o enfrentara. E talvez fosse a única pessoa que o via como era realmente, pensou Leo. Um encantador de serpentes que pensava que podia conseguir qualquer coisa que quisesse hipnotizando as pessoas. — Fatos — disse ela com firmeza. — Você quer que eu ajude a financiar esse Projeto Revisoras 47
  • 48. Sabrina 1182 - A magia do deserto – Sophie Weston projeto? Dê-me fatos! — Se os criadores do projeto tivessem fatos, a pesquisa já estaria terminada e não precisariam de verbas. Leo franziu o cenho, pensando a respeito. Para sua contrariedade, viu que aquilo fazia sentido. Mesmo estando furiosa, ma; tinha sensatez o bastante para admitir. Mas aquilo não significava que desistiria de argumentar. — Certo, mas ouça, eu ainda não concordo com... Amer ergueu a mão, um brilho divertido em seu olhar. — Está bem, eu me rendo. Direi a eles para seguirem a sua sugestão, reescrevendo a proposta e, depois, poderemos analisá-la, — Ótimo. Amer pegou-lhe a mão inesperadamente. — Agora, podemos falar sobre nós, por favor? — murmurou. Ela tentou libertar a mão, mas não conseguiu. — O que quer dizer... sobre quot;nósquot;? — retrucou, exasperada, tom de voz baixo para que ninguém os ouvisse. — Ainda há aquele assunto inacabado. — Os olhos cinzentos! dele exibiam um ar maroto, provocavam, mas também continha: surpreendente intensidade. — Não há? — sussurrou. Levou-lhe, então, a mão aos lábios. Não a beijou, apenas deteve-se sentindo-lhe a fragrância suave e floral da pele. Fechou oi olhos com ar de apreciação. Leo teve que se esforçar para se lembrar de que era alvo de jogo de um mestre. Recompondo-se, libertou a mão. Quando o silêncio se prolongou, Amer soltou um riso que exasperou ainda mais. — Bem, talvez seja melhor assim. — O quê? ― Adiarmos a nossa briga. Não poderíamos nos concentrar totalmente nisso aqui com a possibilidade de sermos interrompidos a qualquer momento. ― Nossa... — Leo interrompeu-se, incrédula. — Eu não sou do tipo que briga. E, mesmo que fosse, não perderia meu tempo brigando com você. — Tornou a ajeitar o xale e virou-se, adiantando-se para a saída. Para sua consternação, Amer seguiu-a. ― Que tal se eu a levasse para jantar? Leo desceu os degraus da frente.― Não, obrigada. — Com certeza, podemos negociar. — Eu nunca negocio.— Mas eu sim. Ela parou abruptamente, virando-se para fitá-lo. — Está certo — disse num tom acalorado. — Você quer um mordo? Eu lhe proporei um. Soube o que iria dizer subitamente. Era loucura. Havia uma parte de si que só queria ir para casa, afundar a cabeça no travesseiro e recobrar-se do pesadelo daquela noite. Mas havia um outro lado que a fazia sentir-se cansada de ser oprimida. Aquele lado que se rebelava, olhou para Amer e lembrou-se de quando o ouvira admitindo Projeto Revisoras 48
  • 49. Sabrina 1182 - A magia do deserto – Sophie Weston cinicamente que tentara seduzi-la, sabendo que um casamento estaria fora de cogitação. Aquele seu lado, até então oprimido, queria vingar-se de todos os homens. Leo ouviu-se dizendo numa voz dura: — Case-se comigo e eu autorizarei a maldita verba para o pronto de pesquisa Antika. CAPÍTULO VI Seguiu-se um pesado silêncio. Por que eu disse uma coisa dessas?, perguntou-se Leo. Devo estar louca. Mas, de repente, Amer jogou a cabeça para trás e riu. Ela não pôde acreditar. Ainda estava chocada com as próprias palavras. E ele ria. Naquele momento, odiou-o. Mas, ainda assim, precisava retirar sua tola declaração. — O que eu disse foi inconveniente. Lamento. Não tive a i tenção de... Amer ignorou o pedido de desculpas. Disse num tom suave: — Tome cuidado com o que deseja. Pode conseguir. —Com o que desejo? — Leo estava ultrajada. — Está insinuando que desejo me casar com você? — Ora, o que mais um homem deve pensar quando uma dama o lisonjeia com um pedido de casamento? — Eu não pedi você em casamento! — Foi o que me pareceu. Leo fuzilou-o com o olhar. — Eu disse que faria um acordo com você. Isso é diferente. Ele arqueou as sobrancelhas. — Eu ficaria interessado em saber como você o faria funciona Vamos jantar juntos e falaremos a respeito. — Não, obrigada — disse Leo num tom ríspido. Amer sorriu. — Nunca fecho um acordo antes de ter analisado todos os a aspectos e possíveis conseqüências. Ela deu de ombros. — Está certo. Então, nada de acordo. Não me importo nem um pouco — assegurou e virou-se, fazendo menção de se afastar na direção de seu carro. Segurou-a com gentileza pelo braço. ― Permita-me acompanhá-la. Amer conduziu-a pelo grande pátio em frente ao museu. Fez um gesto discreto, e um automóvel luxuoso parou diante de ambos. Amer abriu-lhe a porta. — Amer não é o meu carro. — Claro que não. Quando levo uma dama para jantar, vou pegá-la e a deixo de volta em casa. — Não vou sair para jantar com você — disse Leo por entre os dentes. Projeto Revisoras 49
  • 50. Sabrina 1182 - A magia do deserto – Sophie Weston — Fico contente que se sinta assim — respondeu Amer. Ajudou-a sentar-se no banco de trás do carro. Leo ficou pasma em ver-se obedecendo. Ele sentou-se a seu lado com um olhar sedutor. — Eu prefiro muito mais jantar em casa. Leo estreitou os olhos, mas só tornou a falar quando percebeu que o automóvel não virará na direção oeste como esperara. Em vez daquilo, entrou no Hyde Park e virou à direita. — Onde estamos indo? — Oras, para casa, é claro. Como você queria. — Eu moro em outra direção e... Ei, espere um minuto! Para a casa de quem estamos indo? — Pará a minha—respondeu ele com exasperante ar de inocência. Leo respirou fundo, ponderando que o melhor seria tentar manter a calma. Amer gostava de provocá-la para ver suas reações. Se não mostrasse reação alguma, talvez acabasse ficando entediado a levasse logo para casa. Assim, não se manifestou quando pararam diante de uma luxuosa mansão. Era o que já esperara, afinal. Meneou a cabeça pura o mordomo, mantendo-se tão impassível quanto o próprio criado. Continuou imperturbável até no imenso vestíbulo de mármore, embora admitindo a si mesma que era magnífico. Mas quando Amer a conduziu pela mansão, levando-a até a ala oposta, por onde saíram, a estratégia dela ruiu. Parou abruptamente, impressionada. De repente, era como se estivesse no jardim do Éden. O imenso espaço era circundado por muros altos de pedras antigas, quase ocultos por exuberantes trepadeiras floridas. Arvores frondosas formavam um pequeno bosque no final da propriedade. Canteiros multicoloridos, onde se avistavam hortênsias, magnólias, rosas, entre tantas outras flores, ladeavam caminhos de ardósia. Uma fonte em forma de cascata destacava-se em meio a tanta exuberância, a água espumante correndo por entre as pedras até uma pequena lagoa. Um gramado extenso e impecável predominava, com bancos convidativos de madeira e alguns trechos de arbustos em flor e folhagens viçosas. As fileiras de azaléias eram deslumbrantes. Desabrochavam em tamanha abundância que Leo quase não pôde crer, as flores de tons variados, incluindo um .rosa tão intenso que quase ofuscava a vista, resplandecendo sob um sofisticado sistema de iluminação. E o perfume! A brisa de verão que soprava suavemente carregava-o, inebriando os sentidos — É incrível — sussurrou ela. Era um jardim tão impressionam que ficava difícil acreditar que estavam no coração de Londres. Amer sorriu, gostando da admiração nos olhos dela. — Fiz bem em trazê-la até aqui, então. O comentário fez Leo recobrar-se. Fitou-o com um ar d contrariedade. — O lugar pode ser bonito, mas isso não significa que queria estar aqui. — Prefere ir a um lugar mais interessante? Vou mandar chamar o carro. — Não! Não quero ir a nenhum outro lugar — apressou-se ela dizer antes que ele tivesse alguma outra de suas imprevisíveis idéias. — Até o momento de ir para casa, é claro — fez questão de esclarece: Amer conteve um sorriso. Projeto Revisoras 50
  • 51. Sabrina 1182 - A magia do deserto – Sophie Weston — Então, podemos tomar nossos drinques aqui fora. — Ele ergueu a mão e o mordomo pareceu materializar-se do nada, aproximando-se com uma bandeja. Amer instruiu-o a servir-lhes o jantar uma hora depois. Notando o ar contrariado no rosto de Leo, ele sorriu e abraçou-a pelos ombros quando tornaram a ficar a sós. Virou-a para contemplar o jardim novamente, enquanto bebericavam seus drinques. — Aprecie essa vista. Diga que gostará de ficar ao menos por causa dela. Leo estremeceu. Ele estava próximo demais, o calor de seu braço espalhando- se e percorrendo-a por inteiro. Exalava o perfume delicioso de uma colônia suave e, ao mesmo tempo exótica, tão marcante quantc o próprio homem que a usava. Ela respirou fundo e sentiu um arrepio subindo-lhe pela espinha. Todo o cuidado seria pouco, avisou a si mesma. Aquela noite estava se tornando uma armadilha para uma mulher sem nenhuma experiência em sedução. Esforçando-se para se recompor, respondeu com firmeza: — Com vista maravilhosa ou não, o fato é que não gosto de ser raptada. Não lute contra mim, Leonora. Vamos desfrutar o momento. ― Você que acha mesmo? Você pensa que pode fazer qualquer coisa que quiser — disse ela, concentrando-se em sua raiva para que outras emoções escondidas não a dominassem. — Estipula as suas regras e todos tem que obedecer. Acha que está acima do restante de nós. A reação de Amer foi de perplexidade. — Acima... Do que está falando? — Tome esta própria noite como exemplo. Eu disse mais de vez que não queria jantar com você. Deu-me ouvidos? — É bom para você ter novas experiências. — Então, agora tem o direito de decidir o que é bom para mim? retrucou Leo, enfurecida. Os olhos de Amer brilharam. — Acho que é mais como um dever — disse, afável. — O quê? — Bem, você vive lançando desafios. Que tipo de homem eu seria se não os aceitasse? Leo perdera a fala momentaneamente. Ele abriu-lhe um sorriso. — Que tal uma trégua? — sugeriu quando o silêncio se prolongou. — Que tipo de... trégua? Os olhos cinzentos dele voltaram a brilhar, sedutores como nunca. — Você pára de me atacar e eu não soltarei os seus cabelos. Ela entreabriu os lábios, desconcertada. — Trégua — disse ele com firmeza e estendeu-lhe a mão. Para sua surpresa, Leo viu-se dando-lhe a sua. Era loucura, pensou. Deveria insistir para voltar para casa naquele instante, num não o fez. Apertou-lhe a mão forte, selando a trégua, e não protestou quando ele continuou segurando-a depois. Estremecendo, Leo libertou a mão depressa e começou a caminhar devagar pelo jardim, fazendo perguntas inteligentes sobre as plantas. A mescla de fragrâncias era Projeto Revisoras 51
  • 52. Sabrina 1182 - A magia do deserto – Sophie Weston tentadora, mas estava determinada a não se deixar afetar por mais nada. Era funda- mental que mantivesse seu controle inabalável. Amer sabia que aquela era sua intenção. Acompanhou-a, respondendo-lhe as perguntas com um ar impassível e cordial que dizia que sabia exatamente o que ela estava fazendo. Seus olhos, no entanto, provocavam-na, seu sorriso cada vez mais sedutor. Quando a olhava daquele jeito, Leo sentia sua determinação esmorecendo e precisava de um esforço cada vez maior para não sucumbir ao charme do homem. Finalmente, ele conduziu-a ao interior da casa, e o jantar foi servido. Comeram numa sala íntima que dava para o jardim. Leo mal j prestou atenção às iguarias que os criados colocavam à sua frente e, sem perceber, acabou, em seu nervosismo, exagerando mais uma vez no champanhe. Notando-lhe a falta de apetite, Amer observou-a com ar preocupado. — Desculpe-me — murmurou ela —, mas foi um dia difícil e não estou com fome. — Por causa do rompimento do seu noivado? — perguntou ele com ar grave, surpreendendo-a. Leo meneou a cabeça e esfregou de leve o dedo anular da mão esquerda. Ainda estava um tanto dolorido depois que retirara do anel de noivado bruscamente. Amer observou-a com ar pensativo. — E neste ponto que você me diz por que está tão ansiosa para se casar? — Não, não estou — negou ela com veemência. — Essa não foi à impressão que você me deu, quando me propôs aquele acordo. — Bem, eu estava zangada. Falei a primeira coisa que me ocorreu. — Nesse caso, deixe-me reformular a pergunta. Por que você achou que queria se casar? Leo observou-o. Com aquela trégua, ele não era mais o duelista que se deliciava em provocá-la. Era apenas alguém que queria saber algo a seu respeito. Não sobre os negócios, ou seu pai. Sobre ela. — Eu nunca achei que me casaria — respondeu impulsivamente. — Sempre fui aquela da turma que nunca tinha namorado. Os poucos relacionamentos que, enfim, tive, foram breves. Acabei me acostumando a ficar sozinha. Afinal, eu ia dirigir os negócios. Venho trabalhando arduamente nesse sentido. — Então, por que decidiu se casar com Simon Hartley Ela deu de ombros. — Os Hartley estão quase falidos e querem salvar sua propriedade. Simon é o filho mais velho. — Isso explica o lado dele da situação — apontou Amer, uma expressão neutra no rosto. — E quanto ao seu? Leo olhou para o jardim através das vidraças, lutando contra uma grande vontade de chorar. Meu pai não me quer trabalhando realmente em seu negócio — disse num tom duro. — Eu não precisava ter ido ao Cairo para mostrar meu empenho, nem para qualquer outro lugar. Ele quer iniciar uma dinastia. Experiência profissional é algo Projeto Revisoras 52
  • 53. Sabrina 1182 - A magia do deserto – Sophie Weston muito bom para isso. Amor observou-a por alguns momentos. — Um aristocrata falido é? — perguntou. Mas não o fitou. Se mantivesse os olhos fixos no jardim, a ameaça de lágrimas talvez passasse. Sim. Entendo. Não, você não entende, pensou ela. Realmente não entende. ― Deve me achar uma tola, não? — Acho que é uma covarde. Leo arregalou os olhos e, sem poder evitar, encarou-o. Amer sorria, mas havia uma intensidade desconcertante em seu olhar, nino se estivesse tão zangado que mal pudesse se conter. ― Mas não porque você fez o que seu pai queria — prosseguiu. Acho que fez o que você mesma queria. E pelas razões erradas. Notou, que ele parecia furioso. Devia aterrorizar as pessoas as olhava daquela maneira. Por que ela não sentia medo? Então, sua própria raiva dominou-a: — Como ousa? — Você perguntou. — Não sabe nada a esse respeito. — Eu sei que você só ficou noiva depois que se deu conta de que eu estava em seu país. — O que isso tem a ver com o resto? — retrucou ela, num tom alterado de voz. Subitamente, Amer sorriu. — Então, você não nega o fato. — Pareceu satisfeito consigo mesmo. Ela desviou o olhar. — Foi uma mera coincidência. — Diga-me uma coisa. Você se apaixonou por ele? — Por Simon? — Leo mostrou-se chocada. — É claro que... Amer ergueu a mão. — Não minta para mim, Leonora. Não diga nada, se não quiser. Mas não minta. Aquilo a silenciou. De repente, Leo foi tomada por súbito cansaço. Passou a mão pelos olhos. — Pare de me interrogar, sim? Ele riu. — Está bem. Coma uma fruta — disse-lhe, indicando a bandeja repleta diante de ambos. Observou-a, então, mordiscando um pêssego, sua expressão indecifrável. — E estou à sua disposição sei quiser me interrogar um pouco também. — Sei tudo sobre você — declarou ela secamente. Amer pareceu contente. — Andou perguntando a meu respeito. — Não. Ele franziu o cenho. Pareceu haver um quê de mágoa em seus olhos. Ou era orgulho ferido por ela ter conseguido resistir ao seu charme? Afinal, não sabia quanto estava sendo difícil para Leo manter seu controle. — Se não perguntou, não sabe nada a meu respeito. — Bem, digamos que sei tudo o que preciso. Você mesmo mostrou como é. quot;Venha Comigo até o Niloquot;, lembra-se? — Foi o meu artigo naquele livro que fez você ficar noiva de Simon? — Amer Projeto Revisoras 53
  • 54. Sabrina 1182 - A magia do deserto – Sophie Weston precisava ter certeza daquilo. Leo cerrou os dentes. — Quer parar com essa idéia de que você tem alguma influência no meu comportamento? Você não é nada para mim. Ela achara que o deixaria aborrecido, mas ele estava se divertindo. Chegou a rir alto. — Prove ― Indignada, Leo cerrou os punhos sobre o colo. — Acho que já é hora de eu ir embora — disse numa voz controlada. — É uma pena — comentou ele, os olhos penetrantes apesar j do brilho divertido que exibiam. — Você é um deleite. E uma terrível tentação. Leo ficou desconcertada. Ninguém nunca a chamara de tentação antes. Soubera que aquele vestido era decotado demais, pensou. Colocou rapidamente o xale em torno dos ombros, recusando-se a fitá-lo. — Fique ao menos para um café — sugeriu ele como um perfeito anfitrião. — Se eu tomar uma xícara de café com você, chamará um táxi para me levar em seguida? ― Se você ainda quiser ir... Leo engoliu em seco. ― Então, vamos tomar café agora. Amer chamou o mordomo, instruindo-o a servir-lhes o café na estufa e, depois, numa voz baixa, informou-o que não precisaria mais dele naquela noite. Levantando-se, então, estendeu a mão para Leo. Venha ver mais plantas sobre as quais poderá me perguntar. Ignorando-lhe a mão, ela se levantou e seguiu-o. Deveria tomar cuidado para não esbarrar na mobília, avisou a si mesma. Não me perdoaria se acabasse quebrando um valioso objeto de arte em minha pressa de chegar até a porta, o que teria sido provável levando em conta a sorte daquele dia. A estufa era do comprimento de uma lateral inteira da mansão e tinha vista para uma parte do jardim. Luzes distribuídas discretamente iluminavam palmeiras, videiras e uma fileira de jasmins. Numa das extremidades, havia mais uma fonte montada na parede. Leo entreabriu os lábios, admirada. ― Sim, você gostou, não foi? — disse Amer num tom irônico. Começo a achar que a botânica é a única coisa que excita você. Leo virou-se abruptamente para fitá-lo em sua indignação... e colidiu com o mordomo, segurando a bandeja de café silenciosamente atrás dela. O homem recobrou o equilíbrio. Não conseguiu, porém, impedir que a bandeja caísse. Porcelana voou, e o bule de prata virou, derramando café na frente do vestido dela. Leo fechou os olhos. — A má sorte de hoje volta a atacar. Amer removeu-lhe o xale manchado. — Veja o que pode ser feito com isto — disse ao mordomo, que e pegou e afastou-se prontamente. Em seguida, Amer tentou absorver parte do café quente do vestido dela com Projeto Revisoras 54
  • 55. Sabrina 1182 - A magia do deserto – Sophie Weston um impecável lenço branco. Seu toque foi impessoal. Leo engoliu em seco e abriu os olhos depressa. Ficou mais uma vez desconcertada em descobrir que as suas reações não tinham nada de impessoais. Ele deu um passo atrás, insatisfeito. — O vestido está encharcado. Teremos que pensar em outra coisa. — Uma idéia ocorreu-lhe. — Venha comigo. Conduziu-a por uma ampla escadaria até uma imponente porta dupla de mogno reluzente. Abriu-a, revelando um quarto. Era o quarto mais suntuoso que Leo já vira. Um luxo como aquele era algo que nem mesmo ela, com sua posição social e sendo tão viajada, sequer imaginara. Engolindo em seco, olhou ao redor em incredulidade. Era como estar nos aposentos de um príncipe da Renascença. Era um quarto imenso, com pilares entalhados sustentando um teto abobadado que representava o céu. O assoalho fora polido até que a madeira avermelhada brilhasse como vinho. Brocado dourado emoldurava janelas altas. Uma parede inteira ostentava pintura de uma paisagem do deserto. Junto a ela havia um sofá de estrutura dourada, revestimento estofado azul e coberto de almofadas acetinadas. E a cama... Leo tornou a engolir em seco, mantendo um olhar atento na cama. Parecia perigosa. Era grande, baixa e luxuosa, feita de ébano incrustado com intricados ornamentos de ouro. Uma colcha cintilante a cobria e, se a idéia não lhe parecesse tão absurda, Leo poderia ter jurado que fora tecida com fios de ouro. Falou a primeira coisa que lhe ocorreu, seu tom irônico: — Você jamais poderia dizer que é um homem de prazeres simples. — Na verdade, eu sou. Não se deixe enganar pelas aparências — disse Amer com um riso. — Minha família comprou esta casa há mais de trinta anos. A decoração atual deste quarto foi aprovada por meu primo, o ministro da Cultura. Lamento que você não aprecie o gosto dele. — Apontou, então, para o sofá. — Tire este vestido ensopado e sente-se. Eu lhe arranjarei algo para vestir. Ele desapareceu por uma porta atrás de um pilar. Leo retirou o vestido e afundou no sofá, segurando o tecido manchado de café de encontro a si recatadamente. De repente, não pôde conter um acesso de lágrimas. Amer apareceu de imediato com um robe dobrado sobre o braço. — O que houve? — Oh, eu sempre destruo coisas — disse Leo soluçante. —Sempre foi assim. Sou desastrada. Esbarro na mobília, quebro objetos, tropeço e derramo coisas na roupa, como fiz com o vestido. Sem mencionar que arruinei sua porcelana... Amer apoiou-se num joelho diante do sofá e enxugou-lhe as lágrimas gentilmente com a ponta dos dedos. — Eu encaro o fato de você ter derramado café no vestido como um presente — disse com suavidade. — Acredite. Leo fitou-o, um ar ansioso ainda em seu olhar. — Acredite — repetiu ele, a voz subitamente rouca. Com um pequeno gesto de rendição, ela inclinou-se para frente e encostou a cabeça no peito de Amer. Projeto Revisoras 55
  • 56. Sabrina 1182 - A magia do deserto – Sophie Weston ― Acho que este foi o pior dia da minha vida — declarou, a voz abafada de encontro à seda da camisa. Amer afagou-lhe os cabelos, abraçando-a com gentileza. Não, não foi. Você rompeu um noivado que nem sequer queria ter iniciado. E me colocou no meu devido lugar mantendo-se firme em sua posição. Não pode ter sido um dia tão ruim. Leo soltou um riso surpreso. Coloquei-o em seu lugar? Oh, claro — disse secamente. Fitou os olhos cinzentos, mais uma vez começando a se sentir hipnotizada por sua intensidade. E havia aquela colônia masculina muito marcante que lhe inebriava os sentidos... Umedecendo os lábios, disse, incerta: ― Eu... De repente, não pareceu importar que estivesse com as emoções em frangalhos, que fosse desajeitada, ou indesejável nos negócios. Estava nos braços de Amer... e era como estar no paraíso. Enquanto se entreolhavam, ocorrera-lhe que eleja a fizera sentir-se daquela maneira antes, naquela noite no Nilo. Era tomada por um anseio quase indefinível e premente... Com suavidade, Amer puxou-lhe o vestido com que se cobria, expondo-lhe os seios moldados pelo sutiã de renda. Conteve a respiração por um instante. — Você é tão linda — disse, reverente. Leo desviou o olhar, o desejo sobrepujado por sua encabulação. Com vagar, Amer acariciou-lhe os seios, afastando a renda para Expo-los a seu olhar ardente e, enfim, inclinou a cabeça. Roçou um dos mamilos rosados com os lábios. Leo estremeceu, arrepios subindo-lhe pela espinha, mas ainda mio podendo lhe encontrar o olhar. — Fim da nossa trégua — sussurrou Amer. — Você não acha? Ela não pôde responder e nem se concentrar em mais nada exceto nas sensações que os lábios experientes lhe despertavam com seu toque incrível. — Já é hora de estarmos num lugar mais confortável. Ele ergueu-a nos braços e levou-a até a cama, afastando n colcha antes de deitá-la. Leo observou-o, fascinada, não se dando conta de que sua lingerie de seda e renda ia sendo retirada... e aqueles lábios quentes e sensuais começaram a acariciá-la. Ela mal podia crer na intensidade das sensações que a dominavam. Nada jamais a preparara para um prazer tão grande. Fechou os olhos, deliciada. Amer, então, soltou-lhe os cabelos dos grampos, desmanchando-lhe o penteado sofisticado. — Fico contente que tenha deixado crescer o cabelo — sussurrou. Leo abriu os olhos para fitá-lo. Ele espalhava-lhe os cabelos pelo travesseiro, correndo os dedos pelas mechas sedosas, observando-as com ar absorto. — Eu sabia que faria isto — murmurou. Encontrou-lhe o olhar, então, e abriu um sorriso terno. Ela ergueu a mão para afagar-lhe o rosto másculo e deteve-se nos lábios. Projeto Revisoras 56
  • 57. Sabrina 1182 - A magia do deserto – Sophie Weston Amer ficou imóvel. Por um momento, o brilho gentil dissipou-se de seus olhos cinzentos e pareceu estar em pura agonia. Leo assustou-se. — O que foi? Mas ele não respondeu. Não com palavras. Inclinou-se e começou a explorar-lhe o corpo com mãos e lábios carinhosos, como s tivesse todo o tempo do mundo. Leo sentia-se enlevada, nunca tendo experimentado sensações tão maravilhosas. A paixão explodiu, um novo tipo de anseio consumindo-a. De olhos ainda fechados, puxou-o mais para si e abriu-lhe os botões da camisa. Amer até ajudou-a a retirá-la e abraçou-a, para que pudesse sentir o contato de pele, os seios macios comprimindo-se junto a seu peito. Mas não a deixou ir além. — Não — disse, afastando-a de seus braços por um momento para segurar-lhe as mãos trêmulas antes que acabasse de despi-lo. Leo gelou e abriu os olhos. Amer viu-lhe a reação. De repente, teve pressa. Tornou a deitá-la na cama, os lábios procurando-lhe o seio avidamente, os dedos hábeis começando a acariciá-la com intimidade. Leo soltou um gemido e arqueou o corpo, o coração disparando. A intensidade do que sentia era tanta que a fez gritar, quase assustada. Apenas por um momento viu a expressão no rosto de Amer. Era de total triunfo. Então, os espasmos de prazer a percorreram numa explosão de sensações e foi como se o mundo ficasse em suspenso. CAPÍTULO VII Foi Amer que se moveu primeiro. Leo estava deitada com a cabeça no peito dele, ainda mal tendo se recobrado das sensações incríveis que a haviam dominado. Ao mesmo tempo, seu pulso continuava acelerado, o desejo que fora aplacado prestes a se alastrar novamente, a se unir ao dele. Agora, pensou. Agora, ele vai se livrar das roupas. Irá se deixar levar pela paixão do momento. Dessa vez, encontraremos o prazer juntos. Virando a cabeça, beijou-lhe o peito timidamente na altura do coração. Mas ele não esboçou reação. Nem tornou a beijá-la. Apenas disse: — Você vai ficar com frio. — Hum? Amer afagou-lhe o ombro com ar possessivo, mas não com paixão. — Não posso deixar que apanhe um resfriado — declarou, na voz um tom de riso. — Pense no que isso causaria a minha reputação. Leo sentiu um aperto no peito. Mal podia acreditar, mas só lhe restava concluir que Amer já se cansara dela. Projeto Revisoras 57
  • 58. Sabrina 1182 - A magia do deserto – Sophie Weston Estava abalada pelas sensações dos minutos anteriores. Nem sequer imaginara que emoções como aquelas existiam, quanto mais que fosse capaz de tê-las. E agora estava deitada nos braços dele, sentindo cada vez mais frio e uma rejeição como nunca imaginara também. Amer, então, levantou-se da cama e vestiu sua camisa. Entregou-lhe, então, um robe aveludado. Ela vestiu-se depressa, grata por não ter de fingir mais qUe não se sentia encabulada em vê-lo contemplando sua nudez. Algo em sua expressão devia tê-la traído, pois Amer franziu o cenho de leve e sentou-se na beirada da cama. Tocou-lhe a face com gentileza. — Nunca vi uma pele como essa. — Afastou um pouco o robe beijou-lhe o ombro. — Clara e translúcida como o luar. Temos poemas a esse respeito, sabe? Até hoje eu havia pensado que era mera invenção poética, mas vejo que pele tão especial realmente existe. Deitou-lhe a cabeça de encontro ao seu ombro. De imediato notou-lhe a rigidez do corpo. — O que foi? — perguntou, preocupado. Leo não pôde mais suportar. Descendo da cama, adiantou-se depressa até o banheiro, onde se trancou. Recostou-se na portai dando finalmente vazão às lágrimas. Tomou cuidado para que seu pranto fosse silencioso e, quando! enfim, recobrou-se, lavou o rosto na pia de mármore. Respirando! fundo, voltou ao quarto. — Tenho que ir embora — anunciou. Amer estava junto a uma janela, olhando para o jardim. Quando se virou para fitá-la, pareceu tenso por um momento, mas logo demonstrou uma reação de surpresa com suas palavras. Aquela expressão quase fez Leo sucumbir. Lembre-se das palavras de Amer, disse a si mesma. Fora bastantes específico naquele artigo satírico que escrevera. Qualquer oportunidade de sedução deveria ser aproveitada. Com qualquer mulher. Ela lhe dera a oportunidade de bandeja, e ele nem sequer se dera ao trabalho de seduzi-la. Teria sido melhor se o houvesse feito? Ela engoliu em seco. De qualquer modo, era doloroso saber que não a quisera. — Tenho que ir — repetiu, à procura de suas roupas. Amer aproximou-se, segurando-lhe o braço de leve. — Qual é o problema? — perguntou-lhe com um sorriso que a magoou ainda mais. — Tenho que ir para casa... resolver uns assuntos, dar uns telefonemas... — As desculpas não foram das melhores, mas o desespero era evidente. Ele soltou-lhe o braço e deu um passo atrás, franzindo o cenho. — Pensei que passaríamos mais algumas horas juntos. Viu uma expressão tão horrorizada no rosto dela que tornou a ficar surpreso. — Vejo que não — disse secamente. — Desculpe-me — disse Leo, desconcertada. Recolheu suas roupas e tomou a se refugiar no banheiro. As lágrimas afloravam nos seus olhos novamente enquanto se Projeto Revisoras 58
  • 59. Sabrina 1182 - A magia do deserto – Sophie Weston vestiu. Permitiu-se, então, momentos para recobrar a calma antes de voltar ao quarto voltar a encarar Amer. Você está bem? Leo olhou ao redor por um instante, usando o sarcasmo como in escudo: E claro que estou, levando em conta que vim parar na alcova de um dom-juan... — Desceu as escadarias depressa, com Amer olhando-a de cenho franzido. — Um dom-juan? Não é justo. Você se esqueceu de que vamos nos casar? Leo contraiu o semblante. Ele precisava ser tão cruel, divertindo-se à sua custa? — Tolice. — Bem, você fez a proposta. Ainda temos que conversar a respeito. Ela fuzilou- o com o olhar. — Não há nada a conversar. Quero ir para casa. Poderia me chamar um táxi? — E eu quero que me diga o que há de errado. Ela sacudiu a cabeça, esforçando-se para conter novo acesso de lágrimas. — Eu apressei você? Achei que se... Mas Leo interrompeu-o com um gesto tão repleto de desespero que ele não pôde pressioná-la. Soltou um suspiro. — Se insiste em ir embora, eu a levarei para casa de carro, é claro. - Abriu-lhe seu sorriso mais charmoso. — Mas espero que fique. Para seu desapontamento, Amer viu-se dirigindo pelos portões eletrônicos da mansão de Wimbledon quarenta minutos depois. — E sua? — perguntou, desconcertado pelo mansão que o ' confrontava. — E do meu pai. Prefiro usar a casa de hóspedes anexa. — Ah. A resposta não foi mais do que um som breve, mas ela detectou desdém e até crítica. — O quê? — disse, zangada. Amer não respondeu. Ao menos não diretamente. — Você tem permissão para me convidar a entrar? — Tenho total liberdade na minha casa — retrucou ela secamente. — Meu pai e eu não policiamos um ao outro. — É mesmo? — Entre, se você não acredita em mim, Amer não precisou de um segundo convite. Leo acendeu todas as luzes da casa anexa à mansão com ar de desafio. Nada de atmosfera de sedução ali, pensou com firmeza. — Mora sozinha aqui? — perguntou ele, olhando ao redor da aconchegante sala de estar com interesse. — Você sabe que sim. — Pensei que Simon Hartíey talvez tivesse resolvido se mudar para cá depois que ficaram noivos. — Não. — O tom dela foi brusco. Projeto Revisoras 59
  • 60. Sabrina 1182 - A magia do deserto – Sophie Weston Amer, por sua vez, nem sequer tentou esconder sua satisfação em saber do fato. — Entendo. O que vai fazer em relação a ele? De volta à sua casa e ao seu território, Leo sentia-se mais corajosa. Também estava atônita com a sua conduta daquela noite. — Já está feito. Não que seja da sua conta. — É claro que é. Não posso permitir que um outro homem pense que está noivo da mulher que vai se casar comigo. ; Ela se deu conta de que não podia suportar mais a provocação de Amer. De repente, sentia-se terrivelmente cansada. — Oh, por favor, vá embora — disse no limite de sua paciência. — Está certo — concordou Amer, apaziguador. Tocou-lhe a face com gentileza. — Mas não esqueça que me pediu em casamento. Leo cerrou os dentes. — Dificilmente esquecerei aquele momento de insanidade. — E que eu aceitei. — Não diga tolices. Os olhos dele brilharam, mas sacudiu a cabeça com ar de reprovação. — Não poderá escapar da situação dessa maneira. Você é minha agora. — Saia! Ele abriu-lhe um sorriso charmoso e atirou-lhe um beijo no ar antes de se retirar. Leo não dormiu bem naquela noite, o que já esperara, levando em conta as circunstâncias. Só não esperara que o trabalho não lhe servisse como o costumeiro antídoto. Na manhã seguinte, não demorou a descobrir que não conseguia se concentrar nos papéis à sua frente. O único momento em que pareceu ser capaz de pensar com clareza foi quando a secretária a avisou que o sr. el-Barbary estava ao telefone. —Não vou atender aos telefonemas dele — retrucou Leo, exasperada. Por volta do fim da tarde, sua raiva mal podia ser contida. A última gota d'água aconteceu , quando Gordon Groom adentrou por seu escritório. ― Que diabo de jogo você pensa que está fazendo? — esbravejou pie sem sequer verificar se Leo estava sozinha no escritório. — Olá, pai. Voltou depressa de Cingapura. Simon lhe telefonou, pedindo reforços? Gordon estava lívido de raiva. — Simon me telefonou e eu vim imediatamente. Do que se trata toda essa tolice? — Tenho certeza de que ele lhe contou. Nós decidimos romper nosso noivado. — Mas vocês mal acabaram de ficar noivos! — Digamos que decidi não arruinar minha vida. Eu não poderia me casar com um homem que achava que essa união fazia parte das funções de seu cargo. — Ela permitiu-se dar vazão à própria raiva. Sentiu-se bem por dizer o que pensava. — Tudo foi um grande erro,-causado pelo fato de eu ter deixado que vocês dois me Projeto Revisoras 60
  • 61. Sabrina 1182 - A magia do deserto – Sophie Weston manipulassem. O pai apertou os lábios. — Não me entenda mal — prosseguiu ela num tom duro. — Não culpo você. Culpo a mim mesma. Eu deveria ter tido a coragem de fazer minhas próprias escolhas. De agora em diante é o que farei. Gordon percebeu que, pela primeira vez desde a infância da filha, não iria conseguir com que ela fizesse o que ele queria. O choque e o ultraje levaram-no a perder o pouco de controle que estivera mantendo sobre si mesmo. — Não precisa pensar que pode ficar aqui como minha pensionista — esbravejou. — Se quer fazer suas próprias escolhas, ótimo. E pague suas próprias contas enquanto isso. Leo estreitou olhos que faiscavam para observá-lo, a respiração ofegante. — Sua pensionista? — Você não acha que merece aquele alto salário que eu lhe pago, não é mesmo? — disse Gordon cruelmente. Ela empalideceu subitamente. — Não — respondeu num tom soturno. — E também não mereço viver na casa de Wimbledon. Pelo que entendo, esse é um aviso para eu me demitir, certo? — Oh, pelos céus, poupe-me do melodrama! — exclamou Gordon e, então, respirou fundo, esforçando-se para recobrar o controle. — Ouça, não podemos nos sentar e conversar sobre isto racionalmente? — Não temos nada a conversar, pai — declarou ela num tom baixo e espantosamente calmo. — Na questão do meu casamento, você não tem direito a opinar. — Então... Ela ergueu a mão. — Nada mais de ameaças, por favor. Na verdade, Gordon estava abalado pelo que parecia ter feito. Leo nunca o enfrentara daquela maneira. Devido a seu temperamento, ele era incapaz de voltar atrás, mas dava-se conta de que fora longe demais. — Ambos dissemos coisas de que nos arrependeremos — disse num tom grave. — Os negócios dos Groom são o único futuro que você tem, de uma maneira ou de outra. Vá para casa e pense a respeito. Conversaremos pela manhã. Leo não lhe deu resposta. Gordon soltou um grunhido de exasperação e retirou- se abruptamente. Ela afundou de volta em sua poltrona de couro, tremendo. O que iria fazer?, perguntou-se. O quê, afinal, iria fazer de sua vida? Não demorou para que Amer deduzisse que Leo não queria falar com ele, que estava usando meros pretextos para não atender seus telefonemas. Franziu o cenho, olhando para o dossiê completo do major .McDonald sobre ela que havia resolvido fo- lhear outra vez. O que dera errado na noite anterior? Achara que, naquelas circunstâncias agira bem, apelando para uma cuidadosa estratégia. Vira de imediato que fora o champanhe o responsável pela fúria inicial dela. Projeto Revisoras 61
  • 62. Sabrina 1182 - A magia do deserto – Sophie Weston Mas o álcool, que obviamente não estava acostumada a consumir, também a induzira depois a um comportamento descuidado. E ele não precisava de nenhum relatório de investigação para saber que tal comportamento lhe era atípico. O fato era que Amer estivera perto demais de tirar proveito daquilo. Deveria ter tirado, disse a si mesmo num acesso de raiva. Daquela maneira, ela teria tido realmente um motivo para não atender seus telefonemas. Na verdade, não sabia exatamente por que agira daquela maneira. Não estava acostumado a negar-se tal prazer. E, céus, como ela estivera desejável... especialmente em sua completa admiração com a maneira como a fizera sentir-se. Ainda assim... Houvera uma enternecedora vulnerabilidade nela na noite anterior. Quando o tocara no rosto e o fitara parecera tão jovem e frágil e o fizera ansiar por protegê-la. De repente, fizera com que ele quisesse ao menos uma vez dar sem receber. Parecera-lhe um meio de resguardá-la. Agora, estava inquieto com tal lembrança. Não estava acostumado a um instinto protetor tão forte também. Era, sem dúvida, desconcertante. Oh, sim, estivera certo quando dissera a Hari que seria capaz de qualquer extremo para fazê-la ouvi-lo. Só não se dera conta de como estivera realmente falando a sério. Tornou a abrir o dossiê, olhando para o anúncio de noivado que fora ali anexado, sua fúria renovada. Leu um dos nomes em voz alta, sra. Deborah Groom, de Kensington. A menos que estivesse muito enganado, já conhecera a sra. Deborah Groom no Cairo. E mentira para ele também. Ela lhe devia por aquilo, não era? Levantou-se para pegar uma lista telefônica. A primeira atitude a tomar, sabia Leo, era sair da casa de seu pai e o faria ainda naquele dia. Embora teoricamente tivesse total autonomia na casa de hóspedes anexa à mansão, a propriedade toda ainda era de Gordon Groom e, sem dúvida, considerava-a seu território. Telefonou para a mãe e explicou-lhe o que acontecera. Deborah ouviu-a, mantendo-se, então, num silêncio atípico. — E o que você vai fazer? — perguntou-lhe, enfim. — Achei que pudesse ficar algum tempo com você... — disse Leo, hesitante. Deborah foi categórica: — Isso está fora de cogitação. Estou de partida para uma viagem à Espanha, e o apartamento vai ser completamente reformado enquanto eu estiver fora. Ficará inabitável. Lamento, querida. Mas, no fundo, a mãe não parecia lamentar tanto, pensou Leo, pesarosa. — O que você precisa — prosseguiu ela sabiamente — é de umas boas férias no exterior. Adquira um tom bronzeado e solte mais esses cabelos. Vai voltar sentindo-se uma nova mulher. — Obrigada pela sugestão, mas não sei se daria certo para mim. — Dá certo para todo mundo, querida. Especialmente se conseguir encontrar um bom homem para lhe fazer companhia. Aceite meu conselho e divirta-se, querida. — Deborah desligou. Amer não cometeu o erro de telefonar novamente. Acompanhou os movimentos Projeto Revisoras 62
  • 63. Sabrina 1182 - A magia do deserto – Sophie Weston de Leo fazendo uso de meios bastante caros e engenhosos. O que soube ainda naquele dia deixou-o satisfeito e levou-o a dar uma série de telefonemas internacionais. Traçou, então, sua estratégia. Leo fazia as malas quando a campainha tocou. Por um momento, pensou que fosse o pai e quase não atendeu. Mas uma rápida olhada para o relógio tranqüilizou-a. Nem mesmo por causa de uma grave crise doméstica Gordon Groom deixaria o escritório antes das oito da noite. Ela, então, abriu a porta e não chegou realmente a se surpreender quando deparou com um sorridente Amer. Apesar de seu silêncio nas horas anteriores, ela suspeitara que ele tornaria a procurá-la. O homem parecia sentir algum perverso prazer em divertir-se a sua custa. Ele olhou em torno do caos na sala de estar com ar surpreso. — Estou arrumando minhas coisas — disse ela num tom seco. — Vou sair desta casa. Amer meneou a cabeça com ar de aprovação. — Fico lisonjeado que tenha entendido o que tentei lhe dizer e tomado decisão tão sábia. Leo estava sem palavras. — Sobre viver debaixo das asas de seu pai — explicou ele, afável. — Não é nada bom. Acredite, falo por experiência própria. — Sentou-se confortavelmente no sofá sem ser convidado. — Eu ouvi dizer que você rompeu com tudo. Excelente, sem dúvida. A última coisa que Leo desejaria era a simpatia de Amer ou de quem quer que fosse. A jovial opinião dele de que perder seu lar e seu emprego num único dia era algo positivo foi demais para tolerar. Teve vontade de esganá-lo. Mas ao ver-lhe o brilho nos olhos cinzentos, soube que a provocava deliberadamente e esforçou-se para manter o controle. Não lhe daria a satisfação de atingi-la com nada do que dissesse. — Como sabe sobre o que aconteceu? — perguntou num tom cáustico. — Andou me espionando outra vez? — Digamos que andei fazendo algumas perguntas, interessado no seu bem- estar. Preocupou-me a possibilidade de seu pai querer pressioná-la de algum modo depois que você conseguiu se libertar. — Que louvável de sua parte — disse ela, sarcástica. — Quando se trata de pais dominadores, o meu encabeça a lista. Ouça a voz da experiência. O que você precisa agora é de algum tempo longe daqui para refletir. — Por que acha que estou fazendo as malas? — Tem algum lugar para ir? Ela hesitou. — Achei mesmo que não. É por isso que estou aqui. Leo observou-o com uma expressão de profunda desconfiança. — Eu não entendo. — Estou lhe oferecendo um refúgio. As suspeitas dela se concretizaram. O dia não fora dos mais fáceis, e não pôde mais se conter. Projeto Revisoras 63
  • 64. Sabrina 1182 - A magia do deserto – Sophie Weston — Como ousa? — gritou, irada. Amer observou-a com ar de completa inocência. — Não vou me mudar para a sua casa. Nem que você fosse o último homem na face da terra. E se acha que um desastre em minha vida vai fazer com que eu me atire em seus braços, está muito enganado. Seguiu-se um silêncio carregado de tensão. Amer não se moveu. Mas, de repente, pareceu perigoso. — Você está sendo ofensiva. — E você é um oportunista. — Está tão enganada. Fui um oportunista ontem à noite? Leo empalideceu. — Deixe-me assegurar-lhe... — Ele se levantou do sofá, aproximando-se, a voz soando com suavidade, mas os olhos cinzentos faiscando — ...não precisa ter medo de mim. Nunca quis você menos do que quero neste momento. — Oh. — A raiva de Leo foi tamanha que nem sequer ficou magoada. Talvez depois, pensou. Naquele momento só gostaria de poder esbofeteá-lo. — Como se atreve? — A última coisa que qualquer homem iria querer é uma mulher que pensa que não tem opção — disse-lhe Amer com frieza. — Que graça veria numa mulher que se sente obrigada pelas circunstâncias a se atirar em seus braços? — Nesse caso... Ele prosseguiu, ignorando-a. — Um homem faz sua própria caçada. Leo sentiu o choque percorrendo-a como se tivesse mergulhado num lago gelado. Sacudiu a cabeça devagar. — Não acredito que você disse isso. — Acredite. — Saiba que não gosto de ameaças. — Que ameaças? — Você insinuou que eu era alguma espécie de... presa. — Sem poder evitar, ela estremeceu. — Isso é tolice e você sabe. Presas são mortas. Não é o que quero fazer com você em absoluto. Leo não iria lhe perguntar o quê, afinal, queria fazer com ela. Não iria. — E você sabe disso também. Tem que saber. — O tom gentil de voz que mais parecia uma caricia estava de volta. Seria calculado? Ela não sabia. Tudo o que sabia era que se parecia demais com o da noite anterior. Relutante, constrangida, encontrou os olhos cinzentos. Percebeu que ele também estava recordando a noite anterior. De repente, tudo o que ela dissera pairava ali naquela sala entre ambos. Tudo o que fizera! Fechou os olhos. — Por favor, vá. — Não. Você é a esposa que me foi prometida. Tenho uma responsabilidade. — Quer parar com essa tolice! Sabe muito bem que não falei a sério. Projeto Revisoras 64
  • 65. Sabrina 1182 - A magia do deserto – Sophie Weston — Mas eu sim. Leo achou que poderia subir pelas paredes de raiva, literalmente. — Bem, é uma pena. Porque não vou me casar com ninguém e... Á campainha tocou longamente. — Quem será agora? — disse ela com exasperação. Contornando a mesa de centro e suas malas, foi atender. Ficou perplexa em ver o pai à porta. — Posso entrar? Leo não esboçou reação por um momento. Gordon Groom nunca ia até aquela parte da propriedade. Se queria vê-la, deixava-lhe uma mensagem no escritório. Algumas vezes lhe telefonara e pedirá que fosse à casa principal num impulso qualquer. Mas aparecer humildemente à porta dela como um visitante comum? Nunca. Parecia inacreditável. — Sim, se você... — Ela lembrou-se de Amer. — Bem... Gordon não se deu conta de sua relutância. Entrou na casa, absorto pelas próprias preocupações. — Você ficou exaltada demais no escritório — disse. — Agora, já teve tempo para refletir... Interrompeu-se ao avistar Amer. De imediato, seu rosto endureceu. Leo notou e mordeu o lábio inferior. — Este não é um momento apropriado, pai — começou, sua voz trêmula. Gordon ignorou-a. — Quem é você? — perguntou com mal contida hostilidade. Amer lançou um olhar a Leo, que parecia ter gelado no lugar. Gordon tornou a dirigir-se à filha: — Há quanto tempo ele está aqui? Você esteve saindo com alguém por trás das costas de Simon? Foi por isso que ele deixou você? — Simon não me deixou — disse ela, atordoada. Gordon tornou a ignorá-la. Soltou uma exclamação de triunfo. — Eu sabia que devia haver mais por trás dessa história do que você contou. Eu sabia! Sua tola. Era como todas as outras discussões que haviam tido desde a infância dela. O tom de voz acalorado e autoritário, a recusa em ouvi-la... Leo conhecia aquilo tão bem. E ainda não sabia como lidar com a situação. — Vou ligar para Simon — prosseguiu Gordon, absorto em seu plano de ação. — Verei se consigo resolver as coisas. E um bom rapaz. Ouvira a razão. Leo dava-se conta da familiar sensação de impotência tomando conta de si, sufocando-a. Descobriu um braço em torno de seus ombros. — Você tem razão — declarou Amer num tom calmo. — Tenho um relacionamento com Leonora. Leo estremeceu. Então, sob a pressão dos dedos dele, manteve-se perfeitamente imóvel. Sentia-se entorpecida. Projeto Revisoras 65
  • 66. Sabrina 1182 - A magia do deserto – Sophie Weston Gordon foi distraído momentaneamente de seu estratagema. Pareceu impaciente. — Não, não tem mais. Foi a vez dele de ser ignorado. — E eu vou me casar com ela. CAPÍTULO VIII Doze horas depois, Leo estava num avião. Amer, mais decidido do que nunca, assumira o controle da situação. Ela fora levada a um hotel tranqüilo e exclusivo para passar a noite. Então, naquela manhã, Hari Farah chegara com seu passaporte, passagens e instruções para acompanhá-la a Dalmun. Como não conseguira dormir, ela sentira-se aérea e observara Hari com desconfiança. — Onde está Amer? — perguntara. — Teve alguns assuntos a resolver. Nada grave. Mas providências de longo prazo terão que ser tomadas — dissera Hari, evasivo, esquecendo convenientemente o telefonema que estivera em andamento quando deixara a mansão londrina. O velho xeque não ficara nem um pouco satisfeito com as notícias do filho e não fizera segredo de sua opinião. O orgulho de Leo a impedira de perguntar mais. E evidentemente não teria perguntado a Hari aquilo que mais a inquietara. Por que Amer deixara-a sozinha na noite anterior? Leo teria resistido se ele tivesse presumido que, por tirá-la de seu apuro, ganhara o direito de fazer amor com ela? Mas ficara desconcertada com o fato de o homem nem sequer ter tentado. Assim, deixara que o assistente a levasse até o aeroporto. Antes de ela embarcar, ainda recebera um telefonema breve e cordial de Amer no celular. Mas fora tudo. Amer sabia que sua atitude era irracional. A princípio, Leo enfurecera-o, lançando-lhe aquela proposta desafiadora como se ele fosse insignificante, um zero à esquerda em sua vida. Quisera fazê-la aprender a não sair pedindo homens em casamento apenas porque ficara zangada. Iria se casar com a garota só para lhe ensinar uma lição?, perguntara-lhe um horrorizado Hari quando haviam falado a respeito. Mas Amer sabia que não era tão simples. Precisara, como dissera a Leo na noite anterior, mostrar-lhe que era um homem que fazia a própria caçada. E certificar-se de que todos soubessem que ela era sua e de mais ninguém. Céus tivera até ciúme do autocrático Gordon Groom. Mas havia mais do que aquilo. Queria cuidar dela, fazê-la sentir-se segura e... extasiada. Tanto quanto já estivera uma vez em seus braços... E queria tudo aquilo para sempre. Projeto Revisoras 66
  • 67. Sabrina 1182 - A magia do deserto – Sophie Weston E se não era o que Leo queria, paciência! Amer endireitou os ombros. Ela iria querer com o tempo. Não importando o que custasse, faria com que Leonora Groom o quisesse tanto quanto a queria. Leo, aos euidados de Hari após o telefonema polido e desprovido de emoção de Amer, desistira de pensar. Dissera a si mesma que não precisava de nenhuma emoção da parte dele. Mas aquela indiferença a fizera sentir-se mais perdida e vazia do que sua saída de casa e do emprego. Assim, permitira que Hari a acomodasse na primeira classe do avião, respondendo com evasivas até a mais discreta pergunta sobre seu relacionamento com o patrão dele. — Só estou indo a Dalmun para uma visita — anunciou mais de uma vez. — Minha mãe acha que preciso de umas férias para espairecer. A cada vez, disse aquilo feito um autômato, evidentemente exausta. Dormiu, então, por algumas horas, só acordando quando a tripulação começou a servir o almoço. Com a mente bem clara e desperta, perguntou-se, onde, afinal, estava se metendo? O que fazia naquele avião? Como pudera ter deixado Amer el-Barbary assumir o controle sobre sua vida de tal maneira? Nem em sonhos imaginara que estaria num vôo a caminho do país dele. E o pior era que não sabia absolutamente nada sobre Dalmun, nem sobre o próprio Amer. O solícito Hari contou-lhe algo a respeito do antigo país de costumes rígidos, e ela se deu conta de como o seu mundo e o de Amer eram diferentes. Soube que ele era o único filho vivo do xeque e esperava-se que o sucedesse um dia à frente do governo do país. O pai era intransigente, autocrático e inconstante, porém, e Amer estava longe de ser obediente. Assim, moravam em palácios separados e praticamente viviam em desavença um com o outro. — Sua Majestade é muito... tradicional — disse Hari, escolhendo as palavras com cuidado. — Não gosta que as coisas mudem. Os ministros sabem que o progresso não pode ser detido e que Sua Excelência reconhece isso. Assim, consultam-no sobre a política, mas informalmente, se é que me entende. Todos contam com o xeque Amer para persuadir o pai conservador a melhorar as coisas. Mas, é claro, que, no final, a decisão cabe sempre a Sua Majestade. — E uma situação delicada — comentou Leo com franqueza. — Responsabilidade sem poder. Deve ser complicado para Amer, especialmente se gosta do pai. Hari observou-a com ar surpreso. Nenhuma das namoradas que Amer já tivera sequer se dera conta de seu dilema. De repente, sentia-se mais esperançoso. — Você tem toda razão — concordou, entusiasmado. Passou a falar Com um pouco menos de reserva e discrição. — E uma situação difícil. O pai dele é imprevisível. Por exemplo, no ano passado, confinou Amer à prisão domiciliar por algum tempo devido a sua recusa em tornar a se casar. Leo gelou. O fato não passou despercebido a Hari. — Todos ficamos com medo — prosseguiu. — Mas, então, alguém o presenteou com um falcão e o xeque insistiu para que o filho o acompanhasse numa excursão de Projeto Revisoras 67
  • 68. Sabrina 1182 - A magia do deserto – Sophie Weston caça para testarem as habilidades da ave. Quando voltaram, seus desentendimentos tinham sido esquecidos. Amer teve permissão para ir ao Egito tomar parte naquela conferência, como se ambos nunca tivessem tido discórdia alguma. — Foi quando eu o conheci? Depois de ter se livrado da prisão domiciliar? — Sim. — E o pai o confinou só porque não quis se casar outra vez? — O fato é que existe muita insatisfação tribal em Dalmun. Há várias tribos... particularmente de alguns dos beduínos do deserto... que estão descontentes com a pouca participação que lhes é permitida no governo. Amer quer lidar com o problema através de negociações, mas o pai acha que outra aliança familiar é tudo o que é preciso. — Eu não compreendo. — A primeira esposa de Amer era de uma poderosa família fronteiriça. O clã costumava criar problemas regularmente. Mas, desde o casamento, tornou-se partidário de Sua Majestade. Mesmo depois que ela morreu... — Hari interrompeu-se ao vê-la contrair o rosto. — O que foi? — perguntou, preocupado. — Eu não sabia. Como ela morreu? Foi recente? Hari estava perplexo. Céus, Amer não contara nada mesmo à garota, afinal? — Foi há muitos anos — disse num tom destinado a tranqüilizá-la. — Amer ainda cursava a universidade na Inglaterra. — Como ela era? Hari deu de ombros. Havia anos que não lhe ocorria nenhum pensamento sobre a beldade fútil e mimada com que Amer se casara. — Eu não a conhecia muito bem. Eu era muito jovem. Ela era extremamente bonita, sofisticada. Leo sentiu um peso imenso no coração. — E como morreu? Ficou doente? — Não, foi um acidente, uma queda fatal de um cavalo. Foi durante uma viagem à França, creio eu. — Que terrível. Hari sentiu-se pouco à vontade em ver-lhe a tristeza no olhar. — Foi há muito tempo — repetiu. — Não creio que Amer ainda sofra. Nunca o ouvi mencionando a falecida esposa. — Mas ele não tornou a se casar. Se foi há tanto tempo era de se esperar que tornasse a se apaixonar, não? Leo podia imaginar como a morte da jovem esposa o abalara. O pensamento desolou-a. Hari percebeu que cometera um erro e não soube como repará-lo. — Oh, amores não lhe faltaram — disse sem pensar. — Apenas não houve razão para tornar a se casar. Ela lançou-lhe um olhar de desalento que o fez querer morder a língua. — Ouça — prosseguiu com nervosismo —, não fique com a idéia errada. Em Dalmun, um casamento é algo estratégico. Para todos os envolvidos. É tudo muito Projeto Revisoras 68
  • 69. Sabrina 1182 - A magia do deserto – Sophie Weston prático. Não comece a pensar em Amer como um herói trágico, marcado pelo sofrimento. Não é o caso. Leo absteve-se de comentário. Por quê, então, Amer aceitara o seu insensato desafio?, perguntou-se. Por que a perseguira tanto? Achara que tivera a resposta. Orgulho! Mas, naquele caso, por que, depois de tê-la derrotado de todas as maneiras possíveis, ainda insistia que ambos estavam noivos, apesar de ela negar aquilo repetidamente? Bem, agora tinha aquela resposta também. Amer não queria mais um daqueles casamentos práticos, estratégicos. Provavelmente ainda amava a bela esposa que morrera de maneira tão trágica. Agora, queria usá-la como uma espécie de camuflagem, para neutralizar o pai quando insistisse em um novo casamento. Oh havia outros aspectos na situação também, pensou cada vez mais deprimida. Aquela altura, já sabia que Amer era do tipo que queria vencer sempre. Quando ela partira do Cairo sem deixar nenhuma mensagem, ele devia ter pensado a princípio que perdera o jogo. Não teria tolerado aquilo e daí a razão dos detetives particulares. E havia o sexo, evidentemente. Sua experiência podia ser limitada, mas Leo dava-se conta de que existia uma poderosa atração física entre ambos. Ele não queria deixar de explorar aquele aspecto. Hari comentara que Amer tivera seus amores. Acreditava no assistente... se amor era o nome que se dava aquilo. O xeque era um homem experiente e toda aquela experiência adquirira com a prática. Leo estremeceu, lembrando-se, o calor espalhando-se por suas faces enquanto evocava os momentos de paixão nos braços dele. Tratou de banir as lembranças, determinada. As confidencias de Hari eram cruciais. — Todos pensaram que Amer não tornaria a se casar depois de tanto tempo. As notícias de vocês serão recebidas com grande alegria em Dalmun. Leo lançou-lhe um olhar de perplexidade. Hari abriu um sorriso para tranqüilizá-la e, sem se dar conta, acrescentou a última gota ao mar de desespero que a envolvia: — Sua Majestade acabará cedendo com o tempo. Você verá. Em Londres, Amer estava em sua reunião final e mais importante. Seu pai não tinha conhecimento dela, embora o ministro das Finanças e o da Saúde estivessem presentes. Dalmun não era um país pobre. Tinha petróleo e outros. Mas o povo não tinha eletricidade e o sistema de abastecimento de água era precário. Amer era leal demais ao pai para admitir o fato aos outros, mas achava ultrajante que, ao mesmo tempo, o velho xeque comprasse cavalos de corrida e desfrutasse de todas as comodidades do mundo moderno em seu palácio. Amer já fizera outras tentativas para melhorar a qualidade de vida em seu país, mas, com o poder fora de suas mãos, tinham sido frustradas. Daquela vez seria diferente. Sob o pretexto de que necessitaria de condições mais favoráveis numa escavação arqueológica... e sua paixão pela arqueologia não era segredo... tomara providências legais para beneficiar seu povo. Toda a infra-estrutura para a geração de Projeto Revisoras 69
  • 70. Sabrina 1182 - A magia do deserto – Sophie Weston energia elétrica no país inteiro começaria a ser instalada no mês seguinte. Depois, seria implementado o projeto de saneamento básico e tratamento de água. Esperava que não houvesse demora. O comentário de seus conterrâneos na reunião foi de que o povo parará de acreditar nas promessas do jovem xeque Amer e de que poderia haver alguma retaliação. Ele não ignorou o aviso. Tão logo saiu da reunião, telefonou para Dalmun e deixou uma mensagem urgente. Deu, então, instruções à tripulação de seu jato particular, que estivera de prontidão o dia todo. Assim que chegaram a Dalmun, Hari levou Leo rumo ao palácio de Amer ao pé das colinas, segundo fora instruído. — Você vai gostar do lugar — disse no carro que os aguardara no aeroporto. — Amer herdou-o do avô e o manteve em seu estilo tradicional. Os jardins e pátios com suas fontes continuam exatamente como têm sido há séculos. Quanto ao restante... bem, ele colocou eletricidade e encanamento moderno, isso é tudo. Leo estranhou as cortinas nas janelas do carro e teve a impressão de que se destinavam a mantê-la escondida, mas não fez comentário. Afinal, se fora o próprio Amer que insistira para que conhecesse seu país... Anoitecera quando chegaram ao palácio. Afastando as cortinas, ela viu imensos portões de madeira num muro de mais de seis metros abrindo-se silenciosamente. — É um forte — disse, um tanto intimidada. Quando entraram num pátio amplo, várias pessoas rodearam o carro com cumprimentos e préstimos. Pelo tom da conversa entre Hari e um dos homens, ela teve a sensação de que nem tudo estava bem. Mas ele sorriu-lhe, assegurando que não era nada, apenas alguns assuntos administrativos que exigiam sua atenção. Disse-lhe que um quarto já lhe fora preparado na ala das mulheres, onde poderia descansar depois da longa viagem. Fátima, que falava seu idioma, iria conduzi-la até lá e providenciaria seu jantar quando desejasse. Leo sorriu para Fátima, que tinha olhos bondosos e parecia entusiasmada com a chegada de ambos. Mas sua intuição lhe dizia que havia algo errado. — Houve alguma mensagem de Amer? — perguntou com firmeza. — Sim — disse Hari. — Ele estará aqui amanhã à tarde. Ela meneou a cabeça sem conseguir afastar a estranha impressão, mas, estava de fato, exausta e deixou-se conduzir por Fátima até os aposentos que ocuparia. Sentiu-se sozinha e deslocada o que era natural, considerando que estava num país desconhecido e distante. O fato de Amer ainda não se encontrar ali não tinha nada a ver com aquilo, garantiu a si mesma. Era uma mera questão de tempo até que se ambientasse, pensou. Procurou se concentrar na demonstração que a atenciosa Fátima lhe fazia da suíte que o xeque ordenara que lhe fosse preparada. Além do quarto com sacada, havia um banheiro que poderia competir com qualquer um que já vira nos hotéis mais luxuosos do mundo e uma sala de estar decorada com refinada mobília entalhada e almofadas coloridas. O cansaço a fez dormir profundamente naquela noite, sem lhe dar chance de Projeto Revisoras 70
  • 71. Sabrina 1182 - A magia do deserto – Sophie Weston pensar em mais nada. Mas, quando amanheceu, suas dúvidas e apreensão voltaram. Hari se ausentara e foi Fátima quem lhe mostrou o palácio e os jardins murados que o cercavam. Nada daquilo foi suficiente para amenizar a inquietação de Leo. Apesar da beleza do lugar, os muros altos davam-lhe a sensação de estar numa prisão. Amer chegou à tarde. Sentiu o coração disparando assim que o viu. Era apenas raiva, disse a si mesma, raiva daquele homem por tê-la induzido a ir a um país de costumes tão diferentes do seu, onde nem sequer tinha certeza de que seria bem- vinda. — Onde está Hari? — Foi à primeira coisa que lhe ocorreu dizer. — E o que fez com meu passaporte? Amer piscou, surpreso. — Olá para você também — disse secamente. — Sim, obrigado, foi um bom vôo. — Não me importa o tipo de vôo que teve — retrucou ela, aborrecida. — Quero sair daqui. — Por quê? — Ora, não é óbvio? Ninguém gosta de ser mantido prisioneiro. Amer manteve a calma. — E o que lhe deu a impressão de que é uma prisioneira? Leo sacudiu a mão no ar com desespero. — Eu não sei onde estou. Ninguém me diz nada. Apenas me dizem para esperar por você. E me deixaram sem o passaporte. — Entendo. — Ele continuava imperturbável. — Você quer fugir assim tão depressa? — Quero estar no controle dos meus próprios assuntos. — Uma mulher moderna — provocou-a Amer. — Meu pai vai ficar chocado. Ela arregalou os olhos. — Seu pai? — Vamos jantar com ele — disse Amer num tom grave. O coração de Leo disparou, a incerteza voltando. — V-Vamos? Ele abriu-lhe aquele sorriso terno e cativante. — A menos que você deseje pegar seu passaporte e partir, é claro. Por um lado, Leo queria fazer exatamente aquilo. Por outro, queria que Amer a estreitasse em seus braços e dissesse que a amava... e que queria que nunca saísse de seu lado. Ele notou-lhe o dilema, ao que pareceu. Adiantou-se até um móvel de entalhes intricados, abrindo uma pequena gaveta, de onde tirou o passaporte, entregando-o a ela. — Aqui está, minha cara. A sua liberdade se é o que deseja — disse, irônico. — Devo providenciar um carro para levá-la ao aeroporto? Para seu completo aturdimento, Leo ouviu-se respondendo que não. — Ah. — Se seu pai teve a gentileza de me convidar para jantar seria indelicado da Projeto Revisoras 71
  • 72. Sabrina 1182 - A magia do deserto – Sophie Weston minha parte não comparecer — declarou- ela com dignidade. — Oh, é claro. Leo percebeu que corava e, para encobrir seu rubor, baixou o olhar depressa para o relógio. — Precisarei de tempo para me arrumar. Não sei se trouxe algo adequado para usar. Eu não imaginei que viria para Dalmun quando fiz as malas. — Posso aconselhá-la. — Obrigada, mas perguntarei a Fátima se tiver dúvida. — Está certo. Direi a ela que você poderá pegar emprestado qualquer coisa que desejar. — Emprestado? De quem? — indagou ela, contrária à idéia. Ele estaria sugerindo que usasse roupas da falecida esposa? Iria, enfim, contar-lhe a respeito? De repente, não quis ouvi-lo falando de seu amor por outra mulher. — Recebo hóspedes de tempos em tempos. Estamos fora da cidade aqui. Nem sempre lhes é possível comprar o que precisam tão em cima da hora. Assim, mantemos algumas roupas para que visitantes peguem emprestado se precisarem. — Ele tornou a adivinhar-lhe o rumo dos pensamentos. — Hóspedes de ambos os sexos — acrescentou, afável. Daquela vez não houve dúvida. Leo soube que seu rosto estava escarlate. — Vejo que você ainda não se recobrou de sua jornada, assim como eu. Vamos descansar juntos. Ela sacudiu a cabeça, boquiaberta. — Não pode estar falando sério. — Só estou sugerindo o que ambos queremos. — Havia aquela perturbadora intensidade nos olhos cinzentos de Amer agora. Sem poder evitar, ela estremeceu, seu desejo reavivando-se inesperadamente. Mas esforçou-se para se manter firme em suas convicções. — Não acredito em sexo sem significado. — Em que tipo de sexo acredita? Leo ficou tão desconcertada que cometeu o erro de tentar responder. — Oh, naquele em que duas pessoas se conhecem. Quando ambas... — Nós nos conhecemos. Ela o fuzilou com o olhar. — Quando se conhecem bem e chegaram à decisão racional de que... — Racional? O que a razão tem a ver com o amor? — Amor — repetiu ela, desdenhosa. — Oh, as mulheres modernas não acreditam no amor? — Vamos deixar minhas crenças fora disto. — Está fugindo outra vez? Leo exasperou-se. — Está tentando dizer que me trouxe até aqui porque me amai — Isso seria tão impossível? — Você me fez prisioneira. Não é exatamente um ato de amor. — Mas somos todos prisioneiros quando amamos — disse Amer, filosófico. Leo lançou-lhe um olhar desgostoso. Projeto Revisoras 72
  • 73. Sabrina 1182 - A magia do deserto – Sophie Weston — Não fique falando sobre amor. Não seja hipócrita. Você me trouxe até aqui porque não suporta perder um jogo. Qualquer jogo, por mais corriqueiro. E eu estava vencendo, não é? Até que tive que enfrentar uma crise pessoal e entreguei a vitória a você de bandeja. Ele se manteve em silêncio por algum tempo e, enfim, comentou: — Você é uma mulher muito desconfiada. — Sou realista. Que base eu tenho para confiar em você? Amer chegou a empalidecer. Com um olhar profundo, venceu a distância entre ambos. — Mas eu disse que me casaria com você — declarou com ar sério. — E não me falou que já foi casado antes. Aquilo o pegou de surpresa. — É verdade? De repente, uma expressão soturna tomou conta do olhar dele. — Sim. Ela deu de ombros, embora o coração estivesse oprimido pela dor. — Aí está a prova do que digo, não acha? Deixou a sala abruptamente. Amer não tentou detê-la. CAPÍTULO IX Os armários da ala de hóspedes estavam tomados por grande variedade de roupas para que Leo escolhesse: túnicas escuras que a vestiriam da cabeça aos pés, peças de seda delicadas que a cobririam na medida em que desejasse, roupas de algodão, linho, cetim, lã e até de brocado. Ela escolheu uma túnica simples de seda. Fátima meneou a cabeça em aprovação e buscou-lhe um pesado colar de ouro, a corrente grossa e elegante adornada com delicados pingentes. — Não — disse Leo com aversão. Não usaria jóias da esposa de Amer por nada no mundo. Fátima ficou agitada. Não falava o suficiente do idioma de Leo para fazê-la entender e retirou-se ansiosamente. Logo, a porta do quarto se abriu, e Amer entrou, parecendo irritado. — Qual é a razão de você estar causando confusão desta vez? — Posso ter que pegar roupas emprestadas, mas não vou usar jóias de outra pessoa. Amer dirigiu um olhar entediado ao colar de ouro. — É seu. — Não, não é — retrucou ela, esforçando-se para controlar a raiva. — É claro que é. — Ele abriu a caixa do colar para fazê-la ver o nome da joalheria de Paris. — Um presente para minha futura esposa. Chegou hoje por encomenda. Leo estava estupefata. Projeto Revisoras 73
  • 74. Sabrina 1182 - A magia do deserto – Sophie Weston — Você me comprou um colar? — É claro. É uma simples lembrança. Escolheremos o seu presente de casamento juntos, obviamente. — Mas... eu não posso aceitar... — Meu pai convidou outras mulheres para o jantar, como cortesia a você. Vão estar cobertas de jóias. Você se sentirá estranha se não estiver usando nenhuma. Amer soou irritado, mas também como se não se importasse muito. Retirou-se sem um beijo ou ao menos um olhar terno, o que a deixou magoada e com raiva. Ela não mostrou, portanto, muito entusiasmo quando, meia hora depois, saíram do palácio num luxuoso automóvel. — Diga-me, seu pai sempre conhece as suas conquistas? — perguntou. — Não fale assim de si mesma. Foi uma ordem. Leo lançou um olhar faiscante a Amer, mas não ousou desafiá- lo. Estava mais estranho do que nunca naquela noite. Não apenas por causa das vestes brancas, sobrepostas por uma túnica ricamente bordada, com uma adaga de cabo incrustado de jóias à cintura. O semblante estava fechado, soturno. Parecia um diplomata rumando para uma negociação que poderia acabar em guerra. Sempre que ia ao encontro do pai ficava tão tenso?, perguntou-se ela. Ou era o fato de a estar levando para que o velho xeque a conhecesse que o preocupava? Não demoraram a avistar imponentes portões de ferro, que se abriram tão logo o automóvel se aproximou. — Meu pai lhe perguntará sobre nosso relacionamento — disse Amer. — Aviso- a a não dizer nada. — Ele puniria você por ter-me raptado? Amer apertou os lábios. — Eu não raptei você. — Seu pai acreditaria nisso? — Diga-lhe e verá. — Por quê? Ele soltou um riso desprovido de humor. — Meu pai não me culparia. Na certa, obrigaria você a se casar comigo. Aquilo foi o bastante para silenciar Leo. O velho xeque não era tão alto quanto o filho, mas o ouro em suas roupas o fez parecer mais imponente. Tinha barba grisalha e olhos intensos e desconfiados. Usou o idioma dela para dirigir-lhe a palavra, mas foi mais como cortesia do que como um afável gesto de boas-vindas. Jantaram num pátio agradável, onde soprava uma brisa fresca. Projeto Revisoras 74
  • 75. Sabrina 1182 - A magia do deserto – Sophie Weston Uma mesa maciça de carvalho, arrumada com porcelana e cristais reluzentes, fora colocada próxima a um grande caramanchão. Apenas o murmurinho das fontes e o som das folhas das palmeiras oscilando com a brisa ouviam-se ao fundo. — É um jantar informal — explicou Amer. — Meu pai achou que seria mais fácil para você assim. — Informal? O soberano ocupava uma grande cadeira entalhada, revestida de damasco que mais parecia um trono. E havia pelo menos mais vinte pessoas à mesa. Amer sorriu brevemente. — E apenas a família mais próxima. Ainda assim, todos pareciam ser um ministro, ou a esposa de um. Leo viu-se sendo conduzida até o final da mesa para comer na companhia das mulheres. De fato, estavam cobertas de jóias magníficas. Mas, para sua surpresa, todas mostraram-se amistosas e simpáticas. Olhando ao longo da mesa, ela viu Amer sentado à direita do pai, absorto numa conversa e franzindo o cenho de leve. Como se sentisse que o observava, ergueu os olhos repentinamente. Leo conteve a respiração. Por um peculiar momento, foi como se só os dois estivessem ali. Sentiu uma corrente eletrizante percorrendo-a e, sem poder conter suas emoções, desejou-o como nunca. Viu a intensidade tomando conta dos incríveis olhos cinzentos dele. Então, o pai tocou-lhe o braço, dizendo-lhe algo, e o encanto do momento se quebrou. Horas depois, quando o jantar terminara e ela se viu a sós com Amer no banco de trás do carro foi como uma tortura. Estava ciente do magnetismo dele, de sua aura de masculinidade, mas sabia que a presença do chofer e o fato de ter uma imagem pública a zelar deixavam-no mais longe do alcance do que a lua. Quando chegaram ao palácio e ficaram a sós no vestíbulo, Leo teve a certeza de que seria beijada. Mas ele apenas tocou-lhe a face. — Irei até você mais tarde, Leonora — sussurrou-lhe. — Posso? — Sim. Mas Amer não foi. Leo esperou durante horas no quarto estranho, rolando de um lado ao outro na cama fria. Ele não foi ao seu encontro, nem lhe enviou mensagem alguma. — Não acredito nisto — declarou Amer. — Seu pai quer você de volta ao palácio dele — repetiu Hari. — Um informe acabou de chegar. Há tropas na fronteira norte. — Tropas! — desdenhou Amer. — E mais provável que sejam membros de uma tribo querendo água tratada e uma linha telefônica para seu vilarejo. — Seu pai quer mandar o Exército... Amer praguejou. — Está certo — disse, enfim. — Irei ao palácio. Mas se eu não voltar em uma hora... Projeto Revisoras 75
  • 76. Sabrina 1182 - A magia do deserto – Sophie Weston — Sim? — Droga! Leo acordou tarde na manhã seguinte, tendo conseguido adormecer somente depois que o dia nascera. Quando viu o colar de ouro que Amer lhe dera no criado- mudo, onde o deixara, atirou-o longe. Disse, então, durante o desjejum, a uma preocupada Fátima que não usaria mais nenhuma roupa emprestada. Insistiu em comprar alguma coisa especial ela própria, solicitando que o carro a levasse ao mercado. Hari empenhou-se ao máximo para persuadi-la da idéia, mas estava determinada. — O xeque Amer disse que você deveria ser atendida no que desejasse — declarou o assistente, enfim, obviamente incerto. — Mas seria mais aconselhável não ir ao mercado hoje. — Então, sou uma prisioneira. Ele acabou cedendo, mas apenas sob a condição de que ela voltasse dali a duas horas. Insistiu também para que fosse acompanhada por um outro assistente, Hussein, um erudito que auxiliava o xeque em tudo que se referia a seu interesse por arqueologia. — E tome cuidado. Dalmun não é Knights bridge. Leo apenas meneou a cabeça depressa em resposta e, resignando-se a aceitar a companhia de Hussein, deixou o palácio com ar triunfante. Três horas depois, um apreensivo Hari, batia à porta dos aposentos de Amer, Ele estava sentado à escrivaninha. Ficou claro, pela papelada espalhada à sua frente, que estivera trabalhando, não descansando. Assim que o viu, Hari mostrou-se perplexo com o ar de exaustão em seu rosto. — Você chegou a se deitar, afinal? — Não. Que horas são? — Passa da uma da tarde. — Já? Céus, nem me dei conta. Nesse caso, tenho que ir ver... — Amer interrompeu-se. Mas Hari não quis perder tempo aparentando discrição. — Ela se foi — disse abruptamente. Amer encarou-o, seu rosto uma máscara indecifrável. — Não por vontade própria. Hussein voltou com uma mensagem. Oh, eu sabia que não deveria tê-la deixado sair. — E para onde foi? — Ela insistiu em sair para ir ao mercado. Tentei dissuadi-la. Mas você lhe havia dito que era livre para fazer o que quisesse. E, nesta manhã, parecia se sentir como uma fera enjaulada. Amer contraiu o rosto por um momento, mas o assistente não notou. — Eu insisti para que Hussein a acompanhasse para lhe servir de intérprete. Mas não é um homem de ação. A tribo de Saeed a pegou. Enviaram Hussein de volta. Querem que amanhã, na reunião do conselho, seu pai assine a ordem para que o novo sistema de eletricidade seja implantado imediatamente. Projeto Revisoras 76
  • 77. Sabrina 1182 - A magia do deserto – Sophie Weston Amer observou-o com um olhar duro por um momento. Saeed estivera na reunião em Londres e fora pouco cooperativo, não se mostrando disposto a aguardar o tempo necessário pelas melhorias. Haviam sido dele principalmente as insinuações de que poderia haver retaliação. Os demais participantes tinham-no feito enxergar a razão e, embora não tivesse ignorado suas ameaças veladas, Amer acreditara que, ao final, Saeed acabaria concordando em esperar pelas soluções oferecidas. Não fora o caso. — Ficarão com Leonora até que seu pai assine a ordem — concluiu Hari, mortificado. — Eu lamento. Sei que você nos avisou. Mas nunca me ocorreu que eles seriam capazes de um tipo de retaliação dessas. Até agora só haviam raptado um turista comum, e mesmo assim logo o libertaram. — Coloque meu pai ao telefone. Hari empalideceu. — O que você vai fazer? — Dizer-lhe a verdade — disse Amer num tom duro. — Eu o protegi dela por tempo demais. Farei com que saiba que alguns de seus súditos se voltarão contra ele se não lhes der um padrão razoável de vida. — Muito bem. — Hari não gostaria de estar na pele do jovem xeque, mas era um homem corajoso. — Você quer que eu reúna o Conselho? — Isso caberá ao meu pai decidir. O Conselho é dele. — Mas... — Eles devem tê-la levado para deserto. Vou procurá-la. Providencie para que o jipe esteja pronto. — Mas você tem que ir ao Conselho. Os membros não conseguirão persuadir Sua Majestade sem você. Precisam de você. — Leonora precisa de mim. — Amer já abria armários, a mente em sua expedição. Hari não conseguiu conter a exasperação. — Mas você mesmo sempre disse que esse povo é inofensivo. Ela não está em perigo. Provavelmente a farão viver a aventura mais interessante que já teve. — Leonora sabe disso? — Bem, talvez não em princípio, mas logo vai descobrir... — Ou talvez não. Saeed é diferente dos outros xeques do deserto. É mais ambicioso. E, com certeza, bem mais imprevisível. — Ele seria incapaz de feri-la. É evidente que a raptou porque ouviu os rumores de que você trouxe sua noiva a Dalmun. Não se fala em outra coisa no país. E Saeed sabe que seria estupidez fazer algum mal à noiva de Amer el-Barbary. — Meu lado racional concorda com você. Meu coração, porém, não pode correr o risco. O coração de Amer?, perguntou-se Hari, encarando-o com incredulidade. — Mas por quê? Amer abriu um sorriso obstinado. — Porque ela é minha. Leo não conseguia reprimir o medo. Disse a si mesma mais de uma vez que Amer a encontraria. Esforçou-se para acreditar em seus seqüestradores quando lhe Projeto Revisoras 77
  • 78. Sabrina 1182 - A magia do deserto – Sophie Weston asseguraram que era sua convidada de honra. Mas era difícil naquelas circunstâncias. Enquanto se afastaram mais e mais da capital e deixaram a estrada principal, entrando por uma trilha poeirenta, seu temor aumentou. Mesmo com as janelas da grande caminhonete fechadas, a poeira parecia pairar de maneira sufocante no interior da cabine. Depois de algumas horas era apenas a certeza de que Amer a salvaria que a ajudava a controlar o pânico. Especialmente porque seus raptores pareciam não saber o que fazer com ela. Foi transferida de veículo para veículo quatro vezes e, a julgar pelo pouco de árabe que aprendera trabalhando como guia turística, nenhum dos homens incumbidos de levá-la parecia contente com a responsabilidade. Enfim, quando a última caminhonete parou junto a um agrupamento de tendas, já anoitecera. Conduziram-na a uma enorme tenda, onde lhe serviram café com toda a cerimônia e fizeram discursos que não pôde entender. Levaram-na, então, a uma tenda menor, onde tentou dormir. Ela sonhou que estava nos braços protetores de Amer e acordou com lágrimas no rosto. Durante a manhã, deu-se conta do movimento de pessoas que entravam e saíam da tenda principal. Tentou manter-se calma, mas não era fácil. Bebeu um pouco de água, mas não quis comer. Enfim, um homem impaciente apareceu com uma bandeja de pão e frutas. Ignorou-a quando ela sacudiu a cabeça e pressionou-lhe o pão de encontro aos lábios. Leo fechou os olhos para não ver-lhe a expressão do rosto. Era ameaçadora. Houve uma comoção do lado de fora. O homem largou a bandeja e deixou a tenda abruptamente. Não demorou a voltar, segurando-a pelo braço com força e praticamente arrastando-a até a tenda principal, levando-a até os fundos. Estava cheia de homens de costas para ela, que olhavam para uma figura imponente que acabara de entrar e parará na abertura ensolarada da tenda. Apesar de tentar ser corajosa, Leo teve que controlar novo acesso de pânico. Aquela seria uma reunião de clãs rebeldes? O homem na entrada da tenda usava um manto preto e turbante, o rosto oculto pelas sombras. Era alto e forte e parecia irradiar arrogância. Seria cruel também? Os outros obviamente o observavam com grande respeito. Não, disse a si mesma, observando a maneira como se curvavam a ele. Não com respeito apenas, mas com pavor. Ela engoliu em seco, contagiada pelo medo deles. O homem estava alheio à presença dela. Disse algo ao comitê de recepção que se curvava. Sua voz era dura. Deu um passo à frente, o manto preto entreabrindo-se, revelando vestes ricamente bordadas de dourado e pedrarias por baixo e uma reluzente adaga. Embora não pudesse ver-lhe o rosto, ela percebeu que aquele era um líder. O temor, que a dominava era quase palpável. Devia ter emitido algum som, pois o homem desviou a atenção para a extremidade da tenda onde ela estava. Começou a se aproximar e, apavorada, Leo fechou os olhos. Projeto Revisoras 78
  • 79. Sabrina 1182 - A magia do deserto – Sophie Weston O homem segurou-lhe o queixo. — Você está bem? — perguntou num tom de mal contida fúria, incrédula, ela abriu os olhos. Era Amer. Mas um Amer como nunca o tinha visto antes. Não havia sinal de riso nos olhos cinzentos. Era um estranho, concentrado numa importante missão. E sua postura inteira dizia que ela era um grande aborrecimento. Leo estremeceu por dentro. Em voz alta, respondeu com rispidez: — Estou bem. Não graças a... — Pare aí mesmo — disse ele num tom baixo. Soava tão zangado que mal podia falar. — Cuidarei disto. Fique de boca fechada. Leo ferveu de raiva, mas seu instinto de sobrevivência disse-lhe para obedecer. Assim, apertou os lábios, os olhos faiscando. Amer tornou a virar-se para os demais. — Fico grato a vocês por terem-na encontrado — disse formalmente. Ela pôde entender-lhe o árabe com mais facilidade. — A dama é uma convidada estimada e não conhece nosso país. O tom de Amer não era apenas formal, pensou ela. Era glacial. Os outros homens pareceram pouco à vontade. Ficava claro que, por ora, o xeque Amer estava disposto a fingir que a mulher simplesmente se perdera e acabara parando naquele acampamento. Mas se não a entregassem por bem, estava preparado para levá-la a qualquer custo. A ameaça velada pairava no ar. — E de se admirar como uma convidada de honra conseguiu se perder no deserto — disse um dos homens mais jovens, desafiador. Atraiu olhares fulminantes dos companheiros. Amer limitou-se a observá-lo num silêncio enervante por um minuto inteiro. — De fato — concordou num tom de aparente calma que fez o sangue de Leo gelar. — Mas, de qualquer modo, como minha futura esposa, ela é duplamente preciosa — anunciou, dirigindo um olhar firme a todos. Ela teve a impressão de que aquilo soou mais como uma declaração de guerra do que de amor. Amer não se dava conta de que podia compreendê-lo. Prometeu a si mesma que nunca comentaria nada a respeito. Nunca. Mas as palavras tiveram o efeito desejado. Os homens a entregaram a ele com evidente alívio. Mais -café foi servido cerimoniosamente e ambos foram escoltados até um grande e moderno jipe fechado. — Não um camelo? — disse Leo, zombeteira. — Combinaria mais com seu traje. — Nem mais uma palavra — disse-lhe Amer entre dentes e virou-se para se despedir dos homens do acampamento. Com o semblante fechado, então, dirigiu o veículo pelo deserto. Parou apenas um instante para se livrar do manto negro e da túnica rebordada, permanecendo apenas com a camisa e calça brancas e folgadas que usava por baixo com botas pretas. — Onde estamos indo? — perguntou Leo, hesitante. — Para o meu acampamento. — A voz de Amer ainda soava tão cortante e furiosa que a fez estremecer. Ela admitia que, em parte, tinha razão para estar Projeto Revisoras 79
  • 80. Sabrina 1182 - A magia do deserto – Sophie Weston zangado. Mas sua raiva não seria tão grande se a amasse, pensou, desolada. — Não achei que você viesse me salvar — murmurou. — Não? Achou que eu a deixaria à mercê de Saeed? — Quero dizer, não achei que você viria pessoalmente. Sei que não iria me abandonar, é claro. Mas... — Achou que eu iria mandar alguém para fazer meu serviço sujo. — Ele não estava simplesmente com raiva, estava possesso. Para reprimir a súbita vontade de chorar, Leo retrucou, ferina: — Bem, você colocou detetives atrás de mim. Amer pisou nos freios com tanta força que o grande jipe de tração nas quatro rodas chegou a derrapar. Puxou-a, então, para seus braços impetuosamente, sobressaltando-a. O beijo com que lhe tomou os lábios foi possessivo, faminto. As emoções eram intensas, quase violentas, levando-os a uma explosão de paixão desenfreada. Apesar do ar-condicionado, era como se o tórrido calor do deserto os envolvesse ali dentro. Ele comprimiu-lhe o corpo de encontro ao estofamento, e ela abraçou-o com força, puxando-o mais para si, correspondendo ao beijo com o mesmo ímpeto. Queria-o tanto... Ouviu o som de roupas se rasgando e quando a mão grande e quente encontrou seu seio, soltou um gemido deliciado. O som que escapou dos lábios de Amer, porém, foi mais como um grunhido de agonia. Inacreditavelmente, interrompeu o beijo e ergueu-se, afastando-se dela. Leo murmurou algo ininteligível em protesto. — Não — disse ele, brusco. — Você não pode parar agora — sussurrou ela, ofegante. — Por favor. — Eu posso. E vou parar. Amer também ofegava e, embora se mantivesse imóvel, ela pôde ver-lhe o tremor nas mãos e soube que estava mais próximo de perder o controle do que gostaria. Quero vê-lo perdendo o controle. O súbito pensamento chocou-a. Esforçou-se para se recobrar daquele verdadeiro turbilhão em que havia mergulhado. Ainda um tanto atordoada, começou a ajeitar as roupas. Um botão de sua calça desaparecera e podia considerar o estrago no sutiã como perda total. Arrancando-o, guardou os farrapos no bolso e ajeitou a frente da blusa. — Não vou pedir desculpas — declarou Amer, o olhar fixo no deserto para além do jipe. — Isto esteve evoluindo por um longo tempo. Tanto para você quanto para mim. Leo não fez comentário e, quando o silêncio se prolongou demais, uma tensão quase palpável crescendo entre ambos, ele disse: — Está certo. Eu gostaria que não tivesse acontecido dessa maneira. Mas foi apenas um beijo, afinal. Nós poderíamos ter... Então, viu o rosto dela. Respirou fundo. — Droga — murmurou com fúria contida. Foi como um golpe físico. Leo espantou-se por ser capaz de suportar tanta dor. Mas não devia deixá-lo perceber. Jamais. Projeto Revisoras 80
  • 81. Sabrina 1182 - A magia do deserto – Sophie Weston — Não direi a ninguém se você também não disser — declarou, como se não se importasse. Mas Amer não se deixou enganar por seu cinismo. Soltou um profundo suspiro. — Você verá as coisas com mais clareza com o tempo. — Sem dúvida. Quando tiver voltado a Londres. Depois que tiver tido tempo de deixar tudo isto para trás — acrescentou Leo, desafiadora. Ele apertou os lábios, mas não deu uma resposta. Colocou os óculos escuros e deu a partida no veículo. Como se não quisesse perder tempo argumentando, pensou ela, achando que poderia gritar de frustração. Decidiu manter-se em silêncio também. Cruzou os braços e olhou pela janela, ignorando-o deliberadamente. Amer pareceu não notar, concentrado no volante, competente, parecendo conhecer aquelas trilhas como a palma da mão. A despeito da intimidante vastidão do deserto, de um percurso longo e não muito agradável através de áreas acidentadas, ela deu-se conta de repente que se sentia protegida, segura. Lançando um olhar a Amer, ocorreu-lhe que seria capaz de lhe confiar sua vida. Foi uma revelação. Estou apaixonada. Não foi uma revelação bem-vinda. Olhou fixamente pela janela, tentando pensar. Desde quando estava apaixonada por Amer? Desde à noite na mansão em Londres? Antes daquilo? E ele já teria percebido? Afinal, era um homem tão experiente. A simples idéia apavorou-a. Em hipótese alguma poderia deixá-la saber sobre seus sentimentos. Sozinha no deserto com aquele homem compreendera a. verdade, afinal. Perdera sua dignidade, a sensatez e seu coração de uma só vez. Não previra aquilo. Mas acontecera. Embora só tivesse percebido naquele momento. Tudo o que lhe restava era preservar- se, poupar-se de mais humilhação, guardando o que descobrira para si mesma. Assim, manteve-se em silêncio a maior parte do tempo, limitando-se a um outro comentário corriqueiro sobre a paisagem desértica. Quando, enfim, aproximavam-se do acampamento, avistou uma tenda imensa, cercada de outras menores, e vários veículos. Parecia não haver ninguém ali. Leo estremeceu, contagiada por aquele ar de desolação. — Este lugar é um oásis? Amer contornou a tenda maior e estacionou a sombra que projetava. — Não. E o local de uma de minhas escavações. Acampamos aqui porque fica no centro da área onde estivemos procurando por você. Leo observou-o e corou ao entrever-lhe o peito forte e bronzeado onde lhe rasgara a camisa. Desviando o olhar, falou ao acaso: — Uma escavação? Aqui? O que fazia? Mudava a areia de um lugar para o outro? Amer riu. — Você não pode ver porque seus olhos ainda não se acostumaram às sutilezas do deserto. Mas já encontrei objetos bastante antigos e interessantes aqui. Amer desceu e contornou o jipe para ajudá-la. No momento em que suas mãos Projeto Revisoras 81
  • 82. Sabrina 1182 - A magia do deserto – Sophie Weston se tocaram, ela sentiu aquela perturbadora corrente eletrizante e recusou a ajuda, descendo sozinha. Foi somente quando tornou a olhar ao redor que se deu conta do tamanho do acampamento. — Onde estão as outras pessoas? — Nas tendas, onde é mais fresco. Temendo não conseguir mais lidar com aquela perigosa proximidade entre ambos sem trair seus sentimentos, ela se virou na direção de uma das tendas. — Acho melhor eu entrar também. Não estou acostumada a esse sol. Ele acompanhou-a. — Talvez prefira ir até a tenda que foi preparada para você — disse, tocando- lhe o braço num gesto casual. Leo virou-se abruptamente para fitá-lo, usando a raiva como escudo. — Quer dizer que uma mulher não tem permissão para se sentar com os homens? Ele pareceu perplexo por um momento e, então, começou a rir. — Não se trata disso. Você seria muito bem-vinda, é claro. Mas achei que iria preferir... Fez um gesto discreto que a levou a olhar para si mesma. Ela esquecera do estado de desalinho de suas roupas, amarrotadas e danificadas pelo beijo frenético de ambos. Naquele momento deu-se conta de seus seios evidenciando-se sob a cambraia fina da blusa, que parecia ter perdido todos os botões. Mortificada, cruzou os braços depressa sobre o peito. — Venha comigo — disse ele com odiosa simpatia. —• Fátima lhe arranjará algo menos ventilado para usar. Leo apanhou as pontas da blusa e amarrou-as furiosamente na altura do estômago. De cabeça erguida, então, seguiu-o. CAPÍTULO X A aproximação de Amer e Leo atraiu Fátima até L frente de uma das tendas. Ela arregalou os olhos ao notar o estado de Leo. — Ajude-a no que precisar — instruiu-a Amer. Leo sentia-se mortifícada. Virou o rosto para não deixá-lo perceber e passou depressa por ele em silêncio. Fátima conduziu-a ao interior da tenda com palavras de alento e preocupação. — Aqueles brutos! O que fizeram a você? — O quê? — indagou Leo, confusa. — E à Sua Excelência? — Fátima estava chocada. — Atacaram-no? — perguntou, incrédula. — Não... Projeto Revisoras 82
  • 83. Sabrina 1182 - A magia do deserto – Sophie Weston Mas, notando que a criada examinava-lhe os rasgões na roupa, Leo compreendeu ao que se referia e corou. — Não, ninguém nos atacou. Nós... bem, houve um pequeno acidente — disse, evasiva. Fátima mostrou-se horrorizada. — Você se feriu? Apenas no coração, pensou Leo. — Não. A mulher não ficou convencida. — Deve descansar — declarou com firmeza. — Depois, aqueceremos água e você se banhará antes de jantar com Sua Excelência. Haviam montado a tenda dele com a costumeira eficiência. Apesar de ter saído tão apressado, a criadagem o seguira com todos os equipamentos necessários, transformando o acampamento num luxuoso local de descanso. Amer afundou num diva. Que maldita coisa para acontecer. Achara que poderia mostrar a Leo que a respeitava. Que precisava dela. Céus, já deixara claro quanto a queria. E, então, Saeed e seus heróis a haviam apavorado e ele próprio gritara com ela e perdera o controle por causa do imenso alívio em sabê-la a salvo. Não era uma mulher que confiava facilmente. Depois de tudo aquilo, seria capaz de confiar nele? Depois que Fátima lhe providenciara um robe e uma bebida re-confortante, deixando-a a sós para descansar, Leo olhou em torno da tenda, mal podendo crer em tanto luxo. Tapetes persas cobriam o chão num banquete de cores para os olhos. Um diva confortável e almofadas, cobertos por um dossel de tule, convidavam ao descanso. Objetos de arte davam o toque de refinamento. Fátima lhe confiara que o xeque ordenara que a tenda fosse preparada com o que houvesse de mais bonito para distraí- la da tribulação passada. — Parece mais que tudo isto foi preparado para a favorita do harém de um sultão — disse a si mesma com ironia. Amer esperava passar a noite ali com ela? Seu coração disparou com o pensamento. E se fosse o caso, o que faria? Iria se atirar em seus braços e sair magoada mais uma vez? De repente, não quis pensar em mais nada. Exausta, deitou-se no diva sob o dossel e mergulhou num sono profundo. Quando acordou, a tenda estava quase no escuro, um lampião brilhando a um canto. Seus sonhos haviam sido sensuais, e acordou com uma sensação maravilhosa. Fátima entrou, os pés silenciosos sobre os tapetes. — Vejo que dormiu bastante. Que bom. Sua Excelência me disse para não acordá-la. — Amer esteve aqui? Fátima confirmou com um sorriso gentil. — Mas aqui? Na minha tenda? Projeto Revisoras 83
  • 84. Sabrina 1182 - A magia do deserto – Sophie Weston — Ele queria ter certeza de que você não tinha sofrido nada com aqueles brutos. Velou seu sono. — Oh, eu não sabia... Mas seu corpo soubera. E seus sonhos... — Sua Excelência jantará com você. Assim, vai querer tomar o seu banho agora, não é? O tom dela implicava que também deveria ficar bonita para ele. A favorita do sultão, sem dúvida, pensou Leo, divertida. Mas a idéia era curiosamente excitante também. — Sim, claro — concordou. Fátima conduziu-a do dossel até uma parte da tenda onde já mandara colocar uma banheira redonda de estilo antigo. Duas jovens aguardavam ao lado com imensos jarros. Leo tirou o robe e entrou depressa na banheira, onde as jovens despejaram a água de temperatura agradável. Tinha a fragrância de rosas. — Foi uma instrução pessoal de Sua Excelência — sorriu Fátima quando ela comentou a respeito. Mandou que as jovens criadas buscassem óleos aromáticos e xampú. Ela lavou- lhe os cabelos e massageou-a com os deliciosos óleos até que seus músculos ficassem tonificados. Depois, as garotas colocaram perfume em seus pulsos, aplicaram-lhe delineador habilmente nos olhos e escovaram seus cabelos até ficarem lustrosos. Deixaram-nos soltos. Enfim, vestiram-na com sedas tão macias e leves que a sensação era de que plumas cobriam seu corpo. Fátima entregou-lhe um espelho. Leo viu uma mulher que não reconheceu: olhos imensos, pele macia, lábios sensuais. Amer a apreciaria?, perguntou-se tomada por súbita euforia. Estremeceu em expectativa ao ouvir Fátima anunciando que a levaria ao xeque. Ela contornou a tenda principal e conduziu-a a uma menor, erguida um tanto afastada dos demais. De repente, Leo sentiu a coragem abandonando-a. Hesitou, quase querendo recuar. Mas Fátima conduziu-a até a entrada da tenda e afastou-se. Leo engoliu em seco e entrou. A tenda era decorada num estilo mais sóbrio do que a sua, mas o luxo parecia ainda maior, se possível. E o diva era imenso, notou. Era como estar num sonho. Numa fábula das Mil e uma Noites. Parou de hesitar e adiantou-se pela tenda até uma cadeira de brocado. Sentou- se na beirada, tentando manter-se calma. Não se deu conta de que Amer surgiu na entrada da tenda e franziu o cenho ao vê-la de cabeça baixa. — Você está bem? Leo sobressaitou-se com a voz aveludada e ergueu o olhar. Ele pareceu-lhe mais atraente do que nunca, alto e forte em suas vestes tradicionais, um autêntico príncipe do deserto. Mas parecia tão distante, parado ali. Como podia se mostrar distante depois dos tórridos momentos no jipe? Fora aquele homem que a puxara para seus braços e a beijara com paixão avassaladora? Projeto Revisoras 84
  • 85. Sabrina 1182 - A magia do deserto – Sophie Weston Não pôde lhe encontrar o olhar. — Para ser franca, de repente não me sinto tão à vontade quanto gostaria. Amer não retrucou. — Eu disse que não lhe pediria desculpas. Estava enganado. Estou me desculpando agora. Leo encarou-o. Ele estava pedindo desculpas por fazê-la sentir que a desejara? Que realmente a desejara, sem reserva alguma? Ou porque, ao final, não a desejara o bastante? Ele acrescentou com irritação: — Mas você não deveria ter-me deixado furioso. Leo recobrou-se. — Então, depois de eu ter vivido momentos de pânico em poder de seqüestradores, a culpa ainda é minha por você ter-me atacado? — revidou sem conseguir conter a mágoa. Se Amer lamentasse de fato, pensou, teria se desculpado por ter-se deixado levar pela intensidade de seus sentimentos. Teria dito que nunca pretendera magoá-la. Teria prometido não fazê-lo novamente. Nunca a teria levado aos portais do paraíso para apenas abandoná-la lá em seguida. Mas não devia lamentar, pois não disse nada. Apenas fitou-a com aquele olhar intenso. Leo sentiu a raiva ebulindo. — O que está pensando? — disse, agressiva. — Que eu provoquei aquilo, que me ofereci para você? E o que quer insinuar? Amer disse num tom manso: — Nada mais de jogos, Leonora. — Jogos? — repetiu ela em puro ultraje. — Sim, jogos. Seja franca. Gostamos deles. Mas o momento para tudo isso já passou. — Oh — disse Leo, desconcertada. — Quando o grupo de Saeed raptou você, eu me senti... — Amer hesitou. Ela ficou com a respiração em suspenso. — Responsável — completou ele. O desapontamento foi tamanho que Leo poderia ter chorado. — Não há necessidade de se sentir responsável por mim. Se eu não tivesse insistindo em ir ao mercado, apesar de todos os conselhos em contrário, não teria sido raptada. — Não foi o que quis dizer. Eu... Foram interrompidos por um criado. Amer pareceu irritado, mas meneou a cabeça. — Prepararam uma mesa para o nosso jantar junto às antigas escavações. Achei que isso agradaria você. . Leo levantou-se obedientemente. Apenas por um momento o semblante de Amer suavizou-se e tocou-lhe a face delicada. Se ao menos ele me amasse. O pensamento surgiu do nada. Ela mordeu o lábio inferior e esquivou-se devagar do toque. Amer afastou a mão, seu rosto ficando desprovido de emoção. Virou-se e Projeto Revisoras 85
  • 86. Sabrina 1182 - A magia do deserto – Sophie Weston conduziu-a para fora da tenda. Um tapete persa fora estendido ao final do acampamento, junto às ruínas de um antigo templo descoberto durante uma escavação, onde ninguém os avistaria. Iguarias foram-lhes servidas e ambos comeram, embora Leo estivesse sem o menor apetite. Enfim, Amer dispensou os criados. Ela olhou para o deserto, estendendo-se até o ponto em que parecia se encontrar com as estrelas reluzentes. A lua banhava a areia com sua luz prateada. Toda aquela imensidão a fez sentir-se pequenina. Estremeceu. Amer ergueu o olhar. — Você está com frio? — Não. — Era verdade. A brisa que soprava era morna e agradável. — Percebi que você estremeceu. — Mas não de frio. Toda esta vastidão nos faz sentir pequenos, não? Apenas por um momento eu me senti realmente sozinha. — Sozinha? Mas eu estou aqui. — Mas você não tem sido muito companheiro. — Companheiro! — desdenhou ele. — O que pensa que sou, Leonora? — Estava mais uma vez furioso. — Não entendo. — Bichos de estimação são companheiros, gatos e cães de colo. Como o seu Simon Hartley. — Simon? Amer segurou um punho cerrado com a outra mão. — Diga-me agora, Leonora. Você esteve realmente apaixonada por aquele tolo? Ela não pôde crer na pergunta. — Por Simon? — Quando você rompeu o noivado disse que foi o pior dia da sua vida. — Sim, mas isso por que tive uma cena desagradável com uma jornalista hostil com quem Simon estava tendo um relacionamento pelas minhas costas. Eu não o amava e sabia que nem ele a mim, ' mas é claro que não gostei de estar sendo usada. Sem mencionar que descobri que seu noivado tinha sido um acordo firmado entre meu pai e um subordinado ambicioso, Como você teria se sentido? Amer aguardou. Leo limpou a garganta. — E você estava na cidade e eu não conseguia entendê-lo. Não sabia o que você queria. —Engoliu em seco. — Ainda não sei. Amer sacudiu a cabeça com ar incrédulo. — E, ainda assim, está tão claro. — Não para mim. — Eu quero você — disse ele num tom casual. Ela fitou-o com uma expressão de tristeza no olhar. — A mim? Ou simplesmente não quer perder o jogo? — O quê? Projeto Revisoras 86
  • 87. Sabrina 1182 - A magia do deserto – Sophie Weston Leo fez um gesto de impotência. — quot;Venha Comigo até o Niloquot; — disse. — Oh, não venha com isso outra vez. — Não. Ouça o que tenho a dizer. A mim pareceu que... — Céus, como aquilo era difícil para ela. — ...que o que aconteceu entre nós foi uma espécie de jogo competitivo para você. Eu parti do Cairo e você não conseguiu me encontrar. Assim, foi como se eu tivesse vencido. E então... quando o vi em Londres... foi como se você tivesse que obter a sua revanche. — Do que está falando? — Dos meios que usou para me encontrar, de quando me buscou inesperadamente numa limusine e de como me levou para jantar, apesar da minha recusa. Tive a nítida impressão de que estava me mostrando que poderia fazer qualquer coisa que quisesse comigo. O que, evidentemente, era verdade. E embora não se orgulhasse daquilo, Amer não se arrependia. Pois agira pelos motivos certos. — Diga-me com franqueza, o que acha que esteve acontecendo entre nós? — Bem, eu fui imprudente o bastante para desafiar você na salda do coquetel no museu. Você não consegue resistir a um desafio. Dai toda essa tolice sobre estarmos noivos. — Leo sabia que era bem mais complicado do que aquilo. Havia a inegável atração física entre ambos, os seus próprios sentimentos, mas não mencionaria aquilo. De nada adiantaria uma vez que Amer não a amava, pensou. — Acha que é tolice? — Uma brincadeira de mau gosto, então. — Nesse caso, a brincadeira saiu um pouco do controle, não? Aquilo magoou-a. — Provavelmente — respondeu ela. — Acho melhor eu voltar para casa. — Está fugindo outra vez? — Não estou fugindo. Tenho uma vida para levar adiante. — E você acha que eu não? — disse ele num súbito acesso de raiva. — Céus, sabe o quanto à situação aqui é delicada? Como temos que nos empenhar para mantê-la equilibrada? Por que acha que não fui até seu quarto na noite em que finalmente decidiu me aceitar? Eu estava com o Conselho, tentando impedir meu pai de começar uma pequena guerra! Um silêncio tenso, então, prolongou-se, os olhares de ambos se encontrando, até que ele soltou um riso sem humor. — Isto não está nos levando a lugar algum. — Levantou-se, estendendo-lhe a mão. — Venha caminhar comigo. Leo pôs-se de pé e, embora soubesse que era insensatez, deu-lhe a mão. Mas Amer puxou-a para si com gentileza e abraçou-a pelos ombros, começando a conduzi-la pela areia. Leo sentiu um misto de excitação e temor percorrendo-a. O gesto a fez sentir-se segura e, ao mesmo tempo, não. Era como se aquele homem estivesse disposto a protegê-la de qualquer ameaça exceto de si mesmo. E ele representava a maior ameaça de todas... para o coração dela. — Houve um tempo — começou Amer num tom sério — como já mencionei, em que pensei que seria arqueólogo. Meu pai tem o Projeto Revisoras 87
  • 88. Sabrina 1182 - A magia do deserto – Sophie Weston direito de escolher seu sucessor e nós dois não partilhamos das mesmas opiniões. Achei que ele escolheria um dos meus tios, o mais conservador e tradicional. Para ser franco, eu teria ficado contente. Mas durante os últimos três anos meu pai tem começado a ceder. Agora diz que vê que as reformas são necessárias no país e que eu sou o mais indicado para fazê-las. — Soltou um suspiro ao acrescentar: — Assim, terei que deixar minhas escavações arqueológicas um pouco de lado. — Por que está me dizendo isso? — perguntou Leo, surpresa. — Porque quero que você me conheça. — Oh, claro — disse ela com ironia. — Mas, se quisesse que eu o conhecesse, poderia ter-me contado sobre sua esposa — retrucou antes de poder se conter. — Minha esposa! — Ele soou atônito. — Se o que há entre nós significasse mais para você do que um simples jogo de sedução, não teria ao menos me falado sobre esse assunto? Seguiu-se o silêncio. Amer, então, disse com toda a veemência: — Meus sentimentos por minha falecida esposa não foram nada como isto. Nada. Leo achou que dor mais lancinante do que a que tomou seu coração seria impossível. Desvencilhou-se do braço dele. — Quero ir embora. — Leonora... Mas ela o ignorou e correu. Amer deixou-a chegar apenas até o local onde haviam jantado antes de alcançá-la. Segurou-a em seus braços, apesar de Leo se debater freneticamente, — Solte-me — disse, ofegante. — Você não me quer. Não realmente. Talvez me queira por uns poucos dias, no máximo. — Por uns poucos dias? — Amer fitou-a com um olhar tão intenso que pareceu chegar-lhe até a alma. Quando a deitou subitamente sobre o tapete, ela não pôde resistir. Não importando o que a razão lhe dizia, o coração pertencia àquele homem. Entregou-se ao momento num turbilhão de desejo. Com mãos ansiosas, ele livrou-a das vestes de seda e cobriu-lhe o corpo com carícias abrasadoras. Mas não estava sendo como em Londres. Não eram afagos lânguidos que a guiavam lentamente rumo ao êxtase. Havia urgência, quase desespero. E, daquela vez, ele não se resguardava. — Toque-me — pediu num sussurro. Leo hesitou. Jamais se sentira tão insegura. Com mãos trêmulas percorreu-lhe os ombros largos, o peito forte. Mas não adiantava. Não conseguia fingir. — Não sei como fazer isto — disse com pesar. — O quê? — Ninguém nunca me fez sentir como você faz — admitiu ela. — Eu não sabia que alguém poderia. Não tenho idéia de como fazer você se sentir assim tão bem. Sempre fui um fracasso com os homens. — Fechou os olhos, mal conseguindo lidar com o seu terrível constrangimento. Ele manteve-se em silêncio por um agonizante momento. Então, moveu-se Projeto Revisoras 88
  • 89. Sabrina 1182 - A magia do deserto – Sophie Weston abruptamente, segurando-lhe as mãos acima da cabeça. — E você acusou a mim de tratar isto como um jogo — disse, ultrajado. Leo estava desconcertada. Tentou se libertar, mas não conseguiu. — O que está fazendo? Foi quase como se ele não a ouvisse. — Você não é um brinquedo — disse, furioso. — Por esse motivo fui atrás de você em primeiro lugar. Agiu totalmente como você mesma. Ela continuou se debatendo, mas em vão. — Você não tem que fazer com que eu me sinta bem. Não tem que me fazer sentir nada. Você tem que estar aqui. Apenas isso. Estar aqui agora. — Solte-me. — Sinta. Apenas sinta. Amer foi gentil, então, e, ao mesmo tempo, impetuoso. Venceu-lhe as defesas uma a uma até levá-la a um prazer absoluto, que espelhou o dele. Leo fixou os olhos nas estrelas, extasiada. Então, olhou para Amer, enternecida. Afagou-lhe os cabelos úmidos com carinho. E com completo amor. De repente, não importava que ele não a amasse ou que a quisesse por pouco tempo. Ela o amava. E Amer a amara de certa maneira durante aqueles momentos de puro deleite. Ele ergueu a cabeça. — Eu não pretendia fazer isso — disse ainda ofegante, mas com um inconfundível tom de riso na voz. — Bem, ao menos não ainda. Você me fez perder a cabeça. — Ainda bem que o fez — sorriu ela. — Nunca me senti tão bem em minha vida. — Eu também. — Você? — Estavam deitados um nos braços do outro e ela apoiou-se no cotovelo para observá-lo. — Mas... — Eu sei que deveria ter-lhe contado sobre Yasmin. Apenas fico amargurado demais. Aprendi a parar de pensar nisso. — Yasmin era sua esposa? — Sim. Éramos jovens demais, acho eu. E foi uma aliança política. Ela fora mimada demais pelo pai. Eu era inexperiente demais para saber lidar com a situação. Isso a tornou cruel. Quando morreu, ela estava atormentando um cavalo que a haviam avisado para não montar. Não consegui lamentar a perda. E não consigo me perdoar por não ter sentido nada. E uma má experiência, sem dúvida. Leo abraçou-o, pousando-lhe a cabeça em seus seios. — Oh, meu amor. — Não me orgulho da maneira como tenho vivido desde então. Gostaria que tudo tivesse sido diferente. Foi por isso que me contive naquela noite em Londres. Eu quis... pareceu-me uma maneira de amar você. Os olhos de Leo estavam cheios de lágrimas. — Nunca quis que nenhuma mulher tivesse um filho meu. Até agora. Ela ficou imóvel. Amer ergueu a cabeça. — Por essa razão, nada mais de jogos. — Afagou-lhe os cabelos. — Sim, são Projeto Revisoras 89
  • 90. Sabrina 1182 - A magia do deserto – Sophie Weston divertidos e sensuais. Mas eu quero mais. Leo foi apanhada de surpresa. — Mas eu não pensei... Eu não sabia... — Engoliu em seco. — Mas você não me ama. — Não? — Você não deu nenhuma indicação disso. Amer soltou um riso terno. — Isso é porque não sabe que santo eu normalmente sou. Hari me diz que tenho andado insuportável nos últimos tempos. E cometendo loucuras, apenas pela chance de levar você para a cama. — Oh — disse Leo, esperançosa. — Meu pai poderia dizer-lhe também como me sinto. Avisei-o que, se ele não concordasse em conhecer você, eu iria trabalhar com arqueologia na Inglaterra. — Oh, mas... — Case-se comigo. Leo piscou, desconcertada. — Está bem — disse ele num tom razoável. — Passe a noite comigo. Falaremos sobre o resto pela manhã. De repente, Leo começou a rir... surpresa, feliz. — Mas eu sou desastrada. Esbarro nos móveis derrubo coisas. Que espécie de esposa serei? — A única que quero. — Amer beijou-a nos lábios. — Vai passar a noite comigo ou não, mulher difícil? Leo abraçou-o com volúpia. — Vou tomar isso como um sim — disse Amer, divertido. — E quanto a se casar comigo? Divertido, sim. Mas estava expectante, ansioso. Ele a queria e a amava. Realmente a amava! E Leo via o amor nos olhos dele. Fitou-o longamente, sem o menor constrangimento em deixar transparecer seu triunfo. — Sim, eu me casarei com você. EPÍLOGO Foi um casamento magnífico. Teve a duração de quatro dias e incluiu cada cerimônia que as respectivas famílias da noiva e do noivo desejaram. Após as cerimô- nias houve a grandiosa festa. O palácio ganhara uma decoração deslumbrante para a ocasião, a imprensa internacional tendo sido devidamente recebida para a cobertura. Leo conseguiu desfrutar todas as festividades sem esbarrar em nada. A cada vez que se sentia nervosa, erguia o olhar. E Amer sorria-lhe como se ambos fossem as únicas pessoas no mundo. Eventualmente, ela deixou os salões repletos de música, dança e iguarias, saindo para o pátio onde as fontes sussurravam. Amer seguiu-a, como Leo sabia que o Projeto Revisoras 90
  • 91. Sabrina 1182 - A magia do deserto – Sophie Weston faria. — Está cansada, minha querida? — Não. — Então, você gostaria de dançar até o amanhecer? — provocou-a ele, sorridente. — Não. — O que devo fazer com você, então? — Deve me amar. Amer abraçou-a com força. — Amo você. Sempre amarei. — Tome-me em seus braços, meu amor. — A voz de Leo soou carregada de desejo. Amer levou-a de volta ao palácio e seguiram aos seus aposentos. E deixou o mundo lá fora. Leo soltou um suspiro deliciado e entregou-se aos braços dele com total confiança. — Parece-me bom demais. Mal posso crer. Abrace-me. Faça-me acreditar. — Acreditar no quê? — perguntou Amer, rouco de desejo. — Que eu adoro você? Que quando estou longe de você mal posso esperar para voltar a ficar a seu lado? Que tudo o que quero é tê-la em meus braços? Leo estava tremendo, sentimentos profundos dominando-a. — Que eu sou a esposa do xeque, afinal. Amer ergueu-a nos braços e carregou-a até a cama. E, no final, inebriada de prazer, o coração transbordando de amor e risos ternos em seus lábios, Leo disse: — Eu acredito! Oh, sim, eu acredito. FIM Projeto Revisoras 91